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LYNN HUNT

A invenção dos
direitos humanos
Uma história

Tradução

Rosaura Eichenberg

COMPANHIA DAS LETRAS


Copyright © 2007 by Lynn H u n t
Publicado originalmente nos Estados Unidos p o r W. W. N o r t o n & Company, Inc.
Grafia a t u a l i z a d a s e g u n d o o A c o r d o O r t o g r á f i c o da Língua P o r t u g u e s a de 1990,
q u e e n t r o u em vigor no Brasil cm 2009.

Título original

Invcnting h u m a n rights — A history

Capa

M a r i a n a Newlands

Foto de capa
© Gianni Dagli O r t i / Corbis/ LatinStock
Índice remissivo
Luciano Marchiori

Preparação
Lucas M u r t i n h o

Revisão
Ana Maria Barbosa
Huendel Viana
Para Lee e Jane
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) Irmãs, Amigas, Inspiradoras
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

H u n t , Lynn
A invenção dos direitos h u m a n o s ; unia história / Lynn Hunt ;
tradução Rosaura Eichenberg.— São P a u l o : Companhia das Letras,
2009.

Título o r i g i n a l : Invcnting h u m a n r i g h t s : a history

ISBN 978-85-359-1459-7

I. Direitos humanos na literatura 2. Direitos humanos - História


3. Tortura - História I. Titulo.

09-03980 Í:DO-323.09

índice para catálogo sistemático'


1. Direitos h u m a n o s : Ciência política : História

[2009]
Todos os direitos desta edição reservados à
E D I T O R A S C H W A R C Z LTDA.

Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32


04532-002 — São Paulo — SP
Telefone (11) 3707-3500
Fax(ll)3707-3501
www.companhiadasletras.com.br
Sumário

Agradecimentos 9
I n t r o d u ç ã o — " C o n s i d e r a m o s estas verdades
autoevidentes" 13

1. "TORRENTES DE E M O Ç Õ E S " 35

Lendo romances e imaginando a igualdade

2. "OSSOS DOS SEUS OSSOS" 7«

Abolindo a tortura

3. "ELES DERAM UM GRANDE EXEMPLO" 113

Declarando os direitos

4. "ISSO NÃO TERMINARÁ N U N C A " 146


As consequências das declarações

5. "A FORÇA MALEÁVEL DA H U M A N I D A D E " 177

Porque os direitos humanos fracassaram a princípio, mas tiveram


sucesso no longo prazo
Apêndice — Três declarações: 1776,1789,1948 217
Agradecimentos
Notas 237
Créditos das imagens 271
índice remissivo 273

E n q u a n t o escrevia este livro, beneficiei-me de incontáveis


sugestões oferecidas p o r amigos, colegas e participantes de vários
s e m i n á r i o s e conferências. N e n h u m a expressão de g r a t i d ã o de
m i n h a parte p o d e r i a pagar as dívidas q u e tive a felicidade de c o n -
Irair, e só espero que alguns dos credores r e c o n h e ç a m as suas con-
tribuições em certas passagens ou notas. O ato de proferir as C o n -
ferências P a t t e n na U n i v e r s i d a d e de I n d i a n a , as C o n f e r ê n c i a s
Merle Curti na Universidade de Wisconsin e as Conferências James
W. Richards na Universidade de Virginia propiciou o p o r t u n i d a d e s
inestimáveis p a r a testar as m i n h a s n o ç õ e s preliminares. Alguns
insights excelentes t a m b é m v i e r a m do p ú b l i c o em C a m i n o Col-
lege; Carleton College; C e n t r o de Investigación y Docencia E c o n ó -
micas, Cidade do México; Universidade de F o r d h a m ; Instituto de
Pesquisa Histórica, Universidade de Londres, Lewis & Clark Col-
lege; P o m o n a College; U n i v e r s i d a d e de Stanford; Universidade
Texas A&M; Universidade de Paris; Universidade de Ulster, Cole-
raine; Universidade de Washington, Seattle; e na m i n h a institui-
ção, a Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA). O financia-
m e n t o p a r a a m a i o r parte da m i n h a pesquisa proveio da Cátedra eu escrevia este livro, m a s ainda posso escutar as suas palavras de

Eugen Weber de História M o d e r n a Europeia na UCLA, e a pesquisa e n c o r a j a m e n t o e a p o i o . D e d i c o este livro às m i n h a s i r m ã s Lee e


foi m u i t o facilitada pela riqueza verdadeiramente excepcional das Jane, em r e c o n h e c i m e n t o , ainda q u e i n a d e q u a d o , p o r t u d o o q u e
bibliotecas da UCLA. temos partilhado ao longo de m u i t o s anos. Elas me e n s i n a r a m as

A maioria das pessoas pensa que o ensino fica abaixo da pes- m i n h a s primeiras lições sobre os direitos, a resolução de conflitos
quisa na lista de prioridades dos professores universitários, m a s a e o amor.
ideia p a r a este livro s u r g i u o r i g i n a l m e n t e d e u m a coletânea d e
d o c u m e n t o s q u e editei e t r a d u z i c o m o objetivo de ensinar estu-
d a n t e s d o s c u r s o s de g r a d u a ç ã o : The French Revolution and
Human Rights: A Brief Documentary History (Boston/ Nova York:
Bedford/ St. Martin's Press, 1996). U m a bolsa da National E n d o w -
m e n t for the H u m a n i t i e s me ajudou a completar aquele projeto.
Antes de escrever este livro, publiquei um breve esboço, " T h e Para-
doxical Origins of H u m a n Rights", in Jeffrey N. Wasserstrom, Lynn
H u n t e M a r i l y n B. Young, eds., Human Rights and Revolutions
( L a n h a m , MD: R o w m a n & Littlefield, 2000), p p . 3-17. Alguns dos
a r g u m e n t o s no capítulo 2 f o r a m p r i m e i r o desenvolvidos de um
m o d o diferente em "Le C o r p s au XVIII siècle: les origines des droits
E

de l'homme", Diogène, 203 (julho-setembro de 2003), p p . 49-67.


Da ideia até a execução final, a estrada, pelo m e n o s no m e u
caso, é longa e às vezes árdua, m a s se t o r n a transitável c o m a ajuda
d a q u e l e s q u e me são p r ó x i m o s e q u e r i d o s . Joyce A p p l e b y e
Suzanne Desan leram os p r i m e i r o s r a s c u n h o s dos m e u s três pri-
meiros capítulos e d e r a m sugestões maravilhosas p a r a aperfeiçoá-
-los. A m i n h a editora na W. W. N o r t o n , A m y Cherry, forneceu o ti-
po de a t e n ç ã o m i n u c i o s a à r e d a ç ã o e ao a r g u m e n t o c o m q u e a
maioria dos autores só consegue sonhar. Sem Margaret Jacob eu
n ã o teria escrito este livro. Ela me e s t i m u l o u c o m o seu p r ó p r i o
entusiasmo pela pesquisa e redação, c o m a sua valentia em se aven-
t u r a r em d o m í n i o s novos e controversos e, n ã o m e n o s i m p o r t a n t e ,
c o m a sua capacidade de deixar t u d o de lado p a r a p r e p a r a r um j a n -
tar refinado. Ela sabe o q u a n t o lhe devo. M e u pai m o r r e u e n q u a n t o

10
Introdução

"Consideramos estas verdades


autoevidentes"

Às vezes grandes textos s u r g e m da reescrita sob pressão. No


seu p r i m e i r o r a s c u n h o da Declaração da I n d e p e n d ê n c i a , p r e p a -
r a d o e m m e a d o s d e j u n h o d e 1776, T h o m a s Jefferson escreveu:
" C o n s i d e r a m o s q u e estas verdades são sagradas e inegáveis: q u e
t o d o s os h o m e n s são c r i a d o s iguais & i n d e p e n d a n t e s [sic], q u e
dessa criação igual derivam direitos inerentes 8c inalienáveis, e n t r e
os quais estão a preservação da vida, a liberdade & a busca da feli-
cidade". Em g r a n d e p a r t e graças às suas p r ó p r i a s revisões, a frase
de Jefferson logo se livrou dos soluços para falar em t o n s mais cla-
ros, mais vibrantes: " C o n s i d e r a m o s estas verdades autoevidentes:
q u e t o d o s os h o m e n s são criados iguais, d o t a d o s pelo seu C r i a d o r
de certos Direitos inalienáveis, q u e entre estes estão a Vida, a Liber-
d a d e e a busca da Felicidade". C o m essa única frase, Jefferson t r a n s -
f o r m o u um típico d o c u m e n t o do século xvin sobre injustiças polí-
ticas n u m a proclamação d u r a d o u r a dos direitos h u m a n o s . 1

Treze a n o s mais t a r d e , Jefferson estava em Paris q u a n d o os


franceses c o m e ç a r a m a pensar em redigir u m a declaração de seus
direitos. Em janeiro de 1 7 8 9 — v á r i o s meses antes da q u e d a da Bas-

13
tilha —, o m a r q u ê s de Lafayette, amigo de Jefferson e veterano da klin e crítico frequente do governo inglês, t o r n o u - s e lírico a res-
G u e r r a d a I n d e p e n d ê n c i a a m e r i c a n a , d e l i n e o u u m a declaração peito dos novos direitos do h o m e m . "Vivi p a r a ver os direitos dos
francesa, m u i t o provavelmente c o m a ajuda de Jefferson. Q u a n d o h o m e n s mais b e m compreendidos do que nunca, e nações
a Bastilha caiu, em 14 de julho, e a Revolução Francesa c o m e ç o u a n s i a n d o p o r liberdade q u e p a r e c i a m ter p e r d i d o a ideia do q u e
p a r a valer, a n e c e s s i d a d e de u m a d e c l a r a ç ã o oficial g a n h o u isso fosse." I n d i g n a d o c o m o e n t u s i a s m o i n g ê n u o de Price pelas
i m p u l s o . Apesar dos melhores esforços de Lafayette, o d o c u m e n t o "abstrações metafísicas" dos franceses, o famoso ensaísta E d m u n d
n ã o foi forjado p o r u m a única m ã o , c o m o Jefferson fizera p a r a o Burke, m e m b r o d o P a r l a m e n t o britânico, rabiscou u m a resposta
Congresso americano. Em 20 de agosto, a nova Assembleia Nacio- furiosa. O seu panfleto, Reflexões sobre a revolução em França
nal c o m e ç o u a discussão de 24 artigos r a s c u n h a d o s p o r um comitê (1790), foi logo reconhecido c o m o o texto f u n d a d o r do conserva-
desajeitado de q u a r e n t a d e p u t a d o s . Depois de seis dias de debate d o r i s m o . " N ã o s o m o s o s c o n v e r t i d o s p o r Rousseau", t r o v e j o u
t u m u l t u a d o e infindáveis e m e n d a s , os d e p u t a d o s franceses só Burke. "Sabemos que n ã o fizemos n e n h u m a descoberta, e pensa-
t i n h a m a p r o v a d o dezessete artigos. Exaustos pela disputa p r o l o n - m o s q u e n e n h u m a descoberta deve ser feita, no tocante à m o r a l i -
gada e precisando tratar de outras questões p r e m e n t e s , os d e p u t a - d a d e . [...] N ã o fomos estripados e a m a r r a d o s p a r a q u e p u d é s s e -
dos v o t a r a m , em 27 de agosto de 1789, p o r suspender a discussão m o s ser p r e e n c h i d o s c o m o p á s s a r o s e m p a l h a d o s n u m m u s e u ,
do r a s c u n h o e a d o t a r p r o v i s o r i a m e n t e os a r t i g o s já a p r o v a d o s c o m farelos, trapos e pedaços miseráveis de papel b o r r a d o sobre os
c o m o a sua Declaração dos Direitos do H o m e m e do Cidadão. direitos do h o m e m . " Price e Burke h a v i a m c o n c o r d a d o s o b r e a
O d o c u m e n t o tão freneticamente a j a m b r a d o era espantoso Revolução Americana: os dois a a p o i a r a m . Mas a Revolução Fran-
na sua i m p e t u o s i d a d e e simplicidade. Sem m e n c i o n a r n e m u m a cesa a u m e n t o u bastante o valor da aposta, e as linhas de b a t a l h a
única vez rei, nobreza ou igreja, declarava q u e "os direitos naturais, logo se f o r m a r a m : era a a u r o r a de u m a n o v a era de l i b e r d a d e
inalienáveis e sagrados do h o m e m " são a fundação de t o d o e qual- b a s e a d a na r a z ã o ou o início de u m a q u e d a implacável r u m o à
quer governo. Atribuía a soberania à nação, e n ã o ao rei, e declara- anarquia e à violência? 2

va q u e t o d o s são iguais p e r a n t e a lei, a b r i n d o p o s i ç õ e s p a r a o Por quase dois séculos, apesar da controvérsia provocada pela
talento e o m é r i t o e e l i m i n a n d o implicitamente t o d o o privilégio Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos do H o m e m e do
baseado no nascimento. Mais extraordinária q u e qualquer garan- C i d a d ã o e n c a r n o u a p r o m e s s a de direitos h u m a n o s universais. Em
tia particular, entretanto, era a universalidade das afirmações fei- 1948, q u a n d o as Nações Unidas a d o t a r a m a Declaração Universal
tas. As referências a "homens", "homem", " t o d o h o m e m " , "todos os dos Direitos H u m a n o s , o artigo I dizia: "Todos os seres h u m a n o s
a

homens", "todos os cidadãos", "cada cidadão", "sociedade" e " t o d a n a s c e m livres e iguais em dignidade e direitos". Em 1789, o artigo
sociedade" eclipsavam a única referência ao p o v o francês. l da Declaração dos Direitos do H o m e m e do C i d a d ã o já havia
2

C o m o resultado, a publicação da declaração galvanizou i m e - p r o c l a m a d o : "Os h o m e n s nascem e p e r m a n e c e m livres e iguais em


d i a t a m e n t e a opinião pública m u n d i a l sobre o t e m a dos direitos, direitos". E m b o r a as modificações na linguagem fossem significa-
t a n t o contra c o m o a favor. N u m sermão proferido em Londres em tivas, o eco entre os dois d o c u m e n t o s é inequívoco.
4 de n o v e m b r o de 1789, Richard Price, amigo de Benjamin Fran- As origens dos d o c u m e n t o s n ã o nos dizem necessariamente

14 15
n a d a de significativo sobre as suas consequências. I m p o r t a real- ção. Os fundadores, os q u e e s t r u t u r a r a m e os que redigiram as decla-
m e n t e q u e o esboço tosco de Jefferson tenha passado p o r 86 alte- rações t ê m sido julgados elitistas, racistas e misóginos p o r sua inca-
rações feitas p o r ele m e s m o , pelo C o m i t ê dos Cinco* ou pelo C o n - pacidade de considerar todos verdadeiramente iguais em direitos.
gresso? Jefferson e A d a m s c l a r a m e n t e p e n s a v a m q u e sim, p o i s N ã o d e v e m o s e s q u e c e r a s restrições i m p o s t a s aos d i r e i t o s
a i n d a estavam d i s c u t i n d o sobre q u e m c o n t r i b u i u c o m o q u ê na pelos h o m e n s do século xvin, m a s p a r a r p o r aí, d a n d o p a l m a d i -
década de 1820, a última de suas longas e m e m o r á v e i s vidas. Entre- n h a s nas costas pelo nosso p r ó p r i o "avanço" c o m p a r a t i v o , é n ã o
tanto, a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a n ã o tinha natureza consti- c o m p r e e n d e r o principal. C o m o é que esses h o m e n s , vivendo em
tucional. Declarava simplesmente intenções, e passaram-se q u i n - sociedades construídas sobre a escravidão, a s u b o r d i n a ç ã o e a s u b -
ze a n o s antes q u e os estados finalmente ratificassem u m a Bill of serviência a p a r e n t e m e n t e natural, c h e g a r a m a imaginar h o m e n s

Rights m u i t o diferente em 1791. A D e c l a r a ç ã o d o s Direitos do n a d a p a r e c i d o s c o m eles, e em alguns casos t a m b é m m u l h e r e s ,

H o m e m e do Cidadão afirmava salvaguardar as liberdades indivi- c o m o iguais? C o m o é q u e a igualdade de direitos se t o r n o u u m a

duais, m a s n ã o i m p e d i u o s u r g i m e n t o de um governo francês q u e verdade "autoevidente" em lugares tão improváveis? É espantoso


que h o m e n s c o m o Jefferson, um s e n h o r de escravos, e Lafayette,
r e p r i m i u os direitos (conhecido c o m o o Terror), e futuras consti-
um aristocrata, p u d e s s e m falar dessa forma dos direitos autoevi-
tuições francesas — houve m u i t a s delas — f o r m u l a r a m declara-
dentes e inalienáveis de t o d o s os h o m e n s . Se p u d é s s e m o s c o m -
ções diferentes ou passaram sem n e n h u m a declaração.
p r e e n d e r c o m o isso veio a acontecer, c o m p r e e n d e r í a m o s m e l h o r o
A i n d a mais p e r t u r b a d o r é q u e aqueles q u e c o m t a n t a c o n -
que os direitos h u m a n o s significam para nós hoje em dia.
fiança declaravam no final do século xvin q u e os direitos são u n i -
versais vieram a d e m o n s t r a r que t i n h a m algo m u i t o m e n o s inclu-
sivo em m e n t e . N ã o ficamos surpresos p o r eles considerarem que
O PARADOXO DA A U T O E V I D Ê N C I A
as crianças, os i n s a n o s , os p r i s i o n e i r o s ou os e s t r a n g e i r o s e r a m
incapazes ou indignos de plena participação no processo político,
Apesar de suas diferenças de linguagem, as duas declarações
pois p e n s a m o s d a m e s m a m a n e i r a . M a s eles t a m b é m excluíam
do século xvm se baseavam n u m a afirmação de autoevidência. Jef-
aqueles sem propriedade, os escravos, os negros livres, em alguns
ferson d e i x o u isso explícito q u a n d o escreveu: " C o n s i d e r a m o s
casos as minorias religiosas e, s e m p r e e p o r t o d a p a r t e , as m u l h e -
estas v e r d a d e s a u t o e v i d e n t e s " . A d e c l a r a ç ã o francesa afirmava
res. Em anos recentes, essas limitações a "todos os h o m e n s " p r o v o -
categoricamente q u e "a ignorância, a negligência ou o m e n o s p r e z o
caram m u i t o s comentários, e alguns estudiosos até q u e s t i o n a r a m
dos direitos do h o m e m são as únicas causas dos males públicos e
se as declarações t i n h a m um verdadeiro significado de e m a n c i p a - da c o r r u p ç ã o governamental". Pouca coisa t i n h a m u d a d o a esse
respeito em 1948. Verdade, a Declaração das Nações Unidas assu-
* O C o m m i t t e e of Five, f o r m a d o p o r T h o m a s Jefferson, J o h n A d a m s , B e n j a m i n
mia um t o m mais legalista: "Visto que o reconhecimento da digni-
F r a n k l i n , R o b e r t L i v i n g s t o n e R o g e r S h e r m a n , foi d e s i g n a d o p e l o C o n g r e s s o
a m e r i c a n o e m 1 1 d e j u n h o d e 1776 p a r a e s b o ç a r a D e c l a r a ç ã o d a I n d e p e n d ê n c i a
d a d e i n e r e n t e a t o d o s os m e m b r o s da família h u m a n a e de seus
americana. (N.T.) direitos iguais e inalienáveis é o f u n d a m e n t o da liberdade, da j u s -

16 17
tiça e da p a z no m u n d o " . Mas isso t a m b é m constituía u m a afirma- tribuições? C o m o , então, explicamos a r e p e n t i n a cristalização das
ção de a u t o e v i d ê n c i a , p o r q u e "visto q u e " significa l i t e r a l m e n t e afirmações dos direitos h u m a n o s no final do século XVIII?
"sendo fato que". Em outras palavras, "visto q u e " é simplesmente Os direitos h u m a n o s r e q u e r e m três qualidades encadeadas:
um m o d o legalista de afirmar algo d e t e r m i n a d o , autoevidente. devem ser naturais (inerentes nos seres h u m a n o s ) , iguais (os m e s -
Essa afirmação de a u t o e v i d ê n c i a , crucial p a r a os direitos m o s p a r a t o d o m u n d o ) e universais (aplicáveis p o r t o d a p a r t e ) .
h u m a n o s m e s m o nos dias de hoje, dá origem a um paradoxo: se a Para q u e os direitos sejam direitos humanos, t o d o s os h u m a n o s em
igualdade dos direitos é tão autoevidente, p o r que essa afirmação todas as regiões do m u n d o devem possuí-los igualmente e apenas
t i n h a de ser feita e p o r que só era feita em t e m p o s e lugares específi- p o r causa de seu status c o m o seres h u m a n o s . Acabou sendo mais
cos? C o m o p o d e m os direitos h u m a n o s ser universais se n ã o são fácil aceitar a qualidade n a t u r a l dos direitos do que a sua igualdade
universalmente reconhecidos? Vamos nos contentar c o m a explica- ou universalidade. De muitas maneiras, ainda estamos apren-
ção, d a d a pelos redatores de 1948, de que " c o n c o r d a m o s sobre os d e n d o a lidar c o m as implicações da d e m a n d a p o r igualdade e u n i -
direitos, desde q u e n i n g u é m nos p e r g u n t e p o r quê"? Os direitos versalidade de direitos. C o m q u e idade alguém t e m direito a u m a
p o d e m ser "autoevidentes" q u a n d o estudiosos discutem há mais de p l e n a p a r t i c i p a ç ã o política? Os i m i g r a n t e s — n ã o - c i d a d ã o s —
dois séculos sobre o que Jefferson queria dizer c o m a sua expressão? p a r t i c i p a m dos direitos ou n ã o , e de quais?
O debate continuará para sempre, p o r q u e Jefferson n u n c a sentiu a Entretanto, n e m o caráter natural, a igualdade e a universali-
necessidade de se explicar. N i n g u é m do C o m i t ê dos Cinco ou do dade são suficientes. Os direitos h u m a n o s só se t o r n a m significa-
C o n g r e s s o quis revisar a sua afirmação, m e s m o m o d i f i c a n d o tivos q u a n d o g a n h a m c o n t e ú d o político. N ã o são o s direitos d e
e x t e n s a m e n t e o u t r a s seções de sua versão preliminar. A p a r e n t e - h u m a n o s n u m estado de natureza: são os direitos de h u m a n o s em
m e n t e c o n c o r d a v a m c o m ele. Mais ainda, se Jefferson tivesse se s o c i e d a d e . N ã o são a p e n a s direitos h u m a n o s e m o p o s i ç ã o aos
explicado, a autoevidência da afirmação teria se evaporado. U m a direitos divinos, o u direitos h u m a n o s e m o p o s i ç ã o aos direitos
afirmação que requer discussão não é evidente p o r si m e s m a . 3
animais: são os direitos de h u m a n o s vis-à-vis u n s aos outros. São,
Acredito q u e a afirmação de a u t o e v i d ê n c i a é crucial p a r a a p o r t a n t o , direitos garantidos n o m u n d o político secular ( m e s m o
história dos direitos h u m a n o s , e este livro busca explicar c o m o ela q u e sejam c h a m a d o s "sagrados"), e são direitos que r e q u e r e m u m a
veio a ser tão convincente no século XVIII. Felizmente, ela t a m b é m participação ativa daqueles que os d e t ê m .
propicia u m p o n t o focal n o q u e t e n d e a ser u m a história m u i t o A igualdade, a universalidade e o caráter natural dos direitos
difusa. Os direitos h u m a n o s t o r n a r a m - s e t ã o u b í q u o s na atuali- g a n h a r a m u m a expressão política d i r e t a pela p r i m e i r a vez n a
d a d e q u e p a r e c e m r e q u e r e r u m a h i s t ó r i a i g u a l m e n t e vasta. A s Declaração da I n d e p e n d ê n c i a americana de 1776 e na Declaração
ideias gregas sobre a pessoa individual, as noções r o m a n a s de lei e dos Direitos do H o m e m e do Cidadão de 1789. E m b o r a se referisse
direito, as d o u t r i n a s cristãs da alma... O risco é q u e a história dos aos "antigos direitos e liberdades" estabelecidos pela lei inglesa e
direitos h u m a n o s se t o r n e a história da civilização ocidental ou derivados da história inglesa, a Bill ofRights inglesa de 1689 n ã o
agora, às vezes, até a história do m u n d o inteiro. A antiga Babilônia, declarava a igualdade, a universalidade ou o caráter n a t u r a l d o s
o h i n d u í s m o , o b u d i s m o e o islã t a m b é m n ã o d e r a m as suas con- direitos. Em contraste, a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a insistia q u e

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"todos os h o m e n s são criados iguais" e que todos possuem"direitos das por tanto tempo contra os habitantes inofensivos da África, e
inalienáveis". Da m e s m a f o r m a , a Declaração dos Direitos do que a moralidade, a reputação e os melhores interesses do nosso país
H o m e m e do Cidadão proclamava que "Os h o m e n s nascem e per- desejam há muito proscrever.
m a n e c e m livres e iguais em direitos". N ã o os h o m e n s franceses, n ã o
os h o m e n s brancos, n ã o os católicos, mas "os homens", o que t a n t o Ao sustentar q u e os africanos gozavam de direitos h u m a n o s ,
naquela época c o m o agora não significa apenas machos, mas pes- Jefferson n ã o tirava n e n h u m a ilação sobre os escravos n e g r o s no
soas, isto é , m e m b r o s d a raça h u m a n a . E m o u t r a s palavras, e m país. Os direitos h u m a n o s , pela definição de Jefferson, n ã o capaci-
algum m o m e n t o entre 1689 e 1776 direitos que t i n h a m sido consi- tava os africanos — m u i t o m e n o s os afro-americanos — a agir em
derados m u i t o frequentemente c o m o sendo de d e t e r m i n a d o povo seu p r ó p r i o n o m e . 5

— o s ingleses nascidos livres, p o r e x e m p l o — f o r a m transformados D u r a n t e o século x v n i , em inglês e em francês, os t e r m o s


em direitos h u m a n o s , direitos naturais universais, o que os france- "direitos h u m a n o s " , "direitos do gênero h u m a n o " e " d i r e i t o s da
ses c h a m a v a m les droits de Vhomme, ou "os direitos do homem". 4
h u m a n i d a d e " se m o s t r a r a m t o d o s d e m a s i a d o gerais p a r a servir ao
e m p r e g o político d i r e t o . Referiam-se antes ao q u e d i s t i n g u i a os
h u m a n o s do divino, n u m a p o n t a da escala, e dos a n i m a i s , na o u -
OS DIREITOS HUMANOS E "OS DIREITOS DO H O M E M " tra, do q u e a direitos p o l i t i c a m e n t e relevantes c o m o a l i b e r d a d e de
expressão ou o direito de participar na política. Assim, n u m d o s
U m a breve incursão na história dos t e r m o s ajudará a fixar o e m p r e g o s m a i s a n t i g o s (1734) d e "direitos d a h u m a n i d a d e " e m
m o m e n t o d o s u r g i m e n t o d o s direitos h u m a n o s . A s pessoas d o francês, o acerbo crítico literário Nicolas Lenglet-Dufresnoy, ele
século x v n i n ã o u s a v a m f r e q u e n t e m e n t e a e x p r e s s ã o "direitos p r ó p r i o um padre católico, satirizava "aqueles m o n g e s inimitáveis
h u m a n o s " e, q u a n d o o faziam, em geral q u e r i a m dizer algo dife- do século vi, que r e n u n c i a v a m tão inteiramente a t o d o s 'os direitos
rente do significado que hoje lhe a t r i b u í m o s . Antes de 1789, Jeffer- da h u m a n i d a d e ' q u e p a s t a v a m c o m o animais e a n d a v a m p o r t o d a
son, p o r exemplo, falava c o m m u i t a frequência de "direitos n a t u - p a r t e c o m p l e t a m e n t e nus". D a m e s m a forma, e m 1756, Voltaire
rais". C o m e ç o u a u s a r o t e r m o "direitos do h o m e m " s o m e n t e podia p r o c l a m a r c o m i r o n i a que a Pérsia era a m o n a r q u i a em q u e
depois d e 1789. Q u a n d o e m p r e g a v a "direitos h u m a n o s " , q u e r i a mais desfrutava dos "direitos da h u m a n i d a d e " , p o r q u e os persas
dizer algo mais passivo e m e n o s político do q u e os direitos naturais t i n h a m os m a i o r e s " r e c u r s o s c o n t r a o tédio". O t e r m o " d i r e i t o
ou os direitos do h o m e m . Em 1806, p o r exemplo, u s o u o t e r m o ao h u m a n o " apareceu em francês pela p r i m e i r a vez em 1763 signifi-
se referir aos males do tráfico de escravos: c a n d o algo semelhante a "direito natural", m a s n ã o p e g o u , apesar
de ser u s a d o p o r Voltaire no seu a m p l a m e n t e influente Tratado

Eu lhes felicito, colegas cidadãos, por estar próximo o período em sobre a tolerância!'

que poderão interpor constitucionalmente a sua autoridade para E n q u a n t o os ingleses c o n t i n u a r a m a preferir "direitos n a t u -
afastar os cidadãos dos Estados Unidos de toda participação ulte- rais" ou s i m p l e s m e n t e " d i r e i t o s " d u r a n t e t o d o o século x v n i , os
rior naquelas violações dos direitos humanos que têm sido reitera- franceses i n v e n t a r a m u m a n o v a expressão na década de 1760 —

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"direitos do h o m e m " {droits de l'homme). "O(s) direito(s) n a t u - Antes de 1789, "direitos do h o m e m " t i n h a p o u c a s incursões
ral(is)" ou "a lei n a t u r a l " (droit naturel t e m a m b o s os significados no inglês. Mas a Revolução A m e r i c a n a incitou o m a r q u ê s de C o n -
em francês) t i n h a m histórias mais longas q u e recuavam centenas dorcet, defensor do I l u m i n i s m o francês, a d a r o p r i m e i r o passo
de a n o s no passado, m a s talvez c o m o consequência"o(s) direito(s) para definir "os direitos do homem", que p a r a ele incluíam a segu-
n a t u r a l ( i s ) " t i n h a um n ú m e r o exagerado de possíveis significados. rança da pessoa, a segurança da p r o p r i e d a d e , a justiça imparcial e
Às vezes significava simplesmente fazer sentido d e n t r o da o r d e m idônea e o direito de c o n t r i b u i r para a formulação das leis. No seu
tradicional. Assim, p o r exemplo, o bispo Bossuet, um porta-voz a ensaio de 1786, " D e l'influence de la r é v o l u t i o n d ' A m é r i q u e sur
favor da m o n a r q u i a absoluta de Luís xiv, u s o u "direito n a t u r a l " l'Europe", C o n d o r c e t ligava explicitamente os direitos do h o m e m
s o m e n t e ao descrever a e n t r a d a de Jesus Cristo no céu ("ele e n t r o u à Revolução Americana: "O espetáculo de um g r a n d e povo em q u e
no céu pelo seu p r ó p r i o direito n a t u r a l " ) . 7
os direitos do h o m e m são respeitados é útil p a r a t o d o s os o u t r o s ,
O t e r m o "direitos do h o m e m " c o m e ç o u a circular em francês apesar da diferença de clima, costumes e constituições". A Declara-
depois de sua aparição em O contrato social (1762), de Jean-Jac- ção da I n d e p e n d ê n c i a americana, ele proclamava, era n a d a m e n o s
ques Rousseau, ainda q u e ele n ã o desse ao t e r m o n e n h u m a defini- q u e " u m a exposição simples e sublime desses direitos q u e são, ao
ção e ainda q u e — ou talvez p o r q u e — o usasse ao lado de "direi- m e s m o t e m p o , t ã o s a g r a d o s e h á t a n t o t e m p o esquecidos". E m
tos da humanidade","direitos do cidadão"e"direitos da soberania". janeiro de 1789, E m m a n u e l - J o s e p h Sieyès u s o u a expressão no seu
Q u a l q u e r que fosse a razão, p o r volta de j u n h o de 1763, "direitos incendiário panfleto c o n t r a a nobreza, O que é o Terceiro Estado?.
do h o m e m " tinha se tornado um termo c o m u m , segundo u m a O r a s c u n h o de u m a declaração dos direitos, feito p o r Lafayette em
revista clandestina: janeiro de 1789, referia-se explicitamente aos "direitos do homem",
referência t a m b é m feita p o r C o n d o r c e t no seu p r ó p r i o r a s c u n h o
Os atores da Comédie française representaram hoje, pela primeira do início de 1789. D e s d e a p r i m a v e r a de 1789 — isto é, m e s m o
vez, Manco [uma peça sobre os incas no Peru ], de que falamos antes. antes da q u e d a da Bastilha em 14 de j u l h o — m u i t o s debates sobre
É uma das piores tragédias já construídas. Há nela um papel para um a necessidade de u m a declaração dos "direitos do h o m e m " p e r -
selvagem que poderia ser muito belo: ele recita cm verso tudo o que m e a v a m os círculos políticos franceses. 9

temos lido espalhado sobre reis, liberdade e os direitos do homem, Q u a n d o a l i n g u a g e m d o s direitos h u m a n o s a p a r e c e u , n a


em A desigualdade de condições, em Emílio, em O contrato social. segunda m e t a d e do século xvin, havia a princípio p o u c a definição
explícita desses direitos. Rousseau n ã o ofereceu n e n h u m a explica-
E m b o r a a peça n ã o e m p r e g u e de fato a expressão precisa "os direi- ção q u a n d o u s o u o t e r m o "direitos do h o m e m " . O jurista inglês
tos do homem", m a s antes a relacionada "direitos de nosso ser", é William Blackstone os definiu c o m o "a liberdade natural da h u m a -
claro que o t e r m o havia e n t r a d o no uso intelectual e estava de fato nidade", isto é, os "direitos a b s o l u t o s do h o m e m , c o n s i d e r a d o
diretamente associado c o m as obras de Rousseau. O u t r o s escrito- c o m o um agente livre, d o t a d o de discernimento para distinguir o
res do I l u m i n i s m o , c o m o o b a r ã o D ' H o l b a c h , Raynal e Mercier, b e m do mal". A maioria daqueles que usavam a expressão nas déca-
a d o t a r a m a expressão nas décadas de 1770 e 1780. 8
das de 1770 e 1780 na França, c o m o D ' H o l b a c h e Mirabeau, figu-

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ras controversas do I l u m i n i s m o , referia-se aos direitos do h o m e m se ressoa d e n t r o de cada indivíduo. Além disso, t e m o s m u i t a cer-
c o m o se fossem óbvios e não necessitassem de n e n h u m a justificação leza de q u e um direito h u m a n o está em questão q u a n d o nos senti-
ou definição; eram, em outras palavras, autoevidentes. D ' H o l b a c h mos h o r r o r i z a d o s pela sua violação. R a b a u t Saint-Étienne sabia
argumentava, p o r exemplo, que se os h o m e n s temessem m e n o s a (|ue p o d i a apelar ao c o n h e c i m e n t o implícito do q u e n ã o era "mais
m o r t e "os direitos do h o m e m seriam defendidos c o m mais ousa- aceitável". Em 1755, o influente escritor do I l u m i n i s m o francês
dia". M i r a b e a u denunciava os seus perseguidores, q u e n ã o t i n h a m I )enis Diderot t i n h a escrito, a respeito do droit naturel, q u e "o uso
" n e m caráter n e m alma, p o r q u e n ã o t ê m a b s o l u t a m e n t e n e n h u m a desse t e r m o é t ã o familiar q u e quase n i n g u é m deixaria de ficar
ideia d o s direitos dos h o m e n s " . N i n g u é m a p r e s e n t o u u m a lista convencido, no interior de si m e s m o , de q u e a n o ç ã o lhe é obvia-
precisa desses direitos a n t e s de 1776 (a d a t a da D e c l a r a ç ã o de mente conhecida. Esse s e n t i m e n t o interior é c o m u m t a n t o p a r a o
Direitos da Virgínia redigida p o r George Mason). " 1 lilósofo q u a n t o p a r a o h o m e m q u e a b s o l u t a m e n t e n ã o refletiu".

A a m b i g u i d a d e dos direitos h u m a n o s foi percebida pelo pas- ( ] o m o o u t r o s de seu t e m p o , Diderot dava apenas u m a indicação

tor calvinista jean-Paul Rabaut Saint-Étienne, q u e escreveu ao rei vaga do significado de direitos naturais: " c o m o homem", concluía,

francês em 1787 para se queixar das limitações de um projeto de "não t e n h o o u t r o s direitos n a t u r a i s q u e sejam v e r d a d e i r a m e n t e

edito de tolerância p a r a protestantes c o m o ele p r ó p r i o . E n c o r a - inalienáveis a n ã o ser aqueles da h u m a n i d a d e " . Mas ele tocara na

jado pelo s e n t i m e n t o crescente em favor dos direitos do h o m e m , qualidade mais i m p o r t a n t e dos direitos h u m a n o s : eles r e q u e r i a m

R a b a u t insistiu: " s a b e m o s hoje o q u e são os direitos n a t u r a i s , e certo " s e n t i m e n t o interior" a m p l a m e n t e p a r t i l h a d o . 12

eles certamente d ã o aos h o m e n s m u i t o mais do q u e o edito con- Até Jean-Jacques Burlamaqui, o austero filósofo suíço da lei
cede aos protestantes. [...] C h e g o u a h o r a em q u e n ã o é mais acei- natural, insistia que a liberdade só podia ser e x p e r i m e n t a d a pelos
tável q u e u m a lei invalide a b e r t a m e n t e os direitos da h u m a n i d a d e , s e n t i m e n t o s i n t e r i o r e s d e c a d a h o m e m : "Tais p r o v a s d e s e n t i -
que são m u i t o b e m conhecidos em t o d o o m u n d o " . Talvez eles fos- m e n t o estão acima de t o d a objeção e p r o d u z e m a convicção m a i s
sem b e m conhecidos, m a s o p r ó p r i o R a b a u t a d m i t i a q u e um rei p r o f u n d a m e n t e arraigada". Os direitos h u m a n o s n ã o são apenas
católico n ã o p o d i a sancionar oficialmente o direito calvinista ao nina d o u t r i n a formulada e m d o c u m e n t o s : baseiam-se n u m a dis-
culto público. E m suma, t u d o d e p e n d i a — c o m o ainda d e p e n d e — posição em relação às o u t r a s pessoas, um conjunto de convicções
da interpretação dada ao q u e n ã o era "mais aceitável". 11
sobre c o m o são as pessoas e c o m o elas d i s t i n g u e m o c e r t o e o
e i r a d o no m u n d o secular. As ideias filosóficas, as tradições legais e
.1 política revolucionária precisaram ter esse tipo de p o n t o de refe-
iciicia e m o c i o n a l interior p a r a que os direitos h u m a n o s fossem
COMO OS DIREITOS SE TORNARAM AUTOEVIDENTES
verdadeiramente "autoevidentes". E, c o m o insistia Diderot, esses
M i i i i m e n t o s t i n h a m d e ser e x p e r i m e n t a d o s p o r muitas pessoas,
Os direitos h u m a n o s são difíceis de d e t e r m i n a r p o r q u e sua
Bio s o m e n t e pelos filósofos q u e escreviam sobre eles."
definição, e na verdade a sua p r ó p r i a existência, d e p e n d e t a n t o das
e m o ç õ e s q u a n t o da r a z ã o . A reivindicação de a u t o e v i d ê n c i a se O que sustentava essas noções de liberdade e direitos era um
baseia em última análise n u m apelo emocional: ela é convincente • onjunto de pressuposições sobre a a u t o n o m i a individual. Para

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ter direitos h u m a n o s , as pessoas d e v i a m ser vistas c o m o indiví- ( c n d o , a b a n d o n a n d o o serviço, a d q u i r i n d o u m a p r o p r i e d a d e ou
d u o s separados q u e e r a m capaz.es de exercer um julgamento m o r a l 1 o i n p r a n d o a sua liberdade. Apenas as m u l h e r e s n ã o pareciam ter
i n d e p e n d e n t e ; c o m o dizia Blackstone, o s direitos d o h o m e m n e n h u m a dessas o p ç õ e s : e r a m definidas c o m o i n e r e n t e m e n t e
a c o m p a n h a v a m o indivíduo "considerado c o m o um agente livre, 1 lependentes de seus pais ou m a r i d o s . Se os p r o p o n e n t e s dos direi-
d o t a d o de discernimento p a r a distinguir o b e m do mal". Mas, p a r a tos h u m a n o s n a t u r a i s , iguais e universais excluíam a u t o m a t i c a -
q u e se t o r n a s s e m m e m b r o s de u m a c o m u n i d a d e política baseada mente algumas categorias de pessoas do exercício desses direitos,
n a q u e l e s j u l g a m e n t o s m o r a i s i n d e p e n d e n t e s , esses i n d i v í d u o s era p r i m a r i a m e n t e p o r q u e v i a m essas pessoas c o m o m e n o s do q u e
a u t ô n o m o s t i n h a m de ser capazes de sentir empatia pelos o u t r o s . plenamente capazes de a u t o n o m i a m o r a l . 14

T o d o m u n d o teria direitos s o m e n t e s e t o d o m u n d o pudesse ser Entretanto, o p o d e r r e c é m - d e s c o b e r t o da empatia podia fun-


visto, de um m o d o essencial, c o m o semelhante. A igualdade n ã o cionar até c o n t r a os p r e c o n c e i t o s mais d u r a d o u r o s . Em 1791, o
era apenas u m conceito abstrato o u u m slogan político. T i n h a d e g o v e r n o r e v o l u c i o n á r i o francês c o n c e d e u direitos iguais aos
ser internalizada de alguma forma. judeus; em 1792, até os h o m e n s sem p r o p r i e d a d e foram e m a n c i -
E m b o r a c o n s i d e r e m o s n a t u r a i s as ideias de a u t o n o m i a e pados; e em 1794, o governo francês aboliu oficialmente a escravi-
i g u a l d a d e , j u n t o c o m o s direitos h u m a n o s , elas s ó g a n h a r a m dão. N e m a a u t o n o m i a n e m a e m p a t i a e s t a v a m d e t e r m i n a d a s :
influência no século XVIII. O filósofo m o r a l c o n t e m p o r â n e o J. B. e r a m habilidades q u e p o d i a m ser aprendidas, e as limitações "acei-
Schneewind investigou o q u e ele c h a m a de "a invenção da a u t o n o - táveis" d o s direitos p o d i a m ser — e f o r a m — q u e s t i o n a d a s . Os
mia". "A nova perspectiva q u e surgiu no fim do século XVIII", afirma direitos n ã o p o d e m ser definidos de u m a vez p o r todas, p o r q u e a
ele, "centrava-se na crença de q u e t o d o s os indivíduos n o r m a i s são sua base e m o c i o n a l c o n t i n u a a se deslocar, em p a r t e c o m o reação
igualmente capazes de viver j u n t o s n u m a m o r a l i d a d e de a u t o c o n - Is declarações de direitos. Os direitos p e r m a n e c e m sujeitos a dis-
trole." Por trás desses " i n d i v í d u o s n o r m a i s " existe u m a longa his- cussão p o r q u e a nossa percepção de q u e m t e m direitos e do q u e são
tória de luta. No século XVIII (e de fato até o presente) n ã o se imagi- (".ses direitos m u d a c o n s t a n t e m e n t e . A r e v o l u ç ã o dos d i r e i t o s
n a v a m todas as "pessoas" c o m o igualmente capazes de a u t o n o m i a 1111 m a n o s é, p o r definição, contínua.
m o r a l . D u a s qualidades relacionadas m a s distintas estavam impli- A a u t o n o m i a e a e m p a t i a são práticas culturais e não apenas
cadas: a capacidade de raciocinar e a i n d e p e n d ê n c i a de decidir p o r ideias, e p o r t a n t o são i n c o r p o r a d a s de forma bastante literal, isto
si m e s m o . A m b a s t i n h a m de estar presentes p a r a q u e um indiví- r, têm d i m e n s õ e s t a n t o físicas c o m o e m o c i o n a i s . A a u t o n o m i a
d u o fosse m o r a l m e n t e a u t ô n o m o . Às crianças e aos insanos faltava n i i l i v i d u a l d e p e n d e d e u m a percepção crescente da separação e do
a necessária capacidade de raciocinar, m a s eles p o d e r i a m a l g u m (Ifáter sagrado dos c o r p o s h u m a n o s : o seu c o r p o é seu, e o m e u
dia ganhar ou recuperar essa capacidade. Assim c o m o as crianças, iOrpo é m e u , e devemos a m b o s respeitar as fronteiras entre os cor-
os escravos, os c r i a d o s , os s e m p r o p r i e d a d e e as m u l h e r e s n ã o pos um do o u t r o . A e m p a t i a d e p e n d e do r e c o n h e c i m e n t o de q u e
t i n h a m a i n d e p e n d ê n c i a de status r e q u e r i d a p a r a s e r e m p l e n a - I tutros s e n t e m e p e n s a m c o m o fazemos, de que nossos sentimen-
m e n t e a u t ô n o m o s . As crianças, os criados, os sem p r o p r i e d a d e e i " . interiores são s e m e l h a n t e s d e u m m o d o essencial. P a r a ser
talvez até os escravos p o d e r i a m um dia t o r n a r - s e a u t ô n o m o s , cres- l U t ô n o m a , u m a p e s s o a t e m d e estar l e g i t i m a m e n t e s e p a r a d a e

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p r o t e g i d a na sua separação; mas, para fazer c o m q u e os direitos i < > rnais proliferaram, t o r n a n d o as histórias das vidas c o m u n s aces-
a c o m p a n h e m essa separação corporal, a individualidade de u m a síveis a um a m p l o público. A t o r t u r a c o m o p a r t e do processo j u d i -
pessoa deve ser apreciada de forma mais e m o c i o n a l . Os direitos cial e as formas mais extremas de p u n i ç ã o c o r p o r a l c o m e ç a r a m a
h u m a n o s d e p e n d e m tanto do d o m í n i o de si m e s m o c o m o do reco- ser vistas c o m o inaceitáveis. Todas essas m u d a n ç a s c o n t r i b u í r a m
n h e c i m e n t o de q u e t o d o s os o u t r o s são igualmente senhores de si. para u m a percepção da separação e do a u t o c o n t r o l e dos c o r p o s
É o d e s e n v o l v i m e n t o i n c o m p l e t o dessa última c o n d i ç ã o q u e dá individuais, j u n t o c o m a possibilidade de e m p a t i a c o m outros.
origem a todas as desigualdades de direitos que nos têm preocu- As noções de integridade corporal e individualidade empática,
p a d o ao longo de toda a história. investigadas nos p r ó x i m o s capítulos, t ê m histórias não desseme-
A a u t o n o m i a e a empatia n ã o se materializaram a partir do ar lhantes da dos direitos h u m a n o s , aos quais estão intimamente rela-
rarefeito do século xvni: elas t i n h a m raízes profundas. D u r a n t e o cionadas. Isto é, as m u d a n ç a s nos p o n t o s de vista parecem acontecer
longo p e r í o d o de vários séculos, os indivíduos t i n h a m c o m e ç a d o todas ao m e s m o t e m p o , em m e a d o s do século xvni. Considere-se,
a se afastar das teias da c o m u n i d a d e , t o r n a n d o - s e agentes cada vez por exemplo, a tortura. Entre 1700 e 1750, a maioria dos empregos
m a i s i n d e p e n d e n t e s t a n t o legal c o m o p s i c o l o g i c a m e n t e . U m da palavra " t o r t u r a " em francês se referia às dificuldades q u e um
m a i o r respeito pela integridade corporal e linhas de demarcação escritor experimentava para e n c o n t r a r u m a expressão apropriada.
mais claras entre os c o r p o s individuais h a v i a m sido p r o d u z i d o s Assim, Marivaux em 1724 se referia a " t o r t u r a r a m e n t e para extrair
pelo limiar cada vez mais elevado da vergonha a respeito das fun- reflexões". A t o r t u r a , isto é, a t o r t u r a legalmente autorizada p a r a
ções corporais e pelo senso crescente de decoro corporal. C o m o obter confissões de culpa ou n o m e s de cúmplices, tornou-se u m a
t e m p o , as pessoas c o m e ç a r a m a d o r m i r sozinhas ou apenas c o m questão de g r a n d e i m p o r t â n c i a depois q u e Montesquieu atacou a
um cônjuge na cama. Usavam utensílios para c o m e r e c o m e ç a r a m prática no seu Espírito das leis (1748). N u m a das suas passagens mais
a c o n s i d e r a r repulsivo um c o m p o r t a m e n t o a n t e s t ã o aceitável, influentes, Montesquieu insiste q u e "Tantas pessoas inteligentes e
c o m o jogar c o m i d a n o c h ã o o u l i m p a r excreções c o r p o r a i s nas tantos h o m e n s de gênio escreveram c o n t r a esta prática [a t o r t u r a
roupas. A constante evolução de noções de interioridade e profun- judicial] q u e n ã o o u s o falar d e p o i s deles". Acrescenta então, um
didade da psique, desde a alma cristã à consciência protestante e às tanto enigmaticamente: "Eu ia dizer q u e talvez ela fosse apropriada
noções de sensibilidade do século xvni, p r e e n c h i a a individuali- para o governo despótico, no qual t u d o q u e inspira m e d o contribui
d a d e c o m u m n o v o c o n t e ú d o . Todos esses processos o c o r r e r a m para o vigor do governo; ia dizer q u e os escravos entre os gregos e os
d u r a n t e u m longo p e r í o d o . romanos... Mas escuto a voz da natureza gritando contra mim". Aqui
t a m b é m a a u t o e v i d ê n c i a — " a voz da natureza gritando"—fornece
Mas houve um avanço repentino no desenvolvimento dessas
o f u n d a m e n t o para o a r g u m e n t o . D e p o i s de Montesquieu, Voltaire
práticas na segunda m e t a d e do século xvni. A a u t o r i d a d e absoluta
e m u i t o s outros, especialmente o italiano Beccaria, se j u n t a r i a m à
dos pais sobre os filhos foi questionada. O público c o m e ç o u a ver
c a m p a n h a . Na década de 1780, a abolição da tortura e das formas
os espetáculos teatrais ou a escutar música em silêncio. Os retratos
bárbaras de punição corporal t i n h a m se t o r n a d o artigos essenciais
e as p i n t u r a s de gênero desafiaram o p r e d o m í n i o das grandes telas
na nova d o u t r i n a dos direitos h u m a n o s . 15

mitológicas e históricas da p i n t u r a acadêmica. Os r o m a n c e s e os

28 29
As m u d a n ç a s nas reações aos corpos e individualidades das 111 i v a s sensações a respeito d o eu interior. Cada u m à sua m a n e i r a
o u t r a s pessoas f o r n e c e r a m um s u p o r t e crítico para o n o v o funda- reforçava a n o ç ã o d e u m a c o m u n i d a d e b a s e a d a e m i n d i v í d u o s
m e n t o secular d a a u t o r i d a d e política. E m b o r a Jefferson escre- . m l ô n o m o s e empáticos, q u e p o d i a m se relacionar, p a r a além de
vesse q u e o "seu C r i a d o r " t i n h a d o t a d o os h o m e n s de direitos, o Ni ias famílias imediatas, associações religiosas ou até nações, c o m
p a p e l do C r i a d o r t e r m i n a v a ali. O g o v e r n o já n ã o d e p e n d i a de valores universais maiores. 17

D e u s , m u i t o m e n o s d a interpretação d a v o n t a d e d e D e u s apresen- N ã o h á n e n h u m m o d o fácil o u óbvio d e p r o v a r o u m e s m o


t a d a p o r u m a igreja. " G o v e r n o s são instituídos entre os homens", medir o efeito das novas experiências culturais sobre as pessoas do
disse Jefferson,"para assegurar esses Direitos", e eles derivam o seu século xviii, m u i t o m e n o s sobre as suas concepções dos direitos. Os
p o d e r "do C o n s e n t i m e n t o dos Governados". Da m e s m a forma, a i s l udos científicos das reações atuais à leitura e ao ato de ver tele-
D e c l a r a ç ã o francesa de 1789 m a n t i n h a q u e o "objetivo de t o d a \ is.io revelaram-se bastante difíceis, e eles t ê m a v a n t a g e m de exa-
associação política é a preservação dos direitos n a t u r a i s e i m p r e s - miiiar sujeitos vivos q u e p o d e m ser expostos a estratégias de pes-
critíveis do h o m e m " e q u e o "princípio de t o d a soberania reside quisa s e m p r e m u t á v e i s . A i n d a assim, os n e u r o c i e n t i s t a s e os
essencialmente na nação". A a u t o r i d a d e política, nessa visão, deri- psicólogos cognitivos t ê m feito algum progresso em ligar a b i o l o -
vava da natureza mais interior dos indivíduos e da sua capacidade gia do cérebro a resultados psicológicos e no fim das contas até
de criar a c o m u n i d a d e p o r m e i o do c o n s e n t i m e n t o . Os cientistas lociais e culturais. M o s t r a r a m , p o r exemplo, que a capacidade de
p o l í t i c o s e os h i s t o r i a d o r e s t ê m e x a m i n a d o essa c o n c e p ç ã o da 1 onstruir narrativas é baseada na biologia do cérebro, sendo cru-
a u t o r i d a d e política a p a r t i r de â n g u l o s v a r i a d o s , m a s t ê m p r e s - cial para o desenvolvimento de qualquer n o ç ã o do eu. Certos tipos
t a d o p o u c a atenção à visão dos corpos e das individualidades q u e ilc lesões cerebrais a f e t a m a c o m p r e e n s ã o n a r r a t i v a , e d o e n ç a s
a t o r n o u possível. 16
1 o r n o o a u t i s m o m o s t r a m q u e a capacidade de empatia — o reco-
uliecimento de q u e os o u t r o s t ê m m e n t e s c o m o a nossa — t e m
M e u a r g u m e n t o fará g r a n d e uso da influência de novos tipos
m na base biológica. Na sua m a i o r parte, entretanto, esses estudos
de experiência, desde ver imagens em exposições públicas até ler
•.o e x a m i n a m um l a d o da e q u a ç ã o : o b i o l ó g i c o . M e s m o q u e a
r o m a n c e s epistolares i m e n s a m e n t e p o p u l a r e s sobre o a m o r e o
maioria dos psiquiatras e até alguns neurocientistas c o n c o r d e m
casamento. Essas experiências ajudaram a difundir as práticas da
| U e o p r ó p r i o cérebro é influenciado p o r forças sociais e culturais,
a u t o n o m i a e da empatia. O cientista político Benedict A n d e r s o n
essa interação t e m sido mais difícil de estudar. Na verdade, o p r ó -
a r g u m e n t a que os jornais e os r o m a n c e s c r i a r a m a " c o m u n i d a d e
11] i< > eu t e m se m o s t r a d o m u i t o difícil de examinar. Sabemos q u e
imaginada" que o nacionalismo requer p a r a florescer. O q u e p o d e -
l ei 1 í o s a experiência de ter um eu, mas os neurocientistas não con-
ria ser d e n o m i n a d o "empatia imaginada" antes serve c o m o funda-
'.eguiram d e t e r m i n a r o local dessa experiência, m u i t o m e n o s
m e n t o dos direitos h u m a n o s q u e do n a c i o n a l i s m o . É i m a g i n a d a
• plicar c o m o ela funciona. 18

não no sentido de inventada, mas no sentido de que a empatia


requer um salto de fé, de i m a g i n a r que alguma o u t r a pessoa é c o m o Se a n e u r o c i ê n c i a , a p s i q u i a t r i a e a psicologia a i n d a estão
você. Os relatos de t o r t u r a p r o d u z i a m essa e m p a t i a i m a g i n a d a p o r n u e i las sobre a n a t u r e z a d o eu, e n t ã o talvez n ã o seja s u r p r e e n -
m e i o de novas visões da dor. Os r o m a n c e s a geravam i n d u z i n d o 1 lente que os historiadores t e n h a m se m a n t i d o totalmente afasta-

30 31
dos do assunto. A maioria dos historiadores provavelmente acre- sociais. A atenção t e m se voltado para o contexto social e cultural,
dita q u e o eu é, em alguma m e d i d a , m o d e l a d o p o r fatores sociais e e n ã o p a r a o m o d o c o m o as m e n t e s individuais c o m p r e e n d e m e
culturais, isto é, q u e a individualidade no século x significava algo r e m o d e l a m esse contexto. Acredito que a m u d a n ç a social e política
diferente do q u e significa p a r a n ó s hoje em dia. Mas p o u c o se sabe — nesse caso, os direitos h u m a n o s — ocorre p o r q u e m u i t o s indi-
sobre a história da pessoa c o m o um conjunto de experiências. Os víduos tiveram experiências semelhantes, n ã o p o r q u e todos h a b i -
estudiosos t ê m escrito bastante sobre o s u r g i m e n t o do individua- tassem o m e s m o c o n t e x t o social, m a s p o r q u e , p o r m e i o de suas
lismo e da a u t o n o m i a c o m o d o u t r i n a s , p o r é m m u i t o m e n o s sobre i nterações entre si e c o m suas leituras e visões, eles realmente cria-
c o m o o p r ó p r i o eu p o d e r i a m u d a r ao longo do t e m p o . C o n c o r d o ram um n o v o contexto social. Em suma, estou insistindo que qual-
c o m o u t r o s historiadores q u e o significado do eu m u d a ao longo quer relato de m u d a n ç a histórica deve no fim das contas explicar a
do t e m p o , e acredito que a experiência — e n ã o apenas a ideia — alteração das m e n t e s individuais. Para q u e os direitos h u m a n o s se
da individualidade m u d a de forma decisiva p a r a algumas pessoas (ornassem autoevidentes, as pessoas c o m u n s precisaram ter novas
no século xviii. compreensões que nasceram de novos tipos de sentimentos.
M e u a r g u m e n t o d e p e n d e da n o ç ã o de q u e ler relatos de tor-
t u r a ou r o m a n c e s epistolares teve efeitos físicos q u e se t r a d u z i r a m
em m u d a n ç a s cerebrais e t o r n a r a m a sair do cérebro c o m o novos
conceitos sobre a organização da vida social e política. Os novos
tipos de leitura (e de visão e audição) c r i a r a m novas experiências
individuais (empatia), q u e p o r sua vez t o r n a r a m possíveis novos
conceitos sociais e políticos (os direitos h u m a n o s ) . Nestas páginas
tento d e s e m a r a n h a r c o m o esse processo se realizou. C o m o a his-
tória, m i n h a disciplina, t e m d e s d e n h a d o p o r t a n t o t e m p o q u a l -
quer forma de a r g u m e n t o psicológico — nós historiadores fala-
m o s frequentemente de r e d u c i o n i s m o psicológico, m a s n u n c a de
r e d u c i o n i s m o sociológico o u c u l t u r a l — , ela t e m o m i t i d o e m
g r a n d e p a r t e a possibilidade de um a r g u m e n t o q u e d e p e n d e de um
relato sobre o que acontece d e n t r o do eu.
Estou t e n t a n d o voltar de novo a atenção p a r a o que acontece
d e n t r o das m e n t e s i n d i v i d u a i s . Esse p o d e r i a p a r e c e r u m l u g a r
óbvio para p r o c u r a r u m a explicação das m u d a n ç a s sociais e polí-
ticas transformadoras, m a s as m e n t e s individuais — salvo as dos
grandes pensadores e escritores — t ê m sido s u r p r e e n d e n t e m e n t e
negligenciadas n o s t r a b a l h o s recentes das ciências h u m a n a s e

32 33
i. "Torrentes de emoções"
Lendo romances e imaginando a igualdade

Um a n o antes de publicar O contrato social, Rousseau g a n h o u


atenção internacional c o m um r o m a n c e de sucesso, Júlia ou A nova
Heloísa (1761). E m b o r a os leitores m o d e r n o s achem q u e a f o r m a
d o r o m a n c e epistolar o u e m cartas t e m à s vezes u m desenvolvi-
m e n t o t o r t u r a n t e m e n t e lento, os leitores do século xvin reagiram
de m o d o visceral. O subtítulo excitou as suas expectativas, pois a
história medieval do a m o r c o n d e n a d o de Heloísa e Abelardo era
b e m c o n h e c i d a . P e d r o A b e l a r d o , filósofo e clérigo católico do
século xii, seduziu a sua aluna Heloísa e pagou um alto preço nas
mãos do tio dela: a castração. Separados para sempre, os dois a m a n -
tes e n t ã o t r o c a r a m cartas íntimas que cativaram leitores ao longo
tios séculos. A paródia c o n t e m p o r â n e a de Rousseau parecia a p r i n -
cípio a p o n t a r n u m a direção m u i t o diferente. A nova Heloísa, Júlia,
t a m b é m se apaixona pelo seu tutor, m a s desiste do miserável Saint-
- Preux para satisfazer seu pai autoritário, que exige o seu c a s a m e n t o
c o m W o l m a r , um soldado russo mais velho que no passado salvara
a vida do pai de Júlia. Ela n ã o só supera a sua paixão p o r Saint-Preux
mas t a m b é m parece aprender a amá-lo simplesmente c o m o amigo

35
antes de morrer, após salvar seu filho p e q u e n o do afogamento. Será
que Rousseau procurava celebrar a submissão à autoridade do pai
e do esposo, ou tinha a intenção de retratar c o m o trágico o ato de
ela sacrificar os seus próprios desejos?
O e n r e d o , m e s m o c o m suas a m b i g u i d a d e s , n ã o explica a
explosão de emoções e x p e r i m e n t a d a pelos leitores de Rousseau. O
q u e os c o m o v i a era a sua intensa identificação c o m as p e r s o n a -
gens, especialmente Júlia. C o m o Rousseau já desfrutava de cele-
b r i d a d e i n t e r n a c i o n a l , a notícia da i m i n e n t e p u b l i c a ç ã o do seu
r o m a n c e se espalhou c o m o um rastilho de pólvora, em parte p o r -
q u e ele lia t r e c h o s do r o m a n c e em voz alta p a r a vários a m i g o s .
E m b o r a Voltaire fizesse p o u c o da o b r a , c h a m a n d o - a "esse lixo
miserável", Jean le R o n d d'Alembert, que coeditou a Encyclopédie
c o m Diderot, escreveu a Rousseau para dizer que tinha " d e v o r a d o "
o livro e avisá-lo de q u e devia esperar ser c e n s u r a d o n u m "país em
q u e se fala t a n t o do s e n t i m e n t o e da p a i x ã o e t ã o p o u c o se os
conhece". O Journal desSavantsadmiúa que o r o m a n c e t i n h a defei-
tos e até algumas passagens cansativas, m a s concluía q u e s o m e n t e
os de coração e m p e d e r n i d o p o d i a m resistir às "torrentes de e m o -
ções que t a n t o devastam a alma, que p r o v o c a m de forma tão i m p e -
riosa e tirânica lágrimas tão amargas". 1

Os cortesãos, o clero, os oficiais militares e t o d a sorte de pes-


soas c o m u n s escreviam a Rousseau p a r a descrever seus s e n t i m e n -
tos de um "fogo devorador", suas "emoções e mais emoções, con-
vulsões e mais convulsões". Um contava q u e n ã o t i n h a c h o r a d o a
m o r t e de Júlia, m a s q u e estava "gritando, u i v a n d o c o m o um ani-
m a l " (figura 1). C o m o observou um comentarista do século xx a
respeito dessas cartas, os leitores do r o m a n c e no século xvin n ã o o I I C U R A í . O leito de morte de Júlia

liam c o m prazer, m a s antes c o m "paixão, delírio, espasmos e solu- lista cena provocou mais sofrimento do que qualquer outra em Júlia, ou
Á nova Heloísa. A gravura de Nicolas Delaunay, baseada num desenho do
ços". A t r a d u ç ã o inglesa apareceu dois meses após a edição original
famoso artista Jean-Michel Moreau, apareceu numa edição de 1782 das
francesa; s e g u i r a m - s e dez edições em inglês e n t r e 1761 e 1800. I ' I n a s reunidas de Rousseau.
C e n t o e q u i n z e edições da versão francesa f o r a m publicadas no

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m e s m o p e r í o d o p a r a satisfazer o a p e t i t e v o r a z d e u m p ú b l i c o I 'ameia, a h e r o í n a do r o m a n c e de m e s m o n o m e escrito p o r S a m u e l
internacional q u e lia francês. 2
Richardson, igual e m e s m o superior a h o m e n s ricos c o m o o sr. B.,
A leitura de Júlia p r e d i s p ô s os seus leitores p a r a u m a n o v a o e m p r e g a d o r e futuro sedutor de Pamela. Os r o m a n c e s apresen-
forma de empatia. E m b o r a Rousseau tenha feito circular o t e r m o tavam a ideia de q u e todas as pessoas são f u n d a m e n t a l m e n t e s e m e -
"direitos humanos", esse n ã o é o t e m a principal do r o m a n c e , q u e lhantes p o r causa de seus s e n t i m e n t o s í n t i m o s , e m u i t o s r o m a n c e s
gira em t o r n o de paixão, a m o r e virtude. Ainda assim, Júlia encora- m o s t r a v a m em particular o desejo de a u t o n o m i a . Dessa forma, a
java u m a identificação e x t r e m a m e n t e intensa c o m os personagens leitura dos r o m a n c e s criava um senso de igualdade e e m p a t i a p o r
e c o m isso tornava os leitores capazes de sentir empatia além das meio do envolvimento a p a i x o n a d o c o m a narrativa. Seria coinci-
fronteiras de classe, sexo e nação. Os leitores do século XVIII, c o m o dência que os três maiores r o m a n c e s de identificação psicológica
as pessoas antes deles, sentiam empatia p o r aqueles que lhes e r a m do século XVIII — Pamela (1740) e Clarissa (1747-8), de Richard-
p r ó x i m o s e p o r aqueles q u e e r a m m u i t o o b v i a m e n t e seus s e m e - son, e Júlia (1761), de Rousseau — t e n h a m sido t o d o s publicados
lhantes — as suas famílias imediatas, os seus parentes, as pessoas de no p e r í o d o q u e i m e d i a t a m e n t e p r e c e d e u o s u r g i m e n t o do c o n -
sua p a r ó q u i a , os seus iguais sociais costumeiros em geral. Mas as ceito dos "direitos do h o m e m " ?
pessoas do século XVIII tiveram de a p r e n d e r a sentir empatia cru- N ã o é preciso dizer q u e a empatia n ã o foi inventada no século
z a n d o fronteiras mais a m p l a m e n t e definidas. Aléxis de Tocqueville XVIII. A capacidade de e m p a t i a é universal, p o r q u e está arraigada
c o n t a u m a história relatada pelo secretário d e Voltaire s o b r e na biologia do cérebro: d e p e n d e de u m a capacidade de base bioló-
m a d a m e de Châtelet, que não hesitava em se despir na frente de seus gica, a de c o m p r e e n d e r a s u b j e t i v i d a d e de o u t r a s pessoas e ser
criados, "não considerando ser um fato c o m p r o v a d o que os cama- capaz de imaginar q u e suas experiências interiores são semelhan-
reiros fossem homens". Os direitos h u m a n o s só p o d i a m fazer sen- tes às nossas. As crianças q u e sofrem de a u t i s m o , p o r exemplo, t ê m
tido q u a n d o os camareiros fossem t a m b é m vistos c o m o h o m e n s . 3
grande dificuldade em decodificar as expressões faciais c o m o indi-
cadoras de s e n t i m e n t o s e em geral enfrentam problemas para atri-
ROMANCES E EMPATIA buir estados subjetivos a o u t r o s . O a u t i s m o , em s u m a , é caracteri-
zado pela incapacidade de sentir empatia pelos o u t r o s . 4

Romances c o m o Júlia levavam os leitores a se identificar c o m N o r m a l m e n t e , t o d o m u n d o a p r e n d e a sentir empatia desde


personagens c o m u n s , q u e lhes e r a m p o r definição pessoalmente u m a tenra idade. E m b o r a a biologia propicie u m a predisposição
d e s c o n h e c i d o s . Os leitores s e n t i a m e m p a t i a pelos p e r s o n a g e n s , essencial, cada cultura m o d e l a a expressão de empatia a seu m o d o .
especialmente pela heroína ou pelo herói, graças aos m e c a n i s m o s A e m p a t i a só se desenvolve p o r m e i o da interação social: p o r t a n t o ,
da p r ó p r i a forma narrativa. Por m e i o da troca fictícia de cartas, em as f o r m a s dessa i n t e r a ç ã o c o n f i g u r a m a e m p a t i a de m a n e i r a s
outras palavras, os romances epistolares e n s i n a v a m a seus leitores i m p o r t a n t e s . No século xviii, os leitores de r o m a n c e s a p r e n d e r a m
n a d a m e n o s que u m a nova psicologia e nesse processo estabele- a estender o seu alcance de empatia. Ao ler, eles sentiam empatia
ciam os f u n d a m e n t o s p a r a u m a nova o r d e m política e social. Os além de fronteiras sociais tradicionais entre os nobres e os plebeus,
r o m a n c e s t o r n a v a m a Júlia da classe m é d i a e até c r i a d o s c o m o os senhores e os criados, os h o m e n s e as m u l h e r e s , talvez até entre

38 39
os adultos e as crianças. Em consequência, passavam a ver os o u - da p o p u l a ç ã o , n ã o t i n h a m o c o s t u m e de ler r o m a n c e s , isso q u a n d o
tros — i n d i v í d u o s que n ã o c o n h e c i a m p e s s o a l m e n t e — c o m o seus sabiam ler. 5

s e m e l h a n t e s , t e n d o o s m e s m o s t i p o s d e e m o ç õ e s i n t e r n a s . Sem Apesar das limitações do l e i t o r a d o , os h e r ó i s e as h e r o í n a s


esse processo de aprendizado, a "igualdade" talvez n ã o tivesse um c o m u n s do r o m a n c e do século xvin, de R o b i n s o n C r u s o é e T o m
significado p r o f u n d o e , e m particular, n e n h u m a c o n s e q u ê n c i a Jones a Clarissa H a r l o w e e Julie d ' É t a n g e s , t o r n a r a m - s e n o m e s
política. A igualdade das almas no céu n ã o é a m e s m a coisa q u e familiares, m e s m o o c a s i o n a l m e n t e p a r a aqueles q u e n ã o s a b i a m
direitos iguais aqui na terra. Antes do século xvin, os cristãos acei- ler. Os personagens aristocráticos c o m o D o m Quixote e a princesa
tavam p r o n t a m e n t e a p r i m e i r a sem admitir a segunda. de Clèves, t ã o p r o e m i n e n t e s n o s r o m a n c e s do século xvii, agora
A capacidade de identificação através das linhas sociais p o d e d a v a m lugar a c r i a d o s , m a r i n h e i r o s e m o ç a s da classe m é d i a
ter sido adquirida de várias maneiras, e n ã o me atrevo a dizer q u e ( e n q u a n t o f i l h a d e u m p e q u e n o n o b r e suíço, até Júlia parece b e m
a leitura de r o m a n c e s tenha sido a única. Ainda assim, ler r o m a n - classe m é d i a ) . A escalada e x t r a o r d i n á r i a do r o m a n c e à p r e e m i -
ces parece especialmente p e r t i n e n t e , em p a r t e p o r q u e o auge de nência no século xvin n ã o passou despercebida, e os estudiosos a
d e t e r m i n a d o tipo d e r o m a n c e — o r e p i s t o l a r — c o i n c i d e c r o n o l o - ligaram ao longo dos a n o s ao capitalismo, às a m b i ç õ e s da classe
gicamente c o m o n a s c i m e n t o dos direitos h u m a n o s . O r o m a n c e média, ao crescimento da esfera pública, ao s u r g i m e n t o da família
epistolar cresceu c o m o gênero entre as décadas de 1760 e 1780 e nuclear, a u m a m u d a n ç a n a s relações de g ê n e r o e até ao s u r g i -
depois, um tanto misteriosamente, extinguiu-se na década de m e n t o d o n a c i o n a l i s m o . Q u a i s q u e r q u e t e n h a m sido a s razões
1790. Romances de t o d o s os tipos t i n h a m sido publicados antes, p a r a o desenvolvimento do r o m a n c e , o m e u interesse é pelos seus
m a s eles d e c o l a r a m c o m o gênero no século xvill, especialmente efeitos psicológicos e pelo m o d o c o m o ele se liga ao s u r g i m e n t o
depois de 1740, a data da publicação de Pamela, de Richardson. Na dos direitos h u m a n o s . "
França, oito novos r o m a n c e s f o r a m p u b l i c a d o s em 1701, 52 em
Para chegar ao estímulo da identificação psicológica p r o p o r -
1750 e 112 em 1789. Na Grã-Bretanha, o n ú m e r o de novos r o m a n -
c i o n a d o pelo r o m a n c e , c o n c e n t r o - m e sobre três r o m a n c e s episto-
ces a u m e n t o u seis vezes entre a p r i m e i r a década do século xvin e a
lares especialmente influentes: f tília, de Rousseau, e dois r o m a n c e s
década de 1760: cerca de trinta novos r o m a n c e s apareceram t o d o
de seu predecessor inglês e m o d e l o confesso, Samuel Richardson:
a n o na década de 1770, q u a r e n t a p o r a n o na de 1780 e setenta p o r
Pamela(l740) e Clarissa (1747-8). O m e u a r g u m e n t o p o d e r i a ter
a n o na de 1790. Além disso, mais pessoas sabiam ler, e os r o m a n c e s
a b a r c a d o o r o m a n c e do século xvin em geral, e teria e n t ã o conside-
de e n t ã o apresentavam pessoas c o m u n s c o m o p e r s o n a g e n s cen-
r a d o as m u i t a s m u l h e r e s q u e escreveram romances e os p e r s o n a -
trais, e n f r e n t a n d o os p r o b l e m a s c o t i d i a n o s do a m o r e do casa-
gens masculinos, c o m o T o m Jones ou Tristram Shandy, q u e defi-
m e n t o e c o n s t r u i n d o sua carreira no m u n d o . A capacidade de ler e
nitivamente t a m b é m receberam muita atenção. Decidi me
escrever tinha a u m e n t a d o a p o n t o de até criados, h o m e n s e m u l h e -
c o n c e n t r a r em Júlia, Pamela e Clarissa, três romances escritos p o r
res, l e r e m r o m a n c e s nas g r a n d e s cidades, e m b o r a a l e i t u r a de
h o m e n s e c e n t r a d o s em h e r o í n a s , p o r causa de seu indiscutível
romances n ã o fosse então, n e m seja agora, c o m u m entre as classes
i m p a c t o cultural. Eles n ã o p r o d u z i r a m sozinhos as m u d a n ç a s na
baixas. Os camponeses franceses, que chegavam a constituir 8 0 %
e m p a t i a a q u i t r a ç a d a s , m a s u m e x a m e m a i s d e t a l h a d o d e sua

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recepção c e r t a m e n t e m o s t r a o n o v o a p r e n d i z a d o da empatia em O r o m a n c e c o m p o s t o de cartas p o d i a p r o d u z i r esses efeitos
ação. Para c o m p r e e n d e r o q u e era novo a respeito do " r o m a n c e " — psicológicos extraordinários p o r q u e a sua f o r m a narrativa facili-
u m r ó t u l o s ó a d o t a d o pelos escritores n a s e g u n d a m e t a d e d o tava o desenvolvimento de um "personagem", isto é, u m a pessoa
século xviii — é proveitoso ver o que r o m a n c e s específicos p r o v o - c o m u m e u interior. N u m a das p r i m e i r a s cartas d e Pamela, p o r
cavam em seus leitores. exemplo, a nossa h e r o í n a descreve p a r a a m ã e c o m o o seu p a t r ã o
N o r o m a n c e epistolar, n ã o h á n e n h u m p o n t o d e vista autoral tentou seduzi-la:
fora e a c i m a da ação ( c o m o m a i s t a r d e no r o m a n c e realista do
século xix): o p o n t o de vista autoral são as perspectivas dos perso- Ele me beijou duas ou três vezes, com uma avidez assustadora.—Por
n a g e n s expressas em suas cartas. Os "editores" das cartas, c o m o fim, arranqüei-me de seus braços, e estava saindo do pavilhão, mas
Richardson e Rousseau se d e n o m i n a v a m , criavam u m a sensação ele me reteve e fechou a porta. Eu teria dado a minha vida por um
vívida de realidade exatamente p o r q u e a sua autoria ficava obscu- vintém. E ele disse, não vou lhe fazer mal, Pamela, não tenha medo
recida d e n t r o da troca de cartas. Isso tornava possível u m a sensa- de mim. Eu disse, não vou ficar. Não vai, garota! Disse ele: Você sabe
ção intensificada de identificação, c o m o se o personagem fosse real, com quem está falando? Perdi todo o medo, e todo o respeito, e disse:
e n ã o fictício. M u i t o s c o n t e m p o r â n e o s c o m e n t a r a m essa expe- Sim, sei, senhor, até demais! — Bem que posso esquecer que sou sua
riência, alguns c o m alegria e assombro, o u t r o s c o m p r e o c u p a ç ã o e criada, quando o senhor esquece o que é próprio de um patrão, SOLU-
até repulsa. CEI e chorei com muita tristeza. Que garota tola você é, disse ele: Eu

A publicação dos r o m a n c e s de Richardson e Rousseau p r o - lhe fiz algum mal? — Sim, senhor, disse eu, o maior mal do mundo:

d u z i u reações i n s t a n t â n e a s — e n ã o a p e n a s n o s países em q u e o senhor me ensinou a esquecer quem eu sou e o que me é próprio; e

foram originalmente publicados. Um francês a n ô n i m o , q u e agora diminuiu a distância que o destino criou entre nós, rebaixando-se

se sabe que era um clérigo, publicou u m a carta de 42 páginas em para tomar liberdades com uma pobre criada.

