A Física da Música

Uma análise do fenômeno acústico

Sons e Música
• Dentre os diferentes tipos de sons produzidos pela
natureza e audíveis ao ser humano, a música para alguns é sinônimo de criação divina ou então a expressão máxima de sensibilidade do ser humano. Porém, todos os sons que ouvimos, são produzidos por vibrações que excitam as moléculas de ar à sua volta, as quais transmitem esta excitação a outras, e assim sucessivamente, até que esta movimentação em forma de ondas chega ao nosso ouvido.

Ao serem captadas pelo ouvido as ondas de vibração são levadas ao sistema nervoso central, onde são processadas e aí então as percebemos como sons

Sons e Música
• Quando algum objeto vibra de forma completamente
desordenada, dizemos que o som produzido por esta vibração é um ruído, como por exemplo o barulho de uma explosão, um trovão.

O ruído é o resultado da soma de um número muito grande de freqüências, tornando muito difícil exprimi-lo matematicamente.

• Quando o objeto vibra de forma ordenada e

constante, produzindo uma onda mais pura, dizemos que este som é uma nota.
As notas musicais possuem poucas freqüências, o que nos permite uma análise detalhada destes sons

• Para compreender melhor esta diferença, vamos
entender melhor a onda sonora

Onda sonora
rarefação compressão

• Características principais

amplitude, freqüência, comprimento, velocidade, fase, potência, etc.

Amplitude (a)
Pico + Nível zero Pico - (ou vale)

• Distância do auge da curva até o nível zero • É uma medida instantânea de energia

É necessário gastar energia para aumentar a amplitude

• Quanto maior, mais forte o som

Período e Freqüência

1 ciclo

1 ciclo

1ciclo

• Período T

Tempo (em segundos) de duração de um ciclo Número de ciclos por segundo: Hertz (hz) Inverso do período (f = 1/T) Quanto maior a freqüência, mais agudo o som Ouve-se de 20 a 20.000 Hz

• Freqüência f
   

Comprimento e Velocidade
λ

• Comprimento de onda λ

Semelhante ao período, só que mede a distância física (milímetros) de um ciclo

λ = c/f
onde c é a velocidade do som e f a freqüência inversamente proporcional à freqüência  som agudo => pequeno comprimento  som grave => grande comprimento

Velocidade
• Velocidade de propagação: c = λ f
 

diretamente proporcional à freqüência e ao comprimento de onda depende do meio e da temperatura
  

344 m/s no ar 1500 m/s na água 5000 m/s no aço

• Efeito Doppler

mudança de velocidade causando mudança de freqüência

ex.ambulância passando

• Observações

importante nos efeitos de eco, reverberação, etc.

Fase
0º 90 º 180 º 270 º 360 º

• Fase
  

depende do instante em que a onda começou medida em graus, sendo 360 º o ciclo completo importância
 

cancelamento:microfones, alto-falantes efeitos: chorus, flaging, etc.

Envoltória
• Envoltória:
 

 

Indica como a energia do som se distribui no tempo Outro elemento marcante na definição do timbre. Cada instrumento tem o seu. Depende de como o som é produzido no instrumento Existe uma envoltória para cada parcial
ataque decaimento sustentação relaxamento

amplitude

tempo

Envoltória dos instrumentos
• Instrumentos percussivos têm rápido ataque •
e decaimento, e não tem sustentação A duração (forma da envoltória) pode também se alterar segundo a maneira de tocar (ex. pizzicato)

Exemplos de duração/envoltória

Ruído
• Ruído

Sinal não desejado com espectro de freqüência pouco harmônico. Inerente aos equipamentos de áudio Externo Ruído rosa: predominante na faixa musical (baixas) Ruído Branco: igual em todas faixas

• Tipos
 

• Faixas de freqüência
 

Potência de uma onda sonora
• Volume (nível de audio): decibel (dB)
 

1 dB = menor mudança de volume perceptível É uma medida relativa entre tensões, correntes, potências ou pressões acústicas dB = 10 × log10 (nível/nível de referência)

• Existem vários níveis de referência
   

dBm: 1 miliwatt dBu ou dBv: 0.775 volt dBV: 1 volt dB SPL: 10-12 watt/cm2 (limiar da audição)

Sound Pressure Level (dB-SPL)

Dinâmica
• Dinâmica

variação de volume no decorrer do tempo é muito importante capturar a dinâmica mais larga possível

• Em uma gravação

orquestra: 60 a 110 dB

respeitando os limites do meio (fita) para evitar distorções (medida a 80 dB, 1 KHz) pensando em não deixar o som ser mascarado pelo ruído deve ser a maior possível
 

• Relação sinal-ruído (NSR)

Fita cassete NSR = 50 dB CD NSR = 90 dB

Música
• Qual é a relação entre os parâmetros físicos do som
e da música?

