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Antropolítica Niterói n. 21 p. 1-260 2. sem.

2006
ISSN 1414-7378
Ant r opol í t i ca
N
o
21 2
o
- semestre 2006
© 2008 Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política UFF
Direitos desta edição reservados à EdUFF - Editora da Universidade Federal Fluminense -
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Simoni Lahud Guedes (PPGA / UFF)
Catalogação-na-Fonte (CIP)
A636 Antropolítica: Revista Contemporânea de Antropologia e Ciência
Política. — n. 1 (2. sem. 95). — Niterói: EdUFF, 1995.
v. : il. ; 23 cm.
Semestral.
Publicação do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política da
Universidade Federal Fluminense.
ISSN 1414-7378
1. Antropologia Social. 2. Ciência Política. I. Universidade Federal Fluminense.
Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política.
CDD 300
Editora filiada à
Sumário
Nota dos editores, 7
Dossiê: Antropologia, mídia e construção social da realidade, 11
Apresentação: Laura Graziela Figueiredo Fernandes Gomes,
“Cantando espalharei por toda a parte,
se a tanto me ajudar engenho e arte”: propaganda, técnicas de vendas
e consumo no Rio de Janeiro (1850-1870), 13
Almir El Kareh
Identidades flexíveis como dispositivo disciplinar:
algumas hipóteses sobre publicidade e ideologia em sociedades
“pós-ideológicas”, 51
Vladimir Safatle
Remediação e linguagens publicitárias nos meios digitais, 67
Vinícius Andrade Pereira
Artigos
O sorriso da lua, 83
Eli Bartra
Alimentos transgênicos, incerteza científica e percepções de risco:
leigos com a palavra, 109
Renata Menasche
Técnicos e usuários em programas de assistência social:
encontros e desencontros, 127
Heloísa Helena Salvatti Paim
A economia moral do extrativismo no Médio Rio Negro: aviamento,
alteridade e relações interétnicas na Amazônia, 151
Sidnei Peres
Educação e ruralidades: por um olhar pesquisante plural, 171
Jadir de Morais Pessoa
Resenhas
Livro: Buenos Vecinos, Malos Políticos:
moralidad y política en el Gran Buenos Aires, 191
Sabina Frederic
Autora da resenha: Fernanda Maidana
Resenhando o conceito de “Double Bind” de Gregory Bateson em seis
autores das ciências humanas contemporâneas, 197

Autora da resenha: Mônica Cavalcanti Lepri
Notícias do PPGA
Jornada de Antropologia do PPGA, 209
Encontro da Rede Rural, 213
Relação de dissertações defendidas no PPGA, 219
Revista antropolítica: números e artigos publicados, 241
Coleção antropologia e ciência política (livros publicados), 255
Normas de apresentação de trabalhos, 259
Contents
Editors note, 7
Dossier: Anthropology, media and social construction of the reality
Foreword: Laura Graziela Figueiredo Fernandes Gomes, 11
“Singing I will spread for all the part, If in such a way to help to device and
art me”: Propaganda, techniques of sales and consumption in Rio De Janeiro
(1850-1870), 13
Almir El Kareh
Flexible identities as device to discipline: Some hypotheses on advertising and
ideology in “after-ideological” societies, 51
Vladimir Safatle
Remediation and advertising languages in digital media, 67
Vínicius Andrade Pereira
Articles
The smile of the moon, 83
Eli Bartra
Transgênicos foods, scientific uncertainty and perceptions of risk:
laypeople with the word, 109
Renata Menaschi
Technical staff and the users of public programs of social assistance:
encounters and divergences, 127
Heloísa Helena Salvatti Paim
The moral economy of the extractives activities in the Médio Rio Negro:
aviamento, otherness and interethnic relations in the Amazônia, 151
Sidnei Peres
Education and rural things: for a plural researching look, 171
Jadir de Morais Pessoa
Reviews
Book: Buenos vecinos, malos políticos: moralidad y política en el gran Buenos
Ayres, 191
Reviewed by: Fernanda Maidana
Resenhando o conceito de “double bind”, de Gregory Bateson, em seis autores das
ciências humanas contemporâneas, 197
Reviewed by: Mônica Cavalcanti Lepri
PPGA News
Jornada de Antropologia do PPGA, 209
Encontro da Rede Rural, 213
Thesis defended at PPGA, 219
Revista antropolítica: Numbers and published articles, 241
Published Books and Series – Coleção antropologia
(livros publicados), 255
Norms for Article Submission, 259
NOTA DOS EDITORES
Neste número 21, iniciamos uma nova etapa de Antropolítica: novo Conselho
Editorial e nova Comissão Editorial, numa forma mais expressiva da vinculação
da revista ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia.
A estruturação editorial permanece, entretanto, inalterada, na medida em
que a conjugação de dossiês temáticos, abrangendo as linhas de pesquisa do
PPGA/UFF e os artigos de interesse da comunidade acadêmica, mostrou-se
muito produtiva.
Na oportunidade, agradecemos, mais uma vez, a todos que colaboraram co-
nosco até aqui: parceiros institucionais, antigo conselho e comissões editoriais,
articulistas, pareceristas, resenhistas e esperamos continuar contando com esta
colaboração.
Comunicamos, ainda, que, a partir de agora, Antropolítica terá versão digital,
que poderá ser acessada através da página do PPGA (www.uff.br/ppga).
Inicialmente divulgaremos os artigos e resenhas dos últimos números mas,
paulatinamente, outros números serão incorporados à página.
Comissão Editorial
DOSSIÊ:
Antropologia, mídia
e construção social
da realidade
Laura Graziela Figueiredo Fernandes Gomes
Apresentação
Os artigos que constituem o presente dossiê foram reu-
nidos a partir de uma perspectiva multidisciplinar da
Mídia, com ênfase especial sobre o discurso publicitário.
Diante da importância que ela possui para a compreen-
são de nossa época, é nossa intenção dar continuidade
a este tema, apresentando outros volumes nos quais
destacaremos outros domínios da Mídia.
Salvo exceções, o fenômeno publicitário, apesar de
estar presente em todos os momentos e situações da
vida cotidiana contemporânea, continua relegado a um
plano secundário nas ciências sociais. Desse modo, os
conteúdos sociológicos e antropológicos presentes nas
narrativas publicitárias permanecem pouco explorados,
constituindo-se antes um objeto de estranhamento do
que propriamente algo que, como sugeriu Mc Luhan
(1964), possa ser tomado como uma crônica da sociedade
contemporânea, em relação aos seus diferentes dilemas
e setores de atividade. Foi com essa idéia em mente que
convidamos três pesquisadores de áreas diferentes para
propor algumas refexões, de modo a criar em Antropo-
lítica um espaço de interlocução.
O primeiro deles é o historiador Almir El Kareh, cujo
artigo mostra como o material publicitário, no caso, o
anúncio, pode ser tomado como uma fonte histórica
importante, capaz de revelar diferentes aspectos acerca
dos processos de transformação que ocorreram no Rio
de Janeiro, capital do Império, a partir do fnal do sé-
culo XIX. Através da citação de anúncios publicados nos
jornais da época, El Kareh não apenas nos apresenta as
mudanças relativas ao consumo propriamente dito (o
que se produzia, o que se consumia, formas de aquisi-
ção, quem fazia e quem vendia, etc), mas especialmente
coloca-nos a par de todo o processo de rompimento dos
hábitos coloniais de autosufciência das famílias que deu
12
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 9-12, 2. sem. 2006
lugar a uma produção mercantil e às condições de formação de um mer-
cado livre de trabalho paralelo àquele formado pelo regime escravista
às vésperas de extinção.
O segundo artigo é de autoria de um flósofo com experiência também
na área de Comunicação & Marketing, Vladimir Safatle. Em seu artigo, o
autor explora como a publicidade contemporânea, mais exatamente atra-
vés da formação de um imaginário global de consumo e de socialização
em relação a algumas marcas, somando-se à questão da fexibilização das
identidades, entendida como um importante regime retórico, tornou-se
um efciente dispositivo disciplinar. As implicações políticas ou mesmo
ideológicas do artigo que apresenta também uma interlocução com o
pensamento lacaniano presta-se a muitas refexões sobre os limites ou
mesmo o esgotamento das instituições e mecanismos disciplinares.
Finalmente, temos o terceiro artigo, de autoria de Vinicius Andrade
Pereira. Mestre em Psicologia e Doutor em Comunicação e Cultura, o
autor parte justamente da afrmação e da sugestão de Mc Luhan para
retomar a discussão sobre o modo como as subjetividades contemporâ-
neas são constituídas em suas relações com os meios, com os espaços de
comunicação, e, desse modo, avançar sobre o que está ocorrendo neste
momento, muito especialmente com a introdução dos meios digitais
que começam a ser largamente difundidos. Partindo da analogia entre
memória e narrativa fílmica, já desenvolvida por outros autores, o au-
tor procura refetir como a introdução das novas linguagens digitais,
particularmente através da publicidade, afeta não somente os padrões
de consumo em si, mas sobretudo os próprios conceitos de narrativa,
borrando defnitivamente as fronteiras entre representações da realidade
e processos de fccionalização da realidade.
Temos certeza de que longe de tentar responder às questões propostas,
este dossiê vem reafrmar a necessidade de continuarmos a desenvolver
esta linha de investigação, bem como darmos continuidade a esta inter-
locução profícua com as demais áreas de conhecimento sobre o tema da
mídia na sociedade contemporânea.
Laura Graziela Gomes
(UFF/GAP/PPGA)
Almir El Chaiban Kareh
*
“Cantando espalharei por toda a parte, Se a tanto
me ajudar engenho e arte”: Propaganda, técnicas de
vendas e consumo no Rio de Janeiro (1850-1870)
Hoje em dia, quem lê os anúncios dos jornais
do Rio de Janeiro da segunda metade do século
XIX, fca, de estalo, intrigado com a relativa inci-
piência, para não dizer pobreza, da propaganda
da época. Assim, a função da propaganda era
romper com a carcaça dos hábitos coloniais de
auto-sufciência das famílias, que constituíam um
mercado em potencial para a produção mercan-
til; a concorrência entre as empresas congêneres
vinha em segundo lugar. Daí, provavelmente, a
sua falta de criatividade.
A grande inovação publicitária surgiu no ramo
dos alimentos preparados, com José de Sousa
e Silva Braga, “o Braguinha”, proprietário da
Fama do Café com Leite. Rapidamente, ele com-
preendeu que, para melhorar a qualidade de seu
estabelecimento e selecionar o seu público, teria
de fazer uso da publicidade nos jornais, principal
meio de comunicação da época.
Afnado com o seu tempo e sensível às suas
transformações, procurou captar os ritmos da
mudança e as novas formas de sociabilidade ur-
banas, cada vez mais sintonizadas com o mundo
capitalista e os novos padrões de consumo bur-
gueses, aderindo a elas. E, como ninguém, soube
fazer uso da publicidade, quando as técnicas
tipográfcas eram ainda muito precárias, tirando
partido das palavras e até mesmo da gravura.
Palavras-chave: propaganda e técnicas de venda;
anúncios; açougues “monstros”; cafés; Fama do Café
com Leite.
* Doutor. UERJ. História
Soci al do corpo e dos
saberes e Práticas Médicas
e Assistenciais.
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Hoje em dia, quem lê os anúncios dos jornais do Rio de Janeiro da se-
gunda metade do século XIX, fca, de estalo, intrigado com a relativa
incipiência, para não dizer pobreza, da propaganda da época. Mas, ape-
nas à guisa de reconforto, adverte-se que na primeira metade daquele
século era ainda muito pior! Provavelmente, esse raquitismo devia-se em
parte, ao preço cobrado pelas folhas periódicas que não devia ensejar a
publicação de anúncios muito grandes – no Correio Mercantil, proprie-
dade de J. F. Alves Branco Muniz Barreto, cujo escritório situava-se à
rua da Quitanda, 55, a impressão de cada linha de aproximadamente 40
letras, custava 80 réis
1
– e, à incipiente tecnologia gráfca. Porém, mais
que tudo, era certamente resultado do baixo nível de desenvolvimento e
de acumulação de capitais de nosso comércio, especialmente o varejista,
imediatamente voltado para o consumo da população carioca.
Conseqüentemente, é preciso admitir: essa debilidade tinha a ver dire-
tamente com a auto-sufciência da produção doméstica, escravista, que
inibia a produção mercantil de alimentos e o pleno desenvolvimento
das profssões artesanais livres. E mais, não esqueçamos que a produção
fabril, em escala mundial, debutava. Estávamos longe ainda da produção
industrial em série, surgida nos Estados Unidos no fnal do século XIX
e expandida principalmente nas duas primeiras décadas do século XX,
que exigiria um consumo de massa e, portanto, o recurso à propaganda
como forma de criar e alargar o consumo aos níveis da produção.
2
A
inexistência de frmas de propaganda e de profssionais publicitários
não era senão seu corolário. Um exemplo muito evidente deste fato é a
relação da produção de cigarros, ainda feita artesanalmente, até o fnal
do Império, em pequenos ateliês domésticos – “Um ofcial cigarreiro
toma cigarros para fazer com perfeição; na rua Nova do Alcântara n.
13, informa-se”
3
– e a sua propaganda, em 1857, quando era anunciada
por um armazém de drogas juntamente com desinfetantes para vasos
sanitários:
Líquido Desinfetante. Para águas servidas, os vasos sanitários e os
lugares insalubres, vende-se no armazém de drogas de Aleixo Gary e
C., na rua dos Ourives 109. Na mesma loja vende-se água de Labar-
raque, pastilhas de cheiro, clorureto de cal, cloro líquido, cigarros de
Raspail, etc., etc.
4
Ora, num mercado basicamente local, com frágeis laços regionais, a
quase total ausência de concorrência entre os pequenos comerciantes
só podia desestimular a publicidade. Para termos uma noção mais exata
do tamanho do mercado consumidor carioca, basta lembrar que o local
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escolhido para abrigar o cemitério público de São João Batista, para além
do perímetro urbano, como exigia a lei funerária de 1851, fora o bairro
de Botafogo, cuja parte habitada não ultrapassava a rua São Clemente.
Por isso mesmo, num espaço territorial tão restrito, onde os habitantes
de bairros distantes, como o Russel e a Glória, podiam ir caminhando
até o centro da cidade, apesar de terem de cruzar o morro do Castelo,
e onde era possível percorrer a pé todo o centro comercial da cidade,
que também era residencial, onde estavam localizadas as suas principais
freguesias urbanas, o anúncio não tinha propriamente fnalidade de
atrair consumidores mas transformar a população auto-sufciente em
consumidora de produtos produzidos em escala comercial, principal-
mente estrangeiros.
A casa continuava sendo espaço produtor e consumidor por excelência.
E tudo o que não era produzido em seus ateliês domésticos, era adqui-
rido dos vendedores ambulantes que, gritando os seus pregões, iam de
porta em porta anunciando suas mercadorias. Ou então, os escravos
faziam as compras cotidianas de produtos alimentícios no comércio de
seu bairro – açougue, padaria ou armazém mais próximos. Não seria a
propaganda que o infuenciaria neste tipo de decisão. A publicidade, no
entanto, poderia atuar sobre sua escolha no ato da compra de produtos
de confecção mais elaborada, sofsticados, como artigos de limpeza, be-
leza e medicamentos, ou mesmo cigarros, bebidas alcoólicas, sorvetes e
doces fnos; ou ainda, na aquisição de serviços médicos, hospitalares, de
alimentação (restaurantes e cafés), que serviam a população ocupada nas
atividades comerciais do centro da cidade, formada majoritariamente
de pessoas do sexo masculino, celibatárias .
Portanto, num mercado caracterizado pela produção em pequena escala,
do tamanho do consumo local, no mais das vezes artesanal e basicamente
realizada por escravos, em que o número destes e de pessoas pobres era
muito elevado, retraindo o consumo e desestimulando o aumento da
produção, o anúncio tinha a fnalidade de primordialmente informar
o consumidor da existência do anunciante, sua especialidade e quali-
dade de seu produto. Sua função principal era romper com a carcaça
dos hábitos coloniais de auto-sufciência das famílias, que constituía um
mercado em potencial; a concorrência com suas congêneres vinha em
segundo plano.
As tentativas da produção mercantil de romper com a auto-sufciência
da produção doméstica podem ser avaliadas claramente pelo aumento
do comércio de importação de gêneros alimentícios, na abertura de nu-
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merosas casas comerciais estrangeiras na cidade do Rio de Janeiro e na
instalação de artesãos livres como alfaiates, costureiras, cabeleireiros, e
outros mais. Tratava-se, sem dúvida alguma, de um fenômeno de ordem
econômica, mas que tinha evidentemente a ver com certas transformações
sociais e demográfcas (qualitativas e quantitativas), como o aumento
do poder aquisitivo da população carioca e do número de imigrantes
consumidores de artigos estrangeiros, que justifcavam a abertura de
uma casa comercial, flial ou sucursal. Mas que, antes de tudo, passava
por uma mudança nos hábitos de vida do carioca e pelos aniquilamento
dos saberes tradicionais domésticos – a arte de vestir, pregar e pentear
uma senhora, de coser roupas masculinas e femininas, de cozinhar, de
fazer pães e doces, e outros mais saberes que forneciam as subsistências
das famílias, que aos poucos passavam a ser abastecidas pelo comércio e
por artesãos independentes.
Estas mudanças concerniam às questões de ordem ideológica e cultural.
No primeiro caso, o “aburguesamento” das camadas mais abastadas da
população carioca, direta ou indiretamente enriquecidas com os saldos
da balança comercial, graças às exportações de café e açúcar fuminen-
ses, e sua vontade de copiar o modelo europeu de vida. No segundo, a
presença de uma numerosa e rica burguesia estrangeira, bem como de
um abundante pessoal do corpo diplomático dos distintos países com os
quais o Brasil mantinha relações econômicas, de alto poder aquisitivo,
que ao se mudar com suas famílias para o Brasil, trazia suas roupas e
objetos pessoais, seu mobiliário e seus objetos de decoração, suas louças
e faqueiros, e, principalmente, outros costumes, outras mentalidades e
sensibilidades, enfm, distintos hábitos de vida.
No entanto, foi o grande contingente de imigrantes pobres e remediados,
chegados na segunda metade do século XIX, especialmente portugue-
ses, que em sua grande maioria foram empregados no comércio como
caixeiros – habitavam quartos, às vezes partilhados com dois ou mais
indivíduos, em casas de cômodos e em pensões de família, quando não
em cortiços – que motivaram algumas mudanças radicais nos padrões
urbanos de consumo, especialmente no ramo da alimentação e no
imobiliário. A estes atores anônimos deveu-se, muito provavelmente, a
difusão de novos gostos e maneiras nos hábitos alimentícios do carioca,
quando novos paladares e novas sensibilidades olfativas e de degustação
foram acrescentados aos antigos, estabelecidos há longos anos e dispostos
a se defender.
5
Um exemplo emblemático da investida da produção mercantil na mesa
das famílias cariocas foi a introdução do hábito de comer pão francês.
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Tradicionalmente, segundo o pastor norte-americano Daniel Kidder, o
pão do brasileiro era a farinha de mandioca, adicionada a outros pratos,
principalmente ao feijão, ou ingerida pura:
Exceto no jantar
*
de cerimônia, um excelente prato, muito apreciado
pelo estrangeiro, encontra sempre lugar na mesa brasileira. Compõe-se
de feijão (feijão preto do país) misturado com carne seca e toucinho.
Farinha é espalhada por cima, ou, preparada como uma pasta espessa.
Essa farinha é o pão para milhões de pessoas, e é o principal alimento
dos pretos em todo o país, que a consideram como prejudicada em seu
paladar quando não comida sem ser com os dedos.
6
E se tomarmos ainda o seu testemunho, em fns dos anos 1830, o pão
era feito em casa ou comprado de vendedores ambulantes (os fregueses
não saíam de suas casas para fazer compras), que iam pelas ruas acom-
panhados de seus escravos que transportavam a cesta de pão, mas não
podiam tocá-lo,
7
e o tamborete sobre o qual era apoiada (pode-se ver em
gravuras da época) enquanto os proprietários serviam os seus clientes:
Os proprietários acompanham a louça, sedas, e também o pão, e neste
último os negros não têm permissão de tocar. Quando um freguês
chama, o escravo traz a sua carga, põe-na no chão, e fca parado perto
até que o dono entregue o artigo desejado.
8
Entretanto, na década seguinte, um grande número de padarias havia
sido inaugurado por todas as freguesias do centro da cidade e nos bairros
próximos – Russel, Glória, Catete e Santa Tereza – e nos mais distantes,
como o novo e rico bairro de Botafogo, assim como nos seus arrabaldes.
Este crescimento no número de padarias pode ser verifcado no Alma-
nak Laemmert. Elas passaram de 22 (1844) para 50 (1850), dando outro
salto em 1860, quando já eram 137, estabilizando-se nas duas décadas
seguintes, para saltar novamente, atingindo a cifra de 212 panifcadoras
em 1889. Estes dados parecem indicar que a produção doméstica de pães
sucumbiu muito cedo à concorrência das padarias, na mesma rapidez
com que o pão francês, biscoitos e bolachas instalavam-se no gosto da
população carioca. E o anúncio, feito em 1857, de uma escrava que sabia
fazer pão, era um dos poucos vestígios desta arte culinária doméstica que
desaparecia: Vende-se uma parda, moça, sadia, sabendo lavar, engomar,
coser, cozinhar e fazer pão; para ver, na rua de São Pedro n° 67, 2° andar;
e para tratar na rua Direita n° 86.
9
* O jantar era a refeição realizada ao meio-dia. O almoço era a realizada de manhã cedo e a ceia no fnal da
tarde.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
18
Este rápido crescimento na quantidade de padarias pode ser explicado
não só pela queda da produção doméstica de pão, consumido pela manhã
com manteiga e café com leite, ou da mesma forma, à noite, no jantar
(quando o café podia ser substituído pelo chá). Contudo, isto ocorreu
mais provavelmente, pelo aumento inusitado da população de origem
européia, habituada a comer pão, que realizava suas refeições em cafés,
restaurantes e pensões de família.
Inicialmente, os avisos das padarias resumiam-se a listar pães, broas,
biscoitos (de diferentes espécies e formatos), a qualidade da matéria-
prima utilizada e de seus produtos fnais e (quando acontecia) a origem
estrangeira do padeiro – na intenção de demonstrar a superioridade
da panifcação em relação à cozinha caseira, como neste anúncio de
1849, em que os irmãos Estruc, estabelecidos no nº 38 da rua da Ajuda,
apresentavam-se como:
Padeiros de Carcassonne, única cidade da França que tem feito até
agora as melhores qualidades de pão, podem pôr à disposição do pú-
blico 8 feitios de pão ainda aqui não conhecidos, e de hoje em diante
terão pão à la Pompadour, dito Molé, dito de Trèse, dito a Esse, e os
verdadeiros pães Navites para chá e café. Todas as pessoas que não
encontraram no domingo passado deste gênero, queiram ir hoje para
serem bem servidas.
10
Posteriormente, a propaganda parece visar mais o comércio de alimentos
preparados, cafés, restaurantes, pensões e vendas, onde a população mais
pobre alimentava-se, e os reclamos insistem nos horários das fornadas
que correspondiam à demanda comercial e principiavam pela manhã
muito cedo:
Na nova padaria da rua do Sabão da Cidade Nova n. 77 continua a
haver pão quente desde as 5 horas da manhã até às 9, e de tarde desde
as 3 h até às 5, e das 7 até às 9, muito superior tanto em trabalho como
na qualidade das farinhas, por serem das melhores que há, e também
há biscoitos de todas as qualidades por preços cômodos. Também
vende na mesma padaria um preto muito bom padeiro e hábil para
qualquer serviço; quem o pretender dirija-se à mesma casa desde as 9
h da manhã até às 3 da tarde.
11
O surto imobiliário estampado nas páginas dos periódicos cariocas, nos
quais a oferta em ritmo acelerado de quartos em casas de cômodos e
pensões de família, particularmente nas freguesias centrais da cidade,
cadenciado pela chegada sempre crescente de imigrantes europeus,
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
19
teve como contrapartida o aumento de produção e consumo de pão, da
quantidade de padarias e abertura de fliais, às vezes muito próximas de
suas matrizes. Na medida em que o centro comercial ia-se transformando
em núcleo residencial das camadas mais pobres – os cortiços surgiam e
proliferavam-se aí – devido à proximidade dos locais de trabalho, os mais
ricos iam-se mudando para os bairros e freguesias distantes, de clima
mais ameno e mais salubres, agora servidos por bondes de tração animal
e embarcações a vapor (casos de Botafogo e Niterói). Mas, enquanto as
freguesias rurais e as áreas de ocupação recente não justifcavam a pre-
sença de uma panifcadora, essas eram disputadas por quem puzesse à
disposição de seus moradores, vendedores ambulantes de pão, que as
percorriam em carrocinhas cobertas – “Precisa-se na padaria de Benfca
de um caixeiro para vender pão pela roça”
12
– ou que colocavam-se em
pontos estratégicos em dias e horários anunciados pelos jornais:
Pão para as Laranjeiras. Principia hoje a funcionar uma carrocinha com
pão para as Laranjeiras, a qual levará pão de todas as qualidades, de 20,
40 e 80 rs, o verdadeiro pão de família de 100 e 200 rs, pão inglês, que
não há nada que lhe chegue em gosto, só experimentando-se, de 80 e
160 rs; a carrocinha chegará ao pé das águas-férreas pelas 7 horas, e
demora-se aí até às 8 horas para quem quiser comprar pão; não há que
desejar em qualidade. Nova padaria da rua da Misericórdia n. 115.
13
A panifcação, ainda completamente artesanal, não dependia de grandes
capitais para instalação, e dispunha de uma boa oferta de trabalhadores
escravos, e depois de imigrantes, todos do sexo masculino, que renovava-
se pelo aprendizado da profssão, a partir dos 10 anos, como aprendiz –
“Precisa-se de um bom trabalhador de masseira, e de um pequeno, para
entregar pão e ajudar dentro ao serviço; na padaria da rua das Marrecas
n. 30”
14
– e contava, ainda, com um mercado consumidor em expansão,
devido ao rápido crescimento demográfco da cidade. Sua publicidade
refetia este estado de coisas. Contando com uma clientela garantida, for-
mada pelos moradores do bairro ou das ruas mais próximas, e dispondo
de mão-de-obra, matéria-prima e tecnologia semelhantes, seus preços
não variavam muito e sua concorrência fazia-se pela oferta de pães e
biscoitos especiais, quando não de empadas e doces,
15
o que implicava
no engajamento de mestres padeiros – “Quem precisar de um mestre
de pão francês, pão pequeno de todas as qualidades e biscoito, tudo
com perfeição, o que à vista se provará, pode deixar carta fechada neste
escritório com as iniciais F.S.N. para ser procurado”
16
– e na conquista
de fregueses das novas áreas de expansão urbana pela entrega de pão
em domicílio ou venda de pão em carrocinhas. Além disso, a expansão
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
20
contínua do consumo aliada à farta oferta de trabalho fez com que os
preços do aluguel dos escravos urbanos e do salário dos livres caíssem,
não estimulando a concorrência e a propaganda. Daí, também, ter ocor-
rido o raquitismo da atividade publicitária.
Esta mesma ausência de criatividade verifca-se nos anúncios de oferta/
procura de empregados domésticos, outros tipos de trabalhadores urba-
nos, artesãos/prestadores de serviços, escravos ou livres. O corrente uso
era de fórmulas prontas, provavelmente disponibilizadas pelo próprio
jornal, seguidas religiosamente pelos anunciantes que não queriam ou
não podiam despender muito, sendo inclusive mais práticas. Apenas em
alguns casos, quando era preciso ressaltar a qualidade do trabalhador,
especialmente das mucamas muito prendadas (a fm de justifcar o seu
preço) é que o aviso era mais detalhado e fugia aos cânones estabeleci-
dos. No mais das vezes, eram curtos e repetitivos. Eis um exemplo de
reclamo mais elaborado, onde os saberes domésticos estão claramente
enunciados:
Vende-se uma vistosa preta com duas crias de ano e tanto, mui galantes,
sabendo a preta coser perfeitamente, corta e faz camisas de homem
e vestidos de senhora com perfeição e por fgurino, engoma perfeita-
mente toda a qualidade de roupa, sabe vestir e pregar uma senhora
com perfeição, cozinha perfeitamente e faz bons quitutes e doces para
sobremesa, lava perfeitamente bem, etc.; é preta de muitos bons cos-
tumes, muito diligente para tudo e reúne todos os quesitos de uma
perfeita mucama; muito própria para tomar conta de todo o arranjo
de uma casa mesmo de tratamento; enquanto à conduta, é exemplar, e
dá-se a contento os dias que se tratar, vindo o próprio comprador ver
e ajustar; dirijam-se à rua do Lavradio n. 45.
17
Mas, cuidado! Não pense que a leitura destes anúncios seja insípida.
Ao contrário, é rica e fascinante, especialmente a dos avisos de oferta e
procura por serviços domésticos, em particular os de compra, venda ou
aluguel de escravos, mas não menos interessantes são os de aluguel de
criados ou criadas, livres, amas-de-leite e amas-secas,
18
ou os de presta-
ção de serviços de costureiras, modistas, alfaiates, dentistas e médicos,
bem como os de charlatães que ofereciam panacéias de suas autorias
que curavam sarna, queimadura, síflis e hemorróidas. Havia ainda os
anúncios de cartomantes e sonâmbulas que resolviam todos os casos de
amor e dinheiro, além de predizerem o futuro. E tudo era feito com
muita transparência, pois eles podiam ser encontrados nos endereços
anunciados. E convenhamos, nos anos 1850, havia muita diferença
entre um médico alopata ou homeopata com diploma da Faculdade de
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
21
Medicina do Rio de Janeiro e um curandeiro?
Os remédios infalíveis para escrófulas, bobas, síflis, gonorréia, he-
morróidas, sarnas, empigens, queimaduras, fstulas, febres, antrazes,
belides, etc. vendem-se em casa de seu descobridor, rua da Lapa do
Desterro n º 54.
19
Outro tipo de anúncio que seguia um formato mais ou menos rígido era o
de fuga de escravos. A seguir, mas em menor escala, o de imigrantes que
ainda não haviam saldado as dívidas contraídas com seus patrões, pelo
pagamento da viagem marítima desde a Europa. Estes avisos, particular-
mente os de escravos, deviam atrair especialmente a atenção dos leitores
da época, pois, freqüentemente, em seu cabeçalho estava estampada a
quantia que seria vertida àquele que denunciasse ou levasse à presença
do proprietário o escravo fugido. Porém, o que mais atrai o pesquisador
é a riqueza de detalhes com que era descrito o fugitivo, numa época em
que não havia ainda a fotografa ou quando ela era apenas realizada
em estúdios apropriados e, neste caso, para efeito de constituição de
um fchário judicial, utilizado pela polícia. Somente quando se compara
uma fotografa policial de um prisioneiro com a descrição de um escravo
fugitivo, é possível perceber o quanto esta – a ótica subjetiva do senhor
– é mais rica e viva do que a suposta objetividade e imparcialidade da
objetiva de uma máquina fotográfca, cujo resultado é uma fgura inerte
e sem personalidade! Eis um aviso de fuga de escravo:
Fugiu no dia 7, um moleque de nome Antonio, nação benguela, baixo,
gordo, de 18 a 20 anos, pescoço curto, é bem falante até que passa por
crioulo
*
anda pela cidade com uma rodilha na cabeça a título que anda
ao ganho, é cozinheiro e se tem querido alugar sem consentimento de
seu senhor; e gosta de jogar na praia do Peixe com os seus colegas cozi-
nheiros. Quem o levar na praia dos Mineiros n. 25, será gratifcado.
20
A propaganda, no que dizia respeito aos açougues, era praticamente
inexistente. O comércio da carne, excetuando-se galinhas, patos e al-
guns porcos, que podiam ser criados nos quintais de muitas residências
cariocas (e ainda gado leiteiro, cabras e vacas, criado em chácaras, até
mesmo nas freguesias do centro do Rio de Janeiro!), fora sempre o
apanágio dos açougues que estavam concentrados, segundo as listas do
Almanak Laemmert, nas ruas da Assembléia (antiga rua da Cadeia) e São
José e suas imediações. Em 1848, apenas dois proprietários possuíam
mais de um açougue: um no centro e outro num bairro distante. E até
* Escravo nascido no Brasil e que falava bem o português.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
22
1854, não eram muitos os que se anunciavam neste almanaque, e menos
ainda nos jornais.
Artigo de primeira necessidade, o comércio da carne foi alvo permanente
do interesse do governo imperial e das autoridades policiais do Rio de
Janeiro, preocupados com a formação de monopólios, proibidos por lei.
Os açougueiros eram freqüentemente acusados como responsáveis pela
carestia da vida no Rio de Janeiro e pelas insatisfações populares. Foi o
caso, no início de 1855, quando a população carioca foi surpreendida
pela alta desmesurada dos preços dos produtos alimentícios.
Em um artigo publicado, em 1857, no Jornal do Comércio,
21
o autor C.
(preferia o anonimato) denunciava a situação afitiva das camadas mais
pobres da população livre em face do custo de vida. Tentava dar uma
idéia daquele estado de coisas, através da enumeração dos produtos de
primeira necessidade e da variação de preços no atacado (entre 1850 e
1857). O autor assinalava ainda que os preços eram muito mais elevados
no varejo, e os tecidos tinham tido um aumento de 10 a 15%, o feitio das
roupas de 80 a 100%, a lavagem e engomagem de 20 a 30%, os calçados
de 10 a 20%,
22
os aluguéis residenciais de 60 a 100% e escravos de 100%.
Quanto ao preço das carnes e seus derivados, a de boi havia dobrado, a
de porco subira um pouco menos, o da carne seca, “alimento ordinário,
e quiçá exclusivo da grande massa do povo”,
23
elevara-se ainda mais, e o
do toucinho quintuplicado! E como “almoço sem toucinho não é almoço”
e “feijão com toicinho é o prato nacional do Brasil

.
24
Esta elevação desmesurada dos preços da carne tinha a ver com a estrutu-
ra do mercado brasileiro de carnes verdes que caracterizava-se por gran-
des distâncias, sistema de estradas precário e navegação que praticamente
só servia as províncias marítimas, até que os rios do interior (Paraná e
Paraguai) fossem abertos à navegação internacional. Os caminhos para
as tropas eram, pois, os mais procurados pelos fornecedores vindos do
interior, sobretudo de Minas Gerais, principal fornecedora da Corte. Mas
se o seu estado em geral era ruim, tornavam-se impraticáveis durante a
estação das chuvas. Quanto às boiadas, da mesma forma que as tropas
de mulas, além das paradas obrigatórias para que se saciassem, tinham
que passar alguns meses nas invernadas, alugadas nas proximidades da
Corte, onde recuperavam o peso perdido durante estas longas viagens
e a travessia da Serra do Mar, que separava o litoral da província do Rio
de Janeiro de seu interior. Todas estas difculdades só aumentavam os
preços das mercadorias.
No que concernia à carne verde, outra circunstância que lhe era peculiar
vinha a se acrescentar: o clima tropical quente e úmido, muito favorável
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
23
a sua decomposição, exigia que fosse consumida o mais rapidamente pos-
sível. Assim, uma vez abatido, o gado devia ser imediatamente vendido,
aproveitando-se das horas mais frescas do dia. Sua venda nos açougues
começava, portanto, de manhã muito cedo, por volta das cinco horas, e,
de tarde, devido a seu estado não muito fresco, seu preço caía. Por outro
lado, uma vez comprada, ela devia ser muito rapidamente preparada
para o consumo.
A singularidade deste comércio – que supunha um longo percurso desde
os pastos de criação do gado, transporte por longas distâncias em con-
dições bastante penosas e permanência em invernadas antes do abate
– favorecia a formação de grandes empresas pelo volume dos capitais
imobilizados que implicava. Aliás, naquela época, esta era uma marca
deste comércio por toda parte, inclusive na Europa.
25
Foi nestas circunstâncias que, no início de 1855, Francisco José de Mello
e Sousa apresentou ao governo, segundo as regras do Código Comercial,
o pedido de incorporação de uma sociedade anônima, a Companhia de
Curtume, estabelecida à rua do Imperador em São Cristóvão, que além
do curtume devia também dedicar-se à venda de carne. Proprietário
de uma cadeia de açougues, via realizar-se seu projeto de espalhar por
toda a cidade do Rio e sua vizinha Niterói, grandes pontos-de-venda,
os açougues monstros, iniciado apenas um ano antes, onde, segundo o
testemunho do Chefe da Polícia, encarregado da fscalização, a carne
de boi era vendida a 120 réis
26
(ao mais baixo preço praticado na época
no mercado carioca):
Atenção. Ao Grande Açougue Fama de S. Clemente, r. de S. Clemente
n. 3C. No domingo 26 de fevereiro abriu-se o grande, limpo e asseado
açougue, denominado – Fama de S. Clemente – estabelecido na rua de
S. Clemente n. 3C, próximo à praia do Botafogo. Os moradores desta,
de S. Clemente, do Brocó, Real Grandeza, Azinhaga, Lagoa e suas ime-
diações encontrarão d’ora em diante na Fama de S. Clemente grande
porção de superior carne de vaca por preço sempre razoável, de 100
a 120 réis cada libra. Sendo estes novos estabelecimentos devidos aos
sacrifícios pecuniários que seus proprietários têm feito para garantir
à população um gênero de primeira necessidade por preço módico,
espera-se que a concorrência pública animará novos melhoramentos
projetados; posto que inteiramente estranhos a cálculos de interesse e
egoísmo, se só tendo por fm garantir a indústria fabril do país, e benefciar
o público.
27
(Grifo do anunciante)
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24
Neste mesmo número do Correio Mercantil havia a publicidade do Açou-
gue Monstro da rua da Assembléia nºs 2 e 4, do Açougue do Bom Gosto
da rua dos Latoeiros, canto da rua do Rosário, do Açougue Campestre
da rua do Catete nºs 201 e 203 (Campo do Machado), e do Açougue da
Marinha na rua da Saúde nº 2 (casa de 8 portas), canto do Largo da Impe-
ratriz. No fnal do reclamo, deste último, o anunciante acrescentava:
Os proprietários não se pouparam a fadigas e sacrifícios pecuniários
para montarem os novos estabelecimentos no pé em que se acham,
garantindo ao público um gênero de primeira necessidade por módico preço, a
despeito de todas as eventualidades e injustiças de prevenção.
28
(Grifo nosso)
Naquele momento, além de dois ou três curtumes, esta sociedade pos-
suía uma trintena de açougues, pequenos e grandes. Estes últimos, os
açougues monstros, inaugurados em vários bairros do Rio, chamavam a
atenção pela limpeza, boas instalações, luxo e organização: nos dias de
grande afuência, a fm de ordenar a venda, senhas eram distribuídas
aos clientes, que muitas vezes atingiam a cifra de “mais de cem pessoas
entre livres e escravos”.
29
E como dispunham de grandes quantidades de
carne, reservavam quartos inteiros para que, depois de acabada a carne
já cortada, fossem colocados à venda. Assim, havia sempre carne fresca
e não havia necessidade de se lançar mão da prática muito criticável de
fazer “reservas de carnes para a venda em horas e a pessoas determina-
das”.
30
Mas se faziam tudo certinho, porque haveria prevenção contra os
seus donos? E da parte de quem? Certamente, da parte dos açougueiros
que não resistiam a sua concorrência ou que a temiam.
Seu sucesso foi arrasador. A reação dos açougueiros foi muito tímida,
restringindo-se a inclusão nas listas do Almanak Laemmert.
31
Dessa forma,
o número de assinantes que, em 1854, não passava de 30, pulou para
81 no ano seguinte e já alcançava a cifra de 97 em 1857, para satisfação
dos seus editores. A partir daquele ano, a lista de talhos de carnes era
encabeçada pelos 30 “açougues monstros” do Sr. Francisco José de Mello
e Sousa (três na cidade de Niterói), talvez porque levassem um nome de
fantasia, o que era uma novidade no ramo. Só depois, então, na lista,
era que vinham os demais, segundo o nome dos seus proprietários, em
ordem alfabética.
Muita propaganda nos jornais, baixos preços e boa qualidade de serviço
e açougues espalhados por toda a cidade só eram possíveis porque o
Sr. Mello e Sousa e seus sócios dispunham de uma importante soma de
dinheiro – o capital social da frma era a enorme soma de 2.000 contos
de réis –, o que lhes permitia fazer “grandes gastos, entres os quais f-
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25
guravam as enormes luvas que se têm dado pelas chaves das casas, não
demandando de pouco quantitativo”, ou comprar os açougues que não
resistiam à sua concorrência e cujos proprietários preferiam renunciar
à sua autonomia, passando então a vender “carne por conta do mesmo
Mello e Sousa e Cia.” que, em certos casos, não hesitava em pagar seus
concorrentes, para que fechassem seus açougues e fossem “pôr outro
negócio”.
32
A Cia. de Curtume não só inovara as técnicas de venda e fzera uso da
propaganda diária de seus açougues no jornais (coisa inédita naquele
ramo de comércio) como também, para manter seus preços baixos e
constantes, ia buscar o gado “nas próprias fazendas de criação, em lugares
longínquos”, comprando diretamente do produtor. Em conseqüência,
recebera a adesão de mais de 70 criadores, porque não só oferecia me-
lhores preços, mas seus pagamentos eram pontuais, assegurando-lhes
maior rentabilidade.
33
Além disso, era a única a poder “ter invernadas
suas nas vizinhanças da Corte”, onde o gado magro podia repousar e
engordar tornando-se mais lucrativo, servindo de reserva para os mo-
mentos de carência devidos às “demoras dos boiadeiros, ou de outro
qualquer acidente”.
34
No entanto, a Cia., porque detinha (em 1857) 30 dos 97 açougues
anunciados no Almanak Laemmert
35
– quase 30% da distribuição da
carne fresca na cidade do Rio de Janeiro – e por ter-se organizado sob
a forma jurídica de sociedade anônima (fora a primeira no comércio a
varejo) caiu na malha da suspeição, antes mesmo de obter a aprovação
do governo imperial. Obteve apenas o estatuto jurídico de sociedade
anônima para suas atividades propriamente produtivas de preparo dos
couros, apesar das vantagens decorrentes destas práticas comerciais para
os consumidores cariocas de carne fresca, pois, “não consta que aufe-
rissem os lucros copiosos que o monopólio sói produzir”.
36
No entanto,
o governo imperial, atendendo às queixas e pressões dos açougueiros
descontentes, foi incapaz de compreender que tratava-se de uma de-
corrência natural de um mercado de livre concorrência, e preferiu ver
nela uma tentativa de monopólio à moda antiga, visando a supressão
dos demais concorrentes para a imposição de preços altos às carnes, e
vetou a sua organização em sociedade anônima.
Mas isto não mudava em nada a situação do Sr. Francisco José de Mello
e Sousa e seus sócios, que continuaram atuando como empresários inde-
pendentes, no mercado da carne verde (que haviam revolucionado). E
como havia espaço para todos numa cidade que crescia e cuja população
aumentava, e onde o hábito de comer carne, sobretudo de boi, parecia
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
26
ser generalizado, o número de talhos de carne só fez aumentar. Em 1860,
eles já eram mais de 120, dos quais 31 “monstros”, e, em 1870, alcança-
vam a cifra 200, dos quais apenas 10 “monstros”, que já não apareciam
agrupados no início da lista.
Assim, fcava evidente que o Sr. Francisco José de Mello e Sousa, Car-
valho e Cia. (forma como apareciam no mesmo almanaque em 1870)
havia percebido precocemente as características do comércio da carne
verde e como tirar partido delas. Sua atuação não matou a iniciativa dos
demais açougueiros que, ao contrário, viram-se estimulados a seguir o
seu exemplo. Assim é que, naquele mesmo número do almanaque, entre
os listados 162 proprietários de talhos de carne, 16 possuíam mais de
dois, ou mesmo um só ocupando várias casas: o Sr. Domingos Ramos de
Mello possuía oito açougues, dos quais três na mesma rua, e o Sr. Manoel
Gonçalves Pacheco, que anunciava ter “conduções para as carnes verdes”,
o que era uma novidade, tinha açougues na rua Uruguaiana nos nºs 85
e 87, 104, 106, 108 e 110 e no Largo da Sé nºs 6, 14 e 20.
37
O modernismo empresarial fora, sem dúvida, o grande trunfo de
Francisco José de Mello e Sousa e residia não apenas na organização
gerencial e em sua capacidade de reunir (numa só frma) todas as ope-
rações concernentes à distribuição de carne verde, desde o criador até
o consumidor, baixando o seu preço de custo, como também em suas
inusitadas técnicas de venda e propaganda cerrada nos jornais. Contudo,
seus anúncios eram, em muitos casos, mal elaborados e não inovaram
em nada a publicidade.
A grande inovação publicitária surgiu no ramo dos alimentos preparados.
Até 1854, a publicidade neste ramo da alimentação – botequins, padarias
e confeitarias, casas de pasto, restaurantes e hotéis – não fugia à regra.
Consistia basicamente em relacionar produtos vendidos, indicar seus
preços, gabar-se de sua qualidade, lembrar – quando era o caso – a sua
procedência ou fórmula estrangeira, e dar o endereço da casa. Contraria-
mente às pensões, que se identifcavam apenas por seus endereços, estes
estabelecimentos tinham, com freqüência, um nome de fantasia, como
Padaria Francesa ou a casa de pasto O Gambá do Saco do Alferes.
Rompendo com esta tradição, José de Sousa e Silva Braga, “o Braguinha”,
proprietário da Fama do Café com Leite, Praça da Constituição nº 1,
e do Botequim do Progresso, à rua da Prainha, inovou a propaganda.
Acompanhando a trajetória de seus anúncios no Almanak Laemmert, a
partir de 1844, quando já estava instalado neste mesmo endereço, sob o
nome de Café da Fama, vê-se que, se seus reclamos não fugiam à cartilha,
ao menos eram maiores e mais detalhados, aliás, como tantos outros,
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
27
especialmente, os de algumas confeitarias e padarias que, sem embargo,
constituíam minoria. Mas continuava preocupado em economizar no
gasto com anúncios, pois, neste, a seguir, abreviara as palavras “Consti-
tuição”, “esquina” e “rua” para não ter de pagar mais uma linha:
Café da Fama, José de Souza Silva Braga, tem sempre para almoço
superior café com leite, chá, chocolate, etc.; igualmente vende leite
puro de vaca, todos os dias de manhã; praça da Constit., 28 B, esq. da
r. do Sacramento.
38
Em 1849, parecia disposto a gastar mais e seu anúncio era mais completo.
Porém, em termos publicitários, não inovava em nada:
Café da Fama, José de Souza Silva Braga, praça da Constituição, 28 B,
esquina da rua do Sacramento. Tem para almoço bom café com leite,
chocolate, etc. Apronta bandejas de doces e tudo o que pertence a este
ramo de negócio; fabrica boa orchata em massa, feita de pevides de
melancias; e vende a varejo todos os dias de manhã leite de vaca de
superior qualidade.
39
Contudo, em 1854, seu botequim, que havia sido reformado, passara a
se denominar Fama do Café com Leite e, apesar de começar pela letra
f, ocupava o primeiro lugar na lista dos avisos de Cafés, Botequins, Bi-
lhares, etc. das páginas do Almanak Laemmert. Seu anúncio, que já não
economizava linhas nem espaços, ocupava o campo correspondente a
uma página, mas distribuído em duas, e era encabeçado pela gravura
de um anjo arauto que apregoava:
Botequim da Fama do Café com Leite de José de Souza e Silva Braga,
Praça da Constituição Esquina da Rua do Sacramento, 1.
Este estabelecimento muito espaçoso com um grande salão, com
seis portas, muito arejado, oferece agora muitos maiores cômodos
**

