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DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SEGURANÇA AMBIENTAL GLOBAL

Wagner Costa Ribeiro
Doutor em Geografia
Departamento de Geografia
Universidade de São Paulo
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Resumo
A ordem ambiental internacional está em construção. Seu objetivo é regular as ações humanas
em escala internacional para evitar que as condições de habitabilidade humana no pla
neta sejam perdidas e/ou regular as relações hegemônicas do capitalismo internacional
entre as partes envolvidas em cada questão que é trazida à discussão. Os temas da escass
ez de recursos naturais necessários à reprodução da vida e a ameaça à segurança ambiental in
rnacional integram a pauta dos trabalhos. O primeiro leva à necessidade de discuti
r o acesso aos recursos e à herança que será deixada para as gerações futuras. Ao mesmo te
mpo, ele gera a preocupação em manter o desenvolvimento econômico, porém, com o rótulo sus
tentável. O segundo, remete à impossibilidade da reprodução da vida na Terra, criando te
orias alarmistas, para alguns, ou evidências que realmente comprometem a existência
humana no planeta, para outros.
Palavras-chave: desenvolvimento sustentável /segurança ambiental internacional / con
venções internacionais sobre o ambiente / geografia política.
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Abstract
The international environmental order is under construction. Its main goal is to
regulate human action in an international scale with the purpose of avoiding th
at the conditions of human life in the planet be lost and/or regulating the hege
monic relations of international capitalism between the involved parties for eac
h issue brought to debate. The subjects of the scarcity of natural resources nec
essary to the reproduction of life, and the threat to the global environmental s
ecurity integrate the works agenda. The first leads to the debate about the acce
ss to resources and the heritage that will be left to future generations. At the
same time, engender preoccupation about the economic development maintenance, b
ut, with the sustainable label. The second problem is related to the impossibili
ty of life reproduction on Earth, creating alarmist theories, for some, or evide
nces that truly jeopardize human existence on the planet, for others.
Key words: sustainable development / international environment security / intern
ational environment convention / political geography.
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Os conceitos de segurança ambiental global e de desenvolvimento sustentável são centra
is para o estabelecimento da ordem ambiental internacional(1). O primeiro deles,
nos faz refletir sobre a necessidade de manter as condições da reprodução da vida human
a na Terra, posto que ainda não se tem notícia da existência de outro planeta com cond
ições naturais semelhantes ao que habitamos, o que não deixa outra alternativa senão viv
ermos aqui. Em uma palavra, a Terra ainda é a morada da espécie humana, ao menos por
enquanto. Já o segundo, procura regular o uso dos recursos naturais através do empr
ego de técnicas de manejo ambiental, de combate ao desperdício e à poluição. Se fôssemos emp
regar uma expressão também para esse conceito, diríamos, que ele define que as ações human
as dirigidas para a produção de coisas necessárias à reprodução da vida devem evitar a destr
uição do planeta.
Entretanto, em que pese o reconhecimento destas duas premissas e de que elas env
olvem a promoção de ajustes globais, nos quais os vários atores do sistema internacion
al certamente devem contribuir para que metas comuns sejam alcançadas, os países, pr
incipais interlocutores na ordem ambiental internacional, por meio de seus negoc
iadores, têm procurado salvaguardar o interesse nacional. Agindo desta forma, tran
sformam as preocupações com a sustentabilidade do sistema econômico hegemônico e a possi
bilidade de que ele nos encaminhe para uma situação de risco em mera retórica. As preo
cupações ambientais globais acabam se revestindo de um caráter meramente de divulgação, en
quanto na arena da política internacional as decisões de fato têm se encaminhado para
contemplar interesses nada difusos.
O que efetivamente tem prevalecido são as vantagens econômicas e políticas que os países
podem auferir a cada rodada de negociações. E, o que é mais interessante, eles se com
portam de maneira particular para cada tema destacado no arranjo institucional d
a ordem ambiental internacional.
Os conceitos que veremos a seguir influenciaram as reuniões internacionais ao long
o da década de 1990. Eles foram criados para legitimar a ordem ambiental internaci
onal, procurando garantir-lhe uma base científica. Iniciamos com o desenvolvimento
sustentável.

