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Conteúdo
1. Introdução ............................................................................................................................................. 2
2. O Conceito de Violência ....................................................................................................................... 5
2.1 A Violência Escolar ............................................................................................................................ 5
3. O Conceito de Bullying......................................................................................................................... 8
3.1 Classificações das pessoas envolvidas no bullying ............................................................................. 8
3.2 Formas de Bullying ............................................................................................................................. 9
3.3 As Consequências do bullying ............................................................................................................ 9
4. Estudo do Caso da Escola Primaria Completa do Trevo .................................................................... 11
5. Conclusão ............................................................................................................................................ 18
6. Bibliografia ......................................................................................................................................... 20


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1. Introdução
O Bullying é um termo inglês usado para descrever atos de violência física, moral, material e
psicológica. Hoje ele é considerado um fenômeno mundial que cada vez mais vem despertando
interesse de pesquisadores na área da educação.
Por meio de leitura e estudos realizados por pesquisadores tais como Fante (2005), Pereira
(2002) e Tauil (2009), podemos dizer que “O bullying é uma realidade bem presente no
cotidiano escolar, muitas vezes de forma mascarada entre os comportamentos das crianças”
(FANTE, 2005, p. 29).
Portanto Bullying não são brincadeiras inocentes ,e sim , sem graças que as crianças fazem umas
com as outras (como por ex; apelidos maldosos, tapas na nuca, estragar o material dos outros
etc.). “Além de reparar nas mínimas imperfeições, e não perdoa nada” (NOVA ESCOLA 2010,
p. 68), para muitos, pais, professores e comunidade em geral, isto é comum, apenas brincadeiras,
para os agredidos sofrimentos por não conseguir reagir, e nem falar que não gosta destas
brincadeiras, tornando um medo constante de não ser aceito pelo os outros, e acabam sofrendo
sozinhas. Na escola isso é bastante comum, implicância, discriminação, agressões físicas ou
verbais, são mais freqüentes que desejado” (NOVA ESCOLA 2010, p. 68).
O comportamento de violência escolar não é novo, mas a forma como professores, médicos,
pesquisadores e comunidades encaram o problema vem mudando de forma significativa. Em
função do ganho de relevância tentou-se definir e delimitar uma tradução para esta palavra
inglesa, porém nada significativo foi conseguido. No que se diz respeito à definição mais
consistente, os pesquisadores optaram por assumir a proposta por Olweus (1989, p.16) que diz
que praticar o
Bullying é desenvolver práticas que se caracteriza por Colocar apelidos, ofender, zoar, gozar,
humilhar, discriminar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar,
amedrontar, tiranizar, dominar, agredir, bater, chutar, empurrar, ferir, difusão de boatos, fofocas,
ostracismos, sexualização, ofensas raciais, além de roubar e quebrar pertences de suas vítimas.
Práticas essas que segundo Fante (2005) tem a intenção de: Magoar, ferir e prejudicar o outro,
escolhendo suas vitimas por característica própria como timidez, mais fraco, medroso etc.
geralmente não escolhe por ser gordo, magro, cheio de espinha com óculos só irão escolher estes
se tiver as característica já citado, medroso, tímido etc.
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Vítima e escolhida, e importunada constantemente por um, ou grupo de agressores, sendo que
geralmente os agressores não a agridem quando há adulto por perto na escola. É mais comum
que essa prática aconteça no intervalo das aulas quando o professor se ausenta. Geralmente eles
vão atrás das crianças que estão sozinhas e não tem como se defender.
Este fenômeno não escolhe classe social, escola publica ou particular, urbanas ou rurais, todas as
instituições estão passando por isso e cada vez mais comum ouvirmos falar do Bullying escolar.
Segundo Olweus apud Fante (1989, p.46) “O Bullying pode ser classificado de duas formas: o
direto, através de violência física e o indireto, através de agressão moral.”
Ambas seguem a mesma crueldade e tem um o sentido de ganhar poder um poder desigual,
fazendo o outro sofrer com suas conseqüências físicas ou psicológicas e se sentirem que
conseguiu, o amigo acaba sendo seu alvo. E se este agressor não for tratado por um bom
profissional quando pequeno ele mesmo depois de adulto continuara sendo agressor.
Enquanto estudos adicionais mostram que a inveja e o ressentimento podem ser motivos para a
prática do Bullying, há pouca evidência de que os bullies (agressores) sofram qualquer déficit de
auto-estima como sugere a crença popular.
A metodologia utilizada foi a leitura sobre o material relacionado ao Bullying e a escola.
Finalizamos o processo com nossa interpretação sobre os relatórios de pesquisas, livros, artigos
da web.
Neste trabalho abordaremos o tema Violência Escolar denominado Bullying dentro da escola e
será divido em quatro capítulos:
1.1.1 OBJETIVO GERAL
· Realizar revisão bibliográfica relativa às manifestações de violência escolar
configurada no fenômeno Bullying.
1.2 JUSTIFICATIVA:
A violência é hoje uma das grandes preocupações de nossa sociedade, pois
em todos os lugares onde você possa passar, ouve alguém comentando que já foi
vitima de violência ou já presenciou, e o medo aumenta cada vez mais, quando se fala em
violência e em saber que esta em nossa volta, chegando a influência dentro
de nossas escolas.
Estamos nos deparando com um momento de crise escolar, que não
estamos sabendo como agir, e nem como deixá-los longe das nossas escolas e de
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nossos alunos. Muitos professores, pais e sociedade, não conseguem identificá-la
no seu dia a dia, e com isso quem sofre são os alunos, tanto agressores quanto as
vítimas e as testemunhas, que não consegue identificar o risco destas violências par
seu futuro.
O Bullying sempre existiu em todas as escolas do mundo, sejam elas
públicas ou privadas, nas áreas urbanas ou rurais, regiões pobres ou ricas, porém
ninguém conseguia vê-lo como algo que traria prejuízos futuros para as crianças,
como problemas psiquiátricos para as vitimas e delinqüência para o agressor.
