A internet, para muitos, foi vista como liberal, sem nenhuma fiscalização e

pouco segura por causa dos vastos vírus espalhados pela rede ou pela aparente falta de
regulamentação nesse meio. As pessoas falham ao achar que existem diferenças, no que
tange a lei, entre o mundo real e o mundo virtual. A única diferença entre esses dois
mundos é a forma de relacionar-se, a mutação está na plataforma apenas. A humanidade
precisa compreender que o sentido moral da interação social exigido no mundo
chamado de “real” deve ser estendida ao chamado “mundo virtual”.
Nesse sentido, tanto o mundo real quanto o mundo virtual está submetido a
Constituição Federal de 1988. Pensam de forma ignorante aqueles que acham que, antes
da aprovação da lei N° 12.965, a internet não tinha regulamentação. A internet sempre
foi e sempre será regulamentada pelos direitos fundamentais previstos na C.F, existem
limites éticos, uma vez que esta é considerada a lei maior do Ordenamento Brasileiro. A
questão do anonimato na web, por exemplo, que fere ao Art. 5° IV - 'É livre a
manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.' da C.F de 1988, é caso de
censura do conteúdo. A vedação do anonimato tem o intuito de possibilitar a
responsabilização de quem cause danos a terceiros em decorrência da expressão de
juízos ou opiniões ofensivas, levianas, caluniosas, outros. Como exemplo, cito um canal
do youtube 'Canal Otário' no qual um usuário anônimo utiliza um saco de papel na
cabeça e 'denuncia propagandas enganosas cometida por empresas e ou
políticos'(segundo a descrição no site do canal). Tal canal, por causa do anonimato, teve
diversos vídeos censurados a pedido das empresas e ou políticos em 2012.
Outro exemplo, cito, violação à intimidade, à honra e à imagem na internet, que
está no Art. 5° X - ' São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem
das pessoas assegurando o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente
da sua violação' da C.F de 1988, é caso de indenizações de alto custo. Um exemplo,
ocorrido em 2013, é da google que teve que pagar uma indenização de cinquenta mil
reais por causa de um vídeo íntimo publicado na rede, sem o consentimento da mulher
exposta. Consentir em ser fotografado ou filmado não abrange o direito da publicação.
Esses tipos de agressões sempre causam ofensas aos direitos fundamentais.
A respeito dos direitos fundamentais, Robert Alexy discorre 'Sempre que alguém
tem um direito fundamental, há uma norma que garante esse direito. Se a recíproca é
verdadeira, isto já é duvidoso. Ela não é verdadeira quando há normas de direitos
fundamentais que não outorgam esses direitos'(ALEXY, Robert. O.p. Cit., P.50.).
Ou seja, todo lugar, regulamentado pela Constituição Brasileira de 1988, que existam
relações humanas, tem uma norma que garante os direitos fundamentais, que são
válidos em todas as situações, de acordo com o que se refere, independente do meio em
que ocorra a situação onde esteve presente um relacionamento entre os cidadãos.
O filósofo deixa claro a respeito do que são os direitos fundamentais: 'São todas
as disposições da constituição Alemã intitulado 'Direitos Fundamentais‟, bem como
uma série de outras disposições constitucionais que expressam normas de direitos
fundamentais, normas garantidoras de direitos individuais e ainda normas de direitos
fundamentais atribuídas. É característica dos direitos fundamentais a abertura estrutural
de suas disposições, assim, diante de uma norma fundamental de conteúdo aberto, O
Tribunal Constitucional Alemão realiza a interpretação e aplicação do direito no caso
concreto, fundamentando com argumentos que se refira a dita norma de direito
fundamental. Com isso a norma anteriormente indeterminada agora ganha identificação
sempre com referência a norma primária.'(ALEXY, Robert. O.p. Cit., P.66-77,
passim.). Ou seja, são todas as obrigações legais que tem como título 'Direitos
Fundamentais', bem como as expressas na constituição, garantidoras dos direitos
individuais; as normas de direitos fundamentais atribuídos, originárias dos procedentes
jurisprudenciais, sustentadas em normas de direitos fundamentais abertas. Esses
conceitos são aplicados no Ordenamento Jurídico Brasileiro.