O desenvolvimento sustentável
Um dos problemas da vida contemporânea é medir a capacidade que teremos de manter as
condições da reprodução humana na Terra. Em outras palavras, trata-se de permitir às geraçõ
vindouras condições de habitabilidade no futuro, considerando a herança de modelos te
cnológicos devastadores e possíveis alternativas a eles. Os seres humanos que estão po
r vir precisam dispor de ar, solo para cultivar e água limpos. Sem isso, as perspe
ctivas são sombrias: baixa qualidade de vida, novos conflitos por água , entre outra
s.
Durante a década de 1970, tomou corpo uma discussão que procurava aproximar algo até e
ntão muito distante: a produção econômica e a conservação ambiental. Esta aproximação ocorre
maneira lenta, através de reuniões internacionais e relatórios preparatórios.
A associação entre desenvolvimento e o ambiente é anterior à Conferência de Estocolmo. Os
presságios de uma nova concepção são esboçados no encontro preparatório de Founex (Suíça), e
71, onde iniciou-se uma reflexão a respeito das implicações de um modelo de desenvolvi
mento baseado exclusivamente no crescimento econômico, da problemática ambiental. Es
ta discussão ganhou destaque com o economista Ignacy Sachs, gerando o conceito de
ecodesenvolvimento na década de 1970.
Em 1973, na primeira reunião do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA
), realizada em Genebra, Maurice Strong, então Diretor-executivo do programa, empr
egou a expressão ecodesenvolvimento. Na ocasião, porém, ele não teve a preocupação em defini
r o conceito, que seria formulado, pela primeira vez, por SACHS, no ano seguinte
. Para ele, o ecodesenvolvimento seria um estilo de desenvolvimento particularmen
te adaptado às regiões rurais do Terceiro Mundo, fundado em sua capacidade natural p
ara a fotossíntese" (Sachas, 1974. In Leff, 1994:317).
Esta primeira formulação, em que pese seu caráter genérico, merece ser comentada do pont
o de vista da geografia. A capacidade natural para a fotossíntese dos países subdese
nvolvidos era uma alusão à sua paisagem natural, destacando imagens, em especial a e
uropeus, de um "mundo verde". Algo similar ao que é difundido sobre a Amazônia brasi
leira em nossos dias.
O segundo comentário é a indicação de sua aplicação no meio rural dos países do Terceiro Mun
. O que o levaria a tecer esta consideração? Seria uma sugestão que, se seguida, conde
naria os países ao subdesenvolvimento? Ou a reafirmação da clássica divisão do trabalho en
tre o campo e a cidade, donde pode-se imaginar que a cidade é insustentável?
Em nosso ponto de vista, Sachs está refletindo, conscientemente ou não, um conceito
geográfico. Trata-se da formulação de gênero de vida. Esta passagem de Vidal de La Blach
e ilustra a matriz de Sachs:
Sob a influência da luz e de energias cujo mecanismo nos escapa, as plantas absorv
em e decompõem os corpos químicos; as bactérias fixam, em certos vegetais, o azote da
atmosfera. A vida, transformada na passagem de organismo em organismo, circula a
través de uma multidão de seres: uns elaboram a substância de que se alimentam os outr
os; alguns transportam germes de doenças que podem destruir outras espécies. Não é exclu
sivamente graças ao auxílio dos agentes inorgânicos que se verifica a acção transformadora
do homem; este não se contenta em tirar proveito, com o arado, dos materiais em d
ecomposição do subsolo, em utilizar as quedas de água, devidas à força da gravidade em funçã
das desigualdades do relevo. Ele colabora com todas estas energias agrupadas e a
ssociadas segundo as condições do meio. O homem entra no jogo da natureza (VIDAL DE
LA BLACHE, 1921:42).
A idéia de sustentabilidade é justamente a de fazer a espécie humana "entrar no jogo d
a natureza". Em outras palavras, Sachs vislumbra o ambiente rural como o lugar p
ossível para desenvolver-se um modo de vida capaz de manter e reproduzir as condições
da existência humana sem comprometer a base natural necessária à produção das coisas. As c
omunidades alternativas e os ecologistas radicais também. Esses últimos chegaram até a
condenar as cidades.
