Parentesco

*
B. Malinowski
(trad. Adriana Queiroz Testa)
I Deve o parentesco ser desumanizado por uma pseudo-l!e"ra#
Muita tinta já correu por conta do problema do sangue – “sangue” simbolizando,
na maioria das línguas humanas, e não apenas nas europeias, os laços de parentesco, isto
é, os laços derivados da procriação ! “sangue” "uase perdeu sua cor para além de
"ual"uer possibilidade de reconhecimento nesse processo Mas o sangue se rebelará
contra toda manipulação e #luirá do seu modo, mantendo sua pr$pria cor %or meio
dessa metá#ora #lorida, simplesmente "uero dizer "ue a teorização amargamente
controversa e e&travagantemente conjetural "ue desenvolvemos em relação ao
parentesco primitivo tem obscurecido completamente o assunto e "uase cegado os
observadores da vida primitiva ! pro#essor 'adcli##e()ro*n está coberto de razão
"uando a#irma "ue “teorias na #orma de hist$ria conjetural, sejam elas +evolucionistas,
ou +di#usionistas, e&ercem uma in#lu-ncia perniciosa sobre o trabalho do etn$logo "ue
#az campo”, e ele dá um e&emplo muito signi#icativo da incapacidade de en&ergar os
#atos "ue deriva disso .Man, /010a 2o 345
6ssas teorias conjeturais do parentesco t-m inundado a literatura antropol$gica
desde os tempos de )acho#en, Morgan e Mc7ennan até a recente redescoberta do
entusiasmo por estudos de parentesco, encabeçada por 'ivers e sua escola, 8 '
'adcli##e()ro*n, o #alecido 8 )ernard 9eacon, : : )arnard, a ;ra <oernle, a ;ra )
= ;eligman, sem mencionar a mim mesmo, ou a trindade cali#orniana do parentesco>
?roeber, 7o*ie e @i##ord – todos in#luenciados pelos trabalhos de 'ivers Aom tudo
isso, o problema se mantém enclausurado numa atmos#era esotérica Bm punhado de
n$s, os enragés, ou iniciados do parentesco, está preparado para patinar pelo tipo de
álgebra ou geometria do parentesco "ue gradativamente se desenvolveuC memorizar
longas listas de termos nativos, acompanhar diagramas e #$rmulas complicados, suar
#rio sobre documentos secos, suportar longa argumentação dedutiva, assim como o
empilhamento de hip$teses sobre mais hip$teses
*
*
Tradução do artigo: MALINOWSKI, B.. Kinship. In: GAB!N, N"#son. $%d.&. Readings in kinship and
social structure. N"' (or): *arp"r + o', ,-.,. p. -/0,1/. Origina#2"nt" pu3#i4ado na r"5ista Man, 5.
61:7 $,-61&, pp. ,-07-.
,
! antrop$logo médio, porém, um tanto misti#icado e talvez um pouco hostil, se
mantém #ora do círculo estreito de devotos 6le tem dDvidas se o es#orço necessário
para dominar a álgebra bastarda do parentesco realmente vale a pena 6le sente "ue,
a#inal de contas, o parentesco é matéria de carne e osso, o resultado de pai&ão se&ual e
a#eição materna, da longa e íntima vida cotidiana e de uma batelada de interesses
pessoais e íntimos ;erá "ue tudo isso pode ser reduzido a #$rmulas, símbolos ou até
e"uaçEesF %odemos perguntar se é razoável antecipar "ue>
um dia virá em "ue empregaremos símbolos no lugar das di#erentes relaçEes e "ue grande parte
da descrição dos sistemas sociais de tribos selvagens vai se assemelhar a trabalhos matemáticos,
em "ue os resultados se e&pressam em símbolos, em alguns casos, até na #orma de e"uaçEesF
.G < ' 'ivers, Malanesian Society, /0/Hb, Iol /, p /J5
;eria muito pertinente perguntar se deveríamos realmente nos apro&imar da vida
#amiliar, dos a#etos e cuidados tenros, ou então das #orças obscuras e misteriosas "ue o
psicanalista bane ao Knconsciente, mas "ue #re"uentemente escapam com viol-ncia
dramática – se conseguiríamos nos apro&imar mais disso, o verdadeiro cerne do
parentesco, apenas pelo uso dessa pseudo(álgebra 2ão há dDvida de "ue "ual"uer valor
"ue tenham os diagramas e as e"uaçEes deriva sempre do estudo sociol$gico e
psicol$gico dos #atos íntimos do parentesco, nos "uais essa álgebra deveria se pautar !
antrop$logo médio ou observador de selvagens sente "ue #alta uma abordagem mais
pessoal do parentesco <á um vasto abismo entre o tratamento pseudo(matemático dado
pelo antrop$logo erudito e os #atos reais da vida selvagem :ampouco essa sensação se
limita ao leigo Aon#esso com #ran"ueza "ue não há um relato se"uer de parentesco em
"ue não me sinta perple&o com essa matematização espuriosamente cientí#ica e
bombástica dos #atos do parentesco e decepcionado com a aus-ncia dos dados íntimos
da vida #amiliar, descriçEes carnudas das atividades tribais e cerimoniais, enumeraçEes
completas das características econLmicas e legais da #amília, parentelas e clãs, "ue por
si tornam o parentesco real para o leitor
,

6 "uando, ap$s todos os dilDvios de tinta sobre o parentesco, o antrop$logo médio v-
"ue uma autoridade como o pro#essor GestermacM a#irma "ue a maior parte dos
trabalhos sobre terminologia de parentesco “tem sido uma #onte de erro em vez de
conhecimento”C e "uando ele v- "ue 8 ' 'adcli##e()ro*n, ) Malino*sMi e )renda =
, Nu2 #i5ro so3r" par"nt"s4o 8u" "stou pr"parando, pr"t"ndo sust"ntar "ssa a4usação d"ta#hada2"nt".
