FEMINILIDADE, MATERNIDADE E PSICOSE

Leda Mariza Fischer Bernardino*
Freud, em sua investigação sobre o enigma da feminilidade, no final de sua obra aponta um
caminho, ao afirmar que sua solução dar-se-ia através da montagem da equação simbólica
falo = filho, ou seja, numa articulação entre feminilidade e maternidade.
or mais que seja uma solução parcial, ou datada !j" que naquela época realmente o lugar
simbólico da mulher no campo social estava relacionado essencialmente ao seu lugar de
mãe#, Freud deu este passo de postular uma relação estreita entre o tornar-se mulher e o
tornar-se mãe, referindo-se a algo que toca a mulher no real de seu corpo, no imagin"rio de
suas identificaç$es e no simbólico de sua posição subjetiva.
% cl&nica das psicoses, especialmente no caso das psicoses infantis, p$e-nos em contato
com esta estreita relação, ali onde a psicopatologia aponta o e'cesso( o quanto, nas mães de
crianças psicóticas, a falha em suportar dar ao filho um lugar de sujeito se articula com uma
falha em conseguir encontrar respostas suficientemente simbólicas para dar conta , ao
mesmo tempo, da feminilidade !formulando algo próprio no campo do desejo# e da
identificação simbólica !reconhecer-se como sujeito com determinado lugar no campo
social#.
Françoise )olto e *aud *annoni !+#, a partir da rique,a de suas cl&nicas, situaram o não-
lugar dado ao filho - o que lhe implicaria ficar ou bem, - margem do campo simbólico, no
autismo. ou bem, fora do lugar de sujeito desejante, na psicose -, como articulado, na
maioria das ve,es, - impossibilidade de suas mães em lidar com quest$es simbólicas. /esta
falta de significação em que se encontrariam, com as conseq01ncias subjetivas decorrentes,
estas mães fariam apelo ao corpo do filho como escudo. Fato que 2acan pontuou
brilhantemente, em suas Duas notas sobre a criança(“Ela [ a criança ] aliena em si todo
acesso possível da me a sua pr!pria verdade" !3##
%lfredo 4erusalins56, em seu livro $sican%lise do autismo !7#, aborda esta falha que leva a
mulher a buscar no filho não o falo, mas a representação real de algo que lhe é insuport"vel
enfrentar. 8sto que poder&amos chamar de 9acidente na formulação da feminilidade: ocorre
quando, em resposta - castração, ao invés da equação simbólica proposta por Freud e
recuperada por 2acan com a fórmula da met"fora paterna ,onde a inscrição do /ome-do-ai
barra o desejo da mãe, esta ;ltima cristali,a sua posição através da posse real do corpo do
filho, que a completaria.
<ncontramos a& presente a relação feminilidade=psicose, j" destacada por 2acan nas
fórmulas da se'uação, onde o desli,amento para o lado feminino tra, a ang;stia da
confrontação com um lugar de objeto, com a falta de significante do >utro para represent"-
la , com este saber sobre o >utro enquanto barrado, a falha no inconsciente abrindo para a
dimensão da loucura, enfim. 2acan afirma, no ?emin"rio Mais& 'inda, sobre a mulher(
“Ela tem e(eitos de inconsciente& mas o inconsciente dela ) no limite em *ue ela no +
respons%vel pelo inconsciente de todo mundo& *uer dizer& no ponto em *ue o ,utro com o
*ual ela tem a ver& o -rande ,utro& (az com *ue ela no saiba nada& por*ue ele& o ,utro&
sabe to menos *ue + muito di(ícil sustentar sua e.ist/ncia ) esse inconsciente& o *ue dizer
dele0 ) seno sustentando com Freud *ue ele no + a sua parte boa" !@#.
?erge %ndré !A# sugere que o tornar-se mãe seria um caminho defensivo em relação -
impossibilidade de di,er algo sobre o tornar-se mulher. <staria, pois, condenada “a s!
e.istir como me"& como aponta ainda 2acan, no mesmo semin"rio !p. +77#.
Bontudo, nos casos que evoluem para uma relação psicog1nica com o filho, poder&amos
di,er que esta defesa revelar-se-ia em toda a sua insufici1ncia, e isto proporcionalmente ao
dano simbólico da própria estrutura materna. %ssim, sem a possibilidade do desvio
imagin"rio=simbólico de falici,ar o filho para depois novamente aceitar perd1-lo, restaria -
mãe em questão estacionar no real da posse do corpo do filho !psicose# ou no real de sua
aus1ncia enquanto puro va,io !autismo#.
Cemeto-me a uma situação cl&nica( a mãe de 2aura, que denominarei /., tinha em seu
irmão mais velho o suporte f"lico necess"rio para a montagem de suas identificaç$es. 8sto
lhe permitiu escolher um marido, uma profissão e ter uma primeira filha. Duando este
irmão veio tragicamente a falecer, contingencialmente durante a gravide, de sua segunda
filha !2aura#, na aus1ncia deste que encarnava para ela a função paterna, diante da imensa
fragilidade que a& se abriu, não pEde dar um lugar de desejante a esta filha, capturada então
como corpo, bloco compacto que a preservava contra a queda subjetiva !FF#.
