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Escravidão

,
um passado para esquecer?
O Brasil teve, na sua curta história de 501 anos, 350 anos de regime
escravocrata e apenas 100 anos de trabalho livre. Não levamos em
consideração os primeiros 50 anos, uando praticamente o !nico
trabalho era carregar nossa riue"as naturais para #ora. $m 1%1&, o
Brasil tinha 3,' milh(es de habitantes e 1,) milhão de escravos, ou
se*a, mais da metade da população. $m 1%50, esse n!mero pulou
para 3,5 milh(es.
No total, nosso pa+s trou,e da -#rica . milh(es de escravos, uase a
metade importada por todo o continente americano.
/om os n!meros acima, pode0se a#irmar ue o Brasil #oi #undado e
teve o seu desenvolvimento e a sua economia baseados no trabalho
escravo, o ue não dei,a ningu1m orgulhoso, muito pelo contr2rio. 3ó
no 4io de 5aneiro, entre os anos de 1&)0 e 1%30, chegaram &00 mil
escravos tra"idos por cerca de 1'00 navios. $m 3alvador, segundo
maior importador de escravos, tamb1m nessa 1poca, os
trabalhadores #orçados representavam mais de .06 da população.
Neste dia 70 de novembro, o 8ovimento Negro reverencia o dia da
morte de 9umbi dos :almares, o l+der do maior levante de escravos
do pa+s, o ;uilombo dos :almares, ue tinha apro,imadamente 70
mil negros <=eia no bo, ao lado>. $sta data 1 considerada, pela
consci?ncia negra, mais importante ue a de 13 de maio, dia em ue
a :rincesa @sabel, h2 113 anos, assinou a =ei -urea ue aboliu a
escravatura. Alegam os l+deres do movimento ue a data da abolição
1 uma Bdata branca ue re#lete benevol?nciaB.
3egundo 4oberto :ompeu de Coledo, em artigo na 4evista De*a,
Btrocou0se um mito pelo outro, o da senhora bondosa, ue
gentilmente concede a liberdade aos s!ditos negros, pelo do negro
rebelde e auda", herói do incon#ormismo. $ntre ambos, #ica a
realidade dura, cotidiana, suarenta, diversa, comple,a 0 e, #ora do
c+rculo dos especialistas, ignoradaB. E a mais pura verdadeF no Brasil
de ho*e não se #ala muito no regime escravocrata, parece ue e,iste
um acordo t2cito para esuecer o assunto.
Rugendas: Navio Negreiro
Como tudo começou
Gepois do Gescobrimento, :ortugal dei,ou o Brasil praticamente
abandonado durante 30 anos, o território sendo disputado entre
cors2rios #ranceses, holandeses e ingleses. /om o decl+nio do
com1rcio com as Hndias, o 4ei G. 5oão @@@ resolveu iniciar a
coloni"ação e mandou uma e,pedição comandada por 8artin A#onso
de 3ou"a, ue aportou na Bahia em 13 de março de 1531. /omeçou
a+ a ser escrita a triste p2gina da escravidão no Brasil. 3egundo
Irancisco Adol#o Darnhagem 0 Disconde de :orto 3eguro, 8artin
A#onso desembarcou na Bahia alguns escravos encontrados na
/aravela 3anta 8aria do /abo, um navio ue #oi aprisionado e
incorporado a sua #rota. O mesmo e,pedicion2rio teria levado alguns
escravos uando #undou a Dila de 3ão Dicente, onde introdu"iu a
cultura da cana0de0aç!car e construiu o 1J engenho, em *aneiro de
1537.
$m setembro de 1537 #oi adotado o sistema de /apitanias
Keredit2rias, ue de"esseis anos depois mostrou0se ine#iciente.
/oube então a :ernambuco o nada honr2vel t+tulo de primeiro porto
brasileiro de desembarue de escravos a#ricanos comerciali"ados.
@sso porue Guarte /oelho, o primeiro donat2rio de :ernambuco,
importou os primeiros escravos uando da sua chegada. A verdade 1
ue em 15.' *2 e,istiam &' escravos na colLnia.
