DIREITO TRIBUTÁRIO

I. INTRODUÇÃO


1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS


1.1 O Direito Tributário e seu conceito


O Direito tributário é ramificação autônoma da Ciência Jurídica, atrelada ao direito público,
concentrando o plexo de relações jurídicas que imantam o elo Estado versus contribuinte, na
atividade financeira do Estado, quanto à instituição, fiscalização e arrecadação de tributos.

Obrigação tributária:
 Partes:
- Pólo ativo (credor): ente tributante ou pessoa jurídica de direito público interno (Fiscos) – a
União, os Estados-membros, os Municípios e o Distrito Federal.
- Pólo passivo (devedor): contribuinte ou responsável – pessoas físicas ou jurídicas.
 Objeto:
- Obrigação de dar (cunho patrimonial)
- Obrigação de fazer (cunho instrumental)
 Vínculo jurídico (causa): é a norma jurídica que magnetiza o liame obrigacional.

O Direito Tributário visa projetar o contribuinte e o Fisco em uma mesma plataforma de igualdade,
à qual se aplica, isonomicamente, a lei.


1.2 O Direito Tributário e as receitas públicas


» Entrada, ingresso ou receita  Todo e qualquer dinheiro que adentra nos cofres públicos a
qualquer título.
- Provisório (entrada, ingresso ou receita strictu sensu): os valores entram nos cofres
públicos com destinação predeterminada de saída.
Ex: caução ou fiança (garantias de adimplemento da obrigação principal), depósito prévio,
empréstimo compulsório (natureza tributária) e empréstimo público (natureza contratual).
- Definitivo (receita pública): a entrada que, integrando-se no patrimônio público sem
quaisquer reservas, condições ou correspondência no passivo, vem acrescer o seu vulto, como
elemento novo e positivo.

 Receita pública
# Extraordinária: auferida em situações de anormalidade ou excepcionalidade; aprovada e
arrecadada no curso do exercício do orçamento; possui caráter temporário, irregular e contingente.
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Ex: imposto extraordinário de guerra e empréstimo compulsório para calamidade pública ou
guerra externa.
# Ordinária: auferida com regularidade e periodicidade, dentro do contexto de
previsibilidade orçamentária e no desenvolvimento normal da atividade estatal.
- Derivada (de economia pública): aquela que provém do poder de império do Estado
dirigido à invasão patrimonial dos particulares (coerção e soberania estatal); a fonte é a lei
(atividade estatal vinculada e típica); as entradas referem-se a prestações compulsórias tributárias
e não tributárias.
Ex: os tributos (impostos, taxas, contribuições de melhoria, empréstimos comulsórios
e contribuições), as multas pecuniárias (administrativas e penais) e as reparações de guerra.
- Originária: aquela que prevém dos bens e empresas comerciais e industriais do
Estado, que os explora à semelhança de particulares; a fonte é o contrato ou manifestação bilateral
de vontade; as entradas referem-se exclusivamente a prestações não tributárias.
Ex: as receitas de aluguéis para locação de bens públicos, os preços públicos obtidos
pela venda de produtos ou serviços produzidos ou prestados por empresas públicas e sociedades
de economia mista, as tarifas exigidas pela entidades prestacionistas, as multas contratuais, as
doações recebidas e os dividendos de uma empresa estatal lucrativa.

* O produto da repartição das receitas derivadas é receita derivada.

* Preço quase privado  Decorre do comércio de bens, mercadorias e/ou serviços fornecidos pelo
poder público, mas em regime de livre concorrência com o particular e/ou empresas privadas. Há
lucro, embora o interesse do Estado não seja esse, mas, muitas vezes, um interesse remoto para a
comunidade. É receita originária.
Ex: o valor cobrado por uma instituição financeira, mantida pelo governo – um banco constituído
como sociedade de economia mista –, para a manutenção de uma conta corrente.