Se tomarmos a divisão do trabalho como um aspecto a ponderar na direção da sustentabil
idade veremos que Marx continua, neste aspecto, com a razão. Trata-se da primeira
e principal divisão estabelecida pela espécie humana, com a agravante de que a cidad
e depende do campo e ainda seria insustentável. Como resposta a esta formulação surgem
inúmeros programas na década de 1990, dentre os quais se destaca o de cidades suste
ntáveis, que em alguns países, dentre eles o Brasil, vem reunindo lideranças de vários s
egmentos para discutir alternativas para tornar a cidade sustentável. Ora, como su
stentar um meio que, em si, tomando emprestada uma expressão de Marx, depende de e
nergia e matéria-prima gerada fora dela para funcionar, se os habitantes da cidade
não produzem alimento, em que pese o caráter cada vez mais urbanizado do campo e a
sujeição do pequeno produtor ao capital (Oliveira, 1981). Outra derivação do termo cidad
es sustentáveis surgiu no campo da saúde. Nesse caso, a expressão que define os progra
mas é "cidade saudável", reconhecendo, embora não explicitamente, que os urbanistas hi
gienistas, muito em voga no início do século XX, tinham razão. Não é agradável viver em um l
ugar com trânsito intenso, odores ruins, barulho excessivo, respirando um ar combi
nado com vários elementos químicos, muitos deles causadores de doenças graves em seres
humanos, como vimos.
Mas voltemos ao histórico da formulação do conceito de desenvolvimento sustentável. A fo
rmulação teve continuidade com a Declaração de Coyococ (México), organizada pelo PNUMA e a
Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, em 1974. Nesse document
o, lê-se que o ecodesenvolvimento seria uma relação harmoniosa entre a sociedade e seu
meio ambiente natural conectado à autodependência local (Leff, 1994:319).
O Relatório Que Faire, de 1975, atualiza o termo, grafando a expressão que vai conso
lidar esta idéia: desenvolvimento sustentado.
A consolidação do conceito de desenvolvimento sustentável na comunidade internacional
virá anos mais tarde, a partir do trabalho da Comissão Mundial para o Meio Ambiente
e Desenvolvimento (CMMAD), criada em 1983 através de uma deliberação da Assembléia Geral
da ONU. Ficou definida a presença de 23 países-membros da Comissão, que promoveu entr
e 1985 e 1987:
(...) mais de 75 estudos e relatórios, realizando também conferências ou audiências públic
as em dez países e acumulando assim as visões de uma seleção impressionante de indivíduos
e organizações (McCORMICK, 1992:189).
Esta Comissão foi presidida por Gro Harlem Brundtland, que fora primeira-ministra
da Noruega e pretendia dar um tom mais progressista aos trabalhos do grupo que c
oordenava. O documento mais importante produzido sob seu comando foi o relatório N
osso Futuro Comum(2). Nesse relatório está a definição mais empregada de desenvolvimento
sustentável, que reproduzimos a seguir:
(...) aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidad
e de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades (CMMAD, 1988:46).
Esse conceito tornou-se referência para inúmeros trabalhos e interesses os mais dive
rsos. Se de um lado existe os que acreditam que o planeta em que vivemos é um sist
ema único que sofre conseqüências a cada alteração de um de seus componentes, de outro, es
tá os que acreditam que o modelo hegemônico pode ser ajustado à sustentabilidade. Esse
é o debate: manter as condições que permitam a reprodução da vida humana no planeta, ou m
anter o sistema, buscando a sua sustentabilidade. O primeiro grupo tem em James
Lovelock (1989) o seu representante maior, que pensa a Terra como um sistema holís
tico. Já o segundo grupo, possui representantes espalhados por todo o planeta.
São aqueles que buscam tecnologias alternativas e não impactantes sem questionar o p
adrão de produção vigente.
Apesar da adoção do conceito de desenvolvimento sustentável em atividades de planejame
nto, inclusive do turismo ecológico, ele não é entendido de maneira consensual. Destac
amos as idéias de S. C. Herculano, que afirma que o desenvolvimento sustentável tem
dois significados:
(...) é uma expressão que vem sendo usada como epígrafe da boa sociedade, senha e resu
mo da boa sociedade humana. Neste sentido, a expressão ganha foros de um substitut
o pragmático, seja da utopia socialista tornada ausente, seja da proposta de intro
dução de valores éticos na racionalidade capitalista meramente instrumental. (...) Na
sua segunda acepção, desenvolvimento sustentável é (...) um conjunto de mecanismos de aj
ustamento que resgata a funcionalidade da sociedade capitalista (...). Neste seg
undo sentido, é (...) um desenvolvimento suportável, medianamente bom, medianamente
ruim, que dá para levar, que não resgata o ser humano da sua alienação diante de um sist
ema de produção formidável (HERCULANO, 1992:30).
