OS ECONOMISTAS

KARL MARX
O CAPITAL
CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA
VOLUME I
LIVRO PRIMEIRO
O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CAPITAL
TOMO 1
(Prefácios e Capítulos I a XII)
Apresentação de Jacob Gorender
Coordenação e revisão de Paul Si nger
Tradução de Regi s Barbosa e Fl ávi o R. Kothe
Fundador
VI CTOR CI VI TA
(1907 - 1990)
Edi tora Nova Cul tural Ltda.
Copyri ght ©desta edi ção 1996, Cí rcul o do Li vro Ltda.
Rua Paes Leme, 524 - 10º andar
CEP 05424-010 - São Paul o - SP
Tí tul os ori gi nai s:
Value, Price and Profit; Das Kapital -
Kritik der Politischen konomie.
Di rei tos excl usi vos sobre a Apresentação de autori a de
Wi nston Fri tsch, Edi tora Nova Cul tural Ltda.
Di rei tos excl usi vos sobre as traduções deste vol ume:
Cí rcul o do Li vro Ltda.
I mpressão e acabamento:
DONNELLEY COCHRANE GRÁFI CA E EDI TORA BRASI L LTDA.
DI VI SÃO CÍ RCULO - FONE: (55 11) 4191-4633
I SBN 85-351-0831-9
APRESENTAÇÃO
Em 1867, vi nha à l uz, na Al emanha, a pri mei ra parte de uma
obra i nti tul ada O Capital. Karl Marx, o autor, vi veu, então, um mo-
mento de pl ena eufori a, raro em sua atri bul ada exi stênci a. Durante
quase vi nte anos, penara duramente a fi m de chegar a este momento
— o de apresentar ao públ i co, conquanto de manei ra ai nda parci al , o
resul tado de suas i nvesti gações no campo da Economi a Pol í ti ca.
Não se tratava, contudo, de autor estreante. À bei ra dos ci nqüenta
anos, já i mpri mi ra o nome no fronti spí ci o de l i vros sufi ci entes para
l he assegurar destacado l ugar na hi stóri a do pensamento. Àquel a al -
tura, sua produção i ntel ectual abrangi a trabal hos de Fi l osofi a, Teori a
Soci al , Hi stori ografi a e também Economi a Pol í ti ca. Quem já publ i cara
Miséria da Filosofia, Manifesto do Partido Comunista, A Luta de Classes
em França, O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte e Para a Crítica
da Economia Política — podi a aval i ar com justi fi cada sobranceri a o
própri o currí cul o. No entanto, Marx afi rmava que, até então, apenas
escrevera bagatel as. Senti a-se, por i sso, autor estreante e, demai s, al i -
vi ado de um fardo que l he vi nha exauri ndo as forças. Também os
ami gos e companhei ros, sobretudo Engel s, exul tavam com a publ i cação,
pois se sati sfazia afinal a expectativa tantas vezes adiada. Na verdade,
pouquí ssi mos l i vros desta envergadura nasceram em condi ções tão di fí cei s.
1. Do liberalismo Burguês ao Comunismo
Este homem, que vi vi a um intervalo de consci ência paci fi cada e
ilumi nação subjeti va em mei o a combates pol í ti cos, persegui ções e decep-
ções, nascera em 1818, em Tri er (Trevès, à francesa), sul da Al emanha.
Duas ci rcunstânci as l he marcaram a ori gem e a pri mei ra educação.
Tri er l ocal i za-se na Renâni a, então proví nci a da Prússi a, l i mí trofe
da França e, por i sso, i nci si vamente i nfl uenci ada pel a Revol ução Fran-
cesa. Ao contrári o da mai or parte da Al emanha, di vi di da em numerosos
Estados, os camponeses renanos havi am si do emanci pados da servi dão
da gl eba, e das anti gas i nsti tui ções feudai s não restava mui ta coi sa
na proví nci a. Fi rmavam-se nel a núcl eos da moderna i ndústri a fabri l
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em torno da qual se pol ari zavam as duas novas cl asses da soci edade
capi tal i sta: o prol etari ado e a burguesi a. A esta pri mei ra e poderosa
ci rcunstânci a soci al se vi ncul ava uma outra. As i déi as do i l umi ni smo
francês contavam com mui tos adeptos nas camadas cul tas da Renâni a.
O pai de Marx — tal a segunda ci rcunstânci a exi stenci al — era um
desses adeptos.
A famí l i a Marx pertenci a à cl asse médi a de ori gem judai ca. Hi rs-
chel Marx fi zera bri l hante carrei ra de juri sta e chegara a Consel hei ro
da Justi ça. A ascensão à magi stratura obri gara-o a submeter-se a i m-
posi ções l egai s de caráter anti -semi ta. Em 1824, quando o fi l ho Karl
ti nha sei s anos, Hi rschel converteu a famí l i a ao cri sti ani smo e adotou
o nome mai s germâni co de Hei nri ch. Para um homem que professava
o deí smo desvi ncul ado de toda crença ri tual i zada, o ato de conversão
não fez mai s do que sanci onar a i ntegração no ambi ente i ntel ectual
domi nado pel o l ai ci smo. Karl , que perdeu o pai aos vi nte anos, em
1838, recebeu del e ori entação formadora vi gorosa, da qual guardari a
recordação sempre grata.
Durante o curso de Di rei to, i ni ci ado na Uni versi dade de Bonn e
prossegui do na de Berl i m, o estudante Karl encontrou um ambi ente
de grande vi vaci dade cul tural e pol í ti ca. O supremo mentor i deol ógi co
era Hegel , mas uma parte dos seus segui dores — os Jovens Hegel i anos
— i nterpretava a doutri na no senti do do l i beral i smo e do regi me cons-
ti tuci onal democráti co, podando os fortes aspectos conservadores do
si stema do mestre, em especi al sua exal tação do Estado. Marx fez a
i ni ci ação fi l osófi ca e pol í ti ca com os Jovens Hegel i anos, o que o l evou
ao estudo preferenci al da fi l osofi a cl ássi ca al emã e da fi l osofi a em
geral . Esta formação fi l osófi ca teve i nfl uênci a espi ri tual duradoura e
fi rmou um dos ei xos de sua produção i ntel ectual .
Se foi hegel i ano, o que é i negável , nunca chegou a sê-l o de manei ra
estri ta. Não só já encontrou a escol a hegel i ana numa fase de ci são
adi antada, como ao seu espí ri to i nqui eto e i ncl i nado a i déi as anti con-
servadoras, na atmosfera opressi va da monarqui a absol uti sta prussi a-
na, o si stema do mestre consagrado devi a parecer uma cami sa-de-força.
Em carta ao pai , já em 1837, escrevi a: “a parti r do i deal i smo (...) fui
l evado a procurar a I déi a na própri a real i dade (...)”. A esse respei to,
também é si ntomáti co que escol hesse a rel ação entre os fi l ósofos gregos
materi al i stas Demócri to e Epi curo para tema de tese de doutoramento,
defendi da na Uni versi dade de I ena. Embora i nspi rada nas l i nhas mes-
tras da concepção hegel i ana da hi stóri a da fi l osofi a, desponta na tese
um i mpul so para transcender àquel a concepção, num senti do que so-
mente mai s tarde se tornari a cl aro.
Em 1841, Ludwi g Feuerbach dava a públ i co A Essência do Cris-
tianismo. O l i vro teve forte repercussão, poi s consti tuí a a pri mei ra
i nvesti da franca e sem contempl ações contra o si stema de Hegel . O
i deal i smo hegel i ano era desmi sti fi cado e se propunha, em seu l ugar,
OS ECONOMISTAS
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uma concepção materi al i sta que assumi a a confi guração de antropol ogi a
naturi sta. O homem enquanto ser natural , frui dor dos senti dos fí si cos
e subl i mado pel o amor sexual , col ocava-se no centro da natureza e
devi a vol tar-se para si mesmo. Estava, porém, i mpedi do de fazê-l o pel a
al i enação rel i gi osa. Tomando de Hegel o concei to de al i enação, Feuer-
bach i nverti a os si nai s. A al i enação, em Hegel , era objeti vação e, por
conseqüênci a, enri queci mento. A I déi a se tornava ser-outro na natureza
e se real i zava nas cri ações objeti vas da hi stóri a humana. A recuperação
da ri queza al i enada i denti fi cava Sujei to e Objeto e cul mi nava no Saber
Absol uto. Para Feuerbach, ao contrári o, a al i enação era empobreci -
mento. O homem projetava em Deus suas mel hores qual i dades de ser
genéri co (de gênero natural ) e, dessa manei ra, a di vi ndade, cri ação do
homem, apropri ava-se da essênci a do cri ador e o submeti a. A fi m de
recuperar tal essênci a e fazer cessar o estado de al i enação e empobre-
ci mento, o homem preci sava substi tui r a rel i gi ão cri stã por uma rel i gi ão
do amor à humani dade.
Causador de i mpacto e recebi do com entusi asmo, o humani smo
naturi sta de Feuerbach foi uma revel ação para Marx. Apetrechou-o
da vi são fi l osófi ca que l he permi ti a romper com Hegel e transi tar do
i deal i smo objeti vo deste úl ti mo em di reção ao materi al i smo. Não obs-
tante, assi m como nunca chegou à pl eni tude de hegel i ano, tampouco
se tornou i ntei ramente feuerbachi ano. Apesar de jovem e i nexperi ente,
era dotado de excepci onal i ntel i gênci a crí ti ca, que o l evava sempre ao
exame sem compl acênci a das i déi as e das coi sas. Ao contrári o de Feuer-
bach, que vi a na di al éti ca hegel i ana apenas fonte de especul ação mi s-
ti fi cadora, Marx i ntui u que essa di al éti ca devi a ser o pri ncí pi o di nâmi co
do materi al i smo, o que vi ri a a resul tar na concepção revol uci onári a
do materi al i smo como fi l osofi a da práti ca.
Entre 1842 e 1843, Marx ocupou o cargo de redator-chefe da
Gazeta Renana, jornal fi nanci ado pel a burguesi a. A ori entação l i beral
do di ári o i mpôs-l he freqüentes atri tos com a censura prussi ana, que
cul mi naram no fechamento arbi trári o. Mas a experi ênci a jornal í sti ca
foi mui to úti l para Marx, poi s o aproxi mou da real i dade coti di ana.
Ganhou conheci mento de questões econômi cas geradoras de confl i tos
soci ai s e se vi u di ante do i mperati vo de pronunci ar-se acerca das i déi as
soci al i stas de vári os mati zes, que vi nham da França e se di fundi am
na Al emanha por i ni ci ati va, entre outros, de Wei tl i ng e Moses Hess.
Tanto com rel ação às questões econômi cas como às i déi as soci al i stas,
o redator-chefe da Gazeta Renana confessou com l i sura sua i gnorânci a
e esqui vou-se de comentári os i mprovi sados e i nfundados. Assi m, foi a
ati vi dade pol í ti ca, no exercí ci o do jornal i smo, que o i mpel i u ao estudo
em duas di reções marcantes: as da Economi a Pol í ti ca e das teori as
soci al i stas.
Em 1843, Marx casou-se com Jenny Von Westphal en, ori gi nári a
de famí l i a recém-ari stocrati zada, cujo ambi ente confortável trocari a
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por uma vi da de penosas vi ci ssi tudes na companhi a de um l í der re-
vol uci onári o. Marx se transferi u, então, a Pari s, onde, em janei ro de
1844, publ i cou o úni co número dupl o dos Anais Franco-Alemães, edi tado
em col aboração com Arnol d Ruge, fi gura destacada da esquerda hege-
l i ana. A publ i cação dos Anais vi sava a dar vazão à produção teóri ca
e pol í ti ca da oposi ção democráti ca radi cal ao absol uti smo prussi ano.
Naquel e número úni co, vei o à l uz um opúscul o de Engel s i nti tul ado
Esboço de uma Crítica da Economia Política, acerca do qual Marx
mani festari a sempre entusi ásti ca apreci ação, chegando a cl assi fi cá-l o
de geni al .
Fri edri ch Engel s (1820-1895) era fi l ho de um i ndustri al têxti l ,
que pretendi a fazê-l o segui r a carrei ra dos negóci os e, por i sso, afas-
tara-o do curso uni versi tári o. Dotado de enorme curi osi dade i ntel ectual ,
que l he dari a saber enci cl opédi co, Engel s compl etou sua formação como
al uno-ouvi nte de cursos l i vres e i ncansável autodi data. Vi veu curto
perí odo de hegel i ano de esquerda e também senti u o i mpacto da i r-
rupção materi al i sta feuerbachi ana. Mas, antes de Marx, aproxi mou-se
do soci al i smo e da Economi a Pol í ti ca. O que ocorreu na I ngl aterra,
onde esteve a servi ço dos negóci os paternos e entrou em contato com
os mi l i tantes operári os do Parti do Carti sta. Daí ao estudo dos econo-
mi stas cl ássi cos i ngl eses foi um passo.
O Esboço de Engel s focal i zou as obras desses economi stas como
expressão da i deol ogi a burguesa da propri edade pri vada, da concor-
rênci a e do enri queci mento i l i mi tado. Ao enfati zar o caráter i deol ógi co
da Economi a Pol í ti ca, negou-l he si gni fi cação ci entí fi ca. Em especi al ,
recusou a teori a do val or-trabal ho e, por consegui nte, não l he reconhe-
ceu o estatuto de pri ncí pi o expl i cati vo dos fenômenos econômi cos. Se
estas e outras posi ções seri am reformul adas ou ul trapassadas, o Esboço
também conti nha teses que se i ncorporaram de manei ra defi ni ti va ao
acervo marxi ano. Entre el as, a argumentação contrári a à “Lei de Say”
e à teori a demográfi ca de Mal thus. Mai s i mportante que tudo, porém,
foi que o opúscul o de Engel s transmi ti u a Marx, provavel mente, o
germe da ori entação pri nci pal de sua ati vi dade teóri ca: a crí ti ca da
Economi a Pol í ti ca enquanto ci ênci a surgi da e desenvol vi da sob i nspi -
ração do pensamento burguês.
Os Anais Franco-Alemães (assi m i nti tul ados com o objeti vo de
burl ar a censura prussi ana) estamparam doi s ensai os de Marx: a I n-
trodução à Crítica à Filosofia do Direito de Hegel e A Questão J udaica.
Ambos marcam a vi rada de perspecti va, que consi sti u na transi ção do
l i beral i smo burguês ao comuni smo. Nos anos em que se encontravam
em gestação as condi ções para a ecl osão da revol ução burguesa na
Al emanha, o jovem ensaí sta i denti fi cou no prol etari ado a cl asse agente
da transformação mai s profunda, que devi a abol i r a di vi são da soci edade
em cl asses. Contudo, o procedi mento anal í ti co e a formul ação l i terári a
dessas i déi as mostravam que o autor ai nda não adqui ri ra ferramentas
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di scursi vas e l i nguagem exposi ti va própri as, tomando-as de Hegel e
de Feuerbach. Do pri mei ro, os gi ros di al éti cos e a concepção tel eol ógi ca
da hi stóri a humana. Do segundo, o humani smo naturi sta. A novi dade
resi di a na i ntrodução de um tercei ro componente, que seri a o fator
mai s di nâmi co da evol ução do pensamento do autor: a i déi a do comu-
ni smo e do papel do prol etari ado na l uta de cl asses.
O passo segui nte dessa evol ução foi assi nal ado por um conjunto
de escri tos em fase i ni ci al de el aboração, que deveri am resul tar, ao
que parece, em vasto ensai o. Este fi cou só em projeto e Marx nunca
fez nenhuma al usão aos textos que, sob o tí tul o de Manuscritos Eco-
nômico-Filosóficos de 1844, teri am publ i cação somente em 1932, na
Uni ão Sovi éti ca.
Sob o aspecto fi l osófi co, tai s textos contêm uma crí ti ca i nci si va do
i deal i smo hegel i ano, ao qual se contrapõe a concepção materi al i sta ai nda
niti damente infl uenciada pela antropologia naturi sta de Feuerbach. Mas,
ao contrári o deste úl ti mo, Marx reteve de Hegel o pri ncí pi o di al éti co e
começou a el aborá-l o no senti do da cri ação da di al éti ca materi al i sta.
Sob o aspecto das questões econômi cas, os Manuscritos reprodu-
zem l ongas ci tações de vári os autores, sobretudo, Smi th, Say e Ri cardo,
acerca das quai s são montados comentári os e di ssertações. No essenci al ,
Marx segui u a l i nha di retri z do Esboço de Engel s e rejei tou a teori a
do val or-trabal ho, consi derando-a i nadequada para fundamentar a ci ên-
ci a da Economi a Pol í ti ca. A si tuação do prol etari ado, que representa
o grau fi nal de desapossamento, tem o pri ncí pi o expl i cati vo no seu
oposto — a propri edade pri vada. Esta é engendrada e i ncrementada
medi ante o processo general i zado de alienação, que permei a a soci edade
ci vi l (esfera das necessi dades e rel ações materi ai s dos i ndi ví duos).
Transfi gurado ao passar de Hegel a Feuerbach, o concei to de
al i enação sofri a nova metamorfose ao passar deste úl ti mo a Marx.
Pel a pri mei ra vez, a al i enação era vi sta enquanto processo da vi da
econômi ca. O processo por mei o do qual a essênci a humana dos ope-
rári os se objeti vava nos produtos do seu trabal ho e se contrapunha a
el es por serem produtos al i enados e converti dos em capi tal . A i déi a
abstrata do homem autocri ado pel o trabal ho, recebi da de Hegel , con-
creti zava-se na observação da soci edade burguesa real . Produção dos
operári os, o capi tal domi nava os produtores e o fazi a cada vez mai s,
à medi da que cresci a por mei o da i ncessante al i enação de novos pro-
dutos do trabal ho. Evi denci a-se, portanto, que Marx ai nda não podi a
expl i car a si tuação de desapossamento da cl asse operári a por um pro-
cesso de exploração, no l ugar do qual o trabal ho al i enado consti tui ,
em verdade, um processo de expropriação. Daí a i mpossi bi l i dade de
superar a concepção ética (não-ci entí fi ca) do comuni smo.
Nos Manuscritos, por consegui nte, al i enação é a pal avra-chave.
Dei xari a de sê-l o nas obras de poucos anos depoi s. Contudo, reformu-
MARX
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l ada e num contexto avesso ao fi l osofar especul ati vo, se i ncorporari a
defi ni ti vamente à concepção sóci o-econômi ca marxi ana.
Materialismo histórico, socialismo científico e
Economia Política
Em 1844 e em Pari s, Marx e Engel s deram i ní ci o à col aboração
i ntel ectual e pol í ti ca que se prol ongari a durante quatro decêni os. Do-
tado de exempl ar modésti a, Engel s nunca consenti u que o consi deras-
sem senão o “segundo vi ol i no” junto a Marx. Mas este, sem dúvi da,
fi cari a l onge de cri ar uma obra tão i mpressi onante pel a compl exi dade
e extensão não contasse no ami go e companhei ro com um i ncenti vador,
consul tor e crí ti co. Para Marx, excl uí do da vi da uni versi tári a, despre-
zado nos mei os cul tos e vi vendo numa época em que Proudhon, Bl anqui
e Lassal l e eram os i deól ogos i nfl uentes das correntes soci al i stas, Engel s
foi mai s do que i nterl ocutor col ocado em pé de i gual dade: representou,
conforme observou Paul Lafargue, o verdadei ro público com o qual
Marx se comuni cava, públ i co exi gente para cujo convenci mento não
poupava esforços. As centenas de cartas do epi stol ári o recí proco regi s-
tram um i ntercâmbi o de i déi as como poucas vezes ocorreu entre doi s
pensadores, expl i ci tando, ao mesmo tempo, a i mportânci a da contri -
bui ção de Engel s e o respei to de Marx às crí ti cas e consel hos do ami go.
Escri ta em 1844 e publ i cada em pri ncí pi os de 1845, A Sagrada
Família foi o pri mei ro l i vro em que Marx e Engel s apareceram na
condi ção de co-autores. Trata-se de obra caracteri sti camente pol êmi ca,
que assi nal a o rompi mento com a esquerda hegel i ana. O tí tul o sar-
cásti co i denti fi ca os i rmãos Bruno, Edgar e Egbert Bauer e dá o tom
do texto. Enquanto a esquerda hegel i ana deposi tava as esperanças de
renovação da Al emanha nas camadas cul tas, aptas a al cançar uma
consci ênci a crí ti ca, o que negava aos trabal hadores, Marx e Engel s
enfati zaram a i mpotênci a da consci ênci a crí ti ca que não se tornasse
a consci ênci a dos trabal hadores. E, neste caso, só poderi a ser uma
consci ênci a soci al i sta.
O l i vro contém abrangente exposi ção da hi stóri a do materi al i smo,
na qual se percebe o progresso fei to no domí ni o dessa concepção fi l o-
sófi ca e a vi são ori gi nal que os autores i am formando a respei to del a,
embora ai nda não se houvessem desprendi do do humani smo naturi sta
de Feuerbach.
Aspecto pecul i ar do l i vro resi de na defesa de Proudhon, com o
qual Marx manti nha ami úde encontros pessoai s em Pari s. Naquel e
momento, o texto de A Sagrada Família fazi a apreci ação posi ti va da
crí ti ca da soci edade burguesa pel o já famoso autor de Que É a Pro-
priedade, então o de mai or evi dênci a na corrente que Marx e Engel s
mai s tarde chamari am de soci al i smo utópi co e da qual consi deravam
Owen, Sai nt-Si mon e Fouri er os expoentes cl ássi cos.
No processo de absorção e superação de i déi as, Marx e Engel s
OS ECONOMISTAS
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havi am al cançado um estági o em que jul garam necessári o passar a
l i mpo suas própri as i déi as. De 1845 a 1846, em contato com as sei tas
soci al i stas francesas e envol vi dos com os emi grados al emães na cons-
pi ração contra a monarqui a prussi ana, encontraram tempo para se
concentrar na el aboração de um l i vro de centenas de pági nas densas,
que recebeu o tí tul o de A I deologia Alemã. I ni ci ada em Pari s, a redação
do l i vro se compl etou em Bruxel as, onde Marx se vi u obri gado a buscar
refúgi o, poi s o governo de Gui zot, pressi onado pel as autori dades prus-
si anas, o expul sou da França sob acusação de ati vi dades subversi vas.
O l i vro não encontrou edi tor e só foi publ i cado em 1932, também na
Uni ão Sovi éti ca. Em 1859, Marx escreveri a que de bom grado el e e
Engel s entregaram o manuscri to à crí ti ca roedora dos ratos, dando-se
por sati sfei tos com terem posto ordem nas própri as i déi as.
Na verdade, A I deologia Alemã encerra a pri mei ra formul ação
da concepção hi stóri co-soci ol ógi ca que receberi a a denomi nação de ma-
teri al i smo hi stóri co. Trata-se, poi s, da obra que marca o ponto de virada
ou, na expressão de Al thusser, o corte epistemológico na evol ução do
pensamento dos fundadores do marxi smo.
A formul ação do materi al i smo hi stóri co desenvol ve-se no corpo
da crí ti ca às vári as mani festações i deol ógi cas de mai or consi stênci a
que di sputavam, então, a consci ênci a da soci edade germâni ca, às vés-
peras de uma revol ução democráti co-burguesa. A crí ti ca di ri ge-se a um
el enco que vai de Hegel a Sti rner. A parte mai s i mportante é a i ni ci al ,
dedi cada a Feuerbach. O rompi mento com este se dá sob o argumento
do caráter abstrato de sua antropol ogi a fi l osófi ca. O homem, para Feuer-
bach, é ser genéri co natural , supra-hi stóri co, e não ser soci al determi -
nado pel a hi stóri a das rel ações soci ai s por el e própri o cri adas. Daí o
caráter contempl ati vo do materi al i smo feuerbachi ano, quando o prol e-
tari ado careci a de i déi as que o l evassem à práti ca revol uci onári a da
l uta de cl asses. Uma sí ntese dessa argumentação encontra-se nas Teses
Sobre Feuerbach, escri tas por Marx como anotações para uso pessoal
e publ i cadas por Engel s em 1888. A úl ti ma e undéci ma tese é preci -
samente aquel a que decl ara que a fi l osofi a se l i mi tara a i nterpretar
o mundo de vári as manei ras, quando era preci so transformá-l o.
A i deol ogi a é, assi m, uma consci ênci a equi vocada, fal sa, da rea-
l i dade. Desde l ogo, porque os i deól ogos acredi tam que as i déi as mode-
l am a vi da materi al , concreta, dos homens, quando se dá o contrári o:
de manei ra mi sti fi cada, fantasmagóri ca, envi esada, as i deol ogi as ex-
pressam si tuações e i nteresses radi cados nas rel ações materi ai s, de
caráter econômi co, que os homens, agrupados em cl asses soci ai s, es-
tabel ecem entre si . Não são, portanto, a i déi a Absol uta, o Espí ri to, a
Consci ênci a Crí ti ca, os concei tos de Li berdade e Justi ça, que movem
e transformam as soci edades. Os fatores di nâmi cos das transformações
soci ai s devem ser buscados no desenvol vi mento das forças produti vas
e nas rel ações que os homens são compel i dos a estabel ecer entre si ao
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empregar as forças produti vas por el es acumul adas a fi m de sati sfazer
suas necessi dades materi ai s. Não é o Estado, como pensava Hegel, que
cri a a soci edade ci vi l : ao contrári o, é a soci edade ci vi l que cri a o Estado.
A concepção materi al i sta da hi stóri a i mpl i cava a reformul ação
radi cal da perspecti va do soci al i smo. Este seri a vão e i mpotente en-
quanto se i denti fi casse com utopi as propostas às massas, que deveri am
passi vamente acei tar seus projetos prontos e acabados. O soci al i smo
só seri a efeti vo se fosse cri ação das própri as massas trabal hadoras,
com o prol etari ado à frente. Ou seja, se surgi sse do movi mento hi stóri co
real de que parti ci pa o prol etari ado na condi ção de cl asse objeti vamente
portadora dos i nteresses mai s revol uci onári os da soci edade.
Mas de que manei ra substi tui r a utopi a pel a ci ênci a? Por onde
começar?
Nenhum regi stro conheci do exi ste que documente este momento
cruci al na progressão do pensamento marxi ano. Não obstante, a própri a
l ógi ca da progressão sugere que tai s i ndagações se col ocavam com força
no momento preci so em que, al cançada a formul ação ori gi nal do ma-
teri al i smo hi stóri co, surgi a a i ncontornável tarefa de ul trapassar o so-
ci al i smo utópi co. O que não se consegui ri a pel a negati va retóri ca e
si m pel a contraposi ção de uma concepção baseada na ci ênci a soci al .
Ora, conforme a tese ontol ógi ca fundamental do materi al i smo
hi stóri co, a base sobre a qual se ergueri a o edi fí ci o teri a de ser a
ci ênci a das rel ações materi ai s de vi da — a Economi a Pol í ti ca. Esta já
fora cri ada pel o pensamento burguês e ati ngi ra com Ri cardo a cul mi -
nânci a do refi namento. No entanto, Marx e Engel s havi am rejei tado
a Economi a Pol í ti ca, vendo nel a tão-somente a i deol ogi a dos i nteresses
capi tal i stas. Como se deu que houvessem repensado a Economi a Pol í ti ca
e acei to o seu núcl eo l ógi co — a teori a do val or-trabal ho?
Cabe supor que a superação da antropol ogi a feuerbachi ana teve
o efei to de desi mpedi r o cami nho no senti do de nova vi são da teori a
econômi ca. Em parti cul ar, tal superação permi ti a pôr em questão o
estatuto do concei to de al i enação como pri ncí pi o expl i cati vo da si tuação
da cl asse operári a. Não obstante, esse aspecto i sol ado não nos escl arece
acerca da vi rada de ori entação do pensamento marxi ano.
É sabi do que, a parti r de 1844, Marx concentrou sua energi a
i ntel ectual no estudo dos economi stas. De referênci as posteri ores, res-
sal ta a sugestão de que a mudança de ori entação acerca dos economi stas
cl ássi cos foi medi ada pel os ri cardi anos de esquerda. Nel es, certamente,
descobri u Marx a leitura socialista de Ri cardo. Assi m como Feuerbach
abri u cami nho à l ei tura materi al i sta de Hegel e à el aboração da di a-
l éti ca materi al i sta, Hodgski n, Ravenstone, Thompson, Bray e Edmonds
permi ti ram a l ei tura soci al i sta de Ri cardo e daí começari a a el aboração
da Economi a Pol í ti ca marxi ana, de acordo com o pri ncí pi o ontol ógi co
do materi al i smo hi stóri co e tendo em vi sta a fundamentação ci entí fi ca
do soci al i smo.
OS ECONOMISTAS
12
Os ri cardi anos de esquerda eram i nferi ores ao própri o Ri cardo
sob o aspecto da força teóri ca, porém a perspecti va soci al i sta, conquanto
i mpregnada de i déi as utópi cas, os encami nhou a i nterpretar a teori a
ri cardi ana do val or-trabal ho e da di stri bui ção do produto soci al no
senti do da demonstração de que a expl oração do prol etari ado consti tuí a
o ei xo do si stema econômi co da soci edade burguesa. A si gni fi cação do
conheci mento desses publ i ci stas na evol ução do pensamento marxi ano
é sal i entada por Mandel que, a tal respei to, assi nal a o quanto deve
ter si do provei tosa a temporada passada por Marx na I ngl aterra, em
1845. Al i , não só pôde certi fi car-se da defesa da teori a do val or-trabal ho
pel os ri cardi anos l i gados ao movi mento operári o, como, ao revés, o
abandono del a pel os epí gonos burgueses do grande economi sta cl ássi co.
Em 1846, Proudhon publ i cou o l i vro Sistema das Contradições
Econômicas ou Filosofia da Miséria, no qual atacou a l uta dos operári os
por objeti vos pol í ti cos e rei vi ndi cações sal ari ai s, col ocando em seu l ugar
o projeto do i ntercâmbi o harmôni co entre pequenos produtores e da
i nsti tui ção de “bancos do povo”, que fari am emprésti mos sem juros aos
trabal hadores. Tudo i sso apoi ado na expl i cação da evol ução hi stóri ca
i nspi rada num hegel i ani smo mal -assi mi l ado e retardatári o.
Marx respondeu no ano segui nte com Miséria da Filosofia, que
escreveu em francês. À parte a pol êmi ca devastadora contra Proudhon,
resumi ndo a crí ti ca ao soci al i smo utópi co em geral , o l i vro marcou a
pl ena acei tação da teori a do val or-trabal ho, na formul ação ri cardi ana.
Sob este aspecto, Miséria da Filosofia consti tui u ponto de virada tão
si gni fi cati vo na evol ução do pensamento marxi ano quanto A I deologia
Alemã. Não i mporta que Marx também houvesse acei to, na ocasi ão,
as teses de Ri cardo sobre o di nhei ro e sobre a renda da terra, das
quai s se tornari a depoi s reni tente oposi tor. O fato de conseqüênci as
essenci al í ssi mas consi sti u em que o materi al i smo hi stóri co encontrava,
afi nal , o fundamento da Economi a Polí ti ca, o que vi nha defi ni r o cami nho
da el aboração do soci al i smo ci entí fi co. Na própri a Miséria da Filosofia, a
aquisição desse fundamento resul tou numa exposi ção mui to mai s avan-
çada e preci sa do materi al i smo hi stóri co do que na I deologia Alemã.
Com base na teori a de Ri cardo i nterpretada pel os segui dores de
tendênci a soci al i sta, Marx empenhou-se na proposi ção de uma táti ca
de rei vi ndi cações sal ari ai s para o movi mento operári o, o que expôs
nas conferênci as proferi das em 1847-1848, mai s tarde publ i cadas em
fol heto sob o tí tul o de Trabalho Assalariado e Capital.
Marx e Engel s havi am i ngressado numa organi zação de emi gra-
dos al emães denomi nada Li ga dos Comuni stas e receberam del a a
i ncumbênci a de redi gi r um mani festo que apresentasse os objeti vos
soci al i stas dos trabal hadores. A i ncumbênci a teve acei tação entusi ás-
ti ca, ai nda mai s por se avol umarem os i ndí ci os da ecl osão de uma
onda revol uci onári a no Oci dente europeu. Publ i cado no começo de 1848,
o Manifesto do Partido Comunista foi , com efei to, l ogo submergi do pel a
MARX
13
derrocada da monarqui a de Luí s Fel i pe na França, segui da pel os even-
tos i nsurreci onai s na Al emanha, Hungri a, Áustri a, I tál i a e Bél gi ca.
Embora a repercussão de sua pri mei ra edi ção fi casse abafada por acon-
teci mentos de tão grande envergadura, o Manifesto al cançari a ampl a
di fusão e sobrevi vênci a duradoura, tornando-se uma das obras pol í ti cas
mai s conheci das em numerosas l í nguas. Num esti l o que até hoje bri l ha
pel o vi gor e conci são, o Manifesto condensou o l abor teóri co dos autores
em termos de estratégi a e táti ca pol í ti cas, de tal manei ra que o texto
se tornou um marco na hi stóri a do movi mento operári o mundi al .
Na Al emanha, as l utas de massa forçaram a monarqui a prussi ana
a fazer a promessa de uma consti tui ção e a acei tar o funci onamento
de uma assembl éi a parl amentar em Frankfurt. Marx e Engel s regres-
saram de i medi ato à sua pátri a e se l ançaram por i ntei ro no combate.
Marx fundou e di ri gi u o di ári o Nova Gazeta Renana que, até o fecha-
mento em mai o de 1849, defendeu a perspecti va prol etári a soci al i sta
no decurso de uma revol ução democráti co-burguesa. Depoi s de ter si do
um dos redatores do jornal , Engel s engajou-se no exérci to dos i nsur-
retos, em cujas fi l ei ras empunhou armas até a derrota defi ni ti va, que
l he i mpôs o refúgi o na Suí ça. Di ante da repressão exacerbada, também
Marx se reti rou da Al emanha. Os governos da França e da Bél gi ca
l he consenti ram pouco tempo de permanênci a em seus terri tóri os, o
que o l evou a exi l ar-se em Londres, nos fi ns de 1849, al i resi di ndo até
a morte.
Em 1850, vei o à l uz A Luta de Classes em França. Em 1852, O
Dezoito Brumário de Luís Bonaparte. Em ambas as obras, o método
do materi al i smo hi stóri co recém-cri ado foi posto à prova na i nterpre-
tação à quente de aconteci mentos da atual i dade i medi ata. A brevi dade
da perspecti va temporal não i mpedi u que Marx produzi sse duas obras
hi stori ográfi cas capazes de revel ar as conexões subjacentes aos fatos
vi sí vei s e de enfocá-l os à l uz da tese soci ol ógi ca da l uta de cl asses.
Em parti cul ar, essas obras desmentem a freqüente acusação ao eco-
nomicismo marxi ano. Nel as, são real çados não só fatores econômi cos,
mas também fatores pol í ti cos, i deol ógi cos, i nsti tuci onai s e até estri ta-
mente concernentes às pessoas dos protagoni stas dos eventos hi stóri cos.
II. Os Tormentos da Criação
Ao acei tar a teori a de Ri cardo sobre o val or-trabal ho e a di stri -
bui ção do produto soci al , Marx não perdeu de vi sta a necessi dade da
crí ti ca da Economi a Pol í ti ca, embora não mai s sob o enfoque estri to
de Engel s no seu Esboço precursor. Ri cardo dera à teori a econômi ca
a el aboração mai s avançada nos l i mi tes do pensamento burguês. Os
ri cardi anos de esquerda ul trapassaram tai s l i mi tes, porém não avan-
çaram na sol ução dos i mpasses teóri cos sal i entados preci samente pel a
i nterpretação soci al i sta apl i cada à obra do mestre cl ássi co.
À onda revol uci onári a desencadeada em 1848 segui ra-se o refl uxo
OS ECONOMISTAS
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das l utas democráti cas e operári as. Por toda a Europa, tri unfava a
reação burguesa e ari stocráti ca. Marx rel aci onou o refl uxo à nova fase
de prosperi dade, que sucedi a à cri se econômi ca de 1847-1848, e con-
si derou ser preci so esperar a cri se segui nte a fi m de recol ocar na ordem
do di a objeti vos revol uci onári os i medi atos. Com uma pai xão obsessi va,
entregou-se à tarefa que se tornari a a mai s absorvente de sua vi da:
a de el aborar a crí ti ca da Economi a Pol í ti ca enquanto ci ênci a medi ada
pel a i deol ogi a burguesa e apresentar uma teori a econômi ca al ternati va,
a parti r das conqui stas ci entí fi cas dos economi stas cl ássi cos. A resi -
dênci a em Londres favoreci a tal empresa, poi s consti tuí a o mel hor
ponto de observação do funci onamento do modo de produção capi tal i sta
e de uma formação soci al tão efeti vamente burguesa quanto nenhuma
outra do conti nente europeu. Al ém di sso, o Bri ti sh Museum, do qual
Marx se tornou freqüentador assí duo, propi ci ava a consul ta a um acervo
bi bl i ográfi co de i ncomparável ri queza.
Em contraparti da, as condi ções materi ai s de vi da foram, durante
anos a fi o, mui to ásperas e, às vezes, si mpl esmente tétri cas para o l í der
revol uci onári o e sua famí l i a. Não raro, fal taram recursos para sati sfação
das necessi dades mai s el ementares e o exi l ado al emão se vi u às bordas
do desespero. Sobretudo, não podi a dedi car tempo i ntegral às pesqui sas
econômi cas, conforme desejari a, vendo-se forçado a acei tar tarefas de co-
l aboração jornal í sti ca, entre as quai s a mai s regul ar foi a correspondência
pol í ti ca para um jornal de Nova York, mantida até 1862.
Al ém di sso, as i ntri gas que a seu respei to urdi am os órgãos po-
l i ci ai s da Al emanha e de outros paí ses obri gavam-no a desvi ar a atenção
dos estudos teóri cos. Durante quase todo o ano de 1860, por exempl o,
a mai or parte de suas energi as se gastou na refutação das cal úni as
di fundi das por Karl Vogt, que o acoi mara de chefe de um bando de
chantagi stas e del atores. Ex-membro esquerdi sta do Parl amento de
Frankfurt, em 1848, Vogt se radi cou na Suí ça como professor de Geo-
l ogi a e se tornou expoente da versão mai s vul gar do materi al i smo
mecani ci sta (é del e a cél ebre afi rmação de que “os pensamentos têm
com o cérebro a mesma rel ação que a bí l i s com o fí gado ou a uri na
com os ri ns”). Envol vi do em i ntri gas de projeção i nternaci onal nos mei os
democráti cos e soci al i stas, acei tou — o que depoi s se comprovou — o
papel de escri ba mercenári o pago pel o servi ço secreto de Napol eão I I I .
Apesar de cal ejado di ante de i nsul tos e cal úni as, a dose passara, desta
vez, a medi da do suportável e Marx se esfal fou na redação de grosso
vol ume, que recebeu o tí tul o sumári o de Herr Vogt. À parte os aspectos
pol êmi cos ci rcunstanci ai s hoje sem mai or i nteresse, o l i vro oferece um
quadro ri co da pol í ti ca i nternaci onal européi a em meados do sécul o
XI X, tema expl orado com os recursos exuberantes do esti l o de um
grande escri tor.
A si tuação de Marx seri a i nsustentável e sua pri nci pal tarefa
ci entí fi ca decerto i rreal i zável não fosse a ajuda materi al de Engel s.
MARX
15
Este fi xara resi dênci a em Manchester, passando a geri r al i os i nteresses
da fi rma paterna associ ada a uma empresa têxti l i ngl esa. Durante os
vi nte anos de ati vi dade comerci al , a produção i ntel ectual não pôde
dei xar de se reduzi r. Mas Engel s achava grati fi cante sacri fi car a própri a
cri ati vi dade, contanto que fornecesse a Marx recursos fi nancei ros que
o sustentassem e à famí l i a e l he permi ti ssem dedi car o máxi mo de
tempo às i nvesti gações econômi cas. Demai s di sso, Engel s i ncumbi u-se
de vári as pesqui sas especi al i zadas sol i ci tadas pel o ami go. A ci rcuns-
tânci a de resi di rem em ci dades di ferentes deu l ugar a copi osa corres-
pondênci a que regi strou, quase passo a passo, a tormentosa vi a de
el aboração de O Capital.
No decorrer das i nvesti gações, conquanto se manti vesse cl aro e
i nal terado o objeti vo vi sado, foi mudando e ganhando novas formas a
i déi a da obra fi nal . Rosdol sky rastreou na documentação marxi ana,
entre 1857 e 1868, nada menos que catorze esboços e notas de pl anos
dessa obra. De acordo com o pl ano i ni ci al deveri a constar de sei s l i vros,
dedi cados aos segui ntes temas: 1) O Capi tal ; 2) A Propri edade Terri -
tori al ; 3) O Trabal ho Assal ari ado; 4) O Estado; 5) O Comérci o I nter-
naci onal ; 6) O Mercado Mundi al e as Cri ses. À parte, um l i vro especi al
fari a a hi stóri a das doutri nas econômi cas, dando ao estudo da real i dade
empí ri ca o acompanhamento de suas expressões teóri cas.
A defl agração de nova cri se econômi ca em 1857 l evou Marx a
apressar-se em pôr no papel o resul tado de suas i nvesti gações, moti vado
pel a expectati va de que nova onda revol uci onári a vol tari a a agi tar a
Europa e exi gi ri a del e todo o tempo di sponí vel . Da sofregui dão nesse
empenho resul tou não mai s do que um rascunho, com i mpreci sões e
l apsos de redação. Fruto de um trabal ho real i zado entre outubro de
1857 e março de 1858, o manuscri to só teve publ i cação na Uni ão So-
vi éti ca, entre 1939 e 1941. Recebeu o tí tul o de Esboços dos Fundamentos
da Crítica da Economia Política, porém fi cou mai s conheci do pel a pa-
l avra al emã Grundrisse (Esboços dos Fundamentos). Vi ndos à l uz já
sob o fogo da Segunda Guerra Mundi al , os Grundrisse não despertaram
atenção. Somente nos anos sessenta susci taram estudos e comentári os,
destacando-se, neste parti cul ar, o trabal ho pi onei ro de Rosdol sky.
Embora se trate de um rascunho, os Grundrisse possuem extraor-
di nári a rel evânci a, pel as i déi as que, no todo ou em parte, só nel e fi caram
regi stradas e, sobretudo, pel as i nformações de natureza metodol ógi ca.
Uma dessas i déi as é a de que o desenvol vi mento das forças pro-
duti vas pel o modo de produção capi tal i sta chegari a a um ponto em
que a contri bui ção do trabal ho vi vo se tornari a i nsi gni fi cante em com-
paração com a dos mei os de produção, de tal manei ra que perderi a
qual quer propósi to apl i car a l ei do val or como cri téri o de produti vi dade
do trabal ho e de di stri bui ção do produto soci al . Ora, sem l ei do val or,
carece de senti do a própri a val ori zação do capi tal . Assi m, o capi tal i smo
deverá exti ngui r-se não pel o acúmul o de defi ci ênci as produti vas, porém,
OS ECONOMISTAS
16
ao contrári o, em vi rtude da pl etora de sua capaci dade cri adora de ri queza.
Encontra-se nessa idéia um dos traços caracterí sti cos da el aboração di s-
cursi va marxi ana: certos fatores são i sol ados e desenvol vi dos até o extremo,
de tal manei ra que venha a destacar-se o máxi mo de suas vi rtual i dades.
O resul tado não consti tui , todavi a, a previ são de um curso i nel utável ,
poi s o própri o Marx revel a, adi ante, o jogo contradi tóri o entre os vári os
fatores postos em i nteração, o que al tera os resul tados extraí dos da abs-
tração do desenvol vi mento i sol ado de um del es.
Tema de destaque nos Grundrisse, abordado em apreci ações di s-
persas e em toda um seção especi al , é o das formas que precedem a
separação entre o agente do processo de trabal ho e a propri edade dos
mei os de produção. Tal separação consti tui condi ção prévi a i ndi spen-
sável ao surgi mento do modo de produção capi tal i sta e l he marca o
caráter de organi zação soci al hi stori camente transi tóri a. I sto porque
somente tal separação permi te que o agente do processo de trabal ho,
como pura força de trabal ho subjeti va, desprovi da de posses objeti vas,
se di sponha ao assal ari amento regul ar, enquanto, para os propri etári os
dos mei os de produção e de subsi stênci a, a expl oração da força de
trabal ho assal ari ada é a condi ção bási ca da acumul ação do capi tal
medi ante rel ações de produção já de natureza capi tal i sta. As categori as
especí fi cas do modo de produção capi tal i sta não consti tuí am expressão
de uma raci onal i dade supra-hi stóri ca, de l ei s naturai s i nal terávei s, con-
forme pensavam os economi stas cl ássi cos, mas, ao contrári o, seu sur-
gi mento ti nha data recente e sua vi gênci a marcari a não mai s que certa
época hi stóri ca del i mi tada. Em al gumas dezenas de pági nas, que têm
si do edi tadas em separado sob o tí tul o de Formas Que Precedem a
Produção Capitalista, foram compendi adas, a parti r do exame de vasto
materi al hi stori ográfi co, sugestões de extraordi nári a fecundi dade, às
quai s o autor, i nfel i zmente, não pôde dar segui mento, del as fazendo
emprego esparso em O Capital. Nesta obra, a opção metodol ógi ca con-
si sti u em concentrar o estudo da acumul ação ori gi nári a nas condi ções
hi stóri cas da I ngl aterra.
Os Grundrisse compõem-se de doi s l ongos capí tul os, dedi cados ao
di nhei ro e ao capi tal . Com formul ações menos preci sas e sem a mesma
organi ci dade, aí encontramos parte da temáti ca dos Li vros Pri mei ro e
Segundo de O Capital. Seri a, contudo, i ncorreto passar por al to o avanço
propri amente teóri co cumpri do entre os doi s textos. Basta ver, por exempl o,
que, na questão do di nhei ro, Marx ai nda se mostra, nos Grundrisse, preso
a alguns aspectos da teoria ri cardiana, contra a qual travará pol êmi ca
resol uta l ogo em segui da, em Para a Crítica da Economia Política. De
manei ra i dênti ca, a caracteri zação do escravi smo pl antaci oni sta ameri cano
como anomal i a capi tal i sta sofrerá radi cal reformul ação em O Capital, em
cujas pági nas a escravi dão — a anti ga e a moderna — é sempre i ncom-
patí vel com o modo de produção capi tal i sta.
A ri queza pecul i ar dos Grundrisse resi de nas numerosas expl i -
MARX
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ci tações metodol ógi cas, pouco encontradi ças em O Capital. Por se tratar
de rascunho, os Grundrisse exi bem os andai mes metodol ógi cos, depoi s
reti rados do texto defi ni ti vo. E esses andai mes denunci am a forte i m-
pregnação hegel i ana do pensamento do autor. Preci samente durante
a redação do rascunho, Marx rel eu a Lógica de Hegel , conforme escreveu
a Engel s. Não surpreende, por i sso, que a própri a l i nguagem seja, em
vári as passagens, mol dada por termos e gi ros di scursi vos do mestre
da fi l osofi a cl ássi ca al emã. A tal ponto que, a certa al tura, fi cou anotado
o propósi to de dar nova redação ao trecho a fi m de l i bertá-l o da forma
i deal i sta de exposi ção.
Enquanto a cri se econômi ca passava sem convul si onar a ordem
pol í ti ca européi a, Marx consegui u chegar à redação fi nal dos doi s ca-
pí tul os de Para a Crítica da Economia Política, publ i cada em 1859.
Segundo o pl ano então em mente, o tercei ro capí tul o, dedi cado ao ca-
pi tal , seri a a conti nuação da Crítica, um segundo vol ume del a. Mas o
que apareceu, afi nal , oi to anos depoi s, foi al go bem di verso, resul tante
de substanci al mudança de pl ano.
Em janei ro de 1866, Marx já possuí a em rascunho todo o arca-
bouço de teses, tal qual se tornaram conheci das nos três l i vros de O
Capital, desde o capí tul o i ni ci al sobre a mercadori a até a teori a da
renda da terra, passando pel as teori as da mai s-val i a, da acumul ação
do capi tal , do exérci to i ndustri al de reserva, da ci rcul ação e reprodução
do capi tal soci al total , da transformação do val or em preço de produção,
da queda tendenci al da taxa médi a de l ucro, dos ci cl os econômi cos e
da di stri bui ção da mai s-val i a nas formas parti cul ares de l ucro i ndus-
tri al , l ucro comerci al , juro e renda da terra. Nestes três l i vros, que
formari am uma obra úni ca, seri am abordados os temas não só do ca-
pi tal , mas também do trabal ho assal ari ado e da propri edade terri tori al ,
que dei xaram de consti tui r objeto de vol umes especi ai s. O Estado, o
comérci o i nternaci onal , o mercado mundi al e as cri ses — pl anejados
também para l i vros especi ai s — fi cavam postergados. A nova obra
seri a i nti tul ada O Capital e somente como subtí tul o é que compareceri a
a repeti da Crítica da Economia Política. Por úl ti mo, copi osos comen-
tári os e di ssertações já estavam redi gi dos para o também projetado
l i vro sobre a hi stóri a das doutri nas econômi cas. O autor podi a, por
consegui nte, l ançar-se à redação fi nal de posse de compl eto conjunto
teóri co, que devi a formar, nas suas pal avras, um “todo artí sti co”.
Em 1865, a redação de O Capital foi consi derada tarefa pri ori tári a
aci ma do compareci mento ao Pri mei ro Congresso da Associ ação I nter-
naci onal dos Trabal hadores, real i zado em Genebra sem a presença de
Marx. Este, a consel ho de Engel s, deci di u-se à publ i cação i sol ada do
Li vro Pri mei ro, concentrando-se na sua redação fi nal . Em setembro
de 1867, o Li vro Pri mei ro vi nha a públ i co na Al emanha, l ançado pel o
edi tor hamburguês Mei ssner.
Graças, em boa parte, aos esforços publ i ci tári os de Engel s, a “cons-
OS ECONOMISTAS
18
pi ração do si l ênci o”, que cercava os escri tos marxi anos nos mei os cul tos,
começou a ser quebrada. Curi osamente, a pri mei ra resenha, al i ás fa-
vorável , de um professor uni versi tári o foi a de Eugen Dühri ng, o mesmo
contra o qual Engel s, dez anos depoi s, travari a i mpl acável pol êmi ca.
El ogi os cal orosos chegaram de Ruge, o anti go companhei ro da esquerda
hegel i ana, e de Feuerbach, o respei tado fi l ósofo que marcara momento
tão i mportante na evol ução do pensamento marxi ano.
Embora a tradução i ngl esa não se concreti zasse na ocasi ão, de-
cepci onando as expectati vas do autor, houve a compensação da tradução
russa já em 1872, l ançada com notável êxi to de venda. (No seu parecer,
a censura czari sta decl arou tratar-se de l i vro sem dúvi da soci al i sta,
mas i nacessí vel à mai ori a em vi rtude da forma matemáti ca de de-
monstração ci entí fi ca, moti vo por que não seri a possí vel persegui -l o
di ante dos tri bunai s). Em segui da, vei o, edi tada em fascí cul os, a tra-
dução francesa, da qual o própri o autor fez a revi são, com o que a
tradução ganhou val or de ori gi nal . Em 1873, foi publ i cada a segunda
edi ção al emã, que trouxe um posfáci o mui to i mportante pel os escl are-
ci mentos de caráter metodol ógi co. Embora a segunda fosse a úl ti ma em
vi da do autor, a edição defi ni ti va é considerada a quarta, de 1890, na
qual Engels introduziu modi fi cações expressamente i ndi cadas por Marx.
Fal tava, no entanto, a redação fi nal dos Li vros Segundo e Ter-
cei ro. Marx trabal hou nel es até 1878, sem compl etar a tarefa. À ânsi a
i nsaci ável de novos conheci mentos e de ri gorosa atual i zação com os
aconteci mentos da vi da real já não correspondi a a habi tual capaci dade
de trabal ho. Marx fi cava i mpedi do de qual quer esforço durante l ongos
perí odos, debi l i tado por doenças crôni cas agravadas.
Al ém di sso, absorvi am-no as exi gênci as da pol í ti ca práti ca. De
1864 a 1873, empenhou-se nas arti cul ações e campanhas da Associ ação
I nternaci onal dos Trabal hadores, que passou à hi stóri a como a Pri mei ra
I nternaci onal . Em 1865 pronunci ou a conferênci a de publ i cação pós-
tuma sob o tí tul o Salário, Preço e Lucro.
Um esforço i ntenso l he exi gi ram, no sei o da Associ ação, as di -
vergênci as com os parti dári os de Proudhon e de Bakuni n. Em 1871,
chefi ou a sol i dari edade i nternaci onal à Comuna de Pari s e, acerca de
sua experi ênci a pol í ti ca, escreveu A Guerra Civil na França. Ocupa-
ram-no, em segui da, os probl emas da soci al -democraci a al emã, l i derada,
in loco, por Bebel e Li ebknecht. A fusão dos adeptos da soci al -demo-
craci a de ori entação marxi sta com os segui dores de Lassal l e num par-
ti do operári o úni co ensejou a Marx, em 1875, a redação de notas, de
fundamental si gni fi cação para a teori a do comuni smo, reuni das no pe-
queno vol ume i nti tul ado Crítica do Programa de Gotha. Em 1881-1882,
após as escassas pági nas em que foram escri tas as Glosas Marginais
ao Tratado de Economia Política de Adolph Wagner, a pena de Marx,
que desl i zara através de assombrosa quanti dade de fol has de papel ,
col ocava o defi ni ti vo ponto fi nal . Esgotado e abati do pel a morte da
MARX
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esposa e de uma das fi l has, apagou-se, em 1883, o cérebro daquel e que
Engel s, na oração fúnebre, di sse ter si do o mai or pensador do seu tempo.
Nos doze anos em que sobrevi veu ao ami go, Engel s conti nuou
cri ati vo até os úl ti mos di as, produzi ndo obras da al tura de Ludwig
Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã. Sobre os seus ombros
pesava a responsabi l i dade de coordenação do movi mento soci al i sta i n-
ternaci onal , o que l he i mpunha crescente carga de trabal ho. No mei o
de toda essa ati vi dade, nunca dei xou de ter por tarefa pri mordi al a
de trazer a públ i co os doi s Li vros de O Capital ai nda i nédi tos. E cumpri u
a tarefa com exempl ar competênci a e probi dade.
Os manuscri tos de Marx encontravam-se em di versos graus de
preparação. Só a menor parte ganhara redação defi ni ti va. Havi a, porém,
l ongas exposi ções com l acunas e desprovi das de ví ncul os medi adores.
Vári os assuntos ti nham si do abordados tão-somente em notas sol tas.
Por fi m, um capí tul o i mpresci ndí vel apenas contava com o tí tul o. Tudo
i sso, sem fal ar na péssi ma cal i grafi a dos manuscri tos, às vezes i ncom-
preensí vel até para o autor. A tarefa, por consegui nte, i a mui to al ém
do que, em regra, se atri bui a um edi tor. Seri a preci so que Engel s
assumi sse certo grau de co-autori a, o que fez, não obstante, com o
máxi mo escrúpul o. Conforme expl i cou mi nuci osamente nos Prefáci os,
evi tou substi tui r a redação de Marx pel a sua própri a em qual quer
parte. Não queri a que sua redação, superposta aos manuscri tos ori gi -
nai s, susci tasse di scussões acerca da autenti ci dade do pensamento mar-
xi ano. Li mi tou-se a ordenar os manuscri tos de acordo com as i ndi cações
do pl ano do autor, preenchendo as óbvi as l acunas e i ntroduzi ndo trechos
de l i gação ou de atual i zação, sempre entre col chetes e i denti fi cados
pel as i ni ci ai s F. E., também presentes nas notas de rodapé desti nadas
a i nformações adi ci onai s ou mesmo a desenvol vi mentos teóri cos. I gual -
mente assi nado com as i ni ci ai s F. E., escreveu por i ntei ro o Capí tul o
I V do Li vro Tercei ro, sobre a rotação do capi tal e respecti va i nfl uênci a
na taxa de l ucro. Escreveu ai nda vári os Prefáci os, admi rávei s pel o
tratamento de probl emas bási cos e pel a força pol êmi ca, bem como doi s
supl ementos ao Li vro Tercei ro: sobre a l ei do val or e formação da taxa
médi a de l ucro e sobre a Bol sa.
Se, dessa manei ra, foi possí vel sal var o l egado de Marx e edi tar
o Li vro Segundo, em 1885, e o Li vro Tercei ro, em 1894, é evi dente
que estes não poderi am apresentar a exposi ção acabada e bri l hante
do Li vro Pri mei ro. Mas Engel s, ao morrer pouco depoi s de publ i cado
o úl ti mo Li vro, havi a cumpri do a tarefa. Restavam os manuscri tos
sobre a hi stóri a das doutri nas econômi cas, que deveri am consti tui r o
Li vro Quarto. Ordenou-os e edi tou-os Kautsky, sob o tí tul o de Teorias
da Mais-Valia, entre 1905 e 1910. O I nsti tuto de Marxi smo-Leni ni smo
(ori gi nal mente I nsti tuto Marx-Engel s, fundado por D. Ri azanov e res-
ponsável pel a publ i cação dos manuscri tos marxi anos na Uni ão Sovi é-
OS ECONOMISTAS
20
ti ca) l ançou nova edi ção em 1954, expurgada das i ntervenções arbi -
trári as de Kautsky.
Em 1933, o mesmo I nsti tuto havi a publ i cado o texto de um capí tul o
i nédi to, pl anejado para fi gurar no Li vro Pri mei ro de O Capital e que
Marx resol vera supri mi r. Numerado como sexto e sob o tí tul o de Resultados
do Processo I mediato da Produção, o capí tul o contém uma sí ntese do
Li vro Pri mei ro e servi ri a também de transi ção ao Li vro Segundo.
III. Unificação Interdisciplinar das Ciências Humanas
Em pri mei ro l ugar, O Capital é, sem a menor dúvi da, uma obra
de Economi a Pol í ti ca. A ampl i tude de sua concepção desta ci ênci a su-
pera, porém, os mel hores cl ássi cos burgueses e contrasta com a estri ta
especi al i zação em que o margi nal i smo pretendeu confi nar a anál i se
econômi ca. Nas seções subseqüentes, teremos oportuni dade de focal i zar
o que se tornou a Economi a Pol í ti ca submeti da ao tratamento marxi ano.
Nesta al tura, abordaremos outros aspectos.
É que O Capital consti tui , por excel ênci a, uma obra de uni fi cação
i nterdi sci pl i nar das ci ênci as humanas, com vi stas ao estudo mul ti l a-
teral de determi nada formação soci al . Uni fi cação entre a Economi a
Pol í ti ca e a Soci ol ogi a, a Hi stori ografi a, a Demografi a, a Geografi a
Econômi ca e a Antropol ogi a.
As categori as econômi cas, ai nda quando anal i sadas em ní vei s
el evados de abstração, se enl açam, de momento a momento, com os
fatores extra-econômi cos i nerentes à formação soci al . O Estado, a l e-
gi sl ação ci vi l e penal (em especi al , a l egi sl ação referente às rel ações
de trabal ho), a organi zação fami l i ar, as formas associ ati vas das cl asses
soci ai s e seu comportamento em si tuações de confl i to, as i deol ogi as,
os costumes tradi ci onai s de naci onal i dades e regi ões, a psi col ogi a soci al
— tudo i sso é focal i zado com ri queza de detal hes, sempre que a ex-
pl i cação dos fenômenos propri amente econômi cos adqui ra na i nteração
com fenômenos de outra ordem categori al uma i l umi nação i ndi spen-
sável ou um enri queci mento cognosci ti vo. Assi m, ao contrári o do que
pretendem crí ti cas tão rei teradas, o enfoque marxi ano da i nstânci a
econômi ca não é economi ci sta, uma vez que não a i sol a da trama vari ada
do teci do soci al . O que, convém enfati zar, não representa i ncoerênci a,
mas, ao contrári o, perfei ta coerênci a com a concepção do materi al i smo
hi stóri co enquanto teori a soci ol ógi ca geral : a concepção segundo a qual
a i nstânci a econômi ca, sendo a base da vi da soci al dos homens, não
exi ste senão permeada por todos os aspectos dessa vi da soci al , os quai s,
por sua vez, sob modal i dades di ferenci adas, são i nstânci as da supe-
restrutura possui doras de desenvol vi mento autônomo rel ati vo e i nfl uên-
ci a retroati va sobre a estrutura econômi ca.
Obra de Economi a Pol í ti ca e de Soci ol ogi a, O Capital também é
obra de Hi stori ografi a. A tese de que o modo de produção capi tal i sta
tem exi stênci a hi stóri ca, de que nasceu de determi nadas condi ções cri a-
MARX
21
das pel o desenvol vi mento soci al e de que cri ará, el e própri o, as condi ções
para o seu desapareci mento e substi tui ção por um novo modo de pro-
dução — esta tese, já por si mesma, também exi ge abordagem hi stóri ca
e, por consegui nte, i mpl i ca o tratamento por mei o de procedi mentos
caracterí sti cos da Hi stori ografi a. Antes de tudo, sem dúvi da, trata-se
de Hi stori ografi a econômi ca, que abrange exposi ções erudi tas sobre o
desenvol vi mento das forças produti vas, estudos especi al i zados sobre
questões de tecnol ogi a, pesqui sas i novadoras sobre o comérci o, o crédi to,
as formas de propri edade terri tori al e a gênese da renda da terra e,
com destaque parti cul ar, sobre a formação da moderna cl asse operári a.
Mas, em rel ação mesmo com a hi stóri a econômi ca, temos outrossi m a
hi stóri a das i nsti tui ções pol í ti cas, a evol ução das normas jurí di cas (veja-
se o estudo pi onei ro sobre a l egi sl ação trabal hi sta), a hi stóri a das re-
l ações i nternaci onai s.
Os estudos sobre a l ei da popul ação do modo de produção capi -
tal i sta, bem como sobre mi grações e col oni zação, focal i zam temas de
evi dente contato entre a Economi a Pol í ti ca e a Demografi a. Por fi m,
encontramos i ncursões e sugestões nos âmbi tos da Geografi a econômi ca
e da Antropol ogi a.
A deci di da rejei ção do geodetermi ni smo não conduz ao desconhe-
ci mento dos condi ci onamentos geográfi cos, cuja i nfl uênci a no desen-
vol vi mento das forças produti vas e das formações soci ai s é posta em
destaque.
Em contraparti da, acentua-se a ação transformadora do mei o geo-
gráfi co pel o homem, de tal manei ra que as condi ções geográfi cas se
humani zam, à medi da que se tornam prol ongamento do própri o homem.
Mas a humanização da natureza nem sempre tem si do um processo
harmôni co. Marx foi dos pri mei ros a apontarem o caráter predador da
burguesi a, com rei teradas referênci as, por exempl o, à destrui ção dos
recursos naturai s pel a agri cul tura capi tal i sta. Sob este aspecto, merece
ser consi derado precursor dos modernos movi mentos de defesa da eco-
l ogi a em benefí ci o da vi da humana.
Do ponto de vi sta da Antropol ogi a, o que sobrel eva é a rel ação
do homem com a natureza por mei o do trabal ho e a humani zação sob
o aspecto de autocri ação do homem no processo de transformação da
natureza pel o trabal ho. As mudanças nas formas de trabal ho consti -
tuem os i ndi cadores bási cos da mudança das rel ações de produção e
das formas soci ai s em geral do i ntercurso humano. O trabal ho é, por-
tanto, o fundamento antropol ógi co das rel ações econômi cas e soci ai s
em geral . Ou seja, em resumo, o que Marx propõe é a Antropol ogi a
do homo faber.
Embora de manei ra de todo não convenci onal , O Capital se cre-
denci a como real i zação fi l osófi ca basi l ar. Como sugeri u Jel ezny, o l i vro
marxi ano faz parte das obras que assi nal aram i novações essenci ai s na
ori entação l ógi ca e metodol ógi ca do pensamento. Sem qual quer expo-
OS ECONOMISTAS
22
si ção si stemáti ca, porém apl i cando-a em tudo e por tudo, Marx desen-
vol veu a metodol ogi a do materi al i smo di al éti co e se si tuou, a justo
tí tul o, a par com aquel es cri adores de i déi as que marcaram época no
pensamento sobre o pensamento — de Ari stótel es a Descartes, Bacon,
Locke, Lei bni z, Kant e Hegel .
Para este úl ti mo, com o qual Marx teve rel ação di reta de se-
qüênci a e superação, a l ógi ca por si mesma se i denti fi ca à ontol ogi a,
a I déi a Absol uta é o própri o Ser. Assi m, a ontol ogi a só podi a ter caráter
i deal i sta e especul ati vo, obri gando a di al éti ca — máxi ma conqui sta da
fi l osofi a hegel i ana — a abri r cami nho em mei o a esquemas pré-cons-
truí dos. Com semel hante confi guração, a di al éti ca era i mprestável ao
trabal ho ci entí fi co e, por i sso mesmo, foi sepul tada no ol vi do pel os
ci enti stas, que a preteri ram em favor do posi ti vi smo. Quando deu à
di al éti ca a confi guração materi al i sta necessári a, Marx expurgou-a das
propensões especul ati vas e adequou-a ao trabal ho ci entí fi co. Ao i nvés
de subsumi r a ontol ogi a na l ógi ca, são as categori as econômi cas e sua
hi stóri a concreta que põem à prova as categori as l ógi cas e l hes i mpri -
mem movi mento. A l ógi ca não se i denti fi ca à ontol ogi a, o pensamento
não se i denti fi ca ao ser. A consci ênci a é consci ênci a do ser práti co-ma-
teri al que é o homem. A di al éti ca do pensamento se torna a reprodução
teóri ca da di al éti ca ori gi nári a i nerente ao ser, reprodução i senta de
esquemas pré-construí dos e i mpostos de ci ma pel a ontol ogi a i deal i sta.
Mas, ao contrári o de reprodução passi va, de refl exo especul ar do ser,
o pensamento se mani festa através da ati va i ntervenção espi ri tual que
real i za o trabal ho i nfi ndável do conheci mento. Trabal ho cri ador de hi -
póteses, categori as, teoremas, model os, teori as e si stemas teóri cos.
Método e estrutura de “O Capital”
A esta al tura, chegamos a uma questão cruci al nas di scussões
marxi stas e marxol ógi cas: a da i nfl uênci a de Hegel sobre Marx.
Quando estudava a Ciência da Lógica, surpreendeu-se Lêni n com
o máxi mo de materi al i smo ao l ongo da mai s i deal i sta das obras de
Hegel . Com ênfase pecul i ar, afi rmou que não poderi a compreender O
Capital quem não fi zesse o prévi o estudo da Lógica hegel i ana.
Oposta foi a posi ção de Stál i n. Consi derou a fi l osofi a hegel i ana
representati va da ari stocraci a reaci onári a e mi ni mi zou sua i nfl uênci a
na formação do marxi smo. A desfi guração stal i ni sta da di al éti ca se
consumou num esquema petri fi cado para apl i cação sem medi ações a
qual quer ní vel da real i dade.
Enquanto Rosdol sky ressal tou, por mei o de anál i se mi nuci osa
dos Grundrisse, a rel ação entre Hegel e Marx, quase ao mesmo tempo,
Al thusser, que nunca deu i mportânci a aos Grundrisse, enfati zou a su-
posta ausênci a do hegel i ani smo na formação de Marx e a i nexi stênci a
de traços hegel i anos na obra marxi ana, aci ma de tudo em O Capital.
Dentro de semel hante ori entação, Al thusser não se furtari a de l ouvar
MARX
23
Stál i n por haver depurado o materi al i smo di al éti co da excrescênci a
hegel i ana tão embaraçosa quanto a negação da negação. Segundo Go-
del i er, esta seri a uma categori a apenas acei ta por Engel s e não por
Marx. Ademai s, Godel i er consi derou embaraçosa a própri a contradi ção
di al éti ca e propôs sua subordi nação ao concei to de limite estrutural, o
que, na práti ca, torna a contradi ção di al éti ca di spensável ao processo
di scursi vo.
A anál i se da estrutura l ógi ca de O Capital fei ta por Jel ezny con-
fi rma, não menos que a de Rosdol sky, o enfoque de Lêni n e não o de
Stál i n. É i mpossí vel captar o jogo das categori as na obra marxi ana
sem domi nar o procedi mento da deri vação di al éti ca, a parti r das con-
tradi ções i nternas dos fenômenos, ou seja, a parti r de um procedi mento
l ógi co i naugurado, com caráter si stemáti co, por Hegel . Sem dúvi da, é
preci so fri sar também que Marx rejei tou a identidade hegel i ana dos
contrári os, di sti ngui ndo tal postul ado i deal i sta de sua própri a concepção
materi al i sta da unidade dos contrári os (a este respei to, tem razão Go-
del i er quando aponta a confusão em certas formul ações de Lêni n e
Mao-Tse-Tung sobre a “i denti dade dos contrári os”).
A deri vação di al éti ca materi al i sta é apl i cada em todo o trajeto
da exposi ção marxi ana, porém provoca i mpacto l ogo no capí tul o i ni ci al
sobre a mercadori a, por i sso mesmo causador de tropeços aos l ei tores
desprovi dos de fami l i ari dade com o método di al éti co. Contudo, a deri -
vação di al éti ca, que opera com as contradi ções i manentes nos fenôme-
nos, não supri me a deri vação deduti va própri a da l ógi ca formal , baseada
justamente no pri ncí pi o da não-contradi ção. Em O Capital, são cor-
rentes as i nferênci as deduti vas, acompanhadas de exposi ções por vi a
l ógi co-formal . Daí , al i ás, o recurso freqüente aos model os matemáti cos
demonstrati vos, que revel am, dentro de estruturas categori ai s defi ni -
das, o di nami smo das modi fi cações quanti tati vas e põem à l uz suas
l ei s i nternas. Conquanto consi derasse fal sas as premi ssas das quai s
Marx parti u, Böhm-Bawerk não dei xou de mani festar admi ração pel a
força l ógi ca do adversári o. Não obstante, seja fri sado, a l ógi ca formal
está para a l ógi ca di al éti ca, na obra marxi ana, assi m como a mecâni ca
de Newton está para a teori a da rel ati vi dade de Ei nstei n. Ou seja, a
pri mei ra apl i ca-se a um ní vel i nferi or do conheci mento da real i dade
com rel ação à segunda.
Marx di sti ngui u entre i nvesti gação e exposi ção. A i nvesti gação
exi ge o máxi mo de esforço possí vel no domí ni o do materi al fatual . O
própri o Marx não descansava enquanto não houvesse consul tado todas
as fontes i nformati vas de cuja exi stênci a tomasse conheci mento. O fi m
úl ti mo da i nvesti gação consi ste em se apropri ar em detal he da matéri a
i nvesti gada, anal i sar suas di versas formas de desenvol vi mento e des-
cobri r seus nexos i nternos. Somente depoi s de cumpri da tal tarefa,
seri a possí vel passar à exposi ção, i sto é, à reprodução i deal da vi da
da matéri a. A esta al tura, adverti u Marx que, se i sto for consegui do,
OS ECONOMISTAS
24
“(...) então pode parecer que se está di ante de uma construção a priori”.
Por que semel hante advertênci a?
É que a exposi ção deve fi gurar um “todo artí sti co”. Suas di versas
partes preci sam se arti cul ar de manei ra a consti tuí rem uma total i dade
orgâni ca e não um di sposi ti vo em que os el ementos se justapõem como
somatóri o mecâni co. Ora, a real i zação do “todo artí sti co” ou da “tota-
l i dade orgâni ca” pressupunha a apl i cação do modo l ógi co e não do
modo hi stóri co de exposi ção. Ou seja, as categori as deveri am compa-
recer não de acordo com a sucessão efeti va na hi stóri a real , porém
conforme as rel ações i nternas de suas determi nações essenci ai s, no
quadro da soci edade burguesa. Por consegui nte, o tratamento l ógi co
da matéri a faz da exposi ção a forma organi zaci onal apropri ada do co-
nheci mento a ní vel categori al -si stemáti co e resul ta na radi cal superação
do hi stori ci smo (entendi do o hi stori ci smo, na acepção mai s ampl a, como
a compreensão da hi stóri a por seu fl uxo si ngul ar, consubstanci ado na
sucessão úni ca de aconteci mentos ou fatos soci ai s). A exposi ção l ógi ca
afi rma a ori entação anti -hi stori ci sta na substi tui ção da sucessão hi s-
tóri ca pel a arti cul ação si stemáti ca entre categori as abstratas, de acordo
com suas determi nações i ntrí nsecas. Daí que possa assumi r a aparênci a
de construção i mposta à real i dade de ci ma e por fora.
Na verdade, trata-se apenas de i mpressão superfi ci al contra a
qual é preci so estar preveni do. Porque, se supera o hi stóri co, o l ógi co
não o supri me. Em pri mei ro l ugar, se o l ógi co é o fi o ori entador da
exposi ção, o hi stóri co não pode ser di spensado na condi ção de contra-
prova. Daí a passagem freqüente de ní vei s el evados de abstração a
concreti zações fatuai s em que a demonstração dos teoremas assume
procedi mentos hi stori ográfi cos. Em segundo l ugar, porém com ai nda
mai or i mportânci a, porque o tratamento hi stóri co se torna i mpresci n-
dí vel nos processos de gênese e transi ção, sem os quai s a hi stóri a será
i mpensável . Em tai s processos, o tratamento puramente l ógi co condu-
zi ri a aos esquemas arbi trári os di vorci ados da real i dade fatual . Por i sso
mesmo, temas como os da acumul ação ori gi nári a do capi tal e da for-
mação da moderna i ndústri a fabri l foram expostos segundo o modo
hi stóri co, i nseri ndo-se em O Capital na qual i dade de estudos hi stori o-
gráfi cos de caráter monográfi co.
Em suma, o l ógi co não consti tui o resumo do hi stóri co, nem há
paral el i smo entre um e outro (conforme pretendeu Engel s), porém en-
trel açamento, cruzamento, ci rcul ari dade.
A i nterpretação al thusseri ana conferi u estatuto pri vi l egi ado ao
modo de exposi ção e atri bui u às partes hi stóri cas de O Capital o caráter
de mera i l ustração empi ri sta. Se bem que com justi fi cadas razões pu-
sesse em rel evo a si stemati ci dade marxi ana, Al thusser fez del a uma
estrutura formal desprendi da da hi stóri a concreta, o que o própri o
Marx expl i ci tamente rejei tou.
O tratamento l ógi co é também o que mel hor possi bi l i ta e, no
MARX
25
mai s fundamental , o úni co que possi bi l i ta al cançar aquel e ní vel da
essênci a em que se revel am as l ei s do movi mento da real i dade objeti va.
Porque, em O Capital, a fi nal i dade do autor consi sti u em desvendar
a l ei econômi ca da soci edade burguesa ou, em di ferente formul ação,
as l ei s do nasci mento, desenvol vi mento e morte do modo de produção
capi tal i sta.
Numa época em que preval eci a a concepção mecani ci sta nas ci ên-
ci as fí si cas, Marx foi capaz de desvenci l har-se dessa concepção e for-
mul ar as l ei s econômi cas preci puamente como l ei s tendenci ai s. Ou seja,
como l ei s determi nantes do curso dos fenômenos em mei o a fatores
contrapostos, que provocam osci l ações, desvi os e atenuações provi sóri as.
As l ei s tendenci ai s não são, nem por i sso, l ei s estatí sti cas, probabi l i -
dades em grandes massas, porém l ei s ri gorosamente causai s. A l ei
tendenci al si nteti za a mani festação di reci onada, constante e regul ar
— não ocasi onal — da i nteração e oposi ção entre fatores i manentes
na real i dade fenomenal .
Como já observamos, o pl ano da estrutura de O Capital foi l on-
gamente trabal hado e sofreu modi fi cações, à medi da que o autor ga-
nhava mai or domí ni o da matéri a. O resul tado é uma arqui tetura i m-
ponente, chei a de suti l ezas i mperceptí vei s à pri mei ra vi sta, cujo estudo
já i nsti gou abordagens especi al i zadas.
Sob a perspecti va de conjunto, há uma l i nha di vi sóri a entre os
Li vros Pri mei ro e Segundo, de um l ado, e o Li vro Tercei ro, de outro.
Li nha di vi sóri a que não di z respei to à separação entre questões mi -
croeconômi cas e macroeconômi cas, poi s nos três Li vros encontramos
umas e outras, conquanto se possa afi rmar que o Li vro Segundo é o
mai s vol tado à macroeconomi a. A di sti nção estrutural obedece a cri téri o
di ferente. Os doi s pri mei ros Li vros são dedi cados ao “capi tal em geral ”,
ao capi tal em sua i denti dade uni forme. O Li vro Tercei ro aborda a
concorrênci a entre os capi tai s concretos, di ferenci ados pel a função es-
pecí fi ca e pel a modal i dade de apropri ação da mai s-val i a.
O “capi tal em geral ” é, segundo Marx, a “qui ntessênci a do capi tal ”,
aqui l o que i denti fi ca o capi tal enquanto capi tal em qual quer ci rcuns-
tânci a. No Li vro Pri mei ro, trata-se do capi tal em sua rel ação di reta
de expl oração da força de trabal ho assal ari ada. Por i sso mesmo, o locus
preferenci al é a fábri ca e o tema pri nci pal é o processo de cri ação e
acumul ação da mai s-val i a. A modal i dade exponenci al do capi tal é o
capi tal i ndustri al , poi s somente el e atua no processo de cri ação da
mai s-val i a. No Li vro Segundo, trata-se da ci rcul ação e da reprodução
do capi tal soci al total . O capi tal é sempre pl ural , múl ti pl o, mas ci rcul a
e se reproduz como se fosse um só capi tal soci al de acordo com exi gênci as
que se i mpõem em mei o a i numerávei s fl utuações e que dão ao movi -
mento geral do capi tal uma forma cí cl i ca.
No Li vro Tercei ro, os capi tai s se di ferenci am, se i ndi vi dual i zam,
e o movi mento gl obal é enfocado sob o aspecto da concorrênci a entre
OS ECONOMISTAS
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os capi tai s i ndi vi duai s. Por i sso mesmo, é a esta al tura que se aborda
o tema da formação da taxa médi a ou geral do l ucro e da transformação
do val or em preço de produção. De acordo com as funções especí fi cas
que desempenham no ci rcui to total da economi a capi tal i sta — na pro-
dução, na ci rcul ação e no crédi to —, os capi tai s i ndi vi duai s apropri am-se
de formas di sti ntas de mai s-val i a: l ucro i ndustri al , l ucro comerci al ,
juros, cabendo à propri edade terri tori al a renda da terra, também el a
uma forma parti cul ar da mai s-val i a. A l ei di nâmi ca di reci onadora desse
embate concorrenci al entre os capi tai s i ndi vi duai s pel a apropri ação da
mai s-val i a é a l ei da queda tendenci al da taxa médi a de l ucro.
A estrutura de O Capital, segundo Lange, foi montada de acordo
com um pl ano que parte do ní vel mai s al to de abstração, no qual se
focal i zam fatores i sol ados ou no menor número possí vel , daí procedendo
por concreti zação progressi va, à medi da que se acrescentam novos fa-
tores, no senti do da aproxi mação cada vez mai or e mul ti l ateral à rea-
l i dade fatual . A esta i nterpretação, no geral correta, acrescentamos
que o trânsi to do abstrato ao concreto se faz em todo o percurso, a
começar pel o Li vro Pri mei ro. Já nel e, encontramos o jogo di al éti co da
passagem do abstrato ao concreto real e vi ce-versa.
Doravante, comentaremos al guns temas de O Capital, sel eci ona-
dos por sua si gni fi cação si stêmi ca ou pel a rel evânci a das controvérsi as
que susci taram.
IV. Mercadoria e Valor
De Smi th e Ri cardo recebeu Marx a teori a do val or-trabal ho: a
i déi a de que o trabal ho exi gi do pel a produção das mercadori as mede
o val or de troca entre el as e consti tui o ei xo em torno do qual osci l am
os preços expressos em di nhei ro. Ao expl i ci tar que se tratava do tempo
de trabalho incorporado às mercadorias, Ri cardo cl ari fi cou a medi da
do val or de troca, embora se enredasse no i nsol úvel probl ema do padrão
i nvari ável do val or.
Uma vez que parti am do val or-trabal ho, Smi th e Ri cardo supe-
raram a concepção fi si ocráti ca do excedente econômi co em termos de
produto fí si co. O excedente devi a ser compreendi do, antes de tudo, em
termos de val or, ou seja, devi a ser apreci ado enquanto trabal ho trans-
feri do ao produto. Mas a i déi a de val or i mpl i ca, por necessi dade l ógi ca,
a troca de equi val entes: não se conceberi a, de outra manei ra, que o
val or-trabal ho pudesse ser o determi nante da rel ação de troca entre
mercadori as di ferentes pel o val or de uso. A questão a sol uci onar con-
si sti a em tornar coerente a necessi dade de troca de equi val entes com
a apropri ação do val or excedente pel o propri etári o do capi tal .
Smi th enfrentara a questão com a i déi a de que o val or das mer-
cadori as se medi a pel a quanti dade de trabal ho que podi am comandar,
sugeri ndo que havi a uma di ferença posi ti va entre o custo de cada mer-
cadori a em termos de trabal ho consumi do e em termos de trabal ho
MARX
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que fosse capaz de comprar. Não obstante, a ori gem de tal di ferença
posi ti va — o l ucro do capi tal — fi cava i nexpl i cada no quadro de um
regi me de troca de equi val entes e, por i sso mesmo, Smi th desi gnava
o l ucro como “dedução”. Ri cardo desenvol veu a teori a do val or, ao de-
fi ni -l o como tempo de trabal ho incorporado à mercadori a, porém desvi ou
sua i nvesti gação da ori gem do excedente para o da di stri bui ção do
produto entre assal ari ados, capi tal i stas e propri etári os de terra. O l ucro
conti nuava, portanto, i nexpl i cável em face da necessári a equi val ênci a
da troca entre capi tal e força de trabal ho. Este, o pri mei ro i mpasse.
O segundo grande i mpasse da teori a do val or-trabal ho de Smi th
e Ri cardo resi di a em que ambos i denti fi cavam, sem medi ações, o val or
ao preço natural, como o chamava Smi th, ou ao custo de produção, na
formul ação ri cardi ana. Semel hante i denti fi cação tornava i mpossí vel es-
cl arecer por que capi tai s com di ferentes empregos de força de trabal ho
obti nham taxas de l ucros i gual adas.
A sol ução marxi ana para a pri mei ra questão cruci al i rresol vi da
consubstanci ou-se na teori a da mai s-val i a. Ao expô-l a no Li vro Pri mei ro,
Marx não parti u do concei to de val or, mas da mercadori a, i sto é, da
cél ul a germi nati va de modo de produção capi tal i sta. No entanto, o
enfoque i ni ci al da mercadori a ao l ongo do Capí tul o I não a si tua no
quadro das rel ações de produção capi tal i stas, porém numa soci edade
de pequenos produtores mercanti s, donos dos mei os de produção e de
subsi stênci a e, por consegui nte, donos também do produto i ntegral do
seu trabal ho. Tal procedi mento exposi ti vo tem si do um dos pontos mai s
controversos de O Capital.
Croce foi dos pri mei ros a argumentar que semel hante soci edade de
pequenos produtores mercanti s não passari a da i nvenção teóri ca para
fi ns heurí sti cos, i sto é, para servi r de contraste com a soci edade capi tal i sta
concreta. A i nterpretação de Croce não di fere, no essenci al , da recente de
Mori shi ma e Catephores, segundo os quai s a soci edade de pequenos pro-
dutores mercanti s seri a fi ctí ci a e teri a val i dade tão-somente como tipo
ideal, na acepção de Max Weber (i nspi rando-se, por si nal , na afi rmação
do própri o Weber de que todas as construções teóri cas marxi anas seri am
ti pos i deai s sem efeti vi dade empí ri ca). Segue-se daí que a troca de equi -
val entes, na proporção do tempo de trabal ho conti do nas mercadori as,
nunca foi norma concreta, uma vez que, na soci edade capi talista, segundo
Marx, as trocas se real i zam sob a norma dos preços de produção, nos
quai s o val or já aparece modi fi cado e metamorfoseado.
Cedendo à i ncl i nação hi stori ci sta que, às vezes, nel e preval eci a,
Engel s atri bui u à soci edade de pequenos produtores mercanti s, tal qual
se apresenta no capí tul o i ni ci al do Li vro Pri mei ro, exi stênci a hi stóri ca
empí ri ca e chegou a afi rmar que a l ei do val or, enquanto l ei da troca
imediata de equi val entes, teri a ti do vi gênci a num perí odo de ci nco a
sete mi l êni os até o sécul o XV, quando se dá o nasci mento do capi tal i smo.
As pesqui sas hi stori ográfi cas não confi rmam o ponto de vi sta de
OS ECONOMISTAS
28
Engel s. O própri o Marx assi nal ou, em vári as passagens, que, nas for-
mações soci ai s anteri ores ao capi tal i smo, preval eceu a produção para
val or de uso, ao passo que as trocas mercanti s se fazi am com excedentes
resi duai s do autoconsumo. O caráter ocasi onal e as pequenas proporções
das trocas devi am i mpedi r ou di fi cul tar sua práti ca de acordo com a
norma regul ar da equi val ênci a do conteúdo de trabal ho i ncorporado
aos bens trocados. I ntermedi adas pel o capi tal comerci al pré-capi tal i sta,
as trocas tampouco poderi am basear-se na equi val ênci a, mas seri am
trocas desiguais.
No entanto, na medi da em que fossem trocas pessoai s entre pequenos
produtores mercanti s e se repeti ssem durante mui to tempo com regul a-
ri dade, a l ei do val or, enquanto l ei da troca imediata de equi val entes,
seri a atuante. De manei ra aproxi mada, era o que, com efei to, sucedi a nas
fei ras medi evai s européi as, onde costumavam encontrar-se camponeses e
artesãos para i ntercâmbi o dos respecti vos produtos.
Rubi n apontou o caráter puramente l ógi co de certas medi ações
di scursi vas marxi anas, para as quai s, por consegui nte, não faz senti do
procurar correspondênci a hi stóri ca empí ri ca. A soci edade de pequenos
produtores mercanti s, tal qual vem descri ta no capí tul o i ni ci al do Li vro
Pri mei ro, é, sem dúvi da, uma projeção l ógi ca. Não obstante, como tam-
bém afi rma Rubi n, aquel a soci edade exi sti u de manei ra rudi mentar
antes do capi tal i smo e, sendo assi m, ti nha razão Marx ao escrever que
o val or-trabal ho fora antecedente hi stóri co (e não somente l ógi co) do
preço de produção.
O capi tal i smo não pode surgi r senão com as premi ssas dadas da
produção mercanti l e da ci rcul ação monetári a. Tai s premi ssas não são
i magi nári as, porém hi stori camente concretas, tendo ti do desenvol vi mento
na Europa sob o feudal i smo. Assi m, foi para estudar a formação do modo
de produção capi tal i sta a parti r daquel as premi ssas objeti vas que Marx
as projetou no model o de uma soci edade de pequenos produtores mercanti s.
Medi ante o recurso da abstração, determi nado setor da real i dade hi stóri ca
foi i sol ado e extremado, não sendo di fí ci l perceber que o model o marxi ano
resul tou da apl i cação do método di al éti co e não da construção de um ti po
i deal weberi ano. Este úl ti mo, como se sabe, teve por matri z fi l osófi ca o
formal i smo neokanti ano e sua construção para fi ns heurí sti cos obedece a
cri téri os uni l aterai s subjeti vos do observador — al go de todo contrári o à
metodol ogi a di al éti ca-materi al i sta.
Ao começar sua exposi ção pel a mercadori a — por ser el a a cél ul a
germi nati va do modo de produção capi tal i sta —, exami nou-a Marx,
em pri mei ro l ugar, como objeto que tem val or de uso. Mas, sob o aspecto
apenas do val or de uso, a rel ação da mercadori a com o homem ganha
caráter i ndi vi dual e natural supra-hi stóri co. O val or de uso, por si só,
não nos i nforma acerca das rel ações soci ai s subjacentes à rel ação i n-
di vi dual do homem com a coi sa. O sabor do tri go não muda pel o fato
de ser produzi do por um escravo, por um servo feudal ou por um
MARX
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operári o assal ari ado. Contudo, são i mprocedentes as crí ti cas de que
na obra marxi ana se negl i genci a a si gni fi cação do val or de uso enquanto
categori a econômi ca.
Marx, al i ás, teve oportuni dade de contestar semel hante crí ti ca
nos comentári os ao Tratado de Wagner. Comentári os que poderi a em-
pregar, com i dênti ca perti nênci a, na refutação dos argumentos de
Böhm-Bawerk, se ai nda vi vo esti vesse quando vi eram a públ i co.
No concernente à mercadori a, o val or de uso é o suporte fí si co
do val or. Não pode ter val or o que carece de val or de uso. Que a
mercadori a possua o caráter dúpl i ce de val or de uso e val or resul ta
do caráter também dúpl i ce do própri o trabal ho que a produz: trabal ho
concreto, que responde pel as qual i dades fí si cas do objeto, e trabal ho
abstrato, enquanto gasto i ndi ferenci ado de energi a humana. O trabal ho
abstrato, pel o fato de estabel ecer uma rel ação de equi val ênci a entre
os vari adí ssi mos trabal hos concretos, vem a ser a substânci a do val or.
Smi th e Ri cardo fal aram de val or e val or de troca, sem estabel ecer
entre el es di ferença categori al , preocupados sobretudo com o probl ema
da medida do val or. O própri o Marx, em Para a Crítica da Economia
Política, não estabel eceu di sti nção termi nol ógi ca entre val or e val or
de troca. Mas, em O Capital, esta di sti nção foi fi rmada e sal i entada,
poi s se tornava cl ara a necessi dade de focal i zar no val or, em separado,
a substância (trabal ho abstrato cri stal i zado), a forma que se mani festa
na rel ação entre mercadori as (val or de troca) e a grandeza (tempo de
trabal ho abstrato).
Vejamos, aqui , a questão da substânci a do val or.
O trabal ho cri ador de val or é o trabal ho soci al mente necessári o,
executado segundo as condi ções médi as vi gentes da técni ca, destreza
do operári o e i ntensi dade do esforço na real i zação da tarefa produti va.
O padrão é o do trabal ho si mpl es, ao qual o trabal ho compl exo (ou
qual i fi cado) é reduzi do como certo múl ti pl o del e. Marx não anal i sou
como se dá tal redução, porém i ndi cou a l i nha geral dessa anál i se (a
di ferença de custo de formação da força de trabal ho compl exa em com-
paração com a força de trabal ho si mpl es) e tomou a redução como
dada. Trata-se de um procedi mento adotado pel o autor em certos casos:
tomar em consi deração apenas o resul tado dado de um processo, apon-
tando o cami nho de sua anál i se, sem contudo desenvol vê-l a, na medi da
em que fosse di spensável para fi ns pri ori tári os da demonstração.
O probl ema da rel ação entre trabal ho si mpl es e compl exo já me-
recera a atenção de Hodgski n, o qual , no entanto, não consegui u defi ni r
o cri téri o econômi co i ntrí nseco à rel ação. Com o tempo, tornou-se um
dos caval os de batal ha às mãos dos adversári os da teori a do val or-tra-
bal ho e, por i sso mesmo, Böhm-Bawerk não haveri a de omi ti -l o. Mas,
para efei to de argumentação, o l í der da escol a austrí aca do margi na-
l i smo empregou exempl o tão fora de propósi to como o da comparação
entre o trabal ho do escul tor e o de um pedrei ro. Ora, o produto do
OS ECONOMISTAS
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trabal ho artí sti co, marcado pel a ori gi nal i dade e uni ci dade, não pode
ser comparado, enquanto mercadori a, com a produção mercanti l repe-
ti da. A resposta de Hi l ferdi ng a Böhm-Bawerk avançou um tanto na
l i nha anal í ti ca apontada por Marx. Mas o argumento vol tari a a ser
esgri mi do, em época recente, por Joan Robi nson, com a i ndagação sobre
a manei ra de determi nar a quanti dade de trabal ho abstrato conti do
na hora de trabal ho de um engenhei ro qual i fi cado. Para a teori a do
val or-trabal ho, o que i mporta é que a hora de trabal ho do engenhei ro
consti tui um múl ti pl o (de ci nco, dez ou qui nze, não vem ao caso) da
hora de trabal ho do operári o da construção ci vi l , do operári o sol dador
etc., enquanto médi a soci al mente funci onal .
O enfoque do val or pel o pri sma de sua substânci a permi ti u pe-
netrar no uni verso hi stóri co das rel ações soci ai s dentro do qual os
produtos do trabal ho humano se tornam val ores. Para Smi th e Ri cardo,
o val or não era uma qual i dade soci al dos produtos, mas al go natural
como o peso ou a consi stênci a. I ndi ferente, portanto, às formas soci ai s.
Para Marx, o val or é, antes de tudo, uma substânci a social-histórica.
Nas organi zações soci ai s em que a produção mercanti l consti tui atri buto
de propri etári os pri vados, entre os quai s já exi sta di vi são soci al do
trabal ho bastante adi antada, somente de manei ra i ndi reta, pel a troca
mercanti l , é que os produtos do trabal ho privado se apresentam como
produtos do trabal ho soci al . O i ndi cador do trabal ho soci al é, preci sa-
mente, o valor, na condi ção de cri stal i zação de trabal ho abstrato, ao
passo que o valor de troca, sendo a razão de i ntercâmbi o entre as
mercadori as, consti tui a forma de mani festação do val or.
Nas formações soci ai s em que predomi na a produção para val or
do uso, o caráter soci al do trabal ho mani festa-se de manei ra di reta,
sem desvi os, rel aci onando-se os agentes da produção entre si cara a
cara, como pessoas. Já nas formações soci ai s onde predomi na a pro-
dução mercanti l , o caráter soci al do trabal ho não pode se mani festar
senão de manei ra i ndi reta, por mei o de um desvi o. Em suma, por
i ntermédi o do val or. A relação entre as pessoas se esconde atrás da
relação entre as coisas.
A lei do valor como reguladora da produção
Uma vez que é produção confi ada a propri etári os pri vados con-
correntes, a produção capi tal i sta — ti po general i zado e superi or da
produção mercanti l — não obedece a um pl ano central i zado, mas se
real i za sob o i mpul so de deci sões fragmentári as i sol adas. Entre as
paredes da empresa capi tal i sta, a produção costuma ser consci ente-
mente regul ada e obedece a um pl ano estabel eci do pel a admi ni stração.
Já no processo soci al gl obal das rel ações entre as empresas, i nexi ste
a regul ação consci ente, o pl anejamento i mperati vo. O processo soci al
gl obal da produção capi tal i sta caracteri za-se, por i sso, pel a anarquia.
Anarqui a, entretanto, não quer di zer caos. Anárqui ca como seja,
MARX
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a produção capi tal i sta obedece a um regul ador objeti vo, que atua à
revel i a da consci ênci a dos produtores pri vados. Tal regul ador é a l ei
do val or. Justamente esta l ei — por ser a l ei de val i dação do caráter
soci al dos trabal hos pri vados — é que determi na a di stri bui ção dos
mei os de produção e da força de trabal ho entre os vári os produtores
e ramos da produção.
A l ei do val or cumpre sua função de regul adora da produção
soci al em mei o a constantes osci l ações e desequi l í bri os provocados por
sua própri a atuação. O equi l í bri o não pode ser mai s do que uma ten-
dênci a que pressi ona em mei o aos fatores desequi l i brantes e se mani -
festa enquanto médi a de i numerávei s fl utuações, jamai s suscetí vel de
fi xação. A concorrênci a entre os produtores pri vados dá l ugar a uma
sucessão i nfi ndável de desequi l í bri os e, ao mesmo tempo, atua no sen-
ti do de corri gi r mai s desequi l í bri os, medi ante a regul ação do val or.
Tal correção nunca consegue supri mi r a anarqui a, poi s se efetua no
fl uxo i ncessante do processo concorrenci al e i mpl i ca i nevi távei s des-
perdí ci os de recursos econômi cos. Si mul taneamente, porém, a constante
acentuação do desequi l í bri o e a tendênci a contrári a ao equi l í bri o, só
real i zado como médi a vari ável das desproporções, compõem o di nami s-
mo pecul i ar do processo capi tal i sta de produção e ti pi fi cam sua mo-
dal i dade especí fi ca de desenvol vi mento das forças produti vas. Assi m,
a l ei do val or, na concepção marxi ana da produção capi tal i sta, é a l ei
regul adora da di stri bui ção das forças produti vas, porém não é sua lei do
equilíbrio. O que Schumpeter percebeu, ao contrári o de tantos marxi stas.
Neste ponto cruci al , a concepção marxi ana se contrapõe à tradi ção
mai s forte do pensamento burguês. Tradi ção que buscou apresentar a
economi a capi tal i sta como consubstanci al à natureza humana preci sa-
mente por ser harmôni ca, por si mesma apta a estabel ecer o estado
de equi l í bri o mai s conveni ente aos i nteresses supostamente gerai s da
soci edade. Não tem outra si gni fi cação para Adam Smi th a mão i nvi sí vel
do mercado, que fari a do egoí smo dos produtores i ndi vi duai s o i nstru-
mento da ri queza das nações. Ao procl amar que cada oferta cri a sua
própri a demanda, a chamada “l ei dos mercados” de Say não passa de
outra formul ação do mesmo teorema do equi l í bri o. Seri a, no entanto,
com o margi nal i smo que a i déi a do equi l í bri o geral da economi a capi -
tal i sta ati ngi ri a a formul ação aparentemente mai s conforme às exi -
gênci as da demonstração ci entí fi ca, exposta que foi através de refi nadas
el aborações matemáti cas. A doutri na margi nal i sta do equi l í bri o geral
sofreu o i mpacto da “revol ução keynesi ana” sem que, não obstante, se
perdesse a i déi a do equi l í bri o. Já que este não era mai s concebí vel
como ajuste espontâneo das vari ações dos fatores, ajuste resul tante da
i nteração automáti ca e autocorreti va dos mecani smos i nerentes ao mer-
cado, Keynes i ncumbi u a mão vi sí vel do Estado de i ntervi r no mercado,
pôr as coi sas em ordem e estabel ecer o equi l í bri o do pl eno emprego
desejável à segurança da organi zação soci al burguesa.
OS ECONOMISTAS
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Apenas de passagem, l embremos que a teori a funci onal i sta re-
presenta, no âmbi to da Soci ol ogi a, uma rami fi cação do mesmo tronco
i deol ógi co do qual se projetou a i déi a do equi l í bri o natural e efi ci ente
da economi a capi tal i sta.
Fei ta a ressal va sobre a val i dez de tantos aspectos penetrantes
de seus ensai os marxi stas, cumpre menci onar o grave equí voco de Rubi n
ao confundi r a função regul adora da l ei do val or com uma função de
equi l í bri o, ao ponto de sugeri r que a teori a econômi ca marxi ana seri a
uma teori a geral do equi l í bri o da economi a capi tal i sta. Decerto, nenhum
modo de produção pode funci onar sem al gum pri ncí pi o regul ador. No
modo de produção capi tal i sta, tal pri ncí pi o é a l ei do val or. O que
sucede é que, na concepção marxi ana, este regul ador opera através de
contradi ções e desequi l í bri os sempre renovados. Contradi ções e dese-
qui l í bri os i nerentes à essênci a das rel ações de produção capi tal i stas e
não meras disfunções, por i sso mesmo sanávei s, como as conceberi a o
funci onal i smo.
V. Capital, Fetichismo e Acumulação Originária
O desenvol vi mento da forma do val or — o val or de troca — conduz
ao surgi mento do di nhei ro. Este não foi um di sposi ti vo expressamente
“inventado” para resol ver di fi cul dades técni cas na real i zação cada vez
mai s compl exa das trocas e dos pagamentos, embora vi esse a servi r para
tal fi m. Por mei o da demonstração di al éti ca, ressaltou Marx que a neces-
si dade do di nhei ro já está i mpl í ci ta na rel ação mercanti l mai s si mpl es e
casual . Assi m que as trocas mercanti s se rei teram e mul ti pl i cam, é i ne-
vi tável que se sel eci one entre as mercadori as aquel a cujo valor de uso —
representado por suas qual i dades fí si cas — consi sti rá na refl exão do tra-
balho abstrato de toda a soci edade, na encarnação i ndi ferente do val or
de todas as mercadori as. Os metai s preci osos (ouro e prata) foram, afi nal ,
sel eci onados para esta função de mercadori a absoluta.
A ci rcul ação monetári a consti tui premi ssa necessária, porém não
suficiente para o surgi mento do modo de produção capi tal i sta. Marx foi
taxati vo na refutação das i nterpretações hi stori ográfi cas que vi am na An-
ti gui dade greco-romana uma economi a capi tal i sta porque já então ci rcu-
l ava o di nhei ro. O capi tal comerci al e o capi tal de emprésti mo aparecem
nas formações soci ai s anteri ores ao capi tal i smo e nel as representam as
modal i dades exponenci ai s do capi tal . Captam o produto excedente no pro-
cesso da circulação mercanti l e monetári a, através das trocas desi guai s
e dos empréstimos usurári os, porém não domi nam o processo de produção.
Somente com o capi tal industrial, que atua no processo de cri ação do
sobreproduto medi ante a expl oração de trabal hadores assalariados, é que
se consti tui o modo de produção capi tal i sta. O capi tal i ndustri al torna-se,
então, a modal i dade exponenci al do capi tal , que submete o capi tal comer-
ci al e o capi tal de emprésti mo às exi gênci as da reprodução e expansão
das rel ações de produção capi tal i stas.
MARX
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A formação do capi tal i ndustri al na Europa oci dental mereceu
de Marx extenso estudo hi stori ográfi co, no qual peri odi zou o processo
de formação nas etapas da cooperação si mpl es, da manufatura e da
fábri ca mecani zada. Com esta úl ti ma, que surge e começa a se gene-
ral i zar durante a Revol ução I ndustri al i ngl esa, o modo de produção
capi tal i sta adqui ri u, afi nal , a base técni ca que l he é apropri ada.
Que é, porém, o capi tal enquanto agente da produção?
O capi tal não é coisa — ferramenta ou máquina. Nada mais des-
proposi tado do que i mputar ao arco-e-fl echa do í ndio tribal a natureza
de capi tal . Tampouco basta afi rmar, como Ri cardo, que o capi tal é “trabalho
acumulado”. O arco-e-fl echa cri stal i za trabal ho acumul ado e, todavi a, não
serve a nenhuma fi nalidade de valori zação capi tal i sta, ou seja, de i ncre-
mento do val or i ni ci al adi antado. A fi m de que o trabal ho acumul ado nos
bens de produção assuma a função de capi tal é preci so que se converta
em i nstrumento de expl oração do trabal ho assal ari ado. Em vez de coi sa,
o capi tal é relação social, rel ação de expl oração dos operári os pel os capi -
tal i stas. As coi sas — instalações, máquinas, matéri as-pri mas etc. — cons-
ti tuem a encarnação fí si ca do trabal ho acumul ado para servi r de capi tal ,
na relação entre o propri etári o dessas coi sas e os operári os contratados
para usá-l as de manei ra produti va.
Por consegui nte, a teori a marxi ana conduz à desmi sti fi cação do
fetichismo da mercadori a e do capi tal . Desvenda-se o caráter al i enado
de um mundo em que as coi sas se movem como pessoas e as pessoas
são domi nadas pel as coi sas que el as própri as cri am. Durante o processo
de produção, a mercadori a ai nda é matéri a que o produtor domi na e
transforma em objeto úti l . Uma vez posta à venda no processo de
ci rcul ação, a si tuação se i nverte: o objeto domi na o produtor. O cri ador
perde o control e sobre sua cri ação e o desti no del e passa a depender
do movi mento das coi sas, que assumem poderes eni gmáti cos. Enquanto
as coi sas são ani mi zadas e personi fi cadas, o produtor se coi si fi ca. Os
homens vi vem, então, num mundo de mercadori as, um mundo de fe-
ti ches. Mas o feti chi smo da mercadori a se prol onga e ampl i fi ca no
feti chi smo do capi tal .
O capi tal se encarna em coi sas: i nstrumentos de produção cri ados
pel o homem. Contudo, no processo de produção capi tal i sta, não é o
trabal hador que usa os i nstrumentos de produção. Ao contrári o: os
i nstrumentos de produção — converti dos em capi tal pel a rel ação soci al
da propri edade pri vada — é que usam o trabal hador. Dentro da fábri ca,
o trabal hador se torna um apêndi ce da máqui na e se subordi na aos
movi mentos del a, em obedi ênci a a uma fi nal i dade — a do l ucro — que
l he é al hei a. O trabal ho morto, acumul ado no i nstrumento de produção,
suga como um vampi ro (a metáfora é de Marx) cada gota de sangue
do trabal ho vi vo forneci do pel a força de trabal ho, também el a converti da
em mercadori a, tão venal quanto qual quer outra.
Contudo, seri a errôneo, como fi cou em voga no segundo pós-guer-
OS ECONOMISTAS
34
ra, fazer da al i enação a categori a bási ca da teori a sóci o-econômi ca mar-
xi ana. Com semel hante procedi mento, efetua-se um retrocesso no con-
cernente à evol ução do própri o Marx, a qual , como foi vi sto, superou
o concei to de al i enação quando acei tou a tese do val or-trabal ho. Na
verdade, as teses essenci ai s da teori a sóci o-econômi ca marxi ana se
apói am nas categori as de val or e mai s-val i a, a parti r das quai s a ca-
tegori a de al i enação, recebi da de Hegel e Feuerbach, se concreti zou
na crí ti ca conseqüente ao feti chi smo do capi tal .
A crí ti ca ao feti chi smo do capi tal vi ncul a-se i nti mamente à de-
ci fração do segredo da acumul ação ori gi nári a do própri o capi tal . Como
teri a vi ndo ao mundo tão estranha enti dade que conqui stou a soberani a
sobre os homens e as coi sas?
Sabemos de vári as respostas. A de Nassau Seni or: o capi tal nasceu
da abstinência de uns poucos vi rtuosos, que preferi ram poupar a con-
sumi r, assumi ndo o ônus de um sacri fí ci o em benefí ci o da soci edade
justamente recompensado. A de Weber: o capi tal i smo requer a ati tude
raci onal i sta di ante dos fatos econômi cos e semel hante ati tude procedeu,
na Europa oci dental , da éti ca protestante. A de Schumpeter: os pri -
mei ros empresári os foram homens de tal ento que ti veram a poupança
acumul ada à sua di sposi ção.
Já segundo Marx, o capi tal , não mai s como capi tal mercanti l ,
porém como capi tal i ndustri al promotor do modo de produção capi ta-
l i sta, surge somente com determi nado grau hi stóri co de desenvol vi -
mento das forças produti vas, grau este que i mpl i ca determi nado ti po
de di vi são soci al do trabal ho. Só então é que o di nhei ro e os mei os de
produção acumul ados em poucas mãos podem ser val ori zados medi ante
a expl oração di reta do trabal ho assal ari ado. Fi ca, não obstante, a per-
gunta: como se acumul aram o di nhei ro e os mei os de produção em
poucas mãos?
Dessa hi stóri a não se extrai uma l i ção sobre a recompensa das
vi rtudes morai s. Mercadores e usurári os — representantes do capi tal
mercanti l pré-capi tal i sta — concentraram a ri queza em di nhei ro me-
di ante toda espéci e de fraude e de extorsão, caracterí sti cas da atuação
do capi tal nas formações soci ai s anteri ores ao capi tal i smo. A apl i cação
do di nhei ro acumul ado na ci rcul ação mercanti l e monetári a à produção
de mercadori as l evou à expl oração acentuada, à pauperi zação e à ex-
propri ação dos artesãos. Por sua vez, do própri o mei o dos artesãos,
emergi ram os mestres que, em suas ofi ci nas, se destacaram pel a efi -
ci ênci a na expl oração dos aprendi zes e companhei ros e puderam passar
da condi ção de mestres-trabal hadores à de mestres capi tal i stas, já por
i ntei ro patrões. Esta formação endógena do capi tal i ndustri al consti -
tui u, al i ás, segundo Marx, o cami nho efeti vamente revol uci onári o de
transformação capi tal i sta da anti ga economi a feudal .
A acumul ação ori gi nári a do capi tal — conjunto de processos não-
capi tal i stas que prepararam e acel eraram o advento de modo de pro-
MARX
35
dução capi tal i sta — assi nal ou-se como uma época de vi ol enta subversão
da ordem exi stente, cuja ocorrênci a na I ngl aterra foi estudada no fa-
moso capí tul o XXI V do Li vro Pri mei ro de O Capital. Com especi al
rel evo fi guraram nessa subversão: as enclosures (cercamentos) que ex-
pul saram os camponeses de suas terras e as converteram em campos
de pastagem de ovel has, enquanto dos camponeses expropri ados e des-
possuí dos emergi ri a o moderno prol etari ado; o confi sco das terras da
I greja Catól i ca e sua di stri bui ção entre ari stocratas aburguesados e
novos burgueses rurai s; o cresci mento da dí vi da públ i ca, que transferi u
ri quezas concentradas pel o Estado às mãos de um punhado de pri vi -
l egi ados; o proteci oni smo, que garanti u à nascente burguesi a i ndustri al
a excl usi vi dade de atuação desenfreada no mercado naci onal e l he
permi ti u arrui nar e expropri ar os artesãos, então obri gados ao trabal ho
assal ari ado; a al ta general i zada dos preços no sécul o XVI , em conse-
qüênci a do afl uxo à Europa dos metai s preci osos da Améri ca, trazendo
consi go a queda rel ati va dos sal ári os e dos preços dos arrendamentos
agrí col as a l ongo prazo, o que favoreceu a burguesi a urbana e rural ;
e, por fi m, porém não menos i mportante — o col oni al i smo da época
mercanti l i sta, com o comérci o ul tramari no, a expl oração escravi sta nas
Améri cas e o tráfi co de escravos afri canos.
O capi tal emerge para a vi da hi stóri ca, o que Marx acentuou em
vári as passagens, como agente revol uci onári o i mpl acável que destrói
as vetustas formações soci ai s l ocal i stas e i nstaura grandes mercados
naci onai s uni fi cados e um processo mundi al de i ntercâmbi o e produção
acompanhado de rápi da transformação das técni cas, das formas orga-
ni zaci onai s da economi a, das i nsti tui ções e dos costumes etc. Se o nas-
ci mento do capi tal exi gi u o emprego da vi ol ênci a em grande escal a,
tampouco foi el a di spensada na sua trajetóri a expansi oni sta. O capi tal
real i zou o vel oz desenvol vi mento das forças produti vas desi ni bi do de
consi derações moral i stas humani tári as, movi do por uma avi dez acu-
mul ati va sem paral el o nas etapas hi stóri cas precedentes.
O modo de produção capi tal i sta se afi rma à medi da que di spensa
os processos da acumul ação ori gi nári a e di funde processos especí fi cos
de expl oração e val ori zação, que conduzem à produção da mai s-val i a.
A tese segundo a qual o capi tal contém doi s componentes di sti ntos
— o constante e o vari ável — consti tui uma das proposi ções funda-
mentai s da Economi a Pol í ti ca marxi sta. I nsuspei to como crí ti co e ad-
versári o, Schumpeter reconheceu a superi ori dade desta proposi ção em
face da de Ri cardo.
O capi tal constante representa trabal ho morto, cri stal i zado e acu-
mul ado nos mei os de produção. Durante o processo produti vo, seu val or
se mantém constante, transferi ndo-se ao produto sem al teração quan-
ti tati va. O capi tal variável apl i ca-se nos sal ári os que compram a força
de trabal ho e, por i sso, representa a úni ca parte do capi tal que vari a
no processo produti vo, uma vez que se i ncrementa pel a produção de
OS ECONOMISTAS
36
mai s-val i a. A val ori zação parti cul ar do capi tal vari ável dá l ugar à va-
l ori zação do capi tal em sua total i dade.
A rel ação quanti tati va entre capi tal constante e capi tal vari ável ,
em termos de val or, recebeu de Marx a denomi nação de composição
orgânica do capital, tanto mai s al ta quanto mai or for o coefi ci ente do
capi tal constante e vi ce-versa. O si stema da Economi a Pol í ti ca marxi sta
tem nesta rel ação um dos ei xos de sua arti cul ação.
A composi ção orgâni ca do capi tal não se confunde com sua com-
posi ção técnica, a qual di z respei to às caracterí sti cas fí si cas do capi tal
e não ao seu val or. Um capi tal com a composi ção técni ca de 5 máqui -
nas/1 operári o pode ter a mesma composi ção orgâni ca de outro capi tal
com a composi ção técni ca de 10 máqui nas/1 operári o, se o val or de
cada uma das úl ti mas dez máqui nas for a metade do val or de cada
uma das pri mei ras ci nco máqui nas, sendo os sal ári os i guai s nos doi s
casos. Na perspecti va hi stóri ca de l ongo prazo, no entanto, a composi ção
orgâni ca do capi tal se el eva com o aumento da composi ção técni ca,
embora o faça em proporções menores.
A di sti nção entre capi tal fixo e circulante, conheci da antes de
Marx, di z respei to a outro aspecto da real i dade, i sto é, à transferênci a
i ntegral do val or dos componentes do capi tal ao produto numa úni ca
rotação produti va (capi tal ci rcul ante) ou em vári as rotações, gradual -
mente (capi tal fi xo). Tal di sti nção nada expl i ca acerca da val ori zação
do capi tal , porém é i mpresci ndí vel à anál i se da ci rcul ação, rotação e
reprodução do capi tal .
A esta al tura, cumpre preci sar qual foi a novi dade trazi da por
Marx com a categori a de mai s-val i a. Já fora fi rmada a i déi a de que a
produção podi a cri ar um excedente sobre a grandeza i ni ci al dos mei os
de produção. Nas Teorias da Mais-Valia, i ncumbi u-se Marx de anotar
e comentar com mi núci a os antecessores que escreveram sobre o ex-
cedente econômi co. A novi dade exposta em O Capital se resume em
doi s aspectos essenci ai s.
Em pri mei ro l ugar, a di sti nção entre trabalho e força de trabalho.
