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Universidade de São Paulo

Escola de Comunicações e Artes




Resenha – Jamais fomos modernos: Ensaio de Antropologia Simétrica, de Bruno
Latour




Mayara Sanches de Oliveira




Trabalho apresentado à disciplina de
Pesquisa de Opinião Publica, ministrada
pelo Prof. Erick Roza.



São Paulo, 2011
I. Sobre o autor
Bruno Latour é um filósofo e antropólogo Francês, nascido em 22 de junho de
1947. Foi professor universitário em Londres e Paris, onde leciona atualmente e é
vice-presidente de pesquisa em uma universidade.
Foi aluno de Michel Serres, que teve grande influência em sua obra. Serres
fala sobre o “contrato natural”, e acreditava que a relação entre humanidade e o
meio ambiente, em seu momento histórico, estava sendo negligenciada.
Latour é um grande crítico da modernidade; busca romper com a ideia de
antropocentrismo. Acredita que os pós modernistas, como G. Vattimo, ao deslocar o
homem e as grandes narrativas do centro de suas discussões, deixam uma lacuna;
já que afirmam que nada pode substituir o homem nesse papel, não possuem
nenhuma perspectiva de “futuro” para a humanidade.
Bruno Latour concorda com o fim do antropocentrismo e da concepção
unitária da história, mas discorda dos modernistas ao colocar a rede no centro de
seu objeto de estudo, e é esse o ponto mais marcante em sua obra. Ao lado de
autores como Michel Callon construiu a teoria do ator-rede, que considera como
atores e agentes sociais tanto elementos humanos como não-humanos, que se
encaixam como peças de uma nova antropologia simétrica, outro tema recorrente
em sua obra.








