Soft Machine - Third (Resenha

)
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1961, nos arredores do Simon Langton School uma turma de estudantes das mais div
ersas áreas se reunia frequentemente para discutir assuntos ligados a arte em suas
diversa vertentes: artes plásticas (Jackson Pollock, Mark Rothko), literatura (to
dos os beats) e música contemporânea (Stockhausen e Luigi Nono principalmente), alem
de ouvir as novidades do jazz (Coltrane, Mingus, Coleman). E entre um copo de b
ebida e outro a turma costumava se reunir para tocar algumas jams.
Wild Flowers era o nome dado para o grupo que segundo reza a lenda mudava de for
mação a cada semana. Entre os mais assíduos frequentadores dessas jams estavam Mike Ra
tledge (teclados), Robert Wyatt (bateria, voz) e Kevin Ayers (baixo, voz). Em 19
66 os três conhecem um freak australiano chamado Daevid Allen que além de tocar guit
arra, iniciou o grupo na revolucionária técnica dos loops (sobreposição de fitas) e no u
so de LSD. Nascia assim o Soft Machine, aquela que talvez tenha sido a maior e m
ais importante instituição inglesa no Rock.
Em 1967 já sob a tutela de Giorgio Gomelsky o grupo lança seu primeiro e único single
"Love Makes Sweet Music" que tinha como lado B "Feeling Reeling Squeeelin" com a
participação de Jimi Hendrix que por esta época já tinha alcançado enorme sucesso na terra
da rainha. Era tempo de psicodelia e o Soft Machine ao lado de nomes como o Pin
k Floyd (então sob comando do alucinado Syd Barret) era figura fácil em clubes como
UFO e Roundhouse.
Durante uma excursão pela França em 1968 ocorreria um incidente que mudaria radicalm
ente a carreira do grupo Allen (australiano de nascimento), teve seu visto negad
o ao retornar para a Inglaterra, por lá ter trabalhado ilegalmente. Allen então deci
de ficar na França onde mais tarde ele fundaria o Gong (outro importante nome do m
ovimento intitulado Canterbury Sound, nome dado as bandas inglesas de Rock psico
délico, que adotaram a cidade de mesmo como uma espécie de sede do movimento musical
). O restante do grupo segue então como um Power trio e no mesmo ano grava seu pri
meiro álbum "The Soft Machine", um verdadeiro ode a psicodelia entremeado de referên
cias musicais britânicas.
Em abril de 1969 o grupo consegue um novo guitarrista, Andy Summers (o mesmo que
ficaria famoso anos mais tarde no The Police), mas a tensão entre o integrantes a
cabou fazendo com que o grupo se separasse por um período de alguns meses e que os
membros se dedicassem a projetos individuais. Wyatt resolveu ficar em Nova York
para trabalhar com Hendrix, enquanto Ratledge e Ayers voltaram para a Inglaterr
a. Em dezembro, o baterista foi contatado pela Probe, que havia lançado o primeiro
disco para tentar promover algumas apresentações da banda. Em março do mesmo ano dava
as caras ao mundo o excepcional "The Soft Machine Volume Two", mais conhecido c
omo "Volume Two", que conseguiu soar ainda mais ousado que seu antecessor e onde
pela primeira vez se nota influencias diretas do Jazz no som do grupo, que começo
u a ganhar fama no circuito europeu de jazz e fizeram dezenas de shows na Inglat
erra, Bélgica, Holanda e França.
Após uma excursão como o renomado Thelonious Monk no fim de 1969, um dos maiores jaz
zistas da sua geração o grupo resolve dar uma guinada em seu som, passando a investi
r em composições mais complexas onde o improviso se tornava o principal atrativo.
Finalmente em 1970, após um breve entra e sai de integrantes o Soft Machine se est
abelece com aquela que é considerada por muitos como sua formação mais clássica que incl
uía: Mike Ratledge (teclados), Robert Wyatt (bateria, voz), Hugh Hopper (baixo, vo
z) e Elton Dean (Saxofone). Reforçados por um excepcional time de músicos de estúdio N
ick Evans (trombone), Lyn Dobson (flauta, sax), Jimmy Hastings (clarineta, flaut
a) e Rob Spal (violino) o grupo grava então o disco "Third". Considerado por muito
s a obra definitiva do grupo, o disco é o maior exemplar do que se convencionou ch
amar Canterbury Sound, um mix de jazz, psicodelia com forte tendência ao então recen
temente inaugurado rock progressivo.
O pioneirismo do grupo já fica evidente pelo formato inusitado do disco, um álbum du
plo que contém apenas quatro longas faixas cada qual ocupando um lado da bolacha (
para comparar o Beatles gravaram 30 canções para o também duplo "álbum branco"), mas são e
m suas ótimas composições que reside seu maior mérito.
