Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de Antropologia
Programa de Pós!radua"ão em Antropologia Social
F#$io %allart %oreira
Cadeias dominadas:
Dinâmicas de uma instituição em trajetórias de jovens internos
São Paulo
&'((
F#$io %allart %oreira
Cadeias dominadas:
Dinâmicas de uma instituição em trajetórias de jovens internos
Disserta"ão apresentada ao Programa de
Pós!radua"ão em Antropologia Social do
Departamento de Antropologia da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo, para a o$ten"ão do
t)tulo de %estre em Antropologia*
+rientadora, Profa* Dra* -ose Sati.o !itirana
Hi.i/i
São Paulo
&'((
%+-01-A, F#$io %allart
Cadeias dominadas, din2micas de uma institui"ão em tra/etórias de /ovens internos
Disserta"ão apresentada ao Programa de
Pós!radua"ão em Antropologia Social do
Departamento de Antropologia da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo, para a o$ten"ão do
t)tulo de %estre em Antropologia*
Aprovado em,
3anca 04aminadora
Prof* Dr* 55555555555555555555555555555 1nstitui"ão, 55555555555555555555555555555
6ulgamento, 55555555555555555555555555 Assinatura, 55555555555555555555555555555
Prof* Dr* 55555555555555555555555555555 1nstitui"ão, 55555555555555555555555555555
6ulgamento, 55555555555555555555555555 Assinatura, 55555555555555555555555555555
Prof* Dr* 55555555555555555555555555555 1nstitui"ão, 55555555555555555555555555555
6ulgamento, 55555555555555555555555555 Assinatura, 55555555555555555555555555555
Agradecimentos
Após idas e vindas, encontros e desencontros, refle47es constru)das e desconstru)das
em um simples piscar de ol8os, finalmente c8egou o momento de agradecer a todos a9ueles
9ue, de uma forma ou de outra, estiveram ao meu lado*
Agrade"o ao apoio financeiro do Consel8o :acional de Desenvolvimento ;ecnológico
<C:P9=, 9ue via$ili>ou a reali>a"ão desta pes9uisa com a concessão de uma $olsa de
%estrado, sem a 9ual não poderia seguir em frente*
? -ose Sati.o !itirana Hi.i/i, min8a orientadora, pelo incentivo, competência e,
principalmente, pelas cr)ticas sempre construtivas e estimulantes* Devo agradecer tam$@m aos
seus orientandos, 9ue leram a versão final desta disserta"ão <Ale4andre Ais8imoto, 3runa
;riana, Diana %ateus, -enato 6ac9ues, 1sadora 3iella, %agda -i$eiro e !uil8erme Bo.ote=*
Aos colegas da turma de mestrado, com os 9uais pude de$ater e trocar ideias, $em
como ao corpo docente do Programa de Pós!radua"ão em Antropologia Social da
Universidade de São Paulo <PP!ASUSP=, em especial, aos professores com os 9uais tive um
contato mais intenso durante o per)odo de mestrado, Heitor FrCgoli, %#rcio Silva, Paula
%ontero, 6Clio Sim7es, Lilia Sc8Darc> e SElvia Caiu$E* %uito o$rigadoF
A min8a $anca de 9ualifica"ão, composta pelas professoras Paula %ontero e Gera da
Silva ;elles, pelas importantes contri$ui"7es, 9ue fi>eram com 9ue o tra$al8o avan"asse*
Ao Centro 3rasileiro de An#lise e Plane/amento <C03-AP=, so$retudo H Ana Paula
!aldeano, %aur)cio Fiore, !a$riel Feltran, Paulo %alvasi, 1sa$el !eorges, Daniel De Lucca,
6uliana +liveira, 1n#cio Dias e ;aniele -ui, integrantes do grupo de estudos coordenado pelo
prof* -onaldo Almeida, os 9uais leram a versão preliminar de min8a disserta"ão e teceram
coment#rios e4tremamente proveitosos* As poucas oportunidades em 9ue camin8ei ao lado de
-onaldo pela favela de Paraisópolis, em virtude de outra pes9uisa, de fato, foram suficientes
para 9ue eu admirasse a sua inteligência, $em como a dedica"ão pelo tra$al8o acadêmico*
Ao apoio de 0duardo Dias de Sou>a e Pl)nio -odrigues, amigos insepar#veis nas 8oras
mais dif)ceis* +$rigado por terem disponi$ili>ado os seus ouvidos durante os momentos em
9ue nada parecia fa>er sentido*
Um agradecimento especial aos meus interlocutores, so$retudo aos adolescentes e
funcion#rios 9ue con8eci do lado de dentro das mural8as* ;8iago, -o$erto, Cleiton, AsdrC$al,
%arcelo, Felipe, Dona 1sa$el, Claudin8a, 0dson, Alan, Caio, Peterson, 3runo, Carlos, Sauma,
!leidson, Helena, Sandra, Paulo* Certamente não serei capa> de nomear todos eles*
Agrade"o tam$@m H min8a fam)lia, em especial, aos meus pais, LCcio e %agda, com
os 9uais pude contar nos momentos mais dolorosos* De fato, sem vocês não teria conseguido
c8egar at@ a9ui* Ao meu pai, meu mel8or amigo, o$rigado por sempre acreditar em mim* ?
min8a mãe, agrade"o pelas inCmeras conversas ao telefone, pela dedica"ão, paciência e,
so$retudo, pelo carin8o 9ue tanto nos une*
0nfim, não poderia dei4ar de agradecer H 3ianca PEl, amiga e compan8eira de todos
os momentos, dos mais agrad#veis aos mais angustiantes* Sem a sua presen"a marcante e
alegre $oa parte deste tra$al8o não teria sido poss)vel* %uito o$rigadoF
De onde quer que comecemos, observamos
movimento, algo que aconteceu antes.
:or$ert 0lias
Resumo
%+-01-A, F* %* Cadeias dominadas, din2micas de uma institui"ão em tra/etórias de /ovens
internos* &'((* (IJ f* Disserta"ão de %estrado em Antropologia Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, &'(&*
+ presente tra$al8o, $aseado em pes9uisa etnogr#fica desenvolvida em uma institui"ão de
controle social, a Funda"ão Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente <Funda"ão
CASA=, de$ru"ase so$re o deslocamento do universo institucional ao longo do tempo, tendo
como ponto de partida a cria"ão da Funda"ão :acional do 3em0star do %enor
<FU:A30%=, em pleno conte4to de ditadura militar* ;ratase de etnografar o movimento
ininterrupto da institui"ão, isto @, de vêla a partir de uma perspectiva processual, atentando
para as figura"7es sociais 9ue emergem das rela"7es esta$elecidas entre os atores 9ue
circulam pelas distintas unidades de medida socioeducativa de interna"ão* ;endo como $ase a
reconstitui"ão de três tra/etórias, procurase desvelar a din2mica de funcionamento dos
distintos espa"os institucionais, iluminando as tens7es 9ue os caracteri>am, $em como os
incessantes em$ates travados entre os atores sociais 9ue se movimentam em tal conte4to* Se
em um primeiro momento, nos defrontamos com os antigos espa"os de interna"ão,
caracteri>ados, entre outros tra"os, pelas acentuadas disparidades de for"a entre os
adolescentes e os funcion#rios, com o reordenamento do universo institucional, veremos 9ue
em algumas Unidades de 1nterna"ão, con8ecidas como cadeias dominadas, os internos
tornamse os principais respons#veis pela gestão da opera"ão cotidiana de tais unidades*
0spa"os institucionais em 9ue os adolescentes orientam as suas a"7es de acordo com os
preceitos do Primeiro Comando da Capital <PCC=, 9ue, vale notar, tam$@m operam no sistema
prisional, $em como nas periferias de São Paulo, o 9ue torna evidente 9ue tais territórios,
ainda 9ue 8a/am particularidades, encontramse conectados, isto @, na mesma sintonia*
Palavrasc8ave, Crime, Funda"ão CASA, Configura"7es, ;ra/etórias, PCC*
Abstract
%+-01-A, F* %* Cadeias dominadas, t8e dEnamics of an institution in inmatesK tra/ectories*
&'((* (IJ f* Disserta"ão de %estrado em Antropologia Faculdade de Filosofia, Letras e Ci
ências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, &'(&*
;8e present studE is $ased on an etnograp8ic researc8 developed in a Social Control
1nstitution .noDn as Funda"ão Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente
<Funda"ão CASA=* 1t focuses on t8e s8ift in t8e institutional universe over time, considering
t8e $uilding of t8e Funda"ão :acional do 3em0star do %enor <FU:A30%=, amid t8e
%ilitarE Dictators8ip, its starting point* ;8e et8nograp8E aims to register t8e constant
displacement in t8e institution, in ot8er Dords, it loo.s at t8is movement from a processli.e
perspective, ta.ing into account t8e social figurations t8at emerge from t8e relations8ip
esta$lis8ed among t8e social actors D8o roam t8roug8 t8e social and educational measures at
t8e 6uvenile Detention Units* 3ased on t8e reconstitution of t8ree tra/ectories, it see.s to
reveal t8e dEnamic and functioning of t8ese distinct institutional spaces, $ringing into t8e
lig8t t8e tensions D8ic8 c8aracteri>e t8em, as Dell as t8e unceasing disputes among t8e social
actors D8o move in suc8 conte4t* 1f, at first, De are faced Dit8 t8e same old detention places
c8aracteri>ed, among ot8er features, $E t8e Dide contrast of poDer $etDeen teenagers and
staff, leading to a rearrangement in t8e institutional universe, De also perceive t8at in some of
t8ose 6uvenile Detention Units, .noDn as cadeias dominadas, t8e inmates 8ave $ecome
primarilE responsi$le for managing t8e UnitKs everEdaE operation* 1nstitutional places D8ere
t8ese teenagers guide t8eir actions according to t8e rules of PCC <Primeiro Comando da
Capital=, D8ic8 also operates in t8e /ail sEstem, as Dell as in t8e outs.irts of São Paulo* ;8is
s8oDs t8at t8ose areas, alt8oug8 different and Dit8 t8eir oDn specificities, are connected* 1n
ot8er Dords, t8eE are on t8e same Davelengt8*
AeEDords, Crime, Funda"ão CASA, Arrangement, ;ra/ectories, PCC*
Sumário
Introdução. A instituição em foco: refe!"es teórico#metodoógicas***********************************('
0m campo, participa"ão e o$serva"ão*****************************************************************************(J
A formula"ão do te4to, imagens e tra/etórias*******************************************************************&L
A constru"ão dos cap)tulos***********************************************************************************************M(
Ca$%tuo &. ' movimento instituciona na trajetória de um interno**********************************ML
(*( U0L, o tra$al8o na lavoura e a puni"ão generali>ada***********************************************L'
(*& +s infratores, su$versão da ordem institucional********************************************************LL
(*M + deslocamento como constante institucional***********************************************************NM
Ca$%tuo (. As unidades dominadas como figuração socia**************************************************JO
&*( Pedro, dos pe9uenos furtos aos primeiros passos institucionais********************************O&
&*& U1(, a porta de entrada para as unidades dominadas************************************************I'
&*M Unidos pela tensão, disciplinas, funças e população*************************************************II
&*L As dominadas após os Pata9ues do PCCQ, ;Clio entra em cena*******************************(((
&*N Bandeira branca, a pa> deve reinar na cadeia*********************************************************(M&
Ca$%tuo ). Dominada* meio a meio e na mão dos funça: figuraç"es $oss%veis*****************(LM
M*( %eses depois, a cadeia tá na mão dos funça***********************************************************(LR
M*& Cadeia meio a meio, é nóis aqui e eles lá****************************************************************(JL
Consideraç"es +inais. Salve geral: cadeias e quebradas na mesma sintonia*********************(ON
Refer,ncias -ibiográficas*****************************************************************************************************(IM
A instituição em foco: refe!"es teórico#metodoógicas
(! as fotos modificam e ampliam nossas idéias sobre o
que vale a pena ol"ar e sobre o que temos o direito de
observar. Constituem uma gramática e, mais importante
ainda, uma ética do ver. #or fim, o resultado mais
e$traordinário da atividade fotográfica é nos dar a
sensação de que podemos reter o mundo inteiro em nossa
cabeça % como uma antologia de imagens.
Susan Sontag <&''L=
As imagens da cadeia
(
ainda permanecem vivas em min8a memória* Com certa
fre9uência, retornam na forma de son8os indese/#veis* !rades, mural8as, negocia"7es,
re$eli7es, fugas, celas, revoltas, armas, torturas, seguran"as e revistas* São muitas fotografias
9ue, 9uando entrela"adas, como uma esp@cie de 9ue$raca$e"a, reconstroem o cen#rio
institucional* ;al e4periência dei4a marcas indel@veis, cravadas tanto na carne 9uanto na
mente* :ão só para a9ueles 9ue estão privados de li$erdade, mas tam$@m para todos 9ue, de
uma forma ou de outra, vivenciam o cotidiano de uma institui"ão de controle social* Como
$em o$serva um de meus interlocutores, é sen"or, a cadeia mudou as nossas vidas <;Clio
&
,
adolescente 9ue cumpriu medida socioeducativa nas Unidades de 1nterna"ão &N e &R, am$as
locali>adas no comple4o de Franco da -oc8a=*
0ntre tantas idas e vidas, marcadas pelas inCmeras viagens por cima dos tril8os do
transporte metropolitano de São Paulo, passei $oa parte de meus dias, entre setem$ro de &''L
e novem$ro de &''R, circulando por distintas Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão 0stadual
do 3em0star do %enor <antiga F030%=, atual Funda"ão Centro de Atendimento
Socioeducativo ao Adolescente <Funda"ão CASA=* Durante esse per)odo, ministrei atividades
culturais aos adolescentes 9ue, pelo fato de terem cometido atos infracionais
M
, cumpriam
medida socioeducativa de interna"ão nos seguintes comple4os, 3r#s, Franco da -oc8a,
;atuap@, Gila %aria e -aposo ;avares* Gale salientar 9ue as oficinas de comunica"ão, como
tam$@m eram con8ecidas tais atividades, tiveram in)cio em setem$ro de &''L, durante a
(
+s termos em it#lico 9ue aparecem ao longo do te4to correspondem a categorias e falas de meus interlocutores,
com e4ce"ão das e4press7es em idioma estrangeiro*
&
0nfati>o 9ue todos os nomes citados ao longo desta disserta"ão são fict)cios*
M
Considerase ato infracional a conduta descrita como crime ou contraven"ão penal <0statuto da Crian"a e do
Adolescente, 0CA, artigo ('M=*
('
reali>a"ão de meu pro/eto de conclusão de curso em Comunica"ão Social <6ornalismo=, no
9ual o o$/etivo central era possi$ilitar a produ"ão de um /ornal impresso ela$orado pelos
próprios adolescentes* A partir de &''N, após a finali>a"ão de tal pro/eto, passei a acessar os
distintos espa"os de interna"ão por meio das +rgani>a"7es :ão !overnamentais 9ue atuam
/unto H Funda"ão CASA, sendo contratado por tais institui"7es
L
* Se num primeiro momento,
as oficinas de comunica"ão eram divididas em dois módulos, a sa$er, produ"ão de te4tos e
fotografia, a partir dos primeiros meses de &''J, concentrei todas as min8as energias na
ela$ora"ão de atividades fotogr#ficas, em especial, na produ"ão de ensaios ela$orados por
meus interlocutores, o 9ue não significa 9ue no decorrer deste processo a$ri mão dos te4tos
confeccionados pelos adolescentes 9ue, em sua maioria, retratam o cotidiano da interna"ão, a
8istória de suas vidas <rela"7es familiares, locais de moradia, tra/etória escolar, in)cio do
envolvimento com o crime, passagens pela pol)cia, etc=, $em como a din2mica de
funcionamento dos distintos espa"os institucionais aos 9uais tive acesso*
Foi durante a convivência prolongada com adolescentes e agentes institucionais,
participando de suas dificuldades e dramas por um longo per)odo de tempo, momento
marcado pela intensa apro4ima"ão e di#logo /unto aos su/eitos pes9uisados, 9ue $oa parte dos
pro$lemas 9ue envolvem esta disserta"ão foram sendo constru)dos* :esse sentido, vêse 9ue
as oficinas constitu)ram uma maneira privilegiada de inser"ão em campo, na medida em 9ue
garantiram a min8a permanência no espa"o institucional semanalmente, por um lado,
facilitando o esta$elecimento de v)nculos com os atores sociais 9ue vivenciam o cotidiano dos
espa"os de interna"ão e, por outro, propiciando a apro4ima"ão necess#ria de um universo de
pr#ticas sociais e sim$ólicas 9ue, at@ então, eu só con8ecia por meio das p#ginas dos /ornais*
Durante as atividades ministradas, nas 9uais forneci aos internos no"7es $#sicas de
fotografia, tais como foco, en9uadramento, profundidade de campo e composi"ão, os
adolescentes transitavam por todos os am$ientes dentro da unidade, entre os 9uais, o setor
administrativo, a sala do diretor e os seus próprios 9uartos, espa"os 9ue, não fosse a proposta
da oficina de retratar o cotidiano institucional, dificilmente seriam acessados pelo pes9uisador
com tanta facilidade e fre9uência
N
*
L
Ao longo desta proposta de tra$al8o, so$retudo nos Cap)tulos ( e &, te"o algumas refle47es acerca do papel
e4ercido pelas +rgani>a"7es :ão !overnamentais no conte4to da medida socioeducativa*
N
Paula %iraglia, ao discorrer so$re a sua inser"ão em Unidades de 1nterna"ão da F030%SSP no final da d@cada
de R', per)odo em 9ue a pes9uisadora pTde acompan8ar algumas aulas de mCsica ministradas aos adolescentes
do comple4o do ;atuap@, evidencia as dificuldades enfrentadas por a9ueles 9ue fa>em pes9uisa de campo em
institui"7es de controle social* P%in8a presen"a nas aulas de mCsica se mostrou acima de tudo inade9uada, eu
não era funcion#ria da institui"ão, não era professora de mCsica e principalmente, era mul8er, /ovem, num
am$iente essencialmente masculinoQ <%1-A!L1A, &''(, p*(&=* Segundo a autora <&''(, p*(L=, durante tais
((
U importante ressaltar 9ue durante todo o per)odo em 9ue estive em campo, a c2mera
fotogr#fica correu pelas mãos de todos os adolescentes 9ue encontravamse inscritos na
oficina* A iniciativa de disponi$ili>ar o e9uipamento fotogr#fico aos internos, para 9ue estes
produ>issem as suas próprias imagens
J
, como podemos ver no relato a$ai4o, configurouse
como um importante procedimento metodológico*
'( de %ar"o de &''I* U um domingo especial, dia de c8urrasco na Unidade de
1nterna"ão &N, locali>ada no comple4o de Franco da -oc8a* Al@m disso, @ dia de visita,
momento aguardado com ansiedade pelos adolescentes, 9ue se preparam para rece$er os
familiares no interior da cadeia* Do lado de fora das mural8as, mães, pais, irmãos e
namoradas, com as roupas impec#veis, concentramse na porta de entrada do espa"o de
interna"ão* ;odos aguardam a revista em seus corpos, reali>ada pelos agentes de
seguran"a* As tortas, os $olos, os pacotes de $olac8a, os ma"os de cigarro, enfim, tudo
a9uilo 9ue ser# entregue aos internos, em poucos instantes, perde a forma* + receio de
9ue 8a/a algo escondido em tais produtos como, por e4emplo, drogas, armas e celulares,
serve de /ustificativa para 9ue os agentes institucionais destrocem os alimentos* Da
mesma forma em 9ue o$servo a revista al8eia, marcada pelo descontentamento dos
familiares 9ue se aglomeram na porta de entrada do comple4o desde Hs 9uatro 8oras da
man8ã, em poucos segundos, noto 9ue as mãos do vigilante tam$@m desli>am so$re o
meu corpo* Contudo, o 9ue mais c8ama a aten"ão do agente institucional @ a m#9uina
fotogr#fica, compan8eira insepar#vel de min8as idas a campo* De fato, se fosse
conta$ili>ar todos os minutos em 9ue permaneci na porta de entrada das Unidades de
1nterna"ão pelas 9uais transitei, em parte, pelo receio dos funcion#rios em rela"ão H
presen"a da c2mera fotogr#fica, 9ue nunca possu)am a autori>a"ão da dire"ão para 9ue
eu pudesse entrar com o e9uipamento, sem dCvida, assustariame com o tempo perdido*
;al receio mostrase /ustific#vel, afinal, $oa parte do 9ue acontece no interior das
mural8as, aos ol8os dos agentes institucionais, deve permanecer do lado de dentro*
Após o$ter a autori>a"ão para entrar, sigo rumo ao espa"o de interna"ão* :o interior da
unidade &N, tam$@m con8ecida como &io 'egro, os adolescentes, ao notarem 9ue estou
com a c2mera fotogr#fica em mãos, agradecem* Pela primeira ve>, o dia de visita ser#
retratado* A lem$ran"a dos familiares, 9ue para muitos adolescentes, desde o in)cio da
medida socioeducativa, permanece apenas na memória, com a m#9uina fotogr#fica, ser#
estampada no papel* Assim 9ue coloco os meus p@s dentro do p#tio da unidade, os
disciplinas, /ovens 9ue ocupam postos de lideran"a no conte4to da interna"ão,
rapidamente se apropriam do e9uipamento* 0m poucos segundos, noto 9ue as correntes
de prata, os relógios e as roupas de marca enfeitam os corpos dos ladr(es, afinal, como
visitas, marcadas pela sensa"ão de não pertencimento ao universo institucional, Ppude apenas ter contato com
Vpeda"osV das unidades, o p#tio, o refeitório, a sala de televisão <***=* 0stava clara a necessidade da cria"ão de uma
Vnova entradaV na institui"ão, $em como no cotidiano dos internosQ* Foi então 9ue a pes9uisadora optou,
/untamente com -ose Sati.o !itirana Hi.i/i, por ministrar aos internos uma oficina de discussão e de reali>a"ão
de v)deos, apro4ima"ão 9ue propiciou um novo contato com os adolescentes*
J
Com tal afirma"ão, não pretendo sugerir 9ue as fotografias tiradas pelos adolescentes constituemse como o
produto de ol8ares individuais* Se assim o fi>esse, ingenuamente, estaria descartando a influência de min8a
própria participa"ão durante os e4erc)cios fotogr#ficos, $em como dos outros adolescentes 9ue se aglomeram ao
lado da9uele 9ue vai clicar a imagem* :esse sentido, pareceme prof)cuo atentar para o fato de 9ue as fotografias
produ>idas, de certa forma, são o resultado de ol8ares compartil8ados* ;ratamse de produ"7es coletivas,
resultantes de um intenso processo de intera"ão e negocia"ão*
(&
ressaltam meus interlocutores, @ preciso sair bem na foto, tá ligado) 0n9uanto alguns
$ifes assam na c8urras9ueira, so$ os ol8ares atentos de alguns internos, outros
adolescentes se divertem com o e9uipamento* Fa>em poses, simulando fu>is com as
mãos* 0scol8em as grades como pano de fundo de suas imagens* Durante a sessão
fotogr#fica, evidenciam as regras de conduta 9ue orientam as suas a"7es* 1magens sem
camiseta, por e4emplo, não são permitidas* Wuestão de respeito, afinal, tem visita no
p#tio* Al@m disso, tais fotografias serão entregues aos familiares, o 9ue significa 9ue se
algum /ovem for retratado sem a camiseta ao lado de seus compan8eiros,
comportamento deselegante
O
, tal imagem pode cair nas mãos da mãe ou mesmo da
namorada de um dos internos, acontecimento indese/#vel* 0m determinado momento da
festa um disciplina se apro4ima, a* sen"or, vamos tirar uma foto de todos os disciplinas
da cadeia) Digo 9ue não* +s funcion#rios, 9ue tam$@m estão no p#tio interno, não
gostariam de ver uma fotografia com todos a9ueles 9ue encontramse associados H
posi"ão de lideran"a, mesmo por9ue para muitos agentes institucionais @ preciso negar a
e4istência de l)deres entre os adolescentes* Passamse alguns instantes e outro disciplina
se apro4ima, fa+ essa pra nóis sen"or* %ais uma ve>, digo ao /ovem 9ue se a fotografia
for tirada terei pro$lemas com a dire"ão da unidade* + adolescente pede para 9ue eu
pense e se afasta* Sento na 9uadra de fute$ol e come"o a pensar o 9uanto seria
interessante se eu tivesse a oportunidade de recon8ecer todos os internos 9ue ocupam
postos de lideran"a* :o cotidiano da interna"ão, alguns adolescentes evitam afirmar as
suas posi"7es devido ao receio de poss)veis transferências para outras unidades* Por
outro lado, penso tam$@m 9ue se tivesse dei4ado a c2mera fotogr#fica em casa não teria
tantos pro$lemas* Fico em um canto do p#tio apenas o$servando a festa* + disciplina
não desiste, se apro4ima novamente e enfati>a, e a* sen"or, vou pedir pra alguém fa+er
a foto, certo) Após tanta insistência, resolvo ceder e ver o 9ue acontece* + adolescente
vai em dire"ão ao centro da 9uadra e grita, salve rapa+iada, -*, é pra todos os
disciplina colá na quadra, sem e$ceção, tá ligado) +$servo a cena de certa dist2ncia*
+s disciplinas, aos poucos, vão aparecendo* A c2mera fotogr#fica vai iluminando os
ocupantes dos distintos postos 8ier#r9uicos* 0m poucos segundos, os ladr(es se
posicionam* +s sorrisos saem de cena, cedendo espa"o Hs e4press7es carrancudas* +s
corpos alin8amse* :ão @ por acaso 9ue o piloto da cadeia, figura associada H posi"ão
de prest)gio e poder no conte4to da interna"ão, mant@m o seu corpo no centro da
imagem, de $on@ a>ul, camiseta $ranca e corrente de prata pendurada no pesco"o* Dias
depois, como previsto, /# com as imagens reveladas em mãos, teria 9ue conceder
inCmeras e4plica"7es H dire"ão da unidade, 9ue 9uestionava a postura por mim adotada
durante o evento, como é que o sen"or dei$a esses adolescentes sa*rem com essas
armas nas mãos e com essa pose de bandido) .les estão aqui para serem reeducados e
não para continuar com essa postura de ladrão. -", e além disso tem outra coisa,
alguém /á viu essas fotos sem ser voc0) <relato e4tra)do de meu caderno de campo=*
:o relato descrito acima, vêse 9ue o e9uipamento fotogr#fico, ao circular pelas mãos
dos adolescentes, constituise como um instrumento incitador de performances* :o limite,
argumento 9ue o uso da c2mera fotogr#fica por parte de meus interlocutores, em si mesmo, /#
produ> dados de pes9uisa* Ana LCcia Ferra>, 0dgar ;eodoro da Cun8a e -ose Sati.o Hi.i/i,
O
Comportamento indevido, 9ue segundo os meus interlocutores destoa da eti9ueta prisional*
(M
ao refletirem so$re o uso do audiovisual na pes9uisa etnogr#fica, tendo como interlocutores
)ndios 3ororo, grupos de tra$al8adores e adolescentes estudantes de mCsica em um pro/eto
social, apro4imamse metodologicamente pelo fato de levarem a campo uma c2mera de v)deo*
+s pes9uisadores, ao discorrerem so$re tal especificidade, al@m de enfati>arem 9ue o uso de
tal instrumento proporciona diferentes possi$ilidades de intera"ão e comunica"ão com os
su/eitos pes9uisados, sugerem 9ue Pa proposta de oferecer a c2mera ao grupo @ vista como
meio de provoca"ãoQ <F0--AXY CU:HAY H1A161, &''J, p*&II=*
:o conte4to da medida socioeducativa de interna"ão, a inser"ão da c2mera fotogr#fica
e, conse9uentemente, o processo de produ"ão de fotos por parte de meus interlocutores, como
vimos, contri$uiu para a irrup"ão de todos os adolescentes 9ue ocupavam postos de lideran"a
na Unidade de 1nterna"ão &N* 0m um curto espa"o de tempo, após o disciplina re9uisitar a
presen"a das lideran"as no p#tio interno, tive a oportunidade de vêlos, todos, representando
seus pap@is de l)deres perante a lente do e9uipamento fotogr#fico, acontecimento 9ue facilitou
a apro4ima"ão de tais internos, 8a/a visto 9ue os adolescentes dese/avam a cena estampada no
papel* Gale ressaltar 9ue tal fotografia, apesar da insistência, nunca foi entregue nas mãos das
lideran"as, gra"as ao pedido feito pela dire"ão da unidade* %ostreil8es a imagem apenas na
tela do computador* Durante duas ou três semanas após o evento, negociamos, conversamos
insistentemente so$re o destino da fotografia* Ao longo de tais conversas, tive a oportunidade
de perguntar aos adolescentes os postos de lideran"a 9ue estes ocupavam na organi>a"ão
8ier#r9uica, $em como as fun"7es desempen8adas por cada um deles no cotidiano da
interna"ão, estreitando os la"os esta$elecidos com tais atores
I
* Al@m disso, @ importante
atentarmos para a 9uestão do sorriso, ou mel8or, para a ausência deste no e4ato momento em
9ue a imagem @ clicada* Durante as sess7es fotogr#ficas, os adolescentes, ao mesmo tempo
em 9ue vestem as roupas de marca, passam gel no ca$elo e penduram as correntes de prata,
9uando tais o$/etos encontramse dispon)veis, evitam os sorrisos 9ue, do ponto de vista de
meus interlocutores, vale notar, demonstram sinal de fra9ue>a* Ao 9uestionar o piloto da
cadeia so$re a postura adotada pelos disciplinas durante o evento descrito acima, inclusive
di>endo ao /ovem 9ue em outras Unidades de 1nterna"ão /# 8avia notado conduta semel8ante,
o adolescente enfati>ou 9ue, é isso mesmo sen"or, é assim que tem que ser. -qui só tem
I
:o Cap)tulo &, ao discorrer so$re a din2mica de funcionamento de determinados espa"os institucionais da
Funda"ão CASA, classificados por meus interlocutores como unidades dominadas, retomo a discussão acerca
das lideran"as* Por ora, @ importante ressaltar 9ue durante $oa parte do tempo em 9ue estive em campo transitei
por tais espa"os de interna"ão, nos 9uais os adolescentes, como veremos ao longo dos pró4imos cap)tulos,
procuram seguir as orienta"7es de integrantes do Primeiro Comando da Capital <PCC=, coletivo de criminosos
9ue atua dentro e fora do sistema penitenci#rio paulista*
(L
bandido, isso aqui é uma cadeia e não um parque de diversão, tá ligado) . depois, se esses
funcionários pegar nossas fotos e v0 nóis tudo sorrindo, como é que fica) 'ão pode
demonstrar fraque+a, senão os caras v0m pra cima* :esse sentido, notase 9ue a o$serva"ão
das sess7es fotogr#ficas possi$ilita o acesso a determinadas normas de conduta 9ue orientam a
e4periência social de interna"ão* De certa forma, 9uando os adolescentes se apropriam da
c2mera fotogr#fica, produ>indo uma s@rie de cenas 9ue são o produto da própria presen"a do
e9uipamento, tornase evidente 9ue estes demonstram parte da gram#tica institucional*
Apesar de ter reunido um e4tenso corpus fotogr#fico ao longo da pes9uisa de campo,
9ue conta com apro4imadamente R'' imagens
R
, o presente tra$al8o não tra> fotografias
estampadas em suas p#ginas, e4ceto as imagens te4tuais, mesmo por9ue, ao inv@s de determe
na an#lise do material produ>ido, isto @, do conteCdo fotogr#fico, durante o per)odo em 9ue
estive em campo priori>ei a o$serva"ão acerca do processo de produ"ão de imagens* ;al
afirma"ão não significa 9ue a an#lise do conteCdo imag@tico ten8a sido re/eitada* 0m
determinados momentos, so$retudo durante a reda"ão da disserta"ão, recorri Hs fotografias,
9ue au4iliaramme na reconstru"ão de distintos cen#rios institucionais, afinal, como afirmam
Attan@ e LangeDiesc8e <&''N, p*(MJ=, as imagens facilitam as descri"7es, pois permitem 9ue
o pes9uisador ten8a uma cena em mãos e reflita so$re Pas informa"7es veiculadas pela
imagem, as roupas dos atores, suas atitudes corporais, o am$iente, a paisagem etcQ*
De fato, a presen"a da c2mera fotogr#fica nos distintos espa"os de interna"ão da
Funda"ão CASA produ> uma sucessão de cenas, 9ue não se restringem ao 9ue @ capturado por
a9uele 9ue permanece atr#s da lente* ;ratamse de imagens 9ue, pelo próprio uso do
e9uipamento em campo, colocam em movimento adolescentes e agentes institucionais*
Contudo, a c2mera fotogr#fica não deve ser vista sem a presen"a da9uele 9ue disponi$ili>a o
instrumento de provoca"ão, afinal, certas coisas acontecem por9ue, em tal conte4to,
constituome como um personagem espec)fico* As imagens capturadas por meus ol8os,
transcritas para o di#rio de campo
('
, em certo sentido, são constru)das a partir de um posto de
R
3asicamente, o material fotogr#fico pode ser dividido em dois grupos, (= fotografias 9ue revelam o cotidiano
dos espa"os de interna"ão <infraestrutura, atividades culturais, escolares e profissionali>antes, dias de visita, etc=
e &= retratos individuais e coletivos dos adolescentes, em 9ue os seus corpos são capturados dos p@s H ca$e"a*
('
Durante a pes9uisa produ>i um e4tenso di#rio de campo, 9ue atualmente conta com &N' p#ginas* 0m rela"ão H
organi>a"ão das notas escritas, no inicio, optei por coloc#las em uma Cnica pasta, seguindo a ordem cronológica
de meus apontamentos* ;empos depois, como transitei por distintas Unidades de 1nterna"ão espal8adas pela
-egião %etropolitana de São Paulo <-%SP=, tornouse evidente 9ue tal organi>a"ão não facilitava a consulta do
material, principalmente por9ue os relatos aumentavam na mesma velocidade em 9ue ia a campo* Foi então 9ue
preferi manter a se9uência cronológica, contudo, criando uma pasta para cada ano* Posteriormente, dentro de
cada pasta anual optei por organi>ar as notas conforme a Unidade de 1nterna"ão e, em seguida, por tema < dia de
visita, lideran"a, 8istórias de vida, etc=*
(N
o$serva"ão particular* Desse modo, nas lin8as 9ue seguem, com o intuito de e4plicitar as
condi"7es em 9ue a pes9uisa foi empreendida, te"o algumas considera"7es acerca da
especificidade de min8a inser"ão em campo como fotógrafo
((
*
.m cam$o: $artici$ação e observação
Para 9ue possamos refletir acerca da especificidade de min8a posi"ão em campo, em
primeiro lugar, fa>se necess#rio atentar para o significado atri$u)do H imagem fotogr#fica no
conte4to de uma institui"ão de controle social* +s agentes institucionais, se/am eles diretores,
coordenadores pedagógicos, psicólogos ou seguran"as, em virtude das condi"7es degradantes
em 9ue se encontram $oa parte dos espa"os de interna"ão, mostramse receosos 9uanto H
poss)vel divulga"ão de fotografias* Afinal, se tais imagens estamparem as p#ginas dos /ornais,
a pressão e4ercida pelas entidades de defesa dos direitos da crian"a e do adolescente, $em
como pelos órgãos governamentais 9ue reali>am inspe"7es /udiciais nas Unidades de
1nterna"ão, entre os 9uais, o Departamento de 04ecu"7es da 1nf2ncia e 6uventude <D016=,
pode tra>er conse9uências desagrad#veis, so$retudo H9ueles 9ue fa>em parte da dire"ão da
unidade, 9ue correm o risco de serem afastados de seus respectivos cargos, respondendo
/udicialmente caso os internos se/am identificados por meio das fotografias veiculadas
(&
*
0m tal conte4to, o fato de circular pelo espa"o institucional com uma m#9uina
fotogr#fica em mãos, disponi$ili>ando o e9uipamento aos adolescentes para 9ue estes
produ>am as suas próprias imagens, desperta a desconfian"a dos agentes institucionais, 9ue se
apro4imam com certa fre9uência para o$ter informa"7es detal8adas acerca dos pró4imos
passos a serem adotados pelo fotógrafo* :esse sentido, constatase 9ue tal posto de
o$serva"ão colocame em uma situa"ão conflituosa, mas ao mesmo tempo privilegiada*
((
;al 9uestão mostrase relevante, principalmente por9ue considero 9ue determinada inser"ão em campo, assim
como os m@todos empregados pelo etnógrafo durante a reali>a"ão da pes9uisa, são elementos 9ue implicam nos
resultados o$tidos* Aarina 3iondi <&'(', p*LR=, por e4emplo, ao reali>ar pes9uisa de campo em unidades
prisionais, per)odo em 9ue a autora fa>ia visitas regulares a um parente 9ue encontravase preso, salienta 9ue,
Pmin8a inser"ão como visita, como algu@m 9ue con8ece a prisão Vde dentroV, me confere uma posi"ão
privilegiada para me apro4imar deste coletivo, se/a dentro ou fora das pris7es, pois compartil8o a gram#tica de
sentimentos e valores @ticos e morais 9ue só os Vde dentroV con8ecemQ* Contudo, vale notar 9ue a especificidade
de tal inser"ão em campo, ao mesmo tempo em 9ue apro4ima 3iondi de seus interlocutores, distancia a
pes9uisadora de outros atores sociais* P<***= as condi"7es de min8a pes9uisa de campo não permitiram o acesso
aos funcion#rios para al@m do estritamente necess#rio H entrada na unidadeQ <31+:D1, &'(', p*MJ=*
(&
U vedada a divulga"ão de atos /udiciais, policiais e administrativos 9ue digam respeito a crian"as e
adolescentes a 9ue se atri$ua autoria de ato infracional* Par#grafo Cnico* Wual9uer not)cia a respeito do fato não
poder# identificar a crian"a ou adolescente, vedandose fotografia, referência a nome, apelido, filia"ão,
parentesco, residência e, inclusive, iniciais do nome e so$renome <0CA, artigo (LM=*
(J
Afinal, a desconfian"a 9ue suscito por parte do corpo funcional fa> com 9ue os agentes
institucionais se apro4imem, inclusive, personagens 9ue nem sempre são tão acess)veis*
0sta$elecer v)nculos, 9uais9uer 9ue se/am, so$retudo com seguran"as e diretores, atores
sociais 9ue, em geral, não possuem tanto contato com os educadores culturais, configurase
como uma tarefa tra$al8osa* +ra, para 9ue se esta$ele"a uma rela"ão com tais funcion#rios @
preciso 9ue 8a/a uma possi$ilidade de intera"ão* 0m determinadas ocasi7es, tal pro4imidade
foi possi$ilitada pelas desconfian"as de tais atores sociais em rela"ão Hs oficinas de foto* Por
e4emplo, na Unidade de 1nterna"ão MO, comple4o -aposo ;avares, ao apresentar uma
proposta de tra$al8o ao diretor de tal espa"o de interna"ão, o agente institucional, após
enfati>ar 9ue gostaria de analisar as fotografias clicadas pelos adolescentes durante a oficina,
fato 9ue, vale notar, propiciou alguns encontros semanais com tal funcion#rio, nos 9uais
conversamos so$re outros assuntos referentes H cadeia, fe> 9uestão de evidenciar a sua
preocupa"ão em rela"ão Hs atividades fotogr#ficas, sabe como é né professor, temos que
tomar cuidado com essas imagens, mesmo porque qualquer /ornal pagaria uma nota por
fotos daqui de dentro, o que traria problemas para nós, tanto pra mim quanto pro sen"or
(M
*
De fato, aos ol8os dos integrantes dos distintos setores institucionais, notase 9ue a
oficina de fotografia caracteri>ase por ser uma esp@cie de atividade PperigosaQ, 9ue precisa
ser acompan8ada de perto* Ao mesmo tempo em 9ue a inser"ão em campo como fotógrafo
provoca a desconfian"a por parte dos agentes institucionais, o 9ue me coloca, em certo
sentido, em uma rela"ão de em$ate com os mesmos, 8a/a visto 9ue muitas ve>es fui
impossi$ilitado de acessar os espa"os de interna"ão com a c2mera fotogr#fica, tendo 9ue
ministrar uma oficina de fotografia sem o e9uipamento ade9uado, a própria rela"ão divergente
9ue esta$ele"o com tais atores sociais me apro4ima dos adolescentes, principalmente da9ueles
9ue encontramse associados H posi"ão de lideran"a 9ue, ao rec8a"arem as restri"7es impostas
pelos mem$ros do corpo funcional, entre as 9uais, a tentativa de impedir a entrada da c2mera
fotogr#fica em determinadas ocasi7es, como podemos ver, se mo$ili>am, no sentido de
9uestionar tal procedimento institucional*
(M
U importante destacar 9ue a partir de meados de &''I, 9uando decidi iniciar o di#logo com alguns agentes
institucionais so$re a possi$ilidade de reali>ar uma pes9uisa de mestrado so$re a institui"ão, a desconfian"a por
parte de tais atores tornouse ainda mais e4pl)cita* :o 9ue concerne aos adolescentes, a ideia de produ>ir uma
pes9uisa so$re o universo institucional, em um primeiro momento, mostrouse complicada demais para meus
interlocutores* Com o passar do tempo, desco$ri 9ue os próprios internos tin8am ela$orado uma e4plica"ão
acerca da pes9uisa* Para os adolescentes, a min8a presen"a no interior da cadeia estava relacionada ao fato de
9ue eu escreveria um livro so$re a F030%, contudo, não como pes9uisador, e sim, como professor de fotografia
9ue ministrava aulas na institui"ão*
(O
Carta para a 1undação
'óis, internos da 2nidade de 3nternação 45, cumprindo medida socioeducativa de
internação, temos algumas d6vidas do curso de fotografia que é oferecido pela
1undação C-7-. #or que que temos um curso de foto se a gente não pode fotografar e
ser fotografado) 7erá que voc0s t0m algum medo de dei$ar a máquina entrar na
cadeia) 8oc0s oferecem um curso de foto e agora não querem dei$ar a gente tirar as
nossas próprias fotografias, isso não está certo. 'ão dá pra entender, tá ligado) -lguns
de nós t0m muita vontade de ser fotografados, mas a oportunidade de aprender é pouca
porque a 1undação oferece o curso, mas 9s ve+es a máquina não entra na cadeia,
então, fica muito dif*cil de nóis sair e trabal"ar nesse ramo. #orque esse é o intuito,
que nóis saia daqui com o pensamento bom, mas desse /eito que voc0s se comportam
fica dif*cil. #edimos a colaboração de voc0s a* de fora Zda dire"ão da unidade[ pra que
esse problema se/a resolvido o mais rápido poss*vel*
+ te4to descrito acima, produ>ido pelas lideran"as da Unidade de 1nterna"ão MI,
comple4o -aposo ;avares, durante as oficinas de fotografia, evidencia 9ue tais internos,
9uando impossi$ilitados de mane/ar o e9uipamento fotogr#fico e, portanto, verem e serem
vistos atrav@s da lente, se movimentam, tendo como o$/etivo o 9uestionamento das atitudes
adotadas pelos agentes institucionais, acontecimento 9ue, num conte4to /# marcado pela
tensão, potenciali>a os em$ates travados entre tais atores, produ>indo uma s@rie de cenas 9ue
emergem diante de meus ol8os, mas, ao mesmo tempo, colocandome em uma situa"ão
delicada perante os integrantes do corpo funcional 9ue, a todo instante, fa>em 9uestão de
e4plicitar a sua insatisfa"ão* De que lado que o sen"or está "ein professor) <funcion#ria do
setor pedagógico, Unidade de 1nterna"ão &R, comple4o de Franco da -oc8a=* Como veremos,
se os inCmeros em$ates travados entre os adolescentes e os distintos agentes institucionais
caracteri>amse como um tra"o central da disserta"ão 9ue ora apresento, em certo sentido,
isso devese ao fato de 9ue durante a pes9uisa ocupei uma posi"ão 9ue potenciali>ava as
tens7es /# e4istentes entre tais atores, mas 9ue tam$@m era atravessada por elas* Sendo assim,
entendo não ser poss)vel falar em uma posi"ão de neutralidade no 9ue concerne H situa"ão de
pes9uisa, 8a/a visto 9ue P<***= nem a e4periência nem a atividade interpretativa do pes9uisador
cient)fico podem ser consideradas inocentesQ <CL1FF+-D, (RRI, p*LM=*
:o conte4to da interna"ão, ao mesmo tempo em 9ue a imagem fotogr#fica representa
uma amea"a aos agentes institucionais, o 9ue não implica no distanciamento do pes9uisador, e
sim, em pro4imidade, ainda 9ue esta se/a marcada pela constante tensão, do ponto de vista
dos adolescentes, @ importante notar 9ue as cenas estampadas no papel configuramse como
o$/etos de dese/o* Ao longo das oficinas ministradas, pude constatar o interesse de meus
(I
interlocutores pela imagem fotogr#fica* 0m diversas ocasi7es, mesmo os adolescentes 9ue não
fa>iam parte da lista de participantes pediamme, insistentemente, para serem retratados
(L
* Se
atentarmos para o fato de 9ue a medida socioeducativa de interna"ão, de certa forma,
caracteri>ase pelo es9uecimento dos adolescentes 9ue permanecem do lado de dentro das
mural8as, tal interesse tornase compreens)vel, afinal, em locais onde se9uer 8# um espel8o
para 9ue os /ovens possam o$servar as mudan"as em seus próprios corpos, Po fato de estar H
frente da c2mera tem conse9uências su$/etivas importantesQ <F0--AXY CU:HAY H1A161,
&''J, p*&RM=, entre as 9uais, o a$andono da invisi$ilidade 9ue caracteri>a a e4periência social
de interna"ão* Contudo, o dese/o dos internos em rela"ão Hs imagens, so$retudo no 9ue
concerne aos retratos individuais, momento em 9ue os adolescentes estampam os seus corpos
atr#s das grades enferru/adas, escol8endo os espa"os mais deteriorados no interior da cadeia
como pano de fundo de suas fotografias e simulando armas com as mãos, pode ser
compreendido so$ um outro ponto de vista, principalmente 9uando nos deparamos com o
destino de tais fotografias 9ue, apesar da resistência dos agentes institucionais, muitas ve>es,
por meio dos familiares nos dias de visita, aca$am sendo enviadas para o outro lado dos
muros institucionais* :esse sentido, vêse 9ue nem todas as lem$ran"as relacionadas ao
per)odo de interna"ão, algumas delas e4tremamente dolorosas, tais como os incessantes
espancamentos e as constantes 8umil8a"7es, devem ser es9uecidas* + corpo estampado no
papel fotogr#fico, de preferência atr#s das grades e com as mãos em forma de armas, ao
atestar a passagem de meus interlocutores pela cadeia, aos ol8os dos adolescentes, configura
se como s)m$olo de status, propiciando o recon8ecimento por parte da9ueles 9ue tam$@m
concentram as suas aten"7es na pr#tica de crimes* -" sen"or, querendo ou não, ter uma foto
nossa dentro da cadeia é...como que eu posso di+er) 8amos supor que eu tivesse interesse de
continuar no crime, porra se eu colar com a foto na biqueira Zponto de venda de drogas[, os
caras vai se ligar que eu ten"o uma camin"ada Ze4periência[, que eu não sou só um novato
(L
Como as oficinas de fotografia contavam com a presen"a de apenas (N adolescentes inscritos por turma,
e4igência feita pela própria institui"ão, a lista de espera para participar das atividades fotogr#ficas, reali>adas
durante ciclos de três meses, em alguns momentos, c8egou a contar com a presen"a de J' adolescentes,
acontecimento 9ue, de certa forma, provocava o descontentamento de outros educadores culturais, 9ue
mostravamse insatisfeitos com tal situa"ão, na medida em 9ue muitos adolescentes a$andonavam os seus cursos
para acompan8ar as aulas de fotografia* Gale ressaltar 9ue em determinadas ocasi7es, com o o$/etivo de
solucionar tais pro$lemas, uma mesma unidade passou a contar com duas oficinas de imagem* :esse sentido, se
levarmos em considera"ão o fato de 9ue os agentes institucionais dese/am preenc8er $oa parte do tempo em 9ue
os adolescentes permanecem internados, 8a/a visto 9ue a ociosidade, aos ol8os de tais atores, op7emse H
manuten"ão da ordem, tornase evidente 9ue as oficinas de fotografia, ao mesmo tempo em 9ue constituemse
como uma atividade PperigosaQ, mostramse relevantes, so$retudo por9ue contri$uem significativamente para a
ocupa"ão do tempo dos internos*
(R
que quer emoção <adolescente da Unidade de 1nterna"ão MO, comple4o -aposo ;avares=*
Da mesma forma em 9ue o 8istórico do adolescente antes de ingressar na Funda"ão
CASA constituise como um fator decisivo no 9ue concerne H inser"ão do rec@mc8egado no
grupo de l)deres, argumento 9ue desenvolvo em detal8es ao longo do Cap)tulo &, tornase
evidente 9ue a e4periência ad9uirida durante o cumprimento da medida socioeducativa de
interna"ão configurase como um tra"o central na tra/etória de meus interlocutores, so$retudo
para a9ueles 9ue, após a desinterna"ão, pretendem investir todas as suas energias na
reali>a"ão de atividades criminosas* - verdade é que só os mano que fica uma cota dentro da
cadeia Z9ue permanecem internados por um $om tempo[ é que sai daqui de dentro com um
con"ecimento. :s mano Zladr(es[ lá de fora valori+a a camin"ada Ze4periência[ que voc0
constrói aqui dentro. .u entrei aqui um menino sen"or e agora, depois de quase tr0s anos,
vou sair um "omem <piloto da Unidade de 1nterna"ão &N, comple4o de Franco da -oc8a=
(N
*
;endo em vista os apontamentos tecidos at@ o momento, constatase 9ue a reali>a"ão
de atividades fotogr#ficas no conte4to da interna"ão e, portanto, a min8a própria inser"ão em
campo como fotógrafo, apro4imame dos adolescentes* Al@m disso, vale ressaltar 9ue ao
longo dos cinco anos em 9ue transitei pelas distintas Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão
CASA, momento em 9ue desempen8ei os pap@is de educador e pes9uisador 9uase 9ue
simultaneamente, sempre 9ue poss)vel, procurei participar do cotidiano dos internos,
so$retudo, fora do conte4to das oficinas* As partidas de fute$ol, marcadas pela intensa disputa
entre os ladr(es, mas, acima de tudo, pelo respeito entre os competidores, as refei"7es
semanais, per)odo em 9ue divid)amos o fei/ão sem gosto, o arro> sem sal e os $ifes oleosos, as
conversas so$re se4o, 9ue dificilmente seriam travadas com uma pes9uisadora, e os /ogos de
$aral8o, dominó e tranca, reali>ados nos 9uartos dos internos, sem dCvida, constitu)ram
importantes momentos de participa"ão e, conse9uentemente, de o$serva"ão da vida de meus
(N
:esse sentido, pelo menos em parte, distanciome das a$ordagens propostas por 0rving !offman* Como
sugere o autor <(ROL, p*JL=, P<***= entre os internados de muitas institui"7es totais, e4iste um intenso sentimento
de 9ue o tempo passado no esta$elecimento @ tempo perdido, destru)do ou tirado da vida pessoaY @ tempo 9ue
precisa ser VapagadoVY @ algo 9ue precisa ser VcumpridoV, Vpreenc8idoV ou VarrastadoV de alguma formaQ* Gale notar
9ue os apontamentos sugeridos por !offman, de certa maneira, sim$oli>am o sentimento de Lucas, personagem
9ue constitui o foco de min8as an#lises no Cap)tulo (, indiv)duo 9ue permaneceu internado na F030%SSP
durante $oa parte das d@cadas de O' e I' e 9ue fa> 9uestão de salientar 9ue o tempo passado dentro da institui"ão
foi completamente perdido* Por@m, se atentarmos para as tra/etórias de Pedro e ;Clio, personagens do Cap)tulo &
9ue estiveram internados durante o per)odo em 9ue reali>ei a pes9uisa de campo, veremos 9ue o sentimento dos
adolescentes em rela"ão ao universo institucional @ outro* Para tais atores, o tempo de permanência na
institui"ão, al@m de não ser descartado, dei4ou saudades* Desse modo, tornase evidente a import2ncia de
atentarmos para o movimento do universo institucional e, acima de tudo, para o fato de 9ue os sentimentos, os
dese/os e os movimentos dos personagens 9ue transitam pelos espa"os de interna"ão devem ser compreendidos
levandose em conta 9ue tais indiv)duos encontramse inseridos em configura"7es espec)ficas*
&'
interlocutores, per)odo em 9ue fui rece$endo respostas para as perguntas 9ue eu nem se9uer
8avia formulado
(J
* Somente em determinadas ocasi7es, 9uando alguma 9uestão espec)fica
in9uietavame, optava por fa>er uma $ateria de perguntas aos adolescentes, algo semel8ante
Hs entrevistas formais, procedimento 9ue, no conte4to da interna"ão, mostrouse pouco
rent#vel* Por diversas ve>es, pude notar 9ue 9uando interrompia o di#logo com meus
interlocutores, tendo como o$/etivo central a formula"ão de uma s@rie de perguntas, estes
demonstravam um certo desconforto por meio de suas respostas 9ue, em segundos, tornavam
se monossil#$icas, taman8o o receio de di>er algo indevido perante os outros compan8eiros,
so$retudo 9uando os 9uestionamentos por mim formulados tratavam de temas delicados
como, por e4emplo, a rela"ão dos internos com os integrantes do Primeiro Comando da
Capital* Contudo, o fato de não reali>ar entrevistas no conte4to da medida socioeducativa não
significa 9ue ao longo do mestrado a$ri mão de tal t@cnica de pes9uisa, afinal, como veremos
a seguir, tal procedimento au4ilioume na reconstitui"ão de tra/etórias, per)odo em 9ue tive
conversas individuais com alguns de meus interlocutores fora das unidades, situa"ão em 9ue
tais atores sociais comportavamse de outra maneira, o 9ue evidencia 9ue a reali>a"ão de
entrevistas envolve uma s@rie de vari#veis, entre as 9uais, o conte4to em 9ue ocorre o
encontro entre o pes9uisador e o entrevistado* +ra, fa>er perguntas ao piloto da cadeia, no
momento em 9ue o adolescente ocupa uma posi"ão de prest)gio e poder perante os outros
internos, o$viamente, @ diferente de entrevist#lo em sua casa*
Se o contato com os internos caracteri>ouse pela pro4imidade, em alguns momentos,
vale notar 9ue tal rela"ão colocoume em situa"ão dif)cil* Da mesma forma em 9ue meus
interlocutores convidavamme para almo"ar e falar so$re os diversos assuntos 9ue envolviam
a din2mica de funcionamento da cadeia, estes, $aseandose nos v)nculos esta$elecidos,
mostravamse H vontade para fa>er outros convites e pedidos, nem sempre tão agrad#veis*
(' de /ul8o de &''J, comple4o de Franco da -oc8a* 0ntro no p#tio da Unidade de
1nterna"ão &R com algumas imagens do ensaio fotogr#fico 9ue reali>amos na Cltima
aula* Logo de cara encontro o piloto da cadeia, 9ue me convence a ir ao seu 9uarto
(J
Como $em o$serva -ut8 Cardoso, ao tecer considera"7es acerca da pes9uisa participante, entre as 9uais, o
papel da su$/etividade como instrumento de con8ecimento, para a9ueles 9ue adotam tal pr#tica de pes9uisa trata
se de valori>ar os dois movimentos, isto @, tanto a o$serva"ão 9uanto a participa"ão* PSe a Cltima @ condi"ão
necess#ria para um contato onde afeto e ra>ão se completam, a primeira fornece a medida das coisas* +$servar @
contar, descrever e situar os fatos Cnicos e os cotidianos, construindo cadeias de significa"ão* 0ste modo de
tra$al8ar sup7e, como vimos, um investimento do o$servador na an#lise de seu próprio modo de ol8ar* Para
conseguir esta fa"an8a, sem se perder, entretanto pela psican#lise amador)stica, @ preciso ancorar as rela"7es
pessoais em seus conte4tos e estudar as condi"7es sociais de produ"ão dos discursos, o do o$servador e o do
entrevistadoQ <CA-D+S+, (RIO, p*MJ=*
&(
mostrar as fotos* 0m tal am$iente, alguns adolescentes reali>am tra$al8os artesanais*
:oto 9ue 8# algo estran8o no ar, al@m do c8eiro de macon8a* Wuando aca$amos de
ol8ar as imagens, c8amo os internos para sentarmos no refeitório* :o meio do camin8o,
o piloto me convida para entrar em outro 9uarto* + /ovem est# ansioso* Apesar da
desconfian"a, opto por seguir os seus passos* Logo 9ue coloco os meus p@s dentro das
9uatro paredes, constato 9ue não estamos so>in8os* +utros três disciplinas tam$@m
estão presentes* Um deles fec8a a porta* ; pra nóis ter mais privacidade* 0m poucos
instantes, a disposi"ão de nossos corpos me incomoda* 0ncontrome encostado na
parede* Ao meu redor, os disciplinas fa>em um semic)rculo* As gotas de suor come"am
a escorrer pelas min8as costas* A temperatura de min8as mãos se altera, como se elas
estivessem dentro de uma geladeira* Uma de min8as pernas, involuntariamente, não
p#ra de tremer* U preciso controlar tais movimentos, afinal, as lideran"as o$servam o
estado de meu corpo, dos p@s H ca$e"a* +s disciplinas come"am a falar* 0nfati>am 9ue
sou um educador de confian"a* Agradecem pelas atividades fotogr#ficas* : sen"or sabe
que esse é o mel"or curso que tem na cadeia* A conversa prossegue* + piloto discorre
so$re as suas outras passagens pelo universo institucional* 0m determinado momento, o
adolescente enfati>a 9ue a revista feita nos corpos dos funcion#rios destoa do
procedimento adotado /unto aos visitantes* 8oc0 sabe do que eu estou falando, né
sen"or) + motivo de estarmos reunidos no 9uarto 9uente e apertado, tornase evidente*
.ntão, o sen"or sabe que nóis é recriminado pela sociedade, os cara larga nóis aqui
dentro e ac"a que nóis vai se recuperar e tal. : problema é que falta muitas coisas
nessa cadeia aqui, tá ligado) 'ós vai se virando, mas sempre que a gente pode contar
com uma pessoa como o sen"or é importante. ZF#$io[, mas, no que que eu posso
a/udar) Z#iloto[, a" sen"or, nóis tá precisando de um baseado, o sen"or sabe né, a
cadeia com pouca macon"a não vira. 'óis /á t0m os contato, tá tudo acertado lá fora, é
só o sen"or botar pra dentro. De repente, nóis pode pensar numa gratificação pro
sen"or. Argumento* Digo aos adolescentes 9ue o meu papel dentro da cadeia não @
fornecer drogas, e sim, apenas possi$ilitar 9ue estes participem de uma atividade 9ue os
interessa* + piloto, en9uanto os outros disciplinas permanecem calados, insiste, a*
sen"or, ninguém vai ficar sabendo de nada, o bagul"o é só entre nós, pode confiar em
nós quatro aqui que é nóis que tá na frente da cadeia
(O
. Digo ao /ovem 9ue não estou
disposto a correr tal risco* ZF#$io[, porra mano, se me pegarem lá fora eu t< fodido, tá
ligado) .u dependo dessa grana aqui pra sobreviver. Após a min8a resposta, o silêncio
toma conta do am$iente* Durante alguns segundos, 9ue parecem 8oras, continuamos
com os nossos corpos na mesma posi"ão, apenas trocando ol8ares* -epentinamente,
taman8o o incTmodo com tal situa"ão, opto por tomar uma atitude* Comunico aos
internos 9ue para mim a conversa est# encerrada* + piloto, novamente, insiste, p<
sen"or, v0 se consegue tra+er pelo menos umas corrente pra nóis pendurar no pescoço
ou uns produtos pra passar no cabelo. Digo ao adolescente 9ue irei analisar o pedido*
Aproveito para complementar a fala, a* rapa+iada, espero que essa conversa não
atrapal"e a confiança que constru*mos. Z#iloto[, não sen"or, pode ficar sossegado que
tra+endo ou não tra+endo o que nóis pediu, a relação de respeito vai continuar sendo a
mesma <relato e4tra)do de meu caderno de campo=*
(O
Como veremos, os disciplinas, pelo fato de serem recon8ecidos por adolescentes e agentes institucionais como
lideran"as, tam$@m são c8amados de os frente da cadeia e os frente da situação*
&&
Gêse 9ue a rela"ão esta$elecida com os adolescentes, assim como ocorre com os
distintos agentes institucionais, em alguns momentos, tam$@m caracteri>ase pela tensão*
Durante alguns dias, so$retudo no per)odo noturno, momento em 9ue tentava, em vão,
desconectarme das e4periências vividas dentro da cadeia, tal acontecimento retornou H
min8a mente com uma for"a avassaladora* Por meio de alguns pesadelos, sentia o meu corpo
sendo pressionado contra a parede de um local escuro e sem ventila"ão* 0m outras
fotografias, entregava um ta$lete de macon8a nas mãos dos disciplinas, sendo preso por
policiais militares na sa)da do espa"o de interna"ão* Por@m, o retorno H Unidade de 1nterna"ão
&R na semana seguinte, mostroume 9ue não 8avia motivos para tanta preocupa"ão* Se não
estava disposto a oferecer o 9ue os disciplinas tin8am me pedido, por 9uest7es @ticas, ao
menos podia disponi$ili>ar algo 9ue tam$@m os interessava, a sa$er, mais imagens
fotogr#ficas* Ao longo de algumas conversas /unto Hs lideran"as, nas 9uais enfati>ei a
impossi$ilidade de atender os pedidos feitos pelos adolescentes, com$inei com os frente da
cadeia 9ue faria o poss)vel para convencer a dire"ão da unidade 9ue todos os internos,
apro4imadamente (N' /ovens, mereciam uma fotografia individual* Pela primeira ve>, mesmo
os internos 9ue não encontravamse inscritos na oficina foram fotografados, acontecimento
9ue me apro4imou ainda mais de meus interlocutores* #orra sen"or, apesar de voc0 não
contribuir com nóis naquela fita lá voc0 mostrou que é firme+a professor, que está do nosso
lado <piloto da unidade=* Al@m disso, com o passar do tempo, comecei a perce$er 9ue apesar
de não ter atendido as solicita"7es dos disciplinas, a postura por mim adotada durante tal
acontecimento, ao contr#rio do 9ue pensava inicialmente, foi decisiva, contri$uindo para o
estreitamento dos la"os esta$elecidos com a9ueles 9ue encontravamse associados H posi"ão
de lideran"a* 0m primeiro lugar, por9ue optei por não compartil8ar nen8um instante de nossa
conversa com os agentes institucionais, o 9ue poderia ocasionar algumas san"7es aos internos,
9ue, @ importante ressaltar, demonstram profundo despre>o pelos caguetas* 0m segundo
lugar, mantive a palavra de 9ue não levaria nem ao menos um $aseado para dentro da cadeia,
mostrando aos adolescentes 9ue, mesmo em situa"7es de e4trema tensão, sustentava as
min8as opini7es* Para utili>ar um termo de meus interlocutores, aos ol8os dos ladr(es,
min8as palavras não fa+iam curva, conduta valori>ada pelos adolescentes*
Diante de tal cen#rio, conce$o meu tra$al8o de campo como um processo tenso,
dialógico e situado, no 9ual as rela"7es esta$elecidas com meus interlocutores, se/am eles
adolescentes ou funcion#rios, são constru)das a partir de um posto espec)fico de o$serva"ão e
&M
participa"ão, 9ue, como vimos, produ> apro4ima"7es e distanciamentos 9uase 9ue na mesma
velocidade* De certa forma, as considera"7es tecidas ao longo da disserta"ão 9ue ora
apresento são o resultado de tais encontros de pes9uisa, marcados pela imprevisi$ilidade,
pelos conflitos e pela presen"a de mCltiplas vo>es* ;ratamse de e4periências incontrol#veis,
9ue gan8am inteligi$ilidade por meio da te4tuali>a"ão, processo em 9ue o pes9uisador
transformase em uma esp@cie de tradutor do vivido*
A formuação do te!to: imagens e trajetórias
Conv@m destacar, desde logo, 9ue o presente tra$al8o consiste em etnografar o
deslocamento do universo institucional ao longo do tempo, tendo como ponto de partida a
cria"ão da Funda"ão :acional do 3em0star do %enor <FU:A30%=* Como veremos, trata
se de um movimento ininterrupto, propriedade indel@vel da própria estrutura institucional* :a
medida em 9ue o o$/etivo primordial @ atentarmos para o universo em 9uestão como um
processo, do 9ual emergem distintas configura"7es, isto @, forma"7es sociais e 8istóricas 9ue
constituemse como o produto das rela"7es esta$elecidas entre indiv)duos 9ue encontramse
unidos por la"os de interdependência
(I
, em um primeiro momento, fa>se necess#rio tecer
algumas considera"7es acerca da escrita etnogr#fica, principalmente por9ue considero 9ue Pa
etnografia est#, do come"o ao fim, imersa na escritaQ <CL1FF+-D, (RRI, p*&(=* De fato,
desde o instante em 9ue produ>i as primeiras lin8as desta disserta"ão uma 9uestão espec)fica
in9uietoume, afinal, como escrever so$re um o$/eto 9ue est# em constante deslocamento\
A dificuldade de tal empreitada tornase mais evidente se considerarmos 9ue as
próprias estruturas de pensamento e linguagem Hs 9uais estamos 8a$ituados contri$uem para a
produ"ão de o$/etos isolados, como se estes estivessem constantemente em estado de repouso*
<***= a nossa l)ngua o$riganos a falar e a pensar como se todos os ]o$/etos^ de
pensamento _ incluindo as pessoas _ fossem na realidade est#ticos* ;am$@m os
considera como não estando implicados em rela"7es* 04aminando o conteCdo de
manuais de sociologia encontramos muitos termos 9ue transmitem a ideia de
referência a o$/etos isolados e paradosY mas se o e4aminarmos mais minuciosamente
vemos 9ue se referem a pessoas 9ue estão ou estiveram constantemente em
movimento e 9ue se relacionam constantemente com outras pessoas* Pensemos em
conceitos como norma e valor, estrutura e fun"ão, classe social e sistema social
<0L1AS, (RO', p*(&M=*
(I
A no"ão de configura"ão, cun8ada por :or$ert 0lias <(RO'=, ser# desenvolvida ao longo do Cap)tulo (*
&L
Longe de desvencil8arme de alguns termos 9ue nos remetem H estagna"ão, taman8a a
comple4idade de passar as ideias para o papel e, ao mesmo tempo, 9uestionar a linguagem
interiori>ada, no presente tra$al8o procurei superar as dificuldades de discorrer so$re um
universo 9ue encontrase em constante movimento por meio de uma estrat@gia te4tual* 0m
meados de &''R, 9uando comecei a reler e4austivamente os relatos produ>idos durante o
per)odo em 9ue circulei pelas Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão CASA, aos poucos, dei
me conta de 9ue as cenas capturadas por meus ol8os, produtos de um ol8ar fotogr#fico so$re
o campo, ao serem transcritas, transformaramse em imagens te4tuais* Fotografias 9ue
possi$ilitam a visuali>a"ão dos espa"os de interna"ão aos 9uais tive acesso em detal8es
<frases cravadas nas paredes e nas carteiras das salas de aula, grades enferru/adas, cadeados,
port7es emperrados, etc=* Contudo, tratamse de imagens 9ue não se restringem Hs
caracter)sticas do espa"o f)sico, mas 9ue tam$@m retratam os gestos, as narrativas, os di#logos
e os movimentos corporais de atores 9ue encontramse inseridos em conte4tos espec)ficos*
;ais instantes fotogr#ficos, cada 9ual com a sua intensidade e movimento, 9uando colocados
em se9uência, gan8am for"a, evidenciando o deslocamento do universo institucional*
Gale ressaltar 9ue procurei adotar o mesmo procedimento em rela"ão Hs o$ras
consultadas, so$retudo Hs produ"7es te4tuais 9ue retrataram o cotidiano da interna"ão em
per)odos de tempo delimitados <A--UDA, (RIMY 310--0:3ACH, (RIOY A+S%1:SAB,
(RRMY %1-A!L1A, &''(=* 0m outras palavras, com o o$/etivo de atentar para o movimento
institucional, recorri Hs etnografias de outros pes9uisadores 9ue transitaram por espa"os de
interna"ão aos 9uais não tive acesso, em especial, durante a d@cada de I'* Ao longo das
leituras, tratei de percorrer as refle47es de tais autores em $usca da reconstitui"ão de cen#rios
espec)ficos por meio dos 9uais, como veremos adiante, principalmente no primeiro cap)tulo, @
poss)vel visuali>ar as caracter)sticas estruturais dos antigos espa"os de interna"ão, c8amados
de Unidades 0ducacionais, mas, so$retudo, a din2mica de funcionamento de tais am$ientes,
$em como as rela"7es esta$elecidas entre atores distintos 9ue, em alguns casos, passaram $oa
parte de suas vidas dentro de uma institui"ão de controle social*
Se os cen#rios institucionais por mim constru)dos, frutos da leitura $i$liogr#fica e de
min8as próprias o$serva"7es em campo como ocupante de uma posi"ão espec)fica, 9uando
colocados lado a lado, conferem movimento ao universo institucional, o 9ue, em certo
sentido, permite 9ue esta disserta"ão se/a compreendida atrav@s de fotografias te4tuais, vale
salientar 9ue o deslocamento do 9uadro institucional tornase ainda mais e4pl)cito 9uando se
&N
trata de o$servar o universo em estudo cravado nas tra/etórias de alguns personagens, com as
suas respectivas narrativas, dramas, frustra"7es e son8os*
De fato, so$retudo ao longo dos dois primeiros cap)tulos, veremos o universo
institucional atrav@s de três tra/etórias* :esse sentido, mo$ili>o o conceito tal como proposto
por Pierre 3ourdieu* + autor <(RRJ, p*OL=, ao distanciarse das a$ordagens 9ue descrevem a
vida como uma esp@cie de deslocamento linear e unidirecional ou, em outras palavras, como
Pum con/unto coerente e orientadoQ, com se9uências cronológicas ordenadas 9ue nos dão a
sensa"ão de um in)cio, meio e fim, salienta 9ue a narrativa auto$iogr#fica, ao selecionar
acontecimentos espec)ficos e esta$elecer cone47es 9ue fundamentam a sua e4istência,
encontra a cumplicidade do $iógrafo, na medida em 9ue am$os, entrevistado e entrevistador,
aceitam Pessa cria"ão artificial de sentidoQ <3+U-D10U, (RRJ, p*OJ=*
;entar compreender uma vida como uma s@rie Cnica e, por si só, suficiente de
acontecimentos sucessivos, sem outra liga"ão 9ue a vincula"ão a um Vsu/eitoV cu/a
Cnica const2ncia @ a do nome próprio, @ 9uase tão a$surdo 9uanto tentar e4plicar um
tra/eto no metrT sem levar em conta a estrutura da rede, isto @, a matri> das rela"7es
o$/etivas entre as diversas esta"7es <3+U-D10U, (RRJ, p*I(=*
Sendo assim, a no"ão de tra/etória tal como proposta por 3ourdieu <(RRJ, p*I(, grifo
do autor=, Puma s@rie de posiç(es sucessivamente ocupadas por um mesmo agente <ou um
mesmo grupo=, em um espa"o ele próprio em devir e su$metido a transforma"7es
incessantesQ, me permite deslocar o foco do su/eito, situando Pacontecimentos $iogr#ficos em
aloca"7es e deslocamentos no espa"o socialQ <A+F0S, &''(, p*&L=* Desse modo, enfati>o 9ue
o fato de de$ru"arme so$re as narrativas de meus interlocutores não implica trat#los como
indiv)duos, 8a/a visto 9ue o esfor"o 9ue empreendo consiste em caracteri>#los como
ocupantes de distintas posi"7es sociais no conte4to da interna"ão
(R
*
:o 9ue concerne H reconstitui"ão de tra/etórias, vale ressaltar 9ue a reali>a"ão de
entrevistas configurase como um importante procedimento metodológico* 0m rela"ão aos
três personagens centrais, 9ue dão vida a esta disserta"ão, saliento 9ue os con8eci do lado de
dentro dos muros institucionais* Pedro e ;Clio, protagonistas do Cap)tulo &
&'
, participaram das
(R
De certa forma, procuro seguir os passos delineados por Pierre 3ourdieu <(RRO, p*R= em - miséria do mundo,
o$ra na 9ual o autor $aseiase em Pdepoimentos 9ue 8omens e mul8eres nos confiaram a propósito de sua
e4istência e de sua dificuldade de viverQ* Gale notar 9ue os indiv)duos 9ue aparecem ao longo de suas entrevistas
devem ser compreendidos como personagens 9ue representam posi"7es sociais, afinal, @ preciso lem$rar 9ue as
rela"7es sociais não devem ser redu>idas a rela"7es entre su$/etividades Panimadas por inten"7es ou Vmotiva"7esV
por9ue se esta$elecem entre condi"7es e posi"7es sociais <***=Q <3+U-D10U, &''L, p*&I=*
&'
A escol8a de tais adolescentes devese ao fato de 9ue os dois /ovens possu)am uma longa e4periência, tanto na
&J
oficinas de fotografia ministradas no comple4o de Franco da -oc8a, o segundo por um
per)odo de apro4imadamente dois anos, o 9ue significa 9ue muito antes de reali>ar a primeira
entrevista com os adolescentes fora do conte4to da interna"ão, 8a/a visto os empecil8os
mencionados anteriormente, /# con8ecia muitas das 8istórias de suas vidas, informa"7es
pr@vias 9ue, @ importante notar, au4iliaram na formula"ão das perguntas 9ue seriam dirigidas
aos adolescentes posteriormente* Desse modo, nos encontros reali>ados após o t@rmino da
medida socioeducativa de interna"ão, durante os 9uais compareci aos munic)pios de meus
interlocutores, a sa$er, Campinas e ;au$at@, per)odo em 9ue nos encontramos em $ares,
restaurantes e par9ues, mas no 9ual tam$@m camin8amos por ruas e avenidas, procurei apenas
aprofundar algumas 9uest7es 9ue permaneciam em a$erto, tais como, 8istórico escolar,
tra/etória familiar, e4periências no mercado de tra$al8o, 9uase sempre informal, rela"ão com
a for"a policial, envolvimento com o crime, so$retudo com integrantes do PCC, etc*
A rela"ão constru)da dentro do espa"o de interna"ão, sem dCvida, fe> com 9ue
algumas dificuldades inerentes H pr#tica de entrevista fossem superadas* +s encontros
reali>ados do lado de fora das mural8as constitu)ramse como um momento privilegiado de
uma s@rie de conversas anteriores, nas 9uais /# 8av)amos trocado outras informa"7es,
pro4imidade 9ue facilitou o contato com os entrevistados fora da institui"ão
&(
*
Durante tais entrevistas, caracteri>adas pelas refei"7es compartil8adas e pelos
inCmeros copos de caf@, al@m de não me preocupar com o modo de apresentarme, não tive
9ue contar com o au4)lio de nen8um mediador para acessar os entrevistados, fatores 9ue,
como $em o$serva !a$riel Feltran <&''I, p*NI=, podem produ>ir efeitos incontrol#veis*
<***= fa>er entrevistas individuais @ diferente de conversar com grupos* +s modos de
apresentarse e, principalmente, 9uem @ 9ue apresenta o pes9uisador ao entrevistado
tam$@m modificam significativamente a porta de entrada da conversa, e portanto o
9ue ser# dito* Uma ve> fui apresentado a um /ovem como um `/ornalista 9ue 9uer
fa>er uma mat@ria com vocêK* ;entei corrigir, mas era tarde* Sa) com o depoimento
formatado das Vmat@rias televisivasV*
Funda"ão CASA 9uanto na pr#tica de crimes* Al@m disso, ao mencionar a possi$ilidade de entrevist#los, ainda
no comple4o de Franco da -oc8a, Pedro e ;Clio mostraramse interessados em conceder os seus depoimentos,
dandome os seus telefones, $em como os endere"os de suas respectivas residências, acontecimento 9ue facilitou
a nossa apro4ima"ão fora das mural8as* -* sen"or, pode contar comigo que eu quero falar a realidade da cadeia
pra muita gente que nem sabe o que acontece nesse inferno <;Clio=*
&(
3ourdieu, ao discorrer so$re alguns fatores 9ue afetam a rela"ão de entrevista, entre os 9uais, a imposi"ão da
l)ngua leg)tima por parte do entrevistador, $em como a dissimetria social 9ue atravessa a rela"ão todas as ve>es
9ue o pes9uisador ocupa uma posi"ão superior na 8ierar9uia das diferentes esp@cies de capital, afirma 9ue, em -
miséria do mundo, tomouse Pa decisão de dei4ar aos pes9uisadores a li$erdade de escol8er os pes9uisados entre
pessoas con"ecidas ou pessoas Hs 9uais eles pudessem ser apresentados pelas pessoas con8ecidas* A
pro4imidade social e a familiaridade asseguram efetivamente duas das condi"7es principais de uma comunica"ão
Vnão violentaVQ <3+U-D10U, (RRO, p*JRO, grifo do autor=*
&O
De fato, as entrevistas reali>adas com meus interlocutores caracteri>aramse pela
informalidade* %omentos em 9ue relem$ramos os acontecimentos marcantes ocorridos no
interior da cadeia, 9ue au4iliaramme na reconstru"ão de cen#rios espec)ficos, mas nos 9uais
os adolescentes tam$@m mostraramse H vontade para discorrer so$re outros assuntos como,
por e4emplo, as dificuldades enfrentadas após a desinterna"ão, entre as 9uais, a falta de um
emprego est#vel e as contur$adas rela"7es familiares* 0ncontros em 9ue procurei esta$elecer
Puma rela"ão de escuta ativa e metódica, tão afastada da pura nãointerven"ão da entrevista
não dirigida, 9uanto do dirigismo do 9uestion#rioQ <3+U-D10U, (RRO, p*JRN, grifo do
autor=* 1nstantes em 9ue tentei concentrar todas as min8as aten"7es em suas narrativas, mas
tam$@m em seus movimentos corporais 9ue, 9uando entrela"ados H fala, como veremos
adiante, conferem intensidade aos episódios descritos*
+$viamente, o fato de reali>ar entrevistas em tais condi"7es, marcadas pela
pro4imidade, não significa 9ue desconsiderei alguns pro$lemas pr#ticos 9ue resultam da
intera"ão entre o pes9uisador e o entrevistado, afinal, @ preciso lem$rar 9ue a reali>a"ão de
entrevistas, por mais 9ue se diferencie Pdas trocas da e4istência comum, /# 9ue tem por fim o
mero con8ecimento, ela continua, apesar de tudo, uma relação social 9ue e4erce efeitos
<vari#veis segundo os diferentes par2metros 9ue a podem afetar= so$re os resultados o$tidosQ
<3+U-D10U, (RRO, p*JRL, grifo do autor=* A utili>a"ão da linguagem mo$ili>ada por meus
interlocutores, inclusive nas perguntas por mim formuladas, al@m do uso de sinais ver$ais e
não ver$ais 9ue demonstram o interesse do pes9uisador por a9uilo 9ue est# sendo dito, tais
como, acenos aprovadores com a ca$e"a, sorrisos e e4press7es como Pa8, pode crerQY Pporra,
muito louco manoQY Pol8a, interessante parceiroQ, sem dCvida, possi$ilitam a continua"ão da
conversa"ão e, conse9uentemente, a troca de informa"7es com os entrevistados* Certa ve>,
durante uma conversa com ;Clio, na 9ual encontravame cansado demais para prestar aten"ão
em tudo o 9ue estava sendo dito pelo adolescente, momento de distra"ão, perce$i, por meio de
um silêncio repentino, 9ue meu interlocutor 8avia desistido de conversar apenas com o
gravador, suspendendo a sua narrativa imediatamente, 9ue seria retomada após a formula"ão
de uma outra pergunta* Desse modo, constatase a import2ncia de atentarmos para os detal8es
9ue envolvem a pr#tica de entrevista, situa"ão de pes9uisa em 9ue efeitos indese/ados podem
ser produ>idos por um simples movimento corporal* +s sinais ver$ais e não ver$ais, 9uando
encai4ados ao longo da conversa"ão no momento ade9uado, a ponto de não interromper a
narrativa, mas, pelo contr#rio, de estimul#la, do ponto de vista do entrevistado, Patestam a
&I
participa"ão intelectual e afetiva do pes9uisadorQ <3+U-D10U, (RRO, p*JRO=, o 9ue apro4ima
a pr#tica de entrevista de uma conversa comum, e não de um encontro em 9ue o pes9uisador
procura evitar a sua participa"ão, em $usca de uma suposta posi"ão de neutralidade*
Se os encontros com Pedro e ;Clio, como vimos, tornaramse poss)veis gra"as aos
contatos esta$elecidos dentro do espa"o de interna"ão, o mesmo pode ser dito em rela"ão a
Lucas, personagem central do primeiro cap)tulo, com o 9ual reali>ei apenas uma conversa
gravada, atentando para as preocupa"7es metodológicas /# mencionadas* Contudo, vale notar
9ue a rela"ão esta$elecida dentro da cadeia foi constru)da a partir de outra situa"ão, mais
especificamente, 9uando nos encontramos dentro de uma sala de aula na Unidade de
1nterna"ão MO, comple4o -aposo ;avares, per)odo em 9ue meu interlocutor atuava como
professor de teatro* Aos poucos, durante as conversas travadas nos intervalos das oficinas,
momento em 9ue discut)amos as atividades propostas, $em como o resultado de nosso
tra$al8o, pude o$servar o descontentamento de Lucas em rela"ão ao tratamento dispensado
aos adolescentes, na9uele per)odo, marcado pelas contantes 8umil8a"7es e espancamentos,
como se tais ferimentos fossem produ>idos em seu próprio corpo* :o in)cio de mar"o de
&''R, 9uando dividimos a mesma sala de aula, ministrando atividades em con/unto, isto @,
entrela"ando a fotografia ao teatro, tornouse ainda mais evidente a repulsa de meu
interlocutor pelos agentes institucionais, o carin8o pelos adolescentes e o incTmodo com o
c8eiro da cadeia, mas tam$@m com as grades, os cadeados e as mural8as, sentimentos 9ue
tornaramse compreens)veis H medida em 9ue depareime com a 8istória de um e4interno
9ue, após passar $oa parte de sua vida, apro4imadamente (N anos, dentro de uma institui"ão
9ue sempre foi fil"a da puta, estava de volta aos espa"os de interna"ão da Funda"ão CASA
para ministrar atividades culturais aos adolescentes*
Foi durante a convivência prolongada dentro da cadeia 9ue tive acesso a alguns
acontecimentos dolorosos de sua e4istência, perce$endo, tempos depois, 9ue, al@m da
$i$liografia, era poss)vel acessar o cen#rio institucional das d@cadas de O' e I' por meio da
reconstitui"ão da tra/etória de um personagem de carne e osso* Sendo assim, 9uando nos
encontramos em /aneiro de &'((, em um $ar locali>ado na região central da capital paulista,
Lucas, 9ue desde o in)cio de nossas conversas mostrouse disposto a cola$orar com a
pes9uisa, 8a/a visto 9ue é sempre bom que as pessoas ten"am acesso ao que acontece dentro
de uma instituição como essa, reconstruiu o seu passado* Durante a entrevista, antes da 9ual
ela$orei um roteiro pr@vio dos pontos 9ue dese/ava a$ordar, todos relacionados H vida
&R
constru)da dentro de uma institui"ão de controle social, $em como aos primeiros passos dados
fora das mural8as, meu interlocutor, durante apro4imadamente cinco 8oras, contoume a sua
8istória, a vida nas ruas, as dificuldades financeiras, o a$andono materno, a entrada na
institui"ão, a din2mica de funcionamento das unidades, as 8umil8a"7es e as torturas, a
solidão, a rela"ão entre os internos, as fugas, a desinterna"ão, o rompimento familiar, o
assassinato de seu irmão mais vel8o, o retorno para as ruas de São Paulo, o envolvimento com
o teatro, o nascimento de seus dois fil8os, as aulas na periferia, o Primeiro Comando da
Capital e a decisão, dolorosa, de retornar para a Funda"ão Centro de Atendimento
Socioeducativo ao Adolescente* ;emas narrados em tom firme, mas 9ue em alguns momentos
provocaram l#grimas nos ol8os de meu interlocutor, interrompidas pela necessidade de seguir
em frente e por alguns goles de cerve/a* 0mo"ão 9ue tam$@m caracteri>ou os depoimentos de
Pedro e ;Clio* Lem$ran"as indese/#veis cravadas na memória e no corpo, 9ue ainda carrega
as marcas da interna"ão* -elatos 9ue, 9uando ouvidos pelo pes9uisador, encarregado de
escutar tais narrativas diversas ve>es, taman8a a import2ncia da transcri"ão, processo em 9ue
o discurso se transforma em te4to, tam$@m fi>eram com 9ue os seus ol8os mare/assem*
Como $em o$serva Pierre 3ourdieu, a passagem do oral para o escrito não deve ser
vista como uma esp@cie de procedimento neutro, so$retudo por9ue transcrever não significa
passar o discurso para o papel* P<***= transcrever @ necessariamente escrever, no sentido de
reescreverQ <3+U-D10U, (RRO, p*O('=* 0m tal processo, muito se perde, a come"ar pela vo>,
pronCncia, entona"ão, ritmo, suspiros, etc* :o presente tra$al8o, apesar de atentar para a
linguagem corporal mo$ili>ada por meus interlocutores 9ue, como /# mencionado, confere
intensidade aos episódios narrados, não ten8o dCvidas de 9ue muitos sinais foram perdidos*
Por mais 9ue ten8a optado por manter frases e g)rias tal como foram citadas, em alguns
momentos senti a necessidade de eliminar algumas e4press7es, so$retudo os P$omQ, Pn@Q,
Pa8Q, 9ue, 9uando citadas e4austivamente, tornam o te4to incompreens)vel para o leitor 9ue
não acompan8ou o discurso original* Al@m disso, em alguns trec8os reali>ei corre"7es
gramaticais <ausência de plural, concord2ncia ver$al, etc=, 9ue pre/udicam o flu4o da leitura*
Por fim, @ importante salientar 9ue os depoimentos dos entrevistados não são
mo$ili>ados como se fossem apenas recortes ilustrativos* Durante a constru"ão te4tual
procurei desmontar as entrevistas e analisar os trec8os sugeridos, atentando para as condi"7es
sociais e os condicionamentos dos 9uais o autor do discurso @ o produto* A ideia de utili>ar
longas narrativas, enunciadas com uma e4traordin#ria for"a e4pressiva, devese ao fato de
M'
possi$ilitar ao leitor 9ue este transportese em pensamento ao lugar de onde falam os meus
interlocutores, 9ue só podem ser compreendidos se fi>ermos o e4erc)cio de nos apro4imarmos
de seus pontos de vista* 0m outras palavras, tratase de entrar na carne do personagem e
Ptentar compreender ao mesmo tempo na sua unicidade e generalidade os dramas de uma
e4istênciaQ <3+U-D10U, (RRO, p*O'(=*
A construção dos ca$%tuos
A decisão de como colocar as primeiras ideias no papel @ comple4a, so$retudo 9uando
se trata de produ>ir um te4to longo, em 9ue os efeitos das escol8as teóricas, metodológicas e
da própria constru"ão te4tual em si, de certa forma, se estendem por todos os cap)tulos*
Durante tal processo, ao mesmo tempo em 9ue alguns pensamentos transformamse em
palavras, outros, com a mesma velocidade, são perdidos*
Wuando comecei a es$o"ar as lin8as iniciais do primeiro cap)tulo, 9ue H @poca
centravase na reconstru"ão do cen#rio institucional das d@cadas de O' e I', 8a/a visto 9ue o
retorno ao passado, como veremos, tornase indispens#vel para 9ue possamos compreender o
atual 9uadro institucional 9ue emerge diante de nossos ol8os, ainda nos Cltimos meses de
&'(', produ>i ao menos cinco p#ginas diferentes, todas descartadas* :a9uele momento, meu
descontentamento estava relacionado ao fato de 9ue o universo institucional apresentavase
como 9ue descolado do conte4to social mais amplo, do 9ual, o$viamente, a institui"ão não
est# desvinculada* Al@m disso, ao longo do te4to não conseguia en4ergar a presen"a de seres
8umanos, encontrando inCmeras dificuldades para produ>ir cen#rios apenas por meio das
leituras $i$liogr#ficas* Foi então 9ue, depois de con8ecer a 8istória de Lucas, optei por
delinear a sua tra/etória, entrela"andoa com o universo institucional, $em como com as
inCmeras transforma"7es sociais e pol)ticas 9ue afetaram a sociedade $rasileira durante o
per)odo, entre as 9uais, a tomada do poder pelos militares, a ampla mo$ili>a"ão social 9ue
marcou os anos I', a pressão de setores da sociedade civil pela inclusão de emendas
populares no novo te4to constitucional, o surgimento do 0statuto da Crian"a e do Adolescente
e a redefini"ão do papel do 0stado em rela"ão Hs pol)ticas sociais, principalmente no 9ue
concerne Hs pol)ticas pC$licas destinadas H inf2ncia e adolescência* 0m outros termos,
argumento 9ue o primeiro cap)tulo consiste em uma tentativa de articular a tra/etória de um
personagem de carne e osso ao universo institucional, atentando para alguns acontecimentos
M(
9ue marcaram a cena pol)tica $rasileira, desde meados dos anos J' at@ a virada dos anos R'*
Ao seguir os passos de meu interlocutor, veremos os tra"os centrais da din2mica de
funcionamento dos antigos espa"os de interna"ão, entre os 9uais, a rigide> disciplinar 9ue se
tradu> no controle dos movimentos corporais dos internos, a e4istência de uma infinidade de
regras institucionais 9ue antecedem as atividades cotidianas, a dura rotina de tra$al8o na
lavoura, a impossi$ilidade de fre9uentar a escola, as sess7es de espancamento perpetradas
pelos agentes institucionais e as rela"7es conflituosas esta$elecidas entre os adolescentes*
Após apro4imadamente (N anos de interna"ão, per)odo em 9ue os la"os familiares
foram completamente destru)dos, o adolescente retorna Hs ruas da capital paulista,
encontrando dificuldades para so$reviver fora dos limites estipulados pela institui"ão* 0m
meados dos anos &''', após uma s@rie de e4periências frustradas no mercado de tra$al8o,
meu interlocutor passa a concentrar todas as suas energias na reali>a"ão de atividades teatrais
/unto aos /ovens das periferias de São Paulo, perce$endo, rapidamente, 9ue o seu discurso
como e4interno não se encai4ava com as narrativas de seus alunos, empen8ados em discorrer
so$re o Primeiro Comando da Capital* Por mais dolorosa 9ue ten8a sido tal decisão, era o
momento de retornar para o lado de dentro das mural8as e atuali>ar o seu discurso*
0m sua nova inser"ão nos espa"os de interna"ão da Funda"ão CASA, o deslocamento
institucional tornase evidente, a come"ar pelas mudan"as decorrentes da promulga"ão do
0statuto da Crian"a e do Adolescente* +s c8amados menores a$andonados /# não fa>em mais
parte do cen#rio institucional, 9ue passa a ser destinado apenas aos /ovens infratores* Se no
per)odo em 9ue Lucas esteve internado as unidades eram c8amadas de lares, no presente
momento, os espa"os de interna"ão passam a ser classificados como cadeias*
0m determinados espa"os institucionais, nos 9uais Lucas pTde sentir 9ue as coisas
realmente 8aviam mudado, con8ecidos como unidades dominadas, as agress7es, os rou$os e
os estupros entre os /ovens, assim como as incessantes re$eli7es, eventos 9ue caracteri>aram a
institui"ão durante as d@cadas anteriores, dei4am de ser pr#ticas corri9ueiras, cedendo espa"o
aos ideais de #a+, =ustiça, >iberdade e 3gualdade 9ue, segundo os internos, constituem o lema
do PCC* Da mesma forma, as pr#ticas violentas adotadas pelos agentes institucionais, 9ue
marcaram o corpo de Lucas durante todo o per)odo em 9ue o /ovem esteve internado, longe de
c8egarem ao fim, tam$@m diminuem, apontando para altera"7es nas rela"7es de poder*
:as unidades dominadas, tema do segundo cap)tulo, veremos 9ue alguns adolescentes
se dividem em postos de lideran"a, a sa$er, piloto, encarregado, fa$ina e setor, sendo os
M&
principais respons#veis pela gestão de tais cadeias, $em como pela transmissão de orienta"7es
aos adolescentes 9ue não atuam como l)deres, con8ecidos como população* ;endo como foco
a din2mica interna, sem perder de vista as rela"7es esta$elecidas entre os adolescentes e
a9ueles 9ue encontramse do outro lado das mural8as, so$retudo em unidades prisionais e
#reas ur$anas controladas por mem$ros do Primeiro Comando da Capital, de$ru"ome so$re
as rela"7es esta$elecidas entre os distintos atores sociais 9ue circulam por tais espa"os de
interna"ão, demonstrando 9ue adolescentes e funcion#rios encontramse unidos por la"os de
interdependência, todos su$metidos aos mesmos constrangimentos* %ais uma ve>, assim
como no primeiro cap)tulo, tratase de ver o universo institucional cravado nas tra/etórias de
dois personagens, no caso, Pedro e ;Clio, atores 9ue, pelo fato de terem ocupado postos de
lideran"a no conte4to da interna"ão, nos au4iliam a refletir so$re o processo de constitui"ão
dos disciplinas* Ao es$o"ar o percurso institucional enfrentado pelos dois adolescentes, desde
os seus primeiros passos na Funda"ão 0stadual do 3em0star do %enor, veremos 9ue nem
todas as Unidades de 1nterna"ão podem ser classificadas como cadeias dominadas* Das
rela"7es esta$elecidas entre internos e agentes institucionais, marcadas pelos em$ates,
emergem outras configura"7es, a sa$er, unidades na mão dos funça e unidades meio a meio*
Sendo assim, no terceiro cap)tulo, com o o$/etivo de evidenciar 9ue os espa"os de
interna"ão não devem ser compreendidos como se fossem configura"7es est#ticas, isto @, sem
movimento, discorro so$re a Unidade de 1nterna"ão MO, comple4o -aposo ;avares* Ao
acompan8ar o deslocamento de tal espa"o institucional durante dois anos, per)odo em 9ue
ministrei atividades fotogr#ficas em tal unidade, descrevo, em detal8es, os tra"os centrais de
tais configura"7es 9ue, vale notar, constituemse como o produto das rela"7es esta$elecidas
entre os atores 9ue circulam pelo espa"o de interna"ão* :esse sentido, veremos 9ue uma
mesma unidade, 9uando vista como um processo, no 9ual os adolescentes e os agentes
institucionais depositam o m#4imo de suas for"as em lutas incessantes pelo dom)nio da
cadeia, adotando diversas estrat@gias, ela$oradas de acordo com os seus respectivos
interesses, a depender do conte4to, assume formas variadas*
MM
&. ' movimento instituciona na trajetória de um interno

-té por volta de ?@ anos, sempre que alguém me
perguntava sobre quem eram meus pais, invariavelmente
eu respondiaA o Boverno. ; óbvio que eu não tin"a
clare+a suficiente para entender quem era esse meu pai
nem o que ele fa+ia, mas isso ficou mais fácil quando tive
de entender quem era então min"a mãeA a 1ebem.
