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STUART HALL

A IDENTIDADE CULTURAL
NA PÓS-MODERNIDADE
Tradução: Tomaz Tadeu da Silva
Guacira Lopes Louro
112 edição
12 reimpressão
 
C>P&.A.
eclit<:>r"'a.
"Blackwell Publisher
"da tradução: De Paulo Editora
O texto deste livro foi adaptado ao Acordo Ortográfico
da Língua Portuguesa, assinado em 1990, qu.e começou a
vigorar em lº de janeiro de 2009.
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Impresso no Brasil
2011
1. A IDENTIDA E EM
Três concepções de ide tidod
do mudonco no m derni
O que estÓ em jo
2. N
DO SUJ ITO
Desc ntron
COMUNIDAD S IMA
Narrando o noção: uma
imaginado. Descon truin
nocional": identidade
---
SUMÁRIO
UESTÃO, 07
. O caráter
ode tardio.
uestão dos
entidades?
TO E MORTE
DERNO, 23
o o sujeito.
NAIS COMO
INADAS, 47
omunidode
o o "cultura·
diferenço.
4. IZAÇÃO, 67
Compressão espaço-te po e identidade.
Em direção ao pós mod rno global?
5. GLO AL, O LOCAL
6.
DIÁSPOR
RNO ETNIA, 77
Rest n the West.
dos entidades.
REFERÊNCIAS B BLIO 'FICAS, 99
AIDENTIDA
A form ção de uma cultura nacional
contrib iu p ra criar padrões de alfabetiza-
ção uni ersai , generalizou uma única língua
lar c mo o meio dominante de comu-
em t da a nação, criou uma cultura
ea e manteve instituições culturais
is, c mo, por exemplo, um sistema
nal acional. Dessa e de outras for-
mas, a ultu nacional se tornou uma carac-
terístic -cha e da industrialização e um dis-
positiv da odernidade. Não obstante, há
outros spec s de uma cultura nacional que a
empur ma direção diferente, trazendo
à tona que omi Bhabha chama de "a ambi-
valênc · par icular que assombra a ideia da
nação" (Bha ha, 1990, p. 1). Algumas dessas
ambig idad s são exploradas no capítulo 4.
Na pr' ima seção discutirei como uma cul-
tura n cion 1 funciona como um sistema de
repres ntaç o. Na seção seguinte, discutir_ei
ntid des nacionais são realmente tao
as e tão homogêneas como represen-
. Ap nas quando essas duas questões
sid respondidas é que poderemos
consid rar dequadamente o argumento de
que as ident dades nacionais foram uma vez
centra as, c erentes e inteiras, mas que estão
sendo gora eslocadas pelos processos de glo-
baliza ão.
50
As CULTURAS NACIONAIS COMO COMUNIDADES IMAGINADAS
Narrando a nação:
uma comunidade imaginada
As culturas nacionais são compostas não
apenas de instituições culturais, mas também
de símbolos e representações. Uma cultura
nacional é um discurso - um modo de cons-
truir sentidos que influencia e organiza tanto
nossas ações quanto a concepção que temos
de nós mesmos (veja Penguin Dictionary of
Sociology: verbete "discourse"). As culturas
nacionais, ao produzir sentidos sobre "a na-
ção'\ sentidos com os quais podemos nos iden-
tificar, constroem identidades. Esses sentidos
estão contidos nas histórias que são contadas
sobre a nação, memórias que conectam seu
presente com seu passado e imagens que dela
são construídas. Como argumentou Benedict
Anderson (1983), a identidade nacional é uma
"comunidade imaginada".
Anderson argumenta que as diferenças
entre as· nações residem nas formas diferen-
tes pelas quais elas são imaginadas. Ou, como
disse aquele grande patriota britânico, Enoch
Powell: "a vida das nações, da mesma forma
que a dos homens, é vivida, em grande parte,
na imaginação" (Powell, 1969, p. 245). Mas
como é imaginada a nação moderna? Que
estratégias representacionais são acionadas
para construir nosso senso comum sobre o
pertencimento ou sobre a identidade nacio-
A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE
nal? Quais são as representações, digamos, de
"Inglaterra", que dominam as identificações e
definem as identidades do povo "inglês"? "As
nações", observou Homi Bhabha, "t.ais como
as narrativas, perdem suas origens nos mitos
do tempo e efetivam plenamente seus hori-
zontes apenas nos olhos da mente" (Bhabha,
1990, p. 1) .Como é contada a narrativa da cul-
tura nacional?