e atrai maior concorrência dos fregueses e amigos, e do respeitável
público em geral, pelas boas fazendas
***
, asseio, assim como pela boa
administração, de maneira que faz gosto ver que todas as pessoas que
ali entram saem satisfeitas. O proprietário não se poupa a despesa
alguma, como se esmera também em agradar aos seus fregueses e ao
generoso público, a fm que o seu estabelecimento se conserve um dos
**
Por “cômodos”, entenda-se conforto.
***
Por “fazendas”, entenda-se qualidade do material: mobiliário, louças, talheres, toalhas etc.
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28
principais da capital.
Os fregueses encontrarão sempre a toda hora almoços e ceias do gabado
café com leite, Dito de chá do melhor que há, Dito de chá preto do
melhor, Dito de chá, mate dito, Dito de chocolate dito, Cerveja, vinhos,
licores e refrescos de todas as qualidades, tudo do bom e do melhor.
Também se fabrica neste estabelecimento a verdadeira orchata
****
feita
de pevide de melancia. Esta orchata está acreditada há 12 anos: toda a
pessoa que usar dela para remédio, pode mostra-la aos médicos para
examina-la, para com mais facilidade usar dela. O seu proprietário é
José de Souza e Silva Braga, o único que a faz e responde por toda que
for feita, e que se venda nesta casa.
Faz também todas a qualidade de refrescos, assim como caju, laranja,
limão, lima, tanto em calda como em massa, com o gosto natural, só
vendo a qualidade faz gosto comprar. Vende-se cada garrafa sendo em
calda a 1$000, e em massa a 1$000 a libra; afança-se ser só feito de
calda do mesmo fruto e açúcar. Qualquer pessoa pode experimentar
antes de comprar.
40
Nesta propaganda, além de não se referir à venda de leite de vaca a
varejo, assumindo as características de um café moderno, ele retoma e
aprofunda uma prática publicitária corrente: o uso da narrativa numa
linguagem coloquial, entretendo-se com o leitor numa relação direta
e pessoal, através de frases do tipo: “pode mostra-la aos médicos para
examina-la”, “só vendo a qualidade faz gosto comprar”. Ainda que, neste
anúncio, é o anjo que fala e se interpõe entre ele – o proprietário – e o
leitor.
Ainda em 1854, foi publicada pela primeira vez sua propaganda em
versos, cuja autoria assumia, autografando-os, num diário importante
da Corte (Correio Mercantil), o mais lido depois do Jornal do Comércio – de
todos o de maior tiragem. Era o ano da inauguração da iluminação a gás
não só nas vias e passeios públicos mas no comércio e nas residências,
e ele aproveitou para roubar a cena e dirigir as luzes da ribalta sobre
si mesmo:
No grande botequim da Fama,
Hoje a gás iluminado,
Há o bom café com leite
Por todos apreciado.
****
Refresco preparado com pevides de melancia pisadas, água e açúcar.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
29
O salão que é mui extenso,
Aos outros inveja faz,
Principalmente depois
Da iluminação a gás.
O café que aqui se faz
É mui bom, não tem rival,
Melhor jamais pode haver,
E talvez não haja igual.
Grão por grão é escolhido
E torrado com primor,
Por isso que os fregueses
Lhe acham tão bom sabor.
E têm razão, oh se têm,
Eu mesmo digo – apoiado,
Porque desde que me entendo
Sempre fui desinteressado.
O eu querer muito freguês
Não é por ser interesseiro,
Porém sim p’ra ver à noite
A gaveta com dinheiro.
No ano seguinte, 1855, o seu anúncio já ocupava sozinho uma página
inteira do mesmo Almanak. E o anjo arauto que o encabeçava era muito
maior e havia tido a trombeta que sustentava na mão direita substituída
por uma faixa com os dizeres “Sem Mistura ou Usura”. A coroa de louros
da mão esquerda dera lugar a uma enorme xícara de café! Abaixo da
fgura angelical vinham o endereço, o nome do café em caracteres bem
grandes e, mais abaixo, as estrofes de Os Lusíadas, de Luis de Camões:
“Cantando espalharei por toda a parte, Se a tanto me ajudar engenho e
arte”, referindo-se, evidentemente, à sua própria astúcia publicitária. E,
depois de repetir o enunciado do aviso do ano precedente, acrescentava
no fnal que o seu café estaria aberto das duas horas da tarde em diante,
e fazia a sua propaganda, também, em versos, onde se assumia como o
“amigo Braguinha”:
A toda a hora do dia,
Mesmo ao toque d’alvorada,
Nesta casa encontrarão
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
30
Café com leite e torrada.
Café simples, sup’rior,
Também sempre encontrareis,
O seu preço será sempre
Meia xic’ra vinte réis.
Meu café faz bem à vista
Com ele já curo azia,
Mas não sou MONOPOLISTA
*****
Com a minha freguesia.
O que quero é agradar
À bela rapaziada,
Que nunca deixou de vir
À grande casa afamada.
Portanto, camaradinhas,
Aqui está sempre contente
O vosso amigo Braguinha
P’ra servir a toda a gente.
Pode ser que esta notícia
Faça azia a muita gente,
Mas eu digo que ao barbeiro
Vá só quem lhe doer o dente.
41
Neste reclamo, inaugura-se de vez a sua marca publicitária, “Bragui-
nha”, como devia ser conhecido na praça e como fcará conhecido o
seu estabelecimento – o “Café do Braguinha” – e sua maneira pessoal,
informal e irreverente de fazer propaganda, através de versos nos quais
divulgava as novidades de seu botequim num linguajar quotidiano e
depurado de qualquer sofsticação, fácil de ser recitado e lembrado. E
a relação intimista que desejava estabelecer com sua clientela virtual,
referida, neste caso, por “rapaziada” e “camaradinhas”, outra marca
publicitária sua, fcava defnitivamente impressa. Aí, avisa que servia a
meia xícara de café – o cafezinho (mas não era o único) – pela metade
do preço, para incitar seus clientes a tomá-lo várias vezes ao dia, retor-
nando sempre ao seu botequim, e para estimular a vinda de outros. A
preocupação com os concorrentes é evidente, bem como no anúncio
*****
Referindo-se, provavelmente, às acusações feitas a Francisco José de Mello e Sousa, proprietário dos
“açougues monstros”.
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31
publicado no mesmo Almanak, em 1856, sem dúvida, a razão principal
de sua campanha publicitária:
A Fama com suas asas,
Altiva, sempre a voar;
Dos invejosos os passos,
Protestou alfm cortar!
Fregueses do grande tom,
Vinde a Fama exp’rimentar,
O belo café com leite
Que o Braga sabe arranjar.
Dizem uns, que sabe a gaitas;
Outros dizem, está bem feito;
Que fará quando souberem
Que faz muito bem ao peito?
Acreditem, meus amigos,
Não julguem ser isto peta:
O café que aqui se faz,
É chamado – de chupeta!
O Braga cursou as aulas
Na vila de Macaé,
E tendo-se lá formado,
Hoje é doutor em café!
Também estudou chocolate,
Chá pretinho, limonadas;
Depois formou-se em manteiga,
Ovos quentes e torradas.
Portanto, caros fregueses,
Um doutor tão afamado,
Deve ser por todo o mundo
Com vantagem consultado.
Amigos, e verdadeiros amigos,
Cada qual sem distinção:
Aqui está o vosso Braga,
Disponham do – seu coração.
42
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
32
Diferentemente do Almanak Laemmert, que era anual, na imprensa quoti-
diana sua publicidade podia e devia ser mais ágil, e sua criatividade devia
apropriar-se mais rapidamente dos acontecimentos, aproveitando-se de
todas as ocasiões para aumentar as suas vendas, como nas datas festivas,
e tornar-se simpático ao público:
Ano Bom
O Braga, proprietário da Fama do Café com Leite, vem pelo órgão
da imprensa, único meio ao seu alcance, dar as boas festas aos seus
numerosos amigos e fregueses, a quem deseja boas saídas do ano velho
e melhores entradas no novo, dinheiro bastante para tomar café sem
conta, peso nem medida, e tudo quanto a musa antiga canta.
43
E acontecimentos não faltavam, naquela década de 1850, para alimen-
tar sua verve trocista! Pusera-se fm, desta vez de forma defnitiva, ao
comércio africano de escravos e perseguiam-se e deportavam-se os
grandes comerciantes de “carne humana”. Inaugurara-se o Banco do
Brasil, o de Mauá Mc-Gregor e o Mercantil, a Estrada de Ferro de D.
Pedro II, o novo prédio do Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia
e o magnífco edifício do Asilo de D. Pedro II, chamado de “palácio dos
loucos”. O serviço de bondes à tração animal fora colocado à disposição
da população que já podia ocupar os bairros mais distantes do centro
comercial; algumas ruas do centro da cidade receberam calçamento e
iluminação a gás. Foram anos marcados pela luta entre comerciantes
atacadistas e importadores, episódio conhecido como o Convênio,
44
que
muito afetou o comércio, da mesma forma que a Guerra da Criméia
fzera cair as vendas; de alta de preços dos alimentos da cesta básica e,
portanto, de carestia. Sobretudo, foi a década da endêmica epidemia da
febre amarela (ocasião em que foram criados os cemitérios públicos de
São João Batista e o do Caju) e a da cólera-morbus,
45
desastrosas, pois os
métodos de controle das medicinas alopática e homeopática decepcio-
naram, deixando patente que não diferiam muito da medicina popular
e dos curandeiros, sendo alvo de críticas acerbadas.
Nas folhas periódicas, de forma jocosa, “assustado ainda com o bicho ou
bicha (isso lá como quiserem) cólera-morbus”, Silva Braga enaltecia a
higiene de seus estabelecimentos, conforme o discurso médico em voga,
e também o luxo e o conforto resultantes do “progresso material” – pa-
lavra de ordem do discurso ofcial – no caso, iluminação a gás. Exaltava
os novos hábitos de vida e de consumo adotados pelos setores médios
urbanos emergentes, fruto do crescimento das atividades econômicas,
em particular do comércio e da malha urbana.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
33
Era exatamente dessa numerosa população, sobretudo masculina e
solteira, alimentada pela imigração européia, mas também formada de
funcionários públicos e profssionais liberais, que ele buscava atrair a
melhor parte. Sua proposta era a de possuir uma clientela mais esco-
lhida e refnada, capaz de pagar pela melhor qualidade do serviço que
lhe era oferecido:
A Fama do Café com Leite.
Agora que tudo é progresso,
Que tudo leva o seu fm,
Já não fca mal a alguém
O entrar em um botequim.
Muito mais quando asseado,
Pelo gás iluminado,
Comida gente do tom
A tomar do café do bom.
E o café já tem fama
Em todo e qualquer lugar,
Da fama do seu café
Que faz gosto se tomar.
Nele há café, torradas,
Sem mistura o leite puro,
Chá, o bom chocolate,
Pão, biscoito sem ser duro.
Boa roda entra de tarde
Para os cafés tomar;
Faz gosto estar numa mesa
Com tal gente a conversar.
Aqui entra o deputado,
E também o senador;
Entra o padre, o militar,
Escrivão, juiz, doutor.
Entra muita gente boa
Que faz honra a esta casa;
Desordeiros, malcriados,
Na Fama não fazem vaza.
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Porque pronto cá na Fama,
Para servir ao freguês,
Anda entre seus caixeiros
O Braga bem cortês.
46
Mas o Silva Braga não estava sozinho nesta lide; outros proprietários de
botequins melhoravam as condições de seus estabelecimentos a fm de
trazerem para si uma freguesia requintada e de maior poder aquisitivo,
e usavam artifícios para atraí-la, oferecendo-lhe outras formas de lazer, a
fm de fazê-la permanecer mais tempo e consumir mais. Eis a propaganda
do Café da Suíça, situado à rua da Assembléia nº 57:
Dois bilhares. De dia 400 réis – De noite 800 réis.
Haverá sempre café fresco das 8 horas da manhã até às 10 horas da
noite.
Quartas-feiras e sábados haverá as afamadas lingüiças de fígado de
porco por porções.
Domingos, das 10 horas da manhã ate às 4 horas da tarde, haverá
bouillons.
******
Cerveja imperial e nacional a 320 réis a garrafa. Toda qualidade de
vinhos em garrafas e meias garrafas.
Se cuidará muito em merecer a confança do respeitável público pelo
pronto e real serviço.
Faz-se ciente ao mesmo tempo que na mesma casa estão expostos uns
quadros de pintura de paisagem, etc., etc, e convida-se todos os amantes
e artistas a vir julgar.
47
Sensível às transformações sociais, percebeu no movimento, ainda que
lento, de inserção da mulher no espaço público, a ocasião para incluí-la,
ainda que sempre acompanhada da família. Mas trazer a mulher hones-
ta, de família, para o espaço masculino dos botequins e até mesmo dos
restaurantes será uma árdua tarefa. Até então, e durante muito tempo
ainda, as únicas mulheres que freqüentavam os botequins, e mais pre-
cisamente, as vendas, eram as “mulheres públicas”, escravas e mulheres
pobres. E esses locais eram conhecidos da polícia como ambiente de va-
dios, arruaceiros, brigões e prostitutas, de gente de hábitos reprováveis
******
Sopas.
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35
que usava um linguajar chulo e grosseiro. Um protesto publicado no
Jornal do Comércio, em 1864, nos pode dar uma idéia de como eram as
casas de pasto e as tavernas populares da época:
As casas de pasto do troço
*******
e as tavernas. Recomenda-se à polícia
e junta de higiene as imundas casas de pasto e tavernas que por aí
formigam, que envenenam quotidianamente as classes operárias. Não
existe rua que não tenha imensas dessas pocilgas; onde correm parelhas
a porcaria com a imoralidade. Ass.: Argos.
48
Em vista disso, não era de se estranhar que o preconceito contra tais
estabelecimentos afastasse deles as “famílias honestas” e os “homens de
bem”. Daí haver criado uma “sala por cima do seu café unicamente para
se receber famílias para tomar sorvetes ou qualquer outra coisa”.
49
Porém,
criar novos ambientes com mobiliário moderno e louças de qualidade
custava muito caro, sobretudo quando a perda de material por quebra
era muito grande, como, em tom de pilhéria, lembrava:
Agora que o ano velho
Está quase p’ra fndar,
Vai o Braga aos seus fregueses
Tudo, tudo declarar.
Pelo relatório junto,
Que submisso apresento,
Vereis da casa afamada
O contínuo movimento.
É do meu dever, senhores,
Não omitir coisa alguma,
Para que fqueis ao fato
De tudo, de tudo... em suma.
Principiarei por dizer-vos
Que esta casa vive em paz
Depois que as ruas fcaram
Iluminadas a gás.
Antes disto (mas já foi),
Era um pouco incomodada
Cá por certos sujeitinhos...
Não de gravata lavada.
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Com a guerra da Criméia
Também a Fama sofreu,
Os sorvetes não correram
Pouco café se bebeu.
De café trezentas pipas
Foi o que se fez apenas;
Mas podia ganhar muito
Se as xíc’ras fossem pequenas.
Porém elas são maiores
Do que um vidro homeopático...
Mas que importa perder
Com um povo tão simpático?
Que o freguês vá satisfeito
Para de novo voltar,
É o que o Braga deseja;
Tudo o mais se há de arranjar.
Durante o ano quebraram-se
Xícaras fnas – vinte mil;
Dez mil fcaram rachadas
Que não valem um ceitil!
Dois mil e seiscentos bules
Que mandei vir do Japão,
Ficou tudo em cacarecos
Espalhados pelo chão.
Dez mil e quinhentos pires,
Com seis grosas de leiteiras
Foram quebradas num dia
Com sete mil cafeteiras.
Dez grosas de facas fnas
Com seus cabos de veado,
Apenas existe um cento,
E esse mesmo maltratado.
***** Casas de pasto de baixa categoria e imundas.
Manteigueiras, paliteiros,
Colheres de prata de lei,
Perdem-se tão grande soma,
Que com certeza, não sei.
Mas com todas estas perdas,
No meu balanço vereis,
Que inda me fcou de lucro
Uma pataca e dez réis!!
Com estes cobres eu vou
Fazer sortimento novo,
Para servir, como sempre,
À gente nobre e do povo.
Aqui mesmo vou pedir
Aos meus ilustres fregueses,
Para que venham à FAMA
Por dia oito ou dez vezes.
Quanto mais café tomarem
Mais saúde lograrão;
E os cobres vêm p’ra gaveta
Tin...tin...tin...tirilin...tin...tão.
“Limpar o ambiente” da presença dos escravos, das camadas pobres de
brasileiros, na maioria libertos, de imigrantes, e muito particularmente
dos marinheiros estrangeiros, afeitos às bebidas alcoólicas e dados a
grandes bebedeiras, tornara-se uma condição sine qua non para a reno-
vação da clientela dos cafés e restaurantes. E os proprietários do Passeio
Campestre advertiam: “Não serão admitidas no estabelecimento pessoas
indecentemente vestidas”.
50
Por isso mesmo, apesar da venda de cerveja
e vinho, em sua prop aganda o Braga insiste no consumo de café, cho-
colate, chá e refrigerantes, bebidas que estavam muito mais de acordo
com os hábitos cariocas, em que os “homens de bem” eram conhecidos
por seus hábitos abstêmios e sóbrios.
Seus preços para as refeições da manhã (almoço) e da noite (ceia) pare-
cem ser relativamente elevados, pois cobrava 240 réis por um café da
manhã, consistindo em pão com manteiga e café com leite,
51
enquanto
nos anos 1870, o Hotel Santo Antônio servia um “almoço de garfo” com
dois pratos, pão e café, por 230 réis.
52
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Estes traços de sociabilidade inovadores, com aspiração a criar um es-
paço elegante e fno para conquistar uma clientela feminina, são os que
chamam de imediato a atenção para os anúncios do comerciante José
Sousa e Silva Braga. Sem embargo, seus anúncios, como todos os demais
durante o período monárquico, nunca dialogam direta e pessoalmente
com a mulher, de quem sequer fazem referência ao corpo, nem mesmo
os avisos que tinham a ver especifcamente com a clientela feminina.
Eles dirigem-se às senhoras, abstratamente, e referem-se ao produto,
não às suas fantasias:
Colete para Senhora. A viúva Maria das Neves, discípula e ex con-
tramestre de Mme. Charavel, participa às Exmas. senhoras e às suas
freguesas que tem sempre coletes perfeitamente acabados, e faz sob
medida qualquer encomenda com prontidão e elegância, os únicos hoje
reconhecidos como os melhores neste gênero: todos os seus coletes são
dos modelos, dos de Mme. Charavel, manufaturados na sua fábrica, à
rua do Ouvidor n .79, 1º andar.
53
Não obstante fornecer um rico material para a descrição dos hábitos de
consumo e de lazer nos botequins do Rio de Janeiro, o que mais nos
interessa é a originalidade publicitária do Braguinha: “Cantando espa-
lharei por toda a parte.”
As colunas que sustentam
A Fama com galhardia,
É ter sempre bom café
E uma nobre freguesia.
Nesta afamada casa
Já do público conhecida,
Abriu-se uma nova sala
De primores enriquecida.
Nesta lindíssima sala
Com gosto bem preparada,
Para tomar café
Senhoras terão entrada.
Com luxo, gosto e asseio
É tudo o que ali se vê,
E entra a se recrear
Quem por acaso não crê.
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O Braga a nada poupou-se,
Tudo o que fez é bom;
É um salão-toilette
Ora gente do grande tom.
A toda hora da noite,
A toda hora do dia,
Deve haver neste salão
Primorosa companhia.
Agora, sim, no Rocio,
Na Fama tão decantada
Para se tomar refrescos
Há sala já preparada.
Nem se precisa p’ra isso
Ir à rua do Ouvidor,
Há na Fama do Café com Leite
Um salão de primor.
O Braga quer freguesia
De gente limpa e asseada,
Que p’ra isso o salão
Foi com luxo preparado.
54
Foi do ponto de vista da propaganda que Silva Braga mais inovou. Rapi-
damente compreendeu que para melhorar a qualidade de seu estabele-
cimento, devia antes de mais nada conquistar uma clientela que tinha o
costume – trazido do período colonial por infuência da vida rural –, de
dormir cedo e realizar suas refeições em casa com a família. Silva Braga
via no espaço público, fora do espaço masculino do trabalho, uma zona
de sombra, freqüentada por marginais e delinqüentes, suspeita de vícios
e pecados. E o melhor meio de tornar esse espaço atraente para a classe
média e alta era fazer uso da publicidade nos jornais, principal meio de
comunicação da época. Nela, de forma brincalhona e amável, valorizava
seu botequim, tomando como medida o tamanho da inveja e mal-estar
que supunha provocar em seus concorrentes (também uma forma de
manter certa cumplicidade com os clientes virtuais), e, ao gabar-se da
qualidade do seu serviço (incluindo o conforto do estabelecimento) e
de suas bebidas (preparadas por pessoal competente), justifcava seu
preço. Aliás, a forma mais efciente de afastar o pobre e selecionar sua
clientela.
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Sua estratégia parecia estar rendendo lucros, pois, em 1856, procurava
por pessoal de serviço das mesas
55
e ajudante na cozinha,
56
inaugurando
novo café, o Botequim do Progresso, na rua da Prainha nº 35, que assim
era saudado:
Vinte e seis do lindo agosto
Dia de tanta ventura,
Destinado para ser
Do Progresso a abertura.
O Braga dono da Fama
Convida a sua freguesia,
Para tomar o café
À Prainha neste dia.
57
É claro que Silva Braga, além de não estar sozinho, contou com as mu-
danças econômicas e sociais da época, que avançavam a passos largos,
mas, como ninguém, soube tirar partido delas. Afnado com seu tempo
e sensível às transformações, procurou captar os ritmos da mudança e
as novas formas de sociabilidade urbanas, cada vez mais sintonizadas
com o mundo capitalista e os novos padrões de consumo burgueses,
aderindo a elas:
Mania de Quadra.
De manhã, logo cedinho,
Os jornais do dia ler,
Fumar um bom charutinho,
Café com leite beber.
À mesa da Fama
Levar um quarto de hora,
Lendo os debates da Câmara,
Não pescando nada, embora.
Voltar depois às dez horas
Para um almoço chuchar,
E o belo café com leite
E torradas desfrutar.
Ir depois p’ras galerias
Do nosso bom parlamento,
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Ouvir os grandes debates,
Para o nosso forescimento.
Se for dia de calor,
Ao sair da galeria,
Deve-se tomar orchata,
Remédio bom para azia.
À tarde voltar bem cedo,
Ver na Fama tanta gente
P’ra tomar o bom café,
Ver as mesas com enchente!
Café simples e com leite
Tudo se deve tomar;
E após, logo um charuto
Aí mesmo saborear.
Ler depois o suplemento
Do Jornal, e o folhetim,
Desfrutar tudo o que é bom
Da Fama do botequim.
58
Tanto em sua propaganda quanto em seus botequins, colocava-se no
centro do espaço virtual ou real: da mesma maneira que, muito cortês,
circulava entre os seus clientes enquanto eram servidos pelos garçons,
os quais vigiava, também estava sempre presente nos versos de seus re-
clamos, estabelecendo uma relação de caráter intimista do “Braguinha”
com sua clientela:
Fama do Café com Leite
O grande salão da Fama
Vestiu camisa lavada
Tem chapéu e calça nova
E botina envernizada.
Agora pode o freguês
Tomar café com franqueza,
E ler as folhas do dia
Que andam por cima da mesa.
O Braga não se descuida
Em agradar os fregueses,
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Para que eles venham sempre,
Por dia quatro e seis vezes
O café daqui avante
Há de ser feito a vapor;
E depois deste processo
Leva um rufo de tambor.
O chazinho e chocolate,
Feito ao som de um rabecão,
Há de ser acompanhado
Por um belo violão.
São feitas por minuetes
As torradas de pão fno;
O mate por ser mais grosso,
Levará toque de sino.
Os caixeiros sempre alertas,
Hão de um novo hino entoar
Aos fregueses que deixarem
Os cobrinhos cá fcar.
Lá enquanto ao vintenzinho
Que o Braga fez aumentar,
No tempo em que nos achamos
Não são coisas de estranhar.
O vintém que se aumentou
É por causa do tenor
Que está fazendo o café
Com rufnho de tambor.
Portanto, caros fregueses,
Não reparem no aumento,
Porque bem sabem que as modas
Andam sempre com o tempo.
59
Pelo número e tamanho dos anúncios que fez publicar nos jornais a par-
tir de 1854, e, anualmente, no Almanak Laemmert, de 1855 em diante, é
possível adivinhar que vira no emprego sem parcimônia da propaganda
o melhor meio de atrair uma clientela seleta e eliminar seus concorrentes.
Como ele mesmo afrmava, em verso: “A Fama tem remédios para curar
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todas as moléstias, menos para curar más línguas, e tapar a boca dos in-
vejosos”.
60
Irreverente, buscava inspiração no quotidiano, o que aparenta
ser, já nessa época, uma atitude do “fuminense”, como era chamado o
carioca. Por exemplo, diante do fracasso da medicina ofcial, aconselhava
“os senhores médicos tratar de se formarem em outra coisa, porque pela
medicina não fazem nada”, e colocava à disposição do público:
Chá preto, azul, amarelo, verde, etc., etc. Chocolate homeopático, alo-
pático, hidropático, e curandeirático charlatônico; tudo isto aprovado
pelos doutores – Ginipá (francês), Ginimini (italiano), Ginimicoff (russo),
Gimicamiesse-arling (inglês), Giminiaasca (alemão).
61
Quanto às táticas utilizadas para conquistar uma nova freguesia ou au-
mentar o consumo da existente, fazendo com que permanecesse mais
tempo em seu estabelecimento, e voltasse várias vezes no mesmo dia,
afora a criação de um ambiente limpo, arejado, bem iluminado e bem
decorado, mesinhas bem postas, jornais do dia sobre as mesas à disposição
dos fregueses, mesa de bilhar, bebidas de qualidade, além do cafezinho,
e garçons solícitos, passou a disponibilizar o serviço de entrega do café
da manhã, bem cedinho, na casa dos fregueses que o encomendassem,
e, da mesma maneira que alguns restaurantes, a fornecer “de sua casa
ceias de café, de chá e chocolate, licores, refrescos, doces e enfm de
tudo para os camarotes nas noites de espetáculo”,
62
sempre pelos mes-
mos preços, àqueles que o desejassem e que fzessem a encomenda com
antecedência:
[...]
Desde já peço aos fregueses
Que quiserem cá da Fama
Tomar o belo café
De manhã bem cedo na cama.
Que mandem buscar depressa,
Pois os que querem são tantos,
Que os caixeiros muitas vezes
Saltam por cima dos bancos!
Lá n’Alfândega há trabalho:
A Fama não fca atrás;
Mas tudo isto é porque o Braga
Sempre foi muito rapaz.
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E se acaso duvidarem
Ide a ele perguntar,
Pois tudo o que aqui vos diz
Está pronto a sustentar.
E Vós, nobres fazendeiros,
Vendei cafés baratinhos
Para ver se o amigo Braga
Ganha mais alguns cobrinhos
Para poder sustentar
Meia dúzia de flhinhos.
N. B. – Os caixeiros da Fama não vão oferecer nada aos camarotes,
porém encarregam-se de levar lá, com toda a prontidão e asseio, as
encomendas que se lhe fzerem.
63
De temperamento brincalhão, em sua propaganda, o Braguinha
transmite otimismo, alegria, afeto e intimidade, sempre num linguajar
coloquial, como se quisesse reproduzir o ambiente descontraído de seu
botequim:
Vinde à Fama do Braguinha
Vinde o bom café tomar;
Senão rogo-lhe uma praga
Que jamais há de casar.
Mas quem vier
Café tomar,
Com moça bela
Há de casar.
[....]
64
E se tomarmos por parâmetro de sucesso o gasto que fazia com publi-
cidade nos jornais e no Almanak Laemmert, podemos dizer que tudo
correu muito bem até 1866, quando, pela primeira vez, não aparece na
lista de Notabilidades do Almanak. Naquele ano, seu anúncio reduziu-se
a apenas duas linhas nas quais, além do nome e endereço do proprie-
tário, dizia que o estabelecimento possuía bilhares, mas sem especifcar
quantos, porque não deviam ser muitos, talvez não mais que dois. E
assim continuou até 1870, quando seu aviso, sempre de duas linhas,
aparece com o nome fantasia de Café do Braguinha e a nota remissiva à
seção Notabilidades, onde, no entanto, seu anúncio não consta. No ano
seguinte, o último em que aparece na lista do Almanak Laemmert, o seu
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reclamo repetia-se, mas já sem nenhuma referência a Notablilidades.
E, desde 1870, um certo Luis Sergio Pinto de Moraes aparecia à frente
do Nova Fama do Café com Leite, sito à rua do Hospício nº 141. Talvez
houvesse comprado do Silva Braga o nome de seu botequim.
Desvendar o que aconteceu com José de Souza da Silva Braga e seu café
não é objeto desta pesquisa. No entanto, pela leitura do Almanak Laemmert,
é possível levantar algumas conjecturas, ainda que apressadas, das quais
a mais plausível é: o Silva Braga não suportou a concorrência dos demais
cafés, alguns mais bem localizados, por estarem mais próximos às ruas
mais chiques, como a do Ouvidor, e dispondo de maior conforto que o
seu, e sobretudo maiores atrativos, ou seja, maior número de mesas de
bilhar que, a crer nos anúncios da época, era a coqueluche da moda, e
até mesmo, em 1860, o boliche: “Preugel’s Billiards and Bowling Sallons”.
65

Desde 1854, os avisos de cafés com mesas de bilhar neste almanaque eram
muito numerosos. Do total de 25, 16 possuíam bilhar, e em dois deles, o
Café Ecremont e o Café Lusitano, havia cinco mesas, e no famoso Café
Pharoux (no hotel de mesmo nome) havia quatro, desde 1844, quando
era o único a anunciá-los.
66
Mas uma mesa de bilhar nova custava tanto quanto um escravo: “Ven-
dem-se dois bilhares por 500$, que custaram há cinco anos 2:200$, têm
todas as pertenças; na rua de D. Manoel n. 60”.
67
O que valia dizer que,
para instalar um café com muitas mesas de bilhar, era preciso dispor
de muita grana!: “Café Imperial, 18 bilhares, de Edmundo Miche, rua
Uruguaiana n. 86, esquina da rua do Ouvidor”.
68

Quem sabe, o Braguinha não teria podido acompanhar o progresso e
a moda, ou seja, a sofsticação da sociedade da Corte, quando talvez já
não fosse de bom tom beber apenas “O café torradinho,Torrada, boa
manteiga, Ou um belo biscoitinho”,
69
mas, freqüentar as luxuosas e re-
quintadas confeitarias e restaurantes, alguns franceses, que recomendava-
se às pessoas fnas e de bom gosto, sobretudo os da rua do Ouvidor e
adjacências:
Hôtel Restaurant des Frère Provençaux.
70
De todos os estabelecimentos
de primeira ordem no Rio, nenhum há que mais chama a atenção e
reúna a for da sociedade e do comércio do que o dos Frères Proven-
çaux, Rua do Ouvidor, entrada pela rua dos Latoeiros n. 83
Disposto com toda a elegância e luxo europeu, tão notável pela exati-
dão, como pelos cuidados do serviço, o Hotel des Frères Provençaux
se recomenda por todos estes títulos ao viajante e ao estrangeiro. A
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modicidade dos preços não tem comparação com o bem estar, o luxo
e o confortável. Na cidade preparam-se de encomenda almoços, jan-
tares, soirées, etc.
71
De qualquer forma, ninguém soube melhor do que o Braguinha fazer
uso da publicidade, quando as técnicas tipográfcas eram ainda muito
precárias, tirando partido das palavras e até mesmo da gravura. Ele foi
o único a manejar sistematicamente
72
a linguagem em função da pro-
paganda e a manipular as gravuras-padrão fornecidas pelos clichês das
gráfcas dos jornais, que, no mais das vezes, nada diziam a respeito do
produto ou serviço divulgado, como era o caso do anjo arauto, que não
tinha nada a ver com o seu botequim, até o momento em que colocou-
lhe numa das mãos uma faixa com os dizeres “Sem mistura nem usura”
e, na outra, uma enorme xícara de café! E foi por isso que hoje, 150
anos depois,
A Fama do Café com Leite
É por todos conhecida,
A lembrança do Braguinha
É por todos aplaudida.
73
Résumé
Celui qui lit, à présent, les petites annonces des journaux de Rio de Janeiro
de la deuxième moitié du XIX
e
siècle, s’étonne certainement de la relative
indigence de la publicité à l’époque. Son but était alors de rompre la carcasse
des habitudes coloniales d’autosuffsance des familles, qui constituaient un
marché potentiel pour la production marchande ; la concurrence entre les
entreprises de même type venait en deuxième lieu. D’où probablement le
manque de créativité qui les caractérise.
La grande innovation publicitaire a surgi dans la branche des aliments
préparés avec José de Sousa e Silva Braga, plus connu comme « Bragui-
nha », propriétaire du café Fama do Café com Leite. Très vite, il a compris
que pour améliorer la qualité de son établissement et pour mieux sélectionner
son public, il devait se servir de la publicité dans les journaux, alors le
principal moyen de communication.
En phase avec son temps et sensible à son évolution, il chercha à saisir les
rythmes des changements et les nouvelles formes de sociabilité urbaines, de
plus en plus en harmonie avec le monde capitaliste et les nouveaux paradig-
mes de consommation bourgeois, en y adhérant. Mieux que personne, il a su
se servir de la publicité, alors que les techniques typographiques étaient très
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
47
précaires, tout en tirant le meilleur parti des mots et même de la gravure.
Mots-clefs : publicité et techniques de vente ; alimentation ; petites annonces ;
boucheries « monstres » ; cafés; Fama do Café com Leite.
Notas
1
Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 28 jan. 1854. Cabeçalho da p. 1. Doravante CM.
2
EWEN, Stuaart. Consciences sous infuence: publicité et genèse de la societé de consommation. Trad. Gérard
Lagneau. Paris: Aubier Montaigne, 1983.
3
Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 01 jan. 1887. Anúncios, p. 8. Doravante JC,
4
JC, 07 mar.1857. Anúncios, p. 4.
5
A prova do sucesso desta resistência está no fato de o feijão e de a farinha de mandioca permanecerem até
hoje como alimentos fundamentais da mesa do carioca, ainda que venham perdendo espaço ultimamente.
6
KIDDER, Daniel P. Reminiscências de viagens e permanências no Brasil (Rio de Janeiro e Província de São Paulo):
compreendendo notícias históricas e geográfcas do Império e das diversas províncias. São Paulo: Livraria
Martins Editora: EDUSP, 1972. p. 191-192.
7
Não obstante, os escravos eram empregados na sua confecção doméstica ou nas padarias, como pode se
verifcar nos anúncios de escravos padeiros.
8
KIDDER, Daniel P. Reminiscências de viagens e permanências no Brasil (Rio de Janeiro e Província de São Paulo):
compreendendo notícias históricas e geográfcas do Império e das diversas províncias. São Paulo: Livraria
Martins Editora: EDUSP, 1972. p. 100.
9
JC, 01 mar. 1857. Anúncios, p. 4.
10
Provavelmente, há erros de impressão no texto e a ortografa correta devia ser moulé, que signifca pão
assado em fôrma, e navettes que são pãezinhos feitos com leite. Quanto às palavras de Trèse e a Esse deviam
designar as cidades alemãs de Trèves e de Essen. Estes erros tipográfcos sugerem a pouca intimidade dos
tipógrafos com a terminologia estrangeira, especialmente a culinária, ou então a precária alfabetização dos
irmãos Estruc (JC, 14 jan.1849. Anúncios, p. 3).
11
JC, 12 jan. 1851. Anúncios, p. 4.
12
CM, 24 maio 1856. Anúncios, p. 3.
13
CM, 02 maio1856. Anúncios, p. 4.
14
JC, 03 jan. 1880. Anúncios, p. 6.
15
A respeito da falta de especialização e da concorrência travada entre padarias, confeitarias, casas de pasto
e cafés: EL-KAREH, Almir C. Cozinhar e comer, em casa e na rua: culinária e gastronomia na Corte do
Império do Brasil. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 33, p. 91-92, 2001.
16
JC, 25 abr. 1857. Anúncios, p. 4.
17
JC, 02 mar. 1857. Anúncios, p. 4.
18
EL-KAREH, Almir C. Famílias adotivas, amas-de-leite e amas-secas e o comércio de leite materno e de carinho
na Corte do Rio de Janeiro. Gênero, Niterói, v. 4, n. 2, 1. sem. 2004.
19
CM, 16 maio 1856. Anúncios, p. 3.
20
CM, 13 set. 1856. Anúncios, p. 3.
21
JC, 08 fev. 1857. Os empregados públicos, assinado: C., publicações a pedido, p. 2.
22
No entanto, estes serviços eram em sua maior parte, ainda, realizados pelos escravos domésticos, o que devia
diminuir em muito o impacto da elevação de seus preços.
23
Marquês de Olinda. Conselho de Estado IV. Ata de 19 jul. 1855, p. 287.
24
VON KOSERITZ, Karl. Imagens do Brasil. São Paulo: Livraria Martins Editora: EDUSP, 1972. p. 135
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
48
25
IGLÉSIAS, Francisco. Atas do Conselho de Estado. v. VI, 1865-1867. Brasília, DF: Centro Gráfco do Senado
Federal, 1978. Prefácio, p. XXXIX.
26
Marquês de Olinda. Conselho de Estado IV. Ata de 03 abr. 1855, p. 241.
27
CM, 18 out.1856. Anúncios, p. 4.
28
CM, 18 out. 1856. Anúncios, p. 4.
29
Marquês de Olinda. Conselho de Estado IV. Ata de 03 abr. 1855, p. 255.
30
Marquês de Olinda. Conselho de Estado IV. Ata de 03 abr. 1855, p. 257.
31
ALMANAK administrativo, comercial e industrial (Almanak Laemmert). Rio de Janeiro: [s.n.], 1844-1889.
Doravante Almanak Laemmert.
32
Marquês de Olinda. Conselho de Estado IV. Ata de 03 abr. 1855, p. 256.
33
Marquês de Olinda. Conselho de Estado IV. Ata de 03 abr. 1855, p. 256.
34
Visconde de Sapucaí, Relator da Comissão dos Negócios do Império. Conselho de Estado IV. Ata de 03/04/1855,
p. 250-251.
35
Almanak Laemmert, 1857. Talhos de carne e açougues, p. 619-621.
36
Dr. João Baptista dos Santos. Conselho de Estado VI, Seção dos Negócios do Império. Ata de 27/06/1867, p.
322-323.
37
Almanak Laemmert, 1870. Talhos de carne e açougues, p. 610-611.
38
Almanak Laemmert, 1844. Hotéis, casas de pasto, cafés, etc., p. 250.
39
Almanak Laemmert, 1849. Cafés, botequins, etc., p. 335.
40
Almanak Laemmert, 1854. Cafés, botequins e bilhares, p. 514-515.
41
Almanak Laemmert, 1856.
42
Almanak Laemmert, 1856. Cafés, botequins e bilhares, p. 609
43
CM, 01 jan. 1857. Anúncios, A Fama do Café com Leite, p. 3.
44
EL-KAREH, Almir C. O convenio: a queda de braço entre os comerciantes importadores e atacadistas em
meados do século XIX no Rio de Janeiro. In: REUNIÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PESQUISA
HISTÓRICA, 20., 2001, Curitiba. Anais... Curitiba, 2001.
45
Almanak Laemmert, 1857. Notabilidades, p. 93.
46
CM, 15 jun. 1856. Anúncios, p. 3.
47
CM, 22 jun. 1856. Anúncios, p. 3.
48
JC, 02 jan.1864. Anúncios, p. 4.
49
CM, 28 fev. 1857. Anúncios, A Fama do Café com Leite, O teatro S. Pedro, p. 4.
50
CM, 25 maio1856. Anúncios, p. 4.
51
CM, 07 jun. 1856. Anúncios, Fama do Café com Leite, p. 4.
52
JC, 03 jul. 1870. Anúncios, p. 6.
53
JC, 01 out. 1887. Anúncios, p. 4.
54
CM, 29 jun.1856. Anúncios, A Fama do Café com Leite, p. 3.
55
“Precisa-se de mais uma pessoa para o serviço das mesas; na Fama do Café com Leite”. CM, 06 maio 1856.
Anúncios, p. 2.
56
“Precisa-se de um ajudante para cozinha, prefere-se brasileiro, para a Fama do Café com Leite”. CM, 30
ago. 1856. Anúncios, p. 3.
57
CM, 06 jul. 1856. Anúncios, Botequim, rua da Prainha, n. 37.
58
CM, 20 jul. 1856. Anúncios, A Fama do Café com Leite, p. 3.
59
CM, DATA. Anúncios, A Fama do Café com Leite, p. 3.
60
Almanak Laemmertt, 1857. Cafés, botequins e bilhares, p. 94.
61
Almanak Laemmert, 1857. Cafés, botequins e bilhares, p. 94.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 13-49, 2. sem. 2006
49
62
Almanak Laemmert, 1856. Cafés, botequins e bilhares, p. 608.
63
Almanak Laemmert, 1857. Cafés, botequins e bilhares, p. 94.
64
CM, 14 dez. 1856. Anúncios, p. 3.
65
Almanak Laemmert, 1860. Cafés, botequins, bilhares etc., p. 677.
66
Vale a pena notar que, desde 1850, no índice do Almanak Laemmert aparecia “Cafés, botequins, bilhares,
etc”.
67
JC, 30 out. 1864. Anúncios, p. 4.
68
Almanak Laemmert, 1871. Cafés, botequins e bilhares, p. 616.
69
CM, 06 jul. 1856. Anúncios, A Fama do Café com Leite, p. 3.
70
Já no ano de 1856, eles anunciavam ao público estarem empregando um cozinheiro do famoso restaurante
dos Frères Provençaux de Paris: “Les frères Guigou (de Marseille) ont l’honneur de prévenir le public
et particulièrement leurs amis et connaissances que, dès le 1er. Avril courrant, ils ont ouvert leur nouvel
établissement. Un salon richement décoré et dans un nouveau style et bien aéré, les mets les plus variés et
recherchés, apprêtés par un des premiers chefs (des Frères Provençaux, de Paris) […] ” (CM, 16 maio1856.
Anúncios, p. 3).
71
JC, 07 mar. 1857. Anúncios, p. 4.
72
JC, 30 maio 1857. Anúncios, p. 4. Neste periódico, aparece uma propaganda em verso de um certo Guima-
rães, com loja na rua do Sacramento nº 13, portanto não longe do botequim da Fama do Café com Leite,
onde o proprietário contentava-se em divulgar suas roupas feitas. A falta de originalidade e de conteúdo
social crítico contrasta e, ao mesmo tempo, valoriza as qualidades publicitárias do Braguinha.
73
CM, 06 jul. 1856. Anúncios, A Fama do Café com Leite, p. 3.
Vladimir Safatle
*
Identidades flexíveis como dispositivo disciplinar:
Algumas hipóteses sobre publicidade e ideologia
em sociedades “pós-ideológicas”
Trata-se de expor os resultados de uma pesquisa rea-
lizada em 2006 a respeito do que podemos chamar de
imaginário de consumidores globais veiculado pela
publicidade de circulação mundial. Tal imaginário
foi analisado em duas de suas representações centrais,
a saber, as representações vinculadas à imagem do
corpo e à sexualidade. As conseqüências de tal análise
apontam para uma descrição do modo contemporâneo
de funcionamento da ideologia no interior da retórica
de consumo.
Palavras-chave: publicidade; corpo; sexualidade;
ideologia; ironia.
* Vladimir Safatle, Profes-
sor do Departamento de
Filosofa da Universidade
de São Paulo, pesquisador-
bolsista do CNPq. Autor de
A paixão do negativo: Lacan e
a dialética (Unesp, 2006).
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
52
Durante o ano de 2006 foi realizada uma pesquisa no intuito de analisar
o processo de formação do imaginário de consumidores globais, ou seja,
consumidores de marcas de produtos distribuídos mundialmente que
se comunicam de maneira relativamente uniforme em todos os locais
onde atua.
1
Partiu-se da hipótese de que a efcácia da comunicação de
tais marcas pressupõe a existência de consumidores capazes de codifcar
mensagens de maneira idêntica a partir de conjuntos de referências cul-
turais simétricos. Tal comunicação publicitária de marcas globais prevê
a existência de um conjunto de representações sociais partilhadas por
consumidores em várias partes do mundo. Podemos mesmo falar, neste
caso, da existência de um imaginário global de consumo e de sociali-
zação. Ele nos coloca diante de um setor privilegiado dos processos de
reprodução simbólica das estruturas sociais.
Tal imaginário seria composto de várias representações sociais que podem
ser individualizadas e analisadas de maneira relativamente independente.
Algumas destas representações mais importantes dizem respeito ao corpo
e à sexualidade, já que são representações determinantes na constituição
da noção de auto-identidade socialmente reconhecida. O objeto desta
pesquisa consistiu exatamente na análise do processo de reconstrução de
tais representações sociais na publicidade dos anos 1990 e 2000, veicu-
lada na mídia globalizada. Para tanto, a metodologia utilizada serviu-se
de dois procedimentos.
Por um lado, tratou-se de construir “constelações semânticas”, visando
defnir os tipos ideais de corpo e sexualidade nos anos 1990 e 2000. Isto
implicou na determinação de redes de importação entre as diversas
esferas da cultura de consumo: cinema, games, moda, publicidade. Tal
rede foi o resultado mais visível da aplicação de uma abordagem histó-
rico-social, visando estabelecer uma cartografa capaz de identifcar as
mutações mais substanciais das representações hegemônicas do corpo e
da sexualidade na publicidade de veiculação mundial. Uma cartografa
que não procurou, nem julgou necessário, ser exaustiva, pois ela devia
ser sobretudo axial e expor os eixos maiores de desenvolvimento de tais
representações para que a interação entre publicidade e forças sociocul-
turais se deixe apreender.
Dessa maneira, procurou-se organizar uma abordagem sistêmica dos
fatos culturais capaz de identifcar a origem e os processos de migração
destas representações sociais que, a partir dos anos 1990, comportar-se-ão
como hegemônicas. Se partirmos da hipótese adorniana de que a cultura
de massa articula-se como um sistema, poderemos estar mais atentos à
maneira com que certos conteúdos sociais utilizados pela publicidade
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
53
são sintetizados primeiramente em outras esferas da cultura (cinema,
música pop, moda, artes visuais etc.), o que nos permitirá colocar uma
questão central: o que acontece a certos conteúdos quando eles migram
de outras áreas da cultura em direção à publicidade?
Lembremos Adorno, que, ao refetir sobre a estrutura monopolista da
indústria cultural, afrma:
Tudo está tão estreitamente justaposto que a concentração do espírito
atinge um volume tal que lhe permite passar por cima da linha de
demarcação entre as diferentes frmas e setores técnicos. A unidade
implacável da indústria cultural atesta a unidade em formação da
política (ADORNO, 1991, p. 116).
Podemos encontrar uma confrmação suplementar deste caráter sistêmico
da cultura de massa através dos cool hunters, ou seja, profssionais pagos
por grandes multinacionais que procuram ver, na produção cultural, os
traços para as novas tendências do consumo de massa (FONTENNELLE,
2005). Sua função é identifcar “novas tendências culturais que possam
ser empacotadas, transformadas em commodities, e vendidas no mer-
cado comercial” (RIFKIN, 2001, p. 149), mostrando assim a articulação
sistêmica entre cultura, mídia e mercados.
Por outro lado, a metodologia também consistiu em pesquisas qualitativas
baseadas em entrevistas diretas com consumidores brasileiros e europeus
das marcas em questão. As entrevistas procuraram não apenas constituir
tais constelações semânticas do ponto de vista das individualidades, mas
também identifcar a maneira com que a comunicação de tais marcas
insere-se em refexões mais amplas, fornecendo referenciais para as
experiências subjetivas relacionadas ao corpo e à sexualidade.
A mercantilização da recusa à publicidade
Há uma década, o fotógrafo italiano Oliviero Toscani acusava a publici-
dade global de sustentar um ideal ariano de beleza capaz de sintetizar
apenas corpos harmônicos, saudáveis e jovens. Sua crítica também não
poupava uma certa noção falocêntrica de sexualidade que guiaria a
produção de representações sociais na comunicação de massa. Mas, no
decorrer da década de 1990, percebemos um lento processo de reconf-
guração de representações sociais midiáticas vinculadas ao corpo e à se-
xualidade. Processo este que, aos poucos, colocou em circulação imagens
do corpo e da sexualidade até então nunca investidas libidinalmente pela
publicidade. Graças às campanhas mundiais de marcas como Bennet-
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
54
ton, Calvin Klein, Versace e Playstation, corpos doentes, mortifcados,
des-idênticos, portadores de uma sexualidade ambígua, autodestrutiva
e muitas vezes perversa, marcaram a trajetória da publicidade nos anos
1990. Compreender a lógica imanente ao processo de reconstrução de
tais representações sociais na mídia globalizada aparece como fundamen-
tal para a caracterização das mutações da retórica contemporânea do
consumo e de suas implicações na cultura. A comunicação destas marcas
foi o objeto deste estudo.
A escolha em centrar a análise na publicidade mundial a partir dos anos
1990 teve uma razão que se articula com um problema próprio à econo-
mia política da mídia. A partir dos anos 1990, a mídia mundial adquiriu
mais claramente a forma de grandes conglomerados multimídias trans-
nacionais nos quais convergem: controle dos meios de comunicação, dos
processos de elaboração de produtos midiático-culturais e das pesquisas
tecnológicas em novas mídias. Centros de tecnologia/entretenimento/
informação formam hoje um tripé fundamental da economia mundial.
Na história da mídia, os anos 1990 serão lembrados pela criação de con-
glomerados como AOL Time Warner, Vivendi Universal e a News Corpo-
ration de Rupert Murdoch; além da consolidação de outros como Sony,
Viacom, Disney e General Eletric (ALBARRAN, 1998). Podemos insistir,
por exemplo, que já no início dos anos 1990, quatro grandes grupos de
mídia controlavam cerca de 92% da circulação de jornais diários e cerca
de 89% da circulação dos jornais de domingo na Inglaterra. Longe de
termos uma pulverização das instâncias de produção de conteúdo midiá-
tico, como alguns esperaram devido ao desenvolvimento exponencial de
novas mídias, vimos uma convergência cada vez maior de produção de
conteúdo, canais de distribuição e de gestão de recepção.
Tal processo de globalização das mídias chegou rapidamente ao mercado
publicitário, que viu durante os anos 1990 numerosas fusões e joint-
ventures que, em muitos casos, centralizaram boa parte do processo e da
decisão criativa na matriz mundial, cabendo às fliais regionais apenas a
tradução de campanhas e pequenas adaptações (DE MOOIJ, 1994). A
conjugação destes fatores, impulsionada pelo desenvolvimento tecnoló-
gico da comunicação global (TV a cabo, internet etc.) consolidou o rea-
parecimento de uma publicidade produzida e veiculada mundialmente
direcionada a um “público global”.
Notemos que esta publicidade mundial foi talvez o melhor veículo de
uma ideologia da globalização e da abolição de fronteiras culturais que
ganhou força através da euforia alimentada pela queda dos países de
regime comunista na Europa do Leste, a partir de 1989, e pela ascensão
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
55
do multiculturalismo como projeto maior das sociedades liberais. Neste
sentido, não devemos descartar a possibilidade de convergência entre
os conteúdos das representações sociais do corpo e da sexualidade a
serem apresentados e certos imperativos próprios à constituição de
identidades globais.
No entanto, o que salta primeiramente aos olhos é que este processo
de constituição de um imaginário global de consumo não se deixa ler
a partir da noção de repetição massiva de estereótipos e tipos ideais de
conformação do corpo e da sexualidade. Ao contrário, tudo indica que
os anos 1990 formam o momento em que, de certo modo, a publicidade
mercantilizou o discurso da dissolução do eu como unidade sintética.
Sabemos como o eu está profundamente vinculado à imagem do corpo
próprio, ao ponto em que desarticulações na imagem do corpo próprio
afetam necessariamente a capacidade de síntese do eu (LACAN, 1996, p.
96-104). O processo de formação do eu como instância de auto-referência
e como unidade sintética de percepções é fundamentalmente dependente
da constituição de uma imagem do corpo próprio capaz de servir como
matriz imaginária para distinções entre ipseidade e alteridade, entre inte-
rior e exterior, entre outros. De fato, há uma proeminência da imagem do
corpo sobre os “dados e sensações imediatas” do corpo. Para que existam
sensações localizadas e percepções é necessário que exista um esquema
corporal (fundamentalmente vinculado às capacidades organizadoras da
imagem) capaz de operar a síntese dos fenômenos ligados ao corpo. A
imagem aparece assim em posição transcendente e unifcadora.
Mas, se voltarmos os olhos para a retórica do consumo e da indústria
cultural, veremos como elas passaram por mutações profundas que
afetaram o regime de disponibilização das imagens ideais de corpo. Ao
invés de locus da identidade estável, o corpo fornecido pela indústria
cultural e pela retórica do consumo aparece cada vez mais como matéria
plástica, espaço de afrmação da multiplicidade. Isto levou um sociólo-
go como Mike Featherstone a afrmar que ”no interior da cultura do
consumo, o corpo sempre foi apresentado como um objeto pronto para
transformações” (FEATHERSTONE, 2000, p. 4).
A princípio, tal situação parecia marcar com o selo da obsolescência
a idéia frankfurtiana da indústria cultural como negação absoluta da
individualidade. Pois, ao invés das operações de socialização através
da exigência de identifcação com um conjunto determinado de imagens
ideais, estaríamos agora diante de uma indústria cultural que incita a
reconfguração contínua e a construção performativa de identidades.
Na verdade, o setor mais avançado da cultura do consumo não forne-
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
56
ceria mais ao eu a positividade de modelos estáticos de identifcação.
Ele forneceria apenas a forma vazia da reconfguração contínua de si
que parece aceitar, dissolver e passar por todos os conteúdos. Isto pode
explicar por que temos cada vez menos necessidade de padrões claros
de conformação do corpo a ideais sociais.
Foi tendo este processo em vista que a pesquisa se debruçou sobre a
análise do posicionamento mundial de comunicação de quatro marcas
nos anos 1990: Benetton, Calvin Klein, Versace e PlayStation. Este
conjunto se impôs porque estamos diante de marcas que infuenciaram
de maneira decisiva o desenvolvimento da publicidade dos anos 1990,
através de uma conjunção entre novidade estilística e apresentação de
novas representações sociais. A estética heroína chic da Calvin Klein,
a androginia e indeterminação sexual da Versace, a publicidade que
questiona os parâmetros da linguagem publicitária da Benetton, assim
como o corpo maquínico, fusional e mutante da PlayStation modifcaram
sensivelmente os limites e as estratégias da retórica publicitária. Outro
dado importante a lembrar é que todas estas campanhas foram criadas
por fotógrafos e agências internacionais. Agências nacionais decidem
apenas a veiculação. No caso da Playstation, sequer a veiculação é feita
no Brasil. Os espaços são comprados em veículos internacionais (TV a
cabo, revistas de circulação internacional etc.).
No que diz respeito ao nosso objeto de estudo, podemos dizer que essas
agências estruturaram três representações sociais que foram analisadas
detalhadamente nesta pesquisa, a saber:
– o corpo doente e mortifcado como objeto do desejo (Calvin Klein,
Benetton
2
), Tal representação já havia aparecido anteriormente na
estética dos videoclipes e da moda. A beleza anoréxica de Kate Moss,
por exemplo, tinha necessariamente algo desta ordem de represen-
tação do corpo doente.
– o corpo como interface e superfície de reconfguração que coloca
o sujeito diante da instabilidade de personalidades múltiplas e da
des-identidade subjetiva (PlayStation). No caso das campanhas da
Playstation, o corpo deixa de ser concebido com um limite entre o
sujeito e o mundo para ser uma interface de conexão. A questão da auto-
identidade, tão ligada à noção de integridade do corpo, modifca-se
necessariamente. Neste sentido, podemos ver aí o esforço publicitário
de incorporação da lógica corporal de interface desenvolvida por
artistas como Orlan, Sterlac e por cineastas como David Cronemberg
(Ex-sistenz).
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
57
– o corpo sexualmente ambivalente (Versace) que aparentemente
questiona as imagens da sexualidade falocêntrica que sempre domi-
naram a publicidade. A diferença sexual nunca colocou problemas
para a retórica publicitária. Mas os anos 1990 viram a proliferação
de imagens de ambivalência, assim como uma certa feminização de
representações masculinas em produtos cujo target nada tem a ver
com públicos homossexuais.
O fato de três destas marcas referirem-se a produtos de moda (Benetton,
Calvin Klein e Versace) e uma a um game ligado, de uma certa forma, ao
imaginário da realidade virtual é algo que não deve causar surpresas. Pois
todas estas marcas oferecem produtos que mercantilizam diretamente a
promessa da re-fabricação plástica da identidade de si. Promessa fundamental
para a sustentação dos vínculos subjetivos com uma ordem econômica
(o capitalismo tardio) marcada exatamente pela realidade da desterri-
torialização. No caso de um produto ligado ao universo da realidade
virtual (PlayStation), o apelo à experiência controlada da plasticidade
da identidade é ainda mais visível.
Notemos, apenas a título indicativo, que, ao trabalhar representações
publicitárias do corpo marcado pela doença, pela ambigüidade e pela
des-identidade, estamos falando de um processo de mercantilização do
que aparentemente seria o avesso da forma-mercadoria. Pois estamos diante
da mercantilização midiática de representações do corpo aparentemente
avessas à imagem ideal do corpo fetichizado (como são as representações
do corpo doente e do corpo ambivalente) que circulava de maneira he-
gemônica na própria publicidade.
Talvez este fato indique uma nova etapa da retórica do consumo, já que
vemos uma retórica prestes a fertar com noções aparentemente des-
harmônicas do desejo e que pode indicar o advento de novos processos
de mercantilização da negatividade da auto-destruição e da revolta contra
as imagens ideais do corpo. Talvez valha neste caso o dito premonitório
de Debord (2002, p. 40): “À aceitação dócil do que existe pode juntar-
se a revolta puramente espetacular: isso mostra que a própria insatis-
fação tornou-se mercadoria, a partir do momento em que a abundância
econômica foi capaz de estender sua produção até o tratamento desta
matéria-prima”. Ou seja, nada impede que a frustração com o univer-
so fetichizado da forma-mercadoria e de suas imagens ideais possa se
transformar também em uma mercadoria. Na verdade, esta é a base do
posicionamento das campanhas mundiais da Bennetton, só para fcar no
exemplo mais visível. Ao questionar consumidores da marca a respeito
das estratégias de comunicação da Bennetton, percebemos os resultados
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
58
de uma lógica na qual a frustração com o universo publicitário vira a
mola do próprio discurso publicitário. Afrmações feitas por entrevista-
dos, como: “Aquilo é o mundo real”, “Não gosto de ser tratado como
alguém absolutamente à parte dos problemas do mundo” e “Bennetton
foi importante por trazer problemas mundiais para o horário comercial”,
indicam que as rupturas formais e de conteúdo próprias às campanhas
da Bennetton permitiram a mercantilização publicitária da frustração
com o universo publicitário.
Podemos mesmo colocar como hipótese que, a partir do momento
em que a saturação do público consumidor em relação aos artifícios
corriqueiros da retórica publicitária motivou uma certa invalidação de
representações sociais normalmente vinculadas à positividade do uni-
verso das mercadorias, então a publicidade viu-se obrigada a, digamos,
“fertar com o negativo”. Assim: “a crítica ao capitalismo tornou-se, de
forma bem estranha, o sague salvador do capitalismo” (FRANK, 2003,
p. 44). A publicidade enquanto estrutura retórica tem uma dinâmica
própria de investimento e des-investimento de estratégias persuasivas.
A repetição contínua de certas estratégias impõe uma lógica de desgaste
de certos conteúdos retóricos.
Posicionamento bipolar de marca
Este processo de mercantilização publicitária da frustração com o uni-
verso publicitário serviu de base para a análise das campanhas da Calvin
Klein e Versace. Nestes casos, a hipótese inicial consistia em afrmar que
idéias vinculadas à ambivalência sexual e ao desconforto com imagens
ideais de corpo estariam migrando para o cerne da cultura de consumo.
Uma migração que levaria consumidores a identifcarem-se cada vez
mais com tais representações sociais. Tal hipótese parecia corroborar
uma certa forma cada vez mais hegemônica de afrmar a obsolescência
de lógicas próprias a uma sociedade repressiva, isto em prol do advento
de uma época de fexibilização e “construção” de papéis sexuais. Pode-
ríamos assim esperar que os consumidores de Calvin Klein e Versace
tivessem, de uma forma ou de outra, este ideal de conduta. No entanto,
esta hipótese não se confrmou através das entrevistas realizadas.
Sobre as campanhas da Calvin Klein, com modelos no limiar da anorexia
e com corpos des-vitalizados, algumas afrmações de entrevistados foram:
“As campanhas da Calvin Klein mostravam pessoas que não existem.
Ninguém tem aqueles corpos magros e estilosos”, “Aquele não é meu
padrão de beleza. Gosto de mulher com carne”(consumidor brasileiro).
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
59
Sobre a Versace, encontramos afrmações como: “Hoje em dia as pessoas
são cada vez mais bissexuais, as mulheres querem copiar o que há de
pior nos homens”, “A marca é tão chique que pode ser vulgar”, “Não
é o tipo de situação na qual me vejo. Mas hoje é cool tratar sexo como
o jogo”. Tais afrmações foram muito ilustrativas da média do que foi
encontrado pela pesquisa.
A conclusão aparente indicava que parte signifcativa dos consumidores
daquela mesma marca não se reconhecia nos padrões de corpo e sexua-
lidade da própria marca, o que nos colocava diante da questão de saber
o que então sustentava o processo de identifcação entre consumidor e
marca. Notemos, por outro lado, que, mesmo não se identifcando com
tais padrões, a grande maioria dos entrevistados reconhecia estes mesmos
padrões como tendências hegemônicas: “Cada vez mais os adolescentes
jogam com a ambivalência sexual”, afrma um entrevistado de 33 anos
a quem foi pedida uma projeção social a respeito das representações de
sexualidade presentes em um conjunto de peças publicitárias da Calvin
Klein, o que indica a capacidade da marca de se colocar como referência
de interpretação da vida social.
Mas o dado inusitado consistia nesta posição de consumidores de marca
com a qual eles não se identifcam. A chave para o problema consistia
numa aparente contradição. Na mesma época em que Calvin Klein colo-
cava em circulação suas campanhas heroína chic e suas representações de
corpo doente, mortifcado, sexualmente ambivalente (em campanhas, por
exemplo, para CK One, CK Be e Obsession), disponibilizava campanhas
(como as criadas para Eternity) com valores exatamente contrários, va-
lores exaltando a família moderna e “classicamente defnida”, o retorno
à natureza, o equilíbrio. Lembremos que tratava-se de campanhas que
alcançavam o mesmo target por serem veiculadas nas mesmas revistas
(Details, Vanity Fair, Vogue, GQ, Rolling Stones etc.).
A resposta para tal contradição aparente consiste em insistir que o
posicionamento destas marcas não é um posicionamento de valores
“exclusivos”, mas um posicionamento “bipolar”. Ou seja, ele é assenta-
do em valores contrários. O que aparentemente seria um erro crasso
de posicionamento revela-se uma astúcia. Por um lado, isto permite ao
consumidor identifcar-se com a marca sem, necessariamente, identifcar-
se com um dos seus pólos. Mas, principalmente, este posicionamento
bipolar pode funcionar porque os próprios consumidores são incitados
a não se identifcarem mais com situações estáticas.
A publicidade contemporânea e a cultura de massa estão repletas de
padrões de condutas construídos através de fguras para as quais con-
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
60
vergem disposições aparentemente contrárias. Mulheres, ao mesmo
tempo, lascivas e puras, crianças, ao mesmo tempo, adultas e infantis,
marcas tradicionais e modernas. Esta lógica foi bem sintetizada no teaser
de uma campanha da própria Calvin Klein: “Be bad, be good, just be”.
Ou seja, um modo de ser próprio a uma era da fexibilização de padrões
de identifcação. Uma época como esta permite marcas que tragam, ao
mesmo tempo, a enunciação da transgressão e da norma. Até porque os
sujeitos estão presos a esta lógica de ao mesmo tempo aceitar a norma e
desejar sua transgressão. A publicidade compreendeu isto. Daí porque
atualmente ela fala a eles visando este ponto em que transgressão e
norma se imbricam.
Se este for realmente o caso, então teríamos uma tendência a repensar a
dinâmica própria à noção de posicionamento de marca. Práticas comer-
ciais e dispositivos de incitação ao consumo pressupõem, necessariamen-
te, uma certa teoria a respeito da maneira com que sujeitos orientam seus
desejos e sustentam processos de identifcação. À sua maneira, Marx já
havia percebido algo desta natureza ao afrmar que: “A produção não
cria somente um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para
o objeto” (MARX, 1978, p. 100). Devemos apenas completar dizendo
que não apenas os modos de produção criam modos de subjetivação,
mas também que modos de consumo produzem maneiras dos sujeitos
determinarem sua própria subjetividade.
Digamos que, grosso modo, na noção “clássica” de posicionamento de
marcas, trabalhamos com sujeitos pensados como tipos-ideais (para usar
um termo weberiano) que parecem procurar, nos produtos, certos valo-
res de signifcação bem defnida (“segurança”, “modernidade”, “retorno
à natureza” etc.). No entanto, é possível que tal maneira de pensar a
relação consumidor-marca não dê mais conta de certas tendências con-
temporâneas. Tendências que levam os consumidores a se identifcar
com o ponto de indistinção entre valores contrários, compondo com isto
um ideal de personalidade não mais vinculado à coerência de condutas
submetidas a um padrão de unidade. O que não poderia ser diferente.
Basta lembrarmos que, atualmente, estamos diante de uma sociedade na
qual os vínculos com os objetos (incluindo aqui os vínculos com a imagem
do corpo próprio) são frágeis, mas que, ao mesmo tempo, é capaz de se
alimentar desta fragilidade. Até porque, não se trata de disponibilizar
exatamente conteúdos determinados de representações sociais através
do mercado. Trata-se de disponibilizar a pura forma da reconfguração
incessante que passa por e anula todo conteúdo determinado, e é isto
que tais marcas procuram fazer.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
61
Note-se, por exemplo, a signifcação do aparecimento do corpo sexualmente
ambivalente como elemento maior da retórica publicitária do fnal dos anos
1990. A diferença sexual nunca colocou problemas para a retórica publici-
tária, mas os anos 1990 viram a proliferação de imagens de ambivalência,
assim como uma certa feminização de representações masculinas em
produtos cujo target nada tem a ver com públicos homossexuais. O caso
mais ilustrativo é a campanha mundial da marca Versace desenvolvida
pelo fotógrafo Steven Meisel e pela A/R media, em 2002: ela se resume
a fotos de um casal na cama ou em um quarto com decoração carregada
e pretensões de luxo. Além disto, há apenas a assinatura do anunciante.
Nós sempre sabemos quem é um dos parceiros (um homem ou uma
mulher bem vestidos em posição de autoconfança, tédio e domínio da
situação), mas nunca sabemos quem é o outro, já que sempre aparece
sem rosto, jogado em um canto para denotar que foi usado em um jogo
sexual, com roupas íntimas femininas e traços de corpo masculino. Im-
plicações de lesbianismo lipstick, de homossexualismo e de ambigüidade
sexual são evidentes. Este apelo ao embaralhamento de papéis sexuais
não é direcionado para um target homossexual. O target da Versace é
composto basicamente de mulheres com mais de 30 anos.
A análise de entrevistas sobre Versace feitas por esta pesquisa apenas
demonstrou a recorrência de afrmações como: “Hoje em dia as pessoas
são cada vez mais bissexuais, as mulheres querem copiar o que há de pior
nos homens”, “A marca é tão chique que pode ser vulgar”, “Não é o tipo
de situação na qual me vejo. Mas hoje é cool tratar sexo como o jogo”.
Ou seja, novamente, as próprias consumidoras não identifcavam-se
totalmente com o padrão geral de conduta apresentado pela campanha
publicitária, a não ser que tal jogo de ambivalências seja apenas uma
aparência que deva ser tratada como pura aparência.
A sociedade da insatisfação administrada e seus dispositivos
disciplinares
Neste ponto, vale a pena uma certa digressão. É possível que o segredo
desta sociedade na qual os vínculos com objetos e valores são frágeis, mas
que é capaz de alimentar-se desta mesma fragilidade, esteja em algo que
poderíamos chamar de “ironização absoluta dos modos de vida”. Pois,
em uma sociedade como a nossa, na qual se trata fundamentalmente
de saber administrar a insatisfação (e não exatamente de administrar a
satisfação através da constituição de estereótipos de conduta), os sujeitos
não são mais chamados a identifcar-se com tipos ideais construídos a
partir de identidades fxas e determinadas, o que exigiria engajamentos
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
62
e uma certa ética da convicção. Na verdade, eles são cada vez mais cha-
mados a sustentar identifcações irônicas: identifcações nas quais, a todo
momento, o sujeito afrma sua distância em relação àquilo que ele está
representando ou ainda, em relação a suas próprias ações.
A psicanálise, em especial a psicanálise de orientação lacaniana, insistiu
no papel das identifcações como processo central na socialização e na
sustentação dos vínculos sociais. Ela chegou mesmo a estabelecer uma
distinção estrita entre identifcação imaginária, fundada na introjeção
constitutiva e especular da imagem de um outro que tem o valor de tipo
ideal, e identifcação simbólica, que indica o reconhecimento de si em um
traço unário vindo de um Outro (normalmente aquele que sustenta a
função paterna) na posição de Ideal do eu. Esta forma de identifcação é
modo de reconhecimento que, por operar através de traços unários, isto
é, em vez de operar por imagens estáticas, não impõe ao sujeito a partilha
de uma identidade fxa, mas leva-o a se reconhecer e a reconhecer seu
desejo naquilo que não tem objetivação previamente determinada.
Através desta duplicidade nos mecanismos de identifcação, Lacan
procurava explicar como os processos de socialização baseados em
identifcações podiam dar conta do fato de os sujeitos serem capazes de
se reconhecerem em funções simbólicas que não se esgotam nas fguras
contingentes daqueles que as portam. No entanto, tudo se passa como se
transformássemos esta ausência de objetivação previamente determinada,
própria às funções simbólicas, em ironia. Pois, tal como as identifcações
simbólicas, as identifcações irônicas não estão vinculadas à introjeção
de imagens privilegiadas colocadas em posição de ideal. Mas esta des-
truição da pregnância das imagens pode redundar simplesmente na
implementação contínua de uma certa distância irônica em relação a toda
determinidade empírica, ou seja, em relação a todo papel identitário que
determina um fazer social. Um distanciamento que pode se estabilizar
a partir do momento em que os sujeitos tratam suas identidades sociais
como simples semblants, para usar um termo de Lacan, ou ainda, como
aparências postas enquanto tal. Assim, eles se aferram a identidades
sociais que não têm realidade substancial devido exatamente ao fato de não
terem realidade substancial alguma. Tal lógica da ironização pode realizar-se,
por exemplo, através da “fexibilidade” de uma subjetividade plástica que
compreende identidades sociais como aparências postas como aparência e
que, com isto, pode afrmar-se enquanto puro jogo de máscaras não mais
submetido a princípio unifcador algum.
Tudo isso nos permite dizer que esta ironização absoluta dos modos de
vida – com sua lógica de autonomização da aparência – pode aparecer
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63
como posição subjetiva que internalizou a desvinculação geral entre impe-
rativo de gozo e conteúdos normativos privilegiados, própria a uma retórica
de consumo que enuncia, ao mesmo tempo, a norma e sua transgressão.
Ela ganha relevância em uma situação histórica, como a nossa, na qual
a ideologia no capitalismo pode livrar-se de todo e qualquer vínculo
privilegiado a conteúdos substantivos. Pois:
Da mesma forma que o sujeito irônico pode adotar qualquer discurso
ou persona, o capitalismo pode colocar no mercado qualquer discurso
ou valor [...] Ironia representa, ao mesmo tempo, uma tendência e
um problema do capitalismo. Ela sempre pôs algum ponto para além
de todo conteúdo ou valor particular. Neste sentido, ela antecipou a
tendência do capitalismo em atravessar contextos e produzir um pon-
to universal a partir do qual todos valores podem ser intercambiados
(COLEBROOK, 2004, p. 150).
Há muito nossos dispositivos disciplinares não procuram mais produ-
zir subjetividades através da internalização de sistemas unifcados de
condutas e regras de práticas corporais. Não vivemos mais na época em
que a ideologia procurava naturalizar modelos normativos de conduta
e tipos sociais ideais, até porque isto exigiria identifcações com tipos
sociais pautadas pela ética da convicção; o que é impossível em situa-
ções de crise de legitimidade como a nossa. Mas note-se esta disposição
atual da indústria cultural em ironizar a todo momento aquilo que ela
própria apresenta. Esta autoderrisão é uma maneira astuta de perenizar
estruturas narrativas e quadros de socialização, mesmo reconhecendo
que eles já estão completamente arruinados.
Levando tal situação em conta, podemos afrmar que uma época como
a nossa desenvolveu dispositivos disciplinares que são subjetivados “de
maneira paródica” por procurarem levar sujeitos a constituirem sexua-
lidades e economias libidinais que absorvem, ao mesmo tempo, o código
e sua negação. Neste sentido, a paródia, longe de ter uma força política
explosiva (como defendem teóricos como Giorgio Agamben (2005) e
Judith Butler (1999)), parece ser, na verdade, a lógica mesma de fun-
cionamento dos dispositivos disciplinares da biopolítica contemporânea,
o que nos leva a encontrá-la no seio da retórica midiática de consumo.
Pois a “administração dos corpos e a gestão calculista da vida”, a respeito
da qual fala Michel Foucault, só é atualmente possível não através do
vínculo a mandatos simbólicos coesos, mas através da internalização de
tipos ideais e práticas que transgridem suas próprias disposições de con-
duta, tipos ideais próprios a situações de anomia. Ou seja, esta maneira
de funcionamento do setor mais avançado da retórica de consumo é
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 51-65, 2. sem. 2006
64
apenas uma forma de gestão disciplinar dos processos de subjetivação
em situações sociais de anomia.
É bem provável que a contemporaneidade esteja diante de uma situação
histórica na qual a própria Lei normativa tende a funcionar de maneira
paródica e autoderrisória (SAFATLE, 2005). Este fato está vinculado a
uma modifcação maior nos modos de operação da ideologia, já diag-
nosticado desde Adorno: a ironização absoluta dos modos de vida e
condutas. Ironização que nos coloca diante daquilo que Peter Sloterdijk
um dia chamou de ideologia refexiva, posição ideológica que porta em si
mesma a negação dos conteúdos que ela apresenta. Maneira astuta de
perpetuá-los mesmo em situações históricas nas quais eles não podem
mais esperar enraizamento substancial algum.
Abstract
This article aims to show the results of a research made in 2006 about
the imaginary of global consumers in global advertising. Such imaginary
was analysed upon two major representations: one that concerns the body
image and other that concerns sexuality. The consequences of such analyse
open to a description of the way that ideology works in the contemporary
rethoric of consuptiom.
Keywords: advertising; body; sexuality; ideology; irony.
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TOSCANI, Oliviero. A publicidade é um cadaver que nos sorri. Rio de Janeiro:
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Notas
1
Esta pesquisa foi conduzida pelo autor, que teve o auxílio inestimável e decisivo do bolsista Gustavo Monteiro,
sendo fnanciada pelo Centro de Altos Estudos em Propaganda e Marketing (CAEPM), centro de pesquisas
vinculado à ESPM/SP.
2
Lembremos da provocação de Oliviero Toscani: “A publicidade não conhece a morte” (1998, p. 5). Devemos
acrescentar, nesta mercantilização do corpo doente e mortifcado, a transformação de um certo “sadomaso-
quismo chic” em paradigma do comportamento sexual socialmente aceito e veiculado pela publicidade. Ao
analisar certas publicidades de moda dos anos 1990, Diane Barthel afrma: “In such advertisements sadism
becomes understandable and aggression is presented as a daily part, even a desirable part of daily life”
(BARTHEL, 1988, p. 81).
ARTIGOS
Eli Bartra
*
Sônia Peçanha
**
O sorriso da lua
Neste artigo, percorrem-se algumas regiões, e certas
manifestações da arte popular brasileira são examina-
das. Em primeiro lugar, os acervos de alguns museus
de arte popular do Rio de Janeiro, prestando uma es-
pecial atenção à arte popular realizada pelas mulheres.
Também especifcam-se as diferenças entre arte popular
e artesanato, distinção não muito clara no Brasil e
que, em outros lugares do mundo, como o México, por
exemplo, apresenta-se totalmente confusa.
Após comentar várias expressões e características desta
arte no Brasil, toma-se um único exemplo de arte po-
pular carioca, que são as bonecas negras de pano feitas
com material reaproveitado sem a utilização de cola nem
costura, produzidas por um grupo de mulheres negras
com consciência ecológica, de gênero e de “raça”. Nes-
tas bonecas, combinam-se a luta pela sobrevivência e
a valorização da beleza e da dignidade das mulheres
negras. A principal informação sobre esta expressão
de arte popular foi obtida através da criadora destas
bonecas negras, Lena Martins, que conta sua história
e a do grupo que foi criado há quase 20 anos: suas
palavras foram misturando-se com refexões ao redor
das lindas bonecas negras que saem de suas mãos, como
se fossem uma boneca Abayomi.
Palavras-chave: arte popular; gênero; feminismo;
negritude.
*
Doutora em flosofa e pro-
fessora-pesquisadora titular
da Universidade Autô no ma
Metropolitana-Xochimilco.
Co-fundadora e coorde-
nadora do mestra do em
Estudos sobre a Mulher e
na área de pesquisa “Mu-
lher, identidade e poder”
da mesma universidade.
Pesquisadora Nacional II.
Autora de Frida Kahlo, mu-
jer, ideología y arte, En busca
de las diablas e de Mujeres
en el arte popular. De prome-
sas, traiciones, monstruos y
celebridades. Compiladora
de Debates en torno a una
meto dología feminista, Crea-
tividad invisible e co-autora
de Feminismo en México ayer
y hoy, entre outros.
**
Revisão técnica. Mestre
em Literatura Brasileira,
autora premiada, membro
da Associação Niteroiense
de Escritores.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 83-108, 2. sem. 2006
70
Introdução à arte popular brasileira
Sem dúvida, o Brasil não é o único lugar do mundo em que a lua sorri.
Nesta zona do hemisfério da América do Sul, onde a terra é quente, o
calor ardente, o sol brilhante – quando nasce –, a música mexe o corpo
dos pés à cabeça, e a chuva é abundante e inesperada, o trópico está à
vontade, em todo seu esplendor.
Essa complexa, multicultural e multiética sociedade possui uma riqueza
plástica surpreendente que se tem manifestado com vigor há anos e
anos. Maravilhosos artistas visuais, mulheres e homens, que nasceram
brasileiros ou que surgiram no Brasil. Suponho que julgar a riqueza ou
a pobreza relativa à arte, ou à arte popular particularmente, pode ser
tão sugestivo como a própria valorização da arte. Quando se entra no
terreno da valorização, tenho a impressão de que caminho sobre um
pântano. Por um tempo, pensei que no Brasil não havia muita coisa
quanto à produção da arte popular ou artesanato artístico e muito menos
pesquisas sobre isso, que apresentassem o mínimo de análise e que con-
templassem a divisão de gênero. Quando fz minhas primeiras pesquisas
bibliográfcas e também ao procurar pessoalmente em instituições como
de mulheres do movimento feminista para saber se existia alguém que
trabalhasse com a temática de mulheres e arte popular nesse país, o re-
sultado foi nulo, não consegui encontrar ninguém. Meu interesse devia
se ao fato de estar compilando uma antologia de textos sobre mulheres
e arte popular na América Latina e Caribe. Para mim, era importante
que o Brasil estivesse representado.
1


