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Blogs jurídicos são notícia no Conjur
POR VLADIMIR ARAS on 1 7 /05/2 01 0 • ( 0 )
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Histórias e dilemas da vida jurídica
na internet
Por Fabiana Schiavon
Profissionais do Direito têm a rotina repleta de histórias e casos únicos. Para não
guardar essa experiência só nos autos, muitos deles descobriram oblog como forma
de divulgar seus pensamentos. Na internet, juízes trocam não só jurisprudência, mas
conceitos jurídicos, comportamentais e sociais que presenciam na sua rotina.
Promotores usam a rede para receber denúncia, trocar dados e se aprofundar em
temas polêmicos.
O blog de Gerivaldo Neiva, juiz de Direito da Comarca de Conceição do Coité, na
Bahia, é um dos que chama atenção. Das mais de 160 mil visitas que a página já
recebeu, permanece como mais lida, desde 2007, a sentença que retrata o caso de
um marceneiro que teve problemas com um celular recém-comprado. Em forma de
conto, ele relata no documento todo o dilema do humilde marceneiro e seu desafio de
tratar com o atendimento da empresa que lhe responde apenas que trata-se de “placa
oxidada na região do teclado, próximo ao conector de carga e microprocessador”. No
fim da sentença, justifica a linguagem: “No mais, é uma sentença para ser lida e
entendida por um marceneiro”.
Leia o trecho final da sentença:
Por último, Seu Gregório, os Doutores advogados vão dizer que
o Juiz decidiu “extra petita”, quer dizer, mais do que o Senhor
pediu e também que a decisão não preenche os requisitos
legais. Não se incomode. Na verdade, para ser mais justa,
deveria também condenar na indenização pelo dano moral, quer
dizer, a vergonha que o senhor sentiu, e no lucro cessante, quer
dizer, pagar o que o Senhor deixou de ganhar.
No mais, é uma sentença para ser lida e entendida por um
marceneiro.
Nos seus textos, Neiva relata os momentos de crise da justiça estadual, como a
greve dos servidores judiciários e a descoberta de que alguns servidores recebiam
valores adicionais chamados de“remuneração paradigma”, “vantagens pessoais”,
“comissões”, “diárias”. O juiz também publica sua agenda atualizada de
compromissos.
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Ivan Sartori, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, mantém
o blog atualizado com a pauta e decisões do órgão Especial do TJ paulista, além de
publicar artigos e informações sobre o maior tribunal do mundo. O último texto trata
das dimensões da Justiça paulista e a responsabilidade que o tribunal carrega.
“São, outrossim, cerca de 700.000 feitos aguardando julgamento
em segundo grau e, em média, 30.000 que todos os dias úteis
ingressam em ambas as instâncias (cf. estatística
citada). Esses dados lembram a imensa responsabilidade que
assola a Justiça Comum Paulista, não só de prestar a jurisdição
adequadamente, na acepção humana do termo, diante de
tamanha demanda, mas também de buscar seu aprimoramento,
em face da grave defasagem operacional que a acomete”
O blog de Rosivaldo Toscano Junior, da 2ª Vara Criminal, de Florianópolis, comenta
os dilemas do país, transforma casos do judiciário em causos e poesia. O campeão
de audiência nesta semana, segundo ranking do próprio bloqueiro foi o
textoExorcismo Judicial. Nele o juiz conta a história do juiz que tinha como vizinho
uma igreja evangélica. Acontece que o horário das audiências na vara coincidia com
o das sessões de exorcismo da igreja, as quais ocorriam em meio a um alarido
infernal. O juiz usou de todos os meios para fazer chegar ao pastor vizinho o
incômodo que causava o barulho das sessões no bom andamento das audiências
judiciais. O desfecho do caso, nas palavras do autor, deu-se assim:
Na igreja, uns trinta fieis, todos ajoelhados, mãos para o alto ou
em direção ao altar. Uns gemendo, outros chorando, olhos
fechados e gritando chavões religiosos. No altar de dois
batentes, o corpo de uma jovem se debatendo no chão e o
pastor tentando, com dificuldade, manter a mão sobre a testa
da adolescente.
- Sai, demo, beuzebu, sete capas. Sai agora em nome do
Senhor!
De repente entra um ser alto, forte e todo de preto. Sua capa,
ao olhar dos que estavam em vias de êxtase, pareceria com o
da própria figura do coisa-ruim. E ele brada, com uma voz
ensurdecedoramente grave e irritada:
- Dá pra parar com essa esculhambação?!
Cadeiras pra todo lado, fieis saindo pela janela, gritaria total. O
apocalipse chegou àquele local. Até a jovem que se debatia ao
chão despertou assustada e correu.
Foi a primeira vez que se viu um juiz exorcista!
Há duas semanas, Marcelo Semer, juiz de Direito, criou o blog Sem Juizo – “A
justiça vista por dentro. O direito além da lei”. Na página, ele mostra seu ponto de
vista sobre os assuntos em pauta como o novo Código de Processo Civil, ativismo
judicial e abre espaço para artigos de colegas. Nesta sexta-feira (14/5), ele postou o
seguinte artigo criticando o abuso da propaganda oficial, que vai muito além da
propaganda partidária ou eleitoral:
Se é verdade que hoje assistimos a um sem-número de
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inserções do governo do Estado de São Paulo pela TV, também
é certo que fomos brindados recentemente com uma
enormidade de publicidades de empresas federais, debaixo do
slogan comum “um país de todos”. Como aquelas em que a
Petrobrás explica quão feliz será o Brasil, quando começarmos
a extrair petróleo do pré-sal. Ou até o novo modelo de
pronunciamentos oficiais de final de ano, que, sob o manto da
prestação de contas, elaboram um ufanista balanço das
próprias realizações.
