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Guillermo Borja

A LOUCURA CURA
Um manifesto psicoterapêutico
Prólogo de Cláudio Naranjo
OTOM 3KM
ÍNDICE
Prólogo 7
Post-scriptum, post-vitam 15
A loucura do terapeuta 17
Seu terapeuta cura você? 38
Tabus 69
Um toque de loucura 95
Os ingredientes da sopa 99
Notas de musicoterapia 106
Uma visão do somático 115
Faça-se, Senhor, a Tua vontade! 122
Epílogo 124
Memônio memórias 128
PRÓLOGO
Já tive ocasião de escrever sobre Guillermo Borja no
livro Gestalt sin Fronteras
1
, em que falo dele como sendo um
perlsiano
2
que não conheceu Perls, e como um digno re-
presentante do espírito da gestalt, apesar de se servir ape-
nas de suas técnicas, não se interessando por suas idéias.
Em outras palavras: é gestaltista principalmente por acredi-
tar que se pode fazer terapia por meio da fé na verdade vi-
vida e da coragem de ser aquilo que realmente se é.
Novamente cabe a mim escrever sobre ele. A ocasião
é altamente oportuna, pois não só fui testemunha do con-
texto no qual este livro foi concebido, como participei de
sua gestação.
Embora o livro seja de interesse e tenha valor para a
psicoterapia em geral, por expressar a maneira de se fazer
a conhecida terapia de Borja na Europa e na América La-
tina anos atrás, o que foi escrito nesta obra refere-se espe-
cialmente a uma situação vivida pelo autor durante seus
últimos quatro anos.
Mas a compreensão desses últimos anos de vida re-
quer um relato prévio. Quando conheci Borja, sua espe-
cialidade era a terapia com alucinógenos - em que teve a
oportunidade de formar-se com o Dr. Salvador Roquet,
com a famosa Maria Sabina
3
e com um misterioso xamã
1
Gestalt sin Fronteras. Ed. EraNaciente, Buenos Aires, 1993.
- Fr i t z Perls foi o criador da terapia gestáltica - talvez o recurso mais
poderoso da psicologia humanista.
• ^ A mpl ament e conhecida a partir do espetacular descobrimento por Was-
son (por i nt ermédi o dela) dos cogumelos "mágicos" do México.
Memonií
A LOUCURA CURA
ISBNl
huichol
4
chamado Oswaldo. Seu aprendizado teve lugar
na época em que os alucinógenos eram permitidos. Sabe-
mos que hoje a Organização Mundial da Saúde, fortemen-
te influenciada pela política americana, tem vetado seu
uso médico, e que a duras penas os indígenas conservam
sua liberdade religiosa.
Descendente remoto dos Borgia e uma espécie de
Robin Hood que não se detém muito diante de regras e
convenções quando se trata de ajudar seus semelhantes,
Borja continuou durante muitos anos celebrando, no dia
dos mortos - no deserto mexicano e em companhia de
um índio huichol -, uma cerimônia de peiote
5
, à qual
compareciam não só mexicanos, mas também europeus.
Entretanto, em novembro de 1990, foi detido e condena-
do a quatro anos de prisão. É irônico que uma pessoa do-
tada de tanta capacidade de curar fosse duramente casti-
gada por violação a uma lei relativa a "atentado à saúde".
Em minha primeira visita a Borja na prisão mexicana
sugeri a ele documentar sua experiência na reclusão, mas
ele sempre foi daqueles mais dados a atuar do que a falar
sobre aquilo que fazem. Nem incentivos de colegas italia-
nos que viajaram ao México para um congresso de gestalt,
ou de um editor que lhe oferecia publicação pareciam ter
qualquer eco. Ocorreu então que o Dr. José Aznar me pe-
diu que o colocasse em contato com um grupo de Carlos
Castaneda, e eu lhe sugeri que aproveitasse sua estada no
México para ajudar Borja em seu trabalho. O resultado de
sua disponibilidade foi a gravação do rascunho deste livro,
transcrito por um psicótico, sem pontuação nem ortogra-
fia, e logo corrigido por Felipe Agudelo. Embora inspira-
do na experiência carcerária, o livro é principalmente um
4
Huichol: grupo étnico, principalmente que habita o norte do estado de
Jalisco, México.
0
Peiote: tipo de cacto alucinógeno que cresce e é usado no México.
manifesto sobre os afazeres psicoterapêuticos, refletindo
sua vivência terapêutica e a experiência mais imediata de
atender os doentes mentais da prisão.
Parece-me faltar a esta introdução apenas uma visão
panorâmica do que Borja fez durante seus quatro anos de
cárcere. Melhor do que por mim, essas experiências po-
dem ser relatadas pelas próprias palavras de Borja, agora
em liberdade. Esse relato foi gravado há poucos dias, du-
rante sucessivos meios dias em que Borja me visitou, em
um albergue beneditino - entre Tepoztlán e Cuernava-
ca -, no qual eu dirigia um retiro.
"Fui convidado pela subdiretora a ajudá-la no trabalho com
os enfermos psiquiátricos, já que ela tem muito contato com a me-
dicina; ela é advogada, mas tem uma relação muito estreita com
os doentes. Convidou-me e disse que ia ser muito difícil. Era um
edifício abandonado com 72 psicóticos, desnudos e com infecções
no corpo, sem tratamento psiquiátrico; os poucos medicamentos
que tinham, vendiam a outros presos. (Parecia-me muito sadio
que não tomassem essas porcarias.) E andavam desnudos, peram-
bulando por todo o presídio. A população os violava, servia-se de-
les, colocava-os para lavar a roupa. Não tinham proteção dos
guardas; os médicos não compareciam, a área de psicologia tinha
medo, e esse edifício tinha o mais alto índice de violência, de suicí-
dios e de mortes. Em cada cela, destinada a uma pessoa, viviam
quatro. Não havia água. Todo o edifício estava pintado com ex-
cremento. Então, quando vi isso, pensei: Minha Mãe Puríssima!
O que é isto
1
? Era um manicômio do século XVI. Ali, só não se
aplicavam os eletrochoques, pois não havia aparelhos.
Chiando cheguei não havia nem vidros, era uma coisa hor-
rorosa. Então vi como estava aquilo e me sentei na porta, diante
da situação desconcertante. E o que eu vou fazer por aqui
1
? O que
se faz nesses casos ? E sentei-me por um mês à porta
>
depois de deci-
dir: não vou entrar até que meu medo passe. Fiquei trabalhando o
medo e tardei um mês. Quando entrei, eu tinha, no começo, muito
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10 A LOUCURA CURA!
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e como
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medo de que me assassinassem. Os loucos não têm inibições dessel
tipo. Chiando comecei a trabalhar ali, não conhecia ninguém,l
não sabia seus nomes. Pensei: a única coisa que posso fazer - e\
não sei se é psicoterapia - é banhá-los, cortar-lhes o cabelo. Man-í
dei comprar uma máquina. O primeiro gesto para com qualquerí
ser humano é limpá-lo; quebrei navalhas ao cortar-lhes o cabeloA
não sei o que tinham. Mandei trazer uma navalha própria pa-\
rã cachorros, e essa funcionou. Qiieria tirar-lhes os piolhos. Osl
loucos estavam loucos e pelados pareciam mais loucos, declara-l
dos, de manicômio. Depois, passei a banhá-los, cortar-lhes asl
unhas dos pés, das mãos, e comecei a fornecer roupas para eles:l
cuecas, sapatos...
Era muito apoiado pela subdiretora. Essa senhora realmentel
me apoiou muitíssimo. O trabalho começou a aumentar e eu nãoí
dava conta de tanta gente. Imaginei uma equipe de apoio. Era\
muito bonito pensar que surgiriam pessoas para me apoiar, masi
não compareceu ninguém. Pensei que a patologia canalizada po-l
dería se tornar pedagogia. Foi quando mais usei o eneagrama
6
. Al
pessoa, tendo uma atividade adequada ao seu tipo depersonaü-\
dade, iria produzir bons resultados; e assim o fiz. A cada tipo ial
condicionando atividades. Os emocionais eram voltados para ati-l
vidades artísticas, expressão corporal, música, dança, teatroA
criatividade, poesia; os intelectuais eram os professores, encarre-\
gados da disciplina, da ginástica, do tai-chi. Aqueles que orien-l
tavam eram da população geral, para ajudar os psicóticos. Ha-l
via uma equipe de 18 deles. Tinham aulas todo dia. Eu osl
denominei "mestres". Começaram a dar aulas acadêmicas. Eral
um programa de 14 horas por dia, muito intenso. Depois fomosl
crescendo e começamos afazer uma horta, de onde vinha parte dol
que comiam. Eles mesmos semeavam, colhiam. Depois fizemosl
uma granja de galinhas e de patos. Logo tive os animais como co-l
terapeutas: eram meus cachorros, meia dúzia de gatos e outrosl
()
Eneagrai na: do L at i m, enea: nove, e grama: esquema. Sistema ou mét odo]
para. o aut oconheci ment o, visando atingir transformação pessoal.
animais. Era muito interessante como os gatos e os cachorros por si
só iam se aproximando de um psicótico determinado e acontecia
uma adoção mútua entre o gato ou o cachorro e o psicótico. E eu via
coisas impressionantes em muitos psicóticos. Recordo-me de um
de/es, que era catatônico, dono de uma violência impressionante,
que bateu em todos nós e chegou a produzir fraturas. Um gato o
curou. No começo, o psicótico jogava o gato longe, a pontapés; de-
pois se foi aproximando, aproximando-se, e o gato passou a ser
seu filho. Socializou-se, apegou-se ao gato, e a violência desapare-
ceu. Impressionante! Depois tive um cachorro. Fizeram milagres o
gatinho e o cachorrinho. Muito mais que o psiquiatra e eu. Esse
psicótico passou de anti-social e totalmente catatônico a chefe de
vendas de certos produtos em dia de visita, e conduzia-se muito
bem. O chefe dos guardas tinha medo de que ele golpeasse alguém
ali, mas eu acreditava que não: o perigo eram os outros, os nor-
mais. E era verdade. Todo sábado havia pancadaria.
Alguns vendiam alguma coisa, outros tinham outras ativi-
dades, coisas simples. Mas com essa simplicidade conseguimos
que a comunidade se tornasse auto-suficiente. Claro, pedia-se rou-
pa aos amigos, mas a grande maioria dos loucos já comprava pa-
ra si muitas coisas, sapatos etc. Era uma comunidade, funciona-
va como tal, eles mesmos já se cuidavam. Qiiando chegava a
comida, ninguém precisava dar-lhes o alimento. No começo o lou-
co mais forte levava a melhor carne, e não havia muita. Tudo is-
so foi trabalhado até que eles aprendessem a desempenhar o papel
de servir, de dividir. Muito bonito, muito bom avanço. Tínhamos
uma oficina de conserto de roupas, alguns costuravam, outros
ajudavam. Tínhamos um departamento de secretários que escre-
viam à máquina. Era muito bonito.
O que mais me importava eram duas coisas: a primeira, po-
der integrar meus doentes á população geral Isso era algo que me
parecia impossível, porque teriam que ficar lá fora, cumprir re-
gras etc. Por outro lado, havia inimigos contra mim, a inveja e
também discriminação para com os mais doentes. Não ocorreu
nem uma coisa nem outra. Os internos, a população de presos foi
me dando carinho, respeito; eu era ' o Doutor' . "
Memonk
c onf r ont e- 12 A LOUCURA CUR
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CN: "Eu via, quando chegava para ver você, que, ao men\
cionar seu nome, os guardas mostravam muito respeito. "
Borja: "Eles sabiam perfeitamente que os livrei de um trabal
que nenhum deles queria: ser guardião dos loucos. Era uma areai
com muitos conflitos. A área de psicologia, a de assistência social e oi
psiquiatra demoraram muito para ficar na comunidade e verquel
seu trabalho era ali. Eu os convidava, mas o psiquiatra tinha uma\
atitude de menosprezo para comigo, por eu ser ' delinqüente' . Comol
iria eu lhe ensinará Então eu lhe disse: ' Não quero ensinar a nin-l
giiém, simplesmente quero lhe mostrar o que eu faço \ E disse o mes-l
mo à psicóloga. Mas eks tinham medo, terror de ficar ali. Opsiquia-l
Ira estava muito assustado, não entendia o que eu fazia, mas vial
que funcionava. Isso f oi o que primeiro ele me disse. Em segundo lu-l
gar disse que nunca vira hospitais psiquiátricos privados, caros oul
não, em que as coisas fossem assim, funcionais e bonitas, com uml
jardim formosíssimo e loucos meditando. Os profissionais não sa4
biam nem o que é meditação. Então, o psiquiatra se foi envolvendo^
entre assustado e cunoso.
Certo, quando comecei a trabalhar ali, eu parecia um idiota.l
Eu, trabalhando bioenergética! Isso o assustava, ele não entendial
nada. Tanto ódio expresso! Eu não lhe dizia nada. E assim fomosl
indo, até que ele me disse: ' Pode me ensinar?' E eu lhe respondi:l
' Não' . Ele replicou: ' Mas eu vejo que você sabe muitas coisas' .
Então comecei a lhe emprestar livros teus. Ele dizia: ' Nãoi
entendo nada' . Eu: ' E que essas coisas não entram por aí' . Ele:\
' Então, por onde entram?' Eu: ' Pelo eu, é preciso molhar o cu\
Ele: ' O que eu faço então?' Eu: ' A única forma de te ensinar é sei
fores meu paciente, uma paulada no ego' . E eu disse a ele: ' Voul
te dar aulas' .
E, durante dois meses, ele chegava às quatro da tarde paraí
sentar-se com seu caderno, e eu nunca lhe disse nada. O quefazía-l
mos era tomar café e Coca-Cola; essas eram as aulas. E engraçadol
que ele ainda não tivesse carinho pelos meus loucos, pois eks eraml
também os loucos dele - por eles pagavam-lhe, a mim, não. Medo.l
A distância profissional do psiquiatra: como deveria ele relacionar-seí
com um louco' ? E todos esses preconceitos horrorosos. E assim fomos
indo. Ele fazia terapia de grupo, depois mandei que ele treinasse
mais lá fora, e os resultados f oram bons, ' surpreendentes' . "
Só me cabe fazer votos de que este livro não somente
tenha repercussão nas prisões e manicômios, mas na for-
mação e inspiração de psicoterapeutas e leitores em geral,
pois "de médico, poeta e louco, todos temos um pouco";
nestes tempos de desumanização e violência é vital que te-
nhamos a consciência terapêutica.
Cláudio Naranjo
BerMey, 18 de abril de 1995.
POST- SCRIPTUM, POST- VITA M
Apenas quatro meses transcorreram depois da reda-
ção de seu livro anterior, e o Dr. Borja - nosso muito que-
rido Memo
7
- já não está entre nós. Ele talvez já suspeitas-
se estar perto do fim (embora creio que nem ele nem seus
amigos imaginássemos que esse momento viria tão cedo)
e por isso pode-se dizer que suas palavras, estimuladas pe-
la miséria que o rodeava, visavam satisfazer também seu
interesse por "liquidar assuntos" e nos deixar um presente
de despedida.
Logo depois de seu estado de saúde ter piorado ver-
tiginosamente, Memo morreu em Tepoztlán à meia-noi-
te, entre 10 e 11 de j ulho passado, rodeado de alguns de
seus amigos mais íntimos. Foi velado por seus amigos e
dois irmãos (com O Livro Tibetano dos Mortos e maria-
chis), e foi incinerado. Morreu em conformidade com
aquilo que foi sua vida, e imagino que está ainda mais
em paz agora. Possa ele, que dizia: "quem não conhece
Deus a qualquer boi se aj oelha", estar brincando nos
prados do Senhor.
Cláudio Naranjo
Madri, 5 de agosto de 1995.
' Memo: climinutivo afetuoso de Guillermo.
A LOUCURA DOTERA PEUTA
É importante que um terapeuta tenha claro o porquê
de querer sê-lo. Geralmente nos baseamos em motivações
vocacionais, sem pensar que a nosso trabalho dedicare-
mos um terço de nossa vida e que nessa atividade é que vai
se desenvolver a nossa personalidade. Também considera-
mos, na escolha profissional, as identificações com o pai
ou com algum familiar, o que é um ato psicológico.
Se tomo a decisão de ser terapeuta, embora tenha a
intenção de ser o portador da saúde mental, em verdade
já sou o mensageiro da doença. Somente a doença pode
levar à cura, qualquer outra coisa é desculpa ou intelec-
tualização. Somente podemos ajudar quando nos reco-
nhecemos como doentes. Por exemplo, quando Freud foi
ao velório do seu pai e se colocou em frente ao féretro,
desmaiou. Ele, com sua imensa e genial capacidade de
análise, não podia negar seu próprio ato falho. Sua nega-
tiva de ficar em pé não era passível de ser atribuída a sua
exasperada dor, mas a seus desejos parricidas. E necessá-
rio que se tenha grande genialidade para captar isso.
Os terapeutas devem começar reconhecendo a
própria doença mental. O que me levou a ser terapeuta
foi a minha doença: aj udar os outros para roubar-lhes
uma pitada de saúde. Uma atitude de vampiro, de viver
da doença do outro.
Os terapeutas vivem negando sua própria pessoa e
querendo ser terapeutas. Para mim, terapeuta é igual a
pessoa. Rogers disse que o mais difícil é tornar-se pessoa,
Memonií
18 A LOUCURA CU
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porque para isso é necessário transformar-se primeiro er
um monstro. Ser monstro é rebaixar-se. Antigamente, <
monstros eram considerados problemas de moralidade ou
de ordem espiritual; no século atual são denominado^
"problemas do inconsciente".
Os terapeutas primeiro necessitam ser pacientes. De
vem, no sentido ético do dever, saber o que vai acontece
a seus pacientes, caso contrário estes não confiarão neles
Não haverá possibilidade de confiança porque não se pc
de fazer os outros acreditarem naquilo em que não sd
acredita. O caminho da psicoterapia profunda é ter recc
nhecido o outro caminho, que podemos chamar de intuiJ
cão; mas isso não é falado, apenas reconhecido, express
se por uma percepção do sujeito, não pela razão, mas pc
outros níveis energéticos... O terapeuta sabe disso, conhe
cê o caminho, é confiável e pode aventurar-se no vácuoj
sem envolver ninguém em armadilhas...
