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ANT6NIO AlBAlAT
Arte. .dé -Escrever
Ensinad~em Vinte Lições
Tradução portuguesa da 16.&edição francesa
POR
CÂNDIDO DE FIGUEIREDO
NOVA EDIÇÃO
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LIVRARIA ·cLAsSICA EDITORA
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ENSINADA EM VINTE LIÇOES
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A Arte de Escrever
Ensinada em Vinte Lições
Tradução portuguesa da 16." edição francesa
POR
CANDIDO DE FIGUEIREDO
NOVA EDIÇÃO
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A. M. Teixeira & c-, Filhos, L.da
Praça dos Restauradores, 17
LISBOA
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PREFAÇAo
A MIRA DO AUTOR
Tenho lido quase todos os Manuais, e todos os
Cursos de Uteratura. São bons guias, mas nenhum
ensina, técnica e préticemente, a arte de escrever.
Nenhum fez ainda as demonstrações do estilo. Éuma
lacuna, que eu procurei preencher.
Creio que se pode ensinar a ter talento, a des-
cobrir imagens e boas frases; e que, com uma reguler
aptidão, se pode cheqer a formar estilo.
O meu alvo é mostrar no que consiste a arte de
escrever; decompor os processos de estilo; expor tecni-
camente a arte da composição; ministrar os meios de
aumentar e ampliar as aptidões do estudioso, isto é,
duplicar-lhe e triplicer-lhe o talento; numa palavra.
ensinar a escrever quem quer que o não saiba. mas
que tenha o que é preciso para o saber.
Aos novos. aos principiantes. à gente de sociedade.
a todos os que amam as letras e possuem o gosto do
estilo. deve interessar uma obra que lhes proporcione a
demonstração clara dos processos da arte de escrever.
Nada se encontrará nestas páginas. que se pareça
com a antiga rotina. Pus de parte os preconceitos dou-
trinários. as apreciações tímidas. os métodos consagre-
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6
A ARTE DE ESCREVER
dos; e é inútil procurarem-se aqui as velhas clessiiice-
ções, as divisões arbitrárias, os rançosos exemplos.
Terminando, devo prevenir os leitores de que me
não assaltam pretensões de estiliste: que me propus
escrever chêmente, secamente, uma obra, que é uma
tentativa de demonstração, e que reservo quaisquer
esforços de estilo para obras de pura imaginação ou
de crítica propriamente dita.
Lição Primeira
o dom de escrever
Toda a gente pode escrever? - Poderemos ensinar a escrever?
- Como nos tornamos escritores. - Prim~iras condições para
escrever.
Uma pergunta nos ocorre desde já: devemos escrever?
Não será mau serviço favorecer as tendências para
se cobrir de letras o papel?
Não haverá bastantes escritores?
Será preciso avisarmos os que escrevem mal?
Estamos inundados de livros. Que será a literatura,
quando toda a gente a praticar?
Ensinar a escrever não será impelir o próximo a
publicar tolices?
Não será rebaixar a arte o pô-la ao alcance de todos,
e não a amesquinharemos, tornando-a mais acessível?
Eu próprio protestei numa obra especial contra essa
doença de escrever, que nos invade e que fez desanimar
o público.
Há nisso evidentemente umperigo, mas o abuso de
uma coisa não prova que ela seja má.
Toda a gente fala e nem todos são oradores.
A pintura vulqarizou-se, mas nemtodos são pintores.
Nem todos os músicos fazem óperas.
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A ARTE DE ESCREVER
Éexcelente ensinar-se a escrever; tanto pior para
aqueles que degradem o mester.
Demais, aqueles que quiserem seguir os conselhos
dados nesta obra, deverão aplicar-se a escrever bem,
e aqueles que se aplicarem serão obrigados a escrever
pouco.
Estamos, portanto, ao abrigo de qualquer censura.
Depois, podemos escrever, não só para o público,
mas para nós próprios, para satisfação pessoal.
Aprender a escrever bem é aprender também a jul-
gar os bons escritores.
Primeiramente, haverá a vantagem da leitura.
A literatura é um atractivo, como a pintura e a
música, uma distracção nobre e permitida, um meio de
dulcífícar as horas da vida e os enfados da solidão.
Outra objecção talvez me façam: os teus conselhos
serão bons para as pessoas de imaginação, visto que
a imaginação é faculdade essencial; mas dará acaso
imaginação àqueles que não a têm? e esses como terão
estilo?
A resposta é fácil.
Aqueles que não tiverem imaginação passarão semela.
Há umestilo de ideais, umestilo abstracto, umestilo
seco, formado de nítida solidez e de pensamento puro,
que é admirável!
Éa questão de se escolherem outros assuntos.
Pascal, ainda que tivesse apenas escrito as Pro-
víncias, seria grande escritor.
O Emílio, de Rousseau, éuma obra-prima de língua
literária.
La-Bruyêre e principalmente Montesquieu são, neste
género, modelos imortais.
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A ARTE DE ESCREVER
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Cada um pode, portanto, escrever conforme as suas
faculdades pessoais.
Esta poderá apresentar discussões abstractas. Aquele
poderá descrever a natureza, abeirar-se do romance,
dialogar situações.
Se não vê claramente as suas aptidões, se se emba-
raça na alocuçâo, consultará amigos competentes e, em
último caso, este livro, que foi feito para o ajudar, para
o formar e para o revelar a si próprio.
Quem souber redigir uma carta, isto é, fazer uma
narrativa a um amigo, deve ser capaz de escrever, por~
que uma página de composição é uma narrativa feita
ao público.
Quem pode escrever uma página, pode escrever dez.
E quem sabe fazer uma novela deve saber fazer um
livro, porque uma série de capítulos é uma série de
novelas.
Portanto, qualquer pessoa que tenha mediana aptidão
e leitura, poderá escrever, se quiser, se souber aplicar-se,
se a arte a interessar, se tiver o desejo de emitir o que
~L vê e de descrever o que sente.
A leitura não é uma ciência inatinqível, reservada
a raros iniciados e que exija grandes estudos prepa-
ratórios.
É uma vocação, que cada um traz consigo e que
desenvolve, mais ou menos, segundo as exigências da
vida e as ocasiões favoráveis.
Há muita gente que escreve mal.
E muita há, que poderia escrever bem, mas que não
escreve e não pensa em tal.
Pessoas ordinárias, mordomos como Gourville, cria-
das de quarto como a senhora Hausset, como [ulião,
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A ARTE. DE ESCREVER
criado de Chateaubríand, velhos soldados, Marlob, Ber-
nal Díaz. deixaram-nos descrições vivas e interessantes.
O dom de escrever, isto é, a facilidade de exprimir
o que se sente, é uma faculdade tão natural ao homem
como o dom da fala.
Ora, se toda a gente pode contar o que viu, por que
não poderá rescrevê-lo?
A escrita não é senão a transcrição da palavra
falada, e é por isso que se diz que o estilo é o homem.
O estilo mais bem descrito é, as mais das vezes, o estilo
que se poderia falar melhor.
Assim o entendia Montaigne. Nunca vos ímpressío-
nastes com o desembaraço, que os aldeões empregam
nas suas narrativas, quando se servem da sua lingua-
gem natal?
As pessoas do povo, para exprimir coisas por que
passaram, têmcertas palavras eoriginalidades de expres-
são e uma criação de imagens, que espantam os pro-
fissionais.
Se qualquer mulher de coração, a primeira que se
encontrar, escrever a alguém sobre a morte de uma
pessoa querida, fará uma admirável narrativa, que
nenhum escritor poderá imitar, quer seja Chateaubriand,
quer seja Shakespeare.
Afonso Daudet e Goncourt procuraram por toda
a parte, em volta de si, esse som do verdadeiro ini-
mitáveI.
Goncourt copiava servilmente os diálogos que ouvia.
As mais belas palavras de Manon Lescaut foram
pronunciadas certamente.
Uma ocasião, ouvi um camponês comparar o ruído
A ARTE DE ESCREVER
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do trovão com o ruído que fazia «um bocado de pano
que se rasgava».
As nossas antigas canções populares. de que G. Don-
cieux nos prepara uma sábia reconstituição euma edição
definitiva. são obra anónima de poetas obscuros.
Portanto. se toda a gente pode escrever. com muita
mais razão o podem fazer as pessoas medianamente
cultas. as pessoas que têm leitura e que amam o estilo.
a gente moça que faz versos elegantes ou regista os
seus pensamentos num diário íntimo.
Há certa classe de gente. que. dirigida e ensinada,
poderia determinar e aumentar as suas aptidões. e ter
talento. até.
Muitos ignoram as suas forças. porque nunca as
experimentaram. e estão mesmo longe de imaginar que
poderiam escrever.
Outros. mal ajudados ou dissuadidos da sua voca-
ção. desanimam por se reconhecerem medíocres, sem
um guia que 'os aperfeiçoe.
Conheci três mulheres. que nunca tinham escrito uma
linha e que sorriam de incredulidade. quando as acon-
selhei a escrever. Supunham-se incapazes de ter talento.
Decidiram-se a começar o seu diário. segundo pre-
ceitos e fórmulas técnicas. ehoje fazem descrições vivas.
emrelevo. muito notáveis. que sõmente a sua modéstia
se obstina em conservar inéditas.
Quase todas as pessoas escrevem mal. porque não
se lhes demonstrou o mecanismo do estilo. a anatomia
da escrita. nem como se encontra uma imagem e se
constrói uma frase.
Impressionei-me sempre comaquantidade de pessoas
que poderiam escrever e que não escrevem. ou escrevem
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A ARTE DE ESCREVER
mal. por não terem alguém que as desimpedisse das
ligaduras, em que 'estão comprimidas.
Há estilos ínexperientes, que espalham pérolas e
ouro e fazem surgir plantas vivazes por entre as ervas
incultas.
Descobrir o Filão, tirar o diamante. sachar a terra,
nada é, e é tudo.
Quando se refazem as frases, quando se descobrem
as imagens, quando se limpa o estilo e quando se reu-
nem as palavras, que estupefacção!
«Nunca ninguém nos disse tal!»
E ficam maravilhados de ver o precipitado verda-
deiro. sólido. brilhante. que é só deles. e que se mostra
no fundo do cadinho, depois da operação.
A necessidade de umguia é absoluta para as nature-
zas vulgares. porque então não se trata de génios. nem
de futuros grandes homens. aos quais nada se ensina,
porque prescindem de tudo, mas daqueles que têm uma
vocação vulgar, e que podem duplicar o talento pelo
esforço e pelos conselhos .
Molíére interrogava a sua criada; Racine consultava
Boileau.
Flaubert ouvia Bouilhet.
Chateaubriand sujeitava-se a Fontanes.
Resolvi ser guia, para aqueles que não podem ter
outros.
Há quinze anos que luto com as palavras e que
escrevo romances, novelas e artigos de crítica, feitos
e refeitos, com encarniçamento.
A minha experiência pessoal pouco vale certamente.
Parece contudo que eu poderia ser útil a outros
A ARTE DE ESCREVER
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e que haveria proveito em publicar o que eu tinha
aprendido por mim só.
O resultado destes anos de leitura e de trabalho
servirá certamente àqueles que principiam a estudar a
arte de escrever, àqueles que se preparam para isso pro-
fissionalmente e àqueles que querem gozar essa arte,
como amadores.
Lição Segunda
Os Manuais de Literatura
Os Manuais de L iteratura. - O que eles deveriam ensinar.-
Ensinam a escrever?- As demonstrações técnicas. - Há um
estilo único?- Como conhecer as nossas próprias aptidões?
Os antigos Manuais de literatura alongavam-se des-
medidamente emfrisar as diferenças dos diversos estilos,
o estilo simples, o estilo figurado, o estilo moderado.
Pesavam e discutiam a força das expressões, a qua-
lidade das imagens.
Ensinavam a distinguir o género épico do género
dramático, lírico, dídáctíco,
Insistiam sobre os caracteres da ode ou da epopeia.
Nada disto tem proveito, nem vale a pena ocupar-
mo-nos de tal.
Também insistiam muito sobre o estudo dos mode-
los, dizendo:
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A ARTE DE ESCREVER
eFormat-vos, estudando-os: tratai de escrever tão
bem como eles.»
Decerto é excelente coisa estudar as obras-primas.
A admiração conduz à imitação, e a imitação é um
meio de assimilar as belezas alheias.
Mas apontavam-se mais as perfeições que os defeitos.
Como o leitor se inclina para escrever coisas medío-
cres, é o exemplo das coisas mediocremente escritas que
se lhe deve apresentar para as evitar.
aque se lhe deve mostrar são as frases más que
se podem tornar boas, e dizer por que é que elas são
más e como se tornam boas.
Não compreenderão o que é escrever bem, senão
depois de lhe terem exposto o que é escrever mal.
A verdade é que é preciso desarticular o estilo e os
processos, ir ao fundo, fazer sair o músculo, decompor
a sensação e a imagem, ensinar como se constrói um
período, mostrar principalmente os resultados que se
podem obter pelo esforço, pelo trabalho e pela vontade.
Nisso é que está tudo.
Não se calcula o partido que se pode tirar de um
pedaço de prosa ordinária, repelindo-lhe a feitura, refa-
zendo-a, aperfeiçoando-a.
É no que se cifra toda a ciência de escrever; e é
nisto que vem a propósito o papel de um guia prático.
Éverdade que é melindroso o quererem ensinar-nos
a escrever, quando quem ensina não é escritor, consa-
grado pela admiração que desperta. Em tais condições,
porém, poucas pessoas seriam capazes de tal papel, ..
Decerto nos perdoareis que o tentemos, a julgar pela
quantidade de pessoas que se inculcam professoras de
estilo.
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A ARTE DE ESCREVER
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Quantos Manuais!
Quantos Conselhos!
Quantos Cursos!
Quantos volumes profissionais!
Consultem os catálogos das livrarias clássicas.
A maior parte dos autores, que empreendem tal
tarefa. estão longe de ser notáveis escritores.
Têm apenas erudição, um juízo claro e gosto.
Visto que isto basta para justificar a pretensão deles.
não vejo motivo para me abster de publicar também um
Manual prático e técnico de literatura.
Eu sei que muita gente supõe a arte inacessível e
indemonstréoel,
«Ensinar a escrever!»
Que loucura!
Não se ensina a escrever!
O estilo é um dom.
Ou se possui ou se não possui.
Cada um sente como pode.
Escrever é um caso de inspiração.
A criação das palavras e a arte das expressões são
qualidades inatas.
Os conselhos podem alimentar o fogo sagrado. pre-
parar a cultura das qualidades. dispor um pouco o ter-
reno produtivo.
Mas nunca se aprenderá a descobrir belos pensa-
mentos ou frases originais.
Há nisto porém uma confusão.
Não se ensinará. a ninguém, a ser Bossuet ou
Ésquilor mas há na arte de escrever uma parte demons-
trativa. umlado profissão, de uma extrema importância,
uma ciência técnica. uma espécie de trabalho minucioso
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A ARTE DE ESCREVER
e profundo, que fornece quase tantos recursos como a
inspiração.
Admiram-se muitas vezes belezas, que são devidas
a combinações de palavras, à habilidade da estrutura,
assim como a acasos e impressões inesperadas.
Os resultados de uma longa experiência, podem
formar, portanto, um curso de lições aproveitáveis.
Há qualidades adquiridas e qualidades a adquirir.
Aquelas que se podem adquirir ultrapassam talvez
aquelas que se possuem.
Sem dúvida, uma parte da arte de escrever não se
aprende, mas outra parte aprende-se.
Épor falta de trabalho que tanta gente escreve mal.
O trabalho ajuda a inspiração.
Foi ele que a fez frutificar e é por ele que se con-
segue progredir.
Se é verdade que o génio não é mais que uma longa
paciência, digamos em alta voz que a arte de escrever
se pode aprender com tempo, pacientemente!
Não se trata, bem entendido, de dar fórmulas
exactas, regras matemáticas, receitas infalíveis para
conjurar as dificuldades e encontrar as belezas fictícias.
Trata-se de decompor a forma, de analisar os amba-
'ges e as expressões, de fornecer aos leitores a verda-
deira revelação do estilo, o ãngulo onde é preciso vê-Io.
O ensino, que nós concebemos, lucraria sem ser
dado de viva voz; mais resultado alcançaria, se nós
mesmos corrigíssemos as .composíções, feitas pelos dis-
cípulos e não extractadas dos autores, porque os exer-
-cícíos dos que aprendem contêm erros e inexperiências,
que escassamente aparecem numa obra impressa.
Éfácil mostrar os processos, sobre um assunto sim-
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A ARTE DE ESCREVER
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ples: e é difícil encontrar exemplos. inventar erros. pre-
parar assuntos para correcção.
Procuraremos desviar. o melhor possível. esse íncon-
veniente.
Poderão dizer-nos também: «a tua pretensão de
ensinar o estilo é quimérica: que estilo vais ensinar?
Não há um só padrão de estilo. Cada autor tem o seu.
Míchelet não escreveu como Guízot, e Bossuet não
escreveu como Fênelon: Montesquíeu não se assemelha
a Chateaubriand. Com que direito poderás impor tal
forma em vez de outra? Mas conv'irá esta ao meu
temperamento? Aconselhar-me-eis estilo regularmente
construido. a mim. cujo estilo é incisivo e rápido?
E apontaríeis Bossuet, como modelo. a quem tenha o
temperamento de Míchelet?»
Sem dúvida. há tantos estilos como autores. e seria
absurdo querer impor um deles. fosse qual fosse.
Não é um estilo especial que queremos propor; que-
remos ensinar cada estudioso a escrever bem no seu
próprio estilo.
Há uma arte comum a todos os estilos.
São os princípios. as graduações e as consequências
desta arte o que desejamos desenvolver.
É essa arte o que constitui a ciência de escrever.
Posto que as qualidades de escrita não sejam as
mesmas em todos os autores. um bom verso de Boileau
é bom pelo mesmo motivo por que é bom um verso de
Vítor Hugo.
Dizia Flaubert:
--- « Um bom verso não tem escola.»
Também um bom estilo a não tem.
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A ARTE DE ESCREVER
As nossas razões para admirar os mestres são sem- ,
pre as mesmas.
Quando falo de Ésquilo, podeis crer que falo de
Bossuet.
Pascal não é, na maior parte dos casos, mais que
um Guez de Balzac, com génio.
E, àparte a eloquência, descobre- se perpetuamente
Montaigne por trás de Rousseau.
Certamente que não queremos obrigar ninguém a
adoptar tal ou tal estilo.
O que aconselharemos é que se decomponham e
assimilem todos os estilos, e que depois se forme um
deles.
Tratai primeiro de escrever bem, e a originalidade ,-
do vosso estilo chegará por si mesma.
Em todo caso, há uma tradição de estilo da língua:
é a tradição clássica, a mola regular e compassada, a
estrutura acadêmica e lógica, de que usou Fénelon,
Rousseau, Chateaubriand, Flaubert.
É uma ficção geral, e domina tudo.
Eis, à priori, a forma que é preciso propor para
modelo.
Tranquilizai- vos, porém, que o vosso temperamento
a modificará, se nascestes para a modificar, e sem
esforço quebrareis esse molde, se for estreito de mais
para as vossas qualidades.
O epíteto trasbordará, se tíverdes a vocação do
epiteto: a cor aparecerá, se tíverdes o gosto pela cor;
e carreqá- la- eis, sem o querer. se amardes o empas-
tamento.
Criareis por vós próprios, o pormenor, o cambiante,
a florescência do vosso talento; mas, primeiro, adoptai
A ARTE DE ESCREVER
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os moldes clássicos, a forma prevista e sóbria, a linha
literária, a temperança, a probidade, o plano.
Se as vossas qualidades contêm, em germes, flores-
cências futuras, deixai- as germinar.
Não entreis com o pé esquerdo, como se costuma
dizer, e não vos estreeis com o excepcional, o exage-
rado, o violento e o rutilante.
Se tendes vida, rompereis o ovo; mas sabei que não
há desenvolvimento possível. fora do embrião ordinário.
O que é preciso pois ter em mira, o que se deve
atingir, é a forma resultante do génio da língua.
Esta forma bastou aos mais diversos autores, aos
temperamentos mais difíceis, a quem nós devemos obras
como Salambô e Três Contos de Flaubert e os contos
de Daudet.
Esta forma acadêmica não impede Bossuet de ser
um criador incomparável de palavras, e Chateaubriand
de escrever, nas suas Memórias, páginas de um colorido
e de uma ousadia, em que se encontra o futuro pincel
de Gautier, Saint- Victor e Goncourt.
Portanto, um Manual sobre a arte de escrever é
possível, necessário e lógico, tomando- se por modelo a
construção geral da frase, tal qual saiu do latim e tal
qual a exploraram excelentes literatos durante séculos.
É,emsuma, a forma latina, ampliada etransformada;
o estilo francês sai do latim por Amyot e Montaigne.
e, como o das outras línguas românicas, pelos seus res-
pectivos clássicos.
Isto étão certo que, mesmo emnossos dias, os nossos
melhores escritores conservam, sob as suas expressões
originais e as suas audácias de artistas, qualquer coisa
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A ARTE DE ESCREVER
do latim, uma resistência de músculos e uma nitidez de
traços, que vem da língua romana universal.
A primeira condição preparatória, para escrever, é
conhecermo- nos, e, para isso, segundo diz Horácío, é
preciso examinar, estudar, saber com que fardo pode-
rão os nossos ombros.
Qual é a vossa vocação?
Quais são os vossos gostos?
De que sois capaz?
Quais são as vossas preferências?
Tendes aptidão para o romance, para o diálogo. para
a poesia, para a descrição?
Nada é mais difícil que conhecermo- nos literàría- ~
mente.
A nossa imaginação tem miragens, que nos iludem.
O verdadeiro germe é muitas vezes sopitado. e só
aparece tardiamente.
Gautier e Goncourt supunham- se nascidos para a
pintura.
Rousseau só aos quarenta anos é que compreendeu
que era escritor.
H. de Balzac procurou o seu norte durantes anos.
fazendo romances de aventuras.
[ulqais- vos coloristas e nascestes para a análise.
Éreis marinheiro, como Lati. enascestes para escrever.
Um caso nos revela a nós próprios. Nem sempre
temos bom êxito naquilo que mais nos agrada.
Ledes comédias. eis- vos apaixonados pelos diálogos:
mas. residis na província, má condição para fazer peças
teatrais.
O espírito curioso faz muitas vezes o percurso dos
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A ARTE DE ESCREVER
21
conhecimentos, antes de saber comque pode, ede conhe-
cer o seu valor.
Há assimilações passageiras, que são meras ilusões.
Épreciso, para termos completa certeza de vocação,
repetir as experiências, recomeçar as provas, mudar de
exercício, passar de uma leitura a outra. Por fim, acen-
tua- se uma predilecção, traça- se um atalho em meio
desses diversos caminhos, e, graças à intervenção de
um amigo. ao auxílio dos conselhos' e das opiniões de
um companheiro inteligente, sabeis, finalmente, pouco
mais ou menos, o que quereis fazer e o que podereis
fazer.
É preciso sobretudo ver bem, porque sucede que,
aquilo que mais prezamos em nós, são exactamente os
nossos defeitos.
Deveremos reagir, violentar- nos, contrabalançando
as más tendências e dirigindo as disposições de ínteli-
gência para o lado das qualidades reais.
Éraro que se tenha o discernimento e a coragem
de sermos pura e simplesmente o que somos.
Devemos examinar primeiramente a influência do
meio em que se vive, pois é muitas vezes ele que deter-
mina e desenvolve as nossas faculdades.
Se viveis na aldeia, tereis probabilidades de ser apto
para descrever os costumes rústicos e incapaz para des-
crever os mundanos.
Quando estamos muito perto das coisas que se vêem,
acabamos por as não ver e não pensamos em exprimir
o que melhor sabemos.
É necessário um esforço, um recuo, para as notar.
Se conversais bem, se possuís o espírito da conver-
22
A ARTE DE ESCREVER
saçâo, há toda a probabilidade de que sereis orador e
não escritor, e é para aquele lado que vos deveis voltar.
Seria extenso enumerar as diversas hipóteses a enca-
rar, para chegarmos ao discernimento de nós próprios.
As observações e os conselhos variam para cada
pessoa. E, depois, o meio, que mais luz vos ministrará
a tal respeito, é a leitura.
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Lição Terceira
A leitura
A leitura. ~ Consequências da leitura. ~ A assimilação pela lei-
tura. ~ A leitura é uma criação. ~ Como se deverá ler: ~
Devem ler- se muitos livros? ~ Quais os autores que se podem
assimilar. - Estudo dos processos pela leitura. - Homero, .
Montaigne, Balzac, Saínt- Evremond, Bossuet. Rousseau.v- >
Como devemos ler? ~ Como tomar notas? - A anatomia do
estilo. - A falsa análise literária. - O estilo, o oficio, o
talento. - Pastichos (') e comparações técnicas.
BuHon, no seu imortal Discurso acerca do estilo.
disse judiciosamente:
(') Não conheço em português expressão ou termo, que
corresponda precisamente ao italiano pesticcio, que, propriamente,
é termo de pintura, e que, afrancesado, deu pastiche. Paródia
seria termo vernáculo, mas, como envolve sempre a ideia de
burlesco ou ridículo, não representaria com exactídão o italiano
pesticcio. Acho portanto preferível o aportuguesamento pasticho.
(Nota do tredutor ),
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I
A ARTE DE ESCREVER
23
- «Os nossos conhecimentos são os germes das
nossas produções».
O talento não se inventa.
- «Transfunde-se sempre por infusão». acrescenta
Flaubert, que lera tudo.
Rousseau. antes de escrever, lera erelera Montaigne
e Plutarco.
Bcssuet conhecia profundamente aBíblia eos Padres
da Igreja.
Éproverbial a imensa leitura de Montaigne: escre-
via e falava o latim. antes de saber o francês.
Chateaubriand confessa que relia continuamente
Bernardim de Saínt-Píerre.
Todos os grandes escritores proclamam a necessi-
dade de ler. de ler bem.
A leitura é a base da arte de escrever.
Sem dúvida. pode haver excepções, exemplos de
génio. uma G. Sand, escritora de improviso.
Mas devemos olhar ao que é geral.
Proveitosa a todos os grandes talentos. cuja vigorosa
personalidade ela provou. a leitura. commais forte razão
nos é necessária a nós. os medíocres 'eos retardatários.
que tanta necessidade temos de fortificar a nossa inspi-
ração. de auxiliar a nossa cultura e de ampliar. alimen-
tare transformar as nossas ideias.
Para todos nós. o campo da imaginação está por
cultivar; pode produzir. mas deve ser adubado.
Équase sempre após uma leitura que se declaram as
vocações literárias. porque é por ela que o nosso espí-
rito se abre aos múltiplos recursos da arte de escrever.
A leitura mostra-nos. postos em prática. os meios
de execução. faz-nos ver como se trata uma situação
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24
A ARTE DE ESCREVER
difícil. como se põe comoção nas frases, como se variam
as expressões.
Alternadamente, passam-nos por diante dos olhos
cenas bem executadas, descrições fortes, diálogos per-
feitos, maleabilidades de espírito; os processos de estilo,
os efeitos idênticos, obtidos por combinações diversas;
os exemplos dos estilos mais opostos, os infinitos cam-
biantes de uma ciência, aplicada por temperamentos
dissemelhantes.
Despertam-se as subtilezas na nossa inteligência:
a nossa imaginaçãoexcita~se; opera-se a assimilação.
É uma longa criação, uma segunda natureza que
nos advém, o desabrochar motivado e fecundo das
nossas qualidades nativas.
Pode-se afirmar que o homem que não lê é incapaz
de ccnhecer as suas forças e ignorará sempre o que
pode produzir.
Não me cansarei de repetir: épreciso ler, ler sempre.
Desconfiai daqueles que dizem: «Nada quero conhe-
cer; nada quero ler: basta-me a natureza».
Arriscam-se a nunca produzir coisa boa e a refazer
o que já está feito; porque há-de confessar-se, ao menos,
que a leitura nos põe em guarda contra os assuntos
e processos já explorados.
Quereis saber se tereis talento? Lede!
Os livros vo-lo dirão.
Escreveis, mas suspendestes a escrita? Ledel
Os livros vos inspirarão.
Lede, quando quiserdes escrever; lede, quando já
não puderdes escrever.
O talento não é mais que uma assimilação.
$
I
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Pá.;:::; ',.,--
A ARTE DE ESCREVER
Épreciso ler o que os outros escrevem, a fim de
escrevermos para ser lidos também.
A leitura dissipa a monotonia. activa as faculdades,
descrisalída a inteligência e põe em liberdade a ima-
ginação.
Sei de alguns literatos abalizados, que nunca se
entregam ao trabalho sem ter lido algumas páginas de
um' grande escritor, -- meio excelente para encontrar a
inspiração.
A leitura é o grande segredo.
Ensina tudo, desde a ortografia até às construções
de frases.
Devem ler-se muitos livros ou poucos?
Pergunta importante e delicada. As leituras disper-
sas não têm proveito, assim como a leitura de um só
autor, por uma estreita assimilação, faz cair no pasti-
cho e transfunde-nos os defeitos de um escritor.
Foi o que sucedeu a Lamennaís, no seu Ensaio sobre
a Indiferença, emque a imitação de Rousseau éfrisante.
As mesmas frases, os mesmos rodeios, as mesmas anti-
J M teses, as mesmas veemências, a mesma linguagem.
O timeo hominem unius libri é um velho adágio.
Eu receio o homem que lê só um livro: Sem dúvida,
se esse livro é a Bíblia ou Homero, vastas florestas
inesgotáveis de variedades e profundezas, em que se
encontram todos os gênios e todas as escolas, o perigo
não é sensível.
Mas, fora essas grandes obras, épreciso, creio, muita
prudência e tacto, se vos quereís prender à leitura de
um só livro, para não cairdes nos inconvenientes que
assinalamos.
Demais, como disse Spencer, há estômagos que con-
25
f
26
A ARTE DE ESCREVER
têm muitos alimentos e nada digerem. enquanto outros
absorvem pouco e digerem tudo.
Séneca não queria que se lesse muito.
Via uma depravação de apetite numa curiosidade
muito complexa. e entendia que querer ler tudo é correr
o risco de apenas percorrer tudo.
Segundo ele. não se pode entrar na substância de
um autor, se não com uma Irequência assídua. cujo
proveito só se desenvolve demoradamente; e conclui
os seus conselhos a Lucílío, ensinando-lhe que faça
escolha entre os melhores autores.
Éa regra mais sensata e devemos quíar-nos por ela.
Mas, que autores deveremos escolher?
Aqui é que as opiniões divergem.
Em primeiro lugar, para se formar a aptidão, para
se possuir lance de olhos literário, completo. para des-
pertar as faculdades criadoras e as disposições imagi-
nativas, é necessário absolutamente ler muito, ler todos
os bons autores, que possamos ler.
Depois, escolhem-se os melhores e. entre os melho-
res, não os primeiros. nem ainda os mais puros e os
mais simples, mas aqueles que estão em mais relação
com as nossas tendências, principalmente aqueles que
nos podem aproveitar dírectamente, aqueles que se
podem assimilar, porque há autores que são essimilé-
veis e outros que o não são.
Esta distinção tem extrema importância para quem
quer aprender, pràticamente, a escrever e não a atacar
durante anos, através dos autores.
Épreciso ler os mestres. mas que mestres?
Vamos tratar de os indicar. sem nos preocuparmos
com os assuntos, com o lado social ou moral. com o
--
A ARTE DE ESCREVER
27
valor filosófico ou com a influência das obras. tendo
aqui em vista apenas a profissão. a arte de escrever.
o proveito imediato. que se pode tirar da leitura.
Até agora. tem-se desprezado o lado da utilidade
prática; só se vêem na leitura modelos de elevação geral.
mais proposto à admiração do espírito. do que à efectí-
vação da faculdade de escrever.
Costumam dizer: Para vos ilustrardes. lede La-Fon-
taine, Molíêre, Corneille, etc.
Eis aqui quatro autores que nos mostram até que
perfeição se elevou a arte literária. mas cuja leitura.
receio eu. se arrisca a ficar semproveito imediato. quanto
à formação do vosso estilo.
Passaríeis anos a ler La-Fontaíne, que nada lucra-
ríeis com isso. e por uma razão bem simples: é que
La-Fontaíne é inimitável: levou consigo. para a sepul-
tura. o segredo da sua arte; éimpossível saber-se como
ele construiu as suas frases. com que engenho e com
que trabalho (1) ele obteve tal concisão e tal relevo.
Além disto. há ainda nele um requinte. uma malca-
bílidade de espírito original, um não sei quê de humo-
rismo. que ninguém poderá jamais decompor nem apro-
priar.
Quanto a Boíleau, há nele uma perfeição de justeza
e de síntese admiráveis.
Mas a linguagem literária progrediu, ampliou-se.
O verso clássico já não é possível; os rios não
sobem para as suas nascentes.
A arte não é estacionária; o molde de Boileau foi
(') Ele refazia dez ou doze vezes cada fábula.
r
28
A ARTE DE ESCREVER
posto de lado; quem o imitasse cairia na insipidez e no
anacronismo.
Quanto a energia e sobriedade, podemos achá-Ias
noutros.
Relativamente a Molíêre, este oferece mais vanta-
gens na essência, do que na forma, pela profundeza da
sua observação assombrosa, e pelo seu diálogo eterna-
mente humano, --- ainda que contornando embora rude-
mente o verso, talvez tenha feito, a par de Comeílle.
os versos mais felizes, mais belos e os mais surpreen-
dentes da língua francesa.
A admiração que tivermos por Corneílle é igual-
mente mais objectiva. Nós é que vamos para ele, e ele
não vem para nós.
De um modo geral é melhor começar por ler o que
é simples, clássico, sincero, puro, de pensamento e sen-
timento recto, para dar ao gosto e às ideias a rectídão
e a clareza que são a base das grandes obras.
Mas, quanto à prática, para a assimilação técnica
e proveito urgente, devemos ler principalmente os auto-
res que nos deixam ver os seus processos, em que pos-
samos discernir os meios de trabalho, os artifícios de
estrutura, os pormenores do estilo, aciência da expressão;
em que possamos avaliar o esforço representado nas
justaposições empolgantes; ver como se obtém a inten-
sidade e o relevo; o ponto, em que nos devemos colocar,
para fazer ressair as idéias: a habilidade necessária para
ampliar, imprimir movimento, etc.
Saber ver é a grande palavra da escrita literária;
e saber como épreciso ver, é quase o mesmo que saber
como é necesserto exprimir.
À frente dos autores que podem ministrar este
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A ARTE DE ESCREVER
29
i.
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género de ensino, deve colocar-se Homero, que é sem-
pre o maior escritor de todos os tempos.
Énele que se encontra o primeiro modelo de vida
na descrição.
Se não lestes Homero. não sabereis nunca o que
éo verdadeiro realismo e a arte de escrever.
Voltemos a este ponto, analisando as suas descri-
-ções; mas, fiquemos sabendo, desde já, que nunca nin-
guém excedeu Homero a tal respeito.
Há nele germes de todas as escolas; tem comoção,
elcquência, piedade, observação, pintura' e colorido, a
tal ponto, que Homero é o eterno modelo da arte de
escrever.
Homero porém não produz todo o seu efeito, senão
numa boa tradução. As de Bítaubé e de M.me Dacier
são frouxas.
Há apenas uma tradução, que dá a sensação de
-oseu relevo, o seu realismo, o seu vigor e suavidade, e
que o torna vivo para nós, como um livro contemporã-
neo: é a tradução de Leconte de Lísle, apesar das suas
infidelidades, das suas manias bárbaras, das suas aíec-
tações de arcaísmo, das suas durezas de construção, e
apesar até dos seus contra-sensos.
Para vos convencerdes disto, bastará que compareis
aquelas traduções entre si, como nós fizemos.
Cotejámos a de Leconte de Lisle com o texto grego,
palavra por palavra.
Nenhuma tradução dá melhor do que esta a sen-
.sação do original. posto que o estilo de Homero tenha
uma fluidez, que ninguém poderá exprimir.
Montaigne é igualmente um tesouro de desc~bri~
mentes e de ensinos; nunca ninguém praticou o francês
30
A ARTE DE ESCREVER
com mais fecundidade; encontram-se nele todos os
gêneros e todos os estilos.
Rousseau, Pascal, Balzac, Saínt-Bvremond estão em
Montaigne, que mostra em cada página o partido que
se pode tirar de um pensamento, como este se desen-
volve, como se exprime todo o valor dele, fazendo-o
brilhar nas suas facetas, decompondo-o, partindo-o, em
embates e faíscas.
Nenhuma leitura pode substituir a leitura de Mon-
taigne.
Guez de Balzac é também muito útil, é o Malherbe
da prosa; fixou o estilo francês antes das Provinciais e
antes dos Pensamentos de Pascal.
Posto que insuportàvelmente pretensioso por vezes,
é um curioso escritor, mais brilhante que profundo,
mais espirituoso que eloquente, mas de um extremo
relevo de pensamentos e de uma harmonia delicada.
Aqueles que o desdenharam leram-no mal.
O seu estilo produz tal efeito, que o acusaram de
ser apenas retórico, e Saínt-Beuve disse que o pode-
riam imitar perfeitamente. Mais uma razão para o ler-
des bem e o assimilardes.
Compete-vos a vós não ficar no seu molde. uma
vez recebida a impressão.
Não deixarei de recomendar também a leitura de
Saínt-Evremond, embora autor secundário; mas não
deveis demorar-vos com ele, e bastará limitar-vos a
alguns dos seus Entretenimentos, e às suas Considera-
ções sobre os Romanos, que parecem preanunciar Mon-
tesquieu.
Temos o divino Bossuet, o maior criador de pala-
vras e de expressões, o mais admirávelestilista, que
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A ARTE DE ESCREVER
31
existe na língua francesa. Verbos. substantivos. epitetos,
união de palavras. imagens formidáveis. tudo extrai do
seu engenho. Ê um deslumbramento em cada página.
umtrajo fulgurante comque veste pensamentos colossais.
Suscitar-vos-à a imaginação. despertará em vós os ger~
mes do estilo e dará à vossa faculdade de escrever
permanente ebulição.
Devem ler-se principalmente os seus Sermões.
Em seguida. temos Rousseau, um autor eminente-
mente assimilável. Acautelaí-vos com os seus parado-
xos; o erro tem nele visos de verdade; mas a sua forma
é admirável e o processo sem disfarces.
Ponhamos de parte a Profissão de fé do Vigário
Seboieno, as mais belas páginas da nossa literatura.
talvez, mas que contém confissões de incredulidade. que
não estão ao alcance de todos os olhos.
Uma boa compilação dos seus fragmentos escolhi-
dos é um livro indispensável. cujo estudo vos formará
melhor o estilo que os melhores tratados teóricos.
Depois destes autores. como a cor e a imagem são
necessárias, aconselharemos a leitura de Chateaubríand,
pai de toda a nossa escola contemporânea e dos nossos
mais recentes escritores.
Há nas suas obras uma parte que envelheceu, como
os N etchez: mas uma parte permaneceu jovem e nunca
envelhecerá: é o que ela tem de pessoal e descritiva.
Atala. Renato e principalmente as suas Memórias de
elém-túmulo, em que o talento atinge uma extraordiná-
ria intensidade. É o melhor livro do seu século.
Eis aqui. creio eu. a escolha que há a fazer entre
os autores que se devem ler tecnicamente. para proveito
da forma.
32
A ARTE DE ESCREVER
A leitura dos bons autores é, portanto, índíspensá-
vel para a formação do estilo; mas surge aqui uma
pergunta importante:
Como se deve ler?
O proveito da leitura depende da maneira como
selê.
Goethe disse:
- «Não há mau trabalho, que não tenha alguma
coisa de bom.»
Ler, sem tomar notas, é como se nada se houvesse
lido. Decorridos seis meses, não vos lembrareis do que
lestes.
Devorarmos tudo, vermos desfilar tudo, não nos
determos em coisa nenhuma, é trabalho indigesto e
confuso.
E mais diríamos:
«Li isso algures ... ; de quem será este trabalho? este
pensamento?»
Rumina-se. procura-se. fica-se aborrecido; seria
necessário reler tudo.
Que curiosas aproximações, que lindas paqinas se
escreveriam, se pudéssemos precisar o que agita a
memória, fixar o que se entrevê, localizar o que flutua!
A memória é coisa oscilante.
Não haveria sábios, se nos fiássemos nela.
A verdadeira memória consiste, não no recordar.
mas em ter, ao alcance da mão, os meios de encontrar.
A primeira condição para ler bem é portanto fixar
o que se quer reter, e tomar notas.
Um livro que se deixa, semter extraído dele alguma
coisa, é um livro que se não leu.
Insisto na necessidade da leitura, para se criar uma
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A ARTE DE ESCREVER
33
forma. umestilo. Quanto à essência. o proveito éigual:
o mesmo recordar servirá para as ideias: a inteligência
assimilará os pensamentos. a imaginação reterá as íma-
gens e o senso estético abrangerá os contornos. os mol-
des. as formas.
Para obter este tríplice proveito. é absolutamente
necessário ler. tomando notas; e. para as tomar. há ape-
nas um modo prático.
Alguns autores aconselham que se faça escolha de
trechos. para comparar os pensamentos dos escritores
sobre a mesma matéria; ou escolha dos pensamentos
mais salientes de tal ou tal escritor. para nos saturar-
mos do seu espírito e compenetrarmo-nos deles o mais
possível.
Estes meios. não os acho práticos; têm qualquer
coisa de fictício e de insuficiente.
O perigo de tal trabalho é descambar em mania.
acabar por copiar tudo. o bom e o mau. e coleccionar
agendas.
Os espíritos medíocres imaginam que aprendem
muito. copiando tudo; é um engano.
Mas esse trabalho de cópia pode tornar-se excessivo.
se se faz com um fim técnico.
Copiar um bom fragmento de um autor é um exer-
cício útil para a ciência da construção.
O estilo. em letra redonda. embeleza-se. lisonjeia a
vista eilude; o mesmo estilo. manuscrito. produz diverso
efeito; dir-se-ia que éda própria pessoa que manuscreve;
parece um exercício de composição; é uma pérola que
caiu de umestojo. eque se avalia emcima de umpapel.
Otil exercício. que me não cansarei de recomendar.
Voltemos ao nosso assunto.
A
34
A ARTE DE ESCREVER
Para se ler bem, devem tomar-se apontamentos;
mas como?
Sobre linguados de papel ou de cartão fino, díspos-
tos alfabeticamente pelos nomes dos autores.
Éo único meio prático.
Uma classificação por ordem de ideias dá resulta-
dos confusos; poucos cambiantes separam as ídeias:
encadeiam-se, confundem-se e não nos podemos asse-
nhorear delas.
Os linguados podem ter três objectivos:
1.o Notas de erudição.
2.
0
Citações notáveis.
3." A apreciação, feita por quem lê.
Os linguados são indispensáveis à erudição; todos
os sábios os têm; sem eles, nada se retém. Éo UI11CO
meio, num dado momento, de nos recordarmos do que
temos lido.
Resumem-se os nomes das obras, notam-se 0$juizos
dos autores, as coisas que com eles se relacionam, 3S
aproximações e as recordações; são tesouros que se
amontoam; bastará relê-los, mais tarde, para que tudo,
que aí apontamos, nos volte com nitidez.
Graças a este meio, não é difícil ser instruído.
Os sábios não o ignoram e é por isso que são
modestos.
Conheceís as inumeráveis notas, colocadas ao fundo
das páginas, em trabalhos de erudição? Éo resultado
dum sistema de linguados, longa epacientemente acurnu-
lados.
Podem-se também registar nos linguados citações
notáveis, frases típicas, extractos empolgantes, expres-
A ARTE DE ESCREVER
' 35
sões estudadas. o lado profissional do estilo; é nisso
que estará o proveito de copiar bons autores.
Depois. escrever nos linguados a própria crítica. o
próprio conceito. constitui um exercício. cujas vantagens
verifícareís. de dia para dia.
Ledes um livro ... Que deveispensar dele?
Se não tomardes apontamentos logo. esquecer-vos-
-eis dele.
Na ordem intelectual ou puramente artística. é impor-
tante ir escrevendo. à medida que se lê.
Repetímo-lo: ler. sem empregar este método. é como
não haver lido.
É ler como faz toda a gente. sem aspirar a ser
alguém.
A regra que deve dominar a preparação literária é
ver tudo. tomar conta de tudo e avaliar tudo directa-
mente.
Não creiam que. para conhecer uma obra. bastará
ler histórias literárias ou livros de crítica.
Nenhum crítico. por mais forte que seja. substituirá
jamais a leitura de um trabalho. porque são os pro-
cessos. os métodos e a anatomia do estilo que diferen-
ciam os autores. e muito poucos críticos se preocupam
de nos mostrar esse lado profissional.
É. pois. para isto que deveis dirigir a vossa atenção.
se quiserdes examinar e analisar os escritores nas vossas
notas.
Notai num (Míchelet ) o emprego da síntese. para
exprimir o que outro (Bossuet) dirá em longos períodos.
Um procede por empastamento ou justaposições
(Taíne. Goncourt. Zola); outro tem a frase colorida.
mas clássica (Cha teaubriand, FIa ubert) .
36
A ARTE DE ESCREVER
Este (Montesquíeu}, aperta e liga frases bastante
curtas. que ele faz esbarrar espiritualmente; aquele
(Rousseau). tem a paixão da antítese; e aquele outro
tem harmonia e majestade na sua calma (BuHon. etc.).
Muitos professores aconselham que se façam análi-
ses literárias. que se resumam os assuntos. que se redu-
zam os desenvolvimentos à ideia-mãe, que se exponham
paralelos. que se assinalem as belezas, que se exami-
nem os caracteres, que se desenvolva o plano, que se
caracterize o estilo, que se exponha a acção, que se
aprecie o título. etc.
Tal trabalho poderia ser frutífero, se fosse bem feito;
mas os exemplos de análises literárias, que nos dão como
excelentes. são executados com processos de retórica,
tão superficial, que é inútil aconselhar tais exercícios.
Éperder tempo obrigar os principiantes a torturar
o espírito. num género de estudo. que não transpõe os
moldes de La Harpe.
Lemos essas espécies de análises literárias, propos-
tas pelos mestres. ou publicadas por alunos. em frag-
mentos de composição: análises da fábula O Carvalho
eo Canavial. Os Animais Doentes de Peste, A Ando-
rinha eos Passarinhos.
Tudo se limita a repetir apreciações. como esta que
é textual:
-- «O plano é bem seguido ... Estes oito versos são
um retrato ... Éum retrato bem desenhado Eis aqui
as palavras de uma pessoa idosa e prudente O poeta
põe-nos a andorinha sob os olhos. Que delicadeza ele
expressões naqueles dois versos! Este incidente é de um
efeito encantador!. .. Escutemos os argumentos da ando-
rinha ... Esta exclamação tem uma vivacidade empol-
A ARTE DE ESCREVER
37
gante ... O drama vai precipitar-se ... Aquela linguagem
é bem a do jovem presunçoso! Como o carácter dos
passarinhos se encontra descrito ali tão naturalmente e
de uma maneira empolgante!... Estes versos são encan-
tadores! As suas expressões são cheias de delicadeza ...
Esta comparação está cheia de apropósitos ... »
Estas linhas são assinadas por um estudante de
retórica de um liceu de Paris, aprovadas pelo mestre
e publicadas num dos mais modernos Cursos de Lite-
ratura escolar, aprovado pela Academia.
Vede que modelos de análises!
Tudo se reduz ali a uma paráfrase do autor; segue-se
a narrativa, enqrínaldando-a de reflexões aprovadoras;
é o que se chama fazer sobressair as belezas.
Dão-vos duas ou três chaves, algumas palavras:
plano, narrativa, rapidez, cerécter, composição, anda-
mento geral. estilo, figura, unidade de acção, etc.
Experimentais as vossas chaves, uma por uma e,
logo que elas serviram e todos os compartimentos fica-
ram fechados, está jogada a partida.
Éassim que se aprende a fazer análises, segundo,
um padrão único, estreito e insignificante.
Eis aqui outra análise, feita também por um retórico:
Exame do sonho de Paulina e do sonho de AtaZia.
Como estes dois sonhos se não assemelham, indi-
caram a diferença que há no seu alcance e nas suas
consequêncías, em que intenção diferem e quais os seus
efeitos.
Um «põe a acção em movimento»; no outro, «gira
sobre o sonho a tragédia inteira»; ambos excitam o terror
e despertam funestos pressentimentos: tudo isto, pre-
38
A ARTE DE ESCREVER
cedido de um lance de vista sobre o papel dos sonhos
no teatro.
Tantas reflexões, e nada de execução artística e de
mérito literário!
Respondereís: mas, que se há-de exigir de um man-
cebo, de um estudante, de uma criança? Não se lhe
pode exigir um profundo conhecimento das coisas, um
estudo aturado e minucioso, considerações transcenden-
tes. Por que haveis de substituir este método?
O que eu digo é que é preciso dar outra direcção
às ideias do estudante, aos seus esforços, às suas apti-
dões de examinando.
Deve-se-lhe proibir que escreva essas banalidades
de apreciação, essas puerilidades, esses chavões fáceis,
esses moldes, prontos a receber a forma dos pensamen-
tos vulgares.
Então, que lhe deveremos pedir? É bem simples.
Isto: «Que pensais deste estilo? Donde vem a sua força?
Que diria, em tal caso, um escritor ordinário? Por que
processo de execução suporides que o autor tenha atin-
gido a concisão? Em que consiste a concisão? Que frases
seriam essas, se não fossem concisas? Como e porquê
há vida em tal narrativa? Que é o que constitui relevo
de estilo? Reconstituí esses versos, para mostrar como
eles seriam, se não tivessem relevo. Em que é que o
autor faz dizer às personagens o que devem dizer, e que
diriam elas, sem o engenho do autor? Onde está o colo-
rido desta narrativa? Onde está o movimento? Onde
supondes que haja transições? Qual é, na vossa opinião,
a passagem mais difícil de tratar? Que maleabilidade de
espírito se prova nesse fragmento? De que outra forma
se poderia compor? etc., etc.».
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A ARTE DE ESCREVER
39
Poderíamos enumerar um longo questionário deste
género, visando essencialmente a arte de escrever. o mis-
ter. o talento. e atirando para o segundo plano a apre-
ciação das ideias, dos sentimentos e dos pensamentos,
o que é contudo necessário e que tem também a sua
importância.
Éneste sentido prático que se deve dirigir o julga-
mento e as opiniões de um aluno, em vez de restringir
o seu espírito a um trabalho de ideologia.
Não se pensa nisso, porque ninguém pe~sa em fazer
a crítica da profissão, e contentam-se em examinar as
cercanias de um livro, de um fragmento, rondando em
volta da casca, sem tocar na madeira, examinando a
casca sem a abrir, despojando o osso «sem partir a
medula».
A leitura bem feita compreende não somente os lin-
guados, notas, análises, mas uma grande quantidade
de outros exercícios aproveitáveis, como as compara-
ções, o pasticho e a transposição.
Comparando fragmentos semelhantes, tratados por
autores diversos, verífícar-se-á a diversidade de exe-
cução, a oposição dos estilos, as vantagens que um
pode ter sobre o outro. o que será preciso acrescentar,
a duplo aspecto que pode ter um assunto.
Lede a tempestade, que termina Paulo e Virgínia;
comparaí-a à tempestade de Chateaubriand nas suas
Memórias e, para terdes uma ideia nítida da evolução
da linguagem literária, ajuntai a de um escritor con-
temporâneo, Pedro Loti, no Pescador de Islândia.
Renovai esses exercícios.
Quando, nas vossas leituras, tiverdes encontrado
fragmentos já discutidos, notai-os, para os terdes à
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P 4
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40
A ARTE DE ESCREVER
vossa disposição e fazer sobre eles o trabalho que
aconselhamos.
Seria prático este género de extractos.
O pasticho é igualmente um bom meio de nos pre-
pararmos para a arte de escrever.
Quando se tem aptidão para assimilar e um reflec-
tido gosto de leitura, depressa se consegue imitar certas
maneiras de estilo, as dos retratos de La-Bruyêre. por
exemplo, e fazer retratos moldados sobre aqueles.
Imita-se assim Rousseau, Bossuet, La-Bruyêre,
Montesquieu.
Saber imitar é aprender a não imitar mais, porque
é habituarmo-nos a reconhecer a imitação e a passar
sem ela, quando já não for precisa.
O funâmbulo serve-se da maromba, para a poder
deixar.
A transposição é ainda um modo de assimilação e
de maravilhosa lucidez.
Pôr em prosa o que está em verso, pôr em verso o
que está em prosa.
Assim, convencer-se-ão de que todas as palavras,
que compõem os versos de Racíne, são palavras simples,
vulgares, absolutamente próprias, não rebuscadas, que
se não devem substituir, e verão como se pode fazer
boa poesia com as palavras usuais da nossa língua.
Mais adiante demonstraremos a eficácia desses
exercícios técnicos.
Por agora, contentar-nos-emos com indicâ-los como
aplicações de leitura, visto que é da leitura que ainda
se trata.
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I
A ARTE DE ESCREVER
Lição Quarta
Do estilo
Que é o estilo? - A cnaçao das palavras. - A magia das pala-
vras. - O «Díscursos de Buffon. - A ideia e a forma são
essencialmente uma só coisa. - A forma modifica sempre a
ideia. - A importância da for~a. - É a forma que dá vida.
- A forma de Homero, - O que é bem escrito e o que é
mal escrito.
Que é o estilo?
a estilo é a maneira privativa, que cada um tem,
de expttmir o seu pensamento pela escrita ou pela
palavra.
Pela escrita, no escritor.
Pela palavra, no orador.
a estilo é o cunho pessoal do talento.
Quanto mais original é o estilo, quanto mais empol-
gante ele é, mais pessoal é o talento.
a estilo é a expressão, a arte da forma, que torna
sensíveis as nossas ideiase os nossos sentimentos; é o
meio de comunicação entre os espíritos.
Não é somente o dom de exprimir os nossos pensa-
mentos, é a arte de os tirar do nada, de os fazer nascer,
de ver as suas relações, é a arte de os fecundar e de
os evidenciar.
a estilo abrange a ideia e a forma.
-
41
-
42
A ARTE DE ESCREVER
Devemo-nos persuadir de que as coisas que se dizem
não impressionam senão pela maneira como se dizem.
Todos nós pensamos. pouco mais ou menos. as mes-
mas coisas. de um modo geral; a diferença está na
expressão e no estilo; este eleva o que é comum. encon-
tra novos aspectos para o que é banal. engrandece o
que é simples. fortifica o que é fraco.
Escrever bem é pensar bem, sentir bem e reproduzir
bem tudo ao mesmo tempo.
Dizia Racine:
--- «O que me distingue de Pradon é saber eu
escrever.»
La-Bruyêre disse:
--- «Homero, Platão, Vergílio e Horácío, não estão
acima dos outros escritores, senão pelas suas expressões
e pelas suas imagens.»
