1

Francisco de Assis e Silva









O Conceito de Ficção Jurídica na Teoria do “Como Se”
de Hans Vaihinger








Faculdade de São Bento
São Paulo
2011
2

Francisco de Assis e Silva







O Conceito de Ficção Jurídica na Teoria do “Como Se”
de Hans Vaihinger



Dissertação de mestrado apresentada
ao Programa de Pós Graduação Strictu
Sensu em Filosofia, da Faculdade de
São Bento de Filosofia. Área de
Concentração – Ética e Política. Sob a
orientação do Prof. Dr. Franklin
Leopoldo e Silva.



Faculdade de São Bento
São Paulo
2011

3

DEDICATÓRIA



































Ao meu pai, Juvenal, e a minha mãe, Rosa, representando
toda minha família;
Às minhas duas filhas queridas, Victoria Helena e Sophia
Helena, razão de eu acordar todas as manhãs, feliz e
buscar a paz e a felicidade;
À minha querida esposa, Carla, com muito carinho e muito
obrigado pela dedicação, temperança e paciência em todas
as minhas caminhadas. Companheira sempre presente.



4

AGRADECIMENTOS

Sou grato, acima de tudo, a Deus por ter me conduzido durante uma
caminhada difícil e ter me iluminado o caminho para compreender algumas
coisas da vida, cujo curso normal a ele não me levaria. Não tenho dúvidas de
que, grande parte da minha vida, Deus me carregou no colo e a ele eu Louvo
com fé e sem dogmas ou ficções. Amém.
Sou muito grato ao Professor Doutor Franklin Leopoldo e Silva que do
alto de sua cultura e sabedoria soube orientar-me com paciência e humildade
sem que me fizesse desistir, orientando-me sem me aprisionar, da mesma
forma que o fez o grande professor de Hans Vaihinger quando este iniciava
seus estudos de filosofia. Eis aí o grande Mestre.
Sou grato imensamente ao Cidio Lopes de Almeida (Riobaldo
1
) pelos
ensinamentos particulares sobre filosofia, sobre como ler os textos filosóficos e
a ajuda em toda essa caminhada dos últimos três anos da minha vida, uma
amizade recente que revela que o tempo, se estiver em algum lugar, está no
sujeito e não na amizade.
Aos queridos amigos de longa data, Álvaro Dezoto e Adauto Siqueira,
que durante anos ouviram-me e inspiraram-me a fazer algo e a quem eu
confessei publicamente que era o pior aluno das aulas de filosofia, e que muito
me ajudaram a compreender minha insignificância.

1
Em Grande Sertão: Veredas
1
. Riobaldo é incitado pelos camaradas de bando a dizer se
continua no bando de “jagunçagem” ou qual será seu destino. E Cidio em algumas
comparações de sua vida conjugada a ficção de Guimarães Rosa, se identificava com o
personagem na jagunçagem da vida urbana e acadêmica.
5

Ao Professor Djalma Medeiros que, por inúmeras vezes, sem
compreender que eu já havia desistido, empurrou-me para dentro do projeto de
uma forma que apenas os mestres sabem fazer.
Ao grande mestre Marco Aurélio Greco responsável por grandes leituras
dos últimos cinco anos, que para mim deixou de ser um ídolo para se tornar um
verdadeiro mestre. Suas indicações de leitura foram as mais importantes de
toda a minha vida.


















6


RESUMO

Objetiva-se com este trabalho dissertativo pesquisar o conceito de
ficções jurídicas na filosofia do Como Se de Hans Vaihinger, precisamente na
sua obra “A filosofia do Como Se - Sistema das ficções teóricas, práticas e
religiosas da humanidade, na base de um positivismo idealista”. Ficções
constituem, na obra em questão, um tema amplo e com implicações nas mais
variadas áreas do saber. O nosso objetivo, por outro lado, se restringe a
pesquisar as Ficções Jurídicas e a sua base que é o conceito filosófico de
ficções.
Assenta no conceito de ficções o movimento que tem começo no
funcionamento orgânico do pensamento e que evolui para a Arte do
Pensamento, isto é, em dado momento, algo meramente orgânico passa para o
não-orgânico e com habilidades de interagir com o orgânico. Para compreender
as Ficções Jurídicas, portanto, precisamos contextualizar e sinalizar o raio de
implicações das ficções. Esse fundamento se estriba na ideia de uma Vontade
que acossa o conteúdo orgânico do pensamento em agir segundo seus
ditames. O que nos lança diretamente no segundo bloco de nosso trabalho, as
Ficções Jurídicas com recurso de resolver problemas na vida prática.

Palavras Chaves – Pensamento, Ficção, Vontade, Finalidade, Ficção Jurídica.




7


ABSTRACT

This work intends to research the concept of legal fictions in Hans Vaihinger‟s
philosophy of as If, more precisely in his work entitled “The Philosophy of „As if‟
- A System of the Theoretical, Practical and Religious Fictions of Mankind,
based on an idealistic positivism". Fictions are a broad theme discussed in such
work and which have implications in various areas of knowledge. Our goal,
however, is restricted to researching Legal Fictions and their basis, which is the
philosophical concept of fictions.

The concept of fictions is within the movement beginning with the organic
functioning of thinking and which evolves to the Art of Thinking, that is, at a
given moment something merely organic becomes non-organic and gains the
ability to interact with the organic. Therefore, in order to understand Legal
Fictions, we need to contextualize and point out the broadness of the
implications of fictions. Such principle is based on a concept of a Will that
provokes the organic content of thought in acting according to its precepts. And
this takes us directly to the second part of our work, Legal Fictions as an
instrument to solve practical life problems.

Keywords - Thought, Fiction, Will, Purpose, Legal Fiction.



8


ABSTRACT

Il presente lavoro di ricerca ha la pretesa di voler approfondire il concetto di
finzione giuridica secondo la filosofia del come se di Hans Vaihinger, e
precisamente a partire dalla sua opera “la filosofia del come se – sistema delle
finzioni teoriche, pratiche e religiose dell‟umanità, con base nel positivismo
idealista”.
Il tema delle finzioni è ampio e con interrelazioni tra le più diverse aree del
sapere. Tuttavia, il nostro obiettivo ci porta a restringere la ricerca alle sole
finzioni giuridiche e al loro fondamento rappresentato dal concetto filosofico di
finzioni.
E‟ insito al concetto di finzioni quel movimento che inizia col funzionamento
organico del pensiero fino ad evoluire all‟arte del pensiero, arriva cioè ad
essere, in un determinato momento, qualcosa di meramente organico che
passa ad essere qualcosa di non organico e con la capacità di interagire con
ciò che è organico.
Per comprendere le finzioni giuridiche, pertanto, abbiamo bisogno di
concettualizzare e definire il raggio di influenza delle finzioni. Tale fondamento
si estrinseca attraverso una volontà che provoca il contenuto organico del
pensiero ad agire secondo i suoi dettati. Ciò ci porta direttamente alla seconda
parte del nostro lavoro: le finzioni giuridiche come modo per risolvere i problemi
della vita pratica.
Parole chiave: pensiero, finzione, volontà, finalità, finzione giuridica.

9

SUMÁRIO


1 INTRODUÇÃO .............................................................................................. 10
2 HISTÓRIA DAS FONTES DA FILOSOFIA DO COMO SE ........................... 13
3 FUNDDAMENTO DAS FICÇÕES ................................................................. 27
4 A FUNÇÃO ORGÂNICA DO PENSAMENTO ............................................... 35
5 O PENSAMENTO COMO ARTE, A LÓGICA ENQUANTO DOUTRINA
DA ARTE ...................................................................................................... 53
6 DIFERENÇA ENTRE ARTIFÍCIO E REGRAS DO PENSAMENTO ............ 58
7 PASSAGEM PARA AS FICÇÕES................................................................ 62
8 AS FONTES KANTIANAS DAS FICÇÕES .................................................. 66
9 VONTADE E REPRESENTAÇÃO: AS FONTES SCHOPENHAUERIANAS
DAS FICÇÕES ............................................................................................ 90
10 PRINCÍPIOS BÁSICOS – OBSERVAÇÃO GERAL E PRELIMINAR
SOBRE AS CONSTRUÇÕES E AS FORMAS FICTÍCIAS DE
REPRESENTAÇÃO ................................................................................... 96
11 UMA CLASSIFICAÇÃO DAS FICÇÕES ....................................................109
12 O CONCEITO DAS FICÇÕES JURÍDICAS NA OBRA DE
HANS VAIHINGER ...................................................................................123
13 CONCLUSÃO ............................................................................................163
REFERÊNCIAS ..............................................................................................169









10

1 INTRODUÇÃO

1.1 O objetivo deste trabalho é dissertar sobre o
conceito Filosófico de Ficções Jurídicas a partir da Obra The Philosophy of „As
if‟ A System of the Theoretical, Practical and Religious Fictions of Mankind by
HANS VAIHINGER
2
, que foi traduzida pela primeira vez, em língua inglesa, no
ano de 1924, por C. K. OGDEN, em Londres, pela Editora KEGAN PAUL,
TRENCH, TRUBNER & CO. LTD., NEW YORK: HARCOUTR, BRACE &
COMPANY, INC.

1.2 A obra fora originalmente escrita por Vaihinger em
alemão, no ano de 1911, porém na edição inglesa, de 1924, base para a
presente investigação, o prefácio é do próprio Vaihinger, que o fez de forma a
dar reconhecimento à qualidade da tradução do alemão para o inglês.
Atualmente há duas traduções no prelo para o português, uma do Instituto
Goethe e outra da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

1.3 A partir da leitura da obra vamos concentrar a
investigação no conceito que Hans Vaihinger procurou expressar,
especialmente nas páginas 33 e 35 da obra, acerca das Juristic Fictions ou
Ficções Jurídicas. Nesta parte da obra, Vaihinger procura definir as Ficções
Jurídicas, localizando-as dentro de sua Teoria das Ficções e sua frequente
aplicação, onde procura essencialmente definir seu conceito e, ao mesmo

2
A Tradução mais correta para o Português seja partindo do trabalho original em Alemão tanto
da Tradução Inglesa, é A Filosofia do Como Se de Hans Vaihinger, Um Sistema Teórico
Prático e Religioso das Ficções Humanas
11

tempo, afastar da diferencial que considera essencial com as praesunptio, ou
hipótese como veremos a seguir.

1.4 O propósito deste trabalho é percorrer o caminho do
autor, evitando repeti-lo, porém procurando investigar a problemática de seu
pensamento sobre a Filosofia do Como Se e como ele conceitua Ficções
Jurídicas, avaliando sob perspectivas próprias do autor e da sua inspiração
para investigação, especialmente em face de carência de comentadores
expressivos no Brasil.

1.5 Propõe-se, também, a expor o conceito de Ficções
Jurídicas, a partir do Pensamento de Hans Vaihinger, e de que forma esse
conceito pode ser útil para a solução de problemas práticos no cotidiano
processual do direito.

1.6 Este trabalho tem, ainda, por objetivo apresentar, na
obra de Hans Vaihinger, a classificação das ficções e a maneira como elas se
relacionam; a forma como uma das principais classificações será muito útil
para a vida prática através de sua utilização dentro do Direito e da prática
jurídica.

1.7 E, ainda, investigar a ordem de definição das
ficções, em face do caminho e da problemática: Realidade, Necessidade de
Solução e Ficção, procurando demonstrar a problemática apresentada por
Hans Vaihinger de que o pensamento serve à vontade e esta, por sua vez,
12

está a serviço da vida e em busca de soluções para problemas práticos que
podem ser dirimidos através de um resultado do próprio pensamento, que
serão as ficções, e que no campo do direito, que está a serviço das soluções
da vida em comunidade, as Ficções Jurídicas são tais soluções.





















13

2 HISTÓRIA DAS FONTES DA FILOSOFIA DO COMO SE

2.1 Hans Vaihinger nasceu na Alemanha, em Nehren
3
,
Wuttemberg, uma cidade próxima de Tübingem, no dia 25 de setembro do ano
de 1852. Viveu 81 anos, vindo a falecer já no século 20, no exato ano de 1933.
Vaihinger era filho de uma família muito religiosa. Afirma por suas próprias
palavras, em sua Autobiografia dessa edição inglesa, seu ambiente familiar
religioso “I grew up in very religious atmosphere”.
4
Estudou teologia em
Tübingem até tornar-se professor em Halle, onde lecionou até próximo de sua
morte; ele teve algumas dificuldades com sua vista limitada.

2.2 Derivado dessa atmosfera religiosa leu muito a
bíblia, e sua apreensão sobre o Velho Testamento trouxe as primeiras dúvidas
a sua mente acerca da ética e do valor do mito. Mais tarde, por volta de 1868,
leu a história da Humanidade, onde confessa:
I came across Herder‟s book on the History of Mankind,
which appealed to my state of mind its mixture of theism
and pantheism, and to which I owe a great deal. It gives
such a wide and lofty view of the whole development of
the history of mankind extending from the earliest origins
onwards through all kind and varieties of civilization. The
idea of evolution became one of the fundamental elements
of my mental outlook
5
.


3
Durante o projeto de pesquisa, tive oportunidade de visitar a Cidade onde Nasceu o Filósofo bem como
a Faculdade onde estudou.
4
VAIHINGER, Hans, The Philosophy of „As if‟, Translated by C. K OGDEN, London 1.924, p. XXXiii.
“Eu cresci numa atmosfera muito religiosa”. Isto realmente pode ser observado. Era filho de religiosos, a
sua casa ficava exatamente ao lado da Igreja onde todos os domingos havia os cultos e a interferência
religiosa em sua vida era constante. Até os dias de hoje, a casa onde nasceu e viveu é coordenada pelo
pastor da igreja.
5
Id, ibd. p. XXiV – Tradução livre – Eu percorri através do Livro de Herder sobre a História da
Humanidade, que introduziu no meu estado de espírito uma mistura de teismo e panteísmo a que devo
muito. Ele dá uma visão tão ampla e elevada do completo desenvolvimento da história da humanidade,
indo desde as primeiras origens através de todas as espécies e variedades de civilizações. A Ideia de
evolução da civilização tornou-se um dos elementos fundamentais de meu pensamento.
14

2.3 A leitura de Herder vai lhe dar uma visão ampla
sobre o desenvolvimento da história da humanidade através da investigação
das mais variadas civilizações, aparecendo para ele, então de forma firme, o
conceito de “evolução”. Em contato com amigos da escola, porém ligado a
mesma perspectiva de Herder, ele estabelece contato com a obra de Darwin,
neste momento, como dito, já mais familiarizado com a ideia de evolução das
espécies. O contato com a obra de Darwin mostrou-lhe que Herder poderia ser
chamado de precursor da teoria darwiniana, a ponto que tais ideias não lhe
causaram tanta surpresa no entendimento sobre a humanidade.

2.4 Seu ingresso no mundo filosófico deu-se de maneira
natural, como ocorria naquela época na Alemanha, onde os estudos regulares
fincavam-se na leitura de textos sobre ética, lógica e psicologia. Estudos que
ele considerou insignificantes se comparados com as ideias revolucionárias
que ele afirma ter descoberto por si mesmo. Apesar disso, confessa uma
grande reverência ao seu professor de Filosofia, por considerá-lo um homem
“of noble character and my feeling for him as a personality was one of absolute
reverence”
6
. Depois desse período, quando em 1905 publicou a obra “A
Filosofia no Exame da Licenciatura (Philosophy in state examinations
7
) ele
passou a afirmar, entender e defender que a filosofia deveria ser ou apresentar
princípios gerais sobre vários outros objetos, que surgem de outros campos do
estudo e da vida. Vaihinger, então, encontrou, em 1870 o Professor K. A.

6
P. XXiV – De nobre caráter e meu sentimento por ele foi de uma personalidade de absoluta reverência.

7
Este era um trabalho pra exame de licenciatura em filosofia. A dissertação era um conselho para
examinadores e candidatos, como uma contribuição a questão da pedagogia filosófica, conforme tradução
direta do alemão.
15

Schmid
8
, que lecionava para alunos mais avançados em aula extraclasse e
onde havia muitas discussões acerca dos problemas do latim, de sintaxe e das
análises das conjunções gramaticais e suas mais variadas utilizações. A dúvida
sobre a conjunção “como se” ou “As if” “als ob” não chegou a ser estudada
nessa época com o citado professor, porém o treinamento e as lições daquele
professor lhe trouxeram, mais tarde, conhecimento suficiente para perceber
que na formação gramatical “As if” – “como se” – havia uma significância
lógica.

2.5 Os poemas de Schiller influenciaram sobremaneira
Vaihinger, porque em alguns versos ele confessa ter se inspirado para mais
tarde fundar sua teoria das Ficções. Um dos versos que ele considera que lhe
marcou de forma indelével foi: In error only is there life, and knowledge must be
death
9
, ou seja, “no erro há vida e no conhecimento deve ser a morte”. Ele
afirma que teve dificuldade de entender as ideias de Schiller, porém, afirma que
a partir de seus poemas reconheceu a expressão As if como força de
direcionamento da atividade estética e da intuição.

2.6 Primeiramente, foi aluno de Teologia e depois
ganhou uma bolsa de estudo e fora admitido, como estudante de filosofia,
curso que era administrado pelo Seminário Teológico pertencente à
Universidade de Tübingen
10
, em 1870. Vaihinger percorreu de forma liberal os

8
Segundo Hans Vaihinger, esse professor nomeou-se autor da grande Enciclopédia de Educação, que
tinha vários volumes, p. XXV.
9
Id., Ibid., P. XXV.
10
Estudaram no mesmo local: Hegel, Hölderlin e Schelling. A maioria dos estudantes era filho de
pastores luteranos e somente eram admitidos após rigoroso exame, os alunos garantiam direito à
alimentação.
16

textos de filosofia antiga e depois Kant, posteriormente, Kant até Hegel, e
depois dogmatismo desde Schleiermacher até as bases filosóficas da
dogmática
11
. Afirma em sua obra que os estudantes eram encorajados a
percorrer os textos e procurar uma compreensão e um pensamento de forma
livre e por si mesmos. Esse encorajamento deu-lhe o primeiro prêmio por um
trabalho intitulado Recente Theories of Consciousness, ou seja, Recentes
Teorias da Consciência.

2.7 De todos os filósofos que estudou o que melhor lhe
impressionou foi Kant. Sua admiração o levou a comparar Kant com seu
estimado professor de Filosofia, a quem dispensava admiração. Chegou a
afirmar a respeito de Kant: In every respect He freed my mind, without fettering
it
12
. Considerado para ele um Libertador, Kant o impressionou muito acerca da
descoberta das contradições existentes nos pensamentos humanos quando ele
se envereda pelo mundo da metafísica, tendo a teoria das antinomias
13
o
influenciado sobremaneira. Não somente a questão da limitação do
conhecimento humano, objeto da Crítica da Razão Pura, mas também o

11
VAIHINGER, tradução de Johannes, p. 596 – Ele mesmo conta sua história de como nasceu sua
intenção de criar uma teoria das ficções.
12
P. XXVii – em todos os aspectos ele me libertava sem acorrentar-me.
13
Para Kant, a antinomia da razão pura é a utilização de ideias transcendentais para obter o conhecimento
empírico sobre o cosmos. Em cada uma das quatro antinomias da razão pura, há um conflito ou antitética
(tese, juntamente com sua antítese) entre dois juízos dogmáticos, não havendo mais base para um que o
outro. As antinomias seriam 4:
Tese: O mundo está começando em limites de tempo e espaço. Antítese: O mundo não tem começo nem
limites.
Tese: toda a substância é composta de peças simples, e não é apenas o simples ou composta de simples.
Antítese: nenhuma das mudas é feita de peças simples.
Tese: Há liberdade no sentido transcendental da possibilidade de um começo absoluto e sem causa de
uma série de efeitos. Antítese: tudo acontece de acordo com as leis naturais.
Tese: o mundo é parte dele ou como sua causa, um ser necessário. Antítese: Não há nenhuma parte
necessária ou como ou como uma causa do mundo. A tese é comprovada pela refutação da antítese e vice-
versa. Por exemplo, (antinomia 1) que suporta a antítese, então ninguém poderia falar de um
acontecimento no mundo, porque cada caso requer um início e um fim. Mas aceitando-se a tese, então
você tem que admitir que um estado anterior de "nada", onde advento ou não pode iniciar qualquer coisa.


17

conceito de que a ação e a prática devem ser tomadas em primeiro plano. Em
outras palavras, o que Kant chamou de supremacia da razão prática, pareceu-
lhe o seu grande começo. Isto porque essa supremacia da razão prática sobre
o pensamento orgânico (que será visto mais à frente) pode ter despertado
Vaihinger para o seu conceito de ficções e de como o cérebro humano pode
funcionar para driblar a razão pura e viver no mundo prático.

2.8 Outra influência, que confessa ter recebido, é do
pessimismo de Schopenhauer. Porém para chegar a ele o percurso teve início
com a leitura da obra A Filosofia do Inconsciente de Eduard Von Hartmann
que, segundo ele, era a grande sensação daqueles tempos. Mas não se
satisfaz com Hartmann e procura diretamente na fonte o estudo sobre
Schopenhauer, em cujas leituras ele encontrou o pessimismo, o irracionalismo
e o voluntarismo. Como nota de roda pé na Filosofia do Como Se afirma que o
pessimismo tornava-se estado de consciência fundamental. O pessimismo que
desprendia da leitura que Vaihinger fazia de Schopenhauer fazia eco às suas
próprias experiências sombrias.

2.9 Daí, então, ele se encontrar com o Pessimismo, o
irracionalismo e o voluntarismo. Em uma nota de rodapé de sua obra, Vaihinger
afirma que o pessimismo tornava-se estado de consciência fundamental que,
para ele, era ainda mais próximo em face das experiências duras e sombrias
pelas quais havia passado, e afirma que somente o pessimismo permitiu
suportar a vida e deu-lhe força e ética para trabalhar por si mesmo e tentar
ajudar os outros.
18


2.10 Em sua própria nota de rodapé afirma dentre outras
coisas que On the other hand, I believe that pessimism has given me a more
objective view of reality
14
. Ele compara a influência de Schopenhauer e de
Kant como esta sendo mais extensiva e aquela mais intensiva. Em tudo o que
estudava em Filosofia encontrava um elemento irracional do mundo e da vida
cuja atenção não era necessária. O Ideal da Filosofia era dar explicações
racionais a tudo, como se tudo pudesse ser comprovado mediante proposições
lógicas. Isto não satisfazia suas pesquisas porque não compreendia e não
conseguia ignorar o irracional presente na natureza e, outras vezes, na história,
e sua vida pessoal já demonstrava por várias vezes um irracional de diversas
formas, elemento que sempre o instigou a incluir na economia de sua filosofia
do Como Se.

2.11 Sua deficiência física
15
o teria forçado a uma timidez,
uma passividade e uma solidão, ao passo que sentia um impulso muito forte a
agir de forma determinada, buscando desenvolver suas atividades a qualquer
modo e custo. Uma forte miopia o teria ajudado a desenvolver outras
atividades e perceber todos os demais processos da mente humana. Pode-se
imaginar como Vaihinger levou a vida em Nehrem, que hoje tem apenas 4.000
habitantes e na época tinha pouco mais de mil. A atividade principal era
agricultura, e a diversão favorita de todos e obrigatória era a participação ativa

14
P. XXViii – O pessimismo, acredito eu, possibilitou uma visão mais objetiva da realidade “nesta
mesma nota ele refere-se a um verso de Schiller onde mostra um pessimismo efetivamente profundo
assim repetido: “Ao olhar a vida em suas profundezas, pode com ela se alegrar"
15
Vaihinger, 604 – Tradução de Johannes. Ele afirma certa deficiência física dizendo que uma forte
miopia o dificultava de todas as atividades, mas, em outro momento fala em deficiência física que o teria
forçado a timidez e fala em contradição da construção corporal e temperamento, de sorte que não
encontramos informações se a deficiência física era apenas a miopia ou se ele sofria de outro tipo de
deficiência corporal como sugere entender.
19

nos cultos da igreja. O sério problema das vistas o colocava sob as vistas de
todos da pequena comunidade. Olhar que o inscrevia no lugar daquele que
jamais poderia ter como profissão lidar com as letras. A contradição entre o seu
desejo de trabalhar, de aprender e sua deficiência visual era percebida de
forma absolutamente irracional e contraditória. Obstáculo que o levou a
procurar entender o motivo pelo qual todos os sistemas filosóficos procuravam
encobrir os aspectos irracionais. Nesse contexto é que o amor à verdade de
Schopenhauer o conquistava, porque lhe parecia mais fecunda se aplicasse a
vontade à teoria da evolução, traçando então um plano para a discussão da
teoria da luta pela existência.

2.12 Dois tópicos, decorrentes do desejo de vencer seus
limites físicos, chamarão a atenção de Vaihinger. O primeiro é, segundo sua
leitura, a preferência que Kant tem pelo prático. Soma-se a isso o conceito de
Vontade oriundo de Schopenhauer. Agregue-se ao gosto prático de Kant o
conceito de vontade e teremos o encaminhamento, na teoria do “Como Se”,
para o fundamento de todo o sistema cerebral de construção de ideias. Na
esteira dessa junção é que Vaihinger afirma que o papel fundamental do
sistema de pensamento é estar a serviço absoluto da vontade. As ideias de
Kant e Schopenhauer foram se harmonizando na sua investigação, porque
Vaihinger vai vincular a afirmação de que o pensamento é um meio
dependente dos fins que dá vontade de viver, que se transforma em finalidade
em si mesmo, e liga a tese de Kant, segundo a qual o pensamento tem limites
e se sujeita à experiência, porque nada poderá conhecer, além disso. O
20

pensamento e o conhecimento seriam, então, apenas um meio para o
cumprimento de certa finalidade.

2.13 Emerge, nessa altura da obra de Vaihinger, a
insistência em ressaltar que a razão se coloca a serviço da vida prática, em
conformidade com isso ela consegue superar qualquer obstáculo, mesmo que
para tal arrume uma solução que extrapole a própria razão. Isso vai se
transformar na forma mais profunda do seu pensamento. Ou seja, se em busca
do conhecimento ou de um fim específico, o pensamento vai encontrar desafios
que não poderá transpor, e que, ao mesmo tempo, ele está a serviço absoluto
da vontade, em face dessa situação, tendo que cumprir sua finalidade, o
cérebro humano, então, deverá cuidar de criar situações para tornar possível a
vida, e em sentido muito prático, já que como ele afirmou, a metafísica não
daria conta da solução.

2.14 No encalço de verificar sua teoria, Vaihinger
encontrará a obra de Adolf Horwicz, Psychologische Analysen ouf
physiologischer Grundlage. Tal obra mostrava que toda a psicologia era
baseada em esquemas de reflexos e que as impressões sensoriais seguem na
simulação de ideais principais até movimentos expressivos e ações de
vontade. Os reflexos são simples motores do fenômeno que segue as
simulações. Que os movimentos resultam de sentimentos elementares que
liberam ações derivadas da vontade. Ele conclui disso que o pensamento é
apenas significado da vontade e, então, ele realiza a satisfação da filosofia
herdada de Kant de que o que está em supremacia é a prática. Afirma, então,
21

que: I had derived from Schopenhauer namenaly that thought originally is only a
means for the purposes of the Will, and both ideas coincided with the conviction
that I had gained from Kant as to the supremacy of the practical
16

(grifamos). E isto se tornará importante mais adiante na medida em que
afirmará o sentido prático das ficções para soluções de problemas da vida.

2.15 Porém ainda não se dando por satisfeito com provas
fisiológicas, Vaihinger aproxima-se de outra referência para como lidar com
suas proposições a respeito das ficções. Em 1875, foi publicada a importante
obra de Friedrich Albert Lange, intitulada a História do Materialismo e a Crítica
de sua Relevância na Atualidade. Ele considera F. A. Lange seu mestre e
professor no ideal, porque conjugava o perfeito respeito e domínio aos fatos
exatos das ciências naturais e todo o conhecimento da história das civilizações
e uma temperada crítica à teoria de Kant, que combinava ética e religião,
juntando tudo com uma generosa tolerância na prática. Ele acaba designando-
se discípulo de Lange. Para ele, essa combinação vai proporcionar um estudo
mais cuidadoso da Teoria do Como Se, de Kant.

2.16 Terminado o Curso de Filosofia, ele se apresenta ao
serviço militar do qual seria posteriormente liberado em razão do já
mencionado problema com sua vista. Estudando sozinho em casa, já que
retornava a Tübingen, descobriu os textos de Descartes e Leibniz, porque
procurou se jogar na leitura sobre geometria analítica. Ele conheceu muitos
estudiosos de filosofia, história do materialismo e outros. Destaca-se seu

16
p. XXXI – Eu aprendi a partir de Schopenhauer que o pensamento é originalmente só um
meio para os fins da vontade, e ambas as ideias se harmonizavam com a convicção de Kant a
respeito do primado ou supremacia do prático. (grifamos)
22

contato com Richard Avenarius, que era o fundador da Sociedade Acadêmico-
filosófica
17
. Avenarius era, na época, o mais picante crítico das Teorias de
Kant, porém ele não chegou a inclinar-se a aceitar as críticas feitas por
Avenarius a Kant, para quem sua filosofia era um dogma. Porém Avenarius lhe
introduziu os pensamentos de Steinthal sobre Introdução à Psicologia e
Linguística, o que mais tarde vai aparecer como um do pilares da teoria
Vaihingeriana.

2.17 Mudando-se para a Faculdade de Strassburg, no sul
da Alemanha, Vaihinger vai ter contato com Ernest Lass, autor do livro “As
Analogias Kantianas da Experiência”. Posteriormente, escreve um grande
manuscrito que chamou de Estudos de Lógica, que tinha na primeira parte algo
que chamou de a Teoria das Ficções Científicas. Na sequência, passou vários
anos coletando material para confeccionar o que mais tarde publicou como Part
I: Basics Principles of The philosophy of „As if
18
(1911), trabalho que já havia
sido apresentado como quesito de conclusão de seu Doutorado em Filosofia, o
que lhe rendeu elogios e uma vênia legendi outorgada pela Faculdade de
Satrassburg. Nesse trabalho, Hans Vaihinger procurou desenvolver um
sistema de ficções que chamava de “As if” que, conforme afirma, é utilizado em
vários campos da ciência. Ou filosofia do Como se, segundo a qual, a mente
possui problemas na busca e interpretação da verdade e, às vezes, a solução
não parece possível. Vaihinger procurou um mecanismo para solucionar isto,

17
Avenarius foi o criador do chamado criticismo empírico, segundo o qual o homem não deve tomar a
metafísica em qualquer caminho do conhecimento, porque este deveria basear-se na experiência pura. Sua
principal obra oi a Crítica da Experiência Pura, publicada em Berlin no ano de 1890, bem como fundou a
Sociedade Acadêmico Filosofia.
18
O Título Original em Alemão era Philosophie des Als Ob, conforme prefácio do próprio Hans
Vaihinger na edição inglesa de 1924.
23

por considerar também que em certos momentos não há qualquer perspectiva
de resolver o problema da busca da verdade ou mesmo se importar sobre a
existência ou não de Uma Verdade, e sim na solução da problemática
colocada.

2.18 O pensamento pode funcionar a partir da utilização
de ficções ou ideias que, aparentemente, são tidas como falsas. Na perspectiva
de Kant, podemos tomar um exemplo como ideia de Deus, Imortalidade,
Contrato Social. Alguns exemplos tomados, na época, eram pouco sensíveis
como verdade, prótons, elétrons e ondas eletromagnéticas, que eram
fenômenos nunca dantes comprovados, mas a ciência os tomava, fingindo que
eles existissem, utilizando-os como hipóteses para criação de novos e
melhores conceitos e para o desenvolvimento da ciência. Ele afirmou
categoricamente que não são para mostrar a realidade das coisas, mas que

[…] it must be remembered that the object of the world of ideias as a
whole is not the portrayal of reality – this would be an utterly
impossible task – but rather to provide us with instrument for finding
our way about more easily in this world
19
.

2.19 Ele procura estabelecer uma teoria para permitir
lidarmos com aquilo que para nós seria inacessível. Considerando então que
não temos eficácia na busca firme da verdade, nosso pensamento procura
sistemas para satisfazer esta necessidade, criando ficções e, em seguida,
assumindo a realidade desta construção, ou seja, passamos a agir Como se tal
coisa existisse dessa forma, assumindo que isto é o verdadeiro ponto de

19
p. 15. – Tradução livre – Deve ser lembrado que o objetivo do mundo das ideias como um tudo, não é
nos dar um retrato da realidade, porque isso seria uma tarefa totalmente impossível, mas
preferencialmente para nos fornecer um instrumento para tornar nosso caminho mais fácil nesse mundo.
24

partida para se viver ou se pensar. Ideias como Deus, Imortalidade, Contrato
Social não têm expressão de realidade e esta teoria vai se tornar útil, na
medida em que nos permite lidar com isto de uma forma a gerir a
funcionalidade e aplicabilidade das coisas.

2.20 O balanço que se pode fazer do percurso das
influências teóricas da obra Filosófica do Como Se é que a base de sua
filosofia estará fundada em Kant, por seu sentido prático, e no reconhecimento
da limitação do pensamento humano. Em Lange, o que lhe agradava era a
articulação que ele dispensava à história das civilizações, e o ajustamento ético
em relação aos dogmas religiosos. O pessimismo de Schopenhauer lhe
ofereceu a ideia de vontade como prova dos limites e dependência da razão.
Steinthal, apresentado por Richard Avenarius, para o tema de introdução à
psicologia e à linguística, sem nos esquecermos da forma como ele percebeu
com clareza e sem surpresas as teorias de Darwim. O propósito de Vaihinger,
ao abordar esse conjunto, de obras é retornar munido de provas ao mundo de
Kant acerca do Como se, reiterando, como sempre, a hegemonia do prático
sobre o ideal, criando finalmente uma solução que vai chamar de Ficções,
gravadas linguisticamente na expressão “As if” “Als ob”, ou na filosofia do
Como se, tudo isso para afirmar, mais tarde, que o pensamento é o meio na
luta pela existência e, nesse sentido, uma mera função biológica.

