A Corte Europeia de Direitos Humanos conta, em sua jurisprudência

,
com alguns casos envolvendo a proibição e repressão do direito de
manifestação.
Tal direito é protegido pelo artigo 11 da Convenção Europeia de
Direitos Humanos, que prevê:

11.1) Todos tem o direito de livremente se reunir de forma pacífica
e livremente associar-se com outros, including the right to form and
join trade unions for the protection of his interests.
11.2) Nenhuma restrição deverá ser imposta no exercício destes
direitos além daquelas descritas por lei e que são necessárias para
uma sociedade democrática no que concerne à segurança nacional
ou segurança pública, para a prevenção da desordem ou de
crimes, para a proteção da saúde ou da moral ou a proteção de
direitos e liberdades de outros. This article shall not prevent the
imposition of lawful restrictions on the exercise of these rights by
members of the armed forces, of the police or of the administration
of the state.


A jurisprudência da Corte que mais se destaca sobre o tema
restringe-se a dois casos de suma importância: “Baczkowski and others v.
Poland”
1
e “Alekseyev v. Russia”
2
ambos envolvendo manifestações do
orgulho gay nos respectivos países.


1 Caso Baczkowski v. Polônia


O caso de Baczkowski, julgado em setembro de 2007, teve início
com a vontade do ativista em organizar em junho de 2005 uma marcha a fim
de alertar a opinião pública para o problema da discriminação contra minorias
sexuais, étnicas e religiosas, bem como contra mulheres e deficientes.
Contudo, após protocolar o requerimento para organização do evento junto à
Prefeitura de Warsaw, o ativista obteve uma negativa vinda do Diretor de

1
European Court of Human Rights – Case nº 1543/06: Baczowski and Others v. Poland.
Disponível em <http://archive.equal-
jus.eu/118/1/ECHR%2C_Baczkowski_and_Others_v._Poland%2C_no._1543:06.pdf>.
Acessado em 09/10/2013, às 11:41h.
2
European Court of Human Rights – Applications nºs 4916/07, 25924/08 e 14599/09:
Alekseyev v. Russia. Disponível em
<http://hudoc.echr.coe.int/sites/eng/pages/search.aspx?i=001-101257#{"itemid":["001-
101257"]}>. Acesso em 11/10/2013, às 10:45h.
Trânsito, ao argumento de que não havia sido encaminhado o “plano de
organização do trânsito”.
Com isto, o organizador enviou uma notificação de que seriam
realizadas sete manifestações em diferentes praças da cidade, as quais não
iriam se movimentar – e, portanto, não influiriam no trânsito. Porém, foram
surpreendidos mais uma vez com uma negativa. O Prefeito da cidade proibiu
a realização das manifestações novamente utilizando o argumento de que
atrapalhariam o trânsito – desta vez porque não especificaram onde os carros
de som que iriam utilizar estacionariam. Além disso, o prefeito afirmou que
outras manifestações seriam organizadas no dia em oposição aos ideais
daqueles manifestantes, o que poderia resultar em violentos conflitos.
De fato ocorreram outras manifestações no mesmo dia – 11/06/2005 –
algumas defendendo valores cristãos e uma delas contra a adoção de
crianças por casais homoafetivos.
A negativa do prefeito, contudo, não conteve os manifestantes, que
realizaram sua marcha com aproximadamente 3.000 pessoas, que contaram
com proteção policial.
Em junho de 2005 fora apresentada uma apelação ao “Comitê de
Apelação Governamental”, referente ao plano inicial de manifestação,
questionando que a exigência de envio de um plano de tráfego carece de
qualquer base legal, não podendo ser uma restrição ao direito de reunião e
que, na verdade, a negativa se deu por motivos ideológicos. O recurso foi
julgado procedente, considerando ilegal a restrição imposta.
Ainda, foram apresentadas outras apelações questionando a recusa
às “manifestações estáticas”, argumentando que estas não trariam qualquer
problema ao trânsito, bem como tinham em seus planos ser completamente
pacíficas, não representando qualquer perigo. Mais uma vez fora reconhecida
a ilegalidade no ato do Prefeito em proibir tais manifestações.
Quando inquirido pela imprensa se havia algo no requerimento de
manifestação protocolado que representasse perigo, o prefeito afirmou:


“Eu não sei, eu não li os pedidos. Mas vou proibir qualquer
demonstração, independentemente do que eles escreverem. Não
sou preconceituoso quanto à orientação sexual, (...) mas não
haverá qualquer propaganda pública sobre homossexualidade”
3
.


