História do saber lexical e constituição de um léxico brasileiro

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USP – UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor: Prof. Dr. Adolpho José Melfi Vice-Reitor: Prof. Dr. Hélio Nogueira da Cruz

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Humanitas FFLCH/USP – impresso em julho/2002

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José Horta Nunes e Margarida Petter (Orgs.)

História do saber lexical e constituição de um léxico brasileiro

2002

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO • FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

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Serviço de Biblioteca e Documentação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

N 972

Nunes, José Horta História do saber lexical e constituição de um léxico brasileiro / José Horta Nunes, Margarida Petter. – São Paulo: Humanitas / FFLCH / USP: Pontes, 2002. 253 p. ISBN 85-7506-066-X (Humanitas) ISBN 85-7113-154-6 (Pontes) 1. Lingüística (História) 2. Língua Portuguesa (Brasil) 3. Lexicologia 4. Lexicografia I. Título II. Petter, Margarida CDD 410

Esta publicação foi paga, parcialmente, com verba PROAP

HUMANITAS FFLCH/USP e-mail: editflch@edu.usp.br Telefax.: 3091-4593 Editor Responsável Prof. Dr. Milton Meira do Nascimento Coordenação Editorial e Capa Mª. Helena G. Rodrigues – MTb n. 28.840 Projeto Gráfico e Diagramação Marcos Eriverton Vieira Revisão organizadores

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SUMÁRIO
Apresentação ................................................................................................... 7 DICIONÁRIOS Dicionários portugueses, breve história ........................................................ 15 Telmo Verdelho A formação e a consolidação da norma lexical e lexicográfica no português do Brasil ............................................................ 65 Maria Tereza Camargo Biderman Um espaço de enunciação para dizer os brasileirismos ............................................................................................ 83 Sheila Elias de Oliveira Dicionarização no Brasil: condições e processos ......................................... 99 José Horta Nunes CONSTITUIÇÃO DE UM LÉXICO BRASILEIRO Termos de origem africana no léxico do português do Brasil .................... 123 Margarida Petter Palavras de origem africana no português do Brasil: do empréstimo à integração ........................................................................ 147 Emilio Bonvini Novas leituras sobre o Brasil: a construção de um saber lexical no processo de escolarização indígena .................................. 163 Maria Aparecida Honório Palavras de origem indiana no léxico da língua portuguesa – categorias topológicas dos processos de empréstimo vocabular ................ 191 Mário Ferreira CONCEITOS E TECNOLOGIAS Os conceitos de neologia e neologismo segundo as obras lexicográficas, gramaticais e filológicas da língua portuguesa .................. 203 Ieda Maria Alves Um pouco da história da análise informatizada do léxico no Brasil .......... 223 Zilda Maria Zapparoli 5

APRESENTAÇÃO
O saber lexical é um dos mais antigos de que temos conhecimento. Ele remonta a três milênios a.C., quando apareceram as primeiras listas de palavras na Babilônia (Auroux, 1992). As pesquisas realizadas no projeto História das Idéias Lingüísticas no Brasil, que deram origem a esta publicação, trabalham a história desse saber, objetivando mostrar seu modo de aparecimento no Brasil, seu desenvolvimento, suas transformações. Para isso, considera o papel de teorias, instituições, obras, autores e acontecimentos relacionados à produção de saber lexical. Este é considerado em suas diversas formas históricas de manifestação: listas de palavras, comentários, descrições lexicais, dicionários, teorias, conceitos, disciplinas, etc. O projeto História das Idéias Lingüísticas no Brasil (HILB) é coordenado no Brasil por Eni P. Orlandi (Unicamp) e Diana L. P. de Barros (USP), e na França por Sylvain Auroux (ENS). O objetivo geral é o conhecimento da história do saber metalingüístico no Brasil e da constituição de uma língua nacional. Neste livro serão apresentados resultados de uma das linhas de pesquisa do projeto, denominada “constituição de um léxico brasileiro”. Durante a primeira etapa do projeto, sediada na Unicamp, alguns trabalhos se dedicaram à história dos dicionários brasileiros. Nesse sentido, a contribuição de Francine Mazière, participante do projeto no lado francês, foi decisiva para impulsionar as pesquisas da equipe brasileira, já que desenvolvia há algum tempo estudos sobre a história dos dicionários franceses. Nesta segunda fase do projeto, dando continuidade aos trabalhos, formou-se um subgrupo com o objetivo de compreender a constituição de um léxico brasileiro. Além de pesquisas sobre os dicionários, incluíram-se aí os estudos da formação do léxico na relação do português com outras línguas (africanas, indígenas, indianas), e a constituição de disciplinas. A participação de pesquisadores da USP, que se inseriram nesta fase do projeto, foi fundamental para a ampliação do campo de pesquisa. Participam deste livro os seguintes membros do projeto: Margarida Petter (USP) e Emilio Bonvini (CNRS), que estudam a relação do português com as línguas africanas, Mário Ferreira (USP), que estuda a incor7

poração de termos de línguas indianas no português, Zilda Maria Zapparoli (USP), que elabora uma história dos estudos informatizados do léxico no Brasil, José Horta Nunes (UNESP), que realiza uma análise discursiva do dicionário, Maria Aparecida Honório (Pós-Doutorado/USP), que estuda o saber lexical em situações de contato do português com línguas indígenas e Sheila Elias de Oliveira (UNICENTRO/doutoranda pela Unicamp), que realiza uma análise enunciativa do dicionário. Contamos também com alguns colaboradores externos, aos quais aproveitamos a oportunidade para agradecer a generosa contribuição. Os trabalhos destes renomados especialistas em lexicologia, lexicografia e terminologia trazem subsídios de fundamental importância para a reflexão que vem sendo efetuada no projeto. São eles: Telmo Verdelho (Universidade de Aveiro, Portugal), Maria Tereza Camargo Biderman (UNESP) e Ieda Maria Alves (USP). Segundo a perspectiva sustentada no projeto, a produção de idéias lingüísticas é remetida à sociedade e à história, de maneira que o saber lingüístico não é considerado independentemente das formações sociais e das instituições a ele relacionadas. Objetiva-se mostrar a especificidade dos saberes metalingüísticos que aparecem ou são introduzidos de determinada forma no território brasileiro, com especial atenção à constituição da língua nacional. Para pensar este fato, opera-se com o conceito de hiperlíngua (cf. “L´hyperlangue brésilienne”, Langages 127, 1997; e Auroux, “Língua e hiperlíngua”, Línguas e Instrumentos Lingüísticos, 1998), que se define pela estruturação de um espaço/tempo por competências individuais, relações de comunicação em certos contextos, instrumentos lingüísticos (como gramáticas e dicionários), atividades sociais. Os trabalhos deste livro trazem mais elementos para compreender a estruturação da hiperlíngua brasileira. Os textos aqui apresentados reúnem-se em três seções temáticas. Na primeira seção, temos trabalhos voltados para o estudo dos dicionários. Como eles aparecem no Brasil? Qual a relação com os dicionários portugueses? Quais os autores, as obras, instituições, as teorias, os acontecimentos relacionados? Sem o conhecimento sobre os dicionários portugueses, não é possível compreender a constituição histórica dos dicionários brasileiros. O texto de T. Verdelho traz uma contribuição admirável nesse sentido, com uma breve história dos dicionários portugueses, em que apresenta um levantamento comentado das obras lexicográficas, desde os dicionários bilíngües latino-portugueses até os diversos tipos de monolín8

gües. Em seguida, M. T. C. Biderman aborda o caso brasileiro, mostrando a formação e a consolidação de uma norma lexical no Português do Brasil, com especial atenção ao papel que os dicionários aí desempenham. Para isso, trata no período colonial da emergência da variedade brasileira do português, passa pelo surgimento da identidade nacional a partir de meados do século XIX e aborda a publicação de obras lexicográficas sobre o português brasileiro, desde os pioneiros até a atualidade. A relação entre a lexicografia portuguesa e a brasileira é de identidades e diferenças. Se, por um lado, houve uma série de empréstimos de dicionários portugueses, sobretudo desde o Moraes (1789), houve também um processo de diferenciação que conduziu ao estabelecimento de uma lexicografia própria. Grande parte desse processo desencadeou-se a partir da discussão sobre os brasileirismos. Sheila E. de Oliveira trata de um momento de conflito na divisão entre português do Brasil e português europeu. Ela mostra, por meio de uma detalhada análise enunciativa, de que modo um lexicógrafo português, Cândido de Figueiredo, toma como objeto os brasileirismos nos prefácios e posfácios de seu dicionário, desde a primeira edição, em 1899, até a última edição em vida do autor, em 1925. Um dos pontos observados por Oliveira nessa enunciação é a redução das diferenças históricas às geográficas, com a oposição entre a língua de civilização (a de Portugal) e a língua considerada sem civilização (do Brasil). Completa essa seção o estudo acurado de José Horta Nunes sobre a história da constituição do dicionário monolíngüe no Brasil. O autor apresenta os momentos dessa dicionarização e analisa as condições de sua produção, decorrentes, a seu ver, dos seguintes fatores: territorialidade, administração do território, urbanização, institucionalização, contatos lingüísticos, identidade nacional, influência de teorias, domínios conexos e tecnologias. Nunes alerta para o fato de que a forma do dicionário nunca coincide com as condições que a determinam e que os sentidos por ela produzidos estão sempre abertos à interpretação. Lembra que, na “unidade imaginária” do dicionário monolíngüe, inscreve-se “uma série de relações entre as línguas (de inclusão, exclusão, confronto, absorção, filiação, etc.), que convém explicitar e não apagar”. A segunda seção aborda a relação do português com outras línguas e reflete sobre o papel de dicionários, comentários e descrições lexicais na constituição de um léxico brasileiro. Margarida Petter faz um levantamento dos registros do passado que nos informam sobre a presença de línguas africanas no Brasil. Em seguida, aborda os registros lexicográficos em di9

cionários gerais, dicionários especializados e dicionários etimológicos, além de comentar os estudos especializados. A autora mostra como os “termos de origem africana” estão presentes nesses materiais e como eles são considerados, especialmente por meio das noções de brasileirismos e africanismos. E. Bonvini, tratando igualmente da presença de termos de origem africana (sobretudo de origem banto), observa-os, de um lado, como empréstimos, e de outro, como termos integrados ao português do Brasil. O período examinado vai do século XV ao XVIII. Bonvini questiona a utilização do termo “influência” para se referir aos termos lexicais de origem africana e levanta, com base na observação de dados, algumas hipóteses para explicar a multiplicidade de variantes dos empréstimos. O texto de Maria A. Honório traz uma reflexão sobre como o léxico é significado na produção textual de professores Sateré-Mawé. Nesta situação, é estabelecida uma relação entre a língua indígena e a língua portuguesa. Para compreender os materiais resultantes desta situação de contato, a autora considera diversos trabalhos sobre línguas indígenas desde a época colonial, dentre os quais, dicionários bilíngües e monolíngües que introduzem termos indígenas. Operando o conceito de gramatização, Honório aponta uma fase atual deste processo, marcada pelo aparecimento de novos sujeitos da história (os índios como sujeitos da escrita), o que traz conseqüências tanto para a constituição do léxico do português, como para o das línguas indígenas nessa situação de contato. A partir de uma perspectiva metodológica de confronto dinâmico de línguas em contato, Mário Ferreira realiza um estudo das palavras indianas incorporadas ao léxico da língua portuguesa, identificando mecanismos semânticos de empréstimo vocabular. Ferreira estipula três categorias tipológicas relativas ao processo de incorporação, pela língua portuguesa, de bases lexicais indianas: as categorias de reiteração, reconfiguração e dispersão semânticas, entendidas como graus progressivos de maior ou menor convergência interidiomática. Analisando obras de autores portugueses dos séculos XVI e XVII, Ferreira mostra que ocorrem diferentes processos de incorporação, conforme o domínio lexical. Por exemplo, os referentes do universo material dos objetos exercem forte coerção de identidade sobre os vocábulos vernáculos, ao passo que os referentes ideológicos encontram resistência à reconstrução e incorporação. Na terceira seção temos, inicialmente, o texto de Ieda M. Alves, que, depois de apresentar as primeiras atestações dos termos neologia e neologismo, mostra como esses conceitos têm sido abordados nas obras
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filológicas, gramaticais e lexicográficas em língua portuguesa. Alves enfatiza que o enfoque desses conceitos é, não raro, acompanhado de critérios de aceitabilidade, particularmente no que concerne aos neologismos por empréstimo. Em seguida, Zilda M. Zapparoli elabora um histórico da análise informatizada do léxico no Brasil, fazendo considerações sobre dois programas de computador para análise lingüística – WordSmith Tools (WS Tools) e Stablex – e sobre o uso que alguns pesquisadores brasileiros, pertencentes a duas instituições – PUC/SP e USP/SP – fizeram ou vêm deles fazendo para as análises informatizadas do léxico. O saber lexical, em suas diversas formas, constitui-se através de processos históricos, muitas vezes de longa duração. Acreditamos que esta publicação traz avanços para a compreensão do aparecimento, do desenvolvimento e das transformações desse saber no Brasil. De início, porque realiza uma série de apontamentos documentais e bibliográficos, alguns dos quais raramente mencionados na literatura. Depois, porque apresenta reflexões que levam em conta a especificidade do léxico enquanto saber histórico, produzido por e para sujeitos em determinadas circunstâncias. Salientamos, por fim, que nesta fase do projeto História das Idéias Lingüísticas há o objetivo de abordar questões de ética e política lingüística. Nesse sentido, acreditamos que o livro traz elementos para se pensar o fazer lexical: por quê fazer um dicionário, para quem? Para que serve descrever o léxico de uma língua? Que línguas são incluídas ou excluídas para isso? Quais as condições e as conseqüências do aparecimento de conceitos e disciplinas ligadas ao léxico? Em que medida tais práticas estão relacionados com as políticas: com o Estado, com a institucionalização dos saberes, com as normatizações, com a formação de uma língua nacional? Por fim, considerando-se a historicidade desses processos, o que fazer daqui em diante?

José Horta Nunes Margarida Petter

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Dicionários

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DICIONÁRIOS PORTUGUESES, BREVE HISTÓRIA
Telmo Verdelho Universidade de Aveiro

Introdução
A lexicografia começou a estruturar-se como disciplina linguística desde a primeira metade do século XVI, em vários centros humanísticos europeus. Foi inicialmente motivada pelas solicitações do ensino do latim como língua não materna, e encontrou na técnica tipográfica uma condição determinante para a sua configuração e difusão. Podemos todavia recuar a génese dos dicionários para as escolas medievais de latim. Desde o século XI produziu-se, sobretudo na Itália, uma espécie de pré-lexicografia que foi rapidamente divulgada entre as escolas monásticas de toda a Europa. Em Portugal conservam-se testemunhos manuscritos do Elementarium (c.1050) de Papias, que pode ser considerado como o primeiro arquétipo dos dicionários modernos; do Liber derivationum (fins do séc.XII) de Hugúcio de Pisa; do Catholicon (1286) de João Balbo; e de outros textos medievais com informação lexicográfica, essencialmente latina, mas que serviram de referência para o aparecimento dos primeiros glossários das línguas modernas (Verdelho 1995, 137). A emergência da escrita entre os vernáculos europeus, desde a recuada Idade Média, paralelamente à escolarização do latim, deu naturalmente origem à dicionarização das línguas vulgares. Gerou-se em primeiro lugar uma espécie de lexicografia implícita que tecia os próprios textos e facilitava a compreensão do vocabulário característico da escrita, forçosamente mais amplo e menos quotidiano do que o da língua oral. Os textos que dão testemunho das primeiras tentativas do uso da escrita em vernáculo português e ainda quase toda a produção textual subsequente, até aos tempos modernos, vêm marcados por esse esforço metalinguístico de clarificação e autodescodificação, próximo da informação lexicográfica. Mui15

tos textos medievais portugueses parecem ser construídos com a preocupação de fornecerem um fácil acesso à significação do seu próprio léxico, apresentando um estilo parafrástico, enquadrado por muitas palavras redundantes e frequentemente entretecido por verdadeiras definições lexicográficas. Os exemplos mais elucidativos poderão recolher-se nos textos jurídicos de Afonso X, tais como as Partidas e o Foro Real traduzidos do castelhano logo nos primeiros séculos da escrita em língua portuguesa (Ferreira 1980 e 1987). Os textos da Casa de Avis, e muito especialmente o Leal Conselheiro de D. Duarte, oferecem também bons exemplos do fundo pré-dicionarístico que acompanhou o início da memória textual portuguesa. O Leal Conselheiro apresenta-se mesmo como obra de tipo paralexicográfico nas declarações introdutórias do próprio autor (“E filhayo por huu A B C de lealdade”) (Verdelho 1995, 172).

Lexicografia latinoportuguesa
Glossários bilingues medievais
O simples desenvolvimento do exercício da escrita não podia deixar de suscitar uma necessária reflexão gramatical e uma consequente produção metalinguística, com natural relevo para a elaboração de tipo lexicográfico. Juntamente com a emergência da escrita vernácula, o confronto com o latim, muito especialmente na instância escolar, deve ter provocado imediatamente o aparecimento de glossários e outros materiais de apoio à intercompreensão das duas línguas, exercitando a sua equivalência lexical. A língua portuguesa, pelo menos desde o século XIII, ao mesmo tempo que tinha acesso à sistematização da escrita, começou a ser utilizada numa produção pré-lexicográfica, baseada em listagens glossarísticas medievais bilingues (latim-vernáculo) que eram já utilizadas por outras línguas vulgares da Europa, desde a mais remota Idade Média, como auxiliares da escolarização do latim. Estes vocabulários escolares, preferencialmente baseados no “corpus” lexical do texto bíblico, eram organizados por áreas temáticas ou por categorias gramaticais e aproximavam-se já da ordenação alfabética. (Riché 1979, 232). Entre o espólio paleográfico português hoje conhecido guarda-se apenas um pequeno texto residual e notícia de outro. É o pouco que resta
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do muito que poderá ter sido a pré-lexicografia medieval portuguesa. O documento conservado é um manuscrito alcobacense (códice CDIV/286), que se encontra na Bibl. Nac. de Lisboa e que foi publicado por Henry Carter (1953). Compõe-se de uma listagem quase alfabética de cerca de 3000 verbos latinos, transcritos pelo início do séc. XIV, a que foram acrescentadas, por outra mão e eventualmente já no séc. XV, as formas equivalentes em português. O “corpus” lexical português apresenta cerca de 1100 verbos diferentes com um total aproximado de 3.000 ocorrências. É um documento importante para a história da técnica lexicográfica e sobretudo para a história da língua portuguesa. (Verdelho 1995, p. 196-213). Mais antigo do que este monumento da lexicografia portuguesa seria um “Vocabulário em 4º, que fora escripto pelos anos de 1170; ordenado por alfabeto dava as significações dos nomes Latinos em Portugues” (Boaventura 1827, p. 74). Barbosa Machado, no t. III da sua Biblioteca Lusitana (1752) atribui mesmo a Frei Martinho de Arraiolos, “Monge cisterciense que floreceo no anno de 1170”, a autoria deste Vocabularium alphabetica methodo digestum significatione nominum latinorum adhibita e acrescenta “conserva-se na Biblioteca M.S. do Real Convento de Alcobaça”. O ms. era já lastimavelmente perdido quando Fr. Fortunato de São Boaventura se lhe refere em 1827.

As origens renascentistas da lexicografia portuguesa Jerónimo Cardoso
A lexicografia da língua portuguesa, como a dos restantes vernáculos europeus, nasceu dos vocabulários bilingues que puseram em confronto o latim e as línguas vulgares. Por sua vez, a maior parte destes textos foram elaborados tomando como fontes de referência os grandes monumentos da lexicografia humanista e em especial: a obra de Nebrija (1492); o dicionário publicado a partir de 1502 sob o nome de Ambrósio Calepino; e o Tesouro da língua latina de Robert Estienne (1531). Os dicionários portugueses dos séculos XVI e XVII inserem-se também nesta genealogia lexicográfica, com especial dependência em relação aos textos de Nebrija e de Calepino. Os dicionários do humanista Jerónimo Cardoso (c.1500-c.1569) (Teyssier 1980) especialmente o Dictionarium ex Lusitanico in Latinum Sermonem (1562) marcam o início da dicionarização da língua portuguesa.
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Neste dicionário Cardoso promoveu a primeira alfabetação do “corpus” lexical vernáculo e deu assim origem, com maior ou menor interferência, a todos os subsequentes dicionários do português, repercutindo-se efectivamente na técnica dicionarística, no levantamento das unidades lexicais, na referenciação do seu valor semântico, e na fixação da sua imagem ortográfica. A obra de Cardoso poderá ter sido precedida por outras tentativas de elaboração lexicográfica e de ordenação alfabética do vocabulário português. Temos notícia de um Dictionarium Lusitanum et Latinum atribuído a Francisco Sanches de Castilho († 1558) que estaria pronto para impressão à data do falecimento do autor. O nome do ortografista Duarte Nunes de Leão (c.1530-c.1608) aparece também associado a um “Vocabulario Portuguez muy copioso com declaração da Origem de cada Vocabulo, e de que lingoa emanou” (Machado 1966, t. I, p. 738), e há ainda notícia vaga de outros manuscritos (Verdelho 1995, p. 377 e s.) mas até ao presente nenhum desses textos foi encontrado e não foi possível recuar para além de 1562 o início da alfabetação do português. O pequeno dicionário de Cardoso deve ser assim considerado como o padrão inicial da lexicografia do português. Não obstante a modéstia das suas dimensões, oferece um “corpus” lexical interessante e muito significativo para a época, composto por cerca de 12.100 formas diferentes, distribuídas por um pouco mais de 12.000 entradas a que foram ainda acrescentadas 728 na segunda edição (1569). Sendo embora um dicionário bilingue, apresenta, para além das equivalências latinas, uma abundante informação lexicográfica no respeitante à língua vernácula. Salientaremos alguns aspectos que exemplificam o esforço de elaboração de uma primeira metalexicografia portuguesa. – As entradas em português desdobram-se frequentemente em pares sinonímicos do tipo: abafar s. cobrir...., abarregado s. amancebado, abater s. mingoar, abominar s. amaldiçoar, bisauoo ou bisdona, boauentura ou dita. – Alarga-se o âmbito da explicitação esclarecendo casos de polissemia ou salientando os valores semânticos determinados pelo contexto:
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abito s. costume, Abito de frade..., acordar-se... Acordar do sono... Acordar ao que dorme Acordar I. auer conselho.... – Fornecem-se indicações de tipo gramatical: Alemão... Alemoa, molher dAlemanha... Alemanisca cousa.... – No âmbito da informação gramatical, podemos notar a indexação dos adjectivos pela particula “cousa”, utilizada com valor estritamente metalinguístico, servindo assim para destacar cerca de um milhar de adjectivos. A obra lexicográfica de J. Cardoso deu origem, já em edição póstuma (1569/70), a um conjunto dicionarístico, preparado por Sebastião Stockammer, onde se atestam cerca de 24.000 formas diferentes do fundo lexical português, inseridas num corpus bilingue, latino-português e português-latino. Este texto foi reeditado mais de uma dezena de vezes, até ao fim do século XVII, com algumas variações ortográficas, mas sem alterações significativas, no que respeita ao corpus linguístico português. Serviu de manual escolar e teve uma decisiva importância como fonte de referência para o vocabulário da língua vernácula durante uma longa sesquicentúria, até aos alvores do séc. XVIII, assistindo à leitura latina, facilitando a tradução e modelando a escrita portuguesa.

Agostinho Barbosa
Nas origens da lexicografia portuguesa devem ainda incluir-se todos os restantes dicionários bilingues (latim – português e sobretudo português – latim) publicados até ao século XVIII. O primeiro de entre eles, de Agostinho Barbosa (1590-1649) (Barbosa 1611, edição única), para além do seu “corpus” latino ser autorizado, oferece muitos exemplos de acumulação sinonímica na parte portuguesa e uma frequente textualização das entradas, com prejuizo da ordenação alfabética (“/Despontar, i. rebotar, ou desfazer, ou tirar a ponta... /Despor, aliàs ordenar... /Despor aruores... /Desposição boa, i. saude... /Bem desposto, i. estar bem desposto, & ter saude... /Bem desposta cousa, i. que tem saude... /Má, ou roym desposição, aliàs pouca saude... /Mal desposta cousa, aliàs
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doentia, & que tem pouca saude... /Bem desposta cousa do corpo, aliàs bem feyta do corpo... /Desposição do corpo...”) (col. 378).

Amaro Reboredo
Deve também incluir-se, entre a lexicografia das origens, a obra de Amaro Reboredo (Lisboa, Pedro Craesbeeck, 1621, 444 ps) publicada no âmbito de um manual escolar para o estudo do latim, com o título Raizes da lingua latina mostradas em hum tratado, e diccionario: isto he, hum compendio do Calepino com a composição, e derivação das palavras, com a ortografia, quantidade e frase dellas. Trata-se de um dicionário Latim / português / espanhol (transparece uma certa indecisão na escolha do título – o termo “dicionário” não estava ainda optado para designar este instrumento metalinguístico). A nomenclatura do Calepino é enquadrada em famílias de palavras ligadas pelas raizes latinas de modo a descodificar-se a sua significação sem recorrer à forma equivalente portuguesa. Muitas entradas não têm glosa portuguesa, no entanto, os artigos com correspondência vernácula apresentam, por vezes, uma acumulação sinonímica muito informativa e outros aspectos com interesse para a história do léxico português. Exemplo: – “FELIX ... Ditoso, venturoso, prospero, bem afortunado. Hisp. Dichoso prospero, &c.”; – “VER, veris. Verão, primavera, isto he, Março Abril e Maio. Hisp. Verano, primavera. Esta obra oferece-nos o primeiro convívio lexicográfico entre o português e o castelhano, correspondendo certamente a uma conjuntura interlinguística de dominação por parte da monarquia dual (entre 1580 e 1640). Ainda que de modo pouco sistemático, as equivalências castelhanas aparecem em anotações esporádicas e muito abreviadas.

Lexicografia dos Jesuítas
Entre as origens da dicionarística portuguesa é devida especial referência à produção lexicográfica dos Jesuítas. Desde a sua instalação em Portugal, nos meados do séc. XVI, empenharam-se na produção de manuais escolares, especialmente voltados para a formação linguística, e criaram assim uma estudiosa escola de gramáticos e dicionaristas. Entre eles,
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avultam os dicionaristas das línguas de missão, no Brasil e no Oriente (lembre-se, a título de exemplo, a laboriosa investigação dicionarística publicada no Japão (Dictionarium, Amacusa 1595; Vocabulario, Nagasaqui 1603), e além destes, no quadro mais específico da lexicografia latino portuguesa, temos notícia de trabalhos de Fernando Pires, António Velez, Manuel de Gouveia, Manuel Barreto, Bento Pereira, Matias de S. Germano, António Franco e José Caeiro. Alguns dos seus textos mantêm-se manuscritos e aguardam um estudo que os apresente ao público e que aprecie o seu interesse para a história da língua e da cultura portuguesa. É o caso do Vocabulario Lusitanico Latino de Manuel BARRETO (c. 1561-1620), “composto na Provincia de Japão”, concluído em 1607, que se guarda manuscrito em 3 volumes na Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa. A obra mais representativa da dicionarística dos Jesuítas ficou conhecida pelo título de Prosódia publicada desde 1634, em sucessivas reedições até 1750 sob a referência autoral de Bento Pereira (1605-1681). Era um volumoso manual escolar composto por um dicionário amplíssimo de latim-português, ao qual se juntou, a partir de 1661, um dicionário de português-latim Tesouro da língua portuguesa (que fora primeiramente publicado autónomo em 1647) e ainda um conjunto de textos paralexicais (Frases portuguesas a que correspondem as mais puras e elegantes latinas; Adágios portugueses com seu latim proverbial correspondente; e uma Tertia pars selectissimarum descriptionum, quas idem auctor vel olim a se compositas, vel a probatissimis scriptoribus emendicatas alphabetico ordine digessit) que serviam para aprendizagem escolar e para exercitação da escrita e da oratória. Neste conjunto deve salientar-se o Tesouro, como fonte de referência para a fixação da nomenclatura lexical portuguesa. Revisto e ampliado em sucessivas reedições durante o século XVII, fixou-se a partir de 1697, com mais de 20.000 entradas, prefigurando já toda a capacidade de inovação do vocabulário moderno (Verdelho 1987). O Tesouro tornou-se uma importante referência normativa para a língua portuguesa; contribuiu certamente para modelar a tradição ortográfica, e foi o primeiro “corpus” do léxico português formado a partir do património textual. Na 1ª. ed. cita-se um elenco de fontes textuais (“Authores portugueses os quaes todos se leram pera fazer este Vocabulario”), onde se nomeiam, entre outros, Camões, João de Barros, Diogo Bernardes, Heitor Pinto, Duarte Nunes de Leão, João de Lucena, Bernardo de Brito. Os Jesuítas publicaram ainda dois pequenos dicionários escolares. O primeiro foi acrescentado, como anexo, em várias edições da Gramática
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de Manuel Álvares, desde o final do séc. XVI, com o título de Index totius artis, atribuído a António VELEZ (1545-1609). O segundo, com o título de Indiculo Universal, (editado em 1716) é um texto onomasiológico traduzido e adaptado do francês para português (Pomey / Franco), e integrase numa galeria pouco preenchida na dicionarística portuguesa, de vocabulários, ou nomenclaturas breves, de tipo enciclopédico, onde avulta a Amalthea (1673) de Frei Tomás da Luz (c. 1633-1713).

O vocabulário de Bluteau
Entre os vocabulários bilingues de origem renascentista e os dicionários monolingues modernos, situa-se a obra mais monumental da lexicografia portuguesa, o Vocabulario Portuguez e Latino (R.Bluteau 1712/28) que ao longo de 10 volumes “in folio”, confeccionados com especiosas encadernações e grande requinte tipográfico, recolhe um abundantíssimo corpus lexical português, com uma pormenorizada explicitação referencial e semântica. O latim é objecto de uma informação muito sumária e tão pouco significativa, no conjunto da obra, que pode ser considerada essencialmente monolingue. O autor, Rafael Bluteau (1638-1734), nasceu em Londres, de família francesa, teve formação francesa e italiana (doutorou-se em Roma), beneficiando de uma enriquecedora experiência de multilinguismo. Enviado para Portugal aos 30 anos como clérigo teatino aprendeu muito rapidamente a língua portuguesa e começou a usá-la numa intensa actividade oratória. Tornou-se um dos arautos da vernaculidade e da normalização lexical e ortográfica, (Prosas portuguezas 1728). O Vocabulário vem também acompanhado por uma alargada reflexão de tipo teórico, apresentada em textos introdutórios e posfaciais em que se repercute o pensamento linguístico e a prática lexical da época. Entre outros aspectos salientaremos: a entronização das variedades linguísticas “nobres” autorizadas pelos bons escritores e pelo prestígio da corte; uma certa relativização do nacionalismo linguístico (todas as línguas “tem singulares excellencias, & cada nação lhe parece o seu idioma melhor de todos” – Prologo “ao leitor estrangeiro” –, Bluteau corrige a opinião da “maior parte dos estrangeiros” que então, na Europa, consideravam que o português não era “lingoa de por si”, mas apenas uma “corrupçam do Castelhano” que não justificaria um investimento dicionarístico, e acrescenta:
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“As lingoas Portugueza & Castelhana são duas irmaans, que tem alguma semelhança entre si, como filhas da lingoa Latina; mas huma & outra logra a sua propria independencia & nobreza, porque nem do Portuguez se deriva o Castelhano, nem do Castelhano descende o Portuguez.” – ib.); o aproveitamento da tradição lexicográfica portuguesa (“Neste exercicio gloriosamente se ocuparam os Barbosas, os Cardosos, os Pereiras” – ib.), juntamente com um amplo reconhecimento da bibliografia europeia da época, anotada num “Vocabulario de vocabularios” (Suplemento, parte II 1728, 535-548); uma síntese crítica da teorização lexicográfica do tempo, com decidida opção por um modelo de dicionário autorizado, locupletíssimo (dando entrada a todas as terminologias técnicas e a um leque amplo de variedades – regionais, cronológicas e sócio-profissionais), mas sem perder as características de um dicionário essencialmente de língua, com recusa da informação característica dos dicionários de história e de nomes próprios. O Vocabulário actualizou e aumentou cinco vezes mais aproximadamente o “corpus” lexical português até então dicionarizado (Verdelho 1987, 163), e passou a constituir uma referência obrigatória e quase definitiva para toda a lexicografia subsequente. A melhor síntese crítica do Vocabulário encontra-se na “Planta” introdutória do Dicionário da Academia apresentada (1780) pelo académico Pedro José da Fonseca. Depois de louvar a obra e de a escolher como fonte privilegiada para o empreendimento da Academia, censura nela os pontos seguintes: “o titulo deste mesmo Vocabulario, a redundancia da sua prolixa erudição, a falta de innumeraveis vocabulos Portuguezes, e de autoridades, que na maior parte das suas accepções qualifiquem os mesmos, que traz, finalmente a mà eleição dessas taes poucas autoridades sem critica nem graduação (...) hum sem conto de definições ou explicações de termos por vários modos defeituosas, muitas etymologias erradas ou pouco seguras, havendo outras certas ou mais provaveis, e não menos citações de Autores Portuguezes impropriamente allegadas, ou em confirmação de significado, para que não servem, ou pelo modo viciado, com que estão transcritas; além de outros defeitos assàs notaveis ainda naquillo mesmo que directamente toca à lingoa Portugueza.” (Diccionario 1793, p. III). Correspondendo a uma intenção do próprio Bluteau, e aproveitando materiais deixados, depois da sua morte, foi decidida a publicação de um Complemento do Vocabulario portuguez de Bluteau que chegou a ser parcialmente impresso sob a orientação e revisão de José Caetano (1690-post
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1757). Todo esse material terá desaparecido, incinerado sob os escombros do terramoto de 1755. L.A. Verney considerando o vulto e a pouca funcionalidade do Vocabulário, sugeria, em 1747, que “seria necessário que algum homem douto abreviasse o dicionário do P. Bluteau e o reduzisse à grandeza de um tomo em folha, ou dois em 4º” (Verney 1949 (1747), I, 128). António de Morais Silva encarregar-se-ia desta tarefa.

Tentativas de elaboração enciclopédica
A acumulação enciclopédica precede a elaboração dicionarística na tradição greco-latina e mantém a sua especificidade ao longo da idade média e durante a idade moderna e contemporânea, até aos nossos dias, com intensificada emergência a partir do séc. XVIII. Todavia, as suas características para-lexicográficas conduziram a uma certa convergência entre a produção dicionarística e a indexação enciclopédica, suscitando mesmo a publicação de dicionários enciclopédicos ou universais (cf. 6). Em Portugal foram conhecidas enciclopédias medievais escritas em latim, delas se guardam testemunhos manuscritos entre o espólio alcobacense da Biblioteca Nacional, e em outros fundos bibliográficos. Alguns desses textos repercutiram-se na língua portuguesa em obras didácticas como as da Casa de Avis, mas não é conhecida entre nós produção enciclopédica própria, até ao final do século XVII, se exceptuarmos o projecto apenas esboçado e inacabado de Rodrigues Lobo (c. 1575-1621), que ensaiou na Corte na Aldeia (1619), uma tentativa de roteiro do saber global do seu tempo. A primeira publicação caracterizadamente enciclopédica foi escrita por Fr. Fradique Espínola (falecido em 1708 em idade muito provecta) com o título Escola Decurial de Varias Lições. (em 12 vols. ou partes: I-1696; II-1697; III e IV-1698; V e VI e VII-1699; VIII-1700; IX1701; X-1702; XI-1707; XII-1721; reeditadas entre 1733/36). Ao longo do séc. XVIII, além da reedição da Escola Decurial, foram publicadas em Portugal outras tentativas enciclopédicas que, integrando-se ainda na sequência das compilações eruditas medievais, acrescentam já algum saber reconhecido durante os sécs. XVI e XVII. Entre essas obras deve destacar-se a de Fr. João Pacheco (1677 – post 1747) Divertimento erudito para os curiosos de noticias historicas, escholasticas e naturaes, sagradas e profanas, descobertas em todas as idades e estados do mundo ate o presente de que foram publicados 4 tomos (I-1734, II/III/
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IV-1738) de um conjunto previsto de 8, (parte do ms. inédito – segundo Inocêncio Silva, vol. 3, p. 430 – subsistirá ainda na Biblioteca Nacional). Muitas séries onomásticas publicadas por Fr. João Pacheco, sobre vários domínios da realidade, foram integralmente compendiadas no Vocabulário de Bluteau. O mais completo projecto enciclopédico, elaborado em português no século XVIII, é devido ao oratoriano Teodoro de Almeida (1722-1804), com o título Recreação Filosófica. Publicado o primeiro volume em 1751, prolonga-se por mais uma dezena de volumes até ao início do século XIX, com reedições dos primeiros, correspondendo certamente a uma apreciável solicitação do público. Trata-se de uma obra de divulgação, redigida segundo o modelo platónico em diálogo, que tem por objecto a instrução sobre “omni re scibile” (“a matéria é tão dilatada que não tem outros limites senão os do universo”), e por motivação a valorização da língua portuguesa na sua adequação para o conhecimento científico, “que não é menos abundante, nem menos propria para explicar estas matérias do que a latina ou francesa. (...) Nunca me agradou a opinião de alguns que fazem as ciências anexas a algum idioma: Sempre julguei que a verdade era natural de todo o mundo: os povos ainda os mais rudes e barbaros a entendem; e não são outra cousa as ciências mais que o descobrimento da verdade” (Recreação, t. I, texto introdutório “Aos que lerem”). Estas súmulas eruditas que se encontram quase totalmente esquecidas, na memória cultural portuguesa, dão testemunho de um horizonte científico e cultural interessante, cheio de informações insuspeitadas e indispensáveis para o estudo da diacronia lexical, especialmente na incorporação e aportuguesamento dos vocabulários técnicos e científicos.

Lexicografia moderna bilingue portuguesa
Na segunda metade do século XVIII e especialmente no fim do século, começaram a surgir os primeiros dicionários modernos monolingues portugueses. Num ambiente de verdadeira efervescência lexicográfica (em que se vinha desenvolvendo também uma nova lexicografia bilingue que punha o português em contacto com as línguas europeias, nomeadamente o francês, o inglês e o italiano), são publicados os dicionários de Bernardo Bacelar (1783), de Morais Silva (1789), da Academia das Ciências de Lisboa (1793), a par de um conjunto de vocabulários especiais, ortográficos
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(J. M. Madureira Feijó 1734, 39, 81, etc.; L. Monte Carmelo 1767; J. P. Freire da Cunha 1769) de arcaismos (Viterbo 1798), de arabismos (Sousa 1789), e ainda outros expressamente orientados para o apoio à prática retórica e literária, dicionários poéticos (C. Lusitano 1765, Diccionario Exegetico 1781), de sinónimos (Bluteau 1712-1728, Suplemento, vol. 2; Saraiva 1821) e de rimas (Guerreiro 1784). 5.1. O franciscano Bernardo de Lima e Melo Bacelar (ou Bernardo de Jesus Maria c.1736 – p. 1787) usou pela primeira vez em Portugal o título moderno Dicionário da língua portuguesa. Trata-se, todavia, de uma obra falhada, que não contribuiu de modo apreciável para a modernização da lexicografia do português. O autor fundamentou o trabalho numa reflexão teórica que repercute o pensamento linguístico da época, valorizando a pesquisa lexical sobre todos os textos documentais do património escritural da língua, mas essa informação não transparece de modo nenhum ao longo do dicionário. Pelo contrário, não se fornece qualquer indicação textual ou histórica para o “corpus” recolhido, a não ser uma abundante e inconsistente etimologia grecizante, com base no pressuposto preliminarmente afirmado, de que o português tem a sua origem na língua grega. Esta perspectiva vicia grande parte da descrição etimológica e semântica do dicionário. O aspecto mais inovador encontra-se na tentativa de sistematizar a apresentação e ordenação da nomenclatura através de uma rigorosa segmentação morfémica. De resto, a obra apresenta ainda outras características que seriam muito louváveis (tais como a leveza e funcionalidade do volume e a abundância do “corpus”, o mais copioso até então recolhido), se a selecção, fundamentação e redacção lexicográficas tivessem suficiente qualidade. O Diccionario de Bacelar, não obstante a sua originalidade, ocupa um lugar modesto e pouco lisonjeiro na história da lexicografia portuguesa. 5.2. António de Morais Silva (1755-1824) é um nome predominante e tutelar na história da lexicografia portuguesa. A sua obra, em sucessivas reedições, acompanhou a língua em Portugal e no Brasil (Morais Silva era natural do Rio de Janeiro), ao longo de dois séculos, como a mais importante referência para o uso lexical. Na sua primeira edição, o Dicionário da língua portuguesa foi dado ao público em 1789 como se se tratasse de uma reedição actualizada e reduzida de dez a dois volumes, da obra de Bluteau (“composto pelo Padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio
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5.3.

de Moraes Silva”). Só na 2. ed. (1813) M. Silva se atribui a plena autoria mas, na realidade, a identificação da sua autoria é incontestável desde a primeira edição. É uma obra muito diferente da de Bluteau na sua concepção, nos seus objectivos, no tratamento do “corpus” e até na própria fundamentação lexicográfica. Estamos perante o primeiro dicionário moderno da lexicografia portuguesa. M. Silva elimina um pouco mais de um quarto das entradas de Bluteau, correspondentes à nomenclatura enciclopédica, onomástica e histórica do grande Vocabulário, e acrescenta aproximadamente um terço de entradas (cerca de 22.000) inteiramente novas, recolhidas em autores “portugueses castiços e de bom século pela maior parte”, configurando assim, no espaço linguístico português, um modelo de dicionário de língua autorizado, com exclusão da informação bilingue e da informação histórica e enciclopédica em geral. Pela boa doutrina e pela funcionalidade da apresentação, o Diccionario de M. Silva teve uma rápida e copiosíssima divulgação ainda em vida do autor, e depois, sempre sob a sua designação autoral, preencheu a mais importante sequência editorial dicionarística portuguesa (cf. 6). Tornou-se assim, um testemunho privilegiado da evolução do vocabulário português e simultaneamente um factor de referência e de padronização. A Academia Real das Ciências de Lisboa, motivada, desde a sua instituição (1779), para os estudos da língua, determinou como um dos seus “utilissimos intentos, que a composição de hum Diccionario da mesma lingoa fizesse parte dos seus primeiros trabalhos”. Em sessão de 4 de Julho de 1780 foi apresentada a “Planta para se formar o Diccionário”, e o primeiro tomo, que haveria de ficar único (com a nomenclatura começada por A-, terminando em “Azurrar”), foi publicado em 1793. Entre os académicos que mais eficazmente participaram na sua composição, destacam-se três professores do Colégio dos Nobres: Pedro José da Fonseca (1737?-1816), que fora já o dicionarista encarregado de produzir os dicionários que deveriam substituir a Prosodia, suprimida pela reforma escolar pombalina, Bartolomeu Inácio Jorge (professor de filosofia e estudioso da literatura portuguesa e latina), e Agostinho José da Costa de Macedo (1745-1822). O primeiro escreveu os textos introdutórios, onde se explicita o “desenho, a or27

dem, contextura e materia do Diccionário “, e foi também o principal coordenador da selecção e do tratamento do “corpus”; o último foi o responsável “in totum” pela compilação e redacção do Catálogo dos autores e obras que se lerão e de que se tomarão as autoridades para a composição do Diccionario da Lingoa Portugueza. Trata-se de uma abundante recolha e apreciação bibliográfica (prolonga-se por 150 páginas “in folio”) sobre os autores “classicos” portugueses e as suas obras, até ao final do séc. XVII. Segundo o testemunho de Inocêncio, são “triviaes os erros, lacunas e confusões de toda a espécie” neste Catálogo, e o seu autor limitou-se “a extrahir servilmente da Bibliotheca de Barbosa os nomes dos escriptores e indicações das obras” (I. Silva 1858, vol. 2, 55). O Diccionario da Academia dá testemunho de um saber lexicográfico moderno, apoiado em boa reflexão teórica, esclarecida pela experiência portuguesa e estrangeira. Oferece, além da copiosa nomenclatura de “vocabulos puramente Portuguezes” (Base VIII), rigorosamente alfabetados, uma boa estruturação dos artigos correspondentes a cada entrada. Compõem-se da classificação gramatical, com informações complementares sobre o género, o número, as irregularidades e as regências dos verbos; indicação sobre o uso ou variedade (“facultativa, forense, mechanica, de provincia, vulgar, comica, proverbial, antiga ou antiquada”); a “definição, explicação ou descrição”; a etimologia; as variantes ortográficas (incluindo as variantes diacrónicas); a textualização autorizada; a abonação de epítetos para os substantivos, e de advérbios de modo (em -mente) para os verbos; e, “no fim de cada vocabulo”, acrescentam-se “os Adagios ou Proverbios, que lhe tocarem” (Base XVII) (Casteleiro 1981). O Diccionario da Academia é o mais significativo empreendimento da exercitação normativa sobre a língua portuguesa, foi suscitado num momento de teorização linguística intensa, de teor nacionalista. O purismo, a defesa e o enriquecimento do idioma pátrio dominam o pensamento linguístico do final do séc. XVIII. O bom uso e as boas palavras portuguesas polarizam o convívio arcádico e ocupam as actividades da Academia das Ciências, que promove, a propósito, vários concursos, não só para a elaboração da gramática filosófica, mas também para a pesquisa lexical e lexicográfica que devia acompanhar a elaboração do grande Dicionário. Sirva de exemplo,
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5.4.

o trabalho de António das Neves Pereira († 1818) Ensaio critico – “Sobre qual seja o uso prudente das palavras de que se servirão os nossos bons Escritores do Seculo XV, e XVI; e deixarão esquecer os que depois se seguirão até ao presente” (Pereira 1793). No âmbito deste pensamento linguístico se enquadram também os vocabulários ortográficos acima referidos, bem como a obra de Rosa Viterbo e os vocabulários poéticos e para-literários, que merecem aqui um breve apontamento. O Elucidario (cf. Viterbo 1798/1799) de Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo (1744-1822) feito com base (inconfesso furto) nos ms. de Fr. Bernardo da Encarnação (Fiúza 1965, 53 e s.), é um valioso (apesar de incompleto) dicionário do português arcaico, compilado para facilitar a leitura do texto antigo documental. Forma, juntamente com a obra (ainda actual) de Fr. João de Sousa (1734-1812), Vestigios da língua arábica em Portugal, ou Lexicon etymologico de palavras e nomes portuguezes, que tem origem arabica (1789) o primeiro conjunto de lexicografia de tipo filológico, testemunhando igualmente o interesse desta época pelos estudos lexicográficos e metalinguísticos. Sumamente interessantes, pela sua originalidade dicionarística e pelo seu interesse linguístico, são os vocabulários feitos para socorro da prática literária. O Diccionario poetico (1765) de Cândido Lusitano (nome arcádico de Francisco José Freire 1719-1773) prolonga na língua portuguesa a tradição dos dicionários de sinónimos e de epítetos latinos (nomeadamente o Gradus ad Parnassum) que lhe serviram de modelo e também de fonte para numerosas formas que transfere do latim ao português, contribuindo para acentuar a latinização da língua e da poesia portuguesa (Verdelho, E. 1983). Entre os dicionários para-literários do séc. XVIII tem sido esquecido o Diccionario exegetico (1781), “dado ao publico por hum anonymo” e que pode quase certamente ser atribuído ao tipógrafo e editor Francisco Luís Ameno (1713-1793). Trata-se de um dicionário in 8º pequeno, com cerca de 6.000 entradas distribuídas ao longo de 296 páginas, mais 15 com uma breve colecção de “Adagios selectos da lingua portugueza”. A nomenclatura foi cuidadosamente escolhida, segundo previne o autor no “Prolegomeno”, entre os “vocabulos menos vulgares”, “os vocabulos mais castigados e de
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que so usão os Doutos”. A par dos numerosos latinismos, grecismos, tecnicismos (sobretudo no âmbito da terminologia da retórica) este vocabulário oferece-nos o mais significativo produto da teorização linguística e poética daquele tempo, com grande relevo para o critério purista e para a valorização da literariedade ao nível da selecção lexical. Não teve reedições mas parece que era obra muito procurada ainda no séc. passado (I. Silva 1858-1958, vol. 2, 135). O Diccionario de consoantes (1784) de Miguel do Couto Guerreiro (c. 1720-1793) é também um dos dicionários especiais auxiliares da exercitação literária, que começaram a aparecer na lexicografia portuguesa, a partir desta época. O apoio à prática versificatória era até então procurado em obras estrangeiras, e nomeadamente no tratado e glossário do espanhol Rengifo de que se conhecem exemplares em bibliotecas portuguesas. O Dic. de rimas de Guerreiro vem integrado num conjunto editorial com o título Tratado da versificação portugueza, composto por três partes: um texto breve introdutório, sobre a técnica versificatória, segue-se o dicionário que se estende ao longo de 440 páginas (in 8º pequeno), e completa o volume um breve texto posfacial, em verso, sobre a teoria poética. As listas infindáveis de formas (mais de 30.000), subordinadas pela sua estrutura rimática, poderão fornecer preciosas informações para a história do vocabulário e do universo poético e também para a história da língua, nomeadamente no que respeita à inovação e à criatividade lexical. Sirva de exemplo o conjunto de formas subordinadas à rima -ismo que anda pela meia centena. Este paradigma flexional iria desenvolver-se sobretudo no séc. XIX. A lexicografia de apoio à exercitação poética foi preenchida nos sécs. XIX e XX pela edição de vários dicionários de rimas (Eugénio de Castilho, Costa Lima, Visconde de Castelões, Duque-Estrada, Guimarães Passos – os dois últimos brasileiros) mas, até ao séc. XIX, parece ter sido muito escassa a sua produção em Portugal. Do final do séc. XVIII, ou um pouco antes, guarda-se manuscrito (Bibl. Geral da Univ. de Coimbra, ms.1082) um rimário feito sobre toda a obra de Camões (Verdelho 1984, 185). Neste conjunto de lexicografia para-literária, caberá ainda uma referência aos dicionários de sinónimos que entraram no espaço metalinguístico português pela mão de Bluteau. Este notável patrono
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da dicionarística portuguesa acrescentou à parte II do Suplemento do Vocabulário (1728), um Vocabulario de Synonimos, e Phrases Portuguezas composto por mais de 2.000 entradas. Bluteau repercutiu em Portugal modelos recolhidos no contacto com o espaço cultural das suas raizes (nomeadamente dos franceses: A. de Montméran – Synonymes et Epythètes -1645, e Girard – Justesse de la Langue Française. Traité de Synonymes -1718) e deu assim origem a uma especialização lexicográfica que tem uma assinalável importância para a exercitação literária em língua portuguesa e que foi continuada pelas obras do Cardeal Saraiva (1821), de José da Fonseca e Inácio Roquete (1830/1850, teve numerosas reimpressões até à actualidade), de Eduardo de Faria / Lacerda (1849/58), João Felix Pereira (1885) e vários outros (Verdelho, E. 1981). Os dicionários de sinónimos são expressamente orientados para o apoio à escrita elaborada, literária ou para-literária. São obras “que o homem de bom gosto poderá consultar com fruto, e em que o literato e o escritor público acharão mais recursos para variar a frase e dar elegância ao estilo, do que em nenhum outro escrito deste género” (Roquete, Introdução ao Dic. de Synonymos).

Lexicografia monolingue dos séculos XIX e XX
A produção lexicográfica monolingue portuguesa do século XIX foi bastante abundante, sem todavia atingir um nível de qualidade e quantidade comparável ao de outras línguas europeias. Numa apreciação global, pode caracterizar-se pelos seguintes aspectos: 1) presença tutelar do dicionário de Morais Silva, que teve 7 reedições ao longo do século (1813, 23, 31, 44, 58, 77/78, 91), sempre “acrescentadas e melhoradas”, segundo a declaração dos editores, e que serviu de fonte e de modelo teórico para os restantes dicionários ; 2) divulgação do dicionário de língua e sua adequação a manual escolar; 3) aparecimento de alguns grandes dicionários portugueses; 4) escassa renovação teórica e insuficiente pesquisa lexicográfica no âmbito da língua portuguesa.
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6.1.

6.2.

O Dicionário da língua portuguesa composto por António de Morais Silva, ofereceu à lexicografia portuguesa um característico dicionário de língua, que se manteve até ao presente como exemplar manifestação de uma persistente tradição lexicográfica voltada para a recolha do léxico patrimonial e para a verificação do seu uso autorizado. As sucessivas reedições limitaram-se a actualizá-lo com acrescentos no domínio da nomenclatura e com mais algumas citações de novas palavras e frases que o “uso moderno dos bons escritores de todo o género” foi adoptando. O autor participou neste processo enriquecedor e actualizador, de maneira exclusiva até à 2a. ed. e, de modo mais indirecto, na 3a. (1823), que saiu “mais correcta e accrescentada de cinco para seis mil artigos” sob a revisão de Pedro José de Figueiredo (1762-1826), e na 4a. (1831) que, saindo embora póstuma, foi “reformada, emendada e muito acrescentada” com base em manuscrito do próprio M. Silva, e “posta em ordem, correcta e enriquecida de grande numero de artigos novos e dos synonimos” por Teotónio José de Oliveira Velho (1776?-1837?). Estes reeditores, que participaram de maneira activa no processo de mutação política vivido em Portugal a partir de 1820, deram ao Dicionário um valor testemunhal sobre a importante renovação do léxico da vida pública, das ideias e das instituições portuguesas. O Dicionário de M. Silva, com um formato sempre volumoso, dividido em 2 grossos tomos, deveria ser um livro caro, pouco acessível ao público em geral e de manuseio pesado. Não deixou mesmo assim de ter uma larga recepção como se pode constatar pelo reconhecido sucesso editorial. e por testemunhos frequentes entre os escritores e publicistas do séc. XIX (nomeadamente por Camilo Castelo Branco) que o designavam simplesmente por “o Morais”, num processo de antonomásia que revela bem a supremacia desta obra no panorama dicionarístico português. Entretanto, a par deste e de outros dicionários de vulto, novas exercitações de lexicografia monolingue são procuradas num mercado que se alarga consideravelmente ao longo do séc. XIX, acompanhando a democratização da frequência escolar e a generalização da comunicação pela escrita, com especial relevo para a literatura romanesca e para o jornalismo. Os dicionários práticos, funcionais e de fácil utilização, instituíramse, a partir do início do séc. XIX, como livros escolares e manuais auxiliares do uso quotidiano da língua. O primeiro publicado em

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Portugal foi o “Novo Diccionario da Lingua Portugeza, composto sobre os que até o presente se tem dado ao prelo, accrescentado de varios Vocabulos extrahidos dos Classicos Antigos, e dos Modernos de melhor nota, que se achão universalmente recebidos. Lisboa, na Typografia Rollandiana. 1806. Com Licença da Meza do Desembargo do Paço.” O autor anónimo, claramente motivado pelo sentido prático da sua obra, esclarece, num breve prólogo (cabe na página inicial), que, “seguindo o exemplo de bons Diccionaristas”, omitiu neste dicionário “as numerosas citações e allegações que occuparião huma boa parte do seu volume”, e limitou-se a “dar a cada vocabulo as significações proprias e translatas, que se achão em nossos classicos e são conhecidas dos eruditos”. Elaborou assim um volume in 4º pequeno, que não vai além das 850 páginas, (não tem numeração de página) e que oferece cerca de 30.000 entradas, distribuídas, com grande legibilidade, em duas colunas. O anonimato poderá justificar-se pela indissimulável proximidade em relação ao texto de M. Silva. Este dicionário teve pelo menos duas reedições (1817 e 1835) e deu verdadeiramente início à lexicografia portuguesa monolingue de uso geral. Nas origens da lexicografia monolingue portuguesa podem ainda incluir-se: uma Encyclopedia Portugueza (1817) por N.P.O.S.D.E.S (Nicolau Peres ?) que não passou do 1º.tomo; um Diccionario Universal da Lingua Portugueza “Por uma sociedade de Literatos” iniciado em 1818 e retomado em 1845 e que ficou igualmente inacabado (cf. infra, 6.3.1); e um Diccionario geral da lingua portugueza de algibeira “por tres Literatos Nacionaes” (1818-1821). Esta obra sofreu o desapreço de Inocêncio (cf. I. Silva, vol. 2, 136) e provavelmente também do público, porque foi necessário relançá-la com o rosto de uma 2ª. edição fictícia datada de1839. Trata-se em todo o caso de um interessante documento lexicográfico, pela época em que foi feito, pela renovação e originalidade da nomenclatura (com espaço criterioso para a erudição, para os tecnolectos e para a neologia em geral), pela precisão das definições e até pela redacção dos artigos. A produção de dicionários portugueses transferiu-se entretanto, na sua maior parte, e durante várias décadas, para França, e mais precisamente para Paris, procurando, provavelmente, suprir a ausência de recursos tipográficos suficientes para corresponder em Portugal
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à crescente solicitação deste género de textos. Esta circunstância coincide com a estadia em França (onde já viviam ou passaram a viver) alguns dos mais operosos dicionaristas portugueses, em condições de alargado contacto com a lexicografia estrangeira e de inevitáveis influências sobretudo francesas. Ali surgiram os decisivos modelos dos dicionários práticos, publicados por José da Fonseca e por Roquete, entre outros, e o primeiro dicionário etimológico da língua portuguesa, assinado por Constâncio. Francisco Solano Constâncio (c. 1772-1846), que publicara já 4 eds. de um dicionário bilingue (franc.-port. e port.-franc., 1811/20/28/34), editou também um Novo diccionario critico e etymologico da Lingua Portugueza (1836), um dic. “mais amplo, completo e util que os ja existentes, posto que menos volumoso, e mais comodo no preço” (do texto prefacial “Advertencia”). Trata-se de um volume in 4º grande, com perto de mil páginas, que, na realidade, excede um pouco a expectativa de um dicionário prático, quer pela sua configuração, quer pelas características da sua composição e pelos elementos de informação linguística que valoriza, especialmente a abundante acumulação sinonímica (“com reflexões criticas”), que preenche as glosas, e sobretudo a análise etimológica. Sobretudo neste aspecto, o dicionarista revela um bom conhecimento da lexicografia europeia do tempo (a própria designação de “etimológico” começa a aparecer em dicionários franceses da década de 30). Cita na “Advertencia”, aludindo à dificuldade de estabelecer boa doutrina etimológica, a obra do “profundo Horne Tooke” que “nem sempre acertou com a verdadeira origem das vozes” e os “Diccionários inglezes de Johnson, e o recente de M. Webster, em Francez a obra de Court de Gébelin e o Diccionario de M. Dubois de Roquefort, o italiano da Crusca, assim como o allemão de Wachter, e os trabalhos dos eruditissimos R. e H. Etienne e do celebre Vossio.” Todavia, o trabalho de Constâncio marca, neste ponto, e de um modo geral no respeitante à formação das palavras, uma apreciada inovação na história da lexicografia portuguesa. Sendo uma obra mista entre o prático e o erudito, pode considerar-se, em todo o caso, mais próxima do dicionário manual, e assim foi interpretado pelo público, visto que a solicitação comercial lhe garantiu mais de uma dezena de edições (quatro até 1852). A obra mais divulgada da lexicografia portuguesa parisiense e que pode ser tomada como referência modelo dos dicionários práticos,
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escolares, foi o Diccionario da Lingua Portugueza de José da Fonseca, “feito inteiramente de novo e consideravelmente augmentado, por J.-I. Roquete”, publicado em 1848. José da Fonseca (c.17881866) assinara já antes (Paris 1829) a publicação de um Novo Diccionario da Lingua Portugueza, recopilado de todos os que até o presente se tem dado a luz”. Este dicionário foi reproduzido em varias reimpressões sem alteração (1830, 1831, 33, 36, 40, 43) e acompanhado, a partir de 1833, por um Diccionario de Synonymos, do mesmo autor como se fosse um 2º.vol. de uma única obra. Mas foi certamente José Inácio Roquete (1801-1870), apresentado como segundo autor, o principal responsável pela qualidade e funcionalidade do novo dicionário, publicado a partir de 1848, juntamente com o 2º vol. – Diccionario dos synonymos, poetico e de epithethos da lingua portugueza. Os dois volumes mantiveram sempre uma certa autonomia. O 2º. tem sido profusamente reeditado até aos nossos dias, mas o 1º., que especialmente agora nos interessa, parece ter sido a obra que melhor correspondeu ao uso quotidiano, à solicitação popular e à institucionalização do estudo da palavra, no ensino secundário liceal. O seu espaço de recepção alargou-se muito para além dos “amantes da Litteratura Portugueza” (que os editores do Dic. de M.Silva identificavam como seus destinatários ), e, segundo o esclarecimento do autor, no “Prologo”, passou a integrar “o homem de sociedade, o estadista, o orador parlamentar, o advogado, o publicista, o commerciante, o estudante de humanidades que não têem tempo para longas investigações”. Todos estes devem dispor “d’um diccionario que lhes explique succintamente a significação das palavras portuguezas, e em que achem promptamente o que basta para bem conhecer a sua lingua e evitar frequentes erros”. Roquete assumiu no “Prologo” da sua obra, a concepção do manual essencialmente utilitário : “Se o primeiro livro d’uma nação é, como disse um sabio francez, o diccionario de sua lingua, o livro de mais geral utilidade sera um diccionario manual em que, sem omittir nenhum dos vocabulos antigos e modernos, que são verdadeiramente da lingua, se offereção aos nacionaes em volume commodo e portatil todas as accepções de bom cunho, desembaraçadas de muitas antiquadas e obsoletas que tanto pejão os diccionarios maiores, e que o illustrado uso tem reprovado como superfluas e de mao gosto”. O Dicionário de Roquete, com as suas 50.000 entradas, com a
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simplificação dos artigos, com uma renovada informação gramatical (que inclui, entre outros aspectos, os regimes e as conjugações dos verbos irregulares), com uma opção ortográfica moderna e exemplar, com um preço certamente acessível (visto que foi reimpresso durante anos sucessivos, pelo menos até 1875), tornou-se o mais influente modelo para esta abundante produção dicionarística, que generalizou o uso do dicionário na escola, em casa e nos locais de trabalho. Eça de Queirós, dizem, manuseava o “Roquete” com assiduidade. Ainda em Paris, entre 1858 e 1879, foi impresso e reimpresso, em formato de bolso, um “Novo diccionario portatil da lingua portugueza, compilado dos diccionarios mais modernos”, sob a direcção de Miguel Martins Dantas († 1910). Trata-se de um dicionário de sinónimos. Os artigos são preenchidos de modo esquemático com equivalências sinonímicas, recorrendo raramente a uma simplificada redacção lexicográfica para explicar as palavras de significação gramatical. A tradição dos dicionários de língua breves e leves teve, no final do século passado e no início do presente, um renovado impulso, especialmente motivado pela discussão ortográfica, pela actualização dos estudos filológicos e linguísticos, e sobretudo pelo incremento da escolarização. A par da designação geral de “Dicionários da língua portuguesa”, apresentam em subtítulos um conjunto de qualificações que apontam no sentido da valorização das informações linguísticas (“etimológico”, “morfológico”, “ortoépico”, “ortográfico”, “prosódico”), da sua orientação escolar (“académico”, “elementar”, “do estudante”, “escolar”) e da sua acessibilidade comercial (“popular”, “portátil”, “prático”). Poderão citar-se, neste âmbito, entre vários outros, os trabalhos de António José de Carvalho (?) e João de Deus (1830-1896), Francisco Adolfo Coelho (1847-1919), Agostinho de Campos (1870-1944), Francisco Torrinha (1879-1955), Augusto Moreno (1870-1955). A divulgação do dicionário de língua e a sua adequação ao uso quotidiano e à exercitação escolar, constitui o facto mais relevante na história da lexicografia portuguesa dos séculos XIX e XX. O dicionário, omnipresente e sempre disponível, instituiu-se como texto fortemente padronizador da língua e como chave de acesso à significação de um vocabulário cada vez menos apoiado pela aprendizagem do latim, e cada vez menos imposto como exercício de memória, na programação escolar.