1.3 METODOLOGIA
Esta pesquisa se caracterizou por ser bibliográfica de cunho explicativo,
onde será desenvolvida a partir de material já elaborado e publicado, constituído
principalmente de livros revistas e artigos científicos.
Segundo Ruiz (1996, p 58) A revisão literária enquanto pesquisa
bibliográfica tem por função justificar os objetivos e contribuir para própria pesquisa.
“E a pesquisa bibliográfica consiste no exame desse manancial, para levantamento e
analise do que já produziu sobre determinado assunto que assumimos como tema
de pesquisa cientifica”.
Segundo Marconi e Lakato (2008, p 43) “a pesquisa bibliográfica ou de
fontes secundárias é a que especificamente interessa a este trabalho, trata se de
levantamento de algumas das bibliografias mais estudada em forma de livros
revistas, publicações avulsas, sua finalidade é colocar o pesquisador em contato
direto com que já foi escrito sobre determinado assunto, com objetivo de permitir ao
cientista poder analisar ou manipular suas informações com outras bibliografias já
publicadas”.
Nesta pesquisa foram utilizados nove artigos, dentre os quais seis são de
natureza científica e quatro não científicos.
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2. O Conceito de Violência
A violência é um fenómeno complexo e multifacetado, que foi social e historicamente
construído, conforme Silva (2006) “a violência está nos próprios fins de uma determinada forma
de organização social, sob forma de exploração do homem pelo homem”, ou seja, a violência
provém de uma estrutura social construída no percurso da história da humanidade, seus sentidos
se definem conforme seu contexto cultural, social e económico, variando de acordo com o
sistema de valores adoptados por cada sociedade (Fante, 2005).
Podemos nos referir ao fenómeno da violência não apenas em suas manifestações físicas,
tais como crimes, homicídios, roubos, mas também às situações de humilhação, indiferença,
desrespeito, exclusão, presentes nas relações estabelecidas dentro das instituições como a
família, a escola, entre outras instituições que, através de sua dinâmica, exercem acções
coercitivas que, de alguma maneira, causam prejuízos físicos e/ou psicológicos nos sujeitos
dessas relações, o que pode ser caracterizado, nesse sentido, como uma violência invisível, que
também pode ser nomeada de assédio moral, como define Heloani (2003).
No entanto, o assédio moral diz respeito à violência invisível que ocorre nos locais de
trabalho, na relação existente entre os funcionários na qual um ou mais indivíduos colocam um
terceiro numa situação de humilhação em que ele é levado a uma posição de “fraqueza
psicológica” (Leymann, Apud Heloani, 2003). Porém, outros autores (Smith & Sharp, 1994) vão
denominar esse tipo de fenómeno, mesmo nos locais de trabalho, como bullying.
Costa (Apud Fante, 2005, p.155) apresenta uma definição interessante sobre violência: “é
uma particularidade do viver social, um tipo de 'negociação’, que através do emprego da força
ou da agressividade visa encontrar soluções para conflitos que não se deixam resolver pelo
diálogo e pela cooperação.". Para complementar essa ideia, cabe acrescentar, que as relações de
poder também são um meio de 'negociação', como referido acima, e que essas muitas vezes se
dão de forma oculta, não aparente.
2.1 A Violência Escolar
Entretanto, ao estudar a violência em seu nível micro, ou seja, a violência escolar, dá-se
ênfase ou a aspectos individuais, ou a aspectos sociais tratando-os como entidades separadas
(Medeiros, 2006). Porém, ambos estão intrinsecamente relacionados, mas a escola, de maneira
geral, acaba revertendo esse problema a aspectos individuais dos alunos (Aquino, 1998).
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O comportamento agressivo ou violento é resultante de diversos factores dentre eles, os
factores de ordem económica e social como a desigualdade social; o desemprego; a pobreza; a
competitividade imposta pelo sistema capitalista; a exclusão social. Nesse sentido o
comportamento violento não está atrelado somente à personalidade do indivíduo, ou ainda, aos
problemas de relações interpessoais.
Fante (2005) acrescenta: “a exclusão social, principalmente da infância e da juventude, é
uma das causas que fazem com que prolifere a violência, pois uma vez excluídos do convívio
social, os jovens não encontram outra alternativa senão a violência - uma forma de mostrarem
que existem e que também fazem parte do mesmo contexto social". (p.170)
Complementando a posição de Fante (2005), também é preciso considerar que na
sociedade actual a violência não é apenas uma maneira de o jovem se destacar frente ao restante
da sociedade. Frente a essa realidade, a escola não tem meios, nem subsídios para impedir a
influência desses factores externos sobre a vida de seus alunos e acaba se tornando alvo dos
casos de violência praticados por conta desses factores externos, uma vez que estão além do
controle que ela pode exercer.
De acordo com Debarbieux (Apud Abramovay, 2003), a violência na escola pode estar
associada a três dimensões:
a) A primeira dimensão seria a dificuldade de gestão da escola, resultando em
estruturas deficientes;
b) A segunda dimensão seria o contexto social, isto é, a violência que se origina fora
e se infiltra na escola através da manifestação de gangues, tráfico de drogas e da
crescente exclusão social na comunidade escolar; e por fim,
c) A Terceira dimensão se deve aos componentes internos de cada escola, ou seja,
suas especificidades, a cultura da escola.
Estudos apontam que a violência escolar vem aumentando nos últimos anos (Medeiros,
2006). O número de pesquisas relacionadas ao assunto também tem aumentado
significativamente, principalmente na década de 90 (Sposito, 2001).
O problema da violência atinge o âmbito escolar de distintas formas, manifestadas
através de furtos, agressões verbais e físicas, ameaças, depredações contra o património, entre
outras, concreta, ou ainda, de forma simbólica.
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Dessa forma, o fenómeno bullying pode ser relacionado como uma manifestação de
violência dentro da escola, caracterizado como violência simbólica, mas que algumas vezes se
manifesta de maneira concreta, por meio de violência física, entre outras.