1742 d e t a l h a n d o a "ávida" recepção d a d a à t r a d u ç ã o francesa de


Pamela: " N ã o s e p o d e e n t r a r n u m a casa s e m e n c o n t r a r u m a Lemos a carta j u n t o c o m a m ã e . N e n h u m narrador, n e m m e s m o
Pamela". E m b o r a afirme q u e o r o m a n c e t e m m u i t o s defeitos, o aspas se i n t e r p õ e m e n t r e n ó s e a p r ó p r i a Pamela. N ã o p o d e m o s
a u t o r confessa: "Eu o devorei". ("Devorar" se t o r n a r i a a metáfora deixar de nos identificar c o m Pamela e experimentar c o m ela a eli-
mais c o m u m para a leitura desses romances.) Ele descreve a resis- minação potencial da distância social, b e m c o m o a ameaça à sua
tência de Pamela às investidas do sr. B., seu patrão, c o m o se eles fos- c o m p o s t u r a (figura 2). 8

s e m antes pessoas reais q u e p e r s o n a g e n s fictícios. D e s c o b r e - s e E m b o r a tenha m u i t a s qualidades teatrais e seja representada


p r e s o pelo e n r e d o . T r e m e q u a n d o Pamela está e m perigo, sente para a m ã e de Pamela p o r m e i o da escrita, a cena difere t a m b é m do
indignação q u a n d o personagens aristocráticos c o m o o sr. B. agem teatro p o r q u e Pamela p o d e escrever c o m mais detalhes sobre suas
de forma indigna. A sua escolha de palavras e tipo de linguagem emoções interiores. M u i t o mais tarde, ela escreverá páginas sobre
reforçam repetidamente a sensação de absorção e m o c i o n a l criada suas ideias de suicídio q u a n d o seus planos de fuga fracassam. U m a
pela leitura. 7
peça, em contraste, n ã o p o d e r i a se d e m o r a r dessa m a n e i r a sobre a

42 43
manifestação de um eu interior, q u e no palco em geral t e m de ser
i nferido a partir da ação ou da fala. Um r o m a n c e de m u i t a s cente-
nas de páginas p o d i a revelar um p e r s o n a g e m ao longo do t e m p o e,
ai nda p o r cima, a partir da perspectiva do eu interior. O leitor n ã o
segue apenas as ações de Pamela: ele participa do florescimento de
sua personalidade e n q u a n t o ela escreve. O leitor se t o r n a simulta-
neamente Pamela, m e s m o q u a n d o se imagina u m ( a ) amigo(a)
dela e um observador de fora.
Assim que se t o r n o u c o n h e c i d o c o m o o a u t o r de Pamela em
1741 (ele p u b l i c o u o r o m a n c e a n o n i m a m e n t e ) , Richardson c o m e -
çou a receber cartas, a m a i o r i a de entusiastas. O seu amigo A a r o n
I lill p r o c l a m o u q u e o r o m a n c e era "a alma da religião, b o a educa-
ção, discrição, b o m caráter, espirituosidade, fantasia, belos pensa-
mentos e moralidade". Richardson tinha enviado um exemplar
para as filhas de Aaron no início de d e z e m b r o de 1740, e Hill rabis-
cou u m a resposta i m e d i a t a : " N ã o t e n h o feito n a d a s e n ã o ler o
romance para o u t r o s , e escutar que outros o leiam para m i m , desde
que me chegou às m ã o s ; e acho provável q u e n ã o faça nada mais,
por só Deus sabe q u a n t o t e m p o ainda p o r vir [...] ele se apodera,
Iodas as noites, da i m a g i n a ç ã o . Tem um feitiço em cada u m a de
suas páginas; m a s é o feitiço da paixão e do significado". O livro
c o m o q u e enfeitiçava os seus leitores. A n a r r a t i v a — a troca de car-
las — arrebatava i n e s p e r a d a m e n t e a todos, i n t r o d u z i n d o - o s n u m
novo conjunto de experiências. 9

Hill e suas filhas n ã o estavam sozinhos. A loucura p o r Pamela

FIGURA 2. O sr. B. lê uma das cartas de Pamela a seus pais logo t r a g o u a Inglaterra. N u m a vila, dizia-se, os habitantes toca-
Numa das cenas iniciais do romance, o sr. B. se aproxima r a m os sinos da igreja depois de escutar o r u m o r de q u e o sr. B.
impetuosamente de Pamela e pede para ver a carta que ela linha finalmente se casado c o m Pamela. U m a segunda impressão
está escrevendo. Escrever é o meio de autonomia de Pamela.
a p a r e c e u em j a n e i r o de 1741 (o original foi p u b l i c a d o em 6 de
Os artistas e os editores não resistiram a acrescentar repre-
sentações visuais das principais cenas. A gravura do artista n o v e m b r o de 1740), u m a terceira em m a r ç o , u m a quarta em m a i o
holandês Jan Punt apareceu numa antiga tradução francesa e u m a q u i n t a em setembro. A essa altura, o u t r o s já t i n h a m escrito
publicada em Amsterdã. paródias, críticas extensas, p o e m a s e imitações do original. A elas

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deveriam se seguir, c o m o passar dos anos, muitas adaptações tea- l a m a n h o de Clarissa s e m d ú v i d a d e s a n i m o u a l g u n s leitores:
trais, pinturas e gravuras das cenas principais. Em 1744, a tradução m e s m o antes de os t r i n t a volumes m a n u s c r i t o s i r e m p a r a o prelo,
francesa entrou para o índex papal dos livros proibidos, o n d e logo se Richardson se p r e o c u p o u e t e n t o u cortar o r o m a n c e . Um b o l e t i m
veria a c o m p a n h a d a de Júlia, de Rousseau, j u n t o c o m muitas outras literário parisiense a p r e s e n t o u um j u l g a m e n t o misto sobre a lei-
obras d o Iluminismo. N e m t o d o m u n d o encontrava nesses r o m a n - tura da t r a d u ç ã o francesa: "Ao ler este livro, experimentei algo n e m
ces "a alma da religião" ou "a moralidade" que Hill afirmara ver. 10

um p o u c o c o m u m , o m a i s i n t e n s o p r a z e r e o m a i s a b o r r e c i d o
Q u a n d o Richardson c o m e ç o u a publicar Clarissa em d e z e m - tédio". M a s dois a n o s m a i s t a r d e o u t r o c o l a b o r a d o r d o b o l e t i m
b r o de 1747, as expectativas e r a m elevadas. Q u a n d o os ú l t i m o s a n u n c i o u que o gênio de Richardson, ao apresentar tantos p e r s o -
volumes (foram sete ao todo, cada um c o m trezentas a q u a t r o c e n - nagens individualizados, tornava Clarissa "talvez a o b r a mais sur-
tas páginas!) a p a r e c e r a m em d e z e m b r o de 1748, R i c h a r d s o n já preendente que já surgiu das m ã o s de um h o m e m " . 12

t i n h a recebido cartas i m p l o r a n d o que ele oferecesse um final feliz. E m b o r a Rousseau acreditasse que o seu r o m a n c e era superior
Clarissa foge c o m o devasso Lovelace para escapar do p r e t e n d e n t e ao de Richardson, ele ainda assim considerava Clarissa o m e l h o r de
abominável p r o p o s t o pela sua família. Ela então t e m de resistir a todo o resto: " N i n g u é m ainda escreveu, em q u a l q u e r língua, um
Lovelace, q u e acaba e s t u p r a n d o Clarissa depois de drogá-la. Ape- romance igual a Clarissa, n e m m e s m o algum que dele se aproxime".
sar do oferecimento a r r e p e n d i d o de casamento p o r parte de Love- As c o m p a r a ç õ e s e n t r e Júlia e Clarissa c o n t i n u a r a m p o r t o d o o
lace, e de seus p r ó p r i o s sentimentos pelo sedutor, Clarissa m o r r e , século. Jeanne-Marie Roland, esposa de um ministro e c o o r d e n a -
o c o r a ç ã o p a r t i d o pelo a t a q u e do devasso à sua v i r t u d e e à sua d o r i n f o r m a l da facção política g i r o n d i n a d u r a n t e a R e v o l u ç ã o
c o n s c i ê n c i a de si m e s m a . Lady D o r o t h y B r a d s h a i g h c o n t o u a I 'rancesa, confessou a um amigo em 1789 que ela relia o r o m a n c e de
Richardson a sua reação à cena da m o r t e : "O m e u â n i m o é estra- Rousseau t o d o ano, mas ainda considerava a obra de Richardson o
n h a m e n t e arrebatado, m e u sono é agitado, acordando à noite i u m e da perfeição. " N ã o há n i n g u é m no m u n d o que apresente um
i r r o m p o n u m choro de paixão, como t a m b é m me aconteceu à r o m a n c e capaz de s u p o r t a r u m a c o m p a r a ç ã o c o m Clarissa: é a
h o r a do café esta m a n h ã , e c o m o me acontece neste m o m e n t o " . O o b r a - p r i m a do gênero, o m o d e l o e o desespero de todo imitador.""
poeta T h o m a s Edwards escreveu em janeiro de 1749: " N u n c a senti
Tanto os h o m e n s c o m o as mulheres se identificavam c o m as
t a n t a tristeza na m i n h a vida c o m o p o r essa q u e r i d a menina", refe-
I m o i n a s desses r o m a n c e s . Pelas cartas a Rousseau, s a b e m o s q u e os
rida a n t e r i o r m e n t e c o m o "a divina Clarissa". 11

h o m e n s , m e s m o os oficiais militares, r e a g i a m i n t e n s a m e n t e a
Clarissa a g r a d o u mais aos leitores cultos q u e ao público em Iiília. Um certo Louis François, oficial militar a p o s e n t a d o , escre-
geral, m a s ainda assim teve cinco edições n o s treze a n o s seguintes veu a Rousseau: "Você me deixou louco p o r ela. Imagine e n t ã o as
e foi logo t r a d u z i d o p a r a o francês (1751), o a l e m ã o (1751) e o lagrimas que sua m o r t e a r r a n c o u de m i m . [...] N u n c a verti lágri-
holandês (1755). U m estudo das bibliotecas particulares m o n t a - mas mais deliciosas. Essa leitura teve um efeito tão p o d e r o s o sobre
das entre 1740 e 1760 m o s t r o u q u e Pamela e Clarissa estavam entre mim que acredito que teria m o r r i d o de b o m grado d u r a n t e aquele
os três romances ingleses (Tom Jones, de H e n r y Fielding, era o ter- M I p r e m o m o m e n t o " . Alguns leitores reconheciam explicitamente
ceiro) c o m m a i s p r o b a b i l i d a d e de s e r e m e n c o n t r a d o s nelas. O .i sua identificação c o m a heroína. C. J. Panckoucke, que se t o r n a -

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ria um famoso editor, disse a Rousseau: "Senti passar pelo m e u cora- própria u m a romancista d e sucesso, p u b l i c o u a n o n i m a m e n t e u m
ção a pureza das emoções de Júlia". A identificação psicológica que panfleto de 56 páginas d e f e n d e n d o o r o m a n c e . E m b o r a seu i r m ã o
c o n d u z à empatia cruzava claramente as fronteiras de gênero. Os lei- I lenry tivesse publicado um dos primeiros artigos satíricos sobre
tores m a s c u l i n o s de Rousseau n ã o só n ã o se identificavam c o m Pamela {An apologyfor the life ofmrs. Shamela Andrews, in which,
Saint-Preux, o a m a n t e a que Júlia é forçada a renunciar, como sen- lhe many notoriousfalsehoods and misrepresentations ofa Book cal-
tiam ainda m e n o s empatia p o r Wolmar, o seu m a n s o esposo, ou pelo led "Pamela", are exposed and refuted [ Uma apologia à vida da sra.
b a r ã o D'Étanges, o seu pai tirânico. C o m o as leitoras, os h o m e n s se Shamela Andrews, na qual as muitas falsidades e deturpações de um
identificavam c o m a própria Júlia. A luta de Júlia para d o m i n a r as livro chamado "Pamela"são desmascaradas e refutadas], 1741), ela
suas paixões e levar u m a vida virtuosa tornava-se a sua luta. 14
l i nha se t o r n a d o u m a b o a amiga de Richardson, q u e p u b l i c o u um
Pela sua p r ó p r i a forma, p o r t a n t o , o r o m a n c e epistolar era tle seus r o m a n c e s . U m a das suas personagens fictícias, o sr. Clark,
capaz de d e m o n s t r a r q u e a individualidade d e p e n d i a de qualida- insiste que Richardson conseguiu atraí-lo de tal m o d o p a r a d e n t r o
des d e " i n t e r i o r i d a d e " (ter u m â m a g o ) , p o i s o s p e r s o n a g e n s da teia de ilusões "que de m i n h a parte estou i n t i m a m e n t e familia-
expressam seus s e n t i m e n t o s í n t i m o s nas suas cartas. Além disso, rizado c o m t o d o s os Harlow [sic], c o m o se os tivesse c o n h e c i d o
o r o m a n c e epistolar m o s t r a v a q u e t o d o s os i n d i v í d u o s t i n h a m desde os primeiros a n o s da m i n h a infância". O u t r a p e r s o n a g e m , a
essa i n t e r i o r i d a d e ( m u i t o s dos p e r s o n a g e n s escrevem) e, conse- srta. Gibson, insiste nas v i r t u d e s da técnica literária de Richard-
q u e n t e m e n t e , q u e t o d o s os indivíduos e r a m de certo m o d o iguais, son: " M u i t o verdadeiro, senhor, é o seu c o m e n t á r i o de q u e u m a
p o r q u e t o d o s e r a m semelhantes p o r possuir essa interioridade. A história contada dessa m a n e i r a só p o d e se desenrolar l e n t a m e n t e ,
troca de cartas t o r n a a criada Pamela, p o r exemplo, antes um de q u e os personagens só p o d e m ser vistos p o r aqueles q u e p r e s -
m o d e l o de individualidade e a u t o n o m i a o r g u l h o s a q u e um este- tam u m a atenção precisa ao conjunto; e n t r e t a n t o , o a u t o r g a n h a
reótipo dos o p r i m i d o s . C o m o Pamela, Clarissa e Júlia p a s s a m a u m a vantagem escrevendo n o t e m p o presente, c o m o ele p r ó p r i o o
representar a p r ó p r i a individualidade. Os leitores se t o r n a m mais chama, e na primeira pessoa: o fato de q u e as suas pinceladas p e n e -
conscientes da capacidade q u e existe em si p r ó p r i o e em t o d o s os t i a m i m e d i a t a m e n t e n o coração, e sentimos todas a s desgraças q u e
o u t r o s indivíduos. 15
ele pinta; n ã o só c h o r a m o s por, mas c o m Clarissa, e a a c o m p a n h a -

Desnecessário dizer que n e m todos e x p e r i m e n t a r a m os m e s - mos, passo a passo, p o r todas as suas desgraças". " 1

m o s sentimentos ao ler esses romances. O sagaz romancista inglês O célebre fisiologista e estudioso literário suíço A l b r e c h t v o n
H o r a c e Walpole zombava das "lamentações tediosas" de Richard - I laller publicou u m a apreciação a n ô n i m a de Clarissa em Gentle-
son,"que são q u a d r o s da vida elevada c o m o seriam concebidos p o r inans Magazine em 1749. Von Haller l u t o u c o m t o d a s as forças
um livreiro, e romances c o m o seriam espiritualizados p o r um p r o - para c o m p r e e n d e r a originalidade de Richardson. E m b o r a a p r e -
fessor metodista". E n t r e t a n t o , m u i t o s s e n t i r a m r a p i d a m e n t e q u e 1 iasse as m u i t a s v i r t u d e s de r o m a n c e s franceses a n t e r i o r e s , V o n
Richardson e Rousseau t i n h a m m e x i d o n u m nervo cultural vital. I laller insistia q u e eles n ã o ofereciam "geralmente n a d a mais do
Apenas um mês depois da publicação dos v o l u m e s finais de Cla- q u e r e p r e s e n t a ç õ e s das ilustres ações d e pessoas ilustres", e n -
rissa, Sarah Fielding, a i r m ã do g r a n d e rival de R i c h a r d s o n e ela q u a n t o no r o m a n c e de Richardson o leitor vê um p e r s o n a g e m " n a

48 49
m e s m a posição de vida em q u e nós p r ó p r i o s nos encontramos". O r o m a n c e s t ê m sido l i d o s c o m a t e n ç ã o e s a b o r e a d o s " . Seria

a u t o r suíço e x a m i n o u a t e n t a m e n t e o formato epistolar. E m b o r a os melhor c o n c e n t r a r - s e e m t o r n á - l o s b o n s , sugeria, d o q u e t e n t a r

leitores talvez tivessem dificuldade em acreditar q u e todos os per- suprimi-los por completo. 18

sonagens gostavam de passar o seu t e m p o registrando os seus sen- Os ataques n ã o t e r m i n a r a m q u a n d o a p r o d u ç ã o de r o m a n c e s


t i m e n t o s e p e n s a m e n t o s íntimos, o r o m a n c e epistolar podia disparou em m e a d o s do século. Em 1755, o u t r o clérigo católico, o
apresentar retratos m i n u c i o s a m e n t e acurados de personagens in- abade A r m a n d - P i e r r e Jacquin, escreveu u m a o b r a de q u a t r o c e n t a s
dividuais e c o m isso evocar o q u e Haller chamava de compaixão: páginas p a r a m o s t r a r q u e a leitura de r o m a n c e s solapava a m o r a -
"O patético n u n c a foi exposto c o m igual força, e é manifesto em I idade, a religião e t o d o s os p r i n c í p i o s da o r d e m social. " A b r a m
milhares de exemplos q u e os t e m p e r a m e n t o s mais e m p e d e r n i d o s essas obras", ele insistia, "e vocês verão em quase todas os direitos
e insensíveis t ê m sido suavizados até a compaixão, derretendo-se ila justiça divina e h u m a n a violados, a a u t o r i d a d e dos pais sobre os
em lágrimas pela m o r t e , pelos sofrimentos e pelas tristezas de Cla- filhos desdenhada, os laços sagrados do c a s a m e n t o e da a m i z a d e
rissa". Ele concluía q u e " N ã o c o n h e c e m o s n e n h u m a representa- r o m p i d o s . " O p e r i g o residia p r e c i s a m e n t e n o s seus p o d e r e s de
ção, em n e n h u m a língua, que chegue p e r t o de p o d e r competir c o m atração: ao m a r t e l a r c o n s t a n t e m e n t e as seduções do a m o r , eles
esse romance". 17 e s t i m u l a v a m os leitores a agir s e g u n d o seus piores i m p u l s o s , a
recusar o conselho de seus pais e da igreja, a ignorar as censuras
morais da c o m u n i d a d e . O único lado b o m em que Jacquin p o d i a
pensar era a falta de u m a força d u r a d o u r a nos romances. O leitor
DEGRADAÇÃO OU MELHORA?
podia devorar um r o m a n c e na p r i m e i r a leitura, m a s jamais o reler.
"Eu estava e r r a d o em profetizar q u e o r o m a n c e de Pamela logo
O s c o n t e m p o r â n e o s s a b i a m p o r suas p r ó p r i a s experiências
seria esquecido? [...] Acontecerá o m e s m o em três anos c o m Tom
q u e a leitura desses r o m a n c e s t i n h a efeitos sobre os corpos, e n ã o
lonese Clarissa? * 1

apenas sobre as m e n t e s , m a s d i s c o r d a v a m e n t r e si sobre as c o n -


sequências. O clero católico e p r o t e s t a n t e d e n u n c i a v a o potencial Queixas semelhantes fluíam das penas dos protestantes ingle-
de o b s c e n i d a d e , sedução e d e g r a d a ç ã o m o r a l . Já em 1734, N i c o - ses. O reverendo Vicesimus Knox r e s u m i u décadas de ansiedades
las Lenglet-Dufresnoy, ele p r ó p r i o um clérigo e d u c a d o na Sor- subsistentes em 1779, q u a n d o p r o c l a m o u q u e os romances e r a m
b o n n e , a c h o u necessário d e f e n d e r o s r o m a n c e s c o n t r a o s seus d e g e n e r a d o s , prazeres c u l p a d o s q u e desviavam as jovens inteli-
colegas, a i n d a q u e sob u m p s e u d ô n i m o . Refutou p r o v o c a d o r a - gências de u m a l e i t u r a m a i s séria e edificante. A excitação n o s
m e n t e t o d a s as objeções q u e levavam as a u t o r i d a d e s a p r o i b i r romances britânicos só servia para disseminar os hábitos liberti-
r o m a n c e s " c o m o estímulos q u e servem p a r a inspirar e m n ó s sen- nos franceses e explicava a c o r r u p ç ã o da presente era. Os r o m a n -
t i m e n t o s q u e são d e m a s i a d o vivos e d e m a s i a d o a c e n t u a d o s " . ces de R i c h a r d s o n , a d m i t i a Knox, t i n h a m sido escritos c o m "as
Insistindo que os romances eram apropriados em qualquer i ntenções mais puras". Mas inevitavelmente o autor tinha n a r r a d o
p e r í o d o , ele concedia q u e "em t o d o s os t e m p o s a c r e d u l i d a d e , o cenas e excitado sentimentos que e r a m incompatíveis c o m a vir-
a m o r e as m u l h e r e s t ê m r e i n a d o : assim, em t o d o s os t e m p o s os t u d e . O s clérigos n ã o e s t a v a m s o z i n h o s n o seu desprezo p e l o

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r o m a n c e . U m a estrofe em Lady's Magazine de 1771 resumia u m a Assim, os clérigos e os médicos c o n c o r d a v a m em ver a leitura
visão a m p l a m e n t e partilhada: de r o m a n c e s em t e r m o s de p e r d a — d e t e m p o , de fluidos vitais, de
religião e de m o r a l i d a d e . S u p u n h a m q u e a leitora imitaria a ação
With Pamela, by name, do r o m a n c e e se a r r e p e n d e r i a mais tarde. U m a leitora de Clarissa,
No better acquainted; por e x e m p l o , p o d e r i a d e s c o n s i d e r a r os desejos da sua família e
For as novels I hate, concordar, c o m o Clarissa, em fugir c o m um devasso tipo Lovelace,
My mind is not tainted. que a conduziria, p o r b e m ou p o r mal, à sua ruína. Em 1792, um
crítico inglês a n ô n i m o ainda insistia q u e "o a u m e n t o de r o m a n c e s
[Pamela, só de nome, ajuda a explicar o a u m e n t o da prostituição e os i n ú m e r o s adulté-
Mais não conheço; rios e fugas de q u e o u v i m o s falar nas diferentes regiões do reino".
Como romances odeio, Segundo essa visão, os r o m a n c e s estimulavam exageradamente o
Minha mente é sem defeito.] corpo, encorajavam u m a absorção e m s i m e s m o m o r a l m e n t e sus-
peita e p r o v o c a v a m ações d e s t r u t i v a s em relação à a u t o r i d a d e
Muitos moralistas t e m i a m q u e os r o m a n c e s semeassem descon- familiar, m o r a l e religiosa. 22

t e n t a m e n t o , especialmente na m e n t e de criados e moças. " 2


R i c h a r d s o n e Rousseau reivindicavam antes o papel de e d i -
O m é d i c o suíço S a m u e l - A u g u s t e Tissot ligava a leitura de lor q u e o de autor, p a r a q u e p u d e s s e m se esquivar da má r e p u t a -
r o m a n c e s à m a s t u r b a ç ã o , q u e ele pensava provocar u m a degene- ção associada aos r o m a n c e s . Q u a n d o p u b l i c o u Pamela, Richard-
ração física, mental e m o r a l . Tissot acreditava q u e os corpos ten- son n u n c a se referia à o b r a c o m o um r o m a n c e . O título c o m p l e t o
d i a m n a t u r a l m e n t e a se deteriorar, e que a m a s t u r b a ç ã o apressava d a p r i m e i r a e d i ç ã o é u m e s t u d o s o b r e p r o t e s t o s excessivos:
o processo t a n t o nos h o m e n s c o m o nas mulheres. "Só o que posso Pamela: Ou a virtude recompensada. Numa série de cartas fami-
dizer é q u e o ócio, a inatividade, ficar t e m p o demais na cama, u m a liares de uma bela bonzela a seus pais: agora publicadas pela pri-
cama q u e seja demasiado macia, u m a dieta rica, picante, salgada e meira vez para cultivar os princípios da virtude e religião nas men-
cheia de vinhos, amigos suspeitos e livros licenciosos são as causas tes de jovens de ambos os sexos. Uma narrativa que tem o seu
mais p r o p e n s a s a gerar esses excessos." C o m "licenciosos" Tissot fundamento na verdade e na natureza; e ao mesmo tempo em que
n ã o q u e r i a dizer a b e r t a m e n t e p o r n o g r á f i c o s : n o século XVIII, agradavelmente entretém, por uma variedade de incidentes curio-
"licencioso" significava algo q u e tendia ao erótico, m a s era distinto sos e patéticos, é inteiramente despida de todas aquelas imagens
do m u i t o mais objetável "obsceno". Os r o m a n c e s sobre o a m o r — que, em muitas obras calculadas apenas para a diversão, tendem a
e a maioria dos r o m a n c e s do século xvni contava histórias de a m o r inflamaras mentes que deveriam instruir. O prefácio "pelo e d i t o r "
— escorregavam m u i t o facilmente p a r a a categoria dos licencio- Richardson justifica a p u b l i c a ç ã o das "seguintes C a r t a s " em ter-
sos. N a I n g l a t e r r a , a s m o ç a s n o s i n t e r n a t o s p a r e c i a m especial- mos m o r a i s : elas i n s t r u i r ã o e aperfeiçoarão as m e n t e s dos jovens,
m e n t e em perigo, p o r causa de sua capacidade de conseguir esses inculcarão a religião e a m o r a l i d a d e , p i n t a r ã o o vício "em suas
livros "imorais e r e p u g n a n t e s " para lê-los na cama. 21
cores a p r o p r i a d a s " etc. 23

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E m b o r a t a m b é m se referisse a si m e s m o c o m o editor, R o u s - (I esenvolver u m a visão m u i t o mais positiva do f u n c i o n a m e n t o do
seau c l a r a m e n t e considerava sua o b r a u m r o m a n c e . N a p r i m e i r a romance. Já ao defender Richardson, Sarah Fielding e Von Haller
frase do prefácio de Júlia, R o u s s e a u ligava os r o m a n c e s à s u a i i n h a m c h a m a d o atenção para a empatia ou compaixão estimulada
famosa crítica do teatro: "As g r a n d e s cidades d e v e m ter teatros; e I >cla leitura de Clarissa. Nessa nova visão, os r o m a n c e s o p e r a v a m
os povos c o r r u p t o s , Romances". C o m o se isso n ã o fosse aviso sufi- sobre os leitores para torná-los mais compreensivos em relação aos
ciente, Rousseau t a m b é m apresentava u m prefácio q u e consistia outros, em vez de apenas absorvidos em si m e s m o s , e assim m a i s
n u m a "Conversa sobre R o m a n c e s entre o Editor e um H o m e m de morais, e n ã o m e n o s . U m dos defensores m a i s a r t i c u l a d o s d o
Letras". Nele, o p e r s o n a g e m "R" ( R o u s s e a u ) a p r e s e n t a t o d a s as romance foi Diderot, autor do artigo sobre o direito natural p a r a a
acusações habituais c o n t r a o r o m a n c e p o r ele b r i n c a r c o m a i m a - üncyclopéâie e ele p r ó p r i o um r o m a n c i s t a . Q u a n d o R i c h a r d s o n
g i n a ç ã o p a r a criar desejos q u e os leitores n ã o p o d e m satisfazer morreu, em 1761, Diderot escreveu um panegírico c o m p a r a n d o - o
virtuosamente: aos maiores autores entre os antigos: Moisés, H o m e r o , Eurípides e
Sófocles. Diderot se alongou mais, entretanto, sobre a imersão do
Escutamos a queixa de que os Romances perturbam as mentes das leitor n o m u n d o d o r o m a n c e : "Apesar d e t o d a s a s p r e c a u ç õ e s ,
pessoas: posso muito bem acreditar. Ao dispor interminavelmente assume-se um papel nas suas obras, somos lançados nas conversas,
diante dos olhos dos leitores os pretensos encantos de um estado aprovamos, c e n s u r a m o s , a d m i r a m o s , ficamos irritados, sentimos
que não é o deles, eles os seduzem, levam-nos a ver o seu próprio i ndignação. Q u a n t a s vezes não me surpreendi gritando, c o m o acon-
estado com desprezo e trocam-no na imaginação por um estado tece c o m as crianças que foram levadas ao teatro pela primeira vez:
que os leitores são induzidos a amar. Tentando ser o que não somos, ' N ão acredite, ele está e n g a n a n d o você. [...] Se você for lá, estará per-
passamos a acreditar que somos diferentes do que somos, e esse é o dido'." A narrativa de Richardson cria a impressão de que você está
caminho para a loucura. 1) resente, reconhece Diderot, e ainda mais, q u e esse é o seu m u n d o , e
i ião um país m u i t o distante, n ã o um local exótico, não um conto de
E, m e s m o assim, Rousseau passa então a apresentar um r o m a n c e a ladas. "Os seus personagens são tirados da sociedade c o m u m [...] as
seus leitores. Ele até atirou a luva em desafio. Se alguém quer me paixões que ele p i n t a são as que sinto em m i m mesmo." 25

criticar p o r tê-lo escrito, diz Rousseau, que ele o diga p a r a todas as Diderot n ã o usa os t e r m o s "identificação" ou "empatia", m a s
pessoas d o m u n d o , m e n o s p a r a m i m . D e m i n h a p a r t e , j a m a i s apresenta u m a descrição convincente dos dois. N ó s nos reconhece-
p o d e r i a ter qualquer estima p o r um h o m e m desses. O livro p o d e - mos nos personagens, ele admite, saltamos imaginativamente p a r a
ria escandalizar quase t o d o m u n d o , Rousseau alegremente a d m i - 0 meio da ação, sentimos os m e s m o s sentimentos que os p e r s o n a -
te, m a s a o m e n o s n ã o p r o p o r c i o n a r á a p e n a s u m p r a z e r t é p i d o . gens estão e x p e r i m e n t a n d o . Em suma, a p r e n d e m o s a sentir e m p a -
Rousseau esperava p l e n a m e n t e q u e os seus leitores tivessem rea- 1 ia p o r alguém q u e n ã o é nós m e s m o s e n ã o p o d e jamais ter contato
ções violentas. 24

direto c o n o s c o (ao c o n t r á r i o , d i g a m o s , d o s m e m b r o s d a n o s s a
Apesar das p r e o c u p a ç õ e s de R i c h a r d s o n e R o u s s e a u a res- la mília), m a s q u e ainda assim, de um m o d o imaginativo, é t a m b é m
peito de suas r e p u t a ç õ e s , alguns críticos já t i n h a m c o m e ç a d o a nós m e s m o s , s e n d o esse um elemento crucial na identificação. Esse

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p r o c e s s o explica p o r q u e P a n c k o u c k e escreveu p a r a Rousseau: gina t r a n s p o r t a d o para a cena descrita. Kames descrevia essa "pre-
"Senti passar pelo m e u coração a pureza das emoções de Júlia". sença ideal" c o m o um estado de transe. O leitor é "lançado n u m a
A e m p a t i a d e p e n d e da identificação. D i d e r o t percebe q u e a espécie de devaneio" e, " p e r d e n d o a consciência do eu e da leitura,
técnica narrativa de Richardson o atrai inelutavelmente para essa sua presente ocupação, concebe t o d o incidente c o m o se ocorresse
experiência. É u m a espécie de i n c u b a d o r a do a p r e n d i z a d o e m o - na sua presença, precisamente c o m o se ele fosse u m a t e s t e m u n h a
c i o n a l : " N o e s p a ç o d e a l g u m a s h o r a s , passei p o r u m g r a n d e (>cular". O que é mais i m p o r t a n t e para Kames é q u e essa transfor-
n ú m e r o de situações q u e a m a i s longa das vidas n ã o p o d e nos ofe- i nação p r o m o v e a moralidade. A "presença ideal" a b r e o leitor p a r a
recer ao longo de sua total d u r a ç ã o . [...] Senti que t i n h a a d q u i r i d o sentimentos que reforçam os laços da sociedade. Os indivíduos são
experiência". Diderot se identifica t a n t o c o m os personagens q u e a trancados de seus interesses privados e motivados a d e s e m p e n h a r
se sente r o u b a d o no final do r o m a n c e : "Tive a m e s m a sensação "a tos de generosidade e benevolência". A "presença ideal" era o u t r o
que experimentam os h o m e n s que, intimamente entrelaçados, termo para "o feitiço da paixão e do significado" de A a r o n Hill. 28

viveram j u n t o s p o r um longo t e m p o e agora estão a p o n t o de se T h o m a s Jefferson a p a r e n t e m e n t e p a r t i l h a v a essa o p i n i ã o .


separar. No final, tive de repente a impressão de q u e h a v i a m me (,)uando Robert Skipwith, q u e se casou c o m a m e i a - i r m ã da esposa
deixado sozinho". 26
de Jefferson, escreveu a ele em 1771 p e d i n d o u m a lista de livros
Diderot s i m u l t a n e a m e n t e perdeu a si m e s m o na ação e recu- i e c o m e n d a d o s , Jefferson sugeriu m u i t o s d o s clássicos, antigos e
p e r o u a si m e s m o na leitura. Ele t e m u m a percepção mais nítida da m o d e r n o s , de política, religião, direito, ciência, filosofia e história.
separação de seu eu — agora se sente solitário —, m a s t a m b é m lilements of Criticism de Kames estava na lista, m a s Jefferson c o m e -
percebe c o m mais clareza q u e o s o u t r o s t a m b é m p o s s u e m u m a Çou o seu catálogo c o m poesia, peças teatrais e r o m a n c e s , incluin-
individualidade. Em o u t r a s palavras, t e m o q u e ele p r ó p r i o cha- d o o s d e L a u r e n c e S t e r n e , H e n r y Fielding, J e a n - F r a n ç o i s M a r -
mava aquele " s e n t i m e n t o i n t e r i o r " q u e é necessário aos direitos montel, Oliver G o l d s m i t h , Richardson e Rousseau. Na carta q u e
h u m a n o s . D i d e r o t c o m p r e e n d e , a l é m disso, q u e o efeito do a c o m p a n h a v a a lista de leituras, Jefferson se t o r n a v a e l o q u e n t e
r o m a n c e é inconsciente: " N ó s n o s sentimos atraídos para o b e m sobre "as diversões da ficção". C o m o Kames, ele insistia que a fic-
com u m a impetuosidade que não reconhecemos. Q u a n d o con- • 0 poderia gravar n a m e m ó r i a t a n t o o s princípios c o m o a prática
frontados c o m a injustiça, e x p e r i m e n t a m o s u m a aversão q u e n ã o d.i virtude. C i t a n d o especificamente Shakespeare, M a r m o n t e l e
sabemos c o m o explicar para nós mesmos". O r o m a n c e exerce o seu • e m e , Jefferson explicava que, ao ler essas obras, e x p e r i m e n t a m o s
efeito pelo processo de envolvimento na narrativa, e n ã o p o r dis- •m nós p r ó p r i o s o forte desejo de praticar atos c a r i d o s o s e gratos"
cursos moralizadores explícitos. 27 > . inversamente, ficamos r e p u g n a d o s c o m as más a ç õ e s ou a c o n -
duta i m o r a l . A ficção, ele insistia, p r o d u z o d e s e j o da i m i t a ç ã o
A leitura de ficção recebeu o seu t r a t a m e n t o filosófico mais
moral c o m u m a eficácia ainda m a i o r que a da leitura de história. 29

sério no livro Elements of Criticism (1762), de H e n r y H o m e , lorde


Kames. O jurista e filósofo escocês n ã o discutia os r o m a n c e s de per Em última análise, o q u e estava em jogo nesse c o n f l i t o de o p i -
si na obra, m a s a r g u m e n t a v a que a ficção em geral cria u m a espé- i sobre o r o m a n c e era n a d a m e n o s do q u e a v a l o r i z a ç ã o da
cie de "presença ideal" ou " s o n h o acordado" em q u e o leitor se i m a - v i . l , i secular c o m u m c o m o o f u n d a m e n t o da m o r a l i d a d e . A o s

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o l h o s d o s críticos da l e i t u r a desse g ê n e r o , a s i m p a t i a p o r u m a sorte de Tristram Shandy (1759-67), de Sterne, e do alter ego de
h e r o í n a de r o m a n c e estimulava o que havia de pior no indivíduo Sterne, Yorick, em Uma viagem sentimental (1768). As escritoras
(desejos ilícitos e autorrespeito excessivo) e d e m o n s t r a v a a dege- t i n h a m t a m b é m os seus entusiastas, t a n t o entre os leitores c o m o
n e r a ç ã o irrevogável do m u n d o secular. Para os a d e p t o s da n o v a entre as leitoras. O abolicionista e r e f o r m a d o r penal francês Jac-
visão de m o r a l i z a ç ã o e m p á t i c a , em contraste, essa identificação ques-Pierre Brissot citava Júlia c o n s t a n t e m e n t e , m a s o seu r o m a n -
m o s t r a v a que o despertar de u m a paixão podia ajudar a transfor- ce inglês favorito era Cecília (1782), de F a n n y Burney. C o m o o
m a r a n a t u r e z a interior do i n d i v í d u o e p r o d u z i r u m a sociedade exemplo de Burney confirma, e n t r e t a n t o , as personagens femini-
m a i s m o r a l . A c r e d i t a v a m q u e a n a t u r e z a i n t e r i o r dos h u m a n o s nas p o s s u í a m u m a posição elevada: t o d o s os seus três r o m a n c e s
fornecia u m a base p a r a a a u t o r i d a d e social e política. " 3
t i n h a m os n o m e s das heroínas apresentadas. 32

Assim, o feitiço m á g i c o l a n ç a d o pelo r o m a n c e m o s t r o u ter As heroínas e r a m convincentes p o r q u e a sua busca de a u t o -


efeitos de longo alcance. E m b o r a os adeptos do r o m a n c e n ã o o dis- n o m i a n u n c a p o d i a ser p l e n a m e n t e b e m - s u c e d i d a . A s m u l h e r e s
sessem t ã o e x p l i c i t a m e n t e , eles c o m p r e e n d i a m q u e escritores t i n h a m p o u c o s direitos legais sem os pais ou m a r i d o s . Os leitores
c o m o R i c h a r d s o n e Rousseau estavam efetivamente a t r a i n d o os a c h a v a m a b u s c a de i n d e p e n d ê n c i a da h e r o í n a e s p e c i a l m e n t e
seus leitores para a vida cotidiana c o m o u m a espécie de experiên- c o m o v e n t e p o r q u e logo c o m p r e e n d i a m a s restrições q u e essa
cia religiosa substituta. Os leitores a p r e n d i a m a apreciar a intensi- m u l h e r i n e v i t a v e l m e n t e enfrentava. N u m final feliz, P a m e l a se
d a d e e m o c i o n a l do c o m u m e a capacidade de pessoas c o m o eles de casa c o m o sr. B. e aceita os limites implícitos de sua liberdade. Em
criar p o r sua p r ó p r i a conta u m m u n d o m o r a l . O s direitos h u m a - contraste, Clarissa m o r r e , em vez de se casar c o m Lovelace depois
n o s c r e s c e r a m n o c a n t e i r o s e m e a d o p o r esses s e n t i m e n t o s . O s que ele a estupra. E m b o r a Júlia pareça aceitar a imposição do pai,
direitos h u m a n o s só p u d e r a m florescer q u a n d o as pessoas a p r e n - r e n u n c i a n d o a o h o m e m q u e ama, ela t a m b é m m o r r e n a cena f i n a l .
d e r a m a pensar nos o u t r o s c o m o seus iguais, c o m o seus semelhan- Alguns críticos m o d e r n o s t ê m visto m a s o q u i s m o ou m a r t í r i o
tes em algum m o d o fundamental. A p r e n d e r a m essa igualdade, ao nessas histórias, m a s os c o n t e m p o r â n e o s p o d i a m ver outras carac-
m e n o s em parte, e x p e r i m e n t a n d o a identificação c o m p e r s o n a - terísticas. Tanto os leitores c o m o as leitoras se identificavam c o m
gens c o m u n s q u e pareciam d r a m a t i c a m e n t e presentes e familia- essas p e r s o n a g e n s , p o r q u e a s m u l h e r e s d e m o n s t r a v a m m u i t a
res, m e s m o que em última análise fictícios. ' 3

força de v o n t a d e , m u i t a p e r s o n a l i d a d e . Os leitores n ã o q u e r i a m
apenas salvar as heroínas: q u e r i a m ser c o m o elas, até m e s m o c o m o
Clarissa e Júlia, apesar de suas m o r t e s trágicas. Quase toda a ação
O E S T R A N H O DESTINO DAS M U L H E R E S nos três r o m a n c e s gira em t o r n o de expressões da vontade femi-
nina, em geral u m a v o n t a d e q u e t e m de se atritar c o m restrições
N o s três r o m a n c e s a q u i escolhidos, o foco da identificação dos pais e da sociedade. Pamela deve resistir ao sr. B. para m a n t e r o
psicológica é u m a j o v e m p e r s o n a g e m f e m i n i n a c r i a d a p o r u m seu senso de virtude e o seu senso de individualidade, e a sua resis-
autor masculino. É claro, ocorria t a m b é m a identificação c o m per- tência acaba p o r c o n q u i s t á - l o . Clarissa se m a n t é m firme c o n t r a
sonagens masculinos. Jefferson, p o r exemplo, seguia a v i d a m e n t e a sua família e depois contra Lovelace p o r razões b e m parecidas, e no

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final Lovelace quer desesperadamente casar-se c o m Clarissa, u m a ser ensinados a pensar p o r si m e s m o s . Assim, a t e o r i a educacional,
oferta q u e ela recusa. Júlia deve desistir de Saint-Preux e a p r e n d e r modelada de forma m u i t o influente p o r Locke e Rousseau, deslo-
a a m a r a sua vida c o m Wolmar: a luta é toda sua. Em cada r o m a n c e , cou-se de u m a ênfase na obediência reforçada p e l o castigo p a r a o
t u d o remete ao desejo de i n d e p e n d ê n c i a da heroína. As ações dos ( ultivo cuidadoso da razão c o m o o principal m o v i m e n t o da i n d e -
p e r s o n a g e n s masculinos só servem para realçar essa vontade femi- xe udência. Locke explicava a i m p o r t â n c i a das n o v a s práticas em
n i n a . Os leitores que s e n t i a m e m p a t i a pelas heroínas a p r e n d i a m Pensamentos sobre a educação (1693): " D e v e m o s c u i d a r p a r a q u e
q u e t o d a s as pessoas — até as mulheres — aspiravam a u m a m a i o r nossos filhos, q u a n d o crescidos, sejam c o m o n ó s p r ó p r i o s . [...]
a u t o n o m i a , e e x p e r i m e n t a v a m imaginativamente o esforço psico- I'referimos ser considerados criaturas racionais e ter nossa liber-
lógico q u e a luta acarretava. dade; n ã o g o s t a m o s d e n o s sentir c o n s t r a n g i d o s sob c o n s t a n t e s
Os r o m a n c e s do século xvin refletiam u m a p r e o c u p a ç ã o cul- repreensões e intimidações". C o m o Locke r e c o n h e c i a , a a u t o n o -
tural mais profunda c o m a a u t o n o m i a . Os filósofos do I l u m i n i s m o mia política e intelectual d e p e n d i a de e d u c a r as crianças ( n o seu
acreditavam firmemente que t i n h a m sido pioneiros nessa área no caso, t a n t o os m e n i n o s c o m o as m e n i n a s ) s e g u n d o novas regras: a
século XVIII. Q u a n d o falavam de liberdade, q u e r i a m dizer a u t o n o - a u t o n o m i a requeria u m a nova relação c o m o m u n d o , e n ã o a p e n a s
m i a individual, q u e r fosse a l i b e r d a d e de expressar o p i n i õ e s ou novas ideias. 34

praticar a religião escolhida, q u e r a i n d e p e n d ê n c i a ensinada aos Ter p e n s a m e n t o s e decisões p r ó p r i o s r e q u e r i a , assim, t a n t o


m e n i n o s , se fossem seguidos os preceitos de Rousseau no seu guia m u d a n ç a s psicológicas e políticas c o m o filosóficas. Em Emílio,
educativo, Emilio (1762). A narrativa iluminista da conquista da Rousseau pedia q u e as m ã e s ajudassem a c o n s t r u i r paredes psico-
a u t o n o m i a atingiu o seu ápice no ensaio de 1784 de I m m a n u e l lógicas e n t r e os seus filhos e t o d a s as pressões sociais e políticas
Kant, "O que é o Iluminismo?". Ele o definiu celebremente c o m o "a externas. " M o n t e m desde cedo", ele r e c o m e n d a v a , " u m cercado ao
h u m a n i d a d e saindo da i m a t u r i d a d e em q u e ela p r ó p r i a incorreu". redor da alma de seu filho." O pregador e panfletário político inglês
A i m a t u r i d a d e , ele continuava, "é a incapacidade de e m p r e g a r a Richard Price insistia em 1776, ao escrever em a p o i o aos colonos
p r ó p r i a c o m p r e e n s ã o sem a orientação de outro". O I l u m i n i s m o , americanos, que um dos q u a t r o aspectos gerais da liberdade era a
para Kant, significava a u t o n o m i a intelectual, a capacidade de p e n - liberdade física, "esse princípio da Espontaneidade, ou Autodeter-
sar p o r si m e s m o . " minação, que nos t o r n a Agentes". Para ele, a liberdade era s i n ô n i m o

A ênfase do I l u m i n i s m o sobre a a u t o n o m i a individual nasceu de a u t o d i r e ç ã o ou a u t o g o v e r n o , a m e t á f o r a p o l í t i c a nesse caso

da revolução no p e n s a m e n t o político do século XVII, iniciada p o r sugerindo u m a metáfora psicológica; m a s a s d u a s e r a m i n t i m a -

H u g o G r o t i u s e J o h n Locke. Eles t i n h a m a r g u m e n t a d o q u e o mente relacionadas. 35

a c o r d o social d e u m h o m e m a u t ô n o m o c o m o u t r o s i n d i v í d u o s O s r e f o r m a d o r e s i n s p i r a d o s pelo I l u m i n i s m o q u e r i a m i r
t a m b é m a u t ô n o m o s era o único f u n d a m e n t o possível da a u t o r i - além de p r o t e g e r o c o r p o ou cercar a a l m a c o m o r e c o m e n d a v a
d a d e política legítima. Se a a u t o r i d a d e justificada p e l o d i r e i t o Rousseau. Exigiam u m a ampliação do â m b i t o da t o m a d a de deci-
divino, pela escritura e pela história devia ser substituída p o r um são i n d i v i d u a l . As leis revolucionárias francesas s o b r e a família
contrato entre h o m e n s a u t ô n o m o s , e n t ã o o s m e n i n o s t i n h a m d e d e m o n s t r a m a profundidade da preocupação sentida em relação

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às limitações tradicionais impostas à independência. Em m a r ç o de obrigatória p a r a o j o v e m Emílio ou q u e Robinson Crusoétenha

1790, a n o v a Assembleia N a c i o n a l aboliu a p r i m o g e n i t u r a , q u e sido p u b l i c a d o pela p r i m e i r a vez nas c o l ô n i a s a m e r i c a n a s e m

dava direitos especiais de herança ao primeiro filho, e as infames 1774, b e m n o m e i o d o n a s c i m e n t o d a crise d a i n d e p e n d ê n c i a .

lettres de cachet, q u e p e r m i t i a m às famílias encarcerar as crianças Robinson Crusoé foi um d o s best-sellers coloniais a m e r i c a n o s de

sem j u l g a m e n t o . Em agosto do m e s m o ano, os d e p u t a d o s estabe- 1775, só rivalizado p o r Cartas de lorde Chesterfield a seu filho e O
leceram conselhos de família para ouvir as disputas entre pais e legado de um pai a suas filhas, de John Gregory, popularizações das
filhos até a idade de vinte anos, em vez de p e r m i t i r aos pais o con- v isões de Locke sobre a e d u c a ç ã o de m e n i n o s e m e n i n a s . 37

trole exclusivo sobre os seus filhos. Em abril de 1791, a Assembleia As tendências na vida das pessoas reais se m o v i a m na m e s m a
decretou que todas as crianças, m e n i n o s e m e n i n a s , deviam h e r d a r direção, ainda q u e de f o r m a mais hesitante. Os jovens esperavam
igualmente. Depois, em agosto e setembro de 1792, os d e p u t a d o s cada vez mais p o d e r fazer as suas p r ó p r i a s escolhas de casamento,
d i m i n u í r a m a idade da m a i o r i d a d e de 25 p a r a 21 anos, declararam e m b o r a as famílias a i n d a exercessem g r a n d e pressão s o b r e eles,
q u e os adultos já n ã o p o d i a m estar sujeitos à a u t o r i d a d e p a t e r n a e i o m o podia ser o b s e r v a d o nos r o m a n c e s c o m enredos q u e g i r a m
instituíram o divórcio pela p r i m e i r a vez na história francesa, tor- em t o r n o desse p o n t o ( p o r exemplo, Clarissa). As práticas de criar
n a n d o - o acessível t a n t o p a r a o s h o m e n s c o m o p a r a a s m u l h e r e s as crianças t a m b é m revelam m u d a n ç a s sutis de atitude. Os ingle-
pelos m e s m o s motivos legais. E m s u m a , o s revolucionários f i z e - ses a b a n d o n a r a m o c o s t u m e de enrolar os bebês em p a n o s antes
r a m t u d o o que foi possível para expandir as fronteiras da a u t o n o - dos franceses (a Rousseau p o d e - s e d a r um considerável c r é d i t o
m i a pessoal. 36
I nrr dissuadir os franceses desse hábito), m a s m a n t i v e r a m p o r m a i s
l e m p o o de b a t e r n o s m e n i n o s na escola. Na d é c a d a de 1750, as
Na G r ã - B r e t a n h a e em suas c o l ô n i a s n o r t e - a m e r i c a n a s , o
famílias aristocráticas inglesas t i n h a m d e i x a d o de usar correias
desejo de m a i o r a u t o n o m i a p o d e ser mais facilmente retraçado em
para guiar o c a m i n h a r de seus filhos, d e s m a m a v a m os bebês m a i s
autobiografias e romances do q u e na lei, ao m e n o s antes da Revo-
cedo e, c o m o as crianças já n ã o e r a m enroladas em p a n o s , e n s i n a -
lução Americana. De fato, em 1753, a Lei do C a s a m e n t o t o r n o u ile-
vam m a i s cedo o uso do b a n h e i r o na h o r a de fazer as necessidades,
gais na I n g l a t e r r a os c a s a m e n t o s d a q u e l e s a b a i x o de 21 a n o s , a
ludo sinal de u m a ênfase crescente na independência. 38

m e n o s que o pai ou o guardião consentisse. Apesar dessa reafirma-


ção da a u t o r i d a d e p a t e r n a , a antiga d o m i n a ç ã o p a t r i a r c a l d o s Entretanto, a história era às vezes mais confusa. O divórcio na
m a r i d o s sobre as esposas e d o s pais s o b r e os filhos d e c l i n o u no Inglaterra, ao contrário de o u t r o s países protestantes, era v i r t u a l -
século x v m . De Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe, à Auto- m e n t e impossível no século x v m : entre 1700 e 1857, q u a n d o a Lei
biografia (escrita e n t r e 1771 e 1788) de B e n j a m i n F r a n k l i n , os das Causas M a t r i m o n i a i s estabeleceu u m t r i b u n a l especial p a r a
escritores ingleses e a m e r i c a n o s c e l e b r a r a m a i n d e p e n d ê n c i a ouvir casos de divórcio, apenas 325 divórcios foram c o n c e d i d o s
c o m o u m a v i r t u d e cardinal. O r o m a n c e de Defoe sobre o m a r i - pela lei privada do P a r l a m e n t o na Inglaterra, no País de Gales e na
nheiro naufragado fornecia u m m a n u a l sobre c o m o u m h o m e m Irlanda. E m b o r a o n ú m e r o de divórcios tivesse de fato crescido, de
podia aprender a se defender sozinho. N ã o é s u r p r e e n d e n t e , p o r - catorze n a p r i m e i r a m e t a d e d o século x v m p a r a 117 n a s e g u n d a
t a n t o , q u e Rousseau t e n h a t o r n a d o o r o m a n c e d e Defoe l e i t u r a metade, o divórcio estava p a r a todos os efeitos limitado a h o m e n s

62 63
aristocratas, pois os motivos exigidos t o r n a v a m quase impossível
c o m o a m o r a l i d a d e podia ser derivada da razão h u m a n a , e n ã o da
a o b t e n ç ã o do divórcio p a r a as m u l h e r e s . Os n ú m e r o s i n d i c a m
Sagrada Escritura, ou c o m o a a u t o n o m i a devia ser preferida à o b e -
apenas 2,34 divórcios concedidos p o r a n o na segunda m e t a d e do
iliência cega. Mas era o u t r a coisa c o m p l e t a m e n t e diferente conci-
século xviii. Depois q u e os revolucionários franceses instituíram o
liar esse indivíduo o r i e n t a d o para si m e s m o c o m o b e m c o m u m .
d i v ó r c i o , e m c o n t r a s t e , 2 0 m i l divórcios f o r a m c o n c e d i d o s n a
()s filósofos escoceses de m e a d o s do século p u s e r a m a questão da
França entre 1792 e 1803, ou 1800 p o r ano. As colônias britânicas
c o m u n i d a d e secular no c e n t r o da sua o b r a e a p r e s e n t a r a m u m a
na América do N o r t e seguiam em geral a prática inglesa de proibir
resposta filosófica q u e repercutia a prática da e m p a t i a e n s i n a d a
o divórcio m a s permitir alguma forma de separação legal; p o r é m
pelo r o m a n c e . O s filósofos, c o m o a s p e s s o a s d o século x v m d e
a p ó s a i n d e p e n d ê n c i a , as petições de divórcio c o m e ç a r a m a ser
m o d o mais geral, c h a m a v a m a sua resposta de "simpatia". Usei o
aceitas pelos novos t r i b u n a i s n a m a i o r i a dos estados. Estabele-
(ermo "empatia" p o r q u e , apesar de ter e n t r a d o no vernáculo a p e -
cendo u m a tendência depois repetida na França revolucionária, as
nas no século xx, ele capta m e l h o r a vontade ativa de se identificar
mulheres p r o t o c o l a r a m a maioria das petições de divórcio nos p r i -
c o m os o u t r o s . Simpatia agora significa frequentemente piedade,
meiros anos da i n d e p e n d ê n c i a dos novos Estados U n i d o s . 39

(> que p o d e implicar condescendência, um s e n t i m e n t o i n c o m p a t í -


Em n o t a s escritas em 1771 e 1772 s o b r e um caso legal de vel c o m um verdadeiro s e n t i m e n t o de igualdade. 41

divórcio, T h o m a s Jefferson ligava claramente o divórcio aos direi-


A palavra "simpatia" t i n h a um significado m u i t o a m p l o no
tos naturais. O divórcio devolveria "às mulheres o seu direito n a t u -
século xvm. Para Francis H u t c h e s o n , a simpatia era u m a espécie de
ral de igualdade". Ele insistia que, p o r sua p r ó p r i a natureza, os con-
s e n t i d o , u m a faculdade m o r a l . Mais n o b r e do q u e a visão ou a
t r a t o s p o r c o n s e n t i m e n t o m ú t u o d e v i a m ser dissolúveis s e u m a
audição, sentidos partilhados com os animais, p o r é m m e n o s
das partes quebrasse o a c o r d o — o m e s m o a r g u m e n t o q u e os revo-
nobre do que a consciência, a simpatia ou s e n t i m e n t o de solidarie-
l u c i o n á r i o s franceses u s a r i a m em 1792. A l é m disso, a possibili-
dade tornava a vida social possível. Pela força da natureza h u m a n a ,
d a d e do divórcio legal assegurava a "liberdade de afeição", t a m b é m
anterior a qualquer raciocínio, a simpatia atuava c o m o u m a espé-
um direito natural. Na "busca da felicidade", t o r n a d a famosa pela
cie de força gravitacional social para trazer as pessoas para fora de
Declaração da Independência, estaria incluído o direito ao divór-
si m e s m a s . A simpatia assegurava q u e a felicidade n ã o p o d i a ser
cio p o r q u e a "finalidade do casamento é a R e p r o d u ç ã o & a Felici-
definida apenas pela autossatisfação."Por u m a espécie de contágio
dade". O direito à busca da felicidade requeria, p o r t a n t o , o divór-
o u infecção", c o n c l u í a H u t c h e s o n , " t o d o s o s nossos p r a z e r e s ,
cio. N ã o é p o r acaso q u e Jefferson a p r e s e n t a r i a a r g u m e n t o s
m e s m o aqueles do tipo mais inferior, são e s t r a n h a m e n t e intensifi-
s e m e l h a n t e s p a r a um divórcio e n t r e as colônias a m e r i c a n a s e a
cados pelo fato de serem partilhados c o m os outros." 42

Grã-Bretanha q u a t r o anos mais tarde. 40

A d a m Smith, autor de A riqueza das nações (1776) e aluno de


A m e d i d a que pressionavam pela expansão da a u t o d e t e r m i - I l u t c h e s o n , d e d i c o u u m a de suas p r i m e i r a s o b r a s à q u e s t ã o da
nação, as pessoas do século xvm defrontavam-se c o m um dilema: simpatia. No capítulo inicial da sua Teoria dos sentimentos morais
o que propiciaria a origem da c o m u n i d a d e nessa nova o r d e m q u e (1759), ele usa o exemplo da t o r t u r a para chegar à maneira c o m o
intensificava os direitos do i n d i v í d u o ? U m a coisa era explicar a simpatia opera. O q u e nos faz sentir compaixão pelo sofrimento

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A simpatia e a sensibilidade a t u a v a m em favor de m u i t o s g r u -
de alguém que está sendo torturado? Ainda que o sofredor seja um
pos n ã o e m a n c i p a d o s , m a s n ã o d a s m u l h e r e s . C a p i t a l i z a n d o o
irmão, n u n c a p o d e m o s experimentar diretamente o que ele sente.
sucesso do r o m a n c e em invocar novas f o r m a s de identificação psi-
P o d e m o s apenas nos identificar com o seu sofrimento p o r meio da
( ológica, os p r i m e i r o s a b o l i c i o n i s t a s e n c o r a j a v a m os escravos
nossa imaginação, que n o s coloca a nós p r ó p r i o s na sua situação
libertos a escrever suas autobiografias r o m a n c e a d a s , às vezes par-
s u p o r t a n d o o s m e s m o s t o r m e n t o s , " c o m o que e n t r a m o s n o seu
(ialmente fictícias, a fim de g a n h a r a d e p t o s p a r a o m o v i m e n t o n a s -
corpo e n o s t o r n a m o s em alguma medida ele próprio". Esse processo
i ente. Os males da escravidão a d q u i r i r a m v i d a q u a n d o foram des-
de identificação i m a g i n a t i v a — s i m p a t i a — p e r m i t e que o observa-
critos e m p r i m e i r a m ã o p o r h o m e n s c o m o O l a u d a h E q u i a n o , cujo
dor sinta o que a vítima da t o r t u r a sente. O observador só é capaz de
livro The Inter estingNar rative ofthe Life of Olaudah Equiano, or
se t o r n a r um ser verdadeiramente moral, entretanto, q u a n d o dá o
(iustavus Vassa, TheAfrican. Written by Himself'foi p u b l i c a d o pela
p r ó x i m o passo e c o m p r e e n d e que ele t a m b é m é passível dessa iden-
primeira vez em Londres, em 1789. Mas a m a i o r i a dos abolicionis-
tificação imaginativa. Q u a n d o consegue ver a si p r ó p r i o c o m o o
tas deixou de relacionar sua causa c o m os direitos das m u l h e r e s .
objeto dos sentimentos dos outros, é capaz de desenvolver dentro de
I >cpois de 1789, m u i t o s r e v o l u c i o n á r i o s franceses a s s u m i r i a m
si m e s m o um "espectador imparcial" que serve c o m o sua bússola
posições públicas e vociferantes em favor d o s direitos d o s protes-
moral. A autonomia e a simpatia, portanto, a n d a m juntas para
tantes, j u d e u s , negros livres e até escravos, ao m e s m o t e m p o q u e se
Smith. Apenas u m a pessoa a u t ô n o m a p o d e desenvolver um "espec-
o p o r i a m ativamente a conceder direitos às m u l h e r e s . N o s novos
tador imparcial" d e n t r o de si mesma, mas ela só p o d e fazê-lo, explica
listados U n i d o s , e m b o r a a escravidão se apresentasse i m e d i a t a -
Smith, caso se identifique c o m os outros primeiro.' 11

mente c o m o t e m a para u m debate acalorado, o s direitos das m u -


A simpatia ou a sensibilidade — o ú l t i m o t e r m o era m u i t o
lheres p r o v o c a v a m a i n d a m e n o s c o m e n t á r i o p ú b l i c o d o q u e n a
mais difundido em francês — tiveram u m a ressonância cultural
f i a n ç a . A s m u l h e r e s n ã o o b t i v e r a m direitos políticos iguais e m
a m p l a n o s dois lados d o A t l â n t i c o n a ú l t i m a m e t a d e d o século
n e n h u m lugar antes do século xx. 45

XVIII. T h o m a s Jefferson lia H u t c h e s o n e S m i t h , e m b o r a tivesse


As pessoas do século xvin, c o m o quase t o d o m u n d o na histó-
c i t a d o especificamente o r o m a n c i s t a L a u r e n c e S t e r n e c o m o
ria h u m a n a antes delas, v i a m as m u l h e r e s c o m o d e p e n d e n t e s , um
aquele que oferecia "o m e l h o r curso de moralidade". D a d a a u b i -
estado definido pelo seu status familiar, e assim, p o r definição, n ã o
q u i d a d e de referências a simpatia e sensibilidade no m u n d o atlân-
plenamente capazes de a u t o n o m i a política. Elas p o d i a m lutar pela
tico, n ã o parece acidental q u e o p r i m e i r o r o m a n c e escrito p o r um
, i i i I o d e t e r m i n a ç ã o c o m o u m a virtude privada, m o r a l , s e m estabe-
a m e r i c a n o , publicado em 1789, tivesse c o m o título The Power of
lei er ligação c o m os direitos políticos. T i n h a m direitos, m a s n ã o
Sympathy. A simpatia e a sensibilidade p e r m e a v a m de tal m o d o a
I io I í ticos. Essa visão se t o r n o u explícita q u a n d o os revolucionários
literatura, a p i n t u r a e até a medicina que alguns m é d i c o s começa-
l i . m c e s e s r e d i g i r a m u m a n o v a C o n s t i t u i ç ã o e m 1789. O a b a d e
r a m a se p r e o c u p a r c o m um excesso dessas faculdades, q u e eles
I 1 1 1 1 nanuel-Joseph Sieyès, um intérprete ilustre da teoria constitu-
receavam p o d e r levar à melancolia, à h i p o c o n d r i a ou aos " v a p o -
I [onal, explicava a distinção emergente entre os direitos n a t u r a i s e
res". Os médicos achavam que as d a m a s d e s o c u p a d a s (as leitoras)
civis, de um lado, e os direitos políticos, de o u t r o . T o d o s os habi-
e r a m especialmente suscetíveis. 44

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tantes de um país, inclusive as mulheres, p o s s u í a m os direitos de Aprender a sentir e m p a t i a abriu o c a m i n h o p a r a os direitos
um cidadão passivo: o direito à proteção de sua pessoa, p r o p r i e - h u m a n o s , m a s n ã o assegurava que t o d o s seriam capazes de seguir
d a d e e liberdade. Mas n e m t o d o s e r a m cidadãos ativos, sustentava i m e d i a t a m e n t e esse c a m i n h o . N i n g u é m c o m p r e e n d e u isso m e -
ele, c o m direito a participar diretamente das atividades públicas. I hor, n e m se afligiu mais a esse respeito, do q u e o a u t o r da Declara-
"As mulheres, ao m e n o s no presente estado, as crianças, os estran- ção da Independência. N u m a carta de 1802 ao clérigo, cientista e
geiros, aqueles que n ã o c o n t r i b u e m para m a n t e r a o r d e m pública" r e f o r m a d o r inglês Joseph Priestley, Jefferson exibiu o e x e m p l o
e r a m definidos c o m o cidadãos passivos. A ressalva de Sieyès, "ao americano p a r a o m u n d o inteiro: "É impossível n ã o ter consciên-
m e n o s n o p r e s e n t e estado", deixava u m a p e q u e n a b r e c h a p a r a cia de q u e estamos agindo p o r t o d a a h u m a n i d a d e ; de q u e circuns-
m u d a n ç a s futuras n o s direitos das m u l h e r e s . O u t r o s t e n t a r i a m tâncias negadas a o u t r o s , m a s a nós concedidas, i m p u s e r a m - n o s o
explorar essa brecha, m a s sem sucesso no c u r t o prazo. 46
dever de e x p e r i m e n t a r qual é o grau de liberdade e a u t o g o v e r n o
Os p o u c o s que de fato defendiam os direitos das mulheres no que u m a sociedade p o d e se arriscar a conceder a seus indivíduos",
século xviii e r a m ambivalentes a respeito dos romances. Os oposi- lefferson pressionava pelo mais elevado "grau de liberdade" i m a -
tores tradicionais dos romances acreditavam que as mulheres gj nável, o que para ele significava abrir a participação política p a r a
e r a m especialmente suscetíveis ao enlevo da leitura sobre o amor, lautos h o m e n s b r a n c o s q u a n t o fosse possível, e talvez eventual-
e até os defensores dos romances, c o m o Jefferson, p r e o c u p a v a m - mente até para os índios, se eles p u d e s s e m ser transformados em
-se c o m os seus efeitos sobre as jovens. Em 1818, um Jefferson m u i t o .!)• ricultores. E m b o r a reconhecesse a h u m a n i d a d e dos negros e até
mais velho do que aquele e n t u s i a s m a d o c o m seus romancistas pre- O S direitos dos escravos c o m o seres h u m a n o s , n ã o imaginava u m
feridos em 1771 alertava sobre "a paixão desregrada" p o r r o m a n - estado em que eles ou as m u l h e r e s de q u a l q u e r cor tivessem p a r t e
ces entre as moças. "O resultado é u m a imaginação intumescida" e al iva. M a s esse era o m a i s elevado g r a u de liberdade imaginável
" u m juízo doentio". N ã o é s u r p r e e n d e n t e , p o r t a n t o , que os defen- pa ra a imensa maioria dos a m e r i c a n o s e e u r o p e u s , m e s m o 24 anos
sores ardentes dos direitos das mulheres levassem essas suspeitas a mais tarde, no dia da m o r t e de Jefferson. 48

sério. C o m o jefferson, M a r y Wollstonecraft, a m ã e do feminismo


m o d e r n o , contrastou explicitamente a leitura de r o m a n c e s — "o
único tipo de leitura calculado para atrair u m a inteligência i n o -
cente e frívola" — c o m a leitura de história e c o m a c o m p r e e n s ã o
racional ativa de m o d o mais geral. No e n t a n t o , a p r ó p r i a Wollsto-
necraft escreveu dois r o m a n c e s centrados em heroínas, r e s e n h o u
m u i t o s romances na i m p r e n s a e a eles se referia c o n s t a n t e m e n t e na
sua c o r r e s p o n d ê n c i a . Apesar de suas objeções às prescrições de
Rousseau para a educação feminina em Emílio, ela leu avidamente
Júlia e usava expressões l e m b r a d a s de Clarissa e dos r o m a n c e s de
Sterne para transmitir suas p r ó p r i a s e m o ç õ e s nas cartas. 47

68 69
2. "Ossos dos seus ossos"
Abolindo a tortura

E m 1762, n o m e s m o a n o e m que Rousseau u s o u pela p r i m e i -


ra vez o t e r m o "direitos do homem", um tribunal na cidade de Tou-
louse, no sul da França, c o n d e n o u um protestante francês de 64
anos c h a m a d o Jean Calas p o r assassinar seu filho para i m p e d i r q u e
ele se convertesse ao c a t o l i c i s m o . Os juízes c o n d e n a r a m Jean à
m o r t e pelo suplício da roda. Antes da execução, Calas p r i m e i r o
teve d e s u p o r t a r u m a t o r t u r a j u d i c i a l m e n t e s u p e r v i s i o n a d a
conhecida c o m o a "questão preliminar", q u e se destinava a conse-
guir q u e aqueles já c o n d e n a d o s n o m e a s s e m seus cúmplices. C o m
os p u n h o s atados b e m apertados a u m a b a r r a atrás dele, Calas foi
esticado p o r um sistema de manivelas e roldanas que puxava fir-
m e m e n t e seus braços p a r a cima, e n q u a n t o u m peso d e ferro m a n -
t i n h a os pés no lugar (figura 3). Q u a n d o Calas se recusou a forne-
I'IGURA3. Tortura judicial
cer n o m e s depois de duas aplicações, foi atado a um b a n c o e jarros
E quase impossível encontrar representações da tortura judicialmente
de água foram despejados à força pela sua garganta, e n q u a n t o a sancionada. Esta xilografía de página inteira do século xvi (21,6 x 14,4 cm)
b o c a era m a n t i d a aberta p o r dois p a u z i n h o s (figura 4). Pressio- tem o objetivo de mostrar um método empregado em Toulouse que se
n a d o de novo a citar n o m e s , diz-se q u e ele r e s p o n d e u : " O n d e n ã o parece com o sofrido por Jean Calas dois séculos mais tarde. É uma versão
da tortura judicial mais comumente usada na Europa, chamada strap-
há crime, n ã o p o d e haver cúmplices".
¡mdo, nome derivado da palavra italiana para puxão ou rasgão violento.


A m o r t e n ã o se seguia i m e d i a t a m e n t e , n e m se pretendia q u e
assim fosse. O suplício da roda, reservado aos h o m e n s c o n d e n a d o s
por h o m i c í d i o ou assalto na estrada, ocorria em dois estágios. Pri-
meiro, o carrasco atava o c o n d e n a d o a u m a cruz em forma de X e
esmagava s i s t e m a t i c a m e n t e os ossos de seus antebraços, p e r n a s ,
coxas e braços, desferindo em cada um deles dois golpes brutais,
l'or m e i o de um sarilho preso à corda ao redor do pescoço do con-
d e n a d o , u m assistente e m b a i x o d o cadafalso e n t ã o deslocava a s
vértebras d o pescoço c o m p u x õ e s violentos n a corda. E n q u a n t o
isso, o carrasco fustigava a c i n t u r a c o m três golpes fortes da vara de
ferro. Depois o carrasco descia o c o r p o q u e b r a d o e o prendia, c o m
os m e m b r o s t o r t u r a n t e m e n t e inclinados para trás, a u m a roda de
c a r r u a g e m em cima de um poste de três m e t r o s . Ali o c o n d e n a d o
permanecia bastante t e m p o depois da morte, concluindo " u m
e s p e t á c u l o m u i t o terrível". N u m a i n s t r u ç ã o secreta, o t r i b u n a l
concedeu a Calas a graça de ser estrangulado depois de duas h o r a s
de t o r m e n t o , antes q u e seu c o r p o fosse ligado à roda. Calas m o r r e u
ainda p r o t e s t a n d o inocência.'