No entanto, não pude incluí-lo.
Por isso, de alguma maneira, decidi observar pessoalmente o mundo da
arte popular brasileira e escrever sobre o tema. Talvez possa afrmar, a
partir de uma exaustiva pesquisa em bases de dados e grandes acervos
que tive a oportunidade de revisar em diferentes lugares, que não há
muito sobre o tema no Brasil. No entanto, existe um raro livro, que se
refere claramente ao gênero dos artistas, e me parece digno men ci oná-
lo, já que isso não acontece com muita freqüência.
2
Além disso, já foi
publicado o signifcativo trabalho de Sônia Missagia Matos, Artefatos de
gênero na arte do barro, que representa um avanço no campo das pesquisas
da arte popular, considerando tanto o valor artístico quanto a divisão de
gênero ao longo do processo, que são os dois aspectos que se encontram
sistematicamente ausentes nas pesquisas sobre o tema em qualquer lugar
do mundo.
3
Muitos artistas, principalmente aqueles mais reconhecidos dentro da
arte popular brasileira, já foram resgatados do anonimato e encontram-
se até mesmo em museus, particularmente no Museu Casa do Pontal e
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 83–108, 2. sem. 2006
71
no Museu do Folclore Edison Carneiro, no Rio de Janeiro. Estes são os
dois locais mais importantes que guardam as melhores coleções de arte
popular no Brasil. O primeiro publicou um livro belamente ilustrado
sobre sua coleção (MASCELANI, 2002). E é, de certa maneira, pela
seleção das obras expostas e apresentadas no livro mencionado que se
torna imprescindível falar das mulheres. A coleção do Museu Casa do
Pontal é quase exclusivamente de cerâmica fgurativa. No país, a maio ria
dos ceramistas são mulheres, entretanto, dos 54 artistas mencionados no
índice, apenas 17 são mulheres. Alguns homens se denominam mestres,
o que não ocorre com nenhuma mulher, sem exceção. O mesmo acon-
tece no Museu do Folclore Edison Carneiro. Entre os nomes de artistas
populares inscritos com letras grandes no muro, para resgatá-los, com
justiça, do anonimato, a ínfma minoria é de mulheres. Como ocorre nos
grandes museus do Ocidente, que guardam a “grande” arte de todos
os tempos, as mulheres estão praticamente ausentes. Poderia pensar-se
que a coisa seria diferente, quando se trata de museus de arte popular,
mas não é. Aliás, acontece o mesmo com suas publicações.
O Museu Casa do Pontal é, sem dúvida, um lugar excepcional sob vá rios
pontos de vista. Primeiro, pelo lugar em que se encontra: uma belíssima
casa, próxima ao Rio de Janeiro, no meio do campo; o acesso é difícil,
mas, mesmo assim, é grande e constante a quantidade de visitantes. Se-
gundo, pela qualidade e quantidade de obras do seu acervo, em torno
de 8.000 peças, sendo a maioria cerâmica fgurativa. Finalmente, pela
museografa bastante sui generis e muito interessante. A disposição das
obras é temática, e os conjuntos são mais que afortunados. Inicia-se
com “A lei e a notícia”, onde há fguras que representam julgamentos,
como policiais, juízes ou pessoas lendo o jornal. Depois, seguem-se
“as profssões”, apresentando os vendedores ambulantes, as praças, as
rendeiras e as atividades domésticas. Vale ressaltar que os temas estão
divididos em dois gêneros, sendo que, em geral, são as mulheres artistas
que elaboram peças que representam as cenas de trabalho doméstico.
Em seguida tem-se “A vida no campo” que, como o nome indica, agrupa
peças que retratam a forma como as pessoas vêem o desenvolvimento
da existência no campo, com cenas em que se alimentam animais ou se
montam em cavalos. Há ainda conjuntos que mostram atividades lúdicas
e as celebrações mais importantes no Brasil: “A caça e a pesca”, “Os ciclos
da vida”, “As brincadeiras de crianças”, “Sacramentos”, “Casamentos”,
“Comemorações”, “Morte”, “Maracatu”, entre outros. Além disso, há uma
coleção de máscaras de mamulengo (teatro popular de fantoches), de jogos
e diversões, de animais, e, numa sala especial, uma fantástica reunião de
peças eróticas de Adalton (Adalton Fernandez Lopes), um dos grandes
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 83-108, 2. sem. 2006
72
artistas expostos e que, já idoso, continua a produzir, morando em Niterói
(RJ). Há, também, uma parede inteira com os excepcionais quadros de
barro de Maria de Lourdes Cândido, Maria Cândido Monteiro e Ciça,
das quais falarei mais adiante. A escolha dos diversos temas das obras
expostas parece ilustrativa tanto dos assuntos que são abordados pelos
artistas populares, como do que as pessoas que organizam a museografa
consideram importante dentro da arte popular no Brasil.
Já o Museu do Folclore Edison Carneiro encontra-se numa zona central
do Rio de Janeiro: faz parte do famoso Palácio do Catete que abriga o
Museu da República, e que foi a residência dos presidentes do Brasil
entre 1897 e 1954, ano em que se suicidou o presidente Getúlio Vargas.
Neste célebre local, encontra-se este relativamente pequeno – conta com
cerca de 1.500 peças –, mas estupendo, museu de arte popular, com uma
sala especial de exposições temporárias denominada a Sala do Artista
Popular. Mais uma vez, a maior parte do acervo é de cerâmica fgurativa,
e, assim como o da Casa do Pontal, ele está organizado tematicamente,
mas não de forma tão estruturada nem tão variada. Na primeira sala,
encontra-se, para mim, o melhor do museu: a coleção inteira de fguras
de cerâmica, organizadas de forma a mostrar o ciclo da vida humana. Há,
da mesma forma, admiráveis peças de Adalton extremamente elabora-
das. O museu também conta com algumas peças de Vitalino, Noemisa,
Galdino, Manuel Eudócio, Celestino, Luiz Antonio, Antonio Poteiro,
Nuca e Maria, Tota, Maria de Beni, Ulisses Pereira Chaves, Maria Cân-
dido Monteiro, Eugênia da Silva, Cícera Fonseca da Silva, Zé Cabloco e
outros de primeira ordem. No entanto, por mais que se tente encontrar
e nomear as mulheres, elas são franca minoria, o que se constata nesta
lista de 17 artistas, em que apenas seis são mulheres. Os dois museus
sofrem de um mesmo problema: a falta de informação histórica sobre
as obras. Datas e lugares com freqüência não são mencionados. Este é
um problema comum no que se refere a exposições e museus de arte
popular: todos eles tendem a ser sumamente “a-históricos”, o tempo/
lugar e as pessoas que fazem os objetos não interessam.
A intelectualidade brasileira – na literatura, nas artes plásticas, no cinema,
na fotografa ou no vídeo – volta os olhos várias vezes para a arte popular,
à procura de uma identidade nacional que responda aos seus anseios
de autenticidade (FLEURY, 2002, p. 279). No México, procura-se há
muito tempo a “mexicaneidade” de maneira obstinada e até obsessiva.
No Brasil, também procura-se a “brasilidade”, e, em ambos os países, a
arte popular é utilizada por se considerar que ela possui características
distintas que atribuem identidade ao povo.
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Em todo o Brasil, produz-se muito artesanato e, em alguns lugares,
elabora-se arte popular. Em termos gerais, os trabalhos mais signifcati-
vos são os feitos com barro e, em seguida, o que se trabalha com maior
destreza é a madeira. Assim como acontece no México, alguns estados
são mais ricos na elaboração da arte popular que outros. No caso Brasil,
ocorre ainda um dos grandes paradoxos no que se refere à arte popular:
a publicação de luxuosos e caríssimos livros com fotos coloridas num
papel fabuloso. Trata-se realmente de um paradoxo – e pode até parecer
ofensivo – que uma arte tão barata e tão pobre como esta esteja nas belas
páginas ilustradas de um livro magnífco. No entanto, é bom que pres-
tem a devida atenção e reproduzam a arte popular da melhor maneira
possível, a fm de que as peças sejam apreciadas como devem.
4
Por outro lado, interessa-me destacar que o Brasil talvez seja o único país
da América Latina em que há uma clara distinção entre artesanato e arte
popular. Ambos são produtos artesanais, sendo que o primeiro tem uma
fnalidade prática e utilitária, enquanto o segundo é fundamentalmente
ornamental, mesmo que também possa ter uma função mágico/religiosa
ou lúdica. A arte popular (o artesanato artístico, como é chamado no Brasil),
ao contrário do artesanato em geral, tem precisamente um elemento esté-
tico de tal magnitude, que se converte em objeto propriamente artístico.
Cabe destacar que a diferença não está unicamente no fato de o artesanato
ter primordialmente uma função utilitária e sim de a arte popular ter,
sobretudo, uma função estética, servindo mais ao gozo, à sensibilidade,
às emoções, à fé e à consciência, do que a apoiar as infnitas necessida-
des da vida cotidiana. A repetição da mesma peça várias vezes converte
freqüentemente em artesanato um objeto que nasceu como arte popular.
De fato, no México não existe uma clara diferença entre arte popular e
artesanato. Nas lojas e museus, artesanato e objetos de arte popular estão
sempre misturados. Ao expressar-se, também se referem ao artesanato
como arte popular e vice-versa, sem levar em conta a possibilidade de
alguma diferença. No Brasil, não é assim. Nos museus de arte popular,
assim como nas lojas especializadas, encontram-se geralmente aqueles
objetos que se podem caracterizar, sem nenhuma ambigüidade, como
arte popular. Já os artesanatos estão expostos nos camelôs, mercados e
lojas para turistas menos sofsticadas.
Por outro lado, existem alguns exemplos interessantes de objetos que, a
meu ver, deveriam ser considerados artesanato e, no entanto, têm mais
importância como arte popular brasileira. Neste caso, por exemplo, estão
as carrancas de barro elaboradas por Ana das Carrancas de Petrolina, em
Pernambuco. São feitas em série e não deixam de ser, em meu modo de
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pensar, vasos com a forma particular de um barco, com a cabeça na proa.
Também aí se incluem as panelas de barro muito grossas, com tampa,
que servem para fazer as moquecas produzidas na cidade de Vitória,
no Espírito Santo. Estas panelas parecem encarnar o que há de mais
autên tico e tradicional na alma do povo brasileiro, já que sua origem é
possivelmente indígena, além de serem bastante estimadas como objetos
de arte popular das mais legítimas. São feitas, inclusive, em miniatura
para serem vendidas como enfeite ou curiosidade. Estes fatos denotam
a habilidade de converter o artesanato em arte popular, ao se agregar
um valor estético, obtendo-se um resultado interessante.
No que se refere ao artesanato com tecidos, apesar de não ser dos mais
destacados e de pouca coisa chegar a se tornar arte popular, apresenta
uma certa variedade. São elaborados principalmente em Goiás, Minas
Gerais e Rio Grande do Sul, assim como em outros lugares, só que em
menor quantidade. Quase sempre, as mulheres são encarregadas da
elaboração dos produtos de tecido.
Já os objetos de madeira são geralmente trabalhados por homens. No
Ceará e no Maranhão, eles produzem de santos a instrumentos musi-
cais, móveis e utensílios de cozinha. Entretanto, os objetos de madeira
mais originais do Brasil são as carrancas do rio São Francisco. Feitas
inicialmente para ornamentar os barcos a remo que trafegam no rio,
atualmente são objetos de arte elaborados em diversos tamanhos, para
serem vendidos em lojas de arte popular.
Florianópolis, no estado de Santa Catarina, é também chamada de Ilha
das Bruxas, já que, segundo a lenda, os colonizadores portugueses –
provenientes das ilhas dos Açores – acreditavam que as sétimas flhas
que nascessem seriam bruxas, e os sétimos flhos, lobisomens. Hoje em
dia, a identidade do lugar manifesta-se em centenas de fguras de bruxas
e de homens velhos e feios que representam os lobisomens, a maioria
feita de barro. Entretanto, estes objetos são muito pouco atraentes do
ponto de vista artístico. A lenda é mais bela do que as imagens que a
representam.
O estado de Minas Gerais, que já foi uma das regiões mineiras mais ricas
do mundo, continua sendo um lugar muito rico, só que agora em arte
popular, a arte das pessoas mais pobres. Ali se faz a arte genuinamente
brasileira que consiste em diversos objetos de madeira maciça e em fguras
de barro policromadas. Os homens talham a madeira, principalmente
na região de Ouro Preto e Tiradentes, enquanto as mulheres ajudam
a pintar, se for necessário. Já com a cerâmica fgurativa do Vale do Je-
quitinhonha ocorre o contrário: as mulheres produzem, e os homens
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ajudam, esta é a regra. Claro que alguns homens se distinguem e, por
isso, são muito mais notados que as dezenas de mulheres.
O “casal mineiro” de madeira é uma criação bem singular e distintiva
da região. Trata-se de um homem e uma mulher, policromados, quase
sempre vestidos com roupas tradicionais mineiras do século XIX. Seus
tamanhos variam, de centímetros até mais de um metro de altura. É
comum que sejam colocados na frente das casas ou lojas para enfeitar, já
que representam orgulhosamente a identidade mineira. Algumas vezes
são esculturas raras, que, por questões de sobrevivência, acabam sendo
fabricadas em quantidade. Neste caso, a qualidade, geralmente, não é
muito boa. É o que também ocorre com os carneirinhos (com chifres e
patas de metal) e com as galinhas policromadas, feitas totalmente idên-
ticas, e que podem ser consideradas mais como artesanato do que como
arte popular, não porque tenham uma função utilitária, porque não a
têm. São simplesmente enfeites com um grande valor artístico. Talham-
se muitas peças de madeira sem pintar, entre elas, animais de tamanhos
absolutamente descomunais, como leões e gatos que medem mais de um
metro de comprimento. Como são peças grandes, gasta-se muito para
transportá-las por longas distâncias. Sendo assim, os principais consumi-
dores são os próprios habitantes locais ou de lugares próximos. Ainda é
preciso destacar que algumas peças são vendidas em lojas de artesanato
das grandes cidades e, de vez em quando, são encontradas por algum
comprador estrangeiro.
Além dos animais e das fguras humanas policromadas que podem me-
dir até dois metros de altura, destacam-se também em Minas algumas
peças sumamente insólitas, as chamadas namoradeiras. Grandes fguras
de madeira maciça – medem até meio metro –, elas apresentam bustos
de mulheres em posição de espera, com a cabeça, às vezes, apoiada na
mão. Policromadas, geralmente em cores vivas, à primeira vista, chegam
a surpreender. Colocadas nas janelas das casas, a maioria das namora-
deiras são mulheres negras muito enfeitadas e com decotes sensuais.
Estão ali como se à espera do namorado. Novamente, trata-se de peças
extremamente pesadas que não podem chegar muito longe, embora já
exista uma produção de namoradeiras feitas de papel maché para que
possam ser transportadas com maior facilidade. Existem também aquelas
que são feitas de barro.
Se há turismo, há artesanato e arte popular. É o que acontece no ex-
traordinariamente belo povoado colonial de Tiradentes, no qual são
elaboradas as artes populares já tradicionais de madeira e barro, onde
também surgiram dezenas de neoartesanatos, alguns com uma certa graça
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e imaginação, outros nem tanto. Com cabaças, fazem bonecas gordas
especialmente belas e originais. Usam lindas cores terrosas que fazem a
distinção no concerto das cores dominantes dentro de certos artesanatos
brasileiros. No povoado de Conceição da Barra, em minas, fazem com
barro bonecas negras e gordas com nádegas e seios grandes.
De tudo que é criado em Minas Gerais, o mais importante do ponto de
vista artístico são as fguras de barro dos povoados do Vale de Jequiti-
nhonha. Neste enorme país, existem apenas dois lugares onde são feitas
fguras de barro de altíssima qualidade, e, sobretudo, extremamente
originais: neste vale e no município de Caruaru (Alto de Moura), no
estado de Pernambuco, um dos maiores centros de arte fgurativa da
América. Essas fguras de barro recriam personagens e cenas variadas
da vida humana, acompanhado-a do berço à sepultura, assim como
mitos populares. A origem moderna da elaboração dessas fguras no
Nordeste do país se deve a Vitalino Pereira dos Santos – mestre Vitalino
– que morreu prematuramente em 1963, na pobreza e de uma doença
cuja vacina tinha sido descoberta havia 150 anos: a varíola (MARTINS,
2001, p. 50).
Foi a partir de 1947, quando o pintor Augusto Rodrigues levou pela
primeira vez o trabalho de mestre Vitalino, Zé Cabloco e outros a uma
exposição no Rio de Janeiro, que a obra foi vista fora do seu lugar de
origem (MASCELANI, 2002, p. 14-15). A partir de então, a arte alcançou
um grande desenvolvimento na região, e centenas de pessoas passaram
a se dedicar a ela. Parece que a mesma história se repete em muitos
lugares do planeta. Faz-nos lembrar imediatamente da elaboração dos
“diablitos” em Ocumicho, na década de 1960, por um homem chama-
do Marcelino, e que hoje em dia são feitos por dezenas de mulheres.
Ou o caso de Juan Quezada, em Mata Ortiz, Chihuahua (México), que
começou a fazer cerâmica e hoje centenas de homens e mulheres na
região também se dedicam a fazer panelas de barro. Não vou me deter
neste aspecto porque, embora me interesse bastante, já tem sido muito
estudado, havendo inúmeros textos a respeito.
5
As mulheres, com mais freqüência que os homens, encontraram na arte
popular o complemento para as despesas familiares, quando os ganhos
para o sustento não são sufcientes. É um trabalho conveniente, porque
pode combinar-se relativamente bem com as atividades domésticas e o
cuidado das crianças.
As rendas são especialmente importantes no Brasil e constituem uma
arte popular bastante respeitada, chegando a formar verdadeiras in-
dústrias domésticas, devido ao seu grau de perfeição e sofsticação.
6

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É uma arte elaborada única e exclusivamente por mulheres. Herança
da colonização portuguesa, esta arte encontrou no país um solo fértil
para o seu forescimento. Enquanto no México sua fabricação acabou
desaparecendo, no Brasil ela se manteve, obtendo até um considerável
desenvolvimento. Atualmente, destacam-se em sua produção Santa Ca-
tarina, Pará e praticamente todos os estados do Nordeste, como Ceará,
Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão. Muito
valorizada, contitui um complexo símbolo de identidades regionais e
até de brasilidade.
Em Juazeiro do Norte, Ceará, Maria de Lourdes Cândido e suas flhas,
Maria do Socorro e Maria Cândido Monteiro, elaboram maravilhosos
quadros de barro pintado, com fguras sobrepostas, num trabalho ar-
tístico altamente atraente. Elas representam todo tipo de cenas da vida
cotidiana e imaginária: mulheres e homens nadando, dançando, tocan-
do instrumentos, indo ao médico, trabalhando a terra ou dançando o
bumba-meu-boi. Como mencionei antes, no museu Casa do Pontal, há
uma parede com estas obras.
Em meio à grande variedade de objetos de arte popular, vale destacar
três representações de barro produzidas em vários centros de cerâmica
do país. Apresentados em diversos tamanhos e com qualidade distinta,
são eles: as galinhas de Angola, Lampião, com ou sem Maria Bonita, e
o bumba-meu-boi.
As galinhas são simples, mas com uma forma redonda muito singular.
A grande maioria é feita com molde; apenas algumas saem das mãos
de bons artistas. Têm pintadas no corpo inteiro uns círculos brancos
muito peculiares, com um ponto no centro, na cor que foi escolhida
para ser usada na galinha, só que de uma outra tonalidade – logo, se a
galinha foi pintada de azul, o centro dos círculos brancos também será
azul. Os olhos, bem redondos, são círculos de cores diferentes. Todas
são basicamente iguais.
Lampião foi o cangaceiro mais famoso e temido de todos os tempos. É,
sem dúvida, uma lendária fgura histórica no Brasil. Existem Lampiões
e Marias Bonitas em todas as formas de arte possíveis e imagináveis.
Na arte popular, os de barro apresentam-se em diferentes tamanhos e
formas, sendo a maioria mal acabada, ainda que represente um grande
mito popular, um grande herói do povo brasileiro. Lampião, também
chamado Rei do Cangaço, nasceu em Pernambuco, com o nome de
Virgulino Ferreira (1898-1938). Foragido da justiça sanguinário e
despiedado, ao longo de quase duas décadas, aterrorizou o sertão do
Nordeste, assaltando com seu bando de cangaceiros. Vítima de uma
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traição, morreu decapitado pela polícia juntamente com Maria Bonita
e outros integrantes do seu bando. Suas cabeças fcaram expostas no
Museu Nina Rodrigues de Salvador, Bahia, por 30 anos. Se já era uma
lenda em vida, após sua morte, converteu-se num mito que perdura até
hoje. Em meio aos apaixonantes enredos escritos sobre ele, difícil defnir
onde acaba a história e começa o mito. Muitas informações referentes
a este personagem são incertas, inclusive o ano de seu nascimento. Uns
afrmam que foi em 1897; outros – que parecem ter pesquisado mais –
indicam 1898. Assim acontece freqüentemente com os mitos: episódios
da sua vida estão sempre envoltos na bruma da incerteza. O caso de
Frida Khalo é parecido com o de Lampião, já que por muitos anos, por
exemplo, persistiu a dúvida sobre sua verdadeira data de nascimento,
e muitos episódios de sua vida continuam na escuridão, desvirtuados,
como mito. Enfm, o fato é que algumas das representações populares de
Lampião e Maria Bonita chegaram a ser, ao longo da última metade do
século XX, de uma perfeição surpreendente. Como exem plo, vale citar
as feitas por mestre Vitalino e Zé Cabloco como maravilhosas.
Os bumba-meu-boi são bois pintados com cores brilhantes, enfeitados
com laços de outras cores constratantes, e com um sino pendurado no
pescoço. Representam o personagem principal da dança popular de
mesmo nome, que encena a vida, morte e ressurreição de um boi. Se-
melhantemente ao que ocorre com as galinhas e com Lampião, há bois
de vários tamanhos, alguns vindo até com buracos no lombo, para servir
de porta-lápis. O curioso desse assunto é que estes três objetos são feitos
em série e, ainda que sejam um simples artesanato barato feito para o
consumo de turistas, são atraentes e interessantes. Contudo, algumas
dessas representações, principalmente as de Lampião e Maria Bonita,
são autênticas obras de arte. Estas três imagens vêm sendo consideradas
o epítome da brasilidade na arte popular.
Em meio à cerâmica fgurativa do Nordeste, a representação dos re-
tirantes é emblemática, por ser a imagem da migração por excelência
dentro da arte popular. Trata-se de uma fla de seis pessoas – velhos,
jovens, homens, mulheres com crianças no colo –, cachorros, gatos e
burros que migram do sertão em virtude das terríveis secas. A infnida-
de de retirantes que chegam a fazer é assombrosa; existem de todos os
tamanhos e em qualquer lugar. Esta seria a quarta peça mais fabricada,
depois das três mencionadas. Os nordestinos são os eternos emigrantes,
sendo a migração uma marca de sua identidade. Daí que este aspecto de
sua história esteja retratado na arte popular, sendo levado por turistas
de todo o mundo.
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Tanto as peças de barro de Minas Gerais quanto as de Pernambuco
caracterizam-se por algo que lhes dá uma identidade absolutamente
distinta das fguras similares dos outros lugares do mundo: os olhos. As
fguras humanas da cerâmica brasileira têm olhos únicos: brancos, muito
brancos, com o centro bem preto e totalmente rendodos.
7
No México,
nunca vi nenhuma fgura com olhos assim. Mesmo alguns que mestre
Vitalino fazia no começo, que não eram pintados, eram bem particulares:
ele fazia os olhos da fgura em forma de orifício, bem redondo e bastante
profundo. Noemisa Batista do Santos, do Vale de Jequiti nhonha, uma
das criadoras mais originais do país, também compõe assim os olhos de
suas fguras.
Um outro objeto interessante, que ainda não chamou a atenção dos
pesquisadores, embora mereça um estudo mais acurado, são os qua-
drinhos de sisal que as mulheres fazem em Recife, Pernambuco. Nesses
quadrinhos, colam-se bonequinhos feitos de retalho e, assim, contam-se
histórias ou se retratam cenas da vida do lugar, como, por exemplo, “A
fazenda” ou a “Feirinha”. Parecem-se um pouco com as arpilleras chile-
nas, só que os materiais utilizados são diferentes: as chilenas são de puro
tecido, não usam fbras vegetais, e a forma de cortar também é diferente.
As mulheres que as elaboram estão agrupadas numa cooperativa, como
estão centenas e centenas de pessoas que se dedicam ao artesanato e à
arte popular.
Arte naïf
8
Em todos os países da América Latina e do Caribe, as pessoas pobres,
principalmente as mulheres, vivem inventando novas formas de expres-
são para que, com um pouco de sorte, consigam entrar no mercado.
Daí vem o “neoartesanato”, em alta escala. Talvez seja por isso também
que tenha aumentado enormemente a pintura naïf ou arte primitiva
sobre tela.
O Brasil não é exceção neste quadro; ao contrário, é provável que aqui a
chamada pintura naïf, ingênua ou primitiva, seja ainda mais abundante.
Pode-se realmente afrmar que existe uma tradição quanto à pintura
naïf o que levou inclusive à necessidade de se criar um Museu Inter-
nacional de Arte Naïf no Brasil, no Rio de Janeiro. Freqüentemente, o
que se exibe nesse museu são as expressões plásticas de certos artistas,
a maioria homens, que elegem, sem dúvida, como meio de expressão,
o estilo denominado ingênuo.
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Pelo que parece, a curadoria do museu não tem muita clareza quanto
ao que deve integrar seu acervo, já que, entre as pinturas naïf expostas,
encontram-se objetos de arte popular, como os amates pintados mexica-
nos. Seria bom que as fronteiras entre a arte naïf e a arte popular fossem
menos difusas. “A arte naïf é tipicamente brasileira e está fortemente
vinculada com a arte popular nacional”, afrma D’Ambrosio. No en-
tanto, parece-me que no museu do Rio de Janeiro apenas se misturam
alegremente a pintura deliberada e conscientemente ingênua de artistas,
com expressões que “parecem” naïf, mas, na realidade, são formas de
expressão de uma comunidade, que alguns pesquisadores de outras
classes sociais decidem que são ingênuas. Esse tema é bem polêmico
e, no momento, quero apenas destacar que no Brasil a plástica naïf
tem uma enorme importância, ocorrendo em diversos lugares, sendo
extremamente interessante do ponto de vista estético. Ela vibra como
o próprio país e é considerada uma forma de expressão do povo e das
classes populares, tanto rurais como urbanas. A questão que se impõe é
caracterizar esta massa amorfa que se costuma denominar povo. A partir
daí, interpretou-se essa arte ingênua ou primitiva como uma autêntica
expressão do povo brasileiro.
Não sei exatamente se é obra do povo ou de quem seria – embora seja
importante defnir-se isso – mas, na Bienal de 1998, foram apresentadas
480 obras de 240 artistas. Destas, foram escolhidos 153 trabalhos de 90
artistas. No catálogo, quase uma terça parte era composta de mulheres,
algo que parece bem signifcativo, porque, se fosse outra categoria de arte
plástica, o número de mulheres diminuiria drasticamente.
9
Na verdade,
em todos os lugares, sempre houve uma grande participação de artistas
mulheres na pintura naïf. Em relação à Bienal, seria importante defnir
a que classe social elas pertencem. Seriam pinturas nascidas entre as
classes populares ou na classe média? O simples fato de ser uma pintura
naïf a defne como arte popular? Ainda que isto seja o que ocorra de
fato, creio que deveria ser considerada também a procedência popular.
Artistas pertecentes a uma classe com recursos econômicos, que deci-
dem de forma deliberada pintar quadros ingênuos, prescindindo dos
convencionalismos acadêmicos, na contramão da arte erudita, nem por
isso seriam caracterizados como artistas populares, mas, sem dúvida,
seriam denominados naïf.
O boom das cooperativas
Na década de 1970, proliferou no Brasil o sistema de cooperativas de
produção; foram dezenas ou centenas, graças, talvez, à Lei Nacional de
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Cooperativismo, promulgada em 1971, durante o governo militar do
general Emilio Garrastazu Médici. Nestes primeiros anos do século XXI,
o presidente Luis Inácio Lula da Silva criou um grupo de trabalho inter-
ministerial com o fm de modernizar e fortalecer esse setor.
10
Tal forma
de organização de trabalho tem obtido êxito no país, e as cooperativas
continuaram proliferando enormemente, sobretudo as das mulheres.
Muitos afrmam que as mulheres sabem trabalhar melhor em conjunto.
11

