You are on page 1of 336

Mapa-múndi do tempo das Cruzadas, com Jerusalém ao centro, c. 1250.

©

B
R
I
T
I
S
H

L
I
B
R
A
R
Y
,

L
O
N
D
R
E
S
No Reino do Paraíso
CRUZADA
Guerreiros cristãos escalam as muralhas de Jerusalém. Manuscrito flamengo do século XV.
©

B
I
B
L
I
O
T
E
C
A

P
Ú
B
L
I
C
A

E

U
N
I
V
E
R
S
I
T
Á
R
I
A
,

G
E
N
E
B
R
A
Ao centro, o sultão Saladino. À direita, um cavaleiro cruzado. À esquerda,
um guarda das tropas de Saladino, que fundia os estilos persa e turco.
©

I
L
U
S
T
R
A
Ç
Õ
E
S

D
E

A
N
G
U
S

M
C
B
R
I
D
E
No Reino do Paraíso
CRUZADA
H. Rider Haggard
tradução
Samuel Dirceu
CRUZADA
No Reino do Paraíso
Copyright da tradução © 2005 by Geração Editorial
Título original em inglês: The brethren
1ª edição – Maio de 2005
Editor & Publisher
Luiz Fernando Emediato
Diretor Editorial
Jiro Takahashi
Capa
Silvana Mattievich
Projeto Gráfico
Alan Maia
Crédito das imagens
Na guarda 1, Ricardo Coração de Leão enfrenta o sultão Saladino,
na Terceira Cruzada (gravura de Gustave Doré). No verso,
cena de batalha de uma biografia inglesa de São Edmundo, c. 1135
(The Pierpont Morgan Library, Nova York).Na guarda 2, batalha
entre cristãos e muçulmanos (gravura de Gustave Doré). No verso,
planta de Jerusalém e seus arredores, c. 1170. Na parte inferior,
cavaleiros cristãos expulsam muçulmanos.
Pesquisa iconográfica
Tempo Composto
Revisão
Marcia Benjamim e Josias de Andrade
Dados Internacionais de Catalogação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Haggard, Henry Rider, – 1856-1925
Cruzada : no reino do paraíso / Henry Rider
Haggard ; tradução Samuel Dirceu.
-- São Paulo : Geração Editorial, 2005.
Título original: The brethren.
1. Histórias de aventuras inglesas 2. Romance
inglês I. Título.
ISBN: 85-7509-120-3
05-2593 CDD-823
Índices para Catálogo Sistemático:
1. Romances : Literatura inglesa 823
Todos os direitos reservados
Geração de Comunicação Integrada Comercial Ltda.
Rua Prof. João Arruda, 285 – 05012-000 – São Paulo – SP – Brasil
Tel.: (11) 3872-0984 – Fax: (11) 3871-5777
Geração na Internet
www.geracaobooks.com.br
geracao@geracaobooks.com.br
2005
Impresso no Brasil
Printed In Brazil
©

B
I
B
L
I
O
T
E
C
A

N
A
C
I
O
N
A
L
,

P
A
R
I
S
“Dois apaixonados fartos da solidão,
Sem um mínimo de ciúme doentio no coração;
A virgem indecisa entre os dois escuta,
De coração aberto e igual conduta;
É uma cena raramente vista em lugar qualquer,
Graças ao ódio do homem e ao orgulho da mulher.”
SCOTT
Exército muçulmano com estandartes e instrumentos musicais como meios de comunicação.
8
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Os cruzados diante das portas de Jerusalém.
©

A
R
Q
U
I
V
O

D
A

E
D
I
T
O
R
A
9
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
ma hora atrás, de pé sobre a planície coberta de flores acima de
Tiberias
1
, à margem do Lago da Galiléia
2
, o escritor fitou os dois
picos da montanha de Hattin
3
. Aqui, ou pelo menos a tradição
estabelece, Cristo fez o Sermão da Montanha — aquela regra perfeita de
bondade e paz. Aqui, também — e isto é certo —, quando quase doze sécu-
los tinham transcorrido, o sultão Yusuf Saladino
4
esmagou o poder cristão
na Palestina na mais terrível batalha que aquela terra coberta de sangue já
conheceu. Foi por isso que a Montanha das Beatitudes se transformou na
Montanha do Massacre.
Enquanto meditava sobre essas cenas tão contraditórias, desenroladas
em um único lugar, foi acometido por um desejo de tecer, da melhor forma
de que fosse capaz, uma história em que todos os que fossem atraídos pelo
romance daquela época misteriosa e cheia de significados, quando os homens,
aos milhares, sentiam-se felizes por dispor de suas vidas na busca de visões
e esperanças, pudessem formar um retrato, embora fragmentado e pálido,
da longa guerra entre a Cruz e o Crescente
5
, ocorrida nas planícies e nos
desertos da Síria. De cavaleiros cristãos e damas também, e de seus amores
e sofrimentos na Inglaterra e no Oriente; do temível Mestre dos Assassinos
6
,
que os francos
7
chamavam de Velho Homem da Montanha, e de sua cidade
fortaleza, Masyaf
8
. Do magnânimo, embora às vezes cruel, Saladino e seus
ferozes sarracenos
9
; do morticínio de Hattin, em cujo maciço mais alto a
U
Nota do autor

A
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
10
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Cruz da crucificação foi instalada como um símbolo derrotado, fadado a
nunca mais ser visto por olhos cristãos; e do último a se render, quando os
Cruzados perderam Jerusalém para sempre.
Esta história é fruto desse desejo.
Cruzada •
H. Rider Haggard
11
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Prólogo, 13
capítulo 1
Nas águas de Death Creek, 17
capítulo 2
Sir Andrew D’Arcy, 29
capítulo 3
Os irmãos são elevados a Sagrados Cavaleiros, 39
capítulo 4
A carta de Saladino, 52
capítulo 5
O mercador de vinho, 65
capítulo 6
A festa de Natal em Steeple, 78
capítulo 7
O estandarte de Saladino, 90
capítulo 8
A viúva Masouda, 101
capítulo 9
Os cavalos Flame e Smoke, 116
capítulo 10
A bordo da galera, 133
A
Sumário

12
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 11
A cidade de Al-je-bal, 148
capítulo 12
O Senhor da Morte, 158
capítulo 13
A delegação, 169
capítulo 14
O combate na ponte, 184
capítulo 15
O vôo para Emesa, 197
capítulo 16
O sultão Saladino, 211
capítulo 17
Os irmãos saem de Damasco, 223
capítulo 18
Wulf paga pelo vinho drogado, 236
capítulo 19
Diante das muralhas de Ascalon, 252
capítulo 20
A Sorte da Estrela de Hassan, 265
capítulo 21
O que aconteceu a Godwin, 277
capítulo 22
Em Jerusalém, 290
capítulo 23
Santa Rosamund, 301
capítulo 24
Os resíduos do cálice, 313
Notas, 324
Cruzada •
H. Rider Haggard
13
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA

aladino, Comandante dos Fiéis, Chefe Supremo, Soberano do
Oriente, estava sentado uma noite em seu palácio em Damasco,
meditando sobre os poderosos desígnios de Deus, responsável pela
sua ascensão a um posto tão elevado. Lembrava-se de como, quando era
pequeno aos olhos dos homens, Nour-ed-din
10
, rei da Síria, forçou-o a acom-
panhar seu tio, Shirkuh, ao Egito, e de como ele foi, deprimido “como um
condenado à morte”, e de como, mesmo contra sua vontade, lá encontrou
sua grandeza. Pensava no pai, o sábio Ayoub, e em seus irmãos, com os quais
crescera, todos mortos agora, com exceção de um; e em suas irmãs, às quais
muito estimara. Mas pensava principalmente em uma, Zobeide, que fora
raptada pelo cavaleiro que ela tanto amava, a ponto de entregar-lhe sua
própria alma — sim, o amigo inglês de sua juventude e prisioneiro de seu
pai, Sir Andrew D’Arcy, que, cego de paixão, impingira a ele e à sua casa um
mal tão penoso. Ele lembrava-se de que jurara que a traria de volta, mesmo
que tivesse de buscá-la na Inglaterra, e já começara a planejar como mataria
seu marido, quando soube de sua morte. Pelos seus espiões soubera também
que ela tinha deixado uma criança que, se ainda vivesse, seria mulher feita
agora — sua sobrinha, embora com metade de sangue nobre inglês.
Então sua mente vagou, desta história antiga e meio esquecida, para a
angústia e a aflição dos dias atuais, e para a última grande batalha a ser tra-
vada entre os seguidores dos profetas Jesus e Maomé
11
, a Jihad — Guerra
prólogo
S
A
14
Cruzada •
H. Rider Haggard
Santa
12
— para a qual estava pronto e suspirou. Pois ele era um homem pie-
doso, que não queria nenhuma matança, embora sua fé feroz o levasse de
guerra em guerra.
Saladino dormiu e sonhou com a paz. Em seu sonho uma virgem se apre-
sentava diante dele. Assim que ele suspendia seu véu, via que ela era linda, com
traços como os seus, mas mais clara; então teve certeza de que era a filha da
irmã que fugira com o cavaleiro inglês. Ele se perguntava por que ela o visita-
va daquela forma e rogava a Alá que o ajudasse a entender. E de repente via a
mesma mulher de pé diante dele, em uma planície síria, e ao lado dela tropas
de sarracenos e de francos, das quais milhares e dezenas de milhares de solda-
dos estavam condenados a morrer. “Vamos!”, ele, Saladino, dizia, comandan-
do seus esquadrões, a cimitarra erguida, mas ela estendia a mão e o detinha.
— O que você quer, minha sobrinha? — ele perguntava.
— Vim salvar muitas vidas através de você — ela respondia. — Pois nas-
ci do seu sangue e por isso fui mandada até você. Abaixe sua espada, Rei, e
salve suas vidas.
— Que resgate você oferece para livrar esta multidão de seu destino fatal?
Que resgate e que presente?
— O resgate de meu próprio sangue, oferecido livremente, e o presente
do Céu para sua alma pecaminosa, ó Rei. — E com a mão estendida, baixou
a cimitarra afiadíssima até pousá-la em seu peito.
Saladino acordou, maravilhado com o sonho, mas não contou nada a
ninguém. Na noite seguinte o sonho retornou, e sua memória o acompanhou
durante o dia seguinte, mas mesmo assim ele não contou nada a ninguém.
Quando, na terceira noite, ele sonhou outra vez, de forma mais vívida
ainda, então teve a certeza de que era uma coisa de Deus e recorreu aos imãs
13