Dos muitos aspectos que uma resposta
abrangente à questão incluiria selecionei
cinco elementos principais:
52
• Em primeiro lugar, há a narrativa da
nação, tal como é contada e recontada
nas histórias e nas literaturas nacio-
nais, na mídia e na cultura popular.
Essas fornecem uma série de histórias,
imagens, panoramas, cenários, eventos
históricos, símbolos e rituais nacionais
que simbolizam ou representam as ex-
periências partilhadas, as perdas, os
triunfos e os desastres que dão sentido
à nação. Como membros de tal "comu-
nidade imaginada", nos vemos, no olho
de nossa mente, como compartilhando
dessa narrativa. Ela dá significado e
importância à nossa monótona existên·-
cia, conectando nossas vidas cotidianas
com um destino nacional que preexiste
a nós e continua existindo após nossa
morte. Desde a imagem de uma verde e

As CULTURAS NACIONAIS COMO OMUNID DES IMAGINADAS
agradável terra ingles , co seu doce e
tranquilo interior, co chalés de
treliças e jardins cam - "a ilha
coroada" de Shakespe té às ceri-  
mônias públicas, o dis a "inglesi-
dade" ( englishness) re rese a o que "a
Inglaterra" é, dá sentid à id ntidade de
"ser inglês" e fixa a "I glat. ra" como
um foco de identificaçã rações in-
gleses (e anglófilos). C mo o serva Bill
Schwarz:
Essas coisas formam a tra nos prende
invisivelmente ao passado. o modo que
o nacionalismo inglês é ne im também
o é sua turbulenta e contest da hi tória. O que
ganhamos ao invés disso. -. uma
dição e na herança, acima e tudo
dade, de forma que nossa c tura
sente é vista como o floresci
e orgânica evolução (Schwa
Em segundo lugar, há
gens, na continuidade, a tr
intemporalidade. A ide tida
é representada como p imor
lá, na verdadeira natu eza
algumas vezes adorme "da,
" dd" pronta para ser acor a
ga, persistente e mister osa s
para reassumir sua inq ebra
ase na tra-
a continui-
olítica pre-
e uma longa
, p. 155).
e nas ori-
dição ena
e nacional
ial- "está
s coisas'',
as sempre
sua "lon-
nolência",
tável exis-
53  
;._..·
A IDENT ADE CU :fURAL NA PÓS-MODERNIDADE

54
ênci (Gellner, 1983, p. 48). Os elemen-
os e senciais do caráter nacional per-
ane em imutáveis, apesar de todas as
iciss tudes da história. Está lá desde o
ento, unificado e contínuo, "imu-
ao longo de todas as mudanças,
tern . A sra. Thatcher observou, na
'poc da Guerra das Malvinas, que ha-
. a al umas pessoas "que pensavam que
ós n o poderíamos mais fazer as gran-
es c isas que uma vez havíamos feito. __
ue a Grã-Bretanha não era mais a na-
ão q e tinha construído um Império e
o · ado um quarto do mundo ... Bem,
lese tavam errados ... A Grã-Bretanha
udou" (citado em Barnett, 1982,
terceira estratégia discursiva é
ons tuída por aquilo que Hobsbawm e
ang r chamam de invenção da tradi-
ão: ' Tradições que parecem ou alegam
er a tigas são muitas vezes de origem
asta te recente e algumas vezes inven-
adas -- Tradição inventada significa
m c njunto de práticas ... , de natureza
itua ou simbólica, que buscam incul-
rtos valores e normas de compor-
tos através da repetição, a qual,
aticamente, implica continuidade
m passado histórico adequado".
emplo, "nada parece ser mais an-
  ...
