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Pensar a Prática, Goiânia, v. 13, n. 2, p. 1-13, maio/ago. 2010
O LAZER NAS EMPRESAS BRASILEIRAS: UMA
PERSPECTIVA HISTÓRICO-CRÍTICA DE ANÁLISE
Introdução
D
iscorrer sobreahistóriadolazer nasempresasbrasileirasnãopo-
deserestringir aumasimples descrição de fatos cronológicos.
As associações eclubes recreativos classistas, tãoconhecidos edifun-
didos hojeemdia, acumulamemsuahistóriatodoumcontextodelu-
tas operárias pela redução da jornada de trabalho, pelo
desenvolvimento dos setores derecursos humanos nas empresas epor
açõesgovernamentaisqueprivilegiaramoraempregados, orapatrões.
Muitodoqueseencontranaliteraturasobreotema'conta' estahis-
tória a partir de uma perspectiva patronal ou governamental. Nosso
objetivo éapresentar umaperspectivacrítica, aqual apresentao tema
Resumo
Estetextoanalisa, apartir de umavisãohistórico-crítica, odesenvolvimentodola-
zer nasempresasbrasileiras, atentoaofatodequeexplicitar ahistóriadolazer nas
empresas brasileiras não podeserestringir aumsimples descrever defatos crono-
lógicos. Alémdealgumasindicaçõescronológicas, otrabalhoidentificafatoressó-
cio-político-econômicos que contribuíram para a ampliação dos investimentos
empresariais e governamentais no lazer dos trabalhadores. A história apresentada
configura-sesob aóticadeduas grandes estratégias que, viaderegra, secontra-
põem: 1) abuscado operário emsatisfazer suas necessidades desociabilização e,
2) aintençãodoEstadoedaclasseempresarial emcontrolar otempodisponível do
trabalhador.
Palavras-chave: EducaçãoFísica- Lazer - História- Empresas
Humberto Luís de Deus Inácio
UniversidadeFederal deGoiás, Goiânia, Goiás, Brasil
Herrmann Vinicius de Oliveira Muller
UniversidadeFederal doParaná, Curitiba, Paraná, Brasil
José Luiz Cirqueira Falcão
UniversidadeFederal deGoiás, Goiânia, Goiás, Brasil
Astrid Baecker Avila
UniversidadeFederal doParaná, Curitiba, Paraná, Brasil
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levando em consideração a permanente luta dos trabalhadores por
melhorescondiçõesdetrabalhoepelareduçãodajornadadetrabalho.
Na literatura específica existem três vertentes bem distintas da
compreensão do fenômeno lazer na empresa: a primeira relaciona o
lazer coma busca, por partedos empregados, emsatisfazer suas ne-
cessidadesdesociabilizaçãoecomapráticadeatividadesfísicascom-
pensatórias ou de relaxamento (MEC, 1990; SANTINI, 1993); Esta
vertente apresenta o lazer como sendo umbenefício oferecido pelos
patrõesaosempregados. A segundacorrente, maiscrítica, vêestelazer
carregado deinteresses não explícitos, sejapelas empresas, sejapelo
Estado, emcontrolar o tempo disponível do trabalhador. Atualmente,
umaterceiracorrenteseapresenta: o lazer nas empresas faz partede
umprograma geral de ‘qualidade de vida no trabalho’. Esta terceira
viaestáligadadiretamenteaosnovosmodosdeorganizaçãodaprodu-
ção, baseados na produção flexível, difundidos mundialmente sob a
denominaçãodeToyotismo; tambémestádiretamenteassociadaaesta
terceiratendência, aofertadaGinásticaLaboral, aqual, muitasvezes,
é anunciada como ummomento de lazer durante o trabalho, criando
confusõesconceituaiseilusõessobreseusobjetivos.
Ao longo deste texto, apresentaremos a história do lazer nas em-
presasbrasileirasrelacionando-acomastrêstendênciascitadas.