Todos nossos dados d" par"nt"s4o são #inguisti4a2"nt" insu9i4i"nt"s " so4io#ogi4a2"nt" inad"8uados.
7
;eligman não conseguem concordar sobre o "ue entendem por termos como parentesco,
descend-ncia, unilateral e bilateralC "uando ele descobre "ue tão logo a ;ra ;eligman
recoloca o conceito #undamental das terminologias classi#icat$rias ela é "uestionada em
cartas enviadas a ManC então, ele realmente se sente justi#icado na sua descon#iança de
todo esse aparato pseudo(matemático terrivelmente elaborado e justi#ica a
desconsideração por todo o trabalho "ue deve ter sido gasto com isto
6u realmente acredito "ue parentesco é o tema mais di#ícil da antropologia
socialC acredito "ue tenha sido abordado, #undamentalmente, de modo erradoC e também
acredito "ue atualmente chegamos a um impasse 6stou convencido, entretanto, "ue há
uma saída para este impasse, e "ue alguns trabalhos recentes, principalmente a"ueles de
8 ' 'adcli##e()ro*n, )renda = ;eligman e da trindade cali#orniana, t-m colocado o
problema no ei&o certo Ksso #oi #eito através do completo reconhecimento da
importNncia da #amília e pela aplicação do "ue atualmente costuma ser chamado de
método #uncional de antropologia – um método "ue consiste, sobretudo, na análise das
instituiçEes primitivas, como #uncionam no presente, em vez da reconstrução de um
passado hipotético
7
:odo esse trabalho recente deve nos conduzir O solução correta de muitos desses
"uebra(cabeças de maior ou menor super#icialidade, assim como resolver os reais e
pro#undos problemas do parentesco 6ntretanto, o trabalho ainda está um tanto di#uso e
ca$tico e é necessária uma contribuição compreensiva "ue poderá organizar e
sistematicamente integrar os resultados desse trabalho #uncional, assim como corrigir
alguns erros "ue prevalecem 2o meu pr$&imo livro sobre parentesco, estou buscando
esse tratamento sistemático 8"ui, "uero indicar, de modo preliminar, alguns dos
resultados desse trabalho
II $ pro"lema %uncional do parentesco&
:alvez seja desnecessário, dirigindo(me aos leitores de Man, insistir no ponto de
"ue o parentesco encontra(se num impasse 8lguns artigos interessantes neste peri$dico,
7 Gostaria d" 2"n4ionar %d'ard W"st"r2ar) " %rn"st Gross" 4o2o pr"4ursor"s d"ss" 2o5i2"nto
2od"rno nos "studos d" par"nt"s4o. Ta#5": a pri2"ira d"s4rição 2onogr;9i4a da 9a2<#ia, nu2a ;r"a "2
8u" sua 2"ra "=ist>n4ia t"2 sido 8u"stionada, ? 2inha Family among the Australian Aborigines $,-,6&.
No 2"s2o ano, apar"4"u u2 "=4"#"nt" artigo @FamilyA, "s4rito por %. N. Ba##ai:", "2 Encyclopedia of
Religion and Ethics. Mais r"4"nt"2"nt", Kro"3"r, "2 Zuni Kin and Clan, " Lo'i", na sua p"s8uisa d"
4a2po 4o2 os <ndios Cro' " no s"u #i5ro Primitive Society, t>2 "n9ati:ado a p"rsp"4ti5a 9un4iona# do
par"nt"s4o.
6
assim como no Journal, mostram o "uão pro#undamente mesmo os poucos especialistas
mais devotados e espiritualmente pr$&imos discordam entre si Aomo membro desse
círculo interno, posso a#irmar "ue, sempre "ue encontro a ;ra ;eligman ou o 9r 7o*ie
ou discuto o tema com 'adcli##e()ro*n ou ?roeber, eu percebo imediatamente "ue
meu interlocutor não entende nada do assunto e geralmente acabo com a impressão de
"ue isso também se aplica a mim Ksso também se re#ere a tudo "ue escrevemos sobre
parentesco e é completamente recíproco
2a verdade, o impasse resulta da herança de #alsos problemas da tradição
antropol$gica 8inda estamos emaranhados com a "uestão sobre se o parentesco era, na
sua origem, coletivo ou individual, baseado na #amília ou no clã 6sse problema tem
grande desta"ue nos escritos do #alecido G < ' 'ivers, de "uem muitos de n$s somos
pupilos, diretamente em sala de aula, ou através da leitura de seus te&tos !utro #also
problema se re#ere Os origens e signi#icados dos sistemas classi#icat$rios de
nomenclatura 6ste problema, ou "ual"uer problema "ue brote da natureza
classi#icat$ria das terminologias de parentesco, é espDrio, simplesmente por"ue não
e&istem e jamais e&istiram terminologias classi#icat$rias
6
Ksso parece um parado&o, mas
é um mero truísmo "ue pretendo desenvolver posteriormente em outro artigo
'elacionada O obsessão classi#icat$ria, havia a #Dria de e&plicar termos estranhos como
se #ossem casamentos anLmalos, o "ue levou a uma ou duas meia(verdades, mas
também resultou numa meia dDzia de erros capitais e e"uívocos 8 concepção do
direito materno e do direito paterno como #ases sucessivas ou entidades auto(contidas,
recentemente tão bem e convincentemente estigmatizada por 'adcli##e()ro*n .Man,
/010a, 345, tem sido incorporada em mais um monumento de erro brilhantemente
especulativo por )ri##ault em The Mothers.