sagrados e aos adivinhadores, aconselhando-se com eles. Estes, depois que o
ouviram, oraram e se consultaram, falaram da seguinte forma:
“Ó Sultão, Alá o alertou que a mulher, sua sobrinha, que mora lá longe,
na Inglaterra, por sua nobreza e seu sacrifício, em algum tempo por vir, evi-
tará que se derrame um mar de sangue e trará a paz sobre a terra. Nós o
instruímos, portanto, para que traga esta dama para a sua corte, pois se ela
lhe escapar, a paz irá com ela.”
Saladino admitiu que a interpretação era sábia e verdadeira, pois havia
entendido seu sonho da mesma forma. Então ele convocou um falso cava-
leiro que carregava a Cruz de Cristo no peito, mas que em segredo tinha
15
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
aceitado o Alcorão
14
, um espião franco de sua confiança, que tinha vindo
daquele país em que habitava a moça, sua sobrinha, e por meio dele ficou
sabendo sobre ela, seu pai e sua casa. Com ele e com outro espião, este dis-
farçado de peregrino
15
cristão, e com a ajuda do Príncipe Hassan, um dos
mais nobres e mais confiáveis dos seus emires, organizou um hábil plano para
a captura da moça, no caso de ela não vir por vontade própria, e para seu
transporte até a Síria.
Além disso — pois aos olhos de todos os homens sua posição deveria
valer seu sangue nobre e seu destino —, por decreto ele a elevou, a sobrinha
que nunca tinha visto, a Princesa de Baalbec
16
, e lhe deu muitas propriedades,
um costume que o avô dela, Ayoub, e seu tio Izzeddin, tinham também ado-
tado. Também adquiriu um grande navio de guerra e o guarneceu com ma-
rinheiros experientes e com guerreiros escolhidos, sob o comando do
Príncipe Hassan; escreveu uma carta para o nobre inglês, Sir Andrew D’Arcy,
e para a filha dele, e preparou um presente de jóias dignas de uma rainha,
enviando tudo para a moça, sua sobrinha, lá na distante Inglaterra, junto
com o decreto de sua elevação a princesa. Ordenou que a expedição tives-
se sucesso pacificamente, ou pela força, ou pela fraude, ou pela melhor
forma que fosse possível, pois que ninguém da expedição ousasse olhar em
seu rosto novamente caso não retornasse com ela. E com a expedição
mandou os dois espiões francos, pois eles sabiam o lugar em que a moça
morava, e um deles, o falso cavaleiro, era também hábil marinheiro e o
capitão do navio.
Estas coisas fez Yusuf Saladino, e aguardou pacientemente até que elas
pudessem predispor Deus a tornar realidade a visão com que Ele tinha pre-
enchido sua alma durante o sonho.
Prólogo
16
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
17
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
o paredão na costa de Essex, Rosamund fitou o oceano para os
lados do Oriente. À esquerda e à direita, um pouco atrás, como
guardas protegendo sua soberana, estavam seus primos, os irmãos
gêmeos Godwin e Wulf, ambos altos e em excelente forma física. Godwin
estava imóvel como uma estátua, com as mãos em volta do punho de uma
espada longa e embainhada, com a ponta apoiada no chão à sua frente, mas
Wulf, seu irmão, movia-se inquieto, de um lado para outro, até que finalmen-
te bocejou alto. Eram bonitos, todos os três, pois estavam no esplendor da
juventude e da saúde. A altiva Rosamund, cabelos e olhos negros, pele cor
de marfim e corpo delgado, trazia um ramalhete de flores do pântano na mão.
Godwin, claro e cerimonioso, tinha o semblante sonhador; e Wulf, de olhos
azuis e saxão até o último fio de cabelo, a despeito do sangue normando do
pai, era a imagem de um guerreiro audacioso.
Ao ouvir o som do bocejo abafado, Rosamund virou a cabeça, com a
graça suave que marcava cada um dos seus movimentos.
— Você já está com sono, Wulf, e o sol ainda nem se pôs? — ela pergun-
tou, com uma voz sonora e rica que, talvez devido ao sotaque estrangeiro,
parecia muito diferente da voz de qualquer outra mulher.
— Acho que sim, Rosamund — ele respondeu. — Ajudaria a passar o
tempo, e agora que você já terminou de colher essas flores amarelas, que te
trouxeram de tão longe, o tempo... parece que não passa.
capítulo 1
Nas águas de Death Creek
D
A
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
18
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Que vergonha, Wulf — ela disse sorrindo. — Contemple o mar, e o
céu, e veja a cortina toda dourada e púrpura...
— Estou olhando há meia hora, prima Rosamund. E também para as suas
costas, e para o braço esquerdo de Godwin, e para o rosto dele, até que de
repente me vi de joelhos no convento de Stangate, fitando a efígie de meu pai
sobre o túmulo, enquanto o Prior John rezava monotonamente a missa.
Porque se fosse possível colocar meu pai de pé, seria Godwin, com as mesmas
mãos cruzadas repousando sobre a espada e o mesmo rosto impassível fitan-
do o céu.
— Godwin, como Godwin um dia será, ou espera ser — isto é, se os san-
tos lhe concederem a graça de executar tantos feitos quantos realizou nosso
pai — interrompeu o irmão.
Wulf olhou para ele, e um curioso lampejo de inspiração surgiu em seus
olhos azuis.
— Não, acho que não — respondeu. — Os feitos você conseguirá, e maio-
res, mas sem dúvida será enrolado não em uma cota, mas em um capelo de
um monge, a menos que uma mulher o tire de você, impedindo sua rápida
caminhada para os céus. Digam-me agora, os dois, no que estão pensando.
Fiquei curioso para saber o dia todo, e gostaria de ver se estou errado. Ro-
samund, fale primeiro. Não, não toda a verdade — os pensamentos de uma
mulher são somente dela, só o essencial, a nata que fica por cima do leite.
Rosamund suspirou.
— Eu? Estava pensando no Oriente, onde o sol brilha e o mar é azul como
as flores do meu cinto, e os homens têm estranhos conhecimentos.
— E as mulheres são escravas dos homens! — interrompeu Wulf. — Mas
é natural que você pense no Oriente, pelo sangue que corre em suas veias,
sangue nobre, se as histórias que se contam são verdadeiras. Diga, Princesa
— e Wulf inclinou um joelho na direção dela, com um pouco de zombaria que
não conseguiu afetar a seriedade de sua reverência —, minha prima, neta de
Ayoub e sobrinha do poderoso monarca Yusuf Saladino, você tem a intenção
de deixar esta pobre terra e visitar seus domínios no Egito e na Síria?
Ela ouviu, e à medida que essas palavras eram ditas seus olhos pareciam
que iam pegar fogo, seu corpo se endireitou, o peito arfou, as narinas delica-
das se alargaram, como se estivessem sentindo novamente um agradável
perfume. Sem dúvida, naquele momento, de pé sobre o promontório acima
dos mares, Rosamund parecia mesmo uma rainha.
19
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
Quando falou, ela respondeu com uma outra pergunta.
— E como me receberiam lá, Wulf, eu que sou uma D’Arcy normanda e
uma serva de Cristo?
— Em primeiro lugar eles perdoariam você, pois o sangue também é nobre;
em segundo lugar, ora, a fé pode ser alterada.
Foi então que Godwin falou pela primeira vez.
— Wulf, Wulf, — disse com severidade. — Cuidado com a sua língua,
pois há coisas que não devem ser ditas, mesmo como a mais inocente brin-
cadeira. Veja, amo minha prima acima de todas as coisas da Terra...
— Pelo menos nisso, concordamos — acrescentou Wulf.
— Acima de todas as coisas da Terra — repetiu Godwin. — Mas, pelo
sangue de Cristo e por São Pedro, em cujo santuário estamos, eu a mataria
com minhas próprias mãos antes que seus lábios tocassem o livro do falso
profeta.
— Ou de qualquer um dos seus seguidores — murmurou Wulf para si mesmo,
mas felizmente, talvez, em um tom baixo o suficiente para que nenhum dos dois
ouvisse. E em voz alta ele falou: — Você entende, Rosamund, você precisa ter
cuidado, porque Godwin sempre cumpre suas promessas, e seria um fim melan-
cólico para uma mulher tão bem nascida, tão bonita e tão sábia.
— Ah, deixe de brincadeiras, Wulf —, ela respondeu, pousando a mão
suavemente na túnica que escondia a cota. — Deixe de brincadeiras, e reze a
St. Chad, o construtor desta igreja, para que uma escolha tão trágica nunca
recaia sobre você, sobre mim, ou seu amado irmão — que, certamente, se
esse fosse o caso, faria muito bem em me matar.
— Bem, se fosse o caso —, respondeu Wulf, e seu rosto corou enquanto
falava, — acho que deveríamos saber como enfrentar a situação. Afinal de
contas, será tão difícil escolher entre a morte e o dever?
— Sei que não — ela respondeu, — mas muitas vezes o sacrifício parece
fácil quando visto à distância. E também pode haver coisas ainda mais valio-
sas a perder do que a vida.
— Quais coisas? Você quer dizer a casa, a riqueza, ou... o amor?
— Diga-me — disse Rosamund mudando o tom de voz — que barco é
aquele a remo na foz do rio? Um instante atrás ele repousou os remos, como
se os que estão no barco quisessem nos observar.
— Pescadores — respondeu Wulf despreocupadamente. — Vi as redes de
pesca.
20
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Pode ser, mas por baixo das redes alguma coisa brilhou, como espadas.
— Pescadores — falou Wulf. — Estamos em paz em Essex. Embora Ro-
samund não parecesse convencida, ele continuou: — Agora vejamos o que
Godwin acha. O que são eles?
— Irmão, se quer saber, do Oriente, claro — do Oriente e de suas guerras.
— Que não nos trouxeram muita sorte — respondeu Wulf — pois nosso
pai foi morto nessas guerras, e nenhum pedaço dele veio de volta, a não ser
seu coração, que está em Stangate.
— De que melhor maneira ele poderia morrer — perguntou Godwin — que
não lutando pela Cruz de Cristo? Não foi assim sua morte em Harenc(17),
como sabemos hoje? Por Nossa Senhora, rezo para que tenha uma morte pelo
menos metade tão gloriosa!
— Sim, ele morreu honrosamente, honrosamente — disse Wulf com os
olhos azuis faiscando e com a mão crispada no punho da espada. — Mas,
meu irmão, existe paz em Jerusalém, da mesma forma que em Essex.
— Paz? Sim, mas logo haverá guerra novamente. O monge Peter — que
nós vimos em Stangate no domingo passado, e que deixou a Síria há não mais
que seis meses — me falou que a guerra está chegando depressa. Neste mo-
mento o sultão Saladino, em seu trono de Damasco, conclama suas hostes,
espalhadas por todos os lados, enquanto seus religiosos pregam a guerra
entre as tribos e os barões do Oriente. E quando ela chegar, meu irmão, que
não estejamos lá para enfrentá-la, como a enfrentou nosso avô, nosso pai,
nosso tio, e tantos outros da nossa família. Apodreçamos aqui, nesta terra
insípida, como fazemos há anos, é o desejo de nosso tio, desde que voltamos
da guerra contra os escoceses, e aremos a terra como camponeses, enquanto
nossos pares estão lutando contra os pagãos, com os estandartes ao vento, e
o sangue escorrendo sobre as areias sagradas da Palestina.
Então foi a vez de Wulf contra-atacar.
— Por Nossa Senhora que está no Céu, e por nossa senhora que está aqui!
— e fitou Rosamund, que observava os dois com olhar atento. — Vá quando
quiser, Godwin! E irei com você, e como nosso nascimento foi um só nasci-
mento, que seja decretado que nossa morte será uma só morte. — E repenti-
namente a mão que estava brincando com o punho da espada o agarrou, e
puxou a longa e fina lâmina de sua bainha e a lançou no ar, fazendo-a reluzir
à luz do sol, agarrando-a novamente quando ela caiu, ao mesmo tempo em
que, num tom de voz que amedrontava todas as aves em Saltings, Wulf soltou
21
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
o velho grito de guerra que tinha ecoado em tantos campos de batalha: “Sou
um D’Arcy! Um D’Arcy! Enfrente um D’Arcy! Encontre a morte!”. Depois
embainhou novamente a espada e acrescentou, baixo: — Somos crianças para
lutar onde não há nenhum inimigo? Que encontremos um logo.
Godwin deu um sorriso amarelo, mas não respondeu nada. Apenas Ro-
samund falou:
— Então, meus primos, vocês vão se ausentar, talvez para nunca mais
voltar, e isso vai nos separar. Mas — e sua voz mudou um pouco — é a sina
da mulher, pois homens como vocês gostam muito mais da espada, e não
devo pensar que são diferentes. Contudo, meus primos, não sei por quê — e
ela tremeu um pouco — me vem ao coração que o Céu muitas vezes atende
a essas preces rapidamente. Ah, Wulf, sua espada pareceu muito vermelha à
luz do sol. Tenho medo, não sei do quê. Bem, precisamos ir, pois temos de
cavalgar 15 quilômetros, e não tarda a escurecer. Mas antes, primos, venham
comigo ao santuário e rezemos a St. Peter e a St. Chad para nos proteger em
nossa viagem de volta.
— Viagem? — falou Wulf, preocupado. — O que pode haver de perigo
em uma cavalgada de 15 quilômetros pelas praias de Blackwater?
— Falei viagem de volta para casa, Wulf, e a casa não fica em Steeple, mas
além — e apontou para o céu calmo e ameaçador.
— Boa resposta — disse Godwin. — Aqui neste lugar antigo, de onde mui-
tos voltaram para casa; todos os romanos que aqui morreram quando o lugar
era sua fortaleza, e os saxões que vieram depois deles, e outros sem conta.
Depois se viraram e entraram na velha igreja — uma das primeiras a
existir na Inglaterra, erigida rusticamente de pedras em estilo romano pelas
mãos de Chad, o santo saxão, mais de 500 anos antes. Lá se ajoelharam um
pouco diante do altar despojado e oraram, cada um com suas palavras, depois
fizeram o sinal-da-cruz e saíram ao encontro dos cavalos, que estavam junto
a uma cabana de madeira.
Agora havia duas estradas, ou melhor, duas trilhas, de volta a casa em
Steeple — uma pouco mais de um quilômetro para o interior, e que passava
pela vila de Bradwell, e a outra, mais curta, ao longo de Saltings até as águas
rasas conhecidas como Death Creek, em cuja nascente o viajante deve rumar
para o interior, deixando o convento de Stangate à direita. Foi essa a trilha
que eles escolheram, pois, na maré vazante, passar por ali era melhor para
os cavalos, o que, mesmo no verão, a outra não era. Além disso, eles queriam
22
Cruzada •
H. Rider Haggard
estar em casa na hora do jantar, caso contrário, Sir Andrew D’Arcy, o pai de
Rosamund e tio dos irmãos órfãos, ficaria preocupado, a ponto de talvez sair
para procurá-los.
Durante meia hora ou mais cavalgaram ao longo de Saltings, a maior
parte em um silêncio, que era quebrado apenas pelos gritos dos maçaricos ou
o marulho da maré. Não viram nenhum ser humano, pois o lugar era muito
isolado e nunca recebia visitantes, a não ser alguns pescadores de vez em
quando. Finalmente, quando o sol começou a se pôr, eles se aproximaram da
praia de Death Creek — uma pequena corrente de água levada pela maré e
que entrava terra adentro por quilômetro e meio, ficando cada vez mais rasa,
mas nesse ponto com uma largura de cerca de 300 metros. Seus cavalos eram
excelentes. O de Rosamund, um cavalo cinza de grande porte, tinha sido
presente de seu pai, e era famoso na redondeza por sua velocidade e força, e
também porque era tão manso que uma criança podia cavalgá-lo. Os cavalos
dos irmãos eram de batalha, fortes e bem treinados, ensinados a permanecer
onde tivessem sido deixados, e a atacar quando eram fustigados, sem medo
dos gritos ou das espadas dos adversários.
Agora o terreno podia ser descrito assim: a quase 100 metros da praia de
Death Creek, e paralela a ela, uma língua de terra, coberta de arbustos e alguns
carvalhos, seguia em direção de Saltings, a ponta terminando bem junto à
trilha. Além dela havia um pântano e o riacho. Entre a língua de terra e a
praia do riacho a trilha serpenteava rumo às terras mais altas. Era uma trilha
antiga; e a razão para seu bom estado de conservação era que aqui os roma-
nos, ou outros povos já desaparecidos, tinham construído um cais estreito,
de pedra rústica, com 50 ou 60 metros de extensão, sobre a água do riacho,
sem dúvida para servir como ancoradouro para os barcos dos pescadores,
que podiam ancorar mesmo na maré baixa. Esse cais tinha sido atingido por
séculos de arrebentação, de modo que suas pontas ficavam sob a linha da
água. As partes elevadas, porém, ainda estavam firmes e planas.
Ao chegar à pequena elevação no topo da língua de terra coberta de ar-
bustos, os atentos olhos de Wulf, que vinha na frente — aqui a trilha à beira
do pântano era tão estreita que tinham de cavalgar em fila — viram um
grande barco, sem alma dentro, preso a uma argola de ferro fixada na parede
do cais.
— Seus pescadores vieram para terra, Rosamund — ele falou — e certa-
mente foram para Bradwell.
23
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
— Isto é estranho — ela respondeu preocupada — pois nenhum pescador
vem para estes lados. — E fez menção de virar o cavalo para voltar.
— Se vieram ou não, já se foram — disse Godwin — esticando-se um
pouco para olhar mais além. — E como não temos nada a temer de um bar-
co vazio, vamos continuar.
Assim fizeram, até chegar ao pé do cais de pedra, quando um ruído atrás
deles fez com que se virassem e olhassem. E o que viram fez seus corações
pularem, pois atrás deles, saltando um a um para a estreita faixa de terra,
estavam homens com as espadas desembainhadas, seis ou oito, e todos usan-
do, como perceberam, tiras de tecido atadas por trás dos elmos ou dos capa-
cetes de couro, para esconder seus rostos.
— É uma armadilha, uma armadilha — gritou Wulf, puxando a espada.
— Rápido, sigam-me na trilha de Bradwell — e assim falando esporeou seu
cavalo. Ele se lançou à frente, seguido num átimo com todo o peso das patas
dianteiras e depois das patas traseiras. — Santo Deus! — ele gritou. — Há
outros deles! — E havia outros, pois um novo grupo de homens, com os
rostos ocultos pelas tiras de tecido como os outros, tinha pulado para a trilha
de Bradwell, entre eles um homem corpulento, que parecia estar desarmado,
a não ser por uma faca recurvada presa à cintura, e uma cota de aros de
metal, que aparecia por uma fenda de sua túnica.
— Vamos para o barco! — gritou Godwin, ao que o homem corpulento
riu, um riso rápido mas desagradável, que os três ouviram.
E todos cavalgaram rumo ao cais, pois não havia outro lugar para onde
pudessem ir, com as duas trilhas impedidas, e pântano e água de um lado, e
de outro um barranco íngreme e coberto de arbustos. Quando atingiram o
cais, perceberam por que o homem tinha rido: o barco estava preso por uma
corrente grossa, que não podia ser cortada. E, além disso, todos os remos e
a vela tinham desaparecido.
— Entre! — zombou uma voz. — Ou pelo menos deixe a lady entrar. Vai
nos poupar o trabalho de levá-la a bordo.
Agora Rosamund ficou muito pálida. Mas o rosto de Wulf ficou vermelho,
e depois branco, e ele agarrou o punho da espada. Mas Godwin, sereno como
sempre, fez o cavalo dar alguns passos à frente, e falou calmamente:
— Por cortesia, diga o que quer de nós. Se for dinheiro, não temos ne-
nhum, nada além de nossos braços e cavalos, mas receio que vão lhe custar
muito.
24
Cruzada •
H. Rider Haggard
Agora o homem com a lâmina da faca recurvada adiantou-se um pouco,
acompanhado de outro homem, alto e de movimentos calmos, em cujo ou-
vido ele sussurrou.
— Meu amo diz — respondeu o homem alto — que os senhores têm
consigo algo que vale mais do que todo o ouro do Rei — uma lady muito
bonita, que alguém quer ver com urgência. Entreguem-na, e sigam seu cami-
nho com seus braços e cavalos, pois são jovens valentes, cujo sangue não
queremos derramar.
Então foi a hora de os irmãos gargalharem, o que os dois fizeram ao
mesmo tempo.
— Entregá-la — respondeu Godwin — e seguir nosso caminho desonrados?
Nem pensar. Quem, então, tem tanta urgência de ver lady Rosamund?
Novamente ouve cochicho entre os dois.
— Meu amo diz — foi a resposta — que quem quer que a tenha visto tem
necessidade de revê-la, pois tanta formosura é rara. Mas se querem um nome,
bem, há um que me vem à mente: o nome do cavaleiro Lozelle.
— O cavaleiro Lozelle! — murmurou Rosamund, ficando ainda mais
pálida do que antes, como devia acontecer. Pois aquele Lozelle era um homem
poderoso, nascido em Essex. Era dono de navios cujas atividades nos mares
tinham relatos desonrosos, e que outrora tinha pedido a mão de Rosamund
em casamento, mas tendo sido recusado, proferira ameaças, a ponto de Godwin,
o mais velho dos irmãos, ter tido a necessidade de lutar com ele, e o ferido.
Depois disso ele desapareceu; e ninguém sabia onde estava.
— Sir Hugh Lozelle está aqui, então? — perguntou Godwin, — mascara-
do como todos vocês, covardes? Se estiver, quero encontrá-lo, para terminar
o trabalho que comecei no Natal passado.
— Descubra, se for capaz — respondeu o homem alto. Mas Wulf inter-
rompeu, falando por entre os dentes cerrados:
— Irmão, só vejo uma saída. Vamos colocar Rosamund entre nós e
atacá-los.
O capitão do bando pareceu ler seus pensamentos, e novamente cochichou
no ouvido do companheiro, que falou alto:
— Meu amo diz que se tentarem atacar, agirão como idiotas, pois vamos
usar as espadas e cortar os tendões dos seus cavalos, que são muito bons para
serem perdidos, e agarrar vocês facilmente quando caírem. Vamos, rendam-
se enquanto podem entregar-se sem desonra, admitindo que não têm saída,
25
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
e que dois homens, embora valentes, não podem enfrentar muitos outros. Ele
lhes dá um minuto para se renderem.
Então Rosamund falou, pela primeira vez.
— Meus primos — disse — suplico para não me deixarem cair viva nas
mãos de Sir Hugh Lozelle, ou destes homens, e ser levada a um destino que
não quero. Deixem Godwin me matar, para salvar minha honra, como há
pouco ele disse que faria para salvar minha alma, e façam tudo para escapar,
e vivam para depois me vingar.
Os irmãos não responderam, apenas olharam a água, e depois um para o
outro, e balançaram a cabeça. Foi Godwin que falou de novo, pois naquele
momento em que era preciso lutar por suas vidas e pela de Rosamund, Wulf,
cuja língua era normalmente muito rápida, tinha ficado estranhamente em
silêncio, da mesma forma que seu rosto ficara tenso.
— Ouça, Rosamund, e não vire seus olhos — disse Godwin. — Há uma
chance para você, mesmo pequena, e você precisa escolher entre ela ou ser
capturada, pois não podemos matá-la. O cavalo que você cavalga é forte e
obediente. Vire-o agora, use as esporas e leve-o para as águas de Death Creek,
e faça-o nadar. O riacho é largo, mas a maré crescente vai ajudar, e com
sorte você não se afogará.
Rosamund ouviu e virou a cabeça para trás, para o barco. Então Wulf
falou, rápido e com energia:
— Vá, garota! Nós defenderemos o barco.
Ela ouviu, e seus olhos negros encheram-se de lágrimas, e sua altiva cabe-
ça quase se afundou na crina do cavalo.
— Ah, meus cavaleiros! Meus cavaleiros! E vocês estão dispostos a morrer
por mim? Bem, se Deus assim o deseja, que assim seja. Mas juro que se morre-
rem nenhum homem se aproximará de mim enquanto estiverem vivos em minha
memória, e se viverem... — Então ela olhou para eles, confusa, e parou.
— Deus nos abençoe! Vá! — falou Godwin.
Nesse momento ela os abençoou, falando baixo e com emoção. De repen-
te girou o cavalo, e espetando as esporas em seus flancos, conduziu-o direta-
mente para as águas mais profundas. Por um momento o garanhão ergueu-se,
e depois, da ponta do cais atirou-se às águas. E assim afundou, mas não por
muito tempo, pois logo a cabeça dela aflorou na água, e ajeitando-se nova-
mente na sela, da qual tinha sido afastada, Rosamund firmou-se e conduziu
o cavalo para a outra e distante margem. Então se ouviu um grito de grande
26
Cruzada •
H. Rider Haggard
surpresa da parte dos ladrões de mulheres, pois aquela era uma ação que eles
nunca tinham sido capazes de imaginar. Os irmãos riram ao ver que o cavalo
nadava bem, e pulando de suas selas correram uns passos — seis ou oito — para
o cais na parte em que ele era mais estreito, enquanto retiravam os mantos dos
ombros, agarrando-os com o braço esquerdo para servir como escudos.
O bando praguejou com raiva e o capitão deu ordens ao porta-voz, que
gritou:
— Mate-os, e para o barco! É preciso agarrá-la antes que ela chegue à
praia ou morra afogada.
Por alguns momentos eles hesitaram, pois os guerreiros irmãos que barra-
vam o caminho olhavam ferozmente, antecipando ferimentos e morte. Então,
de repente, eles atacaram, pisando com dificuldade sobre as pedras rústicas.
Mas naquele lugar o passadiço era tão estreito que, enquanto tivessem forças,
dois homens valiam tanto quanto vinte; também por causa da lama e da
água, eles não podiam ser atacados pelos lados. De modo que, no final das
contas, eram sempre dois contra dois, e os irmãos eram os dois melhores. Suas
longas espadas reluziam e atingiam com força, e quando a de Wulf era ergui-
da novamente, mais uma vez ela refletia o vermelho da luz do sol. Um homem
caiu no riacho espalhando muita água, e chafurdou lá até morrer. O adversá-
rio de Godwin também foi derrubado, e parecia que estava morrendo.
Então, falando baixo, e sem esperar pelo ataque dos outros, os dois irmãos
avançaram. O grupo desordenado à sua frente os viu avançando, e recuou,
mas antes de recuar um metro, as espadas estavam outra vez em ação. Os
homens praguejaram, prenderam os pés entre as pedras, e caíram. Na con-
fusão três deles foram empurrados para a água. Dois deles afundaram na
lama e morreram afogados; o terceiro se arrastou até a praia, e o resto correu
em fuga pelo passadiço. Mas dois tinham sido atingidos, e três tinham caído,
e para estes não havia saída. Tentaram se levantar e lutar, mas as tiras de
tecido atrapalharam sua visão, e seus golpes eram sem pontaria, ao passo que
as longas espadas dos irmãos atingiam novamente seus elmos, como a mar-
reta atinge a bigorna, até que os três rolaram em silêncio e ficaram imóveis.
— Para trás! — gritou Godwin —, pois aqui a trilha é larga, e eles vão
contra-atacar.
E eles recuaram, devagar, com os rostos fitando o inimigo, parando em
frente ao primeiro homem que Godwin parecia ter matado, e que estava
deitado de barriga para cima, com os braços estendidos.
27
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
— Até agora tudo correu muito bem — falou Wulf, com um riso curto.
— Você está ferido?
— Não — respondeu o irmão — mas não se vanglorie até que a batalha
esteja terminada, pois ainda sobraram muitos, e eles atacarão de novo. Reze
a Deus para que não tenham lanças ou arcos.
Então Godwin parou e olhou por trás do irmão, e lá, distante da praia,
nadava o cavalo num ritmo firme, e montada nele ia Rosamund. E ela os viu,
pois o cavalo tinha de nadar meio de lado, por causa da maré, e ela pegou o
lenço que trazia enrolado no pescoço e o agitou na direção deles. Então os
irmãos ficaram sabendo que ela estava orgulhosa de seu desempenho, e agra-
decia aos santos pois eles estavam vivos e feito tanto em sua defesa.
Godwin estava certo. Embora o líder gritasse palavras de ordem com
energia, o bando recuou escapando do alcance das espadas e, em vez de
avançar, procurava pedras para atirar nos irmãos. Mas por ali havia mais
lama do que pedras, e as pedras do cais eram muito pesadas, de modo que
só conseguiram atirar algumas poucas, que ou não atingiam os irmãos ou
lhes causavam poucos ferimentos. Então, depois de algum tempo, o homem
chamado de “amo” disse algo a seu ajudante, e em seguida alguns deles cor-
reram até algumas moitas e logo apareceram com os longos remos.
— O plano deles é nos fazer cair usando os remos. O que vamos fazer
agora, irmão? — perguntou Godwin.
— O que pudermos — respondeu Wulf. — Pouco importa, já que Ro-
samund foi poupada pelas águas, pois é muito pouco provável que a agar-
rem, pois precisarão soltar o barco e manobrá-lo depois que estivermos
mortos.
Enquanto falava, Wulf ouviu o barulho vindo de trás dele, e de repente
Godwin estendeu os braços e mergulhou contra seus joelhos. Os dois rolaram
e a seus pés estava o homem que imaginavam ter morrido, trazendo na mão
uma espada ensangüentada. Wulf atirou-se contra o homem, e tão ferozes
foram os golpes que o primeiro decepou o braço que segurava a espada, e o
segundo penetrou o manto e a cota profundamente; dessa vez o homem caiu
e não mais se moveu. Então Wulf olhou para o irmão e viu que o sangue
escorria por seu rosto, e sobre os olhos, cegando-o.
— Fuja, Wulf, pois estou morto — sussurrou Godwin.
— Não, senão você não estaria falando. — E Wulf passou os braços em
volta do irmão, e beijou sua testa.
28
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Então lhe veio um pensamento à mente, e carregando Godwin como se ele
fosse uma criança, correu até onde estavam os cavalos, e o colocou numa sela.
— Agarre-se, na crina e no arção da sela. Segure bem, tenha fé, que vou
salvá-lo.
Passando as rédeas para o braço esquerdo, Wulf saltou sobre a sela de seu
próprio cavalo, e o virou na direção dos inimigos. Dez segundos depois os
piratas, que estavam se reagrupando, com os remos, viram os dois cavalos
vindo a toda velocidade na direção deles. Em um deles vinha Godwin, ferido,
o cabelo empapado de sangue, as mãos agarrando a crina e a sela; no outro,
o guerreiro Wulf, com olhos rútilos e o rosto afogueado, brandindo a espada
vermelha, e pela segunda vez naquele dia gritando “Um D’Arcy! Um D’Arcy!
Enfrente um D’Arcy! Encontre a Morte!”
Os piratas viram, gritaram, se espremeram e ergueram os remos, na in-
tenção de enfrentá-los. Mas Wulf usou as esporas com força, e os cavalos,
treinados para competições, aumentaram a velocidade. Assim, logo estavam
sobre eles. Os remos foram colocados de lado como caniços de junco; espadas
apareceram e foram brandidas ferozmente, e Wulf sentiu ter sido ferido, não
sabia bem onde. Mas sua espada cortou o ar, num golpe — não havia tempo
para mais outro — e o homem ao seu lado caiu como um saco vazio.
Por St. Peter! Eles tinham conseguido e Godwin, ainda estava montado
na sela, e além, na praia do outro lado, o cavalo e sua montaria ainda enfren-
tavam a maré. Tinham conseguido! Tinham conseguido! Mas aos olhos de
Wulf o ar estava tingido de vermelho, e a terra parecia que se levantava para
enfrentá-los, e por toda parte havia chamas crepitando.
Mas os gritos tinham cessado atrás deles, e o único som era o do barulho
dos cascos de seus cavalos. Depois o barulho também diminuiu, e cessou, e
o silêncio e a escuridão tomaram conta de Wulf.
Cruzada •
H. Rider Haggard
29
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
odwin sonhou que estava morto, e que abaixo dele o mundo flutuava,
como uma bola reluzente, enquanto era levado de um lado para outro
dentro da escuridão, estendido em um divã de ébano. Havia dois
vultos ao lado do divã, e viu que eram seus anjos da guarda, escolhidos quando
ele nasceu. Além disso, de vez em quando outros vinham e faziam perguntas aos
anjos que estavam sentados à sua cabeceira e aos seus pés. Um perguntou:
— Esta alma pecou? E o anjo à sua cabeceira respondeu:
— Esta alma pecou.
De novo a voz perguntou:
— Ele morreu absolvido de seus pecados?
O anjo respondeu:
— Ele morreu sem absolvição, com a espada ensangüentada erguida, lu-
tando uma boa luta.
— Lutando pela Cruz de Cristo?
— Não, lutando por uma mulher.
— Que pena! Pobre alma, pecador e sem absolvição, que morreu lutando
pelo amor de uma mulher. Como pode essa alma encontrar perdão? — lamu-
riou a voz do indagador, ficando cada vez mais fraca, até que ficou distante,
muito distante.
Então chegou outro visitante. Era seu pai — o velho guerreiro que ele
nunca tinha visto, e que morreu na Síria. Godwin o conhecia bem, pois o
capítulo 2
Sir Andrew D’Arcy
G
A
30
Cruzada •
H. Rider Haggard
rosto dele era o mesmo esculpido na tumba na igreja de Stangate; ele usava
a cruz vermelha de sangue sobre a cota, a cabeça morta de D’Arcy estava no
seu escudo, e na sua mão havia uma espada desembainhada.
— Esta é a alma de meu filho? — ele perguntou aos anjos de vestimenta
branca. — Se é, como ele morreu?
O anjo ao pé da cama respondeu:
— Ele morreu brandindo a espada ensangüentada, lutando uma boa luta.
— Lutando pela Cruz de Cristo?
— Não, lutando por uma mulher.
— Lutando pelo amor de uma mulher quem deveria ter morrido na Guer-
ra Santa? Que pena, pobre filho; que pena, pobre filho. Que pena! Então
devemos nos separar para sempre! — e sua voz também diminuiu e cessou.
Veja! A Eternidade avançou pela escuridão, e os anjos à cabeceira e ao pé
da cama se levantaram e a saudaram com as lanças ardentes.
— Como morreu esta criança de Deus? — perguntou uma voz, vinda da
Eternidade, uma voz baixa e aterradora.
— Ele morreu pela espada — respondeu o anjo.
— Pela espada dos filhos do inimigo, lutando na guerra dos Céus?
Desta vez os anjos ficaram em silêncio.
— O que os Céus têm a ver com ele, se ele não lutou pelos Céus? — a voz
perguntou de novo.
— Que ele seja poupado — apelaram os guardiões — pois era jovem e
bravo, e inexperiente. Mande-o de volta à Terra, para redimir seus pecados,
e ser nosso guerreiro mais uma vez.
— Assim seja — falou a voz. — Cavaleiro, viva, mas viva como um cava-
leiro digno do Céu, se quiser conquistar o Céu.
— Ele deve então se afastar da mulher? — perguntaram os anjos.
— Isso não foi dito — falou a voz vinda da Eternidade. E todas aquelas
visões desapareceram.
Ocorreu então um breve espaço de esquecimento e Godwin acordou ou-
vindo outras vozes em seu redor, vozes humanas, de entes queridos, lembra-
dos; e para ver um rosto abaixado perto do seu — um rosto bem humano,
bem querido, bem relembrado — o de sua prima Rosamund. Ele balbuciou
algumas perguntas, mas lhe trouxeram comida e mandaram que dormisse,
então ele dormiu. E assim continuou, acordando e dormindo, até que final-
mente uma manhã ele acordou no pequeno quarto que dava para o solar, ou
31
Capítulo 2 •
Sir Andrew D’Arcy
sala de visitas na casa de Steeple, na qual ele e Wulf tinham dormido desde
que o tio os tinha trazido para casa, ainda bem pequenos. E, na cama sobre
cavaletes do outro lado, perna e braço cheios de curativos, e com uma mule-
ta ao lado, estava Wulf em pessoa, um pouco mais pálido e magro do que
antes, mas com o mesmo rosto jovial e relaxado, embora às vezes raivoso.
— Ainda estou sonhando, meu irmão, ou é mesmo você?
Um largo sorriso tomou conta do rosto de Wulf, pois agora tinha certeza
de que Godwin tinha voltado a si.
— Sou eu, com certeza — ele respondeu. — Os sonhadores não mancam
das pernas, presente das espadas e dos homens.
— E Rosamund? O que aconteceu com Rosamund? O cavalo cinza
nadou? Como viemos parar aqui? Conte-me tudo, rápido, pois estou louco
por notícias.
— Ela mesma vai contar. E mancando até a porta acortinada, chamou:
“Rosamund, minha — não, nossa — prima Rosamund. Godwin recobrou a
consciência, ouviu? Godwin recobrou a consciência e quer falar com você.”
Houve um rápido farfalhar de roupas e o som de pés ligeiros sobre a for-
ração de junco no chão. Em seguida apareceu Rosamund, encantadora como
sempre, e irradiando felicidade. Ela o viu, o magro e pálido Godwin sentado
em cima do catre, os olhos num tom cinza brilhando no rosto branco e enca-
vado. Os olhos de Godwin eram cinza, e os de Wulf, azuis, e essa era a única
diferença que um estranho notaria entre os dois, embora na verdade os lábios
de Wulf fossem mais cheios que os de Godwin, e seu queixo fosse mais mar-
cado. Wulf era também mais encorpado. Ela o viu e, com um grito de alegria
e prazer, correu e o envolveu nos braços, beijando-o na testa.
— Tenha cuidado — Wulf falou com certa aspereza, afastando a cabeça
dela — ou você vai afrouxar os curativos e atrapalhar a recuperação. Ele já
teve sangramentos suficientes.
— Então vou beijar sua mão, a mão que me salvou — ela disse, e assim
o fez. E fez mais, apertando a mão pálida contra seu coração.
— A minha mão também teve alguma coisa a ver com esse assunto, mas
não me lembro de que você a tenha beijado, Rosamund. Bem, então também
vou beijá-lo! Louvado seja Deus, a Virgem Maria, St. Peter e St. Chad, e
todos os outros santos cujos nomes não lembro, e os que, entre eles, com a
ajuda de Rosamund, e as preces do Prior John e os irmãos de Stangate, e de
Mathew, o pároco da vila, trouxeram você de volta para nós, meu irmão,
32
Cruzada •
H. Rider Haggard
meu sempre amado irmão. Então avançou até o catre e, estendendo os braços
longos e fortes, abraçou Godwin.
— Tenha cuidado — falou Rosamund friamente —, Wulf, ou você vai
afrouxar os curativos, e ele já teve sangramentos suficientes.
Então, antes que ele tivesse tido tempo de responder, ouviu-se o ruído de
passos lentos; em seguida, abrindo a cortina, um cavaleiro alto e de aspecto
nobre entrou no pequeno quarto. O homem era velho, e parecia mais velho
do que era, pois as tristezas e a doença o tinham consumido. Seu cabelo
branco como neve caía pelos ombros, o rosto era pálido, e suas feições eram
abatidas, embora agradáveis, e não obstante a grande diferença de idade,
muitíssimo parecidas com as de sua filha Rosamund. Pois ele era seu pai, o
famoso nobre Sir Andrew D’Arcy.
Rosamund virou-se e fez uma leve mesura, de um jeito gracioso como os
do Oriente, mas um pouco estranho, enquanto Wulf curvou sua cabeça, e
Godwin, sem poder mexer o pescoço, que estava ainda muito dolorido, le-
vantou a mão em uma saudação. O velho homem olhou para ele, e havia
orgulho em seu olhar.
— Então você vai continuar vivo, meu sobrinho —, ele falou — e por isso
agradeço ao senhor da vida e da morte, — pois graças a Deus você é um
homem corajoso — filho digno do sangue do normando D’Arcy e da saxônia
Uluin. Sim, um dos melhores deles.
— Não fale assim, meu tio — disse Godwin —, pois aqui está um homem
mais valoroso —, e bateu levemente com os dedos magros na mão de Wulf.
— Foi Wulf quem me trouxe até aqui. Lembro-me muito bem — como ele
me colocou sobre o cavalo negro e ordenou que eu agarrasse o mais que
pudesse na crina e na cabeça da sela. E lembro muito bem do ataque, e do
seu grito “Enfrente um D’Arcy, Encontre a Morte”, e do clarão das espadas
ao nosso redor. Depois não me lembro de mais nada.
— Ah, como desejei estar lá naquela luta — disse Sir Andrew D’Arcy, en-
rolando os cabelos brancos. — Ah, meus sobrinhos, é difícil estar velho e do-
ente —, um velho decadente, isto é o que sou. Mesmo assim, se eu soubesse...
— Papai, papai — falou Rosamund, abraçando-o pelo pescoço. — Você
não deve falar assim. Você já fez a sua parte.
— Sim, minha parte; mas gostaria de fazer mais. Oh, que St. Andrew
permita que eu morra com a espada erguida, e gritando o grito de meus avós.
Sim, dessa forma, e não como um cavalo velho deixado no estábulo para
33
Capítulo 2 •
Sir Andrew D’Arcy
morrer. Perdoem-me. Na verdade, meus sobrinhos, tenho inveja de vocês.
Porque, quando os encontrei, amparados um nos braços do outro, quase
chorei de raiva ao pensar que essa luta ocorrera a menos de uma légua de
minha porta, e eu não participara dela.
— Não sei nada dessa história — falou Godwin.
— Não, e como poderia saber, você esteve inconsciente um mês ou mais.
Mas Rosamund sabe, e ela vai contar. Fale, Rosamund. Recoste-se, Godwin,
e ouça.
— Vocês são os autores da história, meus primos, e não eu — falou
Rosamund. — Vocês ordenaram que eu fosse para a água, e lá esporeei o
cavalo cinza e mergulhamos, tanto que as ondas passavam por cima de minha
cabeça. Depois viemos à tona, eu flutuando acima da sela; mas consegui
firmar-me de novo, e o cavalo respondeu ao meu comando e às esporas,
nadando em direção à outra margem. Ele nadou meio obliquamente em re-
lação à maré, de modo que virando minha cabeça eu podia ver tudo o que se
passava no molhe. Vi quando eles atacaram vocês, e vi homens caindo atin-
gidos por suas espadas, vi vocês contra-atacarem, e recuarem novamente.
Finalmente, depois do que pareceu um longo tempo, e quando já estava dis-
tante, vi Wulf colocar Godwin na sela — tinha certeza de que era Godwin,
pois o vi colocá-lo no cavalo negro — e vocês dois galoparem pelo cais abai-
xo e desaparecerem.
— Nessa altura eu já estava na margem perto de casa, e o cavalo estava
exausto, e afundou na água. Mas dei voz de comando e, embora por duas
vezes sua cabeça tivesse ficado debaixo das ondas, ao final ele conseguiu
atingir um lugar mais raso, um pouco mole. Depois de descansar um instan-
te ele conseguiu avançar, aos solavancos sobre a lama e finalmente chegar a
terra firme, onde ficou alguns instantes tremendo de exaustão. Assim que ele
se acalmou, usei novamente as esporas, pois vira os bandidos desamarrando
o barco, e vim para casa chegando ao escurecer, para encontrar seu tio espe-
rando por mim no portão. Agora, pai, continue a história.
— Há pouco o que acrescentar — falou Sir Andrew. — Vocês se lembram,
sobrinhos, que fui contra este passeio de Rosamund para ir apanhar flores,
ou sei lá o quê, no santuário de St. Peter, 15 quilômetros distante? Bom, mas
como assim decidiu, e há poucos prazeres aqui, deixei que ela fosse com
vocês dois como acompanhantes. Vocês devem se lembrar também que par-
tiram sem as cotas, e o quanto me acharam impertinente por chamá-los de
34
Cruzada •
H. Rider Haggard
volta para colocá-las. Bem, meu padroeiro — ou de vocês — botou na minha
cabeça assim fazer, e se não fosse por estas malhas vocês dois agora estariam
mortos. Mas naquela manhã eu pensara em Sir Hugh Lozelle — se é que esse
pirata velhaco e falso pode ser chamado de cavaleiro, não que ele não seja
forte e valente — e suas ameaças depois que se recuperou dos ferimentos que
você lhe provocou, Godwin; e em como ele tentaria voltar e pegar sua prima
e em tudo o que poderíamos fazer para impedi-lo. Na verdade, ouvimos dizer
que ele tinha zarpado para o Oriente para lutar contra Saladino — ou ao lado
dele, pois sempre foi um traidor — mas de qualquer modo há homens que
voltam do Oriente. Portanto, insisti para vocês se armarem, tendo um pres-
sentimento sobre o que poderia acontecer, pois sem dúvida este ataque deve
ter sido planejado por ele.
— Também acho — disse Wulf —, pois, como Rosamund sabe, o patife
alto que servia de intérprete para o estrangeiro que ele chamava de amo,
deu-nos o nome do cavaleiro Lozelle como o da pessoa que queria levá-la.
— Este amo era um sarraceno? — perguntou Sir Andrew preocupado.
— Como posso dizer, tio, se seu rosto estava coberto como o dos outros
e ele falava por meio de um intérprete? Mas rogo que continue a história,
pois Godwin ainda não a ouviu.
— Falta pouco. Quando Rosamund contou o que aconteceu, e não pude
compreender muito, pois a menina estava descontrolada com a angústia, o
frio e o temor, exceto que vocês tinham sido atacados no velho cais, e que ela
tinha escapado nadando pelo Death Creek — o que parecia uma coisa ina-
creditável —, reuni quantos homens consegui. Depois, ordenando que ficas-
se em casa, com alguns deles para protegê-la, e cuidar dela, o que ela relutou
em atender, parti, para encontrar vocês ou seus cadáveres. Estava escuro, mas
cavalgamos rápido, com tochas, e fomos acordando outros em cada lugar,
até que chagamos ao ponto em que as estradas se juntam em Moats. Aí des-
cobrimos o cavalo negro — o seu cavalo, Godwin — tão ferido que não
podia andar mais, e eu gritei, pensando que você estivesse morto. Mesmo
assim continuamos, até que ouvimos um outro cavalo relinchar, e encontra-
mos o cavalo castanho claro, também sem ninguém na sela, ao lado da trilha,
com a cabeça voltada para baixo.
— Um homem no chão está segurando o cavalo! — gritou alguém, e pu-
lei da sela para ver quem seria, para descobrir que era você, vocês dois,
abraçados e sem sentido, ou mortos, a julgar pelos ferimentos. Mandei alguns
35
Capítulo 2 •
Sir Andrew D’Arcy
camponeses cobrirem vocês e levá-los para casa, e outros correrem até Stan-
gate e pedir ao Prior e ao monge Stephen, que é médico, que viessem imedia-
tamente para cuidar de vocês, enquanto continuávamos em busca de
vingança, se tivéssemos oportunidade. Chegamos ao cais junto ao rio mas
não encontramos nada, exceto algumas manchas de sangue e — e isto é es-
tranho — sua espada, Godwin, com o punho colocado entre duas pedras, e
na ponta, um bilhete.
— O que estava escrito? — perguntou Godwin.
— Veja — respondeu o tio pegando um pedaço de pergaminho do casaco.
— Leia, um de vocês, pois vocês dois são pessoas estudadas, e meus olhos
são fracos.
Rosamund pegou o pergaminho e leu o que estava escrito, sem pausa, mas
num ar professoral, e na língua francesa. Dizia o seguinte: “A espada de um
homem heróico. Enterre-a com ele, se ele estiver morto, e devolva-lhe, se ele
está vivo, como eu espero. Meu amo certamente gostaria que eu fizesse essa
honra a um inimigo valoroso e que ele, nesse caso, gostaria de ainda encon-
trar. (Assinado) Hugh Lozelle, ou Outro”.
— Outro, então; não Hugh Lozelle — disse Godwin —, pois ele não sabe
escrever e, se soubesse nunca seria capaz de escrever palavras tão bonitas.
As palavras podem ser de um nobre, mas as ações de quem escreveu foram
abjetas — retrucou Sir Andrew. — Eu também não entendo o bilhete.
— O intérprete falava do homem baixo como seu amo — sugeriu Wulf.
— Sim, sobrinho, mas este você viu. Este bilhete fala de um amo que
Godwin pode encontrar, e que queria que o autor do bilhete prestasse a Godwin
alguma honraria.
— Talvez ele tenha escrito isso para nos iludir.
— Pode ser, pode ser. O bilhete me intriga. Além disso, não consegui
descobrir nenhuma pista de onde são aqueles homens. Um barco foi visto
passando ao largo de Bradwell. Na verdade parece que vocês até o viram, e
naquela noite o barco foi visto seguindo rumo ao sul, saindo da praia de St.
Peter na direção de um navio ancorado ao largo de Foulness Point. Mas que
navio era, de onde veio, ou para onde ia, ninguém sabe, embora a agitação
desta celeuma tenha provocado algumas ondas.
— Bem, — disse Wulf —, pelo menos vimos os últimos de seus tripulantes
raptores de mulheres. Se tivessem outros planos teriam se mostrado novamente.
Sir Andrew pareceu preocupado ao responder.
36
Cruzada •
H. Rider Haggard
— É o que suponho, mas toda a história é muito estranha. Como eles
souberam que vocês e Rosamund iam cavalgar até St. Peter’s-on-the-Wall e
portanto puderam surpreender vocês? Algum espião deve tê-los avisado, pois
que não eram piratas comuns é evidente, pois falaram de Lozelle, e oferece-
ram-se para deixá-los ir sem serem molestados, pois era Rosamund que eles
queriam. E há também a questão da espada que caiu da mão de Godwin
quando ele foi ferido, e que foi devolvida de uma maneira tão estranha. Já vi
muitos atos de cavalheirismo no Oriente por parte dos pagãos.(18)
— Bem, Rosamund é metade oriental —, interrompeu Wulf descuidada-
mente. — e talvez isto tenha alguma coisa a ver.
Sir Andrew levantou-se, e a cor voltou ao seu rosto. E então, num tom
que mostrava que não queria mais falar deste assunto, disse:
— Chega, chega. Godwin está muito fraco, e está ficando exausto, e antes
de sair quero dizer uma palavra que pode alegrar os dois. Meus jovens, vocês
são sangue do meu sangue, os mais próximos, exceto Rosamund — filhos do
nobre cavaleiro, meu irmão. Sempre os amei, e tive orgulho de vocês, e se já
era assim no passado, imaginem agora quando prestaram um serviço tão
elevado para a minha casa? Além disso, seus atos foram de bravura e de
nobreza; nada de mais valoroso foi comentado em Essex neste último ano;
assim, aqueles que foram capazes deles não podem continuar como simples
senhores, e devem ser sagrados cavaleiros. Está em meu poder dar-lhes este
benefício de acordo com o costume antigo. Ainda, para que ninguém ques-
tione, enquanto você estava doente mas depois que ficou certo que Godwin
sobreviveria, o que no princípio ninguém acreditava, viajei até Londres e pedi
uma audiência com nosso senhor, o Rei. Depois que lhe contei o ocorrido,
roguei-lhe que me desse autorização, por escrito, para sagrá-los cavaleiros.
— Meus sobrinhos, ele ficou tão encantado que aqui tenho uma instrução,
com o selo real, determinando que em seu nome e no meu próprio eu deveria
prestar-lhes a distinção na igreja do convento de Stangate na oportunidade
que me for mais conveniente. Portanto, escudeiro Godwin, fique bom depres-
sa para que possa tornar-se o cavaleiro Godwin. Pois você, Wulf, a não ser
pelo ferimento na perna, já está bom.
Então o rosto de Godwin ficou vermelho de orgulho, e Wulf baixou os
olhos, parecendo uma menina, de tão modesto.
— Fale você — ele disse para o irmão — pois minha língua está presa e
não encontro palavras.
37
Capítulo 2 •
Sir Andrew D’Arcy
— Senhor — falou Godwin, com voz fraca — não sabemos como lhe
agradecer por tão grande honra, que nunca pensamos em ganhar até que
desempenhássemos atos mais famosos de bravura do que afugentar um ban-
do de ladrões. Senhor, não temos mais nada a dizer, exceto que enquanto
vivermos faremos tudo para sermos dignos do seu nome e do senhor.
— Belas palavras — disse o tio, acrescentando, como se para si mes-
mo —, esse homem é tão gentil quanto é valoroso.
Wulf elevou os olhos, o rosto demonstrando enorme felicidade.
— Eu, meu tio, que não sei dizer palavras bonitas, também agradeço.
Acrescento que acho que nossa jovem prima deveria ser sagrada cavaleiro
também, se isso fosse possível para uma moça, pois vê-la fazendo um cavalo
atravessar a nado o Death Creek foi um ato de muito maior bravura do que
lutar contra alguns biltres no cais.
— Rosamund? — perguntou o homem velho com a mesma voz sonhado-
ra. — Sua posição já é elevada o suficiente, muito elevada, elevada demais
para sua segurança. — Dizendo isso, virou-se e saiu do pequeno aposento.
— Muito bem, prima — disse Wulf, — se você não pode tornar-se um
cavaleiro, pelo menos você pode diminuir os perigos que envolvem sua posi-
ção tornando-se a esposa de um cavaleiro. — Ao ouvir isso, Rosamund olhou
para ele com indignação, que lutava contra um discreto sorriso que aparecia
em seus olhos negros, e murmurando que precisava providenciar um caldo
para Godwin, saiu acompanhando o pai.
— Ela teria sido mais gentil se nos dissesse que estava alegre — falou Wulf
quando ela saiu.
— Talvez — respondeu o irmão, — se não fossem suas brincadeiras rudes,
Wulf, que talvez tenham alguma coisa por trás.
— Não, não têm nada. Por que ela não pode se tornar a esposa de um
cavaleiro?
— Pode, mas de qual cavaleiro? Será que nos agradaria, irmão, se ele
fosse um estranho?
Então, Wulf praguejou, depois corou até a raiz dos cabelos e ficou em silêncio.
— Ah! — disse Godwin, — você não pensa antes de falar, o que sempre
é aconselhável.
— Ela também praguejou lá no cais.
— Esqueça o que ela disse. Palavras ditas numa hora daquelas não devem
nunca ser lembradas contra uma dama.
38
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
— É verdade, irmão, você está certo, como sempre! Tenho a língua maior
do que a boca, mas não consigo tirar da mente essas palavras, qual de nós...
— Wulf!
— Quis dizer que estamos nas mãos do destino, hoje, Godwin. Aquela foi
uma cavalgada de sorte! E uma luta como nunca vi ou nunca tinha sonhado
lutar. E nós vencemos! E estamos os dois vivos! E viramos cavaleiros!
— Sim, os dois vivos, graças a você, Wulf, é isso mesmo, e você nunca
teria feito menos. Quanto à roda do destino, ela dá muitas voltas inesperadas,
e talvez antes de tudo terminar nos leve para algumas delas.
— Você fala como um padre, não como um escudeiro prestes a ser sagra-
do cavaleiro à custa de uma cicatriz na cabeça. De minha parte vou agradecer
ao destino enquanto posso, e se ele romper comigo depois...
— Wulf — chamou Rosamund do outro lado da cortina — pare de falar
tão alto, peço, e deixe Godwin dormir, pois ele precisa —, e entrou no pe-
queno quarto trazendo na mão uma tigela com caldo.
Ao que dizendo que senhoras não deviam ouvir o que não lhes dizia res-
peito, Wulf pegou a muleta e saiu mancando.
Cruzada •
H. Rider Haggard
39
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 3
Os irmãos são elevados a
Sagrados Cavaleiros
M
A
ais um mês se passou, e embora Godwin estivesse ainda um
pouco fraco e sentisse dor de cabeça de vez em quando, os irmãos
tinham se recuperado dos ferimentos. No último dia de novembro,
lá pelas duas horas da tarde, uma grande procissão podia ser vista saindo da
velha casa de Steeple. Nela vinham vários cavaleiros, completamente armados,
e à frente deles iam seus estandartes. Os cavaleiros seguiam à frente do cor-
tejo. Depois vinha o velho Sir Andrew D’Arcy, também completamente ar-
mado, ao lado dos seus escudeiros e servos. Era acompanhado à direita por
sua encantadora filha, lady Rosamund, usando um bonito vestido por baixo
do manto de pele, e montando o mesmo cavalo com o qual tinha atravessado
a nado o Death Creek. Depois vinham os irmãos, usando vestimentas normais
de fidalgos, seguidos cada um deles por seu escudeiro, jovens das casas nobres
de Salcote e Dengie. Atrás vinham mais cavaleiros, escudeiros, arrendatários
de vários graus, e serviçais, cercados por um grande número de camponeses
e meeiros, que caminhavam e corriam ao lado das mulheres e dos filhos.
Seguindo a estrada que atravessava o povoado a procissão virou à esquer-
da junto ao grande arco que demarcava os limites das terras do convento, e
prosseguiu para o Mosteiro de Stangate, cerca de três quilômetros à frente,
pela trilha que corria entre as terras aráveis e o pântano, que fica inundado
quando a maré sobe. Finalmente chegaram ao portão de pedra do Mosteiro,
e que dava ao lugar o nome de Stangate. Ali foram recebidos por uma dele-
40
Cruzada •
H. Rider Haggard
gação de monges da Ordem de Cluny(19), que moravam no lugar selvagem
e deserto à beira da água, comandados pelo Prior, John Fitz Brien. Tratava-se
de um homem venerável, de cabelos brancos, vestido com uma túnica preta
de mangas largas, que vinha precedido por um padre carregando uma cruz
de prata. Agora a procissão se separou, e Godwin e Wulf, com alguns cava-
leiros e seus escudeiros, foram conduzidos ao Mosteiro, enquanto o restante
das pessoas entrou na igreja ou ficou do lado de fora junto à porta.
Já dentro da igreja os dois irmãos que seriam consagrados cavaleiros foram
levados a uma sala onde tiveram o cabelo cortado e a barba raspada por um
barbeiro que os esperava. Depois, guiados por dois velhos cavaleiros, de nome
Sir Anthony de Mandeville e Sir Roger de Merci, foram conduzidos a banhei-
ros cercados de ricas cortinas de pano. Ali, depois de despidos pelos serviçais,
entraram nas banheiras e se lavaram, enquanto Sir Anthony e Sir Roger lhes
falavam, através das cortinas, das altas responsabilidades de sua investidura,
ao final do que verteram água sobre seus corpos nus e fizeram o sinal-da-Cruz.
Depois foram vestidos novamente e, precedidos por menestréis, levados para
a igreja, em cujo pórtico eles e seus escudeiros foram servidos de vinho.
Aí, na presença de toda a congregação, foram vestidos inicialmente com
túnicas brancas, para mostrar a pureza de seus corações; depois, com togas
vermelhas, símbolo do sangue que poderiam vir a ser chamados a derramar por
Cristo; e finalmente, em mantos negros, emblemáticos da morte que atinge a
todos. Feito isto, suas armaduras foram trazidas e empilhadas à sua frente nos
degraus do altar, e a congregação saiu, deixando-os com os escudeiros e o
monge, para passarem a longa noite de inverno em orações e preces.
Longa, na verdade, foi a noite, naquele lugar sagrado e isolado, ilumina-
do apenas por uma trêmula candeia diante do altar. Wulf orou até não
conseguir mais, e imergir num estado de sonolência assombrado pelo rosto
de Rosamund, rosto que ele não conseguia esquecer. Godwin, apoiando o
cotovelo sobre o túmulo em que estava enterrado o coração de seu pai,
também orou, até que sua compenetração arrefeceu e ele começou a pensar
em muitas coisas.
Naquele sonho, por exemplo, quando estava doente, e que parecia estar
morrendo, quando pensava em qual deveria ser o verdadeiro dever de um
homem. Ser heróico e íntegro? Certamente. Lutar pela Cruz de Cristo contra
os sarracenos? Certamente, se ele fosse chamado. E o que mais? Abandonar
o mundo e passar a vida em preces como aqueles monges? Seria este tipo de
41
Capítulo 3 •
Os irmãos são elevados a Sagrados Cavaleiros
vida necessária, ou de serventia, para Deus e para o homem? Para o homem,
talvez, pois os monges cuidavam dos enfermos e alimentavam os pobres. Mas
e para Deus? Não foi ele enviado ao mundo para viver a sua parte — sua
parte inteira? Isto significaria uma meia-vida — uma vida na qual nenhuma
mulher podia entrar, nenhum filho poderia ser gerado, pois para os monges
e algumas outras irmandades, todas aquelas coisas, que a Natureza impunha
e o Céu tinha santificado, eram pecados mortais.
Significaria, por exemplo, que não poderia mais pensar em Rosamund. Seria
ele capaz de fazer isto pelo bem-estar de sua alma em algum tempo no futuro?
Porque, enquanto pensava naquelas coisas, ali naquele lugar solene e na-
quela hora de dedicação, seu espírito vagou e, pela primeira vez em sua vida
ficou claro que ele amava aquela mulher mais do que o resto do mundo — mais
do que sua vida, talvez, mais do que sua própria alma. Ele a amava com todo
seu puro coração — tanto que seria um prazer morrer por ela, não apenas no
fragor de uma batalha, como quase acontecera em Death Creek, mas a sangue
frio, intencionalmente, se a necessidade surgisse. Ele a amava, de corpo e espí-
rito, e, depois de Deus, ali ele consagrava a ela seu corpo e espírito. Mas como
ela valorizaria aquele presente? E se um outro homem...?
A seu lado, os cotovelos apoiados no parapeito do altar, olhos fixos na
brilhante armadura que usaria nas batalhas, ajoelhava-se Wulf, seu irmão
— homem heróico, cavaleiro dos cavaleiros, destemido, nobre, generoso,
homem que qualquer mulher amaria. E ele também amava Rosamund. Disso
Godwin tinha certeza. Será que Rosamund amava Wulf? Um ciúme amargo
tomou conta de seu espírito. Sim, de vez em quando o ciúme se apossava de
Godwin, e o tornava tão dolorido que, mesmo naquele lugar tão frio, o fazia
suar pela testa e pelo corpo.
Deveria ele abandonar a esperança? Abandonar a batalha pelo temor de
ser derrotado? Não, ele lutaria com toda bravura e dignidade, e se fosse
derrotado, enfrentaria sua sorte com a bravura de um cavaleiro — sem ran-
cor, mas com vergonha. Que o destino conduzisse o assunto. Estava nas mãos
do destino, e estendendo o braço, abraçou o pescoço do irmão, ajoelhado a seu
lado, e deixou-o ficar, até que a cabeça do esgotado Wulf apoiou-se, sonolenta,
em seu ombro, como a cabeça de uma criança sobre o peito da mãe.
— Meus Deus! — murmurou Godwin dentro de seu coração — dai-me
forças para lutar contra esta paixão pecaminosa que poderia me levar a odiar
o irmão que amo. Dai-me forças para suportar se ele for o preferido, e não
42
Cruzada •
H. Rider Haggard
eu. Transforme-me em um perfeito cavaleiro, forte o suficiente para sofrer e
tolerar, e, se for necessário, exultar com a alegria de meu vencedor.
Finalmente a madrugada rompeu, e a luz do sol, passando pela janela do
lado leste, como uma lança dourada, perfurou o lusco-fusco da comprida
igreja, construída na forma de uma cruz, de modo que apenas os braços da
cruz ficavam na penumbra. Então irrompeu o som de um cântico, e pela
porta do lado ocidental entrou o Prior, paramentado com os mantos, ajuda-
do pelos monges e acólitos, que balançavam os turíbulos. No centro da nave
ele parou e dirigiu-se ao confessionário, fazendo menção a Godwin para que
o seguisse. Godwin o seguiu e ajoelhou-se diante do Prior, colocando para
fora tudo o que ia em seu coração. Ele confessou seus pecados. Não eram
poucos. Ele lhe falou da visão durante sua doença, a respeito da qual o Prior
comentou muito; de seu profundo amor, suas esperanças, seus temores, e seu
desejo de tornar-se um guerreiro, mas que, quando jovem, queria ser monge,
não que quisesse derramar sangue, mas lutar por Cristo contra os pagãos, e
terminando com um grito de...
— Ilumine-me, ó meu pai, ilumine-me.
— Seu coração é o seu melhor conselheiro — foi a resposta do monge.
— Siga seus ditames, sabendo que, por meio dele, é Deus quem guia. Não
tema que Ele vai lhe faltar. Mas se o amor e as alegrias da vida o desertarem,
volte e falaremos novamente. Siga em frente, valoroso cavaleiro de Cristo,
nada temendo, e certo de que a recompensa virá; leve consigo a bênção de
Cristo e de Sua igreja.
— Qual é a minha penitência, padre?
— Almas como a sua se impõem a sua própria penitência. Os santos
proíbem que eu acrescente outras — foi a polida resposta.
Então, com o coração aliviado, Godwin retornou ao altar, enquanto seu
irmão Wulf era chamado a tomar seu lugar no confessionário. Dos pecados
que ele tinha de confessar não devemos falar. Eram os pecados comuns aos
jovens, e nenhum deles muito grave. Contudo, antes de dar sua absolvição,
o venerável Prior o aconselhou a pensar menos no corpo e mais no espírito;
menos nos feitos com as armas e mais nos verdadeiros caminhos que levam
a eles. Principalmente, insistiu que tomasse seu irmão Godwin como exemplo
e guia na terra, pois não havia homem melhor ou mais sábio entre os de sua
idade; finalmente o dispensou, profetizando que, se ele seguisse estes conselhos,
atingiria grandes glórias tanto na terra como no céu.
43
Capítulo 3 •
Os irmãos são elevados a Sagrados Cavaleiros
— Padre, prometo me esforçar o máximo — respondeu Wulf humildemen-
te, — mas não pode haver dois Godwins; e, Padre, às vezes temo que nossos
caminhos se cruzarão, pois dois homens não podem ter a mesma mulher.
— Sei disso — respondeu o Prior preocupado —, e com homens de menos
nobreza isto pode se tornar grave. Mas se isso vier a acontecer, então a jovem
deverá julgar de acordo com os desejos de seu coração, e aquele que a perder
deverá ser leal, tanto na tristeza quanto na alegria. Certifique-se de não usar
de nenhuma vantagem desleal na hora da tentação, e não tenha nenhuma
mágoa dela caso seja ele o preferido.
— Tenho certeza de que isso não vai acontecer — disse Wulf. — E também
que nós, que nos amamos desde o nascimento, morreremos antes de um
poder trair o outro.
— É o que também penso — respondeu o prior —, mas Satã é muito forte.
Depois Wulf retornou ao altar, e a missa foi cantada, e os Sacramentos
recebidos pelos dois neófitos, e as oferendas feitas pela sua investidura. Depois
foram levados de volta ao Convento, para descansar e comer um pouco,
depois da longa noite de vigília na fria igreja, e lá permaneceram durante
algum tempo, imersos em seus pensamentos, sentados sozinhos no gabinete
do Prior. Finalmente Wulf, que parecia estar inquieto, levantou-se, colocou
a mão no ombro do irmão, e falou:
— Não posso continuar em silêncio; é assim que deve ser: o que está em
minha mente precisa ser colocado para fora. Tenho palavras a lhe dizer.
— Fale, então, Wulf — disse Godwin.
Wulf sentou-se de novo no banco, e por alguns instantes ficou fitando o
vazio, pois não encontrava uma maneira de começar. Godwin sempre sentia
o que passava na mente do irmão, o que não acontecia com freqüência com
Wulf, embora, sendo irmãos sempre unidos desde o nascimento, seus corações
na maior parte do tempo fossem francos um com o outro, sem a necessidade
de palavras.
— É nossa prima Rosamund, não é? — perguntou Godwin.
— Sim. Quem mais podia ser?
— E você vai me dizer que a ama, e que agora que é um valoroso cavalei-
ro de 25 anos, vai pedir que ela se torne sua esposa prometida?
— Sim, Godwin. Percebi isso quando ela avançou com o cavalo cinza, lá no
píer, e achei que nunca mais a veria. Digo que percebi no fundo do coração que
a vida não é digna de ser vivida, nem a morte digna de ser morrida, sem ela.
44
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Então, Wulf — respondeu Godwin calmamente, — o que mais há para
ser dito? Peça, e prospere. Por que não? Temos algumas terras, talvez muitas,
e Rosamund não vai querer mais. Também acredito que nosso tio não vai
proibir, se ela quiser você, sabendo que você é o homem mais íntegro e mais
heróico desta parte do país.
— A não ser meu irmão Godwin, que é todas essas coisas, e bom, e apren-
deu a usufruir de tudo isto, o que não aprendi —, respondeu Wulf com ar
pensativo. Depois se fez silêncio durante algum tempo, que ele quebrou.
— Godwin, nosso infortúnio é que você também a ama e teve os mesmos
sentimentos que eu tive lá na ponta do cais.
Godwin corou um pouco, e seus longos dedos pressionaram o joelho.
— Você tem razão — falou em voz baixa. — Para meu pesar, você tem
razão. Mas Rosamund não sabe de nada, e nunca vai saber, se você conseguir
ficar de boca calada. Além disso, você não precisa ficar com ciúmes de mim,
antes ou depois do casamento.
— O que, então, quer que eu faça? — perguntou Wulf elevando a voz.
— Pedir seu coração, e talvez — embora eu duvide — deixar que ela
aquiesça, pensando que você não sente nada por ela?
— Por que não? — perguntou Godwin de novo, com um suspiro. — Pode
evitar dor para ela, e para você alguma dúvida, e tornar meu caminho mais
claro. O casamento serve melhor a você do que a mim, Wulf, pois muitas vezes
penso que a espada será minha esposa, e meu dever será meu único objetivo.
— Penso que, tendo um coração de ouro, mesmo numa situação destas,
você não vai impedir o caminho do irmão que você ama. Não, Godwin, como
sou um pecador, e como a desejo acima de todas as coisas na terra, não vou
fazer o jogo dos covardes, nem derrotar alguém que não erguerá a espada,
com receio de me ferir. Antes, vou lhe desejar toda a felicidade, e ir em busca
da fortuna ou da morte nas guerras, sem mais delongas.
— E deixando Rosamund definhar, provavelmente. Ah, se pudéssemos ter
certeza de que ela não se inclina por nenhum de nós dois, isso seria ótimo, e
então partiríamos os dois. Mas, Wulf, não podemos ter certeza, pois, às vezes,
para ser sincero, acho que ela o ama.
— E, às vezes, para ser sincero, Godwin, tive certeza de que ela o ama,
embora queira me declarar e ouvir isso dos lábios dela, o que, nesta situação,
não vou fazer.
— Qual é então o seu plano, Wulf?
45
Capítulo 3 •
Os irmãos são elevados a Sagrados Cavaleiros
— Meu plano é que, se nosso tio permitir, falemos os dois com ela — você
primeiro, como o mais velho, expondo o caso da melhor maneira que possa,
e pedindo-lhe para pensar e dar uma resposta dentro de um dia. Então, antes
que o dia acabe, eu também falarei com ela, de modo que fique sabendo de
toda a história, e faça tudo com os olhos abertos, e não supondo, como po-
deria acontecer, que sabemos das intenções de cada um, e que você a pedirá
em casamento porque eu não tenho intenção de fazer isso.
— Parece justo — respondeu Godwin, — e digno de você, que é o mais
honesto dos homens. Contudo, Wulf, estou preocupado. Veja, meu irmão,
será que existem outros irmãos que se amam tanto como nós? E agora a
sombra de uma mulher aparece e faz murchar esse amor que é tão digno e
precioso?
— Por quê? — perguntou Wulf. — Vamos Godwin, façamos um pacto de
que não precisa ser assim, e o mantenhamos com a ajuda do céu. Mostremos
ao mundo que dois homens podem amar uma mulher, sem saber qual deles
ela vai escolher, se é que vai escolher algum. Porque, Godwin, não somos os
únicos homens cujos olhos se encantaram, ou vão se encantar, com uma jovem
bem-nascida, rica e encantadora como Rosamund. É da sua vontade que
façamos tal pacto?
Godwin refletiu um pouco e depois respondeu:
— Sim, mas tão firme que, pelo bem dela e pelo nosso bem não poderemos
quebrá-lo e viver com honra.
— Assim seja — falou Wulf —, isso é coisa para homem, não uma criancice.
Então Godwin levantou-se, e indo até a porta, mandou seu escudeiro, que
aguardava do lado de fora, pedir ao Prior John que viesse até eles, pois que-
riam seu conselho em relação a um assunto. Ele veio e, de pé diante dele, com
a cabeça abaixada, Godwin contou-lhe toda a história, e ele, que já sabia um
pouco, a compreendeu rapidamente, da mesma forma que o objetivo dos
dois. E, respondendo a uma pergunta do Prior, Wulf disse que tudo tinha sido
contado e nada tinha sido omitido. Então os irmãos lhe perguntaram se seria
legítimo que fizessem um juramento, ao que ele respondeu que achava não
apenas legítimo mas muito adequado.
Então, no final, ajoelhados juntos diante do crucifixo que estava no gabi-
nete, eles repetiram o juramento, os dois ao mesmo tempo.
“Nós dois, irmãos, Godwin e Wulf D’Arcy, juramos pela Santa Cruz de
Cristo e pela santa padroeira deste lugar, Santa Maria Madalena, e por nossos
46
Cruzada •
H. Rider Haggard
padroeiros, St. Peter e St. Chad, e na presença de Deus, e de nossos anjos da
guarda, e do senhor, John, que, estando nós dois enamorados de nossa prima
Rosamund D’Arcy, vamos pedi-la em casamento da maneira como concor-
damos, e apenas desta forma. Que acataremos sua decisão, se ela escolher
um de nós, que não tentaremos alterar sua decisão ou iludir sua boa-fé de
forma alguma. Que aquele que ela recusar será daquele momento em diante
como um irmão para ela, e nada mais, ainda que Satã tente induzir seu co-
ração a agir de outra forma. Que, tanto quanto seja possível para nós, que
somos pecadores, nenhum deixará a amargura ou o ciúme se interpor entre
nosso amor de irmãos por causa desta mulher, e que na guerra e na paz con-
tinuaremos camaradas e irmãos.
Então, dito isso, e com os corações leves e os rostos alegres, os irmãos
receberam a bênção do Prior, que os tinha batizado na infância, e saíram para
encontrar as muitas pessoas que tinham se aglomerado para fazer com eles
o trajeto de volta até Steeple, onde a investidura teria lugar.
Seguiram para Steeple, precedidos pelos escudeiros, que cavalgavam de
cabeça nua, carregando suas espadas pela lâmina embainhada, com esporas
douradas pendendo dos cabos. Lá, o prédio estava decorado para uma gran-
de festa, com um espaço deixado entre as mesas e a plataforma, para onde
os irmãos foram conduzidos. Depois vieram Sir Anthony de Mandeville e Sir
Roger de Merci, vestidos com armadura completa, os quais apresentaram a
Sir Andrew D’Arcy, tio dos irmãos, e que estava numa das extremidades da
plataforma, também de armadura, suas espadas e esporas, das quais ele lhes
devolveu duas, para serem colocadas no calcanhar direito dos candidatos.
Isso feito, o Prior John abençoou as espadas, depois do que Sir Andrew as
amarrou em volta do peito dos sobrinhos, dizendo:
— Tomem de volta as espadas que vocês usaram com tanto heroísmo.
Em seguida, ele desembainhou sua espada de punho de prata que tinha
sido de seu pai e de seu avô, e enquanto eles se ajoelhavam diante dele, bateu
três vezes no ombro direito de cada um, falando em voz alta: “Em nome de
Deus, de St. Michael e de St. George, eu os declaro cavaleiros. Sejam bons
cavaleiros”.
Depois Rosamund adiantou-se, como sua parente feminina mais próxima,
e, ajudada por outras jovens, vestiu-lhes a couraça, ou cotas de malha, os
elmos de aço, e os escudos com a forma de pandorgas, ornamentados com
uma caveira, indicativa de sua estirpe. Feito isso, com os músicos marchando
47
Capítulo 3 •
Os irmãos são elevados a Sagrados Cavaleiros
à frente, foram para a igreja de Steeple — a uma distância de 200 passos do
prédio, local em que depositaram as espadas no altar e as pegaram de novo,
jurando ser bons servos de Cristo e defensores da Igreja. Ao saírem, foram
recepcionados pelo cozinheiro, que carregava o cutelo na mão e reclamava
como pagamento as esporas que usavam; e ao mesmo tempo gritou:
— Se qualquer dos senhores, jovens cavaleiros, realizar qualquer ato in-
digno, a despeito de sua honra e dos juramentos proferidos — dos quais Deus
e os santos os guardem! — então com meu cutelo vou arrancar essas esporas
de seus calcanhares.
Finalmente a longa cerimônia chegou ao fim e, depois dela, aconteceu uma
enorme festa, pois na mesa mais elevada estavam muitos cavaleiros e senho-
ras. Mais abaixo, estavam os escudeiros e outros senhores; do lado de fora
estavam os pequenos proprietários rurais e os aldeões, enquanto as crianças
e os mais velhos recebiam comida na própria nave da igreja. Quando a co-
milança finalmente terminou, o centro da grande sala foi desocupado, e en-
quanto os homens bebiam, os menestréis tocavam e dançavam. Todos ficaram
muito alegres, por causa do vinho e de bebida forte, e iniciou-se uma discus-
são sobre qual dos dois jovens — Sir Godwin ou Sir Wulf — era o mais he-
róico, o mais bonito, o mais instruído e o mais cortês.
Então um cavaleiro — Sir Surin de Salcote —, vendo que a discussão fi-
cava cada vez mais acalorada e poderia acabar em socos, levantou-se e disse
que o assunto poderia ser decidido apenas pela beleza, e que ninguém era
mais apta a decidir que a linda jovem que eles tinham salvado de ladrões de
mulheres no cais de Death Creek. Todos gritaram “Isso mesmo, deixe que ela
decida”, e ficou acordado que ela daria seu lenço de pescoço ao mais heróico,
um gole de vinho ao mais bonito, e um missal ao mais instruído.
Assim, não podendo evitar, sendo que seu pai, os irmãos, a maior parte
das outras senhoras, e ela própria só tinham bebido água, como os outros
convivas tinham começado a ficar excitados com o vinho e estavam ansiosos,
Rosamund pegou o lenço de seda que trazia no pescoço. Depois, chegando
à beira da plataforma, onde eles estavam sentados e à vista de todo mundo,
ela ficou de pé em frente aos primos, sem saber, pobre donzela, a qual deles
oferecer. Mas Godwin sussurrou algo para Wulf e os dois estenderam a mão
direita, e pegaram a ponta do lenço que ela segurava; depois o rasgaram e
enrolaram as duas metades em volta do punho das espadas. Todos riram da
artimanha e gritaram:
48
Cruzada •
H. Rider Haggard
— O vinho para o mais bonito.
Rosamund pensou por um momento; então ergueu uma grande caneca de
prata, a maior que estava sobre a mesa, e a encheu completamente de vinho;
mais uma vez adiantou-se e a segurou na frente deles, como se estivesse me-
ditando. Então os irmãos, como se num movimento único, inclinaram-se à
frente e cada um deles tocou a caneca com os lábios. Novamente houve uma
grande risada e até Rosamund sorriu.
— O livro! O livro! Eles não ousarão rasgar o livro sagrado.
Então pela terceira vez Rosamund adiantou-se, carregando o missal.
— Cavaleiros — ela disse — os senhores rasgaram meu lenço e beberam
meu vinho. Agora ofereço estas escrituras sagradas... àquele que melhor
souber ler.
— Dê a Godwin — falou Wulf. — Sou um espadachim, não um sacristão.
— Bem falado, muito bem falado! — manifestaram-se os presentes. — Dê-
nos a espada, não a pena. — Mas Rosamund virou-se para eles e respondeu:
— Aquele que empunha a espada é um bravo, e aquele que empunha a
pena é um sábio, mas melhor ainda é quem pode manejar as duas coisas,
espada e pena — como meu primo Godwin, heróico e instruído.
— Ouçam o que ela diz! Ouçam! — gritaram os mais entusiasmados,
batendo na mesa os chifres nos quais bebiam. No silêncio que se seguiu ou-
viu-se a voz de uma mulher, dizendo: — A sorte de Sir Godwin é grande, mas
dêem-me os braços fortes de Sir Wulf.
Então a bebedeira começou de novo, e Rosamund e as mulheres afasta-
ram-se, como deveriam, pois o ambiente estava ficando agitado e vulgar.
No dia seguinte, depois que a maior parte dos convidados tinha ido em-
bora, muitos deles com a cabeça doendo, Godwin e Wulf procuraram o tio,
Sir Andrew na sala de visitas em que ele estava sentado sozinho, pois sabiam
que Rosamund tinha ido até a igreja com duas de suas servas para prepará-la
para a missa da sexta-feira, depois da festa dos camponeses que acontecera
na nave da igreja. Aproximando-se da cadeira de carvalho perto de uma larei-
ra com uma chaminé — o que não era uma coisa comum naqueles dias —, eles
ajoelharam-se.
— O que é isso agora, meus sobrinhos? — perguntou o velho, sorrindo.
— Querem que eu os sagre cavaleiros mais uma vez?
— Não, senhor — respondeu Godwin. — Desejamos uma bênção ainda
maior.
49
Capítulo 3 •
Os irmãos são elevados a Sagrados Cavaleiros
— Então vocês procuram em vão, pois não existe nenhuma.
— Um outro tipo de bênção — resumiu Wulf.
Sir Andrew puxou a barba, e fitou-os. Talvez o Prior John tivesse falado
alguma coisa para ele e ele estivesse imaginando o que estaria por vir.
— Fale — disse para Godwin. — Não há maior presente que não possa
dar a um de vocês se estiver ao meu alcance.
— Sir — falou Godwin — queremos autorização para pedir a mão de sua
filha em casamento.
— O quê!? Vocês dois?
— Sim, senhor, nós dois.
Então Sir Andrew, que raramente ria, deu uma gargalhada.
— Ora — ele falou — de todas as coisas estranhas que já ouvi, esta é a mais
estranha... Dois cavaleiros querem pedir em casamento a mesma mulher.
— Parece estranho, senhor, mas quando ouvir nossa história o senhor vai
entender.
Então ele ouviu enquanto eles contavam tudo que se passara entre eles e
o solene juramento que tinham feito.
— Nobres agora, como em outras coisas — comentou Sir Andrew quan-
do eles terminaram. — Mas penso que um de vocês vai achar esse juramento
difícil de cumprir. Por todos os santos, meus sobrinhos, tinham razão quan-
do disseram que queriam uma grande bênção. Sabem, embora eu não tenha
lhes dito nada, e sem contar o patife do Lozelle, que dois dos mais importan-
tes homens desta região já pediram a mão de minha filha em casamento?
— Seria razoável que acontecesse — falou Wulf.
— Pois aconteceu. Agora vou lhes contar por que nenhum dos dois é seu
marido, o que, até certo ponto, eu desejaria que um fosse. Por uma simples
razão. Perguntei a ela, e a resposta foi que não tinha interesse em nenhum;
e, como sua mãe estava apaixonada quando se casou, jurei que seria melhor
a filha ir para um convento do que se casar sem amor.
— Agora vejamos o que vocês têm a oferecer. São de sangue bom — de
Uluin pelo lado materno, e meu, e de um lado também dela. Como escudeiros
de seus padrinhos de ontem, Sir Anthony de Mandeville e Sir Roger de Merci,
se comportaram com bravura na guerra contra a Escócia; na verdade o rei
Henrique se lembrou disso, e foi por essa razão que atendeu ao meu pedido
tão rapidamente. Desde aquela ocasião, embora dessem pouco valor à vida,
como lhes pedi, ficaram aqui em casa comigo, e não participaram de nenhu-
50
Cruzada •
H. Rider Haggard
ma ação com armas, exceto o grande ato de dois meses atrás que os tornou
cavaleiros, o que lhes dá algum direito sobre Rosamund.
— Quanto ao resto, como o pai de vocês era o mais jovem, suas terras
são poucas, e não têm nenhum outro bem. Além dos limites deste condado
vocês são desconhecidos, com todos os atos de heroísmo ainda a serem pra-
ticados, pois não levarei em conta as batalhas escocesas quando vocês eram
ainda praticamente crianças. E aquela a quem pedem em casamento é uma
das mais bonitas, das mais nobres e das mais instruídas moças destas terras,
a quem eu, que tenho alguma habilidade nestas coisas, instruí desse a infân-
cia. Além disso, como não tenho outro herdeiro, ela será uma mulher rica.
Bem, e vocês, o que mais têm a oferecer?
— Nós — respondeu Wulf com atrevimento — somos verdadeiros cava-
leiros, de quem o senhor conhece o melhor e o pior, e a amamos. Percebemos
isso, sem nenhuma dúvida, no cais de Death Creek, pois até então ela era
nossa irmã, e nada mais.
— Isso mesmo — acrescentou Godwin. — E quando ela nos agradeceu e
nos abençoou, um raio atingiu nós dois.
— Levantem-se — disse Sir Andrew —, e deixem-me olhar para vocês.