Classificação de Seligman (critério econômico – em ordem crescente do interesse público)
- Preço-quase-privado (o Estado age em concorrência com o particular na oferta do produto ou
serviço, de forma contratual);
- Preço-público (ainda prepondera o interesse privado na atividade desenvolvida pelo estado sobre o
interesse público, porém o estado monopoliza o exercício do serviço, de forma contratual);
- Taxa (prepondera o interesse público, devendo o particular, auferindo o serviço, ressarcir o estado);
- Contribuição de melhoria (vantagem para o indivíduo ou grupo determinada, a partir de uma obra
pública);
- Imposto (exercício de uma atividade exclusivamente pública, sendo meramente acidental alguma
vantagem que daí decorra ao particular).

Classificação de Luigi Einaudi (aperfeiçoamento da classificação de Seligman)
- Preço-quase-privado (estabelecido de acordo com as leis da economia privada, mas visando,
secundariamente, a um fim público);
- Preço público (o Estado estabelece uma remuneração para certos serviços seus, individualizáveis e
divisíveis);
- Preço político (o Estado estabelece como compensação inferior ao custo total de serviço especial e
divisível, sendo a diferença coberta pelos impostos);
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- Contribuição de melhoria (paga pelo particular em decorrência de vantagem auferida com uma obra
pública);
- Imposto (pagamento obrigatório para fazer frente às despesas indivisíveis do Estado).

Principais Preços:
Preço Privado = {Custo + Lucro}  Concorrência.
Preço Quase Privado = {Custo + Lucro}  Monopólio.
Preço Público = {Custo}
Preço Político = {Nem Custo}

Preços Privados:  São cobrados pelas entidades públicas, visando cobrir os custos e obter lucros em
regime de concorrência.
Exemplo: Juros cobrados pelo Banco do Brasil

Preços quase Privados São cobrados pelas Empresas Públicas e pelas sociedades de economia mista,
visando cobrir os custos e objetivando lucro em um sistema monopolizantes (sem concorrentes no
mercado).
Exemplo: Preços cobrados pela Cia de Energia Elétrica, pela Cia de Água e esgoto, etc.

Preços Públicos São cobrados apenas para cobrir os custos, não objetiva lucro. São cobrados por
Autarquias e Fundações.
Exemplo: Serviços de terraplanagem.

Preço Político São valores cobrados, que não objetiva nem mesmo cobrir os custos dos serviços
prestados.
Exemplo: Mensalidades cobradas pelos cursos ministrados pelos órgãos ligados ao Ministério da Educação.
(Taxas Simbólicas).


1.3 O Direito Tributário e sua natureza: direito público, obrigacional e comum


 Deriva do direito financeiro
- Direito Financeiro: regula a atividade financeira do Estado.
- Direito Tributário: abrange todas as relações jurídicas entre a Fazenda Pública e o
contribuinte.

 É um direito público
(I) Implica que o Estado é sempre parte da relação jurídica – e sempre em situação de
superioridade jurídica em relação ao particular, noção de verticalidade (critério
subjetivo).
(II) Traz em seu bojo a coatividade, ou seja, a imperatividade própria das normas
cogentes (critério do conteúdo tutelado pela norma jurídica).
(III) Sinaliza que o interesse tutelado há de ser o interesse público (critério do interesse
amparado pela norma jurídica).

 É um direito obrigacional
Vincula o Estado ao contribuinte por meio de uma relaçã/liame de índole obrigacional.
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 É um direito comum
Fixa regras de carácter geral, visando a atingir uma generalidade de pessoas e situações.


1.4 O Direito Tributário e sua autonomia


Autonomia:
- Didática – homogeneidade de sua estrutura normativa e de seus preceitos elementares.
- Dogmática ou científica – corpo de regras próprias orientadas por princípios jurídicos
próprios, não aplicáveis aos demais ramos do direito.
- Estrutural – institutos dissemelhantes dos demais ramos do direito.

Há, no entanto, autores que defendem apenas a autonomia didática, com exclusivismo, face à
unicidade e indivisibilidade do direito.

Não se está a defender a total independência do Direito Tributário, mesmo porque a dependência
que marca seu convívio com as outras ciências não vai de encontro à sua autonomia científica e
estrutural perante os demais ramos do direito, mas apenas sinaliza que é patente a existência de
um grau de entrelaçamento, um viés de harmonização ou uma área aberta à intersecção.

