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MÓDULO 01



HISTÓRIA DA
ILUMINAÇÃO CÊNICA




































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HISTÓRIA DA ILUMINAÇÃO CÊNICA

A história da iluminação cênica se relaciona com a própria história do teatro. De acordo
com Aristóteles, nasce dos ditirambos – termo que significa “canto em uma só voz”, e que era a
parte cantada das procissões ao deus Dioniso, deus do vinho, da alegria e dos ciclos vitais.
Surgindo por volta do século VI a.C, atinge seu auge no século seguinte.


























A palavra teatro vem do grego Theatron que significa: “lugar aonde se vai para
olhar”. No princípio, Theatron designava o local das representações, depois, o próprio
espetáculo.














A história do teatro ocidental tem seu início na Grécia.
Nasce das procissões a Dioniso, deus do
vinho, da alegria e dos ciclos vitais.
Componentes cenográficos
“Deus ex machina” em a!o.


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Os romanos incorporaram as cidades gregas ao seu império em 146 a.C. após a batalha de
Corinto, mas ajudaram a propagar a arte grega por todo o império. Aprenderam muito sobre as
artes da cena com eles.




Com a queda do império romano, saltamos para a idade média, quando a igreja proibiu as
manifestações teatrais. As artes cênicas ressurgiram aos poucos representando para os fiéis,
passagens da bíblia e outros temas religiosos. Estas manifestações deram origem aos autos
religiosos, também chamados: moralidades. E o teatro renasce na própria igreja que o baniu. Da
igreja, para seu pátio. Do pátio para a praça em dia santo. Da praça... PARA O MUNDO! Mesmo
na idade das trevas, havia luz depois dos vitrais...



























Claro, com um to"ue próprio...
O uso de iluminação artificial, embora
raro, ocorria quando não era possível utilizar a
luz natural. Mas, sua função era somente
iluminar, tornar visível o ato artístico. Somente
no renascimento a luz começará a ter função
estética ou significante no corpo da obra
artística.
Se pensarmos que em mais de vinte e
cinco séculos de artes cênicas o uso da
iluminação artificial tem aproximadamente 500
anos, e que a iluminação elétrica tem somente
134, podemos imaginar que a aplicação da
iluminação cênica ainda irá crescer muito, e seu
pensamento mudar bastante.

Graficamente, podemos situar o uso da iluminação artificial em um trecho pequeno
da história das artes cênicas. Sendo que a iluminação elétrica, contada a partir da invenção
da lâmpada incandescente por Thomas Alva Edson, data de 1879.



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PRIMÓRDIOS

Coube aos arquitetos renascentistas o trabalho de criar não somente os primeiros edifícios
teatrais, mas também os cenários, os efeitos teatrais e, da mesma forma, a iluminação que
completava o espetáculo.
Sebastiano Serlio (1475-1554) em seu livro: “Todas as obras de arquitetura e perspectiva”
(Tutto l'Opera d'Architettura et prospetiva), afirma que a cena teatral deveria ser adornada por
inúmeras fontes de luz pequenas, médias e grandes. A maior parte delas suspensas sobre o
centro da sala de espetáculos.

Serlio destaca três categorias de luz cênica:

• Candelabros suspensos para uma iluminação geral de palco e platéia.
• Iluminação dos cenários.
• Iluminação dramática, alterando-se conforme a ação.

Serlio foi um arquiteto importante que participou, dentre outras obras, da construção do
Palácio de Fontainebleau, em Paris sob o reinado de François I.
Além de Sebastiano Serlio, outros estudiosos da cena escreveram livros onde propunham
aprimoramentos e inovações.

Di Somi
Furttenbach
Sabbatini






#eplica de aparato do século $%&, descrito
por 'erlio em seu livro de ()*), usado
para colorir a lu+ consistindo de uma
garrafa cheia de lí"uido colorido.
Desenho de Serlio para cenário de comédia.

Acima, &lustra!o para o Red Bull Theatre de ,ondres apresentando o
espetáculo -.he /its0, levado 1 cena em (234 5 período da restaura!o.

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Leone Di Somi Portaleone (1527– 1592) também se referiu à iluminação cênica em seus
escritos. Em seus “diálogos” (Dialoghi in Materia di Rappresentazioni Sceniche) de 1556 ele diz:
















Joseph Furttenbach (1591-1667) arquiteto alemão que estudou na Itália, descreveu com
detalhes a utilização da luz nas casas de ópera venezianas. Ele estudou engenharia, arquitetura
militar e também misturas especiais para fogos de artifício. Entre suas obras, o livro acima relatava
várias técnicas e equipamentos usados em teatros. Furttenbach fala sobre o uso de ribaltas, luzes
laterais e suspensas sobre o palco em conjunto com a iluminação da platéia que permanecia
acesa durante a representação. Entre os equipamentos citados por Furttenbach destacam-se os
refletores usados nas laterais e confeccionados em latão ou mica.