Então eles se levantaram, um ao lado do outro, diante da luz intensa do
fogo da lareira, pois pouca luz entrava pelas janelas estreitas.
— Homens honrados, homens honrados — falou o velho cavaleiro, — e
tão iguais como dois grãos de trigo da mesma colheita. Mais de 1,80m cada
um, peito largo, embora Wulf seja um pouco mais encorpado. Os dois têm
cabelos castanhos e ondulados, exceto por essa linha branca na qual a espada
atingiu Godwin. Olhos cinzentos e sonhadores são os de Godwin, e azuis e
dardejantes os de Wulf. Ah! Seu avô tinha olhos como os seus, Wulf. E me
contaram que quando ele se lançou da torre na tomada de Jerusalém os sar-
racenos não gostaram da força que vinha de seus olhos — nem eu mesmo,
quando criança, quando ele ficava com raiva. Homens honrados, os dois. Mas
Sir Wulf tende mais a ser um guerreiro, e Sir Godwin a ser mais polido.
— E então, qual dos dois vocês acham que agradaria mais a uma mulher?
— Isso, senhor, dependeria da mulher —, respondeu Godwin, e imedia-
tamente seus olhos ficaram sonhadores.
— Isso, senhor, queremos descobrir antes que o dia termine, se nos der
sua autorização —, acrescentou Wulf. Mas, se quer saber, acho que minha
chance é quase nula.
51
Capítulo 3 •
Os irmãos são elevados a Sagrados Cavaleiros
— Muito bem, é uma situação interessante. Mas não invejo Rosamund,
pois ela terá de fazer uma opção, e o dilema pode perturbar a mente de uma
mulher. Nem é certo que, quando falarem com ela, a decisão vá deixá-la em
paz. Não seria mais sensato, portanto, que eu os proibisse de colocá-la neste
dilema? — ele acrescentou, como se para si mesmo, e pôs-se a meditar enquan-
to os irmãos ficavam preocupados, temendo que ele recusasse o pedido.
Finalmente ele levantou o olhar e disse: — Não, que se faça a vontade de
Deus, que tem o futuro em Suas mãos. Meus sobrinhos, concedo porque
vocês são valorosos cavaleiros e homens de bem; qualquer um de vocês a
amaria e a protegeria — e ela pode vir a precisar de proteção; porque são
filhos de meu irmão, a quem prometi cuidar de vocês; e principalmente por-
que amo os dois, com a mesma intensidade, têm minha autorização para
pedir a mão de minha filha Rosamund, da maneira como decidiram. Godwin,
o mais velho, primeiro, como é seu direito; depois Wulf. Não, não precisam
agradecer, mas vão imediatamente, pois eu, cujas horas estão ficando menos
numerosas, quero conhecer a resposta desse dilema.
Então eles se inclinaram e saíram, andando lado a lado. À porta da sala
Wulf parou e disse:
— Rosamund está na igreja. Procure-a lá. Gostaria de desejar boa sorte,
Godwin, mas não posso. Receio que essa seja aquela sombra do amor de uma
mulher, da qual você falou há pouco, se abatendo sobre meu coração.
— Não há nenhuma sombra; há luz, agora e sempre, como juramos que
haveria de ser —, respondeu Godwin.
52
Cruzada •
H. Rider Haggard
á passava das três horas da tarde, e nuvens prenunciando nevascas
rapidamente cobriam a última claridade cinzenta do dia de dezembro,
enquanto Godwin, querendo tomar o caminho mais longo, seguia
para a igreja de Steeple atravessando a campina. À porta da igreja ele encon-
trou duas serviçais saindo, com vassouras nas mãos, e carregando uma gran-
de cesta com pedaços de carne e varas de junco quebradas. Ele perguntou a
elas se lady Rosamund ainda estava na igreja, ao que elas responderam, fa-
zendo uma reverência:
— Sim, Sir Godwin, e mandou-nos lhe dizer que gostaria que o senhor a
levasse para casa quando terminasse suas preces.
— Fico pensando — Godwin falou pensativo — se devo acompanhá-la
até a casa ou se devo esperá-la sozinho no altar.
De qualquer modo, entendeu que era um bom presságio que ela tivesse
feito o pedido, embora outros pudessem entender de outra forma.
Godwin entrou na igreja, andando devagar sobre os juncos espalhados
pela nave, e à luz da candeia que ficava permanentemente acesa, viu Rosamund
ajoelhada diante de um pequeno altar, a cabeça abaixada entre as mãos, re-
zando fervorosamente. Ele ansiava saber por quem.
Ela não o ouviu entrar. Então, chegando ao altar-mor, ele parou atrás dela
e esperou pacientemente. Por fim, com um suspiro fundo, Rosamund levantou-
se e virou-se, e ele percebeu à luz da candeia que havia lágrimas em seu rosto.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 4
A carta de Saladino
J
A
53
Capítulo 4 •
A carta de Saladino
Talvez ela também tivesse falado com o Prior John, que era seu confessor.
Quem sabe? Pelo menos, quando seus olhos fitaram Godwin de pé como uma
estátua diante dela, ela assustou-se, e de seus lábios saíram as palavras:
— Ah, que resposta rápida! — E, ajeitando-se, acrescentou: — Quero
dizer, ao meu recado, primo.
— Encontrei as mulheres na porta da igreja — ele falou.
— Foi muito gentil de sua parte — Rosamund acrescentou. — É que na
verdade, depois daquele dia em Death Creek, tenho medo de andar por aí
sozinha ou em companhia apenas de mulheres. Com você me sinto segura.
— Ou com Wulf?
— Sim, ou com Wulf — ela repetiu. — Isto é, quando ele não está pen-
sando em guerras ou em aventuras longínquas.
Nessa altura eles já tinham chegado ao pórtico da igreja, e viram que a
neve caía com intensidade.
— Vamos aguardar um pouco. É uma nuvem passageira.
Então ficaram lá, na escuridão, e por uns momentos ficaram em silêncio.
Então ele falou.
— Rosamund, minha prima, quero lhe fazer uma pergunta, mas primeiro
— e você compreenderá depois — peço que você não responda antes de um
dia inteiro.
— Claro, Godwin, isso é fácil de prometer. Mas que pergunta maravilho-
sa é esta que não pode ser respondida?
— Uma pergunta muito simples. Você concorda em se casar comigo,
Rosamund?
Ela inclinou-se para trás, recostando-se contra a parede do pórtico.
— Meu pai... — ela começou.
— Tenho a autorização dele.
— E como posso responder se você me proibiu?
— Só até esta hora, amanhã. Enquanto isto, rogo que me ouça, Rosamund.
Sou seu primo, e fomos criados juntos — na verdade, a não ser pelo tempo em
que estive fora, na guerra contra a Escócia, nunca nos separamos. Portanto,
nos conhecemos muito bem, tanto quanto duas pessoas que não são casadas
podem se conhecer. Então você já sabe o quanto eu sempre te amei, primeiro
como um irmão ama sua irmã, e agora como um homem ama uma mulher.
— Não Godwin, eu não sabia. Achava até que, como é de costume, seu
coração estivesse longe.
— Longe? Em outra mulher?
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
54
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Não, mulher não. Em seus sonhos.
— Sonhos? Que sonhos?
— Não sei dizer. Talvez em coisas que não estão aqui. E mais importantes
que uma simples moça.
— Prima, em parte você está certa, pois não é só a moça que eu amo, mas
também seu espírito. E também você para mim é um sonho — símbolo de
tudo o que é nobre, elevado e puro. Em você, e com você, Rosamund, vene-
ro o céu que espero poder compartilhar.
— Um sonho? Um símbolo? Céu? Estes ornamentos resplandecentes devem
adornar a figura de uma mulher? Pois quando a verdade aparecer você vai
achá-la uma caveira coberta por uma máscara de jóias, e acabar detestando-
a por uma ilusão que não foi dela, mas sua. Godwin, estes ornamentos, como
sua imaginação os pinta, só podem combinar com o rosto de um anjo.
— Eles combinam com um rosto que vai se tornar o de um anjo.
— Um anjo? Como você sabe? Sou metade oriental; o sangue esquenta
um pouco em mim às vezes. Também tenho minhas idéias e minhas fantasias.
Acho que gosto do poder e de imaginar, e das delícias da vida — uma vida
diferente desta. Você tem certeza, Godwin, de que este simples rosto vai se
tornar o rosto de um anjo?
— Gostaria de ter a certeza que tenho em relação a outras coisas. Mas
pelo menos vou arriscar.
— Pense em sua alma, Godwin. Ela pode sair chamuscada. Você não ar-
riscaria isto por mim, arriscaria?
Ele pensou um pouco e respondeu:
— Não, pois sua alma é uma parte da minha, e eu não arriscaria a sua,
Rosamund.
— Gosto de você pela resposta — ela disse. — Sim, mais do que por tudo
o que você falou antes, e porque sei que é verdade. Você é mesmo um cava-
leiro honrado, e estou orgulhosa — muito orgulhosa — de que você me ame,
embora talvez fosse melhor de outra forma. E fez uma pequena mesura para
Godwin.
— Não importa quais chances tenho, pois na vida ou na morte estas pa-
lavras me farão feliz, Rosamund.
De repente ela pegou em seu braço. — Chances? E o que há para esperar?
Coisas importantes, suponho, para você, para Wulf e para mim. Lembre-se,
sou metade oriental, e nós, nascidos no Oriente, podemos ver a sombra do
55
Capítulo 4 •
A carta de Saladino
futuro antes que ele nos alcance e se transforme em presente. Por isso, temo,
Godwin, temo mesmo.
— Não tema, Rosamund. Por que temer? Nas mãos de Deus está a histó-
ria de nossas vidas, e do que Ele pretende para elas. As palavras que vemos
e as que imaginamos podem ser terríveis, mas Ele que as escreveu conhece o
final da história, e este é bom. Portanto, não tema, e a imagine com o coração
livre, não se preocupando com o amanhã.
Ela olhou para ele interrogativamente, e perguntou:
— Essas são palavras de um galanteador, ou de um santo usando as rou-
pas de um galanteador? Eu não sei, e você sabe? Mas você afirma que me
ama e que se casaria comigo, e acredito; e também que a mulher que se casar
com Godwin será uma afortunada, pois homens como ele são raros. Mas
estou proibida de responder até amanhã. Bem, vou responder como foi pe-
dido. Assim, até amanhã seja o que você era antes, e, como a neve cessou,
leve-me para casa, querido primo Godwin.
E para casa eles foram, pela escuridão e através do vento sibilante, sem
dizer uma palavra. Entraram na grande sala, onde um grande fogo aceso no
centro lançava chamas em direção a uma abertura no teto, por onde a fuma-
ça escapava, agora alegres sentindo prazer por ter deixado a noite de inverno
do lado de fora.
Lá, de pé diante do fogo, também com aspecto alegre, embora com a
testa franzida, estava Wulf. Ao vê-lo, Godwin voltou pela grande porta e,
depois de ficar um instante sob a luminosidade, desapareceu novamente na
escuridão, fechando a porta atrás de si. Mas Rosamund continuou, em dire-
ção ao fogo.
— Você parece estar com frio, prima — falou Wulf, observando-a. — Godwin
a fez esperar muito para rezar com ele na igreja. Bem, é o costume dele, com
o qual eu mesmo já sofri. Sente-se neste sofá e aqueça-se um pouco.
Ela obedeceu sem dizer uma palavra e, abrindo o manto de pele, estendeu as
mãos para as chamas, que se refletiam em seu rosto sério. Wulf olhou em volta.
A sala estava vazia. Então ele fitou Rosamund.
— Estou alegre por ter a oportunidade de falar com você sozinha, prima,
pois tenho uma pergunta a lhe fazer. Mas preciso pedir que não me responda
antes de 24 horas terem se passado.
— De acordo — ela falou. — Já fiz a outro a mesma promessa. Que ela
sirva para os dois. Agora faça a sua pergunta.
56
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Ah! — retrucou Wulf alegremente. — Estou feliz que Godwin tenha
começado primeiro, pois me poupa palavras e, nesse assunto, ele é melhor
do que eu.
— Não sei nada disso, Wulf. Mas pelo menos você fala muito mais — res-
pondeu Rosamund com um pequeno sorriso.
— Mais talvez, mas um pouco diferente — é isso que você quer dizer. Bem,
felizmente não são meras palavras o que está em jogo.
— O quê, então, está em jogo, Wulf?
— Corações. O seu coração e o meu, e suponho, o coração de Godwin,
se é que ele tem um — e nesta ordem.
— E por que Godwin não haveria de ter um coração?
— Por quê? Bem, neste momento é minha função depreciar Godwin.
Portanto declaro — e você, que entende melhor desse assunto, pode entender
como quiser — que o coração de Godwin é como aquele do velho santo no
relicário de Stangate — uma coisa que pode ter batido outrora, e que talvez
volte a bater de novo no céu, mas que agora está morto, para este mundo.
Rosamund sorriu, e pensou consigo que aquele coração morto tinha dado
provas de estar vivo não fazia muito tempo. Disse, alto:
— Se você não tiver mais nada a falar comigo sobre o coração de Godwin,
vou sair e ler para o meu pai, que me espera.
— Não, tenho muito a falar do meu coração. — E de repente Wulf come-
çou a ficar muito agitado, tanto que seu corpo tremeu, e quando começou a
falar só conseguia gaguejar. Finalmente tudo o que queria dizer saiu numa
torrente de palavras apaixonadas.
— Eu a amo, Rosamund! Amo perdidamente, sempre amei — embora
não soubesse até o dia da luta, sempre amarei e quero que seja minha esposa.
Sei que sou apenas um rude guerreiro cheio de falhas e que não sou generoso
ou instruído como Godwin. Mas posso jurar que serei um verdadeiro cava-
leiro para você durante toda a minha vida e, se os santos permitirem e me
derem força, serei capaz de atos de bravura em sua honra, e prometo cuidar
de você. O que mais posso dizer?
— Nada mais, Wulf — respondeu Rosamund, erguendo os olhos que
estavam abaixados. — Você não quer que eu responda ainda, então vou
agradecer, do fundo do coração, embora, para dizer a verdade, esteja triste
por não podermos mais ser irmão e irmã, como temos sido há tanto tempo.
Vou me retirar.
57
Capítulo 4 •
A carta de Saladino
— Não, Rosamund, ainda não. Mesmo não podendo responder já, você
pode me dar um breve sinal, pois estou ardendo de aflição, e vou ter de ficar
assim até amanhã. Por exemplo, você pode me deixar beijar sua mão. O
pacto não fala nada de beijar a mão.
— Não sei de nenhum pacto, Wulf — respondeu Rosamund séria, embo-
ra um leve sorriso começasse a aflorar nos cantos de sua boca. — Mas sei que
não posso deixar que beije minha mão.
— Então vou beijar sua capa — e pegando um pedaço do manto, pressio-
nou-o contra os lábios.
— Você é forte, eu sou fraca, Wulf, e não posso puxar o manto de suas
mãos, mas devo dizer que esse gesto não lhe dá nenhuma vantagem.
Ele deixou o manto cair.
— Desculpe, eu deveria ter lembrado que Godwin nunca se atreveria a ir
tão longe.
— Godwin — ela disse, batendo com o pé no chão, — se tivesse feito uma
promessa, a manteria tanto na forma como na letra.
— Acho que sim. Veja como é difícil para um homem pecador ter um
santo como irmão e rival! Não, não fique zangada comigo, Rosamund, por
não poder trilhar o caminho dos santos.
— Acredito nisso, mas pelo menos, Wulf, não há necessidade de zombar
dos que podem.
— Não estou zombando. Amo-o tanto quanto você o ama — disse, e ficou
observando seu rosto.
Ele não se alterou, pois no coração de Rosamund estavam entronizados
a força e o silêncio do Oriente, que pode fazer descer uma máscara impene-
trável sobre rostos e feições.
— Fico feliz de saber que você o ama, Wulf. E faça o possível para nunca
esquecer seu amor e seu dever.
— Vou fazer; sim, mesmo que você me rejeite em favor dele.
— São palavras honestas, como eu esperava ouvir de você — ela respondeu
com voz suave. — E agora, querido Wulf, com licença, pois estou exausta...
— Amanhã — ele interrompeu.
— Sim, amanhã — ela respondeu firme. — Amanhã eu falo, e você deve
ouvir.
O sol tinha seguido o seu curso novamente e outra vez já eram quase
quatro horas da tarde. Os irmãos estavam perto do fogo, na sala, olhando
58
Cruzada •
H. Rider Haggard
um para o outro, com grande expectativa — da mesma forma que tinham sido
as longas horas da noite, em que nenhum dos dois tinha pregado o olho.
— Está na hora — falou Wulf e Godwin concordou.
No momento em que falou, uma mulher desceu do solar, e sabiam que
trazia uma mensagem.
— Qual de nós? — perguntou Wulf, mas Godwin balançou a cabeça.
— Sir Andrew mandou dizer que quer falar com os dois — disse a mulher,
e saiu da sala.
— Por todos os santos, acho que ela não escolheu nenhum! — exclamou
Wulf, com um breve riso.
— Pode ser que sim — disse Godwin — e talvez seja o melhor para todos.
— Não acho — respondeu Wulf, enquanto seguia Godwin pela escada até
a sala de visitas.
Entraram pela passagem e fecharam a porta. Diante deles estava Sir An-
drew, sentado em sua cadeira perto do fogo, mas ele não estava sozinho, pois
a seu lado, com a mão pousada em seu ombro, estava Rosamund. Eles per-
ceberam que ela estava vestida com o manto mais rico, e um pensamento
amargo passou por suas cabeças: o de que ela queria mostrar o quanto era
bonita a mulher que os dois iriam perder. Ao avançar, fizeram uma mesura,
primeiro para ela, e depois para o tio. Ela, levantando um pouco os olhos do
chão, deu um breve sorriso de saudação.
— Fale, Rosamund — disse o pai — pois estes cavaleiros estão em dúvida
e sofrem.
— Agora é a hora do golpe de misericórdia — murmurou Wulf.
— Meus primos — começou Rosamund, com um tom de voz baixo e
calmo, como se estivesse fazendo uma exposição —, em relação ao assunto
de que me falaram ontem, aconselhei-me com meu pai e com meu próprio
coração. Vocês me prestaram uma grande honra, os dois, pedindo-me para
ser a esposa de cavaleiros tão valorosos, com os quais cresci e os quais amei
desde a minha infância, como uma irmã ama os irmãos. Mas infelizmente
não posso dar a nenhum a resposta que desejam.
— Golpe de misericórdia, mesmo — murmurou Wulf —, direto no coração.
Mas Godwin só ficou um pouco mais pálido, e não disse nada.
Então se fez silêncio por um instante, enquanto o velho cavaleiro, com os
olhos atentos sob as espessas sobrancelhas, fitava seus rostos, iluminados
fracamente pela luz da candeia.
59
Capítulo 4 •
A carta de Saladino
Então Godwin falou: — Nós agradecemos, prima. Vamos, Wulf, já temos
nossa resposta. Vamos embora.
— Ainda não — interrompeu depressa Rosamund, e eles sentiram um
imediato alívio.
— Ouçam — ela disse — e vão ficar satisfeitos. Quero fazer uma promessa,
que meu pai aprovou. Voltem a mim, neste mesmo dia, daqui a dois anos, caso
vocês dois ainda me queiram como esposa, mas precisam afastar a dor da es-
pera, e direi o nome daquele que eu escolher e nos casaremos imediatamente.
— E se um de nós tiver morrido? — perguntou Godwin.
— Então —, respondeu Rosamund —, se seu nome continuar honrado e
não tiver praticado nenhum ato indigno de um cavaleiro, sem demora me
casarei com o outro.
— Um momento — interrompeu Wulf.
Ela levantou a mão e o fez parar, dizendo: — Você acha que o que estou di-
zendo soa estranho, e talvez seja; mas todo o caso é estranho, e para mim difícil.
Lembre-se: minha vida toda está em jogo, e posso querer mais tempo para fazer
minha escolha, pois entre dois homens como vocês qualquer mulher teria difi-
culdades. Todos somos ainda jovens para casar, e temos, se Deus poupar nossas
vidas, ainda muito tempo. Além disso, em dois anos eu poderei saber qual de
vocês é o mais digno e valoroso, o que os dois hoje parecem ser igualmente.
— Quer dizer que nenhum de nós lhe parece melhor do que o outro? — per-
guntou Wulf com franqueza.
Rosamund corou, e seu peito arfou, quando respondeu:
— Não vou responder essa pergunta.
— E Wulf não deveria ter perguntado — falou Godwin. — Meu irmão, o
que Rosamund disse foi que entre nós ela não vê diferenças, ou, se vê, no
fundo do seu coração e por sua bondade — pois está determinada a não se
casar por enquanto — ela não quer deixar transparecer e nos deixar tristes.
Então ela diz:
— Sigam seu caminho, cavaleiros, e pratiquem atos dignos de tal mulher,
e então aquele que for mais digno receberá a grande recompensa.
— De minha parte, acho essa decisão sábia e justa, pois nos dá tempo e
oportunidade de mostrar à nossa graciosa prima, e a todos os nossos com-
panheiros, o estofo de que somos feitos, e procurar obscurecer cada um de
nós com todos os atos de bravura que, como sempre, procuraremos desem-
penhar lado a lado.
60
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Muito bem falado — disse Sir Andrew. — E você, Wulf?
E Wulf, vendo que Rosamund observava o seu rosto com olhos atentos,
respondeu:
— Diante dos Céus, também estou contente, pois mesmo com tudo o que
se possa dizer em contrário, agora haverá pelo menos dois anos de guerra,
na qual um ou nós dois poderá sucumbir, e durante esse tempo pelo menos
nenhuma outra mulher se colocará entre nós. Tio, peço sua autorização para
servir na Normandia.
— Eu também — disse Godwin.
— Na primavera, na primavera —, respondeu Sir Andrew rapidamente,
— quando o Rei Henrique movimentar seus exércitos. Enquanto isso, fiquem
aqui, com toda camaradagem, pois quem sabe muita coisa pode acontecer
até lá, e talvez seus fortes braços serão necessários como nunca o foram antes.
Além disso, quero que vocês três não falem mais de amor e casamento, pois
isso perturba minha mente e minha casa. Para o bem ou para o mal, esse
assunto está encerrado por dois anos, ao final do que já estarei em meu tú-
mulo, e acima de qualquer problema.
— Não posso dizer que as coisas tenham saído como eu desejaria, mas são
como Rosamund deseja e isso é o suficiente para mim. Qual de vocês vai ser
o escolhido eu não sei, e fiquem contentes de permanecer na ignorância do
que um pai considera ser mais sábio não procurar descobrir. O coração de
uma jovem é só dela, e seu futuro está nas mãos de Deus e Seus santos, onde
devemos deixá-lo ficar. Agora, que já terminamos com esse assunto, Rosamund,
libere os cavaleiros, e voltem a ser, os três, irmãos e irmã até daqui a dois anos,
quando os que estiverem vivos terão uma resposta para esse impasse.
Então Rosamund adiantou-se, ofereceu sua mão direita a Godwin, a es-
querda a Wulf, e disse que eles podiam beijá-las. Por algum tempo aquele foi
o fim do pedido de casamento.
Os irmãos deixaram a sala de visitas lado a lado, como tinham entrado,
mas de alguma forma eram homens diferentes, pois agora suas vidas tinham
um novo alento, que os fazia ousar, realizar e vencer. Mas estavam com os
corações mais leves do que quando entraram, pois pelo menos nenhum tinha
sido rejeitado, e os dois tinham esperança, e todo o futuro, que os jovens
geralmente não temem, à sua frente.
Quando desciam as escadas seus olhos pousaram em um homem alto, vestin-
do um manto de peregrino, com capuz e um chapéu de copa baixa, com a frente
61
Capítulo 4 •
A carta de Saladino
levantada e atada com um laço. Ele trazia na mão a folha de palmeira, indicativa
de sua peregrinação, e na cintura um rolo de pergaminho e um cantil.
— O que procura, peregrino? — perguntou Godwin, adiantando-se até
ele. — Passar a noite na casa de meu tio?
O homem curvou-se e, fixando nele um par de olhos como contas casta-
nhas, que fez Godwin lembrar de algum que já tinha visto antes, mas sem saber
onde e quando, respondeu com a voz humilde das pessoas de sua classe:
— Sim, meu nobre cavaleiro. Abrigo para mim e meu animal, pois minha
mula está aí fora. E também gostaria de dar uma palavra com o proprietário,
Sir Andrew D’Arcy, para quem tenho uma mensagem.
— Mula? — disse Wulf. — Sempre achei que os peregrinos seguiam a pé.
— É verdade, senhor, mas como o senhor verá, tenho bagagem. Não,
minha não, pois tudo o que tenho está sobre meu corpo. Trago uma arca que
contém não sei o quê, mas que fui incumbido de entregar para Sir Andrew
D’Arcy, o dono desta casa, ou, no caso de ele estar morto, para lady Rosa-
mund, sua filha.
— Incumbido? Por quem? — perguntou Wulf.
— Isso, senhor —, disse o peregrino curvando-se, — só direi a Sir Andrew,
que, segundo soube, ainda vive. Tenho sua autorização para ir pegar a arca e, em
caso afirmativo, poderia um dos seus serviçais me ajudar, pois ela é pesada?
— Nós ajudaremos — falou Godwin. E foram com ele até o pátio, onde
sob a fraca luz das estrelas viram uma bela mula sob a guarda de um homem
trazendo no dorso um comprido volume amarrado com um saco de aniagem.
O peregrino desamarrou o volume, e pegou uma ponta, enquanto Wulf,
depois de ter pedido ao homem que segurasse a mula, pegou a outra, e o
levaram para dentro da casa, com Godwin indo na frente para chamar o tio.
Imediatamente ele veio, e o peregrino fez-lhe uma mesura.
— Qual é o seu nome, peregrino, e de quem é esta arca? — perguntou o
velho cavaleiro, olhando-o com olhos atentos.
— Meu nome, Sir Andrew, é Nicholas de Salisbury, e sobre quem me
enviou, com sua autorização, vou dizer no seu ouvido. — Assim disse, incli-
nando-se para a frente.
Sir Andrew ouviu e recuou, como se um dardo o tivesse atingido.
— O quê? Você, peregrino, é mensageiro de... e parou de repente.
— Fui seu prisioneiro — respondeu o homem — e ele — que sempre
cumpre sua palavra — poupou-me a vida, pois tinha sido condenado a mor-
62
Cruzada •
H. Rider Haggard
rer, ao preço de eu trazer-lhe isto, e levar-lhe sua resposta, ou dela, o que
jurei fazer.
— Resposta? Resposta ao quê?
— Não sei de nada, a não ser que há uma mensagem nesta arca. Seu con-
teúdo não me foi comunicado, sou apenas um mensageiro comprometido por
um juramento a fazer certas coisas. Abra a arca, senhor, e enquanto isso, se
o senhor tiver comida... Vim de longe e estou em jejum.
Sir Andrew foi até uma porta, e chamou os serviçais, a quem ordenou que
dessem comida ao peregrino e permanecessem com ele enquanto comia.
Depois pediu a Godwin e a Wulf que pegassem a arca e a trouxessem para a
sala de visitas, com martelo e formão, para o caso de serem necessários, o
que eles fizeram, colocando a arca sobre a mesa de madeira.
— Abram —, falou Sir Andrew. Então eles rasgaram o saco — dois sacos
— revelando uma arca em madeira escura, presa com tiras de ferro, nas quais
trabalharam muito até conseguirem rompê-las. Finalmente conseguiram, e
dentro dela havia outra caixa muito bem feita, de ébano polido, com um
lacre na frente e nos cantos. A caixa tinha uma fechadura de prata, de onde
pendia, presa, uma chave também de prata.
— Pelo menos não foi forçada — falou Wulf —, examinando os lacres
intactos. Mas Sir Andrew disse com aflição:
— Abra rápido. Aqui Godwin, pegue a chave, pois minha mão está tre-
mendo por causa do frio.
A fechadura abriu com facilidade e, rompidos os lacres, a tampa foi er-
guida deixando sair um suave perfume que envolveu a sala. Dentro, cobrin-
do o conteúdo da arca, havia um lenço quadrangular de seda trabalhada, e
sobre ele, um pergaminho.
Sir Andrew rompeu o lacre e o fio no qual o pergaminho estava enrolado,
escrito em caracteres estranhos. Havia também um segundo pergaminho, sem
lacre, escrito em francês normando, e com um cabeçalho: “Tradução desta
mensagem, no caso de o cavaleiro Sir Andrew D’Arcy ter esquecido a língua
árabe, ou de sua filha, lady Rosamund, ainda não a ter aprendido”.
Sir Andrew olhou para os dois pergaminhos e disse:
— Não, não esqueci a língua árabe, que, enquanto minha mulher viveu,
falava com ela, que também a ensinou nossa filha. Mas a luz é fraca e, Godwin,
você que é instruído, leia-me o que está escrito em francês. Podemos compa-
rar depois.
63
Capítulo 4 •
A carta de Saladino
Nesse instante Rosamund entrou na sala, vinda de seu quarto e, vendo os
três tão absortos, disse:
— O senhor quer que eu saia, meu pai?
— Não, filha. Já que está aqui, fique. Acho que este assunto diz respeito
a você tanto quanto a mim. Leia, Godwin.
Então Godwin leu:
“Em nome de Deus, Misericordioso e Clemente! Eu, Saladino, Yusuf ibn
Ayoub, Comandante dos Fiéis, mandei escrever estas palavras, e as lacrei com
minhas próprias mãos, endereçadas a Sir Andrew D’Arcy, marido de minha
irmã por outra mãe, Sitt Zobeibe, bela e herege, e sobre quem Alá fez cair a
sua ira, em virtude de seu pecado. Se ele estiver morto, então são endereçadas
à sua filha, minha sobrinha, por sangue princesa da Síria e do Egito, e que
entre os ingleses é chamada de lady Rosa do Mundo.
Você, Sir Andrew, deve se lembrar de como, muitos anos atrás, quando
éramos amigos, você, por uma infeliz circunstância, conheceu minha irmã
Zobeibe, quando estava prisioneiro e doente na casa de meu pai. Deve lembrar
também como Satã incutiu no coração dela ouvir suas palavras de amor, de
modo que ela virou uma adoradora da cruz, e casou-se com você segundo o
costume franco, partindo para a Inglaterra. Vai se lembrar também, embora
naquele tempo não tivéssemos conseguido recapturá-la de seu barco, que lhe
enviei um mensageiro, dizendo que mais cedo ou mais tarde eu iria retirá-la
de seus braços, e tratá-la como tratamos mulheres infiéis. Mas seis anos depois
desses fatos chegaram-me notícias de que Alá a tinha levado, e portanto eu a
pranteei, e me esqueci dela e de você.
“Saiba que um certo cavaleiro que atende pelo nome de Lozelle, que morou
na parte da Inglaterra onde você tem seu castelo, me contou que Zobeibe
deixou uma filha, que é muito bonita. E agora meu coração, que amou minha
irmã, ama minha sobrinha, que nunca conheci, pois embora ela seja sua filha
e uma adoradora da cruz, você, exceto no rapto de minha irmã, sempre foi
bravo e nobre, de sangue bom, como também seu irmão, que morreu na ba-
talha de Harenc.
Saiba também que, pela vontade de Alá, tornei-me rico e poderoso aqui
em Damasco e por todo o Oriente, e quero elevar sua filha à princesa de minha
casa. Portanto, convido-a a vir até Damasco, você junto com ela, se estiver
vivo. Além disso, se você acha que se trata de uma armadilha, em meu nome,
64
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
em nome de meus sucessores e conselheiros, prometo, em nome de Deus, e com
as palavras de Saladino, que até hoje nunca foram quebradas, embora eu acre-
dite que o Deus Misericordioso vai permitir que ela, por sua própria vontade,
o deixe entrar em seu coração, que não a forçarei a aceitar Alá, nem a obrigarei
a nenhum casamento que ela não deseje. Nem eu me vingarei de você, Sir Andrew,
pelo que fez no passado, ou obrigarei outros a se vingarem. Ao contrário, o
cobrirei de honras, e viveremos como amigos, exatamente como outrora.
Mas se meu mensageiro retornar e disser que minha sobrinha recusa minha
oferta, então o advirto de que meu braço é comprido e vou buscá-la.
Portanto, um ano depois da data em que receber a resposta de minha so-
brinha, que é chamada de lady Rosa do Mundo, meus emissários aparecerão
onde quer que ela esteja, casada ou solteira, para trazê-la até junto de mim,
com honra se ela vier por vontade própria, mas de qualquer forma trazê-la,
mesmo que ela não queira. Nesse intervalo, como penhor do meu amor, man-
do-lhe alguns presentes preciosos e, com eles, o meu decreto que a eleva a
Princesa e Lady da cidade de Baalbec, título que, com suas rendas e prerroga-
tivas, está registrado nos arquivos de meu império, em favor dela e de seus
herdeiros legais, e que obriga a mim e a meus sucessores para sempre.
O portador desta mensagem e destes presentes é um certo adorador da
cruz de nome Nicholas, a quem deve entregar sua resposta para ser entregue
a mim. Essa incumbência ele vai desempenhar sob juramento, e sabe que se
falhar vai morrer.
Assinado Saladino, Comandante dos Fiéis, em Damasco, e lacrado com
seu selo, na primavera do ano 581 da Hégira
20
.
Notem ainda que este documento foi lido para mim por meu secretário, antes
que colocasse meu nome e meu selo, e penso que você, Sir Andrew, ou você lady
Rosa do Mundo, podem achar estranho que me dê a tanto trabalho e tanto custo
por uma moça que não professa minha religião, que nunca vi, e que portanto pode
duvidar da minha honestidade. Saibam então a verdadeira razão. Desde que
soube que você, lady Rosa do Mundo, vive, fui visitado três vezes por um sonho,
enviado por Deus, relacionado a você, e nele vi seu rosto.
Este foi o sonho: que o juramento que fiz em relação à sua mãe também lhe
diz respeito; e mais, que de um modo que não me foi revelado, sua presença aqui
vai impedir que eu derrame um banho de sangue, e resguarde o mundo dessa
catástrofe. Portanto, foi decretado que você deve vir e morar em minha casa.
Sendo assim, que Alá e seu Profeta sejam minhas testemunhas.”
Cruzada •
H. Rider Haggard
65
Capítulo 5 •
O mercador de vinho
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 5
O mercador de vinho
G
A
odwin abaixou a mensagem, e todos se entreolharam com surpresa.
— Certamente — falou Wulf, — isto é uma pilhéria de algum
bufão mal intencionado.
Como resposta, Sir Andrew mandou Wulf levantar a seda que ocultava o
conteúdo da arca para ver o que havia dentro. Assim fez Wulf e, no instante
seguinte, afastou a cabeça como um homem a quem uma luz repentina tives-
se cegado, pois de dentro da arca faiscavam gemas como Essex raramente
tinha visto antes. Eram vermelhas, verdes e azuis; e entre elas havia também
o brilho opaco do ouro e o reflexo branco das pérolas.
— Ó! São lindas. Lindas — falou Rosamund.
— Sim — murmurou Godwin. — Lindas o suficiente para embaralhar o
espírito de uma moça que não saiba distinguir o certo do errado.
Wulf não falou nada, mas tirou um a um os tesouros da arca: diadema,
colares de pérola, broches de rubis, pulseiras de safiras, enfeites para os
tornozelos, além de, chinelos, mantos e outras vestimentas de seda púr-
pura trabalhadas em ouro. E junto, também lacrado com o selo de Sala-
dino, seus vizires
21
, ministros e secretários, estava o documento do qual
ele falara na mensagem, estabelecendo os títulos completos da Princesa de
Baalbec, a extensão e os limites de suas propriedades, e o valor de sua
renda anual, que era uma quantia tão grande que eles nunca poderiam
imaginar.
66
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Estava enganado — falou Wulf, — mesmo o sultão do Oriente não
poderia fazer uma pilhéria tão cara.
— Pilhéria? — interrompeu Sir Andrew. — Não é pilhéria, como tive
certeza desde a primeira linha da mensagem. Ela respira o verdadeiro espíri-
to de Saladino, mesmo que seja um sarraceno, o homem mais poderoso da
terra, que eu, que fui amigo dele na juventude, conheci bem. Sim, e ele tem
razão. Num certo sentido pequei contra ele, como sua irmã pecou, pela pres-
são de nosso amor. Pilhéria? Não, nenhuma pilhéria, simplesmente porque a
visão da noite, que ele acredita ser a voz de Deus, ou talvez alguma previsão
de seus mágicos, mexeu profundamente com aquela grande alma e o fez
mergulhar nesta fantástica aventura.
Fez uma pausa por um instante, então levantou os olhos e disse:
— Sabe o que Saladino fez de você? Há rainhas na Europa que ficariam
muito contentes de ter um tal título, e propriedades entre as ricas terras aci-
ma de Damasco. Conheço a cidade e o castelo do qual ele fala. É um impo-
nente edifício às margens do Litani
22
e do Orontes
23
, e após seu governador
militar — cargo que ele não daria a um cristão — você será a pessoa mais
importante, rubricada pelo selo de Saladino —, a mais alta em toda a terra.
E então, você vai assumir seu posto?
Rosamund fitou as jóias faiscantes, e o decreto que a tornava princesa, e
seus olhos brilharam, e seu peito arfou, como fizera na igreja de St. Peter, na
costa de Essex. Três vezes ela olhou, enquanto os outros a observavam, e
então virou a cabeça como se estivesse se afastando de uma grande tentação
e falou uma única palavra: — Não.
— Muito bem respondido —, falou seu pai, que conhecia seu sangue e
seus desejos. — Tivesse sido seu “não” um “sim” você teria ido sozinha. Dê-
me tinta e pergaminho, Godwin.
Eles foram trazidos, e ele escreveu:
“Para o Sultão Saladino, de Andrew D’Arcy e de sua filha Rosamund.
Recebemos sua mensagem, e respondemos que onde estamos ficaremos,
nesta parte do mundo que Deus nos deu. Contudo, agradecemos sua oferta,
Sultão, pois acreditamos que o senhor é honesto, e lhe desejamos felicidades,
exceto na sua guerra contra a Cruz. Quanto às suas ameaças, faremos o pos-
sível para transformá-las em nada. Conhecendo os costumes do Oriente, não
lhe devolvemos os presentes, pois fazer isto seria insultar um dos homens mais
67
Capítulo 5 •
O mercador de vinho
poderosos de todo o mundo. Mas se quiser pedi-los de volta, eles são seus, não
nossos. De seu sonho dizemos que foi apenas uma visão vazia, da qual um
homem sábio deve se afastar. — Seu servo e sua sobrinha.”
Então assinou, e Rosamund assinou depois dele, e a mensagem foi em-
brulhada em seda e lacrada.
— Agora — falou Sir Andrew, — esconda esta fortuna, pois se fosse sa-
bido que temos estes tesouros na casa, cada ladrão inglês iria nos fazer uma
visita, alguns deles com nomes importantes, suponho.
Portanto, colocaram de volta na arca as vestes ornadas em ouro e as jóias
de valor inestimável, e depois de fechá-la a esconderam no grande cofre de
ferro que Sir Andrew tinha no quarto de dormir.
Quando tudo terminou, Sir Andrew falou: — Ouça, Rosamund, e vocês
também, meus sobrinhos. Eu nunca lhes contei a verdadeira história sobre como
a irmã de Saladino, de nome Zobeide, filha de Ayoub, e mais tarde batizada em
nossa fé com o nome de Mary, se tornou minha esposa. Mas vocês precisam
saber, pelo menos para entender como o mal retorna ao homem. Depois que o
grande Nur-ed-din tomou Damasco, Ayoub foi feito seu governador; e 23 anos
mais tarde ocorreu a tomada de Harenc, na qual meu irmão morreu. Lá eu fui
ferido e tomado prisioneiro. Levaram-me para Damasco, onde fui hospedado
no palácio de Ayoub e muito bem tratado. Foi lá também, enquanto estava
doente de cama, que fiz amizade com o jovem Saladino, e com sua irmã Zobei-
de, com quem me encontrava secretamente nos jardins do palácio. O resto não
é difícil de imaginar. Embora ela tivesse a metade de minha idade, ela me ama-
va como eu a amava, e para minha felicidade, concordou em trocar de fé e vir
comigo para a Inglaterra, se surgisse a oportunidade, o que não parecia fácil.
— Então, por sorte, eu tinha um amigo, um homem de pele escura por
nome de Jebal, o jovem xeique de uma tribo terrível, cujos ritos cruéis nenhum
cristão entende. São seguidores de um certo Maomé, na Pérsia, e vivem em
castelos em Masyaf, no Líbano. Este homem tinha feito uma aliança com os
francos, e uma vez, numa batalha, salvei sua vida com o risco da minha, a
partir do que ele jurou que se eu o chamasse dos confins da terra ele viria em
meu socorro, se eu assim precisasse. Mais, deu-me seu anel de sinete como
amuleto, e pelo efeito dele, assim ele disse, eu teria o mesmo poder em seus
domínios que ele mesmo. Vocês o conhecem —, e erguendo a mão, Sir Andrew
mostrou-lhes um pesado anel de ouro, onde estava incrustada uma pedra
68
Cruzada •
H. Rider Haggard
negra, com veios vermelhos cortando a pedra na exata forma de uma adaga,
e abaixo da adaga palavras escritas em caracteres estranhos.
— Então, em minha provação lembrei-me de Jebal, e encontrei meios de
mandar-lhe uma carta lacrada com o seu sinete. Ele não esquecera a promessa,
pois em 12 dias Zobeide e eu estávamos galopando para Beirute em dois ca-
valos tão rápidos que toda a cavalaria de Ayoub não conseguiu alcançá-los.
Chegamos à cidade e lá nos casamos, Rosamund. Lá, também, sua mãe foi
batizada na fé cristã. Mas como não era seguro para nós, ficar no Oriente,
tomamos um barco e chegamos salvos à casa, trazendo o anel de Jebal conos-
co, pois não o devolveria, como seus servos pediram, a não ser para o próprio
Jebal. Mas antes que o barco partisse, um homem disfarçado de pescador me
trouxe uma mensagem de Ayoub e seu filho Saladino jurando que recapturariam
Zobeide, filha de um e irmã de outro.
— Esta é a história, e vocês vêem que o juramento não ficou esquecido,
embora anos depois, quando souberam da morte de minha esposa, deixaram
o assunto de lado. Mas desde então Saladino, que naqueles dias era apenas um
jovem nobre, tornou-se o mais importante sultão que o Oriente já conheceu, e
sabendo da sua existência, Rosamund, por aquele traidor Lozelle, ele tenta
capturar você, no lugar de sua mãe. E, filha, digo-lhe que temo por isso.
— Pelo menos temos um ano, ou mais, para nos preparar, ou esconder —,
falou Rosamund. — O peregrino ‘seu mensageiro’ deve viajar de volta para
o Oriente antes que meu tio Saladino possa ter sua resposta.
— Sim — disse Sir Andrew, — talvez tenhamos um ano.
— E o ataque no cais? — perguntou Godwin, que permanecera pensativo.
— O nome do cavaleiro Lozelle foi mencionado lá. Mas se Saladino tem al-
guma coisa a ver com isso, parece estranho que o ataque tenha acontecido
antes da chegada da mensagem.
Sir Andrew pensou por um instante, e então falou:
— Tragam o peregrino. Eu vou interrogá-lo.
Então Nicholas, que foi encontrado ainda comendo, como se sua fome
nunca fosse ficar satisfeita, foi trazido por Wulf. Ele fez uma pequena mesu-
ra para o velho cavaleiro e para Rosamund, observando-os com seus olhos
penetrantes, da mesma forma que o teto e o chão, e cada detalhe do quarto.
Pois os seus olhos pareciam não perder nada.
— Você me trouxe uma mensagem de longe, Sir Peregrino, que se chama
Nicholas — disse Sir Andrew.
69
Capítulo 5 •
O mercador de vinho
— Eu lhe trouxe uma arca de Damasco, Senhor, mas de seu conteúdo eu
não sei nada. Pelo menos o senhor há de testemunhar que ela não foi violada
— respondeu Nicholas.
— Acho estranho — continuou o velho cavaleiro —, que alguém com sua
vestimenta de peregrino fosse escolhido como mensageiro de Saladino, com
quem os cristãos têm muito pouco a ver.
— Mas Saladino tem muito a ver com os cristãos, Sir Andrew. Estes ele
toma como prisioneiros, mesmo em tempos de paz, como fez comigo.
— Ele, então, fez o cavaleiro Lozelle prisioneiro?
— O cavaleiro Lozelle? — repetiu o peregrino. — Ele é um homem gran-
de, de rosto vermelho, com uma cicatriz na testa, e que sempre usa um man-
to preto sobre a armadura?
— Pode ser.
— Então ele não foi feito prisioneiro, mas veio visitar o Sultão em Da-
masco, enquanto eu estava aprisionado lá, pois o vi duas ou três vezes, em-
bora o que ele fazia lá eu nunca soube. Depois ele partiu, e em Jaffa
24
eu ouvi
dizer que tinha zarpado para a Europa três meses antes de mim.
Agora os irmãos se entreolharam. Então Lozelle estava na Inglaterra. Mas
Sir Andrew não fez nenhum comentário, apenas disse: — Conte-me sua his-
tória, e tenha o cuidado de só dizer a verdade.
— E por que não diria, eu que não tenho nada a esconder? — respondeu
Nicholas. — Fui capturado por alguns árabes quando viajava pelo Jordão,
em peregrinação, e quando descobriram que eu não tinha nenhum bem para
eles roubarem, se prepararam para me matar. E teriam matado quando alguns
soldados de Saladino apareceram e ordenaram que me soltassem e me entre-
gassem a eles. Isto eles fizeram, e os soldados me levaram para Damasco. Lá
fui aprisionado, mas não totalmente, e foi assim que vi um homem cristão
que tinha o mesmo nome, e como parecia gozar dos favores dos sarracenos,
pedi-lhe que intercedesse por mim. Fui levado diante da corte de Saladino, e
depois de me interrogar, o próprio Sultão me ordenou que, ou eu adotava a
fé do falso profeta ou morreria. Vocês podem imaginar qual foi minha res-
posta. Então me levaram, como pensei, para ser morto, mas ninguém se
ofereceu para me matar.
— Três dias depois Saladino mandou me buscar, e ofereceu-se para poupar
minha vida se eu fizesse um juramento, e este juramento era carregar um
certo pacote e entregá-lo ao senhor, ou à sua filha, de nome Rosamund, aqui
70
Cruzada •
H. Rider Haggard
em sua casa de Steeple, em Essex, e levar a resposta de volta a Damasco. Não
querendo morrer, disse que faria o que ele ordenava, caso ele prometesse, e
ele nunca quebrou uma promessa, que eu ficaria livre depois.
— E agora que você está a salvo na Inglaterra, tenciona retornar a Da-
masco com a resposta, e se é o caso, por quê?
— Por duas razões, Sir Andrew. Primeiro, porque jurei fazer isto, e não
quebro minhas promessas da mesma forma que Saladino. Segundo, continuo
desejando continuar vivo, e o Sultão me prometeu que, se eu falhasse na
missão, ele causaria a minha morte, onde quer que eu estivesse, o que estou
seguro que ele tem o poder de fazer, de uma maneira ou de outra. Bem, o
resto da história é curto. A arca me foi entregue, como o senhor viu, e com
ela dinheiro suficiente para minhas despesas de viagem de ida e volta, mais
alguma coisa para gastar. Depois fui escoltado até Joppa
25
, onde comprei
passagem num barco com destino à Itália, onde peguei outro barco, chama-
do Holy Mary, de partida para Calais. De lá cheguei a Dover num barco
pesqueiro, oito dias atrás, e tendo comprado uma mula, juntei-me a alguns
viajantes que vinham a Londres, e aqui estou.
— E você vai retornar?
— É o que devo fazer, e imediatamente. Sua resposta está pronta, Sir Andrew?
— Sim, está aqui — e ele entregou-lhe o pergaminho, que Nicholas escon-
deu, nas dobras de seu amplo manto. Então Sir Andrew acrescentou: — Você
diz que não sabe nada desta história da qual você é uma parte?
— Nada, ou melhor, apenas isto — o policial que me escoltou até Jaffa
disse que havia um falatório entre os doutores e os mágicos da corte sobre
um certo sonho que o Sultão tinha sonhado três vezes. Dizia respeito a uma
lady que era metade sangue de Ayoub e metade inglesa, e disseram que a
minha missão tinha a ver com o assunto. Agora vejo que a nobre lady dian-
te de mim tem olhos muito parecidos com os do Sultão Saladino. E abriu os
braços e parou de falar.
— Você parece que vê longe, amigo Nicholas.
— Sir Andrew, um pobre peregrino que deseja preservar seu pescoço deve
ficar de olhos abertos. Agora comi muito bem, e estou exausto. Há algum
lugar onde possa dormir? Devo partir ao amanhecer, pois os que têm negócios
com Saladino não podem tardar, e já tenho sua resposta.
— Há um lugar — respondeu Sir Andrew. — Wulf, leve-o até lá e amanhã,
antes que ela parta, falaremos novamente. Até lá, boa noite, peregrino Nicholas.
71
Capítulo 5 •
O mercador de vinho
Com mais um olhar aguçado o peregrino curvou-se e saiu. Quando a por-
ta se fechou atrás dele, Sir Andrew chamou Godwin ao seu lado e sussurrou:
— Amanhã, Godwin, pegue alguns homens e siga este Nicholas para ver
aonde ele vai e o que faz, pois não devemos confiar nele — na verdade, eu o
temo, e muito! Estas missões de e para sarracenos são muito estranhas para um
cristão. Além disso, embora diga que sua vida depende disto, penso que se fosse
honesto, uma vez em segurança na Inglaterra deveria ficar por aqui, pois o pri-
meiro padre o absolveria de um juramento tirado à força, e por um infiel.
— E se ele fosse desonesto não teria roubado as jóias? — perguntou Godwin.
— Elas valem o risco. O que você acha Rosamund?
— Eu? — ela respondeu. — Oh, acho que nesta história há muito mais
coisas do que suspeitamos. Penso — acrescentou, com uma voz demonstran-
do angústia e com um involuntário movimento de mãos — que para esta casa
e para os que habitam nela o tempo prenuncia morte, e aquele peregrino é o
emissário. Quão estranho é o destino que nos pega em sua teia. E agora
chega a espada de Saladino para lhe dar forma, e a mão de Saladino para me
tirar de minha paz e me dar um título que não desejo; e os sonhos de Saladi-
no, de quem sou sobrinha, para entrelaçar minha vida com as sangrentas
políticas da Síria e a guerra sem fim entre a Cruz e o Crescente, e que são, os
dois, minha herança. Então, com um gesto de aflição, deixou-os.
O pai a olhou sair e disse:
— Ela está certa. Coisas importantes estão para acontecer, nas quais todos
teremos uma parte. Pois não seria por pouca coisa que Saladino ordenaria esta
missão, ele que se prepara, como sei bem, para a última batalha na qual ou Cris-
to ou Maomé sairá derrotado. Rosamund está certa. No seu rosto brilha o diade-
ma, em forma de crescente, da casa de Ayoub, e no seu coração mora a cruz negra
dos cristãos, e ao seu redor lutam credos e nações. O homem já dormiu, Wulf?
— Como um cachorro, pois ele ficou exausto com a viagem.
— Como um cachorro, mas com um olho aberto, talvez. Não gostaria
que ele escapasse durante a noite, pois quero falar ainda com ele, e outras
coisas, sobre as quais falei com Godwin.
— Não precisa temer isto, tio. Fechei a porta do estábulo, e um peregrino,
mesmo santo, não iria querer deixar uma mula de presente para nós.
— Não ele, se conheço bem sua tribo, respondeu Sir Andrew. — Bem,
vamos comer e depois discutiremos o assunto entre nós, pois precisamos,
antes de tudo terminar.
72
Cruzada •
H. Rider Haggard
Uma hora antes do amanhecer no dia seguinte Godwin e Wulf estavam
de pé, e com eles alguns homens de confiança que tinham sido advertidos de
que seus serviços seriam necessários. Wulf chegou, com uma tocha, até o
lugar onde seu irmão estava, perto do fogo.
— Onde você esteve? — Godwin perguntou. — Foi acordar o peregrino?
Não. Colocar um homem para vigiar a estrada para Steeple Hill, e outro
na trilha de Creek; e também alimentar sua mula, que é um ótimo animal
— boa demais para um peregrino. Sem dúvida, ele já deve estar se levantan-
do, pois disse que partiria bem cedo.
Godwin concordou com a cabeça, e sentaram-se juntos no banco perto
do fogo, pois o tempo estava horrível, e cochilaram até que a alvorada co-
meçou a irromper. Então Wulf levantou-se, espreguiçou-se e falou:
— Acho que ele não vai reclamar se o acordarmos agora — e andando
até a extremidade da sala, puxou uma cortina e gritou: — Acorde, Nicholas!
Acorde! Está na hora de fazer suas preces, e o café logo vai estar pronto.
Mas nenhum Nicholas respondeu.
— Puxa — resmungou Wulf voltando para pegar a tocha — este peregri-
no dorme como se Saladino já tivesse cortado sua garganta. Depois de acen-
der a tocha, voltou ao lugar onde estava o hóspede.
— Godwin — ele chamou imediatamente. — O homem desapareceu!
— Desapareceu? — perguntou Godwin, correndo até a cortina. — Desa-
pareceu como?
— Foi de volta para seu amigo Saladino, acho — respondeu Wulf. — Veja,
por ali foi que ele saiu. E apontou para uma veneziana no cubículo, que es-
tava completamente aberta, e para um tamborete de madeira em baixo dela;
subindo no tamborete o santificado Nicholas tinha atingido a veneziana da
estreita janela.
— Ele deve estar lá fora, cuidando da mula que nunca deixaria para trás
— disse Godwin.
— Hóspedes honestos não deixam seus hospedeiros desta forma — res-
pondeu Wulf, — mas vamos lá fora ver.
Correram então até o estábulo, e o encontraram trancado e a mula dentro
dele. Procuraram, mas não encontraram nenhum sinal do peregrino, nem
mesmo uma pegada, embora o chão estivesse coberto de geada. Olhando mais
atentamente a fechadura do estábulo foi que perceberam que alguém tinha
tentado abri-lo, usando um instrumento pontudo.
73
Capítulo 5 •
O mercador de vinho
— Parece que ele estava determinado a ir, com ou sem o animal — falou
Wulf. — Bem, talvez ainda possamos pegá-lo. — Chamando os homens e
ordenando que selassem os cavalos para uma busca.
Durante três horas fizeram a busca, em todas as partes, mas não encon-
traram Nicholas.
— O patife fugiu como um falcão noturno, e não deixou nenhum traço
— relatou Wulf. — E agora, meu tio, o que isto significa?
— Eu não sei, exceto que faz parte do resto, e que não gosto nada —,
respondeu o velho cavaleiro com preocupação. — Neste caso o valor do
animal não teve a menor importância, isto é claro. O que o homem pretendia
era verificar como poderia fugir, de uma maneira que ninguém o pudesse
seguir ou saber para onde teria ido. A rede está sobre nós, meus sobrinhos,
e acho que Saladino começa a puxar as cordas.
E Sir Andrew teria ficado ainda menos satisfeito se pudesse ter visto o pere-
grino rastejando em volta da casa enquanto todos dormiam, logo que amarrou
na cintura seu amplo manto e fugiu como uma lebre, em direção a Londres. E
tinha feito tudo isto à luz das estrelas, observando todas as fendas das janelas,
especialmente as que ficavam na sala; como também dos anexos à casa, e o ca-
minho que ia para Steeple Creek, e que ficava a uns 500 metros de distância.
Daquele dia em diante o medo apossou-se da casa — medo de que algum
ataque que ninguém seria capaz de antecipar, e contra o que não poderiam se
precaver. Sir Andrew chegou até mesmo a falar de mudar de Steeple e ir morar
em Londres, onde imaginava que estariam mais seguros, mas o tempo estava
péssimo e era impossível andar pelas estradas, e menos ainda ir de barco.
Então ficou decidido que, se fossem se mudar, contra o que havia muitas razões,
e uma das maiores era a abalada saúde de Sir Andrew, além da falta de uma
casa para onde ir, a mudança não ocorreria antes do Ano Novo.
Então a vida continuou, sem nada que a perturbasse. Os amigos do velho
cavaleiro com quem ele discutiu o assunto riram de seus maus presságios.
Diziam que, desde que não andassem por aí sem guardas, havia muito pouco
perigo de serem atacados de novo, e se acontecesse um, com a ajuda dos
homens que tinham eles poderiam defender a casa contra 100 homens até
que reforços fossem convocados. Além disso, no fundo nenhum deles acre-
ditava que Saladino ou seus emissários tentariam alguma coisa antes da
primavera, ou mais provavelmente, em menos de um ano. Mesmo assim,
sempre mantinham guardas à noite, e mais 20 homens dormindo na casa.
74
Cruzada •
H. Rider Haggard
Além disso, estabeleceram que se um foguete fosse disparado do alto da
torre da igreja de Steeple, seus vizinhos viriam em socorro.
E assim foi até o Natal, quando o tempo mudou e ficou mais estável, com
neve freqüente.
Foi no dia mais curto do ano que o Prior John veio até a casa e lhes disse
que estava indo para Southminster comprar vinho para as Festas. Sir Andrew
perguntou que tipo de vinho havia em Southminster. O Prior respondeu que
tinha ouvido falar que um navio, carregado entre outras coisas com vinho de
Chipre, de excelente qualidade, tinha fundeado na foz do Rio Crouch com o
leme quebrado. Acrescentou que, como nenhum reparador de navios pudes-
se ser encontrado em Londres para fazer o conserto antes do Natal, o mas-
cate, um cipriota encarregado do vinho, estava vendendo tudo o que podia
em Southminster e nas casas vizinhas a um preço bem barato, e fazendo a
entrega com uma carroça que tinha alugado.
Sir Andrew comentou que esta parecia uma boa oportunidade de comprar boas
bebidas, que nesta época do ano eram difíceis de chegar a Essex. Ao final, ele
mandou Wulf, que tinha um bom conhecimento sobre bebidas mais fortes, ir com
o Prior até Southminster, e se gostasse do vinho, que comprasse algumas caixas
para as Festas, embora ele próprio, por causa da doença, agora só bebesse água.
Então Wulf foi, sem nenhum sacrifício. Nesta época do ano, quando não
havia pescaria, a vida na casa era muito maçante, e como ele não gostava de ler,
como Godwin, o jeito era passar muitas horas à noite perto do fogo, observan-
do Rosamund cuidar de suas tarefas, mas sem quase falar com ela. Pois, apesar
de toda a aparência de esquecimento, uma espécie de véu tinha se interposto
entre os irmãos e Rosamund, e suas relações não eram mais tão francas e amis-
tosas quanto antes. Ele não podia deixar de lembrar que eles não eram apenas
seus primos — estavam apaixonados —, e era preciso ter cuidado para não
demonstrar preferência por um ou outro. Os irmãos, de seu lado, precisavam
se lembrar de não mostrar seu amor, e que sua prima Rosamund não era mais
uma simples lady inglesa, mas por sangue e criação, uma princesa do Oriente,
que o destino poderia levar para fora do alcance de qualquer dos dois.
Além disso, como já foi dito, o medo alojou-se na cumeeira da casa, como
um corvo, e eles não podiam fugir da sombra de suas asas. Muito longe dali,
no Oriente, um poderoso monarca tinha dirigido seus pensamentos para esta
casa inglesa e para a moça de sangue real que morava lá, e que estava mistu-
rada às suas visões de conquista e triunfo de sua fé. Impulsionado não por
75
Capítulo 5 •
O mercador de vinho
um juramento inútil, por mera fantasia ou por um desejo imperial, mas por
um desejo ou esperança espiritual, ele tinha se determinado a trazê-la de
volta, por meios legais, se pudesse; se não pudesse, por quaisquer meios. Até
agora os meios, tanto os legais quanto os ilegais, tinham falhado, pois que o
ataque em Death Creek tinha a ver com o assunto não havia mais a menor
dúvida. Era certo, também, que outros seriam tentados e novamente tentados,
até que o objetivo fosse conseguido ou que Rosamund morresse — pois mes-
mo que ela quebrasse sua palavra o casamento não seria uma proteção.
Daí a casa estava triste, e mais triste do que tudo era o rosto do velho
cavaleiro, Sir Andrew, oprimido que estava com a doença, as lembranças e
os temores. Portanto, Wulf conseguia encontrar prazer numa missão a Sou-
thminster para comprar vinho, e mais alegre ficaria, na verdade, se pudesse
beber bastante, no mínimo para afogar seus pensamentos por uns tempos.
Assim ele partiu para Steeple Hill com o Prior, rindo como era seu costu-
me antes de ir com Rosamund colher flores em St. Peter’s-on-the-Wall.
Depois de indagarem onde estava o mercador que tinha vinho para vender,
foram dirigidos a uma estalagem perto da igreja. Lá, num quarto dos fundos en-
contraram um homem corpulento, vestido com um gorro vermelho, sentado num
travesseiro colocado sobre dois barris. À frente dele estava um grupo de pessoas,
pequenos nobres e outros, pechinchando com ele o vinho, a seda e os bordados
que ele tinha para vender, oferecendo a todos amostras e copos de vinho.
— Copos limpos — ele falou num francês ruim para o ajudante que esta-
va a seu lado. — Copos limpos, pois aí vem um homem santo e um galante
cavaleiro que querem provar de minha bebida. Não, meu caro, encha, pois
o cume do Monte Trooidos
26
no inverno não é tão gelado quanto este mal-
dito lugar, isto sem falar na umidade, que é a de uma masmorra — e ele
tremeu de frio, apertando mais o caro xale em volta do pescoço.
— Sir Abade, qual o senhor provará primeiro — o vinho tinto ou o bran-
co? O tinto é mais forte, mas o branco é mais caro e um drinque apropriado
para santos no Paraíso e abades na terra. O branco de Kirênia?
27
Ora, o senhor
é sábio. Dizem que era o vinho favorito de minha padroeira Santa Helena
quando visitou Chipre, trazendo com ela a cruz de Disma.
28
— Significa então que você é um cristão? — perguntou o Prior.— Pensei
que fosse um pagão.
— Se não fosse um cristão, visitaria esta terra brumosa para negociar com vinho
— uma bebida proibida para os muçulmanos? — respondeu o homem, afastando
76
Cruzada •
H. Rider Haggard
as dobras do xale e revelando um crucifixo de prata sobre o largo peito. — Sou um
mercador de Famagusta
29
, em Chipre, de nome Giorgios, e da igreja grega, que
vocês, ocidentais, consideram herética. Mas o que achou do vinho, santo Abade?
O Prior estalou os lábios.
— Amigo Giorgios, é mesmo um drinque para os santos — ele respondeu.
— Sim, e foi um drinque para pecadores, antes — pois era a bebida que
Cleópatra, Rainha do Egito, bebia com seu amante romano, Antônio, de
quem o senhor, sendo um homem instruído, já ouviu falar. E o senhor, Senhor
Cavaleiro, o que diz do mais escuro — Mavro
30
, nós o chamamos — não o
comum, mas o que ficou 20 anos no barril?
— Já provei piores — disse Wulf, erguendo a caneca, para ser enchida novamente.
— Sim, e nunca vai beber melhor mesmo se viver tanto quanto o Judeu
Errante. Bem, senhores, posso receber os pedidos? Se forem sábios, farão
pedidos grandes, pois provavelmente esta oportunidade não se repetirá, e este
vinho, tinto ou branco, se conservará por 100 anos.
Então o regateio começou, e foi longo e perspicaz. Na verdade, numa cer-
ta hora quase saíram do lugar sem comprar nada, mas o mercador Giorgios
os chamou de volta, e prontificou-se a aceitar as ofertas se dobrassem os pedi-
dos, de modo a completarem uma carga da carroça, que ele entregaria antes
do Natal. Eles concordaram, finalmente, e partiram para casa, satisfeitos com
os presentes que o mercador ofereceu como fecho do negócio, como é costume
no Oriente. Ao Prior ele deu um rolo de seda trabalhada, para ser usado como
franja para uma guarnição do altar, e para Wulf, um cabo de adaga, ricamen-
te esculpido em madeira de oliveira sob a forma de um leão apoiado nas patas
traseiras. Wulf agradeceu, e depois lhe perguntou, com um pouco de pudor, se
ele tinha mais bordados para vender, ao que o Prior sorriu. O olho rápido do
cipriota viu o sorriso, e indagou se seria alguma coisa para uma moça usar,
momento em que vários dos presentes caíram na gargalhada.
— Não riam de mim, senhores — falou o oriental. — Como posso, um
estranho, saber dos negócios deste jovem, ou se ele tem mãe, ou irmãs, ou
esposa, ou amante? Bem, aqui estão os bordados, apropriados para qualquer
uma delas. Então ordenou que seu servo trouxesse um fardo, que abriu, co-
meçando a mostrar suas mercadorias, que, na verdade, eram muito bonitas.
Ao final, Wulf comprou um véu de seda, fino como uma gaze, com estrelas
douradas, como presente de Natal para Rosamund.
Depois, lembrando-se que neste assunto não podia ter nenhuma vantagem
sobre seu irmão, acrescentou uma túnica bordada com flores douradas e
77
Capítulo 5 •
O mercador de vinho
prateadas, como nunca tinha visto — pois eram tulipas e anêmonas orientais,
que Godwin daria a Rosamund se quisesse.
Estas sedas eram caras, e Wulf pediu dinheiro emprestado ao Prior, mas este não
tinha mais nenhum. Giorgios disse que isto não tinha importância, pois contrataria
um guia na cidade e levaria pessoalmente o vinho, quando receberia o pagamento
pelas sedas, que ele tencionava vender também para as senhoras da casa.
Ele ofereceu-se ainda a ir com o Prior e com Wulf até o lugar onde seu navio
estava ancorado no rio, para mostrar-lhes outras mercadorias que estavam a
bordo do barco, que era propriedade de uma companhia de comerciantes ciprio-
tas que tinham embarcado nesta aventura junto com ele. Mas eles recusaram o
convite, pois a noite já estava próxima. Wulf disse que depois do Natal iria com
seu irmão ver o navio que tinha feito uma viagem tão longa. Giorgios respondeu
que seriam muito bem-vindos, mas que, se pudesse, aceleraria o conserto do
leme, pois estava ansioso de partir para Londres enquanto o tempo estivesse mais
estável, pois lá pretendia vender a maior parte de sua carga. Acrescentou que
esperava passar o Natal lá, mas que, com o dano no leme, provocado pelo mau
tempo, eles passaram da foz do Tâmisa, e se não tivessem sido levados pela
correnteza até a foz do Rio Crouch, teriam provavelmente naufragado. Então se
despediu, não sem antes pedir e receber a bênção do Prior.
Os dois partiram, satisfeitos com as compras, e com o cipriota Giorgios,
que acharam um comerciante muito agradável. O Prior John parou para
comer na casa aquela noite, e ele e Wulf aproveitaram para contar todas as
negociações com aquele homem. Sir Andrew riu das histórias, mostrando-lhes
como tinham sido persuadidos pelo oriental a comprar muito mais vinho do
que precisavam, de modo que foi ele, e não eles, quem fez melhor negócio.
Depois passou a contar histórias da rica ilha de Chipre, onde tinha estado
muitos anos antes, por uns tempos, e da magnífica corte de seu imperador, e
de seus habitantes. Estes, ele disse, eram os mais ladinos comerciantes do
mundo — tão ladinos que nenhum judeu os superava. E também corajosos
marinheiros, coragem herdada dos fenícios da Bíblia, que junto dos gregos,
eram seus ancestrais, acrescentando que o que tinham contado de Giorgios
estava muito de acordo com as características deste povo.
Como isso, nenhuma suspeita a respeito de Giorgios ou de seu navio pe-
netrou na mente de nenhum deles, o que surpreende que não tenha ocorrido,
diante do fato de que tudo se ajustava, e como evidentes eram as razões para
a sua presença e os propósitos de sua venda de vinho e de sedas.
78
Cruzada •
H. Rider Haggard
quarto dia após a visita de Wulf a Southminster foi a manhã de
Natal, e como o tempo estava ainda pior, Sir Andrew e seus
familiares não foram para Stangate, preferindo assistir à missa
na igreja de Steeple. Lá, depois da missa, de acordo com seu costume para
esse dia, fez donativos a seus arrendatários e servos, e com eles deu seus
votos de Boas Festas e uma advertência para não ficarem bêbados nesta épo-
ca, como era hábito.
— Não teremos esta chance — comentou Wulf enquanto iam de volta à
casa —, pois Giorgios, o mercador, ainda não entregou o vinho, que espero
beber à noite.
— Talvez ele tenha vendido mais caro para outra pessoa; pode-se esperar
isso de um cipriota — respondeu Sir Andrew, rindo.
Depois entraram em casa e, como tinha sido combinado entre os irmãos,
deram seus presentes a Rosamund. Ela agradeceu com entusiasmo, admiran-
do a beleza do trabalho. Quando lhe contaram que ainda não haviam pago,
ela riu e disse que, como já os tinha recebido, iria usar tanto a túnica quanto
o véu na festa da noite.
Perto das 2 horas da tarde um serviçal entrou na sala e informou que uma
carroça, puxada por três cavalos, estava descendo a estrada que vinha de Steeple.
— Nosso mercador, e bem na hora — falou Wulf, que, seguido por outras
pessoas, saiu para encontrar a carroça.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 6
A festa de Natal em Steeple
O
A
79
Capítulo 6 •
A festa de Natal em Steeple
Era mesmo Giorgios, envolvido num grande capote de pele de carneiro,
como os cipriotas usam no inverno, assentado na tampa de um dos barris.
— Com licença, cavaleiros — falou descendo meio desajeitadamente para
o chão. — As estradas neste país são tão ruins que, embora tenha deixado
quase metade de minhas cargas em Stangate, levei bem quatro horas para vir
do Convento até aqui, a maior parte do tempo preso em poças de lama, o
que cansou os cavalos e, temo, entortou as rodas desta carroça. De qualquer
forma estamos aqui, nobre senhor —, ele acrescentou, fazendo uma mesura
para Sir Andrew — e aqui está o vinho que seu filho me comprou.
— Meu sobrinho — interrompeu Sir Andrew.
— Desculpe-me, mais uma vez. Achei, pela semelhança com o senhor, que
estes cavaleiros eram seus filhos.
— Ele comprou tudo isto? — perguntou Sir Andrew, pois havia cinco
tonéis na carroça, além de dois barris menores, e algumas caixas embrulhadas
em pele de carneiro.
— Não, quem dera — respondeu o cipriota pesaroso, e encolhendo os
ombros. — Só dois do Mavro. O resto levei até o Convento, pois entendi o
santo Prior dizer que compraria seis tonéis, mas eram só três que ele queria.
— Ele disse três — confirmou Wulf.
— Foi, senhor? Então o erro foi inteiramente meu, que falo a sua língua
mas muito mal. Então vou ter de levar o resto de volta, e por estas maldi-
tas estradas — e fez mais uma careta. — Mas vou pedir-lhe, senhor — ele
acrescentou, para Sir Andrew — que alivie um pouco o peso aceitando este
pequeno barril de vinho dos excelentes vinhedos que crescem nas colinas
de Trooidos.
— Lembro-me muito bem dele — falou Sir Andrew, com um sorriso. —
Mas, amigo, não posso aceitar seu vinho de graça.
— O quê, nobre senhor! — ele exclamou. — O senhor conhece Chipre,
minha terra? Oh, beijo suas mãos, e certamente não vai afrontar-me recusan-
do este pequeno presente, não é mesmo? Para ser franco, posso dar-lhe de
graça, pois fiz bons negócios aqui em Essex.
— Aceito, então — falou Sir Andrew. — Agradeço, mas talvez o senhor
tenha outras coisas para vender.
— Tenho, sim; uns poucos bordados, se esta graciosa lady quiser dar uma
olhada. Alguns tapetes, também, como aqueles em que os muçulmanos costumam
orar em nome do seu falso profeta, Maomé — e virando-se cuspiu no chão.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
80
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Vejo que o senhor é cristão — falou Sir Andrew. — Embora tenha lu-
tado contra eles, encontrei muitos bons muçulmanos. Também não acho
necessário cuspir no nome de Maomé, que, no meu juízo, foi um grande
homem enganado por Satã.
— Nem eu — disse Godwin, pensativo. — Os verdadeiros seguidores devem
lutar contra os inimigos da Cruz e orar pelas suas almas, não cuspir neles.
O mercador olhou-os interrogativamente, passando os dedos sobre o
crucifixo de prata pendente de seu peito.
— Os conquistadores da Cidade Sagrada pensavam de outra forma — dis-
se, — quando entraram na mesquita de El Aksa
31
com o sangue cobrindo as
patas de seus cavalos, e fui ensinado de outra forma. Mas os tempos estão mais
liberais e, afinal de contas, que direito tem um pobre comerciante cuja mente,
infelizmente, está mais voltada para o lucro do que para os sofrimentos do
Filho de Maria — e fez o nome da cruz — de formar uma opinião sobre assun-
tos tão relevantes? Desculpem, aceito sua censura, talvez eu seja intolerante.
Contudo, se soubessem, esta “censura” teria salvado a vida de muitos
homens aquela noite.
— Posso ter uma ajuda com estas caixas? — ele continuou — pois não
posso abri-las aqui, e com os tonéis? Não, o pequeno barril eu mesmo levo,
pois quero que provem dele em sua festa de Natal. Deve ser manejado com
cuidado, mas temo que estas suas estradas não melhoraram sua qualidade.
Então, girando o barril até a beira da carroça, colocou-o no ombro, de for-
ma a mantê-lo sempre de pé, e caminhou sem sentir o peso até a porta
aberta da sala.
— Para alguém que não é alto este homem é muito forte — pensou Wulf,
que seguia com um fardo de tapetes.
Depois as outras caixas de vinho foram colocadas no porão de pedras
debaixo da sala.
Deixando seu auxiliar — um homem silencioso, de olhos escuros e com
ar apalermado, chamado Petros — alimentando os cavalos, Giorgios entrou
na sala e começou a desembrulhar os tapetes e os bordados com toda a pe-
rícia de alguém que tivesse sido treinado nos bazares do Cairo, de Damasco
ou de Nicósia
32
. E eram coisas muito bonitas o que ele tinha para mostrar;
bordados que fascinavam os olhos, tapetes de vários matizes, e macios e
brilhantes como a pele de uma lontra. Quando olhou para eles, lembrando-se
de um passado distante, o rosto de Sir Andrew enterneceu-se.
81
Capítulo 6 •
A festa de Natal em Steeple
— Vou comprar aquele tapete — ele falou —, pois bem pode ser um no
qual me deitei doente muitos anos antes, na casa de Ayoub, em Damasco.
Não, não vou pechinchar o preço. Vou comprar. Então lhe veio à memória
que, enquanto deitado num tapete igual (e, embora ele não soubesse, era o
mesmo), e olhando através dos buracos da treliça de sua janela, ele tinha pela
primeira vez visto sua esposa oriental andando pelo pomar de laranjas com
o pai, Ayoub. Mais tarde, ainda rememorando sua juventude, começou a
falar de Chipre, e o tempo passou, até que a noite caiu.
Então Giorgios disse que precisava ir, pois tinha mandado o guia de volta
a Southminster, onde o homem queria comer a ceia de Natal. Depois que a
conta foi paga — e era uma conta enorme —, e enquanto os cavalos eram
selados e atrelados à carroça, o mercador fez buracos no pequeno barril de
vinho e colocou batoques, dizendo que não se esquecessem de beber dele
naquela noite. E depois de agradecer pela hospitalidade e generosidade, des-
pediu-se à maneira oriental, e partiu, acompanhado por Wulf.
Cinco minutos depois se ouviu um grito, e Wulf estava de volta dizendo
que uma roda da carroça tinha quebrado na primeira volta, de modo que ela
agora estava adernada no pátio. Sir Andrew e Godwin saíram para ver o que
tinha acontecido, encontrando Giorgios torcendo as mãos, como só um
oriental sabe fazer, e praguejando numa língua estrangeira.
— Nobres cavaleiros, o que vou fazer? Já é quase noite, e como vou achar
o caminho para aquela colina que não conheço? E os preciosos bordados?
Precisam ficar aqui esta noite, pois aquela roda só vai poder ser consertada
amanhã...
— Há coisa melhor a fazer — disse Sir Andrew, gentilmente. — Vamos,
homem, não se aflija. Estamos acostumados a eixos quebrados aqui em Essex,
e o senhor e seu servo podem tanto comer a ceia de Natal em Steeple ou em
Southminster.
— Muito obrigado, Senhor, muito obrigado. Mas por que haveria eu, um
simples mercador, privar de sua nobre companhia? Deixe-me ficar lá fora,
com meu ajudante, Petros, e cear com seu pessoal no estábulo, onde vejo que
já estão preparando a comida.
— De forma alguma — respondeu Sir Andrew. — Deixe seu ajudante com
o meu pessoal, que vai cuidar dele, e venha para a sala, e conte-me mais sobre
Chipre até que nossa comida esteja pronta, o que não vai demorar. Não tema
por sua mercadoria. Vai ficar em lugar seguro.
82
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Não sou digno de seu oferecimento, mas obedeço — falou Giorgios
com subserviência. — Petros, entendeu? Este nobre cavaleiro nos oferece sua
hospitalidade por esta noite. Seu pessoal vai te mostrar onde comer e dormir,
e vai te ajudar com os cavalos.
Este homem, que, explicou, era um cipriota — pescador durante o verão
e almocreve durante o inverno — inclinou a cabeça e, fixando os olhos negros
no patrão, falou numa língua estrangeira.
— Ouviu o que ele falou, este tolo — perguntou Giorgios. — O quê? Não
compreende o grego, só o árabe? Bem, ele pede um dinheiro para pagar pelo
jantar e pelo pouso. O senhor deve perdoá-lo, pois é um simples camponês,
e não acredita que alguém pode ter pouso e comida sem pagamento. Vou
explicar a ele, o idiota! — E explicou, falando alto e com tom agudo, que
ninguém podia entender.
— Pronto, Senhor, acho que ele não vai ofendê-lo outra vez. Veja! Ele está
se afastando, está de mau humor. Bem, que fique sozinho, ele vai voltar para
o jantar, se vai! Ah, a umidade e o vento! Um cipriota não se preocupa com
isto, com sua capa de pele. Com ela dorme até na neve.
Então, com Giorgios ainda falando das deficiências de seu ajudante, entra-
ram na sala. Lá a conversa logo tomou outros rumos, como as diferenças entre
as igrejas latina e grega — assunto no qual ele parecia ser muito versado — e
o temor dos Cristãos em Chipre de que Saladino tentasse conquistar a ilha.
Finalmente as cinco horas chegaram, e Giorgios, depois de ser conduzido
à pia — um cocho de pedra — para lavar as mãos, foi levado para jantar,
numa mesa sobre uma plataforma em frente à entrada da sala de visitas. A
mesa estava posta para seis — Sir Andrew, seus sobrinhos, Rosamund, o
capelão, Matthew, que celebrava missas na igreja e comia na casa em dias de
festa, e o comerciante cipriota, Giorgios. Abaixo da plataforma, e entre ela
e o fogo, havia outra mesa, na qual estavam 12 convidados, os principais
arrendatários de Sir Andrew, e os capatazes de suas propriedades. Em muitos
dias os serviçais da casa, junto dos caçadores e dos tratadores de porcos, e
outros, sentavam-se numa terceira mesa perto do fogo. Mas como nada po-
dia impedir que ficassem bêbados com a bebida servida na festa, e embora
muitas senhoras não mostrassem contrariedade com isto, e como Rosamund
não gostava deste procedimento, o dono da casa determinou que voltassem
a comer e a beber no estábulo, que ficava no pátio, de costas para o fosso.
Depois que todos tinham tomado seus lugares, o capelão deu graças e o
jantar começou. A refeição foi simples, mas muito farta. Primeiro, trazido
83
Capítulo 6 •
A festa de Natal em Steeple
pelo cozinheiro numa travessa de madeira, veio um grande bacalhau, do qual
ele serviu porções para cada um, colocando-as sobre grandes fatias de pão,
de onde todos comiam com colheres, entregues a cada um. Depois do peixe
vieram as carnes, de vários tipos, servidas em espetos de prata. Elas incluíam
galinha, perdizes, pato e, como atração principal, um cisne, que foi saudado
pelos arrendatários com batidas na mesa de suas canecas de chifre. Depois
vieram as tortas, acompanhadas de castanhas e de maçãs. Como bebida para
a mesa de baixo foi servida uma bebida fermentada. Na mesa sobre a plata-
forma, contudo, bebeu-se um pouco do vinho que Wulf tinha comprado — isto
é, exceto Sir Andrew e Rosamund, o primeiro porque sua saúde não permitia,
a segunda porque ela sempre detestara qualquer bebida, a não ser água,
gosto que lhe tinha sido transmitido, sem dúvida, pelo sangue oriental.
O ambiente ficou alegre, pois seu convidado provou ser agradável, con-
tando muitas histórias de amor e de guerra, pois parecia que tinha tido
muitos amores e participado de diversas guerras. Até Sir Andrew, esquecendo-
se de seus males e de seus pressentimentos, riu muito com as histórias. Mas
Rosamund, parecendo mais bonita do que nunca, com o véu de estrelas dou-
radas, e a túnica bordada que os irmãos lhe tinham presenteado, sorria um
pouco distante. Finalmente a festa ia chegando ao fim, quando Giorgios,
como se atingido por uma lembrança súbita, exclamou:
— O vinho! O líquido âmbar de Trooidos! Tinha me esquecido. Nobre
cavaleiro, tenho sua permissão para servi-lo?
— Sim, meu caro mercador — respondeu Sir Andrew. — Certamente o
senhor pode servir do seu próprio vinho.
Então Giorgios levantou-se, e pegou um grande jarro e uma caneca de
prata do guarda-louça onde estas vasilhas estavam guardadas. Com elas foi
até o pequeno barril que, como se lembrará, tinha permanecido sobre os
cavaletes. Virando o barril, enquanto retirava os batoques, encheu a jarra e
a caneca até a borda. Então chamou um dos capatazes sentado à mesa de
baixo e pediu-lhe que trouxesse um odre que estava em cima da mesa. Depois
de enxaguá-lo com o vinho, encheu-o também, entregando-o ao capataz di-
zendo-lhe que bebesse à saúde do patrão. A caneca de prata ele trouxe de
volta à mesa, e com ela encheu ele próprio todas as canecas dos presentes,
exceto a de Rosamund, que recusou, a despeito de sua insistência e de seu
desconsolo com a recusa. Para evitar dor maior ao homem foi que Sir Andrew,
sempre cortês, bebeu um pouco, mas logo aproveitou que o cipriota virou as
84
Cruzada •
H. Rider Haggard
costas e encheu novamente a caneca com água. Finalmente, quando todas as
canecas estavam cheias, Giorgios, bebeu, ou fingiu beber, da sua, e levantan-
do-a, falou:
— Bebamos, todos nós aqui, ao nobre cavaleiro Sir Andrew D’Arcy, a quem
desejo, como meu povo diz, que possa viver para sempre. Bebam, amigos, bebam,
pois nunca mais um vinho como este passará por seus lábios novamente.
E então, erguendo a caneca de boca larga, aparentemente esvaziou-a, em gran-
des goles, exemplo que foi seguido, até por Sir Andrew, que bebeu um pouco da
caneca com três quartos de água. Em seguida houve um murmúrio de satisfação.
— Vinho! É um néctar! — falou Wulf.
— É — acrescentou o capelão, Matthew. — Adão deve ter bebido deste
vinho no Paraíso. Da mesa mais baixa vieram gritos de elogios ao vinho,
equilibrado e denso.
Certamente o vinho era denso e forte. Pois, logo depois de tomar o gole,
um véu pareceu descer sobre a mente de Sir Andrew e cobri-la. Com esforço
ele o afastou, e seu cérebro ficou cheio de lembranças e presságios. Circuns-
tâncias que tinha esquecido havia muitos anos vieram novamente em sua
memória. Elas sumiram, e de repente ele ficou com medo. Mas o que havia
para temer esta noite? As pontes sobre o fosso estavam trancadas e guardadas.
Homens de confiança, dezenas deles, comiam nos edifícios anexos, no interior
do pátio; outros, de maior confiança, estavam na sala; e à sua direita e à sua
esquerda estavam dois cavaleiros, fortes e valentes, Sir Godwin e Sir Wulf.
Portanto, não havia nada a temer — mesmo assim ele sentia medo. De re-
pente ouviu uma voz falar, era Rosamund, e ela dizia:
— Por que está tudo tão silencioso, papai? Instantes atrás ouvi os serviçais
e os escravos fazendo algazarra no estábulo; agora há um silêncio de tumba.
E, oh, veja, todos aqui estão bêbados? Godwin...
