MÚSICA E SUSTENTABILIDADE NA BAIXADA FLUMINENSE: UMA

PESQUISA PARTICIPATIVA
A Baixada Fluminense é uma região marcada por graves desigualdades econômicas e
sociais, abandono por parte do Estado e discriminações e preconceitos diversos. Mesmo os
municpios com mel!ores resultados de arrecadação não distribuem ade"uadamente seus
recursos, o "ue di#iculta o amplo acesso do con$unto de seus !abitantes % cidadania.
Entretanto, tais adversidades não impedem o #lorescimento de um marcante dinamismo
cultural, produ&ido pela diversidade de sua população, tra&ida por #luxos migrat'rios de
di#erentes origens.
Apesar de sua ri"ue&a, a cultura produ&ida pela população da Baixada se ressente da
escasse& de iniciativas de documentação, valori&ação e #ormação de "uadros intelectuais
capa&es de atuarem sistematicamente na multiplicação dos agentes produtores de
con!ecimento local.
Busca(se, com a pes"uisa etnomusicol'gica a"ui proposta, contribuir para a promoção
da sustentabilidade da m)sica na região. *ara tanto, a pes"uisa vem sendo reali&ada, de
maneira participativa, por estudantes e pro#essores "ue residem na Baixada Fluminense ou
t+m a atividades pro#issionais. *rocurando envolver cada ve& mais os residentes para "ue se
tornem pes"uisadores, busca(se o ponto de vista da"ueles "ue so#rem diretamente o impacto
da m)sica e dos problemas sociais da Baixada. ,imultaneamente, a pes"uisa visa colocar
instrumentos de pes"uisa, registro, produção audiovisual e re#lexão crtica % disposição dos
participantes. -esta maneira, pretende produ&ir relatos a partir do ponto de vista dos
implicados, entendendo "ue tais relatos apresentarão um di#erencial decisivo para a
compreensão da realidade local. -a mesma maneira, espera(se "ue tal metodologia contribua
para a sustentabilidade da m)sica na região, ao #omentar iniciativas de produção, registro,
mem'ria, debate e #ruição das atividades musicais reali&adas na Baixada.
,endo assim, o ob$etivo geral do trabal!o é investigar e documentar, em con$unto com
moradores da Baixada Fluminense, aspectos, pessoas e mani#estações relacionadas %s diversas
m)sicas produ&idas e vivenciadas nesta região. .uanto a seus ob$etivos espec#icos, são/
identi#icar, em con$unto com moradores da Baixada Fluminense, 0reas tem0ticas "ue
constituirão o banco de dados M)sica e 1ultura na Baixada Fluminense2 aplicar e
desenvolver, em con$unto com moradores da Baixada Fluminense, uma base conceitual para a
documentação "ue constar0 desse banco de dados2 documentar as pr0ticas musicais e
depoimentos escol!idos pelo coletivo em suportes de 0udio e imagem2 investigar as pr0ticas
educacionais in#ormais ocorridas nas mani#estações musicais e interações sociais estudadas2
construir banco de dados de acesso p)blico via 3nternet com o material documentado.
A partir de tais ob$etivos, #ica evidente "ue é central nesta pes"uisa a preocupação de
o#erecer aos residentes da Baixada Fluminense instrumentos "ue possibilitem a maior
participação deles nas decisões p)blicas "ue a#etam seus destinos. -esde a promulgação da
1onstituição de 4566 7Brasil, 45668 é crescente a import9ncia da noção de desenvolvimento
!umano e social construdo a partir da atuação con$unta de instituições governamentais e
sociedade civil. Avaliando criticamente a ideia de desenvolvimento de 0reas de risco a partir
de uma plani#icação central "ue desconsidera os saberes e processos locais, a concepção mais
contempor9nea busca construir, a partir dos processos $0 existentes e das pessoas $0
envolvidas neles, trabal!os participativos #undados no interc9mbio e no di0logo. : binômio
cultura local e desenvolvimento é, assim, visto como mutuamente potenciali&ador, o "ue
destaca a import9ncia da valori&ação da cultura local para se promover o desenvolvimento
sustent0vel. A integração de cultura e desenvolvimento passa, portanto, a ser vista como
responsabilidade compartil!ada de governos, instituições p)blicas e privadas. Esta concepção
est0 expressa nas polticas p)blicas atuais do Ministério da 1ultura, especialmente no conceito
de gestão compartil!ada, destacado no *rograma 1ultura ;iva 7Brasil, <==>8.
