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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






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podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





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cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





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REDAÇÃO
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





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03 e 06/06/14
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Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






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REDAÇÃO
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podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





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REDAÇÃO
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cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





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03 e 06/06/14
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Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





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REDAÇÃO
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cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





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03 e 06/06/14
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Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






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REDAÇÃO
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Prof. José Alexandre
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





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REDAÇÃO
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cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





1

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






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podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





4

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





3

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





2

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





1

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
PRÉ-VESTIBULAR
Prof. José Alexandre
Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
PRÉ-VESTIBULAR
Prof. José Alexandre

19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






5

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





4

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





3

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





2

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





1

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
PRÉ-VESTIBULAR
Prof. José Alexandre
Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
PRÉ-VESTIBULAR
Prof. José Alexandre

19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






5

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
PRÉ-VESTIBULAR
Prof. José Alexandre
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





3

REDAÇÃO
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Prof. José Alexandre
cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





2

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





1

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Prof. José Alexandre
Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





3

REDAÇÃO
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Prof. José Alexandre
cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





2

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





1

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03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





3

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





2

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





1

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
PRÉ-VESTIBULAR
Prof. José Alexandre
Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





3

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





2

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





1

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03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





3

REDAÇÃO
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cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





2

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





1

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03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





4

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





3

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





2

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





1

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
PRÉ-VESTIBULAR
Prof. José Alexandre
Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






5

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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REDAÇÃO
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Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





3

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





2

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





1

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03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






5

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





4

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





3

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





2

REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





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Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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19. Considerando essa definição, pode-se concluir que o
silogismo a que se refere o título do texto é encontrado
em:
(A) Boa parte da população sobrevive com apenas um
salário-mínimo e o salário-mínimo não dá para viver;
então, há circunstâncias que impedem o salário de
ser maior.
(B) Precisamos manter nosso prestígio com a
comunidade financeira internacional; temos homens
honrados e capazes; então, é preciso resistir a apelos
emocionais da sociedade.
(C) Um salário-mínimo maior prejudicaria o país; o
salário-mínimo impõe miséria a grande parte da
população; então, o país necessita da miséria de
grande parte da sua população.
(D) O salário mínimo não garante vida digna para a
maioria da população; o salário não aumenta mais
por exigência do mercado internacional; então, é
preciso alterar esse modelo econômico.

20. O encadeamento entre parágrafos – um dos aspectos
a serem observados na construção de textos
argumentativos – pode se fazer de maneiras diversas. No
texto de Luiz Fernando Veríssimo, o segundo parágrafo
liga-se ao primeiro por meio do seguinte mecanismo:
(A) Retomada, por oposição, dos argumentos já
apresentados.
(B) Sequenciação, pelo emprego de conectivo, das ideias
discutidas.
(C) Reafirmação, por uma ótica diferenciada, das
informações já levantadas.
(D) Extensão, por referência a novos exemplos, das
afirmações da introdução.






5

REDAÇÃO
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podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se,
como dissemos, uma perfeita estratégica militar, um
combate.
A palavra transforma-se então numa espécie de
zuavo
11
pronto ao ataque. Os olhos são duas sentinelas,
dois ajudantes-de-campo postos de observação nalguma
eminência próxima.
O olhar faz as vezes de espião que se quer
introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa
sortida; o sorriso é uma verdadeira cilada.
Isto sucede frequentemente em política e em diplomacia.
(...)
(ALENCAR, José de. Correio Mercantil, 13/05/1855).

15. O escritor José de Alencar publicou nos jornais várias
crônicas, à época chamadas folhetins. Ele inicia o folhetim
“A arte da conversa” com um recurso retórico comum,
que se pode descrever como:
(A) Imprimir tom coloquial à própria conversa
(B) Dizer que não vai fazer o que está fazendo
(C) Negar a importância do que acha importante
(D) Invocar a autoridade de um autor já reconhecido

16. Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,
podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou
buscam uma incógnita que não existe neste mundo – a
fidelidade.
Alencar formula, no fragmento destacado, um argumento
dedutivo, conhecido como:
(A) Tese
(B) Dilema
(C) Sofisma
(D) Hipótese

17. Digamos que um político em campanha eleitoral
afirme:

“se um partido é mais organizado, devemos votar nele; ora, o
meu partido é mais organizado; logo, vocês devem votar nos
candidatos do meu partido; como um destes candidatos sou eu
mesmo, não lhes parece bastante razoável que vocês votem
em mim?”