Enquanto ela falava a cabeça de Godwin inclinou-se à frente e caiu sobre
a mesa. Wulf ergueu-se, desembainhou sua espada pela metade, envolveu o
pescoço do capelão com o braço, e caíram os dois no chão. O que aconteceu
com ele aconteceu com todos os outros, que se balançavam para a frente e
para trás, e caíam no sono, todos eles, exceto Giorgios, que se levantou para
fazer um novo brinde.
— Estranho — falou Sir Andrew —, o seu vinho é muito forte.
— Parece que sim, senhor — ele respondeu —, mas vou despertá-los da
bebedeira. E saltando da plataforma, esperto como um gato, correu pela sala
85
Capítulo 6 •
A festa de Natal em Steeple
gritando — É de ar que precisamos. Ar. Chegando à porta, abriu-a de par em
par, e tirando um assovio de prata do manto, deu um assovio alto e longo.
— Como? — ele riu. — Ainda dormem? Ora, então vou fazer um brinde que
vai acordá-los. Agarrando uma caneca feita de chifre, ergueu-a e gritou:
— Acordem, seus bêbados, e bebam à saúde de Rosa do Mundo, prince-
sa de Baalbec, sobrinha de meu amo e senhor, Yusuf Saladino, que me incum-
biu de levá-la até ele.
— Oh, meu pai — gritou agudamente Rosamund, — o vinho estava dro-
gado, fomos enganados.
Enquanto as palavras saíam de seus lábios, ouviu-se um ruído de passos
a correr, e pela porta da extremidade da sala entraram dezenas de homens
armados. Finalmente Sir Andrew viu e entendeu.
Com um rugido de raiva como o de um leão ferido ele agarrou a filha e a
arrastou para trás pela passagem que ia à sala, onde um fogo crepitava e
candeias já tinham sido acesas para quando fossem dormir, praticamente
pulando para dentro e fechando a porta atrás de si.
— Rápido — ele falou, rasgando a túnica, — não há escapatória, mas pelo
menos posso morrer te defendendo. Dê-me a cota.
Ele puxou a cota que estava pendurada na parede, e também seu elmo de
aço, e sua longa espada e escudo, ao mesmo tempo em que os homens de
Giorgios corriam para a porta trancada.
— Agora, ajude-me — ele falou. E empurraram a mesa de carvalho à
frente, e a colocaram encostada na porta, e as cadeiras e tamboretes de cada
lado dela — poderiam fazer com que homens tropeçassem e caíssem.
— Temos um arco, e você pode usá-lo como te ensinei. Fique num lado, e
fora do alcance das espadas e dispare por trás de mim; pode atingir um deles.
Se Godwin e Wulf estivessem aqui, ensinaríamos a estes pagãos uma lição.
Rosamund não fez comentários, mas veio à sua mente a visão da agonia
de Godwin e Wulf se pudessem voltar a si e vissem o que tinha acontecido a
ela e a eles. Rosamund olhou em volta. Contra a parede havia uma pequena
escrivaninha, na qual Godwin costumava escrever, e em cima dela havia
pergaminho e uma pena. Ela os pegou, e no momento em que a porta come-
çava a ceder, escreveu:
— Siga-me até Saladino. Desta esperança vou viver. Rosamund.
Então, quando a pesada porta finalmente cedeu, Rosamund virou o per-
gaminho de costas e, agarrando o arco, colocou uma flecha. A porta foi ao
86
Cruzada •
H. Rider Haggard
chão, e por sobre ela começaram a passar os atacantes, que vinham pela es-
treita passagem de dois metros de largura. Ao final da porta, sobre a mesa
virada, os atacantes pararam. À frente deles, escudo ornado com uma cavei-
ra em posição, a longa espada estendida, olhos faiscantes, estava o velho
cavaleiro, como um lobo à espreita, e ao seu lado, arco na mão, e bela lady
Rosamund, vestida em roupa de festa.
— Rendam-se — gritou uma voz. Como resposta, a corda do arco vibrou,
e uma flecha partiu até a garganta do atacante que ordenara, e ele caiu, agar-
rando a flecha, e calou-se para sempre.
Quando ele caiu, com o ruído no chão Sir Andrew gritou:
— Não nos rendemos para pagãos nem para envenenadores. Somos um
D’Arcy! Um D’Arcy! Enfrente um D’Arcy, encontre a Morte!
Assim, pela última vez Sir Andrew deu o grito de guerra de sua família,
que ele temia nunca mais passar por seus lábios. Sua prece tinha sido ouvida,
e ele ia morrer como tinha desejado.
— Acabem com ele! Peguem a princesa! — falou uma voz. Era a voz de
Giorgios, não mais humilde e subserviente como o mercador de vinho, mas
falando em tom de comando e em árabe. Por um momento o grupo moreno
de atacantes recuou, como deveria ao ver a espada brilhante. Então, com um
grito de “Saladino”, atacaram de novo, com lanças e cimitarras. A mesa revi-
rada estava na frente deles, e um pulou por sobre uma ponta, mas neste mo-
mento o velho cavaleiro, esquecido de sua idade e de sua doença, avançou à
frente, e vibrou a espada num golpe tão forte que, na escura passagem, a es-
pada produziu faíscas ao encontrar a parede, e onde havia a cabeça de um
sarraceno agora estavam seus calcanhares. Sir Andrew recuou novamente, para
abrir espaço para novo ataque, e dois homens deram a volta pela mesa. Num
deles Rosamund atirou uma flecha, que atingiu sua coxa. Ao cair, ele atacou
com a cimitarra, e cortou uma extremidade do arco, de modo a torná-lo inútil.
O segundo homem esbarrou o pé numa travessa da cadeira de madeira, que
ele não tinha visto, e caiu de borco. Sir Andrew, sem se importar com ele,
avançou gritando contra os outros homens que seguiam a este, e aparando seus
golpes com o escudo, derrubou alguns com tanta fúria que, mesmo sendo mais
numerosos, eles pararam, e depois recuaram pela passagem.
— Cuidado com a direita, pai! — gritou Rosamund. Ele virou-se para ver
o sarraceno que tinha caído, outra vez de pé, e avançou, e o homem não
esperou, preparando-se para fugir, mas o suficiente para encontrar a morte,
87
Capítulo 6 •
A festa de Natal em Steeple
pois a longa espada o atingiu entre o pescoço e os ombros. — Estamos dan-
do vantagem para este velho leão, e perdendo homens. Afastem-se de suas
garras e o dominem com chuchadas de lança.
Mas Rosamund, que entendia sua língua, pulou à sua frente e respondeu,
em árabe:
— Sobre meu cadáver. E vá, conte a Saladino o ocorrido.
Então, clara e calma ouviu-se a voz de Giorgios: — Aquele que tocar num
cabelo da princesa morre. Peguem os dois vivos, se possível, mas não encos-
tem nela. Parem, vamos conversar.
Eles pararam os ataques e começaram a deliberar.
Rosamund tocou o pai e apontou para o homem caído no chão com uma
flecha na coxa. Ele estava tentando se colocar de joelhos, erguendo a pesada
cimitarra. Sir Andrew levantou a espada, como um agricultor levanta um
pedaço de pau para matar um rato, baixou-a de novo, e falou:
— Não luto com um homem ferido. Baixe esta arma e volte para os seus.
O homem obedeceu, e até tocou o chão com a testa na saudação árabe
enquanto engatinhava para trás, pois sabia que recebera de volta a vida, e
que o gesto era nobre, e que ele tinha planejado um ataque covarde. Então
Giorgios deu um passo à frente, agora não mais o Giorgios que tinha vendi-
do vinho envenenado e bordados orientais, mas um sarraceno orgulhoso, de
cabeça erguida, vestido com a armadura que escondera por baixo da túnica,
e no lugar do crucifixo uma jóia com a forma de uma estrela, o emblema de
sua tribo e posição.
— Sir Andrew — ele falou —, ouça-me atentamente, eu lhe rogo. Nobre
foi aquele gesto, — e apontou para o homem ferido sendo arrastado por seus
companheiros, — e nobre tem sido sua defesa, muito digna de sua linhagem
e de sua posição como cavaleiro. É um relato que meu amo — e ele curvou-
se ao dizer a palavra — gostará muito de ouvir, se Alá permitir que voltemos
em segurança. O senhor também há de pensar que agi como um patife, en-
ganando-o, e colocando fora de combate aqueles valentes cavaleiros, Sir
Godwin e Sir Wulf, não com golpes de espada, mas com vinho envenenado,
e tratado todos os seus serviçais da mesma maneira, já que nenhum deles vai
recuperar-se antes do amanhecer. E é verdade — foi um truque vil, do qual
me lembrarei com vergonha pelo resto de minha vida, e que talvez venha a
cair sobre minha cabeça, em sangue e vingança. Mas pondere um pouco
sobre a nossa situação. Somos uma pequena companhia de homens em seu
88
Cruzada •
H. Rider Haggard
poderoso país, escondidos numa toca de leão que, se tivesse nos visto, nos
despedaçaria sem misericórdia. Isto, contudo, é muito pouca coisa para o que
é nossa vida, da qual sua espada cobrou uma décima parte, e não apenas a
sua, mas a dos dois irmãos lá no cais, perto da água?
— Pensei nisto — atalhou Sir Andrew com desdém. — Foi mesmo um ato
digno de você — vinte ou mais homens contra dois.
Giorgios levantou a mão.
— Não nos julgue tão duramente — ele disse, falando devagar, com a
clara intenção de ganhar tempo. — O senhor leu a mensagem de nosso so-
berano. Veja, minhas ordens eram: capturar lady Rosa do Mundo da melhor
forma que pudesse, e se possível sem derramamento de sangue. Então eu
estava fazendo o reconhecimento do país com uma tropa de marinheiros do
meu navio, e que são inexperientes guerreiros, e uns poucos dos meus homens,
quando meus espiões me informaram que ela havia saído cavalgando guar-
dada apenas por dois homens, e confesso que assim achei que ela já estaria
em minhas mãos. Mas os cavaleiros me frustraram, com sua estratégia e
força, e o senhor conhece o resto da história. Então, depois meu mensageiro
apresentou-lhe a mensagem, o que, na verdade, deveria ter sido feito em
primeiro lugar. A mensagem também falhou, pois nem o senhor, nem a Prin-
cesa — e ele curvou-se para Rosamund — poderiam ser comprados. Mais, a
região inteira ficou alerta; o senhor era cercado por homens armados, os
cavaleiros ficavam alerta e o protegiam, e o senhor já estava quase indo para
Londres, onde teria sido muito mais difícil montar uma armadilha. Portanto,
fui forçado — eu que sou um príncipe e um emir e, o senhor não se lembra,
mas lutamos um contra o outro em nossa juventude, sim, em Harenc — a
tornar-me um mercador de vinho drogado.
— Agora ouça: renda-se, Sir Andrew. O senhor que fez o suficiente para
que seu nome seja um tributo para gerações, e aceite o amor de Saladino, cuja
palavra o senhor tem, palavra que o senhor sabe muito bem que não é quebra-
da, e que eu, emir El-Hassan — que recebi esta incumbência, rogo-lhe mais
uma vez: renda-se, e salve sua vida, e continue a viver com honra, dentro da
sua fé, até que Azrael
33
o remova dos campos felizes de Baalbec para as águas
do Paraíso — se é que existe um, para os infiéis, mesmo os valentes e nobres.
— Pois esta incumbência precisa ser realizada. Se voltarmos sem a prin-
cesa Rosa do Mundo deveremos morrer, todos nós, e se lhe provocarmos
insultos ou ferimentos, de uma forma ainda mais horrível do que sou capaz
89
Capítulo 6 •
A festa de Natal em Steeple
de contar. Esta não é uma brincadeira de um grande rei que se propõe a
roubar uma mulher, mesmo que ela seja do seu sangue real. A voz de Deus
falou com Saladino através da boca de seu anjo do sono. Três vezes Alá falou
nos sonhos, afirmando-lhe, a ele que é misericordioso, que só através de sua
filha e de sua nobreza milhares de vidas podem ser salvas. Portanto, mais
cedo do que ela conseguiria escapar, ele perderia até a metade de seu império.
Seja mais esperto do que nós, vença-nos, capture-nos, torture-nos e nos des-
trua, e outros mensageiros virão cumprir este desígnio. Na verdade já estão
a caminho. Além disso, é inútil derramar mais sangue, já que está escrito que
esta lady, Rosa do Mundo, deve retornar ao Oriente, onde foi gerada, e lá
consumar seu destino de salvar vidas.
— Então, emir El-Hassan, eu devo voltar em espírito — falou Rosamund
com orgulho.
— Não, Princesa — ele respondeu, curvando-se —, pois somente Alá tem
poderes sobre sua vida, e já foi decretado de outra forma. Sir Andrew, o
tempo está ficando curto, e devo completar minha missão. O senhor aceita a
paz de Saladino ou forçará seus seguidores a tirarem sua vida?
O velho cavaleiro ouviu, descansando apoiado em sua espada ensangüen-
tada, e depois levantou a cabeça e falou:
— Já estou velho, e perto de morrer, mercador de vinho Giorgios ou prín-
cipe El-Hassan, o que quer que seja. Em minha juventude jurei não fazer
pactos com os pagãos, e em minha velhice não vou quebrar este juramento.
Enquanto puder empunhar uma espada, defenderei minha filha, até mesmo
contra o poder de Saladino. Volte a seu trabalho covarde, e deixe as coisas
acontecerem conforme a vontade de Deus.
— Então, Princesa — respondeu El-Hassan —, seja testemunha perante
o Ocidente que sou inocente do sangue de seu pai. Que ele recaia sobre a
cabeça dele, e sobre a sua. E pela segunda vez ele fez soar o assovio que pen-
dia de seu peito.
90
Cruzada •
H. Rider Haggard
uando os ecos do assovio de Hassan se extinguiram, houve uma
pancada nas venezianas de madeira de uma janela atrás deles,
e pulou para a sala uma figura comprida, com uma machadinha
na mão. Antes que Sir Andrew pudesse se virar para ver de onde tinha vindo
o barulho, a machadinha o atingiu com força entre os ombros, e embora a
cota tenha permanecido inteira, o golpe fraturou sua espinha dorsal. Sir
Andrew caiu rolou sobre as costas, e no chão ficou, ainda capaz de falar, sem
dor, mas indefeso. Pois ficara paralítico, e nunca mais poderia mover a mão,
um pé ou a cabeça.
No silêncio que se seguiu ele falou, com uma voz vagarosa, os olhos pou-
sados no homem que o tinha atacado.
— Um golpe de um cavaleiro; digno de um cristão por nascença que ma-
ta pago por um pagão! Traidor de Deus e dos homens, que comeu do meu
pão, e agora me abate como a um boi, que o seu fim ainda seja pior, e nas
mãos daqueles a quem serve.
O peregrino Nicholas, pois era ele, embora não estivesse mais usando o
manto de peregrino, saiu andando de leve e resmungando, e perdeu-se entre
o grupo na passagem. Então, com um grito repentino e agudo, Rosamund
lançou-se à frente, como um pássaro, e agarrou a espada que seu pai nunca
mais ergueria, e firmando o punho no chão, inclinou-se. Mas a ponta da
espada nunca tocou seu peito, pois o emir pulou e afastou a lâmina. E quan-
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 7
O estandarte de Saladino
Q
A
91
Capítulo 7 •
O estandarte de Saladino
do Rosamund caiu, pegou-a em seus braços. — Lady — ele falou, soltando-
a gentilmente —, Alá ainda não a chamou. Já lhe disse que o destino ainda
não está decretado. Agora me dê sua palavra — pois, tendo sangue de Sala-
dino e D’Arcy a senhora também não pode mentir — que nunca mais tenta-
rá ferir-se. Se não, terei que amarrá-la, o que não quero, e seria um sacrilégio
que, rogo-lhe, não me force a fazer.
— Prometa, — falou a voz surda de seu pai — e vá cumprir o seu des-
tino. Suicídio é crime, e o homem está certo; é assim que tem de ser. Mando
que prometa.
— Obedeço e prometo — falou Rosamund. Estou ao seu dispor, senhor
Hassan.
Ele fez uma grande mesura e respondeu:
— Estou plenamente satisfeito, e portanto somos seus servos. Princesa, o ar está
frio, e a senhora não pode viajar assim. Em que aposento estão suas roupas?
Ela mostrou com o dedo. Um homem pegou uma vela e, acompanhado
de outros dois, entrou no palácio, para voltar logo com os braços cheios de
todo tipo de roupa que puderam encontrar. Trouxeram até o missal e o cru-
cifixo de prata que estava dependurado acima da cama, junto de sua caixa
de couro com jóias do dia-a-dia.
— Separe o manto mais quente e enrole o resto nos tapetes — falou Hassan.
De modo que os tapetes que Sir Andrew tinha comprado naquele mesmo
dia do mercador Giorgios foram usados como sacolas de viagem para levar
os pertences de sua filha. Mesmo nesta hora de pressa e perigo seu conforto
era uma preocupação.
— Princesa — falou Hassan —, meu amo, seu tio, mandou-lhe certas jóias
de não pouco valor. É seu desejo que elas a acompanhem?
Sem levantar os olhos do rosto de seu pai moribundo, Rosamund respon-
deu tristemente:
— Deixe-as ficar onde estiverem. O que vou fazer com jóias?
— Seu desejo é minha lei — ele falou. — Outras lhe serão presenteadas.
Princesa, está tudo pronto, quando quiser.
— Quando eu quiser? Oh, meu Deus, quando eu quiser? — exclamou
Rosamund, com a mesma voz triste, olhos fixos em seu pai, estendido no
chão à sua frente.
— Não pude evitar — falou Hassan, respondendo à pergunta que estava
estampada nos olhos dela, e falou com pesar. — Ele não vai viver, foi o des-
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
92
Cruzada •
H. Rider Haggard
tino. Mas gostaria que aquele amaldiçoado franco não o tivesse atingido tão
mortalmente. Se a senhora quiser o levaremos conosco, mas, senhora, é in-
sensato esconder a verdade; ele está no fim. Estudei medicina e eu sei.
— Não — falou Sir Andrew, — deixem-me aqui. Filha, você precisa ir por
uns tempos. Roubei a filha de Ayoub, agora o filho de Ayoub rouba minha filha.
Apegue-se à fé, minha filha, e tenha certeza de que ainda nos encontraremos.
— Até a morte —, ela respondeu.
— Não se desespere — falou Hassan. — Saladino não prometeu que,
exceto por sua própria vontade, ou pela de Alá, a senhora, uma adoradora
da Cruz, viverá ou morrerá? Senhora, pelo seu bem, como pelo nosso bem,
digamos adeus e sejamos breves. Vamos, meus servos, levem os mortos e os
feridos. Há coisas que os olhos comuns não devem presenciar.
Eles obedeceram, e os três ficaram a sós. Então, Rosamund ajoelhou-se ao
lado do pai, e cochicharam um no ouvido do outro. Hassan virou as costas e
colocou uma ponta do manto sobre a cabeça, para que nem seus olhos vissem,
ou seus ouvidos ouvissem alguma coisa, naquela hora triste da partida.
Com isso parecem ter tido algum tipo de esperança e de consolo, pois pelo
menos quando Rosamund beijou o pai pela última vez, Sir Andrew sorriu e disse:
— Sim, sim, talvez seja o melhor. Deus vai protegê-la, e Sua vontade será
feita. Mas ia me esquecendo, diga-me, filha, qual deles?
Outra vez ela cochichou em seu ouvido, e depois de pensar por um mo-
mento, ele respondeu:
— Talvez você tenha razão. Acho que é o melhor para todos. E agora vão,
vocês três. E para seus filhos, e os filhos dos seus filhos, deixo minha última
bênção. Agora venha aqui, Emir.
Hassan ouviu, por baixo de seu manto, e descobrindo a cabeça, chegou-
se a ele.
— Diga a Saladino, seu amo, que ele foi forte demais para mim, e me
pagou na mesma moeda. Bem, mesmo que tivesse sido de outra forma eu e
minha filha em breve nos separaríamos, pois a morte se aproximava para me
levar. É um decreto de Deus, para o qual curvo minha cabeça, acreditando
que haja verdade naquele sonho, e que nossos sofrimentos, que não sabemos
prever, tragam bênçãos aos nossos irmãos do Oriente. Mas para Saladino
diga também que, a despeito do que a sua fé intolerante ensine, para Cristãos
e pagãos há um ponto de encontro além do túmulo. Diga que se qualquer
dano ou insulto for cometido contra esta moça, juro por Deus, que nos fez
93
Capítulo 7 •
O estandarte de Saladino
os dois, que ele vai prestar contas a mim. Agora, já que deve ser assim, vá
com ela, sabendo que meu espírito segue você e ela. E que ainda neste mun-
do ela vai encontrar quem a vingue.
— Ouvi suas palavras e farei o que me pede — respondeu Hassan. — E
mais, acredito que sejam verdadeiras, e quanto ao resto o senhor tem a pro-
messa de Saladino, e a minha, enquanto ela estiver sob a minha responsabi-
lidade, portanto, Sir Andrew D’Arcy, perdoe-nos, nós que somos apenas os
instrumentos de Alá, e morra em paz.
— Eu, que tenho tanta coisa para ser perdoado, perdôo — respondeu o
velho cavaleiro vagarosamente.
Depois seus olhos se fixaram no rosto da filha, com um olhar longo e
penetrante, e se fecharam.
— Acho que ele está morto — falou Hassan —, que Deus, o Misericor-
dioso e Clemente, receba sua alma. E tirando um tecido branco que estava
pendurado na parede, cobriu-o, acrescentando: — Vamos, lady.
Por três vezes Rosamund olhou a figura estendia e coberta no chão. Uma vez
ela esfregou as mãos em aflição e pareceu que ia cair. Então, como numa decisão
repentina, pegou a espada do pai que estava no chão e, arregimentando as últi-
mas forças, endireitou-se e como uma rainha, dirigiu-se à passagem coberta de
sangue e subiu os degraus até a sala. No hall esperavam os homens de Hassan,
que se curvaram quando ela passou com a espada ensangüentada erguida. Lá
estavam também os homens que tinham sido drogados pelo vinho, entre eles
Wulf, de bruços sobre a mesa, e Godwin, na plataforma. Rosamund falou:
— Eles estão mortos ou dormindo?
— Não tenha medo — falou Hassan. — Pela minha certeza sobre o Para-
íso, eles estão apenas dormindo, e acordarão de manhã.
Rosamund apontou para o renegado Nicholas — o mesmo que tinha fe-
rido seu pai pelas costas — que, com um olhar maligno no rosto, estava se-
parado dos sarracenos, com uma tocha na mão.
— O que faz este homem com a tocha? — ela perguntou.
— Se quer saber, Senhora — Nicholas respondeu com um risinho de es-
cárnio —, espero que todos saiam para pôr fogo na sala.
— Príncipe Hassan — falou Rosamund —, é isto o que o grande Sala-
dino deseja, queimar homens drogados debaixo de seu próprio teto? Ago-
ra, como o senhor vai dizer a ele, em nome de Saladino, eu, uma filha da
sua casa, ordeno que retire a tocha das mãos daquele homem, e na minha
94
Cruzada •
H. Rider Haggard
presença determine a todos que ninguém será capaz de praticar um ato de
tanta vergonha.
— O quê? — interrompeu Nicholas. — E deixar cavaleiros como estes,
cuja bravura eu conheço — e apontou para os irmãos —, tirarem nossas vidas
em vingança? Isto é uma loucura!
— Você é o senhor aqui, traidor, ou sou eu? — perguntou Hassan, fria-
mente e com desprezo. — Que eles nos sigam, se quiserem, e quanto a mim
ficarei feliz de reencontrar adversários tão valorosos numa batalha franca, e
então fazer minha vingança. Ali — acrescentou, dirigindo-se ao homem que
tinha se disfarçado de subordinado do mercador, e que tinha drogado os
homens no estábulo enquanto seu amo drogava os que estavam na sala, e que
abrira o portão sobre o fosso —, Ali, apague a tocha e vigie o franco até que
cheguemos no barco e não deixe que este louco ponha todos no nosso encal-
ço com seus incêndios. Agora, Princesa, está satisfeita?
— Sim, já que deu sua palavra — ela respondeu. — Aguarde um momen-
to, rogo-lhe, vou deixar uma lembrança para meus cavaleiros.
Então, observada por olhos curiosos, ela pegou uma cruz de ouro presa
a uma corrente que trazia sobre o peito, e retirando a cruz, foi até onde es-
tava Godwin, e a colocou sobre o peito dele. Depois, com um movimento
rápido, enrolou a corrente sobre o punho de prata da espada de Sir Andrew
e, passando por Wulf, enfiou a ponta entre as tábuas do tampo da mesa, de
modo que a espada ficasse à frente de Wulf. Uma cruz, uma corrente, e uma
arma de batalha, as lembranças de uma lady.
— Seu avô a usava — ela falou em árabe — quando pulou as muralhas
de Jerusalém. É meu último presente para ele. Mas os sarracenos resmunga-
ram e empalideceram, ao ouvirem estas palavras tão agourentas.
Então, pegando a mão de Hassan, que ficou observando seu rosto pálido
e inescrutável, sem uma palavra ou olhar para trás, percorreu a longa sala e
saiu em direção à noite.
— Teria sido melhor seguir meu conselho e incendiar o lugar, ou pelos menos
cortar as gargantas de todos lá dentro —, falou Nicholas para o seu vigia, Ali,
quando seguiram com os outros. — Se conheço alguma coisa destes cavaleiros, a
cruz e a espada logo estarão no nosso encalço, e vidas de muitos homens pagarão
o preço desta insensatez. E tremeu o corpo todo, como se estivesse com medo.
— Pode ser que sim, espião — respondeu o sarraceno, olhando para ele
com desdém. — Pode ser que sua vida pague o preço.
95
Capítulo 7 •
O estandarte de Saladino
Wulf estava sonhando, sonhando que estava com a cabeça sobre uma pran-
cha de madeira, como outrora tinha visto um prestidigitador fazer, e que girava
para um lado enquanto sua cabeça girava para o outro, até que finalmente al-
guém gritou, e ele caiu da prancha e feriu-se. Aí acordou para ouvir uma voz
que realmente gritava — a voz de Matthew, o capelão da igreja de Steeple.
— Acorde — dizia a voz. — Em nome de Deus, acorde!
— O que é? — ele respondeu, levantando a cabeça, ainda sonolento, e
sentindo uma dor persistente na testa.
— Parece que a morte e o diabo estiveram por aqui, Sir Wulf.
— Ora, eles estão sempre perto. Mas tenho sede, dê-me água.
Uma mulher, pálida e com os cabelos desgrenhados, olhos pesados, e que
estava andando de um lugar para outro, acendendo velas e candeias, pois
ainda estava escuro, trouxe-lhe um odre, do qual ele bebeu com sofreguidão.
— Agora está melhor — ele falou. E então seus olhos pousaram sobre a
espada ensangüentada com a ponta fincada no tampo da mesa à sua frente,
e exclamou: — Mãe de Deus, o que é isto? A espada de punho de prata de
meu tio, vermelha de sangue, e a corrente de ouro de Rosamund enrolada no
punho! Padre, onde está Rosamund?
— Ela sumiu — respondeu o capelão com uma voz que mais parecia um
gemido. — As mulheres acordaram e viram que ela desapareceu, e viram Sir
Andrew morto ou morrendo estendido no chão da sala — eu já o confessei
— e, meu Deus, todos fomos drogados. Veja! — e estendeu as mãos para
todos, deitados. — Digo que o diabo esteve aqui.
Wulf pôs-se de pé, com uma praga.
— O diabo? Ah, percebi. O mercador cipriota Giorgios. O vendedor
de vinho.
— O vendedor de vinho drogado — continuou o capelão — e que roubou
lady Rosamund.
Ao ouvir isto, Wulf enraiveceu-se.
— Roubou Rosamund enquanto dormíamos! Roubou Rosamund sem que
déssemos um único golpe para salvá-la! Oh, Cristo, por que isto tinha de
acontecer? E por que eu ainda estou vivo para ouvir? — E ele, o homem de
grande bravura, o cavaleiro hábil e forte, sentou-se e chorou como uma
criança. Mas não por muito tempo, pois logo gritou estrondosamente:
— Acordem, seus bêbados. Acordem, e saibam o que aconteceu conosco.
Sua ama Rosamund foi roubada enquanto vocês dormiam!
96
Cruzada •
H. Rider Haggard
Ao ouvir a voz tonitruante uma figura alta ergueu-se do chão e cambaleou
até ele, segurando uma cruz de ouro nas mãos.
— Que palavras terríveis são estas, meu irmão? — perguntou Godwin,
pálido e de olhos lânguidos, balançando-se de um lado para outro. Aí ele viu
também a espada ensangüentada e parou, primeiro fitando a espada, depois
a cruz de ouro em sua mão. — A espada de meu tio, a corrente de Rosamund,
a cruz de Rosamund. E onde está Rosamund?
— Desapareceu! Desapareceu! Desapareceu! — gritou Wulf. — Conte-
lhe, padre.
O capelão contou tudo o que sabia.
— Foi assim que cumprimos nossa palavra — falou Wulf. — O que po-
demos fazer, exceto morrer de vergonha?
— Não — respondeu Godwin, olhos sonhadores. — Podemos viver e salvá-
la. Veja, estas são suas lembranças — a cruz para mim, a espada tingida de
sangue para você, e no punho a corrente enrolada, símbolo da sua escravidão.
Agora nós dois precisamos usar a cruz; nós dois precisamos usar a espada; e
nós dois precisamos cortar a corrente. Se falharmos, aí sim, morrer.
— Você está delirando — falou Wulf, — e não é para menos. Aqui, beba
água. Como eu queria que não tivéssemos bebido mais nada, como ela fez.
O que o senhor falou de meu tio, capelão? Morto, ou morrendo? Não, não
responda. Vamos verificar. Venha, meu irmão.
Agora os dois correram, ou cambalearam, com a tocha na mão, pela
passagem.
Wulf viu as manchas de sangue no chão e riu nervosamente.
— O velho lutou bravamente — falou, — enquanto nós, como animais
bêbados, dormíamos.
Chegaram à sala, e diante deles, sob um manto branco, como mortalha,
estava Sir Andrew, o elmo ainda na cabeça, e a face ainda mais branca do
que o manto.
Ao som dos passos deles ele abriu os olhos. — Finalmente, finalmente
— ele sussurrou. — Quantos anos esperei por vocês? Não respondam, fiquem
em silêncio, pois não sei ainda quanto minhas forças vão durar, e ajoelhem-se,
e ouçam.
Então eles se ajoelharam de cada lado dele, e com palavras cheias de
raiva ele lhes contou tudo — a droga no vinho, a luta, da longa conversa para
dar tempo ao peregrino de subir a janela, do covarde golpe que recebeu, e o
97
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
que aconteceu depois. Neste momento suas forças começaram a faltar, mas
os irmãos deram-lhe um pouco de água, e elas voltaram.
— Peguem rapidamente os cavalos — ele falou ofegante, parando para
descansar — e vasculhem tudo. Ainda há uma chance. Não, sete horas já se
passaram, não há mais chance. Tudo foi muito bem planejado, e agora já
estarão no mar. Então ouçam. Vão para a Palestina. Há dinheiro para a via-
gem na carteira, mas vão sozinhos, sem companhia, pois em tempos de paz
elas vão trair. Godwin, tire este anel de meu dedo, e como um símbolo, des-
cubra Jebal, o xeique negro da tribo das montanhas de Masyaf, no Líbano.
Faça-o lembrar-se do juramento que ele fez para Andrew D’Arcy, o cavaleiro
inglês. Se há alguém que pode ajudá-los, é Jebal, que odeia as casas de Nur-
ed-din e de Ayoub. Portanto, ordeno, não deixem nada, mas nada mesmo,
afastá-los da busca por Jebal.
— Depois ajam como Deus dispuser. Se ainda estiverem vivos, mate os
traidores Nicholas e Hugh Lozelle, mas, a não ser em guerra franca, poupem
o Emir Hassan, que só cumpriu seu dever como manda o Oriente, e demons-
trou misericórdia, pois poderia nos ter matado ou queimado todos. Este
enigma foi muito para mim, mas agora, na hora da morte, acho que descobri
a resposta. Penso que Saladino não sonhou em vão. Mantenham os corações
receptivos, pois penso também que em Masyaf encontrarão amigos, e que as
coisas correrão bem, e que nossas tristezas vão gerar bons frutos.
— O que foi que você disse? Ela te deixou a espada de meu pai, Wulf? Então
a empunhe com bravura, honrando nosso nome. E para você ela deixou a cruz,
Godwin? Use com dignidade, pela glória de Nosso Senhor, e pela salvação de
nossas almas. Lembrem-se do que juraram. Não guardem ranços um do outro,
aconteça o quer acontecer. Sejam leais um para o outro, e com ela, de modo
que quando fizerem seu relatório final para mim no céu, eu não tenha nenhum
motivo para sentir vergonha de vocês, meus sobrinhos Godwin e Wulf.
Por uns momentos o moribundo ficou em silêncio, até que seu rosto se
iluminou com uma intensa alegria, e ele gritou, com voz alta e clara: — Oh,
minha amada esposa, te ouço. Oh, Deus, estou indo!
E então, embora seus olhos permanecessem abertos, e seu sorriso conti-
nuasse, o maxilar pendeu.
Foi assim que morreu Sir Andrew D’Arcy.
Ainda ajoelhados ao seu lado, os irmãos observaram o fim, e em seguida
curvaram suas cabeças e oraram.
98
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Vimos uma morte gloriosa — falou Godwin. — Que ela nos ensine
uma lição, que quando nossa hora chegar possamos morrer como ele.
— Sim — respondeu Wulf pondo-se de pé, — mas antes nos vinguemos.
Ei! O que é isso? Uma mensagem de Rosamund. Leia, Godwin.
Godwin pegou o pergaminho e leu:
— Sigam-me até Saladino. Desta esperança vou viver.
— Claro que vamos segui-la, Rosamund — ele gritou. — Seguir você a
vida inteira, até a morte ou a vitória.
Então abaixou o pergaminho e, chamando o capelão para cuidar do cor-
po, os dois deixaram a sala. A esta altura a metade das pessoas na casa já
estava acordada do sono provocado pelo vinho drogado, e os outros, que
tinham sido drogados por Ali, no estábulo, entravam cambaleando na sala
— com os olhos afogueados, rostos pálidos, mãos na cabeça ou sobre o co-
ração. Estavam tão confusos que era difícil fazê-los entender o que tinha
acontecido, e quando finalmente entenderam, a maioria só conseguia gemer.
Mas uns poucos reuniram forças para tatear na escuridão e pela neve que
caía, e ir ao Convento de Stangate, ou a Southminster, ou às casas dos vizinhos,
embora não houvesse nenhum muito perto, pedindo que cada homem pegas-
se armas e cavalos e fosse ajudá-los na caçada. Mesmo Wulf, praguejando
contra o padre Matthew e contra si próprio, por não terem pensado nisto
antes, chamou-o de suas preces pela alma do tio, e ordenou que fosse à torre
da igreja, o mais rápido que pudesse, e acendesse o farol que havia lá.
E ele foi, levando pederneira e material inflamável, e dez minutos depois
as chamas estavam crepitando furiosamente sobre o teto da igreja de Steeple,
avisando a todos os homens sobre o pedido de socorro. E todos se armaram,
selaram os cavalos, inclusive os três deixados pelo mercador Giorgios, e
juntaram todos os que não estavam muito doentes para cavalgar ou correr,
no pátio da casa. Mas sua pressa foi de pequena ajuda, pois a lua estava
baixa. A neve caía, e a noite estava tão escura que um homem mal podia ver
a mão estendida na frente do rosto. Então era preciso esperar, e esperaram,
com o coração dolorido com a aflição e a raiva, e tentando diminuir a dor de
cabeça com água gelada.
Finalmente a madrugada começou a irromper, e com a primeira luz acin-
zentada os homens montaram os cavalos, e outros a pé, foram pela neve,
contando aos gritos para os que encontravam no caminho a coisa terrível que
tinha acontecido em Steeple. Rapidamente espalhou-se entre eles a notícia do
99
Capítulo 7 •
O estandarte de Saladino
assassinato de Sir Andrew pelos pagãos, e do rapto de lady Rosamund, en-
quanto todos os presentes à festa de Natal tinham sido drogados pelo vinho
envenenado por um homem que se dizia ser um mercador de vinhos. E tão
logo o bando se reuniu — umas 30 pessoas, no total — e havia luz suficiente
para começar a busca, partiram, embora não soubessem onde procurar, pois
a neve tinha coberto todas as marcas deixadas pelos inimigos.
E foram pela campina, até o riacho. Ele ficava bem perto, e no começo
não viram nada, pois a neve cobria as pedras do pequeno cais, mas logo um
homem gritou informando que a pequena tranca da cabana perto da água,
na qual os irmãos guardavam seu barco de pescaria, estava quebrada. E se-
gundos depois, que o barco tinha sumido.
— Era um barco pequeno, só podia levar uns seis homens — gritou alguém.
— Como eram muitos, não podem ter fugido no barco.
— Tolo — falou mais alguém, — deveriam ter outros barcos.
Voltaram a procurar, e sob uma fina camada de geada, encontraram uma
marca de lama perto de Staithe, feita pela proa de um barco grande, e não
longe um buraco na terra para uma estaca que tinha mantido o barco preso.
Agora as coisas pareciam suficientemente claras, mas ainda procuravam
mais pistas, e logo, mesmo debaixo da neve que caía insistente, o olhar aten-
to de Wulf percebeu alguma coisa brilhante presa a uma moita de juncos
secos. Um homem usou uma lança para retirá-la e a entregou a Wulf.
— É o que pensei — ele comentou devagar. — É um fragmento do véu
que dei de presente de Natal a Rosamund, e ela o rasgou e o deixou aqui para
mostrar o caminho. Para St. Peter’s-on-the-Wall! Para St. Peter’s, pois o bar-
co ou navio deve passar por lá, e talvez por causa da escuridão ainda não
tenham chegado ao mar.
Então viraram os cavalos, e os que estavam montados cavalgaram para St.
Peter’s pela trilha interna que passa por Steeple St. Lawrence e por Bradwell,
enquanto os que estavam a pé começaram a busca ao longo de Saltings e das
margens do rio. Godwin e Wulf, à frente, galopavam através da neve persis-
tente, e atrás deles iam uma quantidade cada vez maior de cavaleiros, escu-
deiros e pequenos proprietários rurais, que tinham visto a chama do farol na
torre da igreja de Steeple, ou tinham ficado sabendo por meio de mensageiros,
ou pelos monges de Stangate ou pelos comerciantes de Southminster.
Cavalgaram incansavelmente, mas as trilhas eram difíceis, por causa da
neve que caía e da lama por baixo dela, e o objetivo ficava longe, e demora-
100
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Cruzada •
H. Rider Haggard
ram uma hora até que passaram por Bradwell, e o santuário de St. Chad ficou
quilômetro e meio à frente. Mas de repente parou de nevar, e um vento forte
vindo do norte foi afastando a garoa e mostrando um céu límpido e azul
diante deles. Ainda sob a garoa, apressaram-se rumo à velha torre que apa-
recia ao longe, mas de repente pararam.
— O que é aquilo? — falou Godwin instantes depois, apontando para
uma mancha, grande e indistinta, coberta pelo vapor do mar.
Enquanto falava, uma lufada de vento afastou o último véu de garoa, re-
velando o sol que nascia, e a não mais de 150 metros de onde estavam — pois
a maré estava alta — os mastros de uma galera avançando silenciosamente,
acionada pela força de uma fileira de remadores de cada lado do casco. En-
quanto ficaram olhando, outra lufada de vento enfunou a vela do mastro
principal, e risadas mostraram-lhe que eles também tinham sido vistos. Eles
ergueram e vibraram as espadas numa demonstração de raiva, pois sabiam
perfeitamente quem ia a bordo da galera. E viram, no mastro da proa, o estan-
darte amarelo de Saladino, balançando-se como ouro à luz amarela do sol.
E isto não era tudo, pois na proa alta aparecia a própria Rosamund, e ao seu
lado, vestido agora com uma armadura e um turbante, o emir Hassan, que eles
tinham conhecido como o mercador Giorgios, e do outro lado, um homem ro-
busto, também usando uma armadura, e que à distância parecia um cavaleiro
cristão. Rosamund estendeu os braços, e de repente inclinou-se para a frente,
como se fosse se atirar ao mar, caso Hassan não tivesse segurado seu braço, en-
quanto o outro homem que estava observando colocou-se entre ela e a amurada.
Em sua fúria e desespero Wulf lançou o cavalo à frente na água até que
as ondas chegaram à sua cintura, e lá, sem que pudesse avançar mais, sen-
tou-se na sela, brandindo a espada e gritando:
— Não tenha medo. Vamos segui-la! Vamos segui-la! — E com uma voz tão
forte que, mesmo em meio ao vento e à distância crescente de água e espuma,
suas palavras talvez tenham chegado ao navio. Pelo menos pareceu que Rosamund
as ouviu, pois agitou os braços, como se quisesse passar um mensagem.
Mas Hassan, uma mão sobre o coração e outra na testa, apenas curvou-se
três vezes, numa cortês despedida.
A vela grande ficou completamente enfunada, os remos foram recolhidos,
e a galera avançou rapidamente sobre as ondas, até que finalmente
desapareceu, e só podiam ver o sol incidindo sobre o estandarte amarelo de
Saladino tremulando na borla.
101
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 8
A viúva Masouda
M
A
uitos meses tinham se passado desde que os irmãos tomaram seus
cavalos naquela manhã de inverno, e do santuário de St. Peter’s-
on-the-Wall, na foz do Blackwater, em Essex, viram com os cora-
ções aflitos a galera de Saladino velejando para o sul; seu amor e sua prima
Rosamund de pé, no convés. Sem ter navio com que segui-la — e mesmo assim
teria sido muito tarde — agradeceram aos que tinham vindo com eles em seu
socorro, e retornaram para a casa, em Steeple, onde tinham assuntos tratar.
Ao chegar, juntaram notícias de um e outro e toda a história ficou clara.
Ficaram sabendo, por exemplo, que a galera que se supunha fosse um
navio mercante, colocado na foz do rio Crouch intencionalmente, em virtude
de um leme quebrado, na véspera do Natal, moveu-se com a maré alta e
lançou âncora no Blackwater, a cinco quilômetros de sua foz. Então, um
barco grande, trazido a reboque, e que mais tarde foi encontrado abandona-
do, remou na escuridão ao longo da praia para evitar ser avistado, até a foz
de Steeple Creek, subindo o rio até Staithe, sem ser visto por ninguém. A
tripulação de 30 homens ou mais, liderados pelo falso peregrino Nicholas,
desceu e se escondeu entre os bosques a uns 100 metros da casa — onde
marcas deixadas por eles foram encontradas mais tarde — esperando pelo
sinal, e, se fosse necessário, prontos para atacar e queimar a casa enquanto
todos estivessem festejando. Mas não foi necessário, pois o bem elaborado
plano de vinho drogado, que só um oriental seria capaz de planejar, teve
102
Cruzada •
H. Rider Haggard
sucesso. E então aconteceu que o único homem que tiveram de enfrentar,
armado, foi um velho cavaleiro, o que os deixou muito alegres pois, seu
número sendo pequeno, desejavam evitar uma batalha longa, em que muitos
poderiam morrer e, se o socorro chegasse, todos seriam destruídos.
Quando tudo terminou, levaram Rosamund para o barco, desceram o rio,
rebocando o pequeno barco de pescaria que tinham tirado da cabana perto
do rio, carregado com seus mortos e feridos. Esta, sem dúvida, provou ser a
parte mais perigosa de suas aventuras, pois estava muito escuro, e começou
a nevar. Além disso, por duas vezes ficaram atolados em bancos de areia.
Ainda liderados por Nicholas, que tinha estudado o rio, chegaram à galera
antes do amanhecer, e com a primeira luz da madrugada levantaram âncora
e muito cuidadosamente remaram para o mar aberto. O resto é sabido.
Dois dias mais tarde, pois não havia tempo a perder, o corpo de Sir Andrew
foi enterrado com grande pompa no convento de Stangate, na mesma tumba
onde estava o coração de seu irmão, o pai de seus sobrinhos, e que tinha mor-
rido nas guerras do Oriente. Depois que o corpo foi enterrado, em meio a
muitas lamentações e na presença de uma grande quantidade de pessoas, pois
as notícias destes acontecimentos tinham se espalhado por toda parte, seu tes-
tamento foi aberto. Soube-se então que, com a exceção de algum dinheiro
deixado para os sobrinhos, um legado para o convento Stangate, e outro para
pagar missas pelo repouso de sua alma, todas as suas propriedades foram dei-
xadas para sua filha Rosamund. Os irmãos, ou aquele que sobrevivesse, contu-
do, ficaria como executor do testamento, em seu favor, com a condição de que
a protegessem, administrando suas terras até que ela encontrasse um marido.
Estas terras, junto das suas próprias, os irmãos colocaram nas mãos do
Prior John de Stangate, na presença de testemunhas, para que ele as adminis-
trasse em nome deles, segundo o testamento, tirando um décimo dos rendi-
mentos como pagamento pelo trabalho. As jóias de valor inestimável que
tinham sido enviadas por Saladino também foram colocadas sob sua guarda,
e um recibo com a relação de todas elas foi assinado em duplicata, e deposi-
tado em um cartório em Southminster. Isso foi necessário pois ninguém,
exceto os irmãos e o Prior, sabia da existência destas jóias, das quais, dado o
seu imenso valor, não era prudente falar. Estes assuntos resolvidos, e antes
tendo feito seus testamentos, um em favor do outro e de seus herdeiros legais,
pois era muito pouco provável que os dois voltassem vivos de uma emprei-
tada destas, receberam a comunhão, e com ela as bênçãos do Prior John.
103
Capítulo 8 •
A viúva Masouda
Então, bem cedo numa manhã, antes que alguém estivesse de pé, cavalgaram
silenciosamente para Londres.
No topo de Steeple Hill, depois de mandar na frente o servo que guiava
a mula carregada com suas bagagens — aquela mesma mula que tinha sido
deixada pelo espião Nicholas — os irmãos se viraram para dar um adeus à
sua casa. Ao norte ficava o Blackwater, e para oeste a paróquia de Mayland,
por onde as barcaças carregadas viajavam pelo Steeple Creek. Abaixo ficava
a planície larga, delimitada por árvores, e nela, contornada por um bosque
onde os sarracenos se esconderam, a casa e a igreja de Steeple, o lar onde
tinham crescido, da meninice à juventude, e da juventude até ficarem adultos,
na companhia da linda Rosamund, agora perdida, e que era o amor de ambos,
e que ambos iriam procurar. O passado todo ficava para trás, e à frente esta-
va um futuro desconhecido e cheio de lutas, cujos mistérios não sabiam de-
cifrar, nem sabiam prever o final.
Será que voltariam a ver a casa de Steeple novamente? Será quer seriam
capazes de reunir força e coragem para enfrentar o poderoso Saladino, fadados
a falhar ou ter um sucesso glorioso? Através da escuridão que encobria o seu
caminho luzia uma brilhante estrela — mas para qual deles ela luzia, ou será
que para nenhum deles? Eles não sabiam. O que podiam saber é que a emprei-
tada parecia quase impossível. Na verdade, os poucos para os quais tinham
falado acharam que estavam loucos. Mas se lembravam das últimas palavras
de Sir Andrew, ordenando-lhes que mantivessem o coração aberto, pois acre-
ditava que as coisas acabariam bem. Parecia-lhes, de fato, que não estavam
realmente sozinhos, como se o bravo espírito do tio os acompanhasse em sua
busca, guiando seus pés, com conselhos do além que eles não podiam ouvir.
Lembraram-se também do juramento que tinham feito, a ele e a cada um,
e para com Rosamund. E em silêncio, em sinal de que manteriam o juramen-
to até a morte, apertaram-se as mãos. Então, virando os cavalos rumo ao sul,
cavalgaram de coração aliviado, sem se importar com o que poderia aconte-
cer, se ao final, vivos ou mortos, Rosamund e seu pai, como ele tinha dito,
não tivessem nenhum motivo para sentir vergonha deles.
Através da neblina quente de uma manhã de julho, um dromon, como
certos barcos mercantes daquele tempo eram chamados, poderia ser visto
deslizando suavemente impulsionado por uma leve brisa na baía de St. George,
em Beirute, na costa da Síria. Chipre, de onde ele tinha zarpado da última
vez, não ficava a mais de 300 quilômetros; contudo, ele tinha levado seis
104
Cruzada •
H. Rider Haggard
dias para fazer a viagem, não por causa de tempestades, que não ocorriam
nesta época do ano, mas por causa das calmarias. Ainda assim, seu capitão
e o heterogêneo grupo de passageiros — na maior parte comerciantes orientais
e seus servos, junto de um certo número de peregrinos de todas as nações —,
agradeciam a Deus por uma viagem tão tranqüila, pois naquele tempo quem
cruzasse os mares sem sofrer um naufrágio era muito afortunado.
Entre estes passageiros estavam Godwin e Wulf, viajando, como o tio tinha
ordenado, sem a companhia de escudeiros ou de servos. No navio passavam
como irmãos chamados Peter e John, de Lincoln, cidade da qual conheciam
alguma coisa, pois tinham permanecido lá um pouco durante as guerras com
a Escócia. Pessoas simples, de pouca fortuna, fazendo uma peregrinação à
Terra Santa em penitência por seus pecados e pelo repouso das almas do pai
e da mãe. A esta história os outros passageiros, com os quais tinham viajado
desde Gênova, e para onde tinham ido por terra, davam de ombros. Pois
estes irmãos demonstravam o que eram, cavaleiros de alta estirpe. E consi-
derando sua estatura, as longas espadas, e as cotas de malha que sempre
usavam por debaixo de suas túnicas, ninguém acreditava neles, a não ser a
gente simples que também ia em peregrinação. Na verdade, foram alcunhados
de Sir Peter e Sir John, e como tais eram conhecidos em todo o navio.
Os irmãos estavam sentados juntos numa pequena área da proa do navio, e
absortos, Godwin na leitura de uma tradução em árabe dos Evangelhos feita por
um monge egípcio, enquanto Wulf o acompanhava um pouco impaciente na
versão latina. Do primeiro idioma tinham aprendido bastante em sua juventude,
quando Sir Andrew falava com Rosamund, embora não falassem tão bem quan-
to ela, que o tinha aprendido com a mãe, quando criança. Sabendo, ainda, que
muito poderiam lucrar com o conhecimento desta língua, ocupavam a longa
viagem estudando-a em quantos livros pudessem conseguir. E também falando
com um padre, que tinha passado muitos anos no Oriente, e lhes ensinava me-
diante pagamento, e com alguns comerciantes sírios e com marinheiros.
— Feche o livro, irmão — falou Wulf. — Lá está o Líbano, afinal — e
apontou para uma grande linha de montanhas, pouco visíveis através de uma
capa de neblina. — Fico feliz em vê-las, pois já estou cansado destes perga-
minhos e de aprender.
— Sim — falou Godwin. — A Terra Prometida.
— E a Terra da Esperança para nós — respondeu seu irmão. — Graças a
Deus chegou a hora de agir, mas como fazer está além do que sei.
105
Capítulo 8 •
A viúva Masouda
— O tempo dirá, sem dúvida. Como nosso tio mandou, procuraremos o
xeique Jebal...
— Psss! — interrompeu Wulf, pois neste momento alguns comerciantes,
e com eles um certo número de peregrinos, os rostos cansados, felizes com a
constatação de que os terrores da viagem tinham acabado, e que estavam
prestes a pisar na terra que o Senhor tinha trilhado, se amontoaram na proa
e irromperam em preces e canções de agradecimento. E um destes homens,
um comerciante de nome Thomas, de Ipswich, estava em pé perto deles, e
parecia estar ouvindo a conversa.
Os irmãos se misturaram aos outros, enquanto este mesmo Thomas de
Ipswich, que tinha visitado o lugar antes, como dava a entender, apontava
para as belezas da cidade, para o terreno fértil que a cercava, e para as distan-
tes montanhas cobertas de cedro onde, como contava, Hiram, Rei de Tyre
34
,
tinha cortado a madeira para a construção do templo de Salomão.
— Você já esteve lá? — perguntou Wulf.
— Sim, a negócios — ele respondeu —, pelo menos até agora. — E apon-
tando uma montanha com o cume coberto de neve, ao norte, falou: — Pou-
cos vão até lá.
— E por quê? — perguntou Godwin.
— Porque lá começa o território do xeique Al-je-bal —, e olhou para eles
significativamente — que ninguém, cristão ou sarraceno, visita sem ter um
convite, o que raramente é dado.
Novamente eles perguntaram por quê.
— Porque — respondeu o comerciante, ainda olhando para eles, — a
maior parte dos homens ama a vida, e o homem lá é senhor da morte e da
magia. Estranhas coisas são vistas em seu castelo, em redor do qual existem
jardins maravilhosos, habitados por lindas mulheres, que têm espírito malig-
no e levam as almas dos homens à ruína. Além disso, este Velho Homem da
Montanha é um assassino, do qual até os príncipes do Oriente têm um gran-
de medo, pois basta ele dar uma ordem a seus fedais
35
— ou servos —, que
são iniciados na magia, que eles partem e matam quem ele odeia. Meus jovens,
gosto muito de vocês, e digo-lhes, fiquem alerta. Na Síria há muitas maravi-
lhas para serem vistas. Deixem Masyaf e seu temível senhor de lado, se qui-
serem ver ainda as torres de Lincoln.
— Não se preocupe, vamos deixar — respondeu Godwin —, viemos ver
lugares santos, e não procurar demônios.
106
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Claro que vamos — acrescentou Wulf, — mas certamente aquela é uma
região que vale a pena visitar.
Então alguns barcos vieram da praia para saudá-los — pois naquela épo-
ca Beirute estava nas mãos dos francos — e na gritaria e confusão que se
seguiu eles não viram o comerciante Thomas. Nem o procuraram, pois pen-
saram que não seria sensato mostrarem-se muito curiosos a respeito do xeique
Al-je-bal. E teria sido infrutífero, pois aquele comerciante já estava em terra
duas horas antes de serem liberados para deixar o navio, do qual ele saiu
sozinho num barco particular.
Finalmente estavam em meio à pequena multidão de orientais no cais,
imaginando onde poderiam encontrar uma estalagem que fosse calma e
não cobrasse muito, pois não queriam ser consideradas pessoas importan-
tes e de posses. E enquanto permaneciam lá, um pouco confusos, uma
mulher alta, rosto coberto por um véu, e que eles tinham notado que os
observava, aproximou-se, acompanhada de um carregador, que puxava um
burro. Este homem, sem mais demora, pegou a bagagem deles, e ajudado
por outros carregadores, começou a colocá-la no dorso do burro, com
grande rapidez, e quando eles ordenaram que descesse as bagagens, apon-
tou para a mulher de véu.
— Desculpe —, falou Godwin para ela, em francês, — mas este homem...
— Está pegando sua bagagem para levá-la até a minha estalagem. É ba-
rata, calma e confortável, coisas que ouvi desejarem agora mesmo, não foi?
— ela respondeu, numa voz suave, e também falando em bom francês.
Godwin olhou para Wulf, Wulf olhou para Godwin, e começaram a dis-
cutir o que deveriam fazer. Quando tinham concordado que não parecia
sensato entregar-se aos cuidados de uma mulher que não conheciam, ergueram
o olhar e viram o burro com sua bagagem ser puxado pelo carregador.
— Muito tarde para dizer não, acho — disse a mulher com uma risada.
— então é melhor serem meus hóspedes por uns tempos, senão perderão a
bagagem. Venham, depois de uma viagem tão longa precisam de um banho
e de comer. Sigam-me, senhores, peço-lhes.
Então ela caminhou em meio às pessoas que, eles perceberam, abriam
caminho quando ela passava, em direção a um poste onde uma mula estava
presa. Soltando as rédeas, ela pulou para a sela, sem nenhuma ajuda, e co-
meçou a cavalgar, olhando para trás de tempos em tempos, para ver se eles
a estavam seguindo, como deveriam.
107
Capítulo 8 •
A viúva Masouda
— Para onde estamos indo não tenho a menor idéia — falou Godwin, ao
caminharem penosamente pelas areias de Beirute, e com o sol inclemente
sobre suas cabeças.
— Quem pode dizer, quando uma mulher estranha é que vai à frente?
— respondeu Wulf com uma risada.
Finalmente a mulher e a mula viraram numa passagem na parede de adobe,
e chegaram ao alpendre de uma casa branca, de forma irregular e grande, em
meio a um pomar plantado com amoreiras, laranjeiras e outras árvores frutí-
feras que lhes eram desconhecidas, e perto dos limites da cidade.
Então a mulher desmontou e passou a mula a um núbio
36
que estava
aguardando. E com um movimento rápido tirou o véu, virando-se para eles,
como se para mostrar a sua beleza. E bela ela era, porte gracioso, olhos negros
e brilhantes, feições harmoniosas e o rosto mostrando um ar de indiferença.
Era jovem também — talvez 25, não mais — e clara para uma oriental.
— Minha pobre casa é para peregrinos e mercadores, não para famosos
cavaleiros. Contudo, senhores, sejam bem-vindos a ela — ela disse, finalmen-
te, observando-os com os cantos dos olhos.
— Não somos mais que escudeiros em nosso próprio país, e estamos em
peregrinação — retrucou Godwin. — Quanto nos cobrará por dia para nos
dar comida e um bom quarto onde dormir?
— Estes estrangeiros — ela falou em árabe para o carregador —, não
estão falando a verdade.
— E o que importa isto para você — ele respondeu, descarregando as malas.
— Eles vão pagar a conta, e todo tipo de gente louca vem a este país, fingindo ser
o que não é. E, também, você foi atrás deles — por que eu não sei, nem eles.
— Loucos ou não, são pessoas decentes — disse a mulher sem demonstrar
emoção, como se para ela mesma, e depois acrescentou, em francês: — Se-
nhores, eu repito, esta é uma estalagem humilde, que não foi feita para cava-
leiros como os senhores, mas se quiserem nos honrar com sua presença, o
preço é tanto.
— Para nós está bem — falou Godwin, e ele acrescentou, com uma me-
sura e tirando o chapéu da cabeça, — especialmente porque, tendo nos tra-
zido aqui sem que pedíssemos, temos certeza de que nos tratará, a nós que
somos estranhos, com toda a gentileza.
— Com tanta quanto desejarem, isto é, quanto puderem pagar — ela falou.
— Agora, me deixem acertar com o carregador. Ele vai querer enganar vocês.
108
Cruzada •
H. Rider Haggard
Seguiu-se então uma arenga de cinco minutos entre aquela bonita mulher,
de rosto impassível, e o carregador que, à maneira oriental, ficou indignado
com a soma oferecida, e depois começou a xingá-la.
Ela permaneceu olhando para ele, sem se mover, e Godwin, que entendeu
tudo, mas fingia não entender nada, ficou imaginando quando a paciência
dela terminaria. Finalmente, numa perfeita explosão de paixão, o carregador
falou com raiva: — É de admirar, Masouda, a Espiã, que depois de me con-
tratar para fazer o trabalho sujo você fique do lado destes cães cristãos con-
tra um verdadeiro crente, você, filha de Al-je-bal!
Imediatamente a mulher ficou tensa, como uma cobra pronta para o bote.
— Quem é ele? — ela perguntou friamente. — Você quer dizer o senhor...
que mata? E olhou para ele, com um olhar ameaçador.
Ao ver o olhar toda a raiva desapareceu do homem.
— Desculpe, viúva Masouda — ele disse. — Esqueci que a senhora é
cristã, e naturalmente fica do lado dos cristãos. O dinheiro não é suficiente
para o meu trabalho, mas dê-me assim mesmo, e deixe-me ir procurar pere-
grinos que me recompensarão mais adequadamente.
Ela deu-lhe o dinheiro, acrescentando com voz baixa: — Se você dá valor
à sua vida, cuidado com o que fala.
O carregador saiu, e agora tão humilde, com o turbante sujo e a túnica
rasgada, que Wulf pensou que ele mais parecia um monte de farrapos, e não
um homem montado num burro. Ele também ficou pensando que a estranha
dona da estalagem tinha poderes que as da Inglaterra não possuíam. E depois
de observar o carregador atravessar o portão, Masouda virou-se para eles, e
disse, em francês:
— Desculpem-me, mas em Beirute estes carregadores sarracenos cometem
extorsões, especialmente contra os cristãos. Ele foi enganado pela aparência
dos senhores. Pensou que eram cavaleiros, não simples peregrinos, como se
intitulam, embora estejam vestidos como cavaleiros por debaixo da túnica.
Além disso — ela acrescentou, olhando fixamente para a cicatriz na cabeça
de Godwin, onde a espada o tinha atingido, na luta no cais de Death Creek,
— mostram ferimentos de cavaleiros, embora seja verdade que um homem
possa receber um ferimento assim numa briga de taverna. Ora, os senhores
vão me pagar um bom preço, e terão meu melhor quarto enquanto quiserem
me honrar com a sua permanência. Ah, a bagagem. Vocês não querem deixá-
la, não é mesmo? Escravo, venha aqui.
109
Capítulo 8 •
A viúva Masouda
Com grande rapidez o núbio, que tinha ido cuidar da mula, apareceu, e
pegou alguns dos pacotes. Depois ela os encaminhou por um estreito corredor
até um quarto amplo, com poucos móveis e duas janelas altas, no qual havia
duas camas sobre o chão de cimento, e perguntou-lhes se lhes satisfazia.
Eles responderam: — Sim, serve sim. E como se estivesse lendo o que ia em
suas mentes, ela acrescentou: — Não se preocupem com a bagagem. Mesmo
que fossem tão ricos quanto dizem que são pobres, os dois estão seguros na
estalagem da viúva Masouda, meus hóspedes... mas qual é o nome de vocês?
— Peter e John.
— Peter e John, meus hóspedes, que vieram visitar a terra de Peter e de
John e outros santos fundadores da nossa fé...
— E que tiveram a grande sorte de serem apanhados na praia pela viúva
Masouda — respondeu Godwin, com uma mesura.
— Esperem para falar de sorte até que vocês a encontrem, Sir — é Peter?
ou John? — ela respondeu com um leve sorriso no rosto bonito.
— Peter — respondeu Godwin. — Lembre-se, o peregrino com uma cica-
triz branca no cabelo é Peter.
— Você precisa da cicatriz, para se distinguir, suponho, do irmão. Vejamos,
Peter tem uma cicatriz branca nos cabelos e olhos acinzentados. John tem
olhos azuis. John também é mais guerreiro, se é que um peregrino pode ser
um guerreiro... Veja seus músculos. Peter pensa mais. Seria muito difícil para
uma mulher escolher entre Peter e John, que devem estar com fome, de modo
que vou preparar a comida.
— Uma estranha senhoria —, falou Wulf rindo, quando ela saiu do quar-
to, — mas gosto dela, embora ela nos tenha apanhado em sua rede. Fico
pensando por quê. E o que é mais, meu irmão, ela gosta de você, o que pa-
rece bom, pois pode ser útil. Mas, amigo Peter, não a deixe ir longe demais,
pois como aquele carregador, também acho que pode ser perigosa. Lembre-se,
ele a chamou de espiã, e provavelmente ela é.
Godwin virou-se para censurá-lo, quando a voz da viúva Masouda foi
ouvida do lado de fora, dizendo:
— Irmãos Peter e John, esqueci-me de alertá-los para falarem baixo nesta
casa, pois há venezianas acima das portas, para deixar entrar o ar. Mas não
se preocupem. Só ouvi a voz de John, não o que ele estava falando.
— Espero que não — cochichou Wulf, e desta vez num tom de voz muito
baixo.
110
Cruzada •
H. Rider Haggard
Então desfizeram as malas, escolheram roupas limpas e se lavaram com a
água que tinha sido colocada em grandes jarras. E precisavam mesmo, pois
naquele entulhado barco havia muito pouca oportunidade para se lavarem. E
quando terminaram de se vestir, colocando as cotas de malha debaixo da túnica,
o núbio apareceu, para levá-los a um outro cômodo, amplo e iluminado por
venezianas instaladas na parte alta da parede. No cômodo havia almofadas
empilhadas em volta do tapete. Indicando que deveriam assentar-se nas almofa-
das, o núbio saiu, para voltar em seguida, acompanhado por Masouda, e tra-
zendo tigelas sobre bandejas de metal, que foram colocadas diante deles, com
um sinal para comerem. E ficaram sem saber o que estavam comendo, por cau-
sa do molho espesso que cobria a comida, até que ela lhes disse que era peixe.
Depois do peixe veio a carne, e depois aves, e depois das aves, bolos,
doces e frutas, até que eles, que estavam famintos depois de só comerem
carne de porco salgada e bolachas, se viram forçados a lhe pedir que não
trouxesse mais nada.
— Pelo menos tomem mais um copo de vinho — ela falou sorrindo e
enchendo as canecas com o vinho suave do Líbano, pois ela parecia ter pra-
zer em vê-los comer de sua comida.
Eles obedeceram misturando o vinho com água. Enquanto bebiam, ela
lhes perguntou de repente quais eram seus planos, e por quanto tempo iriam
permanecer em Beirute. Responderam que pelos próximos dias não tinham
planos, pois precisavam descansar, conhecer a cidade e seus arredores, e
comprar bons cavalos, assunto em que talvez ela pudesse ajudá-los. Masouda
concordou com a cabeça, e perguntou para onde queriam ir a cavalo.
— Por lá — falou Wulf, movimentando as mãos em direção das montanhas.
— Queremos conhecer os cedros do Líbano e suas montanhas, antes de irmos
a Jerusalém.
— Cedros do Líbano? — ela retrucou. — Isto é muito perigoso para dois
homens sós, pois naquelas montanhas habitam animais selvagens, e homens
ainda mais selvagens, que roubam e matam. Além disso, o senhor daquelas
montanhas está em luta contra os cristãos, e aprisionaria qualquer um que
encontrasse.
— Qual é o nome dele? — perguntou Godwin.
— Sinan — ela respondeu. E eles notaram que olhou rapidamente em
redor ao falar o nome.
— Ah, pensávamos que o nome fosse Jebal — Godwin falou.
Ela olhou-o com os olhos abertos e inquiridores, e respondeu:
111
Capítulo 8 •
A viúva Masouda
— Ele é chamado assim também. Mas senhores peregrinos, o que vocês
sabem do temível Al-je-bal?
— Apenas que ele mora num lugar chamado Masyaf, que queremos conhecer.
Novamente ela os olhou fixamente.
— Vocês estão loucos? — ela indagou, ajeitando-se e batendo as mãos
chamando o escravo para levar os pratos. Enquanto isto era feito, os irmãos
disseram que queriam dar uma volta.
— Ótimo — falou Masouda, — o homem vai acompanhá-los — não, é
melhor não saírem sozinhos, pois poderiam se perder. Além disso, há lugares
que nem sempre são seguros para estrangeiros, por mais que eles pareçam
humildes — ela acrescentou de modo significativo. — Gostariam de visitar o
governador no castelo, onde há alguns cavaleiros ingleses, e alguns padres
que aconselham os peregrinos?
— Achamos que não — respondeu Godwin. — Não somos dignos de com-
panhias tão distintas. E por que a senhora nos olha de modo tão estranho?
— Estou pensando, Sir Peter e Sir John, por que acham que vale a pena
mentir para uma pobre viúva. Digam-me, em seu país, vocês já ouviram falar
em dois irmãos, de nome — oh, qual é o nome deles? — Sir Godwin e Sir
Wulf, da casa de D’Arcy, e muito conhecidos aqui?
O queixo de Godwin despencou, Wulf riu alto, e vendo que estavam a sós
no quarto, pois o escravo tinha saído, perguntou de volta:
— Certamente estes irmãos gostariam de saber que são tão famosos. Mas como
foi que ficou sabendo deles, hospedeira viúva dona de uma estalagem na Síria?
— Eu? Oh, de um homem que viajou no barco, e que passou por aqui
enquanto eu preparava a comida, e contou-me uma estranha história que
tinha sabido na Inglaterra, sobre um bando enviado por Saladino — que este
nome seja amaldiçoado — para capturar uma certa lady. E de como os irmãos
chamados Godwin e Wulf lutaram contra o bando — e o derrotaram — um
feito muito digno de cavaleiros, como ele contou — enquanto a lady escapa-
va. E de como em seguida foram apanhados numa cilada, como acontece com
os que se metem com o Sultão, e como desta vez a lady foi capturada.
— Uma história cheia de peripécias, sem dúvida — falou Godwin. — E
este homem lhe contou se a lady acabou vindo para a Palestina?
Ela abanou a cabeça.
— Sobre isto ele não contou nada, nem ouvi nada. Agora, ouçam, meus
hóspedes. Acham estranho que eu saiba tanta coisa, mas não é, pois aqui na
112
Cruzada •
H. Rider Haggard
Síria saber coisas é a profissão de alguns de nós. Será que vocês acreditavam,
jovens crédulos, que dois cavaleiros como vocês, que tiveram uma participa-
ção tão heróica num fato como este, do qual notícias circulam por toda a
Europa, poderiam viajar por terra e por mar e não serem conhecidos? Será
que pensam que ninguém foi deixado lá para observar seus movimentos, e
relatá-los para o poderoso que enviou o navio de guerra, incumbido de uma
certa missão? Bem, o que ele sabe eu também sei. Já não disse que minha
função é saber coisas? E por que lhes conto isto? Bem, talvez porque goste
do tipo de cavaleiros que vocês são, e gosto de histórias como esta de dois
homens, um ao lado do outro, num cais, enquanto uma mulher cruzava o
riacho a nado, e que depois, muito feridos, abriram caminho atacando um
bando de inimigos. No Oriente amamos estes feitos de cavalheirismo. E tal-
vez porque desejo adverti-los a não desperdiçar vidas tão galantes tentando
passar pelos portões fortificados de Damasco, numa busca insensata.
— E vocês ainda ficam olhando para mim em dúvida? Bem, estou falando
mentiras. Não estava esperando por vocês no cais, e aquele carregador com quem
eu parecia brigar não ficou encarregado de pegar sua bagagem e trazê-la para
minha casa. Nenhum espião observou seus movimentos da Inglaterra até Beirute.
Apenas quando estavam jantando fui até o quarto e li alguns escritos que, de uma
maneira descuidada, você e John deixaram entre a bagagem, e abri alguns livros,
nos quais os nomes de Peter e John tinham sido escritos, e desembainhei uma
longa espada onde estava inscrito um lema: “Enfrente D’Arcy, encontre a Morte!”,
e ouvi Peter chamar John de Wulf, e John chamar Peter de Godwin etc. etc.
— Parece — falou Wulf em inglês, — que somos moscas numa teia de
aranha, e que a aranha é chamada de viúva Masouda, embora de que utili-
dade possamos ser para ela eu não sei. E então, irmão, o que devemos fazer?
Ser amigos da aranha?
— Uma aliada perigosa — respondeu Godwin. E olhando para ela dire-
tamente perguntou: — Nossa hospedeira, a senhora que sabe tanto, diga-nos
por que, entre outros nomes, aquele condutor de burro a chamou de “filha
de Al-je-bal”?
Ela pareceu surpresa, e respondeu:
— Então você entende árabe? Foi o que pensei. E por que pergunta? Que
interesse tem?
— Não muito, exceto que, como vamos visitar Al-je-bal, achamos que é
muita sorte ter conhecido sua filha.
113
Capítulo 8 •
A viúva Masouda
— Vão visitar Al-je-bal? Claro, vocês deram tantas pistas no navio, não
foi? Talvez tenha sido por isto que fui encontrá-los. Bem, suas gargantas serão
cortadas antes que vocês consigam chegar ao primeiro dos seus castelos.
— Penso que não — falou Godwin, e enfiando a mão sob a túnica, retirou
de lá um anel, com o qual começou a brincar entre os dedos.
— De onde veio este anel? — ela falou, com medo e surpresa no olhar.
— É... — e parou.
— De alguém a quem ele foi dado e que nos mandou aqui com uma men-
sagem. Agora, nossa hospedeira, sejamos francos um com o outro. A senhora
sabe um bocado de coisas a nosso respeito, mas embora tenhamos gostado de
nos chamar de peregrino Peter e peregrino John, nisto tudo não há nada de
que nos devamos envergonhar, especialmente porque a senhora afirma que
nosso segredo não é segredo, no que acredito. Proponho que saiamos de de-
baixo de seu teto, e vamos ficar com nosso pessoal no castelo, onde deveremos
ser bem-vindos, e contar-lhes que não ficaríamos mais nem um dia com alguém
que é chamada de “espiã”, e que também descobrimos ser uma “filha de Al-
je-bal”. Depois do que, talvez, a senhora não possa mais morar em Beirute,
onde, parece, espiões e “filhas de Al-je-bal” não são bem-vindos.
Ela ouviu com um rosto impassível, e respondeu: — Sem dúvida, vocês
souberam que uma de nós, chamada como você se referiu a mim, foi quei-
mada aqui recentemente como bruxa?
— Sim — interpôs Wulf, que estava ouvindo esta história pela primeira
vez. — Nós ouvimos.
— E pensam em fazer com que eu tenha o mesmo destino. Ora, homens sem
juízo, posso matar os dois antes que falem a primeira palavra desta história.
— Você acha que pode — falou Godwin, — mas de minha parte tenho
certeza de que não é assim que está escrito, e tenho ainda certeza de que a
senhora não quer nos fazer mal nenhum, da mesma forma que não queremos
lhe fazer mal. Para ser franco, então, é necessário que visitemos Al-je-bal.
Como o destino nos fez encontrar — se é que foi o destino — a senhora vai
nos ajudar, como acho que pode, ou devemos procurar outra ajuda?
— Eu não sei. Vou dizer dentro de quatro dias. Se não estiverem satisfei-
tos assim, vão, denunciem-me, façam o seu mal, e eu também farei o meu,
do que vou me lamentar.
— E qual é a garantia de que não fará, se estivermos satisfeitos? — per-
guntou Wulf sem rodeios.
114
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Vocês devem aceitar a palavra de uma “filha de Al-je-bal”. Não tenho
mais nada a oferecer — ela respondeu.
— Isto pode significar a morte — falou Wulf.
— Vocês disseram agora há pouco que isto não está escrito, e embora eu
tenha procurado a companhia de vocês por razões minhas, não tenho nenhu-
ma divergência com vocês até agora. Escolham o caminho que quiserem tomar.
Mas continuo a dizer que, se forem, e sabendo o árabe descobrirem meu
segredo, morrerão, e que se ficarem, estarão em segurança, pelo menos en-
quanto estiverem nesta casa. Juro, pelo anel de Al-je-bal — e inclinando-se à
frente beijou o anel que estava na mão de Godwin. — Mas lembrem-se que
não posso responder pelo futuro.
Godwin e Wulf se entreolharam. Depois Godwin retrucou:
— Penso que confiaremos em você, e ficaremos. Ao ouvir estas palavras
ela sorriu um pouco, como se estivesse satisfeita, e depois disse:
— Se quiserem dar uma volta, meus hóspedes Peter e John, pedirei ao
escravo que vá com vocês, e dentro de quatro dias falaremos mais sobre o
assunto de sua viagem, que, até lá, é melhor que seja esquecida.
Então o homem veio, armado com uma espada, e saiu com eles, vestidos
com roupas de peregrinos, pelas ruas desta cidade oriental, onde tudo era tão
estranho, e que por uns tempos os fez esquecer de todos os seus problemas.
Perceberam mais, que embora tivessem ido a lugares onde não encontraram
nenhum franco, e onde seguidores do Profeta olhavam para eles ameaçado-
ramente, a presença deste escravo de Masouda parecia suficiente para prote-
gê-los de uma provocação, pois até mesmo os sarracenos usando turbante se
cutucavam e abriam caminho quando o viam. Na hora prevista voltaram à
estalagem, sem encontrar ninguém que tinham conhecido, exceto dois pere-
grinos que tinham sido seus companheiros de viagem no dromon. E que fi-
caram perplexos quando souberam que tinham visitado a área sarracena do
lugar, onde, embora a cidade estivesse nas mãos dos cristãos, não era seguro
para nenhum franco aventurar-se sem uma forte guarda.
Quando os irmãos voltaram para o quarto e sentaram num canto, falan-
do o mais baixo possível para não serem ouvidos do lado de fora, examina-
ram por muito tempo o que deveriam fazer. Uma coisa era certa, eles, e
alguma coisa de sua missão eram conhecidos, e sem dúvida a notícia de sua
chegada seria passada logo para o sultão Saladino. Do rei e dos mais impor-
tantes cristãos de Jerusalém não podiam esperar grande ajuda, pois oferecê-
115
Capítulo 8 •
A viúva Masouda
la seria provocar uma grande discórdia com Saladino, de quem os francos
tinham pavor, e para o que estavam muito mal preparados. Na verdade, se
eles os procurassem, era muito mais provável que fossem desaconselhados a
insistir nesta perigosa busca por uma mulher que era sobrinha de Saladino,
e pelo que se sabia, colocados numa prisão ou mandados de volta para a
Europa. Sem dúvida, era melhor tentar sozinhos encontrar os meios de chegar
a Damasco. Por outro lado, se o sultão fosse alertado de sua viagem será que
não seriam mortos na estrada, ou colocados em alguma masmorra, onde
definhariam até a morte? Quanto mais falavam deste assunto, mais ficavam
desorientados, até que finalmente Godwin disse:
— Irmão, nosso tio insistiu muito que fôssemos procurar este Al-je-bal, e
embora pareça que tentar isto seja muito perigoso, acho que o melhor que
fazemos é obedecer a quem talvez no último momento tenha tido uma pre-
monição. Quando todos os caminhos estão cheios de espinhos, que diferença
faz qual você escolhe?
— Belas palavras — respondeu Wulf. — Já estou cansado de dúvidas e de
dificuldades. Sigamos a vontade de nosso tio, e visitemos este Velho Homem
das Montanhas, e para isto acho que a viúva Masouda é a pessoa a nos ajudar.
Se morrermos na empreitada, bem, pelo menos tentamos fazer o melhor.
116
Cruzada •
H. Rider Haggard
a manhã seguinte, quando entraram na sala de jantar da estalagem,
Godwin e Wulf descobriram que não estavam mais sozinhos na casa,
pois vários outros hóspedes estavam sentados lá, também tomando
café. Entre eles, um distinto comerciante de Damasco, um outro de Alexandria,
no Egito, que parecia ser um chefe árabe, um judeu de Jerusalém, e ninguém
menos do que o comerciante inglês Thomas, de Ipswich, companheiro de
viagem, que os saudou com alegria.
Era mesmo um grupo bem heterogêneo. Observando-os, enquanto a viú-
va Masouda se movia de um a outro, falando com todos e servindo-os, Godwin
pensou que poderiam ser espiões reunidos para trocar informações, ou até
para fazer um relatório à dona da estalagem, em cuja folha de pagamento
provavelmente estavam. Pois, na maior parte do tempo, falavam em francês,
que todos entendiam, de assuntos diversos, como o calor e o clima, o preço
do transporte por animais, as cidades para onde pretendiam ir.
O comerciante Thomas, por exemplo, planejava partir para Jerusalém na-
quela mesma manhã com suas mercadorias. Mas a mula de carga que ele tinha
alugado mancava, em virtude de um espinho na pata, e os camelos alugados tam-
bém não tinham chegado todos, de modo que teria que aguardar alguns dias.
Nestas circunstâncias ele ofereceu-se para acompanhar os irmãos num
passeio pela cidade, oferecimento que eles não julgaram oportuno recusar,
embora não sentissem nenhuma confiança no homem, acreditando que tinha
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 9
Os cavalos Flame e Smoke
N
A
117
Capítulo 9 •
Os cavalos Flame e Smoke
sido ele quem contara sua história e revelara seus nomes verdadeiros à viúva
Masouda. Ou por mexerico ou com um propósito.
Qualquer que fosse a verdade, este Thomas revelou-se útil para eles, pois
mesmo tendo acabado de chegar, ele parecia saber tudo o que passara na
Síria desde a sua partida, e tudo o que estava se passando. Ele lhes contou
como Guy de Lusignan
37
acabara de se coroar rei de Jerusalém com a morte
do menino Baldwin, e como Raymond de Trípoli
38
tinha se recusado a aceitar
a investidura, e estava prestes a ser sitiado em Tiberias; como Saladino estava
reunindo um grande exército em Damasco para guerrear contra os Cristãos;
e muitas outras coisas, verdadeiras e falsas.
Enquanto estiveram com ele, ou na companhia de outros hóspedes, nin-
guém demonstrou muito interesse neles, seja por educação seja por outras
razões que eles desconheciam. De qualquer forma os irmãos passavam as
horas com proveito.
Foi na terceira manhã de sua permanência que a viúva Masouda, com
quem não tinham tido a oportunidade de mais uma conversa em particular,
lhes perguntou se porventura não tinham falado que queriam comprar cava-
los. Diante da resposta positiva, ela acrescentou que tinha pedido a um certo
homem que trouxesse dois cavalos para eles examinarem, e que agora estavam
no estábulo junto ao jardim. E para lá eles foram, acompanhados de Masouda,
encontrar um árabe solene, vestido com um manto de pele de camelo, e com
uma lança na mão, de pé à porta de uma caverna que fazia as vezes de está-
bulo, como é comum no Oriente, onde o calor é muito grande. Enquanto se
aproximavam dele, Masouda falou:
— Se gostarem dos cavalos, deixe que eu pechinche, e finjam não entender
nada do que eu disser.
O árabe, que os ignorou completamente, saudou Masouda, e falou em árabe:
— É então para francos que você me mandou trazer os dois cavalos que
não têm preço?
— E o quê você tem com isso, meu tio, Filho da Areia? — ela perguntou.
— Traga os cavalos para eu ver se são os que mandei buscar.
O homem virou-se e falou para o interior da caverna.
— Flame, venha cá! Assim que falou, ouviu-se um som de patas e pela
arcada baixa passou o mais imponente cavalo que seus olhos já tinham visto.
Era cinza, crina e rabo grandes, e tinha uma estrela negra na testa; não muito
alto, mas com uma conformação que demonstrava grande força; de cabeça
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
118
Cruzada •
H. Rider Haggard
pequena, olhos grandes; narinas grandes, ossos grandes, mas estreitos abaixo
do joelho, e patas arredondadas. Ele veio resfolegando, mas ao ver seu dono,
empertigou-se e ficou imóvel, como se tivesse virado pedra.
— Venha cá, Smoke — chamou novamente o árabe, e outro cavalo apa-
receu, muito semelhante ao primeiro. Em tamanho e porte era a mesma
coisa, mas a cor era preto-carvão, e a estrela na testa era branca. O olhar
também era mais vivo.
— Estes são os cavalos — disse o árabe, e Masouda ia traduzindo. — São
gêmeos, têm sete anos, e nunca foram montados até quase os seis, filhos da
égua mais rápida da Síria, e um pedigree que remonta a 100 anos.
— Belíssimos cavalos! — falou Wulf. — Belíssimos sem dúvida! Mas qual
é o preço?
Masouda repetiu a pergunta em árabe, ao que o homem respondeu na
mesma língua com um leve menear de ombros.
— Não seja idiota. Você sabe que não é uma questão de preço, pois eles
estão acima de qualquer quantia. Ponha o preço que quiser.
— Ele falou — disse Masouda, — que são 100 moedas de ouro pelo par.
Vocês podem pagar tanto?
Os irmãos se entreolharam. A quantia era bem alta.
— Estes cavalos salvaram muitas vidas até agora — acrescentou Masou-
da —, e acho que não posso pedir que ele aceite menos, porque, como ele
sabe muito bem, em Jerusalém poderiam ser vendidos pelo triplo. Mas se
quiserem, posso emprestar o dinheiro, pois sem dúvida devem ter jóias ou
outros artigos de valor que poderiam me dar como garantia — aquele anel
que trás no peito, por exemplo, Peter.
— Nós temos o ouro — respondeu Wulf, que pagaria a última moeda que
tivesse por aqueles cavalos.
— Eles compram — disse Masouda.
— Eles compram, mas eles sabem cavalgar? — perguntou o árabe. — Es-
tes cavalos não são nem para crianças nem para peregrinos. Se não cavalga-
rem bem, não devem comprar — não, nem que você me peça.
Godwin disse que achava justo, e que pelo menos iriam tentar. Então o
árabe, deixando os cavalos parados, foi até o estábulo e com o auxílio de dois
serviçais da estalagem, trouxe rédeas e selas como eles nunca tinham visto.
Eram bem acolchoadas, indo até além do lombo dos animais, com fortes