/om o #im das /apitanias, o 4ei resolveu, então, criar o Moverno
Meral, baseado na Bahia. $m :ortugal *2 e,istia, desde 1..%, um
com1rcio regular de escravos. Os portugueses tentaram escravi"ar os
+ndios, mas não deu certo, sendo eles considerados indolentes,
avessos ao trabalho e sem resist?ncia Ns doenças do homem branco,
o ue 1 estranho, pois o mesmo se di"ia do negro. O #ato 1 ue o
in+cio da produção de aç!car coincidiu com a chegada dos escravos
a#ricanos ao Brasil. $m 15)0, eles *2 eram 3' mil escravos e depois
passaram a ser usados, tamb1m, na lavoura do ca#1, sendo
submetidos Ns mais duras condiç(es de trabalho.
Os portugueses, e depois os brasileiros, #i"eram do negro a#ricano
uma valiosa mercadoria. Os tra#icantes de escravos da Bahia se
abasteciam mais na -#rica Ocidental, na região do Mol#o de Benin, e
os cariocas na -#rica do centro0sul, onde #icam o /ongo e Angola, e
depois na costa oriental, em 8oçambiue. Não pensem os leitores
ue para tra"er escravos da -#rica, era necess2rio entrar no mato
para caç20los. As próprias tribos a#ricanas vendiam aos tra#icantes
outros negros de outras tribos, prisioneiros de guerra ou
simplesmente capturados para serem negociados. Dendiam não,
#a"iam escamboF trocavam por #arinha, #ei*ão, carne seca, cachaça,
rolos de #umo, sal, arro", tecidos, armas de #ogo, #acas, navalhas e
at1 espelhos e bugigangas.

Castigos - Frederico Guilherme Biggs, circa
1845-1853


esem!ar"ue de escravos
Mais Escravos
;uem mais trou,e escravos para o Brasil #oi o 4io de 5aneiro, seguido
de perto pela Bahia. $m 1%0%, a /orte portuguesa se instalou no 4io,
#a"endo a sua população crescer muito e conseuentemente
aumentar a necessidade de mão de obra.
@sso signi#icava mais escravos, pois segundo a antropóloga 8anuela
/arneiro da /unha, BOs escravos carregavam tudo nesse Brasil, onde
homens de ualidades se recusavam a levar o mais +n#imo pacoteB. O
ouro das 8inas Merais tamb1m a*udou a trans#ormar o porto do 4io
de 5aneiro no mais importante da colLnia, pois no in+cio do s1culo O@O
o 4io era respons2vel por cerca de .06 das importaç(es e
e,portaç(es do Brasil, contra 306 da Bahia.
/om a economia baseada principalmente na agricultura, 8inas
Merais, 4io e 3ão :aulo estavam necessitando cada ve" mais de
escravos, primeiro nas plantaç(es de cana0de0aç!car e nos engenhos,
e depois na lavoura do ca#1 ue iniciava seu impressionante
crescimento. Os tra#icantes de escravos abasteciam, não só a região
Norte0Iluminense com seus engenhos, como o Dale do :ara+ba dos
bar(es do ca#1, sendo respons2veis tamb1m pela remessa de
escravos para 3ão :aulo, 8inas e a região 3ul do :a+s. Não #oi N toa
ue o 4io de 5aneiro comandou o mais importante #lu,o de escravos
do mundo, uma das maiores operaç(es de trans#er?ncia #orçada de
pessoas na história da humanidade.
A penosa viagem
No tr2#ico de escravos eram utili"ados diversos tipos de navios, sendo
os mais comuns o bergantim e a galera. Na m1dia, cada embarcação
tra"ia ..0 escravos e a travessia do atlPntico durava cerca de .3 dias
se o ponto de partida #osse o centro0sul da -#rica, e at1 o dobro
desse tempo se os escravos #ossem embarcados em 8oçambiue. BA
história dos navios negreiros 1 a mais comovente epop1ia de dor e de
desespero da raça negraF homens, mulheres e crianças eram
amontoados nos cub+culos monstruosamente escuros dos navios,
onde iam se misturando com o bater das vagas e o ranger dos
mastros na vastidão dos mares. A #ome e a sede, de mãos dadas com
as doenças, não lhes cei#avam sempre a vida, concedendo0lhes
perdão e misericórdia ue não encontravam aconchego nos coraç(es
daueles homens severos e maus de todas embarcaç(es ue só se
preocupavam com o negócio rendoso ue a escravaria o#erecia.