Não acredito na psicoterapia breve, para mim seri(|
como o Mac DonakTs da psicologia profunda, dedicada í
curar sintomas. A doença não se reduz a sintomas. Aquell
que fica preso a eles mascara, neurotiza a doença. É e\
dente que, se os sintomas são atacados, o ego se fortifica^
emergirá com mais facilidade, quase com saúde, mas mi
to reprimido e mais sofisticado no nível patológico.
O alcance de um tratamento é determinado pela ca
pacidade que o terapeuta adquire no seu trabalho de ir
trospecção e pela sua transparência como pessoa. O qu|
acontece freqüentemente é que se tenta resolver a prc
blemática por meio do intelecto, mas isso não resolve na
da, só conduz à insensibilização do ser humano. T
mo-nos mais máquinas, mais ordenados, mais decente^
mais educados e mais ajustados à norma estabelecida.
se mascaramento aumenta os níveis de risco e depois fie
mais difícil localizar a doença, já que os sintomas não nc
servem mais de guia, e corre-se o risco de que aquilo quJ
vamos ver seja um foco secundário.
9"7i
A LOUCURA DO TERAPEUTA
Vivemos em uma sociedade enferma. Para detectar
isso, basta considerar apenas dois sintomas: a insatisfação
e a incapacidade de viver em paz. Há uma intranqüilidade
básica. Todos os valores predispõem à doença. O sucesso é
conseguido pela negação dos atos. Mas não são as ques-
tões políticas que fazem com que o ser humano não fun-
cione, pois temos que assumir que é o ser humano quem
faz funcionar qualquer política.
Estamos na época do declínio do paternalismo, da
queda da figura autoritária e de todo o medo que sua au-
sência nos produz. É necessária relativamente confiança
ao feminino.
Não podemos falar da doença se não temos capacida-
de de duvidar daquilo que mais queremos, daquilo que dá
mais estabilidade. Se não nos arriscarmos a duvidar, repe-
tiremos os mesmos erros, seguiremos numa corrente em
que um cego guia o outro.
Aquilo que mais atemoriza o ser humano é cair em
uma crise, pois essa é a expressão de tudo o que está por
resolver: a dependência, a necessidade, a carência... Não
se pode resolver nada profundo senão pela crise, pois é
ela que possui os elementos da cura. Os processos tera-
pêuticos devem procurar momentos de crise, provocá-los,
não tentar suavizá-los. A crise do paciente é uma estratégia
heróica. O ego vem de tal forma disfarçado que aparenta
sofrer, pedir ajuda, mas o que realmente tenta é se fortale-
cer e continuar no trono. O ego tenta chegar à saúde pas-
sando primeiro por um salão de beleza! No entanto, o
caminho do processo de cura é tornar-se um doente ainda
mais doente.
E é aí que o terapeuta intelectualiza mais, para pare-
cer ser menos doente e ter mais controle. Se a saúde e a
verdade não se manifestam livremente é porque não es-
tão presentes. Se tenho que controlar meu pensamento,
minha emoção e minha ação, isso significa que há algo
não resolvido em mim. A presença e a transparência não
20 A LOUCURA CURAI
ameaçam ninguém, não atentam contra ninguém, apenas!
conta o ego, que teme perder o controle, como se consi-j
derasse a essência humana má. A essência do ser humano j
é boa, o ser humano é bom; por que controlar então aqui-j
I o que é bom?
A diferença entre o terapeuta e o paciente é que o pri-i
meiro reconhece sua doença, seguirá em sua enfermidade I
sem colocar obstáculos a esse contínuo caminhar, enquan-|
to o segundo a nega, quer livrar-se da doença mental e suai
fantasia é fazer o tratamento para não ser mais um doente.]
A luta do terapeuta é ensinar-lhe que as coisas acontecem ei
que ter uma atitude frente à vida é transcender o sofrimen-J
to, transcender a doença, que não terminará até o dia dei
sua morte. Em vez de solucionar, trata-se de fortificar a ati-|
tude frente à vida; há coisas que não podemos mudar,
podemos transformar nossa atitude frente a elas. I sso ei
aceitação e só com ela terminarão os porquês.
Esse é o caminho do terapeuta. Seu verdadeiro traba-1
lho não é atingir uma meta, mas estar no caminho: nãol
importa onde está, mas como está. O como é o que se ensi-l
na ao paciente.
ISBh
Gostaria de deixar claro o grande desconhecimento!
que os terapeutas têm de si como pessoas. É aí, nesse es-1
quecido campo de desenvolvimento, que se formará sua vi-]
são da saúde mental e sua compreensão da doença. Toda
as descobertas de Freud devem-se a ele reconhecer-se
doente e, portanto, seu mérito foi o de se conhecer, o da
auto-observação.
Os terapeutas atuais não têm a coragem de duvidar
de si mesmos e de perder o controle; esses dois estados!
são o mínimo a ser vivenciado, pois são centros do conhe
cimento profundo que todo ser humano possui.
Pressinto que os terapeutas temam que, ao fazer uma!
psicoterapia profunda, colocarão em evidência, frente a sil
A LOUCURA DO TERAPEUTA
e a seus pacientes, problemas não resolvidos. Diante da tal
ameaça, optam por manter-se à margem da doença, único
território conhecido por eles, pelo medo de naufragarem
e serem enquadrados em suas próprias qualificações. O
mensageiro da saúde ser o mais doente é um duro golpe
para o narcisismo. Não é nada sadio necessitar dos neces-
sitados e é pior ainda não o reconhecer.
Admitamos, como terapeutas, que a saúde não pode
ser conquistada só em um processo terapêutico. A psicote-
rapia profunda ensina ao paciente um novo estilo de vida.
A procura de si próprio não tem como meta uma pretensa
"saúde", mas a transformação do próprio caminho em me-
ta. Não podemos nos conformar em sermos bem-sucedi-
dos, em sermos apenas pessoas educadas, menos ainda po-
demos aceitar parâmetros que somente nos têm trazido
insatisfação e angústia. As águas mais calmas costumam
ser as mais podres.
A saúde mental é um estilo de vida, não cinco anos
de psicoterapia. O verdadeiro terapeuta convida, com sua
atitude, o paciente a renascer.
A maior parte dos terapeutas fantasia com o fato de
seus pacientes não questionarem mais sobre a saúde. Não
se atrevem a pensar em mobilizar as transferências negati-
vas e sexuais de seus pacientes, pois isso repercutiria em
seus pântanos inconscientes.
A nenhum doente é permitido que adoeça e que essa
enfermidade seja desejada pelo terapeuta. Mas também
não é razoável que a saúde dependa da satisfação dos ou-
tros e menos ainda da satisfação do terapeuta.
Uma pergunta que sempre me fiz é: se escuto os ou-
tros, quais são meus direitos de ser eu mesmo?
Tabu dos tabus é se reconhecer como pessoa frente
aos pacientes. No entanto, para mim, esse é o começo de
uma sólida recuperação.
22 A LOUCURA CU
Tenhamos presente que a nenhum pai é fácil reco
iihecer sua ignorância frente a seus filhos e, por isso,;
única coisa que faz é manter uma imagem que será a cau
sã da insegurança deles. Estou seguro de que a verdad|
não prejudica; ao contrário, o eu se fortifica ao aceitan
finito e a imperfeição. Este século tem fracassado pelaii
sistência em se viver da falsidade, pelo medo de se reco
nhecer tal como se é. A única escola para ser pai é ver con
clareza sua própria posição como filho frente aos pais, \
que também não é uma garantia de criar filhos perfeito
Não podemos dar aquilo que nos foi negado. Um casal <
rente engendra filhos famintos e desnutridos; mas na
existe pai que aceite isso.
A maioria supõe que "fazer o contrário", em qualqu^
sentido, conduz à saúde. O único lugar a que chegamq
com isso é adotar uma fobia contra a origem do conflit
Perdemo-nos ao nos orgulhar de não sermos como noss
antecessores e fantasiamos acreditando que, por "fazer!
contrário", não cometemos o mesmo erro, mas esqueci
mos que a insatisfação e a angústia ainda estão presentes, j
O pior de tudo é que pouquíssimos chegam a rec< |
nhecer isso, e sem o reconhecimento, pedra angular <
maturidade, tudo o mais se deformará.
Um dos valores a se recuperar é a honestidade. Ne&
ponto, quem não tiver clareza repetirá as próprias falhas.J
Os terapeutas chegam a esse ponto como uma prol
cão de sua própria doença. Existem tantos medos quant
são os tipos de pessoas. Há terapeutas cujo medo se ba
na plena consciência do próprio medo, porque são mel
sageiros da saúde e são responsáveis por fornecê-la. A i
I hor forma de não reconhecer o não-saber é intelectua
zar, fornecer sempre uma aparente explicação cor
saída. Alguns terapeutas passam a vida dando explicaçc
em vez de reconhecer simplesmente que não sabem. NJ
A LOUCURA DO TERAPEUTA
conseguem ficar calados e aceitar que não sabem. Como
terapeutas, têm a obrigação de dar respostas a seus pacien-
tes, para escapar às suas próprias fantasias e não ficar mal.
O silêncio do terapeuta é, em certos casos, muito mais
poderoso que o saber. Quando dois ignorantes se encon-
tram, o melhor é se calarem, reconhecendo a ignorância,
tanto daquele que pergunta como daquele que não tem a
resposta. E que o silêncio seja um contato. Existe o não-sa-
ber: não sabemos e nada acontece. Mas isso é muito difícil.
Outro tipo de medo dos terapeutas refere-se ao que
fazer se não há pacientes e o que fazer para mantê-los, pois
são eles que nos tornam terapeutas. Eu acredito que temos
os pacientes de que necessitamos, assim como os pacientes
têm o terapeuta de que precisam; isso no sentido de que os
medos, de um e de outro, se correspondem, não que sejam
os mesmos, pois isso não funciona terapeuticamente, em-
bora aconteça. Um terapeuta dará um tratamento de acor-
do com sua patologia, e não com sua saúde mental.
Falo do medo do abandono: o que vamos fazer sem
pacientes, o que vamos fazer com nossa angústia? É muito
difícil encarar essa frustração como terapeuta, porém mais
difícil ainda é aceitá-la como pessoa. Podemos ter todas as
desculpas: de que temos medo de evoluir, de que não te-
mos desejo de estar bem. Mas somos nós que não que-
remos estar bem e é nesse ponto que temos que nos en-
frentar, porque esse não é um problema que temos como
terapeuta, mas como pessoa. Quem está sendo abando-
nado é a pessoa; quem tem medo de não ter pacientes é a
pessoa. É a pessoa quem não pode viver sem o contato,
embora se justifique por razões profissionais. Por isso a
muitos terapeutas não agrada questionar seus pacientes.
Mas para todo paciente deve estar presente o abandono
do terapeuta, pois, caso isso não seja encarado, repete-se o
ciclo que o trouxe à terapia, não sendo resolvido o primei-
ro núcleo: pai e mãe. É necessário ter claro o que signifi-
cam a perda ou a independência, pois quase nunca essas
Memoni
24 A L OUC UR A(
l ou c u r a i
bússol a
Homem
d iv a do í;
mor daz l
bot equ m
a c r u z a r
d es ma s c
A v er d a d
at é a luz
quest ion;
é como t
Suas r ui
o paci en
ISBNl
situações se resolvem de uma forma civilizada, conscient^
A maior parte das decisões importantes são desastres
caóticas e intensas, porque requerem tanta energia qua
to a usada na repressão.
Alguns terapeutas têm o delírio megalômano de i
grandes curandeiros e vivem, na sedução, o desejo de \
deza que todo ser humano tem.
É muito importante que, quando o paciente chegar j
nossa frente, sejamos honestos com ele. Se uma pessc
tem problemas de segurança porque é feia, temos que It
dizer que é feia, que não se trata de uma distorção, qi
não há um problema psicológico, mas algo real. Nunca <
zer-lhe que o mais importante no ser humano é a belez
interior... Não mentir, mas trabalhar com aquilo que
tem. Não negar um problema quando vemos que o probld
ma é não aceitar a realidade. Se cremos que uma pess
não vai chegar até onde pretende, é melhor dize-lo dês
o começo, pois no final isso nos será cobrado. Estou
vencido de que o mel não foi feito para o focinho dos pc
cos e creio também que muitos não vão realizar sua fant
sia. Vale mais nos guiarmos pelo concreto, pelo mínimo.
Para mim, o verdadeiro trabalho terapêutico estánl
cotidiano. Queremos e pretendemos viver coisas extraoi
dinárias. Mas o extraordinário é poder viver o dia-a-dia[
Não temos que sugerir idéias e fantasias que o pacientj
não vai atingir. Perseguimos pequenos ideais alheios,
sejos alheios, frustrações alheias que foram projetados í
bre nós. Isso não vamos conseguir alcançar nunca. Tant
é verdade que vamos à terapia não para livrar-nos dissq
mas para seguir nessa busca. Por isso é tão difícil ao ter
peuta desnudar-se frente ao paciente, porque tudo fd
distorcido e o que deve ser feito é tirar aquele bem-est
neurótico, aquele bem-estar controlado, cômodo. O trai
balho do terapeuta é acordar o ser humano, sacudir a fá
sã comodidade interna, o controle, a resignação à situs|
cão sem risco.
A LOUCURA DO TERAPEUTA
O terapeuta deve acreditar que, aconteça o que acon-
tecer, nada ocorrerá, não haverá tragédia. Caso contrário o
terapeuta ficará insistindo em que o doente não se altere,
pois se o fizer vai sentir-se mal e ele próprio se sentirá mal
pelo paciente, e situações desse tipo não estão escritas em
nenhum livro. Também não está escrito que o paciente po-
de levar o terapeuta a perder a paciência. Mas se ele não
consegue provocar alteração no terapeuta, acredito então
que não houve nenhum contato real entre os dois. Tam-
bém existe um ponto do processo em que o paciente pro-
cura frustrar o terapeuta; brinca dizendo que esteja não é
um cara tão bom e que já não o diverte, mas o aborrece.
Outros terapeutas temem o silêncio. O silêncio é co-
mo a recuperação de si mesmo, é estar consigo, permane-
cer em seu mundo e com isso estar satisfeito. Para mim es-
se é o ato da terapia.
Alguns terapeutas são moralistas e vivem dando or-
dens aos seus pacientes: isto está mal e isto está bem; is-
so se voltará contra você e isso contra sua família... Mas
são ordens baseadas em seus preconceitos, no temor à
perda da tolerância e ao descontrole. Assim, repito: não
pode haver saúde mental com controle. Mesmo o caos pos-
sui uma ordem, o centro do furacão é silencioso, mas o
centro precisa do furacão.
Há pessoas que são excelentes, muito corretas, mui-
to pontuais, muito educadas, muito respeitáveis, de tal
forma que, frente a elas, dá vergonha ser neurótico. Fica-
se com muita culpa, porque acredita-se que não se vai dar
conta da situação. O terapeuta, muitas vezes, gostemos ou
não, é um símbolo daquilo que na nossa fantasia conside-
ramos como perfeito, como alguém que devemos imitar.
É como se tentássemos ser como aquele que temos a nossa
frente. Por isso devemos pedir ao paciente que, com toda
a honestidade, nos diga como nos vê, o que pensa de nós,
e depois devemos nos abrir, mostrar-lhe todas as possibili-
dades, explicar-lhe como temos relações sexuais, o que te-
Memoni
26 A LOUCURA CU
nos m f e
mos de mau. Temos que ir fazendo uma lista, porque o pá
ciente nunca vai perguntar...
Percebo um erro dos terapeutas: acreditar que some
portadores da verdade e da saúde. Isso é negar que tenl:
mos algo daquilo que o paciente nos traz. Essa mentia
chega ao paciente e o faz sentir-se culpado. Agora, se <
pacientes nada mais têm além da capacidade de sofrer J
não lhes damos a possibilidade do prazer, acreditanc
que quem tem a capacidade do prazer é mau, e essa idéi
foi o começo da doença (já que o prazer da criança ei
negativo e, portanto, foi reprimido), estamos repetinc
com os pacientes o que nossos pais nos fizeram. E entã< |
novamente, aquilo que não se esclarece se repete.
Há terapeutas a quem interessa que o paciente conlj
nue sofrendo. É como uma obsessão crer que a cura é i
guir sofrendo; o ato de manter a pessoa na dor, em ur
atitude masoquista, é uma posição muito sádica do ter
peuta. Estou convencido de que a cura é o prazer. Maj
existem aqueles que se sentem mal quando o paciend
lhes diz que está tudo bem... A consulta pode ser uma co
versa, com comentários de que a vida não está tão mal;
sim, que é bonita...
O terapeuta deve ser capaz de romper sua rigidez]
seu medo, pois, já que não pode ensinar o prazer em un
diva, durante 45 ou 55 minutos, deve voltar-se para o extd
rior, para a vida. Tenho visto, nos meus 18 anos de expd
riência, dois egos chegarem entronizados ao consultóriq
um querendo ser louvado e o outro querendo louvar, i
nos poucos minutos que dura a consulta não se resolve n^
da, além de egos se fortalecerem.
ISBNl
Os terapeutas sentem como um dever serem pessoa
controladas, têm um estereótipo da saúde mental. Acred
tam qvie uma pessoa sadia não pode colocar em risco su
A LOUCURA DO TERAPEUTA
imagem, não pode descontrolar-se no nível verbal. Man-
têm-se numa posição de supercontrole.
Como o controle não é uma alternativa saudável, ma-
nifestam uma sutil agressividade, para negar o que na reali-
dade estão sentindo. Por meio do controle tentam aneste-
siar o mal-estar. Mas isso não quer dizer que o paciente não
capte a mensagem agressiva. Esses terapeutas apenas conse-
guem ensinar ao paciente que o controle é sinal de saúde.