cilhas guarnecidas com lã, e estribos decorados com metal na forma de meio
casco. Os freios eram simples bridões, sem curvas.
119
Capítulo 9 •
Os cavalos Flame e Smoke
Quando tudo estava pronto e os estribos colocados na posição que dese-
javam, o árabe fez um sinal para eles montarem. Ao se prepararem, contudo,
ele falou algumas palavras e de repente estes cavalos que estavam calmos e
mansos se tornaram dois demônios, empinando-se nas patas traseiras e ame-
açando-os com os dentes e os cascos dianteiros, calçados com finas placas de
ferro. Godwin ficou observando, mas Wulf, que se irritara com a brincadeira,
postou-se atrás dos cavalos e aguardando uma oportunidade, colocou as mãos
sobre o lombo do garanhão chamado Smoke e com um impulso pulou sobre
a sela. Masouda sorriu, e até o árabe resmungou “Muito bem”, enquanto
Smoke, percebendo que tinha sido montado, colocou as quatro patas no chão
e ficou quieto como um cordeiro. Então o árabe falou ao cavalo chamado
Flame e também foi permitido a Godwin subir na sela.
— Para onde vamos? — ele perguntou.
Masouda disse que iriam mostrar para onde, e acompanhados por ela e
pelo árabe, foram com os cavalos até para bem fora da cidade, até uma es-
trada que tinha o mar à esquerda e à direita uma área de terra plana, parte
dela cultivada, ao final da qual ficavam os paredões íngremes e de pedra das
colinas. Nesta estrada os irmãos trotaram e galoparam, indo e vindo, até que
começaram a se sentir à vontade nas selas, eles que na meninice andavam em
cavalo em pêlo nos pântanos de Essex, e até se acostumaram à pressão ne-
cessária no bridão para controlar ou virar os cavalos. Quando voltaram até
onde os outros dois estavam, Masouda lhes disse que, se não tivessem medo,
o vendedor lhes mostraria como os cavalos eram fortes e rápidos.
— Não tememos nenhum tipo de cavalgada que ele mesmo faça — res-
pondeu Wulf zangado, ao que o árabe sorriu com ironia, falando alguma
coisa em voz baixa a Masouda. E então, pondo as mãos na anca de Smoke,
pulou para a garupa, atrás de Wulf, sem que o cavalo se mexesse.
— Diga, Peter, incomoda-se de ter companhia para este passeio? — per-
guntou Masouda. E enquanto falava, veio-lhe aos olhos um brilho selvagem
que era novidade para os irmãos.
— Claro que não — respondeu Godwin. — Mas onde está a companhia?
Sua resposta foi fazer exatamente como o árabe, e sentar-se com uma
perna de cada lado da garupa de Godwin, segurando-se nele pela cintura.
— Agora você parece mesmo um belo peregrino, irmão — falou Wulf,
rindo alto. Até o sisudo árabe sorriu, e Godwin resmungou entre os dentes um
velho ditado: “Mulher na garupa, diabo no bridão”. Mas alto ele falou: — Es-
tou realmente honrado; mas se você se ferir, amiga Masouda, não me culpe.
120
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Não vai acontecer nada... a você, amigo Peter. E eu estou há muito
tempo confinada numa estalagem, eu que sou nascida no deserto, quero ga-
lopar um pouco nestas montanhas sobre um ótimo cavalo e com um cavalei-
ro à frente. Ouçam vocês, irmãos; afirmam que não temem, então soltem as
rédeas, e aonde quer que vamos ou o que quer que encontremos, não freiem
os cavalos Flame e Smoke, ou vire-os. Agora, Filho da Areia, vamos testar os
pangarés que você tanta elogia. Vamos, e rápido e para longe.
— Como queira, filha — falou o velho árabe. — Reze a Alá para que
estes francos saibam como cavalgar!
Então seus olhos sombrios pareceram voltar à vida, e agarrando a cilha
da sela deu um comando, e imediatamente os cavalos ergueram as cabeças e
começaram a mover-se, num galope longo e ritmado em direção às montanhas
quilômetro e meio à frente. De início passaram por terra cultivada, mas cujas
colheitas já tinham sido cortadas, pulando dois ou três fossos no galope, e de
forma tão suave que os irmãos pensaram estar nas asas de andorinhas. Depois
veio um gramado arenoso, de dois quilômetros ou mais, onde o galope ficou
mais rápido, depois do que começaram a subir uma longa ladeira de uma
colina, com os cavalos colocando as patas sobre pedras como gatos.
A subida ficava cada vez mais íngreme, e em alguns lugares Godwin tinha
que se segurar na crina de Flame, e Masouda tinha que se agarrar na sua
cintura para evitar que escorregassem para trás. Mesmo com o peso duplo
que carregavam, estes bravos cavalos de batalha nunca hesitavam ou se can-
savam. Num determinado ponto se lançaram num regato que descia da
montanha. Godwin percebeu que a menos de 50 metros de onde estavam o
regato despencava num pequeno precipício, espremendo-se entre rochedos
distantes uns cinco metros um do outro, e pensou consigo que se o mergulho
tivesse acontecido um pouco mais para baixo teria sido o fim da cavalgada.
Para além havia um pedaço de terra plana de uns 100 metros, e acima mais
colinas íngremes, que eles venceram por entre touceiras de arbustos, até que
chegaram ao topo da montanha e viram a planície que tinham deixado para
trás três quilômetros ou mais lá embaixo.
— Estes cavalos sobem morros como cabras — falou Wulf. — Mas uma
coisa é certa, temos que levá-los lá para baixo.
No topo da montanha havia um pedaço de terra quase plana e sem pedras,
e nela galoparam à frente, aumentando a velocidade à medida que os cavalos
iam recuperando a respiração. De repente os cavalos fixaram as patas dian-
121
Capítulo 9 •
Os cavalos Flame e Smoke
teiras no chão e pararam, exatamente como deveriam, pois estavam à beira
de um abismo, e lá em baixo corria um riacho de águas revoltas. Por um
momento ficaram parados; em seguida, depois que o árabe disse alguma
coisa, eles se viraram e voltaram galopando pelo platô, até se aproximarem
da beira da linha das montanhas, onde os irmãos pensaram que parariam.
Mas Masouda gritou para o árabe, o árabe gritou para os cavalos, e Wulf
gritou para Godwin, em inglês: “Para onde eles forem, nós também vamos”.
— Reze a Deus para as cilhas agüentarem — respondeu Godwin, incli-
nando-se para trás sobre o peito de Masouda, atrás dele. Enquanto ele fala-
va, começaram a descer a colina, devagar no início, depois mais rápido, e
mais rápido, até que despencaram morro abaixo como um redemoinho.
Como estes cavalos conseguiram manter-se em pé? Nunca saberiam, e
certamente ninguém que tivesse nascido na Inglaterra também poderia saber.
Contudo, sem cair, sem sequer tropeçar, continuaram a descida, avançando
sobre grandes pedras, até que finalmente atingiram a parte plana de terra
acima do regato, ou melhor, sobre a fenda de cinco metros de largura na base
e por onde corria o regato. Godwin viu e ficou gelado. Será que estes árabes
eram tão loucos a ponto de colocarem duas pessoas num cavalo e tentar o
salto? Se refugassem, se errassem o ponto do salto, se prendessem os cascos,
ou se dessem um galeio curto, a morte rápida seria o resultado.
Mas o velho árabe assentado atrás de Wulf apenas gritou alto, e Masou-
da apertou os braços em torno da cintura de Godwin e riu no seu ouvido. Os
cavalos ouviram o grito, e parecendo ver o que estava à frente, esticaram os
longos pescoços e arremeteram sobre a terra plana.
Num segundo estavam à beira do abismo, e como num sonho, Godwin
percebeu as encostas abruptas e verticais dos rochedos, o abismo entre eles,
e a espuma branca do regato dezenas de metros abaixo. Então ele sentiu
Flame retesar-se e no instante seguinte voar como um pássaro. E seria mesmo
um sonho, ou quando voavam sobre aquele ameaçador fosso ele sentiu os
lábios de uma mulher beijarem seu rosto? Ele não tinha certeza. Quem pode-
ria ser, naquela hora e com a morte debaixo deles? Talvez tenha sido o vento
que o beijou, ou uma mecha de seu cabelo solto que bateu em seu rosto.
E naquele momento ele pensou também em outras coisas que não nos lábios
de uma mulher, nos lábios daquele sorvedouro negro lá em baixo, por exemplo.
Eles atravessaram o ar, a espuma branca desapareceu, estavam salvos.
Não, a pata traseira de Flame errou o passo, eles caíram, estavam perdidos.
122
Cruzada •
H. Rider Haggard
Lutaram. E como aqueles braços o apertavam, como o rosto se espremia
contra o seu. Veja! Era o fim. Desciam vertiginosamente o rochedo, e ao lado
do cavalo cinza Flame descia o cavalo negro Smoke. Wulf, agarrado à sela, os
olhos parecendo desprenderem-se das órbitas, estava gritando: “Um D’Arcy!
Um D’Arcy!” e atrás dele, sem turbante mas com o albornoz flutuando como
uma flâmula ao vento, o rosto crispado, o árabe também gritava.
Mais depressa, mais depressa. Será que existiam cavalos que galopavam
mais rápido? Mais depressa, e mais depressa, até que o ar parou de zunir e o
terreno começou a faltar. A descida tinha sido vencida. Estavam no plano, e
depois nas terras cultivadas, e estas também ficaram para trás. Olhe! Lado a
lado, com as cabeças voltadas para o chão, Flame e Smoke ficaram parados
sobre a estrada, os dorsos arquejantes, e o couro suado tingido de vermelho
pelo sol que se punha.
Os braços afrouxaram o aperto na cintura de Godwin. Tinha sido por
pouco; nos braços nus de Masouda estavam as marcas do aço da cota de
malha debaixo da sua túnica. Ela desceu para o chão e ficou olhando as
marcas. Depois sorriu, o sorriso suave e instigante, suspirou e falou: “Você
cavalga bem, peregrino Peter, e peregrino John também cavalga bem, e estes
são bons cavalos; e, oh, a cavalgada valeu a pena, embora a morte pudesse
ter sido o resultado. Filho da Areia, meu tio, o que você diz?
— Que estou velho para galopadas como esta... dois num cavalo, e não
valendo nada.
— Valendo nada? — disse Masouda. — Não tenho tanta certeza! — e
olhou para Godwin. — Bem, você vendeu seus cavalos para peregrinos que
sabem cavalgar, e eles provaram isto, e pude ter uma folga de minha cozinha
na estalagem, para onde agora devo voltar.
Wulf limpou o suor de sua testa, balançou a cabeça e murmurou:
— Sempre soube que o Oriente está cheio de loucos e de demônios; ago-
ra sei que é verdade.
Mas Godwin não falou nada.
Levaram os cavalos de volta para a estalagem, onde os irmãos cuidaram
deles, sob a orientação do árabe, pois os valentes cavalos precisavam se acos-
tumar com eles, o que, depois desta cavalgada cheia de perigos, certamente já
tinha começado. Depois os alimentaram com cevada picada, além de milho em
espigas, e deram-lhes para beber água que tinha ficado ao sol todo o dia para
amornar, na qual o árabe tinha misturado farinha e um pouco de vinho.
123
Capítulo 9 •
Os cavalos Flame e Smoke
Na manhã seguinte se levantaram antes do amanhecer para ver como
Flame e Smoke estavam depois das peripécias. Entrando no estábulo, ouviram
o choro de um homem, escondido na sombra, e viram à luz mortiça da manhã
que era o velho árabe, de costas para onde estavam, com um braço envolven-
do o pescoço de cada cavalo, os quais beijava de tempos em tempos. E ele
falava alto, em sua própria língua, chamando-os de seus filhos, e que preferia
vender sua mulher e sua irmã para os francos.
— Mas — acrescentou, — ela decidiu... não sei por quê... e preciso obe-
decer. Bem, pelos menos eles são valentes e galantes, e merecem cavalos de
batalha. Quase desejei que vocês, nós três mais minha sobrinha Masouda, a
mulher de rosto misterioso e olhos que encararam o perigo, tivéssemos mor-
rido no abismo do regato. Mas não era o desejo de Alá. Então, adeus Flame,
e adeus Smoke, filhos do deserto, e que são mais rápidos do que flechas, pois
nunca mais vou montar vocês numa batalha. Mas pelo menos tenho outros
de sua linhagem sem igual.
Então Godwin tocou Wulf no ombro, e se esgueiraram para fora do está-
bulo sem que o árabe soubesse de sua presença, pois era vergonhoso bisbi-
lhotar a sua dor. Quando retornaram ao quarto Godwin perguntou a Wulf:
— Por que este homem nos vendeu os cavalos?
— Porque sua sobrinha Masouda mandou que vendesse — ele respondeu.
— E por que ela mandou?
— Ora! — retrucou Wulf. — Ele a chamou de mulher de rosto misterioso
e olhos que encararam o perigo, não foi? Ora, por razões que devem ter a ver
com sua família, talvez, ou com seus segredos, ou conosco, com quem ela
brinca, uma brincadeira cujo começo ou fim não conhecemos. Mas irmão
Godwin, você é mais sábio do que eu. Por que me pergunta sobre estes enig-
mas? De minha parte não quero encher minha cabeça com eles. Só o que sei
é que a brincadeira é de gente grande, e quero ir até o fim, principalmente
porque acho que vai nos levar até Rosamund.
— E pode nos levar a lugares piores — respondeu Godwin com um gemi-
do, pois se lembrou do sonho que teve no ar entre os paredões do abismo e
a espuma lá em baixo.
Mas não disse nada deste sonho a Wulf.
Quando o sol já tinha nascido completamente preparam-se para sair, le-
vando o ouro para pagar o árabe. Mas quando abriram a porta do quarto
depararam com Masouda, aparentemente se preparando para bater à porta.
124
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Aonde vocês vão, amigos Peter e John, e tão cedo? — perguntou, olhan-
do para eles com um sorriso no rosto, que parecia esconder tanto mistério.
Godwin pensou consigo mesmo que era como outro sorriso, no rosto de
uma cabeça de mulher, de pedra, na forma de uma esfinge, que eles tinham
visto no mercado de Beirute.
— Visitar nossos cavalos e pagar seu tio, o árabe, o que lhe devemos — res-
pondeu Wulf.
— É mesmo? Quanto a visitar os cavalos, acho que vi vocês fazerem isto
há uma hora. Quanto a pagar, é inútil; Filho da Areia foi embora.
— Embora! Com os cavalos?
— Não, eles ficaram.
— A senhora pagou a ele então, lady Masouda?
Dava para ver que Masouda ficou satisfeita com o tratamento cerimonio-
so de lady, pois sua voz, geralmente um pouco áspera, era suave quando ela
respondeu, pela primeira vez se referindo a ele pelo título:
— Por que me chama de lady, Sir Godwin D’Arcy, eu que sou uma simples
dona de estalagem, e para quem às vezes os homens usam nomes vulgares?
Bem, talvez eu tenha sido uma lady outrora, antes de me tornar dona de es-
talagem; mas agora sou... a viúva Masouda, da mesma forma que você é o
peregrino Peter. Mas eu agradeço... o seu engano... — E dando um passo ou
dois atrás, na direção da porta que tinha fechado, fez uma mesura tão plena
de dignidade e de graça que qualquer um que a tivesse visto teria a certeza de
que, a despeito de onde morasse, Masouda não fora criada numa estalagem.
Godwin devolveu a mesura, tirando o chapéu. Seus olhos se encontraram e
neles ele viu que não havia motivo para temer uma traição da parte desta mulher,
embora houvesse muito o que temer. Mas a partir daquele momento, por mais
negra e temerária que parecesse a estrada, ele entregaria sua vida a ela, pois esta
era a mensagem escrita em seus olhos, mensagem que ela queria que ele enten-
desse. Contudo, no fundo do coração, ele se sentia terrivelmente temeroso.
Wulf, que percebeu alguma coisa e imaginou o resto, também tinha medo.
Gostaria de saber o que Rosamund pensaria de tudo isto, se tivesse visto o
olhar estranho e perturbador nos olhos daquela mulher que tinha sido uma
lady e era uma dona de estalagem; que alguns homens chamavam de espiã e
filha de Satã, e menina de Al-je-bal. No seu entendimento aquele olhar era um
clarão numa noite escura, e que por um instante ilumina alguma coisa mágica
e não pressentida, e depois do que vem a noite outra vez, ainda mais negra.
125
Capítulo 9 •
Os cavalos Flame e Smoke
Agora a viúva Masouda falava, na sua voz normal e meio áspera:
— Não, não paguei. No fim ele não iria receber dinheiro nenhum, e como
tinha consentido na venda, não iria voltar atrás com cavaleiros que cavalgam
tão bem. De modo que fiz um trato com ele, em nome de vocês, e que espero
que honrem, já que empenhei minha boa fé e o árabe é um chefe e meu pa-
rente. É o seguinte: se vocês e os cavalos sobreviverem, e chegar o tempo em
que não mais precisarão deles, vocês mandarão apregoar no mercado da ci-
dade mais próxima de vocês, pelo apregoador público, durante seis dias, que
eles serão devolvidos a quem os emprestou. E se ele não aparecer, eles pode-
rão ser vendidos, mas não poderão ser vendidos ou dados sem esta procla-
mação. Estão de acordo?
— Sim — responderam os dois, mas Wulf acrescentou: — Só queremos
saber por que o árabe, Filho da Areia, e que é seu parente, confia seus estu-
pendos cavalos a nós desta maneira.
— O café está servido, meus hóspedes — respondeu Masouda num tom
de voz que parecia vir de um metal, tão áspero era. Wulf sacudiu a cabeça e
a seguiu até a sala de jantar, que agora estava vazia, da mesma forma que na
manhã de sua chegada.
A maior parte daquele dia eles passaram com os cavalos. À noite, desta
vez sem a companhia de Masouda, saíram para uma pequena volta, pois
ainda não tinham certeza de que os animais, que pareciam tão humanos, não
pegariam os bridões nos dentes e galopariam de volta com eles para o deser-
to de onde tinham vindo. Embora de vez em quando olhassem em volta, à
procura de seu dono, o árabe, relinchando, isto eles não fizeram, nem de-
monstraram qualquer impaciência. Cavalos treinados para levar mulheres
não teriam agido com mais calma. Então os irmãos os levaram de volta no-
vamente, desarrearam, alimentaram e acariciaram, enquanto eles erguiam as
orelhas e os cheiravam, como se soubessem que eram seus novos donos, e
quisessem tornar-se amigos.
O dia seguinte era um domingo e, acompanhados do escravo de Masouda,
sem o qual ela não permitia que andassem pela cidade, os irmãos foram à
missa na grande igreja que tinha sido uma mesquita, usando roupas de pere-
grinos sobre a cota.
— Não vai conosco rezar pela nossa fé? — perguntou Wulf.
— Não — respondeu Masouda. — Não estou com disposição para me
confessar. Hoje vou perfilar as contas dentro de casa.
126
Cruzada •
H. Rider Haggard
Então eles foram sozinhos, e misturados às pessoas mais humildes na
parte de trás da igreja, que era ampla e um pouco escura, observaram os
cavaleiros e os sacerdotes lutando por melhores lugares perto do altar. Tam-
bém ouviram os bispos do lugar fazerem um sermão com o qual aprenderam
muito. Eles falaram extensamente sobre a grande guerra contra Saladino, que
chamaram de anti-Cristo, e que se avizinhava. Principalmente, pediram a
todos que acertassem suas diferenças e se preparassem para aquela temível
batalha, senão no fim a cruz do Senhor seria pisada pelos pés dos sarracenos,
Seus soldados mortos, Seus santuários profanados, Seus seguidores dizimados
ou jogados no mar — palavras que foram recebidas com pesado silêncio.
— Quatro dias já se passaram. Vamos perguntar à nossa hospedeira se ela
já tem novidades para nós — falou Wulf quando voltavam para a estalagem.
— Vamos perguntar — respondeu Godwin.
Mas não houve necessidade, pois quando entraram no quarto encontraram
Masouda de pé no centro, aparentemente perdida em pensamentos.
— Vim falar com vocês — ela disse, olhando para cima. — Vocês ainda
querem visitar o xeique Al-je-bal?
Os dois responderam que sim.
— Ótimo, tenho permissão para irem, mas aconselho a não irem, pois é
perigoso. Vamos ser francos um com o outro. Sei o que pretendem. Soube uma
hora antes que colocassem os pés nesta praia, e foi por isso que foram trazidos
à minha casa. Querem a ajuda do poderoso Sinan contra Saladino, de quem
querem resgatar uma certa lady que é parente de vocês, e que os dois... querem
como esposa. Vêem, soube disso também. Esta terra é cheia de espiões, que
vão e voltam da Europa e relatam tudo aos que lhes pagam o suficiente. Por
exemplo, e posso falar pois não o verão mais, o comerciante Thomas, que
também se hospedou nesta casa, é um destes espiões. Sua história foi passada
a ele por outros espiões, na Inglaterra, e ele a passou para mim.
— Então quer dizer que você também é uma espiã, como o carregador
disse? — perguntou Wulf diretamente.
— Sou o que sou — ela respondeu com frieza. — Talvez tenha também
feito juramentos e faço como vocês fazem. Quem é meu senhor ou por que
faço o que faço não é da sua conta. Mas gosto de vocês e cavalgamos juntos,
uma cavalgada frenética. Portanto, advirto-os, embora talvez não devesse
falar tanto, que o poderoso Al-je-bal cobra pelos serviços que presta, e que
isto pode lhes custar a vida.
127
Capítulo 9 •
Os cavalos Flame e Smoke
— Você nos advertiu contra Saladino também — falou Godwin. — Então
o que nos resta se decidirmos não fazer uma visita a um ou a outro?
Ela encolheu os ombros. — Servir a um dos grandes senhores francos e
esperar uma oportunidade que pode nunca vir. Ou melhor ainda, costurar
algumas folhas de palmeira em seus chapéus, voltar para casa como homens
santificados que fizeram uma peregrinação, casar com as viúvas mais ricas
que puderem encontrar, esquecer Masouda, a viúva, e Al-je-bal e Saladino e
a lady sobre a qual ele sonhou um sonho. E acrescentou com a voz alterada:
— Mas lembrem-se, deverão deixar os cavalos Flame e Smoke.
— Queremos andar nos cavalos — falou Wulf suavemente, mas Godwin
virou-se para ela com raiva nos olhos.
— Você parece conhecer nossa história e a missão que juramos desempe-
nhar. Que tipo de cavaleiros pensa que somos, a quem dá conselhos que
servem mais àqueles espiões dos quais fica sabendo das novidades? Você fala
sobre nossas vidas. Bem, damos nossas vidas em penhor, e quando nos forem
exigidas as daremos, depois de ter feito tudo o que devemos fazer.
— Belas palavras — respondeu Masouda. — Teria pensado mal se tivesse
falado de outra forma. Mas por que querem ir até Al-je-bal?
— Porque nosso tio, no leito de morte, pediu que fôssemos, e como não
temos outra orientação, seguiremos esta, aconteça o que acontecer.
— Belas palavras outra vez! Então até a Al-je-bal vocês irão, nós três, e
vamos ver no que vai dar.
— Nós três? — falou Wulf. — E qual é a sua parte nesta história?
— Não sei, mas talvez maior do que vocês pensam. No mínimo, serei a guia.
— Você pretende nos trair? — perguntou Wulf de chofre.
Ela se empertigou e olhou nos olhos dele, até que Wulf ficou corado, e
depois respondeu:
— Pergunte a seu irmão se ele acha que pretendo traí-los. Não, pretendo
salvá-los, se puder, e acho que antes de tudo isto terminar você precisará ser
salvo, você que fala tão rudemente com quem quer ser sua amiga. Não, não
responda, não é estranho que duvide. Peregrinos, rumo ao temível santuário
de Al-je-bal, se é o que querem. Sairemos ao cair da noite. Não se preocupem
com comida ou outras coisas. Cuido disso, mas iremos sós, e secretamente.
Levem apenas as armas e a roupa de que vão precisar. O resto eu forneço, e
vou dar-lhes um recibo. Agora vou começar a preparar tudo. Não se esqueçam
de ter Flame e Smoke selados ao anoitecer.
128
Cruzada •
H. Rider Haggard
Ao escurecer, como ficara acertado, os irmãos já estavam esperando no
quarto. Estavam completamente vestidos e armados sob os toscos mantos de
peregrinos, e levavam até os pequenos escudos, escondidos na bagagem. Mes-
mo as bolsas de carregar na sela, que Masouda lhes tinha dado, estavam cheias
das coisas de que iriam precisar. O resto tinha ficado sob a guarda dela.
Logo a porta se abriu, e um jovem se apresentou diante deles, completa-
mente vestido com um manto de lã de camelo, ou albornoz, como é comum
no Oriente.
— O que você quer? — perguntou Godwin.
— Quero vocês, irmãos Peter e John — foi a resposta, e então viram que o
jovem magro era Masouda. — Ora, ingleses inocentes, não conseguem identi-
ficar uma mulher vestida com um manto de lã de camelo? — ela acrescentou,
enquanto ia na frente em direção do estábulo. — Ótimo, tanto melhor, pois
mostra que meu disfarce é bom. Portanto, queiram esquecer a viúva Masouda
e, até que cheguemos nas terras de Al-je-bal, lembrem-se de que sou seu servo,
um bastardo de Jafa, de nome Davi, de nenhuma religião... ou de todas.
No estábulo os cavalos estavam selados, e junto a eles um outro — um
bonito cavalo árabe — e duas mulas de carga. Mas não havia nenhum aju-
dante. Eles levaram os animais para fora e montaram, Masouda cavalgando
como homem, e puxando as mulas, uma presa à cauda da outra pela cabeça.
Cinco minutos depois já estavam fora de Beirute, e no silêncio do crepúsculo
seguiram pela estrada onde tinham exercitado os cavalos, na direção do rio
Dog, três léguas à frente, aonde chegariam, conforme disse Masouda, no
nascer da lua.
Logo ficou muito escuro, e ela ia ao lado deles, para mostrar o caminho,
mas não falavam muito. Wulf perguntou-lhe quem ficaria cuidando da esta-
lagem enquanto ela estivesse fora, ao que ela respondeu rispidamente que a
estalagem cuidaria de si, e mais nada. Escolhendo o caminho entre as pedras
da estrada, iam num ritmo lento, e atravessaram o leito de dois regatos qua-
se secos, até que finalmente ouviram o ruído de água corrente acima do
marulhar do mar à sua esquerda, e Masouda mandou-os parar. Eles pararam,
mas logo a lua surgiu no céu limpo, revelando um largo rio à frente, o ocea-
no cinza abaixo deles uns 100 metros, e à esquerda, e altas montanhas à
direita, por onde o caminho que seguiam cortava. A claridade era tão grande
que Godwin podia divisar estranhas formas esculpidas na íngreme face do
rochedo, e abaixo delas inscrições que ele não conseguia ler.
129
Capítulo 9 •
Os cavalos Flame e Smoke
— O que são? — ele perguntou a Masouda.
— As tábuas dos reis — ela respondeu —, e cujos nomes estão escritos no
seu livro sagrado, e que governaram a Síria e o Egito milhares de anos atrás.
Eram poderosos na sua época, quando tomaram estas terras, mais poderosos
que Saladino, mas agora estas inscrições que colocaram na rocha é tudo o
que resta deles.
Godwin e Wulf fitaram as esculturas, gastas pelo tempo, e no silêncio que
envolvia aquele lugar iluminado pela claridade do luar, veio às suas mentes
a visão de exércitos poderosos, de diferentes povos e línguas que estiveram
neste mesmo caminho, orgulhosos, e olharam para além do rio e para o lobo
de pedra que o guardava, lobo que segundo a lenda uivava à aproximação
dos inimigos. Mas agora ele não uivava mais, pois jazia sob a água, sem
cabeça, e lá permanece até hoje. Bem, estavam mortos, todos eles, e mesmo
os seus atos de heroísmo foram esquecidos; e estes pensamentos os fizeram
sentirem-se minúsculos, dois cavaleiros numa missão desesperada numa
terra estranha e perigosa. Masouda percebeu nitidamente o que se passava
em seus corações, e ao virarem para a margem do rio apontou para as bolhas
que estouravam e se formavam novamente, diante de seus olhos, em sua
caminhada para o mar.
— Somos assim — ela falou resumidamente —, mas o oceano está sempre
além, o rio está sempre aqui, e as bolhas estão sempre presentes, incessante-
mente. Portanto, dancem nas águas da vida enquanto podem, ao sol, ao luar,
sob a tempestade, debaixo das estrelas, pois o oceano cobra sua parte, e as
bolhas estouram. Agora me sigam, pois conheço um lugar menos fundo, e
nesta época há menos água. Peregrino Peter, fique do meu lado, para o caso
de eu ser arrancada da sela; e peregrino John, venha atrás, e pique as mulas
com a ponta da sua espada caso elas refuguem.
E assim entraram no rio, o que muitos talvez temessem fazer à noite, e
embora uma ou duas vezes a água tenha subido até as selas e as mulas fossem
renitentes na correnteza, no fim conseguiram chegar à outra margem em
segurança. E de lá prosseguiram o caminho pelas montanhas até que final-
mente o sol nasceu e eles se viram numa terra deserta onde não se via ninguém.
Fizeram uma pausa junto a um bosque de carvalhos, tiraram as selas dos
animais, amarraram-nos e deram-lhe cevada que tinham trazido em cima de
uma mula, e comeram da comida que Masouda tinha providenciado. Depois,
prenderam as mulas e se deitaram para dormir, todos os três, pois Masouda
130
Cruzada •
H. Rider Haggard
tinha dito que não havia o que temer. E como estavam cansados, dormiram
até depois do meio-dia, quando alimentaram mais uma vez os cavalos e as
mulas, e depois de se alimentar, continuaram a viagem.
Agora a estrada, se é que podia ser chamada de estrada, pois não havia
nenhuma trilha formada, subia uma região montanhosa e árida, onde parecia
que nenhum homem ou animal habitava. Ao pôr-do-sol eles pararam nova-
mente, e ao nascer da lua prosseguiram à frente, até que a noite tornou-se
manhã, quando chegaram a um lugar com uma pequena caverna.
Antes de se aproximarem o silêncio das montanhas foi quebrado por um
urro, não muito próximo deles, mas tão alto que ele ecoou e ecoou novamen-
te nos penhascos. Os cavalos Flame e Smoke imediatamente ergueram as
orelhas, e tremeram, enquanto as mulas tentaram parar e correr para trás.
— O que é isto? — perguntou Wulf, que nunca tinha ouvido coisa
semelhante.
— Leões — respondeu Masouda. — Chegamos ao lugar onde há muitos
deles, e portanto é bom pararmos, pois é melhor atravessar com a luz do sol.
E então se aproximaram da caverna, e como não ouviram mais urros do
leão, ou leões, tiraram as selas dos cavalos, e pensaram em colocá-los na
caverna, onde ficariam a salvo de ataques de quaisquer animais carnívoros.
Mas quando os levaram, Smoke e Flame agitaram as narinas, fincaram as
patas no chão e se recusaram a entrar no lugar de onde vinha um odor forte
e desagradável.
— Talvez chacais tenham estado aqui — falou Masouda. — Vamos amar-
rar os animais do lado de fora.
E isto eles fizeram, acendendo um fogo com madeira seca que havia em
abundância, pois o lugar tinha muitas árvores esquálidas de cedro. Os irmãos
se sentaram perto do fogo, mas como a noite estava quente, Masouda deitou-
se a uns 15 metros de distância, debaixo de uma árvore, que ficava quase em
frente à entrada da caverna, e dormiu, pois estava exausta da longa cavalga-
da. Wulf dormiu também, pois Godwin tinha concordado em ficar de guarda
na primeira parte da noite.
Durante uma hora ou mais ele ficou sentado perto dos cavalos, e percebeu
que eles estavam inquietos, e não se deitavam. Mas logo ele ficou imerso em
seus pensamentos, e como não ouviu mais nenhum ruído de leões, começou
a pensar na natureza estranha de sua missão e no tipo de fim que ela poderia
ter. Pensou também em Masouda, em quem era ela, como aconteceu de saber
131
Capítulo 9 •
Os cavalos Flame e Smoke
tanto, porque se tornou amiga deles, se é que era mesmo amiga, e em outras
coisas. Por exemplo, naquele salto sobre o regato, e se... não, ele estava en-
ganado, ela nunca tinha olhado para ele daquele jeito. É que ele estava qua-
se dormindo, e os olhos que ele via na escuridão não eram os de uma mulher.
Olhos de mulher não são verdes e dourados; eles não aumentam, depois di-
minuem, e depois desaparecem.
Godwin pôs-se de pé num salto. Como pensara, não eram olhos. Ele tinha
dormido, isto sim. Então pegou alguns galhos de cedro e jogou-os sobre o
fogo, e eles ficaram imediatamente em chamas. Depois se sentou próximo de
Wulf, que estava imerso em sono.
A noite estava tão calma, e o silêncio tão profundo que parecia pesar
sobre eles. Godwin ficou um pouco inquieto, e levantando-se começou a
andar em frente à caverna, para lá e para cá, tirando a espada da bainha e
segurando-a como fazem as sentinelas. Masouda estava deitada no chão, com
a cabeça sobre um alforje, e o luar se filtrava sobre seu rosto através dos
galhos da árvore de cedro. Godwin parou para olhá-la, e ficou imaginando
que nunca tinha notado como ela era bonita. Talvez fosse a luz suave e pra-
teada que cobria suas feições delicadas com tanto mistério e charme. Ela
podia estar morta, e não dormindo, mas ao pensar nisso a vida voltou ao seu
rosto, a cor apareceu sob a pele num matiz de oliva, os lábios vermelhos se
abriram, parecendo murmurar algumas palavras, e ela estendeu os braços
roliços como se querendo agarrar uma visão de seu sonho.
Godwin virou-se; não parecia certo observá-la desta forma, embora na
verdade só viera ver se ela estava segura. Ele voltou para perto do fogo, e ergueu
um pedaço de cedro, como uma tocha, e se preparava para repô-la no fogo
novamente quando de repente ouviu o grito agudo de uma mulher presa da
agonia da dor ou do medo, e no mesmo instante os cavalos e as mulas come-
çaram a saltar e a relinchar. Num átimo de segundo, a tocha ainda na mão,
voltou à caverna, e lá, diante dele, viu o corpo de Masouda pendendo das
mandíbulas de um animal enorme e amarelo. Mesmo nunca tendo visto nada
igual antes, ele sabia que era uma leoa. Ela ia para a caverna, mas ao vê-lo
virou-se e foi em direção ao fogo, aparentemente querendo ir para o bosque.
Mas a mulher presa à sua boca atrapalhava. Correndo, Godwin ficou
frente a frente com a fera, do outro lado do fogo. E atirou a tocha na direção
dela, que largou Masouda, e recuou um pouco, firmando-se nas patas trasei-
ras e esticando as mandíbulas, preparando-se para lançar-se sobre Godwin.
132
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Cruzada •
H. Rider Haggard
Mas Godwin não esperou. Ele tinha medo, sim, pois nunca tinha lutado com
leões, mas sabia que era preciso agir ou morrer. Lançou-se com toda a força
contra o animal, e com toda a força de seu forte braço enfiou a longa espada
no peito da leoa, até que não viu mais a lâmina da espada, só o punho.
Depois um choque, o som de urros furiosos, e ele caiu no chão, debaixo
de um corpo pesado e macio, e perdeu os sentidos.
Quando voltou a si ainda havia um toque suave contra seu rosto, mas era
apenas a mão de Masouda, que banhava sua testa com um pano embebido
em água, enquanto Wulf esfregava suas mãos. Godwin sentou-se, e à luz de
um novo sol viu uma leoa morta estendida ao seu lado, o corpo ainda trans-
fixado pela sua espada.
— Então eu te salvei — ele disse fracamente.
— Sim, você me salvou — respondeu Masouda, que se ajoelhando beijou-lhe
os pés. E levantando-se, com o longo cabelo limpou o sangue que escorria de
um ferimento em seu braço.
133
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 10
A bordo da galera
R
A
osamund foi levada da casa em Steeple, pelo gramado, em direção ao
cais em Steeple Creek, onde um grande barco aguardava — o mesmo
cujos vestígios na lama os irmãos tinham encontrado. O bando embar-
cou colocando os mortos e feridos, com um ou dois homens para cuidar deles, no
esquife de pesca que tinha sido de seu pai. O esquife foi preso à popa do barco, e
partiram, remando em completo silêncio pelo riacho até que atingiram o leito do
Blackwater, e lá viraram a proa na direção do mar. Sob a noite escura e a neve que
caía vagarosamente eles avançaram, às vezes remando, às vezes à deriva, com o
falso peregrino como guia. A viagem era perigosa, pois mal podiam ver a praia,
embora tentassem ficar o mais perto dela que conseguiam.
E isto acabou fazendo com que ficassem presos num banco de areia, e por
mais que fizessem, não conseguiam se liberar. A esperança encheu o coração
de Rosamund, sentada imóvel como uma estátua no meio do barco, com o
príncipe Hassan ao seu lado, e homens armados — 20 ou 30 deles — em
volta. Talvez, ela pensou, ficariam presos lá até o amanhecer, e fosse vista e
resgatada quando os irmãos acordassem de seu sono drogado. Mas Hassan
percebeu seus pensamentos, e falou, gentilmente:
— Não se iluda, lady, pois devo dizer que se o pior ainda ficar pior, nós a
colocaremos no esquife e seguiremos, deixando o resto à sua própria sorte.
E como deveria acontecer, quando a maré subiu, eles se libertaram do
banco de areia e foram levados na direção do mar. Ao primeiro clarão da
134
Cruzada •
H. Rider Haggard
madrugada ela olhou, e lá, no meio da névoa, estava uma grande galera,
ancorada na foz do rio. Agradecendo a Alá pela chegada segura, o bando a
levou para bordo e a colocou na cabine. Na popa estava um homem alto,
ordenando aos marinheiros que levantassem a âncora. Quando ela subiu a
bordo ele avançou, fez uma mesura e falou:
— Lady Rosamund, então você me encontra mais uma vez, eu que certa-
mente nunca mais pensava ver.
Ela olhou para ele, na fraca luminosidade, e seu sangue ficou gelado. Era
o cavaleiro Lozelle.
— O senhor aqui, Sir Hugh? — ela falou surpresa.
— Onde você estiver, lá eu estarei — ele respondeu, com um riso de zom-
baria no rosto rude. — Não jurei que haveria de ser assim, bela Rosamund,
depois que seu primo, tido como um santo, me derrotou naquela luta?
— O senhor aqui? — ela repetiu. — Um cavaleiro cristão a soldo de Saladino?
— A soldo de qualquer um que me leve a você, Rosamund. Depois, vendo
a aproximação do Emir Hassan, virou-se para dar algumas ordens aos ma-
rinheiros, e ela foi para a cabine e em agonia pôs-se de joelhos.
Quando Rosamund se reergueu sentiu que o navio se movia e, querendo dar
uma última olhada em Essex, foi novamente para a popa, onde estavam Hassan
e Sir Hugh, um ao lado do outro. Foi quando viu a torre da igreja de St. Peter’s-
on-the-Wall, e seus primos montados a cavalo, com a luz do sol incidindo sobre
suas cotas. Viu também Wulf esporear o cavalo rumo ao mar, e ouviu fraca-
mente seu grito de “Não tema! Nós te seguiremos, te seguiremos!”
Um pensamento veio à sua cabeça, e ela lançou-se contra a amurada de
proteção; mas eles estavam observando e a detiveram, de modo que o máxi-
mo que pôde fazer foi agitar os braços como num sinal.
Agora o vento enfunou a vela e o navio avançou rapidamente, e ela os
perdeu de vista. Aflita e com raiva, Rosamund virou-se para Sir Hugh Lozelle
e dirigiu-lhe palavras amargas que o fizeram encolher.
— Covarde e traidor! — falou. — Então foi você quem planejou tudo,
conhecendo todos os segredos de nossa casa, onde muitas vezes foi nosso hós-
pede! Você, que pelo ouro dos pagãos matou meu pai, sem coragem de mostrar
sua cara diante da espada dele, escondido junto à costa, pronto a receber o que
homens mais valentes tivessem conseguido. Oh! que Deus vingue o sangue dele,
e o meu, falso cavaleiro. Falso para Ele e para mim, em fé e em honra. E vin-
gança haverá. Não ouviu o que os meus primos disseram? “Seguiremos, te
135
Capítulo 10 •
A bordo da galera
seguiremos”. Sim, eles seguirão, e suas espadas, as que você não quis enfrentar,
ainda atingirão seu coração e libertarão sua alma para Satã. Então ela parou,
trêmula da raiva justa, enquanto Hassan a fitava, murmurando:
— Por Alá, uma verdadeira Princesa! Desta mesma forma vi Saladino
olhar em sua raiva. Ela tem os mesmos olhos.
Mas Sir Hugh respondeu, com voz fraca.
— Que eles sigam. Um ou os dois. Não os temo, e lá meu pé não vai es-
corregar na neve.
— Pois digo que vão escorregar na areia ou na rocha — ela respondeu, e
virando-se, correu para a cabine, deitando-se e chorando até sentir que o
coração iria arrebentar.
Rosamund chorou pelo pai assassinado, por ter sido retirada da casa e
posta no poder de um homem que odiava. Mas ainda havia uma esperança.
Hassan, mesmo sendo um trapaceiro oriental, era seu amigo; e seu tio, Sala-
dino, pelo menos nunca haveria de querer que ela sofresse humilhação. Talvez
ele não soubesse nada deste Lozelle, exceto que era um destes traidores cris-
tãos, sempre prontos a trair a Cruz por dinheiro. Mas Saladino estava longe,
e seu lar tinha ficado para trás, e seus primos e enamorados estavam deses-
perados naquela praia cada vez mais distante. E ela — uma mulher só — es-
tava neste navio com o temível Lozelle, que assim tinha cumprido sua
promessa, e não havia ninguém que a protegesse, ninguém exceto Deus, que
tinha permitido que tudo acontecesse.
O navio balançava, e ela se sentiu mal e com enjôo. Hassan trouxe-lhe
comida, que ela recusou, dizendo que queria morrer. O dia virou noite, a
noite virou dia novamente, e sempre Hassan lhe trazia comida e tentava
consolá-la, até que ela perdeu a conta dos dias.
Aí veio um longo sono, e no sono sonhou com seu pai enfrentando os
inimigos, abatendo-os com a longa espada, como um plantador corta o trigo
com o alfanje. Ou seu pai derrubado pelo falso peregrino, morrendo esten-
dido no chão de sua própria casa, e dizendo “Deus vai protegê-la. Seu dese-
jo vai ser realizado”. E sonhos em que Wulf e Godwin também lutavam para
salvá-la, prometendo e jurando fidelidade, e entre os sonhos a escuridão.
Rosamund acordou sentindo o sol passando, em raios quentes, pelas ve-
nezianas de sua cabine, e vendo uma mulher com uma xícara na mão a ob-
servá-la. Uma mulher robusta, de meia idade, e com um rosto agradável. Ela
olhou em volta e se lembrou de tudo. Então ainda estava no navio.
136
Cruzada •
H. Rider Haggard
— De onde vem você? — ela perguntou à mulher.
— Da França, lady. Este navio parou em Marselha, e lá fui contratada
para cuidar de alguém doente, o que me servia muito bem, pois desejava ir a
Jerusalém à procura de meu marido, e um bom dinheiro me foi oferecido.
Contudo, se soubesse que são todos sarracenos neste navio talvez não tives-
se vindo. Todos, exceto o capitão, Sir Hugh, e o peregrino Nicholas. E o que
eles, e a senhora também, estão fazendo nesta companhia eu não sei.
— Qual é o seu nome? — perguntou Rosamund desinteressadamente.
— Marie, Marie Bouchet. Meu marido é peixeiro, ou era, até que um
destes sacerdotes empenhados em cruzadas o convenceu a ir com ele matar
pagãos e salvar sua alma, muito contra a minha vontade. Bem, prometi que
se ele não retornasse em cinco anos iria procurá-lo. E por isso estou aqui,
mas onde ele está é outra história.
— É muita coragem sua ir — falou Rosamund, acrescentando depois de
uma reflexão —, há quanto tempo passamos por Marselha?
Marie contou nos dedos gordos, e respondeu:
— Cinco, quase seis semanas. A senhora ficou este tempo todo imersa em
seus pensamentos, ausente, falando de coisas estranhas, e passamos por três
portos. Esqueci os nomes, mas o último ficava numa ilha com uma praia mui-
to bonita. Agora, em uns 20 dias, se tudo correr bem, devemos chegar a outra
ilha, chamada Chipre. Mas a senhora não deve falar tanto, precisa dormir. O
sarraceno chamado Hassan, que é um médico competente, me falou.
E Rosamund dormiu, e a partir daquele dia, navegando num mar Medi-
terrâneo calmo, suas forças começaram a voltar rapidamente, pois era jovem
e forte, tanto no corpo quanto na constituição física. Três dias depois foi ao
deck, ajudada, e o primeiro homem que viu foi Hassan, que se apressou a
encontrá-la, com muitas saudações no estilo ocidental e alegria estampada
no rosto escuro e vincado.
— Dou graças a Alá, pela senhora e por mim — ele disse. — Pela senho-
ra, pois continua viva, e pensei que ia morrer, e por mim, pois se a senhora
morresse, sua vida seria cobrada de mim, por Saladino, meu amo.
— Se tivesse acontecido, ele teria que culpar Azrael, não o senhor —, res-
pondeu Rosamund sorrindo. Mas logo ficou séria, pois à sua frente estava Sir
Hugh Lozelle, também dando graças aos céus pela sua recuperação. Ela o ouviu
friamente, e ele se afastou, para voltar logo em seguida. Na verdade era quase
impossível se ver livre dele, pois sempre que aparecia no deck lá ele estava. E
137
Capítulo 10 •
A bordo da galera
também não era possível afastá-lo, pois nem o silêncio nem a repulsa o faziam
mover-se. Ele procurava sentar-se sempre por perto, falando com sua voz falsa
e cheia de ressentimento, e sempre devorando-a com os olhos, que ela podia
sentir sempre fixos em seu rosto. E com ele muitas vezes estava seu assecla, o
falso peregrino Nicholas, que rastejava em volta dela como uma cobra, e sempre
pronto a adulá-la. Mas para este homem ele nunca dirigia a palavra.
Finalmente não conseguiu agüentar mais, e recuperada chamou Hassan à
sua cabine.
— Diga-me, príncipe, quem manda neste navio?
— Três pessoas — ele respondeu, com uma mesura. — O cavaleiro Sir
Hugh Lozelle que, como um hábil navegador, é o capitão e manda nos ma-
rinheiros; eu, que mando nos guerreiros; e a senhora, Princesa, que manda
em todos nós.
— Então eu ordeno que não seja permitido àquele patife chamado Nicholas
se aproximar de mim. Está imposto que tenho que me relacionar com o as-
sassino de meu pai?
— Temo que neste assunto todos nós demos uma contribuição, contudo
sua ordem será obedecida. Para dizer a verdade, lady, odeio o sujeito, que
não é mais do que um reles espião.
— Desejo, ainda — continuou Rosamund —, nunca mais falar com Sir
Hugh Lozelle.
— Isto é mais difícil — falou Hassan —, pois ele é o capitão a quem meu
amo ordenou que eu obedecesse em todas as coisas relacionadas ao navio.
— Não tenho nada a ver com o navio — respondeu Rosamund —, e
certamente a Princesa de Baalbec, se é o que sou, pode escolher suas compa-
nhias. Quero vê-lo mais, e menos Sir Hugh Lozelle.
— Estou honrado — retrucou Hassan —, e farei o possível.
Por alguns dias depois desta conversa, embora sempre a estivesse obser-
vando, Lozelle se aproximou de Rosamund poucas vezes, e sempre que tentou
encontrou Hassan ao lado dela, ou atrás, como um guarda.
Finalmente, como podia acontecer, o príncipe ficou doente, por ter bebido
água contaminada, e foi obrigado a ficar na cama por alguns dias, e então
Lozelle teve a sua oportunidade. Rosamund procurou ficar na cabine, para
evitá-lo, mas o calor do sol do Mediterrâneo fê-la sair e abrigar-se debaixo
de um toldo na popa, onde ela se sentou com Marie. Então Lozelle se apro-
ximou, pretextando trazer-lhe comida ou perguntar se precisava de alguma
138
Cruzada •
H. Rider Haggard
coisa, mas ela nunca respondia. Finalmente, como Marie entendia o que ele
dizia em francês, ele passou a dirigir-lhe a palavra em árabe, que ele falava
bem, mas ela fingia não compreender. Por fim ele usou a língua inglesa, como
era falada pelas pessoas do povo em Essex, e disse:
— Lady, como a senhora tem um juízo errado sobre mim. Que crime eu
cometi contra a senhora? Sou um homem de Essex, de boa linhagem, que a
encontrou em Essex, e começou a amá-la lá. Isto é crime, em alguém que não
é pobre, e além disso foi elevado a cavaleiro por atos de não pequena coragem?
Seu pai disse-me não, a senhora me diz não, e magoado com meu desapon-
tamento e suas palavras — pois ele me chamou de ladrão dos mares e trouxe
de volta antigas histórias contra mim, e que não são verdadeiras — falei o
que não devia, jurando que me casaria com a senhora, a despeito de tudo.
Por causa disso fui chamado a uma luta, e seu primo, o jovem cavaleiro Godwin,
que então era só um escudeiro, feriu-me no rosto. Bem, ele venceu e me feriu,
os fados o ajudaram, e parti com meu navio para o Oriente, pois este é o meu
negócio, comerciar entre a Síria e a Inglaterra. E então, por pura oportuni-
dade, havendo paz entre o Sultão e os Cristãos, visitei Damasco para comprar
mercadoria. Enquanto estava lá, Saladino me chamou e perguntou se era
verdade que eu era de uma parte da Inglaterra chamada Essex. Quando dis-
se que sim, perguntou se conhecia Sir Andrew D’Arcy e sua filha. Outra vez
disse que sim, e então ele me contou a estranha história de seu parentesco
com ele, sobre o que já tinha ouvido falar. E também a estranha história de
um sonho que ele tinha sonhado, relacionado com a senhora, o que fazia
necessário que a senhora fosse levada à corte dele, para ser recebida com
grandes honras. Por fim quis alugar meu melhor navio por uma grande soma,
se eu velejasse até a Inglaterra para buscar a senhora. Mas não me contou
que seria usada força, e eu, de minha parte, disse que não ergueria um dedo
contra a senhora ou seu pai, como realmente não ergui.
— O mesmo que se lembrou das espadas de Godwin e de Wulf — inter-
rompeu Rosamund com desdém —, e disse preferir que homens mais valen-
tes os enfrentassem.
— Lady — respondeu Lozelle corando, — até agora ninguém jamais me
acusou de falta de coragem. Peço-lhe que me ouça, por cortesia. Fiz mal em
entrar nesta empreitada, mas, lady, foi meu amor pela senhora que me fez
entrar, pois a possibilidade de uma viagem longa em sua companhia foi uma
isca que não consegui evitar.
139
Capítulo 10 •
A bordo da galera
— Ouro pagão foi a isca que o senhor não conseguiu evitar, é isto o que
quer dizer. Seja breve, peço-lhe, estou cansada.
— Lady, a senhora é muito severa e me julga mal, como vou mostrar — e
ele olhou em volta com atenção. — Daqui a uma semana, se tudo for bem,
fundearemos em Limassol
39
, em Chipre, para nos abastecer de comida e água,
antes de chegarmos a um porto secreto perto de Antióquia
40
, de onde a se-
nhora será conduzida a Damasco, para evitar as cidades dos francos. O im-
perador Isaac, de Chipre, é meu amigo, e Saladino não tem poder sobre ele.
Uma vez na sua corte a senhora estaria segura até surgir uma oportunidade
de retornar à Inglaterra. Este é o meu plano: a senhora deve escapar do navio
à noite, como posso arranjar.
— E qual é o pagamento — ela perguntou — para o senhor, que é um
comerciante cavaleiro?
— Meu pagamento, lady, é a senhora. Em Chipre nos casamos... oh!,
pense um pouco antes de responder. Em Damasco muitos perigos a esperam;
comigo a senhora encontrará segurança e um marido cristão que a ama tan-
to... tanto que por sua causa está disposto a perder o navio e, o que é mais,
um rompimento de fé com Saladino, cujo braço é longo.
— Já chega — ela disse friamente. — É mais fácil confiar em um honesto
sarraceno do que no senhor, Sir Hugh, que vai terminar seus dias com párias
como companheiros. É mais fácil eu morrer pelo meu amo do que o senhor,
que para defender seus interesses menores formulou o plano que levou meu
pai à morte, e me fez escrava. Já chega, repito, e nunca mais ouse falar de
amor para mim — e levantou-se e foi para a cabine.
Mas Lozelle, vendo-a passar, murmurou para si mesmo: — Não, minha
cara lady, eu apenas comecei, nem vou esquecer suas palavras amargas, pelas
quais terá que pagar a este comerciante cavaleiro em beijos.
Da cabine Rosamund mandou uma mensagem a Hassan, dizendo que
queria falar com ele.
Ele veio, ainda pálido por causa da doença, e perguntou o que ela deseja-
va, ao que ela contou o que havia se passado entre ela e Lozelle, pedindo-lhe
que a protegesse contra ele.
Os olhos de Hassan brilharam.
— Longe ele vai ficar — ele disse —, e sozinho. A senhora quer vir comi-
go e falar com ele?
Ela concordou com a cabeça, e dando-lhe a mão, ele a conduziu até a popa.
140
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Sir Capitão — ele começou, dirigindo-se a Lozelle. — A Princesa aqui
me conta uma estranha história, de que o senhor ousou oferecer-lhe seu amor,
por Alá! para ela, uma sobrinha de Saladino.
— E o que tem isto, Sir Sarraceno? — respondeu Lozelle, com insolência. — Um
cavaleiro cristão não pode ser parceiro adequado para um sangue de um chefe
oriental? Se eu tivesse oferecido menos do que casamento o senhor poderia falar.
— Você! — respondeu Hassan, falando baixo e com raiva. — Você, ladrão
desprezível e renegado, que jurou por Maomé em Damasco e por seu profe-
ta Jesus na Inglaterra — e não negue, pois ouvi o que falou aquele patife,
Nicholas, seu servo. O senhor, um noivo adequado? Se não fosse porque o
senhor precisa navegar este navio, e porque meu amo ordenou que não dis-
cutisse com o senhor até o final da missão, eu deceparia sua cabeça, e corta-
ria a língua que ousou pronunciar estas palavras. E enquanto falava, agarrou
com força o punho da cimitarra.
Lozelle tremeu e recuou diante dos olhos ferozes, pois ele conhecia Hassan,
e sabia também que, se houvesse luta, seus marinheiros não seriam páreo
para o emir e seus guerreiros sarracenos.
— Quando nossa missão terminar o senhor vai responder por estas pala-
vras — ele disse, tentando parecer valente.
— Por Alá! Vou cobrar a promessa — falou Hassan. — Diante de Saladino
vou responder por minhas palavras, quando e onde quiser, da mesma forma
que vai responder a ele por sua traição.
— E do que sou então acusado? — perguntou Lozelle. — De amar lady
Rosamund, como todos os homens, e talvez o senhor, mesmo velho e carco-
mido, esteja entre eles.
— Sim, e por aquele crime vou pagar-lhe de volta, velho e carcomido como
eu, Sir Renegado. Mas com Saladino o senhor terá outra conta a acertar, a
de facilitar a fuga de lady Rosamund tirando-a do navio — e o senhor jurou
protegê-la dentro do navio — e dar-lhe refúgio entre os gregos de Chipre.
— Se isto fosse verdade — retrucou Lozelle —, o Sultão teria razão em se
queixar de mim. Mas não é verdade. Ouça atentamente, pois preciso falar.
Foi lady Rosamund quem me rogou fazer tudo isto, e disse-lhe que por minha
honra não seria possível, embora seja verdade que a amo agora como sempre
amei, e seria capaz de muita coisa. Então ela disse que se eu a salvasse dos
sarracenos não ficaria sem minha recompensa, pois ela se casaria comigo.
Outra vez, embora com muita tristeza, disse que seria impossível, e que assim
141
Capítulo 10 •
A bordo da galera
que levasse o navio ao seu destino, seria seu cavaleiro, e estando liberado de
meu juramento, faria o possível para salvá-la.
— Princesa, a senhora ouviu — falou Hassan, virando-se para Rosamund.
— O que me diz?
— Digo — ela respondeu friamente —, que este homem mente para se
salvar. Digo, ainda, que lhe respondi que preferia morrer antes que ele me
tocasse com um dedo.
— Sei que ele mente — falou Hassan. — Não, guarde esta adaga, se quiser
viver para ver outro sol nascer. Aqui não vou lutar, mas Saladino saberá deste
caso quando chegarmos à sua corte, e fará justiça entre a palavra da Princesa
de Baalbec e de seu contratado, o falso franco e pirata, Sir Hugh Lozelle.
— Que ele saiba, quando chegarmos à corte — respondeu Lozelle, de
maneira enfática. E acrescentou: — O senhor tem mais alguma coisa a dizer
para mim, príncipe Hassan? Porque, se não tem, preciso cuidar do meu navio,
que o senhor supõe que eu estava a ponto de abandonar para ganhar um
sorriso de mulher.
— Apenas isto, este navio é do Sultão, e não seu, pois ele o comprou, e
de agora em diante esta lady será vigiada dia e noite, e duplamente vigiada
quando chegarmos às praias de Chipre, onde parece que o senhor tem amigos.
Compreenda, e não se esqueça.
— Eu compreendo, e certamente vou me lembrar — retrucou Lozelle, e
se separaram.
— Penso — falou Rosamund quando ele se foi —, que deveremos nos dar
por satisfeitos se desembarcarmos em segurança na Síria.
— Também pensei nisto, lady. Acho, também, que esqueci minha sabe-
doria, mas meu coração falou mais alto contra este homem, e ainda fraco,
perdi o discernimento, falando o que estava no coração, quando teria sido
melhor esperar. Agora, talvez, seria melhor matá-lo, não fosse ele o único
com habilidade para conduzir este navio, coisa que ele faz desde a juventude.
Não, seja feita a vontade de Alá. Ele é justo, e saberá a hora certa de fazer o
julgamento.
— Sim, mas que tipo de julgamento? — perguntou Rosamund.
— Espero que o da espada — respondeu Hassan, fazendo uma mesura e
saindo.
Daquele momento em diante homens armados ficavam a noite inteira na
porta da cabine de Rosamund, e quando ela ia para o deck, homens armados
142
Cruzada •
H. Rider Haggard
iam junto. Mas ela não foi importunada por Lozelle, que procurou não falar
mais com ela, nem com Hassan. Apenas com Nicholas.
Finalmente, numa noite estrelada — pois Lozelle era um exímio piloto,
um dos melhores que navegavam por estes mares — eles chegaram às praias
de Chipre, e lançaram âncora. À frente deles, esparramada ao longo da praia,
estava a cidade de Limassol, com palmeiras em quase todos os jardins, e além
a cadeia de montanhas de Trooidos. Doente e cansada de meses no oceano,
Rosamund olhou com emoção a bela praia manchada de verde, lugar de
tanta história, e suspirou ao pensar que poderia nem chegar à praia. Lozelle
viu o olhar e ouviu o suspiro, e ao subir no barco que tinha vindo buscá-lo,
zombou dela, dizendo:
— Não mudará de idéia, e virá comigo visitar meu amigo, o Imperador
Isaac, lady? Juro que a sua corte é alegre, e não cheia de estúpidos sarracenos
nem de peregrinos que só pensam em suas almas. Em Chipre só fazem pere-
grinação até Paphos
41
, onde Vênus nasceu da espuma e reinou desde o come-
ço do mundo, e vai reinar até o final.
Rosamund não respondeu, e Lozelle, descendo para o barco foi levado
até a praia em meio às ondas por remadores cipriotas de pele escura, com
flores no cabelo, e cantando enquanto remavam.
Por 10 dias inteiros eles ficaram em Limassol, embora o tempo estivesse
firme e o vento soprasse na direção da Síria. Quando Rosamund perguntou
por que estavam demorando tanto, Hassan bateu o pé no chão e disse que o
Imperador se recusava a fornecer-lhes mais comida e água além das que eram
estritamente necessárias para o consumo diário, a menos que ele, Hassan,
desembarcasse e viajasse a uma cidade no interior chamada Nicósia, onde
estava sua corte, e lhe prestasse homenagem. Pressentindo uma armadilha,
ele temia ir, e também não podiam partir sem as provisões.
— Sir Hugh Lozelle não pode resolver o assunto? — ela perguntou.
— Duvido que não consiga — respondeu Hassan, rangendo os dentes,
— mas ele jura que não tem como.
E lá ficaram, dia após dia, cozendo-se sob um sol abrasador, e indo de um
lado para outro ao sabor das ondas, até que a apatia tomou conta de seus
corações, e de seus corpos, pois alguns foram apanhados por uma febre co-
mum nas praias de Chipre, e que matou dois. De vez em quando algum
funcionário vinha da praia com Lozelle com um pouco de comida e água, e
negociava com eles, dizendo que antes que as necessidades fossem atendidas
143
Capítulo 10 •
A bordo da galera
o príncipe Hassan deveria visitar o Imperador e levar com ele a bela lady que
era sua passageira, e que ele queria conhecer.
Hassan respondia que não, e dobrava a guarda em torno de Rosamund,
pois à noite barcos apareciam e ficavam indo de um lado para outro. Duran-
te o dia, grupos de homens esplendorosamente vestidos em seda, e mulheres
também, podiam ser vistos indo e vindo pela praia, e olhando para eles, como
se estivessem fazendo cálculos para atacar o navio.
Então Hassan armou seus feios sarracenos e ordenou que ficassem em linha
junto à amurada, com as cimitarras na mão, visão que pareceu amedrontar os
cipriotas, pois todos recuavam até a grande torre quadrada de Colossi
42
.
Finalmente Hassan se cansou. Uma manhã Lozelle veio de Limassol, onde
tinha passado a noite, trazendo com ele três proprietários de terras, que visitaram
o navio — não para negociar como queriam dar a entender, mas para ver a bela
princesa Rosamund. Então a conversa passou para a homenagem que era preciso
fazer antes que a comida e a água fossem fornecidas, e se isto não fosse feito, o
Imperador poderia mandar seus marinheiros capturarem o navio. Hassan ouviu,
e de repente deu ordem para que os senhores das terras fossem aprisionados.
— Agora —, disse a Lozelle, — mande seus marinheiros levantarem ân-
cora e partamos para a Síria.
— Mas — disse o cavaleiro —, não temos nem água nem comida para
mais de um dia.
— Não interessa — respondeu Hassan —, é melhor morrer de sede ou de
fome no mar do que apodrecer aqui com a febre. O que pudermos suportar
estes valorosos cipriotas também poderão suportar. Ordene aos marinheiros
que levantem âncora e desfraldem as velas, ou cairemos sobre eles com cimi-
tarras na mão.
Agora foi a vez de Lozelle bater o pé e espumar de raiva, mas sem suces-
so, e virando-se para os senhores das terras, pálidos de medo, falou:
— O que vocês preferem, trazer água e comida para o navio ou ir para o
mar com eles, o que significa morte certa?
Eles responderam que iriam à praia e trariam tudo o que era necessário.
— Não — respondeu Hassan —, vocês ficam aqui até que tudo chegue.
No final, foi o que aconteceu, pois um dos senhores das terras era sobrinho do
Imperador, o qual, quando ficou sabendo que ele estava cativo, mandou grandes
quantidades de suprimentos. E então com os cipriotas mandados de volta com o
último barco de suprimentos, em dois dias eles puderam levantar âncora.
144
Cruzada •
H. Rider Haggard
Foi quando Rosamund deu pela falta de Nicholas, o espião, e falou com
Hassan, que fez uma investigação para descobrir, como afirmou Lozelle, que
ele tinha ido para a praia e desaparecido no dia em que tinham chegado a
Chipre. Mas se ele tinha sido morto em alguma luta, ou adoecido, ou se es-
condido, ele não sabia dizer. Hassan encolheu os ombros, e Rosamund ficou
feliz de saber que tinha se livrado dele, mas no fundo do coração ela se per-
guntava qual o motivo pelo qual ele tinha deixado o navio.
Quando a galera já tinha se distanciado de Chipre um dia de viagem,
rumando para a costa da Síria, entraram numa calmaria que é comum nestes
mares no verão. A calmaria durou oito longos dias, durante os quais fizeram
muito pouco progresso. Finalmente, quando todos já estavam cansados de
ficar olhando para o mar, uma aragem começou a soprar, e logo virou um
vento forte soprando na direção da Síria, e com isso puderam prosseguir
rapidamente. O vento foi aumentando, e na noite do segundo dia, quando
parecia que estavam em risco de os vagalhões romperem a galera, viram uma
grande montanha ao longe. Quando a viu, Lozelle gritou “graças a Deus”.
— Estas são as montanhas perto de Antióquia? — perguntou Hassan.
— Não — ele respondeu —, estão a mais de 80 quilômetros de distância
para o sul, entre Ladikiya
43
e Jebela. Lá, graças aos céus, é um bom ancora-
douro — já estive lá — e podemos ancorar até que a tempestade passe.
— Mas estamos velejando para Darbesak, não para uma baía chamada
Jebela, que é um porto franco — respondeu Hassan com impaciência.
— Então vire o navio e navegue para lá — disse Lozelle —, e prometo que
em duas horas todos vocês estarão mortos no fundo do mar. Hassan refletiu
um pouco. Era verdade, pois as ondas poderiam virá-los, e afundariam.
— Como quiser — Hassan respondeu rapidamente.
A escuridão caiu, e com a claridade da grande tocha da proa eles viam as
águas assoviarem enquanto se moviam rumo à praia com as velas recolhidas.
Pois tinham medo de içar vela.
Durante toda a noite jogaram e deslizaram, até que o mais forte deles começou
a enjoar, rogando a Deus e a Alá que houvesse iluminação suficiente para entrar
no porto. Finalmente viram o topo da montanha mais alta se tingir de vermelho
com a madrugada que irrompia, embora o resto da terra ainda estivesse nas som-
bras. Viram, também, que a montanha estava muito perto, quase sobre eles.
— Coragem — gritou Lozelle —, acho que estamos salvos — e colocou
uma segunda tocha no mastro principal. Porquê eles não sabiam.
145
Capítulo 10 •
A bordo da galera
Depois disso o mar começou a acalmar, agitando-se um pouco mais quan-
do passavam por um banco de areia. Em seguida entraram numa área de
águas calmas e viram, de cada lado o que na fraca luz pareciam as margens
cheias de arbustos de um rio. Por uns tempos continuaram à frente, até que
Lozelle falou alto para os marinheiros lançarem a âncora, e mandou um
mensageiro dizer que todos podiam descansar agora, pois estavam seguros.
Então se deitaram e tentaram dormir.
Mas Rosamund não conseguia dormir, e levantou-se. Jogando um manto
sobre os ombros, foi para a porta da cabine admirar a beleza das montanhas,
tingidas de cor de rosa pela aurora e pela névoa que se levantava do ancora-
douro. O lugar era deserto, pelo menos ela não via casario ou casas isoladas,
embora estivessem parados a não mais que 80 metros da praia contornada
pelas árvores. Enquanto olhava, ouviu o barulho de barcos sendo remados
através da névoa, e percebeu três ou quatro se aproximando do navio em
silêncio. E viu também que Lozelle, de pé no deck, observava a chegada.
Agora o primeiro barco parou e um homem na proa se ergueu e começou a
falar com Lozelle em voz baixa. Quando falava o capuz caiu de sua cabeça,
e Rosamund viu seu rosto. Era o rosto do espião Nicholas! Por um momen-
to ela ficou paralisada, pois tinham deixado este homem em Chipre. Aí ela
entendeu tudo, e gritou:
— Traição! Príncipe Hassan, traição.
Nem bem tinha acabado de falar, um homem, com olhar feroz, começou
a subir a bordo pelo lado mais baixo da galera, enquanto outros barcos
chegavam. E os sarracenos pulavam dos bancos onde dormiam e começavam
a correr para o deck onde Rosamund estava, todos menos um, que já estava
na proa do barco. O príncipe Hassan apareceu, cimitarra em punho, usando
o turbante cheio de pedras preciosas e a cota, mas sem o manto, gritando
ordens. A tripulação contratada do barco pôs-se de joelhos, pedindo clemên-
cia. Rosamund gritou para ele que tinham sido traídos, e por Nicholas, que
ela tinha visto. Neste momento um homem alto, de albornoz branco e uma
espada desembainhada na mão, adiantou-se e falou em árabe:
— Rendam-se, pois temos mais homens e seu capitão foi capturado. E
apontou para Lozelle, que estava com os braços amarrados nas costas e se-
guro por dois homens.
— Em nome de quem ordena que me renda? — perguntou o príncipe,
olhando fixamente para ele.
146
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Em nome do temível Sinan, em nome do poderoso Al-je-bal, ó servo
de Saladino.
Ao ouvirem estas palavras um murmúrio de medo saiu da boca dos va-
lentes sarracenos, pois agora sabiam que estavam enfrentando o terrível
chefe dos Assassinos.
— Há então guerra entre o Sultão e Sinan? — perguntou Hassan.
— Sim, há sempre guerra. Além disso, você tem consigo alguém — e
apontou para Rosamund —, que é muito próxima de Saladino, e meu amo
a quer como refém.
— Como soube? — perguntou Hassan, para ganhar tempo, enquanto seus
homens se reagrupavam.
— Como o poderoso Sinan sabe todas as coisas? — foi a resposta. — Va-
mos, rendam-se, e talvez ele tenha misericórdia de vocês.
— Por meio de espiões — falou Hassan entre os dentes —, espiões como
Nicholas, que veio de Chipre antes de nós, e por aquele cão franco que é cha-
mado de cavaleiro — e apontou para Lozelle. — Não, não nos rendemos, e aqui
Assassinos, não vão enfrentar venenos e facas, mas homens valentes e espadas.
Fiquem prevenidos — e seu chefe também — que Saladino vai se vingar.
— Que ele tente, se quiser morrer, quem até agora foi poupado — respon-
deu o homem alto com calma. E acrescentou para os seus homens: — Mate-os,
todos menos as mulheres — a francesa Marie agora se agarrava ao braço de
Rosamund — e o emir Hassan, que fui instruído a levar vivo até Masyaf.
— Volte para sua cabine, lady — falou Hassan —, e lembre-se que acon-
teça o que acontecer, fizemos o possível para salvá-la. E diga isto ao meu amo,
para que minha honra fique limpa aos seus olhos. Agora, soldados de Saladino,
lutem e morram, como ele ensinou. As portas do Paraíso estão abertas, e lá
não entram covardes.
Todos responderam com um grito feroz e gutural. E logo que Rosamund
voltou para a cabine a luta começou, uma luta terrível. Os Assassinos, de
espadas e adagas nas mãos, invadiram o deck, mas a cada invasão eram re-
pelidos, até que a parte central da galera ficou cheia de seus corpos, homens
abatidos pelas lâminas curvas das cimitarras. Mesmo assim, continuavam a
vir e a atacar os sarracenos, que, comandos pelo emir, não mostravam medo
ou piedade. Mas outros barcos vinham da terra, e os sarracenos eram poucos,
e também enfraquecidos pela doença e pela tempestade, até que Rosamund,
percebeu que a popa estava tomada.
147
Capítulo 10 •
A bordo da galera
Aqui e ali um homem ainda lutava até ser vencido pelas facas, no meio
de um círculo de mortos e caídos, entre eles o príncipe Hassan. Olhando para
ele com olhos extasiados enquanto ele lutava sozinho contra um inimigo,
Rosamund se lembrou de uma outra cena, quando seu pai, também só, tam-
bém tinha lutado contra o emir e seus homens, e pensou na justiça de Deus.
Veja! Seu pé escorregou numa poça de sangue sobre o deck. Ele caiu, e
antes que pudesse se erguer de novo, homens jogaram-lhe mantos por cima,
homens ferozes e silenciosos, que mesmo com a vida em risco não esqueciam
a ordem de seu capitão, que era levá-lo vivo. Então ele foi apanhado vivo,
sem um ferimento, pois quando atacava não era atacado de volta, ou deso-
bedeceriam a ordem de Sinan.
Rosamund percebeu, e lembrando-se de que a ordem era para ser levada
até ele sem ferimento, sabia que não precisava ter medo de nenhuma violên-
cia por parte destes cruéis assassinos. E com este pensamento, e também
porque Hassan estava vivo, sentiu-se um pouco reconfortada.
— Acabou — falou o homem alto com voz sem emoção. — Joguem estes
cães no mar, por terem ousado desobedecer uma ordem de Al-je-bal.
Então pegaram todos, mortos e feridos, e os jogaram na água e eles afun-
daram. E nenhum sarraceno ferido pediu misericórdia. Fizeram o mesmo com
os seus mortos, mas os feridos levaram para a praia. Terminado, o homem
alto dirigiu-se à cabine e falou:
— Lady, venha, estamos prontos para iniciar nossa viagem.
Sem escolha, Rosamund obedeceu, lembrando-se quando saía que numa
mesma cena de batalha e derramamento de sangue ela tinha sido trazida a
bordo, para ir não sabia para onde, e agora, em outra cena de batalha e der-
ramamento de sangue ela estava sendo levada também para onde não sabia.
— Oh! — ela gritou alto, apontando para os corpos que tinham atirado
na água —, a tragédia se abateu sobre os que me raptaram, e a tragédia vai
se abater sobre vocês também, servos de Al-je-bal.
Mas o homem alto não respondeu nada, e seguidos por Marie, que cho-
rava, e pelo príncipe Hassan, deixaram o navio.
Logo chegaram à praia, e lá separaram Marie dela, e Rosamund nunca
mais soube o que aconteceu com a mulher, ou se ela encontrou o marido, que
ela tinha se arriscado tanto para reencontrar.
148
Cruzada •
H. Rider Haggard
brigado — disse Godwin —, mas foi só um arranhão
feito pelas garras do animal. Tenho vergonha de você ter
usado seu cabelo com coisas tão repulsivas. Dê-me um
pouco de água.
Ele pediu a Wulf, mas Masouda se levantou sem dizer palavra e pegou a
água, na qual misturou um pouco de vinho. Godwin bebeu, e logo as tonturas
passaram, de modo que pôde se pôr de pé e movimentar braços e pernas.
— Não é nada — ele falou —, fiquei só um pouco abalado. A leoa não
me feriu.
— Mas você feriu a leoa — falou Wulf, com uma risada. — Por St. Chad,
que golpe! — e apontou para a comprida espada enterrada até o punho no
peito do animal. — Juro que não teria conseguido um golpe melhor.
— Acho que foi a leoa que empurrou a espada — respondeu Godwin.
— Eu só a mantive firme. Arranque-a, irmão, ainda estou um pouco fraco.
Então Wulf colocou um pé no peito da leoa e puxou com força, e puxou,
até que a espada se soltou, e disse, arrancando-a:
— Oh! Que idiota de Essex eu sou, dormi o tempo todo, só acordando
quando Masouda me puxou pelos cabelos, e abri os olhos para ver você es-
tendido no chão com este animal sobre você, como uma galinha no ninho.
Pensei que estivesse viva, e a ataquei com a espada. Mas se estivesse completa-
mente acordado, duvido que teria tido a coragem de atacar. E vejam — falou,
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 11
A cidade de Al-je-bal
-O
A
149
Capítulo 11 •
A cidade de Al-je-bal
afastando a cabeça da leoa com o pé. A cabeça girou e eles perceberam, pela
primeira vez, que ela estava presa às patas dianteiras apenas pelo couro.
— Estou feliz por você não ter atacado com um pouco mais de força — fa-
lou Godwin —, ou agora eu estaria dividido em dois e afogado em meu
próprio sangue, e não no da leoa — e olhou tristemente para o albornoz e a
cota, empapados em sangue coagulado.
— Bem, não pensei nisso — falou Wulf. — Quem pensaria numa situação
destas?
— Lady Masouda — perguntou Godwin —, da última vez que a vi a se-
nhora estava dependurada naquelas mandíbulas. A senhora ficou ferida?
— Não — ela respondeu —, pois estou usando cota como vocês, e os dentes
apenas resvalaram, de modo que ela me segurou apenas pelo manto. Venham,
vamos retirar o couro, e levar como presente para o poderoso Al-je-bal.
— Ótimo — falou Godwin —, e dou as garras para você fazer um colar.
— Tenha certeza de que vou usar — ela respondeu, ajudando Wulf a esfolar
a leoa enquanto ele se sentava um pouco para descansar. Quando terminaram
Wulf foi até a pequena caverna e entrou, para sair imediatamente num salto.
— Há mais aqui dentro — ele falou —, vi os olhos e ouvi os rugidos.
Dêem-me um galho incandescente e vou mostrar, irmão, que você não é o
único que pode enfrentar leões.
— Deixe pra lá, seu louco — interrompeu Masouda —, devem ser os fi-
lhotes. E se matá-los, o macho vai nos seguir por quilômetros. Mas se forem
deixados de lado, ele vai ficar para alimentá-los. Vamos, vamos sair deste
lugar o mais rápido possível.
Então, mostrando o couro da leoa às mulas, para entenderem que era
apenas um couro e não um animal, e mesmo assim ao verem elas relincharam
e se agitaram, o colocaram sobre uma e saíram vagarosamente em direção
ao vale distante uns oito quilômetros, onde havia água mas nenhuma árvore.
Lá, pois Godwin precisava de um pouco de repouso, ficaram o dia inteiro e
a noite seguinte, sem ver mais nenhum leão, embora procurassem por eles
com atenção. Na manhã seguinte, tendo dormido bem, Godwin estava recu-
perado, e reiniciaram a viagem rumo a uma garganta profunda, onde de cada
lado havia uma alta montanha.
— Aqui é a entrada para as terras de Al-je-bal — disse Masouda —, e esta
noite dormiremos junto ao portão, e de lá chegaremos à cidade num dia de
cavalgada.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
150
Cruzada •
H. Rider Haggard
Então continuaram até que finalmente, empoleirado no penhasco da gar-
ganta, viram um castelo, uma construção grande, com paredes altas, e lá
chegaram ao entardecer. Parecia que eram esperados no lugar, pois homens
se adiantavam para encontrá-los, saudando Masouda e olhando curiosos para
os irmãos, especialmente depois que souberam da aventura com a leoa. Os
homens os levaram não para dentro do castelo, mas para uma espécie de
alojamento, nos fundos, onde receberam comida e passaram a noite.
Na manhã seguinte continuaram viagem passando por uma região mon-
tanhosa e cheia de vales férteis. Cavalgaram por duas horas, atravessando
diversas aldeias, onde homens de olhos tristes cuidavam da terra. De cada
aldeia, ao se aproximarem, homens a cavalo vinham ao seu encontro com ar
belicoso. Masouda se adiantava e falava apenas com o líder. Então ele toca-
va a testa, fazia uma mesura e eles podiam avançar sem serem molestados.
— Percebem — ela falou depois de terem sido parados pela quarta vez, — que
chance teriam se tentassem chegar a Masyaf sem escolta? Digo-lhes, irmãos, que
estariam mortos muito antes de passarem pelo portão do primeiro castelo.
Depois cavalgaram por um longo aclive, em cujo topo pararam para olhar
um cenário maravilhoso. Abaixo estendia-se uma vasta planície, cheia de
aldeias, campos plantados com milho, bosques de oliveiras e vinhedos. No
centro desta planície, uns 25 quilômetros além, erguia-se uma grande mon-
tanha, que parecia estar toda circundada por muralhas. Dentro das muralhas
havia uma cidade, cujas casas, brancas e de teto chato, encarapitavam-se nas
ladeiras da montanha, e no seu topo, numa parte plana coberta de árvores,
havia um castelo de muitas torres cercado por mais casas.
— Conheçam a casa de Al-je-bal, o Senhor da Montanha — falou Ma-
souda —, onde deveremos dormir a noite. Agora, irmãos, prestem atenção.
Poucos estrangeiros que entram neste castelo saem dele vivos. Há ainda tem-
po. Posso levá-los de volta, como os trouxe até aqui. Querem prosseguir?
— Vamos continuar — eles responderam a uma só voz.
— Por quê? O que têm a ganhar? Vocês procuram uma certa jovem. E por
que procurá-la aqui, se disseram que foi capturada por Saladino? Porque
Al-je-bal, no passado, jurou ser amigo de um do seu sangue? Mas aquele Al-
je-bal está morto, e o poder agora é de outro de sua linhagem, mas que não
fez nenhum juramento. Como sabem que ele se tornará amigo de vocês — que
ele não vai escravizá-los, ou matá-los? Tenho poder nesta terra, como e por
que não vem ao caso, e posso protegê-los contra todos os que a habitam, o
151
Capítulo 11 •
A cidade de Al-je-bal
que juro que vou fazer, pois um de vocês não salvou minha vida? Ela olhou
para Godwin. — Exceto meu amo Sinan, contra quem não tenho nenhum
poder, pois sou sua escrava.
— Ele é inimigo de Saladino, e pode nos ajudar, por causa desta inimizade.
— Sim, ele é inimigo de Saah-ed-din, e agora mais do que nunca. Pode
ajudá-los, e pode não ajudar. Também — ela acrescentou com ênfase —, vocês
podem não gostar da ajuda que ele oferecer. Oh! — e havia uma nota de sú-
plica em sua voz — pensem, pensem! Pela última vez, rogo que pensem!
— Já pensamos — respondeu Godwin solenemente —, e quaisquer que
sejam as chances, vamos obedecer o pedido do morto.
Ela ouviu e curvou a cabeça em concordância, depois falou, elevando
novamente o olhar:
— Que seja. Vocês não são facilmente desviados de seu objetivo, e também
gosto desta determinação. Mas ouçam meu conselho. Enquanto estiverem
nesta cidade não falem árabe, e finjam não entender nada. Também não bebam
nada a não ser água, que é de boa qualidade aqui, pois o poderoso Sinan
serve estranhos vinhos a seus convidados. E se eles tomam algumas gotas,
têm visões e são levados a um tipo de loucura capaz de atos dos quais depois
se envergonham. Ou fazer juramentos de cumprimento difícil, e que não
podem ser quebrados a não ser com o custo da vida.
— Não receie — respondeu Wulf. — Só beberemos água, pois já estamos fartos
de vinhos envenenados —, pois se lembrou da festa de Natal na casa de Steeple.
— Você, Sir Godwin — ela continuou —, tem no pescoço um certo anel,
que num ato de loucura me mostrou — um anel com uma inscrição que
ninguém é capaz de ler, exceto os homens que nesta terra são chamados de
dais. Bem, por enquanto o segredo está seguro comigo, mas sejam espertos,
não falem nada sobre o anel e não o mostrem a ninguém.
— Por que não? — perguntou Godwin. — É uma lembrança de nosso
falecido tio para Al-je-bal.
Ela olhou em volta com cuidado, e retrucou:
— Porque ele é, ou foi, o grande Sinete, e poderá vir dia em que ele sal-
vará suas vidas. Quando o chefe, que já morreu, achou que ele tinha desapa-
recido para sempre, mandou fazer outro, tão igual que eu, que já tive os dois
em minhas mãos, não poderia distinguir um do outro. Para aquele que tem
este anel todas as portas estão abertas, mas permitir que saibam que vocês
têm a duplicata significa a morte. Entenderam?
152
Cruzada •
H. Rider Haggard
Eles assentiram com a cabeça, e Masouda continuou:
— Finalmente, e vocês podem pensar que estou pedindo muito, confiem
sempre em mim, mesmo quando parecer que os estou traindo — e suspirou,
— eu que pelo bem de vocês quebrei juramentos e falei coisas que são puni-
das com a morte com grande sofrimento. Não, não agradeçam, pois só faço
o que devo fazer, eu que sou uma escrava.
— Escrava de quem? — perguntou Godwin, fitando-a.
— Do Senhor de todas as Montanhas — ela respondeu, com um sorriso ao
mesmo tempo doce e muito triste. E sem mais palavra, esporeou seu cavalo.
— O que ela quer dizer — perguntou Godwin a Wulf, quando ela se dis-
tanciou —, se quando ela fala a verdade, pelo nosso bem, advertindo-nos
contra ele, Masouda está rompendo sua vassalagem com o amo?
— Não sei, irmão, nem quero saber. Toda esta conversa pode ser parte de
um estratagema para nos cegar, ou pode não ser. Cuidemos de nós, e acredi-
temos no destino, digo eu.
— Um bom conselho — respondeu Godwin, e continuaram a cavalgada