A questão da violência escolar nos mostra ainda que ela pode ser interpretada de formas
distintas: como violência na escola e violência da escola.
a) A violência na escola é aquela que se manifesta na relação entre os alunos, que
pode ser influenciada de alguma forma por fatores externos, ou entre alunos e
professores, e que pode acarretar em prejuízos no processo de ensino
aprendizagem.
b) A violência da escola é aquela que se dá através da dinâmica da instituição como
forma de coerção sobre os alunos, isto é, seus programas, a organização do tempo
e do espaço, e as relações de poder instituídas nesse contexto. Esta muitas vezes
reverte-se em reacções dos alunos na forma de apatia, indisciplina e violência, que
geralmente acabam sendo mal interpretadas, transferindo toda a "culpa" para os
alunos (Aquino, 1998).
Nesse sentido, é importante se ter uma clara definição sobre o significado de
indisciplina. A indisciplina é sempre um tema polémico a ser discutido. Porém, é um
problema presente e constante em todas as escolas do mundo, seja ela particular ou
pública.
A imagem da escola na actualidade está ameaçada. Podemos afirmar até que ela
está passando por uma grande crise, pois seus moldes não se transformaram seguindo o
ritmo da transformação da sociedade. A sociedade de hoje não se comporta como a
sociedade do início do século passado. Entretanto, a escola perdura com a estrutura
similar daquela época.
Nesse sentido, o fenómeno da indisciplina pode ser relacionado intrinsecamente
com o problema que a própria estrutura da escola apresenta, e que seus alunos, através de
comportamentos indisciplinar, reflectem essa “deficiência” ou “ineficiência” da escola.

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3. O Conceito de Bullying
O fenómeno bullying diz respeito a uma modalidade específica de violência na escola: a
violência interescolares (Fante, 2005). Embora o termo seja empregado, sobretudo para referir-se
a tal modalidade de violência, o fenómeno bullying também se faz presente em outros âmbitos,
tais como os locais de trabalho, família, comunidade e outros contextos sociais (Smith & Sharp,
1994).
O bullying escolar, de acordo com Fante (2005, p.28), é caracterizado como uma
manifestação de atitudes agressivas intencionais e repetidas que ocorrem sem motivação
evidente e que são adoptadas por um ou mais estudantes contra outro (s), executadas dentro de
uma relação desigual de poder, tornando possível a intimidação da vítima, causando a ela dor,
angústia e sofrimento, já que esta é ridicularizada, insultada e/ou hostilizada.
Tal fenómeno geralmente relaciona-se à exclusão do aluno vitimado, provocando
distintos danos (físicos, morais, psicológicos, materiais etc).
Na definição de Smith & Sharp (1994), bullying é descrito como sistemático abuso de
poder e esse abuso têm como característica ser repetitivo e deliberado, podendo ocorrer em
diversos contextos, como já dito, incluindo locais de trabalho e o lar. De acordo com esses
autores, bullying é um problema presente nos grupos sociais em que há uma clara relação de
poder (Smith & Sharp, 1994, p. 2).
A palavra bullying se origina da palavra bully que pode ser designada como verbo sendo
traduzido como "tiranizar", "brutalizar", "amedrontar", ou ainda, ser designada como
substantivo, traduzido como "valentão", " tirano". Dessa forma, de acordo com Fante (2005,
p.28) bullying pode ser entendido como um "subconjunto de comportamentos agressivos, sendo
caracterizado por sua natureza repetitiva e por desequilíbrio de poder".
3.1 Classificações das pessoas envolvidas no bullying
Fante (2005) aponta que existem três tipos de pessoas envolvidas nessa situação de
violência: o espectador, o agressor, e a vítima. No entanto, esta última possui em sua
classificação três categorias.
a) O espectador é aquele que presencia as situações de bullying e não interfere e que
representa a maioria dos alunos que convive com o problema. Sua omissão deve-se pelo
fato de temer represálias, ou ser a próxima vítima de ataque do agressor e, nesse caso,
prefere adoptar a “lei do silêncio”.
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b) O agressor é aquele que vitimiza os mais fracos e costuma manifestar pouca empatia. Ele
impõe mediante o poder e ameaça para alcançar aquilo a que se propõe. Geralmente é
mais forte que seus companheiros de classe, por ser mais velho ou maior fisicamente que
suas vítimas, ou ainda, por apresentar maior habilidade física nas brincadeiras e nos
desportos.
c) A vítima é aquela frequentemente ameaçada, intimidada, isolada, ofendida, discriminada,
agredida. Recebe apelidos e provocações, tem os objectos pessoais furtados ou
quebrados, mas pode ser diferenciada em sua classificação quando serve de bode
expiatório para um grupo e não consegue reagir diante das agressões sofridas, pois tem
dificuldades de impor-se ao grupo.
Neste caso, ela pode ser denominada de “vítima típica”. Quando a vítima consegue reagir
e se torna agressiva com quem a agrediu, e costuma causar tensões no ambiente em que
se encontra, essa pode ser caracterizada como “vítima provocadora”. Por fim, a vítima
que reproduz os maus-tratos que sofreu em indivíduos mais frágeis que ela, para
transformá-los em bode expiatório buscando dessa forma, transferir as agressões sofridas.
Neste caso, ela pode ser denominada como “vítima agressora”.
3.2 Formas de Bullying
O fenómeno bullying pode ser distinguido por três formas (Medeiros, 2006, p. 26):
a) O bullying físico, no qual há agressão física do agressor para com a vítima;
b) O bullying verbal, no qual o agressor apelida ou qualifica sua vítima de modo injurioso; e
por fim, o
c) Bullying afectivo, no qual o agressor é excluído de seu grupo de colegas.