II. Sobre o que diz o livro
A ideia central do livro “Jamais Fomos Modernos” é a desconstrução do
conceito de modernidade e a proposição de um novo olhar para a sociedade que
chamamos Moderna, a que Latour denomina antropologia simétrica. Para ele, a
modernidade é uma marca que dá para as sociedades ocidentais a diferenciação
que elas “acreditam ter” perante os Outros, mas que não necessariamente se efetiva
no contexto social, político, científico e cultural em que vivemos.
A proposta do autor é contextualizar de maneira detalhada aquilo que
chamamos de modernidade, apontando suas características mais marcantes,
fundamentos e principais pontos de fraqueza, para depois analisar de maneira crítica
a política e a ciência da modernidade, dando um grande foco para a produção
científica, forte aspecto da cultura ocidental.
Latour introduz seu pensamento dando exemplos e refletindo sobre como
assuntos dos campos da “Ciência” e da “Política”, que são tratados separadamente
pela maior parte da massa crítica da modernidade, na verdade, estão diretamente
relacionados e possuem implicações que quase nunca são pensadas.
“O menor vitus da AIDS nos faz passar do sexo ao inconsciente, à África, às
culturas de células, ao DNA, a São Francisco, mas os analistas, os
pensadores, os jornalistas e todos os que tomam decisões irão cortar a fina
rede desenhada pelo vírus em pequenos compartimentos específicos, onde
encontraremos apenas ciência, apenas economia, apenas representações
sociais, apenas generalidades, apenas piedade, apenas sexo.” (LATOUR,
1994)
É dessa maneira que o autor apresenta o cenário e a mentalidade que a
sociedade moderna construiu para classificar suas áreas de conhecimento. Aqui é
introduzido o conceito de redes, o fio que liga todas essas áreas até então vistas de
maneira fragmentada. Segundo Latour (1994), a noção de redes, em comparação
com noções de sistema, estrutura e complexidade, é a mais adequada para explicar
a visão de mundo proposta por ele.
A rede é o centro da argumentação de Latour ao longo do livro, que busca
justificar a sua validade e adequação para o entendimento do conhecimento e das
disciplinas de maneira comparativa e complementar.
O autor destaca o papel do antropólogo, que possui a capacidade de
sintetizar em apenas uma área de conhecimentos (a antropologia) diversos temas
que permeiam uma sociedade, como a cultura, a política, a religião, os processos da
economia. Dessa maneira, propõe uma nova antropologia comparativa, que estude
não só a sociedades “exóticas” ou “alheias”; mas principalmente a própria sociedade
ocidental.
Contudo, afirma que, de acordo com a concepção moderna, apresentada
anteriormente (de fragmentação) não seria possível “antropologizar” a sociedade
ocidental. Para que isso fosse feito, seria preciso uma mudança na concepção de
mundo, um questionamento da nossa própria modernidade.
A vontade de ser moderno parece hesitante, algumas vezes até mesmo fora
de moda. (...) E se jamais tivermos sido modernos? A antropologia
comparada se tornaria então possível. As redes encontrariam um lar.
(LATOUR, 1994)
Depois de apresentar tal questionamento, Latour coloca seus esforços na
explicação do que pode ser então algo “moderno”. Para ele, a modernidade vem
apresentada por dois conceitos que, por serem excludentes, possuem forte
capacidade de se complementar:
- O primeiro deles é o de “tradução”, que traz misturas de gêneros e
disciplinas e proporciona a hibridização de seres em natureza e cultura.
- O segundo é o de “purificação”, que traz a criação de zonas completamente
excludentes e divide as coisas do mundo em “humanos” e “não-humanos”.
O primeiro conceito dá base a um conjunto de práticas que se enquadram no
conceito de redes. O segundo, se relaciona diretamente à crítica às redes pelos
considerados modernos. Latour afirma que, enquanto estas idéias forem encaradas
de maneira separada, ainda estará em vantagem a modernidade e sua ideologia
fragmentária.
O autor propõe que a sociedade ocidental desenvolveu um “modelo” em que
estas duas visões de mundo caminham juntas. Ima não impera sobre a outra, mas
elas se tornam complementares a medida que não é possível tomar consciência da
hibridização trazida pela “tradução” sem antes compreender as categorias criadas
pela “purificação”.
A hipótese é que, caso tomemos consciência dessa mistura de “tradução” e
“purificação” deixaremos não somente de ser modernos, mas também de “ter sido”
modernos, porque conseguiremos enxergar toda a nossa bagagem e conhecimento
com um novo olhar; um olhar que não enxerga relações conflituosas com outras
culturas e classes, mas consegue explicar a complementaridade e enxergar valor
nas diferenças.
Essa movimentação entre “tradução” e “purificação” estão envolvidos no que
Latour chama de “Constituição Moderna”. Esta seria a limitação entre o que é
humano e o que não é humano, entre o que é social e o que é natural (a política e a
ciência).
Para ilustrar essa divisão e complementaridade, Latour se apóia em um livro
de Shapin e Shaffer que trata de um aparente conflito de idéias, uma polêmica entre
as visões de Boyle e Hobbes. De acordo com o autor, na realidade, as visões de
mundo do cientista e do cientista político são muito parecidas em diversos sentidos,
mas divergem em questões centrais sobre a ciência:
Ambos desejam um rei, um parlamento, uma Igreja dócil e unificada, e são
adeptos fervorosos da teoria mecanicista. Mas ainda que ambos sejam
profundamente racionalistas, suas opiniões divergem quanto àquilo que deve
ser esperado da experimentação, do raciocínio científico, das formas de
argumentação política e, sobretudo, da bomba de ar, verdadeiro herói da
história. (LATOUR, 1994)
A discussão entre as crenças destes dois cientistas se mostra como a chave
para o que Latour apresenta como a constituição do mundo moderno. Aqui,
conseguimos perceber um rico contraste de idéias: de um lado Boyle, com
afirmando o valor da experiência controlada, na reprodução de fenômenos em
laboratório; de outro, Hobbes, com a representação política por meio de socialização
e contrato social.
Uma das idéias apresentadas é que, assim como a política possui os
governantes como “porta vozes” da sociedade, a ciência apresenta os cientistas
como “intérpretes oficiais” dos assuntos que cabem a essa disciplina. De acordo
com isso, da mesma forma que pessoas podem ser testemunhas de um fato e
provar a sua veracidade para outros que não o presenciaram, elementos não-