Ficou evidente, portanto, que não se tratava de uma questão de
segurança, mas sim uma verdadeira censura à manifestações que fossem
contra a moral do Prefeito.
Na Corte Europeia, o Governo polonês argumentou preliminarmente
que os peticionários do caso não poderiam ser considerados vítimas, na
medida em que as decisões administrativas tomadas em recurso acataram
totalmente os argumentos dos manifestantes, condenando as decisões do
prefeito, não sofrendo qualquer prejuízo pecuniário. Contudo, a Corte optou
por admitir o caso, pois tal preliminar se confundiria com o mérito.
Afirmou, ainda, que haviam outros remédios judiciais cabíveis aos
peticionários, não tendo eles esgotado as vias internas. Contudo, em
contrapartida, os manifestantes afirmaram que nenhum remédio interno foi
capaz de tratar da causa à tempo das planejadas manifestações. A Corte
entendeu que esta preliminar também se confunde com o mérito.
A Corte inicia seu julgamento de mérito afirmando que


Como esta corte já decidiu várias vezes, a democracia não é só um
componente fundamental na ordem pública europeia, mas também
a Convenção foi elaborada para promover e manter ideais e
valores de uma sociedade democrática. A Democracia, como esta
Corte já afirmou, é o único modelo político contemplado pela
Convenção e o único compatível com esta. […] A única
possibilidade de interferência nos direitos da Convenção é que seu
exercício traga prejuízo à sociedade democrática.


Quanto a aplicação do artigo 11, a Corte ressalta o papel essencial
que agremiações políticas tem em assegurar o pluralismo e a democracia.
Da mesma forma deve ser visto o papel das associações formadas com
outros propósitos, mas que também são importantes para o funcionamento
democrático. O pluralismo, segundo a Corte, é construído em um exercício
de reconhecimento e respeito pela diversidade e o dinamismo de tradições

3
Tradução livre de trecho contido na sentença da Corte Européia de Direitos Humanos.
European Court of Human Rights – Case nº 1543/06: Baczowski and Others v. Poland, p. 07.
Disponível em <http://archive.equal-
jus.eu/118/1/ECHR%2C_Baczkowski_and_Others_v._Poland%2C_no._1543:06.pdf>.
Acessado em 09/10/2013, às 11:41h.

culturais, valores étnicos, crenças religiosas e ideais artísticos, literários e
socioeconômicos. Nesta sequência, a interação harmoniosa de pessoas e
grupos com várias identidades é essencial para atingir a coesão social. É
natural que em uma sociedade civil grande a participação dos cidadãos no
processo democrático seja atingida através da participação de associações
que certos grupos integram e possuem objetivos em comum.
No que concerne ao conceito de “sociedade democrática”, a Corte faz
referência aos casos “Young, James and Webster v. the United Kingdom”, e
“Chassagnou and Others v. France”. Neste sentido ressalta a importância do
pluralism, da tolerância e do liberalismo. Neste contexto, apesar de que
interesses individuais se subordinam aos interesses do grupo, democracia
não significa que a visão da maioria deva sempre prevalecer: um equilíbrio
deve ser alcançado para atingir um justo tratamento para as minorias e evitar
abusos das posições dominantes.
Nos casos “Informationsverein Lentia and Others v. Austria”, “Ouranio
Toxo v. Greece” e “Wilson & the National Union of Journalists and Others v.
the United Kingdom” a Corte afirma que o Estado é o guardião máximo do
pluralismo. É dito que uma efetiva proteção à liberdade de associação e de
manifestação não podem ser reduzidas a um mero dever do Estado de não
interferir. Devem existir obrigações positivas ao Estado para assegurar que
tais liberdades sejam efetivadas. Esta obrigação tem importância
fundamental para pessoas que mantém uma opinião impopular, pertencendo
à minorias e sendo, portanto, mais vulneráveis a uma vitimização.
No que concerne ao caso, a Corte reconhece que as decisões de
segunda instância anularam as proibições à manifestações e, mesmo estas
tendo ocorrendo (sem autorização das autoridades), é obrigada a apontar
que tais decisões vieram somente após a realização das manifestações,
perdendo sua efetividade. Na oportunidade, os manifestantes foram às ruas
correndo o risco de sofrerem uma repressão policial, pois não tinham uma
posição oficial sobre a legalidade de seus atos, apesar da presumida
liberdade de reunião e de expressão.
A falta de autorização oficial, apesar de não conter o movimento, com
certeza trouxe uma dispersão e perda de força para este, inibindo algumas
pessoas de participarem em razão do medo de retaliação oficial instaurado.
Assim, mesmo conseguindo reverter a decisão de proibição do
prefeito, os manifestantes não tiveram um remédio efetivo para reverte-la a
tempo do ato, afastando, portanto, as preliminares alegadas pelo Estado, já
julgando, também, o mérito do caso.
Em conclusão, a Corte entende violados os direitos de reunião e livre
manifestação, o direito a um remédio efetivo e o direito de não ser
discriminado.