Para comprovar tal teoria, deveriam ser consideradas todas as coopera-
tivas e associações existentes, para se verifcar se há mais mulheres que
homens. Além disso, é preciso levar em conta que existem outras formas
de associação informal, assim como algumas de índole bem diferente,
como as ONG’s ou organizações reli giosas, que também deveriam ser
consideradas, o que complicaria muito esse trabalho.
Mas é certo que hoje as mulheres trabalham melhor em conjunto que
os homens. É possível que isto se deva às desvantagens sociais que têm
de enfrentar e que, unidas, resolvem com mais facilidade os problemas
que surgem.
O setor da produção e da comercialização de artesanatos e de arte popu-
lar não é uma exceção no que se refere a cooperativas. Homens e mulhe-
res têm-se organizado em cooperativas ou em diversas associações para
enfrentar melhor os problemas econômicos, decorrentes das sucessivas
e intermináveis crises. No Brasil parece que as mulheres predominam
neste setor. As cooperativas têm recebido diversos estímulos econômi-
cos de programas estatais, assim como de fnanciadoras internacionais,
e, assim, se desenvolveram e se multiplicaram as de arte popular e de
artesanato, sobretudo durante as duas últimas décadas.
12
O caso que narrarei a seguir representa um exemplo muito singular da
enorme capacidade da mulher brasileira de associar-se para alcançar
coletivamente os objetivos traçados, na luta pela sobrevivência, sejam
objetivos políticos específcos ou não, com freqüência de cara à produção
ou à comercialização.
Abayomi
Palavra yorubá que signifca “meu presente” ou “meu momento”, Abayomi
é o nome de uma associação de mulheres negras com um projeto político.
Desta associação, surgem bonecas de pano sem cola ou costura. Milhões
de bonecas de panos são confeccionadas em todo o planeta. Talvez não
exista um único povo que não tenha fabricado bonecas de pano como
brinquedo, e estas, certamente, foram feitas pensando-se nas meninas,
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para inveja dos meninos. As bonecas Abayomi, no entanto, não são feitas
para as brincadeiras de meninas, mas para serem contempladas: são en-
feites, são arte popular. São “fapos e farrapos animados pela imaginação
de femininos pares de mãos”.
13
O grupo chama-se “Cooperativa Abayomi”, mas, na realidade, trata-se
de uma associação unicamente por questões de tipo legal e fscal, não
sendo propriamente uma cooperativa. Faz parte da Rede Nacional de
Direitos Reprodutivos, da Rede contra a Violência contra a Mulher e
da Rede de Mulheres Negras Latino-caribenhas (ASÍ se hace..., 2002, p.
41-42). Contam com fnanciamentos internacionais como o do Conselho
Mundial de Igrejas, Mulheres pelo Dia Mundial da Organização, Mama
Cash e hoje também com o apoio da Global Fund for Women.
Artesã, educadora popular e militante do movimento de mulheres negras
no Brasil, Lena Martins, que nasceu em 1950, foi quem inventou as bo-
necas negras. A primeira surgiu de suas mãos em 1987, no bairro Cidade
de Deus, no Rio de Janeiro, e o projeto coletivo Abayomi consolidou-se
em 21 de dezembro de 1988. A decisão de fazer bonecas negras coinci-
diu com a comemoração do centenário da Abolição da Escravatura no
Brasil (1988). O movimento negro, nesse momento, apresentava muita
força e levou à descoberta pessoal de Lena, sendo ela mulher negra. No
entanto, a associação só foi formalizada em 1994. Lena passou um ano
fazendo bonecas sozinha, aperfeiçoando a técnica – porque as primeiras
bonecas não eram mais que um aglomerado de tecido sem muito valor
estético –, antes de juntar-se com algumas mulheres conhecidas que viram
o seu trabalho e fcaram encantadas. Começaram então a fazer bonecas
pensando até em exportá-las, o que acabou não se concretizando, já que
elas mal conseguem levá-las para fora do Rio de Janeiro.
Lena nasceu em São Luiz do Maranhão, no Nordeste do país, e migrou
para o Rio de Janeiro aos 8 anos de idade. Hoje, a meu ver, é mais ca-
rioca que próprio o samba. Como artesã, para sobreviver, já tinha feito
diferentes tipos de roupa, além das tradicionais bonecas de pano brasi-
leiras.
14
Estas bonecas têm a peculiaridade de serem elaboradas sem cola
ou costura, unicamente com a reciclagem de sobras de materiais, numa
proposta bem ecológica, sem utilizar máquinas, apenas tesouras. São
feitas a base de nós, enrolando-se as tiras de pano de diversas cores de
forma totalmente manual. A única matéria-prima utilizada provém das
sobras das fábricas e do carnaval. Utiliza-se praticamente apenas puro
algodão, o que, hoje em dia, torna mais difícil obter o material, já que as
fábricas têm dado preferência às fbras sintéticas. Por isso, é preciso criar
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estratégias especiais para se conseguir a matéria-prima que, de qualquer
maneira, irá para o lixo.
Das mulheres que começaram, hoje em dia restam apenas três entre
as 18 que formam a cooperativa atual. Aquelas que se envolveram no
começo já não fazem parte do dia-a-dia da cooperativa. Todas dedicaram
parte do seu tempo unicamente para a cooperativa. As que mais traba-
lham o fazem três ou quatro dias por semana. Além de fazerem bonecas
e participarem, quando podem, nas demais atividades do grupo, essas
mulheres têm e exercem profssões diversas. Há professoras, psicóloga,
atriz, terapeuta, artista de circo. Cada pessoa que entra no grupo traz
algo novo, e isto é importante para elas.
Na associação, são oferecidos cursos, além de se organizarem exposições
e espetáculos de rua, como, por exemplo, “O Cortejo Brincante”, no
qual participam mulheres de todas as idades. Juntas, elas interagem por
meio de jogos, de declamação de poemas, trava-línguas, troca de receitas,
adivinhações, cantam músicas de trabalho e até cantigas de criança. Sobre
“O Cortejo”, Edmundo Pereira escreve: “No canto, no gesto, no passo,
guarda um povo, expressa um povo, seu saber e seu contar.”
15
Existe um ateliê onde cada mulher participante elabora um bebê Abayo-
mi. Colocam-se no chão retalhos formando uma mandala, e cada uma
vai expressando seu desejo de construir um mundo mais justo, enquanto
elabora uma boneca de pano. Em meio a brincadeiras, cantos e troca de
idéias e sentimentos, cada participante faz sua boneca negra sem cola
ou costura. O número ideal para este ateliê é de 25 pessoas. Trata-se de
um trabalho de refexão e conscientização para elevar a auto-estima e
sensibilizar sobre as injustiças do mundo.
Em 1995, houve uma exposição de bonecas abayomi na Sala do Artista
Popular do Museu do Folclore Edison Carneiro, no Rio de Janeiro, e
um catálogo foi editado. Este fato é particularmente signifcativo, já que
o Museu do Folclore é um dos mais prestigiados no país. Já em 2000,
receberam na cidade de Guadalajara, México, um prêmio para mulheres
de êxito, outorgado pela Red de Educación entre Mujeres de América
Latina y el Caribe (REPEM) do Uruguai. O prêmio foi a publicação de
um capítulo sobre elas no livro Así se hace (2002). Entre 2000 e 2001,
realizaram a exposição itinerante “Ritmos do Brasil”, e a “Retalhos do
Brasil”, organizada em torno de cinco temas: “O cotidiano”, com cenas
de casamentos, futebol, família; “O trabalho”, enfocando, por exemplo,
a atividade no campo; “A selva mitológica”, onde estavam o saci-pererê,
a cuca e o canto da sereia; o “O sagrado”, em que havia santos, assim
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como manifestações sincréticas das religiões africanas e do catolicismo; e
“O profano” onde se integravam as festas populares como Bumba-meu-
boi, carnaval ou festa junina. Em 2004, a Unesco realizou um congresso
em Brasília e encomendou à Abayomi mil bonecas. No entanto, apesar
de estarem há tanto tempo neste mundo e de terem entrado em vários
espaços da cidade e do país, estas bonecas são relativamente pouco co-
nhecidas no Rio de Janeiro, menos ainda em outros Estados e, fora do
país, são praticamente desconhecidas.
As bonecas negras nasceram num momento em que o movimento ne-
gro no Rio de Janeiro tinha muita força, afrma Lena. Foi em 1986/87
que se deu sua descoberta como mulher negra, quando tomou plena
consciência disso. Pensou em fazer bonecas negras, porque a maior par-
te das bonecas no Brasil são louras. Tratava-se de um grupo formado
apenas por mulheres, não porque excluíssem os homens, e sim porque
nenhum mostrou interesse em integrar-se ao projeto. É, portanto, uma
organização feminina e, além do mais, feminista, porque evidencia as
desigualdades e a falta de oportunidade para as mulheres, em particular
para as negras. Por meio das bonecas e também do trabalho interno do
grupo, elas buscam aumentar a auto-estima, bem como conscientizar a
população sobre o signifcado de ser negra no Brasil. Todas as bonecas
devem ser, sem exceção, negras. Segundo Lena, elas não possuem rosto,
porque, no Brasil, existem muitos tipos de rostos e colocar olhos e boca
as limitaria em demasia, já que não existe uma única fsionomia negra,
sendo preferível que cada um imagine o que quiser. Lena insiste em
que as bonecas sejam muito bonitas. Ela enfatiza que o valor estético do
trabalho de cada uma das integrantes do grupo tem tanta importância
quanto as questões políticas e ecológicas.
Já houve época de todas trabalharem juntas num mesmo local, mas hoje,
apenas quatro freqüentam o ateliê. As outras fazem suas bonecas em
casa e, geralmente, só participam das reuniões. Há mulheres casadas e
solteiras; Lena Martins é a única divorciada. Sua flha também faz bone-
cas como complemento para o seu salário, e Lena, às vezes, faz bonecas
com seus netos e netas.
Para Lena, as bonecas são representações humanas, são a própria hu-
manidade. Os menores geralmente gostam das de capoeira, mas não há
autorização para que sejam vendidas como brinquedo, porque podem ser
perigosas. No Rio de Janeiro, não há nenhum artesanato que represente
a cidade, não há nada de arte popular que seja estritamente do Rio de
Janeiro; logo, a Abayomi acha que suas bonecas representam esse papel,
apesar das infuências africana e européia.
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Aprender a dominar a técnica de fazer bonecas pode exigir um ano de
trabalho contínuo. Se as mulheres saem do grupo e retornam, devem
tornar a aprender. A forma de fazer as bonecas vem mudando com o
tempo. Elas têm chegado a uma excelência estética sem igual no Brasil,
em se tratando de confecção de bonecas de pano. As primeiras tinham
braços compridos, peitos grandes e um traseiro enorme. Eram bem
diferentes das de hoje, que foram aperfeiçoadas.
Hoje em dia, a principal função de Lena é organizar o trabalho, trazer
novas idéias e colaborar na venda. Ela também participa em atividades
do grupo. Uma vez por semana, as mulheres se reúnem no que chamam
“Céu na terra”. Entre nove e meia e três da tarde, tomam café e reali-
zam trabalhos coletivos. Lena praticamente já não faz bonecas, porque
enfrenta um problema de saúde que lhe afeta os movimentos do braço.
Está fazendo exames, mas há suspeita de estar sofrendo da síndrome
do “túnel carpiano”, com certeza, por ter trabalhado tantos anos com
as mãos, nesta pesada atividade de fazer nós e mais nós. As reuniões são
realizadas na sede da cooperativa que é, de fato, a casa de Lena: fca na
ladeira de um dos morros mais povoados do bairro de Santa Teresa,
num conjunto de casas, na de número 10. Ali mora e trabalha Lena,
mexendo os imaginários fos da cooperativa, como se ela fosse um fan-
toche em suas mãos. Adjacente ao ateliê, que é, ao mesmo tempo, a sala
de reuniões, há outro pequeno quarto, com uma linda vista, onde fca a
parte administrativa da cooperativa. A jovem Ariana começou a trabalhar
agora neste setor e também está aprendendo a fazer bonecas. Todo ano
é publicado um calendário com imagens das bonecas de pano.
Lena é a única que trabalha apenas na cooperativa. Todas as demais
fazem meio turno, devido a outras atividades. As que mais trabalham
dedicam à associação três ou quatro dias da semana. Lena vive desse
trabalho desde 1987, mas não tem casa própria, nem conta com bene-
fícios regulados pela lei.
Em 1999, houve um incêndio na sede da cooperativa, o que representou
uma enorme perda. Tudo terminou em cinzas, inclusive, sua história:
diversos documentos, arquivo de imprensa, fotos, vídeos, nada restou.
Perderam-se também instrumentos musicais, utensílios de trabalho e
cerca de 400 bonecas.
Lena gostaria de encontrar alguém que fosse capaz de dinamizar as ven-
das, que tivesse uma visão clara de como comercializar de maneira justa o
trabalho, já que, no momento, não dispõe de quem possa desempenhar
essa função. Isto é fundamental para que as mulheres possam trabalhar
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com tranqüilidade. Com muita freqüência, o maior problema dos grupos
que se dedicam à arte é a comercialização. Se não se consegue vender o
que é produzido, não se sobrevive.
Os preços das bonecas variam: se forem compradas diretamente na coo-
perativa, são mais baratas do que em lojas onde, geralmente, custam três
vezes mais. Os tamanhos das bonecas variam de cerca de 2 centímetros –
usadas como prendedores – até um metro e meio de altura. As menores
valem menos de um dólar; as que têm um ímã para se colocar na gela-
deira ou em algum lugar de metal e medem entre de 5 e 6 centímetros
custam um dólar. Aquelas que variam entre 10 e 15 centímetros custam
de 10 a 20 dólares. Logo, os preços vão aumentando com o tamanho,
assim como com o trabalho exigido para a confecção da boneca: as mais
elaboradas valem mais. Normalmente 55% das vendas de uma boneca vão
para a artista, uma parte vai para despesas da associação e para pagar a
administração, e 5% para Lena, por direitos autorais. Evidentemente, as
bonecas maiores, digamos a partir de 15 ou 20 centímetros são relativa-
mente caras. São vendidas em alguns mercados ou feiras, exposições em
universidades, e, principalmente, em algumas lojas de artesanato para
turistas. No entanto, as lojas mais sofsticadas não as comercializam, o
que é um contra-senso, já que se trata de um exemplar de arte popular
de excelente qualidade.
As bonecas criam uma imagem positiva das mulheres e dos negros. Por
meio de expressões lúdicas e criativas, contribuem para o reconhecimen-
to da identidade afro-brasileira. Ecologistas, feministas e anti-racistas
afrmam que elas possuem a função de estimular a refexão sobre as
diferenças raciais, sociais e culturais e despertar a memória afetiva em
cada pessoa.
Há uma grande variedade de bonecas. Encontram-se anjos e fadas
negros. Personagens de circo são também elaborados, como palhaços e
trapezistas. Estas, especialmente lindas, trazem roupas coloridas, cabelos
longos ou curtos, e ora oscilam com uma perna no trapézio, ora são pen-
duradas na parede. Há ainda fguras mitológicas e do folclore brasileiro:
a Curupira, com seus cabelos vermelhos e pés virados ao contrário; o
saci-perê, com o gorro vermelho, o cachimbo e uma perna só; bruxas
de desgrenhado cabelo vermelho-sangue, nariz comprido e torto, capa
foreada, chapéu e vassoura; personagens com roupas típicas de danças
regionais, e até mesmo Xangô.
Lena, depois de ver várias reproduções dos quadros de Frida Kahlo,
decidiu fazer uma Frida totalmente inventada, negra obviamente, mui-
to bonita. Os jogadores de capoeira são um conjunto de três ou quatro
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bonecas colocadas sobre um pedaço de madeira, como se estivessem
jogando capoeira. As pequenas bonecas que servem de prendedor ou
as que têm o ímã são vendidas com uma enorme variedade de roupas e
cores. Umas com saia, outras com calça, mas todas, praticamente todas,
são bonecas bem femininas. De fato, as únicas representações masculinas
que vi estão nos grupos de capoeira e em algumas imagens de seres do
folclore, como o saci-pererê. Há também muitas bonecas vestidas de noi-
va. Em geral, todas as cores dos tecidos são vivas, muito vivas, algumas
até extravagantes.
Cada boneca distribuída leva uma etiqueta com a seguinte inscrição em
português e em inglês: “Fortalecendo a auto-estima de um povo. Boneca
negra feita sem cola ou costura, com material reaproveitado de sobras da
indústria têxtil. Arte genuinamente brasileira desenvolvida exclusivamen-
te pela Cooperativa Abayomi”. Há uma outra inscrição que diz: “Boneca
negra feita sem cola ou costura. Artesanato genuinamente brasileiro,
exclusivo da Cooperativa Abayomi, feito com material reciclado. Temas:
personagem de circo, mitologia, manifestações folclóricas e culturais e
fguras do cotidiano. Tamanho: 2cm a 1,5m”. E elas sabem que o povo
não é neutro, também é negro e mulher. É normal que as elites políticas e
intelectuais da América Latina e do Caribe, só para falar de nós, pensem
no povo como “uma entidade abstrata, um lugar vazio”. As mulheres de
Abayomi sabem claramente quem forma o povo brasileiro.
16
O projeto Abayomi é muito signifcativo em mais de um sentido. As bone-
cas não são apenas interessantes e bonitas, com um valor artístico indiscu-
tível. Há todo um caráter político por trás deste trabalho que representa
algo absolutamente excepcional na arte popular latino-americana. Logo,
o que torna a cooperativa Abayomi diferente de tantas e tantas outras
que existem na região, é a deliberada conjunção do trabalho político e
artístico com êxito total. Nelas não se percebe o temor de contaminar a
arte com a política, muito pelo contrário, o político e o social dão sentido
e conteúdo à sua arte. A valorização da afro-brasilidade com bonecas
que representam orixás, que reproduzem personagens do Folclore de
origem africana com suas vestimentas próprias, como as do traje de
Jongo, por exemplo, dança típica do Rio de Janeiro, tudo é expresso
pela arte. O objetivo é projetar uma imagen positiva do ser negro. É,
de certa maneira, uma versão feminina e brasileira do Black is beautiful
dos anos 1960 dos Estados Unidos. Para Lena Martins, seu trabalho em
Abayomi representa uma forma poética de estar militando.
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[…] tanto com relação aos confitos identitários que alocam as imagens
do negro e da negrura num universo ainda marcado por este reótipos
negativos ou por dissensões localizadas, quanto na preocupação de
se fortalecerem as manifestações da herança africana, na cultura bra-
sileira, muitos mitos sobre a questão de cor e de raça no imaginário
de nação, no Brasil, estão sendo recolocados em questão (FONSECA,
2001, p. 113).
É muito importante que haja essa revalorização da negritude, mas é
preciso que ela passe também pelo corpo. Talvez pareça até um paradoxo
a importância fundamental dada à corporalidade das bonecas Abayomi.
Como já mencionei, nenhuma tem rosto, portanto a negritude é expressa
unicamente por meio da cor da pele, do cabelo e, às vezes, da roupa.
Os corpos são “esculpidos” com magnifcência até o último detalhe. Se
a representação dos negros e das negras na imaginação branca domi-
nante é de que sejam apenas corpo, muito mais corpo que intelecto,
um somatório de músculo, sensualidade, sexo, “uma corporalidade que
fascina e horroriza ao mesmo tempo” (FONSECA, 2001, p. 93), tenho
a sensação de que as bonecas ressaltam a beleza dos corpos negros. As
artistas dão ênfase justamente à corporalidade, vivendo-a positivamente.
Muitas bonecas são representadas em ação, não são fguras estáticas. É a
corporalidade dinâmica que as defne. A meu ver, as mulheres da Abayo-
mi exploram justamente o que sempre foi entendido como negativo,
questionando e redefnindo certos conceitos. “A classifcação epidérmica
dos indivíduos marcou profundamente as experiências históricas da
população da América, de tal forma que, ainda hoje, o corpo humano
leva um tipo de código moral e estético determinado, sobretudo, por
seus traços externos” (FONSECA, 2001, p. 90).
As bonecas Abayomi têm razão ao tratar de manter viva e presente na
memória a ignominiosa história da escravidão africana. E vale comparar
este projeto com a publicação de um livro intitulado Para nunca esquecer
negras memórias/memórias de negros, no qual, parece mentira, esqueceram-
se, como sempre, das mulheres (ARAUJO, 2002). É assombrosa a ausência
quase total de mulheres, sobretudo como criadoras, num livro que se
supõe tenha sido feito, justamente, para reparar os estragos da memória
racista seletiva e excludente. O pior é que, na primeira página, publicam
o retrato de Ana Zinga, rainha de Matamba, com um seio descoberto.
Esta imagem seria magnífca se houvesse uma relação de paridade entre
o número de mulheres e de homens mostrando partes do corpo o que
efetivamente não ocorre. Os homens retratados trazem habitualmente os
corpos cobertos. Nesse contexto, as bonecas Abayomi contribuem para
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 83–108, 2. sem. 2006
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reparar “o desprezo” pelas mulheres, e mais ainda pelas mulheres negras,
por meio da dinâmica reinvidicação lúdica da negritude feminina. É isto
que importa politicamente, e a beleza das bonecas que nascem dessas
mãos hábeis alimenta os sentidos e a razão de quem se deixa seduzir.
Este breve prcurso pretendeu mostrar algumas expressões da arte po-
pular brasileira, enfatizando o que achei excepcional. Depois de minhas
pesquisas – baseando-me também no que a experiência me ensinou –,
posso afrmar, obviamente com medo de errar, que a riqueza desta arte
no Brasil deixa muito a desejar. Se a compararmos com a arte popular do
México, fcará evidente que esta é bem mais abundante, interessante e su-
perior em grau de excelência. Ao longo deste texto, procurei mostrar que
no Brasil existem manifestações de arte popular que são extraordinárias,
únicas no mundo por sua beleza e originalidade. No entanto, são ainda
escassas, sobretudo se for considerada a enorme dimensão geográfca do
país. Ou será, talvez, que nada é verdade, nada é mentira… e, por isso
mesmo, existe a possibilidade de que a lua sorrisse só para mim.
Tradução do espanhol: Tatiana Lessa Costa.
Revisão da tradução: Simoni Lahud Guedes e Sônia Peçanha.
Acervos Consultados
Museu Casa do Pontal, Rio de Janeiro.
Museu do Folclore Edison Carneiro, Rio de Janeiro.
Museu de Arte Naïf, Rio de Janeiro.
“Pé de Boi”, Rio de Janeiro.
“Brasil e Cia.”, Rio de Janeiro.
“O Sol”, Rio de Janeiro.
“Alma Brasileira”, Feira de São Cristovão, Rio de Janeiro.
“Carmen. Artesanato Nordestino”, Feira de São Cristovão, Rio de Ja-
neiro.
“Salvaterra. Coisas da Roça”, Juiz de Fora, Minas Gerais.
“Velho Chico”, Rio de Janeiro.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 83-108, 2. sem. 2006
90
Abstract
In this article I make a small journey through some regions and certain
expressions of Brazilian folk art, focusing on gender difference. I attempt
to differentiate between folk art and handicrafts. I then consider one
example of carioca folk art, the black dolls made of discarded cloth, that
is neither glued nor sewed. The makers of these dolls are members of the
Abayomi collective, and they are all black women with a consciousness of
gender and race issues. They carry out a struggle for survival through this
production and, moreover, express the strong presence, dignity, and beauty
of black women. The creator of these dolls is Lena Martins, who tells her
story, and, that of the group.
Keywords: folk art; gender; feminism; blackness.
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Notas
1
Ver Bartra (2003) e Bartra (2004).
2
Ver Mestres-artesãos ( 2000). Este livro tem, além do mais, fotos bastante interesantes.
3
Ver bibliografía, Matos (2001)
4
Ver, por exemplo, The Art of Brazilian Handicraft (2002); Mascelani (2002) e outros.
5
Ver bibliografa.
6
Ver, por exemplo, Maria Luiza Pinto Mendoça (1959).
7
Parece que Manuel Eudócio Rodrigues (1931), do Alto de Moura, Pernambuco, foi aprendiz do mestre Vitalino
que foi quem começou a fazer os olhos desta maneira particular.
8
Em português, como arte é feminino, deveria ser feita a concordância e dizer naive, mas não acostuma-se dizer
assim.
9
Cf. Bienal Naïfs do Brasil 1998 (1998).
10
Cf. Carmenzina Mascarenhas em: <http://www.radiobras.gov.br/direto_planalto/matplanalto_100703.
htm>.
11
Por exemplo, Ronald J. Duncan “El arte popular de las mujeres en La Chamba, Colombia”, em Eli Bartra
(2004, p. 189).
12
Ver Tereza de Souza (1991).
13
Disponível em: <http://www.abayomi.com.br/quem_somos.html>
14
Entrevista com Lena Martins em novembro do 2004 na sede da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ).
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 83-108, 2. sem. 2006
94
15
Disponível em: <http://www.abayomi.com.br/cortejo.html>
16
José Murilo de Carvalho é quem destaca “as imagens da nação brasileira construídas pelas elites políticas e
intelectuais [...] elaboram-se com recursos retóricos que descrevem o povo como uma entidade abstrata, um
lugar vazio porque não se ajusta ao modelo de país pensado” (FONSECA, 2001, p. 91)
Renata Menasche
Alimentos transgênicos, incerteza científica
e percepções de risco: leigos com a palavra
Tomando por instrumental interpretativo perspectivas
oferecidas por abordagens que se dedicam à análise das
percepções de risco e pela antropologia da alimentação,
este trabalho busca apreender as representações sociais,
referentes aos organismos geneticamente modifcados,
de moradores de Porto Alegre (Rio Grande do Sul),
entrevistados, indicando que o medo em relação a
eventuais malefícios advindos da ingestão de alimentos
transgênicos talvez não se substancie em risco a ser
considerado no momento da decisão a respeito de o
que consumir.
Palavras-chave: transgênicos; percepções de risco;
antropologia da alimentação.
*
Doutora em Antropologia
Social, professora do pro-
grama de Pós-Graduação
em Desenvolvimento Rural
da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (Pgdr/
Ufrgs) e da Universidade
Estadual do Rio Grande
do Sul (Uergs), pesquisa-
dora da fundação Estadual
de Pesquisa Agropecuária
(Fepagro).
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 109-125, 2. sem. 2006
110
Introdução
Os dados analisados neste artigo foram coletados em pesquisa realizada
no período compreendido entre novembro de 2001 e março de 2002,
quando, a partir do tema abrangente “hábitos alimentares”, foram
entrevistados 25 moradores de Porto Alegre – mulheres e homens, de
diferentes classes sociais, origens étnicas, faixas etárias, inserções profs-
sionais, situações familiares, religiões, escolaridades, locais de nascimento
e de moradia.
1
No período que antecedeu a realização da pesquisa, alguns episódios
contribuiriam para colocar o tema “transgênicos” em destaque no cenário
nacional e particularmente no gaúcho.
Repercutindo ações de denúncia de organizações ambientalistas, meios
de comunicação de massa passariam, a partir de 1999, a veicular notí cias
a respeito da presença, nas gôndolas de supermercados brasileiros, de
alimentos em cuja composição tomam parte organismos geneticamente
modifcados. Isso se daria em um contexto em que, como apontado
por Gouin e Cordier (2001), na Europa, consolidava-se um am biente
psicológico – gerado a partir da primeira crise da vaca louca, ocorrida
em 1996 – em que o tratamento como escândalo alimentar dos eventos
relacionados a crises alimentares seria amplifcado, como se verifcaria
nos casos da contaminação por dioxina (1999), da segunda crise da vaca
louca (2000), bem como dos alimentos transgênicos.
Em âmbito nacional, os tribunais eram, à época, o palco privilegiado
para o exercício da polêmica sobre os organismos geneticamente modi-
fcados, que crescentemente ocupava espaço na mídia. Enquanto isso,
no Rio Grande do Sul, as disputas legais se dariam em segundo plano,
subordinadas à dinâmica de acontecimentos que teriam lugar junto aos
campos de soja, no interior do estado. Para ilustrar o que foi afrmado,
cabe mencionar o processo que, em 1999, colocou em situação de con-
fronto a ação fscalizadora de lavouras clandestinas de soja transgênica,
realizada pelo governo do estado, e as mobilizações promovidas por
produtores pró-transgênicos, que conduziriam o confito ao ponto de
manter fscais como reféns. Vale lembrar, ainda, o episódio que, ocorrido
no município gaúcho de Não-Me-Toque, em janeiro de 2001, durante
a realização do primeiro Fórum Social Mundial, alcançaria repercussão
internacional devido à participação do ativista francês José Bové, diri-
gente da Confédération Paysanne, em ação promovida pelo Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em área experimental pertencente
à empresa Monsanto.
2
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É também indicadora da presença do debate sobre o tema a introdu-
ção, em 1999, do vocábulo “transgênico” no Dicionário Aurélio Século 21,
bem como a crescente ocorrência do tema nos veículos de comunica-
ção. Naquele ano, o jornal gaúcho Zero Hora contabilizaria a evolução
do número de vezes em que o termo, inclusas as variações de gênero
e grau, aparecia em suas reportagens. Em 1999, teriam sido 1291 os
registros do termo – correspondendo a uma média de 3,5 vezes por
dia –, enquanto no ano anterior haviam totalizado uma quantidade dez
vezes menor.
3
É, então, em um contexto em que o tema estava em evidência, e a pre-
sença de organismos geneticamente modifcados na alimentação dos
moradores de Porto Alegre era já uma possibilidade, que se desenha
este artigo.
A refexão a ser aqui desenvolvida, a partir das percepções expressas
pelos moradores de Porto Alegre, entrevistados quando o tema em pauta
eram os organismos geneticamente modifcados, toma em conta as con-
tribuições dos trabalhos da antropóloga Mary Douglas e dos sociólogos
Ulrich Beck e Anthony Giddens, reconhecidas como centrais no debate
sobre risco nas ciências sociais.
4
Transgênicos?
Quase todos os moradores de Porto Alegre entrevistados já haviam es-
cutado falar dos transgênicos. De fato, dos 25 informantes, apenas uma
senhora declarou não ter qualquer idéia sobre o assunto:
[A senhora já ouviu falar dos alimentos transgênicos?] Não, não vi isso
aí, não. Às vezes eu passo dias sem assistir, hoje não foi nem ligado ao meio-dia,
a televisão (Angelina).
No entanto, mesmo afrmando desconhecer o assunto, Dona Angelina
demonstrava, em sua resposta – possivelmente dada a forma como fora
apresentada a questão –, intuir que os alimentos transgênicos consti-
tuíssem tema passível de presença em noticiário televisivo.
Obviamente, não se pretende considerar o universo de 25 moradores
de Porto Alegre entrevistados como representativo para o debate sobre
a questão. Entretanto, chama a atenção o fato de, à exceção de Dona
Angelina, todos terem manifestado algum grau de familiaridade com o
tema. O mesmo ocorre quando levamos em conta as pesquisas de opinião
pública sobre transgênicos realizadas no Brasil (IBOPE, 2001, 2002),
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que – a partir de 2 mil entrevistas – indicam, para o perío do em foco,
ser o tema mais presente entre os habitantes dos estados do Sul do que
entre os das demais regiões do país.
Observando os resultados dessas pesquisas – alguns deles podem ser
conferidos no Quadro 1, abaixo –, podemos notar que, comparando com
o conjunto do país, nos estados do Sul era, no período, signifcativamente
maior o percentual de entrevistados que afrmava ter tido algum contato
com o tema e que considerava que os transgênicos oferecem riscos à
saúde e ao meio ambiente.
Quadro 1 – Opinião pública sobre transgênicos: dados comparativos entre a
região Sul e o conjunto do Brasil (em % dos entrevistados) – 2001 e 2002
Fonte: IBOPE (2001, 2002).
É interessante observar, ainda, que para as questões que se repetem nas
duas enquetes, realizadas em anos sucessivos, enquanto no conjunto do
país as variações são pequenas, nos estados do Sul, durante o mesmo
intervalo, as opiniões variam signifcativamente, o que evidencia a ocor-
rência, no período, de um aprofundamento da diferenciação entre as
opiniões do Sul e do Brasil.
Pode-se verifcar, também, que no Sul encontra-se a menor taxa de
entrevistados que abdica de responder às questões apresentadas, o que
indica que, entre os brasileiros, eram, naquele período, os sulistas os que
demonstravam menor difculdade em posicionar-se acerca dos organis-
mos geneticamente modifcados.
Dos resultados apresentados pelo IBOPE, são particularmente interes-
santes as respostas fornecidas pelos entrevistados quando solicitados a
posicionar-se em um contexto em que o tema é objeto de polêmica entre
os cientistas. Enquanto em 2001 os percentuais de entrevistados que se
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colocavam a favor da proibição dos transgênicos eram praticamente
os mesmos para o Brasil e para o Sul, em 2002 os sulistas adotariam
mais enfaticamente do que o conjunto dos brasileiros uma postura de
precaução.
Nessas pesquisas do IBOPE – pesquisas de opinião pública e, portanto,
apresentando as limitações disso decorrentes –,
5
os resultados disponíveis
são agregados por regiões, o que torna impossível verifcar especifca-
mente os dados correspondentes ao Rio Grande do Sul. Entretanto,
como os dados indicam claramente um comportamento diferenciado
dos entrevistados do Sul, podemos, com chances razoáveis de acerto,
supor que essa diferenciação tenha sido, em boa medida, produzida a
partir das respostas obtidas no Rio Grande do Sul, o estado da Fede-
ração em que, como anteriormente comentado, a polêmica sobre os
organismos geneticamente modifcados se manifestava, no período, de
forma amplifcada.
A partir desse quadro, talvez, possamos entender que, entre os 25 mora-
dores de Porto Alegre que, no período compreendido entre novembro de
2001 e março de 2002, se dispuseram a conceder entrevistas a respeito
de seus hábitos alimentares – tema geral das entrevistas, quando eram
também indagados sobre os transgênicos –, apenas um tenha demons-
trado desconhecer completamente o assunto.
Mas, mesmo que a quase totalidade deles tenha tido algum contato prévio
com o assunto transgênicos, apenas nas falas de duas informantes o tema
surgiria espontaneamente nas conversas.
Helena, quando indagada sobre as informações que busca em rótulos
de alimentos, destacou que observava o país de origem dos produtos,
afrmando evitar, dada a possibilidade de conterem transgênicos, os
procedentes da Argentina, uma vez que, naquele país, a produção e o
consumo de organismos geneticamente modifcados já eram autorizados.
Enquanto isso, Lourdes, mencionando alguns critérios que orientam suas
escolhas ao fazer compras no supermercado, apontaria preferir sempre
o tomate comercializado no Rio Grande do Sul, como tipo paulista, ao
tipo longa vida, por acreditar ser o último geneticamente modifcado.
6
Helena e Lourdes seriam, entre os entrevistados – juntamente com Clara,
que também afrmaria recusar-se ao consumo de tomates tipo longa vida
–, as únicas a declararem adotar como critério de escolha de alimentos
a rejeição aos transgênicos.
Nos demais depoimentos, a introdução ao tema transgênicos se deu,
em resposta à questão apresentada, a partir de afrmação de incerteza
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diante do assunto, por meio de expressões que evidenciavam que os
informantes não se sentiam autorizados a emitir opinião.
Diante de um tema complexo e polêmico, sobre o qual o debate científco
permanece em aberto, os entrevistados demonstraram, inicialmente,
constrangimento em se posicionar. É como se, em um assunto conside-
rado de domínio do conhecimento especializado, se declarassem leigos,
7

considerando que, nessa condição, não se encontrariam habilitados a
constituir opinião a respeito.
Entretanto, esse sentimento não impediria que os informantes mani-
festassem, no seguimento das conversas, seus posicionamentos sobre o
tema, expressando, na maior parte das vezes, desconfança diante dos
organismos geneticamente modifcados.
[a senhora já ouviu falar dos alimentos transgênicos?] Pois é, aquilo
nunca entendi direito... que o transgênico traz doença, então aqui [Rio
Grande do Sul] o governo está bastante contra isso, mas não sei bem o
que é que é aquilo, transgênico. [...] Diz que câncer, traz, né? Que tem
um remédio, uma coisa tão forte, naquele produto, que traz doença.
Mas eu nunca li nada sobre isso, não sei bem, também só escuto fazendo
o meu crochê (Vanilde).
Vejamos o que dizem.
Leigos com a palavra
Dona Angelina que, como vimos no início deste artigo, manifestou desco-
nhecimento sobre o tema transgênicos, não estará entre os informantes
a quem será aqui dada a palavra.
Tampouco incluiremos Jorge, que, na condição de biólogo – convidado a
opinar sobre o assunto, expressou dúvida, indicando expectativa dian te
dos avanços da ciência –, poderia ser classifcado como leigo.
Há os casos de Helena e Lourdes, que, como anteriormente comentado,
abordaram espontaneamente, a partir das narrativas sobre crité rios de
escolha de alimentos, o tema transgênicos.
E há, ainda, Luisa. Diferentemente dos outros 20 entrevistados de Porto
Alegre, que, quando indagados se já haviam ouvido falar dos transgêni-
cos, expressaram certo constrangimento em opinar a respeito de tema
sobre o qual pairam incertezas científcas, Luisa afrmou sua confança
na ciência e nos cientistas.
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Tem uma coisa que eu tenho cá comigo, que o ser humano, e todo o ser
vivo, ele se adapta, ele faz mutação. Eu sei que a mutação é uma coisa de
longo prazo... então acho que isso aí, devagarinho, não ia causar tanto
prejuízo, não... Essa é a minha opinião... Eu olho com o olho espiritual,
o olho no futuro, que nós não temos só uma vida. Então, numa vida
futura, poderá ter chegado a outras conclusões... Então acho que nada
assim vem tão errado, até mesmo o clone, como eles falam, deixa fazer
o clone! Pra que proibir? Então esse tipo de coisa, criam certos tabus,
se a ciência vai avançando, deixa avançar. [...] Veja bem, voltando lá no
tempo do Osvaldo Cruz, quando ele falou da vacina, quase mataram
ele, que tinha que tomar vacina... É a mesma coisa agora. Falam “ah, o
transgênico, isso e aquilo”, e o pessoal vai contra... mas não sabem se
é verdade! Então deixa, deixa primeiro as experiências acontecerem,
não sei, não acho que seja tão nocivo não, eles [os cientistas] não iam
jogar uma coisa tão nociva assim, que os próprios descendentes deles
iam sofrer, eu não acredito (Luisa).
Luisa é médium, defnindo-se como espiritualista, praticante da umbanda
conhecida como de “linha branca”. Daí o “olho espiritual” a que se refere,
e que fornece a chave para a compreensão de sua análise. É a partir da fé
na reencarnação do espírito que Luisa constrói seu argumento em defesa
da ciência e dos cientistas. Ela alia à idéia de evolução espiritual, que se
daria ao longo de sucessivas vidas, um certo evolucionismo biológico,
relacionado à capacidade de adaptação da espécie humana às mudan-
ças – que impediria, inclusive, que a ingestão de alimentos transgênicos
pudessem vir a ter efeitos nocivos à saúde –, e, ainda, uma espécie de
evolucionismo científco, justifcador de sua confança no desfecho po-
sitivo de controvérsias científcas do presente a partir de comprovações
que deverão – ela não deixa margem para quaisquer dúvidas – ocorrer
no futuro.
Traçando um paralelo com a polêmica dos transgênicos, Luisa busca no
episódio conhecido como Revolta da Vacina argumento para demonstrar
os acertos das descobertas científcas, mesmo quando contestadas em sua
época. Esse episódio ocorreu no Rio de Janeiro, em 1904, onde a falta
de saneamento básico deixava a população exposta a epidemias de febre
amarela, varíola e outras doenças. Osvaldo Cruz chefava o Departamento
Nacional de Saúde Pública, conduzindo campanhas para a eliminação de
ratos e mosquitos, destinadas a controlar a transmissão de doenças. Na
época, essas campanhas encontravam forte oposição da sociedade, sendo
ridicularizadas pela imprensa, que considerava absurda a responsabi-
lização de um mosquito pela febre amarela. Diante do crescimento dos
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casos de varíola na capital, em outubro de 1904, o Congresso Nacional
aprovaria a lei que tornava obrigatória a vacinação contra a doença em
todo o território nacional. Com o estímulo de setores oposicionistas ao
governo – que promoveram, inclusive, uma insurreição militar, que pro-
punha a deposição do presidente da república –, por mais de uma semana
as ruas do Rio de Janeiro seriam tomadas por manifestações populares
contra a obrigatoriedade da vacina, que viria a ser suspensa.
8
A menção, por Luisa, ao episódio da Revolta da Vacina parece ter o
sentido de demonstrar que, mesmo quando os avanços científcos são
contestados, a perspectiva científca acaba por evidenciar-se acertada.
Esse otimismo com relação aos avanços científcos seria, à primeira vis-
ta, compartilhado por dona Olga, que, ao ser indagada a respeito dos
transgênicos, respondeu:
Já ouvi falar, e não dou minha opinião sobre isso [transgênicos]. Que
tudo quando é novo sempre é combatido. A gente sabe disso. Agora,
daqui há uns anos, talvez seja provado que é bom, então todo mundo
está de acordo e bate palmas. Por enquanto, essa luta contra e a favor,
eu não tenho conhecimento prá dar opinião (Olga).
Mas alguma coisa parecia estranha nesse discurso, proferido na sala
do apartamento da senhora de quase 80 anos, decorado de forma que
causava a sensação de que havíamos retornado no tempo uns 40 anos.
E não era apenas com a decoração que a indicação do triunfo do novo
não combinava. Quando perguntada se possuia forno de microondas, a
senhora afrmoou não ter microondas, computador ou televisão a cabo,
explicando: “todas essas novidades assim não me atraem”.
Diferentemente de Luisa, que durante toda a entrevista sustentaria –
mesmo diante das intervenções do marido, presente à conversa, que
indicavam uma atitude mais precavida – uma posição otimista diante das
inovações científcas, dona Olga, apesar da visão positiva que expressou
na introdução do tema transgênicos, assumiu, ao longo da conversa, no
desenvolvimento de seu argumento, uma postura bem mais cautelosa
diante do assunto.
Eu acho que não há esclarecimento sufciente para as pessoas se con-
vencerem de que o transgênico não faz mal. Não há conhecimento
sufciente. As pessoas arriscam a plantar, arriscam a comer, mas elas
não sabem o efeito. Não há tempo de saber o efeito que pode produzir
com o correr dos anos... Então eu acho que deve ser estudado mais,
essa é a minha opinião (Olga).
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Assim, talvez sua afrmação inicial seja melhor compreendida pelo que
expressa de dúvida, e não de certeza. Dona Olga é categórica, sim, mas no
indicar a volatilidade das certezas científcas. E é a partir da constatação
da atual insufciência de conhecimento sobre o tema que ela – mencio-
nando como riscos o plantio e o consumo de transgênicos nessa situação
de incerteza – afrma não ter opinião formada a respeito.
Excetuando-se Luisa – que, como visto, associa confança, e não risco, às
controvérsias científcas – os demais informantes compartilhariam, em
algum grau, da postura de precaução assumida por dona Olga diante
da situação de incerteza.
Como o transgênico é uma polêmica recente, a maioria das pessoas
não sabe o que é o transgênico, e ninguém sabe até hoje o que um
transgênico pode causar ou não (Karen).
Mas a maior parte dos entrevistados foram mais enfáticos do que dona
Olga ou Karen ao expressar sua desconfança em relação aos alimentos
geneticamente modifcados.
Alguns dos informantes demonstraram intranqüilidade diante do tema,
evidenciando a origem de sua inquietação na insufciência de informações
sobre o assunto, deixando entrever como fonte da situação de incerteza
os meios de comunicação.
Acho que não faz bem, né? Não pode fazer bem, tenho a impressão que
não, pelo que eles falam, né? Não fzeram uma pesquisa, assim, mesmo,
pra se saber sobre eles [transgênicos], mas eu tenho a impressão que
não faz bem (Zélia).
Não se sabe se faz mal pra saúde ou não, eu não me decidi, porque eu
não sei bem a verdade de tudo isso, não acho nada ainda, eu não sei.
[...] Como é que nós vamos saber, se faz mal? Olha, já li tanto sobre esse
transgênico! O que eles fazem? Eles modifcam lá não sei o quê... mas
como é que vai fazer mal, se é um vegetal também (Nilza)?
Eu ainda não conheço, só escuto, li aí, não vi... só ouvi falar... não sei
qual é o efeito disso aí, não acompanhei, eu só escuto, vi em jornal, na
televisão. [...] Uns dizem que faz mal, outros dizem que não, que é o con-
trário, então a gente não sabe, eu não tenho uma idéia (Armando).
Sobre isso eu não sei nada, pouco tenho visto. A gente ouve muita
notícia, alguma coisa a gente ouve... Eu, no meu ponto de vista, às
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vezes eu acho que é perigoso mesmo, é perigoso abalar a saúde do
povo, né (Marta)?
Como dona Marta, muitos dos entrevistados indicaram creditar aos
alimentos transgênicos riscos à saúde.
Do mesmo modo que em pesquisas sobre as percepções a respeito da
biotecnologia realizadas na Europa,
9
em alguns dos depoimentos dos
moradores de Porto Alegre entrevistados, a transgenia seria associada a
outras técnicas que despertam medo e rejeição (clonagem e radiação),
ou a procedimento tecnológico que, comprovadamente, é causa de do-
ença fatal em seres humanos (utilização de rações produzidas a partir
de farinhas animais).
Ah, sei lá... eu não sei falar... parece um clone. Pega duas coisas e bota
numa só, e modifca ali. Eu não sei se é legal... Por que é que não vai
continuar sendo como sempre foi? Por que mudar? Valor maior acho
que não vai ter (Dirce).
Eu vejo esse transgênico como a radiação. A radiação faz mal prá nós,
e esses produtos transgênicos também podem fazer mal. Mas eu não
tenho assim uma opinião formada a respeito, porque eu não tenho
conhecimento de causa... (Gilberto).
Eu ainda não sei o que vai fazer, mas é uma coisa que é uma modifca-
ção genética, né? E aquele problema de vaca louca, na Inglaterra, foi
exatamente por causa disso, foram mutações genéticas, feitas através
das rações dos animais, né (Helena)?
Outros informantes apontariam como conseqüências possíveis da in-
gestão de alimentos transgênicos a ocorrência de má-formação fetal e
de câncer.
Clone, radiação, vaca louca, mutação, má-formação fetal, câncer. Aí temos
uma bela lista de medos contemporâneos, mencionados pelos informantes
em associação aos transgênicos.
Enquanto a doença da vaca louca e as técnicas de clonagem de mamíferos
surgiram na última década, os demais “perigos” listados são mais antigos.
Entretanto, todos têm algo em comum. Mesmo quando suas causas – ou
conseqüências, no caso da clonagem e da radiação – não são objetivamente
completamente conhecidas, têm sido percebidas como decorrência dos
tempos modernos. E, nessa condição, têm sido, em diferentes sociedades
contemporâneas, objeto de lendas e rumores.
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É o que mostra o trabalho de Zonabend (1993), que aponta os rumores
correntes – entre outros, o nascimento de bebês deformados, ou de
bezerros com duas cabeças – entre os habitantes dos arredores de uma
usina francesa de reciclagem de resíduos nucleares.
No mesmo sentido, Darmon (1993) indica como a crescente incidência
de câncer vem, há mais de um século, sendo percebida, na Europa, como
decorrente de hábitos – são mencionados, entre outros, o aumento do
consumo de carne e a ingestão de alimentos industrializados – advindos
com a civilização e o progresso.
Temos, ainda, as inúmeras lendas urbanas analisadas por Campion-
Vincent e Renard (1998). Esses autores, evidenciando a predisposição
das sociedades contemporâneas, conferida pelo medo diante de novas
tecnologias, em acolher tais lendas, narram as mais fantásticas histórias –
e outras nem tão fantásticas – que relacionam como causa de câncer, ou
má-formação fetal, ou mutações, o emprego de tecnologias modernas.
Algumas delas, pelos riscos que oferecem, permanecem sendo, ainda
hoje, objeto de controvérsias científcas.
Retomando os depoimentos tomados entre os moradores entrevistados
de Porto Alegre, cremos que, ao equiparar o perigo representado pela
transgenia ao oferecido pela radiação, ou ao associar à modifcação ge-
nética males como câncer ou má-formação fetal, vários dos informantes
estariam identifcando os alimentos transgênicos como mais um dos
artefatos da ciência a merecer desconfança. Tal fato deve ser fruto de
uma situação de incerteza científca, perpetuada pela mídia e amplifcada
pelo debate público, politicamente polarizado.
Entretanto, cabe destacar que a existência desse medo não nos permite
concluir que ele se faça presente no momento em que os informantes se
vêem diante das prateleiras dos supermercados, selecionando os produtos
a serem consumidos em sua mesa.
Transgênicos: risco considerado?
Os dados coletados permitem intuir a ocorrência, entre os moradores de
Porto Alegre, entrevistados, – tal qual sugerido por Bauer et al. (1998,
p.167), em um estudo sobre as percepções a respeito da biotecnologia na
Grã-Bretanha – de uma disjunção entre seus posicionamentos enquanto
cidadãos e seus comportamentos enquanto consumidores.
Nas entrevistas realizadas, a maior parte dos informantes, quando colo-
cados diante de uma situação hipotética em que deveriam optar entre
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um produto transgênico e um não-transgênico, declararam forte rejei-
ção ao alimento geneticamente modifcado, mesmo que seu preço fosse
signifcativamente inferior ao do alimento convencional.
Ainda que levando em conta as limitações decorrentes da excessiva
importância das entrevistas na obtenção dos dados aqui analisados –
diante das óbvias restrições à observação participante, impingidas pelas
circunstâncias – especialmente no que se refere às práticas alimentares
dos informantes, é possível afrmar que a postura que assumem diante
da situação hipotética proposta parece não guardar correspondência
com seu comportamento cotidiano.
Afnal, muitos dos entrevistados haviam mencionado, em seus depoi-
mentos, estarem cientes de que, nas prateleiras dos supermercados
brasileiros, podem ser encontrados alimentos contendo transgênicos,
que, dessa forma, estariam já sendo consumidos.
Porém, como dito anteriormente, apenas Helena, Lourdes e Clara – as
duas primeiras espontaneamente, a terceira após indagada sobre os
transgênicos – afrmaram a rejeição aos alimentos geneticamente modi-
fcados como critério efetivamente empregado na seleção de produtos
alimentícios.
É bem verdade que, dada a não-regulamentação da lei que obriga a
rotulagem de produtos contendo transgênicos, é difícil identifcar, ainda
hoje, a presença de componentes geneticamente modifcados nos alimen-
tos. Portanto, a presença de transgênicos não pode ser objetivamente
considerada como critério para a escolha de produtos. Não há como
prever em que proporção a rotulagem dos alimentos geneticamente
modifcados, possibilitaria sua identifcação, provocando rejeição, entre
os informantes – que, quando indagados, declaram rejeitar esses ali-
mentos, ao mesmo tempo em que desconsideram essa rejeição em sua
prática cotidiana de escolha. Também não temos evidências de que haja
uma maior correspondência entre o posicionamento do consumidor e
seu comportamento.
Mas há como, mesmo nos limites das entrevistas, observar algumas con-
tradições que evidenciam que o medo de eventuais malefícios advindos
da ingestão de alimentos transgênicos talvez não se substancie em risco a
ser considerado no momento da decisão a respeito de o quê consumir.
Vejamos o que narram Cleusa e Lourdes. Ambas são mães (a primeira de
um casal de crianças, a segunda de duas pré-adolescentes), extremamente
criteriosas com relação à alimentação de suas famílias, espe cialmente
no que se refere aos flhos. Entre todas as mães entrevistadas, as duas
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demonstraram ser as mais disciplinadoras no que concerne aos hábitos
alimentares de suas crianças.
O que eu sei, que eu ouvi falar, é que eles [os alimentos transgênicos]
fazem mal pra saúde, que a gente não deveria comer, que não deveriam
existir alimentos transgênicos. E eu sei que tem certos doces, também,
tipo essas pastilhinhas, com chocolate... que isso aí tem transgênicos...
Eu ouvi falar, não sei se é verdade, também. As crianças, às vezes,
comem (Cleusa).
Assim, mesmo sendo bastante restritiva em relação ao consumo de doces
pelos flhos, e acreditando serem os alimentos transgênicos prejudiciais à
saúde, Cleusa admite que suas crianças ingerem, eventualmente, exata-
mente o tipo de confeito suspeito de conter ingredientes geneticamente
modifcados.
Já Lourdes – a mesma que, espontaneamente, afrmara a rejeição aos
alimentos geneticamente modifcados como critério de escolha e que
declarara considerar, por acreditar transgênico, cancerígeno o tomate
tipo longa vida – confessaria ter “enganado o marido”, utilizando como
ingrediente de uma refeição bifes de soja. Vejamos como isso se deu.
Geraldo tem sua formação e inserção profssional na área ambiental, e
parece, na visão da esposa, ter um posicionamento ainda mais frmemente
contrário aos organismos geneticamente modifcados do que ela.
Enganei direitinho meu marido, fz um [bife] à parmegiana... Mas eles
[o marido e as duas flhas] comeram! O Geraldo dizia assim “como é
que essa carne é tão macia?”. “Ah, é um bife que eu comprei, é carne,
eu que fz”. Mentira! Eu comprei os bifes já com a farinha aquela por
cima, mas é de carne de soja! Então ele vem que é uma delícia, e tu
jura que é carne, tu jura que é, e não é. Vem embaladinho, cada um
vem embalado num saquinho. O gosto é ótimo, é o gosto da fritura.
Tu não sabe, porque é o gosto da fritura... Até eu não acho tão ruim a
soja, que a soja tem suas vantagens. Mas o Geraldo não gosta, que ele
acha que a soja é transgênica, então que a gente não deve comer coisa
com soja... por causa do transgênico. Então o Geraldo é muito ligado
nessas coisas, também. E eles adoraram, ninguém dizia que não era
carne. Ele desconfou pela maciez da carne, tu cortava e “tchuc”, não
tinha um nervinho, não era dura (Lourdes).
Se Geraldo comeu seu bife de soja acreditando ser de carne, ou se pre-
feriu fngir acreditar, jamais saberemos. Mas temos na mentira confessa
de Lourdes alguns elementos interessantes para a análise.
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Ao afrmar que também Geraldo “é muito ligado nessas coisas”, Lour-
des faz referência à importância que ela própria, assim como o marido,
atribui ao natural enquanto valor, seja no que diz respeito à qualidade da
alimentação,
10
seja em relação à qualidade de vida, em geral. E é a partir
dessa visão que ela estrutura sua crítica aos transgênicos.
Assim, ao ceder à praticidade do bife de soja pré-preparado, ela não
apenas contraria as convicções que afrma, mas o faz com a determinação
necessária para sustentar a farsa ante o marido.
Como entender que, acreditando na nocividade da ingestão de alimentos
geneticamente modifcados, Cleusa não impeça seus flhos de consumir
os confeitos suspeitos, e Lourdes ofereça à família, de forma camufada,
a soja proibida?
Talvez ambas – possivelmente da mesma forma que a grande maioria dos
informantes, que declaram rejeição aos transgênicos, mas não a levam
em conta quando selecionam seus alimentos – tenham decidido que esse,
entre tantos riscos com que se deparam em seu dia-a-dia, não seja um
dos efetivamente escolhidos como objeto de preocupação.
Abstract
This paper aims to offer an understanding of social representations about
genetically modifed organisms in Porto Alegre (Rio Grande do Sul). As our
departing point, we have used the interpretative tools offered by studies on
risk perception as well as the anthropological studies of food. The interviews
suggest that the fear regarding uncertain consequences of the consumption
of transgenic food is not necessarily showed up at the moment of taking the
decision about what to consume.
Keywords: genetically modifed organisms, risk perception, anthropology
of food.
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Notas
1
Este estudo é resultado de uma pesquisa mais ampla, que teve por objeto as representações sociais de
agricultores e consumidores gaúchos sobre cultivos e alimentos transgênicos (MENASCHE, 2003b). Cabe
mencionar que, com o objetivo de preservar o anonimato dos informantes, os nomes aqui utilizados são
fctícios.
2
Para uma análise dos episódios aqui mencionados, ver Menasche (2002, 2005).
3
“Transgênicos na boca do povo”, Zero Hora, 24/12/1999.
4
Acerca da centralidade das contribuições de Douglas, Beck e Giddens no debate atual sobre risco nas ciências
sociais, ver, entre outros, os trabalhos das antropólogas Silva (1999), Caplan (2000) e Martin (2003); bem
como as análises de Boholm (1996), Guivant (1998) e Peretti-Watel (2000).
5
Para uma análise crítica dos métodos empregados em pesquisas de opinião pública, ver Champagne
(1998).
6
Como alguns informantes mencionaram considerar o tomate tipo longa vida como sendo transgênico, cabe
esclarecer que existem três possibilidades de obtenção de cultivares de tomateiro do tipo longa vida, duas
delas via métodos convencionais de melhoramento genético e a terceira por meio de transgenia. No Brasil,
diferentemente do que acreditavam vários informantes, os tomates longa vida comercializados não são – ou
ao menos não eram à época – obtidos a partir de modifcação genética (DELLA VECHIA; KOCH, 2000).
7
A distinção entre públicos leigo e perito – em verdade, a crescente redução, nas sociedades contemporâneas,
dessa separação – está presente nas análises dos vários autores que discutem o tema risco. Pode-se considerar
que ao público perito estaria originalmente associado o conhecimento especializado, enquanto ao leigo, o
conhecimento tradicional (GIDDENS, 1997, p.105-109).
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 109-125, 2. sem. 2006
125
8
Para mais informações sobre a Revolta da Vacina, ver: <http://www2.prossiga.br/Ocruz/ Trajetoria/
diretoriageral/31campanha>, <http://members.tripod.com/~omotim/Vacina.htr>, <http://geocities.yahoo.
com.br/vinicrasbr/historia/brasil/revoltadava>. Acesso em: 17 jun. 2003.
9
A esse respeito, ver Menasche (2003a).
10
Acerca do debate sobre a valorização do natural na alimentação em referência ao tema transgênicos, ver
Menasche (2004).
Heloísa Helena Salvatti Paim
*

Técnicos e usuários em programas
de assistência social: encontros e desencontros
Através da análise das relações sociais constituídas pela
implementação de um programa de assistência social
da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, destinado a
famílias cujas crianças e adolescentes são considera-
dos em situação de risco, busco dar visibilidade para
princípios que orientam práticas e salientar aspectos
que revelam os pressupostos da organização social. Em
consonância com estudos que interpretam os confitos
sociais como inerentes à vida social, analiso divergên-
cias e acusações entre técnicos e usuários do programa.
Com isso, pretendo refetir sobre as relações de poder e de
práticas de resistência que, nesse caso, são constituídas
pelas ações de sujeitos que assumem posições distintas
na instituição estatal.
Palavras-chave: estado; assistência social; poder.
* Doutoranda do Programa
de Pós-Graduação em An-
tropologia, Universidade
Federal Fluminense.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 127-150, 2. sem. 2006
128
Apresentação
Através da análise das relações sociais constituídas pela implementação
de um programa de assistência social da Prefeitura Municipal de Porto
Alegre, procuro oferecer visibilidade aos princípios que orientam as prá-
ticas dos sujeitos que nele relacionam-se e salientar aspectos que revelam
os pressupostos dessa diferenciada e interdependente intervenção social.
Em consonância com estudos que interpretam os confitos sociais como
partes da vida social, pretendo refetir sobre a constituição de relações
de poder. Trato das interações entre sujeitos que ocupam posições dife-
renciadas na instituição e que estão em posições diferenciadas, distantes
e desiguais no âmbito social mais amplo. A partir dessa análise, tento
compreender tanto as tentativas de disciplinamento e normatização da
vida familiar dos usuários dos programas de assistência, quanto os mo-
dos de relações que possibilitam o acesso desses sujeitos aos recursos de
distribuição pública e estatal.
1

A partir do diálogo com alguns autores, em especial Thompson (1998)
e Scott (1985), busco compreender as situações de confito a partir da
produção e do exercício de relações de dominação e de resistência. Ao
sublinhar as interdependências entre os sujeitos que ocupam posições
diferenciadas na organização institucional, pretendo romper com uma
visão estanque e unilateral comumente interposta à análise das ações
do Estado.
Neste texto, abordo uma dimensão restrita das relações que envolvem a
assistência social, decorrente do contexto em que essa pesquisa foi realiza-
da, no qual o foco era as relações entre técnicos e usuários do programa.
Assim não se trata de tomar esse espaço como central, nem de supor
a possibilidade de analisá-lo como um sistema fechado. Assim entendo
tornar visíveis as tensões sociais expressivas de nossa sociedade.
2
Ressalto que o processo de constituição de determinadas práticas en-
quanto “problemas sociais” ou “situações de risco” a serem enfrentadas,
é resultado de processos de disputa entre diferentes sujeitos sociais,
variando conforme os contextos históricos. Autores que abordam o
porquê de determinados temas tornarem-se objeto de especial atenção
e intervenção apresentam as variações nos focos de preocupação e nas
propostas de solução, não havendo uma relação direta entre a gravidade
do problema e o tamanho das atenções voltadas a ele (volume e intensi-
dade emocional) (FONSECA; CARDARELLO, 1999). Seja: os “proble-
mas sociais” existem nos termos que são defnidos pelos que investem
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 127-150, 2. sem. 2006
129
e disputam este reconhecimento, sendo resultado de um processo de
defnição coletiva.
Para fnalizar, sintetizo algumas características do programa e da pesquisa
realizada. Em consonância com as resoluções do Estatuto da Criança e
do Adolescente e da Lei Orgânica da Assistência Social – que defnem
como função do Estado garantir que crianças e adolescentes sejam re-
conhecidos como cidadãos de direito, alvos de proteção integral – em
1997, titulares da FASC elaboraram o Programa de Apoio à Família. O
programa tinha como objetivo atender às famílias dotadas de crianças ou
adolescentes, em situação de risco social/pessoal, identifcadas pelos técnicos
pela presença de mendicância, situação de rua, drogadição, maus tratos, entre
outros.
3
Para tanto, oferecia suporte fnanceiro e educativo, por meio de
uma bolsa-auxílio temporária e de grupos de mútua ajuda.
4

A inserção da família no programa tornava-se efetiva a partir de uma
avaliação realizada pelos técnicos que, sendo aceita, era proposto que
uma pessoa da família, defnida como membro agregador, participasse dos
grupos de mútua ajuda, para ser o elo entre família e programa. Antes
de iniciar sua participação no programa, a pessoa assinava um contrato
formal elaborado pela equipe técnica, pelo qual comprometia-se a seguir
certas normas: participar dos grupos de mútua ajuda, manter os flhos
na escola, atender às orientações sugeridas no cuidado com os flhos,
que incluíam uma vasta gama de encaminhamentos (busca de atendimento
psicológico e/ou psiquiátrico; envolvimento em atividades de reforço
escolar, de lazer ou de formação profssionalizante).
A assessoria foi realizada em função da demanda da equipe técnica do
programa. A preocupação dos técnicos era compreender o impasse co-
locado pelo fato de que as pessoas atendidas não cumpriam os combinados
individuais ou grupais, ainda que estivessem obtendo o apoio dos recursos
do programa. Refetindo sobre o próprio trabalho, os técnicos sugeriram
que aquelas pessoas podiam ter difculdades no entendimento verbal dos
combinados ou ainda tinham uma postura apática na interação grupal. Ou-
tro problema identifcado pelos técnicos: algumas práticas, estimuladas
durante a vigência do contrato, não permaneciam após a fnalização da
bolsa. Consideravam que, através de um estudo de cunho antropológico,
seria possível obter subsídios/explicações quanto às relações que eram
então legitimadas pela população atendida com o programa; e que isso
permitiria aprofundar os laços de troca com a população atendida.
A proposta da assessoria ocorreu em um momento especial, visto que se
aproximava do primeiro ano de vigência do programa com concessão
de bolsas

e, conforme o previsto no projeto, encerrava a participação
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 127-150, 2. sem. 2006
130
de algumas famílias. Assim, havia um clima profícuo de refexão sobre
sua implementação, uma vez que os técnicos avaliavam junto às pessoas
atendidas e à equipe, as contribuições e os limites do programa. Nesse
sentido, a assessoria corroborava um processo que já estava sendo desen-
cadeado no interior da equipe técnica. Noutro texto, abordei as questões
em relação aos tipos de demanda que têm sido feitas aos antropólogos.
Aqui registro que, inicialmente, argüi a importância de colocar a questão
de outra forma: que considerava as relações estabelecidas e não o foco
exclusivo sobre as práticas dos usuários.
A assessoria contou com três ações: a) observação dos grupos de mútua
ajuda, nos quais reuniam-se técnicos e usuários. Foram observados 25
encontros de grupos, realizados em dois centros comunitários, um loca-
lizado na zona leste e o outro na zona sul de Porto Alegre; b) formação
de um grupo de discussão (com técnicos) de textos antropológicos que
tratavam sobre concepções de família e experiências de intervenção.
Formaram-se dois grupos, com oito encontros, cada um com 20 téc-
nicos. Além disso, acompanharam-se as reuniões dos técnicos com a
coordenação do programa durante um ano. c) foram realizadas visitas à
casa de cinco mulheres que participavam do programa e mostraram-se
disponíveis a receber as pesquisadoras. Foram feitas, em média, quatro
visitas de três horas com cada uma das mulheres.
Este texto está organizado em duas partes: inicialmente, apresento al-
guns conceitos que dão suporte à análise das situações etnográfcas. Por
fm, teço algumas considerações acerca da complexidade das relações
entre técnicos e usuários que o diálogo com a bibliografa me permitiu
perceber.
Estado, Política e Poder
Lewellen (1983) analisa como política e poder, temas tradicionalmente
abordados pela Filosofa e pela Ciência Política, constituem-se em obje-
to antropológico. Salienta ainda que uma das principais contribuições
antropológicas foi não ter delimitado a política a uma parte do sistema
social. Tanto por questões metodológicas (interação face a face em
situações cotidianas e limites às generalizações), quanto pelas particu-
laridades das sociedades tradicionalmente estudadas (sem instituições
formais de governo), os antropólogos puderam perceber que a política
não podia ser analiticamente isolada, uma vez que poder e autoridades
manifestavam-se através de diferentes instituições. Também quando
antropólogos analisam suas próprias sociedades, revelam que as relações
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 127-150, 2. sem. 2006
131
informais têm infuências nos desdobramentos das relações formais e,
nesse sentido, mais do que análise das estruturas e normas sociais, cabe
pensar a forma com que elas são produzidas, disputadas, selecionadas e
aplicadas em situações concretas.
Associado a isso, as ponderações feitas por Lewellen sobre a complexidade
da noção de poder parecem pertinentes a este estudo, na medida em
que salientam diferentes formas de expressão e dimensões que podem
vir a ser analisadas, como público/privado, coerção/consenso, imposição/
legitimidade. O exercício do poder, ainda que possa ser feito de forma
unilateral e sem nenhum consentimento, quando no geral está baseado
no uso da força física, não elimina outros sentidos que podem ser atri-
buídos a essas práticas pelos sujeitos que são alvo dessa subjugação. A
submissão às autoridades pode estar baseada em diferentes motivações;
tanto pode ser por uma compreensão da legitimidade da instituição,
como por receio de suas penalidades, ou ainda por certo comodismo.
Considero essas formulações inspiradoras deste trabalho, rompendo com
análises do Estado como entidade abstrata, monolítica e unilateral; ou
ainda como mera aplicação de projetos por meio de estruturas preexis-
tentes. Assim, a implementação das políticas públicas, forma tão específca
da manifestação do Estado, é resultado de um processo de disputas entre
diferentes agentes sociais acerca das regras, valores e objetivos.
Essas disputas ocorrem entre sujeitos situados em posições sociais di-
ferenciadas, em contextos marcados por desigualdades econômicas e
sociais. Nesse sentido, encontro inspiração em Darnton (1986), Scott
(1985) e Thompson (1998), uma vez que problematizam os processos de
produção, dominação e resistência. É possível estabelecer aproximações
entre tais trabalhos, principalmente no que se refere às preocupações dos
autores em estudar sujeitos que, em geral, ocupam posições subalternas
tanto na sociedade quanto nos campos temáticos dos estudos acadêmicos.
Através da reconstrução das práticas cotidianas de operários, campone-
ses e plebeus, ressaltam as participações ativas nos eventos históricos.
Apontam a complexidade das relações de poder, tendo em vista que não
se trata de ações unilaterais de grupos considerados hierarquicamente
superiores sobre os outros. Assim, ao mesmo tempo que abordam os
processos de produção da dominação, suas análises possibilitam captar
também as perspectivas dos sujeitos situados nas posições subalternas,
dando visibilidade às suas práticas e aos signifcados sociais a elas atribuí-
dos, bem como seus desdobramentos em contextos mais amplos. Através
da atenção às práticas cotidianas de sujeitos comuns, questionam os
silêncios da história ofcial em relação às posições subalternas; e também
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 127-150, 2. sem. 2006
132
as perspectivas teóricas que reduzem essas práticas a uma imposição da
visão dominante ou apenas tentativas de garantir a sobrevivência. Com
isso os subalternos revelam a alteridade de suas concepções e práticas,
ao mesmo tempo que estão engajados ativamente nas relações com ou-
tros setores. Não têm seu modo de vida totalmente determinado pelas
imposições dos segmentos dominantes. Cabe ressaltar que a inclusão dos
subalternos não deve ser vista apenas como acréscimo a outras narrativas,
mas pode mesmo propor novas interpretações para eventos históricos.
Considero esta uma refexão de extrema pertinência para não correr
o risco de, nas refexões acadêmicas, reproduzir a ótica dos de posição
hierárquica superior. Muitas vezes a tentativa de afastar-se da perspectiva
de “cima” é feita através da exposição de “denúncias” das injustiças ou de
práticas de exploração e de subjugação. Outras tantas vezes, pela cons-
tituição de uma “imagem positiva” dos sujeitos de posição inferior que,
muitas vezes, resulta na fabricação de uma imagem do grupo bastante
coerente, integrada e romantizada. Essas posturas trazem a marca de
uma leitura moralizante das relações sociais, que faz com que o acadêmico
torne-se mais um agente que participa das disputas das leituras legítimas
sobre uma dada realidade social do que um analista da complexidade
das disputas existentes.
Retomo de forma mais detalhada alguns conceitos elaborados por
Thompson, em seu estudo sobre as relações entre a gentry e plebeus na
Inglaterra do século XVIII. Estes podem contribuir para a compreensão
das relações de dominação e de subordinação em outros contextos histó-
ricos, não por supor uma continuidade histórica ou ter alguma pretensão
universalista, mas enquanto instrumentos teóricos e metodológicos que
podem auxiliar no entendimento de outras realidades.
Thompson reincorpora os sujeitos nas análises históricas, contrapondo-
se a perspectivas que supõem a existência a priori de estruturas, as quais
determinariam as posições e formas de ser dos sujeitos. Salienta ainda a
importância de nos atermos à análise das interações dos sujeitos sociais,
construídas em contextos específcos. A incorporação dos sujeitos não
implica visão voluntarista. Os sujeitos deparam-se com constrangimentos
sociais, econômicos e políticos, que não são apenas efeitos de modos de
produção, desdobramento das interações em relações de interdepen-
dência. Assim, as estruturas são constituídas e só podem ser apreendidas
na ação de sujeitos.
Por essa perspectiva, a noção de “campo de forças” assume relevância,
tendo em vista que assume caráter relacional das posições em disputa
quanto às práticas consideradas legítimas. Assim, posições de dominação,
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 127-150, 2. sem. 2006
133
deferência e resistência conformam-se e constrangem-se. Baseado nesse
pressuposto, Thompson expõe uma concepção de cultura não como um
todo ultraconsensual, mas como “arena de elementos confitivos”, na qual
há trocas entre dominantes e subordinados. Em sua análise das relações
entre gentry e plebeus, salienta que as culturas não se autodefnem, nem
são independentes de infuências externas, mas constituídas de proces-
sos de disputas, concessões e resistências. Sujeitos, baseados em suas
experiências prévias, agem conforme o que consideram ser princípios
legítimos para orientar suas práticas. Thompson escreve:
Os pobres podiam se dispor a conceder sua deferência à gentry, mas
apenas por um preço, que era substancial. E a deferência era freqüente-
mente desprovida de qualquer ilusão: a partir de baixo, podia ser vista
em parte como auto-preservação necessária, em parte com extração
calculada do que podia ser conseguido. Visto dessa maneira, os pobres
impunham aos ricos alguns dos deveres e funções do paternalismo,
assim como a deferência lhes era por sua vez imposta. Ambos os lados
estavam aprisionados num campo de força comum (THOMPSON,
1998, p.78).
Através dessa abordagem de Thompson, construo outra forma de pro-
blematizar relações entre técnicos e usuários de programas de assistência
social. Sobretudo porque enquanto aponta para uma interdependência
entre essas posições, possibilita perceber as particularidades com que os
sujeitos situados numa posição subalterna percebem e agem no mundo.
Em conseqüência, também, a noção de “campo de força” torna-se fun-
damental para a compreensão de paradoxos e tensões que constituem
as relações entre técnicos e usuários; em especial porque enfatizam as
pressões que os sujeitos exercem entre si, ao mesmo tempo que apontam
para aspectos comuns entre eles e suas divergências, ainda que relati-
vamente encobertas.
Encontros e desencontros
Através da exposição de algumas situações presenciadas durante o tra-
balho de campo, pretendo salientar aspectos que revelem os encontros
e os desencontros entre técnicos e usuários do programa municipal de
assistência social, bem como o modo como estes atuam a fm de garan-
tir que o programa atenda seus objetivos. Acompanhando o programa
NASF, ao longo de um ano e em situações distintas, pude observar que
técnicos e usuários gestavam frustrações e acusações mútuas. No entanto,
uma análise mais detida sobre essas acusações revelava que não se tratava
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 127-150, 2. sem. 2006
134
de algo pelo qual se pudesse responsabilizar isoladamente os agentes.
Eram formuladas como resultado da relação estabelecida entre técnicos
e usuários, agentes atuando para que o programa funcionasse de acordo
com o que compreendiam como questão.
5

