Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade

Universidade Federal da Bahia
Teorias da Cultura II
Professores: Eneida Leal Cunha / Paulo César Alves
Aluna: Renata de Paula Trindade Rocha (mestrado)


Michel De Certeau
Por um método nas ciências humanas

Apesar dos avanços dos estudos sobre a comunicação e a cultura – enfatizando, em
especial, as relações entre poder e resistência, produtores e consumidores, mídia e
audiência – a concepção acerca da formação de sentido sobre as representações variam
em função das opções teóricas. Trata-se de um dos pontos mais polêmicos e de maior
dificuldade para pesquisas nessa área e, neste aspecto, o interesse pelas idéias de Michel
De Certeau está justamente em sua contribuição para uma discussão mais acurada
acerca da problemática do método e da prática de pesquisa nas ciências humanas.
De fato, esta abordagem merece destaque dentre os principais questionamentos de
Michel De Certeau nos dois primeiros capítulos do livro “A invenção do cotidiano” e no
Capítulo I de “A escrita da história”. Enquanto o primeiro texto busca explicitar as
operações dos usuários (ou consumidores), sob o estatuto de dominados, que compõem
uma “cultura”, o segundo tem como principal objetivo examinar como os historiadores
tratam os fatos históricos – a teologia doutrina e religião – para além do nível de sua
configuração.

A vida cotidiana
O livro “A invenção do cotidiano” pode ser considerado decisivo para o estudo das
representações e do comportamento de uma sociedade. De Certeau assinala a
centralidade da vida cotidiana nestas pesquisas, demarcando três determinações que
deveriam orientá-las: as “maneiras de empregar” os produtos impostos pela economia
cultural dominantes, demarcando seu uso ou consumo; os modos de proceder da
criatividade cotidiana, que constituem as práticas pelas quais os usuários se apropriam
das técnicas de produção sócio-cultural; e a formalidade ou lógica das práticas que
dependem diretamente do espaço/tempo dados. O autor aponta, ainda, que uma
problemática de pesquisa que se apresenta é a caracterização dos tipos de operações que
caracterizam o consumo na rede de uma economia e o reconhecimento dos indicadores
de criatividade quando o poder de uma linguagem própria não é dado à maioria da
sociedade.
Assim, em primeiro plano são abordadas as táticas ou “maneiras de fazer” das quais o
usuário comum se utiliza diante das imposições institucionais - as estratégias. Nas
palavras do autor, as táticas são definidas como:
a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio [visto
como o domínio do tempo pela fundação de um lugar autônomo].
Então nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de
autonomia. A tática não tem por lugar senão o do outro. E por isso
deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como organiza a lei de
uma força estranha. (Certeau, 1994. p. 100).

Em suma, as táticas seria a arte do fraco. Já as estratégias, elaboram lugares teóricos,
capazes de articular um conjunto de lugares físicos onde as forças se distribuem, de
forma que:
a estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo
próprio e ser a base de onde se podem geriras as relações com uma
exterioridade de alvos ou ameaças (os clientes, os concorrentes, os
inimigos, o campo em torno da cidade, os objetivos e objetos da
pesquisa, etc.) (Certeau, 1994. p. 99).

Assim, enquanto a tática é determinada pela ausência de poder (hábil utilização do
tempo), a estratégia é organizada pelo postulado de um poder (resistência que o
estabelecimento de um lugar oferece ao gasto do tempo). As representações, portanto,
se configuram enquanto estratégias, mas, segundo o autor, para sua apreensão, deve se
levar em conta os usos - ou consumo - feitos delas.
Por todo o texto, a prática de pesquisa e a atividade do pesquisador são
problematizadas. No caso das práticas cotidianas, as imposições e limites do estudo
científico se sobressaem em diversos aspectos: o reconhecimento dos indicadores de
criatividade para além da inexistência de uma linguagem própria da maioria; a
impossibilidade de distanciamento, por parte do pesquisador, do seu objeto; a
inexequidade de apreensão da totalidade da vida dos indivíduos pesquisados; e,
finalmente, a percepção da pesquisa enquanto interpretação e não como percepção da
realidade. Como estes problemas não têm perspectiva de resolução, cabe ao pesquisador
perceber suas limitações e demarcar o lugar de onde faz seu estudo, explicitando seus
métodos.