O começo
No início do Século XX, a maioria dos trabalhadores brasileiros
morava no campo. A vindaparao Brasil demilhares deimigrantes,
especialmenteeuropeus, nãoalterousignificativamentetal situação. A
economiabrasileiraestavabaseadanaatividadeagrícola; contudo, as-
simcomonamaior partedomundo, asindústriascomeçavamaseins-
talar eampliar eo sistemadeordemsocioeconômicacapitalistaase
difundir. A divisãosocial dotrabalho, originadaapartir daRevolução
Industrial, encontra campo fecundo nos países do - assimchamado,
Terceiro Mundo. As propostas degerenciamento científico, deTaylor,
ealinhadeproduçãoemsérie, deFord
1
contribuemsobremaneirapa-
raesteprocesso.
1-Taylor criouo sistemadegerenciamento científico daprodução, concebendo to-
dos os passos de determinada produção antes dela acontecer de fato, bemcomo,
crioutodo ummecanismo decontroledestamesmaprodução. Ford, administrador
americano, inventoualinhadeprodução emsérie, comesteiras elinhas ‘transfer’
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Uma das características mais marcantes daquela época, é que os
imigranteseuropeus, preferidospelosempregadoresemdetrimentodo
operáriobrasileiro, apresentavamumcapital cultural quelhespermiti-
amcompreender sua condição de classe trabalhadora e, assim, rei-
vindicar melhores condições de trabalho. Resende (1983, p.33) nos
falaque, comrelação àorganização operáriapromovidapor imigran-
tes, ogovernotomouumasériedemedidas, taiscomoaLei deSindi-
calização eaLei do 2/3. Paraele, estas forammedidas políticas “de
controlesobreaclasseoperáriaesobreos perigos das ideologias ex-
ternasesubversivas”.
O primeiro registro conhecido de oferta de lazer aos empregados
datadoanode1901, naFábricadeTecidos Bangu, noRiodeJ aneiro
(COSTA, 1990) Tal fábricaerageridapor ingleses, comcapital inglês
eempregados oriundos daEuropa. A atividadeeo espaço físico dis-
ponibilizados para o lazer eramúnicos: umcampo de grama para a
práticado futebol. Pode-se, grosso modo, concluir queestaofertaera
umreflexo das relações trabalhistas já estabelecidas empaíses mais
desenvolvidos
2
, bemcomo, reforçavaaexpansão deumnovo grande
fenômenosocial quesedesenvolviarapidamente– oesporteinstituci-
onalizado.
A rápidaindustrializaçãodopaísfoi, aospoucos, tirandoasfamíli-
asdocampo. Comissocomeçaramaseformar multidõesdeoperários
brasileiros, os quais, juntamente com os imigrantes, constituíram o
ditando o ritmo detrabalho. Ambos estavampreocupados emencontrar os meios
maisrápidosdeprodução, sempreocupaçãonenhumacomoslimitesdostrabalha-
dores. Suasideiassedifundirampor todoomundoe, aindahoje, sãoutilizadasem
muitasindústrias, sejanoTerceiroMundo, sejanospaíses desenvolvidos.
2-É importantedestacar queas formas degerenciamento difundidas por Taylor e
Ford tinhamfortecaráter controlador. Taylor diziaquenenhumsistemadeadmi-
nistração mereceser considerado senão garantir asatisfação tanto do empregador
como do empregado (KOONTZ & O’DONNELL, 1969). Esteprincípio seaplica-
vamuito bemaofertadelazer aos empregados: estes acreditavamestar sendo be-
neficiados - portanto, apresentando maiores índices desatisfação, menos conflitos
narelação empregado-empresa, baixadataxadeturn-over, garantindo mais lucro
aos empregadores. J áFord, ficou conhecido tambémpor algumas iniciativas apa-
rentemente generosas para os empregados. Segundo Gramsci (1984), emseu en-
saio, AmericanismoeFordismo, asiniciativaspuritanasdeFordrepresentavam, na
verdade, umobjetivo de “conservar, fora do trabalho, umdeterminado equilíbrio
psicofísicoqueimpeçaocolapsofisiológicodotrabalhador” (op. cit., p.397).
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movimentooperário. Lopes(1971) nosfaladaquelemomento: acon-
centraçãoindustrial transformouosnúcleosdetrabalhadoresem“ver-
dadeiras legiões, ao mesmo tempo emque provocou o afastamento
entreempregadosepatrões, osquais, suprimidososinteressesrecípro-
cos, não tardaramemorganizar-seemgrupos antagônicos”. (LOPES,
1971, p.44).