-o$erto da Silva <(RRO=
+ $reve per)odo de moradia nas ruas da capital paulista não tra> lem$ran"as, afinal,
Lucas tin8a apenas alguns meses de vida* Seus primeiros passos institucionais tam$@m não
fa>em parte da memória* As constantes dificuldades financeiras enfrentadas por sua mãe, após
o a$andono de seu compan8eiro e a conse9uente perda do emprego, fi>eram com 9ue %aria
tomasse uma atitude dolorosa, 9ue a afastaria por mais de uma d@cada de seus 9uatro fil8os*
Ceu pai era estrangeiro, veio da .span"a e tin"a um pequeno comércio e se
embriagava. .le era alcoólatra. Cin"a mãe, na verdade, foi trabal"ar com ele, ela era
garçonete. Ceu pai era casado, min"a mãe foi amante dele na lanc"onete. ; uma
"istória bem louca. -* foi ser amante e teve dois fil"os, e os meus outros dois irmãos
são de outro pai. .ntão, /á tin"a mais ou menos uma vida meio que bagunçada.
Duando a mul"er dele descobriu essa vida dupla dele, quer di+er, fodeu. Ceu pai
praticamente c"utou min"a mãe pra rua. -* foi min"a mãe com os quatro fil"os morar
nas ruas. Com dois anos de idade, nós fomos para a internação. Cin"a mãe entregou a
nossa tutela para o =ui+ado de Cenores e o =ui+ado entregou a tutela pra 1undação.
Corria, então, o ano de (ROM* Lucas e seus três irmãos /# se encontravam so$ a tutela
do 0stado* :esse per)odo, a pol)tica de atendimento destinada aos menores a$andonados e
infratores era desenvolvida pela Funda"ão :acional do 3em0star do %enor <FU:A30%=,
criada pela lei federal na L*N(M, de (a de de>em$ro de (RJL, em pleno conte4to de ditadura
&&
*
+ governo militar tentou conter a insatisfa"ão popular latente e minimi>ar a tensão
social, criando mecanismos de cun8o social de grande porte com uma imagem de
efic#cia e eficiência, mas 9ue tra>iam impl)citos o n)tido alvo de controle social da
popula"ão* :essa con/untura e com essa perspectiva a FU:A30% _ criada em (RJL
&&
U importante ressaltar 9ue a FU:A30% surgiu com o o$/etivo principal de propor a remodela"ão das pol)ticas
pC$licas direcionadas aos menores a$andonados e infratores, su$stituindo o antigo Servi"o de Assistência ao
%enor <SA%=, criado pelo decreto ROLL, de (R de novem$ro de (RMI* Para um 8istórico das pol)ticas pC$licas
destinadas H inf2ncia e /uventude, sugiro os estudos de %arc)lio <&''O= e Passetti <&''O=*
ML
_ desenvolveu, ao longo dos anos, uma pol)tica meramente paternalista e
assistencialista, 9uando não reparadora e compensatória das ditas disfun"7es da
sociedade <310--0:3ACH, (RIO, p*LR=*
0m (ROL, tendo como o$/etivos centrais a implanta"ão das diretri>es estipuladas pela
FU:A30%, $em como a e4ecu"ão da nova pol)tica de atendimento destinada aos menores
a$andonados e infratores
&M
, o Poder 04ecutivo autori>a a cria"ão da Funda"ão Paulista de
Promo"ão Social do %enor <Pró%enor=
&L
, nomenclatura 9ue seria modificada dois anos
depois, em (ROJ, para Funda"ão 0stadual do 3em0star do %enor <F030%=* ;al institui"ão
surge como uma esp@cie de $ra"o estadual da FU:A30%* Ainda no mesmo per)odo, mais
especificamente, por meio do decreto NR&J, de (& de mar"o de (RON, a 9uestão do menor @
transferida da Secretaria de 6usti"a para a Secretaria da Promo"ão Social <%A-CbL1+, &''O=*
+ per)odo 9ue se inicia com a tomada do poder pelos militares, em (RJL, e se estende
at@ a promulga"ão do 0statuto da Crian"a e do Adolescente <0CA=, em (RR', intitulado como
Pfase de institucionali>a"ãoQ <S1LGA, (RRO, p*LJ=, caracteri>ase pela forte presen"a estatal no
9ue concerne Hs 9uest7es referentes H inf2ncia marginali>ada*
Foi durante a fase de institucionali>a"ão 9ue se afirmou o princ)pio da destitui"ão do
p#trio poder e 9ue a senten"a de a$andono retirou a crian"a da responsa$ilidade dos
pais, da comunidade e da sociedade, transferindoa para o 0stado e seus prepostos*
0ssa condi"ão /ur)dica da crian"a @ 9ue /ustificou e legitimou sua interna"ão at@ os
(I anos <c= <S1LGA, (RRO, p*LJLO=*
De fato, as modifica"7es ocorridas no aparato /ur)dicoinstitucional desde meados dos
anos J' tin8am como o$/etivo central a su$stitui"ão do tratamento repressivo disponi$ili>ado
aos menores a$andonados e infratores por uma nova proposta, eminentemente educativa*
&M
A Pol)tica :acional do 3em0star do %enor <P:30%=, formulada pela FU:A30%, deveria orientar o
atendimento em 2m$ito nacional* PAfirmava 9ue o tratamento V$iopsicossocialV reverteria a Vcultura de violênciaV
9ue se propagava pelos su$Cr$ios com os conflitos entre gangues e com isso contri$uiria para aca$ar com a
marginalidade formando /ovens respons#veis para a vida em sociedadeQ <PASS0;;1, &''O, p*MNI=* Se em um
primeiro momento a ênfase do tratamento estava na corre"ão de comportamentos considerados perigosos, com a
nova pol)tica de atendimento $uscavase, por meio da educa"ão, a integra"ão social* U importante notar 9ue o
tratamento P$iopsicossocialQ coloca em cena uma s@rie de atores at@ então descon8ecidos, tais como, psicólogos,
dentistas, educadores, m@dicos, economistas e sociólogos <PASS0;;1, &''O=*
&L
As preocupa"7es referentes H inf2ncia marginali>ada vêm de longa data* 0m São Paulo, só para se ter uma
ideia, no final da d@cada de L', diversos órgãos estatais e entidades da sociedade paulistana passaram a organi>ar
as c8amadas PSemanas de 0studos dos Pro$lemas do %enorQ, evento 9ue foi reali>ado anualmente at@ (ROM*
0spa"o onde Pse de$atiam os v#rios aspectos relativos ao pro$lema, pes9uisas eram apresentadas e de$atidas,
aspectos referentes H profissionali>a"ão e tratamento do menor, e4periências e ideias eram relatadas e de>enas de
discursos de autoridades pC$licas eram proferidosQ <A--UDA, (RIM, p*(LN=* U importante salientar 9ue uma
das principais sugest7es da9ueles 9ue participaram de tal evento foi a cria"ão da Funda"ão Paulista de Promo"ão
Social do %enor <Pró%enor=*
MN
A nova pol)tica do atendimento organi>ada para funcionar em 2m$ito nacional
pretendia mudar comportamentos não pela reclusão do infrator, mas pela educa"ão
em reclusão _ uma educa"ão glo$ali>adora na 9ual não estava em /ogo dar
prioridades H corre"ão de desvios de comportamentos, mas formar um indiv)duo
para a vida em sociedade <PASS0;;1, &''O, p*MNO=*
:o entanto, a continuidade das pr#ticas institucionais repressivas, al@m de amplamente
descrita por parte da literatura 9ue se de$ru"ou so$re o tema <A--UDA, (RIMY %A-CbL1+,
&''OY PASS0;;1, &''O=, dei4ou marcas profundas na tra/etória de Lucas*
A interna"ão aos dois anos de idade não significou apenas a ruptura precoce com a
figura materna, mas tam$@m o fim dos la"os 9ue uniam os 9uatro irmãos* + próprio modo de
opera"ão da institui"ão, ao separar os irmãos e encamin8#los para distintos espa"os de
interna"ão espal8ados por todo o estado de São Paulo, acarretou o esfacelamento das rela"7es
familiares*
- min"a irmã, uma foi pra Eupã, outra ficou na capital. .u fui primeiro para -mparo,
uma cidade perto de Campinas. Ceu irmão foi pra Batatais. .ntão, cada um foi para
uma unidade diferente. . nós passamos esse processo de internação todo sem ter
contato um com o outro. - perversidade estava a* porque a gente sabia que nós
t*n"amos irmãos porque isso estava no prontuário e a gente tin"a acesso, então, a
gente sabia que tin"a pai, tin"a mãe e irmãos, mas a gente não tin"a contato. . como
essas unidades eram muito distantes da capital e com todo aquele problema financeiro
que a min"a mãe tin"a, ela não tin"a condiç(es de visitar todos os irmãos em um
mesmo m0s. .ntão, ela tin"a que escol"er. 2m determinado m0s ia para uma cidade.
Depois de dois ou tr0s meses ia para outra cidade. .ntão, nós acabávamos tendo
contato com a nossa mãe uma ve+ por ano.
U importante ressaltar 9ue a fai4a et#ria e o se4o eram os crit@rios principais adotados
pela institui"ão no 9ue concerne H distri$ui"ão dos internos pelos distintos espa"os de
interna"ão <A+S%1:SAB, (RRM, p*(O(=* Desse modo, Lucas foi encamin8ado para uma
entidade conveniada com a F030%
&N
, locali>ada em Amparo, cidade do interior paulista*
Podese di>er 9ue os primeiros anos de um longo e penoso per)odo de interna"ão foram
vivenciados em uma entidade tipicamente religiosa* :os termos de 3ierren$ac8 <(RIO=,
&N
0m && de de>em$ro de (R'R, o !overno do 0stado de São Paulo, por meio da lei na ((R&, inicia Po
esta$elecimento de convênios com institui"7es particulares, a fim de ampliar a assistência aos menores em todo
o estadoQ <S1LGA, (RRO, p*LN=* Gale ressaltar 9ue Figueiredo <(RIO, p*(LR(N', grifo da autora=, ao comentar o
tra$al8o desenvolvido por tais entidades, enfati>a 9ue Pa VcaridadeV desses organismos somente suporta e aceita a
su$missão e a docilidade <c=* Como a cria"ão de uma Vo$ra socialV est# mais voltada Hs necessidades dos
adultos, de Vfa>er caridadeV, Vgan8ar o reino do C@uV, Vpagar promessaV ou inCmeros outros motivos, em$ora
rece$am su$ven"ão do 0stado para sua manuten"ão parcial ou total, o V$emestar do menorV 9uase sempre não @
o seu primeiro o$/etivoQ*
MJ
tratavase de uma unidade assistencialista
&J
*
- lembrança mais remota que eu ten"o é eu c"egando no colo de uma freira. . talve+
eu ten"a essa lembrança porque eu lembro que ela usava um crucifi$o e ele ficava
batendo na min"a cara. - freira andando e o crucifi$o batendo na min"a cara, então eu
lembro disso até "o/e. -ssim, muito remoto, não lembro da cara da freira. ; a 6nica
coisa que eu sei. . por que essa figura eu acredito que se/a uma freira) #or causa do
crucifi$o e por causa das imagens de santo que tin"a, umas imagens de santo em um
corredor longo com vários quartos*
1nternado em tal esta$elecimento dos dois aos oito anos de idade, @ desse per)odo 9ue
emergem as primeiras imagens da interna"ão precoce, entre as 9uais, destacase o c)rculo
di#rio formado por mais de (&' crian"as 9ue se reuniam para re>ar
&O
* :o final das ora"7es,
como forma de retri$uir o silêncio e o respeito pelo momento sagrado, os internos se
divertiam com uma c8uva de $alas proporcionada pelas irmãs* Apesar de dividir o espa"o com
diversas crian"as, na memória do garoto 9ue tin8a, então, entre 9uatro e cinco anos de idade, a
imagem 9ue gan8a desta9ue @ a da solidão atrelada ao inconfund)vel c8eiro de mofo*
.u ten"o imagens de ficar "oras e "oras dentro de um pátio onde funcionava a escola
durante a semana, e eu ficava so+in"o lá. Cuito tempo, muito tempo mesmo e eu era
bem pequeno. 7ão as primeiras imagens que eu ten"o n*tidas, que eu consigo te
descrever o c"eiro, o sentimento, a sensação que eu tin"a. .ra como se voc0 tivesse em
cima de uma montan"a e ol"asse para os lados e não visse c"ão, voc0 não sabia para
onde ir. ; como se fosse uma escuridão, mas voc0 en$ergando a escuridão, mas
sabendo que nada...é uma imagem muito louca cara. . que arrepia, o c"eiro que tin"a,
era um c"eiro de mofo, esse lugar onde a gente ficava, era um c"eiro de mofo que eu
consigo recon"ecer. 7e tiver um lugar mofado a quil<metros daqui eu consigo sentir
&J
;al como sugere a autora, as Unidades 0ducacionais podiam ser classificadas em dois modelos distintos,
assistencialistas e repressoras* PPor ve>es, estes enfo9ues se mesclam e se superp7em, mas, no geral, prevalece
uma ou outra tTnica* :as unidades assistencialistas aplicase Vdisciplina em nome da ordemV e nas unidades
repressoras aplicase Vdisciplina em nome da seguran"aVQ <310--0:3ACH, (RIO, p*J&=* Segundo Aosmins.E
<(RRM=, as unidades assistencialistas atendiam, prioritariamente, menores carentes e a$andonados* Por sua ve>, as
unidades repressoras se destinavam aos menores infratores, o 9ue não significa 9ue essa separa"ão fosse
totalmente respeitada pela institui"ão, como veremos mais adiante*
&O
Gale atentar para o fato de 9ue tal Unidade 0ducacional atendia apenas crian"as carentes e a$andonadas, 9ue
tin8am entre dois e do>e anos de idade* +u se/a, em tal espa"o institucional não eram aceitas as crian"as 9ue
tin8am cometido alguma infra"ão, classificadas como menores infratores* De fato, @ poss)vel afirmar 9ue o
pC$lico ma/orit#rio atendido pela F030%SSP at@ a promulga"ão do 0statuto da Crian"a e do Adolescente, em
(RR', era constitu)do de menores carentes e a$andonados* Só para se ter uma ideia, Figueiredo <(RIO, p*(IM
(IL=, apoiandose em estimativas divulgadas pela própria institui"ão, em (RIN, enfati>a 9ue dos (&&*J'&
menores atendidos atrav@s dos diversos servi"os prestados, P8ouve (R*JMM casos de menores autores de infra"ão
penal, o 9ue corresponde a (N,RId do total de atendimentos* 0sse percentual deve ser considerado levandose
em conta 9ue, nos atendimentos computados, o mesmo menor pode ter tido mais de uma passagem, não
correspondendo, portanto, ao nCmero de menores autores de infra"ão penal atendidos* De 9ual9uer forma, vale
como referência para a percep"ão e dimensionamento do pro$lemaQ*
MO
esse c"eiro e na "ora /á vem essa memória, então assim, muita solidão, muito so+in"o,
muito abandono, são as coisas que eu consigo ter de imagens muito antigas*
A rotina institucional, marcada pela repeti"ão e pela rigide> disciplinar, 9ue se tradu>
no controle incessante, por parte dos agentes institucionais, do tempo e dos movimentos
corporais dos internos, produ> a sensa"ão de 9ue as 8oras não passam, dando a impressão de
9ue todos os dias são iguais, o aman8ã sendo apenas a antecipa"ão do 8o/e* :esse conte4to, as
atividades propostas, al@m de serem o$rigatórias e reali>adas em con/unto, acontecem em
espa"os temporais determinados, 8avendo poucas possi$ilidades de mudan"a
&I
*
.m -mparo era assimA nós acordávamos sempre 9s sete "oras da man"ã, arrumávamos
a nossa cama, tudo pequeninin"o. Depois *amos tomar café, depois do café *amos para
a escola. 1a+*amos sempre a oração, a "ora que acordava, antes de tomar café, antes
de...porque as freiras davam as aulas no grupo escolar dentro da unidade, então
participávamos da escola no per*odo da man"ã, depois retornávamos para o lar,
fa+*amos o repasse. : que que era esse repasse) - gente tin"a que arrumar todo o lar
de novo. >á, a unidade eles c"amavam de lar. .ntão voc0 tin"a que arrumar o lar tudo
de novo, o que era arrumar o lar tudo de novo) 8arrer tudo de novo. 8oc0 /á tin"a feito
isso de man"ã, voc0 fa+ia de novo, passava a enceradeira e passava o escovão, que isso
era de pra$e, antes do almoço. .les tin"am um principio religioso lá que para voc0
conseguir seu alimento voc0 tin"a que lutar, então, tin"a essas coisas meio malucas. -*
voc0 almoçava, fa+ia a oração, almoçava. F tarde voc0 tin"a um per*odo de descanso,
das ?4" 9s ?G". Fs duas da tarde, de lei, voc0 re+ava o terço, isso no campo, fa+ia a
aleluia de bala, a* voc0 tin"a um tempin"o para assistir televisão, isso das ?@" 9s ?H",
e a* tin"a as escalas
&R
. -lguns meninos, por e$emplo, nesse per*odo da tarde, depois do
terço, iam para a co+in"a. .les iam a/udar a preparar a refeição do outro dia, então,
para a /anta eram os restos do almoço, voc0 fa+ia o sopão da /anta de todo mundo.
8oc0 ia lá para cortar cebola, essas coisas todas, e preparar a alimentação do outro
dia. Cortar pão e passar manteiga /á para dei$ar para o outro dia. :utros iam cuidar
da "orta, outros iam cuidar dos bic"os, galin"a, pombo.
Para 9ue tal din2mica opere ade9uadamente, tornase necess#rio a e4istência de uma
infinidade de normas 9ue antecedem a e4ecu"ão das atividades cotidianas, tais como, a
forma"ão incessante de filas e o andar com as mãos entrela"adas para tr#s* +$viamente,
a9ueles 9ue se re$elam contra as filas, o silêncio e os 8or#rios estipulados pelo corpo
funcional, descumprindo as regras institucionais, sofrem puni"7es de diversos tipos, 9ue vão
&I
Gale ressaltar 9ue o modo de funcionamento de tal Unidade 0ducacional nos remete aos esta$elecimentos
sociais designados por 0rving !offman <(ROL, p*((= como institui"7es totais, locais em 9ue Pum grande nCmero
de indiv)duos com situa"ão semel8ante, separados da sociedade mais ampla por consider#vel per)odo de tempo
levam uma vida fec8ada e formalmente administradaQ*
&R
Segundo Aosmins.E <(RRM, p*(OM(OL=, Pa VescalaV significa a atri$ui"ão e e4ecu"ão do servi"o dom@sticoQ*
MI
desde a e4tenua"ão corporal 9uando, por e4emplo, o interno @ o$rigado a limpar durante um
longo per)odo de tempo algum am$iente 9ue /# 8avia sido limpo anteriormente, at@ as
inCmeras formas de agressão f)sica, 9ue incluem o uso de instrumentos como a palmatória*
0m Amparo, na unidade em 9ue Lucas esteve internado por apro4imadamente seis
anos, c8ama aten"ão o fato de 9ue as próprias freiras aplicavam os castigos aos internos* As
mesmas mãos 9ue acol8iam as crian"as nos momentos dif)ceis do longo per)odo de
interna"ão, muitas ve>es su$stituindo a figura materna, nas palavras de meu interlocutor,
desciam o porrete. Fs ve+es o castigo era bravo. Duando elas se e$cediam, elas pegavam
vara de marmelo, pegavam cipó, pegavam corda de pular* Contudo, por mais angustiante 9ue
ten8a sido este per)odo inicial de interna"ão, tempos depois, Lucas sentiria saudades das
freiras de Amparo, so$retudo do acol8imento das religiosas*
0m (ROR
M'
, o garoto rece$eria uma not)cia inesperada* Pelo fato de sua mãe ter
conseguido um emprego na Compan8ia %unicipal de ;ransportes Coletivos da cidade de São
Paulo <C%;C=, o 9ue caracteri>ava certa esta$ilidade financeira, pelo menos aos ol8os dos
integrantes do 6ui>ado de %enores, Lucas rece$eu a not)cia de 9ue poderia passar as festas de
final de ano com a sua fam)lia e, mais do 9ue isso, 9ue a partir da9uele momento dei4aria o
sistema de interna"ão e poderia viver ao lado de seus familiares* :o limite, era a oportunidade
de con8ecer a sua mãe e os seus irmãos, uma ve> 9ue fora internado 9uando tin8a dois anos
de idade* :o entanto, o per)odo natalino ficaria marcado como o mais doloroso de sua vida*
(! eu senti uma traição das freiras, senti uma traição do mundo, tive um ódio mortal
de vida, de viver. .u queria morrer mesmo. -s freiras falaram que pela primeira ve+ eu
tin"a conseguido passar o 'atal e o -no 'ovo com a min"a mãe porque o =ui+ado
tin"a liberado. Cin"a mãe /á estava trabal"ando na CCEC, que era a empresa de
<nibus da #refeitura. . estava bem estabili+ada. .ntão, eu poderia passar as festas de
final de ano e finalmente ia con"ecer...nossa, é foda cara. .u ia con"ecer os meus
irmãos. .u tin"a uma puta curiosidade pra saber como era min"a mãe, meus irmãos. :
M'
0m (' de outu$ro de (ROR, por meio da lei federal na J*JRO, foi institu)do o novo Código de %enores* ;al
legisla"ão, 9ue disporia Pso$re Vassistência, prote"ão e vigil2ncia a menoresVQ <F1!U01-0D+, (RIO, p*(MM=,
al@m de formali>ar a concep"ão $iopsicossocial do atendimento disponi$ili>ado aos menores a$andonados e
infratores, e4pressa na Pol)tica :acional do 3em0star do %enor, e4plicitou a estigmati>a"ão das crian"as
po$res como delin9uentes em potencial ao classific#las como estando em Psitua"ão irregularQ <PASS0;;1,
&''O, p*MJL=* Gale ressaltar 9ue o Código de (ROR foi criado para su$stituir o antigo Código de (R&O, legisla"ão
9ue pela primeira ve> responsa$ili>ou o 0stado pela situa"ão de a$andono de diversas crian"as, $em como pela
corre"ão de comportamentos delin9uentes* 0m termos pr#ticos, @ poss)vel afirmar 9ue as duas legisla"7es
privilegiaram a pr#tica de interna"ão de crian"as e adolescentes* Da mesma forma, apesar do 0statuto da Crian"a
e do Adolescente recomendar a interna"ão apenas em Cltimo caso, notase 9ue ela continua sendo amplamente
adotada* P0la est# presente em I'd das senten"as proferidas, o 9ue mostra a falta de sensi$ilidade destes
mesmos /u)>es, promotores e advogados na defesa de alegados direitos, reiterando a mentalidade encarceradoraQ
<PASS0;;1, &''O, p*MO(=*
MR
que eu mais fiquei puto nessa época é porque eu fui enganado por todo mundo. 1ui
enganado pelas religiosas, ac"o que o meu primeiro rompimento com a religião foi a*.
1ui enganado pela min"a mãe, fui enganado por professores, fui enganado por todo
mundo que me dava uma assist0ncia. (! voc0 imagina a cabeça de uma criança com
oito, nove anos, ac"ando que ia poder comer c"ocolate todo dia, ia poder tomar
guaraná todo dia, que ia ser livre, que ia poder assistir desen"o animado todo dia. Due
ia poder ter uma fam*lia, que é o mais importante. . a* a gente passou o 'atal, o -no
'ovo, em seguida min"a mãe me levou para o =ui+ado. >á no =ui+ado, na mesma "ora
ela disse que ia para um outro lugar falar não sei com quem e eu fiquei muito tempo
ali. Duando fui ver, estava entrando dentro de uma perua amarela com o logotipo da
1ebem que era um catavento. . eu não entendi porra nen"uma que estava
acontecendo. -*, cinco "oras, seis "oras de viagem depois, eu estava dentro de uma
outra unidade da 1ebem*
&.& /.#0: o traba1o na avoura e a $unição generai2ada
A c8egada na Unidade 0ducacional L, locali>ada em 3atatais, cidade do interior do
estado de São Paulo, significou a continuidade do per)odo de interna"ão* As transferências de
crian"as e adolescentes entre as distintas Unidades 0ducacionais espal8adas por todo o estado
foi, e continua sendo, um procedimento comum adotado pela institui"ão* 0sse modo de
opera"ão configurase como um instrumento punitivo para a9ueles 9ue insistem em
descumprir as regras institucionais* Al@m disso, na @poca em 9ue Lucas esteve internado, ao
utili>ar a fai4a et#ria como um dos principais crit@rios de sele"ão para o encamin8amento dos
internos aos distintos espa"os de interna"ão, a própria din2mica institucional for"ava a
circula"ão de seus tutelados, na medida em 9ue, ao atingir a idade limite para a permanência
em determinado local, o interno era automaticamente transferido <S1LGA, (RRO=
M(
*
+utro ponto relevante a ser considerado @ o fato de 9ue as constantes transferências
causam certo estran8amento por parte dos internos, sendo necess#rio, a cada mudan"a de
unidade, um per)odo de adapta"ão ao novo am$iente* 0m parte, isso se deve H diversidade das
regras institucionais, 9ue variam de uma unidade para outra <A+S%1:SAB, (RRM=* Lucas, ao
c8egar em 3atatais, pTde sentir a varia"ão das normas administrativas em seu próprio corpo*
M(
U importante ressaltar os efeitos pre/udiciais desse processo cont)nuo de transferências, Pa= a disparidade entre
a unidade de origem e a unidade de destino, por ve>es a primeira na >ona rural e a segunda na >ona ur$ana, ou
uma preferencialmente para órfãos e a$andonados e a outra admitindo inclusive infratoresY $= a separa"ão e o
distanciamento de irmãos e das crian"as em rela"ão aos seus nCcleos familiaresQ <S1LGA, (RRO, p*JN=* :o
pró4imo cap)tulo, ao retomar a discussão acerca das transferências, discorro so$re os efeitos atuais provocados
por tal procedimento institucional*
L'
Duando eu sa* da perua e c"eguei no lar @
M&
, a primeira coisa que eu fi+ foi sentar no
meio de um /ardim que tin"a logo na entrada e ficar lá, que era a mesma coisa que eu
fa+ia em -mparo quando eu estava triste. .u sentava e ficava lá. . ali eu lembro até
"o/e do c"oro que eu tive lá. . era diferente porque quando eu me isolava em -mparo
sempre uma freira ia lá, me acol"ia e me levava lá pra dentro. -li Zem 3atatais[, eu
levei uma surra, a primeira surra que eu levei cara. Cas surra mesmo, nesse momento,
que eu mal c"eguei. . voc0 sabe porque ele me bateu, o fil"o da puta) #orque eu tava
de c"inelo "avaiana. #orque uma das regras de Batatais eraA c"inelo "avaiana só
depois do ban"o, na "ora que voc0 tivesse dentro da unidade. .ra diferente de -mparo.
-mparo voc0 andava de c"inelo "avaiana o dia inteiro, lá não, só depois do ban"o.
Se a entidade em 9ue Lucas esteve internado anteriormente poderia ser classificada
como uma institui"ão tipicamente religiosa, em 3atatais, tratavase de uma unidade rural,
sendo o cotidiano institucional marcado pelo duro tra$al8o na lavoura* Ein"a até um lemaA
para voc0 produ+ir o seu alimento, voc0 tem que trabal"ar, voc0 tem que labutar* Desse
modo, os internos da U0L, apro4imadamente L'' crian"as e adolescentes, eram os principais
respons#veis pela produ"ão dos alimentos consumidos*
+ tra$al8o incessante nas ro"as de mandioca, mil8o, arro> e fei/ão pre/udicava o
aprendi>ado escolar, relegado ao es9uecimento* A9ueles 9ue optavam por fre9uentar a escola
e, portanto, aos ol8os dos agentes institucionais não tra$al8avam e não produ>iam os seus
próprios alimentos, tam$@m não estavam autori>ados a almo"ar*
8oc0 não era obrigado a ir para a escola. 7e voc0 fosse para a escola, voc0 não
almoçava porque voc0 não foi para a roça. 7e voc0 for ver a estat*stica de lá, IJK dos
internos das décadas de ?IHJ, ?I5J, que foi o meu per*odo de internação, são
analfabetos ou semiLanalfabetos. .u só não era um analfabeto porque eu vim da outra
internação, fui alfabeti+ado lá Zem Amparo[. .u só conseguia ir para a escola e
almoçar porque a diretora do grupo escolar conseguiu convencer a direção da unidade
que alguns internos cuidavam da manutenção do grupo escolar, arrumando as
carteiras, que eram carteiras de madeira bem antigas, fa+endo a manutenção, a
limpe+a do grupo escolar. . a*, a gente conseguia almoçar. - gente tin"a esse direito
por causa dessa contrapartida maluca que tin"a lá com o grupo escolar. . a*, uma ve+
eu tirei uma nota vermel"a e por causa dessa nota eu apan"ei pra caral"o. .les
falaram assimA voc0 /á não vai para a roça, voc0 /á não produ+ a sua comida. -lém de
ir para a escola e ainda ter comida, voc0 tira essa porra dessa nota.
M&
Como ressalta meu interlocutor, o lar era uma esp@cie de pavil8ão* 0m 3atatais, e4istiam duas Unidades
0ducacionais* A U0L era composta por (( pavil87es, divididos por fai4a et#ria, sendo 9ue cada pavil8ão
a$rigava uma m@dia de L' internos* Por sua ve>, a U0(L era formada por um Cnico pavil8ão e atendia internos
9ue tin8am entre oito e do>e anos de idade* Segundo Lucas, a 2.L?G tin"a um diferencial, eles não eram
obrigados a ir para a roça, as crianças não eram obrigadas a ir para a roça. Cas 9s ve+es eles tin"am que ir. .
os castigos eram menos. . "aviam mais mul"eres cuidando, coisa que lá na 2.LG não tin"a*
L(
De fato, @ poss)vel afirmar 9ue nas Unidades 0ducacionais locali>adas em #reas rurais,
como @ o caso de 3atatais, o tra$al8o desenvolvido pelos internos consistia na aprendi>agem
de t@cnicas de agricultura e no trato de animais, al@m dos servi"os dom@sticos 9ue, como $em
o$serva -o$erto da Silva <(RRO, p*('J=, Psão atividades de su$sistência da institui"ão e não de
prepara"ão para o mercado de tra$al8o propriamente ditoQ* Al@m de cuidar da lavoura e dos
animais cotidianamente, os /ovens tam$@m produ>iam os seus próprios instrumentos de
tra$al8o, entre os 9uais, os inCmeros ca$os de madeira 9ue davam sustenta"ão Hs en4adas* +
material $ruto, enviado pela sede da institui"ão, locali>ada na capital paulista, ad9uiria a
forma ade9uada ao longo do curso de marcenaria, atividade profissionali>ante ministrada
pelos próprios funcion#rios da Unidade 0ducacional L
MM
*
8oc0 sabe para que servia essa marcenaria) #ara fa+er en$adas no taman"o adequado
das crianças cara. .les fa+iam cabos de en$ada para crianças de oito anos, a criança
crescia um pouquin"o, eles aumentavam o cabo da en$ada. ; uma coisa muito louca, a
marcenaria era para isso. .ntão, tin"a lá meia d6+ia de internos que ficavam no torno
fa+endo cabo de en$ada o dia inteiro porque eram mais de GJJ internos separados
nesses ?? pavil"(es (!. : governo, a central aqui da 1ebem, mandava só a en$ada, o
cabo tin"a que ser produ+ido lá. .u ac"o isso ir<nico. : mesmo cabo de en$ada, eles
partiam ao meio. 3magina um cabo de en$ada para uma criança de oito anos. .ra
porrete para os vigilantes, instrumentos de tortura. Duer di+er, voc0 produ+ia a en$ada
para voc0 ir para a roça e voc0 produ+ia o seu próprio porrete que ia te bater*
Ao longo dos cursos profissionali>antes, sempre insuficientes para atender o nCmero
e4cessivo de internos, durante as atividades escolares, rara oportunidade para a9ueles 9ue
a$riam mão da alimenta"ão, ou mesmo nos escassos per)odos de la>er, 9ue se tradu>iam no
Prou$oQ de frutas do 9uintal e de $olac8as da dispensa, os espancamentos e as 8umil8a"7es
constitu)am o modus operandi dos agentes institucionais* Diferentemente de Amparo,
Unidade 0ducacional na 9ual as religiosas agrediam os internos, mas, por outro lado,
acol8iam as crian"as nos momentos mais dif)ceis da interna"ão prolongada, em 3atatais, a
din2mica institucional era diferente*
MM
Gale atentar para as distintas posi"7es institucionais 9ue constitu)am o corpo funcional da U0L* .ra assimA
voc0 tin"a em cada pavil"ão o c"efe de lar. : c"efe de lar morava com a fam*lia dele, então ele tin"a a mul"er
dele e os fil"os em um quarto separado dentro do mesmo pavil"ão. . a*, o c"efe de lar era o rei, ele que
mandava, ele que deliberava e tudo passava por ele. . voc0 tin"a o vigilante, o vigilante era assim, o c"efe de
lar cumpria uma carga "orária e depois ele se recol"ia. . a* o vigilante cumpria os outros "orários. :s
vigilantes ficavam 5 "oras. .ntão, era assimA era c"efe de lar, vigilante, assistente social e direção. . tin"a o
pessoal da administração. Ein"a outros funcionários também, o responsável pela lavoura, o da pocilga, o do
estábulo (!.
L&
Eotalmente diferente de -mparo. Cão pra trás, cabeça bai$a, sim sen"or, não sen"or.
Duando estava em fila não podia ol"ar para o lado de forma alguma, não podia
conversar, não podia se comunicar. - "ora de comer, tin"a a oração. 7e voc0 tivesse
doente e não tivesse ido para a roça, voc0 não comia. 8oc0 tin"a que esperar, mãos
para trás, ol"ando para a parede, todo mundo comer. 3sso para qualquer caso. Castigo
f*sico 9 toa, do nada, do nada, do nada. Coro, porrada. Eortura mesmo, tortura do
vigilante apagar o cigarro em voc0M tortura de ele pegar uma agul"a de costura e
enfiar no meio da sua un"aM tortura de dar c"oque mesmo, de meter um fio lá Znos
órgãos genitais[ e te foder todin"o. #or motivos torpes. Fs ve+es, de voc0 estar comendo
e voc0 não querer comer aquela verdura porque tá muito ruim, moleque é meio sacana,
grudava na mesa ou sei lá, /ogava no prato do outro. : vigilante pegava, /á era, . ele
ficava circulando nas mesas enquanto a gente comia, batendo a porra do cabo de
en$ada na mão. . 9s ve+es por puro sadismo ele ria e falavaA e a* veadin"o, deu muito
o cu "o/e a noite) . pá, ele batia no moleque de graça, do nada. . fa+ia piada com os
molequesA e a*, seu pai deve estar preso dando o rabo na cadeia. . voc0 não podia
falar nada, e comer assim o", não podia nem ol"ar para o lado. . tem outra, ol"a só
que perversidade. 'a troca de cueca voc0 tin"a que fa+er fila e mostrar o fundo da
cueca porque se tivesse bosta no fundo da cueca, voc0 tava fodido. .ntão, o vigilante
ficava com o porrete, voc0 fa+ia uma fila indiana mostrando a cueca para o vigilante, a
cueca que tivesse su/a, a famosa derrapada, ele ia separando, separando, 9s ve+es
ficava NJ moleques separados. 8oc0 ac"a que ele ia bater nos NJ) Corredor, o tal do
corredor polon0s. 8oc0 tin"a que bater no camarada seu. -queles que estavam com a
cueca limpa fa+iam o corredor polon0s. . sabe o que o vigilante ficava fiscali+ando) 7e
voc0 tin"a batido. 8oc0 tin"a que bater no seu camarada, não tin"a como escapar.
:esse conte4to, os internos 9ue se re$elavam contra as constantes sess7es de
espancamento eram su$metidos a novos ciclos de tortura, o 9ue muitas ve>es acarretava a
fuga da institui"ão* :o entanto, não @ preciso grande esfor"o para imaginar as inCmeras
dificuldades enfrentadas pelos fugitivos 9uando estes se deparavam com 3atatais, cidade
pe9uena, interiorana, 9ue oferecia poucas possi$ilidades para a vida nas ruas* Diante de tal
9uadro, muitos retornavam H Unidade 0ducacional L, sem 9ue para isso fosse necess#rio a
mo$ili>a"ão do aparato policial*
U importante salientar 9ue as pr#ticas violentas não caracteri>avam apenas as rela"7es
cotidianas esta$elecidas entre os internos e os agentes institucionais* Como ressalta -o$erto
da Silva <(RRO, p*(LJ(LO=, ao retratar a tra/etória de institucionali>a"ão de crian"as órfãs e
a$andonadas 9ue viveram so$ a tutela do 0stado durante o regime militar, Pno micromundo
das institui"7es, o componente fundamental nesse processo de intera"ão entre os pares @ a
disposi"ão para o uso da violência <***=Q* De fato, no per)odo em 9ue Lucas esteve internado,
as rela"7es travadas entre os internos tam$@m eram marcadas por agress7es e em$ates*
LM
Ein"a briga, claro que tin"a. Ein"a briga, tin"a moleque que ia comer a bunda do outro
de madrugada quando o vigilante sa*a fora (...!. Coleque que c"egava novo lá se fodia,
se fodia. Dava o cu mesmo, apan"ava, tin"a que lavar a cueca do colega pra quando
c"egar na troca de cueca não estar su/a. .ntão, tin"a muito dessas malandragens*
0m meados da d@cada de I', a din2mica de funcionamento da U0L sofreria algumas
altera"7es, em especial, devido H c8egada de novos internos, provenientes da capital paulista*
&.( 's infratores: subversão da ordem instituciona
8ieram de 7ão #aulo pra lá, então eles sabiam que eles Zos funcion#rios[ iam ter que
lidar com menor infrator e um bando de cu+ão, covarde do caral"o, só sabia lidar com
menor abandonado. -gora com infrator eles não sabiam. .les começaram a fa+er um
inferno tentando /ogar a molecada de lá contra os que vieram. .ntão, eles falaram que
ia vir assassino, ia vir cara que roubava pai de fam*lia, ia vir bandido, ia vir
estuprador. .ntão, fi+eram terrorismo. Duando os moleques c"egaram, nossa, - gente
morria de medo dos moleques, nem ol"ava pros moleques. . os moleques assim...falava
tudo o que aprontava. . eu fiquei muito assustado no começo. -*, um tin"a não sei o
qu0, matado um cara, a* depois que viu o cara morto lá ele voltou pra ver a
aglomeração, a pol*cia, não sei o qu0. 2mas "istórias escabrosas. . dava detal"es de
como tin"a matado, que virava a faca no buc"o dos caras. . a gente morria de medo.
7ó que eu percebi que os moleques eram diferentes, eram malandros, tin"am uma
intelig0ncia acima da média, porque muitos Zem 3atatais[ maleLmale estudaram. >á em
Batatais, eu vou ser sincero, IOK eram analfabetos, não estudavam.
A c8egada dos novos internos, provavelmente vindos do Wuadril#tero do ;atuap@,
principal espa"o de interna"ão destinado aos menores classificados como infratores
ML
,
provocou o reordenamento das rela"7es intrainstitucionais* +s agentes estatais, acostumados
a lidar apenas com crian"as carentes e a$andonadas, temiam pela perda de autoridade* Afinal,
sa$iam 9ue a din2mica de funcionamento das Unidades 0ducacionais destinadas aos
infratores era outra* As inCmeras fugas e re$eli7es, longe de constitu)rem acontecimentos
espor#dicos, fa>iam parte do cen#rio institucional*
Ao aterrori>arem os /ovens de 3atatais antes mesmo 9ue os novatos colocassem os p@s
dentro da unidade, os funcion#rios procuravam evitar 9ue se esta$elecesse uma esp@cie de
cumplicidade entre os /ovens* Desse modo, logo após a c8egada dos novos internos, a
ML
Ao discorrer so$re as Unidades 0ducacionais destinadas aos menores infratores no in)cio da d@cada de I',
3ierren$ac8 <(RIO, p*L&= enfati>a 9ue a maior parte dessa popula"ão se encontrava Pno c8amado V9uadril#teroV,
sem considerarmos a U0(O, de -i$eirão Preto, 9ue atende os infratores do interior do estado e os demais
atendimentos em regime de li$erdade assistidaQ*
LL
primeira medida adotada pela dire"ão da Unidade 0ducacional L foi o remane/amento de toda
a popula"ão da unidade, distri$u)da em on>e pavil87es* ;al procedimento, al@m de provocar
efeitos perversos para a própria institui"ão, fe> com 9ue Lucas, após mais de uma d@cada de
afastamento, tivesse contato com o seu irmão mais vel8o, o 9ue não resultaria na apro4ima"ão
dos /ovens, mas, pelo contr#rio, em um distanciamento ainda maior*
: meu irmão ele c"egou a ir para o mesmo pavil"ão que eu estava nos 6ltimos seis
meses de internação dele. Cas ele foi para lá porque eles fi+eram uma mudança lá.
:l"a que coisa mais louca. Eeve uma época que eles fi+eram o seguinteA eles
mesclaram todos os pavil"(es, então pegaram NJ do lar ? e /ogaram para o lar 4, NJ
do lar 4...mesclaram um pouco, que foi /ustamente depois que os infratores foram para
lá, ac"o que eles começaram a perceber um certo movimento. .les queriam dar uma
misturada na unidade e a* nessa misturada, nos 6ltimos seis meses de internação do
meu irmão, ele caiu na mesma unidade que eu. Cara, a gente se odiava. .u odiava o
meu irmão, eu odiava. #or uma questão bairrista. #orque assim, como ele foi pra 2.L
?G pequeninin"o e depois foi para a 2.LG, ele con"ecia toda a molecada e eu tin"a
c"egado de uma outra unidade, então tin"a aquela coisa bairrista. Ein"a uma coisa,
moleque que c"egava novo lá se fodia, se fodia. (!. : que me salvou desse processo
foi o meu irmão. 7ó que o meu irmão tin"a que apagar inc0ndio toda "ora, todo mundo
queria me pegar, não só eu como todo moleque que c"egava lá novo, novão, tin"a que
ter o batismo da molecada. . a* o meu irmão tin"a sempre que estar apagando
inc0ndio, tal, tal. .ntão, ele não me suportava. .le foi pra mesma unidade e a gente
não se falava. . ele me batia, me descia o cassete, ele era mais vel"o, fortão. Eanto é
que meu irmão morreu e a gente nunca se falou, a gente nunca teve uma relação.
Ao redistri$uir os internos pelos on>e pavil87es 9ue constitu)am a Unidade
0ducacional L, notase 9ue tal procedimento institucional, al@m de propiciar o rompimento
definitivo entre Lucas e seu irmão mais vel8o, ampliou o espa"o de atua"ão dos rec@m
c8egados* Se o o$/etivo inicial era evitar o esta$elecimento de v)nculos entre infratores e
a$andonados, ao espal8ar os primeiros pelos distintos pavil87es da U0L, os agentes
institucionais proporcionaram a constitui"ão de diversos focos de organi>a"ão interna*
;empos depois, tornouse evidente 9ue tal estrat@gia acarretou efeitos indese/ados, entre os
9uais, a primeira re$elião da 8istória da Unidade 0ducacional L, evento 9ue contou com a
participa"ão de todos os internos*
.u ac"o que aconteceu o que a 1.B.C temia, aconteceu que ao invés de eles serem
condicionados pela maioria, aconteceu o contrário. - maioria foi recrutada por eles e
a maioria passou a fa+er o que eles queriam. >embro até "o/e, eu lembro da primeira
reunião que foi feita de madrugada com esses moleques, lembro até "o/e. Cinco
LN
moleques conseguiu condu+ir GJ moleques, cinco, cinco, 2ma lábia, um poder de falar
incr*vel. . deram atribuição para todo mundo da unidade, sabe) Claro, não era
organi+ado igual é agora, mas tin"a uma certa organi+ação. - primeira coisa que
fi+eram foi proibir de comer a bunda de outro moleque. 1oi a primeira coisa que eles
fi+eram, #ra voc0 ter ideia, em seis meses teve a primeira rebelião lá, em seis meses
eles conseguiram organi+ar on+e pavil"(es* (! a gente quebrou as cadeiras do
refeitório e depois todo mundo deu um cavalo doido, todo mundo fugiu da unidade.
Duase todos, aquilo pá, saindo assim, todo mundo. . muitos voltaram, outros a pol*cia
foi atrás e conseguiu tra+er, foi um rebuliço do caral"o. Cas pra gente que não tin"a
viv0ncia disso era muito legal. #ela primeira ve+ a molecada fugiu e não apan"ou cara.
-* a molecada se cresceu.
De fato, a transferência de um pe9ueno grupo de infratores do Wuadril#tero do ;atuap@
para 3atatais provocou o rearran/o das rela"7es internas* + momento 9ue antecede a fuga em
massa sim$oli>a, mesmo 9ue por um $reve instante, a ruptura com a r)gida disciplina
institucional* Ao inv@s do controle incessante so$re os internos, 9ue se tradu> na forma"ão de
filas, na ca$e"a sempre apontada para o c8ão e nas mãos entrela"adas para tr#s, com o in)cio
da re$elião, os corpos gan8am for"a e movimento* Cadeiras são arremessadas contra o
patrimTnio institucional, crian"as e adolescentes aterrori>am vigilantes, correm e gan8am as
ruas 9ue circunscrevem a Unidade 0ducacional L*
Gale salientar 9ue o retorno ao espa"o de interna"ão, momento em 9ue os agentes
institucionais poderiam e4acer$ar o tratamento repressivo disponi$ili>ado aos fugitivos, não
foi marcado pelas agress7es aos internos* Al@m disso, após a c8egada dos infratores, constata
se algumas varia"7es em rela"ão ao padrão de conduta adotado pelos adolescentes* +s
estupros, pr#tica corri9ueira, não seriam mais tolerados*
+ poder de sedu"ão dos infratores perante os /ovens a$andonados, atri$u)do por Lucas
H uma suposta inteligência superior, deve ser visto so$ outra perspectiva* De fato, @ preciso ir
al@m da e4plica"ão sugerida por meu interlocutor* Fa>se necess#rio, ainda 9ue por meio da
literatura 9ue se de$ru"ou so$re as unidades destinadas aos infratores <310--0:3ACH,
(RIOY A--UDA, (RIM=, atentar para as rela"7es internas 9ue caracteri>avam tais espa"os, na
medida em 9ue tratavase de um pC$lico acostumado a outra din2mica institucional*
-efirome H e4istência, nos espa"os de interna"ão para menores infratores, das
c8amadas sociedades, grupos de internos 9ue se formavam com o o$/etivo de se defenderem
das agress7es praticadas por outros /ovens e, acima de tudo, da opressão e4ercida pelo corpo
funcional* +s participantes de uma determinada sociedade, tam$@m con8ecidos como sócios,
al@m de dividirem entre si tudo o 9ue tin8am como, por e4emplo, roupas e alimentos tra>idos
LJ
pelos familiares de um dos integrantes do grupo, tam$@m praticavam assaltos, organi>avam
fugas e greves de fome <A--UDA, (RIM, p*RORR=* :esse sentido, @ preciso adotar um
distanciamento em rela"ão aos estudos 9ue enfati>aram a incapacidade dos internos de se
constitu)rem como atores de suas próprias lutas* Ao design#los como uma esp@cie de massa
uniforme e dominada, perdese uma infinidade de 8istórias, rostos, gestos, vidas e, ainda 9ue
incipientes, focos de organi>a"ão interna
MN
*
Diante de tal 9uadro, @ poss)vel supor 9ue os menores infratores, atendidos em espa"os
institucionais espec)ficos, so$retudo no Wuadril#tero do ;atuap@, ao serem transferidos,
levaram consigo determinadas normas de conduta e formas de organi>a"ão 9ue,
posteriormente, foram implantadas em 3atatais, fato 9ue, como vimos, provocou altera"7es na
din2mica de funcionamento da Unidade 0ducacional L* Como enfati>a meu interlocutor, com
a c8egada dos novos internos, teve uma mudança, teve, sem d6vida nen"uma*
Poucos meses após a ocorrência da primeira re$elião na Unidade 0ducacional L, mais
especificamente, no final de (RIJ, a sa)da de Lucas de tal espa"o institucional seria
antecipada* ;endo comprovado a sua esta$ilidade financeira perante os integrantes do 6ui>ado
de %enores, %aria, 9ue tra$al8ava 8# mais de uma d@cada na Compan8ia %unicipal de
;ransportes Coletivos da cidade de São Paulo <C%;C= e 9ue, inclusive, /# 8avia ad9uirido
moradia própria, um pe9ueno apartamento por meio da Compan8ia de Ha$ita"ão de São
Paulo <C+HA3SP=, poderia ter os seus fil8os de volta* Al@m disso, outro fator, relacionado H
própria din2mica escolar da U0L, cola$orou com o processo de desinterna"ão de Lucas*
(! até a quarta série voc0 fa+ia dentro do grupo escolar, dentro da unidade. - partir
da quinta série voc0 tin"a que estudar na escola, na cidade. .ntão, eles te liberavam. .
a*, isso era um problema pra unidade, quando o moleque ia pra quinta série ter que ir
estudar na cidade. 8oc0 imagina uma cidade pequena, e$tremamente conservadora. -s
6nicas not*cias que tin"am da 1ebem, por isso que eles isolavam a gente, a nossa
unidade ficava distante da cidade, eram as not*cias daqui, do Eatuapé, que sa*a no
/ornal e todo mundo assistia. .ntão, eles abominavam essa ideia de ter uma 1ebem na
cidade e abominavam a ideia de ter um interno indo estudar com os fil"os deles. 'ão
e$istia escola particular em Batatais. . a* era um problema. -*, o que que o =ui+ado de
Cenores ac"ou mel"or. Com o aval dos profissionais de Batatais, me dispensar*
MN
Ao discorrer so$re a situa"ão dos mil87es de /ovens carentes, a$andonados e infratores no in)cio da d@cada de
I', Sader <(RIO, p*&&= afirma 9ue Pen9uanto outras minorias pol)ticas _ como as mul8eres, os negros, os )ndios,
os 8omosse4uais, os idosos e, de forma ainda inicial, os presos _ têm conseguido congregarse para assumir sua
condi"ão de dominados e discriminados, os menores, /unto com os doentes mentais, não foram at@ agora capa>es
de dar esse passo emancipador inicialQ* Gale notar 9ue tal a$ordagem difere das considera"7es tecidas por Arruda
<(RIM=, 9ue aponta para a e4istência das c8amadas sociedades em determinadas Unidades 0ducacionais
destinadas aos menores infratores*
LO
Após anos e anos so$ a tutela do 0stado, Lucas e seus três irmãos seriam finalmente
desinternados* Se em um primeiro momento a sa)da da institui"ão representava o fim das
inCmeras adversidades vivenciadas at@ então, tempos depois, tornouse evidente 9ue o longo
processo de interna"ão causou efeitos nefastos, entre os 9uais, a ideali>a"ão de uma fam)lia
9ue nunca e4istiu e as constantes dificuldades para so$reviver fora dos limites estipulados
pelas regras institucionais* Por meio da narrativa de meu interlocutor, notase 9ue o modo de
sociali>a"ão ao 9ual os /ovens eram su$metidos nas Unidades 0ducacionais capacitavaos
para viver dentro da institui"ão e não fora de seus limites <S1LGA, (RRO=, o 9ue tornava o
processo de desinterna"ão tão violento 9uanto a interna"ão prolongada*
De uma "ora pra outra c"egou a assistente social, me c"amou para conversar, fe+
algumas perguntasA o que eu estava ac"ando, se eu gostava da unidade. . eu tin"a que
falar que gostava, que tava mil maravil"as, aquela coisa toda. -* ela falou assimA vai lá
pegar as suas coisas. - gente nem questionava. . coisas) .u não tin"a porra nen"uma,
só tin"a a roupa da 1ebem mesmo e tin"a a roupa pra sair de domingo, pra ir na
missa, porque se voc0 fosse na missa voc0 podia ir pra cidade de man"ã, mas só pra
missa, tin"a "ora pra voltar. -* fui, peguei a min"a roupa de missa, coloquei em uma
sacola de plástico. .la falou assimA voc0 vai pegar o <nibus da 1ebem, que era um
<nibus amarelo. 8oc0 vai /unto com os internos que estão indo pra 2.LN? e lá a sua
mãe está te esperando, voc0 vai passar alguns dias com a sua mãe. -* fui com os
internos no <nibus amarelo tudo, a* c"egou lá eu fiquei sabendo que eu ia sair, que eu
ia ser desinternado. -* foi a maior alegria, assim, voc0 nem imagina. - maior alegria.
Cas depois foi o maior sufoco. 1oi muito dif*cil porque assim, eu tava condicionado
dentro de um sistema prisional, onde a sua liberdade era restringida a um espaço, onde
o seu pensamento era delimitado, onde tudo era condicionado. Duando eu c"eguei em
7ão #aulo, vi a estrutura da min"a fam*lia, vi as possibilidades que eu tin"a de
liberdade, que eu poderia fa+er as coisas do meu /eito, eu pirei. .u pirei, a* me isolei de
novo, entrei em depressão. .u não conseguia entender tudo isso. .u tava tão
condicionado 9quele tipo de vida que eu não sabia lidar com essas coisas e a* eu
comecei a perceber, porque dentro da 1ebem eu endeusava a figura da min"a mãe,
endeusava essa questão de fam*lia, son"ava em ter uma fam*lia e comer gelatina no
domingo, essas coisas que a gente imagina. Eudo caiu por água abai$o. - min"a mãe
passava por um processo de miséria impressionante, era uma pessoa descontrolada
financeiramente. 1oi um per*odo muito dif*cil e onde a gente passou muita fome.
Gale ressaltar 9ue alguns meses antes de Lucas dei4ar a Unidade 0ducacional L, Caio,
o seu irmão mais vel8o, 9ue como ele não tin8a nen8um 8istórico de infra"ão penal antes do
per)odo de interna"ão, tomaria o mesmo Tni$us amarelo com destino H capital paulista*
Contudo, não para ser entregue H sua mãe, mas para uma nova e $reve estadia na U0&(,
espa"o institucional 9ue, em tese, deveria ser destinado apenas aos menores infratores*
LI
'essa 2.LN? é onde ficavam os infratores. . quando o moleque atingia ?@ anos, das
unidades do interior, ele tin"a que vir pra essa unidade pra fa+er um curso da PolQs, a
PolQsRagem dava um curso de...não sei direito se era funilaria ou que porra que era.
.ntão, eles vin"am fa+er esse curso aqui e a* misturavam também Za$andonados e
infratores[. . era o pavor de todo moleque vir pra cá, era o pavor porque a gente ouvia
as "istórias daqui que só tin"a moleque sangue no +óio ZperigosoY violento[, que
matava, que roubava e voc0 não tin"a escol"a, quem determinava era o /ui+. .u tive a
sorte de não ter vindo*
%esmo após o processo de desinterna"ão de todos os irmãos, Lucas e Caio, 9ue
conviveram em 3atatais por um $reve per)odo de tempo, inclusive no mesmo pavil8ão,
acontecimento 9ue gerou o distanciamento ainda maior entre os /ovens, /amais se
reapro4imaram* De fato, não 8ouve tempo suficiente para tanto, uma ve> 9ue Caio, ao dei4ar
a Unidade 0ducacional &(, rapidamente se envolveu com um grupo de assaltantes de
Sapopem$a, distrito locali>ado na >ona leste da cidade de São Paulo, sendo, posteriormente,
assassinado por policiais militares
MJ
*
'ós fomos morar na C:S-B de 7apopemba, na +ona leste daqui de 7ão #aulo. .le se
envolveu com o pessoal que me$ia com roubo a banco, roubo a /oal"eria e tal. -cabou
sendo assassinado pela pol*cia com ?5 anos. . assim, era o temor de 7apopemba
naquela época, ele era con"ecido como T1ebemU, falava em T1ebemU todo mundo
tin"a medo, era o pior bandido que tin"a. Do fim da internação dele pro assassinato,
ele não durou dois anos*
+ assassinato de seu irmão mais vel8o, associado ao processo de pauperi>a"ão 9ue
assolou a sua fam)lia em meados dos anos I', per)odo marcado pela alta da infla"ão, pelo fim
do crescimento econTmico 9ue 8avia caracteri>ado as d@cadas anteriores, $em como pelo
empo$recimento da popula"ão $rasileira, so$retudo das classes populares <CALD01-A,
&'''=, trou4e mudan"as significativas*
MJ
Longe de ser um fator determinante no 9ue concerne ao seu posterior envolvimento com o crime, a passagem
de Caio pela Unidade 0ducacional &( pode ser considerada como um ponto relevante em sua tra/etória* U
importante notar 9ue os dois irmãos, após serem desinternados, encontravamse su$metidos Hs mesmas
condi"7es sócioeconTmicas, o 9ue me permite refutar, assim como outros autores <XALUA-, (RRLY A--UDA,
(RIM=, a associa"ão entre po$re>a e criminalidade, 8a/a visto 9ue Lucas tril8ou um camin8o diferente de seu
irmão mais vel8o* Dentro dos limites desta proposta de tra$al8o, na 9ual não pretendo refletir so$re o processo
de constitui"ão do infrator, limitome a afirmar 9ue Pnão 8# uma tra/etória $iogr#fica t)pica 9ue derive para a
delin9uência, ao contr#rio do 9ue apregoam certas tendências na literatura, inspiradas em teses criminológicas
discut)veis, 9ue elegem a desorgani>a"ão familiar, a po$re>a, a $ai4a escolaridade, a falta de profissionali>a"ão,
a intermitência no tra$al8o como est)mulos H constru"ão de uma carreira no crime* De fato, a deriva"ão para a
delin9uência pode estar associada a tais situa"7es, estar associada a algumas delas com$inadas entre si, ou a
nen8uma delasQ <AD+-:+, (RRM, p*(RL(RN=*
LR
+ retorno H escola e o conse9uente envolvimento com um grupo teatral, al@m de um
novo per)odo de moradia entre as ruas da capital paulista e os pe9uenos dormitórios de
algumas pens7es, fato 9ue marcou o rompimento definitivo com a figura materna,
significaram uma verdadeira infle4ão na tra/etória de Lucas*
- grande virada, se é que a gente pode falar assim, foi a volta 9 escola. . eu falo que a
grande virada....não foi só a escola, foi a porra de uma aula de Sistória, que me abriu
uma lu+, foi quando um puta professor competente, assim, desmembrou como
funcionava a sociedade. -c"o que isso foi o ponto crucial de entender como funcionava
a estrutura social, como funcionava a pol*tica, como funcionava a coerção da igre/a,
como funcionava a coerção da fam*lia. .ntão, as aulas desse cara mudaram a min"a
vida e em paralelo a isso eu fui convidado por esse mesmo professor para participar de
um grupo de estudo e de pesquisa de teatro, um grupo que no regime militar fa+ia peças
de teatro contra o regime em porta de fábrica, incentivando as greves, aquelas greves
da década de 5J. .ntão, a partir da* eu comecei a perceber o que estava acontecendo
comigo e isso me deu uma identidade. .ntão, eu ac"o que esse foi o fator culminante, o
cara me mostrou como funcionava e a partir da* eu comecei a entender o que estava
acontecendo. #orque até então eu não tin"a refer0ncia nen"uma de vida, não tin"a
perspectiva de nada.