Inicialmente, técnicos e usuários compartilhavam de uma mesma preo-
cupação: as difculdades vivenciadas por crianças e jovens. Também con-
cordavam que a instituição, na qual uns trabalhavam e outros buscavam
recursos, deveria e poderia auxiliar na superação dessas difculdades.
A “zona de consenso” encontrava seus limites quando se ultrapassava
esses dois pontos.
O ingresso das famílias no programa efetivava-se a partir de uma ava-
liação realizada pelos técnicos, através de entrevistas individuais, com
membros das famílias e visitas domiciliares, nas quais iriam identifcar a
presença de crianças e adolescentes em situação de risco, indicada pelas
práticas de mendicância, situação de rua, uso de drogas, maus tratos, entre
outros. A seleção era realizada entre as pessoas encaminhadas por outras
instituições: conselho tutelar, escolas, postos de saúde ou pela demanda
direta das que se desejavam benefciárias dos recursos disponíveis.
Os relatos dos técnicos sobre o processo de seleção e a avaliação do
andamento do trabalho indicavam inquietações e questionamentos.
Enfatizavam uma decisão baseada em critérios técnicos, que consistia na
identifcação de crianças e adolescentes em situação de risco, e também
na avaliação de que os sujeitos benefciavam-se das atividades propostas
pelo programa. Entretanto, diante dos casos que chegavam ao conheci-
mento desses experts de tais julgamentos e a escassez de recursos para o
programa, sentiam-se pressionados a fazer escolhas difíceis.
Nas reuniões entre coordenadores do programa e técnicos, constante-
mente retornava a discussão sobre critérios de ingresso, renovação ou
encerramento da participação de usuários. Em geral, a maior polêmica
girava em torno da condição de pobreza dos atendidos ou dos que es-
tavam aguardando vaga. Havia um entendimento entre os técnicos de
que os problemas familiares não eram decorrentes exclusivamente da
situação de pobreza, tendo em vista que outras famílias, nas mesmas
condições econômicas, não apresentavam os mesmos problemas; ou esses
podiam ocorrer também em outros segmentos sociais (abuso sexual, uso
de drogas). Também reforçavam a idéia de que não se tratava de um
programa de renda mínima, logo a pobreza não poderia ser critério de
ingresso. No entanto, na avaliação dos casos, a pobreza era registrada e
enfatizada pelos técnicos: ora como causa, ora como contexto e indício
de outras violações. Na tensão pela administração da transferência de
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135
escassos recursos e necessidade de selecionar pessoas, os técnicos diziam
ter de se centrar em situações consideradas mais graves. Nas palavras de
uma técnica: nós trabalhamos com o pior do pior.
6

Tanto no material escrito quanto nos relatos dos técnicos, destacava-
se uma visão negativa da população atendida, que, se por uma parte,
garantia seu ingresso no programa, por outra parte, gerava tensões,
mormente quando os problemas mantinham-se apesar da adesão ao
programa. Nesse caso, a avaliação era de que os usuários não corres-
pondiam ao que era esperado: estruturar a família, elaborar um projeto de
vida, segundo as concepções dos agentes estatais. Os motivos arrolados
para a manutenção dos problemas eram diversos e, inclusive, um mesmo
técnico podia apresentar argumentos contraditórios: ou eram pessoas
que precisavam de intervenções das áreas médicas, acomodação ou es-
tavam viciadas em ganhar coisas. Em que pese a diversidade de motivos,
todos eram atribuídos aos usuários, que, por faltas morais ou de saúde,
não conseguiam superar os problemas.
Para as usuárias que disputavam entre si as restritas vagas disponíveis,
tratava-se de narrar cada uma sua história, acentuando inúmeras difcul-
dades, de modo a sensibilizar os técnicos. Isso envolvia um processo de
aprendizagem, conquistado nos percursos feitos por outras instituições,
nas trocas de informações entre vizinhas e parentes. Manter-se vinculada
ao programa também era algo que exigia muito das usuárias: deviam
seguir expondo suas difculdades e sua boa vontade para superá-las.
A observação dos grupos de mútua ajuda revelava as tensões veladas
nas relações entre os técnicos e as usuárias, bem como as diferentes
compreen sões sobre o que era visto como problema e sua forma de su-
peração. Nos documentos ofciais e nos relatos das técnicas, apresentava-
se uma visão de que o grupo deveria ser um espaço refexivo. Por tal
convivência, as mulheres poderiam repensar as relações estabelecidas
com seus familiares e desenvolver práticas de proteção em relação aos
flhos. As trocas de experiências entre elas representavam o principal
princípio de metodologia adotada. Narrando sobre sua atuação junto às
mulheres, as técnicas salientavam a importância de manter uma relação
de horizontalidade, de não julgamento e de trabalhar com as pessoas e não para
ou por elas.
Contudo, a marca dos técnicos estava na própria organização do tempo
dos encontros, para a qual transpunha-se a linguagem de outras reuniões:
primeiro, informes, nos quais instruíam sobre questões administrativas
(data de pagamento da bolsa e sua renovação), também anunciavam a
existência de vagas para cursos profssionalizantes ou atividades diversas.
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136
Esse era o momento de registrar as ausências dos participantes do grupo
e anunciar as suas justifcativas, quando haviam sido apresentadas com
antecedência. Depois, era feita a solicitação de que as usuárias fzessem
relatos da situação familiar ou de algum outro problema que estava
sendo vivenciado. Em alguns encontros, havia realização de dinâmicas
previamente planejadas pelas técnicas, com a intenção de abordar um
tema específco. Por fm, os encaminhamentos, que incluíam as indicações
de locais a ser procurados, marcação de atendimentos individuais, entre
outros.
Quando as usuárias eram estimuladas pelas técnicas a falar sobre a con-
tribuição que a convivência no grupo estava tendo em suas vidas, elas
pareciam reforçar os objetivos institucionais. Diziam que se sentiam ali-
viadas por ter com quem conversar; ressaltavam sentirem-se apoiadas para
enfrentar as difculdades. No entanto, em outras situações, mostravam-
se menos entusiastas com essa participação, vista como obrigação para
manter o recebimento da bolsa.
Durante as observações das convivências em grupos, notou-se que os
depoimentos eram dirigidos especialmente para as técnicas e menos para
as outras usuárias do programa. As ouvintes, em geral, não esboçavam
reações ao relato, permanecendo em silêncio, ao menos que fossem
indagadas diretamente pelas técnicas. Este comportamento destoa do
observado em outras situações e também da habilidade de fazer narrativas
(por exemplo, fofocas) que envolvem intensamente a platéia (Fonseca,
1995). Essa diferença na postura das mulheres (de fora e do interior do
grupo) pode ser percebida quando as pesquisadoras, em momentos di-
ferentes, não reconheceram no interior da instituição uma das mulheres
a quem tinham sido apresentadas numa visita. Naquela ocasião, ela era
expansiva, gestos largos, voz alta. No grupo, tinha ombros caídos, olhar
no chão, voz fraca, gestos lentos.
Quando as mulheres estavam relatando alguma situação no grupo, de-
monstravam tristeza, fazendo uma exposição minuciosa dos problemas e
sofrimentos vivenciados. Os relatos eram acompanhados da apresentação
de documentos que objetivam mostrar que cumpriram o estabelecido
(uma visita ao psiquiatra etc.) ou ao menos haviam tentado. Uma das
mulheres apresenta o extrato de transferência bancária de 60 reais para
custear as necessidades de sua flha que passara a residir com a avó, no
interior do Estado, como forma de afastá-la das drogas. Para as mulheres,
tratava-se de um espaço de prestar contas do uso do dinheiro da bolsa
e do cumprimento dos encaminhamentos sugeridos pelas técnicas. Essas
informações eram registradas por estas para compor os relatórios de
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andamento dos casos. Ainda que as técnicas reforçassem a horizontalidade
da relação, é sabido que lhes cabe a função do monitoramento dos recursos,
sendo sua responsabilidade avaliar se as pessoas deveriam manter-se
vinculadas ao programa.
Na economia de gestos, narrativas e interação, as mulheres mostravam
tentativas de autopreservar a participação no programa, bem como não
interferir na situação das colegas. Uma das situações presenciadas em
campo torna visíveis as tentativas e os riscos de não seguir tal orientação.
Anita estava sendo identifcada pelas técnicas como não mobilizada para
superar os problemas. É questionada sobre o estado de seus flhos. Ela
responde que trabalha e não tem como controlá-los. E, para se defen-
der, acrescenta: tem gente que diz que os flhos estão no colégio, mas não estão
não. Diante disso, a técnica retoma o que considera serem os princípios
do grupo: um espaço de trocas de experiência, regido por confança e
transparência; não se admitiriam acusações veladas. Outra mulher reage
e diz que cada mãe está aqui preocupada em resolver o problema do seu flho...
ela que tem que colocar o problema... se falar sobre a outra terá que comprar briga.
O que é reforçado por outra que acrescenta: A lei do grupo é a mesma lá de
fora: a lei do alcagüete. Ou seja, entregar um vizinho pode trazer severas
repercussões e as mulheres sabem disso, independente do que a técnica
imagine que elas tenham combinado.
É necessário fazer duas ressalvas quanto a essa situação. Primeiro, as
concepções diferenciadas das técnicas e das mulheres foram explicita-
das pela tensão: tanto pelo possível desligamento de Anita, por não estar
cumprindo as exigências do programa, quanto pelo receio despertado
nas outras mulheres de que se desencadeasse um processo de delação.
Com isso, sinalizo que sob discursos de valorização dos grupos, suposta-
mente de mútua ajuda, mascaravam-se relações de poder e resistência
das mulheres. As técnicas, ainda que envoltas na tentativa de propor
espaços de refexão e de companheirismo, possibilitavam manter ou
não alguém no programa. Poder reconhecido pelas mulheres que eram
cuidadosas naquilo que era revelado de si e do outro. Salienta-se que
havia um saber compartilhado pelas mulheres sobre o que podia ser ou
não dito, baseado nas experiências acumuladas de busca de recursos
em outras instituições e também de princípios que orientam as relações
fora do âmbito institucional. Havia “leis”, ainda que não escritas, que
nem precisavam ter sido enunciadas de forma tão explícita, mas que
regiam suas ações e reforçavam cumplicidades e previam sanções aos
“infratores”.
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Assim, o que era percebido pelas técnicas como sendo passividade, privação
lingüística, cultural ou afetiva, podia ser compreendido como reconheci-
mento pelas mulheres de que a manutenção no programa signifcava
manter a posição de concordância com os preceitos institucionais e tam-
bém respeito às regras que regiam as relações com sua vizinhança.
Cabe aqui a segunda ressalva: a recusa das mulheres em abordar os pro-
blemas vivenciados pelas colegas não deve ser interpretada como uma
situação drástica de isolamento, visto que, fora do espaço institucional, são
mantidas relações de cumplicidade com os problemas das pessoas de seu
círculo social. Isto se evidenciou no comentário de uma das mulheres no
debate anterior: após enfatizar que não falaria no grupo sobre as outras
mulheres, afrma que se encontrasse na rua o flho de Marina – colega
de grupo e, principalmente, amiga desde a infância e vizinha – usando
drogas, ela o xingaria e depois contaria a amiga sobre o flho. Reforça
que espera o mesmo da amiga, o que a outra prontamente concorda.
A análise de Simmel (1999) sobre o segredo auxilia na compreensão das
relações que se constituem através dos ocultamentos, como esses feitos
pelas mulheres. Esse autor distingue os conteúdos morais e valorativos,
que costumam ser associados aos segredos, das relações sociais que são
constituídas através destes.
7
Assim, manter um segredo ou ocultar uma
informação implica cooperação e confança, mas também envolve a
formação das distâncias sociais, das exclusões. Salienta ainda que saber
silenciar é produto e objeto de processos educativos nos quais as socie-
dades se reproduzem, envoltas em princípios morais.
Desse modo, considero que o ocultamento de informações indicava tanto
os desacordos implícitos das usuárias em relação às propostas dos técni-
cos, quanto suas estratégias para garantir o recebimento dos recursos.
Também revela as relações de cooperação e confança que se constituíam
entre as usuárias, ainda que não tivessem se reunido e deliberado que
algumas práticas não seriam ditas. Também exprime o resultado de um
processo de aprendizagem mais amplo quanto às interações possíveis
em sociedade. Aprendem que para contar com o apoio ou auxílio é
importante saber contar sua história de modo a ressaltar suas difcul-
dades. Em seus relatos, fcava-se sabendo que elas mantinham contatos
com diversas instituições flantrópicas, não governamentais, religiosas,
através das quais recebiam de forma mais ou menos sistemática roupas,
alimentos, móveis. Os estudos de Neves (1998) sobre a constituição do
campo institucional da flantropia, em Niterói, corroboram essa hipó-
tese, ao apresentarem a complexidade dos processos de classifcação
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institucional dos “pobres merecedores” e das diferentes formas com
que os demandantes interagem nesse processo, isto é, pela incorpora-
ção das regras e dos princípios institucionais ou pelas estratégias para
arregimentar recursos.
8

Seguindo as pistas sugeridas por Simmel, ao destacar que a ocultação
também indica a constituição de fronteiras e distâncias entre indivíduos,
apresento outras situações que revelam o quanto as concepções dos téc-
nicos e das mulheres eram diferenciadas. Nesses termos, estão abertas
pistas para se pensar o que era considerado problema e suas formas de
superação. Como já foi dito, os técnicos consideravam que os problemas
familiares não poderiam ser reduzidos apenas às condições econômicas
das famílias. Assim, a tentativa dos técnicos era estimular uma refexão
sobre a qualidade das relações estabelecidas entre pais e flhos, por supor
que havia uma falha no papel protetor dos pais em relação aos jovens. Seus
discursos podiam ser inseridos em um ideário psicologizado.
9

As usuárias não se mostravam sensibilizadas por esses discursos. Por
exemplo: nos casos dos jovens considerados dependentes químicos, as
mães pareciam apostar menos nos grupos de apoio e valorizar outras
atividades que pudessem concorrer com a sedução exercida pelas más
companhias e pelas drogas. Em geral, mostravam-se mais animadas com
a possibilidade de os flhos largarem as drogas, quando começaram a
participar de cultos evangélicos, dos quais nem sempre elas próprias
participavam; pela freqüência a cursos profssionalizantes; algum em-
prego e até mesmo uma nova relação amorosa. Apresento a seguir o
relato de duas mulheres acerca do que consideravam formas de evitar
ou superar os problemas vivenciados pelos jovens. Algumas dessas práticas
valorizadas como forma de encaminhar os flhos na vida nem eram reve-
ladas para as técnicas, porque as mulheres sabiam que não contariam
com a sua aprovação.
Enquanto aguardávamos o início do grupo de mútua ajuda, Dona Olí-
via me chama para conversar em um lugar mais afastado. Sorridente,
conta que seu flho de 12 anos está trabalhando como ajudante em uma
serralheria. Enfatiza que com isso ele pegará gosto pelo trabalho e talvez
evite as drogas, ao contrário de seu neto (motivo pelo qual foi integrada
ao programa). Após relatar que eles combinaram que o primeiro salário
dele seria dedicado à compra de um walkman e depois para auxiliar no
pagamento das despesas da casa, ela pede que eu não conte às técnicas,
pois considerariam errada sua atitude. Porém, justifca-se dizendo que
sua intenção é ocupá-lo para que ele não fque pela rua exposto às más
companhias. Dessa forma, trabalho aparece como prática valorizada tra-
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dicionalmente, forma de desenvolver responsabilidade e moral. Além
disso, deve-se levar em conta que o estímulo ao trabalho pode ser visto
como forma de superar os confitos decorrentes do desejo de consumo
que os pais não podem garantir aos flhos (ZALUAR, 1994).
Também foi longe dos “ouvidos” dos técnicos, em uma visita à casa de
Dona Geraci, que soube o que ela imaginava ser uma possível solução
dos problemas de um de seus flhos. Essa família havia sido incluída no
programa porque de seus cinco flhos, três estavam em situação de rua
e/ou eram usuários de drogas. Ao longo do ano, ela havia relatado várias
tentativas de manter os flhos em casa, envolvendo-os em atividades
que ocupassem o seu tempo, inviabilizando o convívio com os amigos
da rua ou com os outros usuários de drogas da vizinhança. Em uma
tarde em sua casa, Geraci conta animadamente que seu flho Diogo de
14 anos parece que vai se endireitar agora: ele casou. Relata que a mãe de
sua nora, que tem 13 anos, veio até sua casa e disse que eles deveriam
casar porque estão juntos desde que a menina tem 10 anos – relação
que Geraci desconhecia. Geraci concordou, bem como o jovem casal.
Enfatiza que a relação com essa moça o tem ajudado a comprometer-se
com o curso de jardinagem que está fazendo para ter uma profssão; e
estimulado para não envolvimento com drogas. Em outra tarde, com
alguns vizinhos e parentes reunidos no pátio da casa, Geraci faz um co-
mentário aparentemente solto: todo o casal tem que ter um flho. Ela age de
forma completamente diferente com o flho que está sendo considerado
casado e com o outro que até a união do jovem casal era seu parceiro de
drogas e de estadas na rua. Enquanto o que mantém o uso de drogas é
ostensiva e constantemente mandado para o interior da casa, o jovem
casal é convidado a participar da roda de chimarrão e a conversar com
os demais adultos no pátio.
Estes casos salientam as práticas valorizadas pelas usuárias do programa
enquanto estratégias para incutir responsabilidades nos jovens que, como
as técnicas, consideram estar agindo de forma inadequada. A valorização
do trabalho, do estabelecimento de uniões conjugais e do primeiro flho
como elementos importantes para constituição e reconhecimento como
adulto têm sido descritos também por outros estudos realizados junto
à população de baixa renda.
10
Espera-se que constituir família e ter um
trabalho sirvam como ritos de passagem para a vida adulta. Quanto ao
trabalho, salienta-se que sua valorização está articulada à possibilidade
de prover a família, ainda que seja algo mais ideal do que realizável.
Em suma, observa-se que as mulheres percebem que as técnicas detêm
o poder de selecioná-las e mantê-las no programa. Assim, devem agir de
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forma a sensibilizá-las quanto às suas difculdades e a seus empenhos na
superação dos problemas, bem como evitam expor determinadas práticas
ou idéias que supõem não serem aceitas por elas. Além disso, as usuárias
faziam críticas às técnicas quando estas não estavam presentes. Em geral,
enfatizavam que elas estariam sendo ludibriadas por outras mulheres
que se diziam mais necessitadas do que eram e que não seriam dedicadas
aos flhos como queriam fazer crer.
Algumas ponderações
Certamente as “soluções” encontradas por Dona Olívia e por Dona
Geraci não seriam aprovadas pelas técnicas. Há inúmeras campanhas e
programas específcos implementados pela Prefeitura e outros órgãos de
“erradicação do trabalho infantil” e de “prevenção à gravidez precoce”.
Mas como nos lembra Darnton (1986), ao analisar a narrativa sobre o
massacre dos gatos, é justamente pelo estranhamento causado por uma
prática, pela incapacidade de entender algo, que temos o indício das
distâncias estabelecidas entre as pessoas e a possibilidade de perceber
outros sentidos atribuídos às práticas.
11

As situações apresentadas anteriormente evidenciavam constrangi-
mentos institucionais e sociais que colocam-se tanto para os técnicos
quanto para as usuárias. Ambos precisavam adequar-se às limitações
institucionais (áreas de intervenção prioritária, recursos disponíveis),
aos modos como os sujeitos exerciam seus papéis de técnicos e de
usuários. Os modos de ação eram constituídos tendo como referência
concepções específcas de família, do que eram considerados problemas
e as formas de superação das difculdades. Eles estavam embasados em
diferentes experiências sociais constituídas em outros espaços (formação
profssional, relações familiares e de vizinhança, entre outros). Sob um
contrato formal frmado entre a instituição, através de seus técnicos, e as
usuárias, estabeleciam-se outros contratos implícitos, até mais atuantes,
como se percebe na explicitação da lei do alcagüete. Lei que ao mesmo
tempo revela o compartilhamento de princípios entre as mulheres, pela
possibilidade de que algumas práticas não fossem reveladas para as
técnicas, mas que também controlava as mulheres, podendo ser usada
como forma de exclusão.
No retorno exigido pela apresentação dos resultados da pesquisa para
a instituição e nas situações em que fui chamada para apresentar os
resultados da pesquisa, percebia estar envolta pelos confitos implícitos
e explícitos inerentes a essas relações. Certamente o que me causava
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maiores questionamentos éticos era o modo de expor aquilo a que venho
referindo como ocultamentos, confitos e desacordos. Aos poucos me
dei conta de que isso não era uma revelação muito surpreendente.
12
No
trabalho, os técnicos acabavam tendo acesso às tentativas de se ocultar
informações, seja porque faziam visitas domiciliares, seja porque outros
agentes institucionais contavam algo ou até por insinuações de outras
usuárias ou das que queriam participar do programa e aguardavam vaga.
Do ponto de vista analítico, minha argumentação consistia em apontar
que não se podia analisar essas ações de forma isolada ou moralizante,
mas considera os dilemas postos pelo próprio papel atribuído à assistência
social em nossa sociedade. Tentava romper com as leituras fáceis que
reduziam tais confitos à incompetência dos funcionários ou às múltiplas
privações dos usuários.
Tratava-se de desmoralizar a idéia de ocultamento, assim como sugere
Simmel. No entanto, permanecia a dúvida de como deveria interpretar
essas práticas que, na época, eram referenciadas como “descompassos” e
“desencontros”. Em que medida podem ser interpretadas como práticas
de resistência descritas por Thompson e Scott? Quais as implicações da
idéia de resistência?
Scott, ao estudar em uma aldeia da Malásia, destaca a importância de se
analisar as resistências cotidianas dos camponeses às ações da elite local.
Aponta a importância de distinguir os discursos públicos dos camponeses,
que em geral expressam deferência, daqueles discursos proferidos distan-
te das elites, no qual revelam críticas e desprezos. Revela a existência das
“armas dos fracos”, título da obra, que seriam dissimulação, ignorância
fngida, falsa complacência, furtos, calúnia, sabotagens, entre outros.
Essa resistência ocorria de forma oculta, individualizada, não premedi-
tada, evitando uma confrontação direta com os poderosos. Embora não
fosse organizada formalmente ou com lideranças, dependia de redes
de solidariedade e cumplicidade das pessoas que vivem sob as mesmas
condições. Isso implica na constituição de uma ética na resistência, fa-
zendo com que algumas práticas fossem consideradas legítimas ou não,
e os sujeitos que não se adequassem a ela podiam ser condenados a um
relativo isolamento social.
Scott ressalta ainda que, com essas práticas, não há um desafo explícito
ao poder, mas considera que essas resistências cotidianas limitam a ação
dos poderosos e podem vir a constituir formas alternativas de ação.
Assim, indica que não há determinação das formas de pensar e agir dos
sujeitos em posição subalterna pelas categorias e valores dos dominantes.
Analisando a obra de Scott, Monsma (2000, p. 101) afrma que
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aqueles que vêem a hegemonia das elites nas idéias das classes popu-
lares, segundo Scott, geralmente só enxergam a face pública das rela-
ções de dominação. Quando interagem com os poderosos, os pobres
representam estrategicamente a subordinação para se proteger e para
conseguir benefícios, mas não devemos tomar essas representações
como expressões dos pensamentos e dos sentimentos internos dos
subalternos.
Também Thompson aborda as práticas de resistência e a idéia de hege-
monia. Salienta que, ao mesmo tempo que o povo sofria pressões para
“reformar” seu modo de vida, conforme as “normas vindas de cima”,
ele também resistia. Porém, paradoxalmente, a cultura popular plebéia
do século XVIII era rebelde e deferente. Resistia a inovações que lhes
pareciam ser espoliadoras de direitos tradicionais. Nos motins da fome,
ao exigirem a cobrança do “preço justo”, agiam segundo o que supu-
nham que as autoridades deveriam fazer. Assim, não se tratava de uma
resistência que estivesse propondo formas alternativas políticas, não
estavam desafando o poder político da gentry. As ações da multidão
encerravam um papel legitimador da gentry, tanto ao ser platéia para o
teatro aristocrático e também ao reivindicarem os costumes tradicionais.
Com isso, Thompson reconhece a produção de uma hegemonia cultu-
ral; entretanto, salienta que tal hegemonia não acarreta que os sujeitos
entendam nos mesmos termos as práticas e as relações estabelecidas.
13
Tais colocações oferecem um caminho interpretativo para os confitos
implícitos das relações entre técnicos e usuários. Imbuídos da tentati-
va de constituir um programa de assistência que não reproduzisse as
críticas recorrentes a esse tipo de ação, como autoritária e paliativa, a
equipe técnica buscava subsídios teóricos e elaboração de metodologias
que promovessem um engajamento ativo dos usuários para a superação
dos problemas, através da prática refexiva do seu papel junto à família.
Isso torna-se visível pela ênfase dada ao caráter educativo do programa,
revelado nas atividades desenvolvidas junto aos grupos de mútua ajuda.
Contudo, tais princípios explicitados pelos técnicos não podem minimizar
o reconhecimento de que a posição assumida por eles, decorrente da
organização institucional, atribui-lhes as funções de seleção, monitora-
mento, avaliação e desligamento dos possíveis usuários; e também que
os supostos critérios técnicos utilizados para identifcação das situações
de risco e de suas formas de superação estão baseados em princípios nor-
mativos e concepções culturais acerca da família, dos papéis dos adultos
junto a crianças e jovens.
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Apesar da propalada horizontalidade e transparência tão esperadas pelas
técnicas – como princípios que orientam os sujeitos para participação
no programa, a despeito da postura de aprovação pública ao programa
e à sua metodologia afrmada pelas usuárias –, os confitos revelaram
a assimetria de poder entre técnicos e usuários. Ainda que sem um en-
frentamento direto, nas situações em que estavam com as técnicas, muito
pelo contrário, as usuárias buscavam mostrar-se em conformidade com
as regras colocadas, agiam de modo a manter-se vinculadas ao progra-
ma, projeção que podia incluir um ocultamento de certas práticas e a
acentuação de outras. Assim, o exercício do poder não se dá de forma
unilateral, tem seus limites contidos pela ação das pessoas em posição
subalterna. De algum modo, as frustrações anunciadas pelas técnicas re-
velavam isso: apesar de seus esforços, as mulheres não estavam implicadas
(da forma que esperavam) para a superação dos problemas.
Além disso, salienta-se que diferentes sentidos estavam sendo atribuídos
ao programa e aos problemas que buscavam solucionar. Se para as técni-
cas, elas estavam ali porque não exerciam de forma adequada seus papéis
de mães, para estas, estar ali era mais uma comprovação de dedicação
aos flhos, tendo em vista que estavam fazendo isso para garantir-lhes
melhores condições de vida.
Posso ter dado a impressão de que apenas o recebimento da bolsa inte-
ressava às usuárias ou que essa era a única contribuição do programa,
mas isso não seria adequado. Também era um espaço que possibilitava
solicitar ou ter informações sobre outros recursos dos quais poderiam
dispor para garantir subsídios necessários para sua família –, como
medicamentos, cursos profssionalizantes, atividades recreativas, entre
outros. No diálogo com as mulheres atendidas, salientam-se outras con-
tribuições que a inserção ao programa tinha-lhes trazido, ainda que parte
dessas não fosse esperada pelas técnicas. Algumas mulheres valorizavam
o fato de terem requererido outros recursos assistenciais, aos quais elas
ou seus flhos tinham direito, mas desconheciam, como o Benefício de
Prestação Continuidada (BPC). Também terem tido acesso à realização
de testes de paternidade, que eram encaminhados pelas técnicas para
garantir o direito à pensão dos flhos e mulheres. Além disso, o ingresso
de dinheiro que, embora soubessem não seria sistemático, era forma de
encerrar boatos sobre sua fdelidade. São dignas de registro, as diversas
trocas que ocorriam entre as mulheres, que, se eram contidas no espaço
formal do grupo de mútua ajuda, fuíam nos momentos de espera da
atividade grupal ou após sua fnalização. Nesses momentos, observava-se
que circulavam roupas, alimentos, receitas, informações e experiências.
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Ou seja, essas práticas podem indicar outros sentidos que estavam sendo
associados à participação no programa municipal de assistência social.
Deve-se salientar que esses outros sentidos – associados ao vínculo com
o programa, as estratégias usadas para garantir a continuidade do rece-
bimento dos recursos e a resistência ao discurso técnico –, ao ocultarem
informações, comporem narrativas que sensibilizassem as técnicas, não
colocavam em questão a sua condição social ou sua inserção de forma
subalterna e estigmatizante. Nesse sentido, Thompson também contri-
bui para a compreensão de que a prática de resistência não coloca em
questão a própria dominação, ainda que esta não seja exercida de forma
unilateral ou mecânica.
Penso que é importante refetir sobre os riscos que Monsma (2000) sa-
lienta no trabalho de Scott, desde que se assuma uma “noção voluntarista
demais da ação dos subordinados”, que estaria implicada na ênfase na
“manipulação”, enquanto cálculos conscientes orientando a resistência.
Escreve Monsma: “Mesmo quando orientada por uma transcrição es-
condida claramente contestatória, a resistência cotidiana pode reforçar
a estrutura de dominação ao mesmo tempo em que ameniza a condição
do subordinado” (p. 106-7). Monsma cita ainda o estudo de Genovese
sobre escravos americanos, no qual revela que a “resistência cotidiana dos
escravos tendia a reforçar o poder dos senhores, ao mesmo tempo que
trazia ganhos reais para os escravos”. Assim, se por um lado parte con-
quistavam a permissão de algumas práticas que lhes garantiam melhoras
na qualidade de vida – cultivar hortas, descansar ou celebrar –, de outro
lado, aumentava a dependência dos senhores e reforçava a ideologia do
paternalismo. Ou seja, Monsma e Genovese estão chamando a atenção
para as ambigüidades contidas nas práticas de resistência.
Essa colocação aponta para outros meandros dessas relações. As mulhe-
res agiam de forma a conter o que elas podiam perceber da autoridade
exercida pelas técnicas, ou como forma de controlá-las a seu favor. No
entanto, há dimensões do trabalho das técnicas, que também implicavam
autoridade, a qual ou não percebiam ou não tinham como resistir. Por
exemplo: não tinham domínio sobre as classifcações que os técnicos fa-
ziam sobre elas e suas relações familiares, que podiam vir a ser utilizadas
em outras instituições (Conselho Tutelar ou Juizado da Infância e da
Adolescência), podendo vir a ter desdobramentos inesperados.
Por um lado, a implementação de programas sociais pretende garantir
a redistribuição de benefícios sociais, visando à diminuição das desigual-
dades estruturais produzidas pelo desenvolvimento socioeconômico (cf.
HÖFLING, 2001). Por outro, a implementação dá-se a partir de leituras
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estigmatizantes sobre a população a que se destinam os recursos. No
entanto, os usuários não podem ser vistos como passivos, pois agiam
ativamente para garantir a manutenção dos recursos, a partir do que
consideravam ser suas responsabilidades e o que seria legítimo exigir
das instituições de assistência.
Por esse exercício refexivo, penso ser possível compreender a complexi-
dade das relações de dominação e de resistência, sobretudo por permitir
perceber de forma mais consistente as interdependências que se estabe-
lecem nessas relações, avessas às abordagens estanques e dicotômicas.
Abstract
A set of social relations were established by the implementation of a social
assistance program destined, by the municipality township of Porto Alegre,
to families with children and teenagers considered to be in a risk situation.
Through the analysis of these social relations, I intend to offer visibility
to the principles that orientate practices and also emphasize aspects that
reveal presuppositions of the social organization. According to studies that
interpret social conficts as intrinsic to social life, I analyze divergencies and
accusations between the technical staff and the users of this program. With
this, I am willing to think about power relations and resistance practices
that, in this case, are comprised by actions of actors who assume different
positions in this State institution.
Keywords: state; social assistance; power.
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tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
ZALUAR, Alba. A Máquina e a revolta: as organizações populares e o
signifcado da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1994.
Notas
1
As ponderações elaboradas agora são releituras de uma pesquisa realizada acerca das relações entre técnicos
e usuários do Programa de Apoio a Família (NASF), da Fundação de Assistência Social (FASC), órgão da
Prefeitura de Porto Alegre, entre 1999 e 2000 (PAIM, 2000a, 2000b; PAIM; VIDOR, 1999). A pesquisa fez
parte de uma assessoria realizada a essa instituição pelo Núcleo de Antropologia e Cidadania, do Progra-
ma de Pós-Graduação em Antropologia Social, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na época
coordenado pela Professora Claudia Fonseca, e contou com a colaboração da bolsista de iniciação científca
Ciana Vidor, fnanciada pelo CNPq.
2
Outras dimensões fundamentais para essa análise são salientadas por Neves (1998, 1999) que, ao considerar
a constituição do campo institucional da flantropia, mostra concorrências e articulações entre instituições
flantrópicas de diversas denominações religiosas, o Estado e os demandantes, variando os discursos e for-
mas de atuação conforme o cenário político no qual se inserem. Também é preciso levar em consideração a
infuência de agências internacionais e nacionais que, através de fnanciamentos, induzem à elaboração de
programas enfocando determinadas questões. Assim a FASC recebe recursos dos governos federal e municipal
e tem projetos em parceira com BNDES, UNICEF, entre outros.
3
Os termos grifados em itálico foram utilizados pelos entrevistados.
4
Na época da pesquisa, o Programa era efetivado em dez centros municipais e cinco módulos, administrados
pela Fundação de Assistência, e também em seis entidades não-governamentais conveniadas, localizadas em
diversas áreas da cidade. Cada espaço dispunha de 40 vagas. As pessoas fcavam vinculadas ao programa
por um período de seis meses, prorrogáveis por outros seis. A bolsa era de 150 reais, fnanciada por recursos
públicos. Para rede conveniada, eram também repassados recursos públicos. Em alguns casos, o programa
foi implementado por solicitações feitas no Orçamento Participativo.
5
Os termos “técnicos” e “usuários”, ainda que no plural, tendem a ser lidos enquanto componentes de grupos
homogêneos. Contudo, não é esse meu propósito. Busco ressaltar as duas posições através de práticas recor-
rentes. A equipe técnica de cada Centro Comunitário ou Módulo era composta por um assistente social e um
psicólogo; assim, tratava-se de profssionais com formações distintas, que podiam estar afliados a abordagens
teóricas e metodológicas também diferenciadas. Quanto às usuárias, podiam ser mães ou avós de crianças
ou jovens identifcados como em situação de risco. Em geral, tinham mais de 40 anos e moravam com flhos e
netos em áreas de ocupação irregular. A maioria delas não tinha trabalhos regulares, mas desenvolvia algum
tipo de atividade temporária, como faxina, venda de produtos artesanais, entre outros. Algumas mantinham
relações conjugais e outras eram separadas.
6
Durante a pesquisa acompanhamos grupos que já estavam constituídos. Não tivemos como comparar as
situações das pessoas que foram incluídas no programa com as daquelas que não foram. Intuíamos, na época,
que talvez situações consideradas “muito problemáticas” não fossem incluídas, uma vez que também era
avaliado se as pessoas se benefciariam do programa na forma como ele estava organizado. Cabe salientar
que parte dos técnicos reivindicava maior articulação da Fundação de Assistência com a Secretaria de Saúde,
tendo em vista supor que certos problemas só poderiam ser resolvidos por intervenções de profssionais da
área de saúde.
7
Simmel (1999) afrma que: “tal signifcação [do segredo para a estrutura da interação humana] não pode
ser omitida, em vista do fato do segredo ser muitas vezes eticamente visto como negativo; pois o segredo é
uma forma sociológica geral em situação de neutralidade, acima do valor e das funções dos seus conteúdos”
(SIMMEL, 1999, p. 221). Segue em outro trecho: “Do contraponto entre esses dois interesses, o da ocultação
e o da revelação, surgem nuanças e tonalidades de interação humana que o permeiam em sua inteireza. À
luz do que foi dito anteriormente, toda relação humana é caracterizada, entre outras coisas, pela quantidade
de segredo que nela se encontra e que a envolve” (SIMMEL, 1999, p. 223).
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 127-150, 2. sem. 2006
149
8
Ver também Silva e Milito (1995) sobre as performances de exposição da miséria.
9
Ver Duarte e Ropa (1985), Lo Bianco (1981).
10
Ver Duarte (1986); Zaluar (1994); Fonseca, (1995); Sarti (1996), entre outros.
11
Nas palavras de Darnton: “A percepção dessa distância pode servir como ponto de partida para uma inves-
tigação, porque os antropólogos descobriram que as melhores vias de acesso, numa tentativa para penetrar
uma cultura estranha podem ser aquelas em que ela aparece mais opaca. Quando se percebe que não se está
entendendo alguma coisa – uma piada, um provérbio, uma cerimônia – particularmente signifcativa para
os nativos, existe a possibilidade de se descobrir onde captar um sistema estranho de signifcação, a fm de
decifrá-lo” (DARNTON, 1986, p. 106).
12
Em função disso, adotei algumas “estratégias”: abordava determinadas questões que poderiam ser tomadas
como “problemáticas” a partir de casos apresentados pela bibliografa antropológica, usando meus dados
indiretamente. Privilegiava as situações em que técnicos e usuários estavam reunidos, assim aquela informação
já estava disponível e a questão seria oferecer outra leitura. Também, inspirada nas inúmeras “dinâmicas”
usadas pelos técnicos, propus improvisações teatrais que faziam com que eles revelassem suas visões sobre
o cotidiano e explorava essas resistências a partir do que havia sido representado.
13
Como escreve o autor: “O conceito de hegemonia é muito valioso, e sem ele não saberíamos compreender
como as relações eram estruturadas. Mas embora essa hegemonia cultural possa defnir os limites do que é
possível, e inibir o crescimento de horizontes e expectativas alternativos, não há nada determinado ou au-
tomático nesse processo. Essa hegemonia só pode ser sustentada pelos governantes pelo exercício constante
da habilidade, do teatro, da concessão. Em segundo lugar, essa hegemonia, até quando imposta com sucesso,
não impõe uma visão abrangente da vida. Ao contrário, ela impõe antolhos que impedem a visão em certas
direções, embora a deixem livre em outras. Pode coexistir (como aconteceu na Inglaterra do século XVIII)
com uma cultura muito vigorosa e autônoma do povo, derivada de sua própria experiência e recursos. Essa
cultura, que em muitos pontos pode ser resistente a toda forma de dominação externa, constitui uma ameaça
sempre presente às descrições ofciais da realidade” (THOMPSON, 1998, p.78).
Sidnei Peres
*
A economia moral do extrativismo
no Médio Rio Negro: aviamento, alteridade
e relações interétnicas na Amazônia.
1
A única região do Brasil onde existem piaçabais nativos
é a do Rio Negro, Amazonas, em áreas de vegetação
do tipo campinarana (campina ou caatinga amazôni-
ca), caracterizada por forestas baixas, arbustivas que
crescem em solos arenosos e inundáveis no período das
chuvas. As fbras retiradas desta palmeira são comer-
cializadas e utilizadas na confecção de vassouras. A
extração da piaçava é organizada através do regime de
aviamento, uma forma de recrutamento e exploração da
força de trabalho baseada no cativeiro da dívida. Os
fregueses são majoritariamente indígenas que migraram
do Alto Rio Negro e foram compulsoriamente fxados
nos piaçabais, vivendo completamente invisíveis diante
dos poderes públicos locais, privados dos direitos civis
mais elementares (liberdade de ir e vir). Neste artigo,
pretendo abordar as condições materiais e simbólicas
de reprodução social desta modalidade de monopólio e
gestão de recursos naturais no espaço amazônico, que
contrapõem fregueses indígenas e patrões não-indígenas
enquanto personagens situados em pólos opostos na
economia moral e no imaginário interétnico do extra-
tivismo da piaçava.
Palavras-chave: extrativismo; violência; relações
interétnicas; índios; Amazônia.
* Doutor. Atua na área de
Antropologia, nas linhas
de indigenismo, etnode-
senvolvimento, estudos
amazônicos e relações in-
terétnicas.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 151-170, 2. sem. 2006
152
Pluralismo étnico, migração indígena e extrativismo.
A cidade de Barcelos cresceu nos últimos 25 anos, principalmente
na última década. A migração de famílias indígenas, provenientes de
comunidades e sítios de São Gabriel da Cachoeira, de Santa Isabel do
Rio Negro e de Barcelos, contribuiu muito para este fenômeno.
2
A
população indígena do Rio Negro é extremamente móvel, desloca-se
constantemente por vários motivos: visitas a parentes, confitos internos
nas comunidades, acusações de feitiçaria, escassez de recursos naturais
(peixes ou terrenos agricultáveis), proximidade de escolas e hospitais,
busca de emprego; enfm, buscando aquilo que consideram uma melhor
condição de vida. Geralmente são os centros urbanos regionais (sedes
dos municípios) os principais alvos destes deslocamentos. Entretanto,
muitas famílias, antes de chegarem às cidades do Rio Negro, residiram
em comunidades e sítios do interior. O município de Barcelos, localizado
no estado do Amazonas, e a sua sede têm atraído uma parcela signifcativa
da migração indígena no Rio Negro.
O atrativo das demandas urbanas (hospitais e escolas) gera um aparente
esvaziamento nas comunidades e sítios, aumentando o adensamento hu-
mano na sede municipal.
3
Por outro lado, as relações sociais ordenadoras
das comunidades e o uso econômico da terra favorecem um movimen-
to de dispersão populacional ao longo do rio Negro e seus afuentes,
formando novos assentamentos no interior. Essa dinâmica mantém
uma circulação constante de indivíduos pela região, produzindo uma
população futuante nas comunidades. Outros fatores contribuem para
isso: a escassez de áreas de terra frme, adequadas para moradia e uso
agrícola, além das atividades sazonais de extrativismo. Por outro lado,
muitas famílias que moram na cidade mantêm fortes laços econômicos
e sociais com as comunidades e sítios, produzindo uma sólida conexão
entre cidade e interior na vida de indígenas e ribeirinhos.
As atividades sazonais do extrativismo também determinam a mobilidade
inerente aos padrões de ocupação da terra e de assentamento vigentes na
região, uma vez que deslocam das comunidades e da sede municipal os
homens adultos ou famílias inteiras, para os locais onde estas atividades
se desenvolvem. Os agentes intermediários entre o local de extração e
o local de comercialização do produto são conhecidos na região como
patrões. Eles organizam a empreitada trazendo os homens adultos das
comunidades e sítios (e também da cidade de Barcelos) para os piaçabais
— localidades onde se encontram as piaçabeiras —, onde são subordina-
dos ao regime de aviamento. As colocações são feitas, principalmente, nas
cabeceiras dos rios Aracá, Ereré, Padauirí, Preto e Curudurí, na margem
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 151-170, 2. sem. 2006
153
esquerda do rio Negro.
4
Existe um acordo tácito entre os patrões sobre
a distribuição das áreas exploradas por cada um.
Nas comunidades dos rios Padauiri e Ereré (Acuquaia, Acuacu, Tapera
e Santa Rita) somente os homens adultos cortam piaçava, as mulheres
e as crianças fcam nas comunidades cuidando da roça e dos afazeres
domésticos. O patrão passa a cada dois ou três meses para pegar a piaça-
va. Em Tapera, no mesmo rio, os moradores fcam em média três meses
consecutivos por ano no piaçabal, no inverno ou no verão, conforme a
preferência do extrativista. A extração da piaçava ocorre durante todo
o ano, porém existem vantagens e desvantagens no desempenho desta
atividade no inverno (abril/setembro) e no verão (outubro/março). No
inverno o acesso aos piaçabais é mais fácil porque os igarapés estão
cheios e se pode chegar até eles em pequenas embarcações, enquanto no
verão o caminho é por terra, perde-se mais tempo e o esforço é maior.
Em compensação no verão chove menos, a produção é maior porque
poucos dias são perdidos e o preço da piaçava é melhor porque a oferta
é menor por causa da difculdade de transportá-la.
Os patrões pesam o produto nos barracões e descontam a tara — termo
regional para designar a parte da produção não paga ao piaçabeiro. Esta
é mais uma forma de exploração da força de trabalho nos piaçabais. A
tara é um desconto de 10% no peso da piaçava se ela estiver seca. Caso
esteja molhada, equivale a 20% pois estaria mais pesada.
5
Se o freguês
conseguir obter algum saldo — o que geralmente não acontece — está
liberado. Caso continue endividado (sua produção é menor do que o
valor das mercadorias consumidas) terá de trabalhar para aquele patrão
e sanar o seu débito. O piaçabeiro não pode vender sua produção para
nenhum outro patrão. Um patrão pode transferir um freguês seu para
outro patrão caso este pague a dívida do extrativista ou se um patrão
comprar do outro o direito de explorar seus piaçabais. Muitos patrões
são comerciantes residentes na cidade de Barcelos ou parentes deles.
6