O arquiteto Nicola Sabbatini (1557-1654) descreveu o aprimoramento da iluminação nos
teatros do século XVII. Segundo ele, candelabros eram utilizados para a luz “geral” e as lâmpadas
a óleo eram empregadas para iluminar o que ele chamou “As cenas”. Em 1638, Nicola Sabbatini
publica: “Instruções para a Construção de Cenários e Maquinaria Teatral” (Practica de
Fabricar Scene e Machine Ne’teatri), onde propõe um sistema de controle da luminosidade das
velas para utilização como efeito cênico. O título do capítulo 12 do livro era: “Como escurecer todo
o palco em um só instante”.







Livro de Furttenbach
(Architectura
Recreationis)
1640
,ivro de 'a66atini de 1638 mostrando o
es"uema de controle de luminosidade.
#éplica do invento de 'a66atini, o -dimmer0 do século $%&&.
&lustra!o do ,ivro de 7urtten6ach
representando um refletor de lat!o


“O papel da luz na cena é trazer brilho, diversão e alegria ao
palco. Ao mesmo tempo,se reduzirmos as luzes para uma peça
trágica, isto cria um clima de terror entre os espectadores e as
personagens são glorificadas.”



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As lâmpadas a óleo são as fontes de luz mais antigas, depois das tochas e foram usadas
em iluminação pública, doméstica e nas casas de espetáculo até o final do século XVIII.














Dividiam com as velas, o status de fonte mais utilizada. Apesar de terem surgido na Europa
por volta de 400 d.C., já eram conhecidas na China antes de 200 a.C..












Uma variante interessante era a chamada “vela de junco”, obtida simplesmente
mergulhando o junco na cera.















,8mpadas a óleo para um e "uatro pavios

,8mpada de .erracota #omana
a óleo vegetal 5 'éculo %&&


9oldes para fa6rica!o de velas em folha de
metal. 9oldes como este foram usados
desde o século $%
Castial para vela de :unco
fa6ricado em (3);.



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Quando imersas em óleo de má qualidade, estas lâmpadas produziam mais fumaça e mau
cheiro que luz. O mesmo valia para as velas. As mais baratas...






















Outra particularidade das velas desta época era a necessidade de ter os pavios aparados
em intervalos muito curtos de tempo, mesmo durante as apresentações. Após cerca de 10 minutos
– um pouco mais se as velas fossem de boa qualidade – a luz diminuía e a fumaça aumentava.
Entrava em cena: O aparador de pavios.




























&lustra!o representando o Covent Garden theatre no ano de (23*. #epare na fumaa
retratada pelo artista desprendendo<se das velas suspensas em candela6ros.


=s aparadores eram utili+ados desde a metade do século $%.


A iluminação deste
teatro em Copenhagen em
1740 incluía candelabros e
ribaltas.
A platéia estava em
relativa obscuridade.
Note o “operador”
aparando os pavios da
ribalta.
Na mesma época em
que a iluminação ainda
contava com velas de junco
e lâmpadas a óleo com a
chama exposta, o suíco
Aimé Argand, que era físico,
químico e meteorologista
inventa a chamada lâmpada
de Argand.
.eatro #eal da Dinamarca 5 >Det Kongelige Teater?

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O princípio de funcionamento do aparelho é o mesmo dos lampiões a querosene usados
ainda hoje. A criação de Argand, entretanto, era alimentada por óleo e foi usada em teatro pela
primeira vez no Odeon de Paris em 1784.
Utilizando o conhecimento recém-descoberto do papel do oxigênio na combustão, o
aparelho ampliava o fluxo de ar através do uso de uma chaminé o que resultava em muito mais luz
que as lâmpadas tradicionais. Ao mesmo tempo, a chama protegida diminuía o risco de incêndio
existente nos equipamentos de chama aberta tradicionais.
Seu alto custo, entretanto, impediu que se tornasse padrão nos teatros da época.

