:o in)cio da d@cada de R', entre os ensaios reali>ados aos finais de semana e as
discuss7es relacionadas Hs o$ras de autores como 3ertold 3rec8t, Aarl %ar4 e %ic8el
Foucault, Lucas decidiu investir todas as suas energias na ela$ora"ão e e4ecu"ão de pe"as
teatrais* Gale ressaltar 9ue o longo per)odo de vivência como interno da Funda"ão 0stadual do
3em0star do %enor tornouse a marca distintiva de suas produ"7es, apresentadas
e4clusivamente aos estudantes da rede pC$lica de ensino* Al@m disso, @ importante notar a
correla"ão e4istente entre a sua tra/etória e o gênero teatral 9ue serviu como fonte de
inspira"ão para a ela$ora"ão de suas pe"as, marcado pela forte cr)tica ao 0stado e pela
tem#tica das desigualdades sociais*
: que é o teatro popular) -quele teatro feito do povo, para o povo, falando das coisas
do povo. . qual o princ*pio que voc0 usa para isso) 8oc0 tem o teatro dialético, que é o
teatro do Brec"t, o Brec"t ele veio do mar$ismo, é mar$ismo puro, a* voc0 vai falar das
coisas da sociedade. 8oc0 tem o Eeatro do :primido, desse g0nio, que morreu
recentemente, o -ugusto Boal. . no meio voc0 tem o BrotoRsQi, que fa+ o teatro pobre,
que fala o seguinteA o teatro pobre não é pobre em rique+a de conte6do. ; aquele teatro
que voc0 vai para a comunidade e voc0 não precisa da grana do .stado para fa+er o
que o .stado quer, voc0 não tem grana para fa+er um cenário, vamos pegar o móvel
que voc0 tem em casa e vamos fa+er o cenário. 8amos ressignificar os materiais que a
gente tem na comunidade. .u passei uns ?J anos só fa+endo esse tipo de teatro, eu ia
N'
para as escolas p6blicas, sempre escolas p6blicas. .u escrevi uma peça pequena
contando um pouquin"o da min"a tra/etória. .screvi uma peça de um moleque que tá
no fundo do poço, fodido e que ele consegue buscar forças dentro das possibilidades
que ele tem, nada muito alien*gena. -* peguei essa peça, fui apresentar nas escolas e
depois abria um debate com eles Zalunos[* .ra um monólogo, eu so+in"o montava a
peça e depois trocava ideia sobre drogas, sobre comunidade, esse trabal"o que eu
continuo fa+endo. 1iquei ?J anos fa+endo isso, mambembando mesmo, c"egava na
escola, cobrava cinquenta centavos, um real. .ra o din"eiro que me mantin"a.
A gravide> inesperada de sua compan8eira, con8ecida durante uma apresenta"ão
teatral reali>ada em uma escola pC$lica, fe> com 9ue Lucas a$risse mão do tra$al8o itinerante
e fosse em $usca de um emprego est#vel* De certa forma, seria o fim de suas andan"as pela
cidade, marcadas pelo pouco din8eiro no $olso e pela ausência de endere"o fi4o* +$viamente,
para o /ovem 9ue 8avia passado a maior parte de sua vida em uma institui"ão de controle
social, 9ue não ofereceul8e nen8uma capacita"ão profissional, o Cnico emprego Pno
8ori>onte do poss)velQ <eACWUA:;, (RRO, p*(IO= seria um servi"o des9ualificado, com um
sal#rio irrisório, mas 9ue pelo menos proporcionava a sensa"ão de esta$ilidade*
1ui trabal"ar em um supermercado. 'ão por causa do salário, por causa do plano de
sa6de que a mul"er e$igiu para dar para a criança e eu não tin"a condiç(es de pagar
um plano de sa6de. -* passei seis anos trabal"ando nesse supermercado. . eu fugia no
final de semana para fa+er apresentação porque eu não podia falar pra mul"er que eu
estava indo atrás desses negócios de teatro. .la ac"ava que era uma perda de tempo.
Depois disso, sa* desse supermercado, fui tentar viver de teatro, consegui convencer ela
de novo. 8eio a outra menina, sa* de novo, a* fui trabal"ar aqui no CacQen+ie.
Após a demissão da9uele 9ue foi o seu primeiro emprego com carteira assinada e a
tentativa frustrada de retomar as atividades teatrais, gra"as H segunda gravide> de sua esposa,
o /ovem se viu, novamente, em $usca de um novo emprego fi4o* 0m certo sentido, a
contrata"ão pela Universidade Pres$iteriana %ac.en>ie, locali>ada na região central da cidade
de São Paulo, trou4e lem$ran"as desagrad#veis de um per)odo ines9uec)vel de sua vida, o
longo ciclo de interna"ão na Unidade 0ducacional L* Se em 3atatais, /untamente com um
pe9ueno grupo de internos, Lucas era encarregado de cuidar do grupo escolar, organi>ando as
carteiras e limpando a sala de aula para a9ueles 9ue colocavam a alimenta"ão em risco e se
aventuravam a fre9uentar a escola, mais de vinte anos depois, o /ovem estava novamente
carregando carteiras e organi>ando salas de aula, só 9ue agora para estudantes universit#rios,
atividade 9ue gerava enorme descontentamento*
N(
Cais seis anos de infelicidade. 7abe quando voc0 aceita as armas da oposição) -inda
mais no CacQen+ie que é o s*mbolo do...foi um per*odo dif*cil, até que c"egou um dia e
eu faleiA ol"a, as crianças estão a*, o barul"o é esse, tá afim de encarar) .u t< indo
nessa, se não a gente /á separa. -* eu rompi as correntes e faleiA vou fa+er o que eu
acredito, c"ega. Da* retomei os pro/etos de teatro.
;al retomada, marcada por certo estran8amento, provocou a impressão de 9ue algo
estava fora de lugar* + pro/eto social desenvolvido com adolescentes de !uaiana>es, $airro
locali>ado na periferia leste da capital paulista, gerou a sensa"ão de 9ue o meu discurso como
e$Linterno tin"a ficado lá pra atrás* 0m outras palavras, após mais de uma d@cada de
afastamento das escolas pC$licas e do tra$al8o desenvolvido em regi7es perif@ricas da cidade
de São Paulo, Lucas perce$eu, por meio das narrativas de seus interlocutores, 9ue as coisas
8aviam mudado* A constante men"ão ao Primeiro Comando da Capital, coletivo de
criminosos 9ue atua dentro e fora do sistema penitenci#rio paulista, o in9uietava
MO
* Ao longo
das discuss7es 9ue tratavam de temas diversos, entre os 9uais, o envolvimento dos /ovens
com o tr#fico de drogas, Lucas sentiu 9ue era preciso atuali>ar o seu discurso e compreender
as transforma"7es 9ue 8aviam afetado a vida de seus alunos* Para tanto, era necess#rio
retornar H Funda"ão Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente <Funda"ão
CASA=, antiga Funda"ão 0stadual do 3em0star do %enor <F030%SSP=
MI
*
.u tava sentindo que o trabal"o de teatro que eu estava fa+endo com a molecada lá em
Buaiana+es, ele estava perdendo em verdade no sentido que o sistema de internação
tin"a mudado, eu não tava compreendendo direito como era a organi+ação atual, por
e$emplo, do #CC, como as unidades estavam organi+adas. .u fui contra a min"a
vontade, eu relutei, eu não queria, é um lugar infernal que eu odeio cara, simplesmente
eu odeio. Cas eu precisava voltar nisso porque eu tava sentindo que estava faltando
verdade no meu trabal"o.
MO
So$re as recentes transforma"7es 9ue afetaram as periferias de São Paulo nos Cltimos anos, incluindo a entrada
de integrantes do Primeiro Comando da Capital <PCC= em determinadas regi7es, acontecimento 9ue, entre outras
coisas, provocou a reorgani>a"ão do narcotr#fico local e instituiu novos códigos de conduta no 9ue concerne Hs
rela"7es entre ladr(es, sugiro os estudos de !a$riel Feltran <&''O, &''I=*
MI
A mudan"a da nomenclatura institucional, aprovada pela Assem$leia Legislativa de São Paulo em de>em$ro de
&''J, durante o governo de Cl#udio Lem$o, teve como o$/etivo primordial a ade9ua"ão do atendimento
socioeducativo Hs diretri>es esta$elecidas pelo 0statuto da Crian"a e do Adolescente* Com a mudan"a, um dos
principais pro/etos institucionais passa a ser o processo de descentrali>a"ão e municipali>a"ão do atendimento*
;ratase de desativar os grandes comple4os da institui"ão, locali>ados na capital paulista, e construir Unidades
de 1nterna"ão em todas as regi7es do estado de São Paulo, com capacidade para atender um nCmero redu>ido de
internos* At@ o momento, @ importante ressaltar 9ue somente o comple4o do ;atuap@ foi desativado, em meados
de outu$ro de &''O*
N&
&.) ' desocamento como constante instituciona
%ais de duas d@cadas após o t@rmino do longo processo de interna"ão 9ue dei4ou
marcas indel@veis na tra/etória de Lucas, era c8egada a 8ora de retornar para o lado de dentro
dos muros institucionais, só 9ue agora não como interno, mas como educador cultural
respons#vel por ministrar atividades teatrais aos adolescentes*
As primeiras impress7es indicavam 9ue o cen#rio institucional presente em sua
memória 8avia sofrido algumas altera"7es, a come"ar pelas mudan"as decorrentes da
promulga"ão do 0statuto da Crian"a e do Adolescente <0CA=, lei na I*'JR, de (M de /ul8o de
(RR'* Gale notar 9ue o surgimento de tal dispositivo /ur)dicopol)tico deve ser compreendido
tendose em vista o conte4to dos anos I', per)odo de ampla mo$ili>a"ão social
MR
, Assem$leia
:acional Constituinte e pressão de setores da sociedade civil pela inclusão de emendas
populares no novo te4to constitucional* De fato, @ poss)vel afirmar 9ue o 0statuto da Crian"a
e do Adolescente surge como uma esp@cie de ramifica"ão da Constitui"ão Federal de (RII, na
medida em 9ue reafirma disposi"7es /# presentes no artigo &&O de tal documento
L'
<CA-DA-0LL+Y F+:S0CA, &''R=* U importante salientar 9ue o novo estatuto, tam$@m
sintoni>ado com as diretri>es esta$elecidas pela +rgani>a"ão das :a"7es Unidas <+:U=
L(
,
al@m de proclamar a crian"a e o adolescente como su/eitos de direitos, enfati>a a necessidade
de prote"ão integral <%A-CbL1+, &''O=*
%udase com isso o 9uadro de montagem institucional e normativa da 9uestão,
a9uelas crian"as e adolescentes, ao inv@s de figuradas como VdesviantesV passariam a
ser compreendidas como su/eitos cu/os direitos estão amea"ados ou violados, e 9ue,
portanto, devem ser restitu)dos* A a"ão estatal se deslocaria, em teoria, da repressão
para a prote"ão especial <F0L;-A:, &''I, p*&'J=*
MR
-essalto 9ue 8# uma e4tensa literatura 9ue se de$ru"ou so$re a atua"ão dos movimentos sociais na d@cada de
I'* 0m rela"ão H mo$ili>a"ão de segmentos da sociedade $rasileira na luta pela defesa dos direitos de crian"as e
adolescentes, sugiro os tra$al8os de Heringer <(RR&= e Santos <(RR&=* Para uma an#lise 8istórica acerca da
tra/etória dos movimentos sociais, so$retudo no 9ue concerne H maneira como tal o$/eto de pes9uisa foi
constru)do pela comunidade acadêmica, ver as refle47es de Cardoso <(RRL=*
L'
Art*&&O U dever da fam)lia, da sociedade e do 0stado assegurar H crian"a e ao adolescente, com a$soluta
prioridade, o direito H vida, H saCde, H alimenta"ão, H educa"ão, ao la>er, H profissionali>a"ão, H cultura, H
dignidade, ao respeito, H li$erdade e H convivência familiar e comunit#ria, al@m de coloc#los a salvo de toda
forma de negligência, discrimina"ão, e4plora"ão, violência, crueldade e opressão*
L(
-efirome aos princ)pios esta$elecidos nos seguintes documentos, Declara"ão dos Direitos da Crian"a <(RNR=,
Conven"ão 1nternacional dos Direitos da Crian"a <(RIR=, -egras %)nimas das :a"7es Unidas para a
Administra"ão da 6usti"a, da 1nf2ncia e da 6uventude <-egras de 3ei/in(RII=, Diretri>es das :a"7es Unidas
para a Preven"ão da Delin9uência 6uvenil <(RR'= e -egras %)nimas das :a"7es Unidas para a Prote"ão dos
/ovens privados de li$erdade <(RR'= <%A-CbL1+, &''O=*
NM
Com a implementa"ão da nova legisla"ão, notase uma s@rie de modifica"7es em
rela"ão Hs formas de nomea"ão utili>adas pelo antigo Código do %enor* + 0CA imp7e um
novo l@4ico* + termo PmenorQ
L&
, carregado de preconceitos, @ o primeiro a sair de cena,
so$retudo por9ue Predu>ia a crian"a po$re a uma categoria /ur)dica penalQ <CA-DA-0LL+Y
F+:S0CA, &''R, p*&&I=, sendo su$stitu)do, desde então, por Pcrian"a e adolescenteQ* Do
mesmo modo, Padolescente autor de ato infracionalQ e Padolescente em conflito com a leiQ
são as categorias 9ue surgem em su$stitui"ão ao termo Pmenor infratorQ
LM
* Por sua ve>, os
Pmenores carentesQ passam a ser classificados como Pcrian"as e adolescentes em situa"ão de
vulnera$ilidade socialQ* Al@m disso, vale salientar 9ue o novo aparato /ur)dico prop7e a
reestrutura"ão dos instrumentos de /usti"a* + 6ui>ado de %enores cede espa"o Hs Garas
0speciais da 1nf2ncia e 6uventude <G016=, locais especiali>ados nos 9uais apurase a
culpa$ilidade dos adolescentes suspeitos de terem cometido atos infracionais* :esse conte4to,
os /ovens 9ue cometem crimes ou contraven"7es, pelo fato de serem considerados
inimput#veis penalmente, não são condenados, e sim, su$metidos Hs medidas socioeducativas*
As Unidades 0ducacionais <U0Vs=, agora c8amadas de Unidades de 1nterna"ão <U1Vs=,
após a promulga"ão da nova legisla"ão, caracteri>amse pelo fim do atendimento Hs crian"as
a$andonadas e carentes, pC$lico 9ue configurouse como a principal clientela da institui"ão
durante as d@cadas anteriores*
As unidades da Fe$em seriam su$stitu)das no atendimento a crian"as a$andonadas
por programas descentrali>ados de Vatendimento em meio a$ertoV, em casas alugadas
em v#rios pontos da cidade, para meninos e meninas 9ue viviam na rua e 9ue
precisavam de ado"ão, orienta"ão, escola ou tra$al8o <PASS0;;1, &''O, p*MJLMJN=*
Gêse 9ue o espa"o institucional passa a ser ocupado apenas pelos adolescentes 9ue
cometeram atos infracionais* :esse sentido, constatase uma esp@cie de $ifurca"ão no 9ue
concerne ao sistema de atendimento disponi$ili>ado Hs crian"as e adolescentes* Se antes da
promulga"ão do 0statuto da Crian"a e do Adolescente, não era incomum encontrarmos /ovens
L&
Ca$e destacar 9ue o termo PmenorQ, empregado ao longo do te4to, acompan8a o deslocamento do arran/o
institucional* Desse modo, manten8o o uso de tal categoria at@ o momento em 9ue ocorre a promulga"ão do
0statuto da Crian"a e do Adolescente* :o entanto, @ importante enfati>ar 9ue priori>o as categorias tal como
mo$ili>adas por meus interlocutores* Por e4emplo, 9uando os adolescentes referemse a si mesmos como
ladr(es, 9ualificativo positivo do ponto de vista dos internos, sigo as suas narrativas e manten8o o uso de tal
categoria PnativaQ* So$re a constru"ão social do termo PmenorQ e a sua utili>a"ão para designar crian"as e /ovens
oriundos de fam)lias de $ai4a renda, ver Passetti <(RIO=*
LM
Gale ressaltar 9ue o termo Padolescente autor de ato infracionalQ, segundo !a$riel Feltran <&''I, p*&'I=, Ptem
a vantagem de criar uma fronteira entre o ato e o indiv)duo, o 9ue situa mais claramente o foco da repressão legal
no ato cometido, e não no indiv)duo 9ue o cometeQ*
NL
a$andonados e infratores dividindo o mesmo espa"o institucional, como vimos na U0L,
locali>ada em 3atatais, com o advento do 0CA, esta$elecese uma clara distin"ão entre as
crian"as e adolescentes 9ue necessitam de medidas de prote"ão
LL
e a9ueles 9ue, pelo fato de
terem cometido atos infracionais, são su$metidos Hs medidas socioeducativas
LN
* 0m termos
pr#ticos, o$servase a n)tida tentativa de separar os órfãos e desamparados, 9ue necessitam de
au4)lio e prote"ão, da9ueles 9ue são considerados PperigososQ e 9ue, portanto, representam
uma verdadeira amea"a H sociedade* Para estes Cltimos, a medida socioeducativa de
interna"ão, marcada pelo car#ter punitivo 9ue privilegia a conten"ão de ladr(es, configurase
como mais ade9uada, 8a/a visto 9ue @ preciso isol#los do conv)vio social*
0m rela"ão ao modo de gerir as pol)ticas pC$licas voltadas para a inf2ncia e
adolescência tam$@m constatase altera"7es* Gale lem$rar 9ue a Constitui"ão Federal,
documento 9ue sinteti>ou o processo de luta social 9ue intensificouse ao longo dos anos I',
al@m de resta$elecer o 0stado Democr#tico de Direito e promover a e4pansão dos direitos
sociais, incorpora uma s@rie de mudan"as no 9ue concerne H gestão das pol)ticas pC$licas,
entre as 9uais, Pa participa"ão ativa da sociedade civil na formula"ão e no controle social
dessas pol)ticasQ <+L1G01-A, &''L, p*('O=* De fato, a virada dos anos R' caracteri>ase pela
redefini"ão das rela"7es esta$elecidas entre o 0stado e a sociedade civil, no sentido de 9ue o
antagonismo 9ue 8avia marcado tal rela"ão nas d@cadas anteriores cede espa"o H possi$ilidade
de uma a"ão con/unta visando o aprofundamento democr#tico <DA!:1:+, &''L=*
Diante de tal conte4to, favor#vel H cria"ão de diversos espa"os de participa"ão e
deli$era"ão da sociedade, os movimentos de luta pela defesa de crian"as e adolescentes, 9ue
pressionaram pelo 0CA no final da d@cada de I', dando continuidade ao 9ue 8ouvera durante
o per)odo constituinte, passam a e4igir participa"ão na ela$ora"ão, implementa"ão e
fiscali>a"ão das pol)ticas pC$licas destinadas H #rea da inf2ncia <F0L;-A:, &''I=* + novo
estatuto, sintoni>ado com os princ)pios da participa"ão social e da descentrali>a"ão, /#
LL
Das %edidas de Prote"ão* Art*('( <c= a autoridade competente poder# determinar, entre outras, as seguintes
medidas, 1 encamin8amento aos pais ou respons#vel, mediante termo de responsa$ilidadeY 11 orienta"ão, apoio
e acompan8amento tempor#riosY 111 matr)cula e fre9uência o$rigatórias em esta$elecimento oficial de ensino
fundamentalY 1G inclusão em programa comunit#rio ou oficial, de au4)lio H fam)lia, H crian"a e ao adolescenteY
G re9uisi"ão de tratamento m@dico, psicológico ou psi9ui#trico, em regime 8ospitalar ou am$ulatorialY G1
inclusão em programa oficial ou comunit#rio de au4)lio, orienta"ão e tratamento a alcoólatras e to4icTmanosY
G11 a$rigo em entidadeY G111 coloca"ão em fam)lia su$stituta* Par#grafo Cnico o a$rigo @ medida provisória
e e4cepcional, utili>#vel como forma de transi"ão para a coloca"ão em fam)lia su$stituta, não implicando
priva"ão de li$erdade*
LN
Art*((& Gerificada a pr#tica de ato infracional, a autoridade competente poder# aplicar ao adolescente as
seguintes medidas, 1 advertênciaY 11 o$riga"ão de reparar o danoY 111 presta"ão de servi"os H comunidadeY 1G
li$erdade assistidaY G inser"ão em regime de semili$erdadeY G1 interna"ão em esta$elecimento educacionalY
G11 9ual9uer uma das previstas no Art* ('(, 1 a G1*
NN
previstos na Constitui"ão Federal de (RII, institui, então, uma s@rie de mecanismos de co
gestão, 9ue articulam inst2ncias governamentais e representantes da sociedade civil*
+ 0statuto da Crian"a e do Adolescente instituiu, entre os principais mecanismos de
e4ecu"ão das pol)ticas em rela"ão Hs crian"as e adolescentes, a instala"ão de
consel8os de defesa e consel8os tutelares* +s primeiros destinamse H formula"ão,
gestão e fiscali>a"ão das pol)ticas relacionadas Hs crian"as e adolescentes e os
segundos ao atendimento cotidiano Hs v)timas do nãocumprimento dos direitos
garantidos no 0statuto* Am$os prevêem ampla participa"ão de representantes da
sociedade civil na sua composi"ão <H0-1:!0-, (RR&, p*J(=*
Com o reordenamento pol)ticoinstitucional do pa)s, tornase evidente 9ue a
participa"ão da sociedade civil, sim$oli>ada pela emergência de distintos mecanismos de
democracia participativa, entre os 9uais, os Consel8os !estores de Pol)ticas PC$licas
LJ
e os
+r"amentos Participativos
LO
, configurase como elemento central no 9ue concerne ao novo
pro/eto pol)tico democrati>ante* Sendo assim, com a promulga"ão do 0CA, notase 9ue as
pol)ticas pC$licas destinadas H #rea da inf2ncia passam a contar com a participa"ão de
mCltiplos atores sociais, todos empen8ados em garantir os direitos deste pC$lico espec)fico*
Gale lem$rar 9ue durante esse mesmo per)odo o 0stado tam$@m procurava ade9uarse
ao modelo neoli$eral produ>ido pelo Consenso de eas8ington* :esse sentido, constatase a
emergência Pde um pro/eto de 0stado m)nimo 9ue se isenta progressivamente de seu papel de
garantidor de direitos, atrav@s do encol8imento de suas responsa$ilidades sociais e sua
transferência para a sociedade civilQ <DA!:1:+, &''L, p*RJ=
LI
* De fato, notase 9ue o
0statuto da Crian"a e do Adolescente redimensiona o papel do 0stado em rela"ão Hs pol)ticas
sociais, na medida em 9ue Pele permanece orientando e supervisionando as a"7es, mas redu>
sua atua"ão na esfera do atendimento facilitando o aparecimento, em larga escala, das
organi>a"7es nãogovernamentaisQ <PASS0;;1, &''O, p*MJJ=*
LJ
Ao discorrer so$re tais espa"os de participa"ão e deli$era"ão, instaurados nos n)veis municipal, estadual e
federal, +liveira <&''L, p*('O= enfati>a 9ue a responsa$ilidade de tais Consel8os, compostos paritariamente por
mem$ros do 0stado e representantes da sociedade civil, Pseria, so$retudo, definir e fiscali>ar a e4ecu"ão das
pol)ticas pC$licas em todas as #reas, educa"ão, saCde, assistência social etcQ*
LO
Segundo 0leonora Cun8a <&''O, p*&J=, os +r"amentos Participativos Psão processos de discussão pC$lica
so$re o or"amento municipal, em 9ue o gestor compartil8a com a sociedade as decis7es so$re parte do
or"amento pC$lico, tendo como $ase as Leis +rg2nicas %unicipaisQ* Para uma an#lise comparativa entre os
Consel8os !estores de Pol)ticas PC$licas e os +r"amentos Participativos em três munic)pios $rasileiros, a sa$er,
Porto Alegre, 3elo Hori>onte e São Paulo, sugiro as refle47es da autora*
LI
Ao refletir so$re os efeitos provocados pelo pro/eto neoli$eral nas sociedades latinoamericanas, so$retudo no
9ue concerne aos impactos desse processo so$re a cultura pol)tica de tais pa)ses, Dagnino <&''L, p*RN, grifo da
autora= sugere a e4istência, no caso $rasileiro, Pde uma conflu0ncia perversa entre um pro/eto pol)tico
democrati>ante, participativo, e o pro/eto neoli$eral, 9ue marcaria 8o/e, desde nosso ponto de vista, o cen#rio da
luta pelo aprofundamento da democracia na sociedade $rasileiraQ*
NJ
Se o per)odo 9ue se inicia com a cria"ão da FU:A30%, em (RJL, e se estende at@ a
promulga"ão do 0statuto da Crian"a e do Adolescente, em (RR', caracteri>ase pela forte
presen"a do 0stado na formula"ão e e4ecu"ão das pol)ticas de atendimento destinadas Hs
crian"as e adolescentes, após a instaura"ão do 0CA, notase a redu"ão da presen"a estatal na
esfera do atendimento, movimento 9ue acompan8a Po novo dimensionamento internacional
para as pol)ticas sociais com redu"ão no investimento estatal e amplia"ão na participa"ão
filantrópica da sociedade com apoio nas iniciativas empresariaisQ <PASS0;;1, &''O, p*MJO=*
Apesar das +rgani>a"7es :ão !overnamentais atuarem, prioritariamente, no
atendimento disponi$ili>ado Hs crian"as a$andonadas 9ue, como vimos, após a promulga"ão
do 0statuto da Crian"a e do Adolescente, dei4am de ser atendidas em regime de interna"ão, os
profissionais de tais entidades privadas tam$@m passam a ocupar os espa"os institucionais
destinados aos infratores, acontecimento 9ue possi$ilita a reinser"ão de Lucas nos espa"os de
interna"ão, 8a/a visto 9ue ele passa a atuar como educador cultural vinculado a uma
organi>a"ão da sociedade civil* ;ais profissionais, encarregados de ministrar as atividades
culturais e os cursos profissionali>antes
LR
, com o advento do 0CA, intensificam as suas a"7es*
Gale ressaltar 9ue os primeiros passos de Lucas como educador cultural da Unidade de
1nterna"ão MO, espa"o locali>ado no comple4o -aposo ;avares
N'
, trou4eram H tona uma s@rie
LR
A reali>a"ão de atividades esportivas, culturais, profissionali>antes e de la>er fa>em parte dos direitos dos
adolescentes 9ue cumprem medida socioeducativa de interna"ão <0CA, art*(&L=* 0m rela"ão Hs atividades
culturais, saliento 9ue estas compreendem oficinas de teatro, capoeira, fotografia, dan"a de rua, artes pl#sticas,
etc* !eralmente, tais atividades são reali>adas para grupos de (N adolescentes, 9ue se reCnem pelo per)odo de
três meses, com dois encontros semanais de uma 8ora e meia cada* :o 9ue concerne Hs atividades
profissionali>antes, são oferecidas pela institui"ão oficinas de panifica"ão, confeitaria, el@trica e inform#tica,
entre outras* Ainda 9ue esta proposta de tra$al8o não ten8a como o$/etivo central a refle4ão acerca de tais
atividades, vale notar 9ue os internos demonstram interesse, principalmente, pelos diplomas 9ue l8es são
disponi$ili>ados ao t@rmino dos cursos* +s certificados, valori>ados por psicólogos e assistentes sociais 9ue
acompan8am os /ovens no cotidiano da interna"ão, tam$@m con8ecidos como técnicos, podem resultar em
avalia"7es positivas por parte de tais profissionais, encarregados de ela$orar e enviar relatórios semestrais aos
/ui>es das Garas 0speciais da 1nf2ncia e 6uventude <G016= 9ue, em posse de tais documentos, decidem pela
permanência ou desinterna"ão dos adolescentes* Por outro lado, @ importante atentar para o significado atri$u)do
Hs oficinas pelos educadores 9ue as ministram* 3oa parte dos profissionais acredita 9ue tais atividades, al@m de
au4iliarem na ressociali>a"ão dos internos, podem afast#los da pr#tica de crimes* 0m alguns casos, so$retudo no
9ue se refere Hs oficinas culturais, tam$@m con8ecidas como oficinas de arte, tais atividades ad9uirem o car#ter
de salva"ão* :esse sentido, a narrativa de Carla, coordenadora de oficinas culturais de uma +:! vinculada H
Funda"ão CASA, mostrase prof)cua* 7e tiver um bolo de din"eiro em cima da mesa e algum artista sem grana
nen"uma, este nunca pegaria o din"eiro, porque a arte l"e basta, a arte alimenta*
N'
+ comple4o -aposo ;avares, locali>ado pró4imo ao munic)pio de +sasco, >ona oeste da capital paulista,
possui cinco unidades de medida socioeducativa de interna"ão, a sa$er, U1&&Y U1&OY U1&IY U1MO e U1MI* ;ais
espa"os institucionais caracteri>amse por a$rigar adolescentes de perfis distintos* A U1&&, por e4emplo, atende
/ovens 9ue cometeram atos infracionais considerados leves, como furto e porte ilegal de armas* Por sua ve>, a
U1MI, 9ue /# c8egou a a$rigar os c8amados reincidentes graves, isto @, /ovens 9ue tiveram diversas passagens
pela institui"ão por terem cometido atos infracionais considerados graves como, por e4emplo, se9uestro e
latroc)nio, após mudar de local dentro do próprio comple4o e trocar toda a sua popula"ão interna, passou a
a$rigar primários graves, adolescentes 9ue estavam sendo internados pela primeira ve>* :o terceiro cap)tulo, ao
NO
de recorda"7es 9ue causaram efeitos imediatos em seu corpo*
-té conversei com a >6cia Zcoordenadora de atividades culturais da +:![. .u falei
assimA >6cia, eu não estou me sentindo bem. . ela falouA o que que tá acontecendo)
#orque eu tin"a trocado uma ideia com a >6cia e com a Carla Zoutra coordenadora[*
#orque elas me fi+eram uma pergunta assimA por que voc0 ac"a que o seu trabal"o vai
ser importante dentro da unidade) .u faleiA porque eu sou e$Linterno. .las falaramA
então tá bom. -* me /ogaram lá dentro. -* eu entrei e a primeira sensação que eu tive
foi o c"eiro da unidade, o c"eiro, eu não sei se opressão tem um c"eiro, mas parece que
tem cara. : c"eiro, eu não sei se é o comportamento das pessoas que gera uma
energia, que remete a lembranças lá de trás. . aquilo me incomodou e eu comecei a
tremer, comecei a me sentir mal. . aquilo para mim é uma faca cara, aquilo me
violenta, aquilo me tra+ coisas muito negativas. .u ac"ei que eu não ia conseguir.
A contrata"ão por parte de uma +rgani>a"ão :ão !overnamental, após Lucas
enfati>ar 9ue 8avia sido interno da Funda"ão 0stadual do 3em0star do %enor, foi imediata*
;al acontecimento tornase compreens)vel se atentarmos para o fato de 9ue, aos ol8os das
coordenadoras 9ue participaram do processo de sele"ão, $em como dos funcion#rios 9ue
atuam nos espa"os de interna"ão, meu interlocutor construiu uma tra/etória e4emplar* Por
mais doloroso 9ue ten8a sido o per)odo de interna"ão, ao sair da institui"ão, Lucas,
diferentemente de seu irmão mais vel8o, não se envolveu com a pr#tica de crimes* Pelo
contr#rio, estruturou a sua vida em torno de tra$al8os pouco rent#veis, por@m P8onestosQ,
constituiu fam)lia, reali>ou o son8o de atuar no teatro e retornou ao espa"o institucional para
contri$uir com o processo de ressociali>a"ão de outros adolescentes* De fato, para os agentes
institucionais, a tra/etória de meu interlocutor @ a prova de 9ue, apesar das dificuldades 9ue
caracteri>am o cotidiano da interna"ão, ainda @ poss)vel acreditar na reinser"ão dos internos H
sociedade* Do ponto de vista de tais atores, Lucas @ o vitorioso da 8istória, constituindose em
um dos poucos personagens 9ue conferem sentido ao trabal"o de todos os dias
N(
*
de$ru"arme so$re a din2mica de funcionamento dos espa"os de interna"ão, discorro so$re as tentativas de
determinadas unidades de mudar o perfil de sua clientela, procedimento 9ue se apresenta como uma das
principais estrat@gias institucionais na luta pelo controle das Unidades de 1nterna"ão* Por ora, gostaria de
ressaltar 9ue as unidades de Piritu$a e Gila Leopoldina, apesar de fa>erem parte do comple4o -aposo ;avares
em termos administrativos, não estão locali>adas no mesmo espa"o institucional*
N(
0m outu$ro de &''I rece$i um email de LCcia, coordenadora de atividades culturais da +:! em 9ue Lucas e
eu tra$al8amos* ;al mensagem ilustra os apontamentos tecidos acima* Ao longo do te4to, destinado a todos os
educadores culturais 9ue atuavam no comple4o -aposo ;avares, LCcia enfati>ou 9ue ela e Lucas, ao visitarem a
Unidade de 1nterna"ão &O, 8aviam con8ecido um adolescente 9ue tin8a repensado a sua pr#tica de crimes gra"as
ao envolvimento com a arte* Como /# mencionado, 8istórias como essa, assim como a de Lucas, dão sentido ao
tra$al8o desenvolvido pelos atores institucionais* Segue um trec8o ilustrativo do te4to escrito pela coordenadora,
: nome dele é =. 7., e ele é um interno da 23LNH, Comple$o &aposo Eavares. .sta unidade é para reincidentes
graves, e ele era o vo+ Zpiloto[ da casa. Ce contou ontem que, um dia, começou a pensar, pensar, e algumas
coisas Vnão sa*am da menteV. 1oi então que, incentivado por um funcionário da pedagogia, começou a ler
NI
Apesar do desconforto inicial, 9ue marcou a nova inser"ão de Lucas no espa"o
institucional, meu interlocutor deu continuidade H sua proposta e durante alguns meses
ministrou atividades teatrais aos adolescentes de distintas Unidades de 1nterna"ão do
comple4o -aposo ;avares* :o entanto, tornouse evidente 9ue o momento institucional era
outro, $em diferente da9uele vivenciado pelo garoto 9ue passou $oa parte de sua vida so$ a
tutela do 0stado, a come"ar pela percep"ão de 9ue 8avia uma infinidade de novos atores
sociais em cena, entre os 9uais, integrantes da c8amada #rea pedagógica
N&
*
+ c"efe de lar, autoridade m#4ima em 3atatais, não estava mais presente* +s espa"os
de interna"ão, 9ue durante a sua longa permanência em Amparo eram c8amados de lares,
passaram a ser designados, tanto pelos funcion#rios 9uanto pelos internos, como cadeia* Se
no per)odo em 9ue Lucas esteve em 3atatais, a entrada de novos adolescentes no espa"o
institucional era marcada pelo batismo da molecada, isto @, pelas inCmeras agress7es f)sicas,
no presente momento, tais pr#ticas dão lugar Hs considera"7es tecidas so$re o 8istórico dos
rec@mc8egados, procedimento marcado pelo di#logo e não pela violência entre os internos
NM
*
+s vigilantes, 9ue em 3atatais espancavam as crian"as com ca$os de en4ada, tam$@m
não fa>em mais parte do cen#rio institucional* 0m sua nova inser"ão, Lucas constata 9ue a
seguran"a das Unidades de 1nterna"ão @ reali>ada pelo C"oquin"o
NL
, grupo de 8omens
treinados 9ue permanece nos grandes comple4os da institui"ão
NN
, sendo os seus integrantes os
principais respons#veis pelas revistas periódicas reali>adas nas unidades, $em como pela
conten"ão de pe9uenos tumultos* 0m algumas ocasi7es, 9uando, por e4emplo, as re$eli7es
compulsivamente. 1alamos de Canuel Bandeira, de Cec*lia Ceireles, de Braciliano &amos e muitos outros. 7ó
do Cam(es ele não gosta muito, .ste menino teve a sorte de ter uma tia que percebeu este interesse e se
interessou por ler os te$tos que ele escrevia, e que resolveu dar de presente 9 ele a edição de um livro. .le fe+
uma fala na Bienal do livro e sua publicação deve sair em de+embro, com direito a lançamento na editora, com
coquetel e tudo. : =.7. deve se Vreintegrar 9 sociedadeV (como ele mesmo di+! ainda em outubro ou em
novembro. .le irá morar no interior do &io de =aneiro, pois não pode voltar para a comunidade em que
morava. &esolvi contar esta "istória para voc0s porque conversar com este menino me alimentou, e deu sentido
ao trabal"o de todos os dias. .le tem uma lucide+ impressionante e me contou passo a passo tudo o que passou
neste processo de recon"ecimento. Conto também para alimentáLlos, voc0s que estão no dia a dia com estes
meninos, e que t0m toda a min"a admiração. - arte realmente é capa+ de dar novo sentido 9 vida das pessoas,
como ten"o certe+a que deu 9 vida de cada um de nós.
N&
0m todas as Unidades de 1nterna"ão 8# o setor pedagógico* +s profissionais, com distintas forma"7es de n)vel
superior, são respons#veis pelo acompan8amento de todas as atividades pedagógicas reali>adas na unidade <aulas
do ensino formal, cursos profissionali>antes, atividades culturais, etc=*
NM
:o cap)tulo seguinte, discorro so$re os motivos pelos 9uais os internos avaliam o 8istórico dos rec@m
c8egados* Por ora, pretendo apenas evidenciar a mudan"a de procedimento adotada pelos adolescentes*
NL
+ termo C"oquin"o @ uma alusão H ;ropa de C8o9ue da Pol)cia %ilitar* U importante destacar 9ue os
integrantes de tal grupo permanecem do lado de fora das Unidades de 1nterna"ão, sendo a vigil2ncia interna
e4ercida por agentes de seguran"a 9ue se dividem em turnos de do>e 8oras*
NN
-efirome aos comple4os de Franco da -oc8a, Gila %aria e -aposo ;avares* + comple4o do ;atuap@, antes de
ser desativado, em outu$ro de &''O, tam$@m contava com a presen"a de tal grupo de seguran"a*
NR
tornamse iminentes, o C"oquin"o rece$e o apoio do !rupo de 1nterven"7es -#pidas <!1-=,
vinculado H Secretaria de Administra"ão Penitenci#ria do 0stado de São Paulo <SAP=
NJ
*
De fato, a partir de meados da d@cada de &''', notase o aumento progressivo do
nCmero de agentes institucionais ligados ao sistema prisional atuando nos espa"os de
interna"ão para adolescentes* A nomea"ão de 3erenice !ianella como presidente da
institui"ão, em /un8o de &''N, após ocupar os cargos de corregedorageral do sistema
penitenci#rio do estado de São Paulo e secret#ria ad/unta da SAP, $em como o fato de 9ue no
mesmo per)odo integrantes da Secretaria de Administra"ão Penitenci#ria assumem a dire"ão
de determinadas Unidades de 1nterna"ão <+L1C, &''R=, sim$oli>am o deslocamento da
institui"ão em dire"ão H din2mica de funcionamento do sistema penitenci#rio paulista
NO
* ;al
movimento, não deve ser compreendido tendose em vista apenas as transforma"7es ocorridas
no aparato /ur)dicoinstitucional, uma ve> 9ue fatores e4ternos aos espa"os de interna"ão
atravessam as suas mural8as supostamente intranspon)veis*
A e4istência de postos de lideran"a entre os adolescentes, tais como piloto e fa$ina,
9ue tam$@m operam nos esta$elecimentos prisionais em 9ue os integrantes do Primeiro
Comando da Capital atuam
NI
, não deve ser compreendida como o resultado da din2mica
intramuros* Se anteriormente os focos de organi>a"ão nas unidades destinadas aos infratores
resumiamse Hs c8amadas sociedades <A--UDA, (RIM=, no atual momento institucional, os
adolescentes de determinadas Unidades de 1nterna"ão, con8ecidas como unidades dominadas,
encontramse conectados Hs institui"7es prisionais do estado de São Paulo, $em como Hs #reas
ur$anas controladas por mem$ros do PCC
NR
* 0m tais espa"os institucionais, os rou$os, assim
como as fre9uentes agress7es entre os adolescentes, dei4aram de ser pr#ticas corri9ueiras*
Atualmente, os ideais de #a+, =ustiça, >iberdade e 3gualdade, 9ue segundo meus
interlocutores constituem o lema do Primeiro Comando da Capital, fa>em parte do l@4ico
NJ
0m (N de maio de &''J, per)odo em 9ue ocorreram os acontecimentos 9ue ficaram con8ecidos como os
Pata9ues do PCCQ, ao c8egar no comple4o de Franco da -oc8a, constatei 9ue a seguran"a do espa"o
institucional contava com a participa"ão de integrantes do !1-* 0m algumas ocasi7es, como @ o caso do
comple4o Gila %aria, 9ue entre os anos de &''J e &''O passou por momentos contur$ados devido Hs fre9uentes
tentativas de fuga, pude notar a presen"a cont)nua do !1-*
NO
U importante notar 9ue em agosto de &''L, durante o governo de !eraldo Alc.min <PSD3=, a Funda"ão
0stadual do 3em0star do %enor desvinculouse da Secretaria de 0duca"ão e passou para a pasta da Secretaria
de 6usti"a e Cidadania <-A%+S, &''L=*
NI
Gale ressaltar 9ue não reali>ei pes9uisa de campo em unidades prisionais* Portanto, val8ome de alguns
estudos recentes 9ue se de$ru"am so$re o sistema penitenci#rio paulista, em especial, as etnografias produ>idas
por Adalton %ar9ues <&''R= e Aarina 3iondi <&'('=*
NR
;ais apontamentos serão delineados durante o Cap)tulo &, 9uando pretendo es$o"ar a configura"ão referente Hs
unidades dominadas, $em como ao longo das Considera"7es Finais* 0m rela"ão ao conceito de configura"ão,
saliento 9ue este ser# desenvolvido em seguida*
J'
mo$ili>ado pelos internos
J'
* A e4istência de um con/unto de normas de conduta 9ue orienta a
e4periência cotidiana dos adolescentes, intitulado de disciplina, tam$@m aponta para o
deslocamento institucional* ;ais prescri"7es, semel8antes Hs 9ue operam em institui"7es
prisionais orientadas pelas diretri>es do Comando
J(
, estipulam desde as vestimentas
ade9uadas para um dia de visita
J&
, ou impedimentos relativos ao contato entre os adolescentes
e os funcion#rios, at@ diferencia"7es entre os próprios /ovens* De fato, por meio das narrativas
de meus interlocutores, notase a simetria e4istente entre as institui"7es prisionais e as
Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão CASA*
- semel"ança de conduta entre a 1.B.C e as cadeias é claramente observada em
vários aspectos. .$A em qualquer prédio de medidas penais onde o #artido atua, sua
palavra vale sua vida, suas palavras nunca voltam va+ias por isso deveLse tomar muito
cuidado com as palavras. Dia de visita, nada de palavr(es, debates ou qualquer outra
coisa que se/a uma falta de respeito, dia de visita é sagrado por isso é um dia de pa+. -
verdade aqui é a c"ave para a sobreviv0ncia, mentiras não são aceitas, porque o crime
não mente para o crime <6osu@, U1&N, comple4o de Franco da -oc8a=*
'a min"a opinião, 1ebem e cadeia não tem muita diferença, pois a 6nica diferença é a
idade. #ois tanto na cadeia e na 1ebem o certo prevalece e o errado é cobrado. Dentro
da 1ebem ou na cadeia tem os fa$ineiros e o palavra Zpiloto[ para p<r a disciplina na
cadeia de um /eito ou de outro. 7e caso um menino vim a errar, dependendo do erro é
recebida uma oportunidade, se caso o menino vim a se acomodar na oportunidade ele é
corrigido pra ele se ligar que ele se encontra preso e não no parque de diversão <6oão,
U1&R, comple4o de Franco da -oc8a=*
Eudo dentro deste pequeno mundo é igual. Eudo o que tem de camin"ada Zorienta"7es[
que é passada lá Znas cadeias do PCC[, também é a mesma batida Zcoisa[ aqui. 'ós
todos pertencemos 9 mesma fam*lia <Pl)nio, U1&R, comple4o de Franco da -oc8a=*
J'
Gale salientar 9ue os agentes institucionais 9uestionam o fato dos internos mo$ili>arem tais ideais* Alguns
funcion#rios c8egam a afirmar 9ue os adolescentes não têm o direito de pronunciar a palavra /usti"a, na medida
em 9ue estão internados por serem criminosos* :otase 9ue o significado atri$u)do pelos adolescentes aos ideais
de #a+, =ustiça, >iberdade e 3gualdade difere da maneira como tais termos são compreendidos pelos agentes
institucionais* -o$son, adolescente da U1&N, comple4o de Franco da -oc8a, ao discorrer so$re tais ideais,
afirma 9ue pa+ significa pa+ entre nós, /ustiça significa /ustiça pra quem foi in/ustiçado e liberdade significa
liberdade a qualquer custo. 0m rela"ão ao ideal de 3gualdade, os internos enfati>am 9ue nas rela"7es travadas
entre eles nen8um adolescente deve se considerar superior ao compan8eiro* :esse sentido, a narrativa de -enato,
interno da U1MI, comple4o -aposo ;avares, pareceme ilustrativa* 3ndependente que o cara foi preso roubando
uma bicicleta e voc0 foi preso roubando um banco, mas ele é a mesma coisa que voc0. ; igualdade mano*
J(
Para meus interlocutores, o PCC tam$@m @ con8ecido como Comando, #artido e Duin+e*
J&
%omento em 9ue os adolescentes rece$em a visita de seus familiares* 0m geral, tais encontros acontecem aos
finais de semana* Para os internos, o dia de visita @ considerado especial* Prova disso @ 9ue parte da comida
entregue pelos funcion#rios ao longo da semana @ arma>enada pelos adolescentes, sendo distri$u)da após a
c8egada dos visitantes* + tempo de permanência dos familiares dentro das Unidades de 1nterna"ão, assim como
o tratamento disponi$ili>ado aos visitantes durante o processo de revista, constituem pontos de em$ate entre os
agentes institucionais e os internos*
J(
Bom, a 6nica diferença que a 1ebem tem de uma cadeia é que tem escola, cursos e
técnicos Zpsicólogos e assistentes sociais[. . só, porque o resto é a mesma coisa. #or
e$emploA o cigarro na cadeia é din"eiro e aqui também é. 'o dia de visita, lá é respeito
total com a visita e aqui também. -qui e lá não se ergue a camisa e não se fala
palavrão. -té quando a gente está escutando um som, a gente tem que tomar cuidado.
7e a m6sica fala palavrão, não pode escutar porque é respeito total com as visitas, não
importa se tem uma ou de+ ou até mais do que de+. ; a mesma coisa aqui e lá. -qui não
tem in/ustiça e nem lá, aqui não pode ter opressão e nem lá. #orque a gente /á está
privado de liberdade e vai ficar apan"ando e sendo mal tratado por funcionário)
<Carlos, U1&R, comple4o de Franco da -oc8a=*
+s relatos descritos acima evidenciam 9ue a correspondência entre tais espa"os
institucionais difere dos apontamentos sugeridos por determinados autores 9ue se de$ru"aram
so$re os espa"os de interna"ão na d@cada de I' <A--UDA, (RIMY 310--0:3ACH, (RIO=*
:o presente momento, tal correla"ão não se restringe Hs instala"7es f)sicas, isto @, PH divisão
por pavil87es, p#tios internos e muros altosQ <310--0:3ACH, (RIO, p*NM=* Com o
reordenamento do arran/o institucional, vêse 9ue a simetria entre as unidades prisionais e as
Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão CASA assume novos contornos
JM
*
+s contatos entre os funcion#rios e os internos tam$@m se deslocam, apontando para
altera"7es nas rela"7es de poder* As pr#ticas violentas adotadas pelo corpo funcional, 9ue
caracteri>aram o per)odo em 9ue Lucas esteve internado, longe de terem c8egado ao fim,
encontram maior resistência por parte dos internos* 0m determinadas ocasi7es, funcion#rios
são impedidos de acessar os espa"os de interna"ão ou então, 9uando os acessam, permanecem
em locais espec)ficos delimitados pelos próprios /ovens* As mãos entrela"adas para tr#s, no
conte4to das unidades dominadas, carregam an@is de prata* As ca$e"as raspadas dão lugar aos
cortes de ca$elo personali>ados* +s uniformes são su$stitu)dos pelas roupas do mundão
JL
*
Ao sugerir o deslocamento das rela"7es de poder no 9ue concerne aos contatos
travados entre os distintos atores sociais 9ue circulam pelo espa"o institucional, enfati>o 9ue o
conceito de poder, tal como pretendo mo$ili>#lo, Pdenota uma rela"ão entre duas ou mais
pessoas, ou talve> mesmo entre pessoas e o$/ectos naturais, 9ue o poder @ um atri$uto de
JM
+$viamente, a semel8an"a entre tais espa"os institucionais não significa, como sugerem os depoimentos de
meus interlocutores, 9ue o modo de opera"ão dos adolescentes nas Unidades de 1nterna"ão se/a e4atamente igual
H atua"ão dos integrantes do Primeiro Comando da Capital* Como veremos adiante, os internos da Funda"ão
CASA colocam em pr#tica, não sem adapta"7es, as orienta"7es transmitidas pelos integrantes do PCC*
JL
+ outro lado dos muros institucionais, isto @, o lado de fora das Unidades de 1nterna"ão* Al@m de opor o lado
de dentro ao lado de fora, vale notar 9ue tal categoria @ empregada pelos adolescentes para designar tudo a9uilo
9ue não pertence ao universo institucional <roupas, alimentos, o$/etos, etc=* Como $em o$serva Paula %iraglia
<&''(,((L=, a e4pressão PVfi> isso no mundãoV, marca acontecimentos anteriores H interna"ãoQ* Da mesma forma,
os alimentos levados pelos familiares dos adolescentes no dia de visita são c8amados de comida do mundão*
J&
rela"7es, 9ue o termo @ mel8or usado con/untamente com uma advertência das alteraç(es de
poder mais ou menos flutuantesQ <0L1AS, (RO', p*(&J, grifo do autor=* 0m outras palavras,
argumento 9ue o poder não deve ser compreendido como um conceito est#tico e invari#vel,
mas de rela"ão* + poder, dependendo do arran/o institucional, isto @, da forma 9ue as rela"7es
assumem numa determinada con/untura, pode moverse para diante e para tr#s, para um lado e
para o outro <0L1AS, (RO', p*(LM=*
:as unidades dominadas, a disposi"ão para o uso da violência, principalmente no 9ue
se refere Hs rela"7es esta$elecidas entre adolescentes e funcion#rios, cede espa"o Hs
incessantes negocia"7es e ao di#logo* ;elevisores, aparel8os de som, fre9uência escolar,
alimentos e roupas constituem alguns dos produtos 9ue movimentam o intermin#vel ciclo de
trocas* As re$eli7es, eventos 9ue marcaram as Unidades 0ducacionais destinadas aos
infratores nas d@cadas anteriores, no presente momento, constituem nCmeros irrisórios
JN
*
Ao propor uma esp@cie de confronto entre momentos institucionais distintos, ainda
9ue por meio da reconstitui"ão da tra/etória de Lucas, notase 9ue a institui"ão não deve ser
compreendida como um o$/eto est#tico e imut#vel, isto @, como um corpo Pinfenso a
mudan"asQ <310--0:3ACH, (RIO, p*MO=* Diferentemente de outros autores, 9ue enfocaram
os distintos espa"os de interna"ão a partir de instantes institucionais <310--0:3ACH, (RIOY
%1-A!L1A, &''(= e 9ue, portanto, ao adotarem tal perspectiva, produ>iram retratos
espec)ficos, opto por colocar tais imagens em movimento e discorro so$re o universo
institucional tendo em vista 9ue este deve ser compreendido como um processo, em 9ue a
muta$ilidade apresentase como constante
JJ
*
JN
0m &M de fevereiro de &'((, reportagem veiculada pela revista 8e/a 7ão #aulo, $aseandose em dados
divulgados pela própria Funda"ão CASA, destaca a 9ueda e4pressiva do nCmero de re$eli7es 9ue afetaram a
institui"ão nos Cltimos anos* Segundo tal pu$lica"ão, o nCmero de motins caiu de NM em &''N para &I em &''J,
cinco em &''O, três em &''I, um em &''R e cinco em &'(' <3A;1S;AY 3A--+S, &'((=* Gale ressaltar 9ue no
pró4imo cap)tulo, ao retomar esta discussão, discorro so$re alguns fatores 9ue au4iliamme a compreender a
redu"ão do nCmero de re$eli7es* Por ora, enfati>o 9ue entre os Cltimos meses de &''J e meados de &''R,
per)odo em 9ue estive em campo, não presenciei a ocorrência de nen8um motim*
JJ
%iraglia, por e4emplo, ao reconstituir o percurso enfrentado por adolescentes 9ue c8egam H F030%SSP,
enfocando as distintas representa"7es sociais constru)das acerca dos /ovens infratores, apresentanos um recorte
do cen#rio institucional referente ao final da d@cada de R'* A autora <&''(, p*I= enfati>a 9ue sua proposta de
tra$al8o P@ resultado de uma e4periência pontual de pes9uisa, em momentos espec)ficos do cotidiano e da
8istória da institui"ão* + resultado conse9uentemente @ parcial e pode ser tomado apenas como um retrato <ou
um instant2neo= desses momentosQ* Da mesma forma, 3ierren$ac8 <(RIO= oferecenos um retrato institucional
do in)cio da d@cada de I', per)odo em 9ue ocupou o cargo de presidente da institui"ão* + fato de adotar uma
perspectiva anal)tica distinta das autoras citadas, na medida em 9ue $usco compreender o universo institucional
como um processo, não significa 9ue tais estudos devam ser descartados* Pelo contr#rio, vêse 9ue tais
a$ordagens mostramse relevantes para esta proposta de tra$al8o, /# 9ue as mo$ili>o como retratos 9ue au4iliam
me a reconstruir, /untamente com a tra/etória de Lucas, o deslocamento institucional ao longo do tempo*
JM
De fato, se atentarmos para os la"os de interdependência 9ue envolvem os distintos
personagens 9ue constituem o universo em estudo, veremos o espa"o institucional em
constante movimento, deslocandose de acordo com a forma 9ue tais rela"7es assumem num
determinado conte4to* :esse sentido, o conceito de configura"ão, tal como proposto por
:or$ert 0lias <(RO', p*(L((L&=, mostrase prof)cuo para a an#lise 9ue empreendo*
Se 9uatro pessoas se sentarem H volta de uma mesa e /ogarem cartas, formam uma
configura"ão* As suas ac"7es são interdependentes* :este caso, ainda @ poss)vel
curvarmonos perante a tradi"ão e falarmos do /ogo como se este tivesse uma
e4istência própria* U poss)vel di>er, ]+ /ogo 8o/e H noite est# muito lentoF^* Por@m,
apesar de todas as e4press7es 9ue tendem a o$/ectiv#lo, neste caso o decurso
tomado pelo /ogo ser# o$viamente o resultado das ac"7es de um grupo de indiv)duos
interdependentes*
Gale notar 9ue o conceito de /ogo mo$ili>ado pelo autor não tem e4istência em si
mesmo* + /ogo não e4iste como for"a transcendente, isto @, como algo independente dos
/ogadores envolvidos* + mesmo pode ser dito em rela"ão H no"ão de configura"ão* + fato de
9uatro /ogadores se sentarem ao redor de uma mesa e formarem uma determinada
configura"ão não significa, de modo algum, 9ue ela e4ista como for"a e4terior aos indiv)duos*
Como sugere o autor, a no"ão de configura"ão deve ser entendida como o padrão mut#vel
criado pelo con/unto dos /ogadores, a resultante de suas a"7es nas rela"7es 9ue estes mantêm
uns com os outros <0L1AS, (RO'=* ;ratase de um Pentran"ado fle4)vel de tens7esQ <0L1AS,
(RO', p*(L&=, sendo a interdependência dos envolvidos condi"ão primordial para 9ue estes
constituam uma configura"ão* Ao mo$ili>ar tal conceito, 9ue pode ser aplicado a grupos de
taman8o redu>ido ou mesmo a sociedades constitu)das por mil8ares de pessoas
interdependentes, fa>se necess#rio raciocinar Pnão mais em termos de individualidades
ligadas umas Hs outras, mas em termos de rela"7es, necessariamente vari#veis, entre posi"7es
definidas pelo sistema destas rela"7esQ <H01:1CH, &''(, p*(&L=*
:o 9ue concerne ao universo em estudo, ressalto 9ue o fato de atentar para o
movimento ininterrupto da institui"ão e, conse9uentemente, para as distintas figura"7es 9ue
resultam de tal deslocamento, não implica em desconsiderar a e4istência de alguns tra"os
institucionais 9ue persistem ao longo do tempo* Afinal, a reinser"ão de Lucas aos espa"os de
interna"ão da Funda"ão CASA, como podemos ver, não caracteri>ouse apenas pelo
estran8amento, decorrente do movimento institucional*
JL
:l"a...ao mesmo tempo eu ac"ei tudo muito parecido cara, muito parecido. :
condicionamento da molecada. .les podem estar com o poder, mas eles t0m o
condicionamento da instituição, a instituição ainda dá medo pra eles, por mais l*deres
que eles se/am, a instituição ainda dá medo. - cor daqueles muros, padrão cara, não
mudou, não mudou. : /eito que as pessoas ol"am, os funcionários, o /eito que ol"am,
que falsidade. : ol"ar daqueles professores não mudou, na portaria, não mudou. ; a
mesma coisa. - instituição como um todo, a forma opressora dela não mudou, é do
mesmo /eito. :s funcionários parecem que são os mesmos da min"a época, o /eito que
eles pensam, o /eito que eles agem é o mesmo. 7ó que agora a maioria tem medo da
molecada (!.
Por meio da narrativa de meu interlocutor, vêse 9ue o movimento institucional não
resulta no apagamento do passado* A persistência de determinados tra"os 9ue atravessam
d@cadas e d@cadas não deve ser vista como oposta ao deslocamento, e sim, como inerente H
própria muta$ilidade do universo institucional* Sendo assim, vale atentar para a din2mica de
funcionamento de alguns espa"os de interna"ão 9ue, em certos aspectos, assemel8amse Hs
unidades nas 9uais Lucas esteve internado*
-qui dentro deste maldito quadrado repleto de grades, min"a rotina é muita c"ata,
repetitiva, en/oativa e aborrecedora (!. #ara começar temos que ser acordados
igualmente a bic"os, por meio de gritos e batidas nas portas. Depois, um miserável
ban"o de no má$imo cinco minutos, depois a revista c"ata e intolerante que c"ega a se
repetir até vinte ve+es ao dia. Depois sentar na maldita mesa de pedra Zrefeitório[ e
ainda esperar um "omem igual a nós dar ordem para comermos...imagina só, Depois
alguns fumam. -* v0m as sen"oras da pedagogia dar um cursin"o de no má$imo duas
"oras somente para pequena parte da população, o que estressa ainda mais. Depois,
novamente outra formação Zde filas[ para o almoço, toda aquela burocracia igual do
café da man"ã, depois a brasa Zcigarro[, a escovação Zdos dentes[...ainda temos que
ficar pedindo licença Zpara os funcion#rios[, andando com as mãos para trás (!. Fs
cinco "oras outra formação, revista, ban"o de cinco minutos, formação, burocracia
para /antar, só stress. Fs sete "oras somos divididos, N@ sobem para ver televisão e os
outros N@ ficam aqui em bai$o /ogados Zno p#tio da unidade[, abandonados, no má$imo
um som ou pingLpong. Fs de+ da noite sou trancado dentro de um quadrado ainda
menor, o meu quarto, onde fico até de madrugada acordado conversando com o meu
compan"eiro de quarto, onde tem funcionário que vem querer controlar o meu tom de
vo+. -* durmo re+ando para son"ar com o mundão, para acordar e enfrentar esta rotina
maldita novamente por longos e lentos dias <-o$erto, Unidade de 1nterna"ão MO,
comple4o -aposo ;avares=*
Assim como em Amparo e 3atatais, no depoimento descrito acima, col8ido nos
Cltimos dias de &''I, portanto, mais de duas d@cadas após a desinterna"ão de Lucas, vêse a
constante forma"ão de filas, os r)gidos 8or#rios estipulados pelo corpo funcional e as mãos
JN
dos internos entrela"adas para tr#s* Simultaneamente, e isso o relato não evidencia, 8# 8omens
do C"oquin"o andando so$re o tel8ado e fa$inas operando entre os adolescentes*
Diante de tais considera"7es, notase 9ue o universo institucional, ao mesmo tempo
em 9ue se move ininterruptamente, na medida em 9ue as rela"7es travadas entre os distintos
atores sociais 9ue o constituem se deslocam, carrega consigo a permanência de determinados
elementos 9ue persistem ao longo do tempo* 0m outras palavras, no 9ue concerne H din2mica
institucional, continuidade e mudan"a coe4istem*
Para compreendermos, em sua comple4idade, o atual momento institucional 9ue
emerge diante de nossos ol8os, $em como o fato de 9ue a din2mica da institui"ão @ feita de
continuidade e mudan"a, tornase necess#rio distanciarmonos do 9ue 0lias <(RO', p*(&&=
denomina de Predu"ão processualQ, isto @, a redu"ão de processos a condi"7es est#veis, sem
movimento* Ao delinearmos uma visão a longo pra>o do deslocamento institucional,
compreendemos por9ue o universo em estudo não deve ser visto como um o$/eto isolado e
em estado de repouso, mas em constante movimento, como um processo, 9ue dei4a marcas
indel@veis nas tra/etórias dos envolvidos*
.ntão, o cara que passa por um processo desse ele não vai esquecer nunca. ; a mesma
coisa que o cara que passa por uma organi+ação familiar tudo direitin"o, ele não vai
esquecer a infWncia que ele teve. - vida do cara tá marcada ali. Eudo que eu passei, 9s
ve+es não é nem só a tortura, nem só os castigos, nada disso. Cas como se deu tudo,
como eu fui enganado muito tempo cara, é isso que eu não me conformo, como a min"a
infWncia foi roubada <Lucas=*
JJ
(. As unidades dominadas como figuração socia
EornaLse evidente que dois grupos de adversários, que
t0m entre si uma relação de ]nós^ e de ]eles^, formam
uma configuração singular. 7ó podemos compreender o
flu$o constante do agrupamento dos /ogadores de um dos
lados, se virmos que o grupo de /ogadores do outro lado
também está num flu$o constante.
:or$ert 0lias <(RO'=
Segundafeira, (N de maio de &''J* + tra/eto @ longo* + trem, com destino a Francisco
%orato, munic)pio locali>ado na -egião %etropolitana de São Paulo, como de costume, est#
lotado* Ao meu lado, dois adolescentes conversam so$re o assunto do momento, os inCmeros
atentados praticados por integrantes do Primeiro Comando da Capital* De fato, a cidade
aman8eceu diferente* 1nstitui"7es de ensino, esta$elecimentos comerciais e órgãos pC$licos
fec8aram as portas* Diversas lin8as de Tni$us pararam de circular* + rod)>io de carros foi
suspenso* At@ o momento, segundo dados divulgados pela Secretaria de Seguran"a PC$lica
<SSP=, OL pessoas foram mortas, entre elas, agentes penitenci#rios, policiais civis, policiais
militares e supostos integrantes do Comando
JO
* Desde a Cltima se4tafeira, per)odo 9ue
marcou o in)cio dos confrontos, internos se re$elaram em I' unidades prisionais

espal8adas
por todo o estado de São Paulo
JI
*
Após uma longa viagem, c8ego ao meu destino, a esta"ão de Franco da -oc8a* Pelas
ruas, as pessoas parecem assustadas* + clima @ tenso* Giaturas policiais deslocamse por todos
os lados* Camin8o por trinta minutos at@ depararme com uma pe9uena rua de terra* %ais
alguns passos e avisto a primeira guarita* +s seguran"as empun8am armas* -evistam o porta
malas de um ve)culo* ? min8a frente, as mural8as do comple4o de Franco da -oc8a
JR
*
JO
Para se ter uma ideia da magnitude de tais acontecimentos, con8ecidos como os Pata9ues do PCCQ, entre os
dias (& e &' de maio, LMR pessoas foram mortas no estado de São Paulo* PComparativamente a igual per)odo em
anos anteriores, $em como Hs semanas anteriores e posteriores a esse per)odo, o volume de mortes @ $astante
elevado, sugerindo um cen#rio de e4cepcionalidadeQ <AD+-:+Y SALLA, &''O, p*O=*
JI
1nforma"7es retiradas de uma reportagem pu$licada pelo /ornal 1ol"a de 7.#aulo <PCC ataca Tni$us e fóruns,
promove megarre$elião e amplia medo no 0stado, &''J=*
JR
+ comple4o de Franco da -oc8a possui três Unidades de 1nterna"ão* 0ntre &''J e &''I, per)odo no 9ual
reali>ei a pes9uisa de campo em tais unidades, tam$@m con8ecidas como cadeias dominadas, a U1&( a$rigava
adolescentes mais novos, com idade m)nima de (& anos* ;ais /ovens, em sua maioria, 8aviam sido internados por
terem praticado pe9uenos furtos e assaltos* + envolvimento com o tr#fico de drogas tam$@m era e4pressivo* Por
sua ve>, as Unidades de 1nterna"ão &N e &R a$rigavam internos com idades entre (J e (I anos, 9ue 8aviam
cometido 8omic)dios, se9uestros e latroc)nios, entre outros crimes* Gale ressaltar 9ue o 1nternato de Franco da
-oc8a, 9ue atendia um pC$lico semel8ante ao das unidades &N e &R, apesar de fa>er parte do comple4o em
JO
%e apro4imo do portão de entrada* + vigilante nota a min8a presen"a, se antecipa e
a$re a porta* Pede para 9ue eu me sente em um $anco, uma esp@cie de detector de metais*
A$re a min8a moc8ila, me4e em pastas e cadernos* +$serva uma c2mera fotogr#fica no fundo
da $olsa* Di> 9ue não posso entrar com o e9uipamento sem a devida autori>a"ão da diretoria*
+pto por dei4#lo em suas mãos*
Camin8o por um corredor e4tenso at@ depararme com uma gaiola, uma esp@cie de
ret2ngulo feito de grades, 9ue limita o acesso Hs Unidades de 1nterna"ão e ao setor
pedagógico* Al@m de outro vigilante, 9ue coordena 9uem entra e sai, mais um detector de
metais* C8ego H coordena"ão pedagógica* +s funcion#rios estão apreensivos* Afinal, sa$em
9ue os adolescentes podem virar a cadeia
O'
a 9ual9uer instante* At@ o momento, ningu@m
entrou nas Unidades de 1nterna"ão* A ordem dos diretores @ para 9ue todos aguardem* S)lvia,
funcion#ria do setor pedagógico da Unidade de 1nterna"ão &R, orientame,
- gente /á colocou nossas coisas lá do outro lado Zno setor administrativo, 9ue fica
distante das Unidades de 1nterna"ão[. Dei$a sua bolsa lá porque a gente nunca sabe o
que pode acontecer. Duando a casa vira, a molecada c"ega quebrando tudo, revirando
armários, pegando celulares e din"eiro.
Sigo as recomenda"7es de min8a interlocutora* Fa"o o camin8o de volta* Por todos os
lados, noto a presen"a de 8omens do !rupo de 1nterven"7es -#pidas* 0stão preparados para
um poss)vel confronto* Armados, vestem uniformes camuflados e tocas nin/a* Parecem apenas
esperar o momento em 9ue as re$eli7es irão estourar*
Aproveito para camin8ar pelo comple4o* Aguardo a autori>a"ão para entrar na
Unidade de 1nterna"ão &R* 0ntre os funcion#rios dos diversos setores institucionais, a
conversa gira em torno dos Pata9ues do PCCQ* Ao mesmo tempo em 9ue tecem considera"7es
so$re os recentes acontecimentos, relem$ram 8istórias do passado, so$retudo as 9ue se
referem Hs antigas re$eli7es* As narrativas, do mesmo modo 9ue contri$uem para o aumento
da tensão, parecem descontrair os agentes institucionais*
Clara, coordenadora pedagógica da Unidade de 1nterna"ão &R, se apro4ima* Pergunta
se estou disposto a entrar na unidade com o professor 9ue ministra aulas de 0duca"ão F)sica
aos adolescentes* Aceito o convite* :os dirigimos, eu e 6oel, ao portão de entrada da unidade*
+ seguran"a, antes de a$rir o Cltimo cadeado, emite o seu parecer,
termos administrativos, não est# locali>ado no mesmo espa"o institucional*
O'
Segundo meus interlocutores, virar a cadeia @ o mesmo 9ue fa>er uma re$elião*
JI
7e eu fosse voc0s eu não entrava a* não. :s ladrão tão tudo estran"o. Eeve até uns
tumulto a* de ontem pra "o/e. - unidade tá agitada. -inda mais com tudo o que está
acontecendo lá fora.
Decidimos ir em$ora* -etornamos ao setor pedagógico e comunicamos a nossa
decisão aos integrantes do corpo funcional* +s diretores das Unidades de 1nterna"ão estão
reunidos* :o entanto, não 8# muito o 9ue fa>er* Apesar dos ind)cios 9ue apontam para
poss)veis manifesta"7es por parte dos internos, at@ o momento, não aconteceu nada* Aos
agentes institucionais, só resta esperar o pró4imo passo a ser dado pelos adolescentes*
:o interior das mural8as 9ue circunscrevem a Unidade de 1nterna"ão &R, a situa"ão
tam$@m @ tensa* Da mesma forma 9ue os integrantes do !rupo de 1nterven"7es -#pidas estão
com as suas armas em pun8o, os internos desentocam as suas naifas
O(
* +s len"óis ad9uirem
outro significado* ;ransformamse em $andeiras 9ue estampam os ideais do Comando*
0m uma das salas do espa"o de interna"ão, con8ecida como a sala da fa$ina, os
disciplinas, grupo de adolescentes 9ue se divide em setores, fa$inas, encarregados e pilotos,
assim como os diretores, estão reunidos* U preciso decidir rapidamente o 9ue deve ser feito,
afinal, os /ovens da população
O&
aguardam as suas orienta"7es* :esse conte4to, os celulares
tornamse ferramentas importantes, na medida em 9ue possi$ilitam o contato dos disciplinas
com os irmãos do #artido
OM
*
Desceu uma ordem daqui do 7ão Camilo, a maior favela de =undia*. 8eio a ordem,
c"egou de man"ã, os funcionários /á tava tudo...o negócio tava pegando em tudo
quanto é cadeia e os funcionários tava cabreiro, tanto que só ficava dois no pátio e as
mul"er tudo pra fora. -* eu c"eguei num funcionário e faleiA ó, é o seguinte sen"or, não
vai sair da cadeia, certo) : sen"or vai ficar aqui dentro, não é pra dei$ar as
funcionária entrar. Bom, a ordem que desceu era pra estourar e ir embora. - base era
estourar, se der pra ir pro mundão, é mundão. 7e não der, bate de frente com os caras
Zos funcion#rios[, mas representa. - ordem era representar. 1alamos pra populaçãoA o
bagul"o vai pegar. Deu umas ?J "oras da man"ã, nóis falouA é agora <Pedro, U1&R,
comple4o de Franco da -oc8a=*
O(
As naifas são facas artesanais ela$oradas pelos próprios internos a partir de $arras de ferro arrancadas das
/anelas dos dormitórios, das carteiras das salas de aula, $em como das estruturas 9ue dão sustenta"ão Hs camas* A
produ"ão de tais instrumentos @ constante* Segundo meus interlocutores, as naifas, após serem confeccionadas,
são rapidamente entocadas Zescondidas[ para 9ue os mem$ros do C"oquin"o, respons#veis por reali>ar as
revistas dentro das Unidades de 1nterna"ão, não as encontrem com facilidade*
O&
A população @ constitu)da pelos adolescentes 9ue não fa>em parte do grupo de disciplinas*
OM
+s irmãos são os mem$ros bati+ados do Comando. Segundo Aarina 3iondi <&'(', p*RR, grifo da autora=, Pa
entrada no PCC só pode ser feita mediante convite e indica"ão de dois irmãosQ* Para mais informa"7es so$re o
processo de batismo, sugiro as an#lises propostas pela autora*
JR
0m poucos minutos, a fuma"a dos inCmeros colc87es 9ue 9ueimam na porta de
entrada da Unidade de 1nterna"ão &R gan8a o c@u de Franco da -oc8a* Ao mesmo tempo em
9ue c8ama a aten"ão dos agentes institucionais, serve como um sinal para 9ue os adolescentes
das unidades &( e &N iniciem novos motins* Diante da gravidade de tal situa"ão, os diretores,
ao perce$erem 9ue os integrantes do !1- não conseguiriam conter três re$eli7es simult2neas,
acionam os policiais da ;ropa de C8o9ue da Pol)cia %ilitar*
- Eropa de C"oque /á tava lá fora. 7a*a de uma cadeia e ia pra outra, os caras /á
c"egavam arrebentando. Eava estourando tudo mesmo. 1ui procurar o Bruno Zpiloto da
unidade[, cad0 o Bruno) . a* BrunoA o que nóis vai fa+er) Z3runo[, nóis vai quebrar
tudo. 1oi quando o -lan Zoutro piloto[ subiu com o funcionário lá no tel"ado, com a
faca. 'ão sei que loucura que deu nele que ele empurrou o funcionário. : funcionário
caiu e mac"ucou a perna.
Da*, os caras Zda ;ropa de C8o9ue[ começaram a /ogar bomba e dar tiro, o bagul"o
começou a pegar fogo. 1oi quando fui procurar o Bruno e cad0) . o funcionário
mac"ucado lá e os cara querendo entrar. 1oi quando eu peguei e amarrei uma camisa
na cabeça e peguei uma naifa e fui lá negociar com os caras, fui lá na frente. 'a
primeira palavra que eu falei, os carasA não #edro e tal. =á recon"eceram a min"a vo+.
-* eu até tirei a máscara. .u faleiA ó sen"or, é o seguinteA vamo negociar. 7em
esculac"o Z8umil8a"ão[. : seu =osé Zdiretor da U1&R[ também tava lá. . os caras com
várias ?N Zarmas[ e tal e eu com a faca no pescoço do funcionário. 7en"or, é o seguinteA
vamo negocia. 7em esculac"o. Duer entrar, entra, mas sem esculac"o porque se
esculac"ar, nóis vai matar esse funcionário aqui. ZDiretor[, mas se voc0s matarem vai
todo mundo de bonde pro CD# Zo diretor amea"a, afirma 9ue os /ovens serão enviados
para um Centro de Deten"ão Provisória[. .u penseiA nóis /á tá ferrado mesmo. Da*, os
cara Zda ;ropa de C8o9ue[ falouA não vai ter negociação, nóis vai entrar*
A tentativa de negociar com os policiais da ;ropa de C8o9ue, uma das principais
atri$ui"7es dos adolescentes 9ue atuam como pilotos, fracassa
OL
* +s policiais se preparam para
invadir a unidade* :o entanto, tendo em vista a intensidade das c8amas 9ue retorcem o portão
de entrada da U1&R, fa>se necess#rio o uso de um ma"arico*
Pedro perce$e 9ue as negocia"7es c8egaram ao fim e opta por li$ertar o ref@m* +s
policiais avan"am, invadem a Unidade de 1nterna"ão &R* Por sua ve>, os adolescentes,
apro4imadamente (N' internos, correm pelo p#tio, tentando se proteger das $alas de $orrac8a*
OL
Ao longo deste cap)tulo, tornarse# evidente 9ue, no conte4to das unidades dominadas, os pilotos ocupam
uma posi"ão de negocia"ão, na medida em 9ue, em nome da população, negociam com os agentes institucionais*
Por ora, vale atentar para o fato de 9ue Pedro, durante a re$elião ocorrida na U1&R, ocupava o posto de fa$ina*
Ao reconstituir a tra/etória do adolescente, procedimento 9ue empreendo em seguida, discorro so$re alguns
fatores 9ue au4iliamme a compreender o motivo pelo 9ual o interno pTde atuar, mesmo 9ue transitoriamente,
como piloto da cadeia*
O'
Simultaneamente, arremessam peda"os de tel8a, paus e pedras* 0m poucos instantes, são
dominados pelos integrantes da ;ropa de C8o9ue* A re$elião termina*
.ncurralou nóis no canto lá do muro da ZUnidade de 1nterna"ão[ NO. .les falaramA vai,
todo mundo descasca, descasca Zo mesmo 9ue tirar a roupa[. . eu tava sem coru/a
Zcueca[. . elesA quem tiver sem coru/a, pega uma coru/a e veste, não quero ninguém
pelado. . tin"a um monte sem coru/a e um monte com, a* todo mundo descalço e na
pressa acabou tirando a coru/a e todo mundo foi procurar, um pegando a coru/a do
outro e eu caramba, toda "ora que eu ia pegar, alguém pegava, fui o 6ltimo sem coru/a.