Que os partidos gastem tempo de propaganda política elogiando
seus governos, se entende. Mas os cidadãos precisam pagar
por este tipo de publicidade, que sempre aumenta
vertiginosamente às vésperas da eleição? Quanto nos custa
este “direito à informação”?
Nem só de juízes vive a web jurídica. O promotor Vladimir Aras, do Ministério Público
Federal, mantém o Blog do Vlad atualizado sobre as principais questões do Direito
criminal e da lavagem de dinheiro. “O Blog do Vlad é especializado em Justiça
criminal, processo penal, segurança pública, direitos humanos, criminalidade
organizada, lavagem de dinheiro, terrorismo e cibercrimes. Aqui se faz crônica
judiciária, mas também se fala de outros assuntos, mais amenos. Afinal, “o crime
não compensa”. Pelo menos não deveria compensar…”, avisa ele na capa do blog. O
também professor da Universidade Federal da Bahia utiliza o espaço para abrir
debate com os alunos. Um de seus últimos textos fez uma longa análise sobre o júri
dos acusados de matar o cacique guarani-kaiowá, Marcos Verón, em que ele próprio,
alegando defender o direito dos índios de ter um julgamento em guarani, abandonou o
julgamento e provocou a suspensão da sessão. No blog, ele assim resumiu o
episódio:
Resumindo mesmo…
Parou por quê? Paramos porque vimos uma forma de violência
cultural. Já não se tratava apenas de conseguir a condenação
dos três acusados. Ali já se punha uma questão com
significado sócio-jurídico bem maior. No júri, fomos até onde
deu. O demais era direito do outro, direito indisponível e
inegociável.
No Blog do Promotor, Saad Mazloum comenta notícias, projetos de lei e nova
regulamentações da Justiça. Membro do Ministério Público de São Paulo, ele utiliza
a internet como canal com a população para receber denúncias, reclamações e
apurar dados. O promotor trata o noticiário com seriedade:
Retrocesso
Um retrocesso na área processual penal . Pode ser o fi m do poder
i nvesti gatóri o do Mi ni stéri o Públ i co em matéri a cri mi nal . A Comi ssão de
Segurança Públ i ca da Câmara dos Deputados aprovou proposta (Projeto de
Lei 4306/08) do deputado Al exandre Si l vei ra que torna obri gatóri o o
i nquéri to pol i ci al para a apresentação de denúnci a pel o Mi ni stéri o Públ i co,
sempre que a noti fi cação do cri me não contar com os el ementos sufi ci entes
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para a ação penal .
Pel o texto atual do Códi go de Processo Penal (Decreto-Lei 3.689/41), o
i nquéri to pol i ci al é di spensável e o Mi ni stéri o Públ i co pode se val er de
outros el ementos ou peças de i nformação para formar sua convi cção.
Mazloum criou também o Blog do Ônibus para apurar informações sobre atrasos nas
linhas da cidade. Nele, além de coletar dados, ele também presta serviço à
população, reclamando de buracos de rua para a prefeitura e listando os endereços
de todos os vereadores conectados no Twitter.
Já o juiz Tadeu Zanoni, 1ª Vara da Fazenda Pública de Osasco que manteve o
blog Jura?? por cinco anos, desistiu da função. No seu último post, ele confessa que
se rendeu ao Twitter, onde encontrou um meio mais rápido de se comunicar: 140
caracteres. O juiz se diz satisfeito com tudo o que já escreve em sua rotina.
“Jornalista é que gosta de blog. Talvez o que não possam escrever no emprego
normal seja desviado para o blog. No meu caso, que escrevo nos autos, que tenho
muitos autos para escrever (despachar, decidir e sentenciar), não posso dizer que
tenha tanta coisa reprimida para despejar aqui”, argumenta. Na página, Zanoni
mostrava seu outro lado. Publicava contos, comentava seus filmes e vídeos favoritos
e outras experiências. A deserção é uma pena. O juiz é bom de prosa, como atesta
um de seus últimos post:
DESPEDIDA DO PADRE
O Padre no jantar de despedida pelos 25 anos de trabalho ininterrupto à frente de
uma paróquia discursa:
- A primeira impressão que tive da paróquia foi com a primeira confissão que ouvi. A
pessoa confessou ter roubado um aparelho de TV, dinheiro dos seus pais, a empresa
onde trabalhava, além de ter aventuras amorosas com a esposa do chefe. Também
se dedicava ao tráfico de drogas e havia transmitido doença venérea à namorada…
Fiquei assustadíssimo! Com o passar do tempo, entretanto, conheci uma paróquia
cheia de gente responsável, com valores, comprometida com sua fé, e desta maneira
tenho vivido os 25 anos mais maravilhosos do meu sacerdócio.
Chega o prefeito para entregar o presente da comunidade, prestando a homenagem
ao padre. Ele pede desculpas pelo atraso e começa o discurso:
- Nunca vou esquecer do dia em que o padre chegou à nossa paróquia. Como
poderia? Tive a honra de ser o primeiro a me confessar….
Silêncio total…
Fonte: Consultor Jurídico em www.conjur.com.br
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