<sta, dentre outras constataç$es cl&nicas, revela a articulação entre uma fal1ncia da posição
subjetiva materna, caracteri,ada por um não se colocar em questão, não ter uma ang;stia a
nomear, não constituir uma quei'a em nome próprio e a psicose do filho, o qual encarna
assim um sintoma e toma forma de quei'a enquanto objeto.
Boloca-se, então, a pergunta de ordem cl&nica seguinte( o quanto do percurso anal&tico da
criança psicótica depende dos avanços=retrocessos da confrontação de sua mãe com suas
próprias quest$esG
*arie-Bhristine 2a,ni5 enot, num dos casos que apresenta em seu livro 1umo 2 palavra&
fala de Halil !I#, menino autista que passa algumas sess$es recolhendo os cabelos da
analista que caem pelo chão, até que esta lhe pergunta( 9e a mamãe, tem cabelosG: !tratava-
se de uma mulher de origem "rabe, que sempre portava véu#. % mãe, presente naquele
momento, responde( 9não, ca&ram todos:. % autora situa a& justamente o momento
transferencial do tratamento que permitiu o reconhecimento de uma falta no >utro, ou seja,
nesta mãe, mas que implicou primeiramente o corpo da analista.
Duando trabalhamos com esta cl&nica, somos forçados a reconhecer a intr&nseca ligação
entre os avanços na trajetória da criança em direção a um lugar de sujeito e os momentos
depressivos, ou mesmo melancólicos, que este movimento provoca nas mães.
*aud *annoni apontava( “a doença da criança constitui o lu-ar mesmo da an-3stia
materna" !J#, afirmando que h" momentos na an"lise da criança em que é a mãe que est"
em questão e é a ela que a escuta deve ser oferecida.
Koltando ao caso de 2aura, lembro-me de quando chegou este momento para sua mãe. /.
entrou numa crise depressiva da qual não conseguia sair, nem mesmo com ajuda terap1utica
!justamente de estilo restitutivo#, em resposta ao caminho anal&tico que sua filha vinha
fa,endo, de começar a buscar seus próprios significantes e não mais encarregar-se da
verdade do desejo materno. /. começou a esboçar então, diante de minha escuta,
interrogantes sobre sua condição de mulher. %té que não quis mais vir. ?ua filha continuou
mais um tempo o trabalho, até que os pais 9não puderam mais pagar:.
2aura pEs em cena, em uma de suas ;ltimas sess$es, a questão que ora desenvolvo( sobre
um desenho cheio de letras e cores misturadas, que pregou na parede, fe, um curativo
enorme e ao lado escreveu( 9é proibido me'er:. *arcou assim o limite de sua an"lise.
/estas leituras cl&nicas a posteriori, onde a condução da an"lise enfrenta uma situação
cr&tica, encontramos uma identidade entre a cl&nica psicanal&tica de crianças psicóticas e das
histéricas. <nquanto analistas, penso que estamos diante da mesma questão( enfrentar a
confrontação com a falta de significante no Outro - ? !%# -, >utro que na maioria das
ve,es encarnamos, na transfer1ncia, tendo que sustentar o espaço anal&tico, lugar de falta,
para que se possa atravessar o deserto simbólico que se antev1.
2acan, diante do enigma da feminilidade, avança mais um passo, ao ir além de uma
definição de lugar f"lico !como homem ou como mãe# para a mulher. %o propor o termo
?!%#, indica 9*ue o pr!prio inconsciente + no)todo e *ue& por conse-uinte& a resposta do
analista no pode ser toda (%lica"!L#.
Mrata-se, para cada mulher, de poder formular sua questão em relação - feminilidade e de
fa,er um percurso, sempre singular, na direção de uma solução que só poderia ser parcial,
na medida em que vai sempre esbarrar com a falta de significante, que vai obrig"-la a um
desvio pelo lado f"lico da fórmula para se consistir. ara que possa, ao mesmo tempo, não
estacionar a&.
/este sentido, a modernidade e suas mudanças só v1m complicar esta trajetória, pois o
enfraquecimento do valor da identificação ao lugar de mãe implica não mais ocupar um
lugar f"lico desde esta posição, ao invés de propiciar o e'erc&cio da via aberta por 2acan -
de busca de uma identidade outra, vai na contramão de uma verdade não-toda( o >utro
social atual, predominantemente ancorado nas leis de mercado, é unisse' nas identificaç$es
que oferece. Due suportes f"licos pode encontrar uma mulher, hoje, no discurso, para dar
consist1ncia -s indagaç$es sobre a feminilidade, quando as reivindicaç$es de 9igualdade:
com os homens, de acesso ao 9direito: ao pra,er se'ual e de decidir sobre seu corpo do
discurso feminista perderam sua atualidadeG <nquanto discurso, poderiam ser desvios,
mesmo que equivocados, para circundar uma pergunta sobre o que situaria uma mulher.