C"egou um c"oque lá e pegou uma coru/a e /ogou pra mimA voc0 é o ultimo né) 'ão
era voc0 que tava lá negociando) ZPedro[, não era eu não. ZPolicial[, era voc0 sim.
Da*, ele c"egou e pá, /á me deu uma escudada na cara, a* pronto fodeu. 7ó sobra pra
mim, só eu que apan"o nessa porra. Ce deram um sacode ali rapidin"o e me levaram
lá pra cima na formação Zapós o t@rmino do motim, os internos são o$rigados a sentar
em filas, com a ca$e"a apontada para o c8ão, procedimento con8ecido como formação[.
-*, começou o esculac"o e o negócio começou a pegar pro meu lado*
Antes de ingressarem nos espa"os de interna"ão, os integrantes da ;ropa de C8o9ue
solicitam informa"7es aos agentes institucionais, tendo como o$/etivo central o plane/amento
de suas a"7es* + con8ecimento acerca do território em 9ue irão atuar, o mapeamento de
poss)veis pontos de fuga e a escol8a do local em 9ue os internos serão reunidos configuramse
como estrat@gias relevantes* Al@m disso, os policiais procuram sa$er 9uem são os frente da
cadeia, como tam$@m são con8ecidos os disciplinas* ;ais adolescentes, pelo fato de serem
recon8ecidos como lideran"as, tanto pelos /ovens da população 9uanto pelos mem$ros do
corpo funcional, são responsa$ili>ados pela ocorrência das re$eli7es* :o caso de Pedro, vale
lem$rar 9ue ele /# 8avia sido identificado ao tentar negociar a entrada pac)fica da ;ropa de
C8o9ue* ;al atitude, al@m de não surtir o efeito dese/ado, provocou conse9uências dolorosas*
C"egou lá na formação e a* c"egou os carasA cad0 o #edro) . eu abai$ado assim.
Cad0 o #edro) . eu quieto, sabia que eu ia apan"ar. : cara falouA levanta a cabeça
todo mundo. >evantamos. .le falouA #edro vem cá. Bele+a, eu fui. Ce levaram lá na
c"urrasqueira. .le falouA a/oel"a a* #edro. -/oel"ei. : cara da 7-# ZSecretaria de
Administra"ão Penitenci#ria do 0stado de São Paulo[ pegou, tava de toca, mas eu sei
quem é. #egou a ?N, engatil"ou e falouA abre a boca, vou te matar, vou te matar mano.
C"egou um outro, deu coron"ada na min"a cabeça, na cara e falouA vamos dar uns
tiros nele. Dando bicuda Zc8utes[ e tal. Da*, eles falouA a* mano, voc0 é do #CC) .u
faleiA meu sen"or, não sou não, mas nóis fec"a lindo, não tem essa não
ON
. Z1ntegrante da
SAP[, voc0 é bocudo "ein) ZPedro[, não sou folgado, só não gosto de voc0s. -*,
bateram, bateram, bateram, a* eu abai$ado assim no c"ão, pegaram um spraX de
ON
1ec"ar com o Comando @ o mesmo 9ue seguir as orienta"7es transmitidas pelos irmãos*
O(
pimenta e por bai$o do meu braço mandaram ver...Zsom do spraE sendo usado pelos
policiais[* Ceu amigo...foi sofrido "ein*
Ao relem$rar as cenas descritas acima, assim como o dia 9ue marcou o encerramento
de sua medida socioeducativa de interna"ão, acontecimento 9ue ocorreu poucos meses após
os Pata9ues do PCCQ, Pedro se emocionou* Para a min8a surpresa, apesar dos inCmeros
sofrimentos causados pelo longo per)odo de estadia na Funda"ão 0stadual do 3em0star do
%enor, o adolescente contoume 9ue logo após a desinterna"ão sentiu uma certa saudade dos
9uase três anos em 9ue esteve privado de li$erdade* +$viamente, a saudade sentida pelo
garoto não era da institui"ão e muito menos da9ueles 9ue o espancaram, e sim, dos
compan8eiros 9ue estiveram ao seu lado, do recon8ecimento concedido pelos adolescentes da
população, da posi"ão de lideran"a por ele ocupada, $em como da adrenalina vivenciada por
todos a9ueles 9ue são recon8ecidos como os frente da cadeia*
7abe como é né professor, o bagul"o é loco. 'o dia que eu fui embora, os cara Zoutros
internos da unidade[ me carregou no colo. .u sa* carregado nos braços de todo mundo.
-qui fora eu era só mais um, lá dentro eu tocava Zcondu>ia[ uma cadeia. 8oc0 sai aqui
no mundão e parece que voc0 sai in6til, não tem aquela ação, voc0 não vive aquela
adrenalina, dá vontade de voltar*
Para 9ue possamos compreender, em sua comple4idade, a vontade de voltar, $em
como alguns dos movimentos adotados pelo adolescente durante os acontecimentos de maio
de &''J, a sa$er, o contato com integrantes do Primeiro Comando da Capital, a orienta"ão
para 9ue os /ovens da população dessem in)cio ao motim e a tentativa de negociar com os
policiais da ;ropa de C8o9ue, tornase necess#rio delinear a tra/etória de meu interlocutor* De
fato, a reconstitui"ão de tra/etórias, esfor"o 9ue empreendo ao longo deste cap)tulo, al@m de
possi$ilitar a refle4ão acerca do processo de constitui"ão dos disciplinas, permiteme es$o"ar
os tra"os centrais 9ue constituem a configura"ão referente Hs unidades dominadas*
(.& 3edro: dos $e4uenos furtos aos $rimeiros $assos institucionais
Da Cltima ve> em 9ue nos encontramos, em meados de &'(', em um $ar locali>ado na
região central de Campinas, o adolescente estava descontente* De fato, o t@rmino da medida
socioeducativa de interna"ão significou o retorno de antigos pro$lemas, entre os 9uais, os
O&
constantes per)odos de desemprego e as contur$adas rela"7es familiares*
Primeiro fil8o 8omem de uma fam)lia de cinco irmãos, Pedro nasceu em Salto,
munic)pio locali>ado no interior do estado de São Paulo* Sua e4istência sempre foi marcada
pela insta$ilidade* Ao longo da inf2ncia, mudou diversas ve>es de residência, permanecendo
por longos per)odos na casa de alguns parentes* Simultaneamente, após o divórcio de seus
pais, 9ue ocorreu aos três anos de idade, alternou idas e vindas entre os dois domic)lios*
+ a$andono paterno, associado Hs constantes agress7es sofridas por mãe e fil8o,
fi>eram com 9ue o /ovem guardasse sentimentos am$)guos em rela"ão ao pai* Ao mesmo
tempo em 9ue ainda o admira, o culpa pela derrocada da unidade familiar*
Ceu pai é bem fec"ado, bem r*gido, bem pragmático mesmo. Daqueles autoritários.
Cin"a relação com meu pai quando eu era criança, era até uma relação de "erói,
independente do que ele fe+ pra min"a mãe, o motivo da separação foi por conta
de...traição. 3ndependente do que ele fe+ com a min"a mãe, eu ten"o admiração, eu
tin"a admiração e$trema pelo meu pai. .le foi até me visitar /á. Depois que eu comecei
a ficar mais vel"o, começou a bater a revolta. .le abandonou, passamos tudo o que nós
passamos. .le tem mais $odó pela min"a irmã, pelas min"as duas irmãs do que por nós
"omens, entendeu) .u fui morar com ele antes de ser preso e rolou espancamento. .u
ia buscar meu pai, eu com ?N anos, min"a madrasta me acordava quatro "oras da
man"ã pra buscar ele na +ona. Duatro "oras da man"ã, Duantas ve+es eu c"eguei lá
na +ona e a mul"erada dei$ava eu entrar porque eu /á con"ecia. . quando eu c"egava
lá, meu pai estava no ato, entendeu) . ali mesmo ele /á começava a me espancar.
A prisão de Pedro, assim como o longo per)odo de interna"ão ao 9ual o adolescente foi
su$metido, os distanciou ainda mais* Após o cumprimento da medida socioeducativa, o /ovem
arriscou uma nova apro4ima"ão, mas não o$teve ê4ito* A tentativa de resta$elecer o contato
com a figura paterna, durante um per)odo em 9ue am$os passavam por inCmeras dificuldades,
resultou em novos insultos e espancamentos*
Depois que eu sa* Zda F030%[, eu desandei em bebida, de usar drogas. 1oi o per*odo
mais longo que eu usei drogas. 1oi esse tempo. Coisa de dois meses. -bandonei um
serviço de um ano e meio. 1ui lá e pedi as contas. .u tava num stress danado, a* eu
faleiA não, vou embora senão vou fa+er besteira. . eu fui embora. -*, meu pai tava
desandado na cac"aça. 2m dos motivos dele que eu entendo foi por causa da perda da
mãe dele. Cin"a vó morreu de cWncer e depois disso da* ele desandou. Depois disso
da*, ele começou a beber e nós começou a bater de frente. .le /oga na min"a cara a
min"a detenção, entendeu) Da*, uma ve+ a gente meio que se estran"ou lá e sa*mos na
mão e eu quebrei as duas pernas dele. . eu ia pegar ele mesmo, eu coloquei a arma na
cara dele. Da* ele me e$pulsou de casa. -* eu vendi o meu celular, tin"a comprado o
OM
celular por &Y HJJ, vendi por &Y OJ só pra mim vim embora Zo garoto retorna para a
casa de sua mãe[* -*, depois de uns oito meses sem nóis se falar eu liguei lá, descobri
que ele tava doente, tava com efi+ema porque ele fuma muito. >iguei lá e nóis
conversou. - gente mantém um relacionamento, mas não que nem era antigamente. 7e
eu pudesse voltar atrás, eu /amais faria isso com o meu pai.
Ao mesmo tempo em 9ue se distancia da figura paterna, Pedro volta a se apro4imar de
sua mãe, considerada pelo adolescente como uma mul8er guerreira
OJ
* Atualmente, vive com
ela e outros dois irmãos em uma casa na periferia de Campinas* Desde 9ue %arisa perdeu o
emprego pela Cltima ve>, as discuss7es tornaramse mais fre9uentes* A solu"ão encontrada
pelo /ovem, ainda 9ue a contragosto, foi o ingresso em uma empresa 9ue contrata e4internos
do sistema penitenci#rio* Apesar do descontentamento, do tra$al8o incessante e da $ai4a
remunera"ão, em torno de um sal#rio m)nimo, Pedro segue como empil8ador de sacas de so/a*
De fato, para o adolescente 9ue /# tirou uma cota na cadeia
OO
, o Cnico emprego
dispon)vel @ um servi"o des9ualificado, sem a menor esta$ilidade e com um sal#rio irrisório,
principalmente se comparado H 9uantia financeira 9ue pode ser o$tida em um assalto ou
mesmo no tr#fico de drogas
OI
* Diante desse 9uadro, só resta ao /ovem reprodu>ir o discurso
proferido pelos agentes institucionais, 9uando tais atores discorrem so$re as oportunidades de
tra$al8o dispon)veis aos egressos* #elo menos é um trabal"o "onesto*
As lem$ran"as de seu primeiro contato com a for"a policial, apesar de e4tremamente
dolorosas, permanecem vivas em sua memória* A e4ecu"ão de seu tio materno, 9uando o
garoto tin8a cinco anos de idade, ocasionou uma nova ruptura familiar* Ao mesmo tempo,
uma mistura de dor e admira"ão* Ao discorrer so$re Dai, Pedro se empolga* %uda a postura
corporal* Solicita um caf@ H atendente do $ar, estufa o peito e $ate na mesa* Da min"a fam*lia,
OJ
A designa"ão da mãe como guerreira @ recorrente entre os meus interlocutores* %uitos carregam em seus
corpos a seguinte e4pressão, amor só de mãe* Como enfati>a !a$riel Feltran <&''I, p*IO=, P<***= em diversos
relatos dos Vmeninos do crimeV, a mãe @ figura santificadaQ* De certa forma, @ poss)vel afirmar 9ue tal designa"ão
@ comum entre os moradores das periferias de São Paulo*
OO
Aos ol8os dos internos, tirar uma cota na cadeia @ o mesmo 9ue cumprir medida socioeducativa de interna"ão*
OI
Apenas para se ter uma ideia, em Paraisópolis, favela locali>ada na >ona sul da cidade de São Paulo, o
adolescente 9ue tra$al8a vendendo drogas em uma boca Zponto de venda[, tam$@m con8ecido como vapor,
rece$e em m@dia -f &*''' por semana, o 9ue totali>a algo em torno de -f I*''' por mês <dados o$tidos ao
longo de uma pes9uisa 9ue ven8o reali>ando so$ a coordena"ão do Prof* Dr* -onaldo de Almeida, pelo Centro
3rasileiro de An#lise e Plane/amentoSC03-AP=* Com tal apontamento, não pretendo sugerir 9ue a inser"ão dos
/ovens no tr#fico de drogas este/a vinculada apenas H 9uestão econTmica* Afinal, @ preciso levar em considera"ão
o poder e o prest)gio associados H figura do traficante* Ao 9uestionar S@rgio, /ovem 9ue tra$al8a no com@rcio de
drogas em Paraisópolis, so$re os motivos 9ue o 8aviam levado ao tr#fico, o adolescente enfati>ou 9ue, eu não
passava necessidade, não passava fome, não passava porra nen"uma, nada, não precisava de nada, min"a
fam*lia é estruturada. .u sempre tive os bagul"o, não tive o que eu queria, mas o que min"a fam*lia p<de me
dar sempre deu mano. .u fui por querer gan"ar din"eiro, fama. Depois que eu criei fama, eu vi que não presta.
OL
só eu que dei continuidade na obra dele.
(! meu tio era dali de 3tapecerica da 7erra, Eaboão, daqueles lados ali, ele tin"a uma
biqueira Zponto de venda de drogas[. 8oc0 ver seu tio sendo morto na sua frente com
tr0s tiros na cabeça por conta de policial, de entrar e e$ecutar ele na frente da fam*lia
dele, na sua frente. ; dif*cil. .le era meio &obin Sood. .ntraram lá na casa dele, ele
tava /urado pela pol*cia, entraram lá e tava todo mundo lá sentado no sofá assistindo
/ogo, foi num domingo 9 tarde. .ntraram e falaramA nós não quer nada, só o Dai. .ra
Dai o apelido dele. -* eles falaramA a/oel"a Dai que c"egou a sua "ora. -* ele
a/oel"ou. .le falouA só não e$agera. -* foi que deram tr0s tiros na cabeça dele. -*,
depois disso da*, vimo embora.
Após o assassinato de Dai, outra mudan"a* +s cont)nuos deslocamentos ao longo de
sua inf2ncia resultaram em uma forma"ão escolar fragmentada* Pedro completou o ensino
m@dio apenas nas Unidades de 1nterna"ão pelas 9uais transitou* :o entanto, seu 8istórico
escolar não reflete o incessante interesse pela leitura* 'ão é porque é bandido que tem que ser
burro. 80 o Carcola, o cara /á leu mais de mil livros na cadeia
OR
*
0m 1ndaiatu$a, cidade locali>ada na -egião %etropolitana de Campinas, mais uma
tentativa de fre9uentar a escola e seguir com os estudos* A morte de seu tio materno era o
assunto preferido ao longo das conversas travadas com os novos amigos* :a @poca, Pedro
dividia as suas atividades cotidianas entre as constantes idas H $i$lioteca, as divertidas
pic8a"7es e os pe9uenos furtos*
(! nunca tive interesse por esse negócio de droga, mas eu sempre quis ter aquilo que
eu não podia ter, entendeu) .ntão, foi quando comecei a pegar um toca CD, um
negócio aqui, um negócio ali e começou a formar um, um c*rculo de amigos. 1oi
quando começou a criar uma fama na cidade e essa fama foi tra+endo lucro.
Ao lado de seus colegas de escola, Pedro reali>a as suas primeiras fitas* + dese/o de
ad9uirir alguns o$/etos de consumo, tais como roupas e celulares, argumento repetido por
v#rios de meus interlocutores 9uando estes procuram /ustificar a reali>a"ão de suas primeiras
a"7es criminosas, o estimula* Com o passar do tempo, os furtos tornamse pr#ticas
corri9ueiras* :esse conte4to, a for"a policial se apro4ima*
OR
U importante salientar 9ue os internos das unidades dominadas costumam evocar a categoria intelig0ncia
como atri$uto dos adolescentes 9ue atuam como lideran"as* Ao 9uestionar meus interlocutores so$re as
9ualidades 9ue um adolescente deve ter para tornarse disciplina, os /ovens enfati>am 9ue os l)deres devem agir
com a ra+ão e nunca com a emoção* %ais adiante veremos 9ue tal categoria possi$ilita a distin"ão entre
disciplinas e população*
ON
'óis tava na escola, tava fumando um. 'óis não, os cara, eu só tava /unto. :s cara
tava fumando um baseado, a* pegaram e autuaram Zos policiais[. Começaram a
espancar, dar coron"ada, cabada de ?N Zarma[ aqui no torno+elo. Dói pra porra. 8oc0
começa a ficar bravo, começa a boque/ar e eu mandei todo mundo tomar naquele
lugar. .les vieram pro soco, nóis fomo pro soco. -*, os cara falou Zpoliciais[, nós vamos
matar. -* pegaram e colocaram na viatura e levaram lá pra trás da EoXota Zf#$rica de
carros[, mandaram a/oel"ar e colocaram a arma aqui no pé do meu ouvido e deram
dois sapeco Zdois tiros[. . falaramA isso aqui é pra voc0 ficar ligeiro, da pró$ima ve+
nós não vamos fa+er isso aqui não, nós vamos dar na sua cara. Da*, me deram um coro
e dei$aram eu lá.
Conforme as a"7es avan"am, tornandose cada ve> mais ousadas e perigosas, o grupo
de amigos, tam$@m con8ecido como os caras da -##, nome vinculado H 0scola 0stadual
AntTnio de P#dua Prado, come"a a criar uma fama na cidade* +s constantes assaltos, ao
mesmo tempo em 9ue despertam a aten"ão da pol)cia, propiciam o contato com criminosos
mais e4perientes, uns caras mais estruturado
I'
* A apro4ima"ão de tais personagens, al@m de
facilitar o acesso Hs armas de fogo, possi$ilita a participa"ão em a"7es mais rent#veis*
:s caras era mais graduado, gostava de catar carga Zrou$o de carga[, esses negócios e
eu gostava mais de catar plaXboi+in"o, né) .ntão, foi quando me escalaram a fita do
atelier, entendeu) Di+em que era GJ conto Zmil[. .ra quadro, o cara era pintor mesmo,
ele tin"a acabado de c"egar da 1rança. . tin"a uma empregada doméstica que
trabal"ava pra ele, que era vi+in"a nossa, curtia uns bagul"os Zdrogas[ e colava com
nóis. .la falouA o patrão me mandou embora e é o seguinteA não me pagou, me
esculac"ou e eu quero o din"eiro. .la foi lá, trocou ideia e os caras Zos ladr(es mais
e4perientes[ falouA não vou catar não. .u faleiA dá essa be$iga aqui, vamos tomar uma
cerve/ada no final de semana.
0m novem$ro de &''L, Pedro parte para a missão* + alvo @ uma mansão locali>ada na
região central de 1ndaiatu$a, local em 9ue tam$@m funciona um atelier* As armas, 9ue at@
então não fa>iam parte da narrativa de meu interlocutor, entram em cena* A ansiedade
aumenta* %ais alguns instantes e a v)tima aparece*
.le abriu o portão elétrico e a* nóis entrou. .u dei a vo+, rendi o cara. : outro entrou
Zcompan8eiro de Pedro[. 1oi quando c"egamo lá dentro e falamoA cad0, cad0 o
din"eiro) ZG)tima[, não tem. ZPedro[, tem sim. -* ac"amos um negócio, uma maletin"a.
.ra pesada. -* foi quando ele deu uma ciscada e meio que se assustou, a* entramos em
I'
Segundo Pedro, os caras mais estruturado eram primos e irmãos do Comando* Como /# mencionado, os
irmãos são os indiv)duos 9ue foram bati+ados* Por sua ve>, os primos são a9ueles 9ue, apesar de não serem
bati+ados, seguem as orienta"7es transmitidas pelos mem$ros do #artido*
OJ
luta corporal e o outro va+ou Zo parceiro de Pedro o a$andona[. -*, o outro va+ou e foi
quando eu desferi uns golpes nele lá, de faca mesmo, entendeu) #orque ele Za v)tima[
me desarmou e o outro foi embora. 1oi quando eu consegui grudar Zpegar[ a maleta, só
que no desespero, meio...eu não sei o que deu em mim. Eodo ensanguentado do cara, foi
quando fui correr na mesma rua, quatro quarteirão na frente ficava uma delegacia. 1oi
quando me pegaram. Ce pegaram e como eu tava c"eio de sangue, me levaram pro
"ospital pra ver se eu tava mac"ucado. Como eu não tava, eu fui pra delegacia.
Pedro @ condu>ido ao distrito policial
I(
* De fato, a a"ão dos adolescentes não poderia
resultar em pior desfec8o* Ao desferir algumas facadas em sua v)tima, o /ovem agrava a sua
situa"ão* + 9ue era para ser um simples assalto, transformase em tentativa de latroc)nio* Suas
a"7es, ao lado dos caras da -##, c8egam ao fim* As rela"7es esta$elecidas com os criminosos
mais e4perientes, isto @, primos e irmãos do Primeiro Comando da Capital, ainda 9ue
temporariamente, tam$@m são interrompidas*
Após passar &( dias em uma cela, procedimento considerado ilegal, 8a/a visto 9ue os
adolescentes apreendidos pela pol)cia não podem permanecer em delegacias por um per)odo
superior a cinco dias, meu interlocutor foi enviado H Funda"ão 0stadual do 3em0star do
%enor, mais especificamente, H Unidade de Atendimento 1nicial <UA1=, espa"o institucional
locali>ado no $airro do 3r#s, >ona leste da cidade de São Paulo
I&
*
C"egando lá na 2-3, o negócio /á começou a ficar estreito Zdif)cil[. 'a "ora que eu
desci da viatura, o funcionário /á c"egou e falouA bai$a a bola que aqui quem manda é
nóis, entendeu) =á tomei logo um tapão no meio da fuça. 'unca tin"a ido preso, não
sabia. Comecei a ver umas coisas estran"as, um monte de menor, cabeça pelada, cara
de louco. -*, c"egou lá, tomei a pancada e me troquei. Cinto, primeiro passaram o
andamento da casa, fui lá pro conv*vio lá com os caras, assistir televisão. C"egou a
noite, eles passou como que era lá, era licença sen"or, licença sen"ora, cabeça bai$a,
mão pra trás. . se tiver lotado, vai dormir de valete
IM
. .screveu não leu, o pau comeu.
I(
Gale ressaltar 9ue antes de ser encamin8ado H F030%, o adolescente /# 8avia comparecido H mesma delegacia
de 1ndaiatu$a por (J ve>es, fato 9ue o tornava con8ecido entre os policiais respons#veis pelo patrul8amento de
rotina na região* Da Cltima ve> em 9ue foi levado ao distrito policial, a delegada teria dito, a", é voc0 #edro)
-gora voc0 fica* :esse sentido, notase 9ue a pol)cia comp7e a e4periência da9uele 9ue est# imerso no Pmundo
do crimeQ <F0L;-A:, &''I=*
I&
+ adolescente, após ter sido encamin8ado pela autoridade policial a um representante do %inist@rio PC$lico,
$em como H autoridade /udici#ria de 1ndaiatu$a, poderia aguardar a transferência para a Unidade de Atendimento
1nicial em uma delegacia comum, desde 9ue fosse respeitado o pra>o m#4imo de cinco dias* Al@m disso,
conforme salienta o 0CA <art*(IN=, Pedro deveria ter sido condu>ido a uma dependência separada da destinada
aos maiores de idade, orienta"ão 9ue tam$@m não foi respeitada, uma ve> 9ue o /ovem, en9uanto esteve na
delegacia, teve 9ue dividir a cela com outros presos*
IM
0m unidades onde o nCmero de internos @ e4cessivo, os adolescentes são o$rigados a dividir um Cnico
colc8ão* Para tanto, dormem de $arriga para cima, de modo 9ue um dos internos coloca a ca$e"a em uma das
e4tremidades do colc8ão, ao passo 9ue o outro /ovem coloca a ca$e"a do lado oposto* Sendo assim, os p@s do
primeiro permanecem ao lado da ca$e"a de seu compan8eiro, posi"ão designada como valete*
OO
Após uma r#pida viagem, Pedro c8ega H Unidade de Atendimento 1nicial, espa"o 9ue
configurase como a porta de entrada da institui"ão* 0m poucas palavras, o funcion#rio
encarregado de rece$êlo e4plicita o modo de funcionamento de tal unidade, bai$a a bola que
aqui quem manda é nóis, entendeu)
+ adolescente rece$e o primeiro atendimento* 0ntrega os seus poucos pertences aos
agentes institucionais para 9ue tais o$/etos se/am numerados e guardados* As roupas do
mundão são su$stitu)das pelo uniforme* + corte de ca$elo personali>ado d# lugar H cabeça
pelada* As regras do local são rapidamente transmitidas, licença sen"or, licença sen"ora,
cabeça bai$a, mão pra trás* Gale notar 9ue esse modo de opera"ão institucional constitui o
9ue 0rving !offman denomina como processo de admissão, procedimento 9ue, entre outras
conse9uências, resulta em uma sucessão de perdas para o novato, $em como na padroni>a"ão
do rec@mc8egado <!+FF%A:, (ROL, p*&L&I=*
A UA1, assim como todas as unidades locali>adas no comple4o 3r#s
IL
, @ con8ecida
entre adolescentes e funcion#rios como uma unidade na mão dos funça Zfuncion#rio[*
Diferentemente do 9ue ocorre nas dominadas, em tais espa"os de interna"ão, os adolescentes
são o$rigados a participar das atividades escolares, $em como dos cursos culturais e
profissionali>antes* Dormem, acordam, tomam $an8o, se alimentam e fumam de acordo com
os 8or#rios estipulados pelo corpo funcional* Andam com as mãos entrela"adas para tr#s e a
ca$e"a apontada para o c8ão* A forma"ão de filas configurase como um procedimento
rotineiro* 0m tais unidades, 9uando os internos se deslocam pelo espa"o de interna"ão, se/a
para ir ao $an8eiro ou mesmo para praticar atividades esportivas, devem pronunciar a
e4pressão mais ouvida pelos corredores, a sa$er, licença sen"or, licença sen"ora* Caso
contr#rio, correm o risco de sofrer puni"7es, 9ue vão desde um tapão no meio da fuça at@ as
repreens7es ver$ais* Gale notar 9ue tais espa"os institucionais, do ponto de vista dos
funcion#rios, são considerados como o modelo a ser seguido* 6# para os internos, o comple4o
3r#s caracteri>ase por ser um local no 9ual os adolescentes tiram a cadeia no mó veneno
IN
*
+ te4to a$ai4o, produ>ido por um adolescente da Unidade de 1nterna"ão MN, durante
uma oficina de comunica"ão ministrada no segundo semestre de &''L, portanto, no mesmo
per)odo em 9ue Pedro esteve internado no comple4o 3r#s, evidencia o controle institucional
IL
:a @poca em 9ue atuei como educador cultural em tal comple4o, entre &''L e &''N, e4istiam os seguintes
espa"os de interna"ão, Unidade de Atendimento 1nicial <UA1=, Unidades de 1nterna"ão Provisória J, O, I, R, (' e
((, al@m das Unidades de 1nterna"ão ML, MN, MJ e 6apur#*
IN
Segundo os adolescentes, tirar a cadeia no mó veneno significa 9ue cumprir a medida socioeducativa de
interna"ão em uma unidade na mão dos funça @ algo e4tremamente 8umil8ante*
OI
e4ercido so$re os internos
IJ
*
7ão seis "oras da man"ã. Como começa todos os dias sa*mos para escovar os dentes e
logo na sequ0ncia tomamos café da man"ã. (!. :s dias são todos iguais, as 6nicas
coisas que mudam são os modos de pensar e fa+er as atividades. ; c"egado 9s I" e nos
c"amam para fa+er as atividades. 'o mesmo tempo sou c"amado para fa+er biscuit. ;
onde consigo distrair os meus pensamentos, que são focali+ados na min"a fam*lia.
Duando acaba o curso, subimos para a quadra e tudo parece sossegado. Duando c"ega
9s ?4", todos nós descemos ao refeitório para almoçar. Duando termina o almoço,
fa+emos a escovação Zdos dentes[. >ogo em seguida, somos c"amados para as salas de
aula onde estudamos e adquirimos mais con"ecimento das coisas que não sabemos. =á
são ?5". Descemos para os dormitórios onde iremos tomar ban"o e esperar a /anta. ;
?I". 7ubimos para o refeitório para /antarmos e logo que acabamos, sa*mos para
esperar em uma sala, até sermos c"amados para assistir televisão. Como de rotina,
sempre filmes repetidos, que con"ecemos de trás pra frente. C"egou 9s NN". ; quando
descemos para os quartos. 'esse momento, os pensamentos entram em serviço...
Gêse 9ue as atividades cotidianas, al@m de serem reali>adas em espa"os temporais
delimitados pelo corpo funcional, contam com a participa"ão o$rigatória de todos os internos*
A repeti"ão, sim$oli>ada pela e4i$i"ão dos mesmos filmes, 9ue são con8ecidos pelos
adolescentes de trás pra frente, tornase a marca distintiva das unidades na mão dos funça* A
tentativa de proi$ir o acesso dos internos a determinados assuntos, so$retudo Hs not)cias 9ue
têm como foco o tema da violência, constitui uma meta a ser alcan"ada pelos funcion#rios*
:esse conte4to, o rap, estilo musical 9ue agrada $oa parte dos /ovens, deve ser evitado
IO
*
Apesar de dolorosos, Pedro passou apenas três dias na Unidade de Atendimento
1nicial, sendo, posteriormente, transferido para uma Unidade de 1nterna"ão Provisória <U1P
J=, espa"o institucional no 9ual os adolescentes aguardam a senten"a /udicial*
.u fiquei tr0s dias na 2-3, depois de tr0s dias eu desci pra 23#L@, e a* eu fiquei tr0s
meses aguardando a sentença. Cas eu /á tin"a certe+a que ia ser de seis meses a tr0s
IJ
:o cap)tulo seguinte, pretendo retomar a discussão referente aos espa"os de interna"ão classificados como
unidades na mão dos funça* Por ora, vale atentar para o fato de 9ue tal categoria, como mo$ili>ada por meus
interlocutores, se op7e Hs unidades dominadas* :esse sentido, argumento 9ue as unidades dominadas devem ser
compreendidas em rela"ão 9s unidades na mão dos funça*
IO
Ao longo do per)odo em 9ue atuei como educador cultural nas Unidades de 1nterna"ão do comple4o 3r#s,
e4ceto na U16apur#, por diversas ve>es fui aconsel8ado pelos agentes institucionais a não tra$al8ar com letras
de rap, so$retudo as 9ue eram produ>idas pelos grupos -acionais %cVs e Fac"ão Central* + argumento utili>ado
pelos integrantes do corpo funcional era o de 9ue tais produ"7es musicais fa>em apologia ao crime e, portanto,
não au4iliam na recupera"ão dos internos* Gale notar 9ue nas unidades dominadas o rap constitui a tril8a sonora
da cadeia, o 9ue não significa 9ue os funcion#rios, em especial, os mem$ros do setor pedagógico, concordem
com tal situa"ão, fato 9ue gera inCmeros em$ates entre os adolescentes e os agentes estatais, 9ue pouco podem
fa>er para retirar os CDVs das mãos dos internos*
OR
anos. . ali eu fiquei tr0s meses. -li até que foi um per*odo ra+oável, de ve+ em quando
eu tomava um coro Zapan8ava[ do tal do seu -ndré Zfuncion#rio[. >á, eu tin"a uma
assistente Zassistente social 9ue acompan8ava o processo de Pedro[, eu só não lembro o
nome dela agora. -li até que foi um per*odo sossegado, teve uns princ*pios de rebelião,
essas coisas. ;...não é bem rebelião né. ; nego levantar do c"ão e falar que vai virar Za
cadeia[ e a cadeirada come solta. : negócio começou a ficar mais estreito Zdif)cilY
preocupante[ mesmo a partir do momento que o bonde cantou Za transferência para uma
Unidade de 1nterna"ão[* -*, o negócio começou a ficar mais...
0m tese, os adolescentes 9ue são encamin8ados para as Unidades de 1nterna"ão
Provisória <U1PVs= devem permanecer em tais espa"os institucionais pelo pra>o m#4imo de LN
dias, o 9ue nem sempre @ respeitado* :o caso de Pedro, por e4emplo, notase 9ue o
adolescente permaneceu na U1PJ por apro4imadamente R' dias, o do$ro do per)odo m#4imo
permitido pelo 0statuto da Crian"a e do Adolescente <art*('I=*
:o in)cio de &''N, decidiuse 9ue o /ovem deveria cumprir medida socioeducativa de
interna"ão* Pedro, 9ue aguardou a decisão /udicial na U1PJ, rece$eu a not)cia de 9ue seria
transferido para a Unidade de 1nterna"ão ( <U1(=, comple4o do ;atuap@, espa"o institucional
locali>ado na >ona leste da capital paulista*
-* o coração bate mais forte. -* o c"icote estrala Zo negócio @ tenso[. -* voc0 /á
começa a perguntar algumas coisas pra residente Zadolescente 9ue possui outras
passagens pela institui"ão[* 1sso /# l# na U1PJ mesmo* :óis /# come"a a perguntar,
como que é lá) Z-eincidente[, voc0 vai pra onde) ZPedro[, eu fiquei sabendo que é
Eatuapé, a 23L?. Z-eincidente[, a 23L? é grave, grav*ssimo. -li é tranca, ali o c"icote
estrala, ali só vai residente, essas coisas, delito considerado grave, grav*ssimo. Duando
voc0 c"egar lá, os caras Zos disciplinas[ vão passar a camin"ada Zorienta"7es so$re o
modo de funcionamento da unidade[*
(.( /I#&: a $orta de entrada $ara as unidades dominadas
C"egando lá, primeiramente foi os funcionário que conversou comigo. Depois que voc0
atraca Zentra[ pro pátio, vai ver barraco Z9uarto[ essas coisas, a* cola os fa$ina,
pergunta sua camin"ada
II
e começa a e$plicarA é o seguinte, a cadeia é o certo pelo
certo
IR
, entendeu) - camin"ada vai ser o seguinte, respeito pra quem respeita. 'óis
somos contra a opressão e voc0 vai camin"ar dessa forma aqui, vai ter seu barraco e o
seguinte, não pode ratear Zrou$ar algo de outro interno[. 7e ver alguma coisa, não viu.
7e correr certin"o, nóis pode conversar pra voc0 ter um espaço a* na frente da
II
:esse caso, camin"ada referese ao 8istórico do adolescente no crime*
IR
Para meus interlocutores, o certo @ o Comando. Como afirma Pedro, correr pelo certo é correr pelo Comando,
ou se/a, @ estar lado a lado dos irmãos e seguir as suas orienta"7es*
I'
situação. . o negócio é esse, não ratear, não pagar de nada Zfa>er nada de errado[ na
visita. 7e precisar de alguma coisa, c"ega nos fa$ina, não c"ega em funcionário.
Apesar de rece$er alguns informes dos agentes institucionais, notase 9ue a c8egada
de Pedro H Unidade de 1nterna"ão ( difere dos acontecimentos 9ue antecederam a sua
inser"ão na Unidade de Atendimento 1nicial* De fato, para os integrantes do corpo funcional
da U1( não 8# como proferir a e4pressão aqui quem manda é nóis, pelo simples motivo de
9ue tal assertiva destoa da din2mica intramuros*
As agress7es f)sicas, 9ue marcaram a passagem de meu interlocutor pelos espa"os de
interna"ão do comple4o 3r#s, na U1(, assim como em todas as cadeias dominadas, procuram
ser evitadas pelos funcion#rios* Afinal, tais a$usos institucionais podem causar rea"7es
imediatas por parte dos disciplinas como, por e4emplo, a paralisa"ão de todas as atividades
reali>adas na cadeia, acontecimento 9ue gera efeitos indese/ados H própria institui"ão, na
medida em 9ue as +rgani>a"7es :ão !overnamentais 9ue atuam /unto aos adolescentes
pressionam a administra"ão da unidade para 9ue as atividades voltem ao normal
R'
*
Ao ingressar na U1(, mais especificamente, no p#tio da unidade, Pedro trava os
primeiros contatos com os fa$inas* 0m poucos instantes, rece$e algumas orienta"7es so$re o
funcionamento da cadeia* :as unidades dominadas @ comum os fa$ineiros adotarem tal
procedimento* Sua camin"ada tam$@m @ avaliada* +s fa$inas sempre procuram o$ter
informa"7es acerca do 8istórico do novo interno* 0sse modo de atua"ão fa> com 9ue os
adolescentes indese/#veis, tam$@m con8ecidos como vermes ou pilantras, se/am mantidos
longe do conv*vio
R(
, de preferência, no seguro
R&
* Al@m disso, @ nesse momento 9ue os fa$inas,
ao tecerem considera"7es so$re a camin"ada dos rec@mc8egados, selecionam a9ueles 9ue
poderão somar com a disciplina
RM
* ;ais adolescentes passam a ser o$servados, sendo 9ue
R'
Wuando os disciplinas param a cadeia significa 9ue todas as atividades desenvolvidas dentro da Unidade de
1nterna"ão são temporariamente interrompidas, desde os cursos culturais e profissionali>antes at@ as aulas do
ensino formal* +s internos tam$@m se recusam a comparecer aos atendimentos reali>ados por psicólogos e
assistentes sociais* Al@m disso, 9uando a cadeia tá parada os adolescentes re/eitam a alimenta"ão,
acontecimento 9ue, se duradouro, provoca a r#pida mo$ili>a"ão de defensores dos direitos 8umanos* :esse
sentido, vêse 9ue a iniciativa de parar a cadeia configurase como uma importante estrat@gia adotada pelos
internos no 9ue concerne ao /ogo de for"as travado com os agentes institucionais*
R(
0spa"o destinado H9ueles 9ue correm pelo certo, ou se/a, 9ue seguem as diretri>es do PCC*
R&
+s seguros são espa"os institucionais mantidos fora das Unidades de 1nterna"ão* Ao mesmo tempo, essa
categoria remete aos internos 9ue cometeram atos considerados inaceit#veis pelos outros adolescentes, tais como
estupro e desrespeito H visita al8eia* :o 9ue concerne ao modo de atua"ão dos fa$inas, vale notar 9ue Aarina
3iondi aponta para a e4istência de um movimento semel8ante em unidades prisionais nas 9uais os irmãos atuam*
PPara garantir 9ue nen8uma das pessoas não aceit#veis no conv*vio 8a$ite as Cadeias de Zsic[ Comando, os
irmãos fa>em uma esp@cie de triagem com os presos rec@mc8egadosQ <31+:D1, &'(', p*RL, grifo da autora=*
RM
7omar com a disciplina, nesse caso, significa tornarse disciplina*
I(
muitas ve>es mudamse para o barraco dos fa$ineiros*
De fato, notase 9ue o con8ecimento so$re o modo de opera"ão do Comando, o crime
praticado
RL
e os contatos esta$elecidos no mundão

caracteri>amse como elementos centrais no
9ue concerne ao 8istórico do futuro disciplina
RN
* :o caso de Pedro, por e4emplo, @ preciso
atentar para o fato de 9ue o adolescente fa>ia parte de um grupo de assaltantes 9ue, como
vimos, contava com a participa"ão de primos e irmãos do PCC* Desse modo, tornase
evidente 9ue o /ovem /# con8ecia as diretri>es do Comando antes mesmo de sua inser"ão na
Funda"ão CASA* Al@m disso, mantin8a rela"7es com mem$ros do #artido* Caso fosse
necess#rio, poderia entrar em contato com os seus parceiros* Como sugere meu interlocutor, o
adolescente da população 9ue possui contatos com os irmãos gan"a um ponto a mais
RJ
*
Com tal refle4ão, não pretendo sugerir 9ue o processo de constitui"ão do disciplina
este/a vinculado apenas Hs considera"7es tecidas so$re a sua camin"ada* Afinal, 8# todo um
sistema interno de aprendi>agem* + poss)vel disciplina, ao mesmo tempo em 9ue rece$e
instru"7es, @ incessantemente avaliado por todos a9ueles 9ue estão na frente da cadeia*
Fs ve+es, eles Zos disciplinas[ destacavam um adolescente da população pra presenciar
a ideia da cadeia, dar a sua opinião. -* os caras avaliavam qual era a sua visão do
certo. 'ão é porque o cara é da min"a quebrada que ele sobe. Diferente de um tempo
ali em 1ranco da &oc"a que foi assim. .u até brigava com isso porque não pode p<.
Ein"a quatro nego daqui de 3ndaiatuba lá em 1ranco e nen"um deles eu subi, no tempo
que eu tava na frente do negócio. Fs ve+es, os cara colocava nego de quebrada que
c"ega "o/e, aman"ã /á é fa$ina e não sabe nem qual é a situação <Pedro=*
: que leva o mesmo Zo rec@mc8egado[ a somar na disciplina é o dia a dia, que sempre
é colocado na balança. ; ele ter uma camin"ada correta. ; ele colocar em prática tudo
o que aprendeu dentro da unidade <piloto da U1MO, comple4o -aposo ;avares=*
RL
Gale salientar 9ue os adolescentes das distintas Unidades de 1nterna"ão adotam uma esp@cie de sistema
classificatório em rela"ão aos crimes praticados* Delitos como se9uestro, assalto a $anco e rou$o de carga são
valori>ados pelos internos* De fato, a9uele 9ue rou$a para consumir drogas, tam$@m con8ecido como nóia,
assim como um simples $atedor de carteira, tem poucas pro$a$ilidades de tornarse disciplina*
RN
Caso o adolescente se/a reincidente, isto @, ten8a outras passagens pela institui"ão, sua tra/etória dentro da
Funda"ão CASA tam$@m @ um elemento importante a ser considerado*
RJ
Se atentarmos para a narrativa de outros adolescentes, associados H posi"ão de lideran"a no conte4to das
unidades dominadas, veremos 9ue o contato esta$elecido com integrantes do Primeiro Comando da Capital
configurase como um tra"o importante de suas respectivas camin"adas* Certa ve>, ao 9uestionar um dos pilotos
da Unidade de 1nterna"ão MI, comple4o -aposo ;avares, so$re o processo 9ue 8avia marcado a sua inser"ão no
grupo de disciplinas, o adolescente enfati>ou 9ue, antes de ser preso eu /á colava com os caras Zdo PCC[, /á
tin"a uma visão do certo* ;ais considera"7es me permitem afirmar 9ue alguns adolescentes, antes mesmo de
ingressarem em uma unidade dominada, podem ser considerados disciplinas em potencial, taman8a a
import2ncia de alguns elementos 9ue constituem as suas tra/etórias*
I&
Após um mês de avalia"ão, Pedro rece$e o convite para somar com a disciplina
RO
*
;ornase um dos setores da limpe+a* +s adolescentes 9ue ocupam tal posto são os
respons#veis pela limpe>a de toda a unidade, e4ceto os 9uartos, atividade desempen8ada por
seus respectivos moradores, e o refeitório, fun"ão atri$u)da aos setores da bóia 9ue, al@m
disso, distri$uem a alimenta"ão para todos os adolescentes* Por sua ve>, os setores do esporte
organi>am os campeonatos de fute$ol e os torneios de dominó* Solicitam $rindes aos
funcion#rios para a premia"ão dos vencedores* -eCnem os internos 9ue fre9uentam a escola,
assim como os adolescentes 9ue participam dos cursos culturais e profissionali>antes
oferecidos por +rgani>a"7es :ão !overnamentais* :a medida em 9ue e4ercem inCmeras
atividades, os setores do esporte tam$@m são con8ecidos como o motor da cadeia*
Gale ressaltar 9ue o fato de Pedro ocupar o posto de setor da limpe+a, não o isenta de
avalia"7es* Pelo contr#rio, os setores são constantemente o$servados por todos os disciplinas,
em especial, pelos fa$ineiros* A conduta do adolescente passa a ser decisiva* Suas a"7es, ao
mesmo tempo em 9ue podem determinar o afastamento da lideran"a
RI
, podem proporcionar o
deslocamento pela 8ierar9uia*
(! começou a canta bonde
RR
pra Eupi, os maiores de ?5 anos pra cima ia pra Eupi,
(''
foi quando deu uma en$ugada geral na fa$ina. 1oi quando deu uma desarticulada na
disciplina geral dali e teve que dar uma renovada, foi quando surgiu um convite pra
mim Zsu$ir pra fa$ina[*
RO
:a @poca em 9ue o adolescente esteve internado no comple4o do ;atuap@, no sentido ascendente, e4istiam os
seguintes postos 8ier#r9uicos, setor da limpe+a, setor da bóia, setor do esporte, fa$ina, toque da cadeia, toque
geral e torre* :o in)cio de &''J surgem os encarregados, adolescentes 9ue, entre outras fun"7es, avaliam as
atividades desenvolvidas pelos fa$ineiros* :o mesmo per)odo, o termo setor desapareceu das narrativas de meus
interlocutores, sendo 9ue as fun"7es desempen8adas pelos antigos setores passaram a ser e4ecutadas pelos
fa$inas* Segundo Pedro, tais mudan"as são decorrentes de algumas altera"7es 9ue ocorrem nas unidades
prisionais orientadas pelas diretri>es do PCC* Cuda lá, muda aqui. #orque pra te falar a verdade a 1ebem é
uma cadeia só que em menor grau, entendeu)
RI
Certa ve>, um interno da U1&R contoume 9ue 8avia sido afastado da fa$ina por ter 4ingado um funcion#rio*
Disse ao /ovem 9ue não estava entendendo o seu argumento* 0le, então, respondeu 9ue os fa$inas não devem
perder o controle e $rigar com os funcion#rios* Devem manterse calmos e dialogar com eles* Gale notar 9ue 8#
alguns casos em 9ue os adolescentes não são afastados, mas tam$@m não ascendem, permanecendo no mesmo
posto at@ 9ue sur/a uma nova oportunidade de deslocamento*
RR
Wuando canta o bonde para algum adolescente significa 9ue ele ser# transferido de unidade*
(''
:o dia (I de mar"o de &''N, !eraldo Alc.min, governador do estado de São Paulo, anunciou a transferência
de mais de O'' adolescentes de diversos comple4os da institui"ão, com idades entre (I e &( anos, para uma
penitenci#ria locali>ada em ;upi Paulista, interior do estado* Gale lem$rar 9ue no dia (L de mar"o, &L' internos
do comple4o de Franco da -oc8a /# 8aviam sido transferidos para um pres)dio de seguran"a m#4ima em
;au$at@* ;ais medidas teriam sido adotadas para controlar a crise pela 9ual passava a institui"ão, 9ue na @poca
sofria com a ocorrência de sucessivas re$eli7es* U importante salientar 9ue os adolescentes transferidos para o
sistema prisional passaram para a responsa$ilidade da Secretaria de Administra"ão Penitenci#ria do 0stado de
São Paulo <P0:;0AD+, &''N=*
IM
%omento de passagem* Após a transferência de algumas lideran"as
('(
, surge uma
oportunidade para 9ue Pedro possa tornase fa$ina* :o entanto, uma atitude indevida, tomada
ao longo de uma reunião entre todos os internos da unidade, impossi$ilitou a sua ascensão* +
adolescente, ao retomar os argumentos proferidos pelo /ovem 9ue ocupava o posto de toque,
recon8ece 9ue na9uele momento não estava preparado para assumir tal responsa$ilidade*
Eeve um fato que contribuiu pra mim não ir porque eu não tava preparado, foi uma
ideia geral da cadeia, entendeu) .u dei uma ideia totalmente contrária da cadeia, só
eu e mais dois, isso da* me deu uma queimada ali dentro, tanto que eu tomei uma
comida de rabo depois. ;, o toque Zda cadeia[ falouA ó, presta atenção nas suas ideias
que voc0 foi contra a opinião geral, entendeu) Dá uma refletida a*, dá uma estruturada
na sua mente, começa a colar mais nas ideias. 1oi até bom eu não ter entrado nessa
época porque um erro pode ser fatal. #or e$emplo, se eu assumo uma responsabilidade
dessa Zsu$ir pra fa$ina[ e dou uma ramelada Zcometo algum erro[, os caras podem me
mandar pra ZUnidade de 1nterna"ão[ O
('&
.
0m certo sentido, @ poss)vel afirmar 9ue Pedro, ao manifestar uma opinião contr#ria
aos internos de toda a unidade, estava, acima de tudo, discordando dos outros disciplinas* :o
limite, ao tomar tal atitude, o adolescente colocou em dCvida os pontos de vista emitidos por
todos a9ueles associados H posi"ão de lideran"a
('M
* Contudo, vêse 9ue o erro cometido pelo
novato, apesar de impossi$ilitar o seu deslocamento pela 8ierar9uia, não resultou no
afastamento da lideran"a* Afinal, a camin"ada do adolescente, aos ol8os dos outros
disciplinas, era correta* Ao inv@s de afast#lo da frente da cadeia, era o momento de fortalecer
o setor e transmitirl8e novas orienta"7es* +s setores, por serem considerados menos
e4perientes do 9ue os outros disciplinas, podem cometer alguns erros* +$viamente, desde 9ue
recon8e"am as suas fal8as e demonstrem interesse em ad9uirir novos con8ecimentos* ;ratase
de um posto no 9ual os seus ocupantes estão em constante processo de aprendi>agem*
0m meados de &''N, durante uma re$elião 9ue contou com a participa"ão de
adolescentes das (I Unidades de 1nterna"ão do comple4o do ;atuap@, a atua"ão de Pedro
mostrou aos disciplinas 9ue eles 8aviam acertado ao concederl8e uma oportunidade* A
('(
U comum os diretores das distintas unidades dominadas adotarem tal procedimento com o o$/etivo de
desarticular a lideran"a* >á no Eatuapé, entre o médio Zunidades do circuito leve e m@dio[ e o grave Zunidades do
circuito grave[ /á tava uma sintonia Zcomunica"ão[ totalmente estabelecida, uma coisa forte, entendeu) <Pedro=*
A seguir, enfati>o 9ue esse modo de atua"ão tem um efeito inverso do esperado*
('&
A Unidade de 1nterna"ão N, na @poca em 9ue Pedro esteve internado no comple4o do ;atuap@, era o espa"o
institucional destinado aos vermes e pilantras, ou se/a, os seguros*
('M
Como ressalta Pierre 3ourdieu <(RR', p*(NO=, os Ppontos de vista são, como a própria palavra di>, vis7es
tomadas a partir de um ponto, isto @, a partir de uma determinada posi"ão no espa"o socialQ*
IL
not)cia de 9ue os adolescentes da Unidade de 1nterna"ão O 8aviam sido agredidos por agentes
institucionais se espal8ou rapidamente por todo o comple4o*
;endo em vista tal acontecimento, os disciplinas de alguns espa"os de interna"ão,
so$retudo das unidades ( e (& 9ue, segundo Pedro, eram as que mais se destacavam no
comple$o, entram em comunica"ão
('L
* Afinal, os compan8eiros de camin"ada
('N
não podem
seguir apan8ando* Do ponto de vista dos internos, as agress7es perpetradas pelos funcion#rios
da U1O representam a din2mica de funcionamento das unidades na mão dos funça* Diante
desse 9uadro, @ preciso tomar uma atitude* Para tanto, a consulta aos irmãos fa>se necess#ria*
#orque pra voc0...se voc0 tomar uma atitude errada meu fil"o é complicado. 'ão
adianta, tem que ter alguém mais estruturado e com um poderio maior pra avaliar suas
ideias. 1oi quando c"egaram e e$plicaram o que tava acontecendo lá Zna U1O[ e os
irmãos falouA quer virar essa porra, pode virar. Canda v0.
Após o$terem o aval de alguns irmãos, 9ue transmitem orienta"7es de dentro do
sistema prisional ou mesmo de algumas quebradas locali>adas no estado de São Paulo
('J
, os
adolescentes dos distintos espa"os de interna"ão, com o o$/etivo de contestar o modo de
atua"ão dos funcion#rios da U1O, partem para o confronto* A Unidade de 1nterna"ão (&,
espa"o institucional no 9ual encontrase o toque geral, tam$@m con8ecido como piloto do
comple$o, após a autori>a"ão dos irmãos, coordena as a"7es das outras unidades
('O
* 0m
poucos instantes, os internos transp7em as mural8as das (I Unidades de 1nterna"ão* +
comple4o do ;atuap@ transformase em um espa"o institucional dominado* Aos mem$ros do
('L
Segundo meu interlocutor, tais Unidades de 1nterna"ão a$rigavam os adolescentes mais e4perientes, isto @,
9ue possu)am uma longa camin"ada, tanto no crime 9uanto na institui"ão* Eanto que os caras Zos disciplinas das
unidades ( e (&[ tin"am acesso 9s outras cadeias Zdominadas[ e ninguém falava nada*
('N
:esse caso, o uso do termo camin"ada significa 9ue os adolescentes compartil8am a mesma situa"ão*
('J
Como enfati>am meus interlocutores, não 8# um irmão espec)fico 9ue transmite orienta"7es* :esse sentido, a
narrativa de Pedro pareceme ilustrativa, os irmãos são tudo parcelado, do mundão, de penitenciária, de onde os
caras Zos disciplinas[ tive um acole Zcontato[. Eem vários caras, tipo se voc0 con"ece um, eu também con"eço
outro, então, vamos trocar ideia com os dois*
('O
Apesar de não ter tido acesso Hs dominadas, Paula %iraglia <&''(, p*RR= enfati>a 9ue a Unidade de 1nterna"ão
(& era descrita por adolescentes de outros espa"os de interna"ão Pcomo uma Vunidade dominadaV, isto @, estava
so$ controle dos internos, eram eles 9ue ditavam as regras, não tin8am 8ora para dormir, acordar ou fa>er as
tarefas cotidianasQ* Ainda segundo a autora <&''(, p*(''=, 9ue acompan8ou a ocorrência de diversos motins no
comple4o do ;atuap@, no in)cio da d@cada de &''', tal unidade Pfoi o foco inicial das re$eli7es por diversas
ve>esQ* Gêse 9ue a U1(&, muito antes dos acontecimentos descritos por Pedro, /# era considerada pelos
adolescentes das outras Unidades de 1nterna"ão como o espa"o institucional 9ue a$rigava o toque geral*
Segundo Pedro, a principal responsa$ilidade da9uele 9ue ocupa tal posto é coordenar. 7e tiver ?J unidade ali no
mesmo comple$o ele é toque geral de tudo. .le que plane/a uma fuga em massa. 7e tiver, por e$emplo, que
c"egar ao ponto de matar alguém tem que c"egar nele para ele ficar ciente. Eudo que é relacionado 9 cadeia
dele e 9s outras do mesmo comple$o, que vai englobar de modo geral todo mundo, ele é que dá a palavra final*
IN
corpo funcional, so$retudo H9ueles 9ue praticaram as agress7es, só resta fugir* 6# para os
seguros, a situa"ão @ ainda mais tensa* :a medida em 9ue estão presos no interior da Unidade
de 1nterna"ão N, não 8# para onde correr*
1oi quando tudo começou, quando oprimiram a 23LH lá em cima, né) 1oi isso que deu
origem 9 mega rebelião, tão famosa que teve trator e o caramba a quatro. .u tava do
lado daquele trator que ia sair pra fora, que os caras tava querendo /ogar no portão.
-liás, eu tava no toque de frente, tanto que aparece na televisão quatro menor ali
/ogando pedra na Eropa de C"oque, eu tava ali no meio, /á dali. 2ma parte Zdos
internos[ foi tentar pegar a O ZU1[. :utra entrou na Denadai, lá dentro tin"a Denadai
Zempresa 9ue fornece alimentos H institui"ão[. -cabou com tudo, o comple$o caiu.
-cabou com tudo, N mil menor praticamente ali naquele quadrilátero. Eeve c"oquin"o
que tomou uma pá de facada ali dentro. -li foi uma carnificina.
A narrativa de meu interlocutor gan8a contornos de dramaticidade* A re$elião assume
propor"7es inimagin#veis* +s internos avan"am, tentam invadir a Unidade de 1nterna"ão N*
;ratase de uma $oa oportunidade para aca$ar com os vermes
('I
, $em como para destruir
todas as cadeias do comple4o* Ao mesmo tempo, funcion#rios e integrantes do C"oquin"o
são agredidos com paus, pedras e naifas* A ;ropa de C8o9ue @ acionada* 0m meio Hs $alas de
$orrac8a e Hs $om$as de g#s lacrimogênio, Pedro atua com desenvoltura* Bate de frente com
os caras* Arremessa pedras nos policiais do 3atal8ão de C8o9ue* Sente orgul8o ao ver a sua
imagem capturada pelas emissoras de televisão* Sa$e 9ue a sua atua"ão ser# recon8ecida
pelos outros disciplinas*
-* foi quando encurralou todo mundo na ?N ZU1[. -* foram separando, mandaram todo
mundo ficar de coru/a. 1oi separando por unidade. .u voltei pra ?. .u e voltou mais
uns ?O Zoutros disciplinas[ de outras unidades pra ficar lá meio muqueado Zescondido[
trocando ideia. : toque da ?N Ztoque geral[ também tava muqueado, depois que
ac"aram ele e mandaram pra lá Zde volta para a U1(&[*
A cena se repete* +s internos são contidos pelos policiais da ;ropa de C8o9ue* Apesar
da disposi"ão dos adolescentes, com a c8egada do C"oque não 8# o 9ue fa>er* 0n9uanto os
('I
Al@m de sofrerem constantes amea"as por parte dos outros internos, vêse 9ue os seguros, tam$@m con8ecidos
como =acQs, enfrentam a resistência dos agentes institucionais, 9ue evitam tra$al8ar com tais adolescentes*
P:ingu@m 9uer conviver com o seguro* <c=* Fica claro 9ue a situa"ão pedagógica ou sócioeducativa de um
elemento desses @ complicada, e os professores e psicólogos se apressam em di>er 9ue não @ pro$lema deles _
9uem tem 9ue impor a disciplina são os monitores* <c=* De 9ual9uer forma, ca$e H Funda"ão >elar pela
integridade f)sica desses elementos* 0les são um desafio para a estrutura da F030%* + seguro @ fator de
insta$ilidadeQ <FA-1ASY :A-C1S+, &''N, p*('J=*
IJ
internos arremessam paus e pedras, 9ue atingem apenas os escudos, do outro lado, 8# $om$as
de g#s lacrimogênio e $alas de $orrac8a, incessantemente cuspidas pelas armas cali$re (&*
Diante de tal situa"ão, só resta ficar de coru/a e fa>er a formação, procedimento /# con8ecido
pelos /ovens* Pedro, /untamente com outros disciplinas, entre os 9uais, o adolescente 9ue
ocupa o posto de toque do comple$o, @ condu>ido H U1(* As lideran"as das distintas
Unidades de 1nterna"ão estão reunidas, momento prop)cio para 9ue se reorgani>em e
ela$orem outras a"7es* Um novo plano @ tra"ado* +s /ovens aguardam, esperam o momento
ideal para coloc#lo em pr#tica* Com o passar dos dias, alguns internos, 9ue após a re$elião
8aviam sido enviados para outras unidades, ao serem desco$ertos pelos funcion#rios,
retornam aos seus respectivos espa"os institucionais* As decis7es tomadas na Unidade de
1nterna"ão ( são transmitidas H população de todas as cadeias* -esta apenas esperar o sinal
9ue, no momento certo, vir# da U1(&*
.u lembro até o dia, eu lembro como se fosse "o/e. : sinal pra começar foi um assobio,
de uma unidade pra outra. Começou a assobiar, os cara falouA é agora. -briu as tranca
e todo mundo correu, parecia uma 7ão 7ilvestre. 'óis arrebentamo o portão, foi
arrebentando. - ? foi a segunda unidade a sair, a primeira foi a ?O, então, nóis ficou na
frente. -* formou um cordão do C"oquin"o e nóis foi. Como tin"a meia d6+ia de menor
eles ainda iam pra cima, mas quando começou a c"egar aquele monte de menor o
C"oquin"o /á foi recuando, foi a "ora que eles começou a soltar escudo e cassetete e a
correr. . os portão trancado, a* os cara batia, outros começava a subir. 1oi o tempo
que c"egou aquela leva com bicuda e arrebentava até cadeado, a* foi unidade por
unidade. :s portão lá na frente não aguentou. Duando eu tava subindo pra pular, a*
c"egou uma leva e abriu um portão, abriu outro e todo mundo foi pra rua.
-* eu fui embora, eles me pegaram ali no terminal Zde Tni$us[, eu não fui nem tão
longe. :s busão tudo lotado, um monte de gente, correria, bala, a &:E- tava no meio,
voc0 escutava só os estampido de tiro. 1oi quando eu entrei por trás do terminal que
tem...ali é Belém, ali tem um terminal. 1oi quando me pegaram lá. .u tava escondido e
penseiA pronto, os caras vai me matar. -* entraram lá e me /ogaram na viatura. 3am
levar pra matar, eles tava conversando entre elesA vamos levar pra matar essas porra
aqui. -* eles começou a entrar numas quebradas, uns bagul"o louco. -* eu faleiA nossa
sen"ora, o bic"o vai pegar agora. Bom, resolveram levar pra delegacia. Depois disso
da*, voltei pra ? de novo.
+ retorno dos fugitivos ao comple4o do ;atuap@, tanto para os agentes institucionais
9uanto para os internos, foi marcado por dificuldades* + espa"o de interna"ão, completamente
destru)do, não oferecia as m)nimas condi"7es para 9ue os adolescentes permanecessem
internados* Al@m da falta de seguran"a, 9ue facilitaria a ocorrência de novas fugas, não
IO
8aviam colc87es, roupas e co$ertores* Eava feio, não tin"a colc"ão, não tin"a nada. #ra voc0
ter uma ideia, eu dormi uns dias no refeitório, em cima da mesa*
Diante das sucessivas fugas e re$eli7es, 9ue fa>iam parte da rotina de tal espa"o
institucional, o !overno do 0stado de São Paulo anuncia o plano de desativa"ão gradual do
comple4o do ;atuap@* Para Pedro, seria o fim de sua camin"ada em tal comple4o, mudan"a
9ue resultaria em novas oportunidades de deslocamento pela 8ierar9uia*
(.) /nidos $ea tensão: disciplinas* funças e população
Depois de tudo o que aconteceu no Eatuapé, fomos encamin"ados pra inauguração
da...digamos, nova 1ranco da &oc"a. 'óis foi a primeira unidade a c"egar. Da*, nessa
reestruturação a/untou, fi+eram um selecionado das unidades do Eatuapé. -*, veio
menor da 23L?O, veio menor da 23L?H e /untou tudo ali na 23LNI. 1oi dois <nibus que
c"egou lá escoltado pela &:E-. >ogo na c"egada, no terceiro dia, foi estabelecida a
liderança. -li eu comecei como setor da limpe+a. : cargo que voc0 tin"a na sua
unidade ia ser mantido. -li foi a primeira liderança, que veio o =., o B., esses caras,
que não durou muito tempo. 1oi uma semana de liderança e mandaram de bonde pra
&aposo. Eeve outra reestruturação. Depois de um m0s, me subiram pra fa$ina.
A transferência de alguns adolescentes para o comple4o de Franco da -oc8a, 9ue
8avia sido totalmente reformado após uma violenta re$elião ocorrida no in)cio de &''N, como
podemos ver, não resultou no esfacelamento da lideran"a* Pelo contr#rio, em poucos dias, os
disciplinas transferidos, ao manterem os seus respectivos postos, se reorgani>am* +s agentes
institucionais, ao perce$erem tal movimenta"ão, reagem* Afinal, não dese/am voltar a atuar
em uma unidade dominada* A c8egada dos internos ao novo território configurase como o
momento ideal para 9ue os funcion#rios demostrem 9ue, pelo menos por en9uanto, quem
manda é nóis* Para tanto, $oa parte da lideran"a, 9ue 8avia se reorgani>ado, @ transferida* 1oi
uma semana de liderança e mandaram de bonde pra &aposo Zcomple4o -aposo ;avares[*
Para meu interlocutor, a transferência de seus compan8eiros significou uma outra
oportunidade de transi"ão* De fato, no conte4to das unidades dominadas, @ comum os
diretores adotarem tal procedimento* Apesar dos agentes institucionais acreditarem 9ue esse
modo de atua"ão possi$ilita a dissolu"ão da lideran"a, notase um movimento inverso* Após a
transferência de alguns disciplinas, a9ueles 9ue ficaram se reorgani>am rapidamente* Sendo
assim, constatase 9ue os mem$ros do corpo funcional enfrentam os efeitos de uma 8ierar9uia
na 9ual os postos 9ue a constituem, em si mesmos, são va>ios* +s atores sociais apenas
II
transitam, vão e vêm, os postos permanecem
('R
*
Pedro tornase fa$ina da Unidade de 1nterna"ão &R* Al@m de orientarem os rec@m
c8egados e instru)rem os internos 9ue poderão somar com a disciplina, os fa$inas, valendose
da posi"ão de media"ão por eles assumida, atuam como uma esp@cie de canal de comunica"ão
entre os adolescentes da população e os agentes institucionais* Se algum interno necessita de
um l#pis para escrever uma carta aos seus familiares, deve solicitar o o$/eto ao fa$ina 9ue, por
sua ve>, transfere o pedido ao funcion#rio* + agente institucional segue a mesma lógica, ou
se/a, entrega o l#pis ao fa$ina para 9ue este o repasse ao adolescente da população* ;al
procedimento, segundo meus interlocutores, al@m de evitar conflitos desnecess#rios entre os
internos da população e os agentes institucionais, impossi$ilita poss)veis dela"7es de planos
de fuga* :o cotidiano da interna"ão, notase 9ue os fa$ineiros são constantemente acionados,
tanto pelos internos 9uanto pelos funcion#rios* Por esse motivo, são os 9ue mais aparecem no
dia a dia da cadeia, sendo sempre lem$rados pelos agentes institucionais no momento em 9ue
@ necess#rio reali>ar uma transferência* Eodo problema que tem que c"egar no funcionário é o
fa$ineiro que toma a frente da situação, tá ligado mano)
+s fa$ineiros, valori>ados pelos /ovens da população, na medida em 9ue resolvem $oa
parte dos pro$lemas 9ue os afetam cotidianamente, são e4tremamente respeitados pelos
setores, 9ue, por serem considerados menos e4perientes, rece$em orienta"7es dos fa$inas,
mantendo com estes uma rela"ão de aprendi>ado* Al@m disso, atuam como uma esp@cie de
$ra"o direito dos adolescentes 9ue ocupam o posto de toque da cadeia* ;am$@m c8amados de
pilotos da cadeia, são eles os principais respons#veis pelas negocia"7es 9ue envolvem uma
determinada Unidade de 1nterna"ão* :egociam, /unto aos diretores, o 8or#rio de a$ertura e
fec8amento dos barracos, solicitam mel8orias na infraestrutura da unidade, reivindicam a
entrada de $enef)cios para todos os internos <roupas do mundão, televisores, etc=*
Se os pro$lemas enfrentados pelos adolescentes afetam todas as unidades e4istentes
em um mesmo comple4o, então, a responsa$ilidade recai so$re o toque geral, tam$@m
con8ecido como piloto do comple$o* Apesar de permanecer em uma cadeia espec)fica, como
no caso da Unidade de 1nterna"ão (&, o toque geral @ respons#vel pela totalidade do espa"o
institucional* Ao discorrer so$re as rela"7es esta$elecidas entre o toque da cadeia e o toque
('R
%ovimento semel8ante @ apontado por Aarina 3iondi* A autora <&'(', p*('R((', grifo da autora= enfati>a
9ue Pna din2mica do PCC e4istem posi"7es pol)ticas espec)ficas 9ue e4acer$am e colocam em evidência as
8a$ilidades dos irmãos* ;ratase das fun"7es do piloto, do fa$ina e a figura da torre 9ue, longe de constitu)rem
postos vital)cios ou atri$utos definitivos, <c=, são ocupadas de forma transitória, o 9ue l8es confere certa
insta$ilidade e malea$ilidadeQ*
IR
geral, Pedro enfati>a 9ue no comple4o do ;atuap@ cada unidade tin"a o seu toque da cadeia.
.ra aquele sistema de "ierarquia, eles respondia o que vin"a do toque geral da ?N
(('
*
De fato, a9ueles 9ue são recon8ecidos como toque da cadeia e toque geral são as
figuras associadas H posi"ão de prest)gio e poder no conte4to das dominadas* Ao o$servar o
deslocamento de tais atores pelo espa"o institucional, notase 9ue os toques, diferentemente
dos setores, encarregados de reali>ar as atividades $ra"ais no cotidiano da interna"ão, tal
como a limpe>a dos $an8eiros, permanecem com as roupas sempre impec#veis, ainda 9ue
se/am os uniformes institucionais* ;al constata"ão devese ao fato de 9ue nóis trabal"a com a
mente <piloto da U1&R, comple4o de Franco da -oc8a=* +s pilotos, ao contr#rio dos fa$inas,
pouco aparecem no cotidiano da cadeia* São discretos* 0m geral, permanecem dentro de seus
barracos, sendo acionados apenas nas ocasi7es em 9ue @ necess#rio solucionar as fitas de mil
grau, isto @, as situa"7es mais comple4as* + celular, instrumento fundamental no conte4to das
dominadas, na medida em 9ue possi$ilita o contato com os irmãos do Comando, permanece
so$ o controle dos pilotos, o 9ue não significa 9ue outros disciplinas não possam utili>#lo
(((
*
Se atentarmos para as atividades cotidianas reali>adas pelos disciplinas, veremos 9ue
tais adolescentes são os principais respons#veis pelo funcionamento da cadeia* :esse sentido,
fa>se necess#rio refletir acerca da seguinte 9uestão, como os agentes institucionais lidam
com o fato de 9ue, nas unidades dominadas, a gestão da ordem fica por conta dos ladr(es\ A
narrativa a$ai4o, emitida por uma funcion#ria do setor pedagógico da Unidade de 1nterna"ão
MI, comple4o -aposo ;avares, pareceme ilustrativa*
; tão dif*cil falar sobre isso. ;...eu ac"o que...uma coisa que a =. falou "o/e pra gente e
eu ac"o que é isso. - gente quer trabal"ar em condiç(es ideais de trabal"o. .u não sei,
eu sempre vi uma polaridade na 1ebem. 7empre foi tudo ou muito r*gido demais ou
frou$o demais e eu nunca acreditei em nen"um desses dois lados, mas também eu
(('
Diferentemente do comple4o do ;atuap@, no per)odo em 9ue reali>ei a pes9uisa de campo em Franco da
-oc8a, pude notar 9ue cada Unidade de 1nterna"ão contava com o toque da cadeia e, ao mesmo tempo, com o
toque geral* Desse modo, em todas as unidades 8aviam adolescentes respons#veis pela cadeia e adolescentes
respons#veis pelo comple4o* Ao longo da pes9uisa, pude constatar 9ue em determinados momentos a distin"ão
entre toque geral e toque da cadeia não era mencionada* +s adolescentes se referiam apenas ao posto de toque,
tam$@m con8ecido como piloto* ;endo em vista as constantes varia"7es com as 9uais depareime durante a
pes9uisa, no presente tra$al8o, opto por seguir as narrativas de meus interlocutores e mo$ili>o os postos
8ier#r9uicos de acordo com o espa"o institucional so$re o 9ual me de$ru"o* Gale ressaltar 9ue conforme se
avan"a na 8ierar9uia, o nCmero de adolescentes diminui, caracter)stica marcante de todas as forma"7es
8ier#r9uicas* 0m Franco da -oc8a, em meados de &''J, na U1&R, 8aviam (& setores, I fa$inas, & encarregados,
& toques da cadeia e ( toque geral*
(((
Com tal assertiva, não pretendo sugerir 9ue tais aparel8os se/am utili>ados pelos internos apenas para entrar
em contato com os irmãos do #artido* 0m algumas conversas travadas com os adolescentes, tornase evidente
9ue os celulares tam$@m são utili>ados para outros fins como, por e4emplo, manter contato com as mães, as
namoradas e os amigos da quebrada*
R'
nunca vi uma prática diferente disso. 'en"uma unidade...eu só trabal"ei na 45, mas eu
con"eço muita gente que trabal"a em muitos outros lugares, eu não con"eço ninguém,
ninguém que ten"a falado alguma coisa diferente disso. .ssa organi+ação, durante
muito tempo na 45, tem tr0s anos e meio praticamente que eu t< a*, sempre na mesma
unidade e praticamente com a mesma equipe de trabal"o, teve mudança de
coordenador essas coisas, mas...eu sempre vi que...que ela era prática durante algum
tempo. .la funcionou porque a gente conseguia fa+er muitas coisas e...voc0 falar que a
organi+ação deles não viabili+a o nosso trabal"o é mentira porque ela viabili+a, ela
facilita o nosso trabal"o. ; como voc0 c"egar pra c"amar um grupo Zde adolescentes[
e voc0 não ter que ficar arrebentando a sua garganta pra c"amar os meninos que vão
participar daquele grupo. 8oc0 simplesmente entrega o papel+in"o Zpara os disciplinas[
e falaA ta*, fa+ pra mim) -* o menino fa+ o trabal"o braçal pra voc0 e voc0 fica mais
com a parte intelectual. 'ão ac"o que isso se/a o ideal. .sse tipo de organi+ação fa+ a
gente não querer mel"orar o nosso trabal"o porque também é nossa parte fa+er isso,
também é nossa parte organi+ar tudo isso. Cas, de certa forma, 9s ve+es é mais fácil
trabal"ar assim e 9s ve+es só é poss*vel trabal"ar assim, como eu ten"o vivido até
então.
.u não sei, eu ac"o que a casa na mão dos meninos é...representa muito, se a gente for
pensar no ideal da 1undação que é ressociali+ar o menino, é óbvio que a gente sabe
que isso na prática não rola, mas eu ac"o que uma casa na mão Zdos meninos[,
ressociali+a muito menos porque a cultura que se implanta lá dentro não é deA a gente
pode fa+er algo diferente quando sair daqui. - cultura que se institui lá éA quando a
gente sair, a gente vai viver a vida do crime mesmo. 'ão sei, eu ac"o que se for pensar
é mais ou menos isso, é só uma reprodução daquilo que eles /á estão cansados de ver lá
fora, não representa alguma coisa de novo, alguma coisa diferente que a gente pode
tra+er pra eles.