• A nota tem 4 parâmetros básicos:
Na Música altura (dó, ré....) intensidade (ff, p, ...) duração (semínima,...) timbre (violão, flauta, ...) Na Física freqüência (Hz) potência (dB) duração (seg) espectro, envoltória...

Altura
• Correspondência

toda altura corresponde a uma freqüência exemplo: Lá 4 = 440 Hz nome (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si) acidente (sustenido, bemol, etc.) oitava (0,1,2,...,9)

• Em música: Altura
  

Intervalo
v v v v v v v v v v v v v v v

dó ré mi fá sol lá si dó ré mi fá sol lá si dó ré mi fá sol lá si

• É a distância entre duas notas ou razão de
freqüências
   

intervalo(dó, ré) = tom intervalo(mi, fá) = semi-tom intervalo(mi, fá#) = tom intervalo (dó,mi) = 2 tons

Intervalo Acústico
• O denominado intervalo acústico entre duas
notas, que pode ser definido como a razão entre duas freqüências f1 e f2, sendo f1<f2.

Em decorrência da própria definição, o intervalo acústico I será sempre maior ou igual a 1 (quando I =1, f1=f2).

• I = f1 / f2

Intervalo Acústico
• Temos duas maneiras distintas de alterar o tom de
uma nota (acidente):

A primeira delas é aumentar a freqüência (sustenido) e a segunda é reduzir a freqüência (bemol).

• Sustenir uma nota consiste em aumentar a sua
freqüência, multiplicando-a por 25/24.

Para indicar que uma nota foi sustenida, usamos o sinal à direita da nota.

• Bemolizar uma nota significa diminuir a sua
freqüência, multiplicando-a por 24/25.

Para indicar que uma nota foi bemolizada, usamos o sinal à direita da nota.

Intervalo Acústico – Exemplos
• Exemplo: A nota lá tem a freqüência de 440
Hz. Calcular a freqüência do lá sustenido e do lá bemol:

Sendo lá = 440 Hz, temos:
a) lá b) lá = lá.(25/24) = 458,33 Hz. = lá.(24/25) = 422,4 Hz.

Intervalo Musical
• Duas notas, quando tocadas simultaneamente
(ao mesmo tempo) podem soar de forma a combinarem entre si, ou de forma tensa e áspera.

Os intervalos que sentimos como estando em combinação são chamados de Consoantes e os ásperos ou tensos, são chamados de Dissonantes Essa sensação, depende exclusivamente da razão entre as freqüências dos sons, embora varie de ouvinte para ouvinte a nível sensitivo.

Intervalo Musical
• Os intervalos consonantes são expressos por
frações em que o numerador e o denominador são termos menores que 6: Intervalo de quarta (dó-fá): 4/3. Intervalo de quinta (dó-sol): 3/2. • Os intervalos dissonantes são expressos por frações cujos termos aparecem inteiros maiores que o número 6: Intervalo de sétima maior (dósi): 15/8. Intervalo de segunda maior (dó-ré): 9/8.

Intervalos
Razão 1 9/8 5/4 4/3 3/2 5/3 15/8 2 Intervalo Fundamental Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sétima Oitava

Escala de Afinação Justa
• Escala Musical que emprega intervalos de
freqüência representados por razões entre números provenientes da Série Harmônica
Relações com a Tônica: Dó Ré Mi Fá Sol 1 9/8 5/4 4/3 3/2
 

Lá 5/3

Si 15/8

Dó 2

Relação dos Intervalos Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó 9/8 10/9 16/15 9/8 10/9 9/8 16/15