! verdadeiro problema nisso tudo é "ue estamos caçando as origens do
parentesco antes mesmo de entendermos bem a natureza do parentesco Kn"uirimos se o
direito materno precedia o direito paterno ou vice versa, sem permitir "ue os #atos nos
convencessem, como deveriam, de "ue o direito materno e o direito paterno estão
sempre indissoluvelmente amarrados %or"ue desentendemos pro#undamente a natureza
linguística dos termos de parentesco, somos capazes de cometer o erro monstruoso de
tomá(los como “sobreviv-ncias”, como os restos petri#icados de um estado social
6 Dara as 2ais r"4"nt"s, 3r"5"s, 4#aras " "8ui5o4adas a9ir2açE"s r"9"r"nt"s F natur":a das t"r2ino#ogias
4#assi9i4atGrias, 5"Ha a 4arta do Sr. I. J. !n'in "2 Man $,-7-, NK. ,7L&.
L
anterior P "uase lDdrica a ingenuidade com "ue Morgan assume, ao longo dos seus
escritos, "ue as terminologias de parentesco invariavelmente atrasam um “estágio de
desenvolvimento” inteiro – nem mais nem menos – em relação ao status sociol$gico em
"ue se encontramC e, no entanto, elas espelhariam per#eitamente o status sociol$gico
anterior 8 l$gica circular dessa argumentação é em si estarrecedora Mas pior ainda é a
completa #alta de entendimento "uanto O natureza das terminologias de parentesco, "ue
são, de #ato, as e&pressEes mais ativas e e#etivas das relaçEes humanas, e&pressEes "ue
começam cedo na in#Nncia, "ue acompanham as relaçEes ao longo da vida, "ue
permeiam todos os sentimentos mais pessoais, passionais e íntimos de um homem ou de
uma mulher
! antrop$logo moderno ou #uncional se propEe a entender o "ue o parentesco
realmente signi#ica para o nativo, ele "uer apreender como as terminologias de
parentesco são usadas e o "ue e&pressam, ele "uer ver claramente as relaçEes entre a
#amília, o clã e a tribo Mas, "uanto mais ele estuda todos esses elementos do problema
e suas inter(relaçEes, mais claro se torna para ele "ue não estamos tratando de
numerosas entidades isoladas, mas das partes de um todo organicamente conectado 6m
primeiro lugar, a #amília e o clã, por e&emplo, "ue até agora #oram consideradas
instituiçEes domésticas em vários estágios de desenvolvimento, aparecem
invariavelmente juntas Ksto é, en"uanto a #amília e&iste sozinha em muitas sociedades,
o clã nunca a substitui, mas se acrescenta a ela 6mbora muitas tribos usem termos de
parentesco num sentido mais amplo, elas também usam no sentido mais estreito,
denotando os membros reais da #amília 2ovamente, não e&iste o direito materno ou o
direito paterno puros, apenas uma -n#ase legal maior sobre um dos lados do parentesco,
#re"uentemente acompanhada por uma #orte e, Os vezes, até costumeira reação contra
essa -n#ase 6, em todas as comunidades, seja "ual #or o sistema legal, as duas linhas
contam de #ato e in#luenciam a vida legal, econLmica, religiosa e emocional do
indivíduo P, portanto, absurdo realizar esse tipo ilegítimo de cirurgia preliminar,
retalhar esses elementos "ue são organicamente integrados, e “e&plicá(los”, colocando
os #ragmentos num diagrama de desenvolvimento imaginário ! problema real é
descobrir como eles se relacionam e como funcionam, isto é, "ue papel desempenham
na sociedade, "uais necessidades sociais eles atendem e "ue in#lu-ncia e&ercem
%ara ser claro, embora bruto, devo dizer "ue a #amília é sempre a instituição
doméstica por e&cel-ncia 6la domina o começo da vida de um indivíduoC controla a
/
cooperação domésticaC é o estágio dos primeiros cuidados e educação recebidos pelos
pais ! clã, por outro lado, nunca é uma instituição doméstica !s laços de clã se
desenvolvem mais tarde na vida e, embora se desenvolvam a partir do parentesco
primário da #amília, tal desenvolvimento se submete O distorção unilateral de uma
-n#ase legal matrilinear ou patrilinear, e #unciona numa es#era completamente di#erente
de interesses> legais, econLmicos e, sobretudo, cerimoniais Bma vez #eita a distinção
#uncional entre os dois modos de agrupamento, a #amília e o clã, a maioria dos
problemas espDrios e e&plicaçEes #ictícias volta a dissolver no vapor especulativo do
"ual surgiu
9evo, entretanto, "uali#icar e detalhar melhor essa contenda 8"ui apenas "uero
apontar "ue o parentesco apresenta algumas #acetas correspondentes a várias #ases ou
estágios do seu desenvolvimento na hist$ria de vida de um indivíduo %ois o parentesco
é o #enLmeno "ue começa mais cedo na vida e dura mais tempo, assim como mãe é
#re"uentemente a primeira palavra #ormulada e a derradeira a ser dita %arentesco, como
aparece no horizonte social de um adulto da tribo, é o resultado de um longo processo
de e&tensEes e trans#ormaçEes Knicia(se cedo na vida com os eventos #isiol$gicos da