2.21 Dentre a constelação de pensadores em que
Vaihinger verifica a presença das ficções, escolhe por julgar mais pertinente ao
seu propósito a filosofia de Kant. O comprometimento desse estudo pode ser
25

notado com a homenagem que vai render por ocasião do centenário da morte
do autor da Crítica da Razão Pura, em 1904, através da criação da Sociedade
de Kant “Kantstudien”, e a Fundação de Kant. A proposta das fundações era se
encarregar de reunir pensadores, publicar revistas, enfim, promover as obras
de Kant e, sobretudo, os temas abordados pela obra do filósofo. O caráter
austero de Vaihinger parece ter impregnado essa associação, pois se encontra
ativa até os dias atuais. Sua última publicação é a de número 110, datada de
março de 2010. Embora tenha ficado interrompida durante certo tempo, voltou
a ser refundada por Paul Menze und Gottiried Mertin, porém guarda o nome de
Vaihinger como o seu primeiro fundador. Tem publicação anual.

2.22 Como vimos, o interesse por filosofia e sua
imposição cultural fez de Vaihinger um autêntico buscador de novas teorias,
visto que manifestou na sua própria justificação da obra não gostar dos meros
repetidores, ainda que competentes, porque preferia alguém que desse a luz e
não calor aos novos pensamentos. Os nomes expoentes da época em
Tubbingen eram: Schelling, Hegel, Holderlin, Waiblinger, Baur, Strauss,
Vischer, Zeller. Ele percorreu ensinos de Herder, Darwin, Kant, Von Hartmam,
além dos normais professores do dia a dia nas aulas de filosofia e religião. O
Plano oficial de ensino, na época, era do idealismo alemão de Fichte, Schelling
e Hegel, mas ele procurava seguir um caminho fora desse plano oficial e, por
isso, dedicou-se a Kant e Schopenhauer, este último ignorado e às vezes
proibido nas escolas oficiais naquele momento de sua vida.

26

2.23 Uma obra que causava relativa sensação naqueles
tempos era a Filosofia do Inconsciente de Edvard Von Hartmann, que não era
liberado para os estudos oficiais, mas, muito citado nas aulas. As grandes
ideias que revolucionavam as ciências naturais eram o uso da mecânica e,
especialmente, a lei da preservação da energia, e o mundo acadêmico
preocupava-se em reorganizar as ciências naturais em consequência da
propagação das obras de Darwin, especialmente no que lhe chamava atenção
da luta pela existência. No prefácio da nona e décima edições, 1927, Vaihinger
lamenta o estado de pobreza da Alemanha em Guerra e falida e refuta a falta
de racionalidade da não aceitação de sua obra nas universidades oficiais. A
pouca simpatia a sua obra não lhe entristece puramente, mas sim por uma
refutação antipática e sem uma contraposição séria e convincente. Embora
algumas teses de doutorado sobre a análise de sua obra tenham sido
publicadas, vários orientadores incentivavam seus alunos a não tematizarem a
filosofia do Como se, o que, para ele, afastou um aprofundamento dos
problemas que ele tentou levantar em sua teoria das ficções.









27

3 FUNDAMENTO DAS FICÇÕES

3.1 Ficção é uma expressão que provém do latim cujo
verbo é fingo – fingere – cujo significado vai aparecer como modelar,
representar, preparar, imaginar, disfarçar, supor
20
. Ou seja, tudo pode ser
arranjado, modelado ou disfarçado. Quando isto ocorre, se algo é disfarçado
mudado ou suposto, transforma-se em algo fictício. Na literatura jurídica, o
termo ficção é empregado pela primeira vez na forma de fictio voluntatis
21
, por
Quintiliano, que significava o pensamento disfarçado, e mais adiante vamos
encontrar o termo na forma de ficção legal, pelo jurisconsulto Júlio Paulo, em
escritos preparatórios do Digesto
22
de Justiniano. Aparece também como forma
de suposição ou hipótese. Todavia Vaihinger separa o que é hipótese e o que é
efetivamente ficção. Veremos adiante que a ficção surgirá como significado de
aparência, suposição, presunção.

3.2 De acordo com as lições de Vaihinger, as ficções
aparecem em geral primeiramente na Idade Média, entre os autores de
tendência nominalista onde se vê expressões como ficiton rationalis e entia
rationis, não como meras falsidades, mas como instrumentos necessários ao
estabelecimento de certas formas de saber.
23
Outra variação das ficções
notada por Vaihinger é aquela que se manifesta ao longo da história, ou seja, a

20
MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia, Tomo II, Edições Loyola, 2ed. Abril de 2005, p.1031.
21
A Ficção cessa quando a verdade aparece, conforme tradução do dicionário de latim.
22
O Corpus Iuris Civilis (em português Corpo de direito civil) é uma obra jurídica fundamental do
Direito Romano, publicada entre os anos 529 e 534, por ordens do imperador bizantino Justiniano I. O
Digesto, conhecido igualmente pelo nome grego Pandectas, é uma compilação de fragmentos de
jurisconsultos clássicos. É obra mais completa que o Código tem e ofereceu maiores dificuldades em sua
elaboração.

23
MORA, José Ferrater, p.1031.
28

palavra ficção pode ganhar, na Idade Média, conotação de falsidade, de
negação da verdade, passando para ficções científicas ou literárias, em outra
época. Outra possibilidade é a variação de inserção da palavra ficção no
idioma. A palavra ficção, portanto, carrega consigo proximidades de asserção
que em muito turvam o sentido que Vaihinger procura dar. Um exemplo dessa
vizinhança é tomar ficção como hipótese ou, no sentido mais prejudicial,
mentira, falsidade ou trapaça.

3.4 O Filósofo do Direito, Hans Kelsen, partiria da
definição das Normas Jurídicas na forma de Pirâmide, onde acima de todas as
normas estaria a Constituição Federal, identificada por ele como Norma
Hipotética Fundamental, que não necessariamente seria a Constituição Escrita.
Acima dela, poderia haver um direito que dirimia e mitigava todas as questões
a partir da natureza de convivência dos homens. Ao conceituar a norma
fundamental como sendo uma norma derradeira, na pirâmide normativa, que
fundamentaria toda a validade do ordenamento jurídico, ele passou a enxergar
essa norma como uma norma fictícia ou um mero ato de vontade também
fictício, ou:

[...] uma autêntica ou verdadeira ficção no sentido da filosofia do
Como-Se Vaihingeriana.... (sic) Por conseguinte, é de se considerar
que a norma fundamental no sentido da Filosofia do Como-Se
Vaihingeriana não é uma hipótese – como eu mesmo ocasionalmente
a qualifiquei – e sim uma ficção que se diferencia de uma hipótese
pelo fato de que ela é acompanhada pela consciência, ou digo, deve
ser acompanhada; pelo fato de que a realidade não lhe corresponde.
24



24
KELSEN, Hans. Teoria Geral das Normas. Trad. José Florentino Duarte. Fabris: Porto Alegre, 1986,
pp. VIII e IX.
29

3.5 Perguntado sobre a existência de um direito
fundamental acima de todas as normas, inclusive sua norma fundamental,
Kelsen responde que preferia pensar como Kant a partir da Filosofia do Como
se, agindo como se Direito existisse. Para justificar seu posicionamento, Kelsen
recorre a Kant que, ao ser questionado sobre a existência de Deus,
simplesmente respondeu que a discussão sobre a existência de Deus não
produzia frutos ao conhecimento humano. O problema não estava na
discussão de sua existência e, então, preferia pensar Como Se Deus existisse.
Assim, da mesma forma, a expressão foi resgatada por Vaihinger e, por
conseguinte, Kelsen a repete agindo “como se” existisse uma Norma Hipotética
Fundamental. Então, a expressão As if (als ob) ou Como se, na tradução mais
usual, é uma forma mental de racionalizar um conceito a partir de uma
definição, sem perquirir sua existência no ambiente empírico, especialmente
quando esta definição não transita no mundo físico.

3.6 As ficções em geral seriam criações do pensamento,
como dito anteriormente com propósito de:

[…] it must be remembered that the object of the world of ideias as a
whole is not the portrayal of reality – this would be an utterly
impossible task – but rather to provide us with instrument for finding
our way about more easily in this world.
25


3.7 Ou seja, criar situações de solução para tornar mais
fácil nosso caminho no mundo, sem que isto esteja ligado necessariamente
com a afirmação de verdade ou não verdade.

25
P. 15. – Tradução livre – Deve ser lembrado que o objetivo do mundo das ideias como um tudo, não é
nos dar um retrato da realidade, porque isso seria uma tarefa totalmente impossível, mas
preferencialmente nos fornecer uma instrumento para tornar nosso caminho mais fácil nesse mundo.
30


3.8 Seriam então soluções de problemas que se
processam no pensamento e, embora vão se materializar em expressões
linguísticas, não ficam limitadas ao contexto da linguagem. A expressão
linguística que representará a ficção é apenas o elemento comunicacional por
ser a forma de expressão humana do pensamento. A forma como a ficção é
expressa não visa à compreensão ou criação e uma realidade em si mesma.
Importante ressaltar isso porque a ficção não está vinculada à criação ou não
da realidade. Ela será o caminho pelo qual vamos estabelecer uma solução e
não necessariamente nos conectarmos à realidade, muito menos, a
constituímos através da linguagem. Podemos afirmar que a linguagem pode
ser considerada como limitadora – a ficção se encerraria numa expressão
linguística - enquanto as ficções que a antecedem têm o propósito de libertar
para resolver, sem limitar. Se a representação da ficção a limitar, sem resolver,
estaremos diante do mesmo problema, então a ficção surgirá novamente, não
se limitando ao conceito expresso ou representado pela linguagem. Ou seja, se
a linguagem não for suficiente para a solução, nova lacuna surgirá e nova
ficção será criada pelo pensamento. O ponto será demonstrar que a partir de
uma forma de pensamento voluntário ou involuntário, a solução de um
problema, no sentido mais pragmático da expressão, utilizar-se-á da
linguagem, mas não se inscreve nas questões de linguagem.

3.9 Outro ponto do nosso trabalho dissertativo será
demonstrar que, apesar de o direito ser um sistema comunicacional cujos
componentes podem ser “linguagem”, o conjunto teórico a ser aqui
31

apresentado considera que a “linguagem” não constitui nada mais que
resultados de vontades manifestadas através de seu escravo mor, o
“pensamento”. Utilizando-se o exemplo da moeda, cuja realidade pouco
importa ao seu desiderato final, é importante que os seres humanos tenham
vontade de resolver o problema de trocas entre si, e acreditem nisso e atribuam
certo valor a esse objeto chamado dinheiro
26
, então, será a vontade que se
utilizará do pensamento para criar uma das ficções mais conhecidas que é a
moeda. Não importa nesse exemplo da moeda se isso se constitui verdade
institucional ou qualquer outra coisa. Do ponto de vista da Teoria
Vaihingeriana, é necessário pensar como se aquela moeda fosse aquele valor,
nada importando a realidade ou não realidade sobre isso

3.10 A realidade nada tem a ver com a ficção. Seu
vínculo é com a função de lidar com a inexistência de uma realidade que
precisa ser solucionada em um determinado ambiente, ou de uma realidade
não percebida pelo ambiente formal existente, como veremos que ocorre no
mundo do Sistema Jurídico e com a função para a qual foi pensada e criada.
A ciência afirma certas hipóteses, ou seja, algumas posições com finalidade de
verdade, cujo compromisso central está na possibilidade de eventual
experimento prático ou prova em algum tempo, enquanto as ficções tentam
apenas inventar um recurso capaz de lidar com os entraves dessa ausência de
realidade, inventando algo
27
. Ou destas distinções Vaihinger nos diz que: “a
verificação da hipótese corresponde à justificação da ficção. Se a primeira deve

26
CARVALHO, Cristiano, p. 40.
27
Id. Ibd., p. 78.
32

ser confirmada pela experiência, a última deve ser justificada pelos serviços
que presta à ciência experimental.
28


3.11 A inclinação do nosso trabalho dissertativo é
constituir-se como pontos de reflexão distintos de algumas escolas da Filosofia
do Direito Positivo, nas quais se afirma a linguagem como constituinte de algo.
Pretende-se não criar vínculos com uma filosofia específica que afirma
categoricamente que o Direito estaria incrustado num universo de linguagem
constitutiva da realidade. Não será este o ponto da pesquisa nem foi esta a
intenção de Vaihinger, que procurou demonstrar cabalmente que seu trabalho
estava separado em dois momentos, o primeiro sendo a forma de como as
ficções se processam no pensamento e o segundo numa linguagem muito
prática de como isso é expresso no mundo real que é feito através da
linguagem na expressão como se.

3.12 Na sua obra mais importante sobre o Direito
Tributário, Paulo de Barros Carvalho, por exemplo, afirma em defesa do seu
trabalho, com certeza que

O Direito Tributário, (...) está penetrado por incursões reiteradas ao
universo da linguagem, que tomo aqui como constitutiva da
realidade. E, dentro dela, o subdomínio da facticidade jurídica,
espaço de intersecção a linguagem do direito posto e a linguagem da
realidade social (grifamos).
29




28
VAIHINGER, p.89 To the verifications of the hypothesis corresponds the justification of the fiction. If
the former must be confirmed by experience, the latter must be justified by the services it renders to the
science of experience.
29
CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário, linguagem e método. São Paulo: Noeses, 2008,
p. XXIII.
33

Veremos que a forma como a linguagem se insere no contexto das ficções é
como elemento de manifestação e não de criação, porque tanto a realidade
quanto as ficções irão transitar no mundo real e serão percebidas através da
linguagem e não a partir dela.

3.13 A reflexão sobre ficção não é somente a análise da
expressão linguística constituidora de realidade, na forma que algumas escolas
da filosofia do direito têm se proposto a afirmar, conforme mencionado no item
3.12. Porém aqui residirá um importante problema a ser resolvido nesta
pesquisa, de dissipar qualquer vinculação ao mesmo tema, porque quando
Vaihinger propõe suas ficções e na subespécie jurídica, parece-nos que fará o
caminho inverso por dois aspectos: a) primeiramente, porque sua ficção será
representada pela linguagem, mas isso não implica, sob forma alguma, criar ou
não criar realidade, mesmo porque as ficções não guardam qualquer
compromisso teleológico com a realidade; b) segundo, porque, se fosse assim,
a inversão seria total, ou seja, não seria a ficção através da linguagem que
criaria a realidade, mas a realidade que através da vontade servida pelo
pensamento que se expressaria através da linguagem. Este é o ponto a ser
enfrentado, qual seja, separar a questão da realidade e da linguagem da ficção,
sendo localizados aí, dois instrumentos da vontade, quais sejam: o
pensamento e a linguagem, ambos para servirem à solução de um problema
para, como visto, tornar o nosso caminho no mundo mais fácil.

3.14 O Tema das ficções é esparsamente abordado na
produção acadêmica, embora já tenha sido tratado no Digesto Romano, foi
34

pouco explorado em produção acadêmica. Contudo nos parece que existem
sinais do fim da displicência dada ao tema do pensador que tanto promoveu as
ideias alheias, especialmente as de Kant. Tomamos a recente tradução da
Filosofia do Como Se para a língua Francesa,
30
em 2008, temos a tradução de
Christophe Bourian. O trabalho se insere na Revue Périodique Publicée Par Le
Laboratorie de Philosophie et d‟Histore dês Sciences. E para a língua
Portuguesa encontramos o robusto trabalho do Professor de Línguas
Germânicas do Departamento de Letras da Universidade Estadual do Rio de
Janeiro, Johannes Kretschemer que apresenta um trabalho de tradução para o
português, em 2002, que transcorreu no programa de Pós-Graduação,
Doutorado do Instituto de Letras, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Há notícias de que o Instituto Goethe já promoveu outra tradução para o
português aguardando-se a publicação. No Brasil, temos a importante e
robusta obra do Professor Cristiano Carvalho, voltada para a apresentação de
como as ficções facilitam a operação do Direito Tributário.









30
“Revue Périodique Publicée Par Le Laboratorie de Philosophie ET d‟Histore dês Sciences – Arquives
Henri – Poincaré (LHS – Archieves Poincaré) Univeresité Nancy 2. Editora Kuné: Paris (ISSN 1281-
2463).

35

4 A FUNÇÃO ORGÂNICA DO PENSAMENTO

4.1 Vaihinger inicia sua obra afirmando que: “o
pensamento considerado sob o ponto de vista de uma função orgânica que
opera de acordo com uma finalidade
31
”. Nada acontecerá no pensamento que
não seja derivado ou elaborado para cumprir uma finalidade. Isto é, o
pensamento é uma função orgânica. Ideia que Vaihinger repetirá
exaustivamente em toda sua obra. Na primeira parte do seu trabalho, ele
afirma, ao dizer que quando pensamos fazemos isso a partir de uma função da
psiquê, que será explicada como a totalidade orgânica das ações chamadas
psíquicas. Essas funções são atividades regulares causadoras de todos os
acontecimentos decorrentes do pensamento.

4.2 A função orgânica se manifesta de acordo com uma
utilidade buscada, pois a consciência humana não seria o cerne da origem do
conhecimento, no velho estilo racionalista ou mesmo na filosofia do a priori de
Kant. Estariam na base da psiquê necessidades orgânicas, operando em prol
da emergência do conhecimento. O próprio surgimento dos a priori seria fruto
dessa condição da mente humana. Vaihinger propõe, com isso, considerar as
funções orgânicas de forma desconcertante para a tradição filosófica,
eminentemente centrada no logos e, comumente, como autônomo em relação
à condição orgânica do corpo do ser humano. Mais adiante, na sua Teoria do

31
VAIHINGER, Hans e o texto do Como Se, Por Johannes Kretschemer, 2002, Volume I, pag 40. Obs.: a
pesquisa de Mestrado iniciou-se e foi percorrida com o texto da Tradução Inglesa da Obra de Hans
Vaihinger. Recentemente encontramos na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, uma tradução
completa da Obra do Filósofo Alemão, feita pelo Professor Johannes Kretschmer, do departamento de
línguas germânicas daquela universidade. A Tradução é feita a partir da obra original em alemão, Die
Phisolophie des Als Ob. O Tradutor explica que percorreu o texto original e acrescentou algumas notas
e textos complementares para explicação da obra na língua portuguesa.

36

Como Se, ele chamaria, nas esteiras da obra de Schopenhauer, Vontade.
Agrega-se à ideia de Vontade, as influências que ele teve na formação
educacional das leituras de Herder.
32
Para quem a vida e o espírito evoluem
desde os primórdios de acordo com as leis da natureza da qual o homem
emerge gradualmente.

4.3 Neste mesmo processo interno e orgânico de
produzir o pensamento, o cérebro recebe influências também externas. Essas
influências externas são denominadas por Vaihinger de estímulos: tudo aquilo
que está externamente ao cérebro humano, ampliando seu pensamento e
evitando a simplificação ou reducionismo. Outro elemento importante na função
orgânica é a lei do menor esforço. Para Richard Avenarius
33
, com o qual
Vaihinger concorda, o cérebro opta pelo menor gasto de energia. Para ele, a
filosofia era pensamento do mundo e, ao imitar a natureza, teria, também, que
ser uma economia inteligente de energia. Segundo esse princípio, absorvido
pela Filosofia do Como Se, o próprio movimento de representação vai mudar
de acordo com as exigências de uma utilidade. A cada utilidade tem-se uma
espécie de representação e de energia. E por todo esse modo é que o
pensamento foi visto por ele como uma função orgânica.

4.4 O pensamento seria um processo lógico,
porém vinculado a procedimentos meramente orgânicos da criação. Aqui ele já
introduz a ideia de conceito lógico do pensamento, mas que se utiliza de

32
J. G. v. Herder, Ideen zur Geschichte der Menschheit, 1784 – 1791, Herder Books e as Ideias sobre a
história da Humanidade.
33
Cf. Avenarius, Phisolophie als Denken der Welt Gemass dem Prinzip des Kleinsten Krafmasses,
citação apresentada por Johannes em sua tradução, acrescentada a partir da obra original.
37

mecanismos orgânicos existentes na própria estrutura da criação. Todo o
acontecimento do qual deriva o pensamento estará vinculado a um sistema
psíquico que responde a estímulos de acordo com uma finalidade.

4.5 A existência de um organismo não é uma coisa
passiva nem um meio reflexo passivo, ou seja, não é um mero repositório de
reações, mas parece-nos um processador de reações, que reproduz reações
em forma de pensamento e nunca na mera atitude passiva. É um reflexo
positivo de leis físicas e orgânicas. Vaihinger afirma que, da mesma forma
como ocorre nas funções orgânicas de outras partes do corpo, ocorre também
no cérebro, ou melhor, dizendo, “nas funções psíquicas”. Tanto no corpo como
nas funções psíquicas, as adaptações vão ocorrer de acordo com aquilo que o
ambiente exigir ou as circunstâncias conforme se apresentarem. Tudo isso, da
mesma forma, reagindo a certos tipos de estímulos ou influências externas.
Não é um jogo passivo, quando se fala de função orgânica, mas sim algo
dinâmico e constantemente adaptável às necessidades que a utilidade vai
exigir desse organismo de pensar. Tudo aquilo que está compondo a função
psíquica é igualmente utilizável nos processos de apercepção.

4.6 Apercepção será uma palavra importante ao longo
do estudo teórico proposto por Vaihinger. Na obra inglesa, a palavra utilizada
por ele é APPERCEPTION-PROCESS. Processos de apercepção que,
segundo ele, serão ao longo do tempo fortemente analisados do ponto de vista
da função orgânica. O professor Johannes Kretschemer, ao traduzir a obra de
Vaihinger diretamente do alemão, com o título Hans Vaihinger: O texto do
38

Como Se, 2002, Universidade Federal do Rio de Janeiro, traz para o português
a mesma tradução do inglês, ou seja, a palavra apercepção, que será utilizada
longamente nesse trabalho, como sendo,
34
em termos filosóficos, a assimilação
perfeita de algo ou conhecimento de algo, conforme vemos perfeitamente uma
coisa ou uma ideia. Não é ver algo, é ver e assimilar o que se vê. É uma
percepção atenta e acompanhada de consciência.
35
Leibniz distinguia
percepção – que representa um grande número ou unidade e apercepção que
seria equivalente à consciência.
36
Para Kant, havia uma separação entre a
apercepção pura e empírica, sendo que a pura é aquela revestida de toda a
consciência, enquanto a empírica é entendida como mero fluxo das
aparências.
37
Então, para Vaihinger, a apercepção de algo pela função
orgânica passará pelos dois processos, como nos dispomos a detalhar a
seguir, porque a função orgânica apercebe a coisa e depois há todo um
mecanismo de processamento desse conhecimento.

4.7 Uma nova palavra é introduzida no vocabulário
vaihineriano, qual seja a Consciência que, para ele, não recebe passivamente
estímulo. Trata-se de uma dimensão da psiquê que também tem atuação
proativa, pois ao receber estímulos ela age segundo critérios que lhe convêm.
A psiquê, então, é a Força Orgânica de Modulação. Isto é, tudo o que
percebemos e recebemos externamente vai ser adaptado de acordo com uma

34
Apercepção a.per.cep.ção sf (a
1
+lat perceptione) 1 Ato de aperceber. 2 Intuição. 3 Filos Assimilação
perfeita de uma noção ou conhecimento, conforme dicionário de língua portuguesa.
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-
portugues&palavra=apercepção. Acesso às 8:49 do dia 11 de agosto de 2010. Esta é a mesma palavra
trazida do alemão pelo Professor Kretschmer.
34
As If, p. 15.

35
Cf Dicionário de Filosofia, Tomo 1 – AD. Jose Ferrater Mora, 1994, Edições Loyola.
36
Cf. Ob. Cit. p. 158.
37
P.158.
39

finalidade pelo trabalho sistemático da psiquê. Ou seja, o Pensamento
conclusivamente é definido por Vaihinger como Função Orgânica da Psiquê.

[...] a mente não é apenas receptora, ela opera também por
assimilação e processamento. No percurso de seu crescimento,
graças à sua constituição assimiladora, ela cria os seus próprios
órgãos, quando estimulada por fatores externos. Esses órgãos, que a
psiquê produz em razão de estímulos externos, e amolda às
condições externas, são, por exemplo, as formas da intuição e do
pensamento, bem como determinados conceitos e outras construções
lógicas.
38


4.8 Quando a apropriação dos estímulos externos ocorre
não de forma passiva, mas de forma ativa, tendo o cérebro processado alguma
conclusão útil, será definida como um pensamento lógico.

O pensamento lógico, ao qual nos referimos especialmente aqui,
representa o apropriar-se ativo e independente do mundo externo,
sendo a elaboração organicamente útil do material produzido pelas
sensações. O pensamento lógico é, portanto uma função orgânica da
psiquê.
39



4.9 Como fora dito no início deste capítulo, não se deve
considerar a função orgânica meramente passiva, ela processa a informação
apercebida e de acordo com os estímulos internos e externos desencadeia a
função lógica. No início da Filosofia do Como Se, Vaihinger nos informa que a
psiquê é totalidade orgânica das ações e reações psíquicas. Essas funções
psíquicas resultam, com certa regularidade, de causas e condições que se
adaptam e são flexíveis às circunstâncias do ambiente, versus estímulos e
influências. O pensamento científico vai ser analisado a partir da ideia de
função orgânica.


38
P. 42
39
P. 42
40

4.10 Esse sentido orgânico do pensamento vai
reagir também a estímulos de uma finalidade ou de uma vontade, porque ele
não será mero receptor daquilo que se apercebe, não sendo um espelho
meramente passivo das percepções do lado de fora. A mente cria, não sendo
somente receptora. Existe uma forma em que esse organismo vai receber e
decompor as sensações externas. Há uma função orgânica da psiquê, que não
é mera substância, mas um conjunto, uma totalidade orgânica; não é
meramente passiva e reage a estímulos externos ou a partir de uma finalidade,
e pode ser criadora, na medida em que recebe esses estímulos de forma
consciente ou ativa, recebendo os dados exteriores e processando-os
independente do mundo externo, criando o pensamento lógico.

4.11 Para tratar da função orgânica do pensamento,
Vaihinger mobiliza um conjunto de expressões: Pensamento, Finalidade,
Função Orgânica, Psiquê, Consciência. Outra expressão estratégica que
aparece depois no corpo de sua obra é a palavra Alma, que para ele parece ter
o mesmo significado que consciência, apenas diferindo de tempos em tempos
na produção de sua obra no conceito linguístico, mas mantendo o mesmo
significado, qual seja produzir o ato de pensar.

4.12 A explicação funcional vai aparecer a partir de uma
percepção externa que o organismo recebe. Feito isso, ele decompõe e vai
misturar essa sensação de acordo com critérios da consciência que podem ser
classificados como humores próprios e deixa apto para uma assimilação da
psiquê, que toma aquilo como um fruto da sensação iniciada por um trabalho
41

psíquico cujo resultado é uma apropriação de acordo com uma finalidade
daquela sensação que foi percebida no início.

4.13 De acordo com citação do próprio Vaihinger, foi
Steinthal
40
o filósofo que fundamentou a concepção da função orgânica do
pensamento, quando propôs analisar todo o processo cognitivo sob o ponto de
vista de uma observação do pensamento de acordo com certa finalidade. A
psiquê é uma força orgânica de modelação que altera, modifica e permite
estímulos externos, de acordo com sua própria finalidade e conforme os meios
por ela mesma definidos. Da mesma forma que o olho humano capta
sensações visuais, não compreende, leva ao cérebro que de acordo com
critérios próprios de seu próprio funcionamento orgânico, processa, assimila e
devolve um resultado produzido, o ato de enxergar e comunicando o que é a
imagem captada, assim o processo orgânico de produção do pensamento
ocorre. Assim, a função lógica exerce uma atividade de acordo com a
finalidade, mas apropriando-se de material externo que é levado da mesma
forma ao cérebro e agindo de acordo com o organismo cerebrino já
determinado transforma tais sensações,
41
associações e conceitos em
pensamento. Ou seja, a função orgânica do pensamento cumpre seu papel ao
processar e concluir de acordo com diretivas e impulsos da vontade, através
desses mecanismos orgânicos.


40
Vaihinger, p. 43 - Conforme citação de Vaihinger é Steihnthal que afirma que a consciência não recebe
nenhum estímulo externo que não se modele de acordo com o seu próprio critério.
41
Vaihinger vai utilizar a expressão Representação, mas, preferimos esclarecer a opção pelo termo
sensação para ser fiel ao início do texto, onde o autor opta pelo termo sensação, evitando-se assim tomar
o risco da confusão com a ideia de representação que será adiante também explorada. A opção pela
palavra sensação é para manter diametralmente separadas a ideias de sensação e de representação que têm
sua própria definição para esse mesmo trabalho, embora Hans não as diferencie diretamente, mas,
preferimos fazê-lo.
42

4.14 Para Vaihinger, na construção de sua epistemologia,
a função psíquica, a finalidade e a vontade são objetos formadores do
pensamento. A função psíquica ou a psiquê modela e a finalidade comanda.

A psiquê é, portanto uma força orgânica de modelação; o que ela
recebe, modifica com os seus próprios meios conforme uma
finalidade, sendo tanto capaz de incorporar o que lhe é estranho
quanto de se assemelhar ao que é novo. A mente não é apenas
receptora, ela opera também por assimilação e processamento. No
processo de seu crescimento, graças a sua constituição assimiladora
ela cria os seus próprios órgãos, quando estimulada por fatores
externos.
42


4.15 A função orgânica é ajustada de acordo com a força
orgânica da psiquê. Essa como totalidade do funcionamento orgânico acaba
por exceder ao próprio orgânico e passa a exercer sobre a organicidade
pressões com vistas a objetivos finalísticos. A psiquê, nesse sentido, alinha-se
com a finalidade, que será sempre aquilo que vai adaptar as sensações
percebidas para transformá-las num resultado final que ele chama de
Conclusão Contundente. “A função lógica do pensamento cumpre sua
finalidade ao transformar os complexos dados das sensações em conceitos
válidos, em juízos gerais, em conclusões contundentes pelo que produz
determinada imagem do mundo”.
43
Afirma uma finalidade
44
prática que concluiu
pela utilidade de tudo aquilo que a função orgânica do pensamento vai
produzir. Tudo conforme os impulsos da vontade. Então, a psiquê obedece a
comandos da vontade. Essa vontade, então, criaria a partir de uma finalidade e

42
P. 42 da tradução Johannes Kretschemer
43
P. 44
44
Veremos adiante que a afirmação categórica da sua teoria será no sentido de que toda a função da
psiquê é a de atender uma vontade e uma finalidade que é promover uma facilitação para tornar a vida
mais prática ante a complexidade da natureza e das coisas. E esta finalidade será útil para entender a
missão e a importância da criação de sua teoria das ficções.
43

a partir dela e de acordo com ela, ou seja, a finalidade vai ser determinante no
processo de formação do pensamento.

4.16 Qual seria a finalidade última do pensamento? O Ato
de pensar passa a ser dimensionado de acordo com um impulso de vontade
com vistas a uma finalidade prática. Aquela finalidade, a partir da qual e de
acordo com a qual se forma o pensamento, visa a um aspecto prático. Então
seria um objetivo último do pensamento de atender, ou melhor, utilizando a
palavra que se destaca como preferida do autor, servir à vontade. A vontade,
seria a propulsora da atividade da função psíquica, a produzir um resultado –
Conclusão Contundente – que é o pensamento. E esse pensamento, ou essa
conclusão contundente tem sua utilidade acentuadamente prática. A
concepção de que o pensamento se subordina à prática visa, em Vaihinger, ao
agir na prática e não a uma mera discussão acerca da prática. Ele convida para
acentuarmos o entendimento de que isso serve realmente para a prática. O
que corrobora com a função prática, não será nunca a representação do
mundo externo, e sim o êxito de agir ou de atender a contento a vontade. Ao
servir a vontade, o organismo cerebral processará as sensações de acordo
com o sistema já pronto, mas a finalidade principal é produzir uma conclusão
contundente que sirva a vontade e tenha um aspecto prático. Salientando-se a
propensão do organismo em forçar seus limites para atender a vontade.

4.17 Mas isto somente fará sentido em acentuar seu
caráter prático, na medida em que pudermos interferir naquilo que não tivemos
concurso. Vaihinger preocupa-se com o êxito no real sem perquirir-se sobre a
44

funcionalidade desse real, sem discutir qual seria o estatuto dessa realidade.
Em suas palavras para restar mais evidente:

[...] aqui gostaríamos de acentuar a confirmação prática, o teste
experimental da utilidade das formações lógicas que a função
orgânica do pensamento produz. Não é a coincidência com um
suposto ser objetivo ao qual nunca teremos acesso imediato que
corrobora como acreditamos o fato de ter o pensamento cumprido
com sua finalidade, não é a representação teórica do mundo externo
no espelho da consciência nem a comparação teórica dos produtos
lógicos com coisas objetivas; é antes a comprovação prática se é
possível calcular, por meio daqueles produtos lógicos os
acontecimentos que ocorrem sem o nosso concurso e realizar de
modo apropriado e de acordo com as diretivas das construções
lógicas, nossos impulsos de vontade
45
.

4.18 O desafio é acentuado. Se a função da psiquê é
modelar as influências externas e sendo a mente algo não apenas receptor de
estímulos de forma passiva, o que vai determinar o quanto o pensamento está
cumprindo sua finalidade é o quanto poderemos interferir naquilo que ocorre
em nosso pensamento, sem que tenhamos provocado ou sem o nosso
concurso. Como isso ocorre? Sem a nossa interferência é que realizaremos os
nossos impulsos da vontade. Se a função orgânica do pensamento é atender
aos apelos da vontade e se há momentos em que os impulsos não são por nós
provocados, como explicar a nossa interferência nesse processo de vontade?