Dificuldade Principal
• O número de freqüências necessárias à execução
em todas as tonalidades torna impraticável a construção e execução de instrumentos musicais que permitam a transposição de tonalidades
Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó 9/8 10/9 16/15 9/8 10/9 9/8 16/15
v v v v v v v v v v v v v

v v

dó ré mi fá sol lá si dó ré mi fá sol lá si dó ré mi fá sol lá si

Escala de Afinação Temperada
• Temperamento

Redução por arredondamento, dos intervalos formados a partir da afinação justa

• A oitava é dividida em 12 intervalos com
razões de freqüência idênticas

f1, f2, f3, f4, f5, f6, f7, f8, f9, f10, f11, f12 onde f12 = (f1).2 Uma oitava = 1200 centésimos Um semitom = 100 centésimos Um tom inteiro = 200 centésimos

• Pode-se utilizar centésimos
  

Comparação das Escalas Musicais
Comparando as escalas justa e temperada, usando o lá padrão (440 Hz), notamos que existem diferenças na afinação das notas: Grau Nota Razão Freq. Razão Cents Freq. Difer. Justa Justa Temp. Temp. Temp (Hz) I II III IV V VI VII VIII Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó 1 9/8 5/4 4/3 3/2 5/3 15/8 2 264 297 330 352 396 440 495 528 1 1,122 1,260 1,335 1,498 1,682 1,889 2 0 200 400 500 700 900 1100 1200 261,6 293,7 329,6 349,2 392,0 440 493,8 523,2 2,4 3,3 0,4 2,8 4 0 1,2 4,8

História da Física da Música
Pitágoras de Creta (ca. 580-500 BCE)

• Acreditava na • •
“racionalidade” da Natureza Filosofia baseada em números inteiros. Descobriu a lei das cordas

Pitágoras e o Monocórdio
1:1 - Uníssono 2:1 - Oitava 3:2 - “Quinta Justa” 5:4 - “Terça Maior”
Conclusão: Cordas com comprimentos que são razões inteiras dos outros soam consoantes.

Quartas e Quintas
Os pitagóricos basearam sua escala em Quartas e Quintas, que eram consideradas harmonicamente “puras”:

• A quarta era subdividida em dois tons (intervalo
inteiro) e um meio-tom (meio intervalo).
 

Esse arranjo de intervalos é chamado tetracórdio Dois tetracórdios podem ser concatenados (separados por um intervalo inteiro) para criar uma escala diatônica.

Tetracórdios

Oitava
• Intervalo entre duas freqüências com razão 2:1 • Sensação auditiva de mesma nota em alturas diferentes

Escalas Musicais
• Teoria da Música é baseada em princípios
físicos.

• Convenções Musicais são a base da história
e da invenção.

• “Música Ocidental” é baseada
(aproximadamente) na razão de números inteiros.

Série Harmônica
• Vibração de uma corda produz modos de
vibração que são múltiplos inteiros da fundamental (harmônicos) • Razões de Freqüência

2:1, 3:2, 4:3, 5:3, 5:4, 6:5, 8:5, etc...

2:1 = oitava

• Escala

Série de sons ordenados ascendentemente com intervalos de freqüência definidos a partir da série harmônica

Freqüência Fundamental

A corda vibra em toda a sua extensão, produzindo um “tom puro”, f1

A afinação é função do comprimento, material e tensão da corda.

Segundo Harmônico

A corda também vibra em movimentos simultâneos contrários, dividindo-se em duas 2f = 2 x f1 == Fundamental + 1 Oitava

Terceiro Harmônico

A corda também vibra em movimentos simultâneos contrários, dividindo-se em três 3f = 3 x 1f == Fundamental + 1 Oitava + 1 Quinta

Quarto Harmônico

A corda também vibra em movimentos simultâneos contrários, dividindo-se em quatro 4f = 4 x 1f == Fundamental + 2 Oitavas

Quinto Harmônico

A corda também vibra em movimentos simultâneos contrários, dividindo-se em cinco 5f = 5 x 1f == Fundamental + 2 Oitavas + 1 Terço

A Série Harmônica
• Série Harmônica (apenas os dez primeiros
harmônicos

Fundamental, 2f, 3f, 4f, 5f, 6f, 7f, etc...