procriaçãoC mas, mesmo estes são pro#undamente modi#icados na sociedade humana por
in#lu-ncias culturais !s laços originais do parentesco, "ue eu creio serem
invariavelmente individuais, mais tarde se desenvolvem, se multiplicam e se tornam, em
grande medida, comunais 9e tal modo "ue, no #inal, o indivíduo se torna centro de um
sistema comple&o de mDltiplos laçosC um membro de vários grupos> a #amília, sempreC
o grupo residencial e&tenso, em muitas comunidadesC o grupo local, "uase
invariavelmenteC o clã, muito #re"uentementeC e a tribo, sem e&ceção 6stou convencido
de "ue se o estudo dos laços de parentesco tivesse sido empreendido no campo junto
com a hist$ria de vida do indivíduo, se terminologias, sistemas legais, arranjos tribais e
residenciais tivessem sido estudados em processo de desenvolvimento e não apenas
como produtos #i&os – estaríamos completamente livres desse pesadelo de problemas
espDrios e conjecturas #antásticas P "uase irLnico na hist$ria da antropologia "ue os
evolucionistas mais ardentes, assim como os pro#etas mais amargurados do método
hist$rico, tenham completamente negligenciado o desenvolvimento e a hist$ria do
M
parentesco no Dnico caso em "ue esse desenvolvimento e essa hist$ria podem ser
estudados empiricamente
L
III A 'itua()o Inicial de Parentesco&
;empre "ue nos convencemos de "ue um #enLmeno deve ser estudado no seu
desenvolvimento, é natural "ue nossa atenção se volte para suas origens, e lembremos
"ue tratamos a"ui não de uma evolução #antasiosa e reconstruída, mas do
desenvolvimento observável do parentesco na vida humana e, neste caso, origens se
re#erem simplesmente ao conjunto todo de condiçEes iniciais "ue determina as atitudes
dos atores no drama do parentesco
6stes atores são, obviamente, tr-s no início – pai, mãe e #ilho 6, O primeira
vista, pode parecer "ue o drama em si não guarda interesse algumC pois, não é apenas o
processo #isiol$gico de concepção, gestação e nascimentoF Mas, na realidade, o
processo nunca é meramente #isiol$gico nas sociedades humanas %or mais primitiva
"ue seja a comunidade, os #atos de concepção, gestação e nascimento não se relegam
apenas O 2atureza, mas são reinterpretados pela tradição cultural> em toda comunidade,
temos uma teoria da natureza e causas da concepção, temos um sistema de observNncias
costumeiras, religiosas, mágicas ou legais, "ue de#ine o comportamento da mãe, e, Os
vezes, do pai tambémC temos, especi#icamente, um nDmero de tabus mantidos por
ambos os pais durante a gestação
%ortanto, mesmo o #undamento biol$gico do parentesco se torna invariavelmente
cultural e não apenas um #ato natural 6ste princípio, in"uestionavelmente correto, tem
se tornado, nas mãos de alguns antrop$logos modernos, o ponto de partida para uma
nova reinterpretação da hip$tese de Morgan sobre o casamento comunal primitivo
'ivers, o de#ensor moderno mais conspícuo das teorias de Morgan, está plenamente
ciente de "ue casamento grupal implica paternidade ou maternidade grupal
N.T.
Mas isto,
sobretudo, a maternidade grupal, parece uma hip$tese "uase impensável 9e #ato, ela
tem sido ridicularizada por 8ndre* 7ang, 6 GestermarM e 2 G :homas 'ivers, no
entanto, seguindo as sugestEes brilhantes de 9urMheim, 9argun e ?ohler, argui "ue, já
"ue as in#lu-ncias culturais podem modi#icar a maternidade em todos os outros
L M"u a2igo, o Sr. T. I. A. (at"s, sug"r" o adH"ti5o @3iogr;9i4oA 4o2o a d"s4rição 2ais si2p#"s d"ss"
2?todo d" a3ordag"2 do par"nt"s4o atra5?s do "studo da histGria d" 5ida do indi5<duo.
N.T.
N.T.
No origina#: par"nthood, r"9"rindo0s" F 4ondição d" a23os, 2ã" " pai.
.
aspectos, podem também trans#ormá(la de uma maternidade individual numa espécie de
maternidade grupal sociol$gica 6sse escritor e um conjunto de seus seguidores,
notavelmente o senhor )ri##ault, nos levariam a acreditar "ue a"uilo "ue eu gosto de
chamar a situação inicial de parentesco não é individual, mas comunal
Menciono essas hip$teses recentes sobre a situação inicial de parentesco para
mostrar "ue seu estudo, longe de ser uma a#irmação $bvia e supér#lua de um #ato
#isiol$gico, levanta uma série de "uestEes sociol$gicas, mesmo de pontos controversos
Aom tudo, o estudo de #atos empíricos reais parece demonstrar "ue a interpretação
comunal da situação inicial é de#initivamente errLnea %or ora, posso apenas antecipar a
apresentação completa do meu argumento e dizer "ue, embora reconheça "ue o
parentesco, mesmo nas suas origens, é um #ato cultural em vez de biol$gico, esse
parentesco culturalmente de#inido é invariavelmente individual :odas as teorias
primitivas de procriação, embora sejam uma mistura de crenças animistas e observaçEes
empíricas cruas, invariavelmente de#inem a paternidade ou a maternidade
N.T.
