1 MÉTODOS E TÉCNICAS DA PSICOLOGIA

Os métodos científicos da psicologia podem ser divididos em três grupos:
experimentais, diferenciais e clínicos. Os métodos experimentais, oriundos das ciências
físicas, têm por princípio a variação de um fator, o fator causal também chamado variável
independente, mantendo constantes todas as outras fontes de influência. Observar-se-ão,
assim, as modificações produzidas na variável dependente. A tarefa fundamental do
psicólogo será, de um lado, encontrar medidas precisas quanto às variações das variáveis
independente e dependente, e, de outro lado, controlar todas as outras variáveis para que
seu efeito possa ser considerado como constante.
Em certos casos, como no estudo do desenvolvimento dos fatores da inteligência,
da personalidade etc., o psicólogo não pode variar diretamente o fator que deseja estudar.
Recorre então ao método diferencial. As diferenças individuais constituirão a variável
propriamente dita; as outras condições, e mesmo as provas às quais os indivíduos serão
submetidos, ficam constantes.
Enquanto os dois métodos citados permitem estabelecer leis gerais, o método
clínico se propõe compreender o indivíduo em sua situação particular ou pretende aplicar
as diversas leis gerais a casos individuais. Seu uso é indispensável no diagnóstico da
personalidade. Para o conhecimento preciso de determinados fenômenos psicológicos,
muitas vezes os três métodos devem ser empregados conjuntamente.
1.1. PSICOLOGIA ANIMAL
Também chamada psicologia comparada, a psicologia animal tem como uma de
suas finalidades a de precisar o degrau em que, na escala evolutiva, determinada espécie
deve ser situada. A maior contribuição da psicologia animal decorre do fato de que os
estudos efetuados sobre animais permitem responder muitas perguntas relativas à
psicologia humana.
Edward Lee Thorndike, Clark Hull, B. F. Skinner e muitos outros teóricos da
psicologia da aprendizagem elaboraram suas leis a partir de dados obtidos com animais,
visto que neles as experiências podem ser simplificadas e mais controlados os fatores
não relevantes. Os estudos de Konrad Lorenz e Nikolaas Tinbergen sobre os instintos
também foram efetuados com animais.
1.2. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO
O estudo longitudinal do desenvolvimento procura compreender tanto a época do
aparecimento dos processos psicológicos, quanto as características dos principais
estágios da evolução psíquica. Iniciou-se com as pesquisas sobre a psicologia da criança,
mas os trabalhos de George Coghill, Z. Y. Kuo e outros mostraram a necessidade de
levar em conta também os dados obtidos sobre o desenvolvimento psíquico dos animais,
principalmente no terreno do desenvolvimento motor.
Alguns autores antigos consideravam o desenvolvimento unicamente como um
acréscimo em quantidade e complexidade; teorias posteriores, ao contrário, afirmam que
as modificações qualitativas e descontínuas surgem nos vários níveis da evolução. Isto
levou a caracterizar os níveis de evolução em termos de "padrões de desenvolvimento".
Admite-se que existam formas gerais comuns a todos os membros da mesma espécie, as
quais durante certo período caracterizarão seu comportamento psíquico.
Estudos sobre a vida embrionária tanto do homem quanto dos animais mostram
que os primeiros movimentos são descoordenados e envolvem o organismo inteiro.
Depois, por individuação e por influência de fatores internos, na concepção de Coghill, ou
mais pela influência de fatores excitantes externos, na teoria de Kuo, as reações vão
especificar-se em ordem precisa, definida. Assim, o desenvolvimento motor vai de
movimentos amplos que envolvem todo o membro até as atividades finas de coordenação
motora.
Todas as teorias concordam que a regularidade do desenvolvimento constitui uma
prova da presença de fatores internos, isto é, de fatores de maturação. Isso explica, no
dizer de Arnold L. Gesell, por que a criança senta-se antes de ficar em pé, desenha um
círculo antes de conseguir copiar um quadrado e fabula antes de poder dizer a "verdade".
Influências externas desfavoráveis, como, por exemplo, ser impedida de movimentar os
membros, atrasam sua locomoção, mas, uma vez liberada, rapidamente recupera o que
perdeu e se iguala às outras crianças de mesma idade.
O estudo do desenvolvimento da criança exige métodos específicos pouco usados
em outros ramos da psicologia. A análise dos jogos e desenhos infantis, a observação e
análise cinematográfica são algumas das técnicas que permitem acompanhar sua
evolução.