O trabal ho não é senão o uso da força de trabal ho, cujo conteúdo consi ste
nas apti dões fí si cas e i ntel ectuai s do operári o. Sendo assi m, o sal ári o
não paga o val or do trabal ho, mas o val or da força de trabal ho, cujo
uso, no processo produti vo, cri a um val or mai or do que o conti do no
sal ári o. O val or de uso da força de trabal ho consi ste preci samente na
capaci dade, que l he é excl usi va, de cri ar um val or de grandeza superi or
à sua própri a. O dono do capi tal e empregador do operári o se apropri a
deste sobreval or ou mai s-val i a sem retri bui ção. Mas, embora sem re-
tri bui ção, a apropri ação da mai s-val i a não vi ol a a l ei do val or enquanto
l ei de troca de equi val entes, uma vez que o sal ári o deve ser o equi val ente
monetári o do val or da força de trabal ho. Assi m, a rel ação mercantil
entre capi tal e força de trabal ho assume o caráter de troca de equi -
MARX
37
val entes, ao passo que a cri ação da mai s-val i a se efeti va fora dessa
rel ação, no processo de uso produti vo da força de trabal ho.
Embora não descurasse a ci rcunstânci a de que, na práti ca do
regi me capi tal i sta, o sal ári o pode si tuar-se abai xo do val or da força
de trabal ho, Marx pressupõe sempre, em todas as i nferênci as do seu
si stema teóri co, a troca de equi val entes e, por consegui nte, a equi va-
l ênci a entre sal ári o e val or da força de trabal ho. Em especi al , o modo
de produção capi tal i sta fi cava marcado pel a parti cul ari dade hi stóri ca
de general i zar a forma mercadori a, assumi da também pel a própri a
força de trabal ho.
Escl areci a-se, dessa manei ra, que a quanti dade de trabal ho “co-
mandado” pel a mercadori a aci ma do trabal ho que custara, segundo a
concepção de Smi th, era preci samente a mai s-val i a. O l ucro dei xava
de ser uma “dedução” do produto do trabal ho e se i denti fi cava como
sobreproduto, por i sso mesmo apropri ado pel o comprador da força de
trabal ho na sua condi ção de capi tal i sta.
Em segundo l ugar, a concepção da mai s-val i a enquanto sobre-
produto abstraí do de suas formas parti cul ares (l ucro i ndustri al e co-
merci al , juros e renda da terra). Justamente porque entenderam o
excedente i medi atamente como l ucro, sem se dar conta de sua natureza
ori gi nári a de mai s-val i a, da qual o l ucro é uma das formas parti cul ares,
justamente por não di sporem da categori a medi adora da mai s-val i a é
que Smi th e Ri cardo i denti fi caram val or e preço de produção. Em con-
seqüênci a, col ocaram a teori a do val or-trabal ho em contradi ção di scur-
si va com qual quer expl i cação coerente acerca do ei xo em torno do qual
devi am osci l ar os preços de mercado. A categori a de mai s-val i a vei o
permi ti r também a superação deste i mpasse dos cl ássi cos burgueses.
No Prefáci o ao Li vro Segundo, afi rmou Engel s, com i nspi ração
bri l hante, que a façanha teóri ca de Marx se comparava à de Lavoi si er.
Enquanto Pri estl ey e Scheel e, ao se defrontarem com o oxi gêni o em
estado puro, i nsi sti ram em chamá-l o de flogisto, por i ncapaci dade de
desprender-se da teori a quí mi ca vi gente, Lavoi si er reconheceu no gás
um novo el emento ao qual denomi nou oxi gêni o e, com i sso, l i qui dou
a vel ha teori a fl ogí sti ca. Ao contrári o dos economi stas que conti nuavam
a i denti fi car o sobreproduto com uma das suas aparênci as fenomenai s
— a renda da terra, no caso dos fi si ocratas, ou o l ucro, no caso de
Smi th e Ri cardo —, Marx abstrai u a mai s-val i a de suas mani festações
parti cul ares e, dessa manei ra, cortou os vári os nós górdi os que obsta-
cul i zavam o desenvol vi mento conseqüente da teori a do val or.
A concepção categori al da mai s-val i a exi ge, não obstante, a ca-
racteri zação preci sa do que seja trabal ho produti vo. Smi th di sti ngui u
entre trabal ho produti vo e trabal ho i mproduti vo, conotando o pri mei ro
pel a cri ação de bens materiais, dotados de consi stênci a corpórea, e pel a
lucratividade. I sto i mpl i cava a excl usão da esfera do trabal ho produti vo
de ati vi dades que não cri am bens materi ai s, poi s se consomem no ato
OS ECONOMISTAS
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i medi ato de sua execução (os chamados serviços), ou que, embora cri em
bens materi ais, não são lucrativas. Marx modi fi cou as teses de Smith, ao
mesmo tempo dei xando i nterrogações, dúvi das e probl emas sem resposta,
que suscitaram controvérsi as ai nda abertas entre os própri os marxi stas.
Antes de tudo, tendo em vi sta sempre a formação soci al burguesa,
devi a fi car i ntei ramente cl aro que só o trabal ho produti vo cri a val or
e mai s-val i a. Mas i sto não si gni fi ca que as ati vi dades i mproduti vas
sejam todas desnecessári as ou mesmo noci vas. Umas são requeri das
pel a manutenção das condi ções gerai s da vi da soci al (os servi ços do
aparel ho estatal ), enquanto outras são i ndi spensávei s à efeti vação i ni n-
terrupta dos própri os processos econômi cos. A atenção de Marx i nci di u
pri nci pal mente nestas úl ti mas.
Daí que começasse por cri ti car a ri gi dez da caracteri zação smi -
thi ana excl udente de todos os servi ços da esfera do trabal ho produti vo.
Ri gi dez de i nspi ração fi si ocráti ca e que l evava a sobrepor a natureza
fí si ca do produto do trabal ho à sua forma soci al . Da anál i se do texto
de Smi th, no vol ume I das Teorias da Mais-Valia, emergi ram di sti nções
bem defi ni das em O Capital. O capi tal produti vo é, por excel ênci a, o
capi tal i ndustri al , concebendo-se o capi tal agrí col a como uma de suas
modal i dades. O capi tal comerci al e o capi tal bancári o representam es-
peci al i zações funci onai s i mproduti vas do capi tal soci al total , i ndi spen-
sávei s, porém, à sua ci rcul ação e rotação sob forma de mercadori a
especí fi ca e sob forma de di nhei ro. Uma parte da mai s-val i a cri ada na
esfera do capi tal i ndustri al passa às esferas do comérci o e dos negóci os
bancári os — assumi ndo as formas parti cul ares de l ucro comerci al e
de juros —, com el a se pagando o l ucro de comerci antes e banquei ros,
bem como o sal ári o dos seus empregados. Mas há ati vi dades que não
produzem bens materi ai s e, contudo, são necessári as ao processo de
produção ou o prol ongam na esfera da ci rcul ação, devendo ser consi -
deradas produti vas e, portanto, cri adoras de val or e mai s-val i a. Este
é o caso do transporte, armazenagem e di stri bui ção de mercadori as.
Uma vez que as mercadori as são val ores de uso desti nados à sati sfação
de necessi dades (como bens de produção ou como bens de consumo),
é evi dente que transportá-l as, conservá-l as em l ocai s apropri ados e
di stri buí -l as consti tuem tarefas produti vas, ai nda que nada acrescen-
tem à substânci a ou à conformação fí si ca das mercadori as. Por conse-
qüênci a, uma parte das ati vi dades abrangi das pel a rubri ca do comérci o
tem natureza de trabal ho produti vo. São somente i mproduti vas aquel as
ati vi dades comerci ai s que deri vam das caracterí sti cas mercanti s das
rel ações de produção capi tal i stas, di zendo respei to aos gastos com as
operações de compra e venda e com as suas i mpl i cações especul ati vas.
Por consegui nte, Marx rejei tou a caracteri zação de Smi th acerca
do trabal ho produti vo restri ngi do apenas à produção de bens materi ai s
e i ncl ui u determi nados servi ços no concei to de trabal ho produti vo. Não
chegou, todavi a, a real i zar um estudo abrangente e concl usi vo sobre
MARX
39
os servi ços em geral . Recusou, por exempl o, a atri bui ção de produti -
vi dade aos servi ços médi cos (o que, obvi amente, não si gni fi ca que os
consi derasse di spensávei s). Já com rel ação a ati vi dades como as de
ensi no, dos espetácul os, da hotel ari a e outras, sua anál i se fi cou no
mei o do cami nho, justi fi cando-se com o pequeno peso dos servi ços.
O que era verdade para seu tempo, mas dei xou de sê-l o para os
di as atuai s. Nos paí ses capi tal i stas desenvol vi dos, o setor terci ári o,
que abrange os servi ços, passou a ocupar o mai or percentual da força
de trabal ho e a responder, nas contas naci onai s, por cerca de metade
do produto. Do ponto de vi sta da teori a econômi ca marxi sta, é i nacei -
tável , não obstante, a i ncl usão no produto naci onal de todos os servi ços
computados pel a estatí sti ca ofi ci al . Mesmo esta, às vezes, adota ti mi -
damente o concei to de produto real, do qual excl ui os servi ços gover-
namentai s, a i ntermedi ação fi nancei ra, os servi ços de educação e saúde
e al guns outros. Trata-se, sem dúvi da, de i mportante campo da i nves-
ti gação econômi ca, em cujo âmbi to as i ndi cações de Marx são preci osas
para marxi stas e não-marxi stas.
Por fi m, Marx referi u-se ao que denomi nou de faux frais: fal sos
gastos i nseri dos no processo de produção, embora sem l he dar contri -
bui ção do ponto de vi sta técni co e produti vo. Um desses fal sos gastos
é o do trabal ho de vi gi l ânci a ou control e da força de trabal ho, que
i mpõe um acrésci mo de custos sem si gni fi cação técni ca para a produção
propri amente di ta, decorrendo tão-somente do caráter antagôni co das
rel ações de produção. Se, nesta questão, Marx estava certo do ponto
de vi sta de suas premi ssas, tanto mai s quanto os servi ços de control e
dos trabal hadores se sofi sti caram nas grandes empresas modernas (com
a expansão dos “servi ços soci ai s” e congêneres), o mesmo não se podi a
di zer da i mputação de faux frais à contabi l i dade. Afi nal , a produção
i ndustri al moderna, sejam os paí ses capi tal i stas ou soci al i stas, é tec-
ni camente i mprati cável sem contabi l i dade. Como, por i gual , no capi -
tal i smo avançado dos di as atuai s seri a errôneo dei xar de qual i fi car a
pesqui sa ci entí fi ca e o desenvol vi mento de projetos como trabal ho pro-
duti vo, ao passo que o marketi ng e a propaganda entram, sem dúvi da,
no âmbi to do trabal ho i mproduti vo, poi s sua uti l i zação não é susci tada
senão pel a natureza mercanti l e concorrenci al do modo de produção
capi tal i sta.
Mais-valia e acumulação de capital
Acumul ação capi tal i sta si gni fi ca val ori zação do capi tal , o que,
por sua vez, si gni fi ca i ncremento do capi tal adi antado medi ante pro-
dução de mai s-val i a.
Sob a compul são da concorrênci a, que el i mi na as empresas es-
taci onári as, os capi tal i stas, na condi ção de personi fi cação do capi tal ,
ansei am por quanti dades cada vez mai ores de mai s-val i a. Nos pri mór-
di os do regi me capi tal i sta, quando as i novações técni cas avançavam
OS ECONOMISTAS
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com l enti dão, o aumento da quanti dade de mai s-val i a por operári o
ocupado só era possí vel medi ante cri ação de mai s-val i a absoluta, i sto
é, medi ante prol ongamento da jornada de trabal ho ou i ntensi fi cação
das tarefas, de tal manei ra que o tempo de sobretrabal ho (cri ador de
mai s-val i a) aumentasse, enquanto se conservava i gual o tempo de tra-
bal ho necessári o (cri ador do val or do sal ári o). No entanto, a caracte-
rí sti ca mai s essenci al do modo de produção capi tal i sta não é a cri ação
de mai s-val i a absol uta, porém de mai s-val i a relativa. Esta resul ta do
acúmul o de i novações técni cas, que el evam a produti vi dade soci al do
trabal ho e acabam por di mi nui r o val or dos bens de consumo nos quai s
se traduz o val or da força de trabal ho, exi gi ndo menor tempo de trabal ho
para a reprodução desta úl ti ma. Por i sso, sem que se al terem o tempo
e a i ntensi dade da jornada de trabal ho, cuja grandeza permanece a
mesma, al tera-se a rel ação entre seus componentes: se di mi nui o tempo
de trabal ho necessári o, deve crescer, em contraparti da, o tempo de
sobretrabal ho.
Cada capi tal i sta forceja por ul trapassar os concorrentes e, para
tanto, busca i ntroduzi r em sua empresa aperfei çoamentos técni cos (na
acepção mai s ampl a) que l he dêem vantagem sobre os ri vai s. Enquanto
tai s aperfei çoamentos forem excl usi vos de uma empresa, suas merca-
dori as serão produzi das com um tempo de trabal ho i nferi or ao soci al -
mente necessári o, o que l he propi ci ará certa quanti dade de mai s-val i a
extra ou superlucro. Ao se di fundi rem os aperfei çoamentos a pri ncí pi o
i ntroduzi dos numa empresa i sol ada, desaparecerá a mai s-val i a extra,
mas terá i do adi ante o processo de aumento da produti vi dade soci al
do trabal ho, cuja resul tante é a cri ação de mai s-val i a rel ati va.
(O que Marx consi dera l ucro ordi nári o, Marshal l denomi na de custo
do fator capi tal . No si stema de Marshal l , o superl ucro marxi ano entra
no conceito de quase-renda. Schumpeter não consi dera o l ucro ordi nári o
como l ucro, porém como remuneração do trabal ho de admi ni stração, sendo
o l ucro verdadei ro equi val ente apenas ao superl ucro marxi ano).
À medi da que se i mpl ementam i novações técni cas poupadoras
de mão-de-obra, tai s ou quai s conti ngentes de operári os são l ançados
no desemprego, em que se mantêm por certo tempo, até quando a
própri a acumul ação do capi tal requei ra mai or quanti dade de força de
trabal ho e dê ori gem a novos empregos. Assi m, a própri a di nâmi ca do
capi tal i smo atua no senti do de cri ar uma superpopulação relativa flu-
tuante ou exército industrial de reserva.
Já Ri cardo concl uí ra, com exempl ar honesti dade ci entí fi ca, que
a i ntrodução de maqui nari a conduz ao cresci mento da massa de tra-
bal hadores desempregados e l hes traz os sofri mentos da desocupação.
Mas justi fi cou a vantagem da maqui nari a para os capi tal i stas, sem
que, não obstante, enxergasse si gni fi cação econômi ca estrutural na
massa de desempregados. Do ponto de vi sta de Marx, o exérci to i n-
dustri al de reserva representa el emento estrutural i ndi spensável ao
MARX
41
modo de produção capi tal i sta e daí sua i ncessante reconsti tui ção me-
di ante i ntrodução de i novações técni cas, o que torna essa reconsti tui ção
i ndependente do cresci mento vegetati vo da popul ação. O exérci to i n-
dustri al de reserva funci ona como regul ador do ní vel geral de sal ári os,
i mpedi ndo que se el eve aci ma do val or da força de trabal ho ou, se
possí vel e de preferênci a, si tuando-o abai xo desse val or. Outra função
do exérci to i ndustri al de reserva consi ste em col ocar à di sposi ção do
capi tal a mão-de-obra supl ementar de que carece nos momentos de
brusca expansão produti va, por moti vo de abertura de novos mercados,
de i ngresso na fase de auge do ci cl o econômi co etc.
Marx formul ou uma l ei geral absol uta da acumul ação capi tal i sta,
segundo a qual se concentra, num pól o, a massa cada vez mai or de
ri quezas à di sposi ção do capi tal , enquanto, no pól o oposto, aumenta a
mi séri a das massas trabal hadoras. Esta l ei , apresentada no Li vro Pri -
mei ro, tem si do objeto de vari adas exegeses e aci rradas di scussões nos
mei os marxi stas, ao passo que os anti marxi stas encontram nel a rei -
terado moti vo para contestação.
Certa parte dos marxi stas i nterpretou a formul ação marxi ana
no senti do de i nel utável pauperi zação absol uta ou queda secul ar do
padrão da exi stênci a materi al da cl asse operári a no regi me capi tal i sta,
i ncl usi ve sob o aspecto dos sal ári os reai s, que tenderi am a ser cada
vez mai s bai xos, conforme sustentam, por exempl o, os autores do Ma-
nual de Economia Política da Academi a de Ci ênci as da URSS. Já Ro-
nal d Meek vi u na referi da l ei um dos erros mai s cl amorosos de Marx,
em face das evi dentes mel horas das condi ções de vi da dos operári os
i ngl eses no decorrer do úl ti mo sécul o. Ambas as posi ções foram refu-
tadas por Mandel e Rosdol sky através de exausti va anál i se da questão
à l uz dos textos marxi anos em confronto com os dados do desenvol vi -
mento do capi tal i smo. Dessa anál i se ressal tam os doi s pontos segui ntes.
Em pri mei ro l ugar, no referente aos sal ári os reai s, a posi ção de
Marx evol ui u dos escri tos econômi cos dos anos quarenta às obras da
maturi dade, dos anos sessenta em di ante. Nos anos quarenta, a i déi a
de Marx era a de que, conquanto os aumentos sal ari ai s pudessem
representar conqui stas i medi atas para os operári os, atuava, a l ongo
prazo, a tendênci a à queda dos sal ári os reai s até o ní vel mí ni mo da
subsi stênci a fí si ca, ou seja, a tendênci a à pauperi zação absol uta. I n-
fl uí am, então, sobre o pensamento marxi ano, sem dúvi da, as evi dênci as
da Revol ução I ndustri al recém-concl uí da na I ngl aterra e em curso nos
demai s paí ses da Europa oci dental , quando, com efei to, os sal ári os
reai s foram rebai xados. Di ferente vei o a ser, não obstante, a perspecti va
dos anos sessenta. Marx passou a enfati zar o fator l uta de cl asses e
demonstrou, do ponto de vi sta teóri co e com apoi o em dados estatí sti cos,
que a cl asse operári a podi a conqui star aumentos efeti vos dos sal ári os
reai s e, na verdade, os havi a conqui stado na I ngl aterra (Ver Salário,
Preço e Lucro. Tal demonstração foi tanto mai s notável quanto se opu-
OS ECONOMISTAS
42
nha às duas teses sobre sal ári os então domi nantes, tanto nos cí rcul os
profi ssi onai s dos economi stas quanto nos mei os si ndi cai s: a tese da l ei
de “ferro” ou de “bronze”, defendi da por Lassal l e, segundo a qual os
sal ári os devi am cai r, de manei ra i nexorável , ao ní vel mí ni mo de sub-
si stênci a fí si ca dos trabal hadores; e a tese do “fundo de sal ári os” de-
fendi da por John Stuart Mi l l , segundo a qual , em cada si tuação dada,
exi ste um fundo pré-fi xado para os sal ári os, sendo i núti l tentar al terá-l o
e obter mai ores sal ári os reai s por mei o do aumento dos sal ári os no-
mi nai s. A hi stóri a econômi ca desmenti u as formul ações de Lassal l e e
de Stuart Mi l l e confi rmou a de Marx, que chegou a i ntui r a el evação
dos sal ári os reai s como tendênci a possí vel no capi tal i smo. De fato, nos
paí ses capi tal i stas desenvol vi dos, a tendênci a secul ar tem si do a de
el evação dos sal ári os reai s e, sob este ponto de vi sta estri to, não se
pode fal ar em pauperi zação absol uta da cl asse operári a, mas só rel ati va.
Contudo, a el evação dos sal ári os reai s, embora tornada predomi nante
pel a l uta de cl asses dos operári os e pel o desenvol vi mento das forças
produti vas, não dei xa de ser mui to i rregul ar, na medi da em que a
di nâmi ca dos sal ári os depende do movi mento da acumul ação do capi tal
e não o contrári o.
Em segundo l ugar, Marx entendi a a questão da acentuação da
mi séri a dos trabal hadores numa perspecti va abrangente, que não se
referi a tão-somente aos operári os regul armente empregados e aos seus
sal ári os reai s, porém também devi a i ncl ui r o que chamou de “tormentos
do trabal ho”, bem como as condi ções de exi stênci a da massa crescente
de operári os desempregados, cujos tormentos decorri am, não do tra-
bal ho na empresa capi tal i sta, porém da fal ta del e. Fal ta temporári a,
para o exérci to i ndustri al de reserva, e fal ta permanente, para a su-
perpopul ação consol i dada (aquel a parte dos trabal hadores já sem pers-
pecti va de ocupação regul ar).
Assi m, por outro l ado, seja pel o processo espontâneo de desen-
vol vi mento das forças produti vas, seja sobretudo por efei to da l uta de
cl asses, os trabal hadores conseguem i ncorporar ao seu padrão de vi da
a sati sfação de novas necessi dades. Já no seu tempo, Marx observava
que a compra de um jornal di ári o fazi a parte do val or da força de
trabal ho do operári o i ngl ês. O mesmo cabe ser di to, hoje, com rel ação
ao aparel ho de tel evi são, no caso do operári o brasi l ei ro. Por i sso mesmo,
podem vi r a el evar-se os sal ári os reai s — medi dos em termos de ca-
paci dade aqui si ti va de val ores de uso — e o padrão de vi da dos ope-
rári os, sem que daí resul te necessari amente o aumento do sal ári o em
termos de val or (medi do em horas de trabal ho necessári as à sua re-
produção). Como é evi dente, se a el evação da produti vi dade soci al do
trabal ho ti ver provocado a queda do val or dos bens-sal ári o em certa
proporção, torna-se possí vel a el evação dos sal ári os reai s sem el evação
qual quer ou sem el evação i gual mente proporci onal do val or do própri o
sal ári o. Mai s ai nda: os sal ári os reai s podem el evar-se e conti nuar abai xo
MARX
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do val or da força de trabal ho, uma vez que este val or se tenha acresci do
por moti vo dos mai ores gastos na formação da força de trabal ho, das
exi gênci as mai s compl exas do processo de produção, da cri ação de novas
necessi dades materi ai s e cul turai s.
Em qual quer caso, todo progresso no capi tal i smo susci ta anta-
goni smos. A el evação do sal ári o real não raro vem acompanhada de
fenômenos como o desgaste mai s acentuado das energi as fí si cas e/ou
psí qui cas (constate-se, a propósi to, o al to í ndi ce de doenças mentai s
nos mei os operári os), mai or i nsegurança de manutenção do emprego,
cresci mento do número de desempregados e di l atação dos perí odos i n-
termi tentes de desocupação, o que aumenta a carga sobre os operári os
momentaneamente empregados. Não se pode tampouco di ssoci ar o es-
tudo do padrão de vi da geral da cl asse operári a da si tuação pecul i ar
daquel as camadas de trabal hadores mai s sujei tos ao desemprego e aos
bai xos sal ári os. Ao padrão de vi da dos operári os al emães ou franceses,
rel ati vamente el evado, consti tui el emento de contraste o mesqui nho
ní vel de condi ções de exi stênci a dos trabal hadores i mi grantes proce-
dentes da Europa meri di onal , Áfri ca e Ori ente Médi o. De i gual manei ra,
seri a erro grossei ro abstrai r, nos Estados Uni dos, o al to ní vel de vi da
dos operári os brancos de todos os fl agel os que se abatem sobre os
operári os negros e de ori gem l ati no-ameri cana.
A tai s fenômenos do coti di ano di to normal , acrescentem-se as
cal ami dades das cri ses econômi cas que, apesar da i nventi vi dade key-
nesi ana, conti nuam a fazer parte do ci cl o capi tal i sta.
VI. Valor e Preço — O Problema da Transformação
A expl i cação das osci l ações momentâneas dos preços de mercado
pel as vari ações na oferta e demanda só pode sati sfazer à observação
dos fenômenos em sua superfí ci e. Os economi stas, que não se conten-
tavam com a observação superfi ci al , entenderam que devi a exi sti r um
regul ador determi nante, não das osci l ações dos preços, mas do ní vel
em que el as ocorrem.
Smi th e Ri cardo defi ni ram aquel e regul ador como o val or-trabal ho.
Ao mesmo tempo, traduzi ram o val or-trabal ho em termos de preço, sem
qual quer medi ação. Por consegui nte, o preço natural (Smi th) ou o custo
de produção (Ri cardo) devi a ser i gual ao val or-trabal ho, o que cri ava i n-
sol úvel i mpasse, conforme já foi menci onado no i ní ci o da seção I V.
Marx esforçou-se no senti do de el i mi nar esta transi ção i medi ata
do concei to abstrato de val or à real i dade empí ri ca dos preços. E o fez
descobri ndo as medi ações di al éti cas que bal i zam o trajeto do val or aos
preços de mercado.
A pri mei ra medi ação consi ste na taxa de mai s-val i a, que se di s-
ti ngue da taxa de l ucro. A taxa de mai s-val i a é a rel ação entre a
mai s-val i a e o capi tal vari ável . A taxa de l ucro é a rel ação entre a
mai s-val i a e o capi tal i ndi vi dual total (soma do capi tal vari ável com
OS ECONOMISTAS
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o capi tal constante). A taxa de mai s-val i a revel a o grau de exploração
da força de trabalho, ao passo que a taxa de l ucro i ndi ca o grau de
valorização do capital. Os capi tal i stas e os economi stas, seus i ntel ec-
tuai s orgâni cos, só se i nteressam pel a taxa de l ucro, que dá ori gem à
i l usão i deol ógi ca de que o sobreproduto é cri ado pel o capi tal em conjunto
e não somente por sua parte vari ável . I l usão que reforça o feti chi smo
do capi tal .
Como, porém, a composi ção orgâni ca do capi tal di fere entre os
vári os ramos da produção, se a taxa de mai s-val i a for i gual para todos
el es (o que pode ser coerente, do ponto de vi sta teóri co, e aproxi mado,
do ponto de vi sta empí ri co), então as taxas de l ucro serão desi guai s
de um ramo para outro. Ora, a observação mai s tri vi al i ndi ca que as
taxas de l ucro não vari am em função do coefi ci ente de capi tal vari ável
de cada capi tal i ndi vi dual . Em perí odos pl uri anuai s, os capi tai s i ndi -
vi duai s val ori zam-se de acordo com uma taxa geral médi a, que não
tem rel ação com os di ferentes quanti tati vos de força de trabal ho em-
pregados pel os capi tai s i ndi vi duai s.
A formação dessa taxa médi a de l ucro resul ta da concorrênci a,
que força parte dos capi tai s a se transferi r, nas ci rcunstânci as dadas,
dos ramos com taxa de l ucro cadente para os ramos com taxa de l ucro
ascendente. Em conseqüênci a, o montante de mai s-val i a produzi do por
todos os capi tai s i ndi vi duai s se redi stri bui entre el es em proporção à
cota-parte gl obal de cada um e não à cota-parte da força de trabal ho
empregada. Certa proporção de mai s-val i a se transfere dos capi tai s
com bai xa composi ção orgâni ca para os capi tai s com al ta composi ção
orgâni ca, o que, em mei o a i numerávei s e i ncessantes fl utuações, es-
tabel ece a taxa geral ou taxa médi a de l ucro. Esta, apesar de geral,
não é uniforme em cada momento dado. Ao contrári o, em cada momento
dado, as taxas de l ucro são di ferentes nos vári os ramos da produção,
o que, preci samente, obri ga os capi tai s concorrentes a se moverem de
uns ramos para outros. É desse movi mento que resul ta a taxa médi a,
em perí odos que só podem ser pl uri anuai s, emergi ndo a taxa médi a
da al ternânci a entre taxas al tas e bai xas.
A medi ação entre a taxa de mai s-val i a e a taxa de l ucro presi de
a transformação do val or em preço de produção. A fórmul a do val or
é: capi tal constante + capi tal vari ável + mai s-val i a. A fórmul a do preço
de produção é: capi tal constante + capi tal vari ável + l ucro médi o. Aos
gastos correntes de capi tal constante e vari ável , num tempo de rotação
del i mi tado, Marx denomi na de preço de custo. Somado o preço de custo
ao l ucro médi o, proporci onal ao capi tal i ndi vi dual total i nvesti do, ob-
tém-se o preço de produção.
Recorrendo a um model o ari tméti co de ci nco setores, Marx de-
monstrou, no Li vro Tercei ro, como é possí vel a transformação do val or
em preço de produção com a si mul tânea sati sfação de duas equações:
a da i gual dade entre o total dos val ores e o total dos preços de produção;
MARX
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e a da i gual dade entre o total da mai s-val i a e o total dos l ucros. Trata-se
do que chamaremos doravante de teorema das duas i gual dades.
No modo de produção capi tal i sta, a l ei do val or mani festa-se nes-
tas duas i gual dades ao ní vel do si stema em conjunto, dado que, nas
transações si ngul ares, já não é possí vel , senão por acaso, a troca de
equi val entes. Uma vez que o preço de produção é i nexpl i cável sem o
pressuposto do val or, a l ei do val or domi na no modo de produção ca-
pi tal i sta porém o faz sob a metamorfose que converte o val or em preço
de produção.
Por consegui nte, o regul ador do ní vel das osci l ações dos preços
de mercado já não é di retamente o val or, mas sua forma transfi gurada
de preço de produção. Contudo, entre o preço de produção e os preços
de mercado, Marx col ocou mai s uma medi ação categori al — a do valor
de mercado. Cada mercadori a é l ançada à venda com um val or i ndi -
vi dual , a parti r do qual deverá concorrer com as mercadori as congêneres
do mesmo setor. Grosso modo, conforme a produti vi dade técni ca apl i -
cada à sua produção e o grau de expl oração da força de trabal ho, as
mercadori as se di stri buem em três grupos: a) o de preço de produção
i gual à médi a soci al mente necessári a; b) o de preço de produção superi or
à médi a; c) o de preço de produção i nferi or à médi a. Se a demanda
das mercadori as em questão for mai or do que sua oferta, os preços de
mercado tenderão a osci l ar no patamar do grupo cujo preço de produção
é superi or à médi a, no qual se si tuará o val or de mercado, moti vo por
que os doi s outros grupos auferi rão um superl ucro. Em caso contrári o,
sendo a oferta superi or à demanda, o val or do mercado descerá ao
patamar do grupo com preço de produção i nferi or à médi a, ou seja, do
grupo com mai s al to í ndi ce de produti vi dade, cujo l ucro corresponderá
à taxa médi a, enquanto os demai s operarão abai xo del a, até mesmo
com prejuí zo. Somente no caso de coi nci dênci a aproxi mada entre oferta
e demanda é que os preços de mercado osci l arão no patamar do preço
de produção e do val or de mercado do grupo médi o, o que propi ci ará
superl ucro ao grupo de preço de produção i nferi or, ao passo que o
grupo de preço de produção superi or não consegui rá chegar à taxa
médi a de l ucro.
Percebe-se, portanto, que, ao contrári o da crí ti ca de Böhm-Bawerk
e de opi ni ões correntes, Marx não desprezou a cel ebrada l ei da oferta
e da demanda. Só que admi ti u sua atuação apenas à superfí ci e dos
fenômenos econômi cos e rejei tou a expl i cação psi col ogi sta dessa atua-
ção, posteri ormente desenvol vi da pel a corrente margi nal i sta, com a
teori a subjeti va do val or. A oferta depende da aproxi mação dos preços
de mercado com rel ação ao preço de produção. Em úl ti ma i nstânci a,
portanto, dado certo preço de custo, depende de que o capi tal i sta ob-
tenha a taxa médi a de l ucro. Em caso contrári o, reduzi rá sua oferta
ou transferi rá seu capi tal para outro ramo. Mas a taxa médi a de l ucro
é determi nada por fatores como a taxa de expl oração da força de tra-
OS ECONOMISTAS
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bal ho e a composi ção orgâni ca do capi tal , que nada têm a ver com
i ncl i nações subjeti vas. Do outro l ado, a demanda, por mai s que a i n-
fl uenci em preferênci as i ndi vi duai s, está antes de tudo subordi nada à
prévi a di stri bui ção dos rendi mentos, de acordo com a estrutura de
cl asses exi stente. De nada adi anta ao operári o ter as mesmas prefe-
rênci as i ndi vi duai s do seu patrão. A demanda efeti va do pri mei ro só
terá opções dentro dos l i mi tes do sal ári o, enquanto o segundo di sporá
do l ucro para consumo conspí cuo e i nvesti mento.
A publ i cação do Li vro Tercei ro de O Capital se deu vi nte e sete
anos após a do Li vro Pri mei ro. Já então, a teori a marxi ana conqui stara
certa atenção nos mei os acadêmi cos, entre os quai s se aguardava a sol ução,
anunciada por Engels, da contradição entre val or e preço. Assi m que
chegou às pratel ei ras das l i vrari as, o Li vro Tercei ro desencadeou uma
pol êmi ca que, embora vari ando de aspectos, prossegue até hoje.
Conrad Schmi dt e Werner Sombart afi rmaram de i medi ato que o
val or não passava de construção l ógi ca, uma vez que só o preço de produção
tem exi stência históri ca concreta. Engel s apressou-se a refutá-l os, escre-
vendo um ensai o que se i ntegrari a no Li vro Tercei ro com o caráter de
compl emento. Se a afi rmação de Engel s sobre a atuação da l ei do val or
há vári os mi l êni os carece, como já foi di to, de fundamentação hi stori o-
gráfi ca, suas i ndi cações acerca da formação da taxa médi a de l ucro nos
pri mórdi os do capi tal i smo são perti nentes e sugesti vas.
Em 1896, já quando as ci nzas de Engel s havi am desapareci do
no Mar do Norte, foi publ i cado o ensai o crí ti co de Böhm-Bawerk. Re-
di gi do com ri gor acadêmi co e assi nado por um dos mestres emi nentes
do margi nal i smo, o ensai o defi ni u o padrão uni versi tári o de contestação
da teori a marxi sta do val or e, por consegui nte, de todo o si stema teóri co
construí do em O Capital. Na argumentação de Böhm-Bawerk, como
era de esperar, o ponto pri nci pal teri a de ser a contradi ção entre o
Li vro Pri mei ro, no qual sempre se supõe a troca de equi val entes, e o
Li vro Tercei ro, no qual a troca de equi val entes cede l ugar à troca
segundo os preços de produção. A concl usão era a de que Marx fra-
cassara na pretensão de expl i car os preços a parti r do pressuposto do
val or-trabal ho.
Em 1904, Hi l ferdi ng se i ncumbi u de rebater a crí ti ca. A par da
argumentação ci rcunstanci ada acerca da coerênci a entre os três l i vros de
O Capital, o ei xo da resposta de Hi l ferdi ng consi sti u na tese de que o
si stema da Economi a Polí ti ca marxi ana não podi a ser reduzi do a uma
teori a sobre os preços. A questão dos preços i nseri a-se no contexto mui to
mai s ampl o da anál i se das l ei s do movi mento da soci edade burguesa.
Embora sal i entasse na obra de Marx uma ri queza de el ementos
menosprezada por Böhm-Bawerk, nem por i sso Schumpeter dei xari a
de decl arar a teori a do val or-trabal ho morta e enterrada. Aduzi u, to-
davi a, a observação ori gi nal de que o val or-trabal ho se apl i cari a no
caso si ngul arí ssi mo da concorrênci a perfei ta, quando o trabal ho homo-
MARX
47
gêneo fosse o fator de produção úni co. Referi ndo-se pri nci pal mente a
Ri cardo, do qual Marx apenas teri a extraí do as conseqüênci as l ógi cas,
Myrdal vi u no concei to de val or-trabal ho uma enti dade metafí si ca, pre-
judi ci al à própri a construção teóri ca ri cardi ana. Semel hante i mputação
posi ti vi sta ao concei to, que o col oca no rei no da metafí si ca, repete-se
em Robi nson. Haveri a um confl i to entre o mi sti ci smo do Li vro Pri mei ro
e o senso comum do Li vro Tercei ro. Por fel i ci dade, segundo a autora,
o marxi smo se sal va para a ci ênci a econômi ca, uma vez que nenhum
ponto substanci al da argumentação de Marx dependeri a da teori a do
val or-trabal ho. Para Mori shi ma e Catephores, por úl ti mo, o val or não
passari a de um ti po i deal , i nstrumento heurí sti co adequado à cl ari fi -
cação do funci onamento da economi a capi tal i sta.
A pol êmi ca sobre o probl ema da transformação tomou rumo pe-
cul i ar a parti r de um arti go publ i cado em 1907, de autori a de Ladi sl aus
von Bortki ewi cz, economi sta germano-pol onês de formação ri cardi ana.
Consi derando i ncoerente que Marx começasse com val ores para chegar
aos preços de produção, argumentou el e que, já no começo, os val ores
preci savam ser cal cul ados como preços de produção. Em outros termos,
era i l ógi co fazer entrar o i nsumo como val or e obter o produto, na
saí da, como preço de produção. O si stema de equações montado por
Von Bortki ewi cz cumpri u vári as exi gênci as, porém dei xou i rresol vi da
a exi gênci a de uma das i gual dades que a transformação i mpl i ca, já
que o total dos preços de produção i ni ci ai s fi cou si tuado abai xo do
total de preços de produção fi nai s, i sto é, após a transformação da
mai s-val i a em l ucro.
A abordagem de Von Bortki ewi cz só foi retomada e revi vi da em
1942, na Teoria do Desenvolvimento Capitalista de Sweezy, que pre-
ci sou, do ponto de vi sta marxi sta, al guns aspectos do raci ocí ni o daquel e.
A parti r dos anos ci nqüenta, novas tentati vas de sol ução matemáti ca
foram empreendi das por Wi nterni tz, Seton e Mori shi ma. Usando um
processo de i terações, o úl ti mo se aproxi mou da demonstração do teo-
rema das duas i gual dades a parti r de preços de produção. Ai nda assi m,
persi sti ram condi ções restri ti vas.
A publ i cação, em 1960, do famoso trabal ho de Sraffa (Produção
de Mercadorias por Meio de Mercadorias) foi recebi da favoravel mente
nos mei os marxi stas por trazer uma crí ti ca ori gi nal e coerente aos
fundamentos da corrente margi nal i sta ou neocl ássi ca. Mai s do que
i sso, a obra de Sraffa foi saudada por Meek e Dobb como contri bui ção
deci si va à sol ução do probl ema da transformação dos val ores em preços
de produção. Para el es e vári os outros marxi stas, a mercadori a-padrão
pareceu consti tui r o el o matemáti co de que Marx careceu a fi m de
demonstrar seu teorema das duas i gual dades, tendo os preços de pro-
dução como pontos de parti da e de chegada.
Essa aval i ação tão al vi ssarei ra da obra de Sraffa não se gene-
ral i zou, contudo, entre os marxi stas. Se, por um l ado, era preci so ad-
OS ECONOMISTAS
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mi ti r o méri to da crí ti ca aos postul ados neocl ássi cos, tampouco era
possí vel fechar os ol hos à oposi ção entre Marx e Sraffa, uma vez que
o úl ti mo col ocara sua demonstração do movi mento dos preços sobre a
base das quanti dades fí si cas das mercadori as (retornando ao enfoque
de Ri cardo no seu Essay on Profits, de 1815, com a di ferença de que
substi tuí a o tri go por uma mercadori a composta). Do ponto de vi sta
teóri co, i sso equi val i a a tomar por um atal ho que excl uí a o val or-tra-
bal ho, a mai s-val i a e a composi ção orgâni ca do capi tal . Que excl uí a,
por consegui nte, o essenci al da Economi a Pol í ti ca marxi ana. Seri a pos-
sí vel sal var esta úl ti ma com base no própri o Sraffa, ou seja, na sua
demonstração neo-ri cardi ana do movi mento dos preços e da di stri bui ção
do produto soci al ?
Tentou-o Garegnani , porém é forçoso reconhecer que o fez de
manei ra a reti rar com uma das mãos o que concedi a com a outra. O
resul tado foi a muti l ação do si stema de Marx para que pudesse caber
no de Sraffa, convertendo este úl ti mo num verdadei ro l ei to de Procusto.
Consci ente da i ncompati bi l i dade, Napol eoni optou por Sraffa e,
com um radi cal i smo coerente, afi rmou que, depoi s del e, o marxi smo
não podi a mai s contar com a ci ênci a econômi ca e se deveri a “começar
tudo de novo”.
Tai s as coordenadas de uma pol êmi ca sobre a qual a l i teratura
i nternaci onal já é pl etóri ca, cabendo regi strar também a contri bui ção
brasi l ei ra.
A nosso ver, a abordagem da transformação do val or em preço
de produção, i ni ci ada por Von Bortki ewi cz, confundi u um probl ema
fal so com um verdadei ro. Semel hante confusão persi ste e i mpede que
se al cance cl areza acerca da questão.
O probl ema falso consi ste em pretender demonstrar o teorema
das duas i gual dades a parti r de preços de produção. Mesmo que i sto
seja consegui do sem condi ções restri ti vas, o teorema não fi cará de-
monstrado por moti vo de carênci a l ógi ca. Para demonstrá-lo, é preciso
partir de valores, como fez Marx. Porque só assi m estará provado que,
quai squer que sejam os preços das mercadori as e a não-equi val ênci a
nas suas trocas si ngul ares, a soci edade di sporá uni camente da soma
de val ores i gual àquel a i ncorporada às mercadori as (nem mai s, nem
menos), enquanto a cl asse capi tal i sta não terá senão um l ucro total
i gual à mai s-val i a total (nem mai s nem menos). O enfoque metodol ógi co
não pode ser di ferente no caso, embora seja l í ci to substi tui r, se possí vel ,
o procedi mento ari tméti co marxi ano por outro al gébri co atual i zado. O
própri o Marx não foi especi al i sta em matemáti ca, porém Mori shi ma,
autori dade no assunto, el ogi a suas i ntui ções e contri bui ções no âmbi to
da Economi a matemáti ca. Marx aprovari a certamente a el aboração
matemáti ca moderna de suas teses sob a condi ção, está cl aro, de que
não se autonomi zassem os aspectos quanti tati vos com rel ação aos qua-
MARX
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l i tati vos, o que conduzi ri a, como se deu com a escol a neocl ássi ca, a
fórmul as vazi as de substânci a hi stóri co-soci al .
O probl ema verdadeiro foi apontado pel o própri o Marx, que não
i gnorava já entrarem as mercadori as no preço de custo cal cul adas pel o
preço de produção e não pel o val or. Adverti u que i sso poderi a i nduzi r
a erro, quando se i denti fi ca o preço de custo da mercadori a com o val or
dos bens nel a consumi dos. Não obstante, afi rmou que a questão não
requeri a exame pormenori zado para o estudo da transformação de va-
l ores em preços de produção. Ora, se é correto que Marx não preci sava
gastar energi as num aspecto deri vado da sua questão central , daí não
se segue que tal aspecto não mereça a atenção dos economi stas e se
afi rme não haver nenhum probl ema. Bem pel o contrári o, é justi fi cável
que se i nvesti gue a conversão do i nsumo em produto, tomados ambos
como preços de produção. O que não se pode absol utamente pretender
desta manei ra, conforme tem si do questão de pri ncí pi o para tantos
pesqui sadores, é chegar a al guma fórmul a de equi l í bri o geral , ao menos
se nos ati vermos aos pressupostos marxi stas fundamentai s.
Por úl ti mo, uma apreci ação de natureza epi stemol ógi ca.
Se é i nconcebí vel a teori a econômi ca do capi tal i smo sem a de-
monstração dos fatores do movi mento dos preços — o que para Marx
era evi dente, tanto se esforçou a fi m de el i mi nar o i mpasse em que,
a este respei to, fi caram Smi th e Ri cardo —, daí não se segue, todavi a,
que a questão especi al dos preços deva ser consi derada, em si mesma,
a pedra de toque da veraci dade dos si stemas de teori a econômi ca. Como
também é i nconsi stente pretender que a demonstração mai s di reta e
si mpl es seja, por um sequitur l ógi co, a verdadei ra.
Os preços consti tuem evi dênci a fenomenal de processos econômi -
cos profundos e a expl i cação restri ta dos preços, por mai s sofi sti cada
que se apresente no tratamento matemáti co, na anál i se estatí sti ca etc.,
não col ocará em foco as forças que l hes são subjacentes. A teori a mar-
xi ana abarcou os processos profundos num ampl o conjunto — o das
rel ações de produção e das l ei s que l hes determi nam o desenvol vi mento
— e sua val i dade ci entí fi ca não deve ser jul gada senão em função
desse enfoque. A parti r del e, a demonstração do movi mento dos preços
não di spensa o desvio do val or-trabal ho, da mai s-val i a e da composi ção
orgâni ca do capi tal . Tal desvi o não consti tui um compl i cador desne-
cessári o, conducente à i nvenção de entes de razão, mas é i mposto à
teori a pel a própri a real i dade das soci edades em que não pode ser di reta
a di vi são soci al do trabal ho entre propri etári os pri vados dos mei os de
produção e de subsi stênci a. Em tai s soci edades, a di vi são soci al do
trabal ho se real i za i ndi retamente, por mei o do desvi o do val or, com
base no qual se demonstra mui tí ssi mo mai s do que o movi mento dos
preços. Justamente a parti r do val or-trabal ho é que Marx pôde el uci dar
a contradi ção fundamental do modo de produção capi tal i sta como sendo
a contradi ção entre a forma pri vada de apropri ação e o caráter soci al
OS ECONOMISTAS
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do processo de produção. E ai nda a cri ação da mai s-val i a como i mpul so
motor do modo de produção capi tal i sta; a l uta de cl asses entre a bur-
guesi a e o prol etari ado como i nerente à formação soci al capi tal i sta; a
di nâmi ca entre acumul ação de capi tal e exérci to i ndustri al de reserva;
as contradi ções da reprodução do capi tal soci al total e a necessi dade
de sua trajetóri a cí cl i ca; o i mpul so do capi tal ao desenvol vi mento má-
xi mo das forças produti vas e o l i mi te cada vez mai s estrei to que o
própri o capi tal i mpõe a esse desenvol vi mento; a l ei da queda tendenci al
da taxa de l ucro enquanto expressão concentrada das contradi ções do
capi tal i smo. Com i ntei ra razão, enfati zou Bob Rowthorn que a probl e-
máti ca da Economi a Pol í ti ca marxi sta se di ferenci a profundamente da
neo-ri cardi ana, sendo perda de tempo enfocar a probl emáti ca marxi sta
pel a vi a do si stema de Sraffa.
Em segui da a Marx, cabe admi ti r que a questão dos preços re-
cebeu escasso tratamento por parte dos economi stas marxi stas, fi cando
o tema entregue à corrente neocl ássi ca. A este respei to, uma exceção
foi a de Rubi n, que consegui u demonstrar como a expl i cação margi na-
l i sta da di nâmi ca dos preços, fei ta por Marshal l , podi a ser substi tuí da
por uma expl i cação baseada no val or-trabal ho. A demonstração do eco-
nomi sta russo vei o confi rmar que a teori a especi al dos preços di spunha
de condi ções para ser desenvol vi da com sufi ci ente coerênci a nos quadros
si stemáti cos da Economi a Pol í ti ca marxi sta. I ncl usi ve com o aprovei -
tamento da contri bui ção de outras correntes do pensamento econômi co,
a exempl o, nos anos recentes, da contri bui ção neo-ri cardi ana.
VII. Tendências do Desenvolvimento do
Modo de Produção Capitalista
O si stema teóri co marxi ano di sti ngue-se pel a exposi ção das ten-
dênci as di nâmi cas i nerentes ao modo de produção capi tal i sta, as quai s,
se l he i mpul si onam o cresci mento, ao mesmo tempo desenvol vem suas
contradi ções i nternas e o conduzem à decadênci a e à substi tui ção por
um novo modo de produção.
O modo de produção capi tal i sta não é vi sto, por consegui nte,
como encarnação da raci onal i dade supra-hi stóri ca, nem suas l ei s es-
pecí fi cas assumem o caráter de l ei s naturai s, cuja suposta i manênci a
à natureza humana i mpori a a adequação eterna das i nsti tui ções soci ai s
às exi gênci as de sua l i vre atuação. A concepção di al éti ca marxi sta opôs-
se à tradi ção jusnatural i sta da i deol ogi a burguesa, que i mpregnou os
cl ássi cos da Economi a Pol í ti ca. Por i sso mesmo, o modo de produção
capi tal i sta não é vi sto como aberração, nem tampouco o foram, antes
del e, os modos de produção asi áti co, escravi sta e feudal . Todos repre-
sentam grandes etapas do desenvol vi mento hi stóri co, cujo pri ncí pi o
expl i cati vo resi de na correspondênci a entre as rel ações de produção e
o caráter das forças produti vas. A cessação de tal correspondênci a torna
os homens consci entes, cedo ou tarde, da necessi dade de substi tui r o
MARX
51
modo de produção decadente por um novo modo de produção, ou seja,
no essenci al , da necessi dade de favorecer a i mpl antação e expansão
de novas rel ações de produção adequadas ao desenvol vi mento desobs-
truí do das forças produti vas. O modo de produção capi tal i sta, em vi r-
tude das contradi ções do seu própri o movi mento, teri a de ceder l ugar
ao modo de produção comuni sta. Se foi enfáti co no concernente a esta
concl usão, Marx não dei xou senão escassas e suci ntas i déi as acerca
das caracterí sti cas do comuni smo. Rejei tou as i deal i zações utópi cas e
ateve-se àquel as i nferênci as possí vei s a parti r do própri o capi tal i smo.
Marx se pretendi a ci enti sta e não profeta.
Os temas a segui r abordados foram escol hi dos pel a rel evânci a
que assumem na concepção marxi ana sobre a di nâmi ca do modo de
produção capi tal i sta.
O capital social total e as contradições de sua reprodução
No Li vro Segundo — conforme já observado, aquel e mai s dedi cado
à macroeconomi a —, Marx buscou escl arecer como era possí vel efeti -
var-se a reprodução do capi tal soci al total , uma vez que este se cons-
ti tuí a de numerosos capi tai s i ndi vi duai s concorrentes, cuja atuação,
pel a própri a natureza do capi tal i smo, pressupunha a ausênci a de su-
bordi nação a uma pl ani fi cação central i zada.
Todo modo de produção deve ser também um modo de reprodução.
Por força, no fundamental , dos mecani smos econômi cos e também pel o
suporte que o modo de produção recebe das i nsti tui ções pol í ti co-jurí di cas
consol i dadas, da i deol ogi a domi nante, dos costumes da vi da coti di ana
etc., cada ci rcui to da produção é sucedi do por novo ci rcui to, numa rei -
teração i ncessante. De outra manei ra, seri a i nevi tável a cessação da
exi stênci a da própri a soci edade. Se a evi dênci a empí ri ca comprova que
a reprodução também ocorre na formação soci al capi tal i sta, a questão
a el uci dar consi ste na demonstração de como i sto é possí vel num regi me
em que a produção soci al i zada se real i za entre as paredes de empresas
de propri edade pri vada.
O fei to de Marx, no Li vro Segundo, encontrou precedente e fonte
de i nspi ração no Tableau Économique de Quesnay. Marx o ti nha em al ta
conta e real çou sua grande si gni fi cação ci entí fi ca. Não obstante, entre o
Tableau e os esquemas da reprodução do Li vro Segundo medei a uma
di stânci a enorme, de cujos marcos basi l ares basta assi nal ar o pri mei ro:
a teori a do val or-trabal ho, ausente na concepção do precursor francês.
Os esquemas da reprodução formul am-se em termos de val or,
di scri mi nando-se o produto soci al anual em três partes: capi tal cons-
tante, capi tal vari ável e mai s-val i a. Ao mesmo tempo, o produto soci al
tem a composi ção bi ssegmentada por uma grande l i nha di vi sóri a de-
termi nada, não pel o val or, mas pel o val or de uso. Em conseqüênci a,
o produto soci al procede de doi s departamentos: o Departamento I —
produtor de bens de produção; e o Departamento I I — produtor de
OS ECONOMISTAS
52
bens de consumo (de capi tal i stas e operári os, úni cas cl asses i ncl usas
no model o). Por consegui nte, a fi m de que decorra sem tropeços, a
reprodução anual do capi tal soci al total depende de que o produto
soci al possua uma composi ção quantitativa proporci onal em termos de
val or e, ao mesmo tempo, uma composi ção qualitativa proporci onal em
termos de val or de uso. O i ntercâmbi o mercanti l se efeti va dentro de
cada Departamento e entre ambos.
Marx el aborou doi s model os matemáti cos de esquemas, que sa-
ti sfazem todos os requi si tos da proporci onal i dade. O pri mei ro esquema
é o da reprodução simples, no qual se supõe que os capi tal i stas gastam
toda mai s-val i a no consumo pessoal , de tal manei ra que o produto
soci al se repete em di mensões i guai s às anteri ores. No funci onamento
do capi tal i smo, a reprodução si mpl es não consti tui senão momento
abstrato da reprodução ampliada. Já nesta, uma parte da mai s-val i a,
em vez de absorvi da pel o consumo pessoal , é produti vamente i nvesti da,
daí decorrendo a reprodução do produto soci al em di mensões i ncre-
mentadas. Dados os i mperati vos da acumul ação do capi tal , a reprodução
ampl i ada é uma exi gênci a do modo de produção capi tal i sta e sua não-
efeti vação si gni fi ca i ndí ci o de cri se.
Os model os matemáti cos marxi anos da reprodução do capi tal so-
ci al total não são fórmul as di nâmi cas, mas a fi xação abstrata de um
i nstantâneo, al go assi m como um flash fotográfi co que capta condi ções
fugazes da reprodução em estado de compl eto equi l í bri o. Desses model os
não se podem i nferi r senão os requi si tos essenci ai s à reprodução equi -
l i brada do capi tal soci al total . A i nferênci a acerca da continuidade de
tai s requi si tos se contrapõe à argumentação do Li vro Segundo.
No processo de ci rcul ação, o capi tal atravessa as fases de capi tal
di nhei ro, capi tal produti vo e capi tal mercadori a. A fi m de retornar à con-
fi guração i ni ci al de capi tal di nhei ro, é necessári a a realização do capi tal
mercadori a, o que si gni fi ca, em termos correntes, preci samente a venda
das mercadori as produzi das. Já aí aparecem tropeços rei nci dentes, uma
vez que os atos de compra e venda, i ntermedi ados pel o di nhei ro, não se
efetuam na vel oci dade i deal ou si mpl esmente dei xam de se efetuar. Na
real i dade capi tal i sta, a oferta nem sempre cri a a procura correspondente.
A esta al tura, cumpre acentuar ter si do, mui to antes de Keynes, a chamada
“l ei dos mercados” de Say submeti da à crí ti ca radi cal de Marx, que, ao
mesmo tempo, rejei tou a teori a subconsumi sta de Si smondi , apesar de
apreci ar sua posi ção de crí ti co do capi tal i smo.
Mas os obstácul os à reprodução fl uente e desi mpedi da procedem
ai nda de vári as outras caracterí sti cas da produção capi tal i sta, cuja
fi nal i dade vi tal consi ste na val ori zação do capi tal . Procedem das di fe-
renças dos tempos de rotação entre os capi tai s i ndi vi duai s dos di versos
ramos i ndustri ai s e entre o capi tal fi xo e o capi tal ci rcul ante na com-
posi ção de cada capi tal i ndi vi dual . Procedem da especi al i zação de fun-
ções entre o capi tal i ndustri al , o capi tal comerci al e o capi tal bancári o,
MARX
53
cada qual submeti do a gi ros própri os, em di scordânci a mai or ou menor
com os demai s, de tal manei ra que a concordânci a representa mero
acaso (tema que tornará a ser abordado no Li vro Tercei ro). Procedem
das i novações tecnol ógi cas, que al teram os requi si tos das proporções
anteri ores de composi ção do produto soci al sob o aspecto do val or de
uso. Procedem, enfi m, da práti ca mai or ou menor do entesouramento,
em resposta a caracterí sti cas objeti vas da reprodução ou a expectati vas
subjeti vas dos capi tal i stas.
De tudo i sso não se segue que a reprodução do capi tal soci al
total seja i mpossí vel , mesmo nas condi ções de si stema fechado, que é
o pressuposto permanente da construção teóri ca marxi ana, entrando
o comérci o exteri or como fator conti ngente. Da argumentação marxi ana
decorre tão-somente que a efeti vação da reprodução do capi tal soci al
total não se dá em estado de equi l í bri o. Este estado é apenas uma
tendênci a atuante em mei o a i numerávei s e i ncessantes desequi l í bri os,
cuja autocorreção pel o mercado não i mpede que preval eça a acentuação
da desproporci onal i dade e a superacumul ação de capi tal em face da
demanda solvente (o mesmo que demanda efetiva, na termi nol ogi a key-
nesi ana). Si tuação que, no ápi ce, desemboca e se resol ve na cri se cí cl i ca.
Os esquemas marxi anos da reprodução do capi tal soci al total
ensejaram acesas pol êmi cas já no fi nal do sécul o passado. Tugan-Ba-
ranovski , destacadamente, extrai u del es a concl usão de que o capi ta-
l i smo poderi a desenvol ver-se a perder de vi sta, a sal vo de cri ses eco-
nômi cas, se fossem cumpri dos os requi si tos da proporci onal i dade da
reprodução. Tai s requi si tos, por sua vez, di spensari am a exi gênci a de
ampl i ação do consumo pessoal , sendo possí vel i magi nar o capi tal i smo
funci onando com o prol etari ado consti tuí do por um úni co i ndi ví duo.
Embora recusasse a loucura metódica de Tugan-Baranovski , admi ti u
Hi l ferdi ng estar i mpl í ci ta nos esquemas marxi anos uma concepção har-
moni ci sta e afi rmou que, com base nel es, seri a i mpossí vel provar a
derrocada i nel utável do capi tal i smo.
Os esquemas marxi anos consti tuí ram, no entanto, um dos argu-
mentos centrai s apresentados por Lêni n em sua pol êmi ca com os po-
pul i stas russos. Em obras como Sobre a Questão Chamada dos Mer-
cados e O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, os esquemas
marxi anos da reprodução soci al foram uti l i zados a fi m de rebater a
tese popul i sta acerca de i mpossi bi l i dade da formação do mercado i n-
terno capi tal i sta nas condi ções russas. Conquanto recorresse às anál i ses
de Tugan-Baranovski , então um dos chamados “marxi stas l egai s”, Lê-
ni n rejei tou a i nterpretação harmoni ci sta corrente entre estes úl ti mos.
Moti vada, preci samente, pel a necessi dade de uma répl i ca à i n-
terpretação harmoni ci sta, Rosa Luxemburgo cri ti cou os esquemas mar-
xi anos e desvi ou a expl i cação da contradi ção fundamental do capi ta-
l i smo para a questão da suposta real i zação i nvi ável em face da i nsu-
fi ci ênci a dos mercados num si stema capi tal i sta fechado. I naugurava-se
OS ECONOMISTAS
54
em grande esti l o, no âmbi to do marxi smo, o enfoque subconsumi sta.
Tanto Luxemburgo como Hi l ferdi ng, embora si tuados em posi ções po-
l í ti cas mui to di ferentes no âmbi to da soci al -democraci a, não perceberam
o caráter estáti co dos model os marxi anos da reprodução soci al e con-
si deraram i mpossí vel evi tar a i nterpretação harmoni ci sta com referên-
ci a a el es.
Quando, na década dos vi nte do sécul o atual , os economi stas
sovi éti cos começaram a enfrentar os probl emas da pl ani fi cação centra-
l i zada, a teori a marxi sta da reprodução do capi tal soci al total col ocou-se
no foco das atenções e di retamente nel a se i nspi rou a metodol ogi a dos
bal anços. Foi sob a moti vação do estudo desses probl emas macroeco-
nômi cos que Leonti ef, então ai nda na Uni ão Sovi éti ca, i ni ci ou as pes-
qui sas que, nos Estados Uni dos, cul mi naram na el aboração das ma-
tri zes de i nsumo-produto.
Ai nda na década dos vi nte, a teori a marxi sta da reprodução soci al
forneceu ao economi sta sovi éti co G. Fel dman o i nstrumental concei tual
para o pri mei ro model o matemáti co do desenvol vi mento di nâmi co da
reprodução macroeconômi ca, nas condi ções do soci al i smo. Fel dman an-
teci pou-se, portanto, às fórmul as macrodi nâmi cas de Harrod e Domar,
i nspi radas na macroestáti ca de Keynes. Os keynesi anos de esquerda,
como Robi nson, apreci aram o méri to dos esquemas da reprodução do
Li vro Segundo e encontraram nel es uma das razões para sua aproxi -
mação ao marxi smo.
Os ciclos econômicos
Schumpeter, um dos pri nci pai s estudi osos modernos do tema,
afi rmou que Marx foi pi onei ro na apresentação de uma teori a consi s-
tente dos ci cl os econômi cos (e não só das cri ses), embora o fi zesse sem
concatenação si stemáti ca. Decerto, parti ndo do mundo acadêmi co oci -
dental , seri a di fí ci l el ogi o mai s emi nente à real i zação de Marx.
É fato que não encontramos, em O Capital, uma exposi ção si s-
temáti ca sobre os ci cl os econômi cos. As referênci as são fragmentári as
e se acham di spersas nos três Li vros e ai nda em outras obras como
Teorias da Mais-Valia. O estudo da teori a marxi ana dos ci cl os só é
possí vel com a reuni ão de todas essas referênci as, l evando-se em conta
o contexto em que cada uma está i nseri da. Justamente a fal ta ou a
di fi cul dade de semel hante enfoque abrangente tem acentuado as di fe-
renças de exegese e as posi ções pol êmi cas.
Ao estudar, no Li vro Segundo, a reprodução do capi tal soci al
total , assi nal ou Marx, em di versas passagens, a natureza cí cl i ca dessa
reprodução. Ul trapassada a fase de cri se, cada ci cl o se renova através
de fases sucessi vas de depressão, reani mação e auge, que desemboca
na cri se segui nte, a parti r da qual se ori gi na novo ci cl o. Esta natureza
cí cl i ca do movi mento da reprodução tem a causa fundamental no i m-
pul so i nel utável do capi tal à sua val ori zação (de outra manei ra, não
MARX
55
seri a capi tal ), o que o l eva a chocar-se numa frente geral , peri odi ca-
mente, com as barrei ras que a própri a val ori zação cri a para o desen-
vol vi mento das forças produti vas. Tai s barrei ras i nexi sti ri am se o ca-
pi tal não preci sasse val ori zar-se e conduzi r a acumul ação i l i mi tada a
col i di r com a forma capi tal i sta de sua concreti zação.
Quatro aspectos pri mordi ai s do movi mento cí cl i co foram aborda-
dos por Marx.
O pri mei ro consi sti u na defi ni ção das barrei ras pri nci pai s que o
própri o capi tal ergue à sua expansão. Duas são estas barrei ras pri n-
ci pai s: a) a desproporci onal i dade do cresci mento dos vári os ramos da
produção, em parti cul ar a desproporci onal i dade entre os Departamen-
tos I (produtor de bens de produção) e I I (produtor de bens de consumo);
b) a expl oração dos trabal hadores que rebai xa o ní vel de consumo das
massas ou i mpede sua el evação nas proporções de uma demanda sol -
vente compatí vel com a ampl i ação da oferta. Ambas as barrei ras não
consti tuem conti ngênci as el i mi návei s, porém surgem i nexoravel mente
da contradi ção entre o i mpul so à acumul ação do capi tal e o envol tóri o
cada vez mai s estrei to das rel ações de produção capi tal i stas.
O segundo aspecto refere-se ao descol amento e à autonomi zação
da esfera bancári a com rel ação à esfera produti va de atuação do capi tal .
A possi bi l i dade de o capi tal bancári o cri ar moeda escri tural dá ensejo
à expansão do crédi to em ri tmo mai s vel oz do que o da produção real .
Daí se exacerbarem as tendênci as especul ati vas que, por fi m, já nada
têm a ver com as condi ções vi ávei s de real i zação das mercadori as pro-
duzi das e, portanto, de sua conversão em capi tal di nhei ro.
O tercei ro aspecto foi o da caracteri zação da base técni co-materi al
para o movi mento cí cl i co. Segundo Marx, essa base se encontrari a na
peri odi ci dade da renovação do capi tal fi xo, por exi gênci a do desgaste
fí si co e da obsol escênci a tecnol ógi ca. No sécul o XI X, tal peri odi ci dade
era aproxi madamente decenal , ou seja, a renovação em grande escal a
do capi tal fi xo forneci a, a cada dez anos, o ponto de parti da de um
novo ci cl o. Embora Marx não houvesse apresentado uma demonstração
técni ca-empí ri ca da sua tese, é i negável que nel a expôs uma i déi a
depoi s detal hada e aprofundada nos estudos da função do i nvesti mento
nos ci cl os econômi cos.
O úl ti mo aspecto di z respei to às cri ses, tomadas como fase de
desenl ace do ci cl o econômi co.
É por demai s cl aro e i ncontestável que Marx recusou a i déi a de
que a cri se cí cl i ca se desencadeasse por efei to da i nsufi ci ênci a da de-
manda sol vente (ou demanda efeti va). Fri sou que, justamente na fase
de auge, antecedendo a cri se de manei ra i medi ata, a oferta de empregos
se ampl i a ao máxi mo e os sal ári os sobem ao patamar mai s al to possí vel .
Por conseqüênci a, a cri se não se segue a uma queda do consumo, porém,
mui to ao contrári o, à sua el evação mai s acentuada nas condi ções es-
pecí fi cas do capi tal i smo.
OS ECONOMISTAS
56
O que sucede é que a el evação conjuntural dos sal ári os — nas
condi ções de exaustão do exérci to i ndustri al de reserva — i mporta em
decremento da taxa de mai s-val i a e, por consegui nte, da taxa de l ucro,
o que, por sua vez, desacel era e acaba freando o processo de acumul ação
do capi tal . Mas esta mesma el evação conjuntural dos sal ári os resul ta
da prévi a superacumul ação de capi tal em que o auge do ci cl o cul mi na
e conduz à mobi l i zação compl eta ou quase compl eta do efeti vo operári o
di sponí vel . A superacumul ação do capi tal traz consi go o agravamento
da desproporci onal i dade entre os doi s departamentos da produção soci al
e a superprodução de mercadori as postas à venda, acabando por pro-
vocar i nsufi ci ênci a catastrófi ca de demanda e cri se aguda de real i zação
sobretudo de bens de produção. Tal i nsufi ci ênci a da demanda não cons-
ti tui , portanto, causa, mas conseqüênci a da superprodução, entendi da,
antes de tudo, como superprodução de capi tal . A expansão da produção
al ém das barrei ras ergui das pel o própri o capi tal i nci de na esfera do
crédi to e termi na por susci tar drásti ca retração das di sponi bi l i dades
l í qui das, o que, por sua vez, agrava a retração dos i nvesti mentos.
A sí ntese aci ma não deve ser tomada por model o uni forme para
todas as cri ses cí cl i cas. Marx observou que o andamento de cada uma
del as apresentava pecul i ari dades, porém consi derou que os fatores enu-
merados ti nham atuação general i zada.
As cri ses cí cl i cas cumprem a função precí pua de recuperação pas-
sagei ra do equi l í bri o do si stema capi tal i sta, justamente por haver sua
tendênci a ao desequi l í bri o ati ngi do um grau paroxí sti co. Mas este equi -
l í bri o momentâneo só se efeti va medi ante tremenda devastação das
forças produti vas até então acumul adas. Devastação mani festada na
depreci ação das mercadori as ou si mpl esmente na destrui ção dos esto-
ques i nvendávei s, no surgi mento de al to grau de capaci dade oci osa
nas empresas, na fal ênci a de mui tas del as e sua absorção por outras
a preço vi l , na desval ori zação geral do capi tal e, por fi m, no desemprego
maci ço, que i nuti l i za grande parte da força produti va humana e re-
consti tui , em proporções mai ores, o exérci to i ndustri al de reserva.
A desval ori zação geral do capi tal , a reconsti tui ção do exérci to
i ndustri al de reserva e a renovação do capi tal fi xo permi tem a el evação
da taxa de l ucro depri mi da pel a conjuntura e seri am, por consegui nte,
os fatores deci si vos que i mpel em a economi a capi tal i sta a ul trapassar
a depressão subseqüente à cri se e atravessar, mai s uma vez, as fases
de reani mação e auge do ci cl o econômi co.
Observe-se que não há em Marx qual quer referênci a aos chama-
dos ci cl os l ongos, cuja ocorrênci a foi pri mei ro assi nal ada por Kondrati ef
e, mai s tarde, estudada por Schumpeter e Mandel . Somente os ci cl os
de escal a decenal foram exami nados na bi bl i ografi a marxi ana.
A teori a marxi ana sobre os ci cl os econômi cos foi posta em causa
por uma corrente, surgi da no própri o sei o do marxi smo no fi nal do
sécul o passado e cel ebri zada pel a desi gnação pejorati va de “revi si oni s-
MARX
57
ta”. Eduard Bernstei n, seu l í der, argumentou que as cri ses econômi cas
vi nham se tornando cada vez mai s fracas e que o capi tal i smo já possuí a
i nstrumentos organi zaci onai s (central i zação bancári a, cartel i zação, ve-
l oci dade das comuni cações) que o capaci tavam a evi tá-l as. Contra a
argumentação de Bernstei n, que propugnava a conqui sta do soci al i smo
pel o cami nho das reformas graduai s, pol emi zaram Kautsky e Luxem-
burgo. Enquanto Kautsky prognosti cou um futuro estado fi nal de de-
pressão crôni ca para o capi tal i smo, Luxemburgo desenvol veu a con-
cepção sobre o subconsumo estrutural i nerente ao própri o si stema ca-
pi tal i sta, daí i nferi ndo que sua exi stênci a dependi a do i ntercâmbi o
com um ambi ente não-capi tal i sta. Neste í nteri m, fora do campo do
marxi smo, os ci cl os econômi cos foram estudados por Aftal i on e Mi tchel l ,
numa época, preci samente, em que o domí ni o da corrente neocl ássi ca
nos mei os acadêmi cos concedi a ao tema atenção negl i gente, dada a
premi ssa do equi l í bri o autocorreti vo do emprego dos fatores num mer-
cado concorrenci al , no qual as cri ses apenas seri am aci dentes de per-
curso devi das a erros do Estado, dos agentes econômi cos etc.
A Grande Depressão de 1929-1933 abal ou o edi fí ci o teóri co neo-
cl ássi co e propi ci ou a ecl osão da revol ução keynesi ana. A i déi a (el abo-
rada, de manei ra i ndependente, por Keynes e Kal ecki ) de que as cri ses
poderi am ser submeti das a certo grau de control e e atenuadas pel a
i ntervenção do Estado burguês representou i novação vál i da também
para a Economi a Pol í ti ca marxi sta. A i novação, surgi da de moti vação
práti ca, susci tou estudos objeti vos dos mecani smos da economi a capi -
tal i sta, os quai s produzi ram aqui si ções teóri cas i mportantes. Não resta
dúvi da de que parti u de Keynes a i nspi ração para a reaproxi mação
do pensamento acadêmi co à real i dade concreta do capi tal i smo. No cam-
po mesmo do marxi smo, certas i déi as de Keynes reforçaram o enfoque
subconsumi sta e confl uí ram para as teses sobre a tendênci a do capi -
tal i smo monopol i sta à estagnação permanente. Tal é o caso das teses
de Kal ecki , Stei ndl , Baran e Sweezy. Em conseqüênci a, obscureci a-se
ou perdi a-se a perspecti va do ci cl o, na acepção marxi ana.
Em contraparti da, não fal taram os keynesi anos que, i nspi rados no
própri o mestre, consi deraram não só que as cri ses poderi am ser atenuadas
pel o Estado burguês, como seri a possí vel el i mi ná-l as de todo e manter
i ndefi ni damente o equi lí bri o do pl eno emprego nas condi ções do capi ta-
l i smo. Embora crí ti co de Keynes, o marxi sta i ngl ês Ronal d Meek não
dei xou de se contagi ar pel o oti mi smo keynesi ano e, no ambi ente de pros-
peri dade capi tal i sta mundi al dos anos sessenta, i ncl ui u a tese sobre a
i nevi tabi l i dade das cri ses entre os fracassos teóri cos de Marx.
A cri se defl agrada em 1980 fez a economi a mundi al i ngressar
numa depressão (ou recessão) que só cede em gravi dade à de 1929-1933.
Segundo o Economic Outlook da OCDE (Organi zação para a Cooperação
e o Desenvol vi mento Econômi co), os 24 paí ses associ ados, entre os
quai s fi guram os mai s avançados do mundo capi tal i sta, regi straram,
OS ECONOMISTAS
58
no segundo semestre de 1982, uma taxa de desemprego de 9,0% da
força de trabal ho total , o equi val ente, em números absol utos, a 31,75
mi l hões de trabal hadores. Somente nos Estados Uni dos, neste mesmo
perí odo, o desemprego ati ngi a 10,0% da força de trabal ho do paí s, com
cerca de doze mi l hões de operári os fora do trabal ho. Já a I ngl aterra
se destacava, entre os paí ses europeus, preci samente pel a magni tude
da desocupação: em janei ro de 1983, regi strava 3,2 mi l hões de desem-
pregados, o equi val ente, em termos rel ati vos, a 13,8% da força de tra-
bal ho naci onal . O aumento extraordi nári o da capaci dade oci osa do apa-
rel ho produti vo e o desemprego maci ço também se al astraram nos paí -
ses capi tal i stas recém-desenvol vi dos, como o Brasi l , e nos paí ses sub-
desenvol vi dos em geral .
O oti mi smo keynesi ano foi , portanto, di ssol vi do pel os fatos, em-
bora não se deva subesti mar, mesmo nas condi ções atuai s, a efi cáci a
de al guns i nstrumentos anti cí cl i cos i deal i zados por Keynes e sua escol a.
Efi cáci a cuja confi abi l i dade, seja notado, fi cou di mi nuí da nos cí rcul os
da burguesi a di ante da propensão das práti cas keynesi anas a provocar
efei tos estati zantes e i nfl aci onári os cumul ati vos. O que expl i ca, decerto,
o prestí gi o conqui stado pel a escol a monetari sta de Fri edman com sua
proposta de um neol i beral i smo econômi co.
Seja como for, a evi dênci a fatual do segundo pós-guerra vei o con-
fi rmar o acerto da teori a de Marx sobre os ci cl os e as cri ses na economi a
capi tal i sta. O movi mento do modo de produção capi tal i sta conti nua a
ser não só prosperi dade, nem só depressão, mas a al ternânci a de uma
a outra. Al ternânci a bastante i rregul ar na etapa do capi tal monopol i sta,
porém tão i nevi tável quanto na etapa precedente. Em especi al , com-
provou-o a si tuação da I ngl aterra, num cabal desmenti do ao prognósti co
fei to por Meek, em 1967.
A lei da queda tendencial da taxa de lucro
Os capí tul os XI I I , XI V e XV do Li vro Tercei ro podem ser consi -
derados a súmul a concl usi va de O Capital. A apl i cação da l ógi ca di a-
l éti ca al cança al i raras cul mi nânci as e desvel a o compl exo de antago-
ni smos que consti tuem a di nâmi ca mai s profunda do modo de produção
capi tal i sta, ao mesmo tempo i mpel i ndo-o a desenvol ver as forças pro-
duti vas e a engendrar, el e própri o, o l i mi te da sua exi stênci a hi stóri ca.
A queda da taxa de l ucro já fora constatada por Smi th, que a
i nferi u da queda da taxa de juros, acerca da qual os dados estatí sti cos
eram, então, quase os úni cos confi ávei s e acessí vei s. Smi th expl i cou o
fenômeno pel a concorrênci a entre os capi tai s cada vez mai s acumul ados.
A concorrênci a i mpel i a os sal ári os para ci ma e i nduzi a a bai xa da taxa
de l ucros. Mas esta bai xa não foi vi sta sob uma perspecti va sombri a.
Na época da Revol ução I ndustri al , di fundi u-se na I ngl aterra a al egação
i deol ógi ca acerca da vantagem dos l ucros bai xos, mas abundantes e
regul ares, com o que se benefi ci ari am os capi tal i stas e toda a soci edade.
MARX
59
A vi são de Ri cardo foi bem di versa. Em pri mei ro l ugar, baseou
sua expl i cação sobre a queda da taxa de l ucros na l ei dos rendi mentos
decrescentes na agri cul tura. Uma vez que a produção agrí col a sempre
ati nge um ponto em que não sati sfaz a demanda, a agri cul tura é obri -
gada a desl ocar-se para terrenos cada vez menos fértei s e di stantes
dos centros de consumo. Em conseqüênci a, decaem os rendi mentos da
terra, aumenta a quanti dade de renda di ferenci al apropri ada pel a oci o-
sa cl asse dos landlords, enquanto sobem os preços dos gêneros al i men-
tí ci os, provocando, por sua vez, a el evação dos sal ári os nomi nai s. O
resul tado é que a taxa de l ucro se vê cada vez mai s compri mi da, até
que o si stema tomba num estado estaci onári o. Com essa expl i cação,
Ri cardo forneci a à burguesi a i ndustri al um argumento teóri co para a
l uta contra as Corn Laws, que i mpedi am a i mportação de tri go e o
barateamento dos sal ári os nomi nai s. No mesmo passo, não dei xava de
i ntui r um possí vel l i mi te ao desenvol vi mento do capi tal i smo.
Quando abordou a questão, Marx se desfez do si mpl i smo de Smi th
e rejei tou a expl i cação ri cardi ana. Argumentando que esta úl ti ma re-
l aci onava um fato soci al (a queda da taxa de l ucro) a uma causa natural
(o l i mi te de ferti l i dade das terras cul ti vávei s), Marx el aborou sua pró-
pri a teori a da renda capi tal i sta da terra, que se opõe à l ei ri cardi ana
dos rendi mentos decrescentes. Al ém de afi rmar a exi stênci a da renda
absol uta — paga pel o arrendamento da pi or terra em cul ti vo — e não
só da renda di ferenci al (a úni ca admi ti da por Ri cardo), Marx procurou
demonstrar que, teóri ca e empi ri camente, não era obri gatóri a a pas-
sagem do cul ti vo de terrenos mai s fértei s a terrenos menos fértei s.
Em vári os casos, dava-se o contrári o, o que anul ava a suposta l ei dos
rendi mentos decrescentes. A teori a marxi ana da renda da terra, no
fi nal do Li vro Tercei ro, consti tui construção de grande compl exi dade
e para el a chamamos a atenção, dado não caber aqui uma di gressão
especi al a respei to.
A expl i cação marxi ana acerca da queda hi stóri ca da taxa de l ucro
representa i nferênci a l ógi ca da sua teori a do val or, da mai s-val i a e da
composi ção orgâni ca do capi tal . Embora a taxa de l ucro seja a rel ação
do l ucro com o capi tal total (soma, por sua vez, do capi tal constante
e do capi tal vari ável ), o própri o l ucro só é cri ado pel o capi tal vari ável .
Assi m, com a mesma taxa de mai s-val i a, a redução do coefi ci ente do
capi tal vari ável no capi tal total teri a forçosamente de i mportar numa
queda da taxa de l ucro. Ora, a tendênci a hi stóri ca do capi tal i smo con-
si ste, preci samente, na el evação da composi ção orgâni ca, ou seja, na
el evação do coefi ci ente do capi tal constante no capi tal gl obal . Tal el e-
vação expressa, de uma parte, o resul tado da tendênci a à val ori zação
e à acumul ação, i mperati va para o capi tal ; de outra parte, expressa o
cresci mento da produti vi dade do trabal ho, cujos í ndi ces pri nci pai s são
o aumento da massa e do val or dos mei os de produção por trabal hador
ocupado e a redução do val or por uni dade de produto. Ao mesmo tempo,
OS ECONOMISTAS
60
o trabal ho vi vo por uni dade de produto representa proporção cada vez
menor em confronto com o trabal ho morto (correspondente à transfe-
rênci a do val or dos mei os de produção gastos na fabri cação do produto).
Não havi a, portanto, di fi cul dade l ógi ca na expl i cação da queda
da taxa geral de l ucro. A di fi cul dade advi nha do seu movi mento mui to
l ento e dos seus efei tos perceptí vei s tão-somente a l ongo prazo.
É que a mesma el evação da composi ção orgâni ca do capi tal , con-
ducente à queda da taxa de l ucro, também traz consi go efei tos contrári os
a esta queda, atenuando-a ou até aumentando a taxa de l ucro durante
certos prazos mai s ou menos prol ongados. Tai s efei tos decorrem do
cresci mento da produti vi dade do trabal ho e consi stem:
a) no barateamento dos el ementos do capi tal constante — sejam os
do capi tal fi xo, sejam os do capi tal ci rcul ante —, o que bai xa a composição
orgâni ca do capi tal e, por consegui nte, el eva a taxa de l ucro;
b) no barateamento dos bens-sal ári o, o que di mi nui o tempo de
trabal ho necessári o e, com a mesma jornada de trabal ho, aumenta o
tempo de sobretrabal ho, resul tando na cri ação de mai s-val i a rel ati va,
no aumento da taxa de mai s-val i a e, por consegui nte, no aumento da
taxa de l ucro.
Ori undos da própri a l ei , estes efei tos dão à queda da taxa de
l ucro seu caráter tendenci al i rregul ar. Mas são efei tos l i mi tados em
sua contraposi ção à queda da taxa de l ucro. O barateamento dos el e-
mentos do capi tal constante, al ém de depender, em al guma medi da,
da di sponi bi l i dade de recursos naturai s, conduz ao recrudesci mento da
acumul ação do capi tal , da qual , por sua vez, procede nova el evação da
composi ção orgâni ca, embora cresça mai s depressa a massa fí si ca de
mei os de produção por operári o do que o val or nel es i ncorporado. Quanto
à cri ação de mai s-val i a rel ati va, esta tem l i mi te absol uto i nsuperável
no di a de 24 horas, ai nda que o tempo de trabal ho necessári o se re-
duzi sse a zero.
Marx aduziu outros fatores que, sem serem consubstanci ais à atua-
ção da l ei , também contri buí am para atenuar ou deter temporari amente
a queda da taxa de l ucro. Um del es é o comérci o exteri or, que permi te
obter bens de produção e/ou bens-sal ári o mai s baratos, coi nci di ndo, por-
tanto, com os efei tos apontados aci ma. O outro fator é a exportação de
capi tai s aos paí ses atrasados, onde a taxa de l ucro costuma ser mai s
el evada, moti vo por que os l ucros dos i nvesti mentos no exteri or i mpel em
para ci ma a taxa de l ucro no paí s exportador de capi tai s.
A esta al tura, referi ndo-se à superacumul ação de capi tal , Marx
cri ou o concei to de capital excedente, ou seja, daquel a porção de capi tal
cuja apl i cação não traz nenhum acrésci mo à massa de l ucro produzi da
pel o capi tal já em função (o raci ocí ni o tem fei ção notavel mente mar-
gi nal i sta) e, em conseqüênci a, permanece oci oso ou é exportado. Ao
extrai r i nferênci as teóri cas de um fenômeno — a exportação de capi tai s
— à sua época embri onári o, mas cujas proporções vi ri am a ser gi gan-
MARX
61
tescas a parti r do fi nal do sécul o XI X, Marx fez da l ei da queda ten-
denci al da taxa de l ucro, por anteci pação, o pri ncí pi o expl i cati vo mai s
profundo da etapa i mperi al i sta do capi tal i smo.
Por fi m, embora não se rel aci one di retamente com as cri ses cí -
cl i cas, estas produzem efei to oposto à atuação da l ei . A desval ori zação
peri ódi ca do capi tal , ocorrente em cada cri se cí cl i ca, empurra para
bai xo, durante certo l apso de tempo, a composi ção orgâni ca e el eva a
taxa de l ucro, permi ti ndo, conforme já vi sto, o decurso de novo ci cl o
econômi co.
A l ei da queda tendenci al da taxa de l ucro, como escreveu Marx,
é uma faca de doi s gumes. Mani festa o i mpul so do capi tal à expansão
sem consi deração de outros l i mi tes que não o da própri a val ori zação,
com i sto obri gando-o a desenvol ver as forças produti vas. Embora te-
nham di mi nuí da sua taxa, os l ucros aumentam na sua massa à medi da
que avança a acumul ação de capi tal , o que, por sua vez, i ncrementa
ai nda mai s esta acumul ação. Mas a queda da taxa de l ucro i ndi ca que
a di reção soci al da ri queza pel o capi tal se detém nel e própri o e que o
regi me capi tal i sta de produção não consti tui a forma absol uta, porém
hi stori camente transi tóri a, da organi zação produti va.
Dada sua posi ção cruci al no si stema teóri co de O Capital, não é
de surpreender que a l ei da queda tendenci al da taxa de l ucro vi ri a
a fi gurar entre as questões mai s controversas. Em oposi ção à corrente
revi si oni sta, parti dári a da evol ução gradual do capi tal i smo, surgi u, no
campo marxi sta, um grupo de autores que i nterpretou o texto de Marx
no senti do da afi rmação da derrocada do capi tal i smo por força de me-
cani smos puramente econômi cos. Entre tai s mecani smos, a queda da
taxa de l ucro devi a ganhar especi al rel evo. Nos debates sobre a der-
rocada do capi tal i smo, Henryk Grossmann expôs um model o matemá-
ti co segundo o qual , após 35 ci cl os, a taxa de l ucro chegari a ao ponto
em que a acumul ação se tornari a i nsustentável , i mpedi ndo o prol on-
gamento da exi stênci a do capi tal i smo.
O própri o Marx i magi nou, nos Grundrisse, que o capi tal i smo al can-
çari a uma composi ção orgâni ca do capi tal tão el evada quando o trabal ho
vi vo adi ci onado, por suas proporções i nsi gni fi cantes, tornari a i nviável a
apl i cação da medi da do val or. Tratava-se aí , não obstante, de extrapol ação
especul ati va e, em O Capital, a l ei da queda tendenci al da taxa de l ucro
atua como contradição do desenvol vi mento do capi tal i smo e não como
mecani smo automáti co de sua derrocada. Na concepção marxi ana, o sur-
gi mento do soci al i smo exi ge a ação pol í ti ca revol uci onári a dos operári os,
cujo êxi to, i sto si m, será sempre condi ci onado pel o desenvol vi mento dos
fatores econômi cos e pel o aguçamento das contradi ções do si stema capi -
tal i sta, em todas as i nstâncias da vi da soci al.
Se al guns marxi stas i denti fi caram na l ei da queda tendenci al da
taxa de l ucro o mecani smo automáti co da derrocada do capi tal i smo,
outros puseram-na em dúvi da ou a rejei taram de todo. Stei ndl cercou-a
OS ECONOMISTAS
62
de restri ções que a tornam i noperante e, portanto, negl i genci ável . Já
Sweezy e Baran afi rmaram que a l ei teri a sua razão de ser na etapa
concorrenci al do capi tal i smo, porém dei xari a de atuar na etapa mono-
pol i sta, uma vez que nesta preval eceri a a tendênci a à el evação da taxa
de l ucro. Tal afi rmação pareci a tanto mai s persuasi va quanto, entre
os anos vi nte e ci nqüenta do sécul o atual , a i mpl ementação de um
pacote de grandes i nvenções técni cas e a si tuação defensi va da cl asse
operári a produzi ram, si mul taneamente, o barateamento dos el ementos
do capi tal constante e a el evação da taxa de mai s-val i a. Em conse-
qüênci a, subi u, de fato, a taxa de l ucro nos Estados Uni dos, durante
os anos quarenta.
A contra-argumentação, segundo a qual a l ei atua pel os efei tos
opostos à queda da taxa de l ucro que el a mesma susci ta (i mperi al i smo,
armamenti smo, i nfl ação etc.), deve ser l evada em conta, uma vez que
se evi denci a entre tai s efei tos e a atuação da l ei uma conexão di al éti ca.
Acontece que, por exi gênci a da metodol ogi a di al éti co-materi al i sta, ne-
nhuma demonstração l ógi ca di spensa a comprovação empí ri ca a fi m
de al cançar o grau de sufi ci ente convi cção. Assi m, o probl ema consi ste
na evi dênci a empí ri ca confi rmadora de que, apesar da atuação l enta
e i rregul ar, a l ei tem conduzi do a um decl í ni o secul ar da taxa de l ucro.
É por demai s conheci do o fato de que as taxas de l ucro, em paí ses
como I ngl aterra, França, Al emanha e outros, foram consi deravel mente
mai s al tas na etapa i ni ci al do capi tal i smo do que na sua etapa de
“maturi dade”. Ai nda hoje, é possí vel observar que as taxas de l ucro
são mai s al tas nos paí ses atrasados do que nos paí ses avançados, o
que, preci samente, atrai a exportação de capi tai s dos úl ti mos aos pri -
mei ros. Ora, não é di fí ci l veri fi car que, nos paí ses atrasados, a com-
posi ção orgâni ca do capi tal é mai s bai xa do que nos paí ses avançados.
Resta, apesar di sto, a tese de Sweezy e Baran acerca da cessação
da l ei nas condi ções de domí ni o do capi tal monopol i sta. A este respei to,
apresentamos aqui al gumas evi dênci as sumári as em senti do contrári o.
A pri mei ra di z respei to à refutação de Mandel por Rowthorn. Apoi ado
na séri e hi stóri ca da rel ação capi tal /produto el aborada por Kuznets
para o perí odo 1880-1948, nos Estados Uni dos, Rowthorn concl ui u que,
ao contrári o do suposto por Mandel , a composi ção orgâni ca do capi tal
vem cai ndo. Sucede que, na rel ação capi tal /produto, o termo capi tal é
somente capi tal fi xo, não i ncl ui ndo o capi tal ci rcul ante também com-
ponente do capi tal constante. Ora, a redução do val or e mesmo da
massa do capi tal fi xo nada nos di z acerca do val or e da massa do
capi tal ci rcul ante (matéri as-pri mas e matéri as auxi l i ares) correspon-
dentes à operação desse mesmo capi tal fi xo. A tendênci a tecnol ógi ca
predomi nante atua, no entanto, no senti do da operação de quanti dades
crescentes de matéri as-pri mas por uni dade de capi tal fi xo.
De tal ponto de vi sta, observa-se que, na i ndústri a de transfor-
mação dos Estados Uni dos, segundo dados do Joi nt Economi c Com-
MARX
63
mi ttee, o produto por homem-hora de trabal ho consi derando 1947-1949
= 100, subi u de 35,4, em 1909, para 99,8, em 1948 (úl ti mo ano da
séri e de Kuznets). Em 1956, o produto por homem-hora já al cançava
o í ndi ce de 138,5, ou seja, uma el evação de quase quatro vezes, entre
1909 e 1956. Concomi tantemente, os sal ári os nomi nai s por uni dade
de produto ti veram el evação bem menor: 44,4, em 1909; 102,0, em
1948; e 112,0, em 1956. (v. The Economic Almanac — 1958, Nova
York, Thomas Y. Crowel l Comp., p. 191). Tai s ci fras demonstram o
aumento da produti vi dade do trabal ho na i ndústri a norte-ameri cana
e também, de manei ra i nequí voca, a el evação da composi ção orgâni ca
do capi tal .
A el evação da composi ção orgâni ca se patentei a, i gual mente, na
séri e hi stóri ca apresentada por Paul Bai roch. Em dól ares de 1929, o
capi tal por operári o, na i ndústri a de transformação dos Estados Uni dos,
evol ui u da segui nte manei ra: 1879 — US$ 1 764; 1889 — US$ 2 702;
1899 — US$ 3 655; 1909 — US$ 5 040; 1929 — US$ 7 530; 1948 —
US$ 6 543; 1953 — US$ 7 859.
Cabe, todavi a, i ndagar: correl aci ona-se esta el evação da compo-
si ção do capi tal com a queda da taxa de l ucro?
A tal i ndagação respondem os resul tados da pesqui sa de C. Goux,
preci samente abrangente do perí odo mai s recente e concernente às
soci edades anôni mas fi nancei ras e não-fi nancei ras dos Estados Uni dos
(o que permi te l evar em conta o total da mai s-val i a sob as modal i dades
de l ucro i ndustri al , l ucro comerci al e juros). Confi rmando a l ei tenden-
ci al descoberta por Marx, a referi da pesqui sa constatou a segui nte
evol ução da taxa de l ucro: 1946 — 11,6%; 1950 — 12,9%; 1960 —
8,3%; 1970 — 6,3%; 1976 — 6,6%.
Concorrência e monopólio
A i déi a de um capi tal úni co é uma contradi ção em termos, uma
negação l ógi co-formal do concei to de capi tal . Por consegui nte, uma uto-
pi a. O capi tal exi ste somente enquanto mul ti pl i ci dade de capi tai s i n-
di vi duai s concorrentes.
Segue-se daí a essenci al i dade da concorrênci a para o modo de
produção capi tal i sta. Embora, conforme já vi mos, os capi tai s i ndi vi duai s
devam atuar com a natureza de capi tal soci al total no processo de
ci rcul ação e reprodução, esses mesmos capi tai s i ndi vi duai s só ci rcul am
e se reproduzem em i ncessante concorrênci a recí proca. Sem consi derar
tal concorrênci a, a di nâmi ca do capi tal i smo e suas l ei s se tornari am
i ncompreensí vei s.
Não obstante, a concorrência não consti tui u objeto de uma teori a
especi al na obra de Marx, mas foi anal i sada em conexão com a expl i cação
dos processos gerai s do si stema capi tal i sta. Apesar di sso, as numerosas
referênci as a respei to dei xaram escl areci do o que Marx entendi a por con-
corrência, na época anteri or ao domí ni o do capi tal monopol i sta.
OS ECONOMISTAS
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A concepção marxi ana nada tem de assemel hado com a concor-
rênci a “pura” ou “perfei ta”, postul ado da escol a neocl ássi ca submeti do
à crí ti ca de Sraffa, Robi nson e Chamberl i n. Na concepção marxi ana,
a condi ção sufi ci ente da concorrênci a consi ste na general i dade de pl an-
tas de di mensões acessí vei s a numerosos capi tai s nos vári os ramos da
produção, de manei ra a possi bi l i tar sua mobi l i dade entre esses ramos.
I mpl í ci ta a esta condi ção, fi gura a tecnol ogi a bási ca também di fundi da
e acessí vel . Em semel hante si tuação, o tamanho da pl anta não consti tui
uma “barrei ra à entrada” que i mpeça a concorrênci a. Os monopól i os
eram casos de exceção, devendo-se, àquel a época, quase sempre a ci r-
cunstânci as naturai s ou i nsti tuci onai s.
Ao mesmo tempo, Marx entendi a a concorrênci a capi tal i sta como
l uta de vi da e morte, que el i mi na os mai s fracos e conduz ao estrei -
tamento do cí rcul o de capi tai s i ndi vi duai s em operação. Observou, por
i sso, que, no caso de domí ni o de certo setor por empresas de grandes
di mensões, não restava aos capi tai s i ncapazes de se al çar àquel as di -
mensões senão servi r às empresas já operantes através do si stema de
crédi to, sob a forma de depósi tos, ou através da parti ci pação aci onári a
nas soci edades anôni mas.
Numa época em que os fundadores do margi nal i smo trabal havam
com a i déi a da manutenção i nal terável da concorrênci a pura, Marx
previ u, com i ntei ra cl areza, a tendênci a da transi ção i nevi tável da
concorrênci a ao monopól i o. Tendênci a que deduzi u do curso da acu-
mul ação capi tal i sta por mei o de doi s processos pri nci pai s: o da con-
centração e o da centralização dos capi tai s. No pri mei ro processo, certos
capi tai s i ndi vi duai s se i ncrementam mai s depressa pel o ganho de su-
perl ucros e pel a reprodução ampl i ada em condi ções mai s favorávei s.
No segundo processo, as empresas mel hor sucedi das na competi ção
absorvem suas concorrentes, o que ocorre com mai or frequênci a nas
fases de cri se e depressão do ci cl o econômi co. Ademai s, o processo de
central i zação encontra nas soci edades anôni mas formi dável mecani smo
propul sor, que potenci a capi tai s di spersos e faz avançar a soci al i zação
das forças produti vas ai nda dentro do envol tóri o capi tal i sta.
A própri a di nâmi ca da concorrência capi talista conduz ao monopól i o,
sob cujo domí ni o o capi tal i smo se tornari a um entrave cada vez menos
tol erável ao desenvol vi mento das forças produti vas. Por consegui nte, já
em O Capital se expõe o fundamento teóri co para o enfoque da etapa
monopol i sta do capi tal i smo, que i ri a adqui ri r confi guração concreta no
fi nal do sécul o XI X. Al ém de Hobson, fora do campo do marxi smo, Hi l -
ferdi ng, Luxemburgo, Bukhari n e Lêni n i nauguraram o estudo da etapa
monopol i sta nas suas obras, que l ançaram as bases da teori a do i mpe-
ri al i smo. A concorrênci a capi tal i sta não desapareceu, em absol uto, sob o
i mperi al i smo, mas passou a se travar através de processos pecul i ares, às
vezes ai nda mai s vi ol entos, no terreno dos ol i gopól i os.
Com a teori a do i mperi al i smo, desenvol veu-se, no âmbi to do mar-
MARX
65
xi smo, o estudo do capi tal i smo enquanto si stema mundi al que i ncl ui
a expl oração col oni al i sta, tema apreci ado pel o própri o Marx somente
em passagens di spersas. Uma vez que a acel erada i nternaci onal i zação
das forças produti vas e a prol i feração das fi rmas mul ti naci onai s, no
segundo pós-guerra, reforçaram as caracterí sti cas que fazem do capi -
tal i smo um si stema mundi al , o estudo do tema i ncl ui u-se entre as
propri edades dos pesqui sadores marxi stas.
Marx escreveu O Capital na I ngl aterra e tomando este paí s como
campo preferenci al de observação empí ri ca. Mas a estrutura l ógi ca,
que deu à obra, tornou-a i nstrumento teóri co vál i do para o estudo do
capi tal i smo em quai squer paí ses e ci rcunstânci as concretas, sob a con-
di ção de não se perder de vi sta a rel ação entre os procedi mentos l ógi co
e hi stóri co de abordagem ci entí fi ca, i mposta pel a metodol ogi a di al éti co-
materi al i sta. Se o modo de produção capi tal i sta possui as mesmas ca-
tegori as e l ei s em toda parte, o curso do desenvol vi mento capi tal i sta
não pode dei xar de se di ferenci ar conforme a acumul ação ori gi nári a
do capi tal se tenha efeti vado a parti r do feudal i smo, como na Europa,
ou a parti r do escravi smo col oni al , como no Brasi l .
J acob Gorender
J acob Gorender (Sal vador, BA,
1923) é um estudi oso do marxi smo,
pri nci pal mente em seus aspectos de
fi l osofi a e teori a econômi ca. Hi sto-
ri ador da economi a brasi l ei ra, é au-
tor dos l i vros O Escravismo Colonial
(1978) e A Burguesia Brasileira
(1981). Entre arti gos e ensai os em
revi stas e col etâneas, escreveu: O
Conceito do Modo de Produção e Pes-
quisa Histórica (1980); Gênese e De-
senvolvimento do Capitalismo no
Campo Brasileiro (1980); Questiona-
mentos sobre a Teoria Econômica do
Escravismo Colonial (1983). Dedi -
cou-se também às ati vi dades de con-
ferenci sta uni versi tári o, jornal i sta e
mi l i tante pol í ti co.
OS ECONOMISTAS
66
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OS ECONOMISTAS
70
SALÁRIO, PREÇO E LUCRO
1
Tradução de Leandro Konder
1 I nforme pronunci ado por Marx nos di as 20 a 27 de junho de 1865 nas sessões do Consel ho
Geral da Associ ação I nternaci onal dos Trabal hadores. Publ i cado pel a pri mei ra vez em fol heto
à parte, em Londres, 1898, com o tí tul o Value, Price and Profit. (N. do T.)
OBSERVAÇÕES PRELIMINARES
Ci dadãos!
Antes de entrar no assunto, permi ti que faça al gumas observações
prel i mi nares.
Rei na atual mente no Conti nente uma verdadei ra epi demi a de
greves e se l evanta um cl amor geral por aumentos de sal ári os. O pro-
bl ema há de ser l evantado no nosso Congresso. Vós, como di ri gentes
da Associ ação I nternaci onal , devei s manter um cri téri o fi rme perante
esse probl ema fundamental . De mi nha parte, jul guei -me, por i sso, no
dever de entrar a fundo na matéri a, embora com ri sco de submeter
vossa paci ênci a a uma dura prova.
Outra observação prévi a tenho a fazer com respei to ao ci dadão
Weston. Atento ao que jul ga ser do i nteresse da cl asse operári a, el e
não somente expôs perante vós, como também defendeu, publ i camente,
opi ni ões que el e sabe serem profundamente i mpopul ares no sei o da
cl asse operári a.
2
Essa demonstração de coragem moral deve cal ar fundo
em todos nós. Confi o em que, apesar do esti l o desatavi ado de mi nha
conferênci a, o ci dadão Weston me verá afi nal de acordo com a acertada
i déi a que, no meu entender, serve de base às suas teses, as quai s.
contudo, na sua forma atual , não posso dei xar de consi derar teori ca-
mente fal sas e peri gosas na práti ca.
Com i sso, passo di retamente ao méri to da questão.
I
[Produção e Salários]
O argumento do ci dadão Weston basei a-se, na real i dade, em duas
premi ssas:
73
2 O operári o i ngl ês John Weston defendi a no Consel ho Geral da Associ ação I nternaci onal
dos Trabal hadores a tese de que a el evação dos sal ári os não pode mel horar a si tuação dos
operári os e que deve ser consi derada prejudi ci al à ati vi dade das tradeunions. (N. do T.)
1) que o volume da produção nacional é algo de fixo, uma quan-
ti dade ou grandeza constante, como di ri am os matemáti cos;
2) que o montante dos salários reais, i sto é, dos sal ári os medi dos
pel o vol ume de mercadori as que permi tem adqui ri r, é também uma
soma fixa, uma grandeza constante.
Poi s bem, a sua pri mei ra asserção é mani festamente fal sa. Podei s
ver que o val or e o vol ume da produção aumentam de ano para ano,
que as forças produti vas do trabal ho naci onal crescem e que a quan-
ti dade de di nhei ro necessári o para pôr em ci rcul ação essa crescente
produção vari a sem cessar. O que é exato no fi m de cada ano e para
di ferentes anos comparados entre si também o é com respei to a cada
di a médi o do ano. O vol ume ou grandeza da produção naci onal vari a
conti nuamente. Não é uma grandeza constante, mas variável, e assi m
tem que ser, mesmo sem l evar em conta as fl utuações da popul ação,
devi do às contí nuas mudanças que se operam na acumulação de capital
e nas forças produtivas do trabal ho. É i ntei ramente certo que, se hoje
houvesse um aumento da taxa geral de salários, esse aumento por si
só, quai squer que fossem os seus resul tados ul teri ores, não al terari a
imediatamente o vol ume da produção. Em pri mei ro l ugar, teri a que
brotar do estado de coi sas exi stente. E, se a produção naci onal , antes
da el evação dos sal ári os, era variável, e não fixa, el a conti nuari a a
sê-l o, também, depois da al ta.
Admi tamos, porém, que o vol ume da produção naci onal fosse cons-
tante em vez de variável. Ai nda nesse caso, aqui l o que o nosso ami go
Weston consi dera uma concl usão l ógi ca permaneceri a como uma afi r-
mação gratui ta. Se tomo um determi nado número, di gamos 8, os l i mi tes
absolutos desse al gari smo não i mpedem que vari em os l i mi tes relativos
de seus componentes. Por exempl o: se o l ucro fosse i gual a 6 e os
sal ári os a 2, estes poderi am aumentar até 6 e o l ucro bai xar a 2, que
o número resul tante não dei xari a por i sso de ser 8. Dessa manei ra, o
vol ume fi xo da produção jamai s consegui rá provar que seja fi xo o mon-
tante dos sal ári os. Como, então, nosso ami go Weston demonstra essa
fi xi dez? Si mpl esmente, afi rmando-a.
Mas mesmo dando como boa a sua afi rmati va, el a teri a efei to
em doi s senti dos, ao passo que el e quer fazê-l a vi gorar apenas em um.
Se o vol ume dos sal ári os representa uma quanti dade constante, não
poderá aumentar, nem di mi nui r. Portanto, se os operári os agem como
tol os ao arrancarem um aumento temporári o de sal ári os, não menos
tol amente estari am agi ndo os capi tal i stas ao i mpor uma bai xa tempo-
rári a dos sal ári os. Nosso ami go Weston não nega que, em certas ci r-
cunstânci as, os operári os podem arrancar aumentos de sal ári os; mas,
segundo el e, como por l ei natural a soma dos sal ári os é fi xa, este
aumento provocará, necessari amente, uma reação. Por outro l ado, el e
sabe também que os capi tal i stas podem, do mesmo modo, i mpor uma
bai xa de sal ári os, e tanto assi m que o estão tentando conti nuamente.
OS ECONOMISTAS
74
De acordo com o pri ncí pi o do ní vel constante dos sal ári os, neste caso
deveri a ter l ugar uma reação, exatamente como no anteri or. Por con-
segui nte, os operári os agi ri am com acerto reagi ndo contra as bai xas
de sal ári os ou contra as tentati vas em tal senti do. Procederi am, por-
tanto, acertadamente, ao arrancar aumentos de salários, poi s toda rea-
ção contra uma bai xa de sal ári os é uma ação a favor do seu aumento.
Logo, mesmo que acei tássemos o pri ncí pi o do ní vel constante de salários,
como sustenta o ci dadão Weston, vemos que os operári os devem, em
certas ci rcunstânci as, uni r-se e l utar pel o aumento de sal ári os.
Para negar essa concl usão el e teri a que renunci ar à premi ssa
em que se basei a. Não deveri a di zer que o vol ume dos sal ári os é uma
grandeza constante, mas si m que, embora não possa nem deva aumen-
tar, pode e deve baixar todas as vezes que o capi tal si nta vontade de
di mi nuí -l o. Se o capi tal i sta quer vos al i mentar com batatas, em vez
de carne, ou com avei a, em vez de tri go, devei s acatar a sua vontade
como uma l ei da economi a pol í ti ca e vos submeter a el a. Se num paí s,
por exempl o, nos Estados Uni dos, as taxas de sal ári os são mai s al tas
do que em outro, por exempl o, na I ngl aterra, devei s expl i car essa di -
ferença no ní vel dos sal ári os como uma di ferença entre a vontade do
capi tal i sta norte-ameri cano e a do capi tal i sta i ngl ês; método este que,
sem dúvi da, si mpl i fi cari a i mensamente não apenas o estudo dos fenô-
menos econômi cos, como também o de todos os demai s fenômenos.
Ai nda assi m caberi a perguntar: Por que a vontade do capi tal i sta
norte-ameri cano di fere da do capi tal i sta i ngl ês? E para responder a
essa questão, não teri am outro remédi o senão i r al ém dos domí ni os da
vontade. É possí vel que venha um padre di zer-me que Deus quer na
França uma coi sa e na I ngl aterra outra. E se o convi do a expl i car essa
dual i dade de vontade, el e poderá ter a i mprudênci a de responder que
está nos desí gnios de Deus ter uma vontade na França e outra na I ngl a-
terra. Mas nosso ami go Weston será, com certeza, a úl ti ma pessoa a
converter em argumento essa negação compl eta de todo raci ocí ni o.
Sem sombra de dúvi da, a vontade do capi tal i sta consi ste em en-
cher os bol sos, o mai s que possa. E o que temos a fazer não é di vagar
acerca da sua vontade, mas i nvesti gar o seu poder, os limites desse
poder e o caráter desses limites.
II
[Produção, Salários e Lucros]
A conferênci a proferi da pel o ci dadão Weston poderi a ser conden-
sada a ponto de caber numa casca de noz.
Toda a sua argumentação reduz-se ao segui nte: se a cl asse ope-
rári a obri ga a cl asse capi tal i sta a pagar-l he, sob a forma de sal ári o
em di nhei ro, 5 xel i ns em vez de 4, o capi tal i sta devol ver-l he-á, sob a
forma de mercadori as, o val or de 4 xel i ns em vez do val or de 5. Então
a cl asse operári a terá de pagar 5 xel i ns pel o que antes da al ta de
MARX
75
sal ári os l he custava apenas 4. E por que ocorre i sso? Por que o capi -
tal i sta só entrega o val or de 4 xel i ns por 5? Porque o montante dos
sal ári os é fi xo. Mas por que fi xo preci samente no val or de 4 xel i ns em
mercadori as? Por que não em 3, em 2, ou outra qual quer quanti a? Se
o l i mi te do montante dos sal ári os está fi xado por uma l ei econômi ca,
i ndependente tanto da vontade do capi tal i sta como da do operári o, a
pri mei ra coi sa que deveri a ter fei to o ci dadão Weston era expor e de-
monstrar essa l ei . Deveri a provar, al ém di sso, que a soma de sal ári os
efeti vamente pagos em cada momento dado corresponde sempre, exa-
tamente, à soma necessári a dos sal ári os, e nunca se desvi a del a. Em
compensação, se o l i mi te dado da soma de sal ári os depende da simples
vontade do capi tal i sta, ou das proporções da sua avareza, trata-se de
um l i mi te arbi trári o, que nada tem em si de necessári o. Tanto pode
ser modi fi cado pela vontade do capi tal i sta, como também se pode fazê-l o
vari ar contra a sua vontade.
O ci dadão Weston i l ustrou a sua teori a di zendo-nos que se uma
terri na contém determi nada quanti dade de sopa, desti nada a deter-
mi nado número de pessoas, a quanti dade de sopa não aumentará se
se aumentar o tamanho das col heres. Seja-me permi ti do consi derar
esse exempl o pouco substanci oso. El e me faz l embrar um pouco aquel e
apól ogo de que se val eu Menêni o Agri pa.
3
Quando a pl ebe romana
entrou em l uta contra os patrí ci os, o patrí ci o Agri pa di sse-l hes que a
pança patrí ci a é que al i mentava os membros pl ebeus do organi smo
pol í ti co. Mas Agri pa não consegui u demonstrar como se al i mentam os
membros de um homem quando se enche a barri ga de outro. O ci dadão
Weston, por sua vez, se esquece de que a terri na da qual comem os
operári os contém todo o produto do trabal ho naci onal , e o que os i mpede
de ti rar del a uma ração mai or não é nem o tamanho reduzi do da
terri na nem a escassez do seu conteúdo, mas uni camente a pequena
di mensão de suas col heres.
Graças a que arti fí ci o consegue o capi tal i sta devol ver um val or de
4 xel i ns por aqui l o que val e 5? A al ta dos preços das mercadori as que
vende. Mas, então, a al ta dos preços, ou fal ando em termos mai s gerai s,
as vari ações nos preços das mercadori as, os própri os preços destas, por-
ventura dependem da si mples vontade do capi talista? Ou, ao contrári o,
são necessári as determi nadas ci rcunstânci as para que preval eça essa von-
tade? Se não fosse assi m, as al tas e bai xas, as i ncessantes osci l ações dos
preços no mercado seri am um eni gma i ndeci frável .
Se admi ti mos que não se operou em absol uto al teração al guma,
nem nas forças produti vas do trabal ho, nem no vol ume do capi tal e
do trabal ho empregados, ou no val or do di nhei ro em que se expressam
os val ores dos produtos, mas que se alteraram tão-somente as taxas
OS ECONOMISTAS
76
3 Menêni o Agri pa, cônsul romano em 502 a. C., que, ao i ntervi r numa revol ta da pl ebe, fez um
apel o à concórdi a baseada no ardi l oso apól ogo de “Os Membros e o Estômago”. (N. do E.)
de salários, de que manei ra poderi a essa alta de salários i nfl ui r nos
preços das mercadorias? Somente i nfl ui ndo na proporção real entre a
oferta e a procura dessas mercadori as.
É i ntei ramente certo que a cl asse operári a, consi derada em con-
junto, gasta e será forçosamente obri gada a gastar a sua recei ta em
artigos de primeira necessidade. Uma al ta geral na taxa de sal ári os
provocari a, portanto, um aumento da procura de artigos de primeira
necessidade e, conseqüentemente, um aumento de seus preços no mer-
cado. Os capi tal i stas que produzem esses arti gos de pri mei ra necessi -
dade compensari am o aumento de sal ári os por mei o dos preços dessas
mercadori as. Mas que sucederi a com os demai s capi tal i stas que não
produzem arti gos de pri mei ra necessi dade? E podei s estar certos que
o seu número não é pequeno. Se l evardes em conta que duas terças
partes da produção naci onal são consumi das por um qui nto da popu-
l ação — um deputado da Câmara dos Comuns decl arou, recentemente,
que tai s consumi dores consti tuem apenas a séti ma parte da popul ação
—, poderei s i magi nar que enorme parcel a da produção naci onal se
desti na a objetos de l uxo, ou a ser trocada por objetos de l uxo, e que
i mensa quanti dade de arti gos de pri mei ra necessi dade se desperdi ça
em cri adagem, caval os, gatos etc., esbanjamento este que, como nos
ensi na a experi ênci a, di mi nui cada vez mai s, com a el evação dos preços
dos arti gos de pri mei ra necessi dade.
Poi s bem, qual seri a a si tuação desses capi tal i stas que não pro-
duzem arti gos de pri mei ra necessi dade? Não poderi am compensar a
queda na taxa de lucro, após uma al ta geral de sal ári os, elevando os
preços de suas mercadorias, vi sto que a procura destas não teri a au-
mentado. A sua renda di mi nui ri a; e com essa renda di mi nuí da teri am
de pagar mai s pel a mesma quanti dade de arti gos de pri mei ra neces-
si dade, que subi ri am de preço. Mas a coi sa não parari a aí . Di mi nuí da
a sua renda, menos teri am para gastar em arti gos de l uxo, com o que
também se reduzi ri a a procura de suas respecti vas mercadori as. E,
como conseqüênci a dessa di mi nui ção da procura, cai ri am os preços das
suas mercadori as. Portanto, nestes ramos da i ndústri a, a taxa de lucros
cairia, não só em proporção si mpl esmente ao aumento geral da taxa
de sal ári os, como, também, essa queda seri a proporci onal à ação con-
junta da al ta geral de sal ári os, do aumento de preços dos arti gos de
pri mei ra necessi dade e da bai xa de preços dos arti gos de l uxo.
Qual seri a a conseqüênci a dessa diferença entre os taxas de lucro
dos capi tai s col ocados nos di versos ramos da i ndústri a? Ora, a mesma
que se produz sempre que, seja qual for a causa, se veri fi cam di ferenças
nas taxas médias de lucro dos di versos ramos da produção. O capi tal
e o trabal ho desl ocar-se-i am dos ramos menos remunerati vos para os
que fossem mai s; e esse processo de desl ocamento i ri a durar até que
a oferta em um ramo i ndustri al aumentasse a ponto de se ni vel ar com
a mai or procura e nos demai s ramos i ndustri ai s di mi nuí sse proporci o-
MARX
77
nal mente à menor procura. Uma vez operada essa mudança, a taxa
geral de lucro vol tari a a igualar-se nos di ferentes ramos da i ndústri a.