O "caso" Calas galvanizou a atenção q u a n d o foi adotado p o r


Voltaire alguns meses d e p o i s da execução. Voltaire a r r e c a d o u
d inheiro para a família, escreveu cartas em n o m e de vários m e m b r o s
da família Calas c o m o intuito de apresentar suas visões originais dos
latos e depois publicou um panfleto e um livro baseados no caso. O
mais famoso desses foi o seu Tratado sobre a tolerância por ocasião da
morte de Jean Calas, no qual ele usou pela primeira vez a expressão
"direito h u m a n o " ; o p o n t o principal de seu a r g u m e n t o era q u e a
intolerância não podia ser um direito h u m a n o (ele não p r o p u n h a o
FIGURA 4. Tortura pela água
a r g u m e n t o positivo de q u e a liberdade de religião era um direito
A xilografía do século xvi (21,6 x 14,4 cm) mostra um método francês de
11 u m a n o ). Voltaire n ã o protestou inicialmente n e m contra a tortura,
tortura pela água. Não é exatamente o mesmo que Calas sofreu, mas
chega perto o suficiente para transmitir a ideia geral. nem contra o suplício da roda. O que o enfureceu foi o fanatismo
religioso q u e ele c o n c l u i u ter m o t i v a d o a polícia e os juízes: "É
impossível ver c o m o , seguindo esse princípio [o direito h u m a n o ] ,

73
um h o m e m p o d e dizer a outro, 'acredite no que eu acredito e no que
ção de Voltaire c o m e ç o u a m u d a r , e cada vez m a i s o p r ó p r i o sis-
você n ã o p o d e acreditar, senão vai morrer'. É assim que eles falam em
tema de justiça criminal, e especialmente o seu e m p r e g o da t o r t u r a
Portugal, Espanha e Goa [países infames pelas suas inquisições]". 2

e da crueldade, passou a ser criticado. Nos seus textos iniciais s o b r e


C o m o o culto calvinista público tinha sido proibido na França
Calas, em 1762-3, Voltaire n ã o u s o u n e m u m a única vez o t e r m o
desde 1685, as autoridades a p a r e n t e m e n t e n ã o precisavam se esfor-
geral " t o r t u r a " ( e m p r e g a n d o em seu lugar o e u f e m i s m o legal "a
çar m u i t o p a r a acreditar q u e Calas tivesse m a t a d o o filho p a r a
questão"). Ele d e n u n c i o u a t o r t u r a judicial pela p r i m e i r a vez em
i m p e d i r a sua conversão ao catolicismo. Certa noite, depois do jan-
1766 e depois estabeleceu frequentemente a ligação entre Calas e a
tar, a família tinha e n c o n t r a d o Mare-Antoine p e n d e n d o n u m vão
tortura. A compaixão n a t u r a l leva t o d o m u n d o a detestar a c r u e l -
de p o r t a que abria para u m a despensa nos fundos da casa, um apa-
dade da t o r t u r a judicial, insistia Voltaire, e m b o r a ele p r ó p r i o n ã o
rente suicídio. Para evitar o escândalo, afirmaram ter descoberto o
tivesse dito essas palavras antes. "A t o r t u r a t e m sido a b o l i d a em
corpo no chão, presumivelmente vítima de assassinato. O suicídio
< >utros países, e c o m sucesso: a questão está, p o r t a n t o , decidida." As
era punível pela lei na França: u m a pessoa que cometesse suicídio
visões de Voltaire m u d a r a m t a n t o que em 1769 ele se sentiu c o m -
não podia ser enterrada em chão consagrado e, se considerada cul-
pelido a acrescentar um artigo sobre " T o r t u r a " a seu Dicionário
p a d a n u m julgamento, o corpo podia ser e x u m a d o , arrastado pela
filosófico, publicado pela p r i m e i r a vez em 1764 e já no índex p a p a l
cidade, p e n d u r a d o pelos pés e atirado no lixo.
tios livros proibidos. No artigo, Voltaire emprega a sua a l t e r n â n c i a
A polícia se aproveitou das incoerências no t e s t e m u n h o da habitual do ridículo e do ataque fulminante p a r a c o n d e n a r as p r á -
família e logo p r e n d e u o pai, a m ã e e o i r m ã o j u n t o c o m seu criado ticas francesas c o m o incivilizadas: os estrangeiros julgam a F r a n ç a
e um visitante, a c u s a n d o t o d o s de assassinato. Um t r i b u n a l local pelas suas peças teatrais, r o m a n c e s , versos e belas atrizes, s e m s a b e r
c o n d e n o u o pai, a m ã e e o i r m ã o à t o r t u r a p a r a obter confissões de que n ã o há nação mais cruel que a França. U m a nação civilizada,
culpa ( c h a m a d a a "questão preparatória"), m a s na apelação o Par- conclui Voltaire, já n ã o p o d e seguir "antigos costumes atrozes". O
lement* de Toulouse revogou a sentença do t r i b u n a l local, recu- c i ue há m u i t o t e m p o t i n h a parecido aceitável a ele e a m u i t o s o u t r o s
sou-se a aplicar a t o r t u r a antes da c o n d e n a ç ã o e considerou cul- passava a ser p o s t o em dúvida. 3

p a d o apenas o pai, esperando q u e ele nomeasse os o u t r o s q u a n d o


Assim c o m o a c o n t e c e u c o m o s direitos h u m a n o s d e m o d o
t o r t u r a d o p o u c o antes da sua execução. A publicidade inexorável
mais geral, as novas atitudes sobre a t o r t u r a e sobre u m a p u n i ç ã o
dada p o r Voltaire ao caso valeu p a r a o resto da família, q u e ainda
mais h u m a n a se cristalizaram p r i m e i r o na d é c a d a de 1760, n ã o
n ã o t i n h a sido inocentada. O Conselho Real p r i m e i r o a n u l o u os
.i penas na França, m a s em o u t r o s países e u r o p e u s e nas c o l ô n i a s
veredictos p o r razões técnicas em 1763 e 1764 e depois, em 1765,
americanas. Frederico, o G r a n d e , da Prússia, amigo de Voltaire, já
v o t o u a favor da absolvição de t o d o s os envolvidos e da devolução
linha abolido a t o r t u r a judicial nas suas terras em 1754. O u t r o s
dos bens confiscados da família.
imitaram seu exemplo nas décadas seguintes: a Suécia em 1772, a
D u r a n t e a tempestade a respeito do caso Calas, o foco de aten-
Áustria e a Boêmia em 1776. Em 1780, a m o n a r q u i a francesa eli-
m i n o u o uso da t o r t u r a p a r a extrair confissões de culpa antes da
* Parlement: c o r t e de justiça. ( N . T . )
i o n d e n a ç ã o , e em 1788 aboliu p r o v i s o r i a m e n t e o uso da t o r t u r a

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p o u c o antes da execução para obter os n o m e s de cúmplices. Em brasa e o u t r o s m é t o d o s . A t o r t u r a p a r a o b t e r os n o m e s de c ú m p l i -
1783, o governo britânico d e s c o n t i n u o u a procissão pública para ces era p e r m i t i d a pela lei colonial de Massachusetts, m a s a p a r e n t e -
T y b u r n , o n d e a s execuções t i n h a m s e t o r n a d o u m i m p o r t a n t e mente n u n c a era o r d e n a d a . 5

e n t r e t e n i m e n t o popular, e i n t r o d u z i u o uso regular da "queda", As formas brutais de punição depois da condenação eram
u m a plataforma mais elevada que o carrasco deixava cair para asse- ubíquas na E u r o p a e nas Américas. E m b o r a a Bill ofRights britâ-
g u r a r e n f o r c a m e n t o s m a i s r á p i d o s e mais h u m a n o s . Em 1789, o nica de 1689 proibisse e x p r e s s a m e n t e o castigo cruel, os-juízes
governo revolucionário francês r e n u n c i o u a todas as formas de tor- ainda sentenciavam os criminosos ao poste dos açoites, ao b a n c o
t u r a judicial, e em 1792 introduziu a guilhotina, q u e tinha a inten- dos afogamentos, ao t r o n c o , ao p e l o u r i n h o , ao ferro de marcar, à
ção de t o r n a r a execução da p e n a de m o r t e uniforme e tão indolor execução p o r a r r a s t a m e n t o e e s q u a r t e j a m e n t o ( d e s m e m b r a -
q u a n t o possível. No final do século xvm, a opinião pública parecia m e n t o do c o r p o p o r m e i o de cavalos) o u , p a r a as mulheres, arras-
exigir o fim da t o r t u r a judicial e de muitas indignidades infligidas lamento, esquartejamento e m o r t e na fogueira. O q u e constituía
aos corpos dos condenados. C o m o o médico americano Benjamin u m a p u n i ç ã o "cruel" d e p e n d i a claramente das expectativas cultu-
Rush insistia em 1787, n ã o devemos esquecer que até os criminosos rais. Foi s o m e n t e em 1790 q u e o P a r l a m e n t o b r i t â n i c o p r o i b i u
"possuem almas e corpos compostos dos m e s m o s materiais que os q u e i m a r as mulheres na fogueira. Antes, e n t r e t a n t o , havia a u m e n -
de nossos amigos e conhecidos. São ossos dos seus ossos". 4
tado d r a m a t i c a m e n t e o n ú m e r o de ofensas capitais, q u e segundo
algumas estimativas triplicou no século xvm e em 1753 t i n h a con-
t r i b u í d o p a r a t o r n a r as p u n i ç õ e s p o r assassinato ainda mais h o r -
TORTURA E CRUELDADE ríveis a fim de a u m e n t a r seu p o d e r de dissuasão. O P a r l a m e n t o
t a m b é m o r d e n o u q u e o s c o r p o s d e t o d o s o s assassinos fossem
A t o r t u r a judicialmente supervisionada p a r a extrair confis- entregues a cirurgiões p a r a dissecação — naquele t e m p o conside-
sões t i n h a sido i n t r o d u z i d a ou reintroduzida na maioria dos paí- rada u m a i g n o m í n i a — e concedeu aos juízes a autoridade discri-
ses e u r o p e u s no século XIII, c o m o c o n s e q u ê n c i a do refloresci- cionária de o r d e n a r que o c o r p o de q u a l q u e r assassino masculino
m e n t o da lei r o m a n a e do e x e m p l o da I n q u i s i ç ã o católica. N o s fosse d e p e n d u r a d o a c o r r e n t a d o d e p o i s da execução. Apesar do
séculos xvi, xvii e Xvm, m u i t a s das m a i s refinadas inteligências crescente desconforto c o m esse escarnecer do cadáver dos assassi-
legais da E u r o p a d e d i c a r a m - s e a codificar e regularizar o uso da nos, a prática só foi definitivamente abolida em 1834/'
t o r t u r a judicial para i m p e d i r abusos p e r p e t r a d o s p o r juízes exage- N ã o s u r p r e e n d e q u e a p u n i ç ã o nas colónias tenha seguido os
r a d a m e n t e zelosos ou sádicos. A G r ã - B r e t a n h a t i n h a s u p o s t a - p a d r õ e s estabelecidos n o c e n t r o i m p e r i a l . Assim, u m terço d e
m e n t e substituído a t o r t u r a judicial pelos júris no século XIII, m a s todas as sentenças na Corte Superior de Massachusetts, m e s m o na
a t o r t u r a ainda ocorria nos séculos xvi e XVII nos casos de sedição e última m e t a d e do século x v m , exigia h u m i l h a ç õ e s públicas q u e
feitiçaria. C o n t r a as bruxas, p o r exemplo, os m a g i s t r a d o s escoce- iam desde usar cartazes até a p e r d a de u m a orelha, a m a r c a ç ã o a
ses mais severos e m p r e g a v a m ferroadas, privação de sono, t o r t u r a ferro e o açoite. Um c o n t e m p o r â n e o em Boston descreveu c o m o
pelas " b o t a s " ( e s m a g a r a s p e r n a s ) , q u e i m a d u r a s c o m ferro e m "as mulheres e r a m tiradas de u m a imensa jaula, na qual e r a m arras-

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tadas sobre rodas desde a prisão, e atadas n u m poste c o m as costas
nuas, nas quais e r a m aplicadas trinta ou quarenta chicotadas entre
os gritos das culpadas e o t u m u l t o da turba". A Bill ofRights britâ-
nica n ã o protegia os escravos, p o r q u e eles não e r a m considerados
pessoas c o m direitos legais. Virginia e Carolina do Norte p e r m i t i a m
expressamente a castração de escravos p o r ofensas hediondas, e em
Maryland, nos casos de p e q u e n a traição ou incêndio criminoso p o r
p a r t e de um escravo, a m ã o direita era cortada e o escravo depois
enforcado, a cabeça cortada, o corpo esquartejado e as partes des-
m e m b r a d a s exibidas em p ú b l i c o . A i n d a na d é c a d a de 1740, os
escravos em Nova York p o d i a m ser queimados até a m o r t e de forma
t o r t u r a n t e m e n t e lenta, supliciados na roda ou d e p e n d u r a d o s p o r
correntes até m o r r e r e m p o r falta de alimento. 7

A maioria das sentenças d e t e r m i n a d a s pelos tribunais france-


ses na última m e t a d e do século xvin ainda incluía alguma forma de
castigo corporal público, c o m o a marcação a ferro, o açoite ou o
uso do colarinho de ferro (que ficava preso a um poste ou ao pelou-
r i n h o — figura 5). No m e s m o a n o em que Calas foi executado, o
Le -véritable PorlraiiiTtre' dâpres nature sur Lh
Parlementde Paris* sentenciou apelações de processos penais con-
Place du Palais Roy\il,d'Emmanuel Jean de-
tra 235 h o m e n s e mulheres julgados em p r i m e i r a instância no tri-
là Caste cotndamné par Jugement souverain
b u n a l de Châtelet ( u m tribunal de instância inferior) de Paris: 82
de M vie Lieutenant G- de Police, dii28.Jau/l
foram sentenciados ao b a n i m e n t o e à marcação a ferro, em geral
1760• au Carcan pendant 3.Jaurs a Ittmanpl,
c o m b i n a d o s c o m açoites; nove à m e s m a c o m b i n a ç ã o mais o cola-
et aux Galères a perpétuité^).
r i n h o de ferro; dezenove à marcação a ferro e ao a p r i s i o n a m e n t o ;
vinte ao confinamento no Hospital Geral,** depois de serem m a r -
c a d o s a ferro e / o u t e r e m de u s a r o c o l a r i n h o de ferro; d o z e ao
FIGURA 5. O colarinho de ferro
enforcamento; três ao suplício da roda; e um a m o r r e r q u e i m a d o
A. ideia deste castigo era uma humilhação pública. Esta reprodução de um
artista anônimo mostra um homem condenado por fraude e libelo em
* O Parlementde Paris era a mais alta corte de justiça do Antigo Regime. 1760. Segundo a legenda, ele foi primeiro preso ao colarinho de ferro por
(N.T.) três dias e depois marcado a ferro e enviado às galés para o resto da vida.
** Fundado por Luís xiv, o Hospital Geral servia para recolher marginais,
indigentes etc. (N. T.)
na fogueira. Se todos os outros tribunais de Paris fossem incluídos na italiano recente n ã o rejeitava apenas a t o r t u r a e o castigo cruel, m a s
conta, o n ú m e r o de h u m i l h a ç õ e s públicas e mutilações a u m e n t a - t a m b é m — n u m a atitude extraordinária p a r a a é p o c a — a p r ó p r i a
ria para quinhentas ou seiscentas, c o m u m a s dezoito execuções — p e n a de m o r t e . C o n t r a o p o d e r absoluto dos governantes, a o r t o -
e m apenas u m ano, n u m a única jurisdição. 8
doxia religiosa e os privilégios da nobreza, Beccaria p r o p u n h a um
A p e n a de m o r t e podia ser i m p o s t a de cinco m a n e i r a s dife- p a d r ã o d e m o c r á t i c o d e justiça: " a m a i o r felicidade d o m a i o r
rentes na França: decapitação para os nobres; enforcamento para número". V i r t u a l m e n t e t o d o reformador a partir de então, de P h i -
os criminosos c o m u n s ; a r r a s t a m e n t o e esquartejamento p o r ofen- ladelphia a M o s c o u , o citava. " 1

sas c o n t r a o s o b e r a n o c o n h e c i d a s c o m o lèse-majesté; m o r t e na
Beccaria a j u d o u a valorizar a nova linguagem do s e n t i m e n t o .
fogueira p o r heresia, magia, incêndio criminoso, e n v e n e n a m e n t o ,
Para ele, a p e n a de m o r t e só podia ser "perniciosa p a r a a sociedade,
bestialidade e sodomia; e o suplício da roda p o r assassinato ou sal-
pelo e x e m p l o de b a r b á r i e q u e proporciona", e ao objetar a " t o r -
t e a m e n t o . Os juízes o r d e n a v a m a r r a s t a m e n t o e esquartejamento e
m e n t o s e crueldade inútil" na p u n i ç ã o ele os ridicularizava c o m o
m o r t e na fogueira c o m p o u c a frequência no século x v i l i , m a s o
"o i n s t r u m e n t o de um fanatismo furioso". Além disso, ao justificar
suplício da roda era m u i t o c o m u m : na jurisdição do Parlementde
a sua intervenção ele expressava a esperança de que se "eu c o n t r i -
Aix-en-Provence, no sul da França, p o r exemplo, quase a m e t a d e
b u i r p a r a salvar da agonia da m o r t e u m a vítima infeliz da tirania,
das 53 s e n t e n ç a s de m o r t e i m p o s t a s e n t r e 1760 e 1762 era pelo
ou da i g n o r â n c i a i g u a l m e n t e fatal, a sua b ê n ç ã o e l á g r i m a s de
suplício da roda.''
êxtase serão para m i m um consolo suficiente p a r a o desprezo de
Mas da década de 1760 em diante, c a m p a n h a s de vários tipos
t o d a a h u m a n i d a d e " . Depois de ler Beccaria, o jurista inglês Wil-
levaram à abolição da t o r t u r a sancionada pelo estado e a u m a cres-
liam Blackstone estabeleceu a conexão q u e se tornaria caracterís-
cente m o d e r a ç ã o nos castigos (até para os escravos). Os reforma-
tica a p ó s a visão do I l u m i n i s m o : a lei c r i m i n a l , afirmava Black-
dores a t r i b u í a m suas realizações à difusão do h u m a n i t a r i s m o do
s t o n e , deve s e m p r e "se c o n f o r m a r aos d i t a d o s da v e r d a d e e da
I l u m i n i s m o . Em 1786, o reformador inglês Samuel Romilly o l h o u
justiça, aos s e n t i m e n t o s h u m a n i t á r i o s e aos direitos indeléveis da
p a r a trás e a f i r m o u cheio de confiança q u e "à m e d i d a q u e os
humanidade"."
h o m e n s refletem e r a c i o c i n a m sobre esse t e m a i m p o r t a n t e , as
noções absurdas e bárbaras de justiça q u e prevaleceram p o r eras E n t r e t a n t o , c o m o m o s t r a o exemplo de Voltaire, a elite e d u -
t ê m sido d e m o l i d a s , e t ê m sido a d o t a d o s p r i n c í p i o s h u m a n o s e cada, e até m u i t o s dos principais reformadores, não c o m p r e e n d e u
racionais em seu lugar". M u i t o do i m p u l s o i m e d i a t o p a r a p e n s a r i m e d i a t a m e n t e a conexão entre a linguagem nascente dos direitos
sobre o assunto veio do c u r t o e vigoroso Dos delitos e das penas, e a t o r t u r a e o castigo cruel. Voltaire escarneceu do malogro da j u s -
publicado em 1764 p o r um aristocrata italiano de 24 anos, Cesare tiça no caso Calas, m a s n ã o objetou originalmente ao fato de q u e o
Beccaria. P r o m o v i d o pelos círculos em t o r n o de Diderot, t r a d u - velho fora t o r t u r a d o ou supliciado na roda. Se a compaixão n a t u -
zido r a p i d a m e n t e p a r a o francês e o inglês e a v i d a m e n t e lido p o r ral leva t o d o m u n d o a detestar a c r u e l d a d e da t o r t u r a judicial,
Voltaire no decorrer do caso Calas, o p e q u e n o livro de Beccaria c o m o Voltaire disse mais tarde, p o r ç|ue isso não era óbvio antes da
examinava o sistema de justiça criminal de cada nação. O sistema década de 1760, n e m m e s m o para ele? Evidentemente, antolhos de

8o 8l
a l g u m tipo h a v i a m a t u a d o p a r a inibir a operação da empatia antes
as m ã o s . Cuspir, c o m e r n u m a tigela c o m u m e d o r m i r n u m a c a m a
desse p e r í o d o . 12

c o m u m e s t r a n h o t o r n a r a m - s e atos r e p u g n a n t e s o u a o m e n o s
Q u a n d o os escritores e os reformadores legais do I l u m i n i s m o
desagradáveis. As explosões violentas de e m o ç ã o e o c o m p o r t a -
c o m e ç a r a m a questionar a t o r t u r a e a p u n i ç ã o cruel, ocorreu u m a
m e n t o agressivo p a s s a r a m a ser s o c i a l m e n t e inaceitáveis. Essas
viravolta quase completa de atitude ao longo de algumas décadas.
m u d a n ç a s d e a t i t u d e e m relação a o c o r p o e r a m a s i n d i c a ç õ e s
A descoberta do s e n t i m e n t o de c o m p a n h e i r i s m o constituía p a r t e
superficiais de u m a t r a n s f o r m a ç ã o subjacente. Todas assinalavam
dessa m u d a n ç a , m a s a p e n a s p a r t e . O q u e era preciso a l é m da
0 a d v e n t o do i n d i v í d u o fechado em si m e s m o , cujas fronteiras
e m p a t i a — na verdade, nesse caso, u m a p r e c o n d i ç ã o necessária
t i n h a m de ser respeitadas na interação social. A c o m p o s t u r a e a
p a r a a e m p a t i a c o m o c o n d e n a d o pela j u s t i ç a — e r a um novo inte-
a u t o n o m i a r e q u e r i a m u m a crescente autodisciplina. 13

resse pelo c o r p o h u m a n o . Antes sagrado a p e n a s d e n t r o d e u m a


As m u d a n ç a s do século xviii nos espetáculos musicais e tea-
o r d e m r e l i g i o s a m e n t e definida, e m q u e o s c o r p o s i n d i v i d u a i s
trais, na arquitetura doméstica e na arte do retrato tiveram c o m o
p o d i a m ser m u t i l a d o s ou t o r t u r a d o s para o b e m c o m u m , o c o r p o
base essas alterações de longo p r a z o nas atitudes. Além disso, essas
s e t o r n o u s a g r a d o p o r s i p r ó p r i o n u m a o r d e m secular q u e s e
novas experiências r e v e l a r a m - s e cruciais p a r a o s u r g i m e n t o da
baseava na a u t o n o m i a e i n v i o l a b i l i d a d e d o s i n d i v í d u o s . Esse
própria sensibilidade. Nas décadas depois de 1750, em vez de cami-
desenvolvimento ocorre e m d u a s partes. O s corpos g a n h a r a m u m
n h a r p e l o t e a t r o p a r a e n c o n t r a r e conversar c o m os a m i g o s , o
valor m a i s positivo q u a n d o s e t o r n a r a m m a i s s e p a r a d o s , m a i s
público das óperas c o m e ç o u a escutar a música em silêncio, o que
senhores de si m e s m o s e mais individualizados d u r a n t e o d e s e n r o -
1 he facultava sentir fortes emoções individuais em reação à música.
lar do século XVIII, e n q u a n t o as violações dos corpos provocavam
U m a m u l h e r c o n t o u a sua reação à ó p e r a Alceste, de Gluck, q u e
mais e mais reações negativas.
estreou em Paris em 1776: "Escutei essa nova o b r a c o m u m a p r o -
funda atenção. [...] Desde os primeiros compassos fui invadida p o r
um forte s e n t i m e n t o de a d m i r a ç ã o r e v e r e n t e e senti d e n t r o de
A PESSOA A U T Ô N O M A
m i m esse i m p u l s o religioso c o m tal intensidade [...] que sem me
dar conta caí de joelhos no m e u camarote e permaneci nessa posi-
E m b o r a possa parecer q u e os corpos estão s e m p r e inerente-
ção, suplicante e c o m as m ã o s unidas, até o final da peça". A reação
m e n t e separados um do o u t r o , ao m e n o s após o n a s c i m e n t o , as
dessa m u l h e r é especialmente notável, p o r q u e ela (a carta é assi-
fronteiras entre os corpos se t o r n a r a m mais n i t i d a m e n t e definidas
nada Pauline de R***) traça um paralelo explícito c o m a experiên-
depois do século xiv. Os indivíduos se t o r n a r a m mais a u t ô n o m o s
cia religiosa. O f u n d a m e n t o de toda a autoridade estava se deslo-
à m e d i d a que s e n t i a m cada vez mais a necessidade de guardar p a r a
c a n d o d e u m a e s t r u t u r a religiosa t r a n s c e n d e n t a l p a r a u m a
si m e s m o s os seus excretos corporais. O limiar da v e r g o n h a b a i -
estrutura h u m a n a interior; m a s esse deslocamento só podia fazer
x o u , e n q u a n t o a pressão p o r a u t o c o n t r o l e a u m e n t o u . O ato de
sentido p a r a as pessoas se fosse e x p e r i m e n t a d o de um m o d o pes-
defecar ou u r i n a r em público t o r n o u - s e cada vez mais repulsivo.
soal, até m e s m o í n t i m o . 14

As pessoas c o m e ç a r a m a usar lenços em vez de assoar o nariz c o m


O s frequentadores d o teatro exibiam u m a tendência m a i o r

82
83
p a r a a s a r r u a ç a s d u r a n t e o s espetáculos d o q u e o s a m a n t e s d a assim, o m o v i m e n t o em direção à privacidade individual n ã o deve
m ú s i c a , m a s m e s m o n o t e a t r o novas p r á t i c a s a n u n c i a v a m u m ser exagerado, ao m e n o s na França. Os viajantes ingleses queixa-
f u t u r o diferente e m q u e a s peças s e r i a m r e p r e s e n t a d a s n u m a v a m - s e i n c e s s a n t e m e n t e d a p r á t i c a francesa d e três o u q u a t r o
a t m o s f e r a s e m e l h a n t e a u m silêncio religioso. D u r a n t e g r a n d e estranhos dormirem n u m mesmo quarto n u m a hospedaria
p a r t e do século xvin, os espectadores parisienses c o o r d e n a v a m os (ainda q u e em camas separadas), do uso de lavatórios à vista de
atos de tossir, cuspir, espirrar e soltar gases p a r a p e r t u r b a r os espe- todos, do ato de u r i n a r na lareira e do de jogar o c o n t e ú d o dos p e n i -
táculos de q u e n ã o gostavam, e d e m o n s t r a ç õ e s públicas de e m - cos na r u a pelas janelas. As suas queixas atestam, e n t r e t a n t o , um
briaguez e de brigas i n t e r r o m p i a m frequentemente as frases dos processo e m a n d a m e n t o e m a m b o s o s países. N a Inglaterra, u m
artistas. Para colocar os e s p e c t a d o r e s a u m a d i s t â n c i a m a i o r e n o v o e x e m p l o notável era o circuito de c a m i n h a d a no j a r d i m ,
assim t o r n a r m a i s difíceis as p e r t u r b a ç õ e s , a possibilidade de se desenvolvido nas grandes p r o p r i e d a d e s rurais entre as décadas de
s e n t a r no p a l c o foi e l i m i n a d a na França em 1759. Em 1782, os 1740 e 1760: o circuito fechado, c o m suas vistas e m o n u m e n t o s
esforços para estabelecer a o r d e m na plateia ou parterre culmina- c u i d a d o s a m e n t e escolhidos, destinava-se a intensificar a c o n t e m -
r a m na instalação de b a n c o s na C o m é d i e Française; antes disso, os plação e a recordação privadas. 16

e s p e c t a d o r e s na plateia a n d a v a m l i v r e m e n t e nesse espaço e às Os corpos s e m p r e t i n h a m sido centrais p a r a a p i n t u r a e u r o -


vezes c o m p o r t a v a m - s e mais c o m o u m a t u r b a d o q u e c o m o u m peia, m a s antes do século XVII e r a m c o m m u i t a frequência os cor-
público. E m b o r a os b a n c o s fossem a c a l o r a d a m e n t e contestados pos da Sagrada Família, dos santos católicos ou dos governantes e
na i m p r e n s a da época e vistos p o r alguns c o m o um a t a q u e p e r i - seus cortesãos. No século XVII e especialmente no xvin, mais pes-
goso à liberdade e franqueza da plateia, a direção dos acontecimen- soas c o m u n s c o m e ç a r a m a e n c o m e n d a r p i n t u r a s de si mesmas e de
tos t i n h a se t o r n a d o clara: as explosões coletivas d e v i a m dar lugar suas famílias. Depois de 1750, as exposições públicas regulares —
a experiências interiores individuais e mais tranquilas. 15
elas p r ó p r i a s u m a nova característica da vida social — apresenta-
A arquitetura residencial reforçava esse sentido de separação vam n ú m e r o s crescentes de retratos de pessoas c o m u n s em Lon-
do indivíduo. A "câmara" (chambre) nas casas francesas t o r n o u - s e dres e Paris, m e s m o que a p i n t u r a histórica ainda ocupasse oficial-
cada vez mais especializada na segunda m e t a d e do século xvin. A m e n t e a posição de premier genre.
sala, antes de finalidade geral, t r a n s f o r m o u - s e no " q u a r t o de d o r - Nas colônias britânicas na América do N o r t e , a arte do retrato
mir", e nas famílias mais ricas as crianças t i n h a m q u a r t o s de d o r - d o m i n a v a as artes visuais, em parte p o r q u e as tradições políticas e
m i r s e p a r a d o s do de seus pais. Dois terços das casas parisienses eclesiásticas e u r o p e i a s t i n h a m m e n o r p e s o . A i m p o r t â n c i a d o s
t i n h a m q u a r t o s d e d o r m i r n a s e g u n d a m e t a d e d o século x v i n , retratos só fez crescer nas colônias no século xvin: q u a t r o vezes
e n q u a n t o apenas u m a em sete tinha salas destinadas às refeições. A mais retratos foram p i n t a d o s nas colônias e n t r e 1750 e 1776 do
elite da sociedade parisiense c o m e ç o u a insistir n u m a variedade de q u e e n t r e 1700 e 1750, e m u i t o s desses r e t r a t o s r e p r e s e n t a v a m
q u a r t o s para uso privado, q u e iam desde os boudoirs (que vem do cidadãos c o m u n s e p r o p r i e t á r i o s de terras (figura 6 ) . Q u a n d o a
francês bouâer para " a m u a r - s e " — um q u a r t o para expressar seu p i n t u r a h i s t ó r i c a g a n h o u n o v a p r o e m i n ê n c i a na França sob a
m a u h u m o r em privado) à toalete e aos q u a r t o s de b a n h o . Ainda Revolução e o I m p é r i o Napoleónico, os retratos ainda constituíam

«s
uns 4 0 % das p i n t u r a s apresentadas n o s Salons. Os preços cobrados
pelos p i n t o r e s d e r e t r a t o s a u m e n t a r a m nas ú l t i m a s d é c a d a s d o
século xviii, e as gravuras levaram os retratos a um público m a i s
a m p l o do que os m o d e l o s originais e suas famílias. O mais famoso
pintor inglês da era, sir Joshua Reynolds, fez a sua reputação c o m o
retratista e, segundo H o r a c e Walpole, "resgatou a p i n t u r a de retra-
tos da insipidez". 17

U m e s p e c t a d o r c o n t e m p o r â n e o e x p r e s s o u o seu d e s d é m
depois de ver o n ú m e r o de retratos na exposição francesa de 1769:

A multidão de retratos, senhor, que me impressiona por toda parte,


força-me, a despeito de mim mesmo, a falar agora deste assunto e a
tratar deste tema árido e monótono que tinha reservado para o
final. Em vão o público há muito tempo reclama da multidão de
burgueses que deve passar incessantemente em revista. [...] A faci-
lidade do gênero, a sua utilidade e a vaidade de todas essas persona-
gens mesquinhas estimulam nossos artistas principiantes. [...] Gra-
ças ao infeliz gosto do século, o Salon está se tornando uma mera
galeria de retratos.

0 "infeliz g o s t o " do século e m a n a v a da I n g l a t e r r a , s e g u n d o os


franceses, e assinalava para m u i t o s a i m i n e n t e vitória do comércio
sobre a verdadeira arte. No seu artigo "Retrato" para a Encyclopédie
ile m u i t o s volumes de Diderot, o chevalier Louis de Jaucourt con-
cluía que "o gênero de p i n t u r a mais seguido e p r o c u r a d o na Ingla-
FIGURA 6. Retrato do capitão John Pigott feito por Joseph Blackburn 1 erra é o do retrato". Mais tarde no m e s m o século, o escritor Louis-
Como muitos artistas ativos nas colônias americanas, Joseph Blackburn
Sébastien Mercier t e n t o u t r a n q u i l i z a r os espíritos: "os ingleses
nasceu e foi muito provavelmente educado na Inglaterra antes de ir para
Bermuda em 1752 e no ano seguinte para Newport, em Rhode Island. si >bressaem nos retratos, e n a d a supera os retratos de Regnols [ sic],
Depois de pintar muitos retratos em Newport, Boston e Portsmouth, em entre os quais os principais exemplos são os maiores, em t a m a n h o
New Hampshire, ele retornou para a Inglaterra em 1764. Esta pintura a maturai, e no m e s m o p a t a m a r das p i n t u r a s históricas" (figura 7).
óleo do final da década de 1750 ou início dos anos 1760 (127 x 101,6 cm)
I )o seu c o s t u m e i r o m o d o a s t u t o , Mercier t i n h a c a p t a d o o ele-
forma um par com o retrato da esposa de Pigott. Blackburn era conhe-
cido por sua atenção minuciosa às rendas e a outros detalhes nas roupas. m e n t o crítico — na Inglaterra, os retratos e r a m comparáveis ao

87
principal gênero da Academia de Belas-Artes francesa, as p i n t u r a s
históricas. A pessoa c o m u m p o d i a e n t ã o ser heróica m e r a m e n t e
em v i r t u d e de sua individualidade. O c o r p o c o m u m t i n h a a g o r a
distinção. 18

É verdade que os retratos p o d i a m t r a n s m i t i r algo c o m p l e t a -


m e n t e diferente da i n d i v i d u a l i d a d e . À m e d i d a q u e a r i q u e z a
comercial crescia aos t r a n c o s e b a r r a n c o s na G r ã - B r e t a n h a , na
França e em suas colônias, e n c o m e n d a r retratos c o m o u m a m a r c a
d e s t a t u s e n o b r e z a refletia u m a u m e n t o m a i s geral d o c o n s u -
mismo. A semelhança n e m s e m p r e tinha i m p o r t â n c i a nessas e n c o -
mendas. As pessoas c o m u n s n ã o q u e r i a m parecer c o m u n s n o s seus
retratos, e alguns p i n t o r e s de retratos g a n h a r a m r e p u t a ç ã o m a i s
por sua capacidade de p i n t a r rendas, sedas e cetins do q u e faces.
Entretanto, e m b o r a os retratos às vezes focalizassem r e p r e s e n t a -
ções d e t i p o s o u alegorias d e v i r t u d e s o u riqueza, n a s e g u n d a
metade do século xvili esses retratos d i m i n u í r a m de i m p o r t â n c i a
q u a n d o os artistas e seus clientes c o m e ç a r a m a preferir r e p r e s e n -
l ações mais naturais da individualidade psicológica e fisionômica.
Além disso, a p r ó p r i a proliferação de retratos individuais e s t i m u -
lou a visão de q u e cada pessoa era um indivíduo — isto é, singular,
separado, distinto e original, e assim é que devia ser r e p r e s e n t a d o . "
As m u l h e r e s d e s e m p e n h a r a m um papel às vezes s u r p r e e n -
FIGURA 7. Retrato de lady Charlotte Fitz-William, mezzotinto feito por dente nesse desenvolvimento. A voga de romances c o m o Clarissa,
James MacArdell de umapintura realizada por sir Joshua Reynolds, 1754
que focalizavam m u l h e r e s c o m u n s c o m u m a rica v i d a i n t e r i o r ,
Reynolds ganhou fama por pintar retratos de figuras importantes da
sociedade britânica. Ele frequentemente pintava apenas as faces e as fazia c o m q u e as p i n t u r a s alegóricas de modelos f e m i n i n o s c o m
mãos de seus modelos, deixando ao cuidado de especialistas ou assisten- laces semelhantes a máscaras parecessem irrelevantes ou s i m p l e s -
tes a roupagem e a indumentária. Charlotte tinha somente oito anos na m e n t e decorativas. N o e n t a n t o , c o m o o s p i n t o r e s p r o c u r a v a m
época deste retrato, mas o seu penteado, os brincos e o broche de pérola
cada vez mais franqueza e intimidade psicológica nos s e u s r e t r a -
lhe dão uma aparência mais velha. Reproduções como esta levaram a
fama de Reynolds ainda mais longe. James MacArdell fez mezzotintos de los, a relação entre o p i n t o r e o m o d e l o tornou-se mais c a r r e g a d a
muitos retratos pintados por Reynolds. A legenda diz: "J. Reynolds pinxt. cie u m a visível tensão sexual, especialmente q u a n d o as m u l h e r e s
J. McArdell fecit. Lady Charlotte Fitz-William. Publicado por J. Reynolds pintavam os h o m e n s . Em 1775, James Boswell registrou as críticas
de acordo com a Lei do Parlamento 1754".
de Samuel Johnson contra as retratistas: "Ele [Johnson] achava a

89
p i n t u r a de retratos um e m p r e g o i m p r ó p r i o para as mulheres. 'A
prática pública de q u a l q u e r arte, e o ato de perscrutar a face dos
h o m e n s , é algo m u i t o i n d e l i c a d o n u m a mulher'". Ainda assim,
várias p i n t o r a s de retratos se t o r n a r a m verdadeiras celebridades
na ú l t i m a m e t a d e do século xvin. Denis D i d e r o t e n c o m e n d o u o
seu retrato a u m a delas, a artista alemã A n n a T h e r b u s c h . Na sua
crítica do Salon de 1767, o n d e a p i n t u r a apareceu, Diderot sentiu
q u e precisava se defender c o n t r a a sugestão de que t i n h a d o r m i d o
c o m a artista, " u m a m u l h e r q u e n ã o é bonita". Mas ele t a m b é m teve
de a d m i t i r q u e sua filha ficou t ã o i m p r e s s i o n a d a c o m a s e m e -
lhança do retrato feito p o r T h e r b u s c h q u e precisava se controlar
p a r a n ã o o beijar cem vezes, na ausência de seu pai, p o r m e d o de
arruinar a pintura. 20

Assim, e m b o r a alguns críticos talvez julgassem a semelhança


n o s r e t r a t o s s e c u n d á r i a p a r a o valor estético, a p a r e c e n ç a era
o b v i a m e n t e m u i t o valorizada p o r m u i t o s clientes e p o r um cres-
cente n ú m e r o de críticos. No seu autorrevelador Journal to Eliza,
escrito em 1767, Laurence Sterne se refere r e p e t i d a m e n t e à "sua
doce I m a g e m s e n t i m e n t a l " — o retrato de Eliza, provavelmente
feito p o r R i c h a r d Cosway, t u d o o q u e ele t e m de sua a m a d a
ausente. "A sua I m a g e m é Você Mesma — t o d a Sentimento, Suavi-
dade e Verdade. [...] Original m u i t o querida! C o m o se parece c o m FIGURA 8. Fisionotraço de Jefferson
você — e se parecerá — até q u e você a faça desaparecer pela sua A legenda diz: Quenedy dei. ad vivum et sculpt. (Traçado a partir
presença." Assim c o m o aconteceu no r o m a n c e epistolar, t a m b é m modelo vivo e gravado por Quenedey.)

na pintura de retratos as mulheres d e s e m p e n h a r a m um papel


f u n d a m e n t a l no processo da e m p a t i a . A i n d a q u e a m a i o r i a d o s
h o m e n s , e m teoria, quisesse q u e a s m u l h e r e s c o n s e r v a s s e m o s
papéis de m o d é s t i a e v i r t u d e , na prática as m u l h e r e s inevitavel-
m e n t e representavam e assim evocavam o sentimentalismo, u m a
atitude q u e s e m p r e ameaçava ir além das suas p r ó p r i a s fronteiras. 21

T ã o valorizada era a s e m e l h a n ç a , p o r fim, q u e em 1786 o


músico e gravurista francês Gilles-Louis C h r é t i e n i n v e n t o u u m a

c
90
máquina chamada fisionotraço, que produzia mecanicamente estimuladas para fazer o b e m e dissuadidas de seguir seus instintos
retratos de perfil (ver figura 8). O perfil original em t a m a n h o n a t u - mais baixos. Essa tendência para o m a l na h u m a n i d a d e resultava
ral era depois reduzido e gravado sobre u m a placa de cobre. Entre do p e c a d o original, a d o u t r i n a cristã de q u e t o d o s são i n a t a m e n t e
as centenas de perfis produzidos p o r Chrétien, primeiro em cola- predispostos para o p e c a d o desde q u e Adão e Eva foram privados
b o r a ç ã o c o m E d m é Quenedey, um m i n i a t u r i s t a , e depois rivali- da graça de Deus no j a r d i m do Éden.
z a n d o c o m ele, encontrava-se um de T h o m a s Jefferson p r o d u z i d o Os escritos de Pierre-François M u y a r t de Vouglans nos d ã o
em abril de 1789. Um emigrado francês introduziu o processo nos u m a c o m p r e e n s ã o rara da posição tradicionalista, pois ele foi um
Estados U n i d o s , e Jefferson m a n d o u fazer o u t r o perfil em 1804. dos p o u c o s juristas q u e aceitaram o desafio de Beccaria e publica-
Agora u m a curiosidade histórica há m u i t o obscurecida pelo surgi- ram defesas dos m é t o d o s antigos. Além de suas m u i t a s obras sobre
m e n t o da fotografia, o fisionotraço é ainda o u t r o sinal do interesse a lei criminal, Muyart t a m b é m escreveu ao m e n o s dois panfletos
em representar pessoas c o m u n s — Jefferson à parte — e em captar d e f e n d e n d o o c r i s t i a n i s m o e a t a c a n d o seus críticos m o d e r n o s ,
as m e n o r e s diferenças entre cada pessoa. Além disso, c o m o suge- especialmente Voltaire. Em 1767, publicou u m a refutação, p o n t o
rem os comentários de Sterne, o retrato, especialmente a miniatura, por p o n t o , das ideias de Beccaria. Opôs-se n o s t e r m o s mais fortes
servia frequentemente c o m o um desencadeador de lembranças e à tentativa de Beccaria de f u n d a m e n t a r o seu sistema sobre "os sen-
u m a o p o r t u n i d a d e para reencontrar u m a e m o ç ã o amorosa. 22
(imentos inefáveis do coração". "Eu me o r g u l h o de ter tanta sensi-
bilidade q u a n t o q u a l q u e r pessoa", insistia, " m a s sem dúvida n ã o
l e n h o u m a o r g a n i z a ç ã o d e fibras [ t e r m i n a ç õ e s nervosas] t ã o

O E S P E T Á C U L O P Ú B L I C O DA DOR
frouxa q u a n t o a de nossos m o d e r n o s criminalistas, pois não senti
esse e s t r e m e c i m e n t o suave de q u e falam." Em vez disso, M u y a r t

C a m i n h a r pelo j a r d i m , escutar música em silêncio, usar um sentiu surpresa, para n ã o dizer choque, q u a n d o viu que Beccaria

lenço e ver retratos são t o d a s ações q u e p a r e c e m a c o m p a n h a r a construiu seu sistema sobre as ruínas de t o d o o senso c o m u m . 23

imagem do leitor empático, e q u e parecem c o m p l e t a m e n t e i n c o n - M u y a r t z o m b o u d a a b o r d a g e m racionalista d e Beccaria.


gruentes c o m a t o r t u r a e execução de Jean Calas. Mas os p r ó p r i o s " S e n t a d o no seu g a b i n e t e , [o a u t o r ] c o m e ç a a redigir as leis de
juízes e legisladores que sustentavam o sistema legal tradicional e Iodas as nações e nos leva a c o m p r e e n d e r q u e até agora n u n c a tive-
d e f e n d i a m até a sua d u r e z a s e m d ú v i d a e s c u t a v a m m ú s i c a em mos um p e n s a m e n t o exato ou sólido sobre esse assunto crucial." A
silêncio, e n c o m e n d a v a m retratos e p o s s u í a m casas c o m q u a r t o s de razão de ser tão difícil reformar a lei criminal, segundo Muyart, era
dormir, e m b o r a talvez n ã o tivessem lido os r o m a n c e s p o r causa da q u e ela estava baseada sobre a lei positiva e d e p e n d i a m e n o s do
sua associação c o m a s e d u ç ã o e a devassidão. Os m a g i s t r a d o s raciocínio q u e da experiência e da prática. O q u e a experiência
endossavam o sistema tradicional de crime e castigo p o r q u e acre- ensinava era a necessidade de controlar os indisciplinados, e n ã o
ditavam que os culpados do crime só p o d i a m ser controlados p o r .1 lagar as suas sensibilidades: " Q u e m , de fato, n ã o sabe que, c o m o
u m a força externa. Na visão tradicional, as pessoas c o m u n s n ã o ()s h o m e n s são m o d e l a d o s pelas suas paixões, o seu t e m p e r a m e n t o
s a b i a m regular suas p r ó p r i a s paixões. T i n h a m de ser lideradas, d o m i n a m u i t o frequentemente os seus sentimentos?". Os h o m e n s

92 93
devem ser julgados c o m o são, n ã o c o m o deveriam ser, ele insistia,
e só o p o d e r de u m a justiça vingadora q u e inspira um t e m o r reve-
rente podia refrear esses t e m p e r a m e n t o s . 24

A ostentação da d o r no cadafalso era destinada a insuflar o


t e r r o r n o s e s p e c t a d o r e s e dessa f o r m a servia c o m o u m i n s t r u -
m e n t o de dissuasão. Os que a p r e s e n c i a v a m — e as multidões e r a m
frequentemente i m e n s a s — e r a m levados a se identificar c o m a d o r
da pessoa c o n d e n a d a e, p o r m e i o dessa e x p e r i ê n c i a , a sentir a
majestade e s m a g a d o r a da lei, do Estado e, em última instância, de
D e u s . Muyart, p o r t a n t o , achava revoltante q u e Beccaria tentasse
justificar os seus a r g u m e n t o s p o r referência à "sensibilidade em
relação à d o r do culpado". Essa sensibilidade fazia o sistema tradi-
cional funcionar. "Precisamente p o r q u e cada h o m e m se identifi-
cava com o q u e acontecia ao o u t r o e p o r q u e ele tinha um h o r r o r 9. Procissão para Tyburn, por William Hogarth, 1747
F I G U R A

n a t u r a l à dor, era necessário preferir, na escolha d o s castigos, 0 aprendiz ocioso executado em Tyburn é a ilustração 11 da série de
aquele que fosse mais cruel p a r a o c o r p o do culpado." 25 1 logarth Industryand Idleness [Atividade e ociosidade], que compara o
destino de dois aprendizes. Esta representa o triste fim de Thomas Idle, o
Pela c o m p r e e n s ã o tradicional, as dores do c o r p o n ã o perten- aprendiz ocioso [em inglês, the idle apprentice]. A forca pode ser vista no
ciam i n t e i r a m e n t e à pessoa c o n d e n a d a i n d i v i d u a l . Essas d o r e s fundo à direita, perto da tribuna para a multidão. Um pregador meto-
t i n h a m os propósitos religiosos e políticos mais elevados da reden- dista discursa enfadonhamente para o prisioneiro, que está provavel-
mente lendo a sua Bíblia enquanto é transportado de carroça ao lado de
ção e reparação da c o m u n i d a d e . Os corpos p o d i a m ser mutilados
seu caixão. Um homem vende bolos no primeiro plano à direita. O seu
c o m o objetivo de i m p o r a autoridade, e q u e b r a d o s ou q u e i m a d o s cesto está rodeado por quatro velas porque ele está ali desde o amanhe-
c o m o objetivo de restaurar a o r d e m m o r a l , política e religiosa. Em cer, servindo as pessoas que chegaram cedo para conseguir bons lugares.
o u t r a s palavras, o ofensor servia c o m o u m a espécie de v í t i m a I Im garoto está roubando a sua carteira. Atrás da mulher apregoando a
confissão de Thomas Idle está outra, vendendo gim guardado no cesto
sacrificai, cujo sofrimento restauraria a i n t e g r i d a d e da c o m u n i -
preso à sua cintura. À sua frente uma mulher dá um soco num homem,
dade e a o r d e m do Estado. A natureza sacrificai do rito na França enquanto outro homem ali perto se prepara para atirar um cachorro no
era s u b l i n h a d a pela inclusão de um ato formal de p e n i t ê n c i a (a pregador. Hogarth capta toda a desordem da multidão da execução. A
amende honorablé) em m u i t a s sentenças francesas, q u a n d o o cri- legenda diz: "Desenhado & Gravado por Wm Hogarth Publicado
m i n o s o c o n d e n a d o carregava u m a tocha de fogo e parava na frente segundo a Lei do Parlamento 30 de setembro de 1747".

de u m a igreja para pedir p e r d ã o a c a m i n h o do cadafalso. 26

C o m o a p u n i ç ã o era um rito sacrificai, a festividade inevita-


velmente a c o m p a n h a v a e às vezes eclipsava o m e d o . As execuções
públicas r e u n i a m milhares de pessoas para celebrar a recuperação

94
c o m u n i t á r i a do d a n o do crime. As execuções em Paris ocorriam na sas sobre as t o r t u r a s infligidas a nossos semelhantes". Desnecessá-
m e s m a praça — a Place de Greve — em q u e os fogos de artifício rio dizer, n ã o é " s e m d ú v i d a " q u e essa fosse a e m o ç ã o p r e d o m i -
celebravam os nascimentos e os casamentos da família real. C o m o nante das m u l h e r e s . A m u l t i d ã o já n ã o sentia as e m o ç õ e s q u e o
os observadores frequentemente relatavam, entretanto, essa festivi- espetáculo se destinava a provocar. 28

d a d e t i n h a em si u m a qualidade imprevisível. As classes inglesas A dor, o castigo e o espetáculo público do sofrimento p e r d e -


educadas expressavam cada vez mais a sua desaprovação das "cenas ram t o d o s as suas a m a r r a s religiosas na segunda m e t a d e do século
espantosas de embriaguez e devassidão" que a c o m p a n h a v a m t o d a xviii, m a s o processo n ã o a c o n t e c e u de r e p e n t e e n ã o era m u i t o
execução em Tyburn (figura 9). Em cartas, os observadores deplo- b e m c o m p r e e n d i d o à época. M e s m o Beccaria deixou de ver todas
r a v a m q u e a m u l t i d ã o ridicularizasse os clérigos enviados p a r a as consequências do n o v o p e n s a m e n t o q u e ele t a n t o c o n t r i b u i u
prestar assistência aos prisioneiros, que os aprendizes de cirurgiões para cristalizar. Q u e r i a p ô r a lei n u m a base r o u s s e a u n i a n a em vez
e os amigos dos executados brigassem pelos cadáveres, e de m o d o <le religiosa: as leis "devem ser convenções entre os h o m e n s n u m
geral q u e houvesse a expressão de u m a "espécie de Alegria, c o m o se estado de liberdade", sustentava. Mas e m b o r a argumentasse em fa-
o Espetáculo que t i n h a m presenciado lhes proporcionasse Prazer vor de u m a m o d e r a ç ã o do c a s t i g o — q u e deveria ser "o m e n o r p o s -
em vez de Dor". Relatando um enforcamento no inverno de 1776, o sível no caso d a d o " e " p r o p o r c i o n a l ao c r i m e " —, Beccaria ainda
MorningPostde Londres reclamava que a "multidão impiedosa se insistia q u e ele deveria ser público. Para ele, a exposição pública
c o m p o r t a v a c o m u m a indecência e x t r e m a m e n t e d e s u m a n a — g r i - garantia a transparência da lei. 29

t a n d o , r i n d o , a t i r a n d o bolas d e neve u n s n o s o u t r o s , p r i n c i p a l - Na visão individualista e secular que nascia, as dores p e r t e n -


m e n t e naqueles poucos que manifestavam u m a compaixão a p r o - ciam apenas ao sofredor, aqui e agora. A atitude em relação à d o r
priada pelas desgraças de seus semelhantes". 27
não m u d o u p o r causa d o aperfeiçoamento m é d i c o n o t r a t a m e n t o
M e s m o q u a n d o a m u l t i d ã o era m a i s m o d e r a d a , só o seu da dor. Os q u e exerciam a medicina tentavam certamente aliviar a
t a m a n h o já podia ser p e r t u r b a d o r . Um visitante britânico em Paris dor à época, m a s os verdadeiros passos pioneiros em anestesia só
relatou u m a execução pelo suplício da r o d a em 1787: "O b a r u l h o aconteceram em m e a d o s do século xix, c o m o uso do éter e do clo-
da m u l t i d ã o era c o m o o m u r m ú r i o rouco causado pelas ondas do rofórmio. Em vez disso, a m u d a n ç a de atitude surgiu c o m o u m a
m a r q u e b r a n d o a o longo d e u m a costa rochosa: p o r u m m o m e n t o consequência da reavaliação do corpo individual e de suas dores.
amainava; e n u m silêncio terrível a m u l t i d ã o contemplava o car- (:omo a d o r e o p r ó p r i o c o r p o agora p e r t e n c i a m s o m e n t e ao indi-
rasco pegar u m a b a r r a de ferro e dar início à tragédia, golpeando o víduo, e n ã o à c o m u n i d a d e , o indivíduo já n ã o podia ser sacrifi-
antebraço da vítima". M u i t o p e r t u r b a d o r p a r a este e m u i t o s o u t r o s cado p a r a o b e m da c o m u n i d a d e ou para um propósito religioso
observadores era o g r a n d e n ú m e r o de espectadoras: "É espantoso mais elevado. C o m o o r e f o r m a d o r inglês H e n r y Dagge insistia, "o
q u e a p a r t e mais delicada da criação, cujos s e n t i m e n t o s são t ã o b e m da sociedade é p r o m o v i d o c o m mais sucejsso pelo respeito aos
r e q u i n t a d a m e n t e ternos e refinados, venha em grandes n ú m e r o s indivíduos". Em vez da expiação de um p e c a d o , o castigo devia ser
para ver um espetáculo tão sangrento; m a s , sem dúvida, é a pie- visto c o m o o p a g a m e n t o de u m a " d í v i d a " c o m a sociedade, e clara-
dade, a compaixão b o n d o s a que sentem o q u e as t o r n a tão ansio- mente n e n h u m p a g a m e n t o p o d i a ser esperado d e u m corpo m u t i -

V. '
96 97
lado. Se a d o r t i n h a servido c o m o o símbolo da reparação no antigo década de 1780. M u i t o s advogados, p o r exemplo, p u b l i c a r a m p e t i -
regime, agora a d o r parecia um obstáculo a qualquer quitação sig- ções na década de 1760 d e n u n c i a n d o a injustiça da c o n d e n a ç ã o de
nificativa. N u m exemplo dessa m u d a n ç a de visão, m u i t o s juízes Calas, mas, c o m o Voltaire, n e n h u m deles se o p u n h a ao e m p r e g o da
nas colônias britânicas na América do N o r t e c o m e ç a r a m a i m p o r lortura judicial ou ao suplício da roda. Eles t a m b é m focalizavam o
m u l t a s p o r delitos c o n t r a a p r o p r i e d a d e em vez de chibatadas. 30
fanatismo religioso, q u e estavam convencidos de haver i n c i t a d o

Na nova visão, c o n s e q u e n t e m e n t e , o castigo cruel executado tanto as pessoas c o m u n s c o m o os juízes em Toulouse. As petições

n u m cenário público constituía um ataque à sociedade, em vez de se alongavam sobre o m o m e n t o da t o r t u r a e m o r t e de Jean Calas,

sua reafirmação. A d o r brutalizava o indivíduo — e p o r identifica- mas sem questionar a sua legitimidade c o m o i n s t r u m e n t o s penais.

ção os espectadores — em vez de abrir a p o r t a p a r a a salvação p o r Na verdade, as petições em favor de Calas essencialmente s u s -
m e i o do a r r e p e n d i m e n t o . Assim, o advogado inglês William Eden tentavam as pressuposições q u e estão p o r trás da t o r t u r a e do cas-
d e n u n c i o u a exposição dos cadáveres: " d e i x a m o - n o s a p o d r e c e r tigo cruel. Os defensores de Calas p r e s s u p u n h a m q u e o c o r p o c o m
c o m o espantalhos nas sebes, e nossas forcas estão a m o n t o a d a s de a d o r diria a verdade: Calas p r o v o u a sua inocência q u a n d o c o n t i -
carcaças h u m a n a s . Alguma dúvida de q u e u m a familiaridade for- n u o u s u s t e n t a n d o - a m e s m o c o m a d o r e o sofrimento (figura 10).
çada c o m esses objetos possa ter qualquer o u t r o efeito que não seja lim linguagem típica do lado p r ó - C a l a s , Alexandre-Jerôme Loy-
o de e m b o t a r os sentimentos e destruir os preconceitos benevolen- seau de M a u l é o n insistia q u e " C a l a s s u p o r t o u a questão [a t o r t u r a ]
tes das pessoas?". Em 1787, Benjamin Rush podia afastar até as últi- c o m u m a resignação h e r o i c a q u e s ó p e r t e n c e à inocência". E n -
m a s dúvidas. "A reforma de um c r i m i n o s o jamais p o d e ser levada q u a n t o seus ossos estavam s e n d o esmagados um a u m , Calas p r o -
a efeito p o r um castigo público", afirmava sem rodeios. O castigo n u n c i o u "estas palavras c o m o v e n t e s " : " M o r r o i n o c e n t e ; Jesus
p ú b l i c o d e s t r ó i q u a l q u e r sensação d e v e r g o n h a , n ã o p r o d u z Cristo, a p r ó p r i a inocência, desejou fervorosamente m o r r e r c o m
m u d a n ç a s d e a t i t u d e e , e m vez d e f u n c i o n a r c o m o u m i n s t r u - u m s o f r i m e n t o ainda m a i s c r u e l . D e u s p u n e e m m i m o p e c a d o
m e n t o de dissuasão, t e m o efeito oposto nos espectadores. E m b o r a daquele infeliz [o filho de Calas] q u e se m a t o u . [...] Deus é justo, e
concordasse c o m Beccaria na sua oposição à p e n a de m o r t e , o dr. adoro os seus castigos". Loyseau a r g u m e n t a v a , além do mais, q u e a
Rush o a b a n d o n a v a ao a r g u m e n t a r que o castigo devia ser privado, "perseverança majestosa" do velho Calas provocou u m a inversão
m i n i s t r a d o p o r trás das paredes de u m a prisão e o r i e n t a d o p a r a a dos s e n t i m e n t o s da p o p u l a ç ã o . V e n d o - o afirmar r e p e t i d a m e n t e a
reabilitação, isto é, a readaptação do c r i m i n o s o à sociedade e à sua sua i n o c ê n c i a d u r a n t e os seus t o r m e n t o s , o p o v o de T o u l o u s e
liberdade pessoal, "tão cara a t o d o s os homens". 31
c o m e ç o u a sentir compaixão e a se a r r e p e n d e r da suspeita irracio-
nal q u e antes sentia em relação ao calvinista. Cada golpe da vara de
I erro "soava.no fundo das a l m a s " daqueles que presenciavam a exe-
(. tição, e "torrentes de lágrimas se d e r r a m a v a m , tarde demais, de
OS ESTERTORES DA TORTURA
lodos os olhos presentes". As " t o r r e n t e s de lágrimas" seriam s e m -
pre " d e m a s i a d o tardias" e n q u a n t o as pressuposições p o r trás da
A conversão das elites às novas visões da d o r e da p u n i ç ã o
lortura e do castigo cruel c o n t i n u a s s e m sem q u e s t i o n a m e n t o . 32

ocorreu em estágios entre o início da década de 1760 e o final da

98 99
A principal dessas pressuposições era a de q u e a t o r t u r a podia
incitar o c o r p o a falar a verdade, m e s m o q u a n d o a m e n t e indivi-
dual resistisse. U m a longa t r a d i ç ã o fisionômica na E u r o p a t i n h a
sustentado que o caráter p o d i a ser d e s v e n d a d o a partir das marcas
()u sinais do corpo. No final do século xvi e no XVII foram publica-
das várias obras sobre "metoposcopia", p r o m e t e n d o ensinar os lei-
lores a interpretar o caráter ou a sorte de u m a pessoa a partir das
linhas, rugas ou m a n c h a s na face. Um dos títulos típicos era o de
Richard Saunders: Physiognomie, and Chiromancie, Metoposcopie,
The Symmetrical Proportions and Signal Moles of the Body, Fully
and Accurately Explained, with their Natural-Predictive Significa-
lionsBoth toMen and Women [Fisionomia e quiromancia, metopos-
copia, as proporções simétricas e os sinais do corpo plenamente e acu-
radamente explicados, com suas significações naturais previsíveis
tanto para os homens como para as mulheres], publicado em 1653.
Sem ter de e n d o s s a r as v a r i a n t e s m a i s e x t r e m a s dessa t r a d i ç ã o ,
muitos e u r o p e u s acreditavam q u e os corpos p o d i a m revelar a pes-
soa interior de u m a forma involuntária. E m b o r a remanescentes
FIGURA IO. Sentimentalizando o caso Calas desse p e n s a m e n t o a i n d a p u d e s s e m ser e n c o n t r a d o s n o f i n a l d o
A reprodução do caso Calas que teve circulação mais ampla foi esta, em
século xviii e início do xix, na forma, p o r exemplo, da frenología, a
tamanho grande (originalmente 34 x 45 cm), realizada pelo artista e gra-
vurista alemão Daniel Chodowiecki, que fez a gravura a partir de sua pró- maioria dos cientistas e médicos se virou contra ele depois de 1750.
pria pintura a óleo da cena. A água-forte estabeleceu a sua reputação e Argumentavam que a aparência exterior do corpo não tinha
manteve viva a afronta sentida por toda parte devido ao castigo de Calas. n e n h u m a relação c o m a a l m a ou caráter interior. Assim, o crimi-
Chodowiecki tinha se casado com uma mulher pertencente a uma famí-
noso p o d i a dissimular, e o i n o c e n t e p o d i a m u i t o b e m confessar
lia de refugiados protestantes franceses em Berlim apenas três anos antes
de produzir esta gravura. um crime q u e n ã o cometera. C o m o Beccaria insistia ao a r g u m e n -
tar c o n t r a a t o r t u r a , "o r o b u s t o escapará e o fraco será condenado".
A dor, na análise de Beccaria, n ã o p o d i a ser "o teste da verdade,
c o m o se a verdade residisse nos m ú s c u l o s e fibras de um desgra-
çado sob tortura". A d o r era m e r a m e n t e u m a sensação sem cone-
xão c o m o s e n t i m e n t o m o r a l . ' 3

Os relatos dos advogados diziam relativamente p o u c o sobre


I reação de Calas à t o r t u r a , p o r q u e "a questão" ocorria em privado,

101
longe dos olhos dos observadores. A aplicação privada da t o r t u r a o u t r o s e s t a v a m p r o n t o s a fazê-lo em seu n o m e . O seu t r a d u t o r
t o r n a v a - a especialmente repulsiva aos olhos de Beccaria. Signifi- francês, o abade A n d r é Morellet, m o d i f i c o u a o r d e m da apresen-
cava q u e o acusado perdia a sua "proteção pública" m e s m o antes de lação de Beccaria p a r a c h a m a r a a t e n ç ã o p a r a a ligação com os
ser considerado culpado, e que qualquer valor impeditivo da p u n i - "direitos do h o m e m " . Morellet t i r o u a ú n i c a referência de Becca-
ção t a m b é m se perdia. Os juízes franceses t a m b é m começavam cla- ria a seu objetivo de a p o i a r os "direitos do h o m e m " (i diritti degli
r a m e n t e a sentir algumas dúvidas, sobretudo a respeito da t o r t u r a uomini) do final do c a p í t u l o 11 na e d i ç ã o i t a l i a n a o r i g i n a l de
p a r a conseguir confissões de culpa. Depois de 1750, os parlements 1764, p a s s a n d o - a p a r a a i n t r o d u ç ã o da t r a d u ç ã o francesa de 1766.
franceses (tribunais regionais de apelação) c o m e ç a r a m a intervir D e f e n d e r os d i r e i t o s do h o m e m a g o r a p a r e c i a ser o principal
para i m p e d i r o uso da t o r t u r a antes do julgamento do caso ("tor- objetivo de Beccaria, e esses d i r e i t o s e r a m a f i r m a d o s c o m o o
t u r a p r e p a r a t ó r i a " ) , c o m o o Parlementde Toulouse fez no caso baluarte essencial c o n t r a o sofrimento individual. O rearranjo de
Calas. Eles t a m b é m decretavam c o m m e n o s frequência a p e n a de Morellet foi a d o t a d o em m u i t a s t r a d u ç õ e s subsequentes e até em
m o r t e , e o r d e n a v a m mais a m i ú d e que o c o n d e n a d o fosse estrangu- edições italianas p o s t e r i o r e s . 36

lado antes de ser q u e i m a d o na fogueira ou colocado sobre a roda. 34

Apesar dos esforços de Muyart, a m a r é se virou contra a tor-


Mas os juízes n ã o r e n u n c i a r a m t o t a l m e n t e à t o r t u r a , e n ã o tura na década de 1760. E m b o r a tivessem sido publicados ante-
teriam concordado com o desprezo de Beccaria pela estrutura reli- r i o r m e n t e ataques à t o r t u r a , o fio d'água das publicações se t o r n o u
giosa da tortura. O reformador italiano denunciava sumariamente u m a t o r r e n t e . L i d e r a n d o as acusações estavam as m u i t a s t r a d u -
"outro motivo ridículo para a tortura, a saber, limpar um homem da ções, reimpressões e reedições de Beccaria. U m a s 28 edições italia-
infâmia". Esse "absurdo" só podia ser explicado c o m o "fruto da reli- nas, m u i t a s c o m falsos cólofons, e nove francesas foram publicadas
gião". C o m o a própria tortura era u m a causa de infâmia para a vítima, antes de 1800, apesar de o livro ter aparecido no índex papal dos
n ã o podia lavar a m a n c h a . Muyart de Vouglans defendia a t o r t u r a livros proibidos em 1766. U m a t r a d u ç ã o inglesa foi publicada em
contra os argumentos de Beccaria. O exemplo de um inocente falsa- Londres em 1767, e a ela se seguiram edições em Glasgow, Dublin,
m e n t e c o n d e n a d o empalidecia e m c o m p a r a ç ã o aos "milhões d e E d i m b u r g o , Charleston e Philadelphia. Traduções alemãs, holan-
outros" que eram culpados, mas que jamais p o d e r i a m ter sido con- desas, polonesas e espanholas apareceram p o u c o depois. O t r a d u -
denados sem o emprego da tortura. A tortura judicial não só era, por- tor l o n d r i n o de Beccaria c a p t o u o espírito mutável dos t e m p o s : "as
tanto, útil, c o m o t a m b é m podia ser justificada pela antiguidade e leis penais [...] ainda são tão imperfeitas, e se fazem a c o m p a n h a r
universalidade de seu emprego. As exceções frequentemente citadas p o r tantas circunstâncias desnecessárias de crueldade em todas as
só provavam a regra, insistia Muyart, que devia ser procurada na his- nações, que u m a tentativa de reduzi-las ao p a d r ã o da razão deve
tória da p r ó p r i a França e no Sacro I m p é r i o R o m a n o . S e g u n d o interessar a t o d a a h u m a n i d a d e " . 37

Muyart, o sistema de Beccaria contradizia a lei canónica, a lei civil, a


A crescente influência de Beccaria era tão dramática que os
lei internacional e a "experiência de todos os séculos".
opositores do I l u m i n i s m o acusavam a existência de u m a conspi-
O p r ó p r i o Beccaria n ã o enfatizava a c o n e x ã o e n t r e as suas ração. U m a coincidência q u e ao caso Calas tivesse sucedido o tra-
visões sobre a t o r t u r a e a nascente l i n g u a g e m d o s direitos. M a s tado definidor sobre a reforma penal? Redigido, além do mais, p o r

102
103
um italiano anteriormente ignoto, com conhecimento apenas D u r a n t e as décadas de 1770 e 1780, a c a m p a n h a pela abolição

superficial da lei? Em 1779, o s e m p r e i n c e n d i á r i o j o r n a l i s t a da t o r t u r a e pela m o d e r a ç ã o do castigo g a n h o u i m p u l s o q u a n d o

Simon-Nicolas-Henri Linguet noticiou que u m a testemunha sociedades eruditas nos estados italianos, n o s cantões suíços e na

havia lhe exposto t u d o : França o f e r e c e r a m p r ê m i o s p a r a os m e l h o r e s e n s a i o s s o b r e a


reforma penal. O governo francês a c h o u a intensidade crescente da
crítica tão p r e o c u p a n t e q u e o r d e n o u que a academia de C h â l o n s -
Pouco depois do caso Calas, os enciclopedistas, armados com os
- s u r - M a r n e parasse d e i m p r i m i r cópias d o e n s a i o v e n c e d o r d e
tormentos da vítima e aproveitando circunstâncias propícias,
1780, de Jacques-Pierre Brissot de Warville. Mais do q u e q u a l q u e r
embora sem se comprometer diretamente, como é o seu costume,
nova proposta, a retórica injuriosa de Brissot d i s p a r o u os alarmes:
escreveram ao reverendo padre Barnabite em Milão, que é seu ban-
queiro italiano e um famoso matemático. Contaram-lhe que era o
momento de desencadear uma catilinária contra o rigor dos casti- Esses direitos sagrados que o homem recebeu da natureza, que a

gos e contra a intolerância; que a filosofia italiana devia fornecer a sociedade viola tão frequentemente com o seu aparato judicial,

artilharia, e eles fariam uso dela secretamente em Paris. ainda requerem a supressão de muitos de nossos castigos mutilado-
res e a suavização daqueles que devemos preservar. É inconcebível
que uma nação gentil [douce], vivendo num clima temperado sob
Linguet reclamava q u e o t r a t a d o de Beccaria era a m p l a m e n t e visto
c o m o u m a petição indireta em favor de Calas e outras recentes víti- um governo moderado, possa combinar um caráter amável e costu-

mas de injustiça. mes pacíficos com a atrocidade de canibais. Pois os nossos castigos
judiciais exalam apenas sangue e morte, e só tendem a inspirar fúria
A influência de Beccaria a j u d o u a galvanizar a c a m p a n h a
e desespero no coração do acusado.
contra a t o r t u r a , m a s no início o processo foi lento. Dois artigos
sobre a t o r t u r a na Encyclopédie de Diderot, a m b o s publicados em
1765, c a p t a m a ambiguidade. No primeiro, sobre a jurisprudência O governo francês n ã o gostou de se ver c o m p a r a d o a canibais, m a s

da t o r t u r a , A n t o i n e - G a s p a r d Boucher d'Argis se refere prosaica- na década de 1780 a barbárie da t o r t u r a judicial e o castigo cruel

m e n t e aos " t o r m e n t o s v i o l e n t o s " a q u e o a c u s a d o é s u b m e t i d o , t i n h a m s e t o r n a d o u m m a n t r a d a r e f o r m a . E m 1781, J o s e p h -

m a s s e m n e n h u m j u l g a m e n t o s o b r e o seu m é r i t o . N o a r t i g o - M i c h e l - A n t o i n e Servan, u m antigo defensor d a reforma penal,

seguinte, entretanto, q u e considerava a t o r t u r a p a r t e do procedi- aplaudiu a recente decisão de Luís xvi de abolir a t o r t u r a p a r a obter

m e n t o c r i m i n a l , o chevalier de J a u c o u r t m a r t e l a c o n t r a o seu u m a confissão de culpa, "essa infame t o r t u r a que p o r tantos sécu-

e m p r e g o , d e s d o b r a n d o t o d o s os a r g u m e n t o s existentes desde a los u s u r p o u o t e m p l o da p r ó p r i a justiça e o t r a n s f o r m o u n u m a

"voz da h u m a n i d a d e " às deficiências da t o r t u r a em fornecer u m a escola de s o f r i m e n t o , o n d e os carrascos professavam o refina-

evidência segura da culpa ou da i n o c ê n c i a . D u r a n t e a s e g u n d a m e n t o da dor". A t o r t u r a judicial era p a r a ele " u m a espécie de

m e t a d e da década de 1760, cinco novos livros a p a r e c e r a m advo- esfinge [...] um m o n s t r o a b s u r d o i n d i g n o de e n c o n t r a r asilo entre

gando a reforma da lei criminal. Na década de 1780, em contraste, os povos selvagens". 40

39 livros desse tipo foram publicados. 19


Encorajado p o r o u t r o s reformadores apesar de sua j u v e n t u d e

104 105
e falta de experiência, Brissot se dedicou em seguida a publicar u m a e n t r e t a n t o , a pressão de m e u s ferros (eu [isto é, D u p a t y ] p o s s o
o b r a de dez volumes, Bibliothèquephilosophique du Législateur, du m u i t o b e m acreditar, t r i n t a meses nos ferros!) m a c h u c o u t a n t o a
Politique et du Juriconsulte (1782-5), q u e teve de ser impressa na m i n h a p e r n a q u e ela g a n g r e n o u ; quase tiveram de amputá-la". A
Suíça e c o n t r a b a n d e a d a para a França e reunia o texto de Brissot e cena t e r m i n a c o m D u p a t y em lágrimas. Dessa forma o advogado
o u t r o s escritos sobre a reforma. E m b o r a apenas um sintetizador, explora ao m á x i m o a sua solidariedade para c o m os prisioneiros. 42

Brissot claramente ligava a t o r t u r a aos direitos h u m a n o s : "Alguém


D u p a t y e n t ã o m u d a de n o v o a p e r s p e c t i v a , dessa vez d i r i -
é jovem demais, q u a n d o se trata de defender os direitos ultrajados
gindo-se d i r e t a m e n t e aos juízes: "Juízes de C h a u m o n t , Magistra-
da humanidade?". O t e r m o " h u m a n i d a d e " ("o espetáculo da h u m a -
dos, Criminalistas, vós o escutais? [... ] Eis o grito da razão, da ver-
nidade sofredora", p o r exemplo) aparecia repetidas vezes nas suas
dade, da justiça e da Lei". Por fim, D u p a t y convoca d i r e t a m e n t e a
p á g i n a s . Em 1788, Brissot f u n d o u a Sociedade dos A m i g o s d o s
intervenção do rei. I m p l o r a q u e o m o n a r c a escute o sangue d o s
Negros, a primeira sociedade francesa pela abolição da escravatura.
i n o c e n t e s , de Calas a seus três l a d r õ e s a c u s a d o s : " d i g n e - s e , da
Assim, a c a m p a n h a pela reforma penal t o r n o u - s e cada vez m a i s
altura de seu t r o n o , digne-se a dar u m a o l h a d a em todas as ciladas
i n t i m a m e n t e associada c o m a defesa geral dos direitos h u m a n o s . 41

sangrentas de sua legislação criminal, o n d e perecemos, o n d e t o d o s


Brissot e m p r e g o u as m e s m a s estratégias retóricas dos advo-
os dias i n o c e n t e s p e r e c e m ! " A p e t i ç ã o e n t ã o c o n c l u i c o m u m a
gados q u e escreviam petições das várias causes célebres francesas da
súplica de várias páginas p a r a q u e Luís xvi reforme a legislação cri-
década de 1780: eles n ã o só defendiam seus clientes e r r o n e a m e n t e
minal de a c o r d o c o m a razão e a h u m a n i d a d e . 43

a c u s a d o s , m a s t a m b é m a t a c a v a m cada vez m a i s o sistema legal


A petição de D u p a t y incitou de tal f o r m a a o p i n i ã o pública
c o m o um t o d o . Aqueles q u e escreviam petições a d o t a v a m em geral
em favor do acusado e c o n t r a o sistema legal que o Parlementde
a voz em p r i m e i r a pessoa de seus clientes, p a r a desenvolver n a r r a -
Paris v o t o u que fosse p u b l i c a m e n t e q u e i m a d a . O porta-voz do tri-
tivas r o m a n e s c a s m e l o d r a m á t i c a s que p r o v a v a m a sua tese. Essa
b u n a l d e n u n c i o u o estilo r o m a n e s c o da petição: D u p a t y "vê a seu
estratégia retórica c u l m i n o u em duas petições escritas p o r um dos
lado a h u m a n i d a d e t r e m e n d o e e s t e n d e n d o - l h e as m ã o s , u m a terra
c o r r e s p o n d e n t e s d e Brissot, C h a r l e s - M a r g u e r i t e D u p a t y , u m
natal desgrenhada m o s t r a n d o - l h e as suas feridas, a nação inteira
m a g i s t r a d o d e B o r d e a u x r e s i d e n t e e m Paris q u e i n t e r v e i o e m
a s s u m i n d o a voz de D u p a t y e o r d e n a n d o q u e fale em seu nome".
n o m e d e três h o m e n s c o n d e n a d o s a o suplício d a roda p o r r o u b o
Mas o t r i b u n a l se m o s t r o u i m p o t e n t e p a r a conter a m a r é crescente
agravado. A primeira petição de Dupaty, de 1786, c o m 251 pági-
da opinião. Jean Caritat, m a r q u ê s de C o n d o r c e t , em breve o defen-
nas, n ã o s ó d e n u n c i a v a c a d a deslize d o p r o c e s s o judicial c o m o
sor dos direitos h u m a n o s m a i s coerente e de m a i o r projeção da
incluía um relato detalhado de seu e n c o n t r o c o m os três h o m e n s
Revolução Francesa, p u b l i c o u dois panfletos em favor de D u p a t y
na prisão. Nesse relato, D u p a t y passa inteligentemente de sua visão
no final de 1786. E m b o r a n ã o fosse ele p r ó p r i o um advogado, C o n -
da cena na primeira pessoa para a dos prisioneiros: "E eu, Bradier
dorcet atacou o "desprezo pelo h o m e m " d e m o n s t r a d o pelo t r i b u -
[ u m dos c o n d e n a d o s ] , e n t ã o disse, m e t a d e d o m e u c o r p o ficou
nal e a c o n t í n u a "violação manifesta da lei n a t u r a l " que se t o r n a r a
inchado p o r seis meses. E eu, disse Lardoise [outro dos c o n d e n a -
patente no caso Calas e em o u t r o s j u l g a m e n t o s injustos realizados
dos] , graças a Deus fui capaz de resistir [a u m a epidemia na prisão];
desde e n t ã o . 44

io6
107
Em 1788, a p r ó p r i a C o r o a francesa já t i n h a se associado a ligou os defeitos do castigo p ú b l i c o à n o v a n o ç ã o do i n d i v í d u o
m u i t a s d a s n o v a s a t i t u d e s . N o d e c r e t o q u e abolia p r o v i s o r i a - a u t ô n o m o mas solidário. C o m o médico, Rush admitia algum
m e n t e a t o r t u r a antes da execução p a r a obter n o m e s de c ú m p l i - emprego de dor c o r p o r a l no castigo, e m b o r a ele claramente prefe-
ces, o g o v e r n o de Luís xvi falava de " r e a f i r m a r a i n o c ê n c i a [...] risse "trabalho, vigilância, solidão e silêncio", um r e c o n h e c i m e n t o
r e m o v e r do castigo q u a l q u e r excesso de severidade [... e] p u n i r os da individualidade e potencial utilidade do c r i m i n o s o . O castigo
malfeitores c o m t o d a a m o d e r a ç ã o que a h u m a n i d a d e exige". No público se mostrava m u i t o objetável, aos seus olhos, pela sua t e n -
seu t r a t a d o de 1780 sobre a lei criminal francesa, M u y a r t r e c o n h e - d ê n c i a a d e s t r u i r a s i m p a t i a , "a v i c e - r e g e n t e da b e n e v o l ê n c i a
cia q u e , ao defender a validade de confissões obtidas p o r m e i o de divina em nosso m u n d o " . Essas são as palavras-chave: a simpatia
t o r t u r a , " n ã o ignoro a b s o l u t a m e n t e o fato de q u e devo c o m b a t e r — o u o que agora c h a m a m o s e m p a t i a — p r o p i c i a v a o s f u n d a m e n -
u m sistema q u e mais d o q u e n u n c a g a n h o u crédito e m t e m p o s tos d a m o r a l i d a d e , a c e n t e l h a d o d i v i n o n a v i d a h u m a n a , " e m
recentes". M a s ele se recusava a e n t r a r no debate, insistindo q u e nosso m u n d o " .
seus opositores e r a m s i m p l e s m e n t e polemistas e q u e ele t i n h a a "A sensibilidade é a sentinela da faculdade moral", afirmava
força d o p a s s a d o p o r t r á s d e sua p o s i ç ã o . A c a m p a n h a pela Rush. Ele equiparava essa sensibilidade a " u m senso r e p e n t i n o de
reforma p e n a l na França foi tão b e m - s u c e d i d a q u e em 1789 a cor- justiça", u m a espécie de reflexo c o n d i c i o n a d o para o b e m m o r a l . O
reção dos abusos no código criminal constituía u m a das questões castigo p ú b l i c o dava u m c u r t o - c i r c u i t o n a s i m p a t i a : " q u a n d o a
mais f r e q u e n t e m e n t e citadas nas listas de queixas p r e p a r a d a s p a r a desgraça que os c r i m i n o s o s sofrem é o efeito de u m a lei do Estado,
os futuros Estados Gerais. 45
a q u e n ã o se p o d e resistir, a simpatia do espectador é a b o r t a d a e
r e t o r n a vazia ao seio em q u e foi despertada". Assim, o castigo
público solapava os s e n t i m e n t o s sociais, t o r n a n d o os espectadores
AS P A I X Õ E S E A P E S S O A cada vez mais insensíveis: os espectadores p e r d i a m os seus senti-
m e n t o s de " a m o r u n i v e r s a l " e a sensação de q u e os c r i m i n o s o s
Ao longo desse debate cada vez mais unilateral, os novos sig- t i n h a m corpos e almas semelhantes aos seus. 46

nificados atribuídos ao corpo t i n h a m se t o r n a d o mais p l e n a m e n t e E m b o r a Rush c e r t a m e n t e se considerasse um b o m cristão, o


evidentes. O corpo q u e b r a d o de Calas ou até a p e r n a gangrenada seu m o d e l o de pessoa diferia em quase t o d o s os aspectos daquele
de Lardoise, o ladrão acusado de Dupaty, g a n h a r a m u m a nova dig- p r o p o s t o p o r Muyart de Vouglans na sua defesa da t o r t u r a e dos
nidade. Nas idas e vindas sobre a t o r t u r a e o castigo cruel, essa dig- castigos c o r p o r a i s t r a d i c i o n a i s . Para M u y a r t , o p e c a d o original
nidade apareceu p r i m e i r o nas reações negativas aos ataques j u d i - explicava a incapacidade dos h u m a n o s de controlar as suas p a i -
ciais que sofreu. Mas c o m o t e m p o t o r n o u - s e o m o t i v o , c o m o era xões. Era verdade q u e as paixões forneciam a força m o t i v a d o r a da
e v i d e n t e nas petições d e D u p a t y , d e s e n t i m e n t o s positivos d e vida, m a s a sua turbulência, ou m e s m o rebeldia, inerente t i n h a de
empatia. Só mais para o fim do século x v m é q u e as pressuposições ser c o n t r o l a d a pela r a z ã o , pelas pressões da c o m u n i d a d e , pela
do novo m o d e l o se t o r n a r a m explícitas. No seu c u r t o m a s ilumi- igreja e, na falta dela, no caso do crime, pelo Estado. Na visão de
n a d o r panfleto de dezoito páginas de 1787, o dr. Benjamin Rush Muyart, as fontes do c r i m e (vício) e r a m as paixões desejo e m e d o ,

108 109
"o desejo de se adquirir coisas q u e não se t ê m e o m e d o de se per- S u b s c r e v e n d o u m a f i l o s o f i a explicitamente m a t e r i a l i s t a o u

der aquelas q u e se têm". Essas paixões sufocavam os sentimentos n ã o — e a maioria das pessoas n ã o a subscrevia —, vários m e m b r o s

de h o n r a e justiça gravados pela lei natural no coração h u m a n o . A das elites cultas p a s s a r a m a sustentar u m a visão das paixões m u i t o

D i v i n a P r o v i d ê n c i a dava aos reis a s u p r e m a a u t o r i d a d e sobre a diferente daquela defendida p o r M u y a r t . A e m o ç ã o e a razão p a s -

vida dos h o m e n s , q u e eles delegavam aos juízes, reservando para si s a r a m a ser vistas c o m o parceiras. As paixões e r a m "o único M o t o r

m e s m o s o direito do perdão. O objetivo principal da lei criminal do Ser Sensível e d o s Seres Inteligentes", s e g u n d o o fisiologista

era, p o r t a n t o , a prevenção do triunfo do vício sobre a virtude. C o n - suíço Charles B o n n e t . As paixões e r a m boas e p o d i a m ser m o b i l i -

ter o m a l inerente da h u m a n i d a d e era o lema da visão de justiça de zadas pela educação p a r a o aperfeiçoamento da h u m a n i d a d e , q u e

Muyart. 47 agora era vista c o m o aperfeiçoável em vez de i n e r e n t e m e n t e m á .