4.19 O ponto de partida para essa resposta é o
entendimento do que sejam os impulsos de vontade e a verdade do
pensamento. Ele vai buscar em Lotze uma afirmação para a verdade do
pensamento, segundo a qual: “a verdade está na concordância das
representações e suas associações com o objeto representado e suas

45
P. 44.
45

relações”.
46
Afirmação que foi retificada mais tarde para esclarecer que as
representações seriam verdadeiras quando “se ajustarem às relações dos
conteúdos representados que são as mesmas para cada consciência
representante e não a justaposição meramente factual”. Isto é, Vaihinger
desloca a ideia de adequação da consciência ao objeto, para registrar que há a
interferência da consciência receptora. Porém, não se contenta em acentuar
seu deslocamento epistemológico ao afirmar que o mais importante é verificar
se a representação cumpre o fim que a instigou, que a provocou para a marca
de se produzir. A autoavaliação será em vistas do cumprimento da meta
estabelecida pela vontade. Não se faz a pergunta pela adequação entre
representado e representante, ideia versus fenômeno.
47


4.20 O desafio argumentativo consistirá em compreender
o ponto de indagação da argumentação que questiona a função da lógica ou da
atividade teórica. Poder-se-ia aferir à lógica uma função em si? Como ficaria,
ou como Vaihinger pretende abandonar a função clássica da lógica? Somos
levados a pensar que há um engano ou limitação da razão, pois quando ela, a
razão, advoga imunidade, no caso a lógica que se diz funcionar por si, estaria
apenas desconhecendo fatores que incidem sobre ela. Como o pensamento
está voltado para a finalidade prática, a posteriori revelar-se-ão as marcas dos
elementos estrangeiros à própria razão. Revela-se, após ter efetivado a ação, o
quanto os processos racionais que antecederam já estavam condicionados.


46
P. 44, citando R. H Lotze, Logik , pp. 4 e 5.
47
Cf p. 45.
46

4.21 Tomando Schopenhauer como inspiração, Vaihinger
vai afirmar categoricamente que, em face da vontade, o pensamento humano
toma uma posição de vassalo. A vontade seria então “o único princípio
metafísico, a saber, uma vontade cega desprovida de princípios lógicos, o
cérebro, em princípio não lhe é outra coisa senão instrumento da vontade, a
serviço dessa e da preservação da vida do indivíduo.”
48
Então, o que é
responsável por toda a produção de pensar é a vontade, ou melhor, o
pensamento vai processar tudo aquilo que sirva a vontade. A mente humana, o
cérebro, ou a função orgânica, ou a função psíquica é um agente que serve a
vontade e está é a Senhora Feudal, enquanto o Cérebro e todos os seus
sistemas são seus Vassalos.

4.22 Sempre procurando visualizar e contemplar o
sentido prático que se procura dar à filosofia, Vaihinger registra que o valor
prático do ato de pensar teria um plano primeiro, ou seja, ocuparia um lugar
privilegiado, enquanto o conhecimento seria delegado a um plano secundário.
O conhecimento teria como objetivo buscar as formações dos conceitos cujos
valores no sentido de para que servem, seriam muito discutíveis. A vida
depende de que os seres humanos conheçam as coisas e como cada qual
dessas coisas vai se relacionar entre si e com o todo.

[...] para que possamos viver, precisamos do saber do mundo das
coisas e de nós mesmos e de como as coisas se conectam entre si.
(...) bem de acordo com a concepção moderna três tarefas
fundamentas, a saber: a busca da alimentação, o início da
fecundação e a proteção do mau tempo.
49



48
P. 46.
49
P. 47.
47

4.23 O que compreendemos é que a busca do
conhecimento, de como ocorre esse relacionamento das coisas do mundo
entre si e na interação com o todo, teria como tarefas principais: alimentação,
reprodução e proteção contra o mau tempo. Através de uma cadeia de
necessidades podemos inferir que a necessidade de alimentação, que
impulsiona a buscá-la, estaria na base das vontades primordiais. Decorre
dessa primeira vontade a busca por proteção e, como modo de
preservação/proteção, a fecundação. A razão estaria a serviço dessas
necessidades, e todo o aparato que ela produz revela apenas que no ser
humano as condições biológicas ou orgânicas são dotadas de uma magnífica
capacidade de adaptação ao meio.

4.24 Vaihinger concilia e amplifica esses conceitos
schopenhaurianos com outros elementos teóricos tirados da leitura que faz de
Steinthal, consolidando e delimitando seu pensamento filosófico para a
comprovação de validade de todos os produtos da razão para uma prática.

4.25 A função lógica do pensamento tem a finalidade de
antecipar uma impressão sensitiva para criar, por intermédio daquilo que ele
chama de impulsos da vontade, um efeito que é perfeitamente passível de uma
precisa e clara definição. As sensações levam o processo lógico a funcionar e
o farão intermediar e transformar os impulsos da vontade. Ou seja, o
pensamento toma os impulsos sensitivos, provoca um processo de construção
lógica, tudo isso com a finalidade de produzir algo que serve de prático e útil à
vida.
48


4.26 O ponto de partida, o que provoca a atividade de
pensar são as percepções sensitivas. Tornar a vida cheia de sensações é o
papel finalístico do pensamento, através de toda a matéria prima fornecida pela
natureza e pelas necessidades humanas. Vaihinger considera ou subsume o
aparente complexo mundo das sensações à tarefa primordial de fornecer
alimentação, procriação e sobrevivência, apropriando-se com a única finalidade
de “calcular os acontecimentos independentes e torná-los acessíveis à ou
dependentes da nossa vontade”.
50
Da tradução inglesa: “in order to attain the
purpose of its activity as completely and quickly as possible, namely, to deal
with independent events and to render them possible for or dependent on our
Will thought or the logical function employs the most diverse means.”
51
Ou
seja, o pensamento se vira para obter o melhor de si para atendimento das
nossas vontades.

4.27 A capacidade da razão em produzir os meios
necessários para realizar os ditames da vontade, aperfeiçoado, ainda, através
da ampliação do seu raio de ação, é surpreendente, pois ela não se satisfaz de
recorrer apenas aos seus recursos inscritos no corpo. Lança-se a produzir
instrumentos capazes de servi-la na tarefa de vassalagem de seu senhor ou
senhora Vontade. Porém, ao aumentar a sua capacidade de providenciar os
meios fora do corpo para melhor atender de forma mais eficiente as
necessidades, verifica-se que a percepção acerca da vontade também se
amplifica. Para se alimentar, procriar e proteger o próprio corpo já dispõe de

50
P. 48.
51
Vaihinger, p. 6.
49

mecanismos próprios de proteção, mas, na medida em que as necessidades se
alteram ou se aprimoram, evoluem também os mecanismos que são criados
pelo pensamento. Concomitantemente, amplia-se o raio de ação humana, o
que gera mais necessidades.

4.28 O processo pelo qual a razão se aperfeiçoa pode ser
provocado por causas externas ou através da função lógica. O que provoca o
aperfeiçoamento da função lógica é o próprio desafio lógico em ser cada vez
mais eficiente naquilo que lhe compete. As causas externas desafiam a razão
humana, na medida em que o real fustiga as suas pretensões de ação.
Frustração que obriga a razão ao processo de revisão de suas estratégias de
dominação. Aqui, a mente pragmática que não se encontra atada a ideias,
humildemente, se lança na construção de novas formas ou abordagens que
irão aperfeiçoar a sua ação, antes mal sucedida. Nesse sentido, podemos dizer
que o pensamento passa a ter a si como “objeto” a se ocupar, ou dito de outro
modo, o próprio pensamento também age como se fosse a vontade, isto é,
estabelecendo metas a serem cumpridas.

4.29 A ação da função orgânica, que acaba por
estabelecer metas para a própria razão, vai ocorrer de forma inconsciente. Ou
seja, podemos estar trabalhando conscientemente em algo e não notar as
interferências orgânicas, pois para elas se iniciarem não precisa de um
comando racional e consciente. Ao contrário do que se pode imaginar, a
operação inconsciente do pensamento ocorre com mais frequência e
incrivelmente cada vez mais quanto voltada a agir de acordo com uma
50

finalidade. A primeira ideia que temos em mente é que, agindo de acordo com
uma finalidade, então o pensamento seria sempre consciente. Porém não é
dessa forma que afirma Vaihinger visto que, no seu esforço teórico, procura
demonstrar que, quanto mais próximo da finalidade estiver sendo processada e
movimentada a função orgânica do pensamento, mais isto irá ocorrer de forma
inconsciente, ou seja, quanto maior for a finalidade, menos saberemos que
estamos fazendo agir a função orgânica.

4.30 Vaihinger esforça-se para apresentar que sua
concepção epistemológica não se preocupa com as questões clássicas que
procuram verificar, em qualquer sistema de conhecimento, se ele diz
apropriadamente acerca do Ser e dos fatos nos quais se manifestam ou
acontecem. O sistema pregado por Hegel seria diferente do seu pensamento,
na medida em que compreenderia os caminhos do pensamento com os
caminhos do acontecimento. Para Vaihinger, não se poderia fazer daqueles
processos subjetivos do pensamento uma vinculação com os acontecimentos
objetivos do mundo. Vaihinger considera um erro geral da filosofia a confusão
feita entre caminhos do pensamento e os acontecimentos, porque os
processos subjetivos do pensamento não têm nada a ver com os processos
objetivos do mundo.

4.31 Vaihinger considera a tentativa hegeliana de
verificação do ideal nos fatos reais, como equivocada. Valendo-se da critica de
Steinthal, ele não admite que um juízo subjetivo possa ter direito de
51

objetividade. Não se dando por satisfeito, apresenta, mesmo que em nota de
rodapé, o argumento de Kant, para o qual

[...] toda aparência consiste em considerar como objetivo o
fundamento subjetivo do juízo, porque a razão se perde em desvios,
ao tentar interpretar erroneamente a sua destinação e relaciona, de
maneira transcendente, ao objetivo o que diz respeito apenas ao seu
próprio sujeito e a orientação deste em todo uso imanente.
52


4.32 Isso significa que todos os erros humanos seriam
derivados de caminhos tortuosos ou enganos do pensamento e não do próprio
mundo objetivo. Quando erramos, tiramos uma cópia enganosa da realidade.

4.33 Os acontecimentos objetivos do mundo não são
cópias dos processos subjetivos da mente. Os caminhos percorridos pelo
pensamento serão sempre diferentes do caminho do Ser. Há muita diferença
entre o que acontece no pensamento e aquilo que acontece no mundo real. O
pensamento trabalha, “vira-se” para atingir seu objetivo fundamental que é
atender a uma vontade. Não significando que essa vontade, quando
apresentada ao mundo da realidade, seja exatamente o retrato daquilo que o
pensamento se utilizou como vontade para iniciar-se, porque pode a razão
confundir-nos com falsos retratos da realidade e produzir um resultado
completamente diferente daqueles processos produzidos subjetivamente na
mente.

4.34 A realidade não é cópia do pensamento humano.
Essa afirmação caminha em sentido contrário, porque quando isso ocorrer, ou

52
P. 52, nota de rodapé.
52

seja, quando a realidade for a cópia do pensamento humano, teremos os
maiores erros humanos acontecendo. Kant teria afirmado nos Prolegômenos
que toda a aparência consiste em considerar como objetivo o fundamento
subjetivo do juízo e que a razão se perde em desvios ao interpretar
erroneamente sua destinação e relacionar de maneira transcendente ao objeto,
no que diz respeito apenas ao próprio sujeito e à orientação deste em tudo isso
imanente. Esse tema será retomado mais adiante, quando formos entender
algumas diferenças do significado de realidade para Vaihinger e para outros
autores que trabalharam o mesmo tema.

















53

5 O PENSAMENTO COMO ARTE, A LÓGICA ENQUANTO DOUTRINA DA
ARTE

5.1 Vaihinger define, como abordamos no tópico
anterior, o pensamento como uma função orgânica. Pode-se observar que seu
objetivo era estudar a passagem daquele pensamento, dito como orgânico,
para o abstrato. Ainda nesse objetivo, ele demonstra que há na razão o
elemento inconsciente atuando e interferindo nos desígnios da consciência. O
termo inconsciente, classicamente vinculado a Freud, talvez não seja o mais
apropriado na econômica dispensada pela Filosofia do Como Se. Em
Vaihinger, os termos empregados são de meios condicionados pelos fins, isto
é, a razão atua em vistas de fins estabelecidos pela vontade. A ação desses
fins, porém passa despercebida da razão que, comumente, não consegue
determinar em que medida está sendo influenciada ou tem a si com fim. O
trabalho da razão pode ter como início os desígnios da vontade. Contudo
Vaihinger destaca que a razão é o aglomerado orgânico com capacidades
excepcionais. Sendo assim, e nessa perspectiva de capacidades excepcionais,
considera a arte como um estágio avançado do pensamento. Informando-nos
que o pensamento pode ser elevado à função de arte. Esse processo de
elevação da função orgânica à categoria de arte dar-se-á mediante exercícios,
desenvolvimento e, inclusive, uma perigosa afirmação, no contexto xenofóbico
do nazismo, de que isso pode ocorrer por transmissão genética hereditária, o
que nessa matéria nos parece tributário das ideias evolucionistas da sua
época. Nesse aspecto, Vaihinger transmite muito a influência recebida pelos
ensinamentos relativos à teoria da evolução das espécies e à interface com
54

todo o sistema de convivência humana, com as coisas do mundo e a forma de
pensar de tempos em tempos.

5.2 No momento em que ocorre a evolução ou elevação
do processo de pensamento à estatura de arte, a lógica vai aparecer como
doutrina da arte. Sobre esse aspecto, a lógica será chamada de doutrina da
arte, o que se poderia entender o pensamento como arte, então compreendido
como uma nova etapa onde a ação humana parece iniciar sua ação e
manipular o pensamento, onde, no nosso entender, ocorre o rompimento de
Vaihinger com o Idealismo Alemão. Essa influência é recebida de Stuart Mill,
para quem a palavra Arte não tem nada a ver com a questão do estético ou
como uma atividade artística, mas diz respeito ao engenho habilidoso, quando
a atividade do pensamento sai do seu estado meramente orgânico. O
pensamento em forma meramente orgânica é algo exatamente vinculado a
uma atividade conforme uma finalidade ditada pela vontade. Porém, ao partir
para campo de atividades cujas rédeas são tomadas pela consciência, então o
pensamento passa ser entendido como uma atividade conforme a arte. O
pensamento enquanto arte pode se manifestar na fase orgânica ou na fase em
que se eleva a essa condição primária do pensamento. Caracteriza-se pelo
domínio consciente dos processos de pensar. Não dá para dissociar da
possível ideia de Heráclito, quanto ao estado de consciência, nos
ensinamentos de OSHO, segundo o qual, consciência significa que as coisas
que acontecem devem acontecer numa forma presente, como se fosse um
pensar de forma programada, e não simplesmente de forma meramente
55

orgânica.
53
É como se houvesse um estado de adormecimento
(inconsciência) e um estado de alerta, qual seja consciência.

5.3 A palavra arte, aqui empregada, não é no sentido
comum de estética do pensamento, mas sim de uma habilidade, de um
esquema engenhoso de produção do pensamento. Enquanto mera tarefa
orgânica do pensamento ainda no seu processo inconsciente pode-se chamar
de Atividade conforme uma finalidade (zweckmässig). Após ultrapassar a
barreira do inconsciente será uma Atividade conforme a arte (kunstmässig).
Uma num pensamento adormecido, outra num pensamento acordado.

[...] enquanto a atividade orgânica do pensamento ainda se encontra
no campo do inconsciente (do hipopisíquico, segundo Lass)
preferimos chamá-la de atividade conforme uma finalidade
(zweckmasig); não hesitamos em atribuir semelhante atividade a
todas as funções orgânicas, desconsiderando por completo o
problema metafísico da teologia; mas, quando a atividade orgânica
abandona o campo das atividades inconscientes, menos luminosas, e
a consciência toma as rédeas, preferimos chamar essa mesma
atividade orgânica de atividade conforme a arte (kunstmässig).

5.4 O pensamento vai encontrar uma justificação
objetiva, na medida em que a capacidade de pensar refina-se. Pensamos o
pensar. O que os indivíduos aprenderão ao longo da vida, buscando praticar
com certa habilidade ou uma capacidade engenhosa, será, mais tarde, na
medida da evolução dessa habilidade, Arte. Dessa forma, escapando da
atividade inconsciente ou provocada por um processo de aprendizado, o
pensamento adquire a estatura de arte. Depois de atingirmos esse estágio,
ocorre outro processo que é a forma de dominar isso. Como se fosse um

53
OSHO – RAJNEESH, Bhagawan Shree, A Harmonia Oculta: Discursos Sobre os fragmentos de
Heráclito, p. 37.
56

procedimento de arte. Para essa arte, apresentam-se regras, que seriam os
métodos de que o pensamento dispõe e usa para alcançar a mesma finalidade
dantes mencionada.

5.5 Quanto mais a forma de pensar evolui pela
transmissão hereditária, de geração em geração, mais se aperfeiçoam as
formas de pensar. Somente indivíduos com particular habilidade,
especialmente capacitados, poderiam praticar a arte do pensamento de forma
muito mais especializada e com uma peculiaridade não comum, e o final de
tudo isso seria a capacidade das pessoas de criar as regras técnicas do
pensamento, que é chamada de lógica. O pensamento tem suas aparições de
forma natural e orgânica, mas pode ser dominado pela técnica que se
transforma em arte. Após alcançar o estágio de arte, esse processo
autoevolutivo de aperfeiçoamento pode criar uma técnica que se transforma em
lógica. O pensamento tem a sua disposição determinadas técnicas, ou inventa
por si só outras para o fim de desenvolver aquilo que lhe é submetido para que
sua finalidade seja alcançada. Vaihinger vai percorrer um terreno um tanto
polêmico ao afirmar que isso pode ser aperfeiçoado de acordo com a geração
hereditária, em sua exata expressão:

[...] ao longo do desenvolvimento (ora na história geral da cultura, ora
individual e geneticamente), aumenta não só a riqueza dos produtos
herdados por uma geração de outra, acumulam-se também as
experiências da atividade formal resultando na forma de regra de
arte. Estas regras ora nascem, por si só, e partir do exercício
constante da atividade e têm vida duradoura, um processo, sobretudo
inconsciente, pra se reproduzem conscientemente.
54



54
P. 55.
57

5.6 O problema da transmissão genética está ligado ao
desenvolvimento da arte de pensar e ao conteúdo adquirido pelas experiências
de pensamento, criando regras de procedimento, não significando um
aperfeiçoamento do pensamento enquanto composição genética, mas sim
como exercício e criação de regras de arte do pensamento, ou mesmo pela
forma de sair a cada vez do estado natural e original do pensamento. Em outro
ponto, afirma, citando Sigwart, que

[...] nesta parte Sigwart chama uma expressão feliz de técnica. Trata-
se de métodos que o pensamento tem a disposição ou os inventa e
cria a fim de desenvolver, à base de uma situação dada e primitiva da
percepção habitual e do pensar popular, juízos de valor geral,
conclusões necessárias e instigantes, bem como conceitos
rigorosamente definidos.
55



É um domínio da atividade de pensar, ou simplesmente um método de
pensamento o que, conforme afirmamos, pode ter sido o grande divisor de
águas entre a obra de Vaihinger e seus antecessores que pregavam a
autonomia absoluta do pensamento e da razão. Ele absorve aspectos não
racionais no pensamento, alinhando-se à doutrina do inconsciente de Hartmam
e, ao mesmo tempo, criando uma nova forma de compreender o pensamento
que poderia ser autônomo e independente de influências, até um determinado
ponto, mas que poderia ser aplicado ao pensamento algumas formas para
controlá-lo, deixando-se de imaginar que pensar apenas ocorria da forma
primitiva, sem um impulso de vontade.




55
Nota da P. 54.
58

6 DIFERENÇA ENTRE ARTIFÍCIOS E REGRAS DO PENSAMENTO

6.1 A metodologia é utilizada para demonstrar como
ocorre o funcionamento do pensamento de forma orgânica, seja na sua
maneira inconsciente ou consciente, como a atividade conforme a arte e
conforme a finalidade. Essa metodologia vai se tornar útil para registrar como
em cada situação isto ocorre, ou seja, quando se age pela finalidade ou pela
arte. O real progresso e refinamento de tudo isso vai dar alicerce ao progresso
das ciências da natureza, porque foram da prática à teoria, e fazendo esse
caminho foram reduzidas à função lógica.

6.2 Alguns desses métodos teriam sido melhor
aproveitados e investigados pela ciência moderna e outros foram mais
negligenciados. Métodos que foram em certo tempo e de algum modo
negligenciados por vários campos científicos poderiam esforçar-se para serem
investigados e aproveitados de melhor maneira. Sempre se procurou priorizar
as ciências naturais em desprestígio às ciências da lógica, que operariam de
forma mais brilhante porque tratariam de fenônemos da complexidade de forma
mais importante do que a forma que tais fenômenos foram estudados, a partir
somente da observação das ciências naturais, que pode não ter dado conta de
explicar e justificar tudo aquilo que desejava o pensamento humano.

6.3 Os métodos lógicos ou aqueles métodos
considerados indutivos vão se tornar incapazes e insuficientes para dar conta
da explicação de toda a necessidade da ciência e da atividade humana na
59

solução de problemas da vida prática. Haveria, então, de surgir métodos cuja
capacidade de síntese de dedução e indução seria melhor, como dito, como
forma de superar e dar respostas aos problemas. A esses métodos dá-se o
nome de irregulares, diferentes dos regulares de indução e dedução.

6.4 As regras da arte e artifícios serão uma divisão
mantida como forma de enfrentar as diferenças entre o método regular e o
irregular. Elas, as regras de arte, seriam o “conjunto de todas as operações
técnicas, graças às quais uma atividade cumpriu sua finalidade de forma direta,
mesmo que o caminho percorrido seja mais ou menos complexo”. Enquanto os
artifícios seriam as “operações de natureza quase misteriosa, que contradizem
mais ou menos paradoxalmente, os procedimentos normais (...) são capazes
de superar indiretamente os obstáculos que o material em questão lança no
caminho da atividade”. Aqui é que o pensamento vai iniciar o processo de
criação misteriosa das ficções, porque superam obstáculos existentes seja na
forma orgânica do pensamento ou na sua forma consciente, ou seja, na sua
forma de arte. Esse artifício é que vai produzir uma ação conforme uma
finalidade, porque defronte a um obstáculo o pensamento tem que atingir sua
finalidade, sempre para resolver algo de forma inesperada, mas necessária do
ponto de vista do pensamento. A regra seria um método enquanto o artifício
seria algo derivado do método que produz resultados voltados à superação de
obstáculos. Aqui já prenunciando aquilo que será afirmado posteriormente de
que as ficções têm um espaço vinculado de forma superior às regras do
pensamento porque criam soluções não necessariamente encontradas pelas
regras.
60


6.5 Então uma operação misteriosa que pode
contradizer aquilo que normalmente utilizamos, supera e resolve, sempre
diante de um obstáculo, ou seja, o mecanismo orgânico de pensamento se
apropriará de artifícios, na medida em que pelo processo normal não seriam
capazes nem dariam conta de responder, ainda que se utilizando do
pensamento de forma consciente através de regras. Enquanto a arte é o
artifício voluntário não milagroso e gerado por operações técnicas que atendem
sua finalidade, o artifício é expediente não explicável dessa arte.

6.6 Os artifícios também são vistos na função orgânica
como pensamento que vai aparecer de acordo com uma finalidade de forma
muito vigorosa. Em face da finalidade, o cérebro “dá seus pulos, se vira” e
através do artifício resolve o problema sem que essa solução seja explicada de
forma técnica.
56


6.7 O pensamento é produzido de forma inconsciente na
maioria das vezes, ou seja, de forma a atender uma finalidade que nem sempre
dominamos, e quanto maior a função da psiquê se faz presente, maior é o
pensamento em busca do atendimento de uma vontade. Depois disso, explora-
se a arte do pensamento, que seriam regras de pensar e, nesse processo,
utilizando-se ou não das regras, o pensamento cria artifícios para solução dos

56
Uma explicação de Vaihinger diz respeito a uma solução encontrada por Leibiniz acerca de um
problema matemático que ele não soube explicar de que forma chegou àquela solução e o fez de forma
muito simples, e esse problema era considerado insolúvel até aquele momento e todos os matemáticos
teriam se surpreendido com a solução. Então esse artifício brotou na necessidade de dar conta de uma
solução à qual pelo caminho da arte, ou seja, do processo engenhoso e técnico, não se chegaria.

61

problemas, que não são encontrados na forma de pensar inconsciente nem
mesmo naquela maneira metodológica de pensamento.























62

7 PASSAGEM PARA AS FICÇÕES

7.1 Dissertamos nos dois tópicos anteriores sobre a
compreensão de que o pensamento ocorre dentro de uma função orgânica do
cérebro e o ato de pensar inicia-se a partir de uma finalidade que é servir a
vontade, e que, a partir das sensações, o organismo de pensar processa e
defere uma conclusão contundente. E, ainda, que, nesse processo de pensar,
pode utilizar-se da arte ou dos artifícios.

7.2 A transição do que se pode considerar lógica, a arte
mais elaborada e elevada que algumas mentes humanas são capazes de
produzir, para as ficções, se dá pelo conceito de artifício. No âmbito da lógica,
Vaihinger utiliza-se da expressão atividade fictícia da função lógica, para
denotar a capacidade desse estágio do pensamento em dar mais um salto
evolutivo ou de sofisticação. O importante a notar é que há no pensamento da
Filosofia do Como Se a ideia de evolução. Sendo assim, para a condição
orgânica, ou melhor, para os organismos mais habilidosos, emerge a lógica
como conquista. Entre os mais habilidosos com a lógica será o artifício o sinal
de superioridade. Os produtos dos artifícios do pensamento são conceitos de
arte.

7.3 A alma produz uma atividade fictícia. E essa
atividade fictícia manifesta-se através de manifestações de forças psíquicas, da
qual derivam as ficções, que seriam as formulações psíquicas. Se o
pensamento é uma função da psiquê, e o resultado dessas forças e atividades
63

é transformado em ficções, quando para se processar o pensamento utiliza-se
de métodos não diretos. A atividade da alma nessa funcionalidade irá tomar
como elementos para o seu trabalho, de meios auxiliares, provocados pela
necessidade e inspiração de vêm do exterior. Essa inspiração irá provocar uma
atividade criativa do pensamento ou da alma.
57


7.4 A consciência é despertada por uma necessidade e
uma contradição. A necessidade e a dor que provocam a evolução do espírito,
resultando no despertar da consciência e o produto desse trabalho é chamado
de ficção.

7.5 Dessa forma, o aparecimento do conceito de ficção
será, pela primeira vez, demonstrado como sendo “a produção e o emprego de
métodos lógicos que procuram alcançar as finalidades do pensamento
mediante conceitos auxiliares.”
58
O pensamento vai se deparar com certos
obstáculos cuja resolução não pode ser encontrada, seja por falta de conteúdo,
seja por falta de um mecanismo específico. Motivado ou provocado, o
pensamento percorre alguns desvios e alguns caminhos para o fim de realizar
atividades não previstas e então chegar ao ponto que a vontade busca através
de, como visto, mecanismos auxiliares.

7.6 O alcance das finalidades do pensamento decorre
da insatisfação com o material que é dado e, a partir de então, o pensamento
introduz outras formas híbridas de driblar a dificuldade, realizando, ao final,

57
Vaihinger passa não mais a chamar somente de pensamento como se utiliza também da palavra Alma
para dar a entender a mesma coisa que seria o pensamento ou o cérebro humano.
58
P. 60
64

uma atividade ficcional desde coisas mais simples até encontrar atividades
mais complexas cuja insatisfação exija, pela finalidade, uma conclusão. A
atividade ficcional é o drible na dificuldade, na impossibilidade ou contradições
e obstáculos encontrados pelo pensamento, tudo em face de uma finalidade.

7.7 Por ser um recurso da razão, quando ela parece não
ter mais o que fazer, as ficções guardam semelhanças com várias outras
práticas. O ponto de contato entre as ficções e a mentira, a hipótese, o
recalque na psicologia, entre outros, parece-nos ser a necessidade da razão
em dar respostas ou implementar a ação humana quando tudo parece ter se
esgotado.

7.8 As soluções que a razão arruma podem gerar efeitos
nocivos. Nesse sentido, a mentira ou o recalque podem ser soluções frágeis
pelas quais a mente humana tenha que pagar um preço alto: o descrédito e o
escárnio perante os demais indivíduos; a prisão por parte do Estado, ou as
várias complicações psicológicas oriundas do recalque. Porém todas essas
questões podem ser consideradas como fruto de uma particularidade da mente
humana, a saber, dar respostas para o que não tem resposta.

7.9 As ficções, portanto, consistem na capacidade da
razão em dar respostas onde não há possibilidade das respostas existirem.
Vaihinger demonstra, nos mais variados campos teóricos, como se manifesta
essa habilidade humana. Ele procura também distinguir as ficções de sua
vizinha hipótese, recurso muito utilizado pelas ciências. Outra distinção é com a
65

ideia de mentira ou falsidade, pois, ao contrário, ficção não procura esconder
sua carência de realidade. Pode-se dizer que o conceito de ficção de Vaihinger
assume, quando necessário, recursos externos à lógica e, estribado no modelo
científico, não esconde esse fato.





















66

8 AS FONTES KANTIANAS DAS FICÇÕES

8.1 Vaihinger sempre entendeu que a obra de Kant - a
Critica da Razão Pura - teria sido o maior trabalho filosófico de todos os
tempos, apesar de considerar também tão importantes os trabalhos de
Spinoza, Aristóteles e Platão, mas a Crítica teria sido uma obra que buscava
trazer e perquirir sobre a grandeza da concepção e a nitidez do pensamento,
sobre o peso das ideias e da linguagem dentro do processo de especulação do
conhecimento. “Sie ist ein Werk, dem an Grossheit der Auffassung, an Schärfe
des Denkens, an Gewicht der Ideen und an Gewalt der Sprache innerhalb der
Speculation”.
59
Como forma de valorizar a compreensão que ele tem da obra
de Kant, procurou enfatizar que a forma mais importante de utilização das
ficções da questão linguistica do como se, vem daquela Critica da Razão Pura
e que essa proposição praticamente não havia sido notada pelos
pesquisadores por mais de um século, e se comprometeu, para toda a sua
obra das ficções, a utilizar sempre a expressão como se a partir das próprias
palavras de Kant.

8.2 Referiu-se, também, à concepção de Parmênides e
de Platão, mas concentra-se no conceito Kantiano.
Da filosofia Grega deveríamos mencionar aqui o uso da ficção em
Parmênides e sobre tudo o dos mitos em Platão. Também a teoria
medieval da dupla verdade tem a ver com o nosso tema e outras
coisas mais, já anteriormente mencionadas. Contudo, a comprovação
mais importante vem de Kant, cuja proposição do “como se”

59
Vaihinger, Hans Kommentar zu Kants Kritik der Reinen Vernunft von Mit Den; Studien, Wie Sie Bis
Jetzt Unter Allen Philolophen Fast Nur Aut; Stuttgar/Berlin/ Leipzig G Union Deutche Verlagesellschaft.
MCMXXII , p. VII – TRADUÇÃO LIVRE é um trabalho sobre a grandeza da concepção, a nitidez do
pensamento, e do peso das ideias dentro da especulação


67

praticamente não foi notada e compreendida pelos pesquisadores há
mais de cem anos. Para nossa apresentação desta teoria tão
importante, nos serviremos, sempre que possível, das próprias
palavras de Kant.
60


Vaihinger apresenta Kant como modelo de apresentação da referida teoria das
ficções, justificando nossa observação de que sua obra é dividida em partes ao
longo de sua vida, a ponto de nos tópicos finais dar um sinal de introdução
quando, na realidade, está finalizando o que chamamos aqui da
fundamentação de sua teoria, que se iniciou a forte especulação sobre a forma
de pensamento, na tentativa de compreender o pensamento e o peso das
ideias e no final apresentar-nos o fundamento de sua teoria nas explicações
sobre a obra de Kant. Considera-se legitimado a dar fundamento a sua teoria
na principal obra de Kant porque, em 1881, publica a mais importante Análise
sobre a Crítica da Razão Pura, muito antes de concluir a primeira parte do
projeto de formulação da sua teoria das ficções.

8.3 Ele destaca que, nas obras de Kant, pode-se
encontrar uma teoria das ficções mesmo que seja de forma interpretativa,
porque espaço e tempo seriam representações auxiliares para sistematizar
aquilo que nos é trazido pelos sentidos, como vimos, tudo o que captamos
ocorre pelos sentidos, e nisso concordam Vaihinger e Kant, sendo que o
primeiro considera que as representações podem ser consideradas ficções por
serem subjetivas e não verdadeiras, embora sejam necessárias para
compreendermos aquilo que precisamos. Afirma também que podem ser
encontrados na obra de Kant fundamentos contrários a sua teoria das ficções,
mas explica que procurou encontrar elementos favoráveis, mas que isso pode

60
P. 438
68

derivar da alma dupla de Kant, ora crítica ora dogmática, ora revolucionária ora
conservadora.

8.4 A formulação de uma possível teoria das ficções em
Kant pode ter sido verificada, em três tempos: o primeiro das questões das
“Ideias da Razão”, depois na questão da “Representação” e finalmente nos
“Juízos Reflexionantes”. Tentaremos percorrer os três momentos descritos por
Vaihinger. Ele afirma que a construção da teoria também foi tentada na
Dialética Transcendental,
61
mas sempre foi mal interpretada, devido à riqueza
de ideias de Kant e de seu estilo peculiar e uma forma de escrever repetida
com dificuldade de harmonização. Problemas que Vaihinger se compromete a
sintetizar em sua própria teoria das ficções, como o fez.