Outro autor que trabalha o assunto é Carlos Walter P. Gonçalves, que afirma que o de
senvolvimento sustentável
(...) tenta recuperar o Desenvolvimento como categoria capaz de integrar os desi
guais (e os diferentes?) em torno de um futuro comum. Isto demonstra que pode ha
ver mais continuidade do que ruptura de paradigmas no processo em curso (GONÇALVES
, 1996:43).
Por seu turno, Ribeiro et al. sugerem distinguir
(...) o conceito de Desenvolvimento Sustentável de sua função alienante e justificador
a de desigualdades de outra que se ampara em premissas para a reprodução da vida bas
tante distintas. Desenvolvimento Sustentável poderia ser, então, o resultado de uma
mudança no modo da espécie humana se relacionar com o ambiente, no qual a ética não seri
a apenas entendida numa lógica instrumental, como desponta no pensamento eco-capit
alista, mas sim, embasada em preceitos que ponderassem as temporalidades alteras
à própria espécie humana, e, porque não, também as internas à nossa própria espécie (RIBEIR
al., 1996:99).
S. C. Herculano (1992) faz par com Gonçalves (1996) quando não vislumbra nenhuma rup
tura a partir da almejada sustentabilidade. Entretanto, não deixa de reconhecer qu
e ela pode, ao menos, viabilizar uma reforma do capitalismo.
Por sua vez, Gonçalves (1996) lembra que pode estar sendo gerado um novo discurso
totalizante a partir do desenvolvimento sustentável. Um discurso que se instalaria
na ausência de alternativas transformadoras das desigualdades sociais, a partir d
as relações sociais.
Já Ribeiro et al.(1996), ponderam que o desenvolvimento sustentável poderia vir a se
r uma referência, desde que servisse para construir novas formas de relação entre os s
eres humanos e desses com o ambiente. Apontam que o grande paradoxo do desenvolv
imento sustentável é manter a sustentabilidade, uma noção das ciências da natureza, com o
permanente avanço na produção exigida pelo desenvolvimento, cuja matriz está na sociedad
e.
Tendo como princípio conciliar crescimento e conservação ambiental, o conceito de dese
nvolvimento sustentável, por sua vaguidade, passou a servir a interesses diversos.
De nova ética do comportamento humano, passando pela proposição de uma revolução ambienta
l até ser considerado um mecanismo de ajuste da sociedade capitalista (capitalismo
soft), o desenvolvimento sustentável tornou-se um discurso poderoso, promovido po
r organizações internacionais, empresários e políticos, repercutindo na sociedade civil
internacional e na ordem ambiental internacional.

A segurança ambiental global
Diferente do que ocorreu com o desenvolvimento sustentável, que foi sendo elaborad
o ao longo de várias reuniões internacionais e está servindo como base para a implemen
tação de políticas, a idéia de segurança ambiental global não está configurada como um conce
o que leva à ação, mas sim à implementação de estratégias por uma unidade política. Ela evol
e maneira mais lenta, encontrando muito mais resistência que o conceito anterior (
Elliot, 1998). Mas não deixou de cumprir a função de justificar "cientificamente" a po
lítica externa dos países.
Pensar globalmente os problemas ambientais exige conhecimento científico e perspicác
ia política. Uma das grandes dificuldades que se encontra em reuniões internacionais
é que muitos dos representantes dos países que participam ficam divididos entre est
es dois grupos de personagens - os cientistas e os tomadores de decisões - e rara
mente conseguem chegar a bom termo, até quando representam o mesmo país.
Uma das evidências mais claras deste comportamento decorre da crítica contundente qu
e muitos cientistas apontam aos documentos oficiais resultantes de discussões políti
cas. É comum dizerem que o conceito está errado ou sem base científica que o sustente.
Deste modo, tendem a desconsiderar todo o esforço de elaboração do documento e a verd
adeira "alquimia" política empregada, às vezes ao longo de anos e por meio de discus
sões aparentemente intermináveis, em sua construção.
De outro lado, os políticos, que têm ganho esta batalha com os pesquisadores, ressen
tem-se de informações mais precisas sobre determinadas questões, ou, o que é mais freqüent
e, encomendam conclusões científicas que "expliquem" suas decisões. Este descompasso, à
luz da opinião pública - filtrada pelas ONGs e pelas grandes empresas de comunicação -,
resulta em uma série de reuniões dispendiosas que aparentemente só servem para gerar d
iárias para delegações imensas conhecerem o mundo e seus países comprometerem-se a gasta
r recursos em questões inócuas.