Como todo esse desarranjo obedeci a ori gi nari amente a uma si mpl es
mudança na rel ação entre a oferta e a procura de di versas mercadori as,
cessando a causa, cessari am também os efei tos, e os preços vol tari am
ao seu anti go ní vel e ao anti go equi l í bri o. A redução da taxa de lucro,
por efei to dos aumentos de sal ári os, em vez de l i mi tar-se a uns quantos
ramos da i ndústri a, tornar-se-ia geral. Segundo a suposi ção de que
parti mos, nenhuma al teração ocorreri a nas forças produti vas do tra-
bal ho, nem no vol ume gl obal da produção, sendo que aquele volume
dado de produção apenas teria mudado de forma. Uma mai or parte
do vol ume de produção estari a representada por arti gos de pri mei ra
necessi dade, ao passo que di mi nui ri a a parte dos arti gos de l uxo, ou,
o que vem a ser o mesmo, di mi nui ri a a parte desti nada à troca por
arti gos de l uxo i mportados do estrangei ro e consumi da dessa forma;
ou, o que ai nda é o mesmo, em outros termos, uma parte mai or da
produção naci onal seri a trocada por arti gos i mportados de pri mei ra
necessi dade, em l ugar de ser trocada por arti gos de l uxo. I sso quer
di zer que, depoi s de transtornar temporari amente os preços do mercado,
a al ta geral da taxa de sal ári os só conduzi ri a a uma bai xa geral da
taxa de l ucro, sem i ntroduzi r nenhuma al teração permanente nos pre-
ços das mercadori as.
Se me di sserem que, na anteri or argumentação, dou por estabe-
l eci do que todo o aumento de sal ári os se gasta em arti gos de pri mei ra
necessi dade, repl i carei que fi z a suposi ção mai s favorável ao ponto de
vi sta do ci dadão Weston. Se o aumento dos sal ári os fosse apl i cado em
objetos que antes não entravam no consumo dos trabal hadores, seri a
i núti l que nos deti véssemos a demonstrar que seu poder aqui si ti vo
havi a experi mentado um aumento real . Sendo, porém, mera conse-
qüênci a da el evação de sal ári os, esse aumento do poder aqui si ti vo dos
operári os terá de corresponder, exatamente, à di mi nui ção do poder
aqui si ti vo dos capi tal i stas. Val e di zer, portanto, que a procura global
de mercadori as não aumentaria, e apenas mudariam os el ementos i n-
tegrantes dessa procura. O i ncremento da procura de um l ado seri a
contrabal ançado pel a di mi nui ção da procura do outro l ado. Desse modo,
como a procura gl obal permaneceri a i nvari ável , não se operari a mu-
dança de cunho al gum nos preços das mercadori as.
Chegamos, assi m, a um di l ema: ou o i ncremento dos sal ári os se
gasta por i gual em todos os arti gos de consumo, caso em que o aumento
da procura por parte da cl asse operári a tem que ser compensado pel a
di mi nui ção da procura por parte da cl asse capi tal i sta, ou o i ncremento
dos sal ári os só se gasta em determi nados arti gos cujos preços no mer-
cado aumentarão temporari amente. Nesse caso, a conseqüente el evação
da taxa de l ucro em al guns ramos da i ndústri a e a conseqüente bai xa
da taxa de l ucro em outros provocarão uma mudança na di stri bui ção
OS ECONOMISTAS
78
do capi tal e do trabal ho, que persi ste até que a oferta se tenha ajustado
à mai or procura em al guns ramos da i ndústri a e à menor procura nos
outros. Na pri mei ra hi pótese não se produzi rá nenhuma mudança nos
preços das mercadori as. Na outra, após al gumas osci l ações dos preços
do mercado, os val ores de troca das mercadori as bai xarão ao ní vel
anteri or. Em ambos os casos, chegaremos à concl usão de que a al ta
geral da taxa de sal ári os conduzi rá, afi nal de contas, a nada menos
que uma bai xa geral da taxa de l ucro.
Para espi caçar o vosso poder de i magi nação, o ci dadão Weston
vos convi dava a pensar nas di fi cul dades que acarretari a à I ngl aterra
uma al ta geral de 9 para 18 xel i ns nas jornadas dos trabal hadores
agrí col as. Medi tai , excl amou el e, no enorme acrésci mo da procura de
arti gos de pri mei ra necessi dade que i sso i mpl i cari a e, como conseqüên-
ci a, na terrí vel ascensão dos preços a que dari a l ugar! Poi s bem, todos
sabei s que os sal ári os médi os dos trabal hadores agrí col as da Améri ca
do Norte são mai s do dobro dos sal ári os dos trabal hadores agrí col as
i ngl eses, apesar de os preços dos produtos da l avoura serem mai s bai xos
nos Estados Uni dos do que na Grã-Bretanha, apesar de rei narem nos
Estados Uni dos as mesmas rel ações gerai s entre o capi tal e o trabal ho
que na I ngl aterra e apesar de o vol ume anual da produção norte ame-
ri cana ser mui to mai s reduzi do que o da i ngl esa. Por que, então, o
nosso ami go toca com tanto vi gor este si no? Si mpl esmente para desvi ar
a nossa atenção do verdadei ro probl ema. Um aumento repenti no de 9
para 18 xel i ns nos sal ári os representari a um acrésci mo repenti no de
100%. Ora, não estamos di scuti ndo aqui se seri a possí vel dupl i car na
I ngl aterra, de súbi to, a taxa dos sal ári os. Não nos i nteressa em nada
a grandeza do aumento, que em cada caso concreto depende de deter-
mi nadas ci rcunstânci as e tem que se adaptar a el as. Apenas nos i n-
teressa i nvesti gar quai s os efei tos em que se traduzi ri a uma al ta geral
da taxa dos sal ári os, mesmo que não fosse al ém de 1%.
Pondo de l ado esse aumento i magi nári o de 100% do ami go Wes-
ton, desejo chamar vossa atenção para o aumento efeti vo de sal ári os
operado na Grã-Bretanha de 1849 a 1859.
Todos vós conhecei s a Lei das Dez Horas,
4
ou, mai s preci samente,
das Dez Horas e Mei a, promul gada em 1848. Foi uma das mai ores
modi fi cações econômi cas que já presenci amos. Representou um aumen-
to súbi to e obri gatóri o de sal ári os não em umas quantas i ndústri as
l ocai s, porém nos ramos i ndustri ai s mai s emi nentes, por mei o dos quai s
a I ngl aterra domi na os mercados do mundo. Foi uma al ta de sal ári os
em ci rcunstânci as si ngul armente desfavorávei s. O dr. Ure, o prof. Se-
ni or e todos os demai s porta-vozes ofi ci ai s da burguesi a no campo da
economi a demonstraram, e, devo di zer, com razões mui to mai s sól i das
MARX
79
4 A Lei das Dez Horas, que reduzi u e regul amentou a duração da jornada de trabal ho,
representou, na época, uma vi tóri a da cl asse operári a i ngl esa. (N. do E.)
do que as do nosso ami go Weston, que aqui l o era o dobre de fi nados
da i ndústri a i ngl esa. Demonstraram que não se tratava de um si mpl es
aumento de sal ári os, mas de um aumento de sal ári os provocado pel a
redução da quanti dade de trabal ho empregado e nel a fundamentado.
Afi rmaram que a duodéci ma hora que se queri a arrebatar ao capi tal i sta
era justamente aquel a em que este obti nha o seu l ucro. Ameaçaram
com o decrésci mo da acumul ação, a al ta dos preços, a perda dos mer-
cados, a redução da produção, a conseqüente reação sobre os sal ári os
e, enfi m, a ruí na. Sustentavam que a l ei de Maxi mi l i ano Robespi erre
sobre os l i mi tes máxi mos
5
era uma ni nhari a comparada com essa outra;
e, até certo ponto, ti nham razão. Mas qual foi , na real i dade, o resul tado?
Os sal ári os em di nhei ro dos operári os fabri s aumentaram, apesar de
se haver reduzi do a jornada de trabal ho; cresceu consi deravel mente o
número de operári os em ati vi dade nas fábri cas; bai xaram constante-
mente os preços dos seus produtos; desenvol veram-se às mi l maravi l has
as forças produti vas do seu trabal ho e se expandi ram progressi vamente,
em proporções nunca vi stas, os mercados para os seus arti gos. Em
Manchester, na assembl éi a da Soci edade pel o Progresso da Ci ênci a,
em 1860, eu própri o ouvi o sr. Newman confessar que el e, o dr. Ure,
o prof. Seni or e todos os demai s representantes ofi ci ai s da ci ênci a eco-
nômi ca se havi am equi vocado, ao passo que o i nsti nto do povo não
fal hara. Ci to neste passo o sr. W. Newman
6
e não o prof. Franci s
Newman, porque el e ocupa na ci ênci a econômi ca um l ugar proemi nente,
como col aborador e edi tor da History of Prices (História dos Preços)
da autori a do sr. Thomas Tooke, esta obra magní fi ca, que retrata a
hi stóri a dos preços desde 1793 a 1856. Se a i déi a fi xa de nosso ami go
Weston acerca do vol ume fi xo dos sal ári os, de um vol ume de produção
fi xo, de um grau fi xo de produti vi dade do trabal ho, de uma vontade
fi xa e constante dos capi tal i stas, e tudo o mai s que há de fi xo e i mutável
em Weston, fossem exatos, o prof. Seni or teri a acertado em seus som-
bri os pressági os e Robert Owen ter-se-i a equi vocado, el e que, já em
1816, pedi a uma l i mi tação geral da jornada de trabal ho como pri mei ro
passo preparatóri o para a emanci pação da cl asse operári a, i mpl antan-
do-a, efeti vamente, por conta e ri sco própri os, na sua fábri ca têxti l de
New Lanark, contra o preconcei to general i zado.
7
Na mesmí ssi ma época em que entrava em vi gor a Lei das Dez
Horas e se produzi a o subseqüente aumento dos sal ári os, ocorreu na
OS ECONOMISTAS
80
5 A l ei sobre os l i mi tes máxi mos, di ta Lei do Máxi mo, foi promul gada pel a Convenção Jacobi na
de 1793, durante a revol ução burguesa da França. Fi xava, ri gi damente, os l i mi tes dos
preços das mercadori as e dos sal ári os. (N. do T.)
6 Marx se equi vocou no nome do edi tor da obra de Thomas Tooke, que foi W. Newmarch e
não W. Newman. (N. do T.)
7 Robert Owen (1771-1858) foi um i ndustri al bri tâni co que se tornou “soci al i sta utópi co”. I ntro-
duzi u em sua fábri ca a jornada de dez horas de trabal ho e organi zou um seguro por doença,
soci edades cooperati vas de produtores, etc. Veja-se a obra de ENGELS. Do Socialismo Utópico
ao Socialismo Científico. Ri o de Janei ro, Edi tori al Vi tóri a Ltda., 1962. p. 37. (N. do E.)
Grã-Bretanha, por moti vo que não vem ao caso rel atar, uma elevação
geral dos salários dos trabalhadores agrícolas.
Conquanto i sso não seja i ndi spensável ao meu objeti vo i medi ato,
desejo fazer al gumas observações prel i mi nares, para vos col ocar mel hor
no assunto.
Se um homem percebe 2 xel i ns de sal ári o por semana e seu
sal ári o aumenta para 4 xel i ns, a taxa do salário aumentará 100%.
I sso, expresso como aumento da taxa de salário, pareceri a al go mara-
vi l hoso, ai nda que, na real i dade, a quantia efetiva do salário, ou seja,
os 4 xel i ns por semana, conti nue a ser um í nfi mo, um mí sero sal ári o
de fome. Portanto, não vos devei s fasci nar pel as al ti ssonantes percen-
tagens da taxa de sal ári o. Devei s perguntar sempre: qual era a quanti a
original? Outra coi sa que também compreenderei s é que, se há dez
operári os que ganham cada um 2 xel i ns por semana, ci nco ganhando
5 xel i ns cada um e outros 5 que ganhem 11, el es, os 20, ganharão 100
xel i ns, ou 5 l i bras esterl i nas por semana. Logo, se a soma global desses
sal ári os semanai s aumenta, di gamos, de uns 20%, haverá uma mel hora
de 5 para 6 l i bras. Tomando a médi a, poderí amos di zer que a taxa
geral de salários aumentou de 20%, embora na real i dade os sal ári os
de 10 dos operári os vari assem, os sal ári os de um dos doi s grupos de
5 operári os só aumentassem de 5 para 6 xel i ns por cabeça e os do
outro grupo de 5 operári os se el evassem, ao todo, de 55 para 70 xel i ns.
8
Metade dos operári os não mel horari a absol utamente nada de si tuação,
a quarta parte del es teri a uma mel hori a i nsi gni fi cante e somente a
quarta parte restante obteri a um benefí ci o sensí vel . Cal cul ando, porém,
a média, a soma gl obal dos sal ári os desses 20 operári os aumentari a
de 20% e, no que se refere ao capi tal gl obal , para o qual trabal ham,
bem como no concernente aos preços das mercadori as que produzem,
seri a exatamente o mesmo como se todos parti ci passem por i gual na
el evação médi a dos sal ári os. No caso dos trabal hadores agrí col as, como
os sal ári os médi os pagos nos di versos condados da I ngl aterra e Escóci a
di ferem consi deravel mente, o aumento foi mui to desi gual .
Enfi m, durante a época em que se processou aquel e aumento de
sal ári os, mani festaram-se, também, i nfl uênci as que o contrabal ançavam,
tai s como os novos i mpostos l ançados no cortejo da Guerra da Cri méi a,
9
a demol i ção extensi va das habi tações dos trabal hadores agrí col as, etc.
MARX
81
8 O sal ári o de 25 + 55 xel i ns teri a subi do para 30 + 70, i sto é, ao todo, de 80 para 100 ou
25%. É verdade que os sal ári os de 2 xel i ns, que fi caram na mesma para as dez pessoas
do pri mei ro grupo, não foram contados. Senão seri a preci so, para obter um aumento médi o
de sal ári os de 25%, el evar os sal ári os do úl ti mo grupo de 55 a 75 xel i ns, ou fazer passar
o sal ári o de ci nco operári os de 11 a 15 xel i ns cada um. (N. da Ed. Francesa.)
9 A Guerra da Cri méi a durou de 1854 a 1856 e teve a parti ci pação de tropas bri tâni cas,
francesas, turcas e sardas contra os exérci tos do czar Ni col au I . Com essa guerra a Grã-
Bretanha procurou conter as arremeti das expansi oni stas do czar, em di reção ao estrei to
do Bósforo, que eram ti das como uma ameaça ao i mperi al i smo bri tâni co no Medi terrâneo.
(N. do E.)
Fei tas essas reservas, vou agora prossegui r, para constatar que
de 1849 a 1859 a taxa médi a dos sal ári os agrí col as na Grã-Bretanha
regi strou um aumento de cerca de 40%. Poderi a dar-vos ampl os detal hes
em apoi o à mi nha afi rmação, mas para o objeti vo em mi ra crei o que
bastará i ndi car-vos a obra de crí ti ca, tão consci enci osa, l i da em 1860
pel o fi nado sr. John C. Morton, na Soci edade de Artes e Ofí ci os de
Londres, sobre As Forças Empregadas na Agricultura. O sr. Morton
expõe os dados estatí sti cos col hi dos nas contas e outros documentos
autênti cos de uns 100 agri cul tores, aproxi madamente, em 12 condados
da Escóci a e 35 da I ngl aterra.
Segundo o ponto de vi sta do nosso ami go Weston, e em harmoni a
com a al ta si mul tânea operada nos sal ári os dos operári os de fábri ca,
durante o perí odo 1849/59, os preços dos produtos agrí col as deveri am
ter regi strado um aumento enorme. Mas o que aconteceu real mente?
Apesar da Guerra da Cri méi a e das péssi mas col hei tas consecuti vas
de 1854 a 1856, os preços médi os do tri go, o produto agrí col a mai s
i mportante da I ngl aterra, bai xaram de cerca de 3 l i bras esterl i nas por
quarter,
10
como eram cotados de 1838 a 1848, para cerca de 2 l i bras
e 10 xel i ns por quarter, nas cotações do perí odo de 1849 a 1859. Re-
presenta i sso uma bai xa de mai s de 16% no preço do tri go, em si mul -
tanei dade com um aumento médi o de 40% nos sal ári os agrí col as. Du-
rante a mesma época, se compararmos o seu fi nal com o começo, quer
di zer, o ano de 1859 com o de 1849, a ci fra do pauperi smo ofi ci al desce
de 934 419 a 860 470, o que supõe uma di ferença de 73 949 pobres;
reconheço que é um decrésci mo mui to pequeno, e que se vol tou a perder
nos anos segui ntes, mas, em todo caso, é sempre di mi nui ção.
Pode-se objetar que, em conseqüênci a de anul ação das l ei s sobre
os cereai s,
11
a i mportação de tri go estrangei ro mai s que dupl i cou, no
perí odo de 1849/59, comparada à de 1838/48. E que si gni fi ca i sso? Do
ponto de vi sta do ci dadão Weston, dever-se-i a supor que essa enorme
procura, repenti na e sem cessar crescente, sobre os mercados estran-
gei ros ti vesse fei to subi r a uma al tura espantosa os preços dos produtos
agrí col as, posto que os efei tos de uma crescente procura são os mesmos,
quer venham de fora ou de dentro do paí s. Mas o que ocorreu na
real i dade? Afora al guns anos de col hei tas decepci onantes, durante todo
esse perí odo a rui nosa bai xa no preço do tri go consti tui u um moti vo
permanente de quei xas, na França; os norte-ameri canos vi ram-se vári as
vezes obri gados a quei mar excedentes da produção e a Rússi a, se acre-
di tarmos no sr. Urquhart, ati çou a guerra ci vi l nos Estados Uni dos,
OS ECONOMISTAS
82
10 Quarter, medi da i ngl esa de capaci dade que equi val e a 8 bushels, ou seja, cerca de 290
l i tros. (N. do E.)
11 As l ei s sobre o comérci o de cereai s, di tas em i ngl ês Corn Laws, foram abol i das pel o pri -
mei ro-mi ni stro Robert Peel , em 1846. Os cereai s i mportados do estrangei ro passaram a
pagar uma taxa aduanei ra reduzi da, em 1849, apenas 1 xel i m por quarter. A revogação
das Corn Laws abri u, de fato, as al fândegas i ngl esas aos cereai s i mportados. (N. do E.)
porque a concorrênci a i anque nos mercados da Europa paral i sava a
sua exportação de produtos agrí col as.
Reduzido à sua forma abstrata, o argumento do ci dadão Weston
traduzi r-se-i a no segui nte: todo aumento da procura se opera sempre
à base de um dado vol ume de produção. Portanto, não pode fazer au-
mentar nunca a oferta dos artigos procurados, mas unicamente fazer
subir o seu preço em dinheiro. Ora, a mai s comum observação demonstra
que, em al guns casos, o aumento da procura dei xa i nal terados os preços
das mercadori as e provoca, em outros casos, uma al ta passagei ra dos
preços do mercado, à qual se seque um aumento da oferta, por sua
vez segui do pel a queda dos preços até o ní vel anteri or e, em mui tos
casos, abaixo dele. Que o aumento da procura obedeça à al ta dos sa-
l ári os, ou a outra causa qual quer, i sso em nada modi fi ca os dados do
probl ema. Do ponto de vi sta do ci dadão Weston, tão di fí ci l é expl i car
o fenômeno geral como o que se revel a sob as ci rcunstânci as excepci o-
nai s de um aumento de sal ári os. Portanto, a sua argumentação não
tem nenhum val or para o assunto de que tratamos. Apenas expri mi u
a sua perpl exi dade entre as l ei s em vi rtude das quai s um acrésci mo
da procura engendra um acrésci mo da oferta, em vez de um aumento
defi ni ti vo dos preços no mercado.
III
[Salários e Dinheiro]
No segundo di a de debate, nosso ami go Weston vesti u as suas
vel has afi rmati vas com novas formas. Di sse el e: Ao veri fi car-se uma
al ta geral dos sal ári os em di nhei ro, será necessári a mai or quanti dade
de moeda corrente para pagar os di tos sal ári os. Sendo fixa a quanti dade
de moeda em ci rcul ação, como podei s pagar, com essa soma fi xa de
moeda ci rcul ante, um montante mai or de sal ári os em di nhei ro? Pri -
mei ro, a di fi cul dade surgi a de que, embora subi sse o sal ári o em di nhei ro
do operári o, a quanti dade de mercadori as que l he cabi a era fi xa; e,
agora, surge do aumento de sal ári os em di nhei ro, a despei to do vol ume
fi xo de mercadori as. Natural mente, se rejei tardes o seu dogma ori gi nal ,
desaparecerão também as di fi cul dades del e resul tantes.
Vou demonstrar, contudo, que esse probl ema da moeda não tem
absol utamente nada a ver com o tema em questão.
No vosso paí s, o mecani smo dos pagamentos está mui to mai s
aperfei çoado do que em qual quer outro paí s da Europa. Graças à ex-
tensão e à concentração do si stema bancári o, necessi ta-se de mui to
menos moeda para pôr em ci rcul ação a mesma quanti dade de val ores
e real i zar o mesmo, ou um mai or número de negóci os. No que, por
exempl o, concerne aos sal ári os, o operári o fabri l i ngl ês entrega sema-
nal mente o seu sal ári o ao vendei ro, que semanal mente o envi a ao
banquei ro, o qual o devol ve semanal mente ao fabri cante, que vol ta a
pagá-l o a seus operári os, e assi m por di ante. Graças a esse processo,
MARX
83
o sal ári o anual de um operári o, que se el eva, vamos supor, a 52 l i bras
esterl i nas, pode ser pago com um único “soberano”,
12
que todas as semanas
percorra o mesmo ci cl o. Na própri a I ngl aterra, esse mecani smo de paga-
mento não é tão perfei to como na Escóci a, nem apresenta a mesma per-
fei ção em todos os l ugares; por i sso vemos que, por exempl o, em al guns
di stri tos agrí col as, comparados com os di stri tos fabri s, mui to mai s moeda
é necessári a para fazer ci rcul ar um menor vol ume de val ores.
Se atravessardes a Mancha, observai s que no Conti nente os sa-
lários em dinheiro são mui to mai s bai xos do que na I ngl aterra, e,
apesar di sso, na Al emanha, na I tál i a, na Suí ça e na França, esses
sal ári os são postos em ci rcul ação mediante uma quantidade muito
maior de moeda. O mesmo “soberano” não é i nterceptado com tanta
rapi dez pel o banquei ro, nem retorna com tanta presteza ao capi tal i sta
i ndustri al ; por i sso, em vez de um “soberano” fazer ci rcul ar 52 l i bras
anual mente, tal vez sejam necessári os três “soberanos” para movi men-
tar um sal ári o anual no montante de 25 l i bras. Desse modo, ao comparar
os paí ses do Conti nente com a I ngl aterra, verei s, em segui da, que
sal ári os bai xos em di nhei ro podem exi gi r, para a sua ci rcul ação, quan-
ti dades mui to mai ores de moeda do que sal ári os al tos e que i sso, na
real i dade, é uma questão meramente técni ca e, como tal , estranha ao
nosso assunto.
De acordo com os mel hores cál cul os que conheço, a renda anual
da cl asse operári a deste paí s pode ser esti mada nuns 250 mi l hões de
l i bras esterl i nas. Essa soma i mensa se põe em ci rcul ação com uns 3
mi l hões de l i bras. Suponhamos que se veri fi que um aumento de sal ári os
de 50%. Em vez de 3 mi l hões seri am preci sos 4,5 mi l hões de l i bras
em di nhei ro ci rcul ante. Como uma parte consi derável dos gastos di ári os
do operári o é coberta em prata e cobre, i sto é, em meros si gnos mo-
netári os, cujo val or rel ati vo ao ouro é arbi trari amente fi xado por l ei ,
tal como o papel -moeda i nconversí vel , resul ta que essa al ta de 50%
nos sal ári os em di nhei ro exi gi ri a, em caso extremo, a ci rcul ação adi -
ci onal , di gamos, de 1 mi l hão de “soberanos”. Lançar-se-i a em ci rcul ação
1 mi l hão, que está i nati vo, em barras de ouro ou em metal amoedado,
nos subterrâneos do Banco da I ngl aterra ou de bancos parti cul ares.
Poder-se-i a i ncl usi ve poupar-se, e efeti vamente poupar-se-i a, o i nsi g-
ni fi cante gasto na cunhagem supl ementar, ou o mai or desgaste desse
mi l hão de moedas, se a necessi dade de aumentar a moeda em ci rcul ação
ocasi onasse al gum desgaste. Todos vós sabei s que a moeda deste paí s
se di vi de em doi s grandes grupos. Uma parte, supri da em notas de
banco de di versas categori as, é usada nas transações entre comerci an-
tes, e também entre comerci antes e consumi dores, para sal dar os pa-
gamentos mai s i mportantes; enquanto outra parte do mei o ci rcul ante,
OS ECONOMISTAS
84
12 Moeda i ngl esa de ouro, com o val or nomi nal de 1 l i bra esterl i na. (N. do E.)
a moeda metál i ca, ci rcul a no comérci o vareji sta. Conquanto di sti ntas,
essas duas cl asses de moeda mi sturam-se e combi nam-se mutuamente.
Assi m, as moedas de ouro ci rcul am em boa proporção, i ncl usi ve em
pagamentos i mportantes, para cobri r as quanti as fraci onári as i nferi ores
a 5 l i bras. Se amanhã se emi ti ssem notas de 4 l i bras, de 3 l i bras ou
de 2 l i bras, o ouro que enche esses canai s de ci rcul ação seri a i medi a-
tamente expul so del es, refl ui ndo para os canai s em que fosse necessári o
a fi m de atender ao aumento dos sal ári os em di nhei ro. Com esse pro-
cesso poderi a ser mobi l i zado o mi l hão adi ci onal exi gi do por um aumento
de 50% nos sal ári os, sem que se acrescentasse um úni co “soberano”
ao mei o ci rcul ante. E o mesmo resul tado seri a obti do sem que fosse
preci so emi ti r uma só nota de banco adi ci onal , com o si mpl es aumento
de ci rcul ação de l etras de câmbi o, conforme ocorreu no Lancashi re,
durante mui to tempo.
Se uma el evação geral da taxa de sal ári os, vamos di zer, de uns
100%, como supõe o ci dadão Weston rel ati vamente aos sal ári os agrí -
col as, provocasse uma grande al ta nos preços dos arti gos de pri mei ra
necessi dade e exi gi sse, segundo os seus concei tos, uma soma adi ci onal
de mei os de pagamento, que não se poderi a consegui r l ogo, uma redução
geral de salários deveri a provocar o mesmo resul tado em i dênti ca pro-
porção, se bem que em senti do contrári o. Poi s bem, sabei s todos que
os anos de 1858 a 1860 foram os mai s favorávei s para a i ndústri a
al godoei ra e que, sobretudo, o ano de 1860 ocupa a esse respei to um
l ugar úni co nos anai s do comérci o; foi também um ano de grande pros-
peri dade para os outros ramos i ndustri ai s. Em 1860, os sal ári os dos
operári os do al godão e dos demai s trabal hadores rel aci onados com essa
i ndústri a chegaram ao seu ponto mai s el evado até então. Vei o, porém,
a cri se norte-ameri cana e todos esses sal ári os vi ram-se de pronto re-
duzi dos aproxi madamente à quarta parte do seu montante anteri or.
Em senti do i nverso i sso teri a si gni fi cado um aumento de 300%. Quando
os sal ári os sobem de 5 para 20 xel i ns di zemos que sobem 300%; se
bai xam de 20 para 5, di zemos que caem 75%, mas a quanti a do ascenso
num caso, e da bai xa, no outro, é a mesma, a saber: 15 xel i ns. Sobrevei o,
assi m, uma repenti na mudança nas taxas dos sal ári os como jamai s se
conhecera anteri ormente, e essa mudança afetou um número de ope-
rári os que — não i ncl ui ndo apenas aquel es que trabal ham di retamente
na i ndústri a al godoei ra, mas também os que i ndi retamente dependi am
dessa i ndústri a — excedi a em cerca de metade o número de trabal ha-
dores agrí col as. Acaso bai xou o preço do tri go? Ao contrári o, subiu de
47 xel i ns e 8 pence,
13
por quarter, preço médi o no tri êni o de 1858/60,
para 55 xel i ns, e 10 pence o quarter, segundo a médi a anual referente
ao tri êni o de 1861/63. Pel o que di z respei to aos mei os de pagamento,
MARX
85
13 O penny (si ngul ar de pence) corresponde a 1/12 do xel i m. (N. do E.)
durante o ano de 1861, cunharam-se na Casa da Moeda 8 673 232
l i bras contra 3 378 102 cunhadas em 1860. Val e di zer que em 1861
cunharam-se mai s 5 295 130 l i bras que em 1860. É certo que o vol ume
da ci rcul ação de papel -moeda, em 1861, foi i nferi or em 1 319 000 l i bras
ao de 1860. Mas, mesmo deduzi ndo essa soma, ai nda per si ste, par a
o ano de 1861, compar ado com o ano anter i or de pr osper i dade, 1860,
um excesso de moeda no val or de 3 976 130 l i br as, ou quase 4
mi l hões; em tr oca, a r eser va de our o do Banco da I ngl ater r a nesse
per í odo de tempo di mi nui u não exatamente na mesma pr opor ção,
mas apr oxi madamente.
Comparai agora o ano de 1862 com o de 1842. Sem contar o
formi dável aumento do val or e do vol ume de mercadori as em ci rcul ação,
o capi tal desembol sado apenas para cobri r as transações regul ares,
ações de emprésti mo, etc., de val ores das ferrovi as, ascendeu, na I n-
gl aterra e Gal es, em 1862, à soma de 320 mi l hões de l i bras esterl i nas,
ci fra que em 1842 pareci a fabul osa. E, no entanto, as somas gl obai s
de moeda foram aproxi madamente as mesmas nos anos de 1862 e
1842; e, em termos gerai s, havei s de veri fi car, ante um aumento enorme
de val or não só das mercadori as como em geral das operações em
di nhei ro, uma tendênci a à di mi nui ção progressi va dos mei os de paga-
mento. Do ponto de vi sta do nosso ami go Weston, i sso é um eni gma
i ndeci frável .
Se se aprofundasse um pouco mai s no assunto, contudo, el e teri a
vi sto que, i ndependentemente dos sal ári os e supondo que estes per-
maneçam i nvari ávei s, o val or e o vol ume das mercadori as postas em
ci rcul ação e, em geral , o montante das transações concertadas em di -
nhei ro, vari am di ari amente; que o montante das notas de banco emi -
ti das vari a di ari amente; que o montante dos pagamentos efetuados
sem ajuda de di nhei ro, por mei o de l etras de câmbi o, cheques, crédi tos
escri turai s, clearing-house
14
etc., vari a di ari amente; que, na medi da
em que se necessi ta efeti vamente de moeda metál i ca, a proporção entre
as moedas que ci rcul am e as moedas e l i ngotes guardados de reserva,
ou entesourados nos subterrâneos bancári os, vari a di ari amente; que a
soma do ouro absorvi do pel a ci rcul ação naci onal e a soma envi ada ao
estrangei ro para fi ns de ci rcul ação i nternaci onal vari am di ari amente.
Teri a percebi do que o seu dogma de um vol ume fi xo dos mei os de
pagamento é um erro monstruoso, i ncompatí vel com a real i dade coti -
di ana. Ter-se-i a i nformado das l ei s que permi tem aos mei os de paga-
mento adaptar-se a condi ções que vari am de manei ra tão constante
em l ugar de converter a sua fal sa concepção das l ei s da ci rcul ação
monetári a em argumento contra o aumento dos sal ári os.
OS ECONOMISTAS
86
14 Bancos de compensação por i ntermédi o dos quai s se efetuam certos pagamentos. (N. da
Ed. Francesa.)
IV
[Oferta e Procura]
Nosso ami go Weston faz seu o provérbi o l ati no repetitio est mater
studiorum, que si gni fi ca: “a repeti ção é a mãe do estudo”, razão pel a
qual nos repete o seu dogma i ni ci al sob a nova forma de que a redução
dos mei os de pagamento, resul tante de um aumento dos sal ári os, de-
termi nari a uma di mi nui ção do capi tal etc. Depoi s de haver tratado de
sua fantasi osa teori a da moeda, consi dero de todo i núti l deter-me a
exami nar as conseqüênci as i magi nári as que el e crê necessári o deduzi r
de sua i magi nári a catástrofe dos mei os de pagamento. Passo, poi s,
i medi atamente, a reduzir à forma teórica mais simples o seu dogma,
que é sempre um e o mesmo, embora repeti do sob tantas formas di versas.
Uma úni ca observação evi denci ará a ausênci a de senti do crí ti co
com que el e trata o tema. Decl ara-se contrári o ao aumento de sal ári os,
ou aos sal ári os al tos, obti dos em conseqüênci a desse aumento. Poi s
bem, pergunto eu: o que são sal ári os al tos e o que são sal ári os bai xos?
Por que, por exempl o, 5 xel i ns semanai s são consi derados um sal ári o
bai xo e 20, por semana, são reputados um sal ári o al to? Se um sal ári o
de 5 é bai xo, em comparação com um de 20, o de 20 será todavi a mai s
bai xo, comparado com um de 200. Se al guém fi zesse uma conferênci a
sobre o termômetro e se pusesse a decl amar sobre graus al tos e graus
bai xos, nada nos ensi nari a. A pri mei ra coi sa que teri a de expl i car é
como se encontra o ponto de congel amento e o ponto de ebul i ção, e
como estes doi s pontos-padrão obedecem às l ei s naturai s e não à fan-
tasi a dos vendedores ou dos fabri cantes de termômetros. Ora, pel o que
se refere a sal ári os e l ucros, o ci dadão Weston não só se esqueceu de
deduzi r das l ei s econômi cas esses pontos-padrão, mas também não
senti u sequer a necessi dade de i ndagá-l os. Contenta-se em admi ti r as
expressões vul gares e correntes de al to e bai xo, como se estes termos
ti vessem si gni fi cado fi xo, apesar de que sal ta à vi sta que os sal ári os
só podem ser qual i fi cados de al tos ou bai xos quando comparados a
al guma norma que nos permi ta medi r a sua grandeza.
O ci dadão Weston não poderá di zer-me por que se paga uma
determi nada soma de di nhei ro por uma determi nada quanti dade de
trabal ho. Se me contestasse que i sso corre por conta da l ei da oferta
e da procura, eu l he pedi ri a, antes de mai s nada, que me di ssesse
qual a l ei que, por sua vez, regul a a da oferta e da procura. E essa
répl i ca pô-l o-i a i medi atamente fora de combate. As rel ações entre a
oferta e a procura de trabal ho acham-se sujei tas a constantes modi fi -
cações e com el as fl utuam os preços do trabal ho no mercado. Se a
procura excede a oferta, sobem os sal ári os; se a oferta supera a procura,
os sal ári os bai xam, ai nda que em certas ci rcunstânci as possa ser ne-
cessári o comprovar o verdadei ro estado da procura e da oferta por
uma greve, por exempl o, ou outro procedi mento qual quer. Mas, se to-
MARX
87
mardes a oferta e a procura como l ei regul adora dos sal ári os, seri a tão
pueri l quanto i núti l cl amar contra uma el evação de sal ári os, vi sto que,
de acordo com a l ei suprema que i nvocai s, as al tas periódi cas dos sal ári os
são tão necessári as e tão l egí ti mas como as suas baixas peri ódi cas. E se
não consi derai s a oferta e a procura como l ei regul adora dos sal ári os,
então repi to mi nha pergunta: por que se dá uma determinada soma de
di nheiro por uma determinada quanti dade de trabalho?
Mas para focal i zar as coi sas com mai or ampl i dão: equi vocar-vos-
ei s por i ntei ro, caso acredi tei s que o val or do trabal ho ou de qual quer
outra mercadori a se determi na, em úl ti ma anál i se, pel o jogo da procura
e da oferta. A oferta e a procura só regul am as oscilações temporári as
dos preços no mercado. Expl i cam por que o preço de um arti go no
mercado se el eva aci ma ou desce abai xo do seu valor, mas não expl i cam
jamai s esse val or em si mesmo. Vamos supor que oferta e a procura
se equi l i brem ou, como di zem os economi stas, se cubram mutuamente.
No preci so i nstante em que essas duas forças contrári as se ni vel am,
el as se paral i sam mutuamente, dei xam de atuar num ou noutro senti do.
No mesmo i nstante em que a oferta e a procura se equi l i bram e dei xam,
portanto, de atuar, o preço de uma mercadori a no mercado coi nci de
com o seu valor real, com o preço normal em torno do qual osci l am
seus preços no mercado. Por consegui nte, se queremos i nvesti gar o
caráter desse valor, não nos devemos preocupar com os efei tos tran-
si tóri os que a oferta e a procura exercem sobre os preços do mercado.
E outro tanto caberi a di zer dos sal ári os e dos preços de todas as demai s
mercadori as.
V
[Salários e Preços]
Reduzi dos a sua expressão teóri ca mai s si mpl es, todos os argu-
mentos de nosso ami go se traduzem num só e úni co dogma: “Os preços
das mercadorias são determinados ou regulados pelos salários”.
Ante essa heresi a anti quada e desacredi tada, eu poderi a i nvocar
a observação práti ca. Poderi a di zer-vos que os operári os fabri s, os mi -
nei ros, os construtores navai s e outros trabal hadores i ngl eses, cujo
trabal ho é rel ati vamente bem pago, vencem a todas as demai s nações
pel a barateza de seus produtos, enquanto, por exempl o, o trabal hador
agrí col a i ngl ês, cujo trabal ho é rel ati vamente mal pago, é bati do por
quase todos os demai s paí ses, em conseqüênci a da caresti a de seus
produtos. Comparando uns arti gos com outros, dentro do mesmo paí s,
e as mercadori as de di sti ntos paí ses entre si , poderi a demonstrar que,
se abstrai rmos al gumas exceções mai s aparentes que reai s, em termo
médi o o trabal ho que recebe al ta remuneração produz mercadori as
baratas e o trabal ho que recebe bai xa remuneração, mercadori as caras.
I sso, natural mente, não demonstrari a que o el evado preço do trabal ho
em certos casos e, em outros, o seu preço bai xo, sejam as respecti vas
OS ECONOMISTAS
88
causas desses efei tos di ametral mente opostos mas em todo caso servi ri a
para provar que os preços das mercadori as não são governados pel os
preços do trabal ho. Todavi a, presci ndi remos perfei tamente desse mé-
todo empí ri co.
Poder-se-i a, tal vez, negar que o ci dadão Weston sustente o dogma
de que “os preços das mercadorias se determinam ou regulam pelos
salários”. De fato, el e jamai s formul ou esse dogma. Di sse, ao contrári o,
que o l ucro e a renda do sol o são também partes i ntegrantes dos preços
das mercadori as, vi sto que destes têm de sai r não só os sal ári os dos
operári os como os l ucros do capi tal i sta e as rendas do propri etári o da
terra. Porém, a seu modo de ver, como se formam os preços? Formam-se,
em pri mei ro l ugar, pel os sal ári os; em segui da, somam-se ao preço um
tanto por cento adi ci onal em benefí ci o do capi tal i sta e outro tanto por
cento adi ci onal em benefí ci o do propri etári o da terra. Suponhamos que
os sal ári os do trabal ho i nverti do na produção de uma mercadori a as-
cendem a 10. Se a taxa de l ucro fosse de 100%, o capi tal i sta acres-
centari a 10 aos sal ári os desembol sados, e, se a taxa de renda fosse
também de 100% sobre os sal ári os, ter-se-i a que ajuntar mai s 10, com
o que o preço total da mercadori a vi ri a a ci frar-se em 30. Semel hante
determi nação do preço, porém, estari a presi di da si mpl esmente pel os
sal ári os. Se estes, no nosso exempl o, subi ssem a 20, o preço da mer-
cadori a el evar-se-i a a 60 e assi m sucessi vamente. Ei s por que todos
os escri tores anti quados de economi a pol í ti ca que al vi travam a tese
de que os sal ári os regul am os preços i ntentavam prová-l a apresentando
o l ucro e a renda do sol o como simples percentagens adicionais sobre
os salários. Nenhum del es era, natural mente, capaz de reduzi r os l i -
mi tes dessas percentagens a uma l ei econômi ca. Pareci am, ao contrári o,
acredi tar que os l ucros se fi xavam pel a tradi ção, costume, vontade do
capi tal i sta, ou por qual quer outro método i gual mente arbi trári o e i nex-
pl i cável . Quando afi rmavam que os l ucros se determi nam pel a concor-
rênci a entre os capi tal i stas, portanto, não expl i cavam absol utamente
nada. Essa concorrênci a por certo ni vel a as di ferentes taxas de l ucros
das di versas i ndústri as, ou seja, as reduz a um ní vel médi o, porém
jamai s pode determi nar esse ní vel , ou a taxa geral de l ucro.
Que queremos di zer quando afi rmamos que os preços das mer-
cadori as são determi nados pel os sal ári os? Como o sal ári o não é mai s
do que uma denomi nação do preço do trabal ho, queremos di zer com
i sso que os preços das mercadori as regul am-se pel o preço do trabal ho.
E como “preço” é val or de troca — e quando fal o de val or refi ro-me
sempre ao val or de troca —, a saber: valor de troca expresso em dinheiro,
aquel a afi rmati va equi val e a esta outra: “O valor dos mercadorias é
determinado pelo valor do trabalho”, ou, o que vem a dar no mesmo,
“O valor do trabalho é a medida geral do valor”.
Mas, por sua vez, como se determi na o “valor do trabalho”? Aqui ,
chegamos a um ponto morto. A um ponto morto, sem dúvi da, se ten-
MARX
89
tarmos raci oci nar l ogi camente. Porém, os proponentes dessa teori a não
têm l á grandes escrúpul os em matéri a de l ógi ca. Tomemos o nosso
ami go Weston, como exempl o. Pri mei ro, di zi a-nos que os sal ári os re-
gul avam os preços das mercadori as e que, portanto, quando os sal ári os
subi am, estes devi am subi r também. Depoi s, dava mei a-vol ta para nos
demonstrar que um aumento de sal ári os não servi ri a para nada, vi sto
que também subi ri am os preços das mercadori as e os sal ári os se me-
di am, na real i dade, pel os preços das mercadori as com el es compradas.
Assi m, parti ndo da afi rmati va de que o val or do trabal ho determi na
o val or da mercadori a, vi emos parar na afi rmati va de que o val or da
mercadori a determi na o val or do trabal ho. Nada mai s fi zemos do que
nos mover num cí rcul o vi ci oso, sem chegar a nenhuma concl usão.
No geral , é evi dente que, tomando o val or de uma mercadori a,
por exempl o, o trabal ho, o tri go ou outra mercadori a qual quer, como
medi da e regul ador geral do val or, apenas desvi amos a di fi cul dade, já
que determi namos um val or por outro, que por sua vez também ne-
cessi ta ser determi nado.
Expresso em sua forma mai s abstrata, o dogma de que “os sal ári os
determi nam os preços das mercadori as” equi val e a di zer que “o val or
se determi na pel o val or”, e essa tautol ogi a só demonstra, na real i dade,
que nada sabemos a respei to do val or. Se admi tí ssemos semel hante
premi ssa, toda argumentação acerca das l ei s gerai s da economi a pol í ti ca
converter-se-i a em mera tagarel i ce. Por i sso deve-se reconhecer a Ri -
cardo
15
o grande méri to de haver destruí do até os fundamentos, com
a sua obra sobre os Princípios da Economia Política, publ i cada em
1817, o vel ho erro, tão di vul gado e gasto de que “os sal ári os determi nam
os preços”, fal áci a já rechaçada por Adam Smi th
16
e seus predecessores
franceses na parte verdadei ramente ci entí fi ca de suas i nvesti gações,
mas que, não obstante, el es reproduzi ram nos seus capí tul os mai s su-
perfi ci ai s e de vul gari zação.
VI
[Valor e Trabalho]
Ci dadãos! Cheguei ao ponto em que devo necessari amente entrar
no verdadei ro desenvol vi mento do tema. Não posso asseverar que o
faça de manei ra mui to sati sfatóri a, poi s i sso me obri gari a a percorrer
OS ECONOMISTAS
90
15 Davi d Ri cardo (1772-1823) foi um dos pri mei ros teóri cos da Economi a Pol í ti ca cl ássi ca.
Escreveu um grande número de ensai os e dei xou uma obra de l arga projeção, i nti tul ada
Principles of Political Economy and Taxation, ti da em grande apreço por Marx, que l he
sal i entou os aspectos i deal i stas. (N. do E.)
16 Adam Smi th (1723-1790), grande si stemati zador do pensamento econômi co burguês, o pri -
mei ro a consi derar, real mente, o trabal ho fonte da ri queza. Em sua obra An I nquiry into
the Nature and Causes of the Wealth of Nations defende, essenci al mente, o pri ncí pi o da
organi zação espontânea do mundo econômi co sob a ação do i nteresse pessoal . (N. do E.)
todo o campo da economi a pol í ti ca. Apenas posso, como di ri a o francês,
effleurer la question,
17
tocar os aspectos fundamentai s.
A pri mei ra pergunta que temos de fazer é esta: Que é o valor
de uma mercadori a? Como se determi na esse val or?
À pri mei ra vi sta, parecerá que o val or de uma mercadori a é al go
compl etamente relativo, que não se pode determi nar sem pôr uma mer-
cadori a em rel ação com todas as outras. Com efei to, quando fal amos
do val or, do val or de troca de uma mercadori a, entendemos as quan-
ti dades proporci onai s nas quai s é trocada por todas as demai s merca-
dori as. I sso, porém, conduz-nos a perguntar: como se regul am as pro-
porções em que umas mercadori as se trocam por outras?
Sabemos por experi ênci a que essas proporções vari am ao i nfi ni to.
Tomemos uma úni ca mercadori a, por exempl o, o tri go, e veremos que
um quarter de tri go se permuta, numa séri e quase i nfi ni ta de graus
de proporção, por di ferentes mercadori as. E, sem embargo, como o seu
valor é sempre o mesmo, quer se expresse em seda, em ouro, ou outra
qual quer mercadori a, esse val or tem que ser al guma coi sa de di sti nto
e i ndependente dessas diversas proporções em que se troca por outros
arti gos. Necessari amente há de ser possí vel expri mi r, de uma forma
mui to di ferente, essas di versas equações com vári as mercadori as.
De resto, quando di go que um quarter de tri go se troca por ferro
numa determi nada proporção ou que o val or de um quarter de tri go
se expressa numa determi nada quanti dade de ferro, di go que o val or
do tri go ou seu equi val ente em ferro são i guai s a uma terceira coisa,
que não é tri go nem ferro, poi s suponho que ambos expri mem a mesma
grandeza sob duas formas di sti ntas. Portanto, cada um desses doi s
objetos, tanto o tri go como o ferro, deve poder reduzi r-se, i ndependen-
temente um do outro, àquel a tercei ra coi sa, que é a medi da comum
de ambos.
Para escl arecer esse ponto, recorrerei a um exempl o geométri co
mui to si mpl es. Quando comparamos a área de vári os tri ângul os das
mai s di versas formas e grandezas, ou quando comparamos tri ângul os
com retângul os, ou com outra qual quer fi gura reti l í nea, qual é o pro-
cesso que empregamos? Reduzi mos a área de um tri ângul o qual quer
a uma expressão compl etamente di sti nta de sua forma vi sí vel . E como,
pel a natureza do tri ângul o, sabemos que a área dessa fi gura geométri ca
é sempre i gual à metade do produto de sua base pel a sua al tura, i sso
nos permi te comparar entre si os di versos val ores de toda cl asse de
tri ângul os e de todas as fi guras reti l í neas, já que todas el as podem
reduzi r-se a um certo número de tri ângul os.
Temos que segui r o mesmo processo para os val ores das merca-
dori as. Temos que poder reduzi -l os todos a uma expressão comum,
MARX
91
17 Em francês, no ori gi nal : tocar de l eve na questão. (N. do E.)
di sti ngui ndo-os uni camente pel a proporção em que contêm essa mesma
e i dênti ca medi da. Como os valores de troca das mercadori as não pas-
sam de funções sociais del as, e nada têm a ver com suas propri edades
naturais, devemos antes de mai s nada perguntar: Qual é a substância
social comum a todas as mercadori as? É o trabalho. Para produzi r
uma mercadori a tem-se que i nverter nel a, ou a el a i ncorporar, uma
determi nada quanti dade de trabal ho. E não si mpl esmente trabalho,
mas trabalho social. Aquel e que produz um objeto para seu uso pessoal
e di reto, para consumi -l o, cri a um produto, mas não uma mercadoria.
Como produtor que se mantém a si mesmo, nada tem com a soci edade.
Mas, para produzi r uma mercadoria, não só se tem de cri ar um arti go
que sati sfaça a uma necessi dade social qual quer, como também o tra-
bal ho nel e i ncorporado deverá representar uma parte i ntegrante da
soma gl obal de trabal ho i nverti do pel a soci edade. Tem que estar su-
bordi nado à divisão de trabalho dentro da sociedade. Não é nada sem
os demai s setores do trabal ho, e, por sua vez, é chamado a i ntegrá-l os.
Quando consi deramos as mercadorias como valores, vemo-l as somente
sob o aspecto de trabalho social realizado, plasmado ou, se assi m qui -
serdes, cristalizado. Consi deradas desse modo, só podem distinguir-se
umas das outras enquanto representem quanti dades mai ores ou me-
nores de trabal ho; assi m, por exempl o, num l enço de seda pode encer-
rar-se uma quanti dade mai or de trabal ho do que em um ti jol o. Mas
como se medem as quantidades de trabalho? Pel o tempo que dura o
trabalho, medi ndo este em horas, em di as etc. Natural mente, para
apl i car essa medi da, todas as espéci es de trabal ho se reduzem a tra-
bal ho médi o, ou si mpl es, como a sua uni dade.
Chegamos, portanto, a esta concl usão. Uma mercadori a tem um
valor por ser uma cristalização de um trabalho social. A grandeza de
seu val or, ou seu val or relativo, depende da mai or ou menor quanti dade
dessa substânci a soci al que el a encerra, quer di zer, da quanti dade
rel ati va de trabal ho necessári o à sua produção. Portanto, os valores
relativos dos mercadorias se determi nam pel as correspondentes quan-
tidades ou somas de trabalho invertidas, realizadas, plasmadas nelas.
As quanti dades correspondentes de mercadori as que foram produzi das
no mesmo tempo de trabalho são iguais. Ou, di to de outro modo, o
val or de uma mercadori a está para o val or de outra, assi m como a
quanti dade de trabal ho pl asmada numa está para a quanti dade de
trabal ho pl asmada na outra.
Suspei to que mui tos de vós perguntarei s: exi ste então uma di -
ferença tão grande, supondo que exi sta al guma, entre a determi nação
dos val ores das mercadori as na base dos salários e sua determi nação
pel as quantidades relativas de trabalho necessári as à sua produção?
Não devei s perder de vi sta que a retribuição do trabal ho e a quantidade
de trabal ho são coi sas perfei tamente di sti ntas. Suponhamos, por exem-
pl o, que num quarter de tri go e numa onça de ouro se pl asmam quan-
OS ECONOMISTAS
92
tidades iguais de trabalho. Val ho-me desse exempl o porque já foi em-
pregado por Benjami n Frankl i n
18
no seu pri mei ro ensai o, publ i cado
em 1729, sob o tí tul o de Uma Modesta I nvestigação Sobre a Natureza
e a Necessidade do Papel-Moeda, que é um dos pri mei ros l i vros em
que se reconhece a verdadei ra natureza do val or. Poi s bem, suponha-
mos, como fi cou di to, que um quarter de tri go e uma onça de ouro são
valores iguais ou equivalentes, por serem cristalizações de quantidades
iguais de trabalho médio, de tantos di as, ou tantas semanas de trabal ho
pl asmado em cada uma del as. Acaso, ao determi nar assi m os val ores
rel ati vos do ouro e do tri go, fazemos qual quer referênci a aos salários
que percebem os operári os agrí col as e os mi nei ros? Em absol uto, nem
por sombra. Não di zemos, sequer remotamente, como se paga o trabalho
di ári o ou semanal desses obrei ros, nem ao menos di zemos se aqui se
emprega, ou não, trabal ho assal ari ado. Ai nda supondo que se empregue
trabal ho assal ari ado, os sal ári os podem ser mui to desi guai s. Pode acon-
tecer que o operári o cujo trabal ho se pl asma no quarter de tri go só
perceba por el e doi s bushels,
19
enquanto o operári o na mi na pode ter
percebi do pel o seu trabal ho metade da onça de ouro. Ou, supondo que
os seus sal ári os sejam i guai s, podem di feri r nas mai s di versas propor-
ções dos val ores das mercadori as por el e produzi das. Podem representar
a metade, a terça, quarta ou qui nta parte, ou outra fração qual quer
daquel e quarter de tri go, ou daquel a onça de ouro. Natural mente, os
seus salários não podem exceder os val ores das mercadori as por el es
produzi das, não podem ser maiores que estas, mas podem, si m, ser
inferiores em todos os graus i magi návei s. Seus salários achar-se-ão
limitados pel os valores dos produtos, mas os valores de seus produtos
não se acharão l i mi tados pel os sal ári os. E sobretudo aquel es val ores,
os val ores rel ati vos do tri go e do ouro, por exempl o, se terão fi xado
sem atentar em nada no val or do trabal ho i nverti do nel es, i sto é, sem
atender em nada aos salários. A determi nação dos val ores das mer-
cadori as pel as quantidades relativas de trabalho nelas plasmado di fere,
como se vê, radi cal mente, do método tautol ógi co da determi nação dos
val ores das mercadori as pel o val or do trabal ho, ou seja, pel os salários.
Contudo, no decurso de nossa i nvesti gação, teremos oportuni dade de
escl arecer ai nda mai s esse ponto. Para cal cul ar o val or de troca de
uma mercadori a, temos de acrescentar à quanti dade de trabal ho i n-
verti da nel a, em último lugar, a que antes se i ncorporou nas maté-
ri as-pri mas com que se el aborou a mercadori a e o trabal ho apl i cado
aos mei os de trabal ho — ferramentas, maqui nari a e edi fí ci os — que
MARX
93
18 Benjami n Frankl i n (1706-1790), fi l ósofo e estadi sta norte-ameri cano, tornou-se conheci do
desde a publ i cação do seu pri mei ro ensai o: A Modest I nquiry into the Nature and Necessity
of a Paper Currency. (N. do E.)
19 Medi da i ngl esa para secos, equi val ente, nos Estados Uni dos, a 35,238 l i tros, e, na I ngl aterra,
a 36,367 l i tros. (N. do T.)
servi ram para esse trabal ho.
20
Por exempl o, o val or de uma determi -
nada quanti dade de fi o de al godão é a cri stal i zação da quanti dade de
trabal ho i ncorporada ao al godão durante o processo de fi ação e, al ém
di sso, da quanti dade de trabal ho anteri ormente pl asmado nesse al go-
dão, da quanti dade de trabal ho encerrada no carvão, no ól eo e em
outras matéri as auxi l i ares empregadas, bem como da quanti dade de
trabal ho materi al i zado na máqui na a vapor, nos fusos, no edi fí ci o da
fábri ca etc. Os mei os de trabal ho propri amente di tos, tai s como ferra-
mentas, maqui nari a e edi fí ci os, uti l i zam-se constantemente, durante
um perí odo de tempo mai s ou menos l ongo, em processos repeti dos de
produção. Se se consumi ssem de uma vez, como acontece com as ma-
téri as-pri mas, transferi r-se-i a i medi atamente todo o seu val or à mer-
cadori a que ajudam a produzi r. Mas como um fuso, por exempl o, só
se desgasta aos poucos, cal cul a-se um termo médi o tomando por base
a sua duração médi a, o seu aprovei tamento médi o ou a sua deteri oração
ou desgaste durante um determi nado tempo, di gamos, um di a. Desse
modo cal cul amos qual a parte do val or dos fusos que passa ao fi o
fabri cado durante um di a e que parte, portanto, dentro da soma gl obal
de trabal ho real i zado, por exempl o, numa l i bra de fi o, corresponde à
quanti dade de trabal ho anteri ormente i ncorporado nos fusos. Para o
objeti vo a que vi samos é necessári o i nsi sti r mai s nesse ponto.
Poderi a parecer que, se o val or de uma mercadori a se determi na
pel a quantidade de trabalho que se inverte na sua produção, quanto
mai s pregui çoso ou i nábi l seja um operári o, mai s val i osa será a mer-
cadori a por el e produzi da, poi s que o tempo de trabal ho necessári o
para produzi -l a será proporci onal mente mai or. Mas aquel e que assi m
pensa i ncorre num l amentável erro. Lembrai -vos que eu empregava a
expressão “trabal ho social” e nessa denomi nação de “social” cabem mui -
tas coi sas. Ao di zer que o val or de uma mercadori a é determi nado
pel a quantidade de trabalho i ncorporado ou cri stal i zado nel a, queremos
referi r-nos à quantidade de trabalho necessário para produzi r essa mer -
cadori a num dado estado soci al e sob determi nadas condi ções soci ai s
médi as de produção, com uma dada i ntensi dade soci al médi a e com
uma destreza médi a no trabal ho que se emprega. Quando, na I ngl a-
terra, o tear a vapor começou a competi r com o tear manual , para
converter uma determi nada quanti dade de fi o numa jarda de teci do
de al godão, ou pano, bastava a metade da duração de trabal ho que
anteri ormente se i nverti a. Agora, o pobre tecel ão manual ti nha que
trabal har 17 ou 18 horas di ári as, em vez das 9 ou 10 de antes. Não
obstante, o produto de suas 20 horas de trabal ho só representava 10
horas de trabal ho soci al ; i sto é, as 10 horas de trabal ho soci al mente
necessári as para converter uma determi nada quanti dade de fi o em
OS ECONOMISTAS
94
20 Ver RI CARDO, Davi d. Princípios de Economia Política. Cap. 1, sec. I V. (N. do T.)
arti gos têxtei s. Portanto, seu produto de 20 horas não ti nha mai s val or
do que aquel e que antes el aborava em 10.
Se, então, a quanti dade de trabal ho soci al mente necessári o, ma-
teri al i zado nas mercadori as, é o que determi na o val or de troca destas,
ao crescer a quanti dade de trabal ho exi gí vel para produzi r uma mer-
cadori a aumenta necessari amente o seu val or e vi ce-versa, di mi nui ndo
aquel a, bai xa este.
Se as respecti vas quanti dades de trabal ho necessári o para pro-
duzi r as respecti vas mercadori as permanecessem constantes, seri am
também constantes seus val ores rel ati vos. Porém, assi m não sucede.
A quanti dade de trabal ho necessári o para produzi r uma mercadori a
vari a constantemente, ao vari arem as forças produti vas do trabal ho
apl i cado. Quanto mai ores são as forças produti vas do trabal ho, mai s
produtos se el aboram num tempo de trabal ho dado; e quanto menores
são, menos se produzem na mesma uni dade de tempo. Se, por exempl o,
ao crescer a popul ação, se fi zesse necessári o cul ti var terras menos fér-
tei s, terí amos que i nverter uma quanti dade mai or de trabal ho para
obter a mesma produção, e i sso fari a subi r, por consegui nte, o val or
dos produtos agrí col as. Por outro l ado, se um só fi andei ro, com os
modernos mei os de produção, ao fi m do di a converte em fi o mi l vezes
mai s al godão que antes fi ava no mesmo espaço de tempo com auxí l i o
da roca, é evi dente que, agora, cada l i bra de al godão absorverá mi l
vezes menos trabal ho de fi ação que dantes e, por conseqüênci a, o val or
que o processo de fi ação i ncorpora em cada l i bra de al godão será mi l
vezes menor. E na mesma proporção bai xará o val or do fi o.
À parte as di ferenças nas energi as naturai s e na destreza ad-
qui ri da para o trabal ho entre os di versos povos, as forças produti vas
do trabal ho dependerão, pri nci pal mente:
1 — Das condi ções naturais do trabal ho: ferti l i dade do sol o, ri -
queza das jazi das mi nerai s, etc.
2 — Do aperfei çoamento progressi vo das forças sociais do trabalho
por efei to da produção em grande escal a, da concentração do capi tal , da
combi nação do trabal ho, da di vi são do trabal ho, maqui nari a, mel hori a
dos métodos, apl i cação dos mei os quí mi cos e de outras forças naturais,
redução do tempo e do espaço graças aos mei os de comuni cação e de
transporte, e todos os demai s i nventos pel os quai s mai s a ciência obri ga
as forças naturai s a servi r ao trabal ho, e pel os quai s desenvol ve o caráter
soci al ou cooperati vo do trabal ho. Quanto mai or é a força produti va do
trabal ho, menos trabal ho se i nverte numa dada quanti dade de produtos
e, portanto, menor é o val or desses produtos. Quanto menores são as
forças produti vas do trabal ho, mai s trabal ho se emprega na mesma quan-
ti dade de produtos e, por conseqüênci a, mai or é o seu val or. Podemos,
então, estabel ecer como l ei geral o segui nte:
Os valores das mercadorias estão na razão direta do tempo de
MARX
95
trabalho invertido em sua produção e na razão inversa das forças pro-
dutivas do trabalho empregado.
Como até aqui só temos fal ado do val or , acr escentar ei al -
gumas pal avr as acer ca do preço, que é uma for ma par ti cul ar to-
mada pel o val or .
Em si mesmo, o preço outra coi sa não é senão a expressão em
dinheiro do valor. Os val ores de todas as mercadori as deste paí s se
expri mem, por exempl o, em preços-ouro, enquanto no Conti nente se
expressam quase sempre em preços-prata. O val or do ouro, ou da prata,
se determi na como o de qual quer mercadori a, pel a quanti dade de tra-
bal ho necessári o à sua extração. Permutai s uma certa soma de vossos
produtos naci onai s, na qual se cri stal i za uma determi nada quanti dade
de vosso trabal ho naci onal , pel os produtos dos paí ses produtores de
ouro e prata, nos quai s se cri stal i za uma determi nada quanti dade de
seu trabal ho. É por esse processo, na verdade pel a si mpl es troca, que
aprendei s a expri mi r em ouro e prata os val ores de todas as merca-
dori as, i sto é, as quanti dades respecti vas de trabal ho empregadas na
sua produção. Se vos aprofundardes mai s na expressão em dinheiro do
valor, ou, o que vem a ser o mesmo, na conversão do valor em preço,
verei s que se trata de um processo por mei o do qual dai s aos valores
de todas as mercadori as uma forma independente e homogênea, por
mei o da qual expri mi s esses val ores como quanti dades de igual trabalho
social. Na medi da em que é apenas a expressão em di nhei ro do val or,
o preço foi denomi nado preço natural, por Adam Smi th, e prix néces-
saire,
21
pel os fi si ocratas franceses.
Que rel ação guardam, poi s, o valor e os preços do mercado ou os
preços naturais e os preços do mercado? Todos sabei s que o preço do
mercado é o mesmo para todas as mercadori as da mesma espéci e, por
mui to que vari em as condi ções de produção dos produtores i ndi vi duai s.
Os preços do mercado não fazem mai s que expressar a quantidade
social média de trabalho, que, nas condi ções médi as de produção, é
necessári a para abastecer o mercado com determi nada quanti dade de
um certo arti go. Cal cul a-se tendo em vi sta a quanti dade gl obal de uma
mercadori a de determi nada espéci e.
Até agora o preço de uma mercadori a no mercado coi nci de com
o seu valor. Por outra parte, as osci l ações dos preços do mercado que
umas vezes excedem o val or, ou preço natural , e outras vezes fi cam
abai xo del e dependem das fl utuações da oferta e da procura. Os preços
do mercado se desvi am constantemente dos val ores, mas, como di z
Adam Smi th:
“O preço natural é (...) o preço central em torno do qual gra-
vi tam constantemente os preços das mercadori as. Ci rcunstânci as
OS ECONOMISTAS
96
21 Em francês, no ori gi nal , “preço necessári o”. (N. do E.)
di versas os podem manter ergui dos mui to aci ma desse ponto e,
por vezes, preci pi tá-l os um pouco abai xo. Quai squer, porém, que
sejam os obstácul os que os i mpeçam de se deter nesse centro de
repouso e estabi l i dade, el es tendem conti nuamente para l á”.
22
Não posso agora esmi uçar esse assunto. Basta di zer que, se a
oferta e a procura se equi l i bram, os preços das mercadori as no mercado
corresponderão a seus preços naturai s, i sto é, a seus val ores, os quai s
se determi nam pel as respecti vas quanti dades de trabal ho necessári o
para a sua produção. Mas a oferta e a procura devem constantemente
tender para o equi l í bri o, embora só o al cancem compensando uma fl u-
tuação com a outra, uma al ta com uma bai xa e vi ce-versa. Se, em vez
de consi derar somente as fl utuações di ári as, anal i sardes o movi mento
dos preços do mercado durante um espaço de tempo bastante l ongo,
como o fez, por exempl o, o sr. Tooke, na sua História dos Preços, des-
cobri rei s que as fl utuações dos preços no mercado, seus desvi os dos
val ores, suas al tas e bai xas, se compensam umas com as outras e se
neutral i zam de tal manei ra que, postas à margem a i nfl uênci a exerci da
pel os monopól i os e al gumas outras restri ções que aqui temos de passar
por al to, vemos que todas as espéci es de mercadori as se vendem, em
termo médi o, pel os seus respecti vos valores ou preços naturai s. Os
perí odos médi os de tempo, durante os quai s se compensam entre si
as fl utuações dos preços no mercado, di ferem segundo as di sti ntas es-
péci es de mercadori as, porque numas é mai s fáci l que em outras adaptar
a oferta à procura.
Se, então, fal ando de um modo geral e abarcando perí odos de
tempo bastante l ongos, todas as espéci es de mercadori as se vendem
pel os seus respecti vos val ores, é absurdo supor que o l ucro — não em
casos i sol ados, mas o l ucro constante e normal das di versas i ndústri as
— brota de uma majoração dos preços das mercadori as, ou do fato de
que se vendam por um preço que exceda consi deravel mente o seu valor.
O absurdo dessa i déi a evi denci a-se desde que a general i zamos. O que
al guém ganhasse constantemente como vendedor, haveri a de perder
constantemente como comprador. De nada serve di zer que há pessoas
que compram sem vender, consumi dores que não são produtores. O
que estes pagassem ao produtor, teri am antes de recebê-l o del e gráti s.
Se uma pessoa recebe o vosso di nhei ro e l ogo vo-l o devol ve compran-
do-vos as vossas mercadori as, por esse cami nho nunca enri quecerei s
por mai s caro que vendai s. Essa espéci e de negóci os poderá reduzi r
uma perda, mas jamai s contri bui r para real i zar um l ucro. Portanto,
para expl i car o caráter geral do lucro não terei s outro remédi o senão
parti r do teorema de que as mercadori as se vendem, em médi a, pel os
seus verdadeiros valores e que os lucros se obtêm vendendo as merca-
MARX
97
22 SMI TH, Adam. The Wealth of Nations. Nova York, 1931. t. I . cap. 7, p. 57. (N. do T.)
dorias pelo seu valor, i sto é, em proporção à quanti dade de trabal ho
nel as materi al i zado. Se não consegui stes expl i car o l ucro sobre essa
base, de nenhum outro modo consegui rei s expl i cá-l o. I sso parece um
paradoxo e contrári o à observação de todos os di as. Parece também
paradoxal que a Terra gi re ao redor do Sol e que a água seja formada
por doi s gases al tamente i nfl amávei s. As verdades ci entí fi cas serão
sempre paradoxai s, se jul gadas pel a experi ênci a de todos os di as, a
qual somente capta a aparênci a enganadora das coi sas.
VII
Força de Trabalho
Depoi s de termos anal i sado, na medi da em que podí amos fazê-l o,
em um exame tão rápi do, a natureza do valor, do valor de uma mer-
cadoria qualquer, devemos vol ver nossa atenção para o valor específico
do trabalho. E aqui tenho eu, novamente, que vos surpreender com
outro aparente paradoxo. Todos vós estai s compl etamente convenci dos
de que aqui l o que vendei s todos os di as é vosso trabal ho: de que, por-
tanto, o trabal ho tem um preço e que, embora o preço de uma merca-
dori a mai s não seja que a expressão em di nhei ro do seu val or, deve
exi sti r, sem dúvi da al guma, qual quer coi sa pareci da com o valor do
trabalho. E, não obstante, não exi ste tal coi sa como o val or do trabal ho,
no senti do corrente da pal avra. Vi mos que a quanti dade de trabal ho
necessári o cri stal i zado numa mercadori a consti tui o seu val or. Apl i -
cando agor a esse concei to do val or , como poder í amos deter mi nar o
val or de uma jor nada de tr abal ho de 10 hor as, por exempl o? Quanto
tr abal ho está conti do nessa jor nada? Dez hor as de tr abal ho. Se di s-
séssemos que o val or de uma jor nada de tr abal ho de 10 hor as equi -
val e a 10 hor as de tr abal ho, ou à quanti dade de tr abal ho conti do
nel a, far í amos uma afi r mação tautol ógi ca e, al ém di sso, sem senti do.
Natur al mente, depoi s de haver desentr anhado o senti do ver dadei r o,
por ém ocul to, da expr essão valor do trabalho, estar emos em condi -
ções de i nter pr etar essa apl i cação i r r aci onal e apar entemente i m-
possí vel do val or , do mesmo modo que estamos em condi ções de
expl i car os movi mentos, apar entes ou somente per ceptí vei s em cer tas
for mas, dos cor pos cel estes, depoi s de ter mos descober to os seus
movi mentos r eai s.
O que o operári o vende não é di retamente o seu trabal ho, mas
a sua força de trabalho, cedendo temporari amente ao capi tal i sta o di -
rei to de di spor del a. Tanto é assi m que, não sei se as l ei s i ngl esas,
mas, desde l ogo, al gumas l ei s conti nentai s fi xam o máximo de tempo
pel o qual uma pessoa pode vender a sua força de trabal ho. Se l he
fosse permi ti do vendê-l a sem l i mi tação de tempo, terí amos i medi ata-
mente restabel eci da a escravatura. Semel hante venda, se o operári o
se vendesse por toda a vi da, por exempl o, convertê-l o-i a sem demora
em escravo do patrão até o fi nal de seus di as.
OS ECONOMISTAS
98
Thomas Hobbes,
23
um dos economi stas mai s anti gos e dos mai s
ori gi nai s fi l ósofos da I ngl aterra, já havi a assi nal ado em seu Leviatã,
i nsti nti vamente, esse ponto que escapou a todos os seus sucessores.
Di zi a el e:
“O valor de um homem é, como para todas as outras coi sas,
o seu preço; quer di zer, o que se pagari a pel o uso de sua força”.
Parti ndo dessa base podemos determi nar o valor do trabalho,
como o de todas as outras mercadori as.
Mas, antes de fazê-l o, poderí amos perguntar: de onde provém
esse fenômeno si ngul ar de que no mercado nós encontremos um grupo
de compradores, que possuem terras, maqui nari a, matéri as-pri mas e
mei os de vi da, coi sas essas que, exceto a terra, em seu estado bruto,
são produtos de trabalho, e, por outro l ado, um grupo de vendedores
que nada têm a vender senão sua força de trabal ho, os seus braços
l abori osos e cérebros? Como se expl i ca que um dos grupos compre
constantemente para real i zar l ucro e enri quecer-se, enquanto o outro
grupo vende constantemente para ganhar o pão de cada di a? A i nves-
ti gação desse probl ema seri a uma i nvesti gação do que os economi stas
chamam “acumulação prévia ou originária”,
24
mas que deveri a cha-
mar-se expropriação originária. E veremos que essa chamada acumu-
l ação ori gi nári a não é senão uma séri e de processos hi stóri cos que
resul taram na decomposição da unidade originária exi stente entre o
homem trabal hador e seus i nstrumentos de trabal ho. Essa observação
cai , todavi a, fora da órbi ta do nosso tema atual . Uma vez consumada
a separação entre o trabal hador e os i nstrumentos de trabal ho, esse estado
de coi sas se manterá e se reproduzi rá em escal a sempre crescente, até
que uma nova e radi cal revol ução do si stema de produção a dei te por
terra e restaure a primitiva unidade sob uma forma históri ca nova.
Que é, poi s, o valor da força de trabalho?
Como o de toda outra mercadori a, esse val or se determi na pel a
quanti dade de trabal ho necessári o para produzi -l a. A força de trabal ho
de um homem consi ste, pura e si mpl esmente, na sua i ndi vi dual i dade
vi va. Para poder crescer e manter-se, um homem preci sa consumi r
uma determi nada quanti dade de mei os de subsi stênci a; o homem, como
a máqui na, se gasta e tem que ser substi tuí do por outro homem. Al ém
da soma de arti gos de pri mei ra necessi dade exi gi dos para o seu próprio
sustento, el e preci sa de outra quanti dade dos mesmos arti gos para
cri ar determi nado número de fi l hos, que hão de substi tuí -l o no mercado
de trabal ho e perpetuar a descendênci a dos trabal hadores. Ademai s,
MARX
99
23 Thomas Hobbes (1588-1679), fi l ósofo i ngl ês, empí ri co e sensual i sta, i deól ogo da nobreza
aburguesada. Defendeu o poder i l i mi tado do Estado em suas obras, sobretudo no Leviatã,
escri to em 1651, que foi quei mado em públ i co, após a restauração dos Stuarts. (N. do E.)
24 O mesmo que “acumul ação pri mi ti va”, como Marx di ri a em O Capital. (N. do E.)
tem que gastar outra soma de val ores no desenvol vi mento de sua força
de trabal ho e na aqui si ção de uma certa habi l i dade. Para o nosso
objeti vo bastar-nos-á consi derar o trabal ho médio, cujos gastos de edu-
cação e aperfei çoamento são grandezas i nsi gni fi cantes. Devo, sem em-
bargo, aprovei tar a ocasi ão para constatar que, assi m como di ferem
os custos de produção de força de trabal ho de di ferente qual i dade,
assi m têm que di feri r, também, os val ores das forças de trabal ho apl i -
cadas nas di ferentes i ndústri as. Por conseqüênci a, o gri to pel a igual-
dade de salários assenta num erro, é um desejo oco, que jamai s se
real i zará. É um rebento desse fal so e superfi ci al radi cal i smo que admi te
as premi ssas e procura fugi r às concl usões. Dentro do si stema do sa-
l ari ado, o val or da força de trabal ho se fi xa como o de outra mercadori a
qual quer; e, como di sti ntas espéci es de força de trabal ho possuem di s-
ti ntos val ores ou exi gem para a sua produção di sti ntas quanti dades
de trabal ho, necessariamente têm que ter preços di sti ntos no mercado
de trabal ho. Pedi r uma retribuição igual ou simplesmente uma retri-
buição justa, na base do si stema do sal ari ado, é o mesmo que pedi r
l i berdade na base do si stema da escravatura. O que pudéssei s consi -
derar justo ou eqüi tati vo não vem ao caso. O probl ema está em saber
o que vai acontecer necessári a e i nevi tavel mente dentro de um dado
si stema de produção.
Depoi s do que di ssemos, o valor da força de trabalho é determi -
nado pel o valor dos artigos de primeira necessidade exi gi dos para pro-
duzi r, desenvol ver, manter e perpetuar a força de trabal ho.
VIII
A Produção da Mais-Valia
Suponhamos agora que a quanti dade médi a di ári a de arti gos de
pri mei ra necessi dade i mpresci ndí vei s à vi da de um operári o exija 6
horas de trabalho médio para a sua produção. Suponhamos, al ém di sso,
que essas 6 horas de trabal ho médi o se materi al i zem numa quanti dade
de ouro equi val ente a 3 xel i ns. Nestas condi ções, os 3 xel i ns seri am o
preço ou a expressão em di nhei ro do valor diário da força de trabalho
desse homem. Se trabal hasse 6 horas di ári as, el e produzi ri a di ari a-
mente um val or que bastari a para comprar a quanti dade médi a de
seus arti gos di ári os de pri mei ra necessi dade ou para se manter como
operári o.
Mas o nosso homem é um obrei ro assal ari ado. Portanto, preci sa
vender a sua força de trabal ho a um capi tal i sta. Se a vende por 3
xel i ns di ári os, ou por 18 semanai s, vende-a pel o seu val or. Vamos supor
que se trata de um fi andei ro. Trabal hando 6 horas por di a, i ncorporará
ao al godão, di ari amente, um val or de 3 xel i ns. Esse val or di ari amente
i ncorporado por el e representari a um equi val ente exato do sal ári o, ou
preço de sua força de trabal ho, que recebe cada di a. Mas nesse caso
OS ECONOMISTAS
100
não i ri a para o capi tal i sta nenhuma mais-valia ou sobreproduto al gum.
É aqui , então, que tropeçamos com a verdadei ra di fi cul dade.
Ao comprar a força de trabal ho do operári o e ao pagá-l a pel o seu
val or, o capi tal i sta adqui re, como qual quer outro comprador, o di rei to
de consumi r ou usar a mercadori a comprada. A força de trabal ho de
um homem é consumi da, ou usada, fazendo-o trabal har, assi m como
se consome ou se usa uma máqui na fazendo-a funci onar. Portanto, o
capi tal i sta, ao comprar o val or di ári o, ou semanal , da força de trabal ho
do operári o, adqui re o di rei to de servi r-se del a ou de fazê-l a funci onar
durante todo o dia ou toda a semana. A jornada de trabal ho, ou a
semana de trabal ho, têm natural mente certos l i mi tes, mas a i sso vol -
veremos, em detal he, mai s adi ante.
No momento, quero chamar-vos a atenção para um ponto deci si vo.
O valor da força de trabal ho se determi na pel a quanti dade de
trabal ho necessári o para a sua conservação, ou reprodução, mas o uso
dessa força só é l i mi tado pel a energi a vi tal e a força fí si ca do operári o.
O valor di ári o ou semanal da força de trabal ho di fere compl etamente
do funci onamento di ári o ou semanal dessa mesma força de trabal ho;
são duas coi sas compl etamente di sti ntas, como a ração consumi da por
um caval o e o tempo em que este pode carregar o caval ei ro. A quan-
ti dade de trabal ho que serve de l i mi te ao valor da força de trabal ho
do operári o não l i mi ta de modo al gum a quanti dade de trabal ho que
sua força de trabal ho pode executar. Tomemos o exempl o do nosso
fi andei ro. Vi mos que, para recompor di ari amente a sua força de tra-
bal ho, esse fi andei ro preci sava reproduzi r um val or di ári o de 3 xel i ns,
o que real i zava com um trabal ho di ári o de 6 horas. I sso, porém, não
l he ti ra a capaci dade de trabal har 10 ou 12 horas e mai s, di ari amente.
Mas o capi tal i sta, ao pagar o valor di ári o ou semanal da força de
trabal ho do fi andei ro, adqui re o di rei to de usá-l a durante todo o dia
ou toda a semana. Fá-l o-á trabal har, portanto, di gamos, 12 horas di á-
ri as, quer di zer, além das 6 horas necessári as para recompor o seu
sal ári o, ou o val or de sua força de trabal ho, terá de trabal har outras
6 horas, a que chamarei de horas de sobretrabalho, e esse sobretrabal ho
i rá traduzi r-se em uma mais-valia e em um sobreproduto. Se, por exem-
pl o, nosso fi andei ro, com o seu trabal ho di ári o de 6 horas, acrescenta
ao al godão um val or de 3 xel i ns, val or que consti tui um equi val ente
exato de seu sal ári o, em 12 horas acrescentará ao al godão um val or
de 6 xel i ns e produzi rá a correspondente quantidade adicional de fio.
E, como vendeu sua força de trabal ho ao capi tal i sta, todo o val or, ou
todo o produto, por el e cri ado pertence ao capi tal i sta, que é dono de
sua força de trabal ho, pro tempore. Por consegui nte, desembol sando 3
xel i ns, o capi tal i sta real i zará o val or de 6, poi s com o desembol so de
um val or no qual se cri stal i zam 6 horas de trabal ho receberá em troca
um val or no qual estão cri stal i zadas 12 horas. Se repete, di ari amente,
essa operação, o capi tal i sta desembol sará 3 xel i ns por di a e embol sará
MARX
101
6, cuja metade tornará a i nverter no pagamento de novos sal ári os,
enquanto a outra metade formará a mais-valia, pel a qual o capi tal i sta
não paga equi val ente al gum. Esse tipo de intercâmbio entre o capital
e o trabalho é o que serve de base à produção capi tal i sta, ou ao si stema
do sal ari ado, e tem que conduzi r, sem cessar, à constante reprodução
do operári o como operári o e do capi tal i sta como capi tal i sta.
A taxa de mais-valia dependerá, se todas as outras ci rcunstânci as
permanecerem i nvari ávei s, da proporção exi stente entre a parte da
jornada que o operári o tem que trabal har para reproduzi r o val or da
força de trabal ho e o sobretempo ou sobretrabalho real i zado para o
capi tal i sta. Dependerá, por i sso, da proporção em que a jornada de
trabalho se prolongue além do tempo durante o qual o operári o, com
o seu trabal ho, se l i mi ta a reproduzi r o val or de sua força de trabal ho
ou a repor o seu sal ári o.
IX
O Valor do Trabalho
Devemos vol tar agora à expressão “valor ou preço do trabalho”.
Vi mos que, na real i dade, esse val or nada mai s é que o da força de
trabal ho, medi do pel os val ores das mercadori as necessári as à sua ma-
nutenção. Mas, como o operári o só recebe o seu sal ári o depois de real i zar
o seu trabal ho e como, ademai s, sabe que o que entrega real mente ao
capi tal i sta é o seu trabal ho, el e necessari amente i magi na que o val or
ou preço de sua força de trabal ho é o preço ou valor do seu próprio
trabalho. Se o preço de sua força de trabal ho é 3 xel i ns, nos quai s se
materi al i zam 6 horas de trabal ho, e el e trabal ha 12 horas, forçosamente
o operári o consi derará esses 3 xel i ns como o val or ou preço de 12 horas
de trabal ho, se bem que estas 12 horas representem um val or de 6
xel i ns. Donde se chega a um dupl o resul tado:
Pri mei ro: O valor ou preço da força de trabalho toma a aparênci a
do preço ou valor do próprio trabalho, ai nda que a ri gor as expressões
de val or e preço do trabal ho careçam de senti do.
Segundo: Ai nda que só se pague uma parte do trabal ho di ári o
do operári o, enquanto a outra parte fi ca sem remuneração, e ai nda
que esse trabal ho não remunerado ou sobretrabal ho seja preci samente
o fundo de que se forma a mais-valia ou lucro, fi ca parecendo que todo
o trabal ho é trabal ho pago.
Essa aparênci a enganadora di sti ngue o trabalho assalariado das
outras formas históricas do trabal ho. Dentro do si stema do sal ari ado,
até o trabal ho não remunerado parece trabal ho pago. Ao contrári o, no
trabal ho dos escravos parece ser trabal ho não remunerado até a parte
do trabal ho que se paga. Cl aro está que, para poder trabal har, o escravo
tem que vi ver e uma parte de sua jornada de trabal ho serve para
repor o val or de seu própri o sustento. Mas, como entre el e e seu senhor
OS ECONOMISTAS
102
não houve trato al gum, nem se cel ebra entre el es nenhuma compra e
venda, todo o seu trabal ho parece dado de graça.
Tomemos, por outro l ado, o camponês servo, tal como exi sti a,
quase di rí amos ai nda ontem mesmo, em todo o ori ente da Europa.
Este camponês, por exempl o, trabal hava três di as para si , na sua pró-
pri a terra, ou na que l he havi a si do atri buí da, e nos três di as segui ntes
real i zava um trabal ho compul sóri o e gratui to na propri edade de seu
senhor. Como vemos, aqui as duas partes do trabal ho, a paga e a não
paga, aparecem vi si vel mente separadas, no tempo e no espaço, e os
nossos l i berai s podem estourar de i ndi gnação moral ante a i déi a di s-
paratada de que se obri gue um homem a trabal har de graça.
Mas, na real i dade, tanto faz uma pessoa trabal har três di as na
semana para si , na sua própri a terra, e outros três di as de graça na
gl eba do senhor como trabal har di ari amente na fábri ca, ou na ofi ci na,
6 horas para si e 6 horas para o seu patrão; ai nda que nesse caso a
parte do trabal ho pago e a do não remunerado apareçam i nseparavel -
mente confundi das e o caráter de toda a transação se di sfarce por
compl eto com a interferência de um contrato e o pagamento recebi do
no fi m da semana. No pri mei ro caso, o trabal ho não remunerado é
vi si vel mente arrancado pel a força; no segundo, parece entregue vol un-
tari amente. Ei s a úni ca di ferença.
Sempre que eu empregue, portanto, a expressão “valor do tra-
balho”, empregá-l a-ei como termo popul ar, si nôni mo de “valor de força
de trabalho”.
X
O Lucro Obtém-se Vendendo uma Mercadoria pelo seu Valor
Suponhamos que uma hora de trabal ho médi o materi al i ze um
val or de 6 pence ou 12 horas de trabal ho médi o, um val or de 6 xel i ns.
Suponhamos, ai nda, que o val or do trabal ho represente 3 xel i ns ou o
produto de 6 horas de trabal ho. Se nas matéri as-pri mas, maqui nari a
etc., consumi das para produzi r uma determi nada mercadori a, se ma-
teri al i zam 24 horas de trabal ho médi o, o seu val or el evar-se-á a 12
xel i ns. Se, al ém di sso, o operári o empregado pel o capi tal i sta junta a
esses mei os de produção 12 horas de trabal ho, teremos que essas 12
horas se materi al i zam num val or adi ci onal de 6 xel i ns. Portanto, o
valor do produto se el evará a 36 horas de trabal ho materi al i zado, equi -
val ente a 18 xel i ns. Porém, como o val or do trabal ho ou o sal ári o
recebi do pel o operári o só representa 3 xel i ns, decorre daí que o capi -
tal i sta não pagou equi val ente al gum pel as 6 horas de sobretrabal ho
real i zado pel o operári o e materi al i zadas no val or da mercadori a. Ven-
dendo essa mercadori a pel o val or, por 18 xel i ns, o capi tal i sta obterá,
portanto, um val or de 3 xel i ns, para o qual não pagou equi val ente.
Esses 3 xel i ns representarão a mai s-val i a ou l ucro que o capi tal i sta
embol sa. O capi tal i sta obterá, por conseqüênci a, um l ucro de 3 xel i ns,
MARX
103
não por vender a sua mercadori a a um preço que exceda o seu val or,
mas por vendê-l a pelo seu valor real.
O val or de uma mercadori a se determi na pel a quantidade total
de trabalho que encerra. Mas uma parte dessa quanti dade de trabal ho
representa um val or pel o qual se pagou um equi val ente em forma de
sal ári os; outra parte se materi al i za num val or pel o qual nenhum equi -
val ente foi pago. Uma parte do trabal ho i ncl uí do na mercadori a é tra-
bal ho remunerado; a outra parte, trabal ho não remunerado. Logo, quan-
do o capi tal i sta vende a mercadori a pelo seu valor, i sto é, como cri s-
tal i zação da quantidade total de trabalho nel a i nverti do, o capi tal i sta
deve forçosamente vendê-l a com l ucro. Vende não só o que l he custou
um equi val ente, como também o que não l he custou nada, embora
haja custado o trabal ho do seu operári o. O custo da mercadori a para
o capi tal i sta e o custo real da mercadori a são coi sas i ntei ramente di s-
ti ntas. Repi to, poi s, que l ucros normai s e médi os se obtêm vendendo
as mercadori as não acima do que val em e si m pel o seu verdadeiro valor.
XI
As Diversas Partes em que se Divide a Mais-valia
À mais-valia, ou seja, àquel a parte do val or total da mercadori a
em que se i ncorpora o sobretrabalho, ou trabalho não remunerado, eu
chamo l ucro. Esse l ucro não o embol sa na sua total i dade o empregador
capi tal i sta. O monopól i o do sol o permi te ao propri etári o da terra em-
bol sar uma parte dessa mais-valia, sob a denomi nação de renda ter-
ritorial, quer o sol o seja uti l i zado na agri cul tura ou se desti ne a cons-
trui r edi fí ci os, ferrovi as, ou a outro qual quer fi m produti vo. Por outro
l ado, o fato de ser a posse dos meios de trabalho o que possi bi l i ta ao
empregador capi tal i sta produzi r mais-valia, ou, o que é o mesmo, apro-
priar-se de uma determinada quantidade de trabalho não remunerado,
é preci samente o que permi te ao propri etári o dos mei os de trabal ho,
que os empresta total ou parci al mente ao empregador capi tal i sta, numa
pal avra, ao capitalista que empresta o dinheiro, rei vi ndi car para si
mesmo outra parte dessa mai s-val i a sob o nome de juro, de modo que
ao capi tal i sta empregador, como tal, só l he sobra o chamado lucro
industrial ou comercial. A questão de saber a que l ei s está submeti da
essa di vi são da i mportânci a total da mai s-val i a entre as três categori as
de pessoas aqui menci onadas é i ntei ramente estranha ao nosso tema.
Mas, do que dei xamos exposto depreende-se, pel o menos, o segui nte:
A renda territorial, o juro e o lucro industrial nada mai s são que
nomes diferentes para exprimir as diferentes partes da mais-valia de
uma mercadori a ou do trabalho não remunerado, que nela se materia-
liza, e todos provêm por igual dessa fonte e só dessa fonte. Não provêm
do solo, como tal , nem do capital em si ; mas o sol o e o capi tal permi tem
a seus possui dores obter a sua parte correspondente na mai s-val i a que
o empregador capi tal i sta extorque ao operári o. Para o operári o mesmo,
OS ECONOMISTAS
104
é uma questão de i mportânci a secundári a que essa mai s-val i a, fruto
de seu sobretrabal ho, ou trabal ho não remunerado, seja excl usi vamente
embol sada pel o empregador capi tal i sta ou que este se veja obri gado a
ceder parte a tercei ros, com o nome de renda do sol o, ou juro. Supo-
nhamos que o empregador uti l i za apenas capi tal própri o e seja el e
mesmo o propri etári o do sol o; nesse caso, toda a mai s-val i a i rá parar
em seu bol so.
É o empregador capi tal i sta quem extrai di retamente do operári o
essa mai s-val i a, seja qual for a parte que, em úl ti ma anál i se, possa
reservar para si . Por i sso, dessa rel ação entre o empregador capi tal i sta
e o operári o assal ari ado dependem todo o si stema do sal ari ado e todo
o regi me atual de produção. Al guns dos ci dadãos que i ntervi eram em
nosso debate, ao i ntentarem atenuar as proporções das coi sas e apre-
sentar essa rel ação fundamental entre o empregador capi tal i sta e o
operári o como uma questão secundári a, cometeram, portanto, um erro,
embora, por outro l ado, ti vessem razão ao afi rmar que, em dadas ci r-
cunstânci as, um aumento dos preços pode afetar de um modo mui to
desi gual o empregador capi tal i sta, o dono da terra, o capi tal i sta que
empresta di nhei ro e, se querei s, o arrecadador de i mpostos.
Do exposto resul ta ai nda outra conseqüênci a.
A parte do val or da mercadori a que representa uni camente o
val or das matéri as-pri mas e das máqui nas, numa pal avra, o val or dos
mei os de produção consumi dos, não gera nenhum rendimento, mas se
limita a repor o capital. Mas, afora i sso, é fal so que a outra parte do
val or da mercadori a, que forma o rendimento ou pode ser gasta sob a
forma de sal ári o, l ucro, renda terri tori al e juro, seja constituída pel o
val or dos sal ári os, pel o val or da renda terri tori al , pel o val or do l ucro
etc. Por ora dei xaremos de l ado os sal ári os e só trataremos do l ucro
i ndustri al , do juro e da renda terri tori al . Acabamos de ver que a mais-
valia contida na mercadori a, ou a parte do val or desta na qual está
i ncorporado o trabalho não remunerado, por sua vez se decompõe em
vári as partes, desi gnadas por três nomes di ferentes. Afi rmar, porém,
que seu val or se acha integrado ou formado pel a soma total dos valores
independentes dessas três partes constituintes seri a afi rmar o i nverso
da verdade.
Se 1 hora de trabal ho se real i za num val or de 6 pence e se a
jornada de trabal ho do operári o é de 12 horas e a metade desse tempo
for trabal ho não pago, esse sobretrabal ho acrescentará à mercadori a
uma mais-valia de 3 xel i ns, i sto é, um val or pel o qual não se paga
nenhum equi val ente. Essa mai s-val i a de 3 xel i ns representa todo o
fundo que o empregador capi tal i sta pode reparti r, na proporção que
for, com o dono da terra e com o emprestador de di nhei ro. O val or
desses 3 xel i ns forma o l i mi te do val or que el es podem reparti r entre
si . Mas não é o empregador capi tal i sta que acrescenta ao val or da
mercadori a um val or arbi trári o para seu l ucro, acrescentando em se-
MARX
105
gui da outro val or para o propri etári o da terra e assi m por di ante, de
tal manei ra que a soma desses val ores arbi trari amente fi xados cons-
ti tuí sse o val or total . Vedes, portanto, o erro da i déi a correntemente
exposta, que confunde a divisão de um dado valor em três partes, com
a formação desse val or medi ante a soma de três val ores independentes,
convertendo dessa manei ra numa grandeza arbi trári a o val or total , de
onde saem a renda terri tori al , o l ucro e o juro.
Se o l ucro total obti do por um capi tal i sta for de 100 l i bras es-
terl i nas, chamamos a essa soma, consi derada grandeza absoluta, o
montante do l ucro. Mas, se cal cul amos a proporção entre essas 100
l i bras e o capi tal desembol sado, a essa grandeza relativa chamamos
taxa de lucro. É evi dente que se pode expressar essa taxa de l ucro sob
duas formas.
Vamos supor seja de 100 l i bras o capi tal desembolsado em salários.
Se a mai s-val i a obti da for também de 100 l i bras — o que nos demonstrari a
que a metade da jornada do operári o se compõe de trabal ho não remu-
nerado — e se medí ssemos esse l ucro pel o val or do capi tal desembol sado
em sal ári os, di rí amos que a taxa de lucro
25
era de 100%. Já que o val or
desembol sado seri a 100 e o val or produzi do 200.
Se, por outro l ado, não só consi derássemos o capital desembolsado
em salários mas todo o capital desembol sado, di gamos, por exempl o,
500 l i bras, das quai s 400 representam o val or das matéri as-pri mas,
maqui nari a, etc., di rí amos que a taxa de l ucro apenas se el evara a
20%, vi sto o l ucro de 100 não ser mai s que a qui nta parte do capi tal
total desembol sado.
O pri mei ro modo de expressar a taxa de l ucro é o úni co que nos
revel a a proporção real entre o trabal ho pago e o não remunerado, o
grau real da exploitation
26
do trabalho (permi ti -me o uso dessa pal avra
francesa). A outra forma é a usual , e para certos fi ns é, com efei to, a
mai s i ndi cada. Em todo caso, prova ser mui to úti l , por ocul tar o grau
em que o capi tal i sta arranca do operári o trabal ho gratui to.
Nas observações que ai nda me restam por fazer, empregarei a pa-
lavra lucro para expri mi r o montante total de mai s-val i a extorqui da pel o
capi tal i sta, sem me preocupar com a di vi são dessa mai s-val i a entre as
di versas partes i nteressadas, e quando usar o termo taxa de lucro medi rei
sempre o l ucro pel o val or do capi tal desembol sado em salári o.
XII
A Relação Geral entre Lucros, Salários e Preços
Se do val or de uma mercadori a descontarmos a parte que se
l i mi ta a repor o das matéri as-pri mas e outros mei os de produção em-
OS ECONOMISTAS
106
25 Mai s tarde, em O Capital, Marx di ri a “taxa de mai s-val i a”. Nessa obra só se emprega a
expressão “taxa de l ucro” como a rel ação entre o l ucro e o capi tal total . (N. da Ed. Francesa.)
26 Expl oração. (N. do E.)
pregados, i sto é, se descontarmos o val or que representa o trabal ho
pretérito nel a encerrado, o val or restante reduzi r-se-á à quanti dade de
trabal ho acrescentada pel o operári o que por último se ocupa nel a. Se
esse operári o trabal ha 12 horas di ári as, e 12 horas de trabal ho médi o
cri stal i zam-se numa soma de ouro i gual a 6 xel i ns, esse val or adi ci onal
de 6 xel i ns será o único val or cri ado por seu trabal ho. Esse val or dado,
determi nado por seu tempo de trabal ho, é o úni co fundo do qual tanto
el e como o capi tal i sta têm de reti rar a respecti va parti ci pação ou di -
vi dendo, é o úni co val or a ser di vi di do entr e sal ár i os e l ucr os. É
evi dente que esse val or não ser á em si mesmo al ter ado pel as pr o-
por ções var i ávei s em que possa di vi di r -se entr e ambas as par tes. E
tampouco haver á al ter ação se, em vez de um oper ár i o i sol ado, por mos
toda a popul ação tr abal hador a, 12 mi l hões de jor nadas de tr abal ho,
por exempl o, em vez de uma.
Como o capi tal i sta e o operári o só podem di vi di r esse val or l i -
mi tado, i sto é, o val or medi do pel o trabal ho total do operári o, quanto
mai s perceba um del es, menos obterá o outro, e reci procamente. Par-
ti ndo de uma dada quanti dade, uma das partes aumentará sempre na
mesma proporção em que a outra di mi nui . Se os sal ári os se modi fi cam,
modi fi car-se-ão em senti do oposto aos l ucros. Se os sal ári os bai xam,
subi rão os l ucros; e, se os sal ári os sobem, bai xarão os l ucros. Se o
operári o, na nossa suposi ção anteri or, ganha 3 xel i ns, equi val entes à
metade do val or cri ado por el e, ou se a metade da sua jornada de
trabal ho total é trabal ho pago e a outra metade trabal ho não remu-
nerado, a taxa de lucro será de 100%, vi sto que o capi tal i sta obterá
também 3 xel i ns. Se o operári o só recebe 2 xel i ns, ou só trabal ha para
el e a terça parte da jornada total , o capi tal i sta obterá 4 xel i ns e a
taxa de l ucro será, nesse caso, de 200%. Se o operári o percebe 4 xel i ns,
o capi tal i sta só poderá embol sar 2, e a taxa de l ucro descerá, portanto,
a 50%. Mas todas essas vari ações não i nfl uem no val or da mercadori a.
Logo, um aumento geral de sal ári os determi nari a uma di mi nui ção da
taxa geral do l ucro, mas não afetari a os val ores.
No entanto, embora os val ores das mercadori as, que, em úl ti ma
i nstânci a, hão de regul ar seus preços no mercado, estejam determi nados
excl usi vamente pel a quanti dade total de trabal ho pl asmado nel as, e
não pel a di vi são dessa quanti dade em trabal ho pago e trabal ho não
remunerado, daqui não se deduz, de modo al gum, que os val ores das
di versas mercadori as ou l otes de mercadori as fabri cadas em 12 horas,
por exempl o, sejam sempre os mesmos. O número, ou a massa das
mercadori as fabri cadas num determi nado tempo de trabal ho, ou me-
di ante uma determi nada quanti dade de trabal ho, depende da força
produtiva do trabal ho empregado e não da sua extensão ou duração.
Com um dado grau das forças produti vas do trabal ho de fi ação, por
exempl o, poderão produzi r-se, numa jornada de trabal ho de 12 horas,
12 l i bras-peso de fi o; com um grau mai s bai xo de força produti va pro-
MARX
107
duzi r-se-ão tão-somente 2. Portanto, no pri mei ro caso, se as 12 horas
de trabal ho médi o se materi al i zam num val or de 6 xel i ns, as 12 l i -
bras-peso de fi o custarão 6 xel i ns, justamente o que custari am, no
segundo caso, as 2 l i bras. Quer di zer que, no pri mei ro caso, a l i bra-peso
de fi o sai rá por 6 pence e, no segundo, por 3 xel i ns. Essa di ferença de
preço seri a uma conseqüênci a da di ferença exi stente entre as forças
produti vas do trabal ho empregado. Com a mai or força produti va, 1
hora de trabal ho materi al i zar-se-i a em 1 l i bra-peso de fi o, ao passo
que, com a força produti va menor, para obter 1 l i bra de fi o haveri a
necessi dade de 6 horas de trabal ho. No pri mei ro caso, o preço da l i bra
de fi o não excederi a 6 pence, apesar de os sal ári os serem rel ati vamente
al tos e a taxa de l ucro, bai xa; no segundo caso, el evar-se-i a a 3 xel i ns,
mesmo com sal ári os bai xos e com uma taxa de l ucro el evada. Assi m
sucederi a porque o preço da l i bra-peso de fi o é determi nado pel o total
de trabalho que encerra e não pel a proporção em que esse total se
divide em trabalho pago e não pago. O fato, antes apontado por mi m,
de que um trabal ho bem pago pode produzi r mercadori as baratas, e
um mal pago, mercadori as caras, perde, com i sso, a sua aparênci a
paradoxal . Não é mai s que a expressão da l ei geral de que o val or de
uma mercadori a se determi na pel a quanti dade de trabal ho nel a i nver-
ti do e de que essa quanti dade de trabal ho i nverti do depende excl usi -
vamente da força produti va do trabal ho empregado, vari ando, por con-
segui nte, ao vari ar a produti vi dade do trabal ho.
XIII
Casos Principais de Luta pelo Aumento de Salários ou
Contra a sua Redução
Exami nemos agora seri amente os casos pri nci pai s em que se i ntenta
obter um aumento dos sal ári os, ou se opõe uma resi stência à sua redução.
1 — Vi mos que o valor da força de trabalho, ou, em termos mai s
popul ares, o valor do trabalho, é determi nado pel o val or dos arti gos
de pri mei ra necessi dade ou pel a quanti dade de trabal ho necessári a à
sua produção. Por consegui nte, se num determi nado paí s o val or dos
arti gos de pri mei ra necessi dade, em médi a di ári a consumi dos por um
operári o, representa 6 horas de trabal ho, expressa em 3 xel i ns, esse
trabal hador terá de trabal har 6 horas por di a a fi m de produzi r um
equi val ente do seu sustento di ári o. Sendo de 12 horas a jornada de
trabal ho, o capi tal i sta pagar-l he-i a o val or de seu trabal ho entregan-
do-l he 3 xel i ns. Metade da jornada de trabal ho será trabal ho não re-
munerado e, portanto, a taxa de l ucro se el evará a 100%. Mas vamos
supor agora que, em conseqüênci a de uma di mi nui ção da produti vi dade,
se necessi te de mai s trabal ho para produzi r, di gamos, a mesma quan-
ti dade de produtos agrí col as que dantes, com o que o preço médi o dos
ví veres di ari amente necessári os subi rá de 3 para 4 xel i ns. Nesse caso,
o valor do trabal ho aumentari a de um terço, ou seja, de 33,3%. A fi m
OS ECONOMISTAS
108
de produzi r o equi val ente do sustento di ári o do trabal hador, dentro
do padrão de vi da anteri or, seri am preci sas 8 horas de jornada de
trabal ho. Logo, o sobretrabal ho di mi nui ri a de 6 para 4 horas e a taxa
de l ucro reduzi r-se-i a de 100 para 50%. O trabal hador que nessas con-
di ções pedi sse um aumento de sal ári o l i mi tar-se-i a a exi gi r que l he
pagassem o valor incrementado de seu trabalho, como qual quer outro
vendedor de uma mercadori a que, quando aumenta o custo de produção
desta, age de modo a consegui r que o comprador l he pague esse i n-
cremento do val or. E, se os sal ári os não sobem, ou não sobem em
proporções sufi ci entes para compensar o i ncremento do val or dos arti gos
de pri mei ra necessi dade, o preço do trabal ho descerá abaixo do valor
do trabalho e o padrão de vi da do trabal hador pi orará.
Mas também pode operar-se uma mudança em senti do contrári o.
Ao el evar-se a produti vi dade do trabal ho pode acontecer que a mesma
quanti dade de arti gos de pri mei ra necessi dade, consumi dos em médi a,
di ari amente, bai xe de 3 para 2 xel i ns, ou que, em vez de 6 horas de
jornada de trabal ho, bastem 4 para produzi r o equi val ente do val or
dos arti gos de pri mei ra necessi dade consumi dos num di a. O operári o
poderi a, então, comprar por 2 xel i ns exatamente os mesmos arti gos
de pri mei ra necessi dade que antes l he custavam 3. Na real i dade teri a
bai xado o valor do trabalho; mas esse val or di mi nuí do di spori a da
mesma quanti dade de mercadori as que antes. O l ucro subi ri a de 3
para 4 xel i ns e a taxa de l ucro, de 100 para 200%. Ai nda que o padrão
de vi da absol uto do trabal hador conti nuasse sendo o mesmo, seu sal ári o
relativo, e portanto a sua posição social relativa, comparada com a do
capi tal i sta, teri a pi orado. Opondo-se a essa redução de seu sal ári o re-
l ati vo, o trabal hador não fari a mai s que l utar para obter uma parte
das forças produti vas i ncrementadas do seu própri o trabal ho e manter
a sua anti ga si tuação rel ati va na escal a soci al . Assi m, após a abol i ção
das Lei s Cereal i stas e vi ol ando, fl agrantemente, as promessas sol ení s-
si mas que havi am fei to, em sua campanha de propaganda contra aque-
l as l ei s, os donos das fábri cas i ngl esas di mi nuí ram, em geral , os sal ári os
de 10%. A pri ncí pi o, a oposi ção dos trabal hadores foi frustrada; porém,
mai s tarde, l ogrou-se a recuperação dos 10% perdi dos, em conseqüênci a
de ci rcunstânci as que não me posso deter a exami nar agora.
2 — Os val ores dos arti gos de pri mei ra necessi dade e, por con-
segui nte, o valor do trabalho podem permanecer i nvari ávei s, mas o
preço del es em dinheiro pode sofrer al teração, desde que se opere uma
prévi a modificação no valor do dinheiro.
Com a descoberta de jazi das mai s abundantes, etc., 2 onças de
ouro, por exempl o, não supori am mai s trabal ho do que antes exi gi a a
produção de 1 onça. Nesse caso, o valor do ouro bai xari a à metade, a
50%. E como, em conseqüênci a di sso, os valores das demai s mercadori as
expressar-se-i am no dobro do seu preço em dinheiro anteri or, o mesmo
MARX
109
aconteceri a com o valor do trabalho. As 12 horas de trabal ho, que
antes se expressavam em 6 xel i ns, agora expressar-se-i am em 12. Logo,
se o sal ári o do operári o conti nuasse a ser de 3 xel i ns, em vez de i r a
6, resul tari a que o preço em dinheiro do seu trabalho só corresponderia
à metade do valor do seu trabalho, e seu padrão de vi da pi orari a as-
sustadoramente. O mesmo ocorreri a, em grau mai or ou menor, se seu
sal ári o subi sse, mas não proporci onal mente à bai xa do val or do ouro.
Em tal caso, não se teri a operado a menor mudança, nem nas forças
produti vas do trabal ho, nem na oferta e procura, nem tampouco nos
val ores. Só teri a mudado o nome em di nhei ro desses val ores. Di zer,
nesse caso, que o operári o não deve l utar pel o aumento proporci onal
do seu sal ári o equi val e a pedi r-l he que se resi gne a que se l he pague
o seu trabal ho com nomes, não com coi sas. Toda a hi stóri a do passado
prova que, sempre que se produz uma depreci ação do di nhei ro, os
capi tal i stas se aprestam para ti rar provei to da conjuntura e enganar
os operári os. Uma grande escol a de economi stas assevera que, em con-
seqüênci a das novas descobertas de terras aurí feras, da mel hor expl o-
ração das mi nas de prata e do barateamento do forneci mento do mer-
cúri o, vol tou a se depreci ar o val or dos metai s preci osos. I sso expl i cari a
as tentati vas general i zadas e si mul tâneas que se fazem no Conti nente
27
para consegui r um aumento de sal ári os.
3 — Até aqui parti mos da suposi ção de que a jornada de trabalho
tem l i mi tes dados. Mas, na real i dade, essa jornada, em si mesma, não
tem l i mi tes constantes. O capi tal tende constantemente a di l atá-l a ao
máxi mo de sua possi bi l i dade fí si ca, já que na mesma proporção au-
menta o sobretrabal ho e, portanto, o l ucro que del e deri va. Quanto
mai s êxi to ti verem as pretensões do capi tal para al ongar a jornada de
trabal ho, mai or será a quanti dade de trabal ho al hei o de que se apro-
pri ará. Durante o sécul o XVI I , e até mesmo durante os pri mei ros doi s
terços do sécul o XVI I I , a jornada normal de trabal ho, em toda a I n-
gl aterra, era de 10 horas. Durante a guerra contra os jacobi tas,
28
que
foi , na real i dade, uma guerra dos barões i ngl eses contra as massas
trabal hadoras i ngl esas, o capi tal vi veu di as de orgi a e prol ongou a
jornada de 10 para 12, 14 e 18 horas. Mal thus,
29
que não pode preci -
OS ECONOMISTAS
110
27 Refere-se Marx aos paí ses do conti nente europeu. (N. do E.)
28 Jacobi tas eram chamados os parti dári os de Jacques I I (do l ati m Jacobus) e da Casa dos
Stuarts, afastados pel a revol ução de 1688. Tentaram apoderar-se do poder em di versas
ocasi ões, a úl ti ma das quai s em 1745, mas sem o menor êxi to. (N. do E.)
29 Thomas Robert Mal thus (1766-1834) é pri nci pal mente conheci do pel o seu Essay on the Principles
of Population as it Affects the Future I mprovement of Society (Ensaio Sobre o Princípio da
População na Medida em Que Afeta a Futura Melhoria da Sociedade), no qual concl ui pel a
fórmul a pessi mi sta de que a popul ação tenderi a a aumentar em progressão geométri ca, enquanto
os mei os de subsi stênci a crescem em progressão ari tméti ca, devendo-se ati ngi r um ponto
em que não seri a mai s possí vel arranjar al i mentos para todos. Essa concepção, profunda-
mente reaci onári a, ai nda hoje fi gura, em pri mei ro pl ano, no arsenal i deol ógi co do i mpe-
ri al i smo. (N. do E.)
samente i nfundi r suspei tas de terno senti mental i smo, decl arou num
fol heto, publ i cado por vol ta de 1815, que a vi da da nação estava amea-
çada em suas raí zes, caso as coi sas conti nuassem assi m. Al guns anos
antes da general i zação dos novos i nventos mecâni cos, cerca de 1765,
vei o à l uz na I ngl aterra um fol heto i nti tul ado An Essay on Trade (Um
Ensaio Sobre o Comércio). O anôni mo autor desse fol heto, i ni mi go ju-
rado da cl asse operári a, cl ama pel a necessi dade de estender os l i mi tes
da jornada de trabal ho. Entre outras coi sas, propõe cri ar, com esse
objeti vo, casas de trabalho para pobres, que, di z el e, deveri am ser
“casas de terror”. E qual é a duração da jornada de trabal ho proposta
para estas “casas de terror”? Doze horas, quer di zer, preci samente a
jornada que, em 1832, os capi tal i stas, os economi stas e os mi ni stros
decl aravam não só vi gente de fato, mas também o tempo de trabal ho
necessári o para as cri anças menores de 12 anos.
Ao vender a sua força de trabal ho — e o operári o é obri gado a
fazê-l o, no regi me atual —, el e cede ao capi tal i sta o di rei to de empregar
essa força, porém dentro de certos l i mi tes raci onai s. Vende a sua força
de trabal ho para conservá-l a i l esa, sal vo o natural desgaste, porém
não para destruí -l a. E como a vende por seu val or di ári o, ou semanal ,
se subentende que num di a ou numa semana não se há de arrancar
à sua força de trabal ho um uso, ou desgaste de doi s di as ou duas
semanas. Tomemos uma máqui na que val ha 1 000 l i bras. Se el a se
usa em 10 anos, acrescentará no fi m de cada ano 100 l i bras ao val or
das mercadori as que ajuda a produzi r. Se se usa em 5 anos, o val or
acrescentado por el a será de 200 l i bras anuai s, i sto é, o val or de seu
desgaste anual está em razão i nversa à rapi dez com que se esgota.
Mas i sso di sti ngue o operári o da máqui na. A maqui nari a não se esgota
exatamente na mesma proporção em que se usa. Ao contrári o, o homem
se esgota numa proporção mui to superi or à que a mera soma numéri ca
do trabal ho acusa.
Nas tentati vas para reduzi r a jornada de trabal ho à sua anti ga
duração raci onal , ou, onde não podem arrancar uma fi xação l egal da
jornada normal de trabal ho, nas tentati vas para contrabal ançar o tra-
bal ho excessi vo por mei o de um aumento de sal ári o, aumento que não
basta esteja em proporção com o sobretrabal ho que os exaure, e deve,
si m, estar numa proporção mai or, os operári os não fazem mai s que
cumpri r um dever para com el es mesmos e a sua descendênci a. Li mi -
tam-se a refrear as usurpações ti râni cas do capi tal . O tempo é o campo
do desenvol vi mento humano. O homem que não di spõe de nenhum
tempo l i vre, cuja vi da, afora as i nterrupções puramente fí si cas do sono,
das refei ções, etc. está toda el a absorvi da pel o seu trabal ho para o
capi tal i sta, é menos que uma besta de carga. É uma si mpl es máqui na,
fi si camente destroçada e espi ri tual mente ani mal i zada, para produzi r
ri queza al hei a. E, no entanto, toda a hi stóri a da moderna i ndústri a
demonstra que o capi tal , se não se l he põe um frei o, l utará sempre,
MARX
111
i mpl acavel mente, e sem contempl ações, para conduzi r toda a cl asse
operári a a esse ní vel de extrema degradação.
Pode acontecer que o capi tal , ao prol ongar a jornada de trabal ho,
pague salários mais altos e que, sem embargo, o valor do trabalho
di mi nua, se o aumento dos sal ári os não corresponde à mai or quanti dade
de trabal ho extorqui do e ao mai s rápi do esgotamento da força de tra-
bal ho que daí resul tará. I sso pode ai nda ocorrer de outro modo. Vossos
estatí sti cos burgueses vos di rão, por exempl o, que os sal ári os médi os
das famí l i as que trabal ham nas fábri cas do Lancashi re subi ram. Mas
se esqueceram de que agora, em vez de ser só o homem, o cabeça da
famí l i a, são também sua mul her e, tal vez, três ou quatro fi l hos que
se vêem l ançados sob as rodas do carro de Jaguernaut
30
do capi tal e
que a al ta dos sal ári os totai s não corresponde à do sobretrabal ho total
arrancado à famí l i a.