A repressão nunca foi saudável. O mais importante é
trabalhar os conteúdos reais de ambos, dentro do mesmo
descontrole. E preciso perder o medo de que aconteça al-
go assustador. Por isso devemos começar trabalhando as
fantasias catastróficas, pois assim evita-se que aconteça al-
go mau. O mais saudável é dizer aquilo que não deseja-
mos que aconteça, pois, ao nos calarmos, estamos facili-
tando que tal fato ocorra.
Não se deve confundir descontrole com destrutivida-
de. O descontrole simplesmente expressa aquilo que se es-
tá sentindo, é dar-se liberdade para expressar aquilo que
se pensa. Temos medo de nos soltar e esse temor é disfar-
çado pelo seu conteúdo. Mas o conteúdo é geralmente al-
go mental, fantasioso. Preocupamo-nos com esse conteú-
do, temendo que, ao expressá-lo, algo catastrófico vá
acontecer. E isso é uma armadilha, pois o que tememos é,
ao expressá-lo, perder o controle e nos tornar destrutivos.
Simplesmente temos que dizer o que se passa dentro de
nós, embora nos dê medo o fato de estarmos nos abrindo.
Estamos repletos de fantasmas ameaçadores: que nos re-
jeitarão, que vão dizer alguma coisa... Mas, na realidade,
essa é a forma de encobrirmos o medo de nos soltar.
Se o terapeuta perder o controle, o que pode aconte-
cer é que o paciente perca também seu controle e lhe diga
sua verdade. Na realidade, o terapeuta teme que o pacien-
te se expresse e solte aquilo que tem reprimido e que,
além disso, ao fazê-lo, descubra a repressão do próprio te-
Memonh
c onf r ont e
28 A LOUCURA (
l ouc ur a f
bússol a (
a p r es ent
t a mbém
rapeuta. Para evitar isso, é estabelecida uma cumplicid
de: eu não perco o controle para que você não perca.
Se um terapeuta não se mostra como pessoa, entãoj
um mau terapeuta.
ISBN l
Assim como há diversos tipos de paciente, com pat<
logias específicas, existem vários tipos de terapeuta. Assiij
como os paciente se identificam com certo tipo de trat
mento, de acordo com sua patologia, os terapeutas
identificam com certas escolas ou com técnicas deterr
nadas, porque são mais adequadas às possibilidades de :
ego e nelas se sentem mais aptos e fortes. A essa predisp< j
sição colaboram tanto a dimensão sadia como os conteíj
dos patológicos do terapeuta.
Temos, então, terapeutas muito ativos que se inclj
nam ao questionamento, a permissividade e a liberaçãJ
da repressão. São terapeutas cujo trabalho é voltado ai
desnudamento interior. São anti-repressivos. Aceitam an
piamente o direito ao prazer e à desobediência, o que ai]
xilia muito o processo de pacientes muito reprimidos.
sés terapeutas são, geralmente, muito vigorosos e teu
personalidade marcante. Atuam como libertadores, tant<
dos repressores como dos reprimidos. Mas têm suas dei
vantagens, já que tendem a subvalorizar o rompiment
dos pacientes maduros e atuam com excesso de autorid^
de sobre seus pacientes.
Outros terapeutas são do tipo emocional. E, com sei]
excesso de emoção, são bastante liberais para com pessoa
muito austeras na representação ou manifestação de sua
emoções. São terapeutas muito fortes, que nada conside
ram ridículo, insistindo repetidamente que, na manifest
cão das emoções, não pese nenhum fator de repressão.,
mesmo tempo que trabalham o emocional, colocam ênf
se no trabalho corporal, em atividades do tipo reichianc
com alta presença emocional. Esses terapeutas lamber
A LOUCURA DO TERAPEUTA
têm seus inconvenientes, pois os pacientes mergulham em
uma atitude catártica contínua, como se todo o processo
ficasse reduzido à expressão de emoções de forma obsessi-
va, sem espaço a nenhum raciocínio, simplesmente enfati-
zando a dimensão emocional, até o cansaço.
Há terapeutas que enfatizam a capacidade de abstra-
ção e a verbalização. Trabalham o pensamento e têm um
direcionamento muito mental, no sentido de que tudo de-
ve passar pelo processo de análise. Esse processo tem suas
vantagens, porque consegue uma interiorização, já que
pacientes tendem a abusar do conteúdo emotivo, o que os
leva a uma incapacidade de pensar. Esses terapeutas ensi-
nam a desenvolver a capacidade crítica, a auto-analise e a
observação.
Outros terapeutas têm um estilo muito normativo,
com muita consciência da não extrapolação do que man-
da a ordem social. São muito adequados a pacientes que,
com facilidade, vão além dos limites na ação, pois os aju-
dam a interiorizar a importância de não invadir o univer-
so dos outros. São terapeutas de contenção, de norma;
trabalham muito bem os limites e as fronteiras. Utilizam
muito sua capacidade analítica e a típica capacidade roge-
riana de empatia. A proposta é que, antes de se ultrapassa-
rem certos limites, chegue-se a bons acordos, a bons con-
tratos, a bons arranjos. É obvio que terapeutas desse tipo
também têm suas contradições, porque não podem se
equivocar e deixar clara a idéia de que é por terem supe-
rego muito forte que são esse bom menino, esse menino
repreendido. Por isso, esses terapeutas tendem a ser mui-
to rígidos.
Há aqueles que trabalham as áreas corporais da auto-
estima, em função de viver bem a vida, de reconhecer o
direito às coisas e aos prazeres. São terapeutas voltadas às
deficiências e com eles os pacientes chegam a se aproxi-
mar melhor da realidade, de seus direitos e de seu próprio
prazer. Fazem um bom trabalho terapêutico de diversida-
Memoni
30 A LOUCURA CUR
ISBf
de de papéis. Trabalham com o corpo, com a massagem <
utilizam também as terapias norte-americanas de auto
afirmação. O problema com esses terapeutas é que não
têm a profundidade suficiente, são superficiais, exagerar
no bem-estar eufórico, como se tivessem a compulsão de
ficar bem, de maneira muito rápida, tal como se conhe
cessem os quatorze passos para a liberdade ou a felicida-J
de. Caem em uma rigidez metódica.
Existe outro tipo muito hábil para trabalhar com;
ternura, a receptividade, a emotividade e, principalmentej
com a capacidade de entrega que se manifesta no dar e ré
ceber. São terapeutas muito emotivos e ternos, adequadc
para pacientes muito austeros em sua expressão amoros
ou os do tipo "machão mexicano". Esses terapeutas já con|
tribuem muito só com sua presença. Ao mesmo tempol
cledicam-se à sensibilização, trabalham com o psicodrama
com a troca de papéis, encarnando cada um dos papéis
em questão. Mas, assim como existe tanto drama, tambén
acontece que se estabeleçam grupos terapêuticos de imc
bilidade e isolamento, que constróem uma ilha feliz e \
retroalimentam mutuamente, até atingir uma simbio»
benfazeja. Esse tipo de terapeuta tende a ser muito poss
sivo com seus pacientes e a dificultar os rompimentc
porque sente temor ao abandono, motivo pelo qual tent
estabelecer uma boa família com o grupo. Esse é, no mei)
j ulgamento, o risco principal com esse tipo. Além diss
são muito sensuais e outorgam muita permissividade à se
xualidade. Não censuram, mas não favoreçam a liberdad^
que permitiria a independência.
Há ainda terapeutas que estimulam um alto grau <
desenvolvimento da intelectualidade, com grande liberda
de de expressão ao paciente, o que é muito positivo. Tar
bem são muito tolerantes e receptivos, são suaves em sua
opiniões e debatem com argumentos muito sutis. Ess
terapeutas trabalham a sutileza, o invisível. Mas tambén
têm sua problemática: como se dedicam muito à área ir
A LOUCURA DO TERAPEUTA
lectual, às vezes usando artes próprias das culturas orien-
tais, fazem muita questão de não tocar no ego. Assim co-
mo outros terapeutas tendem ao excesso de manifestação
do ego, estes se inclinam a não lhe dar importância, a não
evocá-lo, a negá-lo, razão pela qual cria-se uma repressão
importante e ausência de possibilidade de expressão ou
de catarse, o que é fator de grande limitação. Além disso
existe pouco contato, uma espécie de presença ausente,
pois dedicam-se principalmente às meditações e a traba-
lhos muito intelectuais e analíticos.
Outras terapias focam áreas esotéricas, como a astrolo-
gia e o taro, que dão vôo à imaginação dos pacientes, à cria-
tividade, à liberdade. Fornecem inclusive oportunidade de
explorar mundos fora da razão. Usando de crença na in-
fluência dos astros, conseguem dissolver conflitos aqui na
Terra, movendo-se a níveis arquetípicos; por meio do traba-
lho sobre um planeta podem vencer as patologias das figu-
ras internas do pai e da mãe. É mais fácil trabalhar com al-
go arque típico que com algo terrestre. Esses são caminhos
um tanto ilusórios, trabalha-se o pessoal projetado no nível
cósmico. O trabalho é efetivo e profundo, mas pode-se dar
uma desconexão, uma aceleração da fantasia, pouco conta-
to com a realidade terrena, com tendência a ficar muito
além e a desvalorizar o cotidiano. Esse é o risco: ver somen-
te as influências planetárias e negar as terrestres. Como se o
mundo lhes fosse pequeno, então disparam-se fantasias e
recebem-se mensagens de extraterrestres, o que pode levar
os pacientes a uma ruptura total com sua realidade.
Outros terapeutas baseiam seu estilo em uma gran-
de capacidade de ser receptivos e tolerantes. Têm uma
atitude hedonista frente à vida, são uns tipos alegres que
tentam não se ater por muito tempo aos problemas e aos
conflitos. Acham sempre uma saída, são muito hábeis em
ter na porta dos fundos uma possibilidade de escape. Es-
ses terapeutas em geral têm um notável jogo de cintura
para coisas muito simples e elementares. São bons terá-
A LOUCURA CURA
peutas infantis, bons terapeutas corporais, bons pedago-
gos. Mas tendem a fugir dos problemas de forma exage-
rada. São escapistas.
Como conclusão poderíamos dizer que existem três
grandes estilos. Os primeiros, com uma grande habilidade
para trabalhar com a emoção, o que presume capacidade
de expressar e exteriorizar, baseiam-se no contato, em te- j
rapias corporais, são pouco racionais, estão apoiados pela
força de sua presença, pela grande potencialidade de vi- j
ver o presente e de desfrutá-lo. Os segundos trabalham o
pensamento, com orientação para o passado; fazem um
trabalho analítico muito demorado, porque dão muita im-
portância a todos os detalhes em cada situação e relação.
Finalmente, há os terapeutas do terceiro estilo, que se
concentram na ação, valorizando muito os impulsos e a
realização dos desejos. Dessa forma, vemos que para estes j
o mais importante é realizar o desejo, para os do outro
grupo é analisar o desejo antes de satisfazê-lo e para os de- j
mais o fundamental é poder expressar o desejo.
Por experiência sei que cada paciente, na sua primei- j
rã tentativa de cuidar da saúde, irá ao terapeuta que lhe j
desperte menos conflitos, já que nos processos psicotera-
pêuticos há uma série de etapas, de degraus, cujo for tale-j
cimento é muito importante, à medida que se vai avançan-1
do. O primeiro terapeuta será o encarregado de colocar j
os alicerces, de levantar a primeira estrutura, aceitando a
queda de todo o edifício, de todo o ego. Para evitar isso é l
necessário fortificar as coisas mais primitivas e elementa-|
rés. Por isso, os pacientes percebem, seja por intuição ou j
por acaso, o terapeuta que corresponde a essa etapa. Nor-f
malmente, os pacientes muito racionais procuram come-J
çar com terapeutas racionais, os emotivos com emotivos ei
os ligados à ação com seus correspondentes. Mas esse é o j
primeiro passo e, tarde ou cedo, se houver uma evolução,!
devem ser revisadas as áreas de carência. Por esse motivo!
sustento que um terapeuta sozinho não pode ter o mono-1
A LOUCURA DO TERAPEUTA
pólio da transferência, pois isso é prejudicial, da mesma
forma que os mecanismos de defesa: são os salva-vidas da
infância e os inimigos terríveis da idade adulta. Dessa for-
ma, sou favorável à transferência múltipla, na qual existe
todo tipo e estilo de terapeutas, porque isso permite um
maior desenvolvimento dos centros internos que foram
inibidos por uma série de circunstâncias. Quanto maior
for a possibilidade de contatar com diversos estilos, me-
lhores oportunidades de abertura e de amadurecimento sa-
dio terá o paciente. Por quê? Porque isso aconteceu na fa-
mília: a mãe tinha um caráter, o pai outro, os irmãos outro
etc. E o que tentamos é fazer uma regressão para revisar es-
ses caracteres e alcançar um equilíbrio com aquilo que fi-
cou inibido, atrofiado ou desconhecido no caminho da vi-
da. Por isso, considero muito importante um processo em
que se ofereça a possibilidade de transferência múltipla.
É importante que os terapeutas tenham percorrido
os três caminhos, as três sendas da psicoterapia, que te-
nham trabalhado sua emoção, sua ação e seu pensamento.
Esse é o trabalho que temos de realizar para ser terapeuta
e para ser pessoa: temos de atingir um desenvolvimento
harmônico dos três centros.
Se fizermos muitas concessões a uma determinada téc-
nica, estaremos certamente descuidando de outras áreas
de desenvolvimento. Por exemplo, é impossível trabalhar o
corpo por meio da análise, como é impossível analisar a
mente só pelo puro trabalho corporal. Cada uma das técni-
cas é uma mina de riquezas, mas não é a solução total. Para
chegar à totalidade temos que trabalhar as três áreas, por-
que os problemas da vida são males afetivos, males do inte-
lecto, males da ação. Temos de trabalhar tudo.
Os diversos estilos da psicoterapia não são nada mais
do que diferentes tipos de psicopatologia. Por que me
identifico com a psicanálise, com a terapia de confronta-
ção ou com a reichiana? Porque corresponde à minha
psicopatologia. Acredito, então, que devemos retomar um
34 A LOUCURA CUR
iser
princípio mais essencial e importante, perguntando pele
criadores: quem foram Freud, Perls, Reich? Quem forar
eles? Questionando sobre eles vemos que a própria teoria
de cada um não foi nada mais do que o descobrimento
da própria doença. Por exemplo, Freud, que era uma
pessoa com dificuldade de contato corporal, que vivia eml
um ambiente muito repressivo, desenvolveu seu trabalhe
mantendo distância, mas conduziu-o com tal destreza»
maestria que esse o levou à saúde. Foi sua própria patolc
gia que o orientou em direção a suas notáveis descober^
tas, permitiu-lhe criar sua teoria, sua escola e seu traba-l
I ho. O mesmo vale para Jung e seu interesse no cósmico <
110 arquetípice). Da mesma forma nasceu o psicodrama
Moreno era dramático e muito expressivo, tinha a habilij
clade psicodramática de representar diferentes papéis. I r
clagando como surgiram as diversas escolas, verificamos!
que sua origem não é outra senão a patologia dos mestres
Eles reconheceram a própria doença e tomaram conheciJ
mente) ele come) trabalhá-la.
I sso vale para aqueles que se acham muito doutos poíj
ter recebido uma formação intelectual acadêmica: é ir
pe)rtante que o terapeuta conheça a origem da escola que
segue. As escolas não foram criadas por deduções mer
tais, mas são fruto de árduos e profundos trabalhos pés
soais, envolvendo autoconhecimento e um compromiss
pessoal. Foi o que levou seus criadores a compreendei)
que, se tinha funcionado para eles, poderia servir para <
outros. Esse é o importante trabalho dos grandes homens
ter contribuído com sua experiência, ter trazido os result
elos que conseguiram com seu sofrimento. E esse pode
não se consegue indo a um cursinho ou lendo um livrinhc
Se nos consideramos discípulos de algum mestre, i
mais importante é averiguar o que ele fez com sua vida
pé) r que ele chegou até esse ponto. Eu acrejdito que o veij
dadeiro ensinamento é que eles foram eles mesmos, e pu
deram ser. Por isso não se trata de seguir ao pé da let
A LOUCURA DO TERAPEUTA
seus exercícios, porque tanto a entrega como a capacida-
de afetiva não se conseguem com isso. O que o terapeuta
deve fazer é mostrar o mesmo que os grandes homens
mostraram: entrega e disponibilidade para o risco. Dessa
forma os exercícios serão úteis, mas é preciso repetir o
exercício para descobrir-lhe o valor. Quando o exercício
não resultar em nada, é importante a presença terapêuti-
ca, que nos mostra que se pode conseguir. I sso se chama
confiança e experiência. Na experiência está a saúde.
E obvio que o trabalho de psicoterapia exige um alto
grau de responsabilidade e compromisso. Ninguém se
prepara em cinco anos, ninguém se prepara com um dou-
torado, porque dessa forma somente adquirimos conheci-
mentos acadêmicos, que não são a cura. A verdadeira pre-
paração é o caminho e o caminho é a própria vida. Não se
pode estudar para ser pessoa. Não se estuda para deixar
de ter conflitos e sofrimentos. É preciso realizar um gran-
de trabalho pessoal, pois o essencial de um terapeuta é es-
tar presente e ser harmônico, para que não seja uma frau-
de. Estar presente é reconhecer o caminho que o outro
vai começar como um guerreiro da vida. O terapeuta é co-
mo um velho que já percorreu o caminho, e isso é uma
atitude que não se pode transmitir com palavras. A pre-
sença mesma são as rugas que ele tem, as feridas cujas ci-
catrizes são visíveis para o paciente. A presença dá con-
fiança e dá a possibilidade de continuar, de saber que está
indo bem. Porque, ao começar uma psicoterapia profun-
da, a única cura que se pode brindar é o fato de reconhe-
cer o próprio sofrimento, a própria dor e a transcendência
alcançada. Então, é bom dominar uma técnica, é bom ter
realizado um aprendizado intelectual e formativo; mas
um bom terapeuta deve largar os instrumentos, deve arris-
car-se a largar a técnica e apoiar-se em si próprio. A técni-
ca não cura, quem cura é a pessoa. Nesse aspecto existe
uma desvalorização pessoal: os terapeutas pensam que
não podem curar a si próprios. E isso é uma grande menti-
A LOUCURA CURA
iser
rã. Ninguém cura pela técnica que domina. O mérito é
pessoal. A bênção é pessoal. Quem cura somos nós. O mé-
rito dos grandes terapeutas foi terem sido eles mesmos.