3.3 As Consequências do bullying
As consequências do bullying escolar afectam todos os envolvidos, mas sobretudo a
vítima é a que apresenta maiores prejuízos (Fante, 2005). Dentre os aspectos percebidos nas
vítimas estão a baixa auto-estima, sentimentos negativos e pensamentos de vingança,
dificuldades de aprendizagem, queda no rendimento escolar, stress, depressão, afectando dessa
forma seu desenvolvimento emocional e social, podendo gerar até comportamentos agressivos.
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A não superação do trauma causado pelas humilhações sofridas pode repercutir em
efeitos que o indivíduo levará para a sua vida, tornando-se um adulto introspectivo, inseguro e
com dificuldades de se relacionar socialmente. O espectador, por viverem em um ambiente de
conflito, tensão, no qual as relações entre os companheiros estão deterioradas, se vê desmotivado
e não sente vontade de frequentar a escola, e concomitantemente a isso, tem que lidar com
sentimentos de insegurança e medo constante de se tornar o próximo alvo do agressor.
Aqueles que praticam o bullying poderão levar para a vida adulta o mesmo
comportamento agressivo, adoptando atitudes agressivas em suas relações familiares (violência
familiar) e/ou relações de trabalho (assédio moral).
Estudos como o realizado por Olewus (Apud Fante 2005), aponta uma relação existente
entre o bullying e a criminalidade, pois verificou-se, através de um acompanhamento realizado
com jovens com idades entre 12 e 16 anos, identificados como agressores no fenómeno bullying
que, “ a 60% deles havia sido imputada uma condenação legal antes que completassem 24 anos
de idade” (Fante, 2005.p. 81). Porém, isso não pode ser considerado como determinante ou que
todos os agressores apresentarão essa conduta, pois as consequências poderão variar de acordo
com o contexto social que todos os envolvidos estão inseridos.
Portanto, o fenómeno bullying deve ser considerado um problema, uma modalidade de
violência escolar, cuja presença no quotidiano da escola, não pode ser negligenciada ou
banalizada. Porém deve-se admitir que há uma grande dificuldade de captar a totalidade concreta
e as relações dialécticas entre os aspectos interpessoais e macro-sociais para abordar o fenómeno
enquanto realidade psicossocial, visto que os estudos específicos sobre bullying escolar ainda são
muito recentes e em número reduzido.

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4. Estudo do Caso da Escola Primaria Completa do Trevo
Diante da leitura dos dados obtidos através dos questionários e das entrevistas
puderam-se constatar muitas informações relevantes para a discussão do fenômeno bullying e
sua relação com o processo de ensino-aprendizagem, entre outros aspectos que permeiam essa
temática.
Após tabular os dados dos questionários, foram constatados que 100% dos
participantes da pesquisa já presenciaram algum tipo de agressão entre os alunos, tal dado
evidencia que a presença da violência e, conseqüentemente, do fenômeno bullying é uma
realidade na escola e, portanto confirma a pertinência deste estudo.
Ao investigar os tipos de agressões que os professores já presenciaram no
cotidiano escolar foi possível sistematizar os dados no gráfico abaixo:
Diante desse gráfico notamos que na visão dos professores a principal forma de
agressão entre os alunos é feita através de xingamentos, que totalizaram 100%. Em seguida,
há agressões e brincadeiras de mau gosto, com 90%. Em terceiro os apelidos pejorativos e as
ameaças com 80%, seguido de 70% de ridicularizações/humilhações por características físicas
e por raça ou cor, e não houve ocorrência de ridicularização ou humilhação por religião. Todas
essas formas de agressões apresentadas pelos professores podem ser caracterizadas como
bullying em suas manifestações verbais e físicas. Cabe ressaltar que, em outra pesquisa,
realizada por Candau (1999, Apud Sposito, 2001) também com professores, mas com o foco
no tema violência escolar, as manifestações verbais e físicas de violência também foram
apontadas como as mais freqüentes entre os entrevistados.
Outro dado relevante é a questão dos fatores de influência das provocações e
intimidações entre os alunos. No questionário, foi solicitado aos participantes que ordenassem
os fatores que influenciam as provocações e intimidações entre os alunos, dentre os quais
estavam: sociedade, dinâmica da escola, dinâmica da família e personalidade do aluno. Diante
desses aspectos, os participantes deveriam numerá-los, sendo que o número um devia ser
atribuído ao aspecto cuja influência fosse primordial na opinião deles.
Para tabular essa questão, foram colocados em foco somente os aspectos
considerados primordiais, ou seja, aqueles que estavam assinalados com o número um.
Verificou-se o seguinte resultado: metade dos participantes acreditavam que o principal fator
de influência era a família, enquanto 40% acreditavam que o principal fator de influência era a
própria personalidade do aluno e apenas 10% presumiram ser a sociedade a principal
influência. Por fim, nenhum dos participantes acreditava que a dinâmica da escola pudesse
gerar influência nas provocações e intimidações entre os alunos. Como pode ser visualizado
no gráfico a seguir:
Diante desse gráfico é importante nos atentarmos para um dado significativo:
nenhum professor considera como primordial a influência da dinâmica da escola nas agressões
e intimidações entre os alunos. Entretanto, a dinâmica da escola pode ser relacionada à
agressividade intra-escolar, visto que a instituição escolar possui uma estrutura em que exerce
o controle de seus alunos por meio de sua própria organização.
O sistema escolar está estruturado de tal forma que através de seus programas,
currículos e normas pedagógicas têm o poder de produzir sujeitos submissos e dóceis na
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medida em que determinam o tempo, o espaço, o movimento, o gesto e as atitudes de seus
alunos e ainda controlam tais aspectos por meio da vigilância e da punição.