Por essa visão, os c r i m i n o s o s t i n h a m c o m e t i d o erros, m a s p o d i a m
Os reformadores em última análise invertiam as pressuposi-
ser r e e d u c a d o s . A l é m disso, a s p a i x õ e s , b a s e a d a s n a b i o l o g i a ,
ções filosóficas e políticas desse m o d e l o e defendiam em seu lugar
n u t r i a m a sensibilidade m o r a l . O s e n t i m e n t o era a reação e m o c i o -
o cultivo, p o r m e i o da educação e da experiência, de qualidades
nal a u m a sensação física, e a m o r a l i d a d e era a e d u c a ç ã o d e s s e
h u m a n a s i n e r e n t e m e n t e boas. Em m e a d o s do século xvm, alguns
s e n t i m e n t o p a r a trazer à luz o seu c o m p o n e n t e social (a sensibili-
f i l ó s o f o s d o I l u m i n i s m o t i n h a m a d o t a d o u m a p o s i ç ã o sobre a s
d a d e ) . Laurence Sterne, o r o m a n c i s t a favorito de T h o m a s Jeffer-
paixões q u e n ã o diferia daquela proposta recentemente pelo n e u -
son, colocou o n o v o credo da era na b o c a de Yorick, o p e r s o n a g e m
rologista A n t ó n i o D a m á s i o , q u e insiste em q u e as e m o ç õ e s são
central de seu r o m a n c e r e v e l a d o r a m e n t e intitulado Uma viagem
cruciais p a r a o r a c i o c í n i o e a consciência, e n ã o h o s t i s a eles.
sentimental:
E m b o r a D a m á s i o ligue suas raízes intelectuais a Espinosa, filósofo
holandês do século XVII, as elites europeias só passaram a aceitar de
m o d o abrangente u m a avaliação mais positiva das e m o ç õ e s — d a s Cara sensibilidade! [...] eterna fonte de nossos sentimentos! — é
paixões, c o m o eles as c h a m a v a m — no século XVIII. O " e s p i n o - aqui que te descubro — e esta é a tua divindade que se agita d e n t r o
s i s m o " t i n h a má r e p u t a ç ã o p o r levar ao m a t e r i a l i s m o (a a l m a é de mim [...] que sinto algumas alegrias generosas e afetos generosos
apenas matéria, p o r isso n ã o há alma) e ao ateísmo (Deus é a n a t u - além de mim mesmo — tudo vem de ti, grande — grande SENSÓRIO
reza, p o r t a n t o n ã o h á D e u s ) . E m m e a d o s d o século x v m , alguns do mundo! que vibra mesmo quando um único fio de cabelo cai
dos pertencentes às profissões cultas t i n h a m aceitado, ainda assim, sobre o chão, no deserto mais remoto da tua criação.
u m a espécie de materialismo implícito ou mitigado, q u e n ã o fazia
afirmações teológicas sobre a alma, mas a r g u m e n t a v a q u e a m a t é - Sterne encontrava essa sensibilidade até no "camponês mais r u d e " . 49

ria p o d i a p e n s a r e sentir. Essa versão do m a t e r i a l i s m o c o n d u z i a Talvez pareça u m t a n t o e x a g e r a d o estabelecer u m a l i g a ç ã o


logicamente à posição igualitária de que t o d o s os h u m a n o s t ê m a entre assoar o nariz c o m um lenço, escutar música, ler um r o m a n c e
m e s m a organização física e m e n t a l e, p o r t a n t o , de q u e a experiên- ou e n c o m e n d a r um retrato e a abolição da t o r t u r a e a m o d e r a ç ã o
cia e a educação, e n ã o o nascimento, explicam as diferenças entre do castigo cruel. Mas a t o r t u r a legalmente sancionada n ã o t e r m i -
eles. 48
n o u apenas p o r q u e o s juízes desistiram desse expediente, o u p o r -

110 111
q u e os escritores do I l u m i n i s m o finalmente se o p u s e r a m a ela. A
t o r t u r a t e r m i n o u p o r q u e a estrutura tradicional da d o r e da pessoa
3. "Eles deram um grande exemplo"
se d e s m a n t e l o u e foi s u b s t i t u í d a p o u c o a p o u c o p o r u m a n o v a
Declarando os direitos
e s t r u t u r a , n a q u a l o s i n d i v í d u o s e r a m d o n o s d e seus c o r p o s ,
t i n h a m direitos relativos à individualidade e à inviolabilidade des-
ses corpos, e reconheciam em outras pessoas as m e s m a s paixões,
s e n t i m e n t o s e simpatias que v i a m em si m e s m o s . "Os h o m e n s e às
vezes mulheres", p a r a voltar ao b o m dr. Rush pela última vez, "cujas
pessoas d e t e s t a m o s [ c r i m i n o s o s c o n d e n a d o s ] p o s s u e m almas e
corpos c o m p o s t o s dos m e s m o s materiais que os de nossos amigos
e conhecidos." Se c o n t e m p l a m o s as suas misérias "sem e m o ç ã o ou
simpatia", e n t ã o o p r ó p r i o "princípio da simpatia cessará c o m p l e -
t a m e n t e de a t u a r ; e [...] logo p e r d e r á o seu l u g a r no c o r a ç ã o
humano". 50

DECLARAÇÃO: A a ç ã o de afirmar, dizer, a p r e s e n t a r ou a n u n c i a r


aberta, explícita ou f o r m a l m e n t e ; afirmação ou asserção positiva;
u m a asserção, a n ú n c i o o u proclamação e m t e r m o s enfáticos, sole-
nes ou legais. [...] U m a proclamação ou afirmação pública incor-
p o r a d a n u m d o c u m e n t o , i n s t r u m e n t o ou ato público. — Oxford
English Dictionary, 2 ed. eletrônica.
a

Por que os direitos d e v e m ser apresentados n u m a declaração?


Por q u e os países e os cidadãos sentem a necessidade dessa afirma-
ção formal? As c a m p a n h a s p a r a abolir a t o r t u r a e o castigo cruel
a p o n t a m para u m a resposta: u m a afirmação formal e pública con-
firma as m u d a n ç a s q u e o c o r r e r a m nas atitudes subjacentes. Mas as
declarações de direitos em 1776 e 1789 f o r a m a i n d a mais longe.
Mais do q u e assinalar transformações nas atitudes e expectativas
gerais, elas a j u d a r a m a t o r n a r efetiva u m a transferência de sobera-
nia, de Jorge 111 e o P a r l a m e n t o britânico p a r a u m a nova república
n o caso a m e r i c a n o e d e u m a m o n a r q u i a q u e reivindicava u m a
a u t o r i d a d e s u p r e m a p a r a u m a nação e seus representantes no caso
1
112 113
francês. Em 1776 e 1789, as declarações a b r i r a m p a n o r a m a s polí- " Q u a n d o , n o C u r s o dos a c o n t e c i m e n t o s h u m a n o s , t o r n a - s e n e -
ticos i n t e i r a m e n t e novos. As c a m p a n h a s c o n t r a a t o r t u r a e o cas- cessário q u e um p o v o dissolva os laços políticos q u e o l i g a m a
tigo cruel seriam fundidas, a partir de então, c o m toda u m a legião o u t r o e a s s u m a e n t r e as p o t ê n c i a s da t e r r a a posição s e p a r a d a e
de o u t r a s causas de direitos h u m a n o s , cuja relevância só se t o r n o u igual a q u e lhe dão direito as Leis da N a t u r e z a e do D e u s da N a t u -
clara depois q u e as declarações foram feitas. reza, u m respeito decente pelas opiniões d a h u m a n i d a d e r e q u e r
A história da palavra"declaração" fornece u m a p r i m e i r a indi- que ele declare [ m i n h a ênfase] as causas q u e o i m p e l e m à separa-
cação da m u d a n ç a na soberania. A palavra inglesa"declaration" ção". U m a expressão de "respeito decente" n ã o p o d i a obscurecer o
v e m da francesa declaration. Em francês, a palavra se referia origi- p o n t o principal: as colônias estavam se declarando um Estado
n a l m e n t e a um catálogo de terras a serem dadas em troca do jura- separado e igual e se a p o d e r a n d o de sua p r ó p r i a soberania.*
m e n t o de vassalagem a u m senhor feudal. Ao longo d o século XVII, E m c o n t r a s t e , e m 1789 o s d e p u t a d o s franceses a i n d a n ã o
p a s s o u cada vez mais a se referir às afirmações públicas do rei. estavam p r o n t o s p a r a r e p u d i a r explicitamente a soberania de seu
Em o u t r a s palavras, o ato de declarar estava ligado à soberania. rei. Mas eles ainda assim quase realizaram esse repúdio, ao omitir
Q u a n d o a a u t o r i d a d e se deslocou dos senhores feudais para o rei d e l i b e r a d a m e n t e q u a l q u e r m e n ç ã o ao rei na sua Declaração dos
francês, o p o d e r de fazer declarações t a m b é m m u d o u de m ã o s . Na Direitos d o H o m e m e d o C i d a d ã o : " O s r e p r e s e n t a n t e s d o p o v o
Inglaterra, o inverso t a m b é m é válido: q u a n d o os súditos q u e r i a m francês, r e u n i d o s em Assembleia Nacional e c o n s i d e r a n d o q u e a
de seus reis a reafirmação de seus direitos, eles r e d i g i a m as suas ignorância, a negligência ou o m e n o s p r e z o dos direitos do h o m e m
p r ó p r i a s declarações. Assim, a M a g n a Carta ("Great Charter") de são as únicas causas dos males públicos e da c o r r u p ç ã o governa-
1215 formalizou os direitos dos barões ingleses em relação ao rei m e n t a l , resolveram a p r e s e n t a r n u m a declaração [ m i n h a ênfase]
inglês; a Petição de Direitos de 1628 c o n f i r m o u os "diversos Direi- solene os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem". A
tos e Liberdades dos Súditos"; e a Bill of Rights inglesa de 1689 vali- Assembleia tinha de fazer algo mais além de proferir discursos ou
d o u "os verdadeiros, antigos e indubitáveis direitos e liberdades do r a s c u n h a r leis sobre questões específicas. T i n h a de aspirar a escre-
povo deste reino". 1

ver p a r a a p o s t e r i d a d e q u e os direitos n ã o fluíam de um a c o r d o


Em 1776 e 1789, as palavras "carta", "petição" e"bill" pareciam entre o governante e os cidadãos, m e n o s ainda de u m a petição a ele
i n a d e q u a d a s para a tarefa de garantir os direitos (o m e s m o seria ou de u m a carta concedida p o r ele, m a s antes da natureza dos p r ó -
verdade em 1948). "Petição" e "bill" i m p l i c a v a m um p e d i d o ou prios seres h u m a n o s .
apelo a um p o d e r superior ( u m bill era originalmente " u m a peti- Esses atos de declarar t i n h a m ao m e s m o t e m p o um ar r e t r ó -
ção ao soberano"), e "carta" significava frequentemente um antigo grado e avançado. Em cada caso, os declarantes afirmavam estar
d o c u m e n t o o u escritura. "Declaração" tinha u m a r m e n o s m o f a d o c o n f i r m a n d o direitos q u e já existiam e e r a m inquestionáveis. Mas
e s u b m i s s o . A l é m disso, ao c o n t r á r i o de "petição", "bill" ou até ao fazê-lo efetuavam u m a revolução na soberania e criavam u m a
"carta", "declaração" podia significar a intenção de se a p o d e r a r da base i n t e i r a m e n t e nova p a r a o governo. A Declaração da I n d e p e n -
soberania. Jefferson, p o r t a n t o , c o m e ç o u a Declaração de I n d e p e n -
dência c o m a seguinte explicação da necessidade de declará-la: * Ver no A p é n d i c e o texto c o m p l e t o .

114 U5
dência afirmava q u e o rei Jorge III t i n h a pisoteado os direitos pree- tánico, e n q u a n t o a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a de 1776 invocava
xistentes dos colonos e q u e suas ações justificavam o estabeleci- claramente os direitos universais de t o d o s os h o m e n s . Depois os
m e n t o d e u m governo separado: "sempre q u e qualquer F o r m a d e americanos m o n t a r a m a sua p r ó p r i a tradição particularista c o m a
G o v e r n o se t o r n e destrutiva desses fins [assegurar os direitos], é C o n s t i t u i ç ã o de 1787 e a Bill of Rights de 1791. Em contraste, os
Direito do Povo alterá-la ou aboli-la, e instituir n o v o Governo". Da franceses a d o t a r a m q u a s e i m e d i a t a m e n t e a versão universalista,
m e s m a forma, os d e p u t a d o s franceses declararam q u e esses direi- em p a r t e p o r q u e ela solapava as reivindicações particularistas e
tos t i n h a m sido simplesmente ignorados, negligenciados ou des- históricas da m o n a r q u i a . N o s debates sobre a Declaração francesa,
prezados; n ã o a f i r m a r a m q u e os t i n h a m i n v e n t a d o . "A p a r t i r de o d u q u e M a t h i e u de M o n t m o r e n c y exortou seus colegas d e p u t a -
agora", entretanto, a declaração p r o p u n h a q u e esses direitos cons- dos a "seguir o exemplo dos Estados Unidos: eles d e r a m um g r a n d e
tituíssem o f u n d a m e n t o do governo, e m b o r a n ã o o tivessem sido exemplo no n o v o hemisfério; v a m o s dar um exemplo p a r a o u n i -
no passado. M e s m o afirmando q u e esses direitos já existiam e que " 2

eles os estavam m e r a m e n t e d e f e n d e n d o , os d e p u t a d o s criavam verso .

algo r a d i c a l m e n t e n o v o : governos justificados pela sua garantia Antes q u e os a m e r i c a n o s e os franceses declarassem os direi-

dos direitos universais. tos d o h o m e m , o s p r i n c i p a i s p r o p o n e n t e s d o u n i v e r s a l i s m o


viviam às m a r g e n s das g r a n d e s potências. Talvez essa p r ó p r i a m a r -
ginalidade tenha capacitado u m p u n h a d o d e pensadores h o l a n d e -
ses, alemães e suíços a t o m a r a iniciativa no a r g u m e n t o de que os
DECLARANDO OS DIREITOS NOS ESTADOS UNIDOS
direitos e r a m universais. Já em 1625, um jurista calvinista holan-
dês, H u g o Grotius, p r o p ô s u m a n o ç ã o de direitos que se aplicava a
No começo, os americanos n ã o t i n h a m a intenção clara de se
t o d a a h u m a n i d a d e , n ã o apenas a um país ou a u m a tradição legal.
separar da Grã-Bretanha. N i n g u é m imaginava na década de 1760
Ele definia "direitos n a t u r a i s " c o m o algo a u t o c o n t r o l a d o e conce-
q u e os direitos os levariam a e n t r a r n u m t e r r i t ó r i o t ã o n o v o . O
bível s e p a r a d a m e n t e da v o n t a d e de Deus. Sugeria t a m b é m que as
r e m o d e l a m e n t o da sensibilidade ajudou a t o r n a r a ideia dos direi-
pessoas p o d i a m usar os seus direitos — sem a ajuda da religião —
tos mais tangível para as classes cultas, nos debates sobre a t o r t u r a
p a r a estabelecer os f u n d a m e n t o s contratuais da vida social. O seu
e o castigo cruel, p o r exemplo; m a s a n o ç ã o dos direitos m u d o u
s e g u i d o r a l e m ã o S a m u e l Pufendorf, o p r i m e i r o professor de
t a m b é m em reação às circunstâncias políticas. Havia duas versões
direito n a t u r a l em Heidelberg, delineou as realizações de Grotius
da linguagem dos direitos no século xvni: u m a versão particula-
na sua história geral dos e n s i n a m e n t o s do direito natural, publi-
rista (direitos específicos de um povo ou tradição nacional) e u m a
cada em 1678. E m b o r a criticasse Grotius em certos pontos, Pufen-
universalista (os direitos do h o m e m em geral). Os a m e r i c a n o s usa-
dorf ajudou a solidificar a reputação de Grotius c o m o u m a fonte
v a m u m a o u o u t r a linguagem, o u a m b a s e m c o m b i n a ç ã o , d e p e n -
p r i m o r d i a l da corrente universalista do p e n s a m e n t o dos direitos. 3

d e n d o das circunstâncias. D u r a n t e a crise da Lei do Selo em m e a -


Os teóricos suíços do direito n a t u r a l teorizaram sobre essas
dos da década de 1760, p o r exemplo, os panfletários a m e r i c a n o s
ideias no início do século xvni. O mais influente deles, Jean-Jac-
enfatizavam os seus direitos c o m o colonos d e n t r o do I m p é r i o Bri-
ques Burlamaqui, ensinava direito em Genebra. Ele sintetizou os

116 LI
vários escritos sobre direito n a t u r a l do século xvil em Principes du ridade absoluta a fim de i m p e d i r a "guerra de t o d o s c o n t r a t o d o s "

droit naturel (1747). C o m o seus predecessores, Burlamaqui forne- q u e d o contrário sucederia. E n q u a n t o Grotius havia igualado o s

ceu p o u c o c o n t e ú d o político ou legal específico para a noção dos direitos naturais à vida, ao corpo, à liberdade e à h o n r a ( u m a lista

direitos naturais universais: o seu principal objetivo era provar que que parecia questionar, em particular, a escravidão), Locke definia

eles existiam e derivavam da razão e da natureza h u m a n a . Ele atua- os direitos naturais c o m o "Vida, Liberdade e Propriedade". C o m o

lizou o conceito ao ligá-lo àquilo que os filósofos escoceses c o n t e m - enfatizava a posse — P r o p r i e d a d e —, Locke n ã o q u e s t i o n a v a a

p o r â n e o s c h a m a v a m de senso m o r a l interior (antecipando, assim, escravidão. Justificava a escravidão de cativos c a p t u r a d o s n u m a

o a r g u m e n t o dos m e u s primeiros capítulos). Traduzida imediata- g u e r r a justa. Locke até p r o p u n h a u m a legislação p a r a a s s e g u r a r

m e n t e para o inglês e o holandês, a obra de Burlamaqui foi ampla- q u e " t o d o h o m e m livre d e C a r o l i n a t e n h a p o d e r e a u t o r i d a d e

m e n t e usada c o m o u m a espécie de livro-texto da lei natural e dos absolutos sobre seus escravos negros"/'

direitos naturais na última m e t a d e do século xvin. Rousseau, entre E n t r e t a n t o , a p e s a r d a influência d e H o b b e s e Locke, u r n a


outros, a d o t o u Burlamaqui c o m o u m p o n t o d e partida. 4
g r a n d e p o r ç ã o , se n ã o a m a i o r p a r t e da discussão inglesa, e p o r -

A o b r a de B u r l a m a q u i estimulou u m a renovação mais geral t a n t o americana, sobre os direitos naturais na primeira m e t a d e do

das teorias da lei n a t u r a l e dos direitos naturais na Europa Ociden- século xviii manteve o foco sobre os direitos particulares h i s t o r i c a -

tal e nas colônias n o r t e - a m e r i c a n a s . Jean Barbeyrac, o u t r o protes- m e n t e f u n d a m e n t a d o s do inglês nascido livre, e n ã o sobre d i r e i t o s

tante g e n e b r i n o , publicou u m a nova t r a d u ç ã o francesa d a o b r a - universalmente aplicáveis. Escrevendo na década de 1750, W i l l i a m

-chave de Grotius em 1746; antes ele havia publicado u m a t r a d u - Blackstone explicava p o r q u e os seus conterrâneos p u n h a m o f o c o

ção francesa de u m a das obras de Pufendorf sobre direito natural. sobre seus direitos particulares em vez de atentar para os u n i v e r -

U m a biografia a d u l a t ó r i a de G r o t i u s , escrita p e l o francês Jean sais: "Estas [liberdades naturais] e r a m o u t r o r a , quer p o r h e r a n ç a *

Lévesque de Burigny, saiu em 1752 e foi t r a d u z i d a para o inglês em quer p o r aquisição, os direitos de toda a h u m a n i d a d e ; mas, e s t a n d o

1754. Em 1754, T h o m a s Rutherforth publicou as suas conferên- agora n a m a i o r i a d o s o u t r o s países d o m u n d o mais o u m e n o s

cias sobre Grotius e direito n a t u r a l proferidas na Universidade de degradados e destruídos, pode-se dizer q u e no presente eles c o n t i -

Cambridge. Grotius, Pufendorf e Burlamaqui eram todos b e m n u a m a ser, de um m o d o peculiar e enfático, os direitos do p o v o da

c o n h e c i d o s d o s r e v o l u c i o n á r i o s a m e r i c a n o s , c o m o Jefferson e Inglaterra". M e s m o q u e os direitos tivessem sido outrora u n i v e r -

Madison, q u e e r a m versados em direito. 5 sais, afirmava o p r o e m i n e n t e jurista, apenas o s ingleses, e m s u a


superioridade, t i n h a m conseguido m a n t ê - l o s . 7

Os ingleses t i n h a m p r o d u z i d o dois pensadores universalistas


capitais no século x v i l : T h o m a s H o b b e s e J o h n Locke. As suas Da década de 1760 em diante, entretanto, o fio u n i v e r s a l i s t a

obras e r a m b e m conhecidas nas colônias britânicas da América do dos direitos c o m e ç o u a se entrelaçar c o m o particularista n a s c o l ô -

Norte, e Locke em particular ajudou a formar o p e n s a m e n t o polí- nias britânicas da América do Norte. JúiThe Rights ofthe BritisH

tico a m e r i c a n o , talvez a i n d a m a i s do q u e i n f l u e n c i o u as visões Colonies Asserted and Proved ( 1 7 6 4 ) , p o r e x e m p l o , o a d v o g a d o

inglesas. H o b b e s teve m e n o s i m p a c t o do q u e Locke, p o r q u e ele James Otis, d e Boston, confirmava t a n t o o s direitos n a t u r a i s d o s

acreditava que os direitos naturais t i n h a m de se r e n d e r a u m a a u t o - colonos ("A natureza colocou todos eles n u m estado de i g u a l d a d ^

ii8 119
e l i b e r d a d e perfeita") c o m o seus direitos civis e políticos c o m o
d a d e universal. Esse p e n s a m e n t o universalista tornava os colonos
cidadãos britânicos: "Todo súdito britânico nascido no continente
capazes de i m a g i n a r um r o m p i m e n t o c o m a tradição e a soberania
da América, ou em qualquer o u t r o dos d o m í n i o s britânicos, está
britânica. 9

a u t o r i z a d o pela lei de Deus e da natureza, pela lei c o m u m e pela lei


M e s m o antes de o C o n g r e s s o declarar a i n d e p e n d ê n c i a , os
do P a r l a m e n t o [...] a usufruir de t o d o s os direitos naturais, essen-
c o l o n o s c o n v o c a r a m convenções estaduais p a r a substituir o g o -
ciais, inerentes e inseparáveis de nossos colegas súditos na G r ã -
v e r n o britânico, e n v i a r a m instruções c o m os seus delegados p a r a
-Bretanha". Ainda assim, dos "direitos de nossos colegas súditos"
exigir i n d e p e n d ê n c i a e c o m e ç a r a m a r a s c u n h a r C o n s t i t u i ç õ e s
em 1764 até os "direitos inalienáveis" de "todos os h o m e n s " de Jef-
estaduais q u e f r e q u e n t e m e n t e incluíam declarações de direitos. A
ferson em 1776 foi mister dar o u t r o passo gigantesco. 8

Declaração de Direitos da Virginia, de 1 2 d e j u n h o de 1776, procla-


O fio universalista dos direitos engrossou na década de 1760 mava q u e " t o d o s os h o m e n s são p o r natureza igualmente livres e
e especialmente na de 1770, q u a n d o se alargou a brecha entre as i n d e p e n d e n t e s e t ê m certos direitos inerentes", q u e e r a m definidos
colônias n o r t e - a m e r i c a n a s e a Grã-Bretanha. Se os colonos q u e - c o m o "a fruição da vida e da liberdade, c o m os m e i o s de adquirir e
r i a m estabelecer u m n o v o país s e p a r a d o , n ã o p o d i a m c o n t a r possuir p r o p r i e d a d e s e de buscar e obter felicidade e segurança".
m e r a m e n t e c o m os direitos dos ingleses nascidos livres. Caso con- Ainda mais i m p o r t a n t e , a Declaração da Virginia passava a ofere-
trário, estavam q u e r e n d o u m a reforma, e n ã o a independência. Os cer u m a lista de direitos específicos, c o m o a liberdade de imprensa
direitos universais p r o p o r c i o n a v a m u m f u n d a m e n t o lógico e a l i b e r d a d e de o p i n i ã o religiosa: ela a j u d o u a estabelecer o
melhor, e assim os discursos das eleições americanas nas décadas m o d e l o n ã o só para a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a , m a s t a m b é m
de 1760 e 1770 c o m e ç a r a m a citar d i r e t a m e n t e B u r l a m a q u i em p a r a a definitiva Bill ofRightsda Constituição d o s Estados Unidos.
defesa dos "direitos da h u m a n i d a d e " . Grotius, Pufendorf e espe- Na primavera de 1776, declarar a i n d e p e n d ê n c i a — e declarar os
cialmente Locke apareciam entre os autores mais frequentemente d i r e i t o s universais em vez de b r i t â n i c o s — t i n h a a d q u i r i d o
citados nos escritos políticos, e B u r l a m a q u i p o d i a ser e n c o n t r a d o momentum nos círculos políticos.'"
em n ú m e r o s cada vez maiores de bibliotecas públicas e particula-
Assim, os a c o n t e c i m e n t o s de 1774-6 f u n d i r a m t e m p o r a r i a -
res. Q u a n d o a a u t o r i d a d e britânica c o m e ç o u a e n t r a r em colapso,
m e n t e os p e n s a m e n t o s particularista e universalista sobre os direi-
em 1774, os colonos passaram a se considerar em algo semelhante
tos nas colônias insurgentes. Em reação à G r ã - B r e t a n h a , os colo-
ao estado de natureza a respeito do qual t i n h a m lido. B u r l a m a q u i
n o s p o d i a m citar o s seus direitos j á e x i s t e n t e s c o m o s ú d i t o s
t i n h a afirmado: "A ideia do Direito, e ainda m a i s a da lei natural,
britânicos e, ao m e s m o t e m p o , reivindicar o d i r e i t o universal a um
estão manifestamente relacionadas c o m a natureza do h o m e m . É
g o v e r n o q u e assegurasse os seus direitos inalienáveis c o m o h o -
p o r t a n t o dessa p r ó p r i a natureza do h o m e m , da sua constituição e
m e n s iguais. Entretanto, c o m o os últimos de fato anulavam os p r i -
da sua condição q u e devemos deduzir os princípios desta ciência".
meiros, à m e d i d a q u e se m o v i a m mais decisivamente para a inde-
B u r l a m a q u i falava apenas d a natureza d o h o m e m e m geral, n ã o
p e n d ê n c i a os a m e r i c a n o s sentiam a necessidade de declarar os seus
sobre a c o n d i ç ã o dos c o l o n o s a m e r i c a n o s ou a c o n s t i t u i ç ã o da
direitos c o m o parte da transição de um estado de natureza de volta
Grã-Bretanha, mas sobre a constituição e a condição da h u m a n i -
a um governo civil — ou de um estado de sujeição a Jorge III em

120
i.'i
tido de q u e os colonos " c a r r e g a m consigo apenas aquela p a r t e das
direção a u m a nova política republicana. Os direitos universalistas
leis inglesas q u e é aplicável à sua situação": p o r t a n t o , se "inova-
n u n c a t e r i a m sido declarados nas colônias a m e r i c a n a s sem o
ções" m i n i s t e r i a i s v i o l a m "seus direitos n a t u r a i s c o m o h o m e n s
m o m e n t o revolucionário criado pela resistência à autoridade britâ-
[ingleses] livres", a cadeia de g o v e r n o é "quebrada", p o d e n d o - s e
nica. E m b o r a n e m t o d o s c o n c o r d a s s e m sobre a i m p o r t â n c i a de
esperar q u e os colonos exerçam seus "direitos naturais". Richard
declarar os direitos ou sobre o conteúdo dos direitos a serem decla-
Price t o r n o u o apelo ao universalismo m u i t o explícito em seu p a n -
rados, a independência abriu a p o r t a para a declaração dos direitos. 11

fleto i m e n s a m e n t e influente de 1776, Observations on theNature of


M e s m o n a Grã-Bretanha, u m a n o ç ã o mais universalista dos
Civil Liberty, the Principies of Government, and the Justice andPolicy
direitos c o m e ç o u a se i n t r o d u z i r sorrateiramente no discurso na
ofthe War with America. O seu texto p a s s o u p o r n ã o m e n o s de
década de 1760. Os debates sobre os direitos t i n h a m se aquietado
quinze edições em Londres em 1776, e foi reimpresso no m e s m o
c o m a r e s t a u r a ç ã o da estabilidade depois da revolução de 1688,
a n o em D u b l i n , E d i m b u r g o , Charleston, N o v a York e Filadélfia.
que havia resultado na Bill ofRights. O n ú m e r o de títulos de livros
Price b a s e o u o seu a p o i o aos c o l o n o s n o s " p r i n c í p i o s gerais da
q u e i n c l u í a m alguma m e n ç ã o aos "direitos" declinou constante-
Liberdade Civil", isto é, no "que a razão, a e q u i d a d e e os direitos da
m e n t e na G r ã - B r e t a n h a do início dos a n o s 1700 aos a n o s 1750.
h u m a n i d a d e propiciam", e n ã o no precedente, no estatuto ou nas
Q u a n d o se intensificou a discussão internacional da lei natural e
cartas (a prática da liberdade inglesa no passado). O panfleto de
dos direitos naturais, os n ú m e r o s c o m e ç a r a m a se elevar de novo
Price foi t r a d u z i d o p a r a o francês, o alemão e o holandês. O seu tra-
na década de 1760 e c o n t i n u a r a m a crescer a partir de então. N u m
d u t o r holandês, Joan D e r k van der Capellen tot den Poli, escreveu
longo panfleto de 1768 q u e denunciava o patrocínio aristocrático
a Price em d e z e m b r o de 1777 e relatou o seu p r ó p r i o apoio, n u m
de posições clericais na Igreja da Escócia, o a u t o r invocava t a n t o
discurso mais tarde impresso e de ampla circulação, à causa a m e -
"os direitos naturais da h u m a n i d a d e " c o m o "os direitos naturais e
ricana: "Considero os a m e r i c a n o s h o m e n s valentes que defendem
civis dos BRETÕES LIVRES". Da m e s m a forma, o pregador anglicano
de um m o d o m o d e r a d o , p i e d o s o e corajoso os direitos que rece-
William D o d d a r g u m e n t a v a q u e o p a p i s m o era "incoerente c o m
b e m , s e n d o h o m e n s , n ã o do Poder Legislativo da Inglaterra, m a s
os Direitos Naturais dos HOMENS em geral e dos INGLESES em parti-
do p r ó p r i o Deus". 13

cular". A i n d a assim, o político da oposição J o h n Wilkes s e m p r e


empregava a linguagem de "vosso direito hereditário c o m o INGLE- O panfleto de Price p r o v o c o u u m a feroz controvérsia na Grã-
SES" ao apresentar seus a r g u m e n t o s na década de 1760. The Letters -Bretanha. U n s trinta panfletos apareceram quase i m e d i a t a m e n t e
ofjunius, cartas a n ô n i m a s publicadas c o n t r a o governo britânico em resposta, a c u s a n d o Price de falso p a t r i o t i s m o , p a r t i d a r i s m o ,
no final da década de 1760 e início da de 1770, t a m b é m usava a lin- parricidio, anarquia, sedição e até traição. O panfleto de Price inse-
guagem dos "direitos do povo" para se referir aos direitos sob a tra- riu "os direitos naturais da humanidade", "os direitos da natureza
dição e a lei inglesas. 12
h u m a n a " e e s p e c i a l m e n t e "os direitos inalienáveis da n a t u r e z a
h u m a n a " n a agenda d a Europa. C o m o u m a u t o r claramente reco-
A guerra entre os colonos e a Coroa britânica t o r n o u a t e n d ê n -
nhecia, a questão crucial era a seguinte: saber "se existem direitos
cia universalista mais p l e n a m e n t e manifesta na p r ó p r i a Grã-Bre-
inerentes à Natureza H u m a n a , tão ligados à v o n t a d e q u e tais direi-
tanha. Um folheto de 1776 assinado " M . D."cita Blackstone no sen-

123
122
tos n ã o p o d e m ser alienados". Era a p e n a s u m sofisma, afirmava 'preceitos, n a d a q u e ' o r d e n e o h o m e m a praticar qualquer um dos
esse o p o s i t o r , a r g u m e n t a r q u e " h á certos direitos d a N a t u r e z a atos q u e se alega serem i m p o s t o s pela pretensa lei da Natureza. Se
H u m a n a q u e são inalienáveis". A esses os h o m e n s t i n h a m de a l g u m h o m e m c o n h e c e a l g u m desses preceitos, que ele o s p r o -
r e n u n c i a r — um h o m e m t i n h a de "desistir do governo de seu ser duza. Se são produzíveis, n ã o deveríamos n o s dar ao t r a b a l h o de
pela sua p r ó p r i a v o n t a d e " — a fim de e n t r a r no estado civil. As 'descobri-los', c o m o n o s s o a u t o r [Blackstone] p o u c o d e p o i s n o s
polêmicas m o s t r a m q u e o significado de direitos naturais, liber- diz que devemos fazer, c o m a ajuda da razão".
dade civil e democracia era objeto de atenção e debate de muitas B e n t h a m se o p u n h a à ideia de q u e a lei n a t u r a l era inata à pes-
das melhores inteligências políticas da Grã-Bretanha. 14
soa e p o d i a ser descoberta pela razão. Assim, rejeitava b a s i c a m e n t e
A distinção entre as liberdades natural e civil proposta pelos toda a tradição da lei n a t u r a l e c o m ela os direitos naturais. O p r i n -
opositores de Price serve para lembrar que a articulação dos direi- cípio da utilidade (a m a i o r felicidade do m a i o r n ú m e r o de pessoas,
tos naturais engendrava a sua p r ó p r i a tradição contrária, que con- u m a ideia q u e ele t o m o u e m p r e s t a d a de Beccaria), ele a r g u m e n t a -
tinua até os dias atuais. C o m o os direitos naturais, q u e cresceram ria mais tarde, servia c o m o a m e l h o r m e d i d a do certo e do errado.
em oposição a governos vistos c o m o despóticos, a tradição contrá- Só cálculos baseados em fatos, em vez de j u l g a m e n t o s baseados na
ria era t a m b é m reativa, a r g u m e n t a n d o q u e o s direitos n a t u r a i s razão, p o d i a m fornecer a base para a lei. D a d a essa posição, a sua
constituíam u m a invenção ou que n u n c a p o d e r i a m ser inalienáveis rejeição p o s t e r i o r d a D e c l a r a ç ã o d o s D i r e i t o s d o H o m e m e d o
(e p o r t a n t o e r a m irrelevantes). H o b b e s já tinha a r g u m e n t a d o , na C i d a d ã o é m e n o s s u r p r e e n d e n t e . N u m panfleto em q u e critica a
m e t a d e do século xvii, q u e os h o m e n s d e v e r i a m r e n u n c i a r aos Declaração francesa artigo p o r artigo, ele negou categoricamente
direitos naturais (que p o r t a n t o não eram inalienáveis) para estabe- a existência de direitos naturais. "Os direitos naturais são um m e r o
lecer u m a sociedade civil ordeira. Robert Filmer, o inglês p r o p o - a b s u r d o : os direitos naturais e imprescritíveis, um a b s u r d o retó-
nente da autoridade patriarcal, refutou Grotius explicitamente em rico, u m a b s u r d o bombástico." " 1

1679 e declarou ser um "absurdo" a d o u t r i n a da "liberdade natural". Apesar de seus críticos, o d i s c u r s o d o s direitos estava ga-
Em Patriar dia (1680), ele n o v a m e n t e contradisse a noção da igual- n h a n d o i m p u l s o desde a d é c a d a de 1760. Os "direitos naturais",
dade e liberdade natural da h u m a n i d a d e , a r g u m e n t a n d o que todas então s u p l e m e n t a d o s pelos "direitos do gênero humano", "direitos
as pessoas nascem sujeitas aos pais; o único direito natural, na visão da h u m a n i d a d e " e "direitos do homem", t o r n a r a m - s e expressões
de Filmer, é inerente ao p o d e r régio, que deriva do m o d e l o original corriqueiras. C o m o seu potencial político i m e n s a m e n t e intensifi-
do poder patriarcal e está confirmado nos Dez M a n d a m e n t o s . 15
cado pelos conflitos a m e r i c a n o s das décadas de 1760 e 1770, o dis-
Mais influente no longo prazo foi a visão de Jeremy B e n t h a m , c u r s o dos direitos universais c r u z o u de volta o Atlântico p a r a a
q u e argumentava que só i m p o r t a v a a lei positiva (real em vez de G r ã - B r e t a n h a , a República H o l a n d e s a e a França. Em 1768, p o r
ideal ou natural). Em 1775, m u i t o antes de se t o r n a r famoso c o m o e x e m p l o , o e c o n o m i s t a francês de m e n t e r e f o r m i s t a P i e r r e -
o pai do Utilitarismo, B e n t h a m escreveu u m a crítica sobre Com- -Samuel du Pont de N e m o u r s ofereceu a sua p r ó p r i a definição dos
mentaries on the Laws ofEngland, de Blackstone, e x p o n d o a sua "direitos de cada homem". A sua lista incluía a liberdade de esco-
rejeição do conceito de lei natural: " N ã o há isso q u e c h a m a m de lher u m a ocupação, o livre comércio, a educação pública e a tribu-

124 125
tação p r o p o r c i o n a l . Em 1776, Du Pont se apresentou c o m o volun- tos h u m a n o s p o d e r i a m ter d e f i n h a d o p o r falta d e i n t e r e s s e .
tário p a r a ir às colônias americanas e relatar os acontecimentos ao D e p o i s d e insuflar u m i n t e r e s s e d i f u n d i d o p e l o s " d i r e i t o s d o
governo francês ( u m a oferta q u e n ã o foi aproveitada). Mais tarde h o m e m " no início da d é c a d a de 1760, o p r ó p r i o Rousseau se desi-
Du P o n t se t o r n o u amigo í n t i m o de Jefferson, e em 1789 foi eleito I udiu. N u m a longa carta escrita em j a n e i r o de 1769 sobre as suas
d e p u t a d o pelo Terceiro Estado. 17
c o n v i c ç õ e s religiosas, R o u s s e a u a t a c o u o u s o excessivo d e s t a
E m b o r a a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a talvez n ã o tenha sido " b e l a p a l a v r a ' h u m a n i d a d e ' " . O s s o f i s t i c a d o s m u n d a n o s , "as
" p r a t i c a m e n t e esquecida", c o m o Pauline Maier recentemente p r o - m e n o s h u m a n a s das pessoas", i n v o c a v a m - n a c o m t a n t a frequên-
clamou, a linguagem universalista dos direitos r e t o r n o u essencial- cia q u e ela estava se " t o r n a n d o insípida, até ridícula". A h u m a n i -
m e n t e ao seu lar na E u r o p a d e p o i s de 1776. Os novos governos d a d e t i n h a de ser gravada n o s corações, insistia Rousseau, e n ã o
estaduais dos Estados U n i d o s c o m e ç a r a m a a d o t a r declarações a p e n a s i m p r e s s a nas páginas dos livros. O i n v e n t o r da expressão
individuais dos direitos já em 1776, m a s os Artigos da Confedera- "direitos do h o m e m " n ã o viveu p a r a ver o i m p a c t o p l e n o da i n d e -
ção de 1777 n ã o i n c l u í a m n e n h u m a d e c l a r a ç ã o de direitos, e a p e n d ê n c i a a m e r i c a n a : ele m o r r e u em 1778, o a n o em q u e a
Constituição de 1787 foi aprovada sem n e n h u m a declaração desse França se j u n t o u ao lado a m e r i c a n o contra a Grã-Bretanha.
tipo. A Bill of Rights americana só passou a existir c o m a ratificação E m b o r a Rousseau soubesse d e B e n j a m i n F r a n k l i n , u m a verda-
das p r i m e i r a s dez e m e n d a s da C o n s t i t u i ç ã o , em 1791, e era um d e i r a c e l e b r i d a d e n a F r a n ç a desde sua c h e g a d a c o m o m i n i s t r o
d o c u m e n t o p r o f u n d a m e n t e particularista q u e protegia o s cida- dos c o l o n o s rebeldes em 1776, e n u m a ocasião tivesse defendido
dãos a m e r i c a n o s contra abusos cometidos pelo seu governo fede- o direito dos a m e r i c a n o s de p r o t e g e r suas liberdades m e s m o que
ral. Em c o m p a r a ç ã o , a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a e a Declara- fossem " o b s c u r o s ou desconhecidos", ele expressava p o u c o inte-
ção de Direitos da Virginia de 1776 t i n h a m feito afirmações m u i t o resse pelos assuntos a m e r i c a n o s . 19

m a i s universalistas. Na d é c a d a de 1780, os direitos na A m é r i c a As r e p e t i d a s referências à h u m a n i d a d e e aos direitos do


t i n h a m a s s u m i d o u m a posição m e n o s i m p o r t a n t e do q u e o inte- h o m e m c o n t i n u a r a m apesar do escárnio de Rousseau, irias p o d e -
resse e m c o n s t r u i r u m a n o v a e s t r u t u r a i n s t i t u c i o n a l n a c i o n a l . r i a m ter sido ineficazes se os acontecimentos na América n ã o tives-
C o m o consequência, a Declaração dos Direitos do H o m e m e do sem lhes d a d o mais p o d e r de fogo. Entre 1776e 1783,nove diferen-
Cidadão de 1789 de fato precedeu a Bill of Rights americana, e logo tes t r a d u ç õ e s francesas da D e c l a r a ç ã o da I n d e p e n d ê n c i a e ao
atraiu a atenção internacional. 18

m e n o s cinco traduções francesas de várias constituições e declara-


ções de direitos estaduais p r o p i c i a r a m aplicações específicas de
d o u t r i n a s de direitos e a j u d a r a m a cristalizar o senso de q u e o
d e c l a r a n d o o s d i r e i t o s n a f r a n ç a g o v e r n o francês t a m b é m p o d e r i a ser estabelecido sobre n o v o s
f u n d a m e n t o s . E m b o r a alguns reformadores franceses preferissem
Apesar do afastamento americano do universalismo na u m a m o n a r q u i a constitucional no estilo inglês, e C o n d o r c e t p o r
década d e 1780, o s "direitos d o h o m e m " r e c e b e r a m u m g r a n d e sua p a r t e expressasse d e s a p o n t a m e n t o c o m o "espírito aristocrá-
e m p u r r ã o do exemplo a m e r i c a n o . Sem ele, na v e r d a d e , os direi- tico" da n o v a C o n s t i t u i ç ã o dos Estados U n i d o s , m u i t o s se e n t u -

126 127
siasmavam c o m a capacidade americana de escapar ao peso m o r t o ção igual, igualdade de t r a t a m e n t o p e r a n t e a lei, proteção c o n t r a a
do passado e estabelecer o a u t o g o v e r n o . 20
prisão arbitrária e q u e tais. 22

Os precedentes americanos t o r n a r a m - s e ainda mais convin- Os d e l e g a d o s v i e r a m c o m as suas listas de q u e i x a s p a r a a


centes q u a n d o os franceses e n t r a r a m n u m estado de emergência a b e r t u r a oficial dos Estados Gerais em 5 de maio de 1789. Depois
constitucional. Em 1788, enfrentando u m a bancarrota causada em de s e m a n a s de debates fúteis sobre o p r o c e d i m e n t o , os d e p u t a d o s
grande m e d i d a pela participação francesa na Guerra da Indepen- do Terceiro Estado se d e c l a r a r a m u n i l a t e r a l m e n t e m e m b r o s de
d ê n c i a a m e r i c a n a , Luís xvi c o n c o r d o u em c o n v o c a r os Estados u m a Assembleia Nacional em 17 de j u n h o ; eles afirmavam repre-
Gerais, q u e t i n h a m se r e u n i d o pela última vez em 1614. Q u a n d o sentar t o d a a nação, e n ã o apenas o seu "estado". M u i t o s d e p u t a -
c o m e ç a r a m as eleições dos delegados, ruídos surdos de declarações dos clericais logo se j u n t a r a m a eles, e em p o u c o t e m p o os n o b r e s
já p o d i a m ser ouvidos. Em janeiro de 1789, um amigo de Jefferson, não tiveram o u t r a escolha senão a b a n d o n a r o s trabalhos o u t a m -
Lafayette, p r e p a r o u um r a s c u n h o de declaração, e nas s e m a n a s b é m aderir. E m 1 9 d e j u n h o , b e m n o m e i o dessas lutas, u m d e p u -
seguintes C o n d o r c e t silenciosamente formulou o seu. O rei tinha t a d o p e d i u q u e a n o v a Assembleia começasse i m e d i a t a m e n t e a
p e d i d o q u e o clero (o P r i m e i r o E s t a d o ) , os n o b r e s (o S e g u n d o " g r a n d e tarefa de u m a declaração de direitos", que ele insistia ter
Estado) e o povo c o m u m (o Terceiro Estado) n ã o só elegessem dele- sido exigida pelos eleitores; e m b o r a estivesse longe de ser univer-
gados, m a s t a m b é m fizessem listas de suas queixas. Várias listas salmente reclamada, a ideia estava c o m t o d a a certeza no ar. Um
redigidas em fevereiro, m a r ç o e abril de 1789 se referiam aos "direi- C o m i t ê sobre a C o n s t i t u i ç ã o foi m o n t a d o em 6 de julho, e em 9 de
tos inalienáveis do h o m e m " , aos "direitos imprescritíveis dos j u l h o o c o m i t ê a n u n c i o u à Assembleia Nacional q u e começaria
h o m e n s livres", aos "direitos e dignidade do h o m e m e do cidadão" c o m u m a "declaração dos direitos n a t u r a i s e imprescritíveis do
ou aos "direitos dos h o m e n s livres e esclarecidos", mas p r e d o m i n a - h o m e m " , d e n o m i n a d a na recapitulação da sessão "a declaração
v a m os "direitos do homem". A linguagem dos direitos estava agora dos direitos do h o m e m " . 21

se difundindo rapidamente na atmosfera da crescente crise. 21

T h o m a s Jefferson, e n t ã o em Paris, escreveu a T h o m a s Paine


Algumas listas de queixas t— as dos n o b r e s mais frequente- n a I n g l a t e r r a e m 1 1 d e j u l h o , d a n d o u m relato esbaforido dos
m e n t e q u e as do clero ou do Terceiro Estado — exigiam de forma acontecimentos que se desenrolavam. Paine era o autor de Com-
explícita u m a d e c l a r a ç ã o d e direitos ( e m geral a s q u e t a m b é m mon Sense ( 1 7 7 6 ) , o panfleto m a i s influente do m o v i m e n t o da
p e d i a m u m a nova Constituição). Por exemplo, a nobreza da região i n d e p e n d ê n c i a a m e r i c a n a . S e g u n d o Jefferson, os d e p u t a d o s da
Béziers, no sul, requeria q u e "a assembleia geral adotasse c o m o sua Assembleia Nacional " l a n ç a r a m p o r terra o velho governo, e estão
verdadeira tarefa preliminar o exame, r a s c u n h o e declaração dos agora c o m e ç a n d o a construir o u t r o da estaca zero". Relatava que
direitos do h o m e m e do cidadão". A lista de queixas do Terceiro eles c o n s i d e r a v a m que a p r i m e i r a tarefa devia ser o r a s c u n h o de
Estado da g r a n d e Paris intitulou a sua segunda seção "Declaração " u m a D e c l a r a ç ã o dos direitos n a t u r a i s e imprescritíveis do
de direitos" e apresentou u m a lista desses direitos. Q u a s e todas as h o m e m " — os m e s m o s t e r m o s usados pelo C o m i t ê sobre a Cons-
listas p e d i a m direitos específicos de u m a ou o u t r a forma: liber- tituição. Jefferson t r o c o u m u i t a s ideias c o m Lafayette, que naquele
dade de imprensa, liberdade de religião em alguns casos, tributa- m e s m o dia leu o seu p r ó p r i o r a s c u n h o de u m a proposta de decla-

128 129
ração p a r a a Assembleia. Vários o u t r o s d e p u t a d o s p r o e m i n e n t e s novo. O s direitos d o h o m e m f o r n e c i a m o s p r i n c í p i o s para u m a

c o r r e r a m e n t ã o a i m p r i m i r as suas p r o p o s t a s . A t e r m i n o l o g i a visão alternativa de governo. C o m o os a m e r i c a n o s h a v i a m feito

variava: "os direitos do h o m e m na sociedade", "os direitos do cida- antes, os franceses d e c l a r a r a m os direitos c o m o p a r t e de u m a cres-

d ã o francês" o u s i m p l e s m e n t e "direitos", m a s "os direitos d o cente r u p t u r a c o m a a u t o r i d a d e estabelecida. O d e p u t a d o Rabaut

h o m e m " p r e d o m i n a v a nos títulos. 24 Saint-Étienne c o m e n t o u esse paralelo em 18 de agosto: "como os

Em 14 de j u l h o , três dias d e p o i s q u e Jefferson escreveu a a m e r i c a n o s , q u e r e m o s n o s r e g e n e r a r , e assim a declaração de

Paine, as m u l t i d õ e s em Paris se a r m a r a m e a t a c a r a m a prisão da direitos é essencialmente necessária". 25

Bastilha e o u t r o s símbolos da a u t o r i d a d e real. O rei havia o r d e - O debate se a n i m o u em m e a d o s de agosto, apesar de alguns


n a d o q u e milhares de tropas entrassem em Paris, levando m u i t o s d e p u t a d o s z o m b a r e m a b e r t a m e n t e d a "discussão metafísica".
d e p u t a d o s a temer um golpe contrarrevolucionario. O rei retirou C o n f r o n t a d a c o m u m a série d e s n o r t e a n t e de alternativas, a As-
os seus soldados, m a s a questão de u m a declaração ainda não fora sembleia Nacional decidiu considerar u m d o c u m e n t o d e c o m p r o -
s o l u c i o n a d a . No final de j u l h o e início de agosto, os d e p u t a d o s misso redigido p o r u m s u b c o m i t ê d e q u a r e n t a m e m b r o s , n a sua
ainda estavam d e b a t e n d o se precisavam de u m a declaração, se ela m a i o r p a r t e a n ô n i m o s . No m e i o da c o n t í n u a incerteza e ansiedade
deveria aparecer no t o p o da Constituição e se deveria ser a c o m p a - sobre o f u t u r o , os d e p u t a d o s d e d i c a r a m seis dias a um d e b a t e
n h a d a p o r u m a declaração dos deveres do cidadão. A divisão sobre t u m u l t u a d o (20-24 de agosto, 26 de agosto). C o n c o r d a r a m a res-
a necessidade de u m a declaração refletia os desacordos f u n d a m e n - peito de dezessete artigos e m e n d a d o s entre os 24 propostos (nos
tais sobre o c u r s o dos a c o n t e c i m e n t o s . Se a a u t o r i d a d e m o n á r - Estados Unidos, os estados individuais ratificaram apenas dez das
quica precisasse simplesmente de alguns reparos, u m a declaração doze primeiras e m e n d a s propostas p a r a a Constituição). Exaurida
dos "direitos do h o m e m " n ã o era necessária. Para aqueles, em con- pela discussão dos artigos e e m e n d a s , em 27 de agosto a Assembleia
traste, que c o n c o r d a v a m c o m o diagnóstico de Jefferson de q u e o votou p o r adiar q u a l q u e r o u t r a discussão p a r a depois da redação
g o v e r n o t i n h a d e ser r e c o n s t r u í d o d o n a d a , u m a d e c l a r a ç ã o d e de u m a n o v a C o n s t i t u i ç ã o . A q u e s t ã o n u n c a foi reaberta. Dessa
direitos era essencial. m a n e i r a um t a n t o a m b í g u a , a Declaração dos Direitos do H o m e m
e do C i d a d ã o a d q u i r i u a sua forma definitiva.*
Por fim, em 4 de agosto, a assembleia votou p o r redigir u m a
declaração de direitos sem os deveres. N i n g u é m e n t ã o ou desde Os d e p u t a d o s franceses declaravam que todos os h o m e n s , e
então explicou a d e q u a d a m e n t e c o m o a opinião a c a b o u m u d a n d o não só os franceses,"nascem e p e r m a n e c e m livres e iguais em direi-
em favor de rascunhar essa declaração, em g r a n d e p a r t e p o r q u e os tos" (artigo I ) . Entre os "direitos naturais, inalienáveis e sagrados
a

d e p u t a d o s estavam tão o c u p a d o s c o n f r o n t a n d o as questões coti- do h o m e m " estavam a liberdade, a p r o p r i e d a d e , a segurança e a


dianas que n ã o c o m p r e e n d i a m as grandes consequências de cada resistência à opressão (artigo 2 ) . C o n c r e t a m e n t e , isso significava
a

u m a de suas decisões. C o m o resultado, as suas cartas e até m e m ó - que quaisquer limites aos direitos t i n h a m de ser estabelecidos na
rias p o s t e r i o r e s m o s t r a r a m - s e t o r t u r a n t e m e n t e vagas s o b r e as lei (artigo 4 ) . "Todos os cidadãos" t i n h a m o direito de participar
a

m u d a n ç a s de m a r é da opinião. Sabemos q u e a m a i o r i a t i n h a pas-


sado a a c r e d i t a r ser necessário um f u n d a m e n t o i n t e i r a m e n t e * Ver no A p ê n d i c e o texto c o m p l e t o .

131
130
na formação da lei, que deveria ser a m e s m a p a r a todos (artigo 6 ), fi
religiões e os sexos n ã o apareciam na declaração. E m b o r a a a u s ê n -
e c o n s e n t i r na t r i b u t a ç ã o (artigo 14), q u e deveria ser d i v i d i d a cia de especificidade logo criasse p r o b l e m a s , a generalidade d a s
igualmente segundo a capacidade de pagar (artigo 13). Além disso, afirmações n ã o era u m a g r a n d e surpresa. O C o m i t ê sobre a C o n s -
a declaração proibia "ordens arbitrárias" (artigo 7°), punições des- tituição t i n h a s e c o m p r o m e t i d o o r i g i n a l m e n t e e m p r e p a r a r a t é
necessárias (artigo 8 ) e q u a l q u e r presunção legal de culpa (artigo
fl
q u a t r o d o c u m e n t o s diferentes sobre os direitos: (1) u m a declara-
9 ) ou a p r o p r i a ç ã o governamental desnecessária da p r o p r i e d a d e
S
ção dos direitos do h o m e m ; (2) dos direitos da nação; (3) dos d i r e i -
(artigo 17). E m t e r m o s u m t a n t o vagos, insistia que " [ n ] i n g u é m tos do rei; e (4) dos direitos dos cidadãos sob o governo francês. O
deve ser molestado p o r suas opiniões, m e s m o as religiosas" (artigo d o c u m e n t o a d o t a d o c o m b i n a v a o p r i m e i r o , o segundo e o q u a r t o ,
10), e n q u a n t o afirmava c o m mais vigor a liberdade de i m p r e n s a m a s sem definir as qualificações p a r a a cidadania. Antes de p a s s a r
(artigo 11). aos aspectos específicos (os direitos do rei ou as qualificações p a r a
N u m único d o c u m e n t o , p o r t a n t o , os d e p u t a d o s franceses ten- a cidadania), os d e p u t a d o s se e m p e n h a r a m p r i m e i r o em estabele-
t a r a m condensar tanto as proteções legais dos direitos individuais cer princípios gerais p a r a t o d o o governo. A esse respeito, o a r t i g o
c o m o um n o v o f u n d a m e n t o p a r a a l e g i t i m i d a d e do g o v e r n o . A 2 é típico: "O objetivo de t o d a associação política é a preservação
a

soberania se baseava exclusivamente na nação (artigo 3 ), e a"socie- 2


dos direitos naturais e imprescritíveis do homem". Os d e p u t a d o s
dade" tinha o direito de considerar que t o d o agente público devia q u e r i a m p r o p o r a base de t o d a associação política — n ã o da
prestar contas de seus atos (artigo 15). N ã o era feita n e n h u m a m e n - m o n a r q u i a , n ã o do governo francês, m a s de t o d a associação polí-
ção ao rei, tradição, história ou c o s t u m e s franceses, n e m à Igreja tica. Eles teriam de se voltar em breve para o governo francês. 27

Católica. Os direitos e r a m declarados "na presença e sob os auspí- O a t o de d e c l a r a r n ã o resolvia t o d a s as questões. De fato,
cios do Ser Supremo", mas p o r mais "sagrados" q u e fossem n ã o lhes emprestava m a i o r urgência a algumas dessas questões — os direi-
era atribuída u m a origem sobrenatural. Jefferson t i n h a sentido a tos daqueles que n ã o t i n h a m p r o p r i e d a d e ou das minorias religio-
necessidade de afirmar que todos os h o m e n s e r a m "dotados pelo sas, p o r exemplo — e abria novas questões sobre grupos, c o m o os
seu Criador" c o m direitos, m a s os franceses d e d u z i a m os direitos de escravos ou as m u l h e r e s , que n u n c a h a v i a m detido u m a posição
origens inteiramente seculares: a natureza, a razão e a sociedade. política (a serem examinadas no p r ó x i m o capítulo). Talvez a q u e -
D u r a n t e os debates, Mathieu de M o n t m o r e n c y havia afirmado que les q u e se o p u n h a m a u m a declaração tivessem p e r c e b i d o q u e o
"os direitos do h o m e m na sociedade são eternos" e " n ã o é necessá- p r ó p r i o ato de declarar teria um efeito galvanizador. Declarar era
ria n e n h u m a sanção para reconhecê-los". O desafio à antiga o r d e m mais do q u e esclarecer artigos de doutrina: ao fazer a declaração,
na Europa não poderia ter sido mais direto. 26
os d e p u t a d o s se a p o d e r a v a m efetivamente da s o b e r a n i a . C o m o
N e n h u m dos artigos da declaração especificava os direitos de resultado, o ato de declarar abriu um espaço antes i n i m a g i n á v e l
g r u p o s p a r t i c u l a r e s . " O s h o m e n s " , "o h o m e m " , "cada h o m e m " , I para o debate político: se a nação era soberana, qual era o p a p e l do
"todos os cidadãos", "cada cidadão", "a sociedade", "qualquer socie- rei, e q u e m representava m e l h o r a nação? Se os direitos s e r v i a m
d a d e " e r a m c o n t r a s t a d o s c o m "ninguém", " n e n h u m indivíduo", c o m o o f u n d a m e n t o da legitimidade, o que justificava a s u a limi-
" n e n h u m h o m e m " . Era literalmente t u d o ou n a d a . As classes, as tação a pessoas de certas idades, sexos, raças, religiões ou riqueza?

132 133
A l i n g u a g e m dos direitos h u m a n o s t i n h a g e r m i n a d o p o r algum
denação especialmente d u r a . A sua linguagem enfureceu T h o m a s
t e m p o nas novas práticas culturais da a u t o n o m i a individual e
l'aine, q u e se a g a r r o u a essa p a s s a g e m n o t ó r i a na sua réplica de
i n t e g r i d a d e corporal, m a s depois i r r o m p e u r e p e n t i n a m e n t e e m
1791, Os direitos do homem: uma resposta ao ataque do sr. Burke à
t e m p o s de rebelião e revolução. Q u e m devia, queria ou podia con-
Revolução Francesa.
trolar os seus efeitos?
"O sr. Burke, c o m sua c o s t u m e i r a violência", escreveu Paine,
D e c l a r a r os direitos t a m b é m teve c o n s e q u ê n c i a s fora da
"insultou a Declaração dos Direitos do H o m e m . [...] A essa cha-
França. A Declaração dos Direitos do H o m e m e do Cidadão t r a n s -
m o u de 'pedaços miseráveis de papel b o r r a d o sobre os direitos do
f o r m o u a linguagem de t o d o m u n d o quase da noite para o dia. A
homem'. O sr. Burke p r e t e n d e negar q u e o h o m e m tenha direitos?
m u d a n ç a p o d e ser e n c o n t r a d a de forma especialmente clara nos
Nesse caso, deve querer dizer q u e n ã o existem esses tais direitos em
escritos e discursos de Richard Price, o p r e g a d o r britânico dissi-
n e n h u m lugar, e q u e ele p r ó p r i o n ã o t e m n e n h u m : pois q u e m
d e n t e q u e havia inflamado a controvérsia c o m seu discurso dos
existe no m u n d o senão o h o m e m ? " E m b o r a a resposta de M a r y
"direitos da h u m a n i d a d e " em apoio aos colonos a m e r i c a n o s em
Wollstonecraft, Vindication ofthe Rights ofMen, in a Letter to the
1 7 7 6 . 0 seu panfleto de 1784, Observations on theImportance ofthe
Right Honourable Edmund Burke; Occasioned by his Reflections on
American Revolution, c o n t i n u a v a na m e s m a veia: c o m p a r a v a o
the Revolution in France, tivesse sido publicada antes, em 1790, Os
m o v i m e n t o de independência a m e r i c a n o à i n t r o d u ç ã o do cristia-
direitos do homem c a u s o u um i m p a c t o a i n d a mais direto e estu-
n i s m o e predizia que ele "produziria u m a difusão geral dos princí-
p e n d o , em parte p o r q u e Paine aproveitou a ocasião para a r g u m e n -
pios da h u m a n i d a d e " (apesar da escravidão, q u e ele c o n d e n a v a
tar c o n t r a t o d a s as formas de m o n a r q u i a hereditária, inclusive a
c a t e g o r i c a m e n t e ) . N u m s e r m ã o d e n o v e m b r o d e 1789, Price
inglesa. A sua o b r a teve várias edições inglesas ainda no p r i m e i r o
endossava a nova terminologia francesa: "Vivi p a r a ver os direitos
a n o de sua publicação. 29

dos h o m e n s m a i s b e m c o m p r e e n d i d o s d o q u e n u n c a , e nações
C o m o consequência, o e m p r e g o da l i n g u a g e m dos direitos
a n s i a n d o p o r liberdade q u e pareciam ter p e r d i d o a ideia do q u e
a u m e n t o u d r a m a t i c a m e n t e depois de 1789. As evidências dessa
isso fosse. [... ] Depois de partilhar os benefícios de u m a Revolução
o n d a p o d e m ser p r o n t a m e n t e e n c o n t r a d a s n o n ú m e r o d e títulos
[ 1688], fui p o u p a d o para ser t e s t e m u n h a de duas o u t r a s Revolu-
em inglês q u e u s a m a p a l a v r a " d i r e i t o s " : ele q u a d r u p l i c o u na
ções [a americana e a francesa], a m b a s gloriosas". 28

década de 1790 (418) em c o m p a r a ç ã o c o m a de 1780 (95) ou c o m


O panfleto escrito em 1790 p o r E d m u n d Burke contra Price,
q u a l q u e r década anterior d u r a n t e o século xvni. Algo semelhante
Reflexões sobre a revolução na França, desencadeou p o r sua vez um
aconteceu em holandês: rechten van des mensch apareceu pela p r i -
frenesi de discussão em várias l i n g u a g e n s s o b r e os direitos do
m e i r a vez em 1791 c o m a t r a d u ç ã o de Paine, sendo depois seguido
h o m e m . Burke a r g u m e n t a v a q u e o "novo i m p é r i o c o n q u i s t a d o r
p o r m u i t o s usos na década de 1790. Rechten des menschen apare-
d e luz e r a z ã o " n ã o p o d i a p r o p i c i a r u m f u n d a m e n t o a d e q u a d o
ceu logo depois nas terras em q u e se falava o alemão. Um t a n t o iro-
para um governo b e m - s u c e d i d o , q u e t i n h a de estar arraigado nas
n i c a m e n t e , p o r t a n t o , a p o l ê m i c a e n t r e os escritores de l í n g u a
tradições d u r a d o u r a s de u m a nação. Na sua acusação aos novos
inglesa levou os "direitos do h o m e m " francês a um público inter-
princípios franceses, Burke escolheu a Declaração p a r a u m a con-
nacional. O impacto foi m a i o r do que t i n h a sido depois de 1776,

134
135
p o r q u e os franceses t i n h a m u m a m o n a r q u i a c o m o as da maioria H o m e m e do Cidadão. Os participantes da m a r c h a forçaram o rei e
das o u t r a s nações europeias, e eles n u n c a a b a n d o n a r a m a lingua- sua família a se m u d a r de Versalhes para Paris em 6 de o u t u b r o . No
g e m d o u n i v e r s a l i s m o . O s escritos i n s p i r a d o s pela Revolução m e i o dessa r e n o v a d a agitação, em 8-9 de o u t u b r o , a Assembleia
Francesa t a m b é m elevaram o nível da discussão a m e r i c a n a dos aprovou o decreto p r o p o s t o pelo seu comitê. Ao m e s m o t e m p o , os
direitos: os seguidores de Jefferson invocavam c o n s t a n t e m e n t e os deputados v o t a r a m p o r se j u n t a r ao rei em Paris. 31

"direitos do homem", m a s os federalistas tratavam c o m desprezo A Declaração dos Direitos do H o m e m e do Cidadão t i n h a tra-
u m a linguagem associada c o m "excesso d e m o c r á t i c o " ou ameaças çado apenas p r i n c í p i o s gerais de justiça: a lei devia ser a m e s m a
à a u t o r i d a d e estabelecida. Essas disputas ajudaram a disseminar a para t o d o s , n ã o devia p e r m i t i r a prisão arbitrária ou castigos além
linguagem dos direitos h u m a n o s p o r t o d o o m u n d o ocidental. 30
daqueles "estrita e o b v i a m e n t e necessários", e o acusado devia ser
considerado inocente até ser julgado culpado. O decreto de 8-9 de
o u t u b r o de 1789 começava c o m u m a invocação da declaração: "A

ABOLINDO A TORTURA E A PUNIÇÃO CRUEL


Assembleia Nacional, c o n s i d e r a n d o q u e um dos principais direi-
tos do h o m e m , p o r ela reconhecido, é o de usufruir, q u a n d o acu-

Seis semanas depois de aprovarem a Declaração dos Direitos sado de um delito criminal, de t o d a a liberdade e segurança para a

do H o m e m e do Cidadão, e m e s m o antes que tivessem sido deter- defesa que possa ser conciliada c o m o interesse da sociedade que

minadas as ressalvas a votar, os d e p u t a d o s franceses aboliram todos p e d e a p u n i ç ã o dos crimes [...]". Passava e n t ã o a especificar os p r o -

os usos da t o r t u r a judicial c o m o parte de u m a reforma provisória cedimentos, a maioria dos quais se destinava a assegurar a transpa-

do p r o c e d i m e n t o criminal. Em 10 de setembro de 1789, o conselho rência para o público. N u m lance inspirado pela desconfiança no

da cidade de Paris enviou u m a petição formal à Assembleia Nacio- judiciário então em vigor, o decreto requeria a eleição de comissá-

nal e m n o m e d a "razão e h u m a n i d a d e " , d e m a n d a n d o r e f o r m a s rios especiais em cada distrito p a r a ajudar em todos os casos crimi-

judiciais i m e d i a t a s q u e n ã o só " r e s g a t a r i a m a i n o c ê n c i a " c o m o nais, inclusive na s u p e r v i s ã o da coleta de evidências e t e s t e m u -

"estabeleceriam m e l h o r as provas do crime e t o r n a r i a m a condena- n h o s . Garantia o acesso da defesa a todas as informações reunidas

ção mais certa". Os m e m b r o s do conselho da cidade fizeram a peti- e a natureza pública de t o d o s os p r o c e d i m e n t o s criminais, p o n d o

ção p o r q u e muitas pessoas t i n h a m sido presas pela n o v a G u a r d a em prática um dos princípios mais acalentados por Beccaria.