Com a descoberta da destilação do gás a partir do carvão não tardou que os teatros
adotassem a iluminação a gás. Havia várias vantagens para a utilização do gás nas casas de
espetáculo. A principal delas era econômica: era mais barato que dezenas de velas, mas também
exigia menos trabalho para acender os bicos que cada vela individualmente. Além disto, terminava
com o movimento de reposição de velas durante as apresentações. Porém a parte mais
interessante da utilização do gás era a existência de um controle central: a “mesa de gás” (gas
table) que permitia o aumento e diminuição da intensidade da chama, e consequentemente, do
nível de iluminamento, de partes de todo o sistema de iluminação.
Em poucos anos a iluminação a gás em teatros passou de uma simples experiência para o
mais moderno conceito de iluminação cênica. Os intérpretes podiam reduzir a maquiagem e
também o exagero gestual, pois agora podiam ser vistos com uma clareza inédita. A iluminação a
gás foi considerada perfeita para o palco e os teatros ganharam reconhecimento e respeito com o
uso da nova tecnologia. Os atores podiam usar melhor o palco, ao invés de concentra-se próximos
ao proscênio, e a fumaça das velas já não provocava tosses durante o espetáculo.
Apesar da primeira demonstração do uso do gás em teatros datar de 1804, em Londres, o
Chestnut Street Theatre, na Philadelphia, foi o primeiro teatro do mundo com iluminação cênica
inteiramente a gás, inaugurada no ano de 1816.
















A seguir, ilustração de uma possível visão do Teatro Real de Leicester, a partir das coxias,
com detalhes da iluminação a gás.


#i6alta a óleo do século $%&&&. A
chapa de metal era fi@ada ao palco e
protegia os olhos da platéia da lu+. A parte
onde est!o os pavios, podia ser retirada
para limpe+a, manuten!o ou
a6astecimento.
As ri6altas eram um item
importante da ilumina!o cAnica, seu efeito
dava aos interpretes uma aparAncia
incomum ao iluminá<los de 6ai@o. 9as ao
mesmo tempo, destacava<os por ser um
diferencial mesmo com a platéia iluminada
pela lu+ dos candela6ros.


Dois modelos de 6ico de gásB com gaiola de prote!o e usando o princípio da l8mpada de Argand.


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A utilização do gás trouxe também outras inovações como o Lime light – o Primeiro “Foco”
de luz. Henry Drummond, engenheiro escocês, inventou o Lime light em 1816. Consistia em uma
pedra de cálcio aquecida até a incandescência por uma mistura de oxigênio e hidrogênio.
Produzia a mais brilhante luz conhecida e podia ser focada e dirigida.














Utilizado pela primeira vez em teatro no ano de 1855, logo se tornou comum na década
seguinte. Sua intensidade o tornava um equipamento essencial para efeitos como nascer do sol,
raios de sol e luar.














Extremamente quente e de difícil manejo, o Lime Light necessitava de duas pessoas para
sua operação: um para mover o equipamento direcionando o facho de luz e outro responsável
pela manutenção do fluxo do gás, que precisava ser constante.
Sua maior desvantagem era a necessidade de acompanhamento constante e o risco de
explosão caso o fluxo de gás vazasse.

Cossível vis!o do Theatre Royal Leicester a partir das co@ias.
A cidade rece6eu ilumina!o a gás em (D4(.

9odelo de Lime
Light com chaminé
para e@aust!o do ar
"uente.

E direita, dois
tipos de "ueimador
para as pedras de
cálcio >limes?.
Acessórios do Lime LightB
(. Cedras de cálcio prontas para uso.
4. Acendedor.
F. 7ole de arma+enamento de gás com pesos.
*. Demais componentesB
a. 9anGmetros.
6. 7erramentas para manuten!o.
c. Hicos de cone@!o.
Acessórios do Lime light.


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Apesar dos avanços tecnológicos, o edifício teatral continuava sendo um local com alto
risco de acidentes que causava a desvalorização dos prédios do entorno.


















Também no século XIX, um cientista inglês chamado Sir Humphry Davy desenvolveu o que
chamou de “Arco-voltaico”. Uma descarga de alta tensão que, cruzando o ar entre dois eletrodos
de carvão, causava a ionização do ar e emitia a mais intensa luz artificial conhecida até o final do
século. O projetor de “arco” utilizava baterias e seu aprimoramento técnico, no século seguinte,
produziu o Canhão seguidor e os melhores projetores de cinema da época.













Este equipamento era usado no Opera de ParÍs desde a metade do século XIX. O Arco
Voltaico apresentava vantagens em relação ao Lime light, em especial a segurança em relação ao
uso do gás. Mas tudo indica que conviveram lado a lado até a invenção da lâmpada elétrica.
Abaixo, representação de um efeito de luz para a produção de “O Profeta” (Le Prophete).






