E Chateaubriand escreveu:
--- «Nada vive, senão pelo estilo; embora protestem
contra esta verdade, a melhor obra, cheia das melhores
reflexões, morre à nascença, se lhe falta o estilo.»
O estilo é a arte de aprender o valor das palavras .••.
e as relações das palavras entre si.
As ídeias simples, representadas pelas palavras do
dicionário, em número somente de umas 17.000, não
bastam para fazer um escritor.
Aquele que conhecer essas 17.000 palavras poderá.
não obstante, ser incapaz de traçar uma frase.
O talento não consiste em nos servirmos secamente
das palavras. mas emdescobrir as imagens. as sensações
e os cambiantes, que resultam das suas combinações.
O estilo é pois uma criação de [arma pelas ideias e
uma criação de ideias pela forma.
. .
4 ;
A ARTE DE ESCREVER
43
o escritor chega a inventar palavras para indicar
novas relações.
O estilo é uma criação perpétua: criação de com-
binações. de ambaqes, de tom. de expressão. de pala-
vras e de imagens.
Quanto mais essa criação se reconhece na leitura.
melhor é o escritor.
A aproximação. o emprego de certas palavras dá-lhes
uma magia especial. uma poesia particular. uma siqni-
ficação nova.
Guy de Maupassant diz em qualquer parte:
- «As palavras têm uma alma. A maior oarte dos
escritores e dos leitores só lhes pedem um sentido.
Épreciso encontrar essa alma. que aparece ao contacto
de outras palavras. que ilumina certos livros. com uma
luz desconhecida. bem difícil de fazer brotar.
«Há nas aproximações e combinações da língua.
escrita por certos homens. toda a evocação de um mundo
poético. que o vulgo não sabe ver nem adivinhar. Quando
se fala disso. zanqa-se, raciocina. argumenta. nega, grita
-. e quer que lhe mostrem esse mundo. Seria inútil ten-
tá-lo. Não sentindo. nunca compreenderá. Homens ins-
truidos. inteligentes. escritores. até. admiram-se também.
quando lhes falam desse mistério. que ignoram. e sorriem.
encolhendo os ombros! Que importa! Eles não percebem.
Écomo falar em música a quem não tem ouvido.»
Bossuet disse:
- «A graça. divina tanto chove sobre o rico como
sobre o pobre.»
Eis uma palavra. tomada em acepção nova e que
produz uma imagem soberba.
Assim este pensamento também:

44
A ARTE DE ESCREVER
l
«Dormi o vosso sono, grandes da terra!»
E este:
«Derramar lágrimas e orações sobre um túmulo.»
A palavra indeterminede, por exemplo, é uma pala-
vra qualquer, geometricamente empregada, sem eloquên-
cía, sem brilho.
Sob a pena de Chateaubriand, vai tomar relevo e
pintará uma paisagem longínqua:
- «A claridade da Lua, a sua claridade pardacenta,
descia sobre os píncaros indeterminados das florestas.»
A palavra repousar é trivialíssima; mas, aplicada a
um objecto que não repousa, pode tornar-se magnífica:
- «A lua repousava sobre as colinas longínquas»
(Chateaubriand) .
Há até palavras de uma frivolidade técnica, oficial,
que causam grande efeito, quando um artista lhes
encontra uma relação imprevista.
Que haverá de mais incolor que a palavra anun-
ciador?
Eis como Pedro Loti se serve dela:
- «Os tristes maçaricos, anunciadores do outono,
tinham aparecido às primeiras chuvas.»
Outro poderia ter dito:
- «Os maçaricos, como tristes pássaros que anun-
ciam ° outono, tinham aparecido ... »
Era outro estilo, que não valeria o primeiro.
O estilo é portanto a maneira de cada um criar
expressões para patentear ° seu pensamento.
Pode ser largo, curto, colorido, seco, abundante, vivo,
periódico, conforme os temperamentos.
É difuso, pálido, incolor, freixo, nos maus escrito-
res; incisivo, nervoso, relevado, nos bons.
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•. .
-so
A ARTE DE ESCREVER
45
É tão completa a união, entre o carácter e o estilo
de um indivíduo, que bem se pode dizer realmente:
o estilo é o homem.
A vivacidade de palavras, a energia das concepções,
o tom da própria conversação falada, a originalidade
da imaginação, tudo isto se junta exactamente no estilo
de um homem.
O estilo é o reflexo do coração, do cérebro e do
carácter.
Diz Blair:
- «Os povos do Oriente, em todo o tempo, carre-
garam os seus estilos de figuras fortes e híperbólícas:
os Ateníenses, povo subtil e delicado, tinham o estilo
claro, puro e correcto. Os Asiáticos, amigos do fausto
e da nobreza, tinham um estilo pomposo e difuso.
Notam-se hoje as mesmas diferenças entre o estilo dos
Franceses, dos Espanhóis, dos Alemães e dos Ingleses.»
Saber muitas coisas não basta para ser bom escrí-
tor; o estilo éindependente da erudição; por isso, dizendo
que precisamos de ler muito para sermos bons escritores.
•• .supomos. já se sabe que temos aptidões para o estilo,
pelo menos uma vocação razoável e um gosto deter-
minado. Sem isto, a maior erudição não fará encontrar
um torneio de frase.
Há pessoas sábias, que nunca serão escritores; e há
escritores brilhantes, que pouco sabem.
O saber e a arte de escrever são coisas distintas,
-que não andam sempre a par.
O Discurso sobre o Estilo, de Buffon, contêm as
melhores páginas que temos sobre tal assunto.
Nunca ninguém explicou melhor os processos de uma
arte, que podemos considerar como uma ciência, nem
••••
F
46
A ARTE DE ESCREVER
expôs melhor as diversas operações do espírito. pelas
quais se conseguem boas frases.
Contudo, há nesse Discurso de Buffon uma tendên-
cia visível para aconselhar o emprego dos termos gerais
e dar ao estilo uma espécie de andamento sintético e
vivo, que constitui certos lados belos do estilo, mas
que não é todo o estilo.
Villemain teve razão em assinalar o carácter alta-
mente pessoal desse Discurso.
Mas que profundo sentido da beleza escrita, e que
conselhos práticos!
Diz Buffon que as obras bem escritas serão as úni-
cas que passarão à posteridade.
E acrescenta:
- «Todas as belezas que ali se encontram, todas
as relações de que o estilo é composto, são outras tan-
tas verdades, tão úteis e talvez mais preciosas para o
espírito humano, do que as que podem constituir o
fundamento do assunto.»
E Buffon diz ainda:
- «O estilo é a ordem e o movimento, que se dão
aos pensamentos.»
A ordem quer dizer a lógica das ideias, o seu enca-
deamento, o seu fundo; o movimento quer dizer a vida,
a forma; a ordem é a concentração, o andamento, o con-
junto; o movimento é a imaginação, o agrado e o relevo.
Aqui vem a pêlo a famosa distinção da ídeia e da
forma.
Uns separam-nas e diferenciam-nas. A ideia são os
materiais, os pensamentos, a substância, o assunto.
A forma é a expressão, o revestimento, o trajo.
Donde concluem que são duas coisas separadas.
f
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.
A ARTE DE ESCREVER
47
Outros dizem: a ideia e a forma são uma só coisa;
não se podem separar, como se não separa o músculo
da carne, Éimpossível exprimir uma ideia que não tenha
uma forma, como se não pode conceber que uma criatura
humana não tenha alma e corpo.
Quando se muda a forma, muda-se a ídeia, e, assim,
a modificação da ideia arrasta a da forma. Trabalhar
a forma é trabalhar a ideia: a forma cola-se à idéia.
Esta teoria é verdadeira e cumpre tê-Ia presente.
Em certos casos muito raros, efectívamente, a
mudança da forma não altera a 'ídeía.
Assim, se eu digo: chove emvez de cai água: chorar
em, vez de derramar lágrimas: ajoelhar-se em vez de
pôr-se de joelhos; ressoou um ruído emvez de um ruído
se fez ouvir, teria empregado a melhor forma, sem ter
mudado a ideia: e seria antes um sinónimo, que uma
modificação de forma.
Afora este género de correcções, puramente grama-
ticais. a ideia suporta sempre as alterações da forma.
Escrevo esta frase:
«Os nossos corações inebriedos do amor mundano.»
Estudo-a e ponho:
«Os nossos corações encantados com o amor do
mundo» (Bossuet).
A ídeía modificou-se segundo os matizes de uma
nova forma.
Encanto não é o mesmo que inebriemento, e amar
o mundo não é a mesma coisa que sentir o amor mun-
dano.
Se, emvez de dizer: «Os mártires estavam animados
pelo desejo de sofrer» eu digo: «Os mártires estavam
animados pela avidez de sofrer» (Bossuet}, terei encon-
48
A ARTE DE ESCREVER
trado uma expressão soberba, que alterará a ideia. por-
que o desejo não é a avidez (1).
Em vez de se fazer essa demonstração apenas sobre
.alqumas linhas, pode ser feita sobre uma página inteira,
sobre duas páginas, três, etc.
Eis aqui uma frase de que ressalta uma linda ima-
gem, a propósito da noite, nas solidões da América:
- «O génio dos ares sacudia nas trevas a sua
.cabeleira. »
Esta frase não me satisfaz; cerra-se bruscamente
de mais; queria temeté-le com uma palavra, com um
epiteto, que a arredondasse e a concluísse ...
Procuro ... penso no céu azul e acho:
- «O gênio dos ares sacudia, nas trevas, a sua
.cabeleíra azul...» (Chateaubriand).
O esforço, a preocupação da forma fez-me assim
descobrir uma imagem, que dá, por si própria, um
encanto imprevisto à ideia primitiva.
Eis aqui outro pensamento.
Trata-se de exprimir que as mulheres romanas são
tão belas como as estátuas dos seus templos.
- «Dír-se-íam estátuas dos seus templos, descidas
dos seus pedestais ... »
Bonita imagem, mas não me satisfaz.
Quero estendê-Ia e embelezá-Ia,
Ora, tudo o que eu ali acrescentar será um trabalho
.de forma sobre a ideia.
(') Não quero dizer que Bossuet tenha encontrado esta
expressão comumtrabalho de embelezamento e umesforço extraor-
dinário. Suponho o facto, para mostrar que modificar a forma é
modificar a ideia. '",'(!li.
A ARTE DE ESCREVER
49
Eis o que obterei:
- «Dir-se-Iam as estátuas dos seus templos, des-
cidas de seus pedestais e que em volta deles deambu-
lassem» (Chateaubriand).
E é justamente este último membro de frase o que
dá à imagem todo o prestígio, todo o seu efeito.
Direis que a ideia não mudou ... Oh! sim!
A primeira frase é conhecida, já a lemos algures:
mas a segunda, que constitui o quadro e a vida, essa
é a nova e foi criada.
Portanto, a forma e a ideia constituem uma só coisa.
Não se pode, emgeral e de maneira definitiva. tocar
numa. sem alterar a outra.
Quando se diz de um fragmento:
- «A ideia é boa, mas a forma é má», - isto nada
significa, porque o valor da forma é que torna boa
a ideia.
Deveria dizer-se :
- «A ideia poderia ser excelente, se a forma tosse
boa», - pois é a forma que faz valer a ideia.
Se exclamo:
- «o Jesus! Deus crucificado!» - é um estilo nobre.
mas muito conhecido.
Procuro e encontro:
- «o Jesus; Deus aniquilado!» (Bossuet).
A expressão é magnífica, mas a ideía mudou logo,
explodiu, é outra.
Todos nós temos observado: trabalhando. refazendo
is frases. supúnhamos nada mudar. só melhorar a forma,
e eis que tudo se organiza de novo: as ideias multi-
plícam-se: surgem incidentes, as proporções aumentam;
hmos imagens inesperadas, relações novas; tanto é
50
A ARTE DE ESCREVER
verdade que se não pode tocar na forma sem alterar
a ideia.
A forma é de tal maneira separada da ideía, que
a última encarnação da forma chega a não ser senão
a expressão da ideía pura.
Tentaí, pois, exprimir de outro modo certos pensa-
mentos, certos versos, literàríamenteexactos, como estes:
o que bemse concebe, bemse exprime
E fàcilmente ocorrem as palavras ...
A brandura faz mais do que a violência...
Parece alguma coisa, ao longe, e é nada ao pé...
Em tudo que se faz cumpre atender ao fim...
A razão do mais forte é a que prevalece...
Nada serve o correr a quemnão parte a tempo.
Entre outros conselhos notáveis e que se devem
reter para avaliar o estilo, Buffon recomenda «que se
adicione o colorido à energia do desenho».
Ele quer «que se dê a cada objecto luz forte»; e
exprime o desejo de que cada pensamento seja lima
imagem.
Foi este último conselho que prevaleceu, quando che-
gou Bernardin de Saint-Píerre, Chateaubríand, Teófilo
Gautier, e quando a literatura francesa estava fatigada
da beleza sem colorido.
Resumamos.
O estilo éo esforço, com que a inteligência e a ima-
ginação encontram matizes, relações, expressões, ima-
gens, nas ideias e nas palavras ou na relação que elas
têm entre si.
r
A ARTE DE ESCREVER
51
e
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Há neste trabalho do estilo (e é trabalho consíde-
rável), umlado que éa ordem. a disposição, a correcção,
as proporções, o equilíbrio, a boa colocação de todas
as peças desse xadrez, que se chama uma frase, uma
página, um capítulo.
Há também outro lado, que é o movimento, a cria-
ção das palavras. das imagens, a sua combinação, donde
precede a intensidade. o efeito, a energia, o jacto de luz,
o relevo.
Mesmo o lado disposição. a arte de colocar as pala-
vras e de combinar as frases, é ainda uma criação.
O sabor dessa criação múltipla evapora-se muitas
vezes numa tradução, justamente porque constitui a
essência do estilo.
É o que fazia dizer a Lamotte:
- «Um grande número de belezas dos antigos auto-
res estão ligadas a expressões, que são peculiares àsua
língua, ou a relações, que, não nos sendo tão familiares
como a eles, nos não causam o mesmo prazer.»
O cuidado da forma deve portanto preocupar. pri-
meiro que tudo, aqueles que têm o gosto de escrever.
visto que ela compreende a ideia, e é nela que está o
valor de uma obra.
Um autor contemporâneo, Emílío Zola, que só tem
uma feição brutal de escrever, e que nunca se dignou
aperfeiçoar a sua forma, protestou contra esta teoria .
Diz ele:
- «Não é verdade, - apesar do que diz Buffon,
Boileau, Chateaubriand e Flaubert, que se obstinaram.
emrepetir o contrário, - não é verdade que basta pos-
suir um estilo muito cuidado para que alguém assinale
para sempre a sua passagem numa literatura. A forma
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52
A ARTE DE ESCREVER
é o que muda e o que passa mais depressa. Primeiro
que tudo. é preciso que um trabalho seja vivo e só o
pode ser. com a condição de ser verdadeiro. Ganha-se
a imortalidade. pondo de pé criaturas vivas.»
Tudo isto é falso.
A criação desses seres vivos não irá à posteridade.
se não foi servida por uma forma irrepreensível.
Zola replica:
- «Podemos julgar a perfeição do estilo de Homero
e de Vergílio 1 »
Que o Sr. Zola não possa julqá-la, é possível. mas
há quem o possa fazer e não é preciso ter estudado
muito para ler Vergílio no texto. I
Em todo o caso. uma tradição ininterrompida de hís- I '
toriadores e de antigos autores ensina-nos que o seu I
estilo fazia a admiração do seu tempo. E foi justamente ~
essa superioridade de forma que os imortalizou.
Se os seus versos tivessem sido maus. os seus con-
temporâneos não os teriam fixado; e. se o seu estilo
tivesse sido medíocre. as suas obras não chegariam
até nós.
Não existe nenhuma obra-prima sem forma cuidada;
e um trabalho mal escrito não pode subsistir. pela razão
de que até nós nada chegou que fosse mal feito.
Dom Ouixote, que é um modelo de obra viva. é
também um modelo de estilo. um modelo de perfeição
escrita. única no seu género em Espanha.
Objectam ainda:
«Quando lemos Homero, não é a sua forma que
lemos. é uma tradução. Só temos a sua ideía. A forma
não se identifica com a ideia.»
)
A ARTE DE ESCREVER
53
'O
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e
Mas, pelo contrário: foi precisamente a forma o que
salvaguardou a ideia; e não possuiríamos provàvelmente
a ideia, se a forma não tivesse sido perfeita. Neste caso,
se quiserem, podem separá-Ias um pouco, visto tratar-se
de uma tradução. Fica sempre o que se pode conservar.
As melhores traduções são as que mais observam o
original.
Em todo caso, quando se trata de obras-primas. a
forma está de tal maneira ligada com a ideia, que até
a ideia fica prejudicada, logo que desaparece o encanto
do texto.
Eis por que, numa boa tradução, as descrições de
Homero são tão vivas como qualquer página dos nossos
melhores autores contemporâneos.
Afora estes princípios, que é preciso olhar como
verdades absolutas, não se pode ministrar senão uma
vaga apreciação do estilo.
Épreciso termos, como diz Pascal, acertado o nosso
relógio, e não fazer caso daqueles que regulam mal.
La-Bruyére disse:
- «Há bom gosto e mau gosto, e pode, a tal res-
peito, discutir-se.»
Nada há de mais vulgar que os juizos e frases Icitas.
Julgamos dizer bem, quando dizemos por acaso:
- «Isto está bem escrito; isto está mal escrito;
Fênelon escreve bem; Díderot escreve mal; Merimée é
grande escritor», etc.
Que é o que está bem escrito?
Que é o que está mal escrito?
Eis aqui três citações tiradas de três autores dife-
rentes, e que podem, desde já, dar a impressão geral
de um estilo bem escrito.
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54
A ARTE DE ESCREVER
Sobre o homem
Desejamos a verdade. e só encontramos incertezas em nós.
Procuramos a felicidade e só encontramos a miséria e a morte.
Somos incapazes de não desejar a verdade e a ventura. e não
somos capazes de certeza nem de ventura.
O homem não sabe em que ponto se deverá fixar.
E: claramente transviado. e cai do seu verdadeiro lugar (')
sem poder tornar a encontrá-lo. Procura-o por toda a parte. com
inquietação e sem resultado. em trevas impenetráveis.
Se se lisonjeia. abato-o eu; se se abate. lisonjeio-o eu. E con-
tradigo-o sempre até que ele compreenda que é um monstro
incompreensível.
(PASCAL. Pensamentos).
o nascer do Sol
Na planície de Sallsburqo, no dia 24. de manhã (Setembro.
1833). o Sol apareceu a Leste das montanhas que eu deixava para
trás de mim. Alguns cabeços de rochedos. no Ocidente. ilumina-
vam-se com os seus primeiros clarões. extremamente suaves. ~
A sombra pairava ainda na planície. meio verde. meio lavrada.
O castelo de Salísburqo, ampliando o cume do montículo, que
domina a cidade. incrustava no céu azul o seu relevo branco.
Com a ascensão do Scl, emergiam do seio da fresca evapora-
ção do orvalho as avenidas. os bosques. as casas de tijolos verme-
lhos. as cabanas revestidas de cal brilhante. as torres da Idade
Média. acuminadas e Iencstradas, velhos campeões das idades.
feridos na cabeça e no peito. ali sozinhos e de pé. no campo de
batalha dos séculos.
(') «O homem é um Deus caído. que se lembra dos céus»
(LAMARTlNE) •
-"---. . -----------_ .
L
A ARTE DE ESCREVER
55
A claridade outonal daquele cenarro tinha a cor víolácea dos
cólquicos, que se ostentam naquela estação e de que estavam
exornados os campos de Salza,
Os corvos em bando, deixando as heras e as ruínas, desciam
sobreos alqueives; e as suas asas, de reflexos ondeados, recebiam
da alvorada cambiantes de rosa.
(CHATEAUBRIAND, Memórias de Além-Túmulo. Diário de
Pádua a Praga, de 20 a 26 de Setembro de 1833).
A beira de um lago
Quando se aproximava a noite, eu descia da cumeeira da ilha
I ' ia sentar-me, de bom grado, à beira do lago, sobre a praia.
nalgum sítio oculto; ali, o ruído das vagas e a agitação da
água, atraindo-me os sentidos e expulsando-me da alma qual-
quer outra agitação, mergulhava-a num delicioso devaneio. em
quea noite me surpreendia muitas vezes, semque eu desse por tal.
O fluxo e o refluxo da água. o seu ruído continuo. mas
a!teado a reveses, ferindo sem cessar o meu ouvido e os meus
olhos, substituíam os movímentos interiores, que o devaneio apa-
gava em mim, e bastavam para me fazer sentir com prazer a
mínha existência, sem me incomodar a pensar.
De vez em quando. surgia em mim alguma froixa e curta
reflexão sobre a instabilidade das coisas deste mundo. de que a
superfície das águas me exibia a imagem.
Mas logo essas impressões ligeiras se apagavam na uniformi-
dadedo movimento contínuo, que me embalava, e que. semnenhum
concurso activo da minha alma, não deixava de me prender, a
pontos de que. chamado pela hora e pelo sinal combinado, não
podia arrancar-me dali. sem esforço.
(RoUSSEA U. Devaneios).
p
56
A ARTE DE ESCREVER
lição Quinta
A originalidade do estilo
Falsa divisão dos estilos e dos pensamentos. ~ Por que variam
os estilos. ~ Or iqínalidade do estilo. ~ A originalidade e a
trivialidade. ~ O estilo falso. ~ O estilo inexprcssivo. ~
O estilo de Merimée. ~ Como corrigir o mau estilo? ~ As
expressões vulqares. ~ As frases feitas. ~ O natural e o
esforço. ~ A palavra simples e a palavra natural. ~ Processo
para adquirir originalidade.
. . •.
A maior parte dos tratados de literatura contêm a
respeito do estilo exposições e análises teóricas.
Imaqina-se fazer obra de ensino prático. decom-
pondo. como dizem. os elementos do estilo e as suas
qualidades. elementos gerais. elementos particulares.
qualidades gerais. qualidades particulares: a claridade,'
a pureza, a correcção, a elegância, a força, a netureli-
dede, a nobreza, a riqueza, a magnificência.
Há também figuras de palavras e figuras de pensa-
mentos; temos pensamentos vigorosos. justos. delíca-
dos, naturais; depois a catacrese, a alegoria. a elipse, a
sinédoque, a prosopopeia, a onomatopeía, o pleonasmo,
a antonomásia.
Éinútil procurar coisas dessas neste nosso trabalho.
Evitamos. com cuidado. tudo que se assemelha a
p
A ARTE DE ESCREVER
57
uma divisão fictícia, toda a espécie de classificação e
de repartição.
Este livro não se fez para ensinar o que é um pen-
samento vigoroso ou um pensamento delicado, o que
é a clareza, o que é o mimo e a naturalidade.
Estas distinções sobrecarregam a memória. nada
ensinam e são essencialmente arbitrárias.
Porque enfim, um pensamento vigoroso é também
um pensamento verdadeiro e não conheço pensamento
justo. que não seja ao mesmo tempo um pensamento
natural; nem pensamento sublime. que não seja ao
mesmo tempo um pensamento vigoroso. verdadeiro.
natural e justo .
.~ Sucede o mesmo com os estilos.
Éfalso que sejam restritos, numerados e classifica-
dos emestilo simples, estilo moderado, estilo sublime, etc,
Muitas vezes o estilo é simples, porque é sublime;
em todo o caso, simples ou sublime, deve ser sempre
natural.
Não há estilo [lorido, como não há estilo temperado.
São invenções gramaticais, de que se deveria, de uma
vez por todas desembaraçar o ensino.
Que há estilos apropriados ao assunto, é tudo que
se pode dizer; ou tons de estilo, tons pessoais, tons
diversos, segundo a elevação, a inspiração, o autor, o
assunto, o fim que se tem em mira.
Ésupérfluo ensinar que as principais qualidades do
estilo são:
1.o a clareza: 2.
0
a pureza. etc. Isto é: deve-se
escrever para se compreender, deve-se escrever em boa
linguagem, duas coisas evidcntissimas.
O estilo difere, conforme os assuntos. e alqumas
58
A ARTE DE ESCREVER
vezes. conforme os géneros; mas os géneros têm uma
tendência para se confundir.
Se os queremos distinguir. acabam por se juntar.
O espírito clássico não admitia o estilo familiar nas
tragédias.
Contudo. vemo-lo em Shakespeare, que vale bem
Corneille.
Condilac observa:
- «O estilo varia infinitamente, e varia algumas
vezes por meio de cambiantes tão imperceptíveis, que
não é possível marcar a transição de uns para os outros.
Em tal caso, não há regras para nos certificarmos do
efeito das cores. que se empregam; cada qual forma
diversamente o seu conceito. porque este se forma .,.".
segundo os hábitos que temos contraído; e. muitas vezes.
custa bastante rejeitar os juizos que ocorrem.
«Supomos que temos ideías absolutas acerca de tudo
de que falamos. a ponto de ser preciso reflectir, para
notar que as palavras grande e pequeno não significam
senão ideias relativas.
«Assim. quando dizemos que Racine, Boileau, Bossuet
e Sevigné escreveram naturalmente, somos levados a
tomar esta palavra num sentido absoluto, como se a
naturalidade fosse a mesma em todos os géneros, e
supomos dizer sempre a mesma coisa, porque nos ser-
vimos sempre da mesma palavra.»
Entretanto. algumas grandes ideías, alguns prin-
cípios gerais abraçam todos os outros, dominam a
questão e devem guiar~nos no estudo dos diversos
caracteres do estilo.
As três qualidades. que deve ter o bom estilo e que
abrangem as outras qualidades são. na minha opinião:
h

.
••••
A ARTE DE ESCREVER
59
1.0 __ A originalidade.
2.° -- A concisão.
3.° -- A harmonia.
A originalidade do estilo
-
Há o estilo vulgar. o estilo trivial. no uso de toda
a gente; um estilo de chapa, cujas expressões neutras
e usadas servem para todos; estilo incolor. constituído
apenas de palavras de dicionário; estilo morto, sem
chama. sem imagem. sem colorido. sem relevo. sem
imprevisto; um estilo terra-a-terra, elegante. gramatical
e inexpressivo; o estilo dos escritores que não são artis-
tas. estilo burguês e correcto, irrepreensível e sem vida.
Não é com esse estilo que se deve escrever.
Se tendes de escrever como toda a gente. é inútil
pegar na pena.
Ora. se há estilo trivial. deve haver também estilo
original. visto que a originalidade éo contrário da tri-
vialidade.
Diz-se correntemente:
-- «Jogo de frases originais. expressões oriqínais,
imagens originais». qualidades que constituem precisa-
mente o estilo original. aquele que surpreende. que
impressiona. que seduz. que tem o seu cunho pessoal.
A originalidade está principalmente na maneira de
dizer as coisas, de exprimir as ideias. de fazer valer
a ideia.
A originalidade deve ser, portanto. considerada como
a grande. a geral. a essencial qualidade do estilo.
Épreciso. pois. desde já. abandonar os preconceitos
escolares e fazer nova idéia do estilo.
P
I
a
60
A ARTE DE ESCREVER
Nos colégios, dizem o que ele deve ser, mas não
o mostram.
Bem sabemos que devemos escrever como Bossuet
(pouco mais ou menos, bem entendido), e não corno
Fénelon. no seu Telémaco; mas como? Rondaríamos em
volta da casa, sem nunca lá 'poder entrar. Boa ou má,
temos uma chave. Abramos a porta.
Eis aqui uma descrição de Nisard, citada como
modelo num Curso Prático do estilo (10.a edição), cujo
autor é professor de Retórica:
Descem bosques até à beira do caminho, que sobe ao longo
da colina e se dobra em todas as suas sinuosidades; um pequeno
rio, oculto sob os salgueiros, corre no fundo do vale paralela-
mente à estrada. de forma que o viajante caminha sempre entre
duas frescuras, a da sombra e a das águas.
Há também bosques na montanha oposta; mas esses bosque :
não descem, detêm-se a meia encosta; vinhas ou prados, espalha-
dos pela encosta ou pelo vale com uma extremidade, tocam nas
á.quas do rio, e com a outra péo reunir-se àorla daqueles bosques.
Nada mais flexível que os movimentos dessas duas pequenas mon-
tanhas; são sinuosas como o rio; ora as vedes reentrar e como
que cavarem-se; ora salientarem-se em cotovelos; ora traçarem
uma linha recte, que quebram bruscamente com um desvio. Afas-
tam-se, aproximam-se; aqui, abrem-se de repente, como uma
decoração esperada, que ocultasse outra e deixam ver o Pico do
Meio-Dia, que conserva todo o ano as suas neves. Depois, fecham-se
de novo, cercam-vos, reduzem o vosso céu e o vosso horizonte, e
isto durante léguas.
Mais longe, transmuda-se o caminho.
Deixais o vale, para entrar num desfiladeiro.
Outra cordilheira forma essa garganta; outro rio COrre ao
fundo; a linda estrada branca mete-se por ele, apertando-se, adel-
gaçando-se, e continua a andar de companhia como o rio. pois é O
mesmo quadro de há pouco, mas ('1:1 n~in:~tu~.1 e C0Dl (!;uer~i...
dades encantadora.'.
l
b
A ARTE DE ESCREVER
61
Depois de termos lido esta descrição, não ficamos
mais adiantados; nada se vê, nada está pintado. Éuma
página do guia Baedeker; não uma descrição, mas uma
enumeração geográfica; à direita há isto, à esquerda
aquilo; depois sobe-se, depois desce-se, depois volta-se,
a estrada muda, entra-se numa garganta, etc.
Depois de ter citado este extracto, o professor
observa:
-- «Este fragmento não reúne acaso todas as qua-
lidades que se exigem na descrição? É tão claro, tão
nítido, que nos parece estar viajando. Vêem-se os
objectos, tocam-se. Há uma verdade, uma exactidão
irrepreensível em todo o quadro; sente-se isso sem ter
feito a jornada, pela exactidão dos pormenores. Na
sobriedade o mesmo mérito.»
Pergunto eu, com toda a boa fé: como há-de um
aluno aprender a escrever, quando lhe apresentam, como
excelente, o que é detestável. e quando lhe propõem
como modelo o que deveria, a todo o custo, repudiar?
Eis portanto ali umexemplo de trivialidade autêntica.
Toda a gente pode escrever assim, sem cor, sem
evocação, sem imagens, sem pintura.
É este um exemplo de estilo trivial. que se poderia
chamar ordinário, e que se nos depara no mais baixo
grau da escala literária.
Mas há outro estilo mais distinto, elegante, cuidado,
brilhante, imaginoso até, e que é também detestável-
mente trivial.
Eis aqui dois exemplos.
Tirei o primeiro de um livro de Júlio Sandeau. e
poderiam extrair-se passagens idênticas em todas as
páginas dos seus livros.
62
A ARTE DE ESCREVER
I
í
Vede este homem: tem vinte anos. não mais. Entra na vida,
que atê aqui só entrevia através dos sonhos encantados da solidão
em que cresceu. A sua infância decorreu àsombra do tecto peier-
na! na profundeza dos vales. A natureza embelou-o no seio. Deus
só colocou. em torno dele. nobres e piedosos exemplos. Eí-lo que
avança. escoltado por todo o ridenie cortejo. que a juventude
arrasta consigo. A graça reside na sua fronte. a ilusão habita no
seu seio ('); como uma flor desabrochada sob o cristal das águas,
no fundo do seu olhar vê-se ::J beleza da sua alma. Crê ingenua-
mente. sem esforço. em todas as paixões honestas. nas ternuras
sem fim, que se perpetuam para além do túmulo, nos juramentos
trocados à clandade das noites serenas. Só tem uma ambição, é
o amor. Pois bem! enquanto perguntais a vós mesmos sob que
sopro tão embalsamado esses preciosos tesouros acabarão de se
ostentar ... tudo isso é já presa de algum coração vicioso e cor-
rompido. As Beatrizes não chegam nunca a tempo e, quando o
anjo se apresenta. nada mais lhe resta senão respigar onde o
demónio ceifou (').
Parece uma aposta ou propósito.
Dír-se-ia que J úlio Sandeau procurou expressamente
reunir naquela página toda a fraseologia inusitada. de
par com as expressões mais repisadas e as mais rãnci-
das, que constituem o estilo mais trivial.
Abri um livro ordinário, um romance, mais ou menos
contemporâneo. Énesse estilo ómnibus que está escrito,
menos a elegância, a condensaçâo. o tom, a harmonia
e as qualidades que lhe pode ajuntar um autor como
Sandeau, para suprir a qualidade intrínseca que lhe falta.
(') «A fecunda ilusão habita no seu seio», disse Chéníer.
f: um belo verso, principalmente por causa do adjectivo fecundo.
(') Passagem citada nas Memórias de Philarete Chasles,
t, n, pág. 215.
A ARTE DE ESCREVER
63
Eis aqui um segundo exemplo, em que esse pro-
cesso de trivialidade chega a efeitos grotescos:
Esta região montanhosa e erborizede, que se chama a Flo-
resta Negra, em volta da qual o Reno gira, sem penetrar nela, e
da qual se afasta. correndo para o Norte, esta região produz, sob
a forma de um simples regato, um rio muito modesto na sua nas-
cente, posto que destinado a tornar-se um dos dois maiores rios
do mundo: é o Danúbío, Empurra-o para Leste para onde ele se
dirige inclinando-se contudo um pouco ao Norte projectado nesta
. última ditecçêo pelo pé estendido dos Alpes, que ele percorre até
Viena. Recolhe no seu curso todas as águàs que descem dessa
comprida cordilheira o que é a causa da sua súbita grandeza após
tão medíocre origem.
(THIERS, Consulado, 1, m).
Esta «reglao. que produz um rio», «sob a forma
de um regato», «destinado a tornar-se ... », «o que é a
causa da sua grandeza», «apesar de tão medíocre
origem ... »
Éa última palavra de insipidez!
Enfim, eis aqui uma página de outro escritor, que
passa por admirável e que o foi algumas vezes.
Éo triunfo da chapa:
Todas as suas ideias eram contusas e sucediam-se com tanta
rapidez, que não tinha tempo de se deter numa só (?). Era como
essa continuação de imagens, que aparecem e desaparecem à por-
tinhola de uma carruagem, arrastada sobre uma linha férrea. Mas,
assimcomo em meio da corrida mais impetuosa, a vista, que não
distingue todos os pormenores, chega contudo a colher o cerécter
geral dos lugares que atravessamos, assim também, no meio deste
caos de pensamentos, que a assaltavam, M.rnePíenncs tinha uma
impressão de susto e sentia-se como que arrastada num declive
rápido, no meio de precipícios horríveis.
--
r
64
A ARTE DE ESCREVER
De que Max ~ amava, não podia ela duvidar. Esse amor
(ela dizia: essa feição), datava de longe; mas até ali ela não se
assustara com isto: entre uma devota como ela, e umlibertino,
como Max, elevava-se uma barreira insuperável, que a fortaleceria
outrora.
Posto que não fosse insensível ao prazer ou à vaidade de
inspirar, um sentimento sério a umhomemtão leviano, como era
Max emsua opinião, ela nunca pensara que aquela afeição se
pudesse tornar umdia perigosa para o seu repouso.
Ainda uma vez, eis o estilo trivial, que se deve evi-
tar, a todo o custo.
Deve euiter-se o escreverem expressões já feitas.
O cunho do verdadeiro escritor éa palavra própria
e a criação da expressão.
Os fragmentos, que acabamos de citar, embora pas-
sem por bons, estão e ficarão mal escritos, enquanto
não substituírem as suas expressões vulgares por
outras mais exactas; enquanto se não puser uma só
palavra, em vez de duas, duas em vez de três, três em
vez de quatro, etc.
Finalmente, esse estilo será mau, enquanto puder-
mos Iazê-lo melhor.
-- Mas então, -- díreis vós, -- não há meio de escre-
ver; as pessoas, que citais, são escritores; e a língua
não se pode refundir. A crítica é fácil. Como remediar
isso?
Tentemos.
Tomemos o último fragmento.
Vamos pôr o estilo àdireita, e as passagens corrrqi-
das àesquerda, sublinhando o que é trivial ou inútil.
f
I
---
A ARTE DE ESCREVER
Texto
Todas as suas ídeias eram
confusas e sucediam-se com
tanta rapidez, que ela não
tinha tempo de se deter numa
SÓ (Quem? a rapidez?)
Era como essa continuação
de imagens, que aparecem à
portinhola de uma carruagem.
arrastada sobre uma linha
térrea.
Mas, assimcomo em meio
da corrida mais impetuosa. a
vista, que não distingue todos
os pormenores, chega. contudo.
a colher o carácter geral dos
lugares, que atravessamos.
assim também, no meio deste
caosdepensamentos. queaassal-
tavam. M.me Piennes tinha uma
impressão de susto e sentia-se
como que arrastada numdeclive
rápido. no meio de precipícios
horríveis.
De queMax a amasse, não
podia ela duvidar. Esse amor
(ela dizia: essa afeição), datava
de longe: mas até ali ela não
seassustara comisso.
Entre umadevota comoela.
e umlibertino como Max, ele-
vava-se uma barreira ínsuperá-
vel, que a fortaleceria outrora.
65
Estilo que se propõe
As suas ídeías eram tão
confusas, tão rápidas, que Ela
não tinha tempo para reter
uma.
Dir-se-ia uma continuação
de imagens, desfilando à porti-
nhola de uma carruagem de
caminho de ferro.
Mas, assim como em meio
de uma corrida louca. a vista
não distingue os pormenores e
só colhe o conjunto, assim no
meio deste caos de pensamentos,
M.me de Piennes tinha o terror
de se sentir arrastada para um
precipicio.
Que Max a amava, não o
duvidava. Esse amor datava de
longe; mas não a assustara até
ali.
Entre uma devota. como
ela. e umlibertino, como Max,
elevava-se umobstáculo, que a
fortaleceria outrora.
66
A ARTE DE ESCREVER
Posto que não fosse insen-
sível ao prazer ou à vaidade de
inspirar um sentimento sério a
um homem tão leviano, como.
Max em sua opinião, ela nunca
pensara que aquela afeição se
pudesse tornar um dia perigosa
para o seu repouso.
Sensível ao prazer de atrair
seriamente (de seduzir, de con-
quistar), um homem tão leviano,
ela nunca pensara que aquela
afeição se pudesse tornar peri-
gosa.
Seria mais cómodo ainda refazer os dois outros
fragmentos antecedentes de Thíers e de Sandeau.
É um género de demonstração, que renovaremos
muitas vezes, no decurso desta obra, trabalho que é
absolutamente impossível fazer-se, tomai nota, quanto
ao estilo de Pascal ou de La-Bruyêre.
- Mas, - observará alguém, -- na refundição que
propondes, não entram senão palavras vulgares.
Precisamente as verdadeiras palavras são as palavras
próprias, as palavras naturais, aquelas que se não podem
substituir.
O cunho da chapa, da expressão feita não é o ser
simples, ordinária, já empregada; é que pode ser subs-
tituída por outra mais simples; é que, por detrás dela,
há a verdadeira, a única, aquela que é preciso empregar
a todo o custo.
Para se dizer: chove, há-de dizer-se sempre: chove.
Quanto à questão de saber por que é que Merimée,
G. Sand, Feuíllet, etc., se conservaram escritores, apesar
dos defeitos que assinalamos, havemos de falar nisso.
É que eles tinham outra coisa para resgatar aquilo.
Quanto a nós, se quisermos saber escrever, renun-
ciemos para sempre à expressão trivial. Deve ser isto
princípio absoluto.
~
!
i
i
I
t
5?
A ARTE DE ESCREVER
67
Se adoptarmos esse estilo feito, que passa por ser
estilo, podemos sem dúvida escrever como toda a gente,
mas não nos tornaremos nunca escritores.
Teremos os defeitos dos autores que indicamos, sem
nos podermos convencer de que temos as suas qualidades.
É preciso, pois, evitar, quando se escreve, toda a
expressão trivial P) ou toda a perífrase, no género
destas, que encontramos em escritores contemporâneos
de nomeada:
Derramar lágrimas.
As expressões triviais
Por: chorar.
Provocar uma discussão. Verbo, queserve para tudo:
provocar lágrimas. provocar
um incidente, provocar para
duelo...
Tomar uma resolução.
Presa de uma súbita reso-
lução.
Inspirar umsentimento.
A serenidade reinava no
seu rosto.
(') Veremos mais adiante como elas se podem engrandecer
e empregar.
Idem: Tomar uma decisão,
tomar conselho, etc.
Por : bruscamente resol-
vido.
Verbo para tudo: inspirar
uma resolução, uma paixão;
inspirar uma ideia, um pensa-
mento, confiança.
Idem: a abundância rei-
nava nos seus Estados ...
Luís XIV reinava na França.
A ordem reina emVarsóvia.
Por: reconheceu logo.
68
A ARTE DE ESCREVER
Levar uma acusação. Como se leva a espingarda
ou um embrulho.
Fazer uma violência. Por: violentar.
Perder o hábito. Por: desabítuar-se.
Adquirir o hábito. Por: acostumar-se.
A tristeza estava pintada Pintada a óleo, provável-
no seu rosto. mente.
Uma vermelhidão coloriu- Por: ela corou.
-lhe as faces.
Por um desses fenômenos Qual?
tão frequentes.
Obedecer apenas à sua fan- O que nada significa.
tasia.
Prestar ouvido atento. Por: escutar com atenção.
Abandonar-se ao seu de- Abandonar-se à sua dor, à
sespero. esperança, ao desespero.
Não tardou em descobrir.
Salão magnif i camente
decorado.
Os princípios que ele abra-
çara.
Chegara ao cúmulo dos
seus desejos.
Redobrar os seus trans-
portes.
Dizeí em que consiste essa
decoração. Sem isso, a expres-
são é nula nada mostra.
Abraçar a sua carreira,
abraçar os seus pais, etc.
Ao cúmulo da felicidade, ao
cúmulo da miséria, ao cúmulo
do desespero!
Sem significação.
A ARTE DE ESCREVER
69
A febre da demora devo- Por: desesperado de espe-
rava-o. rar, ainveja devorava-o, aambi-
ção devorava-o, a demora devo-
rava-o!
Ele retomou o curso dos Como fazem os rios, que
seus pensamentos. retomam o seu curso.
Nenhum incidente vinha
quebrar a monotonia.
Conceber por alguém uma
afeição.
Ele tInha a perspicecie e a
penetração do amor.
Abandonar alguém aos ri-
gores do seu destino.
o seu coração despertava.
Vencer a sua resistência.
Esses pensamentos, que se
haviam sucedido no seu espí-'
rifo.
Uma atracção misteriosa.
Manifestar-se abertamente.
Abrir o seu coração.
Desvendar o estado da sua
alma,
Linguagem abstracta, ín-
slqnifícante e pretensiosa.
Conceber um desí gnio,
conceber um pensamento, uma
dúvida.
Substantivos idênticos.
Grandes paI avras, ínex-
pressívas e ocas.
A natureza desperta, a vin-
gança desperta; a paixão, que
dorme...
Chapa de primeira ordem.
Fraseologia inútil.
Complemento obrigatório.
Servilismo.
Como uma porta.
Isto nada quer dizer, se não
dísserdes mais nada; e, se dízeís
outra coisa, é inútil aquela.
1
I
70
A ARTE DE ESCREVER
Um inimrqo implacável,
encarniçado.
Respirar honradez.
Apresentar o aspecto.
Os seus olhos traduziam
os seus pensamentos.
Estas palavras revelavam
toda a importância que...
Este projecto correspondia
às suas ídeías.
Acariciar vagamente um
projecto.
Os seus olhos possuíam o
poder.
Envolver numa doce atmos-
fera.
Sofrer uma impressão.
A esse primeiro sentimento
sucede...
Epítetos obrigatórios!
Respirar amor, respirar o
ar puro.
Como se apresenta uma
maçã.
Os resultados que se tra-
duzem, como se traduz Sha-
kespeare...
Revelar a
como se revela
um segredo.
importância,
ummistério ou
.~
A correspondência de um
projecto com ideias!!!
Isto nunca significou coisa
nenhuma.
Como um déspota possui
o poder, em vez de: os seus
olhos podiam.
Estilo oco.
Por: experimentar.
Como Luís XIII a Henrt-
que IV.
O encanto do seu rosto Como Luís XIV em Ver-
.resídía em... salhes.
Sob essa frivolidade apa-
rente dissimulavam-se.
.L...---.-.----
F r aseoI ogi a para dizer;
essa frivolidade ocultava.
._ _ .~. "--".--...- - -- -
~~ ... ~.
~; ..~-
A ARTE DE ESCREVER
Produzir uma impressão.
Adornada de toda a sedu-
ção,
Imprimir a dírecção da sua
vida.
Adoràvelmente linda.
Uma expressão... se lia
nos seus olhos.
71
Por impressionar.
Cem vezes dito.
Imprimir uma dí rec ç ã o,
imprimir um movimento.
imprimir uma obra.
Insignificante. Mostrai em
quê.
Insignificante.
Umgosto perfeito presidirá Como a uma distribuição
à instalação deste aposento. de prêmios.
Oferecer o espectáculo.
A recepção que lhe estava
reservada.
Alegria exuberante.
O brilho da sua tez.
Uma irresistivel atracção.
O plano não prosseguia
semreais dificuldades.
Era o complemento obriga-
tório de...
Despertar as suas apreen-
sões.
Delicadeza de feições.
Como seoferecemconfeitos.
Estilo oficial.
Sempre!
Cem vezes dito.
Epíteto obrigatório.
Palavras inúteis. visto que.
riscando-as. a ideía fica intacta.
Estilo abominável.
Como se desperta
dorme. Ver mais alto:
morso desperta-se. etc.
quem
o re-
Meu Deusl Sim?
,
72
A ARTE DE ESCREVER
o encanto inesperado, que
se revelava.
Presa de uma exuberância.
Formavam os traços carac-
terísticos da sua natureza.
A nova perspectiva que
acabava de surgir a seus olhos.
Indagar a hora.
Não dissimulou o secreto
desejo.
Manifestou a intenção de...
o conjunto das suas quali-
dades físicas e morais.
A sua delicadeza tornava
um dever...
Declinar toda a responsa-
bilidade.
Ainda mais! Veja-se o que
se disse acima.
Presa da alegria, presa da
dor, etc.
Estilo estúpido.
Faustoso e prudhommesco.
Por perguntar que horas
são.
Para dizer: confessou que
desejava.
Por: declarou que...
Como fazer uma ideia desse
«conjunto»?
..
Por: julgou dever, por
delicadeza.
Por: recusar, abster-se.
Ele, a quem incumbe o Estilo de distribuição de
dever... prémios.
Assumir para si.
Esse projecto, que germi-
nava no seu espírito.
Idem.
Por: esse projecto, em que
pensava. Poderá germinar um
proiecto num espírito ou num
cérebto?
:. I
+ .p
A ARTE DE ESCREVER
73
Ele adivinhou instintive- Para que serve isto? é pelo
mente. instinto que se adivinha?
Esses sentimentos amanhe-
ciam.
Estilo semnome.
A sua vida compunha-se Vê-se daqui essa compo-
de obstáculos. sição.
Executar a sua resolução. Por: fazer o que tinha
resolvido.
Tratar de se convencer.
Dissipar as ilusões.
...•...
Meu Deus. sim!
Como o vento dissipa o
nevoeiro. como o fumo se dís-
sipa, etc,
Assinar o primeiro lugar. Por: colocar na primeira
plana.
Conservar o seu ardor.
Conceber receios..
Recorrer a esta exiremi-
dade.
Como se conserva a cútis,
a discórdia, os cabelos. ou as
ilusões.
Como se concebe um pro-
[ecto, ou uma esperança, ou
uma empresa.
Por: servir-se desse expe-
diente.
Experímentava-se di ante Por: essa criatura parecia
dessa criatura a impressão de ser...
que ela era...
Boca encantadora. Sempre!
= .õ l l J i - . IC==--_._
-_.__.- -~-
· 2 4
74
A ARTE DE ESCREVER
Um ar d~distinção estava
como espalhado por toda a sua
pessoa.
Exercer influência.
Todas essas qualidades
constituíam.
odesprezo que ele profes-
sava pelas mulheres.
As linhas harmoniosas da
sua beleza.
o azul dos seus olhos. a
transparência da sua tez.
Suportar a influência.
Enunciar teorias.
Por: a sua apresentação
era distinta.
Como se exerce uma pro-
físsão.
Estilo parlamentar.
Como se professa Matemá-
tica numa escola.
Por: a sua beleza harmo-
niosa.
Sempre!
E bordão.
Idem.
Esses sentimentos provi- Como o ouro que provém
nham de... de uma mina.
Aliviar de um peso.
Conduzir o discurso por
um terreno ardente.
Esgotar as conjecturas.
Acaba de dar à sua Iísío-
nomia.
Que peso? e por que sã-
mente um?
Conduzí-lo pela mão. pro-
vàvelmente.
Como se esgota uma fonte.
Frase sem Significação.
Um eflúvio de paixão. Estilo de todos os roman-
ces; eflúvío de primavera.
eflúvio de desejo...
A ARTE DE ESCREVER
Levantar uma ponta do
mistério.
Uma altivez que se enxer-
tava sobre aquela melancolia.
Por condição primeira.
Uma expressão indefinivel
animou-lhe o rosto.
Lance de olhos sedutor.
espectáculo encantador. vaI e
delicioso.
Como a ponta de uma
tampa.
Estilo de horticultura.
Estilo de manual.
Deveis definir esta expres-
são. ou não falar dela.
Em quê? Isto são epítetos
nulos. enquanto não tiverdes
mostrado em que consiste a
sedução. a delícia ou o encanto.
Isto não quer dizer que se devem prescrever aquelas
expressões.
Há casos emque são necessarias, em que são belas
e em que não podem ser substituídas.
Assim. nestes versos célebres sobre a morte de Orfeu:
«E nos antros. que gemeram.
o leão derramou lágrimas ... »
Também Lefranc de Pampíqnan, duma ode célebre.
atinge o sublime com expressões. que. de por si só.
seriam triviais. como «o astro brilhante (o Sol). ele-
mores insolentes, monstros bárbaros, prosseguir na car-
reira, torrentes de luz... »
oNilo viu os negros do deserto
insultar. comos gritos mais selvagens.
o astro que ilumina o universo.
Gritos emvão! extravagante fúria!
75
76
A ARTE DE ESCREVER
Ao passo que tais bárbaros soltavam
seus impotentes gritos e clamores,
o Sol continuava no seu curso,
difundindo torrentes de esplendores
sobre aqueles obscuros
blasfemadores!
úlago! O ano acaba de atingir
o termo do seu curso,
Eis por que seria de uma desesperadora trivialidade
o primeiro verso do Lago, de Lamartine:
se não fosse logo realçada pelos belos versos, que
seguem:
Perto das ondas, que ela amava tanto
e que ela havia de tornar a ver, etc.
A mesma ideia, em Florian, é insípida:
O Sol não começara ainda o seu percurso.
(FLORIAN, Ruth).
J á censurámos acima o emprego do verbo reinar:
-- «A sequídão reina no seu rosto», como Luís XIV
reinou na França, etc.».
Isto não impede que o verso seguinte seja um belo
verso.
Essa brilhante paz que reina no seu rosto.
(J oÃo MORI!AS).
Trata-se da lua:
Deveís abster-vos também dos epítetose frases fel-
__~~~ __~•• ••__~ - ==s~ ~__~ ••~
A ARTE DE ESCREVER
77
tas, dos epítetos obrigatórios, que se julgam indíspen-
sáveis para acompanhar certas palavras.
Exempl os de eprtetos sabi dos e i nsi gni fi cantes
A ironia amarga.
Lágrimas amargas, etc.
Expediente favorável.
Horror indescritível.
Um olhar frio e severo.
Um delicioso devaneio.
Um surdo rumor.
Rosto fresco e vermelho.
Sombras magníficas. (Em quê?)
Um doce êxtase.
Uma repulsão instintiva. (Ela é sempre instintiva).
Um inimigo implacável. encarniçado. (Sempre!).
Uma comoção represada.
Uma tristeza grave. (Poderia ser uma tristeza alegre?)
Impaciência febril.
Boca bem arqueada.
Doçura singular. (Em quê?)
Cólera implacável.
Irresistível impulso.
Doçura afectuosa, bondade verdadeira (1).
Altivez legítima.
Excessiva reserva.
Calor benéfico.
Odiosos contrastes.
C ) Qual é a doçura que não é afectuosa e qual a bondade
que não é verdadeira?
r
78 A ARTE DE ESCREVER
As alegrias inesperadas.
Espírito penetrante.
Progressos assustadores.
Cabeleira abundante.
Imperiosas exigências.
Perversidade precoce.
Recordação odiosa.
Desespero supremo.
Delicadeza nativa. etc.
-, .
Não se verá talvez. àprimeira vista de olhos. quanto
importa a abstenção de tais locuções.
Mas. pegai num livro ordinário e verificareis que
está escrito nesse estilo e que é por isso. apenas por
isso. que ele não impressiona e que. apenas lido. é
esquecido.
Podem. uma ou outra vez, adoptar-se essas locuções.
e achamo-Ias em bons escritores.
Mas a continuidade é que produz a trivialidade e o
carácter incolor de um estilo.
Mas. permitido uma vez. mais vezes será permitido.
E. arrastados no declive. deixamo-nos ir. pois é
mais fácil escrever no estilo de toda a gente. do que
ter estilo pessoal.
É isso o que Bonhours chamava «falar por frases»
como estas. que ele cita:
• I.
\
. t
, s-
. 1 t
·í
'~
Introduzir a desordem em...
Lançar o facho da discórdia.
Ouvir a voz da honra.
A severidade da justiça.
Sujeito ao dominio das paixões...
A hídra da anarquia ...
,
..
,i.
A ARTE DE ESCREVER
79
Frases entanguidase ridículas, que se empregam à
míngua de palavras próprias, e que conduzem a expres-
sões grotescas, como estas:
No seio da academia, no seio da assembleia...
As desordens que minama Igreja.
Assediado por umdilúvio de heresias...
O horizonte político .
O sol do Progresso .
O campo das conjecturas .
O terreno das hipóteses .
O arsenal das leis...
A corrente da opinião...
A aurora das nossas liberdades...
Boileau, na sua segunda sátira, zombou aqradàvel-
mente deste estilo obrigatório, e do costume, que há,
de reunirem estas palavras:
Se a Fílís eu louvasse,
Em milagres fecunda,
J unto a nenhuma outra,
Seria ela. segunda.
Se eu quisesse louvar objecto sem igual.
Diria que é mais belo
Que o asrro triunfal.
Eis aqui um exemplo do que nos daria o estilo tri-
vial, de que citámos algumas locuções.
Vamos tratar de escrever uma página, servindo-nos
das expressões que assinalámos:
Semse deter emderramar lágrimas, dominado de uma reso-
lução súbita e querendo raciocinar friamente, o Conde jurou a
si mesmonão voltar a casa de seu amigo. contra quemacabavam
80
A ARTE DE ESCREVER
de formular tão terrível acusação. Compreendeu que seria obrí-
gado a violentar-se para perder o hábito daquela casa. «Terei eu
tal coragem?» Esta hesitação traduzia o seu pensamento.