Nacional, c o m a n d a d a e m Paris p o r Lafayette, nas s e m a n a s d e O mais c u r t o dos 28 artigos no decreto, o artigo 24, é o mais
sublevação depois de 14 de julho. Poderia o sigilo habitual dos p r o - interessante para nossos propósitos. Ele abolia todas as formas de
cedimentos judiciais fomentar a manipulação e a chicana dos ini- t o r t u r a e t a m b é m o uso de um b a n c o baixo e h u m i l h a n t e (a sel-
migos da Revolução? Em resposta, a Assembleia Nacional n o m e o u lette) p a r a o interrogatório final do acusado perante os seus juízes.
um Comitê dos Sete para redigir as reformas mais prementes, não Luís xvi havia s u p r i m i d o a n t e r i o r m e n t e a "questão preparatória",
apenas para Paris mas para t o d a a nação. Em 5 de o u t u b r o , sob a o e m p r e g o da t o r t u r a p a r a o b t e r confissões de culpa, m a s t i n h a
pressão de u m a m a r c h a impressionante a Versalhes, Luís xvi d e u proibido apenas p r o v i s o r i a m e n t e o uso da "questão preliminar", a
finalmente a sua aprovação formal à Declaração dos Direitos do tortura p a r a obter os n o m e s de cúmplices. O governo do rei tinha

136 137
e l i m i n a d o a selletteem m a i o de 1788, m a s c o m o a ação era m u i t o
Q u a n d o c h e g o u a h o r a de c o m p l e t a r a revisão do c ó d i g o
recente os d e p u t a d o s c o n s i d e r a r a m necessário t o r n a r a sua p r ó -
penal a p ó s m a i s de d e z o i t o meses, o d e p u t a d o e n c a r r e g a d o de
pria posição b e m clara. A sellette era um i n s t r u m e n t o de h u m i l h a -
apresentar a reforma invocou todas as noções que t i n h a m se tor-
ção e representava o tipo de a t a q u e à dignidade do indivíduo que
n a d o familiares d u r a n t e as c a m p a n h a s c o n t r a a t o r t u r a e a p u n i ç ã o
os d e p u t a d o s a g o r a c o n s i d e r a v a m inaceitável. O d e p u t a d o q u e
cruel. Louis-Michel Lepeletier de Saint-Fargeau, o u t r o r a juiz no
a p r e s e n t o u o decreto p a r a o c o m i t ê reservou a discussão dessas
Parlementde Paris, s u b i u à t r i b u n a em 23 de m a i o de 1791 p a r a
m e d i d a s p a r a o fim, c o m o intuito de sublinhar a sua i m p o r t â n c i a
a p r e s e n t a r os p r i n c í p i o s do C o m i t ê sobre a Lei C r i m i n a l ( u m a
simbólica. T i n h a insistido c o m os seus colegas desde o início q u e
c o n t i n u a ç ã o do C o m i t ê dos Sete n o m e a d o em setembro de 1789).
"vocês n ã o p o d e m deixar n o Código corrente m a n c h a s q u e revol-
D e n u n c i o u as " t o r t u r a s atrozes imaginadas em séculos b á r b a r o s e
t a m a h u m a n i d a d e ; vocês c e r t a m e n t e q u e r e m q u e elas desapare-
ainda assim conservadas em séculos esclarecidos", a falta de p r o -
ç a m sem demora". Depois se t o r n o u quase lacrimoso q u a n d o che-
p o r ç ã o e n t r e os crimes e as punições ( u m a das principais queixas
gou ao t e m a da tortura:
de Beccaria) e a "ferocidade geralmente absurda" das leis a n t e r i o -
res. "Os p r i n c í p i o s de h u m a n i d a d e " agora m o d e l a r i a m o código
Acreditamos que devemos à humanidade apresentar-lhes uma penal, q u e no futuro se basearia antes na reabilitação p o r m e i o do
observação final. O rei já [...] baniu da França a prática absurda- trabalho q u e na p u n i ç ã o sacrificai p o r meio da dor. 33

mente cruel de arrancar do acusado, por meio de tortura, a confissão


T ã o b e m - s u c e d i d a s t i n h a m sido as c a m p a n h a s c o n t r a a tor-
de crimes [...] mas ele lhes deixou a glória de completar esse grande
t u r a e a p u n i ç ã o cruel q u e o comitê colocou a seção sobre as p u n i -
ato de razão e justiça. Permanece ainda em nosso código a tortura
ções antes da seção q u e definia os crimes no novo código penal.
preliminar!...] os refinamentos mais execráveis de crueldade] ainda
Todas as sociedades e x p e r i m e n t a m o crime, mas a p u n i ç ã o reflete
são empregados para obter a revelação dos cúmplices. Fixem seus
a p r ó p r i a natureza de u m a política pública. O comitê p r o p ô s u m a
olhos nesse resquício de barbárie, por favor, senhores, e logrem pros-
revisão completa do sistema penal para d a r c o r p o aos novos valo-
crever de seus corações essa prática. Seria um espetáculo belo e
res cívicos: em n o m e da igualdade, t o d o s seriam julgados n o s m e s -
comovente para o universo: ver um rei e uma nação, unidos pelos
m o s t r i b u n a i s sob a m e s m a lei e s e r i a m suscetíveis às m e s m a s
laços indissolúveis de um amor recíproco, rivalizando entre si no
punições. A privação da liberdade seria a p u n i ç ã o exemplar, o q u e
zelo pela perfeição das leis, um tentando superar o outro na constru-
significava q u e ser enviado para as galés no m a r e p a r a o exílio seria
ção de monumentos à justiça, à liberdade e à humanidade.
substituído pelo a p r i s i o n a m e n t o e p o r trabalhos forçados. Os con-
c i d a d ã o s d o c r i m i n o s o n a d a s a b e r i a m s o b r e a significância d a
Na esteira da declaração de direitos, a t o r t u r a foi p o r fim c o m p l e - p u n i ç ã o se o c r i m i n o s o fosse s i m p l e s m e n t e enviado p a r a o u t r o
t a m e n t e abolida. A abolição da t o r t u r a n ã o estava na a g e n d a do lugar, fora do alcance da visão pública. O comitê até defendia eli-
governo da cidade de Paris em 10 de setembro, m a s os d e p u t a d o s m i n a r a p e n a de m o r t e à exceção dos casos de rebelião c o n t r a o
n ã o resistiram à o p o r t u n i d a d e apresentada de t o r n á - l a o clímax de Estado, m a s sabia que enfrentaria resistência q u a n t o a esse p o n t o .
sua primeira revisão do código criminal. 32

Os d e p u t a d o s v o t a r a m p o r reinstalar a p e n a de m o r t e p a r a alguns

138
139
crimes, e m b o r a excluíssem t o d o s os crimes religiosos c o m o a here- honorable) em q u e o c o n d e n a d o , v e s t i n d o a p e n a s u m a c a m i s a ,
sia, o sacrilégio ou a prática da magia. (A s o d o m i a , antes punível c o m u m a corda ao r e d o r do pescoço e u m a t o c h a na m ã o , ia até a
c o m a m o r t e , n ã o era mais considerada crime.) A p e n a de m o r t e só p o r t a de u m a igreja e i m p l o r a v a o perdão de D e u s , do rei e da j u s -
seria e x e c u t a d a pela decapitação, antes reservada aos n o b r e s . A tiça. Em lugar disso, o c o m i t ê p r o p u n h a u m a p u n i ç ã o baseada n o s
guilhotina, inventada para t o r n a r a decapitação o m e n o s dolorosa direitos c h a m a d a de "degradação cívica", q u e p o d e r i a ser a ú n i c a
possível, c o m e ç o u a ser praticada em abril de 1 7 9 2 . 0 suplício da p u n i ç ã o ou ser acrescentada a um período de e n c a r c e r a m e n t o . Os
roda, a q u e i m a na fogueira, "essas t o r t u r a s q u e a c o m p a n h a v a m a p r o c e d i m e n t o s e r a m descritos em detalhes p o r Lepeletier. O c o n -
p e n a de m o r t e " desapareceriam; " t o d o s esses h o r r o r e s legais são d e n a d o era c o n d u z i d o a um lugar p ú b l i c o especificado, o n d e o
detestados pela h u m a n i d a d e e pela opinião pública", insistia Lepe- escrivão do t r i b u n a l c r i m i n a l lia em voz alta estas palavras: "O seu
letier. "Esses espetáculos cruéis d e g r a d a m a m o r a l pública e são país o considerou c u l p a d o de u m a ação desonrosa. A lei e o t r i b u -
indignos de um século h u m a n o e esclarecido." 34
nal lhe t i r a m a posição de cidadão francês". O c o n d e n a d o era e n t ã o
C o m o a reabilitação e o reingresso do c r i m i n o s o na sociedade preso n u m colarinho de ferro e ali p e r m a n e c i a exposto ao público
e r a m as metas principais, a mutilação corporal e as marcas de ferro p o r duas h o r a s . O seu n o m e , o seu crime e o seu j u l g a m e n t o seriam
em b r a s a se t o r n a r a m intoleráveis. A i n d a assim, Lepeletier se escritos n u m cartaz colocado abaixo da sua cabeça. As mulheres, os
estendeu bastante sobre a questão das marcas feitas c o m ferro em estrangeiros e os recidivistas criavam um p r o b l e m a , e n t r e t a n t o :
brasa: c o m o a sociedade se protegeria contra criminosos c o n d e n a - c o m o p o d i a m p e r d e r os seus direitos de votar ou o direito de ocu-
dos sem n e n h u m tipo de sinal p e r m a n e n t e de seu status? Concluiu p a r um cargo público, q u a n d o não t i n h a m esses direitos? O artigo
que na nova o r d e m seria impossível q u e v a g a b u n d o s ou c r i m i n o - 32 tratava especificamente desse p o n t o : no caso de u m a sentença
sos passassem despercebidos, p o r q u e as municipalidades m a n t e - de "degradação cívica" c o n t r a mulheres, estrangeiros ou recidivis-
r i a m registros exatos c o m os n o m e s de cada habitante. Marcar os tas, eles e r a m c o n d e n a d o s ao colarinho de ferro p o r duas horas e
seus corpos de forma p e r m a n e n t e impediria q u e se reintegrassem usavam um cartaz s e m e l h a n t e ao prescrito p a r a os h o m e n s , mas o
na sociedade. Nisso c o m o na questão mais geral da dor, os d e p u t a - escrivão n ã o lia a frase a respeito da perda da posição cívica. 35

dos t i n h a m de seguir um c a m i n h o sem m u i t a m a r g e m de erro: a A " d e g r a d a ç ã o cívica" p o d e parecer formulística, m a s ela


p u n i ç ã o devia ter, s i m u l t a n e a m e n t e , efeitos de dissuasão e r e a d a p - apontava para a reorientação n ã o só do código penal mas do sis-
tação. A p u n i ç ã o n ã o p o d i a ser tão degradante a p o n t o de i m p e d i r t e m a político em geral. O c o n d e n a d o agora era um cidadão, n ã o
q u e os c o n d e n a d o s se reintegrassem na sociedade. C o m o c o n s e :
um súdito: p o r t a n t o , ele ou ela (as mulheres e r a m cidadãs "passi-
quência, e m b o r a prescrevesse a exposição pública dos c o n d e n a d o s , vas") n ã o p o d i a m ser obrigados a s u p o r t a r a tortura, castigos des-
às vezes acorrentados, o código penal limitava c u i d a d o s a m e n t e a necessariamente cruéis ou penalidades excessivamente desonro-
exposição ( n o m á x i m o três dias) d e p e n d e n d o d a g r a v i d a d e d o sas. Q u a n d o a p r e s e n t o u a r e f o r m a do c ó d i g o penal, Lepeletier
delito. distinguiu entre dois tipos de p u n i ç ã o : castigos corporais (prisão,
Os d e p u t a d o s t a m b é m q u e r i a m acabar c o m o colorido reli- m o r t e ) e castigos desonrosos. E m b o r a todas as punições tivessem
gioso da punição. E l i m i n a r a m o ato formal da penitência (arriende u m a d i m e n s ã o de v e r g o n h a ou desonra, c o m o o próprio Lepele-

140 141
princípio inspirador d a m o n a r q u i a c o m o f o r m a d e governo. M u i -
tier afirmava, os d e p u t a d o s q u e r i a m circunscrever o uso de castigos
desonrosos. Eles m a n t i v e r a m a exposição pública e o colarinho de tos consideravam a h o n r a a província especial da aristocracia. No

ferro, m a s s u p r i m i r a m o ato de penitência, o uso do t r o n c o e do seu ensaio sobre castigos desonrosos, Robespierre t i n h a a t r i b u í d o

p e l o u r i n h o , o ato de arrastar o c o r p o n u m a espécie de a r m a ç ã o a p r á t i c a de d e s o n r a r famílias inteiras aos defeitos da p r ó p r i a

depois da m o r t e , a r e p r i m e n d a judicial e o ato de declarar indefini- n o ç ã o de h o n r a :

d a m e n t e em aberto um caso contra o acusado (sugerindo p o r t a n t o


a culpa). "Propomos", dizia Lepeletier, "que vocês a d o t e m o princí- Se consideramos a natureza dessa honra, fértil em caprichos, sem-

pio [do castigo d e s o n r o s o ] , m a s multipliquem m e n o s as variações, pre inclinada a uma excessiva sutileza, frequentemente apreciando

que ao dividi-lo enfraquecem este p e n s a m e n t o terrível e salutar: a as coisas pelo seu glamour e não pelo seu valor intrínseco e os

sociedade e as leis proferem um anátema contra alguém que se cor- homens pelos seus acessórios, títulos que lhes são alheios, e não

r o m p e u pelo crime." Podia-se desonrar u m criminoso e m n o m e d a pelas suas qualidades pessoais, podemos facilmente compreender

sociedade e das leis, mas n ã o em n o m e da religião ou do rei. 36 como ela [a honra] podia entregar ao desprezo aqueles que têm
como ente querido um vilão punido pela sociedade.
N u m o u t r o passo q u e significou u m r e a l i n h a m e n t o funda-
mental, os d e p u t a d o s decidiram que os novos castigos desonrosos
E n t r e t a n t o , Robespierre t a m b é m d e n u n c i o u o a t o de reservar a
se destinavam apenas ao indivíduo criminoso, n ã o à sua família.
decapitação (considerada mais h o n r a d a ) apenas p a r a os nobres.
C o m os tipos tradicionais de castigo desonroso, os m e m b r o s das
Ele q u e r i a q u e t o d a s as pessoas fossem i g u a l m e n t e h o n r a d a s ou
famílias dos c o n d e n a d o s sofriam d i r e t a m e n t e as consequências.
q u e renunciassem ao p r ó p r i o conceito de h o n r a ? 37

N e n h u m deles podia c o m p r a r cargos ou o c u p a r posições públicas,


a sua p r o p r i e d a d e ficava, em alguns casos, sujeita a confisco, e eles M e s m o antes da década de 1780, e n t r e t a n t o , a h o n r a estava

e r a m considerados igualmente d e s o n r a d o s pela c o m u n i d a d e . E m p a s s a n d o p o r m u d a n ç a s . "Honra", s e g u n d o a edição de 1762 do

1784, o jovem advogado Pierre-Louis Lacretelle g a n h o u um p r ê - dicionário da Académie Française, significa "virtude, probidade".

m i o da Academia Metz p o r um ensaio em q u e defendia que a ver- "Ao falar das mulheres", e n t r e t a n t o , "a h o n r a significa castidade,

gonha do castigo desonroso n ã o devia ser estendida aos m e m b r o s modéstia." Na segunda m e t a d e do século xvni, observa-se cada vez

da família. O s e g u n d o p r ê m i o foi p a r a um j o v e m a d v o g a d o de m a i s q u e as distinções de h o n r a separavam mais os h o m e n s das

A r r a s c o m u m e x t r a o r d i n á r i o futuro, M a x i m i l i e n R o b e s p i e r r e , m u l h e r e s que os aristocratas dos c o m u n s . Para os h o m e n s , a h o n r a

q u e a d o t o u a m e s m a posição. estava se t o r n a n d o ligada à virtude, a qualidade q u e M o n t e s q u i e u


associava c o m repúblicas: t o d o s os cidadãos eram h o n r a d o s se fos-
Essa atenção ao castigo d e s o n r o s o reflete u m a m u d a n ç a sutil
s e m virtuosos. Sob o n o v o regime, a h o n r a t i n h a a ver c o m as ações,
m a s i m p o r t a n t e no conceito de h o n r a : c o m o desenvolvimento de
n ã o c o m o nascimento. A distinção entre os h o m e n s e as mulheres
u m a n o ç ã o dos direitos h u m a n o s , a c o m p r e e n s ã o tradicional de
p a s s o u da h o n r a p a r a as questões de cidadania, b e m c o m o para as
h o n r a começava a ser atacada. A h o n r a tinha sido a qualidade pes-
formas de p u n i ç ã o . A h o n r a (e a virtude) das mulheres era privada
soal m a i s i m p o r t a n t e sob a m o n a r q u i a ; de fato, M o n t e s q u i e u
e doméstica, a dos h o m e n s era pública. Tanto os h o m e n s como as
a r g u m e n t o u em seu O espírito das leis (1748) q u e a h o n r a era o

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m u l h e r e s p o d i a m ser d e s o n r a d o s n a p u n i ç ã o , m a s a p e n a s o s escrever essas palavras. D u r a n t e a Revolução, ele p r i m e i r o a t a c o u
h o m e n s t i n h a m direitos políticos a perder. Tanto na p u n i ç ã o c o m o a prestigiada Académie Française, q u e o tinha elegido em 1 7 8 1 , e
n o s d i r e i t o s , os a r i s t o c r a t a s e os c o m u n s a g o r a e r a m iguais; os depois se a r r e p e n d e u de suas ações e a defendeu. Chegar à A c a d é -
h o m e n s e as mulheres, n ã o . 38
m i e era a m a i o r h o n r a q u e p o d i a ser conferida a um escritor s o b a
A d i l u i ç ã o da h o n r a n ã o p a s s o u d e s p e r c e b i d a . Em 1794, o m o n a r q u i a . A Académie foi abolida em 1793 e revivida sob N a p o -
escritor Sébastien-Roch Nicolas C h a m f o r t , u m dos m e m b r o s d a leão. C h a m f o r t c o m p r e e n d e u n ã o s ó a m a g n i t u d e d a m u d a n ç a n a
elitista Académie Française, satirizou a m u d a n ç a : h o n r a — a dificuldade d e m a n t e r a s distinções sociais n u m m u n d o
i m p a c i e n t e m e n t e e q u a l i z a d o r — , m a s t a m b é m a conexão do n o v o
É uma verdade reconhecida que o nosso século tem posto as pala- código p e n a l c o m tal modificação. O c o l a r i n h o de ferro t i n h a se
vras no seu lugar: ao banir sutilezas escolásticas, dialéticas e metafí- tornado o mínimo denominador c o m u m da perda de honra. 39

sicas, ele retornou ao simples e verdadeiro na física, na moral e na O n o v o código penal foi apenas u m a das m u i t a s c o n s e q u ê n -
política. Falando apenas da moral, percebe-se o quanto esta palavra, cias q u e d e r i v a r a m da Declaração dos Direitos do H o m e m e do
honra, incorpora ideias complexas e metafísicas. O nosso século Cidadão. Os d e p u t a d o s t i n h a m reagido à r e c o m e n d a ç ã o insistente
sentiu os inconvenientes dessas ideias e para trazer tudo de volta ao do d u q u e de M o n t m o r e n c y — "dar um grande exemplo" redi-
simples, para impedir todo abuso de palavras, estabeleceu que a gindo u m a declaração de direitos — e em a l g u m a s semanas c o m e -
honra permanece integral para todo homem que nunca foi um ex- ç a r a m a descobrir c o m o p o d i a m ser imprevisíveis os efeitos d e s s e
-condenado. No passado essa palavra foi uma fonte de equívocos e exemplo. "A ação de afirmar, dizer, apresentar ou a n u n c i a r a b e r t a ,
contestações; no presente, nada poderia ser mais claro. O homem explícita o u formalmente", implícita n o ato d e declarar, t i n h a u m a
foi colocado no colarinho de ferro ou não? Essa é a pergunta a ser lógica p r ó p r i a . U m a vez a n u n c i a d o s a b e r t a m e n t e , os direitos p r o -
feita. É uma simples pergunta factual que pode ser facilmente res- p u n h a m n o v a s q u e s t õ e s — q u e s t õ e s antes n ã o cogitadas e n ã o
pondida pelos registros do escrivão do tribunal. Um homem que cogitáveis. O ato de declarar os direitos revelou-se apenas o p r i -
não foi colocado no colarinho de ferro é um homem de honra que m e i r o passo n u m processo e x t r e m a m e n t e t e n s o q u e c o n t i n u a até
pode reivindicar qualquer coisa, cargos no ministério etc. Tem os nossos dias.
ingresso garantido nas corporações profissionais, nas academias,
nas cortes do soberano. Percebe-se como a clareza e a precisão nos
poupam de brigas e discussões, e como o comércio da vida se torna
conveniente e fácil.

C h a m f o r t tinha as suas próprias razões para levar a h o n r a a


sério. U m a criança a b a n d o n a d a de pais desconhecidos, C h a m f o r t
construiu u m a reputação literária e se t o r n o u o secretário pessoal
da i r m ã de Luís xvi. M a t o u - s e no auge do Terror, p o u c o depois de

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4. "Isso não terminará nunca" decidiu entrar no e m a r a n h a d o da questão. " N ã o há meio-termo",
insistiu. Ou vocês estabelecem u m a religião oficial do Estado, ou
As consequências das declarações a d m i t e m que os m e m b r o s de q u a l q u e r religião p o d e m votar e ocu-
par cargos públicos. C l e r m o n t - T o n n e r r e insistia que a crença reli-
giosa n ã o devia ser motivo p a r a a exclusão dos direitos políticos e
que, p o r t a n t o , os j u d e u s t a m b é m d e v i a m ter direitos iguais. Mas
não era t u d o . A profissão t a m b é m n ã o devia ser m o t i v o de exclusão,
ele a r g u m e n t o u . Os carrascos e os atores, a q u e m e r a m negados
direitos políticos no passado, agora d e v i a m ter acesso a eles. (Os
carrascos c o s t u m a v a m ser c o n s i d e r a d o s d e s o n r a d o s p o r q u e ga-
n h a v a m a vida m a t a n d o pessoas, e os atores p o r q u e fingiam ser
o u t r a pessoa.) C l e r m o n t - T o n n e r r e acreditava em coerência: "deve-
m o s ou p r o i b i r c o m p l e t a m e n t e as peças teatrais, ou e l i m i n a r a
desonra associada ao ato de representar". 1

P o u c o antes do Natal de 1789, os d e p u t a d o s da Assembleia As questões dos direitos revelavam, p o r t a n t o , u m a tendência


Nacional francesa se v i r a m no m e i o de um debate peculiar. C o m e - a se suceder em cascata. Assim q u e os d e p u t a d o s consideraram o
çou em 21 de dezembro, q u a n d o um d e p u t a d o p r o p ô s a questão status dos protestantes c o m o u m a m i n o r i a religiosa sem direitos
d o s direitos d e v o t o d o s n ã o - c a t ó l i c o s . "Vocês d e c l a r a r a m q u e civis, os j u d e u s estavam fadados a vir à baila; q u a n d o as exclusões
t o d o s os h o m e n s nascem e p e r m a n e c e m livres e iguais em direi- religiosas e n t r a r a m na agenda, as profissionais n ã o d e m o r a r a m a
tos", ele l e m b r o u a seus colegas d e p u t a d o s . " D e c l a r a r a m que n i n - segui-las. Já em 1776 J o h n A d a m s t e m e r a u m a progressão ainda
g u é m p o d e ser p e r t u r b a d o p o r suas opiniões religiosas." Há m u i - mais radical em Massachusetts. A James Sullivan ele escreveu:
tos d e p u t a d o s p r o t e s t a n t e s e n t r e n ó s , ele o b s e r v o u , e assim a
Assembleia devia decretar i m e d i a t a m e n t e q u e os n ã o - c a t ó l i c o s
Pode acreditar, senhor, é perigoso abrir uma Fonte de Controvérsia
p o s s a m ser eleitos pelo voto, o c u p a r cargos e aspirar a q u a l q u e r
e altercação tão fértil como a que seria aberta pela tentativa de alte-
posto civil ou militar, " c o m o os o u t r o s cidadãos".
rar as Qualificações dos Votantes. Isso não terminará nunca. Surgi-
Os "não-católicos" consistiam u m a categoria estranha. Q u a n - rão novas reivindicações. As mulheres exigirão o voto. Os garotos de
do Pierre Brunet de Latuque a u s o u na sua p r o p o s t a de decreto, ele 12 a 21 anos pensarão que seus Direitos não são suficientemente
claramente queria dizer protestantes. Mas n ã o incluía t a m b é m os considerados, e todo Homem sem um tostão exigirá uma Voz igual
judeus? A França era o lar de u n s 40 mil j u d e u s em 1789, além de a qualquer outra em todas as Leis do Estado.
ter de 100 mil a 200 mil p r o t e s t a n t e s (os católicos f o r m a v a m os
outros 9 9 % da p o p u l a ç ã o ) . Dois dias depois da intervenção inicial
A d a m s n ã o p e n s a v a r e a l m e n t e q u e a s m u l h e r e s o u a s crianças
de B r u n e t de Latuque, o c o n d e Stanislas de C l e r m o n t - T o n n e r r e
p e d i r i a m o direito de votar, m a s temia as consequências de esten-

i 6
4
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der o sufrágio aos h o m e n s sem p r o p r i e d a d e . Era m u i t o mais fácil que p o u c o s H o m e n s q u e n ã o p o s s u e m P r o p r i e d a d e têm u m julga-
argumentar contra "todo H o m e m sem um tostão" a p o n t a n d o m e n t o próprio". 4

p e d i d o s ainda mais absurdos que p o d e r i a m vir daqueles em pata- A cronologia básica da extensão d o s direitos é mais fácil de
mares ainda mais inferiores na escala social. 2
seguir na França, p o r q u e os direitos políticos e r a m definidos pela
Tanto n o s novos Estados U n i d o s c o m o na França, as declara- legislatura n a c i o n a l , e n q u a n t o n o s n o v o s E s t a d o s U n i d o s tais
ções de direitos se referiam a "homens", "cidadãos", "povo" e "socie- direitos e r a m regulados pelos estados individuais. Na s e m a n a de
d a d e " sem cuidar das diferenças na posição política. M e s m o antes 20-27 de o u t u b r o de 1789, os d e p u t a d o s a p r o v a r a m u m a série de
q u e a D e c l a r a ç ã o francesa fosse r a s c u n h a d a , um a s t u t o teórico decretos estabelecendo as condições de elegibilidade p a r a votar:
constitucional, o abade Sieyès, t i n h a a r g u m e n t a d o a favor de u m a (1) ser francês ou ter se t o r n a d o francês p o r m e i o de naturalização;
distinção entre os direitos naturais e civis dos cidadãos, de um la- (2) ter atingido a m a i o r i d a d e , estabelecida e n t ã o em 25 anos; (3)
do, e os direitos políticos, de o u t r o . As mulheres, as crianças, os es- ter r e s i d i d o n a z o n a eleitoral a o m e n o s p o r u m a n o ; (4) p a g a r
t r a n g e i r o s e aqueles q u e n ã o p a g a v a m t r i b u t o s d e v i a m ser s o - i m p o s t o s diretos n u m c ô m p u t o igual ao valor local de três dias de
m e n t e cidadãos "passivos". "Apenas aqueles que c o n t r i b u e m p a r a trabalho ( u m c ô m p u t o mais elevado era exigido no caso da elegi-
a o r d e m p ú b l i c a são c o m o os v e r d a d e i r o s acionistas da g r a n d e b i l i d a d e p a r a o c u p a r cargos); (5) n ã o ser c r i a d o d o m é s t i c o . O s
empresa social. Somente eles são os verdadeiros cidadãos ativos." 3
d e p u t a d o s n a d a diziam sobre religião, raça ou sexo ao estabelecer
Os m e s m o s princípios já estavam em vigor há m u i t o t e m p o esses r e q u i s i t o s , e m b o r a fosse c l a r a m e n t e p r e s s u p o s t o q u e as
do o u t r o lado do Atlântico. As treze colônias n e g a v a m o voto às m u l h e r e s e os escravos estavam excluídos.
mulheres, aos negros, aos índios e aos sem p r o p r i e d a d e . Em Dela- D u r a n t e os meses e anos seguintes, g r u p o após g r u p o foi alvo
ware, p o r exemplo, o sufrágio era l i m i t a d o aos h o m e n s b r a n c o s de discussões específicas, e p o r fim a m a i o r i a deles conseguiu direi-
adultos q u e possuíssem c i n q u e n t a acres de terra, q u e tivessem resi- tos políticos iguais. Os h o m e n s protestantes g a n h a r a m seus direi-
dido em Delaware p o r dois anos, q u e fossem naturais da região ou tos em 24 de d e z e m b r o de 1789, assim c o m o todas as profissões. Os
n a t u r a l i z a d o s , q u e n e g a s s e m a a u t o r i d a d e da Igreja Católica h o m e n s j u d e u s obtiveram finalmente o m e s m o avanço em 27 de
R o m a n a e que reconhecessem q u e o Antigo e o Novo Testamentos s e t e m b r o de 1791. Alguns m a s n e m t o d o s os h o m e n s negros livres
e r a m o b r a da inspiração divina. Depois da independência, alguns c o n q u i s t a r a m direitos políticos em 15 de m a i o de 1791, m a s os
estados d e c r e t a r a m c o n d i ç õ e s m a i s liberais. A Pensilvânia, p o r p e r d e r a m em 24 de s e t e m b r o e depois os v i r a m restabelecidos e
exemplo, estendeu o direito de votar a t o d o s os h o m e n s a d u l t o s a p l i c a d o s de m o d o m a i s geral em 4 de a b r i l de 1792. Em 10 de
livres q u e pagassem t r i b u t o s de q u a l q u e r i m p o r t â n c i a , e Nova Jer- agosto de 1792, os direitos de votar foram estendidos a t o d o s os
sey p e r m i t i u p o r um c u r t o p e r í o d o que as m u l h e r e s q u e tivessem h o m e n s (na França m e t r o p o l i t a n a ) à exceção dos criados e desem-
alguma p r o p r i e d a d e votassem; m a s a maioria dos estados reteve as p r e g a d o s . Em 4 de fevereiro de 1794, a escravidão foi abolida e
suas qualificações referentes à p r o p r i e d a d e , e m u i t o s c o n s e r v a r a m direitos iguais concedidos, ao m e n o s em princípio, aos escravos.
os testes religiosos, ao m e n o s p o r algum t e m p o . John A d a m s cap- Apesar dessa quase inimaginável extensão dos direitos políticos a
t o u a visão d o m i n a n t e : "tal é a Fragilidade do C o r a ç ã o h u m a n o g r u p o s antes n ã o e m a n c i p a d o s , a linha foi traçada nas mulheres: as

148 149
revelou-se u m b e m m u i t o positivo. E x a t a m e n t e p o r ter deixado d e
m u l h e r e s n u n c a g a n h a r a m direitos políticos iguais d u r a n t e a
I ado q u a l q u e r questão específica, a discussão dos princípios gerais,
Revolução. Elas g a n h a r a m , entretanto, direitos iguais de herança e
em julho-agosto de 1789, a j u d o u a p ô r em ação m o d o s de pensar
o direito ao divórcio.
que a c a b a r a m p r o m o v e n d o interpretações mais radicais das espe-
cificidades necessárias. A d e c l a r a ç ã o se d e s t i n a v a a a r t i c u l a r os
direitos universais da h u m a n i d a d e e os direitos políticos gerais da
A LÓGICA DOS DIREITOS: MINORIAS RELIGIOSAS
nação francesa e d o s seus c i d a d ã o s . N ã o oferecia qualificações
específicas p a r a a participação ativa. A instituição de um governo
A Revolução Francesa, mais do q u e qualquer o u t r o aconteci-
requeria o m o v i m e n t o do geral p a r a o específico: assim q u e as elei-
m e n t o , revelou que os direitos h u m a n o s t ê m u m a lógica interna.
ções foram estabelecidas, a definição das qualificações p a r a votar e
Q u a n d o e n f r e n t a r a m a necessidade de t r a n s f o r m a r seus n o b r e s
o c u p a r cargos t o r n o u - s e u r g e n t e . A v i r t u d e de c o m e ç a r c o m o
ideais em leis específicas, os d e p u t a d o s desenvolveram u m a espé-
geral t o r n o u - s e visível assim q u e as questões específicas passaram
cie de escala de c o n c e p t i b i l i d a d e ou d i s c u t i b i l i d a d e . N i n g u é m
a ser consideradas.
sabia de a n t e m ã o q u e g r u p o s iam aparecer na discussão, q u a n d o
surgiriam ou qual seria a decisão sobre o seu status. P o r é m , mais Os protestantes foram o p r i m e i r o g r u p o de identidade defi-

cedo ou mais tarde t o r n o u - s e claro q u e conceder direitos a alguns nida a se apresentar p a r a consideração, e a discussão a seu respeito

g r u p o s (aos protestantes, p o r exemplo) era mais facilmente ima- estabeleceu u m a característica d u r a d o u r a das d i s p u t a s s u b s e -

ginável do que concedê-los a outros (as m u l h e r e s ) . A lógica do p r o - quentes: u m g r u p o n ã o p o d i a ser c o n s i d e r a d o e m s e p a r a d o . O s

cesso determinava que, logo q u e surgia um g r u p o cuja discussão protestantes n ã o p o d i a m se apresentar sem levantar a questão dos

fosse m u i t o concebível ( h o m e n s c o m propriedades, protestantes), j u d e u s . Da m e s m a forma, os direitos dos atores n ã o p o d i a m ser

aqueles n a m e s m a espécie d e categoria m a s localizados m a i s q u e s t i o n a d o s sem invocar o espectro dos carrascos, ou os direitos

abaixo na escala de conceptibilidade ( h o m e n s sem p r o p r i e d a d e , dos negros livres sem c h a m a r atenção para os escravos. Q u a n d o

judeus) apareciam na agenda. A lógica do processo n ã o movia os escreviam sobre os direitos das mulheres, os panfletistas os c o m -

acontecimentos necessariamente adiante, m a s em longo prazo era p a r a v a m inevitavelmente aos dos h o m e n s sem p r o p r i e d a d e e aos

essa a tendência. Os opositores dos direitos dos j u d e u s , p o r exem- dos escravos. M e s m o as discussões sobre a m a i o r i d a d e (que foi

plo, usavam o caso dos protestantes (ao contrário dos judeus, eles d i m i n u í d a de 25 para 21 a n o s em 1792) d e p e n d i a m da sua c o m p a -

e r a m ao m e n o s cristãos) p a r a convencer os d e p u t a d o s a adiar a ração c o m a infância. O status e os direitos de protestantes, judeus,

questão dos direitos judaicos. Entretanto, em m e n o s de dois anos negros livres ou mulheres e r a m d e t e r m i n a d o s , em g r a n d e medida,

os j u d e u s ainda assim conseguiram direitos iguais, em p a r t e p o r - pelo seu lugar na g r a n d e rede de g r u p o s que constituíam a c o m u -

que a discussão explícita de seus direitos t i n h a t o r n a d o a concessão n i d a d e organizada.

de direitos iguais aos j u d e u s mais imaginável. Os protestantes e os j u d e u s já t i n h a m aparecido j u n t o s nos


debates sobre o r a s c u n h o de u m a declaração. Um jovem d e p u t a d o
N o s m e c a n i s m o s dessa lógica, a n a t u r e z a s u p o s t a m e n t e
n o b r e , o c o n d e de Castellane, t i n h a a r g u m e n t a d o q u e os protes-
metafísica da Declaração dos Direitos do H o m e m e do C i d a d ã o
(
150 151
t a n t e s e os j u d e u s d e v i a m p o s s u i r o "mais s a g r a d o de t o d o s os res d o s p r o t e s t a n t e s q u i s e r a m alegar q u e o s p r o t e s t a n t e s n ã o
direitos, o da liberdade de religião". No entanto, m e s m o ele insistia p o d i a m participar porque a Assembleia n ã o tinha votado um
q u e n e n h u m a religião específica devia ser citada na declaração. decreto nesse sentido: afinal, os protestantes t i n h a m sido excluídos
Rabaut Saint-Étienne, ele p r ó p r i o um pastor calvinista de Langue- dos cargos políticos pela lei desde a revogação do Edito de Nantes,
doc, o n d e viviam m u i t o s calvinistas, m e n c i o n a v a a d e m a n d a de em 1685, e n e n h u m a lei subsequente havia revisado f o r m a l m e n t e
liberdade de religião para os não-católicos na sua lista de queixas o seu status político. Brunet e seus p a r t i d á r i o s a r g u m e n t a r a m q u e
local. Rabaut incluía explicitamente os j u d e u s entre os não-católi- os p r i n c í p i o s gerais p r o c l a m a d o s na Declaração dos Direitos do
cos, m a s o seu a r g u m e n t o , c o m o o de t o d o s os demais no debate, H o m e m e do Cidadão n ã o a d m i t i a m exceções, q u e todos aqueles
dizia respeito à liberdade de religião, e n ã o aos direitos políticos das que satisfaziam as condições etárias e e c o n ô m i c a s de elegibilidade
m i n o r i a s . Depois de h o r a s de um debate t u m u l t u a d o , os d e p u t a - t i n h a m de ser a u t o m a t i c a m e n t e elegíveis e q u e , p o r t a n t o , as restri-
dos a d o t a r a m em agosto um artigo de c o m p r o m i s s o que n ã o fazia ções anteriores c o n t r a os protestantes já n ã o e r a m válidas. 6

m e n ç ã o aos direitos políticos (artigo 10 da declaração): " N i n g u é m Em o u t r a s palavras, o universalismo abstrato da declaração
deve ser molestado p o r suas opiniões, m e s m o as religiosas, desde estava i m p o n d o as suas consequências. N e m Brunet n e m qualquer
q u e sua manifestação n ã o p e r t u r b e a o r d e m pública estabelecida o u t r a p e s s o a p r o p ô s a q u e s t ã o d o s direitos das m u l h e r e s nesse
pela lei". A formulação era deliberadamente a m b í g u a e até inter- m o m e n t o : a elegibilidade a u t o m á t i c a a p a r e n t e m e n t e n ã o a b a r -
p r e t a d a p o r alguns c o m o u m a vitória dos conservadores, q u e se cava a diferença sexual. Mas no m i n u t o em q u e se discutiu o status
o p u n h a m c o m ferocidade à liberdade de religião. O culto público dos protestantes dessa maneira, os diques c e d e r a m . Alguns d e p u -
dos protestantes não p e r t u r b a r i a "a o r d e m pública"? 5

tados reagiram c o m alarme. A proposição de C l e r m o n t - T o n n e r r e


Em dezembro, m e n o s de seis meses mais tarde, entretanto, a de e s t e n d e r os direitos dos protestantes p a r a todas as religiões e
maioria dos d e p u t a d o s tomava a liberdade de religião c o m o algo profissões d e u o r i g e m a um intenso debate. E m b o r a a questão dos
n a t u r a l . M a s a l i b e r d a d e de religião t a m b é m implicava direitos direitos dos p r o t e s t a n t e s tivesse c o m e ç a d o a discussão, quase t o d o
políticos iguais p a r a as m i n o r i a s religiosas? B r u n e t de L a t u q u e m u n d o agora a d m i t i a que eles deviam ter os m e s m o s direitos dos
p r o p ô s a q u e s t ã o dos direitos políticos dos p r o t e s t a n t e s a p e n a s católicos. Estender os direitos p a r a os carrascos e atores suscitou
u m a semana depois da redação dos regulamentos para as eleições apenas objeções isoladas, em grande parte frívolas, mas a sugestão
municipais em 14 de d e z e m b r o de 1789. I n f o r m o u a seus colegas de conceder direitos políticos aos judeus provocou u m a resistên-
que os não-católicos estavam sendo excluídos das listas dos votan- cia furiosa. Até um d e p u t a d o aberto a u m a eventual emancipação
tes sob o pretexto de q u e n ã o t i n h a m sido explicitamente incluídos dos j u d e u s a r g u m e n t o u que a "sua ociosidade, a sua falta de tato,
nos regulamentos. "Os senhores certamente n ã o quiseram", disse um r e s u l t a d o necessário das leis e condições h u m i l h a n t e s a q u e
esperançosamente, "deixar q u e as opiniões religiosas fossem u m a estão sujeitos e m m u i t o s lugares, t u d o c o n t r i b u i p a r a t o r n á - l o s
razão oficial para excluir alguns cidadãos e admitir outros." A lin- odiosos". D a r - l h e s d i r e i t o s , na sua visão, a p e n a s d e s e n c a d e a r i a
guagem de Brunet era reveladora: os d e p u t a d o s estavam t e n d o de u m a reação p o p u l a r violenta contra eles (e, de fato, t u m u l t o s con-
interpretar as suas ações anteriores à luz do presente. Os oposito- tra os j u d e u s já t i n h a m o c o r r i d o no leste da F r a n ç a ) . Em 24 de

152 153
desagradável, e assim alinhavam-se c o m a esquerda, q u e apoiava a
d e z e m b r o de 1789 — véspera de Natal — a Assembleia votou p o r
extensão dos direitos. M a s até o principal exemplo de o b s t r u c i o -
estender direitos políticos iguais aos "não-católicos" e a todas as
n i s m o citado p o r Tackett, o r u i d o s o d e p u t a d o clerical e abade Jean
profissões, ao m e s m o t e m p o q u e adiavam a questão dos direitos
M a u r y , a r g u m e n t a v a em favor d o s direitos dos p r o t e s t a n t e s . A
políticos dos j u d e u s . O v o t o em favor dos direitos políticos dos
posição de M a u r y fornece um indício do processo, pois ele ligava
protestantes foi evidentemente maciço, segundo os participantes,
o apoio dos direitos políticos dos protestantes ao ato de negar os
e um d e p u t a d o escreveu no seu diário sobre "a alegria q u e se m a n i -
dos j u d e u s : "Os protestantes t ê m a m e s m a religião e as m e s m a s leis
festou no m o m e n t o em que o decreto foi aprovado". 7

q u e n ó s [...] já p o s s u e m os m e s m o s direitos". M a u r y p r o c u r a v a
A reviravolta na opinião sobre os protestantes foi espantosa.
estabelecer dessa m a n e i r a u m a distinção e n t r e os protestantes e os
Antes do Edito de Tolerância de 1787, os protestantes n ã o t i n h a m
j u d e u s . E n t r e t a n t o , os j u d e u s e s p a n h ó i s e p o r t u g u e s e s do sul da
sido capazes de praticar legalmente a sua religião, casar ou t r a n s -
França começaram imediatamente a preparar u m a petição à
mitir sua p r o p r i e d a d e . Depois de 1787, eles p o d i a m praticar a sua
A s s e m b l e i a N a c i o n a l c o m o a r g u m e n t o de q u e eles t a m b é m já
religião, casar p e r a n t e os oficiais locais e registrar os nascimentos
estavam exercendo os seus direitos políticos em nível local. A ten-
de seus filhos. G a n h a r a m a p e n a s direitos civis, e n t r e t a n t o , n ã o
tativa de o p o r u m a m i n o r i a religiosa c o n t r a o u t r a só alargava a
direitos iguais de p a r t i c i p a ç ã o política, e a i n d a n ã o p o s s u í a m o
fenda na p o r t a . 8

direito de praticar a sua religião em público. Isso era reservado u n i -


O status dos protestantes foi t r a n s f o r m a d o t a n t o pela teoria
c a m e n t e aos católicos. A l g u m a s das altas c o r t e s t i n h a m c o n t i -
c o m o pela prática, isto é, pela discussão d o s princípios gerais da
n u a d o a resistir à aplicação do edito ao longo de 1788 e 1789. Em
liberdade de religião e pela participação real dos protestantes em
agosto de 1789, p o r t a n t o , estava longe de ser evidente q u e a m a i o -
assuntos locais e nacionais. Brunet de L a t u q u e t i n h a invocado o
ria d o s d e p u t a d o s apoiava a v e r d a d e i r a l i b e r d a d e de religião.
p r i n c í p i o geral a o a f i r m a r q u e o s d e p u t a d o s n ã o p o d e r i a m ter
Entretanto, no final de d e z e m b r o t i n h a m concedido direitos polí-
desejado q u e "as opiniões religiosas fossem u m a razão oficial para
ticos iguais aos protestantes.
excluir alguns cidadãos e admitir outros". N ã o q u e r e n d o admitir o
O que explicava a m u d a n ç a de opinião? Rabaut Saint-Étienne
p o n t o geral, M a u r y t i n h a de conceder o p r á t i c o : os protestantes já
atribuía a transformação de atitudes à d e m o n s t r a ç ã o de responsa-
exerciam os m e s m o s direitos q u e os católicos. A discussão geral em
bilidade cívica dos d e p u t a d o s protestantes. Vinte e q u a t r o protes-
agosto deixara i n t e n c i o n a l m e n t e essas q u e s t õ e s n ã o resolvidas,
tantes, inclusive ele p r ó p r i o , t i n h a m sido eleitos d e p u t a d o s e m
a b r i n d o a p o r t a p a r a reinterpretações p o s t e r i o r e s e, ainda m a i s
1789. M e s m o antes disso os protestantes t i n h a m o c u p a d o cargos
i m p o r t a n t e , sem fechar a p o r t a para a p a r t i c i p a ç ã o em assuntos
locais apesar das proscrições oficiais, e na incerteza dos primeiros
locais. Os protestantes e até alguns j u d e u s t i n h a m se precipitado
meses de 1789 m u i t o s protestantes t i n h a m p a r t i c i p a d o das elei-
p a r a aproveitar ao m á x i m o as novas o p o r t u n i d a d e s apresentadas.
ções p a r a os Estados Gerais. O principal historiador da Assembleia
Ao contrário dos protestantes antes do Edito de Tolerância de
Nacional, T i m o t h y Tackett, atribui a m u d a n ç a de o p i n i ã o sobre os
1787, os j u d e u s franceses n ã o sofriam p e n a l i d a d e s p o r professar
p r o t e s t a n t e s a lutas políticas i n t e r n a s d e n t r o da Assembleia: os
p u b l i c a m e n t e a sua religião, m a s t i n h a m p o u c o s direitos civis e
m o d e r a d o s achavam o o b s t r u c i o n i s m o da direita cada vez m a i s

155
154
n e n h u m direito político. Na verdade, o caráter francês dos judeus apenas oito advogavam a concessão de direitos iguais aos j u d e u s .
era em a l g u m a m e d i d a questionado. Os calvinistas e r a m franceses A i n d a assim, era um n ú m e r o m a i o r que o d a q u e l a s q u e faziam a
q u e t i n h a m se desviado do c a m i n h o ao abraçar a heresia, e n q u a n t o m e s m a reivindicação p a r a as m u l h e r e s . 10

o s j u d e u s e r a m originalmente estrangeiros q u e constituíam u m a Os direitos dos j u d e u s p a r e c e m se ajustar à regra geral de q u e


n a ç ã o s e p a r a d a d e n t r o d a França. Assim, o s j u d e u s alsacianos os p r i m e i r o s esforços p a r a p r o p o r a questão d o s direitos saem fre-
e r a m conhecidos oficialmente c o m o "a nação judaica da Alsácia". q u e n t e m e n t e pela culatra. A posição em g r a n d e p a r t e negativa das
Mas " n a ç ã o " t i n h a um significado m e n o s nacionalista nessa época listas de queixas p r e n u n c i a v a a recusa dos d e p u t a d o s a c o n c e d e r
do que teria mais tarde nos séculos xix e xx. C o m o a maioria dos direitos políticos aos j u d e u s em d e z e m b r o de 1 7 8 9 . Ao longo d o s
j u d e u s n a F r a n ç a , o s j u d e u s alsacianos c o n s t i t u í a m u m a n a ç ã o vinte meses seguintes, e n t r e t a n t o , a lógica dos d i r e i t o s fez avançar
u m a vez q u e v i v i a m d e n t r o d e u m a c o m u n i d a d e j u d a i c a cujos a discussão. Apenas u m m ê s depois d o a d i a m e n t o d o debate d o s
direitos e obrigações t i n h a m sido d e t e r m i n a d o s pelo rei em cartas direitos dos j u d e u s , os j u d e u s espanhóis e p o r t u g u e s e s do sul da
patentes especiais. Eles t i n h a m o direito de governar alguns de seus França a p r e s e n t a r a m a sua petição à Assembleia, a r g u m e n t a n d o
assuntos e até decidir casos em suas próprias cortes de justiça, mas que, c o m o os protestantes, eles já estavam p a r t i c i p a n d o da política
t a m b é m sofriam u m a legião de restrições aos tipos de comércio e m a l g u m a s cidades francesas n o sul, c o m o B o r d e a u x . F a l a n d o
que p o d i a m praticar, aos lugares o n d e p o d i a m viver e às profissões pelo C o m i t ê sobre a Constituição, o bispo católico liberal Charles-
a que p o d i a m aspirar.'' - M a u r i c e d e T a l l e y r a n d - P é r i g o r d e s s e n c i a l m e n t e e n d o s s o u essa

Os escritores do I l u m i n i s m o t i n h a m escrito frequentemente posição. Os j u d e u s n ã o estavam p e d i n d o novos direitos de cidada-

sobre os j u d e u s , e m b o r a n e m s e m p r e de m o d o positivo, e depois nia, ele insistiu, estavam apenas p e d i n d o p a r a " c o n t i n u a r a gozar

da concessão de direitos civis aos protestantes em 1787 a atenção esses direitos", u m a vez q u e eles, c o m o os p r o t e s t a n t e s , já os esta-

se deslocou p a r a a tentativa de m e l h o r a r a situação dos j u d e u s . Luís v a m e x e r c e n d o . A s s i m , a Assembleia p o d i a c o n c e d e r d i r e i t o s a

xvi c r i o u u m a c o m i s s ã o p a r a e s t u d a r a q u e s t ã o em 1788, t a r d e a l g u n s j u d e u s s e m m u d a r o status d o s j u d e u s e m geral. D e s s a

demais para q u e fosse t o m a d a qualquer m e d i d a antes da Revolu- m a n e i r a , o a r g u m e n t o da prática podia se virar c o n t r a aqueles q u e

ção. E m b o r a os direitos políticos dos judeus estivessem abaixo dos q u e r i a m distinções categóricas."

c o n c e d i d o s aos p r o t e s t a n t e s na escala de c o n c e p t i b i l i d a d e , os O discurso de Talleyrand p r o v o c o u u m a c o m o ç ã o , especial-


j u d e u s se beneficiaram da atenção atraída para o seu caso. Entre- m e n t e entre os d e p u t a d o s da Alsácia-Lorena, l a r da m a i o r p o p u l a -
t a n t o , a discussão explícita n ã o se t r a d u z i u i m e d i a t a m e n t e em ção j u d a i c a . O s j u d e u s d o leste d a França e r a m asquenazes q u e
direitos. Trezentas e sete das listas de queixas redigidas na p r i m a - falavam iídiche. Os h o m e n s t i n h a m barba, ao c o n t r á r i o dos sefar-
vera de 1789 m e n c i o n a v a m explicitamente os j u d e u s , m a s a o p i - ditas de Bordeaux, e os r e g u l a m e n t o s franceses r e s t r i n g i a m - n o s
nião estava claramente dividida. Dezessete p o r cento u r g i a m pela em g r a n d e parte a ter c o m o o c u p a ç ã o o e m p r é s t i m o de d i n h e i r o e
limitação do n ú m e r o de j u d e u s p e r m i t i d o s na França e 9% advo- a mascataria. As relações e n t r e eles e seus devedores c a m p o n e s e s
g a v a m a sua expulsão, e n q u a n t o a p e n a s 9 - 1 0 % i n s i s t i a m na n ã o e r a m e x a t a m e n t e amigáveis. Os d e p u t a d o s da região n ã o p e r -
melhoria de suas condições. Entre as milhares de listas de queixas, d e r a m t e m p o em a p o n t a r a consequência inevitável de seguir a

156 157
o r i e n t a ç ã o de Talleyrand: "a exceção p a r a os j u d e u s de Bordeaux v a m de algumas centenas e n ã o t i n h a m status corporativo, a p r e -
[ m a j o r i t a r i a m e n t e sefarditas] logo resultará na m e s m a exceção s e n t a r a m a sua p r i m e i r a petição à Assembleia Nacional ainda em
p a r a os o u t r o s j u d e u s do reino". Enfrentando objeções vociferan- agosto de 1789. Já p e d i a m que os deputados "consagrem o nosso
tes, os d e p u t a d o s ainda assim v o t a r a m p o r 374 a 224 no sentido de título e direitos de Cidadãos". Uma s e m a n a mais tarde, os repre-
q u e " t o d o s os j u d e u s conhecidos c o m o j u d e u s portugueses, espa- sentantes da muito mais numerosa comunidade dos judeus na
n h ó i s e de Avignon c o n t i n u a r ã o a exercer os direitos q u e t ê m exer- Alsácia e na Lorena t a m b é m publicaram u m a carta aberta p e d i n d o
cido até o presente", e p o r t a n t o "exercerão os direitos dos cidadãos a cidadania. Q u a n d o os d e p u t a d o s reconheceram os direitos dos
ativos, d e s d e q u e satisfaçam os requisitos estabelecidos pelos j u d e u s do sul, em janeiro de 1790, os judeus de Paris, da Alsácia e
decretos da Assembleia Nacional [para a cidadania ativa] ".' 2

da Lorena u n i r a m - s e p a r a apresentar u m a petição em conjunto.


O voto a favor de direitos para alguns j u d e u s de fato t o r n o u C o m o alguns d e p u t a d o s t i n h a m q u e s t i o n a d o se os j u d e u s real-
m a i s difícil, n o l o n g o p r a z o , r e c u s á - l o s p a r a o u t r o s . E m 2 7 d e m e n t e q u e r i a m a cidadania francesa, os peticionários t o r n a r a m a
s e t e m b r o de 1791, a Assembleia revogou t o d a s as suas reservas e sua posição clara c o m o água: "Eles p e d e m que as distinções degra-
exceções anteriores c o m respeito aos judeus, c o n c e d e n d o a t o d o s dantes q u e sofreram até o presente sejam abolidas e q u e eles sejam
os j u d e u s direitos iguais. Exigiu t a m b é m q u e os j u d e u s prestassem declarados CIDADÃOS". O S peticionários sabiam exatamente c o m o
um j u r a m e n t o cívico r e n u n c i a n d o aos privilégios e isenções espe- apresentar seu caso. Depois de u m a longa revisão de todos os pre-
ciais negociados pela m o n a r q u i a . Nas palavras de C l e r m o n t - T o n - conceitos havia m u i t o existentes contra os judeus, concluíam c o m
nerre: " D e v e m o s recusar t u d o aos j u d e u s c o m o u m a nação e c o n - u m a invocação da inevitabilidade histórica: "Tudo está m u d a n d o ;
ceder t u d o aos j u d e u s c o m o indivíduos". Em troca da renúncia a a sorte dos judeus deve m u d a r ao m e s m o tempo; e as pessoas n ã o
suas p r ó p r i a s cortes de justiça e leis, eles se t o r n a r i a m cidadãos ficarão mais surpresas c o m essa m u d a n ç a particular do q u e c o m
franceses individuais c o m o t o d o s os outros. Mais u m a vez, a prá- t o d a s aquelas q u e veem ao seu redor t o d o dia. [...] Liguem o aper-
tica e a teoria o p e r a v a m n u m a relação d i n â m i c a m ú t u a . Sem a teo- f e i ç o a m e n t o da s o r t e d o s j u d e u s à revolução; a m a l g a m e m , p o r
ria, isto é, os princípios e n u n c i a d o s na declaração, a referência a assim dizer, esta revolução parcial c o m a revolução geral". D a t a r a m
alguns j u d e u s que já praticavam esses direitos teria causado p o u c o o seu panfleto c o m a m e s m a data em que a Assembleia votou p o r
impacto. Sem a referência à prática, a teoria p o d e r i a ter p e r m a n e - criar u m a exceção para os j u d e u s do sul. 14

cido u m a letra m o r t a ( c o m o a p a r e n t e m e n t e c o n t i n u o u a ser para


E m d o i s a n o s , p o r t a n t o , a s m i n o r i a s religiosas t i n h a m
as m u l h e r e s ) . 13

g a n h a d o direitos iguais na França. Claro q u e o preconceito n ã o


No entanto, os direitos n ã o e r a m apenas concedidos pelo havia desaparecido, especialmente c o m relação aos j u d e u s . A i n d a
corpo legislativo. Os debates sobre os direitos incitavam as c o m u - assim, u m a p e r c e p ç ã o d a e n o r m i d a d e d e tal m u d a n ç a e m t ã o
n i d a d e s de m i n o r i a s a falar p o r si m e s m a s e a exigir r e c o n h e c i - p o u c o t e m p o p o d e ser estabelecida p o r simples comparações. Na
m e n t o igual. O s p r o t e s t a n t e s t i n h a m m a i o r acesso aos debates Grã-Bretanha, os católicos g a n h a r a m acesso às Forças Armadas, às
p o r q u e p o d i a m falar p o r m e i o de seus d e p u t a d o s já eleitos p a r a a universidades e ao Judiciário em 1793. Os judeus britânicos tive-
Assembleia Nacional. M a s os j u d e u s parisienses, q u e n ã o passa- r a m de esperar até 1845 para conseguir as mesmas concessões. Os

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católicos só p u d e r a m ser eleitos p a r a o P a r l a m e n t o b r i t â n i c o escravidão. Depois de a n o s de c a m p a n h a s de petições encabeçadas
depois de 1829, os j u d e u s depois de 1858. A história registrada nos pela Sociedade p a r a a Abolição do Tráfico de Escravos, de inspira-
novos Estados U n i d o s foi um p o u c o melhor. A p e q u e n a população ção quaker, o P a r l a m e n t o b r i t â n i c o v o t o u pelo fim da participação
judaica nas colônias britânicas na América do Norte, que contava no tráfico de escravos em 1807 e decidiu em 1833 abolir a escravi-
apenas c o m cerca de 2.500 indivíduos, n ã o t i n h a igualdade polí- dão nas colônias britânicas. A história nos Estados Unidos foi m a i s
tica. D e p o i s da i n d e p e n d ê n c i a , a m a i o r p a r t e dos novos Estados sombria p o r q u e a C o n v e n ç ã o Constitucional de 1787 n ã o conce-
U n i d o s c o n t i n u o u a restringir a ocupação de cargos públicos (e em deu ao governo federal o c o n t r o l e sobre a escravidão. Apesar de o
alguns estados o ato de votar) aos protestantes. A p r i m e i r a e m e n d a Congresso ter t a m b é m v o t a d o a proibição da i m p o r t a ç ã o de escra-
da C o n s t i t u i ç ã o , redigida em s e t e m b r o de 1789 e ratificada em vos em 1807, os Estados U n i d o s só aboliram oficialmente a escra-
1791, garantia a liberdade de religião, e depois disso os estados reti- vidão em 1865, q u a n d o a 13 e m e n d a da C o n s t i t u i ç ã o foi ratifi-
a

r a r a m gradativamente os seus testes religiosos. O processo prosse- cada. Além disso, o status d o s negros livres na realidade declinou
guiu em geral pelos m e s m o s dois estágios observados na Grã-Bre- em m u i t o s estados d e p o i s de 1776, a t i n g i n d o o seu nadir no n o t ó -
tanha: p r i m e i r o os católicos, depois os judeus, g a n h a r a m direitos rio caso Dred Scott, de 1857, q u a n d o a S u p r e m a Corte dos Estados
políticos p l e n o s . Massachusetts, p o r exemplo, abriu em 1780 os Unidos declarou q u e n e m o s escravos n e m o s negros livres e r a m
cargos p ú b l i c o s p a r a q u a l q u e r u m "da religião cristã", e m b o r a cidadãos. Dred Scott só foi d e r r u b a d o em 1868, q u a n d o a 1 4 a

esperasse até 1833 p a r a fazer a m e s m a coisa c o m t o d a s as religiões. e m e n d a da Constituição d o s estados Unidos foi ratificada, g a r a n -
Seguindo o exemplo de Jefferson, a Virginia agiu c o m mais rapi- t i n d o q u e "Todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados
dez, c o n c e d e n d o direitos iguais em 1785, e a Carolina do Sul e a U n i d o s e sujeitas à sua jurisdição são cidadãos dos Estados U n i d o s
Pensilvânia trilharam o m e s m o c a m i n h o em 1790. R h o d e Island e do estado em q u e residem". 16

só o faria em 1842. 15

Os abolicionistas na F r a n ç a s e g u i r a m a o r i e n t a ç ã o inglesa,
criando em 1788 u m a sociedade i r m ã m o d e l a d a s e g u n d o a b r i t â -
nica Sociedade p a r a a Abolição do Tráfico de Escravos. C a r e c e n d o
NEGROS LIVRES, ESCRAVIDÃO E RAÇA de a m p l o a p o i o , a francesa S o c i e d a d e d o s A m i g o s d o s N e g r o s
p o d e r i a ter n a u f r a g a d o n ã o fossem os a c o n t e c i m e n t o s de 1789,
A força i n t i m i d a d o r a da lógica revolucionária d o s direitos q u e a colocaram em p r i m e i r o plano. As opiniões dos Amigos dos
p o d e ser vista c o m a i n d a m a i o r clareza nas decisões francesas Negros n ã o p o d i a m ser i g n o r a d a s p o r q u e e n t r e seus p r o e m i n e n -
sobre os negros livres e os escravos. Mais u m a vez, a c o m p a r a ç ã o é tes m e m b r o s estavam Brissot, C o n d o r c e t , Lafayette e o abade B a p -
reveladora: a França concedeu direitos políticos iguais aos negros tiste-Henri Grégoire, t o d o s participantes famosos de c a m p a n h a s
livres (1792) e e m a n c i p o u os escravos (1794) m u i t o antes de qual- pelos direitos h u m a n o s e m o u t r a s arenas. Grégoire, u m clérigo
quer o u t r a nação q u e possuía escravos. Apesar de conceder direi- católico da Lorena, t i n h a defendido m e s m o antes de 1789 o rela-
tos às m i n o r i a s religiosas b e m antes dos seus p r i m o s britânicos, os x a m e n t o de restrições c o n t r a os j u d e u s no leste da França e em
novos Estados U n i d o s ficaram m u i t o atrás no tocante à questão da 1789 p u b l i c o u u m p a n f l e t o a d v o g a n d o d i r e i t o s iguais p a r a o s

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h o m e n s de cor livres. C h a m a v a atenção para o racismo florescente As d e m a n d a s crescentes d o s n e g r o s e m u l a t o s livres e r a m
dos colonos b r a n c o s . "Os brancos", sustentava, " t e n d o o p o d e r do m u i t o mais perigosas p a r a a c o n t i n u i d a d e do status quo. Excluídos
seu lado, d e c i d i r a m injustamente q u e a pele escura exclui o indiví- p o r decreto real de praticar a m a i o r i a das profissões ou até de a d o -
d u o das vantagens da sociedade." 17
tar o n o m e de parentes b r a n c o s , as pessoas de cor livres ainda assim
A i n d a assim, a concessão de direitos aos n e g r o s e m u l a t o s p o s s u í a m consideráveis p r o p r i e d a d e s : um terço das plantações e
livres e a abolição da escravatura n ã o se d e r a m p o r aclamação. O u m q u a r t o dos escravos e m Saint D o m i n g u e , p o r exemplo. Q u e -
n ú m e r o de abolicionistas na nova Assembleia Nacional era m u i t o r i a m ser t r a t a d o s da m e s m a f o r m a q u e os b r a n c o s e ao m e s m o
m e n o r q u e o daqueles q u e t e m i a m mexer c o m o sistema de escra- t e m p o m a n t e r o sistema d e escravos. U m d e seus delegados e m
vos e as imensas riquezas q u e ele trazia para a França. Em geral, os Paris e m 1789, V i n c e n t O g é , t e n t o u c o n q u i s t a r o s c u l t i v a d o r e s
cultivadores b r a n c o s e os mercadores dos p o r t o s do Atlântico c o n - b r a n c o s e n f a t i z a n d o o s seus interesses c o m u n s c o m o d o n o s d e
seguiam retratar os Amigos dos Negros c o m o fanáticos q u e p r e - p l a n t a ç õ e s : " V e r e m o s d e r r a m a m e n t o d e s a n g u e , nossas t e r r a s
t e n d i a m f o m e n t a r a insurreição dos escravos. Em 8 de m a r ç o de invadidas, os objetos de n o s s o t r a b a l h o d e s t r u í d o s , nossas casas
1790, os d e p u t a d o s v o t a r a m p o r excluir as colônias da Constitui- q u e i m a d a s [...] o escravo levará a revolta mais longe". A sua solu-
ção e p o r t a n t o da Declaração dos Direitos do H o m e m e do Cida- ção era conceder direitos iguais aos h o m e n s de cor livres c o m o ele
dão. O p o r t a - v o z do comitê colonial, A n t o i n e Barnave, explicou p r ó p r i o , que então ajudariam a conter os escravos, ao m e n o s p o r
q u e "a aplicação rigorosa e universal dos princípios gerais n ã o é um t e m p o . Q u a n d o o seu apelo aos cultivadores b r a n c o s fracassou
conveniente p a r a [as colônias... A] diferença em t e r m o s de lugares, e o apoio dos Amigos dos Negros m o s t r o u - s e igualmente inútil,
c o s t u m e s , clima e p r o d u t o s nos parecia r e q u e r e r u m a diferença Ogé voltou a Saint D o m i n g u e e no o u t o n o de 1790 incitou u m a
nas leis". O decreto t a m b é m tornava crime a incitação de t u m u l t o revolta dos h o m e n s de cor livres. A revolta fracassou, e Ogé foi
nas colônias. 18
supliciado na roda.' ' 1

Apesar dessa recusa, o discurso dos direitos abriu o seu c a m i - Mas o apoio aos direitos dos h o m e n s de cor livres não p a r o u
n h o inelutavelmente p o r t o d a a escala social nas colônias. C o m e - p o r aí. Em Paris, a agitação c o n t í n u a dos Amigos dos Negros con-
ç o u n o t o p o c o m o s cultivadores b r a n c o s d a m a i o r e m a i s rica quistou um decreto, em m a i o de 1791, q u e concedia direitos polí-
colônia, Saint D o m i n g u e (hoje H a i t i ) . Em m e a d o s de 1788, eles ticos a t o d o s os h o m e n s de cor livres nascidos de mães e pais livres.
exigiram reformas no c o m é r c i o e na representação das colônias D e p o i s q u e os escravos de Saint D o m i n g u e se r e b e l a r a m , em
nos v i n d o u r o s Estados Gerais. Em p o u c o t e m p o , a m e a ç a v a m exi- agosto de 1791, os d e p u t a d o s r e s c i n d i r a m até esse decreto alta-
gir a i n d e p e n d ê n c i a , c o m o os n o r t e - a m e r i c a n o s , se o g o v e r n o m e n t e restritivo, m a s a p r o v a r a m u m mais generoso e m abril d e
nacional tentasse interferir no sistema dos escravos. Os b r a n c o s 1792. N ã o s u r p r e e n d e q u e os d e p u t a d o s agissem de maneira con-
das classes mais baixas, p o r o u t r o lado, esperavam q u e a revolução fusa, pois a situação real nas colônias era desnorteante. A revolta
n a F r a n ç a lhes trouxesse c o m p e n s a ç ã o c o n t r a o s b r a n c o s m a i s dos escravos, q u e c o m e ç o u em m e a d o s de agosto de 1791, havia
ricos, q u e n ã o desejavam p a r t i l h a r o p o d e r político c o m m e r o s atraído até 10 mil insurgentes já no final do mês, um n ú m e r o que
artesãos e comerciantes. c o n t i n u a v a a crescer r a p i d a m e n t e . B a n d o s a r m a d o s de escravos

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massacravam os brancos e q u e i m a v a m os c a m p o s de cana -de-açú- a m ã o dos legisladores. C o m o m o s t r a v a o a r g u m e n t o de Kersaint,
car e as casas das plantações. Os cultivadores i m e d i a t a m e n t e cul- o s direitos d o h o m e m e r a m inevitavelmente p a r t e d a discussão,
p a r a m os Amigos dos Negros e a difusão d e " l u g a r e s - c o m u n s sobre m e s m o na Assembleia q u e os t i n h a declarado inaplicáveis às colô-
os Direitos do H o m e m " . 20
nias. Os acontecimentos levaram os d e p u t a d o s a reconhecer a sua
De q u e lado os h o m e n s de cor livres se posicionavam nessa aplicabilidade em lugares, e em relação a g r u p o s , q u e eles t i n h a m
luta? Eles t i n h a m servido nas milícias acusadas de c a p t u r a r escra- o r i g i n a l m e n t e e s p e r a d o excluir desses d i r e i t o s . Aqueles q u e se
vos fugidos e às vezes e r a m eles p r ó p r i o s d o n o s de escravos. Em o p u n h a m a conceder direitos aos h o m e n s de cor livres concorda-
1789, os Amigos dos Negros os t i n h a m retratado n ã o só c o m o um v a m a respeito de um p o n t o central c o m aqueles que apoiavam a
b a l u a r t e c o n t r a u m potencial levante d e escravos, m a s t a m b é m ideia de conferir esses direitos: os direitos dos h o m e n s de cor livres
c o m o m e d i a d o r e s e m q u a l q u e r futura abolição d a escravatura. n ã o p o d i a m ser s e p a r a d o s da reflexão s o b r e o p r ó p r i o sistema
Agora os escravos t i n h a m se rebelado. Tendo inicialmente rejei- escravagista. Assim, u m a vez r e c o n h e c i d o s esses direitos o p r ó -
t a d o a visão dos Amigos dos Negros, um n ú m e r o cada vez maior x i m o passo se t o r n a v a ainda mais inevitável.
de d e p u t a d o s em Paris c o m e ç o u d e s e s p e r a d a m e n t e a endossá-la N o v e r ã o d e 1793, a s c o l ô n i a s francesas estavam e m total
no início de 1792. Esperavam q u e os h o m e n s de cor livres p u d e s - sublevação. U m a r e p ú b l i c a havia s i d o d e c l a r a d a na França, e a
sem se aliar às forças francesas e aos b r a n c o s de classe baixa contra guerra agora o p u n h a a n o v a república à Grã-Bretanha e à Espanha
t a n t o os cultivadores q u a n t o os escravos. Entre os d e p u t a d o s , um no Caribe. Os cultivadores b r a n c o s p r o c u r a r a m fazer alianças c o m
a n t i g o oficial naval, n o b r e e d o n o de p l a n t a ç õ e s , expôs o argu- os b r i t â n i c o s . Alguns dos escravos rebeldes de Saint D o m i n g u e
m e n t o : "Essa classe [os b r a n c o s p o b r e s ] é reforçada pela dos j u n t a r a m - s e aos e s p a n h ó i s , q u e c o n t r o l a v a m a m e t a d e leste da
h o m e n s de cor livres que p o s s u e m p r o p r i e d a d e : esse é o p a r t i d o da ilha, Santo D o m i n g o , em troca de promessas de liberdade para si
Assembleia Nacional nesta ilha. [...] Os receios de nossos colonos m e s m o s . M a s a E s p a n h a n ã o t i n h a a m e n o r intenção de abolir a
[cultivadores brancos] têm, p o r t a n t o , f u n d a m e n t o , u m a vez que escravidão. Em agosto de 1793, enfrentando um colapso total da
eles t ê m t u d o a t e m e r da influência de nossa revolução sobre os a u t o r i d a d e francesa, dois comissários enviados da França começa-
seus escravos. Os direitos do h o m e m d e r r u b a m o sistema em que r a m a oferecer a e m a n c i p a ç ã o aos escravos que lutavam pela Repú-
se assentam as suas fortunas. [...] S o m e n t e m u d a n d o os seus p r i n - blica Francesa, e depois t a m b é m a suas famílias. Além disso, p r o -
cípios é que [os colonos] salvarão as suas vidas e as suas fortunas". m e t i a m concessões de terra. No final do mês, estavam p r o m e t e n d o
O d e p u t a d o A r m a n d - G u y Kersaint p a s s o u a defender a p r ó p r i a liberdade a províncias inteiras. O decreto e m a n c i p a n d o os escra-
abolição gradual da escravidão. Na verdade, os negros e m u l a t o s vos do n o r t e abria c o m o artigo P da Declaração dos Direitos do
livres d e s e m p e n h a r a m um papel a m b í g u o d u r a n t e t o d o o levante H o m e m e do Cidadão: "Os h o m e n s nascem e p e r m a n e c e m livres e
dos escravos, ora se aliando aos b r a n c o s contra os escravos, ora se iguais em direitos". E m b o r a inicialmente temerosos de u m a t r a m a
aliando aos escravos contra os brancos. 21
britânica p a r a solapar o p o d e r francês p o r m e i o da libertação de
Mais u m a vez, a p o t e n t e c o m b i n a ç ã o de teoria (declaração escravos, os d e p u t a d o s em Paris v o t a r a m p o r abolir a escravidão
dos direitos) e prática (nesse caso, franca revolta e rebelião) forçou em t o d a s as colônias em fevereiro de 1794. Agiram assim que escu-