= mecanismo 1 es"uerda
era parte de um canh!o
seguidor do tipo Arc Lam!
= seu funcionamento era
6aseado no mesmo princípio
"ue deste e"uipamento para
soldar metais, 1 direita,
conhecido como -solda de
arco0.

&lustra!o de um efeito utili+ando um e"uipamento de Arco %oltaico

=perador de lime light e assistente na
varanda do teatro < ilustra!o de (D3*.

= operador usa um e"uipamento
do tipo -open face0 e óculos de prote!o
para iluminar a área de representa!o
a6ai@o.
= assistente manipula os pesos
para garantir um flu@o constante. 'e
necessário, ele poderia usar o próprio
peso, pisando so6re o fole.

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Uma nova mudança afeta a iluminação como um todo: residencial, pública e comercial. Em
1879, Thomas Alva Edson cria a lâmpada elétrica. Apenas dois anos depois, em 1881, o Teatro
Savoy, na Inglaterra, anuncia sua nova iluminação cênica totalmente elétrica.





































Para encerrar, vamos falar daquele que é considerado por muitos como o pioneiro do
moderno conceito de iluminação. Contemporâneo de Wagner, com quem dividia a busca por uma
“obra de arte total” (Gesamtkunstwerk), o suíço Adolph Appia defendia o uso de cenários
tridimensionais como rampas, colunas e plataformas, revelados por iluminação direcionada.
Acreditava que estas contraposições criavam uma interiorização dramática que fluía e se alterava
juntamente com a música.
















Ista l8mpada é de (DJ;.
Ao lado vemos a comparação
entre duas ilustrações mostrando a
troca do sistema de iluminação no
Ópera de Paris. No quadro menor, os
bicos de gás protegidos por tela de arame, no maior, as mesmas posições só que agora
ocupadas por lâmpadas incandescentes.
A troca do gás para a iluminação elétrica foi relativamente fácil, pois era possível utilizar
a tubulação já existente como duto para a passagem da fiação e adaptar os bocais nos
queimadores.

&lustra!o mostrando a sala de
fora da Kpera de Caris, (D33.
No início, cada consumidor
precisava produ+ir sua própria
energia elétrica.

Appia, mais conhecido por seu trabalho
como cenógrafo de Wagner, rejeitou os telões
bidimensionais buscando cenários tridimensionais
que interagissem com os intérpretes. Ele acreditava
que a sombra era tão importante quanto a luz para
unir, no tempo e no espaço, o intérprete e o cenário
que situa a ação.
Em seu livro “Música e Encenação” (Die
Musik und die Inszenierung) de 1899 ele destaca
três formas de iluminação cênica:
• A luz difusa: Que ilumina o espaço cênico de
forma geral.
• A luz Criativa: Que cria efeitos de luz e sombra
revelando a tridimensionalidade.
• A luz pintada: Que são os efeitos obtidos
através da pintura “de arte”.

Adolph Appia < >(D24<(J4D?



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Appia considerava a luz o elemento fundamental para fundir todos os aspectos de um
espetáculo e buscava unir os movimentos de luz à música. Da mesma forma que em suas
encenações buscava abrir e fechar a cena com um gesto ou movimento de forte apelo simbólico
por parte dos atores, cantores ou bailarinos, movimentava continuamente a luz de modo a criar
diferentes atmosferas para momentos diferentes.












Na montagem de Tristão e Isolda em Milão em1923, ele inovou utilizando somente uma
tocha para iluminar a abertura do segundo ato. Quando o pano se abria, a plateia era introduzida
em uma atmosfera lúgubre que lentamente se fazia perceptível na medida em que a visão se
adaptava à baixa luminosidade. Um relato da época demonstra uma luz complexa onde em uma
única cena, quatro movimentos podiam ser percebidos:

• A sacada em frente ao castelo de Tristão iluminada por luz e sombras como uma visão
de sonho.
• Tristão perde os sentidos sob a luz vermelha intensa de um pôr-do-sol.
• A luz continua caindo com a chegada do crepúsculo.
• Finalmente a escuridão cerca a solitária figura de Isolda, vestindo branco.

Quatro movimentos em uma única cena em um período onde os efeitos contavam com
talvez uma dúzia de lime lights ou Arco voltaico e a iluminação elétrica estava somente
começando. As ideias de Appia influenciaram muitos criadores como Gordon Craig e Jacques
Copeau.



Imagens obtidas, em sua maioria, no Museu da iluminação Cênica, Inaugurado em Dezembro de 2002- Israel.
http://www.stage-lighting-museum.com



&lustra!o da montagem de .rist!o e &solda em 9il!o, (J4F 5 a6ertura do segundo ato.