Consultando a dignidade do seu cerécter, à força de interro-
gar com ansiedade, ele, que até ali não obedecera senão à sua
fantasia, não tardou em descobrir a chave dessa natureza excep-
cional, pela qual havia concebido desde logo tão viva admiração.
Depois de se ter alargado com complacéncia sobre esses doloro-
sos pensamentos, que se haviam sucedido no seu espírito, seguro
de vencer a atracção misteriosa que o conduzia invencioelmente
para casa daquele homem, encontrou-se de súbito seu inimigo
implacável, e tomou a decisão formal de se dirigir a casa da
Marquesa, para lhe desvendar o estado da sua alma e pinier-lhe
o seu intolerável sofrimento. Ali, envolto numa atmosfera mais
doce, depois de ter suportado a desastrosa impressão dessa luta,
sentiria o encanto inesperado, que aquela adorável mulher desen-
volvia, para a qual o levava sempre uma invencivel atracção e
cujo domínio ele suportava contra vontade, etc., etc.
Se quereis ter um longo catálogo das expressões
corriqueiras, que constituem o estilo estereotipado, bas-
tará que abrais o nosso «imortal cançonetista Béranger».
Foi nesse estilo que ele escreveu as suas canções.
Como vai devagar este navio,
A que foi confiada a minha sorte!
Como ele tarda em encontrar umporto,
Nas praias a que aspiro!
Respeitem-me a independência
Os escravos da vaidade;
Foi à sombra da indigência
Que eu achei a liberdade.
Para apagar do bárbaro os vestígios
Impressos emteus campos profanados,
Nunca te foi avara a Providência?
-r-
I
I
I
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A ARTE DE ESCREVER
81
Contempla estes campos.
Coroado de espigas numerosas,
Pronto a vingar a ofensa,
Tu vês que as belas artes.
Honrando os seus altares.
Ali gravam emtraços indeléveis:
_ Honra aos filhos da França.
Escuta a voz da história:
Que o povo antigo não terá tremido
Perante ti? Qual o moderno povo.
Que. invejoso da tua excelsa glória,.
Por tal glória mil vezes esmagado
Não tenha sido? Em balde o inglês enchera
Tua balança do ouro. que os monarcas.
Mendigam. por vencer seus inimigos.
Ouves a voz da história?
Honra aos filhos da França!
Deus castiga os tiranos e os escravos:
Não te sirvam de empeço, os teus prazeres;
Deve sorrir ao amor a Liberdade.
Ergue o teu facho e deixa
Dormir a sua lança, etc.
(BÉnI\ NGER). Os Filhos da França.
A originalidade é pois condição primordial. essen-
cial. no estilo.
Para a obter. é preciso evitar, absolutamente. o
estilo trivial e saber bem o que é esse estilo.
Acabamos de: mostrar em que ele consiste.
Primeiro. no «falar por frases». nas expressões este-
reotipadas, que se podem substituir pela expressão justa.
Com tais defeitos. ainda que haja elegância, correc-
çâo, pureza, só se obterá um estilo fastiento. fictício,
neutro. inexpressivo e sem relevo.
82
A ARTE DE ESCREVER
Este VICIO acarreta outro, não menos perigoso: é a
perífrase, que é uma círcunlocução, um circuito de pala-
vras, para dizer extensamente uma coisa que poderia
ser dita com brevidade.
Perdemos um pouco, na nossa maneira actual de
escrever, aquela mania da perífrase, que grassava nos
séculos XVII e XVIII, e que tornou célebres Saínt-Lambert
e Delille.
O conhecimento de Shakespeare, e principalmente a
revolução romântica, inaugurada por Vítor Huqo, desern-
baraçaram, pouco a pouco, a nossa literatura da obrí-
gação, que ela adquirira, de não chamar as coisas pelo
seu nome.
Hesitava-se em traduzir Otelo para o teatro, com
receio do emprego da palavra lenço; e Alfredo de Vigny
teve de se arrepender de a riscar, contra vontade de
Ducis.
J oão Aicard é que ousou escrever uma boa tradução
do Oteio.
Hoje o terreno está limpo, a palavra própria triunfa,
posto que o emprego da perífrase, em certos casos,
seja legítimo e bastante literário.
O excesso, como sempre, é o que se deve evitar, a
não ser que o pensamento nada lucre nisso, emintenção,
em vivacidade ou em cor.
Questão de tacto.
Se Racine tivesse observado tal prudência, não teria
feito versos destes:
Entanto, sobre o dorso
Da líquida planície.
Ergue-se relervendo
Uma montanha húmida.
A ARTE DE ESCREVER
83
Uma montanha húmida, que se eleva em grandes
bolhas, sobre o dorso de uma planície líquida, é um
anfiguri.
Há pensamentos insignificantes, que não merecem,
na verdade, a honra e a solenidade de uma perífrase.
Levanta-te, Laódíce,
E vai deitar azeite emtua lâmpada.
Seria talvez um pouco brusco e prosaico em verso.
Mas é admissivel o dizer-se com Ponsard:
Laódíce se ergueu e foi buscar à bilha
O azeite que há-de arder na lâmpada nocturna.
Para nomear o bicho-da-seda, Lebrun emprega esta
perífrase ridícula:
Apraz-rnc ainda alimentar o amigo
Das ramagens de Tisbela.
E designa assim o queijo e a porcelana:
Vanves, lá onde habita Galateia,
Sabe espessar as ondas, escumosas,
Da 10 como leite de Amalteía:
E Sevres, commão ágil,
Emque Moca nos presta o seu calor,
Endurece o alabastro, branco e frágil.
Casimiro DeJ avigne, falando dum fiacre, disse:
Eí-lo, incomodamente, a balouçar, sentado
Sobre os nobres coxins de umcarro numerado!
84
A ARTE DE ESCREVER
E outro Clássico, para exprimir que o rei 'vem:
Ouvem-se, então, do rei os passos imperiosos.
...
Buffon tinha razão em dizer:
- «Nada é mais oposto ao belo natural, que o
trabalho que se tem para exprimir coisas ordinárias ou
comuns, de uma maneira singular ou pomposa; nada
avilta mais o escritor. Lamentamo-lo por ter passado
tanto tempo a fazer novas combinações de sílabas, para
afinal dizer o que toda a gente diz.»
Eis aqui, em compensação, uma soberba perífrase
de Bossuet. para designar o confessionário:
- «Estes tribunais purificam os que se acusam.»
Portanto, e desde sempre, deve-se evitar a expressão
e a perífrase triviais.
A principal originalidade consiste em escrever com
a palavra natural. com a palavra própria, a palavra
simples e exacta,
Essa palavra será talvez mais conhecida, mais empre-
gada ainda que uma locução falsamente elegante, mas
não será substituivel, não se poderá passar sem ela;
e é o emprego dessa palavra própria, seja qual for, que
IJ roduz a nitidez, a correcção, o brilho do estilo e a sua
energia.
Alguns estilos, como os de La-Bruyêre, La Roche-
Foucauld, Fênelon. Montesquieu, devem todo o seu êxito
àquele grande mérito.
Vejam o que diz La-Bruyêre, e o exemplo que ele
nos dá no seu imortal conselho:
..~
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l
i ·
: f
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Que quereis dizer? Como?
Agradar-vos-ia recomeçar?
A ARTE DE ESCREVER
85
Adivinho finalmente; quereis dizer-me, Acis, que está frio.
Por que não dízeis: está frio? Quereís significar-me que chove
ou neva; dízei: chove, neva. Achaís-me de cara alegre e quereis
felicitar-me por isso; dizei: acho-lhe boa cara. Mas respondereis
que isto é corrente e bemclaro; e que, de facto, quemnão poderá
dizer outro tanto? Que importa, Acis? Será grande mal ser
ouvido, quando se fala, e falar como toda a gente? Uma coisa vos
falta. Acis, a vós e aos vossos semelhantes; não ca\ culais o que
seja, e vou causar-vos espanto; uma coisa vos falta: é o espírito.
Além do quê, há em vós uma coisa a mais, que é a opinião de
ter mais espírito que os outros. Eis a origem do vosso pomposo
qalimatias, das vossas frases confusas e das vossas grandes pala-
vras, que nada significam. Aproxímaís-vos de um homem, ou
cntrais no seu quarto; puxo-vos pelo casaco e digo-vos ao ouvido:
«Não penseis em ter espírito; não o tendes nunca; é o vosso
papel; tende, se puderdes, uma linguagem simples, tal qual a
têm aqueles em que não encontrais nenhum espírito; talvez que
então se creia que o tendes».
Não se pode dizer melhor.
E La-Bruyêre prega com o seu exemplo.
Eis um estilo sem frases feitas.
Há nele a palavra própria, a palavra que se não
,. pode substituir.
Só se atinge originalidade pela palavra natural ou
pela expressão criada.
As duas fazem apenas uma, nos grandes escritores:
a expressão criada é neles sempre natural. parque é a
palavra que era preciso encontrar, para caracterizar um
cambiante novo, uma relação inédita, um pensamento
raro.
São ambas precisas para se ser perfeito.
O inimitável La-Fontaíne é um incomparável criador
do estilo.
(BOSSUET, Sermões).
I
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86
A ARTE DE ESCREVER
A simplicidade, só por si, é que muitas vezes não
tem cor, corre (I risco de se tornar pálida,
Exemplo, o Telémeco, tão uniforme de tom. sem
relevo. posto que bem escrito (1).
Ter a simplicidade e o relevo, eis o ideal. Falare-
mos mais tarde do relevo.
Eis aqui uma passagem de Bossuet, escrita com as
palavras mais ordinárias, mais simples. menos procura-
das, com palavras quase prosaicas e que ninguém pen-
sará substituir; primeiro. porque seria difícil. e depois
porque o ressalto da ideia compensa tudo.
Ah! como tinhamos razão em dizer que passamos o tempo!
Na verdade, passárno-lo, e passamos com ele. Todo o meu ser
tem por alvo um momento; eis o que me separa do nada; esse
momento decorre, e prende-me a outros; passam uns após outros;
reúno-os uns após outros. tratando de me assegurar; e não reparo
que me arrastam insensivelmente comeles e que faltarei ao tempo
e não o tempo a mim. Eis o que é a vida; e o que é espantoso é
que isso passa. emrelação a mim: perante Deus, isso permanece
por parte dos seus tesouros. O que eu lá tiver posto, encontrá-Ic-ei.
Não gozo dos momentos desse prazer, senão durante a passagem
deles; quando passam, é preciso que eu responda por eles, como
se ficassem. Não basta dizer que passaram; não pensarei mais
neles; sim, passaram para mim: mas, para Deus, não; ele pedirá
contas deles.
Como se vê, o natural e a simplicidade constituem
a verdadeira energia.
C) Telémaco é um livro negativamente bem escrito, mais
notável pelos defeitos, que não tem, que pelas qualidades que
possui. Tem elegância sem brilho. nitidez sem relevo, correcção
sem cor, a facilidade que não é original, a clareza que não bri-
lha, etc.
"
A ARTE DE ESCREVER
87
Cícero disse:
- «É uma arte. parecer que não temos arte. Assim
como há mulheres. a quem fica bem a falta de enfeites.
a elocução simples agrada-nos. mesmo sem ornatos.
Éuma beleza descuidada. que tem as suas graças. tanto
mais comoventes, quanto menos se pensa nela... Este
género não admite o ornato nem o brilho: é uma refeí-
ção sem maqnificência, mas onde o bom gosto reina
com economia: o bom gosto é a selecção.»
odom de escrever naturalmente não é uma aptidão
inconsciente.
O natural conquista-se e é quase sempre pelo traba-
lho que ele se cbtém. Pode até dizer-se que o natural
é resultado do esforço.
La-Fontaíne, por exemplo, não atingiu o inimitável
natural do seu estilo. senão à força de trabalho obsti-
nado: riscava continuamente e refazia dez a doze vezes
a mesma fábula.
Podeis convencer-vos disto, como Taíne, lendo
os manuscr-itos do fabulista, que estão na Biblioteca
Nacional.
Condillac tem pois razão em dizer que "O natural
consiste na facilidade de realizar uma coisa. quando.
depois de ela se ter estudado, conseguimos realizá-Ia
por fim. sem estudar muito. Éa arte convertida em
hábito».
A ilusão, que dá o natural, é que se escreveu sem
custo. Dir-se-ía que não foi procurado e parece que
cada um poderia escrever assim.
Ora. é o contrário que sucede.
. .~ ~--_.-.---.••... --
88
A ARTE DE ESCREVER
.--
Imaqína-se poder escrever como La-Bruyêre, Pascal
ou La-Fontaíne.
Quando se trata disso, nove vezes sobre dez, o que
se encontra é o estilo estereotipado, o estilo ordinário,
que já mencionámos.
Porquê? Porque foi esse o estilo mais lido, porque
está na cabeça, porque não há o instinto ou a arte de
nos livrarmos dele, porque se não sabe, como diz Pascal,
que «a eloquêncía dispensa eloquência», e porque o
melhor estilo, segundo Montaigne, vai ao fundo da
ídeía, é quase «falado, quase soldadesco».
Procure-se muito, para escrever.
É preciso procurar, efectivamente, mas é também
preciso procurar não escrever.
Que fazer, para evitar o estilo trivial e atingir o
relevo?
Indicaremos os processos no capítulo da composição .
Em todo o caso, é preciso encontrar outra coisa,
escrever outra coisa, ver a ideia de outra forma, tomar
outro tom.
Não é muito difícil. uma vez adaptado o processo,
desde que se entrou num certo trena de espírito.
Vejamos, por exemplo, estas linhas de George Sand:
Havia no seu rosto, de umamarelo trigueiro, na sua pupila
negra e ardente, na sua boca fria e desdenhosa, no seu aspecto
impassível, e até no movimento imperativo da sua mão,comprida
e magra, ornada de diamantes, uma expressão de altivez arro-
gante e de rigor inflexível que eu nunca tinha encontrado..
(G. SAND, A última Aldini).
Relede este fragmento.
Notareis uminsuportável balancear de epítetos ince-
-
A ARTE DE ESCREVER
89
lores; cada palavra tem o seu adjectivo, que lhe pende
ao lado; «rosto amarelo trigueiro. pupila negra eardente.
aspecto impassível. movimento imperativo; mão com-
prida e magra. altivez arrogante. rigor inflexível.
Éintolerável!
Em primeiro lugar. rosto trigueiro era suficiente:
amarelo bastaria também; impassibilidade poderia subs-
tituir aspecto impassível; movimento imperativo da sua
mão quer dizer provavelmente o gesto autoritário. A sua
arrogância, simplesmente. substituiria a expressão de
altivez arrogante (pois que é a mesma ·coisa). e rigor
inflexível é uma parelha muito usada.
Tentemos refazer.
Havia no seu rosto moreno, na sua pupila ardente, no des-
dém da sua boca. na sua ímoassibilldade E' até no gesto 3I1tO,·;t"-
rio da sua mão, magra, uma ;,rwqfmci" inflexível, qUE' pu nunca
tinha encontrado.
Mesmo assim. não ficaria muito bem, porque isto
quer dizer: «Havia arrogância no seu desdém e rigor
na sua impassibilidade», o que não é vigoroso, e quase
nada significa.
Por aqui se vê, tanto quanto o podemos exprimir
com uns traços preliminares. como se deverá proceder
para evitar a vulgaridade do estilo e dar-lhe a origina-
lidade, que éinseparável do verdadeiro dom de escrever.
Um último exemplo, para concluir esta entrada em
matéria.
É um fragmento de Lamennais.
Não o refaremos.
. ~-
e
90
A ARTE DE ESCREVER
Acentuaremos somente o que se deveria cortar ou
mudar.
O autor descreve a visão. que nos sugere a sinfonia
pastoral de Beethoven:
Um canto simples e doce se faz ouvir (por que não se eleva?
seria mais simples). os ecos repetem-no de vale em vale (repete-o
o eco dos vales. seria mais harmonioso). Parece que vagueais
sobre a relva. húmida ainda... (julgar-se-ia ceminhsr sobre a
relva ainda fresca. teria mais relevo). quando os bosques. os
prados. os campos exalam como que um vapor de harmonia
indeiinivel (quando do campo se eoole como que um vapor har-
monioso. será mais bem escrito).
Mil acidentes de luz se desenrolam aos vossos olhos (Oh! o
velho bordão! procurai outra coisa: desvendam-se. mostram-se ... )
quadros variados (que horrível vulqandade, para dizer: cenas
imprevistas); o som invisível. estranho mistério (epíteto obriga-
tório) afroixa ou se reveste de um vipo brilho (um som que se
reveste de um vivo brilho é a última palavra da mediocridade).
Pouco a pouco. o Sol eleva-se. o ar abrasa-se. Aos trabalhos
interrompidos sucedem-se as danças alegres (estilo de tradução
bucólíca] .
Entretanto. as nuvens amontoam-se (antigo verbo obrigatório
para as nuvens, que se encontram sob a pena de todos os alunos).
um ruído surdo e longínquo (sempre!) saído não se sabe de onde.
anuncia a tempestade; não se: vê ainda; engrossa e aproxima-se
(se engrossa, é porque se aproxima. e se se aproxima é que enqros-
sou. Tudo isto tem pouco relevo. vê-se pouco!) o relâmpago sulca
as nuvens (estilo dos exercícios de meninas). o raio despedaça-as
com horrível ruído. As danças interrompem-se. etc.
E Lamennais acrescenta esta frase. que encerra. por
si só. toda a lição que nós queremos dar:
Os pastores dispersem-se assustados ...
O autor julgou escrever bem. empregando estas
palavras genéricas e inexpressivas. As pessoas habitua-
A ARTE DE ESCREVER
91
das a frases feitas, talvez se contentem com elas e
digam: «que se há-de pôr no lugar delas?» Que se
há-de pôr? Simplesmente as palavras verdadeiras, aque-
Ias que Herédía emprega num caso idêntico:
o pegureiro eierredo,
Que foge para Tirinto ...
Fugir é mais forte que dispersar; aterrado tem mais
relevo que assustado; e pequreiro é a palavra própria,
muito melhor que pastor (pastor de' homens. pastor
evangélico, etc.).
A originalidade é pois, repetimo-lo, a primeira qua-
lidade do estilo. Épor ela que nos afastamos do que
está muito visto, com ela evitamos as perífrases e as
expressões estudadas; com ela achamos força e vida.
A originalidade é um esforço contínuo. Consiste em
dizer melhor, em dizer com energia, em procurar a
palavra própria, em encontrar a imagem nova.
Se tívésseis esta qualidade, escreverieis descuidada-
mente como Saint-Simon, seríeis escritor, independente-
mente dos cursos de literatura, das gramáticas e das
ortografias .
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.. _-d... ·---~
92
A ARTE DE ESCREVER
Lição Sexta
A concisão de estilo
Processos para adquirir a concisão. ~Locuções viciosas. ~ Pro-
lixidade. ~ Sobriedade. ~ Condensação. ~ Acumulação e
repetição de palavras. ~ Emprego dos auxiliares ter e ser.
~ Os equivalentes. ~As transições fictícias.
A segunda qualidade essencial do bom estilo é a
concisão, isto é, a arte de encerrar um pensamento no
menor número de palavras possível '(1).
Uma grande causa de fraqueza literária, o que tira
ao estilo a sua força e lhe tira todo o seu efeito. é a
difusão.
Nunca nos cativam frases, em que há palavras a
mais.
Um crítico disse:
..- «A clareza éo verniz dos mestres.»
(') Dissemos na lição precedente que épreciso empregar a
palavra própria. exacta, imaginosa, com relevo, e não a palavra
trivial e a expressão vulgar.
Estes conselhos, para se atingir a originalidade. compreen-
dem, pois, implicitamente a precisão, a correcção, a clareza, a
justeza, o natural, etc., de qUI! me não parece precíso formar
qualidades separadas.
Na presente lição. éevidente também que a concisao encerra
a sobriedade, a temperança, a força, o brilho, ctc.
A ARTE DE ESCREVER
93
Ora, a clareza é o brilho que a concisão produz.
Não consiste mais em frases curtas, do que em frases
longas.
Cada qual tema sua medida; o molde pouco importa.
ou seja a frase curta dos retratos de La-Bruyêre, ou
sejam os belos períodos dos discursos de Bossuet.
A concisão éa arte de se restringir, de fazer ressal-
tar a ideia, de condensar os elementos de uma frase
numa forma incisiva 'e concreta.
Éo horror ao estilo frouxo.
A eloquência não está na quantidade das coisas
ditas, mas na sua intensidade.
A falta de concisão é o defeito geral daqueles que
começam a escrever e que não tomam cuidado.
As três quartas partes dos autores contentam-se
com uma forma. que supõem definitiva e que se refaz
por si própria na leitura.
A concisão é, pois, uma questão de trabalho.
Épreciso limpar o estilo, joeírá-lo, peneirá-lo, tirar-
-lhe a palha, clarificá-lo, Iortalecê-lo, até que deixe de
ter lascas de madeira. até que a fundição fique sem
rebarba e se tenham tirado todas as escórias do metal.
Lede Pascal, La-Bruyêre, Montesquieu; não se pode
tirar uma palavra às suas frases.
Enquanto não tiverdes chegado a este estado fixo.
sólido, índestrutível, o vosso estilo não estará apurado.
Numa palavra, épreciso que se não possam dizer
de uma maneira mais concisa as coisas que dissestes.
Éque Flaubert exprimia nesta frase:
- «A prosa nunca está concluída.»
Acrescentemos que ela se não pode concluir. No
ponto em que detíverdes, vós, que sois Chateaubriand
Q
94
A ARTE DE ESCREVER
ou La-Bruyêre, outro se pode apresentar, outro gemo
maior que vós, que verá mais longe que vós e que rea-
lizará outra forma mais perfeita. Os nossos grandes
escritores representam a expressão mais alta da arte
de escrever; mas esta expressão não éa última; pode-
ria existir outra mais elevada.
Empregamos muitas palavras, porque estamos emba-
raçados para exprimir uma ideia; fazemos círcunlóquíos
e, quando as palavras estão escritas, tornam-se infeliz-
mente inseparáveis da ideia; já se não pode ver o pen-
samento senão com os seus fílamentos: seria preciso
separar brutalmente aquilo que se quer dizer e sacudir
a terra que adere às raizes da planta.
Falta eloquência a certos estilos, por causa do des•.
graçado defeito da difusão.
As mesmas coisas seriam empolgantes, se fossem
resumidas.
O leitor vulgar não pode dizer por que é que se
não sente atraído pela leitura de tais ou tais páginas.
O profissional verá nelas o que épreciso, ou antes
o que há a mais.
O mesmo pensamento torna-se fraco ou forte,
segundo a compreensão que se lhe dá.
Serei frouxo e dífuso, se disser:
- «As mulheres não têm limites nos seus sentimen-
tos; umas vezes valem mais, outras vezes menos do que
os homens.»
Mas, tornar-me-ia atraente, se dissesse como La-
-Bruyêre:
- «As mulheres são exageradas; são melhores ou
piores que os homens.»
Ninguém estranhará que eu diga:
J
I
A ARTE DE ESCREVER
95
- «Os pensamentos elevados, aqueles que enobre-
cem e exaltam os homens, têm a sua origem e a sua
fonte no fundo do vosso coração.»
Mas a concisão tornará a ideia soberba, se digo
com o célebre moralista:
- «Os grandes pensamentos vêm do coração.»
Um estilo espesso e sem firmeza suporta-se um
momento, mas depressa fadiga.
Podem pôr-se no estilo todos os incidentes que se
queiram, ornando-o, embelezando-o. cortando-o em
pequenos períodos, canalizando-o 'tão longamente quanto
se julgar necessário.
Poderá realmente haver concisão emcada pormenor.
O que se deve evitar é o supérfluo, a acumulação.
o palavrório, o acrescentamento de ídeias secundárias,
que nada ajuntam à ídeía mestra eque só a enfraquecem.
Assim. nesta frase:
-«Não se podem ver tais desgraças noutrern, sem
que tenhamos um sentimento de compaixão. de receio,
de apreensão, por nós próprios. sentimento que nos faz
saborear melhor a alegria e a satisfação de estarmos
isentos.»
A palavra apreensão nada ajunta à ideia de receio
e a palavra satisfação é muito fraca após a palavra
alegria.
Assim também nesta frase de Fléchier:
Lamento neste púlpito um homem e virtuoso capitão. cujas
intenções eram puras e cuja virtude parecia merecer uma vida
mais longa e mais ampla.
(Oração fúnebre de TURENNE).
Este aditamento de epitetos éindigno de umescritor.
96
A ARTE DE ESCREVER
Quando se diz que uma vida émais longa. éinútil
ajuntar que émais ampla.
O mesmo defeito se nota nestes versos de Corneille:
Três ceptros, que em seu trono 'eu pus por minha mão,
Por elafalarão
E não secalarão.
p
\
i
Há frases que parecem cerradas, e que se podem
tornar mais concisas, tais como estas:
- «O senhor tinha dito que a duquesa ficaria des-
contente, se ela soubesse que nós estemos sos.s
Deveria escrever-se antes:
- «O senhor dizia que a duquesa Iícarra descon- •
tente de nos saber sós.»
Tereis substituído sete palavras por quatro, e isto
será mais elegante.
Parece sem importância, mas este gênero de cor-
recção tem grande alcance, quando é feito sobre pági-
nas e páginas.
Empregam-se demasiadas palavras, porque se repete
o pensamento por diversas formas.
Acumulam-se em torno dele pensamentos similares,
que, destinados a Iazê-lo ressaltar, não fazem, pelo
contrário, senão enfraquecê-Io.
Assim, no seguinte I" .emplo, citado por Deltour (')
a frase de Henrique 1\ «Quero que o camponês meta,
todos os domingos, galinha na panela», acha-se desfi-
gurada e difusanestes versos de um escritor do século
passado:
(') Princípios de composição francesa.
A ARTE DE ESCREVER
97
Eu quero que nos dias de descanso
O trenquilo habitante de uma aldeia
Tenha na sua mesa.
Então menos humilde.
Alguns daqueles pratos.
Próprios da confortada medíania.
Eis ainda um exemplo desse repisar das mesmas
ideias. copiado do padre Du-Guet:
Toda a gente é capaz de compreender que ela seria a felici-
dade de uma nação. emque toda a [oeçe- e toda a autoridade
seriamconcedidas à virtude. emque todas as ameaças e todos os
castigos seriam contra o vício; cujo príncipe não seria terrível
senão para quem praticasse o mal e nunca para aqueles que
amam e fazem o bem; emque a espada. que Deus lhe confiou.
seria a protecção dos justos e não faria tremer senão os seus InI-
migos; em que a verdade e a clemência se uniríam; emque a
[ustiçt: e a paz se beijariam. e emque se veria cumprir o que
disseo Apóstolo: a virtude respeitada echeia de honras eo vicio
humilhado e coberto de ignvminia.
Estes sobrecargos. este desdobramento de cada
ideía, nada ajuntam à ideia principal. que se perde no
caminho, por falta de concisão.
Há escritores, que não podem abandonar uma ideia,
sem a ter mastigado em todos os sentidos, até que ela
deixe de ter gosto.
Quantas frases não temos 0S lido no género destas,
que cita o atilado crítico Blair:
- «Cometer uma acção má é, em primeiro lugar,
afastar uma amizade boa e pacífica, para a substituir
por outra, má e desordenede: ou ainda:
«g cometer uma acção iníqua, imoral e injusta .. .:
98
;A ARTE. DE ESCREVER
enfim, éproceder contra a justiça, a natureza e a vir-
tude... »
É principalmente na oratória que esta prolixidade
se torna abusiva.
Quase todos os oradores caem neste vício; é o que
torna os seus discursos insignificantes para a leitura (1).
Nos versos célebres de Casimira Delavigne sobre a
morte de [oana d'Arc, esse processo é,impressionante,
porque o autor acrescentou-lhe ainda a trivialidade das
frases feitas:
Para quemse destinam
Estes aprestos fúnebres?
Por quemse acendem tochas?
Tremem sinos e agitam-se...
Donde vêm estes lúgubres murmúrios?
Aonde vão guerreiros,
Precipitando-se emcompactas ondas?
A alegria ilumina-lhes o rosto;
Semdúvida o dever os entusiasma.
Irão formar fileiras
Para um assalto heróico?
Não! aqueles guerreiros são ingleses,
Que correm para ver
Morrer uma mulher!
Tremem sinos e sqitem-se ... , um dos dois verbos
é inútil.
(') Demóstenes é contudo um modelo de concisao. Quanto
a Cícero, encarna a difusão. mas encarna-a com talento. Adorna
tudo e repete tudo. Procede por multiplicidade de nomes, de
verbos e de adjectivos.
A ARTE DE ESCREVER
99
E. logo que se diga: Aonde vão guerreiros, .é inútil
ajuntar-se: precipitando-se em .xompectes ondas. .
Há apenas os três últimos versos irrepreensíveís de
que se não pode substituir nem cortar palavra nenhuma.
Êpela concisão, repetimo-lo, que se obtém a clareza,
a sobriedade, a propriedade, a correcção, a brevidade
e a pureza, qualidades que seria de mau aviso querer
demonstrar separadamente, pois estão contidas na con-
cisão; como vimos que o relevo. a força, a expressão. a
energia; o natural. a riqueza. a clareza. que estão con-
tidas na originalidade do estilo:
Aqueles que se exercitam em escrever, verificarão
quanto é lógica esta observação.
Muitas vezes, sem que se queira ser mais claro,
estende-se o que se quer dizer, ao passo que isso seria
luminoso. tendo-se sido conciso.
Prova-o esta passagem do padre Du-Bos, que não
é. contudo. um mau crítico:
Os pintores e os poetas excitam em nós paixoes artificiais.
apresentando imitações dos objectos, capazes de excitar em nós
paixões verdadeiras.
Como a impressão. que essas imitações produzem sobre nós.
é do mesmo gênero da impressão. que o objecto imitado pelo poeta
ou pelo pintor faria sobre nós; como a impressão, que a imitação
produz. não é diferente da impressão. que o objecto imitado pro-
duziria. senão em que ela é menos forte. deve excitar em nossa
alma uma paixão. que se assemelha àquela que o objecto imi-
tado poderia excitar: a cópia do obiecto deve. por assim dizer.
excitar em nós uma cópia da paixão que o objecto teria excitado.
Mas. como a impressão. que a imitação produz. não é tão pro-
funda como a impressão. que o próprio objecto causaria. aquela
impressão superficial. feita por imitação. desaparece sem ter as
consequêncías duradouras. que teria a impressão produzida pelo
objecto, que o poeta ou o pintor imitou.
100
A ARTE DE ESCREVER
o bom padre Du-Bos cai no palavrório e chega
a não saber o que diz, por ter querido exprimir-se
mais claramente, mais tecnicamente, de uma maneira
muito chão
Deve-se observar a concisão, não só nas palavras.
reduzindo-as ao menor número, mas também no tor-
neio das frases. empregando de preferência as cons-
truções rápidas, aquelas que aliviam o estilo, em vez
de o carregar.
Locuç6es viciosas
A manhã estava soberba...
O seu procedimento foi admirável. ..
Não épreciso acrescentar nada...
Com o único fimde...
De forma que...
Ele não respondia, tão fatigado começava a estar...
M. X...• de cuja morte se tinha espalhado o boato.
Não vos esqueçais de que as frases são feitas umas
para as outras. c de que éo seu encadeamento cerrado
que constitui uma das belezas gerais do estilo.
Não pareçam enxertadas, mas engendradas as vos-
sas frases; não justapostas ficticiamente. mas lógica-
mente deduzidas.
Eis aqui um exemplo, em que parece que a ídeía
principal vai acabar. e em que ela recomeça sempre.
arrastando uma sequência de reflexões inúteis, como
uma cauda. que se dividisse infinitamente.
Os ferimentos eram mais mortíferos para os Mouros, porque
eles se contentavam emos lavar na água do mar e diziam. numa
maneira de provérbio ou de anexim do seu país. que Deus. que
A ARTE DE ESCREVER
101
lhos dera. lhos havia de tirar; isto menos pelo desprezo. que pela
ignorância dos remédios. pois estimavam bastante um renegado.
o seu único cirurgião. a quem. por uma política excêntrica. a
cada ferido de importância. que morria entre as suas mãos. davam
primeiro umcerto número de bordoadas, para o castigar mais ou
menos. segundo a importância do morto; depois umas tantas
peças deoito reales, para o consolar eo exortar a proceder melhor
para o futuro.
Parece que se não chega a sair desta frase desen-
rolada. como essas serpentes de papelão. C0111 que se
entretêm as crianças.
É composta de excrescêncías' intermináveis.
Examinai bem se as frases, que ali se agregam,
significam alguma coisa mais que as precedentes.
Sede imparcial e rigoroso e riscai implacàvelmente,
à menor dúvida. O fragmento lucrará com isso.
Há expressões que, por si só, nada significam.
O vício da falta de concisão étalvez o mais difícil
de verificarmos, no nosso próprio estilo.
É necessário um recuo incessante, uma vigilância
sempre alerta, para se notar a falta de brevidade. Este
defeito universal é o que torna as traduções enfado-
nhas. porque a dificuldade de exprimir exactamente um
pensamento, comprimido no texto, força o tradutor a
empregar muitas palavras.
Daqui, uma forma extensa e frouxa, que não prende
o espírito e revolta o gosto.
A brevidade éa última qualidade que se aprende,
no mecanismo da arte de escrever.
Devemos, portanto, persuadir-nos de que se deve
sempre resumir e aclarar o estilo.
Pode dizer-se que há sempre necessidade disso.
Quando julgardes ter já escrito um fragmento defí-
-
102
A ARTE DE ESCREVER
nitivo. retomai-o, emendai-o:
mulas mais rápidas: e tratai
existem.
O que produz. na maior parte dos casos. a difusão.
éo emprego das ideias semelhantes. que se sobrepõem
ou se justapõem no calor da composição.
Tírai de uma ideia tudo que a não fortifica. tudo
que ématiz idêntico. tudo que não tem relevo, tudo que
pode ficar para trás. E o que restar, o que guardardes.
tratai de o exprimir com o menor número possível de
palavras.
Acusaram de prolixidade o historiador Guichardini
e Gassendi.
As arengas de Títo Lívío
lices heróicas, pedaços de
ampliações laboriosas.
A narrativa de Théraméne, na
é o mais belo exemplo dessa arte
e inutilmente.
Com que minúcia está pintado o dragão que sai
das ondas!
Como o autor nos descreve a tristeza dos guardas
de Hipólito e a tristeza dos cavalos!
E. todavia. esses trechos são admiráveis em si
próprios. e andaríamos mal, se os considerássemos mal
escritos.
Não nos esqueçamos nunca dos versos de Boileau:
tratai de descobrir Iór-
de as encontrar, porque
são modelos de taqare-
retórica parafraseados,
Fédore de Racine
de escrever longa
o que se diz de mais é sempre fastiento.
E o espírito, enfadado. enjeita-o num momento.
Como declara Boíleau. é preciso saber restringir-
mo-nos para sabermos escrever.
I
A ARTE DE ESCREVER
103
A arte de desprender o pensamento. de o tirar do
seu embrião. a arte de o insular; e de o apresentar em
relevo. só é difícil. por se empregarem muitas palavras.
Há autores. como A. de Pontmartin, por exemplo.
em que tal processo é visível em cada página.
Escritor elegante. que atrai pelo seu perfeito ati-
cismo. pela sua distinção e o seu belo tom. aquele autor
não pode enumerar sem acumular; procede somente com
epítetos múltiplos; repisa no mesmo lugar e. como não
avança. ímpacienta-se.
Esta repetição das palavras. està insistência em
tocar a mesma áría, tiram toda a espécie de efeito a
frases destas:
Camílo Desmoulíns aspirava com o ar tudo que pode per-
turbar e perverter a consciência humana: paixão. ebriedede, terror.
chama. furor. ódio. esperança. febre. anarquia moral. espírito de
áesfruição e morte. A faculdade de sobreexcitação nervosa. peri-
goso privilégio da nossa profissão. era continuamente prooocede,
exaltada. exacerbada. azedada. decupliceda pelos acontecimen-
tos (').
Enfiar serres de palavras: paixao, embriaguez. ter-
ror. chama. furor. ódio. esperança. febre (por que
não: dor. vício. angústia. miséria. desespero. inveja,
revolta. etc.. etc.?). provocada. exaltada. azedada.
exacerbada. decuplicada, etc., tudo isto, apesar de uma
ilusória aparência de graduação. nada acrescenta à
ideia.
Éa difusão. é a prolixidade fácil. não éverdadeira
(') Pontrnartin. Novos Sábados. 12." séríe, art. [úlio Cle-
retie.
+'
104
A ARTE DE ESCREVER
agudeza nem verdadeira inspiração. porque não há ali
energia nem sobriedade.
A verdadeira heroína de Iêené, - diz mais adiante o mesmo
Pontmartín, - chamava-se também Lucílía,
Bela. poética. plangente. inquieta visionária. alucínada, dír-
-se-ia o fantasma da sociedade morta. vagueando na necrópole.
povoada pela Revolução. Viva. enérgica, apaixonada. heróica, a
outra Lucílía, Lucília Desmoulíns, personifica a jovem liberdade.
Noutra passagem ainda, o exemplo é mais empol-
gante:
A curiosidade! foi ela a Musa. a confidente. a companheira.
a alegria. o tormento. a amante. o [lagelo. o refúgio. o bom e o
mau génio de Saínt-Beuve.
Se nos concedem que. para as almas que se não abrigaram
desde logo sob a asa do seu anjo da guarda ou nas castas carícias
de uma noiva. esta curiosidade se torna fãcilrnente cúmplice dos
sentidos, e que tem toda a aparência do amor ou desejo vago.
agitado. inquieto. precoce. [uqitioo, misturado de ignorância e de
candura e de impudor, de timidez e de ousadia. tal qual o
pinta Beaumarchais sob os traços de Querubim, hão-de permi-
tir-me que eu acrescente. etc. j
Eis aqui uma frase de Alfredo de Vigny. mal feita,
por causa de uma palavra inútil:
A grande estrada de Artois e de Flandres é longa e triste.
No mês de Março de 1815. passei por esta estrada e tive um encon-
tro de que nunca mais me esqueci depois.
(VIGNY, Servilismo e Grandeza).
A palavra depois éinútil e fica no ar.
Nada acrescenta, nem ídeía, nem matiz. e segura,
perdoaí-me a expressão, a frase pelas patas .
••
A ARTE DE ESCREVER
10~
E assim também esta frase de um romancista con-
temporâneo:
o seu corpo esguio fazia-o parecer mais alto e mais novo do
que ele era na realidade.
Evidentemente do que ele era na realidade é de
mais. A frase ficava completa até novo.
A propósito de um polemísta, li isto:
Ninguém caluniou tanto os seus adversários como ele o fez.
_ .
É a última palavra da superfetação insípida... e
incorrecta.
A obrigação de ser conciso não significa que tenha-
mos de cortar as asas à fantasia e à imaginação, e
renunciar à cor ou à magia das palavras; mas é pre-
ciso que essas palavras sejam mágicas, que enriqueçam
o que já se disse; e, se essas mesmas são ínexpressívas.
incolores e triviais, como: ousadia, timidez, mau génio,
musa, flagelo, tormento, paixão, embriaguez, terror,
chama, furor, ódio, tornam-se inúteis e devem ser
suprimidas.
Um exemplo ainda tirado de um autor ccntempo-
râneo, que passa por bom escritor.
Se o leitor suprimir tudo que vamos pôr em itálico,
como similar, repetido ou já dito, verá que o que resta
do fragmento pode constituir estilo honroso.
o doutor, seu velho amigo, aconselhou-lhe ares mais suaves,
clima mais quente, céu mais puro, luz mais tépida, vida mais
tranquila. O inverno é rigoroso, áspero, bravio, nas costas da
Bretanha, ao longo daquelas penedies abruptas, naquela fria região.
Seria tão bom. tão trenquiliztmte, tão reconfortante, um raio de
106
A ARTE DE ESCREVER
, -
sol meridional! Mas o doutor diz O que lhe parece! O seu doente
é umpadre. umservidor do altar. edstrito a umserviço piedoso.
e que não pode deixar o seu posto. desertar do seu dever. aban-
donar a casa de Deus. onde os seus ouvintes se vão agrupar. reu-
nir-se e confortar-se. Quantos obstáculos e dificuldades para
viajar! quantos pormenores. imperceptiveis para nós. penosos.
alarmantes. inquietadores e dolorosos para um padre! Pode ele
percorrer hotéis. sentar-se às mesas-redondas. habitar um quarto
estranho. ouvir conversas insolentes. aventurar a sua muita idade
e os seus. cabelos brancos ao meio daquelas colónias mundanas.
emque cada umfaz exibições de luxo. de entusiasmo e de frivoli-
dade. de elegância?
Suprimidas as palavras em itálico. eis o que ficaria:
O doutor. seu velho amigo. aconselha-lhe ares mais suaves.
O inverno e rigoroso nas costas da Bretanha, naquela fria região.
Seria tão bom um raio de sol meridional! Mas o doutor diz o
que lhe parece! O seu doente é um padre. que não pode deixar
o seu posto, Quantos obstáculos para viajar! Ouantos porme-
nores imperceptíveis para nós. penosos para umpadre! Pode ele
percorrer hotéis. sentar-se às mesas-redondas. aventurar os seus
cabelos brancos ao meio daquelas colónias mundanas. em que
cada um faz exibições de luxo e de frivolidade?
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I
1
Certos espíritos. apaixonados por ouropeis e pendu-
ricalhos. preferirão o primeiro texto. diluído: mas um
«bom espírito». um espírito são. não hesitará.
Empregar muitas palavras éum defeito grave; mas
repetir canhestramente as mesmas palavras éenfraque-
cer o estilo de cutra maneira; contra isto. devemos ser
implacáveis. Nada revela tanto a pobreza de imaqína-
ção e nada fatiga tão depressa o leitor; dedicai ao
caso a maior atenção, pois é fácil deixar passar uma
expressão já empregada. ou muito parecida, sem que
se, veja,
A-
I
--
«
A ARTE DE ESCREVER
107
Não falamos aqui das palavras correntes. que se
não podem evitar. como ele, ela, onde, em, a, que são
necessárias a cada instante; mas. se encontrardes uma
palavra. um epiteto, empregado algumas linhas mais
longe. eliminai-o ou substituí-o.
Alguns autores. como Chateaubriand e Flaubert,
enjeitaram com ardor as repetições. a ponto de as não
tolerarem na mesma página.
O limite desta exigência é questão de gosto. mas
vale mais pecar por severidade. É~m ponto importante
no estilo.
Os bons prosadores conhecem-se nisso.
Não há necessidade de numerosos exemplos para
demonstrar em que consiste a repetição de palavras;
bastará abrir um autor vulgar. para se colher dele
quanto se queira.
Encontram-se também repetições nos melhores escri-
tores. de tal forma a atenção naturalmente se iludiu.
Esta frase de Philarete Chasles, extraída das suas
Memórias, que têm. contudo. bastante vida e relevo.
parece-me típica.
Pinta ele o retrato de um autor:
Passando tudo em revista. encarnando-se em tudo por um
momento. para tudo destruir. naturalmente falso. insincero, pala-
vreador, apaixonado das pequenas coisas; capaz de transformar
para penetrar tudo; incapaz de colher qualquer coisa no coração.
de atingir o centro e a essência seja do que for; fino até à fraude:
atingindo uma solidez aparente...
Um pouco de atenção teria apagado estas nódoas.
E o mesmo nesta passagem de Bernardím de
Saint- Píerre:
";
..Q
108
A ARTE DE ESCREVER
Apesar desta situação perigosa. os nossos marinheiros puse-
ram-se a beber e a divertir-se, supondo-se ao abrigo de todo o
perigo. porque se viam rodeados pela terra de todos os lados.
Em seguida foram deitar-se semque ficasse umsó para velar
a manobra. Tinhamos ficado sobre a ponte. Cefas e eu. sentados
num banco de remadores (').
E mais adiante:
Minha filha. é tempo de irdes descansar. Pensai que vos
deveís levantar amanhã. antes da aurora. para irdes à festa do
meu Liceu (').
Há aqui negligências imperdoáveis.
Gustavo Flaubert, na sua correspondência. censura
Chateaubríand, porque. ao pintar nos seus Mártires
a chegada de Eudoro a Roma. deixou passar duas ou
três repetições. que o crítico. no lugar dele. não teria
permitido.
Efectívamente, nota-se isso pouco em Flaubert.
Contudo. eis aqui uma. que encontrámos na Salambó
e que teria desgostado o autor. se lha houvessem mos-
trado (3).
-
(') A Arcádia. pág. 223, ed. Delagrave.
(') Ibid., pág. 239.
(') Selsmbô, ed. Charpentier, pág. 138.
A estrada atravessava um campo. chaquetado de compridos
lajedos, agudos no cimo. tais como pirâmides. e que tinham.
gravado ao meio. uma mão aberta, como se o morto, deitado em
baixo, a houvesse estendido para o céu, suplicando alguma coisa.
Em seguida, viam-se. disseminadas. cabanas de terra. de ramos.
de caníçados, de juncos, todas de forma cónica. Pequenos muros
de pedra. regueiras de água viva. cordas de esparto, sebes de
A ARTE DE ESCREVER
109
nopais separavam irregularmente essas habitações, que se amon-
toavam cada vez mais, elevando-se para os jardins de Súpeta.
Mas Amílcar estendia os olhos para uma grande torre, etc.
Esta repetição, posto que afastada, é curiosa num
escritor, tão exigente a tal respeito.
Há repetições absolutamente inadmissíveis no gé~
nero desta:
Defendeu-se duas vezes contra os ataques publicados contra
ele na imprensa.
(G. CLAUDI N).
Encontram-se, a cada passo, repetições em Saínt-
-Simon. Eis aqui uma, cuja intenção éduvidosa. Talvez
fosse propositada:
Eí-lo que atravessa a avenida. Em breve, a encontra longa;
depois, dirige-se às árvores, mas não as encontra já; nota que
chegou ao fim e volta às apalpadelas a procurar as árvores;
segue-as ao acaso, e depois cruza, e não encontra a sua casa.
Nada compreende de tal aventura.
Ti tando-se de uma repetição, que o leitor notará,
épreciso procurar outra palavra, ou outra construção
até, se for necessário.
Custa sacrificar certas palavras, mas a ausência de
repr ' ções ébeleza superior à indicação de pormenores.
Empreqaí, portanto, grande vigilância, porque sucede
muitas vezes que, para tirar uma palavra repetida, se
põe outra, que se encontra algumas linhas mais abaixo.
Começa-se assim uma caça, que conduz longe. Mas
não se deve recuar.
110
A ARTE DE ESCREVER
Certa escola contemporânea, que só procura o
impressionismo em literatura, afecta não se preocupar
com as repetições; deixa-as, acentua-as e vanqlo-
ria-se delas.
Cícero notava que não há absurdo, que não tenha
sido dito por filósofos.
Poderia estender a sua reflexão à literatura. Deí-
xá-lo. As grandes regras da arte de escrever são
eternas.
Há também repetições desculpáveis.
Em vez de mudar o sentido a uma frase. em vez
de introduzir nela uma palavra frouxa ou atenuar uma
passagem, convirá conservar as repetições quando são
exactas, nítidas. luminosas e quando não podem ser
substituídas, senão por expressões mais frouxas.
Foi o que sentiu Pascal, quando escrevia estas
linhas, em que ele mesmo dá o exemplo de uma repe-
tição que poderia ter evitado:
<
,.\
d
Quando, num discurso, se encontram palavras repetidas, e
quando, procurando corrigi-Ias, se encontram tão correntias, que
prejudicariam o discurso, é preciso deixá-Ias. E: o quinhão da
inveja, que é cega e não sabe que tal repetição não é erro naquele
passo, pois que não há regra geral.
,
I
t
~
\
:
L i
Sim, há regras gerais, mas há também excepções,
As excepções são questões de tacto e dependem
das circunstâncias.
As regras gerais resumem os preceitos da arte de
escrever.
Écerto que as repetições seguintes podiam ser Iàcil-
mente eliminadas desta frase de Montesquíeu :
A ARTE DE ESCREVER
1 1 1
Cômodo sucedeu a Marco-Aurélio, seu Péli: era um. monstro,
que seguia todas as suas paixões e as dos seus ministros e dos
seus cortesãos. Aqueles que livraram dele o mundo puserem em
seu lugar Pertinace, que os soldados pretorianoslogo truci-
daram. Puseram o império em almoeda e Dídto Júlio obteve-o
pelas suas promessas. isto revoltou todo o mundo, pois, que, ape-
sar de o império, etc.
(MoNTE~QUJ EU,Grandeza e Decadência
dos Romanos, capo XVI, 5.° parág.).
Bastaria um pouco de atenção I?ara corrigir estas
frases de F énelon:
Estas armas eram polidas, como um espelho, e brilhantes
como um raio de sol. Via-se ali Neptuno e Palas, que pales-
travam entre si. sobre quem teria a glória de dar o seu nome a
uma vila nascente. Neptuno, com o seu trídente, feria a terra,
e via-se sair dela um cavalo íoqoso: saía-lhe fogo dos olhos e
espuma da boca.
(FÉNEL ON, Telémaco).
Entre as repetições, que se'permitem correntemente,
e que prejudicam o estilo, nota-se o emprego epidêmico
dos auxiliares ser, ter, haver, estar. ..
Todos os escritores, e não dos menores, abundam
nestas repetições.
Não se lhes dá importância, e nada é tào pobre,
nada revela tanto a esterilidade, a difusão, a dispersão.
Porquê? Porque os auxiliares de um particípio são
palavras cómodas, já encontradas para substituir os
verbos próprios, para nos dispensarmos de procurar a
palavra verdadeira. a única que diria tudo e diria
melhor. o verbo estreme e coesivo, o verbo que arre-
dondaria a frase.
-
I
112
A ARTE DE ESCREVER
~assimque se escreve:
Por: persuadir-se de que...
Ela estava tomada de Por: ela receava; ou:
receío. tomava-a o receio; ou: tinha
apreensões.
Estava persuadida de
que...
o horizonte estava velado
.de vapores.
Era de mais afinal: estava
disposto a falar.
Visto que o acaso lhe
tinha proporcionado essa oca-
sião, iria...
Sentiu que estava abando-
nada pelo céu.
Por: o horizonte velava-se
de vapores.
Por: era de mais: resolvia
falar.
Por: visto que o acaso lhe
proporcionava essa ocasi ã o,
iria...
Por: sentiu que o céu a
abandonava; sentiu-se abando-
nada pelo céu.
Quase sempre se podem substituir estes auxilia-
res pelo verbo próprio, cujo emprego dará força ao
estilo e terá evidente valor, como se vê nesta frase de
um autor contemporâneo, frase que nada quer dizer:
Os seus cabelos eas suas sobrancelhas eram castanhos-escuros,
eo seu bigode era louro-claro, o que dava ao seu rosto uma doçura
singular.
Quando era tão simples dizer-se:
Os seus cabelos e sobrancelhas castanhas, o seu bigode louro-
.-claro, davam à sua fisionomia uma doçura singular.
A ARTE DE ESCREVER
113
E assim, nas seguintes linhas de um autor con-
temporâneo, podemos suprimir os auxiliares inúteis, e
o estilo (irremediàvelmente banal, aliás), não ficará mal
de todo:
Era um homem de cerca de quarenta anos, alto e magro,
com feições fatigadas, mas regulares, talvez finas. O carácter efe-
minado desse belo rosto era ainda acentuado pela estranha lan-
!;uidez dos olhos negros. muito escuros; os cabelos. igualmente
negros e sedosos. tornavam-se raros; a barba. que ele usava cres-
cida. era vaporosa e ondeada naturalmente. Toda a sua pessoa
tinha um raro cunho de elegância com alguma coisa de inquie-
tador e de perturbador, que teria impressionado os menos hábeis
emperceber o jogo das almas. sob as aparências flsíonómicas.
o autor podia dizer. dispensando todos os auxi-
liares. excepto o primeiro. se quiserem:
Era um homem de cerca de quarenta anos. alto e magro.
com feições íatíqadas, mas regulares. talvez finas. A estranha
languidez dos seus olhos negros. muito escuros. mais acentuava
o carácter efeminado daquele belo rosto; os cabelos igualmente
negros e sedosos tornavam-se raros: a barba. que ele usava cres-
cida. ondeava naturalmente. Toda (') a sua pessoa tinha um ar
de elegância excepcional. com alguma coisa de ínquíetador e de
perturbador, que poderia impressionar (ou: ou que poderia ser
notada por) os menos hábeis em perceber. ete.
Como se vê. todos os auxiliares desapareceram. mas
o estilo fica trivial?
Quem é que não vê a importância de tal trabalho.
continuado em muitas páginas. para a concisão do
estilo?
(') Por que toda? Bastaria a sua pessoa.
8
(G. S.I\ND. A última Aldini).
114
A ARTE DE ESCREVER
Empregando-se os auxiliares à farta. caí-se na difu-
são. na má qualidade do estilo.
E escrevem-se páginas. como esta. extraída de um
autor contemporâneo de grande nomeada:
Quanto a Antónía, apesar do ensinamento irregular da tia
Isabel. tinha-se convertido numa simples e moderna criatura.
Não se mostrava nada Marquesa. nas suas maneiras. que eram
doces e calmas, tanto quanto as do irmão eram vivas e desorde-
nadas. Ela era alta e maravilhosamente bem feita. O seu rosto,
de tez fresca. era iluminado por olhos negros. brilhantes e pro-
fundos.
Quase todos os escritores abusam dos auxiliares.
Bastará abrir um livro para se encontrarem logo.
ao acaso. linhas destas:
Eu estava muito perturbado e convencido de que me seria
impossível articular um som. porque havia bem um ano que me
tinham avisado daquilo. Eu tinha então dezassete anos. A minha
voz tinha voltado; não havia que duvidar.
Esta repetição dos auxiliares afeia o estilo de
alguns escritores do século XVII.
Éimpossível deixar de notar frases destas que se
encontram em cada página de Fénelon. Descreve ele
o carro de Anfitrite:
Os tritões rodeavam o carro de Anfítrite, puxado por cavalos-
-marinhos. mais brancos do que a neve. e que fendendo as ondas
salgadas. deixavam longe. por detrás deles, um vasto sulco no
mar; os seus olhos estavam inflamados e as suas bocas estavam
fumegantes. O carro da deusa era uma concha. de forma maravi-
lhosa; era de uma brancura mais brilhante que o marfim. e as
rodas eram de ouro.
A ARTE DE ESCREVER
115
Ou se deve renunciar à arte de escrever, ou nunca
se devem aprovar tais negligências.
Eis uma frase, ainda mais característica, de Duelos,
o autor das Considerações sobre os Costumes, livro um
pouco seco mas bem escrito:
Ele tinha o título de chefe do Conselho das Finanças; e,
como era incapaz de compreender disso qualquer coisa era inve-
joso do duque de Noailles, que sendo apenas presidente, ere con-
tudo o senhor de toda a administração.