Mesmo com uma jornada de trabal ho de l i mi tes determi nados,
como exi ste hoje em di a em todas as i ndústri as sujei tas às l ei s fabri s,
pode-se tornar necessári o um aumento de sal ári os, ai nda que somente
seja com o fi to de manter o anti go ní vel do valor do trabalho. Medi ante
o aumento da intensidade do trabal ho, pode-se fazer com que um homem
gaste em 1 hora tanta força vi tal como antes, em 2. É o que se tem
produzi do nas i ndústri as submeti das às l ei s fabri s, até certo ponto,
acel erando a marcha das máqui nas e aumentando o número de má-
qui nas de trabal ho a que deve atender agora um só i ndi ví duo. Se o
aumento da i ntensi dade do trabal ho ou da quanti dade de trabal ho
despendi da em 1 hora se mantém abai xo da di mi nui ção da jornada
de trabal ho, sai rá então ganhando o operári o. Se se ul trapassa esse
l i mi te, perderá por um l ado o que ganhar por outro, e 10 horas de
trabal ho o arrui narão tanto como antes 12. Ao contrabal ançar essa
tendênci a do capi tal , por mei o da l uta pel a al ta dos sal ári os, na medi da
correspondente à crescente i ntensi dade do trabal ho, o operári o não faz
mai s que se opor à depreci ação do seu trabal ho e à degeneração da
sua descendênci a.
4 — Sabei s todos que, por moti vos que não me cabe aqui expl i car,
a produção capi tal i sta move-se através de determi nados ci cl os peri ó-
di cos. Passa por fases de cal ma, de ani mação crescente, de prosperi dade,
de superprodução, de cri se e de estagnação. Os preços das mercadori as
no mercado e a taxa de l ucro no mercado seguem essas fases; ora
descendo abai xo de seu ní vel médi o ora ul trapassando-o. Se consi de-
rardes todo o ci cl o, verei s que uns desvi os dos preços do mercado são
compensados por outros e que, ti rando a médi a do ci cl o, os preços das
mercadori as do mercado se regul am por seus val ores. Poi s bem. Durante
OS ECONOMISTAS
112
30 Jaguernaut é o nome das i magens do deus i ndi ano Vi xnu. Nas festas em honra a essa
di vi ndade, cel ebrava-se uma proci ssão acompanhando o carro do deus, debai xo do qual se
ati ravam e pereci am mui tos fanáti cos. (N. do T.)
as fases de bai xa dos preços no mercado e durante as fases de cri se
de estagnação, o operári o, se é que não o põem na rua, pode estar
certo de ver rebai xado o seu sal ári o. Para que não o enganem, mesmo
com essa bai xa de preços no mercado, ver-se-á compel i do a di scuti r
com o capi tal i sta em que proporção se torna necessári o reduzi r os
sal ári os. E se durante a fase de prosperi dade, na qual o capi tal i sta
obtém l ucros extraordi nári os, o operári o não l utar por uma al ta de
sal ári os, ao ti rar a médi a de todo o ci cl o i ndustri al , veremos que el e
nem sequer percebe o salário médio, ou seja, o valor do seu trabal ho.
Seri a o cúmul o da l oucura exi gi r que o operári o, cujo sal ári o se vê
forçosamente afetado pel as fases adversas do ci cl o, renunci asse ao di -
rei to de ser compensado durante as fases prósperas. Geral mente, os
valores de todas as mercadori as só se real i zam por mei o da compensação
que se opera entre os preços constantemente vari ávei s do mercado,
vari ação proveni ente das fl utuações constantes da oferta e da procura.
No âmbi to do si stema atual , o trabal ho é uma mercadori a como outra
qual quer. Tem, portanto, que passar pel as mesmas fl utuações, até obter
o preço médi o que corresponde ao seu val or. Seri a um absurdo consi -
derá-l o mercadori a para certas coi sas e, para outras, querer excetuá-l o
das l ei s que regem os preços das mercadori as. O escravo obtém uma
quanti dade constante e fi xa de mei os de subsi stênci a; o operári o as-
sal ari ado, não. El e não tem outro recurso senão tentar i mpor, em al guns
casos, um aumento dos sal ári os, ai nda que seja apenas para compensar
a bai xa em outros casos. Se espontaneamente se resi gnasse a acatar
a vontade, os di tames do capi tal i sta, como uma l ei econômi ca perma-
nente, comparti l hari a de toda a mi séri a do escravo, sem comparti l har,
em troca, da segurança deste.
5 — Em todos os casos que consi derei , e que representam 99 em
100, vi stes que a l uta pel o aumento de sal ári os vai sempre na pi sta
de modi fi cações anteriores e é o resul tado necessári o das modi fi cações
prévi as operadas no vol ume de produção, nas forças produti vas do
trabal ho, no val or deste, no val or do di nhei ro, na mai or extensão ou
i ntensi dade do trabal ho extorqui do nas fl utuações dos preços do mer-
cado, que dependem das fl utuações da oferta e da procura e se veri fi cam
em função das di versas fases do ci cl o i ndustri al ; numa pal avra, é a
reação dos operári os contra a ação anteri or do capi tal . Se focal i zássemos
a l uta pel o aumento de sal ári os fazendo caso omi sso de todas essas
ci rcunstânci as, apenas consi derando as modi fi cações operadas nos sa-
l ári os e passando por ci ma de modi fi cações outras, das quai s el as pro-
vêm, parti rí amos de uma fal sa premi ssa para chegar a concl usões fal sas.
XIV
A Luta Entre o Capital e o Trabalho e seus Resultados
1 — Após demonstrar que a resi stênci a peri ódi ca que os traba-
l hadores opõem à redução dos sal ári os e suas tentati vas peri ódi cas
MARX
113
para conseguir um aumento de sal ári os são fenômenos i nseparávei s do
si stema do sal ari ado e di tadas pel o própri o fato de o trabal ho se achar
equi parado às mercadori as, por consegui nte submeti do às l ei s que regul am
o movi mento geral dos preços, tendo demonstrado, ainda, que um aumento
geral de sal ári os resultaria numa di mi nui ção da taxa geral de l ucro, sem
afetar, porém, os preços médi os das mercadori as, nem os seus val ores —
surge a questão de saber até que ponto, na l uta i ncessante entre o capi tal
e o trabal ho, tem este possi bi l i dade de êxi to.
Poderi a responder com uma general i zação, di zendo que o preço
do trabal ho no mercado, da mesma forma que o das demai s mercadori as,
tem que se adaptar, no decorrer do tempo, ao seu valor, que, portanto,
a despei to de todas as al tas e bai xas e do que possa fazer, o operári o
acabará recebendo sempre, em médi a, somente o val or de seu trabal ho,
que se reduz ao val or da sua força de trabal ho, a qual , por sua vez,
é determi nada pel o val or dos mei os de subsi stênci a necessári os à sua
manutenção e reprodução, val or esse regul ado, em úl ti ma anál i se, pel a
quanti dade de trabal ho necessári o para produzi -l os.
Mas há certos traços pecul i ares que di sti nguem o valor da força
de trabalho dos val ores de todas as demai s mercadori as. O val or da
força de trabal ho é formado por doi s el ementos, um dos quai s puramente
fí si co, o outro de caráter hi stóri co e soci al .
Seu limite mínimo é determi nado pel o elemento físico, quer di zer
— para poder manter-se e se reproduzi r, para perpetuar a sua exi s-
tênci a fí si ca, a cl asse operári a preci sa obter os arti gos de pri mei ra
necessi dade, absol utamente i ndi spensávei s à vi da e à sua mul ti pl i cação.
O valor desses mei os de subsi stênci a i ndi spensávei s consti tui , poi s, o
l i mi te mí ni mo do valor do trabalho. Por outra parte, a extensão da
jornada de trabal ho também tem seus l i mi tes máxi mos, se bem que
sejam mui to el ásti cos. Seu l i mi te máxi mo é dado pel a força fí si ca do
trabal hador. Se o esgotamento di ári o de suas energi as vi tai s excede
um certo grau, el e não poderá fornecê-l as outra vez, todos os di as.
Mas, como di zi a, esse l i mi te é mui to el ásti co. Uma sucessão rápi da de
gerações raquí ti cas e de vi da curta manterá abasteci do o mercado de
trabal ho tão bem como uma séri e de gerações robustas e de vi da l onga.
Al ém desse mero el emento fí si co, na determi nação do val or do
trabal ho entra o padrão de vida tradicional em cada país. Não se trata
somente da vi da fí si ca, mas também da sati sfação de certas necessi -
dades que emanam das condi ções soci ai s em que vi vem e se cri am os
homens. O padrão de vi da i ngl ês poderi a bai xar ao i rl andês; o padrão
de vi da de um camponês al emão ao de um camponês l i vôni o.
31
A i m-
portânci a do papel que, a esse respei to, desempenham a tradi ção hi s-
tóri ca e o costume soci al poderei s vê-l a no l i vro do sr. Thornton sobre
OS ECONOMISTAS
114
31 Habi tante de uma anti ga e atrasada proví nci a da Rússi a czari sta, hoje parte da Estôni a
e da Letôni a. (N. do E.)
a Superpopulação, onde el e mostra que, em di sti ntas regi ões agrí col as
da I ngl aterra de nossos di as, os sal ári os médi os conti nuam a ser hoje
di ferentes, conforme as condi ções mai s ou menos favorávei s em que
essas regi ões saí ram da servi dão.
Esse el emento hi stóri co ou soci al , que entra no val or do trabal ho,
pode acentuar-se, ou debi l i tar-se e, até mesmo, exti ngui r-se de todo,
de tal modo que só fi que de pé o limite físico.
Durante a guerra contra os jacobitas, que, costumava di zer o
i ncorri gí vel devorador de i mpostos e prebendas, o vel ho George Rose,
32
foi empreendi da para que esses descrentes franceses não destruí ssem
os consol os da nossa santa rel i gi ão — os honestos fazendei ros i ngl eses,
a quem tratamos com tanto cari nho num capí tul o anteri or, fi zeram
bai xar os sal ári os dos trabal hadores do campo para al ém daquel e mí-
nimo estritamente físico, compl etando a di ferença i ndi spensável para
assegurar a perpetuação fí si ca da descendênci a, medi ante as leis dos
pobres. Era um gl ori oso método para converter o trabal hador assal a-
ri ado em escravo e o orgul hoso yeoman de Shakespeare em mendi go.
Se comparai s os sal ári os normai s ou val ores do trabal ho em di -
versos paí ses e em épocas hi stóri cas di sti ntas, dentro do mesmo paí s,
verei s que o valor do trabalho não é por si uma grandeza constante,
mas vari ável mesmo supondo que os val ores das demai s mercadori as
permaneçam fi xos. Um estudo comparati vo semel hante das taxas de
lucro no mercado provari a que não só el as se modi fi cam como também
as suas taxas médias.
Mas, no que se refere ao lucro, não exi ste nenhuma l ei que l he
fixe o mínimo. Não podemos di zer qual seja o l i mi te extremo de sua
bai xa. E por que não podemos estabel ecer esse l i mi te? Porque, embora
possamos fi xar o sal ári o mínimo, não podemos fi xar o sal ári o máximo.
Só podemos di zer que, dados os l i mi tes da jornada de trabal ho, o má-
ximo de lucro corresponde ao mínimo físico dos salários e que, parti ndo
de dados sal ári os, o máximo de lucro corresponde ao prol ongamento
da jornada de trabal ho na medi da em que seja compatí vel com as
forças fí si cas do operári o. Portanto, o máxi mo de l ucro só se acha l i -
mi tado pel o mí ni mo fí si co dos sal ári os e pel o máxi mo fí si co da jornada
de trabal ho. É evi dente que, entre os doi s l i mi tes extremos da taxa
máxima de lucro, cabe uma escal a i mensa de vari antes. A determi nação
de seu grau efeti vo só fi ca assente pel a l uta i ncessante entre o capi tal
e o trabal ho; o capi tal i sta, tentando constantemente reduzi r os sal ári os
ao seu mí ni mo fí si co e a prol ongar a jornada de trabal ho ao seu máxi mo
fí si co, enquanto o operári o exerce constantemente uma pressão no sen-
ti do contrári o.
A questão se reduz ao probl ema da rel ação de forças dos combatentes.
MARX
115
32 George Rose, estadi sta i ngl ês (1744-1818), agente dedi cado de Pi tt e, depoi s, de Jorge I I I .
(N. do E.)
2 — Pel o que concerne à limitação da jornada de trabalho, tanto
na I ngl aterra como em todos os outros paí ses, nunca foi el a regul a-
mentada senão por intervenção legislativa. E, sem a constante pressão
dos operári os agi ndo por fora, nunca essa i ntervenção dar-se-i a. Em
todo caso, esse resul tado não teri a si do al cançado por mei o de convêni os
pri vados entre os operári os e os capi tal i stas. E essa necessi dade mesma
de uma ação política geral é preci samente o que demonstra que, na
l uta puramente econômi ca, o capi tal é a parte mai s forte.
Quanto aos limites do valor do trabalho, sua fi xação efeti va de-
pende sempre da oferta e da procura, e refi ro-me à procura de trabal ho
por parte do capi tal i sta e à oferta de trabal ho pel os operári os. Nos
paí ses col oni ai s,
33
a l ei da oferta e da procura favorece os operári os.
Daqui resul ta o ní vel rel ati vamente el evado dos sal ári os nos Estados
Uni dos. Nesses paí ses, faça o que fi zer o capi tal , el e não pode nunca
evi tar que o mercado de trabal ho seja constantemente desabasteci do
pel a constante transformação dos trabal hadores assal ari ados em l a-
vradores i ndependentes com fontes própri as de subsi stênci a. Para gran-
de parte da popul ação norte-ameri cana, a posi ção de assal ari ados não
é mai s do que uma estação de trânsi to, que estão seguros de abandonar,
mai s tarde ou mai s cedo. Para remedi ar esse estado col oni al de coi sas,
o paternal governo bri tâni co adotou, há tempos, a chamada teori a mo-
derna da col oni zação, que consi ste em atri bui r às terras col oni ai s um
preço arti fi ci al mente el evado para, desse modo, obstar a transformação
demasi ado rápi da do trabal hador assal ari ado em l avrador i ndependente.
Mas passemos agora aos vel hos paí ses ci vi l i zados onde o capi tal
domi na todo o processo de produção. Tomemos, por exempl o, a el evação
dos sal ári os agrí col as i ngl eses, de 1849 a 1859. Qual foi a sua conse-
qüênci a? Os agri cul tores não puderam el evar o val or do tri go, como
l hes teri a aconsel hado nosso ami go Weston, nem sequer o seu preço
no mercado. Ao contrári o, ti veram que resi gnar-se a vê-l o bai xar. Mas
durante esses onze anos i ntroduzi ram máqui nas de todas as cl asses
e novos métodos ci entí fi cos, transformaram uma parte das terras de
l avoura em pastagens, aumentaram a extensão de suas fazendas e,
com el a, a escal a de produção; e por esses e outros processos, fazendo
di mi nui r a procura de trabal ho, graças ao aumento de suas forças
produti vas, tornaram a cri ar um excedente rel ati vo da popul ação de
trabal hadores rurai s. Tal é o método geral segundo o qual opera o
OS ECONOMISTAS
116
33 No cap. XXV do Li vro Pri mei ro de O Capital, onde Marx se detém a exami nar mi nuci o-
samente esse probl ema, encontra-se a segui nte observação: “Aqui nos referi mos às verda-
dei ras col ôni as, às terras vi rgens col oni zadas por emi grantes l i vres. Os Estados Uni dos,
num senti do econômi co, ai nda são uma col ôni a da Europa. Quanto ao mai s, i sso di z respei to,
também, àquel as anti gas pl antações, nas quai s a abol i ção da escravatura transformou
compl etamente as condi ções anteri ores”. MARX, Karl . Das Kapital. I n: Marx-Engels Werke.
Berl i m, Di etz Verl ag, 1977. v. 23, p. 792. Desde então, como em toda parte, a terra se
converteu em propri edade pri vada, cerraram-se, também, as possi bi l i dades de transformar,
nos paí ses col oni ai s, os trabal hadores assal ari ados em produtores l i vres. (N. do E.)
capi tal nos paí ses anti gos, de bases sól i das, para reagi r, mai s rápi da
ou mai s l entamente, contra os aumentos de sal ári os. Ri cardo observou,
com exati dão, que a máqui na está em contí nua concorrênci a com o
trabal ho e, ami úde, só pode ser i ntroduzi da quando o preço do trabal ho
al cança certo l i mi te: mas a apl i cação da maqui nari a é apenas um dos
mui tos métodos empregados para aumentar a força produti va do tra-
bal ho. Esse mesmo processo, que cri a uma superabundânci a rel ati va
de trabal ho ordi nári o, si mpl i fi ca mui to o trabal ho qual i fi cado e, por-
tanto, o depreci a.
A mesma l ei se faz senti r em outra forma. Com o desenvol vi mento
das forças produti vas do trabal ho, acel era-se a acumul ação do capi tal ,
i ncl usi ve a despei to de uma taxa de sal ári o rel ati vamente al ta. Daqui
poderi a i nferi r-se, conforme fez Adam Smi th, em cujos tempos a i n-
dústri a moderna ai nda estava na sua i nfânci a, que a acumul ação ace-
l erada do capi tal tem forçosamente que fazer pender a bal ança a favor
do operári o, por garanti r uma procura crescente de seu trabal ho. Si -
tuando-se no mesmo ponto de vi sta, há mui tos autores contemporâneos
que se assombram de que, apesar de nos úl ti mos vi nte anos o capi tal
i ngl ês ter cresci do mai s rapi damente do que a popul ação i ngl esa, os
sal ári os nem por i sso regi stram um aumento mai or. Mas é que, si mul -
taneamente, com a acumul ação progressi va, opera-se uma mudança
progressiva na composição do capital. A parte do capi tal gl obal formada
por capi tal fi xo:
34
maqui nari a, matéri as-pri mas, mei os de produção de
todo gênero, cresce com mai or rapi dez que a outra parte do capi tal
desti nada a sal ári os, ou seja, à compra de trabal ho. Essa l ei foi esta-
bel eci da, sob uma forma mai s ou menos preci sa, pel os srs. Barton, Ri cardo,
Si smondi , prof. Ri chard Jones, prof. Ramsey, Cherbul i ez e outros.
Se a proporção entre esses doi s el ementos do capi tal era, ori gi -
nari amente, de 1 para 1, com o progresso da i ndústri a será de 5 para
1, e assi m sucessi vamente. Se de um capi tal gl obal de 600 são desem-
bol sados 300 para i nstrumentos, matéri as-pri mas etc., e 300 para sa-
l ári os, basta dobrar o capi tal gl obal para ser possí vel absorver 600
operári os em vez de 300. Mas, se de um capi tal de 600 se i nvertem
500 em maqui nari a, materi ai s, etc., e somente 100 em sal ári os, este
capi tal preci sa aumentar de 600 a 3 600, para cri ar uma procura de
600 operári os em l ugar de 300. Portanto, ao se desenvol ver a i ndústri a,
a procura de trabal ho não avança com o mesmo ri tmo da acumul ação
do capi tal . Aumenta, sem dúvi da, mas aumenta numa proporção cons-
tantemente decrescente, quando comparada com o i ncremento do ca-
pi tal . Essas breves i ndi cações bastarão para demonstrar, preci samente,
que o própri o desenvol vi mento da i ndústri a moderna contri bui por força
MARX
117
34 Chamado mai s tarde, por Marx, capi tal “constante” e oposto ao capi tal transformado em
sal ári os, ou capi tal “vari ável ”. (N. da Ed. Francesa.)
para i ncl i nar cada vez mai s a bal ança a favor do capi tal i sta contra o
operári o e que, em conseqüênci a di sso, a tendênci a geral da produção
capi tal i sta não é para el evar o ní vel médi o normal do sal ári o, mas, ao
contrári o, para fazê-l o bai xar, empurrando o valor do trabalho mai s
ou menos até seu limite mínimo. Porém, se tal é a tendência das coi sas
nesse si stema, quer i sso di zer que a cl asse operári a deva renunci ar a
defender-se contra os abusos do capi tal e abandonar seus esforços para
aprovei tar todas as possi bi l i dades que se l he ofereçam de mel horar
em parte a sua si tuação? Se o fi zesse, ver-se-i a degradada a uma massa
i nforme de homens fami ntos e arrasados, sem probabi l i dade de sal va-
ção. Crei o haver demonstrado que as l utas da cl asse operári a em torno
do padrão de sal ári os são epi sódi os i nseparávei s de todo o si stema do
sal ari ado: que, em 99% dos casos, seus esforços para el evar os sal ári os
não são mai s que esforços desti nados a manter de pé o val or dado do
trabal ho e que a necessi dade de di sputar o seu preço com o capi tal i sta
é i nerente à si tuação em que o operári o se vê col ocado e que o obri ga
a vender-se a si mesmo como uma mercadori a. Se em seus confl i tos
di ári os com o capi tal cedessem covardemente, fi cari am os operári os,
por certo, descl assi fi cados para empreender outros movi mentos de
mai or envergadura.
Ao mesmo tempo, e ai nda abstrai ndo total mente a escravi zação
geral que o si stema do sal ari ado i mpl i ca, a cl asse operári a não deve
exagerar a seus própri os ol hos o resul tado fi nal dessas l utas di ári as.
Não deve esquecer-se de que l uta contra os efei tos, mas não contra as
causas desses efei tos; que l ogra conter o movi mento descendente, mas
não fazê-l o mudar de di reção; que apl i ca pal i ati vos, mas não cura a
enfermi dade. Não deve, portanto, dei xar-se absorver excl usi vamente
por essas i nevi távei s l utas de guerri l has, provocadas conti nuamente
pel os abusos i ncessantes do capi tal ou pel as fl utuações do mercado. A
cl asse operári a deve saber que o si stema atual , mesmo com todas as
mi séri as que l he i mpõem, engendra si mul taneamente as condições ma-
teriais e as formas sociais necessárias para uma reconstrução econômi ca
da soci edade. Em vez do l ema conservador de: “Um salário justo para
uma jornada de trabalho justa!”, deverá i nscrever na sua bandei ra
esta di vi sa revolucionária: “Abolição do sistema de trabalho assalariado!”
Depoi s dessa exposi ção l onguí ssi ma e, recei o eu, fati gante, que
jul guei i ndi spensável para escl arecer um pouco o nosso tema pri nci pal ,
vou concl ui r, propondo a aprovação da resol ução segui nte:
1 — Uma al ta geral da taxa de sal ári os acarretari a uma bai xa
da taxa geral de l ucro, mas não afetari a, em l i nhas gerai s, os preços
das mercadori as.
2 — A tendênci a geral da produção capi tal i sta não é para el evar
o padrão médi o de sal ári os, mas para reduzi -l o.
3 — Os si ndi catos trabal ham bem como centro de resi stênci a
OS ECONOMISTAS
118
contra as usurpações do capi tal . Fal ham em al guns casos, por usar
pouco i ntel i gentemente a sua força. Mas são defi ci entes, de modo geral ,
por se l i mi tarem a uma l uta de guerri l has contra os efei tos do si stema
exi stente, em l ugar de, ao mesmo tempo, se esforçarem para mudá-l o,
em l ugar de empregarem suas forças organi zadas como al avanca para
a emanci pação fi nal da cl asse operári a, i sto é, para a abol i ção defi ni ti va
do si stema de trabal ho assal ari ado.
MARX
119
A RESPEITO DA TRADUÇÃO
DE O CAPI TAL
Traduzi r O Capital é uma tarefa i ncomum, como é i ncomum a
própri a obra. Trata-se de um dos textos mai s i mportantes de toda a hu-
mani dade, sem dúvi da o mai s l i do, o mai s debati do, o mai s cri ti cado e o
mai s endeusado dos textos ci entí fi cos. É possí vel que também seja o mai s
traduzi do. Por i sso tudo, vertê-l o mai s uma vez apresenta certos di l emas
que uma tradução comum não apresenta. I nformar ao l ei tor mai s exi gente
o modo como esses di l emas foram resol vi dos, na presente tradução para
o português, torna-se assi m i mpresci ndí vel , o que justi fi ca esta nota.
A pri mei ra questão é obvi amente a fi del i dade ao ori gi nal . Cada
tradução não pode dei xar de ser também i nterpretação, na medi da em
que não há correspondênci a perfei ta entre os vocábul os e a si ntaxe das
di ferentes l í nguas. Cada autor l uta com as l i mi tações de sua própri a lí ngua
para expri mi r com a máxi ma perfei ção seu pensamento. Que Marx mesmo
travou essa l uta contra as i nsufi ciênci as do al emão, l í ngua particularmente
ri ca e fl exí vel , provam as i númeras expressões em i nglês, francês, l ati m,
grego etc. que se encontram em seus escri tos, parti cul armente em O Ca-
pital. Quando o traduzi r determi nados trechos i mpl i ca i nterpretar, col o-
ca-se a questão: o que o autor de fato queri a di zer? Embora nesses mo-
mentos a convicção do tradutor tenha seu peso, el e preci sa segui r certas
normas para que suas opções não sejam al eatóri as ou i nconsi stentes. (Ver
a esse respei to o “Apêndice” de F. Kothe, neste vol ume.)
Uma saí da cômoda seri a tornar a tradução a mai s l i teral possí vel ,
escol hendo as pal avras e a construção das frases de modo a reproduzi r
com a mai or perfei ção ori gi nal . Só que essa manei ra de proceder al -
gumas vezes obscurece ou deturpa mesmo o senti do, sobretudo nas
passagens mai s compl exas e mai s densas de si gni fi cado. Marx mesmo
cri ti cou o tradutor do vol ume I de O Capital para o francês, por ter
si do l i teral demai s.
35
Para Marx, traduzi r si gni fi ca i nterpretar em sen-
121
35 Ver o “Ao Lei tor” do Posfáci o da Edi ção Francesa, neste vol ume.
ti do ampl o, o objeti vo mai or sendo o de revel ar o senti do essenci al do
enunci ado, sem manter sempre respei to absol uto à forma. El e mesmo
procedeu assi m em numerosas ci tações que apresenta verti das para o
al emão. Safar-se, portanto, das di fi cul dades apel ando à autori dade do
di ci onári o seri a uma fuga à responsabi l i dade de apresentar ao l ei tor
em l í ngua portuguesa um texto fi el ao espí ri to do seu autor e não
apenas a sua forma.
Esse di l ema se desdobra em outro: si mpl i fi car a exposi ção para
torná-l a mai s acessí vel ao l ei tor comum ou manter a magní fi ca com-
pl exi dade do texto ori gi nal ? É preci so notar que Marx mesmo se esforçou
ao máxi mo para ser cl aro, mantendo ao mesmo tempo a el egânci a do
esti l o, em si erudi to. Daí el e freqüentemente apresentar a mesma i déi a
em seus vári os desdobramentos tendo em vi sta sua compl eta el uci dação.
As pri mei ras traduções de O Capital, fei tas ai nda em vi da de Marx e
de Engel s, tenderam a certa si mpl i fi cação, o que se justi fi cava, ao ver
del es, pel a necessi dade de apresentar ao públ i co um conjunto de noções
e uma forma de i nterpretar a real i dade que então eram i ntei ramente
novos e i nusi tados. Hoje, cem anos após a morte de Marx, a si tuação
é compl etamente outra. O marxi smo é ampl amente di vul gado e estu-
dado, i mpregnando de mi l modos não só as teori as econômi cas, soci ol ógi cas,
pol í ti cas, antropol ógi cas etc. mas também a l i teratura, o teatro, a poesi a,
a l i nguagem jornal í sti ca e até mesmo o l i nguajar comum. Conseqüente-
mente, o públ i co está mai s bem preparado do que há um sécul o para
penetrar nos meandros do pensamento de Marx, de modo que já não se
justifica fazer uma tradução si mpl i fi cadora de sua obra máxi ma.
Nesta tradução, deu-se pri ori dade à cl areza do texto, sem, no
entanto, tentar si mpl i fi cá-l o. Procurou-se, sempre que possí vel , traduzi r
tanto a forma quanto o conteúdo do texto ori gi nal . Ao mesmo tempo
que se procurou a máxi ma fi del i dade ao ori gi nal , tentou-se recri ar a
sua bel eza l i terári a, no espí ri to da l í ngua portuguesa. Esse propósi to
mostrou-se menos di fí ci l de real i zar do que se pensava a pri ncí pi o. A
expl i cação provável para i sso é que, com a di fusão do marxi smo, o
esti l o da l í ngua portuguesa foi , em al guma medi da, i nfl uenci ado pel as
formas pecul i ares de Marx expri mi r seu pensamento. O português que
se prati ca no Brasi l no fi nal do sécul o XX é, sem dúvi da, i nfl uenci ado
pel as grandes correntes uni versai s de pensamento, que aqui encontram
também sua ressonânci a. Cabe l embrar que textos pri morosos, i nspi -
rados em Marx, já foram produzi dos por autores em l í ngua portuguesa.
Esses textos fazem parte da cul tura vi va do paí s e contri buem para
mol dar-l he a l í ngua. De modo que o nosso português é hoje um i ns-
trumento bastante adequado para expressar a grande obra de Marx,
i ncl usi ve quanto a sua qual i dade l i terári a. Mui to do que é bel o em
al emão pode ser devi damente apreci ado em português.
Passando agora aos aspectos mai s técni cos da tradução, convém
i nformar que o ori gi nal adotado foi o publ i cado na col eção “Karl Marx.
OS ECONOMISTAS
122
Fri edri ch Engel s Werke”, vol umes 23, 24 e 25, da edi tora Di etz Verl ag,
Berl i m, 1977, que reproduz a 4ª edi ção de O Capital, revi sta e publ i cada
por Engel s, em 1890. Os prefáci os publ i cados nesse vol ume mostram
que essa edi ção é a mai s compl eta e a mai s autori zada da obra. Na
tarefa de i nterpretar e desentranhar passagens di fí cei s ou obscuras,
val emo-nos de traduções de O Capital em outras l í nguas, mas sempre
dando pri ori dade ao ori gi nal al emão. Esta tradução não é de modo
al gum uma tradução de traduções, mas seri a fal tar à verdade negar
ou si l enci ar o fato de que, em vári os momentos, sol uções encontradas
por tradutores para outras l í nguas foram útei s para que pudéssemos
encontrar as mai s adequadas em português. Confessamos com grati dão
essa dí vi da e esperamos que esta tradução si rva, por sua vez, de apoi o
a futuras traduções de O Capital para outras l í nguas.
Adotou-se como norma uti l i zar as expressões marxi stas verti das
ao português por economi stas, soci ól ogos, fi l ósofos etc. e de uso corrente,
de modo a faci l i tar a compreensão do texto. Pareceu-nos que seri a um
puri smo i njusti fi cável retraduzi r por exempl o Mehrwert por mais-valor
(em anal ogi a com mai s-trabal ho e mai s-produto), quando a expressão
mais-valia é o vocábul o consagrado em português. Não obstante, um
grande número de novas expressões — tai s como produto-val or, obje-
ti vi dade do val or, forma-val or, mercadori a monetári a, gi ro monetári o
etc. — ti veram que ser cri adas. É preci so notar que boa parte dos
termos técni cos de Economi a, uti l i zados por Marx, são correntes na
l i teratura econômi ca moderna e têm expressões portuguesas já consa-
gradas, que foram, por i sso, si stemati camente adotadas na tradução.
Em suma, a i nvenção de novas expressões em português foi restri ta
ao i ndi spensável , procurando-se adequá-l as à termi nol ogi a corrente.
Como já menci onamos, Marx, ao ci tar autores em outras l í nguas
que não o al emão, nem sempre foi compl etamente fi el ao ori gi nal .
Entendemos que não nos cabi a “corri gi -l o”. Todas as ci tações são tra-
duzi das da versão al emã de Marx. Em al guns casos foram acrescentadas
“notas do tradutor” em que se apresentam traduções mai s l i terai s dos
referi dos textos, de modo que o l ei tor possa apreci ar a manei ra de
Marx i nterpretá-l os.
Outro pormenor não desprezí vel é que o vol ume I de O Capital
ti nha, em sua 1ª edi ção, numerosos trechos e vocábul os em i tál i co. Em
edi ção posteri or, Marx reti rou os gri fos. Pedro Scaron, tradutor de O
Capital para o espanhol
36
al ega que i sso se fez para reduzi r os custos
de i mpressão. Nas edi ções posteri ores à pri mei ra, do vol ume I , o texto
foi em parte substanci al mente al terado por Marx. Nesta parte do texto,
assi m como nos vol umes de O Capital o método de gri far extensamente
não foi uti l i zado. Resol veu-se por i sso segui r nesse parti cul ar a 4ª edi ção,
MARX
123
36 MARX, K. El Capital . Méxi co, Si gl o Vei nti uno Edi tores, 1975. v. I , p. XI I .
que não contém os gri fos, de modo a preservar a uni dade de esti l o da
obra como um todo.
Fi nal mente, queremos assi nal ar que não se pretende que esta
tradução de O Capital seja defi ni ti va ou perfei ta. É provável que con-
tenha fal has e aspectos cri ti cávei s. Pretendemos apenas ter real i zado
um trabal ho consci enci oso, vi sando corresponder às necessi dades de
um públ i co de estudantes e estudi osos já consi deravel mente sofi sti cado
e exi gente. Traduzi r O Capital é uma aventura trabal hosa e até certo
ponto esgotante, mas al tamente compensadora em termos de sati sfação
e cresci mento i ntel ectual . Esperamos que os l ei tores parti ci pem da
mesma com i gual provei to.
São Paul o, 19 de mai o de 1983
Flávio R. Kothe
Paul Singer
Regis Barbosa
OS ECONOMISTAS
124
ADVERTÊNCIA DO EDITOR
Notas de rodapé
Chaves ou col chetes i ndi cam acrésci mos de Engel s.
125
Dedi cado a meu ami go i nesquecí vel ,
o corajoso, fi el e nobre pi onei ro do prol etari ado
WI LHELM WOLFF
Nasci do em Tarnau, em 21 de junho de 1809.
Fal eci do no exí l i o, em Manchester, em 9 de mai o de 1864.
PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO
37
A obra, cujo vol ume I entrego ao públ i co, consti tui a conti nuação
de meu texto publ i cado em 1859: Contribuição à Crítica da Economia
Política. A l onga pausa entre começo e conti nuação deve-se a uma
enfermi dade de mui tos anos, que rei teradamente i nterrompeu o meu
trabal ho.
O conteúdo daquel e texto anteri or está resumi do no capí tul o I
deste vol ume.
38
I sso aconteceu não só por causa da conexão e da ne-
cessi dade de torná-l o compl eto. A exposi ção está aperfei çoada. À medi da
que, de al gum modo, o contexto o permi ti u, pontos antes apenas i ndi -
cados foram aqui desenvol vi dos, enquanto, i nversamente, o que l á foi
ampl amente desenvol vi do é apenas i ndi cado aqui . As partes sobre a
hi stóri a da teori a do val or e do di nhei ro foram natural mente el i mi na-
das. O l ei tor do texto anteri or encontra, no entanto, abertas novas
fontes para a hi stóri a daquel a teori a nas notas do capí tul o I .
Todo começo é di fí ci l ; i sso val e para qual quer ci ênci a. O enten-
di mento do capí tul o I , em especi al a parte que contém a anál i se da
mercadori a, apresentará, portanto, a di fi cul dade mai or. Quanto ao que
se refere mai s especi fi camente à anál i se da substânci a do val or e da
grandeza do val or, procurei torná-l as acessí vei s ao máxi mo.
39
A forma
129
37 Para mai ores escl areci mentos a respei to da obra, ver, neste vol ume, a Apresentação de
Jacob Gorender. (N. do E.)
38 Marx refere-se aqui ao capí tul o I da pri mei ra edi ção (1867) e que ti nha o tí tul o de “Mercadori a
e Di nhei ro”. Para a segunda edi ção, Marx fez a revi são do vol ume e modi fi cou a sua es-
truturação. Subdi vi di u o anti go pri mei ro capí tul o em três capí tul os autônomos que, agora,
com o mesmo tí tul o, consti tuem a Seção I . (N. da Ed. Al emã.)
39 I sso pareceu tanto mai s necessári o quando até mesmo a parte do ensai o de F. Lassal l e
contra Schul ze-Del i tzsch, na qual pretende expor “a qui nta-essênci a espi ri tual ” de mi nhas
i déi as sobre o assunto, contém mal -entendi dos graves. En passant.
*
Se F. Lassal l e tomou
todas as teses teóri cas gerai s de seus trabal hos sobre Economi a, como, por exempl o, sobre
o caráter hi stóri co do capi tal , sobre a conexão entre as rel ações de produção e o modo de
produção etc. etc., de mi nhas obras, quase l i teral mente, sem ci tar as fontes e até com a
termi nol ogi a el aborada por mi m, esse procedi mento foi com certeza determi nado por objeti vos
de propaganda. Obvi amente não estou fal ando das suas exposi ções sobre detal hes nem das
suas apl i cações práti cas, com as quai s nada tenho a ver.
*
De passagem. (N. dos T.)
do val or, cuja fi gura acabada é a forma do di nhei ro, é mui to si mpl es e
vazi a de conteúdo. Mesmo assi m, o espí ri to humano tem procurado fun-
damentá-l a em vão há mai s de 2 000 anos, enquanto, por outro l ado, teve
êxi to, ao menos aproxi mado, a anál i se de formas mui to mai s compl i cadas
e repl enas de conteúdo. Por quê? Porque o corpo desenvol vi do é mai s fáci l
de estudar do que a cél ul a do corpo. Além di sso, na anál i se das formas
econômi cas não podem servi r nem o mi croscópi o nem reagentes quí mi cos.
A facul dade de abstrai r deve substi tui r ambos. Para a soci edade burguesa,
a forma cel ul ar da economi a é a forma de mercadori a do produto do
trabal ho ou a forma do val or da mercadori a. Para o l ei go, a anál i se parece
perder-se em pedanti smo. Trata-se, efeti vamente, de pedanti smo, mas
daquel e de que se ocupa a anatomi a mi croscópi ca.
Por i sso, com exceção da parte rel ati va à forma do val or, não se
poderá acusar este l i vro de ser de di fí ci l compreensão. Pressuponho,
natural mente, l ei tores que quei ram aprender al go de novo e quei ram,
portanto, também pensar por conta própri a.
O fí si co observa processos naturai s seja onde el es aparecem mai s
ni ti damente e menos turvados por i nfl uênci as perturbadoras, seja fa-
zendo, se possí vel , experi mentos sob condi ções que assegurem o trans-
curso puro do processo. O que eu, nesta obra, me proponho a pesqui sar
é o modo de produção capi tal i sta e as suas rel ações correspondentes
de produção e de ci rcul ação. Até agora, a sua l ocal i zação cl ássi ca é a
I ngl aterra. Por i sso el a serve de i l ustração pri nci pal à mi nha expl anação
teóri ca. Caso o l ei tor al emão encol ha, fari sai camente, os ombros ante
a si tuação dos trabal hadores i ngl eses na i ndústri a e na agri cul tura
ou, então, caso oti mi sti camente se assossegar achando que na Al ema-
nha as coi sas estão l onge de estar tão rui ns, só posso gri tar-l he: De
te fabula narratur!
40
Em si e para si , não se trata do grau mai s el evado ou mai s bai xo
de desenvol vi mento dos antagoni smos soci ai s que decorrem das l ei s
naturai s da produção capi tal i sta. Aqui se trata dessas l ei s mesmo,
dessas tendênci as que atuam e se i mpõem com necessi dade férrea. O
paí s i ndustri al mente mai s desenvol vi do mostra ao menos desenvol vi do
tão-somente a i magem do própri o futuro.
Dei xemos, porém, i sso de l ado. Onde a produção capi tal i sta se
i mpl antou pl enamente entre nós, por exempl o, nas fábri cas propri a-
mente di tas, as condi ções são mui to pi ores do que na I ngl aterra, poi s
fal ta o contrapeso das l ei s fabri s. Em todas as outras esferas, tortu-
ra-nos — assi m como em todo o resto do conti nente da Europa oci dental
— não só o desenvol vi mento da produção capi tal i sta, mas também a
carênci a do seu desenvol vi mento. Al ém das mi séri as modernas, opri -
me-nos toda uma séri e de mi séri as herdadas, decorrentes do fato de
OS ECONOMISTAS
130
40 De ti fal a a fábul a! — Das sáti ras de Horáci o. Li vro Pri mei ro. Sáti ra 1. 12. (N. da Ed. Al emã).
conti nuarem vegetando modos de produção arcai cos e ultrapassados, com
o seu séqui to de rel ações soci ais e pol í ti cas anacrôni cas. Somos atormentados
não só pel os vivos, como também pel os mortos. Le mort saisit le vif!
41
Comparada com a i ngl esa, a estatí sti ca soci al da Al emanha e do
resto do conti nente europeu oci dental é mi serável . Ai nda assi m, l evanta
o véu o bastante para dei xar entrever atrás do mesmo uma cabeça de
Medusa. Fi carí amos horrori zados ante a nossa própri a si tuação caso
nossos Governos e parl amentares consti tuí ssem peri odi camente, como
na I ngl aterra, comi ssões de i nquéri to acerca das condi ções econômi cas;
caso essas comi ssões fossem i nvesti das, como na I ngl aterra, da mesma
pl eni tude de poderes para pesqui sar a verdade; caso fosse possí vel
encontrar, para tal mi ssão, homens tão especi al i zados, i mparci ai s e
i nti moratos quanto o são os i nspetores de fábri ca na I ngl aterra e os
seus rel atores médi cos sobre Public Health (Saúde Públ i ca), os seus
comi ssári os encarregados de exami nar a expl oração das mul heres e
cri anças, as condi ções de moradi a e al i mentação etc. Perseu preci sava
de um capacete da i nvi si bi l i dade para persegui r os monstros. Nós pu-
xamos o capacete mági co a fundo sobre nossos ol hos e orel has, para
podermos negar a exi stênci a de monstros.
É preci so não se enganar quanto a i sso. Assi m como, no sécul o
XVI I I , a Guerra da I ndependênci a ameri cana tocou o si no de al arme para
a cl asse médi a européi a, no sécul o XI X a Guerra Ci vi l norte-ameri cana
tocou-o para a cl asse operári a européi a. Na I ngl aterra, o processo de sub-
versão tornou-se pal pável. Quando alcançar certa altura, há de repercuti r
no conti nente. Al i , há de mover-se em formas mais brutais ou mais hu-
manas, segundo o grau de desenvol vi mento da própri a cl asse operári a.
Abstrai ndo moti vos mai s el evados, os i nteresses mai s especí fi cos das atuai s
cl asses domi nantes obri gam-nas à el i mi nação de todos os empeci l hos l e-
gal mente control ávei s que i ni bam o desenvol vi mento da cl asse operári a.
Por i sso é que me estendi tanto, neste vol ume, sobre a hi stóri a, o conteúdo
e os resul tados da l egi sl ação i ngl esa rel ati va às fábricas. Uma nação deve
e pode aprender das outras. Mesmo quando uma soci edade descobri u a
pi sta da l ei natural do seu desenvol vi mento — e a fi nal i dade úl ti ma desta
obra é descobri r a l ei econômi ca do movi mento da soci edade moderna —,
el a não pode sal tar nem supri mi r por decreto as suas fases naturai s de
desenvol vi mento. Mas el a pode abrevi ar e mi norar as dores do parto.
Para evi tar possí vei s erros de entendi mento, ai nda uma pal avra.
Não pi nto, de modo al gum, as fi guras do capi tal i sta e do propri etári o
fundi ári o com cores róseas. Mas aqui só se trata de pessoas à medi da
que são personi fi cações de categori as econômi cas, portadoras de deter-
mi nadas rel ações de cl asse e i nteresses. Menos do que qual quer outro,
o meu ponto de vi sta, que enfoca o desenvol vi mento da formação eco-
MARX
131
41 O morto se apodera do vi vo. (N. dos T.)
nômi ca da soci edade como um processo hi stóri co-natural , pode tornar
o i ndi ví duo responsável por rel ações das quai s el e é, soci al mente, uma
cri atura, por mai s que el e quei ra col ocar-se subjeti vamente aci ma del as.
No campo da Economi a Pol í ti ca, a l i vre pesqui sa ci entí fi ca de-
para-se não só com o mesmo i ni mi go que em todos os outros campos.
A natureza pecul i ar do materi al que el a aborda chama ao campo de
batal ha as pai xões mai s vi ol entas, mesqui nhas e odi osas do coração
humano, as fúri as do i nteresse pri vado. A I greja Angl i cana da I ngl a-
terra, por exempl o, perdoari a antes o ataque a 38 de seus 39 arti gos
de fé do que a 1/39 de suas rendas monetári as. Nos di as de hoje, o
própri o ateí smo é uma culpa levis
42
se comparado com a crí ti ca às
rel ações tradi ci onai s de propri edade. No entanto, aqui um avanço é
i negável . Remeto, por exempl o, ao Li vro Azul
43
publ i cado nas úl ti mas
semanas: Correspondence with her Majesty’s Missions Abroad, Regar-
ding I ndustrial Questions and Trades Unions. Os representantes da
Coroa i ngl esa no exteri or expõem aí , sem subterfúgi os, que na Al ema-
nha, na França, em suma, em todos os paí ses cul tos do conti nente
europeu, é tão perceptí vel e tão i nevi tável uma modi fi cação das rel ações
vi gentes entre capi tal e trabal ho quanto na I ngl aterra. Ao mesmo tem-
po, do outro l ado do Atl ânti co, Mr. Wade, vi ce-presi dente dos Estados
Uni dos da Améri ca, decl arava em reuni ões públ i cas que, depoi s da
abol i ção da escravatura, a questão posta na ordem do di a seri a a mudança
das rel ações de capi tal e propri edade da terra. São esses os si nai s dos
tempos e que não se dei xam encobri r por mantos purpúreos nem por
sotainas negras. Não si gni fi cam que mi l agres hão de ocorrer amanhã.
I ndi cam que nas própri as cl asses domi nantes já se i nsi nua o pressenti -
mento de que a atual soci edade não é um cri stal sól i do, mas um organi smo
capaz de mudar e que está em constante processo de mudança.
O segundo vol ume desta obra vai tratar do processo de ci rcul ação
do capi tal (Li vro Segundo) e das estruturações do processo gl obal (Li vro
Tercei ro); o tercei ro (Li vro Quarto), da hi stóri a da teori a.
Todo jul gamento da crí ti ca ci entí fi ca será bem-vi ndo. Quanto aos
preconcei tos da assi m chamada opi ni ão públ i ca, à qual nunca fi z con-
cessões, tomo por di vi sa o l ema do grande fl orenti no:
Segui il tuo corso, e lascia dir le genti!
44
Londres, 25 de jul ho de 1867
Karl Marx
OS ECONOMISTAS
132
42 Pecado veni al . (N. dos T.)
43 Li vros Azui s (Bl ue Books). Denomi nação geral das publ i cações de materi ai s do Parl amento
i ngl ês e documentos di pl omáti cos do Mi ni stéri o das Rel ações Exteri ores. Os Li vros Azui s,
assi m chamados devi do a suas capas azui s, são publ i cados na I ngl aterra desde o sécul o
XVI I e são a fonte ofi ci al mai s i mportante para a hi stóri a da economi a e di pl omaci a desse
paí s. (N. da Ed. Al emã.)
44 Segue o teu curso e dei xa a gental ha fal ar! — Ci tação deri vada de Dante. A Divina Comédia.
“O Purgatóri o”. Canto V. (N. da Ed. Al emã.)
POSFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
45
Antes de tudo, tenho de apresentar aos l ei tores da pri mei ra edi -
ção escl areci mentos quanto às modi fi cações fei tas na segunda edi ção.
É evi dente a ordenação mai s cl ara do l i vro. As notas adi ci onai s estão
sempre assi nal adas como notas à segunda edi ção. Quanto ao própri o
texto, ei s o mai s i mportante:
No capí tul o I , 1, a dedução do val or por mei o da anál i se das
equações, nas quai s se expri me todo val or de troca, é real i zada com
ri gor ci entí fi co mai or, assi m como é destacada expressamente a conexão,
apenas i ndi cada na pri mei ra edi ção, entre a substânci a do val or e a
determi nação da grandeza do val or por mei o do tempo de trabal ho
soci al necessári o. O capí tul o I , 3 (A forma do val or) está total mente
reel aborado, o que já se i mpunha pel a exposi ção dupl a na pri mei ra
edi ção. — De passagem observo que essa exposi ção dupl a deveu-se a
meu ami go, dr. L. Kugel mann de Hanover. Eu estava a vi si tá-l o na
pri mavera de 1867 quando as pri mei ras provas chegaram de Hamburgo
e el e me convenceu de que, para a mai ori a dos l ei tores, seri a necessári a
uma di scussão supl ementar e mai s di dáti ca da forma do val or. — A
úl ti ma parte do capí tul o I , “O feti chi smo da mercadori a etc.”, está
grandemente modi fi cada. O capí tul o I I I , 1 (Medi da dos val ores) foi
cui dadosamente revi sto porque essa parte ti nha si do negl i genci ada na
pri mei ra edi ção, remetendo à di scussão já fei ta na Contribuição à Crí-
tica da Economia Política, Berl i m, 1859. O capí tul o VI I , especi al mente
a Seção I I , foi reformul ado de modo si gni fi cati vo.
Seri a i núti l entrar detal hadamente nas modi fi cações, mui tas ve-
zes apenas esti l í sti cas, de trechos do texto. El as se estendem por todo
o l i vro. Apesar di sso, crei o que, após a revi são da tradução francesa
a ser publ i cada em Pari s, vári as partes do ori gi nal al emão exi gi ri am
aqui uma reel aboração mai s profunda, al i uma correção esti l í sti ca mai or
133
45 Na 4ª edi ção do vol ume I de O Capital (1890) foram dei xados fora os quatro pri mei ros
parágrafos deste prefáci o. No presente vol ume, o prefáci o é publ i cado i ntegral mente. (N.
da Ed. Al emã.)
ou até mesmo a el i mi nação cui dadosa de descui dos ocasi onai s. Para tanto
fal tou-me tempo, poi s apenas no outono de 1871, em mei o a outros tra-
balhos urgentes, recebi a notí ci a de que o l i vro estava esgotado e que a
i mpressão da segunda edição já teri a de ser i ni ci ada em janei ro de 1872.
A compreensão que O Capital rapi damente encontrou em ampl os
cí rcul os da cl asse operári a al emã é a mel hor recompensa de meu tra-
bal ho. Um homem, economi camente si tuado numa perspecti va burgue-
sa, o sr. Mayer, i ndustri al i sta vi enense, afi rmou com acerto, numa
brochura publ i cada durante a guerra franco-al emã, que o grande senso
teóri co, consi derado patri môni o heredi tári o al emão, teri a desapareci do
compl etamente das assi m chamadas cl asses cul tas da Al emanha, para
ressusci tar, em compensação, na sua cl asse trabal hadora.
Na Al emanha, a Economi a Polí ti ca continuou sendo, até agora, uma
ci ência estrangeira. Gustav von Gül l i ch, na Representação Histórica dos
Ofícios etc., já di scuti u em grande parte, especi al mente nos doi s pri mei ros
vol umes de sua obra publ i cados em 1830, as ci rcunstâncias históri cas que
i ni bi am o desenvol vi mento do modo de produção capi tal i sta entre nós e,
portanto, também a construção da moderna soci edade burguesa. Fal tava,
por consegui nte, o terreno vi vo da Economi a Pol í ti ca. El a foi i mportada
da I ngl aterra e da França como mercadori a pronta e acabada; seus ca-
tedráti cos al emães não passaram de estudantes. Em suas mãos, a ex-
pressão teóri ca de uma real i dade estrangei ra transformou-se numa col e-
tânea de dogmas, por el es i nterpretada, de acordo com o mundo peque-
no-burguês que os ci rcundava, sendo portanto di storci da. Para di ssimular
a sensação, não compl etamente repri mí vel , de i mpotência ci entí fi ca, bem
como a má consci ência de ter que leci onar numa área de fato estranha,
ostentava-se erudi ção hi stóri co-l i terári a ou mi sturava-se materi al estra-
nho, emprestado às assi m chamadas ci ênci as cameral í sti cas, uma mi sce-
l ânea de conheci mentos, purgatóri o pel o qual tem de passar o esperançoso
46
candi dato à burocraci a al emã.
Desde 1848, a produção capi tal i sta tem cresci do rapi damente na
Al emanha, e já ostenta hoje seus frutos enganadores. Mas, para nossos
especi al i stas, o desti no conti nuou adverso. Enquanto podi am tratar de
Economi a Pol í ti ca de modo descomprometi do, fal tavam as rel ações eco-
nômi cas modernas à real i dade al emã. Assi m que essas rel ações vi eram
à l uz, i sso ocorreu sob ci rcunstânci as que não mai s permi ti am o seu
estudo descompromi ssado na perspecti va burguesa. À medi da que é
burguesa, ou seja, ao i nvés de compreender a ordem capi tal i sta como
um estági o hi stori camente transi tóri o de evol ução, a encara como a
confi guração úl ti ma e absol uta da produção soci al , a Economi a Pol í ti ca
só pode permanecer como ci ênci a enquanto a l uta de cl asses permanecer
l atente ou só se mani festar em epi sódi os i sol ados.
OS ECONOMISTAS
134
46 Na 3ª e 4ª edi ções: sem esperança. (N. da Ed. Al emã.)
Tomemos a I ngl aterra. A sua Economi a Pol í ti ca cl ássi ca cai no
perí odo em que a l uta de cl asses não estava desenvol vi da. O seu úl ti mo
grande representante, Ri cardo, toma afi nal consci entemente, como pon-
to de parti da de suas pesqui sas, a contradi ção dos i nteresses de cl asse,
do sal ári o e do l ucro, do l ucro e da renda da terra, consi derando, i n-
genuamente, essa contradi ção uma l ei natural da soci edade. Com i sso,
a ci ênci a burguesa da economi a havi a, porém, chegado aos seus l i mi tes
i ntransponí vei s. Ai nda durante a vi da de Ri cardo apareceu, contra el e,
a crí ti ca na pessoa do Si smondi .
47
Na I ngl aterra, o perí odo segui nte, de 1820 a 1830, destaca-se
pel a vi vaci dade ci entí fi ca no campo da Economi a Pol í ti ca. Foi tanto o
perí odo de expansão e vul gari zação da teori a de Ri cardo, quanto de
sua l uta contra a vel ha escol a. Cel ebraram-se bri l hantes tornei os. Do
que então se fez, pouco chegou ao conheci mento do conti nente europeu,
poi s a pol êmi ca encontra-se, em grande parte, esparsa em arti gos de
revi stas, publ i cações ocasi onai s e panfl etos. O caráter i mparci al dessa
pol êmi ca — ai nda que a teori a de Ri cardo também já ti vesse si do
uti l i zada, excepci onal mente, como arma de ataque contra a economi a
burguesa — expl i ca-se pel as ci rcunstânci as da época. Por um l ado, a
grande i ndústri a mesma apenas começava a sai r da sua i nfânci a, o
que se comprova pel o fato de que só com a cri se de 1825 el a i naugura
o ci cl o peri ódi co de sua vi da moderna. Por outro l ado, a l uta de cl asses
entre capi tal e trabal ho fi cou restri ta a segundo pl ano; pol i ti camente,
por mei o da contenda entre os governos e i nteresses feudai s agrupados
em torno da Santa Al i ança e a massa popul ar conduzi da pel a burguesi a;
economi camente, por mei o da di sputa do capi tal i ndustri al com a pro-
pri edade ari stocráti ca da terra, que se escondi a, na França, atrás da
oposi ção entre mi ni fúndi o e l ati fúndi o e que, na I ngl aterra, i rrompeu
abertamente desde as l ei s do tri go. Nesse perí odo, a l i teratura sobre
Economi a Polí ti ca l embra, na I ngl aterra, o perí odo de tempestuoso avanço
econômi co ocorri do na França depoi s da morte do dr. Quesnay, mas apenas
como nuvens l i gei ras do verão tardi o l embram a pri mavera. No ano de
1830 começou a cri se que se tornou, de uma vez por todas, deci si va.
A burguesi a ti nha conqui stado poder pol í ti co na França e I ngl a-
terra. A parti r de então, a l uta de cl asses assumi u, na teori a e na
práti ca, formas cada vez mai s expl í ci tas e ameaçadoras. El a fez soar
o si no fúnebre da economi a ci entí fi ca burguesa. Já não se tratava de
saber se este ou aquel e teorema era ou não verdadei ro, mas se, para
o capi tal , el e era úti l ou prejudi ci al , cômodo ou i ncômodo, subversi vo
ou não. No l ugar da pesqui sa desi nteressada entrou a espadachari a
mercenári a, no l ugar da pesqui sa ci entí fi ca i mparci al entrou a má cons-
MARX
135
47 Ver mi nha obra Zur Kritik etc. p. 39.
*
*
Publ i cado em MARX, K. Manuscritos Econômico-Filosóficos e Outros Textos Escolhidos.
(N. dos T.)
ci ênci a e a má i ntenção da apol ogéti ca. No entanto, mesmo os i mpor-
tunos tratadozi nhos que a Anti-Com-Law-League,
48
chefi ada pel os i n-
dustri al i stas Cobden e Bri ght, l ançava aos quatro ventos, possuí am,
se não um i nteresse ci entí fi co, ao menos hi stóri co por sua pol êmi ca
contra a ari stocraci a fundi ári a. Desde Si r Robert Peel , também este
úl ti mo esporão crí ti co foi extraí do da economi a vul gar pel a l egi sl ação
l i vre-cambi sta.
A revol ução conti nental de 1848 também repercuti u na I ngl aterra.
Homens que ai nda pretendi am ter al gum si gni fi cado ci entí fi co e que que-
ri am ser al go mai s do que meros sofi stas e si cofantas das cl asses domi -
nantes procuravam si ntoni zar a Economi a Pol í ti ca do capi tal com as rei -
vi ndi cações não mai s i gnorávei s do prol etari ado. Daí surge um si ncreti smo
desprovi do de espí ri to, cujo mel hor representante é Stuart Mi l l . É uma
decl aração de fal ênci a da economi a “burguesa”, que o grande erudi to e
crí ti co russo N. Tcherni chveski já evi denci ou magi stral mente em sua obra
Delineamentos da Economia Política Segundo Mill.
Na Al emanha, o modo de produção capi tal i sta ati ngi u a matu-
ri dade depoi s que o seu caráter antagôni co já ti nha se revel ado rui -
dosamente na França e na I ngl aterra por mei o de l utas hi stóri cas,
enquanto o prol etari ado al emão já possuí a uma consci ênci a teóri ca de
cl asse mui to mai s deci di da do que a burguesi a al emã. Assi m que uma
ci ênci a burguesa da Economi a Pol í ti ca pareceu tornar-se possí vel aqui
[na Al emanha], el a havi a-se tornado, portanto, novamente i mpossí vel .
Nessas ci rcunstânci as, seus porta-vozes di vi di ram-se em doi s gru-
pos. Uns, astutos, ambi ci osos e pragmáti cos, juntaram-se sob a bandei ra
de Basti at, o mai s superfi ci al e, por i sso mesmo, o mai s bem-sucedi do
representante da economi a apol ogéti ca vul gar; outros, ci osos da cate-
dráti ca di gni dade de sua ci ênci a, segui ram J. St. Mi l l na tentati va de
reconci l i ar o i rreconci l i ável . Assi m como na época cl ássi ca da economi a
burguesa, também na época da sua decadênci a os al emães permane-
ceram meros di scí pul os, repeti dores e i mi tadores, mascates modestos
do grande atacado estrangei ro.
O desenvol vi mento hi stóri co pecul i ar da soci edade al emã excl uí a
a possi bi l i dade de qual quer desenvol vi mento ori gi nal da economi a bur-
OS ECONOMISTAS
136
48 Li ga-Anti -Lei -do-Tri go. — Uni ão l i vre-cambi sta que foi fundada em 1838 em Manchester
pel os fabri cantes Cobden e Bri ght. As assi m chamadas l ei s do tri go, que ti nham por fi na-
l i dade a l i mi tação, tal vez a proi bi ção, da i mportação do tri go do estrangei ro, foram i ntro-
duzi das na I ngl aterra, no ano de 1815, no i nteresse dos l ati fundi ári os, dos l ordes da terra.
A Li ga pl ei teou a exi gênci a de total l i berdade de comérci o e l utava em prol da el i mi nação
das l ei s do tri go com a fi nal i dade de bai xar os sal ári os dos trabal hadores e enfraquecer
as posi ções pol í ti cas da ari stocraci a fundi ári a. Em sua l uta contra os propri etári os rurai s,
a Li ga procurava expl orar as massas operári as. Mas exatamente nessa época os trabal ha-
dores mai s progressi stas da I ngl aterra acei taram o cami nho de um movi mento operári o
pol i ti camente autônomo (carti smo). A l uta entre a burguesi a i ndustri al e a ari stocraci a
rural termi nou em 1846 com a promul gação da l ei sobre a el i mi nação das l ei s do tri go.
Depoi s di sso, a Li ga se di ssol veu. (N. da Ed. Al emã.)
guesa, mas não a sua — crí ti ca. À medi da que tal crí ti ca representa,
al ém di sso, uma cl asse, el a só pode representar a cl asse cuja mi ssão
hi stóri ca é a derrubada do modo de produção capi tal i sta e a abol i ção
fi nal das cl asses — o prol etari ado.
Os porta-vozes erudi tos e não erudi tos da burguesi a al emã pro-
curaram pri mei ro ani qui l ar O Capital por mei o do si l ênci o, como ti nham
consegui do fazer com os meus escri tos anteri ores. Quando essa táti ca
já não correspondi a às ci rcunstânci as da época, passaram a redi gi r,
pretextando cri ti car meu l i vro, i nstruções “Para tranqüi l i zar a cons-
ci ênci a burguesa”, mas encontraram na i mprensa operári a — vejam-se,
por exempl o, os arti gos de Joseph Di etzgen no Volksstaat
49
— l utadores
de mai or porte, aos quai s estão devendo resposta até hoje.
50
Em Petersburgo foi publ i cada uma excel ente tradução russa de
O Capital na pri mavera de 1872. A edi ção de 3 mi l exempl ares já se
encontra agora quase esgotada. Em 1871, o sr. N. Si eber, catedráti co
de Economi a Pol í ti ca na Uni versi dade de Ki ev, em seu escri to A Teoria
de D. Ricardo do Valor e do Capital etc., já apontava a mi nha teori a
do val or, do di nhei ro e do capi tal como, em suas l i nhas bási cas, con-
ti nuação necessári a da doutri na de Smi th e de Ri cardo. O que sur-
preende o europeu oci dental , ao l er seu val i oso l i vro, é a manutenção
conseqüente do ponto de vi sta puramente teóri co.
O método apl i cado em O Capital foi pouco entendi do, como já o
demonstram as i nterpretações contradi tóri as do mesmo.
Assi m, a Revue Positiviste
51
me acusa de que eu, por um l ado,
trato a Economi a metafi si camente e, por outro — adi vi nhem! —, de
que eu me l i mi tari a à mera anál i se crí ti ca do dado, em vez de prescrever
MARX
137
49 O arti go de J. Di etzgen “Das Kapi tal . Kri ti k der pol i ti schen Oekonomi e von Karl Marx”,
*
Hamburgo, 1867, foi publ i cado no “Demokrati schen Wochenbl att”
**
nº 31, 34, 35 e 36. De
1869 até 1876, esse jornal apareceu com o tí tul o de “Der Vol ksstaat”.
***
(N. da Ed. Al emã.)
*
“O Capi tal . Crí ti ca da Economi a Pol í ti ca de Karl Marx”. (N. dos T.)
**
“Semi nári o Democráti co”. (N. dos T.)
***
“O Estado do Povo”. (N. dos T.)
50 Os embustei ros grandi l oqüentes da Economi a vul gar al emã censuraram o esti l o e o modo
de exposi ção do meu l i vro. Ni nguém pode jul gar mai s severamente do que eu as carênci as
l i terári as de O Capital. Ai nda assi m, para al egri a e provei to desses senhores e de seu
públ i co, quero ci tar um juí zo i ngl ês e um russo. O Saturday Review, que é total mente hosti l
às mi nhas i déi as, di sse em sua nota sobre a pri mei ra edi ção al emã: o modo de exposi ção
“confere um charme pecul i ar até mesmo às questões econômi cas mai s ári das”. O J ornal de
São Petersburgo observa, entre outras coi sas, em seu número de 20 de abri l de 1872: “A
exposi ção, excetuadas al gumas partes demasi adamente especi al i zadas, di sti ngue-se por sua
geral acessi bi l i dade, pel a cl areza e, apesar da al tura ci entí fi ca do objeto, pel a extraordi nári a
vi vaci dade. Quanto a i sso (...), não exi ste nem de l onge qual quer semel hança do autor com
a mai ori a dos i ntel ectuai s al emães, que (...) escrevem os seus l i vros numa l i nguagem tão
obscura e ári da que faz estourar a cabeça dos mortai s comuns”. Aos l ei tores da l i teratura
catedráti ca teuto-naci onal -l i beral contemporânea estoura, porém, al go compl etamente di -
verso da cabeça.
51 La Philosophie Positive. Revue. Revi sta que apareceu em Pari s de 1867 até 1883. No número
3 de novembro/dezembro de 1868, el a publ i cou uma curta resenha sobre o vol ume I de O
Capital, da pena de De Reborty, um di scí pul o do fi l ósofo posi ti vi sta Auguste Comte. (N.
da Ed. Al emã.)
recei tas (comteanas?) para a cozi nha do futuro. Contra a acusação de
metafí si ca, o prof. Si eber observa:
“No que tange à teori a propri amente di ta, o método de Marx
é o método deduti vo de toda a escol a I ngl esa, cujos defei tos e
vi rtudes são comuns aos mel hores economi stas teóri cos”.
52
O sr. M. Bl ock descobre em “Les Théori ci ens du Soci al i sme en
Al l emagne. Extrai t du J ournal des Économistes, jui l l et et aout 1872",
53
que o meu método é anal í ti co e, entre outras coi sas, afi rma que:
“Par cet ouvrage M. Marx se cl asse parmi l es espri ts anal y-
ti ques l es pl us émi nentes”.
54
Os r esenhi stas al emães gr i tam, obvi amente, contr a a sofí sti ca
hegel i ana. O Correio Europeu, de Peter sbur go, num ar ti go que exa-
mi na excl usi vamente o método de O Capital (númer o de mai o de
1872, p. 427-436), consi der a o meu método de pesqui sa r i gor osa-
mente r eal i sta, mas o meu método de exposi ção desgr açadamente
teuto-di al éti co. El e afi r ma:
“À pri mei ra vi sta, se jul gado pel a forma externa de exposi ção,
Marx é o mai or fi l ósofo i deal i sta, no senti do germâni co, ou seja,
no mau senti do da pal avra. De fato el e é, porém, i nfi ni tamente
mai s real i sta do que os seus predecessores na tarefa da crí ti ca
econômi ca. (...) Não se pode, de modo al gum, chamá-l o de i deal i sta”.
A mel hor resposta que possa dar ao autor é medi ante al guns
extratos de sua própri a crí ti ca, cuja transcri ção poderá i nteressar a
mui tos dos meus l ei tores, para os quai s o ori gi nal russo não seja aces-
sí vel . Depoi s de uma ci tação de meu prefáci o da “Contri bui ção à Crí ti ca
da Economi a Pol í ti ca” (Berl i m, 1859, p. I V-VI I ), onde eu expus a fun-
damentação materi al i sta do meu método, conti nua o senhor autor:
“Para Marx, só i mporta uma coi sa: descobri r a l ei dos fenô-
menos de cuja i nvesti gação el e se ocupa. E para el e é i mportante
não só a l ei que os rege, à medi da que el es têm forma defi ni da
e estão numa rel ação que pode ser observada em determi nado
perí odo de tempo. Para el e, o mai s i mportante é a l ei de sua
modi fi cação, de seu desenvol vi mento, i sto é, a transi ção de uma
forma para outra, de uma ordem de rel ações para outra. Uma
vez descoberta essa l ei , el e exami na detal hadamente as conse-
qüênci as por mei o das quai s el a se mani festa na vi da soci al . (...)
OS ECONOMISTAS
138
52 ENGELS. Teoria do Valor e do Capital de David Ricardo em Relação com Posteriores
Complementos e Esclarecimentos. Ki ev, 1871, p. 170. (N. da Ed. Al emã.)
53 ”Os Teóri cos do Soci al i smo na Al emanha. Extrato do J ornal dos Economistas, jul ho e agosto
de 1872."(N. dos T.)
54 Com esta obra, o sr. Marx se cl assifica entre os espí ri tos anal í ti cos mai s emi nentes. (N. dos T.)
Por i sso, Marx só se preocupa com uma coi sa: provar, medi ante
escrupul osa pesqui sa ci entí fi ca, a necessi dade de determi nados
ordenamentos das rel ações soci ai s e, tanto quanto possí vel , cons-
tatar de modo i rrepreensí vel os fatos que l he servem de pontos
de parti da e de apoi o. Para i sso, é i ntei ramente sufi ci ente que
el e prove, com a necessi dade da ordem atual , ao mesmo tempo
a necessi dade de outra ordem, na qual a pri mei ra i nevi tavel mente
tem que se transformar, quer os homens acredi tem ni sso, quer
não, quer el es estejam consci entes di sso, quer não. Marx consi dera
o movi mento soci al um processo hi stóri co-natural , di ri gi do por
l ei s que não apenas são i ndependentes da vontade, consci ênci a
e i ntenção dos homens, mas, pel o contrári o, mui to mai s l hes de-
termi nam a vontade, a consci ênci a e as i ntenções. (...) Se o el e-
mento consci ente desempenha papel tão subordi nado na hi stóri a
da cul tura, é cl aro que a crí ti ca que tenha a própri a cul tura por
objeto não pode, menos ai nda do que qual quer outra coi sa, ter
por fundamento qual quer forma ou qual quer resul tado da cons-
ci ênci a. I sso quer di zer que o que l he pode servi r de ponto de
parti da não é a i déi a, mas apenas o fenômeno externo. A crí ti ca
vai l i mi tar-se a comparar e confrontar um fato não com a i déi a,
mas com o outro fato. Para el a, o que i mporta é que ambos os
fatos sejam exami nados com o máxi mo de fi del i dade e que cons-
ti tuam, uns em rel ação aos outros, momentos di versos de desen-
vol vi mento; mas, aci ma de tudo, i mporta que sejam estudadas
de modo não menos exato a séri e de ordenações, a seqüênci a e
a conexão em que os estági os de desenvol vi mento aparecem. Mas,
di r-se-á, as l ei s gerai s da vi da econômi ca são sempre as mesmas,
sejam el as apl i cadas no presente ou no passado. (...) É exatamente
i sso o que Marx nega. Segundo el e, essas l ei s abstratas não exi s-
tem. (...) Segundo sua opi ni ão, pel o contrári o, cada perí odo hi s-
tóri co possui suas própri as l ei s. Assi m que a vi da já esgotou
determi nado perí odo de desenvol vi mento, tendo passado de de-
termi nado estági o a outro, começa a ser di ri gi da por outras l ei s.
Numa pal avra, a vi da econômi ca oferece-nos um fenômeno aná-
l ogo ao da hi stóri a da evol ução em outros terri tóri os da Bi ol ogi a.
(...) Os anti gos economi stas confundi ram a natureza das l ei s eco-
nômi cas quando as compararam às l ei s da Fí si ca e da Quí mi ca.
(...) Uma anál i se mai s profunda dos fenômenos demonstrou que
organi smos soci ai s se di sti nguem entre si tão fundamental mente
quanto organi smos vegetai s e ani mai s. (...) Si m, um mesmo fe-
nômeno rege-se por l ei s total mente di versas em conseqüênci a da
estrutura di versa desses organi smos, da modi fi cação em al guns
de seus órgãos, das condi ções di versas em que funci onam etc.
Marx nega, por exempl o, que a l ei da popul ação seja a mesma
em todos os tempos e em todos os l ugares. El e assegura, pel o
MARX
139
contrári o, que cada estági o de desenvol vi mento tem uma l ei de-
mográfi ca própri a. (...) Com o desenvol vi mento di ferenci ado da
força produti va, modi fi cam-se as ci rcunstânci as e as l ei s que as
regem. Marx, ao se col ocar a meta de pesqui sar e escl arecer, a
parti r desta perspecti va, a ordenação econômi ca do capi tal i smo,
apenas formul a, com todo ri gor ci entí fi co, a meta que deve ter
qual quer i nvesti gação exata da vi da econômi ca. (...) O val or ci en-
tí fi co de tal pesqui sa resi de no escl areci mento das l ei s especí fi cas
que regul am nasci mento, exi stênci a, desenvol vi mento e morte de
dado organi smo soci al e a sua substi tui ção por outro, superi or.
E o l i vro de Marx tem, de fato, tal méri to”.
Ao descrever de modo tão acertado e, tanto quanto entra em
consi deração a mi nha apl i cação pessoal do mesmo, de modo tão benévol o
aqui l o que o autor chama de “meu verdadei ro método”, o que descreveu
el e senão o método di al éti co?
É, sem dúvi da, necessári o di sti ngui r o método de exposi ção for-
mal mente do método de pesqui sa. A pesqui sa tem de captar detal ha-
damente a matéri a, anal i sar as suas vári as formas de evol ução e ras-
trear sua conexão í nti ma. Só depoi s de concl uí do esse trabal ho é que
se pode expor adequadamente o movi mento real . Caso se consi ga i sso,
e espel hada i deal mente agora a vi da da matéri a, tal vez possa parecer
que se esteja tratando de uma construção a priori.
Por sua fundamentação, meu método di al éti co não só di fere do
hegel i ano, mas é também a sua antí tese di reta. Para Hegel , o processo
de pensamento, que el e, sob o nome de i déi a, transforma num sujei to
autônomo, é o demi urgo do real , real que consti tui apenas a sua ma-
ni festação externa. Para mi m, pel o contrári o, o i deal não é nada mai s
que o materi al , transposto e traduzi do na cabeça do homem.
Há quase tri nta anos, numa época em que el a ai nda estava na
moda, cri ti quei o l ado mi sti fi cador da di al éti ca hegel i ana. Quando eu
el aborava o pri mei ro vol ume de O Capital, epí gonos
55
aborreci dos, ar -
rogantes e medí ocres, que agora ponti fi cam na Al emanha cul ta, se
permi ti am tratar Hegel como o bravo Moses Mendel ssohn tratou Es-
pi nosa na época de Lessi ng, ou seja, como um “cachorro morto”. Por
i sso, confessei -me abertamente di scí pul o daquel e grande pensador e,
no capí tul o sobre o val or, até andei namorando aqui e acol á os seus
modos pecul i ares de expressão. A mi sti fi cação que a di al éti ca sofre
nas mãos de Hegel não i mpede, de modo al gum, que el e tenha si do o
pri mei ro a expor as suas formas gerai s de movi mento, de manei ra
ampl a e consci ente. É necessári o i nvertê-l a, para descobri r o cerne
raci onal dentro do i nvól ucro mí sti co.
OS ECONOMISTAS
140
55 Marx refere-se aí aos fi l ósofos burgueses al emães Büchner, Lange, Dühri ng, Fechner e
outros. (N. da Ed. Al emã.)
Em sua forma mi sti fi cada, a di al éti ca foi moda al emã porque el a
pareci a tornar subl i me o exi stente. Em sua confi guração raci onal , é
um i ncômodo e um horror para a burguesi a e para os seus porta-vozes
doutri nári os, porque, no entendi mento posi ti vo do exi stente, el a i ncl ui
ao mesmo tempo o entendi mento da sua negação, da sua desapari ção
i nevi tável ; porque apreende cada forma exi stente no fl uxo do movi -
mento, portanto também com seu l ado transi tóri o; porque não se dei xa
i mpressi onar por nada e é, em sua essênci a, crí ti ca e revol uci onári a.
O movi mento, repl eno de contradi ções, da soci edade capi tal i sta
faz-se senti r ao burguês práti co de modo mai s contundente nos vai véns
do ci cl o peri ódi co que a i ndústri a moderna percorre e em seu ponto
cul mi nante — a cri se geral . Esta se aproxi ma novamente, embora ai nda
se encontre nos estági os prel i mi nares, e, tanto pel a sua presença por
toda parte quanto pel a i ntensi dade de seus efei tos, há de enfi ar a
di al éti ca até mesmo na cabeça dos parasi tas afortunadas do novo Sacro
I mpéri o Teuto-Prussi ano.
Londres, 24 de janei ro de 1873
Karl Marx
MARX
141
PREFÁCIO DA EDIÇÃO FRANCESA
Londres, 18 de março de 1872
Ao ci dadão Mauri ce La Châtre
Caro Ci dadão!
Apl audo a sua i déi a de publ i car a tradução de O Capital em
fascí cul os. Dessa forma, a obra será mai s acessí vel à cl asse operári a
e, para mi m, i sso é mai s i mportante do que todo o resto.
Esse é o l ado bom, mas é preci so consi derar o reverso da medal ha:
o método que uti l i zei e que ai nda não havi a si do apl i cado aos assuntos
econômi cos torna bastante árdua a l ei tura dos pri mei ros capí tul os, e
é de se temer que o públ i co francês, sempre i mpaci ente em chegar às
concl usões e ávi do em conhecer a conexão entre os fundamentos gerai s
e as questões i medi atas que o apai xonam, venha a desani mar em pros-
segui r a l ei tura porque tudo não se encontra l ogo no começo.
Essa é uma desvantagem contra a qual nada posso fazer, exceto
preveni r e acautel ar os l ei tores sequi osos da verdade. Não há entrada
já aberta para a ci ênci a e só aquel es que não temem a fadi ga de gal gar
suas escarpas abruptas é que têm a chance de chegar a seus ci mos
l umi nosos.
Karl Marx
143
POSFÁCIO DA EDIÇÃO FRANCESA
Ao l ei tor
O sr. J. Roy se propôs fazer uma tradução tão exata e até mesmo
l i teral quanto possí vel ; el e cumpri u com extrema exati dão a sua tarefa.
Mas essa extrema exati dão me obri gou a modi fi car a redação para
torná-l a mai s acessí vel ao l ei tor. Esses remanejamentos, fei tos no di a-
a-di a, poi s o l i vro foi edi tado em fascí cul os, foram executados com cui -
dado desi gual e ti nham de ori gi nar di screpânci as de esti l o.
Uma vez empreendi do esse trabal ho de revi são, fui l evado a apl i -
cá-l o também ao texto ori gi nal subjacente (a segunda edi ção al emã),
si mpl i fi cando al gumas asserti vas, compl etando outras, acrescentando
materi al hi stóri co ou estatí sti co, i ncorporando observações crí ti cas etc.
Sejam quai s forem as i mperfei ções l i terári as dessa edi ção francesa,
el a possui val or ci entí fi co i ndependente do ori gi nal e deve ser consul -
tada mesmo pel os l ei tores fami l i ari zados com a l í ngua al emã.
Reproduzo, mai s adi ante, as passagens do posfáci o da segunda
edi ção al emã rel ati vas ao desenvol vi mento da Economi a Pol í ti ca na
Al emanha e ao método empregado nesta obra.
Londres, 28 de abri l de 1875
Karl Marx
145
PREFÁCIO DA TERCEIRA
EDIÇÃO ALEMÃ
Não foi possí vel ao própri o Marx aprontar, para ser i mpressa,
esta tercei ra edi ção. O poderoso pensador, ante cuja grandeza até os
adversári os agora se curvam, fal eceu no di a 14 de março de 1883.
Sobre mi m que perdi , com el e, o mel hor e por quatro décadas o
mai s constante dos ami gos, o ami go a quem devo mai s do que pal avras
permi tem di zer, sobre mi m recai agora a obri gação de provi denci ar
esta tercei ra edi ção, bem como preparar o segundo vol ume, dei xado
em manuscri to. Ao l ei tor tenho de prestar aqui contas de como desem-
penhei a pri mei ra parte dessa obri gação.
De i ní ci o, Marx pretendi a reel aborar grandemente o texto do vo-
l ume I , formul ando de modo mai s preci so certos pontos teóri cos, acres-
centando novos e compl ementando, até o presente, o materi al hi stóri co
e estatí sti co. Seu mau estado de saúde e o desejo de chegar à redação
fi nal do vol ume I I obri garam-no a renunci ar a i sso. Só o mai s necessári o
devi a ser modi fi cado, só devi am ser i nseri dos os acrésci mos conti dos
na edi ção francesa (Le Capital. Par Karl Marx. Pari s, Lachâtre, 1873)
56
e publ i cada nesse í nteri m.
No espól i o foi encontrado também um exempl ar em al emão que
havi a si do corri gi do por el e em al guns trechos e que ti nha referências
remi ssi vas à edi ção francesa; encontrou-se também um exempl ar em fran-
cês, no qual el e havi a i ndi cado com preci são as passagens a serem uti l i -
zadas. Essas modi fi cações e esses acrésci mos l i mi tam-se, com raras ex-
ceções, à úl ti ma parte do l i vro, i nti tul ada “O Processo de Acumul ação do
Capi tal ”. Aqui , o texto publ i cado até agora segui a mai s a redação ori gi nal ,
enquanto os capí tul os anteri ores ti nham si do mui to mai s reel aborados.
O esti l o era, portanto, mai s vi vo, mai s de uma só fornada, mas também
mai s descui dado, recheado de angl i ci smos e pouco cl aro em al guns trechos;
147
56 A edi ção francesa do vol ume I de O Capital apareceu em cadernos seri ados de 1872 até
1875. (N. da Ed. Al emã.)
o transcurso da exposi ção apresentava l acunas aqui e al i , enquanto
al guns momentos i mportantes ti nham si do apenas esboçados.
Quanto ao esti l o, Marx havi a revi sto cui dadosamente vári os sub-
capí tul os, dando-me com i sso, bem como por freqüentes i ndi cações orai s,
a medi da para eu saber até onde i r na el i mi nação de termos técni cos
i ngl eses e de outros angl i ci smos. Marx teri a, em todo caso, reel aborado
os acrésci mos e as compl ementações, substi tui ndo, al ém di sso, o francês
fl uente pel o seu própri o al emão conci so; eu ti ve de me l i mi tar a trans-
pô-l os com o máxi mo de i ntegração ao texto ori gi nal .
Nenhuma pal avra foi , portanto, modi fi cada nesta tercei ra edi ção
sem que eu não ti vesse certeza de que o própri o autor a modi fi cari a.
Não me passa pel a cabeça i ntroduzi r em O Capital o jargão corrente
em que os economi stas al emães costumam expressar-se, forma tão con-
fusa que, por exempl o, aquel e que, medi ante pagamento em di nhei ro,
faz com que outros l he dêem trabal ho é chamado de “Arbei tgeber”,
57
enquanto aquel e de quem o trabal ho é extraí do medi ante sal ári o é
chamado de “Arbei tnehmer”.
58
Também em francês travail é usado, na
l i nguagem corrente, no senti do de “ocupação”. Mas os franceses, com
razão, consi derari am l ouco o economi sta que qui sesse chamar o capi -
tal i sta de donneur de travail e o trabal hador de receveur de travail.
Tampouco eu me permi ti reduzi r o di nhei ro, os pesos e as medi das
i ngl eses usados ao l ongo de todo o texto a seus equi val entes al emães
atuai s. Quando surgi u a pri mei ra edi ção, havi a na Al emanha tantos
ti pos de peso e medi da quantos di as no ano; al ém di sso, havi a duas
espéci es de marco (naquel es tempos o Reichs-mark
59
só ti nha val i dade
na cabeça de Soetbeers, que o i nventou no fi nal dos anos 30), duas
espéci es de fl ori m e ao menos três de tál er, das quai s uma cuja uni dade
era o “novo doi s terços”.
60
Nas ci ênci as naturai s domi nava o si stema
métri co; no mercado mundi al , os pesos e medi das i ngl eses. Nessas
ci rcunstânci as, as uni dades i ngl esas de medi da i mpunham-se natural -
mente a um l i vro que ti nha de basear-se em dados factuai s ori undos
quase excl usi vamente de condi ções i ndustri ai s i ngl esas. E esse úl ti mo
moti vo conti nua vál i do ai nda hoje, tanto mai s que quase não houve
mai ores modi fi cações no mercado mundi al quanto a i sso, e notadamente
nas i ndústri as mai s si gni fi cati vas — ferro e al godão — predomi nam
até hoje quase excl usi vamente pesos e medi das i ngl eses.
Por fi m, ai nda uma pal avra sobre o pouco compreendi do modo
de Marx fazer ci tações. Quando se trata de i nformações e descri ções
apenas factuai s, as ci tações, como, por exempl o, as dos Li vros Azui s
OS ECONOMISTAS
148
57 Dador de trabal ho. (N. dos T.)
58 Tomador de trabal ho. (N. dos T.)
59 Marco al emão. (N. dos T.)
60 Moeda de prata no val or de 2/3 de tál er, que ci rcul ou do fi nal do sécul o XVI I até metade
do sécul o XI X em di ferentes terri tóri os al emães. (N. da Ed. Al emã.)
i ngl eses, servem evi dentemente como si mpl es el ementos de comprova-
ção. É di ferente, porém, quando são ci tadas teori as de outros econo-
mi stas. Nesse caso, a ci tação vi sa apenas constatar onde, quando e
por quem foi cl aramente expresso pel a pri mei ra vez um pensamento
econômi co menci onado no decorrer do desenvol vi mento do texto. I m-
porta aí apenas que a concepção econômi ca em questão tenha si gni fi -
cado para a hi stóri a da ci ênci a, que el a seja a expressão teóri ca mai s
ou menos adequada da si tuação econômi ca de sua época. Mas não
i nteressa, de modo al gum, saber se essa proposi ção tem val or absol uto
ou rel ati vo para a perspecti va do autor ou se el a já ti nha si do ul tra-
passada pel a Hi stóri a. Essas ci tações consti tuem, por consegui nte, ape-
nas comentári os ao l ongo do texto emprestados da hi stóri a da ci ênci a
econômi ca e patentei am cada um dos avanços mai s i mportantes da
teori a econômi ca de acordo com a data e o autor. E i sso era mui to
necessári o numa ci ênci a cujos hi stori adores têm-se destacado até agora
apenas pel a i gnorânci a tendenci osa e quase orgul hosa. Tornar-se-á en-
tão também compreensí vel por que Marx, de acordo com o posfáci o da
segunda edi ção, só mui to excepci onal mente tenha chegado a ci tar eco-
nomi stas al emães.
Espero que o segundo vol ume possa vi r a ser publ i cado no trans-
correr do ano de 1884.
Londres, 7 de novembro de 1883
Friedrich Engels
MARX
149
PREFÁCIO DA EDIÇÃO INGLESA
A publ i cação de uma edi ção i ngl esa de O Capital não preci sa
ser justi fi cada. Pel o contrári o, pode-se esperar uma expl i cação do por-
quê foi retardada até agora esta edi ção i ngl esa, quando há vári os anos
as teori as deste l i vro têm si do constantemente ci tadas, atacadas e de-
fendi das, expl i cadas e di storci das, tanto na i mprensa peri ódi ca e coti -
di ana da I ngl aterra quanto da Améri ca.
Quando, pouco após a morte do autor em 1883, se tornou cl aro
que se tornava real mente necessári a uma edi ção i ngl esa da obra, o sr.
Samuel Moore, vel ho ami go de Marx e do autor destas l i nhas, pessoa
tal vez a mai s fami l i ari zada com o l i vro do que qual quer outra, pron-
ti fi cou-se a fazer a tradução que os testamentei ros l i terári os de Marx
i nstavam que fosse publ i cada. Fi cou acertado que eu deveri a comparar
o manuscri to com o ori gi nal e propor as modi fi cações que me parecessem
aconsel hávei s. Quando pouco a pouco se mostrou que as ocupações
profi ssi onai s i mpedi am o sr. Moore de concl ui r a tradução tão rapi da-
mente quanto todos nós desejávamos, acei tamos com al egri a a oferta
do dr. Avel i ng de i ncumbi r-se de parte do trabal ho. Ao mesmo tempo,
a sra. Avel i ng, a fi l ha mai s jovem de Marx, ofereceu-se para conferi r
as ci tações e recuperar o texto ori gi nal das numerosas passagens de
autores i ngl eses e dos Li vros Azui s traduzi das por Marx para o al emão.
Foram traduzi das pel o dr. Avel i ng as segui ntes partes do l i vro:
1) os capí tul os X ("A Jornada de Trabal ho") e XI ("Taxa e Massa de
Mai s-val i a"); 2) a Seção VI ("O Sal ári o"), compreendendo os capí tul os
XI X a XXI I ; 3) do capí tul o XXI V, Seção I V ("Ci rcunstânci as que" etc.)
até o fi nal do l i vro, abrangendo a úl ti ma parte do capí tul o XXI V, ca-
pí tul o XXV e toda a Seção VI I I (os capí tul os XXVI até XXXI I I ); 4) os
doi s prefáci os do autor. Todo o resto do l i vro foi traduzi do pel o sr.
Moore.
61
Enquanto cada tradutor é responsável apenas por sua parte,
cabe-me responsabi l i dade geral pel o todo.
151
61 A numeração dos capí tul os da edi ção i ngl esa do vol ume I de O Capital não coi nci de com
a numeração das edi ções al emãs. (N. da E. Al emã.)
A tercei ra edi ção al emã, na qual se baseou i ntei ramente o nosso
trabal ho, foi preparada por mi m em 1883, l evando em consi deração
as notas dei xadas pel o autor, que i ndi cam as passagens da segunda
edi ção que deveri am ser substi tuí das por passagens correspondentes
do texto francês publ i cado em 1873.
62
As modi fi cações assi m i ntrodu-
zi das no texto da segunda edi ção coi nci di am, geral mente, com as al -
terações que Marx recomendara numa séri e de i nstruções do própri o
punho para uma versão para o i ngl ês que havi a si do pl anejada nos
Estados Uni dos há dez anos, mas da qual se desi sti u pri nci pal mente
por fal ta de um tradutor capaz e adequado. Esse manuscri to foi col ocado
à nossa di sposi ção por nosso vel ho ami go, o sr. F. A. Sorge, de Hoboken,
New Jersey. Conti nha ai nda a i ndi cação de i nseri r al guns outros trechos
da edi ção francesa; mas, como el e era vári os anos mai s anti go do que
as úl ti mas i nstruções para a tercei ra edi ção, não me consi derei auto-
ri zado a fazer uso del as a não ser em casos excepci onai s e especi al mente
quando nos ajudavam a superar di fi cul dades. I gual mente o texto fran-
cês foi usado, na mai ori a das passagens di fí cei s, para i ndi car o que o
própri o autor estava preparado para sacri fi car, sempre que al go do
senti do i ntegral do ori gi nal ti vesse que ser sacri fi cado na tradução.
Uma di fi cul dade persi ste, no entanto, e del a não podemos poupar
o l ei tor: o emprego de certas expressões em senti do di ferente não só
do uso na l i nguagem coti di ana, mas também na Economi a Pol í ti ca
usual . I sso era, porém, i nevi tável . Cada concepção nova de uma ci ênci a
i mpl i ca uma revol ução nos termos técni cos dessa ci ênci a. I sso se evi -
denci a mel hor na Quí mi ca, cuja termi nol ogi a toda está sendo radi cal -
mente al terada a cada vi nte anos mai s ou menos e na qual di fi ci l mente
se pode encontrar um composto orgâni co que não tenha ti do toda uma
séri e de nomes di ferentes. A Economi a Pol í ti ca geral mente tem-se con-
tentado em tomar, tal como se encontram, as expressões da vi da co-
merci al e i ndustri al e operar com el as sem se dar em absol uto conta
de que el a, com i sso, se restri nge ao cí rcul o estrei to das i déi as que
essas pal avras expri mem. Assi m, a própri a Economi a Pol í ti ca cl ássi ca
— embora ti vesse consci ênci a pl ena de que tanto o l ucro quanto a
renda são apenas subdi vi sões, parcel as daquel a parte não paga do
produto que o trabal hador tem de fornecer ao patrão (o pri mei ro que
del a se apropri a, ai nda que não seja seu úl ti mo nem úni co dono) —
jamai s ul trapassou os concei tos usuai s de l ucro e renda, jamai s exa-
mi nou em seu conjunto, como um todo, essa parte não paga do produto
(que Marx chamou de mai s-val i a) e, por i sso, el a jamai s ati ngi u uma
compreensão cl ara, seja de sua ori gem e de sua natureza, seja também
das l ei s que regul am a posteri or reparti ção do seu val or. De modo
OS ECONOMISTAS
152
62 Le Capital. Par Karl Marx. Tradução de M. J. Roy, total mente revi sta pel o autor, Pari s,
Lachâtre. Essa tradução contém, especi al mente na úl ti ma parte do l i vro, consi derávei s
mudanças e compl ementações em rel ação ao texto da 2ª edi ção al emã.
semel hante, toda a i ndústri a, excetuando-se a agri cul tura e o artesa-
nato, é subsumi da, sem nenhuma di ferenci ação, no termo “manufatura”
e, com i sso, apaga-se a di ferença entre doi s perí odos i mportantes e
essenci al mente di versos: o perí odo da manufatura propri amente di ta,
baseado na di vi são do trabal ho manual , e o perí odo da i ndústri a mo-
derna, baseado na maqui nari a. É no entanto evi dente que uma teori a
que consi dera a moderna produção capi tal i sta mera etapa de evol ução
da hi stóri a econômi ca da humani dade tenha de empregar outras ex-
pressões do que aquel es autores que encaram essa forma de produção
como i mperecí vel e defi ni ti va.
Tal vez não seja i noportuna uma pal avra quanto ao método de
ci tar empregado pel o autor. Na mai ori a dos casos, as ci tações servem,
como é usual , para documentar asserções fei tas no texto. Mas, em
mui tos casos, são transcri tas passagens de economi stas para mostrar
quando, onde e por quem determi nado ponto de vi sta foi pel a pri mei ra
vez cl aramente expresso. I sso ocorre nos casos em que a opi ni ão trans-
cri ta é i mportante como expressão mai s ou menos adequada das con-
di ções soci ai s de produção e de troca domi nantes em determi nada época,
i ndependentemente do fato de Marx a acei tar ou se el a ti nha val i dade
geral . Essas ci tações enri quecem, portanto, o texto com um comentári o
corrente extraí do da hi stóri a da ci ênci a.
A nossa tradução compreende apenas o Li vro Pri mei ro da obra.
Mas esse l i vro é em grande medi da um todo em si mesmo e, por vi nte
anos, passou por obra autônoma. O Li vro Segundo, que edi tei em al emão
em 1885, fi ca deci di damente i ncompl eto sem o Li vro Tercei ro, que não
poderá ser publ i cado antes do fi nal de 1887. Quando sai r à l uz, no
ori gi nal al emão, o Li vro Tercei ro, haverá bastante tempo para pensar
em preparar uma edi ção i ngl esa de ambos.
O Capital, no conti nente europeu, é chamado freqüentemente de
“Bí bl i a da cl asse operári a”. Que as concl usões sustentadas nesta obra
se tornam cada di a mai s os pri ncí pi os fundamentai s do grande movi -
mento da cl asse operári a, não só na Al emanha e na Suí ça, mas também
na França, na Hol anda e na Bél gi ca, na Améri ca e até mesmo na
I tál i a e na Espanha; que, por toda parte, a cl asse operári a reconheça
cada vez mai s nessas concl usões a expressão mai s adequada da sua
si tuação e dos seus ansei os, i sso ni nguém que esteja a par desse mo-
vi mento há de negar. E, neste i nstante, também na I ngl aterra as teori as
de Marx exercem i nfl uênci a poderosa sobre o movi mento soci al i sta,
que se expande nas fi l ei ras das “pessoas cul tas” não menos que nas
fi l ei ras da cl asse operári a. Mas i sso não é tudo. Depressa se aproxi ma
o tempo em que há de se i mpor uma i nvesti gação profunda da si tuação
econômi ca da I ngl aterra como uma i rresi stí vel necessi dade naci onal .
A marcha do si stema i ndustri al da I ngl aterra, que é i mpossí vel sem
uma expansão rápi da e permanente da produção e, portanto, dos mer-
cados, está emperrada. O l i vre-cambi smo esgotou seus recursos; até
MARX
153
mesmo Manchester perdeu a fé nesse seu anti go evangel ho econômi co.
63
A i ndústri a estrangei ra, que se desenvol ve rapi damente, desafi a a pro-
dução i ngl esa por toda parte, não só em mercados defendi dos por tari fas
aduanei ras, mas também em mercados neutros, até mesmo deste l ado
do canal . Enquanto a força produti va cresce em progressão geométri ca,
a expansão dos mercados cresce, na mel hor das hi póteses, em progres-
são ari tméti ca. O ci cl o decenal de estagnação, prosperi dade, superpro-
dução e cri se, que se repeti u sempre de 1825 a 1867, parece ter-se
esgotado; mas só para dei xar-nos aterri ssar no l odaçal desesperador
de uma depressão crôni ca e duradoura. O al mejado perí odo de pros-
peri dade rel uta em vol tar; toda vez que acredi tamos di vi sar os si ntomas
que a anunci am, el es desaparecem novamente no ar. Entrementes,
cada novo i nverno recol oca a questão: “O que fazer com os desempre-
gados?” Mas enquanto se avol uma, a cada ano, o número de desem-
pregados, não há ni nguém para responder a essa pergunta; e quase
podemos cal cul ar o momento em que os desempregados vão perder a
paci ênci a e tomar o seu desti no em suas própri as mãos. Em tal mo-
mento, deveri a certamente ser ouvi da a voz de um homem cuja teori a
é, toda el a, o resul tado de uma vi da i ntei ra de estudos da hi stóri a e
da si tuação econômi ca da I ngl aterra, l evando-o à concl usão de que, ao
menos na Europa, a I ngl aterra é o úni co paí s onde a i nevi tável revol ução
soci al poderi a real i zar-se i ntei ramente por mei os pací fi cos e l egai s.
Certamente el e nunca se esqueceu de acrescentar que não esperava
que as cl asses domi nantes da I ngl aterra se submetessem a essa revo-
l ução pací fi ca e l egal sem tentar uma proslavery rebellion.
64
5 de novembro de 1886
Friedrich Engels
OS ECONOMISTAS
154
63 Na reuni ão tri mestral da Câmara de Comérci o de Manchester, efetuada hoje à tarde,
ocorreu um ani mado debate sobre a questão do l i vre-cambi smo. Foi apresentada uma re-
sol ução decl arando que “por quarenta anos se ti nha esperado em vão que outras nações
segui ssem o exempl o i ngl ês do l i vre-cambi smo e que a Câmara consi dera ter chegado a
hora de mudar esse ponto de vi sta”. A resol ução foi rejei tada por uma mai ori a de apenas
um voto, havendo 21 a favor e 22 contra. (Evening Standard, 1º de novembro de 1886.)
64 Rebel i ão em prol da escravatura. Levante que os donos de escravos do sul dos Estados
Uni dos desencadearam e que l evou à Guerra Ci vi l de 1861/65. (N. da Ed. Al emã.)
PREFÁCIO DA QUARTA
EDIÇÃO ALEMÃ
A quarta edi ção me obri gou a estabel ecer uma versão tão defi -
ni ti va quanto possí vel do texto e das notas. Sobre como procurei fazê-l o,
al gumas pal avras:
Depoi s de confrontar mai s uma vez a edi ção francesa e as notas
manuscri tas de Marx, tomei daquel a al guns acrésci mos para o texto
al emão. Encontram-se à p. 80 (na tercei ra edi ção, p. 88), p. 458 a 460
(tercei ra edi ção, p. 509-510), p. 547-551 (tercei ra, p. 600), 591 a 593
(tercei ra, p. 644) e p. 596 (tercei ra, p. 648) na nota 79. De conformi dade
com as edi ções francesa e i ngl esa, i ncorporei ao texto (quarta edi ção,
p. 461 a 467)
65
a l onga nota sobre os trabal hadores das mi nas (tercei ra
edi ção, p. 509 a 515). As outras pequenas modi fi cações são de natureza
puramente técni ca.
Acrescentei ai nda al gumas notas expl i cati vas, pri nci pal mente
onde a mudança das ci rcunstânci as hi stóri cas pareci a exi gi -l o. Todas
essas notas adi ci onai s estão col ocadas entre col chetes e assi nal adas
com mi nhas i ni ci ai s ou com D. H.
Uma revi são compl eta das numerosas ci tações tornou-se neces-
sári a devi do à edi ção i ngl esa surgi da nesse í nteri m. Para essa edi ção,
a fi l ha mai s jovem de Marx, El eanor, deu-se ao trabal ho de comparar
com os ori gi nai s todas as passagens ci tadas, de modo que o própri o
texto das ci tações de fontes i ngl esas, as mai s numerosas, não aparecesse
numa retradução do al emão, mas com o texto i ngl ês ori gi nal . Esse
texto estava, portanto, a meu di spor para a quarta edi ção. Assi m foram
descobertas di versas pequenas i mpreci sões. I ndi cações erradas de pá-
gi nas, em parte cometi das ao copi ar dos cadernos, em parte devi das
a erros de i mpressão acumul ados ao l ongo de três edi ções. Aspas ou
reti cênci as mal col ocadas, como é i nevi tável num vol ume tão grande
de ci tações ti radas de cadernos de notas, aqui e al i a tradução menos
155
65 Ver v. I , t. I I . (N. do E.)
fel i z de uma pal avra. Certas ci tações ti radas dos vel hos cadernos de
Pari s, de 1843 a 1845, quando Marx não sabi a i ngl ês e l i a os econo-
mi stas i ngl eses em traduções para o francês, casos em que a dupl a
tradução acarretava l eve mudança de col ori do, por exempl o, com
Steuart, Ure e outros — quando então o texto i ngl ês ti nha de ser
usado. E todos os casos semel hantes de pequenos l apsos e i nexati dões.
Quando agora se compara a quarta edi ção com as anteri ores, pode-se
ver que todo esse trabal hoso processo de correção nada modi fi cou no
l i vro que mereça menção. Apenas uma úni ca ci tação não pôde ser en-
contrada, a extraí da de Ri chard Jones (quarta edi ção, p. 562, nota
47);
66
Marx provavel mente se enganou ao transcrever o tí tul o do l i vro.
Todas as demai s conservam todo o seu poder comprobatóri o ou o re-
forçam na atual forma exata.
Aqui sou forçado, porém, a vol tar a uma vel ha hi stóri a.
Só conheço um caso em que a correção de uma ci tação de Marx
foi posta em dúvi da. Como conti nuou, porém, a ci rcul ar mesmo depoi s
da morte de Marx, não posso dei xar de aventá-l o aqui .
67
Em 7 de março de 1872, apareceu no Concórdia de Berl i m, órgão
da Uni ão dos Fabri cantes Al emães, um arti go anôni mo: “Como Karl
Marx ci ta”. Nel e se afi rma, com um gasto enorme de i ndi gnação moral
e de expressões nada parl amentares, que teri a si do fal si fi cada (na sau-
dação i naugural da Associ ação I nternaci onal dos Trabal hadores, de
1864,
68
e repeti da em O Capital I , p. 617, quarta edi ção e p. 670-671
da tercei ra edi ção)
69
a ci tação extraí da do di scurso pronunci ado a 16
de abri l de 1863 por Gl adstone sobre o orçamento. Nenhuma pal avra
da frase “este aumento embri agador de ri queza e poder (...) está to-
tal mente l i mi tado às cl asses possui doras” constari a no rel atóri o este-
nográfi co (quase-ofi ci al ) de Hansard.
“Essa frase não consta em parte al guma do di scurso de Gl adstone.
Exatamente o contrári o é que é di to.” (Com negri to) “Formal e
materialmente, Marx mentiu acrescentando essa frase.”
Marx, a quem esse número do Concórdia foi envi ado no mês de
mai o segui nte, respondeu ao Anônimo no Volksstaat de 1º de junho. Como
não se l embrava mai s que rel ato jornal í sti co havi a ci tado, l i mi tou-se, pri -
mei ro, a comprovar a mesma ci tação em duas publ i cações i ngl esas e ci tar,
em segui da, o rel ato do Times, segundo o qual Gl adstone afi rma:
OS ECONOMISTAS
156
66 Ver t. I I . (N. do E.)
67 Engel s ocupou-se com o desmascaramento de rei terados ataques di famatóri os por parte de
representantes da burguesi a, no senti do de que Marx teri a fal si fi cado uma ci tação de um
di scurso de Gl adstone de 16 de abri l de 1863, num trabal ho especi al : “Quando à questão
de Brentano contra Marx por causa de pretensa fal si fi cação de ci tação”. Esse trabal ho
apareceu em Hamburgo, em 1891. Ver v. 22 da edi ção MEW. (N. da Ed. Al emã.)
68 Ver v. 16 da edi ção MEW, p. 3-13. (N. do E.)
69 Ver t. I I . (N. do E.)
“That i s the state of the case as regards the weal th of thi s country.
I must say for one, I shoul d l ook al most wi th apprehensi on and
wi th pai n upon thi s i ntoxi cati ng augmentati on of weal th and power,
i f i t were my bel i ef that i t was confi ned to cl asses who are i n easy
ci rcunstances. Thi s takes no cogni zance at al l of the condi ti on of
the l abouri ng popul ati on. The augmentati on I have descri bed and
whi ch i s founded, I thi nk, upon accurate returns, i s an augmentati on
enti rel y confi ned to cl asses of property”.
70
Gl adstone afi rma aqui , por consegui nte, que l asti mari a se assi m
fosse, mas que é assi m: que esse aumento embri agador de ri queza e
poder está total mente l i mi tado às cl asses possui doras. E quanto ao
quase-ofi ci al Hansard, Marx acrescenta:
“Aqui , Mr. Gl adstone, em edi ção posteri ormente ajei tada, foi
bastante esperto para fazer sumi r a passagem que seri a compro-
metedora na boca de um Chancel er do Tesouro i ngl ês. Esse é,
al i ás, um consagrado costume parl amentar bri tâni co e, de modo
al gum, uma i nvenção do pequeno Lasker contra Bebel ”.
71
O Anôni mo se i rri ta cada vez mai s. Desprezando as fontes de
segunda mão em sua resposta no Concórdia de 4 de jul ho, sugere
envergonhadamente que é “costume” ci tar di scursos parl amentares se-
gundo o regi stro estenográfi co; mas também o rel ato do Times (no qual
está a frase “menti rosamente acrescentada”) e o de Hansard (no qual
el a não está) “coi nci dem i ntei ramente no pl ano materi al ”, e mesmo o
rel ato do Times conteri a “di retamente o oposto daquel a fami gerada
passagem do di scurso i naugural ”, com o que o homem cui dadosamente
si l enci a que, ao l ado desse pretenso “oposto”, el e contém expressamente
“aquel a fami gerada passagem”. Apesar de tudo i sso, o Anôni mo sente
que está encal hado e que só um novo subterfúgi o pode sal vá-l o. Por-
tanto, enquanto el e cri va seu arti go “atrevi damente menti roso”, como
foi mostrado há pouco, de edi fi cantes xi ngamentos como “Mala fides”,
72
MARX
157
70 Essa é a si tuação do caso no que concerne à ri queza deste paí s. Devo di zer por mi m que
eu veri a com apreensão e com dor esse embri agador acúmul o de ri queza e poder se eu
acredi tasse estar el e confi nado às cl asses abastadas. I sso não toma absol utamente conhe-
ci mento das condi ções da popul ação trabal hadora. O aumento que acabo de descrever e
que se fundamenta, crei o, em i nformes exatos, é um aumento i ntei ramente confi nado às
cl asses propri etári as. (N. dos T.)
71 Na sessão parl amentar de 8 de novembro de 1871, o deputado l i beral naci onal i sta Lasker
decl arou, numa pol êmi ca contra Bebel , que se os trabal hadores al emães pusessem na cabeça
i mi tar o exempl o dos i ntegrantes da Comuna de Pari s, o honesto propri etári o burguês i ri a
“matá-l o a porretaço”. O orador não se deci di u, porém, a publ i car essas formul ações e já
no regi stro estenográfi co constavam, em vez de “matá-l o a porretaço”, as pal avras “subju-
gá-l os com poder própri o”. Bebel descobri u essa fal si fi cação. Lasker tornou-se objeto de
escárni o entre os operári os. Por causa de sua estatura di mi nuta, deu-se-l he o apel i do de
“pequeno Lasker”. (N. da Ed. Al emã.)
72 Má fé. (N. dos T.)
“desonesti dade”, “asserti va menti rosa”, “aquel a ci tação menti rosa”,
“menti ra desl avada”, “uma ci tação compl etamente forjada”, “esta fal -
si fi cação”, “si mpl esmente i nfame” etc., consi dera necessári o desl ocar a
questão para outro terreno e promete, portanto, “expl i car num próxi mo
arti go o senti do que nós (o não-”menti roso" Anôni mo) damos ao conteúdo
das pal avras de Gl adstone". Como se essa sua opi ni ão sem autori dade
ti vesse o mí ni mo a ver com a coi sa! Esse segundo arti go está no Con-
córdia de 11 de jul ho.
Marx respondeu mai s uma vez no Volksstaat de 7 de agosto,
trazendo os rel atos do Morning Star e do Morning Advertiser
73
de 17
de abri l de 1863. De acordo com ambos, Gl adstone di z que veri a com
preocupação etc. esse aumento embri agador de ri queza e poder se o
acredi tasse l i mi tado às cl asses real mente abastadas (classes in easy
circunstances). Mas que esse aumento estaria real mente l i mi tado a
cl asses possui doras de propri edades (entirely confined to classes pos-
sessed of property). Portanto, também esses rel atos reproduzem de modo
l i teral a frase consi derada “menti rosamente acrescentada”. Al ém di sso,
confrontando os textos do Times e de Hansard, Marx novamente cons-
tatou que nos rel atos de três jornai s, i ndependentes entre si , publ i cados
na manhã segui nte, estava a mesma frase como tendo si do real mente
di ta, fal tando el a no texto de Hansard porque revi sto segundo o notóri o
“costume”, ou seja, Gl adstone “escamoteou-a posteri ormente”, segundo
as pal avras de Marx, que, para concl ui r, decl arava não ter mai s tempo
para perder com o Anôni mo. Este pareci a também estar saturado; ao
menos não foram envi ados a Marx números posteri ores do Concórdia.
Com i sso, a coi sa pareci a estar morta e enterrada. Desde então
chegaram-nos, no entanto, uma ou duas vezes, por mei o de pessoas
que ti nham rel ações com a Uni versi dade de Cambri dge, rumores quanto
a um i nomi nável cri me l i terári o que Marx teri a cometi do em O Capital;
mas, apesar de todas as nossas i nvesti gações, nada se consegui u apurar
de concreto. De repente, em 26 de novembro de 1883, oi to meses depoi s
da morte de Marx, apareceu no Times uma carta, ori unda do Tri ni ty
Col l ege, Cambri dge, e assi nada por Sedl ey Tayl or, na qual o homen-
zi nho, que mexe com o ti po mai s i nofensi vo de cooperati vi smo, de súbi to,
i noportunamente, l ançou-nos l uz afi nal não só sobre a boatari a de Cam-
bri dge, como também sobre o Anôni mo do Concórdia:
“O que parece extraordi nári o ao extremo”, di z o homenzi nho
do Tri ni ty Col l ege, “é ter si do reservado ao prof. dr. Brentano
(na ocasi ão, em Bresl au, hoje, em Estrasburgo) (...) revel ar a
Mala fides que, evi dentemente, di tou aquel a ci tação do di scurso
de Gl adstone na oração” (i naugural ). “O sr. Karl Marx, que (...)
procurou defender a ci tação, teve a audáci a de afi rmar — em
OS ECONOMISTAS
158
73 Morning Star. Estrel a da Manhã. — Morning Advertiser. Anunci ador da Manhã. (N. dos T.)
mei o aos estertores mortai s a que rapi damente o l ançaram os
ataques magi strai s de Brentano — que o sr. Gl adstone teri a re-
tocado o rel ato do seu di scurso no Times de 17 de abri l de 1863,
antes de ser publ i cado em Hansard, para fazer sumi r uma pas-
sagem que seri a um tanto comprometedora para um Chancel er
do Tesouro i ngl ês. Quando Brentano, por mei o de uma compa-
ração mi nuci osa dos textos, provou que os rel atos do Times e de
Hansard coi nci di am em excl uí rem de modo absol uto o senti do
que a ci tação l adi namente i sol ada i mputava às pal avras de Gl ads-
tone, então Marx bateu em reti rada sob o pretexto de fal ta de tempo!”
Esse era, fi nal mente, o osso enterrado! E assi m se refl eti u, gl ori o-
samente, na fantasi a cooperati vi sta de Cambri dge, a campanha anônima
do sr. Brentano no Concórdia! Assi m se postava el e, e assi m el e brandi a
a sua espada,
74
“num ataque conduzido magi stralmente”, este São Jorge
da União dos Fabri cantes Al emães, enquanto o dragão dos i nfernos, Marx,
estertorava a seus pés “rapi damente em mei o a agoni as mortai s”.
No entanto, toda essa descri ção épi ca a Ari osto só serve para
encobri r os truques desse São Jorge. Aqui já não se fal a de “acrésci mos
menti rosos”, de “fal si fi cação”, mas de “ci tação capci osamente i sol ada”
(craftily isolated quotation). Toda a questão ti nha si do desl ocada, e
São Jorge e seu escudei ro cambri dgeano sabi am mui to bem por quê.
Como o Times recusou publ i car a répl i ca, El eanor Marx encami -
nhou-a à revi sta mensal To-Day de feverei ro de 1884, reconduzi ndo o
debate ao úni co ponto de que se tratava: Marx havi a ou não “acres-
centado menti rosamente aquel a frase”? O sr. Sedl ey repl i cou:
“A questão de saber se determi nada frase constou ou não no
di scurso do sr. Gl adstone era”, na sua opi ni ão, “de i mportânci a
mui to subal terna” na di sputa entre Marx e Brentano, “se com-
parada com a questão de saber se a ci tação fora fei ta com a
i ntenção de reproduzi r ou de deformar o senti do de Gl adstone”.
E, então, el e admi te que o rel ato do Times “contém de fato uma
contradi ção nas pal avras”; mas, o resto do contexto expl i cari a, mos-
trari a, corretamente, i sto é, no senti do l i beral -gl adstoni ano, o que o
sr. Gl adstone teri a desejado di zer (To-Day, março de 1884). O cômi co
é que o nosso homenzi nho de Cambri dge empenha-se agora em não
ci tar o di scurso conforme Hansard, como seri a “costumei ro”, segundo
o anôni mo Brentano, mas conforme o rel ato do Times, desi gnado pel o
mesmo Brentano como “necessari amente mal fei to”. Natural mente, já
que a frase fatal falta no Hansard!