A escola classifica seus alunos (alunos bons e os ruins), hierarquiza as relações
entre corpo docente e discente, define o que é normal e o que é anormal, estigmatizando seus
alunos; Tragtenberg (1985, p.41) acrescenta: “A escola, ao dividir os alunos e o saber em
séries, graus, salienta as diferenças, recompensando os que se sujeitam aos
movimentos
regulares impostos pelo sistema escolar”. Portanto é nesse ponto que a dinâmica da escola
vai
interferir no comportamento de seus alunos, pois aqueles que não se adeqüam a esse modelo
de escola serão de alguma forma punidos. Porém, é através de suas atitudes que esses alunos
tentam sinalizar à comunidade escolar que há algo de errado nessa estrutura e nessas relações
que são estabelecidas dentro da escola e que isso precisa ser de alguma forma transformado.
Os dados do Gráfico 2 foram confrontados com a análise das entrevistas e foi
possível observar que na fala dos professores a questão da influência da sociedade se faz
presente, ainda que tenha sido mais enfatizada a influência da dinâmica da família.
A família, segundo os professores, é a base da educação das crianças. Segundo
os mesmos, é na família que acontecem as primeiras aprendizagens da criança. Portanto, ela
terá como base o que aprende com a família e, através dela, formará sua personalidade. Frente
a isso os professores consideraram a família como fator primordial de influência das agressões
e intimidações entre os alunos, defendendo o princípio de que as famílias na sociedade atual
estão "desestruturadas" e não dão mais conta de educar seus filhos, como é elucidado na fala
de um professor: "várias pessoas além de pai, mãe e filhos, moram outras pessoas da
família,
há um desarranjo nesse sentido, então os pais deixam de cobrar o comportamento das
crianças, de cobrar atividades, deixa de cobrar o empenho”.
No entanto, o que se verificou foi uma relação dos problemas familiares com a
visão estereotipada de “família desestruturada”; mas não podemos nos esquecer de que
vivemos em uma sociedade na qual a família não possui mais a mesma estrutura nuclear de
pai, mãe e filhos. Notou-se no discurso dos professores que eles culpabilizam a família pela
reprodução de agressões e intimidações entre os alunos. Existe de fato uma correlação entre os
problemas de violência familiar e o comportamento agressivo das crianças inclusive da prática
do bullying escolar, e há estudos que comprovam essa influência (Pinheiro, 2006). No entanto,
esses problemas familiares também estão relacionados com os problemas sociais mais amplos,
ou seja, a violência social a qual essas famílias estão submetidas, em suas múltiplas dimensões,
como o desemprego, a exclusão social, a desigualdade econômica a baixa
escolaridade. A culpabilização e o estereótipo de família desestruturada, porém dificultam tal
compreensão mais ampla.
Neste contexto, os atos individuais dos alunos não podem ser minimizados a
meros problemas interpessoais ou de personalidade. Existe uma relação dialética entre o
sujeito e a sociedade na qual sua identidade vai se construindo ao longo da história. A
identidade dos agentes do bullying é construída socialmente, nos processos de socialização,
mediados principalmente pela mídia e pela cultura do espetáculo (Türcke, 2004, Zuin, 2006).
Os professores, em suas falas, colocaram a questão da sociedade atrelada ao
bairro onde os alunos moram e por isso eles conviviam com situações de violência dentro e
fora de casa pelo fato de parentes e/ou vizinhos estarem envolvidos com o tráfico de drogas ou
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com roubos e, portanto tinham o exemplo de violência e atitudes violentas muito próximas
deles, gerando de certa forma a reprodução da violência dentro da escola das formas como
puderam ser visualizadas no Gráfico 1. Porém, Fante (2005), através de seus estudos, aponta
que o bullying não é um fenômeno próprio de grandes cidades, escolas públicas e zonas
periféricas onde a violência, o tráfico e o consumo de drogas se integram à vida dos
habitantes, pois os índices de sua incidência não são menores nas escolas particulares e nem
em cidades pequenas.
Sendo assim, essa relação do bullying com a sociedade foi apresentada de
maneira superficial pelos professores, não passando de mera justificativa do problema. Não foi
feita uma análise mais profunda da sociedade como fator de influência, ou seja, quais são de
fato os aspectos da sociedade que influenciam os alunos. O que pôde ser destacado da fala dos
professores nesse sentido é a relação que alguns deles fizeram da sociedade atrelada à mídia e
pôde ser ilustrada nas seguintes falas: “a sociedade é retratada na TV” e “a sociedade atual
se
forma na mídia”. Nesse contexto, esses professores defenderam o argumento de que a mídia é
um fator muito presente na vida de seus alunos e que exercem constante influência sobre eles.
Um dos professores até citou o exemplo de que algumas alunas se vestiam como as
personagens de uma determinada novela que era transmitida pela televisão naquela época e
que fez muito sucesso com o público infanto-juvenil brasileiro, apontando dessa forma o grau
de influência da mídia sobre a vida dos alunos.
Outro aspecto destacado por um dos professores no qual a mídia influencia é a
questão da banalização da violência. Para esse professor a TV divulga e promove a violência
mostrando a “realidade nua e crua” e, através de seus meios, “exige da vida da criança que
ela seja adulta que tenha atitudes adultas e isso inclui a violência”.

O que vivemos na atual sociedade é a busca constante por ser percebido, há
uma super valorização daquele que consegue impressionar: hoje em dia “ser significa ser
percebido” (Türcke, 2004. p.65, Zuin, 2006). Aquele que não é percebido não é considerado
bom, somente o que impressiona se torna válido.
Como afirma Türcke (2004), a mídia se fixa cada vez mais, sem qualquer tipo
de escrúpulo diante da morte, da miséria, do horror, da violência, sensacionalizando tudo e
todos, mas ao mesmo tempo proporciona ao telespectador uma “pseudosegurança” de que ele
está protegido pela tela da TV de tudo que acontece na sociedade, o que acarreta na
banalização dos acontecimentos, inclusive da violência, como se tudo o que acontecesse
estivesse num mundo à parte.