A primeiraGrandeGuerraprovocou profundarecessão naecono-
mia brasileira; apesar disto, o movimento operário não se desmante-
lou. Os anarquistas
3
, bloco político formado especialmente por
imigrantesitalianos, tiverampapel relevantenaformaçãodaconsciên-
ciaoperáriabrasileiranoiníciodoséculo.
Ahistória continua...
Costa(1990) nos relataquenovas ofertas delazer sósãoregistra-
das nos anos 1930, quando o Banco do Brasil, a Light & Power e a
Caloi criaramclubessubvencionados. A SouzaCruz tambémsedesta-
ca, lançando inclusiveumperiódico sobreo assunto: o “Noticiário da
Atlética”, o qual, alémde notícias internas, veiculava tambéminfor-
maçõessobreodesportoclassistanoBrasil.
Namesmaépoca, o Estado teveparticipação ativano desenvolvi-
mentodolazer-empresa; istoaconteceuemvirtudedoapoioqueGetú-
lio Vargas recebeu do proletariado após a Revolução de Outubro.
Vargas sesentiu obrigado aatender algumas reivindicações operárias
eaampliar alegislação social. Em1932, 1933e1934são aprovadas
novas leis deférias paraindustriários ecomerciários, alémdaregula-
mentação do trabalho paramulheres emenores. Nestecontexto histó-
rico, a oferta de lazer pelas grandes empresas não foi apenas uma
concessão do sistema- como jáafirmamos anteriormente- mas tam-
bémumreflexodestasconquistas.
3-Os anarquistas seintitulavamsocialistas libertários ou simplesmentelibertários.
Eram contra o sistema capitalista. Não apenas contra maus patrões ou maus
capitalistas, mas contestavama ordeme a lógica capitalista. Acreditavamnuma
organização popular semgovernantes e, da mesma forma, não acreditavamnos
sindicatos como representantes da massa trabalhadora. Eram a favor de uma
revolução social total, enão apenas deconquistas sindicais. Nasuaconcepção de
sindicato, estedeveriaser organizadocomaparticipaçãodetodosostrabalhadores
- naquele momento para lutar contra o capitalismo e, no futuro, para organizar a
vidasocial.
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Costa(1990, p.12) chamaesteimpulsodecrescimentodasassocia-
ções classistas, acontecido entreos anos 1930e1940, de“Surto Cor-
porativoAssistencialista”. Diz tambémqueesteimpulso, paraalémdo
contexto nacional, acompanha uma tendência ocorrida na Europa e
nosEstadosUnidosdaAmérica.
Em1937 aDitaduraVarguistaestabeleceu o controledos sindica-
tos transformando-os emverdadeiros órgãos de ação assistencialista:
“deveriamdar assistênciamédicaedentária, construir escolasehospi-
tais, bibliotecas ecolôniadeférias...” (ACO-Ação CatólicaOperária,
1985, p.104). Independente do número de associados, os sindicatos
controlados passaramareceber muito dinheiro parapor emfunciona-
mentotodososserviçosqueogovernoindicava. A repressãoé, então,
facilitadaao sedespolitizar os sindicatos dando-lhes tal caráter assis-
tencialista. Naverdade, criava-seaideiade“[...] umEstadoacimadas
classes, ondeoMinistériodoTrabalhoencarregava-sedetornar oope-
ráriodócil eútil” (RESENDE, 1986, p. 41).
As atividades de lazer eramofertadas livremente pelas empresas.
Em1939, por forçado Decreto-Lei 1713, oprópriogovernocomeçou
acontrolar olazer dosfuncionáriospúblicosfederais“aocriar osCen-
trosdeEducaçãoFísicaecultural pararecreio, aperfeiçoamentomoral
e intelectual dos funcionários e de suas famílias, fora do trabalho”
(COSTA, 1990, p. 11).Em1941apráticadesportivanas empresas foi
normatizadapeloDecreto-Lei 3199, queelegeuotermoclassistapara
osclubesesportivosedelazer nasempresas. GetúlioVargascontinua-
vaconquistando o operariado desinformado compartidas gratuitas de
futebol eassumindoascomemoraçõesdoDiadoTrabalho
4
. Durantea
4-Atualmente, o 1ºdemaio écomemorado por todas as entidades ligadas dealgu-
maformaaotrabalhador. Oprópriogoverno, emtodasasesferas, organizafestase
cerimônias civis paraexaltar adata. As empresas organizamfestas queduramum
diainteiro. Estas iniciativas camuflamoverdadeiromotivopeloqual foi instituído
o DiadoTrabalho: No 4º Congresso dos Trabalhadores dos Estados Unidos eCa-
nadá decidiu-se por uma greve geral que iniciou em1º de maio de 1886. Houve
muitosconflitosentretrabalhadoresepoliciaiscommortesdeambososlados. Por
isso, várioslíderessindicaisforampresosecondenadosàmortepor enforcamento.