(DueLOS, Memórias sobre a Regência. págs. 104, 185).
Aqueles que querem baralhar escolas e processos
não deixarão de fazer aqui a objecção, já refutada
a propósito do estilo trivial. Dirão que se pode ser um
grande escritor, cometendo embora negligêncías.
E nós responderemos:
~ Sois acaso grande escritor? Podeis sê-Ia, efectí-
vamente, e continuar a sê-lo, apesar dessas negligên-
cias; mas, se o não puderdes ser, tereis de vos coibir
rigorosamente das negligências, que não podereis com-
• pensar com qualidades superiores (1).
Ninguém tem a certeza de possuir talento bastante,
para que se lhe perdoe aquele defeito.
Quem começa por contrair maus costumes e vícios
literários, verá sufocadas as suas boas aptidões ou redu-
zidas à mediocridade.
A proscrição das repetições, sejam elas quais forem,
é pois um princípio absoluto da arte de escrever.
(') Por exemplo, dísponde-vos a ser um escritor de gênio,
como Saínt-Sirnon, e já não precisareis de conselhos sobre a arte
de escrever.
116
A ARTE DE ESCREVER
Épreciso subordinarmo-nos a ele, desprezar qual-
quer concessão, qualquer transigência.
Há até ocasiões, em que um solecismo e uma incor-
recção são preferíveis a uma repetição.
Quanto mais a vossa prosa for castigada, traba-
lhada, irrepreensível, mais deveís evitar as repetições.
Não seria preciso mais nada, para estragar um
trecho excelente.
O célebre soneto de Arvers, que passa por um dos
melhores que se têm feito, e que tornou famoso o seu
autor, seria obra-prima, o ideal do soneto, sem mancha.
se não fosse lesado por nele se repetir três vezes o
particípio feito.
Para substituir as repetições, podemos recorrer aos
sinónimos e aos equivalentes. Discutir agora sinónimos
não teria utilidade prática. De uma maneira absoluta,
pode-se dizer que não há sinónimos.
Preguiça, ociosidade, indolência, mendiiice têm um-
sentido diferente; inquietação, susto, perturbação, agita-
ção, não exprimem as mesmas ídeias, assim como fugir,
sair, eoedir-se, ir-se embora, escapar, esquiasr-se.
Mas no estilo, que vive de combinações de palavras
e de valores de ídeias incessantemente, tais palavras
podem passar por sinónimas e abundam, como tais, em
qualquer língua.
Quanto aos equivalentes, pede-se dizer que consti-
tuem precisamente a variedade da arte de escrever.
Encontramos em Massilon um pensamento expresso
sob quatro formas:
-,
l
Tudo retoma o seu lugar num estado em que sobretudo 05
grandes e o príncipe adoram o Senhor. A piedade está acredi-
tada. desde que há grandes exemplos para ela.
-
A ARTE DE ESCREVER
117
I." ~ O culto pode ainoa ser menosprezado sccretamente
pelo ímpeto, mas, desforra-se, pelo menos, com a magnificência
pública.
2.° ~ O templo santo pode ainda ver, aos pés dos seus alta-
res, pecadores e incrédulos, mas não vê profanadores.
3.° ~ Ainda se podem encontrar homens corrompidos, que
negam o seu coração a Deus, mas não se atreveriam a recusar-lhe
as suas homenagens.
4.° - Numa palavra, pode ser fácil a perdição, mas a salva-
ção, pelo menos, não é vergonhosa.
Épela leitura que nos familiarizamos com estes pro-
cessos e que o espírito se habitua a ver as relações das
coisas e a descobrir a expressão conveniente.
Eis aqui como Montesquieu varia a ideia de que,
em todos os empreendimentos, era preciso recorrer a
Pompeu:
Foi preciso fazer guerra a Sócrates, e dava-se essa incum-
bência a Pompeu.
Foi preciso fazê-Ia a Mítridates, e toda a gente bradou:
Pompeu!
Foi preciso importar cereais para Roma, e o povo julgar-se-ia
perdido, se disso não fosse encarregado Pompcu.
Querem destruir os piratas. e lembram-se logo de Pompeu!
E quando César ameaça invadir Roma, o Senado também
brada: Pompeu; e só tem esperanças em Pompeu.
Épreciso proscrever do estilo o que eu chamo os
parasitas, essas ligações, de que se abusa, para esta-
belecer transições de frases, como: ejectioemente, certe-
mente, de resto, tanto mais, por outro lado, definitiva~
mente, por um lado a dizer a verdade, pois, pela sua
parte, de seu lado, na verdade ...
As frases devem liqar-se, não com atilhos fictícios,
mas com 3 lógica da ídeía, com a força do pensamento.
~.r;;;:::~-""""'------~-=-,;---'--""'~-""---~-=--'-==---""-
118
A ARTE DE ESCREVER
Devem prosseguir a par, indissolúveis, mas pare-
cendo que não estão ligadas.
Há casos, já se vê, em que tais ligações são índis-
pensáveís e produzem o melhor efeito; é somente con-
tra o abuso que protestamos.
Supõe-se que essas partículas encadeiam as frases,
as tornam mais correntias ou mais sólidas. Pelo con-
trário, vê-se-lhes a fraqueza, porque é evidente a sol-
dadura, e porque a verdadeira transição depende do
espírito de uma frase e não de uma junção mecânica.
Os estilistas inexperientes abundam nestas espécies
de vegetações parasitárias.
As boas frases não precisam de cavilhas; formam
bloco. O verdadeiro escritor assenta-as direitas.
Uma vez de pé, já não oscilam. Disto nos conven-
cerá a leitura dos mestres.
Vede esta frase de Montesquieu:
~.
Os vícios de Alexandre eram extremos como as suas virtudes:
era terrível na sua cólera, e esta tornava-o cruel. Mandou cortar
os pés. o nariz e as orelhas a Calístcncs, ordenou que o metessem
numa gaiola de ferro e o levassem assim atrás do exército.
(MONTESQUIEU. Lisímaco).
Ou ainda esta passagem de Salambó, o suplício
de Mato:
Os seus joelhos dobraram-se e caiu brandamente no lajedo.
Alguém foi buscar ao peristilo do templo de Mclkarth, uma
barra de ferro encandecido por carvão ardente. e. insinuando-a
no primeiro grilhão. encostou-a à chaga. Viu-se fumegar a carne:
a algazarra do povo abafou-lhe a voz; ele estava de pé.
(F!.AUBERT. Seíembo, pág. 350).
A ARTE DE ESCREVER
119'
A concisao aprende-se, não só à força de trabalho,
mas principalmente pela leitura dos escritores clássicos.
Pascal. La-Bruyêre são, a este respeito, muito apro-
veitáveis e, entre os contemporâneos, figura Gustavo
Flaubert. principalmente nos seus Três Conte-s.
Lição Sétima
A harmonia do estílo
Da harmonia. - Necessidade da harmonia. -' Harmonia das pala-
~.' vras. - Harmonia natural: Chatcaubriand. - Trabalho de
harmonia: Flaubert. - Harmonia imitativa. - Harmonia
pueril.
Explicámos sumàriamente em que consistem as duas
grandes qualidades gerais do estilo: a originalidade
e a concisão.
Há ainda outra qualidade muito importante e neces-
__ sária: a harmonia, isto é, o sentido musical das palavras
e das frases e a arte de as combinar agradàvelmente
para o ouvido.
A harmonia, para as palavras. consiste no seu pró-
prio som.
A harmonia, para as frases. consiste na sua cadên-
cia e no seu equilíbrio.
Boileau disse e com razão:
Não apraz ao espírito
A ideia mais sublime,
Quando os ouvidos
Estão feridos.
120
A ARTE DE ESCREVER
Em nosso tempo, a anarquia dos processos literá-
rios e a extravagância dos gostos estéticos criaram uma
reacção injusta, contra a arquitectura do estilo e a
necessidade da harmonia.
Parece haverem convencionado que se escreva como
se quiser; que já não há ordem lógica; que se podem
permitir todas as inversões, fazer esperar a regência,
pô-Ia no fimde uma frase; acumular os seus incidentes;
em suma, que se escreva como se quiser.
Não nos deixemos influenciar por estas declarações
de decadência.
Os maus pintores passarão; o impressionismo só
terá a sua época; as obras-primas ficarão.
Conservemos, portanto, a harmonia como qualidade
essencial da arte de escrever.
Veremos em que caso e por que é preciso por vezes
desprezá-Ia; e mostraremos as qualidades, que se devem
colocar acima dela.
Em princípio, a harmonia faz parte do bom estilo.
Todos os grandes escritores a têm procurado;
aqueles até, que zombam dela, não a enjeitaram; e nas
suas obras se encontram, a cada passo, exemplos de
frases com ritmo, ligações de palavras agradáveis, jogo
metódico de sílabas.
A harmonia é tão necessária àprosa como àpoesia.
É o ritmo, que tão amado era pelos Gregos, o
número oratório, o numetus dos latinos.
A harmonia não é um agregado arbitrário; baseia-se
no génio da língua, nas exigências do ouvido, que tem
gosto próprio, como a imaginação tem o seu.
O sentido do ouvido era para Cícero «umjuiz altivo
e desdenhoso».
A ARTE DE ESCREVER
121
Toda a força do estilo, pelo menos uma parte da
sua força, reside na disposição das palavras.
Ora a harmonia não é senão a arte suprema da dis-
posição das palavras, o cuidado dessa disposição. em
vista da cadência e do som.
Foi Guez de Balzac o primeiro que deu à prosa
francesa a suavidade, a doçura, o número, o equilíbrio.
a ordem, a harmonia.
O seu êxito foi considerável. o seu nome mereceu
contar-se entre os grandes nomes da literatura.
Desde Balzac, não houve um só prosador, cuida-
doso da arte de escrever, que não procurasse a harmo-
nia da forma, como a originalidade das ideias.
Este cuidado conservou-se até Chateaubriand e
Flaubert, que escreviam as suas frases, como se as
destinassem a serem lidas em voz alta,
Harmonia das palavras
Falando de Flaubert, diz Guy de Maupassant:
- «Algumas vezes, deitado num grande prato orien-
tal, cheio de penas de pato, cuidadosamente aparada
a pena que ele segurava na mão, tomava a folha de
papel. elevava-a à altura dos olhos e, apoiando-se num
dos cotovelos, lia em voz alta e vibrante, Escutava o
ritmo da sua prosa, detinha-se, como para apanhar
uma sonoridade fugidia, combinava os tons, afastava
.as dissonãncias, fazia a pontuação conscienciosamente.
como se fossem descansos de uma longa carninhada.»
122
A ARTE DE ESCREVER
C'artas de Flaubert a G. Sand
l
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[
t
t
'.
Dizia Maupassant:
-«Uma frase viverá, se corresponde a todas as
necessidades da respiração. Sei que é boa, quando pode
ser lida em voz alta.»
No prefácio das Últimas Canções de Luís Bouílhet.
acrescentou:
- «As frases mal escritas não resistem a tal expe-
-riência; oprimem o peito, incomodam o pulsar do cora-
ção e encontram-se assim fora das condições da vida.s
Sem largas explanações, que aliás seriam muito
fáceis, trataremos, primeiramente, da harmonia das
peleures. e, seguidamente, da harmonia das frases.
Boileau tem razão:
Haja escolha de sons harmoniosos,
Evitando-se os sons desagradáveis.
Certas palavras, insuladamente, não têm caracterís-
tica, nem som agradável. e só se tornam harmônicas
pela sua aliança com outros sons; e outras há até que,
conjugadas, produzem durezas insuportáveis.
Regra geral: é preciso abstermo-nos de toda a aspe-
reza de som, de toda a dissonãncia notável. a não ser
que haja razões de relevo de originalidade, ou outros
motivos de beleza literária para conservar certos sons
de palavras.
Evitai, pois, os choques como estes:
...
Não há nada no mundo,
Que Nenine não honre.
(VOLTAIRE) •
/'j
..•.
A ARTE DE ESCREVER
123
E se os seus súbditos, se os seus aliados, se a Igreja univer-
sal aproveitou as suas grandezas ...
(BOSSUET) .
Se vós vos ooteis à educação ...
Evitai não só o predomínio das consoantes fortes,
mas também a repetição muito frequente de certas vogais,
a acumulação de monossílabos, de nasalações, etc.
A junção do que é doce, e do que é suave, convém
sempre à formação do estilo (1).
Que negligência ínexplícável dos bons autores pode
obrigá-Ias a cometer frases como esta?
Por que é que o rei do mundo.
Tão livre e tão prudente,
Suporta tantas vezes
Tão dura escravidão?
(VOLTAIRE) .
(1) Boíleau, na sua Epístola ao Rei sobre a passagem do
Rena. conseguiu adoçar e fazer tolerar palavras assaz rebeldes:
Os nomes duros. bárbaros •
Das Cidades. que tomas.
Só nos exibem sílabas exóticas;
E o ouvido indignado.
Para encontrar uma palavra boa.
Tem de correr, desde Issel,
Até Tesscl ao menos.
Cada praça. vestida do seu nome.
Vai brigar contra o verso.
Destruindo-lhe a harmonia.
E sem estremecer quem é que pode
Abeirar-se de Waõrden? E onde há verso
Que não caísse com o estranho nome
De Hcusden?
124
A ARTE DE ESCREVER
Há por vezes consonâncias desgraçadas, que o
autor teria evitado, se houvesse relido a sua frase em
voz alta.
Tendo o padre Maury elogiado não sei que frag-
mento de Arnaud, Saínt-Beuve termina assim as suas
reflexões:
Não se pode deixar de admirar o entusiasmo do padre Maury
por tão pouco.
(Port-l(oyal).
Outra consonância censurável:
I
I
,J
o Cardeal. vendo o cavaleiro Marcieur vir ao seu encontro,
não duvidou de que ele vinha para o observar e tomá-lo à sua
conta.
(DueLOS. Memórias Secretas, pág. 257).
o emprego dos «ques>
Uma das grandes causas de dureza no estilo é o
emprego frequente dos «ques», e aqui esbarramos num
hábito inveterado nos bons autores do século XVII.
O seu estilo está repleto de ques, o que os não
impede de que fossem excelentes escritores os que
puseram a firmeza e o vigor acima da harmonia.
Pascal multiplicava os ques.
La-Bruyêre serve-se deles a cada passo.
Num dos seus prefácios, o prefácio da Mulher de
Cláudio, Dumas filho justifica Moliêre de ter abusado
das conjunções e dos pronomes, sob pretexto de que.
A ARTE DE ESCREVER
125
escrevendo para o teatro. e para o diálogo. eles desa-
parecem com o modo de dizer.
A desculpa não é acertada. visto que todos os
autores daquela época. fosse qual fosse o seu género.
empregaram correntemente os ques, em detrimento da
harmonia.
É certo que este defeito se não nota em cena.
quando se lêem estes versos de Racine:
Britanicus est seul: que/que annui qui le presse,
Il ne voít à son sort que moi qui 's'ínteresse.
li n'a pour tout plaisír, seiqneur, que quelques pleurs
Qui lui font quelque [ois oublíer ses malheurs (').
E fica-se contrafeito. quando se lê em Lamartine:
Igual ao grande César.
Que, quando soava a hora ...
Bastará folhear qualquer autor do século XVII. Cor-
neille e Racíne nos seus prefácios. Boileau nas suas
Cartas. Bossuet nos seus Sermões, para se verificar
aquela epidemia. que só abranda um pouco a partir
de Rousseau, para desaparecer com Chateaubriand. à
medida que a língua se afasta do génio latino.
(') Como a lição se cifra nas palavras grifadas. e elas não
podem ser todas substituidas por palavras nossas. que a mesma
lição representem, reproduzimos o texto, sem o traduzir.
(Nota do tradutor).
1 26
A ARTE DE ESCREVER
(LA-BRUY F.RE. Discurso na Academia).
Eis aqui duas passagens. uma de La-Bruyêre, a
outra de Pascal. que caracterizam o abuso dos ques, tal
qual o encontramos em todos os seus contemporâneos:
Comparaí-vos, se vos atreveís a isso. ao grande Richelíeu:
homens dedicados à fortuna que pelo êxito dos vossos negócios
particulares vos julgais dignos de que vos confiem os negócios
públicos; que vos inculcais génios felizes e boas cabeças; que
dizeis que nada sabeis, que nunca lestes. que nunca lereis, ou
para indicar a inutilidade das ciências. ou para parecer que nada
deveis aos outros. mas tudo tirastes de vós próprios; sabei que o
Cardeal Richelieu soube ql:e leu; não digo que ele se afastasse
dos homens de letras. mas que os estimou. acarínhou e favoreceu;
que lhes tributou privilégios; que lhes dava pensões; que os
reuniu numa companhia célebre; que fez a Academia Francesa.
Ele sabia qual a força e a utilidade da eloquência, o poder
da palavra. que auxilia a razão e a faz valer. que insinua nos
homens a justiça e a probidade. que leva ao coração do soldado
a intrepidez e audácia que acalma as comoções populares. que
excita ao seu dever as multidões; não ignorava o que são os
frutos da história e da poesia. o que é a necessidade da gramá-
tica. base e fundamento das outras ciências; e que, para levar-
estas coisas a grande perfeição que as torne vantajosas à Repú-
blica. é preciso formar o plano ...
Todas as espécies de talento. que se vêem espalhadas entre
os homens. são compartilhadas por vós.
Se quiserdes oradores. que tenham semeado do púlpito todas
as flores da eloquência, que com uma sã moral, tenham empre-
gado todos os circunlóquios e todas as subtilezas da língua. que
agradam por uma bela selecção de palavras. que fazem amar as
solenidades. os templos. e que os fazem encher: cumpre que os
não procureis algures. porque estão entre vós.
--
A ARTE DE ESCREVER
127
Eis aqui uma passagem de Pascal tomada ao acaso:
E assim, quando se lhes censura que o que eles procuram
com tanto ardor os não satisfaria, se eles respondessem, como
deveriam, que eles pensavam bem nisso, que eles não procuram
assim senão uma ocupação violenta e impetuosa, que os distrai
de pensar em si, e que é por isso que eles procuram um objecto
atraente que os encanta e os atrai com ardor, deíxarram os seus
adversários sem réplica. Mas não respondem assim, porque se
não conhecem a si próprios; não sabem que não é senão a caça e
não a presa o que eles procuram...
Têm uminstinto secreto que os leva aprccurar a diversão e a
ocupação exterior que provém do sentimento das suas misérias
continuas; e têm outro instinto secreto que lhes foi deixado pela
grandeza da nossa natureza primitiva, que lhes faz conhecer que
a felicidade só reside efectivamente no repouso e não no túmulo;
e desses dois instintos contrários se firma neles um projecto con-
fuso, que se oculta a sua vista no fundo da sua alma, que os leva
a tender para o repouso pela aqitação e a imaginar sempre que a
satisfação que não têm lhes aparecerá se, vencendo algumas difi-
culdades que encaram, puderem abrir por ali a porta à tranqui-
lidade.
(PASCAL,Pensamentos, capo v).
Entre os escritores de segunda ordem, este abuso
atinge um processo seco e uma aspereza desagradável.
como podereis avaliar por estas linhas:
Será possível que se não possa encontrar ninguém que repre-
sente ao Rei o miserável estado em que está o Padre Du-Breuíl,
para obter que se trate ao menos com indulgência um homem de
bem, como a que têm por um padre tão ruim, como é o que está,
presentemente, tão à sua vontade no seu mester em Paris?
(Carta de Arnaud, SAINTE-BEUVE, Port-Roçei,
t. v, capo VI).
128
A ARTE DE ESCREVER
É justo dizer-se que os referidos escritores têm
milhares de páginas, onde quase se não encontram os
ques, e que tais páginas são as melhores das suas obras.
Quase todos tinham na cabeça a construção lata e
preferiram soldar os seus pensamentos com aquelas
duas cavilhas a fazer com elas muitas frases.
O abuso dos ques acabou por desaparecer da nossa
literatura.
Flaubert proscrevia-os, como ao maior escolho da
harmonia.
Épreferível não os multiplicar e servir-nos deles
sobriamente; mas não há que hesitar, quando a clareza
e a originalidade se impõem.
Não obstante, podem suprimir-se, em muitos casos,
como nas frases seguintes:
Este costume que achavam
-ridículo ...
Por: este costume julgam
ridículo ...
Esta passagem que é citada
em tal livro ...
Por: Esta passaqern citada
em tal livro ...
omancebo que avistara na Por: o mancebo avistado
véspera... na véspera ...
O que relativo e o que regime podem substituir-se
-quase sempre.
Épreciso, pois, quando se escreve, não só evitar
o encontro de sons desagradáveis e as más dissonãn-
cias. mas também procurar a fluência musical.
Pode-se, assim, precavendo-se, "acostumar o ouvido
ao estilo harmonioso e obter, em verso ou prosa, belís-
simos efeitos.
..•.
A ARTE DE ESCREVER
129
Escutai os conselhos, que nos dá um poeta, em
versos de uma cadência muito variada:
Se queres descrever ligeiros zé firas,
Murmure o suave arroio
Em versos suavissimos.
Se referem as ondas agitadas
O verbo trocará como torrentes
Correndo emcatadupa.
Se Ajax ergue umpenedo.
E o arremessa, comcusto.
Pesada é cada sílaba.
E as palavras arrastam-se.
Mas. se vires Camila
Aflorar a serena superfície
Das águas prateadas.
O verso voa e ergue-se.
Ligeiro, como as aves.
(DELlLLE) •
Quantos exemplos harmoniosos se não podiam tirar
dos bons autores. quase em cada página!
Um marido chora aos pés do leito onde agoniza sua
mulher:
Ela já não ouvia de dentro todos os ruídos da terra. senão o
intermitente lamento daquele pobre coração. lamento doce e
indistinto. como os últimos ecos de uma sinfonia, que se afasta.
(FLAtlBERT. Madame Bovary).
O astro-rei inclina-se ao poente
E desce do seu carro vitorioso.
A nuvem flamejante. que o esconde.
Mantém no espaço, emsulcos coloridos,
Os vestígios do astro e a flux espalha
130
A ARTE DE ESCREVER
(LAMARTINE) .
Revérberos purpúreos. No horizonte,
Campeia a lua, como áurea lâmpada,
No azul suspensa, e os seus froixos raios
Alastram-se no campo, e o véu da noite
Estende-se nos montes.
Ouvir das harpas o gemer saudoso,
Vaguear, cismando, quando as andaluzas
Assomam à janela e atiram flores!
(VíTOR HUGo).
Há palavras que, pela sua cor antiga, grega, latina
ou exótica, têm uma harmonia própria, e que, aplicadas
num bom estilo. produzem maravilhosos efeitos.
Êo que torna encantador o fragmento seguinte, um
dos melhores, que se poderão ler:
Uma noite em Roma
Escuta! a minha Egéria canta à beira da sua fonte; ouve-se
o rouxinol na vinha do hipogeu dos Cíptões: a brisa lânguida da
Síria traz-nos indolentemente o perfume das túberas selvagens ...
Os manes de Délía. da Lálaqe, de Lídia, de Lésbía, de cima
das cornijas desmanteladas. murmuram em volta de ti, palavras
misteriosas.
Os teus olhares cruzam-se com os das estrelas e confundem-se
com os seus raios. Uma nuvem vaporosa ergue-se e envolve o
olho da noite. de retina prateada.
O pelicano grita e volta para os areaís: a galinhola desce
sobre as fontes diamantínas: o sino tange na cúpula de S. Pedro;
o cantochão nocturno, voz da Idade Média, entristece o mosteiro
insulado de Santa-Cruz; o monge salmodía, de joelhos, o laudes
sobre as colunas derruidas de S. Paulo; prostram-se vestais sobre
a laje gelada que cerra as suas criptas.
~-
A ARTE DE ESCREVER
131
Ventos dos laranjais de PaI ermo, que soprais sobre a ilha de
Círce: brisa, que passas pelo túmulo do Tasso, que acaricias as
ninfas e os amores da Farnesina; vós, que doidejais no Vaticano,
entre as virgens de Rafael e as estátuas de Musas; vós que
molhais as vossas asas nas cascatas de Tívoli; génios das artes,
que viveis de obras-primas e adejais com as recordações, vinde;
sómente a vós eu permito que inspireis o sono de Cintia.
(CHA TEA UBRIAND, Memórias).
Evidentemente, todo o efeito harmônico deste fra-
gmento procede da magia das palavras.
Algumas palavras têm uma particular sedução, que,
aliada a brilhantes epítetos, produz singular encanto
musical.
Relede, por exemplo, o retrato do Sumo Pontífice,
na Salambó:
Em Cartago, ninguém era mais sábio do que ele. Na sua
mocidade, estudara no colégio dos Mogbedes, em Borsípa, pró-
ximo da Babilónia; depois visitara Samotrácia, Pessínonte, Efeso,
a Tessálía, a [udeia, os templos dos Nabateus, que estão dís-
persos nos areais, e, desde as cataratas até o mar, percorreu,
a pé, as margens do Nilo. Com o rosto coberto de um véu e agi-
tando archotes deitara um galo preto sobre uma fogueira de
sandáracas, diante da Esfinge, mãe do Terror. Desceu às cavernas
de Prosérpina; viu girar as quinhentas colunas do labirinto de
Lemnos e resplandecer o candelabro de Tarento, que sustinha na
sua haste tantas lâmpadas, quantos os dias do ano.
(FLAUBERT. Salambó).
E estes belos versos de linguagem tão doce:
o Ânio inda segreda
Aos rochedos de Tíbur
Um doce nome. Cintia;
Vauclusa inda conserva
132
A ARTE DE ESCREVER
Outro nome querido. que é o de Laura,
E Ferrara. nos séculos futuros.
Há-de repetir sempre
O nome de Leonor.
Oh! ditosa a beleza.
Que os poetas adoram!
Há um encanto. uma música especial. não somente
nas palavras exóticas e raras. mas até nas palavras
ordinárias da língua. segundo o emprego que se faz
delas.
A prova de que há certa harmonia nas palavras.
consideradas em si próprias ou conjugadas. é que se
obtêm com elas. muito Iàcilmente, efeitos de harmonia
imitativa. e-
As palavras vêm alinhar-se por si mesmas debaixo
da pena:
O reboar surdo do trovão...
O leão redobra os seus rugidos...
Ela ouvia ainda o movimento rítmico dos mil pés que dan-
çavam...
(FLAUBERT) •
O rugido do leão. rouco e cavernoso. como um eco num
aqueduto.
(FLAUBERT) •
Os peitos estalavam como caixas. sob os pés dos elefantes.
que os esmagavam.
(FLAUBERT) .
O vento áspero soprava sobre aqueles crânios insepultos.
(V. HUGo).
A tristeza salta-lhe para a garupa e galopa com ele.
(BOlLEAU).
·L _
A ARTE DE ESCREVER
133
A fadiga:
Num íngreme caminho pedregoso
Em que o sol dardejava,
Seis valentes cavalos
Puxavam por um carro.
Mulheres. frades. velhos.
Todos ali se tinham apeado.
Os cavalos suavam.
Arquejavam e o passo suspendiam.
. (LA-FoNTAlNE).
A preguiça:
Ouvindo tais palavras. a preguiça
Sente a língua qelar-se-lhe na boca.
Escusava de ter falado tanto;
Boceja. estende os braços.
Fecha os olhos e dorme.
(BoILEAu).
ovento:
Enche-se de pavores
Como um balão. fazendo
Burburinho infernal; sopra. ruge. estrondeia...
(LA-FONTAlNE) .
Há um século que a prosa francesa é manejada por
artistas, que a solidificaram de uma forma admirável
e lhe fizeram emitir novas sonoridades (Chateaubríand,
Gautíer, Huqo, Flaubert, Leconte de Lísle, Heredia, etc.}.
A linguagem, com efeito, tem evidentes harmonias.
Pode exprimir a rapidez. por uma sequência de
sílabas breves:
"'-----
134
A ARTE DE ESCREVER
o momento, em que falo, está já longe de mim;
ou a lentidão, por uma seqüência de sílabas longas:
Traçam difícil sulco os passos vagarosos.
Épreciso um esforço para ler tal verso.
Também Boileau dá uma impressão de luta e de
obstáculo nestes versos sobre a tomada de Namur:
... Sobre montões de lanças,
Cadáveres e penedos,
Abrir caminho largo.
Um crítico, para caracterizar a dureza, dirigiu esta
estrofe a Vttor Hugo:
Onde haverá quem bem te exalte, ó Hugo?
Quem te íará justiça?
De rochedo em rochedo,
Quando subirás tu, ó homem raro,
Ao monte, que se chama Academia?
...
Não obstante, esse mesmo Vítor Hugo escreveu
milhares de versos, de uma irrepreensível harmonia:
Na sombra nupcial. solene e augusta,
Os perfumes da noite
Pairavam sobre Gálgala;
E dos moitedos de albas Iiláceas,
Um fresco e doce aroma se evolava.
oemprego da harmonia imitativa só pode ser pas-
sageiro.
Seria um abuso procurá-Ia sempre, e caie-se-ia no
"'~
A ARTE DE ESCREVER
135
artificial e no pueril, como nestes versos, emque Ron-
sard quis imitar o voo da andorinha:
Guiada pelo zéfíro
Sublima-se no espaço.
Volteia. revolteía,
E solta um lindo grito.
Em que há risos e tais bálsamos
Para os nossos espíritos.
Que não sei descrevê-los.
o que se deve realizar, o que se deve procurar,
é a harmonia geral das palavras, por uma feliz mescla
de vogais e consoantes, de longas e breves. como nos
versos seguintes, quetêmumaflexibilidade eumavarie-
dade notáveis:
---~
-to'
Como nuvem que passa.
Desvaneceu-se a minha primavera!
E nunca mais meus olhos
Verão os traços da fugaz ventura.
Arrebatados à terra
Pelo sopro cruel da tua cólera
Irei adonde nunca mais se volta.
Os meus vales. a minha moradia,
E estes olhos que choram.
Não mais verão os meus passos.
(LAMARTlNE) •
Marmontel diz:
- «As vogais não são todas iguais e bilhantes;
a voz agrada mais no somdo a e do 0, que nas outras
vogais.»
Compete a um ouvido exercitado distinguir todos
esses cambiantes e evitar as palavras que produzam
somdesagradável e repreensível.
136
A ARTE DE ESCREVER
A prosa oferece tão belos efeitos como a poesia na
arte de dar vida a uma imagem pelo som das sílabas:
A coruja voa silenciosamente. como enchumaçada de algodão
em rama. A comprida doninha introduz-se no ninho sem tocar
numa folha. A Iuínha fogosa, de sangue quente, é tão rápida,
que num momento sangra pais e filhos, degola toda a família.
(MICHELET) •
Ainda uma vez, não vos deveis preocupar com as
dificuldades, que pode apresentar a procura da har-
monia imitativa. Fàcilmente a encontrais.
Todas as línguas têm os sons necessários para pro-
duzir um movimento, ou uma impressão física.
Pouco é preciso juntar a palavras como assobiar,
murmurar, gritar, estalar, uivar, mugido, uivo, eco,
gorjeio, murmúrio, clamor, burbuiinho, gemido, para
obter a harmonia imitativa.
Disse Villemain:
ocarácter primitivo das línguas está emfazer-se ouvir, o mais
que se possa, o objecto e a ideia pelo som; e esse carácter é-lhe
tão essencial, que resiste a todas as épocas... A língua figurativa,
aquela que pinta pelo som, ficou sendo a força e a vida de toda a
linguagem humana; e o espírito do homem nunca renunciará
a ela.
Esta relação do som com o objecto não é limitada a alguns
casos, emque nos impressiona por uma forte onometopeie, encon-
tra-se em toda a parte; nas palavras compostas da nossa língua,
como nos derivados das línguas estrangeiras, para a expressão
das ídeías, como para a expressão das coisas.
Tal relação é, a certos respeitos, a primeira etimologia das
palavras.
A ARTE DE ESCREVER
137
Não é somente por imitação de grego. ou do latim tremere,
que fizemos a palavra [remir; é pela relação do som com a como--
ção que se exprime.
Horror, terror, meigo, suave, corar, suspirar, pesado, leve,
não vieram para nós do latim somente, mas do sentido íntimo
que reconheceu e adaptou esses termos. análogos à impressão
do objecto.
Lição Oitava
A harmonia das frases
A harmonia das frases. - O equilíbrio. - A construção. - Os
períodos. - Como construir uma frase? - Processos contem-
porâneos. - A Proposição. - Digressões e desvios. - Har-
monia por coesão. - Importância da harmonia. - A falsa
harmonia.
Assim como as palavras. segundo os sons e as suas
combinações. produzem uma harmonia. que anima o
estilo. assim a construção das frases produz uma har-
monia geral. que domina o estilo e lhe dá a sua cadên-
cia. o seu aspecto definitivo.
Uma frase tem número, quando está construí da e
se desenvolve num ritmo largo segundo as exigências
da respiração.
Um período éuma frase. dividida entre alguns mem-
bros (os quais se podem subdividir emfrases incidentes)
e cujo sentido completo está suspenso até a última e
perfeita pausa.
138
A ARTE DE ESCREVER
A construção das frases é o segredo da arte de
escrever.
Como há uma infinidade de maneiras de construir
frases. o que depende da maleabílídade pessoal do espí-
rito seria difícil dar conselhos minuciosos.
Fixemos observações gerais. alguns princípios. que
explicam a maior parte dos casos.
Seja qual for o assunto de que se tratar. não é
necessário escreverem-se sempre longos períodos.
Não se deve adoptar mais o estilo de frases longas.
do que o estilo de frases curtas. A mescla é que produz
a variedade. Nada é mais agradável. do que descansar
o espírito emfrases breves. depois de termos lido frases
majestosas.
Um estilo amplo e firme é todavia mais sedutor.
de mais relevo e mais estimado. do que um estilo de
fôlego curto.
Os belos períodos provam que se tem fôlego. Com
igual mérito. as frases curtas serão sempre de mais
difícil realização.
Os belos períodos exigem trabalho complicado. ao
passo que umartigo de jornal se pode fazer sem grande
esforço.
O período constitui o mecanismo mais importante
da arte de escrever. É uma parelha que tem de se
guiar. Não se devem perder as guias de nenhum dos
cavalos que governamos; cumpre caminhar sempre para
umalvo, obviar os obstáculos, alinhar bem as regências.
conservar a clareza e a lógica, prodigalizando imagens.
Não há grande dificuldade em explicar as diversas
formas, que um período pode tomar. Convém todavia
A ARTE DE ESCREVER
139
que o leitor, que decerto as conhece, tão bem como
nós, tenha sob os olhos alguns exemplos de períodos,
com o auxílio dos quais poderá avaliar o alcance dos
nossos conselhos.
Perlodo de dois membros sem incidentes
Seja qual for a indiferença do nosso século pelos talentos que
o honram, ~ presta, pelo menos, justiça àqueles que já não
existem.
(TOMÁS).
Poderia juntar-se um incidente a cada um dos dois
membros daquele período simples, e ter-se-ia umperíodo
de dois membros com incidentes.
Podemos, como éfácil ver-se, juntar a cada membro
um ou dois incidentes.
Perlodo de dois membros com Incidentes
Aquele que reina nos Céus, e de quem dependem todos os
impérios e a quemsó pertence a glória, a majestade e a indepen-
dência, ~ é também o único que se glorifica de fazer leis para os
monarcas, e de lhes dar, quando lhe apraz, grandes e terriveis
lições.
(BOSSUET) .
Perfodo de três membros
Se a equidade reinasse no coração dos homens; se a verdade
ea virtude lhes fossemmais queridas do que os prazeres, a fortuna
e as honras, nada poderia alterar a sua felicidade.
(MASSILON) .
oque produz o encanto e o brilho de um período
é o andamento progressivo das palavras e das idéias.
140
A ARTE DE ESCREVER
Perlodo de quatro membros
Amar-vos um pai - é um sentimento que a natureza ins-
pira; - mas ter-nos um pai, tão esclarecido, testemunhado essa
confiança, até ao último suspiro, é o mais belo testemunho que
a vossa virtude poderia lograr.
(BoSSUET) .
Há longas frases, que nem por isso são períodos r,
mas simplesmente frases inumerativas:
Vereis numa só existência todos os extremos das coisas huma-
nas; a felicidade semlimites, assim como as misérias; uma longa
e tranquila fruição de uma das mais nobres coroas do Universo; J . " "
tudo que de mais glorioso pode dar o nascimento e a grandeza,
acumulados sobre uma só cabeça, que, em seguida, é exposta a
todos os ultrajes da fortuna, etc,
(BOSSUET).
A primeira condição para se escrever uma frase,
seja qual for a sua extensão, é observar-lhe bem a
lógica, o equilíbrio e a proporção. ~
A lógica.
Devem construir-se as frases, segundo aordem natu-
ral dos pensamentos e das regras gramaticais; o sujeito,
o verbo e o atributo.
Não se deve dizer:
Deus deu a todas as criaturas humanas a sua graça.
Mas:
Deus concedeu a sua graça a todas as criaturas
humanas.
Também se não deverá dizer:
Esta prova pareceu a todos os filósofos insuficiente;
A ARTE DE ESCREVER
141
mas sim: esta prova pareceu insuficiente a todos os
filósofos.
E assim, numa frase mais longa, em vez de:
Como ousar crer, após tais ameaças, que ele volte?
Dír-se-á :
Como ousar crer que ele volte depois de tais ameaças?
Os complementos estavam muito afastados dos ver-
bos que os regem; era preciso colocá-Ios mais próximos.
Falta de lógica, que é também falta de harmonia.
A prova é que podeis, alongando o defeituoso mem-
bro da frase incriminada, empregar o mesmo arredou-
<lamento, que deixará assim de ficar defeituoso.
Poderá, portanto, dizer-se, aceitando estes exemplos:
Deus concedeu a todas as criaturas humanas a sua graça
divina e fortificante, essa graça de que é pródigo. etc.
Esta prova pareceu a todos os filósofos insuficiente e mal
apresentada.
Como crer, após tais ameaças, que ele volte. que se atreva a
apresentar-se?
~ Defeito de disposição e de lógica, de que resulta
um estilo estropiado. é o que se nota nesta frase de
um autor contemporâneo:
I
Fora atingido por uma dessas febres terríveis. cuja extraor-
dinária violência só se pode avaliar. experimentando-as.
Lemos ultimamente. na Revista dos Dois Mundos,
esta frase de um acadêmico ilustre:
Passou emrevista o dogma católico. comuma se.gurança de
doutrina. igual ao brilho da sua palavra.
142
A ARTE DE ESCREVER
São construções dissonantes, que raiam pela incor-
recçâo.
Saínt-Beuve descreve uma procissão das raparigas
de Pon-Royal.
A proporção dos membros de frases entre si produz
o equilíbrio e a harmonia de um período.
Épreciso que os incidentes ou as proposições prín-
cipais sejam, entre si, pouco mais ou menos, de com-
primento igual, e que a frase termine em sonoridade
extensa.
Noutros termos, é preciso que a construção sustente
a voz sem a fatigar; que haja nela, de distância em
distância, pausas de sílabas, com bastante variedade na
cadência, para evitar a monotonia de estrutura; e, Final-
mente, que tudo isto se observe, sem detrimento da ela-
reza e da concisão.
Bossuet possuiu, no mais alto grau, esse dom admí-
rável, já nas suas frases simples, já nos seus períodos
complicados.
Eram mais brilhantes de caridade, que os círios que levavam
nas mãos.
Dír-se-ía que um círio pode ser também brilhante
de caridade.
Construindo melhor a frase, ter-se-ia dito sem anfi-
bologia:
A caridade tornava os seus rostos mais brilhantes. que os cirios
que levavam nas mãos.
T
"
" -
A ARTE DE ESCREVER
143
Eis aqui uma frase simples que é modelo de har-
monia, de talhe, de pausa e descanso final:
Esta orgulhosa sabedoria do século, que, não podendo com-
preender a justiça das vias de Deus, emprega todas as suas falsas
luzes em contrariá-Ias, é maravilhosamente confundida pela dou-
trina do Evangelho e pelos sagrados mistérios do Salvador Jesus.
(BOSSUET) •
Lede também em voz alta o seguinte trecho de
Bossuet, mais complicado, mas requintado no desenvol-
vimento e na pausa harmônica das vogais:
Multiplícai os vossos dias, como os veados e os corvos que a
Fábula ou a história da Natureza faz viver, durante tantos séculos;
durai tanto como esses grandes carvalhos, sob os quais os nossos
antepassados descansaram e que darão ainda sombra à nossa pos-
teridade; amontoai nesse espaço, que parece imenso, honras, rique-
zas, prazeres; de que vos servirá esse amontoamento, visto que
o último sopro da morte, tão fraco, tão débil. abaterá de repente
essa pompa vã, com a mesma facilidade com que se desfaz um
castelo de cartas, fútil entretenimento de crianças?
Para se obter harmonia, não há melhor regra, que
o conselho dado por M. A. Henry, no seu Curso de
Literatura:
Fazeí que o som se sustente ou vá mesmo emcrescendo até
o fimda frase e que esta termine comos membros mais extensos
e as palavras mais sonoras.
Épreciso, noutros termos, que a melodia vá cres-
cendo e se vá ampliando, como neste exemplo:
144
A ARTE DE ESCREVER
A quemimpende tocar os corações. senão à verdade? Ela é
que há-de aparecer a todos os corações rebeldes no dia final. Sim.
deparar-se-lhe-à, até no fundo do abismo; espectéculo horrível a
seus olhos; peso insuportável sobre as suas consciências; chama
sempre deooredore em suas entranhas.
(BOSSUET).
Quintíliano preceituou:
- «Não haja nada de duro nem de precipitado.
no final do período. Êaí que o espírito respira e se
desafoga; o descanso do discurso.»
A maior parte dos escritores da nossa época per-
deram o gosto das belas construções clássicas. dos dís-
eretos preceitos da frase bem feita.
Tem-se abusado dos incidentes. deploràvelmente.
Em vez de se cuidar da arquitectura da frase. como
fez Flaubert, com uma consciência a que a crítica deve
prestar justiça. hoje em dia gostam mais de escrever.
como direi? confusamente. fazendo seguir os incidentes.
uns após outros. de forma que as frases se sobrecar-
reguem de palavras e fiquem longas sem ficarem equí-
libra das.
Há um defeito de proporção e uma falta de lógica.
a que é difícil habituarmo-nos, quando acabamos de
ler grandes escritores clássicos.
Fingem desdenhar da forma. para se não preo-
euparem senão da sensação.
Os Goncourts principalmente foram os mais auda-
ciosos desarticula dores do antigo estilo; tudo partiram.
misturaram. confundiram e trituraram.
+
i
I
r
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I
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I
i
1
A ARTE DE ESCREVER
145
Eis aqui uma frase característica, que representa bem
a acumulação e o abuso dos incidentes, de que falámos.
Trata-se da passagem por Paris, de uma famosa
pintora:
La-Tour pudera assistir a esse triunfo do pastel. a essa for-
tuna dos carvões da Veneziana, visitada pelo Regente, procurada
pela alta sociedade, cheia de comendas e de dinheiro, solicitada,
exorada, para umretrato pelos Paraberes e pelos De-Príes, pelas
mais nobres damas da corte, apaixonadas pelo encanto dessa arte,
que dá à mulher não sei que tênue 'Vida de nuvem, um quê de
semelhança com uma flor colorida.
(E. E J. DE GoNOOURT, A Arte do século XIX 1.&série,
pág. 324).
Como se vê, os incidentes e os particípios estão
ligados seguidamente, como um rosário.
Ora se referem à «Veneziana», ora às grandes
«damas da corte», ora ao «encanto daquela arte», e
tudo na mesma frase, por um escandaloso processo de
mistura acumulativa.
Zola não escreve de outra forma.
Uma escola inteira se pôs a explorar esse género
de impressionismo descritivo, que consiste em descons-
truir a frase e o estilo.
Em verdade diremos que será sempre mais difícil,
mais estético e mais meritório fazer um belo período;
e depois, as descrições de Chateaubriand, principal-
mente nas Memórias de Além-Túmulo, posto que de
um estilo clássico e regular, não têm menos intensi-
dade e são tão vivas, tão modernas, como as descrições
de hoje.
10
-T·
. . . ••.
146
A ARTE DE ESCREVER
Pedro Loti, o autor comovente do Pescador de
Islândia, é também um dos que mais empregaram neste
proveito da sensação crua, o estilo descrito:
Todas as minhas impressões cambiantes desta noite se fun-
demagora neste desejo enternecido de a tornar a ver, emimpulso,
quase semesperança, para ela.
(LOTI. Fantasma do Oriente, pág. 39).
Ou ainda:
Somente na sua visão final ele imaginara... ~Da primeira
vez que ela o avistou, aquele Yann... ~Aquele pequeno Silves-
tre tornara-se desde logo numa espécie de irmão... E. nas suas
bodas, estavam lá todos, aqueles que ele tinha convidado outrora,
todos, excepto Silvestre, que fora dormir para os jardins encan-
tados, muito longe do outro lado da terra.
(LeTI, Pescador de Islândia).
Mas daqui não se conclua que autores, como Loti,
não são escritores notáveis. Seria cair num preconceito
e condenar, ao mesmo tempo, o estilo desordenado de
Saínt-Símon, que não brilha pela harmonia, nem pela
ordem, nem pela construção.
O estilo, que se observa emnosso tempo, é o resul-
tado da própria evolução da arte de escrever, nos últi-
mos trezentos anos.
Demais, cada um escrever como pode e como quer,
visto que o estilo éa expressão individual do pensamento.
Num livro contudo, como este, num livro de teorias
e de demonstrações, épreciso aconselhar que se remonte
às origens, à unidade, à tradição da língua. aos pro-
-
I
A ARTE DE ESCREVER
147
cessos lógicos e clássicos da verdadeira e grande arte
de escrever.
Observemos o desleixo, a afectação, a extravagância
dos processos; e desculpemo-nos, porque isso também é
estilo; mas não os tomemos como lição ou exemplo.
Em resumo, a proporção, o equilíbrio, a lógica são
o que deve determinar a priori, a harmonia de uma
frase; e é cuidando especialmente dos finais que se
obterá o efeito musical, completo.
A frase deve ser cadenciada, bem terminada, bem
proporcionada. Se, num primeiro membro, pusestes dois
ou três epítetos, é preciso pôr igualmente dois ou três
no segundo membro.
Sem isso, o estilo tem qualquer coisa de casual, de
incompleto, um andamento de quem cavalga.
Impressionável e viva na juventude, indiferente e pesada na
velhice, a imaginação diminui e perde-se, à medida que o corpo
enfraquece.
Eis aqui uma frase que não é harmoniosa, quer se
leia com os olhos, quer se diga em voz alta.
Emparelhemos outro verbo com enfraquece. e tere-
mos esta frase:
Impressionável e viva na juventude, indiferente e pesada na
velhice, a imaginação diminui e perde-se, à medida que o corpo
se gasta e enfraquece.
O perigo está em que, quando se quer balancear
o equilíbrio das palavras, se juntem palavras inúteis e
inexpressivas.
148
A ARTE DE ESCREVER
É o pior defeito; antes a dureza e a dissonância,
o enfado e a vulgaridade.
Os membros de frases, o número dos verbos ou dos
epítetos devem, portanto, corresponder-se sempre; e
devem as frases terminar, quanto possível. musicalmente,
como nestas melodiosas linhas:
ojusto considera a sua vida, ora como o fumo, que se eleva,
que se rarefaz elevando-se. que se desvanece nos ares; ora como
a sombra que se estende, se contrai, se dissipa, escura, viva e
figura fuqidía.
(FLÉCHIER) .
Evitai acumular, numa só frase, pensamentos que
não têm relação bastante entre si e com os quais se
possam formar algumas frases separadas.
Assim, esta frase de uma tradução de Plutarco,
citada por Blair:
Os Gregos (comandados por Alexandre), marchavam através
de uma região inculta, cujos habitantes selvagens não tinham
outra riqueza. senão uma raça de carneiros de má qualidade. cuja
carne era insípida porque se alimentavam continuamente de peixe
do mar.
T
;
Como se vê. passa-se aqui de um sujeito a outro,
as ídeías acumulam-se, atropelam-se, sem razão. Seria
necessário fazer duas ou três frases e dizer:
Os Gregos marchavam através de uma região inculta. Os sel-
vagens. que habitavam essa região. não tinham outra riqueza.
'senão uma raça de carneiros ruins; além de que a carne desses
animais era insípida. porque se alimentavam. etc.
A ARTE DE ESCREVER
149
Devemos evitar também as digressões eos parêntesis.
Por digressões, compreendo os caminhos de través,
os desvios que a ídeía principal pode tomar, passando
bruscamente de um objecto para outro, como neste
exemplo:
Logo que deixei a carruagem, os meus amigos acompanha-
ram-rne e apresentaram-me ao dono da casa, que me recebeu com
a amável solicitude. cujo segredo ele e os seus possuíam, desde
que habitavam aquela velha casa ediiicede garridamente à beira
do mar, cujas águas azuis se viam agitar e brilhar, à luz do sol.
Exageramos talvez o processo, para que ele ímpres-
sione os vossos olhos.
Uma frase é um pensamento capital.
Para sermos fiéis ao sentido, à lógica, à harmonia.
énecessário que os acessórios a não apouquem, e a não
façam nunca perder de vista.
Os parêntesis prejudicam igualmente a harmonia
das construções.
Eis uma frase de La-Bruyêre :
A maior parte dos homens para conseguirem seus fins, são
mais capazes de um grande esforço, do que de uma longa perse-
verança.
Bastaria um parêntese para a estragar se díssês-
semos por exemplo:
A maior parte dos homens. para conseguirem os seus fins
(cada qual tem um fimem vista). são mais capazes de um grande
esforço, do que de uma longa perseverança.
-
<.
;FT '. --.• _1 4 = : ; = r _ .
150
A ARTE DE ESCREVER
Sobretudo não acrescenteís nada às frases, quando
se vêem concluídas, como neste exemplo aduzido por
Blair:
Alguns espíritos presumidos censuram tão grosseiramente a
poesia antiga, para dar preferência à poesia moderna, que se não
pode ler nemo elogio de uma nema crítica da outra, semindigna-
ção, sentimento que é vivamente despertado pela arrogância.
Este último membro juntou-se à frase, para a arre-
dondar; mas, realmente, éinútil, porque nada acrescenta.
Examinando de perto o tom e o som dos estilos dos
diversos escritores, pode dizer-se que há duas espécies
de harmonias: uma é ampla, voluntàriamente extensa.
majestosamente solene, produzida, não só pela combi-
nação das frases, mas em que também entra o efeito
musical de certas palavras imaginosas, coloridas e
excepcionais.
Cabe nesta categoria aquele fragmento célebre que
Fontanes nunca podia reler sem chorar:
Ligeiros barcos da Ansónia, sulcai o mar calmo e brilhante;
escravos de Neptuno, desfraldai a vela, ao sopro amoroso dos
ventos...
Voai, aves da Libia, cujo colo flexível securva graciosamente;
voai para a cumeada de Itome c ide contar que a filha de Homero
vai tornar a ver os lauréis da Messéníal
Quando encontrarei eu o meu leito de marfim. a luz do dia
tão querida dos mortais. os prados matizados de flores, e regados
de água cristalina...
(CHATEAUBRIAND. Os Mártires).
A poesia não tem música mais divina, do que uma
prosa assim.
. __ . . _--~
A ARTE DE ESCREVER
151
Há um segundo género de harmonia. peculiar aos
escritores. que a não procuram precisamente nas pala-
vras e na fisionomia das palavras.
Esta harmonia resulta apenas da coesão.
Em geral, quando se não pode cortar uma palavra
numa frase. e as palavras dela se mostram estreitamente
unidas. acha-se harmonioso o estilo. apenas pela força
da concisão.
Assim escrevem Montesquieu, La-Bruyêre e PascaI.
Toda a harmonia que se não identifica coma frase.
que não é resultado da precisão do estilo cerrado. é
apenas harmonia artificial.
Diga-se. desde já. que a harmonia faz parte do
gosto de escrever; não éuma coisa absoluta, matemática.
A combinação dos sons realiza-se à medida que se
escreve: a escolha das palavras majestosas ou musicais
produz-se instintivamente.
O dom da harmonia adquire-se à medida que se
toma cuidado com ela e que se relê o que se escreve.
A cadência de uma frase éapenas questão de cons-
trução.
É preciso possuir fôlego e escrever largamente.
E então se poderão dar ao assunto proporções harmo-
niosas.
Para ver se se obteve o equilíbrio musical, é preciso
reler em voz alta o que se escreveu.
Não se diga que os livros são destinados a ser
lidos e não ouvidos! Os olhos também 'Ouvemos sons.
E assim como o músico ouve a orquestra. percorrendo
uma partitura. bastará ler-se uma frase, para se lhe
saborear a cadência.
____ . ~ííjjiiiT F-·~
.~.,
152
A ' ARTE DE ESCREVER
Contudo, devemos convencer-nos de que a harmonia
não é uma qualidade, senão quando associada às outras
qualidades do estilo.
Moliere e Racíne são dois exemplos notáveis da
necessidade relativa da harmonia.
Racine fez certamente os versos mais harmoniosos
da língua francesa. É o poeta por excelência.
Molíere escreveu os versos mais felizes, os mais bem
concatenados, os mais inesperados, os mais enérgicos,
que se podem ler.
E, não obstante, os seus versos são ásperos, disso-
nantes, escritos ao acaso dos sons e da cadência.
Éque há uma certa beleza de pensamento absoluto,
que está acima até da harmonia e que a pode dispensar.
La-Fontaíne não teve receio de escrever versos extre-
mamente duros, como estes dos Animais Doentes de
Peste:
... Mas eu penso,
Que é bom que cada um acuse assim como eu.
Em nossos dias, desde o romantismo, com a cultura
da fluência, da elegância, da ponderação musical das
frases, habituaram-se. e muitas vezes com razão, a pôr
a ideia e a imagem acima de tudo.
Éassim que Vítor Hugo escreveu tantos e belos
versos, já no teatro, já nas outras suas obras, sem se
preocupar do som das sílabas.
Apesar disso, o cuidado da harmonia, deslocado
talvez e modificado pela poesia, que se chamou livre,
não abandonou Vitor Hugo, mais que a Leconte de
l'Isle, a Herédía e aos nossos modernos poetas.
A ARTE DE ESCREVER
153
o
Opor-nos-ão o exemplo de Saínt-Símon, que escre-
veu à toa, e quis fazer realidades. Isto prova que o
génio e a realidade vão adiante e dispensam tudo: e
que o que se deve ver primeiro é a originalidade, o
dom de pintar, o dom de imaginação e de criação.
A harmonia vem depois.
Êcerto que a harmonia, só por si, quando não há
fundamento para ela, só serve para tornar fastiento o
estilo, e que se torna então uma qualidade insuportável.
Só é essencial ao estilo, quando tira oseu encanto
do valor das palavras e não do seu manejo, que é
sempre fácil de se obter, e que algumas vezes é ela-
ramente oco.