como um
laço individual !s tabus da gestação, os ritos observados em determinadas #ases da
gestação, costumes de couvade, a reclusão cerimonial da mãe e da criança, tudo isso
individualiza a relação entre os pais verdadeiros e seu #ilho
6n"uanto grande parte desses #atos se re#ere ao laço individual entre mãe e #ilho,
um conjunto deles, tal como a couvade, os tabus mantidos pelo marido da mãe, suas
contribuiçEes econLmicas para as cerimLnias de gestação, culturalmente de#ine a
paternidade e, ao mesmo tempo, individualiza essa relação <á um #ato, entretanto, de
suma importNncia no "ue se re#ere O paternidade, uma generalização tão irre#utável e
universalmente válida "ue, a meu saber, tem sido "uase completamente ignorada, como
#re"uentemente ocorre com o “$bvio” 9escrevi esta generalização, em escritos
anteriores, como o %rincípio da 7egitimidade
/
6ste princípio a#irma "ue em todas as
sociedades humanas um pai é considerado por lei, costume e moral, como um elemento
indispensável do grupo de procriação 8 mulher tem "ue estar casada antes "ue seja
legitimamente permitida conceber, ou, um casamento subse"uente ou um ato de adoção
atribuirá O criança pleno status tribal ou civil Aaso contrário, o #ilho de uma mulher
solteira é de#initivamente estigmatizado por uma posição in#erior e anLmala na
N.T.
N.T.
No origina#: par"nthood.
/ N"r o artigo: @DsO4ho#ogO o9 S"= in Dri2iti5" So4i"ti"sA, Psyche O4t. ,-76.
P
sociedade Ksto é verdadeiro para os :odas poliNndricos .onde a criança precisa, de #ato,
ser designada sociologicamente a um pai, entre vários maridos5, para os melanésios
matrilineares, para os povos primitivos na 8ustrália, na 8mérica do 2orte e na Q#rica,
assim como para a 6uropa monogNmica e cristã ! princípio da legitimidade #unciona,
Os vezes, por meios indiretos, mas, de modo geral, a lei "ue e&ige o casamento como um
preliminar O #amília parece universal
8credito "ue um correto estudo indutivo de toda a evid-ncia da "ual dispomos
nos levaria O resposta de "ue a situação inicial de parentesco é um composto de
elementos biol$gicos e culturais, ou melhor, "ue consiste dos #atos da procriação
individual, culturalmente reinterpretadosC "ue todo ser humano começa sua carreira
sociol$gica dentro do pe"ueno grupo #amiliar e "ue, independente do "ue o parentesco
possa se tornar mais tarde na vida, sempre começa pelo parentesco individual 8o
mesmo tempo, essa a#irmação geral nos dá apenas os contornos gerais da situação
inicialC esta se torna, desde o princípio, pro#undamente modi#icada por elementos, tais
como a consideração pelo lado materno ou paterno do parentesco, resid-ncia matrilocal
ou patrilocal, a posição relativa de marido e mulher na comunidade, a duração da
lactação, tipos de reclusão e tabus ! estudo da situação inicial, longe de ser trivial e
insigni#icante, é um campo rico de investigação sociol$gica e uma área em "ue o
antrop$logo e o psic$logo moderno se encontram com interesse comum
I* + $ Processo de ,-tens)o no Parentesco&
Aom a conclusão de "ue a paternidade ou a maternidade individual, de#inida por
#orças culturais e biol$gicas, constitui, invariavelmente, a situação inicial de parentesco,
os #undamentos de uma teoria correta estão postos Mas, a tare#a ainda não está
completa ! "ue chamo de situação inicial é importante por sua in#lu-ncia na vida
posterior 8 maternidade ou a paternidade interessa aos soci$logos não apenas por si,
seja como uma e&ibição de carinho humano ou como e&emplo da trans#ormação cultural
de um instinto, mas antes como um ponto de partida para a maior parte das outras
relaçEes sociol$gicas e como prot$tipo das atitudes sociais características de uma
comunidade P, portanto, o processo de e&tensão do parentesco, das suas origens
e&tremamente simples na maternidade ou paternidade para suas mDltiplas rami#icaçEes
e comple&idades no pertencimento maduro O tribo, ao clã e ao grupo local "ue, na
minha opinião, #orma a verdadeira matéria dos estudos de parentesco P no estudo
-
destes processos "ue podemos descobrir a verdadeira relação entre clã e #amília, entre
sistemas classi#icat$rios e atitudes individuais, entre os elementos biol$gicos e
sociol$gicos do parentesco
@rande parte dos erros resulta do #also argumento "ue segue> todo parentesco é
biol$gicoC a coesão de um clã se baseia no parentescoC portanto, o clã tem uma base
biol$gica direta 6sta conclusão levou a disparates capitais como> “o clã casa com o clã
e gera o clã”, “o clã, como a #amília, é um grupo reprodutivo” e “um grupo doméstico,
"ue não a #amília” é o ambiente da in#Nncia primitiva !s perpetradores destas e outras
são ninguém menos "ue antrop$logos como Rison, ;pencer e @illen, )ri##ault e 'ivers
:oda essa asneira jamais teria obcecado algumas das mentes mais esclarecidas
da antropologia se o estudo da situação inicial tivesse sido seu ponto de partida e o
estudo dos processos subse"uentes de e&tensão sido o tema principal da antropologia
social %ois, “as origens do sistema de clãs” não serão encontradas em algum passado
nebuloso através de especulaçEes imaginárias 6las estão acontecendo hoje, de bai&o
dos nossos narizes Sual"uer antrop$logo inteligente e sem preconceito "ue trabalha
numa tribo organizada em clãs pode v-(las em desenvolvimento
6u mesmo testemunhei “as origens do clã” na Melanésia, e acredito "ue desta
e&peri-ncia posso elaborar uma conclusão universalmente válida, ou pelo menos uma
generalização "ue deve ser universalmente testada %rincipalmente, por"ue toda a
evid-ncia #ragmentada de outras áreas se encai&a per#eitamente no es"uema baseado em
#atos melanésios
! processo pelo "ual o clã e outras #ormas de parentesco comunal se
desenvolvem a partir da situação inicial não é #ácil de apreender ou de#inir 8 maior
di#iculdade consiste no #ato de "ue é um processo longo e interruptoC "ue seus #ios são
mDltiplos e "ue o padrão s$ pode ser descoberto ap$s a integração de observaçEes
detalhadas e íntimas ao longo do tempo 8té então, tem sido costume de soci$logos
competentes #azerem apenas visitas rápidas para tribos selvagens, prática para a "ual #oi
#orjado o eu#emismo “levantamento preliminar”
N.T.