Em1898oCongressoSocialistaInternacional adotouadataparaprotestar contraa
exploração do trabalhador. A criação do feriado, emnível mundial, neste mesmo
dia, desestruturouas ações deprotesto. Emfunção disto, poucas pessoas, hojeem
dia, sabemdaorigemdoDiadoTrabalho. Umexemploatual dadistorçãodoobje-
tivo original dadataéencontrado emFedel (1996) , quando relata: “Alémdo Dia
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do Trabalho, outra tradicional festa já foi somada à vida do industriário paulista
nessadata: aaberturadosJ ogosoperáriosdoSESI (J OS) quenesteanoestáenvol-
vendo58cidades, cercade1.200empresase54mil atletasdetodooEstado”. Será
quealgumevento promovido por algumsindicato, comobjetivo delembrar os lí-
deresmortosnopassadoouparaprotestar contraascondiçõesdetrabalhoatuaisjá
conseguiureunir tal númerodetrabalhadores?
SegundaGuerraMundial, Vargas tomoualgumas medidas queatingi-
rampartedaburguesianacional. Seuprestígio caiufrenteaos empre-
sários e,ao buscar apoio da classe trabalhadora, afrouxou o controle
sindical. Naquele contexto, os próprios operários colaboraram para
suacooptação asealiaremcomo Estado, por intermédio daPolítica
de União Nacional, para combater o fascismo europeu que, àquela
época, ameaçavadominar omundo.
Getúlio Vargas, contudo, não conseguiu semanter no poder e, em
1945, o General Eurico Gaspar Dutra é eleito Presidente do Brasil.
Logonoanoseguinte, ogovernoDutrainterviuemmaisde100sindi-
catos e criou, por força do Decreto-Lei 9853, o Serviço Social do
Comércio(SESC) eoServiçoSocial daIndústria(SESI). Esteatode-
terminou, deformainelutável, o controledo tempo disponível do tra-
balhador tantopor partedoEstadocomopor partedos empresários.
Recebendo compulsoriamenteumacontribuição de1,5%dafolha
depagamentodasempresas(pagospeloempregador), oSESC eoSE-
SI tiveramtodasascondiçõesdeseexpandir pelosgrandescentrosdo
país. Seucabedal detarefasincluíatodososserviçosprestadosoutrora
pelos sindicatos: assistênciamédicaeodontológica, atividades sociais
erecreativas epráticas esportivas. O movimento operário seesvaziou
emfunção dos serviços prestados por estes órgãos epelanegação da
autonomiaeliberdadesindicais. Chamou-seestemomento dedesen-
volvimento do lazer-empresadeSegundo Surto ouSurtoAssistencia-
lista.
Por outro lado, apesar das mazelas marcadas pelos atos estatais da
época, o movimento não seextinguiu. Diversas organizações como o
Movimento deEducação deBase (MEB)-, aJ uventudeOperáriaCa-
tólica(J OC), aAçãoCatólicaOperária(ACO)-, aUniãoNacional dos
Estudantes (UNE e outras organizações de menor expressão anima-
vamo movimento. Atividades delazer eramoferecidas paraatrair os
trabalhadores. A estratégiausadapeloEstadoepelospatrõeseraagora
utilizadapelos operários; aIgrejaCatólica, historicamentealiadaaos
ricos, aos governos eaos latifundiários, modificou suas ações emal-
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gumasregiõesdopaíseajudouamanter acesoomovimento.
Assim, deumladooSESC eoSESI, dooutroosmovimentosope-
rários, disputavamapreferênciados trabalhadores pelas atividades de
lazer, contribuindo parao crescimento eo fortalecimento das associa-
ções classistas. Segundo aACO nuncasetinhavisto, apesar das con-
dições adversas, “umamobilização tão grandenaclassetrabalhadora,
nomeiocamponês, nomeiodosestudantes, nospartidosegrupospo-
líticos, emsetoresdaIgrejaeemsetoresdaclassemédia”ACO(1986,
p. 109).