MARX
159
74 Engel s faz aí uma vari ação em torno das pal avras do fanfarrão e covarde Fal staff, que
conta como el e teri a, sozi nho, l utado contra ci nqüenta pessoas. (SHAKESPEARE. Henrique
I V. Parte Pri mei ra. Ato I I . Cena I V.) (N. da Ed. Al emã.)
Foi fáci l a El eanor Marx, no mesmo número do To-Day, reduzi r
essa argumentação a pó. Ou o sr. Tayl or ti nha l i do a controvérsi a de
1872 e, nesse caso, ti nha agora “menti do”, não só “acrescentando”, mas
também “i ndo al ém”. Ou não a ti nha l i do e, então, era sua obri gação
cal ar a boca. De um modo ou de outro, fi cou cl aro que el e não ousou,
em nenhum momento, manter de pé a acusação do seu ami go Brentano
de que Marx teri a “acrescentado menti ras”. Pel o contrári o, agora Marx
não teri a acrescentado menti ras, mas teri a dei xado fora uma frase
i mportante. Mas essa mesma frase é ci tada à p. 5 do Di scurso I naugural ,
poucas l i nhas antes do que teri a si do “acrescentado menti rosamente”.
E no que se refere à “contradi ção” no di scurso de Gl adstone, quem é
senão exatamente Marx quem fal a, na nota 105
75
de O Capital, à p.
618 (tercei ra edi ção, p. 672), das “sucessi vas e gri tantes contradi ções
nos di scursos de Gl adstone sobre os orçamentos de 1863 e 1864"! Só
que Marx não se l ança à manei ra de Sedl ey Tayl or a di l uí -l os em
amabi l i dades l i berai s. E o resumo concl usi vo, na resposta de E. Marx,
afi rma então:
“Pel o contrári o, Marx nada ocul tou di gno de menção nem acres-
centou a mí ni ma menti ra. Mas el e reconsti tui u e arrancou do
esqueci mento determi nada frase do di scurso de Gl adstone que
i ndubi tavel mente foi di ta, mas que, de um jei to ou de outro,
encontrou o seu cami nho — para fora de Hansard”.
Com i sso, o sr. Sedl ey Tayl or também achou que bastava, e desse
conl ui o de catedráti cos tramado durante duas décadas e em doi s gran-
des paí ses resul tou que não mai s se ousou questi onar a probi dade
l i terári a de Marx, enquanto o sr. Sedl ey, a parti r de então, há de
confi ar tão pouco nos bol eti ns de guerra do sr. Brentano quanto o sr.
Brentano na i nfal i bi l i dade papal de Hansard.
Londres, 25 de junho de 1890
F. Engels
OS ECONOMISTAS
160
75 Ver t. 2. (N. do E.)
LIVRO PRIMEIRO
O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CAPITAL
SEÇÃO I
MERCADORIA E DINHEIRO
CAPÍTULO I
A MERCADORIA
1. Os dois fatores da mercadoria: Valor de uso e valor
(substância do valor, grandeza do valor)
A ri queza das soci edades em que domi na o modo de produção
capi tal i sta aparece como uma “i mensa col eção de mercadori as”
76
e a
mercadori a i ndi vi dual como sua forma el ementar. Nossa i nvesti gação
começa, portanto, com a anál i se da mercadori a.
A mercadori a é, antes de tudo, um objeto externo, uma coi sa, a
qual pel as suas propri edades sati sfaz necessi dades humanas de qual -
quer espéci e. A natureza dessas necessi dades, se el as se ori gi nam do
estômago ou da fantasi a, não al tera nada na coi sa.
77
Aqui também
não se trata de como a coi sa sati sfaz a necessi dade humana, se i me-
di atamente, como mei o de subsi stênci a, i sto é, objeto de consumo, ou
se i ndi retamente, como mei o de produção.
Cada coi sa úti l , como ferro, papel etc., deve ser encarada sob dupl o
ponto de vi sta, segundo qual i dade e quanti dade. Cada uma dessas coi sas
é um todo de mui tas propri edades e pode, portanto, ser úti l , sob di versos
aspectos. Descobri r esses di versos aspectos e, portanto, os múl ti pl os modos
de usar as coisas é um ato históri co.
78
Assi m como também o é a descoberta
de medi das soci ais para a quanti dade das coisas útei s. A di versi dade das
medi das de mercadori as ori gi na-se em parte da natureza di versa dos ob-
jetos a serem medi dos, em parte de convenção.
165
76 MARX, Karl . Zur Kritik der politischen Oekonomie. Berl i m, 1859, p. 3.
77 "Desejo i ncl ui necessi dade, é o apeti te do espí ri to e tão natural como a fome para o corpo.
(...) a mai ori a (das coi sas) tem seu val or deri vado da sati sfação das necessi dades do espí ri to."
(BARBON, Ni chol as. A Discourse on Coining the New Money Lighter. I n Answer to Mr.
Locke’s Considerations etc. Londres, 1696. p. 2-3.)
78 "Coi sas têm uma intrinsick vertue“ (i sto para Barbon é a especí fi ca desi gnação para val or
de uso) ”que é i gual em toda parte, assi m como a do í mã de atrai r o ferro" (op. cit., p. 6).
A propri edade do í mã de atrai r ferro só se tornou úti l depoi s de descobri r-se por mei o del a
a pol ari dade magnéti ca.
A uti l i dade de uma coi sa faz del a um val or de uso.
79
Essa uti l i -
dade, porém, não pai ra no ar. Determi nada pel as propri edades do corpo
da mercadori a, el a não exi ste sem o mesmo. O corpo da mercadori a
mesmo, como ferro, tri go, di amante etc. é, portanto, um val or de uso
ou bem. Esse seu caráter não depende de se a apropri ação de suas
propri edades útei s custa ao homem mui to ou pouco trabal ho. O exame
dos val ores de uso pressupõe sempre sua determi nação quanti tati va,
como dúzi a de rel ógi os, vara de l i nho, tonel ada de ferro etc. Os val ores
de uso das mercadori as fornecem o materi al de uma di sci pl i na própri a,
a merceol ogi a.
80
O val or de uso real i za-se somente no uso ou no con-
sumo. Os val ores de uso consti tuem o conteúdo materi al da ri queza,
qual quer que seja a forma soci al desta. Na forma de soci edade a ser
por nós exami nada, el es consti tuem, ao mesmo tempo, os portadores
materi ai s do — val or de troca.
O val or de troca aparece, de i ní ci o, como a rel ação quanti tati va,
a proporção na qual val ores de uso de uma espéci e se trocam
81
contra
val ores de uso de outra espéci e, uma rel ação que muda constantemente
no tempo e no espaço. O val or de troca parece, portanto, al go casual
e puramente rel ati vo; um val or de troca i manente, i ntrí nseco à mer-
cadori a (valeur intrensèque), portanto uma contradictio in adjecto.
82
Observemos a coi sa mai s de perto.
Determi nada mercadori a, 1 quarter de tri go, por exempl o, troca-se
por x de graxa de sapato, ou por y de seda, ou por z de ouro etc.,
resumi ndo por outras mercadori as nas mai s di ferentes proporções. As-
si m, o tri go possui múl ti pl os val ores de troca em vez de um úni co.
Porém, sendo x de graxa, assi m como y de seda ou z de ouro o val or
de troca de 1 quarter de tri go, x de graxa, y de seda, z de ouro etc.
têm de ser val ores de troca permutávei s uns pel os outros ou i guai s
entre si . Por consegui nte, pri mei ro: os val ores de troca vi gentes da
mesma mercadori a expressam al go i gual . Segundo, porém: o val or de
troca só pode ser o modo de expressão, a “forma de mani festação” de
um conteúdo del e di sti nguí vel .
OS ECONOMISTAS
166
79 "O worth natural de cada coi sa consi ste em sua apti dão para sati sfazer as necessi dades
ou servi r às comodi dades da vi da humana." (LOCKE, John. Some Considerations on the
Consequences of the Lowering of I nterest. 1691. I n: Works. Edi t. Londres, 1777. v. I I , p.
28.) No sécul o XVI I encontramos ai nda, com freqüênci a, nos escri tores i ngl eses, worth para
val or de uso e value para val or de troca, total mente no espí ri to de um i di oma que gosta
de expressar as coi sas di retas com um termo germâni co, e as coi sas refl eti das com um
termo români co.
80 Na soci edade burguesa domi na a fictio juris, que cada pessoa, como comprador, possui um
conheci mento enci cl opédi co das mercadori as.
81 "O val or consi ste na rel ação de troca que se estabel ece entre uma coi sa e outra, entre a
quanti dade de um produto e a de outro." (LE TROSNE. “De l ’I ntérêt Soci al ”. I n: Physiocrates.
Ed. Dai re, Pari s, 1846. p. 889.)
82 "Nada pode ter um val or de troca i ntrí nseco" (BARBON, N. Op. cit., p. 6), ou, como di z
Butl er: “O val or de uma coi sa é justamente tanto quanto el a renda.”
*
*
Modi fi cação de um ci tado da epopéi a Hudibras de Samuel Butl er. Parte Segunda. Canto
I . (N. da Ed. Al emã.)
Tomemos ai nda duas mercadori as, por exempl o, tri go e ferro.
Qual quer que seja sua rel ação de troca, poder-se-á, sempre, represen-
tá-l a por uma equação em que dada quanti dade de tri go é i gual ada a
al guma quanti dade de ferro, por exempl o, 1 quarter de tri go = a qui ntai s
de ferro. Que di z essa equação? Que al go em comum da mesma grandeza
exi ste em duas coi sas di ferentes, em 1 quarter de tri go e i gual mente
em a qui ntai s de ferro. Ambas são, portanto, i guai s a uma tercei ra,
que em si e para si não é nem uma nem outra. Cada uma das duas,
enquanto val or de troca, deve, portanto, ser redutí vel a essa tercei ra.
Um si mpl es exempl o geométri co torna i sso evi dente. Para deter-
mi nar e comparar as áreas de todas as fi guras reti l í neas tem-se que
decompô-l as em tri ângul os. O tri ângul o, por sua vez, reduz-se a uma
expressão compl etamente di ferente de sua fi gura vi sí vel — a metade
do produto de sua base pel a sua al tura. O mesmo ocorre com os val ores
de troca das mercadori as: tem-se que reduzi -l os a al go comum, do qual
el es representam um mai s ou um menos.
Esse al go em comum não pode ser uma propri edade geométri ca,
fí si ca, quí mi ca ou qual quer outra propri edade natural das mercadori as.
Suas propri edades corpóreas só entram em consi deração à medi da que
el as l hes conferem uti l i dade, i sto é, tornam-nas val or de uso. Por outro
l ado, porém, é preci samente a abstração de seus val ores de uso que
caracteri za evi dentemente a rel ação de troca das mercadori as. Dentro
da mesma um val or de uso val e exatamente tanto como outro qual quer,
desde que esteja di sponí vel em proporção adequada. Ou como di z o
vel ho Barbon:
“Uma espéci e de mercadori a é tão boa quanto a outra se o
seu val or de troca for i gual . Poi s não exi ste nenhuma di ferença
ou di sti nção entre coi sas de val or de troca i gual ”.
83
Como val ores de uso, as mercadori as são, antes de mai s nada, de
di ferente qual i dade, como val ores de troca só podem ser de quanti dade
di ferente, não contendo, portanto, nenhum átomo de val or de uso.
Dei xando de l ado então o val or de uso dos corpos das mercadori as,
resta a el as apenas uma propri edade, que é a de serem produtos do
trabal ho. Entretanto, o produto do trabal ho também já se transformou
em nossas mãos. Se abstraí mos o seu val or de uso, abstraí mos também
os componentes e formas corpóreas que fazem del e val or de uso. Dei xa
já de ser mesa ou casa ou fi o ou qual quer outra coi sa úti l . Todas as
suas qual i dades sensori ai s se apagaram. Também já não é o produto
MARX
167
83 "One sort of wares are as good as another, i f the val ue be equal . There i s no di fference or
di sti ncti on i n thi ngs of equal val ue. (...) One hundred pounds worth of l ead or i ron, i s of
as great a val ue as one hundred pounds worth of si l ver and gol d."
*
(BARBON, N.

Op. cit.,
p. 53 e 7.)
*
“... 100 l i bras esterl i nas de chumbo ou ferro têm o mesmo val or que 100 l i bras esterl i nas
de ouro ou prata.” (N. dos T.)
do trabal ho do marcenei ro ou do pedrei ro ou do fi andei ro ou de qual quer
outro trabal ho produti vo determi nado. Ao desaparecer o caráter úti l
dos produtos do trabal ho, desaparece o caráter úti l dos trabal hos nel es
representados, e desaparecem também, portanto, as di ferentes formas
concretas desses trabal hos, que dei xam de di ferenci ar-se um do outro
para reduzi r-se em sua total i dade a i gual trabal ho humano, a trabal ho
humano abstrato.
Consi deremos agora o resí duo dos produtos do trabal ho. Não res-
tou del es a não ser a mesma objeti vi dade fantasmagóri ca, uma si mpl es
gel ati na de trabal ho humano i ndi ferenci ado, i sto é, do di spêndi o de
força de trabal ho humano, sem consi deração pel a forma como foi des-
pendi da. O que essas coi sas ai nda representam é apenas que em sua
produção foi despendi da força de trabal ho humano, foi acumul ado tra-
bal ho humano. Como cri stal i zações dessa substânci a soci al comum a
todas el as, são el as val ores — val ores mercanti s.
Na própri a rel ação de troca das mercadori as seu val or de troca
apareceu-nos como al go total mente i ndependente de seu val or de uso.
Abstrai ndo-se agora, real mente, o val or de uso dos produtos do trabal ho
obtém-se seu val or total como há pouco el e foi defi ni do. O que há de
comum, que se revel a na rel ação de troca ou val or de troca da mer-
cadori a, é, portanto, seu val or. O prossegui mento da i nvesti gação nos
trará de vol ta ao val or de troca, como a manei ra necessári a de expressão
ou forma de mani festação do val or, o qual deve ser, por agora, consi -
derado i ndependentemente dessa forma.
Portanto, um val or de uso ou bem possui val or, apenas, porque
nel e está objeti vado ou materi al i zado trabal ho humano abstrato. Como
medi r então a grandeza de seu val or? Por mei o do quantum nel e conti do
da “substânci a consti tui dora do val or”, o trabal ho. A própri a quanti dade
de trabal ho é medi da pel o seu tempo de duração, e o tempo de trabal ho
possui , por sua vez, sua uni dade de medi da nas determi nadas frações
do tempo, como hora, di a etc.
Se o val or de uma mercadori a é determi nado pel a quanti dade
de trabal ho despendi do durante a sua produção, poderi a parecer que
quanto mai s pregui çoso ou i nábi l seja um homem, tanto mai or o val or
de sua mercadori a, poi s mai s tempo el e necessi ta para termi ná-l a. O
trabal ho, entretanto, o qual consti tui a substânci a dos val ores, é tra-
bal ho humano i gual , di spêndi o da mesma força de trabal ho do homem.
A força conjunta de trabal ho da soci edade, que se apresenta nos val ores
do mundo das mercadori as, val e aqui como uma úni ca e a mesma
força de trabal ho do homem, não obstante el a ser composta de i númeras
forças de trabal ho i ndi vi duai s. Cada uma dessas forças de trabal ho
i ndi vi duai s é a mesma força de trabal ho do homem como a outra, à
medi da que possui o caráter de uma força médi a de trabal ho soci al ,
e opera como tal força de trabal ho soci al mente médi a, contanto que
na produção de uma mercadori a não consuma mai s que o trabal ho em
OS ECONOMISTAS
168
médi a necessári o ou tempo de trabal ho soci al mente necessári o. Tempo
de trabal ho soci al mente necessári o é aquel e requeri do para produzi r
um val or de uso qual quer, nas condi ções dadas de produção soci al mente
normai s, e com o grau soci al médi o de habi l i dade e de i ntensi dade de
trabal ho. Na I ngl aterra, por exempl o, depoi s da i ntrodução do tear a
vapor, bastava tal vez somente metade do trabal ho de antes para trans-
formar certa quanti dade de fi o em teci do. O tecel ão manual i ngl ês
preci sava para essa transformação, de fato, do mesmo tempo de tra-
bal ho que antes, porém agora o produto de sua hora de trabal ho i n-
di vi dual somente representava mei a hora de trabal ho soci al e cai u,
portanto, à metade do val or anteri or.
É, portanto, apenas o quantum de trabal ho soci al mente necessári o
ou o tempo de trabal ho soci al mente necessári o para produção de um
val or de uso o que determi na a grandeza de seu val or.
84
A mercadori a
i ndi vi dual val e aqui apenas como exempl ar médi o de sua espéci e.
85
Mercadori as que contêm as mesmas quanti dades de trabal ho ou que
podem ser produzi das no mesmo tempo de trabal ho, têm, portanto, a
mesma grandeza de val or. O val or de uma mercadori a está para o
val or de cada uma das outras mercadori as assi m como o tempo de
trabal ho necessári o para a produção de uma está para o tempo de
trabal ho necessári o para a produção de outra.
“Enquanto val ores todas as mercadori as são apenas medi das
determi nadas de tempo de trabal ho cri stal i zado.”
86
A grandeza de val or de uma mercadori a permaneceri a portanto
constante, caso permanecesse também constante o tempo de trabal ho
necessári o para sua produção. Este muda, porém, com cada mudança
na força produti va do trabal ho. A força produti va do trabal ho é deter-
mi nada por mei o de ci rcunstânci as di versas, entre outras pel o grau
médi o de habi l i dade dos trabal hadores, o ní vel de desenvol vi mento da
ci ênci a e sua apl i cabi l i dade tecnol ógi ca, a combi nação soci al do processo
de produção, o vol ume e a efi cáci a dos mei os de produção e as condi ções
naturai s. Assi m, por exempl o, o mesmo quantum de trabal ho em con-
di ções cl i máti cas favorávei s, se representa em 8 bushels de tri go, em
MARX
169
84 Nota à 2ª edi ção. “The val ue of them (the necessari es of l i fe) when they are exchanged the
one for another, i s regul ated by the quanti ty of l abour necessari l y requi red, and commonl y
taken i n produci ng them.” “O val or de objetos de uso, tão l ogo el es são trocados entre si ,
é determi nado pel o quantum de trabal ho necessari amente exi gi do e habi tual mente usado
para sua produção.” (Some Thoughts on the I nterest of Money in General, and Particularly
in the Public Funds etc. Londres. p. 36-37). Esse notável escri to anôni mo do sécul o passado
não traz data. De seu conteúdo deduz-se, entretanto, que el e apareceu sob Jorge I I , por
vol ta de 1739 ou 1740.
85 "Todos os produtos da mesma espéci e formam propri amente apenas uma massa, cujo preço
é determi nado de forma geral e sem consi deração às si tuações especi ai s." (LE TROSNE,
Op. cit., p. 893.)
86 MARX, K. Op. cit., p. 6.
condi ções cl i máti cas desfavorávei s, em somente 4. A mesma quanti dade
de trabal ho fornece mai s metai s em mi nas ri cas do que em mi nas
pobres etc. Di amantes aparecem mui to raramente na crosta terrestre;
encontrá-l os custa, portanto, em médi a, mui to tempo de trabal ho. Em
conseqüênci a representam, em pouco vol ume, mui to trabal ho. Jacob
duvi da que o ouro tenha al guma vez pago seu val or total .
87
Com mai or
razão, val e i sso para o di amante. Segundo Eschwege, em 1823 a ex-
pl oração de oi tenta anos das mi nas de di amante, no Brasi l , não al -
cançava sequer o preço do produto médi o de 1,5 ano das pl antações
brasi l ei ras de açúcar ou café, apesar de que el a representava mui to
mai s trabal ho e, portanto, mai s val or. Com mi nas mai s ri cas o mesmo
quantum de trabal ho representar-se-i a em mai s di amantes, e di mi nui -
ri a o seu val or. Caso se consegui sse, com pouco trabal ho, transformar
carvão em di amante, o val or deste poderi a cai r abai xo do de ti jol os.
Generi camente, quanto mai or a força produti va do trabal ho, tanto me-
nor o tempo de trabal ho exi gi do para a produção de um arti go, tanto
menor a massa de trabal ho nel e cri stal i zada, tanto menor o seu val or.
I nversamente, quanto menor a força produti va do trabal ho, tanto mai or
o tempo de trabal ho necessári o para a produção de um arti go, tanto
mai or o seu val or. A grandeza do val or de uma mercadori a muda na
razão di reta do quantum, e na razão i nversa da força produti va do
trabal ho que nel a se real i za.
88
Uma coi sa pode ser val or de uso, sem ser val or. É esse o caso,
quando a sua uti l i dade para o homem não é medi ada por trabal ho.
Assi m, o ar, o sol o vi rgem, os gramados naturai s, as matas não cul ti -
vadas etc. Uma coi sa pode ser úti l e produto do trabal ho humano, sem
ser mercadori a. Quem com seu produto sati sfaz sua própri a necessi dade
cri a val or de uso mas não mercadori a. Para produzi r mercadori a, el e
não preci sa produzi r apenas val or de uso, mas val or de uso para outros,
val or de uso soci al . {E não só para outros si mpl esmente. O camponês
da I dade Médi a produzi a o tri go do tri buto para o senhor feudal , e o
tri go do dí zi mo para o cl éri go. Embora fossem produzi dos para outros,
nem o tri go do tri buto nem o do dí zi mo se tornaram por causa di sso
mercadori as. Para tornar-se mercadori a, é preci so que o produto seja
transferi do a quem vai servi r como val or de uso por mei o da troca.}
89
Fi nal mente, nenhuma coi sa pode ser val or, sem ser objeto de uso.
OS ECONOMISTAS
170
87 JACOB, Wi l l i am. An Historical I nquiry into the Production and Consumption of the Precious
Metals. Londres, 1831. (N. da Ed. Al emã.)
88 Na 1ª edi ção segue: Conhecemos agora a substância do val or. É o trabalho. Conhecemos
sua medida de grandeza. É o tempo de trabal ho. Sua forma, que justamente cunha o valor
ao valor de troca, resta ai nda para anal i sar. Antes, porém, é necessári o desenvol ver mai s
de perto as determi nações já encontradas. (N. da Ed. Al emã.)
89 Nota à 4ª edi ção. Eu i ntroduzo o trecho entre chaves porque sua omi ssão tem freqüentemente
ori gi nado o mal -entendi do de consi derar que, para Marx, val e como mercadori a todo produto
que é consumi do por outro, que não o produtor. — F. E.
Sendo i núti l , do mesmo modo é i núti l o trabal ho nel a conti do, não
conta como trabal ho e não consti tui nenhum val or.
2. Duplo caráter do trabalho representado nas mercadorias
A mercadori a apareceu-nos, i ni ci al mente, como al go dúpl i ce, val or
de uso e val or de troca. Depoi s mostrou-se que também o trabal ho, à
medi da que é expresso no val or, já não possui as mesmas caracterí sti cas
que l he advêm como produtor de val ores de uso. Essa natureza dupl a da
mercadori a foi cri ti camente demonstrada pel a pri mei ra vez por mi m.
90
Como esse ponto é o ponto cruci al em torno do qual gi ra a compreensão
da Economi a Polí ti ca, el e deve ser exami nado mai s de perto.
Tomemos duas mercadori as, di gamos um casaco e 10 varas de
l i nho. Que a pri mei ra tenha o dobro do val or da úl ti ma, de modo que,
se 10 varas de l i nho = W, o casaco = 2W.
O casaco é um val or de uso que sati sfaz a uma necessi dade es-
pecí fi ca. Para produzi -l o, preci sa-se de determi nada espéci e de ati vi dade
produti va. El a é determi nada por seu fi m, modo de operar, objeto,
mei os e resul tado. O trabal ho cuja uti l i dade representa-se, assi m, no
val or de uso de seu produto ou no fato de que seu produto é um val or
de uso chamamos, em resumo, trabal ho úti l . Sob esse ponto de vi sta
é consi derado sempre em rel ação a seu efei to úti l .
Como casaco e l i nho são val ores de uso qual i tati vamente di fe-
rentes, assi m os trabal hos aos quai s devem sua exi stênci a são também
qual i tati vamente di ferentes — o trabal ho de al fai atari a e o de tecel a-
gem. Se aquel as coi sas não fossem val ores de uso qual i tati vamente
di ferentes e, por i sso, produtos de trabal hos útei s qual i tati vamente
di ferentes, el as não poderi am, de nenhum modo, confrontar-se como
mercadori as. Casaco não se troca por casaco, o mesmo val or de uso
pel o mesmo val or de uso.
Na total i dade dos vári os ti pos de val ores de uso ou corpos de
mercadori as aparece uma total i dade i gual mente di versi fi cada, de acor-
do com gênero, espéci e, famí l i a, subespéci e, vari edade, de di ferentes
trabal hos útei s — uma di vi são soci al do trabal ho. El a é condi ção de
exi stênci a para a produção de mercadori as, embora, i nversamente, a
produção de mercadori as não seja a condi ção de exi stênci a para a di -
vi são soci al do trabal ho. Na anti ga comuni dade hi ndu o trabal ho é
soci al mente di vi di do sem que os produtos se tornem mercadori as. Ou,
um exempl o mai s próxi mo, em cada fábri ca o trabal ho é si stemati ca-
mente di vi di do, mas essa di vi são não se real i za medi ante a troca, pel os
trabal hadores, de seus produtos i ndi vi duai s. Apenas produtos de tra-
bal hos pri vados autônomos e i ndependentes entre si confrontam-se
como mercadori as.
MARX
171
90 Op. cit., p. 12-13 et passim.
Vi u-se, portanto: o val or de uso de cada mercadori a encerra de-
termi nada ati vi dade produti va adequada a um fi m, ou trabal ho úti l .
Val ores de uso não podem defrontar-se como mercadori a, caso el es não
contenham trabal hos útei s qual i tati vamente di ferentes. Numa soci e-
dade cujos produtos assumem, generi camente, a forma de mercadori a,
i sto é, numa soci edade de produtores de mercadori as, desenvol ve-se
essa di ferença qual i tati va dos trabal hos útei s, executados i ndependen-
temente uns dos outros, como negóci os pri vados de produtores autô-
nomos, num si stema compl exo, numa di vi são soci al do trabal ho.
Para o casaco, tanto faz ser usado pel o al fai ate ou pel o freguês do
al fai ate. Em ambos os casos el e funci ona como val or de uso. Tampouco
a rel ação entre o casaco e o trabal ho que o produz muda, em si e para
si , pel o fato de a al fai atari a tornar-se uma profi ssão especí fi ca, um el o
autônomo da di vi são soci al do trabal ho. Onde a necessi dade de vesti r o
obri gou, o homem costurou durante mi l ênios, antes de um homem tor-
nar-se um al fai ate. Mas a exi stênci a do casaco, do l i nho, de cada el emento
da ri queza materi al não exi stente na natureza, sempre teve de ser medi ada
por uma ati vi dade especi al produti va, adequada a seu fi m, que assi mi l a
el ementos especí fi cos da natureza a necessi dades humanas especí fi cas.
Como cri ador de val ores de uso, como trabal ho úti l , é o trabal ho, por i sso,
uma condi ção de exi stênci a do homem, i ndependente de todas as formas
de soci edade, eterna necessi dade natural de medi ação do metabol i smo
entre homem e natureza e, portanto, da vi da humana.
Os val ores de uso casaco, l i nho etc., enfi m, os corpos das mer-
cadori as, são l i gações de doi s el ementos, matéri a forneci da pel a natu-
reza e trabal ho. Subtrai ndo-se a soma total de todos os trabal hos útei s
conti dos no casaco, l i nho etc., resta sempre um substrato materi al que
exi ste sem ação adi ci onal do homem, forneci do pel a natureza. Ao pro-
duzi r, o homem só pode proceder como a própri a natureza, i sto é,
apenas mudando as formas das matéri as.
91
Mai s ai nda. Nesse trabal ho
de formação el e é constantemente amparado por forças naturai s. Por-
tanto, o trabal ho não é a úni ca fonte dos val ores de uso que produz,
da ri queza materi al . Del a o trabal ho é o pai , como di z Wi l l i am Petty,
e a terra a mãe.
92
OS ECONOMISTAS
172
91 "Todas as mani festações do uni verso, sejam el as causadas pel a mão do homem ou pel as
l ei s gerai s da Fí si ca, não são real mente novas cri ações, apenas pura e si mpl esmente uma
transformação da matéri a. Associ ação e di ssoci ação são os úni cos el ementos que o espí ri to
humano encontra sempre de novo ao anal i sar a i déi a da reprodução; e do mesmo modo
comporta-se com a reprodução do val or" (val or de uso, apesar de que aqui Verri , em sua
pol êmi ca contra os fi si ocratas, não sabe ao certo de que espéci e de val or el e fal a) “e da
ri queza, quando terra, ar e água transformam-se em cereai s sobre os campos ou também
quando pel a mão do homem a secreção de um i nseto transforma-se em seda, ou al gumas
partezi nhas de metal ordenam-se para formarem um rel ógi o de repeti ção.” (VERRI , Pi etro.
Meditazioni sulla Economia Politica. I mpresso pri mei ro em 1771, na edi ção dos economi stas
i tal i anos, de Custodi . Parte Moderna, v. XV, p. 21-22.)
92 PETTY, W. A Treatise of Taxes and Contributions. Londres, 1667, p. 47. (N. da Ed. Al emã)
Passemos, agora, da mercadori a, enquanto objeto de uso, para o
val or-mercadori a.
Segundo nosso suposto, o casaco tem o dobro do val or do l i nho.
I sto é, porém, só uma di ferença quanti tati va que por agora não nos
i nteressa ai nda. Recordemos, por i sso, que, se um casaco val e duas
vezes mai s que 10 varas de l i nho, 20 varas de l i nho têm a mesma
grandeza de val or de um casaco. Enquanto val ores, casaco e l i nho são
coi sas de i gual substânci a, expressões objeti vas do mesmo ti po de tra-
bal ho. Mas a al fai atari a e a tecel agem são trabal hos qual i tati vamente
di ferentes. Exi stem, entretanto, ci rcunstânci as soci ai s em que a mesma
pessoa, al ternadamente, costura e tece. Esses doi s modos di ferentes
de trabal ho são, por i sso, apenas modi fi cações do trabal ho do mesmo
i ndi ví duo, e ai nda não funções fi xas, especí fi cas de i ndi ví duos di feren-
tes, assi m como o casaco fei to, hoje, por nosso al fai ate, e as cal ças que
el e faz amanhã somente pressupõem vari ações do mesmo trabal ho i n-
di vi dual . A evi dênci a ensi na ai nda que em nossa soci edade capi tal i sta,
conforme a mutável ori entação da procura de trabal ho, dada porção
do trabal ho humano deverá ser al ternadamente ofereci da ora sob a
forma de al fai atari a, ora sob a forma de tecel agem. Essa vari ação da
forma do trabal ho pode não transcorrer sem atri tos, mas el a tem de
ocorrer. Abstrai ndo-se da determi nação da ati vi dade produti va e, por-
tanto, do caráter úti l do trabal ho, resta apenas que el e é um di spêndi o
de força humana de trabal ho. Al fai atari a e tecel agem, apesar de serem
ati vi dades produti vas qual i tati vamente di ferentes, são ambas di spêndi o
produti vo de cérebro, múscul os, nervos, mãos etc. humanos, e nesse
senti do são ambas trabal ho humano. São apenas duas formas di ferentes
de despender força humana de trabal ho. Contudo, para poder ser des-
pendi do dessa ou daquel a forma, preci sa a força humana de trabal ho
estar mai s ou menos desenvol vi da. Mas o val or da mercadori a repre-
senta si mpl esmente trabal ho humano, di spêndi o de trabal ho humano
sobretudo. Assi m como na soci edade burguesa um general ou banquei ro
desempenha um grande papel , enquanto o homem si mpl es, ao contrári o,
desempenha um papel ordi nári o,
93
assi m é também aqui com o trabal ho
humano. El e é di spêndi o da força de trabal ho si mpl es que em médi a
toda pessoa comum, sem desenvol vi mento especi al , possui em seu or-
gani smo fí si co. Embora o própri o trabalho médio simples mude seu
caráter, em di ferentes paí ses ou épocas cul turai s, el e é porém dado
em uma soci edade parti cul ar. Trabal ho mai s compl exo val e apenas
como trabal ho si mpl es potenciado ou, antes, multiplicado, de manei ra
que um pequeno quantum de trabal ho compl exo é i gual a um grande
quantum de trabal ho si mpl es. Que essa redução ocorre constantemente,
mostra-o a experi ênci a. Uma mercadori a pode ser o produto do trabal ho
MARX
173
93 Ver HEGEL. Philosophie des Rechts.
*
Berl i m, 1840. p. 250, § 190.
*
Filosofia do Direito.
mai s compl exo, seu valor a equi para ao produto do trabal ho si mpl es
e, por i sso, el e mesmo representa determi nado quantum de trabal ho
si mpl es.
94
As di ferentes proporções, nas quai s as di ferentes espéci es
de trabal ho são reduzi das a trabal ho si mpl es como uni dade de medi da,
são fi xadas por mei o de um processo soci al por trás das costas dos
produtores e l hes parecem, portanto, ser dadas pel a tradi ção. Para
efei tos de si mpl i fi cação val erá a segui r cada espéci e de força de trabal ho,
di retamente, como força de trabal ho si mpl es, com o que apenas se
poupa o esforço de redução.
Assi m como nos val ores casaco e l i nho é abstraí da a di ferença
de seus val ores de uso, também nos trabal hos que se representam
nesses val ores abstrai -se a di ferença de suas formas útei s, a al fai atari a
e a tecel agem. Assi m como os val ores de uso casaco e l i nho resul tam
de l i gações de ati vi dades produti vas i nternaci onai s com teci do e fi o,
os val ores casaco e l i nho são, ao contrári o, si mpl es gel ati nas homogê-
neas de trabal ho, assi m os trabal hos conti dos nestes val ores não val em
devi do à rel ação produti va que mantêm com teci do e fi o, mas apenas
como di spêndi os de força de trabal ho do homem. Al fai atari a e tecel agem
são el ementos formadores dos val ores de uso, casaco e l i nho, graças
às suas di ferentes qual i dades; el as somente são substânci as do val or
do casaco e do val or do l i nho na medi da em que se abstrai sua qual i dade
especí fi ca e ambas possuem a mesma qual i dade, a qual i dade do tra-
bal ho humano.
Casaco e linho não são apenas val ores ao todo, mas val ores de
determi nada grandeza, e segundo nossa suposição, o casaco tem o dobro
do val or de 10 varas de l i nho. De onde vem essa di ferença de suas gran-
dezas de val or? De que o l i nho só contém metade do trabal ho que o
casaco, poi s para a produção do úl ti mo a força de trabal ho preci sa ser
despendi da durante o dobro do tempo que para a produção do pri mei ro.
Se, portanto, em rel ação ao val or de uso o trabal ho conti do na
mercadori a val e apenas qual i tati vamente, em rel ação à grandeza do
val or el e val e só quanti tati vamente, depoi s de já reduzi do a trabal ho
humano, sem outra qual i dade. Lá, trata-se do como e do quê do tra-
bal ho, aqui do seu quanto, da sua duração temporal . Como a grandeza
do val or de uma mercadori a representa apenas o quantum de trabal ho
nel a conti do, mercadori as devem, em determi nadas proporções, ser sem-
pre val ores da mesma grandeza.
Permanecendo i nal terada a força produti va, di gamos, de todos
os trabal hos útei s necessári os à produção de um casaco, a grandeza
de val or do casaco sobe com a sua própri a quanti dade. Se um casaco
OS ECONOMISTAS
174
94 O l ei tor deve estar atento para o fato de aqui não se fal ar de sal ári o ou val or, que o
trabal hador obtém aproxi madamente por um di a de trabal ho, mas si m do val or de mer-
cadori as em que se materi al i za seu di a de trabal ho. A categori a sal ári o ai nda não exi ste
de forma al guma nesta al tura de nossa apresentação.
representa x di as de trabal ho, doi s casacos representam 2 x e assi m
por di ante. Suponha, porém, que o trabal ho necessári o para a produção
de um casaco suba para o dobro ou cai a para metade. No pri mei ro
caso um casaco possui tanto val or quanto antes doi s casacos, no segundo
caso doi s casacos apenas tanto val or quanto anteri ormente um, apesar
de que em ambos os casos um casaco, tanto depoi s como antes, presta
os mesmos servi ços e da mesma forma o trabal ho úti l nel e conti do
permanece, tanto antes como depoi s, com a mesma qual i dade. Mudou,
porém, o quantum de trabal ho despendi do em sua produção.
Um quantum mai or de val or de uso representa em si e para si
mai or ri queza materi al , doi s casacos mai s que um. Com doi s casacos
podem-se vesti r duas pessoas, com um casaco, somente uma pessoa
etc. Entretanto, à crescente massa de ri queza materi al pode corres-
ponder um decrésci mo si mul tâneo da grandeza de val or. Esse movi -
mento contradi tóri o ori gi na-se do dupl o caráter do trabal ho. Força pro-
duti va é sempre, natural mente, força produti va de trabal ho úti l con-
creto, e determi na, de fato, apenas o grau de efi cáci a de uma ati vi dade
produti va adequada a um fi m, num espaço de tempo dado. O trabal ho
úti l torna-se, portanto, uma fonte mai s ri ca ou mai s pobre de produtos,
em proporção di reta ao aumento ou à queda de sua força produti va.
Ao contrári o, uma mudança da força produti va não afeta, em si e para
si , de modo al gum o trabal ho representado no val or. Como a força
produti va pertence à forma concreta úti l do trabal ho, já não pode esta,
natural mente, afetar o trabal ho, tão l ogo faça-se abstração da sua forma
concreta úti l . O mesmo trabal ho proporci ona, portanto, nos mesmos
espaços de tempo, sempre a mesma grandeza de val or, qual quer que
seja a mudança da força produti va. Mas el e fornece, no mesmo espaço
de tempo, quanti dades di ferentes de val ores de uso; mai s, quando a
força produti va sobe, e menos, quando el a cai . A mesma vari ação da
força produti va, a qual aumenta a fecundi dade do trabal ho e, portanto,
a massa de val ores de uso por el a forneci da, di mi nui , assi m, a grandeza
de val or dessa massa gl obal aumentada, quando el a encurta a soma
do tempo de trabal ho necessári o à sua produção. E vi ce-versa.
Todo trabal ho é, por um l ado, di spêndi o de força de trabal ho do
homem no senti do fi si ol ógi co, e nessa qual i dade de trabal ho humano
i gual ou trabal ho humano abstrato gera o val or da mercadori a. Todo
trabal ho é, por outro l ado, di spêndi o de força de trabal ho do homem
sob forma especi fi camente adequada a um fi m, e nessa qual i dade de
trabal ho concreto úti l produz val ores de uso.
95
MARX
175
95 Nota à 2ª edi ção. Para provar “que o trabal ho, sozi nho, é a medi da real e defi ni ti va com
o que se aval i a e pode ser comparado o val or de todas as mercadori as em todos os tempos”,
di z A. Smi th: “Quanti dades i guai s de trabal ho preci sam em todos os tempos e em todos os
l ugares ter para o própri o trabal hador o mesmo val or. Em seu estado normal de saúde,
força e ati vi dade, e com o grau médi o de habi l i dade, que el e possua, preci sa ceder a mesma
porção de seu sossego, sua l i berdade e sua fel i ci dade”. (Wealth of Nations. v. I , cap. V, [p.
3. A forma de valor ou o valor de troca
As mercadori as vêm ao mundo sob a forma de val ores de uso ou
de corpos de mercadori as, como ferro, l i nho, tri go etc. Essa é a sua
forma natural com que estamos habi tuados. El as são só mercadori as,
entretanto, devi do à sua dupl i ci dade, objetos de uso e si mul taneamente
portadores de val or. El as aparecem, por i sso, como mercadori a ou pos-
suem a forma de mercadori a apenas na medi da em que possuem forma
dupl a, forma natural e forma de val or.
A objeti vi dade do val or das mercadori as di ferenci a-se de Wi tti b
Hurti g, poi s não se sabe por onde apanhá-l a.
96
Em di reta oposi ção à
pal pável e rude objeti vi dade dos corpos das mercadori as, não se encerra
nenhum átomo de matéri a natural na objeti vi dade de seu val or. Po-
demos vi rar e revi rar uma mercadori a, como quei ramos, como coi sa
de val or el a permanece i mperceptí vel . Recordemo-nos, entretanto, que
as mercadori as apenas possuem objeti vi dade de val or na medi da em
que el as sejam expressões da mesma uni dade soci al de trabal ho hu-
mano, poi s sua objeti vi dade de val or é puramente soci al e, então, é
evi dente que el a pode aparecer apenas numa rel ação soci al de merca-
dori a para mercadori a. Parti mos, de fato, do val or de troca ou da rel ação
de troca das mercadori as para chegar à pi sta de seu val or aí ocul to.
Nós preci samos agora vol tar a essa forma de mani festação do val or.
Toda pessoa sabe, ai nda que não sai ba mai s do que i sso, que as
mercadori as possuem uma forma comum de val or, que contrasta de
manei ra mui to marcante com a heterogenei dade das formas naturai s
que apresentam seus val ores de uso — a forma di nhei ro. Aqui cabe,
no entanto, real i zar o que não foi jamai s tentado pel a economi a bur-
guesa, i sto é, comprovar a gênese dessa forma di nhei ro, ou seja, acom-
OS ECONOMISTAS
176
104-105].) De um l ado, confunde A. Smi th aqui (nem sempre) a determi nação do val or pel o
quantum de trabal ho despendi do na produção da mercadori a com a determi nação dos val ores
das mercadori as pel o val or do trabal ho, e procura, portanto, comprovar que as mesmas
quanti dades de trabal ho têm sempre o mesmo val or. Por outro l ado, pressente el e que o
trabal ho, na medi da em que se representa no val or das mercadori as, val e apenas como
di spêndi o de força de trabal ho, mas capta esse di spêndi o apenas como sacri fí ci o do sossego,
l i berdade e fel i ci dade, e não como uma ati vi dade também normal de vi da. Na real i dade,
el e tem em vi sta o trabal hador assal ari ado moderno. — Mui to mai s preci so, di z o antecessor
anôni mo de A. Smi th, ci tado anteri ormente: “Um homem empregou uma semana no fabri co
deste objeto necessári o (...) e aquel e que l he dará outro objeto em troca não pode esti mar
mel hor o que seri a um equi val ente apropri ado, senão por mei o do cômputo do que l he
custa a mesma quanti dade de trabal ho e tempo. I sso si gni fi ca de fato a troca do trabal ho
que uma pessoa, em determi nado tempo, empregou em um objeto, pel o trabal ho de outra,
no mesmo tempo apl i cado a outro objeto.” (Some Thoughts on the I nterest of Money in
General etc. p. 39.) — {À 4ª edi ção: A l í ngua i ngl esa tem a vantagem de possui r duas
pal avras di sti ntas para esses doi s aspectos di ferentes do trabal ho. O trabal ho que gera
val ores de uso e é qual i tati vamente determi nado chama-se de work, em oposi ção a labour;
o trabal ho que cri a val or e é medi do apenas quanti tati vamente chama-se labour, em oposi ção
a work. Ver nota à p. 14 da tradução i ngl esa. — F. E.}
96 SHAKESPEARE. Henrique I V. Parte Pri mei ra. Ato I I I . Cena I I I . (N. da Ed. Al emã.)
panhar o desenvol vi mento da expressão do val or conti da na rel ação
de val or das mercadori as, de sua forma mai s si mpl es e sem bri l ho até
a ofuscante forma di nhei ro. Com i sso desaparece o eni gma do di nhei ro.
A rel ação mai s si mpl es de val or é evi dentemente a rel ação de val or
de uma mercadoria com uma úni ca mercadori a de ti po di ferente, não
i mporta qual el a seja. A rel ação de val or entre duas mercadori as fornece,
por i sso, a expressão mai s si mpl es de val or para uma mercadori a.
A) Forma Simples, Singular ou Acidental de Valor
x mercadori a A = y mercadori a B, ou: x mercadori a A val e y
mercadori a B.
(20 varas de l i nho = 1 casaco, ou: 20 varas de l i nho val em 1
casaco.)
1) Os dois pólos da expressão de valor: forma relativa de valor e forma
equivalente
O segredo de toda forma de val or encerra-se nessa forma si mpl es
de val or. Na sua anál i se resi de a verdadei ra di fi cul dade.
Duas mercadori as di ferentes, A e B, em nosso exempl o l i nho e
casaco, representam aqui , evi dentemente, doi s papéi s di sti ntos. O l i nho
expressa seu val or no casaco, o casaco serve de materi al para essa
expressão de val or. A pri mei ra mercadori a representa um papel ati vo,
a segunda um papel passi vo. O val or da pri mei ra mercadori a é apre-
sentado como val or rel ati vo ou el a encontra-se sob forma rel ati va de
val or. A segunda mercadori a funci ona como equi val ente ou encontra-se
em forma equi val ente.
Forma rel ati va de val or e forma equi val ente pertencem uma à
outra, se determi nam reci procamente, são momentos i nseparávei s, po-
rém, ao mesmo tempo, são extremos que se excl uem mutuamente ou
se opõem, i sto é, pól os da mesma expressão de val or; el as se repartem
sempre entre as di versas mercadori as rel aci onadas entre si pel a ex-
pressão de val or. Eu não posso, por exempl o, expressar o val or do
l i nho em l i nho. 20 varas de l i nho = 20 varas de l i nho não é nenhuma
expressão de val or. A equação di z, ao contrári o: 20 varas de l i nho são
nada mai s que 20 varas de l i nho, um quantum determi nado do objeto
de uso l i nho. O val or do l i nho pode assi m ser expresso apenas rel ati -
vamente, i sto é, por mei o de outra mercadori a. A forma rel ati va de
val or do l i nho supõe, portanto, que al guma outra mercadori a a el a se
oponha na forma equi val ente. Por outro l ado, essa outra mercadori a,
que fi gura como equi val ente, não pode ao mesmo tempo encontrar-se
em forma rel ati va de val or. Não é el a que expressa seu val or. El a
fornece apenas o materi al à expressão do val or de outra mercadori a.
É verdade que a expressão 20 varas de l i nho = 1 casaco, ou 20
varas de l i nho val em 1 casaco, encerra também as rel ações contrári as:
1 casaco = 20 varas de l i nho, ou 1 casaco val e 20 varas de l i nho.
MARX
177
Porém, assi m preci so i nverter a equação para poder expressar o val or
rel ati vo do casaco, e tão l ogo eu faço i sso, torna-se o l i nho equi val ente
em vez do casaco. A mesma mercadori a não pode, portanto, aparecer,
ao mesmo tempo, sob ambas as formas na mesma expressão de val or.
Essas formas antes excl uem-se pol armente.
Se uma mercadori a encontra-se sob a forma rel ati va de val or ou
sob a forma oposta, a forma equi val ente, depende excl usi vamente da
posi ção que essa mercadori a ocupe na expressão de val or, em cada
momento, ou seja, se é a mercadori a cujo val or é expresso ou aquel a
na qual é expresso o val or.
2) A forma relativa de valor
a) Conteúdo da forma rel ati va de val or
Para descobri r como a expressão si mpl es do val or de uma mer-
cadori a se esconde na rel ação de val or entre duas mercadori as, deve-se
consi derar essa rel ação, de i ní ci o, total mente i ndependente de seu l ado
quanti tati vo. Procede-se, na mai ori a das vezes, justamente ao contrári o,
e vê-se na rel ação de val or apenas a proporção na qual determi nados
quanta de duas espéci es de mercadori a se equi param. Perde-se de vi sta
que as grandezas de coi sas di ferentes tornam-se quanti tati vamente
comparávei s só depoi s de reduzi das à mesma uni dade. Somente como
expressões da mesma uni dade, são el as homôni mas, por consegui nte,
grandezas comensurávei s.
97
Se 20 varas de l i nho = 1 casaco ou = 20 ou = x casacos, i sto é,
se dado quantum de l i nho val e mui tos ou poucos casacos, cada uma
dessas proporções i mpl i ca sempre que l i nho e casaco, como grandezas
de val or, sejam expressões da mesma uni dade, coi sas da mesma na-
tureza. Li nho = casaco é o fundamento da equação.
Mas as duas mercadori as quanti tati vamente equi paradas não de-
sempenham o mesmo papel . Apenas o val or do l i nho é expresso. E
como? Por mei o de sua rel ação com o casaco como seu “equi val ente”,
ou seu “permutável ”. Nessa rel ação, o casaco val e como forma de exi s-
tênci a de val or, como coi sa de val or, poi s apenas como tal é o mesmo
que o l i nho. Por outro l ado, a própri a exi stênci a do val or do l i nho vem
à tona ou obtém uma expressão autônoma, poi s somente como val or
pode o l i nho rel aci onar-se com o casaco como equi val ente ou com el e
permutável . Assi m, o áci do butí ri co é um corpo di ferente do formi ato
de propi l o. Ambos, entretanto, são consti tuí dos das mesmas substânci as
quí mi cas — carbono (C), hi drogêni o (H) e oxi gêni o (O), combi nadas na
OS ECONOMISTAS
178
97 Os poucos economi stas que, como S. Bai l ey, se ocuparam com a anál i se da forma de val or
não podi am chegar a nenhum resul tado, pri mei ro porque confundem forma de val or e
val or, segundo porque el es, sob a i nfl uênci a crua do burguês práti co, de i ní ci o, consi deram
excl usi vamente a determi nação quanti tati va. “A di sposi ção sobre a quanti dade (...) faz o
val or.” (Money and its Vicissitudes. Londres, 1837. p. 11.) Autor S. Bai l ey.
mesma percentagem, a saber, C
4
H
8
O
2
. Se fossem equi parados áci do
butí ri co e formi ato de propi l o, val eri a nessa rel ação, pri mei ro, o formi ato
de propi l o como si mpl es forma de exi stênci a do C
4
H
8
O
2
, e segundo,
seri a di to que o áci do butí ri co compõe-se também de C
4
H
8
O
2
. Pel a
equi paração do formi ato de propi l o com o áci do butí ri co seri a expressa
portanto sua substânci a quí mi ca em contraste com sua forma corpórea.
Di gamos: como val ores, as mercadori as são meras gel ati nas de
trabal ho humano, então a nossa anál i se reduz as mesmas à abstração
de val or, sem dar-l hes, porém, qual quer forma de val or di ferente de
suas formas naturai s. A coi sa é di ferente na rel ação de val or de uma
mercadori a à outra. Seu caráter de val or revel a-se aqui por mei o de
sua própri a rel ação à outra mercadori a.
Ao equi parar-se, por exempl o, o casaco, como coi sa de val or, ao
l i nho, é equi parado o trabal ho i nseri do no pri mei ro com o trabal ho
conti do neste úl ti mo. Na verdade, a al fai atari a que faz o casaco é uma
espéci e de trabal ho concreto di ferente da tecel agem que faz o l i nho.
Porém, a equi paração com a tecel agem reduz a al fai atari a real mente
àqui l o em que ambos são i guai s, a seu caráter comum de trabal ho
humano. I ndi retamente é então di to que também a tecel agem, contanto
que el a teça val or, não possui nenhuma caracterí sti ca que a di ferenci e
da al fai atari a, e é, portanto, trabal ho humano abstrato. Somente a
expressão de equi val ênci a de di ferentes espéci es de mercadori a revel a
o caráter especí fi co do trabal ho gerador de val or, ao reduzi r, de fato,
os di versos trabal hos conti dos nas mercadori as di ferentes a al go comum
nel es, ao trabal ho humano em geral .
98
Não basta, porém, expressar o caráter especí fi co do trabal ho em
que consi ste o val or do l i nho. A força de trabal ho do homem em estado
l í qui do ou trabal ho humano cri a val or, porém não é val or. El e torna-se
val or em estado cri stal i zado, em forma concreta. Para expressar o val or
do l i nho como gel ati na de trabal ho humano, el e deve ser expresso
como uma “objeti vi dade” concretamente di ferente do l i nho mesmo e
si mul taneamente comum ao l i nho e a outra mercadori a. A tarefa já
está resol vi da.
Na rel ação de val or do l i nho val e o casaco como seu i gual em
qual i dade, como coi sa da mesma natureza, porque é um val or. El e
val e aqui , portanto, como coi sa, na qual aparece val or ou a qual em
sua forma natural pal pável representa val or. Na verdade, o casaco, o
MARX
179
98 Nota à 2ª edi ção. Um dos pri mei ros economi stas que após Wi l l i am Petty enfocou a natureza
do val or, o famoso Frankl i n, di z: “Uma vez que o comérci o nada mai s é que a troca de um
trabal ho por outro, o val or de todas as coi sas será aval i ado mai s justamente em trabal ho”.
(The Works of B. Franklin etc. Edi t. por Sparks, Boston, 1836. v. I I , p. 267.) Ao aval i ar o val or
de todas as coi sas “em trabal ho”, Frankl i n não está consci ente de que abstrai a di versi dade
dos trabal hos trocados — e assi m os reduz a trabal ho humano i gual . Di z contudo o que não
sabe. El e fal a pri mei ro de “um trabal ho”, depoi s de “outro trabal ho” e fi nal mente de “trabal ho”
sem outra qual i fi cação, como substânci a do val or de todas as coi sas.
corpo da mercadori a casaco, é um mero val or de uso. Um casaco ex-
pressa tão pouco val or quanto qual quer peça de l i nho. I sso comprova
apenas que el e si gni fi ca mai s dentro da rel ação de val or com o l i nho
que fora del a, assi m como al gumas pessoas si gni fi cam mai s dentro de
um casaco com gal ões que fora del e.
Na produção do casaco foi real mente despendi da força de trabal ho
humana sob a forma de al fai atari a. É, portanto, trabal ho humano nel e
acumul ado. Por esse l ado, é o casaco “portador de val or”, ai nda que
essa sua propri edade não se veja mesmo através de sua forma mai s
puí da. E na rel ação de val or do l i nho el e val e apenas segundo esse
l ado, portanto como val or corpori fi cado, como corpo de val or. Apesar
de sua apari ção abotoada, o l i nho reconheceu nel e a bel a al ma de val or
de ori gem comum. O casaco, em rel ação ao l i nho, não pode representar
val or, sem que para este o val or assuma si mul taneamente a forma de
um casaco. Assi m o i ndi ví duo A não pode comportar-se para o i ndi ví duo
B como uma majestade, sem que para A majestade assuma si mul tanea-
mente a forma corpórea de B e, portanto, que modi fi que feições, cabel os
e vári as outras caracterí sti cas cada vez que muda o pai do povo.
Na rel ação de val or, na qual o casaco consti tui o equi val ente do
l i nho, val e, portanto, a forma de casaco como forma de val or. O val or
da mercadori a l i nho é assi m expresso no corpo da mercadori a casaco,
o val or de uma mercadori a no val or de uso da outra. Como val or de
uso é o l i nho uma coi sa fi si camente di ferente do casaco, como val or é
al go i gual ao casaco e parece, portanto, como um casaco. Assi m, o l i nho
recebe uma forma de val or di ferente de sua forma natural . Sua exi stência
de val or aparece em sua i gual dade com o casaco, assi m como a natureza
de carnei ro do cri stão em sua i gual dade com o cordei ro de Deus.
Vê-se, tudo que nos di sse antes a anál i se do val or das mercadori as,
di z-nos o l i nho l ogo que entra em rel ação com outra mercadori a, o casaco.
Só que el e revel a seu pensamento em sua l i nguagem excl usi va, a l i ngua-
gem das mercadori as. Para di zer que o seu própri o val or foi gerado pel o
trabal ho em sua abstrata propri edade de trabal ho humano, el e di z que
o casaco, na medi da em que el e l he equi val e, portanto é val or, compõe-se
do mesmo trabal ho que o l i nho. Para di zer que a sua subl i me objeti vi dade
de val or é di sti nta de seu corpo entretel ado, el e di z que o val or se parece
com um casaco e que, portanto, el e mesmo, como coi sa de val or, i gual a-se
ao casaco, como um ovo ao outro. Di ga-se de passagem que a l i nguagem
das mercadori as, al ém do hebraico, possui também mui tos outros i di omas
mai s ou menos corretos. A pal avra al emã Wertsein (val er) expressa, por
exempl o, com menos acerto que o verbo romano valere, valer, valoir, que
a equi paração da mercadori a B com A é a própri a expressão de val or da
mercadori a A. Paris vaut bien une messe.
99
OS ECONOMISTAS
180
99 "Pari s val e bem uma mi ssa", teri a di to Henri que I V em 1593 quando de sua conversão ao
catol i ci smo, em favor de uma pol í ti ca naci onal . (N. da Ed. Al emã.)
Por mei o da rel ação de val or, a forma natural da mercadori a B
torna-se a forma de val or da mercadori a A ou o corpo da mercadori a
B o espel ho do val or da mercadori a A.
100
Ao rel aci onar-se com a mer-
cadori a B como corpo de val or, como materi al i zação de trabal ho hu-
mano, a mercadori a A torna o val or de uso de B materi al de sua
própri a expressão de val or. O val or da mercadori a A, assi m expresso
no val or de uso da mercadori a B, possui a forma do val or rel ati vo.
b) Determi nação quanti tati va da forma de val or rel ati va
Toda mercadori a, cujo val or deve ser expresso, é um objeto de
uso em dado quantum, 15 arrobas de tri go, 100 l i bras de café etc. Esse
dado quantum de mercadori a contém determi nado quantum de trabal ho
humano. A forma de val or tem de expressar não só val or em geral ,
mas também val or determi nado quanti tati vamente, ou grandeza de
val or. Na rel ação de val or da mercadori a A com a mercadori a B, do
l i nho com o casaco, é equi parada não apenas qual i tati vamente ao l i nho
a espéci e de mercadori a casaco como corpo de val or em geral , mas
determi nado quantum de l i nho, por exempl o 20 varas, equi para-se a
determi nado quantum do corpo de val or ou equi val ente, por exempl o
1 casaco.
A equação: “20 varas de l i nho = 1 casaco, ou: 20 varas de l i nho
val em 1 casaco” pressupõe que 1 casaco contém tanta substânci a de
val or quanto 20 varas de l i nho, que ambas as quanti dades de merca-
dori as custam assi m o mesmo trabal ho ou i gual quanti dade de tempo
de trabal ho. O tempo de trabal ho necessári o para a produção de 20
varas de l i nho ou 1 casaco al tera-se, porém, com cada al teração na
força produti va da tecel agem ou da al fai atari a. A i nfl uênci a de tai s
mudanças sobre a expressão rel ati va da grandeza de val or deve agora
ser exami nada mai s de perto.
I . Que mude o val or do l i nho,
101
enquanto o val or do casaco per -
manece constante. Se o tempo de trabal ho necessári o para a produção
do l i nho dobra, tal vez em conseqüênci a de crescente i nferti l i dade do
sol o em que se produz o l i nho, então dupl i ca seu val or. Em vez de 20
varas de l i nho = 1 casaco, terí amos 20 varas de l i nho = 2 casacos, poi s
1 casaco contém agora apenas metade do tempo de trabal ho das 20
varas de l i nho. Ao contrári o, se di mi nui à metade o tempo de trabal ho
MARX
181
100 De certa forma, sucede ao homem como à mercadori a. Poi s el e não vem ao mundo nem
com um espel ho, nem como um fi l ósofo fi chti ano: eu sou eu, o homem se espel ha pri mei ro
em outro homem. Só por mei o da rel ação com o homem Paul o, como seu semel hante,
reconhece-se o homem Pedro a si mesmo como homem. Com i sso val e para el e também o
Paul o, com pel e e cabel os, em sua corporal i dade paul í ni ca, como forma de mani festação do
gênero humano.
101 A expressão “val or”, como já ocorreu anteri ormente al gumas vezes, é usada aqui para val or
quanti tati vamente determi nado, portanto, para grandeza de val or.
necessári o para a produção do l i nho em conseqüênci a, por exempl o,
da mel hori a dos teares, cai também o val or do l i nho pel a metade.
Conseqüentemente, agora: 20 varas de l i nho = 1/2 casaco. O val or
rel ati vo da mercadori a A, i sto é, seu val or expresso na mercadori a B,
sobe e cai , portanto, di retamente com o val or da mercadori a A, enquanto
permanece o mesmo o val or da mercadori a B.
I I . Que o val or do l i nho permaneça constante, enquanto muda o
val or do casaco. Dupl i ca, sob essas ci rcunstânci as, o tempo de trabal ho
necessári o para a produção do casaco, eventual mente, em conseqüênci a
de uma tosqui a desfavorável , então temos em vez de 20 varas de l i nho
= 1 casaco, agora: 20 varas de l i nho = 1/2 casaco. Se, ao contrári o, o
val or do casaco cai à metade, então 20 varas de l i nho = 2 casacos.
Permanecendo constante o val or da mercadori a A, cai ou sobe, portanto,
seu val or rel ati vo expresso na mercadori a B, em rel ação i nversa à
mudança de val or de B.
Ao se compararem os di ferentes casos, sob I e I I , resul ta que a
mesma mudança de grandeza do val or rel ati vo pode provi r de causas
total mente opostas. Assi m 20 varas de l i nho = 1 casaco se transforma
em: 1) a equação 20 varas de l i nho = 2 casacos, ou porque o val or do
l i nho dupl i ca-se, ou porque o val or dos casacos cai à metade; e 2) a
equação 20 varas de l i nho = 1/2 casaco, ou porque o val or do l i nho cai
à metade ou porque o val or do casaco sobe ao dobro.
I I I . As quanti dades de trabal ho necessári as para a produção de
l i nho e casaco podem vari ar si mul taneamente, na mesma di reção e na
mesma proporção. Nesse caso, depoi s como antes, 20 varas de l i nho =
1 casaco, quai squer que sejam as mudanças de seus val ores. Descobre-se
sua mudança de val or tão l ogo se as compare com uma tercei ra mer-
cadori a, cujo val or permaneceu constante. Subi ssem ou caí ssem os va-
l ores de todas as mercadori as si mul taneamente e na mesma proporção,
então seus val ores rel ati vos permaneceri am i mutávei s. Sua real mu-
dança de val or seri a i nferi da do fato de que no mesmo tempo de trabal ho
seri a agora forneci do, em geral , um quantum mai or ou menor de mer-
cadori as do que antes.
I V. Os tempos de trabal ho necessári os à produção de l i nho e
casaco, respecti vamente, e, portanto, seus val ores, podem vari ar si -
mul taneamente, na mesma di reção, porém em grau di ferente, ou em
di reção contrári a etc. A i nfl uênci a de todas as possí vei s espéci es de
combi nações sobre o val or rel ati vo de uma mercadori a obtém-se pel a
si mpl es apl i cação dos casos I , I I e I I I .
As mudanças reai s na grandeza de val or não se refl etem nem
cl ara nem compl etamente, em sua expressão rel ati va ou na grandeza
do val or rel ati vo. O val or rel ati vo de uma mercadori a pode mudar,
OS ECONOMISTAS
182
apesar de seu val or permanecer constante. Seu val or rel ati vo pode
permanecer constante, apesar de mudar seu val or e, fi nal mente, não
necessi tam, de nenhuma forma, coi nci di r as mudanças si mul tâneas
em sua grandeza de val or e na expressão rel ati va dessa grandeza.
102
3) A forma equivalente
Vi u-se: ao expressar uma mercadori a A (o l i nho) seu val or no
val or de uso de uma mercadori a di ferente B (o casaco) i mpri me a esta
úl ti ma uma forma pecul i ar de val or, a de equi val ente. A mercadori a
l i nho traz sua própri a qual i dade de ter val or à l uz, pel o fato de que
o casaco, sem assumi r uma forma de val or di ferente de sua forma
corpórea, se l he equi para. O l i nho expri me assi m, de fato, sua própri a
qual i dade de ter val or na ci rcunstânci a de que o casaco é com el e
di retamente permutável . A forma equi val ente de uma mercadori a é
conseqüentemente a forma de sua permutabi l i dade di reta com outra
mercadori a.
Quando uma espéci e de mercadori a, como casaco, serve de equi -
val ente a outra espéci e de mercadori a, como l i nho, e por consegui nte
casacos receberam a propri edade caracterí sti ca de se encontrarem em
forma permutável di reta com o l i nho, não é dada, de nenhuma manei ra,
a proporção na qual o l i nho e o casaco são trocávei s. El a depende da
grandeza de val or dos casacos, já que a grandeza de val or do l i nho é
dada. Se se expressa o casaco como equi val ente e o l i nho como val or
rel ati vo, ou ao contrári o, o l i nho como equi val ente e o casaco como
val or rel ati vo, sua grandeza de val or permanece, depoi s como antes,
determi nada pel o tempo de trabal ho necessári o para sua produção,
portanto, i ndependente de sua forma de val or. Tão l ogo, porém, a es-
péci e de mercadori a casaco assume na expressão de val or o l ugar de
equi val ente, sua grandeza de val or não adqui re nenhuma expressão
MARX
183
102 Nota à 2ª edi ção. Essa i ncongruênci a entre grandeza de val or e sua expressão rel ati va foi
expl orada com habi tual sagaci dade pel a economi a vul gar. Por exempl o: “Admi ta que A
bai xa, porque B, com o que é trocado, sobe, embora na ocasi ão não decresça o trabal ho
despendi do em A, e seu pri ncí pi o geral de val or cai por terra (...) Quando se admi te que o
val or de B cai rel ati vamente ao de A porque o val or de A sobe em rel ação ao de B, destrói -se
a base sobre a qual Ri cardo estabel ece sua grande proposi ção de que o val or de uma
mercadori a é sempre determi nado pel o quantum de trabal ho nel a i ncorporado; poi s quando
uma mudança nos custos de A al tera não somente seu própri o val or em rel ação a B, com
o que se troca, mas também o val or de B rel ati vamente ao de A, sem ter ocorri do nenhuma
mudança no quantum de trabal ho requeri do para a produção de B, então cai por terra não
apenas a doutri na que assegura que a quanti dade de trabal ho despendi da em um arti go
regul a seu val or, mas também a doutri na que assegura que os custos de produção de um
arti go regul am seu val or”. (BROADHURST, J. Political Economy. Londres, 1842. p. 11-14.)
O sr. Broadhurst poderi a também di zer: Consi dere-se as frações 10/20, 10/50, 10/100 etc.
O número 10 permanece i nal terado e apesar di sso decresce constantemente sua grandeza
proporci onal , sua grandeza rel ati va aos denomi nadores, 20, 50, 100. Assi m, cai por terra
o grande pri ncí pi o de que a grandeza de um número i ntei ro, como 10, por exempl o, é
“regul ada” por mei o da quanti dade de uni dades nel a conti das.
como grandeza de val or. El a fi gura na equação de val or mui to mai s
apenas como determi nado quantum de uma coi sa.
Por exempl o: 40 varas “val em” — o quê? Doi s casacos. Como a
espéci e de mercadori a casaco desempenha aqui o papel de equi val ente,
o val or de uso em face do l i nho como corpo de val or, basta também
determi nado quantum de casacos para expressar determi nado quantum
de val or de l i nho. Doi s casacos podem expressar, portanto, a grandeza
de val or de 40 varas de l i nho, mas não podem nunca expressar sua
própri a grandeza de val or, a grandeza de val or de casacos. A i nter-
pretação superfi ci al dessa real i dade, que o equi val ente sempre possui
na equação de val or apenas a forma de si mpl es quantum de uma coi sa,
de um val or de uso, i nduzi u Bai l ey, como mui tos de seus antecessores
e sucessores, a ver na expressão de val or apenas uma rel ação quan-
ti tati va. Pel o contrári o, a forma equi val ente de uma mercadori a não
contém nenhuma determi nação quanti tati va de val or.
A pri mei ra pecul i ari dade que chama a atenção quando se observa
a forma equi val ente é esta: o val or de uso torna-se forma de mani fes-
tação de seu contrári o, do val or.
A forma natural da mercadori a torna-se forma de val or. Porém,
nota bene, esse qüi proqüó ocorre para uma mercadori a B (casaco ou
tri go ou ferro etc.) apenas i nternamente à rel ação de val or, na qual
outra mercadori a qual quer A (l i nho etc.) junta-se a el a, apenas no
i nteri or dessa rel ação. Como nenhuma mercadori a pode fi gurar como
equi val ente de si mesma, portanto tão pouco podendo fazer de sua
própri a pel e natural expressão de seu própri o val or, el a tem de rel a-
ci onar-se como equi val ente a outra mercadori a, ou fazer da pel e natural
de outra mercadori a sua própri a forma de val or.
Que nos i l ustre i sso o exempl o de uma medi da que se apl i ca aos
corpos de mercadori as como corpos de mercadori as, i sto é, como val ores
de uso. Um pão de açúcar sendo corpo é pesado e tem, portanto, peso,
porém não se pode ver ou servi r o peso de nenhum pão de açúcar.
Tomemos então pedaços di ferentes de ferro, cujo peso foi determi nado
antes. Consi derada em si , a forma do ferro é tão pouco forma de ma-
ni festação do peso quanto a do pão de açúcar. Contudo, para expressar
o pão de açúcar como peso, nós o col ocamos numa rel ação de peso com
o ferro. Nessa rel ação o ferro fi gura como um corpo, que nada representa
al ém de peso. Quanti dades de ferro servem, portanto, como medi da
de peso do açúcar e representam perante o corpo do açúcar mera fi -
guração do peso, forma de mani festação de peso. O ferro desempenha
esse papel apenas dentro dessa rel ação, na qual entra o açúcar ou
qual quer outro corpo, cujo peso deve ser encontrado. Caso ambas as
coi sas não fossem pesadas, não poderi am entrar nessa rel ação, e um
não poderi a senti r, portanto, de expressão do peso do outro. Lancemos
ambos sobre uma bal ança, e veremos de fato que el es enquanto peso
são o mesmo e, portanto, em proporção determi nada, são do mesmo
OS ECONOMISTAS
184
peso. Como medi da de peso, o ferro representa em confronto com o
pão de açúcar apenas peso, e assi m, em nossa expressão de val or, o
corpo do casaco representa em rel ação ao l i nho apenas val or.
Aqui termi na, entretanto, a anal ogi a. O ferro representa na ex-
pressão de peso do pão de açúcar uma propri edade natural comum a
ambos os corpos, seu peso, enquanto o casaco representa na expressão
de val or do l i nho uma propri edade sobrenatural a ambas as coi sas:
seu val or, al go puramente soci al .
Expressando a forma rel ati va de val or de uma mercadori a, por
exempl o do l i nho, sua qual i dade de ter val or como al go i ntei ramente
di sti nto de seu corpo e suas propri edades, por exempl o, como al go
i gual a um casaco, essa expressão mesma i ndi ca que nel a se ocul ta
uma rel ação soci al . Com a forma equi val ente se dá o contrári o. El a
consi ste justamente em que um corpo de mercadori a, como o do casaco,
tal qual el a é, expressa val or, possui ndo portanto, por natureza, forma
de val or. É verdade que i sso val e apenas i nternamente à rel ação de
val or, na qual a mercadori a l i nho está rel aci onada à mercadori a casaco
enquanto equi val ente.
103
Como, porém, as propri edades de uma coi sa
não se ori gi nam de sua rel ação com outras coi sas, antes apenas atuam
em tal rel ação, parece também que o casaco possui , por natureza, sua
forma equi val ente, sua propri edade de ser di retamente trocável , tanto
quanto sua propri edade de ser pesado ou de manter al guém aqueci do.
Daí o eni gmáti co da forma equi val ente, que de i ní ci o fere o ol har bur-
guês rústi co de economi sta pol í ti co, tão l ogo esta se apresenta a el e,
já pronta, sob a forma di nhei ro. Então, el e busca expl i cações que po-
nham de l ado o caráter mí sti co de ouro e prata, substi tui ndo-os por
mercadori as menos ofuscantes, e sal modi ando, com sempre renovado
prazer, o catál ogo das mercadori as vul gares, que em outros tempos
desempenharam o papel do equi val ente de mercadori as. El e não sus-
pei ta que a mai s si mpl es expressão de val or, como 20 varas de l i nho
= 1 casaco, já dá a sol ução do eni gma da forma equi val ente.
O corpo da mercadori a que serve de equi val ente fi gura sempre
como corpori fi cação do trabal ho humano abstrato e é sempre o produto
de determi nado trabal ho concreto, úti l . Esse trabal ho concreto torna-se
portanto expressão de trabal ho humano abstrato. Se o casaco fi gura,
por exempl o, como si mpl es real i zação, então a al fai atari a, a qual nel e
real mente se real i za, val e como si mpl es forma de real i zação do trabal ho
humano abstrato. Na expressão de val or do l i nho, a uti l i dade da al -
fai atari a não consi ste em fazer roupas, portanto também pessoas, mas
si m em que el a faz um corpo em que é vi sí vel que é val or, por conse-
gui nte, gel ati na de trabal ho, que em nada se di ferenci a do trabal ho
MARX
185
103 Em geral , essas determi nações refl exi vas são mui to pecul i ares. Esse homem, por exempl o,
é rei apenas porque outros homens comportam-se como súdi tos di ante del e. El es pensam,
ao contrári o, que são súdi tos porque el e é rei .
objeti vado no val or do l i nho. Para fazer tal espel ho do val or, é preci so
que a al fai atari a mesma não refl i ta nada a não ser sua propri edade
abstrata de ser trabal ho humano.
Na forma de al fai atari a como na forma de tecel agem é despendi da
força de trabal ho do homem. Ambas as ati vi dades possuem, portanto,
a propri edade geral do trabal ho humano e, por consegui nte, em deter-
mi nados casos, como, por exempl o, na produção de val or, podem ser
consi deradas somente sob esse ponto de vi sta. Tudo i sso não é mi ste-
ri oso. Mas na expressão de val or da mercadori a a coi sa torna-se di s-
torci da. Por exempl o, para expressar que a tecel agem, não em sua
forma concreta como tecel agem, mas si m em sua propri edade geral
como trabal ho humano, gera o val or do l i nho, el a é confrontada com
a al fai atari a, o trabal ho concreto que produz o equi val ente do l i nho,
como a forma de real i zação pal pável do trabal ho humano abstrato.
É portanto uma segunda pecul i ari dade da forma equi val ente que
trabal ho concreto se converta na forma de mani festação de seu con-
trári o, trabal ho humano abstrato.
Mas na medi da em que esse trabal ho concreto, a al fai atari a, funci ona
como mera expressão de trabal ho humano i ndi ferenci ado, possui el e a
forma da i gual dade com outro trabal ho, o trabal ho conti do no l i nho, e é,
portanto, ai nda que trabal ho pri vado, como todos os outros, trabal ho que
produz mercadori as, por consegui nte, trabal ho em forma di retamente so-
ci al . Por i sso mesmo, apresenta-se el e num produto que é di retamente
trocável por outra mercadori a. É, portanto, uma tercei ra pecul i ari dade
da forma equi val ente que trabal ho pri vado se converta na forma de seu
contrári o, trabal ho em forma di retamente soci al .
As duas pecul i ari dades da forma equi val ente desenvol vi das por úl -
ti mo tornam-se ai nda mai s pal pávei s, quando retornamos ao grande pes-
qui sador que pri mei ramente anal i sou a forma de val or, assi m como mui tas
formas de pensamento, de soci edade e da natureza. Este é Ari stótel es.
De i ní ci o decl ara Ari stótel es cl aramente que a forma di nhei ro
da mercadori a é apenas a fi gura mai s desenvol vi da da forma si mpl es
de val or, i sto é, da expressão do val or de uma mercadori a em outra
mercadori a qual quer. Poi s el e di z:
“5 al mofadas = 1 casa”
(“Κλιναι πεντε αντι οιχιας”)
“não se di ferenci a” de:
“5 al mofadas = tanto di nhei ro”
("Κλιναι πεντε αντι... οσου αι πεντε χλιναι“)
El e reconhece, ademai s, que a rel ação de val or, em que essa
expressão de val or está conti da, condi ci ona por seu l ado que a casa é
OS ECONOMISTAS
186
equi parada qual i tati vamente à al mofada e que essas coi sas percepti -
vel mente di ferentes, sem tal i gual dade de essênci as, não poderi am ser
rel aci onadas entre si , como grandezas comensurávei s.
“A troca”, diz ele, “não pode exi sti r sem a i gual dade, nem a igual -
dade sem a comensurabilidade” ("ουτ’ ισοτης µη ουσης συµµετριας“)
Mas aqui el e se detém desconfi ado e renunci a a segui r, anal i sando a
forma de val or.
É, porém, em verdade, i mpossí vel ("τη µεν ουν αληϑεια αδυνατον“)
que coi sas de espéci es tão di ferentes sejam comensurávei s, i sto é,
qual i tati vamente i guai s. Essa equi paração pode apenas ser al go es-
tranho à verdadei ra natureza das coi sas, por consegui nte, somente
um arti fí ci o para a necessi dade práti ca.”
104
O própri o Ari stótel es nos di z em que fracassa o prossegui mento
de sua anál i se, a saber, na fal ta do concei to de val or. Que é o i gual ,
i sto é, a substânci a comum que a casa representa para a al mofada na
expressão de val or da al mofada? Tal coi sa não pode “em verdade exi s-
ti r”, di z Ari stótel es. Por quê? A casa representa, contraposta à al mofada,
al go i gual , na medi da em que represente o que é real mente i gual em
ambas, a al mofada e a casa. E i sso é — trabal ho humano.
Que na forma dos val ores de mercadori as todos os trabal hos são
expressos como trabal ho humano i gual , e portanto como equi val entes,
não podi a Ari stótel es deduzi r da própri a forma de val or, porque a
soci edade grega baseava-se no trabal ho escravo e ti nha, portanto, por
base natural a desi gual dade entre os homens e suas forças de trabal ho.
O segredo da expansão de val or, a i gual dade e a equi val ênci a de todos
os trabal hos, porque e na medi da em que são trabal ho humano em
geral , somente pode ser deci frado quando o concei to da i gual dade hu-
mana já possui a consci ênci a de um preconcei to popul ar. Mas i sso só
é possí vel numa soci edade na qual a forma mercadori a é a forma geral
do produto de trabal ho, por consegui nte também a rel ação das pessoas
umas com as outras enquanto possui doras de mercadori as é a rel ação
soci al domi nante. O gêni o de Ari stótel es respl andece justamente em
que el e descobre uma rel ação de i gual dade na expressão de val or das
mercadori as. Somente as l i mi tações hi stóri cas da soci edade, na qual
el e vi veu, o i mpedi ram de descobri r em que consi ste “em verdade” essa
rel ação de i gual dade.
4) O conjunto da forma simples de valor
A forma si mpl es de val or de uma mercadori a está conti da em
MARX
187
104 Marx ci ta aqui a obra de Ari stótel es Ethica Nicomachea de “Ari stotel i s opera ex recensi one
I mmanuel i s Bekkeri ”, v. 9. Oxoni i , 1837. p. 99-100. (N. da Ed. Al emã.)
sua rel ação de val or com outra mercadori a de ti po di ferente, ou na
rel ação de troca com a mesma. O val or da mercadori a A é expresso
quanti tati vamente por mei o da permutabi l i dade di reta da mercadori a
B com a mercadori a A. El e é expresso qual i tati vamente por mei o da
permutabi l i dade de um quantum determi nado da mercadori a B por
dado quantum da mercadori a A. Em outras pal avras: o val or de uma
mercadori a tem expressão autônoma por mei o de sua representação
como “val or de troca”. Quando no i ní ci o deste capí tul o, para segui r a
manei ra ordi nári a de fal ar, haví amos di to: A mercadori a é val or de
uso e val or de troca, i sso era, a ri gor, fal so. A mercadori a é val or de
uso ou objeto de uso e “val or”. El a apresenta-se como esse dupl o, que
el a é, tão l ogo seu val or possua uma forma rápi da de mani festação,
di ferente da sua forma natural , a do val or de troca, e el a jamai s possui
essa forma quando consi derada i sol adamente, porém sempre apenas
na rel ação de val or ou de troca com uma segunda mercadori a de ti po
di ferente. No entanto, uma vez conheci do i sso, aquel a manei ra de fal ar
não causa prejuí zo, mas serve como abrevi ação.
Nossa anál i se provou que a forma de val or ou a expressão de
val or da mercadori a ori gi na-se da natureza do val or das mercadori as,
e não, ao contrári o, que val or e grandeza de val or tenham ori gem em
sua expressão como val or de troca. Essa é, entretanto, a i l usão, tanto
dos mercanti l i stas e seus modernos requentadores, como Ferri er, Ga-
mi l l o etc.
105
quanto também de seus antí podas, os modernos commis-
voyageurs do l i vre-cambi smo, como Basti at e consortes. Os mercanti -
l i stas dão a mai or i mportânci a ao l ado qual i tati vo da expressão de
val or, portanto, na forma equi val ente da mercadori a, que possui no
di nhei ro sua forma compl eta — os modernos mascates do l i vre-cam-
bi smo, que necessi tam desembaraçar-se de suas mercadori as a qual quer
preço ressal tam, ao contrári o, excl usi vamente o l ado quanti tati vo da
forma rel ati va de val or. Para el es não exi stem, em conseqüênci a, nem
val or nem grandeza de val or da mercadori a, exceto na expressão por
mei o da rel ação de troca, portanto, apenas no bol eti m di ári o dos preços.
O escocês Macl eod, em sua função de ordenar a adornar, com a mai or
erudi ção possí vel , as confusas i déi as de Lombardstreet,
106
forma a sí n-
tese bem-sucedi da entre os mercanti l i stas supersti ci osos e os mascates
escl areci dos do l i vre-cambi smo.
O exame mai s pormenori zado da expressão de val or da merca-
dori a A, conti da na rel ação de val or com a mercadori a B, demonstrou
que dentro da mesma a forma natural da mercadori a A funci ona apenas
OS ECONOMISTAS
188
105 Nota à 2ª edi ção. FERRI ER, F. L. A. (sous-inspecteur des douanes
*
. Du Gouvernement
Considéré dans ses Rapports avec le Commerce. Pari s, 1805; e GANI LH, Charl es. Des
Systèmes d’Économie Politique. 2ª ed., Pari s, 1821.
*
Subi nspetor de aduanas. (N. dos T.)
106 Lombardstreet. Rua na “Ci ty” de Londres onde se encontram as mai s si gni fi cati vas empresas
bancári as e comerci ai s da I ngl aterra. (N. da Ed. Al emã.)
como fi guração de val or de uso, a forma natural da mercadori a B apenas
como forma val or ou fi guração de val or. A antí tese i nterna entre val or
de uso e val or, ocul ta na mercadori a, é, portanto, representada por mei o
de uma antí tese externa, i sto é, por mei o da rel ação de duas mercadori as,
na qual uma delas, cujo valor deve ser expresso, funciona di retamente
apenas como val or de uso; a outra, ao contrári o, na qual o val or é expresso
val e di retamente apenas como val or de troca. A forma si mpl es de val or
de uma mercadori a é, por consegui nte, a forma si mpl es de mani festação
da antí tese entre val or de uso e val or, nel a conti da.
O produto de trabal ho é em todas as si tuações soci ai s objeto de
uso, porém apenas uma época hi stori camente determi nada de desen-
vol vi mento — a qual apresenta o trabal ho despendi do na produção de
um objeto de uso como sua propri edade “objeti va”, i sto é, como seu
val or — transforma o produto de trabal ho em mercadori a. Segue daí
que a forma si mpl es de val or da mercadori a é ao mesmo tempo a
forma mercadori a si mpl es do produto do trabal ho e, que, portanto,
também o desenvol vi mento da forma mercadori a coi nci de com o de-
senvol vi mento da forma val or.
O pri mei ro ol har mostra a i nsufi ci ênci a da forma si mpl es de val or,
esta forma embri onári a que somente amadurece por mei o de uma séri e
de metamorfoses até a forma preço.
A expressão em qual quer mercadori a B di sti ngue o val or da mer-
cadori a A apenas de seu própri o val or de uso e a col oca, portanto,
numa rel ação de troca com al guma espéci e i ndi vi dual de mercadori a,
di ferente del a mesma, em vez de representar sua i gual dade qual i tati va
e sua proporci onal i dade quanti tati va com todas as outras mercadori as.
A forma si mpl es de val or rel ati vo de uma mercadori a corresponde à
forma de equi val ente i ndi vi dual de outra mercadori a. Assi m o casaco
possui , na expressão rel ati va de val or do l i nho, apenas a forma de
equi val ente ou a forma de permutabi l i dade di reta com rel ação a essa
espéci e i ndi vi dual de mercadori a, o l i nho.
Entretanto, a forma i ndi vi dual de val or passa por si mesma a
uma forma mai s compl eta. Por mei o da mesma, o val or de uma mer-
cadori a A é certamente expresso apenas em uma mercadori a de outro
ti po. Qual é, porém, a espéci e dessa segunda mercadori a, se casaco,
se ferro, se tri go etc., é total mente i ndi ferente. Assi m, conforme el a
entre numa rel ação de val or com esta ou aquel a outra espéci e de mer-
cadori a, surgem di ferentes expressões si mpl es de val or, de uma mesma
mercadori a.
107
O número de suas possí vei s expressões de val or é apenas
l i mi tado pel o número de espéci es de mercadori as di ferentes del a. Sua
expressão i ndi vi dual i zada de val or converte-se, portanto, em uma séri e
constantemente ampl i ável de suas di ferentes expressões si mpl es de val or.
MARX
189
107 Nota à 2ª edi ção. Em Homero, por exempl o, o val or de uma coi sa é expresso numa séri e
de coi sas di ferentes.
B) Forma de Valor Total ou Desdobrada
z mercadori a A = u mercadori a B ou = v mercadori a C ou = w
mercadori a D ou = x mercadori a E ou = etc.
(20 varas de l i nho = 1 casaco ou = 10 l i bras de chá ou = 40
l i bras de café ou = 1 quarter de tri go ou = 2 onças de ouro ou = 1/2
tonel ada de ferro ou = etc.)
1) A forma relativa de valor desdobrada
O val or de uma mercadori a, do l i nho, por exempl o, é agora ex-
presso em i numerávei s outros el ementos do mundo das mercadori as.
Qual quer outro corpo de mercadori as torna-se espel ho do val or do l i -
nho.
108
Assi m, aparece esse val or mesmo pel a pri mei ra vez verdadei -
ramente como gel ati na de trabal ho humano i ndi ferenci ado. Poi s o tra-
bal ho que o gera é agora expressamente representado como trabal ho
equi parado a qual quer outro trabal ho humano, seja qual for a forma
natural que el e possua e se, portanto, se objeti va em casaco ou tri go
ou ferro ou ouro etc. Por mei o de sua forma val or, o l i nho se encontra
portanto agora também em rel ação soci al não mai s apenas com outra
espéci e i ndi vi dual de mercadori a, mas si m com o mundo das merca-
dori as. Como mercadori a, el e é ci dadão deste mundo. Ao mesmo tempo,
depreende-se da i ntermi nável séri e de suas expressões que é i ndi ferente
ao val or mercanti l a forma especí fi ca do val or de uso na qual el e se
mani festa.
Na pri mei ra forma: 20 varas de l i nho = 1 casaco, pode ser casual
que essas duas mercadori as sejam permutávei s em determi nada rel ação
quanti tati va. Na segunda forma, ao contrári o, transparece i medi ata-
mente um fundamento essenci al mente di ferente da mani festação casual
e que a determi na. O val or do l i nho permanece de i gual tamanho, seja
el e representado em casaco, ou café, ou ferro etc., em i numerávei s
mercadori as que pertencem aos mai s di ferentes propri etári os. Desa-
parece a rel ação eventual de doi s donos i ndi vi duai s de mercadori as.
OS ECONOMISTAS
190
108 Fal a-se, por i sso, do val or do l i nho em casaco, quando seu val or se representa em casacos,
de seu val or em grão, quando em grão etc. Cada expressão dessas di z que é o seu val or
o que se mani festa nos val ores de uso casaco, grão etc. “Como o val or de cada mercadori a
denomi na sua rel ação na troca, podemos tratá-l o como (...) val or em grão, val or em pano,
segundo a mercadori a com a qual el a é comparada; e, portanto, exi stem mi l hares de di fe-
rentes espéci es de val ores, tanto quanto as mercadori as exi stentes, e todas são i gual mente
reai s e i gual mente nomi nai s.” (A Critical Dissertation on the Nature, Measures and Causes
of Value; chiefly in reference to the writings of Mr. Ricardo and his followers. By the Author
of Essays on the Formation etc. of Opinions. Londres, 1825. p. 39.) S. Bai l ey, o autor desse
escri to anôni mo, que a seu tempo causou mui ta cel euma na I ngl aterra, i magi na ter destruí do
toda determi nação de concei to do val or, por mei o dessa i ndi cação sobre as vari adas ex-
pressões rel ati vas do mesmo val or mercanti l . Que el e, de resto, apesar de sua própri a
estrei teza, tenha tocado em feri das da teori a ri cardi ana, é comprovado pel a i rri tação com
que a escol a ri cardi ana o atacou, por exempl o, na Westminster Review.
Evi denci a-se que não é a troca que regul a a grandeza de val or, mas,
ao contrári o, é a grandeza de val or da mercadori a que regul a suas
rel ações de troca.
2) A forma equivalente particular
Cada mercadori a, casaco, tri go, chá, ferro etc., val e na expressão
de val or do l i nho como equi val ente e, portanto, como corpo de val or.
A forma natural determi nada de cada uma dessas mercadori as é agora
uma forma equi val ente parti cul ar ao l ado de mui tas outras. Do mesmo
modo, as vari adas espéci es de trabal ho, determi nadas, concretas, útei s,
conti das nos di ferentes corpos de mercadori as fi guram, agora, como
outras tantas formas parti cul ares de efeti vação ou de mani festação do
trabal ho humano como tal .
3) I nsuficiências da forma de valor total ou desdobrada
Pri mei ro, a expressão rel ati va de val or da mercadori a é i ncom-
pl eta, porque sua séri e de representações não termi na nunca. A corrente
em que uma equi paração de val or se l i ga à outra permanece sempre
prol ongável por mei o de cada nova espéci e de mercadori a que surge,
a qual fornece o materi al para nova expressão de val or. Segundo, el a
forma um mosai co col ori do de expressões de val or, desconexas e di fe-
renci adas. Se fi nal mente, como deve ocorrer, o val or rel ati vo de cada
mercadori a for expresso nessa forma desdobrada, então a forma rel ati va
de val or de cada mercadori a é uma séri e i nfi ni ta de expressões de
val or, di ferente da forma rel ati va de val or de qual quer outra merca-
dori a. As i nsufi ci ênci as da forma rel ati va de val or desdobrada refl e-
tem-se na sua forma equi val ente correspondente. Como aqui a forma
natural de cada espéci e parti cul ar de mercadori a é uma forma equi -
val ente parti cul ar ao l ado de i numerávei s outras formas equi val entes
parti cul ares, exi stem, em geral , apenas formas equi val entes l i mi tadas,
das quai s cada uma excl ui a outra. Do mesmo modo, é a espéci e de
trabal ho determi nada, concreta, úti l , conti da em cada mercadori a equi -
val ente parti cul ar, apenas forma de mani festação parti cul ar — portanto
não exausti va — do trabal ho humano. Este possui , em verdade, sua
forma de mani festação compl eta ou total no ci cl o i ntei ro daquel as for-
mas parti cul ares de mani festação. Porém, assi m el e não possui nenhu-
ma forma de mani festação uni tári a.
A forma rel ati va de val or desdobrada consi ste numa soma de
expressões de val or ou equações da pri mei ra forma, como:
20 varas de l i nho = 1 casaco
20 varas de l i nho = 10 l i bras de chá etc.
Cada uma dessas equações contém, reci procamente, a equação
i dênti ca:
MARX
191
1 casaco = 20 varas de l i nho
10 l i bras de chá = 20 varas de l i nho etc.
De fato: quando um homem troca seu l i nho por mui tas outras
mercadori as e, portanto, expressa seu val or numa séri e de outras mer-
cadori as, então necessari amente os mui tos outros possui dores de mer-
cadori as preci sam também trocar as suas mercadori as por l i nho e, por
consegui nte, expressar os val ores de suas di ferentes mercadori as na
mesma tercei ra mercadori a em l i nho. — I nvertamos, portanto a séri e:
20 varas de l i nho = 1 casaco ou = 10 l i bras de chá = etc., i sto é,
expressemos a rel ação recí proca i mpl i ci tamente já conti da na séri e,
então obtemos:
C) Forma Geral de Valor
1 casaco =
10 l i bras de chá =
40 l i bras de café =
1 quarter de tri go = 20 varas de l i nho
2 onças de ouro =
1/2 tonel ada de ferro =
x mercadori a A =
etc. mercadori a =
1) Caráter modificado da forma valor
As mercadori as representam agora seus val ores 1) de modo si m-
pl es, porque na mesma mercadori a, e 2) de modo uni tári o, porque na
mesma mercadori a. Sua forma val or é si mpl es e comum a todas, por-
tanto, geral .
As formas I e I I chegaram ambas a expressar apenas o val or de
uma mercadori a como al go di sti nto de seu própri o val or de uso ou de
seu corpo de mercadori a.
A pri mei ra forma resul tou em equações de val or como: 1 casaco =
20 varas de linho, 10 libras de chá = 1/2 tonel ada de ferro etc. O val or
do casaco se expressa como al go i gual ao l i nho, o val or do chá como al go
i gual ao ferro etc., mas al go i gual ao l i nho e al go i gual ao ferro, estas
expressões de val or do casaco e do chá são tão di ferentes quanto l i nho e
ferro. Essa forma evi dentemente só se encontra na práti ca dos pri mei ros
começos, quando produtos de trabal ho se transformam em mercadori as
por mei o de troca casual e ocasi onal .
A segunda forma di sti ngue o val or de uma mercadori a de seu
própri o val or de uso de manei ra mai s compl eta, poi s o val or do casaco,
por exempl o, confronta agora sua forma natural em todas as formas
possí vei s, como al go i gual ao l i nho, ao ferro, ao chá etc., como tudo
mai s, exceto al go i gual ao casaco. Por outro l ado, toda expressão comum
de val or é aqui di retamente excl uí da, poi s na expressão de val or de
OS ECONOMISTAS
192
uma mercadori a aparecem agora todas as outras mercadori as apenas
sob a forma de equi val entes. A forma de val or desdobrada encontra-se,
de fato, pel a pri mei ra vez tão l ogo um produto do trabal ho, gado, por
exempl o, seja trocado por di versas outras mercadori as, não mai s por
exceção mas habi tual mente.
A forma obti da por úl ti mo expressa os val ores do mundo das
mercadori as numa e mesma espéci e de mercadori a, i sol ada das outras,
por exempl o, no l i nho, e representa assi m os val ores de todas as mer-
cadori as por mei o de sua i gual dade com o l i nho. Como al go i gual ao
l i nho, o val or de cada mercadori a não apenas di sti ngue-se de seu própri o
val or de uso, mas de qual quer val or de uso e justamente por i sso el e
é expresso como aqui l o que el a tem em comum com todas as merca-
dori as. Essa forma é a pri mei ra portanto a rel aci onar real mente as
mercadori as entre si como val ores, ou as dei xa aparecer reci procamente
como val ores de troca.
As duas formas anteri ores expressam o val or de cada mercadori a,
seja numa úni ca mercadori a de espéci e di ferente, seja numa séri e de
mui tas mercadori as di ferentes del a. Em ambos os casos é, por assi m
di zer, questão parti cul ar da mercadori a i ndi vi dual dar-se uma forma
val or e el a o real i za sem que contri buam as outras mercadori as. Estas
desempenham, contrapostas a el a, o papel meramente passi vo do equi -
val ente. A forma val or geral surge, ao contrári o, apenas como obra
comum do mundo das mercadori as. Uma mercadori a só ganha a ex-
pressão geral do val or porque si mul taneamente todas as demai s mer-
cadori as expressam seu val or no mesmo equi val ente e cada nova espéci e
de mercadori a que aparece tem que fazer o mesmo. Evi denci a-se, com
i sso, que a objeti vi dade do val or das mercadori as, por ser a mera “exi s-
tênci a soci al ” dessas coi sas, somente pode ser expressa por sua rel ação
soci al por todos os l ados, e sua forma, por i sso, tem de ser uma forma
soci al mente vál i da.
Na forma de i gual ao l i nho, todas as mercadori as aparecem agora
não só qual i tati vamente i guai s, como val ores sobretudo, mas também,
ao mesmo tempo, como grandezas de val or quanti tati vamente compa-
rávei s. Ao espel har suas grandezas de val or num úni co materi al , no
l i nho, essas grandezas de val or refl etem-se mutuamente. Por exempl o,
10 l i bras de chá = 20 varas de l i nho, e 40 l i bras de café = 20 varas
de l i nho. Então, 10 l i bras de chá = 40 l i bras de café. Ou, 1 l i bra de
café contém apenas 1/4 da substânci a de val or, trabal ho, conti da em
1 l i bra de chá.
A forma val or geral rel ati va do mundo das mercadori as i mpri me
à mercadori a equi val ente, excl uí da del e, ao l i nho, o caráter de equi -
val ente geral . Sua própri a forma natural é a fi gura de val or comum
a esse mundo, o l i nho sendo, por i sso, di retamente trocável por todas
as outras mercadori as. Sua forma corpórea passa pel a encarnação vi -
sí vel , pel a cri sál i da soci al geral de todo trabal ho humano. A tecel agem,
MARX
193
o trabal ho pri vado que produz l i nho, encontra-se, ao mesmo tempo,
em forma soci al geral , na forma da i gual dade com todos os outros
trabal hos. As i numerávei s equações em que consi ste a forma val or
geral equi param, sucessi vamente, o trabal ho real i zado no l i nho a cada
trabal ho conti do em outra mercadori a e tornam, com i sso, a tecel agem
a forma geral de mani festação do trabal ho humano enquanto tal . Assi m,
o trabal ho objeti vado no val or das mercadori as não se representa ape-
nas de um modo negati vo, como trabal ho em que todas as formas
concretas e propri edades útei s dos trabal hos reai s são abstraí das. Sua
própri a natureza posi ti va é expressamente ressal tada. El e é a redução
de todos os trabal hos reai s à sua caracterí sti ca comum de trabal ho
humano, ao di spêndi o de força de trabal ho do homem.
A forma val or geral , que representa os produtos de trabal ho como
meras gel ati nas de trabal ho humano i ndi ferenci ado, mostra por mei o
de sua própri a estrutura que é a expressão soci al do mundo das mer-
cadori as. Assi m, el a evi denci a que no i nteri or desse mundo o caráter
humano geral do trabal ho consti tui seu caráter especi fi camente soci al .
2) Relação de desenvolvimento da forma valor relativa e da forma
equivalente
Ao grau de desenvol vi mento da forma val or rel ati va corresponde
o grau de desenvol vi mento da forma equi val ente. Mas é de se notar
que o desenvol vi mento da forma equi val ente é apenas expressão e
resul tado do desenvol vi mento da forma val or rel ati va.
A forma val or rel ati va si mpl es ou i ndi vi dual i zada de uma mer-
cadori a faz de outra mercadori a equi val ente i ndi vi dual . A forma des-
dobrada do val or rel ati vo, esta expressão do val or de uma mercadori a
em todas as outras mercadori as, i mpri me nel as a forma de equi val entes
parti cul ares de di ferentes espéci es. Por fi m, uma espéci e parti cul ar de
mercadori a recebe a forma geral de equi val ente, porque todas as outras
mercadori as fazem del a o materi al de sua forma val or uni tári o e geral .
No mesmo grau, porém, em que se desenvol ve a forma val or em
geral , desenvol ve-se também a antí tese entre ambos os pól os, a forma
val or rel ati va e a forma equi val ente.
Já a pri mei ra forma — 20 varas de l i nho = 1 casaco — contém
essa antí tese, mas não a fi xa. Conforme se l ei a essa mesma equação
de frente para trás ou de trás para frente, cada uma das duas mer-
cadori as extremas, como l i nho e casaco, encontra-se na mesma medi da,
ora na forma val or rel ati va, ora na forma equi val ente. Aqui ai nda
requer esforço fi xar a antí tese pol ar.
Na forma I I , só uma das espéci es de mercadori a pode de cada
vez desdobrar total mente seu val or, ou el a mesma possui apenas a
forma val or rel ati va desdobrada, porque e na medi da em que todas as
outras mercadori as se encontram, em confronto com el a, na forma equi -
val ente. Aqui não se pode mai s i nverter os doi s l ados da equação de
OS ECONOMISTAS
194
val or — como 20 varas de l i nho = 1 casaco ou = 10 l i bras de chá ou
= 1 quarter de tri go etc. — sem modi fi car seu caráter gl obal e trans-
formá-l a da forma val or total na geral .
A úl ti ma forma, a forma I I I , por fi m, dá ao mundo das mercadori as
forma val or rel ati va soci al geral , porque e na medi da em que, com
uma úni ca exceção, todas as mercadori as que l he pertencem são ex-
cl uí das de forma equi val ente geral . Uma mercadori a, o l i nho, encon-
tra-se, poi s, na forma de permutabi l i dade di reta em todas as outras
mercadori as ou na forma di retamente soci al , porque e na medi da em
que todas as demai s mercadori as não se encontram nel a.
109
E, i nversamente, a mercadori a que fi gura como equi val ente geral
é excl uí da da forma val or rel ati va uni tári a e, portanto, geral do mundo
das mercadori as. Para que o l i nho, i sto é, qual quer mercadori a que se
encontra na forma equi val ente geral , possa, ao mesmo tempo, parti ci par
da forma val or rel ati va geral , el a teri a de servi r de equi val ente a si
mesma. Nós obterí amos então: 20 varas de l i nho = 20 varas de l i nho,
uma tautol ogi a, em que não se expressa nem val or nem grandeza de
val or. Para expressar o val or rel ati vo do equi val ente geral temos so-
bretudo de i nverter a forma I I I . El e não possui nenhuma forma val or
rel ati va em comum com as outras mercadori as, mas seu val or se ex-
pressa rel ati vamente na séri e i nfi ni ta de todos os outros corpos de
mercadori as. Assi m apresenta-se agora a forma val or rel ati va desdo-
brada ou a forma I I como forma val or rel ati va especí fi ca da mercadori a
equi val ente.
3) Transição da forma valor geral para a forma dinheiro
A forma equi val ente geral é uma forma do val or em si . El a pode
ser recebi da, portanto, por qual quer mercadori a. Por outro l ado, uma
mercadori a encontra-se apenas na forma equi val ente geral (forma I I I ),
MARX
195
109 De fato, a forma de permutabi l i dade di reta geral não sugere, de modo al gum, que é uma
forma mercanti l anti téti ca, tão i nseparável da forma de permutabi l i dade não di reta como
a posi ti vi dade de um pól o magnéti co da negati vi dade do outro. Pode-se, portanto, i magi nar
que se possa i mpri mi r ao mesmo tempo a toda mercadori a o cari mbo de permutabi l i dade
di reta, da mesma manei ra como se poderi a i magi nar que se possa fazer de todos os catól i cos
papas. Para o pequeno burguês, que vê na produção de mercadori as o nec plus ultra
*
da
l i berdade humana e da i ndependênci a i ndi vi dual , seri a natural mente mui to desejável que
el e esti vesse l i vre das cal ami dades l i gadas a essa forma, a saber, também da permutabi l i dade
não di reta das mercadori as. A descri ção dessa utopi a fi l i stéi a consti tui o soci al i smo de
Proudhon, que como já demonstrei em outra parte
**
nem possui o méri to da ori gi nal i dade,
poi s mui to antes del e foi mai s bem desenvol vi da por Gray, Bray e outros. I sso não i mpede,
hoje em di a, tal sabedori a de grassar em certos cí rcul os sob o nome de science. Jamai s
uma escol a al ardeou mai s a pal avra “sci ence” que a proudhoni ana, poi s
"onde concei tos fal tam,
al i encai xa-se no momento certo uma pal avra".
***
*
A expressão máxi ma. (N. dos T.)
**
MARX, Karl . Misère de la Philosophie. Réponse à la Philosophie de la Misère de M.
Proudhon. Pari s, Bruxel as, 1847. Cap. 1. (N. da Ed. Al emã.)
***
Modi fi cação de um ci tado do Fausto de Goethe. Parte Pri mei ra. “Quarto de Estudos”.
(N. da Ed. Al emã.)
porque e na medi da em que é excl uí da por todas as demai s mercadori as
como equi val entes. E só a parti r do momento em que essa excl usão
se l i mi ta defi ni ti vamente a um gênero especí fi co de mercadori as, a
forma val or rel ati va uni tári a do mundo das mercadori as adqui re con-
si stênci a objeti va e val i dade soci al geral .
Então, o gênero especí fi co de mercadori a, com cuja forma natural
a forma equi val ente se funde soci al mente, torna-se mercadori a di nhei ro
ou funci ona como di nhei ro. Torna-se sua função especi fi camente soci al
e, portanto, seu monopól i o soci al , desempenhar o papel de equi val ente
geral dentro do mundo das mercadori as. Entre as mercadori as que na
forma I I fi guram como equi val entes parti cul ares do l i nho, e na forma
I I I expressam em comum seu val or rel ati vo em l i nho, determi nada
mercadori a conqui stou hi stori camente essa posi ção pri vi l egi ada, o ouro.
Se substi tuí mos, poi s, na forma I I I , a mercadori a l i nho pel a mercadori a
ouro, obtemos:
D) Forma Dinheiro
20 varas de l i nho =
1 casaco =
10 l i bras de chá =
40 l i bras de café = 2 onças de ouro
1 quarter de tri go =
1/2 tonel ada de ferro =
x mercadori a A =
Ocorrem modi fi cações essenci ai s na transi ção da forma I para a
forma I I , da forma I I para a forma I I I . Em compensação, a forma I V
não di fere em nada da forma I I I , a não ser que agora, em vez do l i nho,
possui o ouro a forma de equi val ente geral . O ouro se torna na forma
I V o que o l i nho era na forma I I I — equi val ente geral . O progresso
apenas consi ste em que a forma de permutabi l i dade di reta geral ou a
forma equi val ente geral se fundi u agora defi ni ti vamente, por mei o do
hábi to soci al , com a forma natural especí fi ca da mercadori a ouro.
O ouro só se confronta com outras mercadori as como di nhei ro
por já antes ter-se contraposto a el as como mercadori a. I gual a todas
as outras mercadori as funci onou também como equi val ente, seja como
equi val ente i ndi vi dual em atos i sol ados de troca, seja como equi val ente
parti cul ar ao l ado de outros equi val entes mercanti s. Pouco a pouco,
passou a funci onar, em cí rcul os mai s estrei tos ou mai s extensos, como
equi val ente geral . Tão l ogo conqui stou o monopól i o dessa posi ção na
expressão de val or do mundo das mercadori as, torna-se mercadori a
di nhei ro, e só a parti r do momento em que já se converteu em mer-
cadori a di nhei ro di sti ngue-se a forma I V da forma I I I , ou a forma
val or geral se transforma em forma di nhei ro.
A expressão rel ati va si mpl es de val or de uma mercadori a, por
OS ECONOMISTAS
196
exempl o, do l i nho, na mercadori a que já funci ona como mercadori a
di nhei ro, por exempl o, o ouro, é a forma preço. A “forma preço” do
l i nho é, poi s:
20 varas de l i nho = 2 onças de ouro
ou, se 2 l i bras esterl i nas foi o nome monetári o de 2 onças de ouro,
20 varas de l i nho = 2 l i bras esterl i nas
A di fi cul dade no concei to da forma di nhei ro se l i mi ta à com-
preensão da forma equi val ente geral , portanto, da forma val or geral
como tal , da forma I I I . A forma I I I se resol ve, retroati vamente, na
forma I I , a forma val or desdobrada e seu el emento consti tuti vo é forma
I : 20 varas de l i nho = 1 casaco, ou x mercadori a A = y mercadori a B.
A forma mercadori a si mpl es é, por i sso, o germe da forma di nhei ro.
4. O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo
À pri mei ra vi sta, a mercadori a parece uma coi sa tri vi al , evi dente.
Anal i sando-a, vê-se que el a é uma coi sa mui to compl i cada, chei a de
suti l eza metafí si ca e manhas teol ógi cas. Como val or de uso, não há
nada mi steri oso nel a, quer eu a observe sob o ponto de vi sta de que
sati sfaz necessi dades humanas pel as suas propri edades, ou que el a
somente recebe essas propri edades como produto do trabal ho humano.
É evi dente que o homem por mei o de sua ati vi dade modi fi ca as formas
das matéri as naturai s de um modo que l he é úti l . A forma da madei ra,
por exempl o, é modi fi cada quando del a se faz uma mesa. Não obstante,
a mesa conti nua sendo madei ra, uma coi sa ordi nári a fí si ca. Mas l ogo
que el a aparece como mercadori a, el a se transforma numa coi sa fi si -
camente metafí si ca. Al ém de se pôr com os pés no chão, el a se põe
sobre a cabeça perante todas as outras mercadori as e desenvol ve de
sua cabeça de madei ra ci smas mui to mai s estranhas do que se el a
começasse a dançar por sua própri a i ni ci ati va.
110
O caráter mí sti co da mercadori a não provém, portanto, de seu
val or de uso. El e não provém, tampouco, do conteúdo das determi nações
de val or. Poi s, pri mei ro, por mai s que se di ferenci em os trabal hos útei s
ou ati vi dades produti vas, é uma verdade fi si ol ógi ca que el es são funções
do organi smo humano e que cada uma dessas funções, qual quer que
seja seu conteúdo ou forma, é essenci al mente di spêndi o de cérebro,
MARX
197
110 Recorda-se que a Chi na e as mesas começaram a dançar, quando todo o resto do mundo
pareci a estar tranqüi l o — pour encourager les autres.
*
*
Para encorajar os outros. — Depoi s da derrota das revol uções de 1848/49 começou na
Europa um perí odo da mai s obscura pol í ti ca reaci onári a. Enquanto, neste tempo, as rodas
ari stocráti cas e também as burguesas se entusi asmaram pel o espi ri ti smo, especi al mente
por fazer a mesa andar, desenvol veu-se na Chi na um poderoso movi mento de l i bertação
anti feudal , parti cul armente entre os camponeses, que entrou para a Hi stóri a como a revo-
l ução de Tai pi ng. (N. da Ed. Al emã.)
nervos, múscul os, senti dos etc. humanos. Segundo, quanto ao que serve
de base à determi nação da grandeza de val or, a duração daquel e di s-
pêndi o ou a quanti dade do trabal ho, a quanti dade é di sti nguí vel até
pel os senti dos da qual i dade do trabal ho. Sob todas as condi ções, o
tempo de trabal ho, que custa a produção dos mei os de subsi stênci a,
havi a de i nteressar ao homem, embora não i gual mente nos di ferentes
estági os de desenvol vi mento.
111
Fi nal mente, tão l ogo os homens tra-
bal ham uns para os outros de al guma manei ra, seu trabal ho adqui re
também uma forma soci al .
De onde provém, então, o caráter eni gmáti co do produto do tra-
bal ho, tão l ogo el e assume a forma mercadori a? Evi dentemente, dessa
forma mesmo. A i gual dade dos trabal hos humanos assume a forma
materi al de i gual objeti vi dade de val or dos produtos de trabal ho, a
medi da do di spêndi o de força de trabal ho do homem, por mei o da sua
duração, assume a forma da grandeza de val or dos produtos de trabal ho,
fi nal mente, as rel ações entre os produtores, em que aquel as caraterí s-
ti cas soci ai s de seus trabal hos são ati vadas, assumem a forma de uma
rel ação soci al entre os produtos de trabal ho.
O mi steri oso da forma mercadori a consi ste, portanto, si mpl es-
mente no fato de que el a refl ete aos homens as caracterí sti cas soci ai s
do seu própri o trabal ho como caracterí sti cas objeti vas dos própri os pro-
dutos de trabal ho, como propri edades naturai s soci ai s dessas coi sas e,
por i sso, também refl ete a rel ação soci al dos produtores com o trabal ho
total como uma rel ação soci al exi stente fora del es, entre objetos. Por
mei o desse qüi proqüó os produtos do trabal ho se tornam mercadori as,
coi sas fí si cas metafí si cas ou soci ai s. Assi m, a i mpressão l umi nosa de
uma coi sa sobre o nervo óti co não se apresenta como uma exci tação
subjeti va do própri o nervo, mas como forma objeti va de uma coi sa fora
do ol ho. Mas, no ato de ver, a l uz se projeta real mente a parti r de
uma coi sa, o objeto externo, para outra, o ol ho. É uma rel ação fí si ca
entre coi sas fí si cas. Porém, a forma mercadori a e a rel ação de val or
dos produtos de trabal ho, na qual el e se representa, não têm que ver
absol utamente nada com sua natureza fí si ca e com as rel ações materi ai s
que daí se ori gi nam. Não é mai s nada que determi nada rel ação soci al
entre os própri os homens que para el es aqui assume a forma fantas-
magóri ca de uma rel ação entre coi sas. Por i sso, para encontrar uma
anal ogi a, temos de nos desl ocar à regi ão nebul osa do mundo da rel i gi ão.
Aqui , os produtos do cérebro humano parecem dotados de vi da própri a,
fi guras autônomas, que mantêm rel ações entre si e com os homens.
OS ECONOMISTAS
198
111 Nota à 2ª edi ção. Entre os anti gos germanos o tamanho de um Morgen
*
de terra era
cal cul ado segundo o trabal ho de um di a, e daí denomi nado Morgen Tagwerk (também
Tagwanne) (jurnale ou jurnalis, terra jurnalis, jornalis ou diurnalis), Mannwerk, Manns-
kraft, Mannsmaad, Mannhauet etc. Ver MAURER, Georg Ludwi g von. Einletung zur Ges-
chichte der Mark-, Hofit-, usw. Verfassung. Muni que, 1854, p. 129 et seqs.
*
Jei ra. (N. dos T.)
Assi m, no mundo das mercadori as, acontece com os produtos da mão
humana. I sso eu chamo o feti chi smo que adere aos produtos de trabal ho,
tão l ogo são produzi dos como mercadori as, e que, por i sso, é i nseparável
da produção de mercadori as.
Esse caráter feti chi sta do mundo das mercadori as provém, como
a anál i se precedente já demonstrou, do caráter soci al pecul i ar do tra-
bal ho que produz mercadori as.
Objetos de uso se tornam mercadori as apenas por serem produtos
de trabal hos pri vados, exerci dos i ndependentemente uns dos outros.
O compl exo desses trabal hos pri vados forma o trabal ho soci al total .