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t a r a m relatos e m p r i m e i r a m ã o d e três h o m e n s — u m branco, u m em agosto de 1793 q u e " E u q u e r o que a Liberdade e a Igualdade rei-
m u l a t o e um escravo liberto — enviados de Saint D o m i n g u e para n e m em Saint D o m i n g u e . Trabalho p a r a q u e elas p a s s e m a existir.
explicar a n e c e s s i d a d e da e m a n c i p a ç ã o . A l é m da "abolição da Uni-vos a nós, i r m ã o s [ c o m p a n h e i r o s insurgentes], e lutai c o n o s -
escravidão negra em todas as colônias", os d e p u t a d o s decretaram co pela m e s m a causa". Sem a declaração inicial, a abolição da escra-
"que t o d o s os h o m e n s , sem distinção de cor, residindo nas colô- vatura em 1794 teria p e r m a n e c i d o inconcebível. 23

nias, são cidadãos franceses e gozarão de t o d o s os direitos assegu- Em 1802, Napoleão enviou u m a i m e n s a força expedicionária
rados pela Constituição". 22

da F r a n ç a p a r a c a p t u r a r T o u s s a i n t - L o u v e r t u r e e restabelecer a
A abolição da escravatura foi um ato de p u r o altruísmo escla- escravidão nas colônias francesas. T r a n s p o r t a d o de volta p a r a a
recido? Dificilmente. A c o n t í n u a revolta dos escravos em Saint França, Toussaint m o r r e u n u m a prisão fria, louvado p o r William
D o m i n g u e e sua conjunção c o m a guerra em m u i t a s frentes deixa- W o r d s w o r t h e c e l e b r a d o pelos abolicionistas em t o d a p a r t e .
v a m p o u c a escolha aos comissários, e p o r t a n t o aos d e p u t a d o s em W o r d s w o r t h acolheu o zelo de Toussaint pela liberdade:
Paris, se quisessem conservar até m e s m o u m a p e q u e n a porção de
sua ilha-colônia. Mas, c o m o revelavam as ações dos britânicos e Though fallen thyself, never to rise again,
dos espanhóis, ainda havia m u i t o espaço de m a n o b r a p a r a m a n t e r Live, and take comfort. Thou hast left behind
a escravidão no seu lugar: eles p o d i a m p r o m e t e r a e m a n c i p a ç ã o Powers that will work for thee; air, earth, and skies;
exclusivamente àqueles que passassem para o seu lado, sem ofere- There's nota breathing of the common wind
cer a abolição geral da escravatura. Mas a propagação dos "direitos That will forget thee; thou hast great allies;
do h o m e m " tornou a m a n u t e n ç ã o da escravidão m u i t o mais difí- Thy friends are exultations, agonies,
cil p a r a os franceses. A m e d i d a q u e se espalhava na França, a dis- And love, and mans unconquerable mind.
cussão dos direitos boicotava a tentativa da legislatura de m a n t e r
as colônias fora da Constituição, precisamente p o r ser inevitável
[Embora tu próprio caído, para não mais te erguer,
q u e incitasse os h o m e n s de cor livres e os p r ó p r i o s escravos a fazer
Vive e consola-te. Deixaste para trás
novas d e m a n d a s e a lutar ferozmente p o r elas. Desde o começo os
Poderes que lutarão por ti: o ar, a terra e os céus;
cultivadores e seus aliados p e r c e b e r a m a a m e a ç a . Os d e p u t a d o s
Nem um único sopro do vento comum
coloniais em Paris escreveram secretamente p a r a as colônias a fim
Te esquecerá; tens grandes aliados;
de instruir seus amigos a "vigiar as pessoas e os a c o n t e c i m e n t o s ;
Teus amigos são o júbilo, a agonia
p r e n d e r os suspeitos; apoderar-se de quaisquer escritos em q u e a
E o amor, e a mente inconquistável do homem.]
palavra ' l i b e r d a d e ' seja m e r a m e n t e p r o n u n c i a d a " . E m b o r a o s
escravos talvez n ã o tivessem c o m p r e e n d i d o t o d a s as sutilezas da
A ação de Napoleão retardou a abolição definitiva da escravatura
d o u t r i n a dos direitos do h o m e m , as próprias palavras p a s s a r a m a
nas colônias francesas até 1848, q u a n d o u m a segunda república
ter um efeito inegavelmente talismânico. O ex-escravo Toussaint-
chegou ao poder. Mas ele n ã o conseguiu fazer o t e m p o andar c o m -
-Louverture, que se tornaria em breve o líder da revolta, p r o c l a m o u
pletamente para trás. Os escravos de Saint D o m i n g u e recusaram-

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-se a aceitar a s u a s o r t e e resistiram c o m sucesso ao exército de exclusão universal das m u l h e r e s dos direitos políticos no século
N a p o l e ã o até a retirada francesa, q u e deixou p a r a trás a primeira xviii e d u r a n t e a m a i o r p a r t e da história h u m a n a — as mulheres
n a ç ã o liderada p o r escravos libertos, o Estado i n d e p e n d e n t e do n ã o g a n h a r a m o direito de v o t a r nas eleições n a c i o n a i s em n e -
Haiti. D o s 60 mil soldados franceses, suíços, alemães e poloneses n h u m lugar d o m u n d o antes d o f i m d o século xix — , é mais sur-
enviados à ilha, apenas u n s p o u c o s milhares r e t o r n a r a m ao o u t r o p r e e n d e n t e q u e os direitos das mulheres n ã o t e n h a m sequer sido
lado do oceano. Os outros t i n h a m t o m b a d o em combates ferozes discutidos na arena pública do q u e o fato de as mulheres em última
ou pela febre amarela q u e d i z i m o u milhares, inclusive o c o m a n - análise n ã o os t e r e m g a n h a d o .
d a n t e - c h e f e das forças expedicionárias. E n t r e t a n t o , m e s m o nas Os direitos das m u l h e r e s estavam claramente mais abaixo na
colônias o n d e a escravidão foi restaurada c o m sucesso o gosto da escala de "conceptibilidade" do q u e os de o u t r o s grupos. A "ques-
liberdade n ã o foi esquecido. Depois q u e a revolução de 1830 na tão da m u l h e r " veio à t o n a periodicamente na E u r o p a d u r a n t e os
França substituiu a m o n a r q u i a ultraconservadora, um abolicio- séculos xvii e xvm, s o b r e t u d o c o m respeito à educação das m u l h e -
nista visitou G u a d a l u p e e relatou a reação dos escravos à sua b a n - res, ou à falta dessa educação, m a s os direitos delas não t i n h a m sido
deira tricolor, a d o t a d a pela república em 1794. "Signo glorioso de o foco de n e n h u m a discussão p r o l o n g a d a n o s anos que levam à
nossa emancipação, nós te saudamos!", gritaram quinze ou vinte Revolução Francesa ou à Americana. Em contraste c o m os protes-
escravos. "Olá, b a n d e i r a b e n é v o l a , q u e v e m d o o u t r o l a d o d o tantes franceses, os j u d e u s ou até os escravos, o status das m u l h e -
o c e a n o p a r a a n u n c i a r o t r i u n f o de nossos a m i g o s e as h o r a s de res n ã o t i n h a sido objeto d e g u e r r a s d e panfletos, c o m p e t i ç õ e s
nossa libertação." 24
p ú b l i c a s d e e n s a i o s , c o m i s s õ e s d o governo o u organizações d e
defesa especialmente organizadas, como os Amigos dos Negros.
Esse descaso talvez se devesse ao fato de que as mulheres não c o n s -
D E C L A R A N D O OS DIREITOS DAS M U L H E R E S tituíam u m a minoria perseguida. Eram oprimidas segundo os
nossos p a d r õ e s , e o p r i m i d a s p o r causa de seu sexo, m a s não e r a m
E m b o r a os d e p u t a d o s p u d e s s e m concordar — se pressiona- u m a m i n o r i a , e c e r t a m e n t e n i n g u é m estava t e n t a n d o forçá-las a
dos — q u e a declaração de direitos se aplicava a " t o d o s os h o m e n s , m u d a r d e i d e n t i d a d e , c o m o acontecia c o m o s protestantes e o s
s e m distinção de cor", apenas um p u n h a d o se d i s p u n h a a dizer q u e j u d e u s . Se alguns c o m p a r a v a m a sua sorte à escravidão, p o u c o s
ela se aplicava t a m b é m às mulheres. Ainda assim, os direitos das levavam a analogia além do reino da metáfora. As leis limitavam os
m u l h e r e s s u r g i r a m na discussão, e os d e p u t a d o s e s t e n d e r a m os d i r e i t o s d a s m u l h e r e s , s e m d ú v i d a , m a s elas r e a l m e n t e t i n h a m
direitos civis das m u l h e r e s em i m p o r t a n t e s n o v a s d i r e ç õ e s . As a l g u n s d i r e i t o s , ao c o n t r á r i o d o s escravos. Pensava-se q u e as
m o ç a s g a n h a r a m o direito ao divórcio pelas m e s m a s razões de seus m u l h e r e s e r a m m o r a l m e n t e , se não intelectualmente, d e p e n d e n -
m a r i d o s . O divórcio n ã o era p e r m i t i d o pela lei francesa antes de tes de seus pais e m a r i d o s , m a s n ã o se imaginava q u e fossem des-
sua decretação em 1792. A m o n a r q u i a restaurada revogou o divór- providas de a u t o n o m i a ; na verdade, a sua inclinação pela a u t o n o -
cio em 1816, e o divórcio só foi r e i n s t i t u í d o em 1884, e m e s m o m i a requeria u m a vigilância constante de supostas autoridades de
e n t ã o c o m m a i s restrições do q u e as aplicadas em 1792. D a d a a t o d o s o s t i p o s . T a m p o u c o e r a m desprovidas d e voz, m e s m o e m

i68 169
assuntos políticos: as d e m o n s t r a ç õ e s e t u m u l t o s a respeito do pre- P o r é m , m e s m o a q u i a lógica dos direitos seguiu o seu c a m i -
ço do p ã o revelaram r e p e t i d a m e n t e essa verdade, antes e d u r a n t e a n h o , a i n d a q u e de f o r m a espasmódica. Em j u l h o de 1790, C o n d o r -
Revolução Francesa. 25

cet c h o c o u os seus leitores c o m um surpreendente editorial j o r n a -


A s m u l h e r e s s i m p l e s m e n t e n ã o c o n s t i t u í a m u m a categoria lístico, "Sobre a a d m i s s ã o das mulheres aos direitos da cidadania",
política claramente separada e distinguível antes da Revolução. O t o r n a n d o explícito o f u n d a m e n t o lógico d o s direitos h u m a n o s ,
e x e m p l o de C o n d o r c e t , o m a i s a b e r t o defensor m a s c u l i n o d o s que t i n h a se desenvolvido constantemente na segunda m e t a d e do
direitos políticos das m u l h e r e s d u r a n t e a Revolução, é revelador. Já século XVIII: "os direitos d o s h o m e n s r e s u l t a m a p e n a s do fato de
em 1781 ele publicou um panfleto exigindo a abolição da escrava- que eles são seres sensíveis, capazes de a d q u i r i r ideias m o r a i s e de
tura. N u m a lista q u e incluía reformas propostas para os c a m p o n e - r a c i o c i n a r s o b r e essas ideias". As m u l h e r e s n ã o t ê m as m e s m a s
ses, os p r o t e s t a n t e s e o sistema de justiça c r i m i n a l , b e m c o m o o características? " C o m o as mulheres têm as m e s m a s qualidades", ele
estabelecimento do livre comércio e a vacinação contra a varíola, insistia, "elas t ê m n e c e s s a r i a m e n t e d i r e i t o s iguais." C o n d o r c e t
as m u l h e r e s n ã o eram m e n c i o n a d a s . Elas apenas se t o r n a r a m u m a tirava a c o n c l u s ã o lógica q u e os seus colegas r e v o l u c i o n á r i o s
questão p a r a esse pioneiro dos direitos h u m a n o s u m a n o depois t i n h a m tanta dificuldade e m deduzir p o r s i m e s m o s : " O u n e n h u m
do início da revolução. 26
indivíduo n a h u m a n i d a d e t e m direitos verdadeiros, o u t o d o s t ê m
E m b o r a algumas t e n h a m votado p o r p r o c u r a ç ã o nas eleições os m e s m o s ; e q u e m v o t a c o n t r a o direito de o u t r o , q u a l q u e r q u e
p a r a o s E s t a d o s Gerais e u m p e q u e n o n ú m e r o d e d e p u t a d o s seja a sua religião, cor ou sexo, abjurou a p a r t i r desse m o m e n t o os
achasse q u e as mulheres, ou ao m e n o s as viúvas q u e p o s s u í a m p r o - seus p r ó p r i o s direitos".
priedades, p o d e r i a m votar no futuro, as m u l h e r e s c o m o tais, isto é, Aí estava a filosofia m o d e r n a dos d i r e i t o s h u m a n o s na sua
c o m o u m a potencial categoria de direitos, a b s o l u t a m e n t e n ã o apa- forma pura, claramente articulada. As particularidades dos h u m a -
receram nas discussões da Assembleia Nacional entre 1789 e 1791. nos (excluindo-se talvez a idade, as crianças a i n d a não sendo capazes
Alista alfabética dos e n o r m e s Archives parlementaires cita " m u l h e - de raciocinar por conta própria) não d e v e m pesar na balança, n e m
res" a p e n a s d u a s vezes: n u m dos casos u m g r u p o d e b r e t ã s q u e m e s m o dos direitos políticos. Condorcet t a m b é m explicava por que
p e d i a p a r a fazer u m j u r a m e n t o cívico e n o o u t r o u m g r u p o d e tantas mulheres, b e m c o m o homens, t i n h a m aceitado sem questio-
m u l h e r e s parisienses que enviava um discurso. Em contraste, os nar a subordinação inj ustificável das mulheres: "O hábito pode fami-
j u d e u s apareciam em discussões diretas dos d e p u t a d o s ao m e n o s liarizar os h o m e n s c o m a violação de seus direitos naturais a p o n t o
em dezessete ocasiões diferentes. No final de 1789, atores, carras- de, entre aqueles que os perderam, ninguém s o n h a r em reclamá-los,
cos, p r o t e s t a n t e s , j u d e u s , n e g r o s livres e até h o m e n s p o b r e s n e m acreditar que sofreu u m a injustiça". Ele desafiava os seus leitores
p o d i a m ser imaginados c o m o cidadãos, a o m e n o s p o r u m n ú m e r o a reconhecer que as mulheres sempre t i v e r a m direitos, e que o cos-
substancial de d e p u t a d o s . Apesar dessa recalibração c o n t í n u a da t u m e social os cegara p a r a essa verdade f u n d a m e n t a l . 28

escala de conceptibilidade, os direitos iguais p a r a a classe feminina Em setembro de 1791, a dramaturga antiescravagista O l y m p e
p e r m a n e c i a m inimagináveis p a r a quase t o d o m u n d o , t a n t o h o - de Gouges virou a Declaração dos Direitos do H o m e m e do Cida-
m e n s c o m o mulheres. 27

dão pelo avesso. A sua Declaração dos D i r e i t o s da Mulher insistia


M
\

I7O 171
q u e "A m u l h e r nasce livre e p e r m a n e c e igual ao h o m e m em direi- V a m o s a n t e s n o s d e s v e n c i l h a r d o p r e c o n c e i t o d o sexo, a s s i m
t o s " (artigo I ) . "Todas as cidadãs e cidadãos, s e n d o iguais aos seus
a
c o m o nos l i b e r a m o s do preconceito contra a cor d o s negros." Os
[da lei] olhos, devem ser igualmente admissíveis a todas as digni- d e p u t a d o s n ã o s e g u i r a m a sua orientação. 30

d a d e s , cargos e e m p r e g o s públicos, s e g u n d o a sua capacidade e Em vez disso, em o u t u b r o de 1793, os d e p u t a d o s a t a c a r a m os


s e m n e n h u m a o u t r a d i s t i n ç ã o q u e n ã o seja a de suas v i r t u d e s e clubes de mulheres. Reagindo a lutas nas ruas entre m u l h e r e s a res-
talentos" (artigo 6 ) . A inversão da linguagem da declaração oficial
a
peito do uso de insígnias revolucionárias, a C o n v e n ç ã o v o t o u p o r
de 1789 n ã o nos parece chocante no presente, m a s certamente cho- s u p r i m i r t o d o s os clubes políticos para mulheres sob o pretexto de
cou à época. Na Inglaterra, M a r y Wollstonecraft n ã o foi tão longe q u e tais clubes s ó a s d e s v i a v a m d e seus a p r o p r i a d o s d e v e r e s
q u a n t o as suas c o m p a n h e i r a s francesas, q u e exigiam direitos polí- d o m é s t i c o s . S e g u n d o o d e p u t a d o q u e a p r e s e n t o u o d e c r e t o , as
ticos a b s o l u t a m e n t e iguais p a r a as m u l h e r e s , m a s escreveu c o m mulheres n ã o t i n h a m o c o n h e c i m e n t o , a aplicação, a dedicação ou
mais detalhes e c o m u m a paixão intensa sobre as m a n e i r a s c o m o a a a b n e g a ç ã o exigidos p a r a governar. D e v i a m se ater às "funções
educação e a tradição h a v i a m tolhido a inteligência das mulheres. privadas a q u e as m u l h e r e s são destinadas pela p r ó p r i a natureza".
Em Vindication of the Rights ofWoman, p u b l i c a d o em 1792, ela O f u n d a m e n t o lógico n ã o era n e n h u m a novidade; o q u e era n o v o
ligava a e m a n c i p a ç ã o das mulheres à implosão de todas as formas era a necessidade de vir a público e proibir as m u l h e r e s de f o r m a r
de hierarquia na sociedade. C o m o De Gouges, Wollstonecraft foi e frequentar clubes políticos. As mulheres p o d e m ter surgido p o r
vítima de difamação p ú b l i c a pela sua o u s a d i a . O d e s t i n o de De ú l t i m o nas discussões e c o m o t e m a de m e n o r i m p o r t â n c i a , m a s os
Gouges foi ainda pior, pois ela a c a b o u na guilhotina, c o n d e n a d a seus direitos a c a b a r a m e n t r a n d o na agenda, e o q u e foi dito a seu
c o m o u m a contrarrevolucionaria " i m p u d e n t e " e um ser inatural respeito na década de 1790 — especialmente em favor dos direitos
(um "homem-mulher"). 29
— teve um i m p a c t o q u e d u r o u até o presente. 31

U m a vez d e s e n c a d e a d o o momentum, os direitos das m u l h e - A lógica d o s direitos t i n h a forçado até os direitos das m u l h e -
res n ã o ficaram l i m i t a d o s às publicações de u n s p o u c o s indiví- res a sair da n é v o a o b s c u r a do h á b i t o , ao m e n o s na F r a n ç a e na
d u o s pioneiros. Entre 1791 e 1793, as m u l h e r e s estabeleceram clu- I n g l a t e r r a . N o s E s t a d o s U n i d o s , o descaso c o m os direitos d a s
bes políticos em ao m e n o s c i n q u e n t a cidades p r o v i n c i a n a s e de m u l h e r e s atraiu relativamente p o u c a discussão pública antes de
m a i o r p o r t e , b e m c o m o e m Paris. O s direitos das m u l h e r e s c o m e - 1792, e n ã o apareceram escritos americanos na era revolucionária
ç a r a m a ser d e b a t i d o s n o s clubes, em j o r n a i s e em panfletos. Em q u e p o s s a m ser c o m p a r a d o s aos de Condorcet, O l y m p e de G o u g e s
abril de 1793, d u r a n t e a c o n s i d e r a ç ã o da c i d a d a n i a n u m a n o v a ou M a r y Wollstonecraft. Na verdade, antes da publicação de Vin-
p r o p o s t a d e C o n s t i t u i ç ã o p a r a a república, u m d e p u t a d o a r g u - dication of the Rights ofWoman, de Wollstonecraft, em 1792, o c o n -
m e n t o u d e t a l h a d a m e n t e em favor de direitos políticos iguais p a r a ceito d o s direitos das m u l h e r e s q u a s e n ã o recebeu a t e n ç ã o n a
as m u l h e r e s . A sua i n t e r v e n ç ã o m o s t r a v a q u e a ideia t i n h a Inglaterra n e m na América. A p r ó p r i a Wollstonecraft havia d e s e n -
g a n h a d o a l g u n s a d e p t o s . " H á s e m d ú v i d a u m a diferença", ele volvido as suas influentes n o ç õ e s sobre o a s s u n t o n u m a reação
admitia, "a dos sexos [...] m a s n ã o c o m p r e e n d o c o m o u m a dife- direta à Revolução Francesa. Na sua primeira o b r a sobre direitos,
rença sexual c o n t r i b u i p a r a u m a desigualdade n o s direitos. [...] Vindication of the Rights ofMen (1790), ela contestou as acusações

172 173
de Burke c o n t r a os direitos do h o m e m na França. Isso a levou a m o s t r o u q u e a s m u l h e r e s n ã o t i n h a m p e r d i d o d e vista a s m e t a s
considerar, p o r sua vez, os direitos da mulher. 32
enunciadas n o s p r i m e i r o s a n o s da revolução:
Se o l h a r m o s além das p r o c l a m a ç õ e s oficiais e decretos dos
políticos h o m e n s , a m u d a n ç a de expectativa a respeito dos direitos É compreensível que [no Antigo Regime] não se acreditasse neces-
das m u l h e r e s é m a i s i m p r e s s i o n a n t e . S u r p r e e n d e n t e m e n t e , p o r sário assegurar a uma metade da humanidade metade dos direitos
exemplo, Vindication ofthe Rights ofWoman p o d i a ser e n c o n t r a d o ligados aos seres humanos; mas seria mais difícil compreender que
em mais bibliotecas particulares americanas no início da república se tenha podido deixar inteiramente de reconhecer [os direitos] das
do q u e Os direitos do homem, de Paine. E m b o r a o p r ó p r i o Paine mulheres durante os últimos dez anos, naqueles momentos em que
n ã o desse atenção aos direitos das mulheres, o u t r o s os considera- as palavras igualdade e liberdade ressoavam por toda parte, naque-
vam. No início do século xix, sociedades de debates, discursos de les momentos em que a filosofia, ajudada pela experiência, ilumi-
f o r m a t u r a e revistas populares nos Estados U n i d o s tratavam regu- nava sem cessar o homem a respeito de seus verdadeiros direitos.
l a r m e n t e das pressuposições de gênero p o r trás do sufrágio m a s -
culino. Na França, as m u l h e r e s aproveitaram as novas o p o r t u n i d a - Ela atribuía esse descaso c o m os direitos das m u l h e r e s ao fato de
des de publicação criadas pela liberdade de i m p r e n s a para escrever q u e as massas masculinas acreditavam facilmente q u e limitar ou
m a i s livros e panfletos do q u e n u n c a . O direito das m u l h e r e s à até aniquilar o p o d e r das m u l h e r e s a u m e n t a r i a o p o d e r dos h o -
herança igual provocou incontáveis processos na justiça, p o r q u e as m e n s . No seu artigo, Pipelet citava a o b r a de Wollstonecraft sobre
m u l h e r e s d e t e r m i n a r a m s e a g a r r a r a o q u e era a g o r a l e g i t i m a - os direitos das m u l h e r e s , m a s não reivindicava para as mulheres o
m e n t e delas. Afinal, os direitos n ã o e r a m u m a p r o p o s i ç ã o t u d o - direito de votar ou o c u p a r cargos públicos. 34

- o u - n a d a . Os novos direitos, m e s m o que n ã o fossem direitos polí- Pipelet d e m o n s t r a v a u m a c o m p r e e n s ã o sutil da tensão entre
ticos, a b r i a m o c a m i n h o de novas o p o r t u n i d a d e s p a r a as m u l h e - a lógica revolucionária dos direitos e as restrições continuadas dos
res, e elas logo as a p r o v e i t a r a m . C o m o as ações a n t e r i o r e s d o s c o s t u m e s . "É e s p e c i a l m e n t e d u r a n t e a r e v o l u ç ã o [...] q u e as
protestantes, j u d e u s e h o m e n s de cor livres já t i n h a m m o s t r a d o , m u l h e r e s , s e g u i n d o o e x e m p l o dos h o m e n s , r a c i o c i n a m m u i t o
a c i d a d a n i a n ã o é apenas algo a ser c o n c e d i d o pelas a u t o r i d a d e s : sobre a sua verdadeira essência e t o m a m atitudes em consequên-
é algo a ser c o n q u i s t a d o p o r si m e s m o . U m a m e d i d a da a u t o n o - cia desse seu pensar." Se continuava a o b s c u r i d a d e ou a ambigui-
m i a m o r a l é essa c a p a c i d a d e de a r g u m e n t a r , insistir e, p a r a d a d e sobre o t e m a dos direitos das mulheres (e Pipelet e m p r e s t o u
alguns, lutar. 33
um t o m de g r a n d e incerteza a muitas de suas passagens), era p o r -
D e p o i s de 1793, as m u l h e r e s se v i r a m m a i s r e p r i m i d a s no q u e o I l u m i n i s m o n ã o havia p r o g r e d i d o o suficiente: as pessoas
m u n d o oficial da política francesa. E n t r e t a n t o , a p r o m e s s a de c o m u n s , e especialmente as mulheres c o m u n s , continuavam n ã o
direitos n ã o havia sido c o m p l e t a m e n t e e s q u e c i d a . N u m l o n g o e d u c a d a s . À m e d i d a q u e as m u l h e r e s g a n h a v a m e d u c a ç ã o , elas
artigo publicado em 1800 sobre De la condition desfemmes dans les d e m o n s t r a v a m inevitavelmente os seus talentos, pois o mérito n ã o
Republiques, de Charles T h é r e m i n , a p o e t a e d r a m a t u r g a C o n s - t e m sexo, afirmava Pipelet. Ela concordava c o m T h é r e m i n que as
t a n c e Pipelet ( m a i s t a r d e c o n h e c i d a c o m o C o n s t a n c e d e Salm) m u l h e r e s d e v i a m ser e m p r e g a d a s c o m o mestres-escolas e ter a

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permissão p a r a defender os seus "direitos naturais e inalienáveis"
nos tribunais.
5. "A força maleável da humanidade"
Se a p r ó p r i a Pipelet n ã o chegou a advogar direitos políticos
Por que os direitos humanos fracassaram a
plenos p a r a as m u l h e r e s foi p o r q u e ela estava reagindo ao q u e via
c o m o p o s s í v e l — i m a g i n á v e l , argumentável — nos seus dias. Mas, princípio, mas tiveram sucesso no longo prazo
c o m o m u i t o s o u t r o s , ela via q u e a filosofia dos direitos n a t u r a i s
t i n h a u m a lógica implacável, m e s m o q u e a i n d a n ã o tivesse sido
e l a b o r a d a n o caso das m u l h e r e s essa o u t r a m e t a d e d a h u m a n i -
dade. A n o ç ã o dos "direitos do homem", c o m o a p r ó p r i a revolução,
abriu um espaço imprevisível p a r a discussão, conflito e m u d a n ç a .
A p r o m e s s a daqueles direitos p o d e ser negada, s u p r i m i d a ou sim-
plesmente c o n t i n u a r n ã o c u m p r i d a , m a s n ã o m o r r e .

O s direitos h u m a n o s e r a m simplesmente " u m absurdo retó-


rico, um a b s u r d o bombástico", c o m o afirmava o filósofo Jeremy
Bentham? A longa lacuna na história dos direitos h u m a n o s , de sua
f o r m u l a ç ã o inicial nas revoluções a m e r i c a n a e francesa até a
Declaração Universal das Nações U n i d a s em 1948, faz q u a l q u e r
u m p a r a r p a r a pensar. O s direitos n ã o d e s a p a r e c e r a m n e m n o
p e n s a m e n t o n e m na ação, m a s as discussões e os decretos agora
o c o r r i a m quase exclusivamente d e n t r o d e e s t r u t u r a s nacionais
específicas. A n o ç ã o de vários t i p o s de direitos g a r a n t i d o s pela
Constituição — os direitos políticos dos trabalhadores, das m i n o -
rias religiosas e das mulheres, p o r exemplo — continuou a ganhar
t e r r e n o n o s séculos xix e xx, m a s os debates sobre direitos naturais
u n i v e r s a l m e n t e aplicáveis d i m i n u í r a m . O s t r a b a l h a d o r e s , p o r
exemplo, g a n h a r a m direitos c o m o trabalhadores britânicos, fran-
ceses, alemães ou a m e r i c a n o s . O nacionalista italiano do século xix
Giuseppe Mazzini c a p t o u o n o v o foco sobre a nação q u a n d o fez a
p e r g u n t a retórica: "O q u e é um País [...] senão o lugar em que os
nossos direitos individuais estão mais seguros?". Foram necessá-

1 7 6
177
rias d u a s guerras m u n d i a i s devastadoras para estilhaçar essa con- cretizado. A Declaração dos Direitos do H o m e m e do C i d a d ã o ,
fiança na nação. 1
arquivada j u n t o c o m a Constituição de 1790, n ã o havia i m p e d i d o
a supressão do dissenso e a execução de todos aqueles vistos c o m o
inimigos.
DEFICIÊNCIAS DOS DIREITOS DO HOMEM Apesar das críticas de Burke, m u i t o s escritores e políticos na
E u r o p a e nos Estados U n i d o s h a v i a m saudado entusiasticamente
O n a c i o n a l i s m o só a s s u m i u a p o s i ç ã o de e s t r u t u r a d o m i - a Declaração dos Direitos em 1789. Q u a n d o a Revolução Francesa
n a n t e p a r a os direitos g r a d u a l m e n t e , depois de 1815, c o m a queda t o r n o u - s e mais radical, e n t r e t a n t o , a opinião pública c o m e ç o u a se
de Napoleão e o fim da era revolucionária. Entre 1789 e 1815, duas dividir. Os governos m o n á r q u i c o s , em particular, reagiram forte-
concepções diferentes de a u t o r i d a d e g u e r r e a r a m entre si: os direi- m e n t e contra a proclamação de u m a república e a execução do rei.
tos do h o m e m de um lado e a sociedade hierárquica tradicional do Em d e z e m b r o de 1792, T h o m a s Paine foi forçado a fugir p a r a a
o u t r o . Cada lado invocava a nação, e m b o r a n e n h u m deles fizesse França q u a n d o um t r i b u n a l britânico o julgou culpado de sedição
afirmações sobre a d e t e r m i n a ç ã o da i d e n t i d a d e pela etnicidade. p o r atacar a m o n a r q u i a hereditária na segunda p a r t e de Os direitos
Por definição, os direitos do " h o m e m " r e p u d i a v a m qualquer ideia do homem. O governo britânico seguiu adiante c o m u m a c a m p a -
de que os direitos d e p e n d i a m da nacionalidade. E d m u n d Burke, n h a sistemática de t o r m e n t o e p e r s e g u i ç ã o d o s defensores das
p o r o u t r o lado, havia t e n t a d o ligar a sociedade hierárquica a certa ideias francesas. Em 1798, s o m e n t e 22 anos depois da declaração
concepção de nação, a r g u m e n t a n d o q u e a liberdade só p o d i a ser dos direitos iguais de t o d o s os h o m e n s , o Congresso dos Estados
g a r a n t i d a p o r u m governo a r r a i g a d o n a história d e u m a nação, U n i d o s a p r o v o u as Leis dos Estrangeiros e da Sedição para limitar
c o m ênfase sobre a história. Os direitos só funcionavam, ele insis- as críticas ao governo a m e r i c a n o . O novo espírito dos t e m p o s p o d e
tia, q u a n d o nasciam de tradições e práticas de longa data. ser visto nos c o m e n t á r i o s feitos em 1797 p o r John Robinson, um
Aqueles q u e apoiavam os direitos do h o m e m h a v i a m n e g a d o professor de filosofia n a t u r a l na Universidade de E d i m b u r g o . Ele
a i m p o r t â n c i a da tradição e da história. Precisamente p o r q u e se invectivava c o n t r a "essa m á x i m a maldita, q u e agora o c u p a t o d a
baseava em "abstrações metafísicas", a Declaração francesa, sus- m e n t e , de p e n s a r c o n t i n u a m e n t e em nossos direitos e exigi-los
tentava Burke, n ã o tinha força e m o c i o n a l suficiente p a r a i m p o r a a n s i o s a m e n t e de t o d a parte". Essa obsessão d o s direitos era "o
obediência. C o m o p o d e r i a m aqueles "pedaços miseráveis de papel m a i o r v e n e n o da vida" s e g u n d o Robinson, que a via c o m o a causa
b o r r a d o " ser c o m p a r a d o s ao a m o r a Deus, ao a m o r reverente aos principal da sublevação política existente, m e s m o na Escócia, e da
reis, ao dever c o m os magistrados, à reverência aos padres e à defe- guerra entre a França e seus vizinhos, que agora ameaçava tragar
rência para c o m os superiores? Os revolucionários t e r i a m de usar t o d a a Europa. 2

a violência p a r a se m a n t e r no p o d e r , ele já t i n h a c o n c l u í d o em A cautela de R o b i n s o n q u a n t o aos direitos empalidecia em


1790. Q u a n d o os republicanos franceses executaram o rei e passa- c o m p a r a ç ã o c o m os mísseis de ataque lançados sobre o continente
r a m a o Terror c o m o u m sistema r e c o n h e c i d o d e governo, c o m o pelos m o n a r q u i s t a s c o n t r a r r e v o l u c i o n a r i o s . S e g u n d o Louis d e
fizeram em 1793 e 1794, o prognóstico de Burke parecia ter se con- Bonald, um conservador s e m papas na língua, "a revolução c o m e -

178 179
ç o u c o m a d e c l a r a ç ã o dos direitos do h o m e m e só t e r m i n a r á As intervenções contraditórias de N a p o l e ã o m o s t r a v a m q u e
q u a n d o os direitos de D e u s f o r e m declarados". A declaração de os direitos n ã o precisavam ser vistos c o m o um p a c o t e único. Ele
direitos, afirmava, representava a má influência da filosofia do Ilu- i n t r o d u z i u a tolerância religiosa e direitos políticos e civis iguais
m i n i s m o e, j u n t o c o m ela, o ateísmo, o p r o t e s t a n t i s m o e a m a ç o - para as m i n o r i a s religiosas em t o d o s os lugares em q u e governou;
naria, q u e ele colocava t o d o s no m e s m o saco. A declaração enco- m a s em casa, na França, l i m i t o u s e v e r a m e n t e a l i b e r d a d e de ex-
rajava as pessoas a negligenciar os seus deveres e a pensar apenas pressão de t o d o s e b a s i c a m e n t e e l i m i n o u a liberdade de i m p r e n s a .
em seus desejos individuais. Já que n ã o podia servir c o m o um freio O i m p e r a d o r francês acreditava q u e "os h o m e n s n ã o n a s c e m p a r a
p a r a essas paixões, ela c o n s e q u e n t e m e n t e levou a França direto à serem livres. [...] A liberdade é u m a necessidade sentida p o r u m a
a n a r q u i a , ao t e r r o r e à d e s i n t e g r a ç ã o social. A p e n a s u m a Igreja p e q u e n a classe de h o m e n s a q u e m a n a t u r e z a d o t o u c o m m e n t e s
Católica revivida, protegida p o r u m a m o n a r q u i a restaurada e legí- mais nobres do q u e a massa dos h o m e n s . C o n s e q u e n t e m e n t e , ela
t i m a , p o d i a i n c u l c a r p r i n c í p i o s m o r a i s v e r d a d e i r o s . Sob o rei p o d e ser r e p r i m i d a c o m i m p u n i d a d e . A igualdade, p o r o u t r o lado,
B o u r b o n reinstalado em 1815, Bonald a s s u m i u a liderança p a r a agrada às massas". Os franceses n ã o desejavam a verdadeira liber-
revogar as leis r e v o l u c i o n á r i a s s o b r e o divórcio e restabelecer a dade, na sua opinião: eles simplesmente aspiravam a ascender ao
censura rigorosa antes da publicação. 1
t o p o da s o c i e d a d e . Sacrificariam os seus direitos políticos p a r a
Antes do r e t o r n o dos reis B o u r b o n , q u a n d o os republicanos assegurar a sua igualdade legal. 5

franceses e mais tarde Napoleão espalharam a m e n s a g e m da Revo- Sobre a questão da escravidão, N a p o l e ã o se revelou inteira-
l u ç ã o Francesa p o r m e i o d a c o n q u i s t a militar, o s direitos d o m e n t e coerente. D u r a n t e u m a breve calmaria na luta na Europa em
h o m e m ficaram e m a r a n h a d o s c o m a agressão imperialista. Para 1802, ele enviou expedições militares às colônias no Caribe. E m b o r a
seu crédito, a influência da França induziu os suíços e os h o l a n d e - deixasse as suas intenções deliberadamente vagas no início, para n ã o
ses a abolir a t o r t u r a em 1798; a E s p a n h a os s e g u i u em 1808, provocar um levante geral dos escravos libertos, as instruções dadas
q u a n d o o i r m ã o de Napoleão governou c o m o rei. Depois da q u e d a ao seu c u n h a d o , um dos generais c o m a n d a n t e s , deixavam os seus
de Napoleão, entretanto, os suíços r e i n t r o d u z i r a m a t o r t u r a e o rei objetivos b e m claros. Assim que chegassem os soldados deviam ocu-
espanhol restabeleceu a Inquisição, q u e usava a t o r t u r a p a r a obter par p o n t o s estratégicos e obter o controle da região. Em seguida
confissões. Os franceses t a m b é m encorajaram a e m a n c i p a ç ã o dos d e v i a m "perseguir os rebeldes sem piedade", d e s a r m a r t o d o s os
j u d e u s e m t o d o s o s lugares d o m i n a d o s p e l o s seus exércitos. negros, p r e n d e r os seus líderes e transportá-los de volta à França,
Embora os governantes que retornavam ao poder eliminassem a b r i n d o o c a m i n h o para restaurar a escravidão. Napoleão tinha cer-
alguns desses direitos r e c e n t e m e n t e a d q u i r i d o s n o s estados ita- teza de que "a perspectiva de u m a república negra é igualmente per-
liano e alemão, a emancipação dos j u d e u s m o s t r o u - s e p e r m a n e n t e t u r b a d o r a p a r a os espanhóis, os ingleses e os americanos". O seu
nos Países Baixos. U m a vez q u e a emancipação dos j u d e u s era vista p l a n o fracassou em Saint D o m i n g u e , que g a n h o u a sua i n d e p e n -
c o m o francesa, os bandoleiros que a t o r m e n t a v a m as forças fran- dência c o m o Haiti, m a s teve sucesso em outras colônias francesas.
cesas e m alguns territórios r e c é m - c o n q u i s t a d o s t a m b é m ataca- Os m o r t o s na luta em Saint D o m i n g u e c h e g a r a m a 150 mil; um
v a m frequentemente os j u d e u s . 4
d é c i m o da população de Guadalupe foi m o r t a ou deportada. 6

i8o 181
N a p o l e ã o t e n t o u criar u m h í b r i d o e n t r e o s direitos d o h o - a n d o u ele criou novas entidades (o d u c a d o de Varsóvia, o reino da
m e m e a sociedade hierárquica tradicional, m a s no fim das contas Itália, a confederação do R e n o ) , p r o d u z i u novas o p o r t u n i d a d e s ou

a m b o s os lados rejeitaram a cria bastarda. Napoleão foi criticado provocou novas animosidades que alimentariam aspirações

pelos tradicionalistas devido à sua ênfase na tolerância religiosa, nacionais. O seu d u c a d o de Varsóvia l e m b r o u aos poloneses q u e

na abolição do feudalismo e na igualdade p e r a n t e a lei, e pelo o u t r o existira o u t r o r a u m a Polônia, antes de ela ser engolida p o r Prússia,

lado devido às restrições que i m p ô s a um grande n ú m e r o de liber- Áustria e Rússia. M e s m o q u e os novos governos italiano e alemão

dades políticas. Conseguiu ficar em paz c o m a Igreja Católica, m a s t e n h a m desaparecido depois da q u e d a de N a p o l e ã o , eles h a v i a m

n u n c a se t o r n o u um governante legítimo aos olhos dos tradiciona- m o s t r a d o q u e a unificação nacional era concebível. Ao d e p o r o rei

listas. Para os defensores dos direitos, a sua insistência na igualdade da Espanha, o i m p e r a d o r francês abriu a p o r t a p a r a os m o v i m e n -

p e r a n t e a lei n ã o conseguiu contrabalançar a sua revivescência da tos de i n d e p e n d ê n c i a s u l - a m e r i c a n o s nas décadas de 1810 e 1820.

nobreza e a criação de um i m p é r i o hereditário. Q u a n d o p e r d e u o Simon Bolívar, o libertador de Bolívia, P a n a m á , C o l ô m b i a , Equa-

poder, o i m p e r a d o r francês foi d e n u n c i a d o t a n t o pelos tradiciona- dor, P e r u e Venezuela, falava a m e s m a l i n g u a g e m n a s c e n t e do

listas c o m o pelos defensores dos direitos c o m o u m tirano, u m dés- n a c i o n a l i s m o e m p r e g a d a p o r seus c o n g ê n e r e s n a E u r o p a . " O

p o t a e um u s u r p a d o r . Um dos críticos mais persistentes de N a p o - nosso solo nativo", dizia c o m e n t u s i a s m o , "desperta s e n t i m e n t o s

leão, a escritora G e r m a i n e de Stáel, p r o c l a m o u em 1817 que o seu ternos e lembranças deliciosas. [...] Q u e alegações de a m o r e dedi-

ú n i c o legado e r a m "mais alguns segredos na arte da tirania". De cação p o d i a m ser m a i o r e s ? " O s e n t i m e n t o n a c i o n a l oferecia a

Stâel, c o m o t o d o s os o u t r o s comentaristas t a n t o da esquerda c o m o força e m o c i o n a l que faltava àqueles "pedaços miseráveis de papel

da direita, só se referia ao líder d e p o s t o pelo seu s o b r e n o m e , Bona- b o r r a d o " ridicularizados p o r Burke. 8

parte, e n u n c a lhe dava o t r a t a m e n t o imperial do p r i m e i r o n o m e , Em reação ao i m p e r i a l i s m o francês, alguns escritores alemães


Napoleão. 7
r e j e i t a r a m t u d o o q u e era francês — inclusive os direitos do
h o m e m — e desenvolveram um n o v o s e n t i d o de nação, baseado
explicitamente n a etnicidade. C a r e c e n d o d e u m a estrutura única

O NACIONALISMO E N T R A EM CENA de n a ç ã o - E s t a d o , os n a c i o n a l i s t a s a l e m ã e s enfatizavam em seu


lugar a mística do Volk ou p o v o , um caráter p r ó p r i o alemão que o

A vitória das forças da o r d e m m o s t r o u - s e efêmera no longo d i s t i n g u i a d o s o u t r o s p o v o s . O s p r i m e i r o s sinais d e p r o b l e m a s

prazo, em g r a n d e parte graças aos desenvolvimentos ativados pelo futuros já p o d i a m ser percebidos nas visões expressas no início do

seu nêmesis, Napoleão. Ao longo do século xix o nacionalismo sur- século xix pelo nacionalista a l e m ã o Friedrich Jahn. " Q u a n t o mais

p r e e n d e u a m b o s os lados dos debates revolucionários, transfor- p u r o um povo, melhor", ele escreveu. As leis da natureza, susten-

m a n d o a discussão dos direitos e criando novos tipos de hierarquia tava, o p e r a v a m c o n t r a a m i s t u r a de raças e povos. Para Jahn os

q u e em última análise ameaçavam a o r d e m tradicional. As aventu- "direitos sagrados" e r a m os do p o v o alemão, e ele ficava tão exas-

ras imperialistas d o c o r s o e m e r g e n t e c a t a l i s a r a m i n a d v e r t i d a - p e r a d o c o m a influência francesa q u e exortava seus colegas ale-

m e n t e as forças do n a c i o n a l i s m o , de Varsóvia a Lima. Por o n d e m ã e s a p a r a r c o m p l e t a m e n t e de falar francês. C o m o t o d o s os

182 183
nacionalistas subsequentes, Jahn recomendava insistentemente que direitos de o u t r o s g r u p o s étnicos. Os alemães r e u n i d o s em F r a n k -
se escrevesse e estudasse a história patriótica. M o n u m e n t o s , funerais furt redigiram u m a n o v a Constituição n a c i o n a l p a r a a A l e m a n h a ,
públicos e festivais populares deviam todos se concentrar em assun- m a s n e g a r a m q u a l q u e r a u t o d e t e r m i n a ç ã o aos d i n a m a r q u e s e s ,
tos alemães, e n ã o ideais universais. No m e s m o m o m e n t o em que os poloneses ou tchecos d e n t r o de suas fronteiras propostas. Os h ú n -
europeus travavam as maiores batalhas contra as ambições i m p e - garos q u e p e d i a m i n d e p e n d ê n c i a d a Á u s t r i a i g n o r a v a m os interes-
riais de Napoleão, Jahn p r o p u n h a fronteiras s u r p r e e n d e n t e m e n t e ses dos r o m e n o s , eslovacos, croatas e eslovenos, q u e c o n s t i t u í a m
amplas para essa nova Alemanha. Ela devia incluir, ele afirmava, a mais da m e t a d e da p o p u l a ç ã o da H u n g r i a . A competição interét-
Suíça, os Países Baixos, a D i n a m a r c a , a Prússia e a Áustria, e u m a nica c o n d e n o u ao fracasso as revoluções de 1848, e c o m elas a liga-
nova capital devia ser construída c o m o n o m e de Teutona. 9
ção entre os direitos e a a u t o d e t e r m i n a ç ã o nacional. A unificação
C o m o Jahn, a m a i o r i a dos p r i m e i r o s nacionalistas preferia nacional da A l e m a n h a e da Itália foi o b t i d a nas décadas de 1850 e
u m a f o r m a d e m o c r á t i c a de g o v e r n o , p o r q u e ela m a x i m i z a r i a o 1860 p o r guerras e diplomacia, e a garantia d o s direitos individuais
senso de p e r t e n c i m e n t o à nação. Em consequência, os tradiciona- n ã o d e s e m p e n h o u n e n h u m papel.
listas se o p u s e r a m i n i c i a l m e n t e ao n a c i o n a l i s m o e à unificação Antes e n t u s i a s t i c a m e n t e p r o n t o p a r a assegurar o s direitos
alemã e italiana, t a n t o q u a n t o t i n h a m se o p o s t o aos direitos do p o r m e i o da difusão da a u t o d e t e r m i n a ç ã o n a c i o n a l , o n a c i o n a -
h o m e m . Os primeiros nacionalistas falavam a linguagem revolu- l i s m o se t o r n o u cada vez m a i s fechado e defensivo. A m u d a n ç a
cionária do universalismo messiânico, m a s para eles a nação, em refletia a e n o r m i d a d e da tarefa de criar u m a nação. A ideia de q u e
vez dos direitos, servia c o m o um t r a m p o l i m para o universalismo. a E u r o p a p o d i a ser c a p r i c h a d a m e n t e dividida em nações-Estados
Bolívar acreditava que a C o l ô m b i a iluminaria o c a m i n h o p a r a a de etnicidade e cultura relativamente h o m o g ê n e a s era d e s m e n t i d a
liberdade e a justiça universais; Mazzini, fundador da nacionalista pelo p r ó p r i o m a p a linguístico. Toda n a ç ã o - E s t a d o abrigava m i n o -
Sociedade da Jovem Itália, p r o c l a m o u q u e os italianos liderariam rias linguísticas e culturais no século xix, m e s m o aquelas estabele-
u m a c r u z a d a universal dos p o v o s o p r i m i d o s pela l i b e r d a d e ; o cidas havia m u i t o t e m p o , c o m o a G r ã - B r e t a n h a e a França. Q u a n -
p o e t a A d a m Mickiewicz achava q u e os poloneses m o s t r a r i a m o do foi d e c l a r a d a a r e p ú b l i c a na F r a n ç a , em 1870, m e t a d e d o s
c a m i n h o para a libertação universal. Os direitos h u m a n o s agora cidadãos n ã o sabia falar francês: os o u t r o s falavam dialetos ou lín-
d e p e n d i a m da a u t o d e t e r m i n a ç ã o nacional, e a p r i o r i d a d e p e r t e n - guas regionais c o m o o bretão, o franco-provençal, o basco, o alsa-
cia necessariamente à última. ciano, o catalão, o córsico, o occitano ou, nas colônias, o crioulo.
D e p o i s de 1848, os tradicionalistas c o m e ç a r a m a aceitar as U m a g r a n d e c a m p a n h a de educação teve de ser e m p r e e n d i d a p a r a
d e m a n d a s nacionalistas, e o n a c i o n a l i s m o p a s s o u da e s q u e r d a integrar t o d o s na nação. As nações aspirantes enfrentavam pres-
p a r a a direita no espectro político. O fracasso das revoluções sões ainda maiores p o r causa da m a i o r heterogeneidade étnica: o
nacionalista e constitucionalista em 1848 na A l e m a n h a , na Itália e c o n d e C a m i l l o d i Cavour, p r i m e i r o - m i n i s t r o d o n o v o Reino d a
na H u n g r i a abriu o c a m i n h o p a r a essas m u d a n ç a s . Os nacionalis- Itália, t i n h a c o m o p r i m e i r a língua o dialeto p i e m o n t ê s , e m e n o s de
tas interessados em garantir os direitos d e n t r o das nações recente- 3% de seus concidadãos falavam o italiano p a d r ã o . A situação era
m e n t e propostas m o s t r a v a m - s e d e m a s i a d o dispostos a rejeitar os ainda mais caótica na E u r o p a Oriental, o n d e m u i t o s g r u p o s étni-

184 185
cos diferentes v i v a m e m g r a n d e i n t i m i d a d e . U m a Polônia revi- defensores e os opositores de Dreyfus. O caso c o m e ç o u em 1894,

vida, p o r exemplo, incluiria n ã o só u m a c o m u n i d a d e substancial q u a n d o um oficial j u d e u do exército c h a m a d o Alfred Dreyfus foi

de j u d e u s , m a s t a m b é m lituanos, u c r a n i a n o s , alemães e bielo-rus- e r r o n e a m e n t e acusado de espionar para a A l e m a n h a . Q u a n d o foi

sos, cada um c o m sua língua e tradições. julgado culpado apesar do grande n ú m e r o de evidências p r o -

A dificuldade de criar ou m a n t e r a h o m o g e n e i d a d e étnica v a n d o a sua inocência, o famoso romancista Emile Zola p u b l i c o u

c o n t r i b u i u p a r a a crescente p r e o c u p a ç ã o c o m a imigração em t o d o um artigo o u s a d o na p r i m e i r a página dos jornais a c u s a n d o o exér-

o m u n d o . P o u c o s se o p u n h a m à i m i g r a ç ã o a n t e s da d é c a d a de cito e o governo francês de acobertar as tentativas de i n c r i m i n a r

1860, m a s ela passou a ser criticada nos países anfitriões nas déca- falsamente Dreyfus. Em resposta à crescente m a r é de opinião em

das de 1880 e 1890. A Austrália t e n t o u i m p e d i r o influxo de asiáti- favor de Dreyfus, u m a r e c é m - f o r m a d a Liga Antissemítica francesa

cos p a r a p o d e r conservar o seu caráter inglês e irlandês. Os Estados f o m e n t o u t u m u l t o s em m u i t a s cidades e m e t r ó p o l e s , às vezes

U n i d o s p r o i b i r a m a imigração da C h i n a em 1882 e de toda a Ásia incluindo ataques de milhares de agitadores a propriedades j u d a i -

em 1917, e d e p o i s , em 1924, e s t a b e l e c e r a m cotas p a r a t o d o s os cas. A Liga conseguia mobilizar tantas pessoas p o r q u e várias cida-

d e m a i s c o m base n a c o m p o s i ç ã o étnica c o r r e n t e d a p o p u l a ç ã o des t i n h a m jornais q u e p r o d u z i a m e m g r a n d e q u a n t i d a d e diatri-

n o r t e - a m e r i c a n a . O g o v e r n o b r i t â n i c o a p r o v o u u m a Lei dos bes antissemíticas. O governo ofereceu a Dreyfus um p e r d ã o em

Estrangeiros em 1905 para i m p e d i r a imigração de "indesejáveis", 1899 e finalmente o exonerou em 1906, m a s o antissemitismo tor-

que m u i t o s interpretavam serem os j u d e u s da E u r o p a Oriental. Ao n o u - s e mais venenoso p o r t o d a parte. Em 1895, Karl Lueger con-

m e s m o t e m p o que os trabalhadores e criados c o m e ç a r a m a ganhar seguiu se eleger prefeito de Viena c o m um p r o g r a m a antissemítico.

direitos políticos iguais nesses países, barreiras b l o q u e a v a m aque- Ele se t o r n a r i a um dos heróis de Hitler.

les que n ã o partilhavam as m e s m a s origens étnicas.


Nessa nova atmosfera protetora, o nacionalismo assumiu um
caráter mais xenófobo e racista. E m b o r a a xenofobia pudesse ter EXPLICAÇÕES BIOLÓGICAS PARA A EXCLUSÃO

c o m o alvo q u a l q u e r g r u p o estrangeiro (os chineses n o s Estados


Unidos, os italianos na França ou os poloneses na A l e m a n h a ) , as Q u a n d o se t o r n o u mais i n t i m a m e n t e entrelaçado c o m a etni-

últimas décadas do século xix assistiram a um crescimento alar- cidade, o nacionalismo a l i m e n t o u u m a ênfase crescente nas expli-

m a n t e do antissemitismo. Os políticos de direita na A l e m a n h a , na cações biológicas para a diferença. Os a r g u m e n t o s para os direitos

Áustria e na França usavam jornais, clubes políticos e, em alguns do h o m e m t i n h a m se baseado na pressuposição da igualdade da

casos, novos partidos políticos para atiçar o ódio aos j u d e u s c o m o n a t u r e z a h u m a n a em todas as culturas e classes. Depois da Revo-

inimigos da verdadeira nação. Depois de duas décadas de p r o p a - lução Francesa, t o r n o u - s e cada vez mais difícil reafirmar as dife-

ganda antissemítica nos jornais de direita, o Partido C o n s e r v a d o r renças s i m p l e s m e n t e c o m base n a tradição, nos costumes o u n a

Alemão fez do antissemitismo um artigo oficial da sua plataforma história. As diferenças t i n h a m de ter um f u n d a m e n t o mais sólido

em 1892. Mais ou m e n o s na m e s m a época, o caso Dreyfus fez estra- se os h o m e n s quisessem m a n t e r a sua superioridade em relação às

gos na política francesa, c r i a n d o divisões d u r a d o u r a s e n t r e os mulheres, os brancos em relação aos negros ou os cristãos em rela-

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ção aos j u d e u s . Em suma, se os direitos deviam ser m e n o s q u e u n i - excluir c o m p l e t a m e n t e as m u l h e r e s . Assim, p o d i a - s e admitir que
versais, iguais e naturais, era preciso explicar p o r quê. Em conse- elas p o s s u í a m qualidades positivas q u e talvez fossem importantes
quência, o século xix presenciou u m a explosão de explicações bio- na esfera privada. Além disso, c o m o as m u l h e r e s diferiam clara-
lógicas da diferença. m e n t e d o s h o m e n s em t e r m o s biológicos ( e m b o r a o grau dessa
I r o n i c a m e n t e , p o r t a n t o , a p r ó p r i a n o ç ã o de direitos h u m a - diferença ainda p e r m a n e ç a t e m a de debate), p o u c o s descartavam
nos abriu i n a d v e r t i d a m e n t e a p o r t a p a r a formas mais virulentas i m e d i a t a m e n t e os a r g u m e n t o s biológicos sobre a diferença entre
de sexismo, racismo e antissemitismo. C o m efeito, as afirmações o s sexos, q u e t i n h a u m a história m u i t o m a i s longa q u e o s argu-
de alcance geral sobre a igualdade n a t u r a l de t o d a a h u m a n i d a d e m e n t o s biológicos sobre as raças. M a s a Revolução Francesa havia
suscitavam asserções igualmente globais sobre a diferença natural, m o s t r a d o q u e até a diferença sexual, ou ao m e n o s a sua i m p o r t â n -
p r o d u z i n d o um n o v o tipo de opositor aos direitos h u m a n o s , até cia política, p o d i a ser q u e s t i o n a d a . C o m o s u r g i m e n t o de argu-
mais p o d e r o s o e sinistro do que os tradicionalistas. As novas for- m e n t o s explícitos para a igualdade política das mulheres, o argu-
m a s de racismo, antissemitismo e sexismo ofereciam explicações m e n t o biológico para a inferioridade das m u l h e r e s m u d o u . Elas já
biológicas p a r a o caráter n a t u r a l da diferença h u m a n a . No novo n ã o o c u p a v a m u m p a t a m a r mais baixo n a m e s m a escala biológica
racismo, os j u d e u s n ã o e r a m apenas os assassinos de Jesus: a sua d o s h o m e n s , o q u e as t o r n a v a b i o l o g i c a m e n t e semelhantes aos
inerente inferioridade racial ameaçava macular a pureza dos b r a n - h o m e n s , ainda que inferiores. As m u l h e r e s agora e r a m cada vez
cos p o r m e i o da miscigenação. Os negros já n ã o e r a m inferiores mais m o l d a d a s c o m o biologicamente diferentes: elas se t o r n a r a m
p o r s e r e m escravos: m e s m o q u a n d o a abolição d a e s c r a v a t u r a o "sexo oposto". " 1

a v a n ç o u p o r t o d o o m u n d o , o r a c i s m o se t o r n o u m a i s , e n ã o N ã o é fácil d e t e r m i n a r a h o r a exata n e m m e s m o a natureza


menos, venenoso. As mulheres não eram simplesmente menos dessa m u d a n ç a no p e n s a m e n t o sobre as mulheres, m a s o período
racionais que os h o m e n s p o r serem m e n o s educadas: a sua biolo- da Revolução Francesa parece ser crítico. Os revolucionários fran-
gia as destinava à vida p r i v a d a e d o m é s t i c a e as t o r n a v a inteira- ceses t i n h a m invocado a r g u m e n t o s em g r a n d e parte tradicionais
m e n t e i n a d e q u a d a s para a política, os negócios ou as profissões. p a r a a diferença das mulheres em 1793, q u a n d o as proibiram de se
Nessas novas d o u t r i n a s biológicas, a educação ou as m u d a n ç a s no r e u n i r em clubes políticos. " E m geral, as mulheres n ã o são capazes
m e i o a m b i e n t e jamais p o d e r i a m alterar as estruturas hierárquicas de p e n s a m e n t o s elevados e m e d i t a ç õ e s sérias", p r o c l a m a v a o
inerentes na natureza h u m a n a . p o r t a - v o z do governo. Nos anos seguintes, entretanto, os médicos

Entre as novas d o u t r i n a s biológicas, o sexismo era a m e n o s na F r a n ç a t r a b a l h a r a m m u i t o p a r a d a r a essas ideias vagas u m a

organizada em t e r m o s políticos, a m e n o s sistemática em t e r m o s base mais biológica. O principal fisiologista francês da década de

intelectuais e a m e n o s negativa em t e r m o s e m o c i o n a i s . Afinal, 1790 e início dos anos 1800, Pierre Cabanis, argumentava q u e as

n e n h u m a nação podia se reproduzir sem as mães: portanto, m u l h e r e s t i n h a m fibras musculares mais fracas e a massa cerebral

e m b o r a fosse concebível a r g u m e n t a r q u e o s escravos n e g r o s m a i s delicada, o que as t o r n a v a incapazes para as carreiras p ú b l i -

deviam ser enviados de volta p a r a a África ou que os j u d e u s d e v i a m cas, m a s a sua consequente sensibilidade volátil adequava-as p a r a

ser p r o i b i d o s de residir em d e t e r m i n a d o local, n ã o era possível os papéis de esposa, m ã e e ama. Esse p e n s a m e n t o ajudou a estabe-

188 189
lecer u m a n o v a tradição em que as mulheres pareciam predestina- t i n h a m sido restringidos provava apenas que o hábito e o costume
das a se realizar d e n t r o dos limites da d o m e s t i c i d a d e ou de u m a exerciam grande poder, e n ã o que tais restrições fossem autorizadas
esfera feminina separada. 11
pela razão. Da m e s m a forma, p a r a os abolicionistas a escravidão
No seu influente t r a t a d o A sujeição das mulheres (1869), o n ã o d e m o n s t r a v a a inferioridade dos africanos negros: revelava
filósofo inglês J o h n Stuart Mili q u e s t i o n o u a p r ó p r i a existência m e r a m e n t e a ganância d o s escravagistas e cultivadores b r a n c o s .
dessas diferenças biológicas. Insistia que n ã o p o d e m o s saber c o m o Assim, aqueles q u e rejeitavam a ideia de direitos iguais p a r a os
os h o m e n s e as mulheres diferem q u a n t o à sua natureza, p o r q u e só judeus ou negros necessitavam de u m a d o u t r i n a — um caso con-
os v e m o s n o s seus papéis sociais correntes. "O que agora se c h a m a v i n c e n t e m e n t e a r r a z o a d o — p a r a apoiar a sua posição, especial-
a n a t u r e z a das mulheres", a r g u m e n t a v a , "é algo e m i n e n t e m e n t e m e n t e depois que os judeus t i n h a m g a n h a d o direitos e a escravidão
artificial." Mill li gava a r e f o r m a do status das m u l h e r e s ao p r o - fora abolida nas colônias britânicas e francesas, em 1833 e 1848, res-
gresso social e e c o n ô m i c o global. A s u b o r d i n a ç ã o legal das m u l h e - pectivamente. Ao longo do século xix, os opositores dos direitos
res, afirmava, "é errada em si m e s m a " e "deve ser substituída p o r para os judeus e os negros recorreram cada vez mais à ciência, ou ao
u m princípio d e perfeita igualdade, n ã o a d m i t i n d o n e n h u m p o d e r que passava p o r ciência, p a r a e n c o n t r a r essa d o u t r i n a .
ou privilégio n u m dos lados n e m incapacidade no outro". N ã o foi Pode-se r e m o n t a r a ciência da raça ao fim do século xvin e
necessário n e n h u m equivalente das ligas ou p a r t i d o s antissemíti- aos esforços p a r a classificar os povos do m u n d o . Dois fios tecidos
cos, entretanto, p a r a m a n t e r a força do a r g u m e n t o biológico. Em no século xvin entrelaçaram-se no xix: p r i m e i r o , o a r g u m e n t o de
1908, n u m caso legal p e r a n t e a S u p r e m a Corte dos Estados U n i d o s q u e a h i s t ó r i a t i n h a v i s t o u m d e s e n v o l v i m e n t o sucessivo dos
q u e criou jurisprudência, o juiz Louis Brandéis u s o u os m e s m o s povos r u m o à civilização e de q u e os b r a n c o s e r a m os mais avan-
velhos a r g u m e n t o s ao explicar p o r que o sexo p o d i a ser u m a base çados do g r u p o ; e segundo, a ideia de q u e as características p e r m a -
legal para classificação. A "organização física da mulher", as suas n e n t e s h e r d a d a s d i v i d i a m as p e s s o a s de a c o r d o c o m a raça. O
funções m a t e r n a i s , a criação dos filhos e a m a n u t e n ç ã o do lar a r a c i s m o , c o m o u m a d o u t r i n a sistemática, d e p e n d i a d a conjunção
colocavam n u m a categoria diferente e separada. O " f e m i n i s m o " se dos dois. Os p e n s a d o r e s do século x v m p r e s s u p u n h a m q u e todos
t o r n a r a um t e r m o de uso c o m u m na década de 1890, e a resistên- os povos acabariam p o r alcançar a civilização, e n q u a n t o os teóri-
cia às suas d e m a n d a s era feroz. As m u l h e r e s só c o n s e g u i r a m o cos raciais do século xix acreditavam q u e s o m e n t e certas raças o
direito d e v o t a r n a Austrália e m 1902, n o s E s t a d o s U n i d o s e m fariam, p o r causa de suas inerentes qualidades biológicas. É pos-
1920, na Grã-Bretanha em 1928 e na França em 1944. 12
sível e n c o n t r a r e l e m e n t o s dessa conjunção em cientistas do início

À semelhança do sexismo, o racismo e o antissemitismo assu- do século xix, c o m o o n a t u r a l i s t a francês Georges Cuvier, q u e

m i r a m novas formas depois da Revolução Francesa. Os p r o p o s i t o - escreveu em 1817 q u e " c e r t a s causas i n t r í n s e c a s " i m p e d i a m o

res dos direitos do h o m e m , e m b o r a ainda n u t r i s s e m m u i t o s este- d e s e n v o l v i m e n t o das raças negra e mongólica. S o m e n t e depois da

reótipos negativos sobre os j u d e u s e os negros, já n ã o aceitavam a m e t a d e do século, e n t r e t a n t o , é q u e essas ideias aparecem na sua

existência d o p r e c o n c e i t o c o m o base suficiente p a r a u m a r g u - f o r m a p l e n a m e n t e articulada. 13


(

m e n t o . O fato de q u e os direitos d o s j u d e u s na F r a n ç a s e m p r e O e p í t o m e do gênero p o d e ser e n c o n t r a d o no Essai sur Viné-

190 191
galité des races humaines (1853-5), de A r t h u r G o b i n e a u . U s a n d o m e i o da influência de C h a m b e r l a i n , os arianos de G o b i n e a u se tor-
u m a miscelânea de argumentos derivados da arqueologia, da n a r a m um elemento central da ideologia racial de Hitler. 15

etnologia, da linguística e da historia, o d i p l o m a t a e h o m e m de G o b i n e a u d e u u m m o l d e secular e a p a r e n t e m e n t e sistemá-


letras francês a r g u m e n t a v a q u e u m a hierarquia das raças funda- tico a ideias já em circulação em g r a n d e p a r t e do m u n d o ociden-
m e n t a d a na biologia d e t e r m i n a v a a historia da h u m a n i d a d e . Na tal. Em 1850, p o r e x e m p l o , o a n a t o m i s t a escocês R o b e r t K n o x
p a r t e inferior ficavam as raças de pele escura, animalistas, ininte- publicou The Races ofMen, em q u e a r g u m e n t a v a q u e "a raça, ou a
lectuais e i n t e n s a m e n t e sensuais; logo acima na escala v i n h a m os descendência hereditária, é t u d o : ela c a r i m b a o h o m e m " . No a n o
amarelos, apáticos e medíocres m a s práticos; e no t o p o estavam os seguinte, o chefe do sindicato dos c o m p o s i t o r e s tipográficos da
povos b r a n c o s , perseverantes, intelectualmente enérgicos e aven- P h i l a d e l p h i a , J o h n C a m p b e l l , a p r e s e n t o u o seu Negro Mania,
turosos, que equilibravam " u m extraordinário instinto para a Beingan Examination ofthe Falsely Assumed Equality ofthe Races
o r d e m " c o m " u m p r o n u n c i a d o gosto pela liberdade". D e n t r o d a ofMankind. O racismo n ã o estava limitado ao sul dos Estados U n i -
raça b r a n c a , o r a m o a r i a n o reinava s u p r e m o . " T u d o o q u e é dos. C a m p b e l l citava Cuvier e Knox, entre o u t r o s , p a r a insistir na
grande, n o b r e e proveitoso nas obras do h o m e m sobre esta terra, selvageria e b a r b á r i e d o s negros e p a r a a r g u m e n t a r c o n t r a qual-
na ciência, na arte e na civilização" deriva d o s a r i a n o s , concluía quer possibilidade de igualdade entre b r a n c o s e negros. C o m o o
Gobineau. M i g r a n d o de seu lar inicial na Asia Central, os arianos p r ó p r i o G o b i n e a u t i n h a criticado o t r a t a m e n t o dos escravos afri-
t i n h a m propiciado a estirpe original para as civilizações indiana, canos n o s Estados U n i d o s , os seus t r a d u t o r e s a m e r i c a n o s tiveram
egípcia, chinesa, r o m a n a , europeia e até, p o r m e i o da colonização, de e l i m i n a r esses t r e c h o s p a r a t o r n a r a o b r a m a i s palatável aos
astecaeinca. 14
sulistas p r ó - e s c r a v i d ã o q u a n d o ela foi p u b l i c a d a em inglês, em
A miscigenação explicava t a n t o a ascensão c o m o a q u e d a de 1856. Assim, a perspectiva da abolição da escravatura (que só se
civilizações, segundo G o b i n e a u . "A questão étnica d o m i n a t o d o s oficializou n o s Estados U n i d o s em 1865) só intensificou o i n t e -
os o u t r o s problemas da historia e d e t é m a sua chave", escreveu. Ao resse pela ciência racial. 16

contrário de alguns de seus futuros seguidores, entretanto, G o b i - C o m o d e m o n s t r a m os t í t u l o s das o b r a s de G o b i n e a u e


n e a u achava que os arianos já t i n h a m p e r d i d o a sua força p o r m e i o C a m p b e l l , a característica c o m u m e m g r a n d e p a r t e d o p e n s a -
de casamentos entre g r u p o s étnicos diferentes e que, ainda q u e isso m e n t o racista era u m a reação visceral contra a noção de igualdade.
o desgostasse, o i g u a l i t a r i s m o e a d e m o c r a c i a a c a b a r i a m t r i u n - G o b i n e a u confessou a Tocqueville o asco que lhe provocavam "os
fando, o q u e assinalaria o fim da p r ó p r i a civilização. E m b o r a as macacões sujos [trabalhadores]" q u e t i n h a m participado da revo-
n o ç õ e s fantasiosas d e G o b i n e a u recebessem p o u c o i m p u l s o n a lução de 1848 na França. De sua parte, Campbell sentia r e p u g n â n -
França, o i m p e r a d o r G u i l h e r m e i da A l e m a n h a (que g o v e r n o u de cia a partilhar u m a plataforma política c o m h o m e n s de cor. O que
1861 a 1888) considerou-as tão apropriadas q u e conferiu cidada- antes havia definido u m a rejeição aristocrática da sociedade m o -
nia h o n o r á r i a ao francês. Elas t a m b é m foram adotadas pelo c o m - d e r n a — ter de se m i s t u r a r c o m as camadas inferiores — assumia
positor alemão Richard Wagner e depois pelo genro de Wagner, o a g o r a um significado racial. O a d v e n t o da política de massa na
escritor inglês e germanófilo H o u s t o n Stewart C h a m b e r l a i n . Por ú l t i m a m e t a d e do século xix p o d e ter corroído aos poucos o senso

192 193
de diferença de classe (ou criado a ilusão de que o desgastava), mas justificar o imperialismo. Em 1861, o explorador britânico Richard
n ã o e l i m i n o u c o m p l e t a m e n t e a diferença, q u e se d e s l o c o u do B u r t o n a d o t o u um discurso q u e logo se t o r n a r i a p a d r ã o . O afri-
registro de classe p a r a o de raça e sexo. O estabelecimento do sufrá- cano, dizia, "possui em g r a n d e m e d i d a as piores características dos
gio universal masculino combinava c o m a abolição da escravatura tipos orientais inferiores — estagnação da m e n t e , indolência do
e o início da imigração em massa p a r a t o r n a r a igualdade m u i t o corpo, deficiência moral, superstição e paixão infantil". Depois da
mais concreta e ameaçadora. 17
década de 1870, essas atitudes d e s c o b r i r a m um público de massa
O imperialismo agravou ainda mais esses desenvolvimentos. em novos jornais de p r o d u ç ã o barata, semanários ilustrados e
Ao m e s m o t e m p o em q u e aboliam a escravidão nas suas colônias exposições etnográficas. M e s m o na Argélia, considerada parte da
de exploração, as potências europeias estendiam o seu d o m í n i o na França após 1848, os nativos só g a n h a r a m direitos depois de m u i t o
África e na Ásia. Os franceses invadiram a Argélia em 1830 e termi- t e m p o . Em 1865 um decreto do governo declarou-os súditos, e n ã o
n a r a m p o r incorporá-la à França. Os britânicos a n e x a r a m Cinga- cidadãos, e n q u a n t o em 1870 o Estado francês t o r n o u os j u d e u s
p u r a em 1819 e a N o v a Z e l â n d i a em 1840, além de a u m e n t a r argelinos c i d a d ã o s n a t u r a l i z a d o s . O s h o m e n s m u ç u l m a n o s s ó
implacavelmente o seu controle sobre a índia. Em 1914, a África g a n h a r a m direitos políticos iguais em 1947. A "missão civiliza-
tinha sido dividida entre a França, a Grã-Bretanha, a Alemanha, a dora" n ã o era um projeto de c u r t o prazo. 18

Itália, a Bélgica, a Espanha e Portugal. Quase n e n h u m estado afri- G o b i n e a u n ã o havia considerado os j u d e u s um caso especial
cano saiu ileso. E m b o r a em alguns casos o g o v e r n o estrangeiro na sua elaboração da ciência racial, mas os seus seguidores sim. Em
tivesse na verdade t o r n a d o os países mais "atrasados", ao destruir seu Foundations ofthe Nineteenth Century, publicado na Alema-
as indústrias locais em favor das importações do centro imperial, n h a em 1899, H o u s t o n Stewart C h a m b e r l a i n combinava as ideias
os e u r o p e u s em geral tiraram apenas u m a lição de suas conquistas: de G o b i n e a u sobre raça e o misticismo alemão a respeito do Volk
eles t i n h a m o direito — e o d e v e r — d e "civilizar" os lugares b á r b a - c o m um ataque a c r i m o n i o s o c o n t r a os j u d e u s , "esse povo estran-
ros e mais atrasados que governavam. geiro" que escravizou "os nossos governos, a nossa lei, a nossa ciên-
N e m todos os defensores dessas aventuras imperiais p r o m o - cia, o nosso comércio, a nossa literatura, a nossa arte". C h a m b e r -
viam o racismo explícito. John Stuart Mill, que t r a b a l h o u p o r m u i - lain apresentava a p e n a s u m n o v o a r g u m e n t o , m a s ele teve u m a
tos anos p a r a a C o m p a n h i a Britânica das índias Orientais, a a d m i - influência direta sobre Hitler: entre todos os povos, apenas os aria-
nistradora efetiva do governo britânico na índia até 1858, rejeitava n o s e os j u d e u s t i n h a m m a n t i d o a sua pureza racial, o q u e signifi-
as explicações biológicas da diferença. Ainda assim, até ele acredi- cava q u e agora eles deviam lutar um contra o o u t r o até a m o r t e . Em
tava q u e os estados principescos da í n d i a e r a m "selvagens", c o m o u t r o s aspectos, C h a m b e r l a i n a m o n t o o u u m a variedade de ideias
"pouca ou n e n h u m a lei" e vivendo n u m a condição " m u i t o p o u c o cada vez mais c o m u n s . 19
í
acima do m a i s elevado dos animais". Apesar de Mill, o i m p e r i a - E m b o r a o antissemitismo m o d e r n o se baseasse nos estereóti-
lismo e u r o p e u e a ciência racial desenvolveram u m a relação sim- p o s cristãos negativos s o b r e os j u d e u s q u e já circulavam havia
biótica: o imperialismo das "raças conquistadoras" tornava as afir- séculos, a d o u t r i n a a s s u m i u novas características depois da década
m a ç õ e s raciais m a i s verossímeis, e a ciência racial ajudava a de 1870. Ao contrário dos negros, os j u d e u s já não representavam