Análise Harmônica
• Joseph Fourier (1768-1830) demonstrou que:
 

É possível reduzir uma onda complexa em uma soma de ondas senoidais As únicas ondas senoidais necessárias são ondas de freqüências que são múltiplos inteiros da freqüência fundamental Se pudermos reduzir uma onda complexa periódica a um conjunto de ondas periódicas simples, então poderemos descrevê-la usando a informação sobre a freqüência, amplitude e fase de cada onda periódica simples

• Conceito Principal:

Formas de onda
• Simples (senoidal):
 

Não existe na natureza! x(t) = a sen (ft + θ )
  

a = amplitude f = freqüência θ = fase inicial

• Complexa (composta de senoidais): Serie de Fourier

f(t) = ak + a0 sen (f0t0) + a1 sen (f1t1) + ... + an sen (fntn) f0 é chamada de freqüência fundamental as outras são chamadas de parciais harmônico = parcial múltiplo de f0

  

Onda complexa: exemplo
• O conteúdo harmônico

Fundamental

é um dos responsáveis pelo timbre de um instrumento ou voz é chamado Resposta em Freqüência ou Espectro Toda onda pode, teoricamente, ser obtida a partir de senoidais Instrumentos percussivos tem parciais não harmônicas

2° harmônico 3° harmônico

• Síntese aditiva:
 

resultado

Análise Harmônica

Análise Harmônica
• Gráfico do resultado de uma análise
harmônica:

  

Freqüência do harmônico: eixo horizontal Amplitude do harmônico: eixo vertical Fase do harmônico: não mostrada

Análise Harmônica

Afinação - Breve História
• Em 1619, o compositor Michael Praetorius

sugeriu 425 Hz como um padrão de afinação (chamado “afinação de câmara")
Alturas maiores não eram recomendadas devido às técnicas de construção limitadas dos instrumentos de corda. Em 1855, o Físico francês Jules Lissajous desenvolveu uma técnica para calibrar diapasões, sugerindo 435 Hz como a altura padrão. O governo Francês (Napoleão) adotou 435 Hz em 1859 Adotado internacionalmente em 1885 em uma conferência em Viena

Afinação - Figuras de Lissajous
• O equipamento de Lissajous refletia um feixe
luminoso a partir de espelhos posicionados nos diapasões.

Luz produzia figuras que podiam determinar as freqüências relativas dos diapasões, baseado em razões de intervalo padrão.

Afinação - Figuras de Lissajous

Afinação - Figuras de Lissajous
• A técnica básica é usada até hoje!! • Porém hoje são utilizados modernos
osciloscópios gráficos, que decompõe o som gerando gráficos, simulando o mesmo padrão.

Afinação - Breve História
• A era industrial (fim dos 1800s) levou a
melhorias em metalurgia e técnicas de construção de instrumentos.

Esta melhoria permitiu um aumento no padrão de afinação, dando mais brilho à orquestra

• A afinação de 440 Hz foi adotado nos EUA a
partir de 1939

Orquestras modernas (especialmente na Europa) usam 442 ou mesmo 445 como afinação de referência.

Técnicas de Afinação Modernas
• Hoje em dia os instrumentos podem ser
afinados eletronicamente ou acusticamente.

Instrumentos Monofônicos são afinados relativos a uma única referência. Todos os outros tons são considerados afinados. Instrumentos Polifônicos afinam-se relativos a uma referência, e toda os outros tons são afinados a partir daquela referência.

Afinação Eletrônica
• Um afinador eletrônico mostra exatamente
qual é o tom que está sendo tocado.

Afinação Acústica
• É feita comparando a afinação do •
instrumento com uma afinação de referência (diapasão, por exemplo) Usa-se o batimento entre os sons, se estes estão desafinados.
 

Exemplo: 442 vs 440 tem batimento a 2 Hz Este batimento, por ser de baixa freqüência, é audível na forma de ritmo

No caso, duas batidas por segundo (2 Hz)

Afinando de verdade
• Afinação apropriada de uma nota em um
dado instrumento é afetada por muitos fatores, dos quais alguns podemos controlar, e outros não:
 

Psicoacústica Características físicas do instrumento (como ele é construído) Temperamento geral do instrumento (como ele é afinado)

Bibliografia
• Conceitos e Terminologia Musical

Geber Ramalho & Osman Gioia – UFPE

• Física da Fala e da Audição

Prof. Dr. Marcelo Knobel (UNICAMP)

• Formas de Ondas Complexas

Prof. Luiz Netto
http://members.tripod.com/caraipora/graficos_fourier.htm