Para apoiar sua tese, ele recorre a um professor de Lógica
que, consultado, concorda que o argumento é válido.
Entretanto, o argumento do candidato pode ser
questionado.
Este questionamento, segundo os mesmos princípios de
Lógica, deve defender que:
(A) quando se admite a validade de um argumento, não se
admite ao mesmo tempo a sua verdade.

11
Soldado argelino
(B) uma vez que o professor de Lógica é humano, ele pode
estar tão errado quanto o candidato.
(C) já que o exercício da democracia exige compromisso
político, não se pode pautar o voto apenas pela lógica.
(D) como o argumento do candidato beneficia todos os
candidatos do seu partido, tanto faz votar nele como nos
outros.

18. Em 1648, um químico holandês, chamado Jean Baptist
von Helmont, argumentando indutivamente, relatou a
seguinte experiência, para comprovar a tese da geração
espontânea:

Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem
triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e
exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o
manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos
escorpiões.

Hoje, sabemos que escorpiões não nascem assim. A
conclusão do químico pode ser refutada logicamente pelo
argumento indicado em:
(A) A experiência não resistiu à passagem do tempo
(B) Uma hipótese alternativa para o fenômeno não foi
lembrada
(C) O químico não tinha competência para a realização
da experiência
(D) A geração espontânea não pode ser comprovada com
experimentos

TEXTO VII - SILOGISMO
Um salário-mínimo maior do que o que vão dar
desarrumaria as contas públicas, comprometeria o
programa de estabilização do Governo, quebraria a
Previdência, inviabilizaria o país e provavelmente
desmancharia o penteado do Malan. Quem prega um
salário-mínimo maior o faz por demagogia, oportunismo
político ou desinformação. Sérios, sensatos, adultos e
responsáveis são os que defendem o reajuste possível,
nas circunstâncias, mesmo reconhecendo que é pouco.
Como boa parte da população brasileira vive de
um mínimo que não dá para viver e as circunstâncias que
o impedem de ser maior não vão mudar tão cedo, eis-nos
num silogismo bárbaro: se o país só sobrevive com mais
da metade da sua população condenada a uma subvida
perpétua, estamos todos condenados a uma lógica do
absurdo. Aqui o sério é temerário, o sensato é insensato,
o adulto é irreal e o responsável é criminoso. A nossa
estabilidade e o nosso prestígio com a comunidade
financeira internacional se devem à tenacidade com que
homens honrados e capazes, resistindo a apelos
emocionais, mantêm uma política econômica solidamente
fundeada na miséria alheia e uma admirável coerência
baseada na fome dos outros. O país só é viável se metade
da sua população não for. (...)
(VERÍSSIMO, L. F. O Globo, 24/03/2000)

Silogismo: raciocínio dedutivo estruturado formalmente a
partir de duas proposições (premissas), das quais se obtém por
inferência uma terceira (conclusão).





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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Prof. José Alexandre
Texto V – CIÊNCIA VERSUS RELIGIÃO
Por que acredito mais na ciência do que na religião?
Eu acredito na ciência porque ela não pede que
acreditemos nela. A ciência nos diz honestamente que
conhece apenas parte da natureza. Assume
tranquilamente que não tem todas as respostas e que
nunca as terá. A ciência não exige fé, mas convencimento.
Sabe ser reflexo de todos os preconceitos e fraquezas das
sociedades que a produziram, mas procura transcendê-
los. Sabe que é falha, limitada e mutável, e nisso
consistem sua força e sua beleza. Por tudo isso, não é que
eu acredite na ciência. Eu, simplesmente, confio nela.
(NOGUEIRA, Renata Nascimento. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