+ depoimento acima deve ser compreendido tendose em vista a posi"ão institucional
ocupada pela funcion#ria 9ue o concedeu* Apesar de recon8ecer 9ue a atua"ão dos frente da
cadeia facilita o tra$al8o desenvolvido pelo setor pedagógico, notase a insatisfa"ão de min8a
interlocutora, 9ue recon8ece a impossi$ilidade de afastar os adolescentes da pr#tica de crimes,
so$retudo 9uando estes cumprem medida socioeducativa em uma unidade dominada* -
cultura que se institui lá éA quando a gente sair, a gente vai viver a vida do crime mesmo*
Gale ressaltar 9ue o tra$al8o desenvolvido pelo pedagógico, como tam$@m @
con8ecido tal setor institucional, interessa aos disciplinas* Afinal, o material disponi$ili>ado
por tais funcion#rios <cadernos, l#pis, fol8as de papel sulfite, etc=, $em como as atividades
propostas, 9ue englo$am oficinas de origami e costura, entre outras, contri$uem com as
lideran"as, na medida em 9ue uma das principais atri$ui"7es de tais adolescentes @ não dei4ar
a cadeia parada, isto @, sem atividades H população, e4ceto nas ocasi7es em 9ue 8# motivos
para pressionar a dire"ão da unidade*
R(
0m momentos de tensão, 9uando, por e4emplo, as re$eli7es tornamse iminentes, os
funcion#rios do setor pedagógico, so$retudo as sen"oras da pedagogia, são impossi$ilitados
de acessar o espa"o de interna"ão, atitude 9ue aponta para a prote"ão dos disciplinas em
rela"ão a tais agentes institucionais*
:l"a...vou falar francamente um negócio pra voc0. Com a liderança era uma faca de
dois gumes. #elo seguinte, era muito mais seguro voc0 trabal"ar dentro de uma
unidade com a liderança deles do que "o/e sem a liderança. #orque a liderança ela se
mostrava. .la era clara e ob/etiva. .la te dei$ava trabal"ar e ela não te tra*a (!. 'ão
"avia traição por parte dos meninos com os educadores, com os educadores tá, e não
com os funcionários Zagentes de seguran"a[. #orque os funcionários eles odiavam e se
eles pudessem fa+er um c"urrasquin"o, eles fa+iam. 'ós t*n"amos muito mais
segurança do que agora. #orque quando eles queriam fa+er alguma coisa, eles
mandavam a gente sair do pátio. .ra a primeira coisa que eles fa+iam <e4funcion#ria
do setor pedagógico da U1&R, comple4o de Franco da -oc8a, 9ue atualmente tra$al8a
em uma unidade na mão dos funça=*
+$viamente, a prote"ão dos disciplinas em rela"ão aos mem$ros do setor pedagógico,
so$retudo nos momentos 9ue antecedem os motins, não significa 9ue os contatos travados
entre tais atores não se/am marcados pelo conflito* Certa ve>, ao ingressar no p#tio do
1nternato de Franco de -oc8a, pude notar 9ue um fa$ineiro conversava com uma funcion#ria
de tal setor institucional* + adolescente, visivelmente irritado, reclamava 9ue algumas fol8as
de papel sulfite 9ue l8e pertenciam, após serem levadas ao pedagógico, 8aviam desaparecido*
A funcion#ria, 9ue afirmava descon8ecer a e4istência de tal material, enfati>ava 9ue a
responsa$ilidade não era dela* + fa$ina insistia, ressaltando 9ue o setor pedagógico era
respons#vel por guardar as produ"7es dos internos* Ao perce$er 9ue o di#logo não estava
surtindo o efeito dese/ado, o adolescente resolveu tomar outra atitude, a* sen"ora, se não
agili+ar essas fol"as, vai tomar cadeirada* A sen"ora da pedagogia, como tam$@m são
con8ecidas as mul8eres 9ue atuam em tal setor, ao ouvir a amea"a, retirouse do p#tio* ;al
acontecimento evidencia 9ue o fato dos disciplinas manterem $oas rela"7es com os
integrantes do setor pedagógico, principalmente se considerarmos a 9ualidade dos v)nculos
esta$elecidos entre os /ovens e outros funcion#rios, não resulta na elimina"ão das tens7es*
De fato, as rela"7es esta$elecidas entre os disciplinas e os mem$ros de tal setor
institucional provocam cr)ticas por parte de outros funcion#rios* Para os agentes de seguran"a,
por e4emplo, respons#veis pela vigil2ncia interna dos espa"os de interna"ão, $em como pelo
acompan8amento dos adolescentes nas atividades reali>adas fora das unidades, os integrantes
R&
da pedagogia são con8ecidos por pagar madeira pra ladrão
((&
* 0m geral, tais funcion#rios
dificultam a entrada dos materiais fornecidos pelo setor pedagógico, procedimento 9ue gera
inCmeros em$ates com as lideran"as*
+s funça de pátio, como tam$@m são con8ecidos os agentes de seguran"a,
permanecem em locais espec)ficos
((M
, apenas o$servando o movimento dos adolescentes, em
especial, dos disciplinas* Sa$em 9ue manter uma $oa rela"ão com as lideran"as, o 9ue nem
sempre @ poss)vel, na medida em 9ue e4ercem determinadas fun"7es 9ue potenciali>am os
conflitos, tal como o trancamento dos internos em seus respectivos 9uartos no per)odo
noturno, @ fundamental* Afinal, durante as re$eli7es, diferentemente dos mem$ros do setor
pedagógico, são os primeiros a serem condu>idos ao tel8ado da cadeia, muitas ve>es sendo
arremessados pelos adolescentes* Se nas unidades do Comple4o 3r#s, tais agentes
institucionais são considerados torturadores em potencial, 9ue controlam o espa"o de
interna"ão, nas unidades dominadas, são vistos pelos disciplinas como incapa>es de retomar o
dom)nio da cadeia* + relato a$ai4o, e4tra)do de meu caderno de campo, ilustra a 9ualidade
das rela"7es travadas entre tais atores*
Partimos para a Cltima sessão do ensaio fotogr#fico, no 9ual os adolescentes estão
produ>indo os seus próprios retratos* Uma cena espec)fica c8ama aten"ão* ;iramos
fotografias individuais 9uando c8ega a ve> de um dos pilotos da cadeia* + adolescente,
com a roupa impec#vel, aca$a de sair do $an8o* :otase 9ue o /ovem preparouse para
tal acontecimento* + interno escol8e o fundo em 9ue ser# retratado, um grafite
estampado em uma das paredes, com o desen8o de uma favela* :o local, sentados em
um $anco, 8# três agentes de seguran"a* De fato, 8# espa"o suficiente para 9ue a
imagem se/a feita, ou se/a, não 8# necessidade 9ue os funcion#rios dei4em os seus
respectivos lugares, mesmo por9ue estão na frente de uma pe9uena parte do grafite* :o
entanto, o piloto se apro4ima e di>, dá licença a* sen"or* +s três funcion#rios, apesar de
demonstrarem certo descontentamento, se levantam* Um dos agentes de seguran"a, 9ue
veste uma camiseta com a palavra A!0:;0 estampada em suas costas, parecida com
algumas roupas 9ue são utili>adas pela pol)cia civil, di> alguma coisa* :ão consigo
ouvir o 9ue @ dito pelo funcion#rio* Contudo, o piloto para 9uem foi dirigida a fala, se
manifesta, tá louco, pra que que eu vou querer uma foto com o sen"or) + /ovem 9ue
est# atr#s da c2mera se posiciona para tirar a imagem* :o entanto, antes de -o$son
apertar o $otão, um interno passa em frente H lente da m#9uina fotogr#fica* ;ratase de
um fa$ina do esporte* + fa$ineiro voltase para os adolescentes 9ue acompan8am a
sessão fotogr#fica e di>, bate uma foto desse funça aqui Zse referindo ao mesmo agente
de seguran"a[ que eu vou pegar ele quando eu sair daqui* + funcion#rio, ao ouvir tal
((&
+ mesmo 9ue pagar pau, pu4ar o saco, fa>er de tudo para agradar*
((M
:a Unidade de 1nterna"ão Adoniran 3ar$osa <U1M=, locali>ada no comple4o da Gila %aria, ao longo do
per)odo em 9ue reali>ei a pes9uisa de campo, entre /ul8o de &''J e mar"o de &''O, pude notar 9ue tais agentes
institucionais permaneciam sentados em cadeiras locali>adas no canto direito do p#tio, espa"o 9ue, segundo os
disciplinas, era definido por eles mesmos*
RM
amea"a, camin8a em min8a dire"ão e, em $ai4o tom de vo>, responde, isso se eu não
pegar ele antes <Unidade de 1nterna"ão MI, comple4o -aposo ;avares=*
Ainda 9ue as rela"7es esta$elecidas entre os agentes de seguran"a e os disciplinas
se/am atravessadas por tens7es e conflitos, vêse 9ue tais atores procuram evitar as agress7es
f)sicas, acontecimento 9ue, 9uando ocorre, provoca efeitos indese/ados para am$os os lados*
+s agentes de apoio, como tam$@m são con8ecidos os funça de pátio, sa$em 9ue uma
poss)vel agressão aos internos das unidades dominadas pode resultar em conse9uências
dolorosas, entre as 9uais, a impossi$ilidade de retornar ao espa"o de interna"ão e a revolta dos
adolescentes, 9ue, após consultarem os irmãos, podem partir pro arrebento
((L
* Por sua ve>,
notase 9ue os disciplinas, sempre 9ue poss)vel, evitam o confronto direto com tais agentes
institucionais, mesmo por9ue enfati>am 9ue o mais importante @ manter a cadeia so$ o
dom)nio dos internos, o$/etivo 9ue deve ser alcan"ado por meio do di#logo e não pelo uso da
for"a
((N
* 0m outras palavras, tratase de assegurar a manuten"ão do 9uadro institucional,
afinal, não 8# motivos para colocar em risco o 9ue, aos ol8os das lideran"as, é tudo nosso
((J
*
0m Cadeia de c"ocolate, pu$lica"ão produ>ida por Paulo Farias e La@rcio :arciso,
funcion#rios 9ue atuaram como agentes e coordenadores da #rea de seguran"a, estes Cltimos
respons#veis pela atua"ão dos primeiros, constatase 9ue tais atores, al@m de não rece$erem
treinamento espec)fico por parte da institui"ão
((O
, são recon8ecidos pelos internos como
((L
3r pro arrebento @ o mesmo 9ue dar in)cio a uma re$elião* Segundo os internos, momento prop)cio para
acertar as contas com os agentes institucionais 9ue oprimem os adolescentes* Apesar do nCmero de re$eli7es ter
ca)do significativamente ao longo dos Cltimos anos, acontecimento so$re o 9ual me de$ru"o em seguida, para os
integrantes do corpo funcional, o medo dos motins @ constante*
((N
+s disciplinas recon8ecem 9ue partir para o confronto com os agentes institucionais não constitui uma $oa
estrat@gia, /# 9ue a agressão aos funcion#rios, entre outras coisas, pode ocasionar a perda de alguns $enef)cios
9ue foram con9uistados após longas negocia"7es com o diretor da unidade <a possi$ilidade de utili>ar roupas do
mundão, o direito de passar gel no ca$elo, a redu"ão do tempo disponi$ili>ado Hs visitas, etc=* Eem que agir na
intelig0ncia né sen"or. :s funça t0m medo que nóis saia da cadeia /ustamente porque com nóis aqui não se
agride funcionário <piloto da U1MI, comple4o -aposo ;avares=*
((J
04pressão utili>ada pelos internos 9ue cumprem medida socioeducativa nas unidades dominadas*
((O
:otase 9ue o treinamento oferecido aos funcion#rios rec@mcontratados @ alvo de inCmeras cr)ticas por parte
dos integrantes dos distintos setores institucionais* :l"a...aquela semana de treinamento que eles dão, aquilo
não vale pra nada. Eodas as informaç(es que eles deram pra gente, naquele curso, eram coisas que não
e$istiam mais. 7ó para te dar um e$emploA a questão do lápis. Di+iam que voc0 não podia dar um lápis na mão
do menino porque ele podia pegar e enfiar o lápis no ouvido, no ol"o do outro. 3sso foi a mentira mais
deslavada que eu /á ouvi na min"a vida. .u /á vi o #edro quebrar um monte de lápis só de raiva, mas alguém
pegar um lápis e fa+er alguma coisa, eu nunca vi isso. .ntão, tudo o que eles falaram naquele curso foi
fantasioso <funcion#ria do setor pedagógico, U1&R, comple4o de Franco da -oc8a=* As narrativas dos
funcion#rios evidenciam 9ue não 8# nen8uma prepara"ão espec)fica destinada H9ueles 9ue irão atuar nas
unidades dominadas, principalmente por9ue a cCpula da institui"ão nega a e4istência de lideran"as entre os
adolescentes* Gale ressaltar 9ue no comple4o 3r#s /# 8ouveram casos em 9ue os adolescentes utili>aram um l#pis
para agredir outros internos* :esse sentido, vêse 9ue o treinamento disponi$ili>ado pela institui"ão $aseiase no
modo de funcionamento das unidades 9ue são consideradas como modelo, isto @, as unidades na mão dos funça*
RL
advers#rios, antes mesmo de ingressarem nas Unidades de 1nterna"ão*
<c= no primeiro dia sentiu 9ue não estava preparado para lidar com a comple4idade
do servi"o _ a lida di#ria com adolescentes 9ue praticaram violência, 9ue sofreram
violência, e 9ue viam a ele e aos seus colegas como inimigos* :ão rece$era nen8um
treinamento maior, nen8uma orienta"ão mais aprofundada, de como enfrentar esse
desafio* V%enor então vai pra cadeia\V, ele lem$ra de ter se perguntado, por9ue não
tin8a ilusão alguma de 9ue a9uela unidade fosse outra coisa al@m de uma cadeia* Só
mais tarde viria a sa$er 9ue alguns desses menores 8aviam cometido crimes
8ediondos, ou estavam ali como reincidentes <FA-1ASY :A-C1S+, &''N, p*M&MM,
grifo do autor=*
+s funça de pátio, 9ue se dividem em turnos de (& 8oras, sendo os agentes
institucionais 9ue permanecem por mais tempo ao lado dos adolescentes, o 9ue, por si só,
refor"a a animosidade e4istente entre tais atores, atuam como aliados dos diretores, uma ve>
9ue representam os ol8os da administra"ão no interior da cadeia* Contudo, vale notar 9ue as
rela"7es esta$elecidas entre a diretoria e os agentes de apoio tam$@m são marcadas pela
tensão* Ao mesmo tempo em 9ue os diretores necessitam das informa"7es transmitidas pelos
agentes e coordenadores da #rea de seguran"a, /# 9ue não costumam acessar os espa"os de
interna"ão com tanta fre9uência, os refle4os das negocia"7es travadas entre a diretoria e os
disciplinas recaem, so$retudo, so$re os funça de pátio, o 9ue gera desentendimentos entre os
ocupantes de tais posi"7es institucionais* Wuando os diretores, por e4emplo, negam a
solicita"ão dos disciplinas para 9ue os barracos permane"am a$ertos no per)odo noturno, a
responsa$ilidade por assegurar 9ue tal ordem se/a cumprida ca$e aos funça de pátio, ta4ados
pelos adolescentes de pau mandado*
0m rela"ão aos diretores, notase 9ue a atua"ão dos disciplinas nos espa"os de
interna"ão, da mesma forma em 9ue sim$oli>a uma amea"a H manuten"ão de seus respectivos
cargos, /# 9ue a e4istência de lideran"as @ considerada como inaceit#vel pela presidência da
institui"ão, au4ilia na administra"ão dos pro$lemas cotidianos* Ao 9uestionar o diretor de uma
unidade dominada so$re o papel e4ercido pelos disciplinas, tal agente enfati>ou 9ue, se eu
não tiver a liderança lá embai$o, eu t< fodido* %eu interlocutor, 9ue ao assumir o cargo de
diretor atuava como integrante da Secretaria de Administra"ão Penitenci#ria do 0stado de São
Paulo <SAP= e 9ue, portanto, /# con8ecia o modo de opera"ão das cadeias do Comando,
apesar de recon8ecer 9ue as atividades desempen8adas pelos disciplinas facilitam o tra$al8o
desenvolvido pelos distintos agentes institucionais, fa> 9uestão de salientar 9ue, se a
presidente souber que eu recon"eço a liderança, eu t< fora da 1.B.C* :esse sentido, notase
RN
a posi"ão incTmoda ocupada por tais agentes institucionais* :ão podem recon8ecer a
e4istência das lideran"as, so$retudo perante os integrantes da cCpula institucional, mas sa$em
9ue a atua"ão dos disciplinas contri$ui para o $om funcionamento da cadeia* + relato a$ai4o,
e4tra)do de meu caderno de campo, torna evidente a import2ncia dos disciplinas para os
diretores das distintas unidades dominadas*
Sa) do p#tio e fui conversar com Carlos, coordenador pedagógico da Unidade de
1nterna"ão MI* + o$/etivo era 9uestion#lo so$re a possi$ilidade de montar uma
$i$lioteca com os adolescentes da unidade, espa"o em 9ue os /ovens poderiam grafitar
as paredes, colar imagens fotogr#ficas, etc* Ao propor tal atividade, 9ue seria conclu)da
em alguns meses, o coordenador colocou alguns empecil8os, entre os 9uais, a
ine4istência de uma sala para tal fim* Disse 9ue e4istiam três salas livres dentro do
p#tio, mas 9ue estavam so$ controle das lideran"as* Segundo ele e Lia, 9ue tam$@m @
funcion#ria do setor pedagógico, uma sala @ usada para os adolescentes assistirem
televisão, uma outra @ utili>ada pelos bóias e 8# uma terceira utili>ada pelos esportes*
Destaco 9ue bóias e esportes são termos 9ue se referem aos fa$inas da unidade* Wuando
o coordenador mencionou a terceira sala, sorriu e disse, é ali que acontecem as reuni(es
do comando* A partir da), come"amos a conversar so$re a lideran"a dos /ovens e perce$i
9ue a todo o instante o coordenador se es9uivava, principalmente 9uando perguntei se
ele sa$ia 9uem eram os l)deres da unidade* Carlos sorriu e desconversou* Continuamos
falando so$re a sala e perce$i 9ue a todo o momento a conversa girava em torno dos
disciplinas* Lia soltou, tudo bem, mas quem me garante que esse espaço não será
apropriado pela meia d6+ia de sempre Zse referindo Hs lideran"as[\ Continuamos a
conversa e aca$ei perguntando para o coordenador o 9ue ele ac8ava da lideran"a
e4ercida pelos adolescentes* Para a min8a surpresa, ouvi o seguinte, se não fosse eles, a
coisa não funcionava* Para complementar tal afirma"ão, o coordenador forneceume um
e4emplo ilustrativo* Carlos enfati>ou 9ue certa ve> iria ocorrer uma visita de uma
supervisora do ensino formal e 9ue ningu@m estava fre9uentando a escola, o 9ue
constitu)a um pro$lema s@rio para a dire"ão da unidade* Foi então 9ue a diretoria da U1
MI c8amou alguns internos para conversar Zos pilotos[ e no dia seguinte o pro$lema
estava totalmente resolvido, ou se/a, todos os adolescentes 8aviam retornado H escola*
Carlos, apesar de não mencionar a contrapartida oferecida aos adolescentes, ainda
concluiu, aqui funciona na base da moeda de troca <U1MI, comple4o -aposo ;avares=*
+ te4to descrito acima, $em como as narrativas de meus interlocutores, evidencia 9ue,
do ponto de vista de determinadas posi"7es institucionais, a atua"ão dos disciplinas au4ilia na
gestão do espa"o de interna"ão
((I
, mas, simultaneamente, causa diversos transtornos, entre os
((I
Gale ressaltar 9ue os profissionais 9ue atuam por meio das +:!Vs, tam$@m con8ecidos como educadores,
recon8ecem 9ue as fun"7es desempen8adas pelos disciplinas, entre as 9uais, a reunião dos internos 9ue
participam dos cursos culturais e profissionali>antes, au4iliam no tra$al8o desenvolvido dentro das Unidades de
1nterna"ão* Al@m disso, @ importante notar 9ue, assim como os mem$ros do setor pedagógico, tais profissionais
tam$@m contam com a prote"ão das lideran"as, muitas ve>es sendo orientados pelos internos a não entrar na
cadeia quando o bagul"o tá loco Z9uando o clima est# tenso[*
RJ
9uais, o dom)nio de alguns espa"os f)sicos, a paralisa"ão das atividades reali>adas na cadeia
e, em alguns casos, so$retudo para os diretores, a perda do cargo institucional* Logicamente,
recon8ecer a import2ncia das lideran"as no cotidiano da cadeia não constitui tarefa f#cil,
mesmo por9ue implica em admitir 9ue, em certo sentido, quem manda é eles* ;al constata"ão,
angustiante para os integrantes do corpo funcional, au4ilianos a compreender o motivo pelo
9ual os funcion#rios dos distintos setores institucionais, ao mesmo tempo em 9ue rec8a"am as
lideran"as, enfati>ando 9ue tais adolescentes oprimem os /ovens da população e agem em
$enef)cio próprio, recorrem a elas, legitimando a atua"ão dos disciplinas
((R
*
A narrativa de Pedro, ao discorrer so$re os contatos esta$elecidos entre os disciplinas
e os agentes institucionais, incluindo as negocia"7es travadas com os diretores das distintas
unidades dominadas, e4p7e Hs claras as tens7es e os conflitos 9ue caracteri>am as rela"7es
esta$elecidas entre tais atores, 9ue, vale notar, encontramse unidos e separados por um la"o
tenso de interdependência*
.ssas negociação era até divertida, tin"a situação que ficava um clima bem tenso,
porque querendo ou não era tipo uma questão, era quase um #almeiras e um
Corint"ians, por mais que é necessário ter, um não gosta do outro. Ein"a momento que
era até legal, que nóis ia lá, descontra*a e trocava uma ideia. : que dá pros caras
fa+er, eles fa+em, voc0 colaborando, evitando de botar tanto nego pra fora Zda cadeia[,
não ofendendo muito funcionário...escola é IJK ali dentro. 7e voc0 quiser conquistar
alguma coisa a mais, a escola é essencial. :s caras quer escola. : que o cara Zdiretor[
puder fa+er, até meio encobertado, o cara fa+.
Apesar dos agentes institucionais enfati>arem 9ue os disciplinas agem em $enef)cio
próprio, do ponto de vista dos /ovens da população, tal afirma"ão mostrase in/ustific#vel*
Ainda 9ue as lideran"as go>em de privil@gios como, por e4emplo, o direito de comer alguns
((R
0m diversas ocasi7es, pude notar 9ue os funcion#rios do setor pedagógico, com os 9uais mantive intenso
di#logo durante a pes9uisa, afirmavam 9ue era preciso negar a e4istência dos disciplinas, mas, logo em seguida,
recorriam Hs lideran"as* Certa ve>, a coordenadora pedagógica da U1&R, comple4o de Franco da -oc8a, ao
discorrer so$re alguns pro$lemas enfrentados pela unidade, entre os 9uais, a $ai4a fre9uência escolar e o uso
cont)nuo de macon8a por parte dos internos, pediume uma sugestão de como enfrentar tais pro$lemas* Disse a
ela 9ue, na min8a opinião, tais 9uest7es deveriam ser discutidas com os disciplinas* +$viamente, /# imaginava a
resposta* A coordenadora, um tanto irritada, enfati>ou 9ue, al@m de não recon8ecer a lideran"a, para ela, o tipo
de comando 9ue os disciplinas e4erciam estava mais para crime organi>ado do 9ue para 9ual9uer outra coisa* A
conversa inicial estava encerrada* Com$inamos de nos encontrar novamente, no in)cio da tarde, para 9ue eu
apresentasse uma proposta de tra$al8o* Ao sentarmos em uma sala do setor pedagógico, antes mesmo 9ue eu
pudesse di>er 9ual9uer coisa, a coordenadora sorriu e disse, quero ouvir esses l*deres, conversar com eles e
quero que voc0 se/a o interlocutor desse processo* +ra, vêse 9ue a mesma pessoa 9ue 8# cerca de algumas 8oras
8avia dito 9ue era preciso negar a lideran"a, agora, 9ueria ouvir os disciplinas e conversar com eles* Ao fa>er tal
pedido, o funcion#rio 9ue encontravase na mesma sala 9uestionoua, -lice, voc0 vai negociar alguma coisa com
os disciplinas) 8ai recon"ecer a liderança e$ercida por esses meninos) 8ai dar mais poder a eles)
RO
mantimentos 9ue são arma>enados para o dia de visita, o 9ue não @ permitido aos outros
adolescentes
(&'
, os /ovens da população não consideram 9ue tal pr#tica se/a a$usiva, e sim,
um direito ad9uirido por todos a9ueles 9ue são respons#veis não só pelo funcionamento da
cadeia, mas, principalmente, pelas a"7es de todos os adolescentes 9ue cumprem medida
socioeducativa em uma unidade dominada
(&(
* Se aos ol8os dos agentes institucionais, tais
prerrogativas são decorrentes do regime opressor imposto pelas lideran"as, para os frente da
cadeia, tratamse apenas de alguns $enef)cios destinados H9ueles 9ue, acima de tudo, atuam
em prol da população*
#rimeiramente é a população, é o bemLestar dela. :s cara /á tá preso, fodido e mal
pago. Eem que dar um novo ol"ar pra eles, uma nova esperança, nem que se/a por
amor ou por dor. 8oc0 tá ali na frente da cadeia pra isso, é primeiro eles, depois nóis
Zos disciplinas[. .sse é o procedimento, é o fundamento da fa$ina. 7e voc0 for entrar
pensando que voc0 vai ter tudo, que voc0 só vai gan"ar e não vai contribuir, voc0 tá
muito enganado <Pedro=*
:o conte4to das dominadas, notase 9ue os disciplinas representam os interesses da
população perante os integrantes do corpo funcional* + fato de tais internos atuarem como
l)deres, não significa, de modo algum, 9ue possam a$usar da autoridade* Pelo contr#rio, tais
adolescentes não devem impor as suas vontades aos outros internos* Devem ser "umildes
(&&
e
levar a s@rio as reivindica"7es tra>idas pelos /ovens da população
(&M
* :o limite, @ poss)vel
afirmar 9ue a autoridade e4ercida pelos disciplinas @ o$tida pela própria nega"ão do e4erc)cio
de autoridade* Certa ve>, conversava com o piloto da Unidade de 1nterna"ão &N, comple4o de
Franco da -oc8a, 9uando um fa$ina se apro4imou e disse, porra mano, /á mandei os cara da
(&'
Ein"a umas regalias Zos disciplinas[ de comer doce, tomar danone, isso a população não podia. ;...entrava o
danone Ziogurte[ e entrava a sobremesa pra todo mundo. -*, o que que acontecia) 'óis guardava o danone da
semana, ia guardando pra visita, era tudo guardado pro dia de visita. Cas, de ve+ em quando ia um mão boba
lá e comia um, comia dois. :s caras Zos disciplinas[ pode. #orra, são os caras que tão na frente da cadeia
botando a cara a tapa o tempo todo <Pedro=*
(&(
Wuando os integrantes do C"oquin"o encontram naifas no interior de alguma unidade dominada, para os
agentes institucionais, não importa 9uem as ten8a produ>ido, afinal, a responsa$ilidade recai so$re os
disciplinas* Da mesma forma, se os adolescentes de uma determinada unidade se agridem fisicamente, para as
lideran"as de outros espa"os de interna"ão dominados, os agressores não são considerados culpados, e sim, os
disciplinas, incapa>es de assegurar 9ue o certo prevale"a dentro da cadeia*
(&&
PA "umildade @ considerada ao mesmo tempo caracter)stica, 8a$ilidade, postura e atitude 9ue todo irmão deve
terQ <31+:D1, &'(', p*('(, grifo da autora=* + mesmo pode ser dito em rela"ão aos disciplinas*
(&M
Gale ressaltar 9ue levar a s@rio as reivindica"7es da população não significa atendêlas* + importante, como
enfati>am meus interlocutores, é não negar atenção para a população <piloto da U1MO, comple4o -aposo
;avares=* 0m determinada ocasião, no comple4o de Franco da -oc8a, ao 9uestionar o piloto da U1&R so$re o
motivo 9ue o irritava na9uele momento, este salientou 9ue 8aviam alguns pedidos feitos pela população 9ue, em
sua opinião, não fa>iam o m)nimo sentido e, portanto, não seriam negociados com o diretor da unidade* .u não
vou ficar indo lá em cima pra pedir gel pra ladrão, né sen"or)
RI
população fa+er aquele bagul"o lá e até agora nada mano* + piloto, ao demonstrar certo
desconforto com a fala do fa$ineiro, respondeul8e imediatamente, que "istória é essa de
mandar mano) 8oc0 não tem que mandar, voc0 tem que pedir* De fato, a9ueles 9ue operam
em $enef)cio próprio e oprimem a população, isto @, e4ercem a autoridade por meio do uso da
for"a, em geral, são punidos* Afinal, não estão agindo conforme a disciplina do Comando*
-", a disciplina é o dia a dia da cadeia, as regras impostas que t0m que ser seguidas, é
o que mantém a ordem. &espeito e liberdade acima de tudo, entendeu) ; respeitar o
pró$imo pra voc0 ser respeitado. >iberdade quando der na tel"a, entendeu) ; fa+er o
negócio andar, o negócio tem que andar certo. : negócio andar certo é não dei$ar
acontecer in/ustiça. Eipo...voc0 condenar alguém por um erro que não era tão grave.
Catar, entendeu, sem permissão Zdos irmãos[, isso é uma coisa grave. Brave, ; manter
uma ordem, independente se tá preso ou não, se é bandido ou não, tem que ter um
conceito de...de...um senso de correção. ; a mesma coisa que voc0 viver numa
rep6blica, tem que respeitar o espaço do cara, tem que fa+er aquilo pra não pre/udicar
ele e não me pre/udicar. - disciplina é uma união. : bagul"o veio pra...pra estabelecer
isso da* mesmo, pra ninguém ser mais do que ninguém <Pedro=*
- disciplina é pra qu0...a disciplina é uma palavra comum tá ligado, é uma palavra que
qualquer pessoa usa, mas dentro da 1undação a disciplina é tudo mano, a disciplina é
o respeito, é a "umildade, é a igualdade pelo geral <fa$ina da Unidade de 1nterna"ão
MI, comple4o -aposo ;avares=*
Gêse o car#ter norteador atri$u)do H disciplina do Comando* As prescri"7es
condensadas em tal categoria como, por e4emplo, não se mastur$ar e não falar palavr7es no
dia de visita, não agredir o compan8eiro de camin"ada e não matar sem a permissão dos
irmãos, no conte4to das dominadas, orientam a e4periência cotidiana dos adolescentes* ;rata
se de um con/unto de códigos partil8ado por todos a9ueles 9ue fec"am com o certo, isto @,
com o Comando* A disciplina do Comando @ o 9ue assegura o respeito e a igualdade entre
a9ueles 9ue estão privados de li$erdade* U o 9ue possi$ilita a união entre os ladr(es*
A disciplina do Comando e4iste como estrat@gia 9ue alme/a o esta$elecimento da
pa+ entre ladr(es, mas em nome desta mesma pa+, muitas das prescri"7es são
suspensas, muitos dos imperativos são torcidos, manipulados e disputados em
movimentos de improvisos estrategicamente adotados <31+:D1, &'(', p*(O(, grifo
da autora=*
Apesar de orientar as a"7es de meus interlocutores, vale ressaltar 9ue a disciplina do
Comando não deve ser compreendida como algo r)gido e infle4)vel, mesmo por9ue, como
RR
afirma 3iondi <&'(', p*(OI=, Pna pr#tica, o 9ue vemos são esses códigos recorrentemente
manipulados, a/ustados, disputados e torcidosQ, isto @, avaliados circunstancialmente* ;al
constata"ão não significa 9ue os adolescentes poupam esfor"os para seguir H risca as
prescri"7es condensadas em tal categoria, so$retudo os disciplinas, 9ue devem servir como
e4emplo aos /ovens da população
(&L
*
Pedro, ao relem$rar os seus primeiros passos como fa$ina da Unidade de 1nterna"ão
&R, após ser transferido do comple4o do ;atuap@, lamenta o fato de ter transgredido uma
norma do Comando, a sa$er, não a$usar da autoridade perante os /ovens da população* Como
era esperado, 8a/a visto 9ue entre as unidades dominadas as informa"7es circulam com
e4trema velocidade
(&N
, tempos depois, o adolescente teria 9ue conceder e4plica"7es Hs
lideran"as de outra cadeia*
'essa época Z9ue o adolescente assumiu a fa$ina[, o negócio começou a ficar feio. ;, a*
começou uma patifaria, uma bagunça de querer bater, até eu fui corrigido ali, me
desceram a len"a ali também. :s próprios disciplinas começou a e$ercer o papel do
C"oquin"o, da Eropa de C"oque, entendeu) .u também cometi meus erros. Cesmo que
voc0 não participasse voc0 tava consentindo. .u cometi uns erros também. Começou
muita opressão na população e a população tin"a medo da gente, medo. 1alava de
disciplina era...nem trocar ideia com nóis eles trocavam. .ra uma população afastada
e não é isso o que tem que acontecer. 8oc0 tem que se apro$imar dela.
Ao mesmo tempo em 9ue a população depende da atua"ão dos internos 9ue e4ercem o
papel de lideran"a, na medida em 9ue tais adolescentes falam em nome do grupo perante o
corpo funcional, vale notar 9ue a legitimidade dos disciplinas, inclusive diante de outras
cadeias, prov@m do recon8ecimento concedido pela população*
As constantes agress7es sofridas pelos adolescentes da U1&R fi>eram com 9ue a
dire"ão da unidade, ao depararse com tal situa"ão, at@ então descon8ecida para os agentes
institucionais, tomasse uma atitude* +s /ovens agredidos seriam transferidos para outros
espa"os de interna"ão* ;al medida, 9ue acarretou s@rias conse9uências aos disciplinas da U1
(&L
:esse sentido, a narrativa de um adolescente da população da Unidade de 1nterna"ão &N, comple4o de Franco
da -oc8a, ao discorrer so$re a import2ncia dos disciplinas para os rec@mc8egados, mostrase prof)cua, a", os
cara são tipo o pai e a mãe pra um adolescente novo que c"ega na cadeia*
(&N
Gale salientar 9ue os adolescentes das unidades dominadas não se comunicam apenas por meio dos telefones
celulares* 0m momentos espec)ficos, por e4emplo, 9uando algum interno @ condu>ido ao fórum, o encontro com
/ovens de outras unidades tornase poss)vel* Al@m disso, os familiares dos adolescentes, com 9uem os internos
mantêm contato durante os dias de visita, tam$@m au4iliam na circula"ão das informa"7es* Fs ve+es algum
parceiro liga e passa a camin"ada do mundão e também tem as fam*lias né sen"or, que muitas ve+es se
con"ecem e t0m fil"os internados em lugares diferentes <piloto da Unidade de 1nterna"ão &R, comple4o de
Franco da -oc8a=*
(''
&R, permitiu 9ue os relatos so$re os a$usos de autoridade ultrapassassem os muros
institucionais e c8egassem aos ouvidos de outras lideran"as* Como ressalta meu interlocutor, a
Unidade de 1nterna"ão &R tava mal falada*
3sso da* com o tempo virou uma bola de neve, alguns menor começou a ser mandado
embora pra fora da cadeia Zpro seguro[ sem motivo correspondente. Começou a ser
espirrado e começou a pegar bonde Ztransferência[ pra outras cadeias e começou a
falar. - NI tava mais pra lá do que...tava mal falada. . p(e mal falada nisso. #<, teve
um debate que saiu da ZU1[ NI e a ZU1[ NO que as duas cadeia subiu pro tel"ado, as
duas cadeia inteira. . é o seguinte, a primeira palavra desse debate que a NO falou pra
nóis foiA a NI a partir de "o/e é cadeia de verme. - primeira palavra Zênfase[. 1oi uma
palavra forte, entendeu) 'ão digo tão forte pelo que tava acontecendo, qualquer um
teria essa visão, mas foi uma palavra que não podia ter sido falada. Eanto que depois o
cara foi corrigido e foi afastado do toque da NO. Eeve também todo um processo
que...então, começou o povo lá fora, assistente, diretor, a diretora, não lembro o nome
dela, ela se assustavaA como pode, eu nunca vi isso. 1oi quando teve uma tentativa de
fuga e foi todo mundo de tranca
(&J
(!. -*, mandaram de bonde.
Diante das atitudes indevidas tomadas pelos disciplinas da U1&R, as lideran"as da
Unidade de 1nterna"ão &N se posicionam* So$em no tel8ado da cadeia, do 9ual @ poss)vel
visuali>ar o p#tio interno da outra unidade e enfati>am, a NI a partir de "o/e é cadeia de
verme* ;al acusa"ão, considerada como e4tremamente grave, na medida em 9ue e9uipara uma
cadeia do Comando aos espa"os de interna"ão destinados aos vermes, do ponto de vista dos
disciplinas da U1&N, tornase compreens)vel* Afinal, @ preciso romper os la"os 9ue os une
H9ueles 9ue não seguem a disciplina do Comando, medida necess#ria para 9ue não se/am
confundidos com os agressores* Calarse seria o mesmo 9ue compactuar com o modo de
opera"ão dos vermes* Al@m disso, tratase de preservar a imagem de um espa"o institucional,
o comple4o de Franco da -oc8a, 9ue nota$ili>ouse, perante internos e funcion#rios das
distintas Unidades de 1nterna"ão espal8adas pela capital paulista, por a$rigar apenas os
adolescentes que fec"am com o certo, isto @, 9ue se esfor"am para manter as suas respectivas
cadeias sintoni+adas Hs institui"7es prisionais 9ue operam a partir das diretri>es do Comando*
De fato, ao longo do per)odo em 9ue atuei como educador cultural nas Unidades de
1nterna"ão do comple4o 3r#s, sempre 9ue referiame aos espa"os de interna"ão de Franco da
-oc8a, os internos, al@m de demonstrarem curiosidade em rela"ão ao modo de funcionamento
(&J
A tranca @ um recurso punitivo constantemente utili>ado pelos diretores das distintas Unidades de 1nterna"ão,
em especial, após tentativas de fuga e re$eli7es* Wuando estão de tranca, os adolescentes permanecem
confinados em seus 9uartos por um per)odo 9ue pode c8egar a trinta dias* !eralmente, as atividades escolares,
culturais e profissionali>antes, durante a tranca, são suspensas*
('(
de tais unidades, enfati>avam 9ue tal comple4o, diferentemente do 3r#s, a$rigava os ladrão
estruturado* Gale notar 9ue Farias e :arciso <&''N, p*O&=, ao discorrerem so$re as Unidades
de 1nterna"ão de Franco da -oc8a em meados da d@cada de &''', salientam 9ue Pl# estavam
gente como o 3ator@ <antes de ficar con8ecido da imprensa=, o Cicin8o, o 3aianin8o, o
Daniel>in8o, o 6acar@, o 3ela Gista, todos com uma m@dia de cinco anos de F030%* %uitos
eram mais e4perientes nessa vida, do 9ue os funcion#rios 9ue os guardavamQ* :esse sentido,
notase 9ue o comple4o de Franco da -oc8a go>a de elevado capital sim$ólico /unto aos
adolescentes 9ue cumprem medida socioeducativa em outros espa"os institucionais
(&O
*
Apesar de terem sido c8amados de vermes pelos compan8eiros de camin"ada,
acusa"ão 9ue resultou no afastamento do /ovem 9ue ocupava o posto de toque da U1&N, vêse
9ue os disciplinas da Unidade de 1nterna"ão &R, mesmo após tal acontecimento, continuam se
movimentando de acordo com o lema do Comando, mais especificamente, em conson2ncia
com o ideal de >iberdade* 1oi quando teve uma tentativa de fuga*
:o segundo semestre de &''N, após uma tentativa frustrada de gan8ar as ruas de
Franco da -oc8a, Pedro @ transferido novamente* + adolescente, /untamente com outros três
fa$ineiros da U1&R, foi enviado H Unidade de 1nterna"ão (, locali>ada no comple4o da Gila
%aria
(&I
* Gale destacar 9ue tal espa"o institucional, na @poca em 9ue o /ovem foi transferido,
era destinado apenas aos adolescentes 9ue atuavam como l)deres nos grandes comple4os da
institui"ão* 0m outras palavras, a U1(, tam$@m con8ecida como #arque dos Constros,
a$rigava apenas pilotos, setores e fa$inas* 0m tal espa"o de interna"ão, considerado de
seguran"a m#4ima por adolescentes e funcion#rios, os internos eram su$metidos a um
con/unto de regras institucionais semel8ante ao 9ue opera em unidades prisionais nas 9uais os
presos cumprem parte de suas penas so$ o -egime Disciplinar Diferenciado <-DD=
(&R
*
;...a* fui pro &DD, &egime Disciplinar Diferenciado. C"egando lá, na ? da 8ila Caria,
tava tudo tomado véio, tudo tomado pelos funça. -* o c"icote estralou lá mesmo, era a
7-# Zintegrantes da Secretaria de Administra"ão Penitenci#ria[ que tava lá. C"egamo lá
(&O
+ mesmo pode ser dito em rela"ão aos comple4os -aposo ;avares, Gila %aria e ;atuap@*
(&I
+ comple4o da Gila %aria possui 9uatro unidades de medida socioeducativa de interna"ão* Unidade de
1nterna"ão ;ietê <U1(=, Unidade de 1nterna"ão A$aet@ <U1L'=, Unidade de 1nterna"ão Adoniran 3ar$osa <U1M=
e Unidade de 1nterna"ão Uirapuru <U1L(=* :a @poca em 9ue reali>ei a pes9uisa de campo em tal comple4o,
entre /ul8o de &''J e mar"o de &''O, todas as unidades eram con8ecidas como dominadas*
(&R
PA Lei ng ('*OR&, de (g de de>em$ro de &''M, tornou leg)timo aos gestores prisionais $rasileiros utili>ar o
-DD para coa"ão de presos, provisórios ou condenados, suspeitos de Venvolvimento ou participa"ão, a 9ual9uer
t)tulo, em organi>a"7es criminosas, 9uadril8a ou $andoV, conforme descrito no segundo inciso de seu
9uin9uag@simo segundo artigo* So$re esses recairia, desde então, os confinamentos de at@ MJ' dias
<prorrog#veis= em alas especiais, atrav@s de celas individuais <por && ou &M 8oras, diariamente=, sem atividades
educacionais ou profissionais e com rigorosas restri"7es Hs visitasQ <%A-WU0S, &''R, p*((=*
('&
/á no coro. Duem levou nóis foi o C"oquin"o. 3sso em NJJO ainda. : C"oquin"o passou
toda a nossa fita pros caras Zos agentes de seguran"a da U1([. .les falouA a", voc0s é
liderança) .ntão vamos conversar aqui com...a* o c"icote estralou
(M'
. Bateram com a
mão, cassetete, bicuda, com aqueles coturno, i$i...o c"icote estralou. -*, o sistema lá
era o seguinteA era quatro por barraco. -liás, de quatro a oito por barraco, eu fiquei na
ala -, ac"o que era ala -, era quatro por barraco, uns quatro barraco, tranca. 8oc0
tin"a uma "ora de sol, quatro cigarros por dia e aula voc0 tin"a também. 7ó. 8isita,
uma "ora de visita. #ra sair Zdo 9uarto[, licença sen"or, até licença cac"orro tin"a que
pedir. 'ada de liberdade. 8oc0 ficava ali por um pra+o de trinta dias
(M(
.
Assim como em outras ocasi7es, vêse 9ue determinadas atitudes tomadas pela dire"ão
da institui"ão resultam em efeitos inesperados* Ao transferir uma s@rie de adolescentes
associados H posi"ão de lideran"a em distintas unidades dominadas, acreditavase 9ue tal
procedimento, somado a um rigoroso processo de conten"ão, resolveria os pro$lemas
enfrentados pelos agentes institucionais* :o entanto, ao reunir as lideran"as dos principais
comple4os em um mesmo espa"o de interna"ão, ao inv@s de elimin#las, constatase 9ue a
própria medida adotada pela Funda"ão contri$uiu para o processo de constitui"ão do 9ue os
adolescentes denominam como torre*
- torre é da onde que parte Zas orienta"7es para as outras unidades dominadas[
(M&
. ; ali
que tá o toque geral mesmo. ; os caras que t0m o contato mais pró$imo com...Zos
irmãos do Comando[* (...! que nem a 8ila Caria, ali /á é nego residente Zreincidente[,
nego mais rodado da 1ebem, nego que tem ?J passagem no curr*culo, que vai pra lá
porque não tem onde colocar o cara.
Apesar da din2mica de funcionamento da Unidade de 1nterna"ão ( assemel8arse Hs
unidades na mão dos funça, se atentarmos para a narrativa de meu interlocutor, veremos 9ue a
torre a$riga os adolescentes 9ue possuem diversas passagens pela institui"ão* De fato, tratase
(M'
:esse caso, o uso de tal e4pressão significa 9ue os internos apan8aram ao serem rece$idos na U1(*
(M(
-eportagem pu$licada pelo /ornal 1ol"a de 7.#aulo em setem$ro de &''N, portanto, no mesmo per)odo em
9ue Pedro esteve na U1(, oferecenos dados relevantes acerca de tal unidade* PA Gila %aria ( foi remodelada no
meio do ano para se tornar a unidade de maior conten"ão da Fe$em* Para l# foram enviados os internos vistos
como os mais pro$lem#ticos, como l)deres de re$elião, para cumprimento de san"ão disciplinar* <c=* Segundo o
%inist@rio PC$lico, as normas r)gidas se assemel8am Hs implantadas no -DD <-egime Disciplinar
Diferenciado=, e4istente no sistema prisional do 0stado, na Zsic[ 9ual os detentos só têm uma 8ora di#ria de
$an8o de solQ <3ALAX1:AY P0:;0AD+, &''N=*
(M&
Gale lem$rar 9ue os disciplinas das distintas unidades dominadas não rece$em orienta"7es apenas da torre*
Como /# mencionado, as lideran"as mantêm contato com os irmãos do Comando, 9ue atuam dentro e fora do
sistema penitenci#rio* :o 9ue concerne H estrutura organi>acional do PCC, @ importante ressaltar 9ue Pas torres
são as posi"7es pol)ticas das 9uais partem as diretri>es, comunicados e recomenda"7es do #artido para todas as
suas unidades <c=Q <31+:D1, &'(', p*(&M, grifo da autora=* :esse sentido, a e4istência de tal posto dentro da
Funda"ão CASA configurase como mais um elemento 9ue aponta para a simetria entre as unidades dominadas e
as pris7es orientadas pelas diretri>es do Comando*
('M
de um pC$lico mais e4periente, os c8amados ladrão estruturado, adolescentes 9ue transitaram
por distintas unidades dominadas e 9ue, portanto, merecem considera"ão e respeito por parte
de seus compan8eiros de camin"ada, 9ue, sempre 9ue poss)vel, recorrem H torre /ustamente
por recon8ecêla como a posi"ão de maior prest)gio e autoridade no conte4to das dominadas,
8a/a visto 9ue os adolescentes ali internados, al@m de serem mais e4perientes, encontramse
diretamente ligados aos mem$ros do PCC* ; os caras que t0m o contato mais pró$imo*
Al@m de servir como referência para os disciplinas 9ue atuam nas unidades
dominadas, vêse 9ue a torre, ao mesmo tempo em 9ue pode ser compreendida como um
posto 8ier#r9uico
(MM
, na medida em 9ue transmite orienta"7es aos pilotos de outras cadeias,
deve ser entendida como um território espec)fico 9ue, dependendo da con/untura, deslocase
para outros espa"os institucionais
(ML
*
:o #arque dos Constros, diferentemente das dominadas, os disciplinas não se
dividem em setores, fa$inas e pilotos, so$retudo por9ue a própria din2mica institucional
impossi$ilita a e4ecu"ão de determinadas fun"7es por parte dos internos* :a Unidade de
1nterna"ão (, todos falam em nome da torre, mesmo por9ue a camin"ada dos adolescentes os
8a$ilita a agir de tal maneira* Da mesma forma 9ue transmitem orienta"7es para outras
cadeias, @ importante salientar 9ue os internos 9ue tiram uma cota na torre tam$@m rece$em
informa"7es so$re o modo de funcionamento de outras unidades* +s disciplinas 9ue não
seguem as diretri>es do Comando, ao c8egarem na torre, serão co$rados* Pedro, al@m de
enfrentar os espancamentos por parte dos agentes de seguran"a da Unidade de 1nterna"ão (,
antes mesmo de ingressar na nova unidade, sa$ia 9ue estava sendo aguardado* Afinal, os
relatos so$re as agress7es gratuitas ocorridas na U1&R /# 8aviam sido transmitidos H torre*
-li era só disciplina que ia. Disciplina de 8ila Caria, de &aposo Eavares, 1ranco da
&oc"a, só dessas cadeias, GJ, G?. -ve Caria, Duando c"egamo lá, parecia que os cara
tava esperando. :s cara falouA
(MN

(MM
A torre, assim como os setores, os fa$inas, os encarregados e os pilotos, não est# vinculada a su/eitos
espec)ficos* Ao atentarmos para a narrativa de Pedro, veremos 9ue os internos enviados H torre permanecem em
tal espa"o institucional por um per)odo de, no m#4imo, trinta dias, acontecimento 9ue não resulta na elimina"ão
de tal posto* Como /# es$o"ado anteriormente, isso se deve ao fato de 9ue os postos 9ue constituem a 8ierar9uia
presente nas unidades dominadas são ocupados de forma transitória*
(ML
:a @poca em 9ue Pedro esteve internado no comple4o do ;atuap@, a torre era locali>ada em tal espa"o
institucional, mais especificamente, na Unidade de 1nterna"ão (&, 9ue, como vimos, tam$@m a$rigava o toque
geral do comple4o* Ao 9uestionar o adolescente so$re o motivo pelo 9ual a U1(& 8avia dei4ado de ser
recon8ecida como torre pelos disciplinas de outras unidades dominadas, Pedro enfati>ou 9ue, o Eatuapé /á tava
desativando. =á tava tudo indo pra 8ila Caria* Gale ressaltar 9ue a Unidade de 1nterna"ão (&, assim como a U1
(, tam$@m era destinada aos reincidentes graves, adolescentes 9ue tin8am diversas passagens pela F030%*
(MN
+ di#logo descrito, segundo meu interlocutor, foi travado pelas $ocas de ralo e4istentes nos 9uartos*
('L
5orre: "ei, colou quem da NI a*)
3edro: é o #edro.
5orre: então #edro, c0 é fa$ineiro lá em cima né) : que que tá acontecendo lá)
3edro: eu e$pliquei tudin"o.
5orre: quem tá na frente da situação)
3edro: eu falei os nomes.
5orre: então, o bagul"o é o seguinte, o bagul"o se repercutiu aqui em bai$o, certo. 'ós
vamos a* trocar uma ideia pra ver se voc0s voltam pra dentro da cadeia ou se daqui
mesmo /á volta pro seguro.
3edro: . dá ideia meu amigo, foi quase uma noite inteira de ideia ZconversaY reunião[.
8oc0 suava, eu pensavaA t< fodido. Erancado aqui sem poder sair, esses cara vai matar
nóis, eu não vou aguentar não.
5orre: porra, voc0 tava lá mano.
3edro: p<, eu cometi uns erros sim, mas...
5orre: não, não quero saber. Cesmo voc0 não tendo feito, voc0 consentiu, se voc0 não
tivesse gostando porque voc0 não saiu) 7ai da cadeia mano, passa a camin"ada
(MJ
, mas
não fica mano, quem cala consente.
3edro: . vai ideia, vai ideia e os cara c"egou no resumo Zresolu"ão[*
5orre: é o seguinte, foi pro sumário Zesp@cie de /ulgamento[ e a resposta do sumário é
o seguinte. (! foi dada oportunidade pra voc0s, porque nóis geralmente tamo
trabal"ando com oportunidade, entendeu) :s monstros Zintegrantes do PCC[ falou pra
nóis que era pra trabal"ar com oportunidade, que era pra evitar de mandar nego pra
fora da cadeia, é pra somar, não pra dividir. .ntão, foi dada oportunidade, voc0s vão
voltar pra cadeia de voc0s. 8oc0s vão voltar pra lá e vão tirar esse maluco Zpiloto da
U1&R[* #isou o pé lá tira ele, manda pro seguro, manda quem tiver do lado dele pro
seguro também e voc0s assume a situação. C"ega lá e tira ele, fa+ um catadão lá,
c"ama uns moleque bom pra somar com voc0s e é o seguinte, voc0s vai colocar essa
disciplina láA mais ideia com os funcionário. #rocura negocia mais do que agir com
força, se for o caso de agir, age. Cas negocia mais. Cais progresso Z$enef)cios[ pra
população, é o certo pelo certo. 1a+ um corre de biriri
(MO
, mantém contato com as
outras cadeias e lá fora também Z#reas ur$anas em 9ue os irmãos atuam[*
Apesar de compactuar com a atua"ão conden#vel dos disciplinas da Unidade de
1nterna"ão &R e, portanto, transgredir uma norma do Comando, a sa$er, não a$usar da
autoridade perante os internos da população, Pedro não foi enviado ao seguro, acontecimento
9ue, caso ocorresse, impossi$ilitaria o seu deslocamento pela 8ierar9uia*
+s adolescentes 9ue falavam em nome da torre, após avaliarem o ocorrido,
consideraram 9ue o mais importante era retomar o controle da unidade, vista pelos internos
como uma cadeia do Comando* Para tanto, era necess#rio 9ue os fa$inas retornassem H U1&R
e afastassem os disciplinas 9ue 8aviam permanecido na frente da situação* Por mais 9ue o
adolescente estivesse receoso 9uanto a uma poss)vel agressão por parte dos internos da torre,
(MJ
#assar a camin"ada, nesse caso, significa comunicar a situa"ão aos irmãos do Comando*
(MO
1a+er o corre do biriri @ o mesmo 9ue conseguir um telefone celular*
('N
esses cara vai matar nóis, notase 9ue tal acontecimento era improv#vel* Afinal, não faria o
m)nimo sentido se Pedro e os outros fa$ineiros fossem agredidos, 8a/a visto 9ue o
recon8ecimento concedido H torre est# intimamente relacionado ao fato de 9ue os
adolescentes ali internados, na medida em 9ue encontramse estreitamente ligados aos
integrantes do Comando, seguem as orienta"7es do #artido H risca* :s monstros falou pra
nóis que era pra trabal"ar com oportunidade*
0m certo sentido, vêse 9ue a passagem do adolescente pela torre significou outro
momento de aprendi>agem* Pedro, ao rece$er inCmeras instru"7es, tornase um ladrão mais
estruturado, isto @, amplia os seus con8ecimentos acerca do modo de opera"ão do Comando*
Se fortalece perante os internos 9ue permaneceram na Unidade de 1nterna"ão &R, so$retudo
ante os disciplinas 9ue agiram como vermes* + retorno H cadeia
(MI
, assim como no dia em 9ue
o /ovem rece$eu a not)cia de 9ue seria desinternado, foi marcado pela emo"ão* Pedro, 9ue
meses depois sairia carregado nos $ra"os de (N' internos, desta ve>, era aguardado com
ansiedade pela população da NI*
(! c"egamo lá terçaLfeira 9 tarde e só fomo atracar Zentrar na unidade[ na quarta
depois do almoço. . quando nóis c"egamo lá, passou um funcionário e viu que nóis
tin"a c"egado. :s caras Zinternos da população[ tava esperando nóis desde terçaLfeira.
C"egamo lá foi festa, todo mundo recebeu com abraço. -* /á c"egamo e avisamoA cola
os fa$ina. Colou os fa$ina e colou o =oca Zpiloto[* C"egamo no =oca e falamoA a* =oca,
é o seguinte. .le /á veio na intenção de perguntar qual que tin"a sido a ideia lá porque
ele sabia que o c"icote tava estralando pro lado dele
(MR
. .le falouA e a* mano, e a ideia
lá) 'óis falamoA não, calma a* que voc0 vai ter o seu parecer. 1omo pro barraco,
c"egando no barracoA é o seguinte =oca, trocamo ideia lá e o respaldo foi que voc0 tem
que sair da cadeia. . eleA não mano, eu vou correr atrás da min"a situação. ZPedro[,
mano, voc0 não tem que correr atrás de nada, voc0 vai é sair da cadeia, é pra sair ou
nóis vai tirar voc0. . vai ser estabelecida a nova fa$ina. -cordamo no dia seguinte e
cad0 o =oca) 8a+ou, Zpediu seguro, recorreu H prote"ão dos agentes institucionais[*
:o 9ue concerne H tra/etória de meu interlocutor, notase 9ue a $reve estadia ao lado
dos adolescentes da torre configurouse como um momento c8ave* 0m primeiro lugar, por9ue
aos ol8os dos internos da U1&R, o adolescente 8avia retornado da U1(, o #arque dos
Constros, acontecimento 9ue, por si só, o tornava mais e4periente e preparado para e4ecutar
novas fun"7es no cotidiano da cadeia* 0m segundo lugar, por9ue o /ovem regressava com a
(MI
Após M' dias de permanência no #arque dos Constros, os internos regressavam Hs suas respectivas unidades*
+ retorno, ao mesmo tempo em 9ue permitia a transmissão de comunicados enviados pela torre, significava,
para alguns adolescentes, como @ o caso de Pedro, uma nova oportunidade de deslocamento pela 8ierar9uia*
(MR
+ piloto sa$ia 9ue a sua situa"ão perante os adolescentes da torre era e4tremamente complicada*
('J
incum$ência de afastar os antigos disciplinas e instaurar um novo comando* Para tanto, estava
autori>ado a falar em nome da torre e, no limite, em nome do PCC* Fato 9ue, associado aos
acontecimentos $iogr#ficos /# es$o"ados, o 8a$ilitava a ocupar o posto de toque*
8oc0 volta mais estruturado né veio) 8olta mais...eu /á tin"a uma ideia, não vou falar
que eu /á não tin"a uma ideia, mas voc0 volta dali mais...começa a trocar ideia com os
caras lá, mais e$periente, reincidente, com umas G, O, @ passagem. -* voc0 acaba
voltando com a mente mais blindada
(L'
. .u voltei pra fa$ineiro com uma vo+ /á mais,
entendeu) .u voltei pra fa$ina porque eu quis. #orque os caras queriam me /ogar o
toque Z9ueriam 9ue Pedro assumisse o posto de toque[*
Apesar de meu interlocutor ter contrariado a vontade de seus compan8eiros de
camin"ada, vale notar 9ue após o afastamento do antigo piloto da U1&R, tal posto passou a
ser ocupado por um adolescente 9ue, assim como Pedro, 8avia retornado do #arque dos
Constros* Contudo, dias depois, a lideran"a de Piol8o seria 9uestionada*
(! foi estabelecido que na cadeia não podia ter galin"agem Z$rincadeira[ de mão, isso
a* o próprio #iol"o falou. -*, o que que aconteceu) .u fui dormi 9 noite, pagar Ztirar[
um descanso, tava cansado pra caral"o, correndo o dia inteiro, dormi que eu nem vi.
'o outro dia, quando eu levantei, aquela cadeia tava uma +ona de pasta, os cara
c"ama de pomo. #ega papel "igi0nico, enc"e de pasta e taca na cara dos outros. Eava
uma +ona, -* eu levantei mac"o e faleiA
3edro: cola os disciplina a*, vamo ver o que tá acontecendo.
3io1o: o que que tá pegando)
3edro: p<, /á não falou que não era pra ter galin"agem.
3io1o: não, mas eu liberei.
3edro: mas não tem essa de liberar.
3io1o: não, então, voc0 tá batendo de frente com a min"a ideia)
3edro: eu não to batendo de frente véio, voc0 é que não tá agindo certo. 1alou que não
era pra ter, não é pra ter. 'inguém é mel"or que ninguém. .ntão porque não libera na
ZU1[ N? e na ZU1[ NO pra ver o que vira essa be$iga, nego vai começar a trocar soco no
pátio. ; o seguinte. 7e continuar desse /eito, eu t< me afastando da fa$ina.
3io1o: a" é, voc0 tá batendo de frente) 7e voc0 não tá contente, voc0 sai da fa$ina ou
assume o toque dessa porra.
3edro: eu não quero.
3io1o: agora não tem dessa, assume que eu não vou mais assumir.
3edro: da* ele renunciou. -* os caras Zda população[ falouA a*, voc0 c"amou a ideia,
não vem dá pra trás agora não. 'ão vai ficar sem toque essa porra não. -* eu faleiA
então dá essa be$iga aqui,
(L'
Para meus interlocutores, o adolescente 9ue possui a mente blindada @ capa> de suportar situa"7es de e4trema
tensão sem demonstrar o m)nimo descontrole*
('O
+ relato descrito acima evidencia 9ue no conte4to das unidades dominadas não $asta
atentar para as desigualdades e4istentes entre disciplinas e população* U preciso considerar as
tens7es permanentes 9ue atravessam as lideran"as, afinal, os disciplinas não devem ser
compreendidos como um grupo em 9ue não 8# tens7es internas*
+ sucesso ou o fracasso da9ueles 9ue encontramse associados H posi"ão de lideran"a
depende dos pe9uenos gestos cotidianos* 0m tal conte4to, cada movimento deve ser
minimamente calculado* Piol8o
(L(
, por e4emplo, ao enfati>ar 9ue a galin"agem na cadeia
estava proi$ida, não poderia ter voltado atr#s sem consultar os seus compan8eiros de
camin"ada, so$retudo os disciplinas* Ao agir de tal maneira, o piloto tomou uma atitude
isolada, algo 9ue deve ser evitado nas cadeias do Comando
(L&
*
As lideran"as, como ressaltam meus interlocutores, devem $uscar o consenso, o 9ue
não significa 9ue as decis7es tomadas na cadeia contam com o apoio de todos os
adolescentes* :o limite, a Cltima palavra, caso os internos não c8eguem a um acordo, @ dos
disciplinas* 'óis é que assume né sen"or. ; nóis que tá na frente da cadeia <piloto da U1&R,
comple4o de Franco da -oc8a=* 0m determinados momentos, 9uando os impasses impedem
9ue os disciplinas c8eguem a uma decisão con/unta, a responsa$ilidade recai so$re os pilotos,
8a/a visto 9ue tais adolescentes são considerados o cérebro da cadeia
(LM
* :esse sentido, vêse
9ue o principal erro de Piol8o consistiu em não consultar as opini7es das outras lideran"as
(LL
*
De fato, conforme se avan"a na 8ierar9uia, notase 9ue a toler2ncia em rela"ão aos
erros diminui* Se os setores podem cometer determinadas fal8as, o 9ue não resulta no
afastamento imediato do posto ocupado, na medida em 9ue tais adolescentes encontramse em
processo de aprendi>agem, para os pilotos, 9ual9uer desli>e pode ser determinante* .le
assumiu o toque da 1ebem ou de cadeia ou de qualquer coisa, ele tá com a cabeça na faca
mano <fa$ina da Unidade de 1nterna"ão MI, comple4o -aposo ;avares=*
(L(
:a @poca em 9ue ocorreu a discussão entre Pedro e Piol8o, segundo a narrativa de meu interlocutor, não 8avia
distin"ão entre toque geral e toque da cadeia* : #iol"o era o toque, da NI e o toque geral*
(L&
3iondi <&'(', p*&'&, grifo da autora=, ao discorrer so$re o modo de opera"ão do PCC, enfati>a 9ue Pas
decis7es não podem ser tomadas por um só irmão ou, como di>em os presos, Vdecis7es não podem ser isoladasV*
U por isso 9ue as pris7es contam sempre com mais de um piloto e @ tam$@m por tal ra>ão 9ue recorrem Hs torres
nos casos de decis7es consideradas importantes* 0ssa @ uma forma de evitar atitudes isoladas 9ue anunciariam
9ue algu@m dese/a ser mais do que o ComandoQ*
(LM
A narrativa de meu interlocutor, ao discorrer so$re a import2ncia dos disciplinas, mostrase prof)cua, os piloto
é o cérebro da cadeia, os setor é o sangue, os encarregado são os braço, os fa$ina é a veia e a população é o
corpo <adolescente da população, U1&N, comple4o de Franco da -oc8a=*
(LL
Caso a população e os outros disciplinas não aderissem H proposta de Piol8o, o piloto não poderia contrariar a
vontade dos internos* +s adolescentes 9ue ocupam o posto de toque, apesar de terem autoridade suficiente para
tomar a decisão final 9uando os disciplinas não entram em acordo, como veremos adiante, não devem bater de
frente com a opinião geral da cadeia*
('I
;endo em vista tais considera"7es, argumento 9ue 9uanto mais se avan"a na
8ierar9uia, mais se est# fragili>ado* +s internos 9ue ocupam o posto de toque, diferentemente
do 9ue afirmam os agentes institucionais, não estão livres do sistema normativo 9ue recai
so$re todos os adolescentes* Pelo contr#rio, al@m de serem os principais respons#veis pela
instaura"ão da disciplina do Comando, os pilotos devem servir como e$emplo, não só para a
população, mas tam$@m para os outros disciplinas* Al@m disso, @ importante ressaltar 9ue tais
adolescentes são responsa$ili>ados pelos irmãos no 9ue concerne ao funcionamento da
cadeia, fato 9ue os coloca em uma posi"ão de prest)gio, mas, ao mesmo tempo, de risco*
Pedro, ao 9uestionar a atitude de Piol8o, acontecimento 9ue resultou na renCncia do
adolescente, tornase piloto da cadeia* %eses depois, o seu modo de atua"ão ao longo das
negocia"7es travadas com o diretor da Unidade de 1nterna"ão &R seria 9uestionado* As
constantes reclama"7es por parte da população, $em como dos outros disciplinas, fariam com
9ue meu interlocutor tirasse a camisa
(LN
*
1oi nessa época que o 1abr*cio c"egou. .le ficou de geral Ztoque[ e eu fiquei da cadeia
Ztoque[. 7ó que era uma sintonia só. -té nisso da* eu não tin"a conquistado nada, não
tin"a feito nada, não tin"a mudado nada. -* pegamo firme, pegamo firme não, eu
peguei firme. Erou$e a roupa do mundão. Depois consegui a comida do mundão. -*, eu
e o 1abr*cio começamo a botar o bagul"o pra andar. . tava indo legal. -*, foi quando
eu e o >uan Zfa$ina[ meio que se estran"amo lá, que parou a cadeia. #orra nóis tava
conquistando tudo, tava indo devagar. .u sou um cara mais racional, entendeu) .u
não gostava de estourar, fuga era só na "ora certa. . os cara Zos disciplinas[ querendo
estourar e eu faleiA não, não vai. ZLuan[, voc0 tá indo contra os bagul"o, isso não é
certo. 3sso começou no barraco. Começou uma gritaria, meu irmão, .les queria
estourar, queria ir embora. 'um dava, naquela época não dava. 'óis tin"a acabado de
c"egar da 8ila Caria, tava uma pressão lascada pra cima de nóis, qualquer coisa os
cara entrava, /á tava a 7-# ali, num dava. . eleA não, vamo. . euA não, não vamo. -*
ele falouA voc0 não é digno de estar na frente da situação. -* o bagul"o estran"ou. -* o
negócio...eu faleiA como é que é) 'ão sou digno) .ntão é o seguinteA convoca a cadeia
a*. Convocou a cadeia lá na sala de v*deo. - população na parede, os fa$ineiro no
meio. -* vieram matando em cima de mim. ZDisciplinas[, p< #edro, voc0 não tá
querendo, o bagul"o é progresso. ZPedro[, mano, não dá, não dá e eu não vou fa+er.
Duer fa+er, voc0s fa+. 1icou um negócio feio. -*, eu faleiA quer saber, toca essa be$iga.
Eirei a camisa e /oguei no c"ão. 1alei pros caraA toca essa be$iga a*. . os caraA voc0
tirou a camisa no bagul"o, .u faleiA toca, não tá bom pra voc0s. -* eu me afastei.
Ao contraporse H opinião dos outros disciplinas, $em como dos adolescentes da
população, Pedro colocouse em situa"ão delicada* De fato, bater de frente com a opinião
(LN
+ ato de tirar a camisa significa a$rir mão da lideran"a*
('R
geral da cadeia não configurase como uma estrat@gia prudente* Wuando os em$ates assumem
propor"7es de tal magnitude, a ruptura tornase inevit#vel, ou se/a, algu@m vai cair
(LJ
*
Contudo, vale salientar 9ue o desfec8o de tal discussão, para meu interlocutor, poderia ter
sido ainda mais doloroso* Ao tirar a camisa, Pedro PoptouQ por a$andonar o posto de toque
da cadeia, evitando assim, 9ue 8ouvesse a necessidade de uma interven"ão direta por parte
das outras lideran"as* Ao solicitar o próprio afastamento, impediu 9ue os disciplinas
decidissem por ele, mostrando 9ue, apesar das dificuldades, ainda detin8a o controle so$re a
sua própria camin"ada* Al@m disso, manteve a sua opinião at@ o Cltimo instante, provando
para os outros ladr(es 9ue a sua palavra não fa+ curva*
Gale notar 9ue tal atitude não significa 9ue o afastamento se/a definitivo* Por diversas
ve>es, pude constatar 9ue alguns adolescentes, após solicitarem o afastamento, rapidamente
reassumiam o posto dei4ado em a$erto* Pedro, por e4emplo, em um curto espa"o de tempo,
voltou a atuar como fa$ina* .u tava entediado da população* 'ão tem como mano, voc0
acaba voltando* :o entanto, em meio aos Pata9ues do PCCQ, mais especificamente, no dia em
9ue ocorreram as re$eli7es no comple4o de Franco da -oc8a, o adolescente, mesmo 9ue por
um $reve instante, assumiu o posto de toque, sem 9ue para isso fosse necess#rio o$ter
9ual9uer autori>a"ão dos outros disciplinas
(LO
* Se no in)cio de sua camin"ada, o deslocamento
pela 8ierar9uia estava atrelado H transferência de outras lideran"as, $em como ao poss)vel
convite feito pelos frente da cadeia, no presente momento, a situa"ão era outra* Pedro, 9ue /#
8avia transitado por distintas unidades dominadas e, at@ mesmo, pela torre, go>ava de
legitimidade suficiente para atuar como toque, sem mesmo estar vinculado a tal posto*
De fato, se atentarmos para a tra/etória de meu interlocutor, veremos 9ue o
encerramento da medida socioeducativa de interna"ão trou4e mudan"as significativas* +
antigo grupo de amigos, os caras da -##, se desfe>* %uitos foram mortos, outros estão
presos* As constantes negocia"7es travadas com os agentes institucionais, $em como a
adrenalina 9ue envolve tais em$ates, tam$@m cessaram* Atualmente, a possi$ilidade de falar
em nome do Primeiro Comando da Capital praticamente ine4iste* :o entanto, constatase 9ue
nem tudo são mudan"as* Permanecem as angCstias familiares, a impossi$ilidade de seguir
com os estudos e o descontentamento com o tra$al8o* ;alve>, diante de tal conte4to,
possamos compreender a vontade de voltar*
(LJ
:esse caso, cair @ o mesmo 9ue a$andonar o posto ocupado*
(LO
Pedro, /untamente com os dois pilotos da U1&R, deu in)cio H re$elião* Al@m disso, vale lem$rar 9ue o
adolescente comandou as negocia"7es com os policiais do C"oque, fun"ão atri$u)da aos pilotos*
(('
(.0 As dominadas a$ós os 6ata4ues do 3CC7: 58io entra em cena
Do lado de dentro das mural8as da U1&R, o $arul8o @ ensurdecedor* As portas de a"o
9ue servem para trancar os internos em seus respectivos 9uartos, ao rece$erem c8utes e
pontap@s, produ>em um som estrondoso* Ao mesmo tempo em 9ue os agentes institucionais
entram em alerta, 8a/a visto 9ue as dolorosas recorda"7es do dia (N de maio permanecem
vivas, os adolescentes comemoram* A not)cia de 9ue Pedro ser# desinternado /# foi
comunicada H cadeia* ;ratase de uma $oa oportunidade para feste/ar a sa)da do /ovem, 9ue
merece considera"ão e respeito por parte de seus compan8eiros* A emo"ão @ intensa* +s
internos se a$ra"am* As l#grimas rapidamente vêm aos ol8os*
: dia que o #edro saiu, até a ZU1[ NO cantou a liberdade /unto. .les cantaram a
liberdade, aquela re+a que eles fa+iam lá na quadra, perto do muro da NO. .les
pegaram o #edro, levantaram ele assim...nos braços. .le ficou em cima e eles re+ando,
todo mundo em volta. . a NO re+ando /unto. .les quebraram todos os trincos das portas
Zdos 9uartos[, todos, de tanto bater <funcion#ria do setor pedagógico da Unidade de
1nterna"ão &R, comple4o de Franco da -oc8a=*
Pedro, após cumprir medida socioeducativa de interna"ão, @ li$ertado* Seus Cltimos
instantes dentro da cadeia são nos $ra"os da população 9ue, /untamente com os outros
disciplinas, agradecem pelos inCmeros servi"os prestados* Para a9ueles 9ue acompan8aram a
atua"ão de meu interlocutor, so$retudo durante as re$eli7es 9ue e4plodiram em Franco da
-oc8a, tratase de uma perda inestim#vel* Afinal, se atentarmos para os movimentos adotados
pelo /ovem durante os Pata9ues do PCCQ, veremos 9ue, aos ol8os dos outros ladr(es, Pedro
teve uma atua"ão e4emplar* Al@m de condu>ir as negocia"7es travadas com os policiais da
;ropa de C8o9ue, suportou as agress7es dos integrantes da SAP sem permanecer calado*
0ntre coron8adas, c8utes e socos, não perdeu a oportunidade de enfati>ar 9ue a Unidade de
1nterna"ão &R era uma cadeia do Comando* <c= nóis fec"a lindo, não tem essa não*
;Clio, 9ue ingressou na unidade poucos meses antes da desinterna"ão de Pedro,
tam$@m comemorou a li$erdade de seu compan8eiro* Assim como os outros internos da
população, carregouo em seus $ra"os* + pouco tempo em 9ue dividiram o espa"o
institucional foi o suficiente para 9ue o /ovem recon8ecesse as 9ualidades do disciplina*
Duando eu entrei, ele /á tava afastado Zdo posto de piloto da cadeia[ porque aconteceu
(((
uns desatrito com ele. 2ns desentendimentos dele lá que eu não lembro direito. Cas eu
sei que ele foi um puta de um cara cabeça pra caramba, inteligent*ssimo. 'ossa, eu
con"eci o #edro, o cara era cabeça pra caramba.
Gale ressaltar 9ue apesar de Pedro ter participado dos motins 9ue destru)ram as
Unidades de 1nterna"ão do comple4o de Franco da -oc8a, acontecimento no 9ual o
adolescente desempen8ou um papel central, meu interlocutor, ao ser desinternado, não pTde
acompan8ar as transforma"7es 9ue ocorreram nas unidades dominadas após os Pata9ues do
PCCQ* Sendo assim, tendo como o$/etivo primordial a refle4ão acerca de tais mudan"as, de
agora em diante, reconstituo a tra/etória de ;Clio* + delineamento de tal tra/etória, ao mesmo
tempo em 9ue au4iliame a prosseguir com as an#lises referentes H configura"ão das unidades
dominadas, permiteme atentar para as escol8as poss)veis da9uele 9ue, assim como Pedro,
tornouse lideran"a*
;Clio, diferentemente de Pedro, 9ue ao discorrer so$re a figura paterna demonstra
arrependimento por têlo espancado, sentese incomodado por recon8ecer 9ue o seu próprio
pai pode ser classificado como um verme* + suposto a$uso se4ual praticado contra uma de
suas irmãs, 9uando a fam)lia ainda estava reunida, permanece em sua memória* A
impossi$ilidade de esclarecer tal acontecimento o angustia*
(! depois que eu tin"a uns quatro anos de idade, min"a mãe separou do meu pai e
veio pra cá tipo fugida né. Eipo um assunto que aconteceu entre ele e a min"a irmã,
mas ninguém prova nada. ; a min"a irmã falando aqui e ele ninguém nunca ouviu.
Eipo ele tentou abusar da min"a irmã, só que eu mesmo não sei a verdade. #orque eu
nunca ouvi da boca dele, entendeu) 'unca mais vi ele, nem lembro dele, nem sei como
que ele é, não sei nem se ele é preto ou é branco. Cin"a mãe nunca quis falar, se eu
pergunto, ela falaA pode ir atrás, se vira. =á tentei ir atrás uma ve+, mas só gastei tempo
e din"eiro. 'ão consigo ac"ar mano, 7ão #aulo é muito grande. .le era açougueiro,
ele era gerente do açougue. 7ó isso que eu me lembro, o resto eu não lembro de mais
nada.
;endo em vista tal acontecimento, a fam)lia de ;Clio, dilacerada pelo 9ue 8avia
ocorrido com uma de suas irmãs, a$andona a capital paulista e deslocase rumo ao interior do
estado de São Paulo, mais especificamente, ao munic)pio de ;remem$@* Diante das constantes
dificuldades financeiras, um ano após a primeira mudan"a, ;Clio e suas duas irmãs,
acompan8ados da figura materna, mudamse novamente, agora para o Par9ue 1panema, $airro
locali>ado no munic)pio de ;au$at@*
((&
. assim fomo construindo a nossa vida aos poucos cara. - min"a infWncia assim...tipo
foi igual a de uma criança normal mano, brincando, tudo. 7ó o que mudava era dentro
de casa. Dentro de casa eu via droga todo dia, via arma todo dia. . pra mim era a
rotina normal né mano. .u cresci e aprendi, convivi com isso quase a min"a vida toda
né. .ntão, eu não aprendi essas coisas na rua. .u não aprendi com o crime na rua, eu
aprendi com o crime dentro de casa. Dentro de casa eu aprendi o que era o certo e o
que era o errado, entendeu) -*, isso foi vindo, foi vindo, foi vindo...primeiro, é lógico,
quem eu vi sendo presa foi a min"a mãe, a min"a mãe e o meu e$Lpadrasto.
Gêse 9ue a mudan"a de residência possi$ilita o surgimento de outro ator, o padrasto
de ;Clio 9ue, ao lado de sua mãe, sustenta a fam)lia com o din8eiro o$tido nos corres Za"7es
criminosas[* %omento em 9ue as armas, assim como as drogas, aos poucos, come"am a fa>er
parte da rotina do garoto, 9ue tin8a entre seis e sete anos de idade* Com o passar do tempo, as
a"7es praticadas pelos mem$ros da fam)lia intensificamse, propiciando um estilo de vida
9ue, at@ então, era inimagin#vel*
.le era do corre mesmo, o cara gan"ou muito din"eiro, muito din"eiro mesmo.
Eambém...ele fa+ia de tudo. #ra voc0 ter uma noção foi ele que levantou esse
lugar+in"o aqui Zo adolescente se refere ao fato de 9ue o seu e4padrasto foi o primeiro
a fundar um ponto de venda de drogas na região[. . cansava de gan"ar din"eiro cara,
era um quilo de farin"a Zcoca)na[ por semana. Eodo final de semana nóis tava em
2batuba, pra voc0 ter uma noção, todo final de semana. #ra voc0 ter uma noção do
tanto de din"eiro que o cara levantava.
Aos on>e anos de idade, a cadeia separaria ;Clio e sua mãe pela primeira ve>, o in)cio
de uma ruptura 9ue se estenderia por toda a sua adolescência, 8a/a visto 9ue LCcia, após ser
li$ertada, seria presa novamente em outras duas ocasi7es* A prisão do casal por tr#fico de
drogas, após a pol)cia invadir a residência da fam)lia, acontecimento 9ue sim$oli>a o primeiro
contato do garoto com a for"a policial, fe> com 9ue o /ovem fosse temporariamente acol8ido
por sua irmã mais vel8a* Para meu interlocutor, seria o fim de suas divertidas viagens H
U$atu$a, litoral norte do estado de São Paulo*
1iquei com a min"a irmã. Cin"a irmã tem N@ anos. Eem pouca diferença de idade. .u
ten"o N?, ela tem N@, a min"a outra irmã tem NG. Duando a min"a mãe foi presa, foi ela
que me deu uma força porque eu fiquei na casa dela e do meu cun"ado. -té a min"a
mãe sair. Cin"a mãe saiu, min"a mãe foi lá e me buscou. .u fui morar com a min"a
mãe. Ceu e$Lpadrasto saiu Zda cadeia[ também, da* eles ficaram /untos. Cin"a mãe
ficou /unto com o meu e$Lpadrasto por on+e anos.