O desenvolvimento da personalidade humana pode ser dividido em cinco etapas
principais: vida intra-uterina, infância, adolescência, período maduro do adulto e velhice. A
divisão ulterior da infância e da adolescência não é ainda uniforme entre os psicólogos. A
maioria, contudo, destaca o primeiro ano de vida como fase especial. Depois vem a etapa
da primeira infância, até os seis anos aproximadamente. A segunda infância vai de 7 a 11
anos, seguida da fase da pré-puberdade. A adolescência se subdivide em dois períodos:
a puberdade e a adolescência propriamente dita. Alguns autores ainda distinguem, dos 18
aos 23 anos, o período da juventude.
O recém-nascido, apesar de estar já em contato com um mundo muito mais
mutável do que as condições comparativamente constantes da vida intra-uterina,
caracteriza-se ainda por uma dependência quase total do ambiente e pela aquisição das
condições básicas de uma vida biológica independente: hábitos de alimentação,
discriminação de estímulos e maturação do sistema nervoso.
Na primeira infância, em consequência do desenvolvimento motor e verbal, a
criança torna-se agente espontâneo de atividades, por meio das quais buscará
ativamente novos estímulos e começará a integrar-se, ainda que em boa parte somente
na fantasia, ao mundo social de seus colegas e da família. Na segunda infância, a criança
desenvolve a capacidade de dissociar as qualidades dos objetos e se abre ao mundo real
por meio de generalizações, abstrações e manipulação livre dos símbolos verbais. Em
alguns anos a conquista intelectual transforma por completo sua atitude para com o
mundo externo.
As mudanças orgânicas e somáticas, principalmente o desenvolvimento dos
caracteres sexuais secundários, acompanhados pela socialização da atividade intelectual,
constituem verdadeira fase de transição, que começa aos 12-13 anos e vai até o fim da
puberdade, por volta dos 15 anos. Necessitando compreender-se nessa etapa, e, ao
mesmo tempo, sentindo a influência da sociedade que começa a exigir dele uma
responsabilidade, o adolescente assume progressivamente a direção ativa e pessoal de
sua própria vida. Essa busca de auto-afirmação às vezes fica só no mundo interno, mas
costuma também manifestar-se em rebeldia contra as autoridades, à procura de "novos
estilos" de vida dentro dos quais possa sentir-se mais seguro.
Dentro de cada um desses períodos, a psicologia do desenvolvimento pesquisa
especificamente o desenvolvimento corporal, a aquisição das habilidades motoras, a
evolução da linguagem e da inteligência, o ajustamento social e emocional. Um dos
estudos mais precisos sobre as características diferenciais de cada ano de vida foi
realizado por Gesell e seus colaboradores. Outros, como Jean Piaget e Maurice Debesse,
preferiram estudar mais globalmente o desenvolvimento, ressaltando as próprias
vivências internas das crianças e adolescentes.
1.3. PSICOLOGIA SOCIAL
A personalidade não se desenvolve nem se manifesta no vazio, mas em estreita
interação com outras personalidades. A disciplina científica que estuda a personalidade
em interação é a psicologia social.
Autores antigos tiveram uma visão mais atomística da relação entre a
personalidade e a sociedade. Muitos consideravam que a psicologia social começa depois
que a personalidade se forma graças às forças internas e aos mecanismos de
aprendizagem. Concepção mais recente, sem negar a importância desses fatores,
ressalta que a personalidade, sob todos os pontos de vista, desde o nascimento, está
sendo condicionada cultural e socialmente.
Outro tema preferido da psicologia social moderna é a investigação do status, isto
é, a posição que alguém ocupa no grupo, e do rôle, ou seja, o comportamento esperado
do indivíduo por um grupo humano. Para que uma pessoa seja bem ajustada,
considerada como normal, é necessário que saiba desempenhar seus rôles, seus "papéis
sociais", e encontre suficiente grau de satisfação emocional na vivência desses papéis.
Muitas pesquisas investigam não tanto a influência da cultura e da sociedade sobre a
personalidade, mas os processos que caracterizam a organização comportamental dos
grupos, a interação dos membros de um grupo. Especial atenção é consagrada ao estudo
dos chamados pequenos grupos e grupos primários, como seriam o grupo familiar, o
grupo de irmãos etc. Nessas circunstâncias, obtêm-se medidas bastante precisas das
diversas forças que interagem.