8.5 Conforme o enredo preparado por Vaihinger, a forma
melhor de compreender as ficções em Kant seria partindo da disciplina da
razão pura em referência às hipóteses. Kant teria chamado “conceitos
racionais”
62
de meras ideias, ficções heurísticas, lembrando que “hipóteses são
ligadas àquilo que é realmente dado e que, em consequência, é certo enquanto
fundamento de explicação”
63
.

8.6 A hipótese estaria no caminho quando entre dois
dados empíricos há uma lacuna que nos permite preenchê-la com alguma
coisa para fazer uma espécie de conexão, e isso o fazemos de forma

61
Ver nota 68. Ele refere-se à Dialética Transcendental em seu texto apenas como anexo, quando está se
referindo a CRP.
62
Vernunftbegriffe
63
P. 440
69

cientificamente legitimada. As ficções heurísticas são distinguidas fortemente
de hipótese dada à ligação desta com a realidade. A Alma e Deus seriam
conceitos racionais, ou meras ideias desprovidas de objeto. São princípios
reguladores de que se apega a razão para que a razão funcione de forma
sistemática no campo da experiência e esses princípios reguladores seriam
ficções heurísticas.
Neste contexto, Kant aduz explicitamente exemplos como a
Unidade Não Corporal da Alma e da existência de um ser
supremo. Atribuir realidade a essas ideias racionais nos
levaria a explicações hiperfísicas. São permitidas, porém,
apenas aquelas hipóteses, onde conectamos, segundo leis já
conhecida dos fenômenos, o que é pressuposto com o que é
dado, conforme as condições da experiência possível. Essas
ideias não são tais hipóteses, apenas ficções heurísticas.
64


8.7 A primeira impressão do texto é que hipótese e
conceitos racionais é a mesma coisa, ou de uma forma diferente de dizer, pode
se interpretar que as hipóteses são conceitos meramente racionais o que não é
correto afirmar. Como o próprio autor menciona, a linguagem de Kant parecia
pouco conexa e um tanto confusa para alguns intérpretes. Mas o que ele quer
afirmar, e exatamente em sentido oposto, é que as ficções heurísticas, sim, é
que são conceitos racionais e diferem da hipótese, porque esta se liga àquilo
que realmente é dado, ou seja, há algo certo, ainda que como fundamento da
ideia. Enquanto os conceitos racionais não possuem ligação alguma com algo
que é certo, e na nossa particular forma de ver, o conceito racional ou a ficção
de Vaihinger não tem nada a ver com aquilo que é ou não é certo, aquilo que é
admitido como ficção pode ou não existir. O “existir” não é de seu fundamento,
enquanto a hipótese tem a existência em seu fundamento. Essa diferença
essencial entre a ficção e a hipótese, será tratada em capítulo próprio.

64
p. 440.
70


8.8 Os conceitos transcendentes da razão são apenas
ideias, as representações não teriam objetividade nessa forma.
65
Essa é a
expressão do próprio Kant, citado por Vaihinger, quando vai explicar a
justificativa do termo “ideias‟‟.

Dos conceitos transcendentes da razão devemos dizer: eles são
apenas ideias, isto é, meras representações sem objetividade. Mas,
isso não quer dizer que sejam supérfluos e nulos. É que podem servir
[...] ao entendimento como cânone para o seu uso [...] com o qual
certamente não reconhecerá numero maior de objetos do que
reconheceria pelos próprios conceitos, mas, ele recebe em tal
conhecimento uma orientação melhor e mais abrangente; noutras
palavras, trata-se de ficções heurísticas.
66


8.9 O que são as ideias da razão então? Seriam as
reguladoras da razão pura, algo que constituiria a razão sem colocar qualquer
possibilidade de conhecimento externo. As ideias conduzem, como regras, a
razão para que complete o entendimento antes de tomar o caminho da
experiência e esse caminho da experiência nunca poderia ser alcançado,
isoladamente, pelas ideias sem a razão, pois a realidade como senso comum
daquilo que conhecemos não lhes pertence. Kant citado por Vaihinger arremata
chamando a ideia de
[...] focus imaginarius. A ideia da razão [da totalidade absoluta] pois
ditará somente uma regra para a síntese regressiva na sequência
67

de condições, regra conforme a qual esta avança, partindo do
condicionado, através de todas as condições subordinadas, uma a
outra, ate o incondicionado, embora este jamais seja alcançado. Pois
o verdadeiro incondicionado não pode ser achado na experiência” .

8.10 A ideia, então, ou o focus imaginário não tem
nenhuma relação com a experiência exterior e a razão é levada, conduzida de

65
P. 440
66
P. 441
67
P. 442
71

acordo com as regras e princípios por ela mesma criados. E isso é que conduz
a uma conclusão de ficção, visto que é a ideia de totalidade da existência de
um começo absoluto, onde a razão é considerada com causa determinante de
um entendimento puro e quando isso é transportado para a vida prática, da
qual se preocupa o Vaihinger, o arremate é de proceder como se
estivéssemos não diante do objeto dos sentidos, mas colocados diante do
entendimento puro “onde as condições não mais podem ser colocadas na
sequência dos fenômenos, mas fora dela e a sequência dos estados se deixa
considerar como se iniciasse simplesmente, por uma causa inteligível”.
68


8.11 Ou seja, entre a formulação da razão e a
necessidade de acontecimentos práticos, deixa-se de lado alguma sequência
de fenômeno e entende-se o acontecimento como se ocorresse de forma não
compreensível. Ele nos traz uma explicação a partir da ideia que temos da
liberdade em relação à necessidade universal da natureza, que é tratada por
Kant nas antinomias. Quando vamos fazer o julgamento de alguém, podemos
nos abstrair de todas as condições psicológicas desse ato, isolando tudo como
se as causas psicológicas empíricas, não tivessem ocorrido, agindo como se o
autor desse ato criasse, ele mesmo, essas consequências. Deveria, então, o
autor repetir a série, mas isso não acontece, embora qualquer entendimento
comum concluiria como sendo legítimo e possível alguém agir de uma forma,
abstraindo-se todos os efeitos empíricos e psicológicos do ato anterior.


68
p. 443
72

8.12 Nossos atos sempre são tomados com base em
princípios anteriores, é por isso que, se abstraíssemos todos os efeitos
anteriores, se isso fosse possível, não conseguiríamos realizar novamente o
mesmo ato. Essa demonstração é para se avaliar o conceito de liberdade que
ocorre apenas de forma transcendental. Por essa razão é que, para Kant, a
liberdade e a alma são entes de ficção, embora a conduta humana seja
baseada em condutas éticas e empenho moral, existe como se nosso destino
fosse além da experiência, fora dessa vida. A ideia da razão, portanto, parece
ser uma entidade ficcional acima de nosso pensamento que dirige nossa forma
e nossas atitudes.

8.13 Vaihinger vai acompanhar Kant durante todo um
percurso de investigação sobre os conceitos de Alma e de Deus, partindo
sempre da ideia da razão, na tentativa de explicar como isso se dá e, ao
mesmo tempo, para demonstrar como isso pode ser interpretado sempre como
o conceito de ficção em Kant. Não seria demasiado arriscado anunciar que a
ideia da razão, que seria o princípio de todas as coisas do pensamento, do
entendimento e da vida, é em si uma ficção, ao lado da ideia de Deus e de
Alma, que se junta em um conceito muito parecido que caminha em paralelo,
ou como diz Vaihinger “a natureza do conceito de alma enquanto ideia
reguladora, junto com a ideia de Deus, se manifesta muito claramente no
anexo
69
, quando estas duas ideias são tratadas quase sempre como formando
um par”.
70
Isto porque sempre que Kant se refere a Deus aplica os mesmos
conceitos aplicados a quando se refere à alma e vice-versa, e Vaihinger

69
O anexo citado no texto refere-se ao texto da Dialética Transcendental.
70
P. 444
73

destaca que Kant sempre vai utilizar claramente a ideia de alma como ficção,
porque essa ideia de alma somente consegue existir se for através do artifício
ficcional, “tudo isso é melhor efetuado ou só se deixa efetuar por meio deste
esquema, como se fosse um ser real”.
71


8.14 Esse mecanismo permite conceber algo que exista
apenas no pensamento, como de uma inteligência suprema que somente pode
ser compreendida se admitir sua existência, tão somente enquanto ideia sem
passarmos pelo conceito de um objeto ou, como ele mesmo diz, é apenas um
conceito geral que tem a finalidade de preservar e aplicar o uso de nossa
razão, apenas sendo possível se admitirmos sua realidade meramente
heurística, ou um “esquema”. Ele explica a palavra “esquema” em nota de
rodapé, informando que isso é uma ideia abstrata em uma substância concreta,
concebida como objeto na ideias, e a expressão “objeto na (sic) ideia” traduz-
se com o objeto pensado da ideia ou a coisa que corresponde à ideia, a que
ele chega a chamar de Ser, mas como pressuposto de ideia e nunca em si
mesmo.

8.15 Não se podendo fazer uso de uma realidade objetiva
desse ser supremo, utiliza-se esse esquema, do qual a razão necessita para
que possa fazer uso dessa ideia. Sem esse esquema, a razão não teria
mecanismos suficientes para fazer desse princípio um elemento regulador de
sua investigação. Então, aquilo que é mera ideia somente se torna útil à razão,
na medida em que o como se é utilizado servindo para guiá-la, com

71
p. 445
74

consciência da irrealidade, ou seja, somente é possível com o mecanismo das
ficções. Pode-se concluir que Vaihinger afirma que as meras ideias da razão
são efetiva e rigorosamente as ficções das quais ele está propondo formular
sua teoria.

8.16 Então, as ficções teriam sido encontradas em Kant,
a partir dos princípios que norteiam, guiam a razão e dos quais a razão se
utiliza para tornar possível admitir objetividade nas ideias, sem se preocupar
com sua realidade e dentro da certeza de sua irrealidade, mas que torna
possível o entendimento das coisas no mundo real, o conceito comum, como
ocorre com a ideia de Deus e de Alma, em que não há conteúdo de realidade,
mas servem apenas para a vida prática do mundo, sua utilização, contudo,
somente é possível através do esquema, ficção, do como se, tais ideias fossem
verdadeiras, não se perquirindo de sua existência fenomenológica ou não.

8.17 Vamos caminhar, ainda, de forma necessária para a
apresentação deste trabalho, em uma tentativa mais acurada para enfrentar o
entendimento básico acerca, também, dos Juízos Reflexionantes de Kant. A
importância desse tema para a economia da Filosofia do Como Se, parece-nos
capital. As implicações se inscrevem entre os juízos reflexivos e as ficções.
Compreendemos que Vaihinger, após percorrer a Crítica da Razão Pura
encontra na obra, Crítica do Juízo, de Kant, os elementos que irão, ainda mais,
dar fundamento a teoria do Como Se.

75

8.18 O que Vaihinger, porém, teria tirado de Kant para a
formulação de sua Teoria do Como Se, além dos já mencionados conceitos
acerca da ideia da razão e, como veremos a seguir, da ideia de representação
e do fenômeno? É provável fazermos uma afirmação de que ele encontrou em
Kant a mesma ideia de ficção e do Como Se, propriamente dito? As respostas
podem encontrar alento na Crítica do Juízo. Especialmente na capacidade de
um tipo de juízo, o reflexivo, em apaziguar a Razão.
72
Quando admitimos, por
exemplo, existência de um ente divino. Podemos não dar conta de possuir o
conceito do que seria a existência de Deus. Mesmo que, em termos cognitivos,
não conseguimos provar Deus, faz-se necessário, para pensarmos na figura de
um ente supremo como condição de possibilidade. Nesse sentido, a existência
de Deus não importa do ponto de vista cognitivo. Pode-se aplicar Como Se ele
existisse.

8.19 Quando Kant discorre do propósito último da razão,
que é o de unificar o pensamento,
73
ele afirma que as ideias da razão, com as
quais ela “assegura a unificação das regras do entendimento mediante
princípios”,
74
são dadas pela natureza da própria razão que faz o uso da
dedução. Porém, quando faz uso da dedução, ela é levada a “em primeiro
lugar, um incondicionado da síntese categórica num sujeito, em segundo lugar,
um incondicionado da síntese hipotética dos membros de uma série e, em
terceiro lugar, um incondicionado da síntese disjuntiva das partes de um
sistema”.
75
Essas questões podem ser ditas de outro modo. A razão cria

72
Notar onde Vaihinger fala do apaziguamento do espírito, mas relaciona com o Dogma.
73
Cf. C.RP a302/B359
74
p. 302/359
75
p. A323/B379
76

necessidades que fogem a sua própria capacidade de resolver. Contudo
Vaihinger considera esse exercício de solução uma ficção, na medida em que
há necessidade da razão em ter esses princípios que excedem a ela mesma. A
ideia de uma inteligência suprema (incondicionada) – Kelsen utiliza o mesmo
expediente ao considerar a ideia de uma norma fundamental – é apenas uma
necessidade da razão e cumpre o fim de permitir à razão conceber o
condicionado, derivando-o do incondicionado. E a forma de aceitarmos ou
apreendermos essa ideia, com o fito de apaziguar a razão, seriam as ficções:
Como Se Existissem.

8.20 Ele mesmo afirma que
[...] as coisas no mundo têm de ser consideradas como se
obtivessem a sua existência de uma inteligência suprema – A ideia
propriamente, como já vimos, só é um conceito heurístico e não um
conceito ostensivo e indica não como um objeto é constituído, mas
como sob a sua direção devemos procurar a constituição e a conexão
dos objetos da experiência.
76


O que Kant chama de heurístico implica dizer que o estatuto da ideia de
inteligência suprema é apenas um recurso interpretativo e não “ostensivo”, ou,
para ser mais preciso, que a razão não está preocupada com a ostensividade
dessa ideia, mas, apenas, lhe interessa o serviço prestado.

8.21 Kant compreendia a razão como capacitada a refletir
e produzir, pelo juízo, silogismos. Nesse sentido, é que fizemos uso, na citação
de A323/B379 da Crítica da Razão Pura, dos termos lógicos: incondicionado da
síntese categórica em um sujeito (psicologia), incondicionado da síntese
hipotética dos membros de uma série (cosmologia) e incondicionado da síntese

76
KANT, Imanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Vaério Rohdem e Udo Baldur Moosburger – 4 ed. São
Paulo: Nova Cultura, 1991 ( Os pensadores), p. 161.
77

disjuntiva das partes (teologia). Portanto três silogismos produzidos pela razão
que geram, segundo Reale,
77
ideias correlatas. Trata-se da ideia psicológica
(alma), ideia cosmológica (ideia do mundo como unidade metafísica) e ideia
teológica (Deus). Vaihinger considerava que Kant faz isso do Como se para
pensar os silogismos acima. Na Psicologia – Todos os conceitos são tomados
com um fio condutor da experiência, como se fosse substância simples.
Cosmologia – Fenômenos externos da Natureza devem ser representados
Como se tal série fosse infinita e carente de um elo supremo. Teologia – Como
se o conjunto de todos os fenômenos estivessem fundamentados em um único
Ser.

8.22 Kant assume o uso hipotético da Razão, que é
quando o particular é necessariamente determinado a partir da capacidade de
julgar, derivando o particular do universal. Ele mesmo traz um exemplo da
grande questão: se a alma tem ou não uma natureza espiritual. Essa pergunta
em si só não faz sentido algum, porque algumas ideias devem ser apreendidas
Como Se fossem reais. Então arriscaríamos dizer que o Apaziguamento da
Razão está em assumir a alma como se tivesse uma natureza espiritual,
porque concebermos algumas coisas vai depender de assumirmos uma ideia,
sem perquirir se ela é verdadeira ou falsa, porque não se tratará, como dirá
Vaihinger, em saber se é verdadeira ou falsa, mas sim de resolver um sentido
prático do pensamento e da vida.


77
REALE, Giovanni. História da Filosofia de Spinoza a Kant. São Paulo: Paulus, 2004. v.4, p.369.
78

8.23 Enfim, várias explicações de Kant sobre a razão e
sobre os juízos reflexionantes trarão uma explicação de como Vaihinger teria
sido inspirado para criar sua teoria das ficções. Como balanço provisório,
inferimos, com base nos próprios textos do autor, que sua filosofia do Como
Se encontra aporte lógico na solução que Kant constrói para resolver os
problemas inerentes às três ideias da razão. O Tipo de juízo ou modo operativo
da razão, denominado reflexionante, será o caminho lógico de que as ficções
vão se servir.

8.24 Para ele, há a Faculdade e o Juízo. E dentro da
Faculdade, a Faculdade do Juízo. Ele entende que o sujeito humano possui
faculdades e juízos. Nas obras de Kant, a palavra Faculdade é vista em dois
sentidos
78
, um deles seria um tipo de relação que existe entre ele e o objeto de
investigação, ou seja, qual é a síntese do que ele representa (ideia de
representação que veremos a seguir)
79
na sua relação com o objeto. Isto
significaria conhecer a partir daquela representação existente entre os dois.
Outro sentido, ou significado que se pode tirar da palavra Faculdade é aquela
que irá informar quais e como seriam todas as representações que o sujeito
produz. E assim, seriam três as faculdades: Sensibilidade, Entendimento e
Razão.

8.25 Todavia o Juízo aparecerá da mesma forma como
uma Faculdade, representando uma forma de ajuste entre o entendimento e a

78
Esta observação é feita por DELEUZE, Gilles. A Filosofia Crítica de Kant. Trad. Geminiano Franco.
Lisboa: Edições 70, 1987.
79
Daí porque preferimos anteriormente usar a palavra sensação para designar aquilo que Vaihinger tinha
como captação sensível exterior, que em alguns lugares do texto pode aparecer também como
representação, justamente para separar os conceitos de representação feitos por Kant ou Schopenhauer.
79

razão. O entendimento estará em conformidade com as Leis, constituindo
assim o a priori como, por exemplo, a natureza cujo conhecimento estará
sempre submetido as suas leis de forma superior. Enfim, o mais importante
para esse trabalho é entender, em Kant, a Ideia de Juízo e, por fim, e
especialmente do Juízo Reflexionante, de onde partirá a Teoria de Vaihinger.

8.26 O Juízo seria um pensar, ou seja, é o conhecimento
tomado a partir de conceitos, ou conhecimento mediato do objeto. Enquanto
Vaihinger está falando de pensamento, Kant está falando do Juízo. O Ser
humano trabalha com habilidades e poderes na relação com o objeto e utiliza
essas habilidades no ato de julgar, ou seja, na produção do JUÍZO. Ou na
produção do pensamento. Essas habilidades e esses poderes de pensar, ou de
julgar podem estar relacionados com as regras e os artifícios que
mencionamos preteritamente. De acordo com esse entendimento teórico
preconizado por Kant, nós nunca nos relacionamos diretamente com o objeto,
e sim nossa relação se dá, e o fazemos, através de conceitos que são
pertencentes à intuição ou ao entendimento.

8.27 Quando julgamos, quando pensamos ou quando
trabalhamos com as habilidades para produção de juízos, tomamos os objetos
a partir de um conceito que temos a priori. Poderíamos dizer que, quando
julgamos um objeto, vamos submeter o que vamos dizer sobre ele a um
conceito predeterminado. Vaihinger vai afirmar, como vimos, que tomamos as
sensações do mundo exterior e experimentamos, fazemos a função orgânica
80

funcionar, de acordo com um sistema preconcebido que poderá, por exemplo,
ser o bom ou o mau humor.

8.28 Em Kant, seria como submeter o sujeito a uma Lei,
que já estaria predeterminada e o conceito que teríamos do sujeito, após a sua
submissão à lei, ou subsunção, seria o resultado desse juízo. E a esse juízo
significa a representação da unidade da consciência de diferentes
representações, ou a representação da relação das mesmas, na medida em
que constituem um conceito. Ou seja, o Juízo para Kant, ou o pensamento para
Vaihinger, forma o conceito que é a representação. Dentre os Juízos vamos
falar diretamente do Juízo reflexionante. Este é aquele que, visto a partir da
própria etimologia da palavra, reflete uma representação em particular, que ele
mesmo não precisa de prova empírica para sua validade. O Juízo
reflexionante, pensa o particular a partir dele mesmo e busca encontrar o
universal quando este universal não pode ser encontrado na experiência
porque não há um a priori nem universal, e sim um princípio a priori, conforme
os fins da natureza.

8.29 Esse juízo reflexionante não determina nada em
objetos, e sim os trata Como Se sua possibilidade estivesse fundamentada em
uma regra ou um princípio. Ele não acresce nada à natureza, servindo apenas
de intermediário entre a Natureza e a Liberdade, apontando sempre para a
finalidade. Vemos aqui duas informações importantes que podemos ligar com a
obra de Vaihinger, qual seja a ideia de liberdade e vontade, que será a mola
81

propulsora de todo o processo de pensamento e de toda a produção de
ficções.

8.30 Surge a partir de então a necessidade de
compreendermos a problemática da representação que parece ser o ponto
estruturante da obra Crítica da Razão Pura, o que nos permite aprofundar a
origem da ficção. Temos consciência de que não se trata do único tema, mas
a representação constitui referência, núcleo de onde vários outros temas se
originam na obra de Kant. O tema das ficções encontra-se entre eles, iniciando-
se primeiramente na ideia da razão como princípio, como guia.

8.31 É no âmbito da representação, ou com esta
temática, superada a questão da ideia da Razão e de como isso vai se
processar para criação daquilo que Vaihinger interpretou em Kant como sendo
ficções, que Kant irá delimitar o que se pode chamar de conhecimento válido
ou não. A representação compreendida como condição humana de relacionar-
se com o seu meio e consigo mesmo. O homem não se vê com o outro ou com
o meio sem a representação, não deixando isso de ser um artifício, visto que
não há, para isso, necessariamente uma regra, conforme o que se depreendeu
de Vaihinger.

8.32 O problema da representação pode ser nomeado de
outra forma. Como a representação é uma relação entre um ponto A e B, ou
seja, A que representa B, o outro nome que pode ser dado ao problema em
questão é de mediação. Por se tratar da característica básica de todo processo
82

de aquisição e produção de conhecimento, qualquer sistema de conhecimento
não pode se furtar a esse expediente. Terá que erguer, consciente ou não, uma
concepção de mediação para poder prosseguir na edificação de qualquer
sistema de conhecimento. Por se tratar de um ponto de passagem obrigatório,
qualquer examinador epistemológico, no exercício de verificação de um
sistema de conhecimento, pode se dirigir a este ponto e não a outro,
economizando tempo e colhendo elementos estruturantes das informações que
se apresentam como verdade.

8.33 A obra de Kant,
80
como ele mesmo se propõe,
regula o que pode ser considerado conhecimento e coloca limites à fantasia ou
à compreensão de que a razão não tem limites. Já vimos que o que vai dirigir
os limites da razão será a ideia da razão, como princípio da razão. O trabalho
teórico de Kant consiste em questionar o conceito que concebia a razão como
um instrumento capaz de fazer a mediação acerca de qualquer matéria.
Empreendimento epistemológico que o autor já registra nas lições de
metafísica, elaboradas como conteúdo ministrado em aula, e na obra de
maturidade Crítica da Razão Pura.

8.34 Os termos consagrados na Crítica da Razão Pura
para referir-se a esse processo são o fenômeno e nôumeno. Nos próprios
termos de Kant “O objeto indeterminado de uma intuição empírica chama-se
fenômeno.” (B34). O nôumeno, por outro lado, é aquilo de onde o fenômeno
tem origem, isto é, o fenômeno representa algo, ele representa a coisa em si.

80
Cf. Kant. Realidade e Existência: lições de metafísica: introdução e ontologia. São Paulo: Paulus, 2002,
p. 38 (Coleção filosofia). Na própria Crítica da Razão Pura Kant menciona o propósito de estabelecer os
limites da razão em várias ocasiões, sobretudo na Introdução ou nos prefácios.
83

Porém nunca conseguimos saber algo sobre esta realidade, pois qualquer
tentativa será feita pela representação. Como o objetivo da Crítica da Razão
Pura ou a priori
81
, pretende delimitar a razão, resta apena imaginarmos que a
coisa em si existe. Nada, além disso, poderá ser considerado honesto do ponto
vista do conhecimento. Seria a pura exterioridade do indivíduo da qual ele
pouco tem a dizer e reconhece que algo lhe escapa.

8.35 O pensamento de Vaihinger sobre ficções considera
esse modelo de mediação do intelecto. Vaihinger procura pensar esta questão,
de onde ele deriva e localiza a origem das ficções, da seguinte forma:

Quando dizemos que nosso mundo das representações se situa entre
os nervos da sensação e do movimento, nós mesmos nos servimos
de uma linguagem fictícia, já que de fato só temos sensações. Tanto
as nossas representações do movimento, quanto as dos nervos, ou
seja, as representações da matéria, são criações de nossa fantasia
produtiva, da ficção. Em outras palavras, todo o mundo das
representações está intercalado entre as sensações, as quais, em
última instância, são o que unicamente nos é dado; somente certas
sequências de sensação são dadas a nós. O mundo das
representações é, portanto, um constructo formado por sensações
elementares ou por seus resíduos, servindo tal constructo para
facilitar a comunicação entre diferentes centros sensitivos . O mundo
das representações nasce em virtude de todos os procedimentos
pelos quais as sensações elementares experimentam modificações,
segundo leis elementares. Em face dessa consideração, dessa
combinação das sensações, o que ocorre no cérebro, quer dizer,
naquela parte da realidade que consideramos cérebro, é que se
forma uma construção mais alta e elaborada pela qual a atividade
humana enriquece e ganha perfeição.
82


8.36 Isto significa que Vaihinger constrói, na esteira de
Kant, sua percepção sobre como partimos do fenômeno, denominado na
citação acima de sensação, até a produção do conhecimento. Registrando que

81
Cf. MORENTE, M. García. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1930. p. 231. “Kant usa
indiferentemente como sinônimo o termo a priori e o termo „puro‟. Razão pura é razão a priori; intuição
pura é intuição a priori. Puro e a priori ou independente da experiência são, para ele, termos sinônimos.”
82
Vaihinger, p. 141.
84

não temos na mente as coisas, mas sua origem parte da intuição mais simples
até as mais complexas.

8.37 O modelo de conhecimento dito clássico, ao
contrário do proposto por Kant, consistia em compreender que a consciência se
adequava ao objeto a ser conhecido. Dentro desta forma de conhecimento não
estava em questão se era possível este deslocamento da consciência até um
objeto. Para os clássicos, era certa a apreensão de um objeto. Kant inverte
esse processo ao propor que era o objeto que tocava a consciência. As ficções
irão se estribar fundamentalmente sobre essa revolução, adicionando outros
avanços no que toca à existência da coisa em si. No modelo clássico de
conhecimento, as ficções soariam como mentira ou erro, pois temos naquele
modelo a existência certa de um objeto que podemos apreender, entrar nele.

8.38 Essa inversão na forma de como é construído o
conhecimento, que recebeu o nome de revolução copernicana do
conhecimento
83
, impossibilitou o conhecimento da coisa em si, delegando à
razão a pura representação. Esse processo de mediação entre razão e
realidade é fundamental para compreendermos donde Vaihinger deriva sua
teoria das ficções, pois será na explicitação dessa estrutura da produção do
conhecimento racional, que é representação, a base de seus avanços teóricos.

8.39 As mudanças de Kant, porém, não foram radicais em
abolir tudo. A característica geral do conhecimento é que ele, enquanto fazer

83
Cf. CRP B XVI e XVII.
85

humano, não pode ser reduzido a uma única vez, mas deve poder ser
reproduzido em qualquer lugar ou tempo. A concepção clássica que
permanece em Kant. Denomina-se essa característica de “necessidade” em
detrimento da contingência. Em outros termos, ao jogar um dado ou retirar uma
carta no jogo de baralho obtém-se um resultado que não é suscetível de ser
reproduzido segundo a intenção humana. Outros resultados idênticos serão
meras coincidências. Para ser considerado conhecimento, no contexto
filosófico da Antiguidade Clássica, o jogo de dados ou cartas teria que ser
previsível. Caberia ao jogador aplicar um conjunto de regras para obter esse ou
aquele efeito. Conhecimento, nesse contexto, caracteriza-se por conhecer as
causas e os efeitos produzidos por essa causa. Para coroar ou consolidar essa
concepção de ciência, as causas ou efeitos não poderiam ser do conhecimento
de um único indivíduo, mas suscetível a qualquer ser humano portador de
razão.

8.40 O que está em questão é em que medida a
experiência pode produzir conhecimento ou não. Para Márcio Ariel Porta, o que
está em questão é que:
“[...] a experiência é incapaz de fundar um conhecimento universal e
necessário. Ela pode dizer como são as coisas, mas não dizer por
que necessariamente elas são assim e não de outro modo; ela pode
dizer como as coisas foram até agora, mas não que devam ser
sempre assim”.
84


8.41 Com o modelo de conhecimento no qual a
contingência não pode ser considerada conhecimento, Kant notará que os
modelos de ciência de sua época, a física newtoniana, conseguiam dar

84
PORTA, Mário Ariel González. A Filosofia A partir dos seus problemas. Edições Loyola. 3. ed., 2007,
Leituras Filosóficas, p.110.
86

respostas que atendiam aos quesitos de universalidade e necessidade no trato
dos fenômenos, isto é, da natureza. “Para Kant, a física newtoniana é algo
mais que mera generalização de dados empíricos ou uma descrição
matemática feliz e conveniente dos fenômenos que poderia, eventualmente,
ser corrigida no futuro; ela é um conhecimento que implica um caráter universal
necessário”.
85


8.42 Ou seja, onde menos se esperava, do ponto de vista
de objeto, já que a física pesquisa exatamente os fenômenos e que poderiam
ser reduzidos à mera empiria, houve uma solução que era romper com a
contingência e poder dominar previamente os fenômenos, produzindo, com
isso, conhecimento. Porém Kant notará que, em matéria de filosofia ou de
conhecimento metafísico, esse mesmo feito não era possível. Em termos da
Critica da Razão Pura, pode-se dizer que a produção do conhecimento a priori
era fácil em Filosofia ou, especificamente, na Lógica, porém produzir
conhecimento válido e capaz de pensar a realidade era o desafio. Algo o
motivava a prosseguir na procura de juntar estas duas realidades, pois se a
física se saía bem no confronto, produzindo o juízo sintético a priori, no campo
da metafísica não havia esta ocorrência.

8.43 A dificuldade encontra-se no fato de o conhecimento
analítico, que se concentra só na razão e segundo critérios lógicos, não
acrescentar nada sobre o conhecimento das coisas ou fenômenos. Porém

85
PORTA, Mário Ariel González. A Filosofia A partir dos seus problemas. Edições Loyola. 3. ed., 2007,
Leituras Filosóficas, p.110.


87

como conhecer as coisas sem se submeter à contingência ou, o que é pior,
como evitar os riscos de elevar o contingente ao estatuto de necessário, objeto,
aliás, de crítica de Hume, em particular, e dos céticos em geral.

8.44 No caso da física ou na matemática havia esta
possibilidade, na medida em que os inventos matemáticos podiam ser
comprovados ou verificados na realidade. Mas existe uma diferença entre o
fazer da filosofia e o da matemática. “A sua diferença específica consiste no
seguinte: toda filosofia é conhecimento racional ao passo que os
conhecimentos matemáticos, são racionais e derivados das construções dos
conceitos”.
86
Pode-se dizer, desse modo, que na matemática há algo do qual
se parte, no caso, os números, ou, nos termos de Kant, o conceito. Na filosofia,
não há este algo, mas é a pura razão que faz seu movimento e produz
conhecimento, sempre conduzida por aquilo que citamos nos parágrafos
anteriores que são os princípios que norteiam a razão, ou seja, a ideia da
razão. “Percebemos, então, que nisto a matemática tem vantagem sobre a
filosofia porque, para a primeira, os conhecimentos são intuitivos; e, para a
segunda, discursivos.”
87


8.45 Kant apresenta a sua novidade epistemológica ao
dizer que temos em nós, independente da experiência, a intuição de tempo e
espaço. Mesmo tomando essas duas intuições como uma condição interna do
humano elas diferem. Morente assim auxilia na compreensão:


86
Kant, 2002, p. 36.
87
Kant, Id., Ibid.
88

O espaço é a forma da experiência ou percepções externas; o tempo
é a forma das vivências ou percepções internas. Mas toda percepção
externa tem duas faces: é externa por um dos seus lados, enquanto
está constituída pelo que chamamos em psicologia um elemento
“presentativo”; mas é interna, por outro dos seus lados, porque, ao
mesmo tempo que eu percebo a coisa sensível, vou, dentro de mim,
sabendo que a percebo, tendo não somente a percepção dela, mas
também a apercepção, dando-me conta de que a percebo. Assim,
pois, é, ao mesmo tempo, um sair de mim para a coisa real fora de
mim e um estar em mim, em cujo “mim” mesmo acontece esta
vivência.
88



8.46 O tempo, ao contrário do espaço que apesar de ser
um dentro que se refere a um fora, transita no ordenamento das coisas no
dentro e no fora. Para Kant, a geometria se vale dessa condição do espaço, já
a matemática cuida do tempo. Essa passagem e algumas outras conduzem
Vaihinger a dizer que há uma dependência da representação do tempo com
relação ao do espaço, pois caberia ao tempo fracionar algo que é contínuo e
dar uma disposição relacional à espacialidade. Porém não vamos aqui adentrar
nessa profícua discussão. Reiteramos, com propósito de não fugirmos do
objetivo deste trabalho, que nossa atenção se dá apenas nos desdobramentos
das ficções na área do Direito. As demais implicações, sobretudo no cálculo
infinitesimal de Leibniz, não constituem, neste momento, nossa abordagem.