Essa foi sua luta e com isso curaram. Este é o ensinamento
e a mensagem: sejamos nós mesmos e não imitemos nin-
guém. E é aí que está a cura, porque, se não nos reconhe-
cemos como uma bênção da vida, como uma graça, não
existe auto-reconhecimento, e isso repercutirá no pacien-
te. Eu acredito que somente cura quem se atreve a fazê-lo.
Não há técnica para isso, só atitude. E somente podem ter
atitude as pessoas, os homens completos, as mulheres
completas. Quem reconhece a si próprio pode reconhe-
cer os outros...
Eu convido os terapeutas a se colocarem em frente
do paciente e a permitirem que seu material de trabalho
seja simplesmente o que vier a acontecer, que aquilo que
possa ocorrer seja a alternativa que ambos trabalharão.
Para isso, é importante que rompamos com pretensões e
com programas de realização do ser. E preciso esquecer as
estratégias terapêuticas, esquecer as brincadeiras. A pre-
sença e o que acontece são as únicas coisas com que é pos-
sível trabalhar. Tudo o resto são fantasias, tudo o mais são
pretensões.
Ninguém pode dar o passo por ninguém, cada um
deve andar seu caminho a seu próprio passo. O único que
sabe onde está é o paciente, o único que pode reconhecer
se quer trabalhar é o paciente. Temos que escutá-lo, mas
escutando-nos. Não temos que ver suas impossibilidades,
mas nossa incapacidade de aceitá-las, devido a nossa ansie-
dade, pretensão e impulsividade. Queremos que o pacien-
te saia de onde ele não quer sair. Nossa incapacidade de
ver isso e de aceitá-lo é parte da nossa doença, não da sua.
Dar liberdade. Esperar que a última palavra seja a dele e j
não a nossa. Que seus medos sejam seus medos, e sejam
suas as suas fantasias. Que a solução de seus conflitos lhe j
pertença. Tudo isto pode-se atingir somente pela tolerân-
A LOUCURA DO TERAPEUTA
cia, pelo respeito a seus silêncios, a seu tédio, a seu egoís-
mo, a seu narcisismo, a sua incapacidade, a seu menospre-
zo, a sua vaidade. Somente se dermos acolhida a isso, rece-
bendo-o e observando-o sem prejulgar, estaremos falando
de um trabalho profundo. Nossas pretensões não são mais
do que impotência, sinais de um ego muito exigente. A se-
gurança se manifesta na confiança. É, pois, muito impor-
tante curar, não como um ato de soberba, mas porque re-
conheço meu caminho, minha meta, meu sofrimento e
porque reconheço a dor de ainda não ter atingido o final.
O trabalho do terapeuta precisa de muita humildade. A
luta se dá até a morte.
SEUTERA PEUTA CURA VOCÊ?
9
ISE
i
Muitas vezes fizeram-me uma pergunta que deixa in- j
t ranqüi l as algumas pessoas: há terapeutas que causam i
prejuízo a seus pacientes? É uma questão de via dupla. Eu i
acredito que cada um tem o terapeuta que precisa, nem
mais nem menos. Tenho visto muitos pacientes abando-j
narem seus terapeutas, por terem tido com eles uma má j
relação. Mas, independentemente da existência de maus l
terapeutas, existem maus pacientes... Há pacientes que
vêm para fazer um trabalho pela metade. E o caso de mui-j
tas mulheres que sofrem um desengano: como pacientes j
foram tratadas com falta de sensibilidade, mas descobre-se j
que é isso o que elas queriam, estavam procurando umal
decepção. Não acredito que pelo fato de ser terapeuta sei
adquira o poder de fazer mal aos outros. Nenhum pacien-J
te evoluirá além do ponto em que o terapeuta tenha che-j
gado. Mas há por que supervalorizar a responsabilidade!
do terapeuta. Se o paciente deseja se deter em um ponto,!
o terapeuta deve reconhecer o fato e não procurar justifi-j
cativas para si. Devemos reconhecer que ninguém é bom!
para todos, nem todos são bons para uma pessoa em par-l
ticular. Nenhum terapeuta tem o poder de levar seus pa-I
cientes á destruição, ao suicídio, por exemplo, a não serl
que ambos estejam numa situação pessoal similar. Então,!
não se pode responsabilizar mais um do que outro, já quej
ambos estão numa mesma posição.
É como a questão de acerto na escolha de um mestre.J
Muitos encontram um charlatão, mas acontece que preci-T
SEU TER APÊUTA CURA VOCÊ? 39
sarn dele. Temos que nos responsabilizar por aquilo que
procuramos, sem justificar o paciente ou o terapeuta. Não
acredito nas decepções do paciente, o que eu vejo é que
ele não quer reconhecer a realidade. O paciente é respon-
sável por aquilo que procurou e achou. Não adianta justi-
ficá-lo pela sua ignorância. O terapeuta não sabe mais do
que ele, é humano e também está doente. Até onde o tera-
peuta deseja chegar é sua responsabilidade, mas não pode
levar o paciente além de onde este queira ir. O paciente
toma sua decisão pessoal, embora os dois compartilhem
os riscos. As possibilidades são as mesmas que em qual-
quer relação. Estou convencido de que todas as pessoas
que se dão mal com seus terapeutas estão manifestando a
maneira como acabam todas as suas outras relações, sem-
pre culpando o outro e o mundo. E difícil reconhecer is-
so, e é justamente aí que se pode começar um bom traba-
lho cie psicoterapia profunda, porque, se a pessoa saiu mal
resolvida, se seu ego está abalado, essa é a melhor ocasião
para trabalhar, revisando essa dificuldade em aceitar a
frustração. Dessa forma, cada um tem aquilo de que ne-
cessita e aquilo que tem procurado, tanto o paciente co-
mo o terapeuta. Acontece o mesmo com os casais, ou os
dois ganham ou os dois perdem. Se houve decisão mútua
cie se amarem e de se entregarem, ao final haverá uma
mesma dor: um não pode ganhar se o outro perder, sim-
plesmente não é possível. O encontro foi de duas pessoas
e a separação vai ser de duas. Nenhum dos dois é mais res-
ponsável que o outro; nenhum dos dois é o mais doente.
O terapeuta não dá ênfase suficiente ao fato de que é
o próprio paciente a única pessoa e a que mais sabe para
onde irá o processo. O paciente é quem melhor conhece
seu problema, ele sabe até onde quer ir. Se pergunta, é por
alguma razão, é por querer saber o motivo de se encontrar
em determinado lugar.
A LOUCURA CURA
E importante que nos questionemos sobre por que o
paciente veio nos ver. Não foi por casualidade. A empatia
corresponde a uma situação holística. Temos de estar
atentos a esse porquê. Fantasias e mobilizações incons-
cientes não são desculpa. Por isso é necessário que o pa-
ciente diga por que decidiu, por que escolheu. Isso tem
de estar claro para ele, e ele deve manifestá-lo, pois a cau-
sa que o motivou a vir pode se converter na bandeira que
utilizará, mais tarde, para rejeitar o terapeuta. O paciente
esquece por que veio. Também o terapeuta pode apegar-
se à idéia de que o paciente não sabe por que veio, mas is-
so não é verdade.
Cada pergunta contém sua resposta. No ato de per-
guntar há uma intenção de auto-esclarecimento e de bus-
ca, que é muito sadia. Como sadia é a criança que, aos seis
anos, começa a questionar, porque está investigando e
sente curiosidade; percebeu que o mundo não se reduz a
ela, que ela é uma pessoa a mais e que não conhece nada,
mas deseja conhecer; então, faz perguntas. Temos de sa-
ber devolver a resposta ao paciente, ir-lhe ensinando que
cada pergunta que faz tem uma resposta já por ele conhe-
cida. O paciente pergunta para permitir-se expressar aqui-
lo que o inquieta. Já tem a informação. O adulto procura
lembrar o que já sabe. O terapeuta tem de ficar atento,
porque a pergunta antecipa, anuncia o que vem a seguir,
o que está passando do inconsciente à consciência. A per-
gunta é simbólica, tem muitos signos, não é clara, ainda
tem uma parte inconsciente, mas a resposta está aí.
A loucura é uma autocura. O que importa na busca é j
a própria busca. O paciente se autoriza a isso e o terapeuta ]
também. Os dois chegam aí inconscientemente. O verda- j
deiro trabalho terapêutico é que ambos devem despertar
e percorrer a esse caminho de maneira consciente. Ne-
nhum dos dois tomou o caminho da consciência, do en-
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ?
contro consigo mesmo, da procura de si mesmo. Nenhum
dos dois de início se reconheceu como doente. Ambos er-
raram o caminho em algum ponto e terão de retomá-lo
pela consciência; devem se esforçar e ser honestos, não
tentar ajudar o outro para ajudar-se a si mesmo. É preciso
aj udar primeiro a si mesmo para poder ajudar os outros.
Os dois fizeram uma tentativa inconsciente, agora devem
tomar o caminho de volta, retornar à consciência.
O paciente procura o terapeuta adequado ao mo-
mento que vive. A partir do inconsciente os dois se sinto-
nizam na procura, seja da verdade, da realidade ou da
profundidade. E obvio que há terapeutas de pouca pro-
fundidade, com uma série de problemas não resolvidos
que lhes impedem transformações e que atrairão pacien-
tes com essa mesma problemática. Há mensagens em ní-
veis que não podemos medir ou explicar, ver ou ouvir, mas
que são percebidas. O terapeuta que leva seu paciente a
uma profundidade maior que a procurada está levando
esse paciente ao fracasso. Eu acredito no encontro e que
ele é parte do processo, que tem de passar por aí.
A química pessoal me ensina que quando um tera-
peuta procede uma limpeza interior, aceitando perder
tudo, perder-se no encontro consigo mesmo, escutando
e enfrentando sua própria realidade, esse terapeuta estará
com isso incrementamos a saúde e a confiabilidade. E es-
sas são as suas credenciais, não os diplomas que decoram
o consultório, não os cursos freqüentados. Estes são im-
portantes, mas ninguém chega à confiança por meio de
uma técnica, ninguém pode atingir a auto-estima fazen-
do um curso. Se assim o fosse, há muito tempo vivería-
mos no paraíso.
É bom assinalar que não é necessário ter resolvido tu-
do para que se esteja disponível para a cura. A saúde não é
uma meta, é uma atitude. A saúde mental não é cumprir
certas condutas estabelecidas, é poder aceitar condutas
que não agradam a nós e nem aos outros, mas que, no en-
A LOUCURA CURA
tanto, temos. Fique claro que não é necessariamente sinal
de saúde conduzir-se de uma maneira tal ou qual.
Em muitas oportunidades a atitude sadia, a paz inte-
rior incomodam quem vive conosco, quem compartilha
de nossa vida. E como a independência que aborrece; co-
mo o amor que importuna. Assim, às vezes, temos uma
conduta sadia e ela incomoda aos demais, e por isso per-
demos aquilo que mais queremos. Perdemos não porque
tenha de ser assim, mas porque o crescimento é um pro-
blema individual e não do casal. Nunca consegui encon-
trar um problema de casal, pois, atrás dele, sempre se
oculta uma problemática individual, que motiva o descon-
tentamento do casal.
O amor também tem um ciclo de quatro estações. A
primavera é o brotar de tudo, é o nascimento do dar, a pri-
mavera diminui o ego, a primavera é ceder, é muito bonita,
agradável, confortável. Na primavera abaixamos nossas de-
fesas, ficamos doces, tenros, carinhosos, mostramo-nos inte-
ressados, supervalorizamos ou reconhecemos o justo valor
da outra pessoa. O mal é que quando a primavera acaba
chega o verão. O verão é ardente e passional, precisa de ou
:
l
tros elementos para manter viva a natureza, época de chu-
vas, de pragas. Tudo começa a se expor, nossas próprias pra-
gas e as cie quem temos a nossa frente. Chega o outono e
este é ainda mais severo, mais radical, intenso e ávido. Tem
uma avidez que evidencia a carência. Começamos então a
armazenar e já não queremos dar. Assim chegamos ao in-
verno, à renúncia da primavera, ao começo da crise final,
ao desamparo e á solidão. E ficamos mais dependentes.
Esses mesmos passos são seguidos por uma terapia: é
mui t o bonito ir à procura da saúde, mas é muito difícil
ter de aceitar o tempo e a atenção exigidos. Além disso, a
procura é também uma doença, é uma necessidade de {
agradar. É preciso cruzar as quatro etapas para conseguir j
uma transformação terapêutica importante, para que o ]
Sul i TERAPÊUTA CURA VOCÊ?
ego deixe de brigar, para que já não criemos problemas
dentro do problema.
Quero sublinhar que o que move o paciente é nossa
atitude de abertura, de honestidade, de reconhecimento e
de aceitação. Os dois precisam se envolver, trabalhar juntos
tanto no que é conhecido por cada um deles, como no des-
conhecido por ambos. Trata-se do seguinte: a tarefa será
mútua e a cura também. O terapeuta deve permitir a deci-
são e a determinação do paciente e evitar colocar-se como
modelo para imitação. Sabemos que a enfermidade do pa-
ciente provém cie uma imitação. Digamos que a originalida-
de é a saúde. A criança necessita imitar, mas o adulto deve
ter liberdade interna e consciência de estar dirigindo sua vi-
da, suas emoções, seus pensamentos. Essa é uma atitude
que nenhuma técnica ensina, que somente se revela per-
correndo o caminho e aceitando que a vida deve ser vivida.
Ainda que não explicitamente, a maioria das corren-
tes ou escolas de psicologia tem a norma implícita de não
se fornecer ao paciente informação sobre o que ocorre na
vida cio terapeuta. Considero isso muito negativo, pois sus-
t ent o que a transparência aj uda a melhora do paciente.
Além disso, nada ter a ocultar na vida é uma parte impor-
t ant e daquilo que se está tentando ensinar ao paciente.
I magine alguém insinuando que tem sua vida, mas isso
não tem a menor importância... A distância é desnecessá-
ri a, é sinal de medo, é negar algo que queremos ocultar, o
que não é nada terapêutico. É mais fácil não ocultar, é mais
espontâneo ser natural e simples: é melhor encurtar o ca-
minho e não aguardar que o paciente, pelas suas fantasias,
chegue a uma conclusão que nós poderíamos ter lhe indi-
cado. A sanidade está apoiada na simplicidade, no deixar-se
ver, no permitir que as rotas se encurtem. É espontâneo
mostrar o que somos e como vivemos.
Estou convencido de que a essência da conduta é a
energia. Essa palavra conduz à razão, mas há muitos cam-
pos cie energia que levam outras mensagens, pela emoção.
A LOUCURA CURA
Tudo é mais óbvio em nosso corpo. Podemos calar a boca,
mas o corpo não: fica presente, são visíveis suas contrações,
seu stress e a sua deformação. Prestando atenção na falta de
tônus muscular, na flacidez ou na gesticulação, qualquer
um pode ter a leitura da pessoa que tem pela frente. Assim
a mensagem chega e é recebida sem qualquer escapatória.
Não há possibilidade de simplesmente não ser, de não estar
em evidência e de negar o que somos. Quanto mais incons-
ciente for esse processo, mais estaremos convidando o pa-
ciente à imobilidade, a seu desejo de não lutar. Se perceber-
mos tudo isto, acreditaremos que o terapeuta não pode se
ocultar, não pode perseguir a falsidade, nem pensar no que
dirão os outros. Não pode ocultar seu ser. Aqui se encontra
um dos nós górdios daqueles terapeutas que utilizam técni-
cas de não exposição pessoal e pretextos de ética. A nega-
ção não é a solução do conflito, mas sua confirmação.
Uma norma de ouro a ser seguida é que quem cura é
o terapeuta, não a escola ou a técnica, mas a atitude, a capa-
cidade de entrega à vida e a confiança alheia, sua essência,
enfim, e nada mais. Certamente as técnicas são caminhos,
mas há um momento em que é necessário abandoná-las.
Quando entramos no deserto do trabalho profundo, temos
de ficar sozinhos, somente com nossos próprios recursos. E
esses recursos são também as limitações, a desconfiança. Es-
ses são recursos que o terapeuta deve usar e que o paciente
utiliza como bússola. Isso não se diz, sente-se e, insisto, é
transmitido pela presença.
É inegável que se diagnostique por meio do raciocí-
nio e talvez esse seja um bom caminho. Mas tudo isto é ra-
cional, intelectual... No entanto, o tratamento será feito
pelo inconsciente, pelo terapeuta como pessoa. Por isso
temos que estar muito alertas sobre quem contesta, quem
acata, quem indica, quem aconselha e a que se está convi-
dando o paciente.
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ?
Continuamente nós, terapeutas, sentimos a obsessão
de ter de fazer algo pelos pacientes. Como supostos porta-
dores da sanidade, temos um senso do dever, que não é na-
da mais do que um rótulo que nos temos atribuído a partir
de um profundo sentimento de auto-estima. Acredito que
nesses núcleos eu, pessoa e terapeuta, posso oferecer ao
meu paciente um incentivo para que ambos nos estimule-
mos, para que o crescimento seja mútuo. Acompanhar é
fazer terapia.
Por que fazer alguma coisa pelos pacientes? Por que
modificá-los? Acredito que somente podemos acompanhar
o paciente até onde ele o deseje. Não pode haver progra-
mação para esse encontro consigo mesmo. A transforma-
ção do ser não é programável e somente acompanhando-a
pelos caminhos da vida poderemos ser testemunhas do
presente contínuo. Para poder caminhar temos que mos-
trar como somos e, no momento em que somos, nossas ob-
servações devem ser isentas de juízos de valor, positivos ou
negativos. O mais comum é fazer o contrário. Mas observe:
o ensinamento dos grandes homens é baseado em sua pró-
pria vida e não nas bibliotecas. A maior parte dos terapeu-
tas cura a partir da própria fobia a suas doenças; muito
poucos partem da aceitação da enfermidade.