((M
As lem$ran"as relacionadas ao seu e4padrasto 9ue, en9uanto esteve ao lado de LCcia,
era um cara respeitado, atualmente, cedem espa"o a uma mistura de pena e incompreensão*
Afinal, o din8eiro ad9uirido ao longo das a"7es criminosas e a reputa"ão constru)da perante
os ladr(es da quebrada, após a separa"ão do casal, transformaramse em fuma"a* A9uele 9ue
um dia ensinouo o que era o certo e o que era o errado, no presente momento, gasta todas as
suas energias no consumo de crac.*
.le tá largado, ele mora lá no #arque 3panema. -li naquele mesmo terreno que eles
tin"am constru*do um puta de um casão da "ora, ele com a min"a mãe, um casão que
eu vou falar pra voc0, muita gente queria. . eles mesmos destru*ram a casa, botaram a
casa pro c"ão por causa de uma briga deles. .les mesmos falouA não vai ficar pra mim,
não vai ficar pra voc0, então, não fica pra ninguém. Botaram a casa pro c"ão. 8oc0
passa lá "o/e em dia é só entul"o. : cara gan"ou muito din"eiro, "o/e ele é nóia
mesmo cara, se voc0 v0 ele dá até dó. : cara era respeitado pra caramba entendeu,
muita gente tin"a até medo dele, "o/e em dia ele é um pobre coitado, um pobre coitado,
dois moleques de do+e anos bate nele. : que ele mais odiava, "o/e em dia ele é. 'óia
de c"upa a lata mesmo. #orra, um cara que gan"ou din"eiro pra caramba, que era
respeitado na quebrada e tudo. So/e em dia ele parece um menino. ; triste, mas voc0
vai falar com o cara, o cara não quer mais parar, a vida dele é essa, tá ligado)
A narrativa do adolescente, ao discorrer so$re a tra/etória de tal personagem, perde
intensidade* + movimento corporal acompan8a o ritmo da fala* As mãos agitadas, 9ue num
primeiro momento simulam armas, aos poucos, descansam so$re a mesa* A empolga"ão @
su$stitu)da pela triste>a e, em alguns momentos, pelo despre>o 9ue envolve a figura do nóia*
+ crac., 9ue nas falas de meus interlocutores @ capa> de fa>er com 9ue o viciado tro9ue a
própria mãe por uma Cnica pedra, transforma o padrasto de ;Clio, ladrão respeitado, em um
pobre coitado, 9ue vaga pelas ruas da cidade com as roupas esfarrapadas, os dentes
apodrecidos, os dedos amarelados e alguns centavos no $olso, prontos para serem gastos
assim 9ue o cac8im$o estiver novamente va>io
(LI
*
;Clio, ao tentar seguir os passos de LCcia e seu e4padrasto não o$teve ê4ito* + in)cio
de seu envolvimento com o tr#fico de drogas, aos (& anos de idade, um ano após a prisão do
casal, foi marcado pelo descontentamento* A $ai4a remunera"ão, o tra$al8o incessante e o
(LI
Gale ressaltar 9ue nas unidades dominadas o consumo de crac., assim como ocorre nas institui"7es prisionais
em 9ue os irmãos atuam, costuma ser evitado e at@ mesmo proi$ido* Segundo os internos, tal medida teria sido
adotada pelo Comando por9ue o v)cio em crac., entre outras coisas, causa inCmeros conflitos entre a9ueles 9ue
vendem e a9ueles 9ue consomem* Conforme salientam meus interlocutores, em virtude do r#pido efeito
proporcionado pelo uso de tal droga, o viciado est# sempre disposto a ad9uirir novas pedras de crac., mas nem
sempre 8onra com os compromissos assumidos*
((L
relacionamento conflituoso travado com os nóias da quebrada, 9ue o atormentavam durante
as crises de a$stinência, o fi>eram desistir da biqueira*
-", primeiro eu tentei traficar, tá ligado) 'ão gostei. 3sso com ?N anos. .u tin"a ?N
anos, da* eu fui traficar. 1aleiA a", é muito pouco din"eiro. : negócio não rende, só dá
confusão, só dá dor de cabeça, nóia enc"endo o saco o dia inteiro. Da* eu faleiA a",
quer saber, não gostei. &esolvi parar. -*, trabal"ei, trabal"ei durante uns seis meses em
uma c"ácara aqui na região. -*, foi quando aconteceu o acidente na min"a mão Zo
adolescente mostra um dedo mutilado[*
Após a iniciativa frustrada de tra$al8ar no com@rcio de drogas, meu interlocutor, 9ue
nessa @poca ainda morava com a sua irmã mais vel8a, considerada pelo adolescente como a
Cnica pessoa 8onesta da fam)lia, 8a/a visto 9ue a sua outra irmã tam$@m se envolveu com a
pr#tica de crimes
(LR
, consegue um emprego em uma c8#cara locali>ada na >ona rural do
munic)pio de ;au$at@, per)odo em 9ue ;Clio divide os seus afa>eres cotidianos entre o
tra$al8o na ro"a, as idas H escola e os pe9uenos assaltos*
Se as atividades desenvolvidas na biqueira rapidamente desagradaram o garoto,
tempos depois, tornouse evidente 9ue o tra$al8o na lavoura não representava a solu"ão
ade9uada para os pro$lemas financeiros enfrentados na9uele momento* De fato, o estilo de
vida 9ue 8avia caracteri>ado a inf2ncia do /ovem, após a apari"ão de seu e4padrasto,
marcado pelas constantes viagens H praia, $em como pela fartura dentro de casa, estava cada
ve> mais distante, a não ser pelos assaltos reali>ados esporadicamente 9ue, em compara"ão
com o sal#rio o$tido na ro"a, propiciavam uma $oa 9uantia financeira*
0m meados de &''M, dois acontecimentos simult2neos provocariam uma verdadeira
reviravolta na vida de ;Clio* A perda de parte de um dos dedos da mão direita durante a lida
na ro"a, associada ao seu primeiro fracasso escolar, fariam com 9ue o /ovem canali>asse todas
as suas energias para a reali>a"ão de a"7es criminosas*
Cara, sempre fui pra escola, sempre gostei de escola. .u parei de ir pra escola por
questão de eu ter repetido um ano, tá ligado) 2m ano que eu repeti assim me deu uma
desanimada né. -* teve o acidente na min"a mão, que foi na c"ácara. 3sso desanimou
também né mano, da* eu faleiA a", o bagul"o é se envolver de ve+. =á tin"a feito alguns
(LR
Da Cltima ve> em 9ue nos encontramos, em setem$ro de &'(', num $ar locali>ado na região central de
;au$at@, a irmã do adolescente estava cumprindo pena em um esta$elecimento prisional* Ao discorrer so$re as
suas irmãs, ;Clio enfati>a 9ue, tem uma irmã min"a Z9ue o acol8eu en9uanto sua mãe esteve presa[ que mora lá
no #iratininga, que nunca me$eu com nada cara, super sossegada. . tem a outra que é cavernosa. ; a do meio.
- do meio, nossa, ; um bic"o. =á é a terceira ve+ que ela vai presa.
((N
assaltos. .u falava assimA a", agora se/a o que Deus quiser.
Ao lado dos compan8eiros da quebrada, ;Clio intensifica as suas a"7es* +s pe9uenos
assaltos cedem espa"o Hs fitas mais rent#veis* A 9uadril8a, 9ue se fortalece a cada corre $em
sucedido, tornase cada ve> mais ousada* Aos poucos, as aten"7es de seus integrantes voltam
se para os postos de com$ust)veis, os grandes supermercados e as mans7es de gente famosa,
espa"os 9ue possi$ilitam a arrecada"ão de valores vultosos* Din8eiro 9ue propicia a a9uisi"ão
de motos, carros, roupas, celulares e armas* :as palavras de meu interlocutor, tudo o que um
moleque da min"a idade son"aria em ter* :esse conte4to, em 9ue as not)cias so$re as
atua"7es da 9uadril8a se espal8am pelos /ornais da cidade, a for"a policial @ acionada*
;Clio sa$e 9ue @ preciso ser discreto* Apesar de ad9uirir inCmeros o$/etos de
consumo, evita as apari"7es em pC$lico* Durante $oa parte do dia, o adolescente permanece
entocado dentro de sua casa* Wuando 9uer se divertir, momento prop)cio para ostentar os tênis
sofisticados, as roupas de marca e as correntes de ouro, produtos o$tidos com o din8eiro dos
corres, deslocase para outros munic)pios da região*
0ntre os ladr(es da quebrada, 9ue recon8ecem a $oa performance do grupo, os
coment#rios gan8am for"a* +s integrantes do Comando, 9ue tam$@m atuam na região,
rapidamente se apro4imam* ;Clio prefere manter certa dist2ncia, afinal, a participa"ão nas
fitas de outros ladr(es significa a redu"ão de seus lucros* Ao mesmo tempo, o /ovem
considera 9ue estar lado a lado dos irmãos, aprendendo com eles, @ fundamental*
-", tin"a bastante gente envolvida comigo. :s con"ecido da quebrada mesmo. Cuita
gente morreu, um a min"a irmã matou. -té quando eu fui preso, eu fui preso por
formação de quadril"a. -*, eu fui preso con"ecido como o cabeça, colocaram no
/ornal+in"o de Eaubaté e tudoA TCenor é preso c"efiando quadril"a, mais de ?@
assaltos, porte ilegal de arma, tentativa de latroc*nioU. 1odeu comigo né mano. :s
cara Zos policiais[ tava caçando eu "á dias, só que nunca ninguém descobria que era
eu mano. .u era um cara tão sossegado que se voc0 me visse voc0 ia falarA a", mentira
que esse cara tá no corre.
-", era uma galera envolvida, mas Zna 9uadril8a[ não tin"a ninguém do Comando não
Znão 8avia irmãos[. 3sso a*, pelo menos da min"a parte, eu não gostava. 'a época, eu
falava assimA a" não mano. : que eu gan"ar eu ten"o que repartir com mais gente
ainda) .u fui lá, dei as caras e eu ten"o que repartir com os caras) -" não mano,
dei$a que eu me viro so+in"o então. .u ac"ava assim, entendeu) :u o din"eiro fica só
pra quem fe+ ou não fica pra ninguém. .u pensava assim. 'ão ac"ava /usto algumas
coisas. #<, eu que fui lá catar o negócio e ten"o que dar GJK pra um cara que eu nem
((J
con"eço, nunca vi na vida. #or isso que eu não gostava muito de me envolver Znesse
trec8o, o adolescente se refere ao fato de 9ue, certa ve>, foi procurado por um irmão 9ue
l8e propTs a reali>a"ão de um assalto* Segundo o /ovem, o irmão teria dito 9ue as armas
utili>adas na fita seriam disponi$ili>adas por ;Clio e 9ue, al@m disso, L' d do lucro
o$tido na a"ão deveria ser repassado ao Comando* %eu interlocutor, após uma r#pida
discussão, recusou a proposta feita pelo irmão[*
.u con"ecia os caras Zirmãos[, tin"a ami+ade, colava com eles e tal. 7empre tava
conversando com os caras, aprendendo com eles. 7ó que quando os cara falavaA a*,
vamo fa+er tal fita com nóis) .u respondia, a" não, t< sossegado. Z3rmãos[, a", mas
voc0 não fa+ tal, tal, tal fita) Z;Clio[, a" não, não faço mais não, t< parando. Eipo, eu
metia o louco Zarriscava[* #ra sobreviver né mano. 'esse mundo né mano, voc0 não vai
ficar dando a cara a tapa. .u sempre fui sossegado cara, coisa lig"t mesmo. : bagul"o
era só din"eiro e mul"er. 7ó curtição.
+s ladr(es 9ue atuavam ao lado de ;Clio, diferentemente da postura adotada pelo
/ovem, al@m de participarem de algumas fitas com os integrantes do Comando, administravam
alguns pontos de venda de drogas controlados pelo #artido*
+ fato de meu interlocutor não participar de a"7es criminosas /unto aos irmãos não
significa 9ue o adolescente, ao longo de sua camin"ada, não ten8a ad9uirido um profundo
con8ecimento acerca do modo de opera"ão do Primeiro Comando da Capital* .u sabia como
tudo andava Zfuncionava[, até "o/e eu sei* Al@m disso, vêse 9ue seguir as orienta"7es dos
integrantes do #artido não implica em su/eitarse H vontade dos irmãos* Ao recusar a oferta de
um mem$ro do PCC, ;Clio não dei4ou de orientar as suas a"7es de acordo com os preceitos
do Comando, mesmo por9ue, o certo é o certo*
Cara, não tem e$plicação o que que é o certo e o que que é o errado. : errado é o
errado e o certo é o certo. ; certo me$er na latin"a Zno momento da entrevista o /ovem
tomava um refrigerante[\ ; certo. .ntão, pronto e acabou. ; errado não me$er, é
errado não me$er. 'ão tem e$plicação, tá ligado) 8oc0 tem que saber o que que é o
certo e o que que é o errado. 'o dia a dia do que voc0 vai vendo, do que tá certo, do
que tá errado, se é certo ol"ar pra frente ou não, se é certo fa+er tal coisa ou não.
#orque é todo um...tipo é uma bola de neve enorme. 8oc0 tem que conviver com aquilo
Zcom o Comando[, tem que aprender com aquilo.
0m meados de &''N, a e4atos tre>e dias de completar (J anos, ;Clio parte para a
Cltima missão ao lado de seus compan8eiros* Após reali>ar mais de 9uin>e assaltos, 9ue
8aviam rendido uma $oa 9uantia financeira H 9uadril8a, o adolescente est# confiante* As
((O
armas, revólveres cali$re MI e pistolas semiautom#ticas, /# estão carregadas* + carro desloca
se pelas ruas de ;au$at@ em alta velocidade* 0m poucos instantes, os assaltantes c8egam ao
endere"o esperado, a mansão de um dos propriet#rios da cerve/aria 3ra8ma* U preciso
controlar a ansiedade, colocar os capu>es, acertar os Cltimos detal8es e, no momento certo,
cair pra dentro
(N'
*
.ra a mansão do dono da Bra"ma, aqui mesmo em Eaubaté. .ra &Y NJJ mil dólar.
Bagul"o de louco. #ra seis caras. 'a época, o dólar valia quase &Y G. .ra &Y 5JJ mil
limpin"o. =á tin"a até comprador e tudo, o cara ia pagar pra nóis &Y HJJ mil. #ra nóis
valia a pena né mano. #ra quem mais nóis ia vender) Dif*cil de ac"ar um cara que
compre tudo assim, na lata. Eem que ser bagul"o de louco mesmo né mano, voc0 perder
um pouco pra gan"ar bastante. -*, deu errado, nóis fomos pra fuga, eu me desviei,
entrei dentro do #ão de -ç6car. Ein"a um carro forte, o segurança do carro forte /á viu
eu com a arma em pun"o, o cara /á se preparou também, a* eu fui e coloquei a arma na
cintura, fui e catei uma bicicleta no estacionamento. 'essa da* meu parceiro também
catou outra bicicleta, nóis fomos na fuga de bicicleta. : bagul"o não tin"a outra
escol"a, nóis /á tin"a desviado dos outros caras Zparceiros de ;Clio[, os caras /á tin"a
sumido. 'óis tava vindo embora quando...faltou coisa de uma avenida pra nóis
atravessar pro lado da min"a casa, uma viatura resolveu dá geral na gente, por
coincid0ncia. -* meu parceiro se desesperou, /ogou o revólver e eu fui tentar sacar Za
arma[. -*, encostei no muro. :s dois policia, com a arma em pun"o, mandaram eu
largar a arma. . eu segurando a arma aqui na cintura, na mão mesmo, uma pistola.
1rente a frente com eles. -*, eles falouA larga a arma, larga a arma. -*, eu ia sacar, meu
parceiro começou a falar assimA a* mano, larga a arma cara, voc0 vai morrer mano. 7e
voc0 sacar, voc0 vai morrer. . eu /á encostado na parede. .u faleiA não mano, nóis vai
embora. . eleA voc0 vai morrer cara, se voc0 sacar, voc0 vai morrer. -*, entrei em
desespero né mano, /á tava desesperado. : coração vem a mil né. 'ão tive outra
escol"a. -*, eu larguei, na "ora que eu larguei /á era, os cara mandou eu deitar no
c"ão. 1iquei deitado no c"ão até c"egar as outras viaturas, porque eu sei lá, ac"o que
os cara tava meio em c"oque Zcom medo[ de me colocar na parede, dá geral, por causa
de eu ter reagido. -*, a "ora que c"egou os outros policia /á era. :s cara mandou eu
me levantar devagar, mandou eu levantar a blusa. .u levantei a blusa, eles viram que
não tin"a mais nada. -*, /á era, é só coro mesmo, o coro /á começou a comer ali no
meio da rua.
Após ser agredido pelos policiais 9ue o a$ordaram, so$retudo por ter cogitado a
possi$ilidade de reagir H ordem de prisão, ;Clio, ao inv@s de ser encamin8ado H delegacia
mais pró4ima, foi o$rigado a condu>ir os policiais militares H sua residência* Se a situa"ão do
adolescente /# era preocupante, na medida em 9ue o /ovem estava sendo procurado pela
pol)cia 8# v#rios dias, acusado de ter cometido uma s@rie de outros crimes, em poucos
(N'
+ mesmo 9ue entrar, invadir a residência*
((I
minutos, tornouse ainda pior* Durante uma r#pida revista pelos cTmodos da casa, os policiais
encontram armas, drogas, cart7es de cr@dito e tal7es de c8e9ue, al@m das inCmeras correntes
de ouro e prata e de uma $oa 9uantia em din8eiro, apro4imadamente -f M*''',''* ;ais
o$/etos, con9uistados com o suor de tantos e tantos corres, aos poucos, vão sumindo dentro
dos $olsos dos policiais militares* .les foi levando tudo o que tin"a pela frente pra eles. 'a
min"a nota de culpa constou só &Y NIG. . os cara ainda queria mais mano*
A c8egada de ;Clio ao distrito policial seria marcada por mais dificuldades* As v)timas
das a"7es da 9uadril8a, entre as 9uais, o dono de um esta$elecimento comercial 9ue 8avia
perdido -f (I*''','' durante um assalto, com o passar dos dias, comparecem H delegacia
para fa>er o recon8ecimento dos acusados* As altas cifras mencionadas ao longo dos
depoimentos despertam o interesse dos policiais, 9ue prop7em um acerto
(N(
*
- 6nica tentativa Zde acerto[ foi na "ora que eu tava na delegacia, que Eaubaté é foda
né, acontece alguma coisa vai todo mundo na delegacia recon"ecer. Da*, teve um
assalto que eu fi+ que me recon"eceram. &econ"eceram. .ra &Y ?H.JJJ, &Y ?5.JJJ pra
ser mais e$ato, com os quebradin"os. -* eles queriam o din"eiro de tudo quanto é /eito
né. Due aconteceu) .les colocaram eu numa viatura, algemado pé e mão, eu até pensei
que tava indo embora pra 1ebem. Due nada cara, eles levaram eu de quebrada,
levaram eu de quebrada lá numa estradin"a de terra. .u so+in"o. -* c"egou na
quebrada lá, eles falaramA então, fala pra nóis onde tá o din"eiro, nóis libera voc0,
voc0 vai embora. Z;Clio[, a* sen"or, não tem din"eiro nen"um não, o 6nico din"eiro que
tem /á tá no bolso do sen"or. 'a "ora que eu falei isso ele abriu a min"a boca,
arregaçou com a min"a boca, só sangue. -* ele me /ogou no c"ão e deu dois tiro do
meu lado. . falouA t< ligado que voc0 não vai dar o din"eiro, então voc0 vai ter que
caguetar Zentregar os outros integrantes da 9uadril8a[. Z;Clio[, a", então pode me matar
sen"or. . foi o dia inteiro cara, o dia inteiro. -pan"ei, apan"ei, apan"ei, trocou o
plantão, apan"ei, apan"ei, apan"ei. .u era bocudo na época entendeu, qualquer
negócio eu $ingava. :s outros vin"a falar comigo, eu falavaA a", vai tomar no seu cu.
-*, quando foi de+ "oras da noite resolveram colocar eu pra dentro do corró Zcela[. -*,
quando eu entrei dentro do corró eu /á tava quase desmaiando. 'a "ora que colocaram
eu pra dentro do corró eu quase ca*, da* um moleque lá que também se encontrava
preso, de #indamon"angaba, ele que me deu uma força nesse dia. >avou a min"a boca,
deu um bagul"o pra mim comer e eu desmaiei. Da*, quando foi seis "oras da man"ã os
cara /á acordou eu de novo. ZPoliciais[, vamo que "o/e tem mais. Da* foi cara, foi uns
sete dias direto. .u tava no limite, a cara tudo en$ada, a costela doendo até umas "ora,
peito todo ro$o. .u tava estragado cara. .u pensavaA nossa, eu vou morrer na mão
desses caras. -*, eu fui até fa+er e$ame de corpo de delito nesse meio tempo. 1ui no
corpo de delito, da* eu comecei a falar néA a* sen"ora, me mac"ucaram aqui, assim,
(N(
+ acerto, 9ue nas comunidades do -io de 6aneiro tam$@m @ con8ecido como arrego, @ o pagamento oferecido
pelos indiv)duos 9ue foram apreendidos pela pol)cia, mas 9ue tentam evitar o encamin8amento H prisão* ;al
e4pressão @ comum entre os ladr(es, so$retudo entre os traficantes de drogas, 9ue procuram assegurar o
funcionamento de suas biqueiras por meio de pagamentos rotineiros H for"a policial*
((R
assim, assado. -* veio um policial por trás dela e falou assimA coloca o que tem que
colocar a* e /á era. .la colocou que eu não apresentava "ematoma e não tin"a sido
agredido. -*, o policial saiu na porta lá do lugar e falou assimA corre. Da* eu faleiA eu
não vou correr. Da*, o outro na /anela /á com a arma em pun"o falou assimA corre
mano, nóis dei$a voc0 ir embora. Eipo pra mim correr pra eles matar eu né mano
porque eles estavam querendo matar eu de qualquer /eito. -* eu faleiA eu não vou
correr, daqui eu não saio. Da*, eles pegaram, algemaram eu de novo, colocaram dentro
da viatura e falaramA então, se voc0 não vai querer ir embora, vamos voltar lá pra
delegacia pra voc0 apan"ar mais um pouco. 1iquei de+ dias no corró, entendeu) Ein"a
um con"ecido meu lá que era carcereiro, muito gente boa, mora aqui perto. C"egou no
dia de eu ir de bonde Ztransferência[, eu falei pra eleA puta, eu não quero ir mano. .le
começou a c"orar, ele começou a c"orar cara, Da* ele pegou e falou assimA monta na
viatura e vai embora mano. 7e voc0 ficar aqui, os caras vai matar voc0. -ntes voc0 vivo
na 1ebem do que voc0 em Eaubaté morto. 8ai embora, isso a* vai passar rápido...não
treta Z$riga[ mais com os caras, monta na viatura e vai embora, mel"or coisa que voc0
fa+. -*, fui pra 2-3, da 2-3 fui pra 23#L@, da 23#L@ fui pra 1ranco da &oc"a.
+ adolescente, assim como Pedro, permanece na delegacia al@m do tempo permitido
pelo 0CA, procedimento 9ue, segundo os internos, @ fre9uentemente adotado pela autoridade
policial* :o caso de ;Clio, tal irregularidade e4plicase pelo fato de 9ue, aos ol8os dos
policiais, o /ovem possui algo 9ue os interessa, o din8eiro dos corres* :a impossi$ilidade de
o$ter tais valores, os policiais, ao menos, tentam fa>er com 9ue meu interlocutor manc8e a
sua reputa"ão perante os ladr(es da quebrada* Para tanto, pressionam o /ovem para 9ue ele
denuncie os outros integrantes da 9uadril8a* ;Clio encontrase em situa"ão delicada* Sa$e 9ue
se caguetar os compan8eiros de camin"ada pode sofrer as conse9uências de tal atitude dentro
da cadeia, afinal, se tais informa"7es c8egarem aos ouvidos dos disciplinas, o destino do
adolescente pode ser o seguro* Por outro lado, tem consciência de 9ue, se permanecer calado,
ser# recon8ecido pelos outros ladr(es como algu@m 9ue fec"a com o certo* Diante de tal
situa"ão, a mel8or sa)da, ainda 9ue e4tremamente dolorosa e 8umil8ante, @ seguir apan8ando*
;Clio não desiste* 0ntre as constantes sess7es de espancamento ela$ora um plano de
fuga, 9ue ser# colocado em pr#tica durante a sua transferência para a Funda"ão 0stadual do
3em0star do %enor, mais especificamente, para a Unidade de Atendimento 1nicial* +
adolescente aguarda o momento certo* + $alan"o da viatura dificulta a a"ão* As armas, 9ue
antes de ;Clio ser capturado pela pol)cia eram os seus principais instrumentos de tra$al8o, dão
lugar a um simples clips enferru/ado*
-", na 2-3 eu /á c"eguei apan"ando. 'a 2-3, eu c"eguei lá...eu tin"a tentado abrir a
algema dentro da viatura e não consegui, o clips quebrou lá dentro. 'a "ora que
(&'
c"egou lá os cara queria engolir eu vivo porque eles não conseguiam abrir a algema.
-pan"ei até umas "ora, apan"ei pra caramba e eles tentando abrir a algema e não
conseguiam. -*, foi um cara da 2-3 lá, um funcionário da 2-3 mesmo, um dos mais
opressores que tin"a lá, c"egou e falou pros policiaA se voc0s continuarem batendo
nesse moleque do /eito que voc0s estão batendo, ele não vai entrar aqui. #ode voltar
com ele de onde ele veio. Da*, foi onde que os policia resolveram parar de me bater.
Conseguiram desalgemar, c"amaram um cara lá, um perito pra desalgemar.
Colocaram eu pra dentro da 2-3, tudo, da* tive que passar na enfermaria. - mul"er
pediu pra eu tirar a roupa, tive que tirar toda a roupa pra ela, puta vergon"a, .la
pegou e falou assimA nossa, fi+eram tudo isso com voc0) 'ossa, acabaram com voc0.
Cas, o que voc0 fe+ pra eles) .u faleiA não fi+ nada, eu sou inocente sen"ora Zrisos[*
A cena se repete* ;Clio, da mesma forma 9ue Pedro, ao c8egar na Unidade de
Atendimento 1nicial, @ agredido* + modo de opera"ão institucional @ o mesmo* :o lugar das
roupas pessoais, o uniforme* Ao inv@s do ca$elo personali>ado, a cabeça pelada* + corpo do
adolescente, assim como o de Pedro, deslocase pelo espa"o institucional da mesma maneira*
:a UA1, não 8# escol8a* ;odos reprodu>em os mesmos movimentos, licença sen"or, licença
sen"ora, cabeça bai$a, mão pra trás*
+ /ovem aguarda a transferência para uma Unidade de 1nterna"ão Provisória* Durante
a sua $reve estadia na UA1, apro4imadamente seis dias, meu interlocutor completa (J anos* A
saudade do mundão @ intensa* %omento prop)cio para 9ue ;Clio relem$re alguns instantes do
passado, so$retudo o anivers#rio de (N anos, feste/ado ao lado dos compan8eiros da
quebrada* As $e$idas, as drogas e a comida em grande 9uantidade, 9ue 8aviam caracteri>ado
tais comemora"7es, no presente momento, são su$stitu)das pelo suco amargo, o fei/ão
estragado e os espancamentos gratuitos*
-pan"ei no dia do meu aniversário, no dia do meu aniversário cara, . por causa de
água. 7ó porque eu pedi água pro cara Zagente de seguran"a[. .u falei pro caraA o",
não tomo esse suco aqui não. #orque o suco era "orr*vel, o fei/ão tava estragado, tudo
era "orr*vel cara. -* eu faleiA o", dei$a eu tomar um pouco de água no ban"eiro) -* o
funça perguntou pra mim de onde que eu era. .u faleiA eu sou de Eaubaté. Da* ele
falouA Eaubaté só tem cara folgado. -* eu faleiA voc0 /á foi lá pra ver) -* o cara
destruiu comigo né. Ce moeu na porrada.
:a Unidade de 1nterna"ão Provisória <U1PJ=, espa"o institucional para o 9ual ;Clio
foi transferido, vêse 9ue as confus7es não cessam* Se nas unidades dominadas as agress7es
entre os internos são proi$idas pelos disciplinas, 8a/a visto 9ue tais confrontos demonstram
9ue a cadeia não est# unida, o 9ue, do ponto de vista das lideran"as, sim$oli>a a falta de
(&(
sintonia com a disciplina do Comando, nas unidades na mão dos funça, os em$ates entre os
/ovens, ainda 9ue não se/am fre9uentes, tornamse poss)veis*
Eive um atrito com um moleque lá, bati nele. : moleque era meio que aliado dos funça.
.le foi querer folgar comigo, a* eu faleiA pára cara, não gosto de confusão, não gosto
de confusão. Eeve uma "ora que ele me irritou né, quando ele me irritou, eu subi ele na
porrada Zagrediu o interno[. Duando eu subi ele na porrada, os funça subiu eu na
porrada também. -* um funça foi tentar me bater, um fraquin"o lá, eu /oguei ele no
c"ão. -*, quando eu /oguei ele no c"ão, foi a pior coisa que eu fi+. :s outros funça me
moeu na pancada.
Após alguns dias de interna"ão provisória, per)odo marcado por uma Cnica atividade, a
sa$er, ficar sentado o dia inteiro vendo televisão, o futuro de ;Clio seria decidido* +
adolescente, 9ue ficaria por 9uase três anos afastado de ;au$at@, retornaria H cidade apenas
para comparecer H audiência /udicial* + /ovem, ao relem$rar os coment#rios proferidos pelos
policiais 9ue o escoltaram ao fórum da cidade, sentese orgul8oso pelo recon8ecimento
concedido H sua camin"ada*
- &:E- não acreditou na "ora que eles viram a min"a fic"a aqui em Eaubaté, eles não
acreditaram cara. .les foram aqui dentro do fórum e falaramA o", quem que é o fulano
de tal) Z;Clio[, sou eu. ZPoliciais[, cara, é voc0 que tem mais de de+essete assaltos) .u
faleiA sou eu sen"or. ZPoliciais[, mentira, imposs*vel, não foi voc0. Z;Clio[, não fui eu
mesmo, é isso que eu estou tentando provar aqui. ZPoliciais[, imposs*vel cara. 1oi voc0
que deu um tiro num pol*cia durante um assalto) : cara tá a*, tá furioso com voc0. .u
faleiA não fui eu.
.ssa fita do policia foi o seguinte manoA eu fui tentar fa+er um assalto, o cara tava lá,
de civil, normal. .ra um bagul"o que tin"a aqui em Eaubaté de material de construção,
tá ligado) .ra outra fita dada também. .ra pra catar &Y 4N mil. -*, o cara viu e tentou
sacar Za arma[, na "ora que ele tentou sacar, eu dei Zalguns tiros[. -*, eu dei e pegou na
barriga dele e varou na bunda. -*, ele se escondeu atrás de um bagul"o de pia. .u dei
mais quatro no bagul"o de pia pra ver se acertava. 'ão acertou, da* ele ficou
escondido lá e nóis fomos embora.
A estrat@gia de negar todas as acusa"7es perante o /ui> da Gara da 1nf2ncia e
6uventude, entre as 9uais, porte ilegal de arma, tentativa de latroc)nio, rea"ão H prisão e
forma"ão de 9uadril8a, rapidamente mostrouse em vão* ;Clio, ao ser 9uestionado so$re a
participa"ão em um assalto reali>ado a um posto de com$ust)veis, recon8ece 9ue a resposta
concedida H autoridade /udicial não foi a mais ade9uada*
(&&
.ra uma coisa que eu neguei que eu não podia ter negado. Ein"a uma filmagem e eu
não sabia cara. Da*, o /ui+ e o promotor falou assimA voc0 tem certe+a que não foi
voc0) .u falavaA eu ten"o certe+a sen"or. . elesA voc0 tem certe+a mesmo) Z;Clio[,
ten"o certe+a. ZPromotor[, então, nós vamos provar o contrário, que foi voc0. Da* eu
faleiA não tem como sen"or, não fui eu, não tem como o sen"or provar um negócio que
não fui eu. ZPromotor[, não foi voc0) Eá bom então. #ode entrar. Da*, ele mandou
entrar uma televisão com v*deo cassete, os caral"o a quatro, eu penseiA a", mentira
mano. -*, ligou o bagul"o, parou a filmagem, parou eu de cara com a cWmera, com o
revólver apontado. 'ão tin"a nem como eu falar. Da* o promotor começou a falarA e
esse a*, quem é) 7ou eu ou é voc0) -* eu abai$ei a cabeça e penseiA /á era mano.
Apesar de ter sido considerado inocente em rela"ão ao episódio 9ue resultou na troca
de tiros com o policial H paisana, na medida em 9ue não 8aviam provas suficientes contra o
adolescente, meu interlocutor não pTde contar com a mesma sorte no 9ue concerne aos outros
crimes praticados* 7obrou ?@ assaltos, porte ilegal Zde arma[, reação 9 prisão, formação de
quadril"a, sobrou muita coisa***
;endo em vista o 8istórico de ;Clio, os Cnicos locais seguros para a$rigar o
adolescente, considerado de alta periculosidade pelos integrantes do corpo funcional, eram as
unidades dominadas* De fato, os ladr(es considerados mais perigosos, 9ue possuem uma
longa camin"ada no crime, costumam ser enviados para tais Unidades de 1nterna"ão 9ue, do
ponto de vista dos funcion#rios, são as cadeias mais seguras, no sentido de 9ue as mural8as,
as gaiolas e a presen"a cont)nua do C"oquin"o dificultam as tentativas de fuga* Al@m disso,
vale notar 9ue a permanência de tais adolescentes em outros espa"os institucionais, so$retudo
nas unidades classificadas como na mão dos funça, procura ser evitada ao m#4imo, 8a/a visto
9ue, segundo os agentes institucionais, os ladr(es estruturados podem contaminar os /ovens
menos e4perientes, 9ue ainda possuem alguma c8ance de serem reintegrados H sociedade*
-", em 1ranco da &oc"a, quando eu c"eguei ali muitos Zfuncion#rios[ /á estavam
sabendo que ia c"egar alguém...o que eles c"amavam de #BB ZPrim#rio, !rave,
!rav)ssimo[. .u c"eguei lá, eles /á ol"aram na min"a lista e falaramA voc0 é de boa,
como que voc0 é) Eipo a diretora que falou comigo primeiro né...o 'élson Zcoordenador
da #rea de seguran"a[ c"amou eu pra conversar também. .le falouA então, aqui nós
somos da segurança. #edimos pra voc0 não causar Ztumultuar[ na unidade. Eira a sua
Zcadeia[ de boa, tranquilo, que isso vai pro seu relatório. .le e$plicou pra mim como
que funcionava. Da*, ele viu como eu era tranquilo e falouA voc0 é uma pessoa tão
tranquila, não aparenta ser #BB igual tá na sua pasta. .u faleiA a", não ten"o culpa
que eles me condenou. .u até falei pra eleA eu queria ser transferido pra 7ão =osé dos
Campos. Da* ele falouA eu vou levar voc0 até a técnica Zassistente social 9ue
acompan8aria o caso de ;Clio[. 8oc0 vai con"ecer a técnica e é ela que tem que
(&M
resolver isso pra voc0. Da*, eu fui. Ceu primeiro atendimento foi com a 'orma. -
'orma até tentou me transferir. Eeve uma ve+ que ela ligou lá e me colocou pra escutar.
-*, os caras Zda unidade de São 6os@ dos Campos[ falouA nós não aceitamos uma
pessoa desse n*vel aqui.
As instru"7es fornecidas pelos funcion#rios da Unidade de 1nterna"ão &R, espa"o
institucional no 9ual o adolescente cumpriria a medida socioeducativa de interna"ão, não
eram tão relevantes* ;Clio, assim como todo novato 9ue c8ega Hs unidades dominadas, sa$ia
9ue as orienta"7es realmente importantes seriam transmitidas assim 9ue ele cru>asse o Cltimo
portão de a"o rumo H cadeia*
- primeira coisa que os caras Zos disciplinas[ fala éA aqui é cadeia do #CC. -qui é do
#CC, a influ0ncia aqui é do Comando. 'óis não aceita patifaria e não aceita =acQ
Zestuprador[. 7e voc0 fe+ alguma coisa de errado lá no mundão /á fala agora, porque se
mais pra frente nóis descobrir, voc0 vai ser cobrado pela mentira. Dia de visita voc0
não pode levantar a camiseta, não pode bater pun"eta. :s cara passa tudo a
camin"ada. -* bele+a, depois disso eles falaA agora é com voc0, daqui em diante é com
voc0. 8oc0 v0, aqui nóis t0m tudo isso Zroupa do mundão, gel para o ca$elo, comida do
mundão, 9uartos a$ertos no per)odo noturno, etc[ e mais um pouco que nóis quer
conquistar. 'aquela época, a intenção dos caras era sempre conquistar mais e mais...
:a Unidade de 1nterna"ão &R, vêse 9ue a din2mica @ outra* As mãos entrela"adas para
tr#s se movimentam livremente* +s cortes de ca$elo, e4ecutados pelos próprios adolescentes,
ad9uirem formatos variados* As tatuagens, ela$oradas com m#9uinas improvisadas, estampam
mensagens na pele dos ladr(es
(N&
* As visitas reali>adas pelas namoradas dos adolescentes, 9ue
nas unidades na mão dos funça acontecem pelos corredores, nas dominadas, ainda 9ue os
agentes institucionais protestem contra tal situa"ão, ocorrem nos 9uartos dos internos, o 9ue
muitas ve>es acarreta gesta"7es indese/adas*
;Clio nota as diferen"as em seu próprio corpo* + uniforme utili>ado na Unidade de
Atendimento 1nicial, $em como na Unidade de 1nterna"ão Provisória, caracteri>ado pela cal"a
ca9ui, camiseta $ranca e c8inelo, cede espa"o H roupa do mundão* + /ovem entra na cadeia
(N&
Ao longo da pes9uisa pude notar 9ue os adolescentes tatuavam diversas imagens em seus corpos, entre as
9uais, caveiras, fu>is, metral8adoras, serpentes, artigos do Código Penal como, por e4emplo, (NO <assalto H mão
armada=, e4press7es como amor só de mãe e, inclusive, o lema do Comando* +s pal8a"os, geralmente retratados
com diversas armas e sacos de din8eiro, constitu)am uma das preferências dos adolescentes* Al@m disso, tam$@m
era recorrente o desen8o em 9ue cinco pontin8os pretos são cravados em uma das mãos do interno* A disposi"ão
de tais pontin8os, um no meio e 9uatro em volta, segundo os /ovens, significa 9ue 9uatro ladr(es estão prestes a
assassinar um policial* Gale ressaltar 9ue durante as a$ordagens reali>adas pela pol)cia tais imagens são
utili>adas na identifica"ão dos indiv)duos 9ue /# tiraram uma cota na cadeia e 9ue, portanto, aos ol8os da
autoridade policial, são sempre suspeitos*
(&L
vestindo cal"a /eans e camiseta vermel8a* :os p@s, um par de tênis da marca :i.e* Se as
correntes de ouro não tivessem sumido nos $olsos dos policiais militares 9ue o prenderam,
provavelmente, estariam penduradas em seu pesco"o*
Gale notar 9ue o modo de opera"ão dos disciplinas da Unidade de 1nterna"ão &R
assemel8ase H conduta adotada pelas lideran"as 9ue rece$eram Pedro na Unidade de
1nterna"ão (, comple4o do ;atuap@* ;al constata"ão devese ao fato de 9ue os frente da
cadeia se esfor"am para manter as unidades dominadas no mesmo ritmo dos espa"os
prisionais orientados pelas diretri>es do Comando, o 9ue não significa 9ue tais Unidades de
1nterna"ão, apesar de apresentarem semel8an"as entre si, funcionem da mesma maneira* De
fato, notase 9ue 8# varia"7es entre as cadeias dominadas* 0m primeiro lugar, por9ue as
orienta"7es transmitidas pelos irmãos não c8egam Hs unidades ao mesmo tempo* Se as
lideran"as de um determinado espa"o de interna"ão, por e4emplo, perdem os telefones
celulares durante as revistas reali>adas pelo C"oquin"o, os disciplinas, caso não dispon8am
de outro meio para acessar os irmãos, $em como os internos de outras unidades dominadas,
podem permanecer isolados por longos per)odos, acontecimento 9ue, como enfati>a ;Clio,
dei$a a cadeia meio sem rumo* 0m segundo lugar, @ preciso levar em considera"ão o fato de
9ue as negocia"7es travadas com o corpo funcional produ>em particularidades, afinal, a9uilo
9ue @ aceito pelo diretor de uma determinada unidade nem sempre @ permitido por outro*
;Clio, ao entrar no p#tio da unidade, @ rece$ido pelos disciplinas, 9ue rapidamente
transmitem alguns informes acerca do modo de funcionamento da cadeia* Assim como
aconteceu com Pedro, as lideran"as procuram o$ter informa"7es so$re a camin"ada do
rec@mc8egado 9ue, caso ten8a cometido alguma atitude indevida no mundão, ser# enviado ao
seguro* 1niciase, então, o per)odo de o$serva"ão, momento em 9ue os disciplinas, so$retudo
os fa$ineiros, avaliam a postura adotada pelo interno no cotidiano da cadeia* Se o adolescente
demostrar 9ue @ capacitado para atuar /unto Hs lideran"as, isto @, para somar com a disciplina,
em pouco tempo ele rece$er# o convite*
'a min"a visão, ser capacitado é muita coisa, muita coisa cara. #rimeira coisa é a
"umildade. #orque se o cara não tem "umildade, tipo...se o cara quer sempre ser mais,
sempre estar certo, sempre estar na ra+ão cara, não é cab*vel nem fodendo ele entrar
em uma fa$ina, porque se ele entrar, ele vai bater a nave Zvai cometer erros[. : cara
tem que estar ciente do que ele está fa+endo, estar muito ciente mesmo porque se ele
entrar de ol"o fec"ado...tipo na emoção sabeA a", eu quero ser piloto. .u quero ser
piloto e pá, todo mundo vai querer ficar do meu lado, todo mundo vai gostar de mim
porque eu sou piloto. 7e ele pensar assim, o cara vai quebrar, o cara vai quebrar
(&N
porque uma "ora ele vai cometer uma fal"a muito grande. : cara que entra assim
mano, emocionado, ele quebra. -gora, /á o cara que entra com a cabeça mesmo
entendeu, com a intelig0ncia, crendo que é aquilo mesmo que ele quer, que é o bem
mesmo da população, o cara consegue ir pra frente, ele tira a cadeia dele de boa mano,
tira sossegado.
;Clio, com o passar dos dias, demonstra ser um ladrão "umilde* ;rata todos os
compan8eiros de camin"ada como iguais, movimentandose de acordo com o lema do
Comando, mais especificamente, em conson2ncia com o ideal de 3gualdade* Sempre 9ue
algu@m o solicita, mostrase disposto a a/udar* Ao inv@s de emitir opini7es, prefere ouvilas*
Apesar de possuir uma e4tensa fic8a criminal, evita tecer coment#rios acerca de suas a"7es,
e4ceto 9uando @ 9uestionado* Falar e4cessivamente so$re os crimes praticados pode fa>er
com 9ue outros adolescentes pensem 9ue ;Clio dese/a ser visto como mais ousado, mais
perigoso e, portanto, mel8or do 9ue os outros*
:o espa"o de interna"ão, meu interlocutor deslocase com e4trema discri"ão,
so$retudo nos dias em 9ue os familiares dos internos comparecem H cadeia, per)odo em 9ue
os movimentos corporais devem ser minimamente controlados* :os dias de visita não @
permitido tocar nos órgãos genitais, falar palavr7es e ol8ar para as mul8eres 9ue visitam os
compan8eiros* As palavras proferidas em alto tom de vo> tam$@m devem ser evitadas, afinal,
a9ueles 9ue gritam na cadeia, atitude 9ue representa a falta de respeito com as fam)lias dos
outros ladr(es, são repreendidos pelos disciplinas*
A cada conversa travada dentro da Unidade de 1nterna"ão &R, momento em 9ue as
lideran"as transmitem as orienta"7es do Comando, ela$oram as estrat@gias de atua"ão para
manter a cadeia so$ controle e avaliam as opini7es emitidas pelos adolescentes da população,
;Clio apro4imase dos disciplinas, 9ue recon8ecem o potencial do novato*
:s caras Zos disciplinas[ pegava e c"egava em nóisA o", tá acontecendo tal, tal
situação, tem como voc0s colar lá na ideia pra a/udar a gente) Z;Clio[, demorou. .u
colava lá, a/udava os cara entendeu, dava a min"a opinião. -*, tipo assim, os caras Zas
lideran"as[ falava que a opinião de uns cara que /á conviveu com muita coisa era
bastante influente, bastante forte. Cesmo sendo população porque é o seguinteA quem
/á conviveu com muita coisa é mais cabeça, mais mente, /á passou por muito mais
coisa. :s caras trabal"ava em cima disso né. #orque eles também queriam aprender,
porque querendo ou não, mesmo o cara estando na fa$ina, ele tá numa fase meio que
de aprendi+. : cara pode ser piloto e tudo, mas nem tudo o cara sabe. .ntão, tipo, é um
passando pro outro, um aprendendo com o outro. Eipo como se fosse uma escola
mesmo, só que uma escola voltada pro crime, tá ligado) .ntão, tipo, eu sempre tava
(&J
colando nas ideia /unto com os caras. -*, eu fui aprendendo mais, aprendendo mais, os
caras foi me convidando Zpra somar com a disciplina[ e eu negando né, que no começo
eu não queria me envolver.
Aos poucos, o /ovem mostrase preparado para atuar /unto Hs lideran"as* As intensas
e4periências vividas ao lado dos compan8eiros da quebrada, $em como o con8ecimento
acerca do modo de opera"ão do Comando, ad9uirido antes mesmo do adolescente ingressar na
Unidade de 1nterna"ão &R, o tornam, aos ol8os dos disciplinas, um ladrão mais cabeça, mais
mente, que /á conviveu com muita coisa e 9ue, portanto, pode contri$uir significativamente
para 9ue a cadeia continue so$ dom)nio dos internos* :esse conte4to, o convite para 9ue
;Clio ocupe o posto de setor da limpe+a, o mesmo 9ue foi preenc8ido por Pedro no comple4o
do ;atuap@, não tarda a c8egar*
'essa época, eu falavaA não, não quero. Da*, alguns caras Zso$retudo os setores[
falavaA voc0 quer mole+a, quer ir direto pra fa$ina) .u falavaA não, não é que eu quero
ir direto pra fa$ina. - questão é que pra mim esse cargo de setor não me convém mano.
Eipo, os caras via que eu não gostava mesmo do trampo de setor. #uta, eu não gostava
de ficar varrendo pátio, essas coisas, não gosto mesmo. 'ão gosto cara, .u não
arrumava nem o meu barraco, eu pagava pros outros arrumar. .u tin"a de tudo lá
dentro entendeu, tin"a de tudo mesmo cara, tin"a era cem maços de cigarro. :s caras
pagava maior pau né mano pra isso. #<, eu tin"a de tudo né mano. .ra o maior corre
mesmo. Eipo, eu não gostava nem de lavar a min"a roupa mano, pagava pros outros
lavar porque eu não gostava
(NM
.
Diferentemente de Pedro, 9ue na primeira oportunidade aceitou o convite para tornar
se setor da limpe+a, cargo 9ue ocupou durante toda a sua estadia no comple4o do ;atuap@,
;Clio recusa a proposta para somar com a disciplina* + adolescente, apesar de recon8ecer 9ue
tal posto @ um $om come"o para o novato 9ue c8ega H cadeia, na medida em 9ue os
disciplinas podem o$servar se o rec@mc8egado muda a sua conduta após tornarse lideran"a,
tem uns caras que entra pro bagul"o e /á começa a se ac"ar, mostrase insatisfeito com as
fun"7es desempen8adas pelos setores 9ue, vale notar, caracteri>amse pelo tra$al8o $ra"al* A
(NM
:as unidades dominadas, assim como ocorre nos esta$elecimentos prisionais, o cigarro @ o din8eiro da
cadeia* :esse sentido, vêse 9ue os internos esta$elecem alguns valores 9ue au4iliam nas negocia"7es* ;Clio,
por e4emplo, ao solicitar 9ue outro adolescente limpasse o seu barraco, pagava para o e4ecutor do servi"o um
ma"o de cigarros* Da mesma forma, por cada pe"a de roupa lavada, o /ovem desem$olsava cinco cigarros soltos*
Certa ve>, o adolescente mostroume uma cai4a de sapatos repleta de cigarros* Segundo o /ovem, 9ue não
fumava, os cigarros eram o$tidos por meio dos /ogos reali>ados na cadeia, 9ue inclu)am partidas de dominó,
truco, tranca, etc* ;ais eventos eram organi>ados pelos disciplinas 9ue, inclusive, esta$eleciam um limite para as
d)vidas contra)das pelos /ogadores, atitude tomada para 9ue nen8um participante se comprometesse com valores
e4or$itantes, imposs)veis de serem pagos*
(&O
limpe>a dos $an8eiros, das salas de aula e do p#tio interno, enfim, de todos os espa"os 9ue
constituem a Unidade de 1nterna"ão, são atividades 9ue desagradam o /ovem, so$retudo
por9ue, aos ol8os do adolescente, ele /# encontrase preparado para atuar só com a mente*
;Clio aguarda uma nova proposta* + risco do adolescente cair no es9uecimento, isto @,
não ser mais convidado para participar dos assuntos 9ue envolvem o futuro da cadeia, e4iste,
mas @ diminuto* De fato, notase 9ue meu interlocutor sou$e avaliar o conte4to em 9ue se
deslocava* ;Clio pTde se movimentar de tal maneira por9ue sa$ia 9ue era considerado como
uma figura importante pelos frente da cadeia, afinal, $oa parte dos rec@mc8egados 9ue eram
encamin8ados H U1&R na9uele momento, aos ol8os das lideran"as, não eram tão capacitados*
Cuita gente que entrava ali naquela época /á era mais criança cara. Eipo mais voltado
pra criancice. :s caras não se desempen"ava, não trocava uma ideia, não tava nem a*
se o C"oquin"o ia entrar ou não. :s caras não se preocupava muito, os caras queria
tirar Za cadeia[ só na go+olWndia mesmo, deitado, dormindo, comendo, bebendo. :s
caras não se preocupava com o que iria acontecer mais pra frente, os caras não via o
futuro. Eipo, os disciplinas tava sem opção. . a*, é o seguinteA os caras Zas lideran"as[
ac"ava que eu tin"a muita ideia né mano. :s caras falavaA puta mano, o cara é muito
cabeça pra colocar ele num setor+in"o. :s caras convidava eu pro setor e eu negava.
Da*, eles falavaA a", e pra fa$ina) Z;Clio[, pra fa$ina talve+ eu pense. 'aquela época,
os caras ol"ava pra população, os caras falavaA p<, nóis só en$erga voc0 mano
(NL
.
Ainda 9ue o /ovem ten8a recusado o posto de setor da limpe+a, permanecendo entre os
internos da população, constatase 9ue ;Clio continua sendo acionado pelos disciplinas, 9ue
surpreendemse com a postura adotada pelo adolescente no cotidiano da cadeia* Afinal, trata
se de um ladrão 9ue não comete erros, como a9uele praticado por Pedro no comple4o do
;atuap@ 9ue, ao manifestar uma opinião contr#ria H emitida por todos os internos da U1(,
impossi$ilitou o seu deslocamento pelos postos de lideran"a*
As opini7es de meu interlocutor, fre9uentemente solicitadas pelos disciplinas, em
especial, pelos pilotos da cadeia, passam a ser cada ve> mais valori>adas* Diante das
dificuldades enfrentadas pelos frente da situação, 9ue ao o$servarem os adolescentes da
população só en4ergam ;Clio, em pouco tempo, surge um novo convite*
(NL
De fato, a partir de meados de &''J, per)odo a 9ue meu interlocutor se refere, so$retudo na U1&R,
acompan8ei a desinterna"ão de diversos ladr(es estruturados, entre os 9uais, Pedro* Ao mesmo tempo, pude
notar 9ue os agentes institucionais, dentro do poss)vel, evitavam o rece$imento de adolescentes 9ue possu)am
uma longa fic8a criminal, ainda 9ue fossem o$rigados a aceitar alguns /ovens considerados mais e4perientes*
%uitos dos internos 9ue c8egavam H U1&R na9uele momento, diferentemente de ;Clio, não eram classificados
como #BB ZPrim#rio, !rave, !rav)ssimo[* Ao longo das oficinas de comunica"ão, deparavame com muitos
novatos 9ue 8aviam sido presos por terem praticado pe9uenos assaltos, internos 9ue, aos ol8os das lideran"as,
não eram tão estruturados como Pedro e ;Clio*
(&I
.u /á tava muito influente com eles Zos pilotos[, /á tin"a pegado muita ami+ade com
eles. -* eles falaramA cara, não tem mais opção, nóis tá sem opção cara. 'ão que nóis
tá pedindo pra voc0 quebrar o nosso gal"o cara, mas, ou é isso ou voc0 vai ver a
cadeia virar patifaria e não é isso o que voc0 quer. Da*, eu falei pros carasA puta cara,
mas não adianta eu me a/untar com voc0s e não ser o que voc0s querem. Da*, os cara
pegou e falouA não, nóis t0m plena confiança que voc0 vai conseguir. Do seu /eito ou
não, voc0 vai conseguir. Da*, me c"amaram pra fa$ina. .u falei assimA a", demorou
então, vamos ver o que vai dar. 1iquei na fa$ina por um tempo, a* depois eu resolvi me
afastar. .u mesmo resolvi me afastar. .u lembro que tipo eu tava meio de cabeça
quente, eu /á não tava mais aguentando aquelas ideias, não gostava de ver outros caras
sendo corrigidos. #orque do*a né mano. #orra, voc0 ter que bater em um cara que voc0
vai ter que continuar convivendo com ele, não é fácil né)
;Clio, após a insistência dos pilotos, tornase fa$ina* De fato, gerir a cadeia não
constitui tarefa f#cil* 0m geral, os adolescentes 9ue ocupam tal posto, /untamente com os
setores, são os primeiros a levantarem de suas camas e os Cltimos a se recol8erem em seus
barracos, taman8a a 9uantidade de atividades desenvolvidas ao longo do dia*
+s pro$lemas 9ue envolvem a cadeia, desde os desentendimentos entre os /ovens da
população at@ a suspeita de 9ue algum verme pode estar escondido no conv*vio, devem ser
solucionados pelos disciplinas, 9ue, para tanto, sempre estão na ideia
(NN
* Gale ressaltar 9ue os
/ovens da população 9ue cometem erros são avaliados de acordo com alguns crit@rios* 0m
primeiro lugar, devese levar em conta a gravidade do ato praticado, afinal, insultar um
compan8eiro de camin"ada não @ tão grave 9uanto mastur$arse no dia de visita* ;al
avalia"ão, segundo ;Clio, @ e4tremamente necess#ria, 8a/a visto 9ue os erros cometidos não
devem ser punidos com a mesma intensidade*
7ó porque o cara $ingou o outro ali, nóis /á vai subir o cara na paulada) 'ão é assim
que funciona, não é assim que a banda toca cara. #or isso que os caras Zos disciplinas[
t0m que sentar e conversar muito antes de c"egar na decisão final.
+utro ponto importante a ser considerado @ o 8istórico do adolescente dentro da
cadeia 9ue, caso cometa erros sucessivos, mostrando 9ue não est# disposto em a$sorver os
ensinamentos dos disciplinas, sofre puni"7es cada ve> mais severas, 9ue podem resultar em
sua transferência para o espa"o destinado aos vermes, isto @, o seguro*
Apesar das lideran"as priori>arem o di#logo no 9ue concerne H resolu"ão de tais
conflitos, tendo como o$/etivo principal o fornecimento de instru"7es H9ueles 9ue ramelaram
(NN
A ideia @ uma esp@cie de reunião feita pelas lideran"as sempre 9ue alguma decisão precisa ser tomada*
(&R
Zerraram[, em alguns casos, a san"ão adotada pelos disciplinas @ a madeirada Zagress7es
f)sicas[* Gale notar 9ue a aplica"ão de tal medida punitiva @ e4ecutada apenas pelas lideran"as,
mais especificamente, só de fa$ina em diante*
7etor, dependendo da situação, nem vai Znão presencia a aplica"ão da medida punitiva[.
#orque o setor tá aprendendo, tá começando a desenvolver as ideias que nóis
desenvolvia. #orque não era fácil, não era fácil voc0 ter que sentar lá e ficar duas
"oras, tr0s "oras conversando com uma pessoa até entender o que aconteceu. .ra
muito dif*cil, vários caras. -* voc0 col"e a opinião de um, escuta outro, escuta um,
escuta outro, até um errar ali e falar a verdade. -té um não aguentar mais e falarA não
mano, foi isso e isso que aconteceu, essa é a verdade. ZDisciplinas[, a", é isso, então
bele+a, então nóis vai agir assim, assim, assado.
Se antes de assumir o posto de fa$ina o adolescente participava das discuss7es /unto
aos disciplinas, mas não aplicava as san"7es H9ueles 9ue cometiam erros, após ter aceitado o
convite feito pelas lideran"as, a participa"ão de ;Clio passa a ser outra* Wuando algum
adolescente da população toma uma atitude indevida, os fa$inas, os encarregados e os pilotos
vão pra ideia, momento em 9ue tais lideran"as avaliam a situa"ão, ouvem as opini7es
emitidas por todos os envolvidos, c8egam a uma conclusão e aplicam a medida punitiva
considerada como a mais ade9uada*
.m alguns casos era madeirada mesmo. Eeve um manin"o lá, o 6nico de Eaubaté que
foi corrigido. #uta, deu mó dó né mano. : cara ol"a nos seus ol"os e falaA puta, vou
apan"ar. .sse moleque a* tin"a c"amado os caras de verme Zos disciplinas[. 'ossa, até
comigo ele /á tin"a arrumado confusão, tá ligado) .u que mais defendi ele lá dentro
cara. Eipo, eu ali né mano, p< não queria que o cara apan"asse. . eu tentava, falava
com os caras Zcom as lideran"as[, p<, dá uma oportunidade e pá ou então vamo só no
braço. :", teve muita conversa cara, muita conversa mesmo porque muitos ali, por
muitos ali era seguro mesmo. . os cara falavaA p< mano, mas só porque o cara é da
sua quebrada) Z;Clio[, não cara, não é por causa disso. ; que sei lá cara, na min"a
opinião, o cara não merece isso, ele merece ser corrigido dessa forma aqui e não dessa
da*. -*, foi muita conversa, muita conversa, muita conversa. 'as ideias entre a ZU1[ NI
e a ZU1[ NO, ele foi e deu uma mancada lá no meio da ideia. #rimeiro ele disse que não
aceitava o corregimento dele. 'a NI, os cara falando pra ele né...porque os cara falaA
o", voc0 só vai sair Zda cadeia[ com a nossa permissão pra ir pra técnica, voc0 vai
ficar um tempo na nossa visão pra nóis ter certe+a que voc0 não vai caguetar a gente lá
na frente Zna dire"ão[. . ele não aceitou na "ora que os caras da NI falaram isso. 7ó
que na "ora que os caras da NO repetiu a mesma coisa que nóis tin"a falado, a mesma
coisa, ele foi e aceitou. -*, eu penseiA nossa, o cara mesmo se condenou mano. #orque
ele devia ter ficado quieto cara, não ter falado nada. .sperasse os caras da NO falar
também e ele falasse só uma ve+ Zemitisse uma Cnica opinião[, /á que ele tin"a d6vida
(M'
do que ele estava falando. -*, ele bateu a nave. =á era. .u pensei comigoA infeli+mente
mano, o cara vai apan"ar. -*, não deu outra, os caras subiu ele na madeira.
0m algumas ocasi7es, so$retudo 9uando não 8# consenso entre os disciplinas, vêse
9ue a consulta Hs lideran"as de outra cadeia tornase poss)vel, afinal, como enfati>a ;Clio,
quanto mais opinião mel"or* Durante a ideia, 9ue pode durar 8oras e 8oras, os disciplinas
permanecem concentrados* ;ratase de um /ogo de paciência em 9ue todos os participantes
$uscam o esclarecimento dos fatos, a verdade* A descontra"ão, conforme as opini7es vão
sendo enunciadas, cede espa"o H tensão, 9ue produ> corpos 9uase imóveis* + /ovem 9ue est#
sendo avaliado, diante de taman8a pressão, al@m de atentar para os movimentos involunt#rios
produ>idos por seu próprio corpo, 9ue podem sugerir 9ue o adolescente tem algo a temer,
deve tomar cuidado com as palavras proferidas, 8a/a visto 9ue, como ressaltam meus
interlocutores, palavra de ladrão é uma só, não fa+ curva* :esse sentido, notase 9ue os
internos 9ue entram em contradi"ão, como no depoimento acima, assinam a própria senten"a*
De fato, o cotidiano das unidades dominadas caracteri>ase pela intensidade das
e4periências vividas* Se nas unidades na mão dos funça os adolescentes reclamam 9ue nunca
tem nada pra fa+er, é tudo sempre a mesma coisa, nas dominadas, falta tempo para solucionar
todos os pro$lemas da cadeia* U por esse motivo 9ue os disciplinas, en9uanto encontramse
associados H posi"ão de lideran"a, devem dedicar aten"ão total Hs 9uest7es 9ue envolvem o
espa"o de interna"ão* A9ueles 9ue não conseguem desvincularse dos pro$lemas pessoais
dei4ados do outro lado das mural8as, em geral, solicitam o afastamento do posto ocupado,
9ue pode ser preenc8ido novamente assim 9ue as 9uest7es do mundão forem resolvidas*
Contudo, vale salientar 9ue o afastamento tam$@m depende da aprova"ão das lideran"as*
Eive que trocar ideia. #ra e$plicar porque eu queria Zo afastamento[. #orque não era
assim, só c"egar e falarA o", eu quero sair. Eive que trocar bastante ideia, convencer os
caras entendeu, e$pliquei pros caras a situação, tudo e pá. :s caras entendeu e falouA
não, isso mesmo, nóis entendemos. C"egaram numa conclusão, então, que eu estava
afastado. Depois disso não passou muito tempo eu subi de novo, os caras convidaram
eu de novo pra subir pra fa$ina.
+s pro$lemas familiares 9ue atormentavam meu interlocutor, entre os 9uais, as
incessantes tentativas frustradas de visitar a sua mãe na cadeia, associados ao desgaste de
participar de tantas e tantas ideias, eu /á não tava mais aguentando aquelas ideias, não
(M(
gostava de ver outros caras sendo corrigidos, fi>eram com 9ue o adolescente solicitasse o
afastamento da fa$ina aos outros disciplinas, evento em 9ue a argumenta"ão do /ovem, 9ue
precisou convencer os compan8eiros de camin"ada, foi determinante*
:o final de &''J, ;Clio retornaria ao posto dei4ado em a$erto* Se os pro$lemas
relacionados H sua fam)lia não estavam totalmente solucionados, pelo menos não desviavam
as suas aten"7es 9ue, em sua nova inser"ão na fa$ina, estavam totalmente voltadas para a
resolu"ão dos pro$lemas da cadeia* Al@m disso, meu interlocutor não teria mais 9ue lidar com
a dor decorrente das puni"7es aplicadas aos outros ladr(es, afinal, a madeirada /# 8avia sido
terminantemente proi$ida pelo Comando*
(.9 Bandeira branca: a $a2 deve reinar na cadeia
At@ o momento, al@m de de$ru"arme so$re o processo de constitui"ão dos disciplinas,
atentando para alguns tra"os 9ue constituem a configura"ão referente Hs unidades dominadas,
procurei demonstrar 9ue os ocupantes de tais postos de lideran"a são os principais
respons#veis pelo funcionamento da cadeia, o 9ue não significa 9ue tais adolescentes atuam
so>in8os* Como vimos ao longo de alguns trec8os deste cap)tulo, antes de tomarem decis7es
importantes como, por e4emplo, a iniciativa de ir pro arrebento, as lideran"as, sempre 9ue
poss)vel, entram em contato com os irmãos do Comando* Apesar dos adolescentes seguirem
as orienta"7es transmitidas pelos integrantes do #artido, notase 9ue tais internos não são
filiados ao Primeiro Comando da Capital, isto @, não são bati+ados, portanto, não são
recon8ecidos como irmãos
(NJ
*
'óis é a sintonia dos caras. .u sou sintonia dos caras. Corro com os caras Zdo
Comando, isto @, sigo as suas orienta"7es[, mas t< do lado de fora, de fora Znão sou
bati+adoY não sou irmão[, mas seguindo a doutrina de dentro <fa$ina da Unidade de
1nterna"ão MI, comple4o -aposo ;avares=*
A narrativa descrita acima, ao mesmo tempo em 9ue aponta para a ine4istência de
irmãos no interior das unidades dominadas, evidencia 9ue os adolescentes de tais espa"os de
(NJ
:esse sentido, distanciome das a$ordagens, so$retudo /ornal)sticas, 9ue insistem em afirmar 9ue os internos
da Funda"ão CASA são mem$ros do PCC* Algumas pu$lica"7es c8egam a sugerir a e4istência de uma esp@cie
de PPCC %irimQ, tal como a mat@ria veiculada pelo /ornal -gora 7ão #aulo em (J de maio de &'(', PFac"ão
tem ala mirim dentro da Funda"ão CASAQ <F0--AX, &'('=*
(M&
interna"ão, mesmo não sendo bati+ados, seguem as instru"7es do Comando* ;ais orienta"7es,
9uando precisam ser amplamente divulgadas para todos os indiv)duos 9ue fec"am com o
certo, não importa se estes encontramse dentro ou fora das institui"7es de controle social, são
transmitidas por meio do salve geral*
: salve geral é uma comunicação do Comando. ; pra quem tá dentro Zdas cadeias[ e
pra quem tá fora. ; pra quem segue a doutrina, tá ligado) Duando revoluciona alguma
camin"ada, por e$emplo, em NJJ@ teve os atentados ZPata9ues do PCCQ[. .m NJJH,
final de NJJ@, veio o salve geral da pa+, a bandeira branca, que ainda tá de pé. - pa+, a
bandeira branca, o salve da pa+, foi comunicado a todo mundo
(NO
<fa$ina da U1MI,
comple4o -aposo ;avares=*
;Clio, ao reassumir o posto de fa$ina da Unidade de 1nterna"ão &R, deparouse com
outro cen#rio* De fato, os informes transmitidos pelos irmãos nos Cltimos dias de &''J,
provocariam altera"7es significativas no 9ue concerne aos m@todos punitivos adotados pelos
disciplinas* As agress7es f)sicas, tam$@m con8ecidas como madeirada, apesar de serem
utili>adas apenas em alguns casos, seriam terminantemente proi$idas* Como ressalta meu
interlocutor, os irmãos c"egaram até nóis e falaramA o", tá cortado, agora é pa+ total* Desde
então, a9ueles 9ue cometem erros no cotidiano da interna"ão, independente da gravidade dos
atos praticados, $em como da recorrência das atitudes indevidas, não sofrem mais puni"7es
violentas em seus corpos, so$retudo por9ue a bandeira branca ainda tá de pé* Diante de tal
conte4to, Hs lideran"as só resta instruir os internos 9ue cometem erros e, em Cltimo caso,
envi#los ao seguro* Contudo, sem encostar as mãos na9ueles 9ue insistem em descumprir as
suas orienta"7es* Al@m disso, vale ressaltar 9ue durante a vigência da bandeira branca,
per)odo em 9ue a pa> deve reinar na cadeia, os disciplinas procuram evitar as re$eli7es*
Dias <&''I, p*&NO=, ao discorrer so$re os efeitos provocados pela instaura"ão da
bandeira branca nas institui"7es prisionais orientadas pelas diretri>es do #artido, salienta 9ue
tais pris7es Pestariam com uma V$andeira $ranca 8asteadaV em fun"ão de um acordo feito com
o governo do estado, após numerosos ata9ues do PCC contra as institui"7es de seguran"a
pC$lica _ pol)cia, /udici#rio e sistema prisionalQ* 0m troca da pacifica"ão das cadeias do
Comando, as autoridades governamentais teriam concedido vantagens aos mem$ros do
#artido, entre as 9uais, a transferência de alguns irmãos de unidades prisionais regidas pelo
(NO
Com rela"ão ao salve geral, categoria nativa 9ue aponta para a e4istência de cone47es entre institui"7es
prisionais, Unidades de 1nterna"ão para adolescentes e determinadas #reas ur$anas, ressalto 9ue pretendo
retomar tal discussão nas notas finais da disserta"ão*
(MM
-egime Disciplinar Diferenciado <-DD=* Ainda segundo a autora, durante este per)odo de pa>
nos pres)dios paulistas, constatase 9ue os presos evitam as $rigas, as confus7es e os motins,
procedimentos 9ue, ao serem adotados tanto pelos irmãos 9uanto pelos disciplinas, mais uma
ve>, evidenciam a simetria e4istente entre as Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão CASA e as
institui"7es prisionais orientadas pelas diretri>es do Comando*
0m rela"ão Hs unidades dominadas, notase 9ue o salve da pa+ provocou uma esp@cie
de reordenamento nas rela"7es esta$elecidas entre os ladr(es* ;Clio, apesar de recon8ecer os
$enef)cios proporcionados pela bandeira branca, entre os 9uais, o fato de não ter 9ue agredir
os compan8eiros de camin"ada, enfati>a 9ue a instaura"ão de tal procedimento acarretou
alguns empecil8os H atua"ão dos disciplinas*
Eipo assim, tá acontecendo um...vamos supor que o moleque vai lá e bate pun"eta no
dia de visita. : cara sabe que não pode. .ntão, tipo, pra nóis, nesse caso, era
madeirada na certa, mas mesmo assim nóis quer a opinião mais pra frente Zdos irmãos[
porque nóis não sabe o que tá acontecendo lá fora, principalmente naquela época que
os caras falouA não, agora é pa+ total, é só pegar e tirar pra fora da cadeia. Da*,
tipo...numa situação dessa a* o cara não merece ir pra fora da cadeia, o cara merece só
um corregimento, mas qual o corregimento) Dual deles escol"er) #<, são vários
camin"os, imagina que são tr0s camin"os. 2m desses camin"os tá certo e os outros
dois tá errado. : bagul"o é mil grau mano, voc0 fica com a cabeça a mil. #uta, faço ou
não faço, faço ou não faço) Cuitas ve+es ali nóis fe+ porque nóis tin"a certe+a que tava
certo, nóis c"egava nos caras Znos irmãos[ depois e falavaA o", nóis fe+ isso, isso,
assim, assado. Como voc0s quer nóis tá passando a camin"ada. -conteceu isso, isso e
isso, assim, assim e assado, bele+a)
Gêse 9ue os disciplinas, após a instaura"ão da bandeira branca, movimentamse com
certa dificuldade* + receio de cometer algum e9u)voco em rela"ão ao tratamento dispensado
H9ueles 9ue ramelaram, acontecimento 9ue, entre outras conse9uências, pode resultar no
afastamento do posto preenc8ido, em alguns casos, praticamente os imo$ili>a, situa"ão 9ue
pode agravarse 9uando a consulta aos irmãos mostrase invi#vel* :esse conte4to, as rela"7es
travadas entre os disciplinas e a população tornamse cada ve> mais tensas, 8a/a visto 9ue,
aos ol8os da9ueles 9ue encontramse associados H posi"ão de lideran"a, alguns /ovens da
população, após o 8asteamento da bandeira branca, ao perce$erem 9ue não seriam punidos
com tanta rigorosidade, passaram a a$usar da possi$ilidade de cometer erros*
De fato, entre os primeiros meses de &''O e novem$ro de &''R, per)odo em 9ue
ministrei oficinas de fotografia em distintas unidades dominadas, so$retudo nos comple4os de
(ML
Franco da -oc8a e -aposo ;avares, pude notar 9ue o descontentamento das lideran"as em
rela"ão H conduta adotada por alguns adolescentes da população intensificavase* As atitudes
indevidas por parte de alguns internos, so$retudo nos dias de visita, irritava os disciplinas
9ue, pelo fato de agirem conforme as orienta"7es do Comando, estavam proi$idos de corrigir
comportamentos por meio da madeirada* Certa ve>, ao o$servar o descontentamento do
piloto da Unidade de 1nterna"ão MI, apro4imeime do adolescente para sa$er o motivo de
taman8a irrita"ão* + /ovem, após discorrer so$re a ine4periência dos novatos, ressaltou 9ue
durante a Cltima visita dos familiares H cadeia, um adolescente da população, mesmo sa$endo
9ue os parentes dos internos encontravamse na unidade, compareceu ao p#tio interno sem a
coru/a Zcueca[, postura 9ue segundo o disciplina era inaceit#vel e 9ue, não fosse a vigência da
bandeira branca, seria corrigida de outra maneira* .sse da* merecia uma pá de madeirada.
Cas, fa+er o que né) So/e em dia não pode mais relar a mão no vagabundo de /eito nen"um*
Diante de tal situa"ão, as lideran"as de algumas cadeias dominadas, com o o$/etivo de
não es9uecerem todos os e9u)vocos praticados por a9ueles 9ue insistem em ramelar, passam a
anotar as atitudes indevidas dos adolescentes da população em um caderno, 9ue permanece
so$ controle dos fa$ineiros* +s erros cometidos, intitulados pelos disciplinas de fitas no ar,
termo 9ue, vale ressaltar, aponta para a impossi$ilidade de solucionar tais pro$lemas
imediatamente, ao serem agrupados, registram o 8istórico do adolescente na cadeia 9ue, no
momento oportuno, ser# co$rado pelas lideran"as
(NI
*
1itas no ar
?L : mano Z foi para o pérola Zlocal dos cursos profissionali>antes[ sem a coru/a. NL :
mano Z caguetou o mano [ na 23#L?J. 4L : mano Z tentou passar o mano B como
errado, falando que o mano B tin"a escutado ele falar que tava a pampa Ztran9uilo[ de
galin"agem sendo que o mano B não tin"a ouvido nada. GL : mano Z falou que iria
fa+er B.:. contra os manos que estavam galin"ando com ele.
?L : mano = saiu na destruição Z$rigou[ com o mano P. NL : mano = se encontra com
outra fita no ar devido ter rateado Zrou$ado[ a coru/a do mano >. 4L : mano = se
encontra com uma fita no ar devido ter rateado o cigarro do mano \. GL : mano = falou
que o peito da visita era ca*do.
?L : mano 8 veio a sair na destruição com o mano 1. NL : mano 8 furou a lupa da
mul"er do culto Zol8ou para o corpo da funcion#ria 9ue oferecia assistência religiosa aos
internos[. 4L : mano 8 veio a sair na destruição com o mano D.
(NI
:o in)cio de &''R, por meio de um diretor de uma cadeia dominada, tive acesso ao caderno da fa$ina, 9ue
8avia sido apreendido durante uma revista* A seguir, apresento algumas anota"7es dos fa$ineiros*
(MN
?L : mano ' foi pra visita sem a coru/a. NL : mano ' tentou passar os manos . e B
como errados. 4L : mano ' coçou o saco na frente das visitas. GL : mano ' se
encontra com uma fita no ar porque saiu na destruição com o mano S.