Por que acredito mais na religião do que na ciência?
Coincidência. Acaso. Destino. Tantas explicações
que não explicam muito, quando a gente fala de uma
coisa que nos intriga e para a qual sabemos que não existe
mesmo uma explicação. Acho que a religião supera em
muito a ciência porque se apega à capacidade mais
indômita do ser humano – a de acreditar.
Gosto de saber que existe alguém comigo o
tempo todo, que me ouve, que me faz estar neste ou
naquele lugar na hora certa por este ou aquele motivo. É
o inesperado, o salto no escuro. Quem não acredita, fica
vagando somente entre as possibilidades.
Eu prefiro contar com o impossível que,
convenhamos, vive cruzando nosso caminho. Além do
mais, a quem você gostaria de recorrer na hora daquele
aperto, a um Deus misericordioso que pode te ouvir e
dessa vez – só dessa vez! – livrar sua cara ou ao Einstein,
com aquela baita língua de fora?
(RODRIGUES, Angela Guagnelli. Folha de São Paulo,
outubro de 2001).

11. Os textos acima formam uma espécie de debate, a
partir de títulos sugeridos por um jornal para seus
leitores. A leitora Renata Nogueira questiona o próprio
título sugerido pelo jornal, em virtude da seguinte
característica que ela atribui à ciência:
(A) Não se opor à religião
(B) Não ser passível de crença
(C) Ser falha, limitada e mutável
(D) Ser mais honesta do que a religião

12. Para estabelecer a superioridade da religião sobre a
ciência, Ângela Rodrigues se baseia em:
(A) Acasos do destino
(B) Evidências categóricas
(C) Explicações suficientes
(D) Necessidades humanas

13. A leitora partidária da religião recorre a duas
metonímias para demonstrar melhor a sua posição. Essas
metonímias estão indicadas na seguinte alternativa:
(A) Deus e Einstein
(B) Religião e Ciência
(C) Acreditar e Contar
(D) Coincidência e Explicação

14. Ao defender a religião, a leitora Ângela Rodrigues
constrói um tipo de discurso diferente do científico,
normalmente caracterizado por argumentos e provas.
Essa diferença, na carta da leitora, é marcada por:
(A) Alusão a fatos inesperados
(B) Registro de preferências pessoais
(C) Referência a cientistas conhecidos
(D) Menção a comportamentos sociais

Texto VI – A ARTE DA CONVERSA
Estou hoje com bem pouca disposição para
escrever.
Conversemos.
A conversa é uma das coisas mais agradáveis e
mais úteis que existe no mundo.
A princípio conversava-se para distrair e passar o
tempo, mas atualmente a conversa deixou de ser um
simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a
pior coisa que Deus deu ao homem.
Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber
conversar, é preciso estudar profundamente todos os
recursos da palavra.
A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma
ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar.
Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com
muitas pessoas, en causerie
9
.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura,
como a música, como a escultura. A palavra é um
instrumento, um cinzel, um craion
10
que traça mil
arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil
harmonias de sons e de formas.
Na causerie o espírito é uma borboleta de asas
douradas que adeja sobre as ideias e sobre os
pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que
esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete
todas as cores, que decompõem os menores átomos de
luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma
de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada
como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e
muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente
um duelo e um combate.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos
camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai
certo que estão calculando algebricamente o proveito que
podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o
grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.
Se forem dois namorados en tête-à-tête, que
estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices,
requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso,

9
Conversa em grupo
10
lápis, giz





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REDAÇÃO
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cruciante e onímodo
1
de minha cor... Nas dobras do
pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda
a gente. Seguro do respeito à minha majestade de
homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora.
Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar,
dizer bem alto os pensamentos que se estorciam
2
no meu
cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida,
oferecia logo aos ataques dos bons e dos maus, ficaria
mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários polifórmicos... Era um
pallium
3
, era alguma cousa como clâmide
4
sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo
encontro os elementos, os maus olhares, os exorcismos se
quebravam. De posse dela, as gotas da chuva afastar-se-
iam transidas
5
do meu corpo, não se animariam a tocar-
me nas roupas, no calçado sequer. O invisível distribuidor
de raios solares escolheria os mais meigos para me
aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis
6
, com o
comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado
7
e grosso,
como um sapo-entanha antes de ferir a martelada à beira
do brejo; andar assim pelas ruas, pelas praças, pelas
estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,
como passou? Como está, doutor? Era sobre-humano!...
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