humanos (instrumentos da técnica, da natureza, objetos) podem ser testemunhas
para a comprovação de teorias científicas.
Por esse motivo, esses instrumentos da técnica possuem o poder de
influenciar a sociedade, a política, a natureza. Assim, podem ser considerados
atores dessa rede “sociotécnica”, que interliga os elementos humanos e os não-
humanos. Da mesma maneira que as pessoas, a “bomba de váculo” de Boyle
também é um ator.
Além disso, sobre a Constituição da modernidade, é necessário considerar
dois paradoxos para conseguir medir as garantias que a constituição proposta pode
dar. O primeiro se apresenta quando as idéias de Boyle e Hobbes são enxergadas
de maneira totalmente distinta, “purificadas”:
- Os descendentes de Boyle acreditam em um poder natural e afirmam que
não foi o homem que criou a natureza, que ela é transcendente e o homem apenas
interage com ela e descobre seus segredos;
- Os seguidores de Hobbes acreditam em um poder político e afirmam que a
sociedade é criada pelo homem por meio de suas ações e escolhas, suas
deliberações sobre o destino dela. Assim, a sociedade é imanente ao homem.
Essa concepção é o que dá base para acreditar-se no “poder e fala” de
elementos não humanos por parte do poder natural e da capacidade de
representação de homens que não poderiam falar por si por um representante
quando se trata do poder político.
Quando se enxerga essas duas vertentes juntas, o cenário se inverte e surge
um segundo paradoxo:
- Para os seguidores de Boyle, não só as leis da natureza escapam do
controle humano, mas elas podem ser fabricadas no laboratório. A natureza se
apresente como imanente ao homem.
- Para os seguidores de Hobbes, não somente os homens são capazes de
criar sua própria sociedade, mas eles só existem e são da maneira como são pela
ação dela. A sociedade se apresenta como transcendente, até anterior ao homem
Olhando dessa maneira, tais proposições parecem contraditórias não
somente uma em relação a outra, mas todas em relação a si próprias. Com isso, a
Constituição nos apresenta quatro garantias principais, que são interdependentes e
complementares entre si:
1. “Ainda que sejamos nós que construímos a natureza, ela funciona como
se nós não a construíssemos”;
2. “Ainda que não sejamos nós que construímos a sociedade, ela funciona
como se nós a construíssemos”;
3. “A natureza e a sociedade devem permanecer absolutamente distintas; o
trabalho de „purificação‟ deve permanecer absolutamente distinto do
trabalho de „mediação‟.”;
4. Deus não está mais presente na esfera pública, mas em uma esfera
íntima. Assim, é possível balancear fontes de poder, transitando entre a
força natural e a política sem problema algum. Com isso, promove-se a
purificação total entre o que é natural e o que é político.
Latour propõe, assim, que para conseguir aplicar a sua Antropologia
comparada seria necessária uma simetria no sentido de purificação, não utilizando
elementos sociais para explicar as coisas na natureza e nem elementos científicos
para estudar a política. Assim, seria possível não somente uma equiparação, mas o
apontamento de assimétricas e diferenças entre os dois campos por meio da
comparação.
O autor observa que, para um estudo antropológico da sociedade ocidental,
seria natural que os estudiosos tendessem a analisar comunidades e grupos sociais
“marginalizados”, e não o centro do mundo moderno. Sendo assim, sugere que
numa antropologia do mundo ocidental o que deveria se estudar é uma totalidade, a
mesma que se estuda nas sociedades “não-modernas”.
Para que a antropologia possa ser aplicada ao mundo moderno, é preciso
que:
“se suspenda toda e qualquer afirmação a respeito daquilo que distinguiria os
ocidentais do Outro (...) [Isso] lhe permitirá estudar o dispositivo central de
todos os coletivos, até mesmo os nossos. A análise das redes estende a mão
à antropologia e lhe oferece a posição central que havia preparado para ela.”
(p. 102)
Complementando a reflexão anterior, o autor apresenta o conceito de
“separação”, que é o fato de ser enxergada pelos chamados modernos uma
diferenciação entre a sociedade ocidental e as “outras”. Esse conceito é apoiado
pela “purificação” apontando separação completa de elementos humanos e não-
humanos, já que a sociedade “moderna” é a única que consegue de certa forma
manipular e desvendar a natureza como ela é, e não apreendê-la por meio de
representações simbólicas, como fariam outras sociedades.
Outro ponto introduzido por Latour no livro é o relativismo. Para ele, existem
dois tipos de relativismo: o absoluto e o relativo. O absoluto pressuporia impossível a
comparação entre duas culturas diferentes, já que não poderia existir uma medida
absoluta capaz de mensurar as duas ao mesmo tempo.
O relativismo „relativo‟ se distancia de qualquer referência a algo absoluto.
Demonstra que ao tirar o foco das medidas é possível compreender a rede, os
instrumentos utilizados para observar e criar assimetrias e diferenças; isso porque
nada naturalmente se reduziria a uma medida se ela não tivesse sido inventada
anteriormente. Nas palavras do autor, “nada seria redutível ou irredutível a qualquer
outra coisa; nunca por si mesma, mas sempre por intermédio de uma outra que
mede e transfere a medida à coisa” (p.111).
Ao final do livro, Latour retoma sua análise e aponta as concepções que
deveríamos absorver de modernos, pré-modernos, pós-modernos e anti-modernos:
- Dos modernos, deveríamos absorver tudo, exceto a confiança quase que
fanática em sua constituição
- Dos pré-modernos, a capacidade de enxergar a hibridização e a capacidade
de multiplicação de atores não-humanos;
- Dos pós-modernos, deveríamos absorver a desconstrução, sua recusa à
natureza, o gosto pela reflexividade e a negação ao tempo homogêneo modernista;
- Dos anti-modernos, a quem chama reacionários de atitude defensiva, nada
deveríamos absorver. Latour afirma que eles são nada mais do que um reflexo dos
próprios modernos.
Após isso, propõe que sejam consideradas e guardadas as duas primeiras
garantias da Constituição moderna: a humanização da sociedade e a objetivação da
natureza. Assim, conseguiríamos guardar da ciência dos modernos não a sua frieza
e objetividade científicas, mas sua audácia, experimentação e bases para a criação
de híbridos. Com esses conceitos, seria possível restabelecer a simetria entre os
dois ramos do governo, o da ciência e o da política.





