Nesse contexto, é desenvolvido nas pessoas um constante desejo de ser
exaltado e ser percebido pelos demais e, para que isso aconteça, a mídia passa a idéia de que
tudo é possível, não havendo nenhum tipo de limite que impeça a satisfação do desejo. Diante
disso, ser percebido se torna uma necessidade de existência e essa luta pela sobrevivência se
transforma em um problema estético, de acordo com argumentos de Türcke (2004) em seu
texto: “Sociedade da sensação: a estetização da luta pela existência”, no qual considera
que
tudo é movido pelas aparências e pela busca das sensações obsessivamente.
Essa constante busca de valorização pelos demais foi constatada nas entrevistas
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quando se tratou sobre os agentes praticantes do bullying. Entre os alunos há uma constante
busca de identificação dentro de um grupo. Para eles é muito importante fazer parte de um
grupo e ser reconhecido dentro dele, pois isso contribui para a própria formação da identidade
do indivíduo; mas fazer parte de um grupo também pode ser interpretado como uma busca de
valorização dessa identidade. Assim agem os alunos “valentões”, como caracterizado nos
questionários, no qual foi constatado que 80% dos professores percebem que esses alunos são
temidos pelos demais e ainda, 70% dos professores acreditam que a figura do aluno
“valentão” é valorizada pelos outros alunos, um dos professores comenta: “ele quer atenção e
eles vão ser valorizados pelos demais que presenciam a situação, ele vai querer ser
cada vez
mais notado através de suas atitudes” (se referindo ao aluno agente do bullying).
Esse é um dado preocupante porque mostra implicitamente a atuação da mídia
diante dessa valorização, pois diariamente é veiculada pelos meios de comunicação a
violência pela qual a sociedade está submetida e a imagem dos agentes da violência é exposta
sob o pretexto de se criticar a violência, mas o que acontece de fato é a transformação dessas
tragédias em um grande espetáculo a ser consumido pela sociedade e, a violência escolar, de
acordo com Sposito (2001, p. 91) vem sendo apresentada esporadicamente pela imprensa e pela
mídia nos últimos anos privilegiando homicídios que ocorreram nas cercanias ou no
interior dos prédios escolares. Um exemplo disso foi o fato de um aluno (vide anexo) que
neste ano de 2007 matou trinta e duas pessoas incluindo alunos e professores da universidade
onde estudava nos EUA e depois se suicidou deixando, como definiu a mídia, um “manifesto
multimídia” composto de fotografias do estudante posando com armas na mão, textos e uma
fita de vídeo gravada por ele na qual dizia que os assassinos da tragédia acontecida em
Columbine (vide anexo), há alguns anos atrás, eram mártires, na opinião dele. Essa fita foi
veiculada pela mídia de todo o mundo e exibida como um grande espetáculo, de maneira
sensacionalista e que, em momento posterior, é facilmente esquecido pela sociedade, não
causando nenhum tipo de reflexão sobre o assunto. Existe apenas a preocupação em
impressionar a população com o fato, e ela, por outro lado assiste como mero telespectador.
Nessa “sociedade das sensações” (Türcke, 2004) a qual estamos submetidos, a
banalização é um fator que se faz presente e, claramente pôde ser observado na visão de
alguns professores entrevistados acerca do fenômeno bullying. Ao questionar os professores
sobre o fato de os alunos se agredirem verbalmente ou às vezes até fisicamente, atribuindo uns
aos outros apelidos pejorativos, fazendo brincadeiras de mau gosto alguns professores
descrevem isso como “brincadeiras de criança” ou ainda dizem “é normal, é a idade”,
“crianças são crianças”. Entretanto, essa opinião dos professores está atrelada, segundo Fante
(2005, p. 67) “ao fato deles não estarem preparados para distinguir entre condutas
violentas
e brincadeiras próprias da idade, bem como lhes falta preparo para identificar,
diagnosticar
e desenvolver estratégias pedagógicas para enfrentar os problemas bullying”. Também
deve
ser considerado que o fenômeno bullying ainda é pouco estudado no meio acadêmico
brasileiro. Portanto, na realidade escolar do Brasil, esse assunto se torna ainda mais distante
do conhecimento dos professores. Este fato se constata no momento em que ouvimos dos
professores a descrição do fenômeno como “brincadeiras estúpidas” ou ainda, “brincadeiras
depreciativas”. Embora os adjetivos sejam pertinentes ao fenômeno em questão, o substantivo
15

não o é.
Ao relacionar esse tipo de postura do professor frente ao bullying devemos
analisar que tal postura pode interferir no processo de ensino-aprendizagem dos alunos; na
vítima, pois ela não vê no professor uma fonte segura em que pode se apoiar nos momentos
em que é agredida, afinal para o professor não passa de mera brincadeira; e por outro lado o
agressor pode ser identificado de maneira injusta e qualificado como aluno violento, sem antes
considerar os aspectos que estão envolvidos na situação ou no próprio aluno. Nesse sentido, a
conduta do professor é fundamental, pois ela pode ser uma das fontes causadoras do sofrimento
desses alunos, proporcionando prejuízos no seu desenvolvimento
socioeducacional.
Mas também é necessário ressaltar que a visão dos professores na análise das
entrevistas apresentou uma significativa oscilação de posturas, não apresentando uma visão
somente simplificada durante suas falas. Nesse sentido, foi possível identificar, algumas vezes
na fala de um mesmo professor, visões estereotipadas como a referência à “família
desestruturada”, visões moralistas quando diz “o mundo está liberal demais”, visões
reducionistas quando se refere à “ele faz o que quer, a hora que quer sem limites”, e
também
visões mais críticas, relacionando os problemas dos alunos com a questão da mídia. Houve
também críticas à sociedade, ao sistema educacional brasileiro, como no caso do professor que
citou a questão do “Programa de Progressão Continuada” do governo do Estado de São Paulo,
mostrando que tem opinião contrária à esse sistema e que isso influencia no processo de
ensino-aprendizagem dos alunos. Enfim, algumas posições foram tomadas acerca dos
problemas que permeiam a sociedade, ainda que não aprofundados.