A ta,a de mortalidade de escravos nessas viagens variava de '6 a
)6, uando vinham do /ongo e Angola, e o dobro uando partiam de
8oçambiue. Nada ue se possa comparar N mortandade de escravos
na própria -#ricaF 3egundo o estudioso 5oseph 8iller, .06 dos
escravos capturados em Angola morriam durante a marcha #orçada
at1 o litoral e outros 106 a 706 morriam nos arma"1ns onde
#icavam esperando para serem embarcados. Ou se*a, mais da metade
dos negros escravi"ados morriam em seu próprio pa+s, nas mãos dos
seus pares. As causas das mortes eram doenças, maus tratos,
alimentação insu#iciente, superlotação de navios. O recorde negativo
de morte de negros em viagem de navio 1 da galera 3ão 5os1
@ndiano, ue em 1%11, no caminho entre /abinda e o 4io de 5aneiro,
perdeu 171 dos ''& escravos ue transportava.
E importante ressaltar ue, al1m de #ornecer escravos para os
tra#icantes, os próprios a#ricanos tamb1m se utili"avam do trabalho
#orçado. No /ongo, por e,emplo, depois de uma guerra, os vitoriosos
usavam os inimigos como escravos. $m outros pa+ses a guerra era
#eita *ustamente para capturar escravos, ue eram trocados por
mercadorias com os tra#icantes. O curioso 1 ue no Brasil, o e,0
escravo tamb1m tinha escravo, *ustamente para mostrar N sociedade
a sua atual condição. A história registra at1 casos de escravo ue
tinha escravoQ Na verdade, dependendo da sa#ra, o negro era uma
mercadoria barata e ualuer pobre podia ter um, at1 mesmo para
alugar, ou prostituir, se #osse mulher.
e!ret, 18#5
Quilombo dos Palmares e Zumbi
A formação dos quilombos se deu como uma forma coletiva e
organizada de rebeldia por parte dos negros escravos, que não se
conformavam com sua situação e deseavam a liberdade! "s
primeiros apareceram na #a$ia % no final do s&culo '(), per*odo
em que a implantação do trabal$o escravo no #rasil ainda estava
em seu in*cio! Com o grande aumento do tr%fico de escravos para o
#rasil, cresceu tamb&m o n+mero de fugas de negros! Eles
procuravam se refugiar em locais de dif*cil acesso, sertão adentro e
l% formavam mocambos, um conunto de casas! " conunto de
mocambos era c$amado quilombo! Cada quilombo tin$a um c$efe
militar, denominado zumbi e os $abitantes eram os quilombolas!
Eles trabal$avam pela pr,pria subsist-ncia. cultivavam lavouras,
caçavam, faziam artesanato e at& c$egavam a praticar transaç/es
comerciais para conseguirem ferramentas e tecidos!
0em d+vidas, o maior e mais famoso quilombo foi Palmares,
localizado na 0erra da #arriga, em Alagoas! 0urgiu no in*cio do
s&culo '()) e gan$ou grandes proporç/es % em 1234! C$egou a
contar com mais de 54 mil escravos fugidos! "s pequenos
produtores brancos, que tamb&m se sentiam preudicados pelos
grandes sen$ores de engen$o, passaram a apoiar os negros de
Palmares e com eles estabeleceram s,lidas relaç/es comerciais, o
que era duramente criticado pela Coroa! Em 1226 nasceu no
quilombo aquele que ficaria con$ecido como o $er,ico Zumbi! Mas
ele foi levado de l% por um padre! Aprendeu latim e portugu-s e foi
coroin$a, mas fugiu em 1274, retornando a Palmares! Ap,s passar
por muitas provas de coragem tornou8se um mito, sendo escol$ido
para c$efe das armas!