em silêncio.
Cruzaram a planície e ao anoitecer chegaram à muralha da cidade externa,
parando em frente ao seu grande portão. Aqui, como no primeiro castelo, um
grupo de homens graves, montados a cavalo, veio recebê-los, e depois de falar
algumas palavras com Masouda, deixaram-nos passar pela ponte levadiça que
atravessava o primeiro fosso e levava a três outros portões de ferro e depois
à cidade. Então andaram por uma rua muito íngreme e estreita, e de cada lado,
de tetos e janelas de casas, centenas de pessoas, muitas delas parecendo estar
fazendo as orações diárias, os observavam passar. Ao final desta rua chegaram
a outro portão fortificado, em cujas torretas, e tão imóveis que a princípio
pensaram ser estátuas cortadas em pedra, estavam guardas vestidos com lon-
gos mantos brancos. Depois de uma parlamentação este portão também se
abriu para eles, e passaram novamente por três portas.
Aí viram todo o esplendor do lugar, pois entre a cidade externa, onde
estiveram, e o castelo, com sua cidade interna construída em seu redor e
abaixo dele, estendia-se um abismo de mais de 30 metros de profundidade.
Atravessando o abismo, construído em blocos de pedra, bem desalinhados,
e com não mais de três metros de largura, havia um passadiço de uns 200
metros de comprimento, apoiado em arcos instalados em intervalos regulares
a partir do fundo do abismo.
153
Capítulo 11 •
A cidade de Al-je-bal
— Vá em frente e não tema — disse Masouda. — Seus cavalos estão trei-
nados para enfrentar a altitude, e o meu e as mulas vão seguir.
Então Godwin, não aparentando nada no rosto do medo que sentia no
coração, acariciou um pouco Flame no pescoço, e, depois de recuar um pas-
so, o cavalo começou a movimentar as patas, elevando-as e olhando de um
lado a outro do abismo abaixo. Onde Flame ia, Smoke sabia que também
podia ir, e seguia valentemente, mas resfolegando um pouco, enquanto as
mulas, que não temiam a altitude contanto que o solo fosse firme debaixo de
suas patas, seguiam. Só o cavalo de Masouda, com medo, recuou e fez men-
ção de virar-se, mas ela o esporeou com força, e de repente ele se recompôs
e foi à frente num galope.
Finalmente tinham atravessado, e passando por outra entrada que tinha
amplos terraços de cada lado, subiram a longa rua e entraram num pátio, em
redor do qual ficava o castelo, uma fortaleza vasta e sombria. Lá, um guarda
vestido num manto branco se adiantou e saudou-os com uma pequena me-
sura, assistido por servos que tinham vindo para ajudar os três a desmontar.
Os homens levaram os cavalos para um conjunto de estábulos num dos lados
do pátio, e os irmãos os seguiram, para se certificar de que os animais seriam
cuidados e alimentados. Depois o guarda, que tinha ficado pacientemente
esperando, conduziu-os através de portas e, descendo uma passagem, para
os aposentos dos hóspedes, quartos amplos, com teto de pedra, onde já en-
contraram a bagagem. Masouda lhes disse que os veria na manhã seguinte,
e saiu na companhia do guarda.
Wulf olhou em volta do amplo quarto abobadado que, agora que a escu-
ridão tinha chegado, era iluminado por candeias tremeluzentes presas na
parede por aros de metal, e disse:
— Bem, da minha parte preferia passar a noite no deserto entre os leões
do que neste lugar sombrio.
As palavras mal tinham acabado de sair de sua boca quando as cortinas
se abriram e belas mulheres entraram, vestidas com véus transparentes, e
trazendo travessas com comida. As travessas elas colocaram no chão, na
frente deles, fazendo sinais para que comessem, enquanto outras trouxeram
bacias com água perfumada, que despejaram nas mãos dos irmãos. Depois
eles sentaram no chão e comeram a comida que lhes era estranha, mas mui-
to agradável ao paladar. E enquanto comiam, mulheres que não conseguiam
ver cantavam suaves canções, e tocavam harpas e alaúdes. Vinho também
154
Cruzada •
H. Rider Haggard
lhes foi oferecido, mas lembrando-se do conselho de Masouda, não beberam,
pedindo água através de gestos, e que foi trazida depois de pouco tempo.
Quando terminaram a refeição, as belas mulheres levaram as travessas, e
apareceram escravos negros. Estes os levaram para banheiros como nunca
tinham visto, onde se lavaram primeiro em água quente, depois em água fria,
e foram esfregados com óleos perfumados. Depois de vestidos com mantos
brancos, foram conduzidos de volta ao quarto, onde encontraram camas já
preparadas. E como estavam muito cansados, deitaram nas camas, e o som
da estranha e suave música retornou, e eles adormeceram.
Quando acordaram foi para ver a luz penetrando pelas venezianas das
janelas altas.
— Você dormiu bem, Godwin? — perguntou Wulf.
— Muito bem — respondeu o irmão —, mas sonhei que durante toda a
noite pessoas vinham e ficavam me olhando.
— Sonhei com isto também — disse Wulf. — E quer saber, acho que não
foi um sonho, pois há uma colcha na minha cama que não estava lá quando
adormeci.
Godwin olhou para sua cama e também viu que uma colcha tinha sido
acrescentada, sem dúvida quando a noite esfriou naqueles altos.
— Já ouvi falar de castelos encantados — ele disse —, e agora acho que
encontramos um.
— É sim — retrucou Wulf —, e vai ser bom enquanto durar.
Eles se levantaram e se vestiram, colocando roupas limpas e seus melhores
mantos, os quais tinham trazido nas mulas. Em seguida as mulheres com véus
entraram no quarto com o café, e eles comeram. Quando terminaram, e sem
ter o que fazer, pediram a uma mulher panos para limpar as armaduras, por
gestos, pois como tinham sido instruídos, eles deviam fingir que não entendiam
uma palavra de árabe. A mulher fez que sim com a cabeça e rapidamente
retornou com uma companheira que trazia pedaços de couro e uma pasta
num jarro. Mas não entregaram nem o couro nem a pasta, e sentaram-se no
chão, e mesmo que os irmãos não quisessem, pegaram as cotas e as esfregaram
até que ficassem brilhando como prata. Godwin e Wulf poliram os elmos, as
esporas e os pequenos escudos, e também as espadas e adagas. Depois afiaram
as espadas e adagas com uma pedra que traziam para este propósito.
As mulheres, enquanto trabalhavam, começaram a conversar em voz
baixa, e um pouco da conversa, não tudo, os irmãos entendiam.
155
Capítulo 11 •
A cidade de Al-je-bal
— Um par muito bonito — falou a primeira. — Seria uma felicidade se
pudéssemos ter maridos como eles, embora sejam francos e infiéis.
— Seria — respondeu a outra —, e pela semelhança devem ser gêmeos. E
qual deles você escolheria?
Por um bom tempo ficaram falando deles, comparando-os traço por traço,
pedaço por pedaço, até que os irmãos se sentiram enrubescer por baixo da pele
queimada de sol, e passaram a esfregar a armadura vigorosamente, para criar
uma razão para o enrubescimento. Finalmente uma das mulheres disse:
— Foi cruel da parte de lady Masouda trazer estes pombinhos para a
gaiola do Amo. Ela deveria ter avisado.
— Masouda sempre foi cruel — falou uma outra. — E odeia todos os
homens, o que não é natural. Mas acho que se ela amasse um homem o
amaria de verdade, e talvez isto fosse pior para ele do que o seu ódio.
— Será que estes cavaleiros são espiões? — perguntou a primeira.
— Acho que sim — foi a resposta —, tolos que pensam que podem espionar
uma nação de espiões. Teria sido melhor se ficassem somente nas lutas, no que,
aparentemente, são bastante bons. O que será que vai acontecer com eles?
— O que acontece sempre, suponho. Coisas boas, no início, mas se não
servirem para mais nada, uma escolha entre a fé e o cálice. Ou, talvez, como
parecem ser homens de posição, podem ser aprisionados na masmorra da torre
para o pagamento de resgate. Sim, sim, foi cruel da parte de Masouda enganá-
los, pois podem até ser simples viajantes querendo conhecer nossa cidade.
Neste instante a cortina foi aberta e por ela entrou a própria Masouda.
Estava vestida com um manto branco que tinha uma adaga pintada em ver-
melho do lado esquerdo do peito, e com os longos cabelos negros soltos até
os ombros, embora estivessem meio escondidos pelo véu, aberto na frente, e
preso no alto da cabeça. Eles nunca a tinham visto tão bonita.
— Saudações, irmãos Peter e John. Este é um trabalho adequado para peregri-
nos? — ela falou em francês, apontando para as espadas que estavam afiando.
— Sim — respondeu Wulf, enquanto se levantavam e se inclinavam — para
peregrinos que venham a esta — cidade santa.
As mulheres que estavam polindo as cotas se inclinaram também, pois
parecia que ali Masouda era uma pessoa de importância. Ela tirou os escudos
das mãos delas.
— Muito mal polidos — ela disse rispidamente. — Acho que vocês falam
mais do que limpam. Não, devem servir. Ajudem estes senhores a se vestir.
156
Cruzada •
H. Rider Haggard
Idiotas, esta é a cota do cavaleiro de olho cinza. Dê-me, vou ser seu escudei-
ro — e arrancou os escudos das mãos delas. Godwin e Wulf, aproveitando
que ela tinha virado as costas, se entreolharam.
— Agora — ela disse, quando eles terminarem de colocar as cotas e as
capas —, vocês dois parecerão verdadeiros peregrinos. Ouçam, tenho uma
mensagem para vocês. O Mestre — e curvou a cabeça, como as outras mu-
lheres, entendendo de quem ela falava — vai recebê-los dentro de uma hora,
e até lá, se quiserem, podemos passear pelos jardins, que são muito bonitos.
Então eles saíram com ela e ao passarem pela cortina, ela sussurrou:
— Pelo bem de suas vidas, lembrem-se de tudo o que falei, sobre cada
coisa, sobre o vinho e o anel, pois se beberem do vinho que faz sonhar vocês
serão revistados. Só falem comigo sobre assuntos corriqueiros.
Na passagem além da cortina, guardas em mantos brancos estavam de pé,
armados com lanças, e quando passaram eles se viraram e os seguiram, sem
uma palavra. Primeiro eles foram até o estábulo visitar Flame e Smoke, que
relincharam quando eles se aproximaram. Acharam os cavalos bem alimen-
tados e cuidados — na verdade um grupo de cavalariços estava em redor
deles, discutindo suas manchas e sua beleza. O grupo saudou os irmãos
quando eles se aproximaram. Saindo do estábulo, passaram sob um arco para
entrar nos famosos jardins, que se dizia serem os mais bonitos de todo o
Oriente. E sem dúvida eram bonitos, cheios de árvores, arbustos e flores ra-
ramente vistos juntos. Das pedras cobertas com samambaias corriam peque-
nos regatos que despencavam pelos penhascos, em forma de cachoeiras de
espuma. Em alguns lugares a sombra dos cedros era tão fechada que a luz do
dia se transformava em crepúsculo, mas em outros o chão era descampado e
atapetado de flores que enchiam o ar de perfume. Em toda parte cresciam
rosas, murtas e árvores carregadas de frutos e de todos os lados vinham o
arrulho de pombas e o chilreio de muitos pássaros de asas brancas que voa-
vam de palmeira em palmeira.
E passearam pelas trilhas cobertas de areia por quase dois quilômetros,
acompanhados por Masouda e pelo guarda. Finalmente, ao passarem por
uma moita de plantas parecendo juncos, quase esbarraram numa muralha
baixa, e viram, estendendo-se negra e larga aos seus pés a grande garganta
que tinham cruzado quando entraram no castelo.
— Ele circunda a cidade de dentro, a fortaleza e seus arredores — falou
Masouda. — E quem a tentou atravessar e está vivo hoje? Vamos voltar.
157
Capítulo 11 •
A cidade de Al-je-bal
Então, andando em volta do abismo retornaram ao castelo por outra
trilha, e foram conduzidos a uma ante-sala, onde havia uma guarda de 12
homens. Masouda deixou-os no meio dos homens, que os encararam com
olhos frios. Rapidamente ela voltou e acenou-lhes que a seguissem. Descendo
um grande corredor chegaram a outras cortinas, na frente das quais estavam
duas sentinelas, que as abriram quando eles se aproximaram. Então, lado a
lado, entraram num grande salão, grande como a igreja do convento de
Stangate, e passaram por um grande número de pessoas, todas agachadas no
chão. Ao fundo o salão se estreitava, como uma capela-mor.
Aí mais pessoas se sentavam ou estavam de pé, todas de olhar frio, homens com
turbantes, mostrando grandes facas presas aos cintos. Estes, como vieram a saber
depois, eram conhecidos como fedai, assassinos sob juramento, que viviam exclu-
sivamente sob as ordens do seu senhor, o Grande Assassino. Ao final da capela
havia mais cortinas, e além uma porta com guardas. Ela se abriu, e ao fundo, do
outro lado, eles se encontraram em plena luz do dia, num terraço sem paredes,
circundado pelo abismo sobre o qual fora construído. Nas margens da direita e da
esquerda do terraço sentavam-se homens velhos e barbados, doze ao todo, as cabeças
inclinadas à frente e os olhos fixos no chão. Estes eram os dais, ou conselheiros.
Na entrada do terraço, debaixo de um pavilhão de madeira artisticamen-
te esculpido, e aberto, estavam dois gigantescos soldados, com a adaga ver-
melha pintada nos mantos brancos. Entre eles havia uma almofada negra, e
sobre ela, um monte negro. De início, olhando com dificuldade para o mon-
te nas sombras a partir da intensa luz do sol, os irmãos se perguntaram o que
seria aquilo. Então perceberam o brilho de olhos, e viram que o monte era
um homem que usava um turbante preto na cabeça, e um manto preto em
forma de sino enrolado no peito, e preso com uma jóia vermelha. O peso do
homem o afundara na macia almofada, de modo que não havia quase nada
dele para ser visto, a não ser as dobras do manto em forma de sino, a jóia
vermelha e a cabeça. Ele parecia uma cobra enrodilhada; os olhos brilhantes
também pareciam os olhos de uma cobra. De suas feições, na sombra fecha-
da do dossel e do amplo turbante negro eles não podiam ver nada.
O aspecto desta figura era tão terrível e não-humano que os irmãos tremeram
ao vê-lo. Eles eram homens, e ele era um homem, mas entre aquele amontoado
de olhinhos redondos e lustrosos e os dois robustos e altos guerreiros ocidentais,
vestidos com cotas reluzentes e mantos coloridos, elmo na cabeça, escudo no
braço, e espadas de lado, o contraste era o mesmo que entre morte e vida.
158
Cruzada •
H. Rider Haggard
asouda apressou-se à frente e prostrou-se no chão, de comprido,
mas Godwin e Wulf olharam para o monte, e o monte olhou para
eles. Então, depois de um leve movimento de seu queixo, Masouda
levantou-se e falou:
— Estrangeiros, vocês estão na presença do Mestre, Sinan, o Senhor da
Morte. Ajoelhem-se, e façam-lhe reverência.
Mas os irmãos empertigaram-se, e não se ajoelharam. Levaram a mão à
testa, numa saudação, e não mais que isso.
Então de entre o turbante negro e o manto negro veio uma voz cava, fa-
lando em árabe, e dizendo:
— Estes são os homens que me trouxeram a pele da leoa? Bem, o que
querem, francos? — Eles ficaram silenciosos.
— Temível Senhor — falou Masouda —, estes cavaleiros acabam de che-
gar da Inglaterra, pelo mar, e não compreendem nossa língua.
— Explique sua história e seu pedido — disse Al-je-bal —, para que pos-
samos deliberar.
— Temível Senhor — respondeu Masouda —, como lhe mandei dizer, eles
afirmam que são parentes de um certo cavaleiro que numa batalha salvou a
vida daquele que reinou antes do Mestre, e que agora habita o Paraíso.
— Ouvi dizer que houve este cavaleiro — falou a voz. — Seu nome era
D’Arcy, e tinha a mesma insígnia no seu escudo, uma caveira.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 12
O Senhor da Morte
M
A
159
Capítulo 12 •
O Senhor da Morte
— Senhor, estes irmãos têm também o nome D’Arcy, e vêm lhe pedir
ajuda contra Saladino.
À menção do nome o monte mexeu-se, como se mexem as cobras quando
percebem perigo, e a cabeça ergueu-se um pouco acima do grande turbante.
— Que ajuda, e por quê? — perguntou a voz.
— Senhor, Saladino roubou uma mulher da casa deles, que é sua sobrinha,
e estes cavaleiros, seus irmãos, pedem-lhe que os ajude a recuperá-la.
Os olhinhos redondos reluzentes logo ficaram interessados.
— Tive informações sobre esta história — falou a voz —, mas que sinal
estes francos mostram? Aquele que reinou antes de mim deu um anel, e com
ele certos direitos nesta terra, ao cavaleiro D’Arcy, que se tornou amigo dele
no perigo. Onde está o sagrado anel, que ele deu num momento de loucura?
Masouda traduziu, e vendo a advertência de seu olhar e lembrando-se de
suas palavras, os irmãos balançaram a cabeça, enquanto Wulf respondia:
— Nosso tio, o cavaleiro Sir Andrew D’Arcy, foi atacado por soldados de
Saladino, e ao morrer nos mandou que o procurássemos. Que tempo teve ele
de nos falar sobre um anel?
A cabeça apoiou-se no peito.
— Tinha esperanças — Sinam disse para Masouda —, que eles tivessem
o anel, e foi por esta razão, mulher, que lhe permiti trazer os cavaleiros até
aqui, depois que você me falou sobre eles de Beirute, e seu pedido. Não é
justo que existam dois sagrados Sinetes no mundo, e aquele que morreu
antes de mim, no leito de morte me encarregou de recuperar o seu, se isto
fosse possível. Deixe-os retornar para a sua terra, e depois voltarem a mim
com o anel, e então eu os ajudarei.
Masouda traduziu apenas a última parte, e novamente os irmãos balan-
çaram a cabeça. Desta vez foi Godwin quem falou.
— Nossa terra fica muito longe, senhor, e onde vamos achar este anel
perdido? Não deixe nossa viagem ser em vão. Oh Todo Poderoso, faça jus-
tiça contra Saladino.
— Em todos os meus anos quis fazer justiça com Saladino —, respondeu
Sinan — mas ele sempre é mais bem sucedido. Contudo, faço-lhe uma oferta.
Vão, francos, tragam-me sua cabeça, ou pelo menos levem-no à morte, como
lhes mostrarei, e falaremos novamente.
Quando ouviram estas palavras Wulf falou a Godwin, em inglês:
— Acho que é melhor irmos. Não gosto desta companhia. Mas Godwin
não respondeu nada.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
160
Cruzada •
H. Rider Haggard
Enquanto ficavam calados, um homem entrou pela porta, e prostrando-se no
chão arrastou-se até a almofada, por entre a fila dupla de conselheiros ou dais.
— Seu relatório? — falou Sinan em árabe.
— Senhor — respondeu o homem — informo que seus desejos foram
atendidos no caso do navio. E continuou falando baixo, e tão rapidamente
que os irmãos mal podiam ouvir, e menos ainda entender.
Sinan ouviu, e então disse:
— Faça o fedai entrar e também apresentar seu relatório, trazendo com
ele os prisioneiros.
Então um dos dais, o mais próximo do toldo, levantou-se e apontando
para os irmãos, falou:
— E quanto a estes francos, qual é o seu desejo?
Os olhinhos redondos lustrosos, que pareciam perscrutar suas almas, fitou-
os e durante muito tempo Sinan ficou refletindo. Eles ficaram aflitos, pois
sabiam que Sinan estava considerando o que fazer, e suas próximas palavras
poderiam significar suas vidas.
— Que eles fiquem aqui — ele falou finalmente. — Posso ter perguntas a
fazer.
Por uns tempos houve silêncio. Sinan, o Senhor da Morte, parecia estar
imerso em pensamentos debaixo da sombra do toldo. A fileira dupla de dais
fitava o vazio do outro lado do corredor. Os guardas gigantescos estavam
imóveis como estátuas. Masouda observava os irmãos por debaixo de seus
longos cílios. E os irmãos fitavam a linha da sombra do toldo sobre o chão
de mármore. Tentavam parecer despreocupados, mas seus corações batiam
rapidamente dentro do peito, e sabiam que coisas importantes estavam para
acontecer, embora não soubessem exatamente o quê.
Tão intenso foi o silêncio, tão temível parecia aquele homem de aspecto não-
humano, enrodilhado como uma cobra, tão estranhos e tão impassíveis os seus
conselheiros, e o lugar onde eles ficavam, cercado por um abismo que dava arrepios,
que o medo tomou conta dos irmãos, medo de um sonho horripilante. Godwin
ficou imaginando se Sinan podia ver o anel em seu peito, e sobre o que acontece-
ria com ele se visse. Wulf quis gritar alto, fazer qualquer coisa que rompesse esta
quietude de mau agouro, imersa na luz do sol. Para eles, estes minutos pareceram
horas, e pelo que ficaram imaginando, deveriam ter sido mesmo horas.
Finalmente houve uma agitação atrás dos irmãos, e a uma palavra de
Masouda eles se separaram, dando um ou dois passos para os lados, de fren-
161
Capítulo 12 •
O Senhor da Morte
te um para o outro e de lado para Sinan. Viram quando a cortina se abriu e
entraram quatro homens, carregando uma maca coberta com um pano, de-
baixo do qual vislumbraram uma forma, imóvel. Os quatro homens levaram
a maca para a frente do toldo, colocaram-na no chão, prostraram-se e saíram,
andando de costas todo o comprimento do terraço.
Novamente fez-se silêncio, enquanto os irmãos tentavam saber de quem
era o corpo estendido debaixo do pano, pois era visivelmente um corpo,
embora nem o Senhor da Montanha, nem seus dais, nem os guardas, demons-
trassem nenhum interesse. Outra vez as cortinas se abriram, e um grupo
avançou pelo terraço. Primeiro um homem robusto, vestido com um manto
branco decorado com a mesma adaga vermelha, e depois uma mulher alta
coberta por um longo véu, e depois um robusto cavaleiro usando uma arma-
dura franca e vestindo uma capa, cujo capuz cobria sua cabeça como se
quisesse evitar que os raios do sol incidissem sobre o elmo. Finalmente vinham
quatro guardas. Atravessaram o terraço, passando pela fileira dupla de dais.
Os irmãos observaram o porte e o movimento da mulher coberta com o véu,
com sobressaltos no coração. A mulher andava depressa, e não os viu pois
não mexia a cabeça, nem para a direita nem para a esquerda. O líder do
grupo chegou ao espaço em frente ao toldo e prostrando-se no chão ao lado
da maca, ficou imóvel. A mulher que vinha atrás dele também parou, e ven-
do o monte negro sobre a almofada, teve um estremecimento.
— Mulher, tire o véu — comandou a voz de Sinan.
Ela hesitou um pouco, e depois rapidamente desfez alguns laços, e o véu
se soltou de sua cabeça. Os irmãos olharam, perplexos, esfregaram os olhos,
e olharam novamente.
Diante deles estava Rosamund.
Sim, era Rosamund, abatida pela doença, pelas aflições e pela viagem, mas
sem dúvida nenhuma Rosamund. À visão de sua beleza pálida mas digna de
uma princesa, o monte sobre a almofada mexeu-se sob o manto negro, e os
olhos pequenos e lustrosos se iluminaram com cupidez. Até os dais pareceram
acordar de sua contemplação, e Masouda mordeu o lábio vermelho, corou
por debaixo da pele cor de oliva e a olhou com olhos vorazes, querendo
decifrar o coração daquela mulher.
— Rosamund! — gritaram os irmãos a uma só voz.
Ela ouviu. Enquanto eles se adiantaram, ela olhou vividamente um rosto
e outro, e com um grito abafado abraçou o pescoço de cada um, e teria caído
162
Cruzada •
H. Rider Haggard
no êxtase de sua alegria não tivessem eles a amparado. Mas na verdade seus
joelhos chegaram a tocar o chão. Quando se inclinaram para levantá-la pas-
sou pela mente de Godwin que Masouda tinha dito a Sinan que eram irmãos.
Este pensamento foi seguido por um outro. Se fosse assim, eles teriam que
ficar com ela, senão aquele diabólico...
— Ouça — ele falou em inglês —, não somos seus primos, somos seus
irmãos, meio irmãos, e não sabemos árabe.
Ela ouviu, Wulf ouviu, os guardas pensaram que estavam apenas se cum-
primentando, pois Wulf também começou a falar palavras isoladas em fran-
cês, como “Bem-vinda, irmã!”, “Te encontramos!”, e a beijou na testa.
Rosamund abriu os olhos, que tinha fechado, e pondo-se de pé, deu a mão
a cada um dos irmãos. Então se ouviu a voz de Masouda traduzindo as pa-
lavras de Sinan.
— Parece, lady, que a senhora conhece estes cavaleiros.
— Conheço... bem. São meus irmãos, e fui roubada deles quando foram
drogados e meu pai assassinado.
— Como é isto, lady, já que se diz que a senhora é sobrinha de Saladino?
Então estes cavaleiros são sobrinhos de Saladino?
— Não — respondeu Rosamund —, eles são filhos do meu pai, mas com
outra mulher.
A resposta pareceu satisfazer Sinan, que fixou os olhos na beleza páli-
da de Rosamund e não fez mais perguntas. Enquanto ele ficou assim,
pensando, ouviu-se um barulho no final do terraço, e os irmãos, virando a
cabeça, perceberam que o robusto cavaleiro tentava passar pelos guardas
que estavam junto às cortinas, e que barraram a tentativa com o cabo de
suas lanças.
Então Godwin lembrou-se de que um pouco antes de Rosamund soltar o
véu ele tinha visto aquele cavaleiro de repente virar-se e ir pelo terraço.
Sinan levantou os olhos quando ouviu o barulho e fez um sinal. Dois dos
dais se ergueram rapidamente e correram até as cortinas, onde falaram com
o cavaleiro, o qual virou-se e voltou com eles, vagarosamente, como quem
vai contra a vontade. O capuz tinha caído de sua cabeça, e Godwin e Wulf
o olharam enquanto ele avançava, pois tinham certeza de que conheciam
aqueles amplos ombros, os olhos negros redondos, os lábios grossos e a
grande papada.
— Lozelle! É Lozelle! — falou Godwin.
163
Capítulo 12 •
O Senhor da Morte
— É sim — repetiu Rosamund —, é Lozelle, o duplo traidor, que primei-
ro tentou me tirar do barco, traindo os soldados de Saladino, e como não
aceitei seu amor, agora me entregou a este temível Sinan.
Wulf ouviu, e aguardando que Lozelle se aproximasse, adiantou-se com
uma praga e atingiu seu rosto com a mão coberta pela malha. Imediatamen-
te os guardas se colocaram entre os dois, e Sinan perguntou, por intermédio
de Masouda:
— Como ousa agredir este franco na minha presença?
— Porque, Senhor —, respondeu Wulf, — ele é um patife que trouxe todas
estas tragédias para a minha casa. Desafio-o a enfrentar-me numa batalha de
morte.
— E eu também — falou Godwin.
— Estou pronto — gritou Lozelle, encolerizado pelo golpe recebido.
— Então, cão danado, por que tentou fugir quando viu nossos rostos?
— perguntou Wulf.
Masouda ergueu a mão e começou a traduzir, dirigindo-se a Lozelle, e
falando na primeira pessoa, como a “boca” de Sinan.
— Agradeço por seus serviços que já me foram úteis. Seu mensageiro veio,
um franco que conheci outrora. Como você arquitetou, enviei um dos meus
fedai com soldados para matar os homens de Saladino que estavam no navio,
e capturar esta lady, que é sua sobrinha, e tudo foi feito. O negócio que seu
mensageiro propôs é que a lady deveria ser entregue a você...
Neste momento Godwin e Wulf trincaram os dentes e olharam fixamente
para Sinan.
— Mas estes cavaleiros dizem que você a roubou, ela que é parente deles,
e um o agrediu e desafiou para um combate homem a homem, desafio que
você aceitou. Ordeno que o combate seja feito, com satisfação, pois sempre
desejei ver dois cavaleiros francos lutarem de acordo com os seus costumes.
Vou estabelecer as condições, e você receberá o melhor cavalo existente em
meu reino. Este cavaleiro deve cavalgar o seu próprio. As condições são estas:
a pista de combate será sobre a ponte entre os portões de fora e de dentro do
castelo, e a luta, que só terminará com a morte, deve acontecer na noite da
lua cheia, isto é, daqui a três dias. Se você for o vencedor, falaremos sobre a
lady, que você disse que era sua esposa.
— Meu Senhor, meu Senhor — respondeu Lozelle —, quem será capaz de
atirar uma lança naquele lugar terrível e ao luar? É assim que demonstra sua
confiança em mim?
164
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Eu posso, e vou lançar! — gritou Wulf. — Cão danado, enfrento-o até
nas portas do inferno, e com o risco de minha alma.
— Trate de arranjar confiança — falou Sinan —, você que aceitou o de-
safio deste cavaleiro e não impôs nenhuma condição, e quando tiver provado,
sobre o corpo dele, que este embate não é justo, então falarei de minha con-
fiança em você. E chega, nenhuma palavra a mais. Quando a luta tiver termi-
nado falaremos de novo, e não antes. Que seja levado para fora do castelo e
receba o melhor que tivermos. Dêem-lhe meu cavalo negro, e deixe-o galopar
nele sobre a ponte, ou onde ele quiser, dentro dos limites das muralhas, de
dia ou à noite. Mas não permitam que fale com esta lady, que entregou ao
meu poder por traição, ou com estes cavaleiros, seus inimigos, nem permitam
que venha à minha presença. Não falarei com um homem que foi agredido
no rosto antes que ele lave sua honra com sangue.
Quando Masouda terminou a tradução, e antes que Lozelle pudesse falar
qualquer coisa, o Poderoso Sinan fez um gesto com a cabeça e imediatamen-
te guardas acorreram e levaram Lozelle do terraço.
— Adeus, ladrão — gritou Wulf enquanto ele saía —, até que nos encon-
tremos na estreita ponte onde nossa disputa vai ser acertada. Você já enfren-
tou Godwin, talvez tenha melhor sorte com Wulf.
— Seu relatório — falou Sinan dirigindo-se ao fedai alto, que durante todo
este tempo ficara com o rosto sobre o chão, à sua frente, tão imóvel quanto
a forma que jazia estendida sobre a maca. — Deveria ter havido um outro
prisioneiro, o nobre emir Hassan. E onde está o espião franco?
O fedai ergueu-se e falou.
— Mestre — ele disse — cumpri suas ordens. O cavaleiro que saiu mano-
brou o navio para dentro da baía, como tinha sido arranjado. Ataquei com
a luz do dia. Os soldados de Saladino lutaram bravamente, a lady presenciou,
o que lhes deu tempo para se agruparem, e nós perdemos muitos homens.
Mas os superamos e matamos, exceto o príncipe Hassan, que fizemos prisio-
neiro. Deixei alguns homens guardando o navio. Poupamos a tripulação, pois
eram servos do franco Lozelle, liberando-os na praia, junto de uma mulher
franca, que era serva desta lady. Eu teria matado a mulher, mas lady suplicou
por sua vida, dizendo que tinha vindo da terra dos francos à procura de seu
marido. Então, como não tinha ordem em contrário, deixei-a ir. Ontem de
manhã partimos para Masyaf, o príncipe Hassan viajando numa liteira,
junto com aquele espião franco que esteve aqui há algum tempo, e lhe falou
165
Capítulo 12 •
O Senhor da Morte
sobre a chegada do navio. Os dois passaram a noite na mesma tenda. Amar-
rei o príncipe e coloquei um guarda, mas de manhã quando fomos ver ele
tinha desaparecido — como, não sei — e estendido no chão estava o espião
franco, morto, com um ferimento de faca sobre o coração. Veja! — e levan-
tando o pano mostrou o corpo rígido do espião Nicholas, morto, com um
esgar de terror no rosto.
— Pelo menos este teve o fim que merecia — sussurrou Wulf para Godwin.
— Então, depois de muito procurar, sem sucesso, vim para cá com a
lady, sua prisioneira, e o franco Lozelle. É o que tinha a falar.
Ao final do relatório, e esquecendo sua calma, Sinan levantou-se da almo-
fada e deu dois passos à frente. Então parou, com uma incontida fúria no
olhar, agora parecendo um homem coberto pelo manto em forma de sino.
Por um momento alisou a barba, e os irmãos perceberam que no polegar de
sua mão direita estava um anel como o que pendia do pescoço de Godwin,
tão iguais que ninguém conseguia distinguir um do outro.
— Homem — falou Sinan baixo — o que você fez? Deixou o emir Hassan
fugir, ele que é o amigo mais confiável do Sultão de Damasco, e seu general.
Agora ele está lá, ou perto de lá, e em seis dias veremos o exército de Saladino
vindo pela planície. Também não matou a tripulação nem a mulher franca,
e eles também vão contar como foi feita a tomada do navio e a captura des-
ta lady, que é da casa de Saladino, e que ele deseja tanto, muito mais do que
o reino dos francos. O que tem a dizer?
— Senhor — respondeu o fedai alto, e sua mão tremia quando falou,
— poderoso Senhor, não tinha ordens para matar a tripulação saída de seus
lábios, e o franco Lozelle me falou que ele e o Mestre tinham concordado
em poupá-la.
— Então, escravo, ele mentiu. Ele falou comigo sobre o espião morto, e a
tripulação que deveria ser destruída, e você não sabe que quando não dou
outras ordens, nestes casos o decidido é a morte? E sobre o príncipe Hassan?
— Senhor, não tenho nada a dizer. Acho que deve ter subornado o espião
chamado Nicholas — e ele apontou para o corpo —, para cortar-lhe as cor-
das, e depois matou o homem como vingança, pois ao lado do corpo encon-
tramos uma pesada bolsa com moedas de ouro. Que ele o odiava, como
odiava aquele Lozelle, eu sabia, pois os chamou de cães e traidores no barco.
E como não podia agredi-los, pois suas mãos estavam amarradas, cuspiu em
seus rostos, e rogou-lhes pragas em nome de Alá. Foi por isso que, como
166
Cruzada •
H. Rider Haggard
Lozelle tinha medo de ficar perto dele, mandei o espião ficar com ele na ten-
da, como uma espécie de guarda, e dois soldados do lado de fora, enquanto
Lozelle e eu guardávamos a lady.
— Façam entrar os soldados — falou Sinan —, e que contem sua história.
Eles foram trazidos, e ficaram ao lado de seu capitão, mas não tinham
nenhuma história para contar. Juraram que não dormiram durante a guarda,
nem ouviram barulho algum, mas quando a manhã chegou o príncipe tinha
sumido. Novamente o Senhor da Morte alisou a barba negra. Então levantou
o Sinete diante dos olhos dos três homens, dizendo:
— Vocês viram o Sinete. Vão.
— Senhor — falou o fedai —, servi o Mestre com honra durante muitos anos.
— Seus serviços terminaram. Vá — foi a ríspida resposta.
O fedai inclinou a cabeça numa saudação, ficou parado um momento como
se perdido em pensamentos, e então, virando-se de repente, foi com passos
firmes até a beira do abismo e pulou. Por um instante a luz do sol luziu em
seu manto branco e esvoaçante, e depois das profundezas daquele lugar som-
brio subiu o som de um baque pesado, e novamente fez-se silêncio.
— Sigam seu capitão no Paraíso — falou Sinan para os dois soldados.
Um deles imediatamente sacou uma faca, mas um dai ergueu-se depressa,
falando:
— Estúpido, iria derramar sangue na frente de seu Mestre? Não conhece
o costume? Vá!
Os pobres homens andaram, o primeiro com um passo firme, e o segundo,
que não era tão valente, rolou pela beira do precipício, como um bêbado.
— Terminou — falou o dai, batendo suavemente as mãos. — Temível
Senhor, agradecemos-lhe por sua justiça.
Mas Rosamund ficou enjoada e trêmula. Até os irmãos empalideceram.
Este homem era temível, sem dúvida — se é que era homem, e não um de-
mônio — e estavam em seu poder. E por quanto tempo, gostariam de saber,
antes que também fossem ordenados a caminhar para o abismo? Apenas Wulf
jurou, em seu coração, que, se tivesse de caminhar até lá, Sinan iria com ele.
Depois o corpo do falso peregrino foi levado para ser atirado às águias
que estavam sempre pairando por sobre aquela casa de mortes, e Sinan, ten-
do sentado novamente na almofada, recomeçou a falar por sua “boca”
Masouda, em voz baixa de calma, como se nada tivesse acontecido para
enraivecê-lo.
167
Capítulo 12 •
O Senhor da Morte
— Lady — falou para Rosamund —, já conheço sua história. Saladino a
procura, e não é de estranhar — e neste momento seus olhos adquiriram um
brilho maléfico — que ele deseje ver uma tal beleza em sua corte, embora o
franco Lozelle tenha jurado através daquele espião morto que a lady é pre-
ciosa aos olhos dele por causa de uma visão que ele teve. Bem, este sultão
herético é meu inimigo e Satã o protege, pois até meus fedais fracassaram na
tentativa de matá-lo, e talvez haja guerra por sua culpa. Mas não tema, pois
o preço que vai custar a sua entrega a ele é maior do que o preço que Saladino
está disposto a pagar, mesmo pela senhora. Então, como este castelo é inex-
pugnável, aqui a senhora pode viver em paz, e nenhuma de suas vontades
será negada. Fale, e seus desejos serão atendidos.
— Desejo — falou Rosamund em voz firme mas baixa —, proteção contra
Sir Hugh Lozelle e todos os homens.
— Assim será. O Senhor da Montanha a cobre com seu próprio manto.
— Desejo — ela continuou — que meus irmãos fiquem alojados comigo,
pois não quero me sentir só entre pessoas estranhas.
Ele pensou um instante, depois respondeu:
— Seus irmãos ficarão alojados perto da senhora no castelo dos hóspedes.
Por que não? Pois deles a senhora não necessita de proteção. Eles poderão
vê-la nas festas e no jardim. Mas, lady a senhora sabe? Eles vieram aqui con-
fiantes numa velha história de promessa feita pelo que reinou antes de mim e
para pedir minha ajuda no seu resgate das mãos de Saladino, sem saber que
eu era seu hospedeiro, não Saladino. E que eles a pudessem ter encontrado é
uma coisa que me deixa perplexo, e vejo nisto um sinal de maus presságios.
Pode ser que aqueles que queriam resgatar de Saladino, estes seus irmãos
agora queiram resgatar de Al-je-bal. Entendam, todos vocês, que do Senhor da
Morte só existe uma forma de escapar. E passa por aquele caminho — e ele
apontou para o lugar de onde seus três servos tinham pulado para a morte.
— Cavaleiros — ele continuou, dirigindo-se a Godwin e Wulf —, deixem
sua irmã aqui. Esta noite convido-a, e a vocês, para meu banquete. Até lá,
adeus. Mulher — ele acrescentou para Masouda —, acompanhe-os. Você
conhece seus deveres. Esta mulher está sob a sua responsabilidade. Não per-
mita que nenhum homem se aproxime dela, sobretudo o franco Lozelle. Dais,
ouçam esta proclamação: — A estes três é dada a proteção do Sinete em todas
as coisas, exceto que só podem sair das muralhas com a sanção do Sinete,
não, com a presença do Sinete.
168
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Os dais levantaram, fizeram uma mesura e sentaram novamente. Depois,
guiados por Masouda e precedidos e seguidos de guardas, os irmãos e Rosamund
caminharam até as cortinas e entraram no lugar parecido com um santuário
onde homens estavam agachados e com as mãos no chão. Passaram pelo gran-
de salão onde havia mais homens também agachados, pela ante-câmara onde,
a uma palavra de Masouda, os guardas fizeram continência, e pelos caminhos
para o lugar onde tinham dormido. Aí Masouda parou e disse:
— Lady Rosa do Mundo, e que tem um nome tão apropriado, vou prepa-
rar seus aposentos. Certamente vai querer falar um pouco com estes — seus
irmãos. Fale, e não tema, pois desejo que fiquem sós, pelo menos por uns ins-
tantes. Contudo, as paredes têm ouvidos, de modo que aconselho a usar apenas
o inglês, que ninguém entende nas terras de Al-je-bal, nem mesmo eu.
Então ela fez uma mesura e saiu.
Cruzada •
H. Rider Haggard
169
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 13
A delegação
O
A
s irmãos e Rosamund olharam uns para os outros, pois como
tinham tanto a dizer, parecia que não conseguiam emitir pala-
vras. Então, com um grito baixo, Rosamund falou:
— Oh! Rendamos graças a Deus que depois destes meses negros de viagem
e de perigos nos colocou juntos outra vez. Ajoelhando-se os três, no chão da
sala do castelo dos hóspedes do Senhor da Morte, agradeceram emocionados.
Então, movendo-se para o meio do quarto, onde pensavam que ninguém os
ouviria, começaram a falar em voz baixa e em inglês.
— Conte você primeiro sua história, Rosamund — pediu Godwin.
Ela contou, o mais resumido que pôde, e eles ouviram sem dizer palavra.
Depois Godwin contou a deles. Rosamund ouviu e fez uma pergunta,
quase num sussurro.
— Por que aquela bela mulher de olhos escuros ficou amiga de vocês?
— Eu não sei — respondeu Godwin — a menos que seja pelo fato de eu
a ter salvo da leoa.
Rosamund olhou para ele e sorriu, e Wulf sorriu também. Então ela disse:
— Rendamos graças àquela leoa e a toda a sua família! Rogo que ela não
esqueça tão cedo seu ato de heroísmo, pois parece que nossas vidas dependem
de seus favores. Como é estranha esta história, e como o caso é sem esperan-
ça! E como é estranho vocês também terem vindo até aqui, contra os conse-
lhos dela, e que, vendo o que nós vimos, acho que ela foi honesta.
170
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Nós fomos guiados — disse Godwin. — Seu pai foi sábio na hora da
morte, e viu o que não podíamos ver.
— Foi sim — acrescentou Wulf —, mas gostaria que fosse em outro lugar,
pois tenho medo deste Al-je-bal, para quem um simples aceno pode mandar
homens se lançarem para a morte.
— Ele é odioso — respondeu Rosamund com um estremecimento —, pior
ainda que o cavaleiro Lozelle. Quando ele me olha fixamente meu coração
dá saltos. Oh! Como vamos fugir daqui?
— Uma mosca numa teia de aranha tem mais chances de liberdade —,
disse Wulf sombriamente. — Pelo menos devemos dar graças por estarmos
engaiolados juntos, por quanto tempo eu gostaria de saber. Enquanto ele
falava, Masouda reapareceu, com outras mulheres, e fazendo uma mesura
para Rosamund, falou:
— É desejo do Mestre, lady, que eu a leve aos aposentos que já estão
preparados para recebê-la, para repousar até a hora da festa. Não tema, vai
encontrar os irmãos lá. Os cavaleiros podem sair, se quiserem, e exercitar os
cavalos nos jardins. Estão selados no pátio, e esta mulher vai levá-los lá — e
apontou para uma das duas serviçais que tinham limpado as armaduras, — e
com os cavalos há um guia e uma escolta.
— Então quer dizer que devemos ir — falou Godwin baixinho. — Adeus,
irmã, até a noite — ele acrescentou mais alto.
E partiram, embora não o desejassem. No pátio encontraram os cavalos,
Flame e Smoke, como tinham sido informados, e também uma escolta, a
cavalo, de quatro fedais de olhar feroz e um guarda. Quando todos estavam
montados, o guarda fez sinal para que o seguissem, passando por um arco,
fora do pátio, e atingindo os jardins. Neles havia uma estrada larga, coberta
de areia, e nela começaram a galopar. A estrada seguia o abismo que circun-
dava a cidade interna de Masyaf, que era como uma ilha no topo da monta-
nha, com uma circunferência de cinco quilômetros.
Galoparam, sempre mantendo o abismo à direita, e freando os cavalos
para que eles não passassem o do guia, e viram uma outra tropa se aproxi-
mando. Esta era precedida por um guarda dos Assassinos, como os servos de
Al-je-bal eram chamados pelos francos, e atrás dele, montado num esplêndi-
do garanhão da cor do carvão, e seguido por guardas, cavalgava um cavalei-
ro franco vestido com uma cota.
— É Lozelle — disse Wulf —, no cavalo que Sinan lhe prometeu.
171
Capítulo 13 •
A delegação
Quando viu o homem a fúria tomou conta de Godwin. Com um grito de
alerta ele sacou a espada. Lozelle viu, e também sacou sua espada. Então,
ultrapassando os guardas que estavam com eles, e dando rédea a seus cavalos,
num segundo estavam face a face. Lozelle atacou primeiro, e Godwin defen-
deu-se do golpe com o escudo, mas antes que pudesse contra-atacar os fedais
de cada grupo se interpuseram entre eles e os separaram.
— Uma pena — falou Godwin recuando seu cavalo. — Se tivessem nos
deixado a sós, irmão, acho que teria te poupado um duelo ao luar.
— A que eu não quero deixar de comparecer, mas a chance de acertar a
cabeça dele era grande, se os guardas tivessem deixado — respondeu Wulf
pensativo.
Os cavalos começaram a galopar novamente e não viram mais Lozelle.
Agora, margeando a beira da cidade, chegaram à ponte estreita e sem mure-
tas de proteção que atravessava o abismo até o portão da cidade de fora.
Neste ponto o guarda virou o cavalo, e sinalizando com um gesto para que
o seguissem, partiu a pleno galope. Após ele iam os irmãos, primeiro Godwin
e depois Wulf. Ao final do caminho, do outro lado, frearam os cavalos. O
capitão virou novamente e outra vez galopou de volta mais rápido do que na
ida, tão rápido quanto seu cavalo conseguia.
— Passe-o! — gritou Godwin, e balançando as rédeas soltas sobre o pes-
coço de Flame, repetiu o comando.
E para a frente ele foi, com Smoke nos seus calcanhares. Agora já tinham
alcançado o capitão, e mesmo naquela trilha estreita logo o ultrapassaram.
Nem um centímetro havia de sobra entre eles e o abismo, e o homem, mesmo
valente como era, achando que ia ser lançado à morte, agarrou-se à crina do
animal com olhos esbugalhados. Do lado da cidade os irmãos desmontaram
rindo entre os perplexos fedais que os esperavam lá.
— Pelo Sinete — gritou o guarda, pensando que os cavaleiros não o en-
tendiam —, estes não são homens, são demônios, e seus cavalos são cabras
das montanhas. Pensei em assustá-los, mas eu é que fui aterrorizado, pois
passaram por mim como águias no ar.
— Valentes cavaleiros, e muito rápidos, e garanhões muito bem treinados
— falou um dos fedais, com admiração na voz. — A batalha da lua cheia vai
ser digna de ser vista.
Depois retomaram a estrada de areia e galoparam. Três vezes passaram
pela cidade, a última vez sozinhos, pois o capitão e os fedais ficaram muito
172
Cruzada •
H. Rider Haggard
para trás. E só quando já tinham tirado as selas de Flame e Smoke em seus
estábulos é que eles apareceram, os cavalos espumando. Não dando atenção
a eles, os irmãos afastaram os cavalariços, cobriram, alimentaram e deram
água aos cavalos.
E depois de observá-los comendo, e não havendo mais nada a fazer, vol-
taram à casa de hóspedes, na esperança de encontrar Rosamund. Mas não
encontraram nenhuma Rosamund, então sentaram-se juntos e falaram das
coisas maravilhosas que lhes tinham acontecido, e das que poderiam aconte-
cer no futuro. Da misericórdia dos Céus que tinha permitido que os três se
reunissem em segurança e com saúde, mesmo que fosse nesta casa do inferno.
Assim o tempo passou, até que quase a hora do entardecer as mulheres vol-
taram, e os levaram para o banho, onde os escravos negros os lavaram e
perfumaram, vestindo-lhes mantos limpos sobre a cota.
Quando saíram o sol já tinha se posto, e as mulheres, conduzindo tochas
nas mãos, os levaram até a um salão amplo e resplandecente que não tinham
visto antes, construído com pedras entrelaçadas e com um teto esculpido e
pintado. Num dos lados deste salão, iluminado com velas colocadas sobre
tigelas, havia um grande número de arcos arredondados e abertos, apoiados
em colunas brancas delicadas, e além delas, um terraço de mármore com
lances de escadas que davam para os jardins abaixo. No chão do salão, cada
um numa almofada ao lado de mesas baixas com ornamentos de pérolas,
sentavam-se os convidados, cem ou mais, todos vestidos com mantos brancos
com a adaga vermelha, e todos silenciosos como se estivessem dormindo.
Quando os irmãos chegaram ao lugar as mulheres os deixaram, e servos,
com correntes de ouro no pescoço, foram com eles até uma plataforma no
meio do salão, onde havia muitas almofadas, todas desocupadas, dispostas
em semicírculo, no centro do qual estava um divã mais alto e mais enfeitado
que todo o resto.
Lugares do lado oposto ao divã foram indicados, e eles ficaram lá de pé. Não
tiveram que esperar muito, pois logo se ouviu uma música e, antecedido por
grupos de mulheres cantando, Mestre Sinan aproximou-se, andando vagarosa-
mente todo o cumprimento do salão. Era um séqüito estranho, pois depois das
mulheres vinham os velhos dais, de manto branco, e depois o Mestre Al-je-bal,
usando agora seu manto solene, vermelho-sangue, e jóias em seu turbante.
Ao seu lado marchavam quatro escravos, negros como ébano, cada um
deles segurando uma tocha alta, e atrás vinham os dois gigantescos guardas
173
Capítulo 13 •
A delegação
que tinham ficado de sentinela ao seu lado quando ele se sentou sob o toldo
da justiça. À sua passagem pelo salão cada homem presente se levantava e se
prostrava no chão, e assim ficava até que seu amo se sentasse, exceto os dois
irmãos, que permaneceram eretos como os sobreviventes de uma batalha
mortal. Ajeitando-se entre as almofadas numa ponta do divã, Sinan agitou a
mão, e então os convidados, entre eles Godwin e Wulf, se sentaram.
Então houve uma pausa enquanto Sinan olhava para todo o salão com
impaciência. Logo os irmãos perceberam por que, pois do lado oposto ao
lado pelo qual ele entrara apareceram mais mulheres cantando, e depois
delas, escoltadas por quatro carregadores de tochas, só que também mulheres,
vinham Rosamund e mais atrás Masouda.
Era mesmo Rosamund, mas uma Rosamund transformada, pois agora
parecia muito mais uma rainha oriental. Em volta da cabeça tinha uma tiara
de jóias, da qual pendia um véu, que só encobria parte de seu rosto. Cheias
de jóias, também eram as tranças do cabelo, os trajes de seda cor-de-rosa, o
cinto, os braços nus da cor de marfim, e até as sandálias. Ao se aproximar,
bela como uma rainha, todos os convidados à festa a olharam fixamente, e
depois se entreolharam. Então, num impulso único, se levantaram e fizeram
uma mesura.
— O que isto significa? — murmurou Wulf para Godwin, enquanto tam-
bém se inclinavam. Mas Godwin não respondeu nada.
Rosamund continuou, até que, veja!, o Mestre Al-je-bal também se levan-
tou, e oferecendo-lhe a mão, fê-la sentar-se ao seu lado no divã.
— Não demonstre surpresa, Wulf — sussurrou Godwin, que tinha perce-
bido um sinal de advertência nos olhos de Masouda quando ela tomou po-
sição atrás de Rosamund.
Então a festa começou. Escravos indo e vindo colocavam travessas com
carnes estranhas, mas saborosas, nas pequenas mesas. As travessas servidas
a Sinan e a seus convidados eram de prata ou de ouro.
Godwin e Wulf comeram, não tanto porque estivessem com fome, e nem
se lembraram do que comeram, mas porque estavam observando Sinan e
esticando os ouvidos para tentar perceber o que estava sendo dito, mas ten-
tando não dar a impressão de que estavam interessados. Embora também
procurasse se manter indiferente, era visível que Rosamund estava com mui-
to medo. A cada instante Sinan oferecia-lhe bocados de comida, às vezes em
travessas, às vezes com os dedos, e quando era assim, Rosamund se sentia na
174
Cruzada •
H. Rider Haggard
obrigação de aceitar. E ao mesmo tempo ele a devorava com olhos fixos, e
ela tentava se afastar para a ponta do divã.
Vinho perfumado e condimentado foi trazido em cálices de ouro, e depois
de beber, Sinan o ofereceu a Rosamund. Mas ela balançou a cabeça e pediu
água a Masouda, dizendo que não bebia nada forte. A água foi trazida, res-
friada com neve. Os irmãos também pediram água, e Sinan olhou para eles
com uma certa suspeita, perguntando a razão. Godwin explicou, através de
Masouda, que estavam sob juramento de não beber vinho até que retornassem
ao seu país, depois de cumprida a missão. Sinan replicou significativamente
que era bom e correto manter juramentos, mas que neste caso ele temia que
só os faria beber água pelo resto da vida, observação que fez o coração dos
irmãos se apertar.
O vinho que Sinan tinha bebido fez com que ele, antes tão silencioso,
começasse a falar.
— Você encontrou o franco Lozelle hoje — falou para Godwin por meio
de Masouda —, quando estava cavalgando em meus jardins, e o atacou com
a espada. Por que não o matou? Ele é melhor cavaleiro?
— Parece que não, pois uma vez antes o derrotei, e estou aqui, sem nenhum
ferimento, Senhor — respondeu Godwin. — Seus servos se intrometeram e
nos separaram.
— Sim — retrucou Sinan —, eu me lembro, eles tinham ordens para isto.
Contudo, gostaria que você o tivesse matado, aquele cão danado, que ousou
erguer os olhos para a Rosa das Rosas, sua irmã. Não tema — ele continuou
dirigindo-se a Rosamund —, ele não vai mais insultá-la, pois agora a lady
está sob a proteção do Sinete —, e estendendo a mão fina, na qual reluzia o
anel do poder, deu-lhe uns tapinhas no braço.
Todas estas coisas Masouda traduziu, e Rosamund baixou a cabeça para
esconder o rosto, que não tinha o rubor que Sinan desejaria, mas aversão e
sobressalto.
Wulf fitou Al-je-bal, cuja cabeça, por sorte, estava virada, e com tanta
raiva no coração que seus olhos ficaram enevoados, e aquele chefe demoní-
aco de um povo de assassinos, vestido num manto de vermelho flamejante,
assumia o aspecto de um homem embebido em sangue. E um pensamento
veio imediatamente à sua cabeça, o de transformar o homem no que ele pa-
recia, e acariciou o punho da espada. Mas Godwin viu o terror expresso nos
olhos de Masouda, viu a mão de Wulf, e pressentiu o que estava para acon-
175
Capítulo 13 •
A delegação
tecer. Com um rápido movimento do braço, derrubou uma travessa dourada
no chão de mármore, e falou, claramente e em francês:
— Irmão, não seja tão desastrado. Apanhe a travessa e responda ao Mes-
tre Sinan sobre o que ele comentou, o assunto Lozelle.
Wulf relaxou para obedecer, sua mente pensou com clareza, e ele percebeu
a loucura que estivera a ponto de cometer.
— Acho que não, Mestre — falou —, e se puder, como tenho sua autori-
zação, vou matar este traidor na terceira noite a partir de hoje. Se eu falhar,
então deixe meu irmão tomar meu lugar, mas não antes.
— Sim, esqueci — falou Sinan. — Foi assim que decretei e esta é uma luta
que desejo ver. Se ele te matar então seu irmão vai enfrentá-lo. E se ele matar
os dois, então talvez eu, Sinan, irei enfrentá-lo — do meu jeito. Bela lady,
assim estabelecido, diga, teme a luta?
O rosto de Rosamund ficou pálido, mas ela respondeu orgulhosamente:
— Por que temeria o que meus irmãos não temem? São cavaleiros valen-
tes, e Deus, em cujas mãos estão os nossos destinos, inclusive o seu, Senhor
da Morte, fará justiça.
Quando estas palavras foram traduzidas, Sinan demonstrou certa preo-
cupação, e depois falou:
— Lady, saiba que sou a voz e profeta de Alá, e seu instrumento para punir
os malfeitores e aqueles que não acreditam. Bem, se o que ouço dizer é verda-
deiro, seus irmãos são hábeis cavaleiros, que até ousaram ultrapassar meu servo
na ponte estreita, de modo que a vitória talvez lhes sorria. Diga-me qual deles a
senhora ama menos, pois este será o primeiro a enfrentar a espada de Lozelle.
Rosamund se preparou para responder e Masouda perscrutou seu rosto
com os olhos semicerrados. Mas o que quer que fosse que sentisse Rosamund
não deixou transparecer, e permaneceu calma e fria como se fosse esculpida
em pedra.
— Para mim são como um homem só — ela disse. — Quando um fala
ambos falam. Amo-os igualmente.
— Então, hóspede de meu coração, será como tinha dito. Irmão olhos
azuis lutará primeiro, e se falhar, então o irmão olhos cinza. A festa terminou,
e está na hora de minhas orações. Escravos, encham os cálices. Lady, peço-lhe
adiantar-se na plataforma.
Ela obedeceu, e a um sinal as mulheres escravas negras a rodearam com
as tochas erguidas. Então Sinan levantou-se, e gritou alto:
176
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Servos de Al-je-bal, brindemos, eu ordeno, a esta Flor das Flores, a esta
excelsa Princesa de Baalbec, a sobrinha do Sultão Saladino, que os homens
chamam de Grande — e fez um gesto de escárnio —, embora não tão grande
quanto eu sou, esta rainha de todas as donzelas, e que logo... Parou, olhou o
cálice e bebeu o resto do vinho e com uma pequena mesura, ofereceu o cáli-
ce enfeitado com pedras preciosas a Rosamund. Todos os convidados beberam,
e gritaram até que o salão pareceu tremer, em homenagem a Rosamund, de
pé entre as tochas, estimulados pelo vinho de Al-je-bal, que provocava estra-
nhas visões, e foram à loucura.
— Rainha! Rainha! — eles gritavam —, Rainha de nosso Mestre e de
todos nós!
Sinan ouviu e sorriu. Depois, pedindo silêncio com um gesto, tomou a
mão de Rosamund e a beijou, e virando-se caminhou pelo salão precedido
pelas mulheres que cantavam e cercado pelos dais e guardas. Godwin e Wulf
se adiantaram tentando falar com Rosamund, mas Masouda se interpôs
entre eles, dizendo com voz clara e seca:
— Não é permitido. Vão, cavaleiros, refresquem a cabeça nos jardins,
onde há água fresca. Sua irmã é minha responsabilidade. Não temam, pois
ela está em segurança.
— Venha — falou Godwin para Wulf. — É melhor obedecermos.
Juntos passaram por entre o aglomerado de convivas remanescentes, pois
a maior parte deles já tinha saído, os quais abriram caminho para os irmãos
e a nova beleza que eles admiraram. Chegaram ao fim do terraço e foram
para os jardins. Aqui permaneceram um pouco, desfrutando do frescor da
noite, que era uma dádiva depois do ar abafado e excessivamente perfumado
do banquete. Depois começaram a andar entre as árvores e flores de suave
olor. A lua, isolada num céu sem nenhuma nuvem, estava quase completa-
mente cheia, e à sua luminosidade eles viram uma cena intrigante e que os
deixou surpresos. Debaixo de várias árvores e em tendas montadas aqui e ali,
tapetes tinham sido estendidos, e para eles vinham homens que tinham bebi-
do o vinho da festa, e se deitavam para dormir.
— Estão bêbados? — perguntou Wulf.
— Parece que sim — respondeu Godwin.
Mas os homens pareciam mais estar em transe do que bêbados, pois an-
davam em passos firmes, mas com olhos bem abertos e sonhadores. Também
não pareciam estar dormindo estendidos sobre os tapetes, mas olhando para
177
Capítulo 13 •
A delegação
o céu e murmurando alguma coisa, os rostos meio erguidos, como num êx-
tase. Algumas vezes se levantavam e andavam alguns passos, até que os
braços se fechavam como se tivessem abraçado alguma coisa invisível, para
a qual baixavam a cabeça e começavam a balbuciar. Depois voltavam para
os tapetes e então ficavam em silêncio.
Neste momento mulheres de véu branco apareceram e se agacharam ao
lado da cabeça de cada um, murmurando coisas em seus ouvidos, e dando-
lhes uma bebida que tinham trazido quando eles se sentavam. Depois elas
iam embora, e eles voltavam a ficar em silêncio.
Apenas as mulheres se moviam entre eles, servindo bebida a outros da mesma
forma. Algumas se aproximaram dos irmãos, em movimentos suaves e deslizan-
tes, e lhes ofereceram a bebida, mas eles caminharam à frente, ignorando o ofe-
recimento. As mulheres não insistiram, e sorriram, dizendo coisas como “Veremos
amanhã”, ou “Logo vocês vão ficar felizes de beber e entrar no Paraíso”.
— Quando chegar a hora de irmos, claro que ficaremos felizes, depois de
termos estado aqui — respondeu Godwin com seriedade, mas como ele falou
em francês elas não entenderam.
— Cuidado, irmão — disse Wulf — pois de ver estes tapetes fico com sono,
e o vinho cintila como os olhos de quem bebeu.
Continuaram em direção ao barulho da queda d’água, e lá chegando
beberam água e banharam o rosto e a cabeça.
— Isto é melhor do que o vinho — falou Wulf. Então, percebendo mais
mulheres adejando em volta deles, parecendo fantasmas no meio das clareiras
iluminadas pela lua, apressaram o passo até que chegaram a um gramado aber-
to onde não havia tapetes, nem homens dormindo, nem homens bebendo.
— Agora — falou Wulf, parando — diga-me o que tudo isto significa.
— Você está cego ou surdo? — perguntou Godwin. — Não percebe que
aquele demônio está apaixonado por Rosamund, e pretende casar-se com ela,
o que talvez até consiga?
Wulf gemeu alto, e depois respondeu: — Juro que antes disso vou mandar
sua alma para o inferno, mesmo que a minha vá fazer companhia.
— É, eu vi — respondeu Godwin. — Você quase chegou a isto esta noite.
Mas lembre-se, é o fim para todos nós. Aguardemos para a hora certa...
salvá-la de coisas piores.
— E quem diz que ainda teremos uma outra oportunidade? Enquanto
isso, enquanto isso... e gemeu novamente.
178
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Entre aqueles ornamentos pendurados no cinto de Rosamund vi uma faca
em forma de jóia — falou Godwin com tristeza na voz. — Talvez ela tenha de
usá-la, se for necessário, e depois nós teremos também de enfrentar o pior. Pelo
menos acho que devemos de uma forma que seja lembrada nestas montanhas.
Enquanto falavam chegaram à beira da clareira, e pararam, em silêncio.
Instantes depois, da sombra de um cedro veio uma mulher solitária, vestindo
um manto branco.
— Vamos sair — falou Wulf. — Aí vem mais uma delas com o amaldi-
çoado cálice.
Mas antes que pudessem se virar, a mulher se aproximou rapidamente e
descerrou o véu. Era Masouda.
— Sigam-me, irmãos Peter e John — ela falou, sussurrando e ao mesmo
tempo sorrindo. — Tenho palavras a lhe dizer. Oh, não bebem? É o mais
sábio — E derramando o cálice no chão, ela circulou em volta deles.
Silenciosa como um fantasma, ela continuou andando, ora aparecendo
nas clareiras, ora desaparecendo debaixo da sombra fechada dos galhos dos
cedros, até que chegou a uma pedra solitária na beira do abismo. Do lado
oposto à pedra havia um montículo, como os formados pelos antigos sobre
os corpos de seus mortos, e no montículo, bem escondida pelos arbustos que
cresciam, uma pesada porta.
Masouda pegou uma chave no cinto e, olhando em volta para certificar-se
de que estavam sozinhos, abriu a porta.
— Entrem — disse, empurrando-os à frente. Eles obedeceram e dentro da
escuridão ouviram quando ela fechou a porta.
— Agora estamos seguros por uns tempos — ela falou com um suspiro,
—, ou pelo menos é o que acho. Mas vou levá-los até onde há mais luz.
Então, segurando cada um pela mão, ela caminhou por uma suave subida
até que logo eles viram a luz do luar, e perceberam que estavam na boca de
uma caverna com as beiradas cheias de arbustos. Subindo das profundezas
do abismo até esta abertura havia um paredão, ou um anteparo de rocha,
muito íngreme e estreito.
— Vejam a única estrada a partir da cidadela de Masyaf, a não ser aque-
la através da ponte — falou Masouda.
— E muito ruim — retrucou Wulf, olhando para baixo.
— É, mas cavalos bem treinados em andar sobre pedras podem passar por
ela. Ao seu pé fica o fundo do abismo, e quilômetro e meio ou mais para a
179
Capítulo 13 •
A delegação
esquerda há uma garganta profunda, que vai ao topo da montanha, e para a
liberdade. Não querem tentar agora? Na madrugada de amanhã vocês podem
estar muito longe.
— E onde estaria lady Rosamund? — perguntou Wulf.
— No harém de Mestre Sinan, isto é, logo — ela respondeu friamente.
— Oh, não fale isso!— ele exclamou, agarrando seu braço, enquanto
Godwin se reclinou sobre a parede da caverna.
— Por que devo esconder a verdade? Vocês não têm olhos para ver que
ele está apaixonado pela sua beleza, como outros? Ouçam, pouco tempo atrás
Mestre Sinan perdeu sua rainha — como não é preciso perguntar, mas se
comenta que ela o aborrecia. Agora, como a lei determina, ele precisa ficar
de luto por um mês, de uma lua cheia até outra lua cheia. Mas no dia seguin-
te à lua cheia, isto é, na terceira manhã a partir de hoje, ele pode se casar de
novo, e acho que vai haver casamento. Até lá, contudo, sua prima estará tão
segura como estaria se estivesse sentada em casa, na Inglaterra, antes de
Saladino ter tido seu sonho.
— Portanto — falou Godwin, dentro deste prazo ela deve escapar ou
morrer.
— Há uma terceira possibilidade — retrucou Masouda, encolhendo os
ombros. — Ela pode ficar e se tornar esposa de Sinan.
Wulf murmurou alguma coisa entre os dentes, depois foi até ela ameaça-
doramente, dizendo:
— Resgatá-la, ou...
— Para trás, peregrino John — ela falou, com um riso —, se eu a resgatar, o
que seria certamente muito difícil, não seria por medo de sua grande espada.
— Qual seria então o motivo, Masouda? — perguntou Godwin com voz
triste. — Oferecer-lhe dinheiro seria inútil, mesmo que o fizéssemos.
— Fico feliz de terem me poupado deste insulto — ela retrucou com os olhos
ardentes —, pois seria o fim da história. Contudo — ela acrescentou mais hu-
mildemente —, considerando meu lar e meu negócio, e o que eu aparento ser
—, e olhou para seus trajes e o cálice vazio na mão —, não teria sido estranho.
Agora ouçam, e não percam uma palavra, no momento estão nas graças de
Sinan, que acredita que são irmãos de lady Rosamund, não seus apaixonados.
Mas a partir do momento em que saiba a verdade seus destinos estarão selados.
Pensem no que o franco Lozelle sabe, e que Al-je-bal pode ficar sabendo a
qualquer momento, e na possibilidade de estas pontas se juntarem.
180
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Neste meio tempo vocês são livres, e amanhã, quando cavalgarem
pelos jardins, como farão, prestem atenção na pedra alta que fica do lado de
fora, e em como alcançá-la de qualquer ponto, mesmo no escuro. Também
amanhã, quando a lua aparecer, vocês serão levados à ponte estreita, para
treinar e cavalgar para lá e para cá, de modo a aprenderem a não temer a
ponte no luar.Depois que tiveram guardado os cavalos nos estábulos, voltem
aos jardins e venham até aqui, sem serem observados, pois como o lugar é
distante, isto poderá ser feito. Os guardas os deixarão passar, pensando que
querem apenas tomar um cálice de vinho com algum amigo, como é costume
de nossos convidados. Entrem na caverna, aqui está a chave — e a entregou
a Wulf — e se eu não estiver aqui, esperem por mim. Então vou lhes dizer
qual é o meu plano, se eu tiver algum, mas até lá preciso pensar e planejar.
Mas está ficando tarde. Vão.
— E você, Masouda — falou Godwin em dúvida —, como vai escapar
deste lugar?
— Por uma estrada que vocês não conhecem, pois sou mestre nos segredos
desta cidade. Mas agradeço sua preocupação comigo. Vão, digo, mas fechem
a porta ao sair.
Então eles saíram em silêncio, fazendo como mandado, e voltaram pelos
jardins, agora vazios, até a entrada dos estábulos do castelo de hóspedes,
onde os guardas os deixaram passar sem perguntas.
Aquela noite os irmãos dormiram numa única cama, temendo que se
dormissem separados poderiam ser revistados no sono sem acordar. Mesmo
assim pareceu, como antes, terem ouvido passos e vozes na escuridão.
Na manhã seguinte, depois do café, perambularam um pouco, na esperan-
ça de falarem com Rosamund, ou de vê-la, ou pelo menos que Masouda vies-
se buscá-los. Mas não viram Rosamund nem Masouda veio. Finalmente
apareceu um guarda, que mandou que eles o seguissem. Eles seguiram, e foram
levados através de salas e corredores ao terraço da justiça, onde Sinan, vestido
com o manto negro, estava sentado como antes debaixo de um toldo no meio
do chão de mármore iluminado pela luz do sol. Lá também estava Rosamund,
ao seu lado e sob o toldo, maravilhosamente trajada. Eles tentaram se adiantar
e falar com ela, mas guardas se interpuseram, indicando o lugar onde deveriam
ficar, alguns metros distante. Apenas Wulf falou, em voz alta, e em inglês:
— Diga-nos, Rosamund, você está bem? — Erguendo o rosto pálido ela
sorriu e concordou com a cabeça.
181
Capítulo 13 •
A delegação
Então, a uma ordem de Sinan, Masouda pediu que ficassem em silêncio,
dizendo que não era permitido que eles se dirigissem ao Senhor da Montanha,
ou à sua acompanhante, a menos que fossem previamente solicitados. Então,
tendo ficado sabendo o que queriam saber, ficaram em silêncio.
Agora alguns dos dais se aproximaram do toldo, e expuseram alguma
coisa ao Mestre, e que parecia ser de muita importância, pois seus rostos
estavam preocupados. Logo ele deu uma ordem, após o que voltaram para
seus lugares, e mensageiros deixaram o terraço. Quando voltaram novamen-
te, vieram acompanhados de aparentemente três nobres sarracenos, na
companhia de uma comitiva de servos usando turbantes verdes, numa de-
monstração de que eram descendentes do profeta. Estes homens que pareciam
exaustos em virtude de uma longa viagem marcharam pelo terraço com ar
orgulhoso, sem olhar para os dais ou para outros, até que viram os irmãos,
de pé lado a lado, os quais encararam um pouco. Em seguida viram Rosamund
sentada na sombra do toldo, e lhe fizeram uma mesura. Mas não deram ne-
nhuma atenção a Al-je-bal.
— Quem são os senhores e a que vieram? —, perguntou Sinan, depois de
fitá-los um tempo. — Sou o governante deste país. Estes são meus ministros
— e apontou para os dais, — e esta é minha insígnia real — e tocou a adaga
vermelho-sangue bordada no manto.
Agora que Sinan tinha se identificado, a delegação fez uma mesura, o
suficiente para ser cortês. Então o porta-voz retrucou:
— A insígnia nós conhecemos, já foi vista longe. Por duas vezes já derro-
tamos seus portadores, até na tenda de nosso Mestre. Senhor da Morte,
confirmamos conhecer o emblema da morte, e inclinamo-nos diante de quem
tem o título de Grande Assassino. Quanto à nossa missão, é a seguinte. Somos
embaixadores de Saladino, Comandante dos Fiéis, Sultão do Oriente. Nestes
papéis assinados com seu sinete estão nossas credenciais, se quiser lê-las.
— Não é preciso — respondeu Sinan —, já ouvi falar deste chefe. O que
ele quer comigo?
— Isto, Al-je-bal. Um franco a seu soldo, e um traidor, entregou-lhe uma
certa lady, sobrinha de Saladino, a princesa de Baalbec, cujo pai era um no-
bre franco de nome D’Arcy, e que é chamada de Rosa do Mundo. O Sultão,
Saladino, tendo sido informado disto por seu servo, o príncipe Hassan, que
escapou de seus soldados, exige que esta lady, sua sobrinha, seja entregue a
ele imediatamente, e com ela a cabeça do franco Lozelle.
182
Cruzada •
H. Rider Haggard
— A cabeça do franco Lozelle ele pode ter se quiser amanhã à noite. Eu
fico com a lady — zombou Sinan. — O que mais?
— Então, Al-je-bal, em nome de Saladino declaramos-lhe guerra — guer-
ra até que este lugar seja destruído, pedra por pedra, até que o último
homem, mulher ou criança seja morto, até que seu cadáver seja jogado
para os corvos.
Neste momento Sinan ergueu-se furioso, e puxou sua barba.
— Vá de volta — ele falou —, e diga àquele cão que você chama sultão,
por mais insignificante que seja, o humilde filho de Ayoub, eu, Al-je-bal, pres-
to-lhe uma honra que ele não merece. Minha rainha está morta, e daqui a dois
dias, quando meu mês de luto terminar, tomarei como esposa a sua sobrinha,
princesa de Baalbec, que está assentada ao meu lado, minha noiva.
Ao ouvir estas palavras Rosamund, que a tudo ouvira atentamente, em-
pertigou-se como alguém acabado de ser mordido por uma cobra, colocou
as mãos sobre o rosto e deu um gemido.
— Princesa — falou o embaixador, que a estava observando —, Sua Al-
teza parece entender nossa língua, é este o seu desejo, unir seu nobre sangue
com o deste herético chefe dos Assassinos?
— Não, não — ela gritou. — Não é meu desejo, pois sou uma prisioneira,
e sou também da fé cristã. Se meu tio Saladino é tão poderoso quanto ouvi
dizer, que demonstre seu poder e me liberte, eu e estes meus irmãos, os cava-
leiros Sir Godwin e Sir Wulf.
— Então você fala árabe — disse Sinan. — Ótimo, nossa conversa de amor
vai ser mais fácil, e quanto ao resto — bem, os desejos das mulheres mudam.
Agora, senhores embaixadores de Saladino saiam, antes que lhes mande para
uma longa viagem, e diga ao seu Mestre que se ele ousar colocar seus estan-
dartes em minhas muralhas, meus fedais vão tratar disso. De dia ou de noite,
em nenhum momento ele estará seguro. O veneno ficará de emboscada em
seu cálice, e a adaga o espreitará em sua cama. Que ele mate cem deles, pois
outros cem tomarão seus lugares. Seus guardas mais confiáveis serão os exe-
cutores de minha vingança. As mulheres de seu harém o conduzirão ao des-
tino final. Sim, a morte vai espreitar em cada porção de ar que ele respirar.
Se ele conseguir escapar, que se esconda dentro das muralhas da cidade de
Damasco, ou se divirta em guerras contra os adoradores da cruz, e me deixe
viver em paz com esta lady que escolhi para esposa.
— Belas palavras, dignas do Grande Assassino. — Falou o embaixador.
183
Capítulo 13 •
A delegação
— Belas palavras, sem dúvida, que serão seguidas de grandes atos de heroísmo.
Que chances terá este Mestre de vocês contra uma nação que jurou obedecer até
a morte? Venha cá, você, e você. E chamou dois de seus dais pelo nome.
Eles se levantaram e fizeram uma mesura.
— Agora, meus valorosos servos — ele falou —, mostrem a estes cães
heréticos como obedecem ao juramento, para que o Mestre deles possa co-
nhecer o poder do Mestre de vocês. Estão velhos e cansados de viver. Vão, e
me esperem no Paraíso.
Os homens velhos se inclinaram novamente, um pouco trêmulos. Então,
endireitando-se, sem uma palavra, correram lado a lado e pularam no abismo.
— Saladino tem servos como estes? — perguntou Sinan no silêncio que se
seguiu. — Vejam, o que fizeram todos farão, se eu mandar. Voltem agora, e se
quiserem, levem estes francos, para que possam testemunhar sobre o que viram,
e sobre o estado em que deixaram a irmã. Traduza para os cavaleiros, mulher.
Masouda traduziu, e Godwin perguntou, por seu intermédio.
— Entendemos muito pouco deste assunto, pois somos ignorantes de sua
língua, mas, oh Al-je-bal, antes de deixarmos o teto que nos acolheu temos
uma disputa a acertar com este homem Lozelle. Depois disso, com a sua
permissão, iremos, mas não antes.
Então Rosamund suspirou, de alívio, e Sinan respondeu:
— Como quiserem, assim seja — e acrescentou —, dêem comida a estes
enviados, e bebidas, antes de irem.
Mas o porta-voz retrucou: — Não compartilhamos do pão ou do sal de
assassinos, a menos que quiséssemos nos transformar em um. Al-je-bal, nós
partimos, mas dentro de uma semana voltaremos na companhia de dez mil
lanças, e numa delas sua cabeça vai ser espetada. Seu salvo conduto nos
guardará até o entardecer. Depois disso, faça o que quiser, como faremos o
que quisermos. Sua Alteza, nosso conselho é que se mate, e assim ganhe
honras imortais.
Então, cada um fez uma mesura a Rosamund, depois se viraram e voltaram
pelo terraço, seguidos de seus servos.
Depois Sinan fez um sinal com a mão e a corte se desfez. Rosamund foi a
primeira a sair, acompanhada de Masouda, e escoltada por guardas. Depois
os irmãos receberam ordem para também sair.
E saíram, falando com preocupação sobre todas estas coisas, e sem ne-
nhuma esperança, a não ser em Deus.
184
Cruzada •
H. Rider Haggard
aladino virá — falou Wulf, o esperançoso, e do alto apontou
para a planície lá em baixo, onde vários homens a cavalo iam
a galope. — Veja, lá vai a delegação.
— Sim — respondeu Godwin —, ele virá, mas temo que será muito tarde.
— É verdade, irmão, a menos que saiamos para encontrá-lo. Masouda
prometeu.
— Masouda — suspirou Godwin. — E pensar que tanta coisa depende da
fidelidade de uma mulher.
— Não depende dela — disse Wulf. — Depende do destino, que escreve
com o dedo dela. Vamos, vamos cavalgar.
Então, escoltados pelos guardas, cavalgaram nos jardins, observando sem
aparentar a posição da alta pedra, e como alcançá-la de todos os lugares.
Depois voltaram e aguardaram algum sinal ou palavra de Rosamund, mas
em vão. A noite passou sem festividades, e sua comida lhes foi trazida no
castelo dos hóspedes. E enquanto estavam lá sentados, Masouda apareceu
por um momento, para lhes dizer que tinham permissão de sair a cavalo e
cavalgar pela ponte ao luar, e que a escolta iria esperá-los numa certa hora.
Os irmãos perguntaram se a prima Rosamund viria jantar com eles.
Masouda explicou que como noiva de Al-je-bal não era permitido que ela
comesse com qualquer outro homem, mesmo seus irmãos. E ao sair, tropeçan-
do como se acidentalmente, ele esbarrou em Godwin e sussurrou:
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 14
O combate na ponte
A
-S
185
Capítulo 14 •
O combate na ponte
— Lembre-se, hoje à noite — e saiu.
A lua já tinha surgido havia uma hora quando o chefe da escolta apareceu,
e levou-os até os cavalos, e foram até a ponte do castelo. Ao se aproximarem
viram Lozelle partindo no cavalo negro, coberto de espuma. Parecia que ele
também tinha se exercitado naquela trilha perigosa, pois as pessoas que se aglo-
meraram perto batiam palmas e gritavam: — Muito bem, franco! Muito bem!
Com Godwin na frente, montando Flame, enfrentaram a ponte, cavalgan-
do sobre ela. Nenhum cavalo empacou, embora relinchassem um pouco sobre
o abismo escuro de cada lado. Depois voltaram trotando, e foram de novo,
e mais uma vez, em trote rápido e em galope, algumas vezes juntos, algumas
vezes sozinhos. Ao fim, Wulf fez Godwin parar no meio da ponte, e galopou
até ele rapidamente, até ficar à distância de uma lança. Neste instante puxou
as rédeas, e enquanto a multidão gritava, girou o cavalo fazendo-o erguer-se
nas patas traseiras, as patas dianteiras espancando o ar, e galopou de volta,
seguido por Godwin.
— Tudo correu bem — Wulf comentou quando voltavam para o castelo,
— e nenhum cavalo mais nobre ou mais dócil jamais foi montado por outros
homens. Tenho muitas esperanças para hoje à noite.
— Sim irmão, mas eu não tinha espada na mão. Não fique confiante de-
mais, pois Lozelle é um cavaleiro hábil e perigoso, como eu sei, pois já fiquei
face a face com ele. Além disso, o cavalo negro é bem treinado, e pesa mais
do que os nossos. Também a ponte é um lugar perigoso para se travar uma
batalha, e ninguém a escolheria, a não ser o diabólico Sinan.
— Vou fazer o melhor possível — respondeu Wulf —, e se eu for derrotado,
aja então como achar melhor. Pelo menos não deixe que ele mate a nós dois.
Depois de colocarem os cavalos no estábulo os irmãos passearam pelo
jardim, evitando as mulheres carregando cálices e os homens que elas impor-
tunavam com a bebida drogada, e depois pegaram um desvio para a pedra
alta. Percebendo que estavam sozinhos, abriram a porta e entraram, trancaram
de novo e foram às apalpadelas até a boca da caverna, iluminada pelo luar.
Pararam e ficaram estudando o declive para o abismo, da melhor forma que
podiam naquela luminosidade, até que de repente Godwin sentiu uma mão
sobre seu ombro, e estremeceu virando para ficar face a face com Masouda.
— Como você entrou? — ele perguntou.
— Por um caminho que é a sua única esperança — ela respondeu. — Ago-
ra, Sir Godwin, não desperdicemos palavras, pois meu tempo é curto, mas se
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
186
Cruzada •
H. Rider Haggard
acha que pode confiar em mim — e isto é assunto exclusivamente seu — dê-
me o Sinete que está dependurado em seu pescoço. Se não confiar, voltem
para o castelo e tentem salvar lady Rosamund, e vocês.
Enfiando a mão entre a cota e o peito, Godwin retirou o velho anel, es-
culpido com os signos misteriosos e jaspeado com o emblema da adaga e o
entregou a Masouda.
— Você confia mesmo — ela disse, com um pequeno riso, e depois de
examinar atentamente o anel à luz da lua e passando-o na testa, escondeu-o
entre os seios.
— É verdade, lady — ele respondeu —, confio na senhora, embora não
entenda por que se arrisca tanto por nós.
— Porquê? Ora, talvez pelo ódio, pois Sinan não reina por causa do amor.
Talvez porque sendo de sangue quente, esteja querendo acalmar minha vida
assumindo um risco, e não importa se venço ou morro. Talvez porque você
me salvou da leoa. Por que tanto interesse, Sir Godwin, em saber a razão pela
qual uma mulher espiã dos Assassinos, e que na sua terra seria apedrejada,
escolhe fazer isto ou aquilo?
Ela parou e ficou diante dele, o peito arfando e os olhos faiscando, uma
figura de branco misteriosa iluminada pelo luar, e muito bonita.
Godwin sentiu o coração bater mais forte, e o sangue subir à cabeça, mas
antes que pudesse falar, Wulf atalhou:
— Você nos pediu para economizar palavras, diga então o que devemos fazer.
— Isto — ela respondeu, voltando a ficar calma novamente. — Amanhã
à noite, mais ou menos a esta hora, você luta contra Lozelle na ponte estrei-
ta. Isto é certo, pois toda a cidade só fala nisto, e aconteça o que acontecer,
Al-je-bal não vai privá-los do espetáculo de uma luta até a morte. Bem, você
pode morrer, embora no fundo aquele homem seja um covarde, o que você
não é, mas aqui apenas a coragem não vai garantir nada, só a habilidade, a
qualidade do cavaleiro e do cavalo, e a astúcia. Se acontecer de você morrer,
então Sir Godwin vai enfrentá-lo, e ninguém pode estar seguro do resultado.
Se vocês dois morrerem, então me esforçarei o máximo para salvar sua lady
e levá-la para Saladino, com quem estará segura. Mas se não puder salvá-la,
vou encontrar um meio de que ela se salve, pela morte.
— Você jura? — falou Wulf.
— Já falei, é o suficiente — ela respondeu com impaciência.