Diante do olhar dos professores conseguimos elencar algumas características
presentes nas vítimas do fenômeno bullying visualizadas a seguir:
Os aspectos mais visíveis pelos professores são a agressividade e o medo,
ambos com 70%. Em seguida estão a queda da auto-estima com 60%, depois com 50%
aparece o isolamento e, com 40%, estão a queda no desempenho escolar e a distorção da auto-
imagem. Ansiedade e inibição vêem logo após, com 30%, e a apatia aparece com 20%. Por
fim, com 10% estão a vergonha e a procura de ajuda para resolver o problema.
Tendo em vista esses dados apresentados, concluímos que o bullying não pode
ser considerado como mera brincadeira de criança, já que características negativas como essas
citadas acima são visivelmente percebidas nos alunos e, de alguma forma, estão interferindo
na vida deles, assim como também interfere na dinâmica da escola.
Na fala dos professores pudemos verificar que o bullying interfere no processo
de ensino-aprendizagem, considerando este como as relações existentes entre professores e
alunos, alunos e alunos, professores e professores, nas quais se firmam aprendizagens e
ensinamentos dentro do contexto escolar. De modo geral os professores acreditam que o
fenômeno bullying pode influenciar negativamente a aprendizagem dos alunos e isso foi
comprovado, pois nenhum dos professores que preencheram o questionário assinalou a
alternativa “não” quando lhes foi colocada essa questão, enquanto 60% assinalaram “sim” e
40% assinalaram “em termos”.
Ao analisar as entrevistas foi possível conhecer a opinião dos professores frente
à influência negativa que o bullying pode ter na aprendizagem de seus alunos, mas também a
interferência que ele gera na dinâmica da escola. Apesar desse fenômeno acontecer
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principalmente longe dos olhos dos adultos, como confirma Olweus (Apud Fante, 2005,p.
149) dizendo que: “o mais habitual é que as agressões e ou condutas indesejáveis se
produzam quando os adultos não estão presentes ou quando não observam o que as
crianças
ou adolescentes estão fazendo”, e isso foi percebido na fala de um professor: “eu percebi
alguma coisa assim, um bilhetezinho, uma palavrinha baixa” (se referindo a alunos que
estavam envolvidos com uma situação de bullying e que tentavam ocultar o acontecimento).
Entretanto as conseqüências desse fenômeno podem ser observadas por aqueles que têm como
função analisar e avaliar o processo de aprendizagem das crianças cotidianamente, isto é, o
professor.
Nas entrevistas, as influências negativas foram mais relacionadas à
aprendizagem dos alunos que são vítimas do bullying. Para os professores esse fenômeno faz
com que o aluno se sinta coagido, pois há uma relação de poder entre mais fortes e mais
fracos. A vítima se vê numa posição acovardada, o aluno, segundo depoimento de um
professor, “se sente encurralado”, “fica com medo”, e a “lei do silêncio” impera sobre os
alunos: as vítimas são ameaçadas pelos agressores e não revelam em hipótese alguma nada do
que acontece com ela por medo de represálias, e os espectadores também temem o agressor,
por pensarem que também podem ser futuros alvos de ataques.
Outro ponto destacado é o fato de que o aluno transfere sua atenção, ficando
alerta a possíveis agressões que pode ser submetido, acarretando na falta de concentração e na
dificuldade de assimilar o conteúdo por conta disso. Fante (2005) nos acrescenta ainda que:
“o medo constante e repetitivo bloqueia a agressividade e o bom funcionamento
mental, prejudicando as funções de raciocínio, abstração, interesse por si mesmo e
pelo aprendizado, além de estender-se a outras faculdades mentais ligadas à
autopercepção, concentração, auto-estima e capacidade de interiorização” (p. 24).
Aspectos como desinteresse, diminuição da freqüência às aulas, também foram
mencionados por eles como ilustrado nessa fala: “quem sofreu agressão, ele fica retraído,
então ele fica com medo, ele fala para a mãe que não quer vir para a escola, quando
vem às
vezes ele é exposto a uma situação de ridicularização”. Ainda nesse sentido, foi
mencionada
nas entrevistas, a questão da identificação com o grupo. A criança, quando não se identifica
com o restante do grupo, se sente desmotivada, e se desliga, se fecha, prefere não participar
das atividades em grupo e acaba se descomprometendo com as atividades em sala de aula,
pelo medo de se expor a novas agressões e chegam ao ponto, segundo Fante (2005, p. 49), de
“o aluno agredido estranhar quando pouco hostilizado, pois no fundo, acredita que não
tem
valor e que é merecedor de ataques”.
Nesse sentido é preciso refletir sobre a dinâmica da sala de aula pois ela é mais
um aspecto do contexto escolar, depois dos alunos, que é influenciado pelo fenômeno bullying
e acaba sofrendo modificações diante das manifestações desse fenômeno porque de alguma
maneira o professor tenta intervir na situação de agressão dentro da sala de aula. Nesse sentido
o professor se vê diante da necessidade de desenvolver uma postura de forma a sanar ou
amenizar esse problema criando estratégias e condições para a criação de um ambiente mais
favorável a aprendizagem dos alunos. Entretanto esse fenômeno ainda é interpretado como
"inocentes brincadeirinhas" e não é tratado com rigor no cotidiano da sala de aula.
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Em vista disso, se faz necessário repensar os caminhos nos quais os professores
e demais agentes escolares devem se guiar para que não percorram o caminho da punição, do
autoritarismo, da imposição, contribuindo, dessa forma, para a permanência da atual estrutura
da escola, que está ainda pautada em moldes similares ao do século passado.

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5. Conclusão


A hipótese a partir da qual iniciamos o trabalho era a de que as crianças
vítimas do bullying apresentariam prejuízos em seu processo de ensino-aprendizagem. De
fato, ao analisar o ponto de vista dos professores sobre o fenômeno, verificamos que o
bullying gera nas vítimas reações tais como: agressividade, medo, queda da auto-estima e
isolamento. Portanto, foi possível constatar que, na visão dos professores, o bullying
influencia negativamente a aprendizagem dos alunos, visto que as reações por eles verificadas
são prejudiciais não somente ao aprendizado, mas também à vida e à identidade do aluno.