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A democratização do dicionário não esgotou, todavia, a reelaboração e o aprofundamento da pesquisa lexicográfica sobre a língua portuguesa. Em Portugal surgem, a partir da segunda metade do séc.XIX, alguns dicionários que, sem atingirem dimensões impressionantes, podem ser considerados grandes, tendo em conta o espaço editorial, científico e nomeadamente o modesto investimento filológico no âmbito dos estudos da língua portuguesa. Entre eles, além do dic. de M. Silva, acima referido, podem incluir-se o Novo diccionario da lingua portugueza (1849) de Eduardo Faria e a correspondente sequência editorial de José Maria de Araújo Correia de Lacerda; o Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Lingua Portugueza (1871/74) iniciado pelo Dr. Frei Domingos Vieira; o Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza (1881) feito sobre um plano de Francisco Júlio Caldas Aulete; o Diccionario Universal Portuguez Illustrado (1882ss.) editado por Henrique Zeferino de Albuquerque; o Novo Diccionario da Lingua Portuguesa (1899) por Cândido de Figueiredo; o Dicionário Geral e Analógico da Língua Portuguesa (1948/52/58) por Artur Bivar; e o Grande Dicionário da Língua Portuguesa (1949/59) sob o nome autoral de António de Morais Silva. Estudos monográficos sobre a elaboração destes dicionários (até agora quase totalmente inexistentes), e em especial sobre os problemas suscitados pela sua dispendiosa confecção material, muito poderiam contribuir para o esclarecimento da história da tipografia portuguesa e para a compreensão do ambiente cultural e em especial da linguisticografia. Estas obras, ainda que possam ser relacionadas com modelos da lexicografia estrangeira, afirmam uma certa originalidade no espaço linguístico português. Têm entre si valor desigual e características muito diferentes, e pode dizer-se, numa apreciação global, que preenchem com bastante mérito, a lexicografia de uma língua que não chegou a produzir, durante dois séculos, um dicionário completo de academia.

Dicionários universais
Entre o conjunto de obras citadas, a que oferece menos originalidade é o dic. universal, editado por H. Z. de Albuquerque, coordenado e revisto primeiro por Francisco de Almeida (1838-1918) e a partir do 2º
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tomo por José Fernandes Costa Júnior (1848-1920), é um trabalho de tipo enciclopédico, como o título indica, e não especificamente linguístico. Foi elaborado segundo o plano do Larousse, traduzindo em grande parte o texto francês. Teve todavia, a colaboração de “principaes escriptores” portugueses (entre os quais Camilo C. Branco que louvou publicamente a realização) e brasileiros. Por sua vez, a informação linguística, lexicográfica e gramatical, parece bastante criteriosa e abundante, com algum excesso de terminologias técnicas. A relação com os dicionários Larousse continuarse-ia, na lexicografia portuguesa com o Novo Diccionario Encyclopedico Luso-Brasileiro organizado e publicado pela Livraria Lello em 2 vols. e com muitas reedições. Outros dicionários universais foram publicados em Portugal. Alguns ficaram incompletos, mas reuniram ainda assim, um material lexicográfico considerável. O primeiro de entre eles foi o “Diccionario Universal da Lingua Portugueza, no qual se acham: -1º Todas as vozes da lingua portugueza antigas e modernas, accentuadas segundo a melhor pronuncia, com as diversas accepções, etc. -2º os nomes proprios da fabula, historia e geographia antiga. -3º todos os termos proprios das artes, sciencias, officios, etc. -4º a etymologia das palavras, etc.” (Lisboa, na Imp. Régia, distribuído por cadernos, com interrupções entre 1818 e 23) parece ter terminado na letra E- (“Ezteri...” p. 895). Dizia-se feito “por uma sociedade de litteratos” e julga-se que a edição foi inicialmente empreendida por Nicolau Perez (espanhol) e continuada por Inocêncio da Rocha Galvão († c. 1864 no Rio de Janeiro). Um segundo Diccionario Universal da Lingua Portugueza começou a ser publicado em 1844, (Lisboa, tip. António José da Rocha), por iniciativa do editor José António Coimbra, e sob coordenação e redacção de Pedro Ciríaco da Silva († c. 1856) que tinha já colaborado no de 1818. A obra foi distribuída em “cadernetas” soltas com grandes interrupções até, pelo menos, 1859. Terá terminado pela letra L-, aquém das 1800 páginas. O dicionário de Eduardo de Faria (1823-1860?) anunciava-se também como um dicionário universal, logo na página de rosto, em que, a par da informação linguística, naturalmente predominante (completada por um dic. de sinónimos anexado a quase todas as edições), se acrescentava também, além das terminologias técnicas e científicas, uma nomenclatura toponímica – “Contendo todas as vozes da lingua portugueza, antigas ou modernas, com as suas varias accepções, acentuadas conforme à melhor pronuncia, e com a indicação dos termos antiquados, latinos, barbaros ou
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viciosos. – Os nomes proprios da geografia antiga e das principais terras de Portugal. – Todos os termos proprios das sciencias, artes e officios, etc., e sua definição analytica.” A informação enciclopédica era muito diminuta nesta primeira edição. Todavia, a obra, não obstante a inospitalidade crítica com que foi recebida, beneficiou de uma importante e inopinada divulgação com 7 reedições entre 1849 e 1874 (uma no Brasil). Correspondendo à crescente procura do público pela informação histórico-literária (verificava-se, nesse tempo, uma grande rarefação e carência de lexicografia enciclopédica em Portugal, até Garrett foi convidado, em 20/1/1843, para cooperar na feitura de uma enciclopédia), os editores alargaram a nomenclatura histórica, literária, e enciclopédica em geral, com prejuízo da informação linguística. Nas últimas duas edições, assinadas por D. José M. A. A. Correia de Lacerda, (que reelaborara já grande parte do texto de Faria, desde a ed. de 1858) a obra passou mesmo a ser apresentada com o título de “Diccionario Encyclopedico ou Novo Diccionario da Lingua Portugueza, para uso dos portuguezes e brazileiros, o mais exacto e mais completo de todos os Diccionarios até hoje publicados.” E. de Faria (sem escrúpulos de atribuição de autoria e de propriedade literária, segundo a opinião dos seus contemporâneos) compôs um característico dicionário de acumulação de nomenclaturas, como ele próprio confessa no “Prologo”: “Reuni todos os Diccionarios Portuguezes que pude alcançar e tomando por base o melhor de entre elles, acrescentei-lhe todos os termos que não continha e que achei nos outros”. Os artigos não têm citações, mas oferecem, por vezes, boas análises do espectro semântico dos lexemas. A obra foi muito censurada por jornalistas e estudiosos do tempo (entre outras “accusações gravissimas” considerou-se o trabalho “uma compilação feita ao acaso”, denunciou-se o excessivo aproveitamento do francês Bescherelle, anotaram-se “definições confusas, muitas vezes defeituosas nas significações dos vocabulos, e disparatadas quasi sempre nas dos termos technicos ou scientificos; contradições flagrantes nas etymologias; etc.”; cf. I. Silva 1858-1958, vol. 2, 222), mas não deixou de marcar uma forte presença no espaço dicionarístico português, e pode ser tomada como um excelente repositório para a história da língua e do vocabulário da técnica e da ciência nos meados do séc. XIX. A última grande tentativa portuguesa de elaboração de um dicionário universal teve lugar ja no inicio do séc. XX. Trata-se da Encyclopedia Portugueza Illustrada dirigida por Maximiano Augusto de Oliveira Lemos (1860-1923). Ao longo de 11 grandes volumes dá entrada a uma larga no39

menclatura linguística com indicação de muitas etimologias, com registo de frases fixas e com bastantes abonações. As últimas grandes tentativas portuguesas de elaboração de grandes dicionários universais tiveram lugar já no início do séc. XX. Salientamos entre eles a Encyclopedia Portugueza Illustrada (cf. Lemos s. d.) dirigida por Maximiano Augusto de Oliveira Lemos (1860-1923). Ao longo de 11 grandes volumes dá entrada a uma larga nomenclatura linguística com indicação de muitas etimologias, com registo de frases fixas e com bastantes abonações. Com o mesmo número de volumes, foi publicado em fascículos, ao longo da 2a década, e destinado a um público popular, um Diccionario Universal Illustrado Linguistico e Encyclopedico, dirigido por Eduardo de Noronha, em que são predominantes a informação e nomenclatura enciclopédicas (cf. Noronha s. d.). Poderá ainda acrescentar-se uma referência à Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que é também um dicionário de língua e que iniciou a publicação em 1935, prolongando-se por 40 volumes até 1960.

Dicionario tesouro de Domingos Vieira.
A obra mais volumosa, de mais trabalho original e mais especificamente linguística, entre a lexicografia portuguesa do séc. XIX, é o Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Lingua Portugueza pelo Dr. Frei Domingos Vieira († 1854), publicado em 5 vols., no Porto, pelos livreiros Ernesto Chardron e Bartolomeu H. de Moraes, 1871 (aliás 1872), 1873, e 1874. O manuscrito de D. Vieira foi retomado, concluído e preparado para publicação por um conjunto de colaboradores, entre os quais foram dados a conhecer os nomes de Adolfo Coelho (1847-1919), já então conceituado como um dos “introdutores da ciência filológica em Portugal”, e de Teófilo Braga (1843-1924). O dicionário apareceu a público, anunciado como um trabalho de ciência renovada. O 1º tomo abre com dois importantes textos de informação teórica e histórica, de cada um destes autores, respectivamente: “Sobre a lingua portugueza” e “Sobre litteratura Portugueza”. No início do 2º tomo, de modo a “não engrossar” a introdução do 1º, apresenta-se uma “Chrestomathia historica da lingua portugueza”. Estes textos, ainda que apresentados com uma certa autonomia em relação ao “corpus” lexicográfico, pressupõem entre os objectivos da organização do dicionário, um es40

clarecido predomínio da componente linguística e simultaneamente a escolha do texto patrimonial, com relevo para o literário, como fonte privilegiada para a pesquisa e caracterização do fundo lexical da língua portuguesa. A nomenclatura aparece multiplicada com formas flexionadas de vários lexemas, documentadas frequentemente em extensas textualizações literárias. Um verbo, por exemplo, pode dar lugar a uma série de entradas, a partir das suas flexões, para além da forma do infinitivo, que se distribuem pela respectiva ordem alfabética, com as suas glosas plenas de abonações de “bons autores”. Também esta obra suscitou ásperas dissensões no ambiente cultural português, mas a maioria dos literatos receberam-na auspiciosamente. Camilo C. Branco é um dos apologistas, observa que Fr. D. Vieira deixara o trabalho apenas bosquejado “e muito longe da sua plenitude em relação a este nosso tempo muito mais exigente em estudos filologicos do que na epoca em que o douto frade organisava o seu vocabulario” e acrescenta, justificando a excessiva extensão das transcrições que autorizam algumas formas: “Quem procura aquilatar o valor proximo e remoto da propriedade de um termo, de certo se não enfada com vel-o repetido e abonado com a authoridade de vários authores. Esta satisfação é uma das grandes benemerencias do Grande Diccionario”. (Primeiro de Janeiro 1875, 1 de Abril). Entre as críticas da época, além da incriteriosa aceitação de formas “hapax” como “abrixa” e “agudar”, a que mais avulta é a que lhe atribui uma excessiva dependência da informação etimológica alheia e das definições do francês Littré. O Grande Dicionario de D. Vieira, no que respeita à sua técnica lexicográfica, sofre de uma certa disformidade na selecção e estruturação da nomenclatura e no equilíbrio das citações (tão extensas que, mais do que um dicionário, parece às vezes uma antologia literária), e ainda neste aspecto, o que mais lhe retira modernidade e lhe prejudica o seu aproveitamento actual é a deficiente qualidade e a insegurança no que respeita à lição do texto patrimonial citado nas abonações. Os autores estavam condicionados por um leque de edições pouco cuidadas sob o ponto de vista filológico, e em número relativamente reduzido, se atendermos ao espaço escritural da língua portuguesa entretanto recuperado.

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Dicionario contemporaneo Caldas Aulete.
Publicado em 1881, em Lisboa na Imprensa Nacional, o “Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza – Feito sobre um plano inteiramente novo”, foi o primeiro grande dicionário do séc. XIX que se manteve no mercado até à actualidade. Foi na sua maior parte elaborado por António Lopes dos Santos Valente (1839-1896), dando seguimento a um plano de Caldas Aulete (1823-1878) que faleceu quando a redacção do dicionário que ele dirigia tinha apenas chegado ao final da letra “A”. O seu nome ficou todavia a prevalecer como referência autoral. No texto introdutório (23 páginas longas), sob o título de “Plano”, Caldas Aulete esboça uma incipiente reflexão lexicográfica que merece leitura, sobretudo pelo diagnóstico crítico sobre “o estado em que se acham os estudos da sciencia lexicologica” portuguesa. Trata-se de uma análise breve e não sistemática, nela se comparam excertos dos dicionários de Roquete, de Lacerda e de Morais, e se recolhem ainda muitos exemplos de erros de nomenclatura e de definições deficientes, repetidos em sucessivas edições, visto que os “diccionarios portuguezes geralmente adoptados no uso e no ensino são machinalmente copiados uns dos outros” (p. I). Este texto prefacial de Aulete (suprimido em todas as edições subsequentes), define alguns objectivos do trabalho e adianta esclarecedoras informações sobre as suas características, nomeadamente no que respeita ao âmbito muito alargado da sua nomenclatura. Não se trata de “um diccionario exclusivamente classico”, limitado aos “vocabulos abonados pelos mestres da lingua”, pelo contrário, acolhe “os neologismos sanccionados pelo uso e pela necessidade, e os termos technicos, que, com o desenvolvimento da instrucção publica, tem passado para a litteratura e para a linguagem da conversação” e também “os archaismos, que com mais frequencia se encontram nos classicos dos seculos XVI e XVII, e aquelles que são radicais de palavras derivadas existentes na lingua actual” (p. I). Na explicitação do “plano”, o autor distingue 4 “secções “ ou parâmetros lexicográficos (p. XVI/XXIII). 1) A “formação” das palavras, que inclui a via popular, a via literária (erudita), e ainda os estrangeirismos, os neologismos resultantes do percurso histórico da língua, a onomatopeia, e as terminologias da ciência e da técnica. A propósito da “formação”, reflecte-se também sobre a analogia e sobre a etimologia. 2) A “orthografia” que se pretende predominantemente “fonética” para as “palavras populares” e “etymologica” para os “termos de origem erudita e historica”.
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3) A “pronunciação”, para a qual se invoca a autoridade de António J. Viale e Gonçalves Viana, e que se baseia no princípio simplista e tradicional, lapidarmente enunciado: “São as pessoas eruditas e illustradas da corte as que dão a lei e estabelecem o typo da mais aprimorada pronunciação das linguas”. Parece ter tido escassa repercussão na feitura do dicionário . 4) A “significação” que se limita a uma brevíssima reflexão sobre as variações diacrónicas e estilísticas. Além destes aspectos, o “plano” acrescenta ainda algumas orientações para o tratamento da restante informação de índole gramatical e lexicográfica. O dicionário de Caldas Aulete pode caracterizar-se em relação à dicionarística do seu tempo, por uma importante actualização da nomenclatura lexical da língua portuguesa, por um esforço de rigor na utilização e nas referências das abonações, pela informação etimológica e gramatical e por uma cuidadosa classificação das variedades diacrónicas, geográficas e estilísticas. O seu mérito pode em parte ser aferido pelo sucesso editorial. Teve as três primeiras edições em Portugal (1881, concluída por Santos Valente; 1925, sob a direcção de J. Timóteo da Silva Bastos; 1948/52, actualizada por Vasco Botelho de Amaral e Frederico Guimarães Daupiás) e, pelo menos 5 edições no Brasil, a partir de 1958, consideravelmente aumentadas.

O Novo diccionario da lingua portuguesa de Cândido de Figueiredo
Publicado justamente no fim do século, completa o ciclo dos dicionários de acumulação, que se caracterizam pela excessiva valorização da quantidade da nomenclatura. Neste dicionário, segundo o testemunho do autor, na “Conversação preliminar”, retomam-se muitos textos do património escritural português ainda inexplorados pelos dicionaristas anteriores, especialmente de autores de teatro (António Prestes, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Simão Machado), de autores modernos (José Agostinho, Castilho, Latino, Herculano, Camilo) e outros (“Só em Antonio Vieira, se me depararam mais de quatrocentos vocabulos, que eu nunca vira em dicionarios. Em Gil Vicente e Filinto, mais numerosa foi ainda a colheita”.”Conversação preliminar” VIII). Cândido de Figueiredo (18461925) alargou consideravelmente o espaço de inventariação do léxico por43

tuguês, pesquisando, além dos clássicos e das palavras de boa nota, todos os arredores marginais da língua culta comum (“nada desperdicei do que fui colhendo: arcaismos e neologismos, derivações violentas e até erroneas, termos de significação duvidosa ou obscura, tudo alphabetei e reproduzi, julgando cumprir um dever”, ib. VIII). Especialmente abundante foi a recolha de vocabulário coloquial e popular (“a linguagem popular mereceume longos e especiais cuidados, que reverteram na colheita de mais de quatro mil vocabulos e locuções, que não andavam nos diccionarios”, ib VII); de regionalismos (“provincianismos” na terminologia do autor); de “brasileirismos”; e de terminologias da “technologia scientifica”. A abundância da nomenclatura, que logo na primeira edição se elevava a cerca de 110.000 entradas, distribuídas a duas colunas por dois vols. com 781 e 860 páginas (“muito mais de quarenta e quatro mil vocabulos, que não entraram nos mais recentes e menos imperfeitos dicionarios da lingua” – vol. 2, 879), é acompanhada pela ausência quase geral de citações e por uma grande simplificação dos artigos, mantém todavia a informação gramatical e etimológica. O redactor socorre-se de uma tabela de 237 classificadores ou descritores, explicitados na “Chave de signaes e abreviaturas” apresentada no início do 1º. volume, para facilitar a estruturação da glosa. Cândido Figueiredo retocou e ampliou ainda o seu dicionário nas edições seguintes (2-1913; 3-1920/22) até à 4a. publicada já postumamente, em 1926, mas ainda “corrigida e copiosamente ampliada” pelo autor, de modo que atingiu para cada volume 1110 e 1014 páginas com mais de 136.000 entradas e ainda dois apêndices onomásticos: um “Indículo alphabético de vários nomes geográphicos” e um “Appendículo alphabético de vários nomes próprios pessoais, antigos e modernos”. A obra foi ulteriormente revista e acrescentada por J. Guimarães Daupiás e teve já cerca de 30 eds..

Dicionário geral e analógico da língua portuguesa de Artur Bivar
O Dicionário geral e analógico de Artur Bivar (1881-1946) foi publicado postumamente, sob a coordenação de Manuel dos Santos Ferreira e Maria Vitória Garcia dos Santos Ferreira. Compõe-se de duas partes publicadas separadamente mas planeadas para serem utilizadas de modo interligado. A primeira é o “dic. geral”, que ocupa dois grossos volumes de cerca de 1500 p. cada um (1948 e 1952), e que retoma, com leitura e redacção cuidadas, a nomenclatura e a substância lexical dos dicionários de Cândido
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Figueiredo e de Caldas Aulete. É um dicionário que pode ser qualificado de tradicional. A segunda parte é o “dicionário analógico”, um grosso volume de cerca de 1800 p. (1958), que oferece, de modo inédito na história da lexicografia portuguesa, uma tentativa de hierarquização semântica do “corpus” lexical. A estrutura lexicográfica aproxima-se de um classificador enciclopédico. Todo o universo verbalizável, é organizado em grandes âmbitos semânticos (“noções gerais” / “matéria” / “matéria e espírito – o homem” / “espírito”) que se subdividem em capítulos, secções e alíneas, num processo de análise e de crescente atomização, partindo do geral para o particular, de modo prático e sem constrangimento de doutrinas lógicas ou filosóficas. As definições breves são acompanhadas pela acumulação de formas semanticamente relacionadas: sinónimos, parassinónimos, hiperónimos, antónimos, etc. “Em vez de traduzir palavras por outras palavras, numa sequência de puras tautologias inventariadas alfabeticamente, o dicionário analógico ordena o seu recheio por famílias de ideias, sugerindo ao mesmo tempo as expressões que as traduzem em todas as modalidades. Partindo da ideia para a palavra, resolve uma dificuldade muito maior e mais frequente que a de seguir da palavra para a ideia. O processo de agrupamento utiliza a analogia – daí lhe vem o nome, a analogia de caracter semântico, dispondo em torno de uma ideia central todas as que lhe estão ligadas por conexão, quer dizer pelas relações de contiguidade espacial e temporal, de sinonímia e antonímia, de variação, de tantas outras cujos liames a psicologia estuda no capítulo “associação de ideias” (Gaspar Machado, “Prefácio”). O dicionário analógico é indexado por uma numeração que se encontra referenciada nos artigos e nas acepções do dic. geral, permitindo uma fácil remissão entre as duas partes. Este dicionário parece particularmente adequado para o apoio à elaboração de texto escrito. Todavia, a sua volumosa configuração, devida sobretudo ao excessivo peso das terminologias técnicas e científicas, dificulta o seu manuseio e retira-lhe grande parte da funcionalidade que costuma caracterizar os dicionários deste género. E assim, não obstante a sua originalidade, tem sido uma obra sem sequência editorial e, ao que julgamos, com escasso aproveitamento.

Grande dicionário da língua portuguesa – António de Morais Silva
A “10a. edição revista, corrigida, muito aumentada e actualizada” (12 vols. 1949-59) do Grande dicionário da língua portuguesa constitui
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uma das últimas e, até ao momento, a mais importante realização da dicionarística portuguesa. Foi levada a cabo por Augusto Moreno (1870-1955, assinala-se o seu falecimento a partir do vol. IX), José Francisco Cardoso Júnior (1884-1969), teve também a seu cargo a “secção lexicográfica” da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira) e José Pedro Machado (1914, que foi o mais operoso dicionarista português do século XX), retomando a obra do velho mestre do séc. XVIII, e acumulando a informação de grande parte da lexicografia subsequente. Colige uma abundantíssima nomenclatura (306.949 entradas), e assume-se como um dicionário geral da língua portuguesa, autorizado e acentuadamente histórico. Oferece ainda a mais completa análise de acepções e a mais extensa recolha de “unidades vocabulares compostas”, conjuntos locucionais, sintagmas fixos, formas proverbiais, etc.. O aspecto mais meritório deste empreendimento é justamente o da textualização sistemática e medianamente rigorosa do léxico português, variando e referenciando as abonações, recolhidas num alargado património escritural pancrónico, em que abundam também os autores modernos, portugueses e brasileiros. O XII volume compõe-se de uma “Adenda” onde se reedita o Epítome de Gramática Portuguesa de António de Morais Silva, seguido do texto do Acordo Ortográfico de 1945 e de uma série de vocabulários com destaque para o Vocabulário Onomástico e para uma Adenda de Novos Vocábulos e Sentidos Novos em Vocábulos Registados. A obra esgotou-se com relativa rapidez no mercado livreiro (teve uma tiragem de 5.000 exemplares) e não foi reeditada. Sob pretexto de manuseabilidade, foi lançada a público uma versão parcial, designada “compacta” (“Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa. Edição compacta do texto fundamental do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, segundo a 10a. edição revista...”) que é pouco menos que uma fraude editorial, porque se excluíram dela totalmente as abonações, mantendo uma configuração de 5 pesados volumes com uma nomenclatura entumescida por uma grande quantidade de vocabulários especializados, de utilidade duvidosa, e que lhe retiram funcionalidade. Esta edição teve, entretanto, varias reimpressões.

Dicionário da Academia (1976: vol. I, A-Azuverte)
Com a 2ª ed. do Dicionário da língua portuguesa, a Academia das Ciências de Lisboa iniciou, em 1976, uma nova tentativa de publicação de
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um dicionário autorizado, institucional, da língua portuguesa. Tal como em 1793, este empreendimento, ambiciosamente concebido, não passou do 1º. vol. (678 p.) e foi suspenso antes de entrar na letra “B”. O plano fora apresentado por Jacinto do Prado Coelho, em Sessão Plenária da Academia (9/7/59), e foi depois inserido, com algumas alterações, entre os textos introdutórios do volume. Previa a elaboração de um “dicionário selectivo” da língua portuguesa contemporânea (sécs. XIX e XX), constituído por 3 vols. duplos, num conjunto de 6 tomos. Ficou como texto documental, juntamente com toda a obra, a testemunhar, pela sua expectante incompletude, a necessidade, até então não preenchida, de um dicionário da língua portuguesa contemporânea, “literária e corrente” e de um “dicionário da língua literária clássica” que servisse para manter a intercomunicação com o património literário português, um “dicionário académico” que “deveria utilizar largamente as autoridades da língua para abonar e concretizar o mais possível as acepções, os valores estilísticos e as circunstâncias contextuais do emprego” (p. XII). Um novo projecto do dicionário da Academia, coordenado por Malaca Casteleiro, foi entretanto concluído e publicado em 2001 com o título: Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa.

Dicionários de especialização linguística e outros aspectos da lexicografia atual
A lexicografia portuguesa é uma das mais modestas entre as grandes línguas europeias. Não foi considerada, nesta resenha panorâmica, a produção do Brasil, que deve ser também apreciada como um contributo interessante para ampliar o espólio dicionarístico da língua portuguesa. Actualmente, o trabalho lexicográfico, em Portugal, como um pouco por todo o mundo, está implicado num processo de grandes transformações, condicionadas pelo rápido desenvolvimento das tecnologias de pesquisa e de tratamento informático. Entretanto a especialização das ciências da linguagem tem propiciado novas vias de análise do “corpus” léxico-gramatical, e tem dado lugar a uma elaboração dicionarística diversificada em função de objectivos específicos. A investigação lexicográfica tem sido orientada no sentido de produzir múltiplos instrumentos de apoio à escolarização da língua, ao estudo da sua história, ao levantamento das seriações e dos sistemas paradigmáticos, ao reconhecimento estatístico do vocabulá47

rio mais frequente do uso comum, e ainda a um renovado acesso ao património escrito e nomeadamente ao texto literário, indexando de modo exaustivo o “corpus” lexical de vários textos, de modo a facilitar a sua análise histórica, estilística e poética, detectando incidências e coincidências até ao nível dos microsignificantes. No âmbito desta diversificação fecunda, ainda que muito menos ampla do que seria de esperar, devem referenciarse alguns trabalhos que se destacam pela sua divulgação ou pela sua originalidade e pelo seu interesse científico. 7.1. A ortografia, a uniformização e fixação das soluções ortográficas, e o apoio ao ensino e à pratica normalizada, preenchem o domínio mais abundante da lexicografia linguística especializada portuguesa. A demora em instituir um código ortográfico oficial e legalmente sancionado (a primeira lei ortográfica portuguesa é de 1911), e as sucessivas discussões e alterações a que foi sujeito, até ao presente, explicam bem a dificuldade em induzir uma consciência linguística uniformizadora ao nível da prática individual da escrita. Assim, até à reforma ortográfica de 1911, publicaram-se listas e vocabulários ortográficos propondo soluções optativas de escrita. A obra mais completa, mais bem fundamentada, e que teve mais influência na ulterior oficialização da ortografia, foi o Vocabulário ortográfico e ortoépico da língua portuguesa (1909) de Aniceto dos Reis Gonçalves Viana (1840-1914) que apresenta ao longo das suas 900 p. cerca de 80.00 formas, acompanhadas de uma esquemática informação gramatical e de eventuais indicações ortoépicas. Entretanto, merecem também citação, neste âmbito, pelo seu interesse metalexicográfico, obras como: o Diccionario da maior parte dos termos homonymos... (1842) de António Maria do Couto (17781843); a Chave dos dicionarios (1892), “por meio da qual se podem procurar todas as palavras nos dicionarios , e se obtem a ortografia dos vocabulos em todas as linguas, segundo o plano de P. Boissière, adaptada à indole e usos nacionais”, por A. P. do Amaral; e ainda o Diccionario Homophonologico da Lingua Portuguesa (1901), “(unico no genero em Portugal). Colligido, coordenado, annotado e exemplificado, em harmonia com os mais recentes trabalhos orthoepicos, glottologicos, orthographicos, etymologicos, linguisticos, onomatologicos e logotechnicos”, por Augusto Pinto Duarte Vasconcelos. São trabalhos expressamente destinados a superar a relativa anarquia ortográfica que dificultava o acesso aos próprios dicionários.
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7.2.

7.3.

Depois da reforma ortográfica de 1911, a Academia das Ciências de Lisboa publicou, sob a direcção de Francisco da Luz Rebelo Gonçalves (1907-1982), um cuidadoso Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (1940). Regista, na primeira parte, cerca de 140.000 entradas de vocabulário comum, com a respectiva informação gramatical e algumas indicações ortoépicas, na segunda parte acrescentam-se 17.000 entradas de nomes próprios. Este vocabulário foi aceite como referência normalizadora para a fixação da nomenclatura em quase todos os dicionários escolares e práticos publicados após a sua divulgação. A Academia publicou ainda, na sequência de uma recomendação da Conferência Luso-Brasileira (Protocolo de encerramento de 6 de Outubro de 1945, nº 3), um Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa (1947, reed.1970), aceite também pela Academia Brasileira de Letras, que deveria constituir “o inventário das palavras básicas da Língua e o prontuário das alterações da escrita portuguesa consequentes do entendimento a que se chegara”. A história da língua suscitou um bom número de trabalhos de índole lexicográfica. Entre eles devem lembrar-se os dicionários etimólogicos de Antenor Nascentes (1932), de José Pedro Machado (195259, revisto e melhorado na 2. ed. 1967), de António Geraldo da Cunha (1982, 2. ed. 1986), e ainda o incompleto dicionário de Augusto Magne (1950-54), as anotações históricas de Ramón Lorenzo Sobre cronologia do vocabulário galego-português (1968), e o Dictionnaire Chronologique Portugais (1976) de Dieter Messner. Seria oportuno acrescentar aqui, se não foram tão numerosos, a notícia dos glossários que têm acompanhado a edição de textos medievais e clássicos. Em todo o caso, espera-se que os recursos técnicos da moderna lexicografia tragam a este domínio, uma rápida melhoria de produção, em quantidade e qualidade e um fácil acesso aos materiais elaborados. Ainda neste âmbito, deve assinalar-se a próxima apresentação do dicionário do português medieval coligido por António Geraldo da Cunha e precedido pela publicação parcial do Vocabulário Histórico-cronológico do Português Medieval, será certamente a mais completa e a mais documentada informação sobre o léxico do português medieval. Dicionários paradigmáticos ou morfológicos pode ser a designação adoptada para as obras de teor lexicográfico que hieraquizam o voca49

7.4.

7.5.

bulário por classes de palavras, por categorias gramaticais ou por outros subsistemas morfológicos. Para o português, os mais divulgados, até ao momento, têm sido os dicionários de verbos (Lopes 1983; Nogueira 8a.1986), mas devem incluir-se também os dicionários de rimas (Guerreiro 1784; Castilho 1874; Lima 1904?/1914; Castelões 1951 – cf. E. Verdelho 1990), os dicionários inversos (Wolf 1971; Pardal ...), os de monossílabos (Casanovas 1968). Especial referência é devida ao Dicionário Morfológico da Língua Portuguesa (Evaldo Heckler, 1984) que oferece o mais completo levantamento de “famílias de palavras” na língua portuguesa (“85.456 palavras classificadas em 5.489 famílias de cognatos”). O Português fundamental (1984-1987) corresponde a um projecto de pesquisa lançado pelo Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, com base na metodologia utilizada para a elaboração do Francês Fundamental. Foi iniciado em 1969 e apresentou a público os primeiros resultados, um Vocabulário de 2217 palavras, em 1984, seguidos da publicação de textos complementares: Métodos e Documentos, vol. z1: Inquérito de Frequência (1987), vol. 2: Inquérito de Disponibilidade (1987). Trata-se de uma investigação inteiramente nova, em Portugal, sob o ponto de vista lexicográfico, porque aceita parâmetros essencialmente estatísticos de qualificação e de selecção do “corpus”, e porque toma como objecto de observação e de análise a língua comum, em realizações predominantemente oralizadas, e não tanto o léxico textualizado em realizações escritas e geralmente literárias. Para além dos objectivos pedagógico-didácticos que nortearam a composição e delimitação do pequeno vocabulário fundamental, a massa de dados recolhidos para este projecto, vem constituindo uma fonte inexaurível, e desde então indispensável, para qualquer empreendimento no âmbito da lexicografia geral da língua portuguesa. A lexicografia linguístico-literária que oferece o levantamento exaustivo do “corpus” lexical de textos literários, ou de toda a obra dos autores, é ainda incipiente, no espaço da língua portuguesa, e está muito distante dos níveis quantiosos de produção que os novos recursos da informática vem oferecendo em outras línguas. Temos notícia de muitos trabalhos parciais que foram abandonados ou se encontram inacabados e não foram ainda divulgados. Sirva de exemplo a obra de Camões, que, na sua totalidade, foi objecto de uma

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alfabetação e indexação exaustivas, concluídas em 1985, por iniciativa de Aires do Nascimento, e todo esse conjunto de dados ficou sem receber publicação. Foi justamente sobre a obra de Camões, mais precisamente sobre Os Lusíadas, que se realizaram os principais trabalhos de lexicografia linguístico-literária da língua portuguesa. Entre muitos outros (Verdelho 1984), salientam-se: o Dicionário d’Os Lusíadas de Afrânio Peixoto (1924), o Índice analítico do vocabulário de Os Lusíadas de António Geraldo da Cunha (1966, 2a. 1980), o Rimário de Os Lusíadas de Judith Brito de Paiva e Sousa (1948, 2a. 1983) e o Índice Reverso de Os Lusíadas (Verdelho 1981). Além dos trabalhos referentes à obra de Camões deve citar-se também um estudo pioneiro, ainda que muito parcelar, apresentado por Jean Roche: Sobre o vocabulário da poesia portuguesa (Paris 1975) em que se efectua um tratamento estatístico do vocabulário de 26 autores, de Sá de Miranda a Carlos Queirós.

Conclusão
A actividade lexicográfica recobre hoje múltiplas modalidades de serviços linguísticos e condiciona a escolarização da língua, a sua disponibilidade e o seu funcionamento a todos os níveis de comunicação. Todavia, o acompanhamento lexicográfico dos idiomas, progressivamente alargado e intensificado, parece corresponder, não tanto a um acerbamento do processo de comunicação verbal, mas sobretudo a uma instrumentação do dicionário como chave hierarquizadora de toda a informação, e a uma crescente ampliação do “corpus” lexical, ultrapassando cada vez mais as capacidades de memória dos falantes. Na realidade, os dicionários surgiram inicialmente e desenvolveram-se, em todos os grandes idiomas modernos, sobretudo como instrumentos passivos, originariamente bilingues em parceria com o latim, chaves de descodificação e de aprendizagem, apoiando a escolarização da língua, e especialmente a escrita e a leitura. Todavia, logo de início serviram também como instrumentos da estratégia activa da comunicação, apoiando a produção retórica e literária. Na história das lexicografias clássicas e modernas, muitas das obras mais interessantes foram coligidas sob o signo da erudição linguística, e confessadamente motivadas pelo enriquecimento da língua e da expressão, mais do que pela simples necessidade de acesso ao entendimento das palavras. No
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português essa tradição dicionarística foi também medianamente cultivada. A lexicografia de ilustração e de socorro ao ornamento escritural emparceirou sempre com os dicionários práticos, que se limitavam a dar acesso à compreensão e ao uso normal. O primeiro dicionário monolingue português, lançado como volume autónomo e de manuseio aprazível, foi um dicionário poético (Lusitano 1764), um dicionário activo, promotor da ornamentação e da elegância. A lexicografia portuguesa, no entanto, pelas suas modestas proporções, assume neste aspecto uma escassa representatividade. Foi condicionada pela urgência das necessidades básicas do ensino da língua. Assim, o uso intenso do dicionário monolingue desenvolveu-se em Portugal, com o início da escolarização da gramática do português (manual de A. José dos Reis Lobato – 1770/72), e verifica-se também que o aumento da produção dicionarística (que oferecia apenas acesso à significação e a uma norma ortográfica) acompanhou, a par e passo, o alargamento da instrução pública e a democratização da escrita. Em todo o caso, a lexicografia linguístico-literária ocupou um lugar muito importante na história da produção dos dicionários de língua portuguesa e das outras grandes línguas. Actualmente, as exigências da comunicação essencialmente informativa, deixam pouco espaço para o cultivo da memória linguística erudita e ornamental. A procura lexicográfica actual é sobretudo determinada pelas necessidades elementares de descodificação e de aramazenagem do conhecimento. Os dicionários são acumuladores de informação e agentes passivos da comunicação verbal e, nesta condição, são cada vez mais indispensáveis e necessários em maior número. O alargamento dos espaços de interacção nas comunidades humanas e as dominantes científica e tecnológica da civilização moderna, implicam as línguas em processos de especialização, e de classificação e designação, produzindo quantidades imensas de nomenclaturas, terminologias e inúmeros outros “corpus” lexicais particularizados. A lexicografia da língua portuguesa enfrenta nesta conjuntura uma perplexidade igual à que preocupa todas as grandes línguas e que atinge todo o processo de comunicação verbal do Planeta. Entretanto, para além desta babel tecnológica e científica, a língua portuguesa enfrenta também muitos outros problemas que resultam da sua dispersão geográfica e internacional, da relativa marginalidade económica do seu suporte demográfico e de uma tradição de escasso cultivo dicionarístico. Por estas e outras razões, carece urgentemente de uma decidida e ampla pesquisa lexicográfica que lhe permita, pelo menos, a renovação e a
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elaboração desde a origem, de equipamento dicionarístico no domínio da língua histórica; do português moderno e contemporâneo; dos dicionários práticos; dos vocabulários escolares; dos glossários de paradigmas gramaticais; das linguagens especializadas etc.. O idioma português se pôde funcionar e servir durante os primeiros três séculos da sua história de língua escrita, sem dicionários, não pode agora, sem prejuízo grande da sua funcionalidade e do seu enquadramento nacional e internacional, descurar a sua elaboração lexicográfica, instituindo-a, se tanto for necessário ao nível da responsabilidade dos estados.

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A FORMAÇÃO E A CONSOLIDAÇÃO DA NORMA LEXICAL E LEXICOGRÁFICA NO PORTUGUÊS DO BRASIL
Maria Tereza Camargo Biderman Universidade Estadual Paulista (UNESP)

O período colonial: a emergência da variedade brasileira do português
Nos primeiros séculos da colonização no Brasil processa-se lentamente a aculturação dos nativos por meio do idioma português, quando os jesuítas ensinavam os índios a falar português. O padre Anchieta informava seus superiores em Lisboa sobre o ensino do português aos índios, especialmente aos meninos, dizendo que eles aprendiam bem o português (Silva Neto, 1976: 32). Contudo, nestes primeiros séculos, a língua portuguesa encontrara em terras brasileiras um forte concorrente, o Tupi, uma língua franca, empregada em grande parte do território brasileiro. Essa língua geral era indispensável para a comunicação com os indígenas. Por outro lado, não só eles eram muito numerosos mas eram também os que conheciam o país, levando assim vantagem sobre o colonizador português. A língua geral, falada em toda a costa brasileira, “era simples e de reduzido material morfológico; não possuía declinação nem conjugação” (Silva Neto, 1976: 50). Os jesuítas usaram-na como instrumento de evangelização dos indígenas. Diz Teodoro Sampaio (1987: 69):
Até o começo do século XVIII, a proporção entre as duas línguas faladas na colônia era mais ou menos de três para um, do tupi para o português. Em algumas capitanias como S.Paulo, Rio Grande do Sul, Amazonas e Pará, onde a catequese mais influiu, o tupi prevaleceu por mais tempo ainda. (...) Mas naqueles tempos, quando o desbravamento dos sertões apenas começava e as expedições para o interior se sucediam (...) o tupi era deveras a língua dominante, a língua da colônia. Chegara até mesmo a ser aprendido pelos negros escravos.

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Outro fator bastante importante que, nos primeiros séculos, concorreu para a expansão do idioma tupi, convertendo-o numa língua franca, foi a implantação das bandeiras. Partindo do litoral rumo à conquista do sertão, essas entradas e bandeiras conduziam um verdadeiro exército de homens que falavam a língua geral.
As bandeiras quase só falavam o tupi. E se, por toda a parte onde penetravam, estendiam os domínios de Portugal, não lhe propagavam, todavia, a língua, a qual, só mais tarde se introduzia com o progressos da administração, com o comércio e os melhoramentos (Sampaio, 1987: 71).

Os bandeirantes iam nomeando, com vocábulos tupi, os acidentes geográficos que descobriam e os povoados que fundavam (Oliveira, 1999: 61). Juntamente com os topônimos,
... a incorporação de vocábulos indígenas ao léxico do português do Brasil foi motivada pela necessidade imperiosa de nomear uma realidade até então desconhecida (Oliveira, 1999: 61).

Silva Neto acha, e talvez com razão, que Teodoro Sampaio e todos que o endossaram, exageraram; de fato, não possuíam muitos testemunhos e documentos fidedignos. Mas Teodoro Sampaio se respalda em testemunho do Padre Vieira de 1694, que afirmara que a língua que se falava era a dos índios e que o português os meninos iam aprender na escola. Pelo testemunho de Vieira e de outros, S.Paulo seria um dos lugares onde a língua geral perdurou por mais tempo e onde haveria maior e mais profundo entrosamento entre colonos portugueses e índios, sobretudo tupis. O governador do Rio de Janeiro recomendava a el-rei que enviasse sacerdotes que soubessem a língua dos índios em 1698, dada a sua importância como veículo de comunicação. “Chegara até mesmo a ser aprendido pelos negros escravos, falando eles desembaraçadamente a língua geral” (Anais da Biblioteca e Arquivo Público do Pará, apud Silva Neto, 59). Há outros testemunhos mais. Domingos Jorge Velho, o bandeirante que ajudou os portugueses a destruir o quilombo de Palmares em Alagoas, em 1695, precisava de um intérprete por não falar bem o português. Contudo, não era apenas em S.Paulo que se falava a língua geral, mas também no Maranhão e no Espírito Santo e até o final do século XVIII. Em 1815 informava Koster, um viajante inglês:
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Todos os indígenas em Pernambuco falam o português, mas raros o pronunciam bem. Há sempre um leve acento que faz descobrir ser o interlocutor um indígena, mesmo que se ouça sem querer notar (apud Silva Neto, 1976: 33).

Vieira também comentava sobre a maneira como os índios falavam a língua portuguesa que “a pronunciavam ou mastigavam a seu modo”. Vieira constatara ainda a interferência dos idiomas nativos sobre o português. Sérgio Buarque de Holanda julgava que a decadência da língua geral começara a intensificar-se por causa de maciça imigração de portugueses para o Brasil, atraídos pela descoberta das minas gerais. Nos primeiros sessenta anos do século XVIII, teriam emigrado de Portugal e das ilhas do Atlântico cerca de 600 mil pessoas, em média anual de 8 a 10 mil (Fausto, 1996: 98). A Coroa portuguesa chegara até a estabelecer normas para a emigração, preocupada com o grande êxodo populacional. Além da imigração proveniente da metrópole, ocorria também migração interna no Brasil em decorrência da corrida do ouro em demanda a Minas, a Goiás e a Mato Grosso. O processo “civilizatório” iniciado pela Coroa e por Pombal amplia a presença da burocracia oficial, dos militares bem como a expansão do clero. São criados governos municipais em Minas e em outras capitanias. Preocupada com os vazios demográficos, a Coroa Portuguesa inicia a política de ocupação e colonização. Usando de incentivos, Pombal teria promovido o povoamento do Brasil e uma urbanização sem igual no período colonial. O Marquês fizera de seu irmão, Mendonça Furtado, governador do Pará na segunda década do séc. XVIII, incumbindo-o de iniciar um programa de civilização na Amazônia, urbanizando as vilas. A coroa revitalizava assim o programa de imigração que promovera anteriormente com açorianos no Maranhão e no sul do Brasil. Conseqüentemente, o recenseamento de 1776 registrou 319 769 habitantes em Minas Gerais (Silva, 1994: 547). Desse total a maioria eram negros escravos (52%); brancos (22%) e pardos (25%). Em 1828 o viajante Hercule Florence informava que o tupi já não era falado pela maioria da população em S.Paulo; mas que ouvira testemunho de que 60 anos antes (1768) as mulheres conversavam nesta língua (apud Silva Neto, 1976: 55). No Rio de Janeiro e em Pernambuco extinguira-se há mais tempo o uso da língua geral.
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Tanto o índio como o negro aprenderam o português por necessidade, mas deixaram marcas profundas na língua falada no Brasil. Muitos negros que chegaram ao Brasil nos primeiros séculos da colonização, provavelmente já falavam um dialeto crioulo-português, pois o português foi língua franca nas costas africanas nos séculos XV, XVI e XVII (Silva Neto, 1976: 38). Não há documentos, porém, desse linguajar dos negros nos primeiros séculos. Como se sabe, na nascente sociedade brasileira, os negros tiveram convivência mais íntima com os brancos no interior da casa grande e as crianças brancas cresciam brincando junto com as negras. Esse é um dos fatores que contribuiu para o surgimento de uma sociedade híbrida no Brasil. Por outro lado, os colonos portugueses tinham vindo de todos os pontos de Portugal. Apesar de o Brasil ter sido povoado por portugueses originários de regiões muito diversas, admite-se que o português já apresentasse notável unidade no século XVI. Quanto ao vocabulário, os colonos portugueses foram enriquecendo seu vocabulário acrescentando-lhes vocábulos designativos de seres, coisas e fatos sociais americanos. O desaparecimento paulatino do tupi começou a intensificar-se quando a coroa portuguesa passou a proibir o uso da língua geral: em 1717, 1722 e 1727 “ordens régias determinavam que os missionários ensinassem português aos índios” (Silva Neto, 1976: 59). Em 1754 o uso da língua geral foi proibido pelo Marquês de Pombal com a determinação de que se só se falasse português na colônia. Mas o português não se impôs aos nativos de modo violento. Impôs-se por causa de seu prestígio e por representar uma civilização mais avançada que a dos aborígenes. E também porque era a língua da escola, da administração e da comunicação com o resto do mundo, pois foram eles, os portugueses, a ponte entre o Brasil e o resto da humanidade. Entretanto, os idiomas indígenas deixaram profundas marcas no português, sobretudo no léxico. A importação de escravos africanos para o Brasil que se iniciara no século XVI, continuaria até meados do século XIX. Nesses quatro séculos quatro milhões (ou mais) de africanos das mais variadas culturas e línguas ingressaram no Brasil. Muitas foram as línguas e culturas africanas trazidas pelos escravos: iorubá (ou ioruba) e nagô (da Nigéria), gege (do Daomé), mina (da Costa do Ouro), mandinga e haussá (da Guiné e da Nigéria), línguas bantus (de Angola e do Congo), quicongo, cabinda, etc. Na formação da sociedade e da cultura brasileiras foi enorme a influência africana
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nos costumes e na cultura em geral (cozinha, religião, música, atitudes). É difícil precisar a extensão da influência das línguas africanas na formação do português brasileiro, porque não existem pesquisas profundas a esse respeito, sendo Renato Mendonça um dos primeiros a tratar cientificamente esta questão (A influência africana no português do Brasil, 1935). O fato é que a influência dos idiomas africanos sobre o português brasileiro foi muito grande, sendo que essa influência exerceu-se com certeza no vocabulário, sendo grande o número de africanismos no português do Brasil. Nesta primeira fase da história do português brasileiro deve-se supor a existência de uma situação de bilingüismo que não foi ainda estudada pelos pesquisadores.

O surgimento da consciência nacional e da identidade lingüístico-cultural brasileira
Os precursores
Nos meados do século XIX começara o debate sobre a identidade do português brasileiro. Os escritores românticos, sobretudo José de Alencar, reivindicavam para os brasileiros autonomia lingüística, cultural e literária. Movidos por um profundo nacionalismo, os românticos empenharam-se na defesa dessa autonomia. Como informa E. P. Pinto (O Português do Brasil) Alencar se refere a um português alterado, transformado, chegando a falar de um “cisma gramatical”. Sem ter disso consciência, o romancista estava, de fato, propugnando o direito dos brasileiros de escreverem conforme a norma brasileira, abandonando a norma européia. Ele afirmava que tinha o direito de escrever adotando o uso popular brasileiro. De fato, porém, a causa de Alencar era “muito mais a da liberdade do artista em matéria de língua, que a independência da variante brasileira ...” (Pinto, 1978: XXVIII). Contudo, Alencar continuava a valer-se dos dicionários publicados em Portugal que retratavam o português europeu e mesmo das gramáticas tradicionais, para defender-se de acusações de incorreções em seus livros. Crescia progressivamente a consciência da identidade brasileira manifesta na produção literária autóctone, bem como se avolumava o de69

bate sobre a personalidade própria do português brasileiro. A questão dos neologismos foi o ponto central das polêmicas da segunda metade do século dezenove. Assim, o vocabulário típico do Brasil estava no centro do debate. Mas o que os intelectuais brasileiros desse período defendiam realmente era o uso de neologismos brasileiros, lexias essas que se situavam no nível do signo, ou seja, palavras designativas de referentes e conceitos brasileiros. Assim esses intelectuais não “abriam mão do pressuposto do Brasil ser reduto de vernaculidade” (Pinto, 1978: XXXI). Também não aceitavam a “pecha de incorreção lançada pelos portugueses aos escritores brasileiros” (Pinto, 1978: XXXII). “A designação da língua do Brasil, incerta como a sua vigência, oscilava entre dialeto brasileiro (Alencar, Macedo Soares, Araripe, Romero), luso-brasileiro ( Macedo Soares, Batista Caetano, Paranhos da Silva), luso-americano (Romero), neoportuguês (Araripe), brasileiro (Macedo Soares), enfim, o “nosso idioma”... (Pinto, 1978: XXXII). E língua brasileira (Macedo Soares, Dicionário). Vejamos o que diz Macedo Soares:
Em geral , falamos esse dialeto, mas procuramos escrever um português que às vezes não é entendido, porque... digamos com franqueza: o português de Portugal não é inteiramente a língua do Brasil, e é raro escrever bem não sendo na própria língua (Soares, 1954: XX).

Macedo Soares designa o português do Brasil às vezes como dialeto, às vezes como língua brasileira. Esse lexicólogo e lexicógrafo, embora trabalhando empiricamente, dedicou-se à pesquisa de campo, recolhendo regionalismos vocabulares no Paraná, Minas e São Paulo. José Veríssimo, menos exaltado que os demais, enunciava o conceito de uma norma culta, padrão para a fala e para a língua escrita: “Nada obsta, porém, que haja um tipo, padrão geral da boa linguagem portuguesa, obrigatório para todos os que se prezam de cultos, e principalmente obrigatório para aqueles que escrevem”, pois, “que devemos escrever como falam os cultos é uma regra que ninguém desconhece.” (Pinto, 1978: XLIII). Na segunda metade do século XIX a consciência da peculiaridade do nosso léxico levou alguns estudiosos a organizarem e publicarem coletâneas vocabulares de caráter regional tais como: Coleção de vocábulos e frases usados na província de São Pedro do Rio Grande do Sul de A. Pereira Coruja (1852);
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Vocabulario Brazileiro para servir de complemento aos diccionarios da lingua portuguesa de B.C. Rubim (1853); Vocabulario indigena em uso na Provincia do Ceará de P. Nogueira (1887); Diccionario Brazileiro da Lingua Portugueza de A. J. Macedo Soares (1888); Vocabulario dos termos technicos de construção naval [ anexo de: Ensaio sobre as construções navaes indigenas no Brasil) de A. A. Camara (1888); Vocabulário sul-riograndense de Romaguera Corrêa (1889); Dicionário de vocábulos brasileiros de Beaurepaire-Rohan (1889). De fato, porém, a primeira tentativa de descrever o vocabulário brasileiro foi feita por Antônio Joaquim Macedo Soares. Ele seria o primeiro dicionarista a descrever o português brasileiro se sua obra tivesse sido publicada integralmente no século dezenove. Contudo, só a primeira parte, até a letra C, foi publicada em 1888. Seu dicionário contém definições claras e precisas bem como informações de natureza fonética e etimológica. A posição nacionalista de Macedo Soares que pugnava pelo reconhecimento da individualidade do português brasileiro está evidente nesta passagem: “... no Brasil (...) todos (...) falamos e escrevemos nesta nossa língua que os críticos de Lisboa censuram” (Soares, 1954: XXI). Afirma ainda no Prólogo da 1ª parte do dicionário, publicada em 1888, que “já é tempo dos brasileiros escreverem como se fala no Brasil”. Desde os tempos em que fora juíz no interior do Paraná, Macedo Soares começara sua recolha de vocábulos e expressões brasileiras, pretendendo preencher a lacuna relativa a nosso léxico, que não era contemplado pelos dicionários produzidos em Portugal. Infelizmente, a publicação desta obra ficou inacabada. O dicionário completo só será publicado em 1954-1955 pelo Instituto Nacional do Livro. Da letra C em diante, o material recolhido por Macedo Soares foi compilado por seu filho, Julião Rangel de Macedo, que preparou os originais deste dicionário publicado em dois volumes já nos meados do século XX. O repertório dessa obra não é grande: cerca de 4.000 verbetes. Citarei dois verbetes para mostrar como Macedo Soares foi cuidadoso em seu trabalho lexicográfico, embora não se possa aceitar integralmente suas afirmações sobre as palavras-entrada aqui citadas.
andar de déu em déu loc. pop. Andar de festa em festa; passar a vida aqui e ali em pagodes; suciar todos os dias. “Isto vai de déu em déu. E

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assim domingos passemos; De modo que sempre busquemos Divertimentos.” SR. I, 154 | | ETIM. Curiosa tradução pop. do hino festivo Te Deum laudamus da igreja, onde o ac. lat. te converteu-se na prep. port. de ; déum- déum- déum, repetido pelos cantores no coro, passou a déuem-déu-em -déu , pela transformação da termin. um na prep. em; e laudamus verteu-se por lá vamos na boca de uns; e andamos na de outros. | | Geogr. R. Jan. SP. Min. etc. caipira s2., 1º morador de fora do povoado; gente que não vive na sociedade mais culta das vilas e cidades. “Em Pernambuco, chama-se aos homens da roça, do campo ou mato, matutos; o mesmo é em Alagoas. O matuto é o caipira de S.Paulo e o tabaréu da Bahia.” J.Aug. da Costa RBr2. IV, 348. “Vem peludo como um caipira.” Red. Brasil 28 jul. 83 “Na roça, entre caipiras e matutos, é conhecida a interj. ehá! E outros cacoetes em que se ouve essa inspiração de sons.” B.Caet. Ens.Sc. 1,57. “Um caipira nobre não recua.” Aparte à conferência de J.Patroc. ap. JC. 15 out. 88 | | 2º fig.. inculto, grosseiro, de maneiras acanhadas. | | Etim. tp.-guar.: s.caá mato + s. ïpïr = ïpï princípio, base; adj. primitivo, oriundo: filho do mato, originário da roça. Batista Caetano traduz caipira pele tostada, de cai queimado + pir pele; ou então, o homem corrido, envergonhado, abatido, submetido, de cai vergonhoso, acanhado, medroso. ABN. VI, 12. Rejeitamos a segunda explicação porque os brasis, muito precisos na nomenclatura, não tinham em conta qualidades morais, que os induzissem a designações de objetos caracterizados por elas. E a primeira por se não adaptar o nome à coisa. Caipira nunca significou trigueiro, moreno, fusco etc. ½½ Geogr. e SIN. 1º baiano, Piauí; caboclo 5º (?) , caburé, Goiás, M. Gr.; cabra, Ceará; casaca, Piauí; gaúcho, guasca, RGS; matuto, R. Jan..Pern., Paraíba, RGN; restingueiro, mandioqueiro, roceiro, R. Jan.; tabaréu, R. Jan., Bah., Serg.; tapuia, Pará, Am. Em Port. campônio, camponês. 2º peludo. Min.