Cesta um interrogante( com os significantes de que dispomos, os poucos ritos que sobraram
e o pouco crédito atribu&do -s instituiç$es que temos, onde ancorar um questionamento
leg&timoG
ara além de sa&das reativas como a 9produção independente: de um filho, a montagem de
casais homosse'uais, o sintoma psicossom"tico, que enfati,am a recusa de transitar pelo
lado feminino da fórmula da se'uação, a an"lise aparece como um viés poss&vel, simbólico,
onde possa se desdobrar esta busca de uma resposta singular - questão do desejar, quando
se conjuga ao feminino.
Cemeto-me - surpresa de uma paciente, <., 7+ anos, ao encontrar, nas associaç$es a partir
de um sonho, num cen"rio tipicamente masculino, uma imagem que a fe, proferir(
9haveria uma mulher& ali"# Nma ve, colocada em palavras a questão, como dar conta distoG
/este ponto em que o analista é destitu&do de seu lugar de suposto saber, em que a an"lise
vacila e as intervenç$es devem ser precisas mas corajosas, nem sempre somos bem
sucedidos. /os melhores casos, a partir de um ato anal&tico pontual, assistimos ao
atravessamento deste deserto simbólico com a invenção, por parte do analisante, de uma
solução criativa( um novo sintoma, para a histérica. a assunção de um sintoma em nome
próprio para a mãe do psicótico e o in&cio da an"lise propriamente dita deste ;ltimo. <m
outros casos, porém, antes de pisar no deserto ou até por perceb1-lo naquela intervenção
que o analista não pode se poupar de fa,er, agarra-se a primeira muleta que possa restituir
ao >utro seu lugar de pot1ncia - terapias diretivas, egóicas, religiosidade, procura-se um
médico, ou tira-se o filho do atendimento...
O neste ponto-dobradiça - em que a escrita de % *ulher equivale - escrita do /ome-do-ai
e também ao lugar puro da psicose - que nos situamos, enquanto analistas, diante da cl&nica
da histeria, da psicossom"tica, e das mães de crianças psicóticas.
/a escuta destas mulheres, por e'emplo, que só t1m e'ist1ncia enquanto 9mães-de-um-
psicótico:- solução de compromisso entre um não-lugar de mãe que se transforma
socialmente em e'emplo de amor materno, armadilha que dei'a qualquer desejo de fora,
até mesmo o desejo de analista, temos que sustentar este desejo desde um outro lugar, um
lugar terceiro !o campo da pesquisa, por e'emploP#, para que mesmo assim haja an"lise e a
criança possa vislumbrar um destino um pouco diferente.
/o que se refere - cl&nica da histeria, como condu,ir a an"lise para que não estacione em
um amor de transfer1ncia irresolv&vel, mero emplastro no lugar de um significante novoG
Borre-se menos o risco, penso, ao e'pormos nossa escuta e seus efeitos aos pares, num
conte'to institucional que propicie um verdadeiro trabalho de formação anal&tica.
Duanto - cl&nica da psicossom"tica, desafio contemporQneo, h" que se pensar em formas de
intervenção que possam se situar justamente nesta dobradiça, neste encontro entre real e
simbólico, onde é necess"rio primeiro um ato, que vai depender muito da invenção do
analista, para então introdu,ir o lugar das palavras. Bomo produ,ir demanda a&, onde se
desviou tanto o lugar do sintoma G % psican"lise em e'tensão encontra, então, todo seu
valor.
(! Leda Mari"a Fisc#er $ernardino é psicanalista, membro fundador da %ssociação
sicanal&tica de Buritiba e membro da %ssociation Freudienne 8nternationale.
!FF# )esenvolvi este caso em 9<speciali,ação:o sujeito esquecidoG 8n( 'marelinhas )
1evista de $sican%lise de 4rianças da Biblioteca Freudiana de 4uritiba# %no 8, n. 7 +,
agosto de +RR@.
$ I $ L I O % R A F I A
+. *aud *annoni, especialmente em seu livro ' criança atrasada e a me !<d.*oraes,
+RJJ#, Françoise )olto em seus 5emin%rios de psican%lise de criança + e 3 !<d.
Suanabara# e em , caso Domini*ue !<d. Tahar,+RL+#.
3. 2%B%/, 4acques. )uas notas sobre a criança. 8n( 6ornal da Biblioteca Freudiana de
4uritiba. %no 8, n.U 3, agosto +RR+, p. @.
7. 4<CN?%28/?VW, %lfredo. $sican%lise do autismo. orto %legre, %rtes *édicas, +RL+,
p. AX.
@. 2%B%/, 4acques. 5emin%rio 789 Mais& ainda. Cio de 4aneiro( 4orge Tahar <d., +RL3, p.
+77-+7@.
A. %/)C<, ?erge. , *ue *uer uma mulher0 .Cio de 4aneiro( 4orge Tahar <ditor, +RLJ.
I. 2%T/8V-</>M, *arie Bhristine. 1umo 2 palavra. ?ão aulo( <d. <scuta, +RRJ, cap.
7.
J. *%//>/8, *aud. ' criança& sua doença e os outros# Cio de 4aneiro, Tahar, +RLX, p.I@.
L. 2%B%/, 4. 5emin%rio 789 Mais& ainda# op#cit#