A única coisa que posso ensinar a meus pacientes é
minha atitude diante da vida. Da mesma forma que como
pai somente poderei ensinar a meus filhos minha relação
para com meus pais.
Sinto com clareza que deixei de me modificar frente
a meus pacientes quando atingi um ponto em meu desen-
volvimento pessoal e compreendi que tentar uma mu-
dança não era nada mais que procurar agradar meu pai.
Não acredito ser o único: tenho visto centenas de terapeu-
tas na mesma situação. Para os terapeutas não é fácil reco-
nhecer que seu "ego" é quem guia seus pacientes e que
seu "eu" nem entrou ainda no consultório.
A LOUCURA CURA
E óbvio que diagnosticamos pelo nosso intelecto, mas
o tratamento é efetuado pelo inconsciente. Você sabia dis-
so ou acredita que nunca se envolverá? Lembre-se de que a
distância como estratégia é medo de se perder. Portanto, o
que você transmite a seu paciente: autismo ou confiança?
Eu não consigo trabalhar com ninguém se o afeto não esti-
ver presente; quanto mais profunda e honesta for nossa re-
lação, maiores serão os avanços recíprocos. Toda verdadei-
ra relação tem cie mergulhar em todos os gêneros do teatro
da vicia: o melodrama e a tragédia, passando pela comédia.
Lavemos nossas penúrias com nosso pranto, assu-
mamos a vergonha de nossa pequenez e, sendo peque-
nos, vamos rir de nós mesmos, para que, com essas duas
atitudes, adquiramos o tônus muscular que corresponde
ã liberdade!
A transparência não pode ser escondida e nem pode
ser exibida: ela apenas é. A norma da vida é ser anormal.
Os conflitos políticos e sociais determinam a justiça
de nossa realidade, que é condicionante de nossa doença.
Todos os que obedecem as normas manterão o poder vi-
gente, mas cobrarão o mesmo dízimo em suas casas. Toda
a terapia oficial se identificará com o poder do momento,
já que da falta de sanidade dependerá seu poderio. Um
t rat ament o profundo traz uma consciência política. Não j
se pode falar cie saúde mental abstendo-se da fraternida-1
de. Um ser consciente é um ser holístico, preocupado em j
defender o destino dos que o cercam, a natureza, o bem-
estar, a terra, a vicia.
Eu, como pessoa, sou responsável por todos os atos
que derivam de mim, sejam pensamentos ou sentimentos,
tenham raiz num surto psicótico, numa lesão cerebral, se-
jam estimulados por alucinógenos ou pelo álcool, sejam
resultado de uma perda de controle durante uma crise...
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ?
A partir dessa posição, tento achar uma alternativa para a
saúde do paciente. Enquanto nos escudarmos em algo ou
em alguém, interno ou externo, que nos permita a opor-
t uni dade cie não assumir o que somos, será impossível
atingir nosso próprio bem-estar. Minha postura não é jul-
gar ou reforçar a autopunição, que é a postura tradicio-
nal. Culpar o outro pode eximi-lo de seu desejo e é garan-
tia de sua discordância.
Percebo na atividade terapêutica um acordo tácito,
entre terapeutas e pacientes, aí envolvida a família, de não
explorar minuciosamente nem participar do processo do
paciente. É verdade que os familiares e mesmo o paciente
nos pedem para suprimir os distúrbios que o doente pro-
voca, querem que o acalmem, para que ele não atente
contra seus princípios educativos.
Nunca vi alguém se liberar de problemas falando sem
se alterar e sem perder a boa educação. Há um excesso de
formalidade nos processos tradicionais e não queremos
reconhecer que nossos pacientes, de maneira implícita,
nos pedem licença para perder o controle. Por certo, só o
fato de poder visualizar isso já demonstra muito caminho
andado pelo terapeuta. Existe uma mania de confundir
repressão com consciência dos limites. A forma mais ade-
quada de conhecermos nossos limites é enfrentar a re-
pressão, já que esta nos paralisa, enquanto a consciência
dos limites nos fornece segurança.
A infância é a época adequada para expressões além
dos limites, deixando nosso vulcão entrar em erupção. Es-
sa é uma possibilidade única, nunca mais repetida, para
uma boa formação. A criança vive sua totalidade, é pura in-
tensidade. Tem tanta energia em cada uma de suas condu-
tas que os pais se assustam, em sua surpresa e timidez, a
ponto cie serem incapazes cie se converter 110 ser irracional
que é seu filho, abrindo um canal de contato entre eles.
Não me refiro somente ao contato físico, mas ao contato
instintivo compartilhado, muito esquecido pelos adultos.
A LOUCURA CURA
As crianças nos lembram a repressão contra alto-falantes.
Se lhes permitíssemos se expressar, elas nos guiariam em
nosso aprendizado como pais, pois sabem o que querem e
o pedem. O adulto, numa situação similar, fica um passo
atrás, porque não se atreve a pedir.
Acredita-se que para cada idade corresponde um
comportamento específico. Mas essa é uma escala que es-
tabelece predominâncias, e nem todas as etapas se desen-
volvem tal como se supõe: não se amadurece uma fruta só
porque assim se deseja. Uma pedagogia real é aquela em
que se aguarda que o outro se transforme quando chegar
sua hora.
Ninguém quer ser o desencadeador de sua própria
crise. Preferimos que a crise nos esbofeteie, acordando-
nos para o desespero e o descontrole de tudo aquilo que
nos foi negado. Ninguém dribla suas próprias crises. A cri-
se eqüivale à negação do desejo na tragédia mítica. A re-
pressão do desejo é a tragédia. Ao reprimirmos nossos de-
sejos construímos nossa frustração.
Por que tanto medo de nos manifestar, de viver como
queremos, de deixar o que se acabou? Por que tanto te-
mor em dar-nos o direito de começar uma, duas, mil ve-
zes, sem que o fantasma da comparação nos atemorize e
nos convença de que a passividade é a melhor alternativa?
Tudo isso não são mais do que visões infantis que têm um
peso decisivo em nossas vidas.
Confundimos o sofrimento com a dor. Faço uma dis-
tinção. O sofrimento é um conteúdo enfermo, não é um
sofrimento poético ou o sofrer dos místicos, mas um so-
frer masoquista, obstinado em viver mal, em recair, por-
que se é um dependente desse mal-estar, tanto interno co-
mo externo. O sofrimento evita contato com a dor,
preferindo sofrer a aceitar e sentir a dor. Ele é uma capa
externa. O sofrimento faz perder o juízo, deixa-nos em
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ? 49
contradição, é irracional e induz à paralisia ou nos torna
hipercinéticos. A dor é o estar em contato com aquilo que
sentimos, com carências, com nossa essência. A dor tem
atributos e qualidades. O sofrimento é estrondoso e a dor
é silenciosa, é quieta, interna, pessoal. A dor é um estado
de solidão. O sofrer é exibicionista, quer estar presente e
ter testemunhas frente a quem representar o ato heróico,
caso contrário não tem sentido. O sofrimento é eufórico.
O difícil é ir do sofrimento à dor. A dor não tem com-
preensão, somente aceitação; na dor acabam-se os por-
quês. Fui eu. Não tem mais. Deve-se aproveitar a crise do
paciente, pois se ele estiver fora dela já não se pode mobi-
lizar nada. Pode tardar anos, pois ninguém entra em crise
se sentindo bem. Por isso deve-se aproveitar a oportunida-
de da profunda transformação que a crise fornece. Às ve-
zes ela é provocada quando se está perto da morte, quan-
do falece um ente querido, quando se está na prisão,
quando se perde tudo, mas esses momentos não voltam a
se repetir, eles vêm com os ciclos da vida. Se a crise se
apresenta é o momento de se expor àquilo ainda não re-
solvido em nós. Uma crise mobiliza toda a personalidade
e tem a força e a intensidade necessárias para aprofundar,
porque tudo está à flor da pele. Abre-se uma caixa de Pan-
dora. Não se pode trabalhar a amargura na lua-de-mel.
É importante assinalar que os terapeutas têm o delí-
rio de poder solucionar tudo. Mas não têm de resolver na-
da. Dar solução ao problema é negar o problema e criar
mais um. A solução é o próprio problema.
A postura que o terapeuta deve assumir é ficar quie-
to. Mas não submetido a uma passividade exigente, de
quem aguarda algo, mas a uma passividade do ego, para
que dessa forma o ego do paciente possa se manifestar.
I sso porque, se o nosso ego é mais forte que o do pacien-
te, o dele não vai se apresentar.
Os passos dados em uma terapia devem ser tão sóli-
dos e firmes quanto possível. A posição do terapeuta deve
50 A LOUCURA CURAI
ser a de chamar seu paciente à responsabilidade. Passo da-1
cio é passo assumido. Passo não dado, também. Caso con-J
trário, o paciente não se responsabilizará pelos equívocos!
e culpará o terapeuta.
Temos de reconhecer que muito do ensinamento ba
seia-se em deduções intelectuais, em repetir aquilo que se
leu ou escutou alguém dizer. Mas o máximo ensinamento
que o terapeuta fornece a seu paciente é obtido por sua
atitudes e pela tolerância. É nisso que está a cura e não na
intelectualização. Na maturidade trabalha-se num níve|
não programado, por meio de atitudes.
A realidade é externa, mas a verdade é interna. Deve
se trabalhar a partir da verdade pessoal e não a partir dai
realidade exterior. A realidade existe, mas não é confiáveLf
O que interessa é ir ao encontro da interioridade, que é;
verdade pessoal. Essa verdade muitas vezes não estará dd
acordo com a realidade, porque esta atenta contra a liberi
clade do indivíduo. Não se trata de construir pessoas obsti|
nadas ou rebeldes, mas é preciso saber estar em desacordo
com a realidade, porque talvez uma parte da realidadd
não nos foi ensinada pelos nossos pais. É necessário
uni rebelde com causa. O rebelde com causa é uma pés
soa na procura de ser. Aquele que não tem causa é irracic
nal, está simplesmente em oposição. Mas é necessário ré
conhecer a autoridade interna, autoridade que vem d(j
autor, autor de si mesmo. Temos que aprender a acredit
nessa autoridade, que não é ameaçadora para ninguémj
Mesmo que se seja uma pessoa confiável, que tem conhe
cimento de si mesma, pode-se ir contra a sociedade tradl
cional e seus dogmas. A autoridade interna opõe-se a<
dogma e à norma.
A pessoa torna-se um rebelde, não no sentido destri]
tivo, mas o símbolo de quem faz o que quer e essa atitudá
é contagiosa. A verdade não se ensina nos livros, é uma atl
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ? 51
tude. E o que vemos na vida dos grandes homens: sua ver-
dade ameaça o sistema e transcende o político e o social.
O terapeuta tem de ser a testemunha do ato de con-
trição cio paciente. O paciente tem de voltar-se sobre si
mesmo, para dentro. E o terapeuta somente pode conso-
lar com a sua presença, narrar e cantar como um xamã,
como aquele que conhece e se converte em um vigia, em
um exemplo, em um guia, em um mapa. Ele é o guia que
conhece o território e inspira confiança ao paciente. I sso
não quer dizer que avançar por esse território não inspire
cuidados ou que aí não haja perigos mortais. O terapeuta
não sabe se vai haver um final feliz. As possibilidades são
tantas que não pode controlar todas. O fato de ele conhe-
cer o caminho não é uma garantia total, existe a possibili-
dade do suicídio, do extravio ou do fracasso. O guia não
pode garantir o retorno a ítaca, como diz o poema; a pes-
soa sai à procura, faz o esforço e pode morrer a caminho
cie ítaca, embora ao final isso não importe, o que importa
é o caminho do guerreiro, o caminho do paciente. Deve-
se renunciar à meta, para que a única coisa que tenha va-
lor seja o caminho cotidiano. O caminho é o arquétipo. A
busca é um arquétipo universal, o encontro também, em-
bora cacla caso seja individual. I sso aparece em todas as
culturas, em toclas as épocas; o homem sai à procura de si
mesmo. O terapeuta conhece mapas e tem de mostrá-los
aos pacientes. Tem de haver coerência: mostrar esses ma-
pas é mostrar-se como pessoa. Demonstrar que andou pe-
lo caminho. Também o canto do chamai, as narrativas dos
sufis
8
, os casos dos trovadores são histórias deles mesmos.
Eles, ao se apresentarem com transparência, dão expressão
ao mito, são o mito como realidade, como um mapa ela-
borado por alguém que passou por ali. O mito que so-
ment e pocle ser decifrado quando já foi percorrido. O ca-
s
Sufi : mest re míst i co arábico-persa, que sust ent a ser o espírito humano
uma emanação cio divino, no qual se esforça para reintergar-se.
A LOUCURA CURA
minho se conhece caminhando. I sso não se pode desco-
brir por deduções lógicas, mas por vivência própria. O te-
rapeuta deve se converter na experiência palpável.
Nós, terapeutas, vivemos em função de que os pacien-
tes se sintam bem. Sempre dizemos que aquilo que nos
importa é a saúde e, quase inconscientemente, queremos
vê-los bem, porque isso comprova que somos bons. E o
ego que sempre está procurando sua gratificação, mas de
forma narcisista.
Tratamentos bons e profundos são aqueles em que,
desde o início do processo terapêutico, há o cuidado de
não dinamitar o inconsciente do paciente, prosseguir pou-
co a pouco, escavando, para chegar à caixa de Pandora. Es-
se é um esforço muito grande e os terapeutas que assim co-
meçam normalmente não conseguem ver o término de
seu trabalho. É depois de muitos anos que se vê o resulta-
do, o que é bastante frustrante. Mas o bom terapeuta sabe
disso, o mais difícil é começar. O terapeuta tem de estar
aberto para investir sem esperar nada em troca, tem de re-
nunciar a ver os resultados. A única coisa que pode fazer é
trabalhar o momento.
Nesse tipo de relações, muitas vezes se produzem as
despedidas mais profundas e desgastadas, inclusive as
mais caóticas. Não há meios que assegurem que se possa
dizer adeus com boas maneiras, com agradecimento, lá-
grimas nos olhos e coração aberto. Às vezes é preciso que
se rompa o cordão umbilical, mesmo tendo de vencer for- j
ças tremendas para poder desfazer a dependência e tudo
o que a envolve. E como uma guerra de separação, dolori-
da. Mas tem de ser assim. Reencontros, depois de vários j
anos, fizeram-me entender isso.
Os pais querem que os filhos partam maduros, rés-j
ponsáveis. Mas seguindo idéias que esses pais têm. E isso j
não é uma separação. Não se consegue a separação fican-j
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ?
do sentados e permanecendo de acordo. Cada separação
é uma repetição do nascimento, que foi caótico, asfixian-
te, com ameaça de morrer, com sangue, com esforço. E a
independência terapêutica também é assim. Quando o te-
rapeuta tem medo da separação, desenvolve estratégias de
sedução, desvaloriza seu paciente para mantê-lo unido e
conseguir, assim, uma simbiose que os retroalimentará até
a saturação. Mas o terapeuta tem de estar preparado para
a separação, para que o paciente se desligue, pois é para
isso que chegou aí. E ele tem de lembrar o paciente de
que este procurou a terapia por uma incapacidade de ser
ele mesmo, de ser independente. O terapeuta esquece is-
so e esse esquecimento é atávico.
A autenticidade é não mudar aquilo que se é e acei-
tar aquilo que se tem. É a capacidade de se manifestar tal
como se é, sem disfarces. No caso, aquilo que é autêntico
é o que tem valor.
A autenticidade não é tentar ser melhor. I sso seria
um sentimento de dever, uma obrigação, uma ordem, uma
fachada. A verdadeira autenticidade é mostrar-se, sem pre-
conceito, sem temor de ser desvalorizado.
Para poder atingir isso, temos que trabalhar muito
como pacientes, não como terapeutas. Não é questão ape-
nas de se mostrar, caso contrário qualquer descarado seria
um ser autêntico. É preciso não confundir, achando que
se deve mostrar a verdade até o escândalo. Os que assim
julgam estão menos interessados na verdade que no es-
cândalo. Deve-se dizer a verdade sem escandalizar.
Não posso fazer meu paciente crer naquilo que eu não
acredito. Se eu não conheço um procedimento, estou co-
metendo uma fraude quando o imponho a meu paciente.
O terapeuta se envergonha ao mostrar-se humano,
conflituoso, indeciso, desprestigiado, edipiano, bissexual,
heterossexual ou com qualquer outro problema...
A LOUCURA CURA
issr
\
E também o terapeuta tem terror de ser pessoa frente l
ao paciente. Ser pessoa é deixar de funcionar como má-
quina, é não ser programável. A pessoa não responde aos
programas do papai e da mamãe, tem seus próprios pró-
]
gramas. Temos de ficar atentos, pois o processo de se con- j
verter em pessoa é muito bonito, significa saúde. Esse é o !
trabalho que tentamos fazer.
A verdadeira preocupação e responsabilidade do terá- j
peuta é fazer seu trabalho. E importante dizer: vamos tra-
balhar, porque o que se faz é um trabalho, envolve esforço
e tensão. Deve haver uma continuidade e uma consciência
cie que os trabalhos ocupam tempo, suprimem momentos
cie distrações. O trabalho é esforço constante e capacidade
de viver cada instante com consciência, até que isso se con-
verta em um estilo de vida e que permita viver bem.
Há certas deformações nos terapeutas que os impe-
dem cie deixar os pacientes se aprofundarem. Tentam
diminuir os conflitos do paciente e tirá-lo do sofrimen-
t o. I sso é muito negativo. E preciso aprofundar-se para
seguir em direção ao lugar de onde se quer fugir. E a
única forma de tocar fundo é evitando as tentações. Não
se pode superar obstáculos fugindo deles ou negando-
os. Temos cie sucumbir ao medo e ao que consideramos
mau. Temos de nos tornar maus, mais doentes. Temoí
de entrar 110 pântano. Trabalhamos muito pouco as si
tuações de martírio com consciência. Não é que não te
nhamos sofrido na vida, mas o fizemos de forma incons
ciente, e por isso não obtivemos bons resultados. Tods
essa problemática é uma projeção do terapeuta, de seu
conflitos não resolvidos, já que ele se dedicou e ficoi
entretido na sintomatologia e interpretação de suas pró
prias condutas, mas não se envolveu com o que está pó
trás. E preciso ir ao fundo do oceano, afogar-se, e nã<
flutuar em bóia salva-vidas. E necessário aprender a con
fiar na tempestade: afundar, flutuar, afogar-se e sair. De
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ?
vê-se renunciar à saída enquanto não se tenha chegado
ao fundo. Caso contrário, não se resolve nada. Falo de
resolver, não de mudar condutas. É necessário chegar
ao núcleo, à essência do conflito para poder conhecê-lo
e optar com liberdade.