Como os produtores somente entram em contato soci al medi ante a
troca de seus produtos de trabal ho, as caracterí sti cas especi fi camente
soci ai s de seus trabal hos pri vados só aparecem dentro dessa troca. Em
outras pal avras, os trabal hos pri vados só atuam, de fato, como membros
do trabal ho soci al total por mei o das rel ações que a troca estabel ece
entre os produtos do trabal ho e, por mei o dos mesmos, entre os pro-
dutores. Por i sso, aos úl ti mos aparecem as rel ações soci ai s entre seus
trabal hos pri vados como o que são, i sto é, não como rel ações di retamente
soci ai s entre pessoas em seus própri os trabal hos, senão como rel ações
rei fi cadas entre as pessoas e rel ações soci ai s entre as coi sas.
Somente dentro da sua troca, os produtos recebem uma objeti -
vi dade de val or soci al mente i gual , separada da sua objeti vi dade de
uso, fi si camente di ferenci ada. Essa ci são do produto de trabal ho em
coi sa úti l e coi sa de val or real i za-se apenas na práti ca, tão l ogo a troca
tenha adqui ri do extensão e i mportânci a sufi ci entes para que se pro-
duzam coi sas útei s para serem trocadas, de modo que o caráter de
val or das coi sas já seja consi derado ao serem produzi das. A parti r
desse momento, os trabal hos pri vados dos produtores adqui rem real -
mente dupl o caráter soci al . Por um l ado, el es têm de sati sfazer deter-
mi nada necessi dade soci al , como trabal hos determi nados útei s, e assi m
provar serem parti ci pantes do trabal ho total , do si stema natural mente
desenvol vi do da di vi são soci al do trabal ho. Por outro l ado, só sati sfazem
às múl ti pl as necessi dades de seus própri os produtores, na medi da em
que cada trabal ho pri vado úti l parti cul ar é permutável por toda outra
espéci e de trabal ho pri vado, portanto l he equi val e. A i gual dade de
trabal hos toto coelo
112
di ferentes só pode consi sti r numa abstração de
sua verdadei ra desi gual dade, na redução ao caráter comum que el es
possuem como di spêndi o de força de trabal ho do homem, como trabal ho
humano abstrato. O cérebro dos produtores pri vados apenas refl ete
esse dupl o caráter soci al de seus trabal hos pri vados sob aquel as formas
que aparecem na ci rcul ação práti ca, na troca dos produtos — o caráter
soci al mente úti l de seus trabal hos pri vados, portanto, sob aquel a forma
MARX
199
112 Total mente. (N. dos T.)
que o produto de trabal ho tem de ser úti l , i sto é, úti l aos outros — o
caráter soci al da i gual dade dos trabal hos de di ferentes espéci es sob a
forma do caráter do val or comum a essas coi sas materi al mente di fe-
rentes, os produtos de trabal ho.
Portanto, os homens rel aci onam entre si seus produtos de tra-
bal ho como val ores não porque consi deram essas coi sas meros envol -
tóri os materi ai s de trabal ho humano da mesma espéci e. Ao contrári o.
Ao equi parar seus produtos de di ferentes espéci es na troca, como va-
l ores, equi param seus di ferentes trabal hos como trabal ho humano. Não
o sabem, mas o fazem.
113
Por i sso, o val or não traz escri to na testa o
que el e é. O val or transforma mui to mai s cada produto de trabal ho
em um hi erogl i fo soci al . Mai s tarde, os homens procuram deci frar o
senti do do hi erogl i fo, descobri r o segredo de seu própri o produto soci al ,
poi s a determi nação dos objetos de uso como val ores, assi m como a
l í ngua, é seu produto soci al . A tardi a descoberta ci entí fi ca, de que os
produtos de trabal ho, enquanto val ores, são apenas expressões mate-
ri ai s do trabal ho humano despendi do em sua produção, faz época na
hi stóri a do desenvol vi mento da humani dade, mas não di ssi pa, de modo
al gum, a aparênci a objeti va das caracterí sti cas soci ai s do trabal ho. O
que somente val e para esta forma parti cul ar de produção, a produção
de mercadori as, a saber, o caráter especi fi camente soci al dos trabal hos
pri vados, i ndependentes entre si , consi ste na sua i gual dade como tra-
bal ho humano e assume a forma de caráter de val or dos produtos de
trabal ho, parece àquel es que estão presos às ci rcunstânci as de produção
mercanti l , antes como depoi s dessa descoberta, tão defi ni ti vo quanto
a decomposi ção ci entí fi ca do ar em seus el ementos dei xa perdurar a
forma do ar, enquanto forma de corpo fí si co.
O que, na práti ca, pri mei ro i nteressa aos que trocam produtos
é a questão de quantos produtos al hei os el es recebem pel o seu, em
quai s proporções, portanto, se trocam os produtos. Tão l ogo essas pro-
porções amadurecem, al cançando certa estabi l i dade costumei ra, el as
parecem provi r da natureza dos produtos de trabal ho, de modo que,
por exempl o, 1 tonel ada de ferro e 2 onças de ouro têm o mesmo val or,
como 1 l i bra de ouro e 1 l i bra de ferro têm, apesar de suas di ferentes
propri edades fí si cas e quí mi cas, o mesmo peso. De fato, o caráter de
val or dos produtos de trabal ho apenas se consol i da medi ante sua efe-
ti vação como grandezas de val or. As úl ti mas vari am sempre, i ndepen-
dentemente da vontade, da previ são e da ação dos que trocam. Seu
própri o movi mento soci al possui para el es a forma de um movi mento
de coi sas, sob cujo control e se encontram, em vez de control á-l as. É
OS ECONOMISTAS
200
113 Nota à 2ª edi ção. Quando, portanto, Gal i ani di z: O val or é uma rel ação entre pessoas —
“La Ri cchezza è una ragi one tra due persone” —, el e deveri a ter acrescentado: uma rel ação
ocul ta sob uma capa materi al . (GALLI ANI . Della Moneta. p. 221, t. I I I da col eção de
Custodi . “Scri ttori Cl assi ci I tal i ani di Economi a Pol i ti ca”. Parte Moderna, Mi l ão, 1803.)
mi ster uma produção de mercadori as total mente desenvol vi da antes
que da experi ênci a mesma nasça o reconheci mento ci entí fi co, que os
trabal hos pri vados, empreendi dos de forma i ndependente uns dos ou-
tros, mas uni versal mente i nterdependentes como membros natural -
mente desenvol vi dos da di vi são soci al do trabal ho, são o tempo todo
reduzi dos à sua medi da soci al mente proporci onal porque, nas rel ações
casuai s e sempre osci l antes de troca dos seus produtos, o tempo de
trabal ho soci al mente necessári o à sua produção se i mpõe com vi ol ênci a
como l ei natural regul adora, do mesmo modo que a l ei da gravi dade,
quando a al guém a casa cai sobre a cabeça.
114
A determi nação da
grandeza de val or pel o tempo de trabal ho é, por i sso, um segredo ocul to
sob os movi mentos mani festos dos val ores rel ati vos das mercadori as.
Sua descoberta supera a aparênci a da determi nação meramente casual
das grandezas de val or dos produtos de trabal ho, mas de nenhum
modo sua forma materi al .
A refl exão sobre as formas de vi da humana, e, portanto, também
sua anál i se ci entí fi ca, segue sobretudo um cami nho oposto ao desen-
vol vi mento real . Começa post festum e, por i sso, com os resul tados
defi ni ti vos do processo de desenvol vi mento. As formas que certi fi cam
os produtos do trabal ho como mercadori as e, portanto, são pressupostos
da ci rcul ação de mercadori as, já possuem a estabi l i dade de formas
naturai s da vi da soci al , antes que os homens procurem dar-se conta
não sobre o caráter hi stóri co dessas formas, que el es antes já consi -
deram i mutávei s, mas sobre seu conteúdo. Assi m, somente a anál i se
dos preços das mercadori as l evou à determi nação da grandeza do val or,
somente a expressão monetári a comum das mercadori as l evou à fi xação
de seu caráter de val or. É exatamente essa forma acabada — a forma
di nhei ro — do mundo das mercadori as que objeti vamente vel a, em vez
de revel ar, o caráter soci al dos trabal hos pri vados e, portanto, as re-
l ações soci ai s entre os produtores pri vados. Quando eu di go casaco,
botas etc. se rel aci onam ao l i nho como a corpori fi cação geral de trabal ho
humano abstrato, sal ta aos ol hos o absurdo dessa expressão. Mas quan-
do os produtores de casaco, botas etc. rel aci onam essas mercadori as
ao l i nho — ou ao ouro e à prata, que em nada muda a coi sa — como
equi val ente geral , a rel ação dos seus trabal hos pri vados com o trabal ho
soci al total l hes aparece exatamente nessa forma absurda.
Tai s formas consti tuem poi s as categori as da economi a burguesa.
São formas de pensamento soci al mente vál i das e, portanto, objeti vas
para as condi ções de produção desse modo soci al de produção, hi sto-
ri camente determi nado, a produção de mercadori as. Todo o mi sti ci smo
MARX
201
114 "Que se deve pensar de uma l ei que se pode i mpor apenas por mei o de revol uções peri ódi cas?
É, poi s, uma l ei natural , que se basei a na i nconsci ênci a dos parti ci pantes." (ENGELS,
Fri edri ch. “Umri sse zu ei ner Kri ti k der Nati onal oekonomi e”. I n: Deutsch-Franzoesische J ahr-
buecher. Edi tado por Arnol d Ruge e Karl Marx, Pari s, 1844.)
do mundo das mercadori as, toda a magi a e a fantasmagori a que ene-
voam os produtos de trabal ho na base da produção de mercadori as
desaparecem, por i sso, i medi atamente, tão l ogo nos refugi emos em ou-
tras formas de produção.
Como a Economi a Pol í ti ca gosta de robi nsonadas,
115
aparece pri -
mei ro Robi nson em sua i l ha. Moderado por ori gem, el e preci sa sati s-
fazer, entretanto, a vári as necessi dades e, por i sso, tem de executar
trabal hos útei s de di ferentes espéci es, fazer ferramentas, fabri car mó-
vei s, domesti car l hamas, pescar, caçar etc. Não fal amos aqui das orações
e coi sas semel hantes, porque nosso Robi nson se compraz nel as e con-
si dera tai s ati vi dades recrei o. Apesar da di versi dade de suas funções
produti vas el e sabe que el as são apenas di ferentes formas da ati vi dade
do mesmo Robi nson, portanto, somente modos di ferentes de trabal ho
humano. A própri a necessi dade o obri ga a di stri bui r seu tempo mi nu-
ci osamente entre suas di ferentes funções. Se uma ocupa mai s, outra
menos espaço na sua ati vi dade total depende da mai or ou menor di -
fi cul dade que se tem de vencer para consegui r o efei to úti l pretendi do.
A experi ênci a l he ensi na i sso, e nosso Robi nson, que sal vou do naufrági o
o rel ógi o, o l i vro razão, ti nta e caneta, começa, como bom i ngl ês, l ogo
a escri turar a si mesmo. Seu i nventári o contém uma rel ação dos objetos
de uso que el e possui , das di versas operações requeri das para sua
produção e, fi nal mente, do tempo de trabal ho que em médi a l he custam
determi nadas quanti dades desses di ferentes produtos. Todas as rel a-
ções entre Robi nson e as coi sas que formam sua ri queza, por el e mesmo
cri ada, são aqui tão si mpl es e transparentes que até o sr. M. Wi rth
deveri a entendê-l as, sem extraordi nári o esforço i ntel ectual . E todavi a
já contém todas as caracterí sti cas essenci ai s do val or.
Desl oquemo-nos da i l ha l umi nosa de Robi nson à sombri a I dade
Médi a européi a. Em vez do homem i ndependente, encontramos aqui
todos dependentes — servos e senhores feudai s, vassal os e suseranos,
l ei gos e cl éri gos. A dependênci a pessoal caracteri za tanto as condi ções
soci ai s da produção materi al quanto as esferas de vi da estruturadas
sobre el a. Mas, justamente porque rel ações de dependênci a pessoal
consti tuem a base soci al dada, os trabal hos e produtos não preci sam
OS ECONOMISTAS
202
115 Nota à 2ª edi ção. Ri cardo também não está l i vre de sua robi nsonada. “El e faz i medi atamente
o pescador e o caçador pri mi ti vos, como possui dores de mercadori as, trocar o pei xe e a
caça, em proporção ao tempo de trabal ho materi al i zado nesses val ores de troca. Nessa
oportuni dade el e cai no anacroni smo de fazer com que pescadores e caçadores pri mi ti vos,
para cal cul ar o val or de seus i nstrumentos de trabal ho, uti l i zem as tabel as de anui dades
de uso corrente em 1817 na Bol sa de Londres. Os ‘paral el ogramos do sr. Owen’
*
parecem
ser a úni ca forma de soci edade que el e conheci a al ém da burguesa.” (MARX, Karl . Zur
Kritik etc. p. 38-39.)
*
Ri cardo menci ona os “paral el ogramos do sr. Owen” em seu escri to On Protection to Agri-
culture. 4ª ed., Londres, 1822. p. 21. Em seus pl anos utópi cos de uma reforma soci al , Owen
procurou comprovar que tanto sob o aspecto da rentabi l i dade como da vi da domésti ca seri a
mai s conveni ente assentar uma col ôni a em forma de um paral el ogramo. (N. da Ed. Al emã.)
adquirir forma fantásti ca, di ferente de sua real i dade. El es entram na
engrenagem soci al como serviços e pagamentos em natura. A forma natural
do trabal ho, sua parti cul ari dade, e não, como na base da produção de
mercadori as, a sua general i dade, é aqui sua forma di retamente soci al. A
corvéi a mede-se tanto pel o tempo quanto o trabal ho que produz merca-
dori as, mas cada servo sabe que é certa quanti dade de sua força pessoal
de trabal ho que el e despende no serviço do seu senhor. O dí zi mo, a ser
pago ao cura, é mai s cl aro que a bênção do cura. Portanto, como quer
que se jul guem as máscaras que os homens, ao se defrontarem aqui ,
vestem, as rel ações soci ai s entre as pessoas em seus trabal hos aparecem
em qual quer caso como suas própri as rel ações pessoai s, e não são di sfar-
çadas em rel ações soci ai s das coi sas, dos produtos de trabal ho.
Para observar o trabal ho comum, i sto é, o trabal ho di retamente
soci al i zado, não preci samos vol tar à forma natural mente desenvol vi da
do mesmo que encontramos no l i mi ar da hi stóri a de todos os povos
ci vi l i zados.
116
A i ndústri a rural patri arcal de uma famí l i a camponesa,
que produz para seu própri o uso cereai s, gado, fi o, l i nho, peças de
roupa etc., consti tui um exempl o mai s próxi mo. Essas di versas coi sas
defrontam-se à famí l i a como produtos di ferentes de seu trabal ho fa-
mi l i ar mas não se rel aci onam entre si como mercadori as. Os trabal hos
di ferentes que cri am esses produtos, l avoura, pecuári a, fi ação, tecel a-
gem, costura etc., são na sua forma natural funções soci ai s, por serem
funções da famí l i a, que possui sua própri a di vi são de trabal ho natu-
ral mente desenvol vi da, assi m como a tem a produção de mercadori as.
Di ferenças de sexo e i dade e as condi ções naturai s do trabal ho, que mudam
com as estações do ano, regul am sua di stri buição dentro da famí l i a e o
tempo de trabal ho dos membros i ndi vi duai s da famí l i a. O di spêndio das
forças indi vi duais de trabalho, medi do pela sua duração, aparece aqui ,
porém, desde sua ori gem como determi nação soci al dos própri os trabal hos,
porque as forças de trabal ho i ndi vi duai s a parti r de sua ori gem só atuam
como órgãos da força comum de trabal ho da famí l i a.
I magi nemos, fi nal mente, para vari ar, uma associ ação de homens
l i vres, que trabal ham com mei os de produção comunai s, e despendem
suas numerosas forças de trabal ho i ndi vi duai s consci entemente como
uma úni ca força soci al de trabal ho. Repetem-se aqui todas as deter-
mi nações do trabal ho de Robi nson, só que de modo soci al em vez de
MARX
203
116 Nota à 2ª edi ção. “É um preconcei to ri dí cul o, di fundi do recentemente, de que a forma de
propri edade comunal que se desenvol veu de modo natural seja especi fi camente forma esl ava,
até mesmo excl usi vamente forma russa. El a é a forma ori gi nal , que podemos comprovar
entre romanos, germanos, cel tas, da qual , porém, um mostruári o compl eto com múl ti pl as
provas se encontra ai nda hoje entre os hi ndus, mesmo que parci al mente em ruí nas. Um
estudo mai s exato das formas asi áti cas de propri edade comunal , especi al mente das i ndi anas,
comprovari a como das di sti ntas formas de propri edade comunal desenvol vi da natural mente
resul tam di ferentes formas de sua di ssol ução. Assi m podem ser deri vados, por exempl o, os
di ferentes ti pos ori gi nai s de propri edade pri vada romana e germâni ca das di ferentes formas
de propri edade col eti va i ndi ana.” (MARX, Karl . Zur Kritik etc. p. 10.)
i ndi vi dual . Todos os produtos de Robi nson eram excl usi vamente pro-
duto pessoal seu, e, por i sso, di retamente objetos de uso para el e. O
produto total da associ ação é um produto soci al . Parte desse produto
serve novamente como mei o de produção. El a permanece soci al . Mas
parte é consumi da pel os sóci os como mei os de subsi stênci a. Por i sso,
tem de ser di stri buí da entre el es. O modo dessa di stri bui ção vari ará
com a espéci e parti cul ar do própri o organi smo soci al de produção e o
correspondente ní vel de desenvol vi mento hi stóri co dos produtores. Só
para fazer um paral el o com a produção de mercadori as, pressupomos
que a parte de cada produtor nos mei os de subsi stênci a seja determi -
nada pel o seu tempo de trabal ho. O tempo de trabal ho desempenhari a,
portanto, dupl o papel . Sua di stri bui ção soci al mente pl anejada regul a
a proporção correta das di ferentes funções de trabal ho, conforme as
di versas necessi dades. Por outro l ado, o tempo de trabal ho serve si -
mul taneamente de medi da da parti ci pação i ndi vi dual dos produtores
no trabal ho comum e, por i sso, também na parte a ser consumi da
i ndi vi dual mente do produto comum. As rel ações soci ai s dos homens
com seus trabal hos e seus produtos de trabal ho conti nuam aqui trans-
parentemente si mpl es tanto na produção quanto na di stri bui ção.
Para uma soci edade de produtores de mercadori as, cuja rel ação
soci al geral de produção consi ste em rel aci onar-se com seus produtos
como mercadori as, portanto como val ores, e nessa forma rei fi cada re-
l aci onar mutuamente seus trabal hos pri vados como trabal ho humano
i gual , o cri sti ani smo, com seu cul to do homem abstrato, é a forma de
rel i gi ão mai s adequada, notadamente em seu desenvol vi mento burguês,
o protestanti smo, o deí smo etc. Nos modos de produção da vel ha Ási a
e da Anti gui dade etc., a transformação do produto em mercadori a, e,
portanto, a exi stênci a dos homens como produtores de mercadori as,
desempenha papel subordi nado, que porém se torna tanto mai s i m-
portante quanto mai s as comuni dades entram na fase de decl í ni o. Povos
propri amente comerci antes só exi stem nos i ntermúndi os do mundo an-
ti go, como os deuses de Epi curo
117
ou como os judeus nos poros da
soci edade pol onesa. Aquel es anti gos organi smos soci ai s de produção
são extraordi nari amente mai s si mpl es e transparentes que o organi smo
burguês mas el es basei am-se na i maturi dade do homem i ndi vi dual ,
que não se desprendeu do cordão umbi l i cal da l i gação natural aos
outros do mesmo gênero, ou em rel ações di retas de domí ni o e servi dão.
El es são condi ci onados por um bai xo ní vel de desenvol vi mento das
forças produti vas do trabal ho e rel ações correspondentemente l i mi tadas
dos homens dentro do processo materi al da produção de sua vi da, por-
tanto, entre si e com a natureza. Essa restri ção real se refl ete i deal -
OS ECONOMISTAS
204
117 Segundo a i déi a do anti go fi l ósofo grego Epi curo, os deuses exi sti ram nos i ntermúndi os,
os espaços entre os mundos; el es não têm nenhuma i nfl uênci a nem sobre o desenvol vi mento
do uni verso nem sobre a vi da do homem. (N. da Ed. Al emã.)
mente nos cul tos da Natureza e nas rel i gi ões popul ares da Anti gui dade.
O refl exo rel i gi oso do mundo real somente pode desaparecer quando as
ci rcunstâncias coti di anas, da vi da práti ca, representarem para os homens
rel ações transparentes e raci onai s entre si e com a natureza. A fi gura do
processo soci al da vi da, i sto é, do processo da produção materi al , apenas
se desprenderá do seu mí sti co véu nebuloso quando, como produto de
homens l i vremente soci al i zados, el a fi car sob seu control e consci ente e
pl anejado. Para tanto, porém, se requer uma base materi al da soci edade
ou uma séri e de condi ções materi ai s de exi stência, que, por sua vez, são
o produto natural de uma evol ução hi stóri ca l onga e penosa.
A Economi a Pol í ti ca anal i sou, de fato, embora i ncompl etamen-
te,
118
val or e grandeza de val or e o conteúdo ocul to nessas formas.
Mas nunca chegou a perguntar por que esse conteúdo assume aquel a
forma, por quê, portanto, o trabal ho se representa pel o val or e a medi da
do trabal ho, por mei o de sua duração, pel a grandeza do val or do produto
de trabal ho.
119
Fórmul as que não dei xam l ugar a dúvi das de que per-
MARX
205
118 A i nsufi ci ênci a da anál i se de Ri cardo da grandeza de val or — e el a é a mel hor — será
demonstrada nos Li vros Tercei ro e Quarto desse escri to. Quanto ao val or em geral , a Eco-
nomi a Pol í ti ca cl ássi ca, em l ugar al gum, di sti ngue expressamente e com consci ênci a cl ara
o trabal ho, como el e se representa no val or, do mesmo trabal ho, como el e se representa no
val or de uso de seu produto. Natural mente, el a faz de fato essa di sti nção, poi s por um l ado
consi dera o trabal ho sob o aspecto quanti tati vo, por outro sob o aspecto qual i tati vo. Não
l he ocorre, porém, que a mera di ferença quanti tati va entre os trabal hos pressupõe sua
uni dade ou i gual dade qual i tati va, portanto, sua redução a trabal ho humano abstrato. Ri -
cardo, por exempl o, decl ara-se de acordo com Destutt de Tracy, quando este di z: “Vi sto que
é seguro que somente nossas capaci dades fí si cas e espi ri tuai s são nossa ri queza ori gi nal ,
é o uso dessas capaci dades, certa espéci e de trabal ho, nosso tesouro ori gi nal ; é sempre esse
uso aquel e que cri a todas aquel as coi sas, que denomi namos ri queza. (...) Al ém di sso é sabi do
que todas essas coi sas representam apenas o trabal ho que as cri ou, e se el as têm um val or
ou até mesmo doi s val ores di ferentes, então apenas podem tê-l os a parti r (do val or) do
trabal ho do qual el es se ori gi nam”. (RI CARDO. The Principles of Pol. Econ. 3ª ed., Londres,
1821. p. 334.
*
) Apenas i ndi camos que Ri cardo atri bui a Destutt seu própri o senti do mai s
profundo. Destutt, de fato, di z, por um l ado, que todas as coi sas que formam a ri queza
“representam o trabal ho que as cri ou”, por outro l ado, porém, que el as recebem seus “doi s
val ores di ferentes” (val or de uso e val or de troca) do “val or do trabal ho”. El e cai assi m na
superfi ci al i dade da economi a vul gar, que pressupõe o val or de uma mercadori a (aqui do
trabal ho) para por mei o di sso determi nar depoi s o val or das outras mercadori as. Ri cardo
o l ê de tal forma que, tanto no val or de uso como no val or de troca, representa-se trabal ho
(não o val or do trabal ho). El e mesmo, porém, di sti ngue tão pouco as duas faces do caráter
do tr abal ho que se r epresenta dupl amente, que é obri gado por todo o capí tul o “ Val ue
and Ri ches, thei r Di sti ncti ve Proper ti es” a se haver, com mui to esforço, com as tr i vi a-
l i dades de um J.-B. Say. No fi m, el e fi ca, por tanto, todo sur preendi do que Destutt concorde
com el e sobre o tr abal ho como fonte de val or e ai nda assi m com Say, sobr e o concei to
de val or.
*
Compare DESTUTT DE TRACY. Étéments d’I déologie. Partes Quarta e Qui nta. Pari s,
1826. p. 35-36. (N. da Ed. Al emã.)
119 É uma das fal has bási cas da Economi a Pol í ti ca cl ássi ca não ter jamai s consegui do descobri r,
a parti r da anál i se da mercadori a e, mai s especi al mente, do val or das mercadori as, a forma
val or, que justamente o torna val or de troca. Preci samente, seus mel hores representantes,
como A. Smi th e Ri cardo, tratam a forma val or como al go total mente i ndi ferente ou como
al go externo à própri a natureza da mercadori a. A razão não é apenas que a anál i se da
grandeza de val or absorve total mente sua atenção. É mai s profunda. A forma val or do
produto de trabal ho é a forma mai s abstrata, contudo também a forma mai s geral do modo
burguês de produção que por mei o di sso se caracteri za como uma espéci e parti cul ar de
tencem a uma formação soci al em que o processo de produção domi na
os homens, e ai nda não o homem o processo de produção, são consi -
deradas por sua consci ênci a burguesa uma necessi dade natural tão
evi dente quanto o própri o trabal ho produti vo. Por i sso, el a trata as
formas pré-burguesas do organi smo soci al de produção como os padres
da I greja as rel i gi ões pré-cri stãs.
120
OS ECONOMISTAS
206
produção soci al e, com i sso, ao mesmo tempo hi stori camente. Se no entanto for vi sta de
manei ra errônea como a forma natural eterna de produção soci al , dei xa-se também neces-
sari amente de ver o especí fi co da forma val or, portanto, da forma mercadori a, de modo
mai s desenvol vi do da forma di nhei ro, da forma capi tal etc. Encontram-se por i sso entre
economi stas, que concordam i ntei ramente com a medi da da grandeza de val or por mei o
do tempo de trabal ho, os mai s contradi tóri os e confusos concei tos de di nhei ro, i sto é, da
fi gura termi nada do equi val ente geral . I sso apresenta-se de forma mai s cabal , por exempl o,
no tratamento do si stema bancári o, no qual já não bastam as defi ni ções banai s do di nhei ro.
Como antí tese, portanto, cri ou-se um mercanti l i smo restaurado (Gani l h etc.), o qual vê no
val or apenas a forma soci al ou, mai s preci samente, apenas sua aparênci a sem substânci a.
— E para escl arecer de uma vez por todas, entendo como Economi a Pol í ti ca cl ássi ca toda
economi a desde W. Petty que i nvesti ga o nexo i nterno das condi ções de produção burguesas
como antí tese da economi a vul gar, que apenas se move dentro do nexo aparente, rumi na
constantemente de novo o materi al já há mui to forneci do pel a economi a ci entí fi ca oferecendo
um entendi mento pl ausí vel dos fenômenos, por assi m di zer, mai s grossei ros e para o uso
casei ro, da burguesi a, e l i mi ta-se, de resto, a si stemati zar, pedanti zar e procl amar como
verdades eternas as i déi as banai s e presunçosas que os agentes da produção burguesa
formam sobre seu mundo, para el es o mel hor possí vel .
120 "Os economi stas têm um modo pecul i ar de proceder. Para el es há apenas duas espéci es
de i nsti tui ção, as arti fi ci ai s e as naturai s. As i nsti tui ções do feudal i smo são arti fi ci ai s, as
da burguesi a, naturai s. El es i gual am-se ni sso aos teól ogos, que também di sti nguem doi s
ti pos de rel i gi ão. Toda rel i gi ão, que não sua própri a, é uma i nvenção dos homens, a sua
própri a no entanto uma revel ação di vi na. — Assi m portanto houve hi stóri a, mas agora
não há mai s." (MARX, Karl . Misère de la Philosophie. Réponse a la Philosophie de la
Misère de M. Proudhon. 1847. p. 113.) Verdadei ramente engraçado é o senhor Basti at, que
i magi na que os anti gos gregos e romanos teri am vi vi do apenas do roubo. Quando porém
se vi ve mui tos sécul os do roubo, tem que haver constantemente al go para roubar, ou seja,
o objeto do roubo tem que reproduzi r-se i ncessantemente. Parece, portanto, que também
os gregos e romanos ti nham um processo de produção, portanto, uma economi a, a qual
formava a base materi al de seu mundo, tanto quanto a economi a burguesa forma a do
mundo atual . Ou tal vez Basti at quei ra di zer que um si stema de produção, que se basei a
em trabal ho escravo, se apói a num si stema de roubo? El e col oca-se, então, em terreno
peri goso. Se um gi gante do pensamento como Ari stótel es, em sua apreci ação do trabal ho
escravo, errou, por que deveri a um economi sta anão em sua apreci ação do trabal ho assa-
l ari ado acertar? Aprovei to essa oportuni dade para refutar, de forma breve, uma objeção
que me foi fei ta, quando do apareci mento de meu escri to Zur Kritik der Pol. Oekonomie,
1859, por um jornal teuto-ameri cano. Este di zi a, mi nha opi ni ão, que determi nado si stema
de produção e as rel ações de produção a el e correspondentes, de cada vez, em suma, “a
estrutura econômi ca da soci edade seri a a base real sobre a qual l evanta-se uma superes-
trutura jurí di ca e pol í ti ca e à qual corresponderi am determi nadas formas soci ai s de cons-
ci ênci a”, que “o modo de produção da vi da materi al condi ci onari a o processo da vi da soci al ,
pol í ti ca e i ntel ectual em geral ” — tudo i sso estari a até mesmo certo para o mundo atual ,
domi nado pel os i nteresses materi ai s, mas não para a I dade Médi a, domi nada pel o catol i -
ci smo, nem para Atenas e Roma, onde domi nava a pol í ti ca. Em pri mei ro l ugar, é estranhável
que al guém prefi ra supor que esses l ugares-comuns arqui conheci dos sobre a I dade Médi a
e o mundo anti go sejam i gnorados por al guma pessoa. Deve ser cl aro que a I dade Médi a
não podi a vi ver do catol i ci smo nem o mundo anti go da pol í ti ca. A forma e o modo como
el es ganhavam a vi da expl i ca, ao contrári o, por que l á a pol í ti ca, aqui o catol i ci smo, de-
sempenhava o papel pri nci pal . De resto basta pouco conheci mento, por exempl o, da hi stóri a
republ i cana de Roma, para saber que a hi stóri a da propri edade fundi ári a consti tui sua
hi stóri a secreta. Por outro l ado, Dom Qui xote já pagou pel o erro de presumi r que a caval ari a
andante seri a i gual mente compatí vel com todas as formas econômi cas da soci edade.
Até que ponto uma parte dos economi stas é enganada pel o feti -
chi smo aderi do ao mundo das mercadori as ou pel a aparênci a objeti va
das determi nações soci ai s do trabal ho demonstra, entre outras coi sas,
a di sputa aborreci da e i nsí pi da sobre o papel da Natureza na formação
do val or de troca. Como o val or de troca é uma manei ra soci al especí fi ca
de expressar o trabal ho empregado numa coi sa, não pode conter mai s
matéri a natural do que, por exempl o, a cotação de câmbi o.
Como a forma mercadori a é a forma mai s geral e menos desen-
vol vi da da produção burguesa, razão por que aparece cedo, embora
não da mesma manei ra domi nante e, portanto, caracterí sti ca como
hoje em di a, seu caráter feti chi sta parece ai nda rel ati vamente fáci l de
penetrar. Nas formas mai s concretas desaparece mesmo essa aparênci a
da si mpl i ci dade. De onde provi eram as i l usões do si stema monetári o?
Não reconheceu ao ouro e à prata que el es representam, como di nhei ro,
uma rel ação soci al de produção, porém, na forma de objetos naturai s
com i nsól i tas propri edades soci ai s. E a Economi a moderna, que so-
brancei ra ol ha o si stema monetári o de ci ma para bai xo, não se torna
evi dente seu feti chi smo l ogo que trata do capi tal ? Há quanto tempo
desapareceu a i l usão fi si ocráti ca de que a renda da terra ori gi na-se
do sol o e não da soci edade?
Para não anteci par, porém, l i mi tamo-nos aqui a dar mai s um
exempl o rel ati vo à própri a forma mercadori a. Se as mercadori as pu-
dessem fal ar , di r i am: É possí vel que nosso val or de uso i nter esse
ao homem. El e não nos compete enquanto coi sas. Mas o que nos
compete enquanto coi sas é nosso val or . Nossa pr ópr i a ci r cul ação
como coi sas mer canti s demonstr a i sso. Nós nos r el aci onamos umas
com as outr as somente como val or es de tr oca. Ouçamos agor a como
a fal a do economi sta r evel a a al ma da mer cador i a:
“Val or (val or de troca) é propri edade das coi sas, ri queza (val or
de uso) do homem. Val or, nesse senti do, i mpl i ca necessari amente
troca, ri queza não.
121
Ri queza (val or de uso) é um atri buto do homem,
val or um atri buto das mercadori as. Um homem, ou uma comuni -
dade, é ri co; uma pérola ou um di amante, é val i osa. (...) Uma pérol a
ou um di amante tem valor como pérola ou di amante".
122
Até agora nenhum quí mi co descobri u val or de troca em pérol as
ou di amantes. Os descobri dores econômi cos dessa substânci a quí mi ca,
que se pretendem parti cul armente profundos na crí ti ca, acham, porém,
que o val or de uso das coi sas é i ndependente de suas propri edades
MARX
207
121 ”Val ue i s a property of thi ngs, ri ches of man. Val ue, i n thi s sense, necessari l y i mpl i es
exchanges, ri ches do not." (Observations on some Verbal Disputes in Pol. Econ., Particularly
Relating to Value, and to Supply and Demand. Londres, 1821. p. 16.)
122 "Ri ches are the attri bute of man, val ue i s the attri bute of commodi tes. A man or a communi ty
i s ri ch a pearl or a di amond i s val uabl e. (...) A pearl or a di amond i s val uabl e as a pearl
or di amond." (BAI LEY, S. Op. cit., p. 165 et seqs.)
enquanto coi sas, que seu val or, ao contrári o, l hes é atri buí do enquanto
coi sas. O que l hes confi rma i sso é a estranha ci rcunstânci a que o val or
de uso das coi sas se real i za para o homem sem troca, portanto, na
rel ação di reta entre coi sa e homem, mas seu val or, ao contrári o, se
real i za apenas na troca, i sto é, num processo soci al . Quem não se
l embra aqui do bom Dogberry, ensi nando ao vi gi l ante Seacoal :
123
“Ser um homem de boa aparênci a é uma dádi va das ci rcuns-
tânci as, mas saber l er e escrever provém da natureza.”
124
OS ECONOMISTAS
208
123 SHAKESPEARE. Much Ado About Nothing. Ato I I I . Cena I I I . (N. da Ed. Al emã.)
124 O autor de Observations e S. Bai l ey acusam Ri cardo de que el e teri a transformado o val or
de troca de al go apenas rel ati vo em absol uto. Ao contrári o. El e reduzi u a rel ati vi dade
aparente, que estas coi sas, di amante e pérol a, por exempl o, possuem como val ores de troca,
à verdadei ra rel ação, que se ocul ta por trás dessa aparênci a, à sua rel ati vi dade como meras
expressões do trabal ho humano. Se os ri cardi anos respondem a Bai l ey com grosseri a, mas
não com acerto, i sso se deve somente a que el es não encontraram no própri o Ri cardo
nenhuma expl i cação sobre a conexão i nterna entre val or e forma val or ou val or de troca.
CAPÍTULO II
O PROCESSO DE TROCA
As mercadori as não podem por si mesmas i r ao mercado e se
trocar. Devemos, portanto, vol tar a vi sta para seus guardi ões, os pos-
sui dores de mercadori as. As mercadori as são coi sas e, conseqüente-
mente, não opõem resi stênci a ao homem. Se el as não se submetem a
el e de boa vontade, el e pode usar de vi ol ênci a, em outras pal avras,
tomá-l as.
125
Para que essas coi sas se refi ram umas às outras como
mercadori as, é necessári o que os seus guardi ões se rel aci onem entre
si como pessoas, cuja vontade resi de nessas coi sas, de tal modo que
um, somente de acordo com a vontade do outro, portanto cada um
apenas medi ante um ato de vontade comum a ambos, se apropri e da
mercadori a al hei a enquanto al i ena a própri a. El es devem, portanto,
reconhecer-se reci procamente como propri etári os pri vados. Essa rel ação
jurí di ca, cuja forma é o contrato, desenvol vi da l egal mente ou não, é
uma rel ação de vontade, em que se refl ete a rel ação econômi ca. O
conteúdo dessa rel ação jurí di ca ou de vontade é dado por mei o da
rel ação econômi ca mesma.
126
As pessoas aqui só exi stem, reci proca-
209
125 No sécul o XI I , renomado por sua pi edade, encontramos freqüentemente entre essas mer-
cadori as coi sas mui to del i cadas. Um poeta francês dessa época conta, por exempl o, entre
as mercadori as que se vi am no mercado de Landi t,
*
al ém de teci dos, sapatos, couro, i ns-
trumentos agrí col as, pel es etc., femmes folles de leurs corps.
**
*
Landi t. Vi l a perto de Pari s, onde todos os anos ti nha l ugar uma grande fei ra, do sécul o
XI I até o sécul o I X. (N. da Ed. Al emã.)
**
Mul heres de corpos fogosos. (N. dos T.)
126 Proudhon cri a, pri mei ramente, seu i deal de justi ça, da justice éternelle,
*
a parti r das rel ações
jurí di cas correspondentes à produção de mercadori as, com o que, di ga-se de passagem,
proporci ona a prova tão consol adora a todos os fi l i steus de que a forma de produção de
mercadori as é al go tão eterno quanto a justi ça. Depoi s i nversamente, el e pretende remodel ar
a produção real de mercadori as e o di rei to real correspondente a el a segundo esse i deal .
Que pensar í amos de um quí mi co, que, em vez de estudar as verdadei ras l ei s do meta-
bol i smo e com base nel as resol ver deter mi nados pr obl emas, resol vesse remodel ar o me-
tabol i smo por mei o das “ i déi as eter nas” , da natural ité
**
e da affi nité?
***
Acaso sabe-se
mai s sobr e a “ usura” quando di z-se que el a contr ar i a a justice éternell e, a équité éternel le
,
****
a mutuali té éternell e
*****
e outras vérités éternell es,
******
do que os padr es da I grej a
sabi am, quando di zi am que a usura contr ar i a a grâce éternel le, a foi éternel le e a vol onté
éternel le de Di eu?
*******
mente, como representantes de mercadori as e, por i sso, como possui -
dores de mercadori as. Veremos no curso do desenvol vi mento, em geral ,
que os personagens econômi cos encarnados pel as pessoas nada mai s
são que as personi fi cações das rel ações econômi cas, como portadores
das quai s el as se defrontam.
O que di sti ngue sobretudo o possui dor de mercadori a desta úl ti ma
é que para el a cada outro corpo de mercadori a conta apenas como
forma de mani festação de seu própri o val or. I gual i tári a e cí ni ca nata,
a mercadori a está sempre di sposta a trocar não só a al ma, como também
o corpo, com qual quer outra mercadori a, mesmo quando esta seja tão
desagradável como Mari tornes. Esse senti do, que fal ta à mercadori a,
para apreci ar o concreto do corpo da mercadori a, o dono da mercadori a
supre por mei o dos seus ci nco ou mai s senti dos. Sua mercadori a não
tem para el e nenhum val or de uso di reto. Do contrári o não a l evari a
ao mercado. El a tem val or de uso para outros. Para el e, el a tem di -
retamente apenas val or de uso de ser portadora do val or de troca e,
portanto, mei o de troca.
127
Por i sso, el e quer al i ená-l a por mercadori a
cujo val or de uso o sati sfaça. Todas as mercadori as são não-val ores de
uso para seus possui dores e val ores de uso para seus não-possui dores.
El as preci sam, portanto, uni versal mente mudar de mãos. Mas essa
mudança de mãos consti tui sua troca e essa troca as refere como val ores
entre si e as real i za como val ores. As mercadori as têm que real i zar-se,
portanto, como val ores, antes de poderem real i zar-se como val ores de uso.
Por outro l ado, as mercadori as têm de comprovar-se como val ores
de uso, antes de poderem real i zar-se como val ores. Poi s o trabal ho
humano, despendi do em sua produção, conta somente na medi da em
que seja despendi do de forma úti l para outros. Se o trabal ho é úti l
para outros, se, portanto, seu produto sati sfaz as necessi dades al hei as,
somente sua troca pode demonstrar.
Cada possui dor de mercadori as só quer al i enar sua mercadori a
por outra mercadori a cujo val or de uso sati sfaça sua necessi dade. Nessa
medi da, a troca é para el e apenas um processo i ndi vi dual . Por outro
l ado, el e quer real i zar sua mercadori a enquanto val or, em qual quer
outra mercadori a que o agrade do mesmo val or, quer a sua própri a
OS ECONOMISTAS
210
*
Justi ça eterna. (N. dos T.)
**
Natural i dade. (N. dos T.)
***
Afi ni dade. (N. dos T.)
****
Eqüi dade eterna. (N. dos T.)
*****
Reci proci dade eterna. (N. dos T.)
******
Verdades eternas. (N. dos T.)
*******
A graça eterna; a fé eterna; a vontade eterna de Deus. (N. dos T.)
127 "Poi s dupl o é o uso de cada bem. Um é pr ópri o à coi sa, como tal , o outr o não, como
para uma sandál i a ser vi r par a cal çar e ser tr ocável por outr o objeto. Ambos são val ores
de uso da sandál i a, poi s também quem troca a sandál i a por al go que l he fal ta, al i mento,
por exempl o, usa a sandál i a como sandál i a. Por ém, não em seu modo natur al de uso,
poi s a sandál i a não exi ste para ser trocada." (ARI STÓTELES. De Republ ica. Li vro
Pri mei ro. Cap. 9.)
mercadori a tenha ou não val or de uso para o possui dor da outra. Nessa
medi da, a troca é para el e um processo generi camente soci al . Mas o
mesmo processo não pode ser si mul taneamente para todos os possui -
dores de mercadori as apenas i ndi vi dual e, ao mesmo tempo, apenas
generi camente soci al .
Vi sta a coi sa mai s de perto, percebe-se que para todo possui dor
de mercadori a toda mercadori a al hei a funci ona como equi val ente par-
ti cul ar de sua mercadori a, sua mercadori a, portanto, como equi val ente
geral de todas as outras mercadori as. Mas como todos os possui dores
de mercadori as fazem o mesmo, nenhuma mercadori a é equi val ente
geral e por i sso as mercadori as não possuem também nenhuma forma
val or geral rel ati va, na qual el as possam equi parar-se como val ores e
comparar-se como grandezas de val or. Portanto, el as não se defrontam,
de modo al gum, como mercadori as, mas apenas como produtos ou va-
l ores de uso.
Em sua perpl exi dade, pensam os nossos possui dores de merca-
dori as como Fausto. No começo era a ação. El es já agi ram, portanto,
antes de terem pensado. As l ei s da natureza das mercadori as atuam
através do i nsti nto natural dos seus possui dores. El es somente podem
referi r suas mercadori as, umas às outras, como val ores, e por i sso
apenas como mercadori as ao referi -l as, anti teti camente, a outra mer-
cadori a como equi val ente geral . É o que resul tou da anál i se da mer-
cadori a. Mas apenas a ação soci al pode fazer de uma mercadori a equi -
val ente geral . A ação soci al de todas as outras mercadori as, portanto,
excl ui determi nada mercadori a para nel a representar uni versal mente
seus val ores. A forma natural dessa mercadori a vem a ser assi m a
forma equi val ente soci al mente vál i da. Ser equi val ente geral passa, por
mei o do processo soci al , a ser a função especi fi camente soci al da mer-
cadori a excl uí da. Assi m el a torna-se — di nhei ro.
“I l l i unum consi l i um habent et vi rtutem et potestatem suam
besti ae tradunt. Et ne qui s possi t emere aut vendere, ni si qui
habet characterem aut nomen besti ae, aut numerum nomi ni s
ejus.”
128
(Apocalipse.
129
)
O cri stal monetári o é um produto necessári o do processo de troca,
no qual di ferentes produtos do trabal ho são, de fato, i gual ados entre
si e, portanto, converti dos em mercadori as. A ampl i ação e aprofunda-
MARX
211
128 Estes têm um desí gni o e darão sua força e seu poder à besta. E que ni nguém possa comprar
ou vender a não ser aquel e que tenha o si nal , ou seja, o nome da besta ou o número do
seu nome." (N. dos T.)
129 Obra da l i teratura cri stã da pri mei ra fase, que foi i ncl uí da no Novo Testamento; a autori a
é geral mente atri buí da ao Apóstol o João. O Apocalipse contém profeci as mí sti cas do “fi m
do mundo” e de uma “vol ta de Cri sto”, o que na I dade Médi a freqüentemente l evou a
movi mentos popul ares heréti cos. Posteri ormente, a I greja usava as profeci as do Apocalipse
ao i nti mi dar as massas do povo. Marx ci ta aqui dos capí tul os 17, 13 e 13, 17 do Apocalipse
de São João. (N. da Ed. Al emã.)
mento hi stóri cos da troca desenvol vem a antí tese entre val or de uso
e val or l atente na natureza da mercadori a. A necessi dade de dar a
essa antí tese representação externa para a ci rcul ação l eva a uma forma
i ndependente do val or da mercadori a e não se detém nem descansa
até tê-l a al cançado defi ni ti vamente por mei o da dupl i cação da merca-
dori a em mercadori a e em di nhei ro. Na mesma medi da, portanto, em
que se dá a transformação do produto do trabal ho em mercadori a,
compl eta-se a transformação da mercadori a em di nhei ro.
130
A troca di reta de produtos possui já, por um l ado, a forma da
expressão si mpl es do val or e, por outro l ado, ai nda não a tem. Aquel a
forma era x mercadori a A = y mercadori a B. A forma da troca di reta
de produtos é: x objeto de uso A = y objeto de uso B.
131
As coi sas A e
B não são aqui mercadori as antes da troca, mas tornam-se tai s por
mei o da mesma. O pri mei ro modo, pel o qual um objeto de uso é pos-
si vel mente val or de troca, é sua exi stênci a como não-val or de uso,
como quantum de val or de uso que ul trapassa as necessi dades di retas
de seu possui dor. As coi sas são, em si e para si , externas ao homem
e, portanto, al i enávei s. Para que a al i enação seja recí proca, basta que
os homens se defrontem, taci tamente, como propri etári os pri vados da-
quel as coi sas al i enávei s e portanto, por i ntermédi o di sso, como pessoas
i ndependentes entre si . Tal rel ação de estranhamento recí proco não
exi ste, porém, para os membros de uma comuni dade pri mi ti va, tenha
el a a forma de uma famí l i a patri arcal , de uma anti ga comuni dade
i ndi ana, um Estado i nca
132
etc. A troca de mercadori as começa onde
as comuni dades termi nam, em seus pontos de contato com outras co-
muni dades ou com membros de outras comuni dades. Tão l ogo as coi sas
se tornam mercadori as no exteri or da comuni dade, tornam-se também
por repercussão mercadori as no i nteri or da vi da comunal . Sua rel ação
quanti tati va de troca é por enquanto i ntei ramente casual . São permu-
távei s pel a vontade de seus possui dores de al i ená-l as reci procamente.
Nesse mei o tempo, se consol i da, pouco a pouco, a necessi dade por objetos
de uso estrangei ros. A constante repeti ção da troca transforma-a em
um processo soci al regul ar. Com o correr do tempo, torna-se necessári o,
OS ECONOMISTAS
212
130 Jul gue-se, poi s, a habi l i dade do soci al i smo pequeno-burguês que quer eterni zar a produção
de mercadori as e, ao mesmo tempo, abol i r a “antí tese entre di nhei ro e mercadori a” e,
portanto, o própri o di nhei ro, poi s este somente exi ste dentro dessa antí tese. Do mesmo
modo poder-se-i a abol i r o papa e dei xar permanecer o catol i ci smo. Ver pormenores em
mi nha obra Zur Kritik der Politischen Oekonomie. p. 61 et seqs.
131 Enquanto não se trocam ai nda doi s di ferentes objetos de uso, porém, como veri fi camos
freqüentemente entre sel vagens, uma massa caóti ca de coi sas é ofereci da como equi val ente
de um tercei ro, a própri a troca di reta está ai nda em seu l i mi ar.
132 Estado escravagi sta com restos si gni fi cantes da soci edade pri mi ti va. A base da organi zação
soci al e econômi ca era a parentel a ou comuni dade camponesa (aylla), que possuí a terras
e gado em comum. O Estado i nca vi veu seu fl oresci mento no fi m do sécul o XV até a
conqui sta espanhol a, e seu extermí ni o total nos anos tri nta do sécul o XVI ; naquel a época
el a se estendeu sobre os terri tóri os do Peru, Equador, Bol í vi a e norte do Chi l e, de hoje
(N. da Ed. Al emã.)
portanto, que parte do produto do trabal ho seja i ntenci onal mente fei ta
para a troca. A parti r desse momento, consol i da-se, por um l ado, a
separação entre a uti l i dade das coi sas para as necessi dades i medi atas
e sua uti l i dade para a troca. Seu val or de uso di ssoci a-se de seu val or
de troca. Por outro l ado, torna-se a rel ação quanti tati va, em que se
trocam, dependente de sua própri a produção. O costume fi xa-as como
grandezas de val or.
Na troca di reta de produtos, cada mercadori a é di retamente mei o
de troca para seu possui dor, equi val ente para seu não-possui dor, mas
somente enquanto for val or de uso para el e. O arti go de troca não
adqui re ai nda nenhuma forma val or i ndependente de seu própri o val or
de uso ou da necessi dade i ndi vi dual dos permutantes. A necessi dade
dessa forma desenvol ve-se com o crescente número e vari edade das
mercadori as que vão entrando no processo de troca. O probl ema surge
si mul taneamente com os mei os para sua sol ução. Uma ci rcul ação em
que possui dores de mercadori as trocam e comparam seus arti gos com
outros arti gos di ferentes jamai s se real i za sem que di ferentes merca-
dori as de di ferentes possui dores de mercadori as em sua ci rcul ação se-
jam trocadas e comparadas como val ores com uma tercei ra mercadori a,
sempre a mesma. Tal tercei ra mercadori a, ao se tornar equi val ente
de outras mercadori as di ferentes, recebe di retamente, ai nda que em
l i mi tes estrei tos, a forma de equi val ente geral ou soci al . Essa forma
de equi val ente geral surge e desaparece com o contato soci al momen-
tâneo que l he deu vi da. É atri buí da al ternati va e transi tori amente a
esta ou àquel a mercadori a. Com o desenvol vi mento da troca de mer-
cadori as el a se fi xa excl usi vamente em espéci es parti cul ares de mer-
cadori as ou se cri stal i za na forma di nhei ro. A que cl asse de mercadori as
el a adere é, no i ní ci o, al go ocasi onal . No entanto, exi stem duas ci r-
cunstânci as que grosso modo são deci si vas. A forma fi xa-se ou nos
arti gos de troca mai s i mportantes vi ndos do estrangei ro, os quai s de
fato são formas de mani festação natural mente desenvol vi das do val or
de troca dos produtos l ocai s, ou no objeto de uso que representa o
el emento pri nci pal do patri môni o l ocal al i enável , como o gado, por exem-
pl o. Os povos nômades são os pri mei ros a desenvol ver a forma di nhei ro,
porque todos os seus haveres e bens têm forma móvel e, portanto,
di retamente al i enável e porque seu modo de vi da os põe em constante
contato com comuni dades estrangei ras, sol i ci tando-os à troca de pro-
dutos. Os homens fi zeram, freqüentemente, do própri o homem, na fi -
gura do escravo, a matéri a ori gi nal de di nhei ro, porém nunca as terras.
Tal i déi a somente poderi a surgi r numa soci edade burguesa já desen-
vol vi da. Data do úl ti mo terço do sécul o XVI I e só se tentou concreti zá-l a,
em escal a naci onal , um sécul o mai s tarde, na revol ução burguesa dos
franceses.
Na mesma medi da em que a troca de mercadori as rompe seus
l aços apenas l ocai s e, com i sso, o val or das mercadori as se desenvol ve
MARX
213
para vi r a ser materi al i zação do trabal ho humano em geral , a forma
di nhei ro transpõe-se a mercadori as que por natureza são adequadas
para a função soci al de equi val ente geral , os metai s preci osos.
Que “ouro e prata, por natureza, não sejam di nhei ro, embora
di nhei ro, por natureza, seja de ouro e prata”,
133
demonstra a congruên-
ci a de suas propri edades naturai s com suas funções.
134
Mas até agora
conhecemos apenas uma função do di nhei ro, a de servi r de forma de
mani festação do val or das mercadori as ou de materi al , no qual as
grandezas de val or das mercadori as se expressam soci al mente. Forma
adequada de mani festação do val or ou materi al i zação de trabal ho hu-
mano abstrato e, portanto, i gual , pode ser apenas uma matéri a cujos
di versos exempl ares possuam todos a mesma qual i dade uni forme. Por
outro l ado, como a di ferença das grandezas de val or é puramente quan-
ti tati va, é necessári o que a mercadori a monetári a seja capaz de ex-
pressar vari ações meramente quanti tati vas, portanto, possa ser di vi -
di da à vontade e novamente recomposta a parti r de suas partes. Ouro
e prata possuem, porém, essas propri edades por natureza.
O val or de uso da mercadori a monetári a dobra. Al ém de seu
val or de uso parti cul ar como mercadori a, como ouro por exempl o serve
para obturar dentes, como matéri a-pri ma para arti gos de l uxo etc., el a
adqui re um val or de uso formal decorrente de suas funções soci ai s
especí fi cas.
Sendo todas as mer cador i as mer os equi val entes par ti cul ar es
do di nhei r o e o di nhei r o seu equi val ente ger al , el as se r el aci onam
como mer cador i as par ti cul ar es em r el ação ao di nhei r o, como a mer -
cador i a ger al .
135
Vi u-se que a forma di nhei ro é apenas o refl exo aderente a uma
úni ca mercadori a das rel ações de todas as outras mercadori as. Que o
di nhei ro seja mercadori a
136
é, portanto, apenas uma descoberta para
aquel e que parte de sua forma acabada para posteri ormente anal i sá-l a.
O processo de troca dá à mercadori a, a qual é por el e transformada
em di nhei ro, não o seu val or, porém sua forma val or especí fi ca. A
OS ECONOMISTAS
214
133 MARX, Karl . Op. cit., p. 135. “Os metai s (...) são, por natureza, di nhei ro.” (GALI ANI . Della
Moneta. Na col eção de Custodi , Parte Moderna, t. I I I , p. 137.)
134 Ver mai s detal hes em mi nha obra aci ma ci tada no capí tul o “Os Metai s Preci osos”.
135 "O di nhei ro é a mercadori a geral ." (VERRI . Op. cit., p. 16.)
136 "Prata e ouro em si , aos quai s podemos dar o nome geral de metai s preci osos, são (...)
mercadori as (...) que sobem e bai xam (...) de val or. Ao metal preci oso pode-se reconhecer
um val or mai s al to quando por um peso menor del e compra-se mai or quanti dade do produto
ou manufatura do paí s etc." ([CLEMENT, S.] A Discourse of the General Notions of Money
Trade, and Exchange as they Stand in Relations to each Other. By a Merchant. Londres
1695. p. 7.) “Ai nda que o ouro e a prata cunhados ou sem cunhar sejam usados como
uni dade de medi da de todas as demai s coi sas, não são menos mercadori a que vi nho, ól eo,
tabaco, pano ou teci do.” ([CHI LD, J.] A Discourse Concerning Trade, and that in Particular
of the East-I ndies etc. Londres 1689. p. 2.) “A fortuna e a ri queza do rei no tomadas com
preci são não podem se l i mi tar a di nhei ro, nem o ouro nem a prata podem dei xar de ser
consi derados mercadori as.” [PAPI LLON, Th.] The East I ndia Trade a most Profitable Trade.
Londres 1677. p. 4.)
confusão entre essas duas determi nações l evou a consi derar o val or
do ouro e da prata como sendo i magi nári o.
137
Podendo o di nhei ro ser
substi tuí do, em certas funções, por meros si gnos del e mesmo, surgi u
o outro erro, que el e seja mero si gno. Por outro l ado, essa noção i m-
pl i cava vi sl umbrar que a forma di nhei ro da coi sa é externa a el a mesma
e mera forma de mani festação de rel ações humanas ocul tas atrás del a.
Nesse senti do, cada mercadori a seri a um si gno, poi s, como val or, é
apenas um i nvól ucro rei fi cado do trabal ho humano nel a despendi do.
138
Mas, ao consi derar si gnos os caracteres soci ai s que as coi sas ou os
caracteres rei fi cados que as determi nações soci ai s do trabal ho recebem,
com base em determi nado modo de produção, como meros si gnos, el es
passam, ao mesmo tempo, a ser expl i cados como produto arbi trári o da
refl exão dos homens. Essa era uma mani a de escl arecer mui to apre-
ci ada, no sécul o XVI I I , para el i mi nar pel o menos transi tori amente a
aparência estranha das formas enigmáti cas de que se revesti am as con-
di ções humanas, cujo processo de formação não se podi a ai nda deci frar.
Observou-se anteri ormente que a forma equi val ente de uma mer-
cadori a não i mpl i ca a determi nação quanti tati va de sua grandeza de
MARX
215
137 "O ouro e a prata têm val or como metai s, antes de serem di nhei ro." (GALI ANI . Op. cit.,
[p. 72].) Locke di z: “A opi ni ão geral das pessoas atri bui u à prata, devi do às suas qual i dades
que a tornam adequada para ser di nhei ro, um val or i magi nári o”. [LOCKE, John. Some
Considerations etc. 1691. I n: Works. Ed. 1777. v. I I p. 15.] Ao contrári o, Law: “Como poderi am
di ferentes nações atri bui r um val or i magi nári o a uma coi sa qual quer (...) ou como deveri a
ter podi do manter-se este val or?” Mas quão pouco el e mesmo entendi a sobre o assunto: “A
prata trocava-se segundo o val or de uso que possuí a, ou seja, segundo seu val or real ; por
mei o de sua determi nação como di nhei ro el a adqui ri u um val or adi ci onal (une valeur ad-
ditionnelle). (LAW, Jean. Considérations sur le Numéraire et le Commerce. Na edi ção de
E. Dai re dos Économistes Financiers du XVI I I Siècle, p. 469-470.)
138 ”O di nhei ro é seu (das mercadori as) si gno." (Ver DE FORBONNAI S. Élements du Commerce.
Nouv. Édi t., Leyde, 1766 t. I I p. 143.) “Como si gno é atraí do pel as mercadori as.” (Op. cit.,
p. 155.) “O di nhei ro é si gno de uma coi sa e a representa.” (MONTESQUI EU. Esprit des
Lois. Oeuvres, Londres 1767. t. I I p. 3.) “O di nhei ro não é mero si gno, el e é por si mesmo
ri queza; el e não representa os val ores, el e é o equi val ente del es.” (LE TROSNE. Op. cit.,
p. 910.) “Se exami namos o concei to de val or, a própri a coi sa somente é consi derada um
si gno, e el a não conta como el a mesma, senão como o que val e.” (HEGEL. Op. cit., p. 100.)
Mui to antes dos economi stas, os juri stas i mpul si onaram a i déi a do di nhei ro como mero
si gno e do val or si mpl esmente i magi nári o dos metai s preci osos, com o que prestavam um
servi ço de si cofantas ao poder real , cujo di rei to de fal si fi car moeda fundamentaram, durante
toda a I dade Médi a, sobre as tradi ções do I mpéri o Romano e os concei tos monetári os das
Pandectas.
*
Num decreto de 1346, di z seu dóci l di scí pul o Phi l i ppe de Val oi s: “Ni nguém
pode nem deve l evantar dúvi das de que só cabe a Nós e a Nossa Majestade real (...) a
operação monetári a, a fabri cação, a di sposi ção, o aprovi si onamento e toda regul amentação
rel ati va às moedas, col ocá-l as em ci rcul ação assi m e a tal preço, conforme nos compraza e
bom nos pareça”. Era dogma do di rei to romano que o i mperador decretasse o val or do
di nhei ro. Era expressamente proi bi do tratar o di nhei ro como mercadori a. “Não deve, en-
tretanto ser permi ti do a ni nguém comprar di nhei ro, poi s, tendo si do cri ado para uso geral ,
não deve ser mercadori a.” A obra de G. F. Pagni ni , Saggio Sopra il Giusto Pregio delle
Cose, 1751, Ed. de Custodi , Parte Moderna, t. I I , contém boa exposi ção a respei to. Nota-
damente na segunda parte da obra, Pagni ni pol emi za contra os senhores juri stas.
*
Pandectas (grego) ou di gestos (l ati m). Parte pri nci pal do di rei to ci vi l romano (corpus juris
civilis). As pandectas eram uma composi ção de excertos das obras de juri stas romanos e
corresponderam aos i nteresses dos escravagi stas. El as foram redi gi das por i ncumbênci a do
i mperador bi zanti no Justi ni ano I e procl amadas como l ei no ano 533. (N. da Ed. Al emã.)
val or. Sabe-se que ouro é di nhei ro, sendo, portanto, di retamente per-
mutável com todas as mercadori as. Mas nem por i sso sabe-se quanto
val em, por exempl o, 10 l i bras de ouro. Como qual quer outra mercadori a,
o di nhei ro pode expressar sua própri a grandeza de val or apenas rel a-
ti vamente em outras mercadori as. Seu própri o val or é determi nado
pel o tempo de trabal ho necessári o a sua produção e se expressa naquel e
quantum de qual quer outra mercadori a em que está cri stal i zado o
mesmo tempo de trabal ho.
139
Essa constatação de sua grandeza rel ati va
de val or ocorre em sua fonte de produção, por mei o da troca di reta.
Quando entra em ci rcul ação, como di nhei ro, seu val or já está dado.
Se já nas úl ti mas décadas do sécul o XVI I , uma vez ampl amente su-
perado o começo da anál i se do di nhei ro, sabi a-se que di nhei ro é mer-
cadori a, i sso era apenas o começo. A di fi cul dade não resi de em com-
preender que di nhei ro é mercadori a, porém como, por quê, por mei o
de que mercadori a é di nhei ro.
140
Já vi mos que na expressão mai s si mpl es de val or, x mercadori a
A = y mercadori a B, a coi sa, em que a grandeza de val or de outra
coi sa é representada, parece possui r sua forma equi val ente i ndepen-
dentemente dessa rel ação, como uma propri edade soci al de sua natu-
reza. Já i nvesti gamos a consol i dação dessa fal sa aparênci a. El a com-
pl etou-se tão l ogo a forma de equi val ente geral se fundi u com a forma
natural de uma espéci e parti cul ar de mercadori a ou cri stal i zou-se na
forma di nhei ro. Uma mercadori a não parece tornar-se di nhei ro porque
todas as outras mercadori as representam nel a seus val ores, mas, ao
contrári o, parecem todas expressar seus val ores nel a porque el a é di -
nhei ro. O movi mento medi ador desaparece em seu própri o resul tado
e não dei xa atrás de si nenhum vestí gi o. As mercadori as encontram,
sem nenhuma col aboração sua, sua própri a fi gura de val or pronta,
como um corpo de mercadori a exi stente fora e ao l ado del as. Essas
OS ECONOMISTAS
216
139 "Se al guém pode trazer 1 onça de prata a Londres, desde as entranhas da terra no Peru,
uti l i zando o mesmo tempo que necessi tari a para produzi r 1 bushel de tri go, então um é o
preço natural do outro; se el e agora, em vi rtude da abertura de novas mi nas mai s ri cas,
em vez de uma, consegui r 2 onças com o mesmo esforço de antes, o tri go pel o preço de 10
xel i ns por bushel será tão barato agora quanto antes pel o preço de 5 xel i ns coeteris paribus."
(PETTY, Wi l l i am. A Treatise on Taxes and Contributions. Londres 1667. p. 31.)
140 Depoi s que o prof. Roscher nos ensi nou: “As fal sas defi ni ções do di nhei ro podem di vi di r-se
em doi s grupos pri nci pai s: aquel es que o consi deram mai s e aquel es que o consi deram
menos que uma mercadori a”, segue um catál ogo embaral hado de escri tos sobre o si stema
monetári o, em que também não transparece a mai s remota compreensão da hi stóri a real
da teori a, e então vem a moral : “De resto não se pode negar que a mai ori a dos economi stas
mai s jovens não tenha consi derado sufi ci entemente as especi fi ci dades que di sti nguem o
di nhei ro das demai s mercadori as” (portanto, apesar de tudo mai s ou menos do que mer-
cadori a?). “Nesse senti do, a reação semi mercanti l i sta de Gani l h (...) não é total mente sem
moti vo.” (ROSCHER, Wi l hel m. Die Grundlagen der Nationaloekonomie. 3ª ed., 1858. p.
207-210.) Mai s — menos — i nsufi ci ente — na medi da em que — não total mente! Que
determi nações concei tuai s! E semel hante prosa ecl éti ca professoral o senhor Roscher bati za
modestamente de “método anatômi co-fi si ol ógi co” da Economi a Pol í ti ca. Devemos-l he, no
entanto, uma descoberta, a saber, que o di nhei ro é “uma mercadori a agradável ”.
coi sas, ouro e prata, tai s como saem das entranhas da terra, são i me-
di atamente a encarnação di reta de todo o trabal ho humano. Daí a
magi a do di nhei ro. A conduta meramente atomí sti ca dos homens em
seu processo de produção soci al e, portanto, a fi gura rei fi cada de suas
própri as condi ções de produção, que é i ndependente de seu control e e
de sua ação consci ente i ndi vi dual , se mani festam i ni ci al mente no fato
de que seus produtos de trabal ho assumem em geral a forma merca-
dori a. O eni gma do feti che do di nhei ro é, portanto, apenas o eni gma
do feti che da mercadori a, tornado vi sí vel e ofuscante.
MARX
217
CAPÍTULO III
O DINHEIRO OU A CIRCULAÇÃO DAS MERCADORIAS
1. Medida dos valores
A fi m de si mpl i fi car, pressuponho sempre neste escri to o ouro
como a mercadori a monetári a.
A pri mei ra função do ouro consi ste em fornecer ao mundo das
mercadori as o materi al para sua expressão de val or ou em representar
os val ores das mercadori as como grandezas de mesma denomi nação,
qual i tati vamente i guai s e quanti tati vamente comparávei s. Assi m, el e
funci ona como medi da geral dos val ores e é apenas por mei o dessa
função que o ouro, a mercadori a equi val ente especí fi ca, se torna i ni -
ci al mente di nhei ro.
Não é por mei o do di nhei ro que as mercadori as se tornam co-
mensurávei s. Ao contrári o. Sendo todas as mercadori as, enquanto va-
l ores, trabal ho humano objeti vado, e portanto sendo em si e para si
comensurávei s, el as podem medi r seus val ores, em comum, na mesma
mercadori a especí fi ca e com i sso transformar esta úl ti ma em sua me-
di da comum de val or, ou seja, em di nhei ro. Di nhei ro, como medi da de
val or, é forma necessári a de mani festação da medi da i manente do val or
das mercadori as: o tempo de trabal ho.
141
219
141 A pergunta por que o di nhei ro não representa di retamente o própri o tempo de trabal ho,
de forma que, por exempl o, uma nota de papel represente x horas de trabal ho, se reduz
si mpl esmente à pergunta por que, na base da produção de mercadori as, os produtos de
trabal ho preci sam representar-se como mercadori as, poi s a representação de mercadori a
i mpl i ca sua dupl i cação em mercadori a e mercadori a monetári a. Ou por que o trabal ho
pri vado não pode ser tratado como seu contrári o, trabal ho di retamente soci al . Já tratei
mi nuci osamente, em outra parte, do utopi smo superfi ci al de uma “moeda trabal ho”, com
base na produção de mercadori as. (Op. cit., p. 61 et seqs.) Observari a ai nda que, por exempl o,
a “moeda trabal ho” de Owen é tão pouco “di nhei ro” como um bi l hete de teatro. Owen
pressupõe trabal ho di retamente soci al i zado, uma forma de produção di ametral mente oposta
à produção de mercador i as. O cer ti fi cado de tr abal ho constata apenas a parti ci pação
i ndi vi dual do produtor no trabal ho comum e seu di r ei to i ndi vi dual à parte do produto
comum desti nada ao consumo. Porém, a Owen não ocor re pressupor a pr odução de
mercador i as e, apesar di sso, quer er escamotear suas condi ções necessár i as por mei o de
arti manhas monetári as.
A expressão de val or de uma mercadori a em ouro — x da mer-
cadori a A = y da mercadori a monetári a — é sua forma de di nhei ro ou
seu preço. Uma equação i sol ada, como 1 tonel ada de ferro = 2 onças
de ouro, basta agora para representar o val or do ferro de uma manei ra
soci al mente vál i da. A equação já não tem de marchar em fi l a e col una
com as equações de val or das outras mercadori as, porque a mercadori a
equi val ente, o ouro, já possui o caráter de di nhei ro. A forma val or
rel ati va geral das mercadori as tem assi m de novo a fi gura de sua
forma val or rel ati va ori gi nal , si mpl es ou si ngul ar. Por outro l ado, a
expressão rel ati va de val or desdobrada ou a i nfi ni ta séri e de expressões
rel ati vas de val or torna-se a forma de val or especi fi camente rel ati va
da mercadori a di nhei ro. Mas essa séri e agora já está dada soci al mente
nos preços das mercadori as. Basta l er, ao revés, as cotações de uma
l i sta de preços, para encontrar a grandeza de val or do di nhei ro, re-
presentada em todas as mercadori as possí vei s. Di nhei ro, por sua vez,
não tem preço. Para parti ci par dessa forma rel ati va uni tári a das outras
mercadori as, teri a de ser rel aci onado a si mesmo, como seu própri o
equi val ente.
O preço ou a forma monetári a das mercadori as, como sua forma
val or em geral , é di sti nta de sua forma corpórea real e tangí vel , uma
forma somente i deal ou i magi nári a. O val or de ferro, l i nho, tri go etc.,
embora i nvi sí vel , exi ste nessas coi sas mesmas; el e é i magi nado por
sua i gual dade com ouro, uma rel ação com o ouro que, por assi m di zer,
só assombra suas cabeças. O guardi ão das mercadori as tem, por i sso,
de meter sua l í ngua na cabeça del as ou pendurar nel as pedaços de
papel para comuni car seus preços ao mundo exteri or.
142
Como a ex-
pressão dos val ores das mercadori as em ouro é i deal , apl i ca-se nessa
operação também somente ouro i deal ou i magi nári o. Cada guardi ão
de mercadori as sabe que ai nda está l onge de dourar suas mercadori as,
quando dá a seu val or a forma de preço ou forma ouro i magi nári a e
que el e não preci sa de nenhuma mi gal ha de ouro real para aval i ar,
em ouro, mi l hões de val ores mercanti s. Em sua função de medi da de
OS ECONOMISTAS
220
142 O sel vagem ou semi -sel vagem usa a l í ngua de outro modo. O Capi tão Parry observa, por
exempl o, nos habi tantes da costa oci dental da baí a de Baffi n: “Nesse caso” (ao i ntercambi ar
produtos) “(...) el es o l ambi am” (o que l hes foi ofereci do) “duas vezes com a l í ngua, com o
que pareci am consi derar o negóci o concl uí do sati sfatori amente”.
*
Do mesmo modo, entre
os esqui mós ori entai s, o permutante l ambi a o arti go ao recebê-l o. Se a l í ngua no norte,
portanto, serve de órgão de apropri ação, não é de admi rar que no sul a barri ga funci ona
como órgão de propri edade acumul ada e que o cafre cal cul e a ri queza de um homem
segundo a sua pança. Os cafres são ti pos mui to espertos, poi s enquanto o rel atóri o ofi ci al
i ngl ês sobre a saúde, de 1864, depl ora a fal ta de substânci as formadoras de gorduras em
grande parte da cl asse trabal hadora, um certo dr. Harvey, não o que descobri u a ci rcul ação
do sangue, no mesmo ano fez a sua fortuna por mei o de recei tas charl atanescas que pro-
meti am l i vrar a burguesi a e a ari stocraci a da carga de gordura excessi va.
*
PARRY, W. E. J ournal of a Voyage for the Discovery of a North-West Passage from the
Atlantic to the Pacific; Performed in the Years 1819-1820, in His Majesty’s Ships Hecla
and Griper, under the Orders of William Edward Parry. 2ª ed. Londres, 1821. p. 277-278.
(N. da Ed. Al emã.)
val or, o di nhei ro serve, portanto, como di nhei ro apenas i magi nári o ou
i deal . Essa ci rcunstânci a deu ori gem às mai s absurdas teori as.
143
Em-
bora apenas di nhei ro i magi nári o si rva para a função de medi da do
val or, o preço depende total mente do materi al monetári o real . O val or,
i sto é, o quantum de trabal ho humano conti do, por exempl o, numa
tonel ada de ferro, é expresso num quantum i magi nári o da mercadori a
monetári a, que contém a mesma quanti dade de trabal ho. Por i sso,
conforme ouro, prata ou cobre si rvam de medi da do val or, o val or da
tonel ada de ferro recebe expressões de preço i ntei ramente di ferentes ou
é apresentado em quanti dades de ouro, prata ou cobre total mente di versas.
Se, por i sso, duas mercadori as di ferentes, por exempl o ouro e prata,
servem, ao mesmo tempo, de medi das de val or, então todas as mercadori as
possuem duas expressões di ferentes de preços, o preço em ouro e o preço
em prata, que correm tranqüi l amente um ao l ado do outro, enquanto a
rel ação de val or entre ouro e prata fi car i nal terada, por exempl o 1: 15.
Mas cada al teração dessa rel ação de val ores perturba a rel ação entre os
preços em ouro e os preços em prata das mercadori as, provando assi m,
de fato, que a dupl i cação da medi da de val or contradi z sua função.
144
Todas as mercadori as com preços determi nados apresentam-se
sob a forma: a mercadori a A = x ouro, b mercadori a b = z ouro, c
mercadori a C = y ouro etc., em que a, b, c representam certas quan-
ti dades das espéci es de mercadori as A, B, C, e x, y, z certas quanti dades
de ouro. Os val ores das mercadori as são assi m transformados em quan-
ti dades i magi nári as de ouro de tamanhos di ferentes, portanto, apesar
MARX
221
143 Ver MARX, Karl . Zur Kritik etc., “Theori en von der Massei nhei t des Gel des”, p. 53 et seqs.
144 Nota à 2ª edi ção. “Onde o ouro e a prata permanecem l egal mente um ao l ado do outro,
como di nhei ro, i sto é, como medi da de val or, sempre tentou-se, em vão, tratá-l os como uma
úni ca e mesma matéri a. Se foi admi ti do que o mesmo tempo de trabal ho tem que, i muta-
vel mente, objeti var-se na mesma proporção de prata e de ouro, admi te-se de fato que prata
e ouro são a mesma matéri a e que determi nada quanti dade do metal menos val i oso, da
prata, forma uma fração i mutável de determi nada massa de ouro. Do governo de Eduardo
I I I até o tempo de George I I , a hi stóri a do si stema monetári o i ngl ês decorre numa séri e
progressi va de perturbações resul tante da col i são entre a fi xação l egal da rel ação de val or
entre ouro e prata e suas reai s osci l ações de val or. Ora era o ouro aval i ado em demasi a,
ora era a prata. O metal subaval i ado era reti rado de ci rcul ação, fundi do e exportado. A
rel ação de val or de ambos os metai s era então l egal mente al terada, mas o novo val or
nomi nal entrava l ogo no mesmo confl i to com a rel ação de val or real , como o anti go. — Em
nossa própri a época, a queda mui to fraca e passagei ra no val or do ouro em rel ação à prata,
em conseqüênci a da demanda de prata na Í ndi a e na Chi na, produzi u o mesmo fenômeno
na mai or escal a, na França: exportação da prata e sua expul são da ci rcul ação pel o ouro.
Durante os anos de 1855, 1856 e 1857, o excedente de i mportação de ouro pel a França
sobre a exportação de ouro pel a França montou a 41,58 mi l hões de l i bras esterl i nas, enquanto
o excedente de exportação de prata sobre a i mportação de prata foi de 34,704 mi l hões de
l i bras esterl i nas. De fato, nos paí ses onde os doi s metai s são as medi das l egai s de val or,
portanto, onde ambos têm que ser acei tos em pagamento, mas qual quer um pode pagar à
vontade em ouro e prata, o metal com val or em al ta porta um ági o e mede como qual quer
outra mercadori a seu preço no metal superaval i ado, enquanto o úl ti mo é o úni co que serve
de medi da de val or. Toda a experi ênci a hi stóri ca nessa área se reduz si mpl esmente a que,
onde duas mercadori as estão l egal mente provi das com a função de medi da de val or, só
uma del as se i mpõe como tal .” (MARX, Karl . Op. cit., p. 52-53.)
da confusa vari edade dos corpos das mercadori as, em grandezas de
mesma denomi nação, grandezas de ouro. Como tai s quanti dades de
ouro, el as se comparam e medem entre si e se desenvol ve tecni camente
a necessi dade de rel aci oná-l as a um quantum fi xado de ouro como sua
uni dade de medi da. Essa mesma uni dade de medi da, por mei o de pos-
teri or di vi são em partes al í quotas, é transformada em padrão de me-
di da. Antes de se tornarem di nhei ro, o ouro, a prata e o cobre já pos-
suí am tai s padrões de medi da em seus pesos metál i cos, de modo que,
por exempl o, uma l i bra serve de uni dade de medi da, subdi vi di ndo-a,
por um l ado, outra vez em onças etc., e somando-a, por outro l ado, em
qui ntai s etc.
145
Assi m, em toda ci rcul ação metál i ca, as denomi nações
preexi stentes do padrão de peso formam também as denomi nações ori -
gi nai s do padrão monetári o ou padrão de medi da dos preços.
Como medi da dos val ores e como padrão dos preços, o di nhei ro
exerce duas funções i ntei ramente di ferentes. É medi da dos val ores por
ser a encarnação soci al do trabal ho humano, padrão dos preços por
ser um peso fi xado de metal . Como medi da de val or, serve para trans-
formar os val ores das mai s vari adas mercadori as em preços, em quan-
ti dades i magi nári as de ouro; como padrão dos preços, mede essas quan-
ti dades de ouro. Na medi da dos val ores, as mercadori as se medem
como val ores; o padrão dos preços, ao contrári o, mede as quanti dades
de ouro em um quantum de ouro, e não o val or de um quantum de
ouro no peso do outro. Para o padrão dos preços, determi nado peso de
ouro tem de ser fi xado como uni dade de medi da. Aqui , como em todas
as outras determinações de medi da de grandeza de mesma denomi nação,
a estabi l i dade das rel ações de medi da torna-se deci si va. Por i sso, o padrão
de preços cumpre sua função tanto mel hor quanto mai s i nvari avel mente
um mesmo quantum de ouro si rva de uni dade de medi da. Como medi da
de val ores o ouro somente pode servi r porque el e mesmo é produto de
trabalho, sendo, portanto, um valor potencialmente vari ável .
146
É cl aro, agora, que uma mudança de val or do ouro não prejudi ca,
de modo al gum, sua função como padrão de preços. Por mai s que vari e
o val or do ouro, di ferentes quanti dades de ouro mantêm entre si sempre
a mesma rel ação de val or. Cai a de 1 000% o val or do ouro, depoi s
como antes, 12 onças de ouro terão 12 vezes o val or de 1 onça de ouro
e no que se refere aos preços trata-se apenas das rel ações de vári as
OS ECONOMISTAS
222
145 Nota à 2ª edi ção. A si ngul ari dade de, na I ngl aterra, a onça de ouro como uni dade do padrão
monetári o não estar di vi di da em partes al í quotas expl i ca-se do segui nte modo: “Nosso
si stema monetári o ori gi nari amente estava adaptado apenas à uti l i zação de prata — por-
tanto, 1 onça de prata pode sempre ser di vi di da em determi nado número al í quoto de peças
monetári as; vi sto, porém, que o ouro somente foi i ntroduzi do numa época posteri or num
si stema de moedas que estava adaptado apenas à prata, 1 onça de ouro não poderi a ser
cunhada num número al í quoto de moedas”. (MACLAREN. History of the Currency. Londres,
1858, p. 16.)
146 Nota à 2ª edi ção. Nos escri tos i ngl eses é i ndi zí vel a confusão sobre medi da dos val ores
(measure of values) e padrão dos preços (standard of value). As funções e, portanto, seus
nomes são constantemente trocados.
quanti dades de ouro entre si . Como, por outro l ado, 1 onça de ouro
não muda de nenhuma forma seu peso com a queda ou subi da de seu
val or, tampouco muda o peso de suas partes al í quotas, e assi m o ouro,
como padrão fi xo dos preços, presta sempre o mesmo servi ço, qual quer
que seja a mudança do seu val or.
A mudança de val or do ouro também não i mpede sua função de
medi da de val or. El a ati nge si mul taneamente todas as mercadori as,
dei xando assi m, coeteris paribus, i nal terados seus val ores recí procos
rel ati vos, embora el es todos se expressem agora em preços de ouro
mai s al tos ou mai s bai xos do que antes.
Como na representação do val or de uma mercadori a no val or de
uso de qual quer outra, também na aval i ação das mercadori as em ouro
somente se pressupõe que, na época dada, a produção de determi nado
quantum de ouro custa dado quantum de trabal ho. Com rel ação ao
movi mento dos preços das mercadori as em geral , val em as l ei s ante-
ri ormente desenvol vi das da expressão rel ati va si mpl es de val or.
Os preços das mercadori as só podem subi r general i zadamente, per-
manecendo i gual o val or do di nhei ro, se os val ores das mercadori as sobem;
permanecendo i guai s os val ores das mercadori as, se cai o val or do di nhei ro.
E vi ce-versa. Os preços das mercadori as só podem cai r general i zadamente,
permanecendo i gual o val or do di nhei ro, se caem os val ores das merca-
dori as; permanecendo i guai s os val ores das mercadori as, se sobe o val or
do di nhei ro. Não segue daí , de modo al gum, que uma subi da do val or do
di nhei ro acarreta uma queda proporci onal dos preços das mercadori as, e
uma queda do val or do di nhei ro uma subi da proporci onal dos preços das
mercadori as. I sso somente val e para mercadori as de val or i nal terado. Mer-
cadori as, por exempl o, cujo val or sobe proporci onal e si mul taneamente
com o val or do di nhei ro mantêm os mesmos preços. Se seu val or sobe
mai s l enta ou mai s rapi damente que o val or do di nhei ro, a queda ou a
subi da de seus preços será determinada pela di ferença entre o movi mento
do val or del as e o do di nhei ro etc.
Vol temos agora à observação da forma preço.
As denomi nações monetári as dos pesos metál i cos se desl i gam,
pouco a pouco, de suas denomi nações ori gi nai s de peso por di ferentes
moti vos, sendo os segui ntes os hi stori camente deci si vos: 1) I ntrodução
de di nhei ro estrangei ro em paí ses menos desenvol vi dos; na Roma An-
ti ga, por exempl o, ci rcul avam, i ni ci al mente, moedas de prata e de ouro,
como mercadori as estrangei ras. As denomi nações desse di nhei ro es-
trangei ro são di ferentes das denomi nações de peso do paí s. 2) Com o
desenvol vi mento da ri queza, o metal menos nobre é desl ocado da função
de medi da de val or pel o mai s nobre. O cobre pel a prata, a prata pel o
ouro, por mai s que essa seqüênci a contradi ga
147
a cronol ogi a poéti ca.
148
MARX
223
147 De resto, el a também não possui val i dade hi stóri ca uni versal .
148 Cronol ogi a poéti ca. Na mi tol ogi a anti ga a hi stóri a da humani dade era di vi di da em ci nco
perí odos. Na i dade do ouro, os homens vi vi am mai s fel i zes e sem preocupações; a terra era
Li bra, por exempl o, era então a denomi nação monetári a de uma ver-
dadei ra l i bra de prata. Tão l ogo o ouro desl oca a prata da função de
medi da de val or, o mesmo nome associ a-se tal vez a 1/15 etc. de 1 l i bra
de ouro, conforme a rel ação de val or entre o ouro e a prata. Li bra
como denomi nação monetári a, e l i bra, como denomi nação ordi nári a de
peso do ouro, são agora separadas.
149
3) A fal si fi cação de di nhei ro,
conti nuada durante sécul os pel os prí nci pes, que do peso ori gi nal das
moedas dei xou, de fato, apenas o nome.
150
Esses processos hi stóri cos convertem em costume popul ar a se-
paração da denomi nação monetári a dos pesos metál i cos de sua deno-
mi nação corrente de peso. Como padrão monetári o é, por um l ado,
puramente convenci onal e como necessi ta, por outro l ado, de val i dade
geral , el e acaba sendo regul ado por l ei . Determi nado peso do metal
nobre, por exempl o, 1 onça de ouro, é ofi ci al mente di vi di do em partes
al í quotas, que recebem nomes de bati smo l egai s como l i bra, tál er etc.
Tal parte al í quota, que funci ona agora como a verdadei ra uni dade de
medi da do di nhei ro, é di vi di da em outras partes al í quotas com nomes
de bati smo l egai s, como xel i m, pêni etc.
151
Agora como antes, deter-
mi nados pesos metál i cos permanecem como padrão do di nhei ro metá-
l i co. O que mudou foi a di vi são e a denomi nação.
Os preços, ou as quanti dades de ouro, em que se transformam
i deal mente os val ores reai s das mercadori as, são expressos agora nas
denomi nações monetári as ou nas denomi nações de conta do padrão
ouro l egal mente vál i dos. Portanto, em l ugar de di zer que o quarter de
tri go é i gual a 1 onça de ouro, di rí amos, na I ngl aterra, que é i gual a
3 l i bras esterl i nas, 17 xel i ns e 10 1/2 pence. As mercadori as comuni -
cam-se mutuamente, assi m, em suas denomi nações monetári as, quanto
val em e o di nhei ro serve de di nhei ro de conta sempre que se trata de
fi xar uma coi sa como val or e, portanto, em forma di nhei ro.
152
OS ECONOMISTAS
224
propri edade comum e produzi a tudo o que era necessári o à vi da. A esse estado perfei to
segui u, porém, uma pi ora gradual do mundo, representada como i dade da prata, i dade do
bronze, i dade dos herói s e i dade do ferro. Esta úl ti ma época era caracteri zada por trabal ho
penoso e sol o i nfecundo; a vi da era chei a de i njusti ça, vi ol ênci a e homi cí di o. — A l enda
das ci nco i dades é retomada novamente nas obras do épi co grego Hesí odo e, posteri ormente,
nas do poeta l í ri co romano Oví di o. (N. da Ed. Al emã.)
149 Nota à 2ª edi ção. Assi m, a l i bra i ngl esa si gni fi ca menos de 1/3 de seu peso ori gi nal , a l i bra
escocesa antes da Uni on
*
apenas 1/36, a l i bra francesa 1/74, o maravedi espanhol menos
de 1/1 000, o real português uma proporção ai nda mui to menor.
*
A uni ão entre I ngl aterra e Escóci a, que se deu em 1707, l i gou a Escóci a defi ni ti vamente
à I ngl aterra. O Parl amento escocês foi di ssol vi do e todas as barrei ras econômi cas entre os
doi s paí ses removi das. (N. da Ed. Al emã.)
150 Nota à 2ª edi ção. As moedas cujas denomi nações hoje são apenas i deai s, são em todas as
nações as mai s anti gas; outrora foram todas reai s, e justamente porque foram reai s, cal -
cul ava-se com el as." (GALI ANI . Della Moneta. Op. cit., p. 153.)
151 Nota à 2ª edi ção. O sr. Davi d Urquhart observa, em suas Familiar Words, sobre a mons-
truosi dade (!) de que hoje em di a 1 l i bra (£ St.), a uni dade do padrão monetári o i ngl ês, é
aproxi madamente i gual a 1/4 de onça de ouro: “I sso é fal si fi cação de uma medi da e não
fi xação de um padrão”. [p. 105.] El e vê nessa “fal sa denomi nação” do peso do ouro, como
em tudo mai s, a mão fal si fi cadora da ci vi l i zação.
152 Nota à 2ª edi ção. Quando se perguntou a Anacharsi s para que os hel enos preci savam de
A denomi nação de uma coi sa é total mente extrí nseca à sua na-
tureza. Eu não sei nada sobre um homem sabendo que o seu nome é
Jacobus. Do mesmo modo desaparece nos nomes monetári os l i bra, tál er,
franco, ducado etc. qual quer vestí gi o da rel ação de val or. A confusão
sobre o senti do secreto desses si gnos cabal í sti cos é tanto mai or na
medi da em que as denomi nações monetári as expressam ao mesmo tem-
po o val or das mercadori as e partes al í quotas de um peso metál i co,
do padrão monetári o.
153
Por outro l ado, é necessári o que o val or, em
contraste com os col ori dos corpos do mundo das mercadori as, evol ua
para essa forma rei fi cada sem senti do própri o, mas também si mpl es-
mente soci al .
154
O preço é a denomi nação monetári a do trabal ho objeti vado na
mercadori a. Por i sso, a equi val ênci a da mercadori a e do quantum de
di nhei ro, cuja denomi nação é o preço del a, é uma tautol ogi a,
155
como
a expressão rel ati va de val or de uma mercadori a por si é sempre a
expressão da equi val ênci a de duas mercadori as. Mas se o preço como
expoente da grandeza de val or da mercadori a é expoente de sua rel ação
de troca com di nhei ro, não se segue, ao contrári o, que o expoente de
sua rel ação de troca com di nhei ro seja necessari amente o expoente de
sua grandeza de val or. Suponhamos que o trabal ho soci al mente ne-
cessári o de i gual grandeza represente-se em 1 quarter de tri go e em
2 l i bras esterl i nas (cerca de 1/2 onça de ouro). As 2 l i bras esterl i nas
são a expressão monetári a da grandeza de val or do quarter de tri go
ou seu preço. Se as ci rcunstânci as permi ti rem sua cotação a 3 l i bras
esterl i nas ou forçarem sua cotação a 1 l i bra esterl i na, então como ex-
MARX
225
di nhei ro, respondeu el e: para fazer contas." (ATHEN[AEUS]. Deipn. Li vro Quarto, 49, v.
2, p. 120, ed. Schwei ghaeuser, 1802.)
153 Nota à 2ª edi ção. “Como o ouro, como padrão dos preços, aparece com denomi nações de
conta i guai s às dos preços das mercadori as, de forma que, por exempl o, 1 onça de ouro
tanto quanto o val or de 1 tonel ada de ferro é expressa em 3 l i bras esterl i nas, 17 xel i ns e
10 1/2 pence, essas suas denomi nações de conta foram desi gnadas como o seu preço mo-
netári o. Surgi u, por i sso, essa estranha concepção de que o ouro (respecti vamente a prata)
seri a aval i ado em seu própri o materi al e, em contraste com todas as outras mercadori as,
receberia do Estado um preço fi xo. Confundi u-se a fi xação dessas denomi nações de conta de
determi nados pesos de ouro com a fi xação do val or desses pesos.” (MARX, Karl. Op. cit., p. 52.)
154 Ver “Teori as da Uni dade de Medi da do Di nhei ro”. I n: Zur Kritik der Pol. Oekon. etc. p. 53
et seqs. As fantasi as sobre o aumento ou a di mi nui ção do “preço da moeda”, que consi stem
em que as denomi nações monetári as l egai s de pesos l egal mente fi xados de ouro ou prata
sejam transferi das, por parte do Estado, para pesos mai ores ou menores, e assi m passar
a cunhar 1/4 de onça de ouro, em 40 xel i ns em vez de em 20 — essas fantasi as, na medi da
em que não objeti vem operações fi nancei ras i nábei s contra credores públ i cos ou pri vados,
mas si m “curas mi l agrosas” econômi cas, já foram tratadas tão exausti vamente por Petty
em Quantulumcumque Concerning Money. To the Lorde Marquis of Halifax, 1682, que seus
sucessores i medi atos, Si r Dudl ey North e John Locke, para não fal ar nos posteri ores, pu-
deram apenas vul gari zá-l o. “Se a ri queza de uma nação”, di z el e, entre outras coi sas, “pudesse
ser decupl i cada por mei o de um decreto, seri a de estranhar que nossos governos não ti vessem
já há mui to tempo promul gado tai s decretos.” (Op. cit., p. 36.)
155 "Ou então deve-se reconhecer que 1 mi l hão em di nhei ro tem mai s val or que i gual val or
em mercadori as" (LETROSNE, Op. cit., p. 919), portanto, “que um val or val e mai s que
outro val or i gual .”
pressão da grandeza de val or do tri go 1 l i bra esterl i na e 3 l i bras es-
terl i nas são ou pequenas ou grandes demai s, mas mesmo assi m el as
são preços do mesmo, poi s são, pri mei ro, sua forma val or, di nhei ro, e
segundo, expoentes de sua rel ação de troca com di nhei ro. Com condi ções
de produção constantes ou força produti va do trabal ho constante, deve-
se despender para a reprodução de 1 quarter de tri go, tanto antes
como depoi s, a mesma quanti dade de tempo soci al de trabal ho. Essa
ci rcunstânci a não depende da vontade do produtor do tri go nem da de
outros possui dores de mercadori as. A grandeza de val or da mercadori a
expressa, assi m, uma rel ação necessári a i manente a seu processo de
formação com o tempo de trabal ho soci al . Com a transformação da
grandeza de val or em preço, essa rel ação necessári a aparece como re-
l ação de troca de uma mercadori a com a mercadori a monetári a, que
exi ste fora del a. Mas nessa rel ação pode expressar-se tanto a grandeza
de val or da mercadori a como o mai s ou o menos em que, sob dadas
ci rcunstânci as, el a é al i enável . A possi bi l i dade de uma i ncongruênci a
quanti tati va entre o preço e a grandeza de val or ou da di vergênci a
entre o preço e a grandeza de val or é, portanto, i nerente à própri a
forma preço. I sso não é um defeito dessa forma, mas torna-a, ao contrári o,
a forma adequada a um modo de produção em que a regra somente pode
i mpor-se como l ei cega da médi a à fal ta de qual quer regra.
A forma preço, porém, não só admi te a possi bi l i dade de i ncon-
gruênci a quanti tati va entre grandeza de val or e preço, i sto é, entre a
grandeza de val or e sua própri a expressão monetári a, mas pode en-
cerrar uma contradi ção qual i tati va, de modo que o preço dei xa de todo
de ser expressão de val or, embora di nhei ro seja apenas a forma val or
das mercadori as. Coi sas que, em si e para si , não são mercadori as,
como por exempl o consci ênci a, honra etc., podem ser postas à venda
por di nhei ro pel os seus possui dores e assi m receber, por mei o de seu
preço, a forma mercadori a. Por i sso, uma coi sa pode, formal mente, ter
um preço, sem ter um val or. A expressão de preço torna-se aqui i ma-
gi nári a, como certas grandezas da Matemáti ca. Por outro l ado, a forma
i magi nári a de preço, como, por exempl o, o preço da terra não cul ti vada,
que não tem val or, poi s nel a não está objeti vado trabal ho humano,
pode encerrar uma rel ação real de val or ou uma rel ação deri vada del a.
Como a forma rel ati va de val or em geral , o preço expressa o
val or de uma mercadori a, por exempl o, de 1 tonel ada de ferro, pel o
fato de que certo quantum do equi val ente, por exempl o, 1 onça de
ouro, seja di retamente trocável por ferro, mas de modo al gum o con-
trári o, que o ferro, por sua parte, seja di retamente trocável por ouro.
Portanto, para exercer prati camente a ação de val or de troca, a mer-
cadori a tem de desfazer-se de seu corpo natural , transformar-se de
ouro i magi nári o em ouro real , ai nda que essa transubstanci ação l he
seja mai s “árdua” do que ao “concei to” hegel i ano a transi ção da ne-
cessi dade para a l i berdade, ou a uma l agosta o romper de sua casca,
OS ECONOMISTAS
226
ou ao Padre da I greja, São Jerôni mo, o despojar-se do vel ho Adão.
156
Al ém de sua forma real , por exempl o, ferro, a mercadori a pode possui r,
no preço, forma i deal de val or ou forma i magi nári a de ouro, mas el a
não pode ser, ao mesmo tempo, real mente ferro e real mente ouro. Para
dar-l he um preço, basta equi pará-l a a ouro i magi nári o. A fi m de prestar
a seu possui dor o servi ço de equi val ente geral , el a tem de ser substi tuí da
por ouro. Se o possui dor do ferro confrontar-se com o possui dor de
uma mercadori a mundana e o remeter ao preço do ferro, como forma
de di nhei ro, o mundano responderi a como no céu, São Pedro ao Dante,
que l he reci ta a fórmul a da fé:
157
“Assai bene è trascorsa
D’esta moneta gi à l a l ega e’l peso,
Ma di mmi se tu l ’hai nel l a tua borsa.”
158
A forma preço i mpl i ca a al i enabi l i dade das mercadori as contra
di nhei ro e a necessi dade dessa al i enação. Por outro l ado, ouro funci ona
somente como medi da i deal de val or, porque já está ci rcul ando no
processo de troca, como mercadori a monetári a. Na medi da i deal dos
val ores esprei ta, por i sso, o di nhei ro sonante.
2. Meio de circulação
a) A metamorfose das mercadori as
Vi u-se que o processo de troca das mercadori as encerra rel ações
contradi tóri as e mutuamente excl usi vas. O desenvol vi mento da mer-
cadori a não supri me essas contradi ções, mas gera a forma dentro da
qual el as podem mover-se. Esse é, em geral , o método com o qual
contradi ções reai s se resol vem. É uma contradi ção, por exempl o, que
um corpo cai a constantemente em outro e, com a mesma constânci a,
fuja del e. A el i pse é uma das formas de movi mento em que essa con-
tradi ção tanto se real i za como se resol ve.
Na medi da em que o processo de troca transfi ra mercadori as da
mão em que el as são não-val ores de uso para a mão em que el as são
val ores de uso, el e é metabol i smo soci al . O produto de uma modal i dade
úti l de trabal ho substi tui o da outra. Uma vez tendo al cançado o l ugar
MARX
227
156 Se São Jerôni mo, em sua juventude, teve de l utar mui to contra a carne materi al , como o
demonstra sua l uta no deserto com as i magens de l i ndas mul heres, assi m, na vel hi ce, com
a carne espi ri tual . “Eu acredi tei ”, di z el e, “estar em espí ri to di ante do jui z do mundo.”
“Quem és tu?”, perguntou uma voz. “Eu sou um cri stão.” “Tu mentes”, trovejou o jui z do
mundo. “Tu és apenas um ci ceroni ano.”
*
*
Marx ci ta aqui São Jerôni mo, “Epí stol a a Eustóqui o — sobre a conservação da vi rgi ndade”.
(N. da Ed. Al emã.)
157 DANTE. A Divina Comédia. “O Paraí so”. Canto XXI V. (N. da Ed. Al emã.)
158 "Cui dadosamente exami nados
Já estão a l ei e o peso dessa moeda.
Mas, di ze-me, tens del a em tua bol sa?" (N. dos T.)
em que serve de val or de uso, a mercadori a cai da esfera de i ntercâmbi o
das mercadori as na esfera do consumo. Apenas a pri mei ra é que nos
i nteressa aqui . Temos, por i sso, de observar o processo i ntei ro segundo
o aspecto formal , portanto somente a mudança de forma ou a meta-
morfose das mercadori as, a qual medi a o metabol i smo soci al .
A i nterpretação i ntei ramente defei tuosa dessa mudança de forma,
dei xando de l ado a fal ta de cl areza sobre o própri o concei to do val or,
é devi da à ci rcunstânci a de que cada mudança de forma de uma mer-
cadori a real i za-se na troca de duas mercadori as, uma mercadori a co-
mum e a mercadori a monetári a. Atendo-se somente a esse momento
materi al , o i ntercâmbi o de mercadori a por ouro, dei xa-se de ver o que
deve ser vi sto, i sto é, o que ocorre com a forma. Não se percebe que
o ouro, como si mpl es mercadori a, não é di nhei ro e que as outras mer-
cadori as em seus preços se rel aci onam a si mesmas com ouro, como
sua própri a fi gura monetári a.
A pri ncí pi o, as mercadori as entram no processo de i ntercâmbi o
sem serem douradas, nem açucaradas, da forma que chegam ao mundo.
Esse processo produz uma dupl i cação da mercadori a em mercadori a e
di nhei ro, uma antí tese externa, dentro da qual el as representam sua
antí tese i manente entre val or de uso e val or. Nessa antí tese, as mer-
cadori as confrontam-se, como val ores de uso, com o di nhei ro, como
val or de troca. Por outro l ado, ambos os l ados da antí tese são merca-
dori as, portanto, uni dades de val or de uso e val or. Mas essa uni dade
de di ferenças se representa i nversamente em cada um dos doi s pól os,
e por i sso representa, ao mesmo tempo, a correl ação entre el es. A
mercadori a é real mente val or de uso, a sua exi stênci a como val or apa-
rece apenas i deal mente no preço, que a rel aci ona com o ouro, si tuado
no outro pól o, como sua fi gura real de val or. Ao contrári o, o materi al
ouro somente funci ona como materi al i zação do val or, di nhei ro. Por i sso,
é real mente val or de troca. Seu val or de uso se apresenta apenas i deal -
mente na séri e das expressões rel ati vas de val or em que se rel aci ona
com as mercadori as si tuadas de outro l ado, como o cí rcul o de suas
fi guras de uso reai s. Essas formas anti téti cas das mercadori as são os
movi mentos reai s de seu processo de i ntercâmbi o.
Acompanhemos agora um possui dor qual quer de mercadori as,
por exempl o, nosso vel ho conheci do tecel ão de l i nho, à cena do processo
de i ntercâmbi o, ao mercado. Sua mercadori a, 20 varas de l i nho, tem
preço determi nado. Seu preço é 2 l i bras esterl i nas. El e a troca por 2
l i bras esterl i nas e, homem de vel ha cepa, troca as 2 l i bras esterl i nas,
por sua vez, por uma Bí bl i a fami l i ar do mesmo preço. O l i nho, para
el e apenas mercadori a, portador de val or, é al i enado por ouro, sua
fi gura de val or; e dessa fi gura vol ta a ser al i enado por outra mercadori a,
a Bí bl i a, que, porém, como objeto de uso, deve i r para a casa do tecel ão
e l á sati sfazer às necessi dades de edi fi cação. O processo de i ntercâmbi o
da mercadori a opera-se, portanto, por mei o de duas metamorfoses opos-
OS ECONOMISTAS
228
tas e reci procamente compl ementares — transformação da mercadori a
em di nhei ro e sua retransformação de di nhei ro em mercadori a.
159
Os
momentos da metamorfose da mercadori a são, ao mesmo tempo, tran-
sações do possui dor de mercadori a — venda, i ntercâmbi o da mercadori a
por di nhei ro; compra, i ntercâmbi o do di nhei ro por mercadori a e uni dade
de ambos os atos: vender, para comprar.
Contempl ando agora o resul tado fi nal da transação, o tecel ão de
l i nho possui uma Bí bl i a, em vez de l i nho, em vez de sua mercadori a
ori gi nal outra do mesmo val or, mas de uti l i dade di ferente. Do mesmo
modo, el e se apropri a de seus outros mei os de subsi stênci a e de pro-
dução. De seu ponto de vi sta, todo o processo somente medi a a troca
de seu produto de trabal ho por produto do trabal ho al hei o, o i ntercâmbi o
de produtos.
O processo de i ntercâmbi o da mercadori a se compl eta, portanto,
na segui nte mudança de forma:
Mercadori a — Di nhei ro — Mercadori a
M — D — M
Segundo seu conteúdo materi al , o movi mento é M — M, troca
de mercadori a por mercadori a, metabol i smo do trabal ho soci al , em cujo
resul tado o própri o processo se exti ngue.
M — D. Pri mei ra metamorfose da mercadori a ou venda. O sal to
do val or da mercadori a, do corpo da mercadori a para o corpo do ouro,
é, como o desi gnei em outro l ugar, o sal to mortal da mercadori a. Caso
el e fal he, não é a mercadori a que é depenada, mas si m o possui dor
del a. A di vi são soci al do trabal ho torna tão uni l ateral seu trabal ho
quanto mul ti l aterai s suas necessi dades. Por i sso mesmo, seu produto
serve-l he apenas de val or de troca. Mas el e somente obtém a forma
equi val ente geral , soci al mente vál i da, como di nhei ro e o di nhei ro en-
contra-se em bol so al hei o. Para ti rá-l o de l á, a mercadori a tem de ser,
sobretudo, val or de uso para o possui dor do di nhei ro, que o trabal ho
despendi do nel a, portanto, tenha si do despendi do em forma soci al mente
úti l ou que se confi rme como el o da di vi são soci al do trabal ho. Mas a
di vi são do trabal ho é um organi smo de produção que se desenvol veu
natural mente e cujos fi os se teceram e conti nuam a tecer-se às costas
dos produtores de mercadori as. Tal vez a mercadori a seja produto de
uma nova modal i dade de trabal ho, que pretende sati sfazer a uma ne-
cessi dade recentemente surgi da ou que pretende ai nda provocar por
i ni ci ati va própri a uma necessi dade. Função que era ai nda ontem uma
entre as mui tas funções do mesmo produtor de mercadori as, uma ope-
ração parti cul ar se desprende hoje desse conjunto, torna-se autônoma
MARX
229
159 "Do (...) fogo, entretanto, provém tudo, di sse Herácl i to, e de tudo, fogo, como do ouro, os
bens e dos bens, ouro." (LASSALLE, F. Die Philosophie Herakleitos des Dunklen. Berl i m,
1858. Li vro Pri mei ro. p. 222.) Nota de Lassal l e a essa passagem, p. 224, nº 3, decl ara o
di nhei ro, i ncorretamente, como mero si gno de val or.
e, por i sso, envi a seu produto parci al como mercadori a i ndependente
ao mercado. As ci rcunstânci as podem estar maduras ou i maturas para
esse processo de separação. O produto sati sfaz hoje a uma necessi dade
soci al . Amanhã será, tal vez, desl ocado parci al ou total mente, de seu
l ugar, por uma espéci e semel hante de produto. Mesmo que o trabal ho,
como o de nosso tecel ão de l i nho, seja um el o patenteado da di vi são
soci al de trabal ho, não está com i sso garanti do, de modo al gum, o
val or de uso preci samente de suas 20 varas de l i nho. Se a necessi dade
soci al de l i nho, e el a tem sua medi da como tudo mai s, esti ver saturada
por tecel ões ri vai s, o produto de nosso ami go torna-se excedente, su-
pérfl uo e com i sso i núti l . A caval o dado não se ol ha o dente, mas el e
não vai ao mercado para di stri bui r presentes. Suponhamos, porém,
que o val or de uso de seu produto se confi rme e o di nhei ro seja portanto
atraí do pel a mercadori a. Mas agora se pergunta: Quanto di nhei ro? A
resposta já está de certo modo anteci pada no preço da mercadori a, no
expoente de sua grandeza de val or. Dei xamos de l ado eventuai s erros
de cál cul o puramente subjeti vos do possui dor de mercadori as, que são
l ogo corri gi dos objeti vamente no mercado. Supomos que tenha despen-
di do em seu produto apenas a médi a soci al mente necessári a de tempo
de trabal ho. O preço da mercadori a é, portanto, apenas o nome mo-
netári o do quantum de trabal ho soci al objeti vado nel a. Mas, sem pedi r
l i cença e às costas de nosso tecel ão, as condi ções já há mui to estabel eci das,
de produção da tecel agem de l i nho, entraram em efervescência. O que
ontem, sem dúvi da, era tempo de trabal ho soci al mente necessári o para
a produção de 1 vara de l i nho, hoje dei xa de o ser, conforme o possui dor
de di nhei ro se empenhe em demonstrar com as cotações de preços de
di versos competi dores de nosso ami go. Para sua i nfel i ci dade, há mui tos
tecel ões no mundo. Admi tamos, fi nal mente, que cada peça de l i nho exi s-
tente no mercado contenha apenas o tempo de trabal ho soci al mente ne-
cessári o. Apesar di sso, a soma total dessas peças pode conter tempo de
trabal ho supérfl uo. Se o estômago do mercado não pode absorver o quan-
tum total de l i nho, ao preço de 2 xel i ns por vara, i sso comprova que foi
despendi da parte excessi va do tempo de trabal ho soci al total em forma
de tecel agem de l i nho. O efei to é o mesmo que se cada tecel ão i ndi vi dual
de l i nho ti vesse uti l i zado em seu produto i ndi vi dual mai s do que o tempo
de trabal ho soci al mente necessári o. Aqui val e o di tado: Presos juntos,
juntos enforcados.
160
Todo o l i nho exi stente no mercado val e como um
úni co arti go comerci al , cada peça apenas como parte al í quota. E, de fato,
o val or de cada vara i ndi vi dual é somente a materi alização do mesmo
quantum, soci al mente determi nado, de trabal ho humano homogêneo.
161
OS ECONOMISTAS
230
160 Mitgefangen, mitgehangen. Provérbi o al emão. (N. dos T.)
161 Em carta de 28 de novembro de 1878, di ri gi da a N. F. Damel son, o tradutor de O Capital
para o russo, Marx al tera o úl ti mo perí odo nos segui ntes termos: “De fato, o val or de cada
vara i ndi vi dual não é senão a materi al i zação de uma parte da quanti dade de trabal ho
soci al gasta na quanti dade total de varas”. A mesma correção também se encontra no
exempl ar pessoal de Marx, na segunda edi ção al emã do vol ume I de O Capital, mas não
anotada de própri o punho. (N. da Ed. Al emã.)
Como se vê, a mercadori a ama o di nhei ro, mas the course of true
love never does run smooth.
162
Tão natural mente al eatóri a como a quali-
tati va é a arti cul ação quanti tati va do organi smo soci al de produção, que
representa seus membra disjecta
163
no si stema da di vi são do trabal ho.
Nossos possui dores de mercadori as descobrem por i sso que a mesma di -
vi são de trabal ho, que os torna produtores pri vados i ndependentes, torna
i ndependentes del es mesmos o processo soci al de produção e suas rel ações
dentro desse processo, e que a i ndependência recí proca das pessoas se
complementa num si stema de dependênci a rei fi cada uni versal .
A di vi são do trabal ho transforma o produto do trabal ho em mer-
cadori a, tornando, com i sso, necessári a sua transformação em di nhei ro.
Ao mesmo tempo, el a torna al eatóri o o sucesso dessa transubstanci ação.
Mas temos de observar aqui o fenômeno em sua pureza, pressupondo
assi m seu transcurso normal . Quando, de resto, transcorre de todo,
não sendo, portanto, a mercadori a i nvendável , real i za-se sempre sua
mudança de forma, ai nda que nessa mudança de forma substânci a —
grandeza de val or — anormal mente possa haver prejuí zo ou acrésci mo.
A um dos possui dores de mercadori a o ouro substi tui sua mer-
cadori a e ao outro a mercadori a substi tui seu ouro. O fenômeno evi dente
é a mudança de mãos ou de l ugar de mercadori a e di nhei ro, de 20
varas de l i nho e 2 l i bras esterl i nas, i sto é, seu i ntercâmbi o. Mas por
que coi sa se troca a mercadori a? Por sua própri a fi gura geral de val or.
E por que coi sa o ouro? Por uma fi gura parti cul ar de seu val or de uso.
Por que o ouro defronta-se com o l i nho como di nhei ro? Porque o seu
preço, 2 l i bras esterl i nas ou sua denomi nação monetári a, já o refere
ao ouro como di nhei ro. A al i enação de sua forma ori gi nal de mercadori a
se real i za pel a al i enação da mercadori a, i sto é, no momento em que
seu val or de uso atrai real mente o ouro que em seu preço era apenas
i magi nári o. A real i zação do preço ou da forma val or meramente i deal
da mercadori a é, por i sso, si mul tânea e i nversamente, a real i zação do
val or de uso somente i deal do di nhei ro; a transformação de mercadori a
em di nhei ro é, ao mesmo tempo, transformação de di nhei ro em mer-
cadori a. O processo uno é processo bi l ateral , do pól o do possui dor de
mercadori as, venda, do pól o contrári o, do possui dor de di nhei ro, compra.
Ou venda é compra, M — D ao mesmo tempo D — M.
164
Não conhe-
cemos, até agora, nenhuma outra rel ação econômi ca dos homens, al ém
da de possui dores de mercadori as, uma rel ação em que el es somente
MARX
231
162 "O curso do verdadei ro amor nunca é suave." SHAKESPEARE. A Midsummer Night’s Dream.
Ato I . Cena I . (N. da Ed. Al emã.)
163 Membros di spersos. (N. dos T.)
164 "Toda venda é compra" (Dr. QUESNAY, “Di al ogues sur l e Commerce et l es Travaux des
Arti sans.” I n: Physiocrates. Ed. Dai re, I Parti e, Pari s, 1846, p. 170), ou como Quesnay, em
suas Maximes Générales, diz: “Vender é comprar”.
*
*
Esse ci tado de Quesnay encontra-se na obra de Dupont de Nemours, “Maxi mes du Docteur
Quesnay, ou résumé de ses pri nci pes d’économi e soci al e”. I n: Physiocrates (...) par Eugène
Daire. Parte Pri mei ra. Pari s, 1846. p. 392. (N. da Ed. Al emã.)
se apropri am do produto do trabal ho al hei o, al i enando o própri o. Por-
tanto, um possui dor de mercadori as apenas pode defrontar-se com o
outro, como possui dor de di nhei ro porque seu produto possui , por na-
tureza, a forma monetári a, portanto é monetári o, ouro etc., ou porque
a sua própri a mercadori a já mudou de pel e e desfez-se de sua forma
de uso ori gi nal . Para funci onar como di nhei ro, o ouro evi dentemente
tem de entrar no mercado por al gum ponto. Esse ponto se si tua em
sua fonte de produção, onde se troca como produto di reto de trabal ho
por outro produto de trabal ho do mesmo val or. Mas, a parti r desse
momento, representa constantemente preços real i zados de mercado-
ri as.
