Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade

Universidade Federal da Bahia
Teorias da Cultura II
Professora !neida "eal Cunha
#luna $enata de Paula Trindade $ocha %mestrado&
Michel Foucault
Noções úteis aos estudos contemporâneos da cultura
'ichel Foucault foi um dos grandes teóricos das ci(ncias sociais na contem)oraneidade*
Filósofo e )rofessor da c+tedra de ,istória dos Sistemas de Pensamento no Coll-ge de
France. este autor ressignificou as noç/es de verdade. )oder e su0eito1 cunhou os termos
2io)oder e 2io)ol3tica1 e 4uestionou as continuidades e unidades discursivas. dentre
outras contri2uiç/es em 4uest/es fundamentais )ara os estudos em diversas +reas
disci)linares das ci(ncias sociais* !ste 2reve artigo tem como o20etivo refletir acerca de
algumas destas tem+ticas centrais a2ordadas )elo autor )ara a investigação no cam)o da
cultura*
As regularidades discursivas
5um )rimeiro momento. ca2e introdu6ir uma 4uestão crucial do )ensamento
foucaultiano. mesmo 4ue. a )rinc3)io. as discuss/es acerca do discurso. enunciados.
inter)retaç/es e do signo )areçam restritas a um cam)o disci)linar* Trata-se das
refle7/es acerca dos )ro2lemas teóricos colocados )ela utili6ação de conceitos como
descontinuidade. ru)tura. limite. s8rie e transformação na an+lise histórica*
#o a2ordar esta tem+tica. considerando como cam)o )articular a história das id8ias %do
)ensamento. do conhecimento ou das ci(ncias&. Foucault 2usca 9li2ertar-se de um 0ogo
de noç/es 4ue diversificam. cada uma : sua maneira. o tema da continuidade;
%Foucault. <=>?. )* @A&* Tradição. influ(ncia. desenvolvimento e evolução. mentalidade
e es)3rito. livro. o2ra. etc*. são conceitos 2astante utili6ados nos mais diversos cam)os
disci)linares B incluindo a3. os estudos na +rea da cultura e 4ue suscitam uma s8rie de
4uestionamentos 4uanto :s suas significaç/es* Ca3 a im)ortDncia desta refle7ão*
# id8ia de tradição. )or e7em)lo. designa. )ara Foucault. elementos desconectados 4ue
são )rivilegiados. )reservados e mantidos segundo uma im)ortDncia tem)oral singular*
#ssim. as novidades )odem ser isoladas so2re um fundo de )erman(ncia e seu m8rito
transferido )ara a originalidade e a decisão )ró)ria dos indiv3duos* E conceito de
influ(ncia. )or sua ve6. seguiria a uma lógica causal. de forma 4ue as transformaç/es
são atri2u3das :s derivaç/es. )ressu)ondo-se a e7ist(ncia de uma ess(ncia. um )onto de
onde tudo )artiria* F+ as id8ias de desenvolvimento e evolução )ermitem reagru)ar
9uma sucessão de elementos dis)ersos1 relacion+-los a um Gnico e mesmo )rinc3)io
organi6ador1 su2met(-los ao )oder e7em)lar da vida; %Foucault. <=>?. )* @H&* #s noç/es
de mentalidade e es)3rito seguem a mesma lógica das anteriores. )ermitindo o
esta2elecimento de uma comunidade de sentido a fenImenos simultDneos ou sucessivos
de uma determinada 8)oca* J a )artir destas ligaç/es sim2ólicas e dos 0ogos de
semelhança 4ue surgem. como )rinc3)io de unidade e de e7)licação. a so2erania de uma
consci(ncia coletiva*
Foucault. então. ressalta 4ue
J )reciso )Ir em 4uestão. novamente. essas s3nteses aca2adas. esses
agru)amentos 4ue. na maioria das ve6es. são aceitos antes de 4ual4uer
e7ame. esses laços cu0a validade 8 reconhecida desde o in3cio1 8
)reciso desalo0ar essas formas e essas forças o2scuras )elas 4uais se
tem o h+2ito de interligar os discursos dos homens1 8 )reciso e7)usKa-
las da so2ra onde reinam* %Foucault. <=>?. )* @H&*
#ssim. fa6-se necess+rio reconhecer 4ue as continuidades discursivas não )ossuem um
valor es)ontDneo. de maneira 4ue. em atenção ao m8todo e ao rigor. a a2ordagem
)rimeira deve fa6er alusão a uma )o)ulação de acontecimentos dis)ersos*
Por outro lado. tam28m as unidades do discurso B os g(neros discursivos. a
categori6ação. o recorte e. so2retudo. o livro e a o2ra de um autor - devem ser
)ro2lemati6adas* Isso não significa descart+-las. mas coloc+-las em sus)enso e utili6+-
las de maneira cr3tica. )erce2endo-as en4uanto construtos e não como naturais*
Técnicas de interpretação e o signo
Segundo Foucault. cada forma de cultura tem o seu sistema )ró)rio de inter)retação.
t8cnicas. m8todos. sus)eitas so2re o significado do 4ue se di6. etc* Para com)reender a
situação contem)orDnea. en4uanto forma cultural da civili6ação ocidental no s8culo
LLI. )ro)/e-se a ela2oração de uma história das t8cnicas de inter)retação 4ue a
fundamentaram*
5o s8culo LMI. a inter)retação se 2aseava no )ressu)osto da semelhança.