Esses direitos fundamentais, para o Alemão são princípios, uma vez que, „Os
princípios são encarados como „mandamentos de otimização‟, no sentido de que quando
se trata de princípio a ordem é para realização de algo na maior medida possível dentro
das possibilidades jurídicas e fáticas existentes, com graus de satisfação variados. Já as
regras, são normas que são ou totalmente satisfeitas ou não são satisfeitas, não há que se
falar em grau de satisfação‟ (ALEXY, Robert. O.p. Cit., P.90-91, passim.). Ou seja,
expressam uma ordem objetiva de valores, eles aplicam-se em todas as áreas do direito,
possuindo uma eficácia radiante.
Como forma de definir princípios, garantias, direitos e deveres para o uso na
internet do Brasil (Art. 1° - lei N° 12.965) foi aprovado o Marco Civil. Esta lei garante o
exercício dos direitos fundamentais, que já eram previstos na Constituição Brasileira de
1988. Sob essa nova perspectiva, ou seja, essa visão de que existe uma lei responsável
por regulamentar a internet, sendo que já era regulamentada pela C.F., a população se
sente mais acolhida, segura. A intenção do Marco Civil é garantir que os direitos
fundamentais sejam obedecidos nesse „novo mundo‟ e, também, acolher algumas outras
demandas de direitos que não são previstos na constituição, como por exemplo, o art. 7°
do M.C. „O acesso à internet é essencial ao exercício da cidadania‟. Esse artigo
complementa o art. 5° da C.F. „Todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer,
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.‟.
O art. 7° do M.C. tem por objetivo garantir a neutralidade da rede. Neutralidade
significa universalidade, que significa diversidade cultural. A internet existe para o uso
de toda a humanidade ao redor do mundo. O objetivo da neutralidade da rede é a
universalização do acesso à rede. Existem 100 milhões de internautas no Brasil e a
população brasileira é em torno e 200 milhões. Hoje, a internet é o maior meio de
informação e comunicação, é necessário que todos os cidadãos tenham acesso a ela.
Esse mesmo artigo cita a questão do marketing dirigido, ou seja, os provedores
estão proibidos de monitorar, filtrar, analisar ou fiscalizar o conteúdo dos pacotes com o
intuito de proliferar a publicidade de massa, exceto nas hipóteses previstas em lei, como
através da ordem judicial, „VII - Não fornecimento a terceiros de seus dados pessoais,
inclusive registros de conexão, e de acesso a aplicações de internet, salvo mediante
consentimento livre, expresso e informado ou nas hipóteses previstas em lei‟. Antes da
aprovação da lei as redes sociais guardavam os dados dos internautas para serem
vendidos, processados ou manipulados. São dados que possuem grande valor nessa
economia de informação.
Outra inovação trazida pela lei nº 12965 está no art. 20° „Sempre que tiver
informações de contato do usuário diretamente responsável pelo conteúdo a que se
refere o art. 19, caberá ao provedor de aplicações de internet comunicar-lhe os motivos
e informações relativos à indisponibilização de conteúdo, com informações que
permitam o contraditório e a ampla defesa em juízo, salvo expressa previsão legal ou
expressa determinação judicial fundamentada em contrário.‟ Cito o art. 19° „Com o
intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de
aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos
decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não
tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do
prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente,
ressalvadas as disposições legais em contrário.‟ Ou seja, a mudança que a lei traz é em
relação à retirada dos conteúdos postados do ar. A retirada de conteúdos postados na
internet só será feita mediante ordem judicial, com exceção dos casos de “pornografia
de vingança”. Pessoas vítimas de violações da intimidade podem solicitar a retirada de
conteúdo, de forma direta, aos sites ou serviços que estejam hospedando este conteúdo.
Com essas inovações iremos aprender a conviver no mundo virtual, agindo de
forma ética e com valores, com o pensamento de que a única diferença para com o
mundo real é a maneira de relaciona-se. O Marco civil, junto com a Constituição
Federal proporciona uma garantia, tanto no mundo real quando no virtual, de que as
pessoas „agiram conforme o bem‟, com moral, seja pela própria vontade ou sob a
coação das leis.



BRASIL, CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 5 DE OUTUBRO DE 1988.
ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. Trad. Virgílio Afonso da Silva.
São Paulo: Malheiros,2008.
<http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2014/04/marco-civil-da-internet-e-
aprovado-e-segue-para-sancao-da-presidente.html>
<http://www.canaldootario.com.br/sobre/ >
<http://www.coad.com.br/home/noticias-detalhe/54640/google-tera-de-pagar-r-50-mil-
por-divulgar-video-intimo-na-internet>
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm>