(…) - “O AMOR É UM OLHAR, FEITO DE

OUTRO OLHAR”

Explicar-te? Pois bem, menina, vou tentar, mas
escuta até ao fim: Diz-se que a mudança de
mentalidades, de hábitos e crenças é difícil e levam
muito tempo, senão anos. Pois bem, o único
acontecimento que faz com que mudemos todas as
nossas certezas, hábitos e crenças num instante é “o
apaixonar”. Quando nos apaixonamos esquecemos
quem fomos, somos, o que queríamos ser e para
onde íamos, para só querermos ser, de agora em
diante, aquele que pensamos que o nosso amado
quereria que fossemos.

Menina, toda a pessoa deveria apaixonar-se três
vezes na vida: a primeira para poder conhecer essa
inebriante experiencia, sem a qual a vida não
mereceria ser vivida e sem a qual seria sempre
incompleta, a segunda para poder errar e cometer
loucuras, como todo o apaixonado erra e
enlouquece, e faz grandes e pequenos disparates, e a
terceira para poder amar de verdade, sem loucuras
nem excessos, apenas calmamente, com alegria, com
ciúmes, com medo de perder a pessoa amada,
sentindo saudades de um dia… de uma horas… Em
suma, amar de verdade, é pensar cada instante nela,
sentir o seu cheiro, escutar o som do seu riso, ver o
seu olhar, mesmo estando ela do outro lado do
Atlântico, mesmo a mil quilómetros de distância… é
o momento em que o amor já é um lugar
sossegado… e não apenas um olhar.

E o que faz alguém apaixonar-se? E porque que é
que esse facto, aparentemente inofensivo, agradável
até, que faz a o nosso coração e alma alegrar-se até
ao infinito, muda totalmente as nossas pobres vidas
para sempre? Se preciso for, num instante; entre por
açúcar no café e engolir o último dos três goles,
mudamos todos os nossos planos de vida, sabendo
que os olhos da pessoa amada nos comtempla nesse
momento…

Na verdade o que tem mais poder no amor são os
olhos. O que faz com que mudemos de qualquer
opinião é o olhar dela; um olhar que para a pessoa
estranha é sempre igual, mas para nós, que estamos
apaixonados, é sempre diferente, as vezes é tenro,
cheio de calor, as vezes é triste, como o inverno, as
vezes é cheio de raiva, as vezes, as mais das vezes, é
agradavelmente… apaixonado.

Apaixonamo-nos sempre através dos olhos e não
através da beleza física ou interior... Nunca nos
apaixonamos pela boa educação, pela bondade da
amada, nem pela sua cor de cobre, ébano, marfim ou
girassol, cada um mais lindo que a outra; não
ficamos enamorados nem pela textura suave como a
seda da pele trigueira que nós faz imaginar como
seria dormir num colchão de pétalas, cobertos com
um lençol de seda da China; não somos enfeitiçados
pelo seu cheiro de cravo e canela, misturado com o
sabor da maresia, da brisa suave ainda apenas morna
pelo sol levante. da praia de Bruce … nem
enrabichamos pela bunda maravilhosa, prometendo
o paraíso nesta vida, nem pelo peito generoso,
fazendo-nos desejar voltar a ser bebés de novo, nem
pela cara de santa ou de diaba, travestido de mulher.

Não, definitivamente não, nós apaixonamos nem por
aqueles lábios carnudos, mesmo que ligeiramente
húmidos, entreabertos, numa promessa muda, real,
ao alcance das nossas mãos (e lábios); não, não nos
encantamos nem pelo seu perfume de jasmim, nem
pelo sorriso por de sol dela, nem pelo seu caminhar
suave como o ronronar de um gato, nem pelos lindos
olhos negros, nem pela exótica cor verde misteriosa,
nem pelo azul celeste, prometendo a ventura de
poder olhar para a o ouro sobre o azul o resto das
nossas vidas...

Não nos apaixonamos porque ela é linda… ou ele,
maravilhoso…Apaixonamos pelo “olhar” e através
do olhar … É caso para dizer que se o conhecimento
nos chega através de percepções, o amor nos chega
através do olhar. Nos olhos é que reside toda a fonte
e mistério do amor. É no momento que os nossos
olhos se cruzam com os de outrem - e por alguma
razão, desconhecida - algo inexplicável se dá, se
sucede (numa dimensão também ela desconhecida),
e congela esse momento no tempo e no espaço das
nossas existências para todo o sempre… É assim que
nasce o amor... Em dois seres que nunca
imaginaram-se nesse estado, em pessoas que nunca
se conheceram, em gente que nem a língua, um do
outro, conhecem...

A linguagem do olhar tem o poder de ser
universal…assim como o amor… Mas o que é o
olhar?
- Menina, o olhar é algo imperceptível, não tem
nenhuma evidência física, mas “sai” de um ser para
o outro, como um raio invisível e quando atinge o
alvo não há nada a fazer… As vezes, muda as nossas
vidas para sempre.

Amor de verdade chega penas pelo olhar… é
somente depois desse olhar, desse primeiro, que
definiu o sentimento, que provoca o frémito que nos
percorre dos pés a cabeça cada vez que ela aparece
no nosso canto de olho…

Um olhar embora invisível, indolor, incolor, sente-
se; as vezes mais do que um violento soco no
estomago; as vezes nos trespassa como uma lâmina
fria, as vezes, nos aconchega mais do que um
cobertor quente… as vezes magoa tão
profundamente que nada deixa depois dela… nem
cinzas de um sentimento outrora tão forte…as vezes,
nos anima até ao infinito e nos faz ser mais do que
somos.

As vezes é um sol no inverno da nossa existência,
acendendo em nós uma chama já moribunda…, as
vezes, nos destrói para sempre… As vezes é uma
muda despedida final nesta vida…, as vezes é a
promessa de um reencontro, um dia na vida, mas que
não pode ser dita por palavras…

Mas tudo isso, toda a paixão, toda uma vida comum,
toda a perdição, toda a felicidade, só vem depois do
primeiro encantamento, depois do primeiro olhar…
É só depois desse primeiro olhar, que cada vez que
ela se aproxima o nosso coração bate tão forte, tão
descontrolado, que quando ela desaparece na
esquina, seguramos na parede com uma mão para
não cairmos, e a outra levamos ao peito e apertamos
longamente, tentando acalma-lo, antes que exploda
de tanta comoção... É só depois desse olhar, desse
primeiro e infinito olhar, que um rapazinho de 14
anos entende, que na verdade, o que faz girar o
mundo não é a bola de futebol, que agora segura nas
mãos, mas o amor.

O amor de verdade… como esse seu - do qual
jamais se esquecerá a vida inteira… - que se afasta,
lesto, levada pelas esguias pernas dessa garota - a
mais linda do mundo - que sobe, dançando, a
“descida de Manel Saturnino”… para lá no alto,
depois de pensar mil coisas num segundo, parar - um
instante quase eterno - e virar a cabeça, e na sua
inocência de treze anos, enviar como um clarão, um
olhar envergonhado mas apaixonado, embrulhado
num sorriso sem igual, feito de promessa… ambos
só adivinhados, pois pela distância e pelo sol que lhe
feria os olhos… mas o amor tem o dom da
ubiquidade, de poder ver o que os olhos não
podem… e o poder de adivinhar…adivinhar o que o
coração tanto quer…e assim, o menino advinha que
a promessa contida no olhar, era a promessa de um
beijo…

P.S.

O que mais posso dizer-te sobre isso Menina?
Conto-te isto porque, não tenho mais ninguém para
contar; mas já passou tanto tempo… Sábado passado
passei nesse local e, inadvertidamente, olhei para o
horizonte e o sol queimou os meus olhos como
naquele dia, há tantos e tantos anos; e isso teve o
condão de me fazer voltar no tempo… e levantei os
olhos de novo, semicerrando-os (como da outra vez)
para os proteger do abrasar do Sol, e assim, firme
aguentei, querendo por um momento, por força de
um milagre, tornar a ver a sua silhueta recortada
pelo brilho desse mesmo astro, a única testemunha
muda dos dois momentos, virando de novo para mim
e sorrindo, como da outraa vez… pela última vez…

Não, não sei: Hoje, passados que foram tantos anos,
não sei o que foi feito dessa garota; que mundo a
tragou, quantos momento felizes viveu, que amores
teve, que filhos gerou… mas sei que num momento
mágico da minha existência, deixei de ser menino
para começar a ser homem… pelo seu olhar.

Fernando S. Teixeira
Café do Centro Cultural Francês de Bissau
4 Março de 2013