A piaçava é comercializada em Barcelos, de onde segue para Manaus —
capital do estado do Amazonas. Existem patrões menores que agenciam
trabalhadores através do aviamento, leva-os aos locais de extração, trans-
porta o produto até Barcelos, entregando-o a patrões maiores dos quais
são fregueses. Esses patrões grandes ou comerciantes é que transportam
a piaçava para Manaus, onde têm depósitos, e a vendem às indústrias de
vassouras da capital do Amazonas. Alguns têm contato com compradores
no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e outros estados do país; e outros
até mesmo possuem depósitos nesses lugares.
7
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 151-170, 2. sem. 2006
154
Formação do sistema de aviamento no Médio Rio Negro
No fnal do século XIX, com o ciclo da borracha, a elite social e política
do Baixo Rio Negro vislumbrou uma possível recuperação econômica e
demográfca na região. O auge desta nova frente de expansão econômica
no Médio Rio Negro foi retardado porque ela se localizou algumas déca-
das atrás nos rios onde era maior a quantidade desta espécie de árvores:
a Hevea brasiliensis. Os seringais no rio Negro nunca produziram tanto
quanto os seringais de outros rios amazônicos (Xingu, Tapajós, Madeira,
Juruá, Purus e Javari), mas foram capazes de redefnir as relações so-
ciais, políticas, econômicas e culturais em toda a sua extensão e ofuscar
todos os outros empreendimentos extrativistas, exceto a produção de
lenha devido à intensifcação da navegação fuvial. A composição popu-
lacional mudou drasticamente com a intensa imigração de nordestinos
(cearenses, paraibanos etc.) que fugindo das secas calamitosas de 1877 e
1888, forneceram a mão-de-obra necessária — assim como os pequenos
comerciantes — para suprir de matéria-prima as casas exportadoras e o
capital fnanceiro inglês, ambos situados em Manaus, enfm ao mercado
mundial da borracha e à incipiente indústria automobilística na Europa
e nos Estados Unidos. Foi nesta época que se implantou a rede de avia-
mento ligando grandes lojas comerciais de Manaus, comerciantes dos
pequenos núcleos urbanos no rio Negro, comerciantes menores situados
nas embocaduras de afuentes e igarapés e extrativistas.
As novas condições de transporte fuvial foram fundamentais para a
organização social deste tipo especial de comércio em que bens indus-
trializados circulam numa direção (sobem o rio Negro até as colocações
no meio da mata) e os produtos da foresta circulam em outra direção
(descem o rio Negro até o mercado nacional e/ou mundial), seguindo
uma dupla trajetória traçada em escala vertical de posições de poder,
autoridade e prestígio. As novas tecnologias de navegação (principal-
mente as máquinas de propulsão, os motores) aumentam a velocidade
dos deslocamentos de cargas e passageiros. O controle do fuxo de
mercadorias conecta a propriedade dos barcos ao comércio através de
um leque variado de tipos de embarcações, possibilidades e saberes de
navegação estreitamente ligados a posições no relacionamento entre
patrões e fregueses. Peculiaridades ecológicas (distância dos locais de
extração; nível dos rios, lagos e igarapés, ciclo produtivo) dos produtos
da foresta (borracha e piaçava, por exemplo) traduzem-se em diferentes
relações de aviamento e em funcionalidades diversas à propriedade e
ao uso de embarcações distintas em capacidade de carga e velocidade
de deslocamento.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 151-170, 2. sem. 2006
155
A casa de aviamento J. G. de Araújo estendeu por vários rios amazôni-
cos uma ampla malha de interdependência comercial e política. No rio
Negro foi a principal agenciadora de produção e circulação do látex,
ao fornecer o volume de mercadorias imprescindível para o funciona-
mento do regime de aviamento. Muitas casas comerciais instalaram-se
nos principais aglomerados urbanos do Baixo Rio Negro, introduzindo
novos integrantes na elite local, assim como um novo estilo de vida no
qual o consumo de bens conspícuos (batons, vinhos, xícaras de porcela-
na, pentes de marfm, tecidos, instrumentos musicais, fogos de artifício,
espingardas e munições, etc.), vindos da capital (Manaus) dava um tom
de refnamento e superioridade que marcava a distância social entre
patrões e fregueses, entre civilização e atraso. Estes últimos, sim, fcavam
restritos ao consumo de bens indispensáveis à sobrevivência na selva (sal,
açúcar, tabaco, café, querosene etc.), adquiridos por altíssimos preços
“pagos” em produtos, atolando o trabalhador em dívidas infndáveis.
Caboclos e nordestinos não tinham mais tempo para fazer roças, pescar,
caçar ou exercer outras atividades extrativas, devido à pesada carga da
extração do látex regido pelo endividamento e subordinado às demandas
do mercado internacional. Já os donos das casas comerciais de Airão, de
Carvoeiro, de Moura, de Barcelos, de Tomar, de Moreira, de Santa Isabel
e de Cucuí tentavam imitar a vida faustosa da oligarquia manauense.
Todavia, a categoria dos patrões ou comerciantes não era homogênea,
como atestam as diferenças no volume e no tipo de mercadorias solici-
tadas por eles às casas aviadoras de Manaus, na quantidade de borracha
remetida, no grau de instrução e também no contingente de fregueses
a eles submetidos (LEONARDI, 1999).
Os intermediários locais espalhados pelos diversos rios estavam integra-
dos em uma teia de relacionamentos personalistas, por onde circulavam
obrigações e favores mútuos, cujo centro era a frma deste imigrante
português. Estes compromissos de lealdade não eram apenas econômicos
e J. G. Araújo controlava assim uma importante clientela política, arre-
gimentando os coronéis de barranco em torno de seus objetivos eleitorais,
que lhe permitiu estabelecer alianças com segmentos oligárquicos da
província do Amazonas. Com a queda progressiva dos preços da borracha
no mercado internacional, a partir de 1914, e a concorrência da produ-
ção gumífera do sudeste asiático, muitos nordestinos retornaram para
suas terras de origem, despovoando os seringais do Baixo Rio Negro. A
navegação fuvial retraiu-se consideravelmente e alternativas econômicas,
antes abandonadas ou relegadas a um segundo plano, foram retomadas,
como a extração de castanha e piaçava. A piaçava tornou-se o principal
produto extrativo, estimulando o recrutamento de mão-de-obra nas
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 151-170, 2. sem. 2006
156
comunidades indígenas do Alto Rio Negro para as colocações dos rios
Aracá, Padauiri e Preto, devido à escassez de trabalhadores provocada
pela decadência da extração da borracha (CARVALHO JR., 1994).
8
O mecanismo do endividamento constituiu-se no pilar de todas as ou-
tras atividades extrativistas, inclusive a captura de peixes ornamentais
que surgiu mais recentemente. No caso da extração da piaçava, devido
a peculiaridades ecológicas desta atividade, o regime de aviamento foi
ainda mais cruel. Diferentemente dos outros produtos, como a serin-
ga e a castanha, cujos locais de extração localizam-se nas margens dos
grandes rios, os piaçabais mais produtivos situam-se nas cabeceiras dos
afuentes e igarapés muito distantes dos núcleos de povoamento (povoa-
dos e cidades). A extração da piaçava pode perdurar durante todo o
ano enquanto outros produtos só podem ser coletados durante o verão
quando os igapós estão secos (seringa) ou durante o inverno (castanha).
Sendo assim, os fregueses podem retornar para seus locais de moradia
quando termina o período de coleta da seringa e da castanha, enquan-
to os piaçabeiros permanecem nas colocações, cortando piaçava, onde
estabelecem residência defnitiva devido à precariedade das condições
de acesso ao transporte fuvial. A dependência do patrão é muito maior
como também a exploração e a violência vigentes nas relações de trabalho.
O freguês aproveita a época das chuvas para transportar, em pequenas
canoas, as piraíbas até o barracão, localizado na boca do igarapé, onde
o patrão periodicamente chega para pegar o produto e suprir os traba-
lhadores com mercadorias.
Trajetórias indígenas e mudanças no sistema de aviamento.
A maioria absoluta dos moradores indígenas da cidade de Barcelos é
descendente (flhos ou netos) daqueles caboclos do Alto Rio Negro (rios
Vaupés, Tiquié, Papuri, Içana, Aiari, Xié e alto rio Negro) que foram
recrutados pelos patrões para trabalhar no extrativismo sob o regime de
aviamento. Suas histórias de vida são marcadas por constantes desloca-
mentos em colocações, sítios, povoados e cidades do rio Negro, eviden-
ciando uma memória biográfca cujas referências são as experiências
vivenciadas no sistema extrativista regional. Antigos patrões subiam o
rio Negro e traziam jovens solteiros ou casados, acompanhados ou não
de suas famílias e parentes mais próximos, para trabalhar nos seringais,
castanhais, piaçabais, sorvais, balatais, etc. Depois de trabalharem por
um período, dependendo da “boa vontade” do patrão, retornavam para
suas comunidades ou sítios no Alto Rio Negro, até serem recrutados no-
vamente para outra empreitada. Nessas constantes idas e vindas, alguns
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 151-170, 2. sem. 2006
157
estabeleceram-se defnitivamente no Médio Rio Negro, para fcarem mais
próximos dos locais de extração, na medida em que esta constituiu-se
em principal (ou até exclusiva) atividade econômica de sustentação da
família. Outros patrões impuseram coercitivamente a permanência de-
fnitiva do extrativista, através do mecanismo do endividamento, assim
como o monopólio da comercialização dos produtos da foresta.
Quando um patrão vendia as suas colocações a outro patrão, transfe-
ria também o seu contingente de fregueses a ele submetido. Os flhos
herdavam as dívidas dos pais quando estes morriam, ou seja, os laços
e compromissos de subordinação entre patrão e freguês atravessavam
gerações. Um senhor, Baniwa, de 54 anos de idade, que nasceu na co-
munidade de Camissa, um pouco abaixo da boca do rio Xié, no Alto Rio
Negro, quando tinha 15 anos de idade foi obrigado a assumir a dívida
(vinte contos de réis) contraída pelo seu falecido pai com o patrão Adolfo
Padrão. Foi então coletar sorva, seringa e castanha no rio Jurubaxi. Se
o freguês não atendesse as expectativas do patrão, recebia veementes
advertências e punições, inclusive castigos corporais. Uma senhora re-
latou que quando seu marido coletava seringa para Hamilton Ugarte
foi grosseiramente advertido por ele (“ralhava com ele”) porque vendia
sernambi aos regatões. Um patrão tomava as mercadorias mais aprecia-
das (rádio, motor etc) de um freguês e dava para outro. “O velho Marat
tinha dez arigó só para dar surra, até de terçado, em quem não quisesse
trabalhar” (morador Baniwa do bairro Aparecida). Joaquim Ugarte e
o velho Marat não permitiam que seus fregueses retornassem aos seus
locais de origem enquanto não pagassem suas dívidas. Pela lógica do
aviamento era muito difícil adquirir um saldo, mas nem todos os patrões
agiam da mesma maneira neste aspecto e nem todos os fregueses eram
tratados igualmente.
A mudança de residência para a cidade de Barcelos signifcou uma
libertação do cativeiro da dívida, passando a ter como principais ativi-
dades econômicas de reprodução do grupo doméstico a agricultura e o
artesanato, algumas vezes complementada com pequenos rendimentos
provenientes de aposentarias adquiridas junto ao FUNRURAL ou à FU-
NAI. Estabeleceram suas roças nas margens da estrada que liga Barcelos
ao rio Caurés ou em sítios, próximos à cidade onde estão situadas suas
casas de farinha. Deslocam-se para os seus sítios em canoas movidas a
remo ou por motores de popa de baixa potência (“rabetinhas” de 4, 5
ou 6hp). Os produtos agrícolas (mandioca, milho, cana, banana, abaca-
xi) são destinados predominantemente ao consumo doméstico, sendo
algum excedente de farinha de mandioca comercializado para auferir
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 151-170, 2. sem. 2006
158
alguma renda familiar. Uma alternativa de renda é a fabricação de peças
artesanais (balaio, peneira, tupé, abano, tipiti...) que são vendidas para a
Associação de Artesãos de Novo Airão (AANA), além da produção para
uso doméstico. Mesmo nos casos em que não houve completa ruptura, as
relações do freguês com o patrão se modifcaram, tornando o extrativis-
mo uma alternativa econômica adicional às outras fontes de sustentação
acima mencionadas. Nesta situação, o espaço de manobra do trabalhador
quanto às condições de entrada e saída do sistema amplia-se, inclusive
considerando a possibilidade de denunciar privações e injustiças junto
a instituições ofciais ou civis (Promotoria Pública, Fundação Nacional
do Índio e Associação Indígena de Barcelos).
Um morador Baré, do bairro da Aparecida (60 anos de idade), obteve
a permissão do patrão Rui Macedo (genro de Adolfo Padrão), em 1985,
para estabelecer uma roça no seu terreno situado no lugar chamado
Tocandira, próximo da cidade de Barcelos, e como pagamento foi
coletar sorva no rio Quiuini. Quando a sorva tornou-se um produto
inviável comercialmente, o mesmo foi cortar piaçava no alto rio Aracá,
pois contraíra uma dívida de R$ 1.500,00, juntamente com seu irmão,
referente ao uso agrícola de uma parte do terreno do patrão. Ficou sete
meses no rio Aracá cortando piaçava e conseguiu pagar a dívida e ainda
tirar um saldo de R$ 276,00. Rui Macedo não lhe pagou, entretanto,
dizendo-lhe que ele ainda estava em débito e não poderia sair do piaça-
bal sem pagar a conta. Esta é uma prática muito comum deste patrão:
não paga o saldo aos seus fregueses. De todo modo, este senhor Baré,
há dois anos, não corta mais piaçava e está pagando a sua roça com fa-
rinha, que o patrão fornece aos seus fregueses, que também cuidam do
terreno de Rui Macedo.
Merece destaque um outro caso no qual moradores indígenas da cidade
recorrem ao sistema de aviamento para adquirir bens industrializados
(eletrodomésticos) para a casa e um motor de popa para melhorar os
meios de navegação fuvial da família. Um senhor Baniwa de 54 anos
de idade, morador do bairro da Aparecida, não cortava piaçava há 30
anos quando, no inverno de 2000, resolveu ajudar seu flho, que tinha 20
anos de idade e nenhuma experiência no extrativismo, acompanhan do-o
ao piaçabal de Rui Macedo, no igarapé Cabeçudo, no rio Aracá, para
lhe ensinar a trabalhar. A motivação do jovem para entrar no sistema
de aviamento era a compra de um fogão para sua mãe. Chegando no
piaçabal seguiram para o barracão do patrão. Ele despachou os outros
fregueses antes.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 151-170, 2. sem. 2006
159
Na última viagem o patrão falou que não tinha mais gasolina e mandou
que aquele senhor Baniwa e seu flho fcassem na “corda” (nome de
uma colocação), pois havia muita piaçava lá. Só encontraram algumas
piaçabeiras depois de dois dias de caminhada. Cortaram 240 kg de
piaçava, nove pacotes em nove dias. Entregaram aquela pequena pro-
dução e aviaram-se mais um pouco. De lá foram para a “tristeza”, outra
colocação. Trabalharam durante 15 dias e extraíram 44 pacotes, mas
perderam nove cabeças (pacotes) quando a embarcação em que esta-
vam afundou. Entregaram 35 pacotes ou 330 kg de piaçava somente.
Resolveu trabalhar por mais algum tempo para comprar uma televisão.
Seus dois flhos fcaram com ele e decidiram encomendar ao patrão um
motor de popa Yamaha de 8hp. O patrão prometeu um motor melhor,
de 15 hp. Subiram o igarapé no motor (15 hp) de Rui Macedo. Fizeram
uma barraquinha. Cortaram 40 pacotes de piaçava. O chefe da equipe
sugeriu que fossem para o igarapé Grande, onde tinha mais peixe para
alimento. Produziram 60 pacotes (uma tonelada e 60 kg). O patrão che-
gou então para pegar a produção. Eles fcaram com o chefe. Subiram o
igarapé mais um pouco, até chegarem noutra barraca, e encontraram
“uma ponta de piaçava bonita”. Esta colocação foi uma descoberta de-
les, não pertencia ao patrão. Produziram mais 34 pacotes, completando
94 pacotes de piaçava. Desceram para o barracão e perguntaram a Rui
Macedo pelo motor prometido por ele. Ao constatarem que o patrão não
comprara o motor, aquele senhor Baniwa e seus dois flhos discutiram
com Rui Macedo. Já tinham transcorrido seis meses desde que saíram de
casa. Voltaram então para a cidade de Barcelos. O patrão fcou furioso
quando soube que eles foram embora, disse que eles “ainda tinham
conta [dívida] grande”.
Em Barcelos, Rui Macedo apresentou o peso da produção destes fregue-
ses, 90 pacotes ou 2.020 kg, todavia o montante verdadeiro da produção
em seis meses foi cinco toneladas. O freguês Baniwa fcou devendo ainda
R$ 400,00. O débito foi reduzido para R$ 350,00 devido a um saldo
anterior ainda não pago a ele. Ao ser solicitado a entregar a “conta” (o
registro escrito da contabilidade referente aos valores da piaçava entregue
e das mercadorias adquiridas) Rui Macedo relutou, mas cedeu e reduziu
a dívida para R$ 245,00. O seu “compadre indígena” queria mostrar a
“conta” para seus flhos conferirem, pois eles sabiam ler e escrever. Fica
claro aqui um dos motivos por que os indígenas valorizam tanto a ins-
trução escolar dos seus flhos. A aquisição de um fogão defagrou uma
cadeia de ações e decisões que lançou novamente toda uma família nas
relações sociais do endividamento, evidenciando algumas estratégias
de manipulação dos sonhos de consumo dos extrativistas, acionadas
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pelo patrão para arregimentar um contingente de trabalhadores,
inserindo-os esporadicamente no regime de aviamento. O idioma da
afnidade (compadrio) utilizado nesta relação situa o patrão na posição
liminar entre aliado e inimigo, próximo e distante, parente e estranho,
protetor e predador. O vínculo de dependência pessoal entre patrão e
freguês transcende o mero plano econômico do extrativismo, pressupõe
a possibilidade de sua contínua reatualização sob modalidades distintas,
inclusive no espaço social urbano.
Para aqueles que residem na cidade, onde a escassez de emprego é crô-
nica, o extrativismo é encarado como uma alternativa de “renda”, uma
das poucas modalidades disponíveis de aquisição de bens industrializados
destinados ao uso individual ou familiar. Um morador Desana, do bairro
da Aparecida, 67 anos, casado com uma senhora Tukano, comprou os
utensílios, móveis e eletrodomésticos da sua casa com a ajuda dos flhos
que cortam piaçava no rio Aracá. Este senhor Desana nasceu em Taracuá,
no rio Vaupés, Alto Rio Negro, e “baixou” para trabalhar na extração da
piaçava. Morava numa ilha em frente à comunidade de Tapereira, onde
ainda tem roça. É rezador e mora há oito anos na cidade de Barcelos. Ele
e sua esposa são aposentados (FUNAI e FUNRURAL, respectivamente).
Tem roça no igarapé Taiana, uma hora a remo no “inverno” e mais de
duas horas no “verão”: “o sítio fca lá pro centro”. Um dos seus flhos
leciona na escola da comunidade Baturité, outro trabalha na olaria em
Barcelos e outros três flhos cortam piaçava. Eles moram no igarapé, no
rio Aracá, próximo dos piaçabais. Vão à cidade uma vez por ano, perma-
necendo um mês em visita aos pais. Não cultivam nada, o patrão leva a
farinha além de outros itens de alimentação, higiene, vestuário... que são
aviados. Preferem a dependência do patrão no meio da foresta à depen-
dência do dinheiro para viver na cidade. Neste caso, o extrativismo sob
o sistema de aviamento é apreendido pelos fregueses como uma “opção
de emprego”: não recebem salário nem há contrato formal de trabalho, a
exploração da força de trabalho ainda é acentuada, mas há uma relativa
autonomia e maior margem de negociação face aos laços tradicionais de
sujeição ao patrão. A percepção desta diferença na economia moral e
política do aviamento foi expressa em termos temporais, confrontando
um passado de sujeição a um presente de autonomia: “Naquele tempo
a gente só subia [retornava para o Alto Rio Negro] quando o patrão
quisesse. Não é como hoje em dia, a gente já mais ou menos procura o
caminho da gente do patrão”.
No caso, cabe destacar alguns elementos, descritos anteriormente, que
auxiliam no entendimento desta nova situação: jovens indígenas que
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ingressam voluntária e tardiamente no aviamento (não faz parte de
suas experiências de vida desde o nascimento); possuem algum nível de
escolarização (estudaram da 1ª à 4ª série nas escolas das comunidades,
nem sempre concluindo esta fase elementar, sabem ler e escrever pelo
menos), podendo conferir as notas apresentadas pelo patrão e controlar
despesas. Possuem a residência dos pais ou de outros parentes na cidade
como base de apoio, no caso de abandonarem as colocações, mesmo sem
a permissão do patrão, e o conhecimento da existência de instituições
para reclamar contra privações, violências e injustiças.
Para mais um exemplo, menciono o caso de um morador Baniwa, do
bairro da Aparecida, que abandonou a “empresa” de piaçava de Edson
Marat no Malalahá (rio Araçá), considerado um dos patrões mais tira-
nos e agressivos da região, deixando toda a sua produção no barracão,
aproveitando um convite da irmã para passear na cidade de Barcelos
e estabelecendo-se defnitivamente na casa dela. Edson Marat, quando
soube que ele havia “baixado” com sua família sem sua autorização,
mandou prendê-lo, juntamente com seu irmão. João Mineiro, funcio-
nário do núcleo local da FUNAI, intercedeu a seu favor, advertindo o
patrão que o “caboclo” não voltaria mais ao piaçabal porque ele não
tinha mais dívida. É importante notar, contudo, que a dívida como forma
de retenção compulsória da força de trabalho não foi questionada. De
todo modo, este senhor Baniwa foi obrigado a retornar duas vezes —
trabalhando durante um mês na primeira ocasião e por dois meses na
segunda — com toda a família ao Malalahá para pagar a “conta” que o
patrão alegava ainda existir. Desde que foi morar na cidade de Barcelos,
há 10 anos, não corta mais piaçava, passando o sustento da família a de-
pender principalmente da agricultura. No início, morou com a família
na casa da irmã, a qual cedeu parte do seu terreno para ele construir
sua casa. Tem uma roça no igarapé Taiana, onde sua irmã também tem
roça; o terreno não tem dono. Utiliza o forno da irmã para fazer farinha
e tapioca, cujo excedente vende. Fabrica peças de artesanato somente
para o consumo doméstico.
Antes de morar em Barcelos este senhor Baniwa não conhecia esta cidade
nem Santa Isabel do Rio Negro, pois os fregueses eram proibidos de
“passear” na cidade; se fzessem isso seriam presos. Ainda tem parentes,
todos Baniwa, trabalhando para Edson Marat: “Eles têm medo do patrão,
dele mandar prender ou dar surra neles. Ele manda pegar o cara pra ele
bater, manda os fregueses dele mesmo” (morador Baniwa de Barcelos).
Muitos extrativistas ainda vivem e trabalham nestas condições nos altos
cursos dos rios e igarapés onde localizam-se as colocações de piaçava.
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Muitos não têm carteira de identidade, nem certidão de nascimento,
apenas o título de eleitor. Em períodos de eleição “descem para Barcelos
ou Santa Isabel”, junto com o patrão, para votar nos candidatos por ele
indicados. Durante as entrevistas que eu fz com moradores do bairro
da Aparecida estes relataram-me um caso em que dois irmãos Baniwa
foram presos porque “fugiram” das colocações de piaçava de Edson
Marat. O patrão teve a colaboração de policiais militares e a anuência
do delegado de Barcelos. Os dois fregueses adquiriram uma “rabetinha”
(por R$ 160,00), trabalharam durante vários meses e não conseguiram
quitar a dívida. Edson Marat confscou a rabeta e mandou prender os
dois. Depois de liberados foram obrigados a voltar ao piaçabal. Um deles
estava doente e morreu no meio do caminho.
É mais precária, portanto, a situação daqueles fregueses que moram
em sítios próximos das colocações. Constituem reserva de mão-de-obra
permanente e cativa do regime de aviamento por estreitos laços de de-
pendência e subordinação ao patrão. A dedicação de famílias inteiras ao
extrativismo é exclusiva e total; não há comunidades, nem geradores de
energia elétrica, nem equipamentos de radiofonia, nem antenas para-
bólicas e tvs coletivas, nem escolas e nem sequer atendimento médico.
Paradoxalmente o regime de aviamento é uma porta de entrada ao
mundo civilizado (representado emblematicamente pela afuência de
bens industrializados) que afasta os homens de outros símbolos próximos
de modernidade e joga-os no universo perigoso da selva. Porém, forças
potencialmente maléfcas podem ser domesticadas, assim como a própria
voracidade do patrão por produtos da foresta. É esta a perspectiva de
autonomia do extrativista indígena.
O “patrão”, o “branco” e o “curupira”: o campo semântico
das relações interétnicas e o regime de aviamento.
No imaginário interétnico regional — compartilhado inclusive por
não indígenas — mata, rios, lagos e igarapés são habitados por forças
malfazejas (curupiras, espíritos dos mortos e encantados) e humanos
dotados de poderes maravilhosos e ameaçadores (matis e maquiritares),
tornando necessária uma série de cuidados especiais no manejo dos re-
cursos “naturais” e no trato com os viventes. O homem precisa controlar
os meios adequados de comunicação e relacionamento com estes seres
potencialmente predadores, causadores de doenças e morte. As rezas e
os benzimentos são mecanismos de proteção que servem para domes-
ticar, amansar, entabular um diálogo com os senhores das matas, rios e
lagos, a fm de transformar poderes ameaçadores em benefícios para os
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163
humanos. Entre as fguras de alteridade aquela que é mais diretamente
vinculada ao extrativismo e, de diversas maneiras, à fgura do patrão, é
o curupira, mas cujo entendimento remete a um complexo mais amplo
de agentes de predação e proteção, de forças potenciais de destruição
e regeneração.
Não é muito difícil em Barcelos coletar histórias sobre encontros com
curupira, seja de alguém que presenciou pessoalmente os acontecimentos
narrados ou porque ouviu de terceiros. Mesmo entre aqueles que nun-
ca o viram engajados no extrativismo, inclusive muitos jovens, não há
dúvidas sobre sua existência. O curupira é descrito como uma criatura
extraordinária, inserida em uma economia simbólica da alteridade que
o aproxima de outras fguras dotadas da capacidade de transitar entre
formas corporais e universos cognitivos estranhos, como os animais, os
pajés, as almas pecadoras e os brancos. Existem benzimentos para se
proteger dele, cujo conhecimento não é monopólio dos pajés.
O curupira não é propriamente um guardião da foresta — pelo menos
não no sentido ambientalista vulgar, recorrente nos registros folclóricos
—, ele zela por um patrimônio que não é um bem da humanidade, mas
da supra-humanidade. A moderação, o controle de si, é um valor muito
recorrente em várias situações sociais de contato com alteridades. Cabe
sublinhar a ética do freguês que condena aqueles trabalhadores que não
sabem “regular” o seu consumo, ampliando assim a dívida com o patrão.
As leis que vigoram na mata não são “naturais”, são convencionadas e
sancionadas por estes “espíritos encantados”. Existe todo um conjunto de
condutas padronizadas, uma etiqueta, composta de ações e interdições,
estratégias de aproximação ou de relativização da diferença para evitar
os ataques destes seres. Em contraposição, o Outro é representado pelo
excesso, pela incapacidade de conter sentimentos violentos, “fcar brabo”.
Todo tipo de intervenção na foresta é um risco, pois devem-se respeitar
certas regras e procedimentos estabelecidos para não ofender tais inter-
locutores invisíveis deixando-os “brabos”. Os extrativistas estabelecem
relações muito delicadas, que requerem habilidades de relacionamento,
com os donos dos produtos da foresta (curupiras e encantados) e de bens
industrializados (os patrões), ícones locais da selvageria e da civilização,
com os quais eles devem negociar.
O curupira é um espírito canibal da foresta – tem raiva de outro grande
predador (a onça) –, portador de diversas faces conforme as suas rela-
ções com outras fguras inerentes ao simbolismo da predação vigente no
imaginário interétnico do Médio Rio Negro. Sua origem foi atribuída
também a um ato imprudente e desmedido de alguém desprovido da
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capacidade de controlar a si mesmo: da ambição desmesurada de um
homem de se tornar pajé. Ele cheirou paricá em excesso, enlouquecen-
do e correndo para dentro do mato.
9
Um senhor Baniwa relatou uma
história em que encontrou um curupira quando ainda era criança e já
trabalhava na extração da borracha. O curupira estava cortando seringa
e fcou com pena dele ao ver a exploração a que estava submetido sob
as ordens do patrão. O freguês, portanto, fca sob a mira de duas pers-
pectivas opostas: a do patrão querendo mais produtos e a dos curupiras
e encantados, ciosos dos seus pertences.
Numa versão tariana sobre a origem do curupira, ele era um encantado
que não embarcou, perdendo a oportunidade de tornar-se humano,
porque estava embriagado, quando passou a cobra-canoa na maloca
onde morava. Por isso o curupira tem raiva de todos os humanos e
prometeu devorar o primeiro que encontrasse, e todos os outros, desde
então. Encontramos os mesmos elementos estruturais da formulação
deste ícone de predação e alteridade em outras versões: canibalismo,
descontrole, vingança, embriaguez, encantado, brancos, espíritos, anima-
lidade. Outros encantados também perderam a oportunidade de entrar
na cobra-canoa e de se transformarem em humanos. Por isso eles hoje
têm raiva dos humanos, pois são descendentes dos encantados antigos
que entraram na cobra-canoa quando foram criados os vários grupos
indígenas do Rio Negro. Estes espíritos que não conseguiram tornar-se
“gente” são descritos como tendo a aparência dos brancos.
No mundo invisível, os encantados são pessoas que vêm para o mundo
humano e aparecem sob a forma de animais. Quando os humanos vão
para o mundo dos encantados são vistos como animais. Não existem
povos (Tukano, Tariana, Arapaço, Desana, Piratapuia, etc) no mundo
dos encantados, todos são brancos. Esta categoria remete (neste con-
texto) a uma identidade puramente negativa: é a eliminação de todas
as fronteiras étnicas. O risco de tornar-se um branco, ter o seu espírito
arrebatado pela “civilização”, é análogo a migrar defnitivamente para
o mundo dos encantados, perdendo suas referências étnicas, sua hu-
manidade. Este reencantamento das “pessoas indígenas” está ligado
aos estados de enfermidade. Os brancos são parentes dos encantados,
por esta razão são mais facilmente curados pelos pajés: não existe raiva
nem inveja neste relacionamento. Temos aqui a correspondência entre
“indígenas” e “brancos” — os primeiros precisam de rezas para viver, de
meios de defesa contra os ataques dos encantados — “corpo” e “alma”,
“diversidade” e “universalidade”. As rezas são específcas para cada etnia
e sua efcácia pode depender até do conhecimento do nome tribal do
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enfermo. As rezas (veículos da memória mítica e da memória histórica)
constituem um meio de continuar o trabalho de transformação original
(humanização), alimentando o espírito com as marcas distintivas da tra-
dição para fortalecer um corpo vulnerável ao pathos da homogeneização
e do caos. Um fundo comum civilizado (alteridade) sustenta as diversas
possibilidades de ser indígena (identidade).
Outra característica corporal do curupira que o aproxima dos brancos
é a espingarda que ele carrega embutida no antebraço. A associação
simbólica entre a arma de fogo e o homem branco é claramente expres-
sa em uma versão do mito de origem dos povos rio negrinos, por mim
registrada, de um morador Tukano, do bairro São Sebastião. O evento
histórico da colonização adquire sentido ao ser inserido no registro
mítico dos acontecimentos primordiais. A narrativa descreve a origem
dos “brancos” no momento em que as tribos ou classes (termos locais)
emergiram da cobra-canoa e transformaram-se em gente; antes eram
peixes. A categoria étnica que personifca a “civilização” é indelevelmente
carimbada com o estereótipo regional de “selvageria”, “inferioridade”
e “infra-humanidade”: os Maku. O poder e a agressividade do homem
branco, que o aproximam da fgura do curupira, são compreendidos
a partir de um ato original de coragem, audácia e ambição de um ser
inferior que inaugurou o estado posterior de desordem das relações
interétnicas no Rio Negro. A civilização emergiu da indianidade e ambas
se contrapõem à sociabilidade do “caboclo ribeirinho” (Tukano, Desana,
Arapaço...).
Vemos o entrelaçamento entre as consciências histórica e mítica, nas
quais dominação, violência e ganância dos colonizadores já estavam
prefgurados no ato inaugural de inversão da ordem primordial do
mundo. Duas fguras de alteridade são aproximadas para tecer um laço
de continuidade entre história e mito, atribuindo sentido à experiência
traumática da chegada (ou retorno, conforme a concepção mítica) dos
brancos ao Rio Negro. Por outro lado, o “Alto” [Rio Negro] aparece
como o lugar onde esta ordem original, tomando a distribuição de terras
entre as “tribos” como parâmetro, teria sido preservada. A categoria de
“índio” é situacional e relacional. Quando serve para estabelecer sinais
diacríticos diante de outros “tipos de gente”, de outras “raças”, dos “ín-
dios verdadeiros”, daqueles que vivem no mato e moram em aldeias e
malocas e eram originalmente “empregados”, “servos”, como os Maku,
a categoria de “caboclo” é acionada para singularizar-se no cenário in-
terétnico local. O “povoado” expressa o modo de ser “caboclo” — que
não exclui referências étnicas precisas, como “caboclo Tukano, Desana,
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Arapaço...” — que os distingue dos “índios”, mas também dos “brancos”.
Estes estão classifcados pelo descontrole das suas ações e emoções, que
os torna violentos e os faz perseguir os seus objetivos sem consideração
e respeito pelos outros. Característica que os distancia da humanidade,
sem excluí-los completamente dela.
10
O regime de aviamento é um amplo circuito de trocas e dádivas, de dívi-
das e generosidades, de favores e obrigações, de coerções e negociações,
frustrações e esperanças, predação e proteção, exploração e doação,
desprezo e consideração, que se estrutura em relações hierárquicas
fundadas em duas categorias básicas: o patrão e o freguês. Não estou
atenuando a assimetria violência/exploração (sua explícita gramática
da predação) do sistema de aviamento, porém, se não olharmos para a
simetria proteção/doação como o seu reverso (sua gramática da dádiva
subjacente), não se percebe a perspectiva dual em operação, que não se
trata apenas de mercado e interesses, mas de reciprocidade e alianças.
É um comércio que se sustenta em princípios alheios à lógica do mer-
cado, em laços e compromissos duradouros e pessoais, numa economia
moral que defne o “bom” e o “mau” patrão assim como o “bom” e o
“mau” freguês. O endividamento permanente – assim como o crédito e
o risco envolvido nele – não pode ser entendido num código puramente
econômico, pois é símbolo e base de manutenção de uma aliança entre
o freguês laborioso e o patrão generoso.
O “mau patrão”, portanto, é aquele que “nunca deixa acabar a conta,
nunca faz saldo com ele”, “berra muito com o freguês”, como também
aquele que fornece poucas mercadorias, “sempre deixa fcar sem fari-
nha, sabão, sal, sem tudo”. O “bom freguês” é aquele que produz muito
e consome pouco, não é preguiçoso, também é aquele que respeita o
monopólio comercial exercido pelo patrão. As expectativas das duas
categorias básicas de agentes do regime de aviamento são antagônicas. O
“mau patrão” rompe com um modelo de reciprocidade idealizado pelo
freguês indígena em que ele seria o provedor de bens industrializados
em abundância, mas ao mesmo tempo coerente com uma ética na qual o
freguês deve retribuir com grandes quantidades de produtos da foresta.
O patrão, ao enfatizar a unilateralidade da dívida, nega a possibilidade
de transformar o aviamento em um ciclo de prestações e contrapresta-
ções (baseado nos atos ao mesmo tempo voluntários e obrigatórios de
dar, receber e retribuir), pois a dívida como um elemento imanente da
dádiva agonística (que garante sua continuidade) torna as posições de
credor e devedor constantemente intercambiáveis entre os parceiros
envolvidos. O saldo neste modelo não retira o freguês da relação, mas
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ao contrário o insere nela segundo a lógica arriscada da dádiva, sem as
garantias oferecidas pela lógica do interesse e da obrigação.
O caráter paradoxal do regime de aviamento — no qual laços de leal-
dade e dependência pessoal são selados no idioma impessoal das trocas
comerciais e as interações entre as pessoas estão embebidas no fuxo de
objetos — pode ser compreendido melhor nesta tensão estrutural entre
lógicas distintas de ação que coexistem: a instrumental, a normativa e a
comunicativa. A ambigüidade da fgura do patrão — que oscila entre o
aliado/inimigo, parente/estranho, família/mercado, proteção/predação, doação/
exploração, generosidade/terror, comunhão/contrato — e o complexo simbo-
lismo expresso nas representações dos atores envolvidos não podem
ser adequadamente interpretados senão como uma modalidade muito
especial de (i)mobilização da força de trabalho, na qual a economia
política capitalista articula-se com a economia moral do aviamento, no
bojo da qual há negociações e disputas sobre as fronteiras do humano
(TAUSSIG, 1993).
Considerações finais
O extrativismo da piaçava no Rio Negro é uma atividade econômica
desenvolvida sob uma forma de exploração e recrutamento da força
de trabalho. Nela, a coerção e a violência constituem elementos funda-
mentais. Buscamos compreender as relações sociais que se estabelecem
entre “patrões” e “fregueses”, situando-as em seu contexto histórico e
cultural. O regime de aviamento constituiu-se no processo de mudanças
na composição das elites locais e regionais, inseridas na cadeia produtiva
e comercial que ligava os seringais no meio da foresta ao mercado mun-
dial, conectando índios e ribeirinhos amazônicos a um poderoso ícone da
modernidade capitalista no início do século XX: o automóvel. Sobreviveu
à decadência do ciclo da borracha — e do impulso econômico, urbano e
civilizatório por ele gerado —, transformando-se e expandindo-se para
outros setores extrativistas até chegar ao século XXI.
As condições ecológicas e tecnológicas de extração de distintos produtos
da foresta conferem feições diferenciadas aos modos de subordinação
coercitiva do trabalho. O rendimento dos patrões não se pauta na con-
centração fundiária, no âmbito de um mercado de terras plenamente
regularizado ou não, mas no controle do acesso e do manejo dos recursos
da foresta, através do domínio sobre o fuxo de mercadorias, da pro-
priedade de equipamentos de navegação fuvial; e, conseqüentemente,
da capacidade de criar, conservar e ampliar uma rede permanente de
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dependência pessoal. Através da trajetória de vida dos extrativistas
indígenas, vimos como foram se ampliando e diversifcando os espaços
de negociação e manipulação por parte dos “fregueses” — que sempre
existiram mesmo nos contextos de extrema imposição do cativeiro da
dívida — concomitantemente às mudanças de componentes relevantes
na operacionalização do regime. Nas brechas constitutivas de qualquer
esquema de dominação, que possibilita a irredutível agência dos subalter-
nos, emergem as contradições e tensões entre os projetos de subordinação
dos patrões e os de autonomia dos fregueses.
Sendo assim, o aviamento foi abordado como uma realidade complexa,
dinâmica e multifacetada, demonstrando que pode estar em crise, mas
ainda é um ingrediente fundamental na confguração das desigualdades
sociais, das relações de poder e do cenário interétnico no Rio Negro.
Neste sentido, abordamos a inserção de vários grupos indígenas nesta
modalidade de mobilização compulsória da força de trabalho, enfocando
particularmente a extração de piaçava, como um fator relevante para a
compreensão das relações interétnicas no Baixo Rio Negro. As migra-
ções indígenas, motivadas pela busca de autonomia, envolveram amplos
segmentos dos diversos povos indígenas na economia moral e política
do endividamento. Por outro lado, é o campo semântico das relações
interétnicas, ponto de interseção entre memória, identidade e história,
que permite a compreensão da singularidade histórica e cultural do
regime de aviamento no Noroeste Amazônico.
Abstract
The single region of Brazil where exist natives piaçabais is the Rio Negro,
Amazonas, in areas of the campinarana type (or Amazonian campina or
caatinga), characterized for low forest, shrubbery that grow in arenaceous
and subject to fooding ground in the period of rains. The removed fbers
of this palm are commercialized and used in the confection of brooms. The
extraction of piaçava is organized through the system of aviamento; one
form of recruitment and exploration of the force of work based on the slavery
for debt. The workers are mainly indigenous who migrated of the Alto Rio
Negro and compulsorily had been fxed in the piaçabais, living in complete
invisibility ahead of locals public powers and deprived of elementary civil
rights (as the freedom of movement). In this article I intend to approach
the material and symbolic conditions of social reproduction of this modality
of monopoly and management of natural resources in the Amazonian
space, which oppose indigenous workers and not-indigenous bosses while
personages situated in contrasting positions in the moral economy and in
the interethnic imaginary of the extractives activities of piaçava.
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Keywords: extractives activities; violence; interethnic relations; indigenous;
Amazônia.
Referências
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Tese de livre-docência apresentada ao Departamento de Antropologia
do Instituto de Filosofa e Ciências Humanas da Universidade Estadual
de Campinas, Campinas, SP, 1996.
Notas
1
Este artigo baseia-se em parte da minha tese de doutorado, apresentada ao Departamento de Antropologia
da Universidade Estadual de Campinas, em agosto de 2003, cujo título é “Cultura, Política e Identidade na
Amazônia: o associativismo indígena no Baixo Rio Negro”. Uma versão preliminar foi apresentada no GT
“Violência, Confitos e Práticas Culturais”, no 30º Encontro da ANPOCS, 24 a 28/10/06.
2
Encontram-se residindo na cidade famílias pertencentes às seguintes etnias: Tukano, Baniwa, Baré, Desana,
Piratapuia, Tariana, Arapaço, Cabarí, Yanomami, Canamar, Lanaua e Cubeu.
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3
As comunidades são unidades residenciais situadas fora das sedes municipais; a distâncias variadas, mas em
geral longe dos núcleos urbanos. Possuem escola, posto de saúde, capela (católica ou evangélica), centro
comunitário (chamado de sede), campo de futebol e voleibol. Já os sítios reúnem um pequeno número de
famílias que têm acesso aos serviços de educação, religião e saúde das comunidades. Os habitantes das comu-
nidades e sítios afliam-se às seguintes etnias: Baré, Baniwa, Tucano, Piratapuia, Desana, Tariana, Arapaço,
Tuyuca e Werequena.
4
Há ocorrência de piaçabais também nos rios Téia, Marié, Iá, Curicuriari (todos no Médio Rio Negro) e no rio
Xié (no Alto Rio Negro). A única região do Brasil onde existem piaçabais nativos é no Rio Negro, em áreas
de vegetação do tipo campinarana (ou campina ou caatinga amazônica), caracterizada por forestas baixas,
arbustivas (variando entre seis e vinte metros) que crescem em solos arenosos e inundáveis no período das
chuvas. Os outros dois tipos principais de vegetação no Rio Negro são: a foresta densa (ou de terra frme)
e o igapó (ou área de refúgio) (CABALZAR FILHO; RICARDO, 1998). Segundo um ex-piaçabeiro, Baré, a
fbra de piaçava cultivada na Bahia é de qualidade inferior, mais rígida, e é misturada à piaçava amazônica
na fabricação das vassouras. A maior parte da produção nacional do produto é proveniente do nordeste. As
fbras de piaçava constituíram matéria-prima para a confecção de cordas para as embarcações que trafegavam
na bacia amazônica desde o período colonial. Nos anos 1960 foram substituídas pelas cordas fabricadas com
nylon. Na fabricação de vassouras, a piaçava continua sendo utilizada apesar da crescente utilização, a partir
dos anos 1950 e 1960, de materiais sintéticos nesta indústria. As palmeiras novas têm até 10 anos e são mais
rentáveis comercialmente. Depois de explorada é necessário um intervalo de 10 anos para as fbras atingirem
um tamanho economicamente interessante. Nem sempre existe a espera desse tempo para sua reutilização,
apesar da produtividade ser menor. A extração da piaçava não elimina a planta-matriz, sendo assim uma
atividade econômica sustentável. Porém, pode tornar-se predatória na medida em que não respeite o tempo
de recuperação total da palmeira (MEIRA, 1993).
5
Segundo um ex-piaçabeiro, Baré, o patrão aumenta ainda mais o seu ganho vendendo a piaçava molhada
porque assim é mais fácil de penteá-la. Além do mais não lhe é cobrada a tara.
6
Na cidade predominam os estabelecimentos dedicados ao comércio de estivas (alimentos e produtos de higiene)
e de bebidas alcoólicas (bares); mercadorias estratégicas para a reprodução do regime de aviamento.
7
Há patrões que só mandam a piaçava para Manaus se não encontrarem comprador em Barcelos, pois as
despesas com o frete do recreio (embarcação de grande porte que transporta cargas e passageiros entre
Manaus e as cidades do Rio Negro) desestimulam tal iniciativa, mesmo que vendam o produto mais caro.
Enviar para o Rio de Janeiro também não vale a pena, as despesas são maiores; além do frete do recreio tem a
estiva e o frete do caminhão. Este investimento só é economicamente viável se envolver grandes quantidades
de piaçava (80 a 100 toneladas). Negocia-se geralmente de 15 a 20 toneladas.
8
Nos anos 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, a extração da seringa readquiriu um novo fôlego com
a chegada dos “soldados da borracha” oriundos do Rio de Janeiro e do Nordeste. Eduardo Galvão constatou,
em meados do século XX, a preferência dos fregueses pela extração da piaçava por ser mais rentável, apesar
do alto preço das mercadorias aviadas pelos patrões. Mencionou também a vigência de um regime cruel de
exploração da força de trabalho sublinhando os castigos corporais impostos aos fregueses, como a utilização
da chibata (GALVÃO, 1959).
9
Numa versão tariana registrada no livro do Instituto Socioambiental, o curupira, junto com outros espíri-
tos da foresta (tamanduá, onça e diabo-abacate), originou-se da desobediência das ordens do Trovão que
proibiu que eles tivessem relações sexuais depois de cheirar paricá. Deveriam passar por um período de
abstinência depois do qual o próprio Trovão providenciaria mulheres para eles casarem. Ou seja, deixaram
seus impulsos, desejos e afetos dominarem as suas vontades, a capacidade humana de agir normativamente,
transformando-os em bestas, bichos do mato. O curupira, a onça e o diabo-abacate foram condenados a viver
na mata, enquanto o tamanduá foi condenado a viver nos buracos (BARBOSA; GARCIA, 2000).
10
Para os Hohodene, autocontrole e autonomia constituem elementos básicos na construção social da pessoa em
contraposição à desordem e à morte atribuídas a personagens e cenários de alteridade (WRIGHT, 1996).
Jadir de Morais Pessoa
Educação e ruralidaes:
por um olhar pesquisante plural
Sob o patrocínio do estado militar, a construção de
estradas, grandes projetos agropecuários e o uso
de incentivos fscais para a ocupação dos espaços
livres geraram no Brasil, na década de 1970, intensa
privatização das terras não-tituladas e grande altera-
ção demográfca no sentido campo-cidade. Nos anos
1980 intensifcaram-se as lutas pela posse da terra e
a constituição de assentamentos rurais. Já na década
de 1990, o desenvolvimento do turismo dirigiu-se
para as regiões rurais, provocando o surgimento
de atividades não-agrícolas. Também na década de
1990 instituiu-se, com recursos do governo federal, o
transporte escolar das regiões rurais para as sedes dos
municípios. São fatores constitutivos da diversifcação
de formas de vida e de trabalho das populações rurais,
em substituição ao rural agrícola homogêneo, o que
é tratado neste artigo como ruralidades, termo que
indica modos diferentes de identifcação com o mundo
rural, mesmo em realidades urbanas. O objetivo é
propor que as pesquisas em educação se pautem por
esta perspectiva polissêmica de compreensão do rural,
dada a diversidade de constituição de identidades dos
seus sujeitos em todo o país.
Palavras-chave: ruralidades; educação escolar; po-
pulações rurais.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 171-188, 2. sem. 2006
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Extensões da pergunta
O lugar de onde surge e para onde se dirige esta pequena refexão é
o campo da pesquisa sobre atendimento escolar de populações rurais.
Isso já signifca dizer que abro mão de toda a fecundidade de idéias que
poderiam brotar das lutas sociais, especialmente aquelas dos movimentos
organizados em face da conquista de direitos relativos ao trabalho rural
e à educação. Por falar em movimentos organizados, o que vem a seguir
traz outra limitação: não poder me dedicar a refetir sobre a diversidade
de saberes que emergem ou que são construídos quando os sujeitos indivi-
duais transformarem-se em um nós mobilizado, mobilizador, aprendente,
ensinante (PESSOA, 2004). Também não poderei me estender para um
campo que me é caro no momento: tomar as tradições e manifestações
da cultura popular (religiosas ou da sociabilidade cotidiana), como mo-
mentos ou experiências coletivas de produção e transmissão de saberes
(PESSOA, 2005). São lugares-saberes tão ricos e diversifcados que,
deixá-los de lado em uma refexão sobre educação – em se tratando de
populações rurais – tem um pouco de “cortar na própria carne”.
Para melhor me situar, encurto drasticamente as extensões da pergunta
motivadora desta refexão. Reduzir suas extensões é empobrecer a per-
gunta, não fazê-lo é correr o risco da superfcialidade. Eis o dilema, diante
do qual a opção recaiu sobre a primeira alternativa. Ou seja, é sobre
educação formal, educação escolar e correlatos, que se estará pensando
neste artigo, com a pergunta sobre o tratamento que deve ser dado pela
pesquisa ao atendimento escolar de populações rurais.
Quando digo populações rurais, dois pequenos esclarecimentos precisam
ser antecipados. Primeiro, não se estará pensando apenas em crianças
e adolescentes, mas em adultos atingidos pela EJA (Educação de Jovens
e Adultos). Segundo, não se estará pensando em rural como território,
espaço geográfco, em oposição a urbano, pois existe um grande con-
tingente de trabalhadores rurais e flhos destes, que, por intermédio do
transporte escolar ou por força do processo de migração interna, no
caso de EJA, vem recebendo atendimento escolar no espaço urbano das
pequenas, médias e grandes cidades brasileiras. Diferentemente do que
acontece com a produção e a habitação, no âmbito da educação, o rural
não tem mais fronteiras.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 171-188, 2. sem. 2006
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Onde está o rural
No fnal dos anos 1990, um grupo de professores e alunos da Faculdade
de Educação da Universidade Federal de Goiás desenvolvia um traba-
lho de EJA no Assentamento Tijuqueiro em Morrinhos-GO, quando,
em certo dia, em plena aula, fomos surpreendidos pela manifestação
acintosa de alguns alunos que acabou tendo o consentimento de toda a
turma: “Não agüentamos mais fazer contas de leite”, disseram eles. Para
nós, a melhor maneira de adequarmos o desenvolvimento das quatro
operações matemáticas à realidade dos alunos era trabalhar com a pro-
dução, benefciamento, consumo, comércio de leite. Não percebíamos
que aquilo era uma superposição fatigante, uma vez que isso já era pra-
ticamente todo o cotidiano de trabalho daqueles destinatários de EJA.
Tivemos, então, que reorientar o trabalho pedagógico, pois estávamos
claramente diante da conclusão de que o rural estava mais em nossas
cabeças do que na deles. O Tijuqueiro é um assentamento ladeado por
duas rodovias pavimentadas e a 15 km da sede do município. Todas as
atenções dos assentados – escoamento de seus produtos, compra do que
não produzem, escolarização dos flhos, oportunidades de lazer – estavam
voltadas para a cidade. Em suas expectativas, o “fazer contas” também
deveria expressar essa realidade.
Com aquele episódio vimo-nos em meio a um universo mais amplo de
discursos, projetos e relatos de “lutas camponesas” elaboradas em espaços
distantes daqueles de atuação dos trabalhadores rurais. Muitas vezes nem
mesmo lhes é dada a possibilidade de fornecer a sua própria gramática.
Nomes, defnições e encaminhamentos são comumente decididos por
pessoas e agências que não têm sensibilidade ou paciência para lidar
com a diversidade de manifestações do rural e criam as suas próprias,
mais simplifcadas e supostamente mais lógicas ou politicamente mais
corretas para falarem do rural. O sociólogo Octávio Ianni mostra de
forma primorosa as fragilidades desse agir no lugar de, com o discurso
de quem age em nome de.
Nem sempre o camponês está pensando a “reforma agrária” que apa-
rece nos programas, discursos e lutas dos partidos políticos, na maioria
dos casos de base urbana. Pensa a posse e o uso da terra na qual vive
ou vivia. Estranha quando o denominam “camponês”. Reconhece que
é trabalhador rural, lavrador, sitiante, posseiro, colono, arrendatário,
meeiro, parceiro etc. São os outros que dizem, falam, interpretam,
criam, recriam ou mesmo transfguram as reivindicações e lutas do
camponês. Muitas vezes este não se reconhece no que dizem dele, ou
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 171-188, 2. sem. 2006
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fazem por ele, a partir de partidos políticos, agências governamentais,
órgãos da imprensa, igrejas. (IANNI, 1988, p. 102)
Apesar de todos os dados ofciais tentando fazer do rural mais que
uma “crônica de uma morte anunciada”, uma morte já acontecida, vou
advogar no próximo item a existência ainda do rural, pelo menos em
termos de habitação e de produção agrícola e não-agrícola. Ianni, um
dos principais analistas dos fenômenos envolvendo o que ele preferia
chamar de globalismo (em vez de globalização), no Brasil, diz, com cer-
ta tragicidade, que esse processo transfgura todo o modo de vida no
campo –, aí compreendendo-se formas de organização do trabalho, da
produção, dos padrões e ideais socioculturais. “Tudo o que é agrário
dissolve-se no mercado...”, diz o autor (IANNI, 1997, p. 46), fazendo
em seguida uma ressalva:
É óbvio que tudo isso ocorre de modo irregular, fragmentário e con-
traditório. Inclusive são muitos os lugares em que esses processos não
chegaram, chegaram apenas em parte, ou não afetaram maiormente o
mundo agrário. Mas é inegável que a industrialização e a urbanização in-
vadem progressivamente esse mundo, induzidas pelo desenvolvimento
extensivo e intensivo do capitalismo pelos quatro cantos do mundo.
Há setores da agricultura, especialmente no âmbito dos pequenos pro-
dutores, que não são afetados ou o são de maneira fragmentária, porque,
nos termos de Francisco de Oliveira (2003), a agricultura brasileira se
assemelha ao ornitorrinco – o animal que tem bico, tem pêlo, amamenta,
vive dentro d’água, vive sobre a terra. Onde ainda existem resíduos de
agricultura de subsistência isso não quer dizer que o capitalismo não
chegou e sim que a agricultura de subsistência contribui para a acumu-
lação interna do capital (p. 128).
Assim, pelo menos ancorados na velha tese do “desenvolvimento desi-
gual e combinado”, todos nós temos muitas razões para dizer que ainda
existem lugares que podem ser chamados de rural – “lugares em que
esses processos ainda não chegaram”. Mas, em termos de socialização
das novas gerações ou de ressocialização de populações já adultas, quer
falemos de educação em sentido lato, quer no sentido de educação como
atendimento escolar, parece já ser muito difícil falar em mundo rural. O
advento da televisão, a aproximação entre o lugar de moradia e a cidade,
através do surgimento de estradas e outras facilidades de locomoção, são
fatores entre tantos outros, que tornam a cidade, qualquer que seja a sua
extensão, o pólo catalisador de todas as atenções. O que é mais grave:
mesmo que a superioridade do urbano sobre o rural seja uma herança
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 171-188, 2. sem. 2006
175
da Revolução Industrial (PESSOA, 2006), esta ainda tem como corolário,
recorrente e crescente, a imposição de valores, gostos artísticos, mode-
los de festividade etc. Talvez a educação seja mesmo a ação social em
que mais possamos ver concretizada a “tragédia do desenvolvimento”,
segundo a concepção literária de Goethe, em que a última e minúscula
porção do mundo rural, constando apenas de uma pequena casa, uma
igrejinha, um sino e um jardim de tílias, foi sumariamente destruída por
“Mefsto e seus homens fortes”, a mando de Fausto (BERMAN, 1989, p.
66-68). A única diferença é que, como proponho no desenvolvimento
deste ensaio, o casal de velhos não foi queimado junto com seu pequeno
oásis em meio às dunas. Ou seja, em se tratando de atendimento escolar
de populações rurais, temos de pensar também que Filemo e Báucia,
e muitos “descendentes” seus, vivem nas pequenas, médias e grandes
cidades brasileiras.
Portanto, ver-se-á, a seguir, que o atendimento escolar de populações
rurais não pode ser uma bandeira política territorializada, conduzindo
a atenção das práticas para um espaço geográfco específco. Seguindo
a conceituação dos geógrafos, a população escolar desterritorializada é,
com toda certeza, muito mais numerosa que a população ainda terri-
torializada.
Do rural às ruralidades
No início da década de 1990, o antropólogo Klaas Woortmann constatava
a difculdade de se lidar com termos como camponês e campesinato, para
ele, sempre muito associados à esfera econômica – terra e trabalho na
terra como fatores de produção de mercadorias. Woortmann entende
que o trabalhador rural vive a terra muito mais como algo pensado e
representado numa perspectiva de valorações, como expressão de uma
moralidade. Vem daí a sua preferência pelo termo campesinidade, uma
qualidade presente em graus diferenciados, segundo os diferentes grupos
sociais, independentemente do lugar em que se situam (WOORTMANN,
1990, p. 12-13).
Eis o meu ponto de partida para falar do rural não como território, mas
como contexto de signifcações que organizam e estruturam os modos
de vida e trabalho dos sujeitos sociais, enquanto estão vivendo e traba-
lhando no meio rural, mesmo se esse rural é constantemente crivado
pelos fatores atrativos do urbano. E, quando, por força de processos
histórico-sociais, deslocam-se para espaços caracterizados como urbanos,
essas signifcações tendem a acompanhar esses sujeitos sociais.
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176
Em termos teóricos, essas signifcações correspondem, numa primeira
perspectiva, ao que o sociólogo Pierre Bourdieu, na sua teoria da prá-
tica, chama de habitus, um sistema de signifcações adquirido nas várias
etapas de socialização dos indivíduos, mas que não é individual. O habitus
é formado num contexto de relações constituídas em um campo social, o
que signifca dizer que tende a organizar da mesma forma o comporta-
mento de todos os indivíduos socializados no mesmo contexto. Vejamos
nas próprias palavras de Bourdieu, as principais características da sua
defnição de habitus:
As estruturas constitutivas de um tipo particular de meio (as condições
materiais de existência características de uma condição de classe), que
podem ser apreendidas empiricamente sob a forma de regularidades
associadas a um meio socialmente estruturado, produzem habitus, sis-
temas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a
funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador
e estruturador das práticas e das representações [...]. (BOURDIEU,
1983, p. 60-61)
[...] sistema subjetivo mas não individual de estruturas interiorizadas,
esquemas de percepção, de concepção e de ação, que são comuns a
todos os membros do mesmo grupo ou da mesma classe e constituem
a condição de toda objetivação e de toda percepção [...]. (BOURDIEU,
1983, p. 79).
A idéia de predisposição indica uma probabilidade tendencialmente
conservadora. Ou seja, tanto em um contexto de grupos sociais territo-
rialmente situados em um meio tipicamente rural, quanto em um meio
tipicamente urbano, os costumes e valores estruturados nas primeiras
etapas de socialização desses indivíduos e grupos tenderão a atuar de
forma estruturante, organizando suas práticas e percepções. Não há como
falar em atendimento escolar de populações rurais, pensando apenas
nas hoje pouquíssimas escolas de educação básica ainda instaladas no
meio rural.
Numa segunda perspectiva, esse contexto de signifcações corresponde
ao que a antropóloga Maria José Carneiro chama de ruralidade, sempre
explicitando a sua diversidade, como na citação a seguir, em que relaciona
esta diversidade com o pressuposto também diversifcado do processo
de transformação:
[...] o “campo” não está passando por um processo único de transfor-
mação em toda a sua extensão. Se as medidas modernizadoras sobre
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a agricultura foram moldadas no padrão de produção (e de vida)
urbano-industrial, seus efeitos sobre a população local e a maneira
como esta reage a tais injunções não são, de modo algum, uniformes,
assim como tais medidas não atingem com a mesma intensidade e
proporções as diferentes categorias de produtores. Nesse sentido
não se pode falar de ruralidade em geral; ela se expressa de formas
diferentes em universos culturais, sociais e econômicos heterogêneos.
(CARNEIRO, 1998, p. 53)
Esta complexidade de fatores urbanos e rurais presentes na constitui-
ção do conceito leva Carneiro a uma refexão cara ao conhecimento
antropológico: a idéia de cultura. Ancorando-se em Rambaud (1969), a
autora entende que a idéia de ruralidade leva a uma perspectiva singular
do conceito de cultura – nem rural nem urbana.
Esse conjunto de refexões nos leva a pensar a ruralidade como um pro-
cesso dinâmico de constante reestruturação dos elementos da cultura
local com base na incorporação de novos valores, hábitos e técnicas. Tal
processo implica um movimento em dupla direção no qual identifca-
mos, de um lado, a reapropriação de elementos da cultura local a partir
de uma releitura possibilitada pela emergência de novos códigos e, no
sentido inverso, a apropriação pela cultura urbana de bens culturais e
naturais do mundo rural, produzindo uma situação que não se traduz
necessariamente pela destruição da cultura local mas que, ao contrário,
pode vir a contribuir para alimentar a sociabilidade e reforçar os vín-
culos com a localidade. Desse encontro, como observa Rambaud, nasce
uma cultura singular que não é nem rural nem urbana, com espaços e
tempos sociais distintos de uma e de outra. (p. 61-62)
E em termos histórico-sociais, temos de considerar com Raymond
Williams (1989, p. 387), que “O campo e a cidade são realidades históricas
em transformação tanto em si próprias quanto em suas inter-relações”.
As transformações verifcadas em um dos pólos, em uma dada época, são
explicativas sem a respectiva localização nas “estruturas e dinamismos
inclusivos”, nos dizeres de Florestan Fernandes (1976, p. 106)
[...] os processos através dos quais se organizam e se transformam as for-
mações rurais e urbanas – com suas funções econômicas, socio-culturais
e políticas – são processos derivados e secundários. Eles contam com
uma rede própria e específca de causas e efeitos. Mas nada explicam,
se não forem observados e interpretados em termos de estruturas e di-
namismos inclusivos, macrossociológicos, que condicionam e, inclusive,
determinam os ritmos históricos do aparecimento dos processos comu-
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nitários ou societários especifcamente rurais ou urbanos, bem como os
limites dentro dos quais eles chegam a desencadear os grandes processos
histórico-sociais a que se ligam. (FERNANDES, 1976, p. 106).
Por outro lado, no âmbito das práticas políticas organizadas, os anseios
ou possibilidades de melhoria das condições de vida e de trabalho, em
um dos pólos, jamais terão efetividade se exercitadas em apenas um
dos lados. Por isso, penso que quando se busca também compreender o
que se passa em um dos pólos, que é o foco da pesquisa, compreender o
rural ou o urbano, isoladamente, são dois problemas equivocados, o que
resulta dizer que são dois falsos problemas. Ou seja, nesta perspectiva
teórica, falar em desenvolvimento rural é, no mínimo, incorrer numa
imprecisão conceitual.
Portanto, buscar entender o lugar da educação em um dos pólos – o rural
– ou refetir sobre os predicados do atendimento escolar de populações
rurais, supõe, imprescindivelmente, tentar entender a inter-relação entre
rural e urbano, no processo de desenvolvimento de toda a sociedade
brasileira, desde a segunda metade do século passado. Nesse sentido,
como suporte para o desenvolvimento deste raciocínio, parto de um
conjunto de quatro premissas – fatores sócio-históricos – que guardam
entre si um forte grau de imbricação. É em conseqüência desses mesmos
fatores que poderemos falar em diversas ruralidades.
Primeira revolução nas relações rural-urbano – conhecida como “revolução
verde”. Um modelo de produção agrícola, copiado do modelo urbano-
industrial, de bases européia e norte-americana. No Brasil, verifcou-se
especialmente nas décadas de 1970 e 1980. Como era um “jogo” de
grande envergadura do capital, foi necessário que os estados nacionais
criassem a infra-estrutura necessária para seu êxito. E o Estado militar
brasileiro o fez, especialmente através da expansão da malha rodoviária,
de programas de crédito visando a empresarialização rural e do uso de
incentivos fscais que possibilitaram a “ocupação dos espaços vazios” pela
concentração do capital. A década de 1970 foi marcada por uma massiva
intervenção do Estado na agricultura, o que resultou numa intensiva
privatização dos estoques ainda restantes de terras não-tituladas (PES-
SOA, 1999, p. 88). A propriedade da terra passou então a ser um fator
importante na produção das mercadorias requisitadas pelo modelo de
desenvolvimento adotado. Além disso, consolidou-se como importante
reserva de valor no quadro das trocas econômicas próprias do modo
de produção capitalista. Assim, a resistência familiar ou, no máximo,
de pequenos grupos nas antigas posses, não encontrou força política
sufciente para garantir a reprodução dos trabalhadores rurais. Por isso,
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esse processo tornou-se base para uma signifcativa alteração demográ-
fca no sentido campo-cidade, envolvendo um contingente estimado
em 30 milhões de brasileiros. O deslocamento do campo para a cidade,
retomando o habitus de Bourdieu, não signifca, entretanto, a anulação
ou o abandono da identifcação com o rural.
Segunda revolução nas relações rural-urbano – a apropriação do rural pela
sociedade urbano-industrial, impulsionada e alimentada especialmente
pela expansão e desenvolvimento das atividades turísticas, da década
de 1990 em diante. Esse fenômeno era praticamente desconhecido no
meio rural no fnal dos anos 1980 (PESSOA, 1999), vindo a se consolidar
apenas no decênio seguinte.
Maria José Carneiro (1998, p. 56) trata desta questão num quadro
analítico mais amplo, constatando a imbricação de dois fenômenos. O
primeiro é o fenômeno da pluriatividade – “o espaço rural não se defne
mais exclusivamente pela atividade agrícola” –, diz a autora, acrescen-
tando, com base em Graziano da Silva:
Como já foi observado, é signifcativa a redução de pessoas ocupadas na
agricultura, dado que se associa ao aumento do número de pessoas resi-
dentes no campo exercendo atividades não-agrícolas e ao aparecimento
de uma camada relevante de pequenos agricultores que combinam a
agricultura com outras fontes de rendimento.
O segundo fenômeno é a procura de formas de lazer no campo, por
pessoas que moram na cidade.
Entre os seus efeitos destacam-se a ampliação das possibilidades de tra-
balho para a população rural, até então dedicada quase exclusivamente
à agricultura, e a maior aproximação e integração de sistemas culturais
distintos. Novos valores sustentam a procura de proximidade com a
natureza e com a vida no campo. (CARNEIRO, 1998, p. 56-57)
Com a conjunção desses dois fenômenos, Carneiro entende que o
“campo”, uma categoria genérica, deixou de ser apenas um espaço de
produção agrícola, passando a ser buscado também como espaço de vida,
cada vez mais procurado por populações urbanas. Com isso enfatizou-
se ainda mais a integração entre os dois espaços, com “trocas cada vez
mais intensas entre a sociedade urbano-industrial e as pequenas aldeias
rurais” (p. 57). Ou, segundo Eli Napoleão de Lima (2005, p. 45), “Cai a
lógica produtivista e vem à tona a da qualidade de vida”.
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Luta pela terra e constituição dos assentamentos rurais – dois marcos histó-
ricos devem ser lembrados. O primeiro é o surgimento das primeiras
ocupações de terras em 1979, especialmente nos estados de São Paulo e
do Paraná, que teve repercussão imediata, tanto nos fóruns de organi-
zação dos trabalhadores, como nas políticas do Estado. O III Congresso
Nacional dos Trabalhadores Rurais, realizado em 1979, já sinalizava
com a necessidade de se promover mobilizações e pressões, em vez de
apenas solicitar do Estado o cumprimento do Estatuto da Terra, como
ocorreu nos anteriores. O IV Congresso, de 1985, já trouxe entre seus
temas de debate, explicitamente, “ocupações de terras” (PESSOA, 1999,
p. 75-76). Do fnal dos anos 1970 a meados dos anos 1980, tem-se um
período de disseminação das ocupações pelos estados, o que exigiu
dos movimentos sociais uma organização própria para dar a direção
política e organizativa das ocupações e da formação dos assentamentos
rurais. Isso ocorreu nos anos 1984 e 1985, com a criação do Movimento
Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra –MST, uma vez que, se-
gundo Leonilde Medeiros, a estrutura da Confederação Nacional dos
Trabalhadores na Agricultura–Contag, baseada na abrangente categoria
“trabalhadores rurais”, diluía a especifcidade da luta dos trabalhadores
rurais sem terra (p. 100-101).
O segundo marco histórico importante refere-se a uma alteração no
comportamento do Estado, exatamente a partir desse crescimento
organizativo e da pressão decorrente. Esta mudança de postura do Es-
tado apareceu principalmente na edição do Plano Nacional de Reforma
Agrária–PNRA, do governo Sarney, em 1986, e na Constituição de 1988,
dando mais consistência à desapropriação com base na função social da
propriedade. Os dois acontecimentos não signifcaram resultados con-
cretos, pelo menos na proporção em que eram esperados, mas criaram
um quadro institucional mais “palpável” para a fundamentação das
reivindicações de desapropriação (PESSOA, 1999).
A segunda e a terceira premissas têm uma incidência inversa nas condi-
ções demográfcas brasileiras. Não na mesma escala da primeira, mas,
juntas, são responsáveis por, pelo menos, uma desaceleração da alteração
demográfca registrada anteriormente, no sentido rural-urbano. Uma
parte da população aí implicada pode ser considerada como população
que permanece no campo – a tradicional “fxação do homem no cam-
po” – e outra parte retorna ao campo via assentamentos rurais e via
pluriatividade.
No caso dos assentamentos rurais, a relação com as condições demográ-
fcas ocorre em duas perspectivas, levando-se em conta, principalmente,
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181
os dados populacionais municipais. Quando um projeto de assentamento
absorve predominantemente trabalhadores do próprio município em
que foi instalado, ele está contribuindo para a manutenção das mesmas
condições demográfcas do município, evitando a emigração. Um pro-
jeto de assentamento contribui para uma possível alteração demográfca
(a maior) apenas quando absorve predominantemente trabalhadores
vindos “de fora” do município ou da região. O mesmo raciocínio vale
para a relação entre população urbana e rural: toda vez que um projeto
de assentamento absorve trabalhadores que já residiam no meio rural,
mantém os índices de população rural; ao contrário, absorvendo traba-
lhadores vindos das cidades, ele participa da mudança da relação entre
população urbana e rural, em favor da última (MEDEIROS; LEITE,
1998, p. 170).
Os autores, Leonilde Medeiros e Sérgio Leite (p. 102), falam ainda de
outro impacto dos assentamentos rurais sobre a cultura política local,
de grande importância para se pensar também sobre a relação entre as-
sentamentos e atendimento escolar de populações rurais. Novas formas
de mediação política local e regional são constituídas, como explicam
no parágrafo a seguir.
Por meio dos assentamentos, em muitos locais se constitui uma dinâmica
mais participativa do que a tradicionalmente existente nos municípios
brasileiros: o simples fato da criação de uma associação inaugura uma
prática política por vezes desconhecida regionalmente, o que nos per-
mite indagar sobre a possibilidade de estarem ocorrendo alterações
moleculares na cultura política local.
Transporte escolar de crianças e adolescentes – como rubrica do Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização
do Magistério – Fundef, instituído em 1996. Esse recurso foi muito
bem recebido pelas administrações municipais que, de uma só tacada,
desvencilharam-se de três responsabilidades: duas poderiam represen-
tar um peso diretamente ligado à competência do município. Primeiro,
não eram mais obrigados a manter em funcionamento as escolas rurais,
algumas das quais, por força daqueles fenômenos socioeconômicos an-
teriormente expostos, com demanda constante em curva descendente;
segundo, já que a ordem era levar “todo mundo” para a cidade, ainda
ganharam “de bandeja”, o custeio dessa operação. Como se não bastas-
se, também receberam um benefício extra, que foi o abrigo de antigos
“cabos eleitorais”, ainda não instalados, por causa da vigilância da Lei
de Responsabilidade Fiscal, operando as linhas de transportes de alunos
com kombis, caminhonetes, microônibus e ônibus; terceira responsa-
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182
bilidade – na verdade, nunca assumida, mas que estava sempre indo e
vindo nas reivindidações educacionais –, a demanda por um atendimento
escolar efetivamente pensado e executado, a partir do modo de vida e
dos anseios das populações rurais, incluindo-se a possibilidade de um
calendário escolar próprio. Com isso, o artigo 28 da LDB, também de
1996, tornou-se absolutamente inócuo (PESSOA, 1997). Essa rubrica
do Fundef foi uma verdadeira “benção federal”. Ou seja, não bastassem
os efeitos do êxodo rural, o transporte escolar ampliou enormemente
o contingente de crianças e adolescentes que passaram a receber aten-
dimento escolar em nossas pequenas, médias e grandes cidades. E os
sistemas de ensino (municipal e estadual) não querem nem saber dessa
situação. É muito mais fácil pautarem-se no “aluno universal” (AZEVE-
DO; GOMES, 1991, p. 35).
Resultado de tudo isso: se a educação escolar já era essencialmente urbana
no tempo das “escolinhas rurais”, o que dizer agora, no pós-implantação
do transporte escolar? Mas a pergunta mais pertinente sobre esta rea-
lidade, na presente refexão, é quanto à caracterização das crianças e
adolescentes do meio rural, escolarizadas nas cidades: será que elas se
reconhecem na expressão “educação do campo” e nas práticas político-
pedagógicas que a sustentam?
E assim, confrontando-se esses quatro fatores históricos, é que considera-
mos: a pesquisa sobre o rural (mais especifcamente, sobre o atendimento
escolar de populações rurais) tem diante de si uma realidade profunda-
mente marcada pela diversidade, pela polissemia. “Opondo-se ao rural
agrícola homogêneo, a ruralidade torna-se o rural da diversidade”, diz
ainda Eli Napoleão (LIMA, 2005, p. 45).
Fazeres e olhares
No texto da antropóloga Maria José Carneiro, ainda podem ser feitas
duas considerações importantes. Na primeira, para se entender a comple-
xidade do termo ruralidade, há que se fazer um deslocamento, tirando
o foco do espaço geográfco e colocando-o sobre os agentes sociais, onde
quer que eles estejam. Vejamos como a autora expressa essa idéia.
Orientar o foco de análise para os agentes sociais deste processo e não
mais para um espaço geográfco reifcado possiblita, por exemplo, que a
distinção entre “cidade” e “aldeia” ou “urbano” e “rural” desapareça ou
torne-se inútil como questão sociológica (CARNEIRO, 1998, p. 59).
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183
Colocando o foco sobre os agentes, resulta que “cada espaço contém em
si contradições e confitos”, por ser constituído de múltiplos valores e
interesses, provenientes tanto do rural como do urbano. Por isso, numa
segunda consideração, conclui a autora, mostrando o sentido biimplica-
tivo das relações entre rural e urbano (p. 59-60):
Nesses termos, não podemos entender a ruralidade hoje somente a
partir da penetração do mundo urbano-industrial no que era defnido
tradicionalmente como “rural”, mas também do consumo pela socieda-
de urbano-industrial, de bens simbólicos e materiais (a natureza como
valor e os produtos “naturais”, por exemplo) e de práticas culturais
que são reconhecidos como sendo próprios do chamado mundo rural.
Nesse sentido, importa mais do que tentarmos redefnir as fronteiras
entre o “rural” e o “urbano”, ou simplesmente ignorar as diferenças
culturais contidas nessas representações sociais, buscar, a partir do
ponto de vista dos agentes sociais, os signifcados das práticas sociais
que operacionalizam essa interação e que proliferam tanto no campo
como nos grandes centros urbanos, tais como a pluriatividade, os neo-
rurais, a cultura country etc.
É com o foco nos agentes sociais que Horácio Martins, a exemplo de Oc-
távio Ianni, no texto já apresentado, constata, no campesinato brasileiro,
uma “multiplicidade de situações”. No Pará, citando Jean Hebette, diz
que os agricultores familiares são denominados ou se autodenominam
como
[...] lavradores, agricultores, camponeses, ribeirinhos, varzeiros, qui-
lombolas, extratores, posseiros, colonos, assentados, atingidos por
barragem, catadores de babaçu, castanheiros, seringueiros, pescadores,
catadores de caranguejos e catadores de siris. (CARVALHO, 2005, p.
68)
No sul, Carvalho constata a importante distinção entre o colono e o
caboclo:
O colono é um camponês imigrante ou flho de imigrantes europeus,
enquanto caboclo se refere ao lavrador nacional e ao modo de vida
diferenciado deste último, mais próximo do nível de vida original do
indígena. Colono signifca um imigrante europeu ou descendente, de
origem não ibérica, com nível de vida mais elevado e mais inserido no
mercado, além de levar uma vida cultural distinta (p. 71).
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No Mato Grosso, Carvalho encontrou denominações como sesmeiros,
remanescentes de quilombos, parentalha, pantaneiros, mimoseanos,
seringueiros, beiradeiros, ribeirinhos, pescadores, marroquianos ou
marronianos, ceramistas e retireitos (2005, p. 127). Ainda segundo
Carvalho (2005, p. 171),
Essa diversidade camponesa inclui desde os camponeses proprietários
privados de terras aos posseiros de terras públicas e privadas; desde
os camponeses que usufruem dos recursos naturais como os povos das
forestas, os agroextrativistas, a recursagem, os ribeirinhos, os pescadores
artesanais lavradores, os catadores de carangueijos e lavradores, os
castanheiros, as quebradeiras de coco babaçu, os açaizeiros, os forei-
ros e os que usufruem dos fundos de pasto até os arrendatários não
capitalistas, os parceiros, os foreiros e os que usufruem da terra por
cessão; desde camponeses quilombolas a parcelas dos povos indígenas
já camponeizados; os serranos, os caboclos e os colonizadores, assim
como os povos das fronteiras no sul do país. E os novos camponeses
resultantes dos assentamentos de reforma agrária.
A defnição dessas denominações e autodenominações não se dá por um
processo de abstração ou de elaboração conceitual e sim, na luta pela
obtenção dos “meios de vida”, conforme a análise clássica de Antonio
Candido (1979, p. 23). É no fazer das condições de sobrevivência que
se dá o processo de constituição de identidades sociais. Como estamos
tratando de ruralidades a partir desse fazer, são, pois, muitos fazeres.
E o olhar pesquisante também deve ter esta perspectiva plural. Antes
de defnir a melhor designação do atendimento escolar dessas popula-
ções, a grande questão para os pesquisadores é: como é que em cada
uma dessas situações e denominações de Horácio Martins, melhor se
expressariam os anseios educacionais? Um exemplo interessante, entre
todas essas denominações, seria conhecer a melhor forma de representar
os anseios relacionados ao atendimento educacional dos apanhadores
de açaí das beiras de algum igarapé, nas margens do Rio Guamá, que
diariamente às três ou quatro horas da manhã atracam suas pequenas
embarcações na plataforma do Ver o Peso, em Belém, para a entrega
do produto às despolpadoras ou lanchonetes. O que eles esperam da
educação dos seus flhos?
Sim, porque é a partir das condições de obtenção dos seus “meios de
vida” – ainda que para ultrapassá-las – que os agricultores familiares en-
caminham a socialização dos seus flhos. E isso é educação, nem sempre,
mas, às vezes, incluindo até mesmo a educação escolar. A perspectiva
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da socialização, em meio à multiplicidade de formas de trabalho, está
também no texto de Horácio Martins.
A essa multiplicidade de formas de viver e de ser correspondem culturas
diversas, religiosidades, valores éticos e sociais diferenciados, formas de
socialização variadas, identidades e auto-identidades distintas, relações
múltiplas com os aparelhos de poder, aspirações e expectativas sociais
diversas. (CARVALHO, 2005, p. 171)
Considerações finais
Ainda se pode falar de um rural em sentido estrito, por mais que os números
ofciais tentem negar. Há também um grande contingente populacional,
considerado pelo IBGE, como população urbana das médias e grandes
cidades, mas que vive, na verdade, numa zona de intersecção entre o rural
e o urbano. Grande parte da população aí situada provém diretamente
de regiões rurais ou pequenas cidades, trabalha em hortaliças ou como
bóias-frias ou fazendo fretes com carroças etc. Segundo os dados ofciais,
nas regiões Sul e Sudeste, não há mais êxodo rural. Mas ele ainda está
presente nas demais regiões. Isso signifca que as periferias das médias
e grandes cidades tendem a continuar recebendo fuxos migratórios,
fazendo crescer os famosos “cinturões de pobreza” nas cidades, em geral,
caracterizados por esta intersecção entre o rural e o urbano. Há um rural
do entorno das médias e grandes cidades que demanda diariamente em-
prego, serviços de saúde e outros serviços na cidade-pólo. Por último, há
um rural mais difuso, mas, em contrapartida, talvez muito mais extenso
e abrangente, que é o rural do crescimento das cidades: pessoas que moram
nas médias e grandes cidades, que mantêm práticas e costumes trazidos
das regiões rurais ou de pequenas cidades onde foram criadas (PESSOA,
2006), como é o caso dos integrantes da Folia de Reis “Os Penitentes do
Santa Marta”, na Favela Santa Marta, no bairro de Botafogo, zona sul
do Rio de Janeiro (ROCHA, 1985).
O mais importante em todos esses casos não é o nome dado ao atendi-
mento escolar, mas a sua qualidade, sua afnidade com o modo com que
os sujeitos sociais organizam-se em cada um deles. O olhar dos pesquisa-
dores deve captar com sensibilidade essa mesma diversidade.
Abstract
Under the sponsorship of the military state, the construction of
roads, of great farming projects and the use of tax incentives for
the occupation of the free spaces had generated intensive privati-
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zation of lands not titleholders and great demographic alteration
and constitution of rural settlements. After that, already in the
decade of 1990, the development of tourism was directed for the
rural regions, provoking the sprouting of no-agricultural activities.
Also in the decade of 1990, it was instituted, with resources of the
federal government, the school transport of the rural regions for
the hosts of the municipal district. They are constitutive factors
of the diversifcation of life and work types of rural populations,
substituting the homogeneous agricultural rural one, that is treated
in this article as rural things, term which indicates different ways of
identifcation with the rural world, even in urban realities. The aim
is to propose that the researches about education are based on this
perspective with several menaings of comprehension of the rural,
because of the diversity of identities constitution of their citizens
all over the country.
Keywords: rural things; school education; rural populations.
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Notas
*
Texto apresentado na Sessão Especial “Políticas públicas para a educação do campo”, na 29ª Reunião Anual
da ANPEd, realizada em Caxambu-MG, de 15 a 19 de outubro de 2006.
RESENHAS
FREDERIC, Sabina. Buenos Vecinos, malos políticos:
moralidad y política en el Gran Buenos Aires. Buenos
Aires: Prometeo, 2004. 283 p.
Fernanda Maidana
*
Através de uma estimulante descrição etnográfca sobre
acontecimentos que ocorreram entre 1988 e 2000, em
um município de Buenos Aires (Argentina), denominado
Uriarte, a autora, professora da Universidad Nacional
de Quilmes, aborda empiricamente o “jogo de avaliações
morais” e sua manifestação e incidência nos processos
políticos, conseguindo demonstrar, com originalidade e
destreza, seu papel constitutivo das relações de poder.
Baseada na sua tese de doutorado – apresentada na
Universidade de Utrecht (Holanda) –, Frederic oferece-
nos um texto que examina as transformações do campo
político desse país, através de um estudo de caso, e
consegue alcançar, com êxito, os dois objetivos a que se
propõe. Sobre moralidade e política, visa demonstrar
que “sólo considerando a ambas, la práctica de los polí-
ticos se vuelve inteligible” (p. 40) e explica por que, para
as pessoas de Uriarte, ao longo dessa década, a política
converte-se em um problema moral.
Ao perseguir o primeiro objetivo, ela se esforça por de-
mostrar que as diferentes avaliações morais, constitutivas
de padrões morais em confito, oposição ou complemen-
tariedade, defnem “la lógica práctica mediante la cual
se constituye el vínculo y las divisiones entre actores” (p.
44). Nesse sentido, a autora contempla, empiricamente,
as diferentes avaliações articuladas entre os habitantes de
Uriarte ao longo do processo para alterar a distribuição
de poder; como elas afetaram os valores reconhecidos
da pessoa política e determinaram a sucessão e a divisão
do trabalho político.
Nesses anos, a política debateu-se entre os valores e os
sentidos que fundam o vínculo político. Ao seguir seu
segundo objetivo, Frederic demonstra a existência de
uma conexão estreita entre a metamorfose da política
num problema moral e a modifcação da divisão do tra-
* Mestranda do Programa
de Pós-Graduação em An-
tropologia – Universidade
Federal Fluminense.
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192
balho político durante essa etapa neoliberal da Argentina, em Uriarte.
A política havia-se convertido em um problema moral para os atores
– pela alteração da relação entre os fatores que habitualmente consti-
tuem a “etnomoralidade política”: a regulação do crescimento político
ou sucessão política e a defnição de alguma comunidade de referência
para os políticos.
Sua abordagem apresenta como tese principal que a modifcação de
um desses termos implica modifcação do outro: a mudança da posição
de um grupo na divisão do trabalho político não é possível sem que se
altere, simultaneamente, o sentido da comunidade imaginada. Desta
forma, tal sentido se redefniria no curso da profssionalização da política,
e a emergência de novos protagonistas impulsionaria novas imagens de
comunidade.
Para a autora, a associação entre imagens da comunidade moral, su-
cessão política e divisão do trabalho político é a chave da relação entre
moralidade e política entre os habitantes de Uriarte.
Sua etnografa, baseada em um trabalho de campo prolongado – de 10
anos, com interrupções –, detém-se em uma série de acontecimentos cuja
continuidade está dada na articulação das avaliações morais ali desen-
volvidas e nos atores sociais que deles participam. Com especial ênfase
no ponto de vista dos nativos, oferece, assim, interpretações refexivas
sobre seu lugar como antropóloga nesse campo.
Após uma minuciosa e sistemática apresentação do estado da questão,
introduzindo o leitor na discussão sobre moralidade e política, a autora
mergulha na prolífera literatura sobre as transformações na Argentina
nos anos 1990. Propõe uma interpretação das transformações que afe-
taram o campo político que lhe permite compreender as condições e as
avaliações morais que teriam alterado a relação dos políticos peronistas
com “o povo deslocado”, produzindo a “renúncia” dessa comunidade
histórica de referência. Este seria o ponto de partida crucial de sua
abordagem.
No capítulo II, a autora mostra como se inicia o processo de redefnição
da divisão do trabalho político e de transformação da comunidade de
referência no município de Uriarte.
Durante os anos anteriores, o Proyecto Tierras, um plano de governo
implementado no município, dispunha de uma causa política, “arrai-
gar os villeros” – os deslocados –, fazia da política uma atividade com
sentido. Ao fnalizar os anos 1980, um conjunto de fatores fez com que
essa causa fosse minada: difculdades de transformar as condições de
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vida dos deslocados; a valorização das conseqüências negativas sobre as
possibilidades do crescimento político destes políticos – e, nelas, a compe-
tência política dos villeros não era um fator menor –; e oportunidade de
fazer carreira política à margem dessa comunidade de referência que o
cenário oferecia. Para os políticos, isso tornava possível alterar a divisão
do trabalho político.
O Projeto Uriarte constitui a resposta a essa “experiência crítica” de
enfraquecimento de uma moral política, sobre o qual se detém o capí-
tulo III.
Para Frederic, o plano de governo implementado nos anos 1990, cujas
bandeiras são descentralização e participação, busca, a partir de um conjunto
de procedimentos, a solução do problema moral da política, através da
imaginação de uma nova comunidade de referência – “os vizinhos” –
capaz de conter confitos, regular a competência política e viabilizar a
construção de políticos como classe diferenciada.
Nesta imagem de comunidade “no habría lugar para que los villeros
reivindicaran su inclusión en la carrera política, ni para que los políticos
atendieran los problemas de la comunidad desplazada” (p. 254). A au-
tora mostra que o deslocamento dos villeros do crescimento político era
dependente de sua exclusão da comunidade de referência.
Mas essa comunidade, os vizinhos, não consegue constituir-se em “una
imagen lo sufcientemente verosímil e irrebatible” (p. 258). Nos capítulos
seguintes, a autora analisa as tensões e as resistências que esse projeto
produz, com um desenlace imprevisto até para os próprios mentores
do projeto.
No capítulo IV, seguindo as variações que o reconhecimento assume, des-
creve a tensão entre duas formas de valorização da atuação política: a
militância imposta pelo Projeto – militância social – e a militância deslo-
cada por ele – militância política.
No processo de conversão dos militantes políticos em militantes sociais,
institucionalizam-se e deslocam-se categorias da divisão do trabalho po-
lítico, dirimindo-se a profssionalização e as lutas em um novo sentido
no qual a militância política seria uma atividade privada e altamente
seleta. Os agentes buscariam a fexibilização dos limites nos espaços
íntimos e públicos da política, nas formas de resistência e negociação à
divisão instalada.
Por outro lado, os comportamentos que resultam dessa tensão produzem
uma dupla classifcação: ignorantes e entendidos de política; e traidores
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e leais ao bairro.
O capítulo V, além de expressar a tensão entre profssionalização e
“autogoverno”, em Uriarte, mostra a diferença de domínios morais e
contém formas alternativas de imaginar a comunidade de referência: a
“lealdade” de bairro e o “conhecimento político especializado”. Sobre
estas últimas, a autora dirá: “imágenes ambiguas, confusas e impracti-
cables de la comunidad política de referencia” (p. 256).
O valor da lealdade de bairro, “refúgio dos deslocados”, era resultado de
uma forma de profssionalização política que restringiria as aspirações a
uma liderança política para além das fronteiras do bairro, como também
a uma fonte de resistências.
No capítulo VI, a autora levanta mais evidências sobre a imbricação que
as avaliações morais exibem entre sucessão política e comunidade de
referência. Mostra também, através da descrição da politização da morte
de um menino – que interpreta como um desafo aberto, dos deslocados,
à autoridade de determinados dirigentes políticos visto que confrontava
seus parâmetros morais – como se produz a atribuição de responsabi-
lidades que defne a comunidade de referência “pela qual e para qual”
as autoridades governam.
No entanto, Frederic irá mostrar também que a imaginação de uma
comunidade de referência signifcativa dependeria da possibilidade de
seus membros serem reconhecidos como candidatos a participar de seu
governo.
No último capítulo, descreve a força adquirida pelos padrões morais de
avaliação, no fnal dos anos 1990, que negam a comunidade histórica
de referência.
As avaliações morais contidas nas denúncias judiciais por corrupção dos
vereadores do município expandem um padrão de avaliação da conduta
baseada numa ética apolítica, universal e individual, em que os valores
políticos sobre a comunidade histórica de referência são passados de
largo.
Frederic dirá, então, que a política desgarrada de alguma comunidade
imaginada, em relação à qual os políticos dirigem suas ações e em torno
da qual constituem-se como classe política, desmoraliza-se.
O texto de Frederic contribui com notável consistência, para o enten-
dimento de processos políticos e para a análise da divisão do trabalho
político em contextos de profssionalização como lutas pela regularização
do “crescimento político”. O maior mérito é a admirável etnografa que
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195
constrói, repleta de trechos muito cuidadosos que exibem um trabalho
criativo e artesanal. Cabe advertir que o tratamento da política e da mo-
ralidade como esferas analíticas separadas pode tornar difícil a leitura
àquele leitor familiarizado com abordagens que consideram a moralidade
enquanto parte de processos políticos e que analisam as avaliações morais
não como um aspecto da prática, mas como inerentes a ela.
Por último, é um livro particularmente recomendável para leitores inte-
ressados em etnografas de processos políticos e de estudos de caso, na
divisão do trabalho político no nível local, na profssionalização política
e nas lutas pela incorporação de especialistas ou não e, evidentemente,
na discussão sobre moral e política. Vale mencionar que sua leitura tam-
bém é recomendável para qualquer leitor que mergulhe nos estudos da
antropologia da política, uma vez que seu texto é uma rica contribuição
às discussões em voga.