2 Caso Alekseyev v. Russia


O caso refere-se, como o anterior, a proibição da Marcha do Orgulho
Gay na Rússia. A marcha, organizada por Alekseyev e outros peticionários
estava prevista para 27/05/2006, acompanhando a marcha de outros países,
que visa conscientizar o público para a discriminação das minorias gay e
lésbica do país.
Já em fevereiro de 2006 o Secretário de imprensa do Prefeito de
Moscou já declarou em rede nacional que de forma alguma autorizaria a
realização da parada gay, pois não queria “provocar a sociedade, que se
enoja com estes acontecimentos na vida” e que, apesar de tentar tratar tudo
com tolerância, considera a homossexualidade como algo não-natural.
Em março de 2006, o vice-prefeito recomendou a proibição do evento,
pois este iria contra a moral e os bons costumes, além de que a proibição
atenderia o pedido de vários setores da sociedade, que não queriam ver a
promoção da homossexualidade.
Em seguida, o prefeito ordenou, com base em pedidos da sociedade,
que alguns agentes “tomassem medidas efetivas para prevenir e erradicar
qualquer ação com orientação gay direcionada ao público”. Em 15 de maio
de 2006 o peticionário informou sobre a realização da marcha no dia
planejado (27/05/2006). Três dias depois recebeu a recusa do prefeito, que
alegou possível ocorrência de desordem social, vez que vários setores da
sociedade que são contra os ideais dos manifestantes protestariam em
resposta, podendo causar violentas reações. No dia seguinte o peticionário
recorreu ao Judiciário. Outro pedido de manifestação foi enviado, também
recusado.
No dia 26 de maio de 2006, o prefeito afirmou que nenhuma marcha
gay seria permitida em Moscou, sob nenhuma circunstância enquanto ele
fosse prefeito. Afirmou estar agindo em defesa da moral e da religião do país,
bem como atendendo a vontade da maioria do país.
No mesmo dia, o Judiciário tomou uma decisão no caso, ratificando a
decisão do prefeito, sob o argumento de que a manifestação era realmente
perigosa e que assim a recusa era viável. Disse, ainda, que tal ato não
consistia em violação da liberdade de expressão, mas que os manifestantes
não mostraram nenhuma alternativa ao evento e não se demonstraram
abertos para alterar datas, horários e lugares, por exemplo. Considerou
legítima e recusa e que esta não violava os direitos do autor. O peticionário
apelou desta decisão, afirmando que é obrigação das autoridades propor
mudanças nas manifestações, e não dos organizadores.
Em 27 de maio, Alekseyev e outras pessoas participaram de uma
conferência internacional contra homofobia e anunciaram uma pequena
manifestação contra a proibição da marcha do orgulho gay em determinado
ponto da cidade. Chegando lá, o autor disse que cerca de 150 policiais
esperavam pelos manifestantes, além de 100 outros manifestantes em
protesto ao ato. Nesta data Alekseyev foi preso por desacato, uma vez que
organizou uma manifestação sem autorização legal. Enquanto isto, os
demais manifestantes prosseguiram em direção ao escritório do prefeito para
protestar. Cerca de 100 pessoas foram presas e várias saíram lesionadas
pelos policiais. Sobre este evento, o prefeito afirmou somente ter considerado
uma “provocação daqueles gays”.
Em 19 de setembro e 28 de novembro daquele ano as apelações de
Alekseyev foram julgadas improcedentes, pois consideraram a proibição das
marchas devidamente fundamentadas no argumento da segurança.
No ano seguinte, os organizadores planejaram uma nova marcha
programada para o dia 27 de maio, nos mesmos moldes da anterior.
Novamente, o prefeito recusou o pedido, com os mesmos argumentos sobre
segurança, alertando, ainda, que a realização da marcha sem autorização
deixaria os manifestantes vulneráveis.