Este preâmbulo foi necessário pois, no caso da segurança ambiental global, ele se ajus
ta ao que se verifica na realidade.
Vejamos o problema da camada de ozônio. Seu comprometimento coloca em risco toda a
espécie humana? Não. Os mais ricos podem comprar protetores de radiação solar e continu
ar a expor-se ao Sol. Porém, e aqui o tempo é um fator determinante, confirmadas as
possibilidades apontadas por estudiosos, vai chegar um momento em que não vai adia
ntar muito proteger-se dos raios solares.
E as mudanças climáticas? Suas conseqüências afetarão a todos da mesma maneira? Certamente
não. Mas novamente os estudiosos apontam riscos, como por exemplo a mudança dos cic
los de vida dos vegetais que produzem alimento e uma eventual crise alimentar. Áre
as úmidas podem transformar-se em áreas semi-áridas. Pontos do litoral em todo o mundo
serão alagados. Esses problemas exigem um rearranjo do modo de vida de muita gent
e, acarretando em novos beneficiários e em novos despossuídos.
Para evitar uma catástrofe em escala mundial, ou como ficaria mais claro, para man
ter o atual estado das coisas e da divisão do poder mundial, estabeleceram-se regr
as internacionais para impedir que as ações humanas desencadeiem processos como os a
pontados acima. Esta é uma das bases da ordem ambiental internacional. Entretanto,
como estamos vivendo um dinâmico processo de ajuste internacional de interesses e
nvolvendo a temática ambiental, surgem novas oportunidades e novos países podem ser
alçados à posições de destaque no cenário internacional. Rafael Duarte Villa aponta um con
ceito para ajudar a compreensão da conjuntura atual. Trata-se da segurança global mu
ltidimensional, que para o autor
(...) reflete a nova natureza preponderante da segurança internacional: esta já não po
de mais ser visada em termos de acréscimo de poder. A preservação de [um] Estado nacio
nal face os novos fenômenos transnacionais - explosão populacional, migrações internacio
nais e desequilíbrios ecológicos globais - não se dá pela imposição da sua vontade unilatera
l ou pelo apelo à última ratio, a violência institucional. Em outras palavras, questio
na-se o pano de fundo genérico realista que vê na legalidade e legitimidade da guerr
a o elemento específico das relações internacionais. Neste sentido pode-se afirmar que
a singularidade da segurança global multidimensional é que os conflitos que podem d
erivar dos fenômenos transnacionais não admitem a guerra como meio de solução (VILLA, 19
97:209).
Para o cientista político Villa (1997), a imposição de temas transnacionais impede ou
tira o efeito da força, já que todos sofreremos as conseqüências dos eventos ambientais
globais. Sua indagação seria: de que adianta ter armas e impor o uso do automóvel se c
om as mudanças climáticas a base nacional da agricultura vai se transformar, exigind
o uma adaptação custosa até mesmo para os países centrais?
A esta pergunta poderíamos responder que é preciso insistir em apreender as diferenças
entre países e entre a sua população. Os custos e os impactos são diferentes segundo a
preparação dos países para enfrentar os problemas ambientais, sejam eles gerados pela
sociedade ou pela natureza. Observando as condições de vida dos agrupamentos humanos
, em suas mais simples e nas mais complexas maneiras de organização social, vemos qu
e, por exemplo, um terremoto que ocorre em um país rico, ainda que mais forte e po
rtanto possivelmente causador de mais destruição, gera muito menos vítimas e estragos
materiais que outro que ocorre em um país periférico.
Os dados a seguir confirmam este aspecto. Em Kobe (Japão), ocorreu um terremoto qu
e chegou a 7,2 graus de intensidade na escala Richter. Esse evento natural provo
cou cerca de 6000 mortes e deixou algo em torno de 300 mil desabrigados no ano d
e 1995. Dois anos antes, na Índia, ocorreu um terremoto que chegou a 6,3 graus na
escala Richter, portanto, de menor intensidade que o do Japão. Como resultado regi
straram-se cerca de 10000 mortes, apesar de ter ocorrido a aproximadamente 700 q
uilômetros de Nova Delhi, portanto, em uma área menos povoada.