Há, na verdade, uma relativização da autonomia.

O Direito Tributário estabelece conexão com todos os ramos do direito.

 Direito Constitucional
A Constituição contém as bases do ordenamento jurídico, e de onde se originam todos os ramos do
direito.

Pontos de intersecção: limites ao poder de tributar (princípios e imunidades), competência,
fundamento de validade do tributo, preceitos específicos de certos impostos, discriminação das
rendas tributárias, entre outras generalidades constitucionais da tributação.

 Direito Financeiro
Relação de gênero e espécie.
O Direito Financeiro registra normativamente toda a atividade financeira do Estado, cuidando do
orçamento, do crédito, da receita e da despesa no âmbito da administração pública.
O Direito Tributário, na disciplina do convívio entre o tesouro público e o contribuinte, dedica-se à
receita tributária. Trata-se de um setor do Direito Financeiro que,atingindo relativo grau de
complexidade, passou a ser legislado em diploma normativo específico.
Urge mencionar que o Direito Tributário lida, na perspectiva da instuição, arrecadação e fiscalização
dos gravames, a certos episódios da cronologia triburária: nascimento, vida e morte do tributo.
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Aquilo que se distanciar de tais atividades não habitará o campo dessa ciência jurídica, ingressando
no espectro de abrangência do Direito Financeiro. Ex: a destinação do importe arrecadado.

Pontos de intersecção: receita pública, princípios gerais comuns, ambos disciplinam sectores da
mesma atividade (a atividade financeira).

 Direito Administrativo
O Direito Tributário relaciona-se com o Direito Administrativo, porque este regula as atividades
gerais da administração pública, enquanto aquele disciplina um dos aspectos específicos dessa
atividade, relacionada com a cobrança, arrecadação e fiscalização dos tributos.
É de se deduzir, ainda, que o poder de tributar nada mais é que o poder geral do Estado aplicado ao
setor impostivo, ou seja, de instituir tributos.
O Direito Administrativo, no entanto, continua a disciplinar o exercício das atividades dos
funcionários, órgãos e repartições fiscais, no que se refere à imposição (o lançamento é ato
administrativo), fiscalização (obrigações acessórias são deveres dirigidos aos contribuintes) e
arrecadação (atividade administrativa dos funcionários) dos tributos. Enquanto o Direito Tributário
tem por objeto o tributo, os conceitos e a relação jurídia a ele pertinentes, dando embasamento a
esses procedimentos impositivos tributários.
Relembre-se ainda que o Direito Tributário nasceu do Direito Financeiro, que estava
originadamente integrado no Direito Administrativo, e somente passou a ser considerado ramo
jurídico cientificamente autônomo quando dele se destacou e se libertou.

*Não obstante a forte ligação entre as disciplina, não se pode afirmar que haja uma dependência.

 Direito Penal
A conexão advém do fato de que a compulsoriedade na tributação dá margem à aplicação de
sanções, em caso de inadimplemento obrigacional ou de infração tributária.

Pontos de intersecção: crimes tributários e infrações fiscais que capitulem penas pecuniárias.

 Direito Processual
O elo provém do fato que a tributação, naturalmente, dá magem à resistência, e esta, para a
composição do litígio no palco do contraditório e da ampla defesa.
Ao Direito Processual incumbe a estipulação de regramentos que nortearão o iter procedimental da
lide tributária, que na seara do processoa administrativo fiscal, quer na órbita judicial.

 Direito Internacional Público
Observada nos tratados e convenções internacionais.

Pontos de intersecção: bitributação internacional e impostos aduaneiros.

 Direito Civil
DIREITO TRIBUTÁRIO

A conexão é observada no uso de várias categorias jurídicas do Direito Civil na elaboração do
aspecto material do fato gerador, muitas vezes vinculando a estrutura privada desses conceitos à
estrutura do direito público.

 Outos ramos científicos
Como a Ciência das Finanças, a Merceologia, a Economia, etc.


2. O DIREITO TRIBUTÁRIO E OS LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR


Os limites constitucionais ao poder de tributar correspondem aos princípios tributários e às
imunidades.