?o entanto, con#orme relatam Ara)$o e Musicultura 7<==@, p. 4A8, poucos programas
gerados a partir de iniciativas governamentais ou de organi&ações #ilantr'picas, e "ue t+m
como ob$etivo principal criar para os $ovens alternativas aos camin!os da marginalidade,
discutem com os pr'prios $ovens as condições "ue permitem a #aveli&ação e possveis
soluções para "ue se construa uma sociedade mais $usta. A ideia de Bprotagonismo $uvenilC é
compreendida como mera execução de pro$etos "ue $0 c!egam #ormatados a partir de
realidades externas. Assim, o per#il dominante desses programas é de trabal!o assistencialista
e não trans#ormador, tornando com isso di#cil imaginar "ue esse $ovem BatendidoC de #ato se
tornar0 um protagonista de mudanças signi#icativas para ele mesmo e para seus pares
7vi&in!os, amigos, parentes e demais da rede comunit0ria8.
;isando propor uma contribuição para a superação desse estado de coisas, parte(se a"ui
da educação proposta por *aulo Freire 745D=, 455@8 para buscar(se uma autorrede#inição, por
parte dos residentes da Baixada envolvidos com o pro$eto. *assando a compreender(se como
su$eitos ativos, "ue se autopes"uisam e produ&em documentos 7textuais, sonoros e
audiovisuais8, tais su$eitos são encora$ados a re#letir sobre si mesmos e a trans#ormar sua
realidade.
A organi&ação da investigação em torno do trabal!o de *aulo Freire visa responder %
situação vivida pela Antropologia, "ue, desde a década de 456=, se v+ sob #ortes crticas, entre
outras, relacionadas %s problem0ticas representações dos su$eitos de pes"uisa pelos
pes"uisadores, e %s desiguais partil!as de poder entre ambos no "ue tange aos resultados da
pes"uisa e % escol!a e conceituação de ob$etos 7por exemplo, 1li##ord, 45642 1li##ord e
Marcus, 456@2 Marcus e Fisc!er, 456@2 Fabian, 456E8. 1om essas crticas, passaram(se a
veri#icar experi+ncias de re#ormulação, por ve&es radical, das metodologias de trabal!o de
campo, na Antropologia e demais disciplinas de base etnogr0#ica, includa a etnomusicologia.
1om o conceito de autonomia do pensar e do #a&er, a pedagogia de *aulo Freire
permite colocar a produção cultural em novas bases, #eita a partir dos pr'prios su$eitos e
comunidades envolvidas. Escapando %s determinações mais diretas do mercado de consumo, é
possvel "ue su$eitos e comunidade dialoguem para a de#inição e proposição de conceitos,
temas e ob$etos, "ue terão, conse"uentemente, maior sentido para esses atores, en"uanto
representações das condições ob$etivas e dese$adas de suas exist+ncias. Assumindo o controle
do processo de documentação de sua cultura, o su$eito recon#igura o papel criativo e poltico
das representações sonoras e imagéticas. : con!ecimento assim produ&ido deixa de reali&ar(
se como instrumento de exclusão e viol+ncia simb'lica para expressar uma produção
dial'gica, compartil!ada e mutuamente )til %s instituições e comunidades.
Assim, o trabal!o de *aulo Freire permite propor um deslocamento simult9neo dos
papéis tradicionais do pes"uisador e do educador/ não mais ocupantes exclusivos do p'lo
ativo, passam a ver(se como mediadores na construção compartil!ada do con!ecimento. 1om
isso, seria possvel "uestionar(se, inclusive, a distinção entre pes"uisa e educação, $0 "ue se
estaria simultaneamente produ&indo pes"uisa e educação por meio do gan!o de autonomia do
educando tornado pes"uisador.
Até o momento, a pes"uisa reali&ou levantamentos $unto a alguns grupos e m)sicos mais
re#erenciados, pelos pr'prios residentes, como proponentes destas novas imagens de
revalori&ação da Baixada Fluminense. Entre eles, #oram entrevistados componentes das
bandas precursoras do movimento reggae em Bel#ord Foxo, o 1idade ?egra e o extinto
GM-(E. Este )ltimo é o grupo do "ual #i&eram parte Marcelo HuIa e Jauro Farias, "ue mais
tarde #ormaram : Fappa, e -ida ?ascimento, um dos pioneiros do movimento na região.
-ida é, também, gestor do 1entro 1ultural -onana, nome em !omenagem % sua mãe, -ona
Ana, antiga re&adeira "ue constituiu o centro cultural no #im da década de D=. : -onana,
como é con!ecido, constitui(se em importante local de encontro da comunidade, sediando
tanto grupos de discussão poltica, de "uestões ligadas ao negro e ao morador da Baixada,
"uanto de mani#estações musicais como a capoeira e o reggae. Kambém #oram entrevistados
nomes representativos desse movimento reggae como -a Lama 7ex(1idade ?egra8, Fas
Bernardo 7ex(1idade ?egra8 e Ja&ão 71idade ?egra8.