No início do século XX intensificaram-se as publicações de estudos e glossários sobre o léxico brasileiro. A famosa obra de Teodoro Sampaio O tupi na geografia nacional veio à luz em 1901. A ela se segue em 1905 Chermont de Miranda,que publicou um glossário de 340 vocábulos de origem tupi, peculiares à Amazônia e especialmente à Ilha de Marajó. Em 1915 Rodolfo Garcia publicou um Dicionário de Brasileirismos. Peculiaridades pernambucanas. Garcia busca distinguir os vocábulos em 4 categorias: 1) luso-brasileiros; 2) panamericanos; 3) pan-brasileiros; 4) locais ou regionais. Na primeira categoria situam-se os termos que já estavam em desuso em Portugal mas continuavam correntes no Brasil. A segunda categoria inclui termos que designam elementos da flora e da
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fauna americana entre outros. Entre os vocábulos pan-brasileiros ressalta-se o papel irradiador da Bahia e do Rio de Janeiro em função do papel político que estas regiões exerceram como centros do governo geral. Por fim o autor dá destaque aos termos usuais em Pernambuco. Fez questão de afirmar que, no capítulo relativo aos elementos da fauna (aves por exemplo), buscou incluir a designação científica do referente para melhor identificá-lo. Para abonar serviu-se de jornais e escritores pernambucanos. Cf. exemplário de verbetes descritos e abonados no seu dicionário: atocaiar, azeite-de-dendê, azucrinar, bafafá, baita, bangüê, bate-boca, biboca, branca e branquinha (aguardente de cana), cafajeste, calango, capoeira, carne-de-sol ou carne-do-sertão, coivara, coroca, cuia, cururu, embaúba, embromar, farofa, frevo, galpão, gambá, garapa, guandu, guará, guarantã, guaxuma, ingácipó, inhame, jaburu, jabuti, jaçanã, jacarandá, jagunço, etc. Em 1937 Pereira da Costa publicou seu excelente trabalho: Vocabulário Pernambucano de 755 páginas, obra bem documentada que conta com registros autênticos das duas primeiras décadas do século XX. Este vocabulário é ainda mais abrangente do que o de R. Garcia. Os verbetes têm uma definição detalhada, tendo como fontes as melhores obras lexicográficas que o precederam, assim como referência circunstanciada de numerosos autores do período colonial e daqueles que descreveram as peculiaridades do dialeto brasileiro e da nossa cultura. Há também uma abundante abonação, sobretudo de publicações pernambucanas, já que o dicionarista pretendia registrar as idiossincrasias do dialeto pernambucano. Alguns verbetes são tão extensos que ocupam uma página e meia ou mesmo duas. Citarei dois exemplos para ilustrar pelo menos:
Bafafá – azáfama, confusão, agitação, reboliço. “Ninguém mais receios tenha de haver grande bafafá” (Lanterna Mágica n. 459 de 1895). “Com a morte do caixeiro andava o boticário num bafafá desesperador.” (A Pimenta n. 30 de 1902). “A orquestra executou o sinal para uma quadrilha. Foi um bafafá de todos os diabos.” (Idem, n. 57)1

O verbete transcrito, a seguir, foi reduzido para não estender demais este texto:
Frevo – efervescência , agitação, confusão, reboliço; apertão nas reuniões de grande massa popular no seu vai-vem em direções opostas,
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Atualizei a ortografia por não me parecer essencial mantê-la para os objetivos deste trabalho.

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como pelo carnaval, e nos seus acompanhamentos de procissões, passeatas e desfilar de clubes carnavalescos. “ O apertão do frevo, nesse descomunal amplexo de toda uma multidão que se deslisa, se cola, se encontra, se roça, se entrechoca, se agarra.” (Jornal do Recife, n. 65 de 1916) “O frevo que mais consola,/ O que mais nos arrebata,/ É o frevo que se rebola/ Ao lado de uma mulata (Diário de Pernambuco, n. 66 de 1916). Etc.

A “língua brasileira” ou a norma brasileira
Nos contínuos e intensos debates sobre a individualidade do português brasileiro foi-se formando um pensamento crítico a respeito da língua, que se consolidou, pouco a pouco, na primeira metade do século XX. No início do século XX recrudescera a polêmica sobre a questão da “língua brasileira”. Formaram-se partidos pró e contra, tanto entre os escritores como entre os gramáticos e filólogos. Na contra-corrente, em 1922, em meio aos grandes debates nacionalistas a respeito da “língua brasileira”, o lingüista Antenor Nascentes, com grande clarividência, se posicionava: o português brasileiro não é uma língua distinta do português europeu como afirmavam nacionalistas como Monteiro Lobato, Mário de Andrade e outros, mas apenas uma variedade da língua-mãe. O capítulo inicial da obra O linguajar carioca de 1922 chama-se “O dialeto brasileiro”. Endossando a posição de Nascentes, lembremos que o português do Brasil constitui uma variedade do português no plano da norma e, não, do sistema, sobretudo no domínio do léxico, área em que as duas variedades do português mais se diferenciam. Em 1922 Monteiro Lobato publicara um artigo sobre “O dicionário brasileiro” em que ele debatia a autonomia do português brasileiro de modo belicoso, como era de seu estilo. Contudo, reconhece que, em matéria de dicionários, os brasileiros dependiam totalmente de Portugal, razão por que era urgente produzir um dicionário sobre o português brasileiro que ele chamava de “língua brasileira”. Como se celebrava então o centenário da Independência do Brasil, ele proclamava que a comemoração mais significativa desta data nacional seria a elaboração e publicação de um Dicionário Brasileiro. Esse feito realmente consolidaria a proclamação da independência do Brasil (Pinto, 1981: 58-61).
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A publicação de obras lexicográficas sobre o português brasileiro. Das obras pioneiras ao novo milênio
Dado o papel do dicionário em relação à norma social, por registrar a linguagem aceita e valorizada na comunidade dos falantes e também por ser o depositário do acervo lexical da cultura, ele é uma referência básica para uma comunidade. Por isso o dicionário é um instrumento indispensável e imprescindível na fixação do léxico de uma língua e ferramenta fundamental na consolidação de uma língua escrita e literária. Por essas razões, durante um século, a sociedade brasileira ansiara por um dicionário que registrasse o seu léxico e a sua norma. Na 1ª sessão da Academia Brasileira de Letras em 1898, Machado de Assis já programava a elaboração de um dicionário de brasileirismos. Na cerimônia de instalação da ABL, em seu discurso inaugural, Joaquim Nabuco afirmava a profunda diversidade das variedades do português brasileiro e do português europeu. Em 1926/27 a Academia Brasileira de Letras começara a imprimir e a rever a primeira parte de um manuscrito incompleto, relativo a esse dicionário de brasileirismos, elaborado por acadêmicos. Entretanto este projeto não logrou a aprovação da própria ABL e não foi publicado. Posteriormente houve tentativas sucessivas e frustradas de retomar o empreendimento, sem jamais se lograr publicar o dito dicionário. Um problema correlato – o da fixação da forma gráfica, ou seja, a ortografia – também se inclui entre os primeiros desiderata da ABL propugnado por José Veríssimo em uma de suas primeiras sessões. Em 1901 Medeiros e Albuquerque propôs à ABL que nomeasse uma comissão para elaborar um projeto de Reforma Ortográfica. E Rui Barbosa elaborou um substitutivo ao projeto de Medeiros e Albuquerque no intuito de “pôr ordem em sua grafia.” A ortografia, porém, ainda percorreria um longo caminho até fixar-se em 1943. Em 1924, Laudelino Freire, neófito na ABL, apresentara um projeto para a elaboração do “Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa”. Nessa proposta afirmava que a produção de um dicionário é tarefa básica que incumbe a uma academia da língua como se constata na história de outras academias como a francesa, a italiana (Accademia della Crusca). Para Freire, mais importante que fazer um Dicionário de Brasileirismos, o desideratum de Machado de Assis, seria elaborar uma obra maior, um dicionário do idioma. Como o projeto da ABL não avançava, Laudelino Freire decidiu,
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de motu proprio, elaborar um dicionário com a colaboração de vários filólogos, dispensando o aval da ABL. Concluída a obra, ela foi publicada em 5 tomos sob o nome de Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa (1939-1944). Este dicionário prima pela riqueza vocabular, com a inclusão de muitas locuções e expressões, neologismos e termos técnicos, além de outras qualidades como numerar as acepções das palavras-entrada. Entre outros problemas apresenta o de não ter cuidado com a inclusão de vocábulos meramente virtuais e não documentados na língua. Na Introdução de seu dicionário diz Laudelino Freire que “... o Brasil, país civilizado e de vida mais que quatro vezes secular, ainda não possui o seu dicionário, sendo um dos poucos ou talvez o único nestas condições.” Embora o Grande e Novíssimo Dicionário buscasse preencher uma lacuna cultural brasileira, de fato tentou atender a consulentes do Brasil e de Portugal, ignorando o problema posto pelas divergências existentes entre as duas variedades do português, tanto no domínio lexical, onde elas são mais abundantes, como também no gramatical e sintático. “Feito principalmente para brasileiros, este dicionário não precisa da indicação de brasileirismo para conhecimento da linguagem falada no país. Além disso, não é fácil definir o que seja brasileirismo.” Entretanto, incluiu um grande número de brasileirismos em sua obra. Convém lembrar que gramáticos e livros didáticos da época (década de 30, 40) inseriam brasileirismos na seção destinada a “Vícios de Linguagem”. Laudelino Freire indicou os vocábulos usados em Portugal como lusitanismos, bem como os do português da África e da Ásia. O dicionário procurou padronizar a ortografia, usando a grafia resultante do acordo de 1931, de que Laudelino Freire fora relator. Este dicionário, com suas virtudes e defeitos, não chegou a ocupar o lugar que poderia ter ocupado, devido talvez ao fato de ser um dicionário volumoso em cinco tomos e, logo, caro, não satisfazendo às condições do momento no que concerne custo de produção e dificuldade de distribuição. Não teve uma segunda edição. Entrementes, a ABL ainda não cumprira um dos fins que constava do 1º artigo de seus Estatutos – a produção de um dicionário. Afrânio Peixoto propõe em 1940 que a Academia incumba um especialista da elaboração do dicionário. Escolheu-se o já então renomado filólogo, Antenor Nascentes, para esta missão. Foi alocada uma verba de 60 contos para cobrir as despesas da elaboração do dicionário e escolhido como modelo o dicionário da Real Academia Espanhola (DRAE). Em 1943 Nascentes entregou o manuscrito à Academia Brasileira de Letras, o qual foi aprovado para pu76

blicação. Passaram-se ainda anos até que este dicionário fosse publicado – 1961-1967 – em 5 volumes. A nomenclatura do dicionário de Nascentes totaliza aproximadamente 100.000 verbetes. Não há abonações; quando necessário para o entendimento da definição, o dicionarista cria exemplos, que são, porém, raros. No que concerne os brasileirismos, Nascentes usou como fontes de informação os pesquisadores que o antecederam. Apesar das muitas qualidades deste dicionário, ele também não teve grande fortuna. Primeiro porque foi publicado muitos anos depois de concluído e não há nada que envelheça mais do que o léxico; segundo porque resultou em obra volumosa e o público comprovadamente prefere compulsar uma obra lexicográfica em apenas um volume e que lhe custe menos. Em 1938 publicou-se o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (PDBLP), em um volume, uma obra de porte reduzido, na sua macroestrutura e na sua microestrutura. Ora, esse modesto dicionário veio preencher a lacuna ressentida pelos brasileiros em relação à sua variedade lingüística. Foi um sucesso editorial desde o início. Vejamos rapidamente o conteúdo deste obra. Tinha 1045 páginas incluindo mais de 72.000 verbetes, pouco elaborados, contendo informações sucintas sobre o lema; em geral, apenas a definição. A grafia já era simplicada; os autores indicaram, porém, a grafia etimológica como em: hipo (hippo) primeiro elemento de vários compostos; hipo (hypo) pref. gr.; hipocampo (hippocampo); hipocondria (hypocondria); hiperglicemia (hyperglycemia), etc. Lembre-se que este dicionário é anterior à reforma ortográfica de 1943. Há um grande número de termos técnicos e científicos da medicina, da botânica, etc. Os autores preocuparam-se com suprir a ausência do léxico típico do Brasil de que se ressentiam os consulentes brasileiros dos dicionários de língua portuguesa. Assim, encontramos um grande número de entradas relativas não só à realidade brasileira (fauna, flora,costumes, cultura em geral) mas também o registro de usos e expressões típicas do Brasil. Vou elencar uma pequena lista destas palavras-entrada (verbetes) só para fornecer um indicador do estilo da nomenclatura: • abalador (que comove), abará, abaúna, brocador, bugreiro, caipira, caipora, danado (hábil, esperto), daninhar, debenturagem, debenturar, debochar (zombar), deboche (troça, zombaria), jangada, jirau, jururu, leva-e-traz, mamulengo, matuto, molecote, moleque, muque, pagé, péde-boi, pé-de-moleque, perrengue, pindaíba, potoca, pussá, quebradeira, ranzinza, resfriadeira, retovo, roceiro, samburá, sertão, sertanista,
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sítio (chácara, fazendola), sitiante, tapera, terçado (facão), tijuco, tora, troço, ubá, umbanda, viralata, zumbi; • termos designadores de referentes da fauna: acará (cará), bororó (veado), itapema (ave), jacu, jacundá (peixe), jaó (ave), jararaca, juriti, macuco, maritaca, muriçoca, maruím, periquito, piaba, saúva (saúba), suçuarana, tanajura, tapir, tatu, teiú, tico-tico, tuiuiú, urubu, etc. • as expressões idiomáticas registradas são poucas; por exemplo: dar bolo, dar quinau, dar murro em ponta de faca, dar o fora, dar o desespero, fazer arte, tocar fogo na cangica, virar bicho, uma ova ! etc. A segunda edição do PDBLP tinha pouco mais de 1084 páginas e teve uma tiragem de 50.000 exemplares. A 3ª edição de 1942, mais aumentada ainda, já contou pela primeira vez com a colaboração de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, que acabou por se tornar seu principal redator. A Nota dos Editores diz o seguinte:
“O Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa é uma obra que já se incorporou ao patrimônio da cultura nacional de que se pode considerar, nas suas ambições limitadas, um índice realmente expressivo. Não se planejou, de fato, senão para ser um “pequeno dicionário”, de fácil manuseio e ao alcance de todos os que se interessam pelo estudo da língua portuguesa falada no Brasil. Não tendo pretensões a obra de erudição, fartamente documentada, eliminou desde a primeira edição as palavras e expressões arcaicas como as citações de exemplos colhidos nas fontes clásicas e destinadas a esclarecer o emprego dos vocábulos, nas diferentes fases de evolução da língua e da literatura. Que a idéia de um PEQUENO DICIONÁRIO genuinamente brasileiro, atendia a uma aspiração geral e já estava amadurecida para ser posta em execução, basta para prová-lo o extraordinário êxito que logrou, atingindo, nas suas três edições, cem mil exemplares em quatro anos.”

Sucederam-se inúmeras edições dessa obra que os brasileiros acolheram como o seu dicionário. O PDBLP foi um fenômeno editorial para o Brasil rural e atrasado de então. Na época da publicação da 1ª, 2ª e 3ª edições a população brasileira não totalizava 45.000.000 pessoas. Foram seus redatores: Hildebrando de Lima, Gustavo Barroso, Manuel Bandeira, José Baptista da Luz, Antenor Nascentes, C. Mello-Leitão, Francisco Venâncio Filho, C. Delgado de Carvalho e José Baptista da Luz e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, além de outros colaboradores nas edições posteriores.
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A última edição, a 11ª, de 1967, interrompeu a carreira vitoriosa do PDBLP porque os militares fecharam a editora que o publicava – a Editora Civilização Brasileira. Julgo que o PDBLP está na gênese do Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira cuja primeira edição é de 1975. Quando não mais se publicou o PDBLP, os brasileiros se viram novamente órfãos de um dicionário de sua variedade lingüística. Assim, o Aurélio pode ocupar a lacuna deixada pela morte do PDBLP, o que explica em parte o grande sucesso desse dicionário. O Aurélio vem sendo um campeão inconteste como o dicionário padrão da sociedade brasileira. Atestam-no não só as diversas edições do dicionário geral, o grande Aurélio (1986, 2000) e as duas versões informatizadas, mas e sobretudo, os milhões de exemplares do Mini Aurélio vendidos para as escolas. Não vou tratar dos demais dicionários que se publicaram no século XX com menor sucesso que o Aurélio: o Michaelis/Melhoramentos em suas várias grandes edições, particularmente a última de 1999 e de sua versão informatizada. Vários outros dicionários concorrem hoje no mercado, particularmente os minis, que disputam encarniçadamente um espaço no panorama educacional do Brasil, pois seu valor como obra de referência é reduzido. Aurélio B. de H. Ferreira fundamentou-se certamente nos originais do PDBLP. Contudo, ampliou consideravelmente as informações contidas nos verbetes sobretudo com respeito aos verbos e substantivos de alta freqüência, palavras geralmente polissêmicas. Esse tipo de verbete inclui abonações dos autores brasileiros registrados no rol das referências. Quanto à questão do vocabulário típico do português brasileiro, assunto de maior importância, conviria ressaltar que Aurélio Buarque de Holanda Ferreira foi responsável pelos brasileirismos na 6ª e 9ª edições do PDBLP. Ora, no dicionário conhecido pelo seu nome, o Aurélio, dos 115.243 verbetes da edição de 1996, 24.632 entradas são rotuladas de brasileirismos. Portanto, quase um quarto do dicionário. A tese de doutoramento de Ana Maria P. P. de Oliveira (UFMGS) intitulada O Português do Brasil: Brasileirismos e Regionalismos examinou bem esta questão. Esse minucioso estudo, baseado em extensa pesquisa por minha orientada, centrou-se no dicionário Aurélio, extraindo dele todos os verbetes rotulados com estas marcas sociolingüísticas. Pela análise dos dados tentou-se extrair os critérios adotados por Aurélio na sua classificação. Constatamos que muitos senões existem neste dicionário quanto a essa matéria, não sendo o menor deles, o próprio critério de brasi79

leirismo. De um modo geral, Aurélio classificou como brasileirismos os signos que nomeiam os referentes da fauna e da flora do Brasil. Freqüentemente trata-se de indigenismos. Ora, um problema de grande relevância são as fontes em que Aurélio recolheu os regionalismos que registrou. Recolheu-os provavelmente em vários vocabulários regionais, publicados nos séculos XIX e XX e já referidos. Não se pode ter certeza porque Aurélio não registrou as suas fontes quanto a este tópico. A proeminência dada por Aurélio aos brasileirismos em seu dicionário, pode ser atribuída à problemática que povoou os debates sobre a identidade do português brasileiro desde a segunda metade do século XIX até a primeira metade do século XX e ao ideal lingüístico e lexicográfico da sua geração. A sociedade brasileira ainda não possui um dicionário geral do português do Brasil elaborado dentro de critérios lexicográficos científicos e baseado em sólida teoria lexical. Além do Aurélio, os dois outros dicionários gerais que aspiravam à exaustividade – o Michaelis e o recém-publicado (2001) Dicionário Houaiss – carecem dessa fundamentação lingüística. Para a difícil empreitada de elaborar um thesaurus do português brasileiro contemporâneo seria necessário reunir uma grande equipe de especialistas com boa formação lingüística e com bons conhecimentos de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia. Tal equipe deveria ser assessorada por especialistas em informática que pudessem ajudar na elaboração de programas de computador que fornecessem suporte ao lexicógrafo na seleção dos lemas e no tratamento de questões complexas como a identificação de unidades complexas e a sistematização das acepções de lexias polissêmicas. De fato, o computador constitui uma ferramenta básica e imprescindível para se fazer um bom dicionário. Além disso, tal obra deveria basear-se em um grande corpus da língua falada e escrita (com predominância desta última), corpus esse que representasse todas as variedades de discurso, ou seja os mais variedados gêneros, bem como uma vasta e diversificada recolha de textos técnicos e científicos para poder integrar a gigantesca pletora de terminologias que caracterizam o léxico do português brasileiro contemporâneo.

Referências bibliográficas
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UM ESPAÇO DE ENUNCIAÇÃO PARA DIZER
OS BRASILEIRISMOS*

Sheila Elias de Oliveira UNICENTRO (Doutoranda – Unicamp)

Uma enunciação portuguesa sobre os brasileiros
Na segunda metade do século XIX, inicia-se a gramatização1 brasileira da língua portuguesa. Até o final dos anos 30 do século XX, esta produção é marcada pela caracterização de uma diferença entre o português brasileiro e o europeu.2 Neste movimento, a categoria dos brasileirismos se sobressai como um lugar de especificidade lingüística brasileira: na lexicografia, são publicados dicionários de brasileirismos, como os de Macedo Soares e de Beaurepaire-Rohan,3 de 1888 e 1889, respectivamente; nas gramáticas, dois exemplos de sua inclusão são as de Pacheco da Silva Jr.: a Grammatica Historica da Lingua Portugueza, de 1879, e a Grammatica da Lingua Portugueza, de 1887, em co-autoria com Lameira de Andrade, as quais, segundo Guimarães (2000), os integram como fato lingüístico que configura um sujeito coletivo brasileiro que dá novo sentido à língua portuguesa.
* Esta reflexão se constrói como parte de minhas pesquisas de doutoramento, financiadas pelas bolsas concedidas pela Capes tanto para o percurso realizado na Unicamp como para o estágio na ENS/LSH de Lyon. Por gramatização, Auroux (1992: 65) entende “o processo que conduz a descrever e a instrumentar uma língua na base de duas tecnologias, que são ainda hoje os pilares do nosso saber metalingüístico: a gramática e o dicionário”. Ver a esse respeito a periodização dos estudos do português do Brasil realizada por Guimarães em Guimarães e Orlandi (orgs.), 1996: 127-38. Pode-se antever o conflito de que tratarei aqui na semântica da própria nomeação dos dois dicionários: o de Soares – Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa – afirma um lugar brasileiro de fala sobre a língua portuguesa; já o de Rohan – Dicionário de Vocábulos Brasileiros – afirma uma especificidade vocabular brasileira, sem sequer nomear a língua com a qual estes vocábulos são postos em relação, seja de pertencimento, seja de oposição.

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Interessa-me aqui, como parte deste momento em que os brasileirismos são argumento para a afirmação da identidade lingüística brasileira, tomá-los enquanto objeto de uma enunciação portuguesa. O locutor é Cândido de Figueiredo, lexicógrafo que os inclui em seu dicionário. O dizer deste autor sobre a língua portuguesa e os brasileirismos será analisado no prefácio do seu Novo Diccionário da Língua Portuguesa, presente desde a primeira edição, de 1899, e nos posfácios que acompanham as outras edições em vida do autor: de 1913, 1922 e 1925. Parto da consideração de que os dizeres se dão em espaços de enunciação, tal como estes são definidos por Guimarães (2002: 21):
espaços de funcionamento de línguas, constituídos pelo equívoco próprio do acontecimento entre a deontologia que organiza e distribui os papéis sociais dos falantes e o conflito que os redivide segundo os direitos ao dizer e aos modos de dizer.

A partir daí, entendo que os brasileirismos, ao passo que afirmam um lugar de identidade lingüística brasileira, instabilizam uma certa normatividade de sentidos da língua portuguesa, dos quais elenco os que me parecem mais importantes na enunciação do lexicógrafo português: 1. enquanto língua do povo português – e isto em um momento histórico em que as línguas nacionais são fator importante de identificação de um povo e seu país; 2. enquanto língua de colonizadores, aí entendidos: 2.1. um direito superior ao dizer a/sobre a língua e por essa via sobre seus falantes; 2.2. o prestígio de uma língua também medido pelo número de seus falantes, o que sinaliza a importância da unidade lingüística entre estes. Este conflito está no cerne da divisão entre português do Brasil e português europeu. Quando o direito à palavra sobre a língua portuguesa começa a se dividir, quando o direito a diferentes modos de dizer a/da língua começa a se afirmar, há uma enunciação portuguesa que se significa neste fato lingüístico-político. E é como gesto próprio do político que Figueiredo inscreve seu dizer neste espaço enunciativo. Concebo o político aqui tal como caracterizado por Guimarães (2002: 17), “pela contradição de uma normatividade que estabelece (desigualmente) uma divisão do real e a afirmação de pertencimento dos que não estão incluídos”. Ao predicar a língua portuguesa e os brasileirismos, Figueiredo reafirma um certo pertencimento dos portugueses em relação ao saber a/da língua. Será analisado o modo como estes sentidos se tecem nos fios da argumentação nas diferentes cenas enunciativas.
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As cenas são “especificações locais dos espaços de enunciação” e “se caracterizam por constituir modos específicos de acesso à palavra dadas as relações entre as figuras da enunciação e as formas lingüísticas” (Guimarães 2002: 28). As figuras da enunciação são: o Locutor (L), que se representa como o “eu” da enunciação; o locutor-x, lugar social do qual fala L (nas cenas aqui analisadas, o de lexicógrafo português); e o enunciador, lugar de dizer que pode ser individual, universal, genérico ou coletivo. A imbricação do político na enunciação da forma específica como Guimarães o formula diz respeito a sua concepção do dizer como histórico, este tal como definido na Análise de Discurso Francesa. Assim, o agenciamento da língua e dos sujeitos na enunciação se sustenta em posições no interdiscurso, em formações discursivas determinadas.4 É, então, uma abordagem da relação constitutiva entre a divisão dos falantes na enunciação, a textualização do dizer e sua sustentação histórica que será realizada nas análises que seguem.

A unidade dividida – conversação preliminar / primeira edição (1899)
Vejamos alguns excertos do prefácio de 1899, mantido nas edições em vida do autor: 1 “Mas o português não é sómente a língua de Portugal e de suas possessões: 2 fala-o uma grande nação, que se emancipou da nossa velha soberania, mas que não enjeitou o idioma, com que levámos a civilização europeia aos sertões da América do Sul” (1899, apud 1939: 1322). “Succede porém que o português do Brasil não é precisamente o português europeu: recebeu numerosos termos da população indígena, e o tupi entrou como elemento constituinte no organismo da moderna linguagem brasileira. 4 Ora, desde que um diccionário é destinado a todos os povos que falam português, não pode prescindir dos termos brasílicos, que são inseparáveis da linguagem portuguesa, praticada além do Atlântico” (1899, apud 1939: 1322).
Segundo Pêcheux (1975: 160), uma formação discursiva é aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determina o que pode e deve ser dito.

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“Note-se entretanto: nem todos os termos, a que eu apponho a nota de brasileirismos, e que como taes são considerados pelos mais conspícuos vocabularistas, como Beaurepaire-Rohan, provieram dos Tupis ou foram criados por brasileiros. 6 Muitos dêlles são velhos portuguesismos, que partiram daqui com os descobridores e colonizadores das terras de Santa Cruz, e que lá vivem e prosperam ainda, sendo aqui já esquecidos ou mortos.” (1899, apud 1939: 1322) (...) A geriza, o agir, o faneco (pedaço de pão), a alfafa ou alfaifa, o guaiar, etc. são bons e velhos vocábulos portugueses, de que nós nos esquecemos quási, mas que os Brasileiros, para vergonha nossa, sabem alimentar e prezar. 8 Sob êste ponto de vista, a inscripção de muitos vocábulos brasileiros equivale, creio eu, á rehabilitação pública de alguma coisa, injustamente condemnada pela ingrata pátria...” (1899, apud 1939: 1323). (Referindo-se à dificuldade ortográfica dada a ausência de escrita tupi) Sobretudo longe do Brasil, não é nada fácil decidir qual das variantes de um vocábulo brasílico é a exacta ou, pelo menos, a preferível. Em taes condições, julgo que andei bem avisado, registando as variantes que se depararam, e remetendo o leitor para a fórma vocabular, que mais corrente se me afigurava. 10 A exegese dos eruditos brasileiros, – que os há e muitos, – poderá resolver a dúvida em última instância, e os seus acórdãos acatarei como devo. (1899, apud 1939: 1323, em nota da segunda edição).

Eu, nós, todos – a divisão das figuras da enunciação
Nas diferentes cenas enunciativas, também nos posfácios, Cândido de Figueiredo fala do lugar social de lexicógrafo português. Este lugar de locutor, cuja legitimidade para falar sobre a língua é instabilizada pelo espaço de enunciação em que se inscreve, é reafirmado na própria enunciação do lexicógrafo, marcadamente na divisão do enunciador. Este desliza entre três formas, que produzem sentidos diferentes na enunciação: a primeira, a universal, que faz com que os argumentos passem como verdades encadeadas no fio do dizer, é a predominante: um exemplo é a predicação da língua em 1: “fala-o uma grande nação, que se emancipou da nossa velha soberania, mas que não enjeitou o idioma, com que levamos a civilização européia aos sertões da América do Sul”. O apaga86

mento da historicidade deste enunciado pode ser pontuado na contraposição entre as designações “civilização européia” e “sertões da América do Sul” ou ainda na relação “se emancipou...mas não enjeitou o idioma”, que apaga as razões históricas da inscrição e da manutenção do português como língua oficial do Brasil.5 A segunda forma que toma o enunciador é a individual, que aqui produz o efeito de afirmação do lugar de saber do locutor sobre a língua; as ocorrências são: em 5: “termos a que eu aponho a nota de brasileirismos”; em 7: “equivale, creio eu...” e em 9: “julgo andei bem avisado”. Há ainda uma ocorrência em 10: “e os seus acórdãos acatarei como devo”, na qual este uso tem um funcionamento especial: o de afirmar o direito do locutor pela afirmação do direito do erudito brasileiro. Isso porque a afirmação única de acatamento dos acórdãos dos eruditos brasileiros no que respeita à ortografia de termos tupis tem como efeito a restrição do direito à palavra destes ao que é indígena, àquilo na língua que não é comum aos portugueses. Finalmente, o enunciador toma a forma da coletividade dos ‘portugueses’, ‘povo português’, assumindo um ‘nós’ que faz face a um outro na relação com a língua: os brasileiros. As ocorrências são as seguintes: em 1, “com que levamos a civilização européia...”; em 7, “bons e velhos vocábulos portugueses de que nos esquecemos quase”. Este efeito de uma coletividade portuguesa em relação a um ‘outro’ brasileiro é reforçado pelas referências espaciais, que tomam como ponto de origem Portugal, relacionando os dois países; são elas: em 2, “levamos”; em 4, “além do Atlântico”; em 6, “daqui/lá /aqui”; em 9, “longe do Brasil”. Tem-se, então, três movimentos principais na divisão das figuras da enunciação: 1. o efeito de “textualização da verdade”; 2. a afirmação do lugar social do locutor enquanto lugar de direito à palavra sobre a língua, com a restrição deste direito para o erudito brasileiro; 3. a divisão entre um ‘nós portugueses’ e um ‘outro’ brasileiro. Vejamos como estes movimentos significam nos fios da argumentação na relação com as predicações da língua portuguesa e dos brasileirismos.

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Lembre-se aqui do édito do Marquês de Pombal, de 1757, que obriga o ensino do português nas escolas, e da discussão legislativa sobre o nome da língua – ‘brasileira’ ou ‘portuguesa’ – nos anos 30 e 40 do séc. XX. (Sobre esta discussão, v. Dias (1996).

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Entre a civilização e o sertão – a língua reescriturada
Já no enunciado que introduz o dizer sobre os brasileirismos, a língua aparece nomeada: “o português”. O sentido deste nome vai se tecendo pelas predicações que recebe: 1. não é somente a língua de Portugal e de suas possessões/2. fala-o uma grande nação, que se emancipou da nossa velha soberania, mas que não enjeitou o idioma com que levamos a civilização européia aos sertões da América do Sul/3. o português do Brasil não é precisamente o português europeu/3a. recebeu numerosos termos da população indígena, e o tupi entrou como elemento constituinte no organismo da moderna linguagem brasileira/4. português/ 4a. linguagem portuguesa, praticada além do Atlântico

A predicação está sendo aqui considerada como um procedimento de reescritura (Guimarães, 1998: 4), pelo qual a estabilização entre as formas se faz a partir da deriva dos sentidos, do trabalho histórico do equívoco na língua. Como tal, a relação predicativa não se restringe aos limites da frase; ela é concebida como passível de se dar em qualquer ponto do texto. Vejamos, então, como os sentidos vão derivando e produzindo efeitos na argumentação. Neste conjunto de predicações, a orientação argumentativa predominante é a que vai em direção à unidade da língua portuguesa. Tem-se aí o espaço enunciativo de divisão da língua produzindo sentidos. Observemos em mais detalhe como este espaço vai se inscrevendo na enunciação. A construção 1 significa a mudança de uma normatividade – a de que o português é a língua de Portugal e de suas possessões – formulada pela sua negação parcial, por meio de não somente. A afirmação da emancipação da “grande nação” brasileira sinaliza o litígio, a necessidade de redivisão da língua e de seus falantes. Em 2, a unidade lingüística é afirmada em dois movimentos: o primeiro, a partir da construção em ‘mas’: “se emancipou mas não enjeitou o idioma”, que tem como argumento predominante a não rejeição do idioma 6 pela nação brasileira; o segundo, pela predicação da língua como o idioma com que Portugal trouxe a civilização ao sertão brasileiro. Tem-se aí o argumento da oposição entre a língua civilizada e a língua bárbara,
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Refiro aos estudos do mas realizados por Anscombre e Ducrot (1983).

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largamente utilizado na Idade Moderna na oposição entre as línguas européias e as indígenas das colônias.7 Este argumento é reforçado na predicação 3, em que a divisão da língua é formulada nas designações “português do Brasil” e “português europeu”; é a assimetria morfológica e semântica entre os dois especificadores – não se tem ‘do Brasil’ e ‘de Portugal’ mas ‘do Brasil’ e ‘europeu’ – que faz significar a mesma direção de valorização da língua de civilização. Tanto mais porque a justificativa apresentada para esta divisão logo em seguida (em 3a) é a entrada da língua indígena – o tupi – na linguagem brasileira. Junta-se a esse argumento em favor da unidade do português a caracterização da relação lingüística entre Portugal e Brasil como um deslocamento geográfico; este sentido já está em 2, na representação de uma língua que é levada da civilização para a barbárie; e também em 4a, na designação “linguagem portuguesa, praticada além do Atlântico”. Já se pode observar que a afirmação da unidade lingüística se formula de maneira tal que a relação entre falantes portugueses e brasileiros é construída de forma assimétrica: entre bárbaros e civilizados, entre os que estão lá e os que estão cá, com os que foram e não são mais possessão portuguesa. Na direção dessa assimetria, cabe remarcar a especificidade semântica que aqui adquire o uso de ‘linguagem’, em 4a: “linguagem portuguesa, praticada além do Atlântico” e em 3a: “moderna linguagem brasileira”. Este vocábulo, usado somente para designar a língua do Brasil, significa em oposição à “língua”, usado para designar a língua de Portugal ou a unidade entre as duas. Para esta língua que é definida como um deslocamento espacial do português europeu, “linguagem” significa modo de falar, um “regionalismo”, como será formulado mais adiante.

Os brasileirismos – entre tupinismos e portuguesismos
Vejamos como as predicações da língua entram em relação com as dos brasileirismos, abaixo:
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Este tratamento do outro como bárbaro, sabemos, tem sua origem documentada na Grécia Antiga, onde todos os povos que não falavam grego assim eram considerados. O interessante é que etimologicamente ‘bárbaros’ eram aqueles que não falavam, já que não falavam o grego e, portanto, não produziam nada além de ruídos (v. Calvet, 1987), o que nos mostra como a questão do direito à palavra se inscreve na memória dos dizeres sobre a língua e das políticas sociais.

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numerosos termos da população indígena/ 3a. o tupi entrou como constituinte da moderna linguagem brasileira/ 4. termos brasílicos, que são inseparáveis da linguagem portuguesa, praticada além do Atlântico/ 5. nem todos os termos, a que eu aponho a nota de brasileirismos, e que como tais são considerados pelos mais conspícuos vocabularistas, como B-R, provieram dos Tupis ou foram criados por brasileiros/ 6. velhos portuguesismos, que partiram daqui com os descobridores e colonizadores das terras de Santa Cruz, e que lá vivem e prosperam ainda, sendo aqui já esquecidos ou mortos/ 7. bons e velhos vocábulos portugueses de que nos esquecemos quase mas que os brasileiros para vergonha nossa sabem alimentar e prezar/ 8. a inscrição de muitos vocábulos brasileiros equivale à reabilitação de alguma coisa injustamente condenada pela ingrata pátria/ 9. Sobretudo longe do Brasil, não é nada fácil decidir qual das variantes de um vocábulo brasílico é a exata ou, pelo menos, a preferível/ 9a. registando as variantes que se depararam e remetendo o leitor para a forma vocabular que mais corrente me afigurava

Este conjunto de predicações estabelece uma divisão entre os brasileirismos: 3, 3a, 4, 9 e 9a os significam como termos do tupi; já 6, 7 e 8 como termos outrora utilizados em Portugal e que os brasileiros “reabilitaram”. O enunciado 5 realiza a transição entre os dois tipos, ao mesmo tempo formulando a única inclusão de uma possibilidade de criação brasileira: “ou foram criados por brasileiros”, que não é repetida, desenvolvida ou exemplificada, como são as dos outros dois tipos. A divisão dual entre os brasileirismos é ainda reforçada pela especialização dos sentidos entre ‘brasílico’ referindo-se ao que é do tupi, e ‘brasileiro’ ao que é do português, em “termos brasílicos” (4)/ “vocábulo brasílico” (9) e “vocábulos brasileiros (8)”. Constrói-se a imagem de um sujeito de língua brasileiro que não cria, apenas recupera portuguesismos ou integra tupinismos. Nesta direção, o encadeamento das predicações concernentes aos portuguesismos significa em uma contradição: é justamente o movimento de enaltecimento do povo brasileiro x depreciação do povo português que esvazia o sentido de um sujeito lingüístico brasileiro criador. Isso porque este movimento (predicações 6, 7 e 8) se constrói pelo enaltecimento da recuperação de vocábulos portugueses pelos brasileiros.
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Os efeitos da espacialização geográfica da diferença
Os diferentes lugares em que o espaço enunciativo de litígio português do Brasil/português de Portugal significa na enunciação de Figueiredo estabelecem uma direção que se sustentará ao longo dos posfácios: a afirmação de uma unidade lingüística contraditória, no interior da qual se constrói uma hierarquia entre falantes brasileiros e portugueses. Nas predicações da língua portuguesa e dos brasileirismos, a diferença entre a língua do Brasil e a de Portugal é reduzida ao geográfico; dessa forma, a primeira é significada como uma “linguagem”, um modo de falar da “língua” européia. A partir deste argumento, podem-se caracterizar os brasileirismos sem a especificidade de uma identidade lingüística brasileira, divididos entre tupinismos e portuguesismos. O próprio geográfico se constrói sobre um sentido de assimetria entre os falantes, espacializados entre a “civilização européia” e os “sertões da América do Sul”. Une-se a língua, hierarquizando-se o direito à palavra nela e sobre ela, seja pelos falantes comuns, seja pelos eruditos. Eis os discursos colonizador e eurocêntrico produzindo efeitos nesta redivisão da língua para reafirmar uma certa normatividade: a de que os brasileiros falam a língua do povo português.

Uma política que se explicita: palavras finaes – segunda e terceira edições
Passemos às predicações da língua nos posfácios de 1913 e 1922: 11 (Referindo-se à necessidade de apresentar a ortografia mais usual em Portugal e no Brasil) “E falo do Brasil, porque em Portugal não podemos nem devemos escrever só para Portugueses: 12 há além do Atlântico vinte milhões de indivíduos, que falam a língua portuguesa / e a quem não podemos insular dos escrúpulos e cuidados que nos merece o idioma commum” (1913, apud 1939: 1342). 13 “A minha terra e ao Brasil, especialmente aos homens de letras e sciências, consagro, nesta obra, o produto de largos annos de trabalho e o documento de minha inteira dedicação ás letras e á língua do povo português” (1913, apud 1939: 1343). 14 “...alguns e desambiciosos serviços prestei devotàdamente á língua de Portugal e do Brasil” (1922, apud 1939: 1346).
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No posfácio da segunda edição (enunciados 11 e 12), uma mudança na textualidade aumenta o grau de explicitude da política que vinha se delineando em relação ao instrumento lingüístico. Esta mudança consiste em dois movimentos: 1. passa-se do predomínio do enunciador universal ao do enunciador individual; 2. introduz-se no dizer uma justificativa para se falar do Brasil em um dicionário de Português feito em Portugal, qual seja, a de que os brasileiros não podem ser insulados pelos portugueses dos cuidados e escrúpulos com o idioma comum. Nessa formulação, o dizer sobre a língua vem dos portugueses para os brasileiros e o efeito de redução da diferença lingüística entre os dois países ao geográfico persiste, pelas locuções “em Portugal” e “além do Atlântico”. Este efeito de assimetria entre falantes brasileiros e portugueses se reduplica, ainda, na contradição entre a dedicação da obra a dois países: “à minha terra e ao Brasil” e a afirmação dos serviços prestados a um só povo concernido pela língua: “às letras e à língua do povo português” (enunciado 13). A redução ao geográfico, tendo como ponto de origem Portugal, reafirma a divisão dos falantes entre portugueses e seu ‘outro’ brasileiro. Na divisão das figuras da enunciação, as formulações em que aparece o enunciador coletivo contribuem para este efeito. Este lugar de dizer está nos enunciados 11 e 12, em duas ocorrências entrecortadas pela entrada única do enunciador universal: “porque em Portugal não podemos nem devemos escrever só pra Portugueses” / “há além do Atlântico vinte milhões de indivíduos, que falam a língua portuguesa” / “...e a quem não podemos insular dos escrúpulos e cuidados que nos merece o idioma comum”. Na predicação universal, por sua vez, é enfatizada a quantidade de falantes no Brasil; este dizer entra em relação parafrástica com a designação “uma grande nação” do prefácio e sinaliza a importância de se manter a unidade da língua num país grande e já populoso como este. Nos dois posfácios, a afirmação da unidade lingüística entre Brasil e Portugal se marca nas designações anafóricas do nome da língua: em 12, “o idioma comum”; em 14, “a língua de Portugal e do Brasil”. As ocorrências do enunciador individual são: “e falo do Brasil”, em 11; “consagro, nesta obra” / “minha inteira dedicação”, em 13; “prestei devotadamente”, em 14. O funcionamento de afirmação do lugar de lexicógrafo português se mantém, mas a direção desta afirmação muda em relação ao prefácio: se lá a ênfase se põe sobretudo no respaldo que este lugar social imprime ao locutor, aqui está no respaldo que o trabalho individual deste último imprime ao lugar de lexicógrafo português. Tal mu92

dança, junto ao predomínio do enunciador individual, compõe um movimento em que o locutor se atribui cada vez mais autoridade. Os posfácios de 1913 e 1922 apresentam, então, algumas regularidades em relação ao prefácio estruturadas a partir da afirmação da unidade assimétrica da língua. Nesta direção argumentativa que se repete, a política para o dicionário calcada na assimetria entre os falantes é mais explícita. Na distribuição das figuras da enunciação, a predominância do enunciador individual é indício do aumento na autoridade atribuída pelo locutor a si próprio. Este efeito se acentua no posfácio de 1925.

Os brasileirismos como regionalismos – as últimas palavras do auctor sôbre a quarta edição
O posfácio da última edição em vida de Figueiredo é também lugar de justificativas e de predomínio do enunciador individual. A auto-atribuição crescente de autoridade pelo locutor é acentuada com o direcionamento da interlocução: antes o locutor se dirigia ao leitor do dicionário de forma geral; agora há um interlocutor específico – os críticos à forma de inclusão dos brasileirismos no dicionário. Desse modo, o litígio do direito à palavra entre falantes brasileiros e portugueses é aqui mais explícito. 15 “Assim é que esta quarta edição do Novo Diccionário da Língua Portuguesa, afora várias e indispensáveis correções, regista pela primeira vez muitos centenares de vocábulos, colhidos uns em obras de escritores exemplares, e recebidos outros da linguagem falada de differentes regiões de Portugal e do Brasil” (1925, apud 1939: 1347). 16 “A propósito de linguagem regionalista, verifica-se, sem vaidade, que nenhum diccionário além do meu registou coisa que se parecesse com mais de dez mil brasileirismos, a que deu cabida em o Novo Diccionário da Língua Portuguesa” (1925, apud 1939: 1346). 17 E contudo, havendo-se nos últimos tempos publicado, em revistas e opúsculos, algumas colleções de vocábulos numerosos, que os respectivos colleccionadores averbam de brasileirismos, não tem faltado quem me accuse de não registar mais espécimes da linguagem brasileira, chegando a inventar disparatadamente má vontade minha para com o Brasil, onde certamente não há dois homens sensatos que tal disparate perfilhem.
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18 “As responsabilidades do diccionarista não são coisa que se ponha de lado, para lisonjear seja quem fôr. Ora, se o autor do presente diccionário reproduzisse cègamente quanto tem visto em revistas e opúsculos com a designação de brasileirismos, seria um grande Marcelo para os colleccionadores, mas teria lavrado a mais formal condemnação da sua própria obra” (1925, apud 1939: 1346). 19 “De facto, entre os próprios pontífices das letras brasileiras ainda não se estabeleceu acôrdo sôbre o que deva entender-se por brasileirismo, sendo portanto naturaes e legítimas, em tal assumpto, quaisquer hesitações de quem não é pontífice nem ao menos propheta menor” (1925, apud 1939: 1347). 20 “Succede até que, sem sombra de dúvida, numerosos vocábulos, que se registam como brasileirismos, são meras expressões da linguagem geral, conhecidíssimos do povo português”. 21 Muitos outros supostos brasileirismos são outras tantas corruptelas de vocábulos do uso geral; e, se tivéssemos de registar num diccionário da língua as corruptelas de tal género, seriam taes e tantas as que se poderiam colher em todas as regiões portuguesas e brasileiras, que o vocabulário geral ficaria apoucado e afogado em meio a essas escurrilidades. 22 “O diccionarista aceitou e registou quanto a tal respeito não lhe oferecia dúvidas, importando-se pouco ou nada de quem as não tivesse nos muitíssimos casos em que êlle as tinha” (1925, apud 1939: 1347). Nestas predicações dos brasileirismos, há dois movimentos argumentativos. Nos enunciados 15 e 16, o locutor se vangloria da grande quantidade de brasileirismos de seu dicionário. O enunciado 17 tematiza as críticas recebidas justamente em sentido contrário, ou seja, pelo baixo número de brasileirismos incluídos. A partir deste enunciado de transição, os seguintes se dirigem a justificar a posição do autor. Na divisão das figuras da enunciação, os lugares de dizer individual, universal e coletivo estão novamente presentes. O enunciador individual é marcado pela 1ª e a 3ª pessoas do singular: em 16, “nenhum dicionário além do meu”; em 17, “não tem faltado quem me acuse” / “má vontade minha para com o Brasil”; em 18, “se o autor do presente dicionário”; em 19, “quaisquer hesitações de quem não é pontífice nem ao menos profeta menor”; em 22, “o dicionarista aceitou e registrou” / “muitíssimos casos em que ele as tinha”.
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As predicações acima, à exceção de 17, em que não há tal explicitação, fazem referência ao lugar social do locutor, seja como lexicógrafo (16, 18, 22) ou como português (19). Esta relação entre o lugar de dizer e o lugar social produz um efeito de reafirmação da legitimidade deste último. Ao mesmo tempo, nesta representação do enunciador individual em 3ª pessoa, o ‘eu’ do locutor significa tomado pelo seu lugar social de dizer. Um ‘eu’ que fala representando no dizer o lugar que lhe permite falar, e não mais simplesmente o de indivíduo. Num duplo movimento, este ‘eu’ se respalda no lugar que lhe autoriza o dizer, atribuindo autoridade a este lugar e, por essa via, a si próprio enquanto locutor. O efeito de auto-atribuição de autoridade pela afirmação do lugar social do locutor no jogo entre a primeira e a terceira pessoas se repete em duas marcas que transitam entre o lugar de dizer individual e o coletivo: se há uma coletividade significada, não é mais a dos portugueses, como até então; é justamente a dos lexicógrafos, representada entre a 3ª pessoa do singular e a 1ª do plural: “as responsabilidades do dicionarista não são coisa que se ponha de lado” (18); “se tivéssemos que registrar num dicionário” (21). As três ocorrências do enunciador universal, por sua vez, se dão em lugares que significam a assimetria entre os falantes na direção de esvaziamento de um caráter lingüístico brasileiro. Em 15, é formulado o sentido de ‘linguagem regionalista’, designação que aparece em 16; em 20, o sentido é o de repetição de termos usados em Portugal; e, finalmente, em 21, o sentido é o de corrupção da língua portuguesa. Vejamos em mais detalhe como as designações dos brasileirismos, ditas do lugar do universal ou não, compõem o quadro de assimetria entre os falantes: 15. muitos centenares de vocábulos, colhidos uns em obras de escritores exemplares, e recebidos outros da linguagem falada de differentes regiões de Portugal e do Brasil/ 16. linguagem regionalista/ 17. algumas colleções de vocábulos numerosos, que os respectivos colleccionadores averbam de brasileirismos/ 17a. espécimes da linguagem brasileira/ 18. quanto tem visto em revistas e opúsculos com a designação de brasileirismos/ 19. o que deva entender-se por brasileirismo/ 20. numerosos vocábulos, que se registam como brasileirismos, são meras expressões da linguagem geral, conhecidíssimos do povo português/ 21. Muitos outros supostos brasileirismos são outras tantas corruptelas de vocábulos do uso geral/ 21a. as corruptelas de tal género, seriam taes e tantas as que se poderiam colher em todas as regiões portugue95

sas e brasileiras/ 21b essas escurrilidades/ 22. quanto a tal respeito não lhe oferecia dúvidas. Há nestas designações três movimentos semânticos. Num primeiro movimento, os brasileirismos são significados como regionalismos (em 15 e 16), o que reforça o sentido do português do Brasil como um deslocamento geográfico do português da matriz. O segundo movimento pode ser observado em 17, 18, 19 e 22: põese em dúvida quais elementos podem ser identificados como brasileirismos. O lugar da dúvida é também o lugar instituído de saber sobre a língua, pois quem a formula são os colecionadores de brasileirismos, o dicionarista, os pontífices das letras brasileiras. Faz-se aí uma nova divisão: o povo diz na língua, mas o dizer sobre ela é restrito ao especialista. No terceiro movimento, a dúvida cede lugar à certeza. Em 20, 21, 21a e 21b, o locutor toma a palavra sobre os brasileirismos e os redivide entre “meras expressões da linguagem geral, conhecidíssimos do povo português” e “corruptelas de vocábulos do uso geral” / “escurrilidades”. A primeira designação significa os brasileirismos enquanto portuguesismos. A segunda não é restrita aos brasileirismos, mas se aplica aos regionalismos (aí incluídos os de origem portuguesa), os quais põe em um lugar marginal em relação a uma certa norma lingüística. Entre a primeira e a segunda designação, uma regularidade semântica: de um lado, brasileirismos não brasileiros; de outro, regionalismos não regionais, ambos pendurados nas arestas da norma lingüística portuguesa. Neste posfácio, a explicitação do litígio entre falantes do português põe de forma decisiva a afirmação da unidade lingüística assimétrica. Os brasileirismos, designados como regionalismos, deslizam entre portuguesismos e corruptelas de vocábulos do português. E até o falante erudito e o ordinário, mesmo portugueses, são divididos, quando se restringe ao primeiro o direito às dúvidas e certezas sobre a língua e, por essa via, ao lugar de saber sobre ela.

A velha voz se reinscreve
Nas diferentes cenas enunciativas analisadas, a divisão dos lugares de dizer significa a tríade entre o lugar da verdade (universal), o das comunidades dos portugueses e dos lexicógrafos (coletivo) e o do locutor en96

quanto fonte do seu dizer (individual). Esta divisão funciona de modo a legitimar a autoridade do locutor enquanto lexicógrafo português na tomada da palavra sobre a língua portuguesa e os brasileirismos. Ancorado nestes lugares, ao predicar a língua e os brasileirismos, Cândido de Figueiredo realiza uma redivisão do acesso à palavra entre falantes brasileiros e portugueses, redivisão esta imposta pelo litígio português do Brasil/português europeu. Há, então, em sua enunciação, um movimento de afirmação da supremacia portuguesa sobre a língua falada no Brasil, em duas instâncias: a primeira, que toca ao especialista, diz respeito ao lugar de saber e de deliberação sobre a língua relacionado à definição e manutenção da norma; a segunda, que toca ao falante comum, está ligada ao lugar da criação lingüística, de um caráter subjetivo de povo marcado na língua. Neste movimento, o locutor reduz as diferenças históricas entre a língua do Brasil e a de Portugal ao geográfico. Definida pelo mero deslocamento espacial, a mesma língua integra o diferente, sem recusar o antigo, sem criar o novo. Isto porque geografia e cultura estão imbricadas: em Portugal, há uma língua de civilização, há uma civilização para a língua; nos sertões da América do Sul, não há civilização, portanto não há povo ou tampouco saber legitimado. A palavra do brasileiro é significada como a de um outro, indígena ou português, sempre inferior, sempre nas bordas da norma portuguesa. Os brasileirismos, desse modo, que na enunciação dos estudiosos brasileiros constituem uma diferença lingüística utilizada como argumento para a afirmação da identidade nacional, no dizer do lexicógrafo português são um alheio que o brasileiro interioriza na justa medida que lhe permite a sua inferioridade enquanto sujeito de língua. A “grande nação que se emancipou da velha soberania portuguesa”, sua língua, seu povo são aqui definidos ainda pela velha voz soberana inscrita no velho discurso colonizador eurocêntrico...

Referências bibliográficas
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DICIONARIZAÇÃO NO BRASIL: CONDIÇÕES E PROCESSOS
José Horta Nunes Universidade Estadual Paulista (UNESP)

Como mostram Auroux (1992) e Schlieben Lange (1993), uma série de trabalhos têm sido dedicados nas últimas décadas à história do saber lingüístico, não somente para legitimar uma certa teoria, mas para compreender os processos envolvidos na produção desse saber, em suas diversas formas. Acompanha tal movimento um interesse em discutir questões teóricas e metodológicas.1 Dentro dessa perspectiva, e em relação com a análise do discurso, alguns trabalhos abordam o caso brasileiro, procurando levar em conta o papel de teorias, acontecimentos, instituições ligados à produção de saber lingüístico, especialmente na forma de gramáticas e dicionários (ver Auroux, Mazière, Orlandi, 1998 e Orlandi, 2001). Dentro dessa perspectiva, vamos nos ater neste artigo a questões relacionadas à dicionarização, ou seja, à descrição e instrumentação da língua na base do dicionário. Em trabalhos anteriores, ligados ao projeto História das Idéias Lingüísticas no Brasil, tenho analisado de uma perspectiva discursiva a produção de um conjunto de dicionários no Brasil desde a Época Colonial até o século XIX (Nunes, 1996, 1998). Considerando o dicionário como um objeto discursivo, conforme a perspectiva de Mazière (1997), procuro explicitar as condições de sua produção em determinadas conjunturas, relacionando as formas dicionarísticas às condicionantes históricas. Proponho agora retomar alguns passos percorridos, trabalhando os resultados dessas análises em vista de uma história da dicionarização. Acrescento para este artigo alguns elementos relativos ao século XX. As reflexões que seguem não
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Encontramos discussões a esse respeito nas revistas Histoire Epistémologie, Langage (Presses Universitaires de France, Paris) e Historiographia Lingüística (J. Benjamins, Amsterdan). No Brasil, desde 1998, temos a revista Línguas e Instrumentos Lingüísticos (Pontes, Campinas).

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têm nenhuma pretensão de exaustividade quanto à listagem de obras, autores, acontecimentos, etc. O que se tem em vista é o modo de construir interpretações trabalhando-se as séries de condições históricas relativas à produção lexicográfica. Para se compreender a historicidade dos dicionários, propomos levar em conta as condições específicas de sua produção. Daí resulta uma escrita atenta aos fatores históricos que fazem aparecer o saber lexical na forma do dicionário. Nesta escrita, efetua-se uma remissão do texto lexicográfico a suas condições de produção, de modo que o saber lexical não é tomado independentemente dessas condições, como um saber ideal ou atemporal. Esta maneira de ler o dicionário, com base na análise do discurso, tem conseqüências produtivas, a nosso ver, para a história do saber lexical, incluindo-se aí a construção das periodizações e a interpretação dos fatos ligados à dicionarização. Compreender a história da dicionarização nos traz elementos ainda para abordar questões de ética e de política lingüística, levando-se em conta os processos de produção dos dicionários, com os diversos fatores sócio-históricos aí envolvidos.

O dicionário: um saber histórico
Os historiadores das ciências da linguagem têm refletido sobre seu objeto, revendo trabalhos já realizados, propondo novas abordagens, retornando a mesmas questões sob outras perspectivas, levantando novos fatos. Um dos pontos que resultaram disso foi o questionamento do que sejam as ciências da linguagem. A posição que sustentamos aqui, com base em Auroux (1992), é a de que o saber lingüístico é um produto histórico, localizado em um tempo e em um espaço:
Todo conhecimento é uma realidade histórica, sendo que seu modo de existência real não é a atemporalidade ideal da ordem lógica do desfraldamento do verdadeiro, mas a temporalidade ramificada da constituição cotidiana do saber (Auroux, 1992: 11).