194 195
u m estágio inferior d o desenvolvimento histórico, c o m o h a v i a m
representado, p o r exemplo, no século xviii. Em vez disso, eles sig-
nificavam as ameaças da p r ó p r i a m o d e r n i d a d e : o m a t e r i a l i s m o
excessivo, a emancipação e a participação política de g r u p o s m i n o -
ritários e o cosmopolitismo " d e g e n e r a d o " e "desarraigado" da vida
urbana. As caricaturas nos jornais pintavam os judeus c o m o
gananciosos, fingidos e devassos; os jornalistas e os panfletistas
escreviam sobre o controle judaico do capital m u n d i a l e sua m a n i -
p u l a ç ã o c o n s p i r a t ó r i a d o s p a r t i d o s p a r l a m e n t a r e s (figura 11).
U m a caricatura americana d e 1894, m e n o s malévola d o q u e m u i -
tas de suas congêneres europeias, m o s t r a os c o n t i n e n t e s do m u n d o
rodeados pelos tentáculos de um polvo colocado no lugar das ilhas
britânicas. O polvo traz a etiqueta ROTSCHILD, em referência à rica
e poderosa família judaica. Esses esforços m o d e r n o s de difamação
g a n h a r a m força c o m Os protocolos dos sábios de Sião, um d o c u -
m e n t o fraudulento que t i n h a o p r o p ó s i t o de revelar u m a conspi-
ração judaica para m o n t a r um supergoverno que controlaria o
m u n d o inteiro. P u b l i c a d o p r i m e i r a m e n t e n a Rússia e m 1903 e
d e s m a s c a r a d o c o m o u m a falsificação em 1 9 2 1 , Os protocolos
foram m e s m o assim r e p e t i d a m e n t e reimpressos pelos nazistas na
A l e m a n h a , sendo até os nossos dias ensinados c o m o fato nas esco-
las de alguns países árabes. Assim, o novo a n t i s s e m i t i s m o c o m b i -
nava e l e m e n t o s t r a d i c i o n a i s e m o d e r n o s : os j u d e u s d e v i a m ser
excluídos dos direitos e até expulsos da nação p o r q u e e r a m d e m a -
F I G U R A 11. A Revolução Francesa: antes ehoje. Caran d'Ache em Psst...!, 1 8 9 8 . siado diferentes e demasiado poderosos.
Caran d'Ache era o pseudônimo de Emmanuel Poiré, um cartunista polí-
tico francês que publicou caricaturas antissemitas durante o caso Drey-
fus na França. Esta caricatura brinca com uma imagem comum da Revo-
lução Francesa de 1 7 8 9 , mostrando o camponês oprimido por um nobre SOCIALISMO E COMUNISMO
(porque os nobres eram isentos de alguns impostos). Nos tempos moder-
nos, o camponês tem de carregar ainda mais fardos: sobre seus ombros
estão um político republicano, um maçom e, no topo, um financista O nacionalismo n ã o foi o ú n i c o m o v i m e n t o de massas a sur-
judeu. Caran d'Ache também publicou várias imagens ridicularizando gir no século xix. A semelhança do nacionalismo, o socialismo e o
Zola. De Psst...!, n 3 7 , 1 5 de outubro de 1 8 9 8 .
a

c o m u n i s m o se f o r m a r a m n u m a reação explícita a limitações visí-

197
veis d o s direitos individuais c o n s t i t u c i o n a l m e n t e e s t r u t u r a d o s . disso, os pioneiros socialistas m o n t a r a m fábricas-modelo, c o o p e -
E n q u a n t o os p r i m e i r o s nacionalistas q u e r i a m direitos para todos rativas de p r o d u t o r e s e de c o n s u m i d o r e s e c o m u n i d a d e s experi-
os povos, e n ã o apenas p a r a aqueles c o m estados já estabelecidos, m e n t a i s p a r a s u p e r a r o conflito e a a l i e n a ç ã o e n t r e os g r u p o s
os socialistas e os comunistas q u e r i a m assegurar que as classes bai- sociais. Q u e r i a m capacitar os trabalhadores e os p o b r e s a tirar p r o -
xas tivessem igualdade social e e c o n ô m i c a , e n ã o apenas direitos veito da n o v a o r d e m industrial, "socializar" a i n d ú s t r i a e substituir
políticos iguais. E n t r e t a n t o , m e s m o q u a n d o c h a m a v a m atenção a c o m p e t i ç ã o pela cooperação.
para direitos q u e t i n h a m sido defraudados pelos propositores dos Muitos desses p r i m e i r o s socialistas p a r t i l h a v a m u m a descon-
direitos do h o m e m , as organizações socialistas e comunistas rebai- fiança em relação aos "direitos do h o m e m " . O principal socialista
x a v a m i n e v i t a v e l m e n t e a i m p o r t â n c i a d o s direitos c o m o u m a francês das décadas de 1820 e 1830, Charles Fourier, a r g u m e n t a v a
meta. A p r ó p r i a visão de M a r x era b e m delineada: a emancipação q u e as constituições e o discurso dos direitos inalienáveis e r a m
política p o d i a ser alcançada p o r m e i o da igualdade legal d e n t r o da u m a hipocrisia. O q u e p o d e r i a m significar os "direitos imprescri-
sociedade burguesa, mas a verdadeira emancipação h u m a n a tíveis do cidadão", q u a n d o o indigente " n ã o t e m n e m a liberdade de
requeria a destruição da sociedade burguesa e suas proteções cons- t r a b a l h a r " n e m a a u t o r i d a d e de exigir emprego? O direito de tra-
titucionais da p r o p r i e d a d e privada. Ainda assim, os socialistas e os balhar suplantava t o d o s os o u t r o s direitos, na sua opinião. C o m o
comunistas p r o p u s e r a m duas questões d u r a d o u r a s sobre os direi- Fourier, m u i t o s dos p r i m e i r o s socialistas citavam o ato de n ã o con-
tos. Os direitos políticos e r a m suficientes? E o direito individual à ceder direitos às m u l h e r e s um sinal da b a n c a r r o t a das d o u t r i n a s
p r o t e ç ã o da p r o p r i e d a d e privada p o d i a coexistir c o m a necessi- anteriores de direitos. As m u l h e r e s p o d e r i a m atingir a libertação
d a d e de a s o c i e d a d e f o m e n t a r o b e m - e s t a r de seus m e m b r o s s e m a abolição da p r o p r i e d a d e p r i v a d a e d o s códigos legais q u e
m e n o s afortunados? sustentavam o patriarcado? 20

Assim c o m o o nacionalismo t i n h a passado p o r duas fases no Dois fatores alteraram a trajetória do socialismo na segunda
século xix, i n d o do entusiasmo inicial sobre a a u t o d e t e r m i n a ç ã o a m e t a d e do século xix: o advento do sufrágio universal masculino e
um p r o t e c i o n i s m o mais defensivo sobre a identidade étnica, t a m - o s u r g i m e n t o do c o m u n i s m o (o t e r m o " c o m u n i s t a " apareceu pela
b é m o socialismo evoluiu c o m o t e m p o . Passou de u m a p r i m e i r a p r i m e i r a vez em 1840). Os socialistas e o s c o m u n i s t a s então se divi-
ênfase em r e c o n s t r u i r a sociedade p o r m e i o s pacíficos, m a s n ã o d i r a m entre o s q u e visavam estabelecer u m m o v i m e n t o político
políticos, a u m a divisão entre aqueles a favor da política p a r l a m e n - parlamentar, c o m p a r t i d o s e c a m p a n h a s p a r a os cargos públicos, e
tar e aqueles pela d e r r u b a d a violenta dos governos. D u r a n t e a p r i - aqueles, c o m o os bolcheviques na Rússia, q u e insistiam que ape-
meira m e t a d e do século xix, q u a n d o os sindicatos e r a m ilegais na nas a d i t a d u r a do proletariado e a revolução total t r a n s f o r m a r i a m
maioria dos países e os trabalhadores n ã o t i n h a m direito ao voto, as condições sociais. Os p r i m e i r o s acreditavam que o estabeleci-
os socialistas se c o n c e n t r a r a m em revolucionar as novas relações m e n t o gradual do voto p a r a t o d o s os h o m e n s abria a perspectiva
sociais criadas pela industrialização. N ã o p o d i a m esperar g a n h a r de q u e os trabalhadores p o d e r i a m atingir os seus objetivos d e n t r o
as eleições q u a n d o os trabalhadores n ã o p o d i a m votar, o q u e con- da p o l í t i c a p a r l a m e n t a r . O P a r t i d o Trabalhista b r i t â n i c o , p o r
t i n u o u a ser v e r d a d e até p e l o m e n o s a d é c a d a de 1870. Em vez exemplo, foi f o r m a d o em 1900 a partir de u m a variedade de sindi-

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catos, p a r t i d o s e clubes preexistentes p a r a p r o m o v e r os interesses de possuir p r o p r i e d a d e q u a n d o o necessário era se livrar da p r o -

e a eleição de trabalhadores. Por o u t r o lado, a Revolução Russa de p r i e d a d e ; incluíam o direito de negociar q u a n d o o necessário e r a

1917 e n c o r a j o u os c o m u n i s t a s em t o d a p a r t e a a c r e d i t a r q u e a s e livrar d o s n e g ó c i o s . M a r x n ã o gostava p a r t i c u l a r m e n t e d a


transformação social e econômica total estava prestes a se realizar ênfase p o l í t i c a n o s d i r e i t o s d o h o m e m . O s d i r e i t o s p o l í t i c o s
e q u e a participação na política p a r l a m e n t a r só desperdiçava ener- diziam respeito aos meios, pensava ele, e n ã o aos fins. "O h o m e m
gias necessárias para o u t r o s tipos de luta. político" era " a b s t r a t o , artificial", n ã o "autêntico". O h o m e m só

C o m o era de se esperar, os dois r a m o s t a m b é m diferiam na p o d i a recuperar a sua autenticidade r e c o n h e c e n d o q u e a e m a n c i -

sua visão dos direitos. Os socialistas e comunistas que a d o t a v a m o p a ç ã o h u m a n a n ã o p o d i a ser alcançada p o r m e i o d a política: ela
processo político t a m b é m p a t r o c i n a v a m a causa dos direitos. Um requeria u m a revolução focalizada nas relações sociais e na a b o l i -
d o s f u n d a d o r e s do P a r t i d o Socialista francês, Jean Jaurès, a r g u - ção da p r o p r i e d a d e privada. 22

m e n t a v a q u e um Estado socialista "só r e t é m a sua l e g i t i m i d a d e Essas visões e p o s t e r i o r e s variações a seu respeito e x e r c e r a m


e n q u a n t o assegura os direitos individuais". Ele apoiava Dreyfus, o i n f l u ê n c i a n o m o v i m e n t o socialista e c o m u n i s t a p o r m u i t a s
sufrágio universal masculino e a separação da Igreja e do Estado, gerações. Os bolcheviques p r o c l a m a r a m u m a Declaração dos
e m s u m a , direitos políticos iguais p a r a t o d o s o s h o m e n s , b e m Direitos do Povo T r a b a l h a d o r e E x p l o r a d o em 1918, m a s ela n ã o
c o m o a m e l h o r a da vida dos trabalhadores. Jaurès considerava a incluía n e m u m ú n i c o d i r e i t o político o u legal. A sua m e t a e r a
Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão u m d o c u m e n t o "abolir toda a exploração do h o m e m pelo h o m e m , e l i m i n a r
de i m p o r t â n c i a universal. Os do o u t r o lado seguiam M a r x mais de c o m p l e t a m e n t e a divisão da sociedade em classes, e s m a g a r i m -
p e r t o ao argumentar, c o m o fazia um socialista francês opositor de placavelmente a resistência d o s e x p l o r a d o r e s [e] estabelecer u m a
Jaurès, q u e o Estado burguês só podia s e r " u m i n s t r u m e n t o de con- o r g a n i z a ç ã o socialista d a sociedade". O p r ó p r i o L ê n i n c i t a v a
servadorismo e opressão social". 21
M a r x a o a r g u m e n t a r c o n t r a q u a l q u e r ênfase n o s direitos i n d i v i -
d u a i s . A n o ç ã o de um d i r e i t o igual, a f i r m a v a L ê n i n , é em si
O p r ó p r i o Karl M a r x só havia d i s c u t i d o os direitos do h o -
m e s m a u m a violação d a i g u a l d a d e e u m a injustiça, p o r q u e está
m e m c o m a l g u m a m i n ú c i a n a sua j u v e n t u d e . N o seu e n s a i o
baseada na"leiburguesa". O s assim c h a m a d o s direitos iguais p r o -
"Sobre a q u e s t ã o judaica", p u b l i c a d o em 1843, cinco a n o s antes do
tegem a p r o p r i e d a d e p r i v a d a e p o r t a n t o p e r p e t u a m a e x p l o r a ç ã o
Manifesto comunista, M a r x c o n d e n a v a os p r ó p r i o s f u n d a m e n t o s
d o s t r a b a l h a d o r e s . Joseph Stálin p r o c l a m o u u m a n o v a C o n s t i -
da Declaração dos Direitos do H o m e m e do C i d a d ã o . " N e n h u m
t u i ç ã o em 1936 q u e afirmava g a r a n t i r a l i b e r d a d e de e x p r e s s ã o ,
d o s s u p o s t o s d i r e i t o s d o h o m e m " , q u e i x a v a - s e , "vai a l é m d o
de i m p r e n s a e de religião, m a s o seu governo n ã o hesitou em d e s -
h o m e m egoísta." A assim c h a m a d a liberdade só dizia respeito ao
p a c h a r centenas de milhares de inimigos da classe, d i s s i d e n t e s e
h o m e m c o m o u m ser isolado, n ã o c o m o p a r t e d e u m a classe o u
até colegas m e m b r o s d o p a r t i d o p a r a c a m p o s d e p r i s i o n e i r o s o u
c o m u n i d a d e . O direito de p r o p r i e d a d e só g a r a n t i a o direito de
execução i m e d i a t a . 23

b u s c a r o interesse p r ó p r i o sem considerar os o u t r o s . Os direitos


do h o m e m g a r a n t i a m a liberdade de religião q u a n d o a necessi-
d a d e dos h o m e n s era se livrar da religião; c o n f i r m a v a m o direito

•oi
200
AS G U E R R A S M U N D I A I S E A BUSCA DE NOVAS S O L U Ç Õ E S fusão e a destruição d e i x a r a m m i l h õ e s de refugiados no final da
g u e r r a , m u i t o s deles q u a s e i n c a p a z e s d e i m a g i n a r u m f u t u r o e
Ao m e s m o t e m p o q u e os bolcheviques começavam a estabe- vivendo em c a m p o s para pessoas desalojadas. A i n d a o u t r o s foram
lecer a sua d i t a d u r a do proletariado na Rússia, as baixas a s t r o n ô - forçados a se reassentar p o r razões étnicas (2,5 m i l h õ e s de alemães,
micas da Primeira G u e r r a M u n d i a l incitavam os líderes dos Alia- p o r exemplo, foram expulsos da Tchecoslováquia em 1946). Todas
dos, em breve vitoriosos, a e n c o n t r a r um novo m e c a n i s m o para a s potências envolvidas n a g u e r r a a t a c a r a m civis n u m o u n o u t r o
assegurar a paz. Q u a n d o os bolcheviques assinaram um t r a t a d o de m o m e n t o ; m a s , q u a n d o a guerra t e r m i n o u , as revelações sobre a

p a z c o m o s a l e m ã e s e m m a r ç o d e 1918, a Rússia t i n h a p e r d i d o escala dos h o r r o r e s d e l i b e r a d a m e n t e p e r p e t r a d o s pelos alemães

quase 2 milhões de h o m e n s . Q u a n d o a guerra t e r m i n o u na frente c h o c a r a m o público. As fotografias tiradas na libertação dos c a m -

ocidental em n o v e m b r o de 1918, até 14 milhões de pessoas t i n h a m pos de extermínio nazistas m o s t r a v a m as consequências estarrece-
d o r a s do antissemitismo, q u e t i n h a sido justificado pelo discurso
m o r r i d o , a m a i o r i a delas s o l d a d o s . Três q u a r t o s dos h o m e n s
da s u p r e m a c i a racial a r i a n a e da purificação nacional. Os julga-
mobilizados p a r a lutar na Rússia e na França a c a b a r a m feridos ou
m e n t o s de N u r e m b e r g de 1945-6 não só c h a m a r a m a atenção do
m o r t o s . Em 1919, os d i p l o m a t a s q u e redigiram os acordos de paz
g r a n d e p ú b l i c o p a r a essas atrocidades, m a s t a m b é m estabelece-
f u n d a r a m u m a Liga das Nações para m a n t e r a paz, supervisionar
r a m o precedente de q u e os governantes, os funcionários e o pes-
o d e s a r m a m e n t o , arbitrar as disputas entre as nações e garantir os
soal militar p o d i a m ser p u n i d o s p o r crimes "contra a humanidade".
direitos p a r a as m i n o r i a s nacionais, m u l h e r e s e crianças. A Liga
M e s m o antes d o f i m d a guerra, o s A l i a d o s — e m particular o s
fracassou, apesar de alguns esforços nobres. O Senado dos Estados
Estados U n i d o s , a União Soviética e a Grã-Bretanha — d e t e r m i n a -
U n i d o s se recusou a ratificar a participação americana; no início
r a m aperfeiçoar a Liga das Nações. U m a conferência realizada em
foi n e g a d o à A l e m a n h a e à Rússia o ingresso no q u a d r o d o s asso-
San Francisco na primavera de 1945 estabeleceu a estrutura básica
ciados; e, e m b o r a p r o m o v e s s e a a u t o d e t e r m i n a ç ã o na Europa, a
para um n o v o c o r p o internacional, as Nações Unidas. Ele teria um
Liga a d m i n i s t r o u as antigas colônias alemãs e territórios do agora
C o n s e l h o d e Segurança d o m i n a d o pelas g r a n d e s potências, u m a
defunto I m p é r i o O t o m a n o p o r m e i o d e u m sistema d e " m a n d a -
Assembleia Geral c o m delegados de t o d o s os p a í s e s - m e m b r o s e
tos", justificados mais u m a vez pelo m a i o r progresso e u r o p e u em
um Secretariado chefiado p o r um secretário-geral à guisa de Poder
relação aos o u t r o s povos. Além disso, a Liga se m o s t r o u i m p o t e n t e
Executivo. O e n c o n t r o t a m b é m providenciou u m a Corte Interna-
para deter o s u r g i m e n t o do fascismo na Itália e do n a z i s m o na Ale-
cional de Justiça em Haia, nos Países Baixos, para substituir u m a
m a n h a e p o r t a n t o n ã o c o n s e g u i u i m p e d i r a deflagração da
corte semelhante estabelecida pela Liga das Nações em 1921. Cin-
Segunda Guerra Mundial.
q u e n t a e um países a s s i n a r a m a C a r t a das Nações U n i d a s c o m o
A Segunda G u e r r a M u n d i a l estabeleceu u m a nova referência m e m b r o s fundadores em 26 de j u n h o de 1945.
para a barbárie c o m os seus quase incompreensíveis 60 milhões de A p e s a r d o s u r g i m e n t o das evidências d o s c r i m e s nazistas
m o r t o s . Além do mais, a maioria dos m o r t o s dessa vez era de civis, contra os judeus, os ciganos, os eslavos e o u t r o s , os diplomatas que
e 6 milhões e r a m j u d e u s m o r t o s apenas p o r serem j u d e u s . A c o n - se r e u n i r a m em San Francisco tiveram de ser estimulados e incita-

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dos a p ô r os direitos h u m a n o s na agenda. Em 1944, t a n t o a Grã- Comissão dos Direitos H u m a n o s , q u e d e c i d i u q u e sua p r i m e i r a
-Bretanha c o m o a União Soviética h a v i a m rejeitado propostas de tarefa devia ser o e s b o ç o de u m a c a r t a d o s d i r e i t o s h u m a n o s .
incluir os direitos h u m a n o s na Carta das Nações Unidas. A Grã- C o m o presidente d a comissão, Eleanor Roosevelt d e s e m p e n h o u
- B r e t a n h a t e m i a o e n c o r a j a m e n t o q u e tal ação p o d e r i a d a r aos u m papel central a o c o n s e g u i r q u e u m a d e c l a r a ç ã o fosse r a s c u -
m o v i m e n t o s de i n d e p e n d ê n c i a nas suas colônias, e a União Sovié- n h a d a e depois guiá-la pelo complexo processo de aprovação. J o h n
tica n ã o queria n e n h u m a interferência na sua esfera de influência, H u m p h r e y , um professor de direito de q u a r e n t a anos da Universi-
então em expansão. Além disso, os Estados U n i d o s t i n h a m inicial- dade McGill, n o C a n a d á , p r e p a r o u u m r a s c u n h o preliminar. Esse
m e n t e se o p o s t o à sugestão da C h i n a de q u e a carta deveria incluir texto t i n h a de ser revisado p o r t o d a a comissão, posto a circular p o r
u m a afirmação sobre a igualdade de todas as raças. todos os E s t a d o s - m e m b r o s , depois revisto pelo Conselho Social e

A pressão vinha de d u a s direções diferentes. M u i t o s estados E c o n ô m i c o e, se a p r o v a d o , enviado p a r a a Assembleia Geral, na

de t a m a n h o p e q u e n o e m é d i o na América Latina e na Ásia p e d i a m qual devia ser p r i m e i r o c o n s i d e r a d o pelo Terceiro C o m i t ê sobre

insistentemente mais atenção aos direitos h u m a n o s , em parte p o r - A s s u n t o s Sociais, H u m a n i t á r i o s e Culturais. O Terceiro C o m i t ê

q u e se ressentiam da d o m i n a ç ã o arrogante das grandes potências t i n h a delegados de t o d o s os E s t a d o s - m e m b r o s , e q u a n d o o rascu-

sobre os p r o c e d i m e n t o s . Além disso, u m a m u l t i d ã o de organiza- n h o foi discutido a U n i ã o Soviética p r o p ô s e m e n d a s para quase

ções religiosas, trabalhistas, femininas e cívicas, a maioria baseada t o d o s os artigos. O i t e n t a e três r e u n i õ e s (apenas do Terceiro

nos Estados U n i d o s , tentava influenciar d i r e t a m e n t e os delegados C o m i t ê ) e quase 170 e m e n d a s mais tarde, um rascunho foi sancio-

da conferência. Apelos urgentes feitos face a face p o r representan- n a d o p a r a ser v o t a d o . P o r fim, em 10 de d e z e m b r o de 1948, a

tes d o C o m i t ê Judaico A m e r i c a n o , d o C o m i t ê C o n j u n t o pela Assembleia Geral a p r o v o u a Declaração Universal dos Direitos

Liberdade Relig iosa, do Congresso das O r g a n i z a ç õ e s Industriais H u m a n o s . Q u a r e n t a e oito países v o t a r a m a favor, oito países do

(CIO) e da Associação Nacional p a r a o Progresso das Pessoas de C o r bloco soviético abstiveram-se e n e n h u m votou contra. 25

(NAACP) a j u d a r a m a m u d a r a visão de f u n c i o n á r i o s do D e p a r t a - C o m o seus predecessores do século xvin, a Declaração U n i -


m e n t o de Estado dos Estados Unidos, q u e c o n c o r d a r a m em p ô r os versal explicava n u m p r e â m b u l o p o r q u e esse p r o n u n c i a m e n t o
direitos h u m a n o s na Carta das Nações U n i d a s . A U n i ã o Soviética f o r m a l t i n h a se t o r n a d o necessário. "O desrespeito e o desprezo
e a Grã-Bretanha d e r a m o seu c o n s e n t i m e n t o p o r q u e a carta t a m - pelos direitos h u m a n o s t ê m resultado em atos bárbaros que ofen-
b é m garantia que as Nações Unidas n u n c a i n t e r v i r i a m nos assun- d e r a m a consciência da h u m a n i d a d e " , afirmava. A variação em
tos internos de um país. 24
r e l a ç ã o à l i n g u a g e m da D e c l a r a ç ã o francesa original de 1789 é
O c o m p r o m i s s o c o m os direitos h u m a n o s a i n d a n ã o estava reveladora. Em 1789, os franceses t i n h a m insistido que "a ignorân-
n e m um p o u c o assegurado. A C a r t a das N a ç õ e s U n i d a s de 1945 cia, a negligência ou o m e n o s p r e z o dos direitos do h o m e m são as
enfatizava as questões de segurança i n t e r n a c i o n a l e dedicava ape- únicas causas dos males públicos e da corrupção governamental".
nas a l g u m a s l i n h a s ao "respeito e c u m p r i m e n t o u n i v e r s a l d o s A " i g n o r â n c i a " e até a simples "negligência" já não eram possíveis.
direitos h u m a n o s e das liberdades f u n d a m e n t a i s p a r a t o d o s , sem Em 1948 t o d o s sabiam, presumivelmente, qual era o significado
d i s t i n ç ã o de raça, sexo, l í n g u a ou religião". M a s ela criava u m a dos direitos h u m a n o s . Além disso, a expressão "males públicos" de

204 20S
1789 n ã o captava a m a g n i t u d e dos acontecimentos recentemente A D e c l a r a ç ã o Universal cristalizou 150 a n o s de luta pelos
e x p e r i m e n t a d o s . O d e s r e s p e i t o e o d e s p r e z o p r o p o s i t a i s pelos direitos. D u r a n t e t o d o o século xix e o início do xx, algumas socie-
direitos h u m a n o s t i n h a m p r o d u z i d o atos d e u m a b r u t a l i d a d e dades benevolentes t i n h a m m a n t i d o acesa a c h a m a dos direitos
quase inimaginável. h u m a n o s universais, e n q u a n t o as nações se voltavam para d e n t r o
A D e c l a r a ç ã o Universal n ã o reafirmava s i m p l e s m e n t e as de si m e s m a s . As principais organizações desse tipo e r a m as socie-

noções de direitos individuais do século xvni, tais c o m o a igual- dades inspiradas pelos quakers, fundadas p a r a c o m b a t e r o tráfico

d a d e p e r a n t e a lei, a liberdade de expressão, a liberdade de religião, de escravos e a escravidão. A britânica Sociedade p a r a a Abolição

o direito de participar do governo, a proteção da p r o p r i e d a d e p r i - do Tráfico de Escravos, criada em 1787, distribuía literatura e ima-

vada e a rejeição da t o r t u r a e da p u n i ç ã o cruel. Ela t a m b é m proibia gens abolicionistas e organizava grandes c a m p a n h a s de petições

expressamente a escravidão e providenciava o sufrágio universal e dirigidas ao Parlamento. Os seus líderes desenvolveram laços p r ó -

igual p o r votação secreta. Além disso, requeria a liberdade de ir e ximos c o m os abolicionistas nos Estados Unidos, na França e no

vir, o direito a u m a nacionalidade, o direito de casar e, c o m mais Caribe. Q u a n d o , em 1807, o P a r l a m e n t o a p r o v o u um projeto de lei
p a r a acabar c o m a participação britânica no tráfico de escravos, os
controvérsia, o direito à segurança social; o direito de trabalhar,
abolicionistas d e r a m um n o v o n o m e ao seu g r u p o , o de Sociedade
c o m p a g a m e n t o igual para t r a b a l h o igual, t e n d o p o r base um salá-
A n t i e s c r a v i d ã o , e p a s s a r a m a o r g a n i z a r g r a n d e s c a m p a n h a s de
rio de subsistência; o direito ao descanso e ao lazer; e o direito à
petições para que o P a r l a m e n t o abolisse a p r ó p r i a escravidão, o
educação, q u e devia ser grátis n o s níveis elementares. N u m a época
q u e finalmente aconteceu em 1833. A Sociedade Antiescravidão
de e n d u r e c i m e n t o das linhas de conflito da Guerra Fria, a Declara-
Estrangeira e Britânica e n t ã o t o m o u a b a t u t a e p r o m o v e u agita-
ção Universal expressava u m c o n j u n t o d e aspirações e m vez d e
ções p a r a o fim da escravidão em outros países, especialmente nos
u m a realidade p r o n t a m e n t e alcançável. Delineava u m conjunto d e
Estados U n i d o s .
obrigações m o r a i s p a r a a c o m u n i d a d e m u n d i a l , m a s n ã o t i n h a
Por sugestão dos abolicionistas americanos, a sociedade bri-
n e n h u m m e c a n i s m o de imposição. Se tivesse incluído um m e c a -
tânica organizou u m a convenção mundial antiescravidão em
n i s m o p a r a i m p o r a s obrigações m o r a i s , n u n c a teria sido a p r o -
L o n d r e s , em 1840, p a r a c o o r d e n a r a luta i n t e r n a c i o n a l c o n t r a a
vada. E n t r e t a n t o , apesar de t o d a s as suas deficiências, o d o c u -
escravidão. Apesar de os delegados terem se recusado a permitir a
m e n t o teria efeitos n ã o de t o d o diferentes daqueles causados pelos
participação formal de m u l h e r e s abolicionistas, assim ajudando a
seus predecessores do século xviil. Por mais de c i n q u e n t a anos ele
precipitar o m o v i m e n t o sufragista das mulheres, eles favoreceram
t e m estabelecido o p a d r ã o para a discussão e ação internacionais
a causa internacional c o m o desenvolvimento de novos contatos
sobre os direitos h u m a n o s . *
i n t e r n a c i o n a i s , i n f o r m a ç õ e s sobre as c o n d i ç õ e s dos escravos e
resoluções q u e d e n u n c i a v a m a escravidão " c o m o um pecado con-
tra D e u s " e c o n d e n a v a m aquelas igrejas q u e a apoiavam, especial-
m e n t e no sul dos Estados Unidos. E m b o r a fosse d o m i n a d a pelos
* Ver no A p ê n d i c e o texto c o m p l e t o . b r i t â n i c o s e a m e r i c a n o s , a c o n v e n ç ã o " m u n d i a l " estabeleceu o

206 207
m o l d e p a r a futuras c a m p a n h a s internacionais pelo sufrágio das Nas décadas depois de 1948, f o r m o u - s e aos t r a n c o s e b a r r a n -
mulheres, pela proteção do trabalho infantil, pelos direitos dos tra- cos um consenso internacional sobre a i m p o r t â n c i a de se defender
balhadores e u m a legião de outras questões, algumas relacionadas os direitos h u m a n o s . A Declaração Universal é m a i s o início do
a direitos e o u t r a s não, c o m o a abstêmia. 26
processo do q u e o seu a p o g e u . Em n e n h u m o u t r o lugar o p r o -
D u r a n t e as décadas de 1950 e 1960, a causa dos direitos h u m a - gresso dos direitos h u m a n o s foi mais visível do q u e entre os c o m u -
nos internacionais assumiu u m a posição d e m e n o r i m p o r t â n c i a nistas, que t i n h a m resistido p o r t a n t o t e m p o a esse apelo. Desde o
em relação às lutas anticoloniais e de independência. Ao t é r m i n o início da década de 1970, os p a r t i d o s c o m u n i s t a s da E u r o p a Oci-
da P r i m e i r a G u e r r a M u n d i a l , o presidente a m e r i c a n o W o o d r o w dental r e t o r n a r a m a u m a posição m u i t o semelhante à exposta p o r
Wilson insistira n o t o r i a m e n t e em q u e a paz d u r a d o u r a devia se Jaurès na França na virada do século. Eles s u b s t i t u í r a m "a d i t a d u r a
assentar sobre o princípio da a u t o d e t e r m i n a ç ã o nacional. "Todo d o p r o l e t a r i a d o " nas suas p l a t a f o r m a s oficiais p e l o a v a n ç o d a
povo", insistia ele, " t e m o direito de escolher a soberania sob a qual d e m o c r a c i a e e n d o s s a r a m explicitamente os direitos h u m a n o s . No
deverá viver." T i n h a em m e n t e os poloneses, os tchecos e os sérvios final da década de 1980, o bloco soviético c o m e ç o u a se mover na
— n ã o os africanos —, e ele e seus aliados c o n c e d e r a m i n d e p e n - m e s m a direção. O secretário-geral do Partido C o m u n i s t a Mikhail
dência à Polônia, à Tchecoslováquia e à Iugoslávia p o r q u e se con- G o r b a t c h e v p r o p ô s ao Congresso do Partido C o m u n i s t a de 1988,
sideravam no direito de dispor dos territórios antes c o n t r o l a d o s em M o s c o u , q u e a União Soviética fosse a partir daquela data um
pelas potências derrotadas. A Grã-Bretanha c o n c o r d o u em incluir Estado sob o d o m í n i o da lei c o m "a m á x i m a proteção para os direi-
a a u t o d e t e r m i n a ç ã o n a c i o n a l na C a r t a Atlântica de 1941, q u e tos e a liberdade do indivíduo soviético". Naquele m e s m o ano, foi
e x p u n h a os p r i n c í p i o s c o m p a r t i l h a d o s pelos Estados U n i d o s e criado pela p r i m e i r a vez u m d e p a r t a m e n t o d e direitos h u m a n o s
pela G r ã - B r e t a n h a p a r a travar a guerra, m a s W i n s t o n Churchill n u m a escola de direito soviética. O c o r r e r a certa convergência. A
insistiu q u e esse conceito se aplicava a p e n a s à E u r o p a , e n ã o às Declaração Universal de 1948 incluía direitos sociais e econômicos
colônias da Grã-Bretanha. Os intelectuais africanos d i s c o r d a r a m e — o direito à segurança social, o direito ao t r a b a l h o , o direito à
i n c o r p o r a r a m a questão à sua crescente c a m p a n h a pela i n d e p e n - educação, p o r exemplo —, e nos anos 1980 a maioria dos partidos
dência. E m b o r a as Nações Unidas tivessem deixado de t o m a r u m a socialistas e comunistas havia desistido de sua anterior hostilidade
posição forte sobre a descolonização n o s seus p r i m e i r o s anos, já aos direitos políticos e civis. 28

em 1952 h a v i a m c o n c o r d a d o em t o r n a r a a u t o d e t e r m i n a ç ã o u m a As organizações n ã o governamentais (agora chamadas ONGS)


p a r t e oficial do seu p r o g r a m a . A m a i o r i a dos e s t a d o s africanos n u n c a desapareceram, m a s g a n h a r a m mais influência internacio-
r e c u p e r o u a sua i n d e p e n d ê n c i a , pacificamente ou pela força, na nal a partir do início da década de 1980, em grande parte por causa
década de 1960. E m b o r a às vezes incorporassem nas suas consti- da difusão da p r ó p r i a globalização, ONGS c o m o Anistia Internacio-
tuições os direitos e n u m e r a d o s , p o r exemplo, na C o n v e n ç ã o E u r o - nal ( f u n d a d a em 1961), Anti-Slavery I n t e r n a t i o n a l ( u m a conti-
peia para a Proteção dos Direitos H u m a n o s e Liberdades F u n d a - n u a ç ã o da Sociedade Antiescravidão), H u m a n Rights Watch (fun-
mentais de 1950, a garantia legal dos direitos foi frequentemente d a d a em 1978) e Médicos sem Fronteiras (fundada em 1971), para
vítima dos caprichos da política internacional e intertribal. 27

não falar em incontáveis g r u p o s locais cujas atividades são desco-

208 209
nhecidas fora de suas regiões, p r o v i d e n c i a r a m apoio fundamental OS LIMITES DA EMPATIA
p a r a os direitos h u m a n o s nas últimas décadas. Essas ONGS frequen-
t e m e n t e exerceram mais pressão sobre governos danosos e contri- O q u e d e v e m o s c o n c l u i r do r e s s u r g i m e n t o da t o r t u r a e da
b u í r a m mais p a r a sanar a fome, a d o e n ç a e o t r a t a m e n t o brutal de limpeza étnica, d o e m p r e g o c o n t i n u a d o d o e s t u p r o c o m o a r m a d e
d i s s i d e n t e s e m i n o r i a s do q u e as p r ó p r i a s N a ç õ e s U n i d a s , m a s guerra, da opressão c o n t i n u a d a das m u l h e r e s , do crescente tráfico
quase todas elas b a s e a r a m os seus p r o g r a m a s nos direitos articula- sexual de crianças e m u l h e r e s e das práticas subsistentes da escra-
dos n u m a o u n o u t r a parte d a Declaração Universal. 29

vidão? Os direitos h u m a n o s nos d e s a p o n t a r a m p o r se m o s t r a r e m


Desnecessário dizer que ainda é mais fácil endossar os direitos i n a d e q u a d o s p a r a a sua tarefa? Um p a r a d o x o entre distância e p r o -
h u m a n o s do q u e os impor. O fluxo constante de conferências e con-
x i m i d a d e está em ação nos t e m p o s m o d e r n o s . Por um lado, a difu-
venções internacionais contra o genocídio, a escravidão, o uso da
são da capacidade de ler e escrever e o desenvolvimento de r o m a n -
t o r t u r a e o racismo e a favor da proteção das mulheres, crianças e
ces, jornais, rádio, filmes, televisão e i n t e r n e t t o r n a r a m possível
minorias m o s t r a q u e os direitos h u m a n o s ainda precisam ser res-
q u e mais e mais pessoas s i n t a m empatia p o r aqueles q u e vivem em
gatados. As Nações Unidas a d o t a r a m u m a Convenção Suplemen-
lugares distantes e em circunstâncias m u i t o diferentes. Fotos de
tar sobre a Abolição da Escravatura, do Tráfico de Escravos e das
crianças m o r r e n d o de fome em Bangladesh ou relatos de milhares
Instituições e Práticas Análogas à E s c r a v a t u r a em 1956, p o r é m
de h o m e n s e m e n i n o s a s s a s s i n a d o s em Srebrenica, na Bósnia,
ainda assim estima-se que haja 27 milhões de escravos no m u n d o
p o d e m mobilizar m i l h õ e s de pessoas p a r a q u e enviem dinheiro,
hoje. A p r o v a r a m a C o n v e n ç ã o c o n t r a a T o r t u r a e O u t r o s Trata-
mercadorias e às vezes a si p r ó p r i a s c o m o ajuda ao povo de outros
m e n t o s ou Penas Cruéis, D e s u m a n o s ou Degradantes em 1984 por-
lugares, ou p a r a que exortem seus governos ou organizações inter-
que a t o r t u r a n ã o desapareceu, q u a n d o suas formas judiciais foram
nacionais a intervir. Por o u t r o lado, relatos em p r i m e i r a m ã o con-
abolidas n o século x v m . E m vez d e ser e m p r e g a d a n u m cenário
t a m c o m o vizinhos em R u a n d a se m a t a v a m uns aos outros, com
legalmente sancionado, a t o r t u r a passou aos quartos dos fundos da
furiosa b r u t a l i d a d e , p o r causa da e t n i c i d a d e . Essa violência em
polícia e das forças militares secretas, e n e m tão secretas, dos Esta-
dos m o d e r n o s . Os nazistas a u t o r i z a r a m explicitamente o uso do close está longe de ser excepcional ou recente: os judeus, os cristãos

"aperto" contra os comunistas, as testemunhas de Jeová, os sabota- e os m u ç u l m a n o s t e n t a m há m u i t o t e m p o explicar p o r que o

dores, os terroristas, os dissidentes, os "elementos antissociais" e os bíblico C a i m , filho de Adão e Eva, m a t o u seu i r m ã o Abel. À medida

"vagabundos poloneses ou soviéticos". As categorias já n ã o são exa- q u e se p a s s a m os anos depois das atrocidades nazistas, pesquisas
t a m e n t e as mesmas, mas a prática resiste. A África do Sul, os france- cuidadosas t ê m m o s t r a d o q u e seres h u m a n o s c o m u n s , sem ano-
ses na Argélia, o Chile, a Grécia, a Argentina, o Iraque, os america- malias psicológicas n e m paixões políticas ou religiosas, p o d e m ser
nos em Abu G h r a i b — a lista jamais termina. A esperança de acabar i n d u z i d o s , nas c i r c u n s t â n c i a s "corretas", a e m p r e e n d e r o que
c o m os "atos bárbaros" ainda n ã o se t o r n o u realidade. 30
s a b e m ser assassinato em massa em c o m b a t e s c o r p o a corpo. Os
t o r t u r a d o r e s na Argélia, na A r g e n t i n a e em A b u Ghraib também
c o m e ç a r a m c o m o soldados c o m u n s . Os t o r t u r a d o r e s e os assassi-

210 211
n o s são c o m o n ó s e f r e q u e n t e m e n t e infligem d o r a pessoas que e m p a t i a m o r a l m e n t e mais eficaz. Os críticos daquela época e m u i -
estão b e m diante deles. 31
tos críticos atuais r e s p o n d e r i a m q u e um senso de dever religioso
Assim, e m b o r a as formas m o d e r n a s de comunicação t e n h a m m a i s elevado precisa ser ativado p a r a fazer a empatia funcionar. Na
e x p a n d i d o os meios de sentir empatia pelos o u t r o s , elas n ã o t ê m o p i n i ã o deles os h u m a n o s n ã o p o d e m vencer a sua p r o p e n s ã o inte-
sido capazes de assegurar que os h o m e n s ajam c o m base nesse sen- rior à apatia ou ao mal p o r conta própria. Um antigo presidente da
t i m e n t o de c a m a r a d a g e m . A ambivalência q u a n t o à força da e m p a - A m e r i c a n Bar Association [ O r d e m dos A d v o g a d o s a m e r i c a n a ]
tia p o d e ser e n c o n t r a d a d o século xvin e m d i a n t e , t e n d o sido expressou essa o p i n i ã o c o m u m . " Q u a n d o os seres h u m a n o s n ã o
expressa até p o r aqueles que e m p r e e n d e r a m explicar a sua opera- são vistos c o m o s e m e l h a n t e s a Deus", disse ele, "os seus direitos
ção. Na sua Teoria dos sentimentos morais, A d a m Smith considera a básicos p o d e m m u i t o b e m p e r d e r a sua raison d'être metafísica."
reação de " u m h o m e m h u m a n i t á r i o na Europa" ao ficar sabendo de Sozinha, a ideia dos atributos h u m a n o s c o m u n s n ã o é suficiente. 33

um t e r r e m o t o na China que m a t a centenas de milhões de pessoas. A d a m S m i t h focaliza u m a q u e s t ã o q u a n d o h á r e a l m e n t e


Ele dirá todas as coisas adequadas, prediz Smith, e continuará c o m duas. Smith considera q u e a empatia p o r aqueles distantes está na
as suas atividades c o m o se n a d a tivesse acontecido. Se, em c o n - m e s m a categoria dos s e n t i m e n t o s p o r aqueles que nos são próxi-
traste, soubesse que perderia o d e d o m í n i m o no dia seguinte, ele se m o s , apesar de reconhecer q u e o que nos confronta diretamente é
agitaria e viraria de um lado para o o u t r o a noite inteira. Estaria dis- m u i t o mais m o t i v a d o r do q u e os problemas enfrentados p o r aque-
posto a sacrificar as centenas de milhões de chineses em troca do seu les q u e estão distantes. As d u a s questões, p o r t a n t o , são: o que p o d e
d e d o m í n i m o ? N ã o , não estaria, afirma Smith. Mas o que leva u m a n o s m o t i v a r a agir c o m b a s e em n o s s o s s e n t i m e n t o s pelos q u e
pessoa a resistir a essa barganha? " N ã o é a força maleável da h u m a - estão distantes, e o que faz o s e n t i m e n t o de camaradagem entrar
nidade", insiste Smith, que nos t o r n a capazes de agir contra o inte- n u m tal colapso q u e p o d e m o s torturar, aleijar ou até matar os que
resse p r ó p r i o . Tem de ser u m a força mais forte, a da consciência: "É n o s são mais próximos? A distância e a proximidade, os sentimen-
a razão, o princípio, a consciência, o habitante do peito, o h o m e m tos positivos e os negativos, t u d o t e m de entrar na equação.
interior, o grande juiz e árbitro da nossa conduta". 32

D a m e t a d e d o século x v i n e m d i a n t e , e precisamente p o r
A p r ó p r i a lista de Smith em 1759 — razão, princípio, c o n s - causa do s u r g i m e n t o de u m a n o ç ã o dos direitos h u m a n o s , essas
ciência, o h o m e m interior — capta um elemento i m p o r t a n t e no tensões se t o r n a r a m cada vez mais mortíferas. Todos os que faziam
estado atual do d e b a t e sobre e m p a t i a . O q u e é s u f i c i e n t e m e n t e c a m p a n h a s c o n t r a a escravidão, a t o r t u r a legal e o castigo cruel no
forte p a r a n o s m o t i v a r a agir c o m base em nosso s e n t i m e n t o de final do século xvin r e a l ç a v a m a c r u e l d a d e nas suas narrativas
camaradagem? A heterogeneidade da lista de Smith indica q u e ele e m o c i o n a l m e n t e a r r e b a t a d o r a s . Eles p r e t e n d i a m provocar a
p r ó p r i o t i n h a a l g u m p r o b l e m a p a r a r e s p o n d e r essa q u e s t ã o : repulsa, m a s o d e s p e r t a r de sensações, p o r m e i o da leitura e da
"razão" é s i n ô n i m o de "o habitante do peito"? Smith parecia acre- visão de gravuras explícitas do sofrimento, n e m sempre podia ser
ditar, c o m o m u i t o s ativistas dos direitos h u m a n o s hoje em dia, q u e c u i d a d o s a m e n t e c a n a l i z a d o . Da m e s m a forma, o r o m a n c e q u e
u m a c o m b i n a ç ã o de invocações aos princípios dos direitos e a p e - suscitava u m a a t e n ç ã o i n t e n s a p a r a o s sofrimentos d e m o ç a s
los emocionais ao s e n t i m e n t o de c a m a r a d a g e m p o d e m t o r n a r a c o m u n s a s s u m i u o u t r a s formas mais sinistras no final do século

212 213
XVIII. O r o m a n c e gótico, exemplificado p o r The Monk (1796), cie n u a m e n t e a versão dos direitos h u m a n o s do século xviil, p a r a se
M a t t h e w Lewis, apresentava cenas de incesto, e s t u p r o , tortura I assegurar q u e o " H u m a n o s " na Declaração Universal dos Direitos
assassinato, e essas cenas sensacionalistas p a r e c i a m ser cada vez 11 u m a n o s elimine t o d a s as a m b i g u i d a d e s do " h o m e m " nos "direi-
mais a razão do exercício, em d e t r i m e n t o do estudo dos sentimcn tos do h o m e m " . A cascata de direitos c o n t i n u a , e m b o r a s e m p r e
tos i n t e r i o r e s ou r e s u l t a d o s m o r a i s . O m a r q u ê s de Sade fez o c o m um g r a n d e conflito sobre c o m o ela deve fluir: o direito de u m a
r o m a n c e gótico dar um passo além para se transformar n u m a por mulher a escolher versus o direito de um feto a viver, o direito de
nografia explícita da dor, r e d u z i n d o d e l i b e r a d a m e n t e a seu núcleo m o r r e r c o m d i g n i d a d e versus o direito absoluto à vida, os direitos
sexual as longas e dilatadas cenas de sedução de r o m a n c e s mais dos inválidos, os direitos dos homossexuais, os direitos das crian-
antigos, c o m o Clarissa, de Richardson. Sade visava revelar os sig- ças, os direitos dos a n i m a i s — os a r g u m e n t o s n ã o t e r m i n a r a m ,
nificados ocultos dos r o m a n c e s anteriores: sexo, d o m i n a ç ã o , dor I n e m v ã o t e r m i n a r . O s q u e fizeram c a m p a n h a s pelos direitos
p o d e r em vez de amor, empatia e benevolência. O "direito natural" h u m a n o s n o século xvin p o d i a m c o n d e n a r o s seus o p o s i t o r e s
p a r a ele significava apenas o direito de agarrar o m á x i m o de poder c o m o tradicionalistas insensíveis, interessados apenas em m a n t e r
possível e sentir prazer em brandi-lo sobre os outros. N ã o é m e r o u m a o r d e m social baseada antes na desigualdade, na particulari-
acaso q u e Sade t e n h a escrito q u a s e t o d o s os seus r o m a n c e s na d a d e e no c o s t u m e histórico do q u e na igualdade, na universali-
década de 1790, d u r a n t e a Revolução Francesa. 34
d a d e e nos direitos n a t u r a i s . M a s já n ã o p o d e m o s n o s dar ao luxo

Assim, a n o ç ã o dos direitos h u m a n o s t r o u x e na sua esteira de u m a simples rejeição de visões mais antigas. Na o u t r a p o n t a da

toda u m a sucessão de gêmeos malignos. A reivindicação de direi- luta pelos direitos h u m a n o s , q u a n d o a crença neles se t o r n a mais

tos universais, iguais e naturais estimulava o crescimento de novas difundida, t e m o s de enfrentar o m u n d o q u e foi forjado p o r esse

e às vezes fanáticas ideologias da diferença. Alguns novos m o d o s de esforço. Temos de i m a g i n a r o q u e fazer c o m os t o r t u r a d o r e s e os

g a n h a r c o m p r e e n s ã o empática a b r i r a m o c a m i n h o para um sen- assassinos, c o m o prevenir o seu s u r g i m e n t o no futuro sem deixar

sacionalismo da violência. O esforço para expulsar a crueldade de de reconhecer, o t e m p o t o d o , q u e eles são nós. N ã o p o d e m o s n e m

suas a m a r r a s legais, judiciais e religiosas tornava-a mais acessível tolerá-los n e m desumanizá-los.

c o m o u m a ferramenta diária de d o m i n a ç ã o e desumanização. Os A e s t r u t u r a dos direitos h u m a n o s , c o m seus órgãos interna-


crimes inteiramente d e s u m a n o s do século xx só se t o r n a r a m con- cionais, cortes internacionais e convenções internacionais, talvez
cebíveis q u a n d o t o d o s p u d e r a m afirmar serem m e m b r o s iguais da seja exasperadora na sua lentidão para reagir ou na sua repetida
família h u m a n a . O r e c o n h e c i m e n t o dessas dualidades é essencial incapacidade de atingir seus objetivos principais, m a s n ã o existe
p a r a o futuro d o s direitos h u m a n o s . A e m p a t i a n ã o se e x a u r i u , n e n h u m a e s t r u t u r a m a i s a d e q u a d a p a r a c o n f r o n t a r essas q u e s -
c o m o alguns t ê m afirmado. Mais d o q u e n u n c a , t o r n o u - s e u m a tões. As c o r t e s e as o r g a n i z a ç õ e s g o v e r n a m e n t a i s , p o r mais q u e
força mais p o d e r o s a para o b e m . Mas o efeito c o m p e n s a t ó r i o de t e n h a m alcance internacional, serão s e m p r e freadas p o r conside-
violência, dor e d o m i n a ç ã o t a m b é m é m a i o r do q u e n u n c a . 35
rações geopolíticas. A história dos direitos h u m a n o s m o s t r a que os

Os direitos h u m a n o s são o ú n i c o baluarte q u e p a r t i l h a m o s direitos são afinal mais b e m defendidos pelos sentimentos, con-

c o m u m e n t e contra esses males. Ainda devemos aperfeiçoar conti- vicções e ações de m u l t i d õ e s de indivíduos, que exigem respostas

214 215
c o r r e s p o n d e n t e s ao seu senso í n t i m o de afronta. O pastor protes
t a n t e R a b a u t Saint-Étienne já t i n h a c o m p r e e n d i d o essa verdade
em 1787, q u a n d o escreveu ao governo francês p a r a reclamar dos
defeitos do n o v o edito que oferecia tolerância religiosa aos protes-
tantes. " C h e g o u a hora", disse ele, "em q u e n ã o é mais aceitável que
u m a lei invalide a b e r t a m e n t e os direitos da h u m a n i d a d e , que são
m u i t o b e m conhecidos em t o d o o m u n d o . " As declarações — em
1776, 1789 e 1948 — p r o v i d e n c i a r a m u m a p e d r a de t o q u e para
esses direitos da h u m a n i d a d e , recorrendo ao senso do que "não é
mais aceitável" e ajudando, p o r sua vez, a t o r n a r as violações ainda
mais inadmissíveis. O processo t i n h a e t e m em si u m a inegável cir-
cularidade: c o n h e c e m o s o significado dos direitos h u m a n o s por-
q u e nos afligimos q u a n d o são violados. As verdades dos direitos
h u m a n o s talvez sejam paradoxais nesse sentido, m a s apesar disso
ainda são autoevidentes. APÊNDICE

Três declarações
1776,1789,1948

216
Declaração da Independência, 1776

NO CONGRESSO, 4 de julho de 1776.


A Declaração unânime dos treze Estados unidos da América.

Q u a n d o , n o C u r s o d o s a c o n t e c i m e n t o s h u m a n o s , torna-se
necessário q u e um povo dissolva os laços políticos que o ligam a
o u t r o e a s s u m a entre as p o t ê n c i a s da Terra a posição separada e
igual a q u e lhe dão direito as Leis da Natureza e do Deus da N a t u -
reza, u m respeito decente pelas opiniões d a h u m a n i d a d e r e q u e r
que ele declare as causas q u e o i m p e l e m à separação.
C o n s i d e r a m o s estas v e r d a d e s a u t o e v i d e n t e s : q u e t o d o s o s
h o m e n s são c r i a d o s iguais, d o t a d o s pelo seu C r i a d o r d e c e r t o s
Direitos inalienáveis, q u e e n t r e estes estão a Vida, a Liberdade e a
b u s c a da Felicidade. — Q u e p a r a assegurar esses direitos, Gover-
n o s são instituídos e n t r e os H o m e n s , d e r i v a n d o seus justos p o d e -
res do c o n s e n t i m e n t o dos g o v e r n a d o s . — Q u e , s e m p r e q u e q u a l -
q u e r F o r m a de G o v e r n o se t o r n e destrutiva desses fins, é Direito
do Povo alterá-la ou aboli-la, e i n s t i t u i r n o v o G o v e r n o , a s s e n -

219
t a n d o s u a f u n d a ç ã o nesses p r i n c í p i o s e o r g a n i z a n d o os seus os Arquivos públicos, c o m o ú n i c o propósito de fatigá-los até q u e
p o d e r e s da f o r m a que lhe pareça m a i s conveniente p a r a a realiza- se s u b m e t e s s e m a suas m e d i d a s .
ção da sua Segurança e Felicidade. A p r u d ê n c i a , de fato, dita que Ele dissolveu as C â m a r a s de Representantes r e p e t i d a s vezes,
o s G o v e r n o s estabelecidos h á m u i t o t e m p o n ã o d e v e m ser m u d a - p o r se o p o r e m c o m firmeza viril a suas invasões dos direitos do povo.
dos p o r causas superficiais e t r a n s i t ó r i a s ; e, assim s e n d o , t o d a Ele recusou p o r m u i t o t e m p o , depois dessas dissoluções, fazer
experiência t e m m o s t r a d o q u e a h u m a n i d a d e está m a i s disposta c o m q u e o u t r o s fossem eleitos; c o m isso, os p o d e r e s Legislativos,
a sofrer, e n q u a n t o os males são suportáveis, do q u e a se desagra- i n c a p a z e s d e A n i q u i l a ç ã o , r e t o r n a r a m a o P o v o e m geral p a r a
var a b o l i n d o as formas a q u e está a c o s t u m a d a . M a s q u a n d o u m a s e r e m exercidos; p e r m a n e c e n d o o Estado, n e s s e m e i o - t e m p o ,
longa sequência de abusos e u s u r p a ç õ e s , p e r s e g u i n d o invariavel- e x p o s t o a t o d o s os p e r i g o s de invasão e x t e r n a ou c o n v u l s ã o
m e n t e o m e s m o Objeto, revela o desígnio de reduzir o p o v o a um interna.
D e s p o t i s m o a b s o l u t o , é seu d i r e i t o , é seu dever, d e r r u b a r tal Ele se e m p e n h o u em i m p e d i r o p o v o a m e n t o desses Estados,
G o v e r n o , e p r o v i d e n c i a r novos Guardiães p a r a sua futura segu- o b s t r u i n d o p a r a esse fim as Leis de Naturalização de Estrangeiros,
rança. — Tal t e m sido a tolerância paciente destas Colônias; e tal r e c u s a n d o aprovar o u t r a s q u e encorajassem as m i g r a ç õ e s p a r a cá,
é agora a necessidade q u e as força a alterar os Sistemas anteriores e i m p o n d o mais condições p a r a novas A p r o p r i a ç õ e s de Terras.
de G o v e r n o . A história do p r e s e n t e Rei da G r ã - B r e t a n h a é u m a Ele dificultou a A d m i n i s t r a ç ã o da Justiça, r e c u s a n d o Assenti-
história de repetidas injúrias e u s u r p a ç õ e s , t o d a s t e n d o p o r obje- m e n t o a Leis que estabeleciam poderes Judiciários.
tivo direto o estabelecimento de u m a Tirania absoluta sobre estes Ele t o r n o u os Juízes d e p e n d e n t e s apenas da V o n t a d e do sobe-
E s t a d o s . P a r a p r o v á - l o , q u e o s Fatos sejam s u b m e t i d o s a u m r a n o q u a n t o à posse dos cargos e ao valor e p a g a m e n t o dos salários.
m u n d o honesto. Ele c r i o u u m a m u l t i d ã o de Novos Cargos, e p a r a cá e n v i o u
enxames de Oficiais p a r a a t o r m e n t a r o nosso p o v o e devorar-lhe
Ele recusou Assentimento a Leis, as mais salutares e necessá- c o m p l e t a m e n t e a substância.
rias para o b e m público. Ele m a n t e v e entre n ó s , em t e m p o s de paz, Exércitos P e r m a -
Ele p r o i b i u aos G o v e r n a d o r e s aprovar Leis de i m p o r t â n c i a nentes sem o C o n s e n t i m e n t o de nossos corpos legislativos.
imediata e urgente, a m e n o s q u e sua aplicação fosse suspensa até Ele t e n t o u t o r n a r o p o d e r Militar i n d e p e n d e n t e e superior ao
que se obtivesse seu Assentimento; e, q u a n d o assim suspensas, dei- p o d e r Civil.
x o u totalmente de lhes dar atenção. Ele c o m b i n o u c o m o u t r o s p a r a nos s u b m e t e r a u m a jurisdi-
Ele recusou aprovar outras Leis p a r a a c o m o d a r grandes dis- ção alheia à nossa C o n s t i t u i ç ã o e n ã o reconhecida pelas nossas leis;
t r i t o s de pessoas, a m e n o s q u e essas pessoas a b r i s s e m m ã o do d a n d o Assentimento a seus Atos de pretensa legislação:
direito d e Representação n o Legislativo, u m direito inestimável Para Aquartelar g r a n d e s corpos de tropas a r m a d a s entre nós;
para elas e temível apenas p a r a os tiranos. Para protegê-las, p o r u m a r r e m e d o d e Julgamento, d a p u n i -
Ele convocou os corpos legislativos a se reunir em lugares inu- ção p o r quaisquer Assassinatos q u e viessem a cometer contra os
sitados, desconfortáveis e distantes dos locais em q u e se g u a r d a m Habitantes destes Estados;

220 221
P a r a c o r t a r o n o s s o C o m é r c i o c o m t o d a s as regiões do cruéis í n d i o s Selvagens, cuja conhecida regra de g u e r r a é a destrui-
mundo; ção de t o d o s sem distinção de idade, sexo e c o n d i ç õ e s .
Para fixar I m p o s t o s sem o nosso C o n s e n t i m e n t o ; E m t o d a etapa dessas O p r e s s õ e s , N ó s f i z e m o s P e d i d o s d e
Para n o s privar, e m m u i t o s casos, dos benefícios d o Julga- Reparação nos t e r m o s mais h u m i l d e s : Nossas r e p e t i d a s Petições só
m e n t o pelo Júri; t ê m recebido c o m o resposta repetidas injúrias. U m Príncipe cujo
Para nos transportar além-Mar para sermos julgados por caráter é assim m a r c a d o p o r t o d o ato q u e define um T i r a n o é ina-
pretensos delitos; p r o p r i a d o p a r a ser o governante de um p o v o livre.
Para abolir o Sistema livre de Leis Inglesas n u m a Província
vizinha, aí estabelecendo um governo Arbitrário e a m p l i a n d o - l h e T a m p o u c o t e m o s sido descorteses c o m n o s s o s i r m ã o s brittâ-
as fronteiras, a fim de torná-lo, ao m e s m o t e m p o , um exemplo e nicos [sic]. De t e m p o s em t e m p o s , nós os t e m o s a l e r t a d o sobre as
um instrumento adequado para introduzir o m e s m o domínio tentativas de seu legislativo no sentido de estender sobre nós u m a
absoluto nestas Colônias; jurisdição injustificável. Temos lhes l e m b r a d o as circunstâncias de
Para nos t o m a r as nossas Cartas, abolindo as nossas Leis mais nossa emigração e colonização. Temos apelado à sua justiça e m a g -
valiosas e a l t e r a n d o f u n d a m e n t a l m e n t e as F o r m a s de n o s s o s n a n i m i d a d e nativas, e t e m o s rogado, pelos laços de nosso p a r e n -
Governos; tesco c o m u m , que desautorizem essas u s u r p a ç õ e s q u e i n t e r r o m -
Para suspender os nossos C o r p o s Legislativos, declarando-se p e r i a m , i n e v i t a v e l m e n t e , as nossas ligações e c o r r e s p o n d ê n c i a .
investido do p o d e r para legislar para nós em t o d o e qualquer caso. Eles t a m b é m t ê m sido surdos à voz da justiça e da c o n s a n g u i n i -
Ele abdicou do Governo aqui, ao nos declarar fora da sua p r o - dade. Devemos, portanto, admitir a necessidade, que denuncia
teção e travar G u e r r a contra nós. nossa S e p a r a ç ã o , e c o n s i d e r á - l o s , assim c o m o c o n s i d e r a m o s o
Ele s a q u e o u os n o s s o s m a r e s , d e v a s t o u as nossas C o s t a s , resto da h u m a n i d a d e , Inimigos na Guerra, A m i g o s na Paz.
incendiou as nossas cidades e destruiu a vida de nosso povo.
Ele está, neste m o m e n t o , t r a n s p o r t a n d o grandes Exércitos de Nós, portanto, os Representantes dos Estados Unidos da
Mercenários estrangeiros para completar a obra de m o r t e , desola- A m é r i c a , R e u n i d o s e m C o n g r e s s o Geral, a p e l a n d o a o Juiz Su-
ção e tirania, já iniciada em circunstâncias de Crueldade & perfídia p r e m o do m u n d o pela retidão de nossas intenções, publicamos e
quase sem paralelo nas eras mais bárbaras e totalmente indignas declaramos solenemente, em Nome e por Autoridade do b o m
do Chefe de u m a nação civilizada. Povo destas Colônias, q u e estas Colônias U n i d a s são e p o r direito
Ele obrigou nossos concidadãos Aprisionados em alto-Mar a d e v e m ser Estados Livres e Independentes; q u e elas estão Desobri-
pegar em armas contra o p r ó p r i o País deles, a se t o r n a r os carras- gadas de t o d a Vassalagem p a r a c o m a C o r o a Britânica, e que t o d o
cos de seus amigos e I r m ã o s , ou a t o m b a r e m eles p r ó p r i o s pelas vínculo político entre elas e o Estado da Grã-Bretanha é e deve ser
Mãos desses seus semelhantes. t o t a l m e n t e dissolvido; e que, c o m o Estados Livres e I n d e p e n d e n -
Ele p r o v o c o u i n s u r r e i ç õ e s d o m é s t i c a s e n t r e n ó s , e e m p e - tes, elas t ê m pleno Poder p a r a declarar Guerra, concluir a Paz, con-
n h o u - s e em lançar sobre os h a b i t a n t e s de nossas fronteiras os t r a i r Alianças, estabelecer C o m é r c i o e p r a t i c a r t o d o s os o u t r o s

222 223
Atos e Negócios q u e os Estados I n d e p e n d e n t e s t ê m o direito de Declaração dos Direitos do Homem e do
fazer. E p a r a apoiar esta Declaração, c o m u m a firme confiança na
p r o t e ç ã o d a D i v i n a Providência, e m p e n h a m o s m u t u a m e n t e a s
Cidadão, 1789
nossas Vidas, as nossas F o r t u n a s e a nossa sagrada H o n r a .

Fonte: Paul Leicester Ford, ed., The Writings of Thomas Jeffer-


son, 10 vols. (Nova York: G. P. P u t n a m ' s Sons, 1892-9), vol. 2, p p .
42-58; <www.archives.gov/national-archives-experience/char-
ters/declaration_transcript.html>.

Os representantes do povo francês, reunidos em Assembleia


N a c i o n a l e c o n s i d e r a n d o q u e a i g n o r â n c i a , a negligência ou o
m e n o s p r e z o dos direitos do h o m e m são as únicas causas dos males
públicos e da c o r r u p ç ã o g o v e r n a m e n t a l , resolveram a p r e s e n t a r
n u m a declaração solene os direitos naturais, inalienáveis e sagra-
d o s d o h o m e m : p a r a q u e esta declaração, p o r estar c o n s t a n t e -
m e n t e presente a t o d o s os m e m b r o s do corpo social, possa s e m p r e
l e m b r a r a t o d o s os seus direitos e deveres; p a r a q u e os atos d o s
p o d e r e s Legislativo e Executivo, p o r e s t a r e m a t o d o m o m e n t o
sujeitos a u m a c o m p a r a ç ã o c o m o objetivo de t o d a i n s t i t u i ç ã o
política, p o s s a m ser m a i s p l e n a m e n t e respeitados; e p a r a q u e as
d e m a n d a s dos cidadãos, p o r estarem a partir de agora f u n d a m e n -
tadas em princípios simples e incontestáveis, possam s e m p r e visar
a m a n t e r a Constituição e o bem-estar geral.

Em c o n s e q u ê n c i a , a Assembleia N a c i o n a l r e c o n h e c e e
declara, na presença e sob os auspícios do Ser Supremo, os seguin-
tes direitos do h o m e m e do cidadão:
1. Os h o m e n s n a s c e m e p e r m a n e c e m livres e iguais em direi -

224 225
t o s . As d i s t i n ç õ e s sociais só p o d e m ser b a s e a d a s na utilidade força d e u m a lei estabelecida e p r o m u l g a d a a n t e s d o t e m p o d o
comum. delito, e legalmente aplicada.

2 . 0 objetivo de toda associação política é a preservação dos 9. Sendo t o d o h o m e m considerado inocente até ser declarado
direitos n a t u r a i s e imprescritíveis do h o m e m . Esses direitos são a c u l p a d o , se for c o n s i d e r a d o indispensável p r e n d ê - l o , t o d o rigor
liberdade, a p r o p r i e d a d e , a segurança e a resistência à opressão. desnecessário para deter a sua pessoa deve ser s e v e r a m e n t e repri-

3. O p r i n c í p i o de t o d a s o b e r a n i a reside e s s e n c i a l m e n t e na m i d o pela lei.

n a ç ã o . N e n h u m c o r p o e n e n h u m i n d i v í d u o p o d e exercer u m a 10. N i n g u é m deve ser molestado p o r suas o p i n i õ e s , m e s m o as


a u t o r i d a d e q u e n ã o e m a n e expressamente da nação. religiosas, d e s d e q u e sua m a n i f e s t a ç ã o n ã o p e r t u r b e a o r d e m
4. A liberdade consiste em p o d e r fazer t u d o o q u e não preju- pública estabelecida pela lei.
d i q u e o o u t r o : assim, o exercício d o s direitos n a t u r a i s de cada 11. A livre comunicação de pensamentos e opiniões é um dos
h o m e m n ã o t e m o u t r o s limites senão aqueles q u e asseguram aos mais preciosos direitos do h o m e m . Todo cidadão p o d e , p o r t a n t o ,
o u t r o s m e m b r o s da s o c i e d a d e o desfrute dos m e s m o s direitos. falar, escrever e publicar livremente, se aceitar a responsabilidade p o r
Esses limites só p o d e m ser d e t e r m i n a d o s pela lei. qualquer abuso dessa liberdade nos termos estabelecidos pela lei.

5. A lei só t e m o direito de proibir aquelas ações que são pre- 12. A salvaguarda dos direitos do h o m e m e do cidadão requer
judiciais à sociedade. N e n h u m obstáculo deve ser i n t e r p o s t o ao u m a força pública. Essa força é, p o r t a n t o , instituída para o b e m de
que a lei n ã o proíbe, n e m p o d e alguém ser forçado a fazer o que a t o d o s , e n ã o p a r a o benefício privado daqueles a q u e m é confiada.
lei n ã o ordena. 13. Para a m a n u t e n ç ã o da a u t o r i d a d e pública e para as despe-
6. A lei é a expressão da v o n t a d e geral. Todos os cidadãos t ê m sas da a d m i n i s t r a ç ã o , a t r i b u t a ç ã o c o m u m é indispensável. Ela
o direito de participar, em pessoa ou p o r m e i o de seus representan- deve ser dividida i g u a l m e n t e e n t r e t o d o s os cidadãos de a c o r d o
tes, na sua formação. Deve ser a m e s m a para t o d o s , q u e r proteja, c o m sua capacidade de pagar.
q u e r penalize. Todos os cidadãos, s e n d o iguais a seus olhos, são 14. Todos os cidadãos t ê m o direito de exigir, p o r si m e s m o s
igualmente admissíveis a todas as dignidades, cargos e e m p r e g o s ou p o r m e i o de seus representantes, que lhes seja d e m o n s t r a d a a
públicos, segundo a sua capacidade e sem n e n h u m a o u t r a distin- necessidade dos impostos públicos, de concordar livremente c o m
ção que n ã o seja a de suas virtudes e talentos. a sua existência, de a c o m p a n h a r o seu e m p r e g o e de determinar os

7 . N e n h u m h o m e m p o d e ser i n d i c i a d o , p r e s o o u d e t i d o meios de distribuição, avaliação e arrecadação, b e m como a d u r a -

exceto em casos d e t e r m i n a d o s pela lei e segundo as formas que a ção dos impostos.

lei prescreve. Aqueles q u e solicitam, lavram, e x e c u t a m ou m a n - 15. A sociedade t e m o direito de considerar que todo agente
d a m executar ordens arbitrárias devem ser p u n i d o s ; m a s os cida- público da administração deve prestar contas de seus atos.
dãos i n t i m a d o s ou detidos p o r força da lei d e v e m obedecer i m e - 16. N ã o possui C o n s t i t u i ç ã o a sociedade em que a garantia
diatamente, t o r n a n d o - s e culpados pela resistência. d o s d i r e i t o s n ã o esteja a s s e g u r a d a ou a s e p a r a ç ã o dos p o d e r e s
8. Apenas punições estrita e o b v i a m e n t e necessárias p o d e m estabelecida.
ser estabelecidas pela lei, e n i n g u é m p o d e ser p u n i d o s e n ã o p o r 17. C o m o a p r o p r i e d a d e é um direito inviolável e sagrado,

226 227
n i n g u é m p o d e ser dela p r i v a d o , a n ã o ser q u a n d o a necessidade
Declaração Universal dos Direitos Humanos,
pública legalmente comprovada a requeira indubitavelmente e
sob condição de u m a justa e prévia compensação. 1948

Fonte: La Constitution française, Présentée au Roi par


l'Assemblée Nationale, le 3 septembre 1791 (Paris, 1791).

PREÂMBULO

Visto q u e o r e c o n h e c i m e n t o da dignidade inerente a t o d o s os


m e m b r o s da família h u m a n a e de seus direitos iguais e inalienáveis
é o f u n d a m e n t o da liberdade, da justiça e da paz no m u n d o ,
Visto q u e o desrespeito e o desprezo pelos direitos h u m a n o s
t ê m resultado em atos b á r b a r o s q u e o f e n d e r a m a consciência da
h u m a n i d a d e e que o advento de um m u n d o em q u e os seres h u m a -
nos t e n h a m liberdade de expressão e crença e a liberdade de viver
sem m e d o e privações foi p r o c l a m a d o c o m o a aspiração mais ele-
vada d o h o m e m c o m u m ,
Visto que é essencial que os direitos h u m a n o s sejam protegidos
pelo estado de direito, p a r a q u e o h o m e m n ã o seja c o m p e l i d o a
recorrer, em última instância, à rebelião contra a tirania e a opressão,
Visto q u e é essencial p r o m o v e r o desenvolvimento de rela-
ções amistosas entre as nações,
Visto q u e os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta,
sua fé nos direitos h u m a n o s fundamentais, na dignidade e valor da
pessoa h u m a n a e na igualdade de direitos dos h o m e n s e mulheres,

228 229
e q u e d e c i d i r a m p r o m o v e r o progresso social e melhores padrões i n d e p e n d e n t e , sob tutela, n ã o a u t ô n o m o o u c o m q u a l q u e r o u t r a
de vida em m a i o r liberdade,
limitação de soberania.
Visto q u e os E s t a d o s - m e m b r o s se c o m p r o m e t e r a m a desen-
volver, em cooperação c o m as Nações Unidas, o respeito universal
Artigo 3 '. Todo ser h u m a n o t e m direito à vida, à liberdade e à
1

aos direitos h u m a n o s e liberdades fundamentais e o c u m p r i m e n t o


segurança pessoal.
desses direitos e liberdades,
Visto q u e u m a c o m p r e e n s ã o c o m u m desses direitos e liber-
Artigo 4". N i n g u é m deve ser m a n t i d o em escravidão ou servi-
dades é da m a i o r i m p o r t â n c i a p a r a o p l e n o c u m p r i m e n t o desse
d ã o : a escravidão e o tráfico de escravos d e v e m ser p r o i b i d o s em
compromisso,
todas as suas formas.

A ASSEMBLEIA GERAL p r o c l a m a ESTA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS


Artigo 5 . N i n g u é m deve ser s u b m e t i d o à t o r t u r a ou a um tra-
e

DIREITOS HUMANOS c o m o um ideal c o m u m a ser a l c a n ç a d o p o r


t a m e n t o o u p u n i ç ã o cruel, d e s u m a n o o u degradante.
todos os povos e todas as nações, p a r a que t o d o indivíduo e t o d o
órgão da sociedade, t e n d o s e m p r e em m e n t e esta Declaração, p r o -
Artigo 6". Todo ser h u m a n o t e m o direito de ser reconhecido,
cure, pelo e n s i n a m e n t o e pela e d u c a ç ã o , p r o m o v e r o respeito a
esses direitos e liberdades e, p o r m e d i d a s progressivas de caráter p o r t o d a parte, c o m o u m a pessoa p e r a n t e a lei.

nacional e internacional, assegurar o seu r e c o n h e c i m e n t o e c u m -


p r i m e n t o universais e efetivos, t a n t o entre os povos dos p r ó p r i o s Artigo 7\ T o d o s são iguais p e r a n t e a lei e t ê m direito, s e m

E s t a d o s - m e m b r o s c o m o e n t r e o s p o v o s d o s t e r r i t ó r i o s sob sua q u a l q u e r distinção, a u m a proteção igual da lei. Todos t ê m direito


jurisdição. a u m a proteção igual c o n t r a qualquer discriminação q u e viole esta
Declaração e contra q u a l q u e r incitamento a tal discriminação.

Artigo 1". Todos os seres h u m a n o s nascem livres e iguais em


dignidade e direitos. São d o t a d o s de razão e consciência e devem Artigo 8". Todo ser h u m a n o t e m direito a receber, dos t r i b u -
agir uns para c o m os o u t r o s n u m espírito de fraternidade. nais nacionais c o m p e t e n t e s , u m a reparação efetiva para atos q u e
violem os direitos f u n d a m e n t a i s a ele concedidos pela constituição
Artigo 2'-. Todo ser h u m a n o p o d e fruir de t o d o s os direitos e ou pela lei.
liberdades apresentados nesta Declaração, sem distinção de qual-
quer sorte, c o m o raça, cor, sexo, língua, religião, o p i n i ã o política Artigo 9". N i n g u é m deve ser s u b m e t i d o à prisão, à detenção
ou de o u t r a o r d e m , origem nacional ou social, bens, n a s c i m e n t o ou ao exílio arbitrários.
ou qualquer o u t r o status. Além disso, n e n h u m a distinção deve ser
feita c o m base no status político, jurisdicional ou internacional do Artigo 10. Todo ser h u m a n o tem direito, em total igualdade, a
país ou t e r r i t ó r i o a q u e u m a pessoa p e r t e n c e , seja ele t e r r i t ó r i o u m a audiência justa e pública, p o r parte de um tribunal i n d e p e n -

230 231
dente e imparcial, para a d e t e r m i n a ç ã o de seus direitos e deveres e (2) N i n g u é m deve ser arbitrariamente d e s t i t u í d o de sua nacio-

de q u a l q u e r acusação criminal contra a sua pessoa. nalidade, n e m lhe será n e g a d o o direito de m u d a r de nacionalidade.