A abertura se dá com a excepcional "Facelift", na realidade uma junção de duas apresen
tações ao vivo no Fairfield Hall (Croydon, em 4 de janeiro) e no Mothers Club (Birmi
ngham, em 11 de janeiro). Iniciada com uma avalanche de efeitos psicodélicos, a ca
nção desemboca num maravilhoso Jazz brilhantemente conduzido por Wyatt e Hopper, ond
e se destaca os ousados solos de Ratledge, antes de encerrar com uma frenética pas
sagem de som marcada por curtas, mas significativas frases no sax e flautas. Gen
ial!!!!!
"Slightly All Time", por sua vez investe em uma sonoridade jazz mais convenciona
l, percebe-se uma riqueza de solos e variações bem típicas do jazz, aqui mais especifi
camente do potente sax de Dean, deliciosamente acrescentada por bases de flauta,
teclados, baixo e de saxofone ao longo de seus 18 minutos de duração.
"Moon In June", o grande atrativo do álbum, composta por Robert Wyatt é uma montagem
de velhas canções, incluindo as feitas com Gomelsky. Tocada quase inteiramente apen
as pelo baterista, que aqui está em uma das melhores performances já registradas por
um músico em disco, teve uma pequena participação de Hopper e Ratledge. Essa foi também
uma das últimas faixas a incluir vocal na obra da banda.
Em "Out-Bloody-Rageous" o teclado de Ratledge cria uma base com uma sonoridade p
sicodélica totalmente improvisada, para os demais integrantes (especialmente Dean)
se esmerarem em excepcionais digressões jazzísticas, encerrando com chave de ouro e
sta obra prima do Rock.
Jazz Rock, Rock Progressivo, Rock Psicodélico? A beleza atemporal de "Third", é algo
que desafia rótulos fáceis e como bem disse Arthur G. Couto Duarte na ótima resenha d
o disco presente na edição 45 da antiga revista Showbizz: "A verdade é que "Facelift",
Slightly All the Time" e "Out-Bloody-Rageous" e, principalmente, a insana fanta
sia de "Moon in June" permaneceram à parte de tudo que foi criado no período. Um vórti
ce de colagens radiantes, breaks violentos, espasmos, fugas de órgão, clusters de sa
x e devastações rítmicas que confluíam para um incandescente oceano sônico de basalto e le
va vulcânica."
"Third", devido a sua postura vanguardista, foi um fracasso comercial nos EUA en
tretanto na Inglaterra o álbum alcançou relativo sucesso, tendo o reconhecimento que
uma obra prima desta magnitude merece.
A formação que gravou o disco se reuniria ainda em agosto de 1971 para a gravação do igu
almente essencial "Fourth", um disco totalmente instrumental, que segue a mesma
linha adotada no álbum anterior, sendo quase tão bom quanto. Entretanto, uma nova ri
xa entre os integrantes do grupo faria com que Wyatt abandona-se o combo e forma
sse ainda em 1971 o Matching Mole. Com a saída de Wyatt o Soft Machine perdia muit
o do carisma que marcava as apresentações do grupo até então.
Para ocupar a vaga deixada foi cooptado inicialmente Phil Howard musico que cola
borava com a banda em algumas apresentações ao vivo, porém seu estilo de tocar não agrad
ava a Dean e Hopper e este logo seria substituído por John Marshall, que tocava nu
m grupo chamado Nucleus. Marshall era uma baterista muito técnico, porém a sua entra
da marcava também uma nova fase na carreira do grupo voltada para o Jazz mais trad
icional em detrimento da experimentação dos dois discos anteriores conforme comprova
m os discos "Fifth", "Sixth" e "Seven" lançado respectivamente em 1972, 1973 e 197
4, estes dois últimos já com Roy Babbington (também ex-Nucleus) no lugar de Hopper e c
om o multi-instrumentista Karl Jenkins substituindo de Elton Dean. Mas isso já é ass
unto para outras resenhas.
O fato é que "Third" ao lado de "Bitches Brew" de Miles Davis e "Hot Rats" de Fran
k Zappa, ao lado do histórico disco de estreia do Blood, Sweat & Tears de 1968, es
tão gênese do estilo denominado Jazz Rock e a partir destes trabalhos bandas como Go
ng, Caravan, The Gary Moore Band, Hatfield & The North e National Health realiza
ram envolventes aventura pelo gênero sem contudo encontrar a coesão dos modelos orig
inais. Isto só confirma a posição do Soft Machine como uma das maiores, senão a maior, i
nstituição do Rock Inglês no fim dos anos 60 e começo dos anos 70 (a despeito de Rolling
Stones e Beatles) e o leitor pode ter certeza que nesta afirmação não há nenhum exagero
.
FAIXAS
1.Facelift.
2.Slightly All Time.
3.Moon In June.
4.Out-Bloody- Righteous.
O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.
Veja também
http://whiplash.net/materias/news_822/191400-softmachine.html

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