9. O discurso do personagem-narrador manifesta uma
ânsia de reconhecimento social expressa em detalhes ou
em pequenos objetos. Um exemplo desse procedimento
narrativo está em:
(A) “faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!”
(B) “Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a
consideração de toda a gente.”
(C) “Era mágico o título, tinha poderes e alcances
múltiplos, vários polifórmicos...”
(D) “era alguma cousa como clâmide sagrada,”

Texto IV – FÓRUM DE DISCUSSÃO
MENSAGEM 1:
A ciência, para muitos, tem um lado maligno. Para alguns,
estamos passando por uma nova Idade Média, onde a
técnica alienante faz as vezes da religião católica. Até
agora, minha conclusão é pessimista: por mais que
violentemos nosso pensamento, nossa razão ainda estará
subordinada ao desejo. E assim, não há certo ou errado. A
ciência nos dá (ou melhor, vende) armas contra a
natureza, que usamos contra nós mesmos, apenas isso.

1
De todos os modos, irrestrito
2
Agitavam
3
Manto
4
Manto
5
Assustadas
6
Inflexíveis
7
Vaidoso
Não existe nada mais irracional que o trabalho científico
dos dias atuais.

MENSAGEM 2:
Caro M., o que você entende exatamente por “ciência”?
Um oráculo todo-poderoso e prepotente que diz aos
pobres e tolos homens o que está certo e o que é errado?
Como pode dizer que ela nos dá armas contra a natureza?
Não me vem à cabeça neste momento característica mais
própria da natureza humana do que o modo científico de
pensar. Você não consegue encontrar nada de científico
no método de caça de um aborígene australiano? Ou
então no modo de um crenacarore
8
do Amazonas tratar a
terra para o cultivo? Você está claramente confundindo
aplicação da tecnologia com ciência. Muitos filósofos têm
tido problemas para separar uma coisa da outra (e muitos
cientistas também). Se você acha que construir uma
bomba atômica, por exemplo, é um trabalho científico,
está enganado. É pura e simplesmente um trabalho
tecnológico. É claro que ele depende do conhecimento
científico, mas é impossível construir conhecimento
científico visando sua aplicação imediata. Aqueles que,
como você, confundem Igreja Católica da Idade Média
com ciência, esquecem-se (ou não sabem) que esta última
tem embutida em si um mecanismo de correção de erros,
que é o motor que a move. Nenhuma questão é tratada
pela ciência como fechada, nenhum conhecimento está
imune de questionamento e dúvida. Com certeza eu não
concordo com muito do que a humanidade vem
construindo através da aplicação do conhecimento
científico; no entanto, a própria ciência é a arma mais
poderosa que temos para enfrentar estas questões, e por
isso criticá-la é um tiro pela culatra. Você pode fazer como
muitos histéricos e criticar a ciência porque a Monsanto
patenteou uma soja que tolera um único pesticida, cinco
vezes mais forte que os tradicionais, além do fato de o
pesticida ser da própria Monsanto. Mas você estará
também sendo contra a salvação de milhares de vidas na
África, onde o único modo de obter-se vacinas é
cultivando bananas transgênicas que contêm antígenos.
Para mim, isto é que é ser irracional.
(Fórum Cético Brasileiro − janeiro de 2002 –
http://www.nitnet.com.br)

10. O autor da mensagem 2, na sua resposta, emprega um
sofisma: desvia-se da questão em debate e sugere uma
desqualificação do oponente. Esse sofisma está contido
na seguinte alternativa:
(A) “Caro M., o que você entende exatamente por
'ciência'?”
(B) “Você está claramente confundindo aplicação da
tecnologia com ciência.”
(C) “Se você acha que construir uma bomba atômica, por
exemplo, é um trabalho científico, está enganado.”
(D) “Você pode fazer como muitos histéricos e criticar a
ciência”