Entretanto, no percurso de elaboração do trabalho, com as discussões
realizadas acerca da dialética existente entre o individuo e a sociedade e da análise feita da
visão dos professores sobre o bullying, compreendemos que são diversos fatores, além do
fenômeno bullying, que influenciam negativamente a aprendizagem dos alunos dentro da
escola. Dentre eles podemos destacar: os problemas da própria estrutura escolar, que faz com
que os alunos não se sintam parte integrante desse meio; a deterioração das condições
materiais e objetivas de vida que atingem sobretudo as classes populares em nosso país; a
mediação da mídia nos processos de socialização relacionados à produção da violência.
A visão dos professores nos deu alguns subsídios para a análise da relação
dialética entre o indivíduo e a sociedade, visto que, em suas falas, eles estabeleciam
correlações entre o comportamento de seus alunos e o contexto social em que eles estão
inseridos, na medida em que citavam a família, a mídia, a violência, como fatores de
influência sobre os alunos. No entanto, alguns professores, em determinados momentos,
apresentaram visões reducionistas e superficiais a respeito acerca de tais relações, o que é
compreensível, sobretudo quando temos em vista que vivemos em uma sociedade, na qual o
sistema, por meio de sua dinâmica e ideologia, nos impede de compreender a totalidade dos
problemas que nos cercam.
Procuramos com este trabalho superar a visão reducionista do fenômeno
bullying, na qual suas causas são atreladas aos problemas interpessoais e/ou de personalidade,
sem considerar a relação que existe entre estes e a realidade macro-social que permeia a vida
do aluno. Dessa forma, concluímos que o aluno que pratica bullying, denominado como
agressor, não o faz pelos simples fato de ter uma personalidade agressiva ou por questões de
caráter pessoal. Compreendemos que sua personalidade é construída através dos processos de
socialização e por influências que recebeu de um forte elemento mediador de tais processos
existente na nossa sociedade atual: a mídia.
Com a realização deste trabalho foi possível elaborar uma breve caracterização
dos aspectos que classificam a violência escolar, identificando suas formas de manifestação,
tanto concretamente quanto simbolicamente. Verificamos que a violência é um problema que
a escola enfrenta, mas que ainda não consegue superá-lo. A violência escolar interfere na
qualidade de ensino, prejudicando o processo de ensino-aprendizagem, pois ela gera um clima
de tensão e medo dentro da escola e, dessa forma, professores e alunos se tornam inseguros e
desmotivados a desenvolver qualquer tipo de trabalho significativo.
Diante disso, é necessário refletir que a escola é um importante espaço de
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socialização onde são construídas relações de ensino e aprendizagem entre professores e
alunos e esta é a razão de existência da escola. São eles os protagonistas do processo
educativo e, lhes proporcionar condições adequadas de trabalho, é tarefa imprescindível para
se garantir a qualidade do ensino. O foco da escola é a aprendizagem do aluno, então, adequar
a proposta pedagógica, tornando-a mais atraente e significativa ao mesmo, é uma maneira de
se construir uma escola mais democrática e menos excludente, em que se priorize a formação
da sua autonomia. Do nosso ponto de vista, a escola fechada ao diálogo em relação aos
conteúdos, às suas formas de gestão e aos problemas daí relativamente decorrentes, tal como
o da violência intra-escolares, deve sofrer mudanças que são processuais e inter-dependentes
de outras transformações institucionais, culturais e sociais.
Ao concluirmos este trabalho, nos deparamos com a necessidade de
transformação da escola como uma das soluções pelas quais podemos minimizar ou superar o
problema da violência neste âmbito. Entretanto, o problema da violência está em todos os
âmbitos da sociedade e a escola não consegue resolver este problema isoladamente, pois são
muitos, complexos e inter-relacionados, os fatores envolvidos nessa problemática e a
educação não é o único meio para transformar a sociedade.
Consideramos igualmente importante explicitar, nas presentes considerações
finais, que o fenômeno bullying é uma realidade dentro da escola. Porém, ainda é visto como
“brincadeiras de criança”. Contudo, ele não deve ser tratado dessa forma, pois esse fenômeno
gera conseqüências que interferem diretamente na aprendizagem, identidade e vida dos
alunos. Estes geralmente ficam desmotivados, perdem a concentração nos estudos e se
preocupam mais com as possíveis humilhações que podem vir a sofrer do que propriamente
com os conteúdos escolares e seus próprios interesses. A auto-estima é deteriorada, sendo que
a literatura nos aponta para casos em que o aluno perde até mesmo a vontade de viver e chega a
cometer suicídio, ainda que não tenhamos verificado tal ocorrência em nossa pesquisa. A
vontade de vingança contra aqueles que inferiorizaram a vítima do bullying pode conduzi-lo à
reprodução da violência, criando-se, assim, um círculo vicioso.
Portanto, consideramos necessário construir um projeto pedagógico que tenha
como objetivo principal a superação da desigualdade social e a exclusão social, respeitando os
direitos de cidadania dos alunos, além de se criar meios de conscientização dos professores
com relação ao fenômeno bullying. Compreendemos que a solução para a violência escolar
não se efetiva através da colocação de grades, instalação de câmeras de vídeo e policiamento
e que tais medidas apenas contribuem para a degradação do ambiente escolar e reprodução da
violência, uma vez que tenta combatê-la através da repressão, o que somente aumentaria a
cultura disciplinadora e autoritária dento da escola, o quê, com certeza, não seria o caminho a
se seguir.
Cientes da dificuldade das transformações na escola e na sociedade que aqui
defendemos e dos limites de nosso trabalho e do próprio recorte de nosso objeto de estudo,
esperamos, não obstante, poder ter dado nossa parcela de contribuição à compreensão da
violência entre escolares e de suas complexas relações com a dinâmica sócio-institucional.

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