A DitaduraMilitar de1964abalouepraticamentedestruiuomovi-
mento operário brasileiro. Os sindicatos que sobreviveramao golpe
transformaram-seementidadesassistencialistas. A estessindicatosca-
biaprestar serviçosmédico-dentários, formaçãoprofissional, assistên-
cia jurídica e lazer (férias, esportes), alémde assistência social aos
trabalhadoresesuasfamílias.
Entretanto, emmeados dos anos 1970 os sindicatos voltaramase
organizar. Comuma vasta lista de reivindicações, voltada especial-
mente para questões salariais e de direitos trabalhistas, os sindicatos
relegaramo lazer do trabalhador a umsegundo plano, facilitando o
controledotempodisponível pelos patrões epeloEstadopor meioda
ofertadelazer. É nestecontextoquesurgeumterceirosurtodedesen-
volvimento do lazer-empresa: o surto de reordenamento das relações
internas na empresa. Este reordenamento temorigemnos estudos da
Escola de Relações Humanas, os quais motivaram grandes investi-
mentos naáreaderecursos humanos. Estes investimentos tinhamum
interesse camuflado de abrandar a crescente hostilidade contra as
grandes empresas. Segundo Galbraith apud Camargo (1986), as em-
presasnãotinhamoutraalternativasenãoaceitar váriosencargos, en-
treosquais, aofertadelazer, ounãosobreviveriam. Camargo(1990),
mesmo a par das evoluções técnicas e sociais do trabalho, conclui,
apósbreveanálise, queasatividadesdelazer têmoprestígiodeserem
instrumentorápidoebaratopara atenuar conflitosinternosequeas
empresas devemter consciênciadeque, diantedaimpossibili-
dadedahumanizaçãoimediatadotrabalhodetodos, cabe-lhesa
obrigaçãodecontribuir aomenosparaqueotempolivrejápre-
judicadopeloesforçodispendidonotrabalhopréviosejaaome-
nos vivido de forma mais digna e rica (CAMARGO, 1990, p.
71).
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Estatarefaseriaumaresponsabilidadesocial daempresa moderna.
Namesmadireção, Madsenet al. (1992) apontamo lazer como ferra-
mentaprivilegiadanaintermediação entreo capital eo trabalho, con-
tribuindoparaadiminuiçãodoconflitoentreempregadosepatrões.
Namesmaépoca, paraalémdas empresas, o Estado assumepapel
dedestaquequando identificanas atividades desporto-recreativas me-
canismos decontroledamassatrabalhadora. Assim, o governo tratou
de incentivar essas atividades e, coma Lei 6.251, de 1975, instituiu
normas gerais sobre a prática desportiva no país. Esta lei dividiu o
desporto nacional emquatro categorias: comunitário, estudantil, mili-
tar e classista. A lei previa que qualquer empresa poderia organizar
umaassociação desportivaeindicava, emseuartigo 45, o caminho a
ser seguido: “para efeito do Imposto de Renda, poderão ser abatidas
darendabrutaoudeduzidas dolucroas contribuições oudoações fei-
taspor pessoasfísicasoujurídicasàsentidadesesportivasquepropor-
cionarem a prática de pelo menos três esportes olímpicos” (In:
PACHECO, 1992).
Aomesmotempo, programasdemassificaçãodapráticaesportiva,
como as conhecidíssimas campanhas ‘Mexa-se’ e ‘Esporte Para To-
dos’ eramamplamenteincentivadas pelamídia. Naesteiradesses mo-
vimentos , destaca-se que foi também, naquela época, que as
“AssociaçõesAtléticasAcadêmicas” foramcriadasafimdeincentivar
a prática -esportiva, como ferramenta de controle do tempo disponí-
vel, dentro de umdos espaços de maior resistência civil ao governo
ditatorial, asuniversidadespúblicas. À época, estudantesquepraticas-
semqualquer tipodeesporte, amador ounão, eramdiscriminadospelo
Movimento Estudantil erotulados dealienados ecomungantes daor-
demestabelecida.