Diz Buffon:
--- «Bastará possuir-se um pouco de ouvido, para
evitar as dissonâncias, e tê-lo exercitado e aperfeiçoado
coma leitura dos poetas, para que, mecânicamente, seja-
mos levados à imitação da cadência poética e do tor-
neado oratório.»
Nada é mais acertado.
Uma frase parecerá harmoniosa; mas se os termos
não forem empolgantes. se a idéia não tiver relevo. se
houver palavras de mais, a harmonia só servirá para
fazer sobressair a trivialidade.
O Visconde de Arlíncourt, esse Chateaubriand sem
talento, é disso memorável exemplo.
A sua prosa é harmoniosissima, mas como nada tem
dentro dela, dá vontade de rir, apesar do inexplicável
êxito que ele logrou com os seus romances O Solitário
e Os Três Castelos.
ia
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e
154
A ARTE DE ESCREVER
Avaliem-se as minhas palavras por estas linhas.
tomadas ao acaso:
o dia tinha sido sufocante e a brisa da noite estava ainda
impregnada desses pesados calores de Junho, que parecem prelu-
diar as tempestades.
Os jardins do solar acabavam de se iluminar com vidros
coloridos. Os tablados de um belo fogo de artifício elevavam-se
sobre um dos relvados do parque; e os bosquetes de Suzannin
tomavam um ar festivo, de encanto, e enchiam-se de uma rnulti-
dão, ávida de comoções. Uma brilhante orquestra fora colocada.
não longe do castelo, ao fundo de uma sala de baile campestre.
disposta sob uma tenda de lona vermelha, ao centro de umgrande
maciço de árvores.
Aquele retiro, guarnecido de flores, donde saíam ondas de
harmonia, era rodeado de palanques, ladeados de espelhos, sobre-
carregados de candelabros e coroados de lustres. Pleiteavam ali
preferências a graça e a riqueza, o esplendor e a elegáncia.
Por toda a parte, aspectos encantadores, novas surpresas;
aqui, um pavilhão de música, onde jovens cantores entoavam
árías modernas; além, um teatrinho de folhagem, onde distintos
actores deveriam, alternadamente, cantar uma opereta e executar
umbailado. De todos os lados, os brasões da Marquesa, empin-
tura e iluminações. Tudo isto só tinha umdefeito, mas um defeito
cruel e mortal: muita pretensão e pompa, um exagero contínuo
em todas as coisas, ruído fatigante, e um alvo constantemente
transposto.
. . .
(ARUNCOURT. Os Três Castelos, I, pág. 140).
Este texto é tão harmonioso como oco. As cinco
primeiras linhas do segundo parágrafo são admirável-
mente musicais.
Mas a harmonia é um ornato, que mais faz sobres-
sair a miséria daquele estilo.
Devemos portanto amar a harmonia, procurá-Ia,
--,-,--c-- ~ ------~---- ••• -__. ••••••
A ARTE DE ESCREVER
155
cultivá-Ia. mas nunca em detrimento da vida. do relevo.
da observação. da originalidade. Deve ser uma quali-
dade por acréscimo. Épreciso colocar acima dela o valor
da ideia e a qualidade das palavras.
Os autores franceses. cuja leitura é. a tal respeito.
mais proveitosa. são Chateaubriand. Bossuet. Buffon e
Flaubert.
Lição Nona
. . . •.
I
A Invenção
Como se inventa. ~A gestação. ~ A sensação pessoal. - Esco-
lher assuntos verdadeiros.
Já dissemos quais são as condições fundamentais
da arte de escrever.
Examinámos as três grandes qualidades que deve
ter o estilo e que. em nossa opinião. resumem todas
as outras.
Sem nos demorarmos em rotular o que se chama
as figuras e as imagens. de que falaremos pràticamente
em próximas demonstrações. tratemos de explicar como
se pode aprender a escrever e a pôr em prática as
aptidões, com que a natureza nos dotou.
Principiaremos pelo estudo da composição.
A composição literária pode definir-se: a arte de
desenvolver um assunto; ou. por outras palavras. a arte
de encontrar ideies, de as combinar, e de as exprimir.
--------- - --.-------
156
A ARTE DE ESCREVER
Daqui esta divisão lógica e natural:
Invenção.
Disposição.
Elocuçêo.
Estas três operações não são rigorosamente distin-
tas; pelo contrário. não se podem separar.
Encontrar um assunto é já díspõ-lo ou pô-lo em
ordem. desde que o observemos e o estudemos. As
vezes. no próprio momento em que se descobre uma
situação. uma cena. vem-rios a expressão e tomamos
nota dela. para não nos esquecermos. Em tal caso. a
elocução antepõe-se à invenção e à disposição.
Aquela divisão porém é boa. geralmente falando.
Trataremos da elocução em último lugar e demo- --::~
radarnente, porque ela engloba também a invenção e a
disposição. visto que faz descobrir coisas novas. que se
devem pôr em ordem.
A Invenção
A invenção éo esforço de espírito. com que se encon-
tra um assunto e os desenvolvimentos que se relacionam
com ele.
Para descobrir um assunto e os recursos que ele
sugere. a primeira condição é reflectir nele. amadure-
cê-lo para romance. fábula. diálogo. descrição. narra-
tiva ou discurso.
Disse Buffon:
«:É por não ter reflectido bastante sobre um assunto
que um autor se vê embaraçado para escrever.»
Portanto. deve sentir-se o assunto.
l
- - - - - - - - - - - - - - - - - - F ~- ~· - - - - - - - - _ _ 4
A ARTE DE ESCREVER
157
odifícil não está no escrever, mas no sentir.
Eis um grande princípio: só se escreve bem. quando
se sente bem.
Sucede-vos um acidente, uma dor; Ferve-vos um
episódio da vossa vida.
Nada mais fácil do que sentir tais assuntos; e, se
quereis descrevê-los, Iá-lo-eis excelentemente.
A dificuldade está em escolher um assunto estranho,
atraí-lo, assimilá-lo, torná-lo familiar, para o poderdes
explorar sob todas as faces, até qu~ dele fiqueis cheio,
saturado.
Se as ideías não vierem, é que o assunto não está
bem amadurecido.
É preciso pensar nele bem, demoradamente, até que
se fique num estado de efervescência tal, que se sinta
a necessidade de nos desembaraçarmos dele.
Só então éque virá a verdadeira fluência; a verda-
deira inspiração.
A necessidade de trazer muito tempo um assunto.
a gestação, numa palavra, é uma condição absoluta
do dom de escrever.
Evidentemente, cada um tem o seu processo dife-
.rente para operar.
Há quem, como Rousseau, não possa escrever senão
depois de ter pensado demoradamente; de forma que
as suas páginas estavam traçadas na sua cabeça, antes
de o estarem no papel.
Outros, pelo contrário, como Chateaubriand, não
podem pôr-se em ebulição, senão sentados àsua secre-
tária; e tanto, que de Chateaubriand se disse que «a sua
pena fazia fogo sobre o papel».
158
A ARTE DE ESCREVER
Da escolha do assunto e da sua incubação prepa-
ratória depende o valor do trabalho.
A invenção consiste em sentir um assunto e dar a
impressão que ele produz na vossa imaginação e na
vossa sensibilidade.
Pela imaginação e pela sensibilidade, aplicadas e
encontradas num tema, é que se descobrem as relações,
as ideias, as aproximações e as imagens que o tema
encerra.
Levais uma ideia a um autor dramático.
Ele exclama:
- «Aí dentro, está uma peça; não vejo, mas há
uma peça.»
Trata-se de a ver.
Para isso, que fará o autor dramático?
Insular-se-à, meditará, aprofundará a ideia, até que
entre nela, até que lhe descubra todas as consequências,
todas as estradas, todos os atalhos, todas as clareiras.
Perguntareis:
- «Como vedes essa cena? Como a sentis?
É que, na verdade, o grande caso está no sentir, seja
ele de que forma for, não segundo as regras e segundo
um modo obrigatório, mas segundo o temperamento
individual.
Um assunto é uma ídeía, uma unidade, é alguma
coisa simples.
Se a imaginação e a sensibilidade não desdobram
essa ídeía descrevendo os aspectos que ela pode ter,
as formas que poderá tomar, diz-se tudo em poucas
palavras, e não se passa disso.
Trata-se, por exemplo, de descrever as sensações
Ol':fVE"S!OADE FEDERAL DE SEftOf".
l~··i2"'.TiTIJ TODE LETr;A5· E ~RTE~
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A ARTE DE ESCREVER
159
de um homem, que caiu a um poço, onde esteve vinte
e quatro horas.
Ponde-vos no lugar desse homem.
Mas, se isso me não aconteceu, como posso adivi-
nhar as sensações que aquele homem teria?
Mas é nisso que está o dom da criação.
A arte não é mais que uma substituição.
Trata-se, como se disse, de nos pormos no lugar
de outro.
Pensai nisto durante muito tempo, evocai essa situa-
ção e notaí, gradualmente, ideias que' tiverdes: o frio,
a água, a noite, a sufocação, o afundamento progressivo,
a duração das horas, o som da voz, o eco, a abolição do
tempo, o silêncio, a vista lá de baixo, o clamor do deses-
pero, o abandono das forças, a extenuação lenta, os
movimentos inúteis do homem que se conserva à tona
da água e que mergulha quando se agita; lá em cima,
o ar puro, alguns gritos de aves, o voo de uma coruja.
vida das coisas lá fora, aquele contraste com a angústia
do paciente, aqueles ruídos de piscina sonora, etc.
Numa palavra, procurar-se-à ter a ilusão do facto
em todas as suas circunstâncias, com a graduação, o
crescendo doloroso, necessário ao efeito, isto é, ao
interesse.
O importante não está em descrever minuciosamente
todos os pormenores de um facto, mas em ter desse
facto uma sensação pessoal e viva.
E evocação voluntária dará essa sensação; e. se
tendes a sensação, os pormenores virão por si mesmos.
É pelo trabalho, sensibilidade e imaginação que se
conserva e fortifica a faculdade da invenção.
A arte de escrever é um perpétuo esforço, salvo
160
A ARTE DE ESCREVER
para grandes génios, que, não obstante, também tra-
balharam muito.
Entre a escolha de um assunto e a sua execução
pela escrita, passa-se um lapso de tempo, uma incuba-
ção mais ou menos longa, conforme as pessoas, e é
talvez esse o mais doloroso momento, a parte mais
penosa do labor literário. Há então uma espera e um
mal-estar intoleráveis.
Nada ocorre, é preciso arrancar do espírito ideias
que não existem, e dominar a apatia do cérebro. É pre-
ciso insulamento, concentração, para esse grande esforço.
Sonha-se, medita-se,
Se a visão tarda, não desanimeis. No dia seguinte
procurá-Ia-eis.
Recomeça-se e vão-se tomando notas.
Disse acertadamente Buffon:
.- «É por não ter reflectido muito, que um autor
se embaraça.»
Quanto mais longe o assunto estiver dos vossos
hábitos e da vossa maleabilidade de espírito, mais
necessitareis de trabalho e de vontade.
Trazei convosco o vosso assunto, trazei-o muito
tempo e por toda a parte; ele acabará por se encarnar
em vós.
Concebe-se que a inspiração seja sempre umesforço.
visto que é uma criação.
Tem-se mais ou menos imaginação, mas pode-se
sempre apurar, desenvolver, aperfeiçoar a parte que
nos toca.
Se a vossa imaginação se conservar fria, alimentai-a
com excitantes.
Lede coisas, que se refiram ao vosso assunto.
l
A ARTE DE ESCREVER
161
l
Quereis 'escrever para o teatro, combinar cenas, fazer
dialogar as personagens? Lede os vossos autores dra-
máticos e observaí-vos nas suas obras.
Quereis pintar uma floresta, que já não tendes à
vista? Então lede, para vos encamínhardes, a descrição
da floresta de Fontainebleau, na Educação Sentimental
de Flaubert, a dos Goncourts, em Manette Selomon,
a Viagem aos Pirenéus, de Taíne, as de Chateaubríand,
Bernardím de Saínt-Pierre, etc.
Despertai com a leitura a vossa imaginação entor-
pecida; é processo que dá sempre bom resultado.
Quantas vezes vos não sucedeu estardes frios, indi-
ferentes, sem expansões imaginativas, sem ideias do
cérebro, sem saber se podereis sentir alguma coisa!
Mas passais àesquina de uma rua; ouvis uma música,
um piano, um órgão: acabais de ouvir uma orquestra,
ou de ver uma paisagem, e, de súbito, as ideias surgem,
a imaginação muda de estado e de disposição. Basta
qualquer coisa para modificar o nosso ser mental e
intelectual.
Para excitar e modificar a imaginação, não há nada
melhor do que a leitura, porque tem a vantagem de se
adaptar às nossas exigências e podemos escolher as
páginas de que necessitamos.
A cultura da imaginação é de uma importância
extrema.
É preciso que ela seja permanente, conservada,
inínterrupta, pois tudo depende da imaginação.
A própria sensibilidade, sob o ponto de vista lite-
rário, não é senão a arte de nos impressionarmos pela
imaginação.
Que é a imaginação?
11
r
162
A ARTE DE ESCREVER
É o poder de representar os objectos, sob forma de
quadros e com os seus pormenores.
A memória tem grande influência na imaginação
literária. Se Iazeís, no mês de Agosto, uma descrição
de uma queda de neve, éa memória que entra emjogo.
Descrevereis então o que vistes; evocareis recor-
dando.
O nosso espírito é uma lâmina fotográfica, em que
fica impresso, mais ou menos tempo, tudo quanto vimos.
É um tesouro que se acumula continuamente e aonde
vamos buscar recursos.'
Devemos portanto enriquecer o mais possível esse
tesouro; reparar bem no que vemos, notar o que sen-
sibiliza, observar minuciosamente, salientar as circuns-
tâncias, fixar e armazenar bem as sensações de toda
a espécie, natureza, carácter e arte, pensando que é ali
que se deverá recorrer, e que a memória combinará
aqueles elementos sob o nome de imaginação.
Quanto mais dificilmente o assunto for assimilável,
mais esforços serão necessários para chegar a senti-Io.
Deve-se, pois, tanto quanto possível, escolher um
assunto que tenheis vivido, ou que pudésseis observar.
Tereis cemvezes menos trabalho emevocá-lo: senti-
-lo-eís mais depressa; os desenvolvimentos virão por si.
A sua investigação terá um atractivo, que vos
animará.
A escolha de um assunto é portanto de uma impor.
tãncía considerável.
Nem todos os assuntos convêm; devem ser propor-
cionados às nossas forças; devemos pesar aquilo que
se pode fazer e de que somos capazes.
Depende disso o valor do trabalho, o talento que
r
~s _Q 2 t
A ARTE DE ESCREVER
163
nele se empregar, a excelência da arte de escrever 'e o
êxito final.
Agrada-nos umassunto e imaginamos poder tratá-lo,
Quando o tentamos, «aquilo não vem», não se pode
apanhar, não sai nada. Às vezes, é por o não termos
meditado muito; mas muitas vezes também, é porque
o assunto não é para nós.
Reconheçamos a nossa incompetência.
Escolhamos, pois, coisas verdadeiras, vividas ou
obseroéoeis.
A verdade, a vida, a observação são condições fun-
damentais de toda a obra literária.
O verdadeiro tem, por si mesmo, uma força con-
tagiosa; a vida comunica a vida; a observação conserva
o estro, a veia.
Ainda quando inventardes, deve haver pontos de
contacto na verdade das coisas; aditai circunstâncias
e digressões, tiradas da vida real e que vos ajudarão
a tratar o assunto; socorreí-vos dos meios e dos seres
que vedes, e Fazei-os coincidir com os raios da vossa
lente.
Procurais um carácter, um retrato?
Tíraí-os dentre as pessoas que conheceis: descre-
vei-os tais quais são; ou tirai uma feição a um, uma
feição a outro, para assim formardes um todo.
Molíêre fez a sua comédia dos Importunos, obser-
vando o que diziam os maníacos da Corte.
É assim que procedia Afonso Daudet, que deveu
a este método o ter produzido obras cheias de vida.
Não nos esqueçamos de que o próprio Luís XIV
também indicou a Moliere certos modelos dos Impor-
tunos.

164
A ARTE DE ESCREVER
A cena dos Advogados, de Racíne, entre Chícaneau
e a Condessa, era a narrativa de uma aventura recente.
A Metromenie, peça clássica de Píron, é baseada
numa anedota verdadeira.
A sociedade, que se reunia no palácio de Ram-
bouíllet, foi posta em cena por Molíêre.
Os retratos da comédia de Destouches, O Meldi-
zente, eram copiados do natural.
Manon Lescaut é a história do Padre Prévost. Etc.
Um carácter, extraído da realidade, é uma chave
que facilita os desenvolvimentos.
Se estamos embaraçados para descrever uma cena
ou fazer dialogar personagens, ° carácter conhecido
a priori cortará a dificuldade.
Desde que está em jogo um indivíduo, que vós
conheceis, sabereís como ele tomará ° caso, como se
portará, o que responderá.
É condição importante; Iíxaí-a bem.
Precisais de uma paisagem?
Ide vê-Ia e tomai apontamentos no local, a não ser
que tenhais bastante memória plástica para a repro-
duzir. (Voltaremos a este ponto; v. descrições).
Desejais uma intriga? É °que mais abunda na vida.
Só tereis a dificuldade da escolha.
Medítaís num diálogo? Ide ouvir os verdadeiros
conversadores, principalmente as mulheres, e retende-
-lhes °tom.
A escolha de um meio, exacto, conhecido, é iqual-
mente decisivo.
Tendes o plano de uma novela; mas estais ernba-
raçados, porque °meio, em que a colocais, é vago.
Localizais a vossa novela em ponto conhecido e não
I
I
';ao
,
~.
A ARTE DE ESCREVER
165
imaqínârío. a plano logo tomará corpo e desenvol-
ver-se-à. Experimentai e vereis.
Quereis escrever literatura imaginosa, idealista,
romântica? Ainda neste caso, não sentireis o assunto
e só o tratareis bem, transpondo-o, dando-lhe ilusão,
a aparência de vida.
aD. Quixote é um exemplo notável. Tudo ali é
imaginado e tudo parece verdadeiro.
Se a vossa personalidade é o assunto que melhor
sentís, falaí-nos de vós.
Vede quanto Montaigne deveu ao seu eu.
a Padre Prêvost, que escreveu tantos livros, fez
uma obra-prima no dia em que escreveu a sua própria
história em Manon Lesceut.
A melhor obra de Alfredo de Vigny é aquela que
ele viveu pessoalmente, Servilismo e Grandeza Militar.
asegredo do talento de Afonso Daudet e Pedro
Loti é. naquele. a observação rigorosa. e neste a força
das coisas vistas ou vividas.
Verdade. vida, observação. eis as três qualidades
que dominam a arte literária e a que se devem subor-
dinar todas as operações do espírito.
Como só se fazem narrações para agradar e para
convencer. perde-se o alvo. se caminhamos contra a
verdade, a verosimilhança e a experiência.
Assim o autor da Henriede andou mal-avisado.
fazendo viajar Henrique IV até Inglaterra, visto que
se sabe que aquele rei não pôs lá os pés nem teve nunca
entrevistas com a rainha Isabel.
Seja qual for o assunto de que se trate, teatro,
poesia ou prosa, devemos conservar sempre a cor local,
166
A ARTE DE ESCREVER
isto é. os pormenores. o tom. as circunstâncias e os
cambiantes da época. em que o facto se passa.
Somos decerto muito exigentes neste assunto muito
descurado até agora. apesar dos bons conselhos de
Boileau.
Temos um belo exemplo da cor local. como tom
(pois a cor local não existe somente na pintura). no
Camponês do D.anúbio, de La-Fontaíne.
Salambó, de Flaubert. é obra que se deve reler muí-
tas vezes. por causa da pintura local.
Tais são as condições gerais. sob que se pode con-
siderar a invenção.
lição Décima
A disposição
Da disposição. ~ Importância do plano. ~ O plano e a fermen-
tação das ideias. ~ O plano e as regras. ~ O plano. o inte-
resse e a acção.
.-_._._--~---I.
Entende-se por «disposição». a ordenada colocação
dos materiais. a arte de bem dispor o que se vai escre-
ver. o que deve suceder primeiro. o que se deve colo-
car depois. a vista do conjunto. segundo as proporções.
'Trata-se de reconhecer a medida. a importância. o
valor e a extensão dos diversos elementos. de que se
compõe um trecho; de apresentar as diversas partes.
ministradas pela invenção, de uma maneira progressiva.
encadeada, lógica e interessante.
\
A ARTE DE ESCREVER
161
É da disposição que depende o plano, o interesse
e a acção.
Um trecho de literatura, seja qual for, discurso,
descrição, carta ou narrativa, faz-se, tendo em mira
a unidade. Deve tender para um efeito geral. Mas os
pormenores são ali necessários; os incidentes agradam;
é necessário que haja muitas ídeias, muitas imagens,
numa palavra, variedade.
Conciliar a variedade coma unidade éuma questão
de tacto e de gosto.
Existe, pois. uma arte especial para ponderar tudo
isso, uma ciência particular para o dosear, para dis-
tribuir e proporcionar a sua matéria.
Bons espíritos .têm caído emprolixidades imperdoá-
veis, por não serem rigorosos neste assunto. O próprio
Racine mostrou na sua narrativa de Terêmenes uma
prolixidade e uma falta de equilíbrio, que se tornaram
lendárias.
Richardson poderia ter feito de Clerice Harlowe
uma obra-prima, se não repetisse tudo continuamente
"enão tivesse acumulado cartas sobre cartas, como fim
de estender o interesse do romance. que se tornou
monótono e sem sabor.
No D. Quixote há contradições de factos e invero-
similhanças inadmissíveis.
O Édipo, de Sófocles, está cheio de impossíveis
materiais, que o autor dissimulou. àforça de génio.
Devemos pois. já que não temos otalento dos grandes
escritores, respeitar as regras racionais e as exigências
de estrutura. necessárias ao plano. ao interesse. àacção.
Na nossa época de improviso e de ímpressionísmo,
Iinqe-se desprezar o plano.
~----.-------'---
168
A ARTE DE ESCREVER
Em compensação, vê-se felizmente um artista, como
Goethe, assinalar a cada instante a importância. do
plano.
Dizia ele muitas vezes:
- «Tudo depende do plano.»
Ê que, efectívamente, um bom plano é a base de
uma boa execução.
Geralmente, não se vê neste conselho de mestre
senão umexagero de método, umpreconceito de escolás-
tica literária.
Contudo, nada é mais sério.
A vantagem que daí se tira não é imediata; mas,
pela continuação, é imensa.
Escreva-se o que se escrever, devemo-nos cingir a
um plano severo, o mais desenvolvido possível. e donde
nos não possamos desviar.
Não devemos sair das proporções que se nos impõem.
porque foram estabelecidas pela razão, pela lógica.
Quanto mais se escreve mais se estuda; quanto mais
se lêem as obras dos mestres, mais se adquire a con-
vicção de que num bom plano está a resistência e o
valor de uma obra, tanto como o estilo.
A composição é um sinal de superioridade 'e de
firmeza.
Todas as obras-primas são bem compostas.
Racine dizia que, quando acabava o seu cenário em
prosa, estava feita a sua peça. Êexagero, mas nada nos
mostra melhor a importância que Racine dava ao plano
e ao seu desenvolvimento.
Se a imaginação não éinflexivelmente encaminhada.
quem pode saber onde ela se deterá?
O melhor talento se deixa arrastar.
. _ - "
A ARTE DE ESCREVER
169
Que obras brilhantes. desregradas. cheias de magní-
ficas intemperanças, e que seriam superiores. tendo mais
ordem. plano e método!
Poetas deslumbrantes. como Saínt-Arnaud e Gau-
thíer, ficaram esquecidos. porque produziram mistifórios,
ao acaso da inspiração.
Malherbe, posto que melhor poeta do que eles. ficou,
porque soube escolher. reqrar-se, desbastar e ordenar.
Não observamos que se cai fatalmente na confusão
pelo simples facto de não estar bastante desenvolvido
um plano; mas éverdade absoluta que. entre duas
maneiras ou 'estilos iguais. a superioridade de execução
pertencerá àquele que formar o seu quadro. que souber
o que deverá dizer ou tudo que é preciso dizer. só o
que deverá dizer.
A gente moça não faz ideia bem nítida desta obri-
gação.
Há em todo o trabalho literário uma parte de pre-
paração. de amadurecimento. de reflexão. necessárias
àboa execução da obra.
Deveis saber construir. Sem isso nada se conser-
vará de pé.
Este trabalho parece árido a alguns espíritos. que
preferem confiar-se à sua Iecundidade, Supõem poder
dirigir a parelha. sem segurar as rédeas.
Incita-vos a avidez de escrever; o estilo quer sair.
o cérebro referve.
Demoras. para quê?
Mas não!
As ideias nada perdem em ser comprimidas; o
líquido. que fermenta. torna-se mais forte. Abrindo-se
170
A ARTE DE ESCREVER
muito depressa o frasco, sai muitas vezes dele apenas
a espuma que se evapora.
Sem um plano determinado, pormenorizado, a rexe-
cução éproblemática.
Corre-se o risco de dar importância a certa passa-
gem, porque sairá como se deseja; e, comprazendo-se
nessa, o escritor descurará outra que émais difícil.
Não percamos nunca de vista estas palavras de
Buffon:
É pela ausência de plano, é por não ter reflectido bastante
sobre o assunto, que um homem de talento se sente embaraçado,
não sabendo por onde principiar a escrever. Entrevê, ao mesmo
tempo, grande número de ídeias: e como as não comparou, nem ..~
subordinou, nada o obriga a preferir umas às outras; fica, pois,
perplexo, Mas quando tiver esboçado um plano, quando tiver reu-
nido e posto em ordem todos os pensamentos essenciais ao seu
assunto, notará fàcilmente o momento, em que deverá pegar na
pena, sentirá o ponto de maturação da produção do espírito,
apressar-se-à a fazê-lo desabrochar e terá prazer em escrever ...
Para escrever bem, é preciso, portanto, estar plenamente
senhor do seu assunto; é preciso reflectir bem nele, para ver cla-
ramente a ordem dos pensamentos e formular deles lIma sequêncie, ..,.
uma cadeia. em que cada ponto representa uma ideia; e, quando
tivermos pegado na pena, devemos conduzi-Ia sucessivamente
sobre esse primeiro traço, sem a firmar muito desigualmente, sem
lhe dar outro movimento. além do que for determinado pelo espaço
que deverá percorrer.
E Fénelon acrescenta:
Não há verdadeira ordem, senão quando se não pode deslocar
parte alguma, sem enfraquecer, sem obscurecer, sem alterar o
todo ...
O autor, que não dá esta ordem ao seu discurso, não está
L .: ;...... ~--------.
A ARTE DE ESCREVER
171
senhor do seu assunto; terá apenas gosto imperfeito e umsemí-
génio.
A ordem é que há de mais raro nas operações do espírito;
quando a ordem. a justeza a força e a veemência se encontram
reunidas. o discurso é perfeito.
Ao passo que a elocução, isto é. a forma, consti-
tuem a magia de uma obra literária. o interesse e a
acção dependem do plano. da distribuição da matéria.
isto é. da ordem e da disposição.
O interesse vem da relacionação das partes. da sua
graduação. ao seu agrupamento. da arte com que se
colocar cada facto no lugar que lhe convém. Éa ciência
da composição.
Énecessária. pois. muito tacto e reflexão na escolha
e sucessão das idéias, visto que estas podem ter tão
graves consequências.
Para isso. mcstrai-vos inflexível. sabei cortar. mon-
tar. dividir no vosso próprio terreno.
Quando um assunto 'está ainda em pedaços. em
materiais. éque se deve talhar e cortar.
Não espereis que vos paralise a redução da forma.
O sacrifício seria tão árduo. que vos faria recuar.
Prevede a vossa fraqueza. e. desde logo. rejeítai,
sem piedade. o que não é de absoluta utilidade.
Ainda que tenhaís semeado pérolas. mondaias que
são supérfluas e renunciai aos pormenores. que não
concorram para o conjunto, que não tendam para o fim
e nada acrescentem àunidade.
Tenhamos sempre presente a frase de Pascal:
-«Não basta que uma coisa seja bela. é preciso
que ela seja própria do assunto. que nada haja a mais
nem a menos.»
4~
172
A ARTE DE ESCREVER
Os que têm a experiência do estilo sabem quantas
coisas inúteis, cenas, palavras, diálogos, excesso de des-
crição ou de análise, se podem eliminar emcada página
de uma peça ou de um livro que se escreve.
Lição Décima Primeira
A elocução
A elocução e a expressão. - O trabalho. - Dever-se-à impro-
visar? - Como se dá relevo às idéias. - O relevo das
expressões. - As refundições,
..
Encontrastes O assunto; dispusestes a matéria; sabeis
como haveis de principiar, como acabareis, está com-
pleto o vosso plano, está tudo em ordem, princípio,
meio, desenvolvimento, conclusão.
Trata-se agora de escrever.
O estilo, isto é, a expressão, varia infinitamente e
muda, não só segundo as pessoas, mas também segundo
o género e o assunto; daqui a diversidade de tom, que
se nota nas obras literárias.
Os conselhos, que se podem dar acerca da maneira
de escrever, têm pois de se modificar, consoante os
assuntos, e são variáveis, segundo se trata de narra-
tivas, de descrições, de discursos, de uma peça teatral,
de uma poesia ou de uma fábula.
Entretanto, escreva-se seja o que for, a expressão,
a boa elocuçâo, o estilo valioso, só se obtém, segundo
as leis gerais, comuns a todos os géneros.
_._~~"·c=...,~ ---~======>O_"""'_~_W_'_J .
• • •
A ARTE DE ESCREVER
173
É destas leis e destas condições que vamos falar.
aque vamos dizer lembrará talvez certas demons-
trações, que já fizemos a propósito das qualidades
do estilo.
Um tratado da arte de escrever tem o inconveniente
de se não poderem delimitar bem certos capítulos, que,
pela sua própria natureza, se assemelham e se con-
fundem.
A invenção, a disposição, a elocução relacionam-se
intimamente entre si.
Aelocução não passa de uma invenção; éa inven-
ção das palavras, emvez de ser a invenção do assunto.
Trata-se de procurar a ideia; trata-se agora de pro-
-curar a forma.
Estávamos na preparação; agora estamos na exe-
cução técnica do estilo.
Estais com a pena na mão, diante de uma folha
branca de papel.
Que vai suceder?
Tudo depende da maleabilidade de espírito, da
incubação anterior, actividade imaginativa, numa pala-
vra, de boas disposições 'em que vos encontrais, se
rneditastes bem o assunto.
Mas, seja qual for a aptidão de cada um, o bom e
o mau escritor procedem, pouco mais ou menos, da
mesma forma.
aplano está traçado, trata-se não só de 'exprimir
pensamentos, mas também de os inventar, àproporção
'que se opera esse trabalho de elocuçâo.
Éa operação mais importante, visto que a força de
um pensamento éque produz a sua expressão, e visto
que a própria imagem não ésenão um pensamento.
174
A ARTE DE ESCREVER
.
"i
Demais, desde que se começa a escrever, todas as
operações, que constituem a arte de escrever, entram
emjogo simultãneamente : criação, disposição, colorido ..•
Alguns professores aconselham que se escreva tudo
que nos passa pela cabeça. que dêmos livre curso à
inspiração, que lancemos no papel todas as ideias que
ocorrem. dispostos a fazer escolha e aproveitar o que
ébom, no segundo jacto.
Creio que émétodo perigoso.
Não éprudente escrever coisas, que se não julgam
completamente boas.
Não nos devemos habituar a escrever no primeiro
jacto, senão o que se supõe bom. Ê o único meio de
não repetir o que se disse e de evitar a vulgaridade.
Devemos decidir-nos a não traçar desde logo senão
o que nos parece novo. pouco mais ou menos. Énisto
que reside o relevo e o talento.
Por conseguinte, desde o começo, esforçaí-vos por
não escrever senão pensamentos que ressaltem; e tomaí
a resolução formal de rejuvenescer as ídeías, procurando
oê-les de outra maneira. a fimde as exprimir de outra
forma.
Talvez se não dê todo o valor a esta necessidade
de ideias novas, num primeiro jacto.
Ficam sempre bastantes correcções para se fazerem.
pelo que devemos procurar evitá-Ias logo, o mais
possível.
Não sujeitar nada ao acaso é economizar trabalho.
Escolher bem o que se vai dizer não significa que
se devam dizer poucas coisas. Pelo contrário, são pre-
cisas muitas, porque há sempre que cortar.
Mais vale pecar por excesso, que por escassez.
.....
..,/"
A ARTE DE ESCREVER
175
oessencial énada arriscar de vulgar, de medíocre
ou de incolor.
Quanto melhor for o primeiro jacto, mais perfeitos
serão os outros, visto que serão a correcção, a refun-
díção, a perfeição do primeiro.
Compenetrai-vos da ideia de que a boa execução
literária e o bom estilo se obtêm pelo trabalho, e de
que se pode, pela insistência e pela perseverança, dupli-
car a força do próprio talento.
Há uns versos, que se deveriam inscrever no Iron-
tispício de todos os manuais de literatura:
o tempo não respeita
O que se faz sem tempo;
Retocai vinte vezes vossa obra,
Límaí-a e relimai-a, sem descanso;
Acrescentai, às vezes,
E riscai, muitas outras.
otalento não é senão uma aptidão que se desen-
volve. Poderá duplicar-se e triplícar-se o que se tem.
Dizia Buffon:
- «Todos os dias aprendo a escrever. O gênio é
uma longa pacíêncía.»
Quem mais do que Boileau recompunha o seu estilo?
La-Fontaine não atingia o natural senão refazendo
quase dez vezes a mesma fábula.
Taíne, que folheou os seus manuscritos na Biblioteca
Nacional. ficou admirado de os ver cheios de emendas.
Voltaire, Guez de Balzac e outros autores não se
imortalizaram senão pela sua profunda consciência de
estilistas e pela sua insaciável sede de perfeição.
La-Bruyêre só publicou um livro perfeito.
176
A ARTE DE ESCREVER
Pascal éa última palavra de clareza concisa. o que
só se consegue pelo trabalho.
Montesquieu emendava-se constantemente.
Chateaubriand ensina-nos que refundiu. até dez
vezes. a mesma página.
Buffon recopiou dezoito vezes as suas Épocas da
Natureza.
Flaubert, como se sabe. matou-se com trabalho.
Pascal diz-nos que escreveu quinze vezes as Cartas
Provinciais.
Se todos os nossos clássicos houvessem repetido os
seus processos de composição. veríamos que Flaubert
não foi o único que lutou contra as torturas da frase.
O estilo da maior parte dos grandes prosadores
.denuncía trabalho.
O trabalho é visível em Boíleau, Montesquieu e
Buffon.
Não só entendo que não devemos censurá-los por
isso, mas até ousarei dizer que aquela constante apli-
cação. que se manifesta em todas as suas páginas.
adiciona mais um encanto à sua leitura. assim como
a ciência da orquestração aumenta para os entendidos.
o atractivo de uma audição musical.
Somente La-Fontaíne escapou a esta lei. porque nele
o trabalho mal se percebe.
Ora. foi precisamente ele o que mais trabalhou!
A lei do esforço. do trabalho. da emenda constante.
épois indiscutível.
Épreciso adoptá-la rapriori, cegamente.
Não émenos verdade que temos na nossa literatura
páginas admiráveis. que saíram de um primeiro jacto;
l
r
I
A ARTE DE ESCREVER
177
soberbos trechos, produzidos num só fôlego, e tão per-
feitos, que não foram retocados.
Mas é privilégio do génio encontrar às vezes a
Beleza imutável, a expressão" superior, que se não pôde
exceder.
E não nos esqueçamos de que um livro sobre a arte
de escrever é para aqueles que têm talento ordinário
ou simplesmente vocação literária.
Atendamos, pois, àregra geral, nós, que não somos
excepções.
Em matéria de arte, os preceitos são para a maioria
dos escritores, em cujo número nos devemos modesta-
mente contar.
Seria imodéstia insensata revoltarmo-nos edizermos:
- Mas Byron, Shakespearee Corneille procediam
de outra forma!
Não podemos iqualar-nos àqueles cuja sublime voca-
ção não necessitou de processos nem de trabalho.
[ulquemo-nos felizes, se encontrarmos, também,
ideias, imagens e até páginas, que não sejamos obri-
gados a retocar.
E talvez que isso possa suceder ...
Há certamente escritores, que pouco ou nada cor-
rigem às suas obras.
Emílio Zola não poderia escrever todos os anos
umvolume de quinhentas páginas se refundisse as suas
frases.
O romancista Balzac só corrigia o seu estilo nas
provas; e Stendhal afectou sempre o mais profundo
desprezo pela perfeição literária.
Mas ponderemos:
É certo que, se Balzac não tivesse escrito senão
r
l~
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,
,
!
178
A ARTE DE ESCREVER
dois ou três volumes perfeitos na forma, como
Madame Booenj, teria sido tão célebre, como com os
cinquenta volumes que deixou.
La-Bruyére fez um, que há-de durar mais que os
de Zola.
E depois, visto que se trata da arte de escrever e
de conselhos literários, ninguém sustentará que se deve
escrever como Balzac e que se não pode escrever melhor
que Zola ou Stendhal,
Com os grandes mestres da forma é que é preciso
aprender o estilo. Ora, como sabemos, eles trabalharam.
tressuaram, recomeçaram, corrigiram.
Portanto a teoria é inatacável.
A primeira escrita não pode ser definitiva, porque:
a cabeça está quente, e os olhos não vêem nitidamente
o que se escreve.
A ciência do estilo só se exerce verdadeiramente
sobre uma inspiração que já arrefeceu.
Persuadi-vos de que nada édefinitivo, nas páginas.
que escrevestes primeiro; mas escrevei-as, ainda assim,
com a maior aplicação e o relevo possíveis, para que
se vos facilite a tarefa ulterior. Se a vossa primeira
escrita é má, não tereis de fazer mais duas ou três,
mas seis ou sete.
Suponhamos que ides descrever uma manhã de pri-
mavera.
Tendes pressa, possuis talento de improvisador, e
fiando-vos nessa qualidade, traçais no papel as ídeias
seguintes (aliás extraídas de George Sand):
..

Eis-me na culminante altitude. A manhã está deliciosa.
está impregnado do perfume das macieiras novas.
o ar. ....,
A ARTE DE ESCREVER
179
Os prados. declivosos sob os meus pés. desenrolam-se branda-
mente lá embaixo. Estendem pelo vale o seu tapete branqueado
ainda pelo orvalho congelado da manhã.
As árvores das margens do Indre desenhammeandros. de um
verde-brilhante. e cujos cimos o sol começa a dourar.
Acabam de abrir a comporta do rio. Quebra o silêncio um
ruído de cascata. que merecorda a contínua harmonia dos Alpes.
Por seu turno. despertam as vozes das aves. Eis aqui perto
a cadência voluptuosa do rouxinol; além. no moutedo. o trilo
escarninho da toutinegra; lá emcima. nos ares. o hino da ando-
rinha. que sobe com o sol (').
••
Com tais ideias.expressas daquela forma. não
podereis ir longe.
Precisais de outra urdidura, se quereis entretecer
coisa com jeito.
Neste fragmento apenas ressai o
macieiras novas, o orvalho congelado
hermonie dos Alpes.
Tudo mais já foi dito e redito, e talvez melhor.
Portanto, deveremos poupar aquelas três idéias e
eliminar as outras. ou, pelo menos. dar-lhes mais relevo.
Isso se poderá fazer num segundo jacto; mas. se já
estivesse feito melhor seria.
Mas como substituir aquelas fracas imagens. ou
como dar-lhes relevo?
Seria necessário procurar outra coisa. falar de outra
maneira. dizer. por exemplo. como Amyot:
~«As abelhas começavam a zumbir. as aves a chil-
perfume das
e a contínua
I
i
(') Esta descrição não é pior que qualquer outra. como
efeito geral. porque está escrita comelegância; mas temfrases e
imagens de convenção. que já serviram de outras vezes.
180
A ARTE DE ESCREVER
rear e os rebanhos a saltar; os cabritos pulavam pelas
montanhas, as abelhes murmuravam pelos prados e os
passarinhos faziam ressoar as sarças com os seus
cantos.»
Estas duas últimas ideías. aquelas «abelhas que
murmuram pelos prados» (em vez dos insectos e das
aves que despertam, frase geral), aqueles passarinhos
que fazem ressoar os bosques, são duas ideias que, pela
sua expressão, produzem efeito absolutamente novo.
Que se poderá dizer então?
Tudo que dizem sobre este assunto aqueles que
disseram coisas melhores, Vítor Hugo, por exemplo:
I'
J
}
Entre todos os rumores da floresta, da aldeia, da vaga, da
atmosfera, havia um arrulho. As primeiras borboletas pousavam
nas primeiras rosas. Tudo era novo em a natureza, as ervas, os
musgos, as folhas, os perfumes, as irradiações. Parecia que o sol
nunca tinha servido. As pedras estavam lavadas de fresco.
A íntima canção dos arvoredos era interpretada pelas avezinhas,
nascidas na véspera. É provável que ainda estivessem no ninho
as casquinhas de ovo, partidas pelos seus bicos. Havia frémitos
de asas, que tentavam voos, nas franças trémulas. Aquelas avezi-
nhas soltavam o seu primeiro canto, voavam pela primeira vez.
Atentemos neste exemplo, e ponhamos ao lado desta
descrição alguns traços, extraídos de um romance con-
temporâneo, que causou sensação:
océu espraiava-se, docemente azul. Uma débil viração agi-
tava a folhagem e refrescava o ar. Urna sensação de beatítude
delicada enchia o coração e dominava o pensamento. O horizonte
estava velado de uma ligeira bruma, em que se fundiam os lon-
ges, levemente esfumados. Subiam do vale ruídos confusos, ani-
mando a solidão dos soutos profundos que se encrespavam, como
um mar negro, lá embaixo, ao fundo do terraço.
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I
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z a q
A ARTE DE ESCREVER
181
Estes pormenores, assim apresentados, são indignos
de figurar até num primeiro jacto.
Não há ali uma exposição nem uma ídeía nova.
Éa vulgar expressão de coisas mil vezes ditas.
É evidente que numa linda manhã há sempre um
pouco de «viração débil», que «agita a folhagem», que
há os «longes que se fundem», e que há «ruídos con-
fusos que sobem dos vales».
De que serve pegar na pena para fazer tais desce-
brimentos?
Escreve-se assim, nos colégios, aos dezassete anos.
A deficiência ea vulgaridade de tal estilo são incon-
testáveis.
Mas eis aqui outros traços, extraídos de um escritor
melhor.
Sob aparência de fantasia, mais bem descrita, encer-
ram o mesmo vácuo e a mesma nulidade.
Esta passagem éextracto de Uma manhã na lndie,
A campina espalhava a alegria matinal; as árvores e as flores
selvagens pareciam estremecer às primeiras carícias do sol e purí-
ficar-se sob o orvalho nocturno; o ar enchia-se da harmonia pro-
duzida pelo canto das avczínhas, pelo arrulhar das rolas, e pela
alegre sinfonia das águas vivas, que brincavam comas hastes das
ervas e com os ramos flutuantes das íris. Com a noite viera a
tempestade; e o dia, ao nascer, só encontrava a verdura calma da
paisagem, o brilho de todos os cambiantes de flores, esmeraldas,
safiras, topázios, rubis alados, que cantavam sobre todas as folhas.
no horizonte uma faixa de ouro, e no fírmamento o azul da lndia.
Isto é cintilante, variado, mas éapenas uma Iuma-
rada, que fadiga a vista, e, em vez de mostrar, não
deixa ver.
Uma descrição da índia!
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F
I
182
A ARTE DE ESCREVER
E nada de cor local, nenhum traço de região. nada
de particular!
Salvo o purijicer-se sob o orvalho nocturno, a sin-
fonia das águas vivas e a faixa de ouro no horizonte.
mais nada se aproveita.
Alegria matutina, flores selvagens. carícias do sol.
hastes de ertzas, verdura calma, esmeraldas. safiras.
topázios. tudo são velhas roupagens.
Numa palavra. é preciso procurar traços novos.
novidade verdadeira. observação inédita. evocar as
coisas em que se não pensa. dar relevo àquelas que já
foram ditas. renovar a descrição velha. por meio da
visão pessoal e imprevista.
Eis aqui como J . J . Rousseau deu novidade a uma
descrição do nascer do Sol (à.parte as repetições):
Verno-lo anunciar-se de longe por traços de fogo que ele pro-
jecta adiante de si.
O incêndio aumenta. o Oriente parece todo emchamas; pelo
seu brilho. espera-se o astro. muito tempo antes que ele surja; a
cada instante supomos oê-lo aparecer: vemo-lo finalmente.
Umponto brilhante ressalta como umrelâmpago e enche logo
tudo o espaço.
Éempolgante.
A não serem as repetições do verbo ver. nada mais
lá se desaproveita.
O princípio que domina a composiçao, o estilo e
a elocução. é que épreciso escrever com relevo pensa-
mentos e imagens novas. salientes, empolgantes.
Para chegar a este resultado. énecessário trabalhar
e refazer duas. três. quatro vezes a mesma página.
Mas. que vem a ser escrever com relevo?
--,:,,-~,.~-,.:..,-,-----
A ARTE DE ESCREVER
183
Éachar coisas que os outros não disseram, e édizer
de outra maneira o que se disse já. Êrelacionar palavras
imprevistas! éempregar digressões inesperadas e vivas,
uma forma variada e atraente, que prenda a atenção
pela vibração da ideia e pela vida das palavras.
l\ssim, não há relevo em se dizer:
Estou cansado da vida. vou arrastando por toda a parte o
meu aborrecimento. Ao menos. quando a eternidade me houver
deitado entre aqueles que já não ouvem nada. ninguém me
importunará mais.
Êpreciso dizer-se isto de outra forma, encontrar-se
uma imagem que seduza o leitor, empregar outras pala-
vras, avivar o estilo, aquecê-Io, torná-lo febril, eeis aqui
no que tal frase se poderá converter, sob a pena de um
verdadeiro escritor:
Desalenta-me a existência. e vou deixando apagar-se a minha
vida. Ao menos. quando a Eternidade me tiver cerrado os ouvi-
dos comas suas duas mãos. na família dos surdos que são pó. já
não ouvirei ninguém...
(CHATEAUBRlAND, Memórias).
A propósito da mágoa de Rancé, fidalgo mundano.
que chorava uma mulher amada, que falecera, Cha-
teaubriand escreveu:
Chamava-a emvão. a Senhora Montbazon tinha ido para a
infidelidade eterna.
Não é pensamento de grande preço. mas é novo
e tem relevo.
~VEftSIOAOEFE'o~RALf.it '3EiI!GI I'~
~STlTUTO DE L EnU~SE {Y'
.._----_ .._ .. ~-~--.......-,~
---_._--_.
184
A ARTE DE ESCREVER
Chateaubriand disse de Napoleão:
Águia, deram-lhe umrochedo, no cimo do qual ficou, ao sol.
até à morte, e donde ele era visto de toda a terra.
E noutro ponto, referindo-se também a Napoleão:
Sentou-se sobre aquele magnífico pedestal, estendeu os bra-
ços, segurou comeles os povos, reunindo-os emtorno de si; mas
perdeu a Europa, tão depressa como a adquirira; fez que duas
vezes os aliados entrassem emParis, apesar dos milagres da sua
inteligência militar. Tinha o mundo debaixo dos pés e só tirou
dele uma prisão para si, um exílio para sua família, a perda
de todas as suas conquistas e de uma parte do velho território
francês,
(CHATEAUBRIAND, Memórias, m).
E mais adiante, falando da lenda napoleónica, tão
popular:
o mundo pertence a Bonaparte; aquilo que o assolador não
pôde acabar de conquistar, usurpa-o a sua fama; vivo, faltou-lhe
o mundo; morto, possui-o.
Vê-se bem o que é um estilo com relevo.
Algumas citações o evidenciam melhor do que as
teorias.
Tal estilo, talvez até em Chateaubriand, que tra-
balhava tanto as suas frases, pode ser o resultado de
várias refundições.
Em Bossuet, encontra-se emtodas as páginas, prin-
cipalmente nos seus Sermões, que não foram, contudo.

A ARTE DE ESCREVER
185
trabalhados (1). É a sua maneira vulgar de escrever.
É~lhe familiar o relevo e a criação do estilo.
Lede ao acaso as suas obras.
Encontram-se nelas, a cada passo, frases que sedu-
zem o leitor, como estas, extraídas dos seus Sermões:
Elanguescemos no amor das coisas mortais...
Alma, toda abismada. toda submerqida, nas afeições sensuais...
O seu estado era uma dor mortal, uma dor assassina e cruci-
ficante...
Os mártires eram animados pela avidez dos sofrimentos!...
6 J esusl Deus aniquilado!
Estaremos sempre encantados com o amor desta vida passa-
geira?
A morte abísma-nos no nada...
O amor impuro temas suas agitações violentas, as suas reso-
luções irresolutas, o inferno dos seus ciúmes, e o mais que eu não
digo.
J á demos uma lista-espécime das expressões triviais,
que se devem evitar. Podemos vevitá-las com o estilo
de Bossuet, e extrair deste uma lista de expressões
empolgantes, no gênero das que vamos designar e que
tiramos, ao acaso, dos seus Sermões:
As veemências do desejo.
As ondas da dor.
As expressões da alegria mundana.
Esses desvarios agradáveis.
As nossas alegrias perniciosas.
(') Não obstante, há nos Sermões de Bossuet emendas e
aumentos, que provam que ele encontrava belas expressões, ape-
nas com trabalho de refundição.
--~
186
A ARTE DE ESCREVER
As nossas cobiças indomáveis.
Os nossos corações desencantados do mundo.
As nossas alegrias corrompidas.
As nossas sedes insaciáveis.
O coração desembaraçado e desenganado de tudo.
A profusão do amor.
Atordoado de desejo.
A magnificência do seu amor.
As delicias desse devaneio.
A afluência de recordações.
As sublimes baixezas do Cristianismo.
A mobilidade das paixões.
O homem apaixonado por Deus...
Extenuado de ventura. Etc.
Era este o vocabulário habitual de Bossuet.
Vê-se em que consiste o estilo criado.
Isto não quer dizer que toda a gente deva ou possa
escrever assim: mas toda a gente deve ter o brio de não
escrever trivialmente e tratar de escrever com relevo.
Como consequi-lo?
Trabalhar, recomeçar, procurar, rever, encarníçar-se.
Está concluído o primeiro acto.
Há certamente coisas que ficarão; mas há muitas
que não devem ficar. Cumpre ver bem o que deve ser
aproveitado e o que deve ser tirado ou substituído.
Emendareis logo o primeiro jacto, ou recopiá-lo-eís.
emendando-o gradualmente.
Não percais nunca de vista, durante esse trabalho,
o que dissemos da concisão do estilo, condição tão
importante como a procura de expressões, a criação de
imagens, e a vivacidade dos ornatos.
Para exprimir as mesmas ideias de maneira mais
intensa, procura i ser um pouco brutal, dizer as coisas'
..
A ARTE DE ESCREVER
187
com mais crueza, tirar a ideia do seu sobrescrito lite-
rário e retóríco,
Tende a audácia de empregar as palavras que res-
saltam. Vale mais o barbarismo do que o tédio.
Pensai em palavras inesperadas e experimentai-as :
procurai emparelhar epitetos que brigam, e que dão
muitas vezes efeitos surpreendentes; mudai o adjectivo
em advérbio, o verbo em substantivo, e vice-versa.
Se escrevestes: «Tinha soluços convulsivos», pende:
«Chorava convulsivamente».
Se Iizestes uma sequêncía de verbos, refazei a frase
substantivamente.
E tereis:
«A imolação precoce do seu coração», em vez de
«Imolava precocemente o seu coração».
«A dependência», em vez de «Dependia».
O que vos dará também:
«O seu servilismo para com ele»; os verbos antó-
nimos: «Agarrar-se, desaqarrar-se: enganar-se, desen-
ganar-se».
1" - Tende, sobretudo, presente ao espírito, grande quan-
tidade de palavras, como se têm números num saco de
lotaria: as três quartas partes servirão, não só para ser
empregadas, mas para nos fazer descobrir outras.
Énecessário remexer tudo isso, para que a ídeía que
quereis exprimir, se agite, numa constante efervescêncía.
Esta efervescência, esta afluência das palavras e das
imagens, fornecê-les-á a leitura.
O principal meio de obter a variedade do estilo ou
de o melhorar, quando não estamos satisfeitos com ele,
é refundir a matéria dele pela substituição das pala-
' *
A mesma frase, refundida:
188
A ARTE DE ESCREVER
vras e a transposição dos epítetos: mudar tudo de lugar
expressamente, alterar tudo:
Os substantivos tornaram-se adjectivos e vice-versa,
Transpusemos epítetos: «o latido da canzoada
rouca», em vez de: «latido rouco dos cães»; comprí-
mimos a forma, suprimimos os particípios: «deixando
cair a cabeça», etc.
Procurai sempre interverter as correlações, o que
dará combinações agradáveis e inesperadas.
Dante fala do sol que se cela: encontra-se nele um
lugar mudo de luz, um brilho rouco; como há emVer~
gílio silêncios da lua, sons que se aclaram.
-- «Este artifício do estilo .....•disse Rívarol -- não é
senão uma feliz permuta de palavras, feita pelos nossos
sentidos: a vista aprecia o som, dizendo-se: um som
brilhante; a garganta aprecia a luz, dizendo-se: brilho
rouco.»
F rase boa, que pode ficar,
mas que se pode refundir ainda:
Sem pensar em nada, ba-
lanceava-se, ao andar caden-
ciado e rítmico dos moços da
cadeirinha, deixando cair a
cabeça para trás a cada sola-
vanco mais rude, seguida do
povoléu, que os garotos aumen-
tavam continuamente, saudada,
de passagem, pelo rouco latido
de cães amarelos e pelados,
que se dispunham a meter-se
no cortejo.
Sem pensar em nada em-
balava-se nos passos cadencia-
dos dos moços da cadeirinha,
com a cabeça inclinada, con-
soante o balouço do andamento,
e seguida de uma nuvem de
garotos, saudada, de passagem,
pelo latido da canzoada rcuca,
dos cães amarelos e pelados.
que seguiam o cortejo.
f
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I
•• _ .." ...~,-- ... ~~.-=- ''::'''==========~---~-
-
E a propósito desta expressão de Dante: O ar não
tinha estrelas - diz Rívarol:
- «Pode fazer-se uma observação a respeito desses
mistérios, a que chamam caprichos da língua, a res-
peito dessas relações secretas, que fazem que as pala-
vras se atraíam ou se repilam, entre si» (1). Rívarol
acha que tal expressão não tem fisionomia.
Diz ele que preferia noite sem estrelas, o que aliás
já se tem dito muitas vezes.