Após a instaura"ão da bandeira branca, notase 9ue os adolescentes 9ue insistem em
não a$sorver os ensinamentos transmitidos pelos disciplinas, cometendo uma sucessão de
erros, apesar de não serem punidos, tam$@m não caem no es9uecimento* Pelo contr#rio,
permanecem com as suas fitas no ar, como 9ue em suspenso, ainda 9ue se/a por um per)odo
determinado* Aos disciplinas, só resta esperar o momento ade9uado para 9ue as medidas
punitivas, em especial, a madeirada, voltem a ser aplicadas* Afinal, as lideran"as têm
consciência de 9ue, da mesma forma 9ue os irmãos 8astearam a bandeira branca, estes
podem $ai4#la a 9ual9uer instante* -" sen"or, quando a bandeira branca cair e subir a
bandeira vermel"a, vários malucos sem postura dentro da cadeia tá fodido <piloto da U1MI=*
Se durante a vigência da bandeira branca a pa> deve reinar dentro da cadeia o 9ue,
em termos pr#ticos, significa a proi$i"ão de 9ual9uer tipo de agressão entre os adolescentes,
$em como o t@rmino das re$eli7es, com a instaura"ão da bandeira vermel"a, a situa"ão
rapidamente se altera* Como ressaltam meus interlocutores, 9uando a bandeira vermel"a tá
de pé as lideran"as operam em ritmo acelerado* As re$eli7es, por e4emplo, podem ser
detonadas a 9ual9uer momento, so$retudo se os internos estiverem sendo agredidos pelo
corpo funcional* Da mesma forma, a9ueles 9ue cometem erros no cotidiano da cadeia passam
a rece$er uma Cnica oportunidade 9ue, caso não se/a aproveitada, cede espa"o H madeirada*
Duando tá assim, os caras começam a acelerar o ritmo da cadeia. .screveu não leu, o
pau comeu mano. Eeve uma época na ZU1[ NI que a cadeia tava assim, ritmo acelerado,
acelerado mesmo. ; uma ideia só. 'ão fa+, não fa+...fe+ uma ve+, firme+a, mas não fa+
a pró$ima. 1e+ a pró$ima...a* o pau come <Pedro=*
Para os integrantes do corpo funcional, so$retudo no 9ue concerne aos funça de pátio,
9ue durante os motins são os primeiros a serem condu>idos ao tel8ado da cadeia, constatase
9ue a bandeira branca, instaurada nas dominadas após os acontecimentos de maio de &''J,
trou4e mudan"as significativas, entre as 9uais, a 9ueda e4pressiva no nCmero de re$eli7es* De
fato, os anos R', $em como o in)cio da d@cada de &''', foram marcados pela ocorrência de
sucessivas re$eli7es nas distintas Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão 0stadual do 3em0star
do %enor, acontecimentos 9ue colocaram a institui"ão, ainda 9ue de forma negativa, nas
(MJ
p#ginas de todos os /ornais impressos, $em como na programa"ão dos notici#rios televisivos*
1magens 9ue au4iliaram na constru"ão da F030% como uma esp@cie de s)m$olo do medo,
Ppalco do terror e fonte de amea"a para o con/unto da sociedadeQ <%1-A!L1A, &''(, p*M'=*
A partir dos Cltimos dias de &''J, as cenas aterrori>antes 9ue 8aviam caracteri>ado as
d@cadas anteriores, muitas ve>es transmitidas ao vivo, de internos em cima dos tel8ados,
armados com facas improvisadas e peda"os de pau, amea"ando e espancando os agentes
institucionais, aos poucos, foram desaparecendo dos ve)culos de comunica"ão* Apenas para se
ter uma ideia, se ao longo de &''M a institui"ão registrou a ocorrência de I' motins, durante
todo o ano de &''I, per)odo em 9ue a bandeira branca /# encontravase 8asteada, a F030%
enfrentou apenas três re$eli7es* Diante deste novo cen#rio, do ponto de vista dos agentes
institucionais, so$retudo da presidência da institui"ão, 8# muitos motivos para comemorar*
+s nCmeros demonstram o ê4ito o$tido pelo !overno do 0stado de São Paulo na
reconstru"ão das pol)ticas de atendimento ao adolescente autor de ato infracional*
0m um ano <de &''J para &''O=, as ta4as de reincidência entre os internos da
Funda"ão CASA ca)ram de &Rd para (R,Md* Al@m deste indicador, 9ue @ inconteste
e aponta para uma mel8oria de 9ualidade na e4ecu"ão das medidas socioeducativas,
8# outros dados importantes 9ue devem ser frisados em nome da $oa informa"ão e
do esclarecimento da sociedade* Um deles @ a 9ueda no nCmero de re$eli7es* Foram
apenas cinco ocorrências do gênero em &''O* 0m &''N, 9uando teve in)cio a atual
gestão da Funda"ão CASA, NM 8aviam sido registradas, sendo MN apenas nos cinco
primeiros meses do ano* 1sso sem contar &''M, 9uando o escore $ateu na casa dos I'
motins* Podese lem$rar ainda do avan"o na descentrali>a"ão do atendimento* 0m
dois anos e oito meses, M( unidades foram constru)das e entregues pelo !overno do
0stado* São unidades pe9uenas <para L' /ovens em interna"ão e (J em interna"ão
provisória= 9ue atendem aos pr@re9uisitos do Sistema :acional de Atendimento
Socioeducativo <Sinase=* +utras (N casas do gênero serão inauguradas at@ o final
deste ano, permitindo 9ue os adolescentes do 1nterior se/am atendidos pró4imos de
suas fam)lias* :estas novas casas, não 8ouve re$elião alguma em 9uase dois anos de
programa e os pro$lemas disciplinares são diminutos* 0las são geridas num sistema
moderno, com a participa"ão da sociedade civil, representada por organi>a"7es
respeitadas, como a Pastoral do %enor* São estas novas unidades 9ue têm permitido
o esva>iamento dos grandes e inade9uados comple4os de interna"ão* :este 9uesito,
cumpre ressaltar a desativa"ão do ;atuap@, levada a ca$o fa> cinco meses e 9ue
sim$oli>ou a guinada 9ue o !overno do 0stado deu no sentido de romper com o
passado de unidades grandes, superlotadas e violentas <+ desafio de construir uma
nova casa, &''I=*
+ trec8o descrito acima, e4tra)do de uma pu$lica"ão produ>ida pela própria assessoria
de imprensa da Funda"ão CASA, em a$ril de &''I, evidencia as transforma"7es ocorridas na
antiga F030%SSP 9ue, a partir de de>em$ro de &''J, portanto, no mesmo per)odo em 9ue a
bandeira branca foi instaurada nas cadeias dominadas, passou a c8amarse Funda"ão Centro
de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente*
(MO
Aos ol8os dos funcion#rios dos distintos setores institucionais, vêse 9ue a redu"ão no
nCmero de re$eli7es est# intimamente relacionada H efic#cia da medida socioeducativa, $em
como ao processo de descentrali>a"ão do atendimento, 9ue, entre outras inova"7es, propiciou
a desativa"ão do comple4o do ;atuap@, palco de inCmeras re$eli7es, e a constru"ão de
unidades menores locali>adas no interior do estado de São Paulo, com o o$/etivo de redu>ir o
nCmero de adolescentes atendidos em um mesmo espa"o institucional* Por sua ve>, do ponto
de vista dos adolescentes 9ue cumprem medida socioeducativa de interna"ão nas unidades
dominadas, a 9ueda no nCmero de motins nada tem a ver com os novos procedimentos
institucionais, e sim, com as orienta"7es transmitidas pelos integrantes do Primeiro Comando
da Capital, mais especificamente, com a vigência da bandeira branca* +$viamente, no
presente tra$al8o, não se trata de adotar uma ou outra perspectiva* Fa>se necess#rio atentar
para o fato de 9ue tais e4plica"7es, 9uando articuladas, gan8am for"a* Por um lado, @ preciso
recon8ecer 9ue os novos espa"os de interna"ão, frutos do processo de descentrali>a"ão do
atendimento, tam$@m con8ecidos como casas, dificultam a mo$ili>a"ão dos internos, 8a/a
visto 9ue os /ovens encontramse em nCmero redu>ido, apro4imadamente N' adolescentes por
unidade, 9uadro 9ue diverge consideravelmente da9uele encontrado nos grandes comple4os
da institui"ão como, por e4emplo, o ;atuap@, 9ue na @poca em 9ue Pedro esteve internado
c8egou a a$rigar mais de (*N'' adolescentes divididos em (I unidades de interna"ão, sendo
9ue algumas cadeias, por meio dos contatos travados entre os disciplinas, como vimos, agiam
em con/unto* Al@m disso, vale salientar 9ue a din2mica de funcionamento das novas casas
assemel8ase Hs unidades na mão dos funça, espa"os de interna"ão em 9ue a c8ance dos
/ovens virarem a cadeia @ redu>ida, principalmente por9ue o controle institucional @ intenso*
Por outro lado, @ importante enfati>ar 9ue após a instaura"ão da bandeira branca, per)odo em
9ue estive em campo, não presenciei a ocorrência de nen8uma re$elião nas unidades
dominadas, fato 9ue aponta para a import2ncia de considerarmos os efeitos provocados pelas
orienta"7es do Comando, 9ue, nesse sentido, tam$@m contri$u)ram para a redu"ão dos motins*
Apesar da bandeira branca impor algumas restri"7es em rela"ão ao modo de opera"ão
dos frente da cadeia, no 9ue concerne Hs tentativas de fuga, os adolescentes continuam se
movimentando livremente, em conson2ncia com o ideal de >iberdade*
1n)cio de &''I* As lideran"as da Unidade de 1nterna"ão &N, principais respons#veis pelo
plane/amento e e4ecu"ão dos planos de fuga, /untamente com os internos da população,
estão prestes a gan8ar as ruas de Franco da -oc8a* De fato, as adversidades são muitas*
(MI
0m primeiro lugar, @ preciso cavar r#pido mas, ao mesmo tempo, com e4tremo cuidado,
afinal, 9ual9uer $arul8o pode atrair a aten"ão dos funcion#rios e, conse9uentemente,
$otar tudo a perder* A grande 9uantidade de terra, $em como as roupas utili>adas por
a9ueles 9ue permanecem 8oras e 8oras dentro do $uraco 9uente e apertado, precisam ser
rapidamente escondidas* 0n9uanto alguns adolescentes distraem os integrantes do corpo
funcional, so$retudo os funça de pátio, outros internos, com ferramentas improvisadas,
dia após dia, concentram todas as suas energias na produ"ão do tatu ZtCnel[, 9ue, se tudo
der certo, condu>ir# os adolescentes da U1&N H tão son8ada li$erdade <relato e4tra)do
de meu caderno de campo=*
;Clio
(NR
, assim como todos os compan8eiros de camin"ada, est# ansioso* + mundão,
9ue após a senten"a /udicial nunca esteve tão perto, est# logo ali, a poucos metros de suas
mãos* %ais alguns instantes e o plano de fuga ser# colocado em pr#tica*
Ein"a tudo mano, o bagul"o voc0 ficava de pé mesmo, era grandão, o bagul"o era
monstro mesmo. 7e os caras não tivesse tido tanta pressa, nóis tin"a conseguido.
#orque os caras pensouA a", vou fugir de se$ta pra sábado, sábado é visita. :s caras
Zintegrantes do C"oquin"o[ não vai entrar pra dentro. 2ma coisa que ninguém
esperava né, nunca tin"a acontecido de no dia de visita os caras resolver fa+er revista
na cadeia. -*, alguns caras /á tava lá dentro do t6nel, cataram os caras dentro do t6nel.
Cara, o bagul"o era...o" mano, se continuasse do /eito que tava, os caras Zfuncion#rios[
só ia descobrir no dia que a cadeia tivesse va+ia. :s caras só ia descobrir na "ora que
falasseA cad0 todo mundo) 3a todo mundo embora, quem que ia querer ficar)
A tentativa frustrada de transpor as mural8as da Unidade de 1nterna"ão &N manteria o
adolescente afastado do mundão por mais alguns meses, acontecimento e4tremamente
doloroso* A saudade de sua mãe, 9ue ainda encontravase presa, associada H impossi$ilidade
de contatar a figura paterna e, de uma ve> por todas, esclarecer o 9ue 8avia ocorrido entre o
seu pai e a sua irmã 9uando a fam)lia ainda morava em São Paulo, angCstia 9ue nunca
a$andonou os pensamentos de meu interlocutor, fi>eram com 9ue o adolescente solicitasse o
afastamento definitivo da fa$ina, decisão 9ue seria mantida pelo /ovem at@ o t@rmino da
medida socioeducativa de interna"ão*
.u tava perto de sair, não tava aguentando mais. Eava com muita coisa na cabeça cara,
algumas coisas aconteceram com a min"a fam*lia. Da* eu falei pros caras Zlideran"as[,
t< me afastando, vou tirar licença. :s caras entenderam. Da*, os caras falaramA a",
(NR
0m meados de &''O, em virtude de uma reforma reali>ada na Unidade de 1nterna"ão &R, todos os
adolescentes 9ue encontravamse internados em tal espa"o institucional foram transferidos para a Unidade de
1nterna"ão &N, local em 9ue ;Clio cumpriu os Cltimos meses de sua medida socioeducativa* Gale ressaltar 9ue
após a transferência para a nova cadeia, os internos 9ue ocupavam postos de lideran"a na U1&R mantiveram os
seus respectivos cargos na U1&N* ;Clio, por e4emplo, continuou sendo fa$ineiro*
(MR
bele+a então, pode se afastar. 'óis vai passar pra cadeia. #assou pra cadeia, a* eu me
afastei. (...! queria me manter do /eito que eu tava. Cesmo assim, os caras ainda
convidava pra ideia, sempre convidando pra ideia.
;Clio, apesar de a$andonar o posto de fa$ina, continua sendo acionado pelos
disciplinas 9ue, tendo em vista a camin"ada irrepreens)vel do adolescente, dentro e fora da
cadeia, solicitam as opini7es de meu interlocutor sempre 9ue @ preciso ir pra ideia* Al@m
disso, vale notar 9ue em meados de &''I, per)odo em 9ue o /ovem /# encontravase afastado
da lideran"a, em determinadas ocasi7es, pude perce$er 9ue o adolescente, mesmo sem estar
vinculado a tal posto, continuava desempen8ando algumas fun"7es desenvolvidas pelos
fa$ineiros, sem 9ue para isso fosse necess#rio o$ter 9ual9uer autori>a"ão da9ueles 9ue
encontravamse associados H posi"ão de lideran"a* Da mesma forma em 9ue Pedro, durante os
eventos de maio de &''J, pTde atuar como piloto da cadeia, mesmo ocupando o posto de
fa$ina, ;Clio, apesar de fa>er parte da população, após solicitar o afastamento da lideran"a,
continua sendo recon8ecido como disciplina*
;ais considera"7es me permitem afirmar 9ue, no conte4to das unidades dominadas,
ser disciplina não significa apenas estar vinculado a um determinado posto 8ier#r9uico*
A9ueles 9ue são recon8ecidos como lideran"as, antes de mais nada, são "umildes* -espeitam
as opini7es emitidas por todos os compan8eiros de camin"ada, tratandoos como iguais*
%ane/am os seus corpos no cotidiano da cadeia com e4tremo cuidado, atentando para os
movimentos adotados, assim como para as palavras proferidas, so$retudo nos dias de visita*
Wuando cometem erros, recon8ecem os e9u)vocos praticados e aprendem com os ladr(es
mais estruturados* Possuem amplo con8ecimento acerca do modo de opera"ão do Comando,
ad9uirido antes mesmo de ingressarem nas Unidades de 1nterna"ão, $em como uma intensa
camin"ada no crime, o 9ue os torna, aos ol8os dos outros internos, mais e4perientes, mais
cabeça, mais mente* 0nfim, orientam as suas a"7es de acordo com a disciplina do Comando,
dominando os códigos partil8ados por todos a9ueles 9ue fec"am com o certo*
Para meu interlocutor, 9ue após o afastamento da frente da situação continua sendo
recon8ecido pelos outros internos como lideran"a, os Cltimos dias da medida socioeducativa
/# não despertam o mesmo entusiasmo* Se os primeiros meses ao lado dos disciplinas da
Unidade de 1nterna"ão &R foram marcados pela intensidade de tais rela"7es, na reta final de
sua interna"ão, o sentimento de solidão gan8a for"a*
(L'
'o final de NJJ5, todo mundo /á tin"a ido embora. Eodo mundo, não tin"a mais
ninguém cara, ninguém mesmo, só eu. Eipo assim, eu /á me sentia mais solitário.
Eipo...não tin"a mais o que me confortar ali. -pesar dos caras me respeitar e pá, eu /á
tava meio afastado, os caras /á me ac"ava meio invocado. 'ão conversava muito. :s
caras c"amava eu pra ideia, eu tipo trocava ideia, dava min"a opinião, tudo. :s caras
via a min"a ideia e falavaA por que esse cara não tá na fa$ina) :s caras que c"egavam
Zos novatos[ falavam isso, tá ligado) :s caras tin"a acabado de c"egar e perguntavaA
por que voc0 não tá na fa$ina com os caras)
Gale ressaltar 9ue o descontentamento do adolescente em rela"ão aos Cltimos
momentos vividos dentro da Unidade de 1nterna"ão &N não deve ser compreendido apenas
como o resultado da desinterna"ão de seus antigos compan8eiros de camin"ada, afinal, a
din2mica de funcionamento das cadeias de Franco da -oc8a, desde meados de &''I, tam$@m
não era mais a mesma* Aos poucos, os funcion#rios intensificam as suas a"7es, tendo como
o$/etivo central a retomada de tais espa"os institucionais*
-", /á não tava tudo na nossa mão porque não tin"a mais como ter as coisas que tin"a
no passado. Eipo...a galeria Zonde ficavam os 9uartos[ /á não era mais nossa Znão
ficava a$erta no per)odo noturno[, a gente /á não podia mais subir no tel"ado pra se
comunicar com os caras da outra cadeia, a fa$ina também /á não era tão revoltada
com a vida, tá ligado) -ntes, nóis falavaA é tudo nosso e acabou. 'aquela época Znos
primeiros meses da medida socioeducativa[ não tin"a tanta criança. .ra uma batidona
forte mesmo. Depois, começou a ir uns caras que não era tão estruturado igual os
mano de antigamente.
As lutas travadas entre os disciplinas e os agentes institucionais tornamse cada ve>
mais tensas* ;udo @ motivo de disputa* As listas com os nomes dos participantes dos cursos
culturais e profissionali>antes, 9ue eram entregues nas mãos dos disciplinas, encarregados de
reunir tais adolescentes, passam a ser solicitadas pelos funça de pátio, atitude 9ue provoca o
descontentamento das lideran"as* As roupas do mundão cedem espa"o aos uniformes
institucionais* +s diretores das Unidades de 1nterna"ão, acostumados a negociar /unto Hs
lideran"as, tam$@m são su$stitu)dos, entregando os seus respectivos cargos a outros colegas
9ue evitam tais negocia"7es* +s an@is de prata, 9ue enfeitam as mãos de alguns disciplinas,
come"am a ser retirados* +s contatos esta$elecidos entre as lideran"as das três cadeias de
Franco da -oc8a são interrompidos* A9ueles 9ue insistem em su$ir no tel8ado para se
comunicar com os compan8eiros, rece$em puni"7es 9ue recaem so$re toda a popula"ão da
unidade* As pe"as de roupa, 9ue muitas ve>es eram lavadas pelos próprios internos, passam a
(L(
ser recol8idas pelos agentes institucionais, sendo encamin8adas H lavanderia* +s barracos dos
adolescentes, 9ue durante os dias de visita permaneciam a$ertos, são trancados*
Diante de tal cen#rio, os disciplinas se movimentam, fa>endo de tudo para manter o
dom)nio do espa"o institucional* Lutam para continuar servindo a alimenta"ão aos
adolescentes da população* Paralisam as atividades da cadeia para serem atendidos pelos
novos diretores* +s celulares, 9ue possi$ilitam o contato com os irmãos do Comando, apesar
de serem apreendidos com maior fre9uência, ainda permanecem so$ o controle das lideran"as
9ue, tendo em vista a camin"ada dos rec@mc8egados, enfrentam inCmeras dificuldades para
su$stituir a9ueles 9ue são desinternados, 8a/a visto 9ue os novos internos, aos ol8os dos
frente da cadeia, não são tão capacitados* :esse conte4to, uma outra categoria emerge das
narrativas de meus interlocutores* A Unidade de 1nterna"ão &N, 9ue desde o per)odo em 9ue
Pedro foi encamin8ado ao comple4o de Franco da -oc8a, era considerada, tanto pelos
adolescentes 9uanto pelos agentes institucionais, como uma unidade dominada, passa a ser
classificada como unidade meio a meio, categoria 9ue, como veremos ao longo do pró4imo
cap)tulo, aponta para a divisão de autoridade no 9ue concerne ao funcionamento do espa"o
institucional, isto @, não é tudo nosso, mas também não é tudo deles <;Clio=*
0m meados de &''R, após alguns meses de afastamento, retornei ao comple4o de
Franco da -oc8a para ministrar oficinas de fotografia aos adolescentes de tais espa"os de
interna"ão* :a U1&N, ao colocar os p@s dentro do p#tio interno, pude notar 9ue as coisas
realmente 8aviam mudado* 0m primeiro lugar, setores, fa$inas, encarregados e pilotos não
fa>iam mais parte do cen#rio institucional* Al@m disso, as mensagens estampadas nas paredes
da cadeia, 9ue enfati>avam o dom)nio do Primeiro Comando da Capital, tam$@m 8aviam sido
apagadas* :a9uele momento, todas as atividades reali>adas dentro da unidade eram geridas
pelos funcion#rios, 9ue coordenavam os movimentos dos internos* ;Clio, 9ue /# 8avia sido
desinternado, ao ser informado so$re tais acontecimentos, durante o nosso Cltimo encontro
reali>ado em setem$ro de &'(', apesar de lamentar o fato de 9ue, atualmente, os adolescentes
tiram a cadeia no mó veneno, sentese aliviado por recon8ecer 9ue teve a sorte de cumprir a
medida socioeducativa em um per)odo 9ue a cadeia ainda fec"ava com o certo*
Cara, tipo assim, é um negócio que eu nunca vou esquecer, nunca vou esquecer mesmo.
: bagul"o sempre vai estar na min"a mente mano. Ein"a o sofrimento, mas também
tin"a toda uma parte boa, se eu falar pra voc0 que eu não sinto saudade daquela época
Zem 9ue as unidades eram dominadas[, eu estaria mentindo.
(L&
). Dominada* meio a meio e na mão dos funça: figuraç"es $oss%veis
(! todas são lutas para modificar o equil*brio do poderM
como tal, podem ir desde os cabosLdeLguerra silenciosos
que se ocultam sob a cooperação rotineira entre os dois
grupos, num conte$to de desigualdades institu*das, até as
lutas francas pela mudança do quadro institucional que
encarna esses diferenciais de poder e as desigualdades
que l"e são concomitantes.
:or$ert 0lias <&'''=
6aneiro de &''O* Uma, duas, três, 9uatro revistas* As mãos dos vigilantes rapidamente
desli>am so$re o meu corpo, completamente tomado pela in9uieta"ão* Sensa"ão de medo 9ue
se entrela"a ao dese/o de o$servar o 9ue acontece do outro lado das mural8as* 0m poucos
instantes, en9uanto aguardo a a$ertura do Cltimo portão de a"o, uma s@rie de imagens
atravessam os meus pensamentos* Lem$rome das rela"7es esta$elecidas com os internos dos
comple4os de Franco da -oc8a, ;atuap@ e Gila %aria* De fato, as intensas e4periências
ad9uiridas ao lado dos adolescentes de outras cadeias dominadas, ao mesmo tempo em 9ue
ameni>am a tensão, diminuem a possi$ilidade de 9ue situa"7es constrangedoras, tanto para
mim 9uanto para os disciplinas, voltem a ocorrer
(J'
*
0ntre tantas afli"7es, tento convencerme de 9ue estou preparado para ingressar na
Unidade de 1nterna"ão MO, comple4o -aposo ;avares* Por via das dCvidas, pergunto ao
vigilante so$re a atual situa"ão da unidade, considerada pelos funcion#rios dos distintos
espa"os de interna"ão espal8ados pela capital paulista como uma cadeia perigosa, 8a/a visto
9ue tal espa"o institucional a$riga apenas os adolescentes 9ue são classificados como &BB
<-eincidente, !rave, !rav)ssimo=, internos 9ue, pelo fato de terem diversas passagens pela
institui"ão, cumprem medida socioeducativa de interna"ão durante $oa parte da adolescência*
A resposta, prontamente concedida pelo funcion#rio, não poderia ser mais desestimulante, a
cadeia está tranquila, mas daqui a cinco minutos a gente nunca sabe o que pode acontecer*
(J'
Gale ressaltar 9ue no in)cio da pes9uisa, so$retudo nas unidades dominadas, enfrentei inCmeras dificuldades
em rela"ão ao comportamento 9ue eu deveria adotar dentro da cadeia* Certa ve>, na Unidade de 1nterna"ão &N,
durante a visita dos familiares dos internos, ao fornecer algumas instru"7es para um /ovem 9ue participava do
curso de fotografia, a$ai4eime* ;al posi"ão corporal fe> com 9ue uma pe9uena parte de min8as costas se
tornasse vis)vel* Diante de tal acontecimento, um adolescente 9ue ocupava o posto de fa$ina, ao perce$er o
movimento inade9uado, apro4imouse, e a* sen"or, que fita é essa) Eá mostrando a bunda pra cadeia) Eem
visita no pátio mano, Após pedir desculpas ao disciplina, este complementou, fica de boa sen"or, tranquilo, com
o tempo voc0 vai aprendendo* :esse sentido, vêse 9ue os agentes institucionais tam$@m devem mane/ar os seus
corpos de acordo com a disciplina do Comando*
(LM
Agora não 8# como voltar atr#s* +s adolescentes da Unidade de 1nterna"ão MO,
so$retudo os disciplinas, encarregados de não dei4ar a cadeia parada, isto @, sem atividades
aos internos da população, aguardam a apresenta"ão dos novos cursos culturais e
profissionali>antes, disponi$ili>ados aos /ovens de todos os espa"os institucionais durante o
per)odo em 9ue estes entram de f@rias das atividades escolares
(J(
*
0m poucos minutos, o Cltimo cadeado @ a$erto* A porta de a"o, na medida em 9ue
corre em cima do tril8o enferru/ado com e4trema lentidão, aos poucos, como uma esp@cie de
c2mera fotogr#fica, forneceme a primeira imagem do espa"o de interna"ão* %ural8as com
arame farpado, portas de a"o, grades por todos os lados, men"7es ao Primeiro Comando da
Capital espal8adas pelas paredes do p#tio interno e apro4imadamente (N' adolescentes 9ue
dividem a pe9uena 9uadra de fute$ol des$otada comp7em o cen#rio* Diante de tantos
internos, os agentes de seguran"a se9uer são notados, permanecendo com os seus corpos
imóveis em locais delimitados pelas próprias lideran"as*
Gale ressaltar 9ue, en9uanto os agentes institucionais evitam tra$al8ar na U1MO, 8a/a
visto as inCmeras dificuldades enfrentadas, entre as 9uais, a falta de condi"7es estruturais
ade9uadas <lousas, cadeiras, mesas, salas de aula=, $em como os constantes em$ates com os
disciplinas, os adolescentes 9ue encontramse internados no comple4o 3r#s, aguardando a
transferência para outros espa"os de interna"ão, son8am em ser encamin8ados H Unidade de
1nterna"ão MO, 9ue assim como a U1(, locali>ada no comple4o da Gila %aria, tam$@m @
con8ecida como #arque dos Constros* De fato, tal espa"o institucional go>a de elevado
capital sim$ólico perante os adolescentes 9ue encontramse internados em outras cadeias,
afinal, a U1MO @ con8ecida por a$rigar os internos 9ue foram presos diversas ve>es e 9ue,
portanto, possuem uma intensa camin"ada, tanto no crime 9uanto no universo institucional*
0m outras palavras, tratase de uma cadeia que fec"a com o certo*
%aur)cio +lic, ao discorrer so$re a din2mica de funcionamento das Unidades de
1nterna"ão do comple4o -aposo ;avares entre os anos de &''L e &''J, atentando para o
em$ate de for"as 9ue caracteri>a o cotidiano de tais espa"os institucionais, fornecenos um
retrato ilustrativo do #arque dos Constros, inaugurado em &J de fevereiro de &''L*
(J(
As oficinas de f@rias, como são c8amadas as atividades culturais disponi$ili>adas aos adolescentes durante o
recesso escolar, possi$ilitam a circula"ão dos educadores por distintos espa"os de interna"ão* 0m geral, tais
profissionais permanecem nas unidades por um per)odo de (N dias, ministrando aos internos duas aulas semanais
de uma 8ora e meia cada* :o 9ue concerne H min8a pes9uisa, saliento 9ue tais atividades foram fundamentais,
so$retudo por9ue propiciaram o acesso a outras cadeias dominadas*
(LL
<c= a U1MO passou a e4ercer o papel de Unidade piloto do Comple4o -aposo
;avares, isto @, ela passou a concentrar o poder de decisão do Comple4o* Assim, por
e4emplo, os internos das outras casas só poderiam se re$elar com a devida
autori>a"ão da Unidade VcentralV* 1sto fe> com 9ue a U1MO aca$asse por ser
considerada por adolescentes e funcion#rios como o local da diretoria do crime,
onde a9ueles 9ue por l# passam têm a responsa$ilidade de "onrar a cadeia em que
estão <+L1C, &''R, p*(&&, grifo do autor=*
Diante de tais considera"7es, constatase 9ue a U1MO, tam$@m con8ecida como
-roeira, assim como a Unidade de 1nterna"ão (& no per)odo em 9ue Pedro esteve internado
no comple4o do ;atuap@, al@m de a$rigar os c8amados ladr(es estruturados, conta com a
presen"a do piloto do comple$o 9ue, como vimos no cap)tulo anterior, @ respons#vel pela
totalidade do espa"o institucional, coordenando as a"7es dos adolescentes 9ue encontramse
internados em outras cadeias 9uando, por e4emplo, @ preciso partir pro arrebento* De fato,
como $em o$serva +lic <&''R, p*(&&=, o prest)gio associado H Unidade de 1nterna"ão MO pode
ser verificado 9uando algum interno de tal espa"o institucional @ transferido para outras
cadeias dominadas, Puma ve> 9ue ele passa a carregar consigo o Vstatus MOV para a sua nova
unidadeQ* + relato a$ai4o, e4tra)do de meu caderno de campo, corro$ora com tais refle47es*
(L de /un8o de &''J, Franco da -oc8a* + fim do per)odo de tranca, após as re$eli7es
9ue e4plodiram por todo o comple4o, decorrentes dos eventos de maio de &''J,
mo$ili>a o !rupo de 1nterven"7es -#pidas, 9ue se prepara para soltar os internos de
seus barracos* +s cassetetes e as armas carregadas com $alas de $orrac8a /# estão em
mãos* :o setor pedagógico, professores, funças de pátio e coordenadores da #rea de
seguran"a esperam a autori>a"ão para entrar nas unidades* De certa forma, todos têm
medo 9ue os adolescentes saiam da tranca e virem a cadeia novamente* :a Unidade de
1nterna"ão &R, ao entrar no p#tio, noto 9ue os disciplinas estão agitados* Após trinta dias
trancados em seus 9uartos, os frente da cadeia $uscam retomar as suas atividades* +s
fa$inas reassumem os seus postos* Permanecem na entrada da unidade anotando os
nomes de 9uem entra e 9uem sai* +s dois pilotos, por sua ve>, camin8am pelo p#tio*
:oto a presen"a de um novato entre tais adolescentes* %arcela, funcion#ria do setor
pedagógico, enfati>a, esse a* acabou de c"egar lá da raposo, da 4H, e /á tá enturmado.
Duando os meninos estavam de tranca, de dentro do quarto ele /á conversava com os
outros internos, demonstrando ter perfil de liderança* + rec@mc8egado, ao perce$er
9ue estou com inCmeras fol8as de papel sulfite em mãos, rapidamente se apro4ima, e a*
sen"or, descola uma dessas a* pra mim) Aproveito para conversar com o interno* As
roupas impec#veis, as palavras proferidas em $ai4o tom de vo> e as orienta"7es
transmitidas aos internos da população, 9ue insistem em fa>er perguntas ao novo
compan8eiro de camin"ada, evidenciam 9ue 6air deve ocupar algum posto de lideran"a*
;al dCvida seria esclarecida na semana seguinte, durante um $reve di#logo travado com
os outros disciplinas* + adolescente, após ser transferido do #arque dos Constros, em
menos de duas semanas, /# era recon8ecido como um dos pilotos da cadeia*
(LN
Aos ol8os da9ueles 9ue ocupavam postos de lideran"a na Unidade de 1nterna"ão &R,
6air era um ladrão estruturado* Sua intensa camin"ada dentro da Funda"ão CASA, marcada
pela circula"ão entre distintas cadeias dominadas, entre as 9uais, a Unidade de 1nterna"ão MO,
associada Hs suas opini7es valiosas emitidas durante a ideia, o 8a$ilitavam a somar com a
disciplina* +$viamente, não para preenc8er 9ual9uer posto* Da mesma forma em 9ue ;Clio,
no in)cio de sua interna"ão na U1&R, do ponto de vista das lideran"as, era muito cabeça pra
colocar ele num setor+in"o, 6air, em concord2ncia com a sua camin"ada, não poderia ocupar
um posto 8ier#r9uico 9ue não fosse o de piloto da cadeia, cargo 9ue seria preenc8ido pelo
adolescente por pouco tempo, 8a/a visto 9ue a dire"ão da Unidade de 1nterna"ão &R trataria de
eliminar o disciplina, transferindoo para outro espa"o institucional*
Ao colocar os meus p@s dentro do p#tio interno da Unidade de 1nterna"ão MO, as
lideran"as, so$retudo os fa$ineiros, rapidamente se apro4imam* Assim como ocorre com os
adolescentes 9ue possuem outras passagens pela institui"ão, os disciplinas procuram o$ter
informa"7es acerca do meu 8istórico na Funda"ão CASA* Para tanto, ela$oram uma $ateria
de perguntas, e a* sen"or, veio fa+er o que na cadeia) : sen"or é de qual quebrada) =á
trabal"ou em outras cadeias antes) Duais) . como que tá lá, tá na mão dos menor ou tá na
mão dos funça) . o sen"or, prefere trabal"ar em que tipo de cadeia) -qui é o seguinte, é
tudo nosso professor. 'óis fec"a com o Comando, tá ligado mano)
%omento de tensão* %eu destino dentro da cadeia, em certo sentido, depende das
respostas 9ue serão concedidas Hs 9uest7es 9ue me foram lan"adas* Ao mesmo tempo em 9ue
não posso di>er o 9ue os fa$inas dese/am ouvir, so$retudo por9ue um funcion#rio do setor
pedagógico permanece ao meu lado, pronto para o$servar a conduta do novo professor e
transmitir as suas impress7es H dire"ão da unidade, avalia"ão 9ue pode resultar na
impossi$ilidade de retornar H cadeia em oportunidades futuras, tam$@m não me parece
prudente ignorar os 9uestionamentos formulados pelos disciplinas, 8a/a visto 9ue a aceita"ão
da oficina e, portanto, a min8a permanência no espa"o institucional, de certa forma, tam$@m
depende da9ueles 9ue encontramse associados H posi"ão de lideran"a* Afinal, tais
adolescentes, al@m de ela$orarem a lista com os nomes dos participantes dos cursos culturais
e profissionali>antes, estimulando os internos a acompan8arem as atividades propostas,
so$retudo os /ovens da população, podem impedir a entrada de determinados funcion#rios no
interior da cadeia
(J&
* :esse conte4to, tornase necess#rio atentar para as palavras proferidas*
(J&
Certa ve>, um funcion#rio do setor pedagógico da Unidade de 1nterna"ão &N, comple4o de Franco da -oc8a,
após discutir com um fa$ina de tal unidade, 9ue o 8avia c8amado de parasita Za9uele 9ue não fa> nada pelos
(LJ
Cair em contradi"ão pode proporcionar efeitos indese/ados, entre os 9uais, a acusa"ão de não
sustentar as min8as próprias opini7es, dando a entender aos ladr(es estruturados 9ue min8as
palavras fa+em curva e 9ue, conse9uentemente, não sou um educador confi#vel* Diante de tal
cen#rio, o mel8or a ser feito @ falar o m)nimo poss)vel, procurando inverter a situa"ão
desconfort#vel em 9ue me encontro* Para tanto, procuro responder as perguntas 9ue me foram
feitas com mais perguntas* Aproveito para 9uestionar as lideran"as so$re os desdo$ramentos
9ue os acontecimentos de maio de &''J provocaram no #arque dos Constros, assunto so$re o
9ual os disciplinas demonstram satisfa"ão em discorrer, principalmente por9ue tratase de
mais uma oportunidade para evidenciar H9ueles 9ue entram no espa"o de interna"ão pela
primeira ve> 9ue os adolescentes ali internados seguem as orienta"7es transmitidas pelos
integrantes do Primeiro Comando da Capital*
Luis, 9ue ocupa o posto de fa$ina, antes de responder H pergunta por mim formulada,
fa> 9uestão de salientar, eu sou um dos disciplinas da cadeia, tá ligado) Dualquer coisa que
precisar é com nóis mesmo* + adolescente, ao relem$rar alguns momentos 9ue marcaram as
re$eli7es 9ue e4plodiram no comple4o -aposo ;avares durante os Pata9ues do PCCQ, entre os
9uais, a orienta"ão dos irmãos para os internos virarem a cadeia, o in)cio das c8amas 9ue
destru)ram inCmeros colc87es e o confronto violento travado com os policiais da ;ropa de
C8o9ue da Pol)cia %ilitar, nóis vai pro confronto mesmo, aqui é outra fita sen"or, não é
qualquer C"oquin"o que c"ega entrando na nossa casa assim não, recordase, em detal8es,
do e4ato momento em 9ue condu>iu um agente de seguran"a ao tel8ado da cadeia, enrolando
o em um colc8ão, furandoo com a sua faca improvisada, ateando fogo e arremessandoo l# de
cima, narrativa 9ue durante fra"7es de segundo provocou a interrup"ão de nossa conversa,
taman8o o espanto sentido pelo meu corpo, congelado pela intensidade de tal depoimento*
De fato, como ressaltam os adolescentes da Unidade de 1nterna"ão MO, nessa cadeia
aqui os funça não t0m boi sen"or, os caras passam mal* Apesar das agress7es f)sicas contra os
agentes institucionais não serem fre9uentes, so$retudo por9ue tais atitudes, como vimos ao
longo do cap)tulo anterior, podem proporcionar a perda de alguns $enef)cios con9uistados
pelas lideran"as ao longo das constantes negocia"7es travadas com a dire"ão da unidade, vale
salientar 9ue, nas unidades dominadas, a pressão psicológica e4ercida so$re os integrantes do
adolescentes, 9ue não tra$al8a e só espera o tempo passar para ir em$ora[, rece$eu o comunicado de 9ue a sua
entrada na unidade estava proi$ida* Foi então 9ue a diretora da U1&N, com o o$/etivo de solucionar o pro$lema
do funcion#rio, c8amou o fa$ina e os dois pilotos da cadeia para uma conversa* ;ais /ovens, após ouvirem o
pedido da diretora para 9ue o agente institucional pudesse retornar H unidade, teriam dito, a* sen"ora, se ele
tentar entrar na cadeia, o bagul"o vai ser daquele /eito*
(LO
corpo funcional, sim$oli>ada pela permanência dos funça de pátio em locais estipulados pelas
próprias lideran"as, @ intensa* Diante de tal situa"ão, notase o descontentamento dos
servidores pC$licos 9ue, entre outras conse9uências, resulta em um 9uadro funcional sempre
insuficiente para atender o nCmero e4cessivo de internos, 8a/a visto 9ue muitos agentes
institucionais solicitam a transferência para outros espa"os de interna"ão ou mesmo o
afastamento do cargo ocupado, em especial, a9ueles 9ue são feridos durante os motins* Com
efeito, constatase 9ue ningu@m dese/a tra$al8ar no #arque dos Constros* As p@ssimas
condi"7es de tra$al8o, o perfil dos adolescentes atendidos e o medo constante dos poucos
funcion#rios 9ue atuam na cadeia fa>em com 9ue tal Unidade de 1nterna"ão constituase
Pcomo uma esp@cie de Vdepósito de corpos indese/#veisVQ <+L1C, &''R, p*(&(=*
:o 9ue concerne aos integrantes da cCpula institucional, notase 9ue a din2mica de
funcionamento das cadeias dominadas configurase como um fator de insta$ilidade,
principalmente para a9ueles 9ue ocupam a presidência da institui"ão 9ue, em geral, são
afastados de seus cargos sempre 9ue a situa"ão tornase incontrol#vel* :o caso da Unidade de
1nterna"ão MO, por e4emplo, as fre9uentes tentativas de fuga e as incessantes re$eli7es,
imagens 9ue estamparam as p#ginas dos /ornais desde a inaugura"ão de tal espa"o de
interna"ão, em fevereiro de &''L, $em como as constantes denCncias feitas pelos familiares
dos adolescentes e pelos próprios agentes institucionais acerca das condi"7es degradantes em
9ue se encontrava a cadeia, fariam com 9ue 3erenice !iannella, presidente da institui"ão
desde /un8o de &''N, fosse afastada de seu respectivo cargo nos Cltimos dias de &''O* 0m tal
ocasião, o ;ri$unal de 6usti"a do 0stado de São Paulo, $aseandose em laudos ela$orados pelo
Consel8o -egional de Psicologia, pela Gigil2ncia Sanit#ria, $em como pelo Departamento de
Controle do Uso de 1móveis <C+:;-U=, 9ue atestavam condi"7es prec#rias de 8igiene,
8a$ita$ilidade e salu$ridade, solicitava o fec8amento definitivo de dois espa"os institucionais,
a Unidade de 1nterna"ão (, locali>ada no comple4o da Gila %aria, local em 9ue, vale lem$rar,
Pedro permaneceu internado pelo per)odo de apro4imadamente trinta dias, tam$@m con8ecida
como torre, e a Unidade de 1nterna"ão MO, o #arque dos Constros
(JM
*
0m /aneiro de &''I, poucos dias após o afastamento da presidente da Funda"ão CASA
9ue, inclusive, /# 8avia retornado ao cargo, ao comparecer H porta do comple4o -aposo
;avares, novamente para ministrar oficinas de f@rias aos adolescentes das Unidades de
1nterna"ão && e &I, depareime com inCmeras viaturas policiais* A ousadia dos adolescentes
(JM
Gale salientar 9ue $oa parte das informa"7es acerca do afastamento de 3erenice !ianella foi retirada de uma
pu$lica"ão do /ornal 1ol"a de 7. #aulo <6usti"a de SP afasta do cargo a presidente da antiga Fe$em, &''I=*
(LI
da Unidade de 1nterna"ão MO, do ponto de vista dos agentes institucionais, 8avia c8egado ao
limite* A constru"ão de uma piscina dentro da própria unidade, em uma sala 9ue, em tese,
deveria ser utili>ada pelos educadores
(JL
, as constantes apreens7es de drogas e celulares, a
din2mica de funcionamento da cadeia, sim$oli>ada pela e4pressão é tudo nosso e,
principalmente, o recente afastamento da presidente da institui"ão, fariam com 9ue os
integrantes da cCpula institucional optassem pelo fec8amento, ainda 9ue tempor#rio, de tal
unidade* Para os adolescentes da U1MO, 9ue seriam transferidos para o comple4o da Gila
%aria, mais especificamente, para a Unidade de 1nterna"ão Adoniran 3ar$osa, a decisão dos
agentes institucionais de +erar a cadeia, isto @, reformar o espa"o de interna"ão e su$stituir
toda a popula"ão da unidade, significava o t@rmino de suas camin"adas no comple4o -aposo
;avares* 6# para os funcion#rios dos distintos setores institucionais, a transferência de tais
ladr(es 9ue, vale notar, tam$@m eram c8amados de li$o, representava a possi$ilidade, ainda
9ue long)n9ua, de son8ar com outro cen#rio, no 9ual a cadeia seria controlada pelos funça*
A correria dos policiais militares, o $arul8o das sirenes sendo acionadas e o Tni$us
$ranco repleto de adolescentes 9ue, repentinamente, acelerou em dire"ão H -odovia -aposo
;avares, dei4ando para tr#s o #arque dos Constros, proporcionaram o es$o"o de um leve
sorriso por parte dos agentes institucionais 9ue acompan8avam a transferência dos ladr(es
estruturados* 0m certo sentido, a imagem da Unidade de 1nterna"ão MO como uma cadeia
dominada, isto @, como uma cadeia que fec"a com o Comando, a partir da9uele momento,
deslocavase rumo ao passado*
).& :eses de$ois, a cadeia tá na mão dos funça
'asci em Eaboão da 7erra, no dia J5 de maio de ?II?. 7ou de fam*lia pobre, irmão de
cinco garotos e uma menina. 2m dos meus irmãos morreu quando era recémLnascido,
dei$ando a min"a mãe com seis fil"os, quase todos de pais diferentes. Devido a
problemas financeiros e conflitos familiares, meus pais se separaram aos meus oito
anos de idade. Cin"a mãe ficou com uma criança recémLnascida, trabal"ando como
diarista. Ceu pai era dono de um boteco véio de favela e eu c"eio de son"os de
consumo. - partir dos nove anos de idade comecei a furtar brinquedos, c"ocolates,
doces e pequenas quantias em din"eiro para /ogar fliperama. -os on+e anos comecei a
(JL
0m rela"ão H constru"ão da piscina, em primeiro lugar, vale notar 9ue os adolescentes se apropriaram de uma
sala 9ue possu)a uma pia com algumas torneiras* 0m seguida, arrancaram a porta de entrada de tal am$iente e
inverteram a sua posi"ão, colocandoa na 8ori>ontal* Por fim, com o o$/etivo de impossi$ilitar a sa)da de #gua,
tamparam os ralos, $em como as frestas e4istentes entre os $atentes e a porta, com alguns peda"os de co$ertor*
Após o volume de #gua atingir alguns metros de altura, o suficiente para 9ue os internos pudessem arriscar um
mergul8o, a pia transformouse em uma esp@cie de trampolim*
(LR
fumar cigarro, roubar bicicletas e celulares. 2m tempo depois me envolvi com o tráfico
de drogas, começando como ol"eiro, que avisa os traficantes quando a pol*cia entra na
favela. Depois de um tempo passei pra vapor, o vendedor de drogas. 3sso até os do+e
anos de idade. -o mesmo tempo comecei a roubar 9 mão armada, lo/as e mercados. -
partir da*, passava mais tempo na rua do que em casa. C"eirava cola, fumava muita
macon"a, tomava muitas bebidas. 3sso até ser preso aos ?4 anos de idade por porte
ilegal de arma, perdendo o meu primeiro revólver calibre 4N. 1ui preso na véspera do
'atal, mas sa* no dia N@ Zo /ovem não c8egou a ser encamin8ado H Funda"ão CASA,
dando a entender 9ue 8ouve um poss)vel acerto com os policiais 9ue o a$ordaram[.
Da*, continuei na mesma, só que um tempo depois /á usava lança perfume, c"eirava
coca*na e fa+ia muito se$o. Depois fui preso por assalto, mas meu parceiro conseguiu
fugir com a arma, sendo solto no mesmo dia. Depois, aos ?O de anos de idade, fui preso
por tráfico de drogas. #assei pela 2-3, ficando tr0s dias no berço da opressão. 7ó
andando de mão pra trás, cabeça bai$a, sem falar uma palavra, a não ser licença
sen"or, licença sen"ora. 7ó soco na cara, Depois fui pra 23#L@, o espel"o da 2-3,
sendo encamin"ado ao 3nternato de 1ranco da &oc"a, cadeia na mão dos menor, sem
regras de funcionários, só regras criminais. Depois de um m0s fui encamin"ado pra 23L
NI. Depois pra 23LNO, ambas na nossa mão Zunidades dominadas[. Depois de uns nove
meses, fui desinternado no dia N4 de de+embro de NJJH.
Após um $reve per)odo de estadia nas Unidades de 1nterna"ão do comple4o de Franco
da -oc8a, apro4imadamente um ano, espa"o institucional em 9ue Ariel c8egou a ocupar o
posto de fa$ina, o adolescente retorna Hs ruas da capital paulista* + distanciamento de seus
familiares, 9ue intensificouse com a prisão do garoto, após a desinterna"ão, não foi
totalmente superado* :esse conte4to, a Cnica sa)da encontrada pelo adolescente 9ue, depois
do t@rmino da medida socioeducativa, continua c"eio de son"os de consumo, @ alugar um
pe9ueno $arraco na favela, roubando de quatro a oito ve+es por semana* Diante de tal
cen#rio, mais uma ve>, a for"a policial se apro4ima*
0m /un8o de &''I, portanto, seis meses após o encerramento de sua primeira medida
socioeducativa de interna"ão, a camin"ada de meu interlocutor no mundão, 9ue tin8a
apro4imadamente (O anos, @ novamente interrompida* Após uma tentativa de assalto, o /ovem
@ encamin8ado H Funda"ão CASA, percorrendo o circuito institucional /# con8ecido pelos
reincidentes, a"ão criminosa, a$ordagem policial, delegacia, Unidade de Atendimento 1nicial,
Unidade de 1nterna"ão Provisória e Unidade de 1nterna"ão*
Gale ressaltar 9ue, em meados de &''I, ao mesmo tempo em 9ue o adolescente sofre
com as constantes agress7es perpetradas pelos agentes institucionais das Unidades de
Atendimento 1nicial e de 1nterna"ão Provisória, assim como da primeira ve> em 9ue foi
enviado H tais espa"os de interna"ão, os agentes institucionais da U1MO acertam os Cltimos
(N'
detal8es para a reinaugura"ão da unidade* As men"7es ao Primeiro Comando da Capital,
espal8adas pelas paredes do #arque dos Constros, são enco$ertas* Da mesma forma, a 9uadra
de fute$ol des$otada, $em como o portão de a"o 9ue possi$ilita o acesso ao p#tio da unidade,
rece$em algumas camadas de tinta* Com o o$/etivo de evitar 9ue os adolescentes acessem o
tel8ado da cadeia, espa"o considerado estrat@gico pelos disciplinas, 8a/a visto 9ue, entre
outras coisas, possi$ilita a comunica"ão com os ladr(es de outras Unidades de 1nterna"ão,
uma esp@cie de guarita @ constru)da no topo de uma das mural8as da Unidade de 1nterna"ão
MO* De agora em diante, todos a9ueles 9ue forem encamin8ados H tal espa"o institucional
serão constantemente vigiados pelos integrantes do C"oquin"o 9ue, pelo fato de terem uma
visão privilegiada do p#tio interno, após a c8egada dos novatos, conseguirão o$servar todos
os movimentos adotados pela nova popula"ão da unidade* A promessa dos integrantes da
cCpula institucional de 9ue a cadeia funcionar# a partir de um programa pedagógico especial,
ela$orado para atender apenas os /ovens reincidentes, desperta o interesse por parte dos
funcion#rios de outros espa"os de interna"ão* Se antes da reforma no #arque dos Constros,
ningu@m dese/ava atuar na Unidade de 1nterna"ão MO, no presente momento, a situa"ão se
inverte* +s agentes institucionais 9ue enfrentam inCmeras dificuldades em outras unidades do
comple4o -aposo ;avares como, por e4emplo, a Unidade de 1nterna"ão MI, 9ue encontrase
completamente dominada pelos adolescentes, alme/am uma poss)vel transferência para a U1
MO 9ue, inclusive, @ re$ati>ada para 'ova -roeira* A capacidade de atendimento de tal espa"o
institucional, 9ue em alguns momentos c8egou a a$rigar apro4imadamente (N' ladr(es
estruturados, tam$@m @ modificada, sendo redu>ida para NJ internos, medida e4tremamente
necess#ria 9uando o principal o$/etivo @ controlar os movimentos corporais dos rec@m
c8egados* De fato, diante de tantas modifica"7es, do ponto de vista dos agentes institucionais,
so$retudo da9ueles 9ue sofreram com a din2mica de funcionamento do #arque dos Constros,
caracteri>ada pelo dom)nio a$soluto dos adolescentes, 8# muitos motivos para comemorar,
$em como para acreditar 9ue, a princ)pio, a Unidade de 1nterna"ão MO /# não @ mais a mesma*
0m setem$ro de &''I, Ariel, após aguardar a decisão /udicial acerca da medida
socioeducativa 9ue l8e seria imposta na Unidade de 1nterna"ão Provisória (( <U1P((=,
comple4o 3r#s, durante apro4imadamente três meses, rece$e a not)cia de 9ue ser#
encamin8ado H Unidade de 1nterna"ão MO* A satisfa"ão do garoto, por recon8ecer 9ue
cumprir# a sua segunda medida socioeducativa em uma cadeia 9ue sempre fec"ou com o
certo, em poucos instantes, ser# desfeita* Afinal, ao colocar os p@s dentro do p#tio interno da
(N(
'ova -roeira, o adolescente perce$e, por meio da dor em seu próprio corpo, 9ue o #arque
dos Constros @ apenas uma imagem do passado* Por incr)vel 9ue pare"a, @ preciso recon8ecer
9ue, no presente momento, a cadeia tá na mão dos funça*
Duando eu c"eguei aqui na 23L4H só tin"a eu e mais tr0s menor. Ein"a também ?N
funcionários opressores e de+enas de regras absurdas. >ogo de cara, gan"ei muito
coro, muita porrada, um corte raso na cara, um outro corte profundo na nuca, levando
cinco pontos e sofrendo com muita opressão todos os dias.
Diferentemente do 9ue ocorreu em sua primeira inser"ão institucional, 9uando o
adolescente, ao c8egar no comple4o de Franco da -oc8a, foi rece$ido pelos frente da
situação, na 'ova -roeira, a recep"ão dos rec@mc8egados, inclusive no p#tio interno, @
organi>ada pelos próprios agentes institucionais 9ue, assim 9ue os novatos cru>am o Cltimo
portão de a"o rumo H cadeia, tratam de enfati>ar, agora quem manda é nóis*
De fato, se atentarmos para os apontamentos tecidos no in)cio do presente cap)tulo,
veremos 9ue a din2mica de funcionamento da Unidade de 1nterna"ão MO, após a
reinaugura"ão de tal espa"o institucional, 9ue ocorreu no dia (R de setem$ro de &''I, @ outra*
+s incessantes espancamentos sofridos pelos novatos 9ue são encamin8ados H 'ova -roeira,
as mãos entrela"adas para tr#s, os uniformes institucionais, a ca$e"a sempre apontada para o
c8ão e, como ressalta meu interlocutor, a e4istência de uma infinidade de regras absurdas,
tais como, as revistas 9ue c8egam a ser reali>adas três ve>es ao dia, a forma"ão de filas 9ue
antecede a e4ecu"ão de todas as atividades cotidianas e os r)gidos 8or#rios estipulados pelos
mem$ros do corpo funcional, 9ue, entre outros procedimentos, controlam os poucos minutos
em 9ue os adolescentes permanecem em$ai4o do c8uveiro, evidenciam o deslocamento do
9uadro institucional e, conse9uentemente, a altera"ão das rela"7es de poder
(JN
* :esse
conte4to, vêse 9ue os ponteiros dos poucos relógios 9ue permanecem nos $ra"os dos agentes
institucionais, assim como ocorre em todas as unidades 9ue são classificadas como na mão
dos funça, do ponto de vista dos adolescentes, tardam em avan"ar, dando a impressão de 9ue
o tempo não passa e 9ue, portanto, todos os dias são iguais*
(JN
:o presente tra$al8o, como /# mencionado ao longo do Cap)tulo (, mo$ili>o o conceito de poder tal como
proposto por :or$ert 0lias* :esse sentido, argumento 9ue o poder, dependendo do arran/o institucional, isto @, da
forma 9ue as rela"7es assumem numa determinada con/untura, pode moverse para diante e para tr#s, para um
lado e para o outro <0L1AS, (RO', p*(LM=* :o 9ue concerne aos espa"os de interna"ão da Funda"ão CASA, como
veremos ao longo deste cap)tulo, o e9uil)$rio inst#vel de poder, com as tens7es 9ue l8e são inerentes, constitui
um dos tra"os fundamentais do universo institucional*
(N&
-qui na 23L4H todo dia é a mesma coisa. -cordamos 9s 5"4J porque estamos de férias,
senão levantamos 9s @". Eomamos uma duc"a de no má$imo tr0s minutos e descemos
para o pátio. .ntramos no refeitório, fa+emos as nossas oraç(es e tomamos o nosso
café da man"ã. 7a*mos para o pátio e fumamos um cigarro cada um. -lguns
adolescentes vão para os cursos Zculturais e profissionali>antes[, enquanto outros ficam
no pátio. .sses não fa+em muita coisa. Depois, almoçamos e fumamos mais um cigarro.
'o mundão, voc0 vai pra lá e vem pra cá, o tempo passa mais rápido. -qui, um dia é
um ano inteiro, o tempo não passa. 'o per*odo da tarde, escovamos os dentes e
voltamos para o pátio. -lguns vão para os cursos e outros ficam no pátio parasitando
Zsem fa>er nada[. Fs ?H", pagamos a duc"a Ztomamos $an8o[, voltamos para o barraco
e descemos 9s ?5" para o /antar. Depois, mais um cigarro. -*, passamos pela contagem
e depois uma parte sobe para assistir televisão, enquanto a outra fica no pátio até 9s
N?". Depois, tomamos o café da noite e fumamos mais um cigarro. C"egou a "ora de
escovar os dentes. Da*, tiramos o nosso descanso, porque aman"ã é o mesmo dia
(JJ
.
Se antes de +erar a cadeia os adolescentes da U1MO detin8am o total controle so$re o
espa"o institucional, fumando macon8a livremente, organi>ando as atividades reali>adas
dentro da unidade, impedindo a entrada de determinados integrantes do corpo funcional no
p#tio interno e utili>ando os diversos telefones celulares para manter contato com os mem$ros
do Comando
(JO
, após a transferência do li$o para o comple4o da Gila %aria, vêse 9ue o
cen#rio institucional 9ue emerge diante de nossos ol8os destoa completamente das imagens
9ue caracteri>aram o #arque dos Constros, 8a/a visto 9ue os adolescentes da 'ova -roeira,
entre tantas restri"7es, se9uer podem acender os seus respectivos cigarros antes de serem
devidamente autori>ados pelos funça de pátio* :esse conte4to, em 9ue as disparidades de
for"a entre os adolescentes e os agentes institucionais tornamse acentuadas, os /ovens 9ue
são encamin8ados H Unidade de 1nterna"ão MO, sempre 9ue poss)vel, rec8a"am o modo de
opera"ão adotado pelos funça*
- proposta da 1undação C-7- é de reabilitar o adolescente para o conv*vio, tanto
familiar quanto com a sociedade, acreditando em um tratamento sem agress(es e com
base no respeito. #orém, isto é só fantasia para as autoridades. -qui dentro Zna U1MO[
acontece tudo diferente do que é passado lá fora. -lguns funcionários querem impor o
respeito através de agress(es, tanto f*sicas quanto psicológicas. 'o meu ponto de vista,
(JJ
A produ"ão te4tual descrita acima, 9ue retrata o cotidiano da cadeia, foi ela$orada por dois adolescentes da
Unidade de 1nterna"ão MO em de>em$ro de &''I, durante a reali>a"ão de uma oficina de comunica"ão, per)odo
em 9ue, diferentemente das oficinas de f@rias, passei a atuar como educador fi4o em tal unidade, ministrando
atividades semanais aos adolescentes de tal espa"o institucional at@ meados de &''R*
(JO
0m /aneiro de &''O, antes 9ue os ladr(es estruturados fossem transferidos para o comple4o da Gila %aria, os
disciplinas disseramme 9ue, na9uele momento, 8avia mais de 9uin>e celulares dentro da cadeia* Segundo os
/ovens, 9ue fa>iam 9uestão de enfati>ar o dom)nio so$re o espa"o institucional, no #arque dos Constros, tirando
a li$erdade, não faltava nada* -" sen"or, aqui só não entra carro e moto porque não passa na gaiola. De resto,
nóis t0m de tudo aqui dentro da cadeia <fa$ina da U1MO=.
(NM
os funcionários deveriam saber entrar e sair de uma discussão, pois passam por curso
de capacitação para trabal"ar nesta Tnova propostaU. #orém, isso não acontece. .les
são todos vermes que se dei$armos, eles $ingam até os nossos familiares. . como aqui
dentro a fam*lia é prioridade, quando ocorre ofensas com os familiares ou desrespeito
na "ora da revista, na maioria das ve+es, o confronto é inevitável <produ"ão te4tual
ela$orada por um adolescente da Unidade de 1nterna"ão MO em de>em$ro de &''I=*
Diante de tal situa"ão, sem dCvida dolorosa, os adolescentes 9ue cumprem medida
socioeducativa de interna"ão na 'ova -roeira, 9ue nos Cltimos dias de &''I somam
apro4imadamente L' internos, come"am a cogitar a possi$ilidade de bater de frente com os
agentes institucionais* Afinal, aos ol8os de tais ladr(es, @ preciso inverter o atual 9uadro
institucional e retomar o controle da cadeia 9ue, desde a sua inaugura"ão, no in)cio de &''L,
nota$ili>ouse, perante os internos de outras unidades dominadas, por a$rigar apenas os
adolescentes 9ue fec"am com o certo* Contudo, vale salientar 9ue as adversidades são muitas*
+ nCmero redu>ido de adolescentes no p#tio interno, a divisão de toda a popula"ão da unidade
em dois grupos 9ue praticamente não se comunicam, 8a/a visto 9ue estes permanecem em alas
diferentes, a dificuldade de entrar em contato com os integrantes do PCC, o r)gido controle
institucional e4ercido so$re os corpos dos adolescentes e a presen"a cont)nua dos integrantes
do C"oquin"o no tel8ado da cadeia, 9ue permanecem com as armas cali$re (& carregadas de
$alas de $orrac8a, prontas para serem disparadas assim 9ue algum movimento suspeito for
adotado pelos adolescentes, constituem alguns dos inCmeros empecil8os enfrentados pelos
ladr(es* Diante de tal cen#rio, a mel8or sa)da para superar tais dificuldades, como ressaltam
meus interlocutores, é agir na intelig0ncia, tá ligado)
De fato, tendo em vista 9ue a cadeia encontrase totalmente na mão dos funça, partir
para o confronto com os agentes institucionais não configurase como uma estrat@gia
prudente, so$retudo por9ue os adolescentes de tal espa"o de interna"ão encontramse em
nCmero redu>ido, o 9ue significa 9ue 9ual9uer tentativa de subir os funça na madeira seria
facilmente controlada* Do ponto de vista dos internos, antes de mais nada, fa>se necess#rio
implantar a disciplina do Comando 9ue, como vimos no cap)tulo precedente, al@m de orientar
as a"7es de meus interlocutores, assegura o respeito e a igualdade entre a9ueles 9ue estão
privados de li$erdade, possi$ilitando a união entre os ladr(es* Para tanto, @ preciso 9ue alguns
adolescentes, em concord2ncia com as opini7es emitidas por todos os internos da 'ova
-roeira, se/am escol8idos para ocupar a posi"ão de lideran"a* 0m outras palavras, tornase
necess#rio selecionar os ladr(es 9ue serão recon8ecidos pelos outros internos como os frente
(NL
da cadeia* ;ais adolescentes, ao falarem em nome do Primeiro Comando da Capital, al@m de
orientarem a conduta dos compan8eiros de camin"ada, transmitindo instru"7es, serão os
principais respons#veis por condu>ir as lutas travadas com os agentes institucionais,
ela$orando as estrat@gias 9ue serão adotadas durante os incessantes em$ates entre tais atores*
Apesar dos adolescentes encamin8ados H Unidade de 1nterna"ão MO possu)rem outras
passagens pela Funda"ão CASA, vale notar 9ue aos ol8os de alguns ladr(es, nem todos os
compan8eiros 9ue encontramse internados na 'ova -roeira são capacitados para assumir
postos de lideran"a, so$retudo por causa de suas respectivas camin"adas* -" sen"or, tem
muito menor a* que /á tirou uma cota em outras cadeias, mas se voc0 ver a camin"ada dos
mano, muitos adolescentes só passaram por cadeia de verme, tipo o comple$o Brás <Ariel=
(JI
*
Pelo fato de não 8aver ladr(es estruturados para preenc8er todos os postos
8ier#r9uicos presentes nas unidades dominadas, a sa$er, setor, fa$ina, encarregado e piloto,
os adolescentes da 'ova -roeira, após a circula"ão de inCmeros $il8etes entre as duas alas da
cadeia, 9ue vão e vêm com as sugest7es de todos os internos acerca dos nomes 9ue devem
assumir a frente da situação, recon8ecem 9ue @ preciso implantar a lideran"a aos poucos,
optando, primeiramente, pela nomea"ão de apenas três fa$ineiros* Ariel, 9ue /# 8avia ocupado
tal posto em sua primeira passagem pela institui"ão, na 9ual o adolescente transitou pelas
cadeias do comple4o de Franco da -oc8a 9ue, como vimos no cap)tulo anterior, go>a de
elevado capital sim$ólico perante os internos de outros espa"os institucionais, o$viamente,
figura entre os escol8idos* De fato, as e4periências ad9uiridas ao lado dos internos de
1ranquin"o, $em como o con8ecimento acerca do modo de opera"ão das cadeias do
Comando, o tornam um ladrão respeitado*
Gale salientar 9ue a atua"ão dos três fa$ineiros, para 9ue estes o$ten8am ê4ito, num
primeiro momento, deve ser discreta, so$retudo por9ue os adolescentes 9ue encontramse
associados H posi"ão de lideran"a sa$em 9ue se forem desco$ertos pelos agentes institucionais
podem ser rapidamente transferidos para outros espa"os de interna"ão* Diante de tal cen#rio,
notase 9ue as lideran"as atuam com e4tremo cuidado* Do ponto de vista dos frente da cadeia,
o primeiro passo a ser adotado consiste em apro4imar os adolescentes das duas alas, fa>endo
com 9ue todos os internos da unidade se movimentem de acordo com a disciplina do
(JI
U importante atentarmos para o pC$lico encamin8ado H U1MO* Se antes da reinaugura"ão de tal espa"o
institucional os adolescentes enviados ao #arque dos Constros possu)am diversas passagens pela institui"ão, em
especial, por distintas cadeias dominadas, na 'ova -roeira, $oa parte dos internos 9ue c8ega H cadeia, como
ressalta Ariel, circulou apenas por unidades na mão dos funça, fato 9ue os diferencia de meu interlocutor, um dos
poucos 9ue /# tirou uma cota no comple4o de Franco da -oc8a*
(NN
Comando* Para tanto, os $il8etes, tam$@m con8ecidos como pipas, com diversas orienta"7es
transmitidas pelas lideran"as, configuramse como importantes instrumentos de comunica"ão*
As discuss7es entre os internos, 9ue nas unidades na mão dos funça tornamse
poss)veis, passam a ser terminantemente proi$idas pelos fa$ineiros, afinal, para 9ue os
adolescentes retomem o controle do espa"o institucional a união entre os ladr(es @
imprescind)vel* Da mesma forma, a9ueles 9ue insistem em cometer erros no cotidiano da
interna"ão como, por e4emplo, mastur$arse no dia de visita e ratear os pertences dos
compan8eiros de camin"ada, apesar de não serem imediatamente co$rados pelas lideran"as,
na medida em 9ue tais atitudes provocariam suspeitas por parte dos agentes institucionais,
9uando a cadeia estiver na mão dos menor, serão punidos* Aos poucos, por meio dos corpos
dos adolescentes, 9ue passam a atentar para os seus movimentos, so$retudo durante os
momentos em 9ue 8# a presen"a de familiares dentro do p#tio interno, vêse 9ue a disciplina
do Comando vai sendo implantada, acontecimento 9ue provoca a crescente insatisfa"ão por
parte dos integrantes do corpo funcional
(JR
*
Com o passar dos dias, os disciplinas, impulsionados pelo dese/o de retomar a cadeia,
$em como pelo total apoio dos outros adolescentes, intensificam as suas a"7es, tornandose
cada ve> mais ousados* Pelo p#tio interno, notase 9ue os fa$ineiros camin8am de um lado
para o outro, transmitindo algumas orienta"7es aos adolescentes da população e,
conse9uentemente, despertando suspeitas por parte dos agentes institucionais 9ue, tendo em
vista a possi$ilidade, ainda 9ue diminuta, de perder o controle do espa"o institucional,
respondem a tal amea"a com mais coro e porrada* Aos ol8os dos internos, desde 9ue a
Unidade de 1nterna"ão MO foi reinaugurada, pela primeira ve>, os ponteiros do relógio
avan"am com certa rapide>* +s adolescentes da 'ova -roeira estão ansiosos, afinal, a triste>a
por passar as festas de final de ano atr#s das grades, em $reve, ser# su$stitu)da pela satisfa"ão
de bater de frente com os funça* Ao mesmo tempo em 9ue as pessoas do mundão se preparam
para comemorar a entrada do novo ano, os três fa$ineiros, 9ue nos Cltimos dias de &''I
passam a contar com o au4)lio de um adolescente 9ue ocupa o posto de piloto da cadeia,
escol8ido por meio de uma vota"ão entre todos os internos da unidade
(O'
, acertam os Cltimos
(JR
Certa ve>, ao c8egar no setor pedagógico da Unidade de 1nterna"ão MO, pude constatar 9ue a coordenadora
pedagógica estava irritada* ;al descontentamento, conforme min8a interlocutora, deviase ao fato de 9ue os
/ovens 8aviam se recusado a participar de uma aula de vTlei por9ue a mãe de um dos internos encontravase na
cadeia* Segundo os adolescentes, en9uanto o familiar permanecesse no p#tio interno a atividade não seria
reali>ada, 8a/a visto 9ue a pr#tica de tal esporte faria com 9ue as camisetas dos /ogadores levantassem,
mostrando algumas partes de seus respectivos corpos H mãe do compan8eiro*
(O'
U importante atentarmos para o fato de 9ue o adolescente escol8ido para ocupar tal posto, do ponto de vista
dos internos da 'ova -roeira, possu)a uma camin"ada respeit#vel* Al@m de ter cometido diversos crimes, entre
(NJ
detal8es com os compan8eiros de camin"ada* + plano ela$orado pelas lideran"as, dentro de
alguns minutos, ser# colocado em pr#tica* Agora só resta esperar o sinal a ser dado pelos
frente da cadeia para 9ue os gritos dos adolescentes da 'ova -roeira ecoem por todo o
comple4o -aposo ;avares, demonstrando 9ue os ladr(es da Unidade de 1nterna"ão MO, apesar
de tantas dificuldades, ainda se esfor"am para fec"ar com o Comando*
L #ai 'osso, que estais no céu...
L -ve Caria, c"eia de graça...
L 7e Deus é por nós, quem será contra nós)
L 7e a B3&

imbicar Zentrar na unidade[, nóis mata.
L Buerrear sempre, vencer 9s ve+es, desistir /amais.
L 2m por todos, todos por um.
L 2nidos venceremos.
L 7em luta, não "á vitória.
L 1alaremos todos em uma só vo+.
L-conteça o que acontecer, sempre "averá um de nós.
L &evolucionários do ?O, somos terroristas.
L 'a 4H é tudo nosso, se não for nosso nóis destrói.
L 'osso lema éA pa+, /ustiça, liberdade.
L 'ão somos o ?G nem o ?@, somos o ?O.
L 'ão somos o segundo nem o terceiro, somos o primeiro.
L ?O44
(O(
, #CC, ?O44, #CC, ?O44, #CC.