Ainda conforme Auroux, a origem do saber metalingüístico não concerne a um acontecimento, mas a um processo num intervalo temporal aberto, às vezes longo, e ela pode ser espontânea (como as tradições hindu, chinesa e grega) ou resultar de uma transferência tecnológica (como
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a tradição latina, a gramática hebraica, o estudo dos vernáculos europeus, ameríndios, africanos). Ao tratar da questão da origem e do desenvolvimento do saber lingüístico, Auroux sustenta a tese de que “a escrita é um dos fatores necessários ao aparecimento das ciências da linguagem”. Assim, o saber metalingüístico pressupõe a escrita, cujo advento corresponde à primeira grande revolução tecnológica das ciências da linguagem, iniciada em 3.000 a.C. A segunda grande revolução seria a da “gramatização”, ou seja, o “processo que conduz a descrever e a instrumentar uma língua na base de duas tecnologias, que são ainda hoje os pilares de nosso saber metalingüístico: a gramática e o dicionário”. Tal processo avança amplamente no século XVI: “o Renascimento europeu é o ponto de inflexão de um processo que conduz a produzir dicionários e gramáticas de todas as línguas do mundo na base da tradição greco-latina”. O dicionário, segundo Auroux, é um “instrumento lingüístico”, e como tal ele “prolonga a fala natural”, dando acesso a formas que não figuram na “competência” de um locutor. Trata-se de um “instrumento tecnológico” que não corresponde a algo que estaria inscrito na mente do sujeito, mas a algo que lhe é exterior. Quanto à sua constituição histórica, Auroux considera os processos, de longo prazo, que levaram ao aparecimento e ao desenvolvimento de tais instrumentos. Assim, por exemplo, foram necessários séculos para a passagem das primeiras listas de palavras (a partir de 3.000 a.C.) aos glossários medievais e depois aos dicionários monolíngües das línguas nacionais a partir do século XVI.

Processos de dicionarização no Brasil
Como aparece um saber dicionarístico no Brasil? Esta questão suscita uma série de apontamentos, conforme um ou outro critério. Se consideramos a unidade da palavra, desde os primeiros relatos de viajantes temos um saber que se volta para os termos empregados no Brasil, sejam as nomeações em língua portuguesa, desde Caminha (1500), sejam termos indígenas traduzidos e comentados, desde Pigafeta, em 1519, como aponta Neiva (1940). Se consideramos a forma acabada do dicionário, os bilíngües português-tupi foram os primeiros a aparecer, na Época Colonial (séc. XVI-XVII). Se consideramos o dicionário monolíngüe, o de Moraes (1789) foi o primeiro a ser amplamente utilizado, inaugurando a série de trans101

ferências2 de dicionários portugueses, que seguirá com Aulete (1881), Figueiredo (1899) e outros. Ainda quanto ao monolíngüe, se consideramos a produção local, destacam-se na segunda metade do século XIX os dicionários de complemento, como o de Costa Rubim (1853), os de regionalismos, como o de Antônio Coruja (1856) e os de brasileirismos, como os de Macedo Soares (1888) e Beaurepaire Rohan (1889). Se temos em vista, finalmente, o dicionário brasileiro de língua portuguesa, podemos indicar nas décadas de 1930 e 40 o aparecimento dos primeiros dicionários de língua portuguesa apresentados como brasileiros: Lima e Barroso (1938) e Freire (1939-43). Se levamos em conta ainda outras tipologias (etimológicos, escolares, literários, etc.), teremos uma série de outros critérios e obras. Para nossos objetivos neste artigo, vamos nos ater ao caso do dicionário monolíngüe, procurando explicitar elementos de sua constituição em um processo histórico. Trataremos de outras formas textuais (relatos, listas, dicionários bilíngües) apenas na medida em que elas participam do processo de dicionarização do monolíngüe. Pois nesse processo, tanto os relatos de viajantes quanto os dicionários bilíngües serviram de matéria prima para a constituição dos monolíngües. Do ponto de vista em que nos situamos, o saber lexicográfico resulta de um longo processo de instrumentação, cuja origem não está em um acontecimento isolado, mas em uma série de fatos inter-relacionados. Com relação às formas textuais, podemos resumir os momentos de dicionarização nos seguintes itens: a) b) c) d) transcrição e comentário de termos; listas temáticas de palavras; dicionários bilíngües; dicionários monolíngües.

A fim de comentar estes itens, apresentamos no quadro abaixo algumas séries de fatores que indicam acontecimentos, instituições, autores, teorias, obras ligados à produção dicionarística. Consideramos em sua interpretação dois períodos de dicionarização, que correspondem a proces2

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Segundo Auroux, uma tradição lingüística pode se originar de forma espontânea ou resultar de uma transferência tecnológica (A revolução tecnológica da gramatização, 1992: 21). Utilizamos aqui a distinção de Auroux entre exo-gramatização e endo-gramatização: “Por definição, o processo de gramatização que nos interessa aqui corresponde pois a uma transferência de tecnologia de uma língua para outras línguas, transferência que não é, claro,

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sos distintos de gramatização. No primeiro, predomina a exo-gramatização,3 com a produção de listas de palavras e dicionários bilíngües. No segundo, predomina a endo-gramatização com a produção de dicionários monolíngües:4

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nunca totalmente independente de uma transferência cultural mais ampla. Importa levar em conta a situação dos sujeitos que efetuam a transferência, segundo eles sejam ou não locutores nativos da língua para a qual ocorre a transferência. Falaremos respectivamente de endotransferência e de exotransferência. Lingüisticamente teremos igualmente ou uma endogramatização ou uma exogramatização (A revolução tecnológica da gramatização, 1992: 74). Consideramos aqui a predominância desses processos em determinadas conjunturas. Não se deve perder de vista, no entanto, que fatos de endo-gramatização ocorrem desde a Época Colonial. É o caso, por exemplo, em relatos de viajantes, de listas de palavras e definições de termos portugueses utilizados no Brasil. Do mesmo modo, fatos de exo-gramatização, como a dicionarização de línguas indígenas, continuam durante o século XIX e XX, e até a atualidade.

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ENDO-GRAMATIZAÇÃO Colonização Independência Monarquia República Companhia de Jesus Expulsão dos Jesuítas Obrigatoriedade do estudo do português Academias Universidades portuguesas IHGB Bibl. Nac. Escola pública ABL Escola Pública Missionários jesuítas Viajantes Moraes G. Dias, E. F. França, M. Soares, B. Rohan B. da C. Rubim, Antônio Coruja Gramática Latina Gramática Geral Gramática Histórica Gramática de Língua Nacional Dic. de Bras. Dic. Bil. Tupi-Port. Dic. de Complem. e de regionalismo 1757 1822 Dic. Monolíngüe Port. Dic. Monol. Bras. 1889 1938 1600 1700 1800 1900

PROCESSO DE GRAMATIZAÇÃO

EXO-GRAMATIZAÇÃO

ACONTECIMENTOS

Descoberta

Reinos

INSTITUIÇÕES

AUTORES

Viajantes

TEORIAS

Editoras Ampliação da rede escolar Universidades G. Barroso e H. Lima, L. Freire, A.Nascentes, A. B. Holanda, A. Houaiss Lingüística Sincrônica

Dicionários bilíngües Port.-Tupi

OBRAS

Listas de palavras Comentários

1547

2001

1500

2000

A lista que segue complementa o quadro, apresentando datas e fatos relacionados à dicionarização no Brasil:5 1500 1549 1585 1587 1621 1724 1757 1759 1789 1808 Descoberta Chegada dos jesuítas Viagem à Terra do Brasil, de Jean de Léry Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa Vocabulário da Língua Brasílica, anônimo-jesuítas Fundação da Academia Brasileira dos Esquecidos Promulgação do Édito dos Índios (obrigatoriedade da língua portuguesa) Expulsão dos jesuítas Dicionário da Língua Portuguesa, de Antônio de Moraes e Silva Chegada da Família Real Estabelecimento da Imprensa Fundação da Biblioteca Nacional Primeiros jornais brasileiros: Gazeta do Rio de Janeiro, Correio Brasiliense Independência do Brasil Fundação do Colégio Pedro II, início da escola pública Fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro Revista do IHGB Coleção de Vocábulos e Frases usados na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, de Antônio Álvares Pereira Coruja. Vocabulário Brasileiro para servir de complemento aos dicionários da língua portuguesa, de Braz da Costa Rubim Dicionário da Língua tupi chamada língua geral dos indígenas do Brasil, de Gonçalves Dias Chrestomathia da Lingua Brazilica, de Ernesto Ferreira França Léxico de brasileirismos anexo ao romance Diva, de José de Alencar. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de A. J. de Macedo Soares

1822 1837 1838 1839 1852 1853 1858 1859 1865 1888

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Para a feitura desse quadro recorremos parcialmente a algumas periodizações já realizadas, especialmente as que se encontram em S. Auroux, F. Mazière e E. P. Orlandi (“L´hyperlangue brésilienne”, Langages 130, Larousse, Paris, 1998) e em E. Guimarães (Sinopse dos estudos do português no Brasil, in Língua e cidadania, E. Guimarães e E. Orlandi (Orgs)). Em nosso caso, limitamo-nos à dicionarização.

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1889 Proclamação da República Dicionário de Vocábulos Brasileiros, de Beaurepaire-Rohan 1897 Fundação da Academia Brasileira de Letras 1937 Fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP 1938 Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de H. Lima e G. Barroso 1939 Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, de L. Freire (1939-44) 1943 Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa 1961 Dicionário da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes, pela ABL (1961-67) 1965 A Lingüística é introduzida no currículo dos cursos de Letras 1969 Dicionário Melhoramentos da Língua Portuguesa, Editora Melhoramentos 1975 Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio B. de Holanda 2001 Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Instituto Antônio Houaiss Nos relatos de viajantes, aparecem os primeiros comentários sobre termos utilizados no Brasil: nomeações em português e termos indígenas traduzidos e comentados. Ainda nos relatos aparecem listas de palavras organizadas tematicamente, pequenos glossários e verbetes de tipo enciclopédico. Os bilíngües português-tupi dos jesuítas inauguram os dicionários de língua e realizam a primeira alfabetação (colocação em ordem alfabética) do português em dicionário brasileiro. Note-se que essa alfabetação, que podemos apontar no Vocabulário na Língua Brasílica (século XVI, provavelmente, ou início do XVII) se dá muito proximamente à primeira alfabetação em Portugal, que, conforme Verdelho (1995), ocorre com o primeiro bilíngüe português-latim, de Jerônimo Cardoso (1562). Assim, enquanto em Portugal tínhamos a relação português-latim, no Brasil era trabalhada a relação português-tupi. A passagem da exo-gramatização à endo-gramatização na segunda metade do século XVIII constitui uma virada. O dicionário de Moraes marca uma mudança significativa devido a vários fatores: expulsão dos jesuítas, influência da Gramática Geral, obrigatoriedade do estudo do português, surgimento de novas instituições, como as academias, e de um contingente de brasileiros que realizava estudos em Portugal. A partir daí, esse dicionário e em seguida outros que o seguirão servem de referência para a produção brasileira. Ele permite a partir daí que se observem as semelhanças e diferenças,
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as “faltas” e “omissões”, desencadeando-se assim a produção de dicionários brasileiros. Quanto aos bilíngües, há uma tendência de inversão da ordem: de português-tupi (ordem utilizada pelos jesuítas) para tupi-português, de modo a definir os termos do tupi que passam a ser considerados do português brasileiro. Surgem, em seguida, primeiramente os dicionários de complemento, de regionalismos e de brasileirismos durante o século XIX, e em seguida os dicionários brasileiros de língua portuguesa no decorrer do século XX.

Condições de produção dos dicionários brasileiros
Uma posição historicista coloca que o saber é um produto histórico, resultante de uma série de causas e que pode ser situado em determinadas conjunturas espaço-temporais. Como afirma Auroux:
Que todo saber seja um produto histórico significa que ele resulta a cada instante de uma interação das tradições e do contexto. Não há nenhuma razão para que saberes situados diferentemente no espaçotempo sejam organizados do mesmo modo, selecionem os mesmos fenômenos. É o reconhecimento deste fato que constitui nossa posição resolutamente historicista, ao mesmo tempo que fornece o interesse heurístico de todo trabalho histórico (Baratin & Desbordes, apud Auroux, 1992: 14).

Este posicionamento conduz a dizer que temos no Brasil um modo específico de organização do saber dicionarístico, que se dá em um certo contexto e em um certo espaço-tempo. Ainda conforme Auroux, “as causas que agem sobre o desenvolvimento dos saberes lingüísticos são extremamente complexas. Pode-se notar conjuntamente: a administração dos grandes Estados, a literalização dos idiomas e sua relação com a identidade nacional, a expansão colonial, o proselitismo religioso, as viagens, o comércio, os contatos entre línguas, ou o desenvolvimento dos conhecimentos conexos como a medicina, a anatomia ou a psicologia.” (Auroux, 1992: 28). A partir da perspectiva discursiva em que nos situamos, acrescentamos que as determinações causais estão relacionadas com as condições de produção do discurso: quem produz o dicionário, como, onde, para quem, em que circunstâncias? Analisando o caso brasileiro, levantamos as seguintes condições de produção: a territorialidade, a administração do território, a urbanização, a institucionalização, os contatos lingüísticos, a identidade nacional, a influência de teorias, os domínios conexos, as tecnologias.
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a) territorialidade O saber lingüístico toma formas específicas conforme o território em que aparece, estabelece-se e transforma-se. No Brasil, com o descobrimento e a colonização, o contato dos europeus com uma natureza e sociedades específicas levam ao aparecimento de formas dicionarísticas singulares. A questão da referência logo se coloca, com os processos de nomeação, tradução, glosa, definição, ou seja, as formas lingüístico-discursivas que estarão na base do texto dicionarístico. Decorre daí o aparecimento e a circulação de “nomes do Brasil”, com seus diversos modos de definição e explicação. Tal fato se dá juntamente com a literalização dos nomes de línguas indígenas e a textualização na forma de relatos. Esses nomes ainda não estão organizados alfabeticamente; eles aparecem pontualmente nos discursos ou ordenados tematicamente, na forma de um saber enciclopédico, que trata da natureza, do índio, das situações de colonização. A territorialidade se relaciona a um real que constantemente clama por sentidos, e cuja interpretação estabelece limites espaço-temporais nos quais se inserem os sujeitos. Na Época Colonial, a dicionarização realizou-se nas regiões de fronteira ou contato. A região da “costa do Brasil” era apontada pelos jesuítas como local de gramatização, em que sujeitos europeus e índios se relacionavam. Podemos dizer que as diversas frentes de contato vão definindo as formas de territorialidade.6 b) administração do território Do fator (a) decorre um segundo, que é a administração do território, nas suas diversas maneiras de realização: colonização, governo, Estado. Acompanha esse fator um outro que lhe está relacionado, a saber, a institucionalização. Tais fatores colocam em pauta a questão da unidade/ diversidade de línguas e a definição de políticas lingüísticas, das quais resultam determinadas formas dicionarísticas. Parece bastante plausível relacionar algumas formas dicionarísticas a formas de administração do território. Assim, nos governos coloniais, com a política lingüística da colonização, temos os dicionários bilíngües, que serviram como instrumentos de catequese e colonização. Com o Estado Monárquico, no século XIX, e o objetivo de atribuir uma identidade e uma história aos habitantes do Brasil,
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Sobre as diversas formas de contato e a relação com a produção de saberes lingüísticos no Brasil, ver ORLANDI Eni Puccinelli. (1990), Terra à vista, Cortez: São Paulo/Unicamp: Campinas.

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temos os dicionários bilíngües do “tupi antigo”. Com a República, os dicionários de brasileirismos, que tomam por objeto a fala do “povo brasileiro”. E com as transformações da República no século XX, os dicionários brasileiros de língua portuguesa, em que são introduzidos mais amplamente elementos socioculturais relativos ao Brasil. c) urbanização Desde a Época Colonial, os dicionários aparecem em núcleos formadores de cidades. É o caso de Piratininga (atual São Paulo), onde os jesuítas implantaram suas escolas; e de Salvador que, com a chegada de escravos, aumenta sua população (ver nota 9 mais adiante). No século XVIII e mais ainda no XIX, com o crescimento urbano em algumas localidades, ampliam-se fatores decorrentes desse fato: escolarização, instituições administrativas, ampliação da cultura letrada e do público leitor. O olhar urbano, em oposição ao rural, pode ser notado desde o dicionário de Coruja (Coleção de Vocábulos e Frases usados na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul). Publicado em 1852 pelo IHGB, suas definições, repletas de locativos, apresentam uma distinção entre o campo e a cidade: o dicionário de regionalismo é construído a partir de uma posição de lexicógrafo que observa tanto o campo quanto a cidade, como se vê nos seguintes verbetes: Peão, s. m. homem ajustado para fazer o serviço do campo: esta designação se entende até aos escravos exclusivamente ocupados no serviço das estâncias. Perneira, s. f. espécie de bota de couro cru garroteado, que os cavaleiros usam no campo, e que tiram inteiriça da perna do potro; pelo que também chamam botas de potro. Pingo, s. m. vulg. diz-se de um bom cavalo; que bonito pingo! rebenqueia o pingo, etc. usa-se tanto na campanha, como nas cidades. Pracista, adj. (deriv. de praça) o que vivendo no campo, mostra mais alguma civilização por ter feito viagens às cidades e ter nelas praticado com pessoas de educação. O dicionário constrói assim uma imagem da cidade enquanto lugar de civilização e de escolarização, em oposição ao campo, onde encontramse moradores e trabalhadores. Deste modo, a dicionarização vai conformando a imagem de um “sujeito urbano escolarizado”.7 Outro momento
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Retomamos aqui a expressão utilizada por C. Pfeiffer (2001). Refletindo sobre as relações língua/Estado, civilidade/não-civilidade, sujeito/espaço, unidade/dispersão, escolarização/

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que podemos apontar é o do Rio de Janeiro de finais do século XIX. O dicionário de M. Soares (1889) introduz uma série de discursividades próprias do contexto urbano: instituições públicas, administração, comércio, espaço público, jornalismo, sujetividade urbana. O lexicógrafo, portanto, volta-se mais decididamente para a observação das práticas urbanas. O século XX foi palco de uma urbanização sem precedentes, da qual decorreu uma ampliação da rede escolar, o aparecimento de universidades, o surgimento de editoras e a conseqüente ampliação do público letrado. Podemos considerar esse fator uma das causas do aparecimento dos primeiros dicionários brasileiros de língua portuguesa, com a produção dicionarística de grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo. d) institucionalização As formas administrativas e a urbanização são acompanhadas de processos de institucionalização. A Companhia de Jesus, na Época Colonial, é a primeira instituição a produzir dicionários: os bilíngües portuguêstupi. Tal produção acompanha o aparecimento e o declínio dessa instituição, respectivamente em 1547 e 1757. Na primeira metade do século XVIII surgem as primeiras academias brasileiras, que, apesar de não produzirem dicionários, tiveram um papel regulador no estabelecimento do português de Portugal.8 Elas surgem sob a influência do Iluminismo, que acarretou igualmente mudanças no sistema escolar e no estabelecimento de instituições jurídicas. Note-se que nesse período as universidades portuguesas tiveram um papel importante na formação das elites brasileiras. Não parece fora de propósito associar esse fator à formação do dicionarista Moraes, que deixa o Brasil em 1774 rumo a Portugal. Lá faz um curso jurídico na Universidade de Coimbra. Em seguida, elabora seu dicionário, publicado em 1789 em Lisboa. No Brasil Monárquico, a Biblioteca Nacional (1808)
urbanização, Pfeiffer estuda a constituição no Brasil de um sujeito urbano escolarizado: “o processo de escolarização e o de urbanização funcionam, ambos, como instrumentos, do Estado, de normatização, estabilização, regulamentação dos sentidos do sujeito e dos sentidos para o sujeito ocupar a cidade.” (Cidade e sujeito escolarizado. In Cidade atravessada: os sentidos públicos no espaço urbano, Eni P. Orlandi (Org.). Campinas: Pontes, 2001). B. Mariani mostra que as academias que surgiram no Brasil no século XVIII tiveram uma função reguladora que levou a combater a língua geral e defender o português: “Les académies fonctionnent comme des ‘pré-institutions’, dont la fonction régulatrice majeure serait de mettre en oeuvre l´écriture d´une histoire officielle du Brésil, en utilisant le portugais de la métropole comme instrument permettant d´éviter toute ‘échappée” de sens.” (Langages 130, Paris: Larousse, 1998, p. 84).

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e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838) promoveram a produção e publicação de dicionários bilíngües, dentre os quais os de Gonçalves Dias (1858) e Ferreira França (1859). Tais obras trazem como marca a colocação do português em uma ligação histórica com o “tupi antigo”. O IHGB segue até o período republicano, quando promove a publicação de dicionários de brasileirismos. Com a República, surge a Academia Brasileira de Letras (1897), cujo dicionário, depois de muitas discussões e projetos, fica pronto em 1943 e é publicado em 1961-1967 (o de Antenor Nascentes). A ABL teve um papel fundamental na formação de lexicógrafos, na concepção de projetos dicionarísticos e na normatização ortográfica. Podemos apontar ainda uma passagem da concepção histórica e regional dos dicionários, que prevalecia com o IHGB, para uma concepção que tende para o dicionário da língua geral tomada em sincronia. A escolarização é um fato importante. No Colégio Pedro II, em finais do século XIX e início do XX, atuaram alguns dicionaristas. Mencione-se, na primeira metade do XX, Antenor Nascentes. A ampliação do ensino escolar nesse período levou à produção de dicionários compactos e adaptados ao contexto brasileiro. Concorreu também para este fato a consolidação de um mercado de livros. O aparecimento de editoras nas décadas de 30 e 40 abre caminho para as publicações independentes e para a série de dicionários de nomes próprios. Segundo H. Pontes (1989: 364), com a Revolução de 30, uma nova configuração “se expressou nos mais variados setores da vida cultural do país: na instrução pública, nas reformas do ensino primário e secundário, na criação de novas faculdades e das primeiras universidades brasileiras, na produção artística e literária, nos meios de difusão cultural e, sobretudo, na ênfase aos estudos e ao conhecimento da realidade nacional”. Nessa nova configuração, as editoras ocuparam um lugar significativo, com a publicação de estudos sobre a realidade nacional. Dentre tais editoras está a Civilização Brasileira. Fundada pelo acadêmico Gustavo Barroso, ela publica o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, do próprio G. Barroso e de H. Lima. Este pequeno dicionário, com definições breves e sem exemplos ou citações, teve grande sucesso editorial, inaugurando a série de dicionários brasileiros de língua portuguesa. De 1939 a 1944, a editora A Noite publica no Rio de Janeiro o Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, de Laudelino Freire. Mencionemos ainda, dentre outras, a editora Delta, do Rio de Janeiro, que promove edições brasileiras do dicionário de C. Aulete (1958, 1970, 1980), a Melhoramentos, de São Paulo, que publica seu dicionário desde 1969, atual111

mente denominado Michaelis, e a editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, que desde 1975 publica o Aurélio. Ainda na série das instituições, temos também nas décadas de 30 e 40 o aparecimento das universidades, com a fundação das faculdades de Letras (em 1937, surge a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP). As conseqüências desse fato começam a aparecer nas últimas décadas. Podemos mencionar, com relação aos dicionários gerais, a elaboração em curso do Dicionário de Usos do português Contemporâneo (ver Borba, 1997), realizada com base em um corpus eletrônico da língua escrita. e) contatos lingüísticos O contato entre europeus e índios motivou as primeiras produções lexicográficas no Brasil. Em um meio multilíngüe ocorre um processo de exo-gramatização, com as línguas indígenas sendo dicionarizadas por falantes europeus. Ainda que pouco documentado, podemos apontar um processo semelhante com relação às línguas africanas.9 Com as medidas pombalinas, a política monolíngüe se estabelece e temos a introdução do primeiro dicionário do português, seguida da endo-gramatização brasileira. Nesse processo, as diferenças lingüísticas passam a ser tratadas como diferenças internas: regionalização, “influência” de outras línguas (sobretudo indígenas e africanas) no português brasileiro, reconhecimento dos brasileirismos. As semelhanças e diferenças entre o português brasileiro e o português de Portugal também levam a certos projetos lexicográficos e modos de inclusão/ exclusão. Com respeito aos contatos do português com outras línguas, tais como as de imigrantes, parece-nos que seria pertinente um estudo da história dos dicionários bilíngües, bem como do modo como os monolíngües tratam tais línguas. É interessante notar ainda, após o período de diferenciação/identificação em relação ao português de Portugal, um movimento de ampliação com relação aos demais países de língua portuguesa.10
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E. Bonvini e M. Petter, analisando a documentação sobre as línguas africanas no Brasil, indicam a existência do Vocabulário Português-Angolano, redigido por Pedro Dias em 1694. O mesmo autor também publica, em Lisboa, em 1697, Arte da língua de Angola, em que descreve a língua quimbundo, falada em Salvador por escravos originários de Angola (Portugais du Brésil et langues africaines, Langages 130, Paris: Larousse, 1998). Analisando diversos dados sobre os contatos culturais e lingüísticos Brasil/África, M. Petter mostra que a edição de 2000 do Aurélio passa a incluir angolanismos, cabo-verdianismos, guineensismos, moçambicanismos e santomensismos. (A constituição do léxico nacional: problemas de línguas em contato, trabalho apresentado no XLIX Seminário do GEL, Marília, 2001).

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f) identidade nacional A atribuição de uma identidade nacional constitui um fator motivador da produção de dicionários. Podemos remeter os dicionários bilíngües tupiportuguês da Época Imperial aos processos de identificação do brasileiro que tomaram o índio como antepassado deste. Gonçalves Dias, autor do Dicionário da Língua tupi chamada língua geral dos indígenas do Brasil, foi encarregado de elaborar uma história das línguas indígenas e elegeu o tupi como língua dos antepassados brasileiros. Ressalte-se dessa produção o aparecimento de reflexões etimológicas que ligavam termos do tupi antigo a termos do português brasileiro. Desta maneira, os termos tupi vão sendo incorporados ao português. Outro momento associado à identidade nacional está na produção de dicionários de brasileirismos, no final do século XIX, quando se buscava uma identidade para o povo brasileiro, não apenas pela influência indígena, mas por diversas condições sociais. As conseqüências disso são observáveis na constituição da nomenclatura desses dicionários, com a inclusão de uma série de termos relativos à conjuntura brasileira: designativos de raça e grupo social, termos culturais, termos do cotidiano das cidades. Os movimentos nacionalistas na década de 20 também estão na base de construções de identidade nacional. Podemos afirmar que isso levou à introdução, nos dicionários de língua portuguesa feitos no Brasil, de elementos culturais próprios desse contexto. g) influência de teorias Examinando a produção dicionarística brasileira, é possível em grande escala relacioná-la com teorias lingüísticas desenvolvidas em conjunturas determinadas. Os dicionários muitas vezes não explicitam as filiações teóricas, sobretudo quando não apresentam prefácios ou indicações de filiações. Resta ao analista o procedimento de detectar as teorias implícitas. Considerando-se estas condições, vamos indicar a influência de cinco grandes correntes teóricas. A primeira é a da Gramática Latina. Os dicionários bilíngües jesuítas tinham uma forma muito próxima da gramática. Grande parte dos verbetes trazia comentários gramaticais, com presença marcante da Gramática Latina, que serviu de base também para a elaboração da gramática de Anchieta. Há uma intertextualidade visível entre esta gramática e o Vocabulário na Língua Brasílica.11 Desenvolveu-se aí um saber con11

Ver J. H. Nunes (Dicionário e instrumentos lingüísticos no Brasil: dos relatos de viajantes aos primeiros dicionários, tese de doutorado, Unicamp, 1996).

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trastivo entre a língua indígena e a língua portuguesa, tendo a Gramática Latina como metalinguagem teórica. A marca mais flagrante desse saber está na reflexão sobre as partes do discurso no interior dos verbetes do VLB. Com a virada que consistiu na interrupção da produção jesuíta e no empréstimo do dicionário de Moraes, sai de cena a Gramática Latina e entra a gramática geral ou filosófica. Tal influência é explicitada a partir da segunda edição, quando se introduz nos preâmbulos desse dicionário uma gramática com base na Gramática Geral. A relação pode ser observada na mudança estrutural da obra, que elimina os comentários etimológicos que havia em Bluteau e torna as definições menos extensas, além de deixar o dicionário mais compacto. Com isso, segue o modelo iluminista da “clareza” e “concisão”, passando do dicionário de grandes autores ao dicionário do “modo de pensar”. Em meados do século XIX, a influência da lingüística histórica se faz observar nos dicionários bilíngües tupi-português e na relação que se estabelece entre o tupi antigo e o português, relação apoiada pela corrente romântica. Note-se que os dicionários de G. Dias e F. França foram publicados em Leipzig, onde vigorava o comparatismo alemão. No caso dos dicionários tupi-português, ocorreu menos uma genealogia das línguas,12 mas uma explicação histórica que incluiu a construção de um saber etimológico ligando o tupi antigo ao português falado. No final do século XIX e entrando pelo XX, temos a influência da gramática da língua nacional. A defesa da língua nacional tem como conseqüência imediata a modificação da nomenclatura dos dicionários, com a inclusão de brasileirismos nos dicionários portugueses e a elaboração de dicionários de brasileirismos. A questão semântica também é colocada, ressaltando-se os casos de homonímia e polissemia. Estabelecem-se ainda marcações de domínio (brasileirismo, regionalismo, popular, etc.). No século XX, os estudos sincrônicos tiveram uma grande influência, cujas conseqüências ainda estão em curso. Podemos apontar o aparecimento dos dicionários monolíngües como reconhecimento de uma língua brasileira, com uma fonética, uma morfologia, uma sintaxe, uma semântica, embora na polêmica sobre o nome oficial da língua tenha prevalecido por razões diversas o nome “língua portuguesa”.13 Acompanha esse processo uma separação mais delineada entre o dicionário de definição e o dicionário histórico ou
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Uma reflexão sobre a genealogia das línguas encontra-se nos vocabulários comparativos de línguas indígenas elaborados por Martius. A esse respeito ver L. F. Dias (Os sentidos do idioma nacional. Campinas: Pontes, 1996).

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etimológico: os dicionários de brasileirismos, como os de Soares (1888) e Rohan (1889), dedicavam um espaço significativo para a etimologia, enquanto os dicionários brasileiros de língua portuguesa limitam esse espaço à indicação da origem.14 h) domínios conexos O saber lexicográfico se constitui na relação com diferentes domínios conexos, tais como ciência, literatura, história, religião, mídia, etc.. Por isso, ele se apresenta com diversas configurações conforme as alianças e fronteiras que se estabelecem entre esses domínios. Na Época Colonial, os relatos traziam uma forma de conhecimento que aliava ciência, política, religião, descrição de costumes, compondo um saber enciclopédico que serviria em seguida de fonte para a lexicografia. Com os jesuítas, a relação com a religião determinou em grande medida as formas lexicográficas. Assim, temos na nomenclatura do VLB a presença de um vocabulário religioso e de cenas enunciativas próprias da situação de catequese. Em Moraes, o domínio jurídico ganha terreno, o que acarreta, além da mudança na forma da definição, como apontamos no item anterior, a inclusão ou atualização do vocabulário das instituições, dos sujeitos e das concepções jurídicas e políticas, com as modificações discursivas que daí decorrem. Enquanto no Moraes o jurídico ganha espaço, nos bilíngües publicados pelo IHGB o dicionário está aliado à história, tal como promovida pelo Estado Monárquico. Assim, o binômio direito/história funciona distribuindo as significações em espaços discursivos específicos. O discurso da história, no entanto, começa a declinar na segunda metade do século XIX, enquanto os domínios da sincronia (estudos da língua falada, ciências socias, folclore, além de diversas áreas científicas) passam a se estabelecer. As conseqüências dessas transformações se observam na produção dicionarística do século XX: definição de termos em uso no Brasil, introdução e acréscimo de acepções científicas, marcação de domínios (brasileirismo, regionalismo, folclore, familiar, vulgar, coloquial, gíria, etc.), transcrição fonética.15 Outro domínio que a partir do século XIX começa a ser introduzido é o do jornalismo. O dicionário de Soares (1888) inclui, entre suas fontes, vários
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Note-se que o recém-lançado Dicionário Houaiss da língua portuguesa não segue esse procedimento, dedicando mais espaço aos comentários etimológicos, introduzidos no interior dos verbetes. No Dicionário da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes (1961), editado pela Academia Brasileira de Letras, apresenta-se uma transcrição fonética dos termos.

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jornais em circulação no país. Tal procedimento se intensifica no século XX, não apenas com o jornalismo, mas também com outras formas de mídia, de modo que no prefácio do dicionário de Ferreira (1975) aparece, dentre as caracterizações da língua a ser dicionarizada, a seguinte: “língua dos jornais e revistas, do teatro, do rádio e televisão”. A literatura teve um papel importante na produção brasileira a partir da elaboração de léxicos anexos a romances, como em Diva de José de Alencar (1865). A introdução mais sistemática da literatura brasileira nos dicionários gerais, no entanto, precisou esperar o decorrer do século XX, com os dicionários brasileiros de língua portuguesa. Isto ocorreu juntamente com a introdução de diversos aspectos culturais relativos ao contexto nacional. Também no século XX, as diversas ramificações da ciência ganham espaço no dicionário, fato que leva à ampliação de definições científicas, com marcações de domínios de especialidade. A distinção ciência/literatura traça suas fronteiras, de maneira que estas duas tendências concorrem na elaboração de projetos lexicográficos. i) tecnologia A questão da técnica pode ser considerada ao menos de duas formas. A primeira diz respeito à técnica textual através da qual o dicionário se constitui. Incluímos aí as operações de alfabetação, disposição em colunas, recursos gráficos, numeração das acepções, marcações de domínio, etc. A segunda concerne à tecnologia de escrita e impressão. Incluímos nesse caso as técnicas manuscritas, as de impressão e mais atualmente as de informatização. De fato, essas duas formas da técnica estão estreitamente relacionadas, mas vamos comentar aqui apenas a segunda. Os dicionários dos jesuítas, produzidos no período entre 1549 a 1759, eram manuscritos. Como se sabe, a Imprensa no Brasil só é introduzida com a vinda da Família Real em 1808. Este fato explica a existência, na Época Colonial, de várias versões manuscritas de um mesmo dicionário (caso do VLB), a variação ortográfica e algumas diferenças de um manuscrito a outro. A introdução da Imprensa, no século XIX, possibilita a publicação de dicionários: primeiramente os bilíngües português-língua indígena e em seguida os de brasileirismos. Tais publicações ocorrem em instituições ligadas ao Estado, tais como o Instituto Histórico e Geográfico e a Biblioteca Nacional. Como vimos no item “institucionalização” mais acima, as editoras não estatais passam no século XX a ter um papel importante na publicação de dicionários, isto é, o domínio da técnica alcança outros lugares que não
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os diretamente ligados ao Estado. Na segunda metade desse século, quando tem início a informatização, novas possibilidades técnicas aparecem, cujas implicações apenas começam a se apresentar. Uma delas é a construção de corpora eletrônicos a partir dos quais se pode produzir uma série de dicionários. Editoras e universidades preparam seus bancos de dados em vista dessas novas condições tecnológicas. Mencionemos a esse respeito o Centro de Estudos Lexicográficos (CEL) da UNESP, campus de Araraquara, onde foi construído e está sendo ampliado um corpus da língua escrita que compreende literatura romanesca, jornalística, dramática, técnica e oratória. Uma das conseqüências mais visíveis da informatização nos dicionários é a mudança nas formas de busca. Ultrapassando os limites da ordem alfabética, temos várias outras possibilidades, como a busca em subdomínios, por segmentos da palavra-entrada, pelo texto dos verbetes, por autor citado, etc. Dicionarização: interpretação, ética e política Considerar o dicionário como um objeto histórico nos leva a dizer que sua constituição é determinada por uma série de fatores causais, que se podem explicitar analisando-se as condições de sua produção. Este seria um primeiro ponto a se considerar nas práticas éticas e políticas ligadas à análise e produção de dicionários. É a partir da analise dessas condições de produção e das periodizações e interpretações daí resultantes, que podemos falar em uma “tradição lexicográfica”, ou antes, em uma história da dicionarização, tendo por objeto um conjunto polêmico de saberes constituídos na base do dicionário e ligados a determinadas conjunturas sóciohistóricas. Esta perspectiva conduz também a questionar a evidência das formas dicionarísticas, abrindo-se espaço para sua interpretação. Tal interpretação não estaria nunca estabelecida de uma vez por todas, mas sempre sujeita a retomadas e reconstruções. Como afirma Pêcheux (1988: 293304), ao trazer Lacan para refletir sobre a relação sujeito/ideologia, “só há causa daquilo que falha”. A forma dicionarística, tal como construída pelo sujeito lexicográfico, nunca coincide com as condições que a determinam. Daí o fato de que os sentidos que o dicionário produz sempre podem ser outros, estando abertos à interpretação. O segundo ponto que gostaríamos de levantar diz respeito à oposição unidade/diversidade. Vimos que o dicionário monolíngüe constitui-se como resultado de uma política lingüística que, enquanto trabalhava o domínio do português brasileiro, muitas vezes silenciava outras línguas fala117

das no território. Refletindo sobre questões de ética e política lingüística, Orlandi coloca que “ao invés de considerar uma oposição estrita entre unidade e diversidade, consideramos essa relação como uma relação necessária e dinâmica. As políticas lingüísticas são o lugar material de realização dessa relação historicamente necessária em uma sociedade como a nossa” (Orlandi, 1998: 13). Uma das conseqüências desta reflexão para a concepção do dicionário monolíngüe parece-nos ser a de considerar a relação dinâmica entre as línguas no interior mesmo do dicionário de “uma língua”. Apesar de o dicionário monolíngüe apresentar uma unidade imaginária (no caso, do português brasileiro), de fato há inscrita nele uma série de relações entre as línguas (de inclusão, exclusão, confronto, absorção, filiação, etc.), que convém explicitar e não apagar. Concluindo, diremos que a busca das causas da dicionarização é também um trabalho político da memória e do esquecimento16 da(s) língua(s), tais como produzidas e instrumentadas pelos sujeitos em determinadas conjunturas. Do nome próprio de autor às diversas formas de representação coletiva ou institucional do dicionário, o lugar do lexicógrafo, assim como o do próprio objeto-dicionário, constitui-se no interior de uma série de fatos inter-relacionados, cuja historicidade procuramos explicitar. Realizamos, desse modo, um trabalho de atualização da memória do saber dicionarístico, sem negar os gestos de interpretação aí envolvidos, mas sim reconhecendo-os como tomadas de posição na própria construção da(s) história(s) da dicionarização.

Referências bibliográficas
AULETE F. J. Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. Parceria Antônio Maria Pereira Livraria Editora, s.d. AUROUX Sylvain. A Revolução Tecnológica da Gramatização. Campinas: Editora da Unicamp, 1992. AUROUX Sylvain. “A hiperlíngua e a externalidade da referência”. In: Gestos de leitura: da história no discurso, E. P. Orlandi (Org.). Campinas: Editora da Unicamp, 1994.
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De acordo com J-J. Courtine, “Memória e esquecimento são indissociáveis na enunciação do político” (O chapéu de Clémentis. Observações sobre a memória e o esquecimento na enunciação do discurso político. In: Os múltiplos territórios da Análise do Discurso, F. Indursky e M. C. L. Ferreira (Orgs). Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999).

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Constituição de um léxico brasileiro

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TERMOS DE ORIGEM AFRICANA NO LÉXICO DO PORTUGUÊS DO BRASIL
Margarida Petter Universidade de São Paulo (USP)

Introdução
A diversidade do léxico do português do Brasil foi notada pelos primeiros viajantes e tornou-se matéria de estudo lingüístico no século XIX. Os primeiros trabalhos sobre a diferença entre o português de Portugal e o português brasileiro (PB) observaram que a variedade nacional se distinguia da língua da antiga metrópole pela incorporação de termos de origem indígena e africana, decorrente do contato dos falantes de línguas diversas e da necessidade de denominar realidades novas encontradas na América. Segundo Arthur Neiva, os brasileirismos – como tais peculiaridades passaram a ser reconhecidas – surgem logo nos primeiros trabalhos escritos sobre o Brasil e talvez os primeiros vocábulos registrados sejam os que constam da lista de doze palavras colhida por Pigafetta, cronista da expedição de Fernão Magalhães, em 1519, entre as quais estão: pindá “anzol, gancho, fisga, garra” e ui “farinha” (Neiva, 1940: 3, apud Theodoro Sampaio). Antes da chegada dos portugueses ao Brasil, a língua portuguesa já havia entrado em contato com as línguas africanas, como se observa em documentos portugueses dos séculos XVI e XVII (Bonvini, 1996) que revelam o uso de termos emprestados principalmente do quimbundo, referentes à escravidão, ao tráfico, à vida militar e ao quotidiano. No Brasil, talvez um dos registros mais antigos do uso de palavras oriundas de línguas africanas seja o de Piso (1957 [1658], apud STUTZ, 2001), que aponta o emprego de nomes de animais e vegetais trazidos pelos africanos:
Como os europeus um dia transportaram para a América as plantas e sementeiras que julgaram lucrativas, assim os africanos, entre as ervas

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úteis para aqui trazidas, cuidadosamente cultivam ainda a chamada pelos lusitanos Belingela, e pelos angolenses africanos Tonga ou Macombo, bem como as duas outras Quigombó e Sésamo. Segue-se a primeira e mais preciosa espécie africana Quigombó, a que os lusitanos deram o nome bastante apropriado de Quigombó de cheiro, isto é, cheiroso, por causa da semente moscada. [...] A Segunda árvore Quigombó, chamada Quigombo pelos íncolas, em toda parte, e pelos angolenenes Quillobo. [...] A quarta era trazida pelos etíopes, daquela parte da África denominada Congo, erva chamada Girgilim pelos lusitanos, sem nome entre os indígenas, é considerada por nós uma espécie de sésamo. (Piso, 1957[1658]: 441-5)

A menção de palavras africanas em textos com objetivos variados, como o supra citado – parte de uma obra de história natural – e em outros trabalhos, como relatos de viajantes, revela, principalmente, a preocupação com o referente, o interesse em retratar o novo, o original. Embora não seja explícita nesses textos uma intenção lingüística, as citações de termos vindos da África constituem uma fonte importante para a história do registro do contato cultural e lingüístico ocorrido no Brasil: ao mesmo tempo em que consignam o conhecimento e o uso dos termos, indicam os interesses e as apreciações dos falantes. Ao lado desses documentos, encontramse os registros lingüísticos intencionais, representados por textos orientados pela identificação e busca de traços africanos na realidade nacional: listas lexicais, léxicos e dicionários especializados. A investigação desse material permite identificar os interesses de seus autores, articulados ao contexto da época em que foram produzidos e nos leva a questionar os resultados e a metodologia utilizada na elaboração de tais registros. Este texto analisará, sem pretender a exaustividade, trabalhos que registraram a presença de termos oriundos de línguas africanas no léxico do português do Brasil (PB), situando-os no contexto histórico e analisando a contribuição que deram ao conhecimento do que passou a ser identificado como “africanismos” no PB.

Vestígios de línguas africanas no Brasil
Nenhuma língua africana é falada, atualmente, no Brasil. Temos alguns registros do passado que nos informam indiretamente que tal prática deve ter ocorrido em lugares e situações especiais. No século XVII, 1697, publica-se em Lisboa a Arte da lingua de Angola, oeferecida a Virgem
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Senhora N. do Rosario, Mãy & Senhora dos mesmos Pretos, pelo P. Pedro Dias da Companhia de Jesu (como aparece no frontispício). Seu autor, português de origem, vivia no Brasil desde a infância; era jesuíta, jurista e médico. Trata-se de uma gramática da língua quimbundo, a primeira gramática sistemática dessa língua. Destinava-se a facilitar o trabalho dos jesuítas que lidavam com os negros, com o objetivo de facilitar-lhes o aprendizado dessa língua. Esse trabalho testemunha o emprego corrente naquela época de uma língua africana, o quimbundo, pelos escravos oriundos de Angola. Não se sabe se tal língua era falada em outras localidades e por falantes não africanos. No entanto, há um fato importante que pode levar a conclusões mais abrangentes: o trabalho de Pedro Dias foi redigido em1694 (publicado em 1697), data bem próxima à da destruição de Palmares (1695). Poderia, então, ter sido o quimbundo, como pensam muitos estudiosos, a língua africana utilizada naquela comunidade constituída em sua maioria de negros fugitivos (Bonvini & Petter, 1998: 75). No século XVIII, em 1731/1741, Antonio da Costa Peixoto redige, em Ouro Preto, um manuscrito sob o título Lingoa gªl de Minna, traduzida ao nosso Igdioma, por Antonio da Costa Peixoto, Curiozo nesta Sciencia, e graduado na mesma faculdade:E.º. – título que aparece no frontispício da Obra Nova da Língua Geral de Minna. Esse documento retrata uma situação lingüística particular, resultante da concentração, no quadrilátero mineiro de “Vila Rica – Vila do Carmo – Sabará – Rio dos Montes”, de 100.000 escravos – regularmente renovados durante um período de 40-50 anos – originários da costa do Benim (designada “Mina” e situada, grosso modo, entre Gana e Nigéria). Essa situação deu origem a um falar veicular tipologicamente próximo das línguas africanas dessa mesma costa, designadas hoje como gbe, do grupo “kwa”, do phylum Níger-Congo. No subgrupo gbe há uns 50 falares, dos quais os mais conhecidos são o ewe, o fon, o gen, o adja, o gun e o mahi. Esse manuscrito do século XVIII, só publicado em 1945, em Lisboa, é o documento mais importante e “precioso” sobre as línguas africanas no Brasil, porque testemunha a existência de uma língua veicular africana designada como Língua Geral, provavelmente em referência à língua geral indígena (Bonvini & Petter, 1998: 75-6). No século XIX, duas obras revelam a existência de um plurilingüismo africano no Brasil. A primeira, divulgada em primeira mão por Bonvini (2001: 397-8), dá conta de um trabalho do início do século – Atlas etnographique du globe, de Adrien Balbi (1826: 226), que apresenta um
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quadro de três listas de 26 palavras, conforme a ortografia portuguesa, de três línguas do grupo banto: ‘masanja’, ‘tzochoambo’, ‘matibani’, a primeira falada em Angola – um falar quimbundo de Cassanje, conforme Bonvini – as duas outras de Moçambique (chwabo e inhambane, provavelmente). Essas palavras foram recolhidas por Maurice Rugendas junto a escravos brasileiros. Balbi lamenta não poder apresentar palavras de outras línguas coletadas por Rugendas (‘mina’, ‘molua’, etc.), por ter perdido o manuscrito. O segundo texto, de Nina Rodrigues, é do fim do século XIX (1890; 121-52), traz um quadro sinótico de 120 palavras de cinco línguas africanas, faladas ainda correntemente na Bahia em sua época: “grunce” (gurunsi), “jeje” (maí?) (ewe-fon), “haussá”, “kanuri” e “tapa’ (nupe). Nina Rodrigues não faz um inventário completo, porque não menciona o quimbundo, língua usada em alguns cultos na Bahia, cuja existência é mencionada por Rugendas. A partir de então, nenhuma notícia se encontra sobre outras situações em que línguas africanas fariam parte da prática lingüística brasileira. No século XX, na década de 80, após a “descoberta” do Cafundó, em 1978, são publicados trabalhos sobre duas comunidades negras rurais isoladas – Cafundó e Tabatinga. O Cafundó foi pouco a pouco desvendado e divulgado em artigos publicados em revistas especializadas, de 1978 até 1982. Em 1996, Vogt e Fry organizam todo o material produzido, apresentando-o no livro Cafundó: a África no Brasil: linguagem e sociedade . A “língua do Cafundó”, cupópia ou falange, denominações pelas quais é conhecida, não é uma língua africana, corresponde ao emprego de termos de origem banto (quimbundo e quicongo, na maioria) na sintaxe do português local, o dialeto rural de Salto de Pirapora, na região de Sorocaba (SP). Seu uso cumpre uma função de língua especial, secreta, que permite a comunicação somente entre os conhecedores da “língua”, afastando os estranhos a seus “segredos”. Sua vitalidade está ameaçada pelo emprego mais freqüente do português pelos mais jovens, que desconhecem os pouco mais de 167 termos “africanos” que a constituem. Esses termos são apresentados num glossário, no final da obra, com a análise de seu étimo africano provável e o registro dos casos de uso em outras regiões (Patrocínio e Milho Verde). Em 1998, Sônia Queiroz publica Pé preto no barro branco: a língua dos negros da Tabatinga, texto de sua dissertação de mestrado defendida em 1983. Analisando a “língua da costa”, denominação pela qual tam126

bém é conhecida essa expressão lingüística, em referência à costa africana, e comparando-a à do Cafundó, com quem compartilha – além do uso como forma de “ocultação” – muitos elementos lexicais e gramaticais, a autora conclui que a Língua do Negro da Costa funciona como “um sinal diacrítico que marca o grupo de negros da Tabatinga por oposição aos brancos do centro da cidade” (1998: 106). Os 169 termos “africanos” que a constituem são apresentados num glossário, acompanhados de seu étimo e da indicação dos casos de registro feito por outros autores. Se nos voltarmos para as comunidades religiosas, representadas sobretudo pelas comunidades-terreiros de candomblé, encontraremos vários trabalhos de cunho antropológico e sociológico, principalmente, que abordam, indiretamente, a linguagem utilizada nos cultos e que registram, num glossário em anexo, as palavras de origem africana, com o respectivo significado em português. Essas obras são importantes porque confirmam o uso de termos já identificados em trabalhos lingüísticos e sugerem, muitas vezes, novos vocábulos não registrados. Dentre os trabalhos de cunho lingüístico e etnológico destacam-se os textos de Yeda Pessoa de Castro (1968, 1978, 1980, 1998), que analisam a contribuição africana no português do Brasil e, com maior profundidade, a presença de línguas africanas na Bahia. Em 1989 publica-se a dissertação de mestrado de Ruy Póvoas, sob o título A Linguagem do Candomblé – níveis sociolingüísticos de integração afro-portuguesa. Nessa obra o autor demonstra com detalhes como se dá a interação entre o português e o nagô (iorubá) no candomblé, a partir de pesquisa de campo em Itabuna, Ilhéus e na Baixada Fluminense. Destaca as funções que desempenha cada idioma, as interferências mútuas, no campo léxico e semântico, sobretudo. Embora o nagô seja a língua-alvo de todos os adeptos do culto, o que ocorre é que a maioria dos fiéis utiliza o português coloquial, com alguns elementos do léxico nagô. Por outro lado, mesmo o nagô das situações especiais não é uma língua plenamente africana, já que sofre muitas interferências do português. Seus usuários privilegiados não possuem competência lingüística para utilizá-lo fora das situações rituais. O que permanece da língua africana é o léxico, que o autor apresenta sob a forma de glossário, em que as entradas lexicais estão em nagô, na ortografia atual do iorubá, seguidas da grafia em português e do seu significado. De línguas plenas, documentadas nos séculos XVII e XVIII (quimbundo e ‘língua de mina’, respectivamente), as línguas africanas transfor127

maram-se, no Brasil, em línguas especiais – secretas ou rituais – que resistem hoje como um repertório lexical, cujo uso e difusão para outros domínios lingüísticos só ocorre com os termos utilizados nos cultos religiosos.

As primeiras notícias sobre africanismos
Os primeiros registros lexicográficos da peculiaridade do PB são publicados na segunda metade do século XIX (cf. Biderman, neste volume). São vocabulários, dicionários do português de uso geral no país ou em alguma região do Brasil. Nessas obras a maioria dos vocábulos específicos ao Brasil são de origem indígena, ou correspondem a usos diferentes dos de Portugal, identificadores de uma marca nacional brasileira, atendendo ao objetivo expresso de seus autores, que trabalhavam em sintonia com o momento histórico de consolidação da individualidade brasileira. Essas palavras passam a constituir os brasileirismos – termo que passou a rotular as inovações lingüísticas do PB desde o dicionário de Moraes e Silva, de 1789, persistindo até hoje como uma classificação para verbetes nos dicionários de língua. Nesse contexto, as palavras de origem africana surgem como uma subcategoria dos brasileirismos, concorrendo em situação desfavorável com os termos de origem tupi (indígena), em razão da inferioridade numérica dos africanismos registrados e do fato de ser a realidade nativa o foco do interesse dos estudiosos, preocupados, também, em valorizar o elemento indígena, símbolo da nacionalidade, provedor de sentidos e nomes diferentes para aprender. Macedo Soares (1888, 1943) destaca-se entre seus contemporâneos pela extensão e profundidade de seu trabalho lexicográfico e pela defesa do “dialeto brasileiro”, reconhecendo que:
o elemento negro não deixou de contribuir, posto que mais parcamente ainda que o índio, para a formação do dialeto brasileiro (1943: 60)

No estudo “Sobre algumas palavras africanas introduzidas no português que se fala no Brasil”, quarto capítulo da obra supra citada (1943), Macedo Soares apresenta termos de origem africana, discute sua etimologia e algumas vezes contraria interpretações de certos termos, dados como de origem indígena, argumentando em favor de sua procedência africana, como tanga, justificada por uma longa explicação (p. 54-6).
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Também as gramáticas do final do século XIX incluíam brasileirismos, como as obras de Pacheco Silva: Grammatica Historica da Lingua Portugueza (1879) e Grammatica da Lingua Portugueza (1887), que apresentavam como tópicos de estudo provincianismos, brasileirismos, indigenismos e africanismos (Orlandi & Guimarães, 1998: 16). O registro desses termos em obras não lexicográficas demonstra a importância que o léxico representava como forte argumento da defesa da originalidade do PB.

Africanismos: estudos especializados
No século XX assiste-se à abertura de um debate mais organizado sobre a presença africana no PB. Em 1933, publicam-se as obras A influência africana no português do Brasil, de Renato Mendonça, e O elemento afro-negro na língua portuguesa, de Jacques Raimundo. Os dois trabalhos retraçam o itinerário da origem dos africanos transplantados para cá, de origem banto e sudanesa, e apresentam uma relação de aspectos do PB que consideram de origem africana, identificados na fonologia, na morfologia e na sintaxe. Embora não tenham expressamente um objetivo lexicográfico, apresentam glossários que ainda hoje, apesar de bastante restritos, são reconhecidos como uma fonte importante sobre termos de origem africana. O trabalho de Mendonça (1933) teve uma segunda edição, aumentada e ilustrada, em 1935, e outra em 1974, que reproduz ainda uma classificação de línguas africanas já superada pelos trabalhos de Greenberg (1963). A obra contém um glossário com 375 termos de origem africana que, se apresentam étimos africanos discutíveis (iorubá ou quimbundo, unicamente), revelam, no entanto, um aspecto positivo: a indicação do contexto sociocultural de uso dos itens compilados. Raimundo (1933) identifica 309 palavras de origem africana presentes no PB, e acrescenta ao seu levantamento 132 topônimos. Da mesma forma que Mendonça, a etimologia de todos esses itens lexicais é encontrada nas línguas iorubá e quimbundo, predominantemente. Em 1936, o mesmo autor oferece na obra O Negro Brasileiro e Outros Estudos, uma lista aumentada de termos considerados de origem africana. Outros trabalhos, indiferentes à defesa da participação africana no PB, apontam, também, a presença em nosso léxico de palavras de origem africana. Mário Marroquim considera ter sido numerosa a contribuição para a língua do nordeste, principalmente na denominação de objetos e coisas
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africanas que passaram a batizar acidentes geográficos (1934: 155-6). Xavier Marques afirma que “elementos tupis e africanos resvalam pelo léxico, produzindo uma ou outra alteração morfológica e deixando imune a sintaxe da língua” (1933: 65). João Ribeiro, no seu texto “A língua nacional”, que teve primeira publicação em 1921 e segunda em 1933, reconhece que a língua nacional é essencialmente a portuguesa, mas enriquecida e livre em seus movimentos. Não elenca termos de origem africana, cuja origem reconhece ser difícil remontar, mas observa a presença cultural dos negros, que trouxeram para o Brasil muito de sua literatura popular. Apresenta um estudo semântico de provérbios brasileiros que têm correspondente africano, afirmando que não é só a presença de palavras de origem africana que atestam a identidade, mas o fato de que há provérbios semelhantes na África. Nesse período surgem os primeiros trabalhos especializados no rastreamento de africanismos, como se observa nos títulos das obras que se publicam a partir de então: • 1934 – Africanismos na linguagem brasileira, de Nelson Senna; • 1936 – Os africanismos no dialeto gaúcho, de Dante de Laytano; • 1938 – Africanos no Brasil. Estudos sobre os Nêgros Africanos e Influências Afro-Nêgras sobre a Linguagem e Costumes do Povo Brasileiro, de Nelson Senna; • 1944: O Negro e o Garimpo em Minas Gerais, de Aires da Mata Machado Filho; Nos anos que se seguem são publicados poucos títulos sobre a presença africana no PB, refletindo o declínio do interesse pelo debate da especificidade da língua nacional, em cujo bojo se inseria a investigação sobre as línguas africanas no Brasil. Na década de 70, surgem três trabalhos: • 1974: Répertoire des Vocables Brésiliens d’Origine Africaine, de J. P. Angenot, J. P. Jacquemin e J. Vincke; • 1976: De l’intégration des apports africains dans les parlers de Bahia, au Brésil, de Yeda Pessoa de Castro; • 1977: Dicionário de cultos afro-brasileiros, com origem das palavras, de Olga Gudolle Cacciatore.
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Destacam-se, dentre esses, dois trabalhos publicados desenvolvidos por africanistas que introduzem nova abordagem metodológica, fundamentada na pesquisa de campo no Brasil, de cunho lingüístico e cultural, confrontada à realidade atestada atualmente na África. Ambos foram produzidos na Universidade Nacional do Zaire (atual República Democrática do Congo): • 1974 – Répertoire des Vocables Brésiliens d’Origine Africaine, de JeanPierre Angenot, Jean-Pierre Jacquemin e Jacques L. Vincke. Trata-se de um levantamento lexical efetuado a partir de fontes escritas disponíveis na época. Registra 1 500 palavras, além de muitas formas variantes e topônimos. Apresenta na introdução o estado em que se encontram as pesquisas dos africanismos e esboça uma metodologia apropriada para o domínio banto, em particular. • 1976 – De l’intégration des apports africains dans les parlers de Bahia, au Brésil, de Yeda Pessoa de Castro. É uma tese de doutoramento ainda inédita, defendida na mesma Universidade do Zaire. A autora tem outros trabalhos publicados (1967, 1968, 1978, 1980) sobre a presença de línguas africanas no Brasil e de sua participação na constituição do PB, baseada em pesquisas de campo realizadas na região do Recôncavo Baiano. Em seus trabalhos a autora defende a importância da presença banto:
A antigüidade dessa presença favorecida pelo número superior do elemento banto na composição demográfica do Brasil colonial, tanto quanto por sua concentração em zonas rurais, isoladas e naturalmente conservadoras, onde o recurso de liberdade era a fuga para os quilombos, foram importantes fatores de ordem social e geográfica que tornaram a parte da influência banto tão extensa e penetrante na configuração da cultura e da língua representativas do Brasil que aportes de origem banto terminaram integrados ao patrimônio nacional como símbolo de brasilidade (1998).