'',,(
As CULTURAS NACIONAIS COMO COMUNIDADES IMAGINADAS
tigo e vinculado ao passado imemorial
do que a pompa que rodeia a monarquia
britânica e suas manifestações cerimo-
niais públicas. No entanto ... , na sua for-
ma moderna, ela é o produto do final do
século XIX e XX" (Hobsbawm e Ranger,
1983, p. 1).
• Um quarto exemplo de narrativa da cul-
tura nacional é a do mito fundacional:
urna história que localiza a origem da
nação, do povo e de seu caráter nacio-
nal num passado tão distante que eles
se perdem nas brumas do tempo, não
do tempo "real", mas de um tempo "mí-
tico". Tradições inventadas tornam as
confusões e os desastres da história inte-
ligíveis, transformando a desordem em
"comunidade" (por exemplo, a Blitz ou
a evacuação durante a II Grande Guer-
ra) e desastres em triunfos (por exemplo,
Dunquerque)- Mitos de origem também
ajudam povos desprivilegiados a "conce-
berem e expressarem seu ressentimento
e sua satisfação em termos inteligíveis"
(Hobsbawrn e Ranger, 1983, p. 1). Eles
fornecem uma narrativa através da qual
urna história alternativa ou urna contra-
narrativa, que precede às rupturas da
colonização, pode ser construída (por
exemplo, o rastafariani::>rno para os po-
bres despossuídos de Kingston, Jamaica;
55
$>
A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE
ver Hall, 1935). Novas nações são, entã.o,
fundadas sobre esses mitos. (Digo "mi··
tos" porque, como foi o caso com muitas
nações africanas que emergiram depois
da descolonização, o que precedeu à co-
lonização não foi "uma única nação, um
único povo", mas muitas culturas e socie-
dades tribais diferentes).
• A identidade nacional é também muitas
vezes simbolicamente baseada na ideia de
um povo oufolk puro, original. Mas, nas
realidades do desenvolvimento nacional, é
raramente esse povo (folk) primordial que
persiste ou que exercita o poder. Como,
acidamente, observa Gellner: "Quando
[os ruritananos] vestiram os trajes do
povo e rumaram para as montanhas, com-
pondo poemas nos clarões das florestas,
eles não sonhavam em se tornarem um dia
também poderosos burocratas, embaixa-
dores e ministros" (1933, p. 61).
O discurso da cultura nacional não é,
assim, tão moderno como aparenta ser. Ele
constrói identidades que são colocadas, de
modo ambíguo, entre o passado e o futuro.
Ele se equilibra entre a tentação por retor-
nar a glórias passadas e o impulso por avan-
çar ainda mais em direção à modernidade.
As culturas nacionais são tentadas, algumas
vezes, a se voltar para o passado, a recuar
defensivamente para aquele "tempo perdido",
56
1
1
!
1
'J
i
As CULTURAS NACIONAIS COMO MUNIO DES IMAGINADAS
quando a nação era "grande'; são entadas a
restaurar as identidades pas adas. Este cons-
titui o elemento regressivo, anac ônico, da
história da cultura nacional Mas requente-
mente esse mesmo retorno a pas do oculta
uma luta para mobilizar as "pes oas" para
que purifiquem suas fileiras, para ue expul-
sem os "outros" que ameaça dentidade
e para que se preparem par uma ova mar- ·  
cha para a frente. Durante s an s oitenta,
a retórica do thatcherismo u ilizo , algumas
vezes, os dois aspectos daqui! que om Nairn
chama de "face de Janus" ionalismo
(Nairn, 1977): olhar para t ra· as gló-
rias do passado imperial e s "valores
vitorianos" e, ao mesmo te o, e preender
uma espécie de modernizaçã , em reparação
para um novo estágio da co peti ão capita-
lista global. Alguma coisa do esm tipo pode
estar ocorrendo na Europa O . As áreas
que se separam da antiga Un" iética rea-
firmam suas identidades étn cas e senciais e
reivindicam uma nacionali ade ustentada
por "histórias" (algumas vez s ext emamente
duvidosas) de origens mític s, de ortodoxia
religiosa e de pureza racia . Co tudo, elas
podem também estar usan o a n ção como
uma forma através da qual competir
,, .... ,, ,,. . .