Entender não é nada mais do que mascarar o proble-
ma, racionalizaiido-o. E preciso vivenciar a origem do con-
flito, retornar ao pecado original. A vivência tem um con-
teúdo mais profundo, é a experiência do reviver, do tornar
a se abrir e do abandonar toda a pele. É uma convivência
com a verdade ali presente, e não com uma interpretação
mental. A solução está na própria experiência de se apostar
no risco de aprofundar em si mesmo. O pensamento não
resolve, porque o problema não se originou de um pensa-
mento, mas cie uma experiência, de uma vivência, de uma
palavra ou cio impacto de uma presença que nos marcou.
O mais importante é a integridade, o poder estar
aberto e presente no instante, aconteça o que acontecer,
seja lá prazeroso ou desagradável.
Há terapeutas que se tornam maníacos por cursos, pa-
ra melhorar suas defesas. Não nego a importância dos co-
nhecimentos. Refiro-me àqueles que não conseguem fazer
nada se não comparecem a cursos, que ocultam seu escas-
so desenvolvimento pessoal adquirindo mais e mais infor-
mação. Mas a base de tudo é o desenvolvimento como pes-
soa. Quem não percorrer esse caminho durante ao menos
dez anos vai deformar qualquer técnica que receba. As téc-
nicas foram elaboradas por quem atingiu alto nível de de-
senvolvimento pessoal. Um terapeuta que não avançou por
esse caminho, quanto mais praticar, pior ficará. Caminhará
para um subdesenvolvimento pessoal: pouco crescimento
interior e megalomania de desenvolvimento exterior. O
crescimento tem de ser simultâneo, coerente. De outra for-
ma, as técnicas vão ser assimiladas de maneira^ mecânica. A
técnica é insensível, o que a vivifica é o desenvolvimento
pessoal cio terapeuta. A técnica funciona se o terapeuta vi-
A LOUCURA CURA
ve plenamente. Nesse caso as técnicas têm sucesso, porque
o terapeuta aplicou-as primeiro em si mesmo, pôde viven-
ciá-las e ter com elas uma experiência que transcende o
mental, o emocional. Repito: um terapeuta sem trabalho
pessoal é um robô, um doente a mais, alguém que vai levar
o paciente a nada. A base de uma técnica, de uma teoria,
de uma escola, é a experiência.
Mantenho uma mobilização constante para com o
paciente. Considero o caos como sendo a ordem. Tento,
com meus discípulos e pacientes, eliminar o marco de re-
ferência, para que a não-referência seja a referência mes-
ma. É como estarmos nos preparando para naufragar. Pó- j
de ser bom levar mapas e instrumentos, mas insisto em j
que aprendam a guiar-se pelas estrelas. E que saibam nau- j
fragar, para que o desastre não os pegue desprevenidos. l
Que se preparem de forma adequada. Não é uma para-j
nóia querer mantê-los preparados. E ficar em estado de j
alerta frente ao que de pior possa acontecer. E isso é ter J
capacidade de aceitação.
Temos de aprender a aceitar porque é inegável que,J
embora a vida dependa de nós, embora construamos nos-J
só destino, certas coisas, queiramos ou não, irão acontecer!
conosco, irão nos afetar; existem fatores sociais, naturais e|
de outra índole que não estão sob nosso controle. Muita^
políticas têm afetado de forma profunda e tornado infeliz
um número indeterminado de pessoas, em todas as épc
cas. Isso é algo real e para ele devemos estar preparados.
Aprendamos a renunciar à segurança, a uma segu|
rança com um alto conteúdo egoísta. A saúde não é ter ou
deixar de ter, é a aceitação de ambas as possibilidades,
mo terapeuta sempre coloquei uma armadilha à pseudc
segurança do paciente, essa segurança que o leva a não ré
nunciar ao necessário, mas o faz desistir de algo impossíve
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ?
na realidade. Até porque renunciar é algo real, é uma ca-
pacidade muito sadia. Ninguém acredita que vai haver
uma guerra. Ninguém aguarda um terremoto... Felizmen-
te, ou não, cada qual enfrenta provas de acordo com seu
tamanho. Esse é um dos mistérios da vida: nós vamos ten-
do as provas exatas de que necessitamos e devemos estar
preparados para reconhecer esse fato.
Não podemos fazer muito frente a decisões tomadas
pela vida, pelo universo ou pela natureza. Mas se podemos
tomar uma atitude frente a elas, essa atitude é não opor
resistência. Resistir à correnteza traz um sofrimento des-
necessário. Não se deve criar problemas sobre um proble-
ma. Existem muitas histórias sufistas que tratam do não
nadar contra a correnteza, do deixar-se levar. Essa não é
uma atitude passiva, mas uma tensão para procurar o
equilíbrio, para sustentar-se e se manter. Não é passivida-
de, é uma atitude de confiança e é uma ação.
Por isso, o que faço com os pacientes apresenta pau-
latinamente uma dificuldade maior: não é envolvê-los nu-
ma armadilha, mas ir colocando para eles dificuldades to-
talmente diferentes das já superadas. É ir abrindo o leque,
para que eles não se acomodem no conformismo ou na co-
modidade. Com freqüência lutamos com nós mesmos, mas
para atingir comodidade, imobilidade, descanso. Temos
direito ao descanso, mas não no descanso.A solução da
existência surge na convivência, dia a dia. A resolução dos
conflitos cotidianos vem de enfrentarmos, de perdermos a
esperança de que não vai acontecer nada. Ao contrário,
quanto mais abertos estivermos, mais coisas vão ocorrer e
mais sensibilidade teremos frente às evidências. Seremos
sensíveis a tudo. Não podemos ignorar a humanidade. Não
podemos ignorar os vizinhos. Não podemos ignorar, en-
fim. E essa é uma das minhas propostas a meus pacientes:
que não ignorem o que acontece, que sejam sensíveis.
A LOUCURA CURA
As decisões que marcaram nossa personalidade foram
tomadas numa idade muito tenra. Eu considero que os tra-
tamentos que não trabalham regressões, até níveis intra-ute-
rinos, não são profundos. Um grande psiquiatra mexicano,
Santiago Ramírez, disse que infância é destino, eu digo que
gestação é destino, já que tudo tem a ver com a atitude no
momento do orgasmo fecundante, a qualidade, a intensida- \
cie, a explosão. E óbvio que tudo o que acontece dentro do
útero tem a ver com a pessoa. O bebê é receptivo para com
sua mãe, que lhe filtra tudo o que acontece no exterior, que \
passa toda a informação. O ser humano conhece assim, j
energeticamente, diversos estados emocionais, conhece o ]
stress, as modificações bioquímicas. A partir daí começa a as-
sociar, desenvolve-se o sentido do tato, depois a orelha e, j
por meio dos sons, apresentam-se os sentidos emocionais.
Nós que trabalhamos em terapia sabemos que umal
mudança de personalidade exige muitíssimo trabalho,]
tempo e dinheiro. Em incontáveis ocasiões tentamos fazer!
as coisas rapidamente, esquecendo que estamos traba-1
I hanclo com a essência do ser humano. Estamos tentando!
ajudar a formar, a reconstituir, a reeducar ou a reconhe-J
cer a si mesmo um ser humano que não quer fazê-lo.
Se alguém quiser vislumbrar um processo de evolu-|
cão, recomendo que leia a vida dos santos. Essas pessoas sei
submetem a vim processo terapêutico; embora sejam dei
uma sensibilidade extraordinária e contem com um mes-|
tre, o principal é sua capacidade de entrega.
A capacidade de entrega é fundamental em um prc
cesso terapêutico. Se a pessoa não se entrega, nada se mo-1
difica, se a pessoa arregaça as mangas, pode lutar pela vida.1
Mas chegar a isso é mviito difícil, são anos de empenho, dei
trabalhar as defesas e os mecanismos. Por isso, acredito
que exista uma terapia profunda e outra que se dedica;
analisar a caracterologia, a reconhecer os quadros da patc
logia e não os da saúde.
É necessário explicar ao paciente que o trabalho vaij
ser longo... Que viemos ao mundo para perceber onde es-
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ? 59
tamos e que esse perceber tem muitas etapas. Há um per-
ceber como criança, como adolescente, como adulto; um
perceber como profissional, como pai, como marido. Um
perceber aqui e agora, que somente termina com a morte.
O perceber é o despertar, que tanto mencionam os santos.
Estar desperto até a morte, estar continuamente presente,
é disso que trata a psicologia profunda, é nisso que consis-
te o crescimento.
Não duvido que existam técnicas muito boas, bons
caminhos, mas considero importantíssimo que o reforça-
dor seja o próprio prazer baseado no livre-arbítrio. Que
cada um seja seu próprio estímulo, que a nossa progra-
mação dependa de nós. Que seja eu quem quer ou não
quer. Que o amor seja o reforço. Se não nos abrirmos pa-
ra essa atitude de nos programar, voltaremos a ser máqui-
nas. Para poder decidir, é preciso consciência e poder di-
zer: eu quero hoje...
Um pouco atrás falei que era necessária a regressão
para poder renascer. Renascer é uma ressurreição. Mas
muitos terapeutas querem ir direto à ressurreição, sem ter
passado pelo calvário e menos ainda pela morte.Para re-
nascer, que é ressuscitar, que é acordar, há passos que são
inevitáveis, mas um bom terapeuta, como um bom pai, en-
curta o caminho, pois sabe o que fazer. O terapeuta ensina
uma boa atitude diante do irremediável, diante do misté-
rio da vida, diante da injustiça, diante da incapacidade. En-
sina a aceitação mostrando que, apesar de tudo, em cada
vida há uma ordem, que aquilo que nos coube está bem,
que graças a isso pudemos chegar a nos sentir bem, que o
mais valioso para atingir a saúde é, bendito seja Deus, que
nos reconheçamos doentes, pequenos e sofridos.
É impossível dizer qual é a estratégia certa para fazer
uma boa terapia. Muitos ficam discutindo que a melhor é a
gestalt, a bioenergética, a terapia de grupo, a individual, o
A LOUCURA CURA
silêncio, a expressão... Mas o verdadeiro terapeuta está
consciente de que o momento para trabalhar é o presente.
O resto é a habilidade que se tem e a capacidade de saber o
que utilizar no momento. Por isso, se o leque de que o tera-
peuta dispõe é amplo, este poderá ter uma presença eficaz.
A confiança se consegue soltando-se, envolvendo-se,
sendo permeável ao que está acontecendo, às mensagens
que o paciente está enviando.
Para poder abordar um conflito é preciso ter domi-
nado uma série de processos e de situações vivenciais.
Quem possui a chave, quem guarda o mapa é o paciente.
O que o terapeuta tem são interpretações. Por exemplo,
sei que um paciente tem um problema com seu pai, mas é
ele quem tem de percorrer o caminho, estabelecer a estra-
tégia, decifrar o labirinto. O terapeuta tem de acompa-
nhar o paciente e entrar em seu labirinto. É como o ermi-1
tão do taro: traz uma lâmpada que somente ilumina cada \
passo, e a luz não se perde tentando iluminar o futuro. O >
terapeuta acompanha o paciente, independentemente de j
saber para onde eles dois irão, só para ver o que há, por- J
que na verdade quem tem que caminhar é o paciente, j
Não devo ter pretensões sobre seu percurso. Eu já fiz meu j
percurso, conheço meu labirinto, e posso lhe dizer e fazê- ]
I o sentir que é possível sair. Posso lembrar-lhe que não é o
primeiro nem será o único que vai realizar essa Odisséia.
Eu já fiz a minha, e sei que a viagem pode ser feita. Com i
isso muda-se o tom, já não há prepotência terapêutica, j
mas humildade. Esse é o momento curativo, mas é impos-
sível deduzir dele a técnica e extrair daí um programa de j
exercícios. Trata-se da desprogramação do paciente para j
que ele tome sua própria decisão.
O terapeuta tem de saber muito de si mesmo, tem de j
conhecer diferentes técnicas. Tem de aceitar seu medo. O j
medo não se perde nunca. A covardia, sim. A covardia é o
medo do medo. Então, temos de ir com medo, pois o me-
do é uma bússola que indica o caminho correto. Às vezes
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ? 61
os pacientes querem frustrar o terapeuta, dizer-lhe que é
mau, que mesmo sendo conhecedor da verdade não os
pode curar. A idéia é frustrar o terapeuta, anulá-lo. Nesse
ponto é impossível ajudar o paciente, pois o que ele quer
é deixar mal o terapeuta, tal como fez ou quis fazer com
um de seus pais.
Todo paciente passa por isso, tentar anular o terapeu-
ta. E quando não se conhece bem essas situações pode-se
cair em uma crise, não como terapeuta, mas como pessoa,
pois essa é uma situação de depreciação. A melhor coisa,
quando acontece isso, é comunicar-se com o paciente,
abrir o jogo: o terapeuta quer ser perfeito e tem problemas
de auto-estima, enquanto o paciente, agredindo, tem sua
atenção voltada para frustrar e interromper o tratamento.
Se o terapeuta sente-se mal, é porque sentiu-se toca-
do num núcleo não resolvido e para isso houve um traba-
lho por parte do paciente. Se isso é deixado claro, então
está se conseguindo um trabalho terapêutico recíproco.
Como resultado o paciente pode reconhecer sua intenção
de sacanear, aceitar que isso é parte de problemas que
também vai enfrentar com outros terapeutas e outras figu-
ras de autoridade. Assim ficam claros o problema do pa-
ciente e o do terapeuta. Com transparência pode-se reto-
mar uma linha de trabalho, porque há pacientes que se
especializam em desmoralizar terapeutas, fazem disto
uma estratégia, passando de um terapeuta para outro. Pas-
sam ávida trocando de amante, mas sempre insatisfeitos.
E muito mais fácil culpar a falta de habilidade do terapeu-
ta que aceitar que se dedicam a criar essas situações.
O objetivo é trabalhar a doença do paciente, não a do
terapeuta. Não se trata de provar quem pode mais. Para
que gastar tempo e dinheiro em testar terapeutas, se está
havendo resistência? É mais fácil responsabilizar o outro
que se responsabilizar, desvalorizar alguém a se desvalori-
zar. Toda essa problemática deve ser discutida. Um pacien-
te deste tipo eu poria a correr, mas antes lhe diria quem
A LOUCURA CURAI
ele é, diria também que se ele quer me testar então quel
primeiro vá testar a puta que o pariu. Explico-lhe as regras!
e digo que não me sinto ameaçado por ele me testar, seja!
como terapeuta ou como pessoa. Minha estratégia é quel
ele se abra, mas da forma concreta, a partir da realidade, ai
partir de sua ameaça, sendo sincero, para que eu possa, as-1
sim, descobri-lo. Depois, verei o que acontece.
Para o bom desempenho do trabalho é necessário ter J
presente a transferência e a contratransferência, que sei
produzem de forma inevitável em toda relação, mas quel
são consideradas principalmente pelos psicanalistas. Ou-J
trás técnicas, muito americanizadas, as consideram desne-|
cessárias ou mesmo as negam.
Considero que o melhor processo terapêutico é ai
transferência múltipla, em que estão presentes figuras!
masculinas e femininas. Onde há maiores possibilidades!
de transferências, há mais horizontes. O terapeuta devei
trabalhar muito a possessividade, os ciúmes, a inseguran-l
ca e o saber compartilhar, para poder admitir que não!
será o único. I sso porque um terapeuta homem nunca!
poderá trabalhar a relação filho—mãe ou a da filha com ai
mãe, por uma simples razão: não é mulher. Toda a pro-J
blemática do paciente vem por dois canais e é necessário!
viajar por ambos, sem esquecer tios e avós. Existe o deslo-l
camento de figuras. Há pessoas com dois ou três édipos. El
necessário reviver, porque o processo de cura é reconhe-1
cer. Por isso tem de haver cuidado quando se trabalha em!
equipe, já que os terapeutas entram em conflitos econô-j
micos, sociais e psicológicos, tendendo aí a ser reproduzi-1
da a situação familiar: assim como seqüestram-se filhos, se-J
qüestram-se pacientes.
A psicanálise tem defendido muito a tese de manter!
a contratransferência a boa distância. A resistência à con-1
tratransferência é, em si, uma contratransferência. E ine-1
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ?
gável que a essência da conduta é a energia e a contra-
transferência é administrada em nível energético, não em
nível intelectual. Evitar significa não estar se dando, não
estar se relacionando. Por isso, vale a pena revisar qual é
a resistência a ser identificada, a partir da inspeção de
nosso mecanismos de defesa.
Um paciente qualquer pode ter o potencial de mo-
tivar e mobilizar o terapeura. Mas, se este não reconhe-
cer o fato, quanto mais sutil for a negação, maior será a
manipulação.
O paciente não pode se curar, nem modificar nada,
se não há uma ponte de relação, uma ponte de confiança.
A base da transformação é deixar de ser mecânico para
poder sentir o que vai se manifestando. Estamos convi-
dando o paciente a expressar o sentimento. A reconhecer
o que sente. A doença está baseada na negação da dor.
Esse é o sofrimento. Se eu começo um tratamento negan-
do o que estou sentindo, estou convidando o paciente ao
mesmo ou a que tenha uma série de mecanismos que
representem sensibilidade. Agirá como se sentisse, mas
sem emoção. Porque a emoção do paciente se apresenta
de acordo com a emoção do terapeuta.