Lorraine Elliot (1998) também discute a segurança ambiental. Ela aponta que muitos a
utores refutam esta concepção por associarem esse conceito ao pensamento estratégico m
ilitar. Estes puristas entendem que a questão ambiental em caráter internacional não p
ode ser vista dentro de uma dimensão estratégica. Para esses autores, apenas os proc
essos naturais bastariam para fornecer elementos à compreensão dos fenômenos e suas co
nseqüências para as unidades políticas.
Para a autora existe uma outra interpretação que associa o militarismo à questão ambient
al e à segurança. Trata-se da visão estratégica, que admite os recursos naturais como vi
tais à sobrevivência da população de uma unidade política e que, portanto, reforça o conceit
o de soberania das unidades na gestão de seus recursos. Se lembrarmos que Ray Clin
e (1983) e Claude Raffestin (1993) definem os recursos naturais como um dos elem
entos que devem ser ponderados na definição do poder, veremos que esta matriz pode a
brigar muitos adeptos. O caso da gestão dos recursos hídricos nos parece o mais embl
emático para ilustrar este entendimento. Como as bacias muitas vezes transpassam o
s limites territoriais dos países, eles podem ficar em uma situação de dependência de ou
tro país para obter água e abastecer sua população. Tal situação pode ser observada na dispu
ta entre Israel e a Síria, envolvendo as colinas de Golã, onde estão os mananciais que
provém de água habitantes dos dois países.
Entretanto, Elliot, que também é cientista política, defende, uma posição muito próxima à de
illa (1997):
Diante da insegurança ecológica, países e população não podem ser seguros se o ecossistema n
é seguro. Nem um nem outro vai ajudar a identificar o inimigo que objetiva violar
a integridade territorial e a soberania do estado. O 'inimigo' não é o ambiente mas
as atividades cotidianas humanas e de corporações" (ELLIOT, 1998:238).
A autora esquece-se de que as atividades humanas e das corporações, como bem apontou
, causadoras dos problemas ambientais em escala nacional, estão circunscritos geog
raficamente. Segundo dados do PNUMA, cerca de 25 por cento do total da população mun
dial gera os problemas ambientais na escala que encontramos atualmente. Esta é a p
arcela inserida no universo dos consumidores. Como este índice já chegou a cerca de
30 por cento no início da década de 1990, conclui-se que é cada vez menor a parcela da
população que causa problemas ambientais devido ao modo de vida que adotam, o que i
ndica, entre tantas outras coisas, uma concentração da riqueza ainda maior.
Para os seres humanos que estão usufruindo do mundo do consumo e que vivem em dete
rminada unidade política permanece o interesse nacional. Eles querem salvaguardar
vantagens específicas que garantem a manutenção de seu modo de vida, que são negociadas
para cada aspecto discutido na ordem ambiental internacional.
Neste sentido, protelar o abandono da queima de combustível fóssil é uma atitude esper
ada, quando se obtém vantagens com sua venda, como defenderam os países árabes na Conv
enção de Mudanças Climáticas. Se não é preciso empregar a força, isto não representa que se
mão do interesse nacional. Continua a valer, portanto, uma das premissas do reali
smo político. É evidente que não é preciso empregar a força para impor sua vontade, como v
ivíamos durante a Guerra Fria. A persuasão surge de outras maneiras, como algumas qu
e foram propostas na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvi
mento, realizada em 1992 no Brasil, e nas conferências das partes que se seguiram
a ela.

Notas:
1. Este artigo é resultado da Tese de Doutorado A ordem ambiental internacional, d
efendida no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana do Departamento de Geografia
da Universidade de São Paulo em 1999. Nesse trabalho, o autor aborda as relações inte
rnacionais e o ambiente, analisando convenções internacionais sobre o tema
2. O Nosso Futuro Comum, que também ficou conhecido como Relatório Brundtland (Comis
são Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, 1988) é produto do trabalho de um
a comissão de 21 membros de diversos países que, entre 1983 e 1987, estudaram a degr
adação ambiental e econômica do planeta, propondo soluções para os problemas detectados s
obre a ótica do desenvolvimento sustentável. Para uma interpretação deste relatório, ver B
ermann (1992), Herculano (1992), Malmon (Coord. 1992), Oliveira (1992), Waldmann
(1992), Sachs (1993), Cavalcanti (Org. 1995), Christofoletti et al. (Orgs. 1995
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