Oar estava sem estrelas émais novo e mais impres-
sionante, porque a palavra ar le~bra aqui o vácuo,
eporque se julga ler, como se lá tivesse:
O infinito ou a imensidade estava sem estrelas.
Os conselhos, que poderíamos dar, são inumeráveis
e encheriam volumes.
Saínt-Beuve tinha razão, resumindo-os na necessi-
dade de pintar as coisas concretamente:
- «Em vez da palavra abstracta, metafísica e sen-
timental, empregais a palavra própria e pinturesca.
«Em vez de céu irado, ponde céu negro c tempes-
.• tuosol em vez de lago trenquilo, pende lago azul; pre-
feri aos dedos delicados os dedos afusados, ou magros;
ou compridos. Só o Padre Delílle poderia dizer, julgando
pintar alguma coisa:
A ARTE DE ESCREVER
189
Cai por terra, altivas colunatas;
Soberbos capitéís, desrnoronai-vos:
Prostrai-vos, orgulhosas arcarias!
«Racine não pinta vantajosamente, quando faz de
(') Rívarol, tradução de Dante, O Inferno. m.
190
A ARTE DE ESCREVER
um monstro marinho um indomável touro, um dragão
impetuoso. Parny fala do temo fogo que brilha nos
olhos de Eleonora. Fénelon era daqueles que cantavam
os bosques cheios de atractivos» (1).
Lição Décima Segunda
i
L
Processo das refundições
Processo das refundíções. - Exemplos de refundíções. - Mau
estilo corrigido. - Larnartine. - O terceiro jacto. - Exemplos
do bomestilo, obtido por três jactos sucessivos.- O esforço
e o trabalho. - Mau estilo, louvado semrazão. .:.... Corríqk-se
continuamente.
I
...
r
Épreciso pensar nos milhares de combinações que
as palavras podem ministrar, pelos seus encontros, pelo
embate, pela sua deslocação; partir as frases longas,
soldar as frases curtas para as tornar longas, mudar
os indicativos em particípios enumeratívos e vice-versa:
ver pela leitura os recursos, de que lançaram mão os
brilhantes escritores.
O primeiro trabalho frutífero a fazer, sobre um pri-
meiro jacto, é a limpeza; joeirar, comprimir, limpar o
estilo, passar por água o filão, desembaraçá-Io das
impurezas.
(') Saint-Beuve, Pensamentos de José Delorme, xv.
~ ....- - - - - - - - - - -
A ARTE DE ESCREVER
191
Eis um exemplo dos resultados. que se obtêm pelo
processo da eliminação.
Tomemos um fragmento de um escritor contem-
porâneo.
Poderia considerar-se um primeiro jacto ruim. Con-
sideremo-lo pois em primeiro jacto.
Só cortaremos aquilo que éinútil, e faremos inter-
verter o que pode ser transposto.
Texto Impresso
Um aspecto de feira
Texto corrigido
Nada mais interessante do
que a chegada das carrlolas dos
saltimbancos. Entre esses uei-
culos, alguns há que são de
um luxo inaudito; notam-se
cortinas bordadas nas janelas
e no interior tudo brilha com
espelhos e dourados. Mas o que
nos seduz de preferência é a
antiga e clássica carriola, de
um verde de alho bravo. mal
assente nas suas rodas. tendo
os postigos fechados com um
bocado de paninho ordinário;
e sobre os varais da qual se
enxergam algumas rodilhas.
Na frente está pendurada uma
gaiola amolgada, onde um peri-
quito depenica uma folha de
alface.
Este veículo é o do ban-
queiro boêmio. - pois o banco
tem os seus boêmios. do mesmo
modo que a política e a litera-
Nada interessa como a che-
gada das carriolas dos saltim-
bancos Há-as de um luxo
inaudito: cortinas nas janelas.
interior brilhante de espelhos
e dourados. O que mais seduz
é a antiga. a clássica e verde
carríola, mal assente nas suas
rodas. postíqos fechados por
paninho ordinário e. sobre os
varais. r odi I has a enxugar.
À frente. uma gaiola. onde um
periquito depenica alface.
É o veiculo do banqueiro
boêmio (o banco tem os seus
boêmios. como a política e a
literatura). Essa carriola atrai
'1
I
r
l
192
A ARTE DE ESCREVER
tura, - mas atrai-nos mais que
o casinhoto do saltimbanco re-
mediado, que vai instalar-se
orgulhosamente no belo centro
do campo da feira.
A miserável carriola do
palhaço da velha sonâmbula
extra-lúcida, do pobre diabo
do azteca, essa procura os
recantos, as esquinas das vie-
las, encostada a uma velha
parede, àbeira de um terreno
baldio, e calçam as suas rodas
com alguns pedaços de tijolo
apanhados num monte de entu-
lho. Procura a sombra, a soli-
dão e não trai, as mais das
vezes. a sua existência (lI)
senão pelo delgado fio de fumo,
que se espirele por cima do
seu tecto.
Outro espectáculo que nos
detém, é o da carriola do di-
rector do carrocel. A outra
noite, um desses veícuIas
abria-se junto a um passeio,
e pela sua abertura distin-
guiam-se os cavalos de pau,
empilhados uns sobre os outros.
Aqui e ali. viam-se cabeleiras
amarelas ou o veludo desbo-
tado de um selim. Diante do
carro, tinham-se agrupado os
garotos do bairro. Entre estes.
uns tinham a boca muito aberta,
os outros oI h av am imóveis
como tomados de admiração.
Todas aquelas cabecítas, mal
muito mais que o casinhoto do
saltimbanco instalado no meio
da feira.
A miserável carriola do
palhaço da velha sonâmbula
extra-lúcida. do pobre diabo
do azteca, procura os cantos,
as esquinas das ruas; e encos-
tada a uma velha parede à
beira de um terreno baldio,
calça as suas rodas comalguns
pedaços de tijolo, apanhados
no entulho. Procura a sombra.
a solidão; e denuncia-se pelo
fio de fumo, que sai da cober-
tura.
»
r
i
Outro espectáculo é o da
carriola do dírector do carro-
cel. Noutra noite um desses
veículos, abria-se junto a um
passeio, e pela abertura distin-
guiam-se, empílhados, os cava-
los de pau. Aqui e ali, viam-se
cabeleiras amarelas e o veludo
desbotado de um selim. Diante
do carro, tinham-se agrupado
os garotos do bairro, uns de
boca aberta, outros imóveis,
tomados de admiração, cabecí-
tas mal penteadas. cheias de
curiosidade. Um rapazito de
camisola rota, aproximou-se da
carriola e tentou puxar a cauda
r
,.
A ARTE DE ESCREVER
penteadas. estavam cheias de
curiosidade. Um rapazito, que
tinha a camisola toda rota.
aproximou-se da carriola e pro-
curou atrair a si a cauda de
umdos cavalos de pau. O em-
presário chegou. de gesto irado.
soltando ameaças; logo os garo-
tos fugiram como por encanto.
e nós oimo-los ir reunir-se um
pouco mais longe. emtodo com-
primento de uma trave. numa
estância de madeira. Dír-se-ía
a distância. uma fileira de par-
dais. à beira de uma cornija.
193
a umdos cavalos depau. O em-
presário chegou. de gesto irado.
ameaçador. e os garotos fugi-
ram logo. para se irem reunir
mais longe. sobre uma trave.
numa estância de madeira;
dir-se-ia uma fileira de pardais.
na beira de uma cornija.
Tal como
trecho ainda
medíocre. É
traços que
ridades.
Seria necessário refundir tudo, o que seriam já
três jactas.
Eis por que é importante meditar muito, antes de
pegar na pena.
Outro exemplo daremos:
Um autor faz o retrato de sua mãe; é definitivo;
mas poderia ser apenas um primeiro jacto, medíocre.
O trecho está escrito com expressões feitas, vul-
gares, que já indicámos serem documento do mau
estilo: elegância de estatura. finura de pele. pureza
das feições. cabelos sedosos e brilhantes. irresistivel
atracção. etc,
está refundido neste segundo jacto, o
não está bem, porque a matéria era
uma narrativa correcta, sem relevo. sem
deleitem, sem incidentes, sem partícula-
13
r
194
A ARTE DE ESCREVER
Eis aqui a passagem:
Na altura e elegância da sua estatura, na flexibilidade do
pescoço, na atitude da cabeça, na finura da sua pele rosada como
aos quinze anos, na pureza das feições, na flexibilidade sedosa
dos cabelos negros, brilhantes sob o seu chapéu, e principalmente
na radiação do olhar, nos lábios, no sorriso, tinha aquela irresis-
tivel atracção, que éao mesmo tempo o mistério e o complemento
da verdadeira beleza.
Édifícil haver coisa mais incolor; não se vê ali
uma pessoa. Só se notam ali qualidades superficiais,
que pertencem a todas.
Pode dizer-se aquilo de todas as mulheres. L
Pintar a sua estatura esbelta. e ágil, elogiar os seus
magníficos cabelos, o brilho da sua tez, a frescura das
suas faces, ofogo do seu olhar, a graça do seu sorriso,
a nobreza do seu porte, a distinção da sua pessoa, é
tudo a mesma coisa.
Mas então que se há-de dizer em vez daquilo?
Ora! deverá dizer-se o que é que caracterizava
aquela mulher e não outra. Pintá-Ia, não pelo que ela
tinha de comum com as outras, mas pelo que tinha de
excepcional, pelos pormenores que a diferençavam, pelas
coisas que só se viam nela.
Deveria dizer-se aquilo de outra forma ou vê-lo de
outra forma.
Flaubert diz algures. com originalidade:
- «Tem os olhos tão cheios de languidez, que
parece cega!»
E noutro lugar:
- «Os seus dois olhos brilhavam como duas Iãm-
padas muito suaves.»
"
A ARTE DE ESCREVER
195
Eis aqui como Magistral nos apresenta a pessoa
de Míreílle:
Mireille estava nos seus quinze anos. Outeiros de Fonte-
víeílle, e vós, colinas dos Baux, nunca vistes uns quinze anos mais
belos. Fê-Ia desabrochar o sol festivo; e o seu rosto ingénuo e
fresco tinha duas covinhas àflor das faces. O brilho das estrelas
era menos d~e que o seu olhar; os seus cabelos caiam-lhe em
tranças negras; e o seu seio arredondado era um duplo pêssego.
ainda pouco maduro.
Esta vê-se! Tem vida, posto que geral. Embora!
Se vos ocorrem, num primeiro jacto, frases como as
que vimos no penúltimo trecho que citámos, e que pas-
sam por bem escritas, devereís partir logo esse molde;
e, se não descobrírdes outra coisa, procurai mudar a
forma.
Rigorosamente, seria preferível qualquer coisa ordi-
nária e simpies, como isto:
I
i
~
Texto citado
Na altura e elegância da
estatura, na flexibilidade do
pescoço, na atitude da cabeça,
na finura da sua pele rosada
como aos quinze anos, na
pureza das feições, na flexibili-
dade dos seus cabelos negros
e sedosos, brilhantes sob o seu
chapéu e principalmente na ra-
diação do olhar. nos lábios, no
sorriso, tinha aquela irresistivel
atracção. que éao mesmo tempo
o mistério e o complemento da
verdadeira beleza.
Texto proposto
Na sua erecta estatura, no
seu pescoço altivo, na sua fina
pele de jovem corada, nas suas
puras feições, na negra cabe-
leira, que brilhava sob o seu
chapéu, e principalmente na
doçura do seu sorriso e dos seus
olhos, tinha aquela enigmática
atracção, que completa a verda-
deira beleza.
~" " " ." -

196
A ARTE DE ESCREVER
. ,,"
Tirámos pelo menos a altura, a eleqãncie, a [lexibi-
lidade, afinura, apureza, o brilho, a itresistioel atrecçêo,
conjunto de palavras incolores, que nada justifica.
Em todo o caso, isto seria mais conciso, menos
enfadonho, menos amplificado .
Mas deveriam procurar-se outras ideias.
A primeira condição do estilo é ser fácil. desimpe-
dido, ir até o fundo da ideia e brotar naturalmente.
Uma vez escrita a segunda inspiração, é necessário
deixá-Ia em descanso; depois se retomará.
Ênecessário recuar, para se ver bem; e esse recuo
só se produz, quando a matéria arrefece.
Muda-se, sacode-se, refunde-se: aplica-se a esse
segundo jacto a mesma operação que se aplicou ao
primeiro.
O que produz a magia de um estilo, não o esque-
çamos, é a condensação, a força, a originalidade, o
relevo, qualidades que se não obtêm senão por meio de
refundíções sucessivas e por correcções continuas.
Simplificai também as vossas fórmulas, calculai as
vossas expressões, mostrai-vos mais rigorosos, não dei-
xeis passar nada do que vos possa parecer trivial.
Vede bem se, a cada palavra. não podereis empre-
gar locução mais forte.
Pensai no valor dos verbos. no efeito dos substan-
tivos; são os verbos e os substantivos que engrandecem
o estilo de Bossuet.
Procura i a palavra justa. apropriada. cavai a ideia,
não superficialmente. mas por forma que bem se veja o
que está dentro, o que se não viu ainda e o que ainda
se não disse.
Itr
-
.
,
---
-
__- -"" __u__-!!!!!"-
A ARTE DE ESCREVER
197
Não abandoneis uma frase, senão depois de lhe
dardes toda a perfeição possível. pela justeza, pelo brí-
lho e pelo natural.
Quando estiver concluído esse trabalho, depois de
recopíado, vereis se não há que empregar terceiro
esforço. e quase sempre sentireis necessidade disso.
Deveis antes examinar as coisas mais gerais. o equi-
líbrio do trecho. a variedade das digressões. a fluência.
a harmonia definitiva.
Não se aprecia bem um trecho, senão quando já
não tem rasuras.
Conviria que a obra fosse recopiada por mão estra-
nha. Êo que explica a obrigação. que Balzac criou. de
corrigir o seu estilo nas provas tipográficas.
A nitidez da imprensa. fazendo sobressair os defeí-
tos da execução. obrigava-o a ver que o seu trabalho
não estava perfeito. e o escritor via-se na necessidade
de fazer mais correcções.
Atentai na execução geral. revede o conjunto. notai
continuamente as repetições.
Ê preciso recomeçar o mesmo esforço. até que se
fique satisfeito.
Ter talento é compreender que se pode escrever
melhor, e possuir os meios intelectuais para realizar a
perfeição que se procura.
Os verdadeiros artistas não desanimam. e só esta
perseverança éque constitui a pedra-de-toque do estilo.
Um estilo está bom. quando já se: não pode retocar
mais; uma frase é definitiva. quando se não pode cor-
rigir mais.
O limite desse esforço é evidentemente individual.
A exigência parou. ou acabou o talento.
-
198
A ARTE DE ESCREVER
A minha prosa parece-me excelente: outro porém
a pode corrigir.
Mas quê! cada um escreve segundo os seus meios.
As operações do espírito são as mesmas em todos.
mas nem todos têm o mesmo talento.
A unanimidade da admiração e a impotência uni-
versal para conceber de outra forma um estilo. são. por
assim dizer. a consagração desse estilo.
O melhor escritor não poderá melhorar o estilo de
PascaJ .
Pode-se desafiar quem quer que seja. a que lhe
ajunte ou tire uma palavra. O carácter do Belo é ser
indestrutíveJ .
Agora vamos dar um exemplo de refundição e de
trabalho literário. para mostrar aonde se pode chegar.
de um vulgar ponto de partida.
Um passeio a S. Dinis, depois da exumaçlo
dos restos de Luls XVI
Quero evocar as ídeías do nada.
Impressionou-me a ironia da morte. através da his-
tória. Pergunto a mim próprio para que tende tudo isto.
esta sucessão de séculos. desfeitos em pó. Perante estes
túmulos. estes crânios. estas caveiras. pensa-se: que foi
feito dos seus pensamentos. das suas almas? Que é
a vida?
Quero algumas linhas rápidas. um parágrafo. um
fragmento. para acabar um capítulo e que seja enér-
gico; algumas ídeías grandes resolvidas.
_ a:z S!L _', . • •
A ARTE DE ESCREVER
199
Primeiro Jacto
Eis aqui o que eu encontro para o primeiro jacto:
.-
Quando terminou a cerimônia, pus-me a caminhar pela igreja,
donde se despregavam os paramentos.
Pensava na vaidade da vida, perante aqueles túmulos profa-
nados; reflexão que se impunha por si própria. e aprofundava
aquela ideia horrivel.
O abismo da morte só contém o nada? A alma humana. por
sua natureza. seria destinada a pereceri- Não haverá na. morte
mais nada de existência? Não estremeceriam mais aquelas ossa-
das? As paixões deste mundo. a glória. a inteligência, a virtude.
desapareceriam. para sempre. com a vida?
O eco do túmulo não émais que o riso de Hamlet? Mais vale
não reflectír, fechar os olhos. perante esse abismo. e elevar para
Deus o grito da fé!
Se releio este primeiro jacto. não fico descontente.
mas acho-o seco. sem imagens. sem grandeza.
Seria necessário desenvolver tudo aquilo. procurar
expressões comrelevo, dar às frases o aspecto e a ele-
vação que tal assunto comporta.
Mais vale não escrever, que limitarmo-nos a expor
pensamentos medíocres, a que nada dá relevo.
Se eles não têm relevo. que haverá de mais insípido
que um lugar-comum?
Tentemos pois. e refundamos aquilo.
Segundo Jacto
Acabara a cerimónia. Dispus-me a passar pela igreja sombria,
que desguarneciam. pouco a pouco. dos seus paramentos. Como
se não há-de pensar na vaidade das coisas humanas perante estes
túmulos saqueados e violados? E. como se não há-de ir mais
200
A ARTE DE ESCREVER
longe, como senão há-de reflectir, nemperscrutar o nosso destino
e a nossa natureza? Na morte, haverá só o vácuo? Não conterá
nada o túmulo realmente? O nada não temvida? Os mortos não
têma sua existência? As suas paixões eos seus ideais desaparece-
ram, para sempre, comeles? A glória deste mundo, o crime e a
virtude, os amores e as riquezas, a inteligência e o génio, tudo
isto não será mais que umasensação momentânea, que se aniquila
como coração que as concebeu? No silêncio dos túmulos. só se
ouvirá o riso zombeteiro? Este riso será a única realidade que
deverá sobreviver àmentira deste universo? Curvemos a cabeça e
respondamos ao abismo com este grito dos primeiros mártires:
«Sou cristão!»
Isto agora já vai melhor; já tem mais amplitude;
temos imagens, mas é preciso que sejam mais empol- •..••••
gantes, mais originais. Aquele estilo não sai bem do
molde elegante e convencional.
E se eu pudesse produzir o embate de palavras?
Se eu pusesse a par algumas expressões desseme-
Ihantes?
Há ali matéria para antíteses, e o assunto é fértil.
Primeiro, igreja poderá substituir-se por expressão •.•
menos vulgar.
Em vez de desquemeciem, seria melhor um parti-
cípio, o que me tornaria a frase mais bela.
A segunda frase está prejudicada por saqueados e
violados. Como éuma transição, mais valia expô-Ia sim-
ples e harmoniosamente.
Há duas ou três frases, em que se poderiam pôr
antíteses; tirar novos efeitos; introduzir palavras que
tenham magia.
A propósito do riso e do túmulo, seriam necessárias
expressões mais incisivas ou, sequiserem, mais macabras.
A ARTE DE ESCREVER
201
Esta «realidade do riso», de que falo, éuma detrisêo.
Conserve-se esta palavra.
Espalhemos, finalmente, alguns epítetos vibrantes e
interpelemos as coisas, com mais eloquêncía, segundo
for preciso.
Torno a refundir o trecho, frase por frase, e obtenho
a redacção seguinte, que éa de Chateaubríand (subli~
nhamos as expressões que têm novidade e relevo):
Terceiro jacto
Concluída a cerimônia, pus-me a passear na besilice, quase
áesarmada. Pensar navaidade das grandezas humanas, entre
aqueles túmulos devastados, seria natural: moral vulgar, que
dimanava do próprio espectáculo; mas o meu espírito não se
limitava a isto, e penetrava até a natureza do homem.
Será tudo vazio e ausência na região dos sepulcros? Não
haverá nada nesse nada? Não haverá existência de nada, pensa-
mentos de pó? Aquelas ossadas não terão formas de vida, que se
ignoram? Quemconheceas paixões, os prazeres, os abraços daque-
les modos? As coisas que eles idealizaram, criaram e esperaram,
serão, como eles, idealidades abismadas juntamente com eles?
Sonhos, futuros, alegrias, dores, liberdades e escravidões, poderes
e fraquezas, crimes e virtudes, honras e infâmias, riquezas emisé-
rias, talentos, génios, inteligências, glórias, ilusões, amores ('),
- sois acaso, percepções momentâneas, percepções extintas comos
crânios destruidos emque elas se engendraram, como peito ani-
quilado emque pulsou outrora umcoração?
No vosso eterno silêncio, ó túmulo, se vós sois túmulos - não
se ouve senão umriso irónico e eterno? Esse riso será o Deus, a
(') Notai como ali seevita bema monotonia da enumeração;
o centro equilibra-se por palavras ligadas por um e: depois con-
tinua a frase e precipita-se, para ir descansar nas últimas sílabas
de amores.
202
A ARTE DE ESCREVER
I
i
1
única realidade derrisàrie, que sobreviverá à impostura deste uni-
verso? Fechemos os olhos; enchamos o abismo desesperado da
vida com estas grandes e misteriosas palavras do mártir: «Sou
cristão!»
(CHATEAUJ J J W\ND. Memórias, m, pág. 300).
Desta vez, está admirável.
Pínturesco, relevo, imagem, atracçâo, originalidade.
elevação de pensamentos, variedade. harmonia. há ali
de tudo.
Chateaubriand era homem para escrever aquela
página de um só jacto; mas era bem capaz de a não
ter concluído. senão depois de cinco ou seis refundi-
ções. J á sabemos que ele corrigia largamente o que
escrevia.
A este esforço de escrever deveriam tender os con-
selhos de certos professores de literatura. em vez de
se declararem satisfeitos. quando os alunos conseguem
realizar uma forma fácil e corrente entre o vulgar e o
elegante.
De forma que aqueles que não pensam em se líber-
tar das faixas infantis, e que não podem voar por si
próprios. ficam condenados ao estilo medíocre. escravos
de uma forma ordinária e correcta em que o seu talento
dormitará durante anos. acabando por se apagar.
Dír-se-ía que há medo da originalidade.
As cópias de alunos. premiados ou não. publicadas
em certos Manuais. têm todas o mesmo estilo morno.
a mesma forma invertebrada, a mesma frieza imaqina-
tíva, o mesmo processo inexpressivo e sorna! E. não
obstante, os alunos não têm o mesmo temperamento!
Ainda uma vez, devemos mostrar-nos muito severos
A ARTE DE ESCREVER
203
em matéria de refundição e de emendas, e recomeçar,
até que se tenha atingido a expressão que cativa, que
seduz, que atrai a vista.
Em vez disto, imprimem-se nos Manuais de Lite-
ratura, a título de boas composições, trechos de alunos,
em que o mestre deixa passar, sem correcçâo, sem pro-
testo, frases de uma experiência e dissonãncia infantis,
como esta:
Tal éo crime que perpetrais, julgando que dais apenas lugar
àvossa curiosidade. Pensai bemnisto, todos vós que me escutais.
Pensei nisto, vós principalmente, etc.
(Discurso do aluno H. J ... Retórica, Iíceu"?"}.
Assim, não vale a pena ensinar harmonia.
Apresentam-nos, como cópias definitivas, trechos
que se deveriam considerar somente como primeiros
jactos insuficientes, e em que se vêem repetições imper-
doáveis, como este exemplo:
.•• Não tenho nunca, bem o sabeís, mostrado nos meus versos
um sentimento que não tinha; não tenho cantado nunca o amor
quando não amasse: como teria eu podido escrever cantos de
ódio, não tendo ódio? Porque eu não odiava os Franceses, apesar
de agradecer a Deus o ter-nos livrado deles! Não terie podido dar
senão conselhos de moderação; mas qual éo alemão que, em 1814
e em 1815, pensaria na moderação? Em vão eu teria, inútil Cas-
sandra, feito ouvir prudentes conselhos; em vão eu teria falado
de justiça, de fraternidade e relembrado o inevitável, etc.
(Carta de Goethe a Guilherme de Hurnboldt, por P..., aluno
de Retórica, no liceu" *) .
Em vez de se elogiarem tais trabalhos. deviam-se
. .._--.-----------------._--_.
204
A ARTE DE ESCREVER
classificar como ruins, e notar, pelo menos, os graves
defeitos, que eles contêm.
Como ensinareis a escrever, se tolerais tais neqlí-
gências?
Ainda mais: a forma vulgar e incolor, contra a qual
acautelamos o leitor, é aceita como satisfatória, e até
se lhe concedem menções oficiais:
A independência da América! Que grandes ideias desperta
esta palavra! Quantas mudanças pressagia aquela assembleía.
não só naquela parte da terra, mas em todo o mundo civilizado!
Pois quê! duzentos homens, que não recebem a sua autoridade
senão do povo! duzentos homens, sem [eusto, livres de toda a
ambição pessoal. que no poder só procuram nobres fadigas e a ._'"
ocasião de fazer bem! Que mernvilhoso espectéculo! E como, em
face daqueles modestos plebeus. parecem miseráveis os congressos
dos príncipes, que se reuniam para suprimir uma nação!
(Discursos de alunos, J . J . W ... Retórica, liceu"'*).
I
~)
Poderá ímaqinar-se estilo mais ordinário; mais charro?
Depois, todos estes trechos são escritos num estilo
incolor, com as detestáveis expressões estereotipadas,
que se devem evitar a todo o custo.
As passagens, que citamos, são tomadas ao acaso.
Eis aqui outra:
Caro amigo, sempre coragem e generosos sentimentos! Sem-
pre a mesma dedicação à nossa infeliz pátria! Poderei eu quei-
xar-me disso, eu, que a amo como vós, eu, que desejaria compar-
tilhar as vossas esperanças e aprovar a prudência dos vossos
planos, como lhes admiro o heroismo? Mas, ai se eu vos dissesse
que tentásseis sempre, convencido como eu estou, de que os vossos
esforços seriam inúteis, combater pela liberdade da Grécia, quando
A ARTE DE ESCREVER
205
as vossas armas não fariam senão agravar a sua escravidão epre-
cipitar-vos a vós mesmo num abismo de males, dízeí-me, provaria
eu assim o meu amor para comela e para convosco?
(Carta de Políbio a um amigo. F. D... Retórica. liceu***).
Enquanto nos não revoltarmos contra esta deplo-
rável maneira de escrever, o ensino do estilo será esté-
ril; nada se ensinará; os conselhos serão inúteis.
Em vez de aprovadas com indulgência, tais expres-
sões deveriam ser notadas como o avesso da arte de
escrever.
Tais trechos seriam apenas bons como primeiros
[ectos, como matéria para desbastar!
Deparam-se-me estas linhas num Manual muito
vulgar:
Se a mendicidade encobre a maior miseria, encobre também.
às vezes. eu/posa ociosidade! A esses pobres. que poderiam traba-
lhar. não nos devemos contentar emlhes dar uma pequena esmola.
que não poderá fazer-lhes nenhum bem duradouro; devemos, se
queremos íazer-lhes bem ir-lhes em auxílio. procurando arranjar-
-lhes trabalho, tiré-los da miséria e [ezec-lhes sentir o que há de
vergonhoso e de humilhante emviver àcusta da caridade alheia,
quando se poderia ganhar a vida comqualquer ocupação.
Este estilo é tão ruim, que o professor pôs àmar-
gem esta nota indulgente: Um pouco pesado! quando
deveria ter escrito: «Péssimo: deve refundir-se».
Vergonhoso é o mesmo que humilhante .
. Tirar da miséria é um estilo de noticiário.
F azer nenhum bem, fazer bem, é de uma pobreza
abominável.
206
A ARTE DE ESCREVER
Culpose ociosidade, ir emauxílio, viver à custa da
caridade, estilo todo feito. estilo gasto.
Resumamos.
Deve-se trabalhar o estilo. refazer as frases. até que
fiquemos satisfeitos com elas e se não possam fazer
melhor.
Entretanto. devemo-nos conter. Haveria graves esco-
lhos em corrigir indefinidamente.
A correcção deverá ter um termo. Pode-se estragar
uma obra. à força de a emendar.
Diz Quintiliano:
Há pessoas que nunca estão satisfeitas com o que escrevem;
nunca supõem boas as primeiras ideias: cada vez que põem mãos
na sua obra. mudam. riscam e procuram sempre qualquer coisa
melhor. Sucede então que esses escritos ficam. por assim dizer.
cheios de cicatrizes. e mais fracos do que eram. Admitamos por-
tanto que chegue enfima agradar-nos o que tivermos escrito pois
que a lima deve polir a obra. mas não gastá-Ia.
Está muito bem.
Gustavo Flaubert é um exemplo característico.
Dotado de grandes qualidades de imaginação. escri-
tor superior na Salambó e nos Três Contos, acabou. à
força de trabalho e de exigências. por se dissecar numa
espécie de jansenismo literário, e por não ter já carne
nem músculos. mas apenas a magreza e a linha.
Devemos portanto conter-nos, e ficar satisfeitos
connosco.
Para saber se tendes o direito de ficar satisfeito,
escolhei um mestre esclarecido. um amigo perspicaz;
lede-Ihe a vossa obra. subrnetei-vos às suas apreciações.
A ARTE DE ESCREVER
207
escutai-lhe os conselhos, e fazei as alterações que ele
vos indicar.
Nenhum escritor, salvo os grandes génios, conse-
gue conhecer-se a si próprio.
Os melhores espíritos não estão em circunstâncias
de julgar as suas próprias obras.
Uma crítica sincera étesouro precioso; devemos jul-
gar-nos muito felizes em a encontrar.
Não vos rebeleís contra os reparos que vos fizerem.
É sinal de talento a maior ou menor aptidão em
reconhecer os defeitos que vos apontarem.
Se, como diz o adágio, é difícil conhecermo-nos a
nós próprios, mais difícil éainda o conhecermo-nos líte-
ràríamente.
A docílidade aos conselhos de outrem prova lar-
gueza de espírito, senso prático e inteligência, pois que
nada custa tanto como sacrificar o que se escreveu e
eliminar o que se julgava bom.
Lição Décima Terceira
Da narração
Da narração. - A arte de contar. - A verdadeira narração.-
A narração rápida. - O interesse na narração. - Nada de
digressões - A brevidade pode parecer longa. - As boas
narrações.
A elocução, isto é, O que diz respeito à execução
literária. tem principalmente em mim duas coisas:
contar e descrever.
. -
••
208
A ARTE DE ESCREVER
Falaremos principalmente da narração e da des-
crição.
Ambas se confundem muitas vezes, posto que a des-
crição seja antes uma pintura e a narração umrecitativo.
A narração é um género de composição índepen-
dente, é um todo completo.
Sem ·entrar no exame de diversas especies de nar-
rações, de que os Manuais se comprazem em multiplí-
car divisões arbitrárias, - - narrações oratórias, históricas,
anedótícas, poéticas, etc. , - - falaremos das condições que
convêm a todas, e das leis gerais que as regem.
O talento de narrar é o mais sedutor, porque é a
base da arte literária.
Ainda que toda a gente o veja em si, é mais raro
do que se pensa; e, se é inato em alguns, exige para o
maior número muita aplicação e cultura.
Só se escuta de boa vontade o que é bem contado.
Não basta só dispor de um assunto atraente, é pre-
ciso também apresentá- lo combeleza e dar- lhe interesse.
Algumas pessoas são excelentes contistas, conver-
sando, e chegam a encantar o seu auditório.
Daí- lhes uma pena e ei- los embaraçados: Ialta- lhes
.a veia, e deploramos que eles não escrevam como falam.
Outros, como George Sand, não sabem conversar,
e só quando fazem estilo se sentem à vontade.
Não é novidade que todo o valor da narração está
no interesse, hàbilmente distribuído, isto é, na qradua-
ção, com que se encaminha e se aumenta a curiosí-
dade do leitor, prendendo- o aos acontecimentos que se
expõem, e dando- lhe o desejo de chegar ao desfecho.
O interesse de uma narração depende da maneira
A ARTE DE ESCREVER
209
de tratar. de coordenar. de alongar. de desenvolver a
exposição. o entrecho, o desenlace.
A exposição faz conhecer o assunto e os aconteci-
mentos. Deverá ser tão rápida quanto possível; abreviar
os preliminares; ir direita ao fim; não produzir enfado;
evitar toda a superfluidade; entrar depressa na matéria.
sacrificar o inútil e desprezar os preâmbulos.
Síqa- se o preceito de Boileau:
Seja simples o exórdio e jamais aíectado.
Antes uma frase dramática. ex-ebtupto, do que mui-
tas precauções. que paralisam à força de habilidade.
Se a importância do começo não é proporcional aos
desenvolvimentos que seguem. a narrativa já não terá
unidade.
Ora. é a unidade que produz o efeito total.
Racine zombou espirituosamente desses contistas
pretensiosos. que começam sempre as coisas de muito
longe e aos quais poderíamos gritar:
- «Ah! passemos ao dilúvio!»
Ségur principia assim o seu Incêndio de Moscovo:
Dois oficiais tinham- se aquartelado num dos edífícíos do
Kremlin. Dali. podiam abranger. com a vista. o norte e o leste
da cidade. Por volta da meia- noite. uma claridade extraordinária
os desperta. Olham e vêem as chamas encher os palácios. cuja
arquitectura. nobre e elegante. em breve se desmoronará. Salta-
vam já para cima do telhado do Kremlin faíscas e destroços
ardentes.
Este começo tem a própria rapidez do incêndio.
Numa exposição. cumpre atender principalmente à
simplicidade. não elevar o tom. nem prometer muito.
14
(LA- F<JNTAll\E) •
210
A ARTE DE ESCREVER
Nunca digais à gente:
«Vínde ouvir uma frase deliciosa,
Escutar maravilhas»;
Quem sabe se os ouvintes
Farão conceito igual ao que supondes?
Eis aqui como o inimitável La- Fontaíne, o contista
por excelência, anuncia que vai falar da peste:
Mal. que o terror espalha,
E que o céu inventou, como castigo
Dos delitos humanos,
A peste, - - é necessário dar- lhe umnome, - -
Capaz de encher num dia
O reino de Aqueronte,
Fazia guerra aos seres animados.
Cícero diz que a exposição deve sair do assunto.
como uma flor da sua haste.
A rapidez e o movimento são, em suma, duas qua-
lidades que devem dominar a narração.
Eis aqui, em algumas linhas, como Fênelon conta
a morte de Bócorís, rei do Egipto:
Vi- o morrer; o dardo de um fenício atravessou- lhe o peito;
as rédeas escaparam- lhe das mãos, e caiu do seu carro para
debaixo dos pés dos cavalos. Um soldado cortou- lhe a cabeça, e,
pegando nela pelos cabelos, mostrou- a corno em triunfo, a todo o
exército.
Fénelon não teria pintado melhor este quadro numa
página inteira.
O nó da acção é o momento, em que o interesse-
A ARTE DE ESCREVER
211
avulta, redobra, se enreda e se complica: em que os
acontecimentos, as personagens. as circunstâncias. o
diálogo. tudo se mistura e se funde. a fimde seduzir.
de transviar o leitor. semque este possa prever no que
aquilo dará.
Tal é aquela passagem dos Mártires, tantas vezes
citado.
O cristão Eudoro, disposto a sofrer antes o último
suplício. do que a renunciar à sua fé. é informado de
que sua mulher acaba de ser condenada a entrar num
lugar infame e que ele a não pode salvar, senão sacri-
ficando aos falsos deuses.
Uma tentação horrível se apodera do coração de Eudoro:
Címodoceía nos lugares infames! O peito do mártir arqueja.
partem- se as ligaduras das suas feridas. e o sangue corre- lhe
abundantemente. O povo. cheio de piedade. cai tambémde joelhos
e repete com os soldados: Secrtiicei! Sacrificai!
Então Eudoro, com voz surda: Onde estão as águias? Os
soldados batem nos escudos:"emsinal de triunfo. e apressam- se a
ir buscar as insígnias.
Eudoro levanta- se. amparado pelos centuriões, e avança até
junto das águias. Reina o silêncio entre a turba. Eudoro empunha
a taça; os Bispos cobrem a cabeça com as suas vestes; os con-
fessores soltam um grito; Eudoro larga das mãos a taça; lança
por terra as águias. e. voltando- se para os mártires. diz: Sou
cristão!
Há poucas narrações. emque o interesse. que cons-
titui o nó da acção, seja tão sabiamente encaminhado.
como naquela.
Citemos ainda a admirável narração da morte de
Turenne, por Sêvíqnê:
212
A ARTE DE ESCREVER
Montou a cavalo. no sábado. às duas horas. depois de ter
comido; e. como iam muitas pessoas com ele. deixou- as todas. a
trinta passos do cabeço aonde ele queria ir. e disse ao pequeno
Elbeuf: Fica aí. meu sobrinho; não fazes senão andar à roda de
mim e [ar-me-ies reconhecer. Hamilton. que se encontrava pró-
ximo do sitio. onde ele ia. disse- lhe: Senhor venha por aqui;
poderão disparar para esse lado. - Tendes razão, - lhe disse ele.
- Não quero ser morto hoje! - Mal voltava o cavalo. avistou
Saínt- Hílaíre, que de chapéu na mão. lhe disse: Senhor, tenha a
bondade de ver esta beterle, que eu acabo de mandar assentar ali.
Turenne voltou- se e naquele mesmo instante. foi- lhe despedaçado
umbraço e o corpo pelo mesmo tiro. que levou o braço e a mão.
que seguravam o chapéu de Saint- Hrlníre. Este fidalgo não o vê
cair; o cavalo leva- o para onde deixara o pequeno Elbeuf: tinha
a cabeça inclinada sobre o arção: naquele momento. o cavalo
estaca e o herói cai entre os braços da sua gente; abre muito os
olhos e a boca por duas vezes e fica tranquilo para sempre. Estava
morto e fora- lhe arrebatada uma parte do coração. . .
Todas as circunstâncias. que a escritora expõe. e
até as próprias palavras de Turenne, se encaminham a
afastar a ideia da morte. que chega como um raio.
irónica e desesperada.
O desfecho é o ponto. emque o interesse está satís-
feito e em que se resolve o nó da acção.
Ele deverá estar preparado por tudo que precede e
nunca fazer- se pressentir.
Se o leitor o adivinha. cessa a sua curiosidade e que-
bra- se o encanto.
O trecho. que acabamos de citar, pode considerar- se
um modelo de desenlace.
Eis aqui outro. igualmente bem traçado.
Trata- se de uma aventura. sucedida ao imperador
Galiano:
1
1
I
!
A ARTE DE ESCREVER
213
Um mercador tinha vendido à imperatriz pedras falsas por
verdadeiras; a princesa, irritada, quis que se desse castigo exem-
plar ao burlador. Galiano anuiu, e deu ordem para que condu-
zissemo mercador à arena. onde seria entregue às feras. O joa-
lheiro tremia todo. Os espectadores, ansiosos, nem respiravam;
supunham ver sair de um momento para outro, da sua jaula,
- um leão. um tigre ou um urso; mas qual não foi a sur-
presa. quando viram aparecer . . . um carneiro. Toda a gente se
pôs a rir. e Galiano disse: Visto que ele enganou. engana-
ram-no também.
A primeira condição de um bom desfecho é não lhe
acrescentar nada. porque o leitor. logo que saiba o que
esperava. já não tem vontade de saber; desde que o
principal desaparece. já o acessório não interessa.
Após a queda da Bilha do Leite. o leite entorna- se:
Adeus bezerro. vaca. porco e ninhada.
La- Fontaine andou mal em acrescentar:
Deitando um triste olhar 20S seus haveres
Assim desperdiçados
Foi desculpar- se com o seu marido.
Em risco de uma sova.
Contou cõmicamente a sua história
E a história se chamou Bilha do leite.
Épreciso atender a estes princípios. para escrever
narrações interessantes; o que não impede que os mes-
tres tenham pecado contra os mesmos princípios.
O génio toma liberdades, que se recusam ao sim-
ples talento.
Por exemplo. está assente que devemos ir dírecta-
mente ao fim e evitar as digressões. E. contudo. o
D. Juan de Byron está cheio delas.
214
A ARTE DE ESCREVER
No Gil Bles os episódios ocupam quase tanto espaço
como o ponto principal.
Nada de digressões. poucos episódios. nada de pro-
lixidade. mas vigor. sobriedade e rapidez: eis as qualí-
dades da narração.
A concentração. a brevidade. não deve todavia
degenerar em sequidão.
A narrativa deve ter movimento. variedade. atrac-
tivo. Evidentemente. tudo isto depende do talento. que
nisso se emprega.
Uma narração longa pode parecer curta. e uma
narração curta pode parecer longa.
As digressões de Saínt- Símon não aborrecem.
Em matéria de literatura. e à parte os géneros e as
regras. tudo se reduz a este aforismo: «Tende talento».
Disse um crítico latino:
- «A narração. por ser curta. não deve deixar de
ter atractivos; do contrário. seria sem arte. . . Um cami-
nho alegre e plano. posto que longo. não fatiga tanto
como um caminho mais curto. mais acidentado ou Ira-
goso. » ~
Eis aqui uma fábula de Boíleau, A Morte e o
Lenhador, que é de uma concisão rara:
Sob um molho de lenha. recurvado,
E de suor banhado.
Um velho lenhador
Caminhava ofegante. . .
Até que já cansado
E oprimido de dor.
Lançou o molho ao chão.
Querendo antes morrer;
,
r
A ARTE DE ESCREVER
E cemvezes chamando pela morte.
A morte enfim chegou e, com voz forte:
~ Visto que de mimgostas,
Que pretendes de mim~
~ Quem? eu?~ disse ele, arrependido enfírru->
Que me ajudes a pôr o molho às costas!
21 5
Vede agora como La- Fontaíne tratou o mesmo
assunto.
A sua fábula temo dobro do comprimento e, não
obstante, parece mais curta:
Um pobre lenhador cansado e velho,
Sob ummolho de lenha que o cobria,
Vergando ao duplo peso
Dos anos e do molho,
Procurava chegar à sua choça,
E, a custo, os passos arrastava, triste.
Deitou ao chão o fardo e meditava
Na sua triste sorte:
Que prazeres teve ele,
Desde que veio ao mundo?
Quem há mais pobre que ele, sobre a terra?
Às vezes não tem pão e não tem nunca
Um pouco de descanso.
jua mulher. seus filhos, os tributos,
E os credores, completam- lhe
Um quadro de desgraça.
Invoca então a morte, e esta acorre,
Perguntando- lhe o que é que ele deseja.
~ Era, ~ respondeu ele. -
Que viesse ajudar- me, sem demora
A pôr o molho às costas. -
Tudo acaba na morte,
Mas não lhe demos pressa;
Antes sofrer do que morrer, é esta
A divisa dos homens!
216
A ARTE DE ESCREVER
Entretanto. as condições e as qualidades. de que
falávamos ainda há pouco. subsistemedevemser toma-
das a sério.
É preciso termos para nós que somos humildes,
modestos. e que. não possuindo génio. precisamos de
trabalho e de cultura para desenvolver as nossas apti-
dões.
Não prolongaremos mais este assunto.
Os nossos leitores aprenderão nos Manuais de Lite-
"ratura que se deve respeitar na narração a verdade. a
verosimilhança.
Não tenhamos a pretensão de dizer o que outros
disseram melhor do que nós.
Poremos de lado a narração oratória. que deve ser ,,,"
«verdadeira. ordenada. imparcial e moral».
Bossuet tem- nas admiráveis.
Alguns escritores do nosso tempo elevaram a arte
de contar a uma rara perfeição. ebastará mencionar as
Cartas do Meu Moinho, de Afonso Daudet, que deve-
riam ser clássicas nas escolas.
~."

A ARTE DE ESCREVER
217
Lição Décima Quarta
Da descrição
A arte de escrever. - A descrição deve dar a ilusão do verdadeiro.
- A descrição deverá ser «materíal». - O verdadeiro rea-
lismo. - Copiar a natureza. - - Haverá inconvenientes? -
A descrição sem vida. - Telémaco. - Descrição víva. o=-
Homero. - Realismo e processo de Homero. - O relevo a
todo o custo.
A arte de descrever constitui um pouco o próprio
fundamento da literatura. Nem toda a gente trabalha
para o teatro; o diálogo é o apanágio do menor número;
mas, já emverso, já emprosa, desde que tomemos uma
pena, somos chamados a descrever.
~. É a qualidade necessária por excelência e é sobre
esta matéria que se pode, frutuosa e pràticamente, ensí-
nar a ter estilo.
Todo o homem que escreve qualquer coisa. que não
seja filosofia. deverá ser pintor. e artista, isto é. deverá
ter talento descritivo pessoal.
A descrição é a pinturaanim.ada dos objectos.
Não enumera. não faz meras indicações: pinta.
Não se contenta em caracterizar o que se vê; mos-
tra- o aos olhos. e dele forma um quadro.
A descrição é um quadro que torna visíveis as coí-
sas materiais.
-
21 8
A ARTE DE ESCREVER
Numa palavra, o fim da descrição é dar a ilusão
da vida.
A sua razão de ser, o seu esforço, a sua ambição,
é fazer viver, tornar vivos. materiais e tangíveis os por-
menores, as situações. os seres. tudo que é físico, prin-
cipalmente a natureza.
Aqui é sobretudo a imaginação que está em jogo.
uma certa força de ressurreição que evoca o que se
viu ou que cria o que não existe.
. A descrição é a pedra- de- toque do talento. É ela
que distingue os bons e os maus escritores.
Alguns autores, por mais que acumulem os porme-
nores e exornem as suas frases. nada vêem; lêem- se
palavras. e isso não impressiona. Outros há que, apenas
com uns traços. são evocadores admiráveis.
Éque uns não sabem e os outros sabem descrever.
Pode saber- se escrever e não se saber descrever.
Há bons escritores. que não são descritivos. como
Guez de Balzac e Saínt- Evremond: e outros que são
sõmente descritivos. como Teófílo Gautier.
A descrição deve ser viva. Éa sua essência. Como
ela é a arte de animar os objectos inanimados, depreen-
de- se daqui que a descrição é quase sempre uma pintura
material, uma visão que se ministra, uma sensação que
se impõe. seja paisagem ou seja retrato.
Poremos de lado os conselhos e as considerações
supérfluas dos Manuais de Literatura.
Não vale a pena ensinar «que se deve escolher bem
o objecto que se quer pintar. o ponto de vista mais Iavo-
rável, o momento mais vantajoso, as circunstâncias. os
contrastes. etc. ».
Além disso. o conhecimento da etopeia, prosopopeía,
\
)•.
J
/
A ARTE DE ESCREVER
21 9
hipotipose, etc. . não habilita a descrever bem nem a
saber o que é uma boa descrição.
Deixemos a outros o cuidado de dividir a descrição
em «corografia. topografia. prosopografia. etopeia».
Não faltam livros. que podereis consultar sobre aque~
Ias categorias estéreis. embora bem aceitas de certos
metodistas.
Contentemo- nos em fixar apenas duas divisões:
a descrição prõpciemente dita e o retrato, que é uma
espécie de descrição reduzida e de qualidade especial.
Dar a ilusão da vida pela imagem sensível e o por-
menor material. eis o fim da descrição.
Quanto mais relevo tiverem os traços. melhor se
vêem; quanto mais perto estíverdes da verdadeira natu-
reza. mais vida tereís.
Dar aparência de realidade a uma coisa fictícia é
colocar sob os nossos olhos a própria visão da natureza.
suplantá- Ia pela evocação. torná- Ia palpável e tangível.
Este ponto é extremamente importante.
Nenhum Manual, nenhum ensino nos explica por
que é que uma descrição é boa. e porque é que uma
descrição é má.
Saibamo- Io nós de uma vez para sempre e não nos
esqueçamos mais. porque todas as obras- primas descri-
tivas. desde Homero, podem atestar a verdade do que
vamos dizer.
Uma descrição é boa. quando é viva; e não é viva.
senão quando é real. visível. material.
A realidade e o relevo são as duas qualidades prin-
cipais. necessárias. dominantes, da descrição.
Mas, dir- nos- eís. é a descrição realista que nos
ensinais?
- - - - ~- - -
220
A ARTE DE ESCREVER
Eu respondo: não há outra descrição, senão a des-
crição realista, bem compreendida.
A tomar- se o realismo como rótulo de escola, poderá
recusar- se, se ele representar as reivindicações de um
processo sobre outro, o verdadeiro exagerado, o mono-
pólio da fealdade, o preconceito de não mostrar senão
o que é baixo, violento, repelente e indecoroso.
Nesse caso, é tão falso, como a escola oposta, aquela
que só desejaria pintar o romanesco, o convencional, o
fictício, o belo no mais alto grau, o heroísmo sem mes-
ela, o que éirreal, desnatural, quimérico, não observado.
O verdadeiro realismo, o dos mestres, desde Homero,
não é mais que o cuidado de interpretar o verdadeiro
pelo belo, a vontade imparcial de pintar o bom e o
honesto como coisas também reais, como o feio e o mau,
Este realismo, que sabe ver os dois lados da ver-
dade, o lado real e o lado moral, deverá ser considerado
como o próprio fim da arte de escrever e a base eterna
das literaturas. É esta confusão que ocasiona tantos
mal- entendidos.
Este nobre realismo, aspiração da arte, poderia
assim definir- se:
Método de escrever, que consiste em dar a ilusão
da verdadeira vida, com o auxílio da observação
moral ou plástica.
Ver só o lado desagradável ou feio da vida e das
coisas é reduzir a arte, é falsear a própria realidade,
que tem coisas agradáveis e belas, é cair no fictício e
no convencional.
O realismo é um processo. com que se devem tratar
segundo a realidade das coisas que se querem pintar.
sejam elas queis forem.
- c- ,
A ARTE DE ESCREVER
221
A descrição deve ser principalmente real. viva, ver-
dadeira, material e com relevo.
Para isso, é preciso, o mais possível; tirá- Ia do
natural.
Quereís traçar um carácter? Tomaí- o de entre
aqueles que conheceis.
Quereis pintar um retrato? Escolheí- o em volta de
vós. Mas é sobretudo em matéria de descrição que se
deverá copiar a natureza.
Trata- se de pintar uma paisagem.
Se a vistes, se a tendes perante a imaginação, isso
bastará; mas, se a não vístes, íde vê- Ia, descrever- a
no próprio local e notai aquilo que vos ocorrer, a evo-
cação, o tom, a sensação, os pormenores .
Deveria Fazer- se tudo, segundo o natural.
A imaginação não é senão uma memória evocadora.
Objectar- me- ão :
- - «Não, a arte não é uma cópia, a descrição não é
uma simples fotografia. Se se não escolhe o que é pre-
ciso dizer- se, se se não transforma, se se não transfi-
guram as coisas, através da sensibilidade pessoal, o
quadro será inexpressívo e estranho ao ideal. A arte e,
antes de tudo, uma interpretação. »
Vai nisto uma confusão de ideías.
Colocaí- vos diante de uma paisagem e descrevei- a,
Éimpossível que façais pura e rigorosa fotografia.
A vossa imaginação é uma lente involuntária, atra-
vés da qual. o que se vê, não pode passar sem se trans-
formar, sem ser interpretado. sintetizado, aumentado ou
reduzido, embelezado ou entristecido, comentado ou
apresentado.
222
A ARTE DE ESCREVER
",
océrebro humano não é aparelho fotográfico e, se
quiser, nunca fotografará.
Portanto, quando dizemos:. . . . . . - «Copiai as vossas
descrições, os vossos caracteres, os vossos assuntos, os
vossos quadros, os vossos retratos», não vos preocupe
a falta de interpretação.
Ela há- de produzir- se por si, e com tanta segu-
rança, quanto melhor tiverdes sentido o vosso assunto.
Para o sentir bem, é preciso vívê- Io, é preciso vê- Ia.
Quando uma descrição não ressuscita materialmente
as coisas, é porque não foi vista ou porque o artista
não soube ver.
Ter a visão e mostrá- Ia real. é nisto que está toda
a força descritiva.
Não receeis fazer apenas a semelhança; éimpossível
a exactídão, porque a alma humana vê com a sua uni-
dade, isto é, com a sua sensibilidade, a sua imagina-
ção e o seu pensamento.
Os pintores, com a sua paleta e o seu pincel, não
farão o mesmo?
Velásquez e Van Díck desceram acaso, por terem
executado retratos?
O que ressalta das suas telas, o que mais nos sen-
sibiliza, é justamente aquela semelhança que se supõe.
Fizeram obras eternas, copiando o que era fugitivo.
Assim, em literatura, é fazer um retrato o pintar
uma árvore, uma paisagem, um tipo, uma figura, uma
região.
Reconstituir pela recordação o que se observou, ou
observar no local o que é preciso pintar, não há outro
processo a empregar na arte de escrever.
Portanto, fazei viva, fazei ver o que desejaís pintar.
Ob"
A ARTE DE ESCREVER
223
Eis aqui uma descrição que não é vista, que nada
mostra e que é, contudo, citada como modelo, nos cur-
sos de literatura.
É a descrição da gruta de Calipso, extraída do
Telémeco.
Esta gruta era talhada na rocha, com abóbadas cheias de
pedrinhas e conchas; estava etepeteda com uma pequena videira.
que estendia as suas hastes flexíveis, para todos os lados. Os
brandos zéfíros conservavam naquele lugar, apesar dos ardores
do sol, uma deliciosa frescura.
As fontes, que corrlam com um doce murmúrio sobre terre-
nos semeados de amarantos e de violetas, formavam em diversos
lugares banhos, tão puros e tão claros, como o cristal; mil flores
nascentes esma/tavam os tapetes verdes, de que estava rodeada a
gruta. Aqui havia um bosque dessas árvores copadas, que dão
maçãs de ouro, cuja flor, que se renova em todas as estações.
derrama o mais suave de todos os perfumes; esse bosque parecia
coroar aqueles belos prados e formava uma noite, que os raios de
sol não podiam penetrar; além só se ouvia o canto das aves, ou o
ruído de um regato que, precípitando- se do alto de um rochedo.
caía em grandes bolhas cheias de espuma, e fugia através do
prado.
A gruta da deusa estava no declive de uma colina. Dali se
descobria o mar, algumas vezes claro e plano como um espelho,
algumas vezes loucamente irritado contra os rochedos, onde se
quebrava, gemendo e elevando as suas vagas, como montanhas.
De outro lado. via- se um rio, onde se formavam ilhas. bordadas
de tilias floridas e de altos olmeiros, que elevavam as suas cebe-
ças soberbas ate às nuvens. Os diversos canais, que separavam
essas ilhas, pereciem brincar nos campos: uns rolavam as suas
águas claras com rapidez; outros tinham água serena e dor-
mente; outros, por longos desvios, voltavam sobre os seus
passos, etc.
(FÉNELON, Telémaco).