165
Exceto no momento da troca de ouro por mercadori a, em sua
fonte de produção, o ouro é na mão de cada possui dor de mercadori as
a fi gura al i enada de sua mercadori a al i enada, produto da venda ou
da pri mei ra metamorfose da mercadori a, M — D.
166
O ouro se tornou
di nhei ro i deal ou medi da de val or porque todas as mercadori as medem
nel e seus val ores e, assi m, o fazi am a contraparti da i magi nári a de sua
fi gura de uso, a sua fi gura de val or. Torna-se di nhei ro real porque as
mercadori as, pel a sua al i enação uni versal , fazem del e sua fi gura de
uso real mente al i enada ou transformada e, por i sso, sua fi gura real
de val or. Em sua fi gura de val or, a mercadori a desfaz-se de qual quer
vestí gi o de seu val or de uso natural e do trabal ho úti l parti cul ar ao
qual deve sua ori gem, para se metamorfosear na materi al i zação soci al
uni forme de trabal ho humano i ndi sti nto. Não se reconhece, portanto,
no di nhei ro, a espéci e de mercadori a nel e transformada. Em sua forma
monetári a, uma parece exatamente i gual à outra. Di nhei ro, por i sso,
pode ser l i xo, embora l i xo não seja di nhei ro. Suporemos que as duas
moedas de ouro pel as quai s o nosso tecel ão de l i nho al i ena sua mer-
cadori a sejam a fi gura transformada de 1 quarter de tri go. A venda
do l i nho, M — D, é, ao mesmo tempo, sua compra, D — M. Mas, como
venda do l i nho, i ni ci a esse processo um movi mento que termi na com
sua contraparti da, com a compra da Bí bl i a; como compra do l i nho el e
termi na um movi mento que começou com seu contrári o, com a venda
do tri go. M — D (l i nho — di nhei ro), essa pri mei ra fase de M — D —
M (l i nho — di nhei ro — Bí bl i a), é, ao mesmo tempo, D — M (di nhei ro
— l i nho), a úl ti ma fase de outro movi mento M — D — M (tri go —
di nhei ro — l i nho). A pri mei ra metamorfose de uma mercadori a, sua
transformação da forma mercadori a em di nhei ro, é sempre, si mul ta-
neamente, a segunda metamorfose i nversa de outra mercadori a, sua
retransformação da forma di nhei ro em mercadori a.
167
OS ECONOMISTAS
232
165 "O preço de uma mercadori a pode apenas ser pago com o preço de outra mercadori a."
(RI VI ÈRE, Merci er de l a. “L’Ordre Naturel et Essenti el des Soci étés Pol i ti ques.” I n: Phy-
siocrates. Ed. Dai re, Parte Segunda. p. 554.)
166 "Para ter esse di nhei ro, é preci so ter vendi do." (Op. cit., p. 543.)
167 Consti tui exceção, como já foi observado anteri ormente, o produtor de ouro (ou prata), que
i ntercambi a seu produto sem o ter vendi do antes.
D — M. Metamorfose segunda ou fi nal da mercadori a: compra.
Por ser a fi gura al i enada de todas as outras mercadori as ou o produto
da sua al i enação geral , é o di nhei ro a mercadori a absol utamente al i e-
nável . El e l ê todos os preços ao revés e se refl ete, assi m, em todos os
corpos das mercadori as como o materi al ofertado à sua própri a con-
versão em mercadori a. Ao mesmo tempo, os preços, os ol hos amorosos
com que as mercadori as pi scam ao di nhei ro, mostram o l i mi te de sua
capaci dade de transformação, i sto é, sua própri a quanti dade. Como a
mercadori a desaparece ao converter-se em di nhei ro, não se reconhece
no di nhei ro como chegou às mãos de seu possui dor ou o que transfor-
mou-se nel e. Non olet,
168
qual quer que seja sua ori gem. Se por um
l ado representa mercadori a vendi da, por outro representa mercadori as
comprávei s.
169
D — M, a compra, é ao mesmo tempo venda, M — D; a úl ti ma
metamorfose de uma mercadori a é, por i sso, si mul taneamente, a pri -
mei ra metamorfose de outra mercadori a. Para nosso tecel ão de l i nho,
o curso da vi da de sua mercadori a acaba com a Bí bl i a, em que el e
reconverteu as 2 l i bras esterl i nas. Mas o vendedor da Bí bl i a converte
as 2 l i bras esterl i nas ganhadas do tecel ão de l i nho em aguardente. D
— M, a fase fi nal de M — D — M (l i nho — di nhei ro — Bí bl i a), é, ao
mesmo tempo, M — D, a pri mei ra fase de M — D — M (Bí bl i a —
di nhei ro — aguardente). Como produtor de mercadori as fornece apenas
um produto uni l ateral , el e o vende freqüentemente em grandes quan-
ti dades, enquanto suas necessi dades mul ti l aterai s o obri gam a frag-
mentar constantemente o preço real i zado ou a soma de di nhei ro rece-
bi da em numerosas compras. Uma venda desemboca, por i sso, em mui -
tas compras de vári as mercadori as. A metamorfose fi nal de uma mer-
cadori a consti tui , assi m, uma soma de pri mei ras metamorfoses de ou-
tras mercadori as.
Observando, agora, a metamorfose total de uma mercadori a, por
exempl o, do l i nho, vemos, em pri mei ro l ugar, que consi ste em doi s
movi mentos que se opõem e se compl etam, M — D e D — M. Essas
duas transformações contrapostas da mercadori a operam em doi s pro-
cessos soci ai s contrapostos do possui dor de mercadori as e se refl etem
em doi s caracteres econômi cos contrapostos do mesmo. Como agente
da venda el e se torna vendedor, como agente da compra, comprador.
Mas, como em cada transformação da mercadori a exi stem, ao mesmo
tempo, as duas formas del a, forma mercadori a e forma di nhei ro, apenas
em pól os contrapostos, assi m o mesmo possui dor de mercadori as como
vendedor se defronta com outro comprador e como comprador com outro
MARX
233
168 "Não fede", di sse o i mperador romano Vespasi ano (69-79) sobre o di nhei ro quando seu fi l ho
o repreendeu por l ançar i mpostos sobre as retretas públ i cas. (N. da Ed. Al emã.)
169 "Se o di nhei ro em nossas mãos representa as coi sas que podemos desejar comprar, representa
também as coi sas que vendemos por esse di nhei ro." (RI VI ÈRE, Merci er de l a. Op. cit., p. 586.)
vendedor. Como a mesma mercadori a percorre as duas transformações
i nversas sucessi vamente — de mercadori a se torna di nhei ro e de di -
nhei ro mercadori a — assi m o mesmo possui dor de mercadori as troca
os papéi s de vendedor e comprador. Esses não são, portanto, caracteres
fi xos, mas que mudam constantemente de pessoa dentro da ci rcul ação
de mercadori as.
A metamorfose gl obal de uma mercadori a i mpl i ca, em sua forma
mai s si mpl es, quatro extremos e três personae dramatis.
170
Pri mei ro,
o di nhei ro defronta-se à mercadori a como sua fi gura de val or, que no
outro l ado, no bol so al hei o, possui real i dade rei fi cadamente contun-
dente. Assi m, ao possui dor de mercadori as se defronta um possui dor
de di nhei ro. Tão l ogo a mercadori a se transforma em di nhei ro, torna-se
este úl ti mo a forma equi val ente transi tóri a del a, cujo val or ou conteúdo
de uso exi ste desse l ado, nos corpos das outras mercadori as. Como
ponto fi nal de pri mei ra transformação da mercadori a, o di nhei ro é ao
mesmo tempo ponto de parti da da segunda. Assi m, o vendedor do pri -
mei ro ato torna-se comprador, no segundo, onde com el e se defronta
um tercei ro possui dor de mercadori as, como vendedor.
171
As duas fases i nversas da metamorfose das mercadori as formam
um ci cl o: forma mercadori a, abandono da forma mercadori a, vol ta à
forma mercadori a. Aqui , no entanto, a própri a mercadori a é determi -
nada anti teti camente. El a é não-val or de uso no ponto de parti da,
val or de uso no ponto fi nal para seu possui dor. Assi m, o di nhei ro apa-
rece, pri mei ro, como sól i do cri stal de val or, no qual a mercadori a se
transforma, para di l ui r-se depoi s como si mpl es forma equi val ente del a.
As duas metamorfoses que formam o ci cl o de uma mercadori a
consti tuem, ao mesmo tempo, as metamorfoses parci ai s i nversas de
duas outras mercadori as. A mesma mercadori a (l i nho) i ni ci a a séri e
de suas própri as metamorfoses e termi na a metamorfose total de outra
mercadori a (tri go). Durante sua pri mei ra transformação, a venda, el a
desempenha esses doi s papéi s em pessoa. Como cri sál i da de ouro, ao
contrári o, forma em que el a cumpre o desti no de toda a carne, el a
compl eta, ao mesmo tempo, a pri mei ra metamorfose de uma tercei ra
mercadori a. O ci cl o descri to pel a séri e de metamorfoses de cada mer-
cadori a entrel aça-se portanto, i nextri cavel mente, com os ci cl os de outras
mercadori as. O processo em seu conjunto apresenta-se como ci rcul ação
de mercadori as.
A ci rcul ação de mercadori as di sti ngue-se não só formal mente,
mas também essenci al mente, do i ntercâmbi o di reto de produtos. Basta
l ançar um ol har retrospecti vo ao percurso. O tecel ão de l i nho trocou,
sem dúvi da, l i nho por Bí bl i a, mercadori a própri a por al hei a. Mas esse
OS ECONOMISTAS
234
170 Pessoas atuantes. (N. dos T.)
171 "Exi stem, portanto, quatro pontos fi nai s e três contratantes, dos quai s um i ntervém duas
vezes." (LE TROSNE. Op. cit., p. 909.)
fenômeno é verdadei ro somente para el e. O vendedor de Bí bl i as, que
prefere o cal or ao fri o, não pensou trocar a Bí bl i a por l i nho, assi m
como o tecel ão de l i nho não sabe que seu l i nho foi trocado por tri go
etc. A mercadori a de B substi tui a mercadori a de A, mas A e B não
trocam suas mercadori as reci procamente. Pode, de fato, ocorrer que A
e B comprem reci procamente um do outro, mas tal rel ação parti cul ar
não é condi ci onada, de modo al gum, pel as rel ações gerai s da ci rcul ação
de mercadori as. Por um l ado, vê-se aqui como o i ntercâmbi o de mer-
cadori as rompe as l i mi tações i ndi vi duai s e l ocai s do i ntercâmbi o di reto
de produtos e desenvol ve o metabol i smo do trabal ho humano. Por outro
l ado, desenvol ve-se todo um cí rcul o de ví ncul os naturai s de caráter
soci al , i ncontrol ávei s pel as pessoas atuantes. O tecel ão somente pode
vender l i nho porque o camponês já vendeu tri go, o cabeça quente apenas
pode vender a Bí bl i a porque o tecel ão já vendeu l i nho, o desti l ador só
pode vender aguardente porque o outro já vendeu a água da vi da
eterna etc.
Por i sso, o processo de ci rcul ação não se exti ngue, como o i nter-
câmbi o di reto de produtos, ao mudarem de l ugar ou de mãos os val ores
de uso. O di nhei ro não desaparece, ao sai r, fi nal mente, da séri e de
metamorfose de uma mercadori a. El e sempre se deposi ta em al gum
ponto de ci rcul ação abandonado pel as mercadori as. Por exempl o, na
metamorfose total do l i nho: l i nho — di nhei ro — Bí bl i a, pri mei ro sai
o l i nho da ci rcul ação e o di nhei ro ocupa seu l ugar, depoi s sai a Bí bl i a
e o di nhei ro toma seu l ugar. A substi tui ção de mercadori a por merca-
dori a dei xa, ao mesmo tempo, a mercadori a monetári a nas mãos de
um tercei ro.
172
A ci rcul ação exsuda, constantemente, di nhei ro.
Nada pode ser mai s ri dí cul o que o dogma de que a ci rcul ação
de mercadori as condi ci ona um equi l í bri o necessári o entre as vendas e
compras, porque cada venda é compra e vi ce-versa. Se i sso si gni fi ca
que o número das vendas efeti vamente real i zadas é i gual ao mesmo
número de compras é uma tri vi al tautol ogi a. Mas a i ntenção é provar
que o vendedor conduz seu própri o comprador ao mercado. Venda e
compra são um ato i dênti co, ao consti tui r uma rel ação recí proca entre
duas pessoas pol armente contrapostas, o possui dor de mercadori a e o
possui dor de di nhei ro. Enquanto ações da mesma pessoa, el as formam
doi s atos pol armente contrapostos. A i denti dade de venda e compra
i mpl i ca, portanto, que se torna i núti l a mercadori a que, jogada na
retorta al qui mi sta da ci rcul ação, não sai como di nhei ro, não sendo
vendi da pel o possui dor de mercadori a, portanto tampouco comprada
pel o possui dor de di nhei ro. Aquel a i denti dade compreende, al ém di sso,
que o processo, no caso de real i zar-se, consti tui um ponto de repouso,
uma fase da vi da da mercadori a, que pode durar mai s ou menos tempo.
MARX
235
172 Nota à 2ª edi ção. Apesar desse fenômeno ser tão evi dente, não é notado pel os economi stas
pol í ti cos, na mai ori a das vezes, nomeadamente pel o l i vre-cambi sta vulgaris.
Como a pri mei ra metamorfose da mercadori a é, ao mesmo tempo, venda
e compra, esse processo parci al é, si mul taneamente, um processo au-
tônomo. O comprador tem a mercadori a, o vendedor o di nhei ro, i sto
é, uma mercadori a que conserva uma forma apta para a ci rcul ação,
quer apareça mai s cedo ou mai s tarde de novo no mercado. Ni nguém
pode vender, sem que outro compre. Mas ni nguém preci sa comprar
i medi atamente apenas por ter vendi do. A ci rcul ação rompe as l i mi ta-
ções temporai s, l ocai s e i ndi vi duai s do i ntercâmbi o de produtos preci -
samente porque parte a i denti dade i medi ata que exi ste aqui entre a
al i enação do própri o produto de trabal ho e a aqui si ção do al hei o, na
antí tese entre venda e compra. Que os processos, que se confrontam
autonomamente, formem uma uni dade i nterna, si gni fi ca por outro l ado
que a sua uni dade i nterna se move em antí teses externas. Se a auto-
nomi zação externa dos i nternamente não-autônomos por serem mu-
tuamente compl ementares se prol onga até certo ponto, a uni dade se
faz val er de forma vi ol enta, por mei o de uma — cri se. A antí tese,
i manente à mercadori a, entre val or de uso e val or, de trabal ho pri vado,
que ao mesmo tempo tem de representar-se como trabal ho di retamente
soci al , de trabal ho concreto parti cul ar, que ao mesmo tempo funci ona
apenas como trabal ho geral abstrato, de personi fi cação da coi sa e rei -
fi cação das pessoas — essa contradi ção i manente assume nas antí teses
da metamorfose das mercadori as suas formas desenvol vi das de movi men-
tos. Essas formas encerram, por i sso, a possi bi l i dade, e somente a possi -
bi l i dade, das cri ses. O desenvol vi mento dessa possi bi l i dade até que se
realize exige todo um conjunto de condições que do ponto de vi sta da
ci rcul ação si mpl es de mercadori as, ai nda não exi stem, de modo al gum.
173
Como medi ador da ci rcul ação das mercadori as, o di nhei ro assume
a função do mei o ci rcul ante.
b) O curso do dinheiro
A mudança de forma, por mei o da qual o metabol i smo dos pro-
dutos do trabal ho se real i za, M — D — M, exi ge que o mesmo val or,
como mercadori a, forme o ponto de parti da do processo e retorne ao
OS ECONOMISTAS
236
173 Compare mi nhas observações sobre James Mi l l , Zur Kritik etc. p. 74-76. Doi s pontos aqui
são caracterí sti cos para o método da apol ogi a economí sti ca. Pri mei ro, a i denti fi cação de
ci rcul ação das mercadori as e a troca di reta dos produtos por mei o da si mpl es abstração
de suas di ferenças. Segundo, a tentati va de escamotear as contradi ções do processo de
produção capi tal i sta ao di ssol ver as rel ações de seus agentes de produção nas rel ações
si mpl es que se ori gi nam da ci rcul ação de mercadori as. Produção de mercadori as e ci rcul ação
de mercadori as são, porém, fenômenos que pertencem aos mai s di ferentes modos de pro-
dução, embora com extensão e al cance di ferentes. Não se sabe, portanto, ai nda nada sobre
a differentia specifica
*
desses modos de produção e não se pode, assi m, jul gá-l os, quando
apenas as categori as abstratas da ci rcul ação de mercadori as que l hes são comuns são
conheci das. Em nenhuma outra ci ênci a, al ém da Economi a Pol í ti ca, predomi na tanta pre-
tensão fundada em vul gari dades el ementares. Por exempl o, J.-B. Say se arroga jul gar as
cri ses porque el e sabe que a mercadori a é produto.
*
Di ferença especí fi ca. (N. dos T.)
mesmo ponto como mercadori a. Esse movi mento das mercadori as é,
portanto, um ci cl o. Por outro l ado, essa mesma forma excl ui o ci cl o do
di nhei ro. Seu resul tado é o di stanci amento constante do di nhei ro de
seu ponto de parti da e não o retorno a esse mesmo ponto. Enquanto
o vendedor manti ver consi go a fi gura transformada de sua mercadori a,
o di nhei ro, a mercadori a encontra-se na fase da pri mei ra metamorfose
ou apenas percorreu a pri mei ra metade de sua ci rcul ação. Se o processo,
vender para comprar, esti ver compl etado, então também o di nhei ro
estará outra vez afastado das mãos de seu propri etári o ori gi nal . Se,
entretanto, o tecel ão de l i nho, depoi s que comprou a Bí bl i a, vender
novamente l i nho, o di nhei ro também retornará às suas mãos. Porém,
el e não retorna por mei o da ci rcul ação das pri mei ras 20 varas de l i nho,
por mei o da qual antes afastou-se das mãos do tecel ão para as mãos
do vendedor de Bí bl i as. El e retorna apenas pel a renovação ou repeti ção
do mesmo processo de ci rcul ação para nova mercadori a e termi na tanto
aqui como l á com o mesmo resul tado. Essa forma de movi mento di re-
tamente conferi da ao di nhei ro pel a ci rcul ação das mercadori as é, por-
tanto, seu afastamento constante do ponto de parti da, seu percurso
das mãos de um possui dor de mercadori a para as de outro ou seu
curso (currency, cours de la monnaie).
O curso do di nhei ro mostra uma constante, monótona repeti ção
do mesmo processo. A mercadori a permanece sempre ao l ado do ven-
dedor, o di nhei ro sempre ao l ado do comprador, como mei o de compra.
El e funci ona como mei o de compra ao real i zar o preço da mercadori a.
Enquanto el e o real i za, transfere a mercadori a das mãos do vendedor
para as do comprador, ao passo que el e, ao mesmo tempo, se afasta
das mãos do comprador para as do vendedor, para repeti r o mesmo
processo com outra mercadori a. Que essa forma uni l ateral do movi -
mento do di nhei ro nasça do movi mento de forma bi l ateral das merca-
dori as é ocul tado. A natureza da própri a ci rcul ação das mercadori as
produz uma aparênci a contrári a. A pri mei ra metamorfose da merca-
dori a é vi sí vel não apenas como movi mento do di nhei ro, mas também
como seu própri o movi mento, porém sua segunda metamorfose é apenas
vi sí vel como movi mento do di nhei ro. Na pri mei ra metade de sua ci r-
cul ação, a mercadori a troca de l ugar com o di nhei ro. E com i sso, sua
forma de uso sai da ci rcul ação e entra para o consumo.
174
Sua fi gura
de val or ou l arva do di nhei ro col oca-se em seu l ugar. A segunda metade
de sua ci rcul ação, el a percorre não mai s em sua própri a pel e natural ,
mas si m em sua pel e de ouro. A conti nui dade do movi mento fi ca, com
i sso, total mente ao l ado do di nhei ro, e o mesmo movi mento, que para
a mercadori a encerra doi s processos contrapostos, encerra como movi -
MARX
237
174 Mesmo se a mercadori a é vendi da repeti das vezes, um fenômeno que não exi ste ai nda aqui
para nós, el a sai com a úl ti ma venda defi ni ti va da esfera de ci rcul ação para a de consumo,
para servi r aqui de mei o de subsi stênci a ou de mei o de produção.
mento própri o do di nhei ro sempre o mesmo processo, sua troca de posição,
cada vez com outra mercadori a. O resul tado da ci rcul ação, substi tui ção
de uma mercadori a por outra mercadori a, aparece portanto i ntermedi ado
não pel a própri a mudança de forma, porém pel a função do di nhei ro como
mei o ci rcul ante, o qual ci rcul a as mercadori as em si mesmas i nertes,
transferi ndo-as das mãos nas quai s el as são não-val ores de uso para as
mãos nas quai s el as são val ores de uso, sempre em di reção contrári a ao
seu própri o curso. O di nhei ro afasta as mercadori as constantemente da
esfera de ci rcul ação, ao col ocar-se conti nuamente em seus l ugares na ci r-
cul ação e, com i sso, di stanci ando-se de seu própri o ponto de parti da. Em-
bora o movi mento do di nhei ro seja portanto apenas a expressão da ci r-
cul ação de mercadori as, a ci rcul ação de mercadori as aparece, ao contrári o,
apenas como resul tado do movi mento do di nhei ro.
175
Por outro l ado, cabe ao di nhei ro a função de mei o ci rcul ante
somente porque é el e o val or autonomi zado das mercadori as. Por i sso,
seu movi mento como mei o ci rcul ante é, de fato, apenas o própri o mo-
vi mento da forma del as. Este deve, portanto, refl eti r-se também sen-
si vel mente no curso do di nhei ro. Assi m, por exempl o, o l i nho trans-
forma, pri mei ro, sua forma de mercadori a em sua forma de di nhei ro.
O úl ti mo extremo de sua pri mei ra metamorfose M — D, a forma di -
nhei ro, torna-se então o pri mei ro extremo de sua úl ti ma metamorfose,
D — M, sua reconversão à Bí bl i a. Cada uma, porém, dessas duas
mudanças de forma real i za-se medi ante uma troca entre mercadori a
e di nhei ro, medi ante mudança recí proca de suas posi ções. As mesmas
moedas chegam às mãos do vendedor como fi gura al i enada da merca-
dori a e as dei xam como fi gura absol utamente al i enável da mercadori a.
El as mudam duas vezes de posi ção. A pri mei ra metamorfose do l i nho
traz essas moedas para o bol so do tecel ão, a segunda l eva-as, de novo,
para fora. Ambas as mudanças opostas de forma da mesma mercadori a
refl etem-se, assi m, na dupl a mudança de posi ção do di nhei ro, em di -
reções opostas.
Se, no entanto, só têm l ugar metamorfoses uni l aterai s de mer-
cadori as, meras compras ou meras vendas, como se quei ra, o mesmo
di nhei ro também só muda uma vez de l ugar. Sua segunda mudança
de posi ção expressa sempre a segunda metamorfose da mercadori a,
sua reconversão em di nhei ro. Na repeti ção freqüente da troca de posi ção
das mesmas moedas refl ete-se não somente a séri e de metamorfoses
de uma úni ca mercadori a, mas também o entrel açamento das i nume-
rávei s metamorfoses do mundo das mercadori as, em geral . É faci l mente
compreensí vel que tudo i sso é vál i do apenas para a forma si mpl es da
ci rcul ação de mercadori as, aqui consi derada.
Cada mercadori a, ao dar seu pri mei ro passo na ci rcul ação, à sua
OS ECONOMISTAS
238
175 "El e" (o di nhei ro) “não tem nenhum outro movi mento al ém daquel e que l he é dado por
mei o dos produtos.” (LE TROSNE. Op. cit., p. 885.)
pri mei ra mudança de forma, cai fora da ci rcul ação, na qual sempre
entra nova mercadori a. O di nhei ro, ao contrári o, como mei o ci rcul ante,
mora constantemente na esfera da ci rcul ação e movi menta-se conti -
nuamente nel a. Surge portanto a pergunta, quanto di nhei ro essa esfera
conti nuamente absorve.
Num paí s, ocorrem todos os di as, si mul taneamente e portanto
correndo paral el amente no espaço, numerosas metamorfoses uni l ate-
rai s de mercadori as, ou, em outras pal avras, meras vendas por um
l ado, meras compras por outro. Em seus preços as mercadori as já estão
equi paradas a determi nadas quanti dades i magi nári as de di nhei ro.
Como a forma di reta de ci rcul ação, aqui consi derada, sempre confronta
entre si mercadori a e di nhei ro, de forma tangí vel , uma no pól o da
venda, o outro no pól o oposto da compra, o vol ume de mei o ci rcul ante
requeri do para o processo de ci rcul ação do mundo das mercadori as já
está determi nado pel a soma dos preços das mercadori as. De fato, o
di nhei ro representa apenas de modo real a soma de ouro já expressa
i deal mente na soma dos preços das mercadori as. A i gual dade dessas
somas entende-se, portanto, por si mesma. Sabemos, entretanto, que,
permanecendo i guai s os val ores das mercadori as, seus preços vari am
com o val or do própri o ouro (do materi al monetári o), proporci onal mente
subi ndo, quando el e cai , e cai ndo quando el e sobe. Conforme a soma
dos preços das mercadori as assi m subi r ou cai r, deve o vol ume do
di nhei ro ci rcul ante subi r ou cai r na mesma medi da. A mudança no
vol ume do mei o ci rcul ante ori gi na-se aqui , na verdade, do própri o di -
nhei ro, porém não de sua função como mei o ci rcul ante, mas si m de
sua função como medi da de val or. O preço das mercadori as muda,
pri mei ro, i nversamente ao val or do di nhei ro, e depoi s muda o vol ume
do mei o ci rcul ante di retamente com o preço das mercadori as. Sucederi a
o mesmo fenômeno, por exempl o, se não caí sse o val or do ouro, mas
que a prata o substi tuí sse como medi da de val or ou se não subi sse o
val or da prata, mas que o ouro a desl ocasse da função de medi da de
val or. Em um caso deveri a ci rcul ar mai s prata que anteri ormente ouro,
no outro menos ouro que anteri ormente prata. Em ambos os casos
teri a mudado o val or do materi al monetári o, i sto é, da mercadori a que
funci ona como medi da dos val ores e, por consegui nte, a expressão em
preço dos val ores das mercadori as e, por i sso, o vol ume do di nhei ro
ci rcul ante, que serve à real i zação desses preços. Vi u-se que a esfera
de ci rcul ação das mercadori as tem um buraco através do qual o ouro
(prata, em suma, o materi al monetári o) nel a penetra como mercadori a
de dado val or. Esse val or está pressuposto na função do di nhei ro como
medi da de val or, portanto, na determi nação de preços. Se, então, por
exempl o, o val or da própri a medi da de val or cai , i sso aparece pri mei ro
na mudança de preço daquel as mercadori as, que são trocadas di reta-
mente, nas fontes da produção dos metai s nobres pel os mesmos en-
quanto mercadori as. Especi al mente em estági os menos desenvol vi dos
MARX
239
da soci edade burguesa, grande parte das demai s mercadori as conti nua
durante l ongo tempo a ser aval i ada pel o val or ul trapassado e agora
i l usóri o da medi da de val or. Entretanto, uma mercadori a contagi a a
outra por mei o de sua rel ação de val or à mesma, os preços em ouro
ou em prata das mercadori as se ajustam, progressi vamente, às pro-
porções determi nadas pel os seus val ores mesmos, até que por fi m todos
os val ores das mercadori as são fi xados de acordo com o novo val or do
metal monetári o. Esse processo de ajustamento é acompanhado pel o
aumento contí nuo dos metai s preci osos, os quai s afl uem em substi tui ção
às mercadori as di retamente i ntercambi adas por el es. Na mesma me-
di da, portanto, em que a fi xação ajustada dos preços das mercadori as
se general i za, ou em que seus val ores são fi xados segundo o novo val or
reduzi do e até certo ponto conti nuando a se reduzi r, do metal , já está
di sponí vel uma massa adi ci onal necessári a à sua real i zação. Uma ob-
servação uni l ateral dos fatos conseqüentes à descoberta das novas fon-
tes de ouro e de prata i nduzi u, no sécul o XVI I e notadamente, no
sécul o XVI I I , à concl usão errônea de que os preços das mercadori as
ter-se-i am el evado porque mai s ouro e prata funci onaram como mei o
ci rcul ante. No que segue, o val or do ouro é pressuposto como dado,
como el e, de fato, no momento da fi xação dos preços, é dado.
Sob esse pressuposto, portanto, o vol ume do mei o ci rcul ante é
determi nado pel a soma dos preços das mercadori as a ser real i zada.
Consi deremos, al ém di sso, o preço de cada espéci e de mercadori a como
dado; então a soma dos preços das mercadori as depende evi dentemente
da massa de mercadori as em ci rcul ação. Não se necessi ta quebrar a
cabeça para entender que, se 1 quarter de tri go custa 2 l i bras esterl i nas,
100 quarters custam 200 l i bras esterl i nas, 200 quarters, 400 l i bras
esterl i nas etc.; com a massa de tri go deve, portanto, crescer a massa
do di nhei ro que, na real i zação da venda, troca de l ugar com el e.
Pressuposto o vol ume de mercadori as como dado, a massa do
di nhei ro ci rcul ante osci l a para ci ma e para bai xo com as fl utuações
de preços das mercadori as. El e sobe e cai , porque a soma dos preços
das mercadori as, em conseqüênci a da mudança dos preços das mesmas,
cresce ou di mi nui . Para i sso, não é, de nenhuma forma, necessári o que
os preços de todas as mercadori as subam ou cai am, ao mesmo tempo.
O aumento de preços de certo número de arti gos l í deres, em um caso,
ou a queda de seus preços, em outro, basta para que a soma de preços
a ser real i zada de todas as mercadori as em ci rcul ação aumente ou
di mi nua, e portanto para col ocar mai s ou menos di nhei ro em ci rcul ação.
Quer a mudança de preços das mercadori as refl i ta reai s mudanças de
val ores ou meras osci l ações dos preços de mercado, o efei to sobre o
vol ume do mei o ci rcul ante permanece o mesmo.
Seja dado certo número de vendas ou metamorfoses parci ai s não
rel aci onadas, si mul tâneas e, portanto, espaci al mente paral el as, como,
por exempl o, de 1 quarter de tri go, 20 varas de l i nho, 1 Bí bl i a, 4 gal ões
OS ECONOMISTAS
240
de aguardente. Se o preço de cada arti go for de 2 l i bras esterl i nas, e
a soma de preços a real i zar for, por i sso, de 8 l i bras esterl i nas, deve
entrar na ci rcul ação um vol ume de di nhei ro de 8 l i bras esterl i nas.
Mas se, ao contrári o, as mesmas mercadori as formam os el os de nossa
já conheci da cadei a de metamorfoses: 1 quarter de tri go — 2 l i bras
esterl i nas — 20 varas de l i nho — 2 l i bras esterl i nas — 1 Bí bl i a — 2
l i bras esterl i nas — 4 gal ões de aguardente — 2 l i bras esterl i nas, as
2 l i bras esterl i nas terão fei to ci rcul ar as di versas mercadori as, em
séri e, real i zando sucessi vamente seus preços e, por consegui nte a soma
del es, de 8 l i bras esterl i nas, para fi nal mente repousar nas mãos do
desti l ador. El es executam quatro cursos. Essa repeti da mudança de
posi ção das mesmas moedas representa a dupl a mudança de forma da
mercadori a, seu movi mento através de doi s estági os opostos da ci rcu-
l ação e o entrel açamento das metamorfoses de mercadori as di feren-
tes.
176
As fases opostas e mutuamente compl ementares, percorri das
por esse processo, não podem ocorrer paral el amente no espaço, mas
apenas sucessi vamente no tempo. Perí odos formam, assi m, a medi da
de sua duração, ou o número de cursos das mesmas moedas, em dado
tempo, mede a vel oci dade do curso do di nhei ro. Que o processo de
ci rcul ação daquel as quatro mercadori as dure, por exempl o, um di a.
Assi m, a soma de preços a real i zar i mporta em 8 l i bras esterl i nas, o
número de cursos das mesmas moedas, durante o di a: 4, e o vol ume
de di nhei ro ci rcul ante, 2 l i bras esterl i nas ou, para dado perí odo de
tempo do processo de ci rcul ação:
Soma dos preços das mercadori as
=
Volume do di nheiro funcionando
Número de cursos das peças como mei o ci rcul ante
monetári as da mesma
denomi nação
Essa l ei val e em geral . O processo de ci rcul ação em um paí s, em
dado perí odo, compreende na verdade, por um l ado, mui tas vendas
(compras) ou metamorfoses parci ai s di spersas, si mul tâneas e espaci al -
mente paral el as, nas quai s as mesmas moedas apenas uma vez mudam
de posi ção ou real i zam apenas um só curso. Por outro l ado, há mui tas
cadei as de metamorfoses, com mai or ou menor número de el os, que
em parte correm paral el as, em parte entrel açam-se e nas quai s as
mesmas peças monetári as percorrem cursos mai s ou menos numerosos.
Do número total de cursos de todas as peças monetári as que se en-
contram em ci rcul ação, com a mesma denomi nação, resul ta, contudo,
MARX
241
176 "São os produtos que o põem" (o di nhei ro) “em movi mento e o fazem ci rcul ar. (...) Por mei o
da vel oci dade de seu” (i sto é, do di nhei ro) “movi mento é compl ementada sua quanti dade.
Se necessári o, desl i za apenas de uma mão à outra, sem deter-se um momento.” (LE TROSNE.
Op. cit., p. 915-916.)
o número médi o de cursos da peça monetári a i ndi vi dual ou a vel oci dade
médi a do gi ro monetári o. O vol ume de di nhei ro, que, por exempl o, no
começo do processo de ci rcul ação é jogado nel e, é natural mente deter-
mi nado pel a soma dos preços das mercadori as que ci rcul am si mul tânea
e paral el amente no espaço. Porém, i nternamente ao processo, uma
peça monetári a, por assi m di zer, é tornada responsável pel a outra.
Acel era uma a vel oci dade de seu curso, a outra a desacel era, ou el a
cai i ntei ramente fora da esfera de ci rcul ação, poi s esta pode apenas
absorver uma massa de ouro, a qual , mul ti pl i cada pel o número médi o
de cursos de seu el emento i ndi vi dual , é i gual à soma dos preços a ser
real i zada. Se, por consegui nte, o número de cursos das peças monetári as
cresce, di mi nui o seu vol ume ci rcul ante. Decresce o número de seus
cursos, cresce o seu vol ume. Como o vol ume de di nhei ro, que pode
funci onar como mei o ci rcul ante, é dado a determi nada vel oci dade mé-
di a, tem-se, por exempl o, apenas de jogar na ci rcul ação determi nada
quanti dade de notas de 1 l i bra, para expul sar outros tantos sovereigns,
proeza mui to bem conheci da de todos os bancos.
Como no curso do di nhei ro, em geral , só aparece o processo de
ci rcul ação das mercadori as, i sto é, seu ci cl o através de metamorfoses
opostas, assi m na vel oci dade do gi ro monetári o aparece a vel oci dade
de sua mudança de forma, o contí nuo entrel açamento das séri es de
metamorfoses, a pressa do metabol i smo, o rápi do desapareci mento das
mercadori as da esfera de ci rcul ação e sua substi tui ção, i gual mente
rápi da, por novas mercadori as. Na vel oci dade de ci rcul ação do di nhei ro
aparece assi m a uni dade fl ui da das fases opostas e compl ementares,
transformação da fi gura de uso em fi gura de val or e retransformação
de sua fi gura de val or em fi gura de uso, ou de ambos os processos de
venda e compra. I nversamente, na desacel eração do curso do di nhei ro
aparece o fato de esses processos se di ssoci arem e se tornarem anta-
goni camente autônomos, a paral i si a da mudança de forma, e por con-
segui nte do metabol i smo. A própri a ci rcul ação, natural mente, não nos
dei xa ver de onde provém essa estagnação. El a nos mostra apenas o
própri o fenômeno. A i nterpretação popul ar, que vê, com um gi ro mo-
netári o mai s l ento, o di nhei ro aparecer ou desaparecer menos freqüen-
temente em todos os pontos da peri feri a da ci rcul ação, tende a atri bui r
esse fenômeno à quanti dade i nsufi ci ente do mei o ci rcul ante.
177
OS ECONOMISTAS
242
177 "Como o di nhei ro (...) representa a medi da comum para a compra e venda, qual quer um
que tenha al go para vender, mas não encontra comprador, está i medi atamente propenso
a pensar que a cul pa de suas mercadori as não encontrarem saí da seri a da fal ta de di nhei ro
no kingdom
*
ou no paí s; daí a gri tari a por toda parte contra a fal ta de di nhei ro, o que,
entretanto, é um grande erro. (...) De que preci sam essas pessoas que gri tam por di nhei ro?
(...) O arrendatári o quei xa-se, (...) el e pensa, se houvesse mai s di nhei ro no paí s, poderi a
obter um preço para seus bens. (...) Então, parece que fal ta-l he não di nhei ro, porém um
preço para seu grão e gado que el e gostari a de vender, mas não pode. (...) Por que el e não
pode consegui r preço? (...) 1) Ou há tri go e gado demai s no paí s e a mai ori a dos que vão
ao mercado tem, como el e, necessi dade de vender, e poucos de comprar; ou 2) a saí da
A quanti dade gl obal do di nhei ro funci onando como mei o ci rcu-
l ante, em cada perí odo, é assi m determi nada, por um l ado, pel a soma
de preços do mundo das mercadori as ci rcul antes, por outro, pel o fl uxo
mai s l ento ou mai s rápi do de seus processos anti téti cos de ci rcul ação,
do qual depende que fração dessa soma de preços pode ser real i zada
por i ntermédi o das mesmas peças monetári as. A soma de preços das
mercadori as depende, porém, tanto do vol ume como dos preços de cada
espéci e de mercadori a. Os três fatores: o movi mento dos preços, o vo-
l ume de mercadori as ci rcul antes e, fi nal mente, a vel oci dade de ci rcu-
l ação do di nhei ro podem no entanto mudar em di reções e proporções
di ferentes, de modo que a soma de preços a real i zar e, por consegui nte,
o vol ume do mei o ci rcul ante por el a determi nado podem, portanto,
passar por numerosas combi nações. Nós enumeramos aqui apenas as
mai s i mportantes na hi stóri a dos preços das mercadori as.
Permanecendo constantes os preços das mercadori as, pode crescer
o vol ume do mei o ci rcul ante, porque aumenta a massa da mercadori a
em ci rcul ação ou porque di mi nui a vel oci dade de ci rcul ação do di nhei ro
ou porque ambos ocorrem conjuntamente. Ao contrári o, o vol ume do
mei o ci rcul ante pode di mi nui r ao di mi nui r a massa de mercadori as ou
ao aumentar a vel oci dade de ci rcul ação.
Subi ndo, em geral , os preços das mercadori as, o vol ume do mei o
ci rcul ante pode permanecer constante, se a massa das mercadori as em
ci rcul ação di mi nui r na mesma proporção em que seu preço aumenta
ou se a vel oci dade de ci rcul ação do di nhei ro aumentar tão rapi damente
quanto a subi da dos preços, enquanto a massa de mercadori as em
ci rcul ação permanecer constante. O vol ume do mei o ci rcul ante pode
di mi nui r, porque a massa de mercadori as decresce mai s rapi damente
ou a vel oci dade de gi ro cresce mai s rapi damente que os preços.
Cai ndo, em geral , os preços das mercadori as, o vol ume do mei o
ci rcul ante pode permanecer constante se a massa de mercadori as cres-
cer na mesma proporção em que seu preço esti ver cai ndo ou se a ve-
MARX
243
habi tual , por mei o de exportação, paral i sa-se (...) ou 3) o consumo reduz-se, quando, por
exempl o, as pessoas, em conseqüênci a da pobreza, já não despendem tanto para a manu-
tenção domésti ca como antes. Por i sso, não é o aumento do di nhei ro, puro e si mpl es, que
repercuti ri a favoravel mente sobre os bens do arrendatári o, mas si m a el i mi nação de uma
dessas três causas que real mente depri mem o mercado. (...) Comerci ante e merceei ro ne-
cessi tam i gual mente de di nhei ro, i sto é, como os mercados param, fal ta-l hes a saí da para
os bens, com os quai s negoci am. (...) Uma nação nunca prospera mai s do que quando as
ri quezas passam rapi damente de mão em mão." (NORTH, Si r Dudl ey. Discourses upon
Trade. Londres, 1691, p. 11-15, passim.) Todos os embustes de Herrenschwand se resumem
na i déi a de que as contradi ções que se ori gi nam da natureza da mercadori a e, portanto,
aparecem na ci rcul ação mercanti l , podem ser supri mi das medi ante aumento do mei o ci r-
cul ante. Da i l usão popul ar que atri bui a paral i sação dos processos de produção e ci rcul ação
a uma fal ta de mei o ci rcul ante, não segue, de modo al gum, o oposto, ou seja, que a fal ta
real de mei o ci rcul ante, por exempl o, em conseqüênci a de trapal hadas ofi ci ai s com a regu-
lation of currency,
**
não possa, por seu l ado, provocar paral i sações.
*
Rei no. (N. dos T.)
**
Regul ação do curso monetári o. (N. dos T.)
l oci dade de ci rcul ação do di nhei ro di mi nui r na mesma proporção que
os preços. El a pode crescer se a massa de mercadori as crescer mai s
rápi do ou a vel oci dade de ci rcul ação di mi nui r mai s rapi damente do
que os preços das mercadori as esti verem cai ndo.
As vari ações dos di ferentes fatores podem compensar-se reci pro-
camente, de tal forma que, a despei to de sua contí nua i nstabi l i dade,
a soma total dos preços das mercadori as a real i zar permanece constante
e, por conseqüênci a, também o vol ume de di nhei ro ci rcul ante. Encon-
tra-se por i sso, sobretudo ao observar perí odos mai s l ongos, um ní vel
médi o mui to mai s constante do vol ume de di nhei ro ci rcul ante em cada
paí s assi m como — com exceção de fortes perturbações que se ori gi nam
peri odi camente das cri ses da produção e do comérci o, mai s raramente
de uma mudança do própri o val or do di nhei ro — desvi os mui to menores
desse ní vel médi o, do que à pri mei ra vi sta seri a de se esperar.
A l ei , segundo a qual a quanti dade do mei o ci rcul ante é deter-
mi nada pel a soma de preços das mercadori as em ci rcul ação e pel a
vel oci dade médi a de ci rcul ação do di nhei ro,
178
pode também ser ex-
pressa assi m: dadas a soma de val ores das mercadori as e a vel oci dade
médi a de suas metamorfoses, a quanti dade do di nhei ro ou do materi al
monetári o em ci rcul ação depende de seu própri o val or. A i l usão de
que, ao contrári o, os preços das mercadori as são determi nados pel o vo-
l ume do mei o ci rcul ante e o úl ti mo, por seu l ado, pel o vol ume do ma-
teri al monetári o exi stente em um paí s
179
tem suas raí zes nos repre-
OS ECONOMISTAS
244
178 "Exi ste determi nada medi da e proporção de di nhei ro necessári as para manter em marcha
o comérci o de uma nação; um mai s ou menos provocar-l he-i a uma quebra. Assi m como
num pequeno estabel eci mento vareji sta é necessári a certa quanti dade de farthings para
trocar moedas de prata e para fazer pagamentos que não podem ser efetuados com as
menores moedas de prata. (...) Assi m como a proporção numéri ca de farthings necessári os
para o comérci o depende do número de compradores, da frequênci a de suas compras e,
sobretudo, também do val or da menor moeda de prata, de modo semel hante, a proporção
do di nhei ro necessári o para nosso comérci o (moedas de ouro e prata) é determi nada pel a
freqüênci a das transações e pel o tamanho dos pagamentos." (PETTY, Wi l l i am. A Treatise
on Taxes and Contributions. Londres, 1667. p. 17.) A. Young defendeu a teori a de Hume,
contra J. Steuart e outros, em seu Political Arithmetic, Londres, 1774, num capí tul o própri o:
“Pri ces Depend on Quanti ty of Money”, p. 112 et seqs. Eu observo em Zunt Kritik etc. p.
149: “A questão da quanti dade da moeda ci rcul ante, el e (Adam Smi th) supri me taci tamente,
ao tratar o di nhei ro de modo total mente errôneo, como si mpl es mercadori a”. I sso val e
apenas na medi da em que A. Smi th trata ex officio
*
do di nhei ro. Ocasi onal mente, entretanto,
por exempl o, na crí ti ca aos si stemas mai s anti gos de Economi a Pol í ti ca, el e se pronunci a
corretamente: “A quanti dade de di nhei ro cunhado de cada paí s é regul ada por mei o do
val or das mercadori as, cuja ci rcul ação el a tem de medi ar. (...) O val or dos bens comprados
e vendi dos anual mente num paí s exi ge certa quanti dade de di nhei ro para fazê-l os ci rcul ar
e di stri buí -l os aos seus verdadei ros consumi dores, mas não pode cri ar para mai s di nhei ro
nenhuma apl i cação. O canal da ci rcul ação atrai necessari amente uma soma que é sufi ci ente
para preenchê-l o, mas nunca absorve uma mai or”. (Wealth of Nations [v. I I I ] 1. I V. cap. I
[p. 87-89].) De forma semel hante A. Smi th i ni ci a sua obra ex officio com uma apoteose da
di vi são do trabal ho. Depoi s, no úl ti mo l i vro sobre as fontes das rendas do Estado, reproduz
el e, ocasi onal mente, a denúnci a da di vi são do trabal ho, de A. Ferguson, seu mestre.
*
Expl i ci tamente. (N. dos T.)
179 "Os preços das coi sas subi rão seguramente em cada paí s, na medi da em que cresce a
quanti dade de ouro e prata entre as pessoas; por consegui nte quando o ouro e a prata
sentantes ori gi nai s da i nsossa hi pótese de que mercadori as sem preço
e di nhei ro sem val or entram no processo de ci rcul ação e l á então uma
parte al í quota do angu formado pel as mercadori as é i ntercambi ada
por uma parte al í quota da montanha de metal .
180
c) A moeda. O signo do valor
Da função do di nhei ro como mei o ci rcul ante surge sua fi gura de
moeda. A fração de peso do ouro, representada pel o preço ou nome
monetári o das mercadori as, tem de defrontar-se com estas na ci rcul ação
MARX
245
num paí s se reduzem, os preços de todas as mercadori as devem cai r também proporci onal -
mente a essa di mi nui ção do di nhei ro." (VANDERLI NT, Jacob. Money Answers all Things.
Londres, 1734. p. 5.) Uma comparação mai s pormenori zada entre Vanderl i nt e os “Essays”
de Hume não dei xa a mi m a menor dúvi da de que Hume conheceu e uti l i zou o escri to,
al i ás si gni fi cati vo, de Vanderl i nt. A i déi a de que o vol ume do mei o ci rcul ante determi na
os preços encontra-se também em Barbon e em outros escri tores ai nda mui to mai s anti gos.
“Nenhuma i nconveni ênci a”, di z Vanderl i nt, “pode surgi r do comérci o desi mpedi do, mas ape-
nas grandes vantagens, poi s quando a quanti dade de di nhei ro efeti vo da nação for di mi nuí da
por mei o del e, o que as medi das de proi bi ção devem i mpedi r, as outras nações, para as
quai s fl ui o di nhei ro, veri fi carão certamente que os preços de todas as coi sas subi rão na
medi da em que nel as cresce a quanti dade de di nhei ro efeti vo. E (...) nossos produtos de
manufatura e todas as outras mercadori as l ogo fi carão tão baratos que a bal ança comerci al
outra vez se tornará favorável a nós e, em conseqüênci a di sso, o di nhei ro fl ui de vol ta para
Nós.” (Op. cit., p. 43-44.)
180 É evi dente que cada ti po i ndi vi dual de mercadori a consti tui , por mei o de seu preço, um
el emento da soma dos preços de todas as mercadori as em ci rcul ação. Porém, como val ores
de uso i ncomensurávei s entre si devem trocar-se en masse
*
com a massa de ouro ou prata
exi stente num paí s é total mente i ncompreensí vel . Se ardi l osamente se converte o mundo
das mercadori as em uma úni ca mercadori a gl obal , da qual cada mercadori a consti tui apenas
uma parte al í quota, obtém-se o l i ndo exempl o ari tméti co: Mercadori a gl obal = x qui ntai s
de ouro. Mercadori a A = parte al í quota da mercadori a gl obal = a mesma parte al í quota de
x qui ntai s de ouro. Montesqui eu expressa i sso honestamente: “Quando se compara a massa
de ouro e prata exi stente no mundo com a soma das mercadori as exi stentes, do mesmo
modo pode-se certamente comparar cada produto especí fi co, i sto é, mercadori a, com uma
quanti dade determi nada de di nhei ro. Suponhamos que exi sta apenas um úni co produto,
ou seja, uma úni ca mercadori a, no mundo, ou que apenas uma seja comprada, e que el a
seja di vi sí vel , da mesma forma que o di nhei ro: certa parte dessa mercadori a corresponderá
então à parte da massa de di nhei ro; a metade da total i dade das mercadori as à metade da
massa total de di nhei ro etc. (...) a determi nação dos preços das mercadori as depende sempre,
fundamental mente, da rel ação entre a quanti dade total das mercadori as e a quanti dade
total dos si gnos monetári os”. (MONTESQUI EU. Op. cit., t. I I I , p. 12-13.) Sobre o desen-
vol vi mento ul teri or dessa teori a, por Ri cardo, seu di scí pul o James Mi l l , Lord Overstone
etc. compare Zur Kritik etc., p. 140-146 e p. 150 et seqs. O sr. J. St. Mi l l consegue, com
sua habi tual l ógi ca ecl éti ca, adotar o ponto de vi sta de seu pai , J. Mi l l , e si mul taneamente
o oposto. Compare-se o texto de seu compêndi o Princ. of Pol. Econ. com o prefáci o (pri mei ra
edi ção), no qual el e mesmo se anunci a como o Adam Smi th contemporâneo, então não se
sabe o que mai s admi rar, se a i ngenui dade do homem ou a do públ i co que o acei ta credu-
l amente como um Adam Smi th, com o qual el e se assemel ha tanto quanto o General Wi l l i ams
Kars von Kars ao Duque de Wel l i ngton. As pesqui sas ori gi nai s do sr. J. St. Mi l l , nem
extensas nem ri cas em conteúdo, no campo da Economi a Pol í ti ca, desfi l am todas em formação
em sua brochuri nha apareci da em 1844: Some Unsettled Questions of Political Economy.
Locke enunci a di retamente a conexão entre a i nexi stênci a de val or em ouro e prata e a
determi nação de seu val or por mei o da quanti dade. “Tendo a humani dade acordado em
conferi r ao ouro e à prata um val or i magi nári o (...) o val or i ntrí nseco, que se observa nesses
metai s, é nada mai s que a sua quanti dade.” (Some Considerations etc. 1691, I n: Works.
Ed. 1777. v. I I , p. 15.)
*
Em massa. (N. dos T.)
sob a forma de uma peça de ouro de i gual denomi nação ou moeda.
Assi m como a fi xação do padrão dos preços, a cunhagem é i ncumbênci a
do Estado. Nos di versos uni formes naci onai s vesti dos pel o ouro e a
prata enquanto moedas e dos quai s são desvesti dos no mercado mun-
di al , aparece o di vórci o entre as esferas i nternas ou naci onai s de ci r-
cul ação das mercadori as e a sua esfera geral , o mercado mundi al .
Moeda de ouro e barras de ouro di ferenci am-se ori gi nal mente
apenas pel a gravação, e o ouro é suscetí vel de passar constantemente
de uma forma à outra.
181
Mas o cami nho para dei xar de ser moeda é,
ao mesmo tempo, a marcha ao cadi nho. Poi s, na ci rcul ação, as moedas
de ouro se desgastam, uma mai s, a outra menos. O tí tul o de ouro e
a substânci a de ouro, o conteúdo nomi nal e conteúdo real começam
seu processo de di ssoci ação. Moedas de ouro de mesma denomi nação
assumem val or desi gual , por terem pesos di ferentes. O ouro como mei o
ci rcul ante di ferenci a-se do ouro como padrão dos preços e dei xa com
i sso de ser também equi val ente verdadei ro das mercadori as, cujos pre-
ços real i za. A hi stóri a dessa desordem forma a hi stóri a das moedas
da I dade Médi a e dos tempos modernos até o sécul o XVI I I . A tendênci a
natural mente espontânea do processo de ci rcul ação de converter a es-
sênci a áurea da moeda em aparênci a áurea ou a moeda num sí mbol o
de seu conteúdo metál i co ofi ci al é reconheci da mesmo pel as l ei s mai s
modernas sobre o grau de perda metál i ca que torna uma peça de ouro
i ncapaz de ci rcul ar ou a desmoneti za.
Se o própri o curso do di nhei ro di ssoci a o conteúdo real do conteúdo
nomi nal da moeda, sua exi stênci a metál i ca de sua exi stênci a funci onal ,
el e já contém l atentemente a possi bi l i dade de substi tui r o di nhei ro
metál i co em sua função de moeda por senhas de outro materi al ou por
sí mbol os. As di fi cul dades técni cas para cunhar frações pequení ssi mas
de peso de ouro ou prata e o fato de que ori gi nari amente se empre-
gassem, como medi das de val ores, e ci rcul assem, como di nhei ro, outros
metai s de categori a i nferi or à dos metai s preci osos, prata em vez de
ouro e cobre em vez de prata, até o i nstante em que o metal preci oso
OS ECONOMISTAS
246
181 Está, natural mente, mui to al ém do meu objeti vo tratar de detal hes como cunhagem e
outros semel hantes. A propósi to da admi ração que o si cofanta românti co Adam Muel l er
devota à “grandi osa l i beral i dade”, com a qual “o Governo i ngl ês cunha gratui tamente”,
*
vejamos o segui nte parecer de Si r Dudl ey North: “Prata e ouro apresentam, como outras
mercadori as, fl uxo e refl uxo. Quando chega um carregamento da Espanha, (...) el e é trazi do
ao Tower e cunhado. Não mui to depoi s, surge procura por barras para a exportação. Quando
no entanto não há nenhuma di sponí vel , porque todas estão, por acaso, cunhadas, o que
fazer? Fundi -l as de novo; i sso não si gni fi ca nenhuma perda, poi s cunhar não custa nada
ao propri etári o. Mas a nação tem o prejuí zo, poi s el a paga pel o entrançar da pal ha, com
que se al i menta depoi s o burro. ”Se o comerci ante" (North era el e mesmo um dos mai ores
comerci antes ao tempo de Charl es I I ) “ti vesse de pagar um preço pel a cunhagem, não
envi ari a sua prata ao Tower sem refl eti r, e di nhei ro cunhado teri a sempre um val or mai s
al to que prata não amoedada.” (NORTH. Op. cit., p. 18.)
*
MUELLER, A. H. Die Elemente der Staatskunst. Parte Segunda. Berl i m, 1809. p. 280
(N. da Ed. Al emã.)
os destrona, expl i cam hi stori camente o papel das senhas de prata e
cobre como substi tutos da moeda de ouro. El as substi tuem o ouro na-
quel es setores da ci rcul ação de mercadori as em que a moeda ci rcul a
com mai or rapi dez e, portanto, desgasta-se mai s rapi damente, i sto é,
onde as compras e as vendas sucedem i ncessantemente em proporções
í nfi mas. Para i mpedi r esses satél i tes de ocuparem defi ni ti vamente o
l ugar do ouro, a l ei se encarrega de determi nar as proporções mui to
reduzi das em que é obri gatóri o serem acei tas em pagamento, em l ugar
de ouro. As esferas parti cul ares, em que ci rcul am as di versas cl asses
de moedas, confundem-se natural mente. A moeda di vi si onári a aparece
ao l ado do ouro, para o pagamento de frações da menor moeda de
ouro; o ouro penetra constantemente na ci rcul ação vareji sta, mas é
daí expul so com a mesma constânci a medi ante a troca por moedas
di vi si onári as.
182
O conteúdo metál i co das senhas de prata e de cobre é determi nado
de forma arbi trári a pel a l ei . Na ci rcul ação el as se desgastam ai nda
mai s rapi damente que a moeda de ouro. E, portanto, sua função mo-
netári a torna-se, de fato, total mente i ndependente de seu peso, i sto é,
de todo o val or. A exi stênci a do ouro como moeda di ssoci a-se radi cal -
mente de sua substânci a de val or. Coi sas rel ati vamente sem val or,
bi l hetes de papel , podem portanto funci onar, em seu l ugar, como moeda.
Nas senhas metál i cas de di nhei ro, o caráter puramente si mból i co ai nda
está em certa medi da ocul to. Na moeda papel revel a-se pl enamente.
Como se vê, ce n’est pas que le premier pas que coûte.
183
Trata-se aqui apenas de moeda papel do Estado com curso forçado.
Ori gi na-se di retamente do curso metál i co. O di nhei ro de crédi to pres-
supõe, ao contrári o, rel ações que, do ponto de vi sta da ci rcul ação si mpl es
das mercadori as, ai nda nos são i ntei ramente desconheci das. Observe-
mos, porém, de passagem, que, do mesmo modo que a verdadei ra moeda
papel ori gi na-se da função do di nhei ro como mei o ci rcul ante, o di nhei ro
de crédi to possui sua rai z natural mente desenvol vi da na função do
di nhei ro como mei o de pagamento.
184
MARX
247
182 "Quando já não há di nhei ro de prata al ém do necessári o para os pequenos pagamentos,
não pode ser reuni do em quanti dades sufi ci entes para pagamentos mai ores. (...) O uso de
ouro para grandes pagamentos i mpl i ca também, necessari amente, seu uso no comérci o
vareji sta: Quem possui moedas de ouro usa-as também para compras menores e recebe de
vol ta com as mercadori as compradas o resto em prata; assi m é o resto excedente em prata,
que de outra manei ra pesari a ao comerci ante vareji sta, reti rado deste e l ançado de vol ta
na ci rcul ação geral . Quando, porém, exi ste tanta prata que os pequenos pagamentos podem
ser real i zados i ndependentemente do ouro, então o vareji sta receberá prata por pequenas
compras, que será necessari amente acumul ada por el e." (BUCHANAN, Davi d. I nquiry into
the Taxation and Commercial Policy of Great Britain. Edi mburgo, 1844, p. 248-249.)
183 Somente o pri mei ro passo é que custa. (N. dos T.)
184 O mandari m das fi nanças Wan-mao-i n se permi ti u submeter ao Fi l ho do Céu um projeto
cujo objeti vo secreto era transformar os assignats i mperi ai s chi neses em notas bancári as
conversí vei s. No rel atóri o do comi tê de assignats de abri l de 1854 recebeu mereci da repri -
menda. Se el e recebeu também as obri gatóri as vergastadas de bambu, não está rel atado.
“O comi tê”, di z o fi nal do rel atóri o, “exami nou atentamente seu projeto e acha que tudo
Bi l hetes de papel que l evam i mpressos denomi nações monetári as,
como 1 l i bra esterl i na, 5 l i bras esterl i nas etc., são l ançados de fora
pel o Estado no processo de ci rcul ação. Na medi da em que real mente
ci rcul am em l ugar da soma de ouro de mesma denomi nação, refl etem-se
em seu movi mento apenas as l ei s do própri o curso do di nhei ro. Uma
l ei especí fi ca da ci rcul ação do papel somente pode ori gi nar-se de sua
rel ação de representati vi dade do ouro. E a l ei é si mpl esmente esta:
que a emi ssão de moeda papel deve l i mi tar-se à quanti dade na qual
o ouro (ou a prata), si mbol i camente por el a representado, real mente
teri a que ci rcul ar. É cl aro que a quanti dade de ouro que a esfera da
ci rcul ação pode absorver osci l a conti nuamente aci ma ou abai xo de de-
termi nado ní vel médi o. Entretanto, o vol ume do mei o ci rcul ante, em
dado paí s, nunca desce abai xo de determi nado mí ni mo, que se fi xa
segundo a experi ênci a. O fato de que essa massa mí ni ma muda con-
ti nuamente seus componentes, i sto é, de que el a se compõe de peças
de ouro sempre di ferentes, natural mente não al tera nada em seu ta-
manho e em seu constante movi mento na esfera da ci rcul ação. El a
pode, por i sso, ser substi tuí da por sí mbol os do papel . Se hoje todos os
canai s de ci rcul ação são preenchi dos com moeda papel em grau pl eno
de sua capaci dade de absorção de di nhei ro, amanhã, em vi rtude das
osci l ações na ci rcul ação de mercadori as, el es podem estar superchei os.
Perdem-se então todas as medi das. Ul trapassa o papel , porém, sua
medi da, i sto é, a quanti dade de moeda de ouro com a mesma deno-
mi nação que poderi a ci rcul ar abstrai ndo-se o peri go do descrédi to geral ,
e el e representa no mundo das mercadori as apenas a quanti dade de
ouro determi nada pel as suas l ei s i manentes, portanto, somente a que
é suscetí vel de ser representada. Se, por exempl o, a massa de bi l hetes
de papel representa 2 onças de ouro, por cada onça, então 1 l i bra
esterl i na torna-se, de fato, a denomi nação monetári a de, di gamos, 1/8
de onça em vez de 1/4 de onça. O efei to é o mesmo que se o ouro
ti vesse si do modi fi cado em sua função como medi da dos preços. Os
mesmos val ores, portanto, que se expressavam antes no preço de 1
l i bra esterl i na, expressam-se agora no preço de 2 l i bras esterl i nas.
A moeda papel é o si gno de ouro ou si gno de di nhei ro. Sua rel ação
OS ECONOMISTAS
248
nel e resul ta vantajoso para os comerci antes e nada sendo de vantagem para a Coroa.”
(Arbeiten der Kaiserlich Russischen Gesandtschaft zu Peking ueber China. Aus dem Rus-
si schen von dr. K. Abel und F. A. Meckl enburg. v. I , Berl i m, 1858, p. 54.) Sobre a contí nua
desmetal i zação das moedas de ouro, devi da a seu curso, di z um governor
*
do Bank of
Engl and, como testemunha perante o House of Lord’s Commi ttee (sobre Bankacts
**
): “Todo
ano uma nova cl asse de sovereigns”
***
(estes não pol í ti cos, poi s sovereign é o nome da l i bra
esterl i na) “torna-se l eve demai s. A cl asse que num ano passa por ter peso pl eno, perde
pel o desgaste o bastante para tornar-l he, no ano segui nte, a bal ança desfavorável ”. (House
of Lord’s Commi ttee 1848, nº 429.)
*
Governador. (N. dos T.)
**
Lei s bancári as. (N. dos T.)
***
Um jogo de pal avras: Sovereign si gni fi ca “soberano”, “monarca”, mas é, ao mesmo tempo,
o nome de uma moeda de ouro i ngl esa (1 l i bra esterl i na). (N. da Ed. Al emã.)
com os val ores mercanti s consi ste apenas em que estes estão expressos
i deal mente nas mesmas quanti dades de ouro que são representadas si m-
ból i ca e sensi vel mente pel o papel . Somente na medi da em que representa
quanti dades de ouro, que são também, como todas as quanti dades de
mercadori as, quanti dades de val or, a moeda papel é si gno de val or.
185
Pergunta-se, fi nal mente, por que o ouro pode ser substi tuí do por
meros si gnos de si mesmo, sem val or? Porém, como já foi vi sto, o ouro
é somente substi tuí vel na medi da em que, em sua função como moeda
ou como mei o ci rcul ante, é i sol ado ou tornado autônomo. Entretanto,
essa função não se torna autônoma para moedas i ndi vi duai s de ouro,
embora sua autonomi a apareça no fato de que peças de ouro desgas-
tadas conti nuam a ci rcul ar. As peças de ouro são si mpl es moedas ou
mei o ci rcul ante somente enquanto efeti vamente ci rcul am. O que, po-
rém, não val e para uma moeda i ndi vi dual de ouro, é apl i cável à massa
mí ni ma de ouro substi tuí vel por moeda papel . Esta resi de constante-
mente na esfera de ci rcul ação, funci ona conti nuamente como mei o ci r-
cul ante e exi ste, portanto, excl usi vamente como portador dessa função.
Seu movi mento l i mi ta-se a representar as mutações recí procas contí -
nuas que formam os processos antagôni cos da metamorfose das mer-
cadori as, M — D — M, em que à mercadori a se defronta sua fi gura
de val or para i medi atamente desaparecer de novo. A representação
autônoma do val or de troca da mercadori a é, aqui , apenas um momento
efêmero. É substi tuí da de i medi ato por outra mercadori a. Por i sso,
basta que o di nhei ro exi sta apenas de forma si mból i ca num processo
que o faz passar conti nuamente de mão em mão. Sua exi stênci a fun-
ci onal absorve, por assi m di zer, sua exi stênci a materi al . Refl exo obje-
ti vado evanescente dos preços das mercadori as, funci ona apenas como
si gno de si mesmo e, por i sso, pode ser substi tuí do por outros si gnos.
186
MARX
249
185 Nota à 2ª edi ção. Como fal ta cl areza à concepção das di ferentes funções do di nhei ro, mesmo
nos mel hores escri tores sobre o si stema monetári o, demonstra, por exempl o, a segui nte
passagem de Ful l arton: “Quanto à nossa troca i nterna, todas as funções do di nhei ro, que
são costumei ramente preenchi das por moedas de ouro e prata, podem ser desempenhadas
com a mesma efi cáci a por uma ci rcul ação de notas não conversí vei s, que não têm nenhum
outro val or senão esse val or arti fi ci al e fundamentado em convenção, que receberam por
l ei — um fato que, penso eu, não pode ser contestado. Um val or dessa espéci e poderi a
servi r a todos os objeti vos de um val or i ntrí nseco e até mesmo tornar supérfl ua a necessi dade
de um padrão de val or, desde que a quanti dade de suas emi ssões seja manti da dentro dos
l i mi tes perti nentes”. (FURLLARTON. Regulation of Currencies. 2ª ed., Londres, 1845. p.
21.) Assi m, como a mercadori a monetári a pode ser substi tuí da na ci rcul ação por meros
si gnos de val or, é el a supérfl ua como medi da dos val ores e padrão dos preços!
186 Do fato de ouro e prata, enquanto moeda ou na função excl usi va de mei o ci rcul ante, tor-
narem-se sí mbol os del es mesmos, deri va Ni chol as Barbon o di rei to dos governos to raise
money,
*
i sto é, por exempl o, dar a um quantum de prata, que se chamou Groschen, a
denomi nação de um quantum mai or de prata, como Taler, e assi m pagar os credores com
Groschen, em vez de Taler. “Di nhei ro se desgasta e torna-se mai s l eve pel as múl ti pl as
vezes que é contado. (...) É a denomi nação e o curso do di nhei ro o que as pessoas que
comerci am observam, e não a quanti dade de prata. (...) É a autori dade do Estado que faz
do metal di nhei ro.” (BARBON, N. Op. cit., p. 29-30, 25.)
*
El evar o di nhei ro. (N. dos T.)
O si gno do di nhei ro só necessi ta de sua val i dade soci al objeti va própri a
e esta é recebi da pel o sí mbol o de papel medi ante o curso forçado. Esse
curso forçado pel o Estado rege somente dentro das frontei ras de uma
comuni dade ou na esfera i nterna de ci rcul ação, mas também somente
aqui o di nhei ro reduz-se total mente à sua função de mei o ci rcul ante
ou de moeda, e pode, portanto, receber na moeda papel uma modal i dade
de exi stênci a puramente funci onal e exteri ormente separada de sua
substânci a metál i ca.
3. Dinheiro
A mercadori a que funci ona como medi da de val or e também, cor-
poral mente ou por i ntermédi o de representantes, como mei o ci rcul ante,
é di nhei ro. O ouro (ou prata) é, portanto, di nhei ro. Como di nhei ro funci ona,
por um l ado, onde aparece em sua corporal i dade áurea (ou prateada),
i sto é, como mercadori a monetári a, portanto, nem apenas de forma i deal ,
como na medi da de val or, nem sendo suscetí vel de representação, como
no mei o ci rcul ante; por outro l ado, onde sua função, quer a execute em
pessoa, quer por mei o de representantes, fi xa-o como fi gura de val or ex-
cl usi va ou úni ca exi stênci a adequada do val or de troca perante todas as
demai s mercadori as, enquanto si mpl es val ores de uso.
a) Entesouramento
O ci cl o contí nuo das duas metamorfoses contrapostas da merca-
dori a ou a rotação fl ui da de compra e venda revel a-se no i nfati gável
curso do di nhei ro ou em sua função de perpetuum mobile da ci rcul ação.
O di nhei ro i mobi l i za-se ou transforma-se, como di sse Boi sgui l l ebert,
de meuble em immeuble,
187
de moeda em di nhei ro, assi m que se i n-
terrompa a séri e de metamorfoses e a venda não se compl eta com a
compra segui nte.
Com o desenvol vi mento i ni ci al da própri a ci rcul ação de merca-
dori as, desenvol ve-se a necessi dade e a pai xão de fi xar o produto da
pri mei ra metamorfose, a forma modi fi cada da mercadori a ou a sua
cri sál i da áurea.
188
Vendem-se mercadori as não para comprar merca-
dori as, mas para substi tui r a forma mercadori a pel a forma di nhei ro.
De si mpl es i ntermedi ação do metabol i smo, essa mudança de forma
torna-se fi m em si mesma. A fi gura al i enada da mercadori a é i mpedi da
de funci onar como sua fi gura absol utamente al i enável ou como sua
forma di nhei ro apenas evanescente. O di nhei ro petri fi ca-se, então, em
tesouro e o vendedor de mercadori as torna-se entesourador.
OS ECONOMISTAS
250
187 Móvel em i móvel . — BOI SGUI LLEBERT. “Le Détai l de l a France”. I n: Économistes Fi-
nanciers du XVI I I
e
Siècle (...) par Eugène Daire. Pari s, 1843. p. 213. (N. da Ed. Al emã.)
188 "Ri queza em di nhei ro nada mai s é (...) que a ri queza em produtos que foram transformados
em di nhei ro." (RI VI ÈRE, Merci er de l a. Op. cit., p. 573.) “Um val or na forma de produtos
apenas mudou de forma.” (I bid., p. 486.)
Preci samente no começo da ci rcul ação de mercadori as, apenas o
excesso de val ores de uso converte-se em di nhei ro. Ouro e prata tor-
nam-se assi m, por si mesmos, expressões soci ai s do excedente ou da
ri queza. Essa forma i ngênua de entesouramento eterni za-se naquel es
povos em que o modo de produção tradi ci onal e ori entado à auto-sub-
si stênci a corresponde a um cí rcul o de necessi dades fortemente del i mi -
tado. Tal como acontece com os asi áti cos, nomeadamente os i ndi anos.
Vanderl i nt, que acredi ta serem os preços das mercadori as determi nados
pel a massa de ouro e prata exi stente num paí s, pergunta-se por que
as mercadori as i ndi anas são tão baratas. Resposta: porque os i ndi anos
enterram o di nhei ro. De 1602 a 1734, observa, el es enterraram 150
mi l hões de l i bras esterl i nas em prata, que vi eram ori gi nal mente da
Améri ca para a Europa.
189
De 1856 a 1866, em dez anos, portanto, a
I ngl aterra exportou para a Í ndi a e para a Chi na (o metal exportado
para a Chi na refl ui , em grande parte, para a Í ndi a) 120 mi l hões de
l i bras esterl i nas em prata, a qual , antes, havi a si do trocada por di nhei ro
austral i ano.
Com a produção de mercadori as mai s desenvol vi da, cada produtor
de mercadori as tem de assegurar-se o nervus rerum ou o “penhor so-
ci al ”.
190
Suas necessi dades renovam-se i ncessantemente e exi gem com-
pra i ncessante de mercadori as al hei as, enquanto a produção e venda
de suas própri as mercadori as custam tempo e dependem de acasos.
Para comprar sem vender, tem de haver vendi do antes, sem haver
comprado. Essa operação, executada em escal a geral , parece contradi zer
a si mesma. Entretanto, em suas fontes de produção, os metai s preci osos
se trocam di retamente por outras mercadori as. Aí real i zam-se vendas
(por parte dos possui dores das mercadori as) sem compras (por parte
dos possui dores de ouro e prata).
191
Vendas posteri ores não segui das
de compras apenas medi am a di stri bui ção ul teri or dos metai s preci osos
entre todos os possui dores de mercadori as. Assi m, surgem, em todos
os pontos da ci rcul ação, tesouros de ouro e prata, de tamanhos os mai s
di ferentes. Com a possi bi l i dade de manter a mercadori a como val or de
troca ou o val or de troca como mercadori a, desperta a cobi ça pel o ouro.
Com a ampl i ação da ci rcul ação de mercadori as, aumenta o poder do di -
nhei ro, da forma sempre di sponí vel e absol utamente soci al de ri queza.
“O ouro é uma coi sa maravi l hosa! Quem o possui é senhor de
tudo o que deseja. Com o ouro pode-se até fazer entrar al mas
no paraí so.” (Col ombo, em carta da Jamai ca, 1503.)
MARX
251
189 "Por mei o dessa medi da el es mantêm tão bai xos os preços de todos os bens e manufaturados."
(VANDERLI NT. Op. cit., p. 95-96.)
190 "Di nhei ro é um penhor." (BELLERS, John. Essays about the Poor, Manufacturers, Trade,
Plantations, and I mmorality. Londres, 1699. p. 13.)
191 Compra em senti do categóri co pressupõe ouro ou prata como fi gura já transformada da
mercadori a ou como produto da venda.
Como ao di nhei ro não se pode notar o que se transformou nel e,
converte-se tudo, mercadori a ou não, em di nhei ro. Tudo se torna ven-
dável e comprável . A ci rcul ação torna-se a grande retorta soci al , na
qual l ança-se tudo, para que vol te como cri stal monetári o. E não es-
capam dessa al qui mi a nem mesmo os ossos dos santos nem as res
sacrosanctae, extra commercium hominum.
192, 193
Como no di nhei ro é
apagada toda di ferença qual i tati va entre as mercadori as, el e apaga
por sua vez, como leveller
194
radi cal , todas as di ferenças.
195
O di nhei ro
mesmo, porém, é uma mercadori a, uma coi sa externa, que pode con-
verter-se em propri edade pri vada de qual quer um. O poder soci al tor-
na-se, assi m, poder pri vado da pessoa pri vada. A soci edade anti ga o
denunci a, portanto, como el emento di ssol vente de sua ordem econômi ca
e moral . A moderna soci edade, que já em seus anos de i nfânci a arranca
Pl utão pel os cabel os das entranhas da Terra,
196
saúda no Graal de ouro
a respl andecente encarnação de seu mai s autênti co pri ncí pi o de vi da.
A mercadori a, como val or de uso, sati sfaz a uma necessi dade
parti cul ar e consti tui um el emento especí fi co da ri queza materi al . Mas
o val or da mercadori a mede o grau de sua força de atração sobre todos
os el ementos da ri queza materi al , portanto mede a ri queza soci al de
OS ECONOMISTAS
252
192 Coi sas sacrossantas, excl uí das do comérci o humano. (N. dos T.)
193 Henri que I I I , rei cri sti aní ssi mo da França, rouba aos mostei ros etc. suas rel í qui as para
convertê-l as em prata. Sabe-se qual o papel que desempenhou o roubo dos tesouros do
templ o de Del fos pel os fóci os, na hi stóri a grega. Para o deus das mercadori as, o templ o,
na Anti gui dade, servi a de moradi a. El es eram “bancos sagrados”. Aos fení ci os, um povo
comerci ante par excellence, o di nhei ro val i a como a fi gura al i enada de todas as coi sas. Era,
entretanto, l ógi co que as vi rgens que se entregavam aos estranhos por ocasi ão da festa da
deusa do amor ofertassem à deusa a moeda recebi da em pagamento.
194 Ni vel ador. (N. dos T.)
195 "Ouro! Ouro vermel ho, ful gurante, preci oso!
Uma porção del e faz do preto, branco, do fei o, boni to;
Do rui m, bom, do vel ho, jovem, do covarde, val ente, do vi l ão, nobre.
... Ó deuses! Por que i sso? Por que i sso, deuses;
Ah, i sso vos afasta o sacerdote e do al tar;
E arranca o travessei ro do que nel e repousa;
Si m, esse escravo vermel ho ata e desata
Ví ncul o sagrados; abençoa o amal di çoado;
Faz a l epra adorável ; honra o l adrão,
Dá-l he tí tul os, genufl exões e i nfl uênci a,
No consel ho dos senadores;
Traz à vi úva carregada de anos pretendentes;
... Metal mal di to,
És da humani dade a comum prosti tuta."
(SHAKESPEARE. Timão de Atenas.)
"Nada susci tou nos homens tantas i gnomí ni as
Como o ouro. É capaz de arrui nar ci dades,
De expul sar os homens de seus l ares;
Seduz e deturpa o espí ri to nobre
Dos justos, l evando-os a ações abomi návei s;
Ensi na aos mortai s os cami nhos da astúci a e da perfí di a,
E os i nduz a cada obra amal di çoada pel os deuses."
(SÓFOCLES. Antígona.)
196 "A avar eza espera ar rancar o própr i o Pl utão do i nteri or da Ter ra." (ATHEN[AEUS].
Dei pnos.)
seu possui dor. Para o barbaramente si mpl es possui dor de mercadori as,
mesmo para um camponês da Europa oci dental , o val or é i nseparável
da forma val or, portanto acrésci mo do tesouro e da prata é para el e
acrésci mo de val or. O val or do di nhei ro vari a, entretanto, em conse-
qüênci a da vari ação seja de seu própri o val or, seja do val or das mer-
cadori as. Porém, i sso não i mpede, por um l ado, que 200 onças de ouro
conti nuem contendo mai s val or que 100, 300 mai s que 200 etc., nem
i mpede, por outro l ado, que a forma metál i ca natural dessa coi sa con-
ti nue sendo a forma equi val ente geral de todas as mercadori as, a en-
carnação di retamente soci al de todo trabal ho humano. O i mpul so para
entesourar é por natureza sem l i mi te. Qual i tati vamente ou segundo
a sua forma, o di nhei ro é i l i mi tado, i sto é, representante geral da
ri queza materi al , poi s pode trocar-se di retamente por qual quer mer-
cadori a. Porém, ao mesmo tempo, toda a soma efeti va de di nhei ro é
quanti tati vamente l i mi tada, portanto também apenas mei o de compra
de efi cáci a l i mi tada. Essa contradi ção entre a l i mi tação quanti tati va
e o caráter qual i tati vamente i l i mi tado do di nhei ro i mpul si ona i nces-
santemente o entesourador ao trabal ho de Sí si fo da acumul ação. Acon-
tece a el e como ao conqui stador do mundo, que com cada novo paí s
somente conqui sta uma nova frontei ra.
Para reter o ouro como di nhei ro e, portanto, como el emento de
entesouramento, é necessári o i mpedi -l o de ci rcul ar ou de di ssol ver-se
como mei o de compra, em arti gos de consumo. O entesourador sacri fi ca,
por i sso, ao feti che do ouro os seus prazeres da carne. Abraça com
seri edade o evangel ho da abstenção. Por outro l ado, somente pode sub-
trai r da ci rcul ação em di nhei ro o que a el a i ncorpora em mercadori a.
Quanto mai s el e produz, tanto mai s pode vender. Labori osi dade, pou-
pança e avareza são, portanto, suas vi rtudes cardeai s, vender mui to
e comprar pouco são o resumo de sua economi a pol í ti ca.
197
Paral el o à forma di reta do tesouro, ocorre sua forma estéti ca, a
posse de mercadori as de ouro e prata. E esta cresce com a ri queza da
soci edade burguesa. “Soyons riches ou paraissons riches.”
198
(Di derot.)
Forma-se assi m, em parte, um mercado cada vez mai s extenso para
o ouro e a prata, i ndependentemente de suas funções como di nhei ro,
em parte, uma fonte l atente de oferta de di nhei ro, a qual fl ui notada-
mente em perí odos de agi tação soci al .
O entesouramento desempenha di versas funções na economi a de
ci rcul ação metál i ca. A função mai s próxi ma decorre das condi ções de
curso da moeda de ouro e prata. Vi mos como, com as contí nuas osci -
l ações da ci rcul ação das mercadori as em vol ume, preços e vel oci dade,
MARX
253
197 "Aumentar o mai s possí vel o número dos vendedores de cada mercadori a, di mi nui r o mai s
possí vel o número dos compradores, estes são os pontos cruci ai s em torno dos quai s gi ram
todas as medi das da Economi a Pol í ti ca." (VERRI . Op. cit., p. 52-53.)
198 Sejamos ri cos ou pareçamos ri cos. (N. dos T.)
a quanti dade de di nhei ro em curso di mi nui e aumenta i nfati gavel men-
te. É necessári o, portanto, que seja capaz de contrai r-se e expandi r-se.
Ora di nhei ro tem de ser atraí do como moeda; ora moeda tem de ser
repel i da como di nhei ro. Para que a massa de di nhei ro real mente ci r-
cul ante corresponda, a todo momento, ao grau de saturação da esfera
de ci rcul ação, é necessári o que o quantum de ouro e prata exi stente
num paí s exceda o quantum absorvi do pel a função monetári a. Essa
condi ção é sati sfei ta por mei o do di nhei ro em forma de tesouro. As
reservas de tesouro servem, ao mesmo tempo, de canai s de adução e
de deri vação do di nhei ro ci rcul ante, o qual , por i sso, nunca transborda
os canai s de seu curso.
199
b) Meio de pagamento
Na forma di reta de ci rcul ação de mercadori as, que vi mos até
agora, a mesma grandeza de val or está sempre presente dupl amente,
mercadori a num pól o e di nhei ro no pól o oposto. Os possui dores de
mercadori as portanto entravam em contato apenas como representan-
tes de equi val entes reci procamente presentes. Com o desenvol vi mento
da ci rcul ação de mercadori as, porém, desenvol vem-se condi ções em que
a al i enação da mercadori a separa-se temporal mente da real i zação de
seu preço. Basta i ndi car aqui a mai s si mpl es dessas condi ções. Uma
cl asse de mercadori as requer mai s, outra menos, tempo para ser pro-
duzi da. A produção de di versas mercadori as depende das di versas es-
tações do ano. Uma mercadori a nasce no l ugar de seu mercado, outra
OS ECONOMISTAS
254
199 "Para comerci ar, cada nação preci sa de uma soma determi nada de specifick money
*
que
vari a, sendo uma vez mai or, outra vez menor, conforme exi jam as ci rcunstânci as. (...) Esses
fl uxos e refl uxos de di nhei ro regul am-se por si mesmos, sem nenhuma ajuda dos pol í ti cos.
(...) Os bal des trabal ham al ternadamente: quando é escasso o di nhei ro, amoedam-se barras;
sendo escassas as barras, fundem-se moedas." (NORTH, Si r D. Op. cit. [postscript.], p. 3.)
John Stuart Mi l l , durante mui to tempo funci onári o da Companhi a das Í ndi as Ori entai s,
**
confi rma que na Í ndi a os ornamentos de prata funci onam ai nda di retamente como tesouro.
Os “ornamentos de prata são l evados à cunhagem quando há uma al ta taxa de juros; el es
vol tam quando a taxa de juros cai ”. ("J. St. Mi l l ’s Evi dence." I n: Repts. on Bankacts. 1857,
nº 2 084, 2 101.) Segundo um documento parl amentar de 1864 sobre a i mportação e ex-
portação de ouro e prata na Í ndi a,
***
em 1863, a i mportação de ouro e prata ul trapassou
a exportação em 19 367 764 l i bras esterl i nas. Nos úl ti mos oi to anos antes de 1864, o
excedente da i mportação sobre a exportação dos metai s preci osos montou a 109 652 917
l i bras esterl i nas. No curso deste sécul o, cunharam-se na Í ndi a bem mai s de 200 mi l hões
de l i bras esterl i nas.
*
Di nhei ro metál i co. (N. dos T.)
**
Companhi a das Í ndi as Ori entai s — companhi a comerci al i ngl esa que exi sti u de 1600 a
1858. El a era um i nstrumento da pol í ti ca col oni al de roubo da I ngl aterra na Í ndi a, Chi na
e em outros paí ses asi áti cos. Por mei o del a, os col oni zadores i ngl eses consegui ram a pau-
l ati na conqui sta da Í ndi a. A Companhi a das Í ndi as Ori entai s di spôs por mui to tempo do
monopól i o do comérci o com a Í ndi a e ti nha em suas mãos as funções admi ni strati vas mai s
i mportantes, nesse paí s. O l evante para a l i bertação naci onal na Í ndi a (1857/59) forçou os
i ngl eses a mudarem as formas de seu domí ni o col oni al ; a Companhi a das Í ndi as Ori entai s
foi di ssol vi da e a Í ndi a decl arada posse da Coroa i ngl esa. (N. da Ed. Al emã.)
***
“East I ndi a (Bul l i on). Return to an address of the Honourabl e House of Commons, dated
8 February 1864.” (N. da Ed. Al emã.)
tem de vi ajar para um mercado di stante. Assi m, um possui dor de mer-
cadori as pode apresentar-se como vendedor antes que outro como com-
prador. Com constante repeti ção das mesmas transações entre as mes-
mas pessoas, as condi ções de venda das mercadori as se regul am pel as
suas condi ções de produção. Por outro l ado, vende-se o uso de certas
cl asses de mercadori as, por exempl o, uma casa, por determi nado espaço
de tempo. Somente após o decurso do prazo fi xado recebe o comprador
real mente o val or de uso da mercadori a. El e a compra, portanto, antes
de pagá-l a. Um possui dor de mercadori as vende mercadori as que já
exi stem, o outro compra como si mpl es representante do di nhei ro ou
como representante de di nhei ro futuro. O vendedor torna-se credor, o
comprador, devedor. Como a metamorfose da mercadori a ou o desen-
vol vi mento de sua forma val or se al tera aqui , o di nhei ro assume outra
função. Converte-se em mei o de pagamento.
200
O caráter de credor ou devedor ori gi na-se aqui da ci rcul ação si m-
pl es de mercadori as. Sua mudança de forma i mpri me esse novo cunho
ao vendedor e ao comprador. I ni ci al mente, trata-se poi s de papéi s eva-
nescentes e desempenhados al ternadamente pel os mesmos agentes de
ci rcul ação, do mesmo modo que os de vendedor e comprador. Porém,
a antí tese parece agora desde sua ori gem menos confortável e tem
mai or capaci dade de cri stal i zar-se.
201
Mas os mesmos caracteres podem
também apresentar-se em cena, i ndependentemente da ci rcul ação de
mercadori as. Assi m, por exempl o, a l uta de cl asse no mundo anti go
apresenta-se pri nci pal mente sob a forma de uma l uta entre credor e
devedor e termi na em Roma com a decadênci a do devedor pl ebeu, que
é substi tuí do pel o escravo. Na I dade Médi a essa l uta termi na com a
decadênci a do devedor feudal , que perde seu poder pol í ti co com sua
base econômi ca. Contudo, a forma di nhei ro — a rel ação entre credor
e devedor possui a forma de uma rel ação monetári a — somente refl ete
o antagoni smo de condi ções de exi stênci as econômi cas mai s profundas.
Vol temos à esfera da ci rcul ação de mercadori as. Cessou o apa-
reci mento si mul tâneo dos equi val entes mercadori a e di nhei ro, sobre
os doi s pól os de processo de venda. O di nhei ro funci ona agora, pri mei ro,
como medi da de val or na determi nação do preço da mercadori a vendi da.
Seu preço fi xado contratual mente mede a obri gação do comprador, i sto
MARX
255
200 Lutero di sti ngue di nhei ro como mei o de compra e como mei o de pagamento. “Fazes de mi m
um gêmeo do avarento, de modo que não posso pagar aqui , nem comprar al i .” (LUTHER,
Marti n. An die Pfarrherrn, wider den Wucher zu predigen. Wi ttenberg. 1540.)
*
201 Sobre as rel ações entre devedor e credor, entre os comerci antes i ngl eses, no i ní ci o do sécul o
XVI I I : “Entre os comerci antes, aqui na I ngl aterra, rei na tal espí ri to de cruel dade que não
se encontra em nenhuma outra soci edade humana nem em nenhum outro paí s do mundo.”
(An Essay on Credit and the Bankrupt Act. Londres, 1707. p. 2.)
*
Nós ci tamos Lutero conforme a 4ª edi ção de O Capital. (N. da Ed. Al emã.)
é, a soma de di nhei ro, a qual el e deve em certo prazo. Segundo, funci ona
como mei o i deal de compra. Embora apenas exi sta no compromi sso
monetári o do comprador, faz com que a mercadori a mude de mãos.
Apenas ao vencer o prazo fi xado para o pagamento, o mei o de paga-
mento entra real mente em ci rcul ação, i sto é, el e passa real mente das
mãos do comprador para as do vendedor. O mei o ci rcul ante converteu-se
em tesouro, ao i nterromper o processo de ci rcul ação em sua pri mei ra
fase ou ao ser subtraí da da ci rcul ação a forma transformada da mer-
cadori a. O mei o de pagamento entra na ci rcul ação, porém depoi s que
a mercadori a já se reti rou del a. O di nhei ro já não medi a o processo.
El e o fecha de modo autônomo, como exi stênci a absol uta do val or de
troca ou mercadori a geral . O vendedor converte sua mercadori a em
di nhei ro para sati sfazer a uma necessi dade por mei o do di nhei ro, o
entesourador, para preservar a mercadori a em forma de di nhei ro, o
comprador que fi cou devendo, para poder pagar. Se não pagar, seus
bens são vendi dos judi ci al mente. A fi gura de val or da mercadori a, di -
nhei ro, torna-se, portanto, agora um fi m em si da venda, em vi rtude
de uma necessi dade soci al que se ori gi na das condi ções do própri o
processo de ci rcul ação.
O comprador retransforma di nhei ro em mercadori a antes de ter
converti do mercadori a em di nhei ro ou real i za a segunda metamorfose
da mercadori a antes da pri mei ra. A mercadori a do vendedor ci rcul a,
mas real i za seu preço somente sob a forma de um tí tul o de crédi to de
di rei to pri vado. Converte-se em val or de uso antes de haver-se con-
verti do em di nhei ro. Sua pri mei ra metamorfose somente se real i za a
posteriori.
202
Em todo perí odo determi nado do processo de ci rcul ação, as obri -
gações venci das representavam a soma de preços das mercadori as cuja
venda as fez surgi r. A massa de di nhei ro necessári a para real i zar essa
soma de preços depende, antes de tudo, da vel oci dade de ci rcul ação
dos mei os de pagamento. Esta é condi ci onada por duas ci rcunstânci as:
o encadeamento das rel ações entre credor e devedor, pel as quai s A
recebe o di nhei ro de seu devedor B, e paga com el e ao seu credor C
etc.; e o l apso de tempo entre os di versos prazos de pagamento. Essa
cadei a em processamento de pagamentos ou das pri mei ras metamor-
OS ECONOMISTAS
256
202 Nota à 2ª edi ção. Vê-se, pel a segui nte ci tação de meu escri to surgi do em 1859, por que,
no texto, não tomo em consi deração uma forma oposta: “I nversamente, o di nhei ro pode,
no processo D — M, ser al i enado como verdadei ro mei o de compra e assi m ser real i zado
o preço da mercadori a antes de real i zar-se o val or de uso do di nhei ro ou al i enar-se a
mercadori a. I sso ocorre, por exempl o, na forma costumei ra dos pagamentos adi antados.
Ou na forma em que o Governo i ngl ês (...) compra o ópi o dos Ryots na Í ndi a. Desse modo,
porém, o di nhei ro atua somente na forma já conheci da como mei o de compra. (...) Natu-
ral mente que também se adi anta capi tal sob a forma de di nhei ro. (...) Mas esse aspecto
não cabe no hori zonte da ci rcul ação si mpl es”. (Zur Kritik etc. p. 119-120.)
foses a posteriori di sti ngue-se essenci al mente do entrel açamento das
séri es de metamorfoses, apreci adas anteri ormente. No curso do mei o
ci rcul ante a conexão entre compradores e vendedores não é apenas
expressa. A própri a conexão surge pri mei ro no curso do di nhei ro e com
el e. O movi mento dos mei os de pagamento expressa, ao contrári o, uma
conexão soci al que já se ti nha compl etado antes del e.
A si mul tanei dade e o paral el i smo das vendas l i mi tam a substi -
tui ção da massa de moedas medi ante a vel oci dade de ci rcul ação. El as
proporci onam, ao contrári o, nova al avanca na economi a dos mei os de
pagamento. Com a concentração dos pagamentos na mesma praça de-
senvol vem-se natural mente i nsti tui ções e métodos própri os para sua
compensação. Assi m, por exempl o, os virements de Lyon, na I dade Mé-
di a. Os crédi tos de A contra B, B contra C e C contra A etc. preci sam
apenas ser confrontados para se cancel ar mutuamente, até certo total ,
como grandezas posi ti vas e negati vas. Assi m fi ca somente um sal do
devedor a ser l i qui dado. Quanto mai s maci ça for a concentração de
pagamentos, tanto menor será rel ati vamente o sal do e, portanto, a
massa dos mei os de pagamento em ci rcul ação.
A função do di nhei ro como mei o de pagamento i mpl i ca uma con-
tradi ção di reta. Na medi da em que os pagamentos se compensam, el e
funci ona apenas i deal mente, como di nhei ro de conta ou medi da de
val or. Na medi da em que tem-se de fazer pagamentos efeti vos, el e não
se apresenta como mei o ci rcul ante, como forma apenas evanescente e
i ntermedi ári a do metabol i smo, senão como a encarnação i ndi vi dual do
trabal ho soci al , exi stênci a autônoma do val or de troca, mercadori a ab-
sol uta. Essa contradi ção estoura no momento de cri ses comerci ai s e
de produção a que se dá o nome de cri se monetári a.
203
El a ocorre
somente onde a cadei a em processamento dos pagamentos e um si stema
arti fi ci al para sua compensação estão pl enamente desenvol vi dos. Ha-
vendo perturbações as mai s gerai s desse mecani smo, seja qual for a
sua ori gem, o di nhei ro se converte súbi ta e di retamente de fi gura so-
mente i deal de di nhei ro de conta em di nhei ro sonante. Torna-se i n-
substi tuí vel por mercadori as profanas. O val or de uso da mercadori a
torna-se sem val or e seu val or desaparece di ante de sua própri a forma
de val or. Ai nda há pouco o ci dadão, presumi ndo-se escl areci do e ébri o
de prosperi dade, procl amava o di nhei ro como uma pai xão i núti l . So-
mente a mercadori a é di nhei ro. Apenas o di nhei ro é mercadori a, cl a-
ma-se agora por todo o mercado mundi al . E como o cervo que gri ta
MARX
257
203 Deve-se di sti ngui r bem a cri se monetári a, defi ni da no texto como fase parti cul ar de cada
cri se geral de produção e comérci o, do ti po especi al de cri se que se chama também de cri se
monetári a, mas que pode aparecer i ndependentemente, de modo que el a só afeta i ndústri a
e comérci o por repercussão. Estas são cri ses cujo movi mento se centra no capi tal monetári o
e, por i sso, bancos, bol sas de val ores e fi nanças são sua esfera i medi ata. (Nota de Marx à
3ª edi ção.)
por água fresca, assi m gri ta a sua al ma por di nhei ro, a úni ca ri queza.
204
Na cri se, a antí tese entre a mercadori a e sua fi gura de val or, o di nhei ro,
é el evada a uma contradi ção absol uta. A forma de mani festação do
di nhei ro é aqui portanto também i ndi ferente. A fome de di nhei ro é a
mesma, quer se tenha de pagar em ouro ou em di nhei ro de crédi to,
em notas de banco, por exempl o.
205
Se observarmos agora a soma total do di nhei ro em ci rcul ação
durante dado perí odo, veri fi camos que, dada a vel oci dade de ci rcul ação
do mei o ci rcul ante e dos mei os de pagamento, el a é i gual à soma dos
preços das mercadori as a serem real i zados mai s a soma dos pagamentos
venci dos menos os pagamentos que se compensam e, fi nal mente, menos
o número de gi ros que a mesma moeda descreve, funci onando al ter-
nadamente como mei o de ci rcul ação e como mei o de pagamento. Assi m,
por exempl o, o camponês vende seu grão por 2 l i bras esterl i nas, que
servem, desse modo, de mei o ci rcul ante. No di a do venci mento, el e
paga com el as o l i nho que l he forneceu o tecel ão. As mesmas 2 l i bras
esterl i nas funci onam agora como mei o de pagamento. O tecel ão, por
sua vez, compra com el as uma Bí bl i a e paga à vi sta — el as funci onam
de novo como mei o ci rcul ante — etc. Mesmo sendo dados os preços, a
vel oci dade de ci rcul ação de di nhei ro e a economi a dos pagamentos, já
não coi nci dem a massa de di nhei ro que gi ra e a massa de mercadori as
que ci rcul a durante um perí odo, durante um di a, por exempl o. Está
em curso di nhei ro que representa mercadori as reti radas há mui to tem-
po de ci rcul ação. Ci rcul am mercadori as cujo equi val ente em di nhei ro
só aparece no futuro. Por outro l ado, os pagamentos contraí dos cada
di a e os pagamentos que vencem nesse mesmo di a são grandezas ab-
sol utamente i ncomensurávei s.
206
OS ECONOMISTAS
258
204 "Esse sal to brusco do si stema de crédi to para o si stema monetári o acrescenta o susto
teóri co ao pâni co práti co: e os agentes da ci rcul ação estremecem perante o mi stéri o i mpe-
netrável de suas própri as rel ações." (MARX, Karl . Op. cit., p. 126.) “Os pobres não têm
trabal ho, porque os ri cos não têm di nhei ro para empregá-l os, embora possuam as mesmas
terras e as mesmas forças de trabal ho que antes, para poder produzi r al i mentos e roupas;
são estas, porém, que consti tuem a verdadei ra ri queza de uma nação e não o di nhei ro.”
(BELLERS, John. Proposals for Raising a Colledge of I ndustry. Londres, 1696, p. 3-4.)
205 Como tai s momentos são expl orados pel os amis du commerce:
*
“Certa ocasi ão” (1839) “um
vel ho e ávi do banquei ro” (da “Ci ty”) “l evantou a tampa da escri vani nha, em sua sal a
pri vada, à qual el e se sentava, e exi bi u a um ami go maços de notas bancári as; com prazer
efusi vo, el e contou que eram 600 mi l l i bras esterl i nas, que teri am si do reti das para tornar
o di nhei ro escasso e seri am todas postas em ci rcul ação depoi s das 3 horas, no mesmo di a”.
([ROY, H.] The Theory of the Exchanges. The Bank Charter Act of 1844. Londres, 1864.
p. 81.) O órgão semi -ofi ci al The Observer rel ata que no di a 24 de abri l de 1864: “Estão
ci rcul ando rumores mui to estranhos sobre os mei os empregados com o fi m de provocar
uma escassez de notas bancári as. (...) Por mai s questi onável que possa parecer admi ti r-se
que truques desse ti po pudessem ter si do empregados, di fundi u-se tanto a notí ci a a respei to
que el a tem, de fato, de ser menci onada”.
*
Ami gos do comérci o. (N. dos T.)
206 "O vol ume de vendas ou contratos, real i zados durante um di a determi nado, não i nfl ui na
quanti dade de di nhei ro que ci rcul a nesse di a, mas, na grande mai ori a dos casos, vai se
traduzi r em múl ti pl as emi ssões de l etras de câmbi o sobre a quanti dade de di nhei ro que
poderá estar em curso no futuro, em di as mai s ou menos di stantes. As l etras concedi das
O di nhei ro de crédi to se ori gi na di retamente da função do di nhei ro
como mei o de pagamento, já que são col ocados em ci rcul ação os própri os
certi fi cados de dí vi das por mercadori as vendi das, para transferi r os
respecti vos crédi tos. Por outro l ado, ao estender-se o si stema de crédi to,
estende-se a função do di nhei ro como mei o de pagamento. Enquanto
tal , recebe forma própri a da exi stênci a, na qual ocupa a esfera das
grandes transações comerci ai s, enquanto as moedas de ouro e prata
fi cam confi nadas à esfera do varejo.
207
Com certo ní vel e vol ume de produção de mercadori as, a função
do di nhei ro como mei o de pagamento ul trapassa a esfera da ci rcul ação
de mercadori as. El e torna-se a mercadori a geral dos contratos.
208
Ren-
das, i mpostos etc. transformam-se de entregas em natura em paga-
mentos em di nhei ro. Até que ponto essa transformação é condi ci onada
pel a confi guração geral do processo de produção é demonstrado, por
exempl o, pel o fato de que tenha fracassado por duas vezes a tentati va
do I mpéri o Romano de cobrar todos os tri butos em di nhei ro. E a i n-
descri tí vel mi séri a da popul ação camponesa da França, sob o rei nado
MARX
259
ou crédi tos abertos hoje não preci sam, no que di z respei to ao seu número, montante ou
prazo, ter nenhuma semel hança com aquel es que foram concedi dos ou acei tos para amanhã
ou depoi s de amanhã; antes, pel o contrári o, mui tos dos crédi tos e das l etras de hoje, quando
venci dos, se cobrem com um montante de obri gações cuja ori gem se di stri bui por uma séri e
de datas anteri ores, total mente i ndetermi nadas. Letras de câmbi o com prazos se 12 meses,
6, 3 ou 1 coi nci dem mui tas vezes de tal modo que aumentam extraordi nari amente as
obri gações venci das em determi nado di a." (The Currency Theory Reviewed; a Letter to the
Scotch People. By a Banker in England. Edi mburgo, 1845, p. 29-30 passim.)
207 Como um exempl o de quão pequena é a quanti dade de di nhei ro real que entra nas verda-
dei ras operações comerci ai s, segue aqui o esquema de uma das mai ores casas de comérci o
de Londres (Morri son, Di l l on & Co.) sobre seus recebi mentos e pagamentos monetári os
anuai s. Suas transações, no ano de 1856, que abrangem mui tos mi l hões de l i bras, estão
reduzi das à escal a de 1 mi l hão.
(Report from the Select Committee on the Bank Acts. Jul ho de 1858. p. LXXI .)
208 "O caráter do comérci o mudou de tal manei ra que agora, em vez da troca de bens por bens
ou entrega e recepção, há venda e pagamento e todos os negóci os (...) apresentam-se atual -
mente como negóci os puros de di nhei ro." (DEFOE, D. An Essay upon Publick Credit. 3ª
ed., Londres, 1710. p. 8.)
*
Val es postai s. (N. dos T.)
de Luí s XI V, que com tanta el oqüênci a foi denunci ada por Boi sgui l l e-
bert, Marechal Vauban etc., não se devi a somente ao montante dos
i mpostos, mas também à conversão dos i mpostos em natura em i m-
postos em di nhei ro.
209
Por outro l ado, se a forma natural da renda do
sol o, que consti tui , na Ási a, ao mesmo tempo, o el emento fundamental
do i mposto públ i co, basei a-se l á em condi ções de produção que se re-
produzem com a i mutabi l i dade de condi ções naturai s, aquel a forma
de pagamento repercurte sobre a forma anti ga de produção, conser-
vando-a. É um dos segredos da autoconservação do I mpéri o Turco. E
se, no Japão, o comérci o externo i mposto pel a Europa provoca a con-
versão da renda em natura em renda em di nhei ro, será à custa de
sua agri cul tura exempl ar. Suas estrei tas condi ções econômi cas de exi s-
tênci a di ssol ver-se-ão.
Em cada paí s se fi xam certos prazos gerai s de pagamento. Esses
prazos, abstrai ndo outros ci cl os da reprodução, obedecem em parte às
condi ções naturai s da produção, vi ncul adas às mudanças de estação.
Esses prazos regul am também pagamentos que não surgem di reta-
mente da ci rcul ação de mercadori as, tai s como i mpostos, rendas etc.
O vol ume de di nhei ro que é exi gi do, em certos di as do ano, para pa-
gamentos di spersos por toda a superfí ci e da soci edade, ori gi na pertur-
bações peri ódi cas, mas que são compl etamente superfi ci ai s, na econo-
mi a dos mei os de pagamento.
210
Da l ei que regul a a vel oci dade de
ci rcul ação dos mei os de pagamento depreende-se que para todos os
pagamentos peri ódi cos, qual quer que seja a sua ori gem, o vol ume de
mei os de pagamento necessári o está em proporção di reta à duração
dos prazos de pagamento.
211
OS ECONOMISTAS
260
209 "O di nhei ro tornou-se o verdugo de todas as coi sas." A arte fi nancei ra é “a retorta na qual
se evaporou uma quanti dade assustadora de bens e mercadori as a fi m de obter esse fatal
extrato”. “O di nhei ro decl ara guerra a todo o gênero humano.” (BOI SGUI LLEBERT. “Di s-
sertati on sur l a Nature des Ri chesses, de l ’Argent et des Tri buts”. Edi t. Dai re. Économistes
Financiers. Pari s, 1843, t. I , p. 413, 417, 418, 419.)
210 "Segunda-fei ra de Pentecostes de 1824", conta o sr. Crai g à comi ssão de i nvesti gação par-
l amentar de 1826, “havi a uma procura tão i mensa por notas bancári as em Edi mburgo que
às 11 horas não tí nhamos mai s nenhuma nota sob nossa custódi a. Di ri gi mo-nos aos di fe-
rentes bancos, um após o outro, para obter al gumas emprestadas, mas não foi possí vel e
mui tas transações só puderam ser acertadas por mei o de slips of paper.
*
Às 3 horas da
tarde, porém, di versas notas já havi am retornado aos bancos dos quai s havi am saí do. El as
apenas ti nham mudado de mãos.” Embora a ci rcul ação médi a efeti va das notas bancári as
na Escóci a i mporte em menos de 3 mi l hões de l i bras esterl i nas, são postas em ati vi dade
em di versos di as de pagamento do ano, todas as notas que se encontram na posse dos
banquei ros, num total de cerca de 7 mi l hões de l i bras esterl i nas. Nessas ocasi ões, as notas
têm de exercer uma função úni ca e especí fi ca e tão l ogo esteja exerci da, refl uem aos res-
pecti vos bancos dos quai s saí ram." (FULLARTON, John. Regulation of Currencies. 2ª ed.,
Londres, 1845, nota à p. 86.) A tí tul o de escl areci mento acrescente-se que na Escóci a, ao
tempo do escri to de Ful l arton, não se emi ti am cheques, mas só notas para os depósi tos.
*
Pedaços de papel . (N. dos T.)
211 À pergunta “se houvesse a necessi dade de movi mentar 40 mi l hões por ano, bastari am os
mesmos 6 mi l hões” (ouro) “para os gi ros e ci cl os, que se dão por exi gênci a do comérci o”
Petty responde com sua costumei ra mestri a: “Eu respondo si m: para a quanti a de 40
mi l hões bastari am 40/52 de 1 mi l hão, se os ci cl os durassem um perí odo tão curto i sto é,
O desenvol vi mento do di nhei ro como mei o de pagamento exi ge certa
acumulação monetári a, nas datas de venci mento das somas devi das. En-
quanto o entesouramento desaparece como forma autônoma de enri que-
ci mento, com o progresso da soci edade burguesa, el e, ao contrári o, cresce
na forma de fundos de reserva dos mei os de pagamento.
c) Dinheiro mundial
Ao sai r da esfera i nterna de ci rcul ação, o di nhei ro desprende-se
das formas l ocai s do padrão de preços, moeda, moeda di vi si onári a e
si gno de val or, e reassume a forma ori gi nári a de barras dos metai s
preci osos. No comérci o mundi al as mercadori as desdobram seu val or
uni versal mente. Sua fi gura autônoma de val or se defronta, portanto,
aqui também com el as sob a forma de di nhei ro mundi al . É só no mer-
cado mundi al que o di nhei ro funci ona pl enamente como mercadori a,
cuja forma natural é, ao mesmo tempo, forma di retamente soci al de
real i zação do trabal ho humano em abstrato. Seu modo de exi sti r ajus-
ta-se ao seu concei to.
Na esfera i nterna de ci rcul ação pode servi r como medi da de val or
e, portanto como di nhei ro, somente uma mercadori a. No mercado mun-
di al domi na dupl a medi da de val or, o ouro e a prata.
212
MARX
261
semanal , como acontece com pobres artesãos e trabal hadores, que recebem e pagam todos
os sábados; se, porém os prazos forem tri mestrai s, conforme nosso costume de pagar ar-
rendamento e de col etar i mpostos, então seri am necessári os 10 mi l hões. Se supusermos,
portanto, que os pagamentos geral mente ocorrem em prazos di ferentes, entre 1 e 13 semanas,
então tem-se de adi ci onar 10 mi l hões a 40/52, cuja metade é cerca de 5 1/2 mi l hões, de
modo que 5 1/2 mi l hões seri am sufi ci entes”. (PETTY, Wi l l i am. Political Anatomy of I reland,
1672. Edi t. Londres, 1691. p. 13-14.)
*
*
Marx ci ta aqui o escri to de Petty “Verbum sapi enti ”, que foi publ i cado como supl emento
da obra Political Anatomy of I reland. (N. da Ed. Al emã.)
212 Daí a i nadequação de qual quer l egi sl ação que prescreva aos bancos naci onai s só entesou-
rarem o metal preci oso que funci ona como di nhei ro no i nteri or do paí s. Os “doces i mpedi -
mentos” assi m auto-i mpostos do Bank of Engl and, por exempl o, são conheci dos. Sobre as
grandes épocas hi stóri cas da mudança do val or rel ati vo do ouro e da prata, ver MARX,
Karl . Op. cit., p. 136 et seqs. — Adi tamento à 2ª edi ção. Si r Robert Peel procurou em sua
l ei bancári a de 1844 remedi ar esse mal , permi ti ndo ao Bank of Engl and emi ti r notas ga-
ranti das por barras de prata, de tal manei ra porém que a reserva de prata nunca fora
mai s que 1/4 da reserva de ouro. O val or da prata esti ma-se, nesse caso, segundo seu preço
de mercado (em ouro) no mercado de Londres. {À 4ª edi ção. Encontramo-nos, de novo, numa
época de grande mudança do val or rel ati vo do ouro e da prata. Há cerca de 25 anos, a
rel ação de val or do ouro à prata era de 15 1/2: 1, hoje é de aproxi madamente 22: 1, e a
prata está cai ndo ai nda conti nuamente em rel ação ao ouro. I sso é no essenci al a conseqüênci a
de uma mudança no modo de produção de ambos os metai s. Anti gamente, extraí a-se o ouro
quase excl usi vamente por mei o da l avagem de camadas al uvi ai s, produtos da erosão de
rochas aurí feras. Agora já não basta esse método, que foi rel egado a segundo pl ano pel o
processamento dos própri os fi l ões aurí feros de quartzo, método que, embora bem conheci do
dos anti gos (DI ODOR. I I I , 12-14), era uti l i zado antes apenas em segundo l ugar. Por outro
l ado, não apenas descobri ram-se novas jazi das i mensas de prata a oeste das montanhas
Rochosas ameri canas, mas também estas e as mi nas de prata mexi canas foram abertas ao
tráfego por vi as férreas, possi bi l i tando a i ntrodução de maqui nari a moderna e de combus-
tí vei s e, desse modo, a extração de prata em mai or escal a e a custos mai s bai xos. Exi ste,
porém, grande di ferença quanto ao modo de ocorrênci a dos doi s metai s nos fi l ões. O ouro
está geral mente em estado puro, mas em compensação di sperso no quartzo em quanti dades
O di nhei ro mundi al funci ona como mei o geral de pagamento,
mei o geral de compra e materi al i zação soci al absol uta da ri queza em
geral (universal wealth). A função como mei o de pagamento, para a
compensação de sal dos i nternaci onai s, é predomi nante. Daí a pal avra
de ordem dos mercanti l i stas — bal ança comerci al !
213
O ouro e a prata
funci onam como mei o i nternaci onal de compra sobretudo cada vez que
se perturba bruscamente o equi l í bri o tradi ci onal do metabol i smo entre
nações di ferentes. Fi nal mente, como materi al i zação soci al absol uta da
ri queza, onde não se trata nem de compras nem de pagamentos, mas
OS ECONOMISTAS
262
mi núscul as; por i sso, toda a ganga tem de ser tri turada, extrai ndo-se depoi s o ouro por
mei o de l avagem ou por mei o de mercúri o. Freqüentemente obtém-se de 1 mi l hão de gramas
de quartzo apenas 1 a 3 gramas, mui to raramente 30 a 60 gramas de ouro. A prata quase
nunca ocorre pura, mas em compensação em mi néri os própri os, que podem ser separados
com rel ati va faci l i dade da ganga e contêm geral mente 40 a 90% de prata; ou é conti da
em quanti dades menores nos mi néri os de cobre, chumbo etc., cujo processamento já é por
si mesmo l ucrati vo. Daí já se vê que, enquanto o trabal ho de produção do ouro tende a
aumentar, ao passo que o da prata i ndubi tavel mente di mi nui , a queda do val or da úl ti ma
se expl i ca de manei ra i ntei ramente natural . Essa queda do val or expressar-se-i a em queda
ai nda mai or de preço, caso não se manti vesse o preço da prata el evado por mei os ar ti fi ci ai s.
Os tesour os de pr ata da Amér i ca, por ém, só foram col ocados ao al cance dos expl oradores
em pequena par te, e assi m toda a per specti va é de que o val or da pr ata conti nue a
bai xar por mai s tempo. Contr i bui ai nda para i sso a r el ati va di mi nui ção da demanda
de prata para arti gos de uso e de l uxo, sua substi tui ção por mer cadori as pr ateadas,
al umí ni o etc. Daí aval i e-se o utopi smo da i déi a bi metal i sta de que um cur so forçado
i nter naci onal el evari a a prata à anti ga propor ção de val or 1: 15 1/2. É mai s pr ovável
que a prata perca também no mer cado mundi al , cada vez mai s, sua qual i dade monetár i a.
— F. E.}
213 Os antagoni stas do si stema mercanti l i sta, que consi derava a l i qui dação do sal do excedente
da bal ança comerci al por mei o de ouro e prata como objeti vo do comérci o i nternaci onal ,
desconheceram total mente, por seu l ado, a função do di nhei ro mundi al . Como a concepção
fal sa das l ei s que regul am o vol ume do mei o ci rcul ante se refl ete na concepção fal sa sobre
o movi mento i nternaci onal dos metai s preci osos, demonstrei mi nuci osamente em Ri cardo.