Em ?ova 3guaçu, #oi registrado o trabal!o do grupo Enrai&ados, bastante atuante na
valori&ação da Baixada e de seus residentes. : Enrai&ados desenvolve papel destacado em sua
comunidade, o#erecendo cursos de artes integradas do !ip !op 7rap, break, dj e graffiti8, sendo
coordenado por -udu de Morro Agudo e Jui& 1arlos -umontt.
?a cidade de ?il'polis #ica locali&ada a sede estadual da instituição Fundação
1apoeira, "ue desenvolve um trabal!o de capoeira vinculada % educação cidadã dos $ovens
envolvidos. ?esta cidade, #oi também reali&ado um levantamento sobre as gambiarras, "ue
são adaptações engen!osas de e"uipamentos de 0udio com as "uais os m)sicos com poucos
recursos obt+m resultados sonoros "ue se aproximam da"ueles conseguidos por e"uipamentos
mais caros.
?a primeira etapa da pes"uisa, veri#icamos "ue os moradores da Baixada Fluminense
continuamente se reportam % atitude da imprensa e demais #ormadores de opinião, "ue,
segundo eles, descrevem reiteradamente a região como um lugar marcado pelo banditismo,
tr0#ico de drogas, assassinatos e outros crimes. ,egundo esses moradores, isso #a& com "ue a
sociedade em geral, mormente carioca, mesmo descon!ecendo por completo as m)ltiplas
realidades da Baixada, se$am un9nimes em conden0(la e desacredit0(la, re#orçando, assim, a
situação de abandono por parte dos poderes p)blicos a "ue est0 exposta.
1omo decorr+ncia da metodologia participativa adotada, a partir dessa consulta aos
moradores #oi possvel estabelecer como central para a pes"uisa o conceito de violência
simbólica. Este conceito, cun!ado pelos soci'logos *ierre Bourdieu e Mean(1laude *asseron
7<==68, designa todo poder "ue c!ega a impor signi#icações e a legitim0(las, dissimulando as
relações de #orça "ue estão na sua base.
*ortanto, identi#icando, a partir das #alas dos residentes, a viol+ncia simb'lica como
conceito #undamental para se estudar a Baixada Fluminense, a pes"uisa pôde orientar(se no
sentido de investigar e documentar aspectos das diversas culturas musicais da Baixada "ue se
relacionam a este conceito. Entre estes aspectos, notou(se a negativa consistente dos
entrevistados de "ue a Baixada se$a de#invel meramente como local de viol+ncia. *ara eles, a
Baixada é, sobretudo, um local onde se #ormam laços de solidariedade entre as pessoas, e
abriga m)ltiplas mani#estações de criatividade, inclusive musical. -iversas #ormas de m)sica
se desenvolveram na Baixada, e tiveram grande import9ncia por contribuir para a#irmar a
autoestima dos moradores da região e pro$etar positivamente sua imagem dentro e #ora deste
territ'rio, #avorecendo a construção de identidades mais a#irmativas e conscientes das lutas
!ist'ricas dos residentes em #avor de mel!ores condições de exist+ncia e participação nas
polticas p)blicas "ue a#etam sua região. A educação in#ormal "ue surge a, nos diversos
campos artsticos, em especial a m)sica, emerge como resposta para suprir o abandono das
comunidades da Baixada pelos poderes p)blicos, e é bem sucedida ao envolver a comunidade,
principalmente suas crianças, em atividades "ue lidam com a aus+ncia de recursos com
criatividade, promovendo de maneira l)dica uma re#lexão sobre suas condições ob$etivas de
exist+ncia.
A pes"uisa a"ui proposta tem uma aplicação imediata no segmento s'cio(comunit0rio,
ao possibilitar desenvolver parcerias entre residentes da Baixada Fluminense e pes"uisadores
para a produção compartil!ada de con!ecimento orientada pelas necessidades das
comunidades locais. A busca de desenvolvimento de base conceitual a partir das preocupações
e realidades dos moradores poder0 comprovar(se uma contribuição signi#icativa para a
educação e #ormulação de polticas na região. : #ato de "ue os pr'prios residentes são
simultaneamente su$eitos da pes"uisa e pes"uisadores possibilita uma trans#er+ncia de
tecnologia 7de produção de pes"uisa8 aos mesmos. : material documentado, audiovisuais de
pr0ticas musicais comunit0rias e depoimentos, ser0 o#ertado de #orma gratuita, pela internet,
podendo ser, então, utili&ado pelas escolas da rede p)blica em diversos contextos 7diversas
disciplinas, como !ist'ria, sociologia, geogra#ia, #iloso#ia, artes, m)sica, poderão utili&ar o
material para aulas, din9micas, apresentações artsticas8.
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