6n"uanto, isso o amador com longa
perman-ncia era capaz de en&ergar as árvores, mas não a #loresta
N.T.
N.T.
No origina#: @Sur5"O 'or)A.
,1
Mas há uma #onte certa de di#iculdade 6sta é o #ato de "ue no desenvolvimento
biográ#ico do parentesco temos uma e&tensão dupla dos laços #amiliares, o outro, um
processo em "ue a #amília é suprimida, no "ual o parentesco é submetido a um processo
unilateral de distorção e em "ue o caráter coletivo ou comunal das relaçEes humanas é
certamente en#atizado Os custas do caráter individual
%retendo ampliar este argumento, mas "uero mencionar desde já "ue essa
dualidade do desenvolvimento do parentesco tem suscitado a maior parte dos e"uívocos,
sobretudo, a "uerela sobre se o parentesco primitivo é comunal ou individual, se é
essencialmente bilateral ou unilateral
! parentesco em comunidades primitivas tem, invariavelmente, o aspecto
individual e, na maioria dos casos, tem também um aspecto comunal Aada aspecto
resulta de um processo di#erente, é #ormado por di#erentes mecanismos educativos e
tem sua pr$pria #unção a cumprir 8 verdadeira atitude cientí#ica não é disputar "ual das
duas #ases de parentesco tem um direito moral ou justi#icativa l$gica para sua
e&ist-ncia, mas estudar a relação entre ambas
* + A consolida()o e a distor()o unilateral do parentesco&
%rimeiramente, "uero sublinhar brevemente o processo de consolidação da
#amília %ois, deve ser lembrado "ue, com ou sem clã, a pr$pria #amília do indivíduo se
mantém uma unidade estável ao longo da sua vida !s pais, na maioria das sociedades,
não apenas educam e sustentam materialmente a criança, mas também cuidam da sua
adolesc-ncia, controlam seu casamento, se tornam av$s solícitos e carinhosos e, "uando
se tornam idosos, dependem da sua ajuda %ortanto, os primeiros laços de parentesco,
presentes no começo da situação inicial, persistem ao longo da vida Mas passam por
um longo processo "ue, por um lado, como já dissemos, é de consolidação e, por outro
lado, de supressão parcial e dissolução
8 consolidação, nas suas #ases iniciais, começa com a depend-ncia #isiol$gica da
criança em relação aos pais, "ue se estende para o treino inicial dos impulsos e atravessa
a educação Aom a educação já estão associadas certas implicaçEes sociol$gicas mais
amplas da maternidade e da paternidade 8 criança precisa ser ensinada certas artes e
o#ícios, e isso implica "ue herde as ocupaçEes, as #erramentas, as terras ou áreas de caça
do seu pai ou do irmão da mãe 8 educação, mais uma vez, engloba o ensino das
,,
tradiçEes tribais, mas essas tradiçEes se re#erem O organização social e ao papel da
criança na sociedade, e este papel a criança geralmente assume do pai ou do irmão da
mãe
8ssim, já na #ase da educação, o parentesco pode simples e diretamente
con#irmar o papel do pai na #amília ou, em sociedades matrilineares, pode parcialmente
.inter5romper essa #amília, introduzindo um membro de #ora como o homem no poder
8o mesmo tempo, a depend-ncia da criança sobre o grupo residencial varia
consideravelmente em di#erentes sociedades 6la pode permanecer íntima O casa dos
pais, comendo, dormindo e passando a maior parte do tempo lá, ou então, a criança se
muda para outro lugar, é in#luenciada por outras pessoas e #orma novos laços 2as
comunidades em "ue há cerimLnias de iniciação, a #unção sociol$gica de tais costumes
#re"uentemente consiste em divorciar a criança da #amília, sobretudo, das in#lu-ncias
maternas, e torná(la ciente dos seus laços unilaterais de clã, especialmente, com os
homens do seu clã 6sta é, obviamente, uma in#lu-ncia de ruptura e não de
consolidação, no "ue se re#ere O #amília
Suando chega a adolesc-ncia e a vida se&ual, há uma variedade enorme de
con#iguraçEes, mas geralmente a se&ualidade retira o menino ou a menina da #amília e,
através das regras da e&ogamia, torna oTa jovem
N.T.