Éinútil ir mais longe: é a última palavra da vulqa-
224
A ARTE DE ESCREVER
! ..
rídade ínexpressíva, o tipo da descrição florida, poética,
imaginosa, em que nenhum pormenor é vivo, em que
nada impressiona e nada se fixa.
Éa insipidez risonha de um estilo incolor e límpído.
Encontra- se ali todo o «velho jogo», que, como
vimos, e veremos ainda. persistiu até nós.
Aquela gruta «atapetada de videiras», e aquelas
«flores que esmaltam os tapetes verdes», «aqueles bren-
dos zéfiros», aqueles «doces murmúrios», aqueles «sua-
ves perfumes», aquele regato «que foge através do
prado», aquele mar que «se descobre», e que está «lou-
camente irritado contra os rochedos», aquelas «ilhas»,
que se «formam», este verbo formar repetido várias
vezes; aqueles «canais» que «rolam águas claras. sere-
nas c dormentes» e que «voltam sobre os seus passos»,
tudo isto nada faz ver, porque não foi visto.
Éuma paisagem, feita de elegância, e com as Iór-
mulas genéricas, que se usam nos colégios.
E eis os trechos. que se consideram bem escritos.
É descrição, como a pode fazer, no seu gabinete,
um homem de imaginação vulgar, que não sente a
natureza.
A noção do verdadeiro. do real. da vida observada,
tirada dos factos e reproduzida tal qual. é que dá valor
às boas descrições, como sucede em Homero, o inimí-
tável pintor, em Teócrito, em Vergílio e, mais tarde,
em Bernardim de Saínt- Pierre e principalmente em Cha-
teaubriand, que deve ser considerado como pai da
descrição, na literatura do último século.
Taíne notou acertadamente:
- «Quando Menelau é ferido por uma frecha
Homero compara o seu corpo branco, manchado pelo
_. - - - - - - - - . ----------.......---
A ARTE DE ESCREVER
225
sangue vermelho, ao marfim, que uma mulher de Cáría
molhou em púrpura . . . »
E depois acrescenta:
- «Aquilo é visto, visto como por um pintor e por
um escultor: Homero esquece- se da dor, do perigo, do
efeito dramático, tão impressionado está com a cor e
a forma. Flaubert e Gautier, a quem consideram sin-
guIares e inovadores, fazem hoje descrições muito
semelhantes. . . » (1) .
Todas as boas descrições com relevo recordam
Homero.
Os grandes pintores literários, seja qual for a sua
escola e os seus processos, têm um pouco de Homero.
Em todos os escritores ilustres. Dante, Verqílío,
Cervantes, Teócrito, Chateaubriand, os melhores traços
descritivos têm o cunho de Homero.
Ora a descrição em Homero é a visão pela cor, a
notação pela materialidade, a observação brutal dos
pormenores visíveis.
O cunho de Homero, aquilo que o caracteriza, à
parte a sua elevação moral, o seu alento épico e a noção
que ele tem das coisas da alma e do ser interior, é que
eleéumfotógrafo da natureza edas comoções humanas.
A sua descrição é a análise, a decomposição levada
ao último grau, deumacto físico, de umfacto observado,
de um efeito rápido: uma transcrição verdadeira das
coisas, não sõmente sem intervenção aparente de per-
sonalidade, mas também com a falta de intenção e
ausência absoluta de ornatos.
(') TAI NE, Viagem na Itália. t. I . pâg. 131.
15
226
A ARTE DE ESCREVER
Noutros termos, Homero é um realista de gênio, um
fotógrafo impassível, que desbasta e que avoluma, que
faz baixo- relevo, que modela e que esculpe, mais do
que pinta.
Não é assim que ele nos aparece 'em todas as tra-
duções, mas é assim que um artista, como Leconte de
Lisle, no- lo soube dar, e é assim que o deveremos elas-
sííícar.
Vede este recontro, extraído da llíada:
Idomeneu feriu Crimante na boca com a sua lança, e o
bronze da lança penetrou até o cérebro, quebrando os ossos
brancos; e todos os dentes ficaram abalados, e os dois olhos enche-
ram- se de sangue, e o sangue soltou da boca e do nariz. e a
sombra da morte o envolveu.
Outro:
Peneleu e Lícon, atacando- se. deixaram as suas lanças e com-
bateram com as espadas. Lícon partiu o capacete. de penacho de
crina. e a espada espedaçou- se: mas Peneleu feriu- o no pescoço.
abaixo da orelha. e a espada entrou toda nele. e a cabeça ficou
suspensa da pele. e Licon foi morto.
Pátroclo ataca Testor:
E Testor estava curvado sobre o assento do carro. com o
espírito abatido; tinham- lhe caído as rédeas das mãos. Pátroclo
feriu- o coma sua lança na face direita. e o bronze passou através
dos dentes e, arrastando- o. tirou o homem do carro. Tal como um
homem que, sentado no cume de alto rochedo. com o auxílio da
cana brilhante e da linha. tira umgrande peixe para fora do mar.
Pátroclo tirou do carro, com o auxílio da lança brilhante. Testor,
de boca aberta; e este. caindo. expirou.
E por toda a parte o mesmo processo.
A ARTE DE ESCREVER
227
Bastará ler, ao acaso, a Iliede ou a Odissele:
Recuou, caiu sobre os seus joelhos, apoiou contra a terra a
sua mão robusta e expirou. . .
Atravessou com uma frecha o pé direito de Díómedes: e a
frecha atravessando o pé, enterrou- se na terra. . .
Quando saltava do carro, o outro feriu- o por baixo do escudo,
no umbigo, eo troiano rolou no pó, agarrando a terra comambas
as mãos. A alma escapou- se- lhe por entre os seus dentes. . .
Pátrcclo, pondo- lhe o pé sobre o peito, atravessou- o com a
sua lança; depois, retirou a lança e os intestinos seguiram- na.
Foi ferido na última vértebra e os dois músculos foram cor-
tados, e a sua cabeça, a sua boca e o seu nariz tocaram na terra,
primeiro que os seus joelhos. . .
Foi ferido na testa, por cima do nariz, e os seus ossos
estalaram, e os seus olhos ensanguentados caíram a seus pés,
no pó. . .
Caiu do alto da muralha, como um mergulhador. . .
A frecha entrou- lhe no pescoço e elecaiu do carro, eos cava-
los recuaram, sacudindo o carro vazio. . .
Caiu, uivando, sobre os joelhos (ferido no ventre) e curvado
para o solo, sustinha os intestinos com as mãos abertas.
Está- se vendo o processo; pintar as coisas fisica-
mente, fotogràficamente.
Homero é fiel a este processo, não só na descrição
das batalhas, mas também quando pinta a dor de
Andrómaca; o terror de Astianacte perante o elmo de
seu pai; o velho Príamo na tenda de Aquiles; as via-
gens de Ulisses, Caribde e Scila; as jogos e as corridas
que fecham a llíada.
Em face de uma personagem ou em face da natu-
reza, descreve para fazer ver. e a sua visão é material.
Citemos ainda a inolvidável descrição da morte dos
pretendentes, na Odisseie:
r
228
A ARTE DE ESCREVER
(
Puxou pela sua espada de dois gumes e arremeteu contra
Lllísses gritando horrivelmente. Mas Lllisses, prevenido, atirou
uma frecha e feriu- o no peito, junto ao mamilo, e a Irecha, rápida,
enterrou- se no fígado, e a espada caiu da sua mão contra a terra,
e ele andou à volta de uma mesa, deitando ao chão as iguarias e
as taças cheias; e ele próprio caiu, contorcendo- se e gemendo, e
bateu com a cabeça no chão. empurrando um escabelo, com os
pés, e as trevas estenderam- se sobre os seus olhos. . .
Dirigiu a frecha contra Antínoo, e este ia erguer com as
duas mãos uma bela taça de ouro, de duas asas, a fimde beber
vinho. Mas Ulisses feriu- o na garganta com a frecha e a ponta
traspassou o pescoço delicado. Ele caiu para trás, a taça escapou-
- se- lhe da mão inerte, e umjacto de sangue saiu das narinas, e
empurrou a mesa comos pés, e as iguarias caíram espalhando- se
pelo chão. E os outros, erguendo- se em tumulto, olhavam para
todos os lados, procurando agarrar escudos e lanças.
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;
'"
r
,
Homero mostra- nos a noite que chega, dizendo:
- «Os caminhos encheram- se de sombra. »
Para exprimir que Ulisses tinha saudades da sua
pátria, disse:
- «Tinha vontade de tornar a ver o seu país e o
fumo que sai do telhado natal. »
Se fala do escudo de Aquíles, parece que estamos
a vê- lo:
- «Aquiles pegou no seu enorme escudo, donde
saía uma longa claridade, como a da lua, etc. »
Insistamos sobre a necessidade de dar relevo às
coisas, cruamente, porque se os nossos autores realistas
contemporâneos, como Zola, Goncourt e Flaubert. abu-
saram disso, pode dizer- se que é 'O que mais falta
àqueles que principiam a cultivar a arte de escrever,
aos moços que ensaiam o seu talento, a todos aqueles
que estão seduzidos de perífrases, escravos da retórica
t-
!
I
I ·
-
A ARTE DE ESCREVER
229
dos colégios, ainda hesitantes no estilo inerte 'e sem
audácia.
Portanto, para descrever bem, isto é, para dar a
sensação da natureza, é preciso copiar a natureza.
Lição Décima Quinta
A observação directa
Descrição por observação dírecta. - A intensidade. - Procurar
força enão extensão. - Exemplos de sensações fortes. - Como
se movimenta uma ídeia ou uma imagem. - Como se obtém
o relevo.
Há duas maneiras de escrever naturalmente:
1. ° - - Por observação directe.
2. ° - - Por observação indirecte.
A observação directa
Éa copia tirada no próprio local, de lápis na mão.
Tendes uma paisagem para pintar, um rio, um pôr
de sol, um sítio.
Ide lá; tomai os vossos apontamentos, não simples
notas fotográficas, a vista das coisas e das cores, e
notai também a impressão que sentírdes, a vossa
melancolia, o vosso estado de alma. ·
Regressando a casa, ainda que seja no dia seguinte,
230
A ARTE DE ESCREVER
recopiareis, poreis em ordem as vossas notas; dareis ao
esboço a sua significação total, sintética, geral.
Igual processo para uma personagem, para uma
figura, para um carácter.
Estais diante da natureza e quereis descrever uma
floresta. Que pormenores escolhereis?
Que coisas se deverão ver e mostrar?
Que é o que se há- de reter, de preferência?
É o grande ponto, o grande problema, problema
que subsiste aliás, se fazeis a vossa descrição no vosso
gabinete, de memória e por imaginação.
As rninúcias, que se hão- de empregar, dependem
da vossa maleabilidade de espírito, e da sensação que
quereis produzir.
Na descrição de uma floresta, por exemplo, apre-
senta- se um mundo de sensações: sensações de silêncio,
de verduras, variedade de árvores, vegetações enormes,
fresquidão, luz principalmente.
Podeis ver a floresta apenas sob uma ou duas des-
tas sensações; podeis confundi- Ias todas, insular os
desenhos, variar as tintas, ou pintar por grupos, com
a cor geraL rutilante, faiscante. Tudo depende do género
da vossa imaginação, sóbria ou exuberante.
A melhor descrição não é a que emprega mais coi-
sas, mas a que dá a sensação mais forte.
Não se trata de acumular os pormenores; trata- se
de exprimir os mais salientes, os enérgicos e os defi-
nitivos.
A intensidade está na qualidade e na escolha do
que se diz.
Devem- se, portanto, escolher traços em relevo, que
sejam de uma observação interessante, inesperada, que

A ARTE DE ESCREVER
231
façam imagem e quadro, que mostrem o que há de mais
verdadeiro, de mais visível e de mais impressionante.
Para mostrar o silêncio de uma floresta, Flaubert
exprime- se assim:
Quando a carruagem parou, havia um silêncio universal;
apenas se ouvia o cavalo arquejar entre os varais, e um grito de
ave, muito fraco, repetido. . .
E mais adiante:
osilêncio era cortado, com rápidos intervalos, pelo ruído de
uma vaca, que pastava e se não via.
.-
', ' (FLAUBERT. A Educação sentimental. 1. " parte. I).
Bastam alguns traços do mesmo autor, para nos
descrever o fim do dia. à medida que o sol se põe:
Flutua no espaço um pó de ouro, tão fino, que se confunde
com a vibração da luz. . . O céu está vermelho, a terra completa-
mente negra. Sob as rajadas de vento, a areia levanta- se, como
grande mortalha, e cai depois. De repente, numa clareira, passam
aves, que formam um batalhão triangular, semelhante a um
pedaço de metal. do qual só fremem as bordas.
(FLAUBERT, A Tentação de Santo Antônio. p. 1).
Há duas espécies de descrições: aquela que. con-
densando as coisas, se contenta em dizer pouco. esco-
lhendo os pormenores mais fortes. como Homero; e a
que acumula. liga. multiplica, desenvolve e amontoa:
é o processo dos líricos, dos imaginosos: Vítor Hugo,
Teõfilo Gautier, Barbey d'Aurevilly. Zola.
232
A ARTE DE ESCREVER
A condensação e a simplicidade produzem mais
efeito que as amplificações sistemáticas.
Quando Tourgueneff, o escritor russo, autor de
descrições admiráveis, para descrever a imobilidade da
morte, nos pinta o cadáver exposto sobre o seu leito,
com os olhos entreabertos, com «uma mosca que anda
entre as sobrancelhas», temos uma sensação tão pro-
funda da morte, como se ele houvesse empregado uma
página inteira a descrevê- Ia.
Lembram- se decerto da admirável sessão nocturna
da Assembleia dos Anciães, em Cartago, na Selembô,
de Flaubert.
A discussão interrompe- se. Há um intervalo de
descanso,
- «E o silêncio torna- se, de súbito, tão profundo,
que se ouve o ruído do mar. »
O mesmo autor, para pintar a sonoridade das eis-
ternas, diz:
- «O menor ruído tornava- se num. grande eco. »
Eis aqui como Tourgueneff faz sentir a grande paz,
a tranquilidade de uma floresta, em Setembro:
osossego era tão grande, que se podia ouvir, a mais de cem
passos, saltitar umesquilo sobre folhas secas, que juncavam já o
solo; ou então um ramo seco, que, soltando- se de cima duma
árvore, batia, mansamente, nos outros ramos, ao cair, caía, caía,
para não mais se mover, na erva fanada. . .
. ,_ Como se vê, estes pormenores parecem copiados do
natural, com o lápis na mão, olhando e escutando a
natureza.
É a transcrição da realidade.
A ARTE DE ESCREVER
233
Não se pensava emtais coisas, e, contudo, ao lê- Ias,
parecem as mais empolgantes, as únicas aproveitáveís.
Eis aqui uma sensação de água fria:
Há o viveiro por onde corre toda a água da montanha,
espumando, e tão fria. que queima os dedos. . . O rio está cheio
de trutas. Entrei uma vez nele. até às coxas; pareceu- me que tinha
as pernas cortadas com uma serra de gelo.
(J ÚLlO VALLÉS. A Criança).
Numa palavra, a arte de descrever consiste na esco-
lha de certos pormenores empolgantes. comcertas ídeías
de relevo e força.
Não se devem procurar muitas; fortes, sim, e, para
que sejam fortes. é necessário somente que sejam obser-
vadas. Devemos também reforçá- Ias, valorizando- as,
insulando- as, frisando- as. fazendo- as ressaltar.
Em Homem é que se deverá aprender essa arte
de preparar o relevo.
Eis aqui um exemplo:
Trata- se dos jogos, que cerram a lliada:
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Fez erguer um mastro de um navio, e no cimo do mastro
mandou prender, por um fio delgado, uma pomba trêmula. alvo
das frechas.
Aquele que atingir a pomba levará os machados grandes;
aquele que, errando o tiro cortar o fio, levará os machados
pequenos.
O príncipe Teacro disparou uma frecha com vigor. Errou
o tiro, mas atingiu o fio que prendia a ave, por baixo do pé, e a
irecha cortou o fio, e a po.nbe voou para o céu, enquanto o
fio caía.
Não há aqui nenhuma ídeía de primeira ordem,
nenhuma imagem grandiosa, nada de genial, mas uma
234
A ARTE DE ESCREVER
j
,
arte particular de descrição. que consiste em ver foto-
gràficamente as coisas. em transcrever. passo a passo.
a realidade. com uma verdade tal. que nem sequer se
perde de vista o fio que cai. quando tudo se acaba e
a pomba foge.
Mais outro exemplo do relevo que este processo
produz:
Apolónío de Tiana e seu discípulo Dãmíde apre-
sentaram- se a Santo Antônio e tiveram com ele uma
conversação. emque contaram incríveis milagres. Depois.
foram- se embora.
;. :
Recuando. aproxima- se da escarpa, transpõe-na e fica sus-
penso.
Ambos. a par. se elevam nos ares suavemente.
Antônio. sobraçando a cruz. vê- os subir.
Eles desaparecem.
(FLAUBEn. Tentação de Santo António).
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Outrem diria:
- «Elevam- se nos ares e desaparecem. enquanto
Antônio os vê subir. »
Flaubert preferiu separar cada ideia, fortalecê- Ia,
insulá- Ia a fim de nos dar a sensação do tempo e da
importância que tiveram. para Santo Antônio. esses
diversos movimentos.
Suponhamos que eu quero descrever um duelo
à faca.
Escrevo isto:
Precipitou- se sobre mim. Voltei- me. desviei o rosto. e. gra-
ças a este gesto. o meu adversário já não encontrou obstáculos
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A ARTE DE ESCREVER 235
diante de si. Mas. no mesmo instante. atingi- o na garganta e
enterrei- lhe a arma até ao cabo.
Revolvi a lâmina na chaga. onde se quebrou. e saiu com o
sangue que refervia; e o meu adversário caiu.
Este texto satisfaz, mas não é suficiente para que
as Ideias, que contém, produzam todo o seu efeito.
A forma é ainda muito froixa.
Vejamos agora o texto de Merimée. que desta vez
é vigoroso, condensado, írrepreensível e recorda as
melhores páginas de Homero:
Atirou- se contra mim. como uma frecha; virei o pé esquerdo.
e ele nada mais encontrou diante de si; mas atingi- o no pescoço.
e a faca entrou tanto. que a minha mão lhe pOl1S0Uno queixo.
Revolvi a lârnina com tanta força que se partiu. E acabou- se.
A lâmina saiu da chaga impelido por uma onda de sangue. da
grossura de um braço. Ele caiu para a frente. inteiriçedo como
uma estaca.
(MERIMÉE. Cármen. pág. &).
; Élacónico. violento. imaginoso. empolgante.
O modo de dizer uma coisa duplica- lhe a intensidade.
Se eu digo:
- «Cortou- lhe a cabeça. enquanto ele falava». está
muito bem e parece que não há outro modo de dizer.
E todavia tornarei mais dramática a idéia, se disser
como Homero (Morte de Dôlon}: «Falava ainda.
quando a cabeça lhe caiu».
Assim. vê- se melhor o facto. E o fim da descrição
é fazer ver as coisas.
Esta frase: - «Surge o dia. a aurora vai apareceu.
é a ideia sem a visão.
l
236
A ARTE DE ESCREVER
Mas se eu digo: - - «Uma faixa de ouro se formou
no horizonte» (Chateaubriand). a visão está aí.
Se eu escrever: «Vi as nuvens passarem sobre a lua.
que parecia correr atrás delas». terei exprimido uma
coisa bem observada. mas que não terá tanta íntensí-
dade, como se eu dissesse: - - Vi as nuvens voarem no
céu sobre a face da lua. que parecia correr ràpidamente
(Chateaubriand) .
Temos agora duas frases, que ainda mostram melhor
quanto pode aproveitar a uma ideia o realismo da
expressão e a energia crua do estilo.
Chateaubríand. descrevendo a batalha dos Francos.
escreve:
- - «Os cornos dos touros levavam fragmentos hor-
rorosos». Esta maneira inexpressiva é insuficiente.
Levavam é um termo geral; e fragmentos horrorosos
são igualmente palavras gerais do antigo estilo. recor-
dações de Atália, de que se servia quem não ousava
servir- se da expressão própria.
Eis como Flaubert. mais próximo de Homero desta
vez. exprime a mesma imagem. a propósito de uma
batalha, falando dos elefantes:
- - «Longos intestinos lhes pendiam dos harpões de
marfim. como rolos de cordame. pendentes de mastros. »
Écom este esforço que se deve descrever.
Sentireis uma impressão de violência um pouco ínco-
modativa, quando quiserdes pintar quadros realistas;
mas este processo não impressionará desaqradàvelmente,
quando pintardes a natureza, as coisas belas. os qran-
des espectáculos, tudo que nada perde com ser salíen-
tado, tudo que o processo contrário poderia tornar froixo
e ordinário.
- - - - . _- -
A ARTE DE ESCREVER
237
Resumindo:
Para se descrever bem, é preciso fazer viver, pintar
com relevo, com realidade.
Para isso, é preciso observar bem, e, para observar
bem, é preciso copiar da natureza, da verdade.
A observação direcie é o primeiro género de obser-
vação.
Passemos agora à observação indirecta.
1
Lição Décima Sexta
A observação indirecta
Descrição por observação indirccta. - Necessidade de evocar o
verdadeiro. - Flaubert. - Exemplos empolgantes de observa-
ção evocada, - Descrições de memória. - Chateaubríand. -
Identidade dos dois métodos. - Evocar a vida ou copiá- lav- e-
Descrever o que se viu. - Idealizar o verdadeiro. - A des-
crição de fantasia. - Barbey d'Aurevílly. - Mostrar imagina-
ção não é descrever. - A fantasia arrasta à puertlídadec ->
Exemplos de descrições fantasistas. - A escolha das sensa-
ções. - Difusão e longuidão. - O abuso da descrição.
Há paisagens, lugares e coisas, que se podem copiar
no próprio local; e há outras, que não estão à vista,
ou que não existem sequer.
É por um esforço de imaginação que se pintará o
que não existe, e épelo esforço da memória que se des-
creverá o que já não temos à vista.
238
A ARTE DE ESCREVER
1- Deseriçio Imaginada
Suponhamos que eu quero descrever os antigos
Campos Elísíos, a região das sombras, como no Telé-
maco; o Inferno, como na Divina Comédia; a queda de
um homem no vácuo, como no Bug-Jargal (o anão
Habribrah) e em Nossa Senhora de Paris ( Cláudio
FroIlo); a morte de um homem, que se deixa submergir
pelo Oceano, como nos Miseráveis; as batalhas dos
mercenários eas ruas de Cartago, como na Salambó; etc.
Épreciso. ainda neste caso. procurar auxílio no que
se viu, recordar tudo que se pode relacionar com o
assunto. e, pelo verdadeiro, dar as aparências do ver-
dadeiro ao que o não é.
Irão procurar- se ídeias e sensações a situações aná-
logas; poderemos transportar ou adaptar ao nosso
assunto o que se observou já.
Rousseau incluía na sua Nova Heloísa as paisagens
que amava.
Bernardim de Saint- Píerre serviu- se de um naufrá-
gio verdadeiro para a morte de Virgínia.
Chateaubriand transportava para os seus Mártires
as viagens que fizera, e os lugares que tinha percorrido.
Até quando o assunto e os desenvolvimentos de
uma descrição são imaginários, deve- se proceder sempre
segundo a verosimilhança, a verdade suposta e a obser-
vação aparente. Na sua viagem a Lílípute, Swift é
admirável. neste sentido; pinta com um cuidado. uma
minúcía, uma seriedade. uma observação calculada e
persistente, quadros que são impossíveis e fabulosos:
A ARTE DE ESCREVER
239
e é por aquele lado que a vida aparece e que surge
a ilusão.
Quero pintar o Inferno.
Evidentemente, eu nunca vi o Inferno, mas sei que
é um lugar de tormentos e posso colocar nele suplícios,
gente que sofre. Ora, gente que sofre posso eu vê- Ia
e observá- Ia.
Por outro lado, disseram- me que a privação de Deus
deverá ser um dos suplícios dos condenados.
Eu posso imaginar esse género de dores, a avidez
írrealizável, o desejo impossível, o írreparável pesar.
Éo domínio da humanidade.
Podem- se observar coisas similares. _ .
e Porei as minhas cenas em tenebrosos vales, que des-
creverei tão bem, como se os tivesse visto. Colocarei
ali pessoas famosas pela sua vida e a sua lenda e, se
eu tiver génio, farei obra- prima.
Na Selembo, Flaubert reconstituiu uma cidade que
não existe e de que há muito poucas informações.
Mas há coisas eternas, sempre as mesmas, analogias
de assuntos na história dos povos, certas reconstituições
análogas, a natureza que não muda, os exércitos e os
campos antigos, acerca das quaisexistem documentos,
assédios conhecidos, factos assimiláveís, batalhas, aspec-
tos de algumas terras actuais de África, certos estados
imutáveis de civilização.
Neste caso ainda, observa- se com ° verdadeiro, em
nome do verdadeiro, evocando ° verdadeiro, procurando
precisamente dar aos outros a sensação de que se não
imaginou e de que deve ser assim.
Vítor Hugo descreveu algures o desaparecimento de
um homem nas areias do deserto.
240
A ARTE DE ESCREVER
i
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I
I
Evidentemente, foi obrigado a imaginar o facto, a
imaginar sensações, que tivessem a aparência da rea-
lidade.
Eis como ele pinta a cena sem a ter visto:
Sente alguma coisa, como se o peso dos seus pés aumentasse
a cada passo que dá. A súbitas, enterra-se, duas e três polegadas.
Decididamente não está embom caminho; pára, para se orientar.
Neste momento. olha para os pés; os pés desapareceram. e a areia
cobre-os. Retira os pés da areia; quer voltar para trás. mas ainda
mais se enterra. A areia chega-lhe ao tornozelo. Procura arran-
car-se. lançando-se para a esquerda e a areia chega-lhe às canelas;
lança-se para a direita. e a areia chega-lhe aos joelhos.
Então. reconhece. com indizível terror. que está metido em
areia movediça e que tem debaixo dele o meio horrível. emque o
homem não pode caminhar. nem o peixe pode nadar.
Lança fora o seu fardo. e alivia-se. como umnavio emperigo.
Mas já é tarde; a areia chega-lhe acima dos joelhos.
Chama. agita o seu chapéu ou o seu lenço; a areia sobe cada
vez mais. Se o areal estiver deserto. se a terra estiver muito dis-
tante. se o banco de areia é dos de pior nomeada. se não houver
heróis nos arredores. acabou tudo. Está condenado àquela sepul-
tura. àquele horrível enterro. infalível. implacável. impossível de
retardar ou apressar. que dura horas. que não acaba nunca. que
vos apanha de pé. livre. cheio de saúde; que vos arrasta pelos
pés; que a cada esforço que tentaís, a cada clamor que soltais.
vos arrasta mais para o fundo; que parece punir-vos da vossa
resistência com um novo abraço. que faz penetrar lentamente o
homem na terra. deixando-lhe todo o tempo preciso para ver o
horizonte. as árvores. os campos verdes. os fumos das aldeias nas
planícies. as velas dos navios no mar. as avezinhas, que voam e
que cantam. o sol e o céu.
Tal desaparecimento é o sepulcro. transformado emmaré. que
sobe do fundo da terra para um ser vivo. Cada minuto é um
desenrolar de mortalha.
O mísero procura sentar-se. deitar-se. trepar, mas todos os
movimentos. que faz. mais o enterram. Endireita-se. enterra-se;
-
A ARTE DE ESCREVER
241
sente-se deslizar. uiva. implora. grita às nuvens. torce os braços.
comdesespero. Eí-lo metido na areia até ao ventre; a areia atinge
o peito. Não ficou agora mais do que o busto. Ergue as mãos.
solta gemidos furiosos. crispa os dedos na areia. quer segurar-se
àquelas cinzas. apoia-se sobreos cotovelos para searrancar àquela
espécie de bainha flexivel; soluça freneticamente. A areia sobe. a
areia atinge-lhe os ombros. o pescoço. Agora. somenteo rosto está
visível. A boca solta gritos e enche-se de areia.
Silêncio. Os olhos ainda olham; a areia fecha-os; noite.
Depois. a fronte desce; à superfície da areia estremecemos cabe-
los: uma mão surge. fura a superfície do areal, mexe, agita-se e
desaparece. - sinistro desaparecimento de um homem!
(VÍTOR Huoo).
Esta descrição é bela. porque o autor dá a ilusão
do verdadeiro. Acumulou uma sequêncía de sensações
reais. Colocou diante de si o seu assunto e pintou tão
bem o que quis ver, que iríamos jurar que o viu!
O autor copiou a seu modo o que imaginou. sem
frases. sem fantasias. sem lirismo.
Assim compreendida e disposta. a descrição por
observação indirecta pode atingir o mesmo efeito que
a descrição à vista, ou como a descrição de memória,
de que vamos falar.
II - Descrição de mem6rla
Há espíritos que são rebeldes à notação imediata,
e que nada sabem reter, nada sabem escolher momen-
tâneamente 'e só depois se recordam do aspecto e dos
pormenores. Tudo lhes ocorre. logo que deixem de ter
os objectos à vista.
Ou seja por necessidade ou seja por gosto. desde
16
242
A ARTE DE ESCREVER
que já não estiverdes perante o assunto da vossa des-
cnçao, tereis de evocá-lo.
Já não tereis a visão imediata, mas procurareís
ressuscitá-Ia pela evocação, e não a descrevereis bem,
senão quando a ilusão for completa, isto é, quando a
tíverdes presente àimaginação e quando a vírdes, por
assim dizer, diante de vós, com os olhos do espírito.
Os pormenores, que não tiverdes notado na própria
ocasião. voltar-vos-ão nítidos e salientes, com o relevo
de uma coisa, vista no próprio momento.
Alguns cérebros são acumuladores, que armazenam
e guardam as impressões.
Vamos reproduzir uma descrição de tempestade, de
Chateaubriand, que não é muito citada e que deveria
ser célebre.
Em toda a nossa literatura, não temos páginas
mais belas.
Notai que o autor não a pôde escrever, assistindo
a ela.
Quando a vida está em perigo, não se pensa em
pegar no lápis nem no papel.
Foi, pois, após o drama, e de memória, que Cha-
teaubriand escreveu; mas a impressão recebida foi tão
profunda, que a evocação tem o vigor de uminstantâneo.
Eu tinha levado duas noites a passear sobre a tolda, a ouvir
o marulho das ondas nas trevas, o sussurro do vento no cordame,
e debaixo dos assaltos do mar, que cobria e descobria a ponte.
Em torno de mimera uma sublevação de vagas.
Fatigado dos balanços e dcs encontrões, no começo da ter-
ceira noite fui-me deitar.
atempo estava horrível. ameu beliche estalava e abanava,
comas investidas das ondas que caíam sobre o navio.
A ARTE DE ESCREVER
243
Dentro empouco senti correr gente de um"lado para o outro,
c caírem rolos de cordame; senti a impressão, que se sente, quando
um barco vira de bordo.
Abre-se a cobertura da escada da entreponte e uma voz assus-
tada chama pelo capitão. Aquela voz no meio da noite e da tem-
pestade, tinha qualquer coisa de formidável.
Aplico o ouvido e parece-me ouvir os marinheiros discutirem
sobre a situação de uma terra.
Salto abaixo da minha cama. Uma vaga inunda o castelo de
popa, entra no camarim do capitão, derruba e faz rebolar, mescla-
damente, mesas, camas, caixas, móveis e armas.
Alcanço a tolda, encharcado.
Ao meter a cabeça na entreponte, presenciei um espectáculo
sublime. A embarcação tentara virar de bordo, mas, não o tendo
conseguido, tinha amainado sob o vento.
A claridade da lua, que emergia das nuvens, para logo se
esconder nelas, descobria, sobre os dois lados do navio, através de
uma bruma amarelada. colinas eriçadas de rochedos.
O mar erguia ondas, como montanhas, para o canal em que
parecíamos ençoljndos, e as ondas ora se desfaziam em espuma
e faiscas. ora exibiam uma superfície oleosa e vítrea. commanchas
negras. acobreadas, esverdeadas, segundo a cor dos baixios, sobre
que.agiam.
Durante dois ou três minutos, confundiam-se os vagidos do
abismo e os do vento.
Da concavídade da embarcação saiam rui dos. que faziam pul-
sar o coração dos mais intrépidos marinheiros.
A proa do navio cortava a massa espessa das vagas comran-
gido horrível; e, ao leme. precipitavam-se torrentes de água. e
escorriam. redemoínhando, como à saída de uma comporta.
No meio de tudo. nada era mais alarmante que um certo
murmúrio surdo, semelhente ao de uma vasilha que se enche ...
Restava uma experiência a tentar; a sonda não marcava mais
que quatro braços sobre um banco de areia. que atravessava o
canal; era possível que a vaga nos fizesse transpor o banco e nos
levasse para água profunda; mas quem ousaria tomar o leme e
incumbir-se da salvação comum? Um errado movimento da cana,
e estaríamos perdidos!
• •
••
244
A ARTE DE ESCREVER
Um marinheiro de Nova Iorque toma o lugar que o piloto
abandonara. Parece-me estar ainda a vê-lo, em camisa. calças de
lona. descalço. os cabelos esparsos e encharcados. segurando o
timão comas suas fortes garras. enquanto. coma cabeça voltada,
olhava à popa. a onda que devia salvar-nos ou perder-nos. Eis
que chega a vaga. em toda a largura do estreito. rolando muito
alto sobre si mesma. como se ummar invadisse as ondas de outro
mar. Grandes aves brancas. de voo sereno. precedem essa vaga.
como aves da morte.
O navio tocava no recife. tacteava...
Houve profundo silêncio: todos os rostos empalideceram.
Chega a esperada onda. No momento emque ela nos ataca.
o marinheiro dá volta ao leme; e o navio. prestes a cair de lado.
apresenta a ré; e a vaga. que parecia tragar-nos. levanta-nos.
Lançam a sonda; traz vinte e sete braças.
Um hurra sobe até ao céu. -_
(CHATEAUBRIAND. Memórias).
É esta uma pagma que pode passar por modelo de
toda a espécie de descrição.
Vê-se o processo.
Parece que nada se concedeu ali à imaginação.
Dír-se-ía fotografia.
São sensações verdadeiras. que se sucedem.
E tal é a força dos pormenores. que se diria que
ali não há imagens. pois que a metáfora se confunde
com a ídeía, e a intensidade da visão absorve tudo.
[urar-se-ía que o autor notou as coisas. à medida
que se produziam.
E. graças ao poder de imaginação pessoal. cada
sensação é exprimida numa forma absolutamente nova.
com uma propriedade e ressonância extraordinárias.
No lugar de Chateaubriand. qualquer Saínt-Lambert
ou Delílle. pintando a mesma tempestade. teria descrito
• •
-
A ARTE DE ESCREVER
245
«uma tempestade» qualquer, como se descreve um nas-
cer do sol, uma batalha, um tremor de terra, uma
epidemia.
Pelo contrário, a tempestade de Chateaubríand, é
a sua e não outra.
Não se assemelha àquelas que tendes lido, porque
ele não disse senão o que ele próprio sentiu: nada lhe
juntou por fantasia: não lhe deu nenhum desses traços,
que se lêem em toda a parte e que relembram exercícios
de colégio. .
Ali, tudo é particularizado, com a tecnicidade de
um corpo-de-delito, porque tudo foi vivido.
Como os realistas aplicaram este método e só se
serviram dele para pintar exclusivamente o trivial. o
baixo e o repugnante, confundem este processo com a
sua escola e acusar-nos-âo de sermos realistas.
Dír-nos-ão :
- «Aconselhais a fotografia material: mas o que
será então da imaginação, da fantasia, da moralídade,
do bom e do belo?»
Responderemos:
- «O que é censurável é a escolha do assunto, a
disposição para só se tratar do mau e do vulgar. Des-
crevei o que é bom, o que é belo, o que é moral, o que
é elevado e nobre, mas descrevei-o com esse senso do
real, do verdadeiro, fora do que, nada é duradouro.»
Uma descrição não deve nunca parecer imaginada.
Eis o grande princípio.
Empregai nela o vosso coração, os vossos impulsos,
as vossas aspirações imaginativas: reabilitai o ideal.
pintai a virtude, desprezai a baixeza e o vício; mas
sede fiel àquela virtude de escrever exactamente, foto.•
---- ~..-..".-.,------- .
: r =
246
A ARTE DE ESCREVER
gràficame'nte e em relevo. que faz de Paulo e Virgínia.
uma obra-prima de verdade e um livro magnificamente
ideal.
Dois escolhos há. que sobretudo se devem evitar
sempre na descrição: a vulgaridade e a fantasia.
Não falaremos mais da vulgaridade.
Bastará que atendais a certas páginas deste livro.
para aprender a fugir do estilo. que nade mostra..
A vulgaridade consiste em dizer o que já se disse.
mostrar apenas pormenores ordinários, como neste
retrato:
Era bela, mas. poste que loura e branca. de uma beleza menos
própria para inspirar o amor do que o respeito.
Os seus cabelos. de rara maqnificência, coroavam uma fronte
lisa. O nariz era aquilino e orgulhoso. o olhar imperioso e altivo.
a boca fàcrlmente desdenhosa. Sem deixar de ter elegância. o seu
busto nada tinha das formas etéreas...
--
(J ÚLIO SANDEU).
Isto são descrições de passaporte. sinais ínsíqnifí-
cantes.
Ébastante vulgar o dizer de uma mulher que ébela,
loura e branca; que a sua beleza inspira respeito; que
os seus cabelos são magníficos; lisa a sua fronte; o seu
olhar imperioso e altivo; a sua boca desdenhosa, etc,
O segundo escolho é a fantasia ou antes o excesso
de fantasia.
A imaginação é uma doida, que é preciso guiar.
amparar, servindo-nos dela como de um instrumento;
mas não a empregando só por si ou convertendo-a no
alvo, da inspiração e da arte de escrever.
J _ ' _
A ARTE DE ESCREVER
247
Se a não dirigirmos. habituamo-nos a ouvir só a
ela; escrevemos comelegância. deixamos correr o mar-
fim. deitamos fogo de artifício. enfeitamos. queremos
entontecer. e entontecemo-nos,
Numa palavra. é a fantasia; e. para se brilhar na
descrição. não se chega sequer a mostrar o que se
descreve.
Lede este retrato de mulher. feito por umescritor.
que é rei da fantasia:
Era morena. mas morena nos cabeios até o negro de azeviche.
o mais belo espelho de ébano que ainda vi brilhar na voluptuosa
convexídade lustrosa de uma cabeça de mulher; mas era loura na
epíderrne, e é pela epiderrne enão pelos cabelos que se deve julgar
se uma mulher é loura ou morena... Tinha cabelos da cor da
noite. mas sobre umrosto de Aurora. pois que o seu rosto resplan-
decia com aquela frescura rosada. estonteante e rara. que resistira
a tudo. naquela vida nocturna de Paris. que ela vivia havia muitos
anos e que tantas rosas queima à luz dos seus candelabros. Pare-
cia que as suas se haviam apenas esbraseado, pois que nas suas
faces e nos seus lábios o carmim era quase luminoso; demais este
duplo brilho harmonizava-se com o rubi que ela trazia habitual-
mente na fronte. o que produzia no seu rosto. com os seus dois
olhos incendiários. cuja chama impedia de se Ihes ver a cor. como
que um tríânqulo de três rubis. Alta. robusta. e até majestosa.
talhada para mulher de um coronel de couraceiros, tinha. ainda
que dama nobre. a saúde de uma camponesa. que bebe sol pela
pele. e tinha tambémo ardor desse sol bebido. tanto na alma como
nas veias...
(BARBEY O·AUREVILLY. As Diabólicas).
Isto não évulgar. é fantasia: não se vê nada. Pura
ornamentação literária. arabesco recreativo. prurido de
estilo, descrição arborescente, virtuosidade e fogo de
artifício.
.. _ ~ ..-
-
248
A ARTE DE ESCREVER
Aqueles espelhos, os azeviches, as convexidedes
lustrosas, aquelas Auroras, aquelas frescuras rosadas,
aquelas rosas queimadas, aquele carmim luminoso, aque-
les olhos incendiários, aqueles rubis, aqueles ardores de
sol bebido, etc., nada disto pinta uma mulher ou qual-
quer pessoa.
E, não obstante, Barbey d'Aurevilly é um escritor;
tem°fogo, o ressalto, a cintilação, a expressão atraente,
a sedução do estilo, um estilo enflorado, colorido, íncí-
sivo, flamejante ...
Mas nele tudo proveio da imaginação, da fantasia
e do capricho.
Vejamos ainda este retrato:
A sua testa, regular, mas estreita, mostrava audácia. Os seus
lábios eramde uma imobilidade, que desesperaria Lavater e todos
aqueles, que julgam que o segredo da natureza de um homem
está mais expresso nos traços móveis da sua boca, do que no
aspecto dos seus olhos. Quando ele sorria, o seu olhar não sorria,
e então mostrava dentes de umesmalte de pérolas, como aqueles
Ingleses, filhos do mar, os têmàs vezes, para os perder ou ene-
grecer, àchinesa, nas ondas do terrível chá. O seu rosto era com-
prido, de faces cavadas, de certa cor escura, que lhe era natural,
mas tisnado pelos raios de umsol que, para o ter queimado tanto,
não podia ser o sol débil da nevoenta Inglaterra.
(BARBEY D'AuREVILLY, As Diabólicas).
Tais descrições não são mais que umbrilhante moví-
mento de palavras.
:.;: falar muito, para dizer pouco ou nada.
Por baixo daquelas linhas, não se vê ninguém, não
se distingue rosto algum; é apenas fantasia, a propó.•
sito das feições de uma cara.
A ARTE DE ESCREVER
249
Citamos Barbey d'Aurevílly, porque ele encarna uma
escola completa de 'descrição fantasista.
Se Homero tivesse empregado este processo, as suas
obras dariam cem volumes e não teriam chegado até
nós. Os ornatos vaporosos ter-se-iam dissipado pelo
caminho.
Imaqine-se o que a fantasia pode inspirar aos dís-
cípulos, quando os mestres abusam dela a tal ponto.
Evitai, pois, a todo o custo, esse género de des-
crição;evitai~o, porque tem todos os defeitos da ima-
ginação e nem uma só das suas virtudes.
A verdade não é aquilo; o caminho directo da arte
está em Homero e naqueles que observam o processo
......,. deste.
Tocadores de flauta, enreda dores de palavras, mala-
baristas líricos e coloristas, executantes de variações
sedutoras. sabeí que não é com subtílezas nem com
fantasia que se fazem descrições vivas.
As vezes, é um perigo escrever com muita facilidade;
não se pode parar, mete-se poesia emtudo, persequem-se
~ borboletas, pulveriza-se o estilo.
Por exemplo, tenho de falar de uma linda tez e
improviso isto:
Tinha a pele transparente c cor-de-rosa, dessa cor-de-rosa de
flor fresca, fechada, onde a alma, com um hábito de primavera,
insinua a sua frescura embalsamada. Era o tom mate dos lilás,
dos belos lilás pendentes. quando o dia enxugou as suas lágrimas
de ouro; uma brancura. emque se mesclaria o carmim das rosas
de Maio; havia ali transparência e macieza. neve purpúrea de um
sol moribundo. etc., etc.
Pode-se continuar indefinidamente neste tom e fazer
. --:-.~_._.-.
~~--~---'-.-
250
A ARTE DE ESCREVER
mil descrições neste género: mas afinal de contas terei
desfeito a cor, terei feito poesia pateta, mas nada terei
mostrado, nem criado.
Muitos escritores acumulamfrases sobre cada feição
de um rosto, sobre cada pormenor de um carácter.
Por exemplo:
Os olhos tinham aquela fixidez que revela pensamento pro-
fundo, energia interior. Eram negros, daquela cor que absorve o
brilho, do negro de ébano na sombra, do azeviche, etc.
A dilatação das pupilas. a claridade irradiada, quando sor-
riem... , a água vista de noite, estrelas afogadas. etc., etc.
oabuso da fantasia inspirou muitas vezes puerili-
dades a bons escritores, como Chateaubnand, quando
descreve o nariz do padre Aubry, aquele nariz que
«se inclinava para o túmulo!...» (Atala, L'" ed.).
Encher-se-iam volumes comas extravagâncias Ian-
tasistas de Vítor Hugo e de Saínt-Amand.
Umescritor, que Rousseau estimava, supunha como-
ver, escrevendo isto:
Vejo, com prazer a minha barba grisalha flutuar em ondas
esbranquiçadas sobre o meu peito e testemunhar a constante bon-
dade dos deuses. Brandos zéfiras, que murmurais em torno de
mim, não vos dedigneis de vir brincar nos refegos prateados, que
a minha barba forma debaixo do queixo.
(GESSNER).
Entre os imitadores. a descrição de fantasia chega
a não ser mais que uma figura compapelotes.
Imprimemumtraço emcada ídeía, e caem no mau
-~e~,
I
I
J
A ARTE DE ESCREVER
251
gosto, supondo-se oriqinais e variados. Vejam esta des-
crição, extraída de um escritor conhecido:
o mar sorria ainda ao sol desaparecido. O grande indolente
abraçava amorosamente os rochedos, e retraía-se nas enseadas,
oferecendo o seu espelho aos pinheiros inclinados para ele. O ata-
lho, que descia até à água, contornava a colina, ocultava-se um
momento, reaparecia mais longe, formava caprichosamente circui-
tos imprevistos ao longo dos pinhais, sempre verdes, que lhe ser-
viamde cortejo, de espaço a espaço, e que a brisa balouçava, como
saudação monótona à natureza. Caíra a noite. A cúpula infinita
do céu bordava de estrelas o seu véu azul, diamantes longínquos,
entressachados, aquém e além, pela pérola branca de um planeta.
Ao poente, as colinas longínquas, barreira ideal, fechavam o hori-
zonte da terra, evaporando os seus perfumes, como umaboca embal-
samada, que adormece. E aquela hora tinha uma lentidão estra-
nha naquelas trevas Iroixas, em que amortecia o balouçar da
vaga, em débeis amortecimentos sem fim, etc., etc.
Tudo isto pouca coisa revela.
Nada ali é vivo; são flores, frioleiras, guizos atados
às palavras e que se agitam para os pacóvios; má lite-
ratura, que se não deve imitar.
Posso dizê-lo, sem receio, visto que não foi nenhum
escritor conhecido, mas sim eu, quem improvisou aquele
trecho.
As sensações simples, sóbrias, escolhidas e limita-
das, devem preferir-se sempre.
Uma donzela lacrimosa:
Os seus olhos brilhavam corno chamas sob as ondas.
(FLAUBERT) •
---,.---------_. __. -
.<....-- ..•--------------,
252
A ARTE DE ESCREVER
Vinte linhas Iantasístas, acerca da chuva, não pro-
duzem sensação tão forte como esta imagem:
Adormeci, ao ruído da chuva, que tamborilava na capota da
minha cabeça.
(CHATEAUBRIAND) •
Nenhuma página de Barbey d'Aurevilly valerá esta
comparação, a propósito da lua:
Semelhante a grande pedaço de gelo, cheio de luz imóvel.
(FLAUBERT) •
E ainda isto:
1:: uma morena alta, de grandes olhos, olhos negros, muito
negros, e que ardem; fá-Ias mover, como eu movo, no escritório,
umespelho partido, para lançar relâmpagos; e rolam, nas órbitas,
sobem ao céu e levam-nos consigo.
(JÚUO VALLES, A Criança).
Censura-se à descrição com relevo o pôr tudo no
primeiro plano e não ter perspectiva. ..,
~ o defeito de Homero (se isso é defeito).
Homero fez sempre baixo-relevo,
Mais vale cair neste inconveniente, do que descre-
ver com prolixidade.
A descrição longa afoga as coisas, em vez de as
salientar.
Toda a arte está na sobriedade e na energia.
osegredo de enfadar é o de dizer tudo.
(VOLTAIRE) •
~----------
A ARTE DE ESCREVER
253
Evitai a profusão e a fadiga, tão justamente crítí-
cadas por Boileau:
Salto vinte folhetos
Para Ihes ver o fim,
E salvo-me, fugindo para o campo.
Fujam todos da estéril abundância
De tais autores. O que longamente
Se exprime é sempre, sempre fastiento...
Quem não sabe ou não pode restringir-se,
Escrever nunca soube!
Aos verdadeiros grandes mestres basta uma pínce-
Iada, alguns traços artisticamenteescolhidos, para pintar
vivamente os objectos e pô-los diante dos olhos.
Vede a pintura do gato emLa-Fontaíne:
Este é terno, gracioso, aveludado,
Mosqueado, humilde em sua cauda longa,
Olhar modesto em olhos luminosos...
,
1
Depois o galo:
O outro, inquieto, sempre turbulento,
Tem voz cortante e rude,
Um pedaço de carne na cabeça,
E uma cauda em penacho,
Com que se eleva, como que voando.
Para uma festa de igreja:
Ouvem-se os sinos do lugarejo; os camponeses largam os
seus trabalhos; o vinhateíro desce da colina; o lavrador acorre
da planície; o lenhador sai da floresta; as mães, fechando as suas
cabanas. chegam comos seus filhos; e as raparigas deixam as suas
coces, os seus rebanhos e fontes. para assistir à festa.
.-
254
A ARTE DE ESCREVER
Mas, dízeís que Homero também caiu na prolixidade.
que tem enumerações fatigantes, repetições enfadonhas,
comparações de «longa cauda», como lhes chamava
Perrault.
Certamente; mas no que é bom é que nos devemos
assemelhar a ele, e não seguir o exemplo de Chateau-
bríand, que algumas vezes imitou Homero desastrada-
mente nos Mártires como, entre outras, na passagem
seguinte (combate dos Francos e dos Romanos):
A cavalaria romana move-se para aniquilar os Bárbaros. Clo-
dião precipita-se ao seu encontro.
O rei cabeludo cavalgava uma égua estéril. meio branca, meio
preta, criada entre rebanhos de renas e de esquilos, nas coudela- ~.)
rias de Faramundo: os Bárbaros entendiam que ela era da raça
áe Rinfax, cavalo da Noite, de crinas geladas, e de Siliniex,
cavalo do Dia, de crinas luminosas. Quando durante o inverno
transportava seu dono num carro de cortiça, sem eixos esem rodas.
nunca os seus pés se enterravam na neve; e mais ligeira que a
folha de videira, arrastada pelo vento, roçava levemente a face
das neves recentemente ceidss. Umcombate violento se trava. entre
os cavaleiros, nas alas dos dois exércitos, etc.
Esta genealogia do cavalo de Clodião retarda a mar-
cha da narrativa, com que nada temos, e faz perdê-Ia
de vista,
Em nosso tempo tem-se abusado da descrição, que
está em risco de morrer de afectação alambicada, como
morreu de sensaboria e de vulgaridade no século XVlII.
depois de Saint-Lambert, Roucher e Delille,
Este género persistiu em prosa; e, na última metade
do século findo, recrudesceu furiosamente.
Zola fez dele a sua especialidade.
A ARTE DE ESCREVER
255
Evitai tal abuso. Sobretudo, não façais trechos sepa-
rados, colocados de propósito em tal ou tal ponto, como
fez Zola. Fazei, pelo contrário, que as vossas descrí-.
ções não sejam nunca longas, que penetrem a urdidura
dos factos, que façam corpo com o resto; que estejam
em toda a parte e não numa parte determinada, per-
didas, por assim dizer, na substância da obra, como os
nervos na carne.
Afonso Oaudet teve esse raro mérito.
As suas Cartas do meu Moinho, os seus Contos e
o Evangelista são modelos de fusão descritiva.
A descrição contínua não se pode admitir, senão
nas narrativas de viagem, como o Verão no Sehers, de
Fromentin; o Deserto, de Lotí, etc.
Lição Décima Sétima
As imagens
As imagens. - Necessidades das imagens. - O que é uma íma-
gemo- Imagens forçadas. - Imagens sobrecarregadas. - Ima-
·gens afectadas e empoladas. - Imagens muito sucessivas.-
O gosto é o limite das imagens. - As imagens são o encanto
do estilo.
Como dissemos, não trataremos de examinar as Iiqu-
ras de palavras e as figuras de pensamento.
O leitor encontrará nos manuais de literatura os
mais abundantes pormenores, sobre a significação e o
256
A ARTE DE ESCREVER T
j
valor dos tropos, cuidadosamente catalogados, classifi-
cados, circunstanciados, segundo o processo dos antí-
gos métodos literários.
Bastará abrir o primeiro compêndio, que nos apa-
reça, para saber o que é a prosopopeie, a exclamação,
a apóstrofe, a reticência, a preteriçêo, a interrogação,
a graduação, a antítese, ° epiioneme, a hipérbole, a
silepse, a entonomésie; o pleonesmo, a alegoria, a cata-
crese, a sinédoque.
Nada disto tem importância. i
Só falaremos das metáforas ou antes, das imagens, I
pois que a metáfora é sempre uma imagem. -j-_
A metáfora consiste em transportar uma palavra, .
de sua significação própria, para outra significação, em T
virtude de uma comparação, que se faz no espírito eque
.se não indica.
Éuma transposição por comparação instantânea.
Se dizeis, falando de Condé: Este leão precipita-se,
Iazeís uma metáfora.
Mas dizeis: Condé precipita-se, como um leão, e I
fazeis então uma comparação.
Quando o Profeta-Rei disse ao Senhor: a vossa i
palavra é uma lâmpada adiante dos meus passos.!
fez uma metáfora; se tivesse dito: A vossa palavra ilu-
mina os meus passos, como uma lâmpada, teria expri-
mido comparação e não teria havido figura nenhuma.
A metáfora é uma imagem, resultante de uma com-
paração subentendida.
Mas uma imagem nem sempre é uma metáfora.
A imagem é uma maneira vigorosa de escrever •
.é a maneira de tor~r um objecto mais sensível.
Quando Bossuet disse que os homens «se iam enter-
1
!
A ARTE DE ESCREVER
257
rando na iniquidade», não fez nenhuma comparação:
disse, de uma maneira mais enérgica, imaginosa, que
os homens se tornavam cada vez piores. E pinta-nos a
iniquidade, como um abismo, por onde o homem desce
gradualmente.
Pelo contrário, esta frase de Delavigne é uma ima-
gem que contém comparação:
A vida éumcombate, cujas palmas estão nos céus.
Estes versos de J. J. Rousseau apresentam imagens
que não são metáforas:
I
I
1
I
i
I
i
i
"
Sua voz formidável
No inferno reboa;
Rumor pavoroso
Os ares atroa;
A terra, agitada.
Treme de terror;
A lua sangrenta
Recua de horror!
A metáfora faz parte do próprio estilo; é inerente,
não só ao estilo, mas até à língua.
Não se pode escrever sem ela; e, falando, empre-
gamo~la continuamente.
Fervendo em cólera, voar ao combate, falar com
sequidêo. a penetração do espírito, a rapidez do pen-
samento, calor do sentimento, a cegueira da alma, a
torrente das paixões. o fogo da juventude, a primavera
da vida. a flor da idade. os gelos da velhice, o inverno
da vida. o peso dos anos. ébrio de glória, gelado de
susto. embalado de esperança. etc.