com outras naçoes etn1ca e po er, assim,
entrar no rico "clube" do Oc dente Como tão
agudamente observou Imma uel allerstein,
57,cy_
-·-""
"os n ciona ismos do mundo moderno são a
expre bígua [de um desejo] por ... assi-
milaç o no niversal. .. e, simultaneamente,
por... des- ao particular, à reinvenção das
difere ças. Na verdade, trata-se de um uni-
. através do particularismo e de
rismo através do universalismo"
, 1984, pp. 166-7).
con truindo a "cultura nacional":
identidade e diferença
seç o anterior discutiu como uma cul-
tura acion 1 atua como uma fonte de signifi-
cados ultu ais, um foco de identificação e um
siste a de epresentação. Esta seção volta-se
agora para questão de saber se as culturas
rias ..
ta de
hera
Deve
ais e as identidades nacionais que elas
oem ão realmente unificadas. Em seu
ens io sobre o tema, Ernest Renan
ês coisas constituem o princípio
a unidade de uma nação: " ... a
um de um rico legado de memó-
ejo de viver em conjunto e ·a von-
etuar, de uma forma indivisiva, a
a qu se recebeu" (Renan, 1990, p. 19).
os t r em mente esses três conceitos ,
ante daquilo que constitui uma cul-
tura acio al como uma "comunidade imagi-
nada': as emórias do passado; o desejo por
viver junto; a perpetuação da herança.
58
As CULTURAS NACIONAIS COMO COMUNIDADES IMAGINADAS
Timothy Brennan nos faz lembrar que
a palavra nação refere-se "tanto ao moderno
estado-nação quanto a algo mais antigo e
nebuloso - a natio - uma comunidade local,
um domicílio, uma condição de pertenci-
mento" (Brennan, 1990, p. 45). As identidades
nacionais representam precisamente o resul-
tado da reunião dessas duas metades da equa-
ção nacional- oferecendo tanto a condição de
membro do estado-nação político quanto uma
identificação com a cultura nacional: "tornar
a cultura e a esfera política congruentes" e
fazer com que "culturas razoavelmente homo-
gêneas, tenham, cada uma, seu próprio teto
político" (Gellner, 1983, p. 43). Gellner iden-
tifica claramente esse impulso por unificação,
existente nas culturas nacionais:
... a cultura é agora o meio partilhado necessá-
rio, o sangue vital, ou talvez, antes, a atmosfera
partilhada mínima, apenas no interior da qual
os membros de uma sociedade podem respirar
e sobreviver e produzir. Para uma dada socie-
dade, ela tem que ser uma atmosfera na qual
podem todos respirar, falar e produzir; ela tem
que ser, assim, a mesma cultura (Gellner, 1983,
pp. 37-8).
Para dizer de forma simples: não im-
porta quão diferentes seus membros possam
ser em termos de classe, gênero ou raça, uma
59
~
· ... :.·.: .... : ... ·. ·.. · ... ·_..· · ......... ~ ·   : : : .. ·
A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODER";flDADE
cultura nacional busca unificá-los numa iden-
tidade cultural, para representá-los todos
como pertencendo à mesma e grande famí-
lia nacional. Mas seria a identidade nacional
uma identidade unificadora desse tipo, uma
identidade que anula e subordina a diferença
cultural?
Essa ideia está sujeita à dúvida, por
várias razões. Uma cultura nacional nunca foi
um simples ponto de lealdade, união e identifi-
cação simbólica. Ela é também uma estrutura
de poder cultural. Consideremos os seguintes
pontos:
60
• A maioria das nações consiste de cultu-
ras separadas que só foram unificadas
por um longo processo de conquista vio-
lenta - isto é, pela supressão forçada da
diferença cultural. "O povo britânico" é
constituído por uma série desse tipo de
conquistas - céltica, romana, saxônica,
viking e normanda. Ao longo de toda a
Europa, essa história se repete ad nau-
seam. Cada conquista subjugou povos
conquistados e suas culturas, costumes,
línguas e tradições, e tentou impor uma
hegemonia cultural mais unificada.