ciente da sua participação no clã 2o
casamento, por outro lado, o pr$prio pai ou a mãe, Os vezes outro parente pr$&imo, mas
sempre um indivíduo, se torna proeminente 8 #undação de uma nova #amília signi#ica,
em grande medida, um descolamento #inal em relação O #amília dos pais Mas os pais,
seja do marido ou da mulher, rea#irmam a relação através do #ato já mencionado de se
tornarem av$s Rinalmente, na idade avançada, novos deveres rede#inem a relação entre
um homem adulto e seu pai e mãe decrépitos %ortanto, através de todas as variedades
"ue encontramos espalhadas pelo mundo, de modo geral, observamos "ue a relação
individual dos #ilhos em relação aos pais se desenvolve, recebe vários abalos e
diminuiçEes, é rea#irmado novamente, mas sempre permanece um dos sentimentos
dominantes na vida humana, se mani#estando nas regras morais, nas obrigaçEes legais,
em rituais religiosos %ois, #inalmente, na morte, os pais e seus #ilhos precisam cumprir
algumas das principais obrigaçEes mortuárias e, nos cultos aos ancestrais – "ue de modo
mais ou menos pronunciado se encontram em todos os lugares – os espíritos da"ueles
N.T.
N.T.
S"2pr" 8u" o autor 9a: r"9"r>n4ia a p"ssoas d" a23os os s"=os, isso 9oi 2antido na tradução.
,7
"ue partiram sempre dependem dos seus descendentes lineares 8 consolidação dos
laços da #amília, e do conceito de #amília e casa, se mani#esta nas e&tensEes das
primeiras atitudes de parentesco em relação a membros de outras #amílias ou casas
%ortanto, na maioria das comunidades primitivas, seja "ual #or sua maneira de contar a
descend-ncia, as casas da irmã da mãe e do irmão do pai t-m um papel considerável e,
em muitos casos, se tornam casas substitutas para as crianças
8té a"ui en#atizei os elementos da consolidação, agora "uero abordar os
elementos da disrupção
N.T.
8 remoção da #amília, especialmente do controle materno,
in#lu-ncias e&ternas, tais como o irmão da mãe e, por vezes, a irmã ou o irmão do pai,
iniciação e a #ormação de uma nova #amília – todas essas in#lu-ncias correm na
contramão dos laços originais e militam contra a persist-ncia dos laços e in#lu-ncia dos
pais 8o mesmo tempo, a maioria dessas in#lu-ncias disruptivas não é, em realidade,
uma negação do parentesco ;ão, na realidade, distorçEes unilaterais da relação original
com os pais %ortanto, o irmão da mãe, numa sociedade matrilinear, se torna o nDcleo do
clã matrilinear ! treino na lei tribal, realizado de #orma especial e dramática na
iniciação, en"uanto retira o menino da tutela e&clusiva da #amília, incute nele ideias de
identidade e solidariedade do clã
8 identidade do clã se torna especialmente proeminente em certas #ases da vida
tribal 9urante grandes encontros tribais, sejam para práticas econLmicas ou de guerra,
ou para a #estividade, os laços do clã se tornam proeminentes e a #amília "uase
desaparece P especialmente o caso em grandes cerimLnias religiosas ou mágicas, tais
como a"uelas relatadas na 8ustrália Aentral, %apua, Melanésia e os vários distritos da
8mérica do 2orte 6m tais ocasiEes, há uma recristalização da estrutura sociol$gica
dentro da comunidade, "ue traz vividamente para as mentes dos jovens e velhos a
realidade do sistema de clãs
*I + $ .l) e a /am0lia&
%odemos observar, portanto, "ue o clã se desenvolve como uma #orma
sociol$gica derivada de agrupamento por processos empíricos "ue podem ser seguidos
ao longo da hist$ria de vida do indivíduo, "ue sempre ocorrem mais tarde na vida –
N.T.
N.T.
Jisruption no origina#.