fundamentada em dois ti)os de conhecimento distintos o cognitio %)asso de uma
semelhança a outra& e o divinatio %conhecimento em )rofundidade&. am2as
manifestavam o consensus do mundo em 4ue se fundamentavam. em o)osição ao
simulacrum. a falsa semelhança*
Com a evolução do )ensamento ocidental nos s8culos LMII e LMIII. estas t8cnicas de
inter)retação ficaram em sus)enso e. )osteriormente. foram colocadas em interdição
com a cr3tica 2aconiana e a cr3tica cartesiana da semelhança* 'as 8 no s8culo LL 4ue
tr(s autores contri2uem )ara a fundamentação de uma hermen(utica. tra6endo uma nova
conce)ção do s3m2olo* #ssim. transformaç/es engendradas )or 5iet6sche. Freud e
'ar7 ocorrem. )rinci)almente no sentido de relativi6ar o significado. atrav8s da
)ers)ectiva do emissor do enunciado*
#s )rinci)ais )remissas )ara esta teoria da inter)retação se fundamentam na conce)ção
da significação como atri2uição %e. )ortanto. e7terna& e não como ess(ncia %ou
interioridade&* Centre elas )odem ser citadas a cr3tica : noção de 9)rofundidade; do
conhecimento e : verticali6ação do conhecimento1 a ine7ist(ncia de uma significação
original1 a infinitude da inter)retação e a im)ossi2ilidade de conclusão1 a o2rigação da
inter)retação de inter)retar-se. ou se0a. a circularidade da inter)retação1 e a im)ortDncia
do int8r)rete*
Intelectuais, erdade e !oder
# )artir do s8culo LMIII. a atuação intelectual se 2aseava numa vertente universalista.
derivada do iluminismo e no direito : verdade* Es intelectuais universais surgem como
)essoas 4ue t(m )rest3gio em seu cam)o de atuação e 4ue )assam a falar %com
autoridade moral& em as)ectos 9universais; da sociedade. devido + sua credi2ilidade
social*
Focault a)onta o fim da II Guerra como momento em 4ue esta figura começa a )erder
)ot(ncia diante do desenvolvimento das estruturas t8cnico-cient3ficas na sociedade
contem)orDnea* Surge. assim. a figura do intelectual es)ec3fico. )rofissionais 4ue se
ha2ituaram em tra2alhar em setores determinados do conhecimento* ! 8 em cada cam)o
delimitado 4ue a função destes 9es)ecialistas; deve ser reela2orada
***o )a)el do intelectual es)ec3fico deve se tornar cada ve6 mais
im)ortante na medida em 4ue. 4uer 4ueira 4uer não. ele 8 o2rigado a
assumir res)onsa2ilidades )ol3ticas en4uanto f3sico atImico.
geneticista. inform+tico. farmacologista. etc* Seria )erigoso
des4ualific+-lo em sua relação es)ec3fica com um sa2er local
%Foucault. <=N=* )*<A&*
E )rimordial na )rodução do conhecimento seria. então. os efeitos es)ec3ficos do
discurso verdadeiro. )ois a verdade - vista en4uanto construção social e não como uma
ess(ncia oculta acess3vel a)enas a alguns 9es)3ritos livres; - não e7iste sem )oder. ou
fora dele* #ssim
Cada sociedade tem seu regime de verdade. sua 9)ol3tica geral; de
verdade isto 8. os ti)os de discurso 4ue ela acolhe e fa6 funcionar
como verdadeiros1 os mecanismos e as instDncias 4ue )ermitem
distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos. a maneira como se
sanciona uns e outros1 as t8cnicas de )rocedimento 4ue são
valori6adas )ara a o2tenção de verdade1 o estatuto da4ueles 4ue t(m o
encargo de di6er o 4ue funciona como verdadeiro %Foucault. <=N=* )*
<@&*
# 4uestão 4ue se a)resenta aos intelectuais. )ortanto. 8 2uscar a constituição de uma
nova )ol3tica de verdade* Isso não significa mudar a 9consci(ncia; das )essoas. na
)ers)ectiva mar7ista dos conceitos de ideologia ou alienação. mas sim transformar o
regime B institucional. )ol3tico e econImico B de )rodução da verdade. desvinculando
seu )oder das formas de hegemonia em 4ue a verdade funciona num dado momento*
Por fim. ca2e destacar 4ue. segundo a )ers)ectiva foucaultiana. o )oder 8 algo
descentrado e não redut3vel ao a)arelho estatal* 5ão h+ um )oder. mas v+rios )oderes.
de forma 4ue 8 dif3cil a)ontar 4ue. numa sociedade det8m o )oder %ainda 4ue se0a f+cil
distinguir 4uem não o det8m&* 5as )alavras de Foucault. 9o 4ue fa6 com 4ue o )oder se
mantenha e se0a aceito 8 sim)lesmente 4ue ele não )esa só como uma força 4ue di6 não.
mas 4ue de fato ele )ermeia. )rodu6 coisas. indu6 ao )ra6er. forma sa2er. )rodu6
discurso; %Foucault. <=N=. )* O>&* Eu se0a. o )oder não )ode ser visto a)enas como
dominação ou re)ressão. mas sim como uma rede 4ue )ermeia todo o com)le7o social*
"i#liogra$ia
FEUC#U"T. 'ichel* Microfísica do Poder* $io de Faneiro Graal. <=N=*
PPPPPPP* Arqueologia do Saber* @ed* $io de Faneiro Forense-Universit+ria. <=>?* )*@A-
AH*
PPPPPPP* #ula de <N de março de <=N?* In Em defesa da Sociedade. São Paulo
'artins Fontes. <===* )* @>Q a A<Q*
PPPPPPP* Nietzsche, Freud e Mar ! "heatrum Philosoficum* São Paulo Princ3)io.
<==N* )*<A-AO*