III. Reflexões
O primeiro ponto interessante a ser destacado na obra de Latour é a intensa
relação proposta entre diversas áreas distintas do conhecimento. Com a questão da
constante troca entre “tradução” e “purificação”, da qual decorre a formação de
indivíduos híbridos, é possível estabelecer um paralelo direto com o trabalho de um
profissional de Relações Públicas.
Latour afirma que “nós mesmos somos híbridos, (...), meio engenheiros, meio
filósofos, um terço instruídos sem que o desejássemos...”(p. 9). Ao mesmo tempo, a
teoria de Relações Públicas propõe que devemos ter foco nos públicos de interesse
nas organizações para as quais trabalhamos e criar comunicações dirigidas e
adequadas a cada público.
Refletindo sobre isso, é possível perceber que a divisão entre públicos e a
criação de estratégias e comunicação que se adéqüem às características de cada
um podem ser encaradas apenas como tentativas de sistematização do trabalho. De
certa forma, o próprio conceito de público (de maneira “purificada”) pode cair por
terra, ao considerarmos que as pessoas são híbridas e não se pode reduzi-las à
mera condição de público alvo, com características específicas em comum.
Outro ponto que merece destaque especial nestas reflexões é a função de
“atores” atribuída aos instrumentos da técnica. Em se tratando de meios de
comunicação, autores como Marshal McLuhan acreditam no poder dos próprios
meios de comunicação como mediadores da relação entre o homem e o mundo e
agentes de transformação social.
Com a criação de novos meios de comunicação, especialmente os meios
digitais (que conferem instantaneidade ao processo comunicativo), há também o
surgimento de novas formas de relacionamento entre as pessoas. Nesse caso, os
meios de comunicação se tornam atores por influenciarem diretamente em aspectos
práticos da sociedade.
Outro campo tangente às Relações Públicas e que pode tirar bons frutos das
proposições de Bruno Latour é a pesquisa de opinião. Assim como defende Boyle, a
pesquisa de opinião é feita de maneira a acreditar que o resultado de um
experimento realizado em laboratório (no caso, a realização da pesquisa com uma
amostra da população) pode ser representativo de uma mesma situação que ocorra
naturalmente ou de um grupo maior de situações.
Nesse caso, os entrevistados seriam as “testemunhas confiáveis, bem
aventuradas e sinceras” que podem ajudar a comprovar ou refutar a existência de
um fato, mesmo que não o saibam diretamente. E, da mesma forma como
experiências são construídas em laboratório de acordo com os materiais utilizados e
intermediadas pelos instrumentos da prática (como a bomba de ar de Boyle), os
dados e resultados da pesquisa são criados de acordo com a sua metodologia e
temas escolhidos para a discussão e a análise é intermediada pela vivência e
percepções do pesquisador.
Em conclusão, podemos dizer que leitura de um livro como esse se mostra
bastante relevante na formação da base teórica de um curso de ciências sociais
aplicadas. Na área de comunicação social e Relações Públicas o estudo da
modernidade e suas formas sociais, com o encurtamento das relações de espaço e
tempo dado pelos meios de comunicação, é constantemente retomado. Por esse
motivo, criar bases para uma reflexão crítica sobre o que consideramos a
modernidade e como podem se dar relações sociais nesse contexto é indispensável
tanto para a realização de um bom trabalho no mercado como para a produção de
conteúdo científico na disciplina.