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Reboco com óleo de baleia - Verdade ou mito
Quando se fala em rebocos antigos de boa qualidade é comum se ouvir: foi
feito com óleo de baleia! Verdade ou mito? O arquiteto Jorge E. L. Tinoco,
professor do Curso de Gestão de Restauro fala em Opiniões & Links sobre
esse assunto polêmico e cheio de "mistérios" entre os profissionais da
conservação e o público em geral.
Ao apresentar um reboco antigo que guarda bons níveis de conservação, isto é, de resistência ao
tempo e, principalmente, às ações de umidade, uma pessoa logo afirma: foi feito com óleo de baleia!
Até hoje não se sabe ao certo como essa assertiva ganhou a “boca miúda” entre a população e
até entre alguns técnicos e especialistas. A informação sobre a adição de óleo de baleia em
argamassas para reboco não é comum em outros países, a não ser talvez por algumas referências
de utilização pelos holandeses. Na verdade, o que se sabe sobre o óleo de baleia é que foi um dos
mais importantes combustíveis até o século 19 (COMERLATO, p.13, 2012). O óleo também era
aproveitado para lubrificação de engrenagens, fabricação de velas, confecção de tecidos grosseiros de lã,
para o preparo de couros, tintas e vernizes, sabões, enxofres e breu para calafetagem de navios (ELLIS,
1969, p. 136. apud COMERTLATO).
O óleo de baleia é um combustível, é considerado também uma graxa e, portanto, não tem
propriedades aglutinantes ou secativas como o óleo de linhaça por exemplo. Inclusive, Faraday
(1791-1867) extraiu dele o Benzeno a partir dos resíduos do aquecimento desse óleo utilizado na
iluminação pública (MERLO, p.1, 2012).
Em estudos e testes sobre os rebocos de cal, o CECI não verificou nenhuma possibilidade de
endurecimento numa argamassa a base de cal e areia, produzida no traço 1:3, quando adicionado
o óleo da baleia. Entretanto, constatou boas propriedades hidrofugantes quando esse óleo foi
aplicado após a carbonatação sobre a argamassa. Fazer impermeabilizações utilizando óleos e
sabões ainda hoje é comum quando se executam revestimentos em estuque em áreas molhadas,
como o Tadelakt, por exemplo. Só que, devido ao elevado valor e às severas restrições na
comercialização do óleo de baleia, o mais prático e barato é o uso de sabão (ver LUXENS). Há um
estudo sobre o óleo de baleia em argamassa de cal e areia que demonstrou não ser esse óleo
apropriado para compor as argamassas de revestimentos como aditivo (SANTIAGO, p.34, 2007).
Então, por que se criou no Brasil o mito do óleo de baleia como elemento responsável pela
excelência dos rebocos antigos?
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Em 2005, o professor de Química do Curso de Gestão de Restauro do CECI, Antonio Alves Junior,
teve a oportunidade de ver nas mãos do diretor do Museu de Igarassu[1], um documento do final
do século 18 que alude se utilizar parte do dinheiro da arrecadação dos impostos do óleo da baleia
nos serviços de restauração da igreja matriz da cidade. Isso possibilitou se levantar a tese de que,
a assertiva foi feito com óleo de baleia teria origem na utilização dos recursos financeiros advindos
dos impostos da comercialização do óleo da baleia, o petróleo do passado.
Seja como for, não se pode negar que o óleo da baleia teve participação na construção ou
restauração de alguns das mais notáveis edificações históricas no Brasil. Quer pela utilização do
dinheiro dos impostos quer na aplicação como impermeabilizante nas paredes. Sobre o uso dos
rendimentos fiscais do óleo da baleia há necessidade de se fazer uma pesquisa histórica mais
extensiva em arquivos no Brasil e em Ultramar. Afinal, o uso de fonte de recursos fiscais específicos
para financiamento e apoio à construção foi e ainda é comum em todos os países.
O CECI começou a realizar pesquisas aplicadas sobre o uso de óleos em argamassas a partir do
ano de 2003. Na verdade, desde a 1ª edição do Curso de Gestão de Restauro, vem sendo
divulgando amplamente entre os alunos a excelência da aplicação do óleo de linhaça, cujas
propriedades secativas dão impermeabilidade aos rebocos e grandes resistências com a passagem
dos anos; do emprego dos sabões utilizados tanto na ocasião da produção dos traços das
argamassas como após a carbonatação ou cura; a inadequação da mistura do óleo de baleia ao
traço de argamassas a base de cal e areia.
Jorge Eduardo Lucena Tinoco
arquiteto, professor do Curso de Gestão de Restauro

[1] Esse documento foi localizado pelo historiador Jorge Paes Barreto, então diretor do Museu
Histórico de Igarassu e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Igarassu.

REFERÊNCIAS:
COMERLATO, Fabiana: A Baleia como Recurso Energético no Brasil. Anais do Simpósio Internacional
de História e Migrações. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, 2012. ISSN 2178-5112
MERLO, Aloir A. Compostos Aromáticos. Apostila do Programa de Pós-graduação em Química -
PPGQuímica da Universidade Federal do rio Grande do Sul – UFRS, 2012.
SANTIAGO, C. C. Argamassas tradicionais de cal. Editora da Universidade Federal da Bahia - EDUFBA,
2007. ISBN 978-85-232-0471-6.

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