Após um novo e longo silêncio, publicam-se novos trabalhos especializados na identificação de africanismos no PB: • 1991: Dictionary of African Borrowings in Brazilian Portuguese, de John Schneider É o mais recente e completo sobre os empréstimos de línguas africanas no português do Brasil. Reúne 2500 entradas lexicais, incluindo derivados e compostos que se formaram a partir da integração completa do africanismo no português do Brasil. Sua listagem leva em conta os africa131

nismos presentes no Novo Dicionário Aurélio (1978), além de extensa pesquisa bibliográfica sobre o tema. Segundo informa na introdução (1991: XI–XIII), para elaborar o dicionário o autor considerou, também, outras fontes escritas e orais. As entradas datadas são, na maioria, recolhidas do Dicionário Etimológico Nova Fronteira, (Cunha, 1982). Schneider faz uma ampla compilação da etimologia a partir da consulta de diversas obras, sem assumir, no entanto, a defesa de nenhum étimo; afirma claramente que a responsabilidade é do autor que a propõe. No caso de a fonte citada ser um dicionário de língua africana, a semelhança encontrada na forma e no significado resulta de sua própria investigação, sem qualquer interferência dos autores dos dicionários citados. A informação etimológica é bastante completa, indica a família ou grupo lingüístico e língua específica de que provém o vocábulo. Quando não dispõe de dados sobre a etimologia, o autor simplesmente registra o termo com sua definição, evitando discutir o grau de certeza a respeito de sua proveniência; visto estar implícita sua origem africana pela inclusão na obra. Alguns verbetes são acompanhados da indicação “Braz.”, brasileirismo, com a informação do local onde seu uso é mais corrente. A pronúncia de todos os itens lexicais é indicada por uma transcrição fonética particular, seguindo uma convenção inusitada para alguns sons, como, por exemplo, a transcrição da nasal palatal (nh, ortograficamente) transcrita #. Há alguns aspectos da organização e do conteúdo de sua extensa lista de empréstimos que podem ser questionados: • a multiplicação de verbetes: indicando a polissemia do termo, caso de chocho (1 entrada como substantivo e 7 como adjetivo), ou refletindo a instabilidade da fala pela notação de formas variantes, como: quezila, quezília, quijila, quizília; • a etimologia controversa de alguns termos, com forte evidência de tratar-se de tupinismos, como beiju e tipóia, entre outros, considerados de origem tupi, tanto por Buarque de Holanda Ferreira (1978) como por A. G. Cunha (1982), mas incluídos por Schneider entre os termos de origem iorubá e banto, respectivamente; • a não inclusão de muitos termos que têm origem africana reconhecida pelos textos consultados, como abadá , afonjá, etc. Apesar das ressalvas, esse dicionário destaca-se por demonstrar bom conhecimento sobre as línguas africanas, baseado na compilação extensa
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de obras de lingüistas africanistas, dicionaristas, folcloristas, antropólogos e estudiosos de religiões afro-brasileiras (Petter, 2001). • 1994, Nouveau Dictionnaire Etymologique Afro-Brésilien: afrobrasilérismes d’origine ewe-fon et yoruba, de Lébéné Philippe Bolouvi O autor propõe desenvolver um estudo etimológico criticando o que já foi feito e apresentando uma reflexão atual sobre a problemática da lingüística afro-brasileira numa perspectiva negro-africana. Seu estudo envolve três das línguas da África Ocidental, duas do grupo gbe – ewe e fon – e uma do grupo benuê-congo, o iorubá. Seu objetivo não é apenas o levantamento correto do étimo, mas também o resgate da história a partir do léxico, permitindo que os afro-brasileiros restabeleçam os laços com seus ancestrais africanos (op. cit. p. 3). As explicações etimológicas são baseadas em dados obtidos em pesquisa de campo no Brasil (Bahia e Maranhão) e na África (Golfo do Benim). As fontes dos verbetes registrados são escritas: o repertório lexical de Yeda Pessoa de Castro (1976, tomo 2); uma lista lexical de Sérgio Ferretti, glossário anexo a sua obra Querenbentam de Zomadonu, um estudo antropológico da Casa da Mina (1986); o vocabulário de cinco línguas africanas de Nina Rodrigues (1922, 5ª ed. 1977: 143-6) e as listas lexicais inéditas do Projeto LAB do Departamento de línguas vernáculas do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, de 1983, que contêm palavras e frases em língua africana, com o significado em português, coletados em Salvador e, segundo o autor, também presentes no levantamento de Pessoa de Castro. Na introdução, há comentários de ordem lingüística sobre características fonológicas e morfossintáticas das línguas africanas e as conseqüências de sua transposição para o léxico do PB. São, na maioria, observações pertinentes que podem corrigir e explicar muitas das supostas origens apresentadas para muitos vocábulos, como a aparente homofonia, gerada por termos africanos idênticos no nível segmental, mas portadores de tons diferentes que se perderam no português, mas que os distinguiam como unidades lexicais diferentes na língua de origem. Entre as observações lingüísticas, no entanto, há um sério equívoco de ordem histórica, no tópico “problème de segmentation”, onde o autor critica a dificuldade de segmentação dos constituintes que as línguas africanas apresentaram aos estudiosos brasileiros. O questionamento é pertinente, mas os textos utilizados para ilustrar o fato situam-se em épocas diversas das apresentadas. Cita Nina Rodrigues (1890, 1932) como “contemporâneo” de Antonio da Costa
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Peixoto, autor do manuscrito sobre a lingua de mina, de 1933 e 1941(!) (Bolouvi, 1994: 14). O manuscrito é do século XVIII, 1731/1741. Os 439 termos consignados pertencem aos mais diversos campos semânticos, mas a terminologia concentra-se nas religiões africanas, lugar de manifestação, conservação e de difusão do legado lingüístico negroafricano, conforme o autor (p. 9), que concorda com a maioria dos estudiosos africanistas que vêem na religião o foco de irradiação e transmissão do léxico de origem africana no PB. A entrada de cada verbete é constituída pela palavra grafada em português, seguida de sua transcrição fonética, acompanhada, eventualmente, de outras formas variantes de grafia ou de pronúncia. Após a definição são apresentadas as informações etimológicas (Et.), com a indicação da língua fonte; a forma escrita atual (visto que as três línguas africanas, ewe, fon e iorubá possuem escrita ortográfica); a transcrição fonética; os sentidos originais na situação africana, quando diferentes dos significados assumidos em português. Para um número significativo de entradas são oferecidas informações de ordem histórica ou sociolingüística (Hist). Alguns itens lexicais são acompanhados de informações a respeito de seu estatuto lexicológico atual no Brasil (Lex.) a partir de dados fornecidos por dicionários brasileiros. A rubrica NB precede particularidades a respeito de alguns itens em que pode haver confusões na análise da palavra, seja por se encontrar semelhanças fonéticas ou semânticas. Apesar de algumas restrições quanto à grafia e à definição dos itens lexicais em português, a obra tem o mérito de esclarecer o étimo de muitos vocábulos e de corrigir muitas impropriedades e falsos conceitos sobre as línguas africanas. • 1993-1995: Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes O autor compartilha a mesma visão de Pessoa de Castro quanto à precedência e importância da presença banto no Brasil; insiste no registro de termos associados a práticas religiosas que é por muitos considerada exclusivamente de origem iorubá. Consigna todos os inquices “divindades dos cultos de origem banta correspondentes ao orixá nagô” (p. 131) e traz informações detalhadas sobre outros elementos do culto Angola. Há um levantamento exaustivo de vocábulos oriundos de línguas do grupo banto presentes no PB, a partir de “suspeitas” (cf. p. 21) sobre a possível origem banto de palavras com as seguintes características:
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a) b) c)

iniciadas com sílabas: ba, ca, cu, fu, ma, um, qui, como: candango, curinga, etc.; presença dos grupos consonantais mb, nd, ng, etc., no interior dos vocábulos, como sunga, catinga; terminadas em aça, ila, ita, ixe, ute, uca, etc., como cafute, bazuca.

Esse critério – partir da forma da palavra, prioritariamente – levou à supervalorização da presença de termos de origem africana (banto): 5 122 verbetes, e à inclusão de muitos itens lexicais com justificativas etimológicas pouco convincentes, como no verbete:
MANO, s.m. Tratamento respeitoso entre os antigos sambistas cariocas “Mano Elói”, “Mano Décio”, etc. Possivelmente, do umbundo omanu, homem; se não estiver na acepção de “irmão” (p. 162).

O autor apresenta hipóteses etimológicas para a maioria das entradas lexicais, a partir de pesquisa em dicionários de quimbundo, quicongo, umbundo, ronga, suaíli, macua e outras línguas do grupo banto. Incorpora em seu trabalho o conhecimento especializado que se acumulou na área, desde os primeiros trabalhos sobre brasileirismos, de Beaurepaire-Rohan (1889), Macedo Soares (1889); passando pelos estudos sobre a presença africana de Jacques Raimundo e Renato Mendonça, considerando até os trabalhos sobre o léxico de Angenot et alii (1974), Pessoa de Castro (1976) e Schneider (1991), ao lado de estudos sobre cultura e religiões africanas. Seu esforço de compilação é notável, pois reuniu todas as informações disponíveis; sua busca por novas fontes etimológicas, no entanto, nem sempre chega ao mais provável étimo africano; o afã de justificar qualquer “suspeita” de termo banto leva o autor a desconsiderar fortes evidências de que o vocábulo tenha outra origem. A coletânea de vocábulos é apresentada como um universo lingüístico próprio do PB, em geral, sem qualquer informação sobre o domínio de uso das unidades lexicais, sejam os diferentes registros – linguagem ritual, familiar, coloquial ou formal – seja a identificação dos locais de uso. Também não há menção sobre a vitalidade do termo: se está em desuso ou se é de emprego corrente. A omissão desses dados contribui para criar a falsa ilusão de que o contato das línguas africanas com o português do Brasil não se condicionou às circunstâncias da história e que o resultado desse encontro permaneceu imutável, em qualquer região do país e em todas as situações de comunicação.
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Africanismos nos dicionários etimológicos do português
Dentre os poucos dicionários etimológicos da língua portuguesa figura com destaque a obra Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado (1ª ed. 2 vol., 1952-1959, 2ª ed. 3 vol. 1967-1973, 3ª ed. 5 vol. 1977), publicado em Lisboa e citado por todos os trabalhos da mesma espécie que surgiram posteriormente. No Brasil, o trabalho mais recente e completo é o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha (1ª ed.1982, 2ª ed. 1986). O dicionário de A. G. Cunha, apesar de informar na introdução que pairam ainda muitas dúvidas “em torno das origens e da história de boa parte de nosso vocabulário”, procura oferecer um amplo registro do léxico português, com a inclusão de “inúmeros termos de procedência arábica, (...)muitas centenas de vocábulos oriundos dos idiomas indígenas da África, da Ásia e da América, introduzidos na língua portuguesa a partir da segunda metade do século XV...”, apresentando para todos os vocábulos estudados – nem sempre com étimo identificado – a data provável de sua primeira ocorrência na língua portuguesa. Para a datação dos termos o autor procurou ampliar os dados fornecidos pelas poucas obras disponíveis sobre o português, baseando-se no Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, consultando outras obras para períodos específicos e completando com referências, entre outras, do dicionário de Morais (5ª e 6ª edições, principalmente), citações de Domingos Vieira (1871-1874) e suas próprias pesquisas. Não faz nenhuma menção a dicionários de línguas africanas, mas apresenta, num Suplemento anexado à segunda edição, a indicação de textos-fontes das datações, onde se incluem obras sobre a África. Estão aí relacionadas duas obras importantes: de António Oliveira de Cadornega, História Geral das Guerras Angolanas, [Tomos I e II: texto de 1680; Tomo III: texto de 1681] e Arquivos de Angola. Publicação oficial editada pelo Museu de Angola, 2ª série. Vol I. Luanda, 1943 (Petter, 2001). Não estão explicitamente indicados os africanismos, mas podemos identificá-los por meio de algumas indicações: (i) a definição- que revela o uso em “cultos afro-brasileiros”; (ii) a datação, que remete a obras publicadas no Brasil ou (iii) a referência explícita ao fato de o vocábulo, apesar de ser documentado em textos quinhentistas, ter-se difundido intensamente no período colonial, em razão do convívio dos brancos com os africanos.
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Os termos de origem africana constituem um total de 191 entradas. Desse total, praticamente a metade (96) tem sua ascendência comprovada pela identificação de seu étimo (60 do quimbundo, 24 do iorubá e os restantes de topônimos ou línguas isoladas). Os demais (95) – de étimo indeterminado – possivelmente, provavelmente de origem africana, talvez sejam oriundos de alguma língua africana. Dois aspectos apresentados pelo dicionário de A G. Cunha: incerteza quanto à atribuição de origem africana a grande parte do léxico e reconhecimento de duas línguas africanas como maiores fontes provedoras de empréstimos – quimbundo e iorubá – serão reiterados nos dicionários gerais da língua portuguesa.

Africanismos nos dicionários gerais da língua portuguesa publicados no Brasil
Os dicionários gerais do português vão refletir na sua elaboração o estado do conhecimento sobre a participação das línguas africanas na constituição do léxico nacional. Seria de esperar que os trabalhos especializados, embora de qualidade desigual, e o avanço dos estudos sobre as línguas africanas fosse incorporado a esses repertórios mais amplos do léxico de uma língua. Entretanto, há o desconhecimento dessas novas pesquisas e repetem-se as mesmas informações do passado. Dentre as muitas publicações do gênero, duas obras foram selecionadas para análise: o Novo Aurélio, século XXI (1999) e Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001), por serem as mais completas e de maior difusão no país. No Novo Dicionário Aurélio, edição de 86, há 159 termos com étimo identificado, sendo 148 do quimbundo e 11 do iorubá, além de alguns termos de origem ambígua: 4 do cafre e 5 do daomeano. Também são reconhecidos 5 luso-africanismos (Bonvini, 1994). Outros 104 verbetes aparecem matizados por expressões modalizadoras ou por pontos de interrogação: “do africano”, “do africano?”, “de origem africana” – “de origem africana?” “de origem africana decerto” – “de possível origem africana” – “de provável origem africana” – “talvez de origem africana” (Petter, 2000): A edição XXI inclui, ao lado do português do Brasil e de Portugal, o português da África, identificado regionalmente como: angolanismo, caboverdianismo, guineensismo, moçambicanismo e santomensismo. Comparada à edição anterior, a atual revela um melhor conhecimento das palavras
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de origem africana, observado na ampliação do número de verbetes, na correção de algumas definições, na inclusão de novos étimos, reconhecendo outras línguas africanas além do iorubá e do quimbundo, e no ajuste de etimologias equivocadas encontradas no dicionário de 86. Persistem, ainda, as mesmas incertezas na atribuição de origem para a maioria dos verbetes da versão anterior, porém as expressões modalizadoras adquirem mais uniformidade, resumindo-se a duas etiquetas: de origem africana ou de origem africana, possivelmente. O termo africanismo, embora permaneça definido pelo dicionário da mesma forma que em 86, “palavra ou expressão oriunda de alguma das línguas africanas”, é empregado como rubrica para identificar somente os verbetes que contenham palavras usadas no continente africano: 26 itens, dos quais 22 são palavras do português com um uso diferenciado e 4 apenas são oriundos de línguas africanas. Do total, 17 têm também o uso comprovado no Brasil, sendo, então, classificados como africanismos e brasileirismos. Dentre esses figuram papai, pau, pilão, moleque. As demais palavras de origem africana empregadas no Brasil aparecem sob a rubrica de brasileirismo ou, simplesmente, têm seu étimo africano reconhecido, sem nenhuma outra categorização. Os angolanismos, cabo-verdianismos, guineensismos, moçambicanismos e santomensismos recebem apenas a identificação da região onde são de uso corrente, não se apresentam sob a rubrica genérica de africanismos. São termos de origem diversificada: africana, portuguesa, brasileira (tupi) e indiana, entre outras. As referências etimológicas apresentam um progresso em relação à edição de 86. Foi acrescentado um repertório maior de línguas fornecedoras de empréstimos; além do quimbundo e iorubá, estão consignados termos oriundos do hauçá, jeje, umbundo, quicongo, fon, ewe. O Novo Aurélio século XXI registra um número expressivo de línguas africanas, ausentes na edição anterior. Encontram-se termos referentes às denominações das quatro famílias (PHYLA) lingüísticas africanas: níger-congo, nilo-sahariana, coissã (khoisan, para os lingüistas africanistas) e camito-semítica (afro-asiática, na denominação mais atual) como também designações individuais de línguas pertencentes aos diferentes grupos, como uolofe, ibo, ijó, igala, diúla, nupê, songai, tapa, hutu, axanti, entre outras. Tal fato é notável, pois revela um melhor conhecimento do universo lingüístico africano, desconhecido e raramente referido de forma correta até em manuais de lingüística geral.
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A grafia adotada não obedece a critérios uniformes. Muitas vezes são consignadas várias formas, como hauçá, haúça, haussá, haússa. Outras vezes nota-se incoerência na atribuição do acento da palavra e do timbre vocálico em português, como no aportuguesamento da forma utilizada por africanistas, nas denominações das línguas: senufo, dyula, nupe, ijo, que se tornaram em português: senufo, diúla, nupê, ijó: não se justifica a escolha de acentos em posições diferentes, como também não se explica a escolha do timbre dos nomes oxítonos. A forma aportuguesada dos etnônimos e glossônimos foi inspirada na obra A enxada e a lança, de Alberto da Costa e Silva (1996), que também serviu como única fonte para as abonações dos termos referentes a línguas e povos africanos. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa também define africanismo como “palavra, construção ou expressão tomada de empréstimo de qualquer das línguas africanas”, mas incorpora o sentido não explícito, porém depreendido pelo uso da rubrica ‘africanismo’ na classificação dos verbetes no Novo Aurélio: “qualquer fato de linguagem (fonético, mórfico, sintático, lexical) privativo do português de alguma das ex-colônias portuguesas na África, em contraste com o de Portugal ou do Brasil; os fatos lexicais distintivos do português da África, não usuais em Portugal ou no Brasil” (op. cit. p. 107). Para brasileirismo Houaiss oferece uma definição extensa: “em sentido lato, qualquer fato de linguagem (fonético, mórfico, sintático, lexical, estilístico) próprio do português do Brasil; sob o ponto de vista lexical, palavra ou locução (dialetismo vocabular) ou acepção (dialetismo semântico) privativa do português do Brasil” (p. 507). As categorias de brasileirismo e africanismo raramente coincidem nos dois dicionários. Para o Novo Aurélio, capiango, “gatuno hábil e astuto”, termo de “origem africana”, sem outra indicação etimológica mais precisa, é brasileirismo e africanismo. Houaiss considera o vocábulo como um brasileirismo somente, cujo étimo é o quicongo kapiangu (cf. Nei Lopes). As fontes utilizadas por Houaiss para estabelecer a datação e a etimologia dos vocábulos são bastante amplas, incluindo até a 3ª edição do dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. No que concerne especificamente às línguas africanas, além de vários arquivos e livros de poucos autores africanos, foram referidas apenas cinco obras: O negro na civilização brasileira (1956), de Artur Ramos; Dicionário Banto do Brasil (1993-1995), de Nei Lopes; Dicionário de cultos afro-brasileiros (1977),
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de Olga Cacciatore; Os falares africanos na Bahia (no prelo), de Yeda Pessoa de Castro e Dictionnarie bilingue portugais-français – GuinéeBissau (1996, 2 vol.) de Jean Michel Massa. A datação dos vocábulos, quando disponível, informa o primeiro registro conhecido ou estimado da palavra, indicando a fonte ou a primeira obra lexicográfica que a registrou. O dicionarista procurou indicar o étimo próximo dos vocábulos do português e, em alguns casos, também o remoto, mostrando os elementos mórficos que o constituem. Para a grafia dos étimos de origem africana foi adotado um sistema de transliteração, para tentar resolver as oscilações existentes nas fontes consultadas. A grafia dos etnônimos e glossônimos baseia-se em dois critérios: em alguns casos segue-se a convenção internacional, como para a família lingüística Khoisan e o grupo Kwa, mas também se informa que há as formas portuguesas coisã e cuá; em outros casos adota-se a forma aportuguesada já existente (ou propõe-se uma nova), indicando inclusive algumas variações para ela, como ioruba, iorubá, iorubano (subs. e adj.). Também se observa insegurança na indicação de muitos étimos, indicados pelas expressões: etimologia provavelmente africana, de origem controversa, de origem obscura, ou simplesmente etimologia africana. Em muitos desses casos, sem comprometer-se com a informação, o dicionário apresenta um autor que “sugere” um étimo, como:
sambango- aquele que é fraco, que não tem forças Etim prov. de origem africana; Nei Lopes sugere o umbundo samba ‘pobre, carente, mendigo’ + -ngo ‘ordinário’.

O procedimento de transcrever a etimologia apresentada por outros autores, mesmo que nem sempre referidos, é a norma geral dos dicionários gerais, o que comprova não ter havido nova pesquisa na área dos termos de origem africana por parte dos lexicógrafos. Entretanto, apesar de um critério pouco rigoroso na escolha das fontes e de não haver investigação inédita, há verbetes bem documentados, no Dicionáio Houaiss, como o referente a quizila , em que se indica a data e a fonte do primeiro registro (1681. Cf. AOCad. – [António Oliveira de Cadornega. História das Guerras angolanas]), o étimo – quimbundo kijila, os diferentes significados e as formas variantes seguidas das fontes históricas. Apresenta-se até uma informação discordante: Silveira Bueno considerava o termo uma criação portuguesa e não africana.
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Considerações finais
O registro em obras lexicográficas das palavras do PB provenientes de línguas africanas, desde o final do século XIX até meados do século XX, esteve associado à reivindicação da identidade da língua nacional. Embora fossem ‘termos estrangeiros’ do ponto de vista do português europeu, constituíam, na perspectiva brasileira, ao lado dos indigenismos, os brasileirismos, contribuindo com sua parcela de originalidade para a defesa do argumento da autonomia do português do Brasil. Assim como os africanos se incorporaram à paisagem americana no século XVII, sendo considerados como habitantes naturais da América – haja vista pinturas seiscentistas –, as unidades lexicais africanas também são percebidas como autóctones pelos defensores do PB. À medida que estudos especializados se desenvolviam – Mendonça (1933), Raimundo (1933), Nelson Senna (1934), Dante de Laytano (1936), e outros – os termos de origem africana foram ganhando autonomia, constituindo uma classe importante entre os brasileirismos, distinguindo-se como africanismos. Ainda que continuassem a instrumentalizar os defensores da diferença do PB em relação ao português europeu, há uma mudança de perspectiva: o foco da atenção não é mais o brasileirismo do PB, mas a presença africana nessa variedade de português. A partir de então desenvolve-se o argumento da africanidade do PB, que inspirou muitos trabalhos, como as publicações recentes de Bolouvi (1994) – sobre os afrobrasileirismos oriundos do contato com as línguas da África Ocidental – e de Nei Lopes (1993-1995) – sobre a presença preponderante das línguas do grupo banto no léxico do PB. Outros estudos, de cunho não lexicográfico, também vão atuar na investigação da África no Brasil, como os trabalhos de Vogt e Fry (1996) e Queiroz (1998), que vão trazer elementos empíricos que mostram traços da presença dos povos bantos ainda presentes em algumas comunidades rurais. Em contrapartida, os estudos sobre as religiões africanas no Brasil, como o de Cacciatore (1977) e Póvoas (1989) vão revelar a apropriação da cultura e das línguas africanas da África Ocidental, pela reelaboração e recriação dessa herança, que vai produzir uma mescla lingüística afro-brasileira especializada no uso ritual. Os deslocamentos de sentido manifestados na percepção atual dos africanismos nos dicionários – de ‘estrangeiros’ ao português europeu, mas ‘elementos da nacionalidade’, no português brasileiro, a entidades autôno141

mas brasileiras ou afro-brasileiras – refletem as condições sócio-históricas do período de total independência política e cultural em relação à ex-metrópole, momento em que a identidade lingüística não é mais questionada nem questionável a partir da diferença lexical. Hoje, o debate lingüístico focaliza, preferencialmente, os traços distintivos da sintaxe do PB. Os dicionários gerais da língua portuguesa de Ferreira (1999) e Houaiss (2001) vão refletir as oscilações de sentido na percepção que se tem hoje dos termos de origem africana no PB: africanismos ou brasileirismos? Apesar da incoerência entre a definição da entrada lexical africanismo e o uso da rubrica “africanismo” como uma categoria identificadora da etimologia do termo, as palavras oriundas de uma língua africana em uso no PB não são classificadas como africanismos, nos dois dicionários; são brasileirismos; são identificados como “africanismos” somente os termos próprios do português da África. Muito embora a análise seja semelhante, deve-se ressaltar que Houaiss apresenta maior coerência, pois acrescenta, explicitamente, na definição de “africanismo” a acepção de “fatos lexicais distintivos do português da África, não us. em Portugal ou no Brasil”, ao lado do sentido amplo de “palavra, construção ou expressão tomada de empréstimo de qualquer das línguas africanas”. Excetuando-se alguns itens lexicais preferencialmente utilizados no contexto religioso afro-brasileiro, os “termos de origem africana” não são mais percebidos como africanismos, ou seja, estrangeirismos, pois, na sua maioria, estão totalmente integrados ao português brasileiro: participaram da constituição do PB e adquiriram cidadania brasileira, formando uma parcela importante dentro da pluralidade de fontes do léxico do português brasileiro. Entretanto, os “termos de origem africana” em uso no PB reclamam, ainda, uma investigação lingüística mais atenta e criteriosa, que não se limite a repetir sem discutir as informações obtidas em autores do passado.

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PALAVRAS DE ORIGEM AFRICANA NO PORTUGUÊS DO BRASIL:
DO EMPRÉSTIMO À INTEGRAÇÃO

Emilio Bonvini Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS)

O presente texto propõe-se a tratar da presença de termos oriundos de línguas africanas no português do Brasil de um duplo ponto de vista: esses termos são antes de tudo empréstimos feitos às línguas africanas, em seguida, eles foram formalmente integrados gradualmente ao português do Brasil. Mais precisamente, propõe-se examinar os termos de origem banto que se considera pertencer aos empréstimos mais antigos e melhor integrados. Com esse objetivo, será focalizado o período que vai do século XV ao XVIII, inclusive. Com base nessas observações, formulam-se hipóteses sobre a identificação da língua de origem. Por outro lado, não está no objetivo deste trabalho tratar dos empréstimos feitos a partir das línguas da África Ocidental. Esses, por mais numerosos que sejam, são geralmente mais recentes, menos integrados à língua portuguesa e, sobretudo, empregados no âmbito de uma língua de especialidade, a saber, a língua ritual de vários cultos afro-brasileiros, em particular os candomblés.

Preliminares
O texto de M. Petter, aqui publicado, dá uma visão de conjunto dos trabalhos que se consagraram ao levantamento sistemático dos termos oriundos de línguas africanas, atestados no léxico do português do Brasil. Retraça, além disso, o histórico da problemática suscitada pela presença desses termos, considerados ora como ‘brasileirismos’, ora como ‘africanismos’, e às vezes também como testemunhas de um impacto (« influência ») no português falado no Brasil e que teria chegado a abalar a identidade desse último.
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Aqui uma precisão se impõe: o emprego do termo ‘influência’ a propósito dos termos lexicais de origem africana é metodologicamente inadequado e contestável, pois esses termos são, em qualquer situação, empréstimos, e resultam, por isso, de um fenômeno sociolingüístico consecutivo aos contatos de línguas. Nesse contexto, eles fazem parte de uma troca bilateral entre as línguas em presença. Mais precisamente, para os termos aqui focalizados, deve-se supor que, durante essa troca bilateral, os locutores de origem africana certamente trouxeram termos de línguas africanas, mas ao mesmo tempo apropriaram-se de uma terminologia portuguesa enquanto aprendizes do português. Contrariamente às aparências, não se trata de forma alguma de «influência» de língua « fonte » (aqui, línguas africanas) sobre uma língua « alvo » (o português do Brasil). Se se insiste em utilizar um conceito de preponderância (peso, poder, pressão ?) é antes o inverso que se deveria focalizar: tratar-se-ia antes da capacidade da língua portuguesa apropriar-se dos termos necessários a sua própria expressividade, seja qual for sua origem (Bonvini & Petter, 1998: 79-80). Mas isso não é totalmente correto, porque se constata na África, para a época considerada, o mesmo processo que conduziu as línguas africanas a apropriarem-se de uma terminologia portuguesa, com uma única diferença: nos países de dominância portuguesa (antigas colônias portuguesas) esse processo bilateral não deixou de coexistir. É preciso acrescentar, também, no caso do Brasil, que essa bilateralidade de contatos « línguas africanas – português » operou-se de forma simultânea e conjunta, embora em graus diversos no tempo e no espaço, paralelamente a outros contatos lingüísticos, dos quais o principal mas não exclusivo é manifestamente o que se operou entre as línguas ameríndias, tupi-guarani em particular, e o português. A esse respeito cabe destacar que, por mais numerosas que sejam, as palavras de origem africana são claramente em número inferior às de origem indígena. (Bonvini, 1997: 294). Uma outra observação que se impõe é o fato que o processo dos empréstimos, estreitamente ligado aos contatos de línguas, diversificou-se conforme o espaço e o tempo. Existe uma cronologia dos empréstimos e uma geografia também. No caso do Brasil, no que se refere aos contatos ‘línguas africanas – língua portuguesa’, seria muito restritivo considerar somente o período da escravidão propriamente dita, ou ainda somente o espaço exclusivamente brasileiro. O que ocorreu no Brasil é apenas uma parte de um processo mais amplo. Contatos regulares entre línguas africanas e a língua portuguesa precederam ou acompanharam, na África ou fora
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da África, o fenômeno do empréstimo, de maneira que hoje se deve levantar a hipótese de que certos empréstimos atestados no Brasil são de fato apenas empréstimos de segunda ou talvez terceira geração. Em nome mesmo da história, torna-se indispensável relacionar os empréstimos atualmente atestados no português do Brasil aos processos análogos anteriores ou concomitantes, que aconteceram tanto em Portugal quanto na África, e para esta conforme as épocas e os lugares. Com efeito, os dados históricos parecem mostrar que o processo do empréstimo diversificou-se, conforme as épocas e em importância, diferentemente na África ocidental e na África austral. O objeto deste artigo limitar-se-á essencialmente ao empréstimo às línguas do grupo banto. Uma última observação toca o próprio empréstimo, mais exatamente sua identidade e seu futuro enquanto empréstimo, quando ele deixa de ser só e simplesmente um termo da língua de partida para se inserir progressivamente numa outra língua. É todo o processo da integração da palavra emprestada na língua que a toma emprestado que se faz de modos muito diversos, de acordo com as palavras, as circunstâncias e, também para a mesma palavra, conforme as épocas, resultando em formas muito variadas que testemunham uma integração progressiva e mais ou menos completa.

Histórico do recurso aos empréstimos de línguas africanas no português do Brasil
O fenômeno do empréstimo das línguas africanas atestado no Brasil é somente o resultado de um processo que começou no exterior do Brasil e que foi progressivamente se instalando em Portugual a partir do século XV, paralelamente e de modo concomitante às descobertas do contiente africano e das línguas africanas (Bonvini, 1996). Esse processo prosseguiu ao longo dos séculos seguintes. O levantamento dos empréstimos efetuados nesse primeiro período não foi ainda estabelecido de uma maneira sistemática com base em documentos disponíveis (relatos de viagens, crônicas, textos literários, peças de teatro...). A título exploratório e de forma panorâmica, levantamos pessoalmente, por exemplo, em João de Barros, na 1a Decada (1552) os termos ‘banzeiro’ (fol. 27, col.1), fulo (fol. 66, col. 2), furna (fol. 11 col. 1) e mozimos (fol. 193, col. 3), na 3a Decada (1563) os termos ganda (fol. 53. col. 3), inhame (fol. 255, col. 3), moxâma (fol. 70, col. 4) e muxama (fol. 67, col. 4).
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É possível estabelecer um primeiro inventário desses empréstimos no dicionário de Bluteau (1712). Encontram-se 91 termos, dos quais 15 que ele estima serem originários de Angola (bumba, candonga, candongueiro, catinga, macaco, marakutâ, minha minha, moxinga, mubango, palava’, pombeiro, quîgila, quiminha, quiseco, quitumbata), 7 termos como atestados no Brasil (beijú, cacimbas, macuma, maribonda, mazombo ~ muzombo, mocama’os e molêque) e 4 termos como tendo uma origem castelhana (cogoté, mochila, mondongo, mondongueira), mas que figuram hoje entre os termos considerados como originários de línguas africanas. O que é mais surpreeendente é o fato de aparecerem por volta de 70 termos do inventário de Bluteau ainda hoje na maioria dos dicionários do português falado no Brasil ou nos repertórios especializados das palavras de origem africana constituídos a partir do início do século XIX. Como interpretar essa passagem de 7 a cerca de 70 termos? Seria devido a uma informação insuficiente da situação brasileira por parte de Bluteau, o que é bem possível, ou seria o resultado de um crescimento real do número de empréstimos realizados no Brasil depois do aparecimento da obra de Bluteau ? Mas então como prová-lo? Uma terceira hipótese ou melhor uma interrogação, no entanto, merece ser apresentada: esse crescimento não seria antes o resultado de uma miragem ligada a um processo de fabricação de dicionários ? Com efeito, em 1789, Antonio Morais Silva publica em Lisboa sua primeira edição (redigida fora do Brasil) de seu Diccionario da Lingua Portuguesa, que será objeto no século XIX de edições sucessivas (1813, 1823, 1831, 1844, 1858, 1877, 1890) e que servirá amplamente de referência a partir de então. Para nosso propósito convém citar o título completo da primeira edição: Dicionario da lingua Portugueza composto pelo padre D. Raphael Bluteau, reformado, e acrescentado por Antonio de Moraes Silva Natural do Rio de Janeiro. Ora, nessa primeira edição, Moraes Silva retoma a quase totalidade dos termos de Bluteau (1712), acrescentando somente uma dezena de novos termos atestados no Brasil, dos quais três são formas derivadas: bugiganga, cachaça, cafuné, calhambola, encafurnar-se, mamona, mandingueiro, marimbar, matombo, mogangueiro, mucama e parapanda. Assim, não é inconcebível pensar que, a partir dessa data, termos que até então faziam parte do estoque lexical comum de empréstimos atestados no português de Portugal tenham sido contabilizados como pertencendo ao português do Brasil, o que é contrário à realidade, já que esses mesmos termos foram emprestados numa época anterior e não no Brasil.
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No que se refere aos empréstimos feitos às línguas da África austral atestados no português falado em Angola, a documentação é mais extensa e testemunha ao mesmo tempo a extensão e a consolidação de um processo de recurso ao empréstimo às línguas africanas pelo português, mas dessa vez realizado em Angola. B. Heintze (1985: 114-30) reuniu uma importante documentação referente aos vocábulos africanos atestados nos textos relativos à Angola para o período de 1622-1635. Seu levantamento comporta 105 termos, dos quais 16 somente figuram entre os atestados no Brasil (cf. Novo AurélioSéculo XXI): casimba, fuba, ganga, infuca, libambo, macota, macuta, malafo (marafa, marafo), *moleca, moleque, *pombeiro, querimbo (carimbo), quilombo, quitanda, senzala, tanga e zimbo, dos quais 2 (casimba e moleque) foram reconhecidos como tais por Bluteau (1712). O segundo texto comportando um número significativo de termos (161) emprestados às línguas africanas é o de A. de Oliveira Cadornega (1680: 611-22). Trata-se, na maioria, de termos do vocabulário militar. Desses, 15 são igualmente atestados no Brasil, às vezes sob uma forma aproximativa: ambundo, banzar, calunga, casima, fuba, ganga, gonges, libambos, makaia, macotas, mucama, pombeiro, quilombo, quitanda, zombi. Os termos novos em relação aos precedentes são: ambundo, banzar, calunga, gonges, makaia e zombi. Nenhum termo militar, no entanto, chegou ao Brasil. O terceiro texto que convém levar em consideração é a obra de G. A. Cavazzi (1687, 2:469-482) que apresenta o duplo interesse de comportar um vocabulário muito extenso e ter sido escrito em italiano. Assim, torna-se interessante ver quais são os termos emprestados às línguas africanas locais e que se encontram eventualmente no Brasil. Trata-se de um vocabulário com temas muito variados (botânica, zoologia, dados etnográficos e históricos), mas onde predomina entretando a terminologia da religião tradicional. É constituído de 349 termos. Dentre esses, somente 16 termos coincidem, com algumas variantes, com os que são atestados no Brasil. Trata-se de: badé, bolo, cacimbas, calunga, fuba, ganga, ganga-ia-nzumba, libata, macota, marimba, moringa, mulemba, quijila, quilombo, zambi-a-mpungu, e zimbo. Nessa lista, badé, bolo, ganga-ia-nzumba, libata, marimba, moringa, mulemba, quijila, zambi-a-mpungu, representam uma terminologia nova em relação aos aportes precedentes. O último documento que importa considerar é o de E. A. Silva Corrêa (1782). Apresenta a vantagem de ter sido escrito por um brasileiro que
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viveu em Angola. O levantamento sistemático dos termos utilizados foi efetuado por M. A. F. d. Oliveira (1983: 273-91). Contam-se 89 termos. Com 20 termos inventoriados, é sem nenhuma dúvida o repertório que contém o maior número de empréstimos atestados no Brasil: aloá, calhambola, cubata, entanga, fuba, ganga, libata, libambo, macotas, macuta, milongo, mucambas, pango, pumbeiros, quilombo, quitanda, quitandeira, sanzala, tungas, zimbo. Notam-se em particular os termos aloá, calhambola, cubata, milongo, pango, quitanda, quitandeira e tungas. A respeito de aloá, é interessante destacar que o autor faz uma distinção entre a forma utilizada em Angola e a que vigora no Brasil. Ele nota com efeito que em Angola « reduzem o Milho em hua bebida fermentativa, a G. dão o nome de Oállo », enquanto que « no Brasil se tem apurado melhor esta bebida extraida de Arròs, e temperada com assucar, a G. o vulgo em lugar lhe chama Aloá » (Silva Corrêa, 1782: I, 130, n. 2). O termo quimbundo é uâlua «garapa, cerveja» (Assis Junior, 1941). Esses quatro documentos, mas sobretudo o de E. A. Silva Corrêa (1782) têm em comum o fato de comportar um número significativo de termos atestados ainda hoje no português falado em Angola como: arimo, banza, bondo, cacimbo, ginguba, etc. Nesse sobrevôo do conjunto dos documentos que cobrem o período que vai do século XV ao XVIII, parece que o processo dos empréstimos às línguas africanas começou muito cedo em Portugual. Ele prosseguiu em seguida em Angola com um crescimento regular de termos emprestados, todavia segundo modalidades distintas. Em Angola, o crescimento dos termos emprestados ocorreu paralelamente à necessidade de dispor, conforme as épocas, de vocabulários cada vez mais especializados: militares, religiosos, mas também vocabulário ligado ao tráfico. Entretanto, os termos de especialidade desapareceram à medida que a necessidade desta especialização diminuía com o tempo, a ponto de cessar totalmente. Apenas o vocabulário ligado às necessidades quotidianas, mais restrito em número, manteve-se até nossos dias. Constata-se, também, que entre os termos emprestados em Angola durante esse período, somente um número bem reduzido foi exportado para o Brasil. Trata-se de termos preferencialmente ligados à vida quotidiana, dos quais alguns, entretanto, fazem referência à religião ou ao tráfico.

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Integração formal dos empréstimos no português do Brasil
Como o recurso ao processo de empréstimo efetuou-se em épocas e lugares diferentes, é útil ver, com base nos mesmos documentos, como se operou a integração na língua portuguesa dos termos emprestados. Uma primeira dificuldade foi a da integração das classes nominais, que caracterizam os substantivos das línguas do grupo banto e cujo suporte formal (« classificador », ou « morfema de classe ») de tipo afixal, é um prefixo (« prefixo nominal »), diferentemente de outras línguas africanas com classes, pertencentes a outras famílias, onde o suporte pode ser de tipo prefixo e sufixo, ou sufixo somente. Essas classes se deixam agrupar geralmente duas a duas (« gênero »), em oposição binária, em relação com um valor semântico específico, principalmente o número, embora não exclusivamente, o que significa que há habitualmente um prefixo de singular distinto do de plural. O número de classes varia entre 12 ou 14 e 20 conforme as línguas. A título de exemplo, o quimbundo comporta 18 classificadores distintos, agrupados em 9 « gêneros » (Bonvini, 1996b: 80) : 1 mu-/ 2 a- (mùtù « pessoa »/ àtù « pessoas ») ; 3 mu-/4 mi- (mùxì « árvore »/ mìxì « árvores ») ; 5 di-/6 ma- (dìzwì « língua »/ màzwì « línguas ») ; 7 ki/8 i- (kìnù « pilão »/ ìnù « pilões ») ; 9 i- ou ø/10 ji- (hòmbò « cabra »/ jihòmbò « cabras ») ; 11 lu- (lùmbù « parede ») ; 12 ka-/13 tu-(kàmbwà « cãozinho »/ tùmbwà « cãezinhos ») ; 14 u-(ùkàmbà « amizade ») ; 15 ku(kùyà « ir ») ; 16 bu- (bùlù « no céu »)/ 17 ku-( kùkù « por aqui ») / 18 mu(mùbàtà « em casa »). É com relação a sistemas classificadores desse tipo de línguas que foi feita a adaptação ao português dos termos emprestados das línguas africanas do grupo banto. Daí o interesse de tentar compreender o mecanismo de integração, ao menos em suas grandes linhas, tal como se efetuou em diferentes épocas e em lugares diferentes como evocamos. É evidente que para restituir a forma original, importa analisar cada empréstimo caso a caso. O trabalho de Bluteau (1712) é um pouco posterior ao de Cadornega (1680) e ao de Cavazzi (1687). Com relação às palavras de empréstimo que ele contém, nota-se que os prefixos nominais são geralmente respeitados, mas são prefixos já desconectados de sua função inicial de « classificadores ». Por exemplo, Bluteau cita duas formas que não vão juntas (« mazombo » ou « muzombo ») e ele não reconhece a função de pluralizador do prefixo /ma- / porque ele acrescenta regularmente o sufixo /-s/ do por153

tuguês para a formação do plural tanto para as formas do singular (muchindos, cacimbas) quanto para as do plural (marimbas). Observa-se também o emprego do derivativo /-eiro/ (banzeiro, candongueiro) e a concordância com o gênero feminino para ‘marimbondo’: « maribonda : Especie de vespa do Brasil ». Nos textos recolhidos por Heintze (1985), que são mais antigos de quase um século em relação à obra de Bluteau (1712), constatam-se os seguintes fatos: a) tendência a pronunciar as vogais fechadas /i, u/ como meio-abertas /e, o/, em sílaba não acentuada: bambes (no lugar do quicongo mbámbi ‘fronteira’), moenho (ao invés do quimbundo muénhu [mwènyù]‘alma’), querimbo (em vez do quimbundo kirímbu ‘marca, sinal’). Cabe notar que quando se trata de passar do português ao quicongo o movimento é inverso, as vogais meio-fechadas são pronunciadas fechadas: ‘cobre’ > kobidi (quicongo) ou cobre > kóbiri (quimbundo) (Bal, 1979: 63); b) tendência a substituir a consoante nasal /N-/ por uma vogal protética seguida de –n: infuca, emfuca (no lugar do quicongo: mfuka ‘divida’) ; c) emprego preferencial da forma do plural no lugar do singular: quimbundo macota (mákota) (em vez de rikota ‘o mais velho de uma linhagem’). Em Cadornega (1680), encontram-se as mesmas tendências (engoma, no lugar do quimbundo ngoma ‘tambor’), mas com mais dois fatos novos, embora não sistemáticos: a) perda (aférese) do prefixo de classe: emprego de duas formas possíveis para o singular do substantivo, uma com o prefixo de classe, a outra sem o prefixo de classe: ditemo ou temo ‘enxada’, difuta ou futa ‘pêgo’, entambi ou tambi ‘enterro’1 ; b) adjunção mais freqüente, senão sistemática, da marca do plural português /-s/ aos substantivos plurais da língua africana, o que implica o não reconhecimento dos morfema do plural de classe: Ambundas (no lugar de Ambundu ‘nome de povo’), macotas (no lugar de makota ‘os mais velhos de uma linhagem’), malungas (no lugar de malunga ‘argolas de ferro’). Quanto a Cavazzi (1687), encontramos quase os mesmos fenômenos, exceto a marca do plural do português /-s/ que é freqüentemente substituída pela do italiano /-e, -i/: cassimbe (ao invés de cacimba), makoti (ao invés de makota). Um fenômeno inesperado é o acento que muito freqüentemente o autor nota sobre a última sílaba de certas palavras: mbulú (ao
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Nota-se o fenômeno inverso para as palavras portuguesas emprestadas do quimbundo: gaiola > Ngaiola, garfo > Ngalufu.

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invés de mbulu ‘chacal’). Não se pode deduzir nada de verdadeiramente significativo dessa grafia. Trata-se de uma maneira de notar o tom alto próprio das línguas africanas, ou se trata antes do que se convencionou chamar ‘deslocamento de sílaba do acento da palavra’ (acutização) que se constata, por exemplo no Brasil, em alguns termos emprestados das línguas africanas ? Nada permite fazer essa afirmação. A obra de Silva Corrêa (1782) confirma e amplia os diversos procedimentos de integração dos empréstimos, sobretudo para as formas do plural (libongos, pl. de lubongo, ‘paninho de palha’; mucambas, pl. de múkâma, ‘escrava que é amásia do seu senhor’). Mas o que é novo nesse autor são dois procedimentos: a) uma diferenciação maior dos derivados: camboladores (do quimbundo rikómbo ‘capataz’), empacasseiro (do quimbundo pakása ‘búfalo’); b) emprego do singular da forma original do plural do substantivo emprestado (isto é, com o prefixo de classe do plural), e acréscimo a essa mesma forma do sufixo do plural do português /-s/ parar expressar o plural: malunga2 (pl. de rilúnga) ‘argola de ferro que prende as mãos a uma comprida corrente’ (sg.) e malungas3 ‘finas argolas de cobre, prata, ouro e ferro’ (pl.). Esse último exemplo é típico da integração total da palavra emprestada. Em conclusão, pode-se afirmar que, nos traços essenciais, o processo de integração ao português de palavras emprestadas das línguas africanas de tipo banto foi progressivamente se implantando e chegou ao seu término em Angola mesmo, e antes do século XVIII. Em seguida, esse processo foi mantido e também consolidado no Brasil, principalmente por dois aportes maiores: um se situa no plano semântico, graças a uma especialização da significação de partida da palavra, e também, às vezes, graças à adoção de uma significação nova; a outra diz respeito ao plano formal, graças à profusão de formas derivadas, como: Calunga > calungage(m): ‘vagabundagem’ ; calungueira: ‘barcos de pesca’ ; calungueiro: ‘pescador de pargo’ ; encalungar: ‘lançar uma sorte’. Moleque > molecada, molecagem, molecão, molecar, molequear, molequeira, molequice, molequinho, molecòrio, molecote, emmolecar-se.
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‘Argola de ferro G. prende as maons a huma comprida corrente’ (I, 96, n. 2). ‘Humas malungas’ (I, 280, n. 1).

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Origem dos empréstimos
A presença no Brasil de empréstimos de línguas africanas traz à baila o problema de sua origem, o que implica a identificação da língua de partida e, tanto quanto possível, o reconhecimento do país de origem. Essa identificação torna-se difícil porque as fronteiras lingüísticas antigas não coincidem mais obrigatoriamente com as atuais. Quanto às fronteiras políticas, elas submeteram-se a mudanças freqüentes ao longo dos séculos. Apesar de numerosos escritos consagrados hoje ao problema dos empréstimos (cf. nesta publicação o texto de M. Petter) os resultados são pouco satisfatórios. Há muitas razões para isso. As principais, além de um certo amadorismo, são de duas ordens: por um lado a incerteza que pesa sobre os dados levantados no Brasil, em particular a ausência de um inventário sistemático de empréstimos cobrindo toda a extensão do país, mas também a não distinção, que é no entanto necessária, entre os termos usuais, integrados, hoje, totalmente no estoque lexical do português do Brasil, falado ou escrito, e os termos de especialidade, notadamente os atestados nos cultos ditos afro-brasileiros ; por outro, a insuficiência de conhecimentos diretos dos dados lingüísticos do continente africano. Esse comporta com efeito uma realidade lingüística movediça e diversificada, constituída por um número considerável de línguas e variantes dialetais (por volta de 2000, segundo o último levantamento do Summer Institut of Linguistics (SIL) (Grimes, 1996), mesmo se esse levantamento é às vezes discutível no detalhe). Muitas dessas línguas estão além de tudo em via de desaparecimento rápido, em conseqüência do fenômeno de urbanização, notadamente nos países ditos ‘Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa’. Esse fenômeno se acelerou e ampliou após os deslocamentos maciços de populações, ligados às guerrras e cuja duração se prolongou por muitas décadas. Nesse contexto muitas línguas desapareceram ou desaparecem, sobretudo as minoritárias e que nunca foram objeto de descrição sistemática. Todavia, com base em textos antigos, é possível identificar um certo número de termos que se encontram atualmente no Brasil. Alguns deles são comuns a extensas zonas geográficas e lingüísticas. É o caso das línguas do grupo banto. Outros são limitados a zonas areais mais restritas. É importante enfatizar uma característica dos empréstimos atestados no Brasil e que nos parece importante: os empréstimos se apresentam muitas vezes com numerosas variantes. Haja vista os exemplos seguintes tirados de Angenot, Jacquemin, & al. (1974):
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aluá = aruá: bebida de milho cozido, arroz ou cascas de abacaxi, fermentada. andaro = undaro = undaru = ondara = anduro: fogo. birimbau = berimbau = marimbau = marimba: instrumento musical. bongar = pongar: buscar, procurar. caçula = caçulo = caçulê: filho mais novo. cacunda = cacundo = carcunda = corcunda: bossa, protuberância nas costas. cafife = cafifa = canfinfa: azar. calunga = carunga = calungo: mar, peixe, morte. canjerê = canjirê = conjerê = canjira: dança negra de caráter religioso. canzaca = casaca = canzá = ganzá = cassaca: instrumento musical. dengo = dongo = dengue = ndengue = ndongo: choradeira, manha, faceirice. Poderíamos multiplicar à vontade esses exemplos. Como explicar essa multiplicidade de variantes ? Aparentemente, nenhum estudo foi feito a esse respeito. Pode-se, entretanto, emitir algumas hipóteses. É possível, certamente, atribuir essas variantes ao fato que elas resultam essencialmente de uma transmissão oral. Por isso, desde o ponto de partida, elas teriam sido submetidas aos acasos de uma pronúncia e de uma percepção individuais e, em conseqüência, elas se teriam fixado em favor de um contexto coletivo, de tipo religioso (cultos ditos ‘afrobrasileiros’), ou lúdico (‘capoeira’, ‘carnaval’…) ou eventualmente profissional (exploração agrícola de matérias-primas – ouro, diamantes). Nessa eventualidade, torna-se então difícil fazer uma escolha entre as variantes e a seleção de uma delas no lugar de outra corre o risco de ser fundamentada em critérios estatísticos ou subjetivos. Pode-se, também, formular uma segunda hipótese: muitas dessas variantes – mas seguramente não todas e uma verificação caso a caso se impõe nesse domínio – seriam o testemunho de uma forma lingüística que teria existido numa língua africana previamente, antes de sua adoção pela língua portuguesa, uma espécie de fóssil lingüístico que testemunharia a origem lingüística que lhe é específica. A consideração da forma brasileira permitira remontar até a especificidade da língua fonte (língua, dialeto ou falar). Uma comparação formal com outras variantes do mesmo tipo, para outras formas emprestadas, e sobretudo uma comparação efetuada in loco, em terra africana, com as formas atestadas, principalmente antigas, mas também atuais, poderia confirmar ou contestar essa hipótese. No caso de
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confirmação, seria então justificável falar de origem a respeito de tal ou tal empréstimo. É essa segunda hipótese que estimamos útil explorar. A título de exemplo, serão examinadas aqui duas séries de variantes atestadas no Brasil e que correspondem cada uma a um empréstimo distinto, mas que são na realidade relativamente próximos no plano semântico: aluá = aruá: bebida de milho cozido, arroz ou cascas de abacaxi, fermentada. marafo = marufo = marafa = malafa = malavo = malavra = maluvo = maruvo: bebida alcoolizada, vinho de palma. Se se observa a realidade africana, principalmente a das línguas de tipo banto, constata-se que essa duas séries partilham a noção semântica de ‘vinho de palma’, como aparece claramente em diferentes documentos antigos. Entre as diversas raízes das línguas banto que correspondem a essa noção, encontram-se duas séries de termos cujos radicais se aproximam daqueles atestados no Brasil (Cf. Johnston, 1919 e 1922, exceto para os nomes de línguas e sua classificação que atualizamos): a) -rwa, -arwa, -lua, -alwa ; essas formas são atestadas como radicais principalmente nas línguas que pertencem aos seguintes grupos: -rwa: Hayakwaja (J.20 – Tanzânia) ; -lua: masaba-luya (J.30 – Uganda, Quênia) ; -arwa: Chokwe-Luchazi (mbunda) (K.20 - Angola, Zaire, Zâmbia ); alwa: cokwe-lukazi (ganguela) (K 20 - Angola, Zaire, Zâmbia); luba (ciluba) (L. 30 – Zaire) ; salampasu-ndembo (lunda) (K 30) (Zaire, Angola, Zâmbia). As duas últimas formas concernem diretamente ao Brasil, onde elas são atestadas com um acento no final e cuja explicação seria ou uma reminiscência do tom alto nas línguas africanas de onde provêm (infelizmente, a documentação em nosso poder não permite afirmá-lo com clareza), ou uma outra causa e que seria estrangeira às línguas africanas. Em qualquer desses casos, o tipo de empréstimo representado pelas duas últimas formas teria sido realizado a partir de línguas situadas preferencialmente na parte leste de Angola, ou ainda nos países imediatamente limítrofes num eixo norte – sul. b) -lovu, -luvu, -lufu, -lavu, -lafu, -rafo ; essas formas são atestadas principalmente nas seguintes línguas: -lovu: subia (K.40 – Zâmbia, Botswana,) ; -luvu: Chokwe-Luchazi (cokwe) (K.10 - Angola, ex-Zaire,
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Zâmbia ); mbundu (quimbundo) (H. 20 – Angola); luba (ciluba, kanyoka) (L 30 – ex-Zaire) ; -lufu: mbundu Sul (nkumbi, nyaneka) (R 10 – Angola) ; songye (L.20 – ex-Zaire) ; -lavu: kongo (kisikongo) (H.10 - Angola) ; -lafu: sira (lumbu) (B. 40- Congo) ; Luba (hemba) (L.30 – exZaire); -rafo: Chokwe-Luchazi (Mbunda) (K.10 - Angola, ex-Zaire, Zâmbia ); -rufu : ; salampasu-ndembo (lunda) (K 30) (Zaire, Angola, Zâmbia). Deve-se notar que quase todos os empréstimos que correspondem à segunda série são também oriundos de línguas que se encontram na maioria em regiões situadas no eixo norte-sul do leste de Angola, ou incluindo países imediatamente limítrofes, ex-Zaire (RD Congo) e Zâmbia em particular. Dessas formas, as que são atestadas no Brasil são : -luvu (maluvo) , -lavu (malavo), -rafo (marafo) e –rufu (marufo). É preciso, provavelmente, incluir aqui a forma maruvo como realização possível de maluvo. Em contrapartida, convém excluir as formas que terminam em /-a/ (marafa, malafa, malavra) dos empréstimos que inventoriamos para Angola, pois essa terminação é estrangeira aos substantivos das línguas africanas de tipo CVCV correspondente à raiz focalizada. O sufixo /-a/ ‘singular feminino’ manifesta um grau suplementar de integração ao português, provavelmente a partir do decalque de garapa ‘bebida feita de cana, caldo da cana destinado à destilação’ ou cachaça ‘pinga’. Sua presença no Brasil, pelo menos para marafa e malafa, poderia ser interpretada como uma integração de segunda geração, ou melhor, um empréstimo de segunda geração. Não parece ser o mesmo o caso de malavra que indica antes uma corrupção da palavra resultante de uma pronúncia deformada. A eventualidade da existência de um empréstimo de segunda geração no Brasil não deve ser excluída e ela tampouco é surpreendente. O exemplo citado acima referente a macota [Do quimb. mákota, ‘os maiores’., mas que no Brasil corresponde a ‘S.m. Bras. Com o sentido de «homem de prestígio e influência», «o maior de todos, o mais importante»] tenderia a prová-lo. Com efeito, esse termo já era atestado, como assinalamos, em Cadornega (1680), como seria também um século mais tarde em Silva Corrêa (1782). Nos dois autores, entretanto, a forma era /macotas/, o que correspondia melhor ao sentido de /makota/ que é em quimbundo a forma do plural de /dikota/ ‘mais velho’. A forma atual do singular /macota/ atestada no Brasil, enquanto empréstimo, é assim ela própria uma forma
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derivada de um empréstimo mais antigo, um empréstimo de segunda geração e, a esse título, é significativo encontrá-la no historiador brasileiro de Angola, Silva Corrêa (1782). Como mostra este breve ensaio, a utilização judiciosa das variantes de empréstimos que encontramos no português falado no Brasil permite chegar a sólidas hipóteses sobre a origem dos empréstimos oriundos de línguas africanas, sobretudo as que são do tipo ‘banto’. Esses empréstimos apresentam a vantagem de serem mais amplamente atestados e também mais antigamente integrados. Este trabalho, entretanto, assenta-se sobre duas condições prévias: por um lado, um levantamento sistemático de todas as formas de empréstimos atestadas no Brasil e, paralelamente, um conhecimento aprofundado e extenso das línguas faladas na África. Esta abordagem não exclui os casos de ambigüidade, ela pode, ao contrário, colocá-los em evidência. É o caso quando um dado termo pode ser interpretado como procedente de um empréstimo de uma língua africana ou de um empréstimo da língua tupi. Veja-se o seguinte exemplo: formalmente, /mulungu/ [Do tupi murun’gu.] pode tanto ser uma palavra de origem banto quanto tupi, com uma única diferença, o acento, que não é o mesmo para cada uma das línguas : /mu’lungu/ (banto) no lugar de / murun’gu/ (tupi) ; /r/ et /l/ são intercambiáveis em muitas línguas africanas. No plano semântico, as duas origens também são possíveis, já que o Novo Aurélio século XXI dá três acepções diferentes, duas indígenas e uma africana : «1. V. corticeira. 2. V. flor-de-coral. 3. Espécie de ingome, de origem africana, que produz sons retumbantes». Não é de espantar que essa semelhança formal tenha sido fonte de confusão desde a partida e que ela tenha causado uma espécie de « leitura » bi-direcional: o indígena brasileiro interpretando a palavra africana segundo o modelo tupi, o africano interpretando a palavra tupi conforme o modelo banto. A hesitação do locutor encontra-se com a do descritor de hoje face a essa palavra estrangeira. Uma verdadeira análise sistemática dos dois tipos de empréstimo traria, a nosso ver, um esclarecimento importante sobre os contatos de línguas no período da escravidão e, finalmente, sobre a identidade lexical do português falado atualmente no Brasil.