Resenhando o conceito de “Double Bind”, de Gregory
Baterson, em seis autores das ciências humanas con-
tem porâneas.
Mônica Cavalcanti Lepri
*
A tear is an intellectual thing.
William Blake
Apresentação
O texto propõe-se a cartografar a teoria do double bind, de
Gregory Bateson (1904-1980) alinhavando testemunhos
de seis autores contemporâneos sobre sua pressuposição
central: a de que o vínculo humano é, sempre e inevita-
velmente, da ordem do duplo: pressupõe sujeitos e sua
alteridade comum agindo em conjunto. Assim, privile-
giando a relação tanto quanto seus pólos, a teoria do
double bind parece colocar a alteridade em um contexto
de sentidos dos quais brota uma concepção de sujeito
rica em indagações para os cientistas humanos.
Escolhi não seguir uma abordagem clássica, tendo por fo
condutor os textos nos quais Bateson constrói e recons-
trói o double bind (o que pressuporia o conhecimento de
sua gradativa elaboração na complexa obra do biólogo-
antropólogo-epistemólogo), mas adotar uma perspectiva
mais impressionista, guiada pela apropriação que dessa
idéia fazem seis autores contemporâneos ao escreverem
sobre a singular concepção de sujeito que a teoria ajuda a
iluminar. O desafo da premissa aqui adotada é investigar
se uma pesquisa bibliográfca de citações do termo double
bind em textos de antropologia, psicanálise, sociologia,
flosofa e literatura proporcionará – a mim que as trans-
crevo e aos que por ventura lerem meu texto – atualiza-
ções criativas dos dilemas propostos pela indeterminação
inerente aos nossos vínculos alteritários, desafo central
de muitos sujeitos humanos que inspiram-se nas idéias
formuladas por essa teoria.
Tendo em vista essa perspectiva, a estratégia do trabalho será
de um loose-thinking:
1
um sobrevôo inicial de reconheci-
mento sobre o território que desejamos cartografar. Por
isso, procurei relatar – além da citação em si – alguns
* Antropóloga – Incra/AL
Mestre em C. Ambiental-
UFF
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 197-205, 2. sem. 2006
198
comentários a respeito do contexto geral em que cada um dos autores fez
uso da noção de double bind, de modo a pontuar um aspecto importante
de sua própria démarche.
Dos seis autores pesquisados, apenas Otávio Velho e Jacques Lacan
mencionam explicitamente Bateson em suas citações do termo double
bind. Otávio Velho utiliza-se da idéia, em conferência feita em 2003, no
Simpósio da Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research
denominado World Anthropologies: Disciplinary Transformations within
Systems of Power, enquanto Lacan discute o double bind (que ele traduz,
com a costumeira liberdade, por “relação dupla”) durante a década de
1950 ainda, em uma fala que fcaria famosa, intitulada “A foraclusão do
nome-do-pai”. Os outros quatro autores pesquisados – o antropólogo
da ciência Bruno Latour, o flósofo Jacques Derrida, o sociólogo Pierre
Bourdieu e o crítico literário Roberto Schwarz – apenas lançam mão da
expressão double bind
2
em suas narrativas. No entanto, este segundo
tipo de apropriação, com sua intimidade, talvez mais reforce que esgarce
a importância paradigmática dessa idéia de Bateson.
Contudo, foi apenas esta estratégia do pensar amplo que autorizou mesclar
textos originalmente publicados em contextos tão diversos: se a citação
sobre o double bind de Jacques Lacan é de seu Seminário 5 (As Formações do
Inconsciente), as de Roberto Schwarz e de Bruno Latour foram retiradas
de artigos/entrevistas do sítio www.uol.com.br, que hospeda o conteúdo
do jornal Folha de São Paulo. As referências ao double bind de Otávio
Velho vêm de uma conferência na qual ele inicialmente elege a tristeza
como um objeto de estudo antropológico, mas fnaliza relembrando a
importância que Spinoza atribui à alegria na construção de contextos
propícios a vínculos humanos mais amplos e ricos de signifcados, inclu-
sive na própria ciência. Já o intrigante parágrafo que aproxima o double
bind de uma espécie de “lei da lei”, foi pinçado na conversa entre o flósofo
Derrida e a historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco, transcrita
no livro De quoi demain... dialogue. Pierre Bourdieu, por sua vez, usa o
termo em um curto ensaio no qual revisita uma antiga questão de seu
trabalho como etnógrafo na África: herança patrilinear nas sociedades
tradicionais.
Assim, esta estratégia metodológica encara a diversidade de contextos
dos textos citados, como constitutiva da capilaridade alcançada pela idéia
de double bind no campo das ciências humanas contemporâneas.
Por outro lado, essa opção requereu necessariamente o apoio de media-
dores em áreas como a da psicanálise de Lacan, cuja discussão sobre o
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 197-205, 2. sem. 2006
199
double bind aqui apresentada foi recolhida de uma resenha disponibilizada
na internet, por Maria Ângela Maia, da EPB-RJ.
Os usos
Na conferência de Otávio Velho intitulada “The Pictographics of tristes-
se: an antropolgy of nation-building in the tropics and its aftermath”,
encontrei uma nota a respeito da teoria do double-bind que ajudou a
sustentar a opção pela abordagem impressionista aqui adotada:
I personally think that a creative appraisal of anthropology as a whole
in this debate should be done with the reincorporating of Gregory
Bateson’s work, especially if we intend on making a non-regressive
critique of Culturalism. In this paper my appreciation of Bateson has
only been hinted to by my frequent references to his double-bind theory,
suggesting that its application might be a way to pursue some of the
topics here developed. (VELHO, 2003)
Como sugere o antropólogo carioca, a apropriação feita por cada um
dos autores aqui citados demonstra a diversidade de temas aos quais
a teoria do duplo vínculo – tradução que eu pessoalmente adoto para
double bind – pode ser associada de forma produtiva. Bruno Latour, por
exemplo, utiliza o termo em uma entrevista na qual tenta explicitar
a espinhosa situação que os cientistas e os leigos enfrentam ao serem
convidados a debater certos temas contemporâneos polêmicos, como o
das sementes transgênicas:
Marcelo Leite: – Um dos principais debates públicos sobre ciência, hoje,
é o dos organismos geneticamente modifcados (OGMs), que não pro-
gride. Cientistas estão dispostos a tomar parte no debate, mas só como
se estivessem entre pesquisadores. Há de fato resistência ao diálogo, a
encontrar um modo novo de participar do debate público?
Bruno Latour: – Eles estão certos, num certo sentido, por estarem
preocupados. Ainda não se formou uma alternativa para o papel clás-
sico do cientista de ensinar, fazer pesquisa ou aconselhar políticos. Em
outras palavras, quando há hesitação sobre um novo regime, é melhor
apegar-se ao velho. Pelo menos tem a vantagem principal de proteger
a sua autonomia, que de outro modo é com freqüência ameaçada por
outros interesses. A alternativa é muito difícil porque envolve não só
mudar o modo com que os cientistas fazem as coisas, mas também o
que se pede a eles que façam. É uma espécie de duplo vínculo: de um
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 197-205, 2. sem. 2006
200
lado, eles são chamados a dar testemunho como “experts” – e eu acho
que pedir a um cientista que se torne um “expert” é uma espécie de
traição da missão da ciência –, e simultaneamente a nos dizer quais são
os fatos. Ou seja: “Por favor, nada de nos dizer o que devemos fazer,
mas, se também puder nos dizer o que devemos fazer, seria bom”. O
que eu proponho nesse livro [“As Políticas da Natureza”] é que nós
organizemos essas posições com uma diferenciação entre as habilidades
de cientistas, políticos, economistas, pessoal de mídia e assim por diante,
e suas funções. Fazer uma distinção entre os domínios em que eles são
chamados a atuar e as suas habilidades, porque há um mal-entendido
aí. As pessoas acham que as habilidades dos cientistas são também o
seu domínio, que é separado do resto. Não, são as habilidades que são
diferentes, mas o domínio é o mesmo. É o mesmo que construir uma
casa, em que há carpinteiros, eletricistas, encanadores – eles não estão
construindo várias casas diferentes, uma do encanador, outra do ele-
tricista, mas trabalhando no mesmo prédio (LATOUR, 2004).
Neste e em outros casos polêmicos, que engendram posições opostas e ex-
tremadas entre especialistas e não-especialistas, a ciência é sempre levada
embaixo do braço para ser usada contra o “adversário”, seja ele quem for.
E, por sua constituição original como um corpo de conhecimentos, não de
privilégios ou dogmas, a ciência acaba fornecendo munição para ambos
os lados, dada a ausência de um fórum socialmente reconhecido para o
debate público de tais double binds técnicos e éticos, como os propostos
atualmente pela biotecnologia. No entanto, a proposta de constituição
(não sei se Latour gostaria desse termo) desse fórum emana de uma
perspectiva que é a do cientista. Porém, é a perspectiva de um cientista
que procura comunicar-se com os outros, que constrói metáforas – uma
das pontes que transpõem o double bind, segundo Bateson – como a dos
diferentes especialistas construindo juntos a mesma casa.
A idéia de double bind ajuda o também francês Derrida a se aproximar da
fronteira desse território livre de predeterminações, que ele propõe ser
alcançado com o “direito ao debate, à discussão, à não-censura”, território
que é urgente proteger dos ataques daqueles que nele penetram apenas
com a intenção de dominá-lo e não de compartilhá-lo:
Il n’y a d’ailleurs de décision et de responsabilité dignes de ce nom que
dans l’endurance d’un double bind, lá où l’on ne sait pas d’avance,
quand aucun savoir préalable ne garantit ou ne programme de façon
continue, sans quelque saut, le choix entre deux injonctions aussi
impératives et aussi légitimes l’une que l’autre. Cette terrible loi, qui
est la loi même, la loi de la loi, donne sa chance à la responsabilité
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 197-205, 2. sem. 2006
201
et à la décision, s’il y en a, mais ne laisse aucune chance à la bonne
conscience. Personne ne pourrait jamais savoir, jamais être assuré,
dans un jugemente théorique et déterminant, qu’il y a eu de décision
responsable et qu’elle aura être la meilleure. L’urgence d’aujourd’hui,
c’est au moins de sauver un certain nombres de principes – le droit au
débat, le droit à la discussion, la non-censure – et néamoins la possibilité
de combattre, de limiter, de dénoncer ce qui, sous ce visage lá, laisse
passer des tentations antisémites. C’est trés diffcile. N’oubliez pas par
exemple que Chomsky n’aurait jamais accepté que vous disiez de lui
qu’il défendait Faurrison [professor de literatura em Lyon que apre-
sentou e defendeu, em 1978, a tese da não existência das câmaras de
gás nazistas]. À ses yeux, il défendait le droit à la parole. (DERRIDA;
ROUDINESCO, 2001, p. 213)
De acordo com a refexão de Derrida, ao adentrarmos esse território-
matriz do indeterminismo, povoado de double binds que desafam nossas
indagações a respeito dos elos possíveis entre futuro e presente, e do
papel de nossas ações nesse processo, onde sabemos que nada garante
de antemão a aposta de nossas fnitas fchas, encontramos a “lei da lei”,
que fundamenta uma certa ética: a que nos impele a sermos responsáveis
pelas nossas decisões.
Ao falarmos em “lei da lei” encontramos-nos próximos de outro pólo de
referência nos debates sobre o tema, de novo um francês malgré lui-même:
Lacan e suas idéias sobre o “Não” do pai como uma tentativa de proteger
o sujeito até mesmo das emanações desse território do indeterminado:
melhor uma ordem injusta que a ausência de uma ordem qualquer. No
texto “A foraclusão do nome-do-pai” (Capítulo VIII, do Seminário 5),
Lacan assim apresenta Bateson:
antropólogo e etnógrafo que nos trouxe algo que nos faz refetir um
pouco além da ponta do nariz sobre o que concerne à ação terapêutica
que tenta situar e formular o princípio da gênese do distúrbio psicótico
em alguma coisa que se estabelece no plano da relação entre a mãe e
o flho, e que não é simplesmente um efeito elementar de frustração,
tensão, retenção, relaxamento, satisfação. Ele introduz desde o princí-
pio a noção de comunicação como centrada não apenas num contato,
num relacionamento, num meio, mas numa signifcação. (LACAN
apud MAIA, [19--])
De acordo com Lacan, Bateson e Ruesch (1988) propôs a idéia desse estado
“patológico” do esquizofrênico ter origem na difculdade de uma criança humana
confgurar “o processo de comunicação como constitutivo do sujeito” quando exposta
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202
de forma precoce, sem a tenda protetora de um “Nome do Pai”, ao desamparo
do território do double bind (LACAN apud MAIA, [19--]). No entanto, Lacan
leva em consideração apenas os sentidos relatados no campo de debates no qual
a noção de double bind emergiu inicialmente (como uma idéia que parece ter
uma espécie de vida própria?): o disputado campo de estudos interdisciplinares
sobre o estado esquizofrênico.
3

Se a esquizofrenia às vezes parece ter sido uma das origens, de jeito algum foi
o destino da noção. Depois de formulada nesse contexto específco, a noção de
double bind foi ampliada e recolocada, em um registro não-patológico, com en-
tradas possíveis em seu território por outras portas, como as de humor, poesia,
aprendizado, evolução, arte, jogo, sexo e mística.