8
Indivíduo pertencente à tribo indígena de mesmo nome





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REDAÇÃO
03 e 06/06/14
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grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a
ambição literária que me move ao procurar esse dom
misterioso para animar e fazer viver estas pálidas
Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos
meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a
não se encherem de hostilidade e má vontade quando
encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos
que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são
legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos
dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer
ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um
médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas
que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu
amanhã lhes fosse falar neste livro - que espanto! Que
sarcasmo! Que crítica desanimadora não fariam. Depois
que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples
e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das
minhas leituras, não falo das minhas lucubrações
intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me
demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
— Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã.
De forma que não tenho por onde aferir se as
minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se
a minha inabilidade literária está prejudicando
completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é
só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em
que me acho, em 30 35 que me dispo em frente de
desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim
de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que
esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela,
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso
absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na
botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite,
quando todos em casa se vão recolhendo,
insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo
furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me
preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom
recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela
tenha a sorte que merecer, mas que possa também,
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais
hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube
dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia
dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o
sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo
a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco
expressiva do que eu de fato tinha sentido.
(BARRETO, Lima. In: VASCONCELOS, Eliane (org.). Prosa
seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

4. O texto de Lima Barreto explora o recurso da
metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato
de compor uma ficção.
Esse recurso está exemplificado principalmente em:
(A) São em geral de uma lastimável limitação de ideias,
(B) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de
qualquer ordem.
(C) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para
amanhã!
(D) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a
página, achei-a incolor, comum,

5. O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que
ele denomina “literatos”.
No primeiro parágrafo, podemos entender que os
chamados literatos são escritores com a característica de:
(A) carecer de bons leitores
(B) negar o talento individual
(C) repetir regras consagradas
(D) apresentar erros de escrita

6. O personagem parece julgar quase todos que o
rodeiam, mas não se exime de julgar também a si mesmo.
Um julgamento autocrítico de Isaías Caminha está melhor
ilustrado no seguinte trecho:
(A) Confesso que os leio, que os estudos,
(B) Mas não é a ambição literária que me move
(C) Entretanto, quantas dores, quantas angústias!
(D) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o
que eu senti

7. “só capazes de colher fatos detalhados e impotentes
para generalizar,”.
Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de
argumentação:
(A) indutivo
(B) dedutivo
(C) dialético
(D) silogístico

8. Na descrição de sua situação e de seus sentimentos, o
narrador utiliza diversos recursos coesivos, dentre eles o
da adição.
O fragmento do texto que exemplifica o recurso da adição
está em:
(A) repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus
como tiraram.
(B) me dispo em frente de desconhecidos, como uma
mulher pública...
(C) Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra,
que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo,
vem dela,
(D) Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa
também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um
escritor mais hábil.

Texto III – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS
CAMINHA (Parte II)
A minha situação no Rio estava garantida.
Obteria um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e
todo o fim de ano, durante seis, faria os exames, ao fim
dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do
meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente,