8.47 Nosso trabalho se dá por efetivado, na medida em
que registra, no texto do autor, as verificações de uso das ficções e busca
demonstrar de que ponto da fonte de Kant bebeu Vaihinger, nesse caminho
todo. A teoria do conhecimento de Kant, sobre a qual discorremos, é

88
GARCIA MORENTE, Manuel. Fundamentos de filosofia. I: Lições preliminares. 8. ed. Trad.
Guilhermo de La Cruz Coronado. São Paulo: Mestre Jou, 1930, p. 235.



89

fundamental e originária do pensamento das ficções, pois sem a “revolução
copernicana” pouco se poderia pensar as ficções como algo digno de trabalho
em matéria de Direito.






















90

9 VONTADE E REPRESENTAÇÃO: AS FONTES SCHOPENHAUERIANAS
DAS FICCÇÕES

9.1 Vimos, e veremos ainda ao longo do trabalho, a
passagem da teoria das ficções pelas representações e vontade, onde se
baseia todo o fundamento do pensamento em suas formas de artifícios, regras
e orgânica. A terceira parte da filosofia do Como se Vaihinger se dedica a
“comprovações históricas” de sua filosofia. Dedica-se especialmente a Kant,
Forberg, Lange e Nietzsche. Schopenhauer, portanto, não entra nesta lista de
modo explícito. Porém ao abordar Nietzsche e as questões de verdade é que
vamos chegar a Schopenhauer.

9.2 O que não esgota os motivos de dedicarmos uma
seção a Schopenhauer, o próprio Vaihinger em anexo da filosofia do como se,
na exposição de como surgiu sua filosofia, assim menciona Schopenhauer: “O
que mais me parecia plausível era a prova de que o papel original do
pensamento é servir apenas à vontade, como meio para as finalidades desta, e
que só no curso da evolução se emanciparia da vontade, tornando-se
finalidade em si.”
89
Será nessa e em outras observações que Vaihinger se
aproxima do autor de O mundo como Vontade e Representação.

9.3 Os registros de Vaihinger acerca das implicações da
sua teórica das ficções com o pensamento de Schopenhauer continuam: “Em
qualquer parte eu encontrava a confirmação de que o meio original, a serviço

89
P. 605.
91

de determinada finalidade, tende a ganhar independência e se tornar finalidade
em si.”
90


9.4 Schopenhauer, quase sinônimo de pessimismo,
pode ser considerado como mais um a destituir o homem da postura de se
autodenominar o centro do universo. Destituição que se faz importante, pois
junto dela a ideia de Verdade também pode ser repensada e constitui fonte
capital das ficções de Vaihinger. A destituição consiste no conceito de Vontade
como única “coisa” existente daquilo que chamamos de real e, portanto,
retirando o status ontológico do indivíduo, na medida em que ele não age por
si, mas a serviço desta Vontade, subjacente a tudo.

9.5 Antes de falar de Vontade, Schopenhauer registra o
fato, logo nas primeiras linhas de sua obra seminal, para nos darmos conta da
representação como único objeto com o qual lidamos. “O mundo é a minha
representação. – Esta proposição é uma verdade [...]”.
91
Qualquer indivíduo,
especialmente os inteligentes e filósofos, diria Schopenhauer, “[...] Possui
então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas
apenas olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra,
ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação.”
92


9.6 O deslocamento de status quo do homem como
centro do universo se dá ao verificar, segundo Schopenhauer, que a única
coisa que existe é a Vontade, segundo passo na percepção do humano. Uma

90
P. 606.
91
MVR. p. 11.
92
MVR. p. 11.
92

vez que, em primeiro momento, esse indivíduo se dá conta da representação e
da sua natureza que não se sustenta por si, mas por outro, nos seus termos:
“[...] num primeiro ponto de vista [...] este mundo apenas existe absolutamente
como representação; noutro ponto de vista ele apenas existe como vontade.
Uma realidade que não se pode reduzir nem ao primeiro nem ao segundo
destes elementos, que será um objeto em si [...]”.
93
A Vontade, conceito
oriundo de textos dos Vedas, assume, provisoriamente, o lugar da coisa em si
de Kant e é responsável pela produção dos fenômenos e destes à
representação na consciência humana. Temos, então, Vontade, Fenômeno e
Representação como nova forma de conceber o real e produzir conhecimento.

8.7 A novidade desta tríade é pensar a questão kantiana
do fenômeno e da coisa em si sob nova ótica. Anteriormente, salientamos que
na economia da Crítica da Razão Pura a representação só poderia contar com
o fenômeno como único suprimento do trabalho da consciência, ficando aquém
da coisa em si. Aliás, esta nova forma cognitiva, que coloca o indivíduo do
conhecimento em uma ilha à espera de novidades que ali se aportam, criou o
impedimento da consciência em caminhar até o além-mar, ou seja, não é
possível conhecer a coisa em si. Schopenhauer rompe com o isolamento, ao
dizer que é possível conhecer a coisa em si/Vontade, afinal ela se manifesta no
indivíduo e desse modo ele pode fazer em si a experiência dela. Nesse sentido
é que surge um elemento importante na compreensão de Schopenhauer que o
diferencia de Kant. Trata-se do sujeito que não pode ser reduzido a uma das

93
MVR. p. 11.
93

duas polaridades: fenomênica ou numênica. O sujeito faz a transição entre as
duas realidades.

9.8 Tal experiência, porém, não garante um
conhecimento direto e lúcido da Vontade, muito menos de sua extensão. O
conhecimento da Vontade é como alguém que olha as horas observando a
sombra do sol e não diretamente o astro rei.

9.9 Com esse movimento, Schopenhauer parece
conciliar um ponto fundamental de sua teoria da representação que é registrar
um “algo além” da representação agindo sobre ela. Soma-se a isso o indivíduo
com sua existência fenomênica e volitiva.

9.10 O fenômeno, objeto da representação na teoria
kantiana, tem sua existência colocada sob custódia. Delega-se a ela o papel de
representante e nada além. Nesse contexto, o fenômeno é uma ilusão ou “véu
de Maya”, termo oriundo das influências indianas no pensamento de
Schopenhauer. A Vontade, antes relegada à coisa em si de Kant, ganha novo
espaço na reflexão filosófica e na produção de conhecimento. Ao considerar o
mundo como sendo uma representação “manipulada” por uma Vontade, abre-
se caminho para uma flexibilidade antes não pensada acerca do que é real.

9.11 Não há um mundo que conhecemos de modo
estanque, mas isto não implica que haja indivíduos ou grupo de indivíduos que
manipulam o real. O jogo é mais complexo, pois, mesmos os indivíduos são
94

„manipulados‟ por esta Vontade universal. Este deslocamento na forma de
pensar o real, até mesmo conhecimento sobre ele, permite incluir a coisa em si
na construção do saber. Antes excluída por Kant.

9.12 Poder-se-ia, diante dessa retomada, dizer que
Schopenhauer voltou aos antigos. Porém a inclusão da Vontade é distinta dos
clássicos, na medida em que acerca dela não se sabe ou se penetra com o
intelecto. Apenas se considera que há um indivíduo que está, enquanto corpo,
imerso nesta Vontade.

9.13 O estatuto da Vontade não se restringe à mera
“representação”. A reflexão sobre ela pode ser levada a outros lugares, como a
física. As forças que atuam na constituição do universo, precisamente que
agregam toda matéria, ou mesmo a desagregação, seriam Vontade. Nada
ocorre no mundo sem a Vontade. O reflexo dessa condição física na
consciência produziria seus equivalentes em termos psicológicos. Essa
transição e abrangência de âmbitos revelam a intenção de Schopenhauer em
discorrer sobre algo que não são meramente especulações lógico-linguísticas,
mas assevera a existência da Vontade. Essa preocupação pode ser bem
notada com o recorte que ele faz da filosofia Indiana:

O dogma essencial da escola vedanta consistia não em negar a
existência da matéria, isto é, da solidez, da impenetrabilidade, da
extensão (negação que, com efeito, seria absurda), mas apenas
corrigir a opinião comum sobre este ponto, e sustentar que a matéria
não tem uma realidade independente a percepção do espírito, sendo
existência e perceptibilidade dois termos equivalentes.
94



94
Asiatic Researches, v. IV, p. 164. In: MVR, p. 11.
95

9.14 A matéria não pode ser compreendida como
existente fora da nossa representação. Só é possível essa existência na
dependência da percepção do espírito, ou seja, da vontade na forma colocada
por Schopenhauer. Abre-se, desta forma, nova forma de compreender o real,
na medida em que os créditos do que é o próprio real não são creditados à
mente humana, mas a uma Vontade que arquiteta tudo e age nos bastidores
da representação.


















96

10 PRINCÍPIOS BÁSICOS – OBSERVAÇÃO GERAL E PRELIMINAR SOBRE
AS CONSTRUÇÕES E AS FORMAS FICTÍCIAS DE REPRESENTAÇÃO


10.1 O pensamento busca as apercepções
95
definitivas
de um dado real ou de dados reais. A apercepção nítida de todo e qualquer
objeto real é feita através dos métodos regulares do pensamento. A ciência
procura sempre encontrar um caminho para que essa nitidez seja alcançada
sem que haja necessidade, como sabemos, de intervenções subjetivas.

10.2 Eliminar as interferências subjetivas que podem
dificultar o provimento nítido entre o dado real e o processo orgânico de
pensamento, segundo Vaihinger, o caminho possível que vai nos levar a um
mundo de representações organizadas e não contraditórias, será aquilo que ele
denominou de metodologia, ou seja, um caminho para se alcançar o alvo certo
que é uma representação organizada, apreendida através da função orgânica
do pensamento. O caminho a ser indicado, através do qual daremos conta de
encontrar representações com validade real, ou seja: “the first and the natural
task of methodology is to suggest in what direction representations possessed
of real validity are to be suggest”.
96


10.3 Ao tomarmos contato com um objeto da realidade, o
pensamento toma um processo natural e transforma aquilo que percebeu em
conceitos e pensamentos que são ligados de forma consequente. Como dito

95
O Termo Apercepção tem o significado de perceber com clareza, tomar o tema claramente a partir
daquilo que se vê pelos meios sensíveis, aperception em inglês também com o mesmo significado.
96
VAIHINGER, P. 15. Tradução livre: A primeira e natural tarefa da metodologia é sugerir em que qual
as representações sugerem a validade real
97

anteriormente, assim como a imagem é captada pelos olhos e levada ao
cérebro para processar de acordo com os entendimentos e conceitos
preexistentes, o mesmo ocorre com a sensação percebida do mundo real.
Toma-se o objeto, ou seja, percebe-se, dá conta de que há de uma maneira
clara e liga-o aos conceitos.

10.4 O próximo passo é a passagem pelo processo
metodológico da indução, porque se parte daquilo que é dado no real e vai-se
para a conclusão de acordo com os conceitos gerais a que se subsume a
apercepção. Essa subsunção irá para a conclusão do que foi pensado, e isto
se dá, tomando-se o singular apercebido pelo geral, que é o processo indutivo.
Esse processo de indução foi inspirado por Vaihinger a partir da leitura que ele
faz de Steinthal.
97


10.5 Aperceber algo é assimilar e intuir alguma coisa ou
um conhecimento de maneira muito clara, sem que haja interferências
subjetivas ou mesmo de conteúdos anteriores que influenciam aquela intuição
da coisa. Eliminar essas interferências subjetivas, de maneira a captar o objeto
do conhecimento, que podem dificultar o provimento nítido entre o dado real e
o processo orgânico do pensamento. Segundo Vaihinger, o caminho possível
que vai nos levar a um mundo de representações organizadas e não
contraditórias será o da metodologia.


97
“Apercebe-se do geral, na mediada em que o cria a partir do singular, ou seja, mediante o singular e não
a partir do geral” – p. 15.
98

10.6 Essa metodologia irá indicar os caminhos como
daremos conta de encontrar representações com validade real, ou seja, de que
forma tomamos as representações para encontrar ou aproximarmo-nos da
validade real. A principal função da metodologia é sugerir a direção da
validação real daquilo que deve ser apercebido, de forma a aproximar-se o
mais possível do real objeto. Ao tomar contato com um objeto real, o
pensamento caminha por um processo natural e transforma aquilo que
apercebeu em conceitos e pensamentos que são ligados de forma
consequente. Toma o objeto e apercebe, ou seja, dá conta do que há de uma
maneira clara e liga-o a conceitos e pensamentos, sendo que o próximo passo
será o caminho da indução.

10.7 Parte-se então daquilo que é dado no real e conclui-
se através de conceitos gerais, subsumindo-se para uma conclusão daquilo
que foi apercebido e pensado. Podemos explicar de uma maneira mais direta,
informando que o cérebro capta o objeto a partir de sua singularidade e
apercebe-se a partir daquilo que é geral. Aquilo que o cérebro capta de um
objeto, como cadeira, é tomado daquilo que é visto e é apercebido em
consideração a um conceito geral que temos de cadeira. A função da
metodologia, dita acima, é primeiramente aproximar o objeto cadeira daquilo
que realmente o significa, sem entrar por conceitos subjetivos, de que seria
uma obra de arte, seria uma mensagem, e sim captá-la o mais próximo
possível do real.

99

10.8 Vaihinger vai percorrer esse caminho de
aproximação máxima do real, a partir daquilo que Steinthal compreendeu sobre
a forma de apercepção do particular e do geral quando tomamos contato com
um objeto.
98


10.9 As estruturas de representação devem ser ajustadas
ao cotejo da realidade para dirimir as contradições, especialmente porque o
mundo das ideias não é o retrato fiel da realidade, e sim um caminho de tornar
a vida no mundo mais fácil, como sempre procurou mostrar o autor em sua
obra. O que se revela nas palavras claras sobre o mundo das ideias e das
representações:
It must be remembered that the object of the world o ideas as a whole
is note portrayal of reality. This would be an utterly impossible task.
But rather to provider with an instrument for findburg our way about
more easily in the world.
99



10.10 Essa função ou estruturas de ideias é para servir
como caminho ou um instrumento para encontrarmos um meio mais fácil de
lidarmos com o mundo. O mundo das ideias não é para fazer confusão mental
ou mesmo informar que aquilo é a realidade, mas uma forma de facilitar a vida.
As apercepções, portanto, serão sempre ajustadas pelos instrumentos de que
dispõe a função orgânica como processo facilitador e não necessariamente
com a obrigação de ser uma cópia fiel, imediata e segura do real. Aqueles
elementos, já existentes na função do pensamento, contêm coisas subjetivas e
fictícias que poderão ser escolhias no caminho do processo de pensamento.
Não necessariamente são escolhidas, porque mais tarde Vaihinger vai procurar

98
Apercebe-se do geral, na medida em que o cria a partir do singular, ou seja, mediante o singular. P. 15.
99
Deve ser lembrado que o objetivo do mundo das ideias não é nos transmitir um retrato da realidade,
porque isso seria uma tarefa impossível, mas, preferencialmente, nos conduzir a um caminho mais fácil
no mundo. Tradução livre.
100

demonstrar que o caminho escolhido pode ser outro, porque poderá haver um
momento em que o processo de pensamento toma outra dimensão, que
escolhe outro caminho e não aqueles já depositados na função orgânica.

10.11 O mundo das representações será considerado
como a flor mais fina de toda a evolução orgânica. Paradoxalmente, não deve
ser a cópia de todo o processo orgânico. Ele garante todo o processo dessa
forma, sendo meio sem ser fiel à realidade.
The world of ideas is an edifice well calculated to fulfill this purpose,
but to regard it for that reasons as a copy is to induge in a hosty an
unjustifiable comparison.
100


10.12 Aquilo que não é cópia, mas uma mera ideia serve
mesmo como critério de caminho, sem que seja necessariamente o caminho.
É através dessa comparação que iremos fazer as medições de quanto próximo
estamos ou não do objeto real. Aquela ideia que temos da cadeira, não é o
caminho necessário para compreendermos a cadeira que vemos, mas sim um
critério para medir quanto próximos dela estamos na nossa apercepção.

10.13 Então surge a necessidade de se aprofundar no
sentido mais rigoroso de ficções. Esses seriam conceitos contraditórios da
realidade que não só contradizem a própria realidade como serão, por assim
dizer, contraditórias em si mesma, ou ainda que pouca referência fazem à
realidade ou que realidade criam e de que forma interferem nessa realidade por
todos já conhecida.


100
P. 16. O mundo das ideias é um edifício bem calculado para preencher esse propósito, mas por essas
razões para uma comparação e não uma copia. Tradução livre.
101

10.14 Um exemplo a ser afirmado como contraditório em
si, seria o conceito de átomo e o da “coisa em si – ding a sich”. Vaihinger vai
chamar atenção porque haveremos de separar claramente as ficções que
apenas contradizem a realidade, daquelas que dela divergem e não são
contraditórias em si mesmas. Aquelas que são contraditórias em si mesmas
podem ser chamadas de “Semificções” – Half Fictions or semi-fictios – que,
usando a língua original alemã do filósofo, chamar-se-iam halbeficktionenen.

10.15 O pensamento irá iniciar sua função orgânica,
distanciando-se ou divergindo levemente da realidade através das semificções,
que não são ficções como conceitos contraditórios em si mesmos. Com o
processo de amadurecimento da função, o organismo de pensar torna-se mais
audacioso e passa a trabalhar com novas ficções que também serão
contraditórias em si mesmas. O pensamento vai, então, finalizando como
operações e construções que se opõem aos fatos e a si mesmo.

10.16 Como visto acima, uma das formas mais comuns de
ficções são aquelas classificações artificiais. Embora todos os objetos
cósmicos, toda a natureza e seres vivos sejam organizados de uma forma, a
função lógica irá proporcionar uma escolha de caminhos indiretos através de
um artifício e criará uma divisão artificializada. Ou seja, havendo na realidade
uma classificação dada, a função lógica vai aperceber esse mundo e por
caminhos indiretos irá substituir provisoriamente por uma classificação que não
precisa corresponder à realidade.

102

10.17 A mente humana vai tomar essa classificação como
verdadeira, tudo com um caráter para possibilitar a finalidade prática. Essas
ficções, ou seja, esses modelos de classificação como, por exemplo, o sistema
de plantas, animais, seres vivos, enquanto concebidos para facilitar o
entendimento e a compreensão, são tratados como ficções. Para facilitar que
compreendamos o que é isso ou aquilo, a classificação cria um modelo fingido
daquilo que significa para facilitar o caminho. Esse tratamento como ficções é
feito sem que haja vinculação com a realidade de que foram apercebidas.
Porém, enquanto ficções tratadas como hipótese
101
por serem representações
temporárias daquilo que efetivamente existe na natureza, poderão futuramente,
ou na medida da necessidade de aprimoramento do conhecimento, ser
substituídas por um sistema natural. Ou seja, a classificação artificial é uma
ficção tratada como hipótese porque será, em um momento futuro, substituída
pelo sistema natural e real.

10.18 Comemorando o que ele chamou de “Enfim uma
Teoria das Ficções”, Luiz Costa Lima
102
apresentou, em 2006, uma obra que
traz em seu bojo uma homenagem ao que ele chama de teoria do ficcional,
procurando em capítulo específico explicar aquilo que Bentham e Vaihinger
tentaram introduzir no mundo do pensamento filosófico acerca do tema das
ficções. Segundo ele, Bentham não cuidou propriamente da ficção, mas sim de
aclarar de forma absoluta e formal a prática jurídica adotada em sua época
pela Inglaterra e resgata do próprio citado autor a ideia de que o próprio direito

101
Mais adiante vamos percorrer a diferenciação entre ficção propriamente dita e hipótese propriamente
dita, porque uma hipótese pode derivar de uma ficção e a recíproca não será verdadeira. Por enquanto
vamos entendendo apenas um momento em que a ficção é tratada como hipótese.
102
LIMA, Luiz Costa. Historia, Ficção, Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 260.
103

seria ficcional, porque “A palavra direito é o nome de entidade fictícia; um
daqueles objetos cuja existência é fingida para fins do discurso (for the purpose
of discourse) por uma ficção tão necessária que, sem ela, o discurso humano
não poderia ser levado a cabo.”
103


10.19 Ele depreende de Bentham que o que daria
substância à ficção, ou aquilo que lhe daria relevo seria o recurso humano,
para quem entende isso como sendo a linguagem. Mas uma linguagem que
manifesta o fingir daquilo que seria o direito, mesmo porque é quando falamos
que percebemos que as ideias estão nos nossos ouvidos e não a forma de
falar nossa que vai dizer se as coisas vão existir ou não, como dizia Kant,
porque a “dificuldade de diferenciar verbalmente as coisas não deve suprimir a
diferença entre elas.”
104
A função de pensar as ficções seria tematizar a aporia
da verdade que tem utilidade para aquelas coisas que não podem ser
conhecidas de acordo com as leis empíricas, e armam-se na linguagem,
porque é por aí que o mundo é formulado.

10.20 Ou seja, ele pensa na ideia de um corpo ou
algo que pode ser percebido ou testemunhado imediatamente pelos sentidos,
“uma entidade perceptível real é, em suma um corpo.”
105
E há outras entidades
que derivam de uma cadeia reflexiva. A entidade real se faz presente sem a
necessidade de elementos reflexivos, não exigiria de nós uma construção
mental para concebê-la no mundo real do senso comum. E aí um ponto

103
LIMA, p. 262.
104
LIMA, cita essa frase no início do seu livro.
105
P. 263.
104

importante é que ele admitia que a linguagem somente permanece como
linguagem se contiver dentro de si uma ficção.

[...] a linguagem deve conter ficções para que permanecesse
linguagem, i.e., que seria impossível que uma linguagem espelhasse
a realidade. E isto simplesmente porque a linguagem combina
percepção e ativação das faculdades mentais. Em conseqüência, as
entidades fictícias são aquelas às quais é atribuída a existência por
força do discurso, ainda que tal atribuição não decorra da verdade e
da realidade.
106


10.21 E aqui retornamos ao ponto inicial da
explicação e motivação deste trabalho de que, embora a ficção se manifeste
unicamente pela linguagem, não é a linguagem sua construtora, e sim o meio
pelo qual toda a ficção ou realidade se manifesta e, quando a linguagem é fruto
da realidade ou das ideias, ele não padece de criações mentais e à realidade
não impõe diferenças, mas engendra ficções que se original pelo exercício do
raciocínio discursivo, ou seja, não seria somente a linguagem sozinha que
expressaria as ficções, mas através dela é que as ficções se manifestam.
107


10.22 Conforme Lima, Bentham teria reduzido o
número das categorias aristotélicas e, então, restando apenas uma, ou seja,
exceto a “substância” todas as nove restantes
108
seriam ficcionais, e a

106
P. 264
107
Lima usa o verbo engendrar que pode eventualmente dar a ideia de criar realidade; mas realidade não é
a realidade de fato. Parece que se trata de uma realidade-criada. Pode parecer uma ideia de vestirmos as
coisas com a linguagem, como o Sapato não é o pé e o pé existe sem o sapato. Por isto engendramos
realidade com a linguagem. O “ato de fala”, portanto, é um ato no sentido que cria realidade. Mas esse
criar não é fazer surgir uma pedra naquilo que ela tem de extensão, duração, etc. A pedra com todos os
adjetivos que atribuímos a ela existe e não apenas por um ato de linguagem.
Enfim, engendrar a realidade é um ato humano que diz sobre a causalidade dos fatos. Engendrar é a
capacidade humana de projetar sobre as coisas, de dizer que este é efeito daquele, até mesmo de dizer que
há uma causa, pois há coisas causadas.

108
As categorias aristotélicas seriam substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, situação,
posse, ação e afecção que seria a mesma coisa que paixão ou sofrimento, conforme explicitado pelo
próprio Lima na p. 266.
105

substância não seria assim considerada porque ela seria o próprio receptáculo
da matéria, o que independeria da linguagem para existir, independentemente
do nome que lhe fosse dado. Ou seja, a substância seria aquilo que realmente
existe e o restante seriam manifestações de raciocínios que se apresentam
através da linguagem. A substância seria então o real, que se impõe por si
mesmo. Isso pode levar a uma discussão extrema sobre algumas questões
como a existência de Deus, mas a preocupação de Bentham residia tão
somente na agressiva forma de como os Juízes ingleses abusavam das ficções
para valer-se das intenções de julgar de uma maneira contrária o seu entender,
e por isso, sua crítica vertia-se em favor de uma sistematização do direito para
que se pudessem ter regras específicas de utilização das ficções pelos
tribunais.

10.23 Lima coloca Vaihinger e Bentham em
realidades culturais e intelectuais bastante distintas. Segundo ele, Bentham se
propunha ao empirismo de Hume, enquanto Vaihinger ao positivismo crítico, o
que supunha o conhecimento de Kant. Parece que Kant estava muito mais
próximo de Vaihinger que teria bebido de fonte própria, do que Hume a
Bentham. Como já vimos, em Vaihinger a vontade vai ser vista como forma de
utilizar as entidades reais e as entidades fictícias, e que de acordo com
interesses atingirá seus resultados para atender seus propósitos iniciais do
pensamento de cujo produto resultam as ficções.

10.24 Para Bentham, a realidade era aquilo que se
impunha ao homem. E o que seria a realidade para Vaihinger, então? Ela
106

perde um pouco de valor ou deixa de ter a importância do senso comum, para
dar lugar a vida mais alta e justificar o irreal.

[...] o imaginário (o abstrato, o ideal) justifica-se apesar da sua
irrealidade. Sem esse imaginário, nem a ciência nem a vida são
possíveis, na forma mais alta. A tragédia da vida esta mesmo em que
os conceitos mais valiosos, visto sob o prisma da realidade ( realiter
genommen), carecem de valor (...) O ideais não são hipóteses; o
seriam caso fosse realizáveis ou se tivessem realizados em alguma
parte do mundo; ao contrario, são ficções.
109


10.25 É para que a vida se torne possível que a
realidade perde um pouco seu valor, para poder conviver com aquilo que é
fruto do pensamento. O próprio Descartes, na sua distinção daquilo que é real,
afirmava que as coisas se distinguiam de três modos, sendo eles: O Real, O
Modal e distinção de razão, seria aquilo que pode ser distinto de outra, sem
pensarmos na outra, enquanto determinadas coisas concluem sua existência
apenas pela ideia
110
. E claramente se compreende no trecho a seguir [...] por
isso, se tivermos a ideia, por exemplo, de uma substância extensa ou corporal,
embora ainda não saibamos seguramente se tal coisa está presente no mundo,
no entanto , e porque temos tal ideia, podemos concluir que ela pode existir;”
111

não deixa de ser o mesmo raciocínio daquilo que não se impõe, independente
da reflexão para aquilo que se impõe apenas pela ideia, e Descartes pode
efetivamente estar confirmando a ideia de Vaihinger e do próprio Bentham de
que algo existe apenas como fruto da ideia. Embora para cada qual se possa
ter, para o fim desse estudo, uma ideia clara daquilo que é Real e em todo o
real é aquilo que se impõe e não depende do pensamento, enquanto o ficcional
depende da ideia. Porém em Vaihinger o Real passa a ter uma espécie de dois

109
LIMA, p. 272 citando Vaihinger .
110
DESCARTES, René. Princípios de Filosofia. Trad. João Gama. São Paulo: Edições 70, 2006.
111
DESCARTES, op.cit., p.49.
107

estágios, o que ele mesmo chama de “um andaime do pensamento”
112
, sendo
o segundo o ficcional, porque, para ele, o mundo se reduz a sucessões e as
sensações que isso provoca, porque a realidade, em Vaihinger, vai compor-se
também de elementos psíquicos, o que não existia em Bentham.

10.26 Os elementos psíquicos são as reações
àquelas realidades de Benhtam, o que seria a realidade de Vaihinger seria,
então, aquilo que se impõe a nós pelos sentidos e que não depende da
linguagem para se apresentar nem da ficção e, ao mesmo tempo, somando-se
a isso a sensação que isso provoca. A ficção será instrumento para melhor
compreensão da vida e dessa realidade. Enquanto em Bentham, exceto a
substância, tudo será ficção, para Vaihinger as ficções são elementos de
compreensão da realidade e de facilitação da vida. Sem que tivéssemos uma
ideia fictícia do que é liberdade seria impossível compreender o direito.

10.27 Lima entende que tanto Bentham como
Vaihinger deram uma conotação mais positiva às ficções, embora cada qual se
debruçasse de forma diversa ao seu estudo.

Em ambos, a ficção perdia sua conotação negativa, corriqueira e
alcançava uma extensão antes incalculável; em troca, a realidade se
confundia com uma pequena ilha, em que a linguagem, como
operação mental
113
e, portanto com uma inevitável parcela subjetiva,
só entrava como ingrediente estrangeiro.
114



112
LIMA, p. 275.
113
Em ambos os autores toda a produção meramente mental é ficcional e não real, o que reforça a ideia de
que a linguagem é apenas uma ficção, ou poderá ser uma ficção ou uma ferramenta utilizada pela
realidade ou pela ficção para se apresentar ao mundo real.
114
LIMA, p. 281.
108

Em Vaihinger, a Ficção é apenas um caminho, não sendo nem dogma nem
hipótese porque se destina à função de utilidade do pensamento e de
facilitação da vida prática.






















109

11 UMA CLASSIFICAÇÃO DAS FICÇÕES

11.1 Vaihinger percorre todo o seu trabalho de forma
muito densa. A construção da obra filosófica do Como Se não segue caminho
ordinário. Comumente, pensamos que a construção de um livro segue
determinada ordem e duração no tempo. Em geral, não imaginamos uma obra
elaborada ao longo de 30 ou 50 anos. Contudo, Vaihinger segue exatamente o
roteiro atípico, pois sua filosofia do Como Se, teve partes elaboradas na
juventude, por volta do ano 1873 e outras na maturidade, por volta de 1900, e
que foram postas juntas com vários retoques para articular essas partes
elaboradas em épocas distintas. Em alguns momentos, por exemplo, podemos
notar que o autor apresenta, em primeiro lugar, os tipos de ficção, para depois
discorrer acerca das questões linguisticas que implicam as ficções.

11.2 Seguindo, porém, o ritmo do autor, passemos nessa
etapa dissertativa, a discorrer sobre os vários tipos de ficções. Segundo
Vaihinger, a mais difundida das ficções é o que ele chama de Classificação
Artificial, que vai criar um valor real para substituir o sistema natural, dados
valores e conteúdos a coisas e espécie de coisas e classes na natureza, como
se reais fossem.

11.3 Outra espécie de ficção, a seguir, seriam aquelas
abstratas. Na essência do próprio termo pode-se situá-las em oposição ao real
e, ao mesmo tempo, vinculadas ao real, pois a abstração nos permite criar
métodos de leitura do próprio real. Há como se dizer, uma abstração do objeto
110

do seu real porque há certa e profunda dificuldade de se lidar com a
complexidade real do objeto, e o pensamento não o apercebe como deveria.
Então, mais uma vez, com o fito na finalidade, o pensamento vai atrás de um
artifício e apercebe aquilo que é mais importante, abstraindo-se da realidade.

11.4 As ações humanas seriam tão complexas que um
estudo sobre certos aspectos apenas se tornaria possível, somente se
lançássemos mão desta ficção abstrativa. Adam Smith, sabedor dessa
dificuldade, elaborou sua teoria econômica como se o motivo de todas as
ações humanas fosse o egoísmo. Ele não teria como criar sua teoria diante de
um obstáculo, qual seja, de compreender quais seriam os motivos das ações
humanas, então partiu dessa forma. Estudar isso seria impossível, portanto a
maneira de trazer essa possibilidade para um objetivo mais imediato deu-se
através da utilização desse artifício, assumindo como se isso ocorresse, ou
seja, como se a humanidade somente agisse através de seu pressuposto
egoístico. Doravante, após negligenciar todos os demais fatores, Smith
passaria a elaborar um sistema econômico sob a abstração de que tudo aquilo
que o homem faz ou deixa de fazer, ou seja, todas as nossas atitudes tivessem
como ponto de partida a assunção de um pressuposto de impulso egoísta.

11.5 Assim Smith construiu sua teoria ignorando ou
negligenciando outros pressupostos, pela absoluta incapacidade de
compreender todos, todas as complexas composições das relações humanas.
Sempre certo de que estaria apenas: “deliberately substitute a fractions of
111

reality for the complete range of cause an facts.”
115
Com isso, ele tornava
possível entender o todo, a partir de um pressuposto que assumia abstraindo-
se da completa e incompreensível realidade.

11.6 Sempre que o grau de abrangência e complexidade
estiver presente, o pensamento, como sempre dito, fulcrado na finalidade, irá
desenvolver um artifício para dar conta de lidar com tais situações e atingir
seus objetivos. Na física e na mecânica tudo isto é feito de maneira a
possibilitar a compreensão do impossível ou do inalcançável. Um exemplo que
nos deu Hans Vaihinger foi trazido de Francis Bacon, segundo o qual “certos
movimentos celestiais são apenas concebidos para facilitar nossos cálculos.”
116

Não se informa se o movimento é verdadeiro ou não, se ele pode ser explicado
ou não, mas, dada a sua dimensão e a necessidade de atingir a finalidade que
é fazer um cálculo específico, assume-se certo movimento, como se fosse
verdadeiro ou se existisse. A partir a assunção dessa ficção abstrativa da
realidade chega-se ao ponto desejado.