Artigo 16. (1) Os h o m e n s e mulheres a d u l t o s , sem q u a l q u e r


Artigo 11.(1) Todo ser h u m a n o a c u s a d o de um delito t e m
restrição de raça, nacionalidade ou religião, t ê m o direito de casar
direito à p r e s u n ç ã o de inocência até q u e seja provada a sua culpa
e fundar u m a família, fazendo jus a direitos iguais em relação ao
de acordo c o m a lei, n u m j u l g a m e n t o público em q u e lhe t e n h a m
casamento, d u r a n t e o c a s a m e n t o e na sua dissolução.
sido asseguradas todas as garantias necessárias p a r a a sua defesa.
(2) O c a s a m e n t o deve ser realizado s o m e n t e c o m o livre e
(2) N i n g u é m deve ser considerado culpado p o r q u a l q u e r ato
pleno c o n s e n t i m e n t o dos futuros cônjuges.
ou omissão q u e n ã o constituía delito p e r a n t e o direito nacional ou
(3) A família é a u n i d a d e de g r u p o n a t u r a l e f u n d a m e n t a l da
internacional na época em q u e foi cometido. T a m p o u c o deve ser
sociedade e t e m direito à proteção da sociedade e do Estado.
imposta u m a p e n a mais pesada do q u e a aplicável na época em q u e
o delito foi c o m e t i d o .
Artigo 17.(1) Todo ser h u m a n o tem direito à p r o p r i e d a d e , só
o u e m sociedade c o m o u t r o s .
Artigo 12. N i n g u é m deve ser sujeito a interferências arbitrá-
(2) N i n g u é m deve ser arbitrariamente d e s t i t u í d o de sua p r o -
rias na sua privacidade, família, lar ou correspondência, n e m a ata- priedade.
ques à sua h o n r a e reputação. Todo ser h u m a n o t e m direito à p r o -
teção da lei contra tais interferências ou ataques. Artigo 18. Todo ser h u m a n o t e m direito à liberdade de p e n s a -
m e n t o , consciência e religião; este direito i n c l u i a l i b e r d a d e de
Artigo 13. (1) Todo ser h u m a n o t e m o direito à liberdade de m u d a r de religião ou crença, e a liberdade de manifestar a sua reli-
l o c o m o ç ã o e residência d e n t r o das fronteiras de cada Estado. gião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observân-
(2) Todo ser h u m a n o t e m o direito de sair de q u a l q u e r país, cia, s o z i n h o o u e m c o m u n i d a d e c o m o u t r o s , e m p ú b l i c o o u e m
inclusive do seu p r ó p r i o , e de retornar ao seu país. privado.

Artigo 14.(1) Todo ser h u m a n o vítima de perseguição t e m o Artigo 19. Todo ser h u m a n o t e m direito à liberdade de o p i -
direito de p r o c u r a r e receber asilo em outros países. nião e expressão; este direito inclui a liberdade de ter opiniões s e m
(2) Este direito n ã o p o d e ser invocado no caso de u m a perse- quaisquer interferências e de p r o c u r a r , receber e transmitir infor-
guição l e g i t i m a m e n t e m o t i v a d a p o r crimes n ã o políticos o u p o r mações e ideias p o r q u a l q u e r m e i o de c o m u n i c a ç ã o e i n d e p e n d e n -
atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas. t e m e n t e de fronteiras.

Artigo 15.(1) Todo ser h u m a n o t e m direito a u m a nacionali- Artigo 20.(1) Todo ser h u m a n o t e m direito à liberdade de r e u -

dade. nião e associação pacíficas.

232 233
(2) N i n g u é m p o d e ser obrigado a pertencer a u m a associação. Artigo 24. Todo ser h u m a n o t e m direito ao descanso e ao lazer,
inclusive a u m a limitação razoável das h o r a s de t r a b a l h o e a férias
Artigo 21.(1) Todo ser h u m a n o t e m o direito de participar do periódicas r e m u n e r a d a s .
governo de seu país, d i r e t a m e n t e ou p o r m e i o de representantes
livremente escolhidos. Artigo 25.(1) Todo ser h u m a n o tem direito a um p a d r ã o de vida
(2) Todo ser h u m a n o t e m igual direito de acesso ao serviço que lhe assegure, para si m e s m o e para sua família, saúde e bem-estar,
público no seu país. incluindo alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os

(3) A v o n t a d e do p o v o deve ser a b a s e da a u t o r i d a d e do serviços sociais indispensáveis, b e m c o m o o direito à segurança em

governo; esta v o n t a d e deve ser expressa em eleições periódicas e caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou perda dos

l e g í t i m a s , p o r sufrágio u n i v e r s a l e igual, realizadas p o r v o t o meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.

secreto ou p o r p r o c e d i m e n t o equivalente q u e assegure a liber- (2) A m a t e r n i d a d e e a infância t ê m direito a cuidados e assis-

d a d e de voto. tência especiais. Todas as crianças, nascidas d e n t r o ou fora do casa-


m e n t o , devem ter a m e s m a proteção social.
Artigo 22. Todo ser h u m a n o , c o m o m e m b r o da sociedade,
t e m direito à segurança social e à realização, p o r m e i o de esforço Artigo 26.(1) Todo ser h u m a n o t e m direito à educação. A e d u -
nacional e cooperação internacional e de acordo c o m a organiza- cação deve ser gratuita, ao m e n o s nos estágios elementares e fun-
ção e os recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais d a m e n t a i s . A educação elementar deve ser obrigatória. A educação
e culturais indispensáveis à sua d i g n i d a d e e ao livre desenvolvi- técnica e profissional deve ser colocada à disposição de t o d o s , e a
m e n t o da sua personalidade. educação superior deve ser igualmente acessível a t o d o s c o m base
n o mérito.
Artigo 23.(1) Todo ser h u m a n o t e m direito ao trabalho, à livre (2) A educação deve ser o r i e n t a d a p a r a o pleno desenvolvi-
escolha do emprego, a condições justas e satisfatórias de trabalho m e n t o da personalidade h u m a n a e para o fortalecimento do res-
e à proteção contra o desemprego. p e i t o p e l o s direitos h u m a n o s e l i b e r d a d e s f u n d a m e n t a i s . Deve
(2) Todo ser h u m a n o , sem q u a l q u e r distinção, t e m direito a p r o m o v e r a c o m p r e e n s ã o , a tolerância e a amizade entre todas as
p a g a m e n t o igual para trabalho igual. nações e g r u p o s raciais ou religiosos, e deve fomentar as atividades
(3) Todo ser h u m a n o q u e trabalha t e m direito a u m a r e m u - das Nações Unidas para a m a n u t e n ç ã o da paz.
neração justa e satisfatória q u e assegure p a r a si m e s m o e p a r a sua (3) Os pais t ê m o direito prioritário de escolher o tipo de e d u -
família u m a existência à altura da dignidade h u m a n a , s u p l e m e n - cação q u e será d a d o a seus filhos.
tada, se necessário, p o r o u t r o s meios de proteção social.
(4) Todo ser h u m a n o t e m o direito de organizar sindicatos e Artigo 27. (1) Todo ser h u m a n o t e m o direito de p a r t i c i p a r
deles participar para a proteção de seus interesses. livremente na vida cultural da c o m u n i d a d e , apreciar as artes e p a r -
ticipar do progresso científico e seus benefícios.

234 235
(2) T o d o ser h u m a n o t e m direito à p r o t e ç ã o dos interesses
Notas
morais e materiais q u e resultem de q u a l q u e r p r o d u ç ã o científica,
literária ou artística de sua autoria.

Artigo 28. Todo ser h u m a n o t e m direito a u m a o r d e m social e


internacional em q u e os direitos e liberdades estabelecidos nesta
Declaração p o s s a m ser p l e n a m e n t e realizados.

Artigo 29.(1) Todo ser h u m a n o t e m deveres p a r a c o m a co-


m u n i d a d e em q u e o livre e pleno desenvolvimento da sua p e r s o n a -
lidade é possível.
(2) No exercício de seus direitos e l i b e r d a d e s , t o d o ser
h u m a n o deve estar sujeito apenas às limitações d e t e r m i n a d a s pela
lei exclusivamente c o m o p r o p ó s i t o de assegurar o d e v i d o reco-
n h e c i m e n t o e respeito pelos direitos e liberdades dos outros e de I N T R O D U Ç Ã O [ P P . 13-33]

satisfazer as j u s t a s exigências da m o r a l , da o r d e m p ú b l i c a e do
1. Julian P. Boyd, ed., The Papers of Thomas Jefferson, 31 vols. ( P r i n c e t o n :
bem-estar geral de u m a sociedade democrática. P r i n c e t o n U n i v e r s i t y Press, 1950- ),vol. 1 ( 1 7 6 0 - 6 6 ) , esp. p . 4 2 3 , m a s ver t a m b é m
(3) Estes direitos e liberdades n ã o p o d e m ser exercidos, em pp. 309-433.
h i p ó t e s e a l g u m a , c o n t r a os p r o p ó s i t o s e p r i n c í p i o s das N a ç õ e s 2. D. O. T h o m a s , ed., Political Writings/ Richard Price ( C a m b r i d g e / N o v a
York: C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1991 ) , p . 195. C i t a ç ã o d e B u r k e t i r a d a d o p a r á -
Unidas.
grafo 144, d i s p o n í v e l o n - l i n e em < w w w . b a r t l e b y . c o m / 2 4 / 3 / 6 . h t m l > : Reflections
on the French Revolution, vol. xxiv, p a r t e 3 ( N o v a York: P. F. Collier & S o n , 1909-
Artigo 30. N a d a nesta Declaração p o d e ser i n t e r p r e t a d o de - 1 4 ; B a r t e b l y . c o m , 2 0 0 1 ) . [Ed. brasileira: Reflexões sobre a revolução em França,
m a n e i r a a implicar que q u a l q u e r Estado, g r u p o ou pessoa t e m o t r a d . R e n a t o d e A s s u m p ç ã o Faria (Brasília: U N B , 1997).]

direito de se envolver em q u a l q u e r atividade ou executar q u a l q u e r 3. J a c q u e s M a r i t a i n , u m d o s líderes d o C o m i t é d a U N E S C O s o b r e as Bases


T e ó r i c a s d o s D i r e i t o s H u m a n o s , c i t a d o i n M a r y A n n G l e n d o n , A World Made
ato destinado à destruição de q u a l q u e r um dos direitos e liberda-
New: Eleanor Roosevelt and the Universal Declaration ofHuman Rights (Nova
des aqui estabelecidos.
York: R a n d o m H o u s e , 2 0 0 1 ) , p . 77. S o b r e a D e c l a r a ç ã o A m e r i c a n a , ver P a u l i n e
Maier, American Scripture: Making the Declaration of Independence ( N o v a York:
Fonte: M a r y A n n G l e n d o n , A World Made New: Eleanor Roo- Alfred A . Knopf, 1997), p p . 2 3 6 - 4 1 .
4. S o b r e a d i f e r e n ç a e n t r e a D e c l a r a ç ã o de I n d e p e n d ê n c i a a m e r i c a n a e a
seveltand the Universal Declaration ofHuman Rights (Nova York:
D e c l a r a ç ã o d o s D i r e i t o s inglesa de 1689, ver M i c h a e l P. Z u c k e r t , Natural Rights
R a n d o m H o u s e , 2 0 0 1 ) , p p . 310-4; < w w w . u n . o r g / O v e r v i e w / -
and the New Republicanism ( P r i n c e t o n : P r i n c e t o n U n i v e r s i t y Press, 1994), esp.
rights.html>. pp. 3-25.
5. A citação de Jefferson é t i r a d a de A n d r e w A. L i p s c o m b e Albert F.. Bergh,

236 237
eds., The Writings of Thomas Jefferson, 20 vols. ( W a s h i n g t o n , D.C.: T h o m a s Jeffer- B u r l a m a q u i , q u e o u s o u no s u m á r i o de Principes du droit naturel par /. /. Burla-

s o n M e m o r i a l A s s o c i a t i o n o f t h e U n i t e d States, 1903-4), vol. 3 , p . 4 2 1 . Fui c a p a z maqui, Conseiller d'État, et ci-devant Professeur en droit naturel et civil à Genève

d e seguir o u s o d o s t e r m o s p o r Jefferson g r a ç a s a o site d e s u a s citações, c r i a d o p e l a ( G e n e b r a : B a r r i l l o t et fils, 1 7 4 7 ) , p a r t e 1, c a p . v u , seção 4 ( " F o n d e m e n t g é n é r a l des

biblioteca da Universidade de Virginia: <http://etext.lib.virginia.edu/jeffer- Droits d e l ' h o m m e " ) . Aparece c o m o "direitos d o h o m e m " n a t r a d u ç ã o inglesa d e

s o n / q u o t a t i o n s > . H á m u i t o m a i s a ser feito s o b r e a q u e s t ã o d o s t e r m o s d o s direi- N u g e n t ( L o n d r e s , 1748). R o u s s e a u d i s c u t e as ideias de B u r l a m a q u i s o b r e o droit

t o s h u m a n o s , e à m e d i d a q u e os b a n c o s de d a d o s o n - l i n e se e x p a n d e m e são refi- naturelem seu Discours sur l'origine et les fondements de l'inégalité parmi les hom-

n a d o s essa p e s q u i s a s e t o r n a m e n o s e m b a r a ç o s a . " D i r e i t o s h u m a n o s " é u s a d o mes, 1 7 5 5 , Oeuvres complètes, ed. B e r n a r d G a g n e b i n e M a r c e l R a y m o n d , 5 vols.

d e s d e o s p r i m e i r o s a n o s d o século x v n i e m inglês, m a s a m a i o r i a d a s o c o r r ê n c i a s ( P a r i s : G a l l i m a r d , 1 9 5 9 - 9 5 ) , vol. 3 ( 1 9 6 6 ) , p. 124. [Ed. b r a s i l e i r a : Discurso sobre a

a p a r e c e f r e q u e n t e m e n t e e m conj u n ç ã o c o m religião, c o m o e m "direitos d i v i n o s e origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, t r a d . P a u l o N e v e s ( P o r t o

h u m a n o s " o u até " d i r e i t o d i v i n o d i v i n o " vs. " d i r e i t o d i v i n o h u m a n o " . Este ú l t i m o Alegre: L & P M , 2 0 0 8 ) . ] O r e l a t o s o b r e Manco é t i r a d o de Mémoires secrets pour ser-

o c o r r e in M a t t h e w T i n d a l , The Rights of the Christian Church Asserted, against the vir à l'histoire de la République des lettres en France, depuis MDCCIXII jusqu'à nos

Romish, and All Other Priests Who Claim an Independent Power over It ( L o n d r e s , jours, 36 v o l s . ( L o n d r e s : J. A d a m s o n , 1 7 8 4 - 9 ) , vol. 1, p. 2 3 0 . As Mémoires secrets

1706), p. liv; o p r i m e i r o e m , p o r e x e m p l o , A Compleat History of the Whole Procee- c o b r i a m o s a n o s 1762-87. S e m ser o b r a d e u m ú n i c o autor ( L o u i s Petit d e B a c h a u -

dings of the Parliament of Great Britain against Dr. Henry Sacheverell ( L o n d r e s , m o n t m o r r e u e m 1771), m a s p r o v a v e l m e n t e d e vários, a s " m e m ó r i a s " i n c l u í a m

1710), p p . 8 4 e 8 7 . resenhas de livros, panfletos, peças teatrais, concertos musicais, exposições de


a r t e e casos s e n s a c i o n a i s n o s t r i b u n a i s — v e r J e r e m y D. P o p k i n e B e r n a d e t t e F o r t ,
6. A l i n g u a g e m d o s direitos h u m a n o s é t r a ç a d a m u i t o facilmente em francês
The M é m o i r e s secrets and the Culture of Publicity in Eighteenth-Century France
graças a o Project for A m e r i c a n a n d F r e n c h Research o n t h e T r e a s u r y o f t h e French
( O x f o r d : Voltaire F o u n d a t i o n , 1998), e L o u i s A . Oliver, " B a c h a u m o n t t h e C h r o -
Language ( A R T F L ) , u m b a n c o d e d a d o s o n - l i n e de u n s 2 mil textos franceses d o s sécu-
nicler: A Q u e s t i o n a b l e R e n o w n " , in Studies on Voltaire and the Eighteenth Century,
los XIII ao XX. ARTFL inclui a p e n a s u m a seleção d e textos escritos e m francês, e favo-
v o l . 143 ( V o l t a i r e F o u n d a t i o n : B a n b u r y , O x f o r d , 1975), p p . 1 6 1 - 7 9 . C o m o o s
rece a l i t e r a t u r a e m d e t r i m e n t o d e o u t r a s categorias. E n c o n t r a - s e u m a descrição d o
v o l u m e s foram publicados depois das datas q u e pretendiam cobrir, n ã o p o d e m o s
recurso em <http://humanities.uchicago.edu/orgs/ARTFL/artfl.flyer.html>. Nico-
t e r a b s o l u t a certeza d e q u e o u s o d e " d i r e i t o s d o h o m e m " fosse t ã o c o m u m e m
las Lenglet-Dufresnoy, De l'usage des romans. Où l'on fait voir leur utilité et leurs dif-
1763 q u a n t o o a u t o r s u p õ e . N o p r i m e i r o a t o , c e n a I I , M a n c o recita: " N a s c i d o s ,
férents caractères. Avec une bibliothèque des romans, accompagnée de remarques cri-
c o m o eles, n a floresta, m a s r á p i d o s e m n o s c o n h e c e r / E x i g i n d o t a n t o o t í t u l o
tiques sur leurs choix et leurs éditions ( A m s t e r d a m : Vve de Poilras, 1734; G e n e b r a :
c o m o o s d i r e i t o s d e n o s s o ser/ L e m b r a m o s a s e u s corações s u r p r e s o s / T a n t o este
Slatkine R e p r i n t s , 1970),p. 2 4 5 . Voltaire, Essay sur l'histoire générale et sur les moeurs
t í t u l o c o m o estes d i r e i t o s h á t a n t o t e m p o p r o f a n a d o s " — A n t o i n e L e B l a n c d e
et l'esprit des nations, depuis Charlemagne jusqu'à nos jours ( G e n e b r a : Cramer,
Guillet, Manco-Capac, premier Ynca Du Pérou, Tragédie, Représentée pour lapre-
1756), p . 292. C o n s u l t a n d o Voltaire électronique, u m C D - R O M pesquisável das o b r a s
mière fois par les Comédiens François ordinaires du Roi, le 12 Juin 1763 ( P a r i s : Belin,
coligidas de Voltaire, e n c o n t r e i droit humain u s a d o sete vezes ( droits humains, no
1782),p. 4.
plural, n u n c a ) , q u a t r o delas no Tratado sobre a tolerância e u m a vez em três o u t r a s
obras. Em ARTFL a expressão aparece u m a vez in L o u i s - F r a n ç o i s R a m o n d , lettres de 9 . " D i r e i t o s d o h o m e m " a p a r e c e u m a vez i n W i l l i a m B l a c k s t o n e , Commen-

W. Coxe à W. Melmoth (Paris: Belin, 1 7 8 1 ) , p. 9 5 , m a s no c o n t e x t o significa lei taries on the Laws ofEngland, 4 vols. ( O x f o r d , 1 7 6 5 - 9 ) , v o l . 1 ( 1 7 6 5 ) , p . 1 2 1 . 0 p r i -

h u m a n a em o p o s i ç ã o à lei divina. A função de b u s c a do Voltaire e l e t r ô n i c o t o r n a m e i r o u s o q u e e n c o n t r e i e m inglês está e m J o h n Perceval, Earl o f E g m o n t , A Full

v i r t u a l m e n t e impossível d e t e r m i n a r c o m r a p i d e z se Voltaire u s o u droits de l'homme and Fair Discussion of the Pretensions of the Dissenters, to the Repeal of the Sacra-

ou droits de l'humanité em q u a l q u e r u m a de suas o b r a s (a b u s c a só indica as m i l h a -


! mental Test ( L o n d r e s , 1 7 3 3 ) , p . 1 4 . A p a r e c e t a m b é m n a " e p í s t o l a p o é t i c a " de 1 7 7 3 ,

res de referências a droits e homme, p o r e x e m p l o , na m e s m a o b r a , e n ã o n u m a The Dying Negro, e n u m t r a t a d o a n t e r i o r do l í d e r abolicionista G r a n v i l l e S h a r p ,

expressão consecutiva, e m c o n t r a s t e a ARTFL).


A Declaration of the People's Natural Right to a Share in the Legislature... (Londres,
1774), p . xxv. E n c o n t r e i esses d a d o s u s a n d o o s e r v i ç o o n - l i n e d e T h o m s o n Galé,
7. ARTFL d á a citação c o m o s e n d o d e J a c q u e s - B é n i g n e B o s s u e t , Méditations
E i g h t e e n t h C e n t u r y Collections O n l i n e , e sou g r a t a a Jenna G i b b s - B o y e r pela
sur l'Évangile ( 1704, Paris: V r i n , 1966), p. 4 8 4 .
ajuda nessa pesquisa. A citação de C o n d o r c e t está em Marie Louise S o p h i e de
8 . R o u s s e a u p o d e ter t o m a d o o t e r m o "direitos d o h o m e m " d e J e a n - J a c q u e s

238 239
G r o u c h y , m a r q u e s a de C o n d o r c e t , ed., Oeuvres complètes de Condorcet, 21 vols. Philosophy ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1998), p. 4. [Ed. brasileira:
( B r u n s w i c k / P a r i s : V i e w e g H e n r i c h s , 1 8 0 4 ) , vol. X I , p p . 2 4 0 - 2 , 2 4 9 , 2 5 1 . Sieyès A invenção da autonomia: uma história da filosofia moral moderna, t r a d . M a g d a
u s o u o t e r m o droits de l'homme a p e n a s u m a vez: "Il ne faut p o i n t j u g e r de ses F r a n ç a L o p e s ( S ã o L e o p o l d o : U n i s i n o s , 2 0 0 1 ) . ] A a u t o n o m i a p a r e c e ser o ele-
d e m a n d e s p a r les o b s e r v a t i o n s isolées d e q u e l q u e s a u t e u r s p l u s o u m o i n s i n s - m e n t o crucial q u e falta n a s t e o r i a s d a lei n a t u r a l até m e a d o s d o século XVIII. Como
truits des droits de l ' h o m m e " [Não se deve julgar suas [do Terceiro Estado] a r g u m e n t a H a a k o n s s e n , " S e g u n d o a m a i o r i a d o s a d v o g a d o s d a lei n a t u r a l n o s
d e m a n d a s pelas o b s e r v a ç õ e s isoladas d e a l g u n s a u t o r e s m a i s o u m e n o s c o n h e c e - séculos x v n e xviii, a a ç ã o m o r a l consistia em estar sujeito à lei n a t u r a l e c u m p r i r
d o r e s d o s d i r e i t o s do h o m e m ] — E m m a n u e l Sieyès, Le Tiers-État (1789; Paris: E. o s d e v e r e s i m p o s t o s p o r essa lei, e n q u a n t o o s d i r e i t o s e r a m d e r i v a d o s , s e n d o
C h a m p i o n , 1888), p . 36. N a s u a c a r t a a James M a d i s o n escrita e m Paris e m 1 2 d e m e r o s m e i o s p a r a o c u m p r i m e n t o d o s d e v e r e s " — K n u d H a a k o n s s e n , Natural
J a n e i r o d e 1 7 8 9 , T h o m a s Jefferson e n v i o u o r a s c u n h o d a d e c l a r a ç ã o feito p o r Law and Moral Philosophy: From Grotius to the Scottish Enlightenment ( C a m -
Lafayette. O s e g u n d o p a r á g r a f o c o m e ç a v a : "Les d r o i t s d e l ' h o m m e a s s u r e n t s a b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1996), p. 6. A esse respeito, B u r l a m a q u i , q u e
p r o p r i é t é , s a l i b e r t é , s o n h o n n e u r , s a vie" [Os d i r e i t o s d o h o m e m a s s e g u r a m s u a t a n t o i n f l u e n c i o u o s a m e r i c a n o s n a s d é c a d a s d e 1760 e 1770, p o d e m u i t o b e m
p r o p r i e d a d e , s u a l i b e r d a d e , s u a h o n r a , s u a v i d a ] —Jefferson Papers, vol. 14,p. 4 3 8 . m a r c a r u m a t r a n s i ç ã o i m p o r t a n t e . B u r l a m a q u i insiste q u e o s h o m e n s estão s u b
O rascunho de Condorcet data de um p o u c o antes da abertura dos Estados- m e t i d o s a u m p o d e r s u p e r i o r , m a s q u e esse p o d e r d e v e e s t a r d e a c o r d o c o m a
- G e r a i s em 5 de m a i o de 1789, in I a i n M c L e a n e F i o n a H e w i t t , eds., Condorcet: n a t u r e z a i n t e r i o r d o h o m e m : " P a r a q u e regule a s ações h u m a n a s , a lei deve estar
Foundations of Social Choice and Political Theory ( A l d e r s h o t , Hants: Edward a b s o l u t a m e n t e de a c o r d o c o m a n a t u r e z a e a c o n s t i t u i ç ã o do h o m e m , r e l a c i o -
Elgar, 1994), p. 57; ver p p . 2 5 5 - 7 0 s o b r e o r a s c u n h o da d e c l a r a ç ã o " d o s direitos", n a d a , e n f i m , c o m a s u a felicidade, q u e é a q u i l o q u e a r a z ã o o leva n e c e s s a r i a m e n l e
e m q u e a p a r e c e a e x p r e s s ã o "direitos d o h o m e m " , e m b o r a n ã o n o t í t u l o . Ver o s tex- a b u s c a r " — B u r l a m a q u i , Príncipes, p. 89. S o b r e a i m p o r t â n c i a geral da a u t o n o -
t o s d o s v á r i o s p r o j e t o s p a r a u m a d e c l a r a ç ã o in A n t o i n e de B a e c q u e , ed., L'An Ides m i a p a r a os direitos h u m a n o s , ver C h a r l e s Taylor, Sources of the Self: The Making
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rel". O p r i m e i r o é i n t i t u l a d o " D r o i t N a t u r e l ( M o r a l e ) ", p p . 115-6, e c o m e ç a c o m o 16. A m i n h a o p i n i ã o é c l a r a m e n t e m u i t o m a i s o t i m i s t a do q u e a e l a b o r a d a
asterisco editorial característico de D i d e r o t ( a s s i n a l a n d o a sua a u t o r i a ) ; o p o r M i c h e l F o u c a u l t , q u e enfatiza a n t e s a s superfícies q u e a s p r o f u n d e z a s p s i c o
s e g u n d o é i n t i t u l a d o " D r o i t de la n a t u r e , ou D r o i t naturel", p p . 131 - 4 , e é a s s i n a d o lógicas, l i g a n d o a s n o v a s visões d o c o r p o m a i s a o s u r g i m e n t o d a disciplina q u e ¡ 1
"A" ( A n t o i n e - G a s p a r d B o u c h e r d ' A r g i s ) . A i n f o r m a ç ã o s o b r e a a u t o r i a v e m de l i b e r d a d e . Ver, p o r e x e m p l o , Discipline and Punish: The Birth of the Prison dc
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caiu d e 4 4 % d e t o d o s o s r o m a n c e s n a d é c a d a d e 1770 p a r a 1 8 % n a d é c a d a d e 1790.
343-63.
6. Este n ã o é o l u g a r p a r a u m a exaustiva lista de o b r a s . A m a i s i n f l u e n t e p a r a
m i m é Benedict Anderson, Comunidades imaginadas.
7. [ A b a d e M a r q u e t ] , Lettre sur Pamela ( L o n d r e s , 1742), p p . 3 , 4 .
i. " T O R R E N T E S D E E M O Ç Õ E S " [ P P . 35-69]
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q u e R i c h a r d s o n revele o n o m e do autor, s u s p e i t a n d o s e m d ú v i d a q u e seja o p r ó p r i o
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S o b r e as r e s p o s t a s d o s leitores citadas n e s t e p a r á g r a f o e no s e g u i n t e , ver D a n i e l
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E m p a t h y " , Behavioral and Cognitive Neuroscience Reviews, 3 ( 2 0 0 4 ) : 7 1 - 1 0 0 ; ver
originaux, comprenant outre ce qui a été publié à diverses époques les fragments sup-
esp. p . 9 1 .
primés en 1813 parla censure, les parties inédites conservées à la Bibliothèque ducale
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de Gotha et à l'Arsenal à Paris, 16 vols. (Paris: G a r n i e r , 1877-82, N e n d e l n , Lich-
la mode: Etude sur le roman français du XVIII' siècle de M a n o n Lescaut à
t e n s t e i n : K r a u s , 1968), p p . 25 e 248 (25 de j a n e i r o de 1751 e 1 5 d e j u n h o de 1753).
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O a b a d e G u i l l a u m e T h o m a s Raynal foi o a u t o r do p r i m e i r o e F r i e d r i c h M e l c h i o r
C o m p i l e i os n ú m e r o s s o b r e a p u b l i c a ç ã o d o s n o v o s r o m a n c e s franceses a p a r t i r
G r i m m m u i t o p r o v a v e l m e n t e escreveu o s e g u n d o .
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13. R i c h a r d s o n n ã o r e t r i b u i u o elogio de R o u s s e a u : ele afirmava ter a c h a d o
romanesque français, 1751-1800 ( L o n d r e s : M a n s e l l , 1977). Sobre o romance
i m p o s s í v e l 1er falia ( m a s m o r r e u n o a n o d a p u b l i c a ç ã o d e Júlia e m francês). Ver
i n g l ê s , ver J a m e s R a v e n , British Fiction 1750-1770 ( N e w a r k , D E : U n i v e r s i t y o f
Eaves e K i m p e l , Samuel Richardson, p. 6 0 5 , s o b r e a citação de R o u s s e a u e a r e a ç ã o
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R i c h a r d s o n ; as r e f e r ê n c i a s a ele na c o r r e s p o n d ê n c i a de D i d e r o t só c o m e ç a m a
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244 • -is
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6. S o b r e os m é t o d o s gerais de p u n i ç ã o , ver J. A. S h a r p e , Judicial Punishment
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C o r o a p a r a d i m i n u i r a a u t o r i d a d e d o s parlements. D e p o i s d e t e r d e r e g i s t r á - l o
i n c l u i r ter a s o r e l h a s c o r t a d a s o u ter u m a o r e l h a p r e g a d a n o p e l o u r i n h o (p. 2 1 ) . O
n u m lit de justice, Luís xvi s u s p e n d e u a i m p l e m e n t a ç ã o de t o d o s esses d e c r e t o s em
t r o n c o era um dispositivo de m a d e i r a para p r e n d e r os pés de um infrator. O
s e t e m b r o de 1788. C o m o c o n s e q u ê n c i a , a t o r t u r a só foi d e f i n i t i v a m e n t e a b o l i d a
p e l o u r i n h o e r a u m d i s p o s i t i v o e m q u e o s infratores f i c a v a m c o m a c a b e ç a e a s
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250
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nant ce qui a été publié à diverses époques et les manuscrits inédits, conservés à la the Body in Early Modern France ( C h i c a g o : U n i v e r s i t y of C h i c a g o P r e s s , 2 0 0 1 ). Ver

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peines, etc., i m p r e s s a no final de s e u Les Lois criminelles de France, dans leur ordre a s c o n d e n a ç õ e s c r i m i n a i s n a p r i m e i r a m e t a d e d o século xviu p a r a m e n o s d e 5 %

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37. A p r i m e i r a o b r a francesa a b e r t a m e n t e crítica ao e m p r e g o judicial da tor-
c r i m i n a l teve 70,5 p a r a o Terceiro E s t a d o , 27,5 p a r a a N o b r e z a e 3 3 7 p a r a as P a r ó -
t u r a a par eceu em 1682 e foi escrita p o r um i m p o r t a n t e m a g i s t r a d o no Parlement de
q u i a s ; o p r o c e s s o legal teve 34 p a r a o Terceiro E s t a d o , 77,5 p a r a a N o b r e z a e 15
Dijon, A u g u s t i n Nicolas; o seu a r g u m e n t o era c o n t r a o uso da t o r t u r a em j u l g a m e n -
p a r a as P a r ó q u i a s ; a a c u s a ç ã o e as p e n a l i d a d e s c r i m i n a i s t i v e r a m 60,5 p a r a o Ter-
tos de f e i t i ç a r i a — S i l v e r m a n , Tortured Subjects, p. 1 6 1 . 0 e s t u d o m a i s c o m p l e t o das
ceiro E s t a d o , 76 p a r a a N o b r e z a e 171 p a r a as P a r ó q u i a s ; e as p e n a l i d a d e s pela lei
várias edições italianas de Beccaria p o d e ser e n c o n t r a d o em Firpo, " C o n t r i b u t o alia
c r i m i n a l t i v e r a m 41,5 p a r a o Terceiro E s t a d o , 213,5 p a r a a N o b r e z a e 340 p a r a as
bibliografia de Beccaria", p p . 3 2 9 - 4 5 3 . S o b r e a t r a d u ç ã o inglesa e p a r a o u t r a s línguas,
Paróquias. As duas formas de t o r t u r a judicialmente sancionadas não chegaram a
ver Marcello M a e s t r o , Cesare Beccaria and the Origins of Penal Reform (Philadelphia:
ter g r a u s a s s i m t ã o e l e v a d o s , p o r q u e a " q u e s t ã o p r e p a r a t ó r i a " j á t i n h a s i d o defini-
Temple University Press, 1973), p. 4 3 . S u p l e m e n t e i a sua c o n t a g e m das edições de lín-
t i v a m e n t e e l i m i n a d a e a " q u e s t ã o p r e l i m i n a r " fora t a m b é m p r o v i s o r i a m e n t e a b o -
g u a inglesa c o m o English S h o r t T i d e Catalogue. Crimes and Punishments, p. iii.
lida. O ranking d o s a s s u n t o s é t i r a d o de G i l b e r t S a p h i r o e J o h n Markoff, Revolu-
3 8 . V e n t u r i , ed., Cesar Beccaria, p. 4 9 6 . 0 t e x t o a p a r e c e u em Annales politi-
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( S t a n f o r d : S t a n f o r d U n i v e r s i t y Press, 1998), p p . 4 3 8 - 7 4 .
39. Encyclopédie ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers,
17 vols. (Paris, 1751 - 8 0 ) , vol. 13 ( 1765), p p . 7 0 2 - 4 . J a c o b s o n , " T h e Politics of C r i - 4 6 . R u s h , An Enquiry, p p . 13 e 6 - 7 .

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4 0 . J a c o b s o n , " T h e Politics o f C r i m i n a l Law Reform", p . 316. V e n t u r i , ed., 48. António Damásio, The Feeling of What Happens: Body and Emotion in

Cesare Beccaria, p. 5 1 7 . J o s e p h - M i c h e l - A n t o i n e S e r v a n , Discours sur le progrès des the Making of Consciousness ( S a n D i e g o : H a r c o u r t , 1999) [ed. brasileira: O misté-
connoissances humaines en général, de la morale, et de la législation en particulier rio da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si, t r a d . L a u r a Tei-
(n. p., 1781),p. 99 xeira M o t t a (São P a u l o : C o m p a n h i a d a s Letras, 2000) ], e Looking for Spinoza: Joy,
4 1 . T e n h o u m a o p i n i ã o m a i s favorável d o s escritos s o b r e lei c r i m i n a l d e Bris- Sorrow, and the Feeling Brain ( S a n D i e g o : H a r c o u r t , 2 0 0 3 ) [ed. b r a s i l e i r a : Em
sot do q u e R o b e r t D a r n t o n . Ver, p o r e x e m p l o , George Washington's False Teeth: An busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos, t r a d . João Baptista da
Unconventional Guide to the Eighteenth Century ( N o v a York: W . W . N o r t o n , 2 0 0 3 ) , C o s t a A g u i a r (São P a u l o : C o m p a n h i a d a s Letras, 2 0 0 4 ) ] . A n n T h o m s o n , " M a t e -
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C o u t o (São P a u l o : C o m p a n h i a das Letras, 2005).] A s citações d e Brissot s ã o t i r a - Newton, and Kant: Philosophy and Science in the Eighteenth Century ( D o r d r e c h t :
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4 2 . Essas estratégias r e t ó r i c a s s ã o a n a l i s a d a s e m p r o f u n d i d a d e e m M a z a , 4 9 . Jessica Riskin, Science in the Age of Sensibility: The Sentimental Empiri-
Private Lives and Public Affairs. Q u a n d o Brissot p u b l i c o u o seu Théorie des lois cri- cists of the French Enlightenment ( C h i c a g o : U n i v e r s i t y of C h i c a g o Press, 2 0 0 2 ) ,
minelles ( 1 7 8 1 ) , escrito o r i g i n a l m e n t e p a r a u m c o n c u r s o d e e n s a i o s e m B e r n a , c i t a ç ã o de B o n n e t , p. 5 1 . S t e r n e , A Sentimental Journey, p. 117.
D u p a t y lhe escreveu c o m o i n t u i t o de c e l e b r a r o esforço de a m b o s " p a r a fazer a
5 0 . R u s h , An Enquiry, p. 7.
v e r d a d e , e c o m ela a h u m a n i d a d e , triunfar". A c a r t a foi r e i m p r e s s a na e d i ç ã o de
1836, Théorie des lois criminelles, v o l . 1, p. vi. [ C h a r l e s - M a r g u e r i t e D u p a t y ] ,
Mémoire justificatif pour trois hommes condamnés àla roue (Paris: P h i l i p p e - D e n y s
3. " E L E S D E R A M U M G R A N D E E X E M P L O " [ P P . 113"45]
P i e r r e s , 1786), p . 2 2 1 .

4 3 . D u p a t y , Mémoire justificatif, p p . 226 e 2 4 0 . L'Humanité a p a r e c e m u i t a s 1. O s i g n i f i c a d o de " d e c l a r a ç ã o " p o d e ser p e s q u i s a d o in Dictionnaires


vezes n a p e t i ç ã o e e m v i r t u a l m e n t e t o d o p a r á g r a f o n a s ú l t i m a s p á g i n a s . d'autrefois, f u n ç ã o d e ARTFI. e m <www.lib.uchicago.edu/efts/ARTFl./projci:ts/

254 2 5 5
d i c o s X O t í t u l o oficial da Bill ofRights inglesa de 1689 era " U m a Lei D e c l a r a n d o l a N a t u r e u n e L i b e r t é 8 c u n e i n d é p e n d a n c e , qu'ils n e p e u v e n t p e r d r e q u e p a r l e u r

os D i r e i t o s e as L i b e r d a d e s do S ú d i t o e E s t a b e l e c e n d o a Sucessão da Coroa". c o n s e n t e m e n t " [ P r o v a - s e em Direito Natural que t o d o s os h o m e n s r e c e b e m da

2. Archives parlementaires de 1787à 1860: Recueil complet des débats législa- N a t u r e z a u m a L i b e r d a d e 8 c u m a i n d e p e n d ê n c i a q u e eles n ã o p o d e m p e r d e r s e n ã o

tifs et politiques des chambres françaises, série 1,99 vols. (Paris: L i b r a i r i e A d m i n i s - p o r s e u c o n s e n t i m e n t o ] — M. de V a t t e l , Le Droit des gens ou principes de la hi

t r a t i v e de P. D u p o n t , 1 8 7 5 - 1 9 1 3 ) , vol. 8, p. 3 2 0 . naturelle appliques à la conduite etaux affaires des nations et des souverains, 2 v o l s .

3. S o b r e a i m p o r t â n c i a de G r o t i u s e do seu t r a t a d o O direito da guerra e da ( L e y d e n : A u x D é p e n s d e l a c o m p a g n i e , 1 7 5 8 ) , vol. l , p . 2 .

paz ( 1 6 2 5 ) , v e r R i c h a r d Tuck, Natural Rights Théories: Their Origin and Develop- 6. J o h n Locke, Two Treatises of Government ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n i -
ment ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1979). Ver t a m b é m L é o n Ingber, versity Press, 1963), p p . 3 6 6 - 7 . [Ed. b r a s i l e i r a : Dois tratados sobre o governo, t r a d .
"La T r a d i t i o n d e G r o t i u s . Les D r o i t s d e l ' h o m m e e t l e d r o i t n a t u r e l à l ' é p o q u e c o n - Júlio Fischer (São P a u l o : M a r t i n s F o n t e s , 1998).] J a m e s F a r r , " ' S o Vile a n d M i s e -
t e m p o r a i n e " , Cahiers de philosophie politique et juridique, n" 11 : " D e s T h é o r i e s du r a b l e a n E s t a t e ' : T h e P r o b l e m o f Slavery i n Locke's Political T h o u g h t " , Political
d r o i t n a t u r e l " ( C a e n , 1988): 4 3 - 7 3 . S o b r e Pufendorf, ver T. J. H o c h s t r a s s e r , Natu- Theory, vol. 14, n 2 ( m a i o de 1986): 2 6 3 - 8 9 , c i t a ç ã o p. 2 6 3 .
a

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Press, 2 0 0 0 ) . ( O x f o r d : C l a r e n d o n Press, 1 7 7 8 ) , v o l . l , p . 1 2 9 . A i n f l u ê n c i a d o d i s c u r s o d o s d i r e i -
4 . N ã o m e c o n c e n t r e i a q u i n a d i s t i n ç ã o e n t r e a lei n a t u r a l e o s d i r e i t o s n a t u - t o s n a t u r a i s é e v i d e n t e n o s c o m e n t á r i o s de B l a c k s t o n e , p o r q u e ele c o m e ç a a s u a
rais, e m p a r t e p o r q u e n a s o b r a s e m francês, c o m o a d e B u r l a m a q u i , ela é f r e q u e n - d i s c u s s ã o n o livro 1 c o m u m a c o n s i d e r a ç ã o s o b r e o s "direitos a b s o l u t o s d o s i n d i -
t e m e n t e p o u c o n í t i d a . A l é m disso, a s p r ó p r i a s f i g u r a s p o l í t i c a s d o s é c u l o x v m n ã o víduos", c o m o s q u a i s ele q u e r i a d i z e r " a q u e l e s q u e p e r t e n c e r i a m à s s u a s p e s s o a s
faziam n e c e s s a r i a m e n t e d i s t i n ç õ e s claras. O t r a t a d o de B u r l a m a q u i de 1747 foi m e r a m e n t e n u m estado de natureza, e q u e t o d o h o m e m t e m o direito de possuir,
t r a d u z i d o i m e d i a t a m e n t e p a r a o inglês c o m o The Principies of Natural Law d e n t r o o u fora d a s o c i e d a d e " (1:123, m e s m a s p a l a v r a s n a e d i ç ã o d e 1766, D u b l i n ) .
(1748) e depois p a r a o holandês (1750), d i n a m a r q u ê s (1757), italiano (1780) e H á u m a l i t e r a t u r a i m e n s a s o b r e a relativa i n f l u ê n c i a d a s ideias u n i v e r s a l i s t a s e
finalmente e s p a n h o l ( 1850) — B e r n a r d G a g n e b i n , Burlamaqui et le droit naturel particularistas dos direitos nas colónias britânicas na América do Norte. U m a
( G e n e b r a : E d i t i o n s d e l a Frégate, 1944), p . 2 2 7 . G a g n e b i n a f i r m a q u e B u r l a m a q u i a l u s ã o s o b r e esses d e b a t e s p o d e ser e n c o n t r a d a e m D o n a l d S . Lutz, " T h e Relative
t i n h a m e n o s i n f l u ê n c i a n a F r a n ç a , m a s u m d o s ilustres a u t o r e s q u e e s c r e v i a m
I n f l u e n c e o f E u r o p e a n W r i t e r s o n Late E i g h t e e n t h - C e n t u r y A m e r i c a n Political
p a r a a Encyclopédie ( B o u c h e r d'Argis) u s o u - o c o m o s u a f o n t e p a r a u m d o s a r t i -
Thought", American Political Science Review, 78 (1984): 189-97.
gos s o b r e a lei n a t u r a l . S o b r e as visões de B u r l a m a q u i a r e s p e i t o da r a z ã o , da n a t u -
8. J a m e s O t i s , TheRights of the British Colonies Asserted and Proved ( B o s t o n :
reza h u m a n a e da filosofia escocesa, v e r J. J. B u r l a m a q u i , Principes du droit natu-
Edes 8c Gill, 1764), citações p p . 28 e 3 5 .
rel par J.}. Burlamaqui, Conseiller d'État, et ci-devant Professeur en droit naturel et
9. S o b r e a influência de B u r l a m a q u i n o s conflitos a m e r i c a n o s , ver Ray F o r -
civil à Genève ( G e n e b r a : B a r r i l l o t et fils, 1747), p p . 1-2 e 165.
rest H a r v e y , Jean Jacques Burlamaqui: A Liberal Tradition in American Constitu-
5. Jean Lévesque de Burigny, Vie de Grotius, avec l'histoire de ses ouvrages, et
tionalism ( C h a p e l Hill: U n i v e r s i t y of N o r t h C a r o l i n a Press, 1 9 3 7 ) , p . 116. S o b r e as
de négociations auxquelles il fut employé, 2 vols. (Paris: D e b u r e l ' a î n é , 1 7 5 2 ) . T.
citações de Pufendorf, G r o t i u s e L o c k e , ver Lutz, " T h e Relative I n f l u e n c e of E u r o -
R u t h e r f o r d , D. D. F. R. S., Institutes of Natural Law Being the substance ofa Course
p e a n Writers", esp. p p . 193-4; sobre a presença de B u r l a m a q u i nas bibliotecas
of Lectures on Grotius de Jure Belli et Paci, read in St. Johns Collège Cambridge, 2
a m e r i c a n a s , ver David L u n d b e r g e H e n r y F. May, " T h e Enlightened Reader in
vols. ( C a m b r i d g e : J. B e n t h a m , 1 7 5 4 - 6 ) . As p a l e s t r a s de R u t h e r f o r d p a r e c e m ser
America", American Quarterly, 28 ( 1 9 7 6 ) : 2 6 2 - 9 3 , esp. p. 2 7 5 . C i t a ç ã o de B u r l a -
u m a exemplificação perfeita d a ideia d e H a a k o n s s e n d e q u e a ênfase d a t e o r i a d a
m a q u i , Principes du droit naturel, p. 2.
lei n a t u r a l s o b r e os deveres m o s t r o u - s e m u i t o difícil de se c o n c i l i a r c o m a ênfase
emergente sobre os direitos naturais q u e cada pessoa possui (ainda q u e Grotius 10. S o b r e o c r e s c e n t e desejo de d e c l a r a r a i n d e p e n d ê n c i a , ver P a u l i n e Maier,

tivesse c o n t r i b u í d o p a r a a m b a s ) . O u t r o j u r i s t a s u í ç o , E m e r d e Vattel, e s c r e v e u American Scripture, p p . 4 7 - 9 6 . S o b r e a D e c l a r a ç ã o da V i r g i n i a , ver Kate M a s o n

t a m b é m e x t e n s a m e n t e s o b r e a lei n a t u r a l , m a s ele s e c o n c e n t r o u m a i s n a s relações R o w l a n d , The Life of George Mason, 1725-1792,2 vols. ( N o v a York: G. P. P u t n a m ' s

e n t r e a s n a ç õ e s . Vattel t a m b é m insistia n a l i b e r d a d e e i n d e p e n d ê n c i a n a t u r a i s d e Sons, 1892),vol. l . p p . 4 3 8 - 4 1 .

t o d o s o s h o m e n s . " O n p r o u v e e n Droit Naturel, q u e t o u s les h o m m e s t i e n n e n t d e 11. U m a discussão breve m a s e x t r e m a m e n t e pertinente é encontrada em

256 257
Jack N. R a k o v e , Declaring Rights: A Brief History with Documents ( B o s t o n : Bed- ( 1 9 8 3 ) , p . 2 4 3 . U m a bibliografia c o m p l e t a e n c o n t r a - s e e m D . O . T h o m a s , J o h n
ford B o o k s , 1 9 9 8 ) , esp. p p . 3 2 - 8 . S t e p h e n s e P. A. L. J o n e s , A Bibliography of the Works of Richard Price ( A l d e r s h o t ,
12. S o u g r a t a a Jennifer P o p i e l pela p e s q u i s a inicial s o b r e os t í t u l o s ingleses H a n t s : Scolar Press, 1993), esp. p p . 5 4 - 8 0 . J . D . v a n d e r C a p e l l e n , c a r t a d e 1 4 d e
e m p r e g a n d o o E n g l i s h S h o r t Title C a t a l o g u e . N ã o faço d i s t i n ç ã o n o e m p r e g o d o d e z e m b r o de 1777, in P e a c h e T h o m a s , eds., The Correspondence of Richard Price,
t e r m o "direitos", e n ã o excluo o c o n s i d e r á v e l n ú m e r o de r e i m p r e s s õ e s ao l o n g o v o l . 1 , p . 262.
d o s a n o s . O n ú m e r o d e u s o s d e direitos n o s t í t u l o s d o b r o u d o s a n o s 1760 p a r a o s 14. Civil Liberty Asserted, and the Rights of the Subject Defended, against The
a n o s 1770 ( d e 51 na d é c a d a de 1760 p a r a 109 na de 1770) e d e p o i s p e r m a n e c e u Anarchical Principles of the Reverend Dr. Price. In which his Sophistical Reasonings,
q u a s e o m e s m o n a d é c a d a d e 1780 ( 9 5 ) . [ W i l l i a m G r a h a m o f N e w c a s t l e ] , A n Dangerous Tenets, and Principles of False Patriotism, Contained in his O b s e r v a -
Attempt to Prove, That Every Species of Patronage is Foreign to the Nature of the t i o n s on Civil Liberty, etc. are Exposed and Refuted. In a Letter to a Gentleman in
Church, and, That any MODIFICATIONS, which either have been, or ever can be theCountry.ByaFriendtotheRightsoftheConstitution(Londres:].WiMe, 1776),
proposed, are INSUFFICIENT to regain, and secure her in the Possession of the citações p p . 3 8 - 9 . O s o p o s i t o r e s d e Price n ã o n e g a v a m n e c e s s a r i a m e n t e a e x i s t ê n -
LIBERTY, wherewith CHRISThath made her free... ( E d i m b u r g o : J . G r a y 8cG.Als- cia d e d i r e i t o s u n i v e r s a i s . À s vezes eles s i m p l e s m e n t e s e o p u n h a m à s p o s i ç õ e s
t o n , 1 7 6 8 ) , p p . 163 e 167. J á e m 1753, u m c e r t o J a m e s T o d t i n h a p u b l i c a d o u m
específicas d e Price n o P a r l a m e n t o o u à relação d a G r ã - B r e t a n h a c o m a s c o l ô n i a s .
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P o r e x e m p l o , The Honor of Parliament and the Justice of the Nation Vindicated. In
Narrative of the Illegal Procedure of the Presbytery of Edinburgh against Mr. James
a Reply to Dr. Price's O b s e r v a t i o n s on t h e N a t u r e of Civil L i b e r t y ( L o n d r e s : W.
Tod Preacher of the Gospel... ( E d i m b u r g o , 1753). W i l l i a m D o d d , Popery inconsis-
D a v i s , 1776) usa a e x p r e s s ã o " o s d i r e i t o s n a t u r a i s d a h u m a n i d a d e " p o r t o d o o
tent with the Natural Rights of MEN in general, and of ENGLISHMEN in particu-
livro n u m s e n t i d o favorável. Da m e s m a f o r m a , o a u t o r de Experience Preferable to
lar: A Sermon Preached at Charlotte-Street Chapel ( L o n d r e s : W. F a d e n , 1768).
Theory. An Answer to Dr. Price's O b s e r v a t i o n s on t h e N a t u r e of Civil Liberty, and
S o b r e Wilkes, ver p o r e x e m p l o "To t h e Electors of A y l e s b u r y (1764)", in English
the Justice and Policy of the War with America ( L o n d r e s : T. P a y n e , 1776) n ã o vê
Liberty: Being a Collection of Interesting Tracts, From the Year 1762 to 1769 Contai-
n e n h u m p r o b l e m a e m s e referir a o s "direitos d a n a t u r e z a h u m a n a " (p. 3 ) o u a o s
ning the Private Correspondence, Public Letters, Speeches, and Addresses, of John
" d i r e i t o s d a h u m a n i d a d e " ( p . 5).
Wilkes, Esq. ( L o n d r e s : T. B a l d w i n , s. d . ) , p. 125. S o b r e J u n i u s , ver, p o r e x e m p l o , as
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c a r t a s xii (30 de m a i o de 1769) e xni (12 de j u n h o de 1769) in The Letters of Junius,
2 vols. ( D u b l i n : T h o m a s E w i n g , 1 7 7 2 ) , p p . 69 e 8 1 . t i o n s C o n c e r n i n g t h e O r i g i n a l of G o v e r n m e n t " , no s e u The Free-holders Grand
Inquest, TouchingOur Sovereign Lord the Kingandhis Parliament ( L o n d r e s , 1679).
13. [ M a n a s s e h D a w e s ] , A Letter to Lord Chatham, Concerning the Present
Ele r e s u m e a sua p o s i ç ã o : "Apresentei b r e v e m e n t e a q u i as i n c o n v e n i ê n c i a s i r r e -
War of Great Britain against America; Reviewing Candidly and Impartially Its
m e d i á v e i s q u e a c o m p a n h a m a doutrina da liberdade natural e da comunidade de
Unhappy Cause and Consequence; and wherein The Doctrine of Sir William Black-
todas as coisas; estes e m u i t o m a i s a b s u r d o s são f a c i l m e n t e e l i m i n a d o s , se ao c o n -
stone as Explained in his Celebrated C o m m e n t a r i e s on t h e Laws of E n g l a n d , is Oppo-
t r á r i o m a n t e m o s o domínio natural e privado de Adão c o m o a f o n t e de t o d o o
sed to Ministerial Tyranny, and Held up in Favor of America. With some Thoughts
g o v e r n o e p r o p r i e d a d e " — p. 5 8 . Patriarcha: Or the Natural Power of Kings ( L o n -
on Government by a Gentleman of the Inner Temple ( L o n d r e s : G. Kearsley, s.d.;
m a n u s c r i t o 1776), citações p p . 17 e 2 5 . R i c h a r d Price, Observations on the Nature d r e s : R. C h i s w e l et al., 1685), esp. p p . 1-24.

of Civil Liberty, citação p. 7. P r i c e a l e g o u e x i s t i r e m o n z e e d i ç õ e s de s e u t r a t a d o 16. C h a r l e s W a r r e n Everett, ed., A Comment on the Commentaries: A Criti-
n u m a c a r t a a J o h n W i n t h r o p — D. O. T h o m a s , The Honest Mind: The Thought cism of William Blackstone's C o m m e n t a r i e s on t h e Laws of E n g l a n d by Jeremy
and Work of Richard Price ( O x f o r d : C l a r e n d o n Press, 1977), p p . 1 4 9 - 5 0 . 0 sucesso Bentham ( O x f o r d : C l a r e n d o n P r e s s , 1 9 2 8 ) , c i t a ç õ e s p p . 3 7 - 8 . " N o n s e n s e u p o n
do panfleto foi i n s t a n t â n e o . Price escreveu a W i l l i a m A d a m s , em 14 de fevereiro Stilts, o r P a n d o r a ' s Box O p e n e d , o r T h e F r e n c h D e c l a r a t i o n o f Rights Prefixed t o
de 1776, q u e o p a n f l e t o fora p u b l i c a d o t r ê s dias a n t e s e já estava q u a s e i n t e i r a - t h e C o n s t i t u t i o n o f 1791 Laid O p e n a n d Exposed", r e i m p r e s s o i n P h i l i p S c h o -
m e n t e e s g o t a d a a s u a e d i ç ã o de m i l c ó p i a s — W. B e r n a r d Peach e D. O. T h o m a s , field, C a t h e r i n e P e a s e - W a t k i n e C y p r i a n B l a m i r e s , eds., The Collected Works of
eds., The Correspondence of Richard Price, 3 vols. ( D u r h a m , N C : D u k e U n i v e r s i t y Jeremy Bentham. Rights, Representation, and Reform: N o n s e n s e u p o n Stilts and
Press, e Cardiff: University of Wales Press, 1 9 8 3 - 9 4 ) , vol. 1: July 1748-March 1778 Other Writings on the French Revolution ( O x f o r d : C l a r e n d o n Press, 2 0 0 2 ) , p p .

258 259
3 1 9 - 7 5 , c i t a ç ã o p . 3 3 0 . 0 p a n f l e t o , escrito e m 1795, s ó foi p u b l i c a d o e m 1816 ( e m Les Droits de l'homme et la conquête des libertés: Des Lumières aux révolutions de
francês) e 1824 ( e m inglês). 1848 ( G r e n o b l e : Presses U n i v e r s i t a i r e s d e G r e n o b l e , 1988), p p . 4 4 - 9 .
17. D u P o n t t a m b é m i n s i s t i a n o s d e v e r e s r e c í p r o c o s d o s i n d i v í d u o s — 23. Archives parlementaires, 8:135,217.
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de la Rivière, l'Abbé Bandeau, Le Trosne (Paris: L i b r a r i e de G u i l l a u m i n , 1846), p p . ( 1958), p p . 266-9. Os títulos dos vários projetos e n c o n t r a m - s e em A n t o i n e de
335-66, citação p. 342. B a e c q u e , ed., L'An Ides droits de l'homme. De B a e c q u e oferece i n f o r m a ç õ e s e s s e n -
18. S o b r e a " p r a t i c a m e n t e e s q u e c i d a " D e c l a r a ç ã o d a I n d e p e n d ê n c i a , ver ciais s o b r e o p a n o de f u n d o d o s d e b a t e s .
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19. A carta de R o u s s e a u c r i t i c a n d o o u s o excessivo de " h u m a n i d a d e " p o d e explicar a m u d a n ç a d e o p i n i õ e s a r e s p e i t o d a n e c e s s i d a d e d e u m a d e c l a r a ç ã o , ver
ser e n c o n t r a d a em R. A. Leigh, ed., Correspondance complète de Jean Jacques Rous- T i m o t h y Tackett, Becoming a Revolutionary: The Deputies of the French National
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g r a t a a Melissa Verlet pela sua p e s q u i s a s o b r e esse t e m a . S o b r e R o u s s e a u ter c o n h e - 26. Sessão da A s s e m b l e i a N a c i o n a l de 1" de a g o s t o de 1789, Archives parle-
c i d o B e n j a m i n F r a n k l i n e sua defesa d o s a m e r i c a n o s , ver o relato de T h o m a s Ben- mentaires,^: 230.
tley d a t a d o de 6 de a g o s t o de 1776, em Leigh, ed., Correspondance complète, vol. 40, 27. A n e c e s s i d a d e de q u a t r o d e c l a r a ç õ e s é m e n c i o n a d a na " r e c a p i t u l a ç ã o "
Janvier 1775-Juillet 1778,pp. 2 5 8 - 6 3 ("[...] os a m e r i c a n o s , q u e ele disse n ã o t e r e m d a d a p e l o C o m i t ê s o b r e a C o n s t i t u i ç ã o em 9 de j u l h o de 1789 — Archives parle-
m e n o s direito d e d e f e n d e r a s suas l i b e r d a d e s p o r s e r e m o b s c u r o s o u d e s c o n h e c i - mentaires^: 217.
dos", p . 2 5 9 ) . A l é m d e s s e r e l a t o d e u m v i s i t a n t e d e R o u s s e a u , n ã o h á m e n ç ã o a 2 8 . C o n f o r m e c i t a d o em D. O. T h o m a s , ed., Richard Price: Political Writings
t e m a s a m e r i c a n o s n a s cartas d o p r ó p r i o R o u s s e a u d e 1775 até a s u a m o r t e . ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1 9 9 1 ) , p p . 1 1 9 e 195.
20. Elise M a r i e n s t r a s e N a o m i W u l f , " F r e n c h T r a n s l a t i o n s a n d R e c e p t i o n o f 2 9 . A p a s s a g e m de Direitos do homem p o d e ser e n c o n t r a d a em " H y p e r t e x t
t h e D e c l a r a t i o n of I n d e p e n d e n c e " , Journal of American History, 85 ( 1 9 9 9 ) : 1299- on American History from the Colonial Period until M o d e r n Times", D e p a r t -
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2 1 . S o b r e os e m p r e g o s d e s s a s e x p r e s s õ e s , ver Archives parlementaires, 1: e m 1 3 d e j u l h o d e 2 0 0 5 ) . A p a s s a g e m d e B u r k e p o d e ser e n c o n t r a d a e m
711; 2:57,139,348,383; 3:256,348,662,666,740; 4:668; 5:391,545. Os primei- < w w w . b a r t l e b y . e o m / 2 4 / 3 / 6 . h t m l > ( c o n s u l t a d o e m 7 d e abril d e 2 0 0 6 ) .
r o s seis v o l u m e s d o s Archives parlementaires c o n t ê m a p e n a s u m a s e l e ç ã o d a s 3 0 . S o b r e os t í t u l o s ingleses, ver n o t a 12 a c i m a . O n ú m e r o de t í t u l o s i n g l e -
m i l h a r e s d e listas d e q u e i x a s e x i s t e n t e s ; o s e d i t o r e s i n c l u í r a m m u i t a s d a s listas ses q u e u s a m a palavra " d i r e i t o s " na d é c a d a de 1770 foi 109, m u i t o m a i s e l e v a d o
"gerais" (as d o s n o b r e s , clero e Terceiro E s t a d o de t o d a u m a r e g i ã o ) e a l g u m a s d o s q u e n a d é c a d a d e 1760, m a s a i n d a s ó u m q u a r t o d o n ú m e r o e n c o n t r a d o n a d é c a d a
estágios p r e l i m i n a r e s . S o u g r a t a a S u s a n M o k h b e r i pela p e s q u i s a s o b r e esses ter- d e 1790. O s t í t u l o s h o l a n d e s e s p o d e m ser e n c o n t r a d o s n o S h o r t Title C a t a l o g u e
m o s . A m a i o r p a r t e d a análise d o c o n t e ú d o das listas d e q u e i x a s foi realizada a n t e s N e t h e r l a n d s . S o b r e a s t r a d u ç õ e s a l e m ã s d e P a i n e , ver H a n s A r n o l d , " D i e Auf-
q u e h o u v e s s e e s c a n e a m e n t o e p e s q u i s a e l e t r ô n i c a e, p o r t a n t o , reflete os i n t e r e s - n a h m e v o n T h o m a s P a i n e Schriften i n D e u t s c h l a n d " , PMLA, 7 2 (1959): 3 6 5 - 8 6 .
ses específicos d o s a u t o r e s e o s m e i o s u m t a n t o c a n h e s t r o s d e a n á l i s e a n t e s d i s p o - S o b r e as ideias de Jefferson, ver M a t t h e w S c h o e n b a c h l e r , " R e p u b l i c a n i s m in t h e
n í v e i s — G i l b e r t S a p h i r o e J o h n Markoff, Revolutionary Demands. Age o f D e m o c r a t i c R e v o l u t i o n : T h e D e m o c r a t i c - R e p u b l i c a n Societies o f t h e
22. Archives parlementaires, 2: 3 4 8 ; 5: 2 3 8 . B e a t r i c e F r y H y s l o p , French 1790s", Journal of the Early Republic, 18 ( 1 9 9 8 ) : 2 3 7 - 6 1 . S o b r e o i m p a c t o d e W o l l -
Nationalism in 1789According to the General Cahiers ( N o v a York: C o l u m b i a U n i - s t o n e c r a f t n o s Estados U n i d o s , ver R o s e m a r i e Z a g a r r i , " T h e Rights o f M a n a n d
versity Press, 1934), p p . 9 0 - 7 . S t é p h a n e Rials, La Déclaration des droits de l'homme W o m a n in P o s t - R e v o l u t i o n a r y America", William and Mary Quarterly, 3" série,
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sier,"Les D r o i t s d e l ' h o m m e d a n s les c a h i e r s d e doléances", i n G é r a r d C h i n é a , ed., 3 1 . S o b r e a d i s c u s s ã o de 10 de s e t e m b r o de 1789, ver Archivesparlementai-

260 •(.I
res, 8 : 6 0 8 . S o b r e a d i s c u s s ã o e p a s s a g e m finais, ver ibid., 9 : 3 8 6 - 7 , 3 9 2 - 6 . 0 m e l h o r Máximas e pensamentos, t r a d . C l á u d i o F i g u e i r e d o ( R i o de J a n e i r o : José O l y m p i o ,
relato d a política e m t o r n o d a n o v a legislação c r i m i n a l e p e n a l p o d e ser e n c o n - 2007).] Eve Katz, " C h a m f o r t " , Yale French Studies, n" 40 ( 1 9 6 8 ) : 3 2 - 4 6 .
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o C o m i t ê s o b r e a Lei C r i m i n a l . 4. "isso N Ã O T E R M I N A R Á N U N C A " [ P P . 146-76]
32. Archives parlementaires, 9: 3 9 4 - 6 (o d e c r e t o final) e 9: 2 1 3 - 7 ( r e l a t ó r i o
do comitê a p r e s e n t a d o p o r Bon Albert Briois de B e a u m e t z ) . O artigo 24 no 1. Archives parlementaires, 10: 6 9 3 - 4 , 7 5 4 - 7 . S o b r e os a t o r e s , ver P a u l Frie-
d e c r e t o f i n a l e r a u m a v e r s ã o l e v e m e n t e revisada d o a r t i g o 2 3 o r i g i n a l , s u b m e t i d o dland, Political Actors: Representative Bodies and Theatricality in the Age of the
p e l o c o m i t ê e m 2 9 d e s e t e m b r o . Ver t a m b é m E d m o n d S e l i g m a n , L a Justice e n French Revolution ( I t h a c a , N Y : C o r n e l l U n i v e r s i t y Press, 2 0 0 2 ) , esp. p p . 2 1 5 - 7 .
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-204. A linguagem usada pelo comitê sustenta a posição t o m a d a por Barry M. r i c a n Revolution", Signs: Journal of Women in Culture and Society, 13 ( 1987): 6 3 - 4 .
Saphiro de que o " h u m a n i t a r i s m o " do Iluminismo animava as considerações dos 3. Em 2 0 - 2 1 de j u l h o de 1789 Sieyès leu o s e u " R e c o n n a i s s a n c e et e x p o s i t i o n
deputados — Saphiro, Revolutionary Justice in Paris, 1789-1790 ( C a m b r i d g e : raisonnée des droits de l ' h o m m e et du citoyen" para o C o m i t ê sobre a Constitui-
C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1993). ç ã o . O t e x t o foi p u b l i c a d o c o m o Préliminaire de la constitution française (Paris:
33. Archives parlementaires, 26:319-32. B a u d o i n , 1789).
34. I b i d . , 2 6 : 3 2 3 . A i m p r e n s a focalizava q u a s e e x c l u s i v a m e n t e a q u e s t ã o 4 . S o b r e a s qualificações p a r a v o t a r e m D e l a w a r e e n a s o u t r a s treze c o l ô n i a s ,
da pena de morte, e m b o r a alguns notassem com aprovação a eliminação da ver P a t r i c k T. C o n l e y e J o h n P. K a m i n s k y , eds., The Bill of Rights and the States: The
m a r c a d e f e r r o e m b r a s a . O o p o s i t o r m a i s v o c i f é r a n t e d a p e n a d e m o r t e foi L o u i s Colonial and Revolutionary Origins of American Liberties ( M a d i s o n , wi: M a d i s o n
P r u d h o m m e em Révolutions de Paris, 98 ( 2 1 - 2 8 de m a i o de 1 7 9 1 ) , p p . 3 2 1 - 7 , e H o u s e , 1992), esp. p . 2 9 1 . A d a m s é c i t a d o i n Jacob Katz C o g a n , " T h e L o o k W i t h i n :
9 9 (28 d e m a i o - 4 d e j u n h o d e 1791 ) , p p . 3 6 5 - 4 7 0 . P r u d h o m m e citava B e c c a r i a P r o p e r t y , Capacity, a n d Suffrage in N i n e t e e n t h - C e n t u r y America", Yale Law Jour-
como apoio. nal, 107 ( 1 9 9 7 ) : 4 7 7 .
3 5 . 0 t e x t o d o c ó d i g o c r i m i n a l p o d e ser e n c o n t r a d o e m Archivesparlemen- 5. A n t o i n e de B a e c q u e , éd., L'An Ides droits de l'homme, p. 165 (22 de a g o s t o ) ,
taires,3\: 3 2 6 - 3 9 (sessão de 25 de s e t e m b r o de 1791). p p . 174-9 (23 de a g o s t o ) . T i m o t h y Tackett, Becoming a Revolutionary, p. 184.
36. Ibid., 2 6 : 3 2 5 . 6. Archives parlementaires, 10 (Paris, 1878): 6 9 3 - 5 .
3 7 . R o b e s p i e r r e é c i t a d o e m c o n f o r m i d a d e c o m a c r í t i c a q u e Lacretelle 7. Ibid., 780 e 782. A frase-chave do d e c r e t o diz: " N ã o p o d e ser a p r e s e n t a d o
p u b l i c o u a r e s p e i t o do e n s a i o : " S u r le d i s c o u r s q u i avait o b t e n u un s e c o n d p r i x à n e n h u m m o t i v o p a r a excluir d a elegibilidade u m c i d a d ã o , a n ã o ser aqueles q u e
l ' A c a d é m i e d e M e t z , p a r M a x i m i l i e n R o b e s p i e r r e " , e m P i e r r e - L o u i s Lacretelle, r e s u l t a m de d e c r e t o s c o n s t i t u c i o n a i s " . S o b r e a r e a ç ã o à decisão a r e s p e i t o d o s p r o -
Oeuvres, 6 vols. (Paris: B o s s a n g e , 1 8 2 3 - 4 ) , vol. m, p p . 3 1 5 - 3 4 , c i t a ç ã o p. 3 2 1 . O t e s t a n t e s , ver Journal d'Adrian Duquesnoy, Député du tiers état de Bar-le-Duc sur
p r ó p r i o e n s a i o d e Lacretelle e n c o n t r a - s e n o v o l . lit, p p . 2 0 5 - 3 1 4 . Ver t a m b é m l'Assemblée Constituante, 2 vols. (Paris, 1 8 9 4 ) , vol. 11, p. 2 0 8 . Ver t a m b é m Ray-
J o s e p h I . S h u l i m , " T h e Youthful R o b e s p i e r r e a n d H i s A m b i v a l e n c e T o w a r d t h e m o n d Birn, "Religious T o l e r a t i o n a n d F r e e d o m o f Expression", i n Dale v a n Kley,
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m u d o u " o s t a t u s a p e n a s d e u m p u n h a d o d e j u d e u s , a saber, a q u e l e s q u e satisfa-
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Créditos das imagens

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R e s e a r c h Library, UCLA

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sity of P e n n s y l v a n i a

P. 7 1 : © Special C o l l e c t i o n s , U n i v e r s i t y of M a r y l a n d L i b r a r i e s

P. 72: © Special C o l l e c t i o n s , U n i v e r s i t y of M a r y l a n d L i b r a r i e s

P. 7 9 : © B i b l i o t h è q u e N a t i o n a l e de F r a n c e

P. 86: Portrait of Captain John Pigott, p o r Joseph Blackburn © 2009 M u s e u m


Associates/LACMA.

P. 8 8 : © T h e British M u s e u m C o m p a n y L i m i t e d .

P. 9 1 : © B i b l i o t h è q u e N a t i o n a l e de F r a n c e

P. 9 5 : © T h e British M u s e u m C o m p a n y L i m i t e d

271
P. 100: © B i b l i o t h è q u e N a t i o n a l e de F r a n c e
índice remissivo
P. 196: © T h e F r e n c h R e v o l u t i o n Before a n d Today. D e p a r t m e n t of S p e c i a l C o l -
l e c t i o n s , C h a r l e s E. Y o u n g R e s e a r c h L i b r a r y , U C L A

Abelardo, Pedro, 35 arquitetura doméstica, 83


Académie Française, 143-5,262 a r r a s t a m e n t o e esquartejamento, 77,
açoitamento, 77,78 80
a c o r d o social, 60 arte do retrato, 83,85,251
Adams, John, 16,147-8,258,263 A r t i g o s da C o n f e d e r a ç ã o ( 1 7 7 7 ) , 126
África: d i v i s ã o c o l o n i a l e u r o p e i a d a , asiáticos, i m i g r a n t e s , 186
194,208 a s q u e n a z e s , 157
Alemanha: antissemitismo, 195,197; assassinos, p e n a l i d a d e s judiciais p a r a ,
i d e o l o g i a r a c i a l d a , 186, 192, 1 9 5 , 77
197, 2 0 2 ; n a c i o n a l i s m o d a , 1 8 4 - 5 , Assembleia Nacional: declarações de
195; r e g i m e nazista da, 1 9 7 , 2 0 2 - 3 , d i r e i t o s d a , 1 1 5 , 1 2 9 - 3 3 ; ver tam-
210-1 bém D e c l a r a ç ã o d o s D i r e i t o s d o
A l e m b e r t , Jean Le R o n d d', 3 6 , 2 4 0 , 2 4 2 H o m e m e do Cidadão; formação
a l m a , n e g a ç ã o m a t e r i a l i s t a d a , 110 d a , 129; p u n i ç ã o j u d i c i a l r e f o r -
amende honorable, 94,140 m a d a pela, 1 3 7 - 4 2 , 2 4 8 ; s o b r e a eli-
A m é r i c a d o Sul, m o v i m e n t o s d e i n d e - gibilidade dos direitos políticos,
p e n d ê n c i a da, 183 146; s o b r e o sistema da e s c r a v a t u r a ,
A n d e r s o n , Benedict, 3 0 , 2 4 1 , 2 4 3 162,164-5
anestesia, 97 ateísmo, 110,180
antissemitismo, 186-8,190, 195,197, atores, direitos políticos d o s , 1 4 7 , 1 5 3
203 Austrália: restrições de imigração da,
Argélia, c o n t r o l e francês d a , 1 9 4 - 5 , 2 1 0 186; sufrágio f e m i n i n o n a , 190

272 273
autismo, 31,39 B o n a l d , Louis d e , 1 7 9 - 8 0 , 2 6 6 n a s c o l ô n i a s a m e r i c a n a s , 148, 160; dos Direitos H u m a n o s e Liberda-
autocontrole, 26,29,82 Bonnet, Charles, 111,255 táticas d a I n q u i s i ç ã o d o , 7 4 , 7 6 , 1 8 0 des F u n d a m e n t a i s ( 1 9 5 0 ) , 2 0 8
a u t o d e t e r m i n a ç ã o n a c i o n a l , 184-5,208 Bossuet, Jacques-Bénigne, 22,238 C a v o u r , C a m i l l o di, 185 corpo: caráter revelado pelo, 99, 101;
a u t o n o m i a i n d i v i d u a l : a escrita c o m o Boswell, J a m e s , 8 9 , 2 5 2 cérebro, funcionamento do, 31,39 d i g n i d a d e d o , 108; i n t e g r i d a d e d o ,
expressão da, 44; autodisciplina Boucher d'Argis, Antoine-Gaspard, Chamberlain, H o w a r d Stewart, 192-3, 27-8,30,82,241; na pintura, 85
r e q u e r i d a pela, 8 3 ; b u s c a das h e r o í - 104,240,256 195,268 C o r t e I n t e r n a c i o n a l d e Justiça, 2 0 3
n a s d a ficção p e l a , 5 9 - 6 0 ; c o m o Bradshaigh, Lady Dorothy, 46,243 Chamfort, Sébastien-Roch Nicolas, Cosway, Richard, 90
liberdade, 6 1 ; das mulheres, 26,58- Brandeis, Louis, 190,267 144-5,262,263 c r i a n ç a s : c o n t r o l e d o s pais s o b r e as, 2 8 ,
6 0 , 6 4 , 6 7 - 9 , 169; ênfase e d u c a c i o - Brissot, J a c q u e s - P i e r r e , 5 9 , 1 0 5 - 6 , 1 6 1 , C h o d o w i e c k i , D a n i e l , 100 61-2; educação das, 60-2; práticas
nal na, 60, 6 1 ; interioridade c o m o 245,254 C h r é t i e n , Gilles-Louis, 9 0 , 9 2 de criação das, 63
evidência da, 30, 48; j u l g a m e n t o Brunet de Latuque, Pierre, 146,152-3, C h u r c h i l l , W i n s t o n , 208 c r i m e s