17
258
A ARTE DE ESCREVER
São isto metáforas, ou, falando mais simplesmente,
énas imagens que reside a grande força do estilo.
Em vez de dizer que Deus amparará uma pessoa
fraca e desgraçada, Volta ire diz na Zaira:
Deus. que dá força a todo o pusilânime.
Ampara a própria cana.
Que o vendaval curvara.
Esta ideia: morro prematuramente, reveste-se de uma
rica metáfora. neste verso de Lamartine.
Partiu-se ainda cheia, a taça dos meus dias.
Racine. em vez de dizer: impediu-se a destruição
da raça de David, diz:
E do extinto Dooid se rcacendeu o facho.
A ciência de escrever não consiste toda na imagem:
mas o encanto de estilo, a sua cor. o seu brilho. o seu
efeito e a sua vida. residem certamente na imagem.
Falaremos, pois, das imagens, em que se compreen-
dem as metáforas.
Não se deve abusar das metáforas. porque. com a
continuação, cansam. como ornamentações exageradas;
mas não se deve recear multiplicar as imagens.
Segui o conselho de Buffon, que chegou a dizer.
a propósito do estilo:
- «Seja cada pensamento uma imagem.»
Há metáforas atrevidas, que se vão buscarem
objectos muito pouco semelhantes àqueles que se querem
exprimir. como se chamássemos ao trovão a trombeta
do céu.
l
A ARTE DE ESCREVER
259
Não se devem tolerar tais metáforas, senão quando
as atenue um por assim dizer, ou outro qualquer rodeio:
Apesar, pois. de todos os cuidados,
Não logrou escapar à acção do tempo;
Pode reconstruir-se
Uma casa emruínas;
E pena é que o mesmo não suceda
Às ruínas do rosto.
Devemos evitar as imagens (imagens ou metáforas):
1.°...- Quando são forçadas, tiradas de muito longe,
e cuja relação não ébastante natural nem a comparação
bastante sensível; como quando um poeta chamou relva
aos cabelos de Ceies.
2.° ...- Quando são tiradas de objectos ordinários e
desagradáveis, como quando Tertuliano diz, falando do
dilúvio universal:
o dilúvio foi a barrela geral da natureza.
3.°...- Quando
ideias que se não
de Malherbe:
os termos metafóricos despertam
podem ligar. como nesta metáfora
Levanta-te. Luís.
E vai, como umleão,
Levar o último golpe à última cabeça
Dessa rebelião!
Luís é sucessivamente comparado a [úpiter, senhor
do raio, a um leão, e a Hércules, que derruba a hídra
de Lerna.
260
A ARTE DE ESCREVER
Rousseau cometeu erro igual na seguinte estrofe:
o longo inverno. que branqueou os campos.
[á não impede o curso dos regatos;
E o tépido hálito dos brandos zéfíros
Foi derreter a crosta
Das águas.
A crosta das águas. em vez do gelo. é metáfora
pouco natural.
Evitai todas as imagens forçadas. como a de Vítor
Huqo, quando descrevia a brancura de uma tez de
menina:
Esta criança parecia neve petrificada.
Seria esta uma imagem admissivel. mas prejudicou-a
a expressão.
A imaginação é que faz encontrar as imagens.
Ora a imaginação desregra-se fàcilmente; e. se nos
deixarmos arrastar por ela. esmaltaremos o estilo com
uma ornamentação excessiva. que raia pelo grotesco e
pelo incoerente.
Afonso Karra escreveu:
- «Sucedeu-nos um dia pedir a um nosso amigo.
que. sob a nossa dírecção, pintasse. ditando nós. um
retrato de mulher; e. pegando num livro. cujo autor não
importa nomear. lemos: «Ela tinha uma testa de marfim.
olhos de safira. sobrancelhas e cabelos de ébano. faces
rosadas. boca de coral. dentes de pérolas e um pescoço
de cisne». Pois bem! este conjunto formava a coisa mais
hedionda do mundo.»
Um retórico antigo. Quintiliano, chamava às Fiqu-

A ARTE DE ESCREVER
261
ras os próprios olhos do discurso, mas pedia, continuando
a sua comparação, que esses olhos não estivessem aqui
e ali, por todo o corpo.
Afonso Karra tem razão.
A profusão das imagens violentas ou atrevidas
deforma a visão, falseia a cor e desagrada ao gosto.
Fàcilmente se cai na extravagância, quando se pro~
cura a originalidade.
É forçar uma imagem o dizer-se:
Embrenha-se nas negras cavernas do crime...
É trivial quem descreve:
,
' -
,
[úpiter, vomitando neve sobre os Alpes...
Há um livro de Vítor Hugo, em que abundam as
imagens extravagantes. Éas Canções das Ruas e dos
Parques.
Em quase todas as suas páginas se vê a que exces-
sos pode chegar a imaginação desenfreada, abandonada
à fantasia.
O perigo da fantasia, em matéria de imagens, é cair
no preciosismo ou na insipidez.
Vítor Hugo escreve: «Nevam borboletas»! é mais
feliz, quando compara as árvores floridas à«neve per-
fumada da primavera»; mas está emmaré de mau gosto,
quando põe em cena irmãos que assassinam sua irmã.
por esta ter tirado o seu véu.
Eu.:
Sobre os meus olhos...
Estende-se umvéu de morte:
262
A ARTE DE ESCREVER
ELES:
Ao menos esse, não o tirarás!
Pala também algures da «tosse lúgubre» dos vul-
cões, do «bocejo negro do Etna».
Depois, temos os soldados de uma companhia, que
perderam o seu capitão em batalha, e que, pensando
nele, por uma linda e clara noite, julgam tornar a ver,
ao avistarem o crescente da lua, a «gola do capitão».
O preciosismo e a afectação das imagens são insu-
portáveis; todo o escritor razoável as deverá evitar.
Molíêre deixou-nos belos exemplos dessa gíria:
Trezei-nos as comodidades da conversação; em vez
de: aproxima i as poltronas.
Satisfazei a vontade, que essa poltrona tem, de vos
abraçar; em vez de: sentai-vos,
O conselheiro das graças; em vez de: um espelho.
La-Motte chama a uma sebe: a Suíça de um jardim.
Lemoine, descrevendo o desembarque do exército
francês, diante de Damieta, conta assim a coragem, com
que S. Luís se atirou ao Nilo:
,i"-
.,
Luis, impaciente,
Salta do seu navio;
O fogo do seu peito
Faz que despreze a água.
Nada é mais pueril que esta oposição do fogo e da
água.
Balzac escrevia a um homem amargurado:
A vossa eloquência torna contagiosa a vossa dor; e que gelo
se não derreterá, ao calor das vossas belas lágrimas?
, .
A ARTE DE ESCREVER
263
Um poeta disse àVirgem Maria:
As tuas lágrimas apaqaríam todo o fogo dos infernos.
Nada é mais vulgar em nossos dias, do que estas
aproximações forçadas.
Eis aqui uma metáfora, que foi admirada pelos
retóricos dos séculos clássicos, como exemplo de figura
oratória:
ó Deus! que é o homem? é um prodígio? é um conjunto
monstruoso de coisas incompatíveis? é um enigma inexplicável?
ou não será antes, se assimposso falar, um resto de si mesmo,
uma sombra do que foi a sua origem, um edifício arruinado,
que, nos seus compartimentos derruídos, conserva ainda alguma
coisa da beleza e da grandeza da primeira forma? Caiu em
ruínas pela sua vontade depravada; o vértice caiu sobre as
paredes e sobre os alicerces: mas, revolvam-se essas ruínas, e
encontrareis nos restos desseedifício desmoronado os vestígios das
formações. a idéia do primeiro desenho e o sinal do arquitecto.
Em nossa humilde opinião, tal imagem, tão demo-
radamente mantida, destrói e nem sequer deixa ver o
objecto que se quer pintar.
Acabamos por não saber se se trata do homem ou
de um velho edifício; só se notam destroços materiais.
um aspecto de coisas físicas, que faz esquecer a ideia
principal.
As regras literárias afroixaram muito, há cinquenta
anos para cá, e hoje há muito menos rigor em questão
de imagens e de metáforas.
Apesar da opinião de Condillac, segundo o qual se
não devia acrescentar nada, que não tivesse analogia
coma primeira imagem, poderiam citar-se muitos exem-
264
A ARTE DE ESCREVER
plos de metáforas. que se relacionam e nem sempre se
seguem lógicamente.
Nada de excessos rigoristas.
O talento tudo pode salvar.
A imagem muito longa. e fielmente continuada. foi
ridicularizada por Molíére, nas suas Sabichonas:
FILAMlNTE:
Servi-nos prontamente
A refeição amável.
TRISSOTIN:
Para esta grande fome.
Que expõem aos meus olhos.
Parece-me ser pouco
Umprato de oito versos;
Creio que mal não faço,
Juntando ao madrigal ou epigrama
O oportuno guisado de umsoneto,
Que, no conceito de gentil princesa.
Passou por ser umtanto delicado.
--
As imagens são como aqueles meteoros, que embe-
lezam as noites de verão e sulcam os belos céus puros;
devem ser numerosas, brilhar e apagar-se depressa.
Há imagens. que os clássicos. sem-razão, conde-
navam.
No Hernêni de Vítor Hugo, Dona Sol diz a Hernâni:
Vós sois o meu leão soberbo e generoso...
O que desesperou. como se sabe. os amadores da
antiga tragédia .
•...-
-
A ARTE DE ESCREVER
265
Contudo, aquela palavra encontra-se, não só em
Malherbe:
Toma o raio, Luís, e vai como umleão...
Mas precisamente numa tragédia de Racíne, naquela
súplica, feita por Ester, antes de ver Assuero:
Acompanha os meus passos à presença
Do leão altivo. que te não conhece;
Faze que o seu furor acabe ao ver-me.
Por meio da metáfora ou da imagem dá-se vulto
e cor às coisas mais abstractas, e apresentam-se os
objectos sensíveis sob traços mais enérgicos e mais
graciosos.
A metáfora personifica as paixões, dá reflexão aos
animais e sentimento e acção às coisas inanimadas:
A onda, que o trouxe, recua, aterrada.
(RACINE).
A clareza e a verdade das imagens dependem, mais
ou menos, das relações, que existem entre umsentimento
ou uma ídeía e o objecto físico, a que se comparam.
Se, por exemplo, o génio ou a eloquêncía de um
orador dissipam a obscuridade das minhas ideias, ocor-
re-me que o sol produz o mesmo efeito sobre a natureza,
e digo daquele orador que é um génio luminoso.
Uma imagem é forte, quando é ao mesmo tempo
imagem e metáfora.
Perguntavam a Agesilau por que era que Lacede-
mónia não tinha muralhas.
266
A ARTE DE ESCREVER
E ele. mostrando os seus soldados. dizia:
Eis aqui as muralhas de Lacedemónia!
Como dissemos já. o encanto do estilo está nas
imagens.
A poesia. principalmente a poesia. vive de imagens;
não se concebe sem elas.
Moliêre contudo tem pouco disso; mas Racine, que
só fez teatro, cultivou muitas imagens, e Shakespeare
está cheio delas.
Vítor Hugo foi o rei da imagem, e Sully-Prudhomme
quase que a não conhece.
Boileau também possui essa virtude. " ' 11
Por isso é que classificaram os poetas, talvez injus-
tamente, em poetas propriamente ditos e versífícadores.
O próprio Pascal, mais prosador profundo do que
colorísta, encontrou imagens empolgantes, quando disse
algures: «Assusta-me o silêncio dos espaços infinitos»:
e noutro sítio: «Os rios são caminhos que andam».
~
\
A ARTE DE ESCREVER
267
Lição Décima Oitava
A criação das imagens
A criaçao das imagens. ~ Como se encontram e se produzem
imagens. ~ Imagens de fantasia. ~ Imagens verdadeiras.
Estamos hoje em dia. de' tal forma habituados à
necessidade das imagens no estilo. que não podemos
passar semelas, e até o seu excesso nos não desagrada.
A imaginação emancipou-se.
Passaram-se todas as marcas. sem olhar àqualidade.
Aceita-se tudo. admira-se tudo. contanto que seja uma
imagem.
As puerilidades. que Boíleau apontava em Saint-
-Amand. são tidas como fantasias de génio. entre os
nossos escritores contemporâneos.
A falta de gosto precipitou-nos no que se poderia
chamar a anarquia da imaginação. Bastará que folheeis
dois volumes de Vítor Hugo. um em verso de que já
falámos: As Canções das Ruas e dos Bosques, e outro
em prosa. intitulado William Shekespeere. Ambos são
típicos e revelam o estado da alma. literário e imaqína-
tivo, da nossa época.
Isto não impede que a leitura de Vttor Hugo seja
infinitamente proveitosa para o estudo e criação de
imagens.
Como havemos de encontrar imagens. e tomá-Ias
salientes. quando elas o não são?
268
A ARTE DE ESCREVER
Vamos ver o que o trabalho e a refundição são os
dois meios, afora o gênio natural. que as fazem des-
cobrir.
A primeira condição da imagem, como do estilo, é
ser nova, comrelevo, original. criada e empolgante.
Épreciso evitar, a todo o custo, empregar imagens
usadas, que serviram a toda a gente, como: o veneno
da lisonja; o facho da discórdia; a corrente da demo-
crecie: a espada da lei: a balança da justiça; os etmi-
nhos da realeza; a águia de Meaux; o cisne mantuano;
a pérfida Albion: a moderna Babilónia; a lusa Atenas;
a tirania das paixões; os raios da eloquêncie ...
Noutros termos, é preciso renovar as imagens; sem
isso, o estilo não ê mais que o «vestuário de uma retô-
rica, feita em pedaços, à força de ter servido a toda
a gente».
Barbey d'Aurevílly, que teve o dom da imagem
estonteante e fantasista, censura George Sand de só
ter usado imagens antigas, e nota nas Cartas a Márcia,
da autora da Indiana, este gênero de imagens, que cons-
titui a feição de George Sand:
Trata-se sempre de tempestades, de ruínas que desabam, de
folhas secas, que o vento da morte dispersa, da pomba que cons-
trói o seu ninho solitário (para dizer: celibato), de vulcões
entreabertos do solo (para dizer: paixões acalmadas), do anjo do
destino, da lámpada da fé; do reinado da verdade que se anuncia
no horizonte; do vulcão, do eterno vulcão, que vomita pelas suas
mil crateras lava e lodo; e finalmente do escudo, para dizer o sen-
timento que defende o coração!
Pois bem! - haverá um só destes tropos decrépitos e solenes
que. francamente. esteja acima do alcance de um Prudhomme
qualquer. que queria dizer as mesmas coisas que George Sand?
.J.
I
I
i
' .
(BARBEY D'AUREVILLY. Les Bas Bleus, pág. 60).
A ARTE DE ESCREVER
269
Por outro lado. há imagens. que se podem rejuve-
nescer.
Shakespeare disse:
- «Olhai este luar. que dorme sobre este banco».
(Mercador de Veneza).
Chateaubriand repetiu:
- «O mar que dormia.»
E Lamartine por sua vez:
Na fímbria do horizonte
A Lua se balança;
E sobre a verde relva
Dormemseus froixos raios.
A palavra «dormir» sempre produziu imagem. e
tiraram dela lindos efeitos:
olargo clarão da lua.
A beira da água dormente...
(V. HuGO).
E despertou os filhos que dormiam...
(V. HUGo).
Aprazem-se as florestas.
Tenebrosas. suaves
Onde o silêncio dorme
No veludo dos musgos.
(V. HuGO).
Pascal chamou ao sol «essa brilhante luz. lâmpada
eterna para iluminar o universo».
270
A ARTE DE ESCREVER
Após ele, Lamartine disse:
Como áurea lâmpada, no azul suspensa,
Vê-se a Lua, no extremo do horizonte.
E depois Leconte de Lísle:
Sozinha, a Lua pálida,
Iluminando nuvens,
Oscila tristemente,
Como -lêmpede moma ...
É assim que cada qual pode renovar uma mesma
imagem.
Criar imagens é uma arte. A sua originalidade e
a sua vivacidade dependem evidentemente da imaqina-
ção pessoal de cada um; mas há uma espécie de imagens,
que se podem descobrir, mais Iàcilmente do que outra.
Épreciso aplicar atenção, pensar nas diversas rela-
ções que os objectos podem apresentar; nas ideias
de [lenco, que lateralmente evocam; nas semelhanças,
nos contrastes, nas antíteses.
Processo excelente, para encontrar imagens, é desen-
volver a ídeia. exaqerá-la propositadamente.
Ernesto Dupuy fez curiosas observações sobre o
manuscrito da primeira Lenda dos Séculos, de Vítor
Hugo.
O simples aspecto dessas páginas, o estado do texto,
as adições que estão àmargem demonstram os processos
do poeta.
Nota-se que o seu constante cuidado era chegar à
imagem forte, alargando a expressão que não era bem
expressiva.
A ARTE DE ESCREVER
271
- Vítor Hugo escrevera primeiro:
odemônio batia em sua forja;
Bramia...
«Mas a palavra bater parece-lhe pouco expressiva.
Retoma a sua ídeia, aquece-a na forja e faz saltar estas
faíscas:
E, batendo cinzel, pilão e malho,
Estremecer fazia
Toda a horrível caverna.
Os martelos, ferindo,
Expediam relâmpagos,
Formando tempestade.
Os olhos chamejantes,
Dir-se-íarn duas brasas na cabeça.
E ele bramia...
«Em Bioer,
retrato de Cíd,
abstracções:
o primeiro esforço tinha produzido este
quase todo feito de epítetos morais e de
Absoluto imperáveis.
Poderoso, brilhante.
Tendo nas mãos a lança,
Penacho na cabeça...
«o poeta sente a necessidade de alargar, esclarecer
e animar esta definição do herói das Espanhas, e a
fórmula primitiva transforma-se nesta:
Tudo quanto não fosse
O comandar exércitos,
J ulgáveis fumo e nada,
272
A ARTE DE ESCREVER
~
I
I
E vós só aceitáveis
Que o Cíd heróico fosse
A magistral figura.
Semchefes e semjugo.
Vós do:nináveis tudo.
Altivo. lança empunho.
Penacho na cabeça.
«No Ano Novo da Heqice, que desde os primeiros
versos nos apresenta um retrato expressivo do profeta
do Islão, a fisionomia moral de Mafona cifra-se apenas
em dois traços:
Ante o pilar sagrado.
Rezava Iongamente
E jejuava por inaís tempo. que outrem.
Nos dias de jejum.
I
I
I
«Estas refundições do pensamento não são reais.
mas o manuscrito demonstra principalmente até que
ponto Hugo possuía o cuidado e a ciência da palavra.
«O que o poeta procura. nos seus numerosos reto-
.ques, que influem nos pormenores da expressão. é o
relevo. ou a cor. ou a harmonia.
«Quem tiver o ouvido exercitado na harmonia do
verso, sente a diferença de sonoridade. que existe entre
esta forma de alexandrino:
Mas que sabemos nós? Quemsonda o fundo às coisas?
Que sabemos nós! Quem conhece o fundo às coisas?
.e esta que substituiu a primeira:
A ARTE DE ESCREVER
273
cHugo apaga frequentemente a palavra mais nobre:
Sonhou BOO2: que umcarvalho lhe saia
Do ventre e se elevava até aos céus.
«Hugo escreveu sucessivamente as suas ilhargas.
a sua ilharga. o seu ventre.
«Poderá dizer-se que aquilo não é mais que uma
característica de escola; mas há casos, em que a simples
aparição do termo trivial transfigura o verso:
I
I
1
i
\
Aquela, com quemeu dormia, há muito
que abandonou meu leito,
Fugindo para vós, Senhor! E, todavia,
Ainda nos sentimos Impregnados
Um do outro, mas ela meio viva,
E eu, Senhor, meio morto.
Esta magnífica expressão - impregnados um do
outro. foi substituir esta forma trivial:
E um e outro formamos inda um par.
«Coisa curiosa I Hugo, que não é capaz ou que não
sente a necessidade de pôr diques àsua fluência, encurta
com cuidado a expressão e expulsa do seu verso os
termos de recheio.
«O famoso filólogo Darmesteter (1) observa:
- «Vede o que Vítor Hugo tirou da palavra [uiva.
que efeitos inesperados ela lhe fez produzir, unicamente
pela maneira como ele a incluiu na contextura da frase:
(') Vie des Mots.
18
·.
.
274
A ARTE DE ESCREVER
A morte, esqueleto calvo.
Atrás deles caminhava.
Nas narinas dos seus cavalos fulvos
Díríeís que ressoava
O Oceano ou a floresta...
«Aqui [uivo é tomado no sentido próprio: que tem
pelo ruivo (falando-se de animais).
Gabam muito Eviradno.
Se ele se deita e sonha,
Dír-se-ía Carlos Magno,
Já cabeludo e fulvo,
Como se fosse um lobo,
Mas lobo inofensivo.
«Aqui [uloo está entre o sentido próprio eo figurado.
«Significa, acaso, o pêlo ruivo ou bravio, como o
das feras que habitam a floresta?
«Finalmente, nos seguintes versos, [ulvo toma uma
acepção nova, extraordinária:
A tempestade é irmã
Da [ulo« batalha.
«Eis como Vítor Hugo chega a dar àpalavra [uivo
todo o horror grandioso das forças misteriosas.»
Quando lemos em Lamartine:
«Os leitos múrmuros dos regatos», as ondas «har-
moniosas», são imagens criadas, para que nada nos
prepara, nem nos faz supô-Ias.
Assim Vítor Hugo. descrevendo o céu ao fimdo dia,
diz que. de espaço a espaço, se vê um clarão ~omo se
«algum gigante dos ares houvesse desembainhado a sua
espada».
A ARTE DE ESCREVER
275
o mesmo poeta. descrevendo as noites de Junho.
tão puras e tão claras:
A alvorada. esperando a sua hora.
Parece andar vagueando.
Toda a noite. por baixo do horizonte.
Eis aqui imagens. que se podiam chamar essencial-
mente imagens de imaginação. que surpreendem pelo seu
imprevisto. de uma qualidade que sentimos difícil encon-
trar por nós próprios. que revelam o génio. e de que
se não pode ensinar a arte.
Mas a aplicação do espírito. o esforço do trabalho,
podem fazer-nos descobrir certas imagens.
Uma imagem é uma relação de comparação e essa
relação varia infinitamente, conforme o cérebro que
pensa e os olhos que vêem.
Épreciso pois ler os escritores imaginosos, embora
tenham só esse mérito.
À força de compreendermos as suas metáforas.
encontramos em nós próprios o mesmo género ou apro-
ximações.
Pode suceder que não deis muito, no primeiro e
segundo jactos; e então podereis refundir o vosso tra-
balho, reflectir, comparar e distribuir.
Se pinto um raio no outono e se comparo os olmei-
ros, envoltos em bruma. a «lustres de igreja em dias
de semana», será isto uma linda imagem. do género
daquelas que se podem encontrar com talento e dis-
posição imaginativas.
Talvez me tenha lembrado, sem dar por isso, do
que diz Chateaubriand, quando compara o pôr do sol
276
A ARTE DE ESCREVER
ao «lustre, que se desce, quando está concluído o
espectáculo».
Um dos frutos da leitura bem feita éministrar, por
transposição, coisas similares às quais ajuntamos alguma
coisa nova.
A Lua abre. na onda.
O seu leque de prata.
(V. Huoo).
Eis aqui uma imagem, que poderia ocorrer a muitos
poetas, e Herédía recordou-se talvez dela, quando
escreveu. acerca do pôr do sol. uns versos, que lhe
são aliás tão pessoais:
O sol.,;
Fecha as varetas de ouro
Do seu leque vermelho.
Assim como num poeta. Vítor Hugo principalmente.
uma imagem traz outra, assim pela leitura a imagem
do outro desperta as nossas. ~.
O que constitui a má qualidade das imagens é o
seu carácter fantasista e exagerado.
O sol inflamando as evaporações da cidade. parecia oscilar
lentamente num fluido de ouro, como pêndulo do relógio dos
séculos.
(CHATEAUBRlAI':D) .
As vezes. uma alta coluna se mostrava só, de pé. numdeserto.
como umgrande pensamento se eleva, comintervalos, numa alma
que o tempo e a desgraça devastaram.
(CHATEAUBRlAND) .
A .ARTE DE ESCREVER
277
Eis aqui a comparação, ou antes a imagem de Ian-
tasía, a imagem bela; não se baseia na realidade das
coisas, éum pouco fictícia; e só fracamente se relaciona
com a semelhança aparente.
Seduz e surpreende, mas é por esse caminho que se
cai no preciosismo, no requintado.
Pelo contrário, eu diria:
Avista o Nílo onduloso e claro, sob a alvura da Lua. como
uma serpente no meio das areias.
(GUSTAVO FLAuBERT, A Tentação).
Ou então, para descrever o rugido do leão, com-
para-o a «um longo mugido, forte e cavernoso, como o
ruído da água num aqueduto» (Flaubert).
E ali temos dois exemplos de imagens verdadeiras:
nem o tempo nem a moda poderão influir sobre eles;
e não serão excedidos, porque dão sensações exactas.
La-Fontaíne faz que a andorinha diga aos seus
filhinhos descrevendo as sementeiras:
Vedes aquela mão, que caminha nos ares?
Há aqui uma imagem verdadeira, a visão do gesto
do semeador, visto por baixo, num campo.
Assim como este pôr do sol. no mar, que desdobra
o astro:
Sobre as ondas profundas,
Sobre as ondas vermelhas,
Como dois reis amigos
Foram vistos dois sóis aproximar-se,
Um emfrente do outro!
(V. HuGO).
- - - - - - - - - - - - - - - - ~.••...
278
A ARTE DE ESCREVER
1
Em resumo, dois conselhos se devem observar, na
arte de criar imagens.
Primeiro, ser exigente com a qualidade da imagem,
para evitar o preciosismo e o mau gosto.
Em segundo lugar, habituarmo-nos a conservar
apenas as imagens verdadeiras. isto é, as metáforas.
que em vez de provocar a imaginação, se impõem a ela.
A leitura de Chateaubriand, de Bernardim de
Saínt-Píerre, de Vítor Hugo, de Leconte de Lísle, será,
a tal respeito, altamente proveitosa.
Lição Décima Nona
o diálogo
Do diálogo. - A arte do diálogo. - O diálogo escrito e o diálogo
falado. - O diálogo literário. - O diálogo convencíonalv-->
Deverá fazer-se diálogo fotográfico? - O diálogo falado e
verdadeiro. - Diálogo justo. - Octávío FeuilIet. - Diálogo do .J I.
autor. - Sardou, Augier. - Como escrever bom diálogo.-
O bom e o mau diálogo.
A questão do diálogo ocupa, na arte de escrever,
quase tão amplo lugar, como a descrição.
Não é raro introduzirem-se numa narrativa perso-
nagens que falam; o movimento de uma acção depende
disso, às vezes completamente.
Pode-se até tratar um assunto exclusivamente em
diálogos, sem obrigação de fazer teatro.
A arte do diálogo merece, pois, algumas reflexões
___ o
-
A ARTE DE ESCREVER
279
.-
gerais. à míngua de estudo profundo. que nos levaria
muito' longe e se referiria sobretudo àarte dramática.
Não há nada mais difícil. do que o diàlogo!
O bom diálogo é a última coisa que se aprende; é
quase um dom.
Exige qualidades de movimento. de rapidez. de
elegância concisa e impulsiva. que constituem precisa-
mente a vocação dramática.
Há duas espécies de diálogos: um literário. Iraseado,
arquítectado, próprio do livro; e outro que é a repro-
dução fotográfica da palavra falada. na sua concisão
imprevista. elíptico, febril. saltitante ...
Ora. nada é mais difícil que a arte de equilibrar
estes dois extremos. visto que há romancistas. que
patentearam excelentemente o som da palavra falada.
como Flaubert, Daudet, Goncourt, e nunca foram bem
sucedidos no teatro. em que aliás triunfou Scribe,
Feuillet, Sardou, Dumas filho. Augier.
Há. para isto. razões de execução. que seria curioso
estudar numa obra especial.
Neste momento. só examinaremos os meios a empre-
gar. para atingir a boa qualidade do diálogo.
Em geral. o diálogo não pode ter a vivacidade. a
vida. a ilusão do verdadeiro. se estiver escrito no pró-
prio estilo da narrativa.
São precisas outras frases. diferentes das frases de
um livro ou de um trecho literário; frases concebidas de
outra forma. mais curtas. mais ofegantes. mais incisivas.
É necessário que cada personagem diga poucas
coisas ao mesmo tempo. pela razão de que, numa con-
versação. cada um quer falar e não ouve. durante muito
tempo. o seu interlocutor.
s
280
A ARTE DE ESCREVER
J
.Salvo as tiradas voluntárias e preparadas, a res-
posta rápida é que constitui o interesse de um díâloqo.
Mesmo concedendo algumas linhas a cada perso-
nagem. a qualidade das frases é que determinará o
movimento e o atractivo do diálogo.
Nada épior nem mais oposto ao verdadeiro diálogo.
que os supostos Diálogos dos Mortos, de FonteneIle
e de Fênelon.
É retórica fria e ínexpressiva, uma seqüência de
frases literàriamente escritas. postas na boca de certas
personagens convencionais.
Já se sabe que isto é um género. uma série de Iraq-
mentes demonstrativos. que nada têm de comum com
a conversação falada; forma antiga de composição. que
permite desenvolver uma tese. expondo-se razões a favor
e contra.
Tais são os Diálogos de Platâo e o Tratado dos
Deveres, de Cícero; os Diálogos sobre a Eloquéncie,
de Fênelon: os Entretenimentos sobre a Pluralidade dos
Mundos, de FonteneIle; os Entretenimentos Metafísicos,
de Malebranche; Os Serões de Sen-Petersburqo, de
JOSéde Maistre.
Estas espécies de trabalhos podem abranqer-se sob
a denominação geral de diálogos filosóficos. à imitação
dos famosos Diálogos de Lucíano, que tinha. a mais,
a réplica temível e o relevo da graça.
Vejamos esta passagem de um diálogo de Fénelon:
Bordão ~ Sinto-me vitorioso de um inimigo. que me ultra-
[ou: vingo-me dele; expulso-o do Mílanês. Faço sentir a toda a
França quanto ela é infeliz emme ter perdido. levando-me a tais
extremos; dizes tu que isto é para lamentar?
Bayard ~ Sim: devemos sempre lamentar aqueles que vão
A ARTE DE ESCREVER
281
contra os seus deveres; mais vale morrer. combatendo pela pátria.
que vencê-Ia e triunfar dela. Ah! que horrível glória a de destruir
o seu próprio país!
Boedão - Mas a minha pátria foi ingrata depois de tantos
serviços que lhe prestei. A Rainha fez que me tratassem indigna-
mente. por um despeito de amor! O Rei. por fraqueza para com
ela. fez-me injustiça enorme. despojando-me dos meus bens; até
me tirarem os criados. Matignon e Argougesl Para salvar a vida,
fui obrigado a fugir quase só. Que querias tu que fizesse?
Bayard - Que sofrêsseis toda a espécie de males. antes que
faltar aos vossos deveres para com a França e a grandeza da
vossa casa! Se a perseguição era bastante violenta. retirásseís-vos:
mas mais valia ser pobre, obscuro, inútil para tudo, que tomar
armas contra nós. A vossa glória chegaria ao cúmulo, na pobreza
e no mais miserável exílio.
Bordão - Mas. não vês tu que a vingança se aliou àambição
para me lançar em tal extremidade? Eu quis que o Rei se arre-
pendesse de me ter tratado tão mal.
Éisto O contrário do verdadeiro diálogo dramático.
Falta-lhe vida, movimento.
Desembaraçai a frase da sua estrutura escrita. e
dai-lhe o aspecto que ela tem na conversação.
Vamos ver um diálogo. que possui o tom da própria
realidade. e que é extraído da Eoenqeliste, de Afonso
Daudet.
A senhora Antheman, a Evangelista. arrebatou a
jovem Lina a sua mãe.
A mãe procura a filha, lamenta-se, faz pesquisas
por toda a parte.
Sabedor do caso, o velho sacerdote Aussandon conta
a sua indignação a sua mulher, Bonne:
- «Orgulho, não há senão o orgulho naquela mulher! Nem
coração. nem entranhas... A peste anglicana tudo lhe devorou ..•
tão fria e gelada! Olha. como este mármore... »
t. ..
282
A ARTE DE ESCREVER
ovelho deão. sentado diante da chaminé. bateu violentamente
no fogão com as tenazes. que Bonne, silenciosa. lhe tirou das
mãos. Ele não deu por isso. tão animado estava. e continuou a
narrativa da sua visita ao palácio de Antheman:
- «Supliquei. ameacei. procurei chamá-Ia à razão..; Nada
obtive. serão frases de sermão. a insipidez da fé. a utilidade dos
grandes exemplos... Sque ela fala bem. a mestiça...• muito sota-
que de Canaan... Mas eloquente. convencída ... Não me admiro de
que houvesse transtornado aquela cabecinha... Olha o que ela fezde
Crouzat!. .. Ah! mas também. disse-lhe tudo que eu pensava dela.s
E levantou-se. caminhando. com grandes passadas...
- «Finalmente. quem é a senhora? Em nome de que autori-
dade fala?.. Não é Deus que a conduz... Nas suas acções, não
vejo senão a sua alma ruim e fria. que parece aborrecer a vida e
procurar sempre alguma coisa para vingar.
- O marido estava presente? - perguntou a velha. espan-
tada. - E ele não dizia nada? ..
- Nem uma palavra... Apenas um sorriso contrafeito. e
aqueles olhos. que queimam. como uma lente ao sol...
_ Mas. senta-te., , estás num tal estado!. ..»
De pé. por detrás da cadeira. onde descansava finalmente o
seu grande homem. a senhora Aussandon enxugava-lhe a fronte.
inteligente. ampla e cheia; tirava-lhe o agasalho que ele tinha
ao pescoço. e que conservava. desde que entrou.
- Ora. vamos. afliges-te de mais...
- Por que não? Tão grande desgraça. tal injustiça... Faz-me
pena aquele pobre Loire.
- Oh! esse... - disse ela. com um gesto de rancor contra o
homem que tinham. por um momento. preferido a seu filho.
- Mas a mãe! aquela mãe. que nem sequer pode saber onde
está sua filha... Supõe-te em frente daquela mulher e do seu
silêncio. que a cobardia dos homens autoriza... ; que fazias tu1
- «Eu? Comia-lhe a cabeça' »
Isso foi dito com tão terrível gesto do queixo para a frente.
que o deão pôs-se a rir; e animado pela cólera de sua mulher:
- «Ohl mas não acabaram aínda comigo... Nada me impe-
dirá de falar. de os denunciar à consciência pública... ainda que
eu tenha de perder o meu lugar ... »
..fo:..
i
i
I
I
í
l
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!
!
I
!
I
I
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-
A ARTE DE ESCREVER
283
Palavra desastrada, que de repente acordou a dona da casa
para a gravidade das circunstâncias; ah! ah! desde que corria
perigo o seu lugar...
- «Vais dar-me o prazer deestar sossegado... Ouves, Alberto?
- Bonne! Bonne!. .. - suplicou o pobre Alberto,
Bonne nada queria escutar. Ainda se fossem sós, poderiam
arriscar a partida.
Mas havia filhos; Luis, que ia passar a subchefe; a colocação
de Frederíco, o mais velho...
Poderosa, como era aquela gente, bastaria que fizesse um
sinal..;
- E o meu dever? .. - murmurou o deão, que afrouxava.
- J á o fizeste, e até de mais! Julgas acaso que os Anthemans
te perdoarão as palavras duras, que Ihes dirigiste hoje? Ora
ouve...»
Tomou-lhe as mãos e convenceu-o com razões.
Naquela idade, gostaria ele de correr aventuras? ..
Ele dizia sempre: no alto da colina... no alto da colina...
Mas devia recordar-se bem do trabalho que haviam tido para
subir... E aos setenta e cinco anos cair sobre os joelhos, era duro!
- Bonne...
Era a última resistência pela honra; pois que os argumentos
de sua mulher acabavam de confirmar os dos seus colegas...
Eis aqui verdadeiro diálogo falado e não diálogo
escrito.
Não esqueçamos, contudo, que há na fotografia
pura e simples da conversação um escolho a evitar:
é a rudeza e a vulgaridade; acaba-se por não ser elo-
quente, à força de ser terra-terra.
São exemplos os diálogos de Henrique Monnier,
conversações vulgares, sobre qualquer assunto, e que
não têmoutro valor, senão o da reprodução fiel do calão
vulgar.
Numa palavra, nada de construções fraseadas, nada
de rodeios afectados, nem de molde literário.
284
A ARTE DE ESCREVER
,
t
,
Soltai a frase, deíxaí-lhe a espontaneidade, o porte
vivo, a oportunidade do momento, a crítica e o impre...
visto da réplica; o diálogo entretanto deve ser dirigido
com tacto, sabendo ainda a estilo, não estilo narrado,
expositivo e aplicado, mas estilo discreto, uma intenção
de eloquência; cumpre que se sintam as rédeas, semque
se veja a mão.
Os diálogos dos romances de Octávio Feuillet são
modelos, sob este ponto de vista.
Devem-se ler constantemente.
Eis aqui um exemplo. tirado, ao acaso, de um dos
seus livros menos célebres.
A senhora Rias recebe a visita de sua prima, a
senhora Estrêny, que procurara, embora baldadamente,
atrair a si o senhor Rias.
"
,-
A conversação estendeu-se largamente sobre assuntos vul-
gares; depois, fez-se silêncio. apenas interrompido pelo crepitar
da lenha do fogão e pelos suspiros da Duquesa.
- Estás incomodada? - perguntou secamente a senhora Rias.
sem erguer os olhos do seu bordado.
- Por que me perguntas tu isso?
- Não fazes senão suspirar ...
- Símv.., não me sinto bem... e depois tenho vontade de
chorar ...
- Por que é que tens vontade de chorar? ..
- Que queres? .. sempre a mesma coisa? ..
- Que coisa?
- Sou tão infeliz com o meu marido!
- E esperavas, então, ser mais feliz com o meu?- disse a
senhora Rias, erguendo subitamente a cabeça e olhando de frente
para a Duquesa.
A senhora Estrény, após alguns segundos de muda confusão.
deixou-se cair aos pés de sua prima e, envolvida nas suas amplas
roupagens, rompeu em soluços e murmurou:
A ARTE DE ESCREVER
285
-- Que pensarás tu de mim?
-- Penso que não és boa amiga...• eis o que eu penso.
-- Asseguro-te que sim. asseguro-te ... Foi um momento de
loucura... eu tinha-te inveja... invejava a tua felicidade. con-
fesso...• mas fui tão castigada. tão humilhada! Eu vi bem que
teu marido me não amava!
-- Suponho que não sou eu quem te deve consolar dissoI
-- Tranquilíza-te ... , ele só te ama a ti!
- Não é por tua vontade. francamente!. .. Vamos, levanta-te.
Sabina... Disse-te o que sentia no coração; não falemos mais
em tal.
-- Afligi-te muito. Maria? r: disse a Duquesa. cujas lágrimas
redobraram.
- Muito! - respondeu Maria. que principiava a enterne-
cer-se também.
- Minha pobre querida!
- Eu tinha tanta confiança em ti! - tornou a senhora Rias
com voz sufocada,
- Meu Deus. meu Deus! disse a Duquesa.
E o fim desta cena perdeu-se num ruído confuso de lágrimas
e de beijos.
Quando o senhor Rias regressou à noite para casa. encontrou
sua mulher bordando com frenesi.
E exclamou:
- Céus! minha filha! que vejo! que estás fazendo?
-- Bordo um cabeção para minha mãe...
- Ah! é um cabeção ... para tua mãe? está bem... é muito
bonito... Como tu sabes fazer coisas tão bonitas! ignorava esta
tua habílidade...., mas. vejamos.... está já muito adiantado ...
Trabalhaste nele todo o dia?
- Todo o dia.
- Como! nem saíste?
-Não.
-- Não foste ao Petít-Saínt-Thomas?
-Não.
- Nem ao Louvre?
-Não.
- Mas então. é o fim do mundo! - disse o senhor Rias.
j
286
A ARTE DE ESCREVER
pagando a sua mulher um beijo, que lhe pareceu delicioso. Mas
também te não deverás enclausurar! deves tomar ar... E ficaste
aqui sozinha todo o dia?
- Esteve cá a Duquesa, - respondeu Maria, num tomnegli-
gente.
- Ah! deveras? a Duquesa veio? Ah! deveras? .. Pois muito
bem... e corno se despediram?
- Como de costume...
- Prudente mulherzinha! disse Leonel, beijando-a de novo.
- O que é, ê que ambas chorámos um pouco...
- Oh! sim... devia ser isso.
Os autores realistas acusam o diálogo do teatro de
ser literário, fictício, convencional.
Há verdade nesta consura; mas os diálogos de auto-
res dramáticos. como Sardou, Dumas filho, Augier,
Paílleron, Halévy, têm outra coisa, afora o lado mun-
dano, calculado, fictício. Têm o movimento, a vida, o
lance que se precipita e que produz a ilusão.
Mas é realmente verdade que o diálogo dos nossos
autores dramáticos contemporâneos muitas vezes não é
senão um diálogo de teatro, em que a réplica se dá
em vista do efeito, em que a resposta é produzida pela
última palavra do interlocutor e não pela verdade da
personagem e da lógica dos sentimentos; é um diálogo,
cujo laço não está senão no espírito, e só se dirige ao
espírito.
Esta espécie de diálogo, diálogo com fogo de arti-
fício, veio, em linha recta, de Beaumarchais e brilha
nas peças de Dumas filho e de Sardou.
Bastará relerdes os actos principais das suas mais
brilhantes peças, o primeiro acto da Pernanda, por
exemplo, ou o do Amigo das Mulheres: e continuamente
sentireis o autor por detrás das personagens.
•...~.
A ARTE DE ESCREVER
287
Ê uma espécie de aparato, que agrada pela sua
sonoridade, mas que nada tem de profundo nem de
humano; e todavia é diálogo vivíssimo.
Só emMolíere éque se encontra o diálogo emestado
de réplica verdadeira, humana, eterna, de todos os
tempos, sem palavras do autor.
Abri-o ao acaso.
O que as personagens dizem saí-lhes do fundo dos
seus seres e dos seus pensamentos.
Não ouvem o que se lhes diz e não respondem aos
seus interlocutores.
Seguem as suas ídeías com uma inconsciência, que
nos faz esquecer totalmente de Molíêre. Ê a obra do
génio.
Em suma, para o bom êxito do diálogo, é preciso
trabalhá-lo o mais possível; cortar todas as excres-
cências: atender à concisão; variar o arredondamento
da frase; perguntar como se diria aquilo em voz alta,
vazar as frases no molde falado.
Se não há vocação para o diálogo, certa disposição
:', para relevo das réplicas, e para o espírito cênico, qua-
lidades impreteríveis no autor dramático, é inútil fazer
teatro.
Mas, com trabalho e aptidões regulares, podeis
aprender a dialogar suficientemente para escrever
romances ou novelas. Para isso, devereis ler muitos
diálogos de teatro e peças de bons autores, Labiche
principalmente, que é maravilhoso em rapidez e natu-
ralidade.
O estilo da conversação é conciso. Não nos esque-
çamos disto.
Em geral, o desejo de brilhar prejudica o verda-
.-
288
A ARTE DE ESCREVER
deiro diálogo; não nos podemos decidir a interromper
uma personagem, detê-Ia nas suas réplicas naturais.
e o bom gosto é prejudicado.
A facilidade, com que o público aplaude as tiradas.
as argúcias de espírito, fez das nossas comédias fogos
de artifício, deslumbrantíssimos, mas que se apagam
com as luzes da ribalta.
Lição Vigésima
Do estilo epistolar
-
oestilo epistolar. ~ As cartas de mulher. ~ A carta é uma sen-
sação individual. ~ Escrever como se fala. ~ Conselhos gerais.
Não nos deteremos muito, falando do estilo epistolar
e da carta.
Nenhum assunto, como este, torna inútil qualquer
desenvolvimento, pela razão de que se exprime sempre
bem o que se sente, e de que uma carta é, em geral.
uma coisa que se sente, porque é pessoal.
E a prova é que as mulheres escrevem admíràvel-
mente cartas.
La-Bruyêre disse:
- «Este sexo vai mais longe do que nós nesse
género de escrever. As mulheres, ao pegar na pena,
encontram rodeios e expressões, que muitas vezes, em
nós, são efeitos de um longo e aturado trabalho; são
felizes na escolha dos termos, e colocam-nos com tal
'propriedade, que, por mais conhecidos que sejam, têm
l ' ~ ' ==~ - ===~ ~ - - - - - - - - - - - - - - -
-
-.-
A ARTE DE ESCREVER
289
o encanto da novidade e parecem feitos apenas para o
uso que elas lhes dão. Só elas têm o privilégio de fazer
ler. numa só palavra. um sentimento completo. e de
representar delicadamente um pensamento. que é deli-
cada; possuem um inigualável encadeamento de frases.
que se seguem naturalmente e que são apenas ligadas
pelo sentido. Se as mulheres fossem sempre correctas,
ousaríamos dizer que as cartas de algumas delas seriam
talvez o que temos de mais bem escrito.»
La-Bruyêre, ao escrever estas linhas. não pensava
evidentemente em Madame· de Sêvíqné, visto que as
cartas dessa dama foram publica das muito tempo
depois da morte de La-Bruyêre. Pensava nas mulheres
em geral.
Aqueles que tiverem entre mãos muitas correspon-
dências femininas sabem que as mulheres. seja qual for
a sua classe e condição. escrevem cartas superiormente.
Há centenas de mulheres. cujas cartas mereceriam
ser impressas e admirariam o público.
Li algumas. escritas por mulheres do povo. que eram
cheias de naturalidade e aticismo.
É inútil ensinar-se às mulheres o estilo epistolar;
sabem-no por instinto e elas é que no-lo poderiam
ensinar.
Quanto aos homens. têm menos delicadeza e natu-
ralidade; mas pede dizer-se que cada um sabe escre-
ver uma carta. cujo assunto sentiu.
É inútil ensinar a escrever uma carta. sobre um
assunto que se não sente.
Primeiro. está o sentimento.
Concebe-se o ensino do estilo. em geral. uma
demonstração da arte de escrever. tratando-se de uma
290
A ARTE DE ESCREVER
descrição. de- um artigo. de um livro; mas a carta. no
uso ordinário. não é um gênero voluntário. um trabalho
que se escolha.
É uma obrigação.
Há uma missiva qualquer a enviar. há uma corres-
pondência a fazer. segundo os acasos da vida. ou por-
que sucede isto ou aquilo.
Numa palavra. o fim. o assunto. as razões. as cir-
cunstâncias da carta são eminentemente individuais.
Nestas condições. toda a gente vê o que tem de
fazer.
Há apenas um conselho a seguir: ler muitos mede-
los. A simples leitura das cartas ensina a escrevê-Ias.
Demais, existem bons Manuais de arte epístolar,
destinados a mostrar o tom. as fórmulas. o cerimonial.
relativo aos diversos gêneros de cartas.
Sendo a carta uma ccnversação por escrito exige
as qualidades da boa conversação. e a naturalidade
acima de tudo.
Deverá ser espontânea. ingênua. não estudada. a
não ser que seja o contrário por sistema. como as car-
tas de Voíture e de Balzac, denominados os grandes
epistológrafos da França.
Esses escreviam de propósito sobre ninharias para
ostentação do seu espírito e distracção da alta sociedade.
Faziam assaltos de galantaria. de afectação. E mesmo
então as suas cartas eram uma espé-cie de conversação
escrita. visto que era pouco mais ou menos assim que
se falava nos salões do palácio de Rambouíllet, em que
o preciosismo substituíra a simplicidade.
Evitai. pois. nas vossas cartas. o trabalho. o esforço.
a ciência do estilo.
I
J
A ARTE DE ESCREVER
291
Expressai-vos simplesmente.
Deve-se escrever como se fala, quando se fala bem;
é preciso mesmo escrever um pouco melhor do que se
fala, visto que há tempo para se pôr em ordem o que
se diz.
A Sévigné escrevia à filha:
- «Dizes-me complacentemente que supões tirar-me
alguma coisa. polindo as tuas cartas. Não lhes toques;
convertê-Ias-ias em .peças de eloquência. Essa pura
naturalidade. de que me falas. é precisamente o que
é belo e que exclusivamente agrada.
«Sê tu enão sejas cutra; a tua carta deverá abrir-me
a tua alma e não a tua biblioteca. Por mim. escreveria
até amanhã; os meus pensamentos. a minha pena e a
minha tinta. tudo voa.»
Nada desagrada tanto como a vontade de querer
brilhar.
As cartas não devem ser carregadas de ornatos;
basta que sejam correctas, escritas sem preocupação de
períodos sonoros. com a espontaneidade do coração.
Recordo-me de que eu e os meus rivais. quando estive em
Paris, éramos todos pouca coisa, grandes compositores de bagate-
las, que pesávamos gravemente ovos de mosca em balanças de
teia de aranha.
(VOLTAIRE).
Contava-se, ontem à mesa, que Arlequim há dias, emParis,
trazia uma grande pedra debaixo da capa. Perguntaram-lhe o que
queria ele fazer daquela pedra, e ele respondeu que era uma amos-
tra de uma casa, que queria vender. Ri-me. Se julgares, minha
filha, que esta invenção é boa para venderes a tua propriedade,
poderás aproveitá-Ia.
(SÉVIGNÉ) •

,...
292
A ARTE DE ESCREVER
Quando diziamos às vezes: «Não há nada que mais arruine
do que a falta do dinheiro». bem sabiamos o que dizíamos.
(SÉVIGNÉ).
A eloquência, ainda a mais sublime. pode encon-
trar-se em cartas.
A Sévíqné rivaliza. por vezes. com Bossuet.
Vamos ver uma carta. em que ela. entre outras
coisas. conta a Coulanges a morte de Louvois.
Dír-se-ía uma página do ilustre e grande bispo:
Sinto-me tão atordoada com a morte repentina de Louvoís,
que nem sei como começar a falar-vos dela. Ei-Io, pois. morto.
aquele grande Ministro. aquele homem. tão eminente. que
ocupava tão grande lugar. ecujo eu. diz o Sr. Nícole, era o centro
de tantas coisas! Quantos negócios. quantos planos. quantos
segredos. quantos interesses a deslindar! Ouantas guerras come-
çadas, quantas intrigas. que belos golpes dexadrez a dar ea acon-
selhar! Ah meu Deus! dai-me algum tempo! gostava tanto de
dar um xeque ao Duque de Sabóia e um mate ao Príncipe de
Orenqe! Mas não! não terei um só momento! Que pensar de tão
estranho acidente? Nada, na verdade: é preciso reflectirmos no
gobinete. Eis o segundo ministro. que vedes morrer. desde que
estais em Roma. Nada é mais diferente que a morte deles. mas
nada é mais igual que a sua fortuna c os cemmilhões de cadeias
que os prendiam à terra.
..••..
.i...
A grande máxima que se deve fixar. aquela em que
resumiremos os nossos conselhos epistolares. é que
devemos deixar ir a pena e exprimir sem afectação o
que se sente.
Ao pegarmos na pena para escrever a alguém. já
devemos saber o que queremos dizer.
Quanto à maneira de exprimir tudo isto. não vos
.. - ...
A ARTE DE ESCREVER
293
ocupeis de tal, dizeí-o em voz alta. e a expressão che-
gará por si.
Sobretudo não vos incomodeis para entrar destra-
mente no vosso assunto.
O começo de uma carta deve ser rápido e sempre-
paração.
Sévigné é informada de que sua filha correu perigo
e diz:
- «Ah! minha filha! que carta! Que pintura tu
fazes do estado em que te viste!»
É preciso também que' os finais de cartas sejam
simples. sem esforço.
A Sévigné nunca se embaraçou para concluir:
- «Adeus. minha muito querida e encantadora filha;
não acho ninguém que não suponha que tens razão para
me amar. sabida a maneira como eu te amo.»
Ou então:
- «Adeus. beijo-te; mas. quando poderei eu bei-
jar-te de mais perto? A vida é tão curta! Ah! mas não
pensemos nisso: agora são as tuas cartas que eu
espero com impaciência.»
A propósito de cartas. esta frase de Buffon é mais
verdadeira que nunca:
- «O estilo é o homem.»
Em resumo. é preciso ler muitas cartas. para apren-
der a escrevê-Ias.
Tratámos sumàriamente da doutrina destes dois
últimos capítulos. Mais de espaço nos ocupamos dela.
no livro A Formação do estilo, pela assimilação dos
autores.
FIM
--~&
-
INDICE
o domde escrever. .
Os Manuais de Literatura
A leitura
Do estilo
A originalidade do estilo
A concisão do estilo
A harmonia do estilo .
A harmonia das frases
.\ A invenção .
A- dispOSiÇãO
A elocução .
Processo das refundíções
Da narração
Da descrição . . . .
A observação directa .
A observação índírecta
As imagens. . _ . .
A criação das imagens
O diálogo ...
Do estilo epistolar .
Pãg.
7
13
22
41
56
92
119
137
155
166
172
190
207
217
229
237
255
267
278
288
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ESTA OBRA ACABOU DE SE lMPRI~llR
ÉM JULHO DE 1958, NAS OFICINAS
DA IMPRENSA PORTUGUESA-
RIJA FORMOSA, I08-Ir6 -- PORTO
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( ?'
Or o 'Jo:;é' Joaquim N~ne~ -' )
, • ' '~C'
·h . Crestomatíâ Arcaica-4.
a
edíção=-e l volu.
...•... ' ! Gramática Histórica da Língua Portuguesa' -
e Morfologia)--5.
a
edição revista e .
-] volume.·'···.
J. Leite de Vasconcelos"
Da Importância do Latim-,. 2.
a
edição - 1
,.
... :Rodrigo. de' Sã Nogueira'
Subsídios -para o estudo das consequêncías d
- , logia erit 'portnguês -) vçlume. .
:·Crít~ca Etim6Iógi'ca'~ l:.y~!~nfe. .
Estudos sobre as oiromatopéías r-] volume.
Questões 'de linquaqem-e-S volumes,
As onomatopeias e o problema da origem d
guagem -1 volume. . •• !
O Problema da Sílaba - 1.volume.
Tentativa de explicação' dos fenômenos
em português _2;a edição -1 volume. '.•
Dicionário de verbos. porsuqueses conjuga
2~a edição •.. :... ; 1volume., r • " !
' ..
A.. EpifâniQ -da Silva Dias
Sintaxe Hístôrrea- Portuguesa - 3.
a
edição, t
pelo Dr. R. de Sa Nogueira, compreen
um índice analítico, alfabético e muito'
cíoso--d volume.
Introdução à Filologia - Tradução de Gi\ ,
Carlo Rossi - 1volume.
-c;,
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Júlio Mort;~~. .._ .
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' Giulio Bertoni
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