11.7 As Ficções Esquemáticas são aquelas também
entendidas como: paradigmáticas, utópicas ou típicas. Deus e o mundo seriam
esquemas ou pensamentos não totalmente concluídos. Já são presentes nas
duas formas anteriores de ficção. Nas classificações anteriores, a mente
estabelece esquemas, com a finalidade de desnudar o pensamento. Essa ideia
de esquema assumiria outro sentido na dialética de Scheleirmacher, segundo o
qual Deus e o mundo seriam apenas pensamentos não totalmente concluídos,

115
P. 20 – deliberadamente substituindo uma fração da realidade para causas e fatos.
116
P. 21
112

meros esquemas.
117
Sobre a mesma ideia de esquema, Kant entenderia, em
parte, aquilo que chamamos de ficção ilustrativa, em parte, a representação
geral esquemática e, em parte, ficções analógicas. Esses esquemas ou ficções
esquemáticas poderiam ser adaptados nas ficções e nas classificações em
geral. Há algumas realidades que podem obstruir o caminho do pensamento e
por isso tem a necessidade de se fazer um corte.

11.8 Forma-se uma estrutura abstrata para possibilitar a
análise. São muito empregados no estudo da geologia e da mecânica.
Podemos utilizar esse tipo de assunção para compreender um homem isolado,
uma cidade isolada, para que a partir disso seja possível estudar fenômenos de
leis teóricas. A partir da ficção esquemática, ou do estudo de casos simples,
pode-se compreender com mais facilidade todas as coisas. John Locke teria
utilizado essa forma de ficção para explicar a formação dos nomes de
substâncias.
118


11.9 As ficções paradigmáticas, ou casos fingidos ou
mesmo imaginários é como etimologicamente se pensava na forma de fingir
sobre aquilo que se pretende compreender ou comprovar.

11.10 Das ficções esquemáticas poderiam deduzir-se as
ficções utópicas. Da mesma forma etimológica parte-se das utopias e ficções

117
Esta citação de Vaihinger não está na versão da obra inglesa, aparecendo na tradução do Professor
Johannes Kretschmer – Hans Vaihinger: o texto do como se, Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
2002, v. 1, p. 77.
118
Locke, John. An Essay Concerning Human Understanding, III, 6, 44.
113

como o estado utópico de Platão, dos Exemplos de Tomas Morus e do Estado
original tido sempre com a finalidade de compreender o todo.

11.11 A ficção típica ou a forma original fingida. Toma-se
uma ideia a partir de um organismo geral e parte-se para a compreensão das
leis que governam aquele organismo. Uma forma de compreender essa ficção
típica será a ideia de Goethe sobre animal original. Então a ideia de planta
original seria entendida como ficção ou hipótese, pois pelo que se sabe isto
pode ter existido, ou não, ou ter sido apenas uma ideia.

11.12 Ficções Simbólicas e Ficções Analógicas seriam
uma variedade de ficções que são tidas para Hans como muito importante para
a ciência. Aproximam-se das imagens poéticas ou dos mitos. O processo do
pensamento percorre um caminho a partir da apercepção de uma intuição, o
que poderia ser entendido como origem da poesia. Imagens sensíveis teriam a
função de generalizar conceitos abstratos. O fenômeno da função orgânica
toma imagens ou intuições sensíveis e processa em forma de poesia ou
pensamento poético.

11.13 Todo o conhecimento é a apercepção de algo
através de outro algo e, portanto, sempre vai se operar a partir da analogia. A
compreensão de tudo e do mundo somente seria possível graças à apercepção
de outras coisas concretas. Vaihinger vai buscar em Fichte e Hegel citando:

If we speak of the life or the absolute, that is merely a method of
speech (cf Leibniz‟modus dicendi) for in actual fact the absolute is
life”. And again in the second lecture he says: “on the analogy of our
114

mind we picture God as thinking, and the ethical life of mans as the
sole purpose for which he is in existence: not at all as if really were so,
and as if God thought after the manner of the finite, but simply
because we cannot grasper the relationship in any other way” (the “
As IF” dos not in this case belong to the fictions but together with the
negations merely servers to exclude error). In the fifth lecture he
says: “what regarded as a philosophical question, constitute the
nature of a scholar means how would God have to conceive the
nature of a scholar, if he thought? For a philosophical attitude grasps
things as they are in themselves, i.e. in the world of pure thought, of
which world God is the original principle; accordingly, therefore such
as God would have to conceive it if thought were attributed to him.
119


11.14 A maioria dos dogmas
120
teria sido pensada na
forma de ficção o que nesse contexto teórico de Vaihinger não seria correto
dizer, porque se trata apenas de forma auxiliar, já que a relação metafísica
para a qual se dirige o pensamento como caminho para compreender o todo,
ou caminho para se conformar com uma ideia, crendo-se nela. Deus, não seria
o pai de todos, esse tal ou aquele sob um ponto de vista meramente
dogmático, mas deveria ser considerado como se fosse, para facilitar a prática
religiosa e o culto. Porque dessa forma que se sugere agir é para facilitar a
persecução do pensamento, já que seria evidentemente impossível
compreender toda a existência ou inexistência de Deus. Haveria então ficções
indispensáveis. Não há como estabelecer uma relação com Deus sem perquirir
de sua finitude ou existência, mas, tão somente, para essa teoria ficcional,
basta pensar “como se ele existisse” porque dessa forma e doravante, todas as
coisas decorrentes desse pensamento se tornariam mais facilitadas.

119
VAIHINGER, P. 28 da versão inglesa – Se falamos a vida do absoluto que meramente é um método
atual de falar, porque na verdade o absoluto é a vida ( de acordo com o modus dicendi de Leibniz) . E
novamente numa segunda analogia de nossa mente, pintamos deus como pensante e a vida ética de um
homem como único propósito de sua existência. Nada disso como se realmente fosse antão com se deus
fosse pensado a maneira finita, mas simplesmente porque não podemos relacionar de outra forma. O
como se não acompanha nesse caso uma ficção, mas, junto com a negação meramente serve para excluir
um erro. Tradução livre
120
Ver, LIMA, Luiz Costa Lima, p. 276, a ficção põe-se entre o dogma e a hipótese, embora o dogma seja
uma ficção falsa que nunca sai de cena. O dogma serve apenas para criar uma acomodação a partir de
uma ideia tida como realidade, enquanto a hipótese deve ser confirmada pela experiência, sendo a ficção
um meio de passagem. O dogma nem resolve um problema da realidade, ou seja, ele nem se manifesta
pela linguagem mas tão somente pela ideia, e nem se confirma pela experiência como no caso da
hipótese.
115

11.15 Fora disso, toda a compreensão do mundo seria
absolutamente impossível. Kant teria laboriosamente demonstrado em sua
teoria do conhecimento que é
That is utterly impossible to attain knowledge to the world, not
because our thought is too narrowly circumscribed – this is a dogmatic
and erroneous interpretation – but because knowledge is always in
the form of categories and these, in the last analysis, are only
analogical apperceptions. This is powerful demonstrations of the
unknowable and incomprehensible nature of the world showed clearly
the lines on which knowledge should proceed and put stop to all
dogmatic speculations.
121


11.16 O conhecimento de Deus e das coisas da natureza é
absolutamente impossível, não por nossa causa, mas é que sempre esse
conhecimento vem a nós em forma de categorias e, em todos os casos,
sempre através de percepções analógicas. As ficções analógicas, portanto, são
certa forma de caminho para a compreensão não dogmática, embora alguns
possam considerar as ficções semelhantes à maioria dos dogmas, mas sempre
é necessário escapar desse conceito para compreender como ideias
provisórias e auxiliares para a apercepção completa do objeto que se pretende
conhecer.

11.17 A questão, por exemplo, não estaria em discutir a
existência de Deus como Pai, se ele é ou não é pai, mas sim atalhar-se a um
conceito intermediário e provisório e tratar o tema Deus como se ele fosse pai.
Neste caso vive-se como se Deus fosse o pai.

11.18 Existe uma diferença que nos é dada ou é objeto de
nossa ideia. Kant vai afirmar que a questão de uma inteligência suprema é

121
P. 30.
116

apenas objeto de uma ideia, porque as coisas, na maioria das vezes, são
derivadas de um conceito fictício.
[...] diz-se, por exemplo, que as cosias do mundo tem que ser
consideradas COMO SE obtivesse m sua existência de uma
inteligência suprema. Deste modo a ideia é propriamente só um
conceito heurístico e não um conceito ostensivo, e indica não como
um objeto é constituído, mas, como sob sua direção nós devemos
procurar a constituição e a conexão dos objetos da experiência em
geral .
122


11.19 É impossível determinar a existência das coisas sem
compreender a partir de um juízo intermediário ou ficcional, como se as coisas
existissem a partir de uma ideia. Conforme já demonstramos, para o
entendimento de Kant, todos os fenômenos são recebidos na nossa mente
como uma espécie de fio condutor, COMO SE fosse algo simples.
Posteriormente, compreender esses fenômenos COMO SE fossem carentes de
uma espécie de ligação com algo ou uma ideia superior, para finalmente
compreender como se todos os fenômenos estivessem fora no âmbito de um
fenômeno superior. Para ele, não há o mínimo problema em admitir essas
ideias como hipóteses, e o objetivo disso será sempre, utilizando também a
palavra de Vaihinger o “apaziguamento da razão”.

11.20 Essa forma de apercepção, concebendo-se a
profunda limitação de conhecermos o mundo e toda a sua extensão e natureza,
somente é possível a partir da ideia do como se. Visto que, dada a já
mencionada limitação não há como ter contato possível com qualquer
mecanismo de conhecimento do mundo, da natureza e da ciência, a não ser
criando certas ficções, analogias e hipóteses, como meios facilitadores.


122
KANT, Immanuel. Critica da Razão Pura. Os Pensadores, 1981, p. 161.
117

11.21 Não temos a possibilidade de conhecer Deus ou
percebê-lo da forma como ele seria. Nós, então, pensamos Deus como um ser
pensante através de uma ideia suprema que temos de um Deus e de uma
Inteligência suprema e da ideia que temos de infinitude. Embora pensemos que
Deus existe e pensa, sua forma de existir e pensar parece diferente daquilo
que entendemos como existir e pensar. Então, a ficção ou o como se, nesse
caso, relaciona a Deus e evita exclusões e erros. Ele não é nem não é. Ele é e
não é o pai de todos, e sim é considerado como se fosse pai de todos e de
toda humanidade, para facilitar o pensamento com a utilização de uma ficção
analógica subjetiva da humanidade.

11.22 A diferença entre a posição dogmática e o
como se é que aquilo que é um “que”, ou seja, concebido como Deus que é
criador e pai de todos, ao contrário de um Deus como se, fosse criador e pai de
todos, eliminando o dogma da crença ou da descrença. Em tudo em
semelhança e analogia com a natureza.

11.23 Porém Vaihinger vai chamar nossa atenção
para a grande diferença que há entre as analogias reais e as analógicas
ficcionais. As analogias reais estão referidas e referenciadas à descoberta da
indução e a hipótese que tem ligação, como já vimos, direta e comprometida
com o real. Enquanto as analogias fictícias não têm nenhuma parceria com o
real incumbindo-se apenas de um método provisório e subjetivo, um como se.

118

11.24 FICCÇÕES PERSONIFICADAS - Um outro grupo de
representações
123
ligadas à ideia de pessoa. É uma forma, um artifício que terá
como determinante, na categoria de coisa, tais como alma, energia e a
capacidade psíquica, gravidade, força e força da vida. Uma ficção
personificada, na realidade, é um nome, um conceito cuja finalidade é o modo
de expressão. Não se trata da compreensão do fenômeno, e sim de nominá-lo
para personificar e simplificar. O conceito de causalidade é um fenômeno cuja
ficção vai compreendê-lo como causalidade. Isto não significa apercebermos o
fenômeno do mundo, mas orientar para a prática em forma de coisas que
simbolizam como conhecimento geral sobre as coisas. É o nome que se dá às
coisas e não a compreensão. Apercebe-se pelo nome.

11.25 FICCÇÕES SOMATÓRIAS – São os conceitos
gerais. Após a compreensão das ficções personificadas, há que se
compreender os conceitos gerais, que são construções conceituais com a
finalidade de servir o pensamento. São ficções somatórias que se agrupam a
uma série de fenômenos sobre características principais, ou ficções práticas.
São construções artificiais que servem para o pensamento apenas identificar
as coisas da forma como se denominam. São invenções úteis de nomes para
simplificar a compreensão das coisas, dando-se o nome disso ou daquilo,
sendo um tipo de ficção puramente útil.


123
Vaihingher passa usar o termo representação pela primeira vez em todo o seu texto, como
entendimento daquilo que se apercebe. O que se apercebe se faz através do que ele passa a chamar de
representação.
119

11.26 FICÇÕES HEURÍSTICAS - Esta é uma importante
classificação, que Kant também chamou de heurístico o conceito de ideia.
124

Para Vaihinger, apenas as ficções heurísticas poderiam justificar o estudo de
todas as anteriores. Porque é nesse processo heurístico criativo do cérebro,
seja no seu contexto orgânico, ou na arte de pensar, que as ideias surgem
como soluções para todos os problemas cujo alcance está numa finalidade. As
ideias heurísticas nascem justamente quando o cérebro necessita formar uma
ficção, então como forma anterior, nasce a heurística, quando aquelas que são
processadas pela função lógica do pensamento não se parecem suficientes
para a solução do problema. Havendo uma adequada solução útil, vem a
explosão solúvel do pensamento, através do que chamamos de ficção
heurística.

11.27 O processo psíquico que mais auxilia na solução, ou
também chamado de pensamento criador, foi chamado inicialmente de
atividade heurística por Arquimedes.
125
É considerada a parte mais nobre e
criativa das ficções em seu conteúdo prático, porque se coloca imediatamente
como solução do cérebro para um problema efetivamente prático. O
matemático H. Poicaré narra que estava diante de um problema muito
sofisticado que não conseguira resolver por horas e horas. Depois de ter
tomado uma xícara de chá não conseguira dormir, e suas ideias atormentavam
o cérebro a noite toda, fez todos os esforços possíveis e aproximou-se da
solução, mas não era a definitiva; viajou, tirou férias e, quando em uma dessas

124
“a ideia é apenas um conceito heurístico e não ostensivo” p. 161.
125
PUCHKIN, V. N. Heuristica a Ciencia do pensamento criador. 2ª ed. Trad. Vera Neverova. Rio de
Janeiro: Zahar, 1976, p. 8.
120

férias ao atravessar uma rua, teve uma explosão heurística e de uma forma
muito simples resolveu o problema.
126


11.28 Para Descartes, os axiomas básicos da
ciência são verdades intuitivas que se revelam através da visão direta da
inteligência. Em Regras para Orientação do Espírito, dá um relevo para a
diferença entre o conhecimento apoiado nos mecanismos lógicos dos
silogismos e das provas e a intuição. Ressalta que em alguns casos
[...] é preciso afastar todos os elos dos silogismos e entregarmo-nos
totalmente a intuição como nosso derradeiro meio, visto que todas as
teses traduzidas, de forma direta, uma da outra, desde que já esteja
clara a dedução, reduzem-se a uma autentica intuição.
127


11.29 Então, se o pensamento é uma função finalista
voltada ao desejo, ou seja, a vontade que determina a explosão do
pensamento, a partir da vontade de resolver o problema, o cérebro procurará o
caminho e encontrará a solução.

11.30 Ao analisar a atividade do inconsciente em Locke,
Kant teria descrito que a existência de ideias desconhecidas não lhe faria
sentido. “ter ideias e não ter consciência delas, ao que parece, constitui algo
contraditório, pois de que modo podemos saber que as temos se delas não
temos consciência?”
128
Porém, mais tarde, admitiu que por meios indiretos
podemos nos convencer da existência de ideias que ainda não sabemos
existirem e, para isso, denominou-as de ideias obscuras e aquelas conscientes,
de ideias claras.

126
Cf p. 10.
127
Apud PUCHKIN p. 11, O problema da intuição na filosofia e na matemática, 1965.
128
KANT, Antropoligie in progmatischer Hinischt, Koeningsberg ,1798.
121


11.31 Leibniz teria sido o primeiro a revelar a existência de
uma região subterrânea do pensamento humano. Teria o homem, conforme
concepções psicológicas de Leibniz, os conhecimentos básicos, as bases do
caráter e as bases da atividade do homem. A substância geratriz do mundo das
ideias ocuparia um lugar muito inconsciente no cérebro humano.
129
Hans
Vaihinger, conforme já afirmamos, compreendeu que na maioria das vezes que
pensamos o fazemos de forma inconsciente e na maioria dessas vezes é a
finalidade do pensamento, ou seja, a vontade que domina nossa forma de
pensar. Então há de se concluir que a vontade comandante do pensamento
age também de forma inconsciente, produzindo soluções para o pensamento
na forma da função heurística. Porque para ele toda e qualquer forma de
pensamento é apenas um meio para os fins da vontade, familiarizando com a
ideia de Kant do primado prático do pensamento.

11.32 Importante fixar o entendimento de que as ficções
vão se utilizar da linguagem para se presentar através da expressão em
português: Como Se. No latim: quasi ou sicut; no inglês: as if; no francês:
comme si, que si; no alemão: als ob, wie wenn. Vaihinger, para reforçar aquilo
que procuramos esclarecer no início do trabalho, afirma que a “a perscrutação
de tais recursos sutis, mas bem desenvolvidos do pensamento.
130
” Não há
identidade entre o falar e o pensar, sendo a linguagem apenas um meio de
expressão das ficções. O Como é o de acordo com algo. Ou seja, algo pode
ser Como, e não é ficção. Aquilo que é uma simples analogia ou comparação é

129
Cf PUCHKIN, p. 82.
130
P. 176
122

Como, enquanto que aquilo que é uma ficção vai acrescido do Se. Aquilo que
não é nem um nem outro, necessita do Se. Porque o Se, adiciona uma
condição ou algo impossível. O Se da aparência de impossibilidade de
acontecer. Aquilo que pensamos de maneira ficcional se expressa acrescido do
Se. Entre as duas palavras há algo subtendido.

11.33 Ele nos traz algumas análises. “Se o egoísmo
fosse a única mola propulsora do comportamento humano, então as relações
sociais não teriam que ser deduzidas dele. Na oração condicional, põe-se algo
irreal ou impossível. Todavia, dessa irrealidade ou impossibilidade podem ser
deduzidas estas ou aquelas conclusões”.
131
O Como soma do Como Se nos
dá a ideia exata do ponto de vista linguístico do que seriam as ficções
justamente pela inserção subentendida da ideia de impossibilidade desse
acontecimento ter presença no mundo da realidade do senso comum.











131
P. 178.
123

12 O CONCEITO DAS FICÇÕES JURÍDICAS NA OBRA DE HANS
VAIHINGER

12.1 Duas classificações de ficções serão tratadas
juntamente, porque entendemos ser mais útil para o método do trabalho. Qual
seja, de demonstrar o interesse nas formas de pensamento e atingimento de
finalidades das ficções, como solução de problemas que se iniciam com o
pensamento e atingem a convivência humana de forma indelével, ou seja, as
ficções jurídicas e as ficções práticas ou éticas. Importante recordar o que fora
afirmado no início do tema de ficções sobre a origem da expressão e seu
significado, como fora mencionado no capítulo 3, de que a Ficção é uma
expressão que provém do latim cujo verbo é fingo – fingere – cujo significado
vai aparecer como modelar, representar, preparar, imaginar, disfarçar, supor
132
,
e isso vai se tornar extremamente importante para compreendermos seu
conceito jurídico, conforme nos propusemos, e sua utilidade para o direito e a
forma como seus limites são estabelecidos, para que funcionem.

12.2 Vamos encontrar as primeiras manifestações sobre
utilização de ficções no mundo jurídico Romano da experiência jurídica
romana; por outro lado, obtemos duas diversas técnicas de argumentação que,
mesmo apresentando certa afinidade de estrutura lógica, todavia aparecem
distintas diante dos propósitos que podiam ser perseguidos. Vamos encontrar
vários institutos no Direito Romano e ainda a tese da Argumentação Jurídica,
que sempre vai ser utilizada como forma de atingir um resultado, através da
tentativa de recriar o fato ou reinventar a lei ao caso concreto. O exemplo mais

132
MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia, Tomo II, 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2005, p. 1031.
124

clássico do primeiro tipo é constituído da assim chamada fictio legis Corneliae
do postliminium.
133


12.3 Marighetto
134
informa a existência de mais de um
conceito do que seja ficção jurídica de acordo com o Direito Romano. Para ele,
pode indicar uma afirmação “faticamente e/ou juridicamente falsa
135
”, ou pode
ainda significar a presença de entidades que são fictícias por sua natureza, ou
ainda outras que podem ser “as falsas representações doutrinárias do
direito.
136
Algo onde a doutrina considera uma ficção algumas interpretações do
direito, ou seja, a doutrina instrumentalizaria aquilo que deveria ser o Direito.
Salvatore Pugliatti define a ficção jurídica como espécie do genus ficção, ou
seja, “como o resultado de um processo mental que, próprio por ser imaginário
jurídico, não corresponde a alguma determinada realidade existente pelo
próprio ordenamento jurídico como regra”.
137
Retomam-se aqui os contornos
conceituais comuns a todas as definições de ficção, quais sejam, a criação de
uma determinada realidade pelo sistema jurídico, ou seja, algo que não existe,
mas passa a existir para o direito na forma de uma regra. Um modelo abstrato
como uma interpretação a priori como referência a um caso concreto de direito.
Trata-se, todavia, de uma definição que podemos considerar quanto
mais geral, sendo que a análise mais detalhista nos impõe de
distinguir e tratar, pelo menos, três tipos de ficções jurídicas: ficções
jurisprudências, ou dos juízes; ficções legislativas, ou dos

133
Texto DIGESTO Sotto gli auspici dell‟Académie Internationale de Detroit Comparé e
dell‟Associazione Italiana di Diritto Comparato, 4ª ed.
Disciplinas Privatistas Sezione Civile Disciplinas Privatistas Sezione Commerciale
Discipline Penalistiche Discipline Pubblicistiche

134
MARIGHETTO, Andréa. Perfis históricos e metodológicos da técnica das ficções jurídicas. Artigo
encaminhado para publicação na Revista dos Tribunais. (Marigheto é advogado italiano com doutorado
pela universidade Federal do Rio Grande do Sul).
135
P. 1.
136 GUASTINI, Riccardo. “Finzione” em Digesto. Torino: UTET, Ult. Ed.; Cf. também TODESCAN,
Franco. Diritto e realtà. Storia e teoria della “fictio juris”. Padova: Cedam, 1979.
137 PUGLIATTI, Salvatore. Finzione. Em Enciclopedia del diritto, XVII, Milano, 1968, p. 658.
125

legisladores; e entidades fictícias (também, de qualquer forma, dos
legisladores).
138


12.4 Uma forma de ficção seria usada apenas pelos
legisladores para facilitar a elaboração do processo legislativo, outra, pelos
julgadores na elaboração dos julgados e da jurisprudência e outra o uso
comum das entidades fictícias, tudo como forma de facilitar a vida do operador
do direito, em face do caso concreto que a Lei, a Jurisprudência ou a realidade
não foi capaz de resolver. É uma técnica jurisprudencial ou legislativa que
permite alterar ou modificar uma norma para adaptar ao contexto fático daquilo
que deverá ser inserido. Uma norma que, se aplicada não traria a solução
exigida pelo fato concreto, pode ser alterada ou mesmo criada para esse fim.
Henry Summer Maine afirma que “a ficção jurisprudencial consiste em
dissimilar a criação de Direito e satisfazer assim a exigência de reformar sem
ofender a tradição de natureza religiosa para a imutabilidade e a origem divina
do Direito.”
139
O Direito Romano utilizou a ficção como forma de criar novo
Direito sem mudar aquele que existia, consubstanciando-se na atividade diária
dos juízes para dinamizar a aplicação do Direito, especialmente na proteção do
indivíduo que necessitava que os fatos fossem julgados como verdadeiros,
ainda que do ponto de vista fático a verdade não lhe socorria. No aspecto da
produção legislativa, a ideia era utilizar a criação ou alteração das leis de forma
a atribuir alguns resultados jurídicos a fatos que poderiam não existir ou a fatos
que existiam e poderiam ser considerados como se não existissem.
140

Assevera também Marighetto que a concretização mais visível das ficções era

138
P. 2.
139 MAINE, Henry Sumner. The ancient Law: Its Connection with the Early History of society and its
Relation to Modern Ideas. London, 1890, 3 ed., em (trad. it.) Diritto antico. Milano: Giuffré 1998.
140 Veja-se, GUASTINI, Riccardo. Lezioni di teoria analítica del diritto. Torino: Giappichelli, 1982.
126

na criação das pessoas jurídicas, porque do ponto de vista da realidade do
senso comum é uma entidade artificial e, portanto, uma criação fictícia do
legislador.
141


12.5 A finalidade era dar funcionalidade ao sistema
jurídico, cumprindo finalidades e praticidade a toda a aplicação da própria
norma do Direito, com um princípio básico que era a manutenção da regra
jurídica intacta, embora haja menção à utilização das ficções para criar uma
norma diretamente.
A ficção é constituída de um elemento de fato que não corresponde à
realidade e que, diferentemente, é atribuído pelo juiz à realidade
concreta com a finalidade de disciplinar a através a norma que tal
elemento prevê. Na ficção que cria norma (técnica de criação direta),
a ficção cria uma estrutura normativa complexa e caracterizada por
vários elementos que podemos reassumir em dois grupos: de um
lado, um grupo que designa fatos reais, e, do outro, o que os
transforma em acontecimentos fictícios.
142


12.6 Ou seja, há sim a modificação da norma através da
criação de outra norma que poderá tratar o assunto em dois blocos: aqueles
referentes aos fatos reais e outros de transformação de coisas inexistentes em
elementos ficcionais, fingidos. A experiência do direito romano tem muito
fundamento em utilização das ficções.
143
O Direito Romano tem precedentes
históricos em seus próprios conceitos
144
, como representado em vários

141 Cf. GUASTINI, Riccardo. Ult. Op. Cit. p. 34 e s.
142
P. 4.
143 Veja-se, GAMBARO, Antonio. Finzioni giuridiche. Em Digesto. Torino: UTET, Ult. Ed.
144 O conceito de fictio iuris é evidentemente associado pelo direito romano à actio utilis. As actiones
utiles se referem à ações que são utilizadas para cumprir uma finalidade análoga, mas não idêntica, à
finalidade original: isso para poder disciplinar casos não previstos pelo ius civile. As actiones utiles
concretizavam, de fato, três diferentes modalidades de intervenção do Praetor: (a) a transposição de
sujeito, como titular de uma pretensão ou de uma obrigação, em outro, como titular do correspondente
titular do poder de sujeição. Veja-se o caso das actiones adiecticiae qualitatis, através das quais era
possível condenar o pater familiae ou o dominus ao pagamento dos débitos do filius ou do servus; (b)
fictiones iuris civilis, ou seja, considerar existente um requisito pedido pelo ius civile que, na verdade, não
existe; (c) a criação de ações novas a imitação de outras existentes para casos análogos – ações ad
127

institutos, amplamente conhecidos da comunidade jurídica, dentre os quais a
fictio legis Corneliae
145
, postliminium
146
. “A ratio que é possível destacar no
caso da técnica própria da fictio legis Corneliae é evidentemente de natureza
operacional e perseguia a necessidade de perseguir a necessidade de
modificar a regra clássica considerada brutal.
147


12.7 Conforme veremos mais adiante, também no
trabalho de Carvalho, algumas pessoas em Roma poderiam sujeitar-se à
capitis deminutio maxima
148
, uma forma de aplicação do direito que fazia com
que a pessoa fosse considerada sem nenhuma capacidade jurídica, incluindo a

exemplum, como quando o Praetor reconhecia casos de damnum iniuria datum não previstos pela Lex
Aquilia de damno.
145 Fictio Legis Corneliae introduzida pela Lei Corneliae em 81 a.C. para evitar a capitis deminutio
maxima, ou seja, o status em que caia o cidadão romano preso pelos inimigos. A capitis deminutio
maxima podia render nulo o testamento já editado, portanto foi estabelecido – através esta fictio - que o
civis romanus tinha que ser considerado morto ao momento da sua captura, eliminando desta forma o
perigo de incorrer também no prejuízo de tiver que perder além da liberdade, também os próprios direitos
civis.
146 Por meio do postliminium o cidadão romano, ou civis romanus, que conseguia fugir à prisão do
inimigo – reversus ad hostibus – voltava em pátria reassumindo a própria condição de civis romanus ab
principio, ou seja, como se nunca a tivesse perdido.
147
Pag 5147 Veja-se, GAMBARO, Antonio. Finzioni giuridiche. Em Digesto. Torino: UTET, Ult. Ed.
147 O conceito de fictio iuris é evidentemente associado pelo direito romano à actio utilis. As actiones
utiles se referem à ações que são utilizadas para cumprir uma finalidade análoga, mas não idêntica, à
finalidade original: isso para poder disciplinar casos não previstos pelo ius civile. As actiones utiles
concretizavam, de fato, três diferentes modalidades de intervenção do Praetor: (a) a transposição de
sujeito, como titular de uma pretensão ou de uma obrigação, em outro, como titular do correspondente
titular do poder de sujeição. Veja-se o caso das actiones adiecticiae qualitatis, através das quais era
possível condenar o pater familiae ou o dominus ao pagamento dos débitos do filius ou do servus; (b)
fictiones iuris civilis, ou seja, considerar existente um requisito pedido pelo ius civile que, na verdade, não
existe; (c) a criação de ações novas a imitação de outras existentes para casos análogos – ações ad
exemplum, como quando o Praetor reconhecia casos de damnum iniuria datum não previstos pela Lex
Aquilia de damno.
147 Fictio Legis Corneliae introduzida pela Lei Corneliae em 81 a.C. para evitar a capitis deminutio
maxima, ou seja, o status em que caia o cidadão romano preso pelos inimigos. A capitis deminutio
maxima podia render nulo o testamento já editado, portanto foi estabelecido – através esta fictio - que o
civis romanus tinha que ser considerado morto ao momento da sua captura, eliminando desta forma o
perigo de incorrer também no prejuízo de tiver que perder além da liberdade, também os próprios direitos
civis.

148 A capitis deminutio indicava a perda de uma das qualidades jurídicas da pessoa: liberdade, cidadania
e posição familiar. Era possível distinguir esta perda de qualidades em máxima, media e mínima. A
maxima transformava o sujeito livre em escravo; a media determinava a perda da cidadania mesmo se
conservando a condição de liberdade do sujeito (a maioria dos casos era por efeito de uma sentencia de
condenação criminal); a minima determinava a perda da posição familiar.
128

proibição de servir, dispor sobre seus bens através do testamento. Referente à
lex Corneliae impunha que o soldado que fosse capturado pelo inimigo,
devesse ser considerado como se fosse morto, para que com isso não lhe
fosse aplicada a pena da capitis deminutio maxima e isso evitava que o
testamento dele fosse considerado nulo, quando já fosse formalizado. Outro
instituto também importante era o postliminium, que era uma forma utilizada
para que o cidadão que voltasse a Roma, pudesse ser considerado como se
nunca tivesse sido preso. Então, essa fictio legis Corneliae poderia considerar
vários acontecimentos como não ocorridos durante um determinado período,
porque assim protegia-se o cidadão romano, não se aplicando contra ele leis
que poderiam lhe trazer prejuízos e aplicar uma finalidade indesejada, se a
realidade fosse atendida pela lei de maneira não ficcional. Portanto fingia-se
uma situação diferente daquela real. Para se tirar os efeitos de uma lei,
aplicava-se uma outra lei para permitir o tratamento diferente do fato concreto a
uma determinada situação.

12.8 Marighetto nos traz ainda vários outros institutos que
eram utilizados pelos Romanos como: do bonorum possessor
149
que era
considerado como se fosse herdeiro para poder agir legitimamente em petitio
hereditatis
150
, e o do peregrinus
151
considerado como se fosse cidadão para
pode exercer a actio furti
152
e a actio legis Aquiliae
153
.

149 Indica a faculdade do Praetor de atribuir a quem tivesse apresentado pedido e tivesse determinadas
características não unicamente os bens objetos da herança, mas também a possibilidade de gozar de facto
da situação de sucessor, independentemente da titularidade.
150 Indicava a ação de reivindicação da herança contra todos os que prejudicassem os direitos adquiridos
pelo herdeiro em seguida à sucessão.
151 Com o termo peregrini, indicavam-se os estrangeiros, ou seja, os que não eram nem romanos nem
latinos.
152 L´actio furti era uma ação do cidadão instituída em época clássica para tutelar quem sofria um furto.
Em caso de vitória, era estabelecida uma condenação pecuniária do ladro.
129


12.9 Nas experiências de Common Law, um modelo
mundialmente utilizado é a ideia que começou a ser desenvolvida entre os
séculos XIV e o XVII que foi o instituto do trust
154
, aplicado plena e
mundialmente hoje, mas que foi inaugurado com objetivo ou finalidade de
aceitar que um bem estava na posse de uma outra pessoa que era o trustee,
com objetivo de salvaguardar os bens do titular de fato. No direito brasileiro, a
figura do trust pode ser vista a partir do instituto do contrato de Fideicomisso,
Depósito ou do Agente Fiduciário, embora careça ainda, em face dos exemplos
americanos de trust de uma criação efetiva e confiável do instituto.

12.10 Outro paralelo traçado pelas ficções como uma
forma de reinventar o real ou realocar o direito, vinha por meio da
argumentação que consistia no valor retórico da argumentação fática e jurídica,
de forma a enquadrar o direito de uma forma mais adequada, superadas que
fossem as tentativas anteriores, através da aplicação dos outros institutos
ficcionais previstos no direito romano. Metodologia mais dura, sendo que a
ficção age manipulando diretamente e profundamente os pressupostos fáticos
de aplicação de uma determinada regra normativa. A argumentação jurídica
lida, no direito romano, como uma forma de ficção; visava a dar ao aplicador do
direito, ao fato concreto, um elemento racional discursivo que pudesse fazer
com que o fato em julgamento fosse enquadrado de uma forma mais

153 Foi introduzida no ordenamento jurídico romano pela Lex Aquilia de damno (III sec. a.C.) e era uma
ação criminal proposta pelo prejudicado contra o danificador.
154 Veja-se entre a principal literatura sobre o trust: HUDSON, Alastair. Equity and Trust. London:
Cavendish Publishing, 2003; HANSMANN, Henry; MATTEI, Ugo. The functions of trust law: a
comparative legal and economic analysis. NYU Review n. 78, 1998, p. 434 e ss.