A metr,pole tentava reagir de todas as formas e, depois de
fracassar em muitas tentativas de atacar Palmares, o governo de
Pernambuco contratou os serviços do bandeirante 9omingos :orge
(el$o, em 12;<! Com $omens, armas e mantimentos, Portugal
começou a repressão assassina! =oupas contaminadas eram usadas
para disseminar doenças nos quilombolas, enfraquecendo8os, para
depois intensificar os ataques! "s comandados de zumbi dos
Palmares resistiam bravamente e as perdas foram muito numerosas
para ambos os lados! 0, que o =ei Zumbi estava sitiado e não tin$a
como repor suas armas! >oi então que 9omingos :orge (el$o
conseguiu entrar no mocambo dos Macacos em Palmares e destru*8
lo totalmente! "s sobreviventes, doentes e com fome, eram caçados
pelas matas e muitos foram presos! Zumbi atirou8se num pen$asco
com seus guerreiros como forma de resist-ncia! Preferia a morte a
se entregar!
?m grupo bem menor continuou resistindo, com um novo =ei
Zumbi, sobrin$o do anterior! Mas no final de 12;6 ele foi tra*do por
um compan$eiro, sendo capturado e morto no dia 54 de novembro!
0ua cabeça foi cortada e levada a =ecife e e@ibida A p+blico para
servir de e@emplo aos escravos que tivessem pretensão de fugir!
A mercadoria
Gepois de receber os escravos do comerciante local, o capitão do
navio atravessava o oceano e ao chegar no porto do 4io com a
mercadoria <assim eram tratados>, pagavam os direitos al#andeg2rios
e os negros eram levados para os mercados de escravos da 4ua do
Dalongo, onde eram e,postos. -s ve"es eram o#erecidos de porta em
porta. A maioria, entretanto, ia direto para as #a"endas do interior.
8as eram realmente tratados como mercadoriaF o escravo podia ser
vendido, trocado, emprestado, alugado, doado e dentro do Gireito,
podia ser penhorado, servir de embargo, seRestro, depósito,
ad*udicação, etc. O escravo só era considerado gente uando cometia
um crime, uando então lhe aplicavam o /ódigo :enal. $m #unção
disso, escreveu 5acob MorenderF BO primeiro ato humano de um
escravo 1 o crime.B
$ra longo o caminho do escravo, desde os #lorestas a#ricanas at1 o
interior do Brasil. $ntre a sua captura nas savanas a#ricanas e o
desembarue aui no pa+s, considerando tamb1m o tempo em ue
#icavam esperando os navios nos arma"1ns a#ricanos, poderiam se
passar at1 1'0 dias. Os ue chegavam vivos, eram então submetidos
ao ve,ame de serem e,postos, como mercadoria, nos arma"1ns de
escravos, at1 aparecer o comprador. /omeçava a+ outra longa viagem
at1 a #a"enda onde ia trabalhar, no interior do 4io, 3ão :aulo ou
8inas Merais.