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NOVAS LEITURAS SOBRE O BRASIL: A CONSTRUÇÃO
DE UM SABER LEXICAL NO PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO INDÍGENA1 Maria Aparecida Honório Universidade de São Paulo (Pós-doutorado/USP)

Com o intuito de contribuir com os estudos sobre a constituição do léxico no Brasil, focalizaremos, neste nosso trabalho, o processo de gramatização brasileira2 do português e das línguas indígenas, tendo em vista a história de contato. Considerando que a construção dos saberes sobre as línguas no país foi sendo produzida a partir de um trabalho duplo – o de leitura de arquivo e o de coleta de dados in loco –, analisaremos, em primeira instância, as condições históricas que possibilitaram a construção de unidades lingüísticas imaginárias. Posteriormente, procuraremos compreender de que modo o léxico vem sendo significado nas práticas atuais de produção da escrita pelos indígenas. Refletiremos, neste caso, sobre a produção textual de professores Sateré-Mawé,3 caracterizada pela retomada do léxico indígena (ou de origem indígena) em seus textos produzidos em português. Da perspectiva que procuraremos analisar a questão, que é discursiva, este tipo de produção caracteriza uma nova fase de construção de saber sobre o léxico brasileiro. Observando seu modo de aparecimento no fio
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Este trabalho representa um diálogo de algumas das reflexões produzidas na pesquisa pósdoc (USP) no âmbito do Projeto História das Idéias Lingüísticas no Brasil com os resultados da pesquisa desenvolvida no projeto recém-doutor (UFSCar). Entendendo gramatização como o processo que conduz a descrever uma língua na base de duas tecnológicas, a gramática e o dicionário (Auroux, 1992). Na literatura recente esta grafia ainda não está totalmente padronizada. Encontramos: SatereMaue, Sateré, Satere-Mawe, Satere Mawe. Estamos adotando a grafia utilizada com mais freqüência pelos próprios professores indígenas desta etnia.

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discursivo, procuraremos então compreender o funcionamento do léxico em relação a outros campos de memória: o dos missionários e o dos viajantes. Conforme já observou Nunes (1996), os relatos de viajantes e missionários produzidos no período colonial contribuíram para a construção de um léxico brasileiro. Em suas descrições sobre o país, uma infinidade de itens lexicais das línguas faladas na Costa – de origem Tupi4 – serviram de base para a produção de instrumentos lingüísticos: gramáticas e dicionários. Esta produção, caracterizada como uma extensão da relação do falante com a língua (Auroux, 1992) mobilizou as práticas linguajeiras no país, redefinindo o espaço enunciativo brasileiro. Os instrumentos lingüísticos, produzidos nos primeiros séculos de colonização, favoreceram a expansão de um certo conhecimento sistematizado sobre a língua, ao mesmo tempo em que trabalharam a normatização e a redução do uso de outras línguas indígenas. As línguas faladas por grupos Tupi passaram a ser representadas, após o contato, por uma grande unidade imaginária, o Tupi jesuítico.5 As primeiras décadas de contato europeu com a diversidade lingüístico-cultural brasileira foram marcadas pela necessidade de aprender as línguas faladas neste território, condição para as práticas expansionistas. Esta tarefa centrou-se na figura do língua: pessoas enviadas ao Brasil para aprenderem a língua dos índios e servirem de guias nas expedições portuguesas. Com a entrada da Companhia de Jesus no país, foram os jesuítas que passaram a exercer este papel. Neste caso, a aprendizagem da língua vinculou-se às práticas de catequese. É neste contexto que se produzem os primeiros instrumentos lingüísticos, em meados do século XVI, a Gramática de Anchieta – Arte da língua mais usada na costa do Brasil (1595), o Vocabulário na Língua Brasílica e o Dicionário Português-Brasiliano (anônimos). Com estes instrumentos criam-se condições para o aparecimento de uma literatura jesuítica baseada no Tupi ‘colonial’. Em relação aos dicionários bilíngües do período imperial, sua produção foi marcada por um trabalho de intertextualidade: a leitura de arqui4

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Considerando as línguas de origem Tupi em oposição às línguas Tapuyas, os viajantes e missionários passaram a designá-las “língua da terra”, “língua brasílica”, “língua dos brasis”, etc., processo que propiciou a construção de uma imagem de língua indígena única, unívoca. O Tupi-jesuítico representa, segundo Câmara (1978), o trabalho de literatura missionário escrito na língua mais usada na costa do Brasil. Podemos dizer que este trabalho produziu o que Orlandi & Souza (1988) designam de uma língua imaginária: aquela fixada na sua sistematização, em oposição à língua fluída, que escapa dos sistemas e fórmulas.

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vo referida aos discursos dos viajantes e missionários, por parte de estudiosos vinculados a institutos históricos, em particular, o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB). Conforme já analisou Nunes (1998), muitos itens lexicais presentes nos textos dos relatos foram incorporados nos dicionários, explicitando um certo modo de ‘ler o arquivo’:6 a retomada do léxico, não se restringindo à mera cópia de manuscritos da época colonial, foi significada por procedimentos de acréscimos, notificações, explicações, atualizando o léxico com vistas a produzir uma certa história do Brasil, fundamentada no discurso imperial. Nesta prática lexicográfica constrói-se um saber sobre o léxico organizado pela relação palavra/palavra, em oposição ao saber produzido nos dicionários jesuíticos, centrado na situação de enunciação. Veremos, em nosso trabalho de análise sobre a produção escrita dos professores Sateré-Mawé, que a retomada de alguns itens lexicais em seus textos, já presentes no discursos de viajantes e missionários, configurará um novo modo de produção de sentidos sobre o léxico brasileiro. Esta produção, organizada por uma outra perspectiva enunciativa, expõe o léxico a um outro olhar. Ainda no século XIX, paralelamente a este tipo de produção, construída na base da exogramatização,7 um outro conjunto de produção lexicográfica brasileira começa a organizar-se: são os dicionários de ‘brasileirismos’,8 para servir de ‘complemento’ aos dicionários de língua portuguesa (Nunes, 1998). Estes dicionários contemplam uma série de palavras de origem Tupi incorporadas no português e significadas como especificidades do português do Brasil. Esta produção marca um certo tipo de trabalho de leitura de arquivo, que caracteriza a endogramatização: gramatização do português
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Entendemos estes trabalho de leitura de arquivo, tal como concebido por Pêcheux (1994: 57): leitura de um campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão. Leitura esta que implica gestos de interpretação sobre o arquivo; práticas de exclusão, deslocamentos, silenciamentos de sentido. Consiste na transferência de uma tradição lingüística no processo de gramatização de uma língua desconhecida. Para melhor compreensão deste processo, ver também conceito de gramatização (Auroux, 1992). Câmara (1978) aponta como principal causa do brasileirismo ‘a separação geográfica da língua portuguesa, distribuída em dois territórios isolados, de que resultou a não-coincidência absoluta de evolução.’ (p. 67).

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feita por falantes brasileiros (idem, ibidem, 238).9 Nesta produção, a questão da língua é orientada enquanto signo de nacionalidade. (Orlandi & Guimarães, 1998). Observa-se, na segunda metade do século XIX, a retomada de trabalhos sobre a linguagem oral, pelas expedições científicas promovidas pelo IHGB. São publicadas nesta época lendas, mitos, descrições etnográficas não só do Tupi antigo, mas também estudos da Língua Geral Amazônica (Nheengatú ou tupi moderno) e de outras línguas indígenas. É deste período a iniciativa de descrição do tupi moderno, com destaque para os trabalhos de Gonçalves Dias (Vocabulário da língua geral usada hoje em dia no alto Amazonas, 1852, e Dicionário da língua tupi chamada língua geral dos indigenas do Brasil, 1858), Couto de Magalhães (O Selvagem, 1867) e Barbosa Rodrigues (Poranduba Amazonense, 1887). Não obstante, a produção lingüística dirigida às línguas indígenas ocupa, no contexto da gramatização do português, um lugar marginal, quando não voltados à formação da língua nacional. Propagam-se, nesta época, “as abordagens sociológicas que vêem nas manifestações populares e no folclore um outro sentido de nacionalidade” (Nunes, 1996: 62). No processo de consolidação do desenvolvimento social, produzido pela Revolução de trinta, as produções IHGB são relidas – especialmente as obras de Gilberto Freyre –, em favorecimento da construção de uma identidade brasileira. Dentro deste quadro, as teorias sobre a questão racial tornam-se obsoletas; “era necessário superá-las, pois a realidade social impunha um outro tipo de interpretação do Brasil” (Ortiz, 1994, p. 40). Neste período, são reeditados ainda alguns relatos, como por exemplo as Duas Viagens ao Brasil (1557), de Staden, com anotações e revisões do léxico feitas por Theodoro Sampaio, que dialogando com sua própria obra – já publicada na Revista do Instituto: O Tupi na Geographia Nacional (1901) – e outros cronistas, produz um trabalho de releitura. No início do século XX, outras missões católicas, com destaque para as salesianas – em contato com povos indígenas da Amazônia desde 1916 –, realizam trabalhos de caráter etnográfico no Alto Rio Negro, coletando material lingüístico que, arquivado por algum tempo, seria retomado mais
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De acordo com análise de Nunes (1997), neste quadro inserem-se os trabalhos de BeaurepaireRohan (Dicionário de Vocábulos Brasileiros) e Macedo Soares (Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa).

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tarde na produção de instrumentos lingüísticos das línguas faladas naquela área: Pequena Gramática e dicionário da língua Tucana (s/d); Gramática e dicionário Tucano (Frei Antonio Jaconi, 1947). A gramatização desta língua indígena favoreceria a redução da diversidade lingüística da região. Falantes de várias línguas da família Tucano (Dessana, Wanano, Tuyuka, bem como a própria língua Tucano e o Nheengatú, dentre outras lá faladas) passariam a organizar-se a partir de uma nova unidade imaginária: o Tucano ‘oriental’10 ou geral. Estas missões atuariam também na escolarização indígena, pela presença das chamadas escolas das missões, caracterizadas como escolas agrícolas. Pararelamente à atuação dos salesianos, oficializa-se, em meados dos anos cinqüenta, a entrada de missões protestantes, principalmente na região amazônica. As Novas Tribos do Brasil, representadas pelo SIL,11 produzem um volumoso material de descrição lingüística e instituem, com autorização do Estado o ensino bilíngüe em área indígena. A produção destes instrumentos serviu de base para novas produções dos missionários: tradução do Novo Testamento em línguas indígenas e material lingüístico-pedagógico, que caracterizarão um certo tipo de escola: a escola para índios. A partir da década de oitenta, um número expressivo de organizações indígenas no país12 surgirá como movimento de resistência a esta política de línguas e ensino. Estas organizações, tomando a escola como palco político, criarão condições para o aparecimento da escola dos índios. Serão símbolos desta nova escola, a figura do professor indígena, e os livros didáticos produzidos pelos índios. Constituídos como sujeito bilingües, os professores indígenas passam a fazer a ‘releitura’ do Brasil. Mobilizados por um outro tipo de política, diferente daquela dos intérpretes do período colonial, estes novos atores sociais ressignificam o léxico, fundamentados em outros campos da memória.

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Ramirez (1997) divide as línguas da família Tukano em três grupos: Tukano ocidental (dialetos: orejón, sekoya, siona, koreguaje), Tukano central (kubewa), Tukano oriental, em que se incluem as línguas mencionadas no texto, além de outras. O SIL, hoje denominada Sociedade Internacional de Lingüística, compõe um grupo de missionários americanos, ligados a uma vertende evangélica fundamentalista. Atualmente, o Amazonas conta com mais de 50 organizações indígenas, representando várias etnias. Surgindo em defesa da autonomia dos povos indígenas, terá na Escolas seu lugar de atuação. Sobre essa atuação ver Honório (2000), Silva (1998).

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Políticas lingüísticas: as línguas que falam e calam
A partir de 1988, com a garantia do ensino das línguas indígenas aos índios, pela nova constituição brasileira, a escolarização indígena passa a ser incorporada na LDB (1996). O Estado, determinando que a educação escolar indígena deve ser inter-cultural e bilingüe, 13 institui a obrigatoriedade do ensino em língua portuguesa e também em língua indígena ou ‘materna’: “O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem.” (Constituição, 1988). Este tipo de discursividade, atravessado pelo imaginário de que para ser índio é preciso falar uma língua indígena, produz uma injunção política, desconsiderando o real histórico de cada povo indígena em particular, com seus projetos políticos específicos.14 Se é certo que a garantia oficial do ensino das línguas nas escolas indígenas constitui um avanço, a obrigatoriedade do ensino bilingüe, tendo o português como ‘centro’, constitui a contradição deste avanço. Segundo Auroux (1992) “A velha correspondência uma língua, uma nação, tomando valor não mais pelo passado mas pelo futuro, adquire um novo sentido: as nações, transformadas, quando puderam, em Estados, estas vão fazer da aprendizagem e do uso de uma língua oficial uma obrigação para os cidadãos” (p. 49). No embate entre duas línguas, circunscrito neste atual contexto de ensino bilingüe, tem-se, de um lado, o sólido terreno da língua nacional, e, de outro, não importa qual língua, desde que indígena ou materna. Esse discurso, garantindo ‘para sempre’ o lugar da língua, a portuguesa, reduz o campo das línguas indígenas que falam no mesmo povo. Lá mesmo onde a nação se une – na língua – é o lugar de separação. Esta disjunção no fio discursivo, polarizada na relação LP/LI apaga o fato de que falam-se línguas. Explicando. No Brasil, há comunidades indíge13

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Diretrizes para a Política Nacional de Educação Escolar Indígena, II – Princípios Gerais, 1993. Sabemos que nem todos os povos indígenas têm interesse em alfabetizar-se em língua indígena ou em português. Os Yanomami, por exemplo, há pouco tempo, defendiam a escrita somente em português, preferindo manter-se na posição de sociedade de tradição oral. Já os Waimiri-Atroari defendiam o ensino do português somente como língua instrumental, alfabetizando-se somente na sua língua indígena.

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nas que falam mais de uma língua indígena, e mesmo, mais de uma língua de nação – situação característica dos povos dos Alto Rio Negro – e, ainda, há aquelas que, mesmo falando somente uma língua indígena, falam diferente. Em relação aos Sateré-Mawé, sabemos que muitos deles falam, além da língua SM, o Nheengatú, que, neste caso, é apagado no espaço escolar. Soma-se ainda o fato de que o Estado, ao administrar uma unidade de escrita para a língua Sateré-Mawé, também tem operado de modo excludente. A maior parte dos livros escritos pelos Sateré-Mawé, tanto em língua indígena quanto em português, tem sido produzida pelos professores da região do Marau, nos cursos de formação promovidos pela Secretaria da Educação – o Projeto Pira-Yawara/Programa de Capacitação de Professores Indígenas Satere-Mawe. Ressalta-se também que a área do Marau conta com apoio lingüístico direto. Este fato tem provocado embates entre professores das duas áreas geopolíticas (a área do Andirá e a do Marau). Um desses embates tem sido apresentado como razão aparentemente técnica, dissimulando as razões sócio-políticas que o determinaram: a discórdia dos grupos acerca da ortografia que vem sendo fixada nesta escrita. Um exemplo: o emprego do ‘j’, cristalizado na escrita Novo Testamento na Língua Sateré-Mawé (SIL) sob a forma do ‘u’. Conforme adverte Mori (1995), é importante levar em conta, nas políticas de definição de ortografia, não só os princípios técnico-científicos, mas, prioritariamente, as reivindicações sociopolíticas das nações indígenas, porque fala-se o Sateré-Mawé, mas fala-se diferente.15 A despeito do que diz o professor Enilson Wapixana: “...o Brasil é uma nação constituída por muitos povos de diferentes etnias, com histórias, saberes, culturas e línguas próprias...” (RCN/Indígenas, 1998), é ainda relevante analisar, do ponto de vista da política de línguas, de que modo vem se dando a ‘negociação’ dessa diversidade na unidade.

A nova escola e a produção de novos instrumentos
Como vimos, a nova conjuntura de escolarização indígena, garantida pela Constituição e LDB, cria condições para uma extensa produção de
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A reflexão sobre situação sociolingüística dos povos indígenas está presente nos Referenciais Curriculares Nacionais/Indígenas. No entanto, conforme reflete Orlandi em seu artigo “Ética e Política Lingüística (1998), faz-se necessário analisar também esta questão em relação à unidade lingüística do Estado brasileiro.

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textos de caráter pedagógico por parte dos professores indígenas, no processo de sua formação: serão publicados livros didáticos em versão bilíngüe, em língua indígena ou em português. Este fato nos permite considerar este tipo de produção como parte do processo de endogramatização brasileira, que funciona em duas direções: na endogramatização do português e na endogramatização das línguas indígenas. No que diz respeito ao material que analisaremos, observamos que a presença de palavras em língua indígena no texto em português configura-se como um certo saber metalingüístico e, neste sentido, estenderemos o conceito de instrumento lingüístico proposto por Auroux (1998) para a produção lingüístico-pedagógica dos professores indígenas.16 Nesta fase, emerge um outro ‘leitor’ do/no Brasil: os escritores indígenas, bilíngües. A presença do léxico indígena na língua é significada não mais em razão da construção de uma nacionalidade. O surgimento do léxico de outras línguas indígenas na língua portuguesa é trabalhado como necessidade simbólica de distinção das diversidades na diversidade: tratase de mostrar a especificidade de cada língua indígena falada em território brasileiro pela própria unidade lingüística do país. E neste jogo entra em questão: que línguas são representadas pelo léxico nesta escrita em língua portuguesa? O processo de gramatização passa então a desestabilizar o sentido do português como unidade: a diversidade, representada pelo léxico das diferentes línguas indígenas, reinterpreta os ‘brasileirismos’. Os sentidos das palavras de origem Tupi incorporadas no português migram (Orlandi, 1996). Este léxico funciona aqui como lugar de indistinção entre o que é próprio da(s) língua(s) indígena e o que é próprio da(s) língua portuguesa do Brasil. Tanto o português, quanto o Tupi, enquanto línguas imaginárias, começam a ceder espaço para as línguas fluidas – a língua Sateré-Mawé, no caso específico – ainda não cristalizadas, produzindo deslizes. Na atual política de línguas e ensino, em que professores indígenas, transformados em escritores de livros didáticos em português, retomam a
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Auroux (1992) considera como instrumento lingüístico as gramáticas e dicionários. Acrescentamos os livros didáticos de ensino de línguas como instrumentos lingüísticos próprios deste processo de endogramatização brasileira tendo em vista que, tal como assinala o próprio autor, ‘deve-se fazer começar a gramatização com o aparecimento do primeiro saber metalingüístico de uma língua dada (por exemplo, quando se começa a citar palavras ou expressões em um texto de uma outra língua) p. 73.

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produção lexical indígena, os modos de dizer o mesmo começam a produzir diferenças: movimentando a língua, introduzem um novo capítulo na história da escrita no Brasil. Na escrita desta história, em que surgem outros modos de ler o arquivo, o homem pode desviar o caminho.

Alguns pressupostos: histórias e idéias
Concebemos esta fase de produção lingüística, promovida pela escolarização indígena, como parte do processo de endogramatização no Brasil, caracterizada pela produção de livros didáticos por parte de um outro falante brasileiro: os falantes nativos das línguas indígenas e do português do Brasil, sujeitos bilíngües.17 No momento em que a questão enunciada pelo Estado é reconhecer e ‘preservar’ a diversidade lingüístico-cultural do país, a estabilização de sentidos para o que é próprio das sociedades indígenas e o que é próprio das não indígenas encontra um terreno movediço. Neste espaço de definição de limites está em jogo a relação de confronto entre as línguas indígenas, já que o ensino do português funciona, imaginariamente, como lugar estabilizado. Que língua indígena ensinar? Que concepção de língua (materna) tem determinado a ‘escolha’ da língua a ser ensinada? E, finalmente, que língua se está ensinando e o que se está ensinando/produzindo por essa língua? Importante aqui pontuar que, até onde se tem acesso, as sociedades indígenas ainda não produziram dicionários monolíngües em línguas indígenas. O que se tem são, ora textos com características predominantemente descritivas – aqueles que descrevem principalmente a natureza (fauna e flora) e objetos da cultura material; ora textos de natureza narrativa – que se desdobram em dois tipos: aqueles que priorizam os temas do cotidiano e outros que narram lendas/mitos indígenas. Observa-se ainda o fato de que, em alguns casos, esta produção tem sido representada através de algumas formas textuais específicas: em forma de poema e de história em quadrinhos. A exemplo, temos, na língua SM: Poesias Satere-Mawe (1998), organizada pelo modelo canônico da poesia, e Satere-Mawe – mowe’eg hap
17

É importante distinguir que grande parte destes ‘autores’ (os professores indígenas) pertencem a uma nova geração de índios que cresceu em ambiente bilíngüe. É uma geração de jovens, que foi alfabetizada nas duas línguas – indígena/português.

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(1997) e Satere-Mawe mowe’eg hap (1998), cartilhas que contêm histórias em quadrinhos. Um dos problemas que nos colocamos, em termos de políticas de línguas, é quem define, e como se define as línguas indígenas a serem ensinadas e o que ensinar em cada língua, neste novo contexto do ensino bilíngüe. Quanto ao primeiro questionamento, este embate, em muitos casos, tem sido regulado pelo imaginário nome do povo/nome da língua. Em relação ao povo Sateré-Mawé, em que encontramos comunidades em diferentes situações sociolingüísticas,18 a prática do bilingüismo, sendo homogeneizada para todos, produz como efeito, ora a poda do excesso (de línguas), ora o plantio da (língua que) falta. Num território em que o real é interditado, o simbólico e o imaginário trabalham na definição do que é próprio do político. A ordem do discurso, de que trata Foucault (1970), aqui funciona não só na relação entre o que pode ou não ser dito, mas em que língua se pode dizer “o que pode ou não ser dito”. Mas é justamente pelo jogo entre um dizer e/sobre o outro, uma língua e/sobre a outra que surgem vestígios de resistência indígena, possibilidades de deslizes: as práticas de línguas (escrita, oral) vão deslocando sentidos sobre que língua se fala, quem fala o quê. Lugares indistintos entre uma língua e outra, um dizer e outro, vão trabalhando a constituição de um léxico brasileiro. As línguas silenciadas adquirem voz naquilo que é próprio da língua e do sujeito, a incompletude. Porque históricos. Da perspectiva da Análise do discurso (AD), a língua, enquanto lugar do simbólico, é o lugar, irremediavelmente, da incompletude, e é este espaço de falta (lugar em que a língua pode “falhar”) que se abre como possibilidade para outros dizeres a serem incorporados.19 Esses lugares são marcados, na produção lingüística que analisaremos, pelas modalizações
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Em algumas aldeias Sateré-Mawé a comunidade é falante da língua SM e do português, em outras, a língua mais falada é a portuguesa, em outras o Nheengatu ‘mistura-se’ com o SM. Caso semelhante é o dos Ticuna, do Médio e Alto Solimões. Em visita a algumas de suas aldeias no Médio Solimões (1998), identificamos um contraste: em uma das aldeias todos eram monolíngües em português; não havia nenhum falante da língua Ticuna, em outra relativamente muito próxima, a maioria deles só falava em Ticuna. Orlandi (1996) ao formular a questão da abertura do simbólico na relação paráfrase (repetição) e polissemia (diferença), considera estes eixos como constitutivos da produção de sentidos. Pensar desta posição é considerar a dimensão discursiva da língua e não a língua como sistema abstrato. É desta tomada teórica que também entendemos a relação entre línguas. A outros, como os WA, a língua portuguesa interessa como língua estrangeira.

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autonímicas (Authier, 1998). Funcionamento que projeta outros dizeres, outros modos de significar o léxico brasileiro nos textos em português. Segundo Authier (idem), a modalização autonímica, concebida como reflexividade metaenunciativa, concerne a um elemento do dizer uma outra maneira de dizer. Neste processo, “as formas de representação dos fatos de não-coincidência enunciativa manifestam – não de modo intencional – “a negociação obrigatória de todo enunciador com o fato das não-coincidências fundamentais que atravessam seu dizer” (negrito do autor). Esta negociação, derivando de um trabalho de ‘denegação’, circunscreve o diferente (outra língua, outro dizer) no um, pela emergência de um sujeito metaenunciativo, constituído, ilusoriamente, como aquele que controla o seu dizer. Analisando a presença do outro, deste campo teórico, explicitaremos o funcionamento do léxico no processo de produção de sentidos, tendo em vista a presença de outras línguas na língua e de outros dizeres na língua, que configuram um espaço de não-coincidência. Observaremos o modo de aparecimento de novos discursos sobre o léxico, explicitando, ao mesmo tempo, os procedimentos de construção do saber lexical no Brasil produzidos pelos viajantes e missões salesianas, que contribuíram para a fixação de uma imagem do Tupi como língua geral. Neste momento em que outros falantes reivindicam o reconhecimento de outras línguas, o jogo entre o geral que homogeneiza e o específico que separa, parece-nos um lugar privilegiado para compreendermos de que perspectiva se organiza aquilo que estamos entendendo como novo espaço de produção lingüística brasileira, marcado pelo aparecimento de escritores indígenas. Interessa-nos explicitar, neste espaço de línguas em contato, os modos de significar os termos indígenas relativamente ao português. Que discursos têm determinado este retorno do dizer sobre o léxico, e que efeitos se produzem? Para compreendermos os efeitos de sentido produzidos pelo/no léxico, no cruzamento de discursos, analisaremos os textos que se caracterizam pela presença de modos de dizer as línguas na língua: nomeando, traduzindo. Um dos pressupostos que nos orientará é o de que “há limites muito frágeis e nuançados entre línguas diferentes em situação de contato, o que resulta na presença de toda forma de mistura em seus modos indistintos” (Orlandi, 1998: 7).
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Estaremos ainda considerando o léxico presente nas produções dos professores indígenas como discurso (Maziere, Collinot, 1990, 1987), tal como vem sendo desenvolvidos no Projeto História das Idéias Lingüísticas, particularmente pelos trabalhos de Nunes (1996, 1998). Refletiremos sobre essa produção lingüístico-pedagógica como um acontecimento (Pêcheux) que faz parte das políticas de línguas e de ensino (Projeto HIL), procurando identificar os modos de ressignificação do português e das línguas indígenas, no processo instaurado pelo confronto entre a unidade e a(s) diversidade(s) lingüística brasileira, representado neste espaço enunciativo particular. Procuramos contribuir com o conhecimento do português do Brasil, através da análise de processo enunciativo de designação, lugar no qual a nomeação e a referência fazem parte de sua significação. Preocupa-nos, nesta medida, entender a relação do sujeito com a língua pautados em uma perspectiva discursiva de compreensão do papel das línguas (indígenas) e da língua no processo de identificação do sujeito como índio brasileiro. Esta tomada de posição leva em conta a necessidade de se incluir o histórico e o político no âmbito das políticas de ensino de línguas. Implica considerar a língua no âmbito da vida social (Projeto História das Idéias).

O processo de escolarização dos Sateré-Mawé: entre velhas e novas instituições
Na história da educação escolar indígena, o ensino do português começou a fazer parte de uma política explícita do governo brasileiro, legitimada pelo Decreto Pombalino (1757),20 que assinalou sua obrigatoriedade nas escolas, ao mesmo tempo em que proibiu o uso da língua geral.21 Em 1852, Gonçalves Dias, convidado a fazer um levantamento sobre os programas educacionais desenvolvidos na província do Amazonas, conclui que as escolas deveriam insistir no ensino da língua portuguesa na região, tendo em vista sua fraca difusão entre os habitantes.
20 21

Sobre a política pombalina, ver Mariani, Langage 130, (1998). Para uma compreensão do funcionamento desta designação, ver Horta & Borges, Langage 130, 1998 e Rodrigues, Línguas nº 1 (1998).

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Os projetos de educação dos salesianos, implantados no Amazonas a partir de 1915, e apoiados pelo Estado brasileiro, também tinham como prerrogativa a imposição da língua portuguesa e de padrões culturais europeus. A história de escolarização dos Sateré-Mawé (doravante SM) é fortemente marcada pela presença dessa missão católica, ainda atuante na área. Em meados da segunda metade do século, a missão evangélica Novas Tribos do Brasil inicia seu trabalho de evangelização em área indígena, através da introdução do programa de Ensino Bilíngüe. Alguns estudos sobre esta língua, encaminham sua instrumentalização. O SIL, através do trabalho de seus missionários-lingüistas,22 produz descrições gramaticais e o Dicionário Sateré-Português/Português-Sateré (1982). Este material irá servir de base para a tradução da Bíblia em língua SM: em 1986 é publicado o Tupana Ehay – Satere Mawe Pusupuo: o novo testamento. Nesta mesma década, materiais lingüístico-pedagógicos produzidos pelos salesianos também são publicados, com o apoio da Secretaria da Educação do Estado do Amazonas: a Cartilha Sateré-Mawé e o livro As Bonitas Histórias Sateré-Maué, ambos em versão bilíngüe. Neste discurso que ‘promove’ o encontro de línguas, as culturas se movimentam. Mas a direção deste percurso não é ao acaso. Na descrição histórica sobre os Sateré-Mawé, em Bonitas Histórias, nomes e sentidos para os deuses são enunciados. O léxico, na busca de sinonímias ou equivalentes, funde imagens, produzindo o efeito sincrético. Nomes são reditos, em nome do ‘eterno’ retorno ao Universal.
O termo animista para a ciência da fenomenologia religiosa refere-se aos povos que acreditam na presença (criadora-protetora e mantenedora) do espírito (Man) em tudo o que vive, cresce e movimenta-se. Este espírito universal é também chamado Ser Supremo que para os SateréMaué tem o nome de Tupana da Tradição Tupi (Tupã-Tupana é a força do trovão um Deus forte e poderoso), mas os nomes e atributos de Deus mais usados nos mitos da criação e das origens da tribo são WASSIRI-ANUMAWATO. (As Bonitas Histórias, p. 11)

Na definição do termo ‘animista’, retomadas do dizer não referemse ao próprio termo; este é remetido ao referente: “os povos que acredi22

Sobre a relação entre NTB e SIL ver Orlandi (“Os falsos da forma”, em Palavra, Fé, Poder, 1987), e Tese de Doutorado de M. C. Drumond Barros (Unicamp, 1994). Atualmente, outras igrejas protestantes, como a Igreja Batista e a Assembléia de Deus vêm provocando divisões entre o povo Sateré-Mawe em função das filiações religiosas. (Ver Honório, 2000)

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tam...”. As retomadas se dão no léxico do domínio religioso, que é traduzido/nomeado em LI, procedimento que trabalha o efeito de equivalência lexical palavra/palavra: espírito (Man), ser supremo, que para os SateréMaué tem o nome de Tupana da Tradição Tupi (Tupã-Tupana é a força do trovão um Deus forte e poderoso), Tupana, Deus, Wassiri-Anumawato. O efeito de unidade é construído pela circularidade que, ao procurar aproximar sentidos, pelos nomes, confunde palavras e coisas: xamada X, que para SM tem o nome de Y (Y é X), mas os nomes...são Y. O científico, representado pela ciência da fenomenologia, funciona como pretexto para a construção de um discurso religioso fundado na unidade cristã que, ao redizer o nome, ‘engole’ a diferença. Esta determinação do discurso religioso na produção de um saber lexical sobre as línguas indígenas é substituída por outra, quando então o Estado assume oficialmente a educação escolar indígena (em 1993). Às margens, o trabalho das missões continua. Em 1996, o IER/AM-Instituto de Educação Rural do Amazonas23 implanta um programa específico de capacitação de professores índios dirigido aos SM – o Projeto Pira-Yawara –, nível de 1º grau. Como já mostramos anteriormente, neste novo contexto de escolarização, os professores indígenas têm produzido volumoso material lingüístico-pedagógico, através de cursos de formação. São publicados, em 1998, pela Secretaria da Educação do Estado, vários livros na língua Sateré-Mawé e em português. Neste cenário, em que escritores indígenas são legitimados,24 intensificam-se as produções monolíngües ao lado das versões bilíngües. Os textos em português projetam a expansão de leitores: os próprios SM e outros falantes do português (índios e não-índios). Neste processo, constrói-se, ainda, o sujeito bilíngüe no Brasil. O material que iremos analisar corresponde aos textos escritos em português pelos professores indígenas e inseridos nos livros da série Seres Vivos, organizados em três volumes – Nossas Árvores/O Guaraná, Nossas Aves/Animais da Floresta, Nossos Peixes/Pequenos Animais –, e o livro Os Sateré-Mawé e a Arte de Construir.
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Atualmente IERI-AM, Instituto de Educação Rural e Indígena do AM), órgão ligado à Secretaria Estadual de Educação. Recentemente, a UFMG inseriu na lista de livros de literatura obrigatórios para o vestibular o livro “Shenipabu Miyui: história dos antigos” (2000), em versão bilíngüe, coordenado pelo Professor Joaquim Mana Kaxinawá, e escrito por vários professores indígenas. Este livro foi publicado pela Organização dos Professores Indígenas do Acre, em parceria com a Ed. UFMG.

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Consideramos que a produção destes textos, mobilizada pela memória histórica (das línguas, dos povos), reorganiza as fronteiras entre uma língua e outra, instituindo novas relações entre povos, sujeitos, línguas, enfim, diferentes modos de ler o arquivo lingüístico-cultural brasileiro. O aparecimento de outras línguas indígenas, além do Tupi, no discurso de nomeação sobre as coisas do país, reorganiza as relações entre sujeitos e línguas, representando, na perspectiva que estamos procurando pensar a questão, uma outra fase do processo de gramatização do português do Brasil.25 A constituição de um novo espaço de produção lingüística se materializa na produção de instrumentos lingüístico-pedagógicos, nesta fase atual de escolarização indígena. Nesta produção, a presença do léxico indígena (ou de origem indígena) nos textos escritos em português aponta lugares de deslocamento de sentidos, lugares possíveis de construção de uma história do Brasil vista de outra perspectiva: a indígena. Neste percurso, abremse possibilidades de historicização do índio. Trata-se de compreender o sentido das diversidades na diversidade, tanto em relação às línguas indígenas faladas no país – cerca de 170 –, quanto ao modo de falar essas línguas na língua. Práticas que convocam à (re)construção de nossa identidade lingüística, tirando a língua e nós mesmos do lugar.

Modos de inscrição do sujeito da nomeação
Estas condições de produção de escrita, marcam o aparecimento de formas de nomeação que reconfiguram o espaço enunciativo26 brasileiro. Novos percursos metaenunciativos vão emergindo: as palavras, os nomes, os sentidos ‘já-ditos’ escorregam sobre as ‘coisas’ do Brasil. O sujeito da enunciação, desdobrado em outros não descreve as coisas a saber; antes, constrói imagens que se configuram como tentativa interminável de produção de coincidências entre palavras e coisas. E de que modo o faz? Transitando nas redes da memória, vai tecendo uma nova trama com o mesmo fio, o da memória.
25 26

Sobre este assunto ver Orlandi e Guimarães (1998), Langages, e outros textos. Sobre este conceito, ver Guimarães (1994, 1997) e Honório (2000).

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Concebendo, como Pêcheux (1969) que o discurso é sempre relação, remetendo a outro, como diferença, observamos que, no texto de Staden (1557), o sujeito da enunciação, ao construir seu discurso, explicita uma não coincidência-enunciativa, ‘mostrando-nos’ a heterogeneidade que constitui seu dizer. A diferença é trabalhada no interior de uma grande unidade de sentido: a do colonizador europeu. A visibilidade das coisas é parametrizada pelo de fora: nomes, medidas, categorias do velho mundo desfilam no discurso de produção de uma transferência lingüístico-cultural ampla. No discurso do descobrimento, visões de similares aproximam as coisas de ‘cá’ com as coisas de ‘lá’:
Avía alguns [peixes] tambem do tamanho de arenques, que tinham azas de ambos os lados como as dos morcegos; (Staden, 1892, p. 269, grifo nosso) Em uma noite, quando estavamos acampados no lugar xamado Ubatuba, apanhamos muitos d’esses peixes brati, os quaes são do tamanho dos salmões. (1892, p. 317, grifo nosso) O seo idolo é uma especie de cabaça, quazi do tamanho de uma medida de meia canada: é ôca, adaptam-lhe um cabo, abrem-lhe uma fenda a similhança de boca, e depois põem-lhe dentro pedras miudas; com o que produzem certo ruido, quando cantam ou dansam. A este instrumento denominam tamaracá, e cada omem tem o seo. (Staden, 1892, p. 345, grifo nosso)

Na construção de imagens sobre o espaço o locutor expõe ainda o confronto entre sujeitos da nomeação. Em sua enunciação, entram em cena dois sujeitos da nomeação: locutores indígenas e locutores europeus. Na regência destas vozes, o maestro organiza os nomes dos lugares descobertos:
Estaes no porto, que os Indios xamam Xerimirin, e para que compreendaes melhor acrescentarei, que os seos primeiros descobridores deram-lhe o nome de bahia de Santa-Catarina. (idem, p. 278) São Vicente é uma ilha mui proxima do continente, a qual tem 2 aldeias; uma é pelos Portuguezes xamada São-Vicente, e pelos Indios Orbioneme... (idem, p. 283) Um navio francez entrou na bahia, que os Portuguezes xamam Rio de Janeiro, e os Indios Iterrone. (idem, p. 315) Quando xegaram a um dia de distancia do sitio, onde contavam dezembarcar, ocultaram-se nos bosques perto de uma ilha, a que xamam Meienbipe, e os Portuguezes dão o nome de São-Sebastião. (idem, p. 317)

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Desde a (des)coberta, os índios já não podem mais nomear sozinhos. Diríamos que o discurso da descoberta institui um lugar a partir do qual se pode nomear. A clareza do novo mundo parece só ser possível pelo retorno aos nomes do mundo cristão, ou melhor, pelo retorno ao centro.27 Locutores ocidentais ‘importam’ de seu país para o Brasil os nomes já-lá: Santa-Catarina, São-Vicente, São-Sebastião. Neste jogo paralelístico de topônimos os santos (re)batizam os ‘lugares próprios do indígena’. A voz do outro é falada, para, em seguida, ser apagada. Com este procedimento, sacralizam-se os nomes, afugentando os ‘espíritos’ que obscurecem o paraíso. E de que modo os sujeitos indígenas, agora investidos de ‘responsabilidade’28 do dizer, trabalham este domínio da memória? De que modo estas vozes ecoam (ou não) neste sujeito bilíngüe, representado como professor indígena, autor de textos? No caso específico da designação da fauna marítima aquele que diz ‘eu’ (SM), assume a responsabilidade pela nomeação: x nós chamamos de Y. O outro, marcado pela modalização autonímica (itálico), não tem o ‘direito’ de nomear. Neste espaço de enunciação, a diferença é trabalhada ora em relação ao não índio (‘o brasileiro’), ora em relação a outros grupos indígenas (não Sateré-Mawé). Os nomes vão sendo enunciados: a) pelo locutor-universal, (x xamado Y) b) pelo locutor-indígena em 3ª pessoa (para x os SM deram o nome de Y). Neste orquestramento de vozes, o europeu perde seu lugar de centro do dizer: já não diz quem nomeia e nem é dito como aquele que nomeia. A nomeação ora se universaliza, ora se particulariza, no dizer deste novo sujeito da enunciação. A busca de palavra(s) para a ‘palavra’ e para a ‘coisa’ dá-se de retomadas, ressignificações, tensões internas. Este jogo abre fissuras no outro e no um. A diferença na unidade é trabalhada nesta nova discursividade não mais pelo confronto dentro/fora do Brasil. O que está em jogo são as diferentes vozes e línguas brasileiras ditas da perspectiva de dentro do país.
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Tendo em vista o discurso das ‘des-cobertas’, Orlandi (1990) analisa que os europeus, ao nos construírem como o seu “outro”, posicionando-se sempre como o “centro”, produzem nosso apagamento. Contrapondo-se à posição benvenistiana que concebe o sujeito como o responsável e dono do dizer, a análise do discurso, teoria a qual nos filiamos, interpreta este lugar enunciativo como um efeito, lugar necessário para que o sujeito falante possa se constituir como tal, e assim, sem o saber, repetir o dito, na ilusão de ser o centro.

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Nos enunciados marcados por procedimentos metaenunciativos de nomeação, este processo se formula no jogo parafrástico entre nomes. As coisas e os nomes das coisas em língua indígena têm neste espaço enunciativo seu lugar garantido pelo discurso bilíngüe:
Os peixes sem escamas nós chamamos de pira sym’i ou peixes lisos. (Seres Vivos/Nossos Peixes, p. 12) Ele recebe vários nomes, como: traíra, bongo, trangola e na nossa língua chamamos de tere’yra. (Seres vivos/Nossos Peixes, p. 20) Eles se locomovem através de suas nadadeiras e de sua cauda que nós sateré-mawé chamamos de huwaipype. (Seres Vivos, Nossos peixes, p. 12)

Nestas relações parafrásticas, a explicitação dos diferentes modos de nomear a mesma ‘coisa’ substituem as diferentes vozes (de lá e de cá) que nomeiam as mesmas coisas. Se no discurso ocidental a relação era: uma ‘coisa’/vários sujeitos para nomeá-la, o discurso indígena organiza uma outra relação: ‘um sujeito que nomeia (indígena)/’várias línguas’. Poderíamos dizer que esta produção lingüística por parte dos professores indígenas começa a organizar uma espécie de bilingüismo ‘interno’, tecido pelas relações entre as línguas (e as vozes) do Brasil. Espaço que projeta possibilidades de novas relações sinonímicas no português do Brasil. O sujeito da nomeação ganha corpo social na construção de um saber etnográfico e enciclopédico que se estrutura pelas marcas de subjetividade, configurando um lugar enunciativo diferente daquele dos viajantes e missionários. A imagem do país se constrói pelos confrontos internos, referenciados pelos dêiticos:
Este peixe é muito encontrado nos rios e igarapés da nossa região. Ele recebe vários nomes: ... (Seres Vivos/Nossos Peixes, p. 20, grifo nosso) Os nossos rios possuem vários tipos de peixes: peixes com escamas e peixes sem escamas (Seres Vivos/Nossos Peixes, p. 12, grifo nosso).

A questão do domínio territorial investe-se aqui de um outro sentido, diferentemente daquele circunscrito pela cenografia do relato. Em Staden, a posse de terra era enunciada do interior do discurso de colonizador. Desta perspectiva, o sujeito da enunciação emergia em um espaço
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‘preciso’: a localização do sujeito se construía por parâmetros ocidentais: unidades de medidas, nomes universais: estavamos a quazi 23 milhas de uma ilha xamada São-Vicente, e o paiz abitado pertencia ao rei de Portugal (Staden, 1889, p. 276). As ‘novas descobertas’ (da ciência iluminista) favoreciam a ‘conquista’. Nos textos dos SM a cena muda de lugar: é enunciada a posse indígena, da perspectiva indígena. Nesta discursividade, o conhecimento dos nomes ‘santos’ dado aos lugares vai sendo substituído pelo conhecimento da geografia física específica; designações que particularizam os lugares da região relativamente ao universo espacial indígena (igarapés, várzea, etc) vão significando diferentemente a terra (re)descoberta. As escalas dos viajantes (léguas, medidas) e a relação terra firme/água (mar/rio), começam a ser substituídas por relações terrestres internas, expandindo os limites da terra ‘firme’ em terrenos movediços.
O papagaio se reproduz através de ovos, nos buracos das árvores que ficam às margens dos rios. (Seres Vivos – Nossa Aves, p. 24) O tucano é encontrado nas matas altas e baixas. (Seres Vivos – Nossas Aves, p. 22) E na nossa língua chamamos tere’yra. O bongo se reproduz através de ovas. Eles costumam desovar nas cabeceiras dos igarapés. (Seres Vivos/Nossos Peixes, p. 20)

Procedimentos de referencialização espacial explicitam-se nas marcas de subjetividade que configuram a instância da enunciação. Nos enunciados que seguem, o ‘aqui’ configura-se como uma relação entre as diversidades na diversidade. Ou seja, ao dizer ‘aqui’, o sujeito da enunciação está se posicionando em relação a uma divisão dentro da própria unidade territorial dos povos Sateré-Mawé. Desta posição, o confronto interno terra indígena/terra não-indígena, desloca-se para um outro confronto interno, circunscrito do interior da área SM: a área do Marau e a do Andirá.29 Fala-se de uma outra unidade em divisão.
Aqui no rio Marau, para construção de casas, nós Satere-Mawe, tomamos as seguintes providências...(Os Sateré-Mawé e a Arte de Construir, p. 26, grifo nosso).
29

Os SM organizam-se socialmente em duas grandes áreas, delimitadas pelos rios que lhes dão nome: Área do Marau e Área do Andirá. Estas duas áreas em conjunto representam o território SM demarcado, diga-se, oficializado pela FUNAI como área Sateré-Mawé.

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Este peixe é chamado de acará-pucu. Nós pegamos muito cará-pucu com malhadeira durante à noite e nesse tempo de vazante dá muito aqui no rio Marau. (Seres Vivos – Nosso Peixes, p. 28)

Organizando os domínios pela enunciação: o natural e o cultural
Refletindo sobre os lugares enunciativos em relação aos domínios lexicais, poderíamos sintetizar as regularidades encontradas nos textos SM da seguinte forma: diríamos que a fauna e a flora são convocadas à nomeação, enquanto que a cultura material sucumbe à tradução.30 Como já vimos nos enunciados das análises anteriores, a nomeação de alguns elementos da fauna marítima, tematizada em um dos livros (Seres Vivos – Nossos peixes) funciona pela figura do locutor-indígena (em 1ª pessoa). Já em relação aos itens lexicais concernentes à flora, embora não tematizados como título, são recortados no fio do discurso pela voz do locutor universal:
A flecha nós fazemos de uma planta chamada flechal. (A Arte de construir, ‘A construção de Arco’, p. 25) A peneira é feita de um vegetal chamado waruma (arumã). (A Arte de construir, ‘A construção de Arco’, p. 9)

Quanto aos procedimentos de tradução, que organizam os sentidos do mundo cultural, encontramos funcionamentos que configuram imagens diferenciadas de tradutor, construindo leitores também diferenciados: a) aquele que mobiliza a tradução organizando, no fio discursivo, uma espécie de dicionário bilíngüe palavra/palavra (LI/LP); b) aquele que traduz um termo em LP a partir de um tradutor virtual que ‘explica’ o termo pela palavra equivalente em LI. Neste mecanismo, mobilizam-se expressões do tipo ou seja. Estes discursos marcam a presença de leitores ‘do léxico’ para quem não basta saber o português. Em alguns casos (5 e 6) é preciso saber um certo tipo de português (o ‘brasileiro’) e uma certa língua indígena.
30

Nos estudos que estamos realizandos dos relatos de Staden, notamos uma outra regularidade, presente na reedição de 1930: os locutores indígenas são postos em posição daquele que nomeia o domínio do natural (fauna, flora) somente quando a retomada do dizer é legitimada da perspectiva do discurso testemunhal-sensorial: Há também umas raízes a que chamam Jettiki, que têm bom gosto. (p. 176).

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(1) Pensando no futuro de seus filhos é recomendado que as meninas aprendam o preparo dos fios de algodão para a fabricação de yni (redes). Tipos de redes: yni tig (redes pintadas), sahu ape’i (casco de tatu) (Os Sateré-Mawé e a Arte de Construir, p. 8) (2) Para se tecer o panaku é preciso descascar o cipó titica. Parte-se com a ajuda do kyse (faca) em três partes, e só se aproveita as costas do cipó, que é a parte lisa (idem, p. 13). (3) O tronco é partido bem ao meio com o ywyhap (machado) (p. 32). (4) Para fazer yara (cascos) e apukuita (remos), temos que ter materiais apropriados (idem, p. 32). (5) Serve de apoio para colocar a cuia onde é ralado o guaraná, ou seja, o sapo (idem, p. 11). (6) Para construção de casco usamos as seguintes ferramentas: ywyhap, kyse’yp (terçado)...(idem, p. 32)

Um outro tipo tradutor também emerge nestes textos: aquele que organiza os sentidos através de relações de similitude. Mobilizam-se expressões espécie de, tipo de, ‘aproximando’ palavras desconhecidas com sentidos conhecidos. Neste caso, o sentido não se esgota na palavra, ou melhor, a estabilidade designativa se constrói (ilusoriamente) pela explicação dos termos. Aqui, o outro para quem se traduz é aquele que desconhece tanto o português do Brasil (‘brasileirismo’) quanto a língua indígena. Este jogo parafrástico explicita um processo de endogramatização afetado pela memória ocidental. Fala-se de dentro para fora, em que o fora, nesta conjuntura, configura um espaço enunciativo marcado pelas relações internas.
A gy’i (taquara), que é um outro tipo de bico de flecha, é feito de taboca. (idem, p. 23) Panaku (jamaxim) – É uma espécie de bolsa onde os antigos SateréMawé carregavam suas bagagens. Algumas pessoas ainda usam o panaku hoje em dia. (idem, p. 13) Patrona (poko) – Patrona ou poko é uma espécie de bolsa muito usada pelo povo Sateré-Mawé para guardar cartucho, esqueiro, tabaco, fósforo, balas de chumbo, um pouco de farinha e outros produtos. (idem, p. 14)

Contrapondo ainda estes procedimentos de tradução àqueles produzidos no contexto das missões salesianas, observamos um mecanismo se183

melhante aos descritos acima. A retomada do dizer, operando aqui pela descrição, satura a palavra. Este funcionamento se dá tanto nos enunciados narrativos quanto descritivos. Na passagem da narração oral para a escrita produz-se um gesto de interpretação em que a tradução marca-se por uma outra estrutura lingüística, os sintagmas nominais.
Você o guaraná, vai estar presente quando tomar sapo (guaraná ralado na água) (As Bonitas Histórias, p. 40, texto narrativo, negrito do autor). Quem te conhecer irá fazê-lo na cuia em cima do patavi (suporte em fibras vegetais da cuia do guaraná) (As Bonitas Histórias, texto narrado pelos SM, p. 41, negrito do autor). No poder divinatório os pajés consomem bebidas como o caxiri (mandioca fermentada com mistura de outras ervas), tarubá (bebida fermentada do mato) e guaraná (As Bonitas Histórias, texto narrado pelos SM, p. 14, negrito do autor).

A tradução, produzida da perspectiva do discurso religioso, trabalha a ‘unificação’ dos leitores, transformando a palavra em ‘palavras’: sintagmas nominais descritivos. Aqui, a garantia da unidade não está nas mãos do Estado. Está nas mãos de ‘Deus’, pai de todos. A fala do padre salesiano, autor do livro, é ilustrativa:
Este trabalho foi motivado pelo grande respeito e amor aos patrimônios humano e cultural da humanidade, ameaçados de extinção não só física-cultural mas também pelo esquecimento (Apresentação, As Bonitas Histórias, Pe. Henrique Uggé). Que o índio, o caboclo e o branco descubram novos laços de encontro através do intercâmbio cultural. E que o único Deus e Pai de todos os povos e nações seja a fonte de união e paz universal (Apresentação, As Bonitas Histórias, Pe. Henrique Uggé).

Relação entre línguas: confrontos
A imagem do Tupi como língua imaginária, cristalizada, sem sujeição à história, começa a ser desconstruída pelos novos escritos. A presença do léxico indígena nos textos dos professores indígenas produz como efeito um espaço indistinto entre o que é e o que não é Tupi. A diferença é trabalhada, tanto em relação ao português, quanto em relação às línguas de
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origem Tupi. A língua Sateré-Mawé, classificada como pertencente às línguas da família Tupi-Guarani (Rodrigues, 1998), (con)funde-se com o Nheengatu (Tupi Moderno) nesta relação de pertencimento lexical. Mais do que responder à questão este léxico representa qual língua?, interessa-nos explicitar o funcionamento deste léxico na língua, já que, do nosso ponto de vista, as palavras de todos e de todas as línguas transitam na língua pelas imagens que se constroem delas, significando a partir de certas condições de produção. Léxico Tupi, Sateré, Português? Bem, essa verdade ‘original’ já não mais nos pertence. Falamos por imagens, usamos e mencionamos palavras outras determinados por certas representações de língua. Do ponto de vista discursivo, que é o nosso, essas representações imaginárias da(s) língua(s) que falam no sujeito são construídas a partir de um conjunto de discursos possíveis definidos a partir de certas condições de produção. (Pêcheux, 1993 [1969]). Analisando a produção SM deste lugar argumentativo, entendemos que o sentido do léxico é produzido não pela literalidade, mas pelas relações entre o ‘inventário’ lexical de cada língua e as representações imaginárias construídas pelos discursos postos em funcionamento. A presença do léxico de origem Tupi, ora funciona como memória de língua indígena ora como memória de língua portuguesa. Os títulos inseridos no livro Os Sateré-Mawé e a Arte de Construir, apresentados em versão ‘bilíngüe’, materializam o confronto entre memórias de línguas. Neste espaço de relação, funciona mais o discurso imaginário do que o empírico. As palavras transitam de uma língua a outra, e, neste trânsito, deslocam-se sentidos. Analisemos alguns destes enunciados que representam os títulos: 1) Peneira – (panane) 2) Paneiro – (yt’a) 3) Panaku – (Jamaxim) Tal como os títulos estão apresentados no Sumário e no início de cada texto, o primeiro item estaria representando as palavras em português e o segundo seu equivalente em língua indígena. Mas como se estaria produzindo a significação dessa(s) língua(s), como processo de fixação das palavras nas línguas? Considerando o modo de organização dos títulos como gesto de leitura que fixa o ‘diferente’ como se fosse o ‘mesmo’, o que funciona, em
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termos de sentido, é a relação LP/LI como fato discursivo, e não como dado empírico. Trava-se um confronto entre memórias em que vestígios de escrita indígena se manifestam: no item (3), funciona a norma da língua indígena; substitui-se o c pelo k. No Aurélio Sec. XXI este item, designado como ‘brasileirismo’ aparece lexicalizado como panacum [var. de panacu]. Em relação a outra palavra do par (jamaxim), se no texto SM ela funciona como LI, configurando a relação LP(panaku)/LI(jamaxim), no Dicionário do Tupi Moderno31 dialeto Tembé-tenê-téhar, o sentido destas palavras reorganiza-se pela relação sinonímica: tem-se a diversidade (de formas) na unidade da língua indígena. Diferentemente do Aurélio, em que o termo aparece como ‘brasileirismo’, importa aqui distinguir o Tupi ‘geral’, do ‘específico’, falado em uma certa região. A língua, neste caso, é a língua indígena. O conflito é no interior da língua indígena.
JAMAXIM: manaku – panacu (Restivo) Panaku ~ panaku ~ panakú (Restivo) Zamati (idem): zamatzi

Analisando um outro conjunto de títulos, novas leituras vão se dando: que imagens essas seqüências produzem sobre as línguas? Qual é a língua? 1) Banco – Amyap 2) Akari bodó – wakari 3) Tipiti – Mohoro A evidência de que se sabe que língua se fala, sendo trabalhada da perspectiva indígena, estaria sendo produzida pelo apagamento do sentido de que fala-se a mesma língua mas fala-se diferente. Pensando na organização textual, tal como se apresenta pelos títulos, de que lugar enunciativo akari bodó estaria sendo significado como termo da língua portuguesa? Nesta nova conjuntura de escolarização indígena, marcada pela oficialização do ensino bilíngüe, a interpretação dos itens lexicais estaria sendo determinada pelo imaginário falou língua indígena é índio (orientando a interpretação LP/LSM). Discurso que predomina sobre um outro: um povo/uma língua (que orientaria a leitura LP/LI). Neste tipo de funcio31

Dicionário do Tupi Moderno: dialeto Tembé-tenê-téhar do alto do rio Guarupi, de Max H. Boudin, 1978.

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namento, está em jogo explicitar que o índio sabe uma língua indígena (nomear em léxico indígena, traduzir termos indígenas para o português). E aqui não interessa colocar em questão se ele sabe em que língua ele fala e as línguas que falam nesta língua. O saber sobre está apenas em construção. Na discursividade indígena os diferentes nomes disponíveis circulam em terreno movediço. Nesta divisão, o particular, transitando na unidade, redefine o próprio na relação com as outras línguas brasileiras e com o outro brasileiro (outros índios e não-índios). Entre sons, letras e palavras, presentes nos diferentes instrumentos lingüísticos, gestos de interpretação se produzem. Estes gestos explicitam menos a evidência do Tupi que empiricamente se fala (Língua Geral ou línguas da família Tupi, em que a Sateré-Mawé é uma delas) e mais os efeitos produzidos nesta nova ordem32 das línguas. No discurso da ciência, baseado em vários critérios taxionômicos, o mesmo movimento que produz a divisão das línguas, produz sua unificação. É assim que as línguas, aprisionadas em seus nomes e classificações, são menos ouvidas e mais julgadas. O surgimento de novos fatos lingüísticos são lidos, muitas vezes, por velhos paradigmas: classificações são fixadas pela evidência da transparência dos conceitos. O que mobiliza a classificação? O que permite as várias tornaremse uma? Se considerarmos que o real das línguas está no nível do inalcançável, o que está em jogo nesta determinação são as relações de poder, o próprio domínio do político, em que a ciência e a escola tem seu lugar de responsabilidade. Nesse campo, o imaginário é mais real do que se possa imaginar. Línguas, dialetos, brasileirismos; que falem então outros olhares brasileiros sobre os fatos.

Conclusão
A análise dos instrumentos lingüístico-pedagógicos produzidos pelos professores indígenas Sateré-Mawé permitiu-nos identificar dois modos de funcionamento discursivo relativamente à construção de um saber sobre o léxico no Brasil: o de nomeação e o de tradução, constituindo-se a partir de novos lugares de interpretação.
32

Sobre ordem e organização ver Orlandi (1996).

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Os processos metaenunciativos, instaurados no espaço de confronto entre sujeitos e entre línguas, começam a orientar uma outra leitura do léxico brasileiro, da perspectiva da(s) diversidade(s). Do ponto de vista da História das Idéias, este acontecimento explicita uma nova fase da endogramatização brasileira, marcada pelo aparecimento de outros sujeitos da história, organizando a unidade na dispersão necessária que o constitui (sujeito/língua). O processo de formação dos índios como ‘brasileiros’ e como sujeitos da escrita cria condições para novas leituras do/no Brasil, mobilizando a própria escrita da história do país. Esta prática institucionalizada produz outro efeito: projetam-se novos leitores. Novas relações sinonímicas vão desestabilizando os sentidos dicionarizados. Neste espaço de significação, as delimitações imaginárias ganham outros contornos, pelos modos de circulação das palavras no espaço enunciativo. Ressignifica-se a língua pela relação com as línguas, no espaço multilíngüe brasileiro. O sentido da diversidade também desliza: na conjuntura atual, marcada pela forte presença de movimentos indígenas, que coloca os povos indígenas em novos confrontos, a diversidade não é mais concebida como um bloco homogêneo; apresenta-se como diversidades. O Estado, por seu turno, tem procurado controlar esse real transformando o multilíngüe em vários blocos bilíngües, determinados por um lugar comum: a língua portuguesa. Esta prática nos leva a pensar na emergência de se considerar, nas políticas de línguas e ensino, outros leitores ‘nossos’ do arquivo brasileiro, postos em cena nesta nova conjuntura de escolarização brasileira.