— Então vou enfrentar a ponte estreita e o cavaleiro Lozelle com o cora-
ção aliviado — falou Wulf novamente, e Masouda continuou.
187
Capítulo 14 •
O combate na ponte
— Se você vencer, Sir Wulf, ou se você perder e seu irmão vencer, vocês
dois, ou um de vocês deve voltar galopando o mais rápido possível para o
portão do estábulo que fica a quase dois quilômetros da ponte do castelo.
Com o cavalo que vocês têm, nenhum vai ultrapassá-los, mas não parem na
ponte, continuem até chegar a este lugar. Os jardins estarão desertos de con-
vivas ou de mulheres com cálices, pois cada alma dentro da cidade estará
reunida nas muralhas e nos tetos das casas para ver a disputa. Só há uma
coisa a temer, pois a esta altura um guarda pode ter sido colocado junto ao
monte, para vigiar se Saladino começou a guerra contra Al-je-bal. Embora
aquela estrada seja pouco conhecida, é uma estrada, e sentinelas podem estar
de vigia. Se isto acontecer, vocês precisam matar o guarda, ou ser morto pelo
guarda, e neste caso sua história terá chegado ao fim. Sir Godwin, aqui está
outra chave, para o caso de estar sozinho. Pegue.
Ele pegou, e ela continuou:
— Agora se um de vocês, ou os dois, chegarem a esta caverna, entrem com
os cavalos, fechem a porta a chave, coloquem a tranca e aguardem. Pode ser
que eu os encontre aqui, com a princesa. Mas se eu não chegar até o ama-
nhecer, e se vocês não forem descobertos ou presos — o que será difícil, pois
a porta e um homem podem impedir a entrada de muitos — entenderão que
o pior aconteceu e corram até Saladino, e contem-lhe o que aconteceu, a fim
de que ele possa se vingar do inimigo Sinan. Só neste caso, e rogo, não duvi-
dem de que fiz o possível, e se eu falhar, que morra uma morte terrível. Então
adeus, e até nos encontrarmos novamente, ou não nos encontrarmos. Vão,
vocês conhecem a estrada.
Eles se viraram para obedecer, mas quando tinham dado uns passos,
Godwin olhou para trás e viu Masouda observando. O luar iluminou seu
rosto, e ele percebeu que lágrimas escorriam de seus olhos negros. Godwin
empertigou-se, e Wulf também, pois aquela imagem os emocionou, e os dois
se abaixaram, até que os joelhos tocassem o chão. Pegando sua mão, beijou-
a e falou, ternamente:
— De agora em diante, na vida ou na morte, servimos a duas ladies. E
Wulf fez o mesmo.
— Oxalá — ela falou com tristeza —, duas ladies mas um só amor.
Então eles saíram e, rastejando através dos arbustos até a estrada, peram-
bularam um pouco entre os homens que dormiam e sonhavam e chegaram à
casa de hóspedes em segurança.
188
Cruzada •
H. Rider Haggard
Mais uma vez já era noite, e bem acima da montanha fortificada de Masyaf
brilhava a lua cheia de verão, iluminando o penhasco e a torre, como se fosse
uma imensa tocha prateada. Os irmãos passaram pelo portão da casa dos
hóspedes, lado a lado, em seus esplêndidos cavalos, e os raios do luar reluziram
em suas cotas, nos escudos polidos — estes mostrando a todos como emblema
uma caveira de boca arreganhada —, os elmos ajustados à cabeça, e as pontas
das compridas lanças que lhes tinham sido dadas. Em redor vinha a escolta,
e na frente e atrás uma grande quantidade de pessoas.
A nação dos Assassinos tinha se libertado de seu ar permanentemente
sombrio esta noite, pois no momento não se sentia oprimida pelo medo de
um ataque por parte de Saladino, seu poderoso inimigo. À morte ela estava
acostumada, morte era o seu lema, morte em formas terríveis, o seu pão de
cada dia. Das muralhas de Masyaf, dia após dia, fedais saíam para matar este
poderoso, ou outro poderoso, ao comando de seu Mestre Sinan.
Na maior parte não retornavam; esperavam semana após semana, mês
após mês, ano após ano, até que o momento estivesse maduro e então bebiam
do cálice envenenado, ou pegavam a adaga e escapavam, ou eram mortos. A
morte esperava por eles no exterior, e se falhassem, a morte esperava por eles
em casa. Seu temível califa
44
era a própria espada da morte. Ao seu desejo se
atiravam de torres ou de precipícios; para satisfazer sua política sacrificavam
esposas e filhos. E sua recompensa em vida era o cálice envenenado e os sonhos
voluptuosos. E depois disso, segundo acreditavam, um paraíso ainda mais
voluptuoso.
Todas as formas de agonia humana e de desgraças eram conhecidas deste
povo. Mas agora lhes era prometida uma visão incomum, a dos cavaleiros
francos se matando num combate individual, sob a lua silenciosa, uma justa
num lugar estreito, sobre o qual muitos hesitariam caminhar, e — oh, supre-
ma alegria! — caindo os dois, cavaleiro e cavalo, nas profundezas abaixo.
Portanto, estavam felizes, pois para eles era uma noite de gala, a ser seguida
por um amanhã ainda mais engalanada, quando seu sultão e seu deus toma-
ria por esposa esta estrangeira linda. Sem dúvida, ele também ficaria cansado
dela, e seriam novamente chamados para vê-la ser atirada de alguma torre e
ouvir seus frágeis ossos se quebrando contra as rochas, ou — como aconteceu
com a última rainha — vê-la contorcer-se até a morte pela aflição do enve-
nenamento depois de um ato de bruxaria. Era mesmo uma noite de festa,
cheia de promessas de alegrias.
189
Capítulo 14 •
O combate na ponte
Os irmãos cavalgavam, com os rostos impassíveis e sérios, mas no coração
imaginando se viveriam para ver o dia seguinte. A multidão ululante se es-
premia ao redor, invadindo o círculo feito pelos guardas. Um braço ergueu-se
para Godwin e entregou-lhe uma carta, que ele pegou e leu à luz do luar.
Estava escrita em inglês, e era breve:
— Não posso falar com você. Que Deus esteja com vocês, meus irmãos,
Deus e o espírito de meu pai. Ao ataque, Wulf, ao ataque, Godwin, e não
temam pois tomarei conta de mim. Vençam ou morram, e na vida ou na
morte, esperem por mim. Amanhã, em carne e osso ou em espírito nos fala-
remos. Rosamund.
Godwin passou o papel para Wulf, e ao fazer isto, viu que os guardas
tinham agarrado o mensageiro, uma mulher de cabelo grisalho. Fizeram-lhe
algumas perguntas, mas ela balançou a cabeça. Então eles a atiraram ao chão,
pisotearam-na com os cavalos, até a morte, e continuaram a cavalgada, dan-
do risadas. A multidão também riu.
— Rasgue o papel — falou Godwin. Wulf rasgou, dizendo:
— Nossa Rosamund tem um coração valente. Bem, somos do mesmo
sangue, e não vamos decepcioná-la.
Agora tinham chegado ao espaço aberto em frente à estreita ponte, onde,
espremidos em fileiras, a multidão tinha sido colocada, e mantida à distância
por filas de guardas. Nas casas de tetos retos também havia outra multidão,
compacta como um enxame de abelhas, e nas muralhas em volta, e nos pa-
rapeitos que protegiam as extremidades da ponte, e nas casas do lado exter-
no da cidade. Antes da ponte havia um portão baixo, e sobre ele se sentava
Al-je-bal, vestido com o manto escarlate das festividades, e a seu lado, o luar
reluzindo sobre suas jóias, Rosamund. Na frente, com um rico traje, uma
adaga de pedras presa no cabelo escuro, estava a intérprete ou “boca” Ma-
souda, e mais atrás os dais e os guardas.
Os irmãos cavalgaram até o espaço antes do arco e pararam, saudando a
multidão com as lanças enfeitadas com galhardetes. Então do outro extremo
avançou outra comitiva, com o cavaleiro Lozelle montado no imponente
cavalo negro, e um homem enorme, e com aspecto feroz, numa armadura.
— O quê! — ele gritou, olhando furiosamente para eles. — Vou lutar um
contra dois? Estas são as suas regras de cavalaria?
— Não, não, Sir Traidor — respondeu Wulf. — Não, raptor de donzelas
para entregá-las ao poder de um cão pagão. Você já lutou com Godwin,
190
Cruzada •
H. Rider Haggard
agora é a vez de Wulf. Mate Wulf e Godwin continuará a luta. Mate Godwin,
e enfrentará Deus. Patife, olhe a última vez para a lua.
Lozelle ouviu, e pareceu que ia enlouquecer de tanta raiva, ou medo, ou
os dois.
— Mestre Sinan — ele gritou em árabe — isto é morticínio. Eu, que
prestei tantos serviços à sua casa, devo ser assassinado, para o seu prazer,
pelos apaixonados por aquela mulher, que o Mestre vai honrar com o nome
de esposa?
Sinan ouviu, e o fitou, com olhos firmes e raivosos.
— Sim, pode me fitar — continuou Lozelle, fora de si. — É a verdade, eles
estão enamorados dela, não são seus irmãos. Que homem se esforçaria tanto
por uma irmã? Pense bem. Eles nadariam para esta sua rede, se fossem real-
mente irmãos?
Sinan levantou a mão, exigindo silêncio.
— Coloquem as marcas — ele falou —, pois o que quer que sejam estes
homens, a disputa tem que seguir, e vai seguir.
Então um dai, sozinho, colocou as marcas no chão, e tendo se certificado
da posição, anunciou que Lozelle faria a primeira incursão, vindo da extre-
midade da ponte. Então outro dai pegou o bridão do cavalo e o levou até o
ponto. Ao passar pelos irmãos, Lozelle sorriu maliciosamente e falou:
— Pelo menos uma coisa é certa. Olhem pela última vez para a lua. Eu
já estou vingado. A isca que me ferrou é um prato para outro peixe grande,
e ele vai matar os dois na frente dela, apenas para estimular o apetite.
Mas os irmãos não retrucaram nada.
O cavalo negro de Lozelle ficou pequeno na distância e desapareceu sob
o arco que levava para a cidade de fora. Então um arauto gritou, e Masouda
traduziu suas palavras, que outro arauto repetiu, do outro lado do abismo.
— Três vezes as trombetas soarão. Ao terceiro toque das trombetas os ca-
valeiros arremeterão e se encontrarão no centro da ponte. A partir daí poderão
lutar como quiserem, montados, no chão, com lança, com espada, ou com
adaga, mas o vencido não terá nenhuma misericórdia. Se for retirado com vida
da ponte, com vida será lançado sobre o abismo. Este é o decreto de Al-je-bal.
Então o cavalo de Wulf foi levado até a entrada da ponte, e do outro lado
o cavalo de Lozelle.
— Boa sorte, irmão — falou Godwin quando ele passou. — Preferia que
eu estivesse nesta disputa, em vez de você.
191
Capítulo 14 •
O combate na ponte
— Sua vez pode aparecer, irmão — respondeu Wulf sério, colocando a
lança em posição.
Então de alguma torre perto soou o primeiro toque de trombeta, e o si-
lêncio se abateu sobre a multidão. Cavalariços se adiantaram para examinar
cilha, bridão e as correias dos estribos, mas Wulf os afastou com um gesto.
— Eu mesmo cuido dos meus arreios — disse.
O segundo toque soou, e ele desafivelou a longa espada da bainha, a
mesma espada que zuniu nas mãos de seus antepassados sobre as muralhas
de Jerusalém.
— Seu presente — ele gritou para Rosamund, e sua resposta veio clara e calma:
— Use-a como seus pais, Wulf. Use-a como ela foi usada na casa em Steeple.
Houve novo silêncio, um silêncio longo e profundo. Wulf olhou para a
faixa branca e estreita da ponte, olhou para o negro abismo de cada lado,
olhou para o céu azul acima, no qual flutuava o grande globo azul da lua.
Então se inclinou para a frente e acariciou Smoke no pescoço.
Pela terceira vez a trombeta soou, e de cada lado da ponte, separados por
200 passos, os cavaleiros dispararam um contra o outro como relâmpagos.
A multidão levantou-se para olhar; até Sinan levantou-se. Apenas Rosamund
continuou sentada, imóvel, espremendo as almofadas com as mãos. Os cascos
dos cavalos ecoavam sobre o piso de pedra, cada vez mais rápidos, com os
cavaleiros com as cabeças inclinadas para baixo sobre as selas. Agora estavam
próximos, agora se encontraram. As lanças pareciam tremer, os cavalos se
acotovelaram sobre a estreita passagem, quase dependurados sobre a beirada,
o cavalo negro rumo à cidade de dentro, Smoke rumo à garganta.
— Passaram! Passaram! — rugiu a multidão.
Veja! Lozelle se aproximou, dobrado sobre a sela, como deveria mesmo
estar, pois seu elmo tinha sido arrancado da cabeça, e sangue escorria do
crânio onde a lança tinha arranhado.
— Muito alto, Wulf, muito alto — falou Godwin com tristeza. — Oh, se
os laços tivessem agüentado.
Soldados pegaram o cavalo e o viraram.
— Outro elmo! — gritou Lozelle.
— Não — retrucou Sinan — o outro cavaleiro perdeu seu escudo. Novas
lanças, isto é tudo.
Novas lanças lhes foram dadas e logo, ao soar da trombeta, os cavalos foram
novamente vistos galopando em velocidade crescente sobre a passagem estreita.
192
Cruzada •
H. Rider Haggard
Encontraram-se, e veja! — Lozelle, arrancado de sua sela, mas ainda agarrado
às rédeas, foi lançado para trás, bem para trás, e caiu sobre as pedras da ponte.
Com o choque, o cavalo negro também caiu, e ficou lutando para se reerguer.
— Wulf vai cair sobre ele! — gritou Rosamund. Mas Smoke não caiu. O
garanhão se recompôs — o luar mostrou tão claramente que todo mundo viu
— mas como não conseguiria parar, pulou por cima do cavalo negro caído
— e também sobre o cavaleiro, caído um pouco além — e continuou sua
carreira. Então o cavalo negro conseguiu pôr-se sobre as patas novamente, e
galopou até o outro portão, e Lozelle também se levantou e quis correr.
— Fique de pé! Fique de pé, covarde! — gritaram dez mil vozes, e ouvin-
do, ele ficou de pé e pegou a espada.
Wulf puxou as rédeas, fez Smoke segurar-se nas patas traseiras, e depois virar.
— Ataque! — gritou a multidão. Mas Wulf permaneceu sobre a sela, como
se não quisesse atacar um homem no chão. Instantes depois apeou do cavalo,
mas acompanhado de Smoke, que o seguia como um cão segue o dono, andou
vagarosamente rumo a Lozelle, enquanto este vinha, deixando a lança no
chão e desembainhando a espada com punho em forma de cruz.
Novamente houve silêncio, e ouviu-se a voz de Godwin:
— Um D’Arcy! Um D’Arcy!
— Um D’Arcy! Um D’Arcy! Veio de volta a voz de Wulf lá da ponte, e
sua voz ecoou, clara, nos espaços da garganta. E Godwin se alegrou, pois
indicava que ele estava bem e forte.
Wulf não tinha escudo, e Lozelle não tinha elmo — a luta estava empare-
lhada. Agacharam-se um diante do outro, e as espadas erguidas reluziram à
luz do luar. De longe veio o distante barulho de choque de aço, um surdo e
contínuo clangor de ferro batendo em ferro. Um golpe atingiu a cota de Wulf,
que agora não tinha escudo para se proteger, e ele recuou. Outro golpe, outro
e mais outro, e ele recuou mais, e mais, para a beirada da ponte, e mais,
batendo contra o cavalo, que estava atrás dele. O choque deu-lhe um instan-
te, e ele se reequilibrou.
E com isto a luta mudou. Ele se lançou à frente, brandindo a grande es-
pada com as duas mãos. O golpe produziu um clarão sobre o escudo de
Lozelle, e o dividiu ao meio, pois naquele silêncio todos puderam ouvir o
retinido de sua metade superior caindo sobre as pedras. Sob a força do golpe
ele cambaleou, caiu sobre um joelho, reequilibrou-se novamente, e recuou.
Sim, agora era Lozelle que balançava e recuava. Sim, por St. Chad! Lozelle
193
Capítulo 14 •
O combate na ponte
que caiu com aquele potente golpe que errou sua cabeça mas atingiu seu
ombro, e estava lá parado como um poste, até que logo o luar mostrou sua
mão coberta com a cota estendida para cima, como numa prece, pedindo
misericórdia. Dos tetos das casas e da parede do terraço; dos portões e dos
parapeitos, a multidão de Assassinos comprimida em cada lado da garganta
irrompeu num bramido que ribombava nos lados das montanhas como um
trovão. O bramido pedia:
— Mate! Mate! Mate!
Sinan levantou a mão e de repente houve silêncio. Então ele gritou:
— Mate-o! Ele está derrotado!
Mas Wulf apenas apoiou-se no punho também em forma de cruz de sua
espada e olhou o inimigo caído, com quem logo pareceu que estava falando.
Lozelle levantou a lâmina que estava no chão ao seu lado e entregou a Wulf,
como um sinal de rendição. Wulf a segurou por um instante, e então a ba-
lançou, em triunfo, e a girou em cima da cabeça, e ela reluziu à luz do luar.
Depois, com um grito, a atirou no abismo, e todos a viram por um momen-
to, um arco de luz brilhante, e logo desapareceu.
Depois, sem prestar atenção no cavaleiro vencido, Wulf virou-se e come-
çou a caminhar em direção à sua montaria.
Mal ele tinha virado as costas e Lozelle pôs-se de pé, com a adaga na mão.
— Cuidado, atrás de você — gritou Godwin. Mas os espectadores, exta-
siados de ver que a luta ia continuar, irromperam em gritos.
Wulf ouviu e virou-se de volta, e quando ficou de frente para Lozelle a
adaga o atingiu no peito, mas a cota amorteceu o golpe. Ele não tinha espa-
ço, nem tempo, para utilizar a espada, e antes que viesse um segundo golpe,
os braços de Wulf se fecharam sobre Lozelle, e a luta pela vida continuou.
Entrelaçados, os dois balançaram e cambalearam, dando voltas, até que
ninguém podia dizer qual dos dois era Wulf ou o seu inimigo. Agora estavam
na beira do abismo, e naquela última tentativa de reunir forças, aos especta-
dores pareceu que por um instante ficaram imóveis como uma pedra. Mas
logo um dos homens começou a inclinar-se. Veja! Sua cabeça pendeu. Mais
e mais ele se inclinava, mas seus braços continuavam agarrados ao outro.
— Os dois vão cair! — gritou a multidão, em êxtase.
Veja! O faiscar de uma adaga. Uma, duas, três vezes ela faiscou, e os lutado-
res se separaram, e logo das profundezas do abismo veio o som de um baque.
— Quem, oh — quem? — gritou Rosamund.
194
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Sir Hugh Lozelle — respondeu Godwin, com voz solene.
A cabeça de Rosamund caiu para a frente, sobre o peito, e por instantes
pareceu que estava dormindo.
Wulf foi até seu cavalo, virou-o sobre a ponte, e passando o braço pelo
seu pescoço, descansou um pouco. Depois montou e foi vagarosamente em
direção à ponte interna. Espremendo-se entre os guardas e os soldados,
Godwin foi ao seu encontro.
— Muito bem, irmão — ele disse, quando ficaram face a face. — Diga,
você está ferido?
— Esfolado e cansado, nada mais, respondeu Wulf.
— Ótimo então. Agora, descansar — falou Godwin. Depois, olhou por
sobre o ombro e acrescentou: — Veja, estão levando Rosamund, mas Sinan
continua lá, para falar com você, sem dúvida, pois Masouda chama.
— O que vamos fazer? —, perguntou Wulf. — Faça um plano, irmão, pois
minha cabeça está rodando.
— Ouça o que ele tem a dizer. Depois, como seu cavalo também não está
ferido, dirija-se a ele, quando eu der um sinal, como Masouda pediu. Não há
outro jeito. Finja que você está ferido.
Então, com Godwin na frente, enquanto a multidão dava gritos para o
vencedor, Wulf, que tinha se comportado tão bravamente, foram até a extre-
midade da ponte e pararam no pequeno espaço antes do arco. Lá Al-je-bal
falou por meio de Masouda.
— Luta digna de um cavaleiro. Não sabia que os francos lutam tão bem.
Diga, Sir Wulf, o senhor festejará comigo em meu palácio?
— Agradeço-lhe, Mestre — respondeu Wulf, — mas preciso descansar
enquanto meu irmão cuida dos ferimentos — e apontou para o sangue sobre
a cota. — Amanhã, se for possível.
Sinan fitou-os e acariciou a barba, enquanto eles tremiam, aguardando a
palavra do Senhor da Morte.
Ela veio.
— Ótimo, então seja assim. Amanhã me caso com lady Rosa das Rosas,
e vocês dois — seus irmãos — me darão sua mão, como deve ser. E acrescen-
tou com zombaria: — Vocês vão receber uma recompensa de muito valor
— uma grande recompensa, eu prometo.
Enquanto ele falava, Godwin percebeu, olhando para cima, que uma
nuvem encobriu vagarosamente a lua, e o lugar escureceu.
195
Capítulo 14 •
O combate na ponte
— Agora — ele sussurrou, e fazendo uma mesura para Al-je-bal, passaram
com os cavalos pelo portão aberto, e a multidão os envolveu, e isto atrasou
um pouco a escolta. Falaram e acariciaram Flame e Smoke, e os cavalos foram
em frente lado a lado, separando a multidão como a proa de um navio sepa-
ra as águas. Dez passos à frente a multidão começou a diminuir, trinta passos
mais e ela ficou para trás, pois todos ficaram junto ao arco, de onde podiam
ver a luta. Os irmãos galoparam, até que a estrada virou à esquerda, e na luz
agora fraca do luar puderam se esconder.
— Vamos! — falou Godwin, balançando as rédeas.
Os cavalos se lançaram à frente, rapidamente. Novamente Godwin virou,
tomando a estrada que passava em volta da cidade, deixando o castelo dos
hóspedes à esquerda, enquanto a escolta continuou pela estrada por onde
tinham vindo, e que margeava a rua principal da cidade interna, pensando
que eles estivessem mais na frente. Mais três minutos e já estavam nos jar-
dins desertos, onde naquela noite não havia mulher alguma, nem neófitos
dormindo.
— Wulf — falou Godwin enquanto seguiam, deslizando por cima da
turfa, — pegue a espada e fique atento. Lembre-se, a caverna pode estar vi-
giada, e se estiver, vamos ter de matar ou ser mortos.
Wulf concordou com a cabeça, e no instante seguinte duas espadas tre-
meluziram à luz do luar, pois a nuvem tinha passado. A 100 metros deles
erguia-se a pedra, mas entre ela e o monte havia dois guardas a cavalo. Eles
ouviram o barulho dos cascos, e virando-se, viram dois cavaleiros armados
vindo em sua direção em velocidade. Mandaram que parassem, depois se
adiantaram alguns metros, imaginando se aquilo não seria uma visão.
Num instante os irmãos estavam sobre eles. Os soldados ergueram as
lanças, mas antes que pudessem atirá-las, a espada de Godwin tinha atingido
um entre o pescoço e o ombro, e penetrado até o osso do peito, e a espada
de Wulf, usada como uma lança, tinha trespassado o outro, e os dois caíram
mortos junto à porta da caverna, sem saber quem os tinha atingido.
Os irmãos puxaram as rédeas e falaram com Flame e Smoke, depois des-
montaram. Um dos guardas mortos ainda segurava as rédeas de seu cavalo,
e o outro estava perto, resfolegando. Godwin o pegou, antes que ele corresse,
e segurando todos os quatro, atirou a chave para Wulf pedindo-lhe que des-
trancasse a porta. Isto foi feito, embora Wulf cambaleasse um pouco, mas
ajeitando-se ele pegou as rédeas dos quatro cavalos, e Godwin os conduziu
196
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Cruzada •
H. Rider Haggard
para dentro, sem dificuldade, pois os animais sabiam que a caverna era um
estábulo, e com isto já estavam acostumados.
— O que vamos fazer com os homens mortos? — perguntou Wulf.
— É melhor que nos façam companhia — respondeu Godwin, correndo
até lá fora e arrastando o primeiro para dentro. E depois o outro.
— Rápido! — ele disse, deixando o segundo corpo no chão. — Tranque
a porta. Vi alguns cavaleiros entre as árvores. Não, eles não viram nada.
Então fecharam a pesada porta a chave e colocaram a tranca, e com os
corações sobressaltados, aguardaram na escuridão, esperando que a qualquer
momento aparecessem soldados batendo na porta. Mas nenhum som foi
ouvido. Os soldados que os procuravam, se era isto mesmo, tinham passado
e ido procurar em outro lugar.
Então, enquanto Wulf amarrava os cavalos perto da boca da caverna,
Godwin juntou pedras, as maiores que podia erguer, e as empilhou contra a
porta, até que se certificaram de que seria preciso uma hora ou mais para
homens a abrirem.
Pois a porta tinha travessas de ferro, e estava firmemente presa na rocha.
197
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 15
O vôo para Emesa
45
E
A
ntão começou a mais aflitiva espera que os irmãos tiveram, ou
teriam, embora no início ela não parecesse nem tão longa nem tão
pesada. A água gotejava das paredes da caverna, e Wulf, que esta-
va com muita sede, coletou as gotas com a mão e bebeu até se satisfazer.
Depois deixou-as cair sobre a cabeça para aliviar a dor. E Godwin banhou
os ferimentos e esfolados da melhor forma que pôde, pois não teve coragem
de remover a cota, e assim dar-se mais conforto.
Quando isto terminou, e ele olhou para as selas e os arreios dos cavalos,
Wulf contou tudo o que tinha se passado entre ele e Lozelle sobre a ponte.
Como, na primeira arremetida, sua lança enfiou-se nos laços e arrancou o
elmo do seu inimigo, o qual, se os nós não tivessem rompido, teria sido ar-
remessado à morte, enquanto a lança de Lozelle atingiu seu escudo e o rasgou,
tirando-o do braço. Como eles passaram um pelo outro, e por um momento
as patas dianteiras de Smoke ficaram sobre o abismo, de tal maneira que ele
pensou que estava perdido. Como, na outra arremetida, a lança de Lozelle
passou debaixo de seu braço, enquanto a sua, atingindo em cheio o peito de
Sir Hugh, derrubou o cavalo negro e seu cavaleiro como se um raio os tives-
se atingido, e como Smoke, que não tinha como diminuir seu galope, pulou
por sobre eles, como um cavalo pula um obstáculo. Como ele não quis lutar
com Lozelle montado em Smoke, e decidiu desmontar para terminar a dis-
puta numa maneira cavalheiresca, e estando sem o escudo, recebeu todo o
198
Cruzada •
H. Rider Haggard
impacto da grande espada na cota, a tal ponto que cambaleou para trás, e
teria caído se não tivesse esbarrado no cavalo.
Depois falou dos golpes que se seguiram, e do seu último, que feriu
Lozelle, rasgando a cota e o derrubou, como um açougueiro abate um boi.
Falou como, quando ele se adiantou para matá-lo, este homem brutal pediu
misericórdia, pediu em nome de Cristo e de sua mãe, que ele conheceu em
Essex, quando era criança. Como não podia assassiná-lo, virou-se, dizendo
que Al-je-bal iria decidir o que fazer com ele, instante em que o traidor se
levantou e o atacou com a faca. Falou também sobre a última etapa da luta,
e como, abalado que estava com o golpe recebido nas costas, embora a pon-
ta da adaga não tivesse perfurado sua cota, lutou com Lozelle, homema
homem. Até que, afinal, sua juventude e sua força e a habilidade que tinha
em luta com as mãos, aprendida em muitas brigas em Steeple, acabaram por
prevalecer, e enquanto lutavam perigosamente na beirada do abismo, ele pôde
soltar a mão direita, pegar um punhal e dar um fim ao desafio.
— Sim — acrescentou Godwin — nunca vou esquecer o olhar daquele
homem quando ele caiu para trás e o grito sibilante que saiu de sua garganta
perfurada pelo punhal.
— Pelo menos há um patife a menos no mundo, embora fosse valente à
sua maneira velhaca — respondeu Godwin. — Além disso, meu irmão — ele
acrescentou colocando o braço em volta do pescoço de Wulf — estou satisfei-
to de que foi você quem lutou contra ele, pois na hora final sua força venceu,
ao passo que eu, que sou mais fraco, poderia ter falhado. Ainda, acho que fez
bem em demonstrar misericórdia, como um bom cavaleiro deveria, e que com
esta atitude ganhou grande honra, e que se os espíritos podem ver na escuridão,
nosso falecido tio está orgulhoso de você, como eu estou, meu irmão.
— Obrigado — respondeu Wulf simplesmente — mas numa hora destas
quem pode pensar em coisas como ganhar honra?
Depois, para evitar ficar com os músculos rígidos, pois tinha ficado bem
machucado debaixo da cota, ele e o irmão começaram a andar de um lado para
outro da caverna, de onde os cavalos estavam para onde estavam os soldados
mortos, perto da porta, e com a fraca luminosidade brilhando sobre seus rostos
escuros. Má companhia eles eram naquele lugar silencioso e deserto.
O tempo passou, a lua foi caindo em direção das montanhas.
— E se não vierem? — perguntou Wulf.
— Vamos aguardar, e só pensar nisto quando começar a amanhecer.
199
Capítulo 15 •
O vôo para Emesa
Outra vez eles foram e vieram pela caverna.
— E como entrar, se a porta está com a tranca? — perguntou Wulf.
— Como Masouda veio e saiu? — perguntou Godwin. — Ora não me
faça mais perguntas, está nas mãos de Deus.
— Veja — falou Wulf num sussurro. — Quem está lá de pé no final da
caverna, perto dos mortos?
— Seus espíritos, talvez — respondeu Godwin, desembainhando a espada
e inclinando-se para a frente. Então ele olhou, e viu, duas figuras fracamente
recortadas na penumbra. Elas vieram na direção deles, e agora a fraca luz
incidiu sobre seus mantos brancos e fez rebrilhar as jóias que usavam.
— Não consigo vê-los — falou uma voz. — Oh, estes soldados mortos, o
que será que pressagiam?
— Pelo menos lá estão seus cavalos — falou outra voz.
Então os irmãos perceberam a verdade e como se estivessem vivendo um
sonho, deram um passo à frente e saíram das sombras.
— Rosamund! — falaram.
— Oh Godwin! Oh Wulf! — ela gritou em resposta. — Oh, Jesus, eu Vos
agradeço, Vos agradeço, e a esta brava mulher! E abraçando Masouda, bei-
jou-a na face.
Masouda afastou-a, e falou, numa voz quase áspera: — Não é apropriado,
Princesa, que seus lábios puros toquem na face de uma mulher dos Assassinos.
Mas Rosamund não se deu por achada.
— É muito apropriado — ela soluçou — que agradeça, pois se não fosse
sua ajuda, talvez também me tivesse tornado uma “mulher dos Assassinos”,
ou uma habitante da Casa da Morte.
Então Masouda beijou-a de volta, e a empurrando para os braços de Wulf,
falou sem rodeios:
— Então, peregrinos Peter e John, seus padroeiros trouxeram vocês até
longe; e, John, você lutou muito bem. Não, não interrompam para contar a
história, se querem que vivamos para também contá-la. O que! Os cavalos
dos soldados estão aqui dentro? Maravilhoso! Não seria capaz de pensar que
tivessem tanta sagacidade. E, Sir Wulf, pode andar? Ótimo, vai poupar uma
cavalgada difícil, pois este lugar é muito íngreme, embora não tão íngreme
como outro que conhece. Agora coloquemos a Princesa sobre Flame, pois
nenhum gato tem uma pata mais firme do que aquele cavalo, como se lembra,
Peter. Eu conheço a trilha e vou na frente. John, pegue os outros dois. Peter,
200
Cruzada •
H. Rider Haggard
vá no fim, com Smoke, e se eles refugarem, use a espada. Vamos, Flame, não
tenha medo. Onde eu for, vocês podem ir. E Masouda abriu caminho por
entre as moitas até a beira do abismo, falando com o cavalo que resfolegava,
acariciando-o.
Um minuto depois estavam descendo com dificuldade um espinhaço tão
íngreme que parecia que cairiam e estariam despedaçados ao chegar ao fun-
do. Mas não caíram, pois feita para ser usada em hora de necessidade, a es-
trada era mais segura do que aparentava, com passagens estreitas cortadas
na rocha nos piores lugares.
E eles desceram, e desceram, até que finalmente, ofegantes mas salvos,
chegaram ao pé da tenebrosa garganta, onde apenas a luz das estrelas brilha-
va, pois os raios da lua baixa não chegavam.
— Monte —, falou Masouda. — Princesa, continue com Flame, ele é o mais
confiável e o mais rápido. Sir Wulf, fique com seu cavalo, Smoke. Seu irmão e
eu iremos nestes dos soldados. Embora não tão rápidos, sem dúvida são bons
animais, e acostumados com estas estradas. Então com um pulo ela se ajeitou
na sela, como só uma mulher nascida do deserto é capaz, e foi na frente.
Por dois quilômetros ou mais, Masouda guiou-os pelo fundo rochoso da
garganta, onde, por causa das pedras, só podiam andar passo a passo, até
que chegaram a uma fenda profunda, do lado esquerdo, e só então puderam
andar um pouco mais depressa. Agora a lua estava quase totalmente atrás
das montanhas, e a luminosidade fraca que vinha das estrelas começou a ser
obscurecida por nuvens em movimento. Mas continuaram, pisando em falso
aqui e ali, até atingir uma pequena clareira onde havia água e grama.
— Alto — falou Masouda. Vamos aguardar aqui até o amanhecer, pois
nesta escuridão os cavalos não conseguem andar sobre as pedras. Além disso,
em redor só há precipícios, e podemos cair.
— Mas eles vão nos perseguir — queixou-se Rosamund.
— Não antes que haja luz — respondeu Masouda — ou pelo menos temos
de correr o risco, pois prosseguir seria loucura. Sente-se e descanse, e deixemos
os cavalos beberem um pouco de água e comer um pouco de grama, mas man-
tendo as rédeas nas mãos, pois nós e eles poderemos precisar de toda nossa
força antes do pôr-do-sol de amanhã. Diga, Sir Wulf, está muito ferido?
— Pouco — ele respondeu com uma voz alegre — uns arranhões debaixo
da cota, pois a espada de Lozelle era pesada. Diga-nos, rogo-lhe, o que acon-
teceu depois que deixamos a ponte do castelo?
201
Capítulo 15 •
O vôo para Emesa
— Isto, cavaleiros. A princesa foi conduzida por escravos para os seus
aposentos, mas Sinan me mandou ficar, pois queria falar com vocês por meu
intermédio. Sabem o que ele tinha em mente? Matar vocês imediatamente,
pois Lozelle lhe tinha dito que vocês eram pretendentes ao amor dela, e não
seus irmãos. Mas ele achava que poderia ter problemas com a população,
que queria ver a luta, e então resolveu aguardar. Depois ele os convidou para
o jantar, para o caso de vocês não retornarem. Mas quando Sir Wulf disse
que estava machucado, sussurrei no ouvido dele que o que ele queria fazer
poderia ser feito melhor no dia seguinte, na festa do casamento, quando ele
estaria dentro de seus domínios, cercado por seus guardas.
— Isso mesmo — ele respondeu — estes irmãos vão lutar com os guardas
até que sejam jogados no abismo. Vai ser uma boa diversão para mim e para
minha rainha.
— Oh, que horrível! — falou Rosamund, enquanto Wulf resmungou:
— Juro que eu ia lutar, não com os guardas, mas só com Sinan.
— Então ele permitiu que vocês fossem, e eu também o deixei. Mas
antes de sair, me mandou levar-lhe a princesa em segredo duas horas depois
do jantar, pois ele queria falar com ela em particular sobre a cerimônia do
casamento do dia seguinte, e dar-lhe presentes. Respondi alto que sua
ordem seria cumprida, e corri para o castelo dos hóspedes. Lá encontrei
a princesa restabelecida das vertigens, mas com muita raiva, e a forcei
a comer e a beber.
— O resto é pouca coisa. Antes que as duas horas tivessem transcorrido,
veio um mensageiro dizer que Al-je-bal aguardava que eu fizesse o que ele
tinha ordenado.
— Volte — respondi. — A princesa está se aprontando. Vamos em segui-
da, mas sozinhas, como foi a ordem.
— Então a vesti com o manto, pedi que fosse valente, e, se falhássemos,
escolher entre Sinan e a morte. Em seguida peguei o anel do Al-je-bal morto,
que o deu ao seu parente, e fui mostrando aos escravos, que faziam mesuras
e nos deixavam passar. Chegamos até os guardas, e outra vez mostrei o anel.
Eles também fizeram mesuras, mas quando viram que tínhamos virado à
esquerda no final da passagem, e não para a direita, como deveríamos ter
feito para chegar às portas do palácio interno, tentaram nos parar.
— Não conhecem o Sinete? — respondi. — Cães, o que têm a ver com
qual caminho o Sinete toma? — Então também nos deixaram passar.
202
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Depois, seguindo a passagem, saímos da casa dos hóspedes e chegamos
aos jardins, e a levei para o que é chamado de torre da prisão, aonde chega
a passagem secreta. Lá havia mais guardas, mas mandei-os nos deixar passar
em nome de Sinan.
Eles disseram: — Não vamos deixar. Este lugar está fechado, exceto para
o Sinete.
— Pois veja isto! — respondi. O guarda olhou e disse: “É o Sinete, sem
dúvida, não há outro igual”.
Mesmo assim, examinou a pedra negra jaspeada com a adaga vermelha
e inscrições antigas.
— Estão cansados de viver? — perguntei. — Idiotas, o próprio Al-je-bal
deseja ter um encontro secreto nesta casa, aonde ele chega secretamente vindo
do palácio. A desgraça recairia sobre vocês se ele não encontrar esta lady aí.
— É o Sinete que ele deve ter enviado, com certeza —, o capitão falou.
— Desobedecer é a morte.
— É sim, abra, abra — sussurraram os outros guardas.
— Então eles abriram, embora relutantes, e nós entramos, e coloquei a
tranca na porta. Depois, para resumir, na escuridão do porão da torre, guian-
do-nos pelas paredes, engatinhamos até a entrada daquela passagem da qual
conheço o segredo, e fomos por ela e passamos a porta de pedra de saída que
fica no final, e que tranquei, de modo que ninguém pudesse abrir, a não ser
pedreiros hábeis com ferramentas especiais, e chegamos à caverna onde en-
contramos vocês. Não foi nada especial, com o Sinete, embora sem o Sinete
não teria sido possível esta noite, pois todos os lugares estão vigiados.
— Nada de especial! — atalhou Rosamund. — Oh, Godwin e Wulf! Se
soubessem como ela pensou em tudo e arranjou tudo; se pudessem ter visto
como todos aqueles homens nos encaravam, querendo arrancar as nossas almas!
Se tivessem ouvido como ela respondeu a eles, alto e firme, balançando o anel
diante de seus olhos, e ordenando que obedecessem, ou morreriam!
— O que deve ter acontecido com eles a esta hora — interrompeu Masouda
com calma, — mas não sinto pena deles, pois eram sanguinários. Não, não
me agradeça. Só fiz o que prometi que faria, nem mais nem menos, e amo o
perigo e um grande desafio. Agora conte-nos sua história, Sir Godwin.
Sentado na grama, na escuridão, ele contou sobre a corrida a cavalo e a mor-
te dos guardas, enquanto Rosamund erguia as mãos e dava graças ao céu pelas
bênçãos, e pelo fato de não estarem dentro daquelas amaldiçoadas muralhas.
203
Capítulo 15 •
O vôo para Emesa
— Mas vocês podem estar lá dentro outra vez, antes do escurecer —,
Masouda falou, séria.
— Sim — respondeu Wulf —, mas não vivos. Agora, qual é o plano? Seguir
na direção das cidades costeiras?
— Não — retrucou Masouda —, pelo menos não diretamente, pois para
fazer isto teríamos que passar pela terra dos Assassinos, que a esta hora, com
a luz do dia, já foram avisados e esperam por nós. Vamos cavalgar através
das terras do deserto em direção a Emesa, muitos quilômetros adiante, e
cruzar o Orontes lá, e descer para Baalbec, e de lá de volta a Beirute.
— Emesa? — falou Godwin. — Lá é domínio de Saladino, e Rosamund
é princesa de Baalbec.
— O que é melhor? — interompeu Masouda. — Cair nas mãos de Saladino,
ou voltar para as mãos do Mestre dos Assassinos? Escolham o que preferem.
— Escolho Saladino — atalhou Rosamund, — pois pelo menos ele é meu
tio, e não vai me fazer mal. Os outros não a contradisseram.
Agora finalmente o dia de verão começou a raiar, e como ainda estivesse um
pouco escuro para viajar, Godwin e Rosamund deixaram os cavalos pastar,
segurando-os pelas rédeas. Masouda também, retirando a cota de Wulf e tra-
tando de seus ferimentos da melhor maneira que podia, com as folhas esmagadas
de um arbusto que crescia junto ao regato, depois de lavá-las com água, o que
lhe deu um bom alívio. Depois, assim que o raiar do dia ficou cinzento, e tendo
bebido água e comido o agrião que crescia no regato, pois não tinham mais
nada, apertaram as cilhas e partiram. Mal tinham andado cem metros quando
ouviram, vindo da garganta embaixo, o som de cascos de cavalos e de vozes.
— Rápido —, falou Masouda, — Al-je-bal está no nosso encalço.
E subiram, sob a luz que começava a aparecer, margeando as beiras de
horripilantes precipícios, que na escuridão teria sido impossível percorrer, até
que finalmente chegaram a um grande platô, que ia até o pé de algumas
montanhas a uns 15 quilômetros de distância, ou mais. Estas montanhas ti-
nham dois picos, bem próximos. Masouda apontou para eles, dizendo que a
estrada passava por entre eles, e que além ficava o vale do Orontes. E enquan-
to falava, ainda distante, eles ouviam o som de homens gritando, mas que
eles não podiam ver, por causa da névoa densa.
— Vamos — falou Masouda — não há tempo a perder. E eles seguiram
adiante, mas a meio galope, pois o chão era cheio de pedras e buracos, e a
luz, pouca.
204
Cruzada •
H. Rider Haggard
Quando já tinham coberto quase dez quilômetros da distância entre eles e o
desfiladeiro, o sol surgiu de repente e afastou a névoa. E viram, diante deles, uma
terra plana, arenosa; atrás, a terra pedregosa que tinham atravessado, e cavalgan-
do nela, a pouco mais de três quilômetros, uns vinte homens dos Assassinos.
— Eles não podem nos alcançar, — falou Wulf, mas Masouda apontou
para a direita, onde ainda havia névoa, e disse:
— Lá eu vejo lanças.
Por entre a névoa fina, a uma légua de distância, eles viram uma grande
quantidade de soldados a cavalo, talvez uns quatrocentos.
— Vejam — ela disse — eles deram a volta durante a noite, como temi que
fizessem. Agora temos que cruzar o desfiladeiro antes deles ou ser apanhados
— e bateu com força no seu cavalo com um galho que tinha cortado perto do
regato. Um quilômetro depois um grito vindo dos homens à direita, acompanha-
do de outro grito dos que vinham atrás, indicaram que eles tinham sido vistos.
— Vamos! — falou Masouda. — A corrida vai ser apertada. E imediata-
mente começaram a galopar o mais rápido que podiam.
Três quilômetros depois, os cavaleiros que vinham atrás estavam distantes,
mas a grande nuvem de poeira à esquerda estava cada vez mais perto, e pa-
recia que chegaria ao desfiladeiro antes que eles. Godwin falou:
— Wulf e Rosamund, continuem. Seus cavalos são rápidos e podem chegar
na frente. No topo da montanha aguardem um pouco, para descansar os animais,
e vejam se estamos vindo. Se não, continuem, e que Deus os acompanhe.
— Sim — falou Masouda — continuem e vão para a ponte de Emesa — ela
pode ser vista de longe — e lá se entreguem aos soldados de Saladino.
Eles hesitaram, mas Godwin falou, com voz firme:
— Sigam, vocês dois, é uma ordem.
— Pelo bem de Rosamund, que seja — respondeu Wulf.
Então eles soltaram as rédeas e esporearam gentilmente Smoke e Flame e
partiram, pelo caminho de areia, galopando velozmente. Logo Godwin e
Masouda ficaram para trás, e viram quando eles entraram no desfiladeiro.
— Ótimo — ela falou — exceto os que são da mesma raça, não há cava-
los na Síria que possam alcançar estes dois. Eles vão chegar a Emesa, não
tenha receio.
— Quem era o homem que nos trouxe os cavalos? — perguntou Godwin ca-
valgando lado a lado de Masouda, os olhos fixos na nuvem de poeira que estava
cada vez mais perto, e também nas pontas das lanças, que brilhavam ao sol.
205
Capítulo 15 •
O vôo para Emesa
— O irmão de meu pai — meu tio, como eu o chamo —, ela respondeu.
— É um xeique do deserto, dono daquela raça antiga que não pode ser com-
prada com ouro.
— Então você não faz parte dos Assassinos, Masouda?
— Não, agora posso contar, pois o fim parece perto. Meu pai era árabe,
minha mãe, uma nobre franca, uma francesa, que ele encontrou morrendo
no deserto depois de uma luta, e a levou para sua tenda e tornou sua esposa.
Os Assassinos nos atacaram, e mataram os dois, e me capturaram quando eu
tinha 12 anos. Depois, quando cresci e como era bonita nesta época, fui le-
vada para o harém de Sinan e, embora em segredo eu tivesse sido criada como
uma cristã por minha mãe, eles me fizeram adotar aquela fé amaldiçoada.
Agora você entende por que eu o odeio tanto, ele que matou meu pai e minha
mãe e me transformou no que sou. E porque sou desprezível. Ele me forçou
a servir como sua espiã, ou ser morta, e acha que sou sua fiel escrava. Mas
meu desejo é me vingar dele.
— Não acho você desprezível — falou Godwin, ofegante e esporeando o
cavalo. — Acho você muito nobre.
— Alegro-me de ouvir isto, antes de morrermos — ela respondeu, olhan-
do-o nos olhos de uma maneira que o fez baixar a cabeça para evitar o olhar
ardente —, e gosto de Sir Godwin, por quem ousei estas coisas, embora eu
não signifique nada para você. Não, não fale nada, lady Rosamund me con-
tou toda a história, menos a resposta.
Agora tinham saído da areia, sobre a qual cavalgaram lado a lado, e co-
meçaram a subir o aclive da montanha. Godwin não se importou com o
tropel dos cavalos sobre as pedras, que impedia que a conversação continu-
asse. Até agora tinham mantido a distância dos Assassinos, que vinham por
uma estrada mais longa e mais acidentada. Mas a grande nuvem de poeira
estava agora a não mais do que 600 metros. Na frente, lanças erguidas, vinham
os melhores cavaleiros.
— Estes cavalos ainda têm fôlego; são melhores do que pensei — gritou
Masouda. — Eles não vão nos alcançar na montanha, mas depois.
Não falaram mais pela próxima légua, pois precisavam ter todo o cuidado
para evitar que os cavalos caíssem, ao subir com dificuldade. Finalmente chegaram
ao topo, e lá, bem no alto, viram Wulf e Rosamund ao lado de Flame e Smoke.
— Estão descansando — Godwin falou, e depois gritou: — Montem!
Montem! O inimigo está perto.
206
Cruzada •
H. Rider Haggard
Os dois subiram novamente nas selas e todos os quatro, juntos, começaram
a descer o longo declive que se estendia até a planície, duas léguas abaixo.
Ao longe se estendia uma faixa prateada, além da qual, daquela altura, viam
as muralhas de uma cidade.
— O Orontes! — gritou Masouda. — Cruzando a ponte estamos salvos.
Mas Godwin olhou primeiro para o seu cavalo, depois para o de Masouda, e
balançou a cabeça.
E fez bem em olhar, pois valentes como eram, estavam muito nervosos de
terem galopado por tanto tempo com rédeas soltas. E lançaram-se estrada
abaixo, resfolegando, e às vezes era difícil mantê-los sob controle.
— Eles vão até a planície, não mais que isso —, falou Godwin, e Masou-
da concordou.
A descida estava quase terminada e os Assassinos, em mantos brancos, a
pouco mais de um quilômetro, continuavam se aproximando. Godwin usou
as esporas, e Masouda o chicote, mas com pouca esperança, pois sabiam que
o fim estava próximo. Desceram o último declive, e de repente, quando já
iam pegar o plano, o cavalo de Masouda vacilou, parou e despencou no chão,
e Godwin parou ao lado.
— Continuem! — ele gritou para Rosamund e Wulf, um pouco à frente.
Mas eles não se mexeram. Ele insistiu, aos gritos, mas eles responderam: —
Não, vamos morrer juntos.
Masouda olhou para os cavalos Flame e Smoke, que pareciam calmos.
— É isso — ela falou — eles já carregaram duas pessoas, e vão carregar
de novo. Monte na frente da lady, Sir Godwin, e Sir Wulf, dê-me a mão, e
você vai ver o que este cavalo é capaz de fazer. Então montaram. E Flame e
Smoke foram em frente, com um galope mais longo e balanceado, enquanto
do grupo dos Assassinos, que pensavam que a corrida tivesse terminado, veio
um murmúrio de raiva e estupefação.
— Os cavalos deles também estão cansados, e talvez ainda possamos
chegar na frente — falou a destemida Masouda. Mas Godwin e Wulf olha-
ram com tristeza para os 15 quilômetros que ainda os separavam da mar-
gem do rio.
E galoparam, e galoparam. Um quarto da distância estava vencida, me-
tade — mas agora o primeiro dos fedai vinha a menos de 200 metros. Pouco
a pouco a distância ia diminuindo. Agora estavam a menos de 50 metros, e
um deles atirou uma lança. Aterrorizada, Rosamund soluçou alto.
207
Capítulo 15 •
O vôo para Emesa
— Usem as esporas, cavaleiros — gritou Masouda, e pela primeira vez
eles usaram as esporas.
Ao sentirem a ponta do aço, Flame e Smoke pularam à frente, como se ti-
vessem acabado de sair do estábulo, e a distância entre perseguidos e persegui-
dores aumentou. Venceram mais dois quilômetros, e a menos de quilômetro e
meio viram a entrada da ponte, enquanto as torres de Emesa, além, pareciam
tão perto no ar limpo que puderam ver os vigias delineados contra o céu. En-
tão desceram um pequeno vale, e perderam a ponte e a cidade de vista.
Na subida subseqüente a força de Flame e Smoke finalmente começou a
faltar sob o peso da carga dupla. Arquejavam e tremiam, e, salvo em peque-
nos galopes, não mais respondiam às esporas. Os Assassinos perceberam, e
avançaram, aos gritos. Estavam mais perto, e mais perto, e o barulho dos
cascos de seus cavalos batendo contra a areia soava como um trovão. Agora
a distância era outra vez de 50 metros, 30 metros, e as lanças começaram ser
atiradas, mas nenhuma acertou.
Masouda berrava com os cavalos, em árabe, e valentemente eles se esfor-
çavam, subindo o aclive com pulos convulsivos e vagarosos. Godwin e Wulf
se entreolharam e, a um sinal, frearam os cavalos, pularam para o chão e
desembainharam as espadas.
— Vão! — ele comandou, e aliviados de seu peso novamente os cavalos
pularam à frente.
Os Assassinos estavam sobre eles. Wulf desferiu um golpe e fez o primei-
ro cair da sela, mas depois foi atirado ao chão. Ao cair, ouviu atrás de si um
grito de alegria, e se pondo sobre os joelhos, olhou em volta. Ah! Do topo
do morro vinham esquadrões e esquadrões de cavaleiros de turbante que, ao
avançarem, puseram as lanças em prontidão e gritaram:
Saladino! Saladino!
Os Assassinos também viram, e tentaram fugir, mas era tarde demais.
— Um cavalo! Dêem-me um cavalo, berrou Godwin em árabe, e rapidamente,
sem que ele soubesse como, já estava montado e atacando com os sarracenos.
Um cavalo também foi trazido para Wulf, mas ele não conseguia sentar e
firmar-se na sela. Três vezes ele tentou, mas caiu sobre a areia, e ficou bran-
dindo a espada e gritando, enquanto Masouda veio para o seu lado, adaga
na mão, e Rosamund aos seus pés.
Agora os perseguidores viraram perseguidos, e terrível era o preço que
teriam de pagar. Seus cavalos estavam exaustos, e não podiam correr. Alguns
208
Cruzada •
H. Rider Haggard
fedais foram atingidos e mortos sobre a sela. Alguns desmontaram, e jun-
tando-se em pequenos grupos, lutaram bravamente até que foram dizima-
dos, enquanto outros foram feitos prisioneiros. De todo o grupo, nenhum
voltou vivo a Masyaf para contar a Sinan como a busca da sua noiva per-
dida terminou.
Pouco depois Wulf, ainda no chão, viu Godwin vindo em sua direção, a
espada ensangüentada na mão. Com ele vinha um homem robusto, olhos
brilhantes e magnificamente vestido. Quando o viu, Rosamund levantou-se
num pulo, e quando o homem desmontou, correu até ele, e com uma excla-
mação de alegria, abraçou-o.
— Hassan! Príncipe Hassan! É você mesmo? Oh, graças a Deus! — ela falou
aos borbotões e, se Masouda não a tivesse amparado, teria desfalecido.
O Emir olhou para ela, para seus longos cabelos soltos, o rosto sujo, o
véu rasgado, mas ainda vestida com a seda e com as faiscantes jóias com as
quais tinha sido enfeitada como noiva de Al-je-bal. E então se abaixou, co-
locando o joelho na terra, enquanto os sarracenos observavam, e pegando a
beirada de seu traje, beijou-o.
— Alá seja louvado! — ele falou. — Eu, seu humilde servo, agradeço do
fundo do coração, pois nunca mais achei que a veria viva de novo. Soldados,
saúdem. Diante de vocês está lady Rosa do Mundo, princesa de Baalbec e
sobrinha de seu Mestre, Saladino, Comandante dos Fiéis.
E então, ele empertigou-se e saudou Rosamund, descabelada, rasgada,
mas sempre com porte de rainha, erguendo a mão, a lança e a cimitarra,
enquanto Wulf gritava de onde estava:
— Ora, se não é o mercador do vinho drogado, se é! Oh, Sir Sarraceno,
a memória do ardil do mascate não o envergonha agora?
O emir Hassan ouviu, ficou vermelho, alisou a barba e murmurou:
— Como o senhor, Sir Wulf, sou escravo do Destino, e devo obedecer.
Não seja tão cruel comigo até que saiba de tudo.
— Não estou sendo cruel — respondeu Wulf —, mas sempre pago as
minhas bebidas, e vou acertar agora, como jurei.
— Quieto! — interrompeu Rosamund. — Embora ele tenha me raptado,
é também o encarregado de me entregar e meu amigo, pois me livrou de
vários perigos, e se não fosse por ele, agora —, e ela soluçou.
— Não conheço toda a história, mas Princesa, acho que deveria agradecer
não a mim, mas a estes valentes primos e as estes esplêndidos cavalos. E
209
Capítulo 15 •
O vôo para Emesa
Hassan apontou para Smoke e Flame, que estavam ali perto, tremendo, fa-
mintos e de cabeça abaixada.
— Há outra pessoa a quem também devo agradecer, esta nobre mulher,
como também vai chamá-la, quando ouvir a história — falou Rosamund,
passando o braço em volta do pescoço de Masouda.
— Meu Mestre vai recompensá-la — disse Hassan. — Mas, oh lady, o
que a senhora deve pensar de mim, que a desertou de forma tão desprezível?
Contudo, agi corretamente. No castelo daquele filho de Satã, Sinan — e ele
cuspiu no chão — não teria como ajudá-la, pois lá eu seria simplesmente
morto. Mas fugindo, pensei que poderia ajudar, de modo que subornei o
patife franco com a Estrela da minha casa — e tocou a grande jóia que usava
em seu turbante — mais o dinheiro que tinha comigo, e ele soltou minhas
mãos. Enquanto ele guardava o ouro, usei minha faca e fugi. Mas esta manhã,
à frente de dez mil soldados, parti com a missão de resgatá-la, se possível, e
se não fosse possível, vingá-la, pois os embaixadores de Saladino me falaram
de seu tormento. Uma hora atrás os vigias das torres relataram ter visto dois
cavalos galopando pela planície, levando dois cavaleiros cada um, persegui-
dos por soldados que, pelos mantos, pareciam ser dos Assassinos. Então,
como tinha uma pendência com os Assassinos, cruzei a ponte, coloquei qui-
nhentos homens numa depressão do terreno, e aguardei, sem poder imaginar
que era a senhora que fugia. O resto a senhora sabe — e os Assassinos tam-
bém — ele disse, sério. — A senhora foi bem vingada.
— Mas tem mais vingança —, disse Wulf, — e a vingança vai ser ainda melhor,
pois eu mostrarei o caminho secreto para Masyaf — ou, se eu não puder, Godwin
— e lá você poderá arremessar Sinan de uma de suas próprias torres.
Hassan balançou a cabeça e falou:
— Eu gostaria muito, pois com este feiticeiro meu Mestre tem uma antiga
briga. Mas ele tem outras hostilidades de que cuidar — e ele olhou significa-
tivamente para Wulf e Godwin — , e minhas ordens eram resgatar a prince-
sa, e nada mais. Bem, ela foi resgatada, e algumas centenas de cabeças
pagaram o preço de tudo o que ela passou. E também, o caminho secreto
pode esperar. Portanto, deixemos o assunto de lado, satisfeitos por tudo ter
terminado desta forma. Apenas advirto vocês — e eu também — de andarmos
com todo o cuidado, pois se os conheço bem, os fedais de Sinan vão seguir
as pegadas de cada um de nós, tentando terminar nossos dias com a morte.
Veja, estão chegando as liteiras, subam nelas, todos, e serão levados para a
210
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
cidade, já que cavalgaram o suficiente por hoje. Não se preocupem com seus
cavalos. Serão levados com cuidado e mantidos vivos, se atenção e cuidados
puderem salvá-los. Vou relatar a mortandade, e me juntarei a todos rapida-
mente na cidadela.
Então os carregadores chegaram e ergueram Wulf, ajudaram Godwin a
desmontar — pois agora que tudo terminara, ele mal podia ficar de pé — e
também Masouda e Rosamund. Colocados nas liteiras, foram carregados,
escoltados pelos cavaleiros, pela ponte sobre o Orontes, e para a cidade de
Emesa, onde foram alojados na cidadela.
E depois de alimentá-los com cevada e terem dorso e pernas esfregados com
linimento, levaram os cavalos Smoke e Flame, vagarosamente e com grande
dificuldade, pois mal podiam andar, e os deixaram deitados em montes de
palha, com comida ao lado, que comeram, mas só depois de algum tempo. Os
quatro — Rosamund, Masouda, Godwin e Wulf — tomaram sopa misturada
a um pouco de vinho, e depois que os ferimentos de Wulf foram tratados por
um médico, foram para a cama, e só se levantaram dois dias depois.
Cruzada •
H. Rider Haggard
211
Capítulo 1 •
Nas águas de Death Creek
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
a terceira manhã Godwin acordou e viu os raios do sol que se levan-
tava penetrando pelas venezianas da janela.
Eles incidiam sobre outra cama, próxima, onde Wulf ainda dor-
mia, com um curativo na cabeça, que tinha sido ferida no último ataque
contra os Assassinos, e outros curativos nos braços e no corpo, que tinham
ficado muito esfolados na luta sobre a ponte.
Godwin sentiu-se maravilhado de vê-lo deitado, saudável a despeito dos
ferimentos, e de pensar no que tinham passado juntos, e com tão pouco
custo; de pensar, também, em como tinha resgatado Rosamund de dentro
daquele inferno terrestre, do qual ele podia ver os picos através da janela, e
das mãos daquele demônio, seu soberano. Revendo tudo, dia após dia, refle-
tia sobre suas aventuras desde que tinham aportado em Beirute, e via como
os céus tinham guiado cada um de seus passos.
Em vista das advertências que lhe tinham sido dadas, visitar Al-je-bal na
sua fortaleza tinha sido uma loucura. Contudo, lá onde ninguém imaginaria
que ela estivesse, encontram Rosamund. Lá se vingaram do falso cavaleiro Sir
Hugh Lozelle, que a traíra primeiro com Saladino, depois com Sinan, matando-
o e mandando-o para o julgamento final; e de lá resgataram Rosamund.
E como foram sábios em obedecer as palavras de seu tio, Sir Andrew, na
hora da morte, e que sem dúvida teve uma premonição! Deus e seus santos
os ajudaram, eles que não tinham como se ajudar, e seu instrumento tinha
capítulo 16
O sultão Saladino
N
A
212
Cruzada •
H. Rider Haggard
sido Masouda. Se não fosse por Masouda, Rosamund estaria morta a esta
hora, e eles, se ainda vivessem, estariam perambulando pelas terras da Síria,
procurando por alguém que nunca poderia ser encontrada.
E por que Masouda tinha feito tudo isto, a cada instante colocando sua
vida em risco para salvar a deles ou a honra de uma outra mulher? Enquan-
to se fez estas perguntas, Godwin sentiu o sangue subir ao rosto. Porque ela
odiava Sinan, que matou seus pais e a aviltou, ela disse, e sem dúvida isto era
uma razão. Mas já não era mais possível esconder a verdade. Ela o amava, e
o amou desde a primeira vez que se encontraram. Godwin sempre suspeitara.
Como a corrida louca a cavalo, quando ela colocou seus braços em volta de
sua cintura e encostou seu rosto no dele. Quando ela beijou seu pé depois
que a salvou da leoa, e muitas outras vezes.
Quando eles seguiram Wulf e Rosamund pelo desfiladeiro na montanha
enquanto a horda de Assassinos vinha em seus calcanhares, e entre suspiros
ela contou sua triste história, foi que ele teve certeza. E também quando
dissera que não achava que ela era desprezível, mas digna, como realmente
pensava. E sentindo a morte prestes a se abater sobre eles, ela tinha respon-
dido que gostava dele — com uma mensagem em seus olhos que homem
nenhum podia deixar de entender. E se isso era verdade, por que Masouda
salvou Rosamund, sabendo muito bem que ele estava comprometido com
ela? Metida com aquelas pessoas cruéis que satisfazem seus desejos com
sangue, achando que assim é honroso, será que não deixaria a rival à própria
sorte, pois juramentos não vão além do túmulo?
Uma resposta invadiu o coração de Godwin, que o fez ficar pálido e trê-
mulo. Seu irmão também estava comprometido com Rosamund, e ela, no
fundo do coração, deve estar comprometida com um deles. E não seria com
Wulf, Wulf que era mais bonito e mais forte do que ele, Wulf o vencedor de
Lozelle? Será que Rosamund contou a Masouda? Não, claro que não.
Contudo, as mulheres são capazes de ver uma o coração da outra, pene-
trando véus que nenhum homem pode penetrar, e talvez Masouda tivesse
decifrado o coração de Rosamund. Ela ficou atrás dela durante o cruel duelo,
e viu seu rosto quando a morte de Wulf parecia iminente. Talvez tivesse ou-
vido palavras saídas de seus lábios naqueles momentos de aflição.
Sem dúvida foi isto o que aconteceu, e Masouda tinha protegido Rosamund,
pois sabia que seu amor era Wulf, e não ele. O pensamento era muito do-
loroso, e na sua angústia Godwin suspirou alto, e ao ver o valente e belo
213
Capítulo 16 •
O Sultão Saladino
cavaleiro que dormia a seu lado, sonhando sem dúvida, com a fama que tinha
conseguido, e com a recompensa com que seria coroado, ele foi tomado por
um forte sentimento de ciúme, como a fria foice da morte. Então Godwin
lembrou-se do juramento que os dois fizeram lá no convento de Stangate, do
amor que sentia pelo irmão, e o dever de um guerreiro cristão com o qual ele
estava solenemente comprometido, e escondendo o rosto no travesseiro, rezou
para encontrar força.
E a força pareceu ter chegado, pois quando ergueu a cabeça novamente
o ciúme tinha sumido, restando apenas uma grande tristeza. O medo também
permaneceu, em relação a Masouda. Como lidar com ela? Estava certo de
que não se tratava de alguma coisa passageira, e por mais bonita que fosse,
por mais digna que fosse, ele não queria o seu amor. E não conseguia encon-
trar respostas para estas perguntas, exceto uma: tudo tem que ser como foi
decretado. Quanto a ele, Godwin, iria ser fiel ao seu dever, manter as mãos
limpas e esperar pelo final, qualquer que fosse.
Wulf acordou, espreguiçou e reclamou, pois os ferimentos doeram, e
resmungou da luminosidade sobre seus olhos, e disse que estava faminto.
Então se levantou, e com a ajuda de Godwin se vestiu, mas sem colocar a
cota. Naquele lugar, com os soldados de capa amarela de Saladino, sérios e
atentos, em frente à porta — pois eram vigiados dia e noite contra qualquer
ação dos Assassinos —, não havia necessidade da cota. Na fortaleza de Masyaf,
onde também tinham sido protegidos, a situação tinha sido outra. Wulf ouviu
os passos das sentinelas no chão cimentado, e balançou os ombros como se
estivesse tremendo.
— Este ruído me dá um frio na espinha — disse. — Por um instante, en-
quanto abria os olhos, pensei que estivéssemos de volta à casa dos hóspedes
de Al-je-bal, onde soldados nos rondavam enquanto dormíamos, e sanguiná-
rios ficavam de um lado para outro do lado de fora das cortinas, testando
suas facas pontiagudas. Bem, o que quer que ainda esteja por vir, aquela
aflição acabou. Digo-lhe, irmão, estou cheio de montanhas, pontes estreitas,
e Assassinos. De agora em diante quero viver numa planície, com nenhuma
montanha por perto, entre gente honesta e tão estúpida quanto suas ovelhas,
e que vai à igreja todos os domingos, e fica bêbada, não com haxixe, mas
com bebida trazida não por feiticeiras em mantos brancos, mas por moças
com vestes se arrastando pelo chão, e com fiapos da palha do colchão ainda
presos a seus cabelos. Prefiro Saltings, no Essex, com o vento leste soprando
214
Cruzada •
H. Rider Haggard
e as prímulas florescendo nas margens e as ruas afundadas na lama. Você
pode ficar com todos os jardins perfumados de Sinan, e os cálices e as jóias
das mulheres, e mais as lutas e as aventuras do Oriente.
— Nunca procurei estas coisas, e estamos muito longe de Essex —, res-
pondeu Godwin secamente.
— Não, mas elas parecem procurar você — falou Wulf. — Quais são s notícias
de Masouda? Você a viu enquanto eu dormia, e foi por muito tempo?
— Não vi ninguém, exceto o boticário que cuidou de você, os escravos
que nos trouxeram comida, e na noite passada o príncipe Hassan, que veio
ver como estávamos. Ele me contou que, como você, Rosamund e Masouda
dormiram bastante.
— Estou feliz de saber —, respondeu Wulf, — pois certamente mereceram
o descanso. Por St. Chad, que mulher é esta Masouda! Coração em brasa e
nervos de aço. E bonita, também, muito bonita. E a melhor amazona que já
montou um cavalo. Se não fosse por ela... Com os diabos! Quando penso
nisto, sinto-me como se a amasse, e você não?
— Não —, respondeu Godwin ainda mais secamente.
— Ah, bem, digo que ela tem amor suficiente para dois que não fazem
nada pela metade — e ele acrescentou, com uma de suas grandes risadas,
— considerando tudo estou feliz por ser eu de quem ela gosta menos, eu que
gosto tanto dela como se fosse minha padroeira. Cuidado, os guardas —, e
esquecendo onde estava, puxou a espada.
Então a porta se abriu e por ela entrou o emir Hassan, que os saudou em
nome de Alá, com olhos inquiridores.
— Poucos diriam, ao vê-lo, senhor cavaleiro — ele falou com um sorriso,
— que o senhor foi hóspede do Velho Homem da Montanha, e deixou a casa
tão rapidamente pela porta traseira. Mais três dias e estará tão vigoroso quan-
to estava quando nos encontramos no cais de um certo riacho junto ao mar.
Os senhores são valentes, os dois, embora infiéis, e rogo ao Profeta que os guie
para o caminho. Homens valentes, cavaleiros dignos. Eu, Hassan, que conhe-
ceu muitos cavaleiros francos, digo isso do fundo do coração. E colocando a
mão no turbante, fez uma mesura de admiração que não era fingida.
— Agradecemos seu elogio, Príncipe —, falou Godwin sério, mas Wulf
deu um passo à frente e apertou a mão de Hassan.
— Foi um truque perverso, Príncipe, aquele que o senhor nos impingiu lá
na Inglaterra — ele disse — e que levou um dos mais valentes guerreiros que
215
Capítulo 16 •
O Sultão Saladino
jamais usou uma espada, nosso tio Sir Andrew D’Arcy, a um fim triste, em-
bora glorioso. Mas o senhor obedeceu ao seu Mestre, e por tudo o que
aconteceu depois, eu o perdôo, e chamo-o de amigo, mas se ainda viermos a
nos enfrentar numa batalha, pretendo pagar-lhe por aquele vinho drogado.
Hassan fez uma mesura e falou, gentilmente:
— Admito que estou em débito; e ninguém lastima mais a morte do nobre
senhor D’Arcy do que eu, que pela vontade de Deus levou a morte até ele.
Quando nos encontrarmos, Sir Wulf, na guerra — e acho que esta será uma
hora de desgosto para mim — ataque, ataque com tudo. Não vou me queixar.
Entrementes, somos amigos, e falando com sinceridade, tudo o que tenho é seu.
Mas vim para lhe dizer que a princesa Rosa do Mundo — Alá abençoe seus
passos — recuperou-se de suas fadigas e deseja que o senhor tome o café com
ela daqui a uma hora. O médico também aguarda para cuidar de seus ferimen-
tos, e escravos estão esperando para levá-los ao banho e vesti-los. Não, não leve
a cota; aqui a fé de Saladino e de seus servos é sua melhor armadura.
— Mesmo assim acho que vou levar — disse Godwin, — pois a fé é uma defe-
sa insuficiente contra as adagas destes Assassinos, que moram não muito longe.
— É verdade —, respondeu Hassan. — Tinha me esquecido. E assim
partiram.
Uma hora depois foram levados para a sala, e logo chegaram Rosamund
e com ela Masouda e Hassan.
Ela estava vestida com os ricos mantos de uma lady oriental, mas as jóias
que a adornavam quando era a noiva prometida de Al-je-bal tinham desapare-
cido. Quando levantou o véu os irmãos viram que seu rosto ainda estava um
pouco pálido, mas o vigor tinha voltado e seus olhos não mostravam mais
terror. Ela os saudou com palavras gentis e meigas, agradecendo primeiro a
Godwin e depois a Wulf por tudo o que tinham feito, e depois, voltando-se para
Masouda, que estava de pé, empertigada e atenta, agradeceu-lhe também. De-
pois todos se sentaram, e comeram, com os corações aliviados e com apetite.
Antes que a refeição terminasse, o guarda à porta anunciou que mensa-
geiros do Sultão tinham chegado. Entraram, homens grisalhos vestidos com
roupas de secretários, e logo foram saudados por Hassan. Depois que tinham
se sentado e falado com ele um pouco, um deles apresentou uma carta, a qual
Hassan, tocando com ela a sua testa, numa demonstração de respeito, entre-
gou a Rosamund. Ela rompeu o lacre e, vendo que estava escrita em árabe,
passou ao seu primo, dizendo:
216
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Leia você, Godwin, que é mais instruído do que eu.
Então ele leu alto, traduzindo a carta sentença por sentença. Este era o teor:
“Saladino, Comandante dos Fiéis, Chefe Supremo, para sua amada sobri-
nha, Rosa do Mundo, princesa de Baalbec:
“Nosso servo, o emir Hassan, enviou-nos notícias de seu resgate do poder
do amaldiçoado Senhor da Montanha, Sinan, e que você agora está segura em
nossa cidade de Emesa, guardada por vários milhares de nossos soldados, e
com você uma mulher chamada Masouda. E seus parentes, os dois cavaleiros
francos, por cuja habilidade nas armas e coragem você foi salva. Esta é para
ordenar que venha à corte de Damasco tão logo a viagem seja conveniente,
ciente de que lá você será recebida com amor e honra. Também convido seus
parentes a acompanharem, pois conheci o pai deles, e gostaria de receber ca-
valeiros que praticaram atos tão valorosos, e a mulher Masouda também. Ou,
se preferirem, todos os três podem voltar para seus lugares e seus povos.
Apresse-se, minha sobrinha, lady Rosa do Mundo, apresse-se, pois meu
espírito a procura, e meus olhos querem vê-la. Em nome de Alá, saudações.”
— Vocês ouviram —, falou Rosamund quando Godwin terminou a leitu-
ra do pergaminho. — Agora, meus primos, o que vão fazer?
— O que mais, a não ser ir com você, que viemos de tão longe procurar?
— respondeu Wulf, e Godwin balançou a cabeça em concordância.
— E você, Masouda?
— Eu, lady? Oh, também vou, pois se retornar para lá — e ela apontou com a
cabeça na direção das montanhas — minha recepção seria uma que não desejo.
— Ouviu as palavras, príncipe Hassan? — perguntou Rosamund.
— Não esperava outras — ele respondeu com uma mesura. — Apenas,
cavaleiros, precisam me fazer uma promessa, pois no meio do meu exército
isto é necessário, para homens que podem voar como pássaros da fortaleza
de Masyaf, e dos punhais dos Assassinos, e que além disso estão montados
nos cavalos mais rápidos da Síria, e que foram treinados para carregar dois
cavaleiros — e olhou para eles significativamente. — A promessa é que nesta
viagem não tentarão escapar com a princesa, que vieram de além-mar para
resgatar das mãos de Saladino.
Godwin tirou da túnica a cruz que Rosamund lhe tinha deixado no salão
de Steeple, e disse: — Juro sobre este símbolo sagrado que durante nossa
217
Capítulo 16 •
O Sultão Saladino
viagem para Damasco não tentarei fugir, com ou sem minha prima Rosamund
—, e beijou a cruz.
— E eu juro o mesmo sobre minha espada —, acrescentou Wulf, colocando
a mão no punho prateado da grande lâmina que tinha sido de seus ancestrais.
— Uma segurança de que gosto muito — falou Hassan com um sorriso,
— mas na verdade para mim bastam suas palavras, cavaleiros. Então olhou
para Masouda e continuou, ainda sorrindo: — Negar é perder tempo, pois
para mulheres juramentos feitos outrora não têm mais sentido. Lady, temos
prazer em vigiá-la, pois meu Mestre a convidou para sua cidade, o que, sen-
do tão bela e tão valente, eu não teria feito.
Depois se virou para falar com os secretários, e Godwin, que estava ob-
servando tudo, viu os olhos negros de Masouda seguirem Hassan, com uma
luz estranha.
— Ótimo — pareciam dizer —, vocês escreveram, agora leiam.
Na mesma tarde partiram para Damasco, um grande grupo de cavaleiros. No
meio, protegida por mil lanças, Rosamund era carregada numa liteira. Na
sua frente ia Hassan, com sua guarda de mantos amarelos; ao seu lado,
Masouda; e atrás — pois não obstante seus ferimentos, Wulf não permitia ser
carregado — os irmãos, montados em lentos e garbosos cavalos treinados para
carregar reis. Depois deles, liderados por escravos, vinham os cavalos de bata-
lha, Flame e Smoke, agora recuperados, mas ainda andando com dificuldade,
e depois hordas e hordas de sarracenos. Através das cortinas abertas da liteira,
Rosamund chamou os irmãos, que se adiantaram e vieram para seu lado.
— Vejam — ela disse, apontando com a mão.
Eles olharam, e banhadas pela luz gloriosa do sol poente, viram as montanhas
coroadas, lá longe, pela inexpugnável cidade de Masyaf, e abaixo as ladeiras
pelas quais tinham descido cavalgando pelas suas vidas. Perto corria o rio,
margeado pela cidade de Emesa. Dispostas em intervalos ao longo das muralhas,
parecendo filamentos emoldurados contra o céu avermelhado do poente, lanças,
e ao lado, pontos negros, a cabeça de um Assassino. Das torretas acima os es-
tandartes dourados de Saladino balançavam ao vento da noite. Rememorando
tudo o que tinha passado naquela tenebrosa casa dos adoradores do diabo, e
do cruel destino de que tinha sido resgatada, Rosamund estremeceu.
— Ela queima como uma cidade no inferno —, ela falou, olhando fixa-
mente para Masyaf, cercada pela luz pálida do anoitecer, e coberta por nuvens
escuras. — Oh, acho que este vai ser o seu destino.
218
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Espero que sim —, respondeu Wulf com fervor. — Pelo menos para
este mundo e o próximo já temos o bastante.
— Sim —, acrescentou Godwin pensativo. — Mesmo assim, aquele lugar
medonho foi bom para nós, pois lá encontramos Rosamund, e lá, meu irmão,
você foi vitorioso numa luta que nunca mais terá outra igual, e conquistou
grande glória, e talvez muito mais.
Puxando as rédeas de seu cavalo, Godwin ficou para trás da liteira, en-
quanto Wulf refletia, e Rosamund o observava com olhos sonhadores.
Naquela noite acamparam no deserto, e na manhã seguinte, cercados por
tribos nômades de beduínos montados em camelos, partiram novamente,
passando a noite na antiga fortaleza de Baalbec, cuja guarnição e população,
avisadas da posição e dos títulos de Rosamund, vieram às ruas prestar-lhe
homenagem.
Tomando conhecimento, ela saiu da liteira e, montada num esplêndido
cavalo que lhe mandaram de presente, foi encontrá-los, com os irmãos ao seu
lado, de armadura completa e mais uma vez cavalgando Flame e Smoke.
Atrás, uma guarda dos mamelucos
46
de Saladino, homens solenes, usando
turbante, e que tinham sido instruídos a fazer a guarda por emissários do
Sultão, e que lhe trouxeram as chaves dos portões da cidade, numa almofada.
Menestréis e soldados marchavam à frente dela, enquanto multidões se api-
nhavam nas muralhas, e correndo ao seu lado, milhares de cidadãos. Assim
ela passou pelos portões abertos, pelas colunas de templos destruídos, outro-
ra lugar de adoração de deuses pagãos, por pátios e passagens até a cidadela,
cercada por jardins, e que em épocas passadas tinha sido a Acrópolis de es-
quecidos imperadores romanos.
No pórtico Rosamund virou o cavalo e recebeu as homenagens da multi-
dão, como se ela também fosse a soberana de algum povo. Na verdade,
vendo-a montada no grande cavalo branco e observando com olhos brilhan-
tes a multidão que gritava e a reverenciava, e vendo também seu porte altivo
e sua beleza, a presença de um príncipe ao seu lado e um exército à retaguar-
da, pareceu aos irmãos que nenhuma outra pessoa que fez aquele trajeto
antes dela recebeu dos cidadãos homenagem maior ou mais gloriosa do que
aquela moça inglesa que, por um capricho do destino, foi tão de repente
elevada a tamanha honra. E era evidente que por sangue ou por natureza ela
nasceu para ser rainha. Contudo, quando Rosamund sentou-se de volta o
orgulho desapareceu de seu rosto, e os olhos perderam o brilho.
219
Capítulo 16 •
O Sultão Saladino
— Em que você está pensando? — perguntou Godwin, já do seu lado.
— Que eu gostaria de estar de volta aos campos de Steeple — ela respondeu,
— pois quanto maior a altura maior é o tombo. Príncipe Hassan, agradeça aos
guardas e ao povo, e diga-lhes que estão dispensados. Eu vou descansar.
Assim, pela primeira e última vez, Rosamund viu seu antigo feudo de
Baalbec, onde seu avô, o grande Ayoub, reinou antes dela.
Naquela noite houve festa nos suntuosos e antigos salões, e música e
apresentações de menestréis, e danças com belas mulheres, e a oferenda de
presentes. Pois Baalbec, onde a realeza e a beleza eram sempre bem-vindas,
recebeu com honras a sobrinha do poderoso Saladino. Mesmo assim, houve
quem sussurrasse que ela não traria sorte ao Sultão ou à sua cidade, pois seu
sangue era metade franco, e era cristã, mas mesmo estes elogiaram sua bele-
za e seu porte imperial. Também elogiaram os irmãos, mesmo sendo infiéis,
e o relato de como Wulf tinha lutado contra o cavaleiro traidor sobre a pon-
te, e como eles tinham resgatado sua parenta da mal-assombrada fortaleza
de Masyaf, foram passados de boca em boca. Na manhã do dia seguinte,
seguindo ordens do Sultão, deixaram Baalbec, escoltados pelo exército e
pelos mais notáveis da cidade. Naquela tarde pararam nas montanhas de
onde se via Damasco, a Noiva da Terra, espraiada entre sete rios e contorna-
da de jardins, uma das mais bonitas e talvez a mais velha cidade do mundo.
Depois desceram até as generosas planícies, e como a noite se aproximava, e
já tendo passado pelos jardins, foram escoltados até os portões de Damasco.
Do lado de fora a maior parte dos soldados acampou.
Ao longo das ruas estreitas, margeadas por casas amarelas, de teto reto,
eles cavalgaram devagar, observando a mistura heterogênea de pessoas que
os olhavam, com grande interesse, enquanto passavam. E também as que
estavam nas edificações maiores, nas mesquitas e nos minaretes, que aponta-
vam, em toda a parte, para o azul profundo do céu. Depois de algum tempo
chegaram a um espaço aberto, plantado como um jardim, e além, um imen-
so e suntuoso castelo que Hassan contou ser o palácio de Saladino. No pátio
eles se separaram, Rosamund sendo levada por funcionários graduados, e os
irmãos conduzidos aos seus aposentos, que já estavam preparados. Lá, depois
de se banharem, comeram. Mal tinham terminado de comer quando Hassan
apareceu, pedindo-lhes que o seguissem. Vencendo várias passagens e atra-
vessando um pátio, chegaram até portas vigiadas por guardas, que lhes pe-
diram que deixassem as espadas e as adagas...
220
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Não é necessário — disse Hassan, e eles os deixaram passar. Depois
vieram mais passagens, e uma cortina, e depois uma pequena sala, com teto
em forma de domo, iluminada por candeias de prata e de chão de mármore
quadriculado, coberto de ricos tapetes e com sofás almofadados.
A um sinal de Hassan os irmãos ficaram imóveis no centro da sala, olhan-
do em redor inquiridoramente. O lugar estava vazio e em completo silêncio;
eles sentiram medo, sem saber do quê. Logo as cortinas na extremidade
oposta se abriram e por elas entrou um homem de turbante e enrolado num
manto negro. Ele permaneceu um instante na sombra, fitando-os.
O homem não era muito alto, e tinha porte esguio, mas dele emanava um
ar de majestade, embora sua vestimenta não fosse diferente da usada pelos mais
humildes. Ele se adiantou, erguendo a cabeça, e eles viram que seu rosto era
pequeno e de feições delicadas; que usava barba, e que abaixo da ampla testa
brilhavam olhos pensativos, e às vezes penetrantes, de tom castanho. Imediata-
mente o príncipe Hassan pôs-se de joelhos e tocou o mármore com a testa, e
imaginando que estavam na presença do poderoso monarca Saladino, os irmãos
o saudaram à maneira ocidental. Em resposta o Sultão falou baixo para Hassan,
ao mesmo tempo em que indicava com um gesto que ele se levantasse.
— Vejo que confia nestes cavaleiros, Emir — e apontou para as grandes
espadas.
— Mestre, confio neles como confio em mim mesmo. São valentes e hon-
rados, embora sejam infiéis.
O Sultão alisou a barba.
— Sim — disse —, infiéis. É uma pena, embora acreditem em Deus à sua
maneira. Ar nobre, também, como seu pai, de quem me lembro muito bem,
e se tudo o que ouço é verdadeiro, sem dúvida valentes. Senhores cavaleiros,
entendem minha língua?
— O suficiente para falar, senhor —, respondeu Godwin, — pois a apren-
demos na meninice, embora não muito bem.
— Ótimo. Então me digam, de soldados para soldado, o que vocês querem
de Salah-ed-din?
— Nossa prima, lady Rosamund, que, por ordem sua foi roubada de
nossa casa na Inglaterra.
— Cavaleiros, ela é prima de vocês, isto eu sei, como também sei que é
minha sobrinha. Digam-me agora, ela é alguma coisa mais para vocês? — e
fitou os dois, penetrantemente.
221
Capítulo 16 •
O Sultão Saladino
Godwin olhou para Wulf, que respondeu em inglês:
— Fale toda a verdade, irmão. Deste homem nada deve ser escondido.
Então Godwin respondeu:
— Mestre, nós a amamos, e estamos comprometidos com ela.
O Sultão fixou o olhar neles demonstrando surpresa.
— O quê! Os dois?
— Sim, nós dois.
— E ela ama vocês dois?
— Sim, os dois —, respondeu Godwin —, pelo menos é o que ela diz.
Saladino alisou a barba e refletiu um pouco, enquanto Hassan sorria.
— Então, cavaleiros —, ele disse — qual dos dois ela ama mais?
— Isto, senhor, só ela sabe. Quando chegar a hora, ela falará, mas
não antes.
— Percebo — falou Saladino — que atrás deste enigma há uma história.
Se não lhes desagrada, sentem-se, e contem-me tudo.
Então eles se sentaram no divã e contaram, não omitindo nada, do come-
ço ao fim, e embora a história fosse longa, o Sultão não demonstrou aborre-
cimento em ouvir.