(Op. cit., p. 150 et seqs.) Seu fal so dogma: “Uma bal ança comerci al desfavorável só pode
ori gi nar-se de um excesso de mei o ci rcul ante. (...) A exportação de moedas é devi do a seu
preço bai xo e não é conseqüênci a, porém causa, de uma bal ança desfavorável .”
*
Já se
encontra em Barbon: “A bal ança comerci al , quando exi ste uma, não é a causa de que o
di nhei ro seja exportado de um paí s. A exportação resul ta antes da di ferença de val or dos
metai s preci osos em cada paí s”. (BARBON, N. Op. cit., p. 59.) MacCul l och em The Literature
of Political Economy: a Classified Catalogue, Londres, 1845, l ouva Barbon por essa ante-
ci pação, mas evi ta prudentemente menci onar as formas i ngênuas, em que aparecem ai nda
em B., os pressupostos absurdos do currency principle.
**
A fal ta de crí ti ca e mesmo a
desonesti dade desse catál ogo cul mi nam nas seções sobre a hi stóri a da teori a monetári a,
porque aqui McCul l och está bajul ando como si cofanta de Lord Overstone (o ex-banquei ro
Loyd), a quem chama “facile princeps argentariorum”.
***
*
Marx ci ta aqui o l i vro de RI CARDO, D. The High Price of Bullion a Proof of the Depreciation
of Bank Notes. 4ª ed., Londres, 1811.
**
Teori a monetári a mui to di vul gada na I ngl aterra na pri mei ra metade do sécul o XI X, que
parti u da teori a quanti tati va do di nhei ro. Os representantes da teori a quanti tati va afi rmam
que os preços das mercadori as seri am determi nados pel a quanti dade de di nhei ro em ci r-
cul ação. Os representantes do currency principle queri am i mi tar as l ei s da ci rcul ação me-
tál i ca. No currency (mei o ci rcul ante) i ncl uí am, al ém do di nhei ro metál i co, também as notas
bancári as. El es acredi tavam al cançar um curso estável do di nhei ro por mei o da pl ena
cobertura em ouro das notas; a emi ssão devi a ser regul ada conforme a i mportação e ex-
portação do metal preci oso. As tentati vas do Governo i ngl ês (l ei bancári a de 1844) de
basear-se nessa teori a não ti veram nenhum sucesso e somente confi rmaram sua fal ta de
sustentação ci entí fi ca e sua total i nuti l i dade para fi ns práti cos. (N. da Ed. Al emã.)
***
O reconheci do rei da gente de di nhei ro. (N. dos T.)
si m de transferênci a de ri queza de um paí s a outro e onde essa trans-
ferênci a não é permi ti da sob a forma de mercadori a, seja pel as con-
junturas do mercado, seja pel o fi m que se busca al cançar.
214
Do mesmo modo como para sua ci rcul ação i nterna, necessi ta todo
paí s contar com um fundo de reserva para a ci rcul ação do mercado
mundi al . As funções dos tesouros surgem, assi m, em parte da função
do di nhei ro como mei o i nterno de pagamento ou de ci rcul ação, em
parte de sua função como di nhei ro mundi al .
215
Neste úl ti mo papel sem-
pre é exi gi da a mercadori a monetári a efeti va, o ouro e a prata em
pessoa; daí ter James Stewart expressamente caracteri zado ouro e pra-
ta em contraste com suas representações puramente l ocai s, como money
of the world.
216
O movi mento do fl uxo de ouro e prata é dupl o. De um l ado, el e
se espal ha a parti r de suas fontes, sobre todo o mercado mundi al , onde
é absorvi do, em di ferentes vol umes, pel as di sti ntas esferas naci onai s
de ci rcul ação, para penetrar pel os seus canai s i nternos de ci rcul ação,
substi tui r moedas de ouro e prata desgastadas, fornecer materi al para
mercadori as de l uxo e i mobi l i zar-se como tesouros.
217
Esse pri mei ro
movi mento é efetuado por mei o do i ntercâmbi o di reto dos trabal hos
naci onai s real i zados em mercadori as, pel o trabal ho real i zado em metai s
preci osos dos paí ses produtores de ouro e prata.
Por outro l ado, o ouro e a prata fl uem constantemente de l á para
cá entre as di ferentes esferas naci onai s de ci rcul ação, um movi mento
que acompanha as i ncessantes osci l ações do curso de câmbi o.
218
Os paí ses de produção burguesa desenvol vi da l i mi tam os tesouros
MARX
263
214 Por exempl o, nos casos de subsí di os, de emprésti mos de di nhei ro para condução de guerras
ou para a retomada dos pagamentos a vi sta pel os bancos etc., o val or pode ser exi gi do
justamente na forma de di nhei ro.
215 Nota à 2ª edi ção. “De fato, eu não posso i magi nar nenhuma prova mai s convi ncente de que
o mecani smo do entesouramento, em paí ses de padrão metál i co, é capaz de desempenhar
cada função necessári a à compensação de obri gações i nternaci onai s, sem nenhum apoi o
perceptí vel por parte da ci rcul ação geral , do que a faci l i dade com que a França, ai nda em
vi as de se recuperar do abal o de uma destrui dora i nvasão estrangei ra, consegui u efetuar,
num perí odo de 27 meses, o pagamento de quase 20 mi l hões de i ndeni zação de guerra,
i mposta a el as pel as potênci as al i adas, sendo de se notar que parte consi derável dessa
soma em di nhei ro metál i co, sem restri ção ou perturbação vi sí vel do curso i nterno do di nhei ro
ou sem quai squer osci l ações al armantes de seu curso de câmbi o.” (FULLARTON. Op. cit.,
p. 141.) (À 4ª edi ção. — Um exempl o de mai or i mpacto temos na faci l i dade com que a
mesma França, de 1871 a 1873, consegui u pagar, em 30 meses, uma i ndeni zação de guerra
mai s de dez vezes superi or, sendo, da mesma forma, uma parte si gni fi cati va em di nhei ro
metál i co. — F. E.}
216 Di nhei ro do mundo. (N. dos T.)
217 "O di nhei ro di stri bui -se pel as nações segundo suas necessi dades (...) ao ser atraí do sempre
pel os produtos." (LE TROSNE. Op. cit., p. 916.) “As mi nas, que estão fornecendo conti nua-
mente ouro e prata, são sufi ci entemente fecundas para fornecer a cada nação esse quantum
necessári o.” (VANDERLI NT, J. Op. cit., p. 40.)
218 "Os cursos de câmbi o sobem e descem toda semana; em certos perí odos do ano, sobem em
prejuí zo de uma nação, em outros chegam à mesma al tura em favor desta." (BARBON, N.
Op. cit., p. 39.)
maci çamente concentrados nas reservas bancári as ao mí ni mo requeri do
por suas funções especí fi cas.
219
Embora haja exceções, o cresci mento
extraordi nári o da reserva do tesouro, aci ma de seu ní vel médi o, i ndi ca
estancamento da ci rcul ação das mercadori as ou i nterrupção do fl uxo
de metamorfose das mercadori as.
220
OS ECONOMISTAS
264
219 Essas funções di ferentes podem entrar em confl i to peri goso l ogo que se l hes adi ci ona a
função de um fundo de conversão para notas bancári as.
220 "O que exi ste em di nhei ro al ém do mí ni mo i ndi spensável para o comérci o i nterno representa
capi tal morto, e não traz nenhum ganho ao paí s que o possui , exceto quando el e mesmo
é exportado respecti vamente i mportado." (BELLERS, John. Essays etc. p. 13.) “O que acon-
tece se temos di nhei ro cunhado em demasi a? Poderemos fundi r o mai s pesado e transformá-l o
em suntuosas bai xel as, vasos e utensí l i os domésti cos de ouro e prata; ou envi á-l o como
mercadori a para onde há necessi dade e procura por el e; ou emprestá-l o a juros, onde se
paga al ta taxa de juros.” (PETTY, W. Quantulumcumque. p. 39.) “O di nhei ro é apenas a
gordura do corpo do Estado, e por i sso seu excesso afeta tanto sua mobi l i dade quanto sua
fal ta torna-o doente (...) como a gordura l ubri fi ca o movi mento dos múscul os, substi tui
al i mentos fal tantes, apl ai na desní vei s e embel eza o corpo, assi m o di nhei ro faci l i ta os
movi mentos do Estado, traz al i mentos do exteri or quando há caresti a no paí s, paga dí vi das
(...) e embel eza o conjunto; porém parti cul armente”, concl ui i roni camente, “os i ndi ví duos
que possuem mui to del e.” (PETTY, W. Political Anatomy of I reland. p. 14-15.)
SEÇÃO II
A TRANSFORMAÇÃO DO DINHEIRO EM CAPITAL
CAPÍTULO IV
TRANSFORMAÇÃO DO DINHEIRO EM CAPITAL
1. A fórmula geral do capital
A ci rcul ação de mercadori as é o ponto de parti da do capi tal .
Produção de mercadori as e ci rcul ação desenvol vi da de mercadori as,
comérci o, são os pressupostos hi stóri cos sob os quai s el e surge. Comérci o
mundi al e mercado mundi al i nauguram no sécul o XVI a moderna hi s-
tóri a da vi da do capi tal .
Abstrai amos o conteúdo materi al da ci rcul ação de mercadori as,
o i ntercâmbi o dos di ferentes val ores de uso, e consi deremos apenas as
formas econômi cas engendradas por esse processo, então encontraremos
como seu produto úl ti mo o di nhei ro. Esse produto úl ti mo da ci rcul ação
de mercadori as é a pri mei ra forma de apari ção do capi tal .
Hi stori camente, o capi tal se defronta com a propri edade fundi ári a,
no i ní ci o, em todo l ugar, sob a forma de di nhei ro, como fortuna em
di nhei ro, capi tal comerci al e capi tal usurári o.
221
No entanto, não se
preci sa remontar à hi stóri a da formação do capi tal para reconhecer o
di nhei ro como a sua pri mei ra forma de apari ção. A mesma hi stóri a se
desenrol a di ari amente ante nossos ol hos. Cada novo capi tal pi sa em
pri mei ra i nstânci a o pal co, i sto é, o mercado, mercado de mercadori as,
mercado de trabal ho ou mercado de di nhei ro, sempre ai nda como di -
nhei ro, di nhei ro que deve transformar-se em capi tal por mei o de de-
termi nados processos.
Di nhei ro como di nhei ro e di nhei ro como capi tal di ferenci am-se
pri mei ro por sua forma di ferente de ci rcul ação.
A forma di reta de ci rcul ação de mercadori as é M — D — M,
267
221 A antí tese entre o poder da propri edade fundi ári a, repousando sobre rel ações pessoai s de
servi dão e senhori o, e o poder i mpessoal do di nhei ro, está cl aramente captada em doi s
di tos franceses. Nulle terre sans seigneur.
*
L’argent n’a pas de maître.
**
*
“Nenhuma terra sem senhor.”(N. dos T.)
**
“O di nhei ro não tem mestre.”(N. dos T.)
transformação de mercadori a em di nhei ro e retransformação de di -
nhei ro em mercadori a, vender para comprar. Ao l ado dessa forma,
encontramos, no entanto, uma segunda, especi fi camente di ferenci ada,
a forma D — M — D, transformação de di nhei ro em mercadori a e
retransformação de mercadori a em di nhei ro, comprar para vender. Di -
nhei ro que em seu movi mento descreve essa úl ti ma ci rcul ação trans-
forma-se em capi tal , torna-se capi tal e, de acordo com sua determi nação,
já é capi tal .
Vejamos mai s de perto a ci rcul ação D — M — D. El a percorre,
como a ci rcul ação si mpl es de mercadori as, duas fases anti téti cas. Na
pri mei ra fase, D — M, compra, o di nhei ro é transformado em merca-
dori a. Na segunda fase, M — D, venda, a mercadori a é retransformada
em di nhei ro. A uni dade de ambas as fases é, porém, o movi mento
gl obal , que troca di nhei ro por mercadori a e, novamente, a mesma mer-
cadori a por di nhei ro, compra mercadori a para vendê-l a, ou, se não se
consi deram as di ferenças formai s entre compra e venda, compra mer-
cadori a com o di nhei ro e di nhei ro com a mercadori a.
222
O resul tado,
em que todo o processo se apaga, é troca de di nhei ro por di nhei ro, D
— D. Se com 100 l i bras esterl i nas compro 2 000 l i bras de al godão e
revendo as 2 000 l i bras de al godão por 110 l i bras esterl i nas, então
troquei afi nal 100 l i bras esterl i nas por 110 l i bras esterl i nas, di nhei ro
por di nhei ro.
É agora evi dente que o processo de ci rcul ação D — M — D seri a
i nsosso e sem conteúdo caso se qui sesse, por i ntermédi o de seu rodei o,
permutar o mesmo val or em di nhei ro por i gual val or em di nhei ro,
assi m, por exempl o, 100 l i bras esterl i nas por 100 l i bras esterl i nas.
I ncomparavel mente mai s si mpl es e mai s seguro seri a o método do
entesourador, que retém as suas 100 l i bras esterl i nas em vez de expô-l as
ao peri go da ci rcul ação. Por outro l ado, se o comerci ante revende por
110 l i bras esterl i nas o al godão comprado a 100 l i bras esterl i nas ou se
é forçado a desfazer-se del e por 100 l i bras esterl i nas ou até mesmo
por 50 l i bras esterl i nas, em qual quer ci rcunstânci a seu di nhei ro des-
creveu um movi mento própri o e ori gi nal , de espéci e total mente di versa
da descri ta na ci rcul ação si mpl es de mercadori as, por exempl o, nas
mãos do camponês, que vende grão e, com o di nhei ro obti do, compra
roupas. Por enquanto, val e a caracterí sti ca das di ferenças formai s entre
os ci cl os D — M — D e M — D — M. Com i sso há de se revel ar l ogo
a di ferença de conteúdo que esprei ta por trás dessas di ferenças formai s.
Exami nemos, antes de tudo, o que é comum a ambas as formas.
Ambos os ci cl os se decompõem nas duas mesmas fases contra-
postas, M — D, venda, e D — M, compra. Em cada uma das duas
fases se confrontam os mesmos doi s el ementos materi ai s, mercadori a
OS ECONOMISTAS
268
222 "Com di nhei ro se compram mercadori as e com mercadori as se compra di nhei ro." (RI VI ÈRE,
Merci er de l a. L’Ordre Naturel et Essentiel des Sociétés Politiques. p. 543.)
e di nhei ro — e duas pessoas, nas mesmas máscaras de personagens
econômi cas, um comprador e um vendedor. Cada um dos doi s ci cl os é
a uni dade das mesmas fases contrapostas e, em ambos os casos, essa
uni dade é medi ada pel o surgi mento de três contraentes, dos quai s um
apenas vende, outro apenas compra, mas o tercei ro al ternadamente
compra e vende.
O que, no entanto, separa de antemão ambos os ci cl os M — D
— M e D — M — D é a sucessão i nversa das mesmas fases contrapostas
de ci rcul ação. A ci rcul ação si mpl es de mercadori as começa com a venda
e termi na com a compra, a ci rcul ação do di nhei ro como capi tal começa
com a compra e termi na com a venda. Lá a mercadori a, aqui o di nhei ro
consti tui o ponto de parti da e o ponto de chegada do movi mento. Na
pri mei ra forma é o di nhei ro, no outro, i nversamente, é a mercadori a
que medi a o transcurso gl obal .
Na ci rcul ação M — D — M, o di nhei ro é fi nal mente transformado
em mercadori a que seri a de val or de uso. O di nhei ro está, poi s, defi -
ni ti vamente gasto. Na forma i nversa, D — M — D, o comprador gasta
di nhei ro para como vendedor receber di nhei ro. Com a compra, el e l ança
di nhei ro na ci rcul ação, para reti rá-l o del a novamente pel a venda da
mesma mercadori a. El e l i bera o di nhei ro só com a astuci osa i ntenção
de apoderar-se del e novamente. El e é, portanto, apenas adi antado.
223
Na forma M — D — M, a mesma peça monetári a muda duas
vezes de l ugar. O vendedor a recebe do comprador e paga-a adi ante
a outro vendedor. O processo gl obal , que começa com o recebi mento
do di nhei ro por mercadori a, termi na com a entrega de di nhei ro por
mercadori a. I nversamente, na forma D — M — D. Não é a mesma
peça monetári a que muda aqui duas vezes de l ugar, mas a mesma
mercadori a. O comprador a recebe das mãos do vendedor e a depõe
nas mãos de outro comprador. Assi m como na ci rcul ação si mpl es de
mercadori as a dupl a mudança de l ugar da mesma peça monetári a acar-
reta a sua transferênci a defi ni ti va de uma mão para outra, assi m aqui
a dupl a mudança de l ugar da mesma mercadori a acarreta o refl uxo
do di nhei ro a seu pri mei ro ponto de parti da.
O refl uxo do di nhei ro a seu ponto de parti da não depende de a
mercadori a ser vendi da mai s cara do que el a foi comprada. Essa ci r-
cunstânci a i nfl ui apenas na grandeza da soma de di nhei ro refl uente.
O própri o fenômeno do refl uxo ocorre assi m que a mercadori a comprada
é revendi da, portanto o ci cl o D — M — D está compl etamente descri to.
Essa é, portanto, uma di ferença que sal ta aos ol hos entre a ci rcul ação
do di nhei ro como capi tal e sua ci rcul ação como mero di nhei ro.
MARX
269
223 "Se uma coi sa é comprada para ser novamente vendi da, chama-se a soma apl i cada ni sso
de di nhei ro adi antado; se comprada para não ser revendi da, el a pode ser desi gnada como
gasta." (STEUART, James. Works etc. Edi t. por General Si r James Steuart, seu fi l ho.
Londres, 1805. v. I , p. 274.)
O ci cl o M — D — M está percorri do compl etamente assi m que
a venda de uma mercadori a traga di nhei ro que a compra de outra
mercadori a novamente reti ra. Se ai nda ocorrer refl uxo de di nhei ro ao
seu ponto de parti da, i sso apenas pode ser por mei o da renovação ou
repeti ção de todo o percurso. Se vendo 1 quarter de grão por 3 l i bras
esterl i nas e compro roupas com essas 3 l i bras esterl i nas, as 3 l i bras
esterl i nas estão defi ni ti vamente gastas para mi m. Eu nada mai s tenho
a fazer com el as. El as são do comerci ante de roupas. Se, agora, vendo
um segundo quarter de grão, então o di nhei ro refl ui para mi m, mas
não em conseqüênci a da pri mei ra transação, e si m apenas em conse-
qüênci a de sua repeti ção. El e se afasta novamente de mi m assi m que
l evo a cabo a segunda transação e compro de novo. Na ci rcul ação M
— D — M, o gasto do di nhei ro nada tem, poi s, a ver com seu refl uxo.
Na ci rcul ação D — M — D, pel o contrári o, o refl uxo do di nhei ro é
determi nado pel o modo de seu própri o gasto. Sem esse refl uxo, a ope-
ração está fracassada ou o processo i nterrompi do e ai nda não acabado,
porque fal ta a sua segunda fase, a venda, que compl ementa e compl eta
a compra.
O ci cl o M — D — M parte do extremo de uma mercadori a e se
encerra com o extremo de outra mercadori a, que sai da ci rcul ação e
entra no consumo. Consumo, sati sfação de necessi dades, em uma pa-
l avra, val or de uso, é, por consegui nte, seu objeti vo fi nal . O ci cl o D —
M — D, pel o contrári o, parte do extremo do di nhei ro e vol ta fi nal mente
ao mesmo extremo. Seu moti vo i ndutor e sua fi nal i dade determi nante
é, portanto, o própri o val or de troca.
Na ci rcul ação si mpl es de mercadori as, ambos os extremos têm
a mesma forma econômi ca. El es são ambos mercadori a. El es são tam-
bém mercadori as de mesma grandeza de val or. Mas el es são qual i ta-
ti vamente val ores de uso di ferentes, por exempl o, grão e roupas. O
i ntercâmbi o de produtos, a mudança dos di ferentes materi ai s em que
o trabal ho soci al se representa, consti tui aqui o conteúdo do movi mento.
De outro modo na ci rcul ação D — M — D. El a parece à pri mei ra vi sta
sem conteúdo porque tautol ógi ca. Ambos os extremos têm a mesma
forma econômi ca. El es são ambos di nhei ro, portanto não-val ores de
uso qual i tati vamente di ferenci ados, poi s di nhei ro é a fi gura metamor-
foseada das mercadori as, em que seus val ores de uso especí fi cos estão
apagados. Pri mei ro trocar 100 l i bras esterl i nas por al godão e, então,
trocar novamente o mesmo al godão por 100 l i bras esterl i nas, portanto,
i ntercambi ar por mei o de um rodei o, di nhei ro por di nhei ro, o mesmo
pel o mesmo, parece uma operação tão sem fi nal i dade quanto i nsossa.
224
OS ECONOMISTAS
270
224 "Não se troca di nhei ro por di nhei ro", cl ama Merci er de l a Ri vi ère aos mercanti l i stas (Op.
cit., p. 486). Numa obra que ex professo
*
trata do “comérci o” e da “especul ação”, l ê-se: “Todo
comérci o consi ste na troca de coi sas de espéci es di ferentes; e o provei to” (para o comerci ante?)
“se ori gi na mesmo dessa di ferença. Trocar 1 l i bra de pão por 1 l i bra de pão não trari a
Uma soma de di nhei ro pode di ferenci ar-se de outra soma de di nhei ro
tão somente medi ante sua grandeza. Portanto, o processo D — M —
D não deve seu conteúdo a nenhuma di ferença qual i tati va de seus
extremos, poi s ambos são di nhei ro, mas apenas à sua di ferença quan-
ti tati va. No fi nal , mai s di nhei ro é reti rado da ci rcul ação do que foi
l ançado nel e no começo. O al godão comprado por 100 l i bras esterl i nas
é, por exempl o, revendi do a 100 + 10 l i bras esterl i nas, ou 110 l i bras
esterl i nas. A forma compl eta desse processo é, portanto, D — M —
D’, em que D’ = D + ∆D, ou seja, i gual à soma de di nhei ro ori gi nal mente
adi antado mai s um i ncremento. Esse i ncremento, ou o excedente sobre
o val or ori gi nal , chamo de — mai s-val i a (surplus value). O val or ori -
gi nal mente adi antado não só se mantém na ci rcul ação, mas al tera
nel a a sua grandeza de val or, acrescenta mai s-val i a ou se val ori za. E
esse movi mento transforma-o em capi tal .
É também possí vel que em M — D — M ambos os extremos, M,
M, por exempl o, grão e roupas, sejam grandezas de val or quanti tati -
vamente di ferentes. O camponês pode vender seu grão aci ma do val or
ou comprar as roupas abai xo do val or del as. El e pode, por sua vez,
ser enganado pel o comerci ante de roupas. Tal di ferença de val or per-
manece, no entanto, para essa mesma forma de ci rcul ação, puramente
casual . El a não perde si mpl esmente senti do e entendi mento como o
processo D — M — D, se os doi s extremos, grão e roupas, por exempl o,
são equi val entes. Sua i gual dade de val or é aqui mui to mai s condi ção
do transcurso normal .
A repeti ção ou renovação da venda para compra encontra, como
este mesmo processo, medi da e al vo num objeti vo fi nal si tuado fora
del a, o consumo, a sati sfação de determi nadas necessi dades. Na compra
para a venda, pel o contrári o, começo e térmi no são o mesmo, di nhei ro,
val or de troca, e já por i sso o movi mento é sem fi m. Sem dúvi da, de
D advei o D + ∆D, das 100 l i bras esterl i nas, 100 + 10. Mas consi deradas
apenas qual i tati vamente, 110 l i bras esterl i nas são o mesmo que 100
l i bras esterl i nas, ou seja, di nhei ro. E consi deradas quanti tati vamente
MARX
271
nenhuma vantagem (...) daí o contraste vantajoso entre comérci o e jogo, sendo este apenas
i ntercâmbi o de di nhei ro por di nhei ro”. (CORBET, Th. An I nquiry into the Causes and
Modes of the Wealth of I ndividuals; or the Principles of Trade and Speculation explained“.
Londres, 1841. p. 5) Embora Corbet não veja que D — D, trocar di nhei ro por di nhei ro, é
a forma caracterí sti ca de ci rcul ação não só do capi tal comerci al , mas de todo capi tal , pel o
menos admi te que essa forma de uma espéci e de comérci o, da especul ação, é comum ao
jogo, mas então aparece MacCul l och e acha que comprar para vender seja especul ar, e
que, portanto, a di ferença entre especul ação e comérci o se desfaz. ”Cada negóci o em que
uma pessoa compra um produto para revendê-l o é, de fato, uma especul ação." (MACCUL-
LOCH. A Dictionary, Practical etc. of Commerce. Londres, 1847. p. 1009.) I ncomparavel -
mente mai s i ngênuo, Pi nto, o Pí ndaro da Bol sa de Amsterdã: “O comérci o é um jogo” (essa
frase, emprestada de Locke) “e com mendi gos não se pode ganhar nada. Se, durante l ongo
tempo, se ganhasse tudo de todos, ter-se-i a, medi ante acordo ami gável , de devol ver de novo
a mai or parte do l ucro para novamente i ni ci ar o jogo”. (PI NTO. Traité de la Circulation
et du Crédit. Amsterdã, 1771. p. 231.)
*
De cátedra. (N. dos T.)
110 l i bras esterl i nas são uma soma tão l i mi tada de val or quanto 100
l i bras esterl i nas. Se as 110 l i bras esterl i nas fossem gastas como di -
nhei ro, dei xari am de desempenhar o seu papel . Dei xari am de ser ca-
pi tal . Reti radas de ci rcul ação, se petri fi cari am em tesouro e nenhum
farthing
225
se acrescenta a el as, ai nda que fi quem guardadas até o Di a
do Juí zo Fi nal . Caso se trate de val ori zação do val or, exi ste então
tanta necessi dade da val ori zação de 110 l i bras esterl i nas quanto da
de 100 l i bras esterl i nas, já que ambas são expressões l i mi tadas do
val or de troca, ambas, portanto, tendo a mesma vocação de se apro-
xi marem da ri queza si mpl esmente por mei o da expansão de grandeza.
De fato, o val or ori gi nal mente adi antado de 100 l i bras esterl i nas di -
ferenci a-se, por um i nstante, da mai s-val i a de 10 l i bras esterl i nas, que
l he foi acrescentada na ci rcul ação, mas essa di ferença se esvai l ogo de
novo. No fi m do processo, o que surge não é, de um l ado, o val or
ori gi nal de 100 l i bras esterl i nas e, do outro, a mai s-val i a de 10 l i bras
esterl i nas. O que surge é um val or de 110 l i bras esterl i nas que se
encontra na mesma forma adequada para começar o processo de va-
l ori zação, como as 100 l i bras esterl i nas i ni ci ai s. Di nhei ro surge de novo
no fi m do movi mento como seu i ní ci o.
226
O fi m de cada ci cl o i ndi vi dual ,
em que a compra se real i za para a venda, consti tui , portanto, por si
mesmo o i ní ci o de novo ci cl o. A ci rcul ação si mpl es de mercadori as —
a venda para a compra — serve de mei o para um objeti vo fi nal que
está fora da ci rcul ação, a aprori ação de val ores de uso, a sati sfação
de necessi dades. A ci rcul ação do di nhei ro como capi tal é, pel o contrári o,
uma fi nal i dade em si mesma, poi s a val ori zação do val or só exi ste
dentro desse movi mento sempre renovado. Por i sso o movi mento do
capi tal é i nsaci ável .
227
OS ECONOMISTAS
272
225 Moeda i ngl esa no val or de 1/4 de pêni . (N. dos T.)
226 "O capi tal se di vi de (...) em capi tal ori gi nal e l ucro, o i ncremento do capi tal (...) embora a
própri a práxi s converta l ogo esse l ucro novamente em capi tal e o col oque com este em
fl uxo." (ENGELS, F. “Esboço de uma Crí ti ca da Economi a Naci onal ”. I n: Anuári os Teuto-
Franceses. Edi tados por Arnol d Ruge e Karl Marx, Pari s, 1844, p. 99)
*
*
Ver v. I da edi ção MEW, p. 511. (n. da Ed. Al emã.)
227 Ari stótel es contrapõe à Crematí sti ca a Economi a. El e parte da Economi a. Enquanto arte
da aqui si ção, el a se l i mi ta à obtenção dos bens necessári os à vi da e útei s ao l ar e ao Estado.
“A verdadei ra ri queza (ο αληϑινος πλουτος) consi ste em tai s val ores de uso; poi s para a
boa vi da, a medi da sufi ci ente dessa espéci e de propri edade não é l i mi tada. Exi ste, porém,
uma segunda arte da aqui si ção chamada preferenci al mente e com di rei to de Crematí sti ca,
segundo a qual não parece exi sti r l i mi te à ri queza e à propri edade. O comérci o de mercadori as
(” η χαπηλιχη“ si gni fi ca l i teral mente comérci o de retal hos, e Ari stótel es usa essa forma
porque nel a predomi na o val or de uso) não pertence por natureza à Crematí sti ca, poi s aqui
o val or de troca só se refere ao que é necessári o a el es mesmos (compradores e vendedores).
Por i sso”, conti nua el e adi ante, “a forma ori gi nal do comérci o de mercadori as também era
o escambo, mas com a sua expansão surgi u necessari amente o di nhei ro. Com a i nvenção
do di nhei ro, o escambo ti nha de evol ui r necessari amente para χαπηλιχη, comérci o de mer-
cadori as, e este, em contradi ção com sua tendênci a ori gi nal , evol ui u para a Crematí sti ca,
a arte de fazer di nhei ro. A Crematí sti ca di sti ngue-se agora da Economi a porque para el a
a ci rcul ação é a fonte da ri queza (ποιητιχη χρηµατων... δια χρηµατων µεταβολης). E el a
parece gi rar em torno do di nhei ro, poi s o di nhei ro é o começo e o fi m dessa espéci e de
troca (το γαρ νοµισµα στοιχειον χαι περας της αλλαγης εστιν). Por i sso, a ri queza, como a
Como portador consci ente desse movi mento, o possui dor do di -
nhei ro torna-se capi tal i sta. Sua pessoa, ou mel hor, seu bol so, é o ponto
de parti da e o ponto de retorno do di nhei ro. O conteúdo objeti vo daquel a
ci rcul ação — a val ori zação do val or — é sua meta subjeti va, e só en-
quanto a apropri ação crescente da ri queza abstrata é o úni co moti vo
i ndutor de suas operações, el e funci ona como capi tal i sta ou capi tal
personi fi cado, dotado de vontade e consci ênci a. O val or de uso nunca
deve ser tratado, portanto, como meta i medi ata do capi tal i smo.
228
Tam-
pouco o l ucro i sol ado, mas apenas o i ncessante movi mento do ganho.
229
Esse i mpul so absol uto de enri queci mento, essa caça apai xonada do
val or
230
é comum ao capi tal i sta e ao entesourador, mas enquanto o
entesourador é apenas o capi tal i sta demente, o capi tal i sta é o ente-
sourador raci onal . A mul ti pl i cação i ncessante do val or, pretendi da pel o
entesourador ao procurar sal var o di nhei ro da ci rcul ação,
231
é al cançada
pel o capi tal i sta mai s esperto ao entregá-l o sempre de novo à ci rcul ação.
232
As formas autônomas, as formas di nhei ro, que o val or das mer-
cadori as assume na ci rcul ação si mpl es medi am apenas o i ntercâmbi o
de mercadori as e desaparecem no resul tado fi nal do movi mento. Na
ci rcul ação D — M — D, pel o contrári o, ambos, mercadori a e di nhei ro,
funci onam apenas como modos di ferentes de exi stênci a do própri o val or,
o di nhei ro o seu modo geral , a mercadori a o seu modo parti cul ar, por
assi m di zer apenas camufl ado, de exi stênci a.
233
El e passa conti nua-
MARX
273
Crematí sti ca pretende, também é i l i mi tada. Assi m como toda arte, para a qual sua meta
não val e como mei o, mas como fi nal i dade úl ti ma, é i l i mi tada, em sua aspi ração, poi s procura
aproxi mar-se del a sempre mai s, enquanto as artes, que só perseguem mei os para fi ns, não
são i l i mi tadas, já que a própri a meta é o enri queci mento absol uto. A Economi a, não a
Crematí sti ca, tem um l i mi te (...) a pri mei ra i ntenci ona al go di ferente do própri o di nhei ro,
a outra, a sua mul ti pl i cação (...). A confusão de ambas as formas, que se sobrepõem entre
si , i nduz al guns a ver na conservação e mul ti pl i cação do di nhei ro ao i nfi ni to a fi nal i dade
úl ti ma da Economi a.” (ARI STÓTELES. De Rep. Edi t. Bekker, Li vro Pri mei ro. Cap. 8 e 9
passim.)
228 "Mercadori as" (aqui no senti do de val ores de uso) “não são a fi nal i dade úl ti ma do capi tal i sta
que comerci a (...) a sua fi nal i dade úl ti ma é di nhei ro.” (CHALMERS, Th. On Politic. Econ.
etc. 2ª ed., Gl asgow, 1832, p. 165-166.)
229 "Ai nda que o comerci ante também não menospreze o l ucro já al cançado, o seu ol har está,
no entanto, sempre vol tado para o l ucro futuro." (GENOVESI , A. Lezioni di Economia
Civile (1765). Edi ção dos economi stas i tal i anos de Custodi , Parte Moderna. t. VI I I , p. 139.)
230 "A pai xão i nexti nguí vel pel o l ucro, a auri sacra fames,
*
sempre caracteri za o capi tal i sta."
(MACCULLOCH. The Principles of Polit. Econ. Londres, 1830. p. 179.) Natural mente essa
compreensão não i mpede o mesmo McCul l och e consortes, em di fi cul dades teóri cas, por
exempl o, no tratamento da superprodução, metamorfosear o mesmo capi tal i sta em um bom
ci dadão, para o qual só se trata do val or de uso e que até desenvol ve uma verdadei ra fome
de l obi somem por botas, chapéus, ovos, chi tas e outras espéci es de val or de uso extremamente
fami l i ares.
*
A sagrada fome de ouro. (N. dos T.)
231 "Σωζειν!"
**
é uma das expressões caracterí sti cas dos gregos para entesourar. I gual mente,
to save si gni fi ca ao mesmo tempo sal var e poupar.
**
“Sal var”. (N. dos T.)
232 "O i nfi ni to que as coi sas não têm no progredi r, el as o têm no ci cl o." (GALI ANI . [Op. cit.,
p. 156].)
233 "Não é o materi al que consti tui o capi tal , mas o val or desses materi ai s." (SAY, J.-B. Traité
d’Écon. Polit. 3ª ed., Pari s, 1817. t. I I , p. 429.)
mente de uma forma para outra, sem perder-se nesse movi mento, e
assi m se transforma num sujei to automáti co. Fi xadas as formas par-
ti cul ares de apari ção, que o val or que se val ori za assume al ternati va-
mente no ci cl o de sua vi da, então se obtêm as expl i cações: capi tal é
di nhei ro, capi tal é mercadori a.
234
De fato, porém, o val or se torna aqui
o sujei to de um processo em que el e, por mei o de uma mudança cons-
tante das formas de di nhei ro e mercadori a, modi fi ca a sua própri a
grandeza, enquanto mai s-val i a se repel e de si mesmo, enquanto val or
ori gi nal , se autoval ori za. Poi s o movi mento, pel o qual el e adi ci ona mai s-
val i a, é seu própri o movi mento, sua val ori zação, portanto autoval ori -
zação. El e recebeu a qual i dade ocul ta de gerar val or porque el e é val or.
El e pare fi l hotes vi vos ou ao menos põe ovos de ouro.
Como sujei to usurpador de tal processo, em que el e ora assume,
ora se desfaz da forma di nhei ro e da forma mercadori a, mas se conserva
e se di l ata nessa mudança, o val or preci sa, antes de tudo, de uma
forma autônoma, por mei o da qual a sua i denti dade consi go mesmo é
constatada. E essa forma el e só possui no di nhei ro. Este consti tui , por
i sso, o ponto de parti da e o ponto fi nal de todo processo de val ori zação.
El e era 100 l i bras esterl i nas, agora é 110 l i bras esterl i nas etc. Mas o
própri o di nhei ro val e aqui apenas como uma forma do val or, poi s el e
tem duas. Sem assumi r a forma de mercadori a, o di nhei ro não se torna
capi tal . O di nhei ro não se apresenta aqui , portanto, pol emi camente
contra a mercadori a, como no entesouramento. O capi tal i sta sabe que
todas as mercadori as, por mai s esfarrapadas que el as pareçam ou por
pi or que el as chei rem, são, na verdade e na fé, di nhei ro, judeus no
í nti mo ci rcunci sos e al ém di sso mei os mi l agrosos para fazer de di nhei ro
mai s di nhei ro.
Se na ci rcul ação si mpl es o val or das mercadori as adqui re no má-
xi mo, em confronto com seu val or de uso, a forma autônoma de di nhei ro,
aqui el e se apresenta subi tamente como uma substânci a em processo
e semovente, para a qual mercadori as e di nhei ro são ambos meras
formas. Mas ai nda mai s. Em vez de representar rel ações mercanti s,
el e entra agora, por assi m di zer, numa rel ação pri vada consi go mesmo.
El e se di sti ngue, como val or ori gi nal , de si mesmo como mai s-val i a,
assi m como Deus Pai se di sti ngue de si mesmo como Deus Fi l ho, e
ambos são de mesma i dade e consti tuem, de fato, uma só pessoa, poi s
só por mei o da mai s-val i a de 10 l i bras esterl i nas tornam-se as 100
l i bras esterl i nas adi antadas capi tal , e assi m que se tornam i sso, assi m
que é gerado o fi l ho e, por mei o do fi l ho, o pai , desaparece a sua
di ferença e ambos são unos, 110 l i bras esterl i nas.
O val or torna-se, portanto, val or em processo, di nhei ro em pro-
OS ECONOMISTAS
274
234 "O mei o ci rcul ante (!) que é usado para fi ns produti vos é capi tal ." (MACLEOD. The Theory
and Practice of Banking. Londres, 1855. v. I , cap. 1, p. 55.) “Capi tal é i gual a mercadori as.”
(MI LL, James. Elements of Pol. Econ. Londres, 1821. p. 74.)
cesso e, como tal , capi tal . El e provém da ci rcul ação, entra novamente
nel a, sustenta-se e se mul ti pl i ca nel a, retorna aumentado del a e re-
começa o mesmo ci cl o sempre de novo.
235
D — D’, di nhei ro que gera
di nhei ro — money which begets money —, di z a descri ção do capi tal
na boca dos seus pri mei ros tradutores, os mercanti l i stas.
Comprar para vender, ou mel hor, comprar para vender mai s caro,
D — M — D’, parece ser decerto apenas uma espéci e do capi tal , a
forma pecul i ar do capi tal comerci al . Mas também o capi tal i ndustri al
é di nhei ro, que se transforma em mercadori a e por mei o da venda de
mercadori a retransforma-se em mai s di nhei ro. Atos que ocorram even-
tual mente entre a compra e a venda fora da esfera da ci rcul ação nada
mudam nessa forma de movi mento. No capi tal a juros a ci rcul ação D
— M — D’ apresenta-se, afi nal , abrevi ada, em seu resul tado sem a
medi ação, por assi m di zer em esti l o l api dar, como D — D, di nhei ro
que é i gual a mai s di nhei ro, val or que é mai or do que el e mesmo.
De fato, portanto, D — M — D é a fórmul a geral do capi tal ,
como aparece di retamente na esfera da ci rcul ação.
2. Contradições da fórmula geral
A forma de ci rcul ação, pel a qual o di nhei ro se revel a como capi tal ,
contradi z todas as l ei s anteri ormente desenvol vi das sobre a natureza
da mercadori a, do val or, do di nhei ro e da própri a ci rcul ação. O que a
di sti ngue da ci rcul ação si mpl es de mercadori as é a seqüênci a i nversa
dos mesmos doi s processos contrapostos, venda e compra. E como po-
deri a tal di ferença puramente formal mudar por encanto a natureza
desses processos?
Ai nda mai s. Essa i nversão só exi ste para um dos três parcei ros
que comerci am uns com os outros. Como capi tal i sta, compro mercadori a
de A e a revendo para B, enquanto como si mpl es possui dor de mer -
cadori as vendo mercadori a para B e compro então mercadori a de A.
Para os parcei ros A e B essa di ferença não exi ste. El es aparecem apenas
como comprador ou vendedor de mercadori as. Eu mesmo me confronto
com el es, toda vez, como mero possui dor de di nhei ro ou como possui dor
de mercadori as, comprador ou vendedor, e apareço em ambas as se-
qüênci as defrontando-me com uma pessoa somente como comprador e
com a outra somente como vendedor, com uma somente como di nhei ro,
com a outra somente como mercadori a; com nenhum del es como capi tal
ou capi tal i sta ou representante de qual quer outra coi sa que fosse mai s
que di nhei ro ou mercadori a ou que pudesse surti r qual quer outro efei to,
exceto o do di nhei ro ou da mercadori a. Para mi m, compra de A e venda
para B consti tuem uma seqüênci a. Mas a conexão entre esses doi s
MARX
275
235 "Capi tal (...) val or que se mul ti pl i ca permanentemente." (SI SMONDI . Nouveaux Principes
d’Écon. Polit. t. L, p. 89.)
atos exi ste apenas para mi m. A não se i mporta com a mi nha transação
com B, e B também não com a mi nha transação com A. Caso eu qui sesse
escl arecê-l os quanto ao méri to parti cul ar que por mei o da i nversão da
seqüênci a granjei o, el es me demonstrari am que me engano na própri a
seqüênci a e que a transação gl obal não começou com uma compra e
termi nou com uma venda, mas que, i nversamente, começou com uma
venda e se encerrou com uma compra. De fato, meu pri mei ro ato, a
compra, foi do ponto de vi sta de A uma venda, e meu segundo ato, a
venda, foi do ponto de vi sta de B uma compra. Não sati sfei tos com
i sso, A e B escl arecerão que toda a seqüênci a foi supérfl ua e abraca-
dabra. A vai vender a mercadori a di retamente para B, e B comprá-l a
di retamente de A. Com i sso, toda a transação se reduz a um ato uni -
l ateral de ci rcul ação habi tual de mercadori as, da perspecti va de A mera
venda e da perspecti va de B mera compra. Portanto, por mei o da i n-
versão da seqüênci a, nós não transcendemos a esfera da ci rcul ação
si mpl es de mercadori as, e devemos mui to mai s veri fi car se el a permi te,
de acordo com sua natureza, val ori zação do val or que nel a penetra e,
daí , geração de mai s-val i a.
Tomemos o processo de ci rcul ação numa forma em que el e se
apresenta como mero i ntercâmbi o de mercadori as. Esse é sempre o
caso quando ambos os possui dores de mercadori as compram mercado-
ri as um do outro e a bal ança de suas obri gações recí procas de di nhei ro
se compensa no di a do pagamento. O di nhei ro serve aqui como di nhei ro
de conta para expressar os val ores das mercadori as em seus preços,
mas não se confronta materi al mente com as própri as mercadori as. À
medi da que se trata do val or de uso, é cl aro que ambos os permutadores
podem ganhar. Ambos al i enam mercadori as que l hes são i nútei s como
val or de uso, e recebem mercadori as de que necessi tam para o seu
uso. E essa vantagem pode não ser a úni ca. A, que vende vi nho e
compra cereal , produz tal vez mai s vi nho do que o pl antador de cereal
B poderi a produzi r no mesmo perí odo de tempo de trabal ho, e o pl an-
tador de cereal B poderi a produzi r no mesmo tempo de trabal ho mai s
cereal do que o vi ni cul tor A. A recebe, portanto, pel o mesmo val or de
troca, mai s cereal e B mai s vi nho do que se cada um, sem troca, ti vesse
de produzi r vi nho e cereal para si mesmo. No que se refere ao val or
de uso, pode ser, portanto, di to que “a troca é uma transação em que
ambas as partes ganham”.
236
Com o val or de troca é di ferente.
“Um homem que possui muito vinho e nenhum cereal comercia
com um homem que tem mui to cereal e nenhum vi nho, e entre el es
OS ECONOMISTAS
276
236 "L’échange est une transacti on admi rabl e dans l aquel l e l es deux contractants gagnent —
toujours (!)."
*
(DESTUTT DE TRACY. Traité de la Volonté et de ses Effects. Pari s, 1826.
p. 68.) O mesmo l i vro apareceu também como Traité d’Éc. Pol.
*
A troca é uma transação admi rável , na qual os doi s contratantes ganham — sempre. (N.
dos T.)
se troca tri go no val or de 50 por um val or de 50 em vi nho. Esse
intercâmbi o não é um aumento do val or de troca, seja para um,
seja para o outro; poi s cada um del es já possuí a, antes do intercâmbi o,
um val or i gual àquel e que obteve por mei o dessa operação.”
237
Nada muda na coi sa se o di nhei ro se i nterpõe como mei o ci rcu-
l ante entre as mercadori as e os atos de compra e venda se separam
percepti vel mente.
238
O val or das mercadori as está representado em
seus preços, antes que entrem na ci rcul ação, sendo, portanto, pressu-
posto e não resul tado da mesma.
239
Consi derado abstratamente, i sto é, dei xando de consi derar as
ci rcunstânci as que não decorrem das l ei s i manentes da ci rcul ação si m-
pl es de mercadori as, o que ocorre nel a, fora a substi tui ção de um val or
de uso por outro, nada mai s é que uma metamorfose, mera mudança
de forma da mercadori a. O mesmo val or, i sto é, o mesmo quantum de
trabal ho soci al objeti vado, permanece nas mãos do mesmo possui dor
de mercadori a, pri mei ro na fi gura de sua mercadori a, depoi s na do
di nhei ro em que se transforma, fi nal mente na da mercadori a na qual
esse di nhei ro se retransforma. Essa mudança de forma não i ncl ui ne-
nhuma mudança de grandeza do val or. Mas a mudança que o val or
da própri a mercadori a sofre nesse processo l i mi ta-se a uma mudança
da sua forma monetári a. El a exi ste pri mei ro como preço da mercadori a
posta à venda, em segui da como uma soma de di nhei ro, que já estava,
porém, expressa no preço, fi nal mente como preço de uma mercadori a
equi val ente. Essa mudança de forma i mpl i ca em si e para si tão pouco
numa mudança na grandeza do val or quanto a troca de uma nota de
5 l i bras esterl i nas por sovereigns, mei o sovereign e xel i ns. Portanto, à
medi da que a ci rcul ação da mercadori a só condi ci ona uma mudança
formal do seu val or, el a condi ci ona, quando o fenômeno ocorre em sua
pureza, troca de equi val entes. A própri a economi a vul gar, por pouco
que pressi nta o que seja val or, supõe por i sso, sempre que el a, à sua
manei ra, quei ra consi derar o fenômeno em sua pureza, que procura e
oferta se i gual am, i sto é, que seu efei to si mpl esmente cessa. Se, por-
tanto, em rel ação ao val or de uso, ambos os permutantes podem l ucrar,
ambos não podem ganhar no val or de troca. Aqui si gni fi ca sobretudo:
“Onde há i gual dade, não há l ucro”.
240
Mercadori as podem chegar a ser
vendi das por preços que se desvi am de seus val ores, mas esse desvi o
aparece como vi ol ação da l ei da troca de mercadori as.
241
Em sua fi gura
MARX
277
237 RI VI ÈRE, Merci er de l a. Op. cit., p. 544.
238 "Que uma dessas mercadori as seja di nhei ro ou que ambas sejam mercadori as comuns,
nada pode ser em si mai s i ndi ferente." (RI VI ÈRE, Merci er de l a. Op. cit., p. 543.)
239 "Sobre o val or não deci dem os parcei ros de contrato; el e já está fi xado antes do acordo."
(LE TROSNE. Op. cit., p. 906.)
240 "Dove c’è egual i tà non c’è l ucro." (GALI ANI . Della Moneta. I n: CUSTODI . Parte Moderna.
t. I V, p. 244.)
241 "O i ntercâmbi o torna-se desvantajoso para uma das partes se qual quer ci rcunstânci a es-
pura, el a é uma troca de equi val entes, portanto não um mei o de en-
ri quecer em val or.
242
Por trás das tentati vas de apresentar a ci rcul ação de mercadori as
como fonte de mai s-val i a, esprei ta, portanto, geral mente um qüi proqüó,
uma confusão entre val or de uso e val or de troca. Assi m, por exempl o,
em Condi l l ac:
“É fal so que na troca de mercadori as se troque val or i gual por
val or i gual . Pel o contrári o. Cada um dos contraentes sempre dá um
val or menor por um val or mai or. (...) Caso se trocassem de fato
sempre val ores i guai s, então não haveri a ganho para nenhum dos
contraentes mas os doi s ganham ou deveri am então ganhar. Por
quê? O val or das coi sas basei a-se apenas em sua rel ação com nossas
necessi dades. O que para um é mai s, é menos para o outro, e vi ce-
versa. (...) Não se pressupõe que ofereçamos à venda coisas indi s-
pensávei s ao nosso consumo. Queremos dar uma coi sa i núti l para
nós, a fi m de conseguir uma que nos é necessári a; queremos dar
menos por mai s. (...) Era natural jul gar que na troca se dê igual
val or por val or i gual , sempre que cada uma das coi sas trocadas era
i gual em val or ao mesmo quantum de di nhei ro. (...) Mas outra con-
si deração preci sa ai nda entrar no cál cul o; é de se perguntar se ambos
trocamos um supérfl uo por al go necessári o”.
243
Vê-se como Condi l l ac não só confunde val or de uso como val or
de troca mas atri bui de modo verdadei ramente i nfanti l , a uma soci edade
com produção desenvol vi da de mercadori as, uma si tuação em que o
produtor produz el e mesmo seus mei os de subsi stênci a e só joga na
ci rcul ação o que excede sua própri a necessi dade, o supérfl uo.
244
Apesar
di sso, o argumento de Condi l l ac é repeti do freqüentemente por econo-
mi stas modernos, sobretudo quando se trata de apresentar a fi gura
desenvol vi da do i ntercâmbi o de mercadori as, o comérci o, como produtor
de mai s-val i a.
“O comérci o”, di z-se, por exempl o, “adi ci ona val or aos produtos,
OS ECONOMISTAS
278
tranha di mi nui ou aumenta o preço: então a i gual dade é vi ol ada, mas essa vi ol ação é
acarretada por aquel a causa e não pel a troca." (LE TROSNE. Op. cit., p. 904.)
242 "O i ntercâmbi o é, por sua natureza, um contrato baseado na i gual dade, ou seja, que ocorre
entre doi s val ores i guai s. El e não é, portanto, um mei o de se enri quecer, poi s dá-se tanto
quanto se recebe." (LE TROSNE. Op. cit., p. 903-904.)
243 CONDI LLAC. “Le Commerce et l e Gouvernement” (1776). Édi t. Dai re et Mol i nari . I n: Mé-
langes d’Économie Politique. Pari s, 1847. p. 267-291.
244 Por i sso, Le Trosne responde mui to acertadamente ao seu ami go Condi l l ac: “Na soci edade
desenvol vi da não exi ste, a ri gor, nada supérfl uo”. Ao mesmo tempo, faz troça del e com a
gl osa de que “se ambos os parti ci pantes de troca recebem i gual mente mai s por i gual mente
menos, ambos recebem por i gual ”. Como Condi l l ac ai nda não tem a mí ni ma noção da
natureza do val or de troca, é el e o fi ador adequado do sr. prof. Wi l hel m Roscher para os seus
própri os concei tos i nfanti s. Vejam del e: Die Grundlagen der Nationalökonomie.
*
3ª ed., 1858.
*
Os Fundamentos da Economi a Pol í ti ca. (N. dos T.)
poi s os mesmos produtos têm mai s val or nas mãos dos consumi -
dores do que nas mãos dos produtores, e deve ser, portanto, con-
si derado estri tamente (strictly) ato de produção.”
245
Mas não se pagam as mercadori as dupl amente, uma vez seu
val or de uso e outra vez seu val or. E se o val or de uso da mercadori a
é mai s úti l ao comprador do que ao vendedor, a sua forma di nhei ro é
mai s úti l ao vendedor do que ao comprador. Se assi m não fosse, i ri a
el e vendê-l a? E assi m se poderi a i gual mente di zer que o comprador
real i za estri tamente (strictly) um “ato de produção” ao transformar,
por exempl o, as mei as do comerci ante em di nhei ro.
Se mercadori as ou mercadori as e di nhei ro de i gual val or de troca,
portanto equi val entes, são trocados, então evi dentemente ni nguém ti ra
da ci rcul ação mai s do que l ança nel a. Então não ocorre nenhuma for-
mação de mai s-val i a. Mas, em sua forma pura, o processo de ci rcul ação
das mercadori as condi ci ona o i ntercâmbi o de equi val entes. No entanto,
as coi sas na real i dade não se passam de modo puro. Suponhamos,
portanto, i ntercâmbi o de não-equi val entes.
Em todo caso, no mercado de mercadori as, só possui dor de merca-
dori as se confronta com possui dor de mercadori as e o poder que essas
pessoas exercem umas sobre as outras é somente o poder de suas mer-
cadori as. A di ferença materi al das mercadori as é o moti vo central do
intercâmbi o e torna os possui dores de mercadori as reci procamente de-
pendentes, pois nenhum deles tem o objeto de suas própri as necessi dades
e cada um del es tem em suas mãos o objeto da necessi dade do outro.
Al ém dessa di ferenci ação materi al de seus val ores de uso, só exi ste uma
di ferença entre as mercadori as, a di ferença entre a sua forma natural e
a sua forma transformada, entre mercadori a e di nhei ro. E, assi m, os pos-
sui dores de mercadori as só se di ferenci am enquanto vendedores, possui -
dores de mercadori a, e enquanto compradores, possui dores de di nhei ro.
Admi ta-se agora que seja permi ti do aos vendedores, por um pri -
vi l égi o i nexpl i cável , vender a mercadori a aci ma do seu val or, a 110
quando el a val e 100, portanto com um aumento nomi nal de preço de
10%. O vendedor cobra, portanto, uma mai s-val i a de 10. Mas depoi s
de ter si do vendedor, el e se torna comprador. Um tercei ro possui dor
de mercadori as encontra-o agora como vendedor e goza por sua vez
do pri vi l égi o de vender a mercadori a 10% mai s cara. Nosso homem
ganhou 10 como vendedor para perder 10 como comprador.
246
O todo
acaba redundando no fato de que todos os possui dores de mercadori as
vendam reci procamente as suas mercadori as 10% aci ma do val or, o
MARX
279
245 NEWMAN, S. P. Elements of Polit. Econ. Andover e Nova York, 1835. p. 175.
246 "Por mei o da el evação do val or nomi nal do produto (...) os vendedores não fi cam mai s ri cos
(...) já que o que el es ganham como vendedores el es gastam exatamente de novo em sua
qual i dade de compradores." ([GRAY, J.] The Essential Principles of the Wealth of Nations
etc. Londres, 1797. p. 66.)
que é i ntei ramente o mesmo que venderem as mercadori as por seus
val ores. Tal aumento nomi nal e geral do preço acarreta o mesmo efei to
que se os val ores das mercadori as fossem aval i ados em prata em vez
de em ouro. As denomi nações monetári as, i sto é, os preços das mer-
cadori as i ri am i nchar, mas as suas rel ações de val or fi cari am i nal teradas.
Suponhamos, pelo contrári o, que seja pri vi l égi o do comprador com-
prar as mercadori as abaixo de seu valor. Aqui não é sequer necessári o
recordar que o comprador se torna novamente vendedor. El e era vendedor
antes de se tornar comprador. El e já perdeu 10% como vendedor antes
de ganhar 10% como comprador.
247
Tudo fi ca como dantes.
A formação de mai s-val i a e daí a transformação de di nhei ro em
capi tal não pode ser, portanto, expl i cada por venderem os vendedores
as mercadori as aci ma do seu val or, nem por os compradores as com-
prarem abai xo do seu val or.
248
De modo al gum se si mpl i fi ca o probl ema i nseri ndo de contrabando
nel e consi derações estranhas, di zendo com o Coronel Torrens:
“A procura efeti va consi ste na facul dade e propensão (!) dos
consumi dores, seja pel a troca di reta ou i ndi reta, de dar pel as
mercadori as certa porção mai or de todos os i ngredi entes do capi tal
do que custa a sua produção”.
249
Na ci rcul ação, produtores e consumi dores só se confrontam como
vendedores e compradores. Afi rmar que a mai s-val i a para os produtores
surja de que os consumi dores pagam as mercadori as aci ma do val or
si gni fi ca apenas mascarar essa si mpl es frase: o possui dor de merca-
dori as possui como vendedor o pri vi l égi o de vender caro demai s. O
vendedor produzi u el e mesmo a mercadori a ou então representa seus
produtores, porém o comprador produzi u não menos a mercadori a re-
presentada em seu di nhei ro ou representa seus produtores. Portanto,
produtor se defronta com produtor. O que os di sti ngue é que um compra
e o outro vende. Não nos l eva um passo adi ante que o possui dor de
mercadori as venda, sob o nome de produtor, a mercadori a aci ma de
seu val or e, sob o nome de consumi dor, pague demai s por el a.
250
Os representantes conseqüentes da i l usão de que a mai s-val i a
OS ECONOMISTAS
280
247 "Caso se tenha de vender por 18 livres
*
uma quanti dade de determi nado produto que val e
24 livres, ao se apl i car a mesma soma de di nhei ro para a compra, há de se obter também
por 18 livres tanto quanto por 24 livres.“ (LE TROSNE. Op. cit., p. 897.)
*
Li bras (moeda). (N. dos T.)
248 "Nenhum vendedor pode, portanto, aumentar habi tual mente o preço de suas mercadori as sem
ter de pagar também mai s caro as mercadori as dos outros vendedores; e pel a mesma razão
nenhum consumi dor habi tual mente pode comprar mai s barato sem ter de di mi nui r i gual mente
o preço das mercadori as que el e vende." (RI VI ÈRE, Merci er de l a. Op. cit., p. 555.)
249 TORRENS, R. An Essay on the Production of Wealth. Londres, 1821. p. 349.
250 "O pensamento de que os l ucros sejam pagos pel os consumi dores é decerto total mente
absurdo. Quem são os consumi dores?" (RAMSAY, G. An Essay on the Distribution of Wealth.
Edi mburgo, 1836. p. 183.)
se ori gi na de um aumento nomi nal de preço ou do pri vi l égi o do vendedor
de vender a mercadori a caro demai s pressupõem, portanto, uma cl asse
que só compra sem vender, por consegui nte, só consome sem produzi r.
A exi stênci a de tal cl asse é, do ponto de vi sta al cançado por nós até
agora, o da ci rcul ação si mpl es, ai nda i nexpl i cável . Mas anteci pemo-nos.
O di nhei ro, com que tal cl asse conti nuamente compra, deve fl ui r con-
ti nuamente dos própri os possui dores de mercadori as, sem i ntercâmbi o,
gratui tamente, por quai squer tí tul os de di rei to e poder. Vender, a essa
cl asse, as mercadori as aci ma do val or si gni fi ca apenas recuperar ar-
di l osamente em parte di nhei ro dado gratui tamente.
251
Assi m, as ci da-
des da Ási a Menor pagavam um tri buto anual em di nhei ro à Roma
Anti ga. Com esse di nhei ro, Roma comprava mercadori as del as e as
comprava caras demai s. Os asi áti cos menores enganavam os romanos,
sugando de vol ta dos conqui stadores parte do tri buto por mei o do co-
mérci o. Mas, mesmo assi m, esses asi áti cos conti nuavam sendo depe-
nados. Depoi s como antes suas mercadori as l hes eram pagas com o
seu própri o di nhei ro. Esse não é um método de enri queci mento ou de
formação de mai s-val i a.
Mantenhamo-nos, portanto, dentro dos l i mi tes do i ntercâmbi o de
mercadori as, onde vendedores são compradores e compradores são ven-
dedores. Nosso embaraço se ori gi na tal vez de que tenhamos tomado as
pessoas apenas como categori as personi fi cadas e não i ndi vi dual mente.
O possui dor de mercadori as A pode ser tão esperto que passa a
perna nos seus col egas B e C, enquanto estes fi cam devendo a revanche
por mai s boa vontade que tenham. A vende vi nho para B no val or de
40 l i bras esterl i nas e adqui re em troca cereal no val or de 50 l i bras
esterl i nas. A converteu as suas 40 l i bras esterl i nas em 50 l i bras es-
terl i nas, fez mai s di nhei ro de menos di nhei ro e transformou a sua
mercadori a em capi tal . Vejamos mai s de perto. Antes da troca, tí nhamos
vi nho em mãos de A por 40 l i bras esterl i nas e cereal em mãos de B
por 50 l i bras esterl i nas; val or gl obal de 90 l i bras esterl i nas. Depoi s
da troca, temos o mesmo val or gl obal de 90 l i bras esterl i nas. O val or
ci rcul ante não aumentou um úni co átomo, a sua reparti ção entre A e
B é que se modi fi cou. De um l ado aparece como mai s-val i a o que do
outro é menos-val i a, de um l ado como plus, do outro como minus. A
mesma mudança teri a ocorri do se A, sem a forma di ssi mul adora da
troca, ti vesse roubado 10 l i bras esterl i nas di retamente de B. A soma
dos val ores ci rcul antes não pode evi dentemente ser aumentada por
mei o de nenhuma mudança em sua di stri bui ção, tampouco quanto um
MARX
281
251 "Se a al guém fal ta demanda, aconsel ha-o o sr. Mal thus a pagar a outra pessoa para que
esta l he compre as suas mercadori as?" pergunta um i ndi gnado ri cardi ano a Mal thus, que,
como seu di scí pul o, o padre Chal mers, di vi ni za economi camente a cl asse dos meros com-
pradores ou consumi dores. Ver An I nquiry into those Principles, Respecting the Nature of
Demand and the Necessity of Consumption, Lately Advocated by Mr. Malthus etc. Londres,
1821. p. 55.
judeu aumenta a massa dos metai s preci osos num paí s vendendo 1
farthing do tempo da rai nha Ana por 1 gui néu. A total i dade da cl asse
dos capi tal i stas de um paí s não pode ti rar vantagem de si mesma.
252
Pode-se vi rar e revi rar como se quei ra, o resul tado permanece o
mesmo. Se equi val entes são permutados, daí não surge mai s-val i a, e
se não-equi val entes são permutados, daí também não surge mai s-va-
l i a.
253
A ci rcul ação ou o i ntercâmbi o de mercadori as não produz val or.
254
Entende-se daí por que, em nossa anál i se da forma bási ca do
capi tal , da forma pel a qual el e determi na a organi zação econômi ca da
soci edade moderna, as suas fi guras popul ares e, por assi m di zer, an-
tedi l uvi anas, capi tal comerci al e capi tal usurári o, de i ní ci o permanecem
total mente fora de cogi tação.
No capi tal comerci al autênti co, a forma D — M — D, comprar
para revender mai s caro, aparece na mai or pureza. Por outro l ado,
todo o seu movi mento ocorre dentro da esfera da ci rcul ação. Mas já
que é i mpossí vel expl i car por mei o da própri a ci rcul ação a transfor-
mação de di nhei ro em capi tal , a formação de mai s-val i a, o capi tal co-
merci al parece i mpossí vel na medi da em que se permutam equi val en-
tes,
255
só sendo el e, portanto, dedutí vel do dupl o prejuí zo i nfl i gi do aos
produtores de mercadori as que compram e vendem pel o comerci ante
que se atravessa parasi tari amente entre el es. Nesse senti do, di z Frank-
l i n: “Guerra é roubo, comérci o é engodo”.
256
Para que a val ori zação
do capi tal comerci al não seja expl i cada por mero engodo dos produtores
de mercadori as, é preci so di spor de uma l onga séri e de el os i nterme-
OS ECONOMISTAS
282
252 Destutt de Tracy, embora — tal vez porque — membre de l’Institut,
*
era de opi ni ão contrári a.
Os capi tal i stas i ndustri ai s, di z el e, obtêm os seus l ucros “por venderem tudo mai s caro do que
custou produzi -l o. E a quem el es o vendem? Pri mei ro, uns aos outros”. (Op. cit., p. 239.)
*
Membro do I nsti tuto. — I nstitut de France. A mai s el evada corporação da França, cons-
ti tuí da por vári as cl asses ou academi as. Destutt de Tracy foi membro da Academi a de
Ci ênci as Morai s e Pol í ti cas. (N. da Ed. Al emã.)
253 "O i ntercâmbi o de doi s val ores i guai s não aumenta a massa dos val ores exi stentes na
soci edade nem a di mi nui . O i ntercâmbi o de doi s val ores desi guai s (...) também não al tera
nada na soma dos val ores soci ai s, já que acrescenta à fortuna de um o que reti ra da do
outro." (SAY, J.-B. Op. cit., t. I I , p. 443-444.) Say, natural mente despreocupado quanto às
conseqüênci as dessa frase, tomou-a quase l i teral mente dos fi si ocratas. A manei ra como el e
expl ora os textos del es, esgotados na sua época, para o aumento do seu própri o “val or”,
mostra o segui nte exempl o. A “mai s famosa” frase de Monsi eur Say “só se pode comprar
produtos com produtos” (Op. cit., t. I I , p. 438) reza no ori gi nal fi si ocráti co: “produtos só se
podem pagar com produtos”. (LE TROSNE. Op. cit., p. 899.)
254 "O i ntercâmbi o não transfere val or de nenhuma espéci e aos produtos." (WAYLAND, F. The
Elements of Pol Econ. Boston, 1843. p. 168.)
255 "Sob o domí ni o de equi val entes i mutávei s, o comérci o seri a i mpossí vel ." (OPDYKE, G. A
Treatise on Polit. Economy. Nova York, 1851. p. 66-69.) “Sob a di ferença entre val or real
e val or de troca jaz um fato — ou seja, que o val or de uma coi sa é di ferente do assi m
chamado equi val ente que por el a é dado no comérci o, i sto é, que esse equi val ente não é
equi val ente.” (ENGELS, F. Op. cit., p. 95-96.)
*
*
Ver v. I da edi ção MEW, p. 508. (N. da Ed. Al emã.)
256 FRANKLI N, Benjami n. Works. v. I I , edi t. Sparks. I n: Positions to be Examined Concerning
National Wealth. [p. 376.]
di ári os, que ai nda fal ta compl etamente aqui onde a ci rcul ação de mer-
cadori as e seus momentos si mpl es consti tuem nosso úni co pressuposto.
O que val e para o capi tal comerci al , val e ai nda mai s para o
capi tal usurári o. No capi tal comerci al , os extremos, o di nhei ro l ançado
no mercado e o di nhei ro aumentado que é reti rado do mercado, são
ao menos medi ados por compra e venda, pel o movi mento da ci rcul ação.
No capi tal usurári o, a forma D — M — D’ é reduzi da aos extremos
não medi ados D — D’, di nhei ro que se troca por mai s di nhei ro, forma
que contradi z a natureza do di nhei ro e, por i sso, i nexpl i cável do ponto
de vi sta do i ntercâmbi o de mercadori as. Daí Ari stótel es:
“Como a Crematí sti ca é dupl a, uma pertencente ao comérci o,
a outra à Economi a, a úl ti ma necessári a e l ouvável , a pri mei ra
baseada na ci rcul ação e justamente cri ti cada (poi s el a não se
basei a na natureza, mas no engodo mútuo), assi m também o
agi ota é odi ado com toda justi ça, porque o própri o di nhei ro é
aqui a fonte do ganho e não é usado de acordo com o fi m para
o qual el e foi i nventado. Poi s el e surgi u para o i ntercâmbi o de
mercadori as, mas o juro faz de di nhei ro mai s di nhei ro. Daí tam-
bém o seu nome (τοχος — juro e nasci do). Poi s os nasci dos são
semel hantes aos que os geraram. Mas o juro é di nhei ro de di -
nhei ro, de modo que, de todas as modal i dades de ganho, esse é
o mai s anti natural ”.
257
Do mesmo modo que o capi tal comerci al , encontraremos, ao l ongo
de nossa pesqui sa, o capi tal a juros como forma deri vada e, ao mesmo
tempo, veremos por que ambos aparecem hi stori camente antes da mo-
derna forma bási ca do capi tal .
Mostrou-se que a mai s-val i a não pode ori gi nar-se da ci rcul ação,
que, portanto, em sua formação deve ocorrer al go por trás de suas
costas e que nel a mesma é i nvi sí vel .
258
Mas pode a mai s-val i a ori gi -
nar-se de outro l ugar que não da ci rcul ação? A ci rcul ação é a soma
de todas as rel ações recí procas
259
dos possui dores de mercadori as. Fora
da mesma o possui dor de mercadori a só está ai nda em rel ação com
sua própri a mercadori a. No que tange ao val or del a, a rel ação se l i mi ta
ao fato de que el a contém um quantum de seu própri o trabal ho medi do
segundo determi nadas l ei s soci ai s. Esse quantum de trabal ho se ex-
pressa na grandeza de val or de sua mercadori a e, como grandeza de
val or, se representa em di nhei ro de conta, num preço de, por exempl o,
10 l i bras esterl i nas. Mas o seu trabal ho não se representa no val or
MARX
283
257 ARI STÓTELES, Op. cit., cap. 10, [p. 17].
258 "Sob as condi ções costumei ras do mercado, o l ucro não é gerado pel o i ntercâmbi o. Se el e
não ti vesse estado antes presente, tampouco poderi a exi sti r depoi s dessa transação." (RAM-
SAY. Op. cit., p. 184.)
259 3ª e 4ª ed.: rel ações mercanti s. (N. da Ed. Al emã.)
da mercadori a e num excedente aci ma do seu própri o val or, não num
preço de 10 que seja, ao mesmo tempo, um preço de 11, não num val or
que seja mai or do que el e mesmo. O possui dor de mercadori as pode
formar val ores por mei o do seu trabal ho, mas não val ores que se va-
l ori zem. El e pode aumentar o val or de uma mercadori a, acrescentando,
medi ante novo trabal ho, novo val or ao val or preexi stente, por exempl o,
ao fazer de couro, botas. O mesmo materi al tem agora mai s val or
porque el e contém um quantum mai or de trabal ho. A bota tem, por
i sso, mai s val or do que o couro, mas o val or do couro permanece o que
era. El e não se val ori zou, não se acrescentou uma mai s-val i a durante
a fabri cação da bota. É, portanto, i mpossí vel que o produtor de mer-
cadori as, fora da esfera de ci rcul ação, sem entrar em contato com outros
possui dores de mercadori as, val ori ze val or e, daí , transforme di nhei ro
ou mercadori a em capi tal .
Capi tal não pode, portanto, ori gi nar-se da ci rcul ação e, tampouco,
pode não ori gi nar-se da ci rcul ação. Deve, ao mesmo tempo, ori gi nar-se
e não se ori gi nar del a.
Um resul tado dupl o foi , portanto, al cançado.
A transformação do di nhei ro em capi tal tem de ser desenvol vi da
com base nas l ei s i manentes ao i ntercâmbi o de mercadori as de modo
que a troca de equi val entes si rva de ponto de parti da.
260
Nosso possui dor
de di nhei ro, por enquanto ai nda presente apenas como capi tal i sta l ar-
var, tem de comprar as mercadori as por seu val or, vendê-l as por seu
val or e, mesmo assi m, extrai r no fi nal do processo mai s val or do que
l ançou nel e. Sua metamorfose em borbol eta tem de ocorrer na esfera
da ci rcul ação e não tem de ocorrer na esfera da ci rcul ação. São essas
as condi ções do probl ema. Hic Rhodus, hic salta!
261
OS ECONOMISTAS
284
260 De acordo com essa di scussão, o l ei tor compreende que i sso si gni fi ca apenas: a formação
de capi tal tem de ser possí vel também quando o preço da mercadori a seja i gual ao val or
da mercadori a. El a não pode ser expl i cada pel o desvi o dos preços das mercadori as em
rel ação aos val ores das mercadori as. Se os preços se desvi am real mente dos val ores, então
é preci so começar por reduzi -l os aos úl ti mos, ou seja, abstrai r essa ci rcunstânci a como
sendo casual , para ter pel a frente, em sua pureza, o fenômeno da formação de capi tal com
base no i ntercâmbi o de mercadori as e não ser confundi do em sua observação por ci rcuns-
tânci as secundári as, perturbadoras e estranhas ao verdadei ro decurso. Sabe-se, al i ás, que
essa redução não é, de modo al gum, um mero procedi mento ci entí fi co. As constantes osci -
l ações dos preços de mercado, o seu aumento e queda se compensam, se anul am reci pro-
camente e se reduzem a um preço médi o como sua regra i manente. Esta consti tui a estre-
l a-gui a, por exempl o, do comerci ante ou do i ndustri al , em cada empreendi mento que abranja
espaço de tempo mai or. El e sabe, por consegui nte, que, consi derando-se um perí odo mai s
l ongo como um todo, as mercadori as real mente não são vendi das nem abai xo nem aci ma,
mas de acordo com o seu preço médi o. Se o pensamento desi nteressado fosse ao todo de
seu i nteresse, então el e preci sari a col ocar o probl ema da formação de capi tal assi m: como
pode surgi r o capi tal sendo os preços regul ados pel o preço médi o, ou seja, em úl ti ma i nstânci a,
pel o val or das mercadori as? Di go “em úl ti ma i nstânci a” porque os preços médi os não coi n-
ci dem di retamente com as grandezas de val or das mercadori as, conforme acredi tam A.
Smi th, Ri cardo etc.
261 De uma fábul a de Esopo em que um fanfarrão sustenta ter dado um sal to prodi gi oso em
Rodos. A el e se repl i cou: Aqui está Rodos, aqui sal ta. (N. da Ed. Al emã.)
3. Compra e venda da força de trabalho
A modi fi cação do val or de di nhei ro, que deve transformar-se em
capi tal , não pode ocorrer neste mesmo di nhei ro, poi s como mei o de
compra e como mei o de pagamento el e só real i za o preço da mercadori a
que el e compra ou paga, enquanto, persi sti ndo em sua própri a forma,
petri fi ca-se numa grandeza de val or permanentemente i gual .
262
Tam-
pouco pode a modi fi cação ori gi nar-se do segundo ato de ci rcul ação, a
revenda da mercadori a, poi s esse ato apenas retransforma a mercadori a
da forma natural na forma di nhei ro. A modi fi cação preci sa ocorrer,
portanto, com a mercadori a comprada no pri mei ro ato D — M, mas
não com o seu val or, poi s são trocados equi val entes, a mercadori a é
paga por seu val or. A modi fi cação só pode ori gi nar-se, portanto, do
seu val or de uso enquanto tal , i sto é, do seu consumo. Para extrai r
val or do consumo de uma mercadori a, nosso possui dor de di nhei ro
preci sari a ter a sorte de descobri r dentro da esfera da ci rcul ação, no
mercado, uma mercadori a cujo própri o val or de uso ti vesse a caracte-
rí sti ca pecul i ar de ser fonte de val or, portanto, cujo verdadei ro consumo
fosse em si objeti vação de trabal ho, por consegui nte, cri ação de val or.
E o possui dor de di nhei ro encontra no mercado tal mercadori a especí fi ca
— a capaci dade de trabal ho ou a força de trabal ho.
Por força de trabal ho ou capaci dade de trabal ho entendemos o
conjunto das facul dades fí si cas e espi ri tuai s que exi stem na corpora-
l i dade, na personal i dade vi va de um homem e que el e põe em movi mento
toda vez que produz val ores de uso de qual quer espéci e.
Para que, no entanto, o possui dor de di nhei ro encontre à di spo-
si ção no mercado a força de trabal ho como mercadori a, di versas con-
di ções preci sam ser preenchi das. O i ntercâmbi o de mercadori as não
i ncl ui em si e para si outras rel ações de dependênci a que não as ori -
gi nadas de sua própri a natureza. Sob esse pressuposto, a força de
trabal ho como mercadori a só pode aparecer no mercado à medi da que
e porque el a é ofereci da à venda ou é vendi da como mercadori a por
seu própri o possui dor, pel a pessoa da qual el a é a força de trabal ho.
Para que seu possui dor venda-a como mercadori a, el e deve poder di spor
del a, ser, portanto, l i vre propri etári o de sua capaci dade de trabal ho,
de sua pessoa.
263
El e e o possui dor de di nhei ro se encontram no mercado
e entram em rel ação um com o outro como possui dores de mercadori as
i guai s por ori gem, só se di ferenci ando por um ser comprador e o outro,
vendedor, sendo portanto ambos pessoas juri di camente i guai s. O pros-
MARX
285
262 “Na forma de di nhei ro (...) o capi tal não gera l ucro.” (RI CARDO. Princ. of Pol. Econ. p. 267.)
263 Nas enci cl opédi as sobre a anti gui dade cl ássi ca, pode-se l er o di sparate de que no mundo
anti go o capi tal estava pl enamente desenvol vi do “exceto que fal tavam o trabal hador l i vre
e o si stema de crédi to”. Também o sr. Mommsen, em sua História Romana, prati ca um
qüi proqüó depoi s do outro.
segui mento dessa rel ação exi ge que o propri etári o da força de trabal ho
só a venda por determi nado tempo, poi s, se a vende em bl oco, de uma
vez por todas, então el e vende a si mesmo, transforma-se de homem
l i vre em um escravo, de possui dor de mercadori a em uma mercadori a.
Como pessoa, el e tem de se rel aci onar com sua força de trabal ho como
sua propri edade e, portanto, sua própri a mercadori a, e i sso el e só pode
na medi da em que el e a col oca à di sposi ção do comprador apenas pro-
vi sori amente, por um prazo de tempo determi nado, dei xando-a ao con-
sumo, portanto, sem renunci ar à sua propri edade sobre el a por mei o
de sua al i enação.
264
A segunda condi ção essenci al para que o possui dor de di nhei ro
encontre no mercado a força de trabal ho como mercadori a é que seu
possui dor, em l ugar de poder vender mercadori as em que seu trabal ho
se tenha objeti vado, preci sa, mui to mai s, oferecer à venda como mer-
cadori a sua própri a força de trabal ho, que só exi ste em sua corpora-
l i dade vi va.
Para que al guém venda mercadori as di sti ntas de sua força de
trabal ho el e tem de possui r natural mente mei os de produção, por exem-
pl o, matéri as-pri mas, i nstrumentos de trabal ho etc. El e não pode fazer
botas sem couro. Preci sa, al ém di sso, de mei os de subsi stênci a. Ni n-
guém, nem mesmo um músi co do porvi r, pode al i mentar-se com pro-
dutos do futuro, portanto também não de val ores de uso cuja produção
não esteja concl uí da, e, como nos pri mei ros di as de sua apari ção sobre
o pal co do mundo, o homem ai nda preci sa consumi r a cada di a, antes
OS ECONOMISTAS
286
264 Di versas l egi sl ações estabel eceram por i sso um máxi mo para o contrato de trabal ho. Todos
os códi gos l egai s em paí ses de trabal ho l i vre regul am condi ções de resci são do contrato.
Em di versos paí ses, notadamente no Méxi co (antes da Guerra Ci vi l ameri cana, também
nos terri tóri os arrancados ao Méxi co e, de acordo com a coi sa, até a revol ução de Kusa,
*
nas proví nci as do Danúbi o), a escravatura se ocul ta sob a forma de peonagem. Por mei o
de adi antamentos resgatávei s em trabal ho e que passam de geração em geração, não só o
trabal hador i ndi vi dual , mas também sua famí l i a, torna-se de fato propri edade de outras
pessoas e de suas famí l i as. Juárez ti nha abol i do a peonagem. O assi m chamado I mperador
Maxi mi l i ano restabel eceu-a medi ante um decreto, que foi acertadamente denunci ado na
Câmara dos Representantes em Washi ngton como decreto para o restabel eci mento da es-
cravatura no Méxi co. “De mi nhas especí fi cas habi l i dades e possi bi l i dades fí si cas e espi ri tuai s
de ati vi dade posso (...) al i enar a outrem um uso l i mi tado no tempo, porque el as por essa
l i mi tação recebem uma rel ação externa com mi nha total i dade e uni versal i dade. Por mei o
da al i enação de todo o meu tempo concreto pel o trabal ho e da total i dade de mi nha produção,
eu converteri a em propri edade de outro o substanci al da mesma, mi nha ati vi dade e real i dade
gerai s, a mi nha personal i dade.” (HEGEL Philosophie des Rechts. Berl i m, 1840. p. 104, § 67.)
*
Revol ução de Kusa. Em janei ro de 1859, Al exandre Kusa foi el ei to hospodar da Mol dávi a
e pouco depoi s da Val áqui a. Pel a uni fi cação desses doi s pri nci pados danubi anos, que durante
mui to tempo esti veram submeti dos ao domí ni o do i mpéri o otomano, cri ou-se um Estado
uni tári o romeno. Kusa se col ocou como meta real i zar uma séri e de reformas democráti co-
burguesas. Sua pol í ti ca encontrou, no entanto, forte resi stênci a dos propri etári os fundi ári os
e de certa parte da burguesi a. Depoi s que a Assembl éi a Naci onal , na qual os representantes
dos propri etári os fundi ári os predomi navam, rejei tou o projeto de reforma agrári a apresen-
tado pel o Governo, Kusa di ssol veu essa corporação reaci onári a. Foi procl amada uma cons-
ti tui ção, o cí rcul o de el ei tores foi ampl i ado e o poder do Governo fortal eci do. A reforma
agrári a acei ta nessa nova si tuação pol í ti ca previ a a abol i ção da servi dão e a reparti ção da
terra entre os camponeses medi ante sua recompra. (N. da Ed. Al emã.)
de produzi r e enquanto produz. Caso os produtos sejam produzi dos
como mercadori as, então preci sam ser vendi dos depoi s de produzi dos,
e só podem sati sfazer às necessi dades do produtor depoi s da venda.
Ao tempo da produção se acresce o tempo necessári o à venda.
Para transformar di nhei ro em capi tal , o possui dor de di nhei ro
preci sa encontrar, portanto, o trabal hador l i vre no mercado de merca-
dori as, l i vre no dupl o senti do de que el e di spõe, como pessoa l i vre, de
sua força de trabal ho como sua mercadori a, e de que el e, por outro
l ado, não tem outras mercadori as para vender, sol to e sol tei ro, l i vre
de todas as coi sas necessári as à real i zação de sua força de trabal ho.
Por que esse trabal hador l i vre se defronta com el e na esfera da
ci rcul ação é questão que não i nteressa ao possui dor de di nhei ro, que
encontra o mercado de trabal ho como uma di vi são especí fi ca do mercado
de mercadori as. E tampouco el a nos i nteressa por enquanto. Nós nos
ateremos ao fato na teori a assi m como o possui dor de di nhei ro na
práti ca. Uma coi sa, no entanto, é cl ara. A Natureza não produz de um
l ado possui dores de di nhei ro e de mercadori as e, do outro, meros possui -
dores das própri as forças de trabal ho. Essa rel ação não faz parte da hi stóri a
natural nem tampouco é soci al , comum a todos os perí odos hi stóri cos. El a
mesma é evi dentemente o resul tado de um desenvol vi mento hi stóri co an-
teri or, o produto de mui tas revol uções econômi cas, da decadênci a de toda
uma séri e de formações mai s anti gas da produção soci al .
Também as categori as econômi cas que observamos antes osten-
tam a sua marca hi stóri ca. Na exi stênci a do produto como mercadori a
estão envol vi das determi nadas condi ções hi stóri cas. Para se tornar mer-
cadori a o produto não pode ser produzi do como mei o de subsi stênci a
i medi ato para o própri o produtor. Se ti véssemos pesqui sado mai s: sob
que ci rcunstânci as todos os produtos tomam ou também apenas a mai o-
ri a del es toma a forma de mercadori a, então se teri a descoberto que
i sso só ocorre com base em um modo de produção bem especí fi co, o
capi tal i sta. Tal pesqui sa não se coadunava, no entanto, com a anál i se
da mercadori a. Produção de mercadori as e ci rcul ação de mercadori as
podem ocorrer embora a grande massa de produtos, ori entada di reta-
mente ao autoconsumo, não se transforme em mercadori a e portanto
o processo de produção soci al ai nda esteja mui to l onge de estar domi -
nado em toda a sua extensão e profundi dade pel o val or de troca. A
representação do produto como mercadori a supõe uma di vi são de tra-
bal ho tão desenvol vi da dentro da soci edade, que a separação entre
val or de uso e val or de troca, que apenas pri nci pi a no escambo di reto,
já se tenha compl etado. Tal estági o de desenvol vi mento é, porém, co-
mum às formações sóci oeconômi cas hi stori camente as mai s di versas.
Ou se consi deramos o di nhei ro, então preci samos pressupor que
a troca de mercadori as tenha ati ngi do certo ní vel . As formas especí fi cas
de di nhei ro, mero equi val ente de mercadori a ou mei o ci rcul ante ou
mei o de pagamento, tesouro e di nhei ro mundi al , apontam, de acordo
MARX
287
com a extensão di versa e a predomi nânci a rel ati va de uma ou de outra
função, para estági os mui to di ferentes do processo de produção soci al .
Apesar di sso, de acordo com a experi ênci a, basta uma ci rcul ação de
mercadori as rel ati vamente pouco desenvol vi da para a consti tui ção de
todas essas formas. Di versamente com o capi tal . Suas condi ções hi s-
tóri cas de exi stênci a de modo al gum estão presentes na ci rcul ação mer-
canti l e monetári a. El e só surge onde o possui dor de mei os de produção
e de subsi stênci a encontra o trabal hador l i vre como vendedor de sua
força de trabal ho no mercado, e esta é uma condi ção hi stóri ca que
encerra uma hi stóri a mundi al . O capi tal anunci a, portanto, de antemão,
uma época do processo de produção soci al .
265
Essa mercadori a pecul i ar, a força de trabal ho, tem de ser agora
exami nada mai s de perto. Como todas as outras mercadori as, el a tem
um val or.
266
Como el e é determi nado?
O val or da força de trabal ho, como o de toda outra mercadori a,
é determi nado pel o tempo de trabal ho necessári o à produção, portanto
também reprodução, desse arti go especí fi co. Enquanto val or, a própri a
força de trabal ho representa apenas determi nado quantum de trabal ho
soci al médi o nel a objeti vado. A força de trabal ho só exi ste como di s-
posi ção do i ndi ví duo vi vo. Sua produção pressupõe, portanto, a exi s-
tênci a del e. Dada a exi stênci a do i ndi ví duo, a produção da força de
trabal ho consi ste em sua própri a reprodução ou manutenção. Para sua
manutenção, o i ndi ví duo vi vo preci sa de certa soma de mei os de sub-
si stênci a. O tempo de trabal ho necessári o à produção da força de tra-
bal ho corresponde, portanto, ao tempo de trabal ho necessári o à pro-
dução desses mei os de subsi stênci a ou o val or da força de trabal ho é
o val or dos mei os de subsi stênci a necessári os à manutenção do seu
possui dor. A força de trabal ho só se real i za, no entanto, medi ante sua
exteri ori zação, el a só se aci ona no trabal ho. Por mei o de sua ati vação,
o trabal ho, é gasto, porém, determi nado quantum de múscul o, nervo,
cérebro etc. humanos que preci sa ser reposto. Esse gasto acresci do
condi ci ona uma recei ta acresci da.
267
Se o propri etári o da força de tra-
bal ho trabal hou hoje, el e deve poder repeti r o mesmo processo amanhã,
sob as mesmas condi ções de força e saúde. A soma dos mei os de sub-
si stênci a deve, poi s, ser sufi ci ente para manter o i ndi ví duo trabal hador
como i ndi ví duo trabal hador em seu estado de vi da normal . As própri as
OS ECONOMISTAS
288
265 O que, portanto, caracteri za a época capi tal i sta é que a força de trabal ho assume, para o
própri o trabal hador, a forma de uma mercadori a que pertence a el e, que, por consegui nte,
seu trabal ho assume a forma de trabal ho assal ari ado. Por outro l ado, só a parti r desse
i nstante se uni versal i za a forma mercadori a dos produtos do trabal ho.
266 "O val or de um homem é, como o de todas as outras coi sas, i gual ao seu preço: i sso quer
di zer tanto quanto é pago para o uso de sua força."(HOBBES, Th. Leviathan. I n: Works.
Edi t. Mol esworth, Londres, 1839-1844. v. I I I , p. 76.)
267 O villicus da Roma Anti ga, como fei tor de escravos nos trabal hos agrí col as, recebi a, “por
ter trabal ho mai s l eve que o dos escravos, uma ração menor do que estes”. (MOMMSEN,
Th. Römische Geschichte.
*
1867. p. 810.)
*
História Romana. (N. dos T.)
necessi dades naturai s, como al i mentação, roupa, aqueci mento, moradi a
etc., são di ferentes de acordo com o cl i ma e outras pecul i ari dades na-
turai s de um paí s. Por outro l ado, o âmbi to das assi m chamadas ne-
cessi dades bási cas, assi m como o modo de sua sati sfação, é el e mesmo
um produto hi stóri co e depende, por i sso, grandemente do ní vel cul tural
de um paí s, entre outras coi sas também essenci al mente sob que con-
di ções, e, portanto, com que hábi tos e aspi rações de vi da, se consti tui u
a cl asse dos trabal hadores l i vres.
268
Em antí tese às outras mercadori as
a determi nação do val or da força de trabal ho contém, por consegui nte,
um el emento hi stóri co e moral . No entanto, para determi nado paí s,
em determi nado perí odo, o âmbi to médi o dos mei os de subsi stênci a
bási cos é dado.
O propri etári o da força de trabal ho é mortal . Se, portanto, sua
apari ção no mercado é para ser contí nua, como pressupõe a contí nua
transformação de di nhei ro em capi tal , então o vendedor da força de
trabal ho preci sa perpetuar-se “como todo i ndi ví duo se perpetua pel a
procri ação”.
269
As forças de trabal ho subtraí das do mercado pel o des-
gaste e morte preci sam ser conti nuamente substi tuí das ao menos por
um número i gual de novas forças de trabal ho. A soma dos mei os de
subsi stênci a necessári os à produção da força de trabal ho i ncl ui , por-
tanto, os mei os de subsi stênci a dos substi tutos, i sto é, dos fi l hos dos
trabal hadores, de modo que essa race
270
de pecul i ares possui dores de
mercadori as se perpetue no mercado de mercadori as.
271
Para modi fi car a natureza humana geral de tal modo que el a
al cance habi l i dade e destreza em determi nado ramo de trabal ho, tor-
nando-se força de trabal ho desenvol vi da e especí fi ca, é preci so deter-
mi nada formação ou educação, que, por sua vez, custa uma soma mai or
ou menor de equi val entes mercanti s. Conforme o caráter mai s ou menos
medi ato da força de trabal ho, os seus custos de formação são di ferentes.
Esses custos de aprendi zagem, í nfi mos para a força de trabal ho comum,
entram portanto no âmbi to dos val ores gastos para a sua produção.
O val or da força de trabal ho se resol ve no val or de uma soma
determi nada de mei os de subsi stênci a. El e muda, portanto, também
com o val or desses mei os de subsi stênci a, i sto é, com a grandeza do
tempo de trabal ho exi gi do para sua produção.
Parte dos mei os de subsi stênci a, por exempl o, al i mentação, aque-
ci mento etc., é di ari amente consumi da e preci sa ser di ari amente re-
MARX
289
268 Cf. THORNTON, W. Th. Over-Population and its Remedy. Londres, 1846.
269 Petty.
270 Raça. (N. dos T.)
271 "Seu" (do trabal ho) “preço natural (...) consi ste em tal quanti dade de mei os de subsi stênci a
e objetos de conforto, como são necessári os de acordo com o cl i ma e com os hábi tos de um
paí s para manter o trabal hador e possi bi l i tar-l he cri ar uma famí l i a que possa assegurar
no mercado uma oferta de trabal ho sem di mi nui ção.” (TORRENS, R. An Essay on the
External Corn Trade. Londres, 1815. p. 62.) A pal avra trabal ho está aí erroneamente em
l ugar de força de trabal ho.
posta. Outros mei os de subsi stênci a, como roupas, móvei s etc., gas-
tam-se em perí odos mai s extensos de tempo e, por i sso, só preci sam
ser repostos em perí odos mai s extensos de tempo. Mercadori as de uma
espéci e preci sam ser compradas ou pagas di ari amente, outras sema-
nal mente, tri mestral mente etc. Mas como quer que a soma dessas des-
pesas se possa reparti r durante, por exempl o, um ano, el a preci sa ser
coberta pel a recei ta médi a di a por di a. Seja a massa das mercadori as
exi gi das di ari amente para a produção da força de trabal ho = A, a
exi gi da semanal mente = B, a exi gi da tri mestral mente = C etc., então
a médi a di ári a dessas mercadori as seri a = 365 A + 52 B + 4 C + etc.
365
Supondo-se que 6 horas de trabal ho soci al estão conti das nessa massa
de mercadori as necessári a ao di a médi o, então se objeti va di ari amente
na força de trabal ho mei o di a de trabal ho soci al médi o, ou mei o di a
de trabal ho é exi gi do para a produção di ári a da força de trabal ho.
Esse quantum de trabal ho exi gi do para sua produção di ári a forma o
val or de um di a de força de trabal ho ou o val or da força de trabal ho
reproduzi da em um di a. Se mei o di a de trabal ho soci al médi o se re-
presenta i gual mente numa massa de ouro de 3 xel i ns ou em 1 tál er,
então 1 tál er é o preço correspondente ao val or de um di a da força de
trabal ho. Se o possui dor da força de trabal ho oferece-a por 1 tál er ao
di a, então o seu preço de venda é i gual ao seu val or e, de acordo com
nossos pressupostos, o possui dor de di nhei ro, que cobi ça transformar
o seu tál er em capi tal , paga esse val or.
O l i mi te úl ti mo ou l i mi te mí ni mo do val or da força de trabal ho
é consti tuí do pel o val or de uma massa de mercadori as, sem cujo su-
pri mento di ári o o portador da força de trabal ho, o homem, não pode
renovar o seu processo de vi da, sendo portanto o val or dos mei os de
subsi stênci a fi si camente i ndi spensávei s. Se o preço da força de trabal ho
bai xa a esse mí ni mo, então el e cai abai xo do val or del a, poi s assi m
el a só pode manter-se e desenvol ver-se em forma atrofi ada. Mas o
val or de cada mercadori a é determi nado pel o tempo de trabal ho re-
queri do para fornecê-l a com sua qual i dade normal .
É senti mental i smo extraordi nari amente barato consi derar brutal
essa determi nação do val or da força de trabal ho que decorre da natureza
da coi sa e l amentar-se, por exempl o, com Rossi :
“Conceber a capaci dade de trabal ho (puissance de travail), abs-
trai ndo-se dos mei os de subsi stênci a do trabal ho durante o pro-
cesso de produção, si gni fi ca conceber um ser da razão (être de
raison). Quem di z trabal ho, quem di z capaci dade de trabal ho,
di z ao mesmo tempo trabal hador e mei os de subsi stênci a, traba-
l hador e sal ári o”.
272
OS ECONOMISTAS
290
272 ROSSI . Cours d’Écon. Polit. Bruxel as, 1843. p. 370-371.
Quem di z capaci dade de trabal ho não di z trabal ho, como quem
di z capaci dade de di gestão tampouco di z di gestão. Para esse úl ti mo
processo é reconheci damente necessári o mai s do que um bom estômago.
Quem di z capaci dade de trabal ho não abstrai dos mei os necessári os à
sua subsi stênci a. O val or del es é antes expresso no val or del a. Se não
é vendi da, de nada serve ao trabal hador, el e então a percebe mui to
mai s como uma cruel necessi dade natural que a sua capaci dade de
trabal ho tenha exi gi do determi nado quantum de mei os de subsi stênci a
para sua produção e constantemente exi ge de novo para a sua repro-
dução. El e descobre, então, com Si smondi :
“A capaci dade de trabal ho (...) nada é se não é vendi da”.
273
A natureza pecul i ar dessa mercadori a especí fi ca, a força de tra-
bal ho, faz com que, com a concl usão do contrato entre comprador e
vendedor, seu val or de uso ai nda não se tenha verdadei ramente trans-
feri do para as mãos do comprador. O seu val or, como o de qual quer
outra mercadori a, estava determi nado antes de el a entrar em ci rcul a-
ção, poi s determi nado quantum de trabal ho soci al havi a si do gasto
para a produção da força de trabal ho, mas o seu val or de uso consi ste
na exteri ori zação posteri or dessa força. Por i sso, a al i enação da força
e a sua verdadei ra exteri ori zação, ou seja, a sua exi stênci a como val or
de uso, se separam no tempo. No caso de mercadori as,
274
porém, em
que a al i enação formal do val or de uso medi ante a venda e sua ver-
dadei ra entrega ao comprador se separam no tempo, o di nhei ro do
comprador funci ona geral mente como mei o de pagamento. Em todos
os paí ses com modo de produção capi tal i sta, a força de trabal ho só é
paga depoi s de ter funci onado durante o prazo previ sto no contrato de
compra, por exempl o, no fi nal de cada semana. Por toda parte, portanto,
o trabal hador adi anta ao capi tal i sta o val or de uso da força de trabal ho;
el e dei xa consumi -l a pel o comprador, antes de receber o pagamento
de seu preço; por toda parte, portanto, o trabal hador fornece crédi to
ao capi tal i sta. Que esse forneci mento de crédi to não é nenhuma fantasi a
vã, mostra-o não só a perda ocasi onal do sal ári o credi tado quando
ocorre bancarrota do capi tal i sta,
275
mas também uma séri e de efei tos
mai s duradouros.
276
No entanto, nada muda na natureza do própri o
MARX
291
273 SI SMONDI . Nouv. Princ. etc. t. I , p. 113.
274 “Todo trabal ho é pago depoi s de concl uí do” (An Inquiry into those Principles, Respecting the
Nature of Demand etc. p. 104). “O crédi to comerci al ti nha de começar no momento em que o
trabal hador, o pri mei ro cri ador da produção, estava em condi ções, com base em suas economi as,
de esperar pel o sal ári o de seu trabal ho até o fi nal de uma a duas semanas, um mês, um
tri mestre etc.” (GANI LH. Ch. Des Systèmes d’Écon. Polit. 2ª ed., Pari s, 1821. t. I I , p. 150.)
275 "O trabal hador empresta seu esforço", mas, acrescenta Storch, astutamente: el e “nada
arri sca”, exceto “perder o seu sal ári o (...) o trabal hador não transfere nada materi al .”
(STORCH. Cours d’Écon. Polit. Petersburgo, 1815, t. I I , p. 36-37.)
276 Um exempl o. Em Londres exi stem duas espéci es de padei ros, os full priced, que vendem
o pão por seu val or pl eno, e os undersellers, que o vendem abai xo desse val or. Essa úl ti ma
cl asse consti tui 3/4 do número total dos padei ros (p. XXXI I no Report do Comi ssári o Go-
i ntercâmbi o de mercadori as se o di nhei ro funci ona como mei o de compra
ou como mei o de pagamento. O preço da força de trabal ho está fi xado
contratual mente, ai nda que el e só venha a ser real i zado depoi s, como
o preço do al uguel de uma casa. A força de trabal ho está vendi da,
ai nda que el a só seja paga posteri ormente. Para a concepção pura da
rel ação é, no entanto, úti l pressupor, por enquanto, que o possui dor
da força de trabal ho recebe com sua venda cada vez e também pron-
tamente o preço esti pul ado contratual mente.
Conhecemos agora a manei ra pel a qual é determi nado o val or,
que é pago ao possui dor dessa mercadori a pecul i ar, a força de trabal ho,
pel o possui dor de di nhei ro. O val or de uso, que este úl ti mo recebe por
sua vez na troca, só se mostra na uti l i zação real , no processo de consumo
da força de trabal ho. Todas as coi sas necessári as a esse processo, como
matéri a-pri ma etc., o possui dor de di nhei ro compra no mercado e paga
seu preço i ntegral . O processo de consumo da força de trabal ho é, si mul -
OS ECONOMISTAS
292
vernamental H. S. Tremenheere sobre as Grievances complained of by the journeymen
bakers etc. Londres, 1862). Esses undersellers vendem, quase sem exceção, pão fal si fi cado
com a mi stura de al úmen, sabão, potassa, cal , pó de pedra de Derbyshi re e outros i ngredi entes
saborosos, nutri ti vos e saudávei s. (Ver o Li vro Azul aci ma ci tado, bem como o rel atóri o do
“Commi ttee of 1855 on the Adul terati on of Bread” e do dr. HASSALL. Adulterations Detected.
2ª ed., Londres, 1861.) Si r John Gordon decl arou perante o Comi tê de 1855 que “em con-
seqüênci a dessas fal si fi cações, o pobre, que vi ve de 2 l i bras-peso de pão por di a, agora não
recebe verdadei ramente nem a quarta parte do materi al nutri ente, sem consi derar os efei tos
prejudi ci ai s sobre sua saúde”. Como moti vo para que “uma parte mui to grande da cl asse
operári a”, ai nda que bem i nformada sobre as fal si fi cações, mesmo assi m acei te na compra
al úmen, pó de pedra etc., Tremenheere (1.c, p. XLVI I I ) i nforma que para el es “é uma
questão de necessi dade acei tar do seu padei ro ou do chandler’s shop
*
o pão como el es
quei ram fornecê-l o”. Como el es só são pagos no fi nal da semana de trabal ho, só podem
também “pagar no fi nal da semana o pão consumi do pel a famí l i a durante a semana”; e,
acrescenta Tremenheere, apoi ado em asserti vas de testemunhas: “É notóri o que pão pre-
parado com tai s mi sturas é fei to expressamente para essa espéci e de fregueses”. ("I t i s
notori ous that bread composed of those mi xtures, i s made expressl y for sal e i n thi s manner.")
“Em mui tos di stri tos agrí col as i ngl eses” (mas ai nda mai s em escoceses) “o sal ári o é pago
a cada catorze di as e até mesmo mensal mente. Com esses l ongos prazos de pagamento o
trabal hador agrí col a tem de comprar as suas mercadori as a crédi to. (...) El e tem de pagar
preços mai s al tos e está preso de fato ao armazém que l he fi a. Assi m, em Horni ngsham,
em Wi l ts, onde o sal ári o é mensal , a mesma fari nha que em outro l ugar, el e paga com 1
xel i m e 10 pence, custa-l he 2 xel i ns e 4 pence por stone”.
**
("Si xth Report" on “Publ i c
Heal th” by “The Medi cal Offi cer of the Pri vy Counci l etc.”, 1864, p. 264.) “Os estampadores
manuai s de teci do de Pai sl ey e Ki l marnock” (Escóci a oci dental ) “conqui staram em 1853,
por mei o de strike,
***
a redução do prazo de pagamento de um mês para catorze di as”.
(Reports of the I nspectors of Factories for 31st Oct. 1853. p. 34.) Como outra espéci e de
desenvol vi mento do crédi to, que o trabal hador fornece ao capi tal i sta, pode ser consi derado
o método de mui tos propri etári os i ngl eses de mi nas de carvão, pel o qual o trabal hador
apenas é pago no fi m do mês e, no mei o tempo, recebe adi antamentos do capi tal i sta, mui tas
vezes em mercadori as, que el e preci sa pagar aci ma do preço do mercado (Trucksystem). “É
uma práti ca costumei ra dos donos de mi nas de carvão pagar a seus trabal hadores uma
vez por mês e dar a seus trabal hadores um adi antamento a cada semana i ntermedi ári a.
Esse adi antamento é dado no armazém” (ou seja, no tommy-shop ou l oja que pertence ao
própri o patrão). “Os homens recebem-no de um l ado do armazém e o gastam do outro.”
(Children’s Employment Commission, I I I Report. Londres, 1864. p. 38, nº 192.)
*
Loja de mi udezas. (N. dos T.)
**
Medi da i ngl esa de peso equi val ente a 6,35 qui l os. (N. dos T.)
***
Greve. (N. dos T.)
taneamente, o processo de produção de mercadori a e de mai svali a. O con-
sumo da força de trabal ho, como o consumo de qual quer outra mercadori a,
ocorre fora do mercado ou da esfera de ci rcul ação. Abandonemos então,
junto com o possui dor de di nhei ro e o possuidor da força de trabalho, essa
esfera rui dosa, exi stente na superfí ci e e acessível a todos os ol hos, para
seguir os doi s ao local ocul to da produção, em cujo li mi ar se pode ler: No
admittance except on business.
277
Aqui há de se mostrar não só como o capital
produz, mas também como ele mesmo é produzi do, o capi tal . O segredo da
fabri cação de mai s-val i a há de se final mente desvendar.
A esfera da ci rcul ação ou do i ntercâmbi o de mercadori as, dentro de
cujos l i mi tes se movi mentam compra e venda de força de trabal ho, era
de fato um verdadei ro éden dos di rei tos naturai s do homem. O que aqui
rei na é uni camente Li berdade, I gual dade, Propri edade e Bentham. Li -
berdade! Poi s comprador e vendedor de uma mercadori a, por exempl o,
da força de trabal ho, são determi nados apenas por sua l i vre-vontade. Con-
tratam como pessoas l i vres, juri di camente i guai s. O contrato é o resul tado
fi nal, no qual suas vontades se dão uma expressão jurí di ca em comum.
I gual dade! Poi s el es se rel aci onam um com o outro apenas como possui -
dores de mercadori as e trocam equi val ente por equi val ente. Propri edade!
Poi s cada um di spõe apenas sobre o seu. Bentham! Poi s cada um dos
doi s só cui da de si mesmo. O único poder que os junta e leva a um
rel aci onamento é o provei to própri o, a vantagem parti cul ar, os seus i n-
teresses pri vados. E justamente porque cada um só cuida de si e nenhum
do outro, real i zam todos, em decorrênci a de uma harmoni a preestabel eci da
das coi sas ou sob os auspí ci os de uma previ dênci a toda esperta, tão-so-
mente a obra de sua vantagem mútua, do bem comum, do i nteresse geral .
Ao sair dessa esfera da ci rcul ação si mpl es ou da troca de mercadori as,
da qual o l ivre-cambi sta vulgaris extrai concepções, concei tos e critéri os
para seu juízo sobre a sociedade do capi tal e do trabal ho assal ari ado, já
se transforma, assim parece, em al go a fi si onomi a de nossa dramatis per-
sonae.
278
O anti go possuidor de di nheiro marcha adiante como capitali sta,
segue-o o possui dor de força de trabalho como seu trabalhador; um, chei o
de importânci a, sorri so sati sfei to e ávi do por negóci os; o outro, tímido,
contrafeito, como al guém que l evou a sua própria pel e para o mercado e
agora não tem mai s nada a esperar, exceto o — curtume.
MARX
293
277 Não se permi te a entrada a não ser a negóci o. (N. dos T.)
278 Personagens do drama. (N. dos T.)
SEÇÃO III
A PRODUÇÃO DA MAIS-VALIA ABSOLUTA
CAPÍTULO V
PROCESSO DE TRABALHO E PROCESSO DE VALORIZAÇÃO
1. O processo de trabalho
A uti l i zação da força de trabal ho é o própri o trabal ho. O com-
prador da força de trabal ho a consome ao fazer trabal har o vendedor
del a. O úl ti mo torna-se, desse modo, actu,
279
força de trabal ho real mente
ati va, o que antes era apenas potentia.
280
Para representar seu trabal ho
em mercadori as, el e tem de representá-l o, sobretudo, em val ores de
uso, em coi sas que si rvam para sati sfazer a necessi dades de al guma
espéci e. É, portanto, um valor de uso particular, um arti go determinado,
que o capi tal i sta faz o trabal hador produzi r. A produção de val ores de
uso ou bens não muda sua natureza geral por se real i zar para o capi tal i sta
e sob seu control e. Por i sso, o processo de trabal ho deve ser consi derado
de i ní ci o i ndependentemente de qual quer forma soci al determi nada.
Antes de tudo, o trabal ho é um processo entre o homem e a
Natureza, um processo em que o homem, por sua própri a ação, medi a,
regul a e control a seu metabol i smo com a Natureza. El e mesmo se
defronta com a matéri a natural como uma força natural . El e põe em
movi mento as forças naturai s pertencentes a sua corporal i dade, braços
e pernas, cabeça e mão, a fi m de apropri ar-se da matéri a natural numa
forma úti l para sua própri a vi da. Ao atuar, por mei o desse movi mento,
sobre a Natureza externa a el e e ao modi fi cá-l a, el e modi fi ca, ao mesmo
tempo, sua própri a natureza. El e desenvol ve as potênci as nel a ador-
meci das e sujei ta o jogo de suas forças a seu própri o domí ni o. Não se
trata aqui das pri mei ras formas i nsti nti vas, ani mai s, de trabal ho. O
estado em que o trabal hador se apresenta no mercado como vendedor
de sua própri a força de trabal ho dei xou para o fundo dos tempos pri -
mi ti vos o estado em que o trabal ho humano não se desfez ai nda de
sua pri mei ra forma i nsti nti va. Pressupomos o trabal ho numa forma
297
279 De fato. (N. dos T.)
280 Em potenci al . (N. dos T.)
em que pertence excl usi vamente ao homem. Uma aranha executa ope-
rações semel hantes às do tecel ão, e a abel ha envergonha mai s de um
arqui teto humano com a construção dos favos de suas col mei as. Mas
o que di sti ngue, de antemão, o pi or arqui teto da mel hor abel ha é que
el e construi u o favo em sua cabeça, antes de construí -l o em cera. No
fi m do processo de trabal ho obtém-se um resul tado que já no i ní ci o
deste exi sti u na i magi nação do trabal hador, e portanto i deal mente.
El e não apenas efetua uma transformação da forma da matéri a natural ;
real i za, ao mesmo tempo, na matéri a natural seu objeti vo, que el e
sabe que determi na, como l ei , a espéci e e o modo de sua ati vi dade e
ao qual tem de subordi nar sua vontade. E essa subordi nação não é
um ato i sol ado. Al ém do esforço dos órgãos que trabal ham, é exi gi da
a vontade ori entada a um fi m, que se mani festa como atenção durante
todo o tempo de trabal ho, e i sso tanto mai s quanto menos esse trabal ho,
pel o própri o conteúdo e pel a espéci e e modo de sua execução, atrai o
trabal hador, portanto, quanto menos el e o aprovei ta, como jogo de suas
própri as forças fí si cas e espi ri tuai s.
Os el ementos si mpl es do processo de trabal ho são a ati vi dade
ori entada a um fi m ou o trabal ho mesmo, seu objeto e seus mei os.
A terra (que do ponto de vi sta econômi co i ncl ui também a água),
como fonte ori gi nal de ví veres e mei os já prontos de subsi stênci a para
o homem,
281
é encontrada sem contri bui ção del e, como objeto geral do
trabal ho humano. Todas as coi sas que o trabal ho só desprende de sua
conexão di reta com o conjunto da terra, são objetos de trabal ho pree-
xi stentes por natureza. Assi m o pei xe que se pesca ao separá-l o de
seu el emento de vi da, a água, a madei ra que se abate na fl oresta
vi rgem, o mi néri o que é arrancado de seu fi l ão. Se, ao contrári o, o
própri o objeto de trabal ho já é, por assi m di zer, fi l trado por mei o de
trabal ho anteri or, denomi namo-l o matéri a-pri ma. Por exempl o, o mi -
néri o já arrancado que agora vai ser l avado. Toda matéri a-pri ma é
objeto de trabal ho, mas nem todo objeto de trabal ho é matéri a-pri ma.
O objeto de trabal ho apenas é matéri a-pri ma depoi s de já ter experi -
mentado uma modi fi cação medi ada por trabal ho.
O mei o de trabal ho é uma coi sa ou um compl exo de coi sas que
o trabal hador col oca entre si mesmo e o objeto de trabal ho e que l he
serve como condutor de sua ati vi dade sobre esse objeto. El e uti l i za as
propri edades mecâni cas, fí si cas, quí mi cas das coi sas para fazê-l as atuar
como mei os de poder sobre outras coi sas, conforme o seu objeti vo.
282
OS ECONOMISTAS
298
281 "Os produtos naturai s da terra, exi stentes em pequenas quanti dades e total mente i nde-
pendentes do homem, parecem ser dados pel a Natureza do mesmo modo que se dá a um
jovem uma pequena soma para que possa trabal har e fazer sua fortuna." (STEUART, James.
Principles of Polit. Econ. Edi t. Dubl i n, 1770, v. I , p. 116.)
282 "A razão é tão ardi l osa como poderosa. O ardi l consi ste na ati vi dade medi adora, a qual ,
ao fazer os objetos atuarem uns sobre os outros e desgastarem-se mutuamente, segundo
sua própri a natureza, sem se i nseri r di retamente nesse processo, todavi a, real i za apenas seu
própri o fi m." (HEGEL. Enzyklopaedie. Parte Pri mei ra. “Di e Logi k”. Berl i m, 1840. p. 382.)
O objeto do qual o trabal hador se apodera di retamente — abstrai ndo
a col eta de mei os prontos de subsi stênci a, frutas, por exempl o, em que
somente seus própri os órgãos corporai s servem de mei os de trabal ho
— não é objeto de trabal ho, mas o mei o de trabal ho. Assi m, mesmo o
natural torna-se órgão de sua ati vi dade, um órgão que el e acrescenta
a seus própri os órgãos corporai s, prol ongando sua fi gura natural , apesar
da Bí bl i a. Do mesmo modo como a terra é sua despensa ori gi nal , é
el a seu arsenal ori gi nal de mei os de trabal ho. Fornece-l he, por exempl o,
a pedra que el e l ança, com que raspa, prensa, corta etc. A própri a
terra é um mei o de trabal ho, mas pressupõe, para servi r como mei o
de trabal ho na agri cul tura, uma séri e de outros mei os de trabal ho e
um ní vel de desenvol vi mento rel ati vamente al to da força de trabal ho.
283
Tão l ogo o processo de trabal ho esteja em al guma medi da desenvol vi do
de todo, necessi ta el e de mei os de trabal ho já trabal hados. Nas cavernas
humanas mai s anti gas encontramos i nstrumentos de pedra e armas
de pedra. Ao l ado de pedra, madei ra, osso e conchas trabal hados, o
ani mal domesti cado e, portanto, já modi fi cado por trabal ho, desempe-
nha no i ní ci o da hi stóri a humana o papel pri nci pal como mei o de tra-
bal ho.
284
O uso e a cri ação de mei os de trabal ho, embora exi stam em
germe em certas espéci es de ani mai s, caracteri zam o processo de tra-
bal ho especi fi camente humano e Frankl i n defi ne, por i sso, o homem
como a toolmaking animal, um ani mal que faz ferramentas. A mesma
i mportânci a que a estrutura de ossos fóssei s tem para o conheci mento
da organi za