Os escravos no Brasil, ao contr2rio do ue muita gente pensa, não
eram unidos, não se consideravam iguais. :rovinham de di#erentes
pa+ses, de di#erentes raças, de di#erentes tribos, tinham costumes e
l+nguas di#erentes. $ ainda e,istia o criolo, nascido aui, ue se
considerava di#erente do negro a#ricano. $,istia rivalidade entre os
escravos, o ue era incentivado pelo homem branco, pois a ele não
interessava um bom entendimento entre os negros, dentro dauela
m2,ima Bdividir para governar.B Sm via*ante ingl?s, 4obert Talsh,
escreveu ue a massa negra tinha Boito ou nove castas di#erentes e
se empenhavam em lutas e batalhasB. :or causa disso, levou algum
tempo at1 ue os negros realmente se rebelassem contra o branco
opressor, ue al1m do trabalho #orçado, lhe impingia castigos terr+veis
etalhe da o!ra Bouti"ue de la rue
du $al-%ongo, de e!ret, 18#5
Castigos
:rotegidos por uma brutal legislação negra ue permitia castigos,
penas e maus tratos ao escravo, os #a"endeiros e donos de engenho
abusavam do direito de maltratar o negro, sendo eles chicoteados,
presos a correntes de #erro a um cepo, obrigados a usar um colar de
#erro <caso dos ue tentavam #ugir>, etc. Na sua primeira #uga, o
negro era castigado com cinRenta chicotadas, e na segunda, com
cem. D2rios eram os instrumentos de puniçãoF cangas, correntes,
botas de #erro, colares e an*inhos, segundo Gebret Bum instrumento
ue servia para esmagar os polegares e de ue se serviam os
capitães0do0mato para #a"er o negro con#essar o nome e o endereço
do seu senhor.B /ontinua o via*ante #ranc?sF BO colar de #erro, ue
tem v2rios braços em #orma de ganchos, 1 o castigo aplicado ao
negro ue tem o v+cio de #ugir. A pol+cia tem ordem de prender
ualuer escravo ue o use, e encontrado N noite, dei,20lo na cadeia
at1 o dia seguinte. Avisado então, o dono vai procurar o seu negro ou
o envia N prisão dos negros do /astelo.B No *ulgamento dos negros
ue #ugiram com 8anuel /ongo <condenado N morte>, sete escravos
#oram condenados a '50 açoites cada um 0 50 por dia 0 con#orme
mandava a lei e obrigados a andar tr?s anos com o colar de #erro no
pescoço.
:rivação da liberdade, trabalho #orçado e duros castigos são apenas
alguns dos motivos ue levavam os escravos a se rebelarem. Os
primeiros levantes de escravos ocorreram na Bahia, em 3alvador e no
4ecLncavo Baiano. A revolta dos 8al?s, em 1%35, ue ensangRentou
as ruas da capital baiana, envolveu 1500 negros. $m 1&%), houve
uma #uga de escravos criolos na Ia"enda 3antana, em @lh1us, na
Bahia. $les dei,aram escritas suas reivindicaç(es e #icaram dois anos
escondidos no mato. $ntre outras coisas, disseramF B8eu senhor, não
ueremos guerra, ueremos pa".. ;ueremos permissão para
trabalhar nas nossas roças nas se,tas e no 32bado e no Gomingo at1
brincar, #olgar e cantar em todos os tempos ue uisermos sem ue
nos impeça e nem se*a preciso licença.B
$m novembro de 1%3%, liderados por 8anuel /ongo, %0 escravos
#ugiram da #a"enda Ireguesia, em Dassouras 0 45, pertencente a
8anuel Irancisco Oavier. $ra a primeira #uga na região envolvendo
grande n!mero de escravos. 8as, para ao #a"endeiros, o pior estava
por virF na noite seguinte os #ugitivos invadiram outra #a"enda do
mesmo senhor, a 8aravilha, e levaram outros escravos, #erramentas
e mantimentos. Gepois seguiram para a #a"enda de :aulo Momes
4ibeiro de Avelar e #i"eram a mesma coisa. O n!mero de escravos
rebelados chegava agora a cerca de .00. $les #oram perseguidos e
liuidados por uma mil+cia comandada pelo coronel che#e da Muarda
Nacional na região, Irancisco :ei,oto de =acerda DernecU, ue
tamb1m teve #a"endas e escravos. Gos sobreviventes, 1' #oram a
*ulgamento.
Os primeiros uilombos, ue a princ+pio #oram redu"idos, de poucos
negros, muitos dos uais #amintos, e doentes, ue #ugiam dos
engenhos, das #a"endas e dos eitos, só #oram poss+veis graça a
associação ue o negro e#etuou com o +ndio na causa da resist?ncia a
escravidão, e no s1culo OD@@@ #oi o de grandes protestos da raça
a#ricana, uando se #ormaram os maiores e mais tremendos
uilombos ue tantas apreens(es causaram aos colonos e ao
governo. O 8aior uilombo #oi o de :almares, em Alagoas. O
uilombo era, sem d!vida, a !ltima #ase de protesto 0 pois o negro na
sua a#lição de liberdade, não sentia di#iculdades nem hesitava em
privar0se da vida para se livrar de seus so#rimentos e por isto só
restava ao escravo a #uga para as montanhas.