O terapeuta tem que apresentar suas emoções clara-
mente, não com palavras. Se aguardamos, teoricamente,
que o paciente se entregue à vida, às suas relações que fo-
ram truncadas ou de muito má qualidade, sem que nós
tenhamos feito o mesmo, ao paciente só restará imitar-nos,
acreditando que envolver-se é estabelecer distância. Isso
não quer dizer que se tenha de perder a identidade para
poder se entregar. E preciso regressar ao começo do con-
flito, à perda de identidade ocorrida anos atrás, quando
pequenino, quando houve entrega, quando houve con-
fiança e crença em uma ou várias pessoas.
Eu trabalho a partir do afeto por meus pacientes. Mas
tem acontecido de chegarem pacientes que já na entrada
me caem mal. Sempre conto minha moléstia, falsa ou real,
A LOUCURA CURA j
neurótica ou não, com detalhes ou não. O importante é
manifestar o que sinto pelo paciente que está na minha \
frente ou o que penso dele. Se a partir daí ele quiser traba- j
lhar, bom. Meu dever não é passar por cima de mim, mas j
manifestar-me. E acredito que, sendo honesto, consigo um j
material de trabalho autêntico. Começar mal, também é j
um começo válido. Nunca nenhum paciente foi embora.
Temos de ter claro que estamos reeducando, não j
educando. Estamos readaptando. Não é que falte ou que
sobre alguma coisa, é que há uma má adaptação, uma dis-j
torção. Há incompreensão. Há funcionamentos equivoca-!
dos. Confunde-se pegar com arrancar, ter com ser avaroJ
liberdade com luxúria. Mas não há nada a se colocar nem!
nada atirar, apenas aspectos para revisar e readaptar. El
uma questão de ordem. E tudo isso entra dentro de umaj
relação que se chama transferência.
Estou convencido de que o conflito do ser humano!
não é receber, mas é não ter quem receba quando se temi
em excesso. No ato de dar já se está recebendo.
Quando o terapeuta é mesquinho em seus afetos,;
única coisa que faz é repetir o quadro inicial.
Nós terapeutas estamos aqui para encurtar os cami-j
nhos que para nós foram longos.
lol
i
Há momentos em que é necessário descer ao poço
escuro, ao indesejado, ao temido, ao ódio. Tendo presen|
te que um processo terapêutico consiste em revisar toda <
história do paciente, temos de enfrentar o ódio não tra
balhado, não visto, não reconhecido e, portanto, não aceil
to. É muito fácil usar a transferência de forma positiva, fal
lar bonito com o paciente; é mais fácil não contradizê-lo <
dar-lhe corda, encantá-lo em vez de despertá-lo para <
conflito. Mas o paciente tem de passar pelo conflito, er
bora nunca queira encará-lo, porque, se as figuras cor
quem viveu situação de conflito foram ameaçadoras,
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ?
óbvio que sua única relação positiva será com o terapeu-
ta. É preciso trabalhar sem a ameaça, sem dizer nada, sem
convencer o paciente argumentando que toda pessoa
tem de entrar num processo de transferência negativa,
porque isso seria uma forma de sedução.
Ninguém pode entrar nesse processo com lógica,
sendo razoável, zeloso e justo. Deve-se ser injusto com o
paciente, não por maldade, mas para procurar o contato
com o ódio. Se quero trabalhar a transferência negativa,
tenho de procurar e provocar situações de crise. Mas não
uma crise planejada, baseada numa estratégia terapêutica,
que acabará fracassando. Essa busca deve ser feita a partir
do modo de ser do terapeuta, a partir do próprio desequi-
líbrio, ou seja, do perder o juízo. Conseguido isso, o risco
é ficar sem o paciente, o que é uma grande ameaça, acres-
cida do fato de estar sendo odiado e malfalado. Isso é uma
má propaganda, é criar inimigos de antemão. A reputa-
ção, a imagem se deteriora. Assim, são muito poucos os te-
rapeutas que querem trabalhar a transferência negativa.
Simplesmente, eles não conseguem resolvê-la. Resolver
não é fazer exercícios relativos ao abandono, é vivenciar a
ameaça da perda total do objeto amado.
Para que exista uma boa transferência negativa é ne-
cessário partir da honestidade sobre aquilo que sinto. Nes-
se tipo de trabalho, a verdade é a terapia. Se o paciente es-
tá imóvel, em processo de solicitação passiva, tenho de
sacudi-lo e cutucá-lo. E digo isso no sentido real e não fi-
gurado. Tenho de entrar em situações que a psicologia
tradicional consideraria humilhantes. Não é possível che-
gar ao ódio com simples exercícios.
Trabalhar a transferência negativa é ir além do medo
de perder o objeto amado. Aqui não há um perdedor, mas
dois, a ameaça é bilateral.
Quantos terapeutas estão dispostos a passar por isso,
com cada paciente? Ser terapeuta é estar revivendo o pró-
prio processo, em cada um deles, de diferente maneira e
A LOUCURA CURA
estilo. Os pacientes acabam mexendo com nossa expe-
riência e isso é muito doloroso, é um perpétuo revisar, é
muita paulada no ego.
Quando ocorre uma transferência negativa, o tera-
peuta pode estar vivendo uma contratransferência negati-
va inconsciente. Como é possível que um paciente me co-
loque em crise? Simplesmente, o paciente faz lembrar uma
problemática não resolvida, cada vez que se aproxima de
um tema determinado. Então, quanto menor for o nível
de resolução, maior será o distanciamento. Não é fácil en-
trar no ódio, entrar na perda. Para mim, a única coisa que
dá resultados, nesses casos, é ser honesto e atuar com liber-
dade, livre de ressentimento, porque não se trata uma es-
tratégia para incomodar. É realmente necessário passar
por isso, é parte do caminho, não há outra possibilidade.
São estados que fazem parte da condição humana e não é
possível negá-los. O desenvolvimento da pessoa é psicológi- i
co, social, cósmico, natural, mas coerente com uma crono-
logia, por isso não é possível pular nenhuma etapa. Pular
uma delas eqüivale à fixação. Querer escapar da armadilha i
cria um conflito. E o terapeuta tem de se converter em ai- \
guém ardiloso, de um ardil espontâneo, cuja espontanei-
dade é um conhecimento interno derivado da resolução j
de conflitos próprios. Por isso, trabalhar a transferência
negativa depende da personalidade do terapeuta, de sua j
patologia, mas será inevitável que se passe por isso.
Podemos nos guiar pela dissimulação do paciente, por l
sua falta de autenticidade e de espontaneidade, pelas du-j
pias mensagens que lança, por suas tentativas de manipular. \
Eu, como pessoa, não aceito de ninguém nada quej
não seja direto, qualquer que seja o tipo de relação. Não j
me assusta nenhuma posição, acredito que cada um tem o f
direito de ser como é. Esse direito eu me dou. Meus mes-j
três também me outorgaram esse direito. Não aceito que!
cheguem a mim armados de forte mecanismo de defesa, j
não aceito que me agradem gratuitamente, aborrece-me ai
SEU TERAPÊUTA CURA VOCÊ?
sedução barata. Ser paciente não garante direito de su-
perproteção, nem desculpa; se querem jogar, vamos fazê-
lo, mas jogaremos pôquer aberto, vamos nos manifestar
como somos, para atingir o nada fácil nível de transparên-
cia. Para isso, deve-se reconhecer que o outro tem direito
de responder como pode e como quer. Nada de entrar em
um processo de interpretação, porque isso é um mecanis-
mo de defesa.
Eu tenho de reagir. Se ele me agride, tenho de reagir,
dizer que dói. I sso não significa que sinta todas as agres-
sões e me torne um espelho de tudo, mas que manifesto o
que me atinge, o que me dói. Falo tanto do que me atinge
como do que não me atinge. Eu explico: você me faz isso
para que eu sinta tal coisa, mas o que sinto é outra coisa. É
melhor ser explícito que dar as coisas por entendidas. Na-
da de interpretar; a interpretação é uma negação do ato, é
forma de esquivar o paciente da responsabilidade pela sua
conduta. Ele tem de se responsabilizar, mas não por uma
interpretação que o justifique.
Todo mundo é o que é 24 horas por dia, acordado ou
dormindo, consciente ou inconsciente. Por isso é preferí-
vel que o terapeuta desmascare o paciente a cada instante,
para que ele perceba o que anda fazendo. A inocência
tem seu preço e a consciência também. Então, é preciso
colocar os desejos a descoberto, expressar as intenções,
ser mais explícito naquilo que se quer, assumir que uma
decisão é nossa quando é expressa, quando o corpo está
presente e sentindo.
Por que os terapeutas têm tanto escrúpulo de se sol-
tarem? O que têm dentro, para terem de se fechar em um
estado de controle total? Controlam o que pensam, o que
sentem e o que dizem. Mas não é possível ocultar, pois
cairão na contratransferência.
Quero deixar claro que é preciso provocar a transfe-
rência negativa. Queiramos ou não, o objeto amado tam-
bém é odiado. Aceitemos ou não, pacientes e terapeutas
A LOUCURA CURA
em processo de amadurecimento do amor têm de passar
pela liberdade de dizer "te amo" ou "te odeio". Têm de
vencer a ameaça. Evitam-se as transferências negativas pe-
lo medo da perda, mas deve-se poder expressar ressenti-
mento mesmo contra a pessoa mais amada, pois, quando
ele não é expresso, surge de maneira mais destrutiva e a
ameaça do abandono torna-se real. O processo terapêuti-
co da transferência negativa é uma forma de dar liberda-
de de expressar e dizer, ainda que se perca o amado. Será
doloroso e sofrerei. Mas tenho a capacidade de amar, de
amar o outro. Assim conseguimos neutralizar os fantasmas
e outorgar para nós mesmos o direito de amar quantas ve-
zes desejemos.
Acredito que a transferência negativa pode se apoiar
nesse direito de amar, sempre que o desejemos. Não se
ama somente uma vez, não se ama uma só pessoa. Temos
de estar onde e com quem quisermos e não ficar vivendo
onde somos espancados, junto com quem quer destruir-
nos. O resto são tabus sociais cujo pano de fundo é a posse,
que torna o ser humano esquizóide. Temos de conseguir a
capacidade de estar onde queremos, com quem queremos,
o tempo que quisermos, e também de poder ir embora
quando quisermos, o que não é uma tragédia.
TA BUS
Existem vários tabus: o terapeuta não pode pedir di-
nheiro a seus pacientes; o terapeuta não pode gostar de
seus pacientes; o terapeuta não pode ter relações sexuais
com seus pacientes; o terapeuta não pode ser amigo de
seus pacientes etc.
Então, o que lhe é permitido? A pessoa se relaciona
no meio onde se desenvolve, onde sua existência transcor-
re. Relaciona-se ali onde convive. É o normal, da mesma
forma que as crianças se apaixonam pela professora por-
que a vêem todo dia. A amizade é convivência. Mas por
que os terapeutas têm de deixar de ser humanos? Os pa-
cientes são parte central do nosso mundo, são pessoas de
nossa convivência, nossos amigos; eles nos mantêm. Existi-
mos onde vivemos. Também nesse caso é muito claro que
a negação não é a cura, que existe uma dupla mensagem:
gosto de você, mas não posso dize-lo. É verdade que em
toda relação se dá transferência e contratransferência.
Mas também é verdade que preferimos ser técnicos e,
quanto mais maquinai formos, mais técnico vamos querer
que seja nosso trabalho. A grande justificativa em relação
à técnica é sua eficiência. No entanto, a relação terapêuti-
ca não é' de eficiência, mas de consciência. Na psicotera-
pia tudo está em questão, mesmo aquilo que não quere-
mos colocar e tudo aquilo que negamos.
Não estou convidando todos os terapeutas.a fazerem
faloterapia ou a explorarem economicamente seus pa-
cientes, coisa que às vezes acontece. Digo que permitir
A LOUCURA CURA
que se manifeste tudo o que honestamente acontece é
mais curativo do que negá-lo.
Os pacientes e as pacientes podem saber de qual de-
les gostamos ou não. Podemos dize-lo. O afeto vai se mani-
festar no processo terapêutico. Existirá reclamação, caso o
terapeuta não seja honesto. O direito de gostar é univer-
sal, embora não dê direito automático a ter o que se quer.
Mas pode-se dizer o que se sente e isso é saúde, bem-estar.
Queira ou não queira, assumo o risco de equivocar-me, o
que é parte da dualidade de todo tratamento. E mais, pro-
cura-se um tratamento para que tudo possa ser dito com
liberdade, o sim ou o não. Não é o fato de me pagarem
que me obriga a dizer sim a tudo, pois o paciente veio pa-
ra que lhe dissessem um sim ou um não. Entre outras coi-
sas, ele vem à procura de tolerância, mas com honestida-
de. Permissão para ele, com honestidade de minha parte.
Não posso trabalhar com um paciente sem que haja
alguma carga de afeto. Posso trabalhar se lhe esclareço
que ele não me cai bem, que tem cara de imbecil, que sua
presença é horrorosa para mim, que é difícil trabalhar
com ele. Se, a partir daí, ele quiser trabalhar, trabalhamos.
Trabalhamos a partir da verdade. A verdade é curativa, e
eu não posso ser cúmplice do engano. Pois estou seguro
de que o paciente já foi enganado, que foi submetido a
uma rejeição silenciosa ou uma submissão sedutora... A
verdade não faz adoecer. A honestidade não faz adoecer.
A liberdade dos pacientes provoca temor nos terá-1
peutas. Estes têm medo de vê-los livres, no sentido amplo
da palavra. Aborrece aos terapeutas o fato de os pacien- j
tes se atreverem a fazer aquilo que eles próprios não fa-
zem, como desobedecer normas. I sso ameaça o terapeu-j
tá, embora a liberdade tenha sido a primeira oferta que
ele fez ao paciente. Quando crescem-lhe as plumas, o]
pássaro se lança a voar, então o terapeuta (apenas um
terrestre) sente-se mal e se defende argumentando que j
não chegou o momento, que as asas não são grandes ain- j
da e que ele vai cair. Mas ensinar a voar é ensinar a cair.
Acredito que a liberdade do paciente é indicadora da
maturidade do terapeuta.
Constantemente nos preocupamos em transmitir se-
gurança aos pacientes. A única segurança que podemos
lhes dar é a confiança. Confiança quer dizer não julgar,
deixar que o outro se manifeste como ele é, não como
gostaria que fosse. Mas confiar não significa acreditar em
alguém para ser atraiçoado. Não, a confiança é manifes-
tar-se, assumir que se é aquilo que se é, sem preconceitos,
sem censura, com tolerância. E nisso existe um risco, de-
rivado da resposta que vai ser dada a sua exposição, a sua
presença, a seus atos. No equívoco haverá aprendizado.
Não estamos tentando que o paciente tenha somente
condutas certas, positivas. I sso seria como ir aperfeiçoan-
do um maquinário sem ter consciência do lado mau, do
errado, do feio. Eu prefiro que se vá direto à exposição
do que é considerado pouco digno, vergonhoso: daí sur-
ge a confiança. Condutas que se mostram ameaçadoras
não devem ser julgadas. É como a criança que aprende a
enfrentar o pai, não com bons argumentos, mas com os
mesmos que o pai utiliza para minimizá-la. O que quero
dizer é que temos de caminhar com o erro, pois ele tem
uma parte curativa mais profunda do que se acredita.
Muitas vezes o erro encobre o que é correto, dando-lhe
um tom irracional. Então, se recuperamos o erro e lhe
damos atenção, podemos descobrir que o equívoco ex-
pressa um desejo. Por isso, se eu inibir o equívoco não
conseguirei trabalhar com o desejo. O terapeuta tem de
ficar muito atento e refletir sobre seu próprio desejo de
que o paciente se equivoque. Deve reconhecer que aqui-
lo que o paciente manifesta é uma estratégia para revelar-
lhe um desejo não manifesto, oculto.
Tenho direito de ter meus desejos
r
não de realizá-los
todos. Mas, se considerarmos que o desejo é imoral, que o
desejo é maldade, que é pecaminoso, não poderemos
A LOUCURA CURA
atingir a consciência e estaremos reforçando a repressão.
Ter consciência é deixar sair da mente, exteriorizar, passar
à ação, enfim, fazer que a emoção saia e se manifeste. Ex-
pressar aquilo que a gente é e aquilo que a gente sente
não é o mesmo que executar aquilo que se deseja. Isso me
faz lembrar o mito trágico, em que a tragédia consiste no
desejo proibido que se extravasa, que não mais pode ser
escondido, que sai velado e atroz.
A confiança só se consegue quando o terapeuta arris-
ca a se expor, a dizer o que pensa do paciente, o que sente
por ele, consulta após consulta, ou a cada terapia de gru-
po. Não se trata de converter o paciente em terapeuta, sim-
plesmente que fique clara a transparência do terapeuta.
Não se pode permanecer insensível diante do que aconte-
ce, porque isso é um convite à insensibilidade do paciente.
A verdadeira manifestação de confiança que o tera-
peuta pode transmitir ao paciente é mostrar-se. Não pode
mostrar a vida quem não se mostra. O caminho não passa
pela identificação estereotipada, pois essa reforça a doen-
ça, mas por uma identificação na essência e isso é transpa-
rência. A confiança é não esconder nada, não ocultar. E
quando esse momento chega deve-se tocar o paciente. O
corpo criou defesas e tornou-se intocável. E tarefa do tera-
peuta tocá-lo, humanizá-lo, fazê-lo sentir e não permane-
cer no puro contato mental pela palavra. Somente o con-
tato físico pode quebrar a barreira da aproximação.
Nossas mãos são poderosas, têm poder curativo. A cura é o
contato, o sentir que estou aqui. Deve-se sentir com o cor-
po e pensar com a mente para poder levar uma ação a ca-
bo. Em outras palavras, os três centros devem estar alinha-
dos. Que aquilo que penso seja coerente com aquilo que
sinto e que isso se ratifique pela minha expressão corporal
na hora de agir. A partir daí existe a possibilidade de se es-
tabelecer contato com o outro, de comunicar. Por isso,
frente a uma dificuldade de contato, tenho de retornar a
mim mesmo, questionar sobre onde estou, onde está meu
centro, e alinhar-me, porque dessa forma tenho maior
probabilidade de receber quem está a minha frente e que
não está alinhado.