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Livros analisados
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PALAVRAS DE ORIGEM INDIANA NO LÉXICO DA LÍNGUA PORTUGUESA – CATEGORIAS TOPOLÓGICAS DOS PROCESSOS
DE EMPRÉSTIMO VOCABULAR

Mário Ferreira Universidade de São Paulo (USP)

Não obstante numeroso e diversificado, o rol de palavras indianas incorporadas ao léxico da língua portuguesa constitui, no domínio dos estudos lingüísticos, objeto de investigação ainda pouco explorado, mormente no que respeita à identificação dos mecanismos semânticos de empréstimo vernacular. Com efeito, embora já mapeado (sobretudo, nas obras de Dalgado [1919/1921] e Nimer [1943]), o léxico português oriundo de línguas indianas não tem sido estudado na perspectiva metodológica – potencialmente produtiva – de um confronto dinâmico de línguas em contato, a qual supera, neste sentido, a mera identificação das bases etimológicas no âmbito das línguas confrontadas e estipula, como foco de análise, o estudo de interseções nem sempre contíguas ou simétricas entre visões de mundo e os sistemas de designação que lhes correspondem. O presente artigo, adotada a perspectiva de método referida, tem por objetivo estipular três categorias tipológicas, relativas ao processo de incorporação, pela língua portuguesa, de bases léxicas indianas – a saber, as categorias de reiteração, reconfiguração e dispersão semântica, aqui entendidas como graus progressivos de maior ou menor convergência interidiomática. As palavras estudadas pertencem, sem exceção, a obras de autores portugueses redigidas nos séculos XVI e XVII.1 1. É quantitativamente numeroso o rol de palavras do português que derivam de línguas indianas. No Glossário luso-asiático, de Sebastião
Não obstante tal recorte, ver, adiante, a nota 5.

1

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Rodolfo Dalgado (1919/1921) – obra que constitui trabalho de referência fundamental –, contam-se, no universo de 5640 vocábulos elencados, pelo menos 2150 palavras cujo étimo deriva de idiomas indianos.2 São múltiplos os campos semânticos configurados pelos vocábulos em estudo, abrangendo eles domínios diversos, como os do mundo material, os das instituições sociais e os dos conceitos éticos e metafísicos. Como um todo, tais empréstimos vocabulares dão conta do intenso processo de interação cultural havido entre as civilizações em contato. Eis uma diminuta seleção de vocábulos, referidos por alguns poucos campos semânticos: elementos do mundo vegetal: cânfora, do sânscrito [= scrto.] karpura;3 bogari (espécie de arbusto ornamental), do scrto. mugdara, pelo concani mogri; bangue (espécie de cânhamo de que se extrai o haxixe), do scrto. bhangâ, “cânhamo”; copra (amêndoa de uma espécie de coco oleaginoso), do scrto. kharpara, através do hindustani khopra; angelim (espécie da família das leguminosas), do tâmil anjili; jaca, do malaiala chakha; bétele (planta aromática da família das piperáceas), do malaiala vettila; rota (junco-da-Índia), do malaiala rotan; elementos do mundo mineral: coríndon (sexquióxido de alumínio), do sânscrito kuruvinda, “pedra semelhante ao rubi”, através do tâmil kurundan; elementos do mundo animal: cauri (pequeno molusco gastrópode), do hindustani kauri; meru (veado), do scrto. mrga, “gazela”; mandali (cobra venenosa), do tâmil mandali; alimentos: açúcar, do scrto. çarkara, “grão de areia”; açúcar cândi, do concani khadî sâkar; canja, do malaiala kanji; caril, do concani kadhi; nele (tipo de arroz com casca), do malaiala nel;
2

3

Entre estes, destacam-se o hindi, o hindustani, o malaiala, o marata, o tâmil – e, sobretudo, o sânscrito, base lexicogênica, por sua vez, dos idiomas referidos. Na transcrição das palavras indianas, empregam-se caracteres redondos nos vocábulos em itálico ou – pelo critério contrário – caracteres itálicos em vocábulos em redondo, para assinalar, quando necessário, uma distinção diacrítica. Assim, em mandali, o [n] e o [d] redondos marcam, respectivamente, a nasal dental cacuminal e a dental surda cacuminal, por oposição à nasal dental [n] e à dental surda [d]. O acento circunflexo indica o alongamento das vogais.

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tecidos: cáqui, do urdu kâkî; chita, do scrto. citra, “matizado”; objetos: palanquim, do scrto. palyanka, “assento para o corpo”; andor, do scrto. hindola, “balanço processional”, pelo malaiala andola; rovô (instrumento de tortura = ferro-caldo), do concani ravó; medidas: mercar (medida de secos e molhados), do tâmil marakhâl; aná (moeda particionária da rúpia), do hindustani ânâ; raja (moeda do Malabar), do malaiala râja; qualificações de casta: brâmane, do scrto. brâhmana; chátria, do scrto. ksatriya; vaixiá, do scrto. vaiçya; sudra, do scrto. çûdra; bogar (casta de pedreiros), do marata bogâr; qualificações funcionais: cornaca (guia e tratador de elefantes), do cingalês kuruneka; bico (monge budista), do scrto. bhiksu, pelo páli bikku); painim (aguadeiro do campo), do concani pâhanî; rajava, “bailarina”, do malaiala râchau; neiquebari (chefe de aldeia), do scrto. nâyaka, pelo marata nâyakavâdî; conceitos do domínio religioso: deva (divindade masculina), do scrto. deva, “deus”, “o que brilha”; carma (a ação e sua conseqüência), do scrto. karman, “ato”; avatar (reencarnação divina), do scrto. avatâra, “descida”; saniássi (asceta), do scrto. sannyâsin; domínios diversos: cama, camão (aldeia), do scrto. grâma, pelo tâmil kâman; bolca (imposto incidente sobre pérola pescada), do tâmil valakku; bangalô, do concani bangló. Por pequena que seja esta amostra, que não recupera decerto os campos semânticos possíveis da lista,
(...) permite ela entrever o intenso processo de interação cultural havido entre as civilizações em contato. É lícito com efeito afirmar que a riqueza das trocas interidiomáticas – desdobradas sobretudo no âmbito da representação do mundo material – denuncia o processo de circulação dos signos – das palavras e das coisas, pode-se dizê-lo –, no domínio da interação entre o colonizador e o colonizado. É lícito também afirmar que os processos de reconfiguração semântica havidos na relação entre os idiomas testemunham a incapacidade da civilização portuguesa de aferir com parâmetros neutros de referência os traços simbólicos das culturas do Oriente. (Ferreira [2000: 431]).

2.

Toda interação interidiomática, sabe-se, desdobra-se no âmbito de complexo processo de configurações semânticas, no qual exercem papel diretivo os vetores de designação, comandados pelas coerções do uni193

verso material simbolizado e pelas injunções dos eixos de valores ideológicos. No caso do rol em estudo, articula-se ele, de modo bastante evidente, no espaço de interseção de dois universos díspares e assimétricos, marcados pelo contraste de eixos opositivos diversos, como, para citar apenas três, e assumindo a perspectiva portuguesa, cristianismo X hinduísmo, metrópole X colônia, civilização X barbárie, ademais das oposições entre os sistemas de designação inscritos nas línguas em confronto. Parece correto – estabelecido tal confronto de valores – estipular que a construção dos empréstimos vernaculares se efetua, de acordo com uma convergência maior ou menor dos traços semânticos das bases léxicas, no percurso língua de partida → língua de chegada. 3. Propõe-se, nestes termos, estabelecer uma gradação tipológica das palavras em estudo, em consonância com o grau aferido de interseção interidiomática, conforme as descrições a seguir. 3.1. Reiteração semântica. Sob tal tipo, integram-se os empréstimos construídos em conformidade com estrita reprodução dos vínculos entre significado e referente do vocábulo de partida, apresentando o vocábulo vernáculo procedimentos diversos de acomodação fonética. Enquadram-se na categoria palavras designativas de significados ausentes do léxico português e desprovidas de vocábulo próprio correspondente. No que segue, uma amostra de tais palavras, organizadas por campos semânticos e acompanhadas das indicações etimológicas e das abonações textuais: elementos do mundo vegetal: nele (arroz em casca, não polido), do malaiala nel [Ab(onação): (1687)4 “(...) crendo que quem lhe fizer sacrifício de casca de nele marî (nele he arroz com casca), e de azeyte de coco, fará logo acordar.” – Queiroz (1912: 7)]; maçoi (árvore cuja casca aromática se emprega na produção de fármacos), do malaiala masui [Ab.: (1560) “Em Amboino ha muitos Christãos do nosso tempo, e muito maçoi, que parece canela braua.” – Rebello (1839: 190)];

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Os números entre parênteses indicam a data de redação (efetiva ou provável) do texto transcrito.

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ola (folha de palmeira), do malaiala ola ou do tâmil olei [Ab.: (1561) “A necessidade nos ensinou a buscar de outra parte ola, que achámos muito boa, e que é uma folha como de espadana, com que nestas partes costumam cobrir as casas.” – Henrique Dias, História trágico-marítima (1561: III, 86), apud Dalgado (1921: s.v.]; elementos do mundo animal: mandali (cobra venenosa), do tâmil mandali [Ab.: (1516) “Ha outra sorte de cobras muyto mais peçonhentas, ha que hos Indios chamaom mandalis; que saom tam uenenosas, que em mordendo mataom, sem ha pesoa ha que mordem em lhes chegando poder mais falar, nem fazer geito de morrer.” – Duarte Barbosa, Livro de relação (: 217), apud Dalgado (1921: s.v.)]; meru (veado de grande porte), do sânscrito mrga, através do concani merûm [Ab.: (1609) “Ha muitos merús, que são como asnos, mas tem cornos, e unha fendida, como veados, cuja carne he muito boa para comer.” – Santos (1891: I, 128)]; elementos do mundo mineral: quiniguilão (safira de cor escura), do malaiala karin-kallu-nîlam [Ab.: (1616) “Achase igualmente em Ceilão outra especie de safiras não tão grandes, a que chamão queniguilam” – Duarte Barbosa, Livro (1616: 341), apud Dalgado (1921: s.v.)]; nomes de medidas: mercar (moeda particionária da rúpia), do tâmil marakkâl [Ab.: (1554) “Cada cota tem 24 mercares, medidas da terra; e d’outros mercares, mais pequenos, 32 fazem hua cota. E manteya e azeite huum mercar tem 2 ½ canadas.” – Livro dos pesos (1554: 36), apud Dalgado (1921: s. v.)]; roio, do marata kirâya (imposto anual sobre colheitas) [Ab.: (1635) “Tomando por achaque um certo foro chamado roio, que os nossos costumavam pagar ao Melique, dos palmares que tinham nas suas terras.” – Bocarro (1876: XIII, 17)]; nomes de objetos diversos: manchua (embarcação provida de um mastro com vela quadrada), do tâmil mañji (ou do marata manchvâ) [Ab.: (1539) “Se embarcou logo
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com trinta soldados no batel, e em manchuas em que os inimigos vierão.” – Pinto (1983: cap. 40)]; pataca (faixa de seda, utilizada à volta do pescoço), do sânscrito pattika, através do hindustani pattakâ [Ab.: (1552) “A pedraria das orelhas, barrete da cabeça, pataca, cingida, e bracelletes dos braços, e pernas, erão estas cousas de tão grande estima que não avião inueja as joyas dos nossos.” – Barros (1982: I, v, 5)]; rabana (instrumento de percussão, provido de pequenos tímbales de ferro), do malaiala rabâna [Ab.: (1613) “E as donzellas chamadas vajanas são bailadeiras e cantoras de canto brando e suave que bailão e cantão com armonia ao som de attambores ou rabanas, com que são muy apraziveis aos malayos nobres.” – Manuel G. de Erédia, Declaraçam de Malaca (1613: fl. 31), apud Dalgado (1921: s.v.)]; pataia (caixa de madeira, utilizada para guardar cereais diversos), do malaiala pattâyam [Ab.: (1525) “E umas pataias, em que se recolhe bate, que tambem são de sua alteza.” – Botelho (1868: 216)]. 3.2. Reconfiguração semântica. Enquadram-se neste tipo os empréstimos vernaculares que reiteram a relação entre referente e significante do vocábulo de partida, conferindo-lhe, contudo, novo recorte de significado. A reconfiguração do sentido do vocábulo de chegada resulta da reorientação ideológica dos estímulos do contexto cultural observado, e envolve estratégias semânticas diversas. Entre estas, destacam-se, no percurso de construção dos empréstimos, a translação de contextos (assim, do sagrado para o profano ou do profano para o sagrado) e a redução ou ampliação dos campos semânticos (decorrentes, estas, da impermeabilidade, maior ou menor, dos valores axiológicos dos idiomas em contato). Eis alguns exemplos: mali (jardineiro, ortelão), do sânscrito mâlin, através do hindi mâli. Em hindi, mâli designa o devoto (principalmente, dos cultos visnuítas) encarregado de adornar, com flores e confeitos, seguindo procedimentos estipulados tradicionalmente, o espaço sagrado de manifestação (avatâra) ou de contemplação (darçana) duma dada divindade. Observa-se que, na palavra portuguesa, se apaga a referência ao cunho ritualístico da ação do agente, conservando-se apenas o traço “cuidado com flores num jardim”. [Ab.: (1563) “Os que nós chamamos ortelãos, que são os que cultivão as ortas e pomares, chamão elles malis” – Garcia da Orta, Colaçom, LIV, apud Dalgado (1921: s.v. mali)];
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pandito (médico). Do hindi pandit, que designa, especificamente, o homem de casta brâmane, versado na tradição textual da seita à qual pertence e encarregado de difundi-la, como um mentor, aos discípulos que lhe são confiados. O sentido da palavra portuguesa reduz a função multiforme do pandit à de um conselheiro médico, cujos saberes são, no mais das vezes, postos sob suspeição. [Abs.: (1663) “Ha na India alguns Bramenes medicos, e são chamados panditos” – Godinho (1663: 25); (1673) “Fingi pois estar doente com febre, trouxeram-me logo um pandito ou medico gentio, que sem custo achou o meu pulso alterado, e tomando como verdadeira a febre que eu fingira, me mandou sangrar” – Dellon, Narração da inquisição (1673: 129), apud Dalgado (1921: s. v.)]; andor. Do sânscrito hindola, “balança ou liteira ornados, em que se carregam no crepúsculo imagens de Krsna, por ocasião do Festival do Balanço, no mês çravana [= estação das chuvas]” (cf. Monier-Williams [1899: s.v. hindola]), através do malaiala andola, “base com que se conduzem imagens de divindades (sobretudo, Krsna e Râma)”. Observa-se que a palavra portuguesa (na medida em que designa o palanquim em que se conduzem imagens de santo) incorpora os traços semânticos da forma e da função do objeto indiano, o qual se translada para o universo das práticas cristãs, reconfigurando-se o contexto de manifestação da sacralidade (com efeito, hindola é transporte de divindades afetas a ritos de fertilização, realizados para benefício das terras e das mulheres, e estranhos, por conseguinte, aos sacramentos cristãos); assinale-se também que a homologação, válida na língua portuguesa, mas não no malaiala, entre andor = “base para conduzir dignatários”, constitui processo de apagamento do valor semântico básico do vocábulo indiano; canja. Do malaiala kañji, “sopa de arroz”. Reconfiguração por acréscimo: a palavra portuguesa conserva os traços “caldo quente + arroz”, específicos da culinária predominantemente vegetariana do Malabar, com a junção do traço “carne de galinha”, próprio da culinária onívora portuguesa; neiquebari (chefe de aldeia, arrecadador de impostos). Do sânscrito nâyaka, “chefe de aldeia, encarregado da posse do bastão (danda) da ordem”, pelo marata nâyakavâdi. Exemplo de apagamento de traços semânticos (no caso, referentes à função do brâmane, regente de aldeia, que representa a ordem, simbolizada pela posse do bastão da lei) e de fixação redutiva de sentido (por meio da qual o chefe de aldeia é assemelhado a um arrecadador de impostos). [Ab.: (1553) “E o modo entre si de se partir este
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foro, he que os neiquebaires cabeceiras de aldeia que vem da linhagem dos mais principaes daquella pouoação, fazem cada anno lançamento por todolos moradores” – Barros (1982: II, v, 1)]. 3.3. Dispersão semântica. Classificam-se aqui, por fim, os empréstimos em que a reconfiguração semântica, apontada em 3.2., reordena o significado do vocábulo, para além do campo de sentido do signo de partida. Trata-se de palavras vinculadas amiúde ao campo da ética e da religião, nas quais, de modo claro, se revelam as dificuldades de interação entre as culturas em contato. Exemplos: ramerrão (ruído monótono e continuado); ramerrameiro (retrógrado; oposto ao progresso). Da expressão sânscrita râma râma, “Ó Râma! Ó Râma!”, invocação ao protagonista do épico Râmâyâna, celebrado como avatara de Visnu, utilizada, por toda a Índia, como forma cortês de saudação, através da fórmula pan-indiana Râm Râm. Processo evidente de dispersão semântica, marcado pelo apagamento, no substantivo vernáculo, do conteúdo devocional da expressão indiana e pela projeção, no adjetivo, do traço de “contrário ao progresso”, como característica daquele que, ao contrário do falante português, emprega a fórmula de cortesia; saniassi (asceta). Do sânscrito samnyâsin, “aquele que renuncia ao mundo”, adjetivo que designa o homem, devoto ou não, e não necessariamente pertencente à casta dos brâmanes, que renuncia aos vínculos de pertença à sociedade constituída, passando a viver de modo errante, em busca de saberes diversos. O estado de samnyâsin representa um estágio de vida (a saber, o quarto, abraçado por muitos indianos, sobretudo após a maturidade) e não consiste em escolha exclusiva de uma ordem religiosa, entendida esta no sentido de organização dogmática e institucional. A imprecisão na definição do termo, conforme se pode observar nos textos portugueses, denuncia a ausência de quadro referencial adequado para a compreensão do significado do termo indiano. [Ab.: (1608) “Na outra casa mora o padre Roberto Nobili (...) o procedimento seu he (quanto no exterior se pode compadecer com nossa santa religiam) ao modo dos sacerdotes daquela gente, que elles tem por santos, e a que chamam gorús, que he o mesmo que mestres e saniassa, que he o mesmo que homens santos e recolhidos.” – Fernão Guerreiro, Relaçam Annual (1608: 84), apud Dalgado (1921: s.v.); (1687) “Fazem cortesia aos seus mestres espirituaes, e aos seus saniazos, que neste Industan são seus religiosos.” – Queiroz (1912: 62)];
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paracxati (mulher suprema). Do sânscrito paraçakti, força material feminina – complementar de purusa, o princípio masculino puro, não condicionado –, responsável pelo desdobramento das potencialidades do mundo manifesto. Na abonação abaixo, como na de saniassi, nota-se a impropriedade do recorte do vocábulo, decorrente da assimilação paraçakti = mulher, com o que o conceito indiano, metafisicamente complexo, fica privado de seu sentido nuclear. [Ab.: (1687) “Dizem em seus Vedaos, que ouue hua mulher chamada paracxati, que vai excelentissima, e superior potencia, a qual teue três filhos.” – Queiroz (1912: 61)]; rocossa (demônio). Do sânscrito râksasa, nome de uma subclasse de divindades noturnas, que se ocupam com transtornar a realização de ritos, assediar seres humanos e perambular em cemitérios. Nas abonações do termo, constata-se a redução dispersiva da palavra indiana, transposta em vernáculo nos moldes da demonologia cristã e, nesta perspectiva, associada à necromancia. [Ab.: (1687) “Ali se exercitarão de tal modo na negromancia, que forão reputados por demonios, e por esta causa chamão aquela terra Rocosabumi, que quere dizer terra habitada dos demonios.” – Queiroz (1687: 6)]. 4. Postuladas tais categorias, parece ser lícito estabelecer que o processo de incorporação, pela língua portuguesa, nos séculos XVI e XVII, de vocábulos de origem indiana, resulta da seleção dos estímulos semânticos das palavras de partida, configurando-se os empréstimos, em graus maior ou menor de fidelidade, de acordo com as coerções dos referentes observados. Cabe, neste sentido, propor que os referentes relativos ao universo material dos objetos, devido à sua relativa neutralidade axiológica, exercem forte coerção de identidade sobre os vocábulos vernáculos, ao passo que os referentes próprios do universo ideológico encontram forte resistência no que respeita à sua reconstrução e incorporação interidiomática. Pode-se, por fim, propor que o eixo reiteração–dispersão semântica, nos termos de classificação propostos, e em função do índice de permeabilidade das línguas em contato, explica a desproporção, no rol de palavras portuguesas em estudo, dos vocábulos referentes aos campos das coisas e seres (bastante numerosos), relativamente àqueles próprios do domínio dos valores (escassos ou quase ausentes).5
A tipologia proposta neste escrito refere-se, como se assinalou, ao processo de incorporação vernacular havido, na língua portuguesa, nos séculos XVI e XVII. Diversa é a tipologia de

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Referências bibliográficas
BARROS, João de. Décadas. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1982. BOCARRO, António. Década 13 da História da Índia. Lisboa: Academia Real das Sciencias, 1876. BOTELHO, Simão. O tombo do Estado da Índia. Lisboa: Academia Real das Sciencias, 1868. DALGADO, Sebastião Rodolfo. Glossário luso-asiático. Coimbra: Imprensa da Universidade, vol. I, 1919; vol. II, 1921. FERREIRA, Mário. “Considerações sobre o léxico indiano na língua portuguesa – Uma questão de línguas em contato”. In: Estudos lingüísticos. Assis: n. XXIX, p. 429-36, 2000. GODINHO, Manuel. Relação do novo caminho que fez por terra e mar vindo da Índia para Portugal no ano de 1663. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1974. MONIER-WILLIAMS, Monier. A Sanskrit-English Dictionary. Oxford: Clarendon Press, 1899. NIMER, Miguel. Influências orientais na língua portuguesa. São Paulo: [edição do autor], 1943, 2 vols. PINTO, Fernão Mendes. Peregrinações. Lisboa: Imprensa Nacional, 1983. QUEIROZ, Fernão de. Conquista do Ceylão. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1912. REBELLO, Gabriel. Informação das cousas de Maluco. Lisboa: Academia Real das Sciencias, 1839. SANTOS, João dos. Ethiopia oriental. Lisboa: Bibl. de Clássicos Portugueses, 1891.

empréstimos, no que respeita à incorporação de termos indianos, ocorrida a partir de 1950. Em função, mormente, dos movimentos de contracultura da época, marcados por forte incorporação de conceitos e práticas orientais, a tipologia dos empréstimos inverte os padrões aqui propostos, na medida em que predomina a reconfiguração semântica, de cunho positivo, de vocábulos pertinentes ao domínio religioso. Alguns exemplos: nirvana – do scrto. nirvâna, “extinção”, designativo, no budismo, do estado de consciência marcado pela ausência de conteúdos ideativos, e ressignificado como “estado beatífico de máximo gozo ou prazer”; ioga – do scrto. yoga, designação genérica de práticas diversas, que visam à integração da matriz fenomênica no princípio incondicionado, ressignificado como “prática física objetivando o relaxamento físico e psíquico”; guru – do scrto. guru, “mentor [religioso de um discípulo]”, ressignificado como designação de todo e qualquer orientador; carma – do scrto. karman, “ação ritual que causa uma reação cósmica”, ressignificado como “causarazão pretérita de uma situação existencial – sobretudo dramática – presente. Exemplo de dispersão semântica: marajá – do scrto. mahârâja, “grande regente”, designação do chefe religioso e administrativo de uma unidade política, incorporado, a partir dos anos 1980, como designativo do funcionário público que aufere, de modo escandaloso, vencimentos vultosos.

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Conceitos e tecnologias

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OS CONCEITOS DE NEOLOGIA E NEOLOGISMO SEGUNDO AS OBRAS LEXICOGRÁFICAS, GRAMATICAIS E FILOLÓGICAS DA
LÍNGUA PORTUGUESA

Ieda Maria Alves Universidade de São Paulo (USP)

Primeiras atestações dos termos neologia e neologismo
A respeito das primeiras atestações do termo neologismo, Giraud (1974, p. 200) informa-nos que o termo alemão Neologismus e em seguida o inglês neologism designaram por muito tempo uma nova doutrina, inspirada sobretudo em Spinoza e propagada pelos teólogos racionais, assim chamados por Leibniz. Segundo essa doutrina, deve-se confiar apenas na razão e admitir nos dogmas religiosos somente o que ela reconhece como lógico e adequado, de acordo com a nova luz (lumière nouvelle). Machado, em seu Dicionário etimológico da língua portuguesa (1989, vol. 4, p. 207), escreve que o termo português neologismo é atestado no século XVIII, em Filinto Elísio. Cunha (1982, p. 547) data também desse século a atestação do termo. Já neologia, segundo esse Autor, é datado de 1853. Em francês, néologisme nasceu no século XVIII para designar uma afetação mundana quanto à maneira de expressão e o termo néologie, alguns lustros depois, foi criado para designar a arte de inovar segundo o progresso das idéias (Deroy, 1971, p. 5). Jean Giraud (op. cit, p. 200-1) especifica os primeiros empregos de: néologue, em carta datada de 06-111723, escrita por J.-B. Rousseau ao abade d’Olivet; néologique, em Dictionnaire néologique, publicado em 1726 por Pierre-François Guyot Desfontaines e Jean-Jacques Bel; néologisme, em L’ennuyeux persiflage et le néologisme (Le pour et contre), vol. 6, p. 1735; neólogien, sinônimo efêmero de néologue, em Le sage (La valise trouvée), datado de 1740 (cf.
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também Guilbert (1977, p. 113-5). Segundo o Dictionnaire de l’Académie, que registra néologisme e néologie na edição de 1762, “La néologie est un art. Le néologisme est un abus” (Teppe, 1964, p. 357).

Neologia e neologismo segundo os dicionários da língua portuguesa
Os conceitos de neologia e de neologismo transparecem em nossas obras lexicográficas. Os termos não são registrados por Bluteau (171228), porém um século depois já encontramos neologismo no Diccionario da lingua portugueza (1813, vol. 2, p. 340), de Moraes Silva, que o define como “o uso frequente de palavras novas”. Os dois termos são também definidos pelo Grande diccionário portuguez ou Thesouro da lingua portugueza, de Frei Domingos Vieira (1871-4, vol. 4, p. 425): neologia – “invenção ou introducção de termos ou locuções novas em um idioma”; neologismo – “innovação de palavras e phrases”; assim como neologo – “o que usa com frequencia de termos novos; o que affecta uma linguagem nova”. A introdução desse dicionário, escrita por Adolpho Coelho, também faz menção ao fenômeno neológico:
Ao passo que as linguas perdem palavras muitas novas vão apparecendo n’ellas. O neologismo é uma outra phase da sua metamorphose. Em cada uma das linguas modernas há hoje milhares de palavras que em vão se buscarão nos escriptores dos seculos precedentes. Essas palavras saem ou 1) do fundo de cada lingua, isto é, são produzidas por novas combinações de seus elementos proprios, ou 2) são tiradas já formadas das linguas classicas ou produzidas pelas combinações d’elementos principalmente d’essas linguas (o grego e o latim), o que se dá principalmente na technologia scientifica, ou 3) são introduzidas das outras linguas modernas. (Adolpho Coelho, 1871-4, vol. 1, p. XXV)

A 10a edição do dicionário de Morais Silva (1949-59, vol. 7. p. 246) registra os termos neologia e neologismo, porém atribui-lhes uma relação sinonímica, sem distinguir o processo do produto: neologia – “invenção, introdução, emprego de termos novos; o mesmo que neologismo”. No verbete referente a neologia é citado Mário Barreto (Novíssimos estudos, cap. 25, p. 323), que emprega o termo com o significado de “palavras novas”: “...à espera de outras ideas novas, inventos e descobrimentos, e por conseguinte, de outras palavras novas ou neologias”. O termo neologismo alude
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também ao emprego das palavras: “emprego de palavras novas ou palavras desviadas do seu sentido natural ou do seu uso vulgar”. Outros termos da mesma família etimológica constituem entradas no referido dicionário: de caráter nominal (neológico, neologista, neólogo, neologófobo), verbal (neologismar = “fazer neologismos”) e adverbial (neològicamente). O Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa, de Laudelino Freire (1957, vol. 4, p. 3592), também não distingue neologia de neologismo, ou seja, o processo do produto: neologia – “o mesmo que neologismo”; neologismo – “palavra ou frase nova, ou palavra antiga com sentido novo”. A distinção entre os dois termos vai transparecer na obra de Caldas Aulete (1970, vol. 4, p. 2491): neologia – “introdução de palavras novas ou de novas acepções, introdução de doutrinas novas numa ciência”; neologismo – “palavra ou frase nova numa língua, doutrina nova”. Além dos termos da mesma família etimológica apresentados como entradas na 10a edição do dicionário de Morais Silva, Caldas Aulete introduz neologofobia, que representa o “sentimento de aversão ao neologismo” e ainda neologofilia, a doutrina do neologófilo, ou seja, aquele “que gosta de neologismos”. O Novo dicionário da língua portuguesa, de Ferreira (1986, p. 1189), apresenta a mesma distinção: neologia – “emprego de palavras novas, ou de novas acepções”; neologismo – “palavra, frase, ou expressão nova, ou palavra antiga com sentido novo”. O dicionarista registra ainda, no verbete relativo a neologismo, a acepção “nova doutrina, sobretudo em teologia”, acepção que já transparecia no termo alemão Neologismus e no inglês neologism. O Dicionário Houaiss da língua portuguesa (2001, p. 2009) registra – além de neologia, neologismo, neológico, neólogo, neologista e neologismar – o adjetivo neologizante e o verbo neologizar, sinônimo de neologismar.

Neologia e neologismo segundo as obras gramaticais e filológicas da língua portuguesa
Gramáticos e filólogos portugueses e brasileiros referem-se ao termo neologismo, opondo-o, muitas vezes, ao arcaísmo. Assim, neologismo é o contrário de arcaísmo, pois consiste no emprego de palavras novas, criadas pela ciência e organizações modernas, como autódromo, telégrafo, velocímetro... (Almeida, 1952, p. 418). Para Silveira Bueno (1954, p. 248),
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neologismos e arcaísmos resultam da necessidade de expressão dos grupos sociais: o neologismo nasce quando se tem necessidade dele; quando a necessidade já não existe, a unidade lexical desaparece (cf. também Albuquerque, 1940, p. 36; R. Vasconcelos, 1900, p. 95). A definição do termo neologismo está sempre vinculada a uma tipologia, ou seja, são os tipos de formação neológica que vão determinar o conceito desse termo. Procurando, assim, determinar o que é um neologismo, vários estudiosos estabeleceram também uma tipologia neológica. Coelho (1874, p. 50; 1881, p. 33) refere-se aos neologismos formais, que começam a ser empregados em uma língua, e aos semânticos, para os quais um significado novo é atribuído. R. Vasconcelos (op. cit., p. 85) denomina neologismo de vocábulo a introdução, no acervo lexical do idioma, não somente de uma nova formação vernacular, mas também de uma unidade lexical de origem estrangeira. Considera ainda o neologismo de significação, o neologismo de caráter semântico. A esse respeito, Almeida (1919), que também distingue o neologismo de palavra e o neologismo de sentido, escreve:
Devemos distinguir entre o neologismo de palavra e o neologismo de sentido. O apparecimento de uma palavra nova na vida historica da lingua é phenomeno já estudado; estudamos agora a innovação de sentido ou a addição de sentido novo em palavras já existentes, que é o que denominaremos neologismo semantico. (Almeida, 1919, p. 261)

Horta (s.d., p. 30) divide igualmente os neologismos em formais e semânticos (neologismos de vocábulo e neologismos de sentido ou semânticos) e, quanto à origem, classifica-os em científicos (constituídos por elementos gregos ou latinos para as formações técnico-científicas), literários (elementos novos, introduzidos na língua por via literária) e populares (criados pelo povo). Essa mesma divisão transparece em Silveira Bueno (1963, p. 215-6), que ainda os classifica em neologismos completos, que inovam quanto à forma e ao significado, neologismos incompletos, os que apenas introduzem um novo significado, e neologismos estrangeiros, os provenientes de um outro idioma (cf. também Silveira Bueno, 1939, p. 29-30). Maciel (1922, p. 262-4) e Pereira (1933, p. 189), levando em conta apenas as inovações formais, classificam os neologismos em intrínsecos (formados no âmbito da própria língua) e extrínsecos (provenientes de um outro sistema). Já Rodrigues Lapa (1968, p. 44), de forma análoga a Vasconcelos e Horta, considera neológicas as criações formais e semânticas,
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enfatizando que a língua não cria, mas sobretudo transforma, operando com o material já disponível no sistema. Considerando apenas a fonte dos neologismos, Albuquerque (1940, p. 35) classifica-os em científicos ou literários (como também Carneiro (1957, p. 15)), se formados por sábios ou literatos, e em populares – os que contribuem preponderantemente para o aumento do acervo lexical –, quando formados pelo povo. Estudando apenas os neologismos de cunho literário, Pádua (1949, p. 145-55) distingue os criados pela busca do ineditismo e do valor expressivo (estreloso, ruflante) dos provenientes da necessidade de expressão da língua (açucenal, violinar). Coutinho (1958, p. 360) inclui ainda a gíria entre as fontes de criação neológica. Extrapolando o âmbito do léxico, Mattoso Câmara (1977, p. 175-6) inclui entre as inovações neológicas não apenas as lexicais, mas também as de caráter sintático. Essas buscas de caracterização do conceito e da tipologia neológica não chegaram, no entanto, à constituição de uma teoria. Na verdade, os estudos sobre a neologia lexical ganharam um grande impulso graças aos estudos efetuados, sobretudo, por lexicólogos franceses – Matoré (1952) e Guilbert (1975) – e pelo canadense Boulanger (1979), que têm definido o conceito de neologismo por meio de uma oposição entre aspectos formais e semânticos. Assim, segundo Boulanger, neologismo constitui uma unidade do léxico, palavra, lexia ou sintagma, cuja forma significante ou a relação significante / significado não estava realizada no estágio imediatamente anterior de um determinado sistema. Neologismo constitui, assim, uma unidade lexical de criação recente, uma acepção nova atribuída a um elemento existente, ou então uma unidade recebida de um outro código. De acordo com essa definição, o Autor estabelece três tipos de neologismos: formais – criados com base na derivação, composição, formação por siglas, redução de palavras ou ainda na criação de um radical inédito; semânticos – resultantes de um novo significado atribuído a um significante já existente; por empréstimo – oriundos da adoção de uma unidade lexical estrangeira.

Aceitabilidade do neologismo e conservadorismo lingüístico
Sabemos que, uma vez criada, a unidade lexical pode ou não ser incluída no acervo lexical do idioma. O processo de difusão do neologismo possui um caráter social, e vários fatores contribuem para a aceitação ou não da nova unidade lexical. O filólogo Silva Neto (1970, p. 5), men207

cionando Schuchardt, lembra-nos de que em toda inovação lingüística devese distinguir a criação e a coletivização, pois a “mudança depende da sucessão e da combinação da iniciativa individual com a aceitação coletiva”. A integração das unidades lexicais neológicas à língua suscita uma outra controvérsia: renovação lexical versus conservadorismo lingüístico. Saussure, no Cours (1969, p. 108-9), caracteriza o signo linguístico como imutável e, ao mesmo tempo, mutável. Na verdade, os dois fatos são solidários: o signo muda porque ele se fundamenta sobre o princípio da continuidade; desse modo, o que determina toda alteração é a persistência da matéria antiga e, assim, a infidelidade ao passado é relativa. A renovação neológica das línguas sempre sofreu reações puristas, que, com base na tradição das línguas, manifestam-se contrariamente ao emprego de neologismos ou aceitam-nos sob certas condições. Na língua portuguesa, o emprego de neologismos tem suscitado diferentes posições, ora favoráveis, ora desfavoráveis. Alguns autores enfatizam que as inovações vocabulares freqüentemente resultam de uma necessidade das línguas (Oiticica, 1933, p. 20; Barreto, 1954, p. 91). A esse respeito, lemos em Carneiro Ribeiro (1919):
Como os turbilhões concebidos por Descartes, as línguas estão em movimento perpétuo; não param nem se fixam em sua marcha: sua lei é a mobilidade perenne, que as faz revolutear, como as ondas do oceano, agitando-as sempre lenta e surdamente, é verdade, mas de modo fatal. (Carneiro Ribeiro, 1919, p. 221-2)

Outros as caracterizam como condenáveis, se podem ser substituídas por elementos já introduzidos no acervo lexical do idioma (Carreiro, 1918, p. 135; Nascentes, 1930, p. 89; Austregésilo, 1936, p. 156; Joaquim Ribeiro,1964, p. 93). Lemos, assim, em Mário Barreto (1914):
Admitamos as palavras novas que forem necessárias; mas condenemos os inventos de palavras inúteis. Não basta que os neologismos não sejam contrários á analogia: podem ser inatacáveis no ponto de vista gramatical, não pecar pelo lado morfológico, e, não obstante, são de rejeitar por supérfluos totalmente. (Barreto, 1914, p. 317)

Observa-se, assim, a polarização já mencionada por Matoré (1952, p. 88), em relação ao francês, a respeito do neologismo: ora uma criação necessária, ora uma criação de luxo.
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Os primeiros gramáticos da língua portuguesa pronunciaram-se de maneira favorável ao emprego de neologismos. Fernão de Oliveira, autor de nossa primeira gramática, editada em 1536, refere-se às dicções novas, “aquelas que novamente ou de todo fingimos ou em parte achamos”. Cita o latino Quintiliano, para quem achar novos vocábulos constitui um perigo, pois, se são bons, não há louvor, porém, se não prestam, são um motivo de escárnio. Por essa razão, as dicções novas devem ser formadas com muitos resguardos e seu uso deve ser aprovado pelos que mais sabem (1975, p. 95-7). Duarte N. de Leão, na Origem da lingua portugueza, cuja primeira edição data de 1606 (1945, p. 235-6), escreve que umas inovações vocabulares são voluntárias, enquanto outras são necessárias, “por a invençaõ das cousas, a que he necessario darlhe seus vocabulos. De que temos exemplo nos muitos que os Latinos tomaraõ dos Gregos, por as artes e disciplinas que delles receberaõ, como se ve na medicina, que, sendo em arte, & methodo pelos Gregos, & mui ignorada dos Romanos. Veo a elles & delles a nos cõ grande enchente de vocabulos de doeças, como paralysis, erysipelas, apoplexia, epilepsia, chiragra, podagra, arthiris, ischias, icteros /.../ & infinito numero de vocabulos outros, que, soo de doeças particulares de olhos, dizem que ha perto de cento”. No Methodo grammatical para todas as lingvas (1619), de Roboredo, lemos:
Se se imita a frase Grega discordante de outra lingva se diz Grecismo, Hellenismo, ou Antiptosis: a qual figura alguas vezes he solecismo em outra lingva: como na Latina. (Roboredo, 1619, p. 76-7).

Esse mesmo autor refere-se, na Porta de lingvas (1623), à organização de um vocabulário, que na primeira parte apresentará derivados e compostos e, na segunda, abrangerá
as palavras raras, e Gregas já entrodozidas na lingva Latina, e as Ecclesiasticas, e as de Dereitos, Filosofia, e Medicina, e as barbaras, e novas. (Roboredo, 1623, Dedicatoria)

Trabalhos gramaticais e filológicos posteriores referem-se também ao emprego de unidades lexicais neológicas. Em Noções de grammatica portugueza, cuja primeira edição data de 1887, Pacheco da Silva e Lameira de Andrade aceitam as inovações
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lexicais, considerando-as uma conseqüência das mudanças pelas quais passa uma língua. Lemos, assim, na mencionada obra:
2. – Não bastava ao portuguez as expressões, idéas e imagens recebidas do latim pela tradição oral; outras idéas agitaram-se no espirito popular, e força foi augmentar o vocabulario. O lexico está sempre em mobilidade: ora registra palavras novas, ora apresenta-as sob novos aspectos. 3. – Muitos são os factores neologicos, os centros formadores de palavras: a politica, a moda, o quartel, as officinas, a lavoura, ... Tudo concorre para opulentar o vocabulario e renoval-o. “São tantos os centros de neologismos quantos os grupos naturaes de pessoas e de ocupações.” (1887, p. 349) 1

O mesmo ponto de vista é manifestado por Said Ali (1930a, p. 298). Souza Lima (1937, p. 277) aceita igualmente as criações lexicais, resguardando-se, no entanto, o fato de que sejam adequadas às regras de formação da língua portuguesa. Diferentemente dessas manifestações, Julio Ribeiro, em sua Grammatica portugueza (1914), condena o emprego de unidades lexicais neológicas:
A mania do neologismo é das mais detestaveis. O neologismo só se justifica pela necessidade de uma denominação nova, para uma descoberta que tambem é nova, para um novo instrumento, ou então quando vem apadrinhado por um nome respeitado na lingua. Os neologistas não passam de deturpadores da lingua. (Ribeiro, 1914, p. 353)2

Reação purista contra os empréstimos
A história da língua portuguesa mostra-nos que a reação contra o emprego de neologismos tem sido dirigida mais particularmente contra os empréstimos, as unidades lexicais importadas de outros sistemas lingüísticos. Se, de um lado, sabemos que o acervo lexical do português se enriqueceu por meio de empréstimos íntimos – de substrato (línguas ibéricas préromânicas), de superstrato (elementos germânicos) e de adstrato (elementos árabes, africanismos e tupinismos) – e culturais (sobretudo elementos do
1 2

Cf. Pinto (1978, p. 277-87), a respeito dos mesmos autores. Cf. Leão (1961, p. 46-7), em relação ao mesmo autor.

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provençal, do francês, do italiano e, mais contemporaneamente, do inglês), devemos também reconhecer que os empréstimos franceses foram culturalmente muito importantes a partir do século XVIII (Mattoso Câmara, 1975, p. 198-201), como reflexo da influência que a França exercia sobre nossos costumes, particularmente no Rio de Janeiro. Holanda et alii (1971, p. 153), Debret (1975, p. 126) e Freyre (1977, p. 57) relatam-nos, a esse respeito que, no início do século XIX, a rua do Ouvidor, na referida cidade, era comumente comparada à rua Vivienne, de Paris, por causa de seu comércio bem-sortido de artigos de procedência francesa. Corroborando essa afirmação, encontramos em Renault (1969) vários anúncios escritos em francês referentes a atividades (comércio, governantas, aulas particulares) desenvolvidas no Rio de Janeiro. Essa relevante influência francesa suscitou, como conseqüência, uma atitude denominada purista:
A attitude hostil, e não raro exagerada, contra os vocabulos que chegam por via franceza deve-se á reacção purista de alguns escriptores de fins do seculo XVIII e principios do seculo XIX, impressionados com o gosto que se vinha tomando pelo falar do civilisado povo d’alémPyreneus. Termos francezes sem necessidade alguma se iam já substituindo a expressões usadas desde tempos immemoriaes. (Said Ali, 1930b, p. 120).

À guisa de exemplo, citaremos algumas vozes, portuguesas e brasileiras, que se insurgem contra essa influência francesa, sobretudo nos séculos XIX e XX. Trabalhos específicos sobre os empréstimos do francês, os galicismos, foram escritos: Glossario das palavras e frases da lingua franceza, que por descuido, ignorancia, ou necessidade se tem introduzido na locução portugueza moderna; com juizo critico das que são adotaveis nela, de Fr. Francisco de São Luiz (1827); Gallicismos, palavras e frases da lingua franceza introduzidas por descuido, ignorancia ou necessidade na lingua portugueza, de Norberto Silva (1877); Diccionario de gallicismos, de Carlos Góis (1920); Gallicismos, de Laudelino Freire (1921); Galicismos léxicos e fraseológicos, de Leonardo Pinto (1936); Galicismos, de Tenório de Albuquerque (1937), entre outros. Apesar da controvérsia, os autores que se manifestaram contra os galicismos em geral aceitam uma parte deles, considerada necessária para nomear novos referentes (cf. também Costa, 1908, p. 185-9; Albuquerque, 1937, p. 22; Bouchardet, 1939, p. 82-4).
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Nesses trabalhos, encontramos manifestações específicas sobre determinadas unidades lexicais emprestadas do francês: Tullio (1874, p. 316) classifica barricar como um galicismo desnecessário, aceita ascendente mas rejeita ataque; Castro Lopes, autor de Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis com um vocabulario neologico portuguez (1909), trata como indispensáveis os empréstimos avalanche, cache-nez, ouverture, entre outros, porém condena adresse, debutar, festival, marron; Figueiredo (1924, p. 55) propõe ramo de flores e ramilhete em lugar do francês bouquet; Nunes (1928, p. 7-24) rejeita destacar, destaque, gesto, o verbo abandonar-se com o significado de “dar-se”, “entregar-se”...; Campos (1938, p. 82-4, p. 125-30; 1944, p. 61-6) mostra-se indignado com o emprego de crèche e étape; Fernandes (1947, p. 124-32) combate alta costura, calembour, chauffeur, controle, matinée, soirée; Machado Filho (1965, p. 65) aceita o emprego de boîte – ou a forma adaptada buate –, posto que o português não dispõe de uma unidade lexical correspondente. Em sua obra Os estrangeirismos (1913) assim se manifesta Cândido de Figueiredo sobre os galicismos:
Há galicismos, que no decurso dos séculos têm passado para o domínio da nossa língua e fazem hoje parte integrante dela; há galicismos, que vão entrando na língua por conveniência ou necessidade indeclinável; há galicismos, que são inúteis ou dispensáveis, por termos no erário da nossa linguagem moéda correspondente; e há também galicismos absolutamente disparatados ou ridículos, procedentes, quase sempre, do influxo da moda ou da sombra da ignorância. (Figueiredo, 1913, vol. 1, p. 7)

Gramáticos e outros estudiosos da língua também opinam a respeito de galicismos desnecessários. Pereira, por exemplo (1958, p. 273-4), insurge-se contra o emprego de galicismos léxicos (abat-jour por quebraluz, sombreira ou pantalha; afixe por edital; nuança por matiz...) e de galicismos fraseológicos (boa manhã por madrugada; feito sobre modelo por feito conforme o modelo). O mesmo é observado em Almeida (1967, p. 463-6), que classifica tanto os galicismos léxicos (afixe em lugar de edital, chefe-de-obra por obra-prima...) como os sintáticos (guardar o leito por estar de cama, mais eu penso, mais me convenço por quanto mais penso, mais me convenço...) entre os vícios de linguagem. Sequeira (s.d., p. 10-3) considera aceitáveis as unidades lexicais estrangeiras desde que esses elementos sejam despojados de “todo o exotismo fonético”. Propõe, para isso, regras de aportuguesamento dos estrangeirismos france212

ses: o fonema final -e fechado passa a -a nas palavras femininas: bayonnette > baioneta; o sufixo -ette passa a -eta... (cf. também Torrinha (1952, p. 293). Seguindo as orientações de Gonçalves Viana, que em seu Vocabulário ortográfico acolheu apenas os estrangeirismos aportuguesados, C. Michaëlis de Vasconcelos (1932, p. 152) condena igualmente os galicismos que não são recomendados por esse lexicógrafo, pois podem ser substituídos por elementos vernáculos: português sobrescrito, entrevista, preconceito, lenço de pescoço... em vez dos francesismos enveloppe, rendez-vous, parti-pris, cache-nez. Em relação ao inglês, a proposta de substituição de football por ludopédio (composição com base no latim ludus, i, e pes, pedis), por Kubitschek (1922, p. 135-9), tem bastante repercussão mas não é aceita pelos falantes de nosso idioma, que apenas aportuguesaram essa unidade lexical designativa do mais popular esporte brasileiro. Alguns autores mostram-se tão indignados com o uso de estrangeirismos, sobretudo os de origem francesa, que apelam até para a falta de patriotismo por parte dos divulgadores desses elementos (Vasconcellos, 1926, p. 357; Nogueira, 1934, p. 174; Vaz, 1959, p. 55). Dentro dessa atmosfera purista, é proposta em Portugal, em 1943, a criação de um Instituto da Língua Portuguesa, que, entre outras finalidades, deveria proteger a língua portuguesa contra o uso abusivo de estrangeirismos (Boléo, 1944, p. 1-87; Amaral, 1944, p. 59; 1950, p. 567-84). Algumas vozes insurgem-se contra essas manifestações puristas, como R. Vasconcelos (1900, p. 119) e Said Ali (1930ba), que assim resume o longo período do purismo:
Veio porém no seculo XVIII a campanha exagerada contra o que o idioma vinha recebendo da civilisação de França. Desorientaram-se então os criticos sobre a noção de classicismo e deram ao vocabulo “pureza” a estreita e absurda accepção de linguagem que se contenta e satisfaz, durante trezentos ou quatrocentos annos consecutivos, com elementos domesticos e vocabulario recebido dos escriptores da renascença. Deu-se assalto a uns poucos de gallicismos grosseiros; mas ao mesmo tempo outros muitos, bem necessarios, penetravam subrepticiamente na lingua portugueza. /.../ Era assim que se provava a pureza e a riqueza. Nem por isso vieram mais abundantes as idéas e mais puras, nem se fez mais energica a frase, nem o estilo mais elegante. Mas a lingua portugueza, apesar das extravagancias e caprichos de alguns, e das torturas que padeceu, continuou lentamente a progredir como dantes. (Said Ali, 1930a, p. 314-5)

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A partir de meados do século XX, a influência francesa vai cedendo lugar à do inglês, ocasionada, sobretudo, pelo desenvolvimento crescente das ciências e das técnicas nos Estados Unidos da América. Com a importação de tecnologias e de produtos, termos ingleses são também importados. A reação contrária ao emprego de estrangeirismos tem-se voltado, então, para o inglês, conforme lemos em Malanga (1969):
O tema é vasto. /.../ Assim, por uma questão de síntese e de respeito ao amável auditório, procurarei focalizar apenas um aspecto da defesa da língua, e justamente aquele que me parece mais importante: o abuso de estrangeirismos, notadamente de anglicismos. /.../ A inquietação que me torturou, por muitos anos, poderia ser resumida na seguinte frase: Haveria em português termos equivalentes aos usados pelos publicitários brasileiros para se expressarem em relação a assuntos técnicos, ou precisariam continuar a servir-se, por empréstimo, de vocábulos ingleses. (Malanga, 1969, p. 87)

Já na década de 90, escreve José Pedro Machado, nas Notas soltas que introduzem a obra Estrangeirismos na língua portuguesa (1994, p. 9), que se deve combater o estrangeirismo desnecessário, quando realmente desnecessário, “que o é quando houver no nosso léxico elemento capaz de com exatidão designar a mesma idéia, sem o perigo de se confundir com outro vocábulo local”. Deve-se também mencionar o Projeto de Lei 1 676, de 1999, de autoria do deputado federal Aldo Rebelo, que, atualmente em tramitação, “dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa e dá outras providências”. A lexicografia em língua portuguesa mostra-nos, igualmente, evidências dessa reação purista. Em uma análise que efetuamos com seis dicionários de língua editados no Brasil ou que tiveram uma edição brasileira entre 1957 e 1975 (Alves, 1984), pudemos observar que o empréstimo inglês ou francês é diferentemente considerado segundo o lexicógrafo. Freire (1957), Caldas Aulete (1958) e Silveira Bueno (1972) revelam-se bastante contrários ao emprego de unidades lexicais estrangeiras, sobretudo francesas. Alguns exemplos: Freire propõe a substituição dos galicismos abajur por abaixa-luz, alparluz, bandeira, guarda-luz, guarda-vista, lucivelo, lucivéu, pentalha, quebraluz, refletidor, sombreira ou tapa-luz; acerelado por acerado; abatis por estacada, talas ou abatida. No Dicionário contemporâneo da língua portuguesa, de Caldas Aulete, lê-se em alguns verbetes uma observação de caráter prescritivo: debutar – “galicismo inútil”; detalhar – “galicismo
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unanimemente repelido pelos puristas mas de grande vulgaridade na língua”; detalhe – “galicismo condenado pelos puristas mas de grande vulgaridade na língua”. O mesmo ocorre com O novíssimo dicionário da língua portuguesa, de Silveira Bueno. Dentre os galicismos considerados condenáveis pelo Autor estão: complô, constatar, controle, descontrolado, desilusionar, destacar, destaque, detalhar, detalhe. De maneira contrária a esses lexicógrafos, Oliveira (1967), os autores do Grande dicionário Melhoramentos (1975) e Ferreira (1975) demonstram uma tendência mais descritiva em relação aos elementos estrangeiros, sobretudo o último lexicógrafo, que em nenhum verbete referente aos empréstimos franceses ou ingleses emprega os termos metalingüísticos galicismo e anglicismo – em muitas obras definidos preconceituosamente –, preferindo assinalar a origem (francesa, inglesa ou outra) das unidades lexicais emprestadas.3 Apesar dessas manifestações puristas, pode-se afirmar que, no decorrer do século XX, a reação contra o emprego de neologismos vai-se tornando menos acentuada do que em épocas anteriores. Assim, tomando como parâmetro a literatura, diz-nos Pinto (1988, p. 21) que, se os neologismos constituem um traço marcante da literatura desse século, “o que ocorreu foi a dessacralização do vocábulo. Enquanto no século XIX os escritores que se atreviam a inovar nesse terreno, e não detinham a autoridade de um Rui Barbosa, eram obrigados, como Alencar, a ‘legitimar’ suas criações mediante malabarismos gramaticais e filológicos, e a justificar a necessidade de importar palavras, os escritores do século XX não se preocupam, quer com os gramáticos, que já não os censuram, quer com o público, que os aceita sem a menor restrição”.

Considerações finais
Concluímos este estudo, em que expusemos as concepções de neologia e neologismo apresentadas por diferentes estudiosos da língua portuguesa, citando as palavras do lexicólogo francês B. Quemada (1971, p. 137-8), que nos lembra que uma língua de cultura, moderna, necessariamente científica e técnica, não pode ver na neologia lexical apenas um mal inevitável. É a primeira condição a partir da qual o idioma pode per3

Cf. também Alves (2000).

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manecer um instrumento de comunicação nacional, mesmo internacional, e não ser apenas uma língua viva. Deve até considerar a criatividade lexical como parte responsável pela sua riqueza imediata, como o sinal evidente de sua vitalidade. Uma língua que não conhecesse nenhuma forma de neologia seria uma língua morta e, em suma, a história de todas as nossas línguas constitui a de sua neologia. Desse modo, podemos concluir, com Quemada, que a criação neológica é parte da história das línguas e constitui uma evidência inequívoca de vitalidade, essencial para suprir as necessidades e as condições de comunicação dos idiomas.