Como observou Ernest Renan, esses
começos violentos que se colocam nas
origens das nações modernas têm, pri-
meiro, que ser "esquecidos'', antes que
·se comece a forjar a lealdade com uma

As CULTURAS NACIONAIS COMO OMUNID DES IMAGINADAS
identidade nacional ma· un · cada, mais
homogênea. Assim, a ultur "britâni-
ca" não consiste de u a pa eria igual
entre as culturas comp nent s do Reino
Unido, mas da hegemo ia efe ·va da cul-
tura "inglesa", localiza a no ul, que se
representa a si própri com a cultura
britânica essencial, p r ci a das cul-
turas escocesas, gales
na verdade, por cima d
regionais. Matthew A
fixar o caráter essenci
a partir de sua literat
considerar os celtas,
nalismos provinciais
absorvidos ao nível do
como contribuindo cul ural
a cultura inglesa" (Do , 19
Em segundo lugar, as n
que ser
, e aceitos
ente para
6, p. 12).
 
compostas de diferente es socais e
diferentes grupos étni os e e gênero.
O nacionalismo britâ ico derno foi
o produto de um esfor o mu to coorde-
nado, no alto período i per 1 e no pe-
ríodo vitoriano tardio, para nificar as
classes ao longo de di ·sões ociais, ao
provê-las com um pon o alt rnativo de
identificação - pertenc n1ent comum à
"família da nação". Po e-se esenvolver
o mesmo argumento a espei o do gêne-
ro. As identidades nac onai são forte-
61
-,_..,
A IDENT ADE CU TURAL NA PÓS-MODERNIDADE
ment generificadas. Os significados e os
valor s da "inglesidade" ( englishness)
têm rtes associações masculinas. As
mulh res exercem um papel secundário
como guardiãs do lar e do clã, e como
"mãe "dos "filhos" (homens) da nação.
• Em t rceiro lugar, as nações ocidentais
mod rnas foram também os centros de
impé ios ou de esferas neoimperiais de
influ ncia, exercendo uma hegemonia
cult ral sobre as culturas dos coloni-
zado . Alguns historiadores argumen-
tam, tualmente, que foi nesse processo
de c mparação entre as "virtudes" da
"ingl sidade" (Englishness) e os traços
nega ivos de outras culturas que muitas
das c racterísticas distintivas das iden-
tida es inglesas foram primeiro defini-
das ( eja C. Hall, 1992).
Em ez de pensar as culturas nacio-
nais orno unificadas, deveríamos pensá-las
com cons ituindo um dispositivo discursivo
que· epre enta a diferença como unidade ou
iden idad . Elas são atravessadas por pro-
fun s di isões e diferenças internas, sendo
cad s" apenas através do exercício de
ntes formas de poder cultural. Entre-
- co o nas fantasias do eu "inteiro" de
la a sicanálise lacaniana - as identida-
acio is continuam a ser representadas
com unifi adas.
62
As CULTURAS NACIONAIS COMO COMUNIDADES IMAGINADAS
Uma forma de unificá-las tem sido a de
representá-las como a expressão da cultura
subjacente de "um único povo". A etnia é o
termo que utilizamos para nos referirmos às
características culturais - língua, religião,
costume, tradições, sentimento de  
- que são partilhadas por um povo. E tenta-
dor, portanto, tentar usar a etnia dessa forma
"fundacional". Mas essa crença acaba, no
mundo moderno, por ser um mito. A Europa
Ocidental não tem qualquer nação que seja
. composta de apenas um único povo, uma
única cultura ou etnia. As nações modernas
são, todas, híbridos culturais.