Segundo jurisprudência firmada pelo STF, são considerados cláusulas pétreas e, portanto,
insusceptíveis de supressão ou excepcionalização, mesmo que por Emenda Constitucional.

Ademais, tais balizamentos podem ser encontrados em toda a extensão da Carta Magna, não se
restringindo a seções específicas, devendo ser entendidos de modo amplo e sistémico, abrangendo
princípios, imunidades, competência, proibição de privilégios e discriminações fiscais, etc.


2.1 Poder de tributar


- Estado = é a corporação territorial dotada de um poder de mando originário (território + povo +
governo soberano).

- Soberania = posição de independência e supremacia do Estado em relação a seu povo.

Uma das parcelas da soberania é o poder de tributar.

- Poder = imposição de uma vontade sobre outra.

O uso da força é uma condição necessária, mas não suficiente para a existência do poder político.

A relação jurídico-tributária, portanto, não é uma relação de poder-força, mas sim uma relação de
poder-direito.

O poder de tributar é, em verdade, um poder de direito, lastreado no consentimento dos cidadãos,
destinatários da invasão patrimonial, tendente à percepção do tributo, uma vez que se atrela à
inafastável figura da legalidade. Se há em seu emprego o uso da força, ela se mostra
institucionalizada, dotada de juridicidade.
DIREITO TRIBUTÁRIO


Enquanto o tributo visa suprir os cofres públicos de recursos bastantes ao custeio das atividades
estatais no plano da arrecadação, o Direito Tributário existe para delimitar o poder de tributar,
transformando a relação tributária, que antigamente foi uma relação simplesmente de poder, em
relação jurídica.

A relações tributárias entre governantes e governados deverão, portanto, transitar dentro do
espaço moldurado do texto constitucional, que se exterioriza em:
- Normas jurídicas constitucionais de competência tributária – Repartem o poder tributário
do Estado (ius imperium) entre as esferas políticas (União, Estados-membros, Municípios e Distrito
Federal), de modo que elas possuem competência tibutária (manifestação de autonomia da pessoa
política e, assim, sujeita ao ordenamento jurídico-constitucional).
- Princípios constitucionais tributários – Funcionam como verdadeiras garantias
constitucionais do contribuinte.





























DIREITO TRIBUTÁRIO

II. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE TRIBUTÁRIA


1. CONSIDERAÇÕES GERAIS


História:
- Carta Magna inglesa, de 1215, do Rei João Sem Terra.
- “No taxation without representation”.

É fundamento de toda a tributação, sem o qual não é possível se falar em Estado Democrático
de Direito.

Não significa um direito do Fisco, visto que traduz uma limitação da sua ação.

Informado pelos ideais de segurança jurídica e justiça.

“Nullum tributum sine lege”.

Previsão:
- Art. 5º, II da CF
- Art. 150, I do CTN

Embora a Constituição explicite apenas os elementos “instituição” e “redução”, o comando
atrela-se, inexoravelmente, aos paradigmas fáticos criação-extinção e majoração-redução.


2. O TRIBUTO E AS LEIS ORDINÁRIA E COMPLEMENTAR


A lei emanará da entidade titular da competência tributária respectiva:
(I) Tributo federal  Lei federal  Congresso Nacional (U)
(II) Tributo estadual  Lei estadual  Assembélia Legislativa (E) / Câmara Legislativa (DF)
(III) Tributo municipal  Lei municipal  Câmara de Vereadores (M) / Câmara Legislativa
(DF)

Há, no entanto, algus tributos federais, que reclamam lei complementar:
a) Impostos sobre grandes fortunas
b) Empréstimos compulsórios
c) Impostos residuais
d) Contribuições social-previdenciárias residuais

DIREITO TRIBUTÁRIO

A lei complementar é um instrumento de utilização excepcional, reservada aos casos tendentes
a um dado grau de polemização e instabilidade da relação jurídico-tributária, de modo que o
legislador deve estabelecer previsão expressa no texto constitucional, ressalvados casos
esparsos que avocam uma interpretação sistemática (art. 150, VI, “c” parte final da CF).