L : ?O prevalece.
os 9uais, o assassinato de um policial da -+;A durante uma tentativa de latroc)nio, Fred possu)a distintas
passagens pela institui"ão, algumas interrompidas por tentativas de fuga $emsucedidas* Segundo o adolescente,
min"a infWncia foi baseada em conviv0ncias com criminosos de todas as idades* :esse sentido, destaco as
rela"7es esta$elecidas com os integrantes do Primeiro Comando da Capital*
(O(
Como $em o$serva Aarina 3iondi <&'(', p*OL=, Peste nCmero segue o VAlfa$eto CongoV, segundo o 9ual as
letras são numeradas de acordo com sua posi"ão no alfa$eto* :esse sistema, o P corresponde H d@cima 9uinta
letra e o C, H terceira letra* Desta forma, o nCmero (N*M*M @ o e9uivalente num@rico H sigla PCCQ*
(NO
+s di>eres acima, tam$@m con8ecidos como gritão
(O&
, ao serem proferidos pelos
adolescentes da 'ova -roeira, misturados ao som estrondoso dos inCmeros socos e pontap@s
distri$u)dos pelas portas de a"o de todos os barracos da cadeia, aterrori>am os agentes
institucionais* Gale notar 9ue tal manifesta"ão, principalmente para a9ueles 9ue vivenciaram a
din2mica de funcionamento do #arque dos Constros, de certa forma, sim$oli>a o retorno ao
passado* De fato, tratamse de lem$ran"as indese/#veis, imagens des$otadas pelo tempo 9ue a
cada frase proferida pelos internos voltam H tona, como 9ue pondo em risco o atual 9uadro
institucional, caracteri>ado pelo dom)nio dos funça*
Diante de tal acontecimento, com o o$/etivo de enterrar tais lem$ran"as de uma ve>
por todas e evidenciar aos adolescentes 9ue a Unidade de 1nterna"ão MO continua na mão dos
funça, os agentes institucionais, após o gritão do Comando, partem para o esculac"o, isto @,
intensificam as agress7es, $em como os insultos e as 8umil8a"7es contra os ladr(es* Por sua
ve>, os disciplinas, encarregados de proteger os /ovens da população, reagem, ela$orando
novas estrat@gias de atua"ão* ;ais adolescentes, pelo fato de possu)rem outras passagens pela
institui"ão, o 9ue, em certo sentido, os torna profundos con8ecedores do universo
institucional, têm consciência de 9ue os relatos so$re as agress7es praticadas por alguns
funcion#rios, se c8egarem aos ouvidos dos integrantes do Departamento de 04ecu"7es da
1nf2ncia e 6uventude <D016= 9ue, entre outras atri$ui"7es, reali>am inspe"7es /udiciais nas
Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão CASA para apurar denCncias de supostos maustratos
contra os adolescentes, podem proporcionar o afastamento dos envolvidos por tempo
indeterminado, inclusive do diretor da cadeia, acontecimento 9ue, do ponto de vista das
lideran"as, configurase como uma $oa oportunidade para retomar o controle do espa"o
institucional, na medida em 9ue os agressores, ao serem afastados de seus cargos, dei4ando a
unidade com um 9uadro funcional insuficiente, o 9ue, em termos pr#ticos, significa 9ue os
adolescentes não serão controlados com tanta efic#cia, a$rem espa"o para a livre circula"ão
das lideran"as pelas duas alas da cadeia, $em como por todos os am$ientes do p#tio interno*
+s pipas, 9ue antes da reali>a"ão do gritão circulavam apenas entre os internos da
'ova -roeira, possi$ilitando a escol8a da9ueles 9ue assumiram a frente da cadeia, assim
como a difusão das orienta"7es transmitidas por tais adolescentes ao restante da unidade, após
(O&
Gale ressaltar 9ue o gritão tam$@m @ con8ecido entre os internos como a re+a do Comando. 0m geral, os
adolescentes 9ue cumprem medida socioeducativa de interna"ão nas unidades dominadas re+am duas ve>es ao
dia, sendo a primeira na parte da man8ã e a segunda no in)cio da noite* Como podemos ver, as frases proferidas
durante a re+a, al@m de enfati>arem o dom)nio do espa"o institucional por parte dos internos, apontam para uma
poss)vel vincula"ão entre os adolescentes e o Primeiro Comando da Capital*
(NI
a intensifica"ão das agress7es perpetradas pelos funcion#rios, come"am a ser enviados para o
outro lado dos muros institucionais* Al@m de informar os integrantes do Primeiro Comando da
Capital so$re a situa"ão delicada em 9ue se encontram os ladr(es da Unidade de 1nterna"ão
MO, o 9ue pode resultar em alguma atitude por parte dos irmãos, 8a/a visto 9ue tal unidade
sempre fec"ou com o certo
(OM
, tais comunicados, ao serem enviados aos compan8eiros do
mundão, solicitando 9ue estes fa"am denCncias acerca do modo de opera"ão dos agentes
institucionais, se encamin8ados aos defensores dos direitos 8umanos podem tra>er
conse9uências desagrad#veis H dire"ão da unidade* Diante de tal cen#rio, marcado pela luta
silenciosa dos adolescentes, 9ue continuam apan8ando sem retri$uir as agress7es, 8a/a visto
9ue, como ressaltam meus interlocutores, @ preciso agir na intelig0ncia, notase 9ue os
familiares dos internos, mesmo 9ue indiretamente, transformamse em importantes aliados
dos adolescentes no 9ue concerne H intensa disputa pelo controle do espa"o institucional,
principalmente as mães dos /ovens, 9ue ao ouvirem os relatos de seus fil8os durante os dias
de visita encamin8am as inCmeras reclama"7es dos internos Hs entidades de defesa dos
direitos da crian"a e do adolescente 9ue, em posse de tais relatos, pressionam os órgãos
governamentais para 9ue 8a/a uma interven"ão na Unidade de 1nterna"ão MO*
De fato, vêse 9ue na luta pelo dom)nio da cadeia, todos os atores institucionais
envolvidos /ogam o /ogo com o m#4imo de suas for"as* Ao mesmo tempo em 9ue os
adolescentes se movimentam no sentido de redu>ir os diferenciais de poder 9ue caracteri>am
as rela"7es travadas entre os internos e os agentes institucionais, o 9ue, ali#s, coloca os
primeiros em uma situa"ão de e4trema opressão, os integrantes do corpo funcional, por sua
ve>, apostam todas as suas fic8as na manuten"ão do atual 9uadro institucional ou, em outras
palavras, na preserva"ão das disparidades de for"a* :esse sentido, notase 9ue tais atores, ao
longo dos incessantes em$ates, colocam as suas distintas estrat@gias em opera"ão* Ao passo
(OM
U importante ressaltar 9ue os disciplinas da Unidade de 1nterna"ão MI, sempre 9ue eu comparecia ao p#tio
interno para ministrar atividades fotogr#ficas aos adolescentes, fa>iam 9uestão de perguntar so$re a situa"ão da
'ova -roeira* Certa ve>, o piloto de tal unidade, após enfati>ar 9ue tin8a informa"7es acerca dos espancamentos
sofridos pelos internos, pediume um favor 9ue, por 9uest7es @ticas, não foi atendido* Disse para 9ue eu
providenciasse o nome completo de 9ual9uer adolescente 9ue encontravase internado na U1MO para 9ue ele
enviasse um comunicado aos integrantes do PCC* Segundo o piloto, tal informa"ão, após ser encamin8ada aos
irmãos, seria repassada a um dos advogados 9ue prestam servi"os ao #artido* 0ste, em posse de tais dados,
tomaria as providências necess#rias para 9ue as denCncias c8egassem aos ouvidos dos órgãos competentes,
atitude 9ue poderia resultar em uma inspe"ão /udicial na Unidade de 1nterna"ão MO e, conse9uentemente, no
afastamento dos agressores* Gale notar 9ue o envolvimento de advogados com integrantes do Comando, al@m de
ser recon8ecido por autoridades governamentais, /# foi amplamente noticiado pela m)dia* 0m /ul8o de &''J, por
e4emplo, durante a reali>a"ão da CP1 do ;r#fico de Armas, ML advogados estavam sendo investigados pela
comissão parlamentar, todos suspeitos de cola$orar com o Primeiro Comando da Capital* 1nforma"7es retiradas
de uma pu$lica"ão do .stado de 7.#aulo <Wue$rados sigilos de advogados suspeitos de liga"ão com PCC, &''J=*
(NR
9ue os agentes institucionais diminuem a intensidade dos espancamentos, inclusive pondo em
pr#tica t@cnicas de tortura 9ue não dei4am marcas nos corpos dos adolescentes como, por
e4emplo, $ater nas solas dos p@s, principalmente 9uando 8# $oatos de 9ue alguma inspe"ão
/udicial pode ocorrer repentinamente, os internos, com o intuito de acelerar o afastamento dos
vermes, por incr)vel 9ue pare"a, produ>em ferimentos em seus próprios corpos, acentuando as
marcas /# dei4adas pelos mem$ros do corpo funcional* Afinal, 9uando os integrantes do
Departamento de 04ecu"7es da 1nf2ncia e 6uventude comparecerem H Unidade de 1nterna"ão
MO, as provas dos espancamentos reali>ados pelos funcion#rios, em especial, pelos funça de
pátio e pelos mem$ros C"oquin"o, devem estar cravadas na carne dos ladr(es*
:a Unidade de 1nterna"ão MO, vêse 9ue os primeiros dias de &''R são marcados pelo
aumento da tensão* As men"7es ao Primeiro Comando da Capital, 9ue estampavam as paredes
do #arque dos Constros, $em como as cadeiras das salas de aula, na 'ova -roeira, são
su$stitu)das por palavras 9ue, em certo sentido, representam o sentimento dos adolescentes,
tais como, ódio, revolta, morte para os vermes e dese/os "omicidas*
A satisfa"ão dos adolescentes pelo fato de terem reali>ado o gritão do Comando na
noite do ano novo, acontecimento 9ue, aos ol8os das lideran"as, sim$oli>ou a primeira vitória
perante os integrantes do corpo funcional, aos poucos, cede espa"o ao descontentamento, 8a/a
visto 9ue a 'ova -roeira ainda continua na mão dos funça* Gale notar 9ue apesar das
constantes 8umil8a"7es sofridas pelos internos, os disciplinas devem manterse calmos*
A9ueles 9ue discutem com os agentes institucionais de modo incisivo, perdendo o controle,
são automaticamente afastados de seus postos, afinal, como ressalta meu interlocutor, agora é
o momento de agir com a ra+ão e não com a emoção <Fred, piloto da cadeia=*
Se durante a implanta"ão dos primeiros postos 8ier#r9uicos na 'ova -roeira, como
pudemos ver, todos os adolescentes da unidade deram as suas respectivas opini7es acerca dos
nomes 9ue deveriam assumir a frente da situação, após a nomea"ão dos três fa$ineiros, $em
como do piloto da cadeia, as 9uest7es 9ue envolvem a lideran"a passam a ser solucionadas
apenas pelos disciplinas, o 9ue não significa 9ue os adolescentes da população, em
determinadas ocasi7es, não se/am consultados* Desse modo, a9ueles 9ue, entre outras
9ualidades, são "umildes, demonstrando 9ue estão preparados para atuar /unto aos l)deres,
para preenc8er um determinado posto 8ier#r9uico, antes de mais nada, devem ser convidados
pelos frente da cadeia* Da mesma forma, os disciplinas 9ue cometem erros na cadeia como,
por e4emplo, a$usar da autoridade perante a população, após irem pra ideia, dependendo do
(J'
caso, são imediatamente afastados dos postos de lideran"a pelos compan8eiros de camin"ada*
:o in)cio de /aneiro de &''R, Ariel, /untamente com os outros dois adolescentes 9ue
ocupam o posto de fa$ina, ao longo de uma discussão travada com os funça de pátio, na 9ual
os internos 9uestionam o modo de opera"ão de tais atores institucionais, marcado pelas
constantes 8umil8a"7es aos adolescentes, perde o controle* A calma necess#ria para a9ueles
9ue ocupam postos de lideran"a, em poucos minutos, cede espa"o H revolta 9uase 9ue
incontrol#vel* A ra+ão transformase em emoção* Fred, 9ue ocupa o posto de piloto da cadeia,
ao presenciar o descontrole dos três fa$ineiros, sa$e 9ue precisa tomar uma atitude* +
adolescente, com o apoio dos internos da população, 9ue recon8ecem o e9u)voco cometido
pelos três fa$inas, 8a/a visto 9ue os agentes institucionais poderiam e4acer$ar o tratamento
repressivo disponi$ili>ado aos ladr(es da unidade, so$retudo por causa do comportamento
inade9uado adotado pelos frente da cadeia, opta pelo afastamento das lideran"as 9ue, ao
recon8ecerem os erros cometidos, aceitam a decisão do compan8eiro* Contudo, o piloto
recon8ece 9ue tais postos não podem permanecer va>ios por muito tempo* 0m primeiro lugar,
por9ue a luta contra os agentes institucionais est# apenas come"ando* :esse sentido, o
preenc8imento de todos os postos de lideran"a por adolescentes 9ue encontramse preparados
para enfrentar tais em$ates, com as tens7es 9ue l8e são constitutivas, tornase fundamental*
0m segundo lugar, por9ue caso o adolescente continue na frente da situação atuando so>in8o,
este pode ser acusado pelos outros internos de tomar atitudes isoladas, o 9ue não condi> com
a postura adotada por a9ueles 9ue fec"am com o certo* Diante de tal situa"ão, só resta ao
piloto da cadeia o$servar a conduta dos adolescentes da população para, posteriormente,
fa>er o convite H9ueles 9ue encontramse preparados para somar com a disciplina* Ao longo
de tal avalia"ão, vêse 9ue meu interlocutor adota alguns crit@rios*
#ra somar na disciplina, primeiramente, o mano tem que ter discernimento, que é saber
distinguir o certo do errado, principalmente para não cometer in/ustiças e para
implantar a pa+, a /ustiça e a liberdade dentro da cadeia. : cara tem que ter pulso
firme, ter disposição, ter uma camin"ada correta, ter a noção do que está fa+endo. Eem
que saber o peso da camiseta da fa$ina Za responsa$ilidade de ocupar tal posto
8ier#r9uico[, que é a vida. 7empre agir na ra+ão, /amais na emoção. Eem que fortalecer
os seus demais compan"eiros de camin"ada e não negar atenção pra população. Eem
que colocar em prática tudo o que aprendeu dentro da unidade e, principalmente, ser
leal, /usto e verdadeiro.
(J(
;endo em vista os apontamentos descritos acima, o adolescente, durante alguns dias,
permanece apenas o$servando a conduta dos outros ladr(es* Pelo p#tio interno, notase 9ue
meu interlocutor camin8a com e4trema tran9uilidade, atentando para os movimentos
corporais adotados por seus compan8eiros de camin"ada* +s internos 9ue insistem em
galin"ar Z$rincar[ dentro da cadeia, assim como os adolescentes 9ue mantêm conversas
duvidosas com os agentes institucionais, aos ol8os do piloto, al@m de não estarem preparados
para somar com a disciplina, 9uando a unidade estiver na mão dos menor, serão co$rados por
tais atitudes* A avalia"ão das cenas 9ue emergem diante de seus ol8os, aos poucos, mostrase
insuficiente* Fred sa$e 9ue @ preciso apro4imarse dos poss)veis disciplinas para o$ter
informa"7es mais detal8adas, principalmente acerca do 8istórico de tais adolescentes* Afinal,
uma escol8a e9uivocada pode dei4ar marcas indel@veis em sua própria tra/etória* Caso o
piloto, por e4emplo, selecione algum verme para ocupar 9ual9uer posto de lideran"a, se tal
acontecimento c8egar aos ouvidos de outros ladr(es, este pode ser acusado, tanto pelos
irmãos 9uanto pelos disciplinas de outras cadeias dominadas, de fec"ar com o errado* Apesar
do /ovem contar com as opini7es emitidas pelos adolescentes da população, Fred tem
consciência de 9ue a decisão final est# em suas mãos, mesmo por9ue as conse9uências de
suas atitudes, caso estas se/am e9uivocadas, recairão apenas so$re o piloto da cadeia*
Gale salientar 9ue a din2mica de funcionamento da Unidade de 1nterna"ão MO torna as
escol8as do adolescente ainda mais complicadas* Pelo fato dos disciplinas não avaliarem a
camin"ada dos rec@mc8egados, como ocorre nas distintas unidades dominadas espal8adas
pela capital paulista, na medida em 9ue o próprio modo de opera"ão dos agentes institucionais
impossi$ilita a reali>a"ão de tal procedimento, a presen"a de vermes escondidos no interior da
unidade, misturados H9ueles 9ue fec"am com o certo, não deve ser descartada, so$retudo
por9ue a 'ova -roeira, diferentemente do #arque dos Constros, não conta com a e4istência
do seguro, espa"o destinado H9ueles 9ue, como /# mencionado, cometeram atos considerados
imperdo#veis pelos outros ladr(es, tais como estupro e desrespeito H visita al8eia*
%esmo diante de tantas adversidades, Hs 9uais somase a e4istência de poucos ladr(es
estruturados aptos a preenc8er postos de lideran"a, 8a/a visto 9ue $oa parte dos adolescentes
9ue c8ega H 'ova -roeira cumpriu medida socioeducativa de interna"ão apenas em unidades
na mão dos funça, o 9ue os torna, aos ol8os do piloto da cadeia, pouco e4perientes e,
portanto, não capacitados para assumir a frente da situação, meu interlocutor, após ouvir as
opini7es de alguns internos da população, seleciona dois adolescentes 9ue, de agora em
(J&
diante, serão recon8ecidos pelos outros /ovens da Unidade de 1nterna"ão MO como fa$inas*
Após o afastamento de Ariel da frente da cadeia, $em como dos outros dois
disciplinas 9ue atuavam ao seu lado, vêse 9ue a lideran"a da Unidade de 1nterna"ão MO se
reorgani>a, afinal, na luta pela gestão do espa"o institucional e, conse9uentemente, pela
diminui"ão das ar$itrariedades praticadas pelos funcion#rios, não 8# mais tempo a perder,
mesmo por9ue as agress7es e as 8umil8a"7es contra os ladr(es da 'ova -roeira continuam
ocorrendo* :esse cen#rio, constatase 9ue as lideran"as intensificam as suas a"7es, contando
com o total apoio dos /ovens da população 9ue, ao acompan8arem os esfor"os de seus
compan8eiros, enfati>am, a" sen"or, os menino tá empen"ado "ein*
Apesar dos disciplinas continuarem enviando pipas para o mundão, em $usca do apoio
das entidades de defesa dos direitos 8umanos, $em como dos ladr(es 9ue fec"am com o
Comando do outro lado das mural8as, a9ueles 9ue encontramse associados H posi"ão de
lideran"a recon8ecem 9ue, en9uanto a a/uda e4terna não c8ega, @ preciso agir internamente*
Para tanto, tornase necess#rio preenc8er outros postos 8ier#r9uicos, 8a/a visto 9ue a atua"ão
de apenas três disciplinas, aos ol8os de tais internos, mostrase insuficiente, taman8o o
desafio a ser enfrentado pelos frente da cadeia* Desse modo, os disciplinas, tendo como
o$/etivo primordial o fortalecimento da lideran"a, antes de cogitarem a possi$ilidade de bater
de frente com os funça novamente, concentram todas as suas energias nos adolescentes da
população, fornecendo orienta"7es aos internos* A9ueles 9ue possuem uma camin"ada
correta, demonstrando interesse em a$sorver os ensinamentos das lideran"as e destacandose
durante as conversas travadas no p#tio interno, momento em 9ue os adolescentes são
estimulados a dar opini7es acerca das medidas 9ue devem ser adotadas em rela"ão ao futuro
da unidade, por mais 9ue não este/am tão preparados, em virtude da atual situa"ão delicada
em 9ue se encontra a U1MO, rece$erão uma oportunidade para somar com a disciplina*
Com o passar dos dias, constatase 9ue as estrat@gias adotadas pelos frente da cadeia,
entre as 9uais, a iniciativa de fortalecer a lideran"a e o incessante envio de pipas para o
mundão, entrela"adas a algumas altera"7es no próprio modo de opera"ão dos agentes estatais,
possi$ilitam o ligeiro deslocamento do 9uadro institucional 9ue, conforme os em$ates entre
tais atores avan"am, intensificase* De fato, como veremos adiante, a rela"ão de for"as entre
os internos e os distintos agentes institucionais não deve ser considerada como algo est#vel e,
portanto, sem movimento* Afinal, @ preciso levar em considera"ão 9ue o e9uil)$rio de poder
entre tais grupos @ sempre mut#vel*
(JM
).( Cadeia meio a meio: é nóis aqui e eles lá
Fevereiro de &''R* 0ntro na Unidade de 1nterna"ão MO com o filme Duase dois 3rmãos*
;al produ"ão, ao retratar a rela"ão esta$elecida entre presos pol)ticos e assaltantes de
$anco durante o per)odo da ditadura militar, momento em 9ue estes eram o$rigados a
dividir as celas e4istentes no 1nstituto Penal C2ndido %endes, pres)dio de seguran"a
m#4ima locali>ado na 1l8a !rande <-6=, sugere 9ue a convivência entre os dois grupos,
am$os su$metidos H Lei de Seguran"a :acional <LS:=, possi$ilitou o surgimento do
Comando do Germel8o, fac"ão criminosa 9ue atua dentro e fora do sistema
penitenci#rio fluminense* +s adolescentes da 'ova -roeira, ao sa$erem 9ue o filme
retrata o nascimento de tal fac"ão, demonstram interesse em assistilo, inclusive a9ueles
9ue não encontramse inscritos na oficina de comunica"ão* Afinal, aos ol8os de meus
interlocutores, o Comando Germel8o tam$@m fec"a com o certo* Como ressaltam os
adolescentes, os integrantes do Primeiro Comando da Capital e os mem$ros do
Comando Germel8o podem ser considerados aliados
(OL
* %arcelo, interno da população
9ue participa das atividades por mim ministradas desde os Cltimos dias de &''I, ao
notar a min8a presen"a no p#tio interno, rapidamente se apro4ima, e a* sen"or, t< c"eio
de ódio, tá ligado) 'óis é do Comando professor, ainda vamos mandar nessa porra
dessa cadeia* A fala de meu interlocutor, em certo sentido, tradu> o dese/o de todos os
ladr(es, a sa$er, tomar a cadeia da mão dos funça o mais r#pido poss)vel* Camin8o
pela unidade c8amando os participantes do curso para 9ue estes entrem na sala de aula*
0m determinado momento, noto 9ue Fred se apro4ima* Aproveito para perguntar ao
adolescente acerca da atual situa"ão em 9ue se encontra a cadeia* + piloto, após es$o"ar
um leve sorriso, responde, a" sen"or, /á tem mais nove Zdisciplinas[ na frente da
situação* Ao depararme com a resposta do /ovem, sem dCvida inesperada, durante
alguns segundos, permane"o calado* Gale ressaltar 9ue 8# cerca de duas semanas a
Unidade de 1nterna"ão MO contava com a presen"a de apenas dois fa$ineiros e do
próprio piloto* 0m menos de (N dias, os três disciplinas gan8aram o apoio de nove
compan8eiros de camin"ada* Após a primeira resposta do adolescente, volto a insistir,
mas e a* mano, como andam as coisas na cadeia) ZFred[, a" sen"or, aos poucos o
bagul"o vai andando e nóis vamos conquistando a cadeia de volta, tá ligado) Apesar
(OL
Dentro dos limites desta proposta de tra$al8o, na 9ual não pretendo tecer refle47es acerca das rela"7es
esta$elecidas entre os integrantes de tais Comandos, ainda 9ue tal 9uestão possa ser desenvolvida em
oportunidades futuras, 8a/a visto 9ue a considero prof)cua, sugiro apenas alguns apontamentos* Para tanto,
apropriome das narrativas de meus interlocutores* Para S@rgio, por e4emplo, interno 9ue cumpriu medida
socioeducativa na Unidade de 1nterna"ão MI e 9ue, atualmente, tra$al8a como gerente do tr#fico de drogas em
uma quebrada controlada por mem$ros do PCC, locali>ada na >ona sul da capital paulista, os integrantes das
duas fac"7es, al@m de possu)rem o mesmo lema, isto @, #a+, =ustiça e >iberdade <vale lem$rar 9ue o ideal de
3gualdade tam$@m fa> parte do lema do PCC=, seguem a mesma lin"a de racioc*nio, que é só gan"ar din"eiro e
tal, tá ligado) Ainda segundo o adolescente, a principal diferen"a no 9ue concerne H din2mica de funcionamento
do tr#fico de drogas nos dois estados, referese ao fato de 9ue no -io de 6aneiro os integrantes do Comando
Germel8o sempre estão so$ amea"a de guerra* >á é outra fita, tem muitas facção, tá ligado) - guerra dos cara
lá é com outras facção e com a pol*cia. >á tem o Comando 8ermel"o, tem os -D- (-migos dos -migos!, tem o
Eerceiro Comando e outras facção que tão se revelando agora. -qui não, aqui a nossa guerra é só com os
pol*cia. :s cara do &io é só troca de tiro mano, o bagul"o lá é tiro. -qui /á não, aqui é a pa+ mano, o Comando
implantou a pa+ em 7ão #aulo* De fato, ao longo das inCmeras conversas travadas com os internos das distintas
unidades dominadas, vale ressaltar 9ue os adolescentes fa>iam 9uestão de enfati>ar 9ue o Comando Germel8o,
assim como o Primeiro Comando da Capital, é o lado certo da vida errada* Para alguns apontamentos acerca do
surgimento do Comando Germel8o durante a d@cada de O', $em como da poss)vel associa"ão e4istente entre
mem$ros do CG e integrantes do PCC, sugiro as refle47es de Carlos Amorim <&''L=*
(JL
do dese/o de seguir com a conversa, opto por interromper o di#logo com o piloto da
cadeia, afinal, a atividade /# deveria ter come"ado* Sigo reunindo os participantes do
curso, fun"ão 9ue, vale notar, desde a reinaugura"ão da U1MO era desempen8ada apenas
pelos funcion#rios* De fato, o nCmero de agentes institucionais presentes no p#tio
interno /# não @ mais o mesmo* Al@m disso, a c8egada de novos ladr(es, 9ue propiciou
o aumento da popula"ão da unidade, atualmente com J' adolescentes, dificulta a
atua"ão dos funça* :esse sentido, vêse os refle4os de tais mudan"as nos corpos dos
internos* A forma"ão de filas, por e4emplo, 9ue nos primeiros dias de &''R antecedia a
reali>a"ão de todas as atividades cotidianas, no presente momento, /# não acontece com
tanta fre9uência, principalmente por9ue não 8# funcion#rios suficientes* Após reunir
todos os internos, nos dirigimos H sala de aula* 0n9uanto os adolescentes acompan8am a
narrativa cinematogr#fica sem desgrudar os ol8os da televisão, se9uer por um minuto,
noto 9ue a cadeira em 9ue estou sentado possui novas informa"7es cravadas na madeira*
As men"7es ao Primeiro Comando da Capital voltam a aparecer, ainda 9ue disputando
espa"o com palavras como ódio e revolta* De repente, dois internos a$rem a porta* +s
/ovens, após conversarem rapidamente com um adolescente 9ue acompan8a o filme,
antes de dei4arem a sala de aula pedem a aten"ão de seus compan8eiros de camin"ada,
a* fam*lia, depois nóis vamos se reunir pra discutir umas in/ustiça que v0m se
ocorrendo na cadeia* A entrada repentina de tais adolescentes, 9ue provavelmente
ocupam o posto de fa$ina, informa"ão 9ue seria confirmada pelo piloto da cadeia ao
t@rmino da atividade, associada H falta de atitude do funcion#rio 9ue permanece ao meu
lado sem es$o"ar 9ual9uer tipo de rea"ão, cena inimagin#vel 8# alguns meses atr#s,
configurase como mais um sinal de 9ue a rela"ão de for"as entre os adolescentes e os
agentes institucionais est# mudando*
:o relato descrito acima, e4tra)do de meu caderno de campo, tornase evidente 9ue a
din2mica de funcionamento da Unidade de 1nterna"ão MO, so$retudo se atentarmos para os
apontamentos tecidos anteriormente, de fato, /# não @ mais a mesma* As mãos dos
adolescentes, 9ue desde a reinaugura"ão de tal espa"o institucional encontravamse
entrela"adas para tr#s, com o passar do tempo, movimentamse livremente* + ol8ar dos
internos, 9ue nos Cltimos dias de &''I apontava apenas para o c8ão da cadeia, ao mudar de
dire"ão, entrecru>ase com o ol8ar dos agentes institucionais* Al@m disso, e4press7es como
licença sen"or e licença sen"ora, 9ue caracteri>avam o deslocamento dos ladr(es pelos
distintos am$ientes do p#tio interno, todas as ve>es em 9ue estes deparavamse com os
agentes institucionais, constituindose em palavras o$rigatórias, aos poucos, dei4am de fa>er
parte do l@4ico mo$ili>ado por meus interlocutores* Por sua ve>, os ideais do Primeiro
Comando da Capital, a sa$er, #a+, =ustiça, >iberdade e 3gualdade, voltam a ser estampados
nas paredes da cadeia, $em como nas cadeiras das salas de aula, acontecimento 9ue,
o$viamente, provoca o descontentamento dos integrantes do corpo funcional* As revistas,
reali>adas nos corpos dos ladr(es após todas as atividades pedagógicas, 9ue tin8am como
(JN
o$/etivo central impossi$ilitar 9ue os adolescentes se apropriassem de alguns materiais, entre
os 9uais, canetas, l#pis e fol8as de papel sulfite, o$/etos fundamentais no 9ue concerne H
ela$ora"ão de pipas, tam$@m diminuem, sendo e4ecutadas com menos fre9uência
(ON
* Da
mesma forma, a divisão dos internos em duas alas, estrat@gia institucional 9ue dificultava a
comunica"ão entre os /ovens, impedindo 9ue os adolescentes atuassem em con/unto, vale
notar, /# não constitui um procedimento rotineiro* :o presente momento, todos os ladr(es da
unidade, apro4imadamente J' adolescentes, permanecem reunidos no p#tio interno, situa"ão
9ue, em certo sentido, facilita a atua"ão dos frente da cadeia, na medida em 9ue a9ueles 9ue
encontramse associados H posi"ão de lideran"a, ao se apro4imarem dos /ovens da população
com mais facilidade, intensificam as orienta"7es transmitidas aos compan8eiros, fa>endo com
9ue todos os internos se movimentem de acordo com a disciplina do Comando*
De fato, a c8egada de outros adolescentes H 'ova -roeira, 9ue intensificouse desde os
primeiros dias de &''R, associada a outros fatores, tais como o fortalecimento da lideran"a e o
afastamento de alguns funcion#rios, configurase como um elemento importante no 9ue
concerne ao reordenamento do espa"o institucional* Do ponto de vista dos agentes
institucionais, principalmente dos funça de pátio, encarregados de coordenar os movimentos
corporais de todos os ladr(es 9ue cumprem medida socioeducativa de interna"ão na U1MO, a
c8egada de novos internos constituise como um fator de insta$ilidade* Afinal, ao mesmo
tempo em 9ue a popula"ão da cadeia aumenta, o nCmero de mem$ros do corpo funcional
presente no p#tio interno, 9uase 9ue na mesma velocidade, diminui, o 9ue, conse9uentemente,
resulta em um controle menos intenso so$re os corpos dos adolescentes* Se os primeiros
meses de funcionamento da Unidade de 1nterna"ão MO, como pudemos ver, foram marcados
pela e4istência de um 9uadro funcional 9ue controlava os m)nimos movimentos corporais
adotados pelos adolescentes, inclusive o tempo em 9ue os /ovens permaneciam em$ai4o do
c8uveiro, com a intensifica"ão dos em$ates entre tais atores, $em como das tens7es 9ue l8es
são inerentes, alguns agentes institucionais, em posse de atestados m@dicos, dei4am de
(ON
Gale lem$rar 9ue %ic8el Foucault nos fa> recordar do corpo como o$/eto e alvo do poder* Corpo su$misso,
treinado e modelado atrav@s de um con/unto de t@cnicas, 9ue docili>am e tornam Cteis os corpos dos prisioneiros*
:esse sentido, notase a import2ncia da rotina institucional, marcada pelas incessantes revistas, pela constante
forma"ão de filas, pelas atividades regulares, pelos r)gidos 8or#rios estipulados pelos integrantes do corpo
funcional, entre outros m@todos 9ue permitem o controle minucioso das opera"7es do corpo* De fato, tratamse
de t@cnicas minCsculas no 9ual o alvo P@ o corpo, @ o tempo, são os gestos e as atividades de todos os dias <***=Q
<F+UCAUL;, &''L, p*('J=* :o presente cap)tulo, tornase evidente 9ue a o$serva"ão acerca dos movimentos
corporais dos adolescentes au4ilianos a compreender o deslocamento do 9uadro institucional* Wuando as
revistas dei4am de ser reali>adas cotidianamente, 9uando as mãos dos internos come"am a movimentarse
livremente e 9uando as filas não são formadas com tanta fre9uência @ sinal de 9ue as coisas estão mudando*
(JJ
comparecer H unidade com a mesma fre9uência, o 9ue, o$viamente, dificulta a atua"ão
da9ueles 9ue persistem na luta contra os ladr(es* Diante de tal cen#rio, em 9ue o nCmero de
adolescentes aumenta, a ausência de um simples funça de pátio, 9ue atua ininterruptamente
durante o per)odo de do>e 8oras, do ponto de vista do corpo funcional, representa uma $ai4a
significativa* ;endose em vista o r)gido controle institucional 9ue caracteri>a a 'ova -roeira,
em 9ue o relógio configurase como o principal instrumento de tra$al8o dos funça,
determinando o 8or#rio e4ato em 9ue as atividades devem ocorrer, em termos pr#ticos,
9uando algum agente institucional não comparece H unidade, acontecimento 9ue tornouse
fre9uente durante os primeiros meses de &''R, $oa parte das atividades e4ecutadas por tal
funcion#rio permanece em a$erto, provocando a desesta$ili>a"ão do plane/amento
institucional* Desse modo, notase 9ue a forma"ão de filas, $em como as constantes revistas,
dei4am de ser reali>adas com a mesma assiduidade, possi$ilitando a ado"ão de novos
movimentos por parte da9ueles 9ue encontramse associados H posi"ão de lideran"a*
Gale notar 9ue nos primeiros dias de mar"o de &''R, as dificuldades enfrentadas pelo
corpo funcional tornariamse ainda mais complicadas* + afastamento definitivo de três funças
de pátio, 9ue seriam rapidamente transferidos para outros espa"os de interna"ão, todos
acusados de 8umil8ar e agredir os adolescentes desde a reinaugura"ão do espa"o institucional,
aos ol8os das lideran"as, sim$oli>ou uma importante vitória contra os funça, principalmente
por9ue os agentes institucionais transferidos, como ressaltam meus interlocutores, eram os
mais opressores* Diante de tal situa"ão, vêse 9ue os disciplinas comemoram, so$retudo o
piloto da cadeia, 9ue desde os primeiros dias de &''R, por meio dos pipas enviados para
a9ueles 9ue encontramse do outro lado das mural8as, movimentase no sentido de propiciar o
afastamento da9ueles 9ue oprimem os seus compan8eiros de camin"ada* Eá vendo sen"or, é
aquilo que eu tin"a dito, nessa situação a* nóis t0m que agir sempre na intelig0ncia <Fred=*
+$viamente, o afastamento de tais agentes institucionais não deve ser entendido
apenas como o resultado da atua"ão da9ueles 9ue ocupam postos de lideran"a na U1MO, ainda
9ue a mo$ili>a"ão de tais adolescentes ten8a sido fundamental* Afinal, os internos da 'ova
-roeira não são os Cnicos a reprovar o modo de opera"ão adotado pelos funças opressores* A
pressão e4ercida pelos educadores das +rgani>a"7es :ão !overnamentais 9ue atuam /unto H
Funda"ão CASA, so$retudo a9ueles encarregados de ministrar as atividades culturais e os
cursos profissionali>antes aos adolescentes, as constantes reclama"7es feitas pelos familiares
de meus interlocutores durante os dias de visita e, conse9uentemente, a transmissão dos
(JO
relatos de seus fil8os Hs entidades de defesa dos direitos da crian"a e do adolescente, o
descontentamento de alguns integrantes de outros setores institucionais da U1MO acerca dos
espancamentos praticados pelos colegas de tra$al8o e, segundo os próprios internos, o receio
do diretor da unidade de perder o cargo ocupado, 8a/a visto 9ue tal funcion#rio encontravase
pressionado pelo Departamento de 04ecu"7es da 1nf2ncia e 6uventude, constituem alguns
fatores 9ue, 9uando vistos em rela"ão, au4iliamnos a compreender o afastamento dos vermes*
:esse conte4to, favor#vel H atua"ão das lideran"as 9ue, no presente momento,
encontramse com todos os postos 8ier#r9uicos /# preenc8idos, a sa$er, setor, fa$ina,
encarregado e piloto, os disciplinas, assim como os /ovens da população, recon8ecem 9ue
depois de tantos meses de sofrimento, finalmente estamos obtendo o dom*nio sobre a porra
dessa cadeia <Ariel=* Do ponto de vista dos adolescentes, os primeiros passos para retomar o
controle do espa"o institucional, entre os 9uais, o afastamento dos opressores e a instaura"ão
dos postos de lideran"a 9ue constituem a disciplina, /# foram dados* -" sen"or, a primeira
coisa que tem que ser feita pra tentar tomar a cadeia da mão dos funça é quebrar a opressão
dos vermes. #orque senão não tem como implantar toda a disciplina <interno da população=*
Diante de tais acontecimentos, sem dCvida angustiantes para os integrantes do corpo
funcional, na medida em 9ue estes têm consciência de 9ue, gradativamente, estão perdendo o
controle do espa"o de interna"ão, os frente da cadeia, ao perce$erem o a$atimento e a
preocupa"ão da9ueles 9ue permanecem no p#tio interno, 9ue, vale ressaltar, /# se deparam
com algumas imagens 9ue os fa>em recordar da din2mica de funcionamento do #arque dos
Constros, sa$em 9ue @ preciso aproveitar ao m#4imo o atual momento em 9ue se encontra a
unidade, caracteri>ado pela ligeira diminui"ão das disparidades de for"a entre os adolescentes
e os agentes institucionais* Apesar dos espancamentos perpetrados pelos funcion#rios não
serem tão fre9uentes, so$retudo após a transferência dos mais opressores, o 9ue não significa
9ue as agress7es contra os internos não fa>em mais parte do cen#rio institucional, aos ol8os
das lideran"as, ainda 9ue tal mudan"a constituase como uma importante vitória, 8# muitos
outros $enef)cios para serem con9uistados como, por e4emplo, a troca dos uniformes pelas
roupas do mundão, o direito de permanecer com as portas dos barracos a$ertas durante o
per)odo noturno e, acima de tudo, o rece$imento dos /umbos nos dias de visita
(OJ
* :esse
(OJ
+s /umbos são os alimentos, produtos de 8igiene e cigarros, o$/etos 9ue os adolescentes das unidades
dominadas costumam rece$er das mãos de seus familiares nos dias de visita* 0m geral, 9uando os agentes
institucionais pretendem punir os internos, uma das primeiras medidas a serem adotadas @ o cancelamento do
/umbo, atitude 9ue provoca o descontentamento dos adolescentes, 8a/a visto 9ue 9uando isso ocorre os internos
são o$rigados a utili>ar apenas os produtos 9ue são disponi$ili>ados pela própria institui"ão, os 9uais são
classificados pelos ladr(es como badarosca Zsem 9ualidade[* Gale ressaltar 9ue na maioria das unidades
(JI
sentido, com o o$/etivo de propiciar novas altera"7es no modo de funcionamento da Unidade
de 1nterna"ão MO, vêse 9ue meus interlocutores ela$oram outras estrat@gias de atua"ão,
intensificando os em$ates contra os agentes institucionais 9ue, ao sentirem 9ue estão
perdendo o controle da unidade, reagem com o m#4imo de suas for"as, não poupando
esfor"os para 9ue a 'ova -roeira volte a ser controlada apenas pelos funça*
Se antes do afastamento dos vermes, a luta contra os funcion#rios, de certa maneira,
concentravase /unto H9ueles 9ue transitavam pelo p#tio interno, no atual momento, tratase
de pressionar os agentes institucionais 9ue permanecem do outro lado das mural8as,
principalmente por9ue tais atores, ao ocuparem os cargos administrativos de maior prest)gio e
poder de decisão no conte4to da interna"ão, são os Cnicos 9ue podem atender as
reivindica"7es dos adolescentes, em especial, o diretor da cadeia, 9ue no caso da U1MO, como
podemos ver, ainda insiste em não negociar com as lideran"as*
A$ril de &''R* .ssa fita a* foi o seguinteA nóis decidiu fa+er umas reivindicação pra
c"efe das técnicas. Z+s disciplinas, tendo em vista o descontentamento em rela"ão ao
tratamento dispensado Hs visitas, 9ue, entre outros constrangimentos, são su$metidas a
duas revistas antes de colocar os p@s dentro da unidade, ao comparecerem H sala das
técnicas, profissionais 9ue acompan8am o andamento de seus respectivos processos
/udiciais, $em como o desenvolvimento dos internos ao longo de toda a medida
socioeducativa de interna"ão, aproveitam a ocasião para pressionar a coordenadora de
tais funcion#rios, tendo como o$/etivo central a altera"ão dos procedimentos
institucionais adotados nos dias de visita[* . a* é o seguinteA o diretor, quando soube
dessas nossa reivindicação, ficou mordido, tá ligado) Da*, o que que ele fe+) .le
entrou no pátio e começou a falar que discordava da nossa atitude, que a gente não
podia falar com a c"efe das técnicas. -* foi quando o bagul"o a+edou. 'óis começou a
tentar argumentar. 7ó que quando nóis começou a falar, ele disse pra nóis calar a boca.
-* /á viu né...nóis foi pra cima <Fred=*
:a medida em 9ue o diretor da Unidade de 1nterna"ão MO recusase a rece$er os
disciplinas em sua sala, procedimento comum adotado pelos profissionais 9ue ocupam tal
cargo nas distintas unidades dominadas, notase 9ue os frente da cadeia, com o o$/etivo de
intensificarem as suas reivindica"7es, aproveitam as sa)das pontuais do p#tio interno para
pressionar os funcion#rios 9ue atuam em outros setores institucionais* Aos ol8os das
lideran"as, tornase necess#rio aca$ar com as 8umil8a"7es sofridas pelos seus familiares
durante os dias de visita, afinal, como ressaltam meus interlocutores, quem tá cumprindo
pena é nóis e não as nossas fam*lias que fica sendo esculac"ada antes de entrar na cadeia
classificadas como na mão dos funça, os /umbos são proi$idos pela dire"ão da cadeia*
(JR
<adolescente da população=* Al@m disso, os disciplinas recon8ecem 9ue após o afastamento
dos opressores e a conse9uente diminui"ão dos espancamentos praticados pelos vermes, @ o
momento de botar a cadeia pra andar, isto @, tratase de con9uistar determinados espa"os do
p#tio interno, os 9uais serão utili>ados apenas pelas lideran"as, $em como de conseguir alguns
$enef)cios para os /ovens da população 9ue, do ponto de vista dos frente da situação, tão
sempre em primeiro lugar <Fred=*
+ diretor da 'ova -roeira, por sua ve>, 9ue antes de assumir tal cargo era integrante
da Secretaria de Administra"ão Penitenci#ria do 0stado de São Paulo, mais especificamente,
do !rupo de 1nterven"7es -#pidas, pelo fato de con8ecer a din2mica de funcionamento das
cadeias dominadas, 8a/a visto 9ue este atuou durante alguns anos apenas em unidades
controladas pelos ladr(es, sa$e 9ue se der in)cio Hs negocia"7es /unto aos frente da cadeia,
provavelmente, estas não terão mais fim
(OO
* Sendo assim, constatase 9ue tal agente
institucional, tam$@m con8ecido entre os adolescentes como vermão, ao inv@s de negociar
com os ladr(es, opta por bater de frente com os internos*
De fato, diante dos recentes acontecimentos ocorridos na U1MO, entre os 9uais, a
diminui"ão do 9uadro funcional, a pressão e4ercida pelos ladr(es so$re os integrantes de
outros setores institucionais e a crescente deso$ediência dos adolescentes, 9ue se recusam a
formar filas, andar com as mãos entrela"adas para tr#s e cumprir os 8or#rios determinados
pelos funça de pátio, o diretor da cadeia recon8ece 9ue @ preciso tomar uma atitude o mais
r#pido poss)vel* Caso contr#rio, a Unidade de 1nterna"ão MO, reinaugurada 8# menos de um
ano, se nada for feito, pode voltar a ser recon8ecida como o #arque dos Constros* :esse
conte4to, marcado pelo acirramento dos 2nimos entre os adolescentes e os agentes
institucionais e, conse9uentemente, pelo aumento da tensão 9ue atravessa os corpos de todos
a9ueles 9ue se movimentam pelo espa"o de interna"ão, o mel8or a ser feito, do ponto de vista
da dire"ão, @ entrar no p#tio interno e evidenciar aos adolescentes 9ue o corpo funcional, pelo
menos em parte, ainda det@m o dom)nio da cadeia* Para tanto, o diretor da 'ova -roeira,
temendo uma poss)vel agressão por parte dos internos, antes de colocar os seus p@s dentro da
unidade, solicita o apoio dos mem$ros do C"oquin"o, 9ue, com as suas armas cali$re (&, se
posicionam no tel8ado da cadeia, assim como no portão de entrada do espa"o de interna"ão*
(OO
Gale ressaltar 9ue durante as re$eli7es 9ue e4plodiram no comple4o de Franco da -oc8a em maio de &''J, ao
c8egar em tal espa"o institucional, pude constatar 9ue o atual diretor da Unidade de 1nterna"ão MO, assim como
os outros integrantes do !rupo de 1nterven"7es -#pidas, estava agitado* Anos depois, o uniforme camuflado, a
toca nin/a e a arma cali$re (& carregada com $alas de $orrac8a, para a min8a surpresa, 8aviam cedido espa"o H
sala de diretor, ao tra/e social e H caneta para despac8ar a papelada institucional, sem 9ue para isso 8ouvesse
9ual9uer capacita"ão profissional especiali>ada*
(O'
0m poucos instantes, o Cltimo cadeado @ a$erto* Finalmente, os adolescentes e o
diretor da Unidade de 1nterna"ão MO encontramse frente a frente* Contudo, não para negociar,
e sim, para medir for"as ou, em outras palavras, para mostrar 9uem @ 9ue manda na cadeia*
Ao mesmo tempo em 9ue os internos permanecem sentados no c8ão da 9uadra de fute$ol,
posi"ão corporal 9ue nos remete Hs formaç(es organi>adas pelos integrantes da ;ropa de
C8o9ue todas as ve>es em 9ue as re$eli7es c8egam ao fim, o diretor argumenta, enfati>ando
9ue os adolescentes tomaram uma atitude e9uivocada ao pressionar a c"efe das técnicas* +s
ladr(es, por sua ve>, alegam 9ue o Cnico e9u)voco referese ao tratamento disponi$ili>ado Hs
visitas, marcado pelas constantes 8umil8a"7es aos seus familiares* Diante de tal atrevimento,
8a/a visto 9ue aos ol8os dos agentes institucionais os adolescentes deveriam permanecer
calados e com as ca$e"as apontadas para o c8ão, cena corri9ueira durante o per)odo em 9ue a
unidade encontravase na mão dos funça, vêse 9ue o diretor da 'ova -roeira perde a
paciência, ordenando 9ue todos os ladr(es calem a $oca, atitude 9ue provoca a resposta
imediata por parte dos disciplinas*
-* eu /á levantei, tá ligado) #orque é o seguinte, nóis tava tudo sentado no c"ão. >ogo
que eu levantei, na sequ0ncia, alguns moleques /á levantaram /unto comigo Zoutros
disciplinas[. . é o seguinte manoA nóis ia quebrar ele, tá ligado) -* foi quando os funça
/á se meteu no meio. 1oi quando eu ol"ei pra trás e vi que o Brupo de -poio
ZC"oquin"o[ tava na porta da unidade pronto pra entrar <Fred=*
Se nos Cltimos meses de &''I as conversas travadas entre os adolescentes e os
funcion#rios eram marcadas por uma Cnica vo>, no presente momento, conforme o relato dos
adolescentes, vêse 9ue a situa"ão @ outra* + piloto, indignado com a postura do diretor,
marcada pela ofensa aos ladr(es, @ o primeiro a se levantar, movimento 9ue tam$@m @
adotado pelas outras lideran"as* 0m poucos segundos, en9uanto os /ovens da população
permanecem sentados no c8ão da unidade, os funcion#rios deparamse com os corpos de
todos os disciplinas, 9ue encontramse preparados para o em$ate* ;ratase de uma cena
inimagin#vel, acontecimento 9ue, al@m de provocar o espanto dos funça, evidencia 9ue os
agentes institucionais /# não podem mais proferir a frase 9ue foi dirigida H Ariel no momento
em 9ue este c8egou H Unidade de 1nterna"ão MO, a sa$er, quem manda é nóis*
Diante de tal situa"ão, os integrantes do C"oquin"o, 9ue /# 8aviam sido avisados pelo
diretor da cadeia de 9ue algo poderia ocorrer, acertam os Cltimos detal8es para invadir o p#tio
interno* Fred, ao notar a presen"a dos vermes na porta de entrada do espa"o de interna"ão,
(O(
$em como no tel8ado da unidade, sa$e 9ue precisa agir r#pido, so$retudo por9ue o piloto
recon8ece 9ue não 8# como medir for"as com o C"oquin"o, 8a/a visto 9ue os seus
integrantes, al@m dos escudos e dos cassetetes, encontramse com as armas cali$re (& repletas
de $alas de $orrac8a* + mel8or a ser feito, aos ol8os dos frente da situação, 9ue se9uer
possuem naifas para transformar o diretor em ref@m, @ negociar a entrada pac)fica dos vermes,
de preferência, sem esculac"o, fun"ão 9ue @ e4ercida pelo piloto da cadeia 9ue, em poucos
minutos, consegue apa>iguar os 2nimos*
Gale notar 9ue apesar das lideran"as cogitarem a possi$ilidade de partir para o
confronto f)sico com os agentes institucionais, com o desenrolar dos acontecimentos, os
disciplinas, em algumas fra"7es de segundo, rapidamente alteram os seus movimentos,
principalmente por9ue os /ovens recon8ecem 9ue agredir os funça, 9ue contam com o apoio
total dos integrantes C"oquin"o, no atual momento, não constitui uma atitude sensata* Afinal,
os frente da cadeia têm consciência de 9ue, se os vermes invadirem o espa"o de interna"ão,
espancarem os adolescentes e trancarem os ladr(es em seus respectivos 9uartos pelo per)odo
de trinta dias, procedimento institucional con8ecido como tranca, tal acontecimento pode
fortalecer o corpo funcional, 8a/a visto 9ue, com os internos trancados em seus 9uartos
durante tantos dias, os funça tentarão retomar o controle da cadeia de 9ual9uer maneira*
;endo em vista tal cen#rio, em 9ue o m)nimo movimento pode ser decisivo, vêse 9ue os
disciplinas optam por não colocar em risco o pouco 9ue /# foi con9uistado, afinal, como
ressaltam os frente da cadeia, na Unidade de 1nterna"ão MO, após tantos meses de sofrimento,
se ainda não é tudo nosso, também /á não é tudo deles*
Duando a cadeia fica assim, que é o que nóis c"ama de meio e meio, fica nóis aqui, no
nosso canto, tentando conquistar Za unidade[ cada ve+ mais e mais e eles Zos agentes
institucionais[ fica na deles, tentando impedir nóis, tá ligado) ; tipo...o momento que
nóis tenta reconquistar as coisas aos poucos, tudo aquilo que nóis perdeu, nóis tenta ter
de volta, tá ligado) ; como se a unidade ficasse dividida, nóis fa+ o nosso corre e eles
fa+ o corre deles, tipo a cadeia não é nossa porque não tá tudo na nossa mão, mas
também não é deles <;Clio, /ovem 9ue cumpriu medida socioeducativa de interna"ão no
comple4o de Franco da -oc8a=
(OI
*
(OI
U importante lem$rar 9ue ao longo do cap)tulo anterior reconstitu) a tra/etória de ;Clio, adolescente 9ue
permaneceu internado no comple4o de Franco da -oc8a pelo per)odo de apro4imadamente três anos e 9ue,
inclusive, ocupou o posto de fa$ina nas Unidades de 1nterna"ão &N e &R* Gale ressaltar 9ue nos Cltimos meses em
9ue o adolescente esteve internado em tal comple4o, a Unidade de 1nterna"ão &N, 9ue desde o in)cio de min8a
inser"ão em campo sempre foi classificada por meus interlocutores como uma unidade dominada, em virtude de
uma s@rie de mudan"as na din2mica de funcionamento da cadeia, passou a ser recon8ecida por adolescentes e
agentes institucionais como uma unidade meio a meio, o 9ue torna evidente 9ue o deslocamento do 9uadro
institucional não se restringe ao caso da 'ova -roeira*
(O&
Diante de tais apontamentos, vêse 9ue o 9uadro institucional 9ue emerge diante de
nossos ol8os, destoa das outras duas imagens 9ue foram es$o"adas ao longo do presente
cap)tulo* 0m um primeiro momento, vimos 9ue a Unidade de 1nterna"ão MO era classificada
por meus interlocutores como uma unidade dominada, sendo recon8ecida, inclusive, como o
#arque dos Constros, espa"o institucional 9ue a$rigava apenas ladr(es estruturados, os 9uais
eram os principais respons#veis pelo funcionamento da cadeia* Din2mica 9ue, vale recordar,
proporcionou o afastamento da presidente da institui"ão nos Cltimos dias de &''O, per)odo em
9ue os ladr(es fa>iam 9uestão de enfati>ar, é tudo nosso, tá ligado) 0m um segundo
momento, após a iniciativa da cCpula institucional de transferir tais adolescentes para o
comple4o da Gila %aria e reformar a unidade, procedimento tam$@m con8ecido como +erar a
cadeia, deparamonos com outro cen#rio, completamente diferente da imagem anterior* :a
'ova -roeira, so$retudo nos primeiros meses de funcionamento de tal espa"o institucional,
vimos 9ue os adolescentes deslocavamse pelo p#tio interno com as mãos entrela"adas para
tr#s, com a ca$e"a sempre apontada para o c8ão e com as e4press7es licença sen"or e licença
sen"ora prontas para serem proferidas, assim 9ue os seus corpos cru>assem com os
integrantes do corpo funcional* A dura rotina da cadeia, marcada pelas constantes sess7es de
espancamento contra os internos, associada ao controle ininterrupto dos m)nimos movimentos
corporais adotados pelos ladr(es, 9ue se9uer podiam permanecer em$ai4o do c8uveiro sem a
marca"ão cerrada dos funcion#rios, na9uele momento, por mais dolorosa 9ue fosse tal
afirma"ão, fa>ia com 9ue os adolescentes recon8ecessem, a cadeia tá na mão dos funça* Com
o passar do tempo, procurei evidenciar 9ue a /un"ão de alguns fatores possi$ilitou a
diminui"ão das disparidades de for"a entre os internos e os agentes institucionais, entre os
9uais, a implanta"ão de todos os postos de lideran"a, $em como da disciplina do Comando, o
aumento do nCmero de adolescentes dentro da cadeia, o afastamento dos funcion#rios mais
opressores e o acirramento dos em$ates travados entre os frente da situação e o corpo
funcional* De fato, tais acontecimentos simult2neos, ao propiciarem uma s@rie de mudan"as
na din2mica de funcionamento da U1MO, aceleraram o deslocamento do 9uadro institucional
rumo a outra configura"ão, con8ecida entre os adolescentes e os funcion#rios como unidade
meio a meio, categoria 9ue, al@m de apontar para a divisão de autoridade no 9ue concerne ao
modo de funcionamento da cadeia, na medida em 9ue os disciplinas come"am a desempen8ar
algumas atividades 9ue eram e4ercidas apenas pelo 9uadro funcional, sugere o e9uil)$rio de
for"as entre a9ueles 9ue encontramse unidos por la"os de interdependência*
(OM
;endo em vista tais refle47es, notase 9ue as configura"7es es$o"adas ao longo deste
cap)tulo, a sa$er, dominada, na mão dos funça e meio a meio, não devem ser conce$idas
como entidades autTnomas, isto @, como se fossem e4teriores aos la"os de interdependência
9ue ligam os meus interlocutores, afinal, as figura"7es descritas acima constituemse como o
produto das rela"7es esta$elecidas entre os atores institucionais 9ue circulam pelos espa"os de
interna"ão da Funda"ão CASA* :esse sentido, vêse 9ue as cadeias controladas pelos ladr(es
não devem ser entendidas como sendo eternamente dominadas, e sim, como estando
dominadas em um determinado momento, constata"ão 9ue tornase evidente se atentarmos
para o fato de 9ue a muta$ilidade configurase como uma propriedade indel@vel da própria
estrutura institucional*
(OL
Salve geral: cadeias e quebradas na mesma sintonia
:o decorrer deste tra$al8o, ao es$o"ar a configura"ão referente Hs dominadas
(OR
,
vimos 9ue os adolescentes 9ue cumprem medida socioeducativa de interna"ão em tais espa"os
institucionais, sempre 9ue poss)vel, procuram seguir as orienta"7es transmitidas pelos
integrantes do Primeiro Comando da Capital, so$retudo 9uando se trata de tomar decis7es
importantes em rela"ão H cadeia como, por e4emplo, a iniciativa de ir pro arrebento* :esse
sentido, procurei demonstrar 9ue, no conte4to das cadeias dominadas, os adolescentes
orientam as suas a"7es de acordo com as diretri>es do Comando, esfor"andose para manter
tais espa"os de interna"ão no mesmo ritmo das unidades prisionais e dos territórios ur$anos
9ue encontramse so$ dom)nio do #artido* Para tanto, a comunica"ão esta$elecida com o
outro lado das mural8as, se/a por meio dos telefones celulares ou mesmo dos pipas 9ue são
enviados pelos disciplinas ao mundão, aos ol8os dos internos, tornase fundamental*
Duando nóis tá lá dentro, nóis sempre procura manter contato com o Comando na rua
e com o Comando na cadeia, CD# ZCentro de Deten"ão Provisória[, penitenciária, nóis
t0m tudo essa sintonia. Com os cara que tão aqui fora, que passa o que que tá
acontecendo aqui fora, o que que nóis t0m que fa+er lá dentro

e os cara que tá em
outras cadeias, que nóis não tá no mesmo ritmo que eles, eles passa o ritmo pra nóis.
'óis t0m que tá ciente pra não tomar nen"uma atitude fora da doutrina <S@rgio, /ovem
9ue cumpriu medida socioeducativa na U1MI e 9ue, atualmente, tra$al8a como gerente
do tr#fico de drogas
(I'
em Paraisópolis, favela 9ue encontrase so$ controle do PCC=*
(OR
+s tra"os centrais 9ue caracteri>am tais unidades podem ser vistos em detal8es no Cap)tulo &*
(I'
U importante ressaltar 9ue o gerente @ o principal respons#vel pelo funcionamento dos pontos de venda de
drogas 9ue operam na favela* :as palavras de meu interlocutor, meu trampo é o seguinte mano, é dei$ar o
bagul"o redondo, eu tá acompan"ando os cara da boca, não dei$ar os cara ficar moscando Zfalta de aten"ão[*
.u passo no tráfico o cara tá moscando ali eu /á faloA e a* maluco, Al@m disso, vale notar 9ue o gerente atua
como uma esp@cie de $ra"o direito do patrão, con8ecido como o dono da favela, respons#vel pelas negocia"7es
travadas com os fornecedores das drogas e das armas utili>adas* 0m Paraisópolis, no 9ue concerne H estrutura
organi>acional do tr#fico de drogas, notase a e4istência de outras duas posi"7es* +s campanas, con8ecidos
como ol"eiros, são respons#veis pela vigil2ncia das biqueiras, avisando os traficantes caso 8a/a uma poss)vel
a"ão policial ou movimenta"ão de pessoas suspeitas ao redor das bocas* :a quebrada, permanecem em pontos
estrat@gicos, locais pró4imos aos pontos de venda* 0m geral, não utili>am armas, suas ferramentas de tra$al8o
são os radin"os ZDal.tal.[* Por sua ve>, os vapores são a9ueles 9ue travam contato direto com os usu#rios*
Permanecem em pontos territoriais espec)ficos, carregando consigo pe9uenas 9uantidades de drogas guardadas
em sacos pl#sticos* ;am$@m con8ecidos como pacotes, vendem macon8a <trou4in8as de -f N=, coca)na
<c#psulas de -f ('= e crac. <pe9uenas por"7es de -f N=* Durante as suas atividades, permanecem atentos aos
informes dos campanas* 0m caso de uma invasão por parte da for"a policial, devem esconder as drogas
rapidamente* DoDdneE, ao discorrer so$re a estrutura do tr#fico de drogas no -io de 6aneiro, aponta para a
e4istência de duas posi"7es 9ue não operam dentro das favelas* Segundo o autor <&''M, p*L&, grifo do autor=, os
donos Pnão poderiam agir sem os atacadistas, 9ue organi>am a importa"ão da coca)na, nem sem os matutos, 9ue
levam a coca)na para o cora"ão das favelas 9ue os donos controlam <c=Q* :a quebrada de S@rgio, não ten8o
informa"7es acerca de tais posi"7es* De 9ual9uer forma, acredito 9ue o tr#fico de drogas propicia a e4istência de
distintas estruturas organi>acionais 9ue variam conforme o taman8o da comunidade, a locali>a"ão geogr#fica, o
(ON
Como /# mencionado, os comunicados 9ue c8egam Hs Unidades de 1nterna"ão da
Funda"ão CASA, Hs institui"7es prisionais e Hs periferias da cidade de São Paulo, 9uando
precisam ser amplamente divulgados para todos a9ueles 9ue fec"am com o certo, são
transmitidos por meio do salve geral, categoria nativa 9ue aponta para a cone4ão entre tais
territórios, ainda 9ue esses espa"os possuam particularidades*
Ao 9uestionar meus interlocutores, so$retudo os adolescentes 9ue encontramse
associados H posi"ão de lideran"a, acerca da procedência de tais informes, os frente da cadeia
enfati>am 9ue o salve geral parte de algumas penitenci#rias, sendo enviado pelos final do
bagul"o, isto @, pelas torres do Comando
(I(
* Contudo, tal afirma"ão não significa 9ue os
disciplinas esta$elecem rela"7es diretas com os ladr(es 9ue ocupam a posi"ão de torre,
afinal, como vimos ao longo do segundo cap)tulo, muitas orienta"7es 9ue c8egam Hs unidades
dominadas são transmitidas por integrantes do PCC 9ue atuam dentro e fora do sistema
penitenci#rio paulista e 9ue, em geral, não ocupam tal posi"ão pol)tica* :esse sentido, vale
notar 9ue se as recomenda"7es do Comando partem das torres, tais comunicados, ao serem
enviados para todos os irmãos 9ue encontramse em unidades prisionais e quebradas do
#artido, na mesma velocidade em 9ue c8egam a tais espa"os, são repassados para outros
territórios, entre os 9uais, as cadeias dominadas* 0m maio de &''J, por e4emplo, durante os
eventos 9ue ficaram con8ecidos como os Pata9ues do PCCQ, per)odo em 9ue, al@m de uma
s@rie de a"7es armadas dirigidas a delegacias, viaturas policiais e pr@dios pC$licos, 9uase uma
centena de re$eli7es e4plodiram em pres)dios e espa"os de interna"ão da Funda"ão CASA, os
adolescentes da Unidade de 1nterna"ão &R, comple4o de Franco da -oc8a, como vimos,
rece$eram a orienta"ão para virar a cadeia de um integrante do Comando 9ue atuava em uma
quebrada de 6undia)* .ntão sen"or, geralmente os caras Zirmãos[ recebem as informação das
torres e depois passa a camin"ada pra outros irmãos, que passa o bagul"o pra frente <Pedro=*
volume de drogas vendido, etc* Por e4emplo, os soldados, 9ue aparecem como figura importante nas favelas do
-io de 6aneiro, na medida em 9ue, entre outras fun"7es, defendem os pontos de venda da invasão de 9uadril8as
rivais <DoDdneE, &''M, p*N'=, na favela em 9ue S@rgio atua, não fa>em parte da estrutura do tr#fico* Ao
9uestionar meu interlocutor so$re a ine4istência de tal posi"ão, o adolescente enfati>ou 9ue, aqui não precisa
disso, o bagul"o é tranquilo* Com tal assertiva, meu interlocutor aponta para uma esp@cie de 8egemonia do PCC
no 9ue concerne ao com@rcio de drogas na capital paulista, dando a entender 9ue o risco de invas7es por parte de
9uadril8as rivais @ m)nimo*
(I(
3iondi <&'(', p*RO, grifo da autora=, ao enfati>ar 9ue as torres são as posi"7es pol)ticas das 9uais partem as
diretri>es e os comunicados do #artido, afirma 9ue, PWuanto aos prisioneiros 9ue e4ercem a fun"ão de torre e,
com isso, operam as torres, eles costumam ser referenciados como Virmãos 9ue /# estão no sofrimento fa> uns
dias, 9ue /# passaram muito veneno, muito sofrimentoV* São irmãos com ampla e4periência na vida prisional e
cu/o proceder fora sustentado por muito tempo, motivos de recon"ecimento, respeito e solidariedade de seus
compan"eiros dos CDPs* %as eles são tam$@m, e principalmente, teóricos do universo prisional, teóricos
pol)ticos do cotidiano das pris7esQ*
(OJ
Ainda 9ue as torres transmitam diversas orienta"7es por meio dos salves
(I&
, 9ue são
rece$idas pelos irmãos e repassadas para todos a9ueles 9ue encontramse na mesma
camin"ada, @ importante ressaltar 9ue tais comunicados não devem ser compreendidos apenas
como um con/unto de recomenda"7es 9ue precisa ser colocado em pr#tica por a9ueles 9ue
correm com o Comando, constata"ão 9ue tornase evidente se atentarmos para o salve descrito
a$ai4o, enviado Hs unidades dominadas em meados de &''I
(IM
*
7alve geral
: ob/etivo deste salve é para conscienti+ar a todos na geral que a nossa luta é /usta,
constante e satisfatória. ; necessário que cada um faça a sua parte para que possamos
crescer cada dia mais com a luta e a dedicação de cada um. Contudo, é interessante
que todos ten"amA
?] itemA advogado para todos que estão no B.:. com a fam*lia Zcom o Comando[*
N] itemA assist0ncia /ur*dica e outros.
4] itemA <nibus para as diversas faculdades Zpris7es[ do Comando Ztratase do
transporte 9ue @ disponi$ili>ado aos parentes dos presos nos dias de visita[*
G] itemA a/uda de custo mensal para todos, irmãos e compan"eiros Zindiv)duos 9ue não
são bati+ados[, sem e$ceção, que se encontram na PN Big -varé. Cesta básica, au$*lio
aos fil"os, 9 sa6de, cigarros, produtos de "igiene, e outros.
; o fortalecimento de todas as formas para aquele que se encontra no B.:. com a
fam*lia. 7ituaç(es urgentes que o Comando estende as mãos. 7omando todas as
despesas, a cada m0s c"ega um valor muito alto, que foge da realidade de muitos.
Contudo, tudo é poss*vel com a união e a luta de todos. : crime fortalece o crime para
que não se/amos engolidos por esse sistema falido e miserável. ; importante ressaltar
também que nessa longa camin"ada muitos perderam as suas vidas, outros se
enc"eram de cadeia, muitos são perseguidos, outros perderam entes queridos. Eudo é
para as nossas causas que são /ustas, pois somos v*timas dos descasos da /ustiça e da
podridão dos tiranos. 7omos alvo dos opressores, como armas para estratégias
pol*ticas dos verdadeiros canal"as.
:otase 9ue o salve descrito acima configurase como uma esp@cie de instrumento de
conscienti>a"ão pol)tica, sendo enviado para os ladr(es 9ue fec"am com o certo, não importa
(I&
U importante atentarmos para a plasticidade de tal categoria, mo$ili>ada em diversas circunst2ncias* Por
e4emplo, em determinadas ocasi7es, ao ingressar nas distintas Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão CASA, os
adolescentes di>iam, salve professor Zsauda"ão[* +utras ve>es, 9uando os /ovens sa$iam 9ue eu estava indo para
outra unidade, perguntavam, tem como manda um salve Zrecado[ lá pros mano)
(IM
+s salves so$re os 9uais pretendo de$ru"arme, da mesma forma 9ue as fitas no ar <Cap)tulo &=, foram
retirados de um caderno escrito pelos fa$inas, apreendido durante uma revista em uma cadeia dominada*
(OO
se estes encontramse dentro ou fora das institui"7es de controle social* ;ratase de um
comunicado em 9ue a9ueles 9ue o escreveram, provavelmente os presos 9ue ocupam a
posi"ão de torre, reali>am um movimento refle4ivo acerca das inCmeras lutas enfrentadas
pelo Primeiro Comando da Capital, destacando os seus efeitos indese/ados, entre os 9uais, a
morte de muitos irmãos e compan8eiros 9ue perderam as suas vidas em nome de causas que
são /ustas, mas tam$@m as con9uistas o$tidas como, por e4emplo, o au4)lio concedido
H9ueles 9ue encontramse detidos* 3enef)cios 9ue tornaramse poss)veis e 9ue, acima de tudo,
só podem ser mantidos, em virtude do empen8o de todos os ladr(es, $em como da união entre
os indiv)duos 9ue são v*timas dos descasos da /ustiça e da podridão dos tiranos*
Gale ressaltar 9ue se o Comando estende as mãos H9ueles 9ue fec"am com o certo,
so$retudo aos irmãos e compan8eiros 9ue encontramse trancafiados atr#s das grades,
fornecendo assistência /ur)dica e disponi$ili>ando meios de transporte para a visita de seus
familiares Hs pris7es, tais $enef)cios são decorrentes dos valores 9ue são arrecadados pelo
coletivo de criminosos* Ainda 9ue eu não possua informa"7es detal8adas acerca da
movimenta"ão financeira do PCC, segundo os adolescentes das dominadas, os $enef)cios
concedidos aos presos são provenientes, entre outros meios de o$ten"ão de recursos, das
9uantias mensais 9ue são pagas pelos irmãos
(IL
* Al@m disso, os adolescentes tam$@m
mencionam a e4istência de rifas reali>adas dentro das unidades prisionais, sendo 9ue cada
nCmero ad9uirido pelos detentos custa, em m@dia, entre -f (N e -f &'* Como afirmam os
internos, 9ue lamentam o fato de não participarem de tais eventos, na medida em 9ue as rifas
são reali>adas apenas entre os prisioneiros 9ue encontramse nas cadeias do Comando,
a9ueles 9ue são sorteados rece$em prêmios generosos, informa"ão 9ue tornase evidente por
meio do salve geral descrito a$ai4o*
7alve geral (rifa do Comando!
- sintonia da rifa vem por meio deste parabeni+ar a todos os gan"adores e que os
mesmos façam um bom proveito dos seus merecidos pr0mios. -gradecemos e
(IL
Como enfati>am os internos da Funda"ão CASA, a9ueles 9ue encontramse em li$erdade contri$uem com
uma mensalidade maior do 9ue os irmãos 9ue encontramse encarcerados, 8a/a visto 9ue os primeiros, pelo fato
de estarem no mundão, podem o$ter o din8eiro por meio da pr#tica de a"7es criminosas* :o 9ue concerne ao
valor de tais contri$ui"7es, vale salientar 9ue não ten8o informa"7es e4atas* Segundo ;Clio, durante uma
conversa 9ue tivemos por telefone em meados de &'((, os irmãos 9ue encontramse do lado de fora das
mural8as contri$uem com a 9uantia de -f (*&'', ao passo 9ue os irmãos encarcerados desem$olsam o valor de
apro4imadamente -f N''* Contudo, para o argumento 9ue desenvolvo neste tra$al8o, acredito 9ue o importante
não @ atentarmos para o valor em si, e sim, para o fato de 9ue os irmãos 9ue encontramse dentro e fora das
cadeias do #CC contri$uem com uma 9uantia mensal em din8eiro, 9ue, entre outras coisas, possi$ilita a
concessão de alguns $enef)cios aos presos 9ue cumprem as suas penas em unidades prisionais do #artido*
(OI
parabeni+amos também a todos os participantes. Comunicamos que está sendo iniciado
um novo evento que será o 6ltimo desse ano Z&''I[, no qual contamos Zcom[ a
participação de todos para aumentar a nossa nota e fec"ar esse ano. Comunicamos
também que neste 6ltimo evento que venceu ouve mel"oras na pontualidade do
pagamento. #orém, alguns contraLtempos continuam a persistir, retardando o bom
andamentoM para evitarmos esses problemas pedimos para o responsável pela &1 Zrifa[
de cada unidade para inaugurar o seguinte trabal"oA
?] itemA pedimos para todos os pilotos e responsáveis pela &1 após pegar esse salve
que c"egou, os irmãos responsáveis por esse setor, para retirarem as suas numeraç(es,
pois o in*cio da &1 é na data J@L?JLJ5 com o vencimento para o pagamento na data de
J?L?NLJ5, dando o espaço de OH dias para o pagamento. 7endo assim Z9uanto[ mais
tempo os pilotos e responsáveis demorarem para estar retirando os n6meros das
unidades, menos tempo os participantes terão para efetuarem os pagamentos da
unidade.
N] itemA pedimos para os responsáveis de cada unidade para não darem a mesma data
de fec"amento que a data dada Zpela[ sintonia, pois sabemos dos transtornos e das
in6meras dificuldades bancárias. #or isso, os responsáveis devem dar datas com
antecipação do fec"amento da sintonia.
4] itemA pedimos também que a unidade agende a moeda, que o responsável ten"a a
certe+a que o valor da unidade Zarrecadado com a venda dos nCmeros[ este/a em mãos
dos responsáveis na rua e não no banco.
G] itemA pedimos para todos que se encontram na frente de cada unidade Zpilotos[ tanto
como o responsável pela &1 de cada unidade, que "avendo dificuldade, que procurem
os irmãos responsáveis por este setor Zda rifa[ com antecipação das datas de
pagamento. Contamos com a atenção de todos para essas G observaç(es pois sabemos
o interesse de todos na pontualidade e no bom andamento do trabal"o. 7endo assim,
agradecemos o empen"o de todos e a dedicação de todos. Dei$amos um forte abraço e
uma boa sorte pra todos.
#remiação da nova rifaA
?] pr0mioA um Bolf N.J, G portas, total fle$, ano NJJ5^modelo NJJI.
N] pr0mioA um -stra -dventure N.J, G portas, ano NJJ5^modelo NJJI.
4] pr0mioA uma picape 7trada, ano NJJ5^modelo NJJI.
G] pr0mioA um #alio fle$, ano NJJ5^modelo NJJI.
O] pr0mioA um Celta >aif, ano NJJ5^modelo NJJI.
_ Data de in*cioA J@L?JLJ5
_ Data de vencimento Zpagamento de cada unidade[A J?L?NLJ5
_ Data do sorteioA NHL?NLJ5
+ comunicado descrito acima sugere algumas 9uest7es so$re as 9uais gostaria de
de$ru"arme* 0m primeiro lugar, notase 9ue a reali>a"ão da rifa do Comando aponta para a
(OR
funcionalidade das rela"7es esta$elecidas entre os muros dos pres)dios paulistas 9ue, em tese,
deveriam impossi$ilitar a comunica"ão dos presos com os ladr(es 9ue encontramse do lado
de fora das mural8as* +ra, se os $il8etes 9ue concorrem ao sorteio são vendidos dentro dos
esta$elecimentos prisionais, o montante arrecadado pelas distintas cadeias do #CC @ enviado,
segundo datas rigidamente estipuladas, para fora das pris7es ou, em outras palavras, para as
mãos dos responsáveis na rua* Din8eiro 9ue, assim como ocorre com as mensalidades 9ue são
pagas pelos ladr(es bati+ados, mesmo 9ue indiretamente, retorna para as unidades prisionais
do Comando na forma de alguns $enef)cios 9ue são concedidos H9ueles 9ue encontramse no
sofrimento* ; assim que o bagul"o funciona sen"or, um sempre a/udando o outro que tá na
pior situação, é um fortalecendo o outro, tá ligado) #or isso que pra nóis o Comando é como
se fosse uma fam*lia <;Clio=* 0m segundo lugar, vale recordar 9ue tive acesso a tal
comunicado por meio de uma Unidade de 1nterna"ão da Funda"ão CASA, sendo 9ue os
internos se9uer participam das rifas do Comando* :esse sentido, constatase 9ue os
adolescentes das unidades dominadas, por meio dos salves enviados a tais espa"os de
interna"ão, o$têm informa"7es detal8adas so$re o modo de opera"ão do PCC* Como dito
anteriormente, se nem todos os comunicados transmitidos Hs dominadas constituemse como
orienta"7es pass)veis de serem colocadas em pr#tica pelos adolescentes, em determinadas
ocasi7es, tornase evidente 9ue os frente da cadeia, ao rece$erem informa"7es so$re algumas
mudan"as sugeridas pelos irmãos acerca do funcionamento das unidades prisionais do
#artido, se esfor"am para seguir os passos adotados pelo Primeiro Comando da Capital*
7alve geral
- sintonia dei$a todos cientes que a partir dessa data N@LJILJ5 fica decidido que todos
em geral que vier a correr da cadeia
(IN
seram analisados caso a caso e teram os
seguintes critériosA
?] itemA no caso de ser irmão ou irmã de inicio o mesmo /á será automaticamente
e$clu*do sem direito nen"um para retornar, em seguida, seram col"idas as opini(es de
todos os irmãos que convivem no mesmo pavil"ão /untamente com os pilotos geral das
faculdades Zpris7es[ para ser decidido que possa a quem correu da cadeia acabe
Ztendo[ uma oportunidade de vida e de retornar para o conv*vio Zmesmo sendo e4clu)do
do PCC, dependendo do caso, o Pe$LirmãoQ poder# retornar para o interior da unidade
prisional, isto @, para o conv*vio[*
(IN
Correr da cadeia @ o mesmo 9ue pedir para sair da unidade prisional, isto @, sair do conv*vio* 0m alguns
casos, se/a por d)vidas contra)das no interior da prisão, se/a por desrespeitar a visita de um outro interno, o preso
pede prote"ão H administra"ão prisional, sendo enviado para o seguro da unidade*
(I'
N] itemA no caso de ser compan"eiro Znão ser irmão[ seram col"idas as opini(es de
todos os irmãos e compan"eiros que convivem no mesmo pavil"ão para o compan"eiro
que correu da cadeia Zter[ a mesma oportunidade de vida Ze[ de retorno para o nosso
conv*vio.
Dei$amos bem claro para todos que o salve que /á foi passado anteriormente foi
elaborado nos intuitos de estar acabando e revertendo todas essas situaç(es mas
infeli+mente não acabou e sabemos que isto não vai acabar, entretanto, não podemos
nos esquecer das decis(es e atitudes anteriores que foram tomadas pois quem correu
Zda cadeia[ foi de livre espontWnea vontade. : intuito desse novo salve é para dei$ar
bem claro para todos que somos a favor da oportunidade e da vida, e só não seram
tolerados casos irrevers*veis.
De fato, o conteCdo das mensagens enviadas por meio dos salves permite 9ue os
disciplinas, entre outras informa"7es, ten8am acesso aos procedimentos adotados pelos
irmãos nas institui"7es prisionais em 9ue o #artido atua* Ao 9uestionar o piloto da Unidade
de 1nterna"ão MI, comple4o -aposo ;avares, so$re a import2ncia do salve geral para os
internos 9ue cumprem medida socioeducativa de interna"ão nas unidades dominadas, o /ovem
enfati>ou 9ue, é pra nóis saber a doutrina atual, as mudanças*
Diante de tais considera"7es, @ poss)vel afirmar 9ue os disciplinas colocam em pr#tica,
não sem adapta"7es, as recomenda"7es sugeridas pelos irmãos* :o salve geral descrito acima,
vale lem$rar 9ue os integrantes do PCC enfati>am 9ue são a favor da oportunidade e da vida*
A9ueles 9ue a$andonarem o conv*vio serão analisados caso a caso* + trec8o 9ue apresento a
seguir, escrito no in)cio de &''R por Fred, piloto da Unidade de 1nterna"ão MO, comple4o
-aposo ;avares, mais uma ve>, aponta para poss)veis cone47es entre as institui"7es prisionais
do Comando e as Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão CASA*
1ortalecemos Zos internos[ para evitar os erros, e se acontecer de errar, que todos nós
somos su/eitos aos mesmos, analisaremos o cotidiano da pessoa Zdo adolescente[ e se
ele vem de uns dias errando nas mesmas situaç(es, talve+ não será merecedor de
oportunidade, agora se o mesmo vem demonstrando ser uma pessoa disciplinada,
"umilde e interessada em absorver vis(es, com certe+a, ele receberá uma oportunidade,
mesmo porque nós sempre somos a favor de dar uma segunda c"ance pros manos que
ramelam Zcometem erros[*
;endo em vista os apontamentos sugeridos pelo piloto da cadeia, tornase evidente
9ue @ poss)vel esta$elecer apro4ima"7es entre os procedimentos adotados pelos irmãos e o
modo de opera"ão dos disciplinas* :o conte4to das unidades dominadas, assim como nas
(I(
unidades prisionais e nas quebradas em 9ue os irmãos atuam, a9ueles 9ue cometem erros são
avaliados de acordo com as suas respectivas camin"adas, afinal, cada caso @ um caso* Ainda
9ue o adolescente ten8a cometido diversos erros, caso ele incorra em nova fal8a, a puni"ão
não ser# imediata, 8a/a visto 9ue o seu 8istórico dentro da cadeia ser# reavaliado* Se o /ovem
estiver disposto a rever o seu comportamento e a$sorver as instru"7es fornecidas pelos
disciplinas, provavelmente, ele receberá uma oportunidade*
A semel8an"a no modo de opera"ão adotado por todos a9ueles 9ue fec"am com o
certo, se/a em Unidades de 1nterna"ão para adolescentes, se/a em unidades prisionais ou
mesmo em determinados espa"os ur$anos, devese ao fato de 9ue tais territórios, como
enfati>am meus interlocutores, são atravessados pela doutrina do Comando* U por esse
motivo 9ue a din2mica de funcionamento das unidades dominadas, ainda 9ue 8a/a
especificidades, não se restringe ao lado de dentro dos muros institucionais* Eanto lá dentro
Znas Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão CASA[ como lá fora, tipo nas cadeias e nas
quebradas, é a mesma fita, é a mesma doutrina mano, é a doutrina do Comando, tá ligado) ;
a pa+, é a igualdade, é a liberdade, é a /ustiça, é o respeito mano <S@rgio=*
Sendo assim, argumento 9ue os informes transmitidos por meio do salve geral são
destinados H9ueles 9ue seguem os princ)pios e pol)ticas do Primeiro Comando da Capital, não
importa se os receptores encontramse em penitenci#rias, Centros de Deten"ão Provisória,
determinadas Unidades de 1nterna"ão da Funda"ão CASA ou mesmo em espa"os ur$anos* +
salve geral, enviado pelas torres do Comando, implode fronteiras, alcan"ando os espa"os em
9ue atuam todos a9ueles 9ue correm lado a lado com o #artido, tornando evidente 9ue tais
ladr(es se movimentam como se estivessem sintoni+ados em uma mesma fre9uência, ou
mel8or, na mesma camin"ada* Ainda 9ue tal categoria aponte para poss)veis cone47es entre
distintos territórios 9ue, como vimos acima, são atravessados pela doutrina do Comando, para
aprofundarmos tal refle4ão tornase necess#rio de$ru"armonos so$re o sistema prisional
adulto, $em como so$re as periferias da cidade de São Paulo, tendo como o$/etivo central o
delineamento de apro4ima"7es e distanciamentos entre tais espa"os, 9uestão instigante 9ue,
taman8a a comple4idade, permanecer# em suspenso at@ a reali>a"ão de um pró4imo tra$al8o*
(I&
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