Para continuar entre os franceses, com suas preocupações com a “lei da lei” e o
“Nome-do-Pai”, trazemos ao debate Bourdieu e sua apropriação da noção de
double bind na tentativa de iluminar questões a respeito da complexa problemática
envolvida no estudo da herança familiar em sociedades tradicionais:
Matriz da trajetória social e da relação com essa trajetória, portanto
das contradições e das duplas coações (double binds) que nascem
principalmente das discordâncias entre as disposições do herdeiro e
o destino encerrado em sua herança, a família é geradora de tensões
e de contradições genéricas (observáveis em todas as famílias, porque
ligadas à sua propensão a se perpetuar) e específcas (variando, prin-
cipalmente, segundo as características da herança). [...] A herança bem
sucedida é um assassinato do pai realizado com a injunção do pai, uma
superação do pai destinada a conservá-lo, a conservar seu “projeto” de
superação. (BOURDIEU, 2000, grifos do autor)
Esse gancho com a essencial superação da herança da lei paterna nos traz de
volta às terras brasileiras, nas quais começamos essa resenha sobre as andanças
das idéias vivas de Bateson no mundo das ciências humanas contemporâneas.
Roberto Schwarz, procurando, mais uma vez, enfrentar nossos dilemas passa-
dos/presentes pela porta da análise literária – esmiuçando o livro O Elefante, de
Francisco Alvim – acaba também por usar a noção de double bind para dar conta
da perversa situação brasileira, que o poeta almeja denunciar com seu seco:
FACTÓTUM
Pior coisa
é dever um favor a alguém
Olha Virgílio
a mim você não deve nada não
Só a sua perna e
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203
O elegante e sincero crítico paulista assim pontua o território desse
fato-tótem do double bind brasileiro visitado pelo poeta:
Depois de uma vida de serviços prestados, o faz-tudo [o agregado]
continua em dívida, ao passo que seu protetor [o fazendeiro dono da
terra] não lhe deve nada e muito menos sente obrigação ou humilha-
ção. É uma versão de nosso double bind [em inglês no original] entre
dependentes e proprietários, onde a dívida dos primeiros é da ordem
da obrigação pessoal e infnita, e não do dinheiro, ao passo que a dos
segundos é da ordem da conveniência e do cálculo. Já estes últimos
circulam em dois mundos e podem ir e vir, à escolha, entre o papel
de fel protetor e de indivíduo desobrigado e objetivo. Nos dois casos,
a informalidade faculta aos de cima a estampa da civilidade amena,
encobrindo o abismo social (SCHWARZ, 2002).
E, ao chegarmos ao fnal, cá estamos de volta ao começo: nossos double
binds tropicais... Mas será que agora mais perto de entender que o fm
da jornada é alcançar o ponto de partida e olhá-lo como se fosse a primeira vez?
Mais perto de entender que poesia e ciência,
4
lei e brincadeira, cultura
e esquizofrenia, economia e herança familiar, genética e arte, evolução
e jogo, sexo e o Deus-Eco, do qual não se zomba, são territórios possíveis
de serem ligados pela viva idéia de double bind ?
Para Gregory Bateson, a idéia de double bind ensejou o esforço de apro-
fundar nossa capacidade de encará-los, onde eles se encontrem em nosso
caminho, também pela via de um aprendizado secundário bem resolvido,
saudável, integrado na dinâmica do Deus-Eco, o qual não se pode go-
zar, mas que pode nos dar prazer. É disso, da necessidade dessa nova
pedagogia, que ele falou em sua Last Conference.
Se, a partir do double bind, somos capazes de enxergar o “monstruoso”
engano epistemológico cartesiano que supôs ser possível e desejável a
mente subordinar o reino do corpo nos humanos, nos deparamos com
o insano mundo constituído e construído por esse conhecimento capaz
de retalhar o real assim, sem emoção, com o objetivo de dominá-lo (o
“saber é poder” de Francis Bacon), exemplifcado por Bateson pelo te-
nebroso evento que foram as explosões atômicas americanas no Japão
ao fnal da Segunda Guerra.
Em outro momento, ele diz temer que este sujeito destituído da noção de
corpo-mente, ao interagir a partir de seu patamar de poder tecnológico
com a Natureza imanente da qual dependemos como seres vivos, tenha
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204
inoculado sua “insanidade” no “sistema mais amplo do qual somos uma
parte” (BATESON, 1973). Com relação a esta perspectiva, sua intuição
é de que “a tarefa mais importante hoje em dia é aprender a pensar
de uma nova maneira”, pois as conseqüências ambientais e sociais da
dupla “Revolução Industrial e Darwnismo [...] podem nos destruir nos
próximos trinta anos”.
Isso ele disse em uma conferência de 1970. E, nós, que em 2005 convi-
vemos hiroshimas e nakasakis cotidianas, à medida que nossa patologia
psicossocial exterioriza-se em um incontornável passivo ecológico pro-
vocado pela dominação cada vez mais danosa do ambiente natural e do
trabalho humano transformados em simples mercadorias? No entanto,
para alguém imune aos double binds da vida, como um cientista carte-
siano, as pistas que o sistema ecológico deixa cada vez mais claras serão
ignoradas até que não seja mais possível ignorá-las.
Em um poema escrito em 1979, Bateson (1989) refere-se à difculdade
dos que adentram esse território do “esqueleto solitário da verdade”,
que se estende além das soluções milagrosas aos dilemas do double bind
oferecidas pelos tecnólogos, terapeutas, missionários, publicitários e pragmáti-
cos de plantão, no qual é vedado recorrer “a velhos credos esquecidos”.
Nesse território que tem uma didática e uma pedagogia tão peculiar, os
que se inspiram na teoria do double bind parecem portar uma lanterna
confável a seu desejo de se aventurar “onde até mesmo os anjos temem
caminhar”.
Que aqueles que ousem perscrutá-lo possam nos ajudar a encontrar o
que todos precisamos.
Referências
BATESON, Gregory. Mente e natureza: a unidade necessária. Rio de Janeiro, F.
Alves, 1986.
______. Metadiálogos. Lisboa: Gradiva, 1989.
______. Steps to an ecology of mind. London: Paladium, 1973.
______. Une unité sacrée: quelques pas de plus vers une écologie de l’esprit.
Paris: Seuil, 1996.
______; BATESON, Mary Catherine. La peur des anges. Paris: Seuil, 1989.
______; RUESCH, Jurgen. Communication et société. Paris: Seuil, 1988.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 197-205, 2. sem. 2006
205
BOURDIEU, P. As contradições da herança. In: LINS, Daniel (Org.). Cultura e
subjetividade: saberes nômades. Campinas, SP: Papirus, 2000.
DERRIDA, J.; ROUDINESO, E. De quoi demain? Paris: Fayard: Galilée, 2001.
GLEISER, Marcelo. Ensinar ciência com poesia. Folha de São Paulo, São Paulo,
12 set. 2004. Caderno Mais! Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/fsp/
ciencia/fe1209200402.htm>. Acesso em: 4 out. 2004.
LATOUR, B. Entrevista a Marcelo Leite. 2004. Disponível em: <http://www.
anbio.org.br/entrevistas/set04_1.htm>. Acesso em: 4 out. 2004.
MAIA, Maria Ângela. A teoria do Double Bind de Bateson. Rio de Janeiro: EBP-
RJ, [19--]. Resenha de: LACAN. Seminário 5. cap. 8: “a foraclusão do nome-
do-pai”. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. Disponível em: <home.openlink.com.
br/fabulocus/bdres16.htm>. Acesso em: 15 ago. 2001 .
SCHWARZ, Roberto. O elefante. Folha de São Paulo, São Paulo, 10 mar. 2002.
Caderno Mais!
VELHO, Otávio. The pictographics of tristesse: an antropolgy of nation-building in the
tropics and its aftermath. In: WORLD anthropologies: disciplinary transformations
within systems of power. Research, Wenner-Gren Foudation for Anthropol.
xerox, 2003.
NOTÍCIAS
DO PPGA
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 209–211, 2. sem. 2006
209
NOTÍCIAS DO PPGA
Em dezembro de 2006, ocorreu a Primeira Jornada de Antropologia dos
alunos do PPGA/UFF, gerando debates produtivos sobre os trabalhos dos
alunos. A programação foi a seguinte:
Programação Jornada de Antropologia
Data: 13 de dezembro de 2006 – Quarta-feira
Tarde
14:00 as 16:30 – Grupo de Trabalho: Estado e Política
Debatedor: Profa. Dra. Karina Kuschnir (UFRJ/PPGSA)
BOTELHO, Paulo Storani. Vitória sobre a morte: a glória prometida:
ritual, simbolismo e performance no curso de operações especiais da
polícia militar. Mestranda, 2006.
MAIDANA, Maria Fernanda. Sobre los hombres de confanza. Mestranda,
2006.
NUNES, Bruner Titonelli. Trabalhadores da política. Mestrando, 2006.
PIRES, Lênin. Deus ajuda a quem cedo madruga?: uma discussão sobre trabalho,
informalidade e direitos civis no Rio de Janeiro. Doutorando, 2005.
17:00 – 19:00 – Grupo de Trabalho: Estado, cultura e sociedade
Debatedor: Prof. Dr. Marcelo Rosa (UFF/PGSD)
LUZ, Margareth da. Caminho Niemeyer: os “usos” da cultura em Niterói.
Doutoranda 2003.
MARTINS, Cynthia Carvalho. O machado é nossa tecnologia: uma análise
da relação entre práticas artesanais e mecanização. Doutoranda, 2003.
SIMÃO, Lucieni de Menezes. Certifcando culturas: inventário e registro
do ofício de paneleira. Doutoranda, 2003.
Data: 14 de dezembro de 2006 – Quinta-feira
Manhã
10:00 – 12:00 – Grupo de Trabalho: Saberes, técnicas e organização do
trabalho
Debatedor: Prof. Dr. José Sérgio Leite Lopes (UFRJ/MN)
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 209–211, 2. sem. 2006
210
FILGUEIRAS, Márcio de Paula. Territorialidade e conhecimento entre
os pescadores da Praia da Concha. Mestrando, 2006.
MELLO, Pedro Paulo Thiago de. A presença chinesa no Saara: etnias,
diásporas e conflitos num mercado popular carioca. Doutorando,
2004.
SAKAMOTO, Julia Mitiko. Trabalhar em equipe e ser polivalente: os
trabalhadores da indústria automobilística da Região Metropolitana de
Curitiba. Mestranda, 2006.
Tarde
14:00 as 18:00 – Grupo de Trabalho: Formas de produção do conheci-
mento e Campos disciplinares
Debatedora: Profa. Dra. Diana Antonaz (UFPA/PPGCS)
COSTA, Fernando Cesar Coelho da. A Adolescência na medicina brasileira:
um olhar antropológico. Doutorando, 2002.
DIAS Neto, José Colaço. Um outro olhar sobre Ponta Grossa dos Fidalgos.
Mestrando, 2005.
EILBAUM, Lucía. Entre a escrita e a oralidade: formas de produção de
conhecimento nos Tribunais da cidade de Buenos Aires. Doutoranda,
2006.
MOTA. Durval D. Souza. A efcácia da acupuntura: uma abordagem
cultural para além da técnica. Doutorando, 2004.
OLIVEIRA, Cátia Inês Salgado de. Sobre questões de “Ciência” e “Política”: o
processo de Fundação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).
Doutoranda, 2003.
Data: 15 de dezembro de 2006 – Sexta-feira
Manhã
9:00 - 12:00 – Grupo de Trabalho: Identidades e fronteiras étnicas e
nacionais
Debatedor: Prof. Dra. Hebe Mattos (UFF/PPGH)
AGOSTINE, felipe. Os narradores do Alto Rio Negro. a humanidade
subiu o rio. Mestrando.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 209–211, 2. sem. 2006
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CAVALCANTE Junior, Cláudio. Fronteiras étnicas entre muçulmanos do Rio
de Janeiro de origem africana. Mestrando, 2006.
DELGADO, Paulo. O dia do Wamnhoro. Doutorando, 2003.
SILVA, Ruth Henrique da. Brasileiros? identidade indígena? dilemas de
coexistência dos Camba no Brasil. Doutoranda, 2004.
SILVEIRO, João. Identidade nacional e democracia em Cabo Verde.
Doutorando, 2003.
Tarde
14:00 Grupo de Trabalho: Formas de Sociabilidade
Debatedor: Prof. Dr. Isidoro Alves
SIMÕES, Soraya Silveira. Os moradores, a favela e o “bairro”: Cruzada São
Sebastião do Leblon: disputas, formas associativas e arenas públicas na
Zona Sul do Rio de Janeiro. Doutoranda, 2003.
PEREIRA, Rafael. “Vozes de Barbacena” ou a “Cidade dos Loucos”: implicações
antropológicas do retorno à cidade. Mestrando, 2006.
GASPAR Neto, Verlan. Homossexualidade masculina: um estudo
etnográfico dos espaços de homossociabilidade em Juiz de Fora.
Mestrando, 2006.
PAIM, Heloísa Helena Salvatti. Notas iniciais. Doutoranda, 2004.
GARCIA, Ângela Maria. Consumo de bebida alcoólica: formas de sociabilidade
e de controle social. Doutoranda, 2003.
BARBOSA, Fernando Cordeiro. As redefinições sociais dos migrantes
nordestinos no Rio de Janeiro. Doutorando, 2004.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 213–218, 2. sem. 2006
213
I Encontro da Rede Rural
- uma proposta de intercâmbio de pesquisa -
Sob a associação executiva dos Programas de Pós-Graduação em Antro-
pologia, em História e em Sociologia e Direito, bem como do Departa-
mento de Sociologia da UFF, foi realizado o I Encontro da Rede Rural,
ocasião em que foi formalmente instituída a Rede Rural.
O que é a Rede Rural
Há algum tempo, diversos estudiosos das mais diferenciadas formações
disciplinares e teóricas, mas interligados tematicamente por fazerem
do rural seu campo de investigação, vêm buscando um espaço próprio
de discussão, propiciador de visibilidade da produção intelectual e da
sistematização das tendências em curso.
Os estudos sobre a agricultura e o mundo rural no Brasil têm-se mul-
tiplicado nos últimos anos, em diversas instituições universitárias e em
numerosos centros especializados. Entidades como Anpocs, Sober, ABA,
SBS, Anpec, Anpuh, Anppas, AGB, entre outras, têm-se constituído em
espaço de discussão desses temas. No entanto, se a inserção nessas insti-
tuições tem um aspecto extremamente positivo no sentido de estimular o
diálogo entre os estudos sobre o rural e os demais campos temáticos das
Ciências Sociais, ela, no entanto, não tem sido sufciente. Assim, cresce
a demanda por um espaço temático de intercâmbio que, sem excluir
os existentes, permita o aprofundamento das discussões. Frente a isso,
surgiu a proposta de uma primeira discussão para criar um espaço de
intercâmbio de caráter interdisciplinar e inter-institucional, com um
modelo fexível, sensível às questões emergentes no debate nacional,
capaz, inclusive, de sinalizar a importância de outros temas menos
abordados, evitando a cristalização de grupos de pesquisa previamente
recortados.
Essa possibilidade veio sendo amadurecida em diversas reuniões. Em
outubro de 2003, durante a reunião da Anpocs, realizada em Caxambu,
os pesquisadores interessados no tema realizaram uma primeira con-
versa, na qual foi reiterada a importância de criação de um fórum de
discussão sobre os temas rurais. Algo que se inspirasse na experiência do
PIPSA (Projeto de Intercâmbio de Pesquisa Social em Agricultura, rede
de pesquisadores constituída em 1970 com apoio da Fundação Ford e
que foi, ao longo dos anos 1980, um importante Fórum de discussão das
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214
questões agrárias e agrícolas do país), mas que superasse algumas das
difculdades que esse projeto enfrentou e fosse construído sobre novas
bases. Desde então, em várias reuniões, aproveitando eventos científcos
como Anpocs e SBS, o formato da Rede foi-se defnindo.
Embora, frente às difculdades fnanceiras inerentes a uma iniciativa
como esta, o número de presentes às reuniões preparatórias fosse redu-
zido, foram inúmeras as manifestações de apoio e encorajamento para
a constituição da rede enviadas por e-mail aos que estavam à frente do
processo.
Após muitos debates e manifestações de opiniões sobre a proposta, foram
construídos alguns consensos sobre os princípios que deveriam orientar
a iniciativa de criar uma nova rede de intercâmbio. Nessa perspectiva,
a rede deveria:
• ter um caráter interdisciplinar e interinstitucional, buscando atrair
profssionais das mais diferentes áreas disciplinares (Sociologia, Antro-
pologia, Ciência Política, Economia, História, Agronomia, Geografa,
Comunicação Social, Serviço Social etc) e inserção institucional (uni-
versidades, centros de pesquisa, setores governamentais elaboradores
de políticas públicas, organizações não governamentais);
• envolver interessados com diferentes níveis de formação: desde estu-
dantes que estão dando seus primeiros passos na pesquisa acadêmica
até profssionais já tarimbados;
• buscar um formato que não seja o de aceitação generalizada de tra-
balhos, inviabilizando a discussão dos estudos apresentados, mas que
também não seja elitizado;
• lançar mão de uma combinação de reuniões presenciais e espaços
virtuais, estimulando o debate no intervalo entre as reuniões, com
salas virtuais de discussão, circulação de informações, produção de
textos etc;
• ter o formato de uma associação, cuja sobrevivência esteja assegurada
pela contribuição dos sócios.
Ao longo dessas reuniões defniu-se também uma coordenação provisó-
ria da Rede, composta pelos professores Delma Pessanha Neves (PPGA/
UFF), Leonilde Servolo de Medeiros (CPDA/UFRRJ), Maria de Nazareth
Baudel Wanderley (UFPE) e Sônia Maria Pessoa Pereira Bergamasco
(Feagri/Unicamp). Essa coordenação foi substituída por uma Coordena-
ção efetiva, com prazo de mandato defnido nos Estatutos da Associação,
documento que formalizou a Rede.
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 213–218, 2. sem. 2006
215
A Rede como espaço virtual
No horizonte da organização da Rede, pretende-se abrir um espaço
virtual para facilitar o intercâmbio e a inclusão bastante ampla de pes-
quisadores e estudiosos voltados para as temáticas concernentes.
A Rede como espaço de encontros
A intenção da Rede é realizar encontros presencias bi-anuais, com base
em mesas redondas e grupos temáticos, atividades que deverão ser ali-
mentadas e alimentar o debate virtual.
I Encontro da Rede Rural
O primeiro encontro da Rede Rural foi realizado na UFF, Niterói, de 04
a 07 de julho de 2006. Os objetivos principais desse primeiro encontro
foram:
a) divulgar a Rede e seus objetivos;
b) trazer novos pesquisadores para a Rede;
c) experimentar novos formatos de debate;
d) discutir as possibilidades de integração entre fóruns virtuais presen-
ciais;
e) aprofundar o debate sobre temas do meio rural brasileiro.
Estruturação
Mesas temáticas
Tiveram por objetivo constituir espaços de abertura de temas, mas
também de agregação de pesquisadores. Foram propostas as seguintes
mesas:
1) Modelos de desenvolvimento rural: projetos em concorrência,
abarcando discussões sobre as diversas propostas de reordenação
de agricultores e de suas práticas produtivas, bem como formas de
enquadramento institucional, instrumentos pelos quais programas
e recursos vêm sendo elaborados e disputados: redefnição da assis-
tência técnica e a centralidade de modelos agroecológicos; políticas
públicas de reafrmação do agribusiness e da agricultura familiar;
modos de participação delegada dos proprietários de terra na redis-
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 213–218, 2. sem. 2006
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tribuição de recursos públicos; e formatação do quadro institucional,
especialmente o estatal.
2) Direito, costumes e formas de apropriação da terra, ocasião em que
foram analisadas as múltiplas possibilidades de construção da legiti-
midade e de legalização da acesso à terra, condições que demonstram
os diversos e encapsuladores signifcados que este ato incorpora.
3) Dimensões da questão fundiária, quando foram discutidos temas
como luta pela terra, violência e diversidade regional; políticas fun-
diárias; interfaces entre as questões agrária e ambiental.
4) O mundo do trabalho na agricultura, espaço de debate sobre pro-
cesso de trabalho e transformação produtiva, trabalho e direitos
(previdenciários, trabalhistas, sociais), agricultura familiar e relações
de trabalho.
Grupos Temáticos
Nos períodos consecutivos às mesas, foram organizados Grupos de Traba-
lho. No primeiro encontro, optamos por grupos com temas relacionados
aos temas das mesas, de forma a aprofundar o debate sobre as questões
abordadas, bem como acolher resultados de pesquisas em curso.
Para evitar que a Rede Rural se transforme em mais um espaço de sim-
ples apresentação de resultados de pesquisa, nos quais freqüentemente
se sacrifca o debate, para garantir tempo individual para exposição
de trabalhos, foi proposta, em caráter experimental, uma inovação de
formato metodológico para o funcionamento dos grupos. A intenção
fora que os trabalhos inscritos não fossem apresentados um a um, no
formato tradicional de sessão de comunicação ou mesa-redonda. Os
textos foram encaminhados com antecedência ao coordenador, que
os leu e, com base neles, elaborou uma problematização das questões
envolvidas. Essa síntese foi apresentada na sessão e por todos debatida.
Esse formato permitiu que um número maior de pessoas inscrevessem
trabalhos, que se “mapeasse” o campo do debate e que a discussão efeti-
vamente se centralizasse nas questões teórico-metodológicas envolvidas.
O coordenador também disponibilizou um texto-síntese para os demais
participantes.
- A luta pela terra e a política fundiária.
O GT integrou resultados de pesquisas que tratavam da temática
proposta, tanto do ponto de vista histórico quanto regional, buscando
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 213–218, 2. sem. 2006
217
recuperar as diferentes dimensões das realações entre Estado, políticas
fundiárias e lutas por terra. Estas lutas abarcavam o acesso à terra e lutas
pela permanência na terra, de forma a não segmentar um conjunto de
demandas de agricultores que visam, em última instância, garantir suas
condições de acesso aos recursos fundiários. Assim, além das formas
de luta já reconhecidas como ocupações, acampamentos, resistência de
posseiros, o grupo também se propôs a discutir as demandas por crédito
fundiário, as reivindicações dos assentados e dos agricultores familiares
por melhores condições de produção e acesso a mercado, assistência
técnica, saúde, educação, inclusão digital etc.
- Interfaces entre a questão agrária e a questão
ambiental.
A problematização das formas de intervenção sobre o meio ambiente
(numa concepção ampla) tem também operado como idéia-valor capaz
de nortear a construção de novos modelos de apropriação de recursos
naturais, incidindo assim sobre a transformação de espaços e identidades.
Os trabalhos que integraram o debate neste GT evidenciaram, no bojo
da questão proposta, o processo de valorização de grupos sociais (étnicos,
tradicionais etc.), dotados de saberes e práticas ambientais correspon-
dentes aos ideários da construção de sociedades sustentáveis. Muitos dos
textos também consideraram a relação entre políticas socioambientais e
(re)defnição de territórios e de direitos diferenciados.
- Canais e formas de expressão de grupos sociais
Por este GT, pesquisadores puderam se agregar em torno da discussão
de diversas formas de construção de interesses e de institucionalização de
grupos sociais, orientados pela demanda de recursos ou pelo empenho
em se fazer reconhecer socialmente. Como as questões que envolvem as
construções políticas são diversas, os participantes se ativeram a aná-
lises sobre associações, cooperativas, redes de intercâmbio, sindicatos,
conselhos, grupos organizados por especialidades de gênero e ciclo de
vida, etc.
- Agricultura familiar e formas de organização do
trabalho.
A ênfase nesta temática visou ultrapassar a reifcação comumente associa-
da à classifcação agricultura familiar, por vezes bastando por si mesma
para supor a compreensão da complexidade de formas que podem estar
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subjacentes a essa modalidade de organização da produção. Pelo GT
tornou-se possível então dar expressão aos inúmeros modos de alocação
e recrutamento da força de trabalho, bem como considerar o papel de
valores familiares nesses arranjos.
- Processo de trabalho, transformação produtiva e
direitos sociais.
Neste espaço de debate, acolheram-se refexões sobre diversas formas
de organização do trabalho, correspondentes aos inúmeros rearranjos
ou reordenações produtivas que vêm se constituindo no setor rural ou
agropecuário. Foram enfatizados os modos de reordenação das relações
de trabalho assalariadas, objeto de refexão ultimamente tangencial ou
até mesmo ausente nos encontros de pesquisadores do mundo rural.
Correlatamente, foram consideradas as difculdades enfrentadas pelos
assalariados rurais para sua organização política.
- Saber e poder no campo.
O GT visou agregar para discussão trabalhos que abordassem a temática
proposta de forma ampla, temporal e espacialmente, contemplando estu-
dos acerca das práticas de caráter pedagógico e/ou cultural perpetradas
sobre ou a partir do “campo”. As propostas de trabalho envolveram
desde questões ligadas a instituições escolares até aquelas vinculadas ao
extensionismo e atividades afns, em distintas conjunturas históricas no
Brasil. Foram também contemplados trabalhos que discutiam as práticas
relativas à construção, redefnição e institucionalização de “saberes” espe-
cífcos destinados ao espaço agrário e imbricados à questão mais ampla
do desenvolvimento do capitalismo no país. Além disso, que abordassem,
em distintos contextos históricos, as repercussões desses saberes sobre as
práticas pedagógicas/culturais destinadas ao “espaço” agrário, seus agen-
tes formuladores e implementadores, e ainda os espaços e modalidades
de reprodução dos quadros técnicos ligados à “agricultura”.
Constituição formal da Rede de Estudos Rurais
Na assembléia geral proposta durante o encontro, foi discutido e apro-
vado um estatuto da rede, formalizando sua fundação e eleita a nova
coordenação.
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219
RELAÇÃO DE DISSERTAÇÕES DEFENDIDAS
NO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM ANTROPOLOGIA
CURSO DE MESTRADO EM ANTROPOLOGIA
1 TÍTULO: Um abraço para todos os amigos
Autor: Antonio Carlos Rafael Barbosa
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues
Data da defesa: 16/1/1997
2 TÍTULO: A produção social da morte e morte
simbólica em pacientes hansenianos
Autor: Cristina Reis Maia
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues
Data da defesa: 2/4/1997
3 TÍTULO: Práticas acadêmicas e o ensino universitário:
uma etnografia das formas de consagração e
transmissão do saber na universidade
Autor: Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa:16/6/1997
4 TÍTULO: “Dom”, “iluminados” e “figurões”:
um estudo sobre a representação da oratória
no Tribunal do júri do Rio de Janeiro
Autor: Alessandra de Andrade Rinaldi
Orientador: Prof. Dr. Luiz de Castro Faria
Data da defesa: 3/1/1997
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220
5 TÍTULO: Mudança ideológica para a qualidade
Autor: Miguel Pedro Alves Cardoso
Orientador: Profª Drª Lívia Neves Barbosa
Data da defesa: 7/10/1997
6 TÍTULO: Culto rock a Raul Seixas: sociedade
alternativa entre rebeldia e negociação
Autor: Monica Buarque
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues
Data da defesa: 19/12/1997
7 TÍTULO: A cavalgada do santo guerreiro: duas
festas de São Jorge em São Gonçalo/Rio de
Janeiro
Autor: Ricardo Maciel da Costa
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 23/12/1997
8 TÍTULO: A loucura no manicômio judiciário:
a prisão como terapia, o crime como sintoma,
o perigo como verdade
Autor: Rosane Oliveira Carreteiro
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 6/2/1998
9 TÍTULO: Articulação casa e trabalho: migrantes
“nordestinos” nas ocupações de empregada
doméstica e empregados de edifício
Autor: Fernando Cordeiro Barbosa
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 4/3/1998
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221
10 TÍTULO: Entre “modernidade” e “tradição”:
a comunidade islâmica de Maputo
Autor: Fátima Nordine Mussa
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 11/3/1998
11 TÍTULO: Os interesses sociais e a sectarização da
doença mental
Autor: Cláudio Lyra Bastos
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 21/5/1998
12 TÍTULO: Programa médico de família: mediação e
reciprocidade
Autor: Gláucia Maria Pontes Mouzinho
Orientador: Profª Drª Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 24/5/1999
13 TÍTULO: O império e a rosa: estudo sobre a devoção
do Espírito Santo
Autor: Margareth da Luz Coelho
Orientador: Prof. Dr. Arno Vogel
Data da defesa: 13/7/1998
14 TÍTULO: Do malandro ao marginal: representações
dos personagens heróis no cinema brasileiro
Autor: Marcos Roberto Mazaro
Orientador: Profª Drª Lívia Neves Barbosa
Data da defesa: 30/10/1998
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
222
15 TÍTULO: Prometer-cumprir: princípios morais da
política: um estudo de representações sobre a
política construídas por eleitores e políticos
Autor: Andréa Bayerl Mongim
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 21/1/1999
16 TÍTULO: O simbólico e o irracional: estudo sobre
sistemas de pensamento e separação judicial
Autor: César Ramos Barreto
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues
Data da defesa: 10/5/1999
17 TÍTULO: Em tempo de conciliação
Autor: Angela Maria Fernandes Moreira-Leite
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 15/7/1999
18 TÍTULO: Negros, parentes e herdeiros: um estudo
da reelaboração da identidade étnica na
comunidade de Retiro, Santa Leopoldina – ES
Autor: Osvaldo Marins de Oliveira
Orientador: Profª Drª Eliane Cantarino O’Dwyer
Data da defesa: 13/8/1999
19 TÍTULO: Sistema da sucessão e herança da posse
habitacional em favela
Autor: Alexandre de Vasconcellos Weber
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 25/10/1999
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
223
20 TÍTULO: E no samba fez escola: um estudo de
construção social de trabalhadores em
escola de samba
Autor: Cristina Chatel Vasconcellos
Orientador: Profª Drª Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 5/11/1999
21 TÍTULO: Cidadãos e favelados: os paradoxos dos
projetos de (re)integração social
Autor: André Luiz Videira de Figueiredo
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 19/11/1999
22 TÍTULO: Da anchova ao salário mínimo: uma
etnografia sobre injunções de mudança social
em Arraial do Cabo/RJ
Autor: Simone Moutinho Prado
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 25/2/2000
23 TÍTULO: Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso
do espaço da Praia Grande
Autor: Delgado Goulart da Cunha
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 28/2/2000
24 TÍTULO: Produção corporal
da mulher que dança
Autor: Sigrid Hoppe
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 27/4/2000
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
224
25 TÍTULO: A produção da verdade nas práticas
judiciárias criminais brasileiras: uma
perspectiva antropológica de um processo
criminal
Autor: Luiz Eduardo de Vasconcellos Figueira
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 21/9/2000
26 TÍTULO: Campo de força: sociabilidade numa torcida
organizada de futebol
Autor: Fernando Manuel Bessa Fernandes
Orientador: Profª Drª Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 22/9/2000
27 TÍTULO: Reservas extrativistas marinhas: uma reforma
agrária no mar? Uma discussão sobre o
processo de consolidação da reserva
extrativista marinha de Arraial do Cabo/RJ
Autor: Ronaldo Joaquim da Silveira Lobão
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 29/11/2000
28 TÍTULO: Patrulhando a cidade: o valor do trabalho e
a construção de estereótipos em um programa
radiofônico
Autor: : Edilson Márcio Almeida da Silva
Orientador: Profª Drª Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 8/12/2000
29 TÍTULO: Loucos de rua: institucionalização x
desinstitucionalização
Autor: Ernesto Aranha Andrade
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 8/3/2001
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
225
30 TÍTULO: Festa do Rosário: iconografia e poética de
um rito
Autor: Patrícia de Araújo Brandão Couto
Orientador: Profª Drª Tania Stolze Lima
Data da defesa: 8/5/2001
31 TÍTULO: Os caminhos do leão: uma etnografia do
processo de cobrança do Imposto de Renda
Autor: Gabriela Maria Hilu da Rocha Pinto
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 7/8/2001
32 TÍTULO: Representações políticas: alternativas e
contradições – das múltiplas possibilidades de
participação popular na Câmara Municipal do
Rio de Janeiro
Autor: Delaine Martins Costa
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 27/9/2001
33 TÍTULO: Capoeiras e mestres: um estudo de
construção de identidades
Autor: Mariana Costa Aderaldo
Orientador: Profª Drª Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 29/10/2001
34 TÍTULO: Índios misturados: identidades e
desterritorialização no século XIX
Autor: Márcia Fernanda Malheiros
Orientador: Profª Drª Tania Stolze Lima
Data da defesa: 17/12/2001
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
226
35 TÍTULO: Trabalho e exposição: um estudo da
percepção ambiental nas indústrias cimenteiras
de Cantagalo/ RJ – Brasil
Autor: Maria Luiza Erthal Melo
Orientador: Profª Drª Gláucia Oliveira da Silva, Prof. Dr. Carlos Ma-
chado de Freitas (co-orientador)
Data da defesa: 4/5/2001
36 TÍTULO: Samba, jogo do bicho e narcotráfico:
a rede de relações que se forma na quadra de
uma escola de samba em uma favela do Rio de
Janeiro
Autor: Alcyr Mesquita Cavalcanti
Orientador: Profª Drª Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 20/12/2001
37 TÍTULO: Mãos de arte e o saber-fazer dos artesãos de
Itacoareci: um estudo antropológico sobre
socialidade, identidades e identificações locais
Autor: Marzane Pinto de Souza
Orientador: Profª Drª Gláucia Oliveira da Silva
Data da defesa: 6/2/2002
38 TÍTULO: Do alto do rio Erepecuru à cidade de
Oriximiná: a construção de um espaço social
em um núcleo urbano da Amazônia
Autor: Andréia Franco Luz
Orientador: Profª Drª Eliane Cantarino O’Dwyer
Data da defesa: 27/3/2002
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
227
39 TÍTULO: O fio do desencanto: trajetória espacial e
social de índios urbanos em Boa Vista (RR)
Autor: Lana Araújo Rodrigues
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues
Data da defesa: 27/3/2002
40 TÍTULO: Deus é pai: prosperidade ou sacrifício?
Conversão, religiosidade e consumo na
Igreja Universal do Reino de Deus
Autor: Maria José Soares
Orientador: Profª Drª Lívia Neves Barbosa
Data da defesa: 1 /4/2002
41 TÍTULO: Negros em ascensão social: poder de
consumo e visibilidade
Autor: Lidia Celestino Meireles
Orientador: Profª Drª Lívia Neves Barbosa
Data da defesa: 1/4/2002
42 TÍTULO: A cultura material da nova era e o seu
processo de cotidianização
Autor: Juliana Alves Magaldi
Orientador: Profª Drª Lívia Neves Barbosa
Data da defesa: 20/7/2002
43 TÍTULO: A Festa do Divino Espírito Santo em
Pirenópolis, Goiás: polaridades simbólicas em
torno de um rito
Autor: Felipe Berocan Veiga
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 1/7/2002
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
228
44 TÍTULO: Privatização e reciprocidade para
trabalhadores da CERJ em Alberto Torres/
RJ
Autor: Cátia Inês Salgado de Oliveira
Orientador: Profª Drª Gláucia Oliveira da Silva
Data da defesa: 4/7/2002
45 TÍTULO: Cada louco com a sua mania, cada mania de
cura com a sua loucura
Autor: Patricia Pereira Pavesi
Orientador: Profª Drª Lívia Neves Barbosa
Data da defesa: 7/1/2003
46 TÍTULO: Linguagem de parentesco e identidade social,
um estudo de caso: os moradores de Campo
Redondo
Autor: Cátia Regina de Oliveira Motta
Orientador: Profª Drª Gláucia Oliveira da Silva
Data da defesa: 7/1/2003
47 TÍTULO: Vila Mimosa II: A Construção do Novo
Conceito da Zona
Autor: Soraya Silveira Simões
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 20/1/2003
48 TÍTULO: Tão perto, tão longe: etnografia sobre
relações de amizade na favela da Mangueira
no Rio de Janeiro
Autor: Geovana Tabachi Silva
Orientador: Profª Drª Lívia Neves Barbosa
Data da defesa: 20/1/2003
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
229
49 TÍTULO: O mercado dos orixás: uma etnografia do
Mercadão de Madureira no Rio de Janeiro
Autor: Carlos Eduardo Martins Costa Medawar
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 20/1/2003
50 TÍTULO: Para além da “porta de entrada”: usos e
representações sobre o consumo da canabis
entre universitários
Autor: Jóvirson José Milagres
Orientador: Profª Drª Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 10/6/2003
51 TÍTULO: E o verbo (re)fez o homem: estudo do
processo de conversão do alcoólico ativo
em alcoólico passivo
Autor: Angela Maria Garcia
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 12/6/2003
52 TÍTULO: Le souffle au coeur & damage: quando o
mesmo toca o mesmo em 24 quadros por
segundo (Louis Malle e a temática do incesto)
Autor: Débora Breder Barreto
Orientador: Profª Drª Lygia Baptista Pereira Segala Pauletto
Data da defesa: 24/6/2003
53 TÍTULO: O faccionalismo xavante na terra indígena
São Marcos e a cidade de Barra das Garças
Autor: Paulo Sérgio Delgado
Orientador: Profª Drª Eliane Cantarino O’Dwyer
Data da defesa: 24/6/2003
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
230
54 TÍTULO: Cartografia nativa: a representação do
território, pelos guarani kaiowá, para o
procedimento administrativo de verificação da
Funai
Autor: Ruth Henrique da Silva
Orientador: Profª Drª Eliane Cantarino O’Dwyer
Data da defesa: 27/6/2003
55 TÍTULO: Nem muito mar, nem muita terra. Nem tanto
negro, nem tanto branco: uma discussão
sobre o processo de construção da identidade
da comunidade remanescente de Quilombos na
Ilha da Marambaia/RJ
Autor: Fábio Reis Mota
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 27/6/2003
56 TÍTULO: Pendura essa: a complexa etiqueta de
reciprocidade em um botequim do Rio de
Janeiro
Autor: Pedro Paulo Thiago de Mello
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 30/6/2003
57 TÍTULO: Justiça desportiva: uma coexistência entre o
público e o privado
Autor: Wanderson Antonio Jardim
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima, Profª Drª Simoni Lahud
Guedes (co-orientadora)
Data da defesa: 30/6/2003
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
231
58 TÍTULO: O teu cabelo não nega? Um estudo de
práticas e representações sobre o cabelo
Autor: Patrícia Gino Bouzón
Orientador: Prof. Dr. José Sávio Leopoldi
Data da defesa: 5/2/2004
59 TÍTULO: Usos e significados do vestuário
entre adolescentes
Autor: Joana Macintosh
Orientador: Profª Drª Laura Graziela Figueiredo Fernandes Gomes
Data da defesa: 16/2/2004
60 TÍTULO: A cientifização da acupuntura médica no
Brasil: uma perspectiva antropológica
Autor: Durval Dionísio Souza Mota
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima; Profª Drª Simoni Lahud
Guedes (co-orientadores)
Data da defesa: 19/2/2004
61 TÍTULO: Das práticas e dos seus saberes:
a construção do “fazer policial” entre as
praças da PMERJ
Autor: Haydée Glória Cruz Caruso
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 19/2/2004
62 TÍTULO: O processo denunciador – retóricas, fobias
e jocosidades na construção social da
dengue em 2002
Autor: Anamaria de Souza Fagundes
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 29/3/2004
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
232
63 TÍTULO: Rua dos Inválidos, 124 –
a vila é a casa deles
Autor: Marcia Cörner
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 29/3/2004
64 TÍTULO: Santa Tecla, Graça e Laranjal: regras de
sucessão nas casas de estância do Brasil
Meridional
Autor: Ana Amélia Cañez Xavier
Orientador: Profª Drª Eliane Catarino O’Dwyer
Data da defesa: 25/5/2004
65 TÍTULO: Desemprego e malabarismos culturais
Autor: Valena Ribeiro Garcia Ramos
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 31/5/2004
66 TÍTULO: Dimensões da sexualidade na velhice: estudos
com idosos em uma agência gerontológica
Autor: Rosangela dos Santos Bauer
Orientador: Profª Drª Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 9/6/2004
67 TÍTULO: Lavradores de sonhos: estruturas elementares
do valor cultural na conformação do valor
econômico. um estudo sobre a propriedade
capixaba no município de vitória
Autor: Alexandre Silva Rampazzo
Orientador: Profª Drª Lívia Martins Pinheiro Neves
Data da defesa: 26/7/2004
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
233
68 TÍTULO: Responsabilidade social das empresas: quando
o risco e o apoio caminham
lado a lado
Autor: Ricardo Agum Ribeiro
Orientador: Profª Drª Gláucia Oliveira da Silva
Data da defesa: 28/1/2005
69 TÍTULO: A escolha: um estudo antropológico sobre a
escolha do cônjugue
Autor: Paloma Rocha Lima Medina
Orientador: Profª Drª Lívia Martins Pinheiro Neves
Data da defesa: 3/2/2005
70 TÍTULO: Agricultores orgânicos do Rio
da Prata (RJ): luta pela preservação social
Autor: Pedro Fonseca Leal
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 23/2/2005
71 TÍTULO: Uma comunidade em transformação:
modernidade, organização e conflito
nas escolas de samba
Autor: Fabio Oliveira Pavão
Orientador: Prof. Dr. José Sávio Leopoldi
Data da defesa: 28/2/2005
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
234
72 TÍTULO: Esculhamba, mas não esculacha: um relato
sobre uso dos trens da Central do Brasil,
no Rio de Janeiro, enfatizando as práticas e
os conflitos relacionados a comerciantes
ambulantes e outros atores, naquele espaço
social
Autor: Lênin dos Santos Pires
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 28/2/2005
73 TÍTULO: O porteiro, o panóptico brasileiro:
as transformações do saber-fazer
e do saber-lidar deste trabalhador
Autor: Roberta de Mello Correa
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 18/3/2005
74 TÍTULO: Tempo, trabalho e modo de vida:
estudo de caso entre profissionais
da enfermagem
Autor: Renata Elisa da Silveira Soares
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 8/4/2005
75 TÍTULO: Espaço urbano e segurança pública: entre o
público, o privado e o particular
Autor: Vanessa de Amorim Pereira Cortes
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 18/4/2005
76 TÍTULO: Vida após a morte: salvo ou condenado?
Autor: Andréia Vicente da Silva
Orientador: Profª Drª Lívia Martins Pinheiro Neves
Data da defesa: 9/5/2005
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
235
77 TÍTULO: Dramas sociais, realidade
e representação:
a família brasileira vista pela TV
Autor: Shirley Alves Torquato
Orientador: Profª Drª Laura Graziela F. F. Gomes
Data da defesa: 11/5/2005
78 TÍTULO: Consumidor consciente, cidadão
negligente?
Autor: Michel Magno de Vasconcelos
Orientador: Profª Drª Laura Graziela F. F. Gomes
Data da defesa: 18/5/2005
79 TÍTULO: Paixão pela política e política
dos Paixão: família e capital político em um
município fluminense
Autor: Carla Bianca Vieira de Castro Figueiredo
Orientador: Prof. Dr. Marcos Otávio Bezerra
Data da defesa: 6/3/2006
80 TÍTULO: Quando a lagoa vira pasto:
um estudo sobre as diferentes formas
de apropriação e concepção
dos espaços marginais da Lagoa Feia–RJ
Autor: Carlos Abraão Moura Valpassos
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 6/3/2006
81 TÍTULO: O dono da rota:
etnografia de um vendedor
no centro urbano do Rio de Janeiro
Autor: Flavio Conceição da Silveira
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 6/3/2006
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
236
82 TÍTULO: Os caminhos da Maré:
a turma 302 do CIEP Samora Machel
e a organização social do espaço
Autor: Lucia Maria Cardoso de Souza
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 7/3/2006
83 TÍTULO: Os ciganos de calon do Catumbi:
ofício, etnografia e memória urbana
Autor: Mirian Alves de Souza
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 9/3/2006
84 TÍTULO: Disque-denúncia: a arma do cidadão.
Processos de construção da verdade
a partir da experiência da Central
Disque-denúncia do Rio de Janeiro
Autor: Luciane Patrício Braga de Moraes
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 9/3/2006
85 TÍTULO: Quando o peixe morre pela boca:
Os “casos de polícia” na Justiça Federal
Argentina na cidade de Buenos Aires
Autor: Lucía Eilbaum
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 10/3/2006
86 TÍTULO: A dádiva no mundo contemporâneo:
um estudo do dom monádico
Autor: Fabiano Nascimento
Orientador: Prof
a
Dr
a
Lívia Martins Pinheiro Neves
Data da defesa: 10/3/2006
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
237
87 TÍTULO: A fumaça da discórdia: da regulação
do consumo e o consumo de cigarros
Autor: Patrícia da Rocha Gonçalves
Orientador: Prof
a
Dr
a
Lívia Martins Pinheiro Neves
Data da defesa: 10/3/2006
88 TÍTULO: Família, redes de sociabilidade
e casa própria: um estudo etnográfico
em uma cooperativa habitacional em
São Gonçalo, RJ
Autor: Michelle da Silva Lima
Orientador: Prof
a
Dr
a
Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 10/3/2006
89 TÍTULO: Identidade, conhecimento e poder
na comunidade muçulmana
do Rio de Janeiro
Autor: Gisele Fonseca Chagas
Orientador: Prof. Dr. Paulo Gabriel Hilu Pinto da Rocha
Data da defesa: 10/3/2006
90 TÍTULO: Comércio ambulante na cidade
do Rio de Janeiro: a apropriação
do espaço público
Autor: Marcelo Custódio da Silva
Orientador: Prof. Dr. José Sávio Leopoldi
Data da defesa: 10/3/2006
91 TÍTULO: Revitalização urbana em Niterói:
uma visão antropológica.
Autor: André Amud Botelho
Orientador: Profª Drª Laura Graziela F. F. Gomes
Data de defesa: 31/03/2006
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 219-238, 2. sem. 2006
238
92 TÍTULO: Educandos e os educadores:
Imagens Refletidas. Estudo
do processo de constituição
de categoria ocupacional
Autor: Arlete Inácio dos Santos
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data de defesa: 28/04/2006
93 TÍTULO: Sobre a disciplina no futebol
brasileiro – uma abordagem pela
Justiça Desportiva Brasileira
Autor: André Gil Ribeiro de Andrade
Orientador: Profª Drª Simoni Lahud Guedes
Data de defesa: 25/05/2006
94 TÍTULO: Polícia para quem precisa: um estudo sobre
tutela e repressão do GPAE no Morro do
Cavalão (Niterói)
Autor: Sabrina Souza da Silva
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data de defesa: 30/06/2006
95 TÍTULO: Mobilidade espacial e campesinato:
gestão de alternativas escassas
Autor: Gil Almeida Félix
Orientadora: Prof
a
Dr
a
Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 30/06/2006
ARTIGOS PUBLICADOS
Revista Antropolítica
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
241
Revista n
o
1– 2
o
semestre de 1996
Artigos
Brasil: nações imaginadas
José Murilo de Carvalho
Brasileiros e argentinos em Kibbutz: a diferença continua
Sonia Bloomfeld Ramagem
Mudança social: exorcizando fantasmas
Delma Pessanha Neves
Ostras e pastas de papel: meio ambiente e a mão invisível do mercado
José Drummond
Conferências
Algumas considerações sobre o estado atual da antropologia no Brasil
Otávio Velho
That deadly pyhrronic poison a tradição cética e seu legado para a teoria política
moderna
Renato Lessa
Resenha
Uma antropologia no plural: três experiências contemporâneas. Marisa G. Pei-
rano
Laura Graziela F. F. Gomes
Revista n
o
2 – 1
o
semestre de 1997
Artigos
Entre a escravidão e o trabalho livre: um estudo comparado de Brasil e Cuba
no século XIX
Maria Lúcia Lamounier
O arco do universo moral
Joshua Cohen
A posse de Goulart: emergência da esquerda e solução de compromisso
Alberto Carlos de Almeida
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
242
In córpore sano: os militares e a introdução da educação física no Brasil
Celso Castro
Neoliberalismo, racionalidade e subjetividade coletiva
José Maurício Domingues
Do “retorno do sagrado” às “religiões de resultado”: para uma caracterização das
seitas neopentecostais
Muniz Gonçalves Ferreira
Resenhas
As noites das grandes fogueiras – uma história da coluna Prestes
José Augusto Drummond
Os sertões: da campanha de Canudos, Euclides da Cunha; O sertão prometido: massacre
de Canudos no nordeste brasileiro
Terezinha Maria Scher Pereira
Revista n
o
3 – 2
o
semestre de 1997
Artigos
Cultura, educação popular e escola pública
Alba Zaluar e Maria Cristina Leal
A política estratégica de integração econômica nas Américas
Gamaliel Perruci
O direito do trabalho e a proteção dos fracos
Miguel Pedro Cardoso
Elites profssionais: produzindo a escassez no mercado
Marli Diniz
A “Casa do Islã”: igualitarismo e holismo nas sociedades muçulmanas
Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto
Quando o amor vira fcção
Wilson Poliero
Resenha
Nós, cidadãos, aprendendo e ensinando a democracia: a narrativa de uma ex-
periência de pesquisa
Angela Maria Fernandes Moreira-Leite
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
243
Revista n
o
4 – 1
o
semestre de 1998
Artigos
Comunicação de massa, cultura e poder
José Carlos Rodrigues
A sociologia diante da globalização: possibilidades e perspectivas da sociologia
da empresa
Ana Maria Kirschner
Tempo e confito: um esboço das relações entre as cronosofas de Maquiavel e
Aristóteles
Raul Francisco Magalhães
O embate das interpretações: o confito de 1858 e a lei de terras
Márcia Maria Menendes Motta
Os terapeutas alternativos nos anos 90: uma nova profssão?
Fátima Regina Gomes Tavares
Resenha
Auto-subversão
Gisálio Cerqueira Filho
Revista n
o
5 – 2
o
semestre de 1998
Artigos
Jornalistas: de românticos a profssionais
Alzira Alves de Abreu
Mudanças recentes no campo religioso brasileiro
Cecília Loreto Mariz e Maria das Dores Campos Machado
Pesquisa antropológica e comunicação intercultural: novas discussões sobre an-
tigos problemas.
José Sávio Leopoldi
Três pressupostos da facticidade dos problemas públicos ambientais
Marcelo Pereira de Mello
Duas visões acerca da obediência política: racionalidade e conservadorismo
Maria Celina D’Araújo
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
244
Revista n
o
6 – 1
o
semestre de 1999
Artigos
Palimpsestos estéticos y espacios urbanos: de la razón práctica a la razón sensi-
ble
Jairo Montoya Gómez
Trajetórias e vulnerabilidade masculina
Ceres Víctora e Daniela Riva Knauth
O sujeito da “psiquiatria biológica” e a concepção moderna de pessoa
Jane Araújo Russo, Marta F. Henning
Os guardiães da história: a utilização da história na construção de uma identidade
batista brasileira
Fernando Costa
A escritura das relações sociais: o valor cultural dos “documentos” para os tra-
balhadores
Simoni Lahud Guedes
A Interdisciplinaridade e suas (im)pertinências
Marcos Marques de Oliveira
Revista n
o
7 – 2
o
semestre de 1999
Artigos
Le geste pragmatique de la sociologie française. Autour des travaux de Luc Bol-
tanski et Laurent Thévenot
Marc Breviglieri e Joan Stavo-Debauge
Economia e política na historiografa brasileira
Sonia Regina de Mendonça
Os paradoxos das políticas de sustentabilidade
Luciana F. Florit
Risco tecnológico e tradição: notas para uma antropologia do sofrimento
Glaucia Oliveira da Silva
Trabalho agrícola: gênero e saúde
Delma Pessanha Neves
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
245
Revista n
o
8 – 1
o
semestre de 2000
Artigos
Prolegômenos sobre a violência, a polícia e o Estado na era da globalização
Daniel dos Santos
Gabriel Tarde: Le monde comme féerie
Isaac Joseph
Estratégias coletivas e lógicas de construção das organizações de agricultores no
Nordeste
Eric Sabourin
Cartórios: onde a tradição tem registro público
Ana Paula Mendes de Miranda
Do pequi à soja: expansão da agricultura e incorporação do Brasil central
Antônio José Escobar Brussi
Resenha
Terra sob água – sociedade e natureza nas várzeas amazônicas
José Augusto Drummond
Revista n
o
9 – 2
o
semestre de 2000
Artigos
Desenvolvimento económico, cultural e complexidade
Adelino Torres
The feld training project: a pioneer experiment in feld work methods: Everett
C. Hughes, Buford H. Junker and Raymond Gold’s re-invention of Chicago feld
studies in the 1950’s
Daniel Cefaï
Cristianismos amazônicos e liberdade religiosa: uma abordagem
histórico-antropológica
Raymundo Heraldo Maués
Poder de policía, costumbres locales y derechos humanos en Buenos Aires
de los 90
Sofía Tiscornia
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
246
A visão da mulher no imaginário pentecostal
Marion Aubrée
Resenha
Refexões antropológicas em tópicos flosófcos
Eliane Cantarino O’Dwyer
Revista n
o
10/11 – 1
o
/2
o
semestres de 2001
Artigos
Profssionalismo e mediação da ação policial
Dominique Monjardet
The plaintiff – a sense of injustice
Laura Nader
Religião e política: evangélicos na disputa eleitoral do Rio de Janeiro
Maria das Dores Campos Machado
Um modelo para morrer: última etapa na construção social contemporânea da
pessoa?
Rachel Aisengart Menezes
Torcidas jovens: entre a festa e a briga
Rosana da Câmara Teixeira
O debate sobre desenvolvimento entre o Brasil e os EUA na década de cinqüen-
ta
W. Michael Weis
El individuo fragmentado y su experiencia del tiempo
Carlos Rafael Rea Rodríguez
Igreja do Rosário: espaço de negros no Rio Colonial
Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros
In nomine pater: a ciência política e o teatro intimista de A. Strindberg
Gisálio Cerqueira Filho
Terra: dádiva divina e herança dos ancestrais
Osvaldo Martins de Oliveira
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
247
Resenha
Estado e reestruturação produtiva
Maria Alice Nunes Costa
Revista n
o
12/13 – 1
o
/2
o
semestres de 2002
Artigos
Transição democrática e forças armadas na América Latina
Maria Celina D’Araújo
Mercado, coesão social e cidadania
Flávio Saliba Cunha
Cultura local y la globalización del beber. De las taberneras en Juchitan, Oaxaca
(México)
Sergio Lerin Piñón
Romaria e missão: movimentos sociorreligiosos no sul do Pará
Maria Antonieta da Costa Vieira
“O estrangeiro” em “campo”: atritos e deslocamentos no trabalho antropológi-
co
Patrice Schuch
A transmissão patrimonial em favelas
Alexandre de Vasconcelos Weber
A sociabilidade dos trabalhadores da fruticultura irrigada do platô de Neópolis/
SE
Dalva Maria da Mota
A beleza traída: percepção da usina nuclear pela população de Angra dos Reis
Rosane M. Prado
Povos indígenas e ambientalismo – as demandas ecológicas de índios do rio
Solimões
Deborah de Magalhães Lima
Raízes antropológicas da flosofa de Montesquieu
José Sávio Leopoldi
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
248
Resenhas
A invenção de uma qualidade ou os índios que se inventa(ra)m
Mercia Rejane Rangel Batista
China’s peasants: the anthropology of a revolution
João Roberto Correia e José Gabriel Silveira Corrêa
Revista n
o
14 – 1
o
semestre de 2003
Dossiê
Esporte e modernidade
Apresentação: Simoni Lahud Guedes
Em torno da dialética entre igualdade e hierarquia: notas sobre as imagens
e representações dos Jogos Olímpicos e do futebol no Brasil
Roberto DaMatta
Transforming Argentina: sport, modernity and national building
in the periphery
Eduardo P. Archetti
Futebol e mídia: a retórica televisiva e suas implicações na identidade nacional,
de gênero e religiosa
Carmem Sílvia Moraes Rial
Artigos
As concertações sociais na Europa dos anos 90: possibilidades e limites
Jorge Ruben Biton Tapia
A (re)construção de identidade e tradições: o rural como tema e cenário
José Marcos Froehlich
A pílula azul: uma análise de representações sobre masculinidade em face
do viagra
Rogério Lopes Azize e Emanuelle Silva Araújo
Homenagem
René Armand Dreifuss
por Eurico de Lima Figueiredo
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
249
Revista n
o
15 – 2
o
semestre de 2003
Dossiê
Maneiras de beber: proscrições sociais
Apresentação: Delma Pessanha Neves
Entre práticas simbólicas e recursos terapêuticos: as problemáticas de um itine-
rário de pesquisa
Sylvie Fainzang
Alcoólicos anônimos: conversão e abstinência terapêutica
Angela Maria Garcia
“Embriagados no Espírito Santo”: refexões sobre a experiência pentecostal e o
alcoolismo
Cecília L. Mariz
Artigos
Visões de mundo e projetos de trabalhadores qualifcados de nível médio em seu
diálogo com a modernidade tardia
Suzana Burnier
O povo, a cidade e sua festa: a invenção da festa junina no espaço urbano
Elizabeth Christina de Andrade Lima
Antropologia e clínica – o tratamento da diferença
Jaqueline Teresinha Ferreira
Mares e marés: o masculino e o feminino no cultivo do mar
Maria Ignez S. Paulilo
Resenhas
Antropologia e comunicação: princípios radicais
José Sávio Leopoldi
Politizar as novas tecnologias: o impacto sócio-técnico da informação digital e
genética
Fátima Portilho
Criminologia e subjetividade no Brasil
Wilson Couto Borges
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
250
Revista n
o
16 – 1
o
semestre de 2004
Homenagem
Luiz de Castro Faria: o professor emérito
por Felipe Berocan da Veiga
Dossiê
Políticas públicas, direito(s) e justiça(s) – perspectivas comparativas
Apresentação: Roberto Kant de Lima
Drogas, globalização e direitos humanos
Daniel dos Santos
Detenciones policiales y muertes administrativas
Sofía Tiscornia
Os ilegalismos privilegiados
Fernando Acosta
Artigos
Estado e empresários na América Latina (1980-2000)
Álvaro Bianchi
O desamparo do indivíduo moderno na sociologia de Max Weber
Luis Carlos Fridman
A construção social dos assalariados na citricultura paulista
Marie Anne Najm Chalita
As arenas iluminadas de Maringá: refexões sobre a constituição
de uma cidade média
Simone Pereira da Costa
Resenhas
Ética e responsabilidade social nos negócios
Priscila Ermínia Riscado
Novas experiências de gestão pública e cidadania
Daniela da Silva Lima
Uma ciência da diferença: sexo e gênero
Fernando Cesar Coelho da Costa
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
251
Revista n
o
17 – 2
o
semestre de 2004
Dossiê
Por uma antropologia do consumo
Apresentação: Laura Graziela Gomes e Lívia Barbosa
Pobreza Da Moralidade
Daniel Miller
O consumidor artesão: cultura, artesania e consumo em uma
Sociedade Pós-Moderna
Colin Campbell
Por uma sociologia da embalagem
Franck Cochoy
Artigos
A Antropologia e as políticas de desenvolvimento: algumas orientações
Jean-François Baré
Arquivo público: Um segredo bem guardado?
Ana Paula Mendes de Miranda
A concepção da desigualdade em Hobbes, Locke e Rousseau
Marcelo Pereira de Mello
Associativismo em rede: uma construção identitária em territórios
de agricultura familiar
Zilá Mesquita e Márcio Bauer
Depois de Bourdieu: as classes populares em algumas
abordagens sociológicas contemporâneas
Antonádia Borges
Resenhas
Modération et sobriété. Études sur les usages sociaux de l’alcool
Fernando Cordeiro Barbosa
Governança democrática e poder local: A experiência dos
conselhos municipais no Brasil
Débora Cristina Rezende de Almeida
Uma ciência da diferença: sexo e gênero
Fernando Cesar Coelho da Costa
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
252
Revista n
o
18 – 1
o
semestre de 2005
Dossiê
Responsabilidade social das empresas, segundo as Ciências Sociais
Apresentação: Eduardo R. Gomes
Responsabilidade social e globalização:
redefnindo o papel das empresas transnacionais no Brasil
Letícia Helena Medeiros Veloso
A modernização de valores nas relações contratuais:
a ética de reparação antecede o dever de responsabilidade?
Paola Cappellin
Business, politics and the surge of corporate
social responsibility in Latin America
Felipe Agüero
Artigos
Xamanismo e renovação carismática católica em uma povoação de
pescadores no litoral da Amazônia Brasileira: questões de religião e
de gênero
Raymundo Heraldo Maués e Gisela Macambira Villacorta
Conexões transnacionais: redes de Advocacy,
cooperação Norte-Sul e as ONGs latino-americanas
Pedro Jaime
Parentesco e política no Rio Grande do Sul
Igor Gastal Grill
Diversidade e equilíbrio assimétrico: discutindo governança
econômica e lógica institucional na União Européia
Eduardo Salomão Condé
Homenagem
Eduardo P. Archetti (1943-2005) In Memoriam
Pablo Alabarces
Resenha
Livro: O desafo da colaboração: práticas de
responsabilidade social entre empresas e Terceiro Setor
Rosa Maria Fischer
Autora da resenha: Daniela Lima Furtado
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
253
Revista n
o
19 – 2
o
semestre de 2005
Dossiê
Fronteiras e passagens: fuxos culturais e a construção da etnicidade
Apresentação: Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto
Eliane Cantarino O’Dwyer
Etnicidade e o conceito de cultura
Fredrik Barth
Etnicidade e nacionalismo religioso entre os curdos da Síria
Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto
Entre iorubas e bantos:
a infuência dos estereótipos raciais nos estudos afro-americanos
Stefania Capone
Os quilombos e as fronteiras da Antropologia
Eliane Cantarino O’Dwyer
Artigos
Engajamento associativo/sindical e recrutamento de elites políticas:
“empresários” e “trabalhadores” no período recente no Brasil
Odaci Luiz Coradini
Crônicas da pátria amada:
futebol e identidades brasileiras na imprensa esportiva
Édison Gastaldo
O duro, a pedra e a lama: a etnotaxonomia e o artesanato
da pesca em Ponta Grossa dos Fidalgos
Arno Vogel e José Colaço Dias Neto
De antas e outros bichos: expressão do conhecimento nativo
Jane Felipe Beltrão e Gutemberg Armando Diniz Guerra
Resenha
Livro: A revolução urbana
Henri Lefèbvre
Autor da resenha: Fabrício Mendes Fialho
Livro: Ser polícia, ser militar. O curso de formação na socialização
do policial militar
Fernanda Valli Nummer
Autora da resenha: Delma Pessanha Neves
Livro: Refexões sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches
Bruno Latour
Autora da resenha: Verlan Valle Gaspar Neto
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 241-254, 2. sem. 2006
254
Revista n
o
20 – 1
o
semestre de 2006
Dossiê
Antropologia, mídia e construção social da realidade
Apresentação: Laura Graziela Figueiredo Fernandes Gomes
“cantando espalharei por toda a parte,
se a tanto me ajudar engenho e arte”: propaganda, técnicas de
vendas E consumo no Rio de Janeiro (1850-1870)
Almir El Kareh
Identidades flexíveis como dispositivo disciplinar:
algumas hipóteses sobre publicidade e ideologia em sociedades
“pós-ideológicas”
Vladimir Safatle
Remediação e linguagens publicitárias nos meios digitais
Vinícius Andrade Pereira
Artigos
O sorriso da lua
Eli Bartra
Alimentos transgênicos, incerteza científica e percepções de risco:
Leigos com a palavra
Renata Menasche
Técnicos e usuários em programas de assistência social:
encontros e desencontros
Heloísa Helena Salvatti Paim
A economia moral do extrativismo no médio rio negro:
Aviamento, alteridade e relações interétnicas na amazônia
Sidnei Peres
Educação e ruralidades: por um olhar pesquisante plural
Jadir De Morais Pessoa
Resenhas
Livro: Buenos vecinos, malos políticos: Moralidad y política
en el gran Buenos Aires. Buenos Aires: Prometeo, 2004. 283 p.
Sabina Frederic
Autor da resenha: Fernanda Maidana
Resenhando o conceito de “Double Bind” de Gregory Bateson
em seis autores das ciências humanas contemporâneas
Autora da resenha: Mônica Cavalcanti Lepri
Notícias do PPGA
Relação de dissertações defendidas no PPGA
Revista Antropolítica: números e artigos publicados
Coleção Antropologia e Ciência Política (livros publicados)
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 255-257, 2. sem. 2006
255
COLEÇÃO ANTROPOLOGIA
1. Os fornecedores de cana e o Estado intervencionista
Delma Pessanha Neves
2. Devastação e preservação ambiental no Rio de Janeiro
José Augusto Drummond
3. A predação do social
Ari de Abreu Silva
4. Assentamento rural: reforma agrária em migalhas
Delma Pessanha Neves
5. A antropologia da academia: quando os índios somos nós
Roberto Kant de Lima
6. Jogo de corpo: um estudo de construção social de trabalhadores
Simoni Lahud Guedes
7. A qualidade de vida no Estado do Rio de Janeiro
Alberto Carlos Almeida
8. Pescadores de Itaipu (Série Pesca no estado do Rio de Janeiro)
Roberto Kant de Lima
9. Sendas da transição
Sylvia França Schiavo
10. O pastor peregrino
Arno Vogel
11. Presidencialismo, parlamentarismo e crise política no Brasil
Alberto Carlos Almeida
12. Um abraço para todos os amigos: algumas considerações sobre
o tráfco de drogas no Rio de Janeiro
Antônio Carlos Rafael Barbosa
13. Escritos exumados – 1: espaços circunscritos – tempos soltos
L. de Castro Faria
14. Violência e racismo no Rio de Janeiro
Jorge da Silva
15. Novela e sociedade no Brasil
Laura Graziela Figueiredo Fernandes Gomes
16. O Brasil no campo de futebol: estudos antropológicos sobre os
signifcados do futebol brasileiro
Simoni Lahud Guedes
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 255-257, 2. sem. 2006
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17. Modernidade e tradição: construção da identidade
social dos pescadores de Arraial do Cabo (RJ)
(Série Pesca no estado do Rio de Janeiro)
Rosyan Campos de Caldas Britto
18. As redes do suor – a reprodução social dos trabalhadores da
pesca em Jurujuba (Série Pesca no estado do Rio de Janeiro)
Luiz Fernando Dias Duarte
19. Escritos exumados – 2: dimensões do conhecimento antropoló-
gico
L. de Castro Faria
20. Seringueiros da Amazônia: dramas sociais e o olhar antropológi-
co (Série Amazônia)
Eliane Cantarino O’Dwyer
21. Práticas acadêmicas e o ensino universitário
Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto
22. “Dom”, “Iluminados” e “Figurões”: um estudo sobre a repre-
sentação da oratória no Tribunal do Júri do Rio de Janeiro
Alessandra de Andrade Rinaldi
23. Angra I e a melancolia de uma era
Gláucia Oliveira da Silva
24. Mudança ideológica para a qualidade
Miguel Pedro Alves Cardoso
25. Trabalho e residência: estudo das ocupações de empregada do-
méstica e empregado de edifício a partir de migrantes “nordes-
tinos”
Fernando Cordeiro Barbosa
26. Um percurso da pintura: a produção de identidades de artista
Lígia Dabul
27. A sociologia de Talcott Parsons
José Maurício Domingues
28. Da anchova ao salário mínimo: uma etnografa
sobre injunções de mu dança social em Arraial do Cabo/RJ
(Série Pesca no estado do Rio de Janeiro)
Simone Moutinho Prado
29. Centrais sindicais e sindicatos no Brasil dos anos 90:
o caso Niterói
Fernando Costa
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 255-257, 2. sem. 2006
257
30. Antropologia e direitos humanos (Série Direitos Humanos)
Regina Reyes Novaes e Roberto Kant de Lima
31. Os companheiros – trabalho e sociabilidade na pesca de
Itaipu/RJ (Série Pesca no estado do Rio de Janeiro)
Elina Gonçalves da Fonte Pessanha
32. Festa do Rosário: iconografa e poética de um rito
Patrícia de Araújo Brandão Couto
33. Antropologia e direitos humanos 2 (Série Direitos Humanos)
Roberto Kant de Lima
34. Em tempo de conciliação
Angela Moreira-Leite
35. Floresta de símbolos – aspectos do ritual Ndembu
Victor Turner
36. Produção da verdade nas práticas judiciárias criminais brasilei-
ras: uma perspectiva antropológica de um
processo criminal
Luiz Figueira
37. Ser polícia, ser militar: o curso de formação
na socialização do policial militar
Fernanda Valli Nummer
38. Antropologia e direitos humanos 3
Roberto Kant de Lima (Organizador)
39. Os caminhos do leão: uma etnografa do processo de cobrança
do imposto de renda
Gabriela Maria Hilu da Rocha Pinto
40. Antropologia – escritos exumados 3 – Lições de um praticante
L. de Castro Faria
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 259-260, 2. sem. 2006
259
Normas de apresentação de trabalhos
1. A revista Antropolítica, do programa de Pós-Graduação em
Antropologia da UFF, aceita originais de artigos e resenhas
de interesse das Ciências Sociais e da Antropologia em parti-
cular.
2. Os textos serão submetidos aos membros do Conselho Editorial
e/ou a pareceristas externos, que poderão sugerir ao autor
modifcações de estrutura ou conteúdo.
3. Os textos não deverão exceder 25 páginas, no caso dos artigos,
e 8 páginas, no caso das resenhas. Eles devem ser apresentados
em duas cópias impressas em papel A4 (210 x 297 mm), espaço
duplo, em uma só face de papel, bem como em disquete ou
CD no programa Word for Windows, em fonte Times New
Roman (corpo 12), sem qualquer tipo de formatação, a não
ser:
• indicação de caracteres (negrito e itálico);
• margens de 3cm;
• recuo de 1cm no início do parágrafo;
• recuo de 2cm nas citações; e
• uso de itálico para termos estrangeiros e títulos de livros
e periódicos.
4. As citações bibliográfcas serão indicadas no corpo do texto,
entre parênteses, com as seguintes informações; sobrenome
do autor em caixa alta; vírgula; data da publicação; vírgula;
abreviatura de página (p.) e o número desta.
(Ex.: PEREIRA, 1996, p. 12-26)
5. As notas explicativas, restritas ao mínimo indispensável, deve-
rão ser apresentadas no fnal do texto.
6. As referências bibliográfcas deverão ser apresentadas no fnal
do texto, obedecendo às normas da ABNT (NBR-6023).
Livro:
MARX, Karl. Manuscritos econômico-flosófcos e outros textos escolhidos.
2. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. 208p. (Os Pensadores,
6)
ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 21, p. 259-260, 2. sem. 2006
260
LÜDIKE, Menga, ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação:
abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.
FRANÇA, Junia Lessa et al. Manual para normalização de publica-
ções técnico-científcas. 3. ed. ver. e aum. Belo Horizonte: Ed.
da UFMG, 1996, 191 p.
Artigo:
ARRUDA, Mauro. Brasil: é essencial reverter o atraso. Panorama
da Tecnologia, Rio de Janeiro, v. 3, n.8, p. 4-9, 1989.
Trabalhos apresentados em eventos:
AGUIAR, C. S. A. L. et. al. Curso de técnica da pesquisa biblio-
gráfca: programa-padrão para a Universidade de São Paulo.
In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA
E DOCUMENTAÇÃO, 9., 1977, Porto Alegre. Anais... Porto
Alegre: Associação Rio-Grandense de Bibliotecários, 1977.
p. 367-385.
7. As ilustrações deverão ter a qualidade necessária para uma
boa reprodução gráfca. Elas deverão ser identifcadas com
título ou legenda e designadas, no texto, como fgura (Figura
1, Figura 2 etc.)
8. Os textos deverão ser acompanhados de título e resumo (má-
ximo 250 palavras) em português e inglês, bem como de 3 a
5 palavras-chave também em português e em inglês.
9 Os textos deverão ser precedidos de identifcação do autor
(nome, instituição de vínculo, cargo, título, últimas publicações
etc.), que não ultrapasse 5 linhas.
10. Os colaboradores na modalidade artigos terão direito a
três exemplares da revista; e na modalidade resenha, a um
exemplar.
11. Os originais não aprovados não serão devolvidos.
12. Os artigos, resenhas e demais correspondências deverão ser
enviados para:
Comitê Editorial da Antropolítica
Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Campus do Gragoatá, Bloco “O”, sala 325
24210-350 - Niterói, RJ
Tels.: (021) 2629-2866
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