Com a recusa, foram encaminhados outros dois pedidos para a
realização de eventos similares, também recusados e com o mesmo aviso de
que os manifestantes estariam vulneráveis caso realizassem o evento.
Em 26 de maio anunciaram que fariam no dia seguinte um pequeno
protesto e panfletagem em frente ao escritório do prefeito, mais uma vez em
oposição às proibições. No dia 27 de maio Alekseyev e outros 20
manifestantes foram detidos quando tentavam se aproximar do local. Ficaram
presos por 24 horas sob a acusação de desacato. Em 9 de junho daquele
ano o peticionário foi julgado culpado e condenado à uma multa de 1.000
rublos. A decisão foi mantida em recurso.
Em seguida, os manifestantes apelaram das três novas proibições de
manifestação, sendo as três julgadas legais pelas respectivas cortes.
Em abril de 2008 os mesmos organizadores enviaram um comunicado
de que realizariam dez marchas, similares a dos anos anteriores em 1º e 2 de
maio daquele ano. Mais uma vez, todos os pedidos foram recusados sob os
mesmos argumentos. Em resposta, os organizadores encaminharam
propostas de outras 130 marchas, facultando ao prefeito escolher aquela que
mais se adequava aos propósitos de segurança. Todas foram recusadas.
Em maio, os peticionários enviaram um pedido ao Presidente da
Rússia sobre uma marcha naquele mesmo mês, sem resposta, contudo.
Todas as recusas foram objeto de apelação, sendo todas julgadas
também improcedentes.
Quanto ao procedimento perante a Corte, a Rússia não alegou
nenhuma exceção preliminar, mas se limitou a versar sobre o mérito da
controvérsia, alegando novamente que proibiu as manifestações em respeito
à moral, bem como alegando que pela própria segurança dos manifestantes,
a melhor opção era proibir as manifestações. Trouxe opiniões da igreja e de
setores conservadores da sociedade russa que eram contra tais
manifestações.
Ao contrário do caso Baczkowski, temos uma oposição entre Estado e
peticionário sobre a legalidade das manifestações. Neste sentido, a Corte é
clara ao entender que existiam motivos morais das autoridade para justificar
a proibição das manifestações, não acolhendo a justificativa de segurança
dada pelo Estado.
Neste sentido, a Corte assevera que o direito de manifestação deve
ser protegido a todo custo e que somente mero risco de violência não é
suficiente para justificar a falta de autorização aos eventos. Apesar de
existirem, de fato, manifestações em contrário à causa gay, o Estado não
tomou qualquer providência para ajustar tais manifestações. Se o fizesse,
seria plenamente possível que ambas manifestações ocorressem
pacificamente.
Em suma, a Corte coloca que em casos como este o Estado deve, na
verdade, assegurar a segurança dos manifestantes, e não deixá-los sem
qualquer tutela, como foi o caso. Se há grupos de oposição, a polícia deve
trabalhar para evitar que hajam conflitos, e não causar os conflitos, como
ocorreu no caso, em que se baniu previamente as manifestações.
Por fim, a posição do prefeito de que não apoiaria a propaganda gay
em atenção a moral e ideias religiosos não é o suficiente para impor
restrições ao direito de manifestação. Neste sentido, retoma as
argumentações do caso Baczkowski sobre a importância do estado prezar
pelo pluralismo como elemento essencial da democracia, devendo proteger
suas minorias, reconhecendo, portanto, uma violação do direito de
manifestação.
De consequência, a Corte considera também violado o direito a um
remédio efetivo, já que o judiciário de nada serviu aos organizadores, e ainda
reitera a necessidade de que tais manifestações sejam rápidas e eficazes.
Por fim, o Estado Russo é condenado ao pagamento de uma
indenização de 12.000 euros aos peticionários, mais a reparação de todas as
custas judiciais gastas no caso.