,6
sendo "ue o pertencimento pleno ao clã s$ toma o indivíduo na maturidade – e "ue
englobam um tipo de interesses muito di#erente do "ue a"ueles obtidos na #amília
Aomo procurei mostrar alhures, há algo "uase absurdo na tend-ncia dos
antrop$logos de tratarem a #amília e o clã como unidades e"uivalentes, "ue podem se
substituir na evolução da humanidade
M
8 relação entre pais e #ilho – isto é, as relaçEes
#amiliares – são baseadas na procriação, nos primeiros cuidados #isiol$gicos
dispensados O criança pelos pais, e nas atitudes emocionais inatas "ue unem pais e
#ilhos 6stes elementos nunca são encontrados nos clãs 6sta instituição, por sua vez, é
baseada em #atores bastante alienígenas O #amília> na identidade de natureza tot-micaC
nas #icçEes mitol$gicas de uma descend-ncia unilateral comum de um ou uma ancestralC
e num conjunto de obrigaçEes e observNncias religiosas ou mágicas %ode ser a#irmado
com segurança "ue a #amília, baseada no casamento, é a Dnica instituição doméstica da
humanidade, isto é, a Dnica instituição cujas #unçEes são a procriação, os primeiros
cuidados e o treinamento elementar dos #ilhos ! parentesco, portanto, sempre repousa
sobre a #amília e começa na #amília ! clã é essencialmente um grupo não reprodutivo,
não se&ual, não parental e nunca é a #onte primária e base do parentesco Mas o clã
sempre se desenvolve a partir da #amília, #ormando(se em torno do pai ou da mãe,
através da -n#ase legal e&clusiva sobre um dos lados do parentesco, Os vezes, pautada
numa teoria de reprodução unilateral 8s #unçEes do clã são geralmente legais,
cerimoniais e, Os vezes, mágicas e econLmicas
8 #amília e o clã di#erem pro#undamente nas suas origens, nas #unçEes "ue
cumprem e na natureza dos laços "ue unem seus membros :ambém di#erem em
estrutura 8 #amília sempre engloba os dois princípios essenciais O procriação – a
maternidade e a paternidade ! clã é baseado na negação parcial de um desses
princípios Mas a di#erença vai além 8 #amília é autocontida no "ue se re#ere Os suas
#unçEes ! clã, por conta da pr$pria natureza da sua #ormação, é uma unidade
dependente e correlacionada ! conjunto de parentes realmente reconhecidos no sentido
mais amplo, isto é, no sentido classi#icat$rio, nunca consiste apenas dos membros do
clã 6ngloba os membros do pr$prio clã – isto é, os parentes do lado relevante, – os
membros de clã da"uele parente irrelevante, os membros de clã do consorte e os
membros de outros clãs "ue participam do jogo comunal de trocas de serviços, tão
M N"Ha o artigo d" Ma#ino's)i, @KinshipA, pu3#i4ado na Ency! "rit! "dição ,L, ,-7-3, "sp. ==ii.
,L
característico de tribos organizadas em clãs P a tribo, como conjunto de clãs
mutuamente relacionados, "ue no nível classi#icat$rio corresponde O #amília 8
e"uival-ncia sociol$gica da #amília e do clã, "ue tanto devastou a antropologia social, é
um mal(entendido causado pela omissão de uma análise #uncional e de um método
biográ#ico no estudo dos problemas do parentesco
*II + .onclus1es e Antecipa(1es&
Kniciei com um protesto contra a subordinação do lado “carne e osso” do
parentesco ao tratamento #ormal e pseudo(matemático ao "ual ele tem sido tão
#re"uentemente submetido Uusti#i"uei minha crítica de #orma positiva, mostrando "ue
há problemas #undamentais do parentesco "ue demandam uma grande "uantidade de
observação sociol$gica de primeira(mão e análise te$rica> problemas "ue precisam ser
resolvidos antes mesmo de começarmos a álgebra do parentesco 8 situação inicial, o
princípio da legitimidade, os dois processos correlacionados de extensão, a
multiplicidade de agrupamentos de parentesco – este é um e&tenso campo para pes"uisa
sociol$gica vigorosa no campo e no gabinete 8través da abordagem biográ#ica e da
análise #uncional "ue eu de#endo, grande parte desses problemas se trans#ere do
universo da reconstrução hipotética para a pes"uisa empírica
2o entanto, ainda persistem "uestEes "ue mal pude abordar, sobretudo, o
"uebra(cabeça not$rio das terminologias classi#icat$rias 9ei&ei esta Dltima "uestão de
prop$sito> as palavras brotam da vida, e as palavras de parentesco nada mais são do "ue
registros ou r$tulos de relaçEes sociais 8ssim como, sociologicamente, o parentesco é
uma rede composta e comple&a de laços, toda nomenclatura nativa consiste em várias
camadas ou sistemas de designação de parentesco Bm sistema é usado apenas para os
pais e membros da #amília !utro estrato de nomes de parentesco se estende ao círculo
mais pr$&imo de parentes, o irmão e a irmã da mãe, o irmão e a irmã do pai, os #ilhos
destes e os av$s 6 ainda, outro tipo de termos de parentesco se aplica aos parentes mais
e&tensos da vizinhança imediata Rinalmente, há termos de parentesco usados num
sentido verdadeiramente classi#icat$rio, baseados parcial, mas nunca inteiramente, nas
distinçEes de clã !s sons usados nesses di#erentes sentidos são iguais, mas os usos, isto
é, seus signi#icados, são distintos Aada uso, o individual, o estendido, o local e o
classi#icat$rio, é di#erenciado por distinçEes #onéticas, por mais sutis "ue sejam, por
circunlocuçEes #i&as e por índices conte&tuais P apenas por conta da e&traordinária
,/
incompet-ncia no tratamento linguístico das terminologias de parentesco "ue o caráter
composto das terminologias primitivas tem sido, até agora, completamente ignorado
“:erminologias classi#icat$rias” de #ato não e&istem, como já disse Mas precisarei
retornar a este ponto mais uma vez
9epois disso, será possível criticar diretamente o jogo l$gico de álgebra do
parentesco, desde Morgan e ?ohler a 'ivers e ;ra ) = ;eligmanC e mostrar dentro de
"uais limites este jogo é legítimo e onde ele se torna espDrio Bma ou duas "uestEes
permanecem> a de#inição de parentesco e descend-ncia, pela "ual tenho sido criticado
recentemente por 8 ' 'adcli##e()ro*n no presente peri$dicoC a natureza das
e&tensEes de parentesco, em "ue terei de lidar com as críticas
N.T.
do meu amigo 6 6
6vans(%ritchard .também em Man5C a natureza do tratamento #uncional do parentesco,
pela "ual recebi críticas gentis, porém, a meu ver, irrelevantes, por parte de 7ord
'aglan, no Dltimo nDmero de Man.
N.T.
N.T.
Stri4tur"s no origina#.
,M