130

adequada, superando-se as dificuldades de interpretação, ou seja, a
argumentação reinventava o fato ou reinventava a interpretação da norma.
Quando verificamos o tema “argumentações jurídicas” estamos introduzindo
uma espécie de técnicas racionalmente praticadas há muito tempo pela
Jurisprudência Ocidental. Mais uma vez o argumento da criação racional.
Atualmente, as técnicas de argumentação jurídica deram espaço a um
procedimento um pouco mais formal, o que não deixa de ser a criação formal e
sistemática de ficções, como veremos, mas, do ponto de vista histórico, o tema
das argumentações jurídicas pode ser avaliado como um aspecto operativo
que é a argumentação em si, e outro é método que os antigos utilizavam para
resolver questões que se apresentavam diante deles naquela época.

12.11 Para Marighetto, as ficções jurídicas
[...] são utilizadas para justificar o dinamismo e a evolução do próprio
direito. O processo histórico que brevemente tratamos neste estudo,
evidencia como desde a época dos Romanos o uso da técnica das
ficções concretizou uma metodologia capaz de integrar aquela
disciplina normativa (ritual) incapaz de regulamentar situações não
reconhecidas pelo ordenamento jurídico. Em particular e não a caso,
o recurso à utilização da técnica das ficções se refletiu principal e
originalmente pela própria jurisprudência dos Praetores e pela
atividade dos juízes de Common Law.
155
.

12.12 Marighetto justifica a teoria de Vaihinger como uma
necessidade em face da sociedade contemporânea privilegiar a substância das
coisas, porque para ele “justificando através a doutrina do “como se”,
elementos e conceitos que, apesar de serem evidentemente frutos da
criatividade do pensamento, no momento em que são aceitos como produtivos
de efeitos, adquirem plena legitimação e produtivos de efeitos jurídicos.”
156


155
P. xx.
156
P. xx.
131


12.13 A já citada chamada “fictio legis Corneliae do
postliminium”, permitia que se considerasse uma forma de morte em prisão
Como Se tivesse ocorrido de outra forma. Dita Lei estabelecia que o cidadão
morto na prisão fosse considerado falecido no momento em que caísse nas
mãos do inimigo, e o postliminium autorizava considerar como nunca
acontecido o período de prisão do cidadão que conseguisse voltar para sua
pátria, serviram de exemplo de como era possível revogar uma norma sob
protesto de seu acontecimento. Ou seja, havia uma ficção ou um artifício para
resolver um problema que se queria que fosse considerado não como era, mas
sim como se fosse de outra forma.

12.14 É isso que Vaihinger vai denominar de Ficções
Jurídicas, ou seja, um mecanismo “psicológico de sua aplicação consiste em
que um caso singular é submetido em uma construção de representação não
destinada a ele, ou seja, uma apercepção meramente analógica.”
157
A lei
nunca poderá enquadrar um caso em suas fórmulas e, então, o que ocorre é
que em determinadas necessidades o faz Como Se isso fosse aquilo, sempre
em razão de um interesse prático. Sempre são artifícios úteis para a prática
jurídica. A Lei nunca é feita para um caso, mas para uma forma geral de como
as coisas acontecem e a ficção destina-se ao fato específico, dada a
impossibilidade de alcance da lei ao fato em si.


157
P. 90.
132

12.15 Os campos mais férteis para utilização e utilidade
das ficções são a matemática e o direito. Sendo claro que o ambiente mais
propício para utilização das ficções é o mundo da prática jurídica. É a utilização
das regras da arte do pensamento que vai propiciar a criação de artifícios
jurídicos para que o direito possa exercer sua função de solucionar casos,
mediante mecanismos produzidos pelo pensamento e seus artifícios. Na ficção
jurídica, o que não aconteceu pode ser considerado como acontecido, sendo o
direito romano, citado por Vaihinger, permeado por uma enormidade de
ocasiões onde se prova a utilização desse método.

12.16 No mundo jurídico será muito forte presença da
Ficção Jurídica e da Presunção. Por presunção compreendemos, através da
leitura de Vaihinger, que se trata de hipótese, ou seja, sempre há o
acontecimento real como possível, enquanto as ficções o acontecimento real
não importa se existe ou não. Sendo a primeira – ficção jurídica – uma
invenção intencional consciente, que trata algo que não existe como se
existisse, ou dá cabo de solução a algo que não poderia existir, porém existe e
deve ser tratado pelo mundo jurídico. Um Exemplo clássico de ficção jurídica
citado por Vaihinger é:
As vantagens práticas desse método são tão grandes que ele é
constantemente usado, por exemplo, no novo código alemão do
comércio. Tal código, como no artigo 347, determina o seguinte: se
uma mercadoria não é novamente posta em tempo hábil à disposição
do remetente, ela deve ser considerada como se tivesse sido
definitivamente autorizada e aceita pelo destinatário.
158


12.17 Isto facilita a apreensão de soluções
produtivas, que seriam impossíveis, caso não se utilizasse de uma apercepção

158
P. 92.
133

analógica. Nesse caso, o comportamento da psiquê é idêntico, ou seja, revela
um procedimento natural que através de um pensamento, sem essa técnica de
artifício, seria impossível chegar-se a uma solução, atribuindo-se uma realidade
a todas as atividades lógicas, até quando sua não realidade é comprovada. Ou
seja, não existindo algo real, seja comprovado de forma ficcional.

12.18 A fim de compreender melhor essa questão,
se faz necessário percorrermos, em somatório complementar aos conceitos de
Vaihinger, a obra recente de Carvalho,
159
de onde se depreende a Teoria Geral
das Ficções e da Verdade dos Fatos. A existência das ficções é um fato.
Independentemente, se virmos a partir do pensamento ou do fato da realidade
linguística. De uma forma ou outra, enfim, seja a partir do processo de
pensamento, vinculado à vontade, à qual se escraviza o pensamento, seja a
partir de sua realidade linguística, através da qual se fazem presentes – se
representam ou se apercebem - as ficções jurídicas, são consideradas,
segundo alguns autores da teoria do direito, como sendo “entidades puramente
linguísticas, não tendo existência concreta, localizável no tempo e no espaço.”
160


12.19 O que seriam então? Podemos discorrer como
sendo produtos de culturas, figuras linguísticas que teriam a função de
desconsiderar a realidade para atingir a um propósito determinado, embora,
insistimos, a figura linguística não é a ficção, porque esta a antecede, mas,
compreende-se a figura linguística como representação daquilo, ou seja, do

159
CARVALHO, Cristiano. Ficções jurídicas no direito Tributário. São Paulo: Editora Noeses, 2008.
160
Id., Ibid., p. 67.
134

que lhe antecede. É um elemento de discurso cuja finalidade é desvincular a
linguagem da realidade, tudo para obtenção de fins práticos. É um modo de
discurso ou, na linguagem de Alf Ross,
161
seriam todos os objetos ideais, como
entidades lógicas, matemáticas, ideias, conceitos, juízos, ou “according to
Vaihinger, fiction, alongside hypotthesis, is a useful and necessary instrument
for all scientific”.

12.20 No direito, o processo de verificação da verdade vai
ocorrer pelo meio da coleta de provas, através do que o operador do direito
junta os elementos linguísticos suficientes para enquadrar o fato ao sistema
jurídico vigente. Fixemos que essa concepção de verdade, para Vaihinger, é
formulada a partir de Nietzsche, como sendo a verdade uma
[...] multiplicidade incessante de metáforas, de metonímias, de
antropomorfismos, em síntese, uma soma de relações humanas que
foram poética e retoricamente elevadas, transpostas, ornamentadas e
que, após um longo uso, parecer a um povo, firmes, regulares e
constrangedoras (...) ilusões cuja origem esta esquecida, metáforas
que foram usadas e que perderam sua força sensível, moedas nas
quais se apagou a impressão e que desde agora não são mais
consideradas como moedas de valor, mas, como metal.
162


12.21 Conceber a verdade dessa forma, ou seja, na
forma de ficção, cria uma espécie de libertação, tornando, mais uma vez, as
coisas mais fáceis e mais práticas, sem sofrimento de se saber de qual
verdade estamos falando. Isto porque, quando o homem elabora a verdade a
partir de ficções, as representações deixam de ser imagens e passam a figurar
elas mesmas, ou seja, as representações passam a ser o próprio

161
Citado por Carvalho, p. 67. Para Vaihinger, ficção ao lado de hipótese é um instrumento útil e
necessário para todas as áreas científicas.
162
KRAUSE, p. 95.
135

acontecimento.
163
Essa compreensão torna-se importante para se
compreender o funcionamento das ficções no direito e seu conceito como
ferramenta ou artifício. Ou seja, compreender que a representação passa a ser
o próprio acontecimento facilita o entendimento do conceito de Vaihinger de
que a ficção jurídica é a submissão de um caso singular a uma construção de
representação, não destinada ao fato, mas uma apercepção meramente
analógica.

12.22 Como no exemplo do direito tributário, trazido na
obra de Carvalho, o operador vai ao encontro de elementos probatórios para
enunciar um fato jurídico tributário como ensejador de uma obrigação tributária,
ou seja, um dever do contribuinte pagar o tributo.
164
Porque o processo de
verificação da verdade ocorre a partir daquilo que chama de Teoria das Provas.
“é através da formação das provas que o operador do direito reúne elementos
lingüísticos suficientes para enunciar um fato jurídico”.
165
Nesse ramo do
direito, a qualidade das provas deve ser altíssima para o fim de legitimar a
autoridade a exigir de alguém o tributo. Dentro das teorias da verdade, a busca
da verdade por correspondência, é considerada por Carvalho, “como a única
noção possível da verdade”,
166
para que, através dessa pactuação seja
possível compreendermos, do ponto de vista jurídico, os conceitos de mentira,
erro e ficção. E, se a ficção é vista a partir dessa forma, há um como se aquilo
existisse ou como se aquele fato pudesse ser descrito, como solução final,
daquela certa forma, sem o qual, ou seja, sem o exercício dessa forma de

163
KRAUSE, p. 95.
164
CARVALHO, P. 111
165
P.111
166
P.111
136

criação artificial, a solução prática não seria possível. É aqui que a
representação vira o próprio acontecimento, como diz o professor Carvalho,

[...] a verdade a respeito de algum estado de coisas, não depende da
vontade ou da crença do indivíduo, nem tampouco é condicionada a
preconceitos, ideologia, cultura, economia, relações de classe,
sociedade ou linguagem. Ao mesmo tempo em que a linguagem não
constitui a verdade em relação aos eventos e estado de coisas
provindo da realidade exterior, sua descoberta não é, ao menos
necessariamente influenciada por fatores culturais e sociais. A
descoberta da verdade pode, e muitas vezes o faz, contrariar
crenças, culturas, preconceitos e desejos do sujeito cognoscente.
167


12.23 Ou seja, a verdade para o mundo da operação
jurídica, às vezes, vai contrariar o próprio desejo do sujeito, mas, sem isso, ela
não alcançaria seu ideal de atingir uma finalidade, que consistirá na solução ou
apaziguamento do conflito juridicamente instalado. Importante reiterar a
importância das ficções jurídicas porque o direito não contém fatos, e sim
enunciados sobre fatos, que vão implicar em direitos e obrigações, e a forma
da descrição desses fatos irá ao fim da imputação normativa. Quando uma
testemunha mente em juízo e o acusado é condenado, para o ponto de vista
jurídico, o correto é dizer que o acusado cometeu o crime, então, a ficção
jurídica das provas de que algo ocorreu, pode ser falsa, enganosa e precisa,
mas é disso que vive o direito, porque é a descrição provada de certos fatos
que acarretará a imputação, devido à natureza da manifestação linguística do
direito. O Direito no mundo prático vive das representações como próprios
acontecimentos e não reflexo do “ser”.

12.24 Os fatos jurídicos somente vão pertencer ao
mundo do direito se forem correspondentes aos enunciados jurídicos. Obter

167
P. 112
137

renda significa pagar imposto de renda, e o fato de alguém obter renda
pertencerá ao mundo jurídico porque o enunciado jurídico assim o descreve
como relevante. Se matar alguém é crime e se uma testemunha assim
afirmou, o fato vai se enquadrar no esquema de imputação jurídica do
enunciado para aquele fato. Porque “O Acontecimento é um fato e a
confirmação se dá pela correspondência entre o enunciado contido no
antecedente da regra individual e a realidade. O processo para confirmar o
efetivo acontecimento dá-se por meio das provas.”
168


12.25 Em 1893, 25 de dezembro, ou seja, um pouco
antes da publicação oficial da obra de Vaihinger
169
, a Harvard Law Review
170
,
publica um artigo interessante sobre se as ficções jurídicas seriam úteis ou
prejudiciais ao próprio crescimento da sociedade e da economia. Havia duas
conclusões diametralmente opostas, qual seja, uns posicionavam-se
completamente contrários, considerando-as como um mal escandaloso,
enquanto outros se posicionavam como sendo uma grande glória do direito e,
como sabemos, Bentham era aquele que se posicionava absurdamente
contrário. Ele entendia que os juízes que criavam ficções deveriam ser
enviados para a cadeia. Todavia não se apresentavam soluções eficazes a
essa crítica da existência da legislação judicial e da aplicação da ficção pelo
juiz, o que somente deixaria de ser um problema com o atingimento de

168
P.124.
169
A primeira publicação oficial é de 1911, mas, Vaihinger já vinha trabalhando com a formulação dos
seus pequenos textos sobre a teoria, desde 1870, e pelo que se observa na história trocou textos e ideias
com muitas pessoas, inclusive com Einstein, conforme se verifica numa carta enviada a ele por Einstein, e
as ficções jurídicas já eram combatidas há tempos por Benhtam.
170
Harvard Law Review, Vol VII, 25 de Dezembro de 1893, artigo assinado por Oliver R. Mitchel
138

maturidade da lei, quando todos os princípios tivessem sido demarcados como
normas, aí sim, elas deixariam de ser úteis.

12.26 Nessa esteira de amadurecimento da lei, para
tornar as ficções menos úteis, foi o positivismo jurídico que se abstraiu de
construções conceituais vagas e conseguiu chegar ao movimento puramente
científico, especialmente as obras de Hans Kelsen – Teoria Pura do Direito.
Isso levou o direito a se transformar em um sistema que se impõe por atos de
comunicação, ou seja, o direito é essencialmente escrito, sistematizado em
regras que obedecem a determinados princípios criando seus enunciados. E
daí surge o elemento mais importante no direito que é a Norma, segundo
Carvalho, definida como “norma são atos de fala, cuja finalidade ilucionária é a
diretiva. A direção de ajuste é considerando de forma ampla, a mundo-palavra,
ou mundo norma.”
171


12.27 Através de seus mecanismos, o direito exercerá a
sua função de calibrador da ordem social e, portanto, suas normas ou
mensagens linguísticas serão eminentemente ordens. Toda a Norma tem força
diretiva. O Direito é composto de outro elemento importante também que são
os princípios, ou seja, enunciados atômicos contidos no dispositivo legal ou
acima deles. É, como disse Kelsen, uma ideia, um como se. Lê-se a norma
como se ali estivesse contido um determinado princípio. Os princípios são
traduções axiológicas, de valores supremos ou sociais internalizados pelo
legislador constituinte como uma ideia de que há uma suprema ordem fictícia a

171
P. 162.
139

ditar como as coisas devem ser. É o que dá vapor à autogeração das normas
jurídicas, escapando-se da legislação judicial. Na ideia de constituição, Kelsen
desenvolveu a ideia da Norma Hipotética fundamental, que seria apenas uma
ideia, um Como Se, em suas próprias palavras:

[...] uma autêntica ou verdadeira ficção no sentido da filosofia do
Como-Se Vaihingeriana.... (sic) Por conseguinte, é de se considerar
que a norma fundamental no sentido da Filosofia do Como-Se
Vaihingeriana não é uma hipótese – como eu mesmo ocasionalmente
a qualifiquei – e sim uma ficção que se diferencia de uma hipótese
pelo fato de que ela é acompanhada pela consciência, ou digo, deve
ser acompanhada; pelo fato de que a realidade não lhe
corresponde.
172


12.28 Essa ficção chamada de norma hipotética
fundamental era algo, Como Se, existisse outra norma acima de todas as
outras que autogerisse a forma de legislar e aplicar o direito de forma positiva,
tirando do juiz a liberdade de agir e de aplicar ficções, baseando-se, como
assim dizer, numa ficção suprema e superior a todas as normas que dirá como
agir a partir disso e não a partir da discricionariedade do magistrado, como
ocorria anteriormente, impedindo o uso indiscriminado e, ao mesmo tempo,
permitindo o progresso jurídico em favor daqueles que lutavam contrariamente
ao uso indiscriminado das ficções pelos juízes. Comparável ao início dos
estudos de Vaihinger, em paralelo ao processo de pensamento, seria a própria
função orgânica do sistema legal, assim como a função orgânica da psiquê,
que autogeraria a reprodução de normas e decisões, de acordo com a
finalidade do direito.


172
KELSEN, Hans. Teoria Geral das Normas. Trad. José Florentino Duarte. Porto Alegre: Fabris, 1986,
p. VIII e IX.
140

12.29 Nesse caminho entre regramento social, princípios e
normas, o direito sempre se utilizou do mecanismo de ficções, como função
essencialmente prática para que os efeitos jurídicos pudessem ser atribuídos
de forma concreta. Como dito, na Roma antiga já se utilizavam dos elementos
de ficções jurídicas, cuja origem era o fingire, finta. Em Roma, eram
empregadas essas expressões tanto no significado de ficção mesmo ou no
significando uma simulação.

12.30 O Direito Romano tinha origem extremamente rígida
e poucos procedimentos específicos, de forma que o enquadramento do fato
ao enunciado jurídico nem sempre se fazia possível, portanto, por ocasiões
diversas era impossível dar a solução devida. Como solução a isso, fortaleceu-
se o uso das ficções como facilitador desse processo. Casos clássicos de
pessoas que não eram cidadãos romanos, portanto não sujeitos às leis
romanas, mas, se fossem pegos diante de um fato de furto, eram julgados
Como Se fossem cidadãos romanos.

12.31 Ainda, em Roma, como verificamos em items
precedentes, havia a figura da captio diminutio, em que ocorria a alteração da
personalidade jurídica de uma pessoa, conforme determinadas causas, sendo
máxima quando caracterizava a perda do estado de liberdade, média quando
se perdia o status de cidadão e mínima quando apenas se alterava o estado de
família, ou seja, alguém vivia com um Como Se. Quando alguém perdia sua
capacidade de liberdade ou de família, não poderia ser responsável pela dívida
que contraísse, assim, havia casos em que os juízes aplicavam uma ficção
141

para que essa diminuição da capacidade fosse vista Como Se não existisse
perante o credor, para que o credor pudesse cobrar a dívida.

12.32 Os escravos, na Itália, não possuíam status de
liberdade ou não eram considerados como cidadãos. Para tanto, caso
ocorresse a alforria ainda sem possuir personalidade jurídica, ou seja, ainda
eram considerados “coisas”, então, viviam Como Se fosse Cidadão Livre.
Assim como no exemplo citado por Costa,
173
no qual o bebê, ainda no ventre,
tinha já o status de cidadão romano, antes mesmo de nascer e o seu
procurador administrava os bens como se fosse seu.

12.33 Carvalho
174
cita vários outros ordenamentos jurídicos
extremamente influenciados pelo direito Romano, que se utilizavam e se
utilizam das ficções, sendo que nas universidades de Oxford, Toulouse,
Salamanca, Bolonga e Òrleans a disciplina ficção era obrigatória, inclusive no
que se refere à forma de aplicação das ficções. Posteriormente, as ficções
foram aplicadas no direito europeu sempre com vistas a atender uma finalidade
que era a igualdade. Na Inglaterra, por exemplo, todo roubo acima de um
determinado valor levava o criminoso à morte, então os Juízes ingleses,
useiros das ficções, consideravam todos os crimes por maior quantia que
fosse, Como Se fosse inferior a determinada quantia, para que ninguém fosse
condenado à morte.


173
COSTA, Delphine. Les Fictions Juridiques em Droite Administratif. Paris: Librairie Géneérale de
Droit ET Jurisprudence, 2000. Pag 7.
174
CARVALHO, Cristiano. p. 216.
142

12.34 No Brasil da escravidão, um exemplo
pitoresco era da morte simbólica de um escravo, conhecida como “Execução
em fígie, uma ficção utilizada no Brasil, até o fim do século XIX, para simbolizar
a execução de escravos fugidos; de modo a expressar inequivocamente a
perda do status de vivo do escravo, um boneco era colocado em praça pública
e era enforcado.”
175


12.35 O Instituto das Ficções, no período Iluminista,
passou a ser questionado especialmente porque, para alguns, era considerado
como forma de criação de falsidades legalmente consentidas, e isso era
contraditório com a busca insaciável da verdade racional do período. O crítico
mais importante desse período, como já vimos, foi Jeremy Bentham. Ele
entendia as ficções como arbitrárias de uma classe jurídica corporativista do
século XVIII, na Inglaterra. Esse corporativismo, para ele, tinha como
beneficiários os advogados, juízes e todos aqueles que trabalhavam em função
do direito.

12.36 Para ele o que resolveria o problema do abuso da
utilização das ficções seria consolidar todas as leis numa forma escrita, ou
seja, mediante a Codificação, porque entendia que isso seria uma forma de
fugir do arbítrio interpretativo na aplicação das ficções jurídicas e retirar do
meio a ideia de incerteza que permeava o já citado mundo jurídico.

Ainda que Benhtam tenha corretamente identificado as ficções como
elementos puramente linguísticos, tinha-lhes grande antipatia.
Algumas de suas metáforas para designá-las eram “hálito pestilento”

175
CARVALHO, P. 217
143

“Sifilis jurídica, “brinquedo para crianças”, “modo pernicioso e vil de
mentira”, ou como frases de efeito como “o que tens feito com a
ficção?” “poderia tê-lo feito sem a ficção” Se não, sua ficção é vil
mentira, se sim, então é uma mentira tola.
176


12.37 Em algumas brincadeiras sobre ficção, Bentham
costumava dizer que se alguém procurasse um advogado para dizer que um
título de crédito foi forjado contra ele, então, que a recomendação do advogado
deveria ser de forjar, dessa forma, e com a mesma razão ficcional uma
quitação contra o credor. Ele banalizou a ficção. Contrário às críticas de
Bentham, acerca das ficções, posicionava-se o Juiz Inglês, Sir William
Blackstone
177
, importante jurista e parlamentar. Ele utilizava-se das ficções e as
adotava, justificando-se que seria um meio de atingir um objetivo de equidade e
de fazer com que as decisões fossem tomadas na direção mais prática, ou
seja, através da utilização das ficções, a operação do direito se tornava mais
eficaz. A defesa de Blackstone relativa às ficções era que o limite de sua
utilização era a criação de um dano. “Sua verdadeira condição operativa seria
de prevenir um mal ou remediar um inconveniente que poderia resultar de uma
regra geral do direito.”
178
Como visto anteriormente, é exatamente a regra geral
do direito, partindo do pressuposto de que não há lei para todos os casos é que
a Inglaterra e alguns países utilizavam-se do instituto das Ficções, mais tarde
sistematizado em Teoria das Ficções por Vaihinger, na qual as ficções jurídicas
são uma parte pequena se comparada com o restante de sua obra.


176
CARVALHO, citando Jeremy Bentham.
177
A obra de Blackstone mais criticada por Bentham era Comentaries on the Laws of England.
Havia um capítulo específico onde ele falava sobre os dois corpos do Rei, que é imortal ,
porque legalmente não pode morrer – ou não pode ser menor de idade, ou que não somente é
incapaz de errar, sendo que sequer pode pensar o mal, ou conceber uma ação indevida: nele
não cabe nenhuma loucura ou nenhuma debilidade. Ademais o Rei é invisível, seu estado é de
absoluta e sobre-humana perfeição.
178
P. 219.
144

12.38 O Rei, enquanto “Estado” é uma figura jurídica
ficcional que não se confunde com a pessoa carnal do Fulano de Tal, em
estado de rei. Raciocínio que Bentham considerava impossível e ainda
considerava todas essas construções como falsidades e mentiras absurdas.
Perez Ayala
179
definiu recentemente, em obra de 1969, que as ficções jurídicas
seriam “uma valoracion jurídica contenida em um precepto legal, em virtud de
la qual se atribuyem a determiados – o determinado – supuesto de hecho unos
efectos jurídicos, violentando o ignorando sua naturaleza real”. A Crítica de
Carvalho à definição de Perez Ayala é que ele não conseguiu diferenciar em
sua obra as ficções de hipótese que, como vimos, são concepções diferentes,
embora muito aproximadas e, ao mesmo tempo, as ficções não ignoram a
natureza real, elas simplesmente não a consideram, porque não pode ser real,
porque se houver a possibilidade de ser real, não é ficção, e sim hipótese.

12.39 A finalidade das ficções, lembrando que as ficções
somente existem e são autorizadas em razão de uma finalidade prática, é de
facilitar, integrar lacunas, resolver problemas não possíveis pela regra geral do
direito, ou dar a uma situação solução no campo prático sem causar dano a
alguém. Uma definição mais próxima e justa daquilo que se permite é a do Jus
Filósofo Belga, Chaim Perelman
180
que considera as ficções como

Técnicas utilizadas pelo juiz de forma a se contrapor à realidade
jurídica quando por alguma razão as categorias ou as técnicas
jurídicas reconhecidas, aquelas que fazem parte da realidade jurídica
aceita, não fornecerem solução aceitável ao problema de direito que

179
PEREZ DE AYALA, José Luiz. Las Ficciones en el derecho tributário. Madrid: Editorial de Derecho
Financieiro, 1969, p. 15.
180
PERELMAN, Chaim. Présomptioms ET Fictions em Froite, essai de synthése, Bruxeles:
Etablissements Emile Bruylant, 1974, p. 348.
145

se deve resolver (...) disposição disforme cientemente à realidade
jurídica.

12.40 Sempre a disposição de resolver um problema que
as regras normais do direito não dão conta, mas os operadores precisam
chegar ao final. Cristiano Carvalho,
181
dentro do campo do direito tributário,
mas sempre com o olhar filosófico, define a ficção jurídica como sendo um ato
de fala
A ficção jurídica é um ato de fala, que propositadamente não vincula
algum aspecto da regra à realidade jurídica, à realidade institucional
ou à realidade objetiva, de modo a assim, poder gerar efeitos que não
seriam possíveis de outra forma. A ficção jurídica é, portanto, uma
desvinculação normativa entre o real e o direito.

Esse conceito de Carvalho como Ato de Fala, coloca a ficção no campo da
linguagem, mas, embora nossa dissertação tenha desviado a atenção deste
embate – podemos esboçar que nossa leitura da obra de Vaihinger nos
autoriza a conclusão de que a questão da linguagem vem depois que o artifício
da ficção é processado. Compreender como ato de fala, talvez seja visualizar o
direito como sistema cem por cento positivo, constituído somente de leis
escritas e então, possivelmente as ficções jurídicas estariam já representadas
pela linguagem dentro do próprio sistema, o que parece não ser a conclusão de
Vaihinger, mas, não é essa nossa preocupação nessa pesquisa, e mantemos o
registro tão somente para dissipar possíveis dúvidas ou perquirições acerca do
tema.

12.41 Kelsen sempre admitiu a utilização de ficção jurídica
para os casos que os outros juristas chamavam de lacunas da lei, que para ele
não existia. Mas a sua ficção jurídica autêntica era aquela do próprio Vaihinger,

181
Pag 222
146

partindo-se do seu texto, já mencionado, que se distinguia da hipótese, porque
deve ser acompanhada da consciência, como disse Vaihinger, como uma
criação de arte de pensamento porque não há correspondência da ficção com
a realidade.
182
Vaihinger afirma que a ficção seria um recurso do qual o
pensamento vai se servir, caso não se possa de outra forma alcançar a
finalidade exigida com o material disponível. Então, como Kelsen falava de
Norma Fundamental, a finalidade do pensamento dele era dar fundamento de
validade às normas instituidoras de uma ordem jurídica, e isso somente seria
possível através de uma ficção. Assim, a ficção para ele, era uma forma de a
norma fundamental atingir o objetivo de dar validade ao sistema de normas.

12.42 Para ele, a lacuna existia apenas quando uma
norma jurídica fosse considerada indesejável pelo órgão jurídico, afastando-se
a aplicação do direito vigente. Ele entendia que o direito positivo deveria estar
coberto por todas as normas jurídicas.
183
Segundo Carvalho, Kelsen
efetivamente não admitia a existência de uma lacuna, porque, se do ponto de
vista do direito escrito, o positivismo jurídico já conhecido, não há uma
proibição nem uma obrigação, logo a conduta seria permitida.
184
Logo, julgar
um caso nesse ambiente a partir da utilização dos costumes, seria utilizar a
ficção para tal, o que seria o tribunal decidir em um determinado caso, não de
acordo com a lei vigente ou mesmo que ela não tratasse especificamente da
proibição ou negação daquele fato social, mas sim de acordo com a livre

182
Ver nota 19 e 111
183
KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. Trad. João Batista Machado. São Paulo: Martins Fontes,
1996b, p. 274.
184
P. 228.
147

apreciação do magistrado. Porém dar ao magistrado esse chamado excesso
de poder para julgar, poderia ser prejudicial à democracia.

12.43 Em contrapartida a essa posição positivista de
Kelsen, aparece o filósofo americano do Direito, Ronald Dworkin
185
, que faz um
forte ataque ao positivismo americano, utilizando-se sempre, como exemplo,
um famoso caso de um assassino do avô que, após ser condenado pelo crime
receberia a herança do próprio avô. Na forma explicada por Kelsen, se o
direito americano nada dizia sobre um assassino receber a herança da vítima,
não é porque haveria uma lacuna, e sim porque era permitido que recebesse.
No caso citado por Dworkin, o juiz de primeira instância entregou a herança ao
assassino, porém a decisão foi revertida pela corte superior, uma vez que
utilizaram o argumento de que o neto iria se beneficiar da própria torpeza.
Embora Dworkin não mencione, nossa compreensão é de que essa forma de
promoção do julgamento, nada mais é que anteceder-se por uma ficção, para
depois aplicar um princípio, que foi o que ocorreu, em nosso entender, porque
teria sido aplicado um artifício inexistente como se ele não tivesse direito à
herança daquele que assassinou, e para ele isso somente foi possível porque
as regras positivas são falhas, porque são um tudo ou nada e são incapazes de
resolver certos problemas.

12.44 Nesse caso, então, essa espécie de
julgamento seria uma técnica ou artifícios – ficções – utilizados pelo juiz para
que os procedimentos judiciários se tornassem possíveis, visto que eles não

185
DWORKIN, Ronald. Taking Right Seriously, 16ª ed. Cambridge: Harvard University Press.
148

têm o poder de modificar a lei, e julgam como se a Lei fosse ditada daquela
forma, ou ainda acreditando-se na ideia de uma “lei abstrata”, existente apenas
na ideia ou uma mera ficção. Todavia esse tipo de aplicação da jurisprudência,
ou seja, do julgamento de acordo com o entendimento da corte ou do próprio
juiz, parece-nos possível somente quando a ideia é se fazer o bem, como dito
anteriormente, e nunca de piorar uma situação. Por exemplo, não poderia ser
utilizada a mesma técnica para condenar alguém, ou especificamente no caso
do direito brasileiro tributário, para fazer alguém pagar mais imposto como se
tivesse obtido mais renda.

12.45 O Direito tributário vai trabalhar com a espécie
de tipologia fechada e entendemos possível concluir que as ficções somente
serão possíveis em casos específicos ditados pela própria lei positiva, não
tendo o juiz a liberdade de articular fora dos limites da rigidez da tipicidade
tributária. Importante observar que, do ponto da leitura que fizemos de Hans
Vaihinger, não poderíamos afirmar que as ficções são figuras de linguagem ou
são linguagem e nem podem com elas ser confundidas, porque apenas se
manifesta através dela. Nem mesmo podemos dizer que as ficções jurídicas
estariam inseridas na questão da persecução da verdade jurídica,
186
porque

186
A verdade absoluta para o Direito é inatingível. Uma vez ocorrido o fato, ainda não é possível para o
homem retornar no tempo e revivê-lo em sua plenitude, verificando in loco a verdade absoluta, a
"verdade" dos fatos. Assim, o Direito busca alcançar a melhor DESCRIÇÃO desse fato. Como um único
objeto pode ser descrito de infinitas formas, o mesmo ocorrerá na descrição dos fatos. O ato de "julgar"
significa então valorar os fatos ocorridos no passado da melhor forma possível e aplicar a Lei vigente à
época de sua ocorrência. É por isso que, no Direito, a verdade se distingue em "formal" ou "jurídica",
"material" ou "substancial" e "absoluta". Uma vez inserida no processo judicial, a verdade absoluta é a
utopia, a verdade material é o objetivo mas é a verdade jurídica - que se utiliza das inúmeras ficções,
presunções e preclusões inseridas no Direito - é que é aplicada na prática, pois raramente admite ser
possível atingir sequer a verdade material, considerando os limites e o arcaísmo do processo judicial
disponível ao cidadão até o século XX. Em alguns "tipos" de processo (Processo Civil, p. ex.) a Verdade
Formal tem status de "Princípio Jurídico". Atualmente, porém, estão surgindo fortes movimentos
doutrinários para que não se admita mais a aplicação da Verdade Jurídica como regra, mas apenas como
rara exceção, pois a evolução do mundo moderno já provê a sociedade de instrumentos mais eficazes para
149

novamente a verdade ou a realidade não importa para a regra de ficção, e sim
a finalidade e a vontade. A utilização da palavra verdade aqui é no sentido real
do acontecido no mundo dos fatos. Se alguém matou ou não matou alguém. E
a verdade jurídica será uma constatação linguística, uma vez que o processo
vai se desenrolar através de comunicação e coleta de provas. As ficções não
serão verdades ou mentiras porque se desvinculam dessa correspondência.
Sempre que uma ficção for criada, ela será por si só a desconsideração de
qualquer porção de realidade.
187
A forma mais simples, embora brejeira, de
dizer sobre as ficções é que para as ficções não importa a realidade.