$m 1%0&, a @nglaterra aboliu seu tr2#ico de escravos e passou a
reprimir o tr2#ico dos outros pa+ses, inclusive :ortugal <leia :ara
@ngl?s ver no bo, ao lado>. :ara reconhecer a @ndepend?ncia do
Brasil, a /oroa inglesa e,igiu o #im do com1rcio de escravos e o Brasil
assinou um acordo, em 1%7&, comprometendo0se a acabar com o
navio negreiro. 8as esse acordo não seria cumprido, o ue não 1 de
se entranhar neste pa+s, e o tr2#ico continuou at1 1%50. Neste ano
encerrou0se o tr2#ico ocePnico, mas continuou internamente, o
3udeste comprando escravos do Nordeste do pa+s. O movimento
abolicionista #oi crescendo, e depois de v2rias leis paliativas,
#inalmente #oi promulgada a =ei -urea, em 13 de maio de 1%%%, ue
acabou com a escravidão no Brasil. AcabouV
O ue talve" leve o 8ovimento Negro a desdenhar a data de 13 de
maio, ue encerrou o#icialmente uma p2gina triste da nossa história,
#oi a #orma como ela #oi #eita. Ge uma BpenadaB acabaram com a
escravidão tipo assimF voc?s estão livres, agora se virem. /om o #im
do regime, não houve um assentamento de colonos negros em terras,
não lhes deram as m+nimas condiç(es para desenvolverem um
trabalho. Os escravos #icaram meio perdidos, sem saber direito o ue
#a"er com a tão sonhada liberdade, tanto ue muitos deles
continuaram trabalhando no mesmo local, em um regime de semi0
escravidão. Outros se aglomeraram em cortiços, cabeças0de0porco,
nas peri#erias e morros das cidades. O resultado disso est2 a+, para
todo mundo ver... e sentir.
Rugendas: &a!ita'(es de escravos
"s e@clu*dos
Não vamos nos apro#undar no assunto racismo, ue não cabe aui,
mas a verdade 1 ue nem todos os problemas entre as classes sociais
do Brasil estão ligados N escravidão. 3egundo o historiador Il2vio dos
3antos Momes, BE problem2tico pensar em continuidades. 3e h2 no
Brasil um sistema racial opressivo, não 1 necessariamente porue
aui houve escravidão. A e,plicação do racismo tamb1m se encontra
no ue ocorreu depois da abolição. E comum ouvir #alar ho*e em
relaç(es escravistas ou semi0escravistas no campo. ;uando se di"
isso, pensa0se ue num modelo ue não 1 generali"ante. Kouve
v2rios tipos de relação com escravos no Brasil. Kouve, por e,emplo,
escravos a uem era permitido manter peuenas roças, #a"er um
peueno com1rcio ou receber por dia. Ora, relação ue ho*e são
tachadas de escravistas podem na verdade ser piores ue certos
modelos ue vigoraram na escravidãoB. /ontinua 8anolo Marcia
IlorentinoF BA escravidão #oi a base a partir da ual se #undou uma
civili"ação... $ ao #a"?0lo, viabili"ou um pro*eto e,cludente, em ue o
ob*etivo das elites 1 manter a di#erença com relação ao restante da
populaçãoB. $ para complementar, di" =ui" Ielipe AlencastroF BA
escravidão legou0nos uma insensibilidade, um descompromisso com a
sorte da maioria ue est2 na rai" da estrat1gia das classes sociais
mais #avorecidas, ho*e, de se isolar, criar um mundo só para elas,
onde a segurança est2 privati"ada, a escola est2 privati"ada e a
sa!de tamb1mB.
3egundo ainda o *ornalista 4oberto :ompeu de Coledo, BIalar do
legado da escravidão, ho*e, no Brasil, 1 #alar da pobre"a. Ga mis1ria.