Dentre os estudos das grandes coletividades, ocupa lugar especial o do estudo da
massa, que se caracteriza por certa "homogeneidade mental", sensibilidade e
excitabilidade de seus integrantes. A concepção mais aceita para explicar as reações
muitas vezes violentas e mutáveis que ocorrem nesse tipo de coletividade é a hipótese
baseada em premissas freudianas: sob a pressão social, acumula-se o sentimento de
frustração, mas as pessoas que, individualmente, reprimiriam essa frustração, quando
reunidas em grupo, massa, sob a "ilusão da universalidade", descarregarão sua
agressividade.
A utilização de conhecimentos psicológicos para a resolução de problemas sociais
é considerada como uma tecnologia social, onde os achados derivados de pesquisa pura
e aplicada são empregados na construção de um produto socialmente relevante. O
cientista social dedicado à pesquisa básica -- de modelos capazes de explicar a relação
entre variáveis psicossociais -- poderá, por exemplo, estudar experimentalmente qual a
maneira mais eficaz de provocar mudanças de atitude em geral, ou em determinadas
situações específicas. O cientista que utiliza conhecimentos teóricos e básicos em
pesquisas diretamente ligadas à resolução de problemas sociais específicos poderá
chegar a tal conhecimento por meio de um trabalho relacionado a uma situação real, por
exemplo, mudança da atitude do preconceito de um grupo contra outro. O tecnólogo
social utilizará esses conhecimentos na solução de problemas específicos.
1.4. PSICOLOGIA APLICADA
Durante muito tempo a psicologia aplicada foi considerada como um ramo da
psicologia no qual os fatos e os métodos da ciência eram aplicados aos problemas
práticos da vida diária. Entretanto, o adjetivo "aplicado" conduz a uma impressão errônea
das relações entre a psicologia pura e a aplicada, sugerindo que esta última toma de
empréstimo à primeira seus princípios e leis. Na realidade, os princípios da psicologia
aplicada são muitas vezes independentemente derivados, a partir do esforço de solução
de problemas práticos.
A utilização dos métodos e resultados da psicologia científica na solução prática
dos problemas do comportamento humano é chamada psicologia aplicada. Embora,
desde o nascimento, a psicologia científica tenha sido empregada nos diversos ramos da
atividade humana, sua aplicação acelerou-se principalmente a partir da segunda guerra
mundial, durante a qual os psicólogos foram solicitados a colaborar na seleção,
preparação e readaptação dos combatentes para as mais variadas tarefas. Na atualidade,
em todas as atividades importantes aplicam-se os conhecimentos psicológicos.
Existem, portanto, entre outras, psicologia clínica, a educacional, a do trabalho, a
jurídica, a do esporte, a ambiental, a hospitalar, a comunitária, a institucional, a do lazer e
a pastoral. As mais destacadas são sobretudo as três primeiras, tanto pelo número de
psicólogos que se dedicam a elas, quanto pela influência que exercem na vida
contemporânea.
1.5. PSICOLOGIA CLÍNICA
Conquanto a expressão psicologia clínica não seja a mais adequada, trata-se de
uma especialidade que veio atender a uma aguda necessidade social de ajustamento de
crianças, adolescentes e jovens no lar, na escola e no trabalho. O desenvolvimento
educacional e econômico e a multiplicação de problemas profissionais da sociedade
moderna ressaltaram a importância do ajustamento psicológico em todas as ocupações e
relações humanas, desde a mais tenra idade, incrementando a investigação científica no
seu domínio e o interesse por suas aplicações práticas.
A psicologia clínica colabora no diagnóstico e no tratamento das pessoas
desajustadas ou com problemas emocionais. Para o diagnóstico, os psicólogos
empregam, além de testes, a entrevista clínica. O tratamento se efetua por meio das
diversas técnicas psicoterápicas. A maior parte dos psicoterapeutas emprega a
psicanálise ou técnicas derivadas das diversas correntes analíticas; alguns empregam
teorias de aprendizagem, inclusive o condicionamento; outros, finalmente, elaboram seus
métodos baseados na fenomenologia. Entre esse, sobressai Carl R. Rogers, que elaborou
a técnica "não-diretiva", ou "centrada no cliente".
No início da aplicação da psicoterapia, predominaram as técnicas psicoterapêuticas
individuais, nas quais cada cliente era atendido por um psicoterapeuta. A preparação dos
psicoterapeutas inclui conhecimento teórico sobre a personalidade normal e anormal, e
estágio prático supervisionado. Em certas correntes, como na psicanálise, é indispensável
que o futuro psicólogo clínico se submeta à psicoterapia antes de aplicá-la aos outros.
Nas décadas de 1960 e 1970, cresceu sobremaneira o número das técnicas
psicoterápicas de grupo.