Paralelos metodológicos entre a história e a cultura
Já no primeiro capítulo de “A Escrita da História”, De Certeau disseca o procedimento
científico no estudo historiográfico a partir de suas práticas. Entretanto, o texto - ao
tratar das relações entre prática e discurso, da localização do pesquisador em relação ao
seu objeto, da ideologia e do preconceito imanentes a qualquer pesquisa -, traz
questionamentos que dizem respeito ao método científico das ciências humanas como
um todo, já que estas problemáticas também estão presentes em outras disciplinas.
No estudo da cultura enquanto área (multi)disciplinar, por exemplo, os problemas e
limitações apontados pelo autor são recorrentes. A cultura segundo sua concepção
antropológica, apesar da pluralidade de significados nas ciências sociais, pode ser
compreendida como uma “prática diferenciada regida por um sistema, que se entende
como o conceito das relações internas típicas da realidade da produção, pelos
indivíduos, do sentido que organiza as suas condições de coexistência com a natureza,
com os próprios membros do seu grupo e com outros grupos humanos” (Sodré apud
Miguez, 2002, p.44). Por outro lado, tendo em vista o caráter interpretativo de uma
investigação acadêmica sistemática e considerando seus limites teóricos, temporais e
espaciais, o conceito de cultura, pode ser demarcado, sem contradições, como:
“essencialmente semiótico. Acreditando, como Max Weber, que o
homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo
teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e sua análise; portanto
não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma
ciência interpretativa, à procura do significado. É justamente uma
explicação que eu procuro, ao construir expressões sociais
enigmáticas na sua superfície (Geertz, 1989, p.4).

Essa definição de cultura volta-se, portanto, para as narrativas e suas interpretações -
imanentes à realidade cultural. O significado, porém, se dá sempre em um determinado
contexto e não como um código a ser decifrado de maneira fria e distante.
Nesse sentido, De Certeau interroga sobre o que pode ser considerado como o “real” no
procedimento científico. Segundo o autor, na história, o “real”, ou o resultado da análise
o qual se pretende resgatar em uma sociedade passada – ou presente, no caso do estudo
da cultura - está implicado na operação científica da sociedade onde se localiza o
pesquisador e suas práticas de sentido, ou seja, o postulado da análise. Estas duas
posições do real não podem ser eliminadas nem reduzidas uma a outra, e a atenção
destinada, em maior ou menor grau, a uma delas permite a diferenciação entre dois tipos
de história – ou estudo na área das ciências humanas. Uma se interroga sobre o pensável
e as condições de compreensão; e outra que questiona o vivido, exumado através do
conhecimento do passado. Entre estas duas formas há uma tensão, mas não oposição.
Esse postulado indica, por fim, que a história se funda sobre o corte entre o passado, seu
objeto, e o presente, lugar de suas práticas, mas continua encontrando o presente em seu
objeto e o passado em suas práticas. No caso do estudo das culturas, ainda que ele não
seja necessariamente produzido a partir de um momento passado deve-se ressaltar o
lugar – social, político, geográfico, epistemológico, etc. - de onde o conhecimento é
produzido. A delimitação desse lugar, pelo pesquisador, implica a demarcação,
diferenciação e compreensão do “outro” na análise de um determinado objeto.
Quaisquer que sejam as posições próprias do autor, sua obra descreve
e precipita o movimento que leva a história a se tornar um trabalho
sobre o limite: a se situar com relação a outros discursos, a colocar a
discursividade na sua relação com um eliminado, a medir os
resultados em função dos objetos que lhe escapam; mas também, a
instaurar continuidades isolando séries, a particularizar métodos,
diferenciando os objetos distintos que ela discerne num mesmo fato, a
revisar e a comparar as periodizações diferentes, que fazem aparecer
diversos tipos de análises, etc. De agora em diante, “o problema não é
mais da tradição e do vestígio, mas do recorte e do limite” (De
Certeau, 1982, p. 50).

Significa dizer que a compreensão da história se baseia no trabalho de diferenciação dos
acontecimentos. Nesse aspecto, uma exclusão é sempre necessária para o
estabelecimento de um rigor e a imposição do limite, que é a censura entre a atividade
produtora e o período conhecido. Diante desse quadro, podemos afirmar o casamento
indissolúvel entra a “razão” científica e a realidade retomada por ela, como sombra e
como seu outro – indissociável e ininteligível -, deslocando definitivamente a premissa
da objetividade científica, pois o pesquisador não pode abstrair dos distanciamentos e
exclusividades que definem a época e a categoria social a que pertence.
Bibliografia

CERTEAU, Michel de. A invenção do Cotidiano – Artes de Fazer. Petrópolis: Vozes,
1994.
_______. A escrita da História. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1982.
GEERTZ, Clifford. A Iterpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC Editora. 1989.
MIGUEZ, Paulo César de Oliveira. A Organização da Cultura na “Cidade da Bahia”.
Salvador: Tese de Doutorado da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da
Bahia, 2002.