Ou, para usar uma palavra mais atual 0 e apropriada 0, da e,clusão.B
$ cita 8anolo Marcia Ilorentino, ue a#irmaF BO tr2#ico #oi o maior
negócio de importação brasileiro at1 1%50. /omprar pessoas para
estabelecer di#erenças #oi o empreendimento deste pa+s.B
O Brasil não 1 o !nico pa+s do mundo a esuecer, ou tentar esuecer,
certos acontecimentos do passado. O incr+vel 1 ue, no nosso caso,
estamos #alando de um passado recente, de pouco mais de 100 anos.
O dia da Abolição e o dia de 9umbi dos :almares são datas ue
devem ser comemoradas. $ntretanto, o mais importante 1 a
permanente consci?ncia do ue somos, pois sem a e,ata noção dos
acontecimentos ue nos in#ormam a respeito da nossa e,ist?ncia,
sem saber de onde viemos e o ue #omos, não saberemos para onde
ir.
Para ingl-s ver
Em 1B47, Portugal % tin$a perdido a supremacia dos mares, tanto
que a fam*lia real, em fuga para o #rasil, veio escoltada por navios
de guerra ingleses! "s portugueses fugiram por causa da invasão
do pa*s pelas tropas napoleCnicas, ustamente por não aderir ao
bloqueio continental contra o =eino ?nido decretado pelo imperador
franc-s! Desse mesmo ano, a )nglaterra aboliu o seu tr%fico de
escravos e passou a pressionar os demais pa*ses, inclusive
Portugal, a fazer a mesma coisa!
"s ingleses não s, condenaram os navios negreiros, como
passaram a e@ercer permanente vigilEncia nos mares, seus vasos
de guerra parando as embarcaç/es procedentes da costa africana!
Quando encontravam um navio carregando escravos, soltavam os
presos e afundavam a embarcação!
"s traficantes portugueses, que não pretendiam parar com esse
lucrativo com&rcio, bolaram uma forma de enganar os ingleses!
Mandaram construir um fundo falso nos navios e embai@o deste
colocavam os negros africanos! Entre esse fundo falso e o conv&s 8
primeira coberta do navio 8 carregavam mercadorias! Quando eram
abordados no mar pelos britEnicos, mostravam8l$es a carga que
transportavam sem provocar desconfiança! A verdadeira e lucrativa
mercadoria, estava embai@o do fundo falso! A mercadoria de cima,
era para ingl-s ver!!! >oi assim que surgiu esse prov&rbio!
Famboa
=ua do (alongo e =ua da Garmonia na $ist,ria da escravatura
A Mamboa e 3a!de constituem ho*e bairros ue abrigam uma
população de bai,a renda. 3ituados ad*acentes ao centro da cidade,
por tr2s da /entral do Brasil e entre esta, o cais do porto e o 8orro
do Dalongo </onceição>. A ocupação destas 2reas data do s1culo OD@,
uando o local ainda era atingido pela praia. Al1m de ter o cemit1rio
mais antigo da cidade, o dos @ngleses <1%15>, na Mamboa #icava
tamb1m o cemit1rio dos escravos, inicialmente improvisado e depois
de#initivamente implantado, com capela dedicada a 3ão 5orge e 3ão
5oão. Camb1m no bairro #icava o cais para desembarue dos mortos
vindos dos navios negreiros. Ali #oi erguida, entre 1&07 e 1&1), a
uarta paróuia da cidade, a @gre*a de 3anta 4ita. W sua #rente, em
1&'5, por serem de#icientes os terrenos destinados ao sepultamento
de escravos, mandaram abrir covas na rua e nela lançaram os
cad2veres. Nos Bautos de homens de negócios e mercadores de
escravosB, de 1&5% a 1&'%, l?0se, ao lado de uma certidão do vig2rio
de 3anta 4ita, coment2rio a respeito, lançado por Bum advogado
adverso dos possuidores de escravosB. $ comenta Noronha 3antosF
BIorte impiedadeF enterrar na rua, por onde andam os povos e os
animais a despedaçar os cad2veres. ;ue desconhecimento de
KumanidadeQB
=ua do (alongo HAtual =ua CamerinoI
A 4ua /amerino começou a ser aberta em 1&.1. @nicialmente
denominada 4ua do Dalongo, tirou o seu nome da "ona em ue se
originava, isto 1, o Dalongo, ue compreendia trecho entre 3a!de e a
Mamboa. A partir de 1&&), por ordem do Dice04ei 8arues do
=avradio, nela se locali"ou o mercado de compra e venda de negros 0
depósitos e arma"1ns de escravos 0 tendo em vista evitar ue os
escravos desembarcados transitassem pelas ruas nus, doentes, com
aspectos de bichos, de Btal maneira ue as pessoas honestas não se
atreviam a chegar Ns *anelas e os inocentes, vendo0os, aprendiam o
ue ignoravamB <depoimento do 8aru?s do =avradio>. A partir de
1%.3, por ocasião da chegada da @mperatri" G. Cere"a /ristina,
esposa de G. :edro @@, e por ter ela percorrido a 4ua do Dalongo,
passou a denominar0se 4ua da @mperatri", at1 1%)0, uando recebeu
o nome atual em homenagem ao sergipano Irancisco /amerino de
A"evedo, herói da guerra do :araguai.