A elaboração de várias baterias de testes de inteligência verbal e de desempenho
viso-motriz (performance) equipou o psicólogo clínico com recursos válidos para o exame
e psicodiagnóstico. Criaram-se numerosos testes de personalidade e de aptidão, que
enriqueceram ainda mais o acervo técnico e científico da psicologia clínica.
O emprego da estatística tornou possível a padronização e a verificação da
fidedignidade e validade dos testes de aplicação coletiva e individual, com instruções
escritas que permitiam a auto-aplicação e com apresentação especial que pedia o
relacionamento e a comunicação com o examinador, modalidade mais apropriada ao
exame individual do psicólogo clínico. A validade psicológica do teste, sua consistência
psicodiagnóstica nas aplicações sucessivas e a natureza dos processos psicológicos
investigados vincularam cada vez mais a psicologia clínica à metodologia psicológica
científica, evitando que ela se tornasse uma disciplina de aplicação prática rotineira,
fundamentada apenas na experiência empírica.
1.6. PSICOLOGIA EDUCACIONAL
Também chamada psicologia escolar, a psicologia educacional dedica-se ao
exame psicológico do educando, do educador e dos processos educativos, elabora e
sugere instrumentos e meios psicologicamente adequados para que a educação possa ter
melhor resultado. Apesar de se estender a qualquer situação educativa, ganhou terreno
principalmente dentro dos limites da educação escolar. Seu desenvolvimento acelerou-se
depois que Alfred Binet elaborou o primeiro teste de inteligência e Thorndike investigou as
leis de aprendizagem. Além dessas fontes, a psicologia educacional alimenta-se ainda
das técnicas do aconselhamento e das técnicas da psicologia institucional.
O exame psicológico dos alunos, para distribuí-los em classes de acordo com suas
capacidades reais, a análise das matérias lecionadas, a pesquisa dos sucessos e
malogros escolares, a investigação das aptidões específicas das crianças
excepcionalmente bem-dotadas ou portadoras de dificuldades físicas e psíquicas são
alguns dos campos em que a psicologia educacional traz sua contribuição.
1.7. PSICOLOGIA DO TRABALHO
Também chamada de psicologia industrial, a psicologia do trabalho visa a
utilização, a conservação e o aprimoramento dos recursos humanos da indústria,
desenvolve e aplica princípios e métodos psicológicos relativos ao aumento da produção,
ao incremento da satisfação e ajustamento pessoal, e ao melhoramento das relações
humanas dentro da comunidade de trabalho.
O trabalho do psicólogo industrial começa antes da admissão do trabalhador na
empresa: a seleção de pessoal. A pessoa, uma vez aceita por parte da direção da
empresa, será seguida pelo psicólogo em sua colocação, treinamento, promoção,
readaptação e na análise das causas de sua eventual demissão. As investigações
psicológicas relativas ao trabalho mostram que o trabalhador deve executar sua tarefa em
ambiente propício, o que diz respeito ao local de trabalho, suas cores, iluminação,
temperatura e ventilação adequadas à natureza do trabalho e ao número dos
trabalhadores, como também o mobiliário e as máquinas em disposição racional,
permitindo movimentos fáceis e seguros. As pesquisas relativas à prevenção de acidentes
confirmaram a hipótese segundo a qual há certos indivíduos com maior predisposição
para sofrer acidentes e que testes e métodos apropriados de seleção são capazes de
identificar essas pessoas antecipadamente.
O rendimento do trabalhador pode ser muitas vezes aumentado graças à melhor
coordenação de seus movimentos. Para maior eficiência, estes devem ser os mais
simples possíveis, dentro das condições particulares de trabalho; devem seguir a
coordenação natural dos músculos e membros para evitar esforço inútil e devem manter
determinado ritmo.
É inegável a importância da racionalização do trabalho, de seu ambiente físico,
assim como da motivação econômica do trabalhador. Entretanto, as pesquisas mais
abrangentes evidenciam que são de igual ou maior importância os fatores que influem e
determinam as relações humanas dentro da indústria: relações entre direção e
empregados, relações entre colegas, relações entre supervisores e subordinados.
Diversas técnicas foram elaboradas para melhorar essas relações dentro da situação de
trabalho.
A psicologia do trabalho desdobra-se em vários ramos, como a ergonomia, que
procura adaptar os aparelhos e instrumentos da vida moderna às condições e
capacidades humanas. Sua cooperação vem a ser solicitada tanto na construção das
cápsulas das viagens espaciais quanto na distribuição adequada de todos os comandos
necessários, instrumentos registradores e de controle automático.