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Aula UERJ EQ1 - Exercícios
Texto I - PRECONCEITO E EXCLUSÃO
Os preconceitos linguísticos no discurso de quem
vê nos estrangeirismos uma ameaça têm aspectos comuns
a todo tipo de posição purista, mas têm também matizes
próprios. Tomando a escrita como essência da linguagem,
e tendo diante de si o português, língua de cultura que
dispõe hoje de uma norma escrita desenvolvida ao longo
de vários séculos, [o purista] quer acreditar que os
empréstimos de hoje são mais volumosos ou mais
poderosos do que em outros tempos, em que a língua
teria sido mais pura. (...)
Ao tomar-se a norma escrita, é fácil esquecer que
quase tudo que hoje ali está foi inicialmente estrangeiro.
Por outro lado, é fácil ver nos empréstimos novos, com
escrita ainda não padronizada, algo que ainda não é
nosso. Com um pouco menos de preconceito, é só esperar
para que esses elementos se sedimentem na língua, caso
permaneçam, e que sejam padronizados na escrita, como
a panqueca. Afinal, nem tudo termina em pizza!
Na visão alarmista de que os estrangeirismos
representam um ataque à língua, está pressuposta a
noção de que existiria uma língua pura, nossa, isenta de
contaminação estrangeira. Não há. Pressuposta também
está a crença de que os empréstimos poderiam manter
intacto o seu caráter estrangeiro, de modo que somente
quem conhecesse a língua original poderia compreendê-
los. Conforme esse raciocínio, o estrangeirismo ameaça a
unidade nacional porque emperra a compreensão de
quem não conhece a língua estrangeira. (...)
O raciocínio é o de que o cidadão que usa
estrangeirismos – ao convidar para uma happy hour, por
exemplo – estaria excluindo quem não entende inglês,
sendo que aqueles que não tiveram a oportunidade de
aprender inglês, como a vastíssima maioria da população
brasileira, estariam assim excluídos do convite.
Expandindo o processo, por analogia, para outras tantas
situações de maior consequência, o uso de
estrangeirismos seria um meio linguístico de exclusão
social. A instituição financeira banco que oferece home
banking estaria excluindo quem não sabe inglês, e a loja
que oferece seus produtos numa sale com 25% off estaria
fazendo o mesmo.
O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão. O equívoco está em não ver que
usamos a linguagem, com ou sem estrangeirismos, o
tempo todo, para demarcarmos quem é de dentro ou de
fora do nosso círculo de interlocução, de dentro ou de
fora dos grupos sociais aos quais queremos nos associar
ou dos quais queremos nos diferenciar. (...)
(GARCEZ, Pedro M. e ZILLES, Ana Maria S. In: FARACO,
Carlos Alberto (org.). Estrangeirismos - guerras em torno
da língua. São Paulo: Parábola, 2001).

1. Pode-se afirmar que o objetivo do texto é defender
uma opinião, a partir do estabelecimento de uma
polêmica com os que defendem outro ponto de vista. Esta
polêmica constrói-se, nesse texto, pelo seguinte modo de
organização interna:
(A) As duas posições são apresentadas por um único
enunciador
(B) Os argumentos enunciados contrapõem os usos oral
e escrito da língua
(C) As opiniões de cada lado são referendadas por
testemunhos autorizados
(D) Os defensores de cada posição alternam-se na defesa
de seu ponto de vista

2. O equívoco desse raciocínio linguisticamente
preconceituoso não está em dizer que esse pode ser um
processo de exclusão.
O fragmento acima inicia, no último parágrafo, uma
estratégia que busca demonstrar uma falha no raciocínio
criticado pelos autores. Essa falha pode ser definida
como:
(A) Observação incompleta dos fatos
(B) Apresentação de falso testemunho
(C) Construção inadequada de silogismo
(D) Ausência de exemplificação suficiente

3. É só esperar para que esses elementos se sedimentem
na língua, caso permaneçam, e que sejam padronizados
na escrita, como a panqueca. Afinal, nem tudo termina
em pizza!
No contexto do segundo parágrafo, o trecho acima
desempenha a função de:
(A) Reafirmar a certeza já apresentada de que as
questões da linguagem devem ser tratadas com a
devida objetividade
(B) Exemplificar o comentário contido nas frases
anteriores ao mesmo tempo em que ironiza a
preocupação dos puristas
(C) Registrar estrangeirismos cuja grafia comprova que
há necessidade de adaptação de novos termos às
convenções do português
(D) Demonstrar o argumento central de que não
podemos abrir mão dos estrangeirismos e frases
feitas na comunicação corrente

Texto II – RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
(Parte I)
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão
essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo
em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para
não os amar, nem os imitar. São em geral de uma
lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de
receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às
ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil
fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e
um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por
fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero
falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito
geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele.
É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego
que para isso tenha procurado modelos e normas.
Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das
mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que
os leio, que os estudos, que procuro descobrir nos