Outro medo do terapeuta é o de perder o controle
diante dos pacientes. O terapeuta julga que não pode ser
feio nem pode ter condutas mais irracionais e incoerentes
que aquelas dos pacientes. Mas para o paciente é muito sa-
dio que seu terapeuta se desespere, se encha, se canse, de
outra forma nunca vai perceber a verdade. A perda de
controle do terapeuta não se pode fazer por meio de uma
técnica, deve surgir autenticamente.
Um dos principais tabus é o suicídio. É mal visto, não
é considera sinal de saúde mental: não se leva em conta o
direito de se suicidar, de ser o dono da própria vida. Refe-
rente a isso, os terapeutas entram em estados de verdadei-
ra ansiedade, não querem que em suas folhas corridas
apareçam suicidas, como se esse fato indicasse uma falha
deles, e fazem todo o possível para desculpar-se em relação
a isso. Eu acredito que devemos ficar muito atentos sobre
a posição que temos sobre a morte. Ninguém é dono da
vida de outro. Ninguém tem o direito de dar conselhos a
outro, dizendo que suicidar-se é ruim e que viver é bom.
Se o paciente intui que a possibilidade de suicídio signifi-
ca uma ameaça para o terapeuta, utiliza essa possibilidade
para abalá-lo, para fazê-lo sentir-se mal, pois assim repete a
estratégia que já utilizou muitas vezes. O terapeuta deve
parar com isso. Minha posição é que aquele que queira se
matar que se mate. O que eu pretendo fazer é deixar cla-
ro: uma coisa é querer se matar; outra é querer fazê-lo por
estar querendo matar alguém ou mesmo a mim. Uma coi-
sa é alguém querer se matar porque está desenganado ou
condenado a 120 anos de prisão, ou bem, em uma situa-
ção ou lugar muito adverso, como campo de concentra-
ção, guerra, fome. Situações tais concedem o direito e um
A LOUCURA CURA
direito muito sadio de dispor da própria vida. Outra coisa
é se matar porque foi abandonado, porque não se sente
feliz ou porque não consegue enfrentar sua própria pato-
logia. Essas motivações devem estar claras para o paciente,
pois fazem enorme diferença.
Há terapeutas que atraem e outros que repelem os
suicidas. Há os que não lhes dão muita importância, o que
é uma posição muito sadia. Quanto a mim, a coisa que pe-
co é que deixem a consulta paga, já que irão para uma vi-
da melhor, enquanto eu permaneço na pior. Também
lhes peço que me deixem algo de herança, para assim
lembrar-me deles eternamente. A verdade é que, entre
meus pacientes, ninguém se suicidou.
A saúde começa quando, por decisão pessoal, conse-
gue-se neutralizar o proibido. A fantasia é mais patológica
que a realidade.
Usualmente só temos contato com o paciente na ho-
ra da consulta, individual ou de grupo. Fora disso não
temos nenhum convívio com eles.
Não acredito que haja um só terapeuta que sempre
trabalhe nas terapias com prazer. Mesmo gostando, isso
cansa. Portanto, temos que ter a capacidade de dizer: hoje
não. É muito mais saudável que ter essa sensação sempre.
Dou-me o direito de ser diferente a cada dia, não em es-
sência, mas em manifestação. Não querer hoje não signifi-
ca que amanhã eu não queira. Não gosto de você não
quer dizer que nunca vá gostar de você. É muito difícil di-
zer hoj e não quero, hoj e não quero estar com você, hoje
não quero escutá-lo. Ficar contra a vontade gera conflito,
e o preço que nos pagam não inclui o tédio. Temos de fa-
zer ávida interessante e, em um consultório, sempre acon-
tece a mesma coisa. Um consutório causa tédio e os tera-
peutas tendem a nunca trocar seu consutório, nem seus
horários. I nteriorizam o tédio. Eu acredito que se possa
ser mais flexível. Uma verdadeira problemática pode ser
falada em qualquer lugar. A única privacidade do doente
é sua doença, pois, embora fantasie ter o problema maior
e mais exclusivo do mundo, a problemática é a mesma.
Então, tirá-lo, levá-lo a outros lugares e fazer isso com pra-
zer é parte do tratamento, não simplesmente submetê-lo
ao diva nas quarta feiras às 4h30. Pode-se ir ao café, ao bar,
à sauna, enfim, ávida. I sso é muito mais sadio que passar
45 minutos fortalecendo o ego.
Em muitas ocasiões levei pacientes para morar um
tempo comigo. Não porque os seus casos fossem graves,
mas porque, em vista de certos resultados e de minha ex-
periência, considero muito difícil conseguir que em 45
ou 50 minutos o paciente se manifeste. Dessa forma, te-
nho por hábito conviver uma temporada com meus pa-
cientes. Na convivência o conflito com o paciente se dá
verdadeiramente. Se compartilharmos o cotidiano, em
um espaço determinado, é mais fácil que toda a persona-
lidade e todos os conflitos se manifestem. O tempo e as li-
mitações de território alteram qualquer convivência. Nos
50 minutos do consultório, o relógio termina sendo o
cúmplice do paciente: por mais difíceis que sejam esses
minutos, eles terminam logo.
Entretanto, não quero dizer que essa seja a melhor for-
ma de trabalhar. Estou me referindo a um estilo de traba-
lho que tem dado excelentes resultados. Mas não acredito
que todo terapeuta tenha a capacidade de semelhante rit-
mo de trabalho. E não por questões de saúde, mas porque
traria conflito à sua existência. Ninguém tem mais conflito
que o terapeuta. Temos obsessão em ter um espaço priva-
do, um lugar intocável onde nos permitimos romper com o
que estamos representado frente aos pacientes na hora da
consulta. Os pacientes não nos vêem como somos, embo-
ra fosse terapêvitico que vissem. Os terapeutas aconse-
lham atitudes que não tomam na prática; dão conselhos
nos quais não acreditam. Para mim o que dá resultado é
preservar uma tensão constante e recíproca na relação.
Eu, como terapeuta, procuro da de mim constantemente
A LOUCURA CURA
e, quanto maior for esse tempo com o paciente, maior será
a probabilidade de sua autopercepção.
É muito fácil criticar as dificuldades exteriorizadas,
mas quase ninguém pode fazê-lo sem entrar no jogo. É co-
mo quando a mulher reclama contra o marido e este res-
ponde reclamando contra ela. O certo é que, se há recla-
mações, há uma verdade nelas. Mas a pessoa duvida disso,
porque está recebendo duas mensagens ao mesmo tempo,
ambas ameaçadoras. Uma delas é a dificuldade de aceitar
a verdade do que lhe está sendo dito e a outra é a incapa-
cidade de aceitar a doença que há por trás dessa verdade.
A possibilidade de conviver com o paciente permite
ficar refletindo constantemente, de maneira límpida, cla-
ra e aberta, porque não interferirá o medo maior, o me-
do da rupt ura e da perda. E uma terapia intensiva, de
tempo integral, que encurta muito o caminho e que for-
nece muita informação importante ao paciente. Só o fato
de submeter-se a essas condições demonstra, no paciente,
um grande desejo de superação. O terapeuta deve, por
sua parte, enfrentar o risco de ser descoberto como um
ser humano comum e, com isso, estar exposto a todas as
críticas. Dessa forma, existe a ameaça mútua, nenhum dos
dois conhece o outro. Como pode ser trabalhada a saúde
mental entre dois desconhecidos? I mporta não só o que
dizemos em uma terapia, mas também o que não dize-
mos. E no convívio não existe possibilidade de se ocultar,
porque as coisas acontecerão, aflorarão cada desejo, cada
gosto, cada mania, cada possessividade. Por isso será mui-
to importante, por parte do terapeuta, o ensinamento do
respeito à sua própria casa, ao seu lugar, no qual o pa-
ciente é um invasor. Nessa situação o terapeuta está convi-
dando o paciente a um descomedimento oral para satis-
fazer seu desejo; por isso, quem não tiver bem resolvida
essa capacidade de satisfazer, sem ser consumido, necessi-
tará de muito trabalho pessoal. A primeira coisa que o pa-
ciente irá fazer é consumi-lo. Nesse convívio aparecem to-
dos os temores, as transferências sexuais, os ciúmes, a
possessividade, a carência, o exclusivismo, a agressivida-
de, tudo.
E tudo isso é um tratamento impossível de ser feito
em 50 minutos. Uma coisa é falar sobre os ciúmes e outra
muito diferente é manifestá-los. O mesmo acontece com
a possessividade, a mentira... Convido o ser a manifestar-
se, convido a doença a manifestar-se livremente. Assim
deixo de ser um terapeuta passivo e intocável. Ponho-me
frente ao paciente como intocável para ser tocado em to-
dos os sentidos, porque somente assim se pode tocar um
terapeuta. Tocá-lo com o lado patológico e com o lado sa-
dio. O resto é teoria e intelectualizações.
Esse processo é difícil, sem dúvida. Cheguei a ele por
intuição, não li em lugar nenhum, embora tenha lido que
os grandes mestres espitituais conviveram com seus discí-
pulos. Os pais vivem com seus filhos e os educam. Como,
então, se reeduca? Ora, pelo convívio. Caso contrário, fa-
zemos como os noivos. Não existem problemas quando
são noivos. O noivo vai ver a noiva muito bonito, muito ar-
rumado, muito elegante e deixa o ego fora. Mas será na
convivência que se dará a explosão do ego. Então vamos
trabalhar o ego, que dará, contudo, mais trabalho ao tera-
peuta, muito mais. Com isso podemos nos saciar, mas dan-
do-nos a liberdade de expressar e descrever cada expe-
riência, estendendo-se também essa licença ao paciente.
Lembro de uma vez em que um paciente meu, espa-
nhol, me disse: "Guillermo, quanta paciência você teve co-
migo". Nós dois nos pusemos a rir. Logo ele disse: "E
quanta paciência tive eu com você". E recomeçamos a rir.
E essa era a verdade. É preciso chegar à verdade. É preciso
dize-la. Devemos chegar ao ponto em que ambos reconhe-
cemos que estávamos mal, e que agora estamos bem. Te-
mos de afastar a imagem de falsa pureza e falsa saúde
mental diante dos pacientes. Essa imagem é muito danosa
para eles. É como os pais mantendo uma imagem pura e
A LOUCURA CURA
impecável frente aos filhos, imagem que na realidade é
um disfarce, tem uma impecabilidade arrumada, que faz
muito mal aos filhos, que nos fez muito mal em nossa in-
fância. Acredito que a verdade é o valor supremo. A verda-
de é aquilo que existe, é o que somos. E isso é saúde, isso é
transcender a doença. Esse transcender não nega nada do
que somos e significa transcender a doença, superar a ver-
gonha da doença e assim tirar-lhe a capacidade restritiva,
para que possamos fazer algo com a doença. Com essa
transcendência consegue-se neutralizar a enfermidade,
podendo a pessoa voltar a ser criativa, alguém capaz de
dar, apesar de tudo.
Outro tabu é o sexo. Diante dessa possibilidade nós,
os terapeutas, começamos a tomar medidas visando à li-
berdade. Na verdade, muito poucos terapeutas integram a
sexualidade em sua personalidade total. Fazer divisão en-
tre pensamentos, sentimentos, instintos etc. já é parte de
uma patologia. A saúde é mais somar do que subtrair.
Além disso requer muito esforço ser assexuado diante dos
pacientes. É melhor começarmos a ser tolerantes e não re-
pressores. A postura do terapeuta é ser favorável ao prazer
do paciente. Se ambos chegarem a um acordo, a decisão
deve ser respeitada, seja ela qual for. A repressão nunca
foi uma alternativa na vida.
Também existem a transferência sexual e a contra-
transferência sexual. As pessoas costumam se relacionar
onde passam mais tempo e com quem mais convivem.
Nós, os seres humanos, somos instintivos. Que uma
pessoa goste de outra não é novidade, independentemen-
te da profissão que exerça.
Caímos sempre no preconceito de admitir que todo
mundo pode se relacionar com as pessoas com as quais
conviva diariamente, que isso é correto, mas um terapeuta
relacionar-se com seu paciente é visto como incorreto.
Gostam de nos colocar em situações intocáveis, de nos
santificar e nos elevar ao altar. Para mim, isso é um pre-
conceito e uma forma de castração.
Só podemos nos relacionar com as pessoas que nos
cercam, o que não quer dizer que iremos gostar de todos
os pacientes. Não sabemos realmente em que consiste o
gostar, não sabemos por que uma pessoa nos agrada. Não
é algo meramente psicológico, também influem o hormo-
nal, o biológico, o cultural etc.
O instinto precede qualquer formação psicológica. O
gostar tem um componente instintivo muito importante.
Então, é normal que, entre vinte ou trinta pacientes, haja
dois ou três que agradem ao terapeuta. É importante dis-
tinguir que em algumas pessoas depositamos nossa afetivi-
dade e em outras nosso instinto. Há aquelas com quem
podemos conversar e outras por quem se tem a "ereção"
do silêncio.
Em muitos casos existe a possibilidade de não termos
escolhido um parceiro tão completo como gostaríamos.
Temos de aceitar as limitações da pessoa com quem com-
partilhamos nossa vida e reconhecer que ela não irá
preencher todas as nossas expectativas. Esse é um fato, a
carência existe; então podemos procurar em outra pessoa
aquilo de que necessitamos. É uma doença, do homem e
da mulher, exigir que o cônjuge corresponda a todas as
expectativas. I sso é muito difícil e cria muitos conflitos.
Mais vale que tenhamos presente que isso não vai ser pos-
sível, porque geralmente essa é uma atitude mútua, as
duas pessoas padecem do mesmo problema. E eu acredito
que isso demonstra possessividade e, por outro lado, uma
busca do erro do outro, para demonstrar que a pessoa
não é perfeita. E como não se quer reconhecer a situação,
desenvolvem-se arbítrios e depreciações. Um concede ao
outro o direito de estar a seu lado, mas não reconhece o
tanto de exigências que está impondo.
É muito difícil aceitar que ninguém muda. Convi-
ver é aceitar o outro como ele é. É muito difícil que ai-
A LOUCURA CURA
guém, por todo o amor que nos tenha, consiga nos mu-
dar. Não temos a força, não somos ninguém para mudar
os sintomas. Casal significa cada um aceitar o outro co-
mo ele é. Se esse tipo de conflito ocorre no casal, irá se
apresentar também na relação terapeuta—paciente, e é
melhor reconhecer o fato e tomá-lo como natural, não
como algo doentio.
Corre-se risco na relação, e é importante alertar o pa-
ciente sobre isso. Se você expressar para com o paciente
uma atitude de rejeição, ele vai achar que não foi aprecia-
do... E isso não é verdade, não se trata de depreciação co-
mo mulher ou como homem. É preciso explicar a situação,
para que a pessoa, em vez de se considerar depreciada, fa-
ça uma reavaliação: aceite que ela não está mal e que a re-
jeição não depende só dela, uma vez que o outro tem direi-
to a dizer não.
O instinto não é só uma ereção, mas uma eleição. I s-
so liberta o paciente das fantasias de não estar agradando,
que podem vir a debilitar a profundidade do tratamento.
Também é bom reconhecer que não agradar a alguém
que deposita em nós toda a confiança é doloroso e tem
forte repercussão.
Dessa forma, o terapeuta deve reconhecer que fulana
ou fulano lhe agradam. Terá pacientes nos quais deposita
seu carinho, sua ternura, seu intelecto e outros que mobi-
lizam sua parte instintiva. E isso tem de ser esclarecido ho-
nestamente. Nesses casos as terapias de grupo são formi-
dáveis, pois ninguém quer ser menos estimado que um
outro paciente. E, assim como um pai sente predileção
por um dos filhos, o terapeuta sente preferência por um
dos pacientes. E quanto mais claro for isso, mais saudável
será, porque o direito de gostar é pessoal, e está sendo en-
sinado como outorgar-se esse direito.
A questão sexual é um tabu só. Sexo, tados os terapeu-
tas o sentem, muitíssimos o praticam e quase nenhum ad-
mite isso. Mas o que acontece se gosto de um dos meus pá-
cientes? Nada. Esse é um direito e insistimos: ser terapeuta
é ser pessoa, é reconhecer o que se sente. E será saudável
que o paciente saiba disso, mas não como uma estratégia
terapêutica, mas como parte do processo, como parte do
que se fala em uma sessão em que se revisam todos os as-
pectos da vida. I nibir o sexo é algo terrível, pois é parte de
nós e é tão importante como a razão ou as emoções. Mas
não se deve subestimar nem supervalorizar o instinto.
Situações sexuais entre terapeuta e paciente envol-
vem muitos riscos. Se é utilizado o momento de transfe-
rência sexual do paciente, ele pode se converter em uma
ameaça para o terapeuta. Como essa é uma etapa mais ins-
tintiva que racional, o paciente pode se fixar nessa etapa e
não olhar mais para trás.
Eu prefiro falar antes de agir e, depois, se me dá von-
tade, faço. Se tenho uma relação sexual com um paciente
e a relação fica paralisada no mais puro instinto, não será
gratificante e só conseguirei que o paciente fuja. Isso por-
que esse não é o momento para racionalizar, mas para se
apaixonar, e a paixão é irracional. Então o paciente irá
embora, ferido, usado e frustrado. Embora, provavelmen-
te, fosse isso o que de forma velada ele queria obter do te-
rapeuta. Portanto, pode ser uma armadilha e você, tera-
peuta, tem que ficar muito alerta, porque o paciente pode
estar procurando frustrá-lo nesse ponto, para poder ir em-
bora, para demonstrar-lhe que você tem uma falha, que
não é confiável. É vital saber qual é a posição do terapeuta
e a posição do paciente ou da paciente.
Há neuróticos e neuróticas em todos os cantos, mas
não há tantos amantes. Não se trata de deitar-se com to-
dos ou todas. Trata-se de ter a capacidade de se submeter
a esse processo através do instinto. E um instinto bem
conversado se transforma em uma relação mais sólida.
Não se trata de reprimir. Não se trata de falar para racio-
nalizar. Na realidade, há duas pessoas que se desejam,