12.46 A finalidade atendida na utilização da ficção,
no direito, será a de obter um resultado jurídico que seria impossível ser obtido
através da perquirição daquilo que se chama em Direito “Verdade Real ou
Verdade Processual”, e sim independentemente disso dar a condição devida
ao fato que repercute no mundo jurídico. Uma pessoa jurídica pode ser julgada
Como Se fosse uma pessoa natural para que a norma incida daquela forma,
independente de perquirir se isso é verdadeiro ou falso, do ponto de vista do
fato ou jurídico. Uma pessoa jurídica, por exemplo, poderá ser considerada
Como Se fosse uma pessoa natural, para fins de condenação de um crime
ambiental, e uma pessoa natural pode ser considerada Como Se fosse uma
pessoa jurídica, para fins de pagamento de encargos trabalhistas. O que se
observa é que, quando é para punir, a ficção deve ser autorizada pela lei, já
quando é para beneficiar, fica ao livre arbítrio do juiz. Nossa compreensão

a apuração da verdade de fatos ocorridos no passado. Sobre esse aspecto, ver TARUFFO, Michele (La
semplice veritá. Il giudice e la construzione dei fatti. Bari: Lazerta,2009) e MACEI, Demetrius Nichele
(A verdade material no Direito Tributário. in Revista Forense. v. 392. Rio de Janeiro: Forense, 2007).

187
Carvalho, p. 241.
150

naquele caso, citado por Dworkin, não é que o juiz americano prejudicou o
herdeiro assassino, mas, sim, porque beneficiou os demais membros da
família, porque ele teria sido o herdeiro com maior proporção no quinhão, caso
a decisão não fosse alterada.

12.47 A ficção do ponto de vista da comparação
com a Verdade Jurídica
188
, que com ela não se confunde, tem um exemplo
clássico no direito brasileiro, que se chama desconsideração da realidade
objetiva, no caso dos navios e aeronaves que são, do ponto de vista da
realidade objetiva, bens móveis, mas, para efeitos de garantias hipotecárias,
são considerados Como Se fossem bens imóveis, conforme artigos 1473 do
Código Civil Brasileiro. Outro caso é a existência temporal de uma sociedade,
quando desaparece um dos sócios, ou seja, a lei considera existente, ainda, a
sociedade e a ficção se opera durante certo período, até que um novo sócio
seja admitido, conforme artigo 1033 do mesmo código civil Brasileiro.

12.48 Ainda, para Carvalho, há duas outras formas
de aplicação das Ficções no Direito, que poderiam ser uma forma de
classificação de tais aplicações. Seriam essas formas: a desconstituição da
realidade Institucional e a desconstituição da realidade jurídica. A primeira
ocorre quando a dimensão da realidade fática é infinitamente superior àquela
da realidade jurídica, onde a norma não dá conta de operar e produzir seus
efeitos no mundo prático. O maior exemplo citado por ele seria a

188
Importante pontuar que o termo Verdade Jurídica aqui utilizada é aquele segundo qual a Verdade para
o Direito é aquela cujos elementos se fazem presentes consistentemente na forma do processo, seguindo
as regras do processo constantes dos autos ou dos procedimentos formais de julgamento ou de formação
de fatos ou de elucidação de fatos, não importando se fora do processo existe algum outro fato ou não. O
que importa compreender que a verdade jurídica é aquela cuja comprovação segue as regras processuais.
151

desconsideração de uma lei que, embora vigente, deixa de ser aplicada em
face da profunda transformação dos costumes
189
de uma determinada
sociedade que passa a viver Como Se aquela lei não existisse. E outro
exemplo, muito desconfortável para a população do País, é o caso dos juros
legais de doze por cento ao ano, teto limitado pela Constituição, mas a
realidade comercial e a jurisprudência tornam a norma constitucional incapaz
de produzir seus efeitos no ambiente econômico.

12.49 Quanto à desconsideração da realidade
jurídica, essa expressão quer significar os “institutos jurídicos normados pelo
direito de forma a melhor operar sobre o real social e natural.”
190
É a forma de
organização normativa para proteger as instituições, sendo o estado o agente
de força para proteção e garantia. Esse tipo de ficção vai ocorrer muito quando
um dado ato jurídico é desconsiderado ou deslocado de um para outro, por
força do poder do Estado, para garantir um determinado fim que fora desviado
pela instituição, como transformar a Venda em Locação, ou desconsiderar um
faturamento e considerar como se fosse receita, ou seja, sempre ocorrerá esse
tipo de ficção, que também poderia ser chamada de ficção de terceiro grau,
quando uma regra jurídica desconsiderar ou alterar conceitos do próprio direito
ou das próprias instituições, alterando sua própria realidade jurídica, deixando
de ser uma coisa para ser outra, por força de outra norma que assim autoriza
para tal finalidade.


189
P. 244.
190
P. 245.
152

12.50 A expressão mais forte no direito, referente às
ficções é a ideia de pessoa jurídica que, como se sabe, não tem uma natureza
ontológica, ou seja, não existe, na forma de existência daquilo que se conhece
do existir de uma pessoa física. É na existência da pessoa jurídica, como ente
fictício, que se manifesta de forma mais clara e de maneira mais fácil de
demonstrar, ou seja, não se encontra uma pessoa jurídica pela manhã e se diz
“Bom dia!”, mas o direito dá a ela uma existência formal, a ponto de trazer
consequências práticas e dar solução a várias formas de negócios que seriam
impossíveis sem que se “fingisse” a existência dela.

12.51 Para Carvalho,
191
sempre houve uma divisão
doutrinária acerca da pessoa jurídica, no campo do direito. “Para Savigny,
pessoa jurídica era uma ficção; para Jhering, sequer teria qualquer existência,
sendo essa privativa das pessoas naturais; para Orlando Gomes, pessoa
jurídica tem existência, porém, apenas na realidade jurídica”. Portanto, para
um é uma ficção, para outro, não existe, e para o terceiro existe apenas dentro
daquilo que chama de realidade jurídica, ou seja, somente existe para fins
jurídicos. Carvalho conclui contrariamente à posição de Vaihinger que a
Pessoa Jurídica não é uma ficção, porque existe de uma maneira muito
peculiar e sua existência ontológica cumpre apenas a função de reunir
indivíduos em torno de um objetivo comum, agindo em nome conjunto e nunca
em nome dos próprios indivíduos.
192



191
Pag. 248
192
P. 249
153

12.52 A maneira como o direito tem que ser estático
e, ao mesmo tempo, dinâmico para poder atender as suas finalidades é o que
vai justificar a existência das ficções e firmar sua definição ou seu conceito. O
Direito como sendo, na definição de Kelsen, uma “ordem de coerção, isto é
uma ordem estatuidora de atos de coerção,”
193
enquanto estrutura estática, e
ao mesmo tempo concebido como “uma ordem normativa, como um sistema de
normas que regula a conduta de homens,”
194
vai prescindir de uma norma
hipotética superior chamada de fundamental, e também de ficção pelo próprio
Kelsen, cuja função dessa ficção é não ter conteúdo a não ser a atribuição de
um poder que organiza o funcionamento dos órgãos legislativos e fundamenta
todo o ordenamento jurídico a partir dessa ficção. Isso não se distancia da ideia
de um conceito situado no plano lógico, lecionado por Lourival Vilanova,
195
o
que o faz transparecer como um “fenômeno histórico. Tem origem e tem uma
trajetória de evolução própria. Não é algo estável. Sua variação obedece a
circunstâncias de tempo, lugar e de cultura (...) conteúdo vário e mutável.”
196
E
essa mutabilidade não pode fugir da sua funcionalidade que se opera de forma
supra ordenada, afirmando-se novamente em inexistência de um direito
absoluto e de valores absolutos
197
e, por isso, as ficções vão aparecer como
um meio a serviço dessa finalidade de dar sustentação à funcionalidade, a algo
que precisa ser dinâmico, rígido e ao mesmo tempo funcional. Com afirma
Vaihinger, elas servirão para “simplificar o concurso dos seres sensíveis”.
198



193
KELSEN, p. 121.
194
Id., Ibd.
195
VILANOVA, Lourival. Escritos Jurídicos e Filosóficos, vol 1, AXIS MYNDY, IBET.
196
VILANOVA, p.33.
197
Id., Ibid., p.34
198
VAIHINGER, p. 142.
154

12.53 Na mesma esteira, sem se afastar da ideia de algo
ficcional que dinamiza o direito, alinha-se a definição de direito de Ross,
segundo o qual o direito é um “corpo integrado de regras que determina as
condições sob as quais a força física é exercida contra uma pessoa (...) um
conjunto de regras para o estabelecimento e funcionamento do aparato de
força do estado.”
199
Encontramos, portanto, os elementos de como
funcionalidade, dinâmica e sempre algo ficcional que movimenta algo que,
olhado estaticamente, não seria funcional sem os elementos que o próprio
sistema produz, fundamentado em uma ideia ficcional superior que contorna as
dificuldades dinâmicas de tempo, espaço e cultura, porque o emprego da ficção
na prática jurídica tem algo benéfico. Essa funcionalidade, dinâmica, rigidez e
finalidade do funcionamento do sistema jurídico, para que o concurso dos seres
sensíveis seja simplificado, padecerá da utilização constante dos elementos
ficcionais. A ficção da liberdade é utilizada para que possibilite ao juiz exarar
uma sentença penal, porque parte da ficção de que todo homem é livre, como
diz Vaihinger:

[...] não importa a questão se de fato o ser humano é livre. (...) o juiz
chega à conclusão: todo homem é livre, e caso tenha contrariado a
lei, deve ser punido. (...) a ideia de liberdade, contudo, aqui, sai de
cena. Serviu apenas para tornar a sentença possível. (...) Foi em vista
dessa finalidade prática que se inventou a ficção teórica da
liberdade.
200


12.54 Isso nos é dado pelo pensamento que nos leva a
determinados conceitos apenas ideais, coisas que existem apenas como
ideias, e que darão dinâmica à funcionalidade do direito.


199
ROSS, Alf. Direito e Justiça. Trad. Edson Buni. Bauru, SP: EDIPRO, 2003, p. 58.
200
Vaihinger, p. 206.
155

Se aceitarmos as ficções assim postas com a consciência de sua
verdadeira natureza e se ao mesmo tempo as desmascaramos (por
exemplo, as ficções de Deus, liberdade, etc.), então podemos
suportar as contradições lógicas daí resultantes como produtos
necessários de nosso pensamento e reconhecermos que são
conseqüências inevitáveis do mecanismo interno do pensamento em
si.
201


12.55 Do ponto de vista estático, algumas coisas
não seriam possíveis no mundo da dinâmica e da prática jurídica, o que se
torna viável através das ficções. Ocorre a presença da ficção, ainda segundo
Carvalho, quando se vai atribuir a essa Pessoa Jurídica ações comuns e
típicas das pessoas naturais, como o cometimento de crimes, porque não
poderia ser alguém dotado de razão a ponto de expressar uma vontade e
manifestar-se na forma de persecução de um ato. São as pessoas naturais no
comando das jurídicas que irão fazer as coisas acontecer, de forma que
quando se atribui um crime a uma empresa, nada mais se concretiza do que
operar o direito na forma de ficção, o mesmo acontecendo nas manifestações
de vontade, nos atos em geral que são praticados pelas pessoas jurídicas.

12.56 O trabalho de Carvalho está focado na
utilização das ficções no Campo do Direito Tributário, concentrando seu
pensamento na possibilidade de se desconsiderar a realidade, para que seja
possível atribuir obrigações tributárias que culminem com ônus financeiro na
esfera privada. O Direito deve, na medida do possível, estar vinculado à
realidade.
O sistema jurídico é um mecanismo emissor de atos de fala cuja
essência é ser diretivo de condutas. Mas, por ser diretivo de condutas
humanas, deve ter a maior vinculação possível com a realidade,
principalmente nos segmentos onde mais fere a autonomia
individual.
202


201
P. 240.
202
P. 245.
156


12.57 O que se deve considerar é que o ser humano é por
natureza livre e o direito interfere nessa liberdade para possibilitar a liberdade
de todos e, ao mesmo tempo, a interferência do Estado, nos casos de invasão
do patrimônio particular, a fim de inserir no contexto privado obrigações de
ordem tributária. Ou seja, o direito interfere na vida privada, criando obrigações
de pagamento de tributos, que são perfeitamente legítimas. Isso ocorre para
tornar possível a existência do direito tributário sem ferir alguns princípios
essenciais também criados pelo direito, como Capacidade Contributiva,
Segurança jurídica, devido processo legal, federativo, legalidade,

12.58 Há outra explicação de ficção jurídica trazida por
Perez de Ayala, segundo o qual a ficção jurídica:

[...] pertence à categoria das proposições normativas incompletas.
Constitui uma valoração jurídica contida em um preceito legal, em
virtude do qual se atribuem a determinados – ou a determinado –
supostos de fato uns efeitos jurídicos violentando ou ignorando a sua
natureza real. Permite ao legislador atribuir efeitos jurídicos, que na
ausência da ficção, não seriam possíveis, a certos fatos ou realidades
sociais. A ficção jurídica, portanto, não encerra como bem se adverte
mentira alguma. Não falseia nem oculta a verdade real. O que faz é
criar uma verdade jurídica distinta da real. A ficção jurídica, pois,
consiste em uma proposição jurídica incompleta, contida em um
preceito legal, em virtude da que se estabelece que outra proposição
jurídica (ou outro complexo de proposições jurídicas) é aplicável a um
determinado fato, a base de conformar tal fato contra sua verdadeira
natureza real, adaptando-lhe àquela proposição jurídica (...) em
síntese: A ficção jurídica existe sempre que a norma trata algo real já
como distinto, sendo igual, já como igual, sendo diferente, já como
inexistente, havendo sucedido sendo inexistente, ainda com
consciência de que, naturalmente não é assim.
203


12.59 Para o Direito, uma coisa naturalmente não existiria
ou se existe ocorre de outra forma, mas, para que a norma possa incidir e fazer

203
Las Ficciones em el Derecho Tributário, Madri, Editorial de Derecho Financeiro, 1970, PP, 15/16/7.
157

produzir efeitos, como a cobrança de tributos, a Lei autoriza a utilização das
ficções. Por exemplo, a dívida tributária existe somente se for constituída
mediante um processo precedido de algo que se chama tecnicamente
Lançamento Tributário. Caso isso não ocorra, é como se a dívida não existisse.
A dívida deveria existir a partir da existência do fato que dá origem ao tributo,
mas ela somente existe para o mundo e somente pode ser cobrada a partir da
participação direta da administração pública. O mesmo ocorre no caso do
pagamento da dívida, que somente se consolida após ser conferida ou
confirmada pela mesma autoridade administrativa.

12.60 Em alguns casos, quando a participação da
administração tributária não ocorre, tem-se novamente a ficção quando o
decurso do tempo faz com que a participação da autoridade administrativa seja
Como Se tivesse ocorrido. Ou seja, a administração tem, por exemplo, cinco
anos para conferir o pagamento de um tributo, passado esse período ocorre a
conferência tácita, como se estivesse sido homologado o pagamento.
204


12.61 A aplicação das ficções nas normas jurídicas
tributárias não é possível, salvo se expressamente prevista em lei, em face do
princípio da tipicidade cerrada,
205
mas Carvalho defende que a regra abstrata
pode trazer em si elementos ficcionais,
206
sendo vedado, porém que utilize
mecanismos ficcionais para alterar algum aspecto de um fato que não esteja de

204
Ver Revista Dialética de Direito Tributário, 185, ISSN 1413-7097; Artigo de Aurélio Pitanga Seixas
Filho, sob o titulo, Natureza Jurídica do Lançamento Por Homologação – Mito – ficção;
205
A tipicidade vem do Direito Penal, que segundo o artigo 1º do Código de Processo Penal, não há crime
sem lei anterior que o defina nem pena sem prévia cominação legal, ou seja, não se pode imputar a
alguém um crime sem que a lei o tenha definido previamente nem que a pena tenha sido previamente
estabelecida por lei.
206
P. 274.
158

acordo prévio com a regra tributária. E a própria lei tributária determina o que
deve ser feito na ausência de disposição expressa, devendo-se aplicar a
analogia, princípios gerais de direito tributário, princípios gerais de direito
público a equidade, sendo certo que a analogia não pode obrigar alguém a
pagar um tributo que não estava anteriormente previsto em lei, e na aplicação
da equidade não pode trazer em consequência a dispensa de um tributo já
previsto na lei.
207


12.62 Mas o direito por si só, enquanto norma
escrita, não tem condições de atender todos os acontecimentos da vida social
e a norma jurídica deve conter mecanismos específicos para atingir seus
objetivos. No Caso específico do Direito Tributário, além de não atender a
todas as situações da dinâmica social, vive em função de institutos jurídicos
previamente criados por outros ramos do direito,
208
e deve transitar e se
sobrepor a elementos pré-criados, não sendo possível, no entanto, alterar a
definição e o conteúdo desses institutos vindo de outros ramos do direito.
209

Conforme Carvalho, o artigo 110 do Código Tributário Nacional é uma norma
antificção “é uma metaregra, pois se refere ao processo de produção
normativo; é antificção porque veda a desconsideração de forma, institutos e
conceitos de direito privado para fins de efeitos tributários.”
210



207
É o que está expressamente escrito no artigo 108 do Código Tributário Nacional.
208
É o Direito Civil que vai trazer para o campo tributário a ideia de locação, arrendamento, venda,
tradição;
209
O Artigo 110 do Código Tributário veda expressamente a lei tributária alterar a definição, o conteúdo e
o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente pela
Constituição Federal, pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar
competências tributárias
210
P. 277
159

12.63 Todavia são previstas formas de utilização da ficção
na aplicação da norma tributária para gerar efeitos distintos, ou seja, a partir da
aplicação das ficções, o efeito somente seria possível dessa forma. Em
algumas situações, um serviço pode ser entendido como venda, não
significando que foi transformado serviço em venda, mas sim Como Se fosse
venda apenas para que algum efeito tributário fosse possível, e o direito
tributário talvez seja o mais repleto de ficções jurídicas legalmente autorizadas.
A regra do artigo 110 é uma regra que proíbe a ficção, impedindo sua utilização
para alterar a natureza do instituto, mas outras normas jurisdicizam a sua
aplicação justamente sem alterar a origem, mas para tratar A como se fosse B
justamente para que a tributação, por exemplo, seja possível.

12.64 Se a Ficção é um fingir, ou seja, emprego de
um determinado método lógico mediante o emprego de artifícios cujo propósito
é alcançar finalidade e atender a vontade através do pensamento, tomando
para isso a posse de conceitos auxiliares, mecanismos idealísticos cuja ligação
com a existência nada se perquire, e o direito é algo estático e dinâmico que
busca facilitar a vida dos serem sensíveis, dando funcionalidade a si mesmo e
à vida em comunidade, as ficções jurídicas, no somatório das definições dos
filósofos do direito, serão no conjugado das definições sempre abarcadas pelos
seguintes termos: facilidade, finalidade, funcionalidade, praticidade,
adequações do Como Se, interesse prático, dos quais se depreendem as
seguintes definições: função jurídica incompleta, que se utiliza de mecanismos
mentais e depois linguísticos, para dar funcionalidade ao direito, sem
vinculação com a realidade do senso comum, trazendo para a realidade
160

jurídica, aquilo que, sem esse artifício não seria possível ao direito dar a
solução desejada pela humanidade, ou necessitada pela humanidade.

12.65 Veja-se o exemplo também mostrado
frequentemente por todos aqueles que se ocuparam do tema, do Pai Adotivo –
não existe na realidade comum, pai que não seja pai, mais existe pai que não é
pai e age como se pai fosse e, portanto, o direito artificializa e traz para a
realidade jurídica a figura do Pai Adotivo, como alguém que, não interessando
se é ou não pai, vive e transige no mundo jurídico Como Se fosse pai. Isso se
recobre a diversos outros modelos citados pelos autores aqui mencionados. Ou
como a separação de bens na união estável cuja disciplina é de considerar os
bens como se fossem casados pelo regime de comunhão parcial.

12.66 É imprescindível fazer uma distinção com a
hipótese jurídica porque difere com sua ligação com a realidade do senso
comum, porque na hipótese há a necessidade de comprovação real e não é
uma invenção como a ficção. Tudo aquilo que leva em consideração a
realidade, não é ficção. E a hipótese está sempre vinculada à realidade, “a
hipótese, sem exceção visa fixar algo real, e mesmo que não estejamos ainda
seguros e certos a respeito da existência factual daquilo que hipoteticamente
pressupomos, esperamos, todavia que nossa pressuposição se comprove um
dia.”
211
A hipótese está mais ligada àquilo que seja mais provável, enquanto a
ficção vincula-se sempre à finalidade, como vimos desde o início. Ou seja, a
grande diferença está no vínculo com a finalidade e da existência comprovável,

211
P. 167.
161

ou daquilo que se espera comprovar, quando o mesmo não acontece com as
ficções, como dito no início, pouco importa saber a comprovação ou não da
Existência de Deus, porque para resolver o problema melhor e atender uma
finalidade é melhor viver como se Deus Existisse. Aquilo que se adere à
realidade é hipótese, aquilo que desaparece em relação à realidade, ou isso
pouco importa, é ficção.

12.67 Ficção Jurídica seria então um artifício utilizado pelo
sistema jurídico – assim considerado como todo o conjunto de lei, institutos,
instituições, juízes e legisladores – baseado na vontade do direito que é a
solução de conflitos ou possibilitar a vida em comunidade, e com vistas a uma
finalidade prática, que é o atendimento, julgamento, resolução dessa
convivência, utilizando-se de artifícios não previsto na lei ou de coisas, não
existentes, ou então de coisas existentes, mas, não atendidas pela regra
escrita, a partir do qual se autoriza a inserção de outras realidades, criação de
realidades institucionais, ampliação de conceitos, enfim, de uma solução
prática clamada pela sociedade.

12.68 As ficções no direito não poderão ser confundidas
com presunção, simulação, erro, hipótese, ilação, dedução, eis que todos
esses elementos ou artifícios levam em consideração a realidade. A simulação,
por exemplo, leva em conta que existe uma outra realidade à qual é
comparável, e é um como e não um Como Se. Da mesma forma a hipótese,
que no conceito inicial de Vaihinger prevê um acontecimento real, o mesmo
ocorrendo com a presunção, atendendo-se algo como acontecido, mas, não
162

como se. Importante visualizar que, exclusivamente a partir da leitura de
Vaihinger, a conclusão para ficções jurídicas é: ou algo se apresenta e não é
atendido pelo direito, e então o sistema precisa dos seus mecanismos
(comparáveis à função orgânica do pensamento) para dar uma solução prática,
como a união homoafetiva ou a filiação adotiva ou a união estável; ou algo não
existe e passa existir a partir de uma mera criação ficcional, como foi o caso
das pessoas jurídicas e das moedas.


















163

13 CONCLUSÃO

13.1 Hans Vaihinger decidiu chamar sua obra de a Filosofia do
Como Se por entender que era a melhor forma de expressar a certeza do
significado e de como a aparência ou o conscientemente falso desempenham
fundamental papel no mundo real. O nome dessa teoria foi sua tentativa de
reduzir numa menor expressão possível a forma como o ser humano opera
intencionalmente através de “representações ou juízos conscientemente
falsos”.
212
A expressão da forma como fora cunhada, Como Se, Als ob, wie
wenn, as if, quasi ou sicut; comme si, que si, é como se evidencia a ficção em
todas as ciências devido à utilidade a que se presta, já que, iniciando-se pelo
entendimento de como funciona o pensamento, ele pode verificar que sua
função original é servir a vontade de viver, constituindo-se um meio para seu
fim específico.

13.2 Enquanto mecanismo orgânico de pensar, que ele
definiu como função orgânica da psiquê, esse mesmo processo de pensamento
vai criar desafios derivados do seu próprio pensar ou da vida comum, com o
qual somente conseguirá lidar quando de forma consciente ou inconsciente
criar artifícios e „dar seus pulos‟ para resolver o desafio apresentado de forma
insolúvel. Isso porque, conforme vimos, a ficção surge no cérebro de forma
orgânica mesmo, ou seja, mesmo antes da Arte do Pensamento, porque
reiteramos que o fundamento do pensamento – função orgânica da pisquê -
está na finalidade e vontade, que a maioria das vezes em que isso ocorre, é de

212
P. 621.
164

forma inconsciente. Essa atenção à finalidade e à vontade irá ocorrer na forma
consciente, quando já adquirimos a Arte do Pensamento, mas, em qualquer
das circunstâncias, sempre diante de um problema da vida real. Então o
pensamento extrapola seus limites e resolve a questão.

13.3 Então, o Como Se vai ser utilizado de forma
constante ou na forma de método da ficção em várias ciências, como o mesmo
objetivo do pensamento, qual seja, o de criar uma solução final ao problema ou
um ponto de partida para o movimento de solução. Ou desconhecemos algo e
queremos a partir de algo iniciar a busca, e então partimos Como Se tal
situação fosse assim. Ou, então, já conhecemos algo e não sabemos como
lidar com isso e de forma consciente criamos uma realidade, para que a partir
dela seja possível lidarmos com aquilo que de maneira cotidiana seria
insolúvel.

13.4 A teoria do Como Se, recebeu várias críticas
rebatidas pelo próprio autor, de que estaria criando um duplo conceito de
realidade. Isto ocorreu justamente porque ele percebia que ora estamos diante
de algo desconhecido (mundo do movimento) e damos uma realidade ficcional,
ou outra realidade é criada apenas no mundo da consciência; segundo ele,
esses dois mundos nunca foram relacionados de forma satisfatória por nenhum
sistema filosófico. Uma realidade seria aquela na qual um dos vetores somente
é percebido pelos seus efeitos, e não somos capazes de precisá-la devido a
sua contingência comportamental dos fatos produzidos por uma causa
obscura. Como essa presença, ou como essa realidade, nos é imposta por
165

uma causa desconhecida, continuamos a ser afetados por ela e somos
obrigados, através do mecanismo da ficção, a estabelecer operadores „como
se‟ a causa fosse „isso ou aquilo‟ e, desse modo, agir sobre a realidade.

13.5 O que implica, já como um segundo tipo de
realidade, operadores lógicos ficcionais, portanto, contra a própria lógica
formal, que providencie soluções capazes de resolver impasses lógicos. Essas
duas realidades ficcionais são amplamente utilizadas no Direito. E a maior
expressão dessa dupla realidade, é no mundo do direito, visto que: ou
estaremos diante de algo que existe para o real, mas não existe para o direito
e, então, o sistema tem que resolver de forma nomodinâmica, ou estaremos
diante de algo que nunca existiu, mas precisa existir. Em ambos os casos, o
direito vai se dinamizar para dar satisfação à vida prática, sempre atuando
Como se alguma coisa fosse desse ou daquele jeito. E isso ocorre sempre com
vistas a uma finalidade prática, porque “não compreendemos o mundo
cogitando sobre seus mistérios, mas, apenas se o trabalharmos. Aqui se faz
valer mais uma vez o primado do prático.”
213
Ou seja, quando articulamos
através das ficções não queremos compreender o mundo, cogitando sobre os
mistérios de sua existência ou daquilo que nele existe, mas, sim, atuando de
forma pragmática para que a vida ou uma descoberta seja possível.

13.6 A teoria das ficções ou o mundo do Como Se não vai
se preocupar se aquilo ali é ou não é uma cadeira, ou é uma representação de
cadeira, ou se é algo que eu tomo como cadeira, porque minhas sensações

213
P. 627
166

contaminaram o conteúdo do objeto, mas trabalha Como Se aquele objeto
fosse uma cadeira e pronto, e a partir dali é que estabelece a vida prática, a
depender do que queremos daquela cadeira, de quanto a cadeira é importante
para um novo entendimento ou apenas como a utilizamos para um outro fim.

13.7 E isto, como vimos, inicia-se no processo mais
primário do pensamento, atravessa as formas evolutivas do processo de
pensar, até que atinja a arte do pensamento, chegando-se às regras do
pensamento para que aquilo que o homem procura seja possível de acontecer,
desde sua sobrevivência orgânica pura, até mesmo, para atingir as criações
mais impressionantes da humanidade, sempre para atender uma vontade e
uma finalidade, sendo sempre a primeira ligada à segunda.

13.8 Para as ficções jurídicas, compreendemos que a
linguagem, considerada como qualquer forma de comunicação, é apenas a
representação do pensamento e da realidade, ou representação da realidade
do movimento e da realidade da consciência, e em via de consequência,
representa a ficção. E dessa forma, nossa conclusão, a partir do entendimento
percorrido nessa pesquisa, é de que a linguagem não é ficção, visto que esta a
antecede e afirmar que a linguagem é ficção seria limitar o conteúdo infinito do
poder ficcional. A ficção pode ser muito bem situada na cena filosófica se
recorrermos às influências teóricas de Vaihinger procedentes de Schopenhauer
e Nietzsche – este já no final do seu trabalho. Do primeiro, ele absorve o
conceito de Vontade e, do segundo, a questão da verdade como uma
perspectiva. A principal contribuição dos dois pensadores, no conceito de
167

Ficções elaborado por Vaihinger, é a ideia de que há um além da linguagem
que atua na sua determinação. A linguagem, nesse sentido, é para Vaihinger
uma libertadora e não aprisionadora da ficção por isso deve ser dela
desvencilhada.

13.9 O sistema do direito positivo, formado de leis, regras,
regulamentos e toda espécie normativa, depara-se com situações não
previstas nesse sistema e toma mão de métodos ficcionais para resolver
problemas ou para um tipo de realidade de movimento chamada por alguns de
realidade institucional, que somente é possível após o evento ficcional. Assim,
o direito se depara com algo cujo sistema de forma estática não dá conta de
resolver, e age nomodinamicamente num método de Como Se para que seja
possível resolver um problema. Ou então, utiliza-se do mesmo método e cria
realidades institucionais, como as pessoas jurídicas, – exemplo mais
exaustivamente citado por Hans Vaihinger, como forma de tornar factível, do
ponto de vista de uma finalidade prática, o exercício do direito de sociedade
entre as pessoas. Ou, então, dá a um fato uma realidade consciente para
resolver o problema, como o caso de alguns processos de união estável que,
diante da ausência de lei, os juízes julgavam Como Se fosse uma sociedade de
fato ou Como Se fosse um casamento para que fosse possível devolver a um
dos membros daquela união parte do patrimônio constituído.

13.10 Ou, então, o próprio sistema jurídico positivo já traz
em si elementos ficcionais para que a solução da vida prática seja possível,
como a questão do pai ou do filho adotivo – outro exemplo citado por Vaihinger,
168

da venda fictícia, da devolução fictícia, ou seja, agindo no mundo processual
Como Se tal coisa tivesse ocorrido no mundo real. Em face do sistema jurídico
rígido e formal para algumas áreas, não é possível utilizar-se das ficções não
legalmente previstas, exceto, a nosso entendimento, se for para beneficiar. No
caso do direito penal, por exemplo, as questões do crime de racismo, cuja
caracterização prática torna difícil a aplicação da penas, poder-se-iam utilizar
os comportamentos racistas não tipificados ainda, Como Se fossem injúria e, aí
sim punir alguém pela prática de um comportamento cotidiano de difícil
enquadramento, mas, pela estrita tipicidade no direito penal, isso não nos
parece possível.

13.11 Enfim, a obra de Hans Vaihinger, instituindo a Teoria
do Como Se ou a Teoria das Ficções, que ainda traz no bojo de seu título como
um “Sistema das ficções teóricas, práticas e religiosas da humanidade, na base
de um positivismo idealista” representa um passo importante na filosofia e no
estabelecimento das ficções e merece um interesse maior, em face do
exaustivo uso de ficções na nossa vida individual e na solução de problemas
nos mais diversos ramos da ciência. E a utilização das ficções jurídicas no
ambiente processual é elemento solucionador de controvérsias e situações não
previstas pelo legislador, mas que auxilia na dinâmica da aplicação do direito e
da justiça.

“Se o leitor teve a solicitude e a paciência de percorrê-lo em minha companhia, pode agora julgar, caso
esteja disposto a dar sua própria contribuição, para transformar esse atalho numa estrada principal, se
ainda antes do término da presente centúria não é possível atingir aquilo que muitos séculos não
conseguiram alcançar: a saber, satisfazer completamente a razão humana quanto àquilo que sempre
ocupou, se bem que até agora em vão, a sua ânsia de saber.
214



214
C.R.P, P. 245 – última frase de Kant, ao encerrar seus escritos da Crítica da Razão Pura.
169


REFERÊNCIAS

BOBBIO, Norberto. Teoria do ordenamento jurídico. Trad. Maria Celeste C.J.
Sampaio. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 10. ed., 1999, reimp. 2006.

CAPRA, Fritjof, O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1996.

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Noeses, 2008.

CITTADINO, Gisele. Pluralismo, Direito e Justiça Distributiva : Elementos da
Filosofia Constitucional Contemporânea. Rio de Janeiro: Lumen Juris , 2004.

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