Voltando às empresas, cumpreressaltar queo lazer oferecido den-
trodeumapolíticadeincrementodasrelaçõesinternasé, segundoPa-
checo (1992), de qualidade bastante discutível: as associações são
controladas, viaderegra, por profissionais daáreadaadministração,
enquanto profissionais da área de Educação Física executamapenas
tarefas técnicas comomeros recreadores, animadores outécnicos des-
portivos. RitaSantini, ingenuamente, não acreditaqueas associações
tenhamobjetivosligadosaotrabalhoemsi, masrespondemasolicita-
çõesdoexercíciodolazer paraos trabalhadores. A mesmaautora, en-
tretanto, diz “quenão sepodenegar ainfluênciadessas organizações
recreativas na vida dos trabalhadores (...) modificando consequente-
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5-ISO – International Organization for Standartization. Órgão internacional não
governamental, credenciadoafornecer certificadosinternacionaisdequalidadepa-
menteosquadrosdereferênciadevaloresantesexistentes(...)”(SAN-
TINI, 1993, p. 91). Aoafirmar isto, explicitaumdosinteresseshistóri-
cos do lazer-empresa, qual seja, o dedesenvolver, nos trabalhadores,
por intermédiodas atividades delazer, valores ecomportamentos ne-
cessáriosaomundofabril.
E sempre se renova...
À medidaqueos setores críticos denunciamos interesses implíci-
tos naofertadelazer por partedas empresas aos seus empregados, os
setoresconservadorescriamnovasestratégiasparamanter seucontro-
le sobre o tempo livre da classe trabalhadora. É nesta dinâmica que
surgeaideiada'qualidadedevidanotrabalho'.
Müller (2008, p.21) diz queatemáticaQualidadedeVidaeSaúde
“subsidiaos principais argumentos dos motivos pelos quais seriane-
cessáriaaimplementação deumProgramadeGinásticaLaboral (GL)
emempresasouindústrias”
A GL éapresentada, muitasvezes, comosinônimodeummomento
delazer, derelaxamento dos operários, durantesuajornadadetraba-
lho; e, por ser umtempo – teoricamente, forado trabalho, autores co-
mo Alvarez (2002), Nahas (2003) e Martins (2005) indicam que
hábitossupostamentesaudáveisadquiridosduranteaGL sãotransferi-
dos paraas outras esferas davidado trabalhador, criando inclusiveo
gostopelaatividadefísica; destaforma, argumentamestesautores, ati-
vidades delazer podemser preenchidas apartir do interesseincutido
no trabalhador por meio daGL, sejapor meio desuapráticapropria-
mentedita, sejapelo discurso adjacentequeaacompanha. Destama-
neira, partindo deumaestratégiasituadaemdiretrizes absolutamente
administrativas, aGL semascaradelazer, tornando-seatividadeatra-
ente e motivante para os trabalhadores; todavia, seus objetivos cen-
trais são aredução do absenteísmo, das licenças médicas eacriação
deumambientedetrabalhoilusoriamentebomealegre.
A busca da ‘qualidade de vida no trabalho’ apresenta ainda outra
característica. Inácio(1999) apontaque, paraasempresasémuitoim-
portante apresentar determinados indicadores de são exigidos pelas
certificadoras dequalidadedoproduto. Emespecial, abuscapelacer-
tificaçãoISO
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dequalidade, maisdoqueumdesejo, éumanecessida-
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dedasempresasqueobjetivammanter suaclientelaeagregar valor ao
seu produto. Atualmente, apenas empresas de pequeno porte, com
produçãoeconsumolocaiséqueconseguemsobreviver semtal certi-
ficação; empresas commaior demanda, obrigatoriamente, por força
das leis do mercado, devemdemonstrar suacapacidadeemproduzir
comqualidade, atestando isto não apenas nos produtos, mas também
nosprocessosdeprodução.
É aqui que entra a oferta de lazer, como umitemconstituinte da
qualidadedevidanotrabalho, exigênciapostapelascertificadoras.
Conclusão
Obrevepanoramasócio-históricoacimadescritoilustraumapers-
pectiva de análise do desenvolvimento do lazer-empresa no Brasil
desdeo início desteséculo atéos dias dehoje. Entretanto, delápara
cá, o mundo do trabalho está se modificando, se modernizando. Os
conflitosentrecapital etrabalhoestão, poucoapoucosendocamufla-
dos, sejapelaintrodução denovas tecnologias, sejapor hábeis políti-
casdeadministraçãoderecursoshumanos..