Lei ordinária  maioria simples (maioria dos parlamentares presentes)
Lei complementar  maioria absoluta (maioria dos parlamentares existentes)

As matérias cabentes à lei complementar não poderão ser objeto de medida provisória (art. 62,
§ 1º, III da CF)


3. LEGALIDADE ESTRITA


- Estrita legalidade.
- Tipicidade fechada (cerrada ou regrada).
- Reserva legal.

A lei que institui um tributo deverá conter elementos obrigatórios, explicitados pelo art. 97 do
CTN, que expõe uma lista taxativa (numerus clausus) de rudimentos configuradores da estrita
legalidade.

O princípio da tipicidade, dizendo respeito ao conteúdo da lei, é uma extensão lógica do
princípio da legalidade material.

A interpretação está ligada à noção de tipo ou tipificação, em um elevado grau de fixação do
conteúdo, de modo que o aplicador deve submeter a matéria examinada à moldura legal.

Pretende-se evitar a interferência pela via interpretativa e integrativa, e promover a segurança
jurídica.

A lei tributária deverá, portanto, definir in abstracto todos os aspectos relevantes da fisiologia
do tributo:
- Sujeito passivo
- Fato gerador da obrigação principal
- Alíquota
- Base de cálculo
- Multa

 Prazo para o pagamento do tributo
Segundo o STF, o Poder Executivo detém competência para expedir ato infralegal fixando o
prazo para o pagamento de tributos, ao fundamento de que não é matéria reservada à lei.
DIREITO TRIBUTÁRIO

{TRF3 – Prova de Juiz Substituto – Adotou posicionamento contrário: o prazo para o
pagamento de tributos é matéria reservada à lei}


3.1 A estipulação de obrigações acessórias


Art. 113, § 2º do CTN.

A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas
ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos.

São “deveres de contorno”, deveres instrumentais do contribuinte, que gravitam no entorno do
tributo, na esteira das relações jurídico-tributárias, de cunho não-patrimonial.


3.2 A atualização monetária do tributo


Art. 97, §§ 1º e 2º do CTN.

A atualização do valor monetário da respectiva base de cálculo, desde que obedeça a índices
oficiais de correção de dado período, devida e publicamente revelados, será inequívoca
atualização e, portanto, não haverá majoração do tributo, permitindo-se o uso de atos
normativos infralegais.

Por outro lado, se, sob a falsa capa da atualização, forem utilizados índices acima da correção
monetária do período em análise, haverá verdadeira majoração de tributo e, portanto, haverá
de se ter a lei, como conditio sine qua non.

Súmula nº 160 do STJ – “É defeso, ao Município, atualizar o IPTU, mediante decreto, em
percentual superior ao índice oficial de correção monetária”.


4. A MITIGAÇÃO DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE TRIBUTÁRIA


Na verdade, todos os tributos estão sujeitos ao princípio da legalidade. No entanto, em relação
a alguns, sob as vestes de uma “aparente exceção”, o princípio de mostre mitigado com relação
às alíquotas (e não com relação à base de cálculo!). Significa dizer que, em certas circunstâncias
– e dentro dos limites legais –, não se submetem “completamente” ao princípio da legalidade.

DIREITO TRIBUTÁRIO

As ressalvas à legalidade tributária, quando veiculadas à atuação do Poder Executivo na seara
tributacional, são verdadeiras ressalavas à reserva de lei formal, e não à reserva de lei material.

Nesse sentido, há quatro impostos federais que podem ter suas alíquotas majoradas ou
reduzidas por ato do Poder Executivo Federal (art. 153, § 1º da CF):
- II
- IE
- IPI
- IOF

Em geral, se dá por decreto do Presidente da República ou portaria do Ministro da Fazenda.

Nesses casos, a alíquota continua sendo definida em lei. No entanto, é admissível ao Poder
Executivo provocar uma alteração em sua fisionomia, ou seja, tem autorização para flexibiliza-
la, segundo os parâmetros legais (máximo e mínimo, teto e piso). Tais balizas podem ser
amplas, mas não ilimitadas.