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UM POUCO DA HISTÓRIA DA ANÁLISE INFORMATIZADA DO LÉXICO NO BRASIL
Zilda Maria Zapparoli Universidade de São Paulo (USP)

No contexto de contínuas e aceleradas mudanças, vividas pela Era da Informação, a absorção das novas tecnologias, como não poderia deixar de ser, também se faz presente nas Ciências Humanas, embora mais tardia e lentamente do que nas Ciências Exatas, exigindo do pesquisador um novo tipo de posicionamento frente ao seu objeto de estudo. As mais diversas áreas beneficiam-se, atualmente, dos recursos que a Informática coloca à sua disposição. Também nos estudos da linguagem, são indiscutíveis as vantagens da utilização do computador no armazenamento, processamento e recuperação quantitativa e qualitativa de informações, sobretudo em tarefas em que se manipulam grandes volumes de dados. A pesquisa à base de textos informatizados facilita e otimiza a busca, organização e análise de dados lingüísticos, tornando, por conseguinte, mais rápido e seguro o acesso ao material de análise. A exploração de grandes quantidades de dados textuais em formato eletrônico (corpora eletrônicos) mediante programas de análise lingüística abre ilimitadas possibilidades aos estudiosos da linguagem e impõe novas diretrizes ao ensino e à pesquisa de línguas naturais nos mais diversos campos de investigação, desde o léxico e a gramática até o processamento de língua natural e o ensino virtual. Apesar disso e embora cada vez mais cresça o uso do domínio da técnica informática relacionada à análise lingüística, a aplicação de novas tecnologias na lingüística ainda é incipiente no Brasil, sendo o tratamento informatizado do léxico o mais privilegiado entre nós. Para o tratamento e análise do léxico, objeto deste artigo, as tecnologias computacionais constituem indispensáveis recursos. Mesmo as pes223

quisas baseadas em corpora eletrônicos, gerados em computadores de grande porte, os chamados mainframes, já representaram um avanço significativo em relação ao trabalho moroso, cansativo e pouco seguro de compilação e análise manuais de corpora. Na década de 1970, o tratamento computacional de nossas pesquisas para o doutorado – Análise do comportamento fonológico da juntura intervocabular no português do Brasil (variante paulista): uma pesquisa lingüística com tratamento computacional – foi desenvolvido em computadores de grande porte, o que exigiu uma equipe de profissionais da computação – analistas de sistemas (para a definição do modelo lógico e funcional do sistema de informação e especificação do conjunto de programas a serem executados pela máquina), programadores (para a elaboração e codificação de programas numa determinada linguagem), operadores (para a operação e supervisão da máquina através de comandos ao sistema operacional), perfuradores de cartões (para a transcrição dos dados ou informações para cartões perfurados a partir de planilhas ou documentos manuscritos, elaborados pelo pesquisador) –, além de estatistas (para a definição de testes estatísticos apropriados a cada procedimento de análise, a partir de programas especialmente desenvolvidos para pesquisas em Ciências Humanas, mas não para o tratamento de línguas naturais). Acrescente-se que o tratamento computacional foi executado em computadores diferentes – Borroughs B-6700, IBM/370-155 e IBM/3- modelo 10 –, porque em três centros de processamento de dados – Centro de Computação Eletrônica da USP, Centro de Processamento de Dados do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares do Estado de São Paulo (IPEN) e Centro de Processamento de Dados da Pontifícia Universidade Católica de Campinas –, em virtude do volume grande de dados para processamento em relação à limitada cota de que o pesquisador dispunha na USP e da necessidade de programas estatísticos adequados ao tratamento dos dados, como o SPSS (Statistical Package for Social Sciences) e o SAS (Statistical Analysis System). Após mais de cinqüenta anos da invenção dos primeiros computadores eletrônicos de grande porte e mais de vinte anos da criação dos microcomputadores PC – Personal Computers –, cada vez menores e mais potentes, o lingüista conta com programas de análise lingüística, especialmente desenvolvidos para o trabalho com textos, extremamente interativos e amigáveis, e que integram recursos informáticos, matemáticos e estatísticos. Com seu computador pessoal e com um programa para análise lin224

güística, dá conta, sozinho, do trabalho que, na era dos mainframes, exigia uma equipe. Além disso, a utilização da técnica informática, matemática e estatística relacionada à análise lingüística garante maior confiabilidade às análises dos dados de suas pesquisas. Para o manuseio de bases de dados textuais, o pesquisador tem, pois, à sua disposição, uma variedade de programas de computador, que facilitam o estudo e a aplicação dos dados informatizados. Há programas disponíveis que são indexadores, produzem concordâncias e servem para a busca textual – permitem a indexação das palavras de um texto, ou seja, a identificação de sua localização no texto, a recuperação por listagens em forma de concordâncias (o conjunto de ocorrências de cada palavra, em ordem alfabética, com seu contexto imediato e sua localização). Possibilitam, também, a busca de colocados (de combinações de palavras) e de padrões de colocados, bem como a pesquisa de grupos de palavras (com o uso de coringas e expressões lógicas, é possível a busca de palavras que guardam alguma relação). Os programas ainda permitem um tratamento quantitativo dos dados e alguns, quantiqualitativo. Ao longo dos últimos anos, vimos realizando um trabalho de levantamento desses programas. Entre outros, podemos relacionar: Folio Views, Kwic-Magic, MicroConcord, Mini-Concordancer, NoteBuilder, Stablex, TACT, The Etnograph, Hyperbase, Varbrul, WordCruncher, WordSmith Tools. Alguns desses programas, relacionados a seguir, foram objeto de palestra-demonstração por pesquisadores brasileiros na Oficina de Trabalho realizada no dia 25 de março de 1994, na FFLCH/USP, sob nossa coordenação juntamente com a da Profª Leila Barbara (PUC/SP), por recomendação do Seminário sobre a Informatização de Acervos da Língua Portuguesa, UNICAMP, coordenação de Ataliba Teixeira de Castilho, 4 e 5 de outubro de 1993: – Folio Views (Folio Corp., Provo, Utah): Francisco da Silva Borba, UNESP/Araraquara; – MicroConcord (Mike Scott e Tim Johns, Oxford University Press, 1993): Heloísa Collins, PUC/SP; – NoteBuilder (Pro/Tem Software Inc.): Leland Emerson McCleary, FFLCH/USP; – Stablex (André Camlong e Thierry Beltran, Univ. de Toulouse II, versão 1.0 para Macintosh, 1991): Zilda Maria Zapparoli, FFLCH/USP;
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– TACT (John Bradley, Univ. de Toronto, Canadá): Ivone Isidoro Pinto, UFRJ; – The Etnograph (John Seidel, Rolf Kjolseth e Elaine Seymour, Univ. da Califórnia, 1985): Roxane Helena Rodrigues Rojo, PUC/SP; – Varbrul (David Sankoff e Susan Pintzuk): Ruth E. Lopes Moino, UFSC; – WordCruncher (Electronic Text Corporation de Provo, UT): Leland Emerson McCleary, FFLCH/USP; – Wordlist Suite (Mike Scott, versão 1.0, 1994): Heloísa Collins, PUC/SP. Não é objetivo deste artigo fazer uma retrospectiva sobre corpora do português do Brasil, nem sobre pesquisas do léxico baseadas em corpus para a geração de glossários e de dicionários de freqüência, aspectos já contemplados no trabalho de Berber Sardinha (2000): numa retrospectiva da Lingüística de Corpus, o Autor relaciona os principais corpora compilados, ou em compilação, da língua inglesa, francesa, alemã, chinesa e portuguesa, bem como programas de computador disponíveis para sua análise e exploração, dando relevo ao processamento da língua inglesa. As investigações do léxico no Brasil vêm sendo especialmente agraciadas pelo uso dos novos recursos. Neste artigo, damos, portanto, uma atenção especial a trabalhos que usam o instrumental computacional com vistas a investigações do comportamento do léxico, tecendo considerações sobre dois programas de computador para análise lingüística – WordSmith Tools (WS Tools) e Stablex – e sobre o uso que alguns pesquisadores brasileiros, pertencentes a duas instituições – PUC/SP e USP/SP –, fizeram ou vêm deles fazendo para as análises informatizadas do léxico. Trata-se de programas desenvolvidos especialmente para análise lingüística e que reúnem recursos computacionais, matemáticos e estatísticos num só aplicativo, podendo, assim, ser manipulados pelo próprio pesquisador a partir de um computador pessoal. São programas que fazem mais do que um tratamento meramente quantitativo de textos, pois já realizam uma análise preliminar dos dados a partir de um tratamento quantiqualitativo, de forma a submeterem ao analista informações em bases seguras, porque pautadas em procedimentos objetivos, para a sua tarefa de interpretação a partir dos pressupostos teóricos adotados. Assim sendo, esses programas respondem, de forma satisfatória, às necessidades do pesquisador cujo objeto de trabalho é o texto, por possibilitarem não somente a busca, organização e quantificação, mas também a análise de dados lingüísticos.
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As informações apresentadas a seguir retratam as vozes dos pesquisadores que serão citados, aos quais agradecemos o envio dos relatos sobre seu conhecimento e uso de programas de análise lingüística para os estudos do léxico. Em vários momentos, reproduzimos seus textos, por veicularem, de forma mais fiel, os seus discursos, e, pois, o que significam suas experiências. O programa de análise lexical WS Tools, de autoria de Mike Scott (Mike.Scott@liv.ac.uk), da Universidade de Liverpool, e publicado pela Oxford University Press há cerca de sete anos, é distribuído via World Wide Web (www.liv.ac.uk/~ms2928). Disponível para PC/Windows 3.x, 95, 98, NT em sua terceira versão, pode ser aplicado a texto em formato ASCII e ANSI, bem como SGML e HTML. Possui interface gráfica. A quarta versão para Windows 95, 98 e NT está em andamento. WS Tools começou a ser disponibilizado aproximadamente em 1995, quando era composto por ferramentas separadas – Wordlist, Concord, Keywords. Hoje, consiste num conjunto integrado de recursos para análise lexical: três ferramentas (as três citadas, que ainda são o centro do programa) e quatro utilitários (Splitter, Text Converter, Dual Text Aligner, Viewer), que, juntos, disponibilizam dezessete instrumentos de análise. Segundo Berber Sardinha (2001: 17),
o programa coloca à disposição do analista uma série de recursos, os quais, se bem usados, são extremamente úteis e poderosos na análise de vários aspectos da linguagem. Entre esses aspectos, estão a composição lexical, a temática de textos selecionados e a organização retórica e composicional de gêneros discursivos.

Enfatiza
(...) a contribuição que as concordâncias (disponibilizadas pela ferramenta Concord) podem trazer para a análise da padronização, central à Lingüística de Corpus, bem como à aplicação pedagógica da pesquisa baseada em corpus.

Cada um dos recursos do programa é usado para tarefas específicas de análises de textos: – Wordlist: gera listas de palavras em ordem alfabética e em ordem de freqüência, e listas de estatísticas dos textos (dimensões e densidade lexical);
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– Concord: ferramenta, por excelência, para análise lexical, cria concordâncias das palavras de busca (listas de palavras em contexto), gera listas de colocados (listas das palavras que ocorrem à esquerda e à direita da palavra de busca selecionada, em ordem de freqüência), listas de padrões de colocados (frases comuns), listas de agrupamentos lexicais, e exibe um mapa gráfico que mostra onde a palavra ocorre no corpus; – Keywords: lista palavras-chave de um dado texto através de comparações entre listas de palavras de arquivos diferentes quanto à sua freqüência relativa, procedimento que permite a caracterização de um texto ou de um gênero. Exibe um mapa gráfico que mostra onde cada palavra-chave ocorre no corpus; – Splitter: divide grandes arquivos em diversos menores; – Text Converter: recurso de procura e substituição, reformata um número grande de textos; indicado, por exemplo, para a mudança de acento de caracteres, retirada de espaços, etc., podendo, também, ser usado para renomear arquivos; – Dual Text Aligner: alinha dois textos, possibilitando a sua comparação por períodos ou parágrafos; – Viewer: exibe o texto de origem. O programa permite a configuração para línguas diferentes, bem como a abertura de janelas com textos de diferentes línguas, o que facilita, por exemplo, a comparação de palavras cognatas. Conta, ainda, com menu de ajuda, que inclui uma introdução geral ao conjunto de recursos e instruções pormenorizadas com exemplos para cada um dos procedimentos do programa. Mike Scott lecionou no Programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada ao Ensino de Línguas (LAEL) da PUC/SP durante os anos da década de 1980. De volta à Inglaterra, continuou mantendo vínculo com a PUC/SP por meio do projeto DIRECT – Development of International Research in English for Commerce and Technology, (http://lael.pucsp.br/ direct) –, criado em 1991 por convênio entre a PUC-SP/LAEL e a Universidade de Liverpool/AELSU, voltado à análise do discurso empresarial de relevo para o Brasil, oral e escrito, em língua portuguesa e em língua inglesa. Visita, com freqüência, o Brasil. Em função disso, o programa tem uso particularmente intensivo no LAEL, sendo seus principais disseminadores os professores Heloísa Collins,
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Leila Barbara e Tony Berber Sardinha, que o vêm utilizando desde sua criação, em pesquisas individuais e de equipe, com publicações nacionais e internacionais delas decorrentes, além de trabalhos de orientação de mestrado, doutorado e iniciação científica. Tony Berber Sardinha, PhD pela Universidade de Liverpool e professor do Departamento de Lingüística da PUC/SP e do LAEL, é especialista de renome em Lingüística de Corpus, usuário do programa desde o início e seu grande divulgador junto a colegas e alunos que desenvolvem pesquisas sob sua orientação. É com satisfação que, em seu relato, fala-nos da sua experiência de trabalho com o autor do programa: “(...) tive a felicidade de trabalhar com o prof. Mike Scott tanto no Brasil quanto em Liverpool, na Inglaterra (durante meu PhD)”. Berber Sardinha disponibiliza, em seu site – http://lael.pucsp.br/~tony –, vários textos de sua autoria que tratam do WS Tools e de como ele pode ser usado: Trazem noções introdutórias ao programa: – WordSmith Tools. Computers & Texts, 12: 19-21. Oxford, 1996. [tif] – Search tools for corpus exploration. I Encontro de Estudos de Corpus. São Paulo, USP, 1999. [pdf] – Usando WordSmith Tools na investigação da linguagem. DIRECT Papers 40. São Paulo, LAEL-PUC/SP / United Kingdom, AELSUUniversity of Liverpool, 1999, ISSN 1413-442x. – Using KeyWords in text analysis: Practical aspects. DIRECT Papers 42. São Paulo, LAEL-PUC/SP / United Kingdom, AELSU-University of Liverpool, 1999, ISSN 1413-442x. Trazem noções avançadas do programa: – O banco de palavras-chave. DIRECT Papers 39. São Paulo, LAELPUC/SP / United Kingdom, AELSU-University of Liverpool, 1999, ISSN 1413-442x. – Um ponto de corte generalizado para listas de palavras-chave. DIRECT Papers 41. São Paulo, LAEL-PUC/SP / United Kingdom, AELSUUniversity of Liverpool, 1999, ISSN 1413-442x. – A influência do tamanho do corpus de referência na obtenção de palavras-chave. DIRECT Papers 38. São Paulo, LAEL-PUC/SP / United Kingdom, AELSU-University of Liverpool, 1999, ISSN 1413-442x.
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Mostram aplicações do programa: – Semantic prosodies in English and Portuguese: a contrastive study. Cuadernos de Filología Inglesa, 9, 1: 93-110. Spain, Murcia, 2000. [pdf] – Word sets, keywords, and text contents – an investigation of text topic on the computer. DELTA, São Paulo, v. 15, n. 1: 141-9, 1999. [html] – Computador, corpus e concordância no ensino da léxico-gramática da língua estrangeira. In: As palavras e sua companhia: o léxico na aprendizagem das línguas, Leffa, V, 45-72. Pelotas, RS: EDUCAT, Universidade Católica de Pelotas, 2000. [pdf] Sob a orientação de Heloísa Collins, Leila Barbara e Tony Berber Sardinha, pós-graduandos do LAEL usaram ou vêm usando WS Tools para o processamento dos dados de suas dissertações e teses; as já concluídas estão disponíveis no site http://lael.pucsp.br. Relacionamos, a seguir, algumas delas: Alice Cunha de Freitas, Doutorado, América mágica, Grã-Bretanha real e Brasil tropical: um estudo lexical de panfletos de hotéis, 1997. Orientadora: Heloísa Collins. A pesquisa integra o Projeto DIRECT e situa-se no âmbito do Ensino de Línguas para Fins Específicos. Tem por principal objetivo descrever os padrões léxico-gramaticais de panfletos de hotéis produzidos no Brasil, Estados Unidos da América e Grã-Bretanha. O corpus assim constituído possibilitou uma análise contrastiva em função de contextos culturais diferentes, bem como do inglês como língua materna ou como língua estrangeira, a partir das informações obtidas pela aplicação dos recursos do WS Tools – palavras-chave, concordâncias e colocações. A observação de padrões léxico-gramaticais regulares e recorrentes permitiu estabelecer a configuração lexical do gênero Panfletos de Hotéis, ao lado de diferenças determinadas pelo fator sociocultural. Tais Bittencourt da Rocha Bressane, Mestrado, Construção de identidade numa empresa em formação, 2000. Orientadora: Heloísa Collins. Integrado ao Projeto DIRECT, o trabalho analisa, a partir de uma reunião administrativa, a construção de identidade numa empresa por meio de escolhas léxico-gramaticais. Para a atribuição de uma identidade para o grupo e para cada participante, o programa WS Tools foi utilizado no seccionamento topical (tópicos e subtópicos) e na busca de unidades léxico-gramaticais.
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Maria Eugênia Batista, Mestrado, E-mails na troca de informação numa multinacional: o gênero e as escolhas léxico-gramaticais, 1998. Orientadora: Leila Barbara. Inserido no Projeto DIRECT, o estudo tem por objetivo a análise dos aspectos léxico-gramaticais da linguagem veiculada em 203 mensagens eletrônicas em inglês, produzidas por funcionários de uma empresa multinacional do ramo eletroeletrônico e automação na comunicação interna com seus colegas na Europa, América do Norte e América Latina. Para a análise dos dados, adota-se a abordagem sistêmico-funcional de Halliday e os pressupostos metodológicos da Lingüística de Corpus a partir da aplicação do WS Tools. Na configuração do gênero e-mail de troca de informação, observaram-se aspectos das modalidades da linguagem escrita e falada, formal e informal. Maria Silvia Fernandes da Silva, Mestrado, Análise lexical de folhetos de propagandas de escolas de línguas e as representações de ensino, 1999. Orientadora: Leila Barbara. Vinculado ao Projeto DIRECT, em um corpus constituído de 79 folhetos, o estudo analisa o discurso de propagandas de escolas de línguas, com a intenção de verificar a sua visão do processo de ensino-aprendizagem. As informações obtidas pela aplicação do WS Tools são analisadas com base nos pressupostos teóricos de Halliday. Marcia Costa Bonamin, Mestrado, Análise organizacional e léxicogramatical de duas seções de revistas de informática, em inglês, 1999. Orientadora: Leila Barbara. A partir de um corpus constituído de artigos de revistas especializadas da área da Informática, o trabalho descreve, analisa e interpreta padrões de comunicação escrita do discurso jornalístico, com o objetivo de levantar suas características léxico-gramaticais. Para a análise dos dados, adota-se a abordagem sistêmico-funcional de Halliday. Os resultados da pesquisa oferecem contribuições para o ensino do inglês para fins específicos. Maria Cecília Lopes, Mestrado, Homepages institucionais em português e suas versões em inglês: um estudo baseado em corpus sobre aspectos lexicais e discursivos, 2000. Orientador: Tony Berber Sardinha. A pesquisa, vinculada ao Projeto DIRECT, investiga a organização lexical do discurso de homepages institucionais em português e suas versões em inglês. Os resultados fornecidos pela aplicação do programa WS
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Tools ao corpus de trabalho foram avaliados com base nos pressupostos teóricos da Lingüística de Corpus e da Análise do Discurso. Marli Aparecida da Silva Martins Beraldi, Mestrado, Uso de corpus computadorizado na identificação de inovações lexicais na língua portuguesa, 2001. Orientador: Tony Berber Sardinha. O objetivo da investigação consiste na identificação de inovações lexicais na língua portuguesa a partir da exploração de corpus eletrônico, composto por quatro anos de publicação do jornal Folha de São Paulo no período de janeiro de 1994 a dezembro de 1997. Adota-se a abordagem da Lingüística de Corpus e o programa WS Tools para o processamento dos dados. A pesquisa, que se baseia em estudos de caso, examina o emprego característico das inovações lexicais selecionadas e sua classificação quanto aos processos de formação de palavras. Dentre as inovações estudadas, destacam-se bug do milênio, aborrescente e quarenta e quatro palavras formadas através do sufixo –ódromo, como bumbódromo e fumódromo. Claudia Cecilia Blaszkowski de Jacobi, Mestrado, Lingüística de Corpus e ensino de espanhol a brasileiros: descrição de padrões e preparação de atividades didáticas (decir/hablar; mismo; mientras/en cuanto/ aunque), 2001. Orientador: Tony Berber Sardinha. Com base nos pressupostos da Lingüística de Corpus e através da utilização do programa WS Tools, o trabalho descreve a preparação e utilização de material didático para o ensino de espanhol a brasileiros. Estudam-se os padrões de decir/hablar/falar; mesmo/mismo e mientras/en cuanto/aunque, a partir dos quais se elaboram atividades didáticas baseadas em concordâncias. Venilton A. Santos, Doutorando, CNPq, A fraseologia de livros de informática e de processamento de dados: um estudo baseado em corpus. Orientador: Tony Berber Sardinha. A sua pesquisa, que objetiva descrever a fraseologia de livros de informática e de processamento de dados, insere-se num projeto mais amplo de estudo da organização léxico-gramatical de livros desses campos. Alguns pesquisadores da FFLCH/USP vêm, também, fazendo uso do WS Tools em seus estudos: Sandra Regina Turtelli, Profª de Língua Inglesa da UNESP de Bauru e Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística da FFLCH/USP, sob nossa orienta232

ção, também vem fazendo uso do WS Tools para o tratamento computacional dos dados de suas pesquisas. Sandra foi aluna de Mike Scott em duas disciplinas do curso de mestrado do LAEL, Projetos e processos em lingüística aplicada, em 1988, e Tópicos de descrição de línguas – Análise do Discurso, em 1989, tendo, também, assistido à palestra que ele ministrou – A text focus for corpus analysis – nas Segundas do LAEL, em 1996. Utilizou o programa WS Tools pela primeira vez, em 1994, na disciplina Metodologia de pesquisa: questões teóricas e aplicadas a três momentos do processo de pesquisa, ministrada por Heloisa Collins, LAEL. A sua tese de doutorado, Estudo de um evento esportivo numa abordagem sócio-léxico-computacional, em fase de conclusão, objetiva analisar o léxico utilizado por mídias eletrônicas – duas emissoras de rádio e duas de televisão das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro – na transmissão de um evento esportivo – uma partida de futebol – e a forma como essas mídias constroem a realidade social daquele evento através do discurso de seus narradores. As diretrizes teóricas e metodológicas são da Lingüística de Corpus e da Sociologia (Berger & Luckmann). Desenvolveu, também, o trabalho Análise lexical de textos em inglês da área de Arquitetura, apresentado à CPRT da UNESP em 1997. Inserido na área de aplicação de corpora ao ensino de línguas, o estudo apresenta insumos provenientes do uso de metodologia computadorizada – Lingüística de Corpus – como mais um auxílio ao professor no ensino/ aprendizagem de língua estrangeira. No processamento dos dados do corpus de estudo, composto por sete artigos científicos da área de arquitetura que fazem parte dos Anais do Seminário Internacional Nutau/96, da FAU/USP, utiliza o WS Tools para a geração dos seguintes produtos: estatística descritiva de cada texto; lista de palavras-chave (key-words) de cada texto; lista de palavras chave-chave e concordância de palavras de busca em cada texto. Está, ainda, em andamento, o trabalho Um estudo em textos da área de Relações Públicas com auxílio de computador, também inserido no âmbito da pesquisa baseada em corpus, mediante o emprego do WS Tools para o processamento dos dados de um corpus composto por textos em língua inglesa da área de Relações Públicas. Seu objetivo é estudar o vocabulário específico da área de Relações Públicas e realizar um levantamento de campos lexicais e semânticos, utilizando o produto final para preparação de material didático.
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Stella Esther Ortweiler Tagnin, Profª Associada do Departamento de Letras Modernas da FFLCH/USP, área de Língua Inglesa e Literaturas Inglesa e Norte-Americana, tomou conhecimento do WS Tools no congresso Practical Applications in Language Corpora – PALC ‘99, Polônia. Vem fazendo dele uso recente em pesquisas com alunos do Curso de Especialização em Tradução. Em corpora de duzentas mil palavras de diversas áreas, em inglês e em português, construídos pelos alunos, a ferramenta Wordlist é utilizada para a extração de termos “diferenciados”. O programa Stablex (Toulouse, Teknea, 1991), para Macintosh, desenvolvido especialmente para aplicações lingüísticas – indexação, tratamento estatístico, extração de seqüências e concordâncias e criação automática de dicionários –, foi criado por André Camlong e Thierry Beltran no Laboratório de Inteligência Artificial do Centre de Recherches Ibériques Contemporaines – CRIC – da Universidade de Toulouse II (Le Mirail): STA – de statistique, TAB – de tableaux, LEX – de lexique e T...EX – de texte). É compatível com programas disponíveis para processamento de textos, banco de dados, planilha eletrônica e editoração, tais como Word, Excel, Hypercard. Estendemo-nos mais na parte dedicada ao Stablex e aos pesquisadores que o utilizaram ou que o vêm utilizando em suas investigações, não por privilegiarmos um programa em detrimento do outro, mas pela oportunidade que tivemos de melhor conhecer o Stablex e o método de análise de textos para o qual serve de ferramenta e, conseqüentemente, pelos usos que deles vimos fazendo em nossas pesquisas, bem como pelas orientações e assessorias que vimos prestando para suas aplicações em diferentes corpora e áreas. O programa Stablex, em sua versão 2.0, compõe-se de quatro módulos complementares: (TurboStab, Table, Extraction, Hyperdico) e de três pastas (Lexiques, Transit, Historiques). Há, ainda, a MacroStab: uma pasta (onde estão as macros) que acompanha o programa e que funciona com o Excel, facilitando um conjunto de operações. Cada um dos módulos destina-se a tarefas específicas: – TurboSTAB – realização de léxicos: levantamento exaustivo do vocabulário e elaboração automática de dois léxicos, um em que os vocábulos são classificados por ordem alfabética e outro, por ordem de freqüência decrescente, acompanhados de suas ocorrências no corpus e nas variáveis do corpus;
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– TABLE – preparo de dados para a análise estatística: confecção automática de Tabelas de Distribuição de Freqüências – TDF –, que fornecem o “status” da população lexical, sistematicamente convertidas em Tabelas de Desvios Reduzidos – TDR –, que põem em evidência o conjunto dos traços característicos da distribuição; – EXTRACTION – levantamento de seqüências: extração automática das seqüências textuais ou das concordâncias relativas a cada vocábulo ou radical, respeitando-se a ordem de ocorrência no texto; – HYPERDICO – manipulação e consulta de dicionários: criação automática dos dicionários desejados, com a possibilidade de enriquecê-los e manipulá-los à vontade. A análise quantitativa de textos – ponto de partida para a análise qualitativa – é fornecida pelos dois primeiros módulos e por programas de análise estatística que aceitam arquivos no formato ASCII. O desenvolvimento completo das operações com um perfeito encadeamento dos módulos permite a análise lexical de um texto e a confecção de dicionários. Destaca-se o fato de o programa ter sido desenvolvido em função do método matemático-estatístico-computacional de análise de textos de André Camlong, descrito na sua obra Méthode d´analyse lexicale textuelle et discursive (1996): utilizando técnicas computacionais de última geração, o método integra fundamentos lingüísticos, matemáticos e estatísticos, a partir dos quais propõe novas perspectivas de análises do discurso. Trata-se, pois, de um método que põe ferramentas informáticas, matemáticas, estatíscas e gráficas a serviço da descrição de léxicos e de textos e da análise do discurso, algumas vezes corroborando, outras corrigindo e orientando nossa leitura do texto. Em publicação em co-autoria com Camlong (2002, no prelo), enfatizamos que “as propostas do método estão fundadas na Análise do Discurso: a análise dos textos parte das relações internas, ou seja, das relações entre os elementos lexicais, e o conhecimento da constituição lexical dos textos remete ao próprio discurso”. André Camlong, de formação filosófica, lingüística, matemática e estatística, é Professor Titular na Universidade de Toulouse II e Diretor no CRIC, Maison de la Recherche, da mesma universidade. Desde 1994, a partir de visita de colaboração à FFLCH/USP, a nosso convite e através de auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, vem prestando assessoria a pesquisadores brasileiros na utilização do programa e do método de sua autoria.
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A visita de Camlong incluiu a ministração do Curso Análise Computacional de Textos (FLL 820, aprovado pela Câmara de Pós-Graduação em 02/08/1994, com oferecimento de quatro créditos) junto ao Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística, no período de 26 de setembro a 15 de outubro de 1994, a assessoria a projetos de pesquisa e seminários. O seu programa de visita estendeu-se à Pontifícia Universidade Católica de Campinas por iniciativa de Geraldina Porto Witter, então Pró-Reitora de Pós-Graduação. As atividades desenvolveram-se em ambiente de informática, em sala equipada com três computadores da plataforma Macintosh, quadra 605 4/160, cedidos, por empréstimo, pela APPLE Latin America, por intermédio do Sr. Tomas Fischer, Assessoria de Comunicação, e abordaram as fases indispensáveis ao domínio da técnica informática e estatística em relação com a análise lingüística. Delas participaram dezesseis pesquisadores, entre docentes e pós-graduandos (docentes: Maria Adélia Ferreira Mauro, Masa Nomura e Zilda Maria Zapparoli; pós-graduandos: Alessandra Sallum, Christiane Michaela Balluff, Edna Camille Blumenschein, Edson Luiz de Oliveira, Elisabete Aparecida Damasceno da Cunha, Elizabeth Harkot de La-Taille, Elizabeth Young Chin, João Martins Ferreira, José Maurício T. Ferro Costa, Marcelo Adolfo Teixeira da Silva, Márcio Azevedo Vianna Filho, Maria Beatriz Fairbanks de Sá, Maria Cristina Pereira da Cunha Marques). Maurício Pereira Nunes, analista de sistemas do Centro de Informática da FFLCH/USP, prestou apoio técnico ao professor, com o intuito de adquirir os conhecimentos necessários para dar assessoria ao uso do programa por outros pesquisadores. O professor, em sua visita, abriu possibilidades de intercâmbio para formação e reciclagem de pesquisadores nos laboratórios de que faz parte, o que se concretizou, até o momento, para três dos participantes do curso – João Martins Ferreira, Maria Adélia Ferreira Mauro e Zilda Maria Zapparoli –, além de duas outras pesquisadoras – Daniela Fregonese Bragazza, apresentada por João Martins Ferreira, e Letícia Lessa Mansur, por nós. Apresentamos, a seguir, pesquisadores que vêm utilizando o método matemático-estatístico-computacional de análise de textos de Camlong para a descrição e análise da tessitura lexical, textual e discursiva de línguas naturais em função de diferentes interesses de estudo. Iniciamos com o nosso relato. Somos Profª Associada Aposentada e Profª Orientadora do Curso de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística
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Geral do Departamento de Lingüística da FFLCH/USP e pesquisadora do CNPq com Bolsa de Produtividade em Pesquisa desde 1991. A nossa trajetória na utilização de recursos computacionais para os estudos do léxico é bem anterior ao conhecimento de Camlong. Há cerca de trinta anos, a partir de quando iniciamos as nossas investigações com vistas ao doutoramento, desenvolvemos pesquisas na área de Lingüística Informática, mediante a utilização de recursos da Informática no armazenamento, processamento e recuperação de informações lingüísticas. Para a tese de doutoramento – cujos dados foram processados em computadores de grande porte, quando não contávamos com programas especiais de análise lingüística, conforme já mencionado no início deste artigo –, a partir de uma pesquisa de campo desenvolvida no Estado de São Paulo – Capital e duas regiões do interior do Estado, Campinas e Itu –, num total de 216 informantes e de 54 horas de gravação, gerou-se um Corpus Informatizado do Português Falado do Brasil (variante paulista), com a constituição de um Banco de Informações Lingüísticas, Ortográficas e Fonéticas. No arquivo-base, com cerca de 180.000 registros, todos os dados de cada um dos informantes que forneceram material lingüístico para análise são apresentados pela ordem de registro de gravação e estruturados conforme variáveis extralingüísticas controladas na sua seleção (região de origem, sexo, escolaridade, faixa etária e nível socioeconômico) e variáveis lingüísticas relativas às especificidades da língua falada. Diante das inúmeras possibilidades de recuperação das informações contidas nesse Banco, geraram-se diferentes Dicionários de Freqüência do Português Falado em São Paulo. A título de exemplificação, citamos: – Dicionário Ortográfico-Fonético dos Informantes: em ordem alfabética de transcrição ortográfica, as unidades lexicais do universo lingüístico objeto de estudo são apresentadas com as suas diferentes realizações fonéticas. A transcrição fonética é acompanhada por sua divisão silábica com marcação do acento de intensidade. Anotam-se a freqüência total de cada realização fonética e a freqüência parcial e acumulada da transcrição ortográfica correspondente. Este dicionário revela não só as palavras mais freqüentes da língua, como também a realização fonética mais freqüente de cada unidade lexical; – Dicionário de junturas intervocabulares: resultante de um exame dos encontros fônicos que se dão na juntura lexical, ou seja, nos limites de duas ou mais fronteiras de palavras, contém a transcrição ortográfica
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das ocorrências vocabulares de juntura e a correspondente transcrição fonética silábico-lexical, sendo a sílaba realçada marcada por um apóstrofo subseqüente. Está classificado por categoria de juntura, tonicidade das sílabas intervocabulares, ordem alfabética de segmento final de vocábulo por segmento inicial. As freqüências do relatório são apresentadas por ocorrência de cada seqüência vocabular. O trabalho Lexicografia Computacional, como parte da tese, foi apresentado no XVII Congresso Nacional de Informática da SUCESU (Sociedade de Usuários de Computadores e Equipamentos Subsidiários), Rio de Janeiro, e publicado em Anais (Zapparoli: 1984), tendo sido selecionado entre os dezoito melhores do evento. Como membro do Projeto NURC/SP – Projeto de Descrição da Norma Culta do Português Falado em São Paulo –, procurando tornar acessível aos pesquisadores do Projeto uma amostragem do material gravado em suporte eletrônico, em 1993 e 1994, informatizamos o corpus mínimo oral do Projeto, conforme transcrito e publicado em três volumes: Elocuções Formais (seis inquéritos), Diálogos entre Dois Informantes (seis inquéritos), Entrevistas – Diálogos entre Informante e Documentador (nove inquéritos). A partir desse corpus e aplicando o método de Camlong, passamos a desenvolver estudos sobre a análise lexical e a estrutura discursiva do português falado culto de São Paulo, que incluem: constituição de vocabulários de freqüência e de tabelas de distribuição de freqüências (cálculo aritmético – tratamento quantitativo); constituição de vocabulários preferenciais, normais e diferenciais a partir de tabelas de desvios reduzidos (cálculo algébrico – tratamento quantiqualitativo); aplicação de testes estatísticos (normalidade de distribuição, correlação, entre outros); geração de fichas eletrônicas para diferentes objetivos de análise. Além de responsável pela visita de colaboração de Camlong em 1994, de 5 de janeiro a 4 de fevereiro de 1997 e de 29 de janeiro a 27 de fevereiro de 1998, estagiamos no CRIC, a seu convite. O estágio possibilitou-nos o aperfeiçoamento do uso de métodos, técnicas e programas especiais de tratamento e análise matemático-estatístico-computacional de textos, para: de um lado, transferir a experiência adquirida, como agente multiplicador, junto a curso de pós-graduação que ministramos já no primeiro semestre de 1998; de outro, efetuar tratamento de amostras do corpus do Projeto NURC/SP, objeto do projeto de pesquisa de Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq.
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Por acreditarmos na contribuição do método para a atualização e o aperfeiçoamento da teoria e análise lingüística e para cumprirmos a função de transferir a experiência adquirida, após nosso primeiro estágio em Toulouse, criamos, em 1997, e passamos a coordenar o Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Novas Perspectivas de Análises do Discurso, integrado por docentes e pós-graduandos da USP, que passaram a aplicar o método na análise de diferentes tipologias de textos (orais, escritos, técnicos, literários, jornalísticos, publicitários, patológicos) para diferentes finalidades (ensino, pesquisa, diagnóstico). Em 1997, tivemos o texto Considerações sobre a utilização de novas tecnologias na análise do léxico do português falado culto de São Paulo publicado no livro O Discurso Oral Culto, organizado por Dino Preti e editado pela Humanitas FFLCH /USP. Na disciplina de pós-graduação A utilização de Novas Tecnologias na Lingüística (FLL 5015-1), que ministramos no Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral, Departamento de Lingüística da FFLCH/USP, no 1º semestre de 1998, os alunos puderam, em função de seus projetos de pesquisa, desenvolver a análise de diferentes tipologias de textos através da utilização do método de Camlong. Participaram do curso: Abner José de Almeida, Cynthia Aparecida Patrício da Silva, Maria Cristina Hennes Sampaio, Maria do Perpétuo Socorro Cardoso da Silva, Monika Palkoski Scheffelmeier, Renné Panduro Alegria, Sandra Regina Turtelli, Ubirajara Inácio de Araújo. Visto que o foco do curso foi a aplicação do método de Camlong mediante o uso do programa STABLEX, o curso só se viabilizou dada a disponibilidade da Profª Drª Sueli Mara Soares Pinto Ferreira, então coordenadora do Núcleo de Informática em Comunicações e Artes (NICA) da Escola de Comunicações e Artes da USP, em ceder a Sala Macintosh do NICA. As atividades contaram com a assessoria técnica da analista de sistemas Katia Cristina Pinto. Anunciamos, ainda, a publicação, em breve, do volume Do léxico ao discurso pela Informática, no prelo pela EDUSP / FAPESP, em coautoria com André Camlong. O volume aborda a aplicação do método na análise lexical, textual e discursiva do português falado culto de São Paulo. Além da tarefa de divulgação do embasamento teórico do método, o trabalho pretende disponibilizar a descrição lexical resultante da aplicação do método como materiais de estudo para finalidades diversas, portanto, materiais para estudos do português falado não na forma de dados, mas já como
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resultados de uma análise preliminar. Assim sendo, as tabelas, elaboradas a partir do tratamento e análise dos textos objetos de estudo, serão divulgadas na forma de livro, acompanhado de CD-ROM. A publicação das tabelas em CD-ROM facilitará aos estudiosos o acesso às informações, que poderão ser manipuladas em função de seus objetivos de estudo a partir de programas de uso geral, como o Excel. Com esse volume, inicia-se a publicação da Série Lingüística Informática, com o intuito de divulgar não somente outros trabalhos que aplicam o mesmo método em diferentes corpora e em diferentes áreas, mas também outras aplicações que se situam na interação Lingüística e Informática. Maria Adélia Ferreira Mauro, Profª Drª Aposentada e Profª Orientadora do Curso de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística da FFLCH/USP, a convite de Camlong, realizou estágio no CRIC, em âmbito de pós-doutorado, no período de 6 de janeiro a 4 de fevereiro de 1997. O estágio incluiu a participação no Seminário Intensivo de Análise Computacional e Discursiva, com o objetivo principal de discutir os princípios fundamentais que orientam o método de análise lexical, textual e discursiva e a sua aplicação a um corpus constituído por editoriais de dois jornais paulistas – OESP (O Estado de São Paulo) e FSP (Folha de São Paulo) –, repartidos em oito grupos de “textos”, quatro para cada jornal, com vistas ao tratamento da argumentação. A escolha dos editoriais para análise foi determinada pelo tema eleições na época das eleições presidenciais de 1989. A estrutura temática do discurso dos editoriais foi estudada com base na determinação da normalidade da distribuição das variáveis, na análise da estrutura do léxico global e do léxico das oito variáveis, no teste de correlação das variáveis segundo os períodos de publicação dos editoriais e na aplicação da técnica da lematização e da extração de seqüências. Isso permitiu observar o comportamento de cada texto no interior de seu próprio grupo e em relação aos demais do outro grupo, segundo os princípios de que “as operações estatísticas se desenvolvem e se encadeiam de maneira lógica e coerente: tudo parte do texto e tudo volta ao texto” (Camlong, 1996: 22). Letícia Lessa Mansur, Profª Drª do Curso de Fonoaudiologia – Graduação e Pós-Graduação – da Faculdade de Medicina da USP, vem aplicando o método de Camlong na avaliação de aspectos lexicais e discursivos da linguagem de pacientes com demência do tipo Alzheimer (DA).
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No relato que nos enviou, Letícia conta-nos que o seu primeiro contato com o método de análise de Camlong foi pela leitura do texto de nossa autoria Considerações sobre a utilização de novas tecnologias na análise do léxico do português falado culto de São Paulo (Zapparoli, 1997: 15173):
A par do caráter de modernidade da tecnologia, chamou-me a atenção a possibilidade de aplicação para análise de discursos em lesados cerebrais e o destaque dado ao léxico como chave para penetração no texto. No desenvolvimento de meus estudos sobre o discurso de indivíduos com demência de Alzheimer, afásicos e outras alterações da comunicação de etiologia neurológica, deparei-me freqüentemente com publicações que enfatizavam aspectos lexicais. Em algumas dessas doenças, de cunho degenerativo, enfatizavam, como principal perda de linguagem, característica desses pacientes, a dissolução do conhecimento semântico.

Letícia introduziu-se, então, no conhecimento do método e na sua aplicação através do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Novas Perspectivas de Análises do Discurso. Alguns ensaios de análise motivaram-na a aprofundar os conhecimentos diretamente na fonte. A convite de Camlong, realizou estágio no CRIC, com auxílio da FAPESP, no período de 17 de janeiro a 17 de março de 1998, para tratamento do corpus mínimo de seu projeto de estudo dos discursos patológicos. Chegando ao Brasil, aplicou o método na análise do léxico de idosos e de indivíduos com DA, com o objetivo de caracterizar o desempenho de indivíduos com DA em situações de produção discursiva com graus diversos de restrição e de indução à produção lexical. Expôs os resultados de suas experiências no artigo Aplicação de tecnologia na avaliação da linguagem de pacientes com demência do tipo Alzheimer: aspectos lexicais e discursivos, publicado em co-autoria (Mansur, 1998: 122-32), e na sessão de comunicação coordenada Método Matemático-Estatístico-Computacional de Análise de Textos do I ENAPOLINF (Mansur, 2001: 28-9). Letícia enfatiza que
o Professor Camlong considera o método de análise estatísticocomputacional absolutamente vinculado a pressupostos de análise de discurso, cujas bases foram expressas de forma completa entre os pensadores gregos Aristóteles e Platão e filósofos de Port-Royal, em que

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se podem verificar as bases para estudos semióticos contemporâneos. Sem eles, o método computadorizado torna-se “mera manipulação” de comandos do software. Ressalta ainda que o método de análise estatística toma dados numéricos do léxico, os quais não têm nenhuma existência em si mesmos, estando diretamente relacionados aos vocabulários e aos textos de onde provêm, que constituem a referência para toda a análise.

Conclui o seu relato, salientando as vantagens do estudo computadorizado na área de lesados cerebrais:
rapidez, possibilidade de estudo de grande número de dados, organização dos dados segundo critérios que combinam pressupostos lingüísticos, estatísticos e computacionais. Sua aplicação à área de lesados cerebrais pode evoluir para o auxílio de diagnósticos e possivelmente aplicações em terapias de linguagem.

João Martins Ferreira, Prof. Dr. do Curso de Informática da Universidade Ibirapuera e da Fundação Instituto Tecnológico de Osasco, vem utilizando o método de análise de textos de Camlong especialmente para estudos literários. Merece destaque o seu doutorado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, com a tese O Discurso de Fernando Pessoa em Mensagem, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH/USP, 2000, em que aplica o método em escritos do poeta português, reunidos em Mensagem,
buscando as palavras-chave que direcionam seu discurso na totalidade da obra, a partir das quais é possível a sistematização do discurso em duas estruturas semióticas de relações lógicas, que demonstram a rede de tensões dialéticas, no aspecto dos símbolos, que fundamenta o livro. (Martins Ferreira, 2001: 24)

A leitura de sua tese é um bom exemplo de como o analista, a partir do levantamento e análise dos campos temáticos que fundamentam o discurso, pode interpretar os apontamentos exatos fornecidos pelo método e, por conseguinte, da contribuição da Informática para os estudos literários fundamentados na investigação do léxico. Cabe acrescentar que as aplicações que Martins Ferreira faz do método não se restringem ao discurso literário, nem mesmo à linguagem verbal: aplicou-o, também, com êxito, à linguagem musical. Transcrevemos Memórias de Martins Ferreira, que constam do relato que nos enviou, às quais chama de Captando o Capitólio – um elogio e
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um agradecimento a Toulouse (La Ville Rose) que nos acolheu e ao Mestre que nos deu a mão para o aprendizado do método:
“-Alô! Por favor, eu gostaria de informações sobre o curso de Análise Computacional de Textos, da Pós-graduação.” Foi assim, num simples telefonema ao Centro de Informática da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, no ano de 1994, que comecei a ter contato com tecnologias avançadas na área de Informática e com métodos sofisticados na área de Lingüística. Mal sabia naquele instante (aliás, nem me preocupava com isso) que, então, iniciava uma longa, trabalhosa e fascinante pesquisa que me levaria à França, em 1995, e faria com que eu conquistasse, ou intensificasse, ricas amizades durante os anos seguintes. Solicitaram-me que aguardasse, pois a professora doutora Zilda Maria Zapparoli, diretora do Centro de Informática, iria me atender e esclarecer a respeito. E assim foi. Desse modo, vi-me sentado numa sala de aula, operando com computadores Macintosh, adentrando por um mundo novo para mim: os números, em suas mais elevadas aplicações. Um professor simpático, muito inteligente e impaciente começava a nos falar em português, com um forte sotaque francês: André Camlong. Era difícil para alguns alunos acompanhar a profundidade de sua linha de raciocínio, que articulava as mais diversas fontes do conhecimento e da sabedoria humanas. Apesar de, a princípio, parecer tudo muito confuso, comecei a dar meus primeiros passos pelos caminhos da Estatística. Guiado pelas mãos daquele grande mestre, confiando nele, associando tudo o que ele explicava, ou exemplificava, com aquilo que eu já conhecia em técnicas de composições musicais (contraponto) e de construções de textos literários. O convívio intenso e breve com o mestre mostrou-me que os números não eram algo demasiadamente assustadores, que a Matemática e a Estatística conversavam com a Filosofia, com o Grego, com as Artes e assim por diante. Acabei fazendo um ótimo curso, atingindo conceito máximo, o que me valeu um convite de Camlong para aperfeiçoar meus estudos nas técnicas do método de análise de textos desenvolvido por ele na Universidade de Toulouse II. (...) Em 1995 viajei com um grupo de apicultores do Brasil para participar do Congresso Mundial de Apicultura na Suíça. Na agenda, o compromisso de ficar durante um mês em Toulouse, estudando o método e pesquisando textos de Mário de Andrade. A seguir, três meses em Lisboa, estudando Fernando Pessoa, tema de minha tese de doutorado. O contato com Camlong e com a cultura européia não poderia ter sido mais produtivo. (...) Quando cheguei a Toulouse, vindo de Paris, pelo TGV, ele havia providenciado antecipadamente minha reserva em um

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hotel bastante econômico. (...) No momento, fatigado pela viagem, não captei, mas Camlong hospedara-me defronte ao Capitólio – imponente prédio da cidade –, no Hotel du Grand Balcon, de propósito: era no centro, perto de tudo, perto da “História” e, principalmente, perto da “Literatura”, pois fora ali a moradia de Saint-Exupéry, criador da obra Le petit prince. (...) Chegou o dia de minha partida. (...) Fui para Lisboa e me dediquei totalmente aos estudos pessoanos. Minha mente estava fatigada pelos números, mas havia descoberto preciosidades nos textos de Mário de Andrade analisados por meio do método, que me era, agora, bem mais familiar. Retornando para o Brasil, apliquei esse método de análise de textos de Camlong em textos de Fernando Pessoa e fui explorando as resultantes. Somei-as a todo o material recolhido em Portugal. Refleti sobre o assunto. Pesquisei mais e mais. Escrevi e concluí com êxito minha tese sobre O discurso de Fernando Pessoa em ‘Mensagem’, em 2000, na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. (...) Após esses anos de estudos, aprendizados e pesquisas pessoais incessantes, em que novos programas computacionais voltados ao estudo de textos foram surgindo e, sumariamente, por mim analisados, pude, cada vez mais, constatar a qualidade excelente do método criado por André Camlong. Independente de seu caráter, de sua personalidade inconfundível, autêntica, ou da admiração, gratidão e respeito pessoais que tenho para com sua pessoa, afirmo que desconheço qualquer método que tenha ido tão longe e que seja tão preciso e eficiente como o dele. Sua proposta não é apenas de um programa que roda em uma máquina, mas, sim, trata-se de um método do qual o programa computacional é um dos elementos integrantes. Portanto, ela é abrangente, lógica, inteligente, profunda e eficiente e, por isso tudo, também muito complexa, o que dificulta seu acesso imediato por muitos interessados. (...)

Martins Ferreira vem divulgando o método e suas aplicações em publicações, congressos latino-americanos, seminários internacionais, palestras em diversas universidades brasileiras e para colegas das áreas de Letras e Lingüística. Maria Cristina Hennes Sampaio, Profª Drª do Departamento de Letras, Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, utilizou o programa Stablex e, pois, o método de Camlong, para o tratamento dos dados de sua tese de doutorado Democracia, cidadania e produção de um espaço público democrático em tempos de globalização:
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práticas discursivas entre Estado-Sociedade no movimento grevista da educação em Pernambuco (1987-1990), 2002, Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística da FFLCH/USP, sob a orientação da Profª Drª Elisabeth Brait. Cristina conheceu o método de Camlong através da disciplina Utilização de novas tecnologias na lingüística, por nós ministrada em 1998. Naquela oportunidade, deparava-se com o problema de como processar o tratamento do extenso corpus discursivo de seu projeto de pesquisa de doutorado. Anteriormente, já havia trabalhado com um programa de processamento de textos que não incluía análise estatística. Interessou-se pelo método de Camlong pelos seus pressupostos teóricos de tratamento quantiqualitativo de dados lexicais, textuais e discursivos cientificamente descritos. Como trabalho de final de curso, aplicou o método a uma pequena amostra de seus dados, cujos resultados favoráveis a levaram a adotá-lo para o tratamento integral dos corpora de sua pesquisa. Na tese, estuda os significados de práticas discursivas de três atores sociais – o governo do estado de Pernambuco de Miguel Arraes, o movimento sindical dos trabalhadores em educação e a mídia –, inscritas em discursos institucionais sobre o movimento grevista dos trabalhadores em educação no estado de Pernambuco, na Nova República, no período de 1987-1990. Com base na abordagem quantiqualitativa, sua análise do discurso pressupõe duas dimensões, uma micro e uma macroanálise: a primeira, que inclui procedimentos de descrição, fornece pistas significativas para a segunda, ou seja, para o trabalho de interpretação do analista do discurso, no caso, para a análise dos significados das práticas discursivas dos três atores sociais objetos de estudo. Ouçamos diretamente Cristina através do relato que nos enviou, por julgá-lo particularmente importante para o reconhecimento da pertinência da abordagem teórica quantiqualitativa proposta por Camlong:
Em relação aos resultados quantiqualitativos observados, o que me impressionou foi o fato de os mesmos expressarem as relações de força (que por sua vez expressam as relações de poder entre frações de classes sociais) subjacentes às práticas discursivas dos atores em questão), o que sugere que a linguagem e, por conseguinte, o discurso, é uma entre outras formas de trabalho nas relações sociais de produção. Existe ainda um segundo aspecto interessante a salientar em relação aos resultados obtidos e que proporcionou uma dimensão nova e ex-

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tremamente interessante à análise e interpretação de meus dados. Até o exame de qualificação eu havia concluído a análise e interpretação de apenas uma amostra de dados, que pareciam evidenciar que, embora eu trabalhasse com três arquivos (governo, mídia e sindicato), os quais eu designava como “atores” do estudo em questão, na verdade tratava-se de apenas dois atores – governo e sindicato, com a mídia desempenhando apenas um papel secundário, de porta-voz. Essa foi a observação feita por um dos membros da banca, o professor Fiorin. Ao concluir a análise quantiqualitativa do restante dos dados, e com eles já em forma de gráficos, observei, em relação à mídia, uma tendência sempre negativa dos pesos observados em relação a todos os temas em estudo, quando comparados com os outros dois atores. O que isso significava? Essa dúvida levei comigo para a França. Lá encontrei muitos estudos discursivos interessantes sobre a mídia, bem como um livro de Habermas: Le space public. Voltei ao meu cap. 3 (Plano Experimental) e me dei conta de que a caracterização dos meus atores era insatisfatória, ou seja, eles se situavam em esferas distintas: o governo, relacionado ao Estado; o sindicato, à sociedade. E a mídia? Nem um nem outro. Voltei ao título do meu estudo: Relação Governo-Sindicato na Gestão Arraes: discursos públicos sobre a greve. Dei-me conta, no decorrer da análise e interpretação dos dados, de que os discursos circulavam em um espaço público, mas que esse público funcionava de forma diferente nas três variáveis em questão. Habermas me ajudou a refazer a questão conceitual. Voltei aos dados e juntei com a teoria. Só então vim a compreender que essa negatividade insistente em relação aos dados da mídia indicava uma dispersão, ou seja, a pulverização dos atores que compareciam (ou eram autorizados a comparecer) no espaço público midiático. Uma das conclusões às quais cheguei transcrevo abaixo: (...) observamos que o papel da Mídia consistiu muito mais em articular um jogo de poder na alteridade que constrói, ao inserir inúmeras vozes no discurso, e definir posições enunciativas e os papéis ocupados por cada um dos atores sociais envolvidos no espaço de interlocução do que propriamente captar e dar visibilidade aos interesses coletivos de ambos os atores, ampliando o debate com a troca de argumentos racionais em torno de questões substanciais do movimento grevista e da educação no estado, favorecendo o pluralismo de opiniões. Constatação que foi reforçada pelos dados quantitativos observados – relativos ao tratamento dispensado pela Mídia a diversos temas – os quais apresentaram, em sua quase totalidade, uma tendência marcadamente negativa em relação à escala de pesos. Essa negatividade reflete, conforme já vimos anteriormente em nossas análises, uma certa instabilidade na produção discursiva, ou seja, na forma como os múltiplos, diferentes e contraditórios sentidos são produzidos e veiculados pela Mídia ao público-leitor em função dessa pulverização de atores sociais

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e de suas respectivas comunidades discursivas nas quais se inscrevem interesses políticos e econômicos distintos e contraditórios. Ao organizar o espaço de interlocução entre diversas comunidades discursivas que lhe são exteriores, a Mídia instaura uma produção discursiva própria, com características particulares e, assim sendo, constitui-se, ela própria, não só em uma comunidade discursiva distinta e à parte, mas também constrói em seu entorno uma memória discursiva midiática. Daí que o corpus discursivo do arquivo institucional da Mídia ter nos permitido observar as características e as formas do intercurso social pelo qual o significado é realizado: a articulação sócio-discursiva inscrita nas condições de produção e de circulação temática dos sentidos dos discursos sobre o movimento grevista no espaço de uma memória discursiva histórica. Todas as considerações feitas em relação ao arquivo institucional da Mídia nos levam a concluir que as relações de poder (no presente estudo, sobretudo de poder político) que subjazem as condições de produção e de circulação temática dos discursos conduzem à produção de práticas discursivas controladas pelo espaço público midiático (Sampaio, 2002: 268-9).

Ubirajara Inácio de Araújo, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística da FFLCH/USP, sob nossa orientação, com trabalho já concluído, e professor do Curso de Letras da Universidade Ibirapuera, tomou conhecimento do programa Stablex em 1994, quando o Prof. Camlong ministrou curso na Universidade de São Paulo. Em 1998, freqüentou a disciplina de pós-graduação sob nossa responsabilidade; para trabalho de conclusão de curso, aplicou o programa ao corpus de sua dissertação de mestrado, com a intenção de confrontar os resultados obtidos nas duas análises. A grande proximidade dos resultados levou-o a adotar os pressupostos teóricos do método de Camlong e, pois, o programa Stablex, na sua pesquisa de doutorado, intitulada Análise do Sujeito numa abordagem léxico-discursivo-computacional sobre o discurso do trabalho, em que explora os sentidos que os sujeitos atribuem ao trabalho a partir da análise lexical de um corpus constituído de redações do Exame Supletivo de 1999, cujo tema foi O trabalho nos dias atuais. Ubirajara enfatiza que “a proposição e elaboração do método baseiam-se em otimizar os recursos das novas tecnologias. (...) Evitam-se, assim, as tradicionais análises impressionistas, subjetivas, dedutivas, tautológicas e arbitrárias” (Araújo, 2001: 27). Daniela Fregonese Bragazza, Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística
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da FFLCH/USP, sob nossa orientação, é bolsista do CNPq para o desenvolvimento do projeto de pesquisa Contribuições de um método matemático-estatístico-computacional para o estudo dos contos de Machado de Assis. Daniela conta-nos, em seu relato, como chegou a Toulouse para uma maîtrise na Universidade de Toulouse sob a orientação de Camlong:
Em 1991, após concluir o curso de Graduação – Bacharelado e Licenciatura em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo –, mudei-me para Stuttgart, Alemanha, com meu marido. Em 1996, recebemos a visita de um amigo, João Martins Ferreira, doutorando e ex-colega de turma na FFLCH. Sua ida à Europa relacionava-se a uma pesquisa que vinha desenvolvendo sobre Fernando Pessoa. Contou-me, entusiasmado, sobre sua estadia em Portugal e na França, bem como sobre os avanços de seus estudos. Nessa ocasião, João falou-me, também, sobre um método matemático-estatísticocomputacional inovador para o estudo de textos de diversas naturezas, com o qual havia trabalhado, incentivando-me a conhecer algumas novidades em nossa área. Fiz, então, o primeiro contato telefônico com o Prof. Dr. André Camlong, autor desse método e professor na Université de Toulouse le Mirail, que, muito atencioso e receptivo, forneceu-me todas as informações necessárias para que eu pudesse iniciar um curso nessa universidade. Assim, após outros contatos telefônicos, a preparação e o envio da documentação requerida, uma entrevista em Toulouse e a aprovação da Comissão Pedagógica, mudei-me para lá, onde fui recebida pelo Prof. Camlong e sua equipe. Tive, então, a oportunidade de iniciar, no Laboratório de Pesquisas Avançadas da Université de Toulouse, uma maîtrise sob sua orientação – Os contos de Machado de Assis: análise lexical e discursiva –, cujo principal objetivo foi a realização de uma pesquisa que se utilizou do programa Stablex como instrumento ou ferramenta de armazenamento, processamento e recuperação das informações textuais. O corpus, de natureza literária, constituiu-se de nove contos de Machado de Assis: O espelho, O alienista, O enfermeiro, Noite de Almirante, A cartomante, A causa secreta, Uns braços, Missa do Galo e Cantiga de esponsais. Além de freqüentar um curso de Pós-Graduação na Universidade, passava grande parte do tempo no Laboratório, com o Prof. Camlong e outros orientandos seus, onde me familiarizava com o método e discutia os resultados parciais da pesquisa.

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De volta ao Brasil, após aproximadamente um ano, com o intuito de dar continuidade à sua pesquisa, aprofundando o universo de análise dos contos de Machado de Assis, Bragazza ingressou, em 1999, no Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística da FFLCH/USP. Numa abordagem, por excelência, interdisciplinar, que inclui, do lado das Ciências Humanas, a Lingüística e a Literatura e, do lado das Ciências Exatas, a Matemática, a Estatística e a Computação, dedica-se ao estudo de um corpus constituído de oito contos de Machado de Assis: de Papéis Avulsos (1882), os contos D. Benedita e O espelho; de Histórias sem data (1884), os contos A senhora do Galvão e Singular ocorrência; de Várias Histórias (1896), os contos Uns braços e D. Paula; e, finalmente, de Páginas Recolhidas (1899), os contos Missa do galo e O caso da vara. Fazemos referência, ainda, à pesquisa coordenada pelo Prof. Dr. Alfredo José Mansur, Professor Doutor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: Expressão de Sintomas por Doentes com Insuficiência Cardíaca. Em fase inicial de desenvolvimento, o estudo busca avaliar, no contexto do tratamento médico atual, a expressão verbal da limitação física em portadores brasileiros de insuficiência cardíaca. A avaliação pressupõe o relacionamento de diferentes expressões verbais com indicadores clínicos e funcionais da função cardíaca e com a sobrevida. Os dados serão fornecidos por trezentos pacientes portadores de insuficiência cardíaca de grau avançado, atendidos no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, selecionados segundo variáveis clínicas e demográficas. O projeto, subsidiado pela FAPESP, conta com a participação de Roberto Iglesias Lopes, aluno de Iniciação Científica. Dele também participamos com a função de prestar assessoria no tratamento computacional dos dados pelo Stablex e na aplicação do método informatizado de análise de textos de Camlong. Para concluir o painel histórico sobre a análise informatizada do léxico no Brasil, lembramos que WS Tools e Stablex foram tema de sessões de comunicações coordenadas no I Encontro dos Alunos de Pós-Graduação em Lingüística Informática – I ENAPOLINF: Lingüística de Corpus, sob a coordenação de Tony Berber Sardinha, e Método Matemático-Estatístico-Computacional de Análise de Textos, sob nossa coordenação. O evento, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística da FFLCH/USP no dia 22 de outubro de 2001, abordou temas por excelência interdisciplinares, rela249

cionados a novas tecnologias na pesquisa lingüística: análise informatizada de textos, tecnologias interativas, Educação a Distância, aplicações em multimídia e análise fonética por computador. Nessa oportunidade, propusemos a Berber Sardinha, proposta aceita, um trabalho-conjunto de submissão de um mesmo corpus à análise pelos dois programas aqui contemplados – WS Tools e Stablex – para levantamento de seus pontos comuns, divergentes e complementares. Esperamos que esse trabalho possa constar de uma próxima retrospectiva sobre as análises informatizadas do léxico no Brasil.

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Ficha Técnica Divulgação Mancha Formato Tipologia Papel Impressão e acabamento Número de páginas Tiragem LIVRARIA HUMANITAS-DISCURSO 11 x 18,5 cm 14 x 21 cm Times New Roman e Gill Sans pólen soft 80 g/m2 (miolo) e cartão supremo 250 g/m2 (capa) PROVO DISTRIBUIDORA E GRÁFICA LTDA. 256 500

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