Otrabalho, nosmoldesfordistaetaylorista, vemsendosubstituído
pelaprodução flexível. O lazer-empresa, pelo quevimos acima, tinha
entreseus objetivos amissão deatenuar o conflito entrecapital etra-
balho, bemcomo, depropiciar, forado trabalho, asatisfação quede-
veria vir dele mesmo. Contudo, nas fábricas, que estão se
modernizando com tecnologia de base microeletrônica e gerencia-
mento nos moldes flexíveis, o trabalho ganhaumaconotação de‘hu-
manizado’, denão mais alienante; apesar disso, os investimentos em
lazer continuamsendoefetuadoseatéincrementados.
Estemovimentoganhaclarasustentaçãonodiscursoqueenvolvea
qualidade de vida no e fora do trabalho. Ganha sustentação também
num modelo conservador de Educação Física, que se ancora num
princípiofalhodequeatividadefísicaésinônimodesaúdee, por últi-
mo, baseia-setambémnumaperspectivadelazer utilitarista, reprodu-
toradalógicacapitalistaesubmissaaosditamesdomercado.
Por outravia, aatuaçãoprofissional nestecampoganhafacilmente
adeptos, comsaláriosecarreirasmaisatraentesqueaescolaeaindús-
triadofitness. Então, independentementedeumaanálisesobreosob-
raprodutoseserviços. A obtençãodestescertificadosdeveatender inúmerosaspec-
tosespecíficosparacadacaso.
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The Leisure in Brazilian companies: an historical-critical análise
Abstract
This paper analyzes, fromahistorical-critical view, thedevelopment of leisurein
theBrazilian companies, taking into account that expliciting thehistory of leisure
intheBraziliancompanies cannot berestrictedto thesimpledescriptionof chro-
nological facts. In addition to some chronological indications, this paper identifi-
es socio-economic-political factors that contributed to the expansion of
governmental and corporations investments in the workers leisure . The history
presented is built fromtwo different perspectives that arecontradictory in nature:
1) thesearchfor workers inorder to fulfill their socializationneeds; and2) thein-
tentionof theStateandcorporationsincontrollingtheworkersfreetime.
Keywords: Physical Education- Leisure- History- Companies
El ocio en las empresas brasilenas: una análise histórico-crítina
Resumen
Este trabajo analiza, desde uma mirada histórico-crítica, el desarrollo del ocio en
las empresas brasileñas, conscientes del hecho de que explicar la historia de las
empresas brasileñas no puede limitarse a una descripción cronológica de los he-
chos. Además de algunas indicaciones cronológicas, el documento apunta aspec-
tos socio-económico-políticos que contribuyeran a la expansión de las
inversiones de los empresarios y del gobierno en el ocio de los trabajadores . La
historia presentada se configura desde la perspectiva de dos estrategias principa-
les que, engeneral, seoponen:1) labúsquedadetrabajadores paracubrir sus nece-
sidades de socialización, y 2) la intención del Estado y de las empresas para
controlar el tiempolibredelostrabajadores.
Palabras clave: EducaciónFísica- OcioyTiempoLibre- Historia- Empresas
jetivosprimevosdolazer nasempresas, apenascomumapráticautili-
tarista, os profissionais queatuamcomolazer oferecidopelas empre-
sas vão reproduzindo os valores das sociedades de ordem
socioeconômica capitalista, colaborando para o processo de explora-
ção da mais-valia e, restringindo as possibilidades de superação do
modelosocietáriodeclasses, aindaquesejamestesmesmosprofissio-
nais, tãoexploradosquantoosoutros.
É apartir destadireçãoquevemosahistóriadolazer nasempresas
brasileiras: adireção deumabuscapermanentepelo controledavida
foraeno trabalho, condição indispensável paraamanutenção do sta-
tusquo.
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Endereço para correspondência
betoinacio@gmail.com
HumbertoLuísdeDeusInácio
UniversidadeFederal deGoiás, FaculdadedeEducaçãoFísica.
FaculdadedeEducaçaoFisica, CampusSamambaia
CampusSamambaia
74001-970- Goiania, GO- Brasil