Enquanto não exercida a aalteração pelo Poder Executivo, deverá prevalecer aquela alíquota
prevista em lei.

A lógica da flexibilidade justifica-se pelo fato de tais exações serem gravames regulatórios da
economia ou reguladores de mercado, ou seja, atrelam-se à ordenação das relações
econômico-sociais, servindo para a intervenção em dados conjunturais e estruturais da
economia. Com efeito, tais impostos são dotados de extrafiscalidade – poderoso instrumento
financeiro empregado pelo Estado a fim de estimular ou inibir condutas, tendo em vista a
consecução de finalidades não meramente arrecadatórias, mas sim de corrigir externalidades,
como anómalas situações sociais e econômicas.


5. A EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 33/2001


A EC nº 33/2001 trouxe mais dois casos de mitigação do princípio da legalidade, ambas
igualmente justificadas no contexto da extrafiscalidade:
- CIDE-Combustível
- ICMS-Combustível

 CIDE-Combustível [Constribuição de Intervenção no Domínio Econômico – Combustível] 
Tributo federal, instituíto, à luz da EC nº 33/2001, por meio da Lei nº 10.336/2001. A
mitigação consiste apenas na possibilidade de o Poder Executivo Federal, através de decreto
presidencial, reduzir a alíquota e restabelecê-la ao seu limite máximo fixado inicialmente
pela lei (art. 149, § 2º, II e art. 177,§ 4º, I, “b”, parte inicial).

DIREITO TRIBUTÁRIO

 ICMS-Combustível [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – Combustível] 
Tributo estadual. Trata-se do ICMS de incidência unifásica/monofásica (uma única vez) nas
operações com combustíveis e lubrificantes previstos em lei complementar federal,
qualquer que seja sua finalidade. As alíquotas, por sua vez, serão definidas e modificadas
(redução e restabelecimento) mediante deliberação dos Estados e do Distrito Federal,
mediante convênios interestaduais (e não “decreto estadual”!) celebrados no âmbito do
CONFAZ – Conselho de Política Fazendária (art. 155, § 4º, IV, “c” e art. 155, § 2º, XII, “g” e
“h”).

OBS: A abrangência da ressalva no ICMS-Combustível é maior do que a prevista para o CIDE-
Combustível, já que é possível assegurar que se trata de caso único em que se fixam
alíquotas por ato do Poder Executivo.

Há, portanto, seis ressalvas ao princípio da legalidade tributária:
- II
- IE
- IPI
- IOF
- CIDE-Combustível
- ICMS-Combustível


6. OS REFLEXOS EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 32/2001


A EC nº 32/2001, consoante o comando inserto no art. 62, § 2º da CF, permite a utilização da
medida provisória em matéria tributária.

A medida provisória se traduz em ato político normativo discricionário de vida efêmera
(precário) e de utilização excepcional, no trato de certos assuntos, cujos pressupostos materiais
atrelam-se a elementos de relevância e urgência (cautelar), com força de lei.

Antes da EC nº 32/2001 – A MP não apreciada pelo Congresso Nacional podia ser reeditada
dentro do seu prazo de eficácia de 30 dias, mantidos os efeitos de lei desde a primeira edição.

Depois da EC nº 32/2001 – O prazo de validade da MP passou a ser de 60 dias, admitida uma
única prorrogação por igual período. Não havendo a conversão em lei, no prazo supracitado, a
MP perderá a eficácia desde a origem (efeito ex tunc), devendo os produzidos efeitos serem
regulados por decreto legislativo do Congresso Nacional. Aliás, é vedada a reedição, na mesma
sessão legislativa, de MP que tenha sido rejeitada ou que tenha perdido sua eficácia por
decurso de prazo. Por fim, não editado o decreto legislativo supramencionado até 60 dias após
a rejeição (expressa) ou perda da eficácia por decurso de prazo (tácita, caducidade), as relações
DIREITO TRIBUTÁRIO

jurídicas constituídas e decorrentes de atos praticados durante sua vigência conservar-se-ão por
ela regidas (art. 62 da CF).