É ainda mais difícil unificar a identi-
dade nacional em torno da raça. Em primeiro
lugar, porque- contrariamente à crença gene-
ralizada - a raça não é uma categoria bioló-
gica ou genética que tenha qualquer validade
científica. Há diferentes tipos e variedades,
m.as eles estão tão largamente dispersos no
interior do que chamamos de "raças" quanto
entre uma "raça" e outra. A diferença genética
- o último refúgio das ideologias racistas - não
pode ser usada para distinguir um povo do
outro. A raça é uma categoria discursiva e não
uma categoria biológica. Isto é, ela é a cate-
goria organizadora daquelas formas de falar,
daqueles sistemas de representação e práticas
sociais (discursos) que utilizam um conjunto
frouxo, frequentemente pouco específico, de

- r-:;r -
A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE
diferenças em termos de características físicas
- cor da pele, textura do cabelo, caracterís-
ticas físicas e corporais, etc. - como marcas
simbólicas, a fim de diferenciar socialmente
um grupo de outro.
Naturalmente o caráter não científico
do termo "raça" não afeta o modo "como a
lógica racial e os quadros de referência raciais
são articulados e acionados, assim como não
anula suas consequências (Donald e Rattansi,
1992, p. 1). Nos últimos anos, as noções bioló-
gicas sobre raça, entendida como constituída
de espécies distintas (noções que subjaziam
a formas extremas da ideologia e do discurso
nacionalista em períodos anteriores: o euge-
nismo vitoriano, as teorias europeias sobre
raça, o fascismo) têm sido substituídas por
definições culturais, as quais possibilitam que
a raça desempenhe um papel importante nos
discursos sobre nação e identidade nacional.
Paul Gilroy tem analisado as ligações entre,
de um lado, o racismo cultural e a ideia de
raça e, de outro, as ideias de nação, naciona-
lismo e pertencimento nacional:
64
Enfrentamos, de forma crescente, um racismo
que evita ser reconhecido como tal, porque é
capaz de alinhar "raça" com nacionalidade,
patriotismo e nacionalismo. Um racismo que
tomou uma distância necessária das grosseiras
ideias de inferioridade e superioridade bioló-
..
··r
1
As CULTURAS NACIONAIS COMO OMUNID DES IMAGINADAS
gica busca, agora, aprese tar u
imaginária da nação com uma
cultural unificada. Ele con trói e
imagem de cultura nacional hom
a definição
omunidade
efende uma
ênea na stta
branquidade, embora pre "'ria e ternamente
vulnerável ao ataque dos ·nimig s internos e
externos ... Este é um racis o qu responde à
turbulência social e polític da cr se e à admi-
nistração da crise. através da re
grandeza nacional na imagi ação.
ção onírica de nossa ilha c roada
mente purificada propicia m esp
contra as devastações do eclín
(Gilroy, 1992, p. 87).
auração da
ua constru-
omo etnica-
ial confort.o
(nacional)
Mas mesmo quando o c nceit de "raça"
é usado dessa forma discur iva is ampla,
as nações modernas teimos men e se recu-
sam a ser determinadas por la. C mo obser-
vou Re.nan, "as nações líder s da uropa ã o ~ ­
nações de sangue essencia men misto: a
França é [ao mesmo tempo J éltic , ibérica e
germânica. A Alemanha é ge mâni a, céltica e
eslava. A Itália é o país onde .. gau s e ~   etrus-
cos, pelagianos e gregos, pa não encwnar
outros, se intersectam num ra indeci-
frável. As ilhas britânicas, c adas como
um todo, apresentam uma de sangue
celta e germânico, cujas pro orçõ são parti-
cularmente difíceis de defini "(R nan, 1990,
pp. 14-15). E essas são mistu as re tivamente
65
A IDENTI ADE CUL URAL NA PÓS-MODERNIDADE
simpl s se c mparadas com as encontradas na
Euro a Ce tral e Oriental.
ste b eve exame solapa a ideia da nação
ma <lentidade cultural unificada. As
ades nacionais não subordinam todas
as o ras rmas de diferença e não estão
livres do jo o de poder, de divisões e contra-
diçõe inte nas, de lealdades e de diferenças
sobre osta . Assim, quando vamos discutir se
as id tida es nacionais estão sendo desloca-
das, evem s ter em mente a forma pela qual
as cu uras nacionais contribuem para "cos-
turar' as d ferenças numa única identidade.
66