)ugustus *arle, detalhe da o!ra +lave mar,et at Rio
de -aneiro
Camin$o do Cemit&rio 8 =ua da Garmonia Hatual Pedro
ErnestoI
A 4ua :edro $rnesto era conhecida em 1&50 como caminho da
Mamboa, #a"endo a ligação com a praia do mesmo nome. 8ais tarde,
chamou0se 4ua do /emit1rio, pois ali eram enterrados em valas
comuns muitos dos escravos chegados doentes da /osta da -#rica. O
cemit1rio de 3anta 4ita, ue era destinado aos negros rec1m
chegados da -#rica ue morressem nos depósitos onde #icavam
aguardando os compradores. Iuncionou regularmente, at1 ue o
mercado de escravos #osse trans#erido da 4ua Gireita <atual :rimeiro
de 8aio> para o Dalongo. Gepois o cemit1rio dos Bpretos novosB #oi
trans#erido para as pro,imidades do mercado, #acilitando assim o
transporte dos corpos dos ue l2 morriam.
$m 1%1.01%15, um via*ante ue esteve no Brasil, M.T. IreireXss,
citado por 8arX Yarasch 0, esteve no cemit1rio do Dalongo e o
descreveu como tendo, na entrada um homem em vestimentas de
padre, ue lia oraç(es para as almas dos mortos, enuanto alguns
negros pró,imos a ele tapavam Bseus compatriotasB com um pouco
de terra. No meio do cemit1rio estava uma montanha de terra e de
corpos despidos em decomposição, parcialmente descobertos pela
chuva. 3egundo o via*ante, o Bmau cheiroB era insuport2vel, o ue
#e" supor ue os mortos eram enterrados somente uma ve" na
semana, e ue de tempos em tempos a BmontanhaB de cad2veres era
ueimada. Os negros vivos, segundo ele, #icavam locali"ados tão
perto do cemit1rio de seus companheiros ue eles tamb1m deveriam
ter visto os corpos. $m 1%53 a rua recebeu o nome de Karmonia <QV>.
$m 1%'3 ali #oi criado o Ceatro de Amadores, ue depois virou a
escola 5os1 Boni#2cio e ho*e 1 o /entro /ultural 5os1 Boni#2cio
dedicado a /ultura a#ro0brasileira. $m 1).', receberia sua
denominação atual em homenagem a :edro $rnesto.
=itiere /. Oliveira, 8oniue /ardoso e 8ercedes Muimarães.
Fontes: Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, de Jean Baptiste Debret Das cores
do !il"ncio, de #ebe $aria $% de &astro Em &ostas 'egras, de $anolo (arcia
Florentino 'egros, Estrangeiros, de $anuela &arneiro da &unha 'egocia)ão e
&on*lito, de João Jos+ ,eis e Eduardo !ilva #istória de -uilombolas, de Fl.vio dos
!antos (omes site /ra*ico de escravos, revista Ve0a e #istória do Brasil de 1ui2
3ochiba%
Dolta para o in+cio
Doltar N :2gina :rincipal