Segundo o texto constitucional, a utilização da MP em matéria tributária (art. 62, § 2º da CF):
- Associada com exclusividade ao campo dos impostos, exceto: ****************
- Utilizada na instituição e majoração.
- Só produzirá efeitos no exercício financeiro seguinte se houver sido convertida em lei até o
último dia daquele em que foi editada.

Críticas è MP:
a) A MP tem apenas “força de lei”, não se confundindo com a lei em si (art. 62, caput da CF).
b) Lei e MP são espécies normativas distintas (art. 59 da CF).
c) A MP viola o princípio da estrita legalidade tributária, atropelando direito fundamental dos
contribuintes e, por conseguinte, afrontando a cláusula pétrea de direitos e garantias
individuais (art. 60, § 4º, IV da CF).
d) A MP viola a cláusula pétrea de separação dos poderes (art. 60, § 4º, III da CF).
e) O carácter efémero das MP leva à insegurança jurídica.
f) Se a MP tem como pressupostos a relevância e a urgência, não deve aplica-la na seara
tributária, orientada pelos princípios da anterioridade tributária, planejamento da
tributação e segurança jurídica.

A quem compete aferir os pressupostos constitucionais de relevância e urgência, justificadores
da edição da MP?
O STF, de há muito, pacificou a questão, firmando orientação no sentido de que a aferição
reveste-se de carácter político, cabendo sua apreciação, em princípio, aos Poderes Executivo
(Presidente da República) e Legislativo (Congresso Nacional). Entretando, se um ou outro
pressuposto mostrar-se descabido, o Poder Judiciário, no controle judicial, deverá decidir pela
ilegitimidade constitucional da MP.
Desse modo, deve haver, em primeiro lugar, o juízo de discricionariedade, de oportunidade
e de valor, a ser feito pelo Presidente da República, sem embargo de ulterior e excepcional
controle judiciário quando houver excesso do poder de legislar.
A bem de verdade, em âmbito tributário, o contexto de relevância e urgência parece ter sido
visualizado pelo constituinte, nas situações excepcionais de beligerância (participação em
guerra ou conflito) e calamidade pública, no âmbito do imposto extraordinário de guerra (art.
154, II da CF) e dos empréstimos compulsórios de emergência (para guerra externa ou
calamidade pública: art. 148, I da CF)

Segundo a visão do STF, a utilização da MP em matéria tributária:
- Poderá versar sobre tributos, criação e aumento, ressalvados aqueles que se ligam à lei
complementar.
- A MP estadual, municipal ou distrital é instrumento factível, mas depende da previsão no
texto constitucional estadual ou na lei orgânica municipal, além da observância simétrica do
processo legislativo federal.
DIREITO TRIBUTÁRIO


É defeso à MP tratar de matéria reservada à lei complementar (art. 62, § 1º, III da CF). Trata-se
de restrição material (por via indireta) à edição de MP na seara do Direito Tributário. Assim, os
tibutos adstritos à noção normativa de lei complementar não poderão ser instituídos ou
majorados por MP.

Tributos federais que avocam lei complementar:
- Imposto sobre grandes fortunas
- Empréstimos compulsórios
- Impostos residuais
- Contribuições Social-previdenciárias Residuais

Outros dispositivos afetos à lei complementar
- Normas gerais em matéria de legislação tributária; conflitos de competência; limitações
constitucionais ao poder de tributar (art. 146 da CF).
- Critérios especiais de tributação, com o objetivo de prevenir desequilíbrios da concorrência
(art. 146-A da CF).
- Detalhamentos normativos adstritos ao ICMS (art. 155, § 2º, XII da CF), ITCMD (art. 155, §
1º, III da CF), ISS (art. 156, III e § 3º da CF) e contribuições social-previdenciárias (art. 195, § 11
da CF).























DIREITO TRIBUTÁRIO

III. PRINCÍPIO DA ANTERIORIDADE TRIBUTÁRIA


1. INTRODUÇÃO

 Anterioridade anual, de exercício, ou comum (art. 150, III, “b” da CF).
 Anterioridade nonagesimal, privilegiada ou qualificada (art. 150, III, “c” da CF) –
acrescentado pela EC nº 42/2003