— Uma grande história, sem dúvida — ele disse quando finalmente ter-
minaram de contar — e onde vejo a mão de Alá. Cavaleiros, os senhores
pensarão que cometi uma injustiça, e sim, também seu tio, Sir Andrew, que
outrora foi meu amigo, embora mais velho do que eu, e que, roubando minha
irmã, trouxe para a base desta casa de amor a guerra e a aflição.
— Agora ouçam. O que aqueles dois patifes francos, o pregador e o falso
cavaleiro Lozelle contaram é verdade. Como escrevi a seu tio na mensagem,
tive um sonho. Três vezes sonhei o mesmo sonho; se minha sobrinha estives-
se viva e se pudesse trazê-la para morar aqui ao meu lado, ela evitaria o der-
ramamento de sangue de muitos nobres, de dezenas de milhares. E no sonho
vi seu rosto. Portanto, estendi meu braço e a trouxe de muito longe. E agora,
através de vocês — sim, de vocês — ela foi resgatada do poder do grande
Assassino, e está segura em minha corte, e a partir de então sou seu amigo.
— Mestre, o Senhor a viu? — perguntou Godwin.
— Cavaleiros, eu a vi, e o rosto é o rosto que vi em meu sonho, e portan-
to tenho absoluta certeza de que naqueles sonhos Deus falou. Ouçam, Sir
Godwin e Sir Wulf —, e Saladino mudou o tom de voz para um tom sério e
de comando. — Peçam o que quiserem, e embora sejam francos, lhes será
222
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Cruzada •
H. Rider Haggard
dado pelos seus serviços: fortuna, terras, títulos, tudo o que os homens dese-
jam, e que posso dar, mas não me peçam minha sobrinha, Rosa do Mundo,
princesa de Baalbec, que Alá me trouxe para cumprir seus desígnios. Saibam
ainda que se tentarem roubá-la, certamente morrerão; e se ela escapar de mim
e for recapturada, então morrerá. Tudo isto já lhe disse, e juro que farei tudo,
em nome de Alá. Ela está aqui, e aqui vai ficar, até que o sonho se realize.
Em desânimo os irmãos olharam um para o outro, pois pareciam estar
mais distantes de seu desejo do que quando estavam no castelo de Sinan. Mas
de repente uma idéia iluminou o rosto de Godwin, que se levantou e falou:
— Temível Senhor de todo o Oriente, ouvimos e sabemos o risco. O Senhor
nos deu sua amizade; nós a aceitamos, e agradecemos, mas não desejamos
nada mais. Deus, o Senhor diz, trouxe nossa lady Rosamund até aqui para
cumprir seus desígnios, dos quais o Senhor não tem dúvida, pois viu o rosto
dela em seus sonhos. Então deixe estes desígnios se cumprirem de acordo com
a Sua vontade, e que pode ser, de alguma forma, o que imaginamos. Acatare-
mos Seu julgamento, pois Ele nos guiou no passado, e nos guiará no futuro.
— Muito bem falado — retrucou Saladino. — Alertei-os, meus hóspedes,
e portanto não me culpem se mantiver minha palavra. E não peço nenhum
juramento de vocês, que são nobres cavaleiros e não mentem. Sim, Alá for-
mulou este enigma, e que Alá traga a resposta, no devido tempo.
Então fez um gesto com a mão, para indicar que a audiência estava ter-
minada.
223
Capítulo 16 •
O Sultão Saladino
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 17
Os irmãos saem de Damasco
N
A
a corte de Saladino, Godwin e Wulf foram tratados com muita honra.
Receberam uma casa para morar e um número de servos encarregados
de seu conforto e da sua segurança. Cavalgando os rápidos Flame e
Smoke, foram levados até o deserto, para caçar, e se tivessem desejado, teria
sido fácil para eles deixar para trás os companheiros de caçada e chegar na
cidade cristã mais próxima. Na verdade, nenhum braço seria erguido para
detê-los, pois eram livres para ir e vir. Mas aonde iriam sem Rosamund?
Viam Saladino com freqüência, pois a ele agradava contar-lhes histórias
dos dias em que o pai deles e o tio estiveram no Oriente, ou falar com eles
sobre a Inglaterra e os francos, e de vez em quando discutir com Godwin
temas sobre religião. Além disso, para demonstrar sua fé neles, Saladino
elevou-os à patente de oficiais da sua própria guarda, e quando estavam
cansados da ociosidade os irmãos pediam que tirassem turnos na guarda do
castelo. Isto num tempo em que a paz reinava entre francos e sarracenos, e
os irmãos não tinham vergonha de fazer, pois não recebiam nenhum paga-
mento por seus serviços.
A paz reinava, sem dúvida, mas Godwin e Wulf pressentiam que ela não
duraria para sempre. Damasco e a planície em seu redor eram um grande
acampamento, e todos os dias milhares de pessoas chegavam e iam para os
quartéis que tinham sido preparados para recebê-los. Perguntaram a Masouda,
que sabia de tudo, o que significava aquilo. Ela respondeu:
224
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Significa a jihad, a Guerra Santa, que está sendo pregada em cada
mesquita em todo o Oriente. Significa que a grande luta entre a Cruz e o
Crescente é iminente, e então peregrinos Peter e John, terão que escolher de
que lado ficam.
— Não pode haver nenhuma dúvida a este respeito — falou Wulf.
— Nenhuma — retrucou Masouda, com um dos seus sorrisos, — mas
poderá ser penoso para os senhores ter de guerrear contra a princesa de
Baalbec e seu tio, o Comandante dos Fiéis.
E então saiu, ainda sorrindo. Pois este era o problema: Rosamund, sua
prima e seu amor, para eles tinha na verdade se tornado a princesa de Baalbec.
Ela vivia em grande estilo, e em liberdade, como Saladino tinha prometido
que viveria em sua mensagem a Sir Andrew D’Arcy. Nenhum insulto ou
violência tinha sido cometido contra a sua fé, nenhum pretendente tinha sido
imposto a ela. Mas Rosamund estava numa terra onde as mulheres não se
relacionavam com os homens, especialmente se têm uma posição elevada.
Como princesa do império de Saladino, tinha que obedecer as regras, cobrin-
do-se com um véu quando saía à rua, e não trocando palavra com os homens.
Godwin e Wulf suplicavam a Saladino que pudessem falar com ela de vez em
quando, mas sua única resposta era breve:
— Senhores cavaleiros, nossos costumes são nossos costumes. Além disso,
quanto menos se encontrarem com a princesa de Baalbec será melhor para
ela, para vocês, cujo sangue não quero ter nas mãos, e para mim, que aguar-
do o final daquele sonho que o anjo trouxe.
E os irmãos foram embora com o coração dolorido, pois embora a vissem
de tempos em tempos, em banquetes e festivais, Rosamund estava tão distan-
te deles como se estivesse em Steeple, ou mais longe. Também chegaram à
conclusão de que não havia a menor possibilidade de resgatá-la de Damasco.
Ela habitava seu próprio palácio, cujas muralhas eram guardadas noite e dia
por uma companhia dos mamelucos do Sultão, que sabiam que respondiam
por sua segurança com a própria vida. Dentro das muralhas ficavam ainda
eunucos de confiança, sob o comando de um homem astuto chamado Mesrour,
e suas servas pessoais, todos espiões e vigilantes. Como poderiam dois homens
resgatá-la de um lugar como este e levá-la em segredo para fora de Damasco,
passando ainda pelos exércitos que estavam em seu redor?
Mas um conforto, pelo menos, eles tinham. Quando chegou à corte,
Rosamund tinha solicitado ao Sultão que Masouda não fosse separada dela,
225
Capítulo 17 •
Os irmãos saem de Damasco
por causa do papel que tinha desempenhado no seu resgate do poder de
Sinan, e ele tinha concordado, embora com relutância. Além disso, como
Masouda não tinha nenhum bem, além de sua beleza, e como era pagã, lhe
foi permitido ir aonde quisesse e falar com quem quisesse. E como ela se
encontrava muitas vezes com Godwin, eles não sentiam falta de notícias
sobre Rosamund.
Dela ficaram sabendo que de alguma maneira a princesa estava feliz — pois
quem não ficaria tendo escapado de Al-je-bal? — embora cansada da estranha
vida do Oriente, das restrições impostas, e de seus dias de completo tédio; e
aborrecida por não poder se encontrar com os primos. A cada dia Masouda
trazia suas lembranças, e com elas advertências para que não tentassem nada
— nem sequer vê-la — pois não havia nenhuma esperança de que teriam
sucesso. E mais preocupado do que eles, estava o Sultão, disse Rosamund, e
por isto eles e ela eram vigiados dia e noite, e por qualquer loucura pagariam
com a vida. Quando souberam de tudo isto os irmãos começaram a perder
a esperança, e ficaram tão desalentados que já não mais se importavam com
o que pudesse lhes acontecer. Mas uma coisa aconteceu, e cuja conseqüência
foi fazê-los ainda mais admirados por Saladino, e trazer honra para Masouda.
Numa quente manhã estavam sentados no pátio de sua casa, junto à fonte,
observando quem passava através das barras de bronze dos portões e para
os sentinelas que andavam de um lado para outro. Esta casa ficava numa das
principais ruas de Damasco, e na sua frente passava um fluxo contínuo e sem
fim de pessoas de todo tipo.
Havia os árabes de manto branco do deserto, montados em camelos in-
quietos; caravanas de mercadores do Egito ou de outras partes; burros car-
regados de feixes de lenha ou de ramos de tomilho para os fornos dos
padeiros; vendedores de água com seus odres de couro de cabra e canecas de
bronze que não paravam de tilintar; vendedores de pássaros ou de doces;
mulheres indo para os banhos em liteiras fechadas por cortinas, escoltadas
pelos eunucos; senhores de terras montados em seus cavalos árabes e prece-
didos por seus batedores, que abriam caminho entre a multidão e afastavam
os pobres com seus bastões de madeira; mendigos, mancos, aleijados e cegos,
almas suplicantes; leprosos, dos quais todos se afastavam, e que cantavam
sua aflição em voz alta; grupos de robustos soldados, alguns montados outros
não; pregadores distribuindo bênçãos e recebendo pecadores; e assim por
diante, uma procissão que não diminuía ou terminava.
226
Cruzada •
H. Rider Haggard
Godwin e Wulf, sentados sob a sombra da casa toda pintada, observavam
tudo com melancolia. Estavam cansados desta mesmice sempre renovada, can-
sados do eterno brilho e resplendor desta vida que não lhes era familiar, cansados
dos insistentes gritos dos mulás
47
nos minaretes, do rebrilhar das espadas que
logo estariam tingidas de vermelho com o sangue de seu próprio povo; cansados,
enfim, da missão sem esperança que juraram desempenhar. Rosamund era mais
uma nesta multitude; era a princesa de Baalbec, metade oriental por seu sangue,
e a cada dia mais orientalizada — pelo menos é o que pensavam, em sua amar-
gura. Suas chances de retirar a princesa de Baalbec do poder de um monarca
mais poderoso do que qualquer rei da Inglaterra era a mesma de dois sarracenos
raptarem a rainha da Inglaterra de seu palácio em Westminster.
Então ficavam em silêncio, pois não tinham nada a dizer, e fitavam a multidão
passante, ou o filete de água escorrendo continuamente na bacia de mármore.
Desta vez ouviram algumas vozes junto ao portão, e erguendo os olhos
viram uma mulher enrolada numa longa capa, falando com o guarda, o qual
com uma risada estendeu o braço, como se fosse abraçá-la. De repente uma
faca luziu, e o soldado deu um passo atrás, ainda rindo, e abriu a cancela. A
mulher entrou. Era Masouda. Eles se levantaram e fizeram-lhe uma mesura,
mas ela passou por eles e entrou na casa. Eles a seguiram, enquanto o guarda
no portão continuava rindo, e a zombaria fez o rosto de Godwin ficar cora-
do. Mesmo no quarto escuro ela percebeu, e falou, secamente:
— Que importância tem? Estes insultos são meu pão diário, de quem
acredita... e parou.
— Melhor não falarem nada no que acreditam para mim — resmungou
Godwin.
— Obrigada —, Masouda respondeu, com um sorriso rápido e gentil e,
tirando a capa, ficou diante deles, sem véu e vestida num manto branco que
realçava suas formas graciosas, e que tinha no peito o brasão de Baalbec.
— Para seu controle — ela continuou — o que pensam que sou eu não sou,
pois se fosse não entraria nesta casa.
— E nossa prima Rosamund? — atalhou Wulf, meio sem jeito, pois como
Godwin, ele estava sofrendo.
Masouda colocou a mão sobre o peito, como se para parar sua respiração
ofegante, e então respondeu:
— A princesa de Baalbec, minha Senhora, está bem, e como sempre mui-
to bonita, embora um pouco cansada da pompa em que não vê nenhuma
227
Capítulo 17 •
Os irmãos saem de Damasco
alegria. Ela manda lembranças, mas não disse para qual dos dois elas deveriam
ser dadas, de modo, peregrinos, que vocês devem dividi-las.
Godwin retraiu-se, mas Wulf perguntou se havia alguma possibilidade de
eles a verem, ao que Masouda respondeu:
— Nenhuma — acrescentando em voz baixa, — vim por causa de outro
assunto. Vocês dois querem prestar um serviço a Saladino?
— Não sei. Qual serviço? — perguntou Godwin, desesperançado.
— Apenas salvar-lhe a vida... pelo que talvez fique grato, ou não, depen-
dendo de seu humor.
— Desembuche — falou Godwin — e diga-nos como dois francos podem
salvar a vida do Sultão do Oriente.
— Vocês ainda se lembram de Sinan e de seus fedais? Sim, eles não são
facilmente esquecidos, não é mesmo? Bem, hoje à noite ele planeja matar
Saladino, e depois matá-los, se for possível, e raptar Rosamund, se for pos-
sível, ou, se isto falhar, matá-la também. Oh, a história é verdadeira. Fiquei
sabendo com um deles, pela força do Sinete — o Sinete é muito útil — e que
acredita, o coitado, que faço parte do plano. Bem, vocês são os responsáveis
pela guarda que faz a vigilância esta noite na antecâmara, não são? Bem,
quando a guarda for trocada à meia-noite, os oito homens que devem subs-
tituí-la na porta do quarto de Saladino não aparecerão; serão desviados com
uma ordem falsa. Em seu lugar virão os oito assassinos, disfarçados em man-
tos e armas como os mamelucos. Eles pretendem enganá-los, matá-los, matar
Saladino e escapar pela última porta. Vocês acham que podem resistir um
pouco a oito homens?
— Já fizemos isto antes, e vamos tentar — respondeu Wulf. — Mas como
vamos saber que não são mamelucos?
— Assim: eles vão tentar passar pela porta, e vocês dirão “Não, filhos de
Sinan”, e eles pularão sobre vocês. Fiquem prontos e falem alto.
— E se nos derrotarem — perguntou Godwin — o Sultão será morto?
— Não, pois vocês precisam trancar a porta do quarto de Saladino e es-
conder a chave. O barulho da luta vai alertar a guarda de fora antes que ele
seja assassinado. Ou —, ela acrescentou, depois de pensar um pouco — talvez
seja melhor revelar o plano ao Sultão imediatamente.
— Não, não — respondeu Wulf — deixe-nos tentar. Estou cansado de não
fazer nada por aqui. Hassan estará de guarda no portão externo. Ele virá logo
que ouvir o ruído da luta.
228
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Ótimo —, falou Masouda. — Vou fazer com que esteja lá e acordado.
Agora, adeus, e rezem para que nos encontremos de novo. Não falarei nada
sobre isto para a princesa Rosamund até que tudo esteja terminado. Então,
atirando a capa sobre os ombros ela virou-se e saiu.
— Será que é verdade? — perguntou Wulf para Godwin.
— Nunca soubemos que Masouda fosse mentirosa — foi sua resposta.
— Vamos, vamos cuidar das armaduras, pois as facas destes fedais são
afiadas.
Era quase meia-noite, e os irmãos estavam na pequena antecâmara abo-
badada, de onde uma porta levava aos quartos de dormir de Saladino. A
guarda de oito mamelucos já tinha saído, para encontrar no pátio os que
vinham rendê-la, de acordo com o costume, mas ninguém tinha ainda apa-
recido na antecâmara.
— Parece que o que Masouda contou é verdade — falou Godwin, e indo
até a porta, trancou-a e escondeu a chave debaixo de uma almofada.
Então tomaram seus postos em frente à porta trancada, coberta por cor-
tinas, na penumbra, pois as candeias prateadas iluminavam a sua frente.
Ficaram lá um tempo, em silêncio, e oito mamelucos, vestidos de amarelo
por cima das armaduras, entraram e saudaram.
— Parem! — falou Godwin, e eles pararam, mas depois recomeçaram a
avançar.
— Parem! — disseram os dois irmãos novamente, mas eles continuaram.
— Parem! Filhos de Sinan! —, falaram uma terceira vez, já puxando suas
espadas.
Então, com um chiado de raiva e desapontamento os fedais vieram em
cima deles.
— Um D’Arcy! Um D’Arcy! Ajudem o Sultão! — gritaram os irmãos, e a
luta começou.
Seis homens os atacaram, enquanto os outros dois deram a volta e tenta-
ram abrir a porta, apenas para verificar que estava trancada. Então passaram
a atacar os irmãos, pensando em achar a chave nos seus corpos. Na primeira
investida dois dos fedais, foram ao chão atingidos pelo movimento circular
das espadas, e os outros hesitaram um pouco. Enquanto uns tentavam atacar
pela frente, outros forçavam a passagem tentando usar as facas por trás. Um
golpe destes chegou a atingir Godwin no ombro, mas a cota resistiu.
— Recuemos, ou eles vão nos cercar.
229
Capítulo 17 •
Os irmãos saem de Damasco
Então recuaram, até que se encostaram na porta, e lá ficaram, gritando
por ajuda e girando as espadas, de modo a manter os fedais fora de seu al-
cance. Aí se ouviu, do lado de fora da câmara, um grito e um tumulto, e o
som de pancadas contra os portões, que os assassinos tinham bloqueado,
enquanto do lado de dentro da porta, que não podia abrir, ouvia-se a voz do
Sultão, exigindo saber o que estava acontecendo.
Os fedais ouviram também, e perceberam que tinha chegado seu fim Dei-
xando de lado a cautela no seu desespero e raiva, atiraram-se sobre os irmãos,
pois achavam que se os matassem poderiam abrir a porta e matar Saladino
antes que eles próprios fossem mortos. Mas por um instante os irmãos resis-
tiram à arremetida, com as espadas e os escudos, ferindo dois deles grave-
mente. E quando os fedais finalmente conseguiram encurralar os irmãos, as
portas foram abertas, e Hassan e a guarda externa entraram.
Um minuto depois, um pouco feridos, Godwin e Wulf estavam guardando
as espadas, e os fedais, alguns mortos e outros feridos, e outros ainda captura-
dos, estavam estendidos no chão de mármore. A porta trancada a chave também
tinha sido aberta, e por ela entrou o Sultão, em sua roupa de dormir.
— O que aconteceu? — ele perguntou, olhando para eles em dúvida.
— Apenas isto, Senhor — respondeu Godwin — estes homens vieram
matá-lo, e nós os detivemos até que o socorro chegasse.
— Matar-me! Minha própria guarda?
— Eles não são sua guarda; são fedais, disfarçados como sua guarda, e
enviados por Al-je-bal, como ele prometeu.
Saladino ficou pálido, pois ele que não temia nada, toda sua vida teve
medo dos Assassinos, os quais por três vezes tinham tentando matá-lo.
— Retirem as armaduras destes homens — continuou Godwin — e acho
que verão que minhas palavras são verdadeiras, ou, se não, interroguem alguns
deles, que ainda estão vivos.
Foi obedecido, e sobre o peito de um deles, queimado sobre a pele, estava
o símbolo da adaga vermelha cor de sangue. Saladino viu, e puxou os irmãos
de lado.
— Como ficaram sabendo? — ele perguntou, fitando-os com olhos
penetrantes.
— Masouda, a camareira de lady Rosamund, alertou-nos que o Senhor
seria assassinado esta noite por oito homens, de modo que nos preparamos.
— E por que não me contaram?
230
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Porque — respondeu Wulf — não tínhamos certeza se a história era
verdadeira, e não queríamos espalhar notícias que poderiam ser falsas e ser-
mos vistos como tolos. Porque, também, meu irmão e eu pensamos que po-
deríamos resistir um pouco aos oito dos ratos de Sinan disfarçados em
soldados de Saladino.
— Fizeram bem, embora sua atitude fosse arriscada — respondeu o Sultão.
Em seguida ele ofereceu a mão a um, e depois ao outro, falando simplesmente:
— Senhores cavaleiros, Saladino lhes deve sua vida. Se algum dia suas
vidas dependerem de Saladino, ele vai se lembrar disto.
E o assunto terminou. No dia seguinte os fedais que tinham sobrevivido
foram interrogados e confessaram sem demora que tinham sido enviados para
matar Saladino que tinha roubado a noiva de seu Mestre, os dois francos que
a levaram embora, e a mulher Masouda que os tinha guiado. E foram mortos
cruelmente após. Muitos outros na cidade foram presos e mortos, sob sus-
peita, de modo que por uns tempos não havia mais medo dos Assassinos.
E daquele dia em diante Saladino tomou-se de grande amizade pelos ir-
mãos, dando-lhes presentes e oferecendo-lhes grandes honras. Mas os irmãos
tudo recusaram, dizendo que só queriam uma coisa dele, e que ele sabia que
coisa era, e nestes momentos seu rosto ficava taciturno.
Uma manhã ele mandou chamá-los, e exceto pela presença do príncipe
Hassan, o favorito de seus emires, e um famoso imã, ou sacerdote de sua
religião, recebeu-os a sós.
— Ouçam — falou dirigindo-se a Godwin. — Compreendo que minha
sobrinha, a princesa de Baalbec, é amada por vocês. Ótimo. Convertam-se
ao Alcorão, e ela será dada a um de vocês em casamento, mas para isto ela
também terá que se converter — e eu jurei que não a forçaria a isto —, e
terei ganho um grande guerreiro, e o Paraíso, uma grande alma. O imã aqui
vai instruí-lo.
Assim ele falou, mas Godwin apenas o fitou com os olhos demonstrando
surpresa, e respondeu:
— Senhor, agradeço, mas não posso mudar minha fé para ganhar uma
mulher, por mais que a ame.
— Foi o que pensei — falou Saladino com um suspiro — embora seja
realmente triste que a superstição possa cegar um homem tão valente e bom.
Agora, Sir Wulf, é a sua vez. O que diz de minha oferta? Receberá a princesa
e seus domínios, e meu amor incluído como uma porção do casamento?
231
Capítulo 17 •
Os irmãos saem de Damasco
Wulf pensou por um momento, e enquanto pensava veio-lhe à mente a
visão de uma tarde de outono, que parecia ter acontecido havia anos e anos,
quando eles dois e Rosamund estavam no santuário de St. Chad, nas praias
de Essex, e brincaram sobre a mudança de fé. Depois respondeu, com uma
de suas grandes risadas:
— Sim, Senhor, mas nos meus termos, não nos seus, porque se os aceitasse
acho que meu casamento não seria abençoado. Nem Rosamund iria tomar como
esposo um dos seguidores do seu Profeta, que se quiser pode ter outras esposas.
Saladino apoiou a cabeça nas mãos, e fitou-os, desapontado, mas não
raivoso.
— O cavaleiro Lozelle era um adorador da Cruz — disse — mas vocês
são muito diferentes do cavaleiro Lozelle, que aceitou a Fé quando ela lhe foi
oferecida.
— Para conseguir um negócio — disse Godwin com aspereza.
— Acho que não —, respondeu Saladino, — embora seja verdade que o
homem fosse um cristão entre os francos, e aqui fosse um seguidor do Pro-
feta. Pelo menos foi morto por suas mãos, e embora tenha pecado contra
mim e atraiçoado minha sobrinha e a entregue a Sinan, que a paz esteja com
sua alma. Agora tenho mais uma coisa a dizer-lhes. Aquele franco, Príncipe
Arnat de Karak, a quem vocês chamam Reginald de Chatillon
48
— amaldi-
çoado seja seu nome — mais uma vez rompeu a paz entre mim e o rei de
Jerusalém, assassinando meus mercadores, e roubando minhas mercadorias.
Não vou suportar mais esta vergonha, e muito cedo vou desfraldar meus
estandartes, que não serão recolhidos antes que fiquem hasteados sobre a
mesquita de Omar, e em toda torre da Palestina. Todos serão dizimados. Eu,
Yusuf Saladino — e ergueu-se enquanto falava estas palavras, a barba eriça-
da de ódio, — declaro a Guerra Santa, e vou varrê-los em direção ao mar.
Escolham agora, irmãos. Lutam do meu lado ou contra mim? Ou baixarão
as espadas e ficarão aqui como meus prisioneiros?
— Somos servos da Cruz —, respondeu Godwin — e não podemos nos
levantar contra ela, e assim perdermos nossas almas. Depois falou com Wulf
e acrescentou: — Quanto à sua segunda pergunta, se ficaríamos aqui prisio-
neiros, só lady Rosamund pode responder, pois juramos servi-la. Queremos
ver a princesa de Baalbec.
— Vá buscá-la, Emir — Saladino falou com o príncipe Hassan, que fez
uma mesura e saiu.
232
Cruzada •
H. Rider Haggard
Um pouco depois Rosamund chegou, bonita, mas quando afastou o véu,
muito pálida e cansada. Ela inclinou-se para Saladino, e os irmãos que, não
podendo tocar sua mão, inclinaram-se, olhando-a ansiosos.
— Saudações, meu tio — ela falou para o Sultão — e para vocês, meus
primos, saudações também. O que querem de mim?
Saladino acenou para ela sentar-se e pediu a Godwin que expusesse o caso,
o que ele fez com muita clareza, perguntando ao final:
— É seu desejo, Rosamund, que fiquemos nesta corte como prisioneiros,
ou vamos lutar com os francos nesta grande guerra que está para acontecer?
Rosamund olhou-os por uns instantes e depois respondeu:
— Para quem se comprometeram em primeiro lugar? Servir ao Senhor ou
servir a uma mulher? É o que tinha a falar.
— Palavras que esperávamos, sendo o que é —, exclamou Godwin, en-
quanto Wulf assentia com a cabeça, acrescentando:
— Sultão, solicitamos um salvo-conduto para Jerusalém, e deixamos esta
lady aos seus cuidados, confiantes em sua palavra empenhada de que nenhu-
ma violência à sua fé seria cometida, e de que a protegeria.
— Meu salvo-conduto vocês têm — respondeu Saladino — e também
minha amizade. E não teria vocês em boa conta se tivessem decidido de outra
forma. De agora em diante, aos olhos de todo o mundo, somos inimigos, e
tentarei matá-los, da mesma forma que tentarão me matar. Mas no que diz
respeito a esta lady, não temam. O que eu prometi será mantido. Diga-lhes
adeus, pois não a verão mais.
— Quem lhe ensinou a dizer palavras como estas, oh Sultão? — perguntou
Godwin. — Foi-lhe dado o privilégio de ler o futuro e os decretos de Deus?
— Deveria ter acrescentado — respondeu Saladino — a quem não verão
mais se eu conseguir mantê-los distantes. Podem dizer quem, ou os dois, se
recusaram a tomá-la por esposa?
Neste ponto Rosamund olhou para todos com expectativa, e Wulf atalhou:
— Diga-lhe o preço. Diga-lhe que ela teria que se casar com um de nós
dois, que teríamos que nos ajoelhar perante Maomé, e sermos o chefe de um
harém, e acho que ela não nos culpará.
— Nunca mais falaria com nenhum dos dois, tivessem respondido de
outra forma —, exclamou Rosamund, e Saladino franziu a testa ao ouvi-
la. — Oh, meu tio, o Senhor tem sido bom para mim, e me deu uma alta
posição, mas eu não desejo esta honraria, nem seus caminhos são os meus,
233
Capítulo 17 •
Os irmãos saem de Damasco
que sou de outra fé que o senhor chama de amaldiçoada. Deixe-me partir,
suplico, aos cuidados dos dois, que são meus parentes.
— E enamorados de você — Saladino falou secamente. — Sobrinha, não
pode ser. Amo-a, e mesmo que eu soubesse que sua vida pagaria o preço de
sua permanência aqui, você teria que continuar aqui, pois meu sonho me
contou que em você repousa a vida de milhares, e acredito no sonho. O que,
então, é a sua vida, ou a vida destes cavaleiros, ou mesmo minha vida, se
qualquer uma delas pode fazer pender a balança contra a vida de milhares?
Tudo o que meu império pode dar está a seus pés, mas aqui você continua
até que o sonho se realize, e — ele acrescentou, olhando para os irmãos — a
morte seja o preço de quem quer que tente roubá-la de minhas mãos.
— Até que o sonho se realize? — falou Rosamund, citando as palavras.
— Então, quando estiver realizado, serei livre?
— Sim — respondeu o Sultão — livre para ir e vir, a não ser que tente
escapar, e neste caso você sabe qual é o resultado.
— É um decreto. Tomem nota, meus primos, é um decreto. E o senhor,
príncipe Hassan, lembre-se disto também. Oh! Suplico com toda a minha
alma, não foi um espírito mentiroso que o fez sonhar aquele sonho, mas como
poderei trazer a paz, eu que até agora só trouxe guerra e derramamento de
sangue, não sei por qual razão. Agora vão, meus primos, mas deixem-me
Masouda, que não tem outros amigos. Vão, e levem meu amor e minhas
bênçãos com vocês, que as bênçãos de Jesus e de Seus santos os protejam na
hora da batalha, e que possamos nos reunir outra vez.
Assim falou Rosamund, e depois colocou o véu na frente do rosto, pois
precisava esconder as lágrimas.
Depois Godwin e Wulf se adiantaram até onde ela estava, ao lado do
trono de Saladino, ajoelharam-se e, tomando sua mão, e em despedida, bei-
jaram-na, sem que o Sultão dissesse não. Mas quando ela tinha saído, e os
irmãos tinham saído, ele se virou para o emir Hassan e o imã, que ficou si-
lencioso durante todo o tempo, e disse:
— Agora me digam, vocês que são velhos e sábios, qual destes homens a
princesa ama? Fale, Hassan, você que os conhece melhor.
Mas Hassan balançou a cabeça.
— Um ou outro. Ambos ou nenhum, não sei — ele respondeu. — Sua
escolha está muito escondida.
Então Saladino virou-se para o imã, um homem silencioso e muito astuto.
234
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Quando ambos os infiéis estiverem dispostos a morrer diante dela,
como ainda espero que aconteça, então vamos saber a resposta. Mas a não
ser que ela queira, não antes disso —, ele retrucou, e o Sultão ficou pensando
em suas palavras.
Na manhã seguinte, depois de alertada por Masouda de que passariam
perto, Rosamund, observando através das venezianas da janela, viu os irmãos
passarem. Estavam vestidos completamente, e com as armas, e montados em
seus maravilhosos cavalos Flame e Smoke cavalgavam orgulhosos lado a lado,
seguidos pela escolta de mamelucos de turbante, e com o sol fazendo suas
armaduras resplandecerem. Do lado oposto à casa eles pararam um pouco,
e sabendo que Rosamund estava olhando, embora não pudessem vê-la, de-
sembainharam as espadas e as ergueram numa saudação. Depois, recolhendo-
as novamente, seguiram em silêncio e logo ficaram fora de vista.
Rosamund seria incapaz de imaginar como estariam quando se encon-
trassem novamente. Na verdade, ela mal tinha esperanças de que se veriam
de novo, pois sabia muito bem que mesmo que a guerra favorecesse aos
cristãos ela seria mandada para outro lugar onde eles nunca a encontra-
riam. Sabia também que de Damasco seu resgate era impossível, e embo-
ra Saladino os amasse, como amava todos os que eram valentes e honestos,
ele não mais os receberia como amigos, por temor de que quisessem rou-
bá-la dele, ela que aos seus olhos e de uma maneira desconhecida iria
permitir que ele terminasse seus dias em paz. Além disso, a batalha entre
a Cruz e o Crescente seria feroz, e mortal, e ela sabia que onde ela fosse
mais feroz lá estariam Godwin e Wulf. Esta era, talvez, a última vez que
punha os olhos neles.
Oh! Como era venerada. Deram-lhe ouro e jóias, muito mais do que
poderia contar, e poucas eram as semanas em que não lhe traziam mais ri-
queza ou presentes. Tinha palácios onde morar — sozinha. Guardas para
protegê-la — sozinha. Eunucos e escravos para servi-la — sozinha. Ninguém
de quem pudesse se dizer amiga, a não ser a mulher dos Assassinos, em quem
se apoiava, porque ela, Masouda, a tinha salvo de Sinan, e que se apoiava
nela, e Rosamund não sabia por que, pois havia um véu entre elas.
Eles se foram, eles se foram! Até o ruído dos cascos dos cavalos tinha
cessado, e ela ficou desolada como uma criança perdida na multidão. E seu
coração estava pleno de temores em relação a eles, e principalmente por um
deles. Se ele não voltasse e enchesse de novo seu coração, o que seria dela?
235
Capítulo 17 •
Os irmãos saem de Damasco
Rosamund baixou a cabeça e chorou. Depois, vendo um ruído às suas
costas, virou-se e viu que Masouda também chorava.
— Por que está chorando? — ela perguntou.
— A serva deve imitar sua Ama — respondeu Masouda com uma risada
nervosa — mas, lady, por que a Senhora chora? Pelo menos é amada, e
aconteça o que acontecer, ninguém pode tirar-lhe isto. A Senhora não é de
menor valor do que o cavalo que o cavaleiro monta, ou o fiel cão que segue
ao seu lado.
Um pensamento assomou a mente de Rosamund, um novo e terrível pen-
samento. Os olhos das duas mulheres se encontraram, e os de Rosamund
perguntaram “Qual”, tão ansiosos quanto naquela noite ao luar em que ela
tinha feito a mesma pergunta acima do portão da ponte estreita. Entre elas
havia uma mesa incrustada com marfim e pérolas, em cima da qual a poeira
vinda através das venezianas tinha se acumulado. Masouda inclinou-se, e
com o polegar escreveu uma única letra em árabe no pó, e depois passou a
mão por cima, apagando.
O peito de Rosamund arfou duas ou três vezes e se acalmou. Então ela
perguntou:
— E por que você, que é livre, não foi com ele?
— Porque ele me suplicou que ficasse aqui, cuidando da mulher que ele
amava. Então até a morte — eu fico.
Masouda falou lentamente, e as palavras pareceram gotas de sangue
caindo de uma ferida aberta. Então ela correu e se atirou nos braços de
Rosamund.
236
Cruzada •
H. Rider Haggard
uitos dias se passaram desde que os irmãos deram adeus a Rosamund
em Damasco. E agora, numa noite abrasadora de julho, estavam
montados em seus cavalos, com o luar reluzindo fracamente em
suas cotas. Estavam imóveis, olhando do topo de uma montanha rochosa a
planície cinzenta e árida que se estendia de Nazaré
49
até as abas das colinas
onde fica Tiberias, no mar da Galiléia. Abaixo, acampados em redor da fon-
te de Seffurieh, espalhavam-se exércitos dos francos, para os quais faziam um
turno como sentinelas: 1.300 cavaleiros, 20 mil soldados a pé, e hordas de
turcópolos
50
, isto é, nativos do país, armados à maneira dos sarracenos.
Três quilômetros para o sudeste viam-se os contornos das casas brancas de
Nazaré, construídas nas fraldas das montanhas, a cidade sagrada, onde du-
rante 30 anos viveu e perambulou o Salvador do Mundo. Sem dúvida, pensou
Godwin, seus pés muitas vezes pisaram aquela montanha onde estavam, e as
terras irrigadas dos vales abaixo. Suas mãos conduziram o arado e colheram
o milho. Mas fazia muito tempo que Sua voz se silenciara, embora para os
ouvidos de Godwin parecia que ela ainda ressoava no murmúrio do vasto
acampamento, e ecoava nas colinas da Galiléia, e Suas palavras eram: “Não
trago a paz, mas a espada”.
Amanhã deveriam avançar, segundo os rumores, através da planície de-
serta que ficava além, e enfrentar Saladino, que estava em Hattin, acima de
Tiberias, com todo o seu poderio.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 18
Wulf paga pelo vinho drogado
A
M
237
Capítulo 18 •
Wulf paga pelo vinho drogado
Godwin e seu irmão achavam que era uma insensatez, pois tinham visto
a força dos sarracenos e cavalgado naquela planície sem água debaixo de um
sol de verão. Mas quem eram eles, dois cavaleiros errantes, sozinhos, para
ousar erguer suas vozes contra a dos senhores das terras, acostumados desde
o nascimento à guerra no deserto? Mesmo assim o coração de Godwin esta-
va abafado e o medo tomou conta dele, não por ele, mas pelos incontáveis
soldados que dormiam, e pela causa da Cristandade, que arriscava sua última
cartada nesta batalha.
— Vou olhar um pouco mais além, fique aqui — ele falou para Wulf, e vi-
rando a cabeça de Flame, cavalgou uns 60 metros sobre uma saliência da rocha,
na outra extremidade da montanha, e que apontava para o norte. De lá ele não
podia ver nem o acampamento nem Wulf, ou qualquer outro ser vivo, a solidão
era completa. Desmontando e deixando o cavalo ficar parado, e treinado ele
ficava, como um cão, adiantou-se alguns passos até onde havia uma pedra, e
ajoelhando-se começou a orar com toda a força de seu coração de guerreiro.
“Oh, Senhor, que outrora fostes um homem e morastes nestas montanhas,
e soubestes o que é um homem, ouvi-me. Temo por todos os milhares que
dormem em volta de Nazaré; não por mim, que não dou valor à minha
vida, mas por todos aqueles, Vossos servos, e por meu irmão. E também pela
Cruz na qual Vosso corpo foi pregado, e pela Fé que se espalha por todo o
Oriente. Oh! Iluminai-me, deixai-me ver e ouvir, para que possa alertá-los, a
não ser que meus temores sejam em vão.”
Assim ele murmurou para o Céu, acima, e colocou as mãos na testa,
orando e orando, como nunca tinha feito antes, suplicando que sua alma
pudesse ter o discernimento e a antevisão.
Pareceu a Godwin que um sono repentino tomou conta dele; pelo menos
sua mente ficou nebulosa e confusa. Depois ela clareou novamente, e de vagar,
até que ficou límpida e firme; mas era uma outra mente, diferente daquela
que era sua serva dia a dia, e que nunca ouvia ou via estas coisas que ele viu
e ouviu, naquela hora extrema. E ele ouviu os espíritos que passavam, sus-
surrando; sussurrando e, como lhe pareceu, chorando por uma grande des-
graça que ia acontecer; chorando por Nazaré. Depois, como cortinas, os véus
foram descerrados e seus olhos puderam ver além, e mais além.
Ele viu o rei dos francos em sua tenda, lá embaixo, e ao seu redor o con-
selho de seus capitães, entre eles o Mestre dos Templários
51
, de olhar feroz,
e um homem que ele tinha visto em Jerusalém, onde tinham morado, e que
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
238
Cruzada •
H. Rider Haggard
conhecia como o Conde Raymond de Trípoli, o senhor de Tiberias. Estavam
discutindo juntos, até que num acesso de fúria o Mestre dos Templários de-
sembainhou a espada e a jogou sobre a mesa.
Outro véu foi erguido, e veja! Ele viu o acampamento de Saladino, o
poderoso, um acampamento sem fim, com suas 10 mil tendas, entre as quais
os sarracenos gritavam a Alá por intermédio dos vigias noturnos. Ele viu a
barraca real, e nela o Sultão andava de um lado para o outro; nenhum dos
seus emires, nem mesmo seu filho, estavam com ele. Estava imerso em pen-
samentos, e Godwin leu um pensamento.
Era: “Atrás de mim o Jordão
52
e o mar da Galiléia, e se meus flancos forem
contornados, seremos arrastados para lá, eu e meu exército. Em frente o
território dos francos, onde não tenho nenhum amigo; e junto a Nazaré o
grande exército franco. Apenas Alá pode me socorrer. Se ficarem parados e
me forçarem a avançar pelo deserto e atacá-los antes que meu exército se
disperse, estarei perdido. Se avançarem contra mim rodeando a montanha
Tabor e através das terras irrigadas, também posso estar perdido. Mas se
— Oh! Se Alá os fizer insensatos e me atacarem diretamente pelo deserto
— então eles estarão perdidos, e o reino da Cruz sobre a Síria estará para
sempre derrotado. Vou esperar aqui. Vou esperar aqui...”
Veja! Ao lado da barraca de Saladino há uma oura tenda, fortemente vi-
giada, e nela, numa cama acolchoada estão duas mulheres. Uma é Rosamund,
que dorme profundamente; e a outra é Masouda, e ela estava acordando, pois
seus olhos encontraram os dele na escuridão.
O último véu foi retirado, e agora Godwin viu uma imagem que fez sua
alma estremecer. Uma planície queimada, e acima dela uma montanha cober-
ta de mortos, milhares e milhares e milhares de mortos, e entre eles as hienas
vagavam e os pássaros noturnos guinchavam. Ele viu seus rostos, muitos dos
quais conheceu vivos em Jerusalém e em outros lugares, ou no exército. Ele
podia ouvir também os gemidos dos que ainda estavam vivos.
Naquele acampamento — sim, e no acampamento de Saladino, onde
havia mais mortos — seu corpo pareceu vagar procurando por alguma coisa,
ele não sabia o quê, até que percebeu que era o corpo de Wulf que procurava
e não encontrava — e nem o seu. Então mais uma vez ouviu os espíritos
passando — uma grande quantidade, pois representavam todos os mortos
— passando e sumindo, lamentando, cada vez mais lamentando pela causa
perdida do cristianismo e por Nazaré.
239
Capítulo 18 •
Wulf paga pelo vinho drogado
Godwin acordou do sonho trêmulo, subiu no cavalo e voltou para onde
estava Wulf. Abaixo, como antes, estava o acampamento adormecido, e além
se estendia o deserto marrom, e Wulf observava ambos.
— Diga-me — perguntou Godwin — quanto tempo faz que deixei você?
— Alguns minutos, dez talvez —, respondeu o irmão.
— Tempo curto para ver tanta coisa — retrucou Godwin. Então Wulf
olhou curioso para ele e perguntou:
— O que você viu?
— Se eu contar, Wulf, você não vai acreditar.
— Conte, depois eu digo se acredito.
Então Godwin contou tudo, e ao final perguntou: — O que você acha?
Wulf refletiu por uns instantes e respondeu:
— Bem, irmão, você não tocou no vinho hoje, então não está bêbado, e
não fez nada de tresloucado, então não está louco. Portanto, parece que os
santos estiveram falando com você, no mínimo, pelo menos, pois não conhe-
ço nenhum outro homem tão bom quanto você. E são pessoas como você que
têm visões, e estas visões nem sempre são verdadeiras, pois às vezes, acredito,
o diabo é o mestre-de-cerimônias. Nosso turno terminou, pois ouço os cava-
los dos cavaleiros que vêm nos render. Preste atenção: este é o meu conselho.
Naquele acampamento está nosso amigo, com quem viajamos de Jerusalém,
Egbert, o bispo de Nazaré, e que está acompanhando os exércitos. Vamos até
ele e falar do que você viu, pois é um homem santo e instruído. E não um
pregador falso e interesseiro.
Godwin assentiu com a cabeça, e logo que os cavaleiros chegaram e eles fize-
ram um relatório sobre o turno, seguiram juntos para a tenda de Egbert, e dei-
xando os cavalos sob a responsabilidade de um servo, entraram. Egbert era um
inglês que tinha passado mais de 30 anos de sua vida no Oriente, onde os raios
do sol tinham bronzeado e enrugado seu rosto, que parecia ainda mais escuro em
contraste com os olhos azuis e o cabelo e a barba brancos como a neve. Entran-
do na tenda, viram-no fazendo orações diante de uma pequena imagem da Virgem,
e esperaram com as cabeças abaixadas até que ele terminasse. Pouco depois ele
se levantou e deu-lhes a bênção, perguntando o que queriam dele.
— Seu conselho, santo padre —, respondeu Wulf. — Godwin, conte sua
história.
Então, depois de observarem que a abertura da tenda estava fechada, e
que não havia ninguém por perto, Godwin falou do sonho.
240
Cruzada •
H. Rider Haggard
O velho homem ouviu pacientemente, e não pareceu surpreso com a
estranha história, pois naqueles tempos os homens tinham — ou pensavam
que tinham — muitas destas visões, as quais eram aceitas pela Igreja como
verdadeiras.
Quando terminou, Godwin perguntou, como tinha perguntado a Wulf:
— O que acha, santo padre? Foi um sonho ou uma mensagem? E se foi, de
quem vem esta mensagem?
— Godwin D’Arcy —, ele respondeu, — em minha juventude conheci seu
pai. Fui eu quem lhe deu a extrema-unção quando ele estava ferido, à morte,
e nenhuma outra alma tão nobre passou para os céus. Depois que você deixou
Damasco, quando era hóspede de Saladino, moramos juntos no mesmo alo-
jamento em Jerusalém, e juntos viajamos até aqui, e durante este tempo
aprendi a considerar você o filho honrado de um honrado pai — não um
cavaleiro dissoluto, mas um verdadeiro servo da Igreja. É muito provável que
a alguém como você a visão foi oferecida, e que através de você os que nos
governam possam ser alertados, e toda a Cristandade possa ser salva de uma
grande dor e desgraça. Venha, vamos falar com o rei, e contar-lhe a história,
pois ele ainda está reunido com o conselho.
Então foram juntos até a tenda do rei. Lá o bispo foi admitido, e eles fi-
caram do lado de fora.
Logo ele retornou e chamou-os, e quando entraram os guardas falaram:
— Uma reunião incomum, Senhores, e que não parece boa coisa!
Já era perto da meia-noite, mas a grande barraca ainda estava cheia de
barões e chefes sentados em grupos, ou ao redor de uma estreita mesa de
tábuas colocadas em cima de cavaletes. À cabeceira desta mesa sentava-se o
rei, Guy de Lusignan, homem de pouca energia e paramentado com uma
esplêndida armadura. À sua direita estava o Conde Raymond de Trípoli, de
cabelos brancos, e à esquerda, de barba negra e de cenho franzido, o Mestre
dos Templários, num manto branco em cujo lado esquerdo do peito havia o
emblema de uma cruz vermelha.
A discussão tinha sido intensa, pois os rostos mostravam isto, mas naque-
le momento reinava o silêncio, como se todos estivessem cansados. O rei
inclinou sua cadeira para trás, passando a mão pela testa, levantou-se e ao
ver o bispo perguntou, irritadiço:
— O que é agora? Oh! Lembro-me, alguma história destes cavaleiros.
Bem, adiantem-se, e desembuchem, pois não temos tempo a perder.
241
Capítulo 18 •
Wulf paga pelo vinho drogado
Então os três se adiantaram e a pedido de Godwin o bispo Egbert falou
da visão que ele tinha tido há não mais que uma hora, quando estava de
guarda no topo da montanha. De início, um ou dois dos barões pareceram
dispostos a rir, mas quando viram o rosto altivo e sereno de Godwin o riso
desapareceu, pois para eles parecia que não era nada de extraordinário um
homem destes ter uma visão. Na verdade, à medida que a história da mon-
tanha rochosa e dos mortos estendidos sobre ela continuava, eles iam ficando
pálidos de medo, e mais pálido de todos ficava o rei, Guy de Lusignan.
— Isto tudo é verdade? — ele perguntou, quando o bispo terminou de falar.
— É verdade, Senhor —, respondeu Godwin.
— Sua palavra não é suficiente —, atalhou o Mestre dos Templários. Que
ele jure diante da Cruz da Crucificação
53
, sabendo que se mente sua alma vai
arder por toda a eternidade. Ao que o conselho murmurou: — Sim, jure.
A tenda tinha um anexo, precariamente mobiliado como uma capela, e ao
final do anexo havia um objeto alto, coberto por um véu. Rufinus, o bispo de
Acre
54
, vestido com uma armadura de cavaleiro, foi até o objeto, e retirando o
véu, mostrou uma cruz enegrecida e quebrada, ornada com jóias, e mais ou
menos da altura de um homem, pois toda a parte de baixo desaparecera.
Ao vê-la, Godwin, bem como todos os presentes, imediatamente se ajoe-
lharam, pois desde que Santa Helena a tinha descoberto, há mais de sete
séculos, esta era considerada a relíquia mais preciosa de toda a Cristandade:
a mesma cruz onde o Salvador sofreu, e talvez fosse mesmo.
Milhões a veneravam, milhares morreram por ela, e agora, na hora desta
grande batalha entre Cristo e o falso profeta ela tinha sido trazida de seu san-
tuário para que os exércitos que a carregassem se tornassem invencíveis na
batalha. Soldados que lutavam ao lado da verdadeira cruz não podiam ser
derrotados, dizia-se, pois se fosse preciso legiões de anjos viriam socorrê-los.
Godwin e Wulf fitaram a relíquia com admiração, medo e adoração. Lá
estavam as marcas de pregos, o lugar onde o pergaminho de Pilatos
55
tinha
sido afixado acima da santa cabeça — quase eles podiam ver o corpo divino
moribundo.
— Agora — interrompeu a voz do Mestre dos Templários — deixemos
Sir Godwin D’Arcy jurar que fala a verdade sobre esta Cruz.
Erguendo-se, Godwin avançou até a Cruz e colocando sua mão sobre a
madeira, falou: — Diante da verdadeira Cruz juro que há não mais de uma
hora tive a visão que foi relatada à Sua Alteza e a todos; que eu acredito
242
Cruzada •
H. Rider Haggard
que esta visão me foi mandada em resposta a minha prece para a preserva-
ção de nossos exércitos e a cidade santa do poderio dos sarracenos, e que
é um sinal verdadeiro do que vai acontecer se atacarmos o Sultão. Não
posso dizer nada mais. Juro, sabendo que se eu estiver mentindo a maldição
eterna cairá sobre mim.
O bispo recolocou a cobertura sobre a Cruz, e em silêncio o conselho
retomou seus lugares. O rei estava muito pálido, e temeroso. Na verdade,
todos foram tomados de intensa angústia.
— Parece —, ele falou, — que um mensageiro nos foi enviado pelo céu.
Devemos desobedecer sua mensagem?
O Mestre dos Templários ergueu a face vincada. — Um mensageiro do
céu, disse Vossa Alteza? Para mim parece mais um mensageiro de Saladino.
Diga-nos, Sir Godwin, o senhor e seu irmão não foram uma vez hóspedes do
Sultão em Damasco?
— Fomos, Senhor. Saímos de Damasco antes que a guerra fosse declarada.
— E —, continuou o Senhor dos Templários — não foram oficiais da
guarda pessoal do Sultão?
Agora todos olharam fixamente para Godwin, que hesitou um pouco,
pensando em como sua resposta seria entendida, quando Wulf falou alto:
— Sim, fomos da guarda por uns tempos, e — sem dúvida o Senhor já
ouviu a história — salvamos a vida de Saladino quando ele foi atacado pelos
Assassinos.
— Oh! —, falou o templário com sarcasmo, — vocês salvaram a vida de
Saladino, não foi? Não dá para acreditar. Vocês, sendo cristãos, e que acima
de todas as coisas deveriam desejar a morte de Saladino, salvaram sua vida!
Agora, senhores cavaleiros, respondam mais uma pergunta:
— Com a língua ou com a espada? — atalhou Wulf, mas o rei ergueu a
mão e ordenou que ficasse em silêncio.
— Uma trégua na sua arruaça típica de uma taberna, jovem cavaleiro, e
responda — continuou o templário. — Ou, se preferir, responda Sir Godwin.
Sua prima Rosamund, a filha de Sir Andrew D’Arcy, sobrinha de Saladino,
foi elevada por ele a princesa de Baalbec, e está neste momento sentada na
cidade de Damasco?
— Ela é sua sobrinha — respondeu Godwin calmamente — ela é a prin-
cesa de Baalbec, mas neste momento ela não está em Damasco.
— E como sabe disto, Sir Godwin?
243
Capítulo 18 •
Wulf paga pelo vinho drogado
— Sei porque na visão que lhes relatei a vi dormindo numa tenda no
acampamento de Saladino.
Neste momento o conselho começou a rir, mas Godwin, com o rosto
composto, continuou:
— Sim, Senhor, e perto daquela tenda engalanada eu vi centenas de tem-
plários e hospitaleiros
56
. Mortos. Lembre-se disto quando a desgraçada hora
chegar e o Senhor os vir também.
Agora o riso diminuiu e cessou, e um murmúrio de medo correu pela mesa,
misturado com palavras como “Magia”, e “Ele aprendeu isto com os pagãos”,
“Magia negra, sem dúvida”.
Apenas o templário, que não temia o homem nem os espíritos, mostrou
com os olhos que não acreditava.
— O Senhor não acredita em mim — falou Godwin — nem acreditará
quando disser que enquanto eu estava de guarda naquele monte distante eu
o vi discutindo com o Conde de Trípoli — sim, e jogar a espada diante dele
nesta mesma mesa.
O conselho novamente ficou surpreso, pois eles também tinham visto.
Mas o Mestre respondeu:
— Ele pode ter sabido disto de outra forma, e não por meio de um anjo.
Muita gente entrou e saiu desta tenda. Alteza, não temos mais tempo a perder
com estas visões de um cavaleiro de quem o que sabemos com certeza, tal
como seu irmão, é que esteve a serviço de Saladino, que deixaram, segundo
dizem, para lutar contra ele nesta guerra. Pode ser que sim; não nos compe-
te julgar; e se os tempos fossem diferentes eu testemunharia contra Sir Godwin
D’Arcy como feiticeiro, e também como alguém que esteve em conluio trai-
çoeiro com nosso inimigo comum.
— E eu o faria engolir esta mentira goela abaixo com a ponta de minha
espada — gritou Wulf.
Mas Godwin apenas encolheu os ombros e não disse nada. O Mestre dos
Templários continuou, sem nenhuma cautela:
— Alteza, nós aguardamos a sua palavra, e ela deve ser proferida logo,
pois dentro de quatro horas já será a alvorada. Marcharemos contra Saladino
como valorosos cristãos, ou ficaremos aqui, como covardes?
Neste momento o Conde Raymond de Trípoli levantou-se e falou:
— Antes que respondeis, Alteza, ouvi-me, nem que seja pela última vez,
pois sou experiente em guerras e conheço os sarracenos. Minha cidade de
244
Cruzada •
H. Rider Haggard
Tiberias foi saqueada, meus vassalos foram mortos, minha mulher está pri-
sioneira dentro da cidade, e se não se render não poderá ser resgatada. Mes-
mo assim digo a Vós e aos chefes aqui reunidos, melhor isto do que avançar
no deserto para atacar Saladino. Deixai Tiberias sofrer seu destino, e minha
mulher junto com ela, e salvai vosso exército, que é a última esperança dos
cristãos no Oriente. Cristo não tem mais soldados nestas terras, Jurusalém
não tem outro escudo. O exército do Sultão é maior que o nosso, sua cava-
laria é mais forte. Contornai seu flanco, ou melhor ainda, ficai aqui e aguar-
dai seu ataque, e a vitória será dos soldados de Cristo. Avançai e a visão
daquele cavaleiro do qual muitos aqui zombaram se tornará realidade, e a
causa da Cristandade estará perdida na Síria. É o que queria falar, e pela
última vez.
— Como seu amigo, o Cavaleiro das Visões — disse com escárnio o Gran-
de Mestre, — o conde Raymond é um velho aliado de Saladino. Aceitareis
este conselho covarde? Ataquemos, ataquemos, e derrotemos estes cães pagãos,
ou vivamos para sempre em desonra. Para a frente, em nome da Cruz. A cruz
está do nosso lado!
— Está — respondeu Raymond, — e será pela última vez.
Em seguida aconteceu um tumulto, em que todos gritavam, uns dizendo uma
coisa, outros dizendo outra coisa, enquanto o rei, sentado à cabeceira da mesa,
escondeu o rosto entre as mãos. Um instante depois ergueu o rosto e disse:
— Ordeno que marchemos ao amanhecer. Se o conde Raymond e estes
cavaleiros pensam que a ordem é insensata, que nos deixem e permaneçam
aqui sob vigilância, até que o assunto seja resolvido.
Seguiu-se um profundo silêncio, pois todos os que estavam ali sabiam que
as palavras eram fatídicas. Raymond quebrou o silêncio, dizendo:
— Não, eu vou também. E Godwin atalhou: — Nós também vamos, para
mostrar se somos ou não espiões de Saladino.
Ninguém prestou muita atenção nestas palavras, pois cada um estava
imerso em seus pensamentos. Um a um levantaram-se, curvaram-se para o
rei, e seguiram para suas tendas, para dar as últimas ordens e descansar um
pouco, antes que chegasse a hora de montar os cavalos. Godwin e Wulf saí-
ram também, e com eles o bispo de Nazaré, que esfregava as mãos e parecia
muito inquieto. Mas Wulf o confortou, dizendo:
— Não se preocupe tanto, padre. Pensemos na alegria da batalha, e não
nas tristezas que podem seguir-se a ela.
245
Capítulo 18 •
Wulf paga pelo vinho drogado
— Não vejo nenhuma alegria em batalhas — respondeu o santo Egbert.
Depois de terem dormido um pouco, Godwin e Wulf se levantaram e ali-
mentaram seus cavalos. E depois de os terem lavado e enfeitado, testaram e
colocaram as proteções, e depois os levaram para a fonte para beberem água.
E Wulf, que era bem experiente em guerras, levou quatro odres, que ele tinha
reservado para esta hora, os quais, depois de cheios, foram amarrados com
tiras de couro atrás da sela de cada cavalo, dois odres para cada um. Depois,
encheu os cantis presos ao arção da sela. — Pelo menos seremos dos últimos
a morrer de sede. Então voltaram e observaram todos desfazerem o acampa-
mento, com o coração aflito, pois muitos sabiam do perigo que os envolvia,
principalmente porque a visão de Godwin tinha se espalhado. Sem saber onde
ficar, eles e Egbert, o bispo de Nazaré, — que estava desarmado e montava
uma mula, pois ficar para trás ele não podia — juntaram-se aos outros cava-
leiros que seguiam o rei. Ao fazerem isto, os templários, 500 deles, uma tropa
feroz e garbosa, juntou-se a eles, e o Mestre, que estava à frente, vendo os
irmãos, gritou, apontando para os odres que estavam presos atrás das selas:
— O que fazem estes aguadeiros aqui, entre cavaleiros valentes, que só
acreditam em Deus?
Wulf quis responder, mas Godwin mandou que ficasse em silêncio, falando:
— Fique um pouco para trás. Encontraremos companhia menos agourenta.
Então ficaram de lado, e curvaram-se quando a Cruz passou, sob a guar-
da do bispo de Acre. Atrás vinha Reginald de Chatillon, inimigo de Saladino,
o responsável por toda esta angústia, que os viu e gritou:
— Senhores cavaleiros, a despeito do que eles digam, sei que são homens
de valor, pois ouvi os relatos de sua bravura contra os Assassinos. Há lugar
para os senhores na minha comitiva. Sigam-me.
— Tanto faz ele quanto outro —, falou Godwin. — Vamos deixar que o
destino nos conduza. E o seguiram.
Quando chegaram a Kenna, onde outrora a água foi transformada em
vinho, o sol de julho já estava quente, e a fonte rapidamente secou, de modo
que muitos homens não conseguiram beber. Continuaram então pelo deserto
abaixo, e que ficava entre eles e Tiberias, margeado à direita e à esquerda por
colinas. E começaram a ver nuvens de poeira se movendo pelas planícies, e
entre elas a cavalaria dos sarracenos, que continuamente atacava a vanguar-
da, onde ia o conde Raymond, e da mesma forma continuamente recuava,
antes que pudesse ser contra-atacada, matando muitos com suas lanças e
246
Cruzada •
H. Rider Haggard
flechas. E dava uma volta, e atacavam a retaguarda, onde marchavam os
templários e as tropas com armas leves dos turcópolos, e as tropas de Reginald
de Chatillon, com as quais iam os irmãos.
E do meio-dia até o anoitecer, a longa linha, sob contínuos ataques, e
dividida em pedaços, lutou bravamente tentando avançar pelo terreno pedre-
goso e difícil da planície, com o sol inclemente sobre suas armaduras, até que
o ar começou a dançar como faz diante do fogo. No início da noite homens
e cavalos estavam exaustos, e os soldados suplicavam aos comandantes que
lhes dessem água. Mas naquele lugar não havia água. A retaguarda atrasou-
se, desgastada pelos constantes ataques que precisavam ser repelidos no calor
abrasador, de modo que se formou um grande hiato entre ela e o rei, que
marchava no meio. Mensageiros vieram com ordens para que eles avançassem,
mas eles não podiam. Finalmente as tropas assentaram acampamento perto
de um lugar chamado Marescalcia, mas Raymond e a vanguarda foram for-
çados a retroceder. Godwin e Wulf viram-no vir trazendo os feridos e supli-
cando ao rei que avançasse a qualquer custo até o lago, onde poderiam beber
água. E ouviram o rei dizer que era impossível, pois os soldados não marcha-
riam mais naquele dia. Então Raymond esfregou as mãos em desespero, e
cavalgou de volta até seus homens, falando alto:
— Oh meu Deus, meu Deus! Estamos mortos, e o reino está perdido.
Naquela noite ninguém dormiu, pois todos estavam sedentos, e quem é
capaz de dormir com a garganta seca ardendo de sede? E agora ninguém mais
ria de Godwin e Wulf por causa dos odres que levavam nos cavalos. Em vez
disto, nobres de todos os tipos vinham até eles suplicando pela bênção de
uma única xícara de água. Depois de dar de beber a seus cavalos com a água
de um dos cantis, distribuíram o que puderam, até que ficaram apenas com
dois odres. E um destes foi furado por um ladrão com uma faca, para beber
a água que escorria e que se desperdiçava. Depois disto os irmãos pegaram
as espadas, jurando que matariam qualquer um que tentasse se aproximar
do odre que restava. E durante toda a longa noite ouviu-se um confuso
clamor em todo o acampamento, e cujo refrão parecia ser “Água, água”. E
do outro lado ouviam-se os gritos dos sarracenos invocando Alá. Aqui,
também, o solo quente estava coberto de arbustos transformados em mate-
rial inflamável pela seca de verão, e que eram queimados pelos sarracenos,
para que a fumaça atingisse os cristãos, e os engasgasse, transformando todo
o lugar num inferno.
247
Capítulo 18 •
Wulf paga pelo vinho drogado
O dia raiou finalmente, e o exército foi formado outra vez, para a batalha,
e suas duas alas foram lançadas ao ataque. E lutaram, os que ainda não es-
tavam fracos demais, pois estes morriam estendidos no chão. Mas os sarra-
cenos não contra-atacaram, pois sabiam que o sol era ainda mais forte do
que todas as suas lanças. Mesmo assim, tentaram avançar, em direção aos
poços de água que ficavam ao norte, até que por volta do meio-dia a batalha
começou com uma saraivada de flechas tão intensa que encobriu o céu.
Depois vieram os ataques e contra-ataques, avanço e recuo. E aquele si-
nistro grito implorando por água acima do fragor da batalha. Godwin e Wulf
não sabiam o que estava realmente acontecendo, pois a fumaça e a poeira os
cegavam, e só podiam ver uma pequena faixa. Em seguida houve uma furio-
sa arremetida, e os cavaleiros com quem estavam conseguiram furar uma
coluna de sarracenos e que vinha avançando deixando atrás um trilho de
corpos. Quando puxaram as rédeas e limparam o suor que caía sobre os olhos
viram-se, com milhares de outros, no topo de um monte íngreme, cujos lados
estavam cobertos por arbustos secos que os sarracenos já incendiavam.
— A Cruz! A Cruz! Juntem-se em redor da Cruz!, falou uma voz, e olhan-
do para trás, eles viram o fragmento enegrecido e enfeitado da Cruz verda-
deira erguido sobre uma pedra, e perto o bispo de Acre.
E então começou uma das mais sangrentas batalhas de toda a história
do mundo. Os sarracenos atacavam e atacavam, e eram repetidamente re-
pelidos pela bravura desesperada dos francos. Um homem barbado camba-
leou rumo aos irmãos, a língua de fora da boca, e eles viram que era o
Mestre dos Templários.
— Pelo amor de Cristo, dêem-me água — ele suplicou, reconhecendo que
eram os cavaleiros de quem tinha zombado como aguadeiros.
Eles lhe deram um pouco do pouco que tinham, e enquanto eles e seus
cavalos bebiam o restante, viram quando o Mestre desceu a colina, balan-
çando a espada ensangüentada. Houve então uma pausa, e eles ouviram a
voz do bispo de Nazaré, que tinha ficado junto deles todo este tempo, dizen-
do como se para si mesmo:
— Foi aqui que o Salvador pregou o Sermão da Montanha. Sim, Ele pregou
palavras de paz neste mesmo lugar. Oh Deus, Ele não pode nos desertar, não pode.
E enquanto os sarracenos deram uma trégua, os soldados começaram a
armar a barraca do rei, e junto outras tendas, em volta de onde estava a Cruz.
— Será que pretendem acampar aqui? — perguntou Wulf secamente.
248
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Paz —, respondeu Godwin. — Eles querem fazer uma barreira em volta
da Cruz. Mas não vai adiantar nada, pois este é o lugar do meu sonho.
Wulf balançou os ombros. — Pelo menos morremos lutando.
Então o último ataque começou. Colina acima subiam densos rolos de
fumaça, e com a fumaça vinham os sarracenos. Por três vezes foram repelidos,
e por três vezes atacaram de novo. Na quarta arremetida restavam poucos
dos francos que ainda podiam lutar, pois a sede os tinha vencido nestas coli-
nas secas de Hattin. Ficaram estendidos sobre a grama ressequida, boca
aberta e língua para fora, e deixavam-se ser mortos ou aprisionados. Um
grande grupo da cavalaria sarracena penetrou na linha de defesa e atacou a
barraca escarlate. Ela balançou para um lado e para outro e caiu num mon-
te vermelho, enredando o rei em suas dobras.
Ao pé da Cruz, Rufinus, o bispo de Acre, lutava bravamente. Mas de re-
pente uma flecha o atingiu na garganta e ele caiu por terra, com os braços
abertos. Então os sarracenos correram até a Cruz, elevaram-na do chão, e
com zombarias e cusparadas a levaram colina abaixo, até seu acampamento
e a colocaram perto de onde formigas podiam ser vistas levando minúsculos
gravetos para a sua toca. E os cristãos que tinham sido deixados vivos olha-
vam para cima, como se esperassem um milagre vindo do Céu. Mas nenhum
anjo apareceu no céu bronzeado, e verificando que Deus os tinha desertado,
gemiam alto, sentindo-se miseráveis e envergonhados.
— Venha — falou Godwin para Wulf, com uma voz baixa e mudada. — Já
vimos o suficiente. É hora de morrer. Veja! Abaixo de nós estão os mamelucos,
nosso antigo regimento, e entre eles está Saladino, pois vejo o seu estandarte.
Como bebemos água, e nossos cavalos também, ainda temos forças. Vamos para
um fim que será comentado em Essex. Ataquemos a bandeira de Saladino!
Wulf assentiu, e lado a lado desceram correndo a colina. As cimitarras
reluziam ao seu redor, flechas os atingiam na cota e nos escudos, estes com a
efígie da cabeça de um D’Arcy. Pelas cimitarras e pelas flechas passaram sem
ser feridos, e enquanto o exército de sarracenos observava, ao pé do monte
de Hattin viraram os cavalos e rumaram diretamente para o estandarte de
Saladino. A cada cavalgada derrubavam um inimigo. E avançavam, embora
Flame e Smoke sangrassem por vários ferimentos.
Estavam entre os mamelucos, onde suas vidas estavam por um fio. Mas,
pelos Céus, passaram por eles, rumo à figura do Sultão, montado em seu
cavalo branco, junto de seu filho mais novo e do emir Hassan.
249
Capítulo 18 •
Wulf paga pelo vinho drogado
— Saladino é seu, Hassan é meu —, gritou Wulf.
Então eles ficaram face a face, e todo o exército do Islã gritou em deses-
pero ao ver o Comandante dos Fiéis e seu cavalo caírem ao chão diante da
arremetida desesperada destes cavaleiros cristãos loucos. Mas um instante
depois o Sultão estava novamente de pé, e dezenas de cimitarras avançavam
contra Godwin. Seu cavalo Flame caiu ao chão, morrendo, mas ele saltou da
sela, girando a longa espada. Neste momento Saladino reconheceu o emble-
ma do escudo e gritou:
— Renda-se, Sir Godwin! Lutou muito bem — renda-se!
Mas Godwin, que não se renderia, respondeu:
— Quando estiver morto, não antes.
No ato Saladino falou uma palavra, e enquanto alguns dos seus mamelu-
cos atacavam Godwin pela frente, mas tendo o cuidado de ficar fora do al-
cance de sua espada, outros se colocaram por detrás, e pulando sobre ele,
agarraram seus braços e o jogaram no chão, onde o imobilizaram.
Enquanto isto, com Wulf aconteceu o contrário, pois seu cavalo Smoke foi
mortalmente atingido e caiu, no justo momento em que ele pulava sobre o
príncipe Hassan. Ele se levantou rapidamente, quase sem ferimento, e gritou:
— E agora, Hassan, velho inimigo e amigo, finalmente nos encontramos
na batalha. Venha, vou pagar o que lhe devo pelo vinho drogado, homem a
homem, espada a espada.
— Sem dúvida é uma dívida, Sir Wulf — respondeu o príncipe, rindo.
— Guardas, não toquem neste valente cavaleiro, que tanto fez para me en-
contrar. Sultão, rogo um especial favor. Entre Sir Wulf e eu há uma velha
questão que só pode ser decidida com sangue. Deixe que ela seja decidida
aqui e agora, e que este seja seu decreto: se eu for vencido numa luta justa,
nada deve acontecer ao meu vencedor, e nenhuma vingança será feita pelo
meu sangue.
— Ótimo —, disse Saladino. — Então Sir Wulf será meu prisioneiro, e
nada mais, como seu irmão já é. Devo isto aos homens que salvaram minha
vida quando éramos amigos. Dêem água ao franco, para a luta ser justa.
Então deram a Wulf uma caneca, da qual ele bebeu, e quando se satisfez
ela foi entregue a Godwin. Pois mesmo os mamelucos conheciam e amavam
estes irmãos que tinham sido seus oficiais, e reconheciam o valor do feroz
ataque que tinham feito sozinhos.
Hassan pulou para o chão, dizendo:
250
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Seu cavalo morreu, Sir Wulf, então devemos lutar a pé.
— Generoso como sempre — Wulf riu. — Até o vinho envenenado foi
um presente!
— Sendo assim, pela última vez tenho medo de mim — falou Hassan com
um sorriso.
Então ficaram face a face, e oh! A cena era inusitada. Nas colinas do
monte Hattin a batalha continuava sangrenta. Entre a fumaça e o fogo da
grama em chama, pequenos grupos de soldados se protegiam, lutando costas
contra costas, enquanto os sarracenos os rodeavam, golpeando e ferindo, até
que eles caíam. Aqui e ali cavaleiros atacavam em grupo ou sozinhos, e assim
encontravam a morte ou eram capturados. Na planície milhares de soldados
a pé estavam sendo massacrados, e seus oficiais feitos prisioneiros. Rumo ao
acampamento de Saladino uma companhia avançava com gritos de triunfo,
carregando erguido um negro toco da Cruz Sagrada, enquanto outros con-
duziam milhares de prisioneiros, entre eles o rei e seus cavaleiros.
A terra estava vermelha de sangue, no ar espocavam gritos de vitória, e
gemidos de agonia ou desespero. E lá, no meio de tudo isto, cercado por
atentos sarracenos, estava o emir, vestindo um manto branco por cima da
cota, e o turbante coberto de jóias, fitando o grande cavaleiro cristão com a
couraça avermelhada, o fulgor da batalha brilhando em seus olhos graves, e
um sorriso no rosto manchado.
Para os que observavam, a batalha estava esquecida, ou melhor, o único
interesse nela estava centrado neste ponto.
— Será uma boa luta —, disse um deles a Godwin quando o ajudou a se
levantar. — Pois embora seu irmão seja mais jovem e mais pesado, ele está fe-
rido e cansado, e o emir está descansado e sem ferimentos. Ah! Começaram!
Hassan atacou primeiro, mas o golpe perdeu-se. Atingindo o elmo de
aço de Wulf, a pesada e afiada cimitarra resvalou e cortou as tiras das abas
que pendiam até o seu ombro, fazendo com que o franco vacilasse. Nova-
mente ele golpeou, desta vez sobre o escudo, e tão fortemente que Wulf
ficou de joelhos.
— Seu irmão está perdido — falou o capitão sarraceno para Godwin, mas
Godwin respondeu apenas:
— Espere.
No momento em que ele falava, Wulf girou o corpo para fora do alcance
de um terceiro golpe, e quando Hassan foi para a frente com o peso do golpe
251
Capítulo 18 •
Wulf paga pelo vinho drogado
perdido, Wulf colocou a mão no chão e erguendo-se, correu para trás seis ou
oito passos.
— Ele está fugindo! — gritaram os sarracenos. Mas novamente Godwin
falou: — Espere. E não foi preciso esperar muito.
Pois agora, jogando de lado o escudo e agarrando a longa espada com as
duas mãos, e com um grito de “Um D’Arcy! Um D’Arcy”!, Wulf pulou sobre
Hassan como um leão ferido. A espada girou e desceu, e — Veja! — o escudo
do sarraceno foi dividido em dois. Outra vez a espada desceu, e o elmo foi
partido. Uma terceira vez, e o braço direito e o ombro com a cimitarra pare-
ceram ejetar-se de seu corpo, e Hassan caiu no chão, morrendo.
Wulf pôs-se de pé e olhou para ele, enquanto um murmúrio de lamentação
saiu das bocas dos que observavam, pois todos amavam o emir. Hassan acenou
para o vencedor com a mão esquerda, e atirando a espada ao chão para demons-
trar que não temia uma traição, Wulf foi até ele e ajoelhou-se ao seu lado.
— Um belo golpe — Hassan disse fracamente — que cortou as tiras de
aço duplo de Damasco como se fossem de seda. Bem, como disse há muito
tempo, eu sabia que a hora de nosso encontro na guerra seria uma hora fa-
tídica para mim, e a dívida está paga. Adeus, valente cavaleiro. Gostaria que
pudéssemos nos encontrar no paraíso! Tire aquela jóia em forma de estrela,
o emblema de minha casa, do meu turbante e use-a em minha memória. Que
seus dias sejam numerosos e felizes.
Então, enquanto Wulf o segurava em seus braços, Saladino chegou perto
e falou com Hassan, até que ele caiu para trás e morreu.
Assim morreu Hassan, e assim terminou a batalha de Hattin, que destruiu
o poder dos cristãos no Oriente.
252
Cruzada •
H. Rider Haggard
epois que Hassan morreu, a um sinal de Saladino um capitão dos
mamelucos, de nome Abdullah, desprendeu a jóia do turbante do
emir e a entregou a Wulf. Era uma lindíssima jóia em forma de
estrela, feita com várias esmeraldas cercadas por diamantes, e o capitão
Abdullah, que como todos os orientais gostava de jóias, olhou para ela com
cobiça e murmurou:
— Pena que um infiel vai usar a Estrela, a jóia da Sorte da Casa de
Hassan.
Wulf pegou a jóia, virou-se para Saladino, e disse, apontando para o
corpo de Hassan:
— Terei a sua paz, Sultão, depois disto?
— Não dei a você e ao seu irmão de beber? — perguntou Saladino sério.
— Você está a salvo. Só há um pecado que não lhe perdoarei, e você sabe
qual é — e olhou para os dois. — Quanto a Hassan, era amigo e servo ama-
do, mas você o matou numa luta justa, e sua alma agora está no paraíso.
Ninguém no meu exército terá uma rixa com você por causa disto.
E então indicando que não queria mais falar sobre o assunto com um
aceno de mão, virou-se para receber uma grande quantidade de prisioneiros
cristãos que, andando com dificuldade e cambaleando, estavam sendo con-
duzidos para o acampamento debaixo de xingamentos, golpes e zombaria
por parte dos sarracenos vitoriosos.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 19
Diante das muralhas de Ascalon
A
D
253
Capítulo 19 •
Diante das muralhas de Ascalon
Entre eles estava Egbert, o gentil e santo bispo de Nazaré, e os irmãos se
alegraram em vê-lo, pois pensavam que estivesse morto. E também, ferido
em vários lugares, com a couraça pendendo no corpo como os farrapos de
um mendigo, e a testa manchada de negro, estava o Mestre dos Templários,
que mesmo num instante como este mantinha seu ar insolente e raivoso.
— Então eu estava certo — ele zombou com voz rouca — e você está aqui
com seus amigos, os sarracenos, Sir das visões e dos odres de água.
— E dos quais o senhor pôde beber ainda há pouco —, falou Godwin.
— Além disso — acrescentou com tristeza — a visão ainda não está comple-
ta. E virando-se, olhou para uma tenda com um brasão, e que com o grande
pavilhão de Saladino, e não muito longe, estava sendo montada. O Mestre
olhou, e lembrou-se da visão de Godwin com os templários mortos.
— É lá que tenciona me matar, traidor e feiticeiro? — ele perguntou.
A raiva tomou conta de Godwin, e ele respondeu:
— Se não fossem seus ferimentos, neste instante e aqui eu o faria engolir
estas palavras. E se nós dois sobrevivermos, espero ainda poder fazer isto.
Chama-nos de traidores. É trabalho de um traidor atacar sozinho, por entre
tantos inimigos, até nossos cavalos morrerem debaixo de nós? — e apontou
para o lugar onde Flame e Smoke estavam, olhos vítreos. — E fazer Saladino
cair de seu cavalo e matar este príncipe num combate homem a homem? — e
virou-se para o corpo do emir Hassan, que seus servos estavam carregando.
— O senhor me trata como feiticeiro e assassino — ele continuou — por-
que algum anjo trouxe-me uma visão que, se tivesse acreditado nela, Tem-
plário, o senhor teria salvado dezenas de milhares de uma morte sangrenta,
a Cristandade de sua destruição, e poupado aquela relíquia sagrada da
zombaria — e olhou para a Cruz verdadeira que os vencedores tinham
afixado sobre uma rocha, com um cavaleiro morto amarrado aos seus bra-
ços. — O senhor, Mestre Templário, é que é o assassino que, por sua lou-
cura e ambição, trouxe a ruína para a causa de Cristo, como foi antecipado
pelo Conde Raymond.
— O outro traidor que também escapou —, falou com escárnio.
Neste momento guardas sarracenos o arrastaram, e eles foram separados.
Agora o pavilhão estava montado, e Saladino entrou, dizendo:
— Tragam o rei dos francos e o príncipe Arnat, que é chamado de Reginald
de Chatillon.
Então uma idéia veio-lhe à mente, e chamou Godwin e Wulf, falando:
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
254
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Cavaleiros, os senhores sabem a minha língua; entreguem as espadas
ao guarda — elas serão devolvidas —, e venham, sejam meus intérpretes.
Então os irmãos o seguiram até a tenda, para onde logo foram conduzidos
o infeliz rei e Reginald de Chatillon, e com eles alguns outros nobres cavalei-
ros, os quais, mesmo em meio à angústia, olhavam para Godwin e Wulf com
perplexidade. Saladino percebeu o olhar e explicou, antes que a presença
deles fosse mal interpretada:
— Rei e nobres, não se equivoquem. Estes cavaleiros são meus prisionei-
ros, como vocês também são, e ninguém se mostrou mais valente hoje, ou
infligiu a mim e aos meus mais danos. Na verdade, se não fossem meus guar-
das, há uma hora eu teria morrido sob a espada de Sir Godwin. Mas como
conhecem o árabe, pedi que traduzissem minhas palavras para a sua língua.
Os senhores os aceitam como intérpretes? Se não aceitam, deveremos encon-
trar outros.
Quando eles traduziram, o rei disse que os aceitava, acrescentando para
Godwin:
— Oxalá eu tivesse aceitado os senhores há duas noites como os intérpre-
tes da vontade do Céu!
O Sultão mandou que se sentassem, e percebendo como estavam sedentos,
ordenou que escravos trouxessem uma grande jarra de água de rosas refres-
cada com neve, e com a própria mão passou-a para o rei Guy. Ele bebeu em
grandes goles, e depois passou a jarra para Reginald de Chatillon. Ao ver
isto, Saladino falou alto para Godwin:
— Diga ao rei que é ele quem está dando de beber a este homem. Não há
vínculo de sal entre mim e o príncipe Arnat.
Godwin traduziu, com tristeza, e Reginald, que conhecia os hábitos dos
sarracenos, respondeu:
— Não precisa explicar, senhor cavaleiro, estas palavras são a garantia da
minha morte. Bem, não esperava outra coisa.
Então Saladino falou novamente:
— Príncipe Arnat, o senhor tentou tomar a cidade sagrada de Meca e
violar o túmulo do Profeta, e então eu jurei matá-lo. Outra vez, em tempos
de paz, uma caravana veio do Egito e passou por Esh-Shobek, onde o senhor
estava, e esquecendo um juramento, atacou e matou a todos. Eles pediram
misericórdia, em nome de Alá, dizendo que havia trégua entre sarracenos e
francos. Mas o senhor zombou deles, dizendo que fossem pedir ajuda a
255
Capítulo 19 •
Diante das muralhas de Ascalon
Maomé, em quem confiavam. Então, pela segunda vez jurei matá-lo. Contu-
do, vou lhe dar mais uma oportunidade. O senhor vai abraçar a fé do Alco-
rão ou vai morrer?
Neste momento os lábios de Reginald ficaram pálidos, e por um momento ele
se contorceu na cadeira. Aí a coragem voltou, e ele respondeu com voz firme:
— Sultão, não vou aceitar sua misericórdia a este preço, nem vou me
ajoelhar diante do cão do seu falso profeta, vou morrer na fé de Cristo, e
estando cansado do mundo, estou contente de voltar para Ele.
Saladino ergueu-se com um gesto brusco, a barba eriçada de ódio, e de-
sembainhando o sabre, gritou alto:
— O senhor zomba de Maomé. Vejam! Eu vingo Maomé! Levem-no! — E
o atingiu com a parte chata da lâmina da espada.
Os mamelucos agarraram o príncipe. E arrastando-o até a entrada da
tenda, forçaram-no a ficar de joelhos e lá o decapitaram, à vista dos soldados
e de todos os outros prisioneiros.
Desta forma, com bravura, morreu Reginald de Chatillon, a quem os
sarracenos chamavam Príncipe Arnat. Na agitação que se seguiu à morte
terrível, o rei Guy falou a Godwin:
— Pergunte ao Sultão se eu sou o próximo.
— Não — respondeu Saladino. — Reis não matam reis, mas aquele vio-
lador de trégua recebeu nada mais do que ele merecia.
Então ocorreu uma cena ainda mais terrível. Saladino foi até a porta da
sua tenda, e ao lado do corpo de Reginald, mandou que os guardas trouxes-
sem os prisioneiros templários e hospitaleiros. Foram trazidos mais de 200,
pois era fácil distingui-los por causa das cruzes branca e vermelha no peito.
— Estes também são violadores da fé — ele disse — e vou limpar o mun-
do de suas tribos. Meus emires e doutores da lei — e ele virou-se para os
capitães ao seu lado —, cada um de vocês pegue um deles e o mate.
Os emires recuaram, pois embora fanáticos, eram também valentes, e não
gostavam desta matança de homens indefesos, e até os mamelucos ficaram
insatisfeitos.
Mas Saladino falou firmemente outra vez:
— Eles merecem a morte, e aquele que desobedecer meu comando vai
morrer também.
— Sultão — falou Godwin — não podemos testemunhar um crime destes.
Rogamos morrer com eles.
256
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Não — ele respondeu — vocês comeram do meu sal, e matá-los seria
assassinato. Vá à tenda da princesa de Baalbec, pois de lá não verão nada das
mortes destes francos, seus irmãos de fé.
Então os irmãos se viraram e, conduzidos por um mameluco, saíram
horrorizados pela primeira vez em suas vidas, passando pela longa fila de
templários e de hospitaleiros, os quais, na última luz avermelhada do dia que
terminava estavam ajoelhados na areia e rezavam, enquanto os emires se
aproximavam para matá-los.
Os irmãos entraram na tenda, pois ninguém os impediu, e no fundo viram
duas mulheres agachadas sobre algumas almofadas. Elas se levantaram, am-
parando-se uma na outra. Então elas os viram e correram até eles com um
grito de alegria, dizendo:
— Vocês estão vivos! Estão vivos!
— Sim, Rosamund — respondeu Godwin — para ver esta vergonha.
Oxalá Deus nos tivesse poupado — ver pessoas sendo mortas. Mataram os
cavaleiros das ordens sagradas. Ajoelhem-se e rezem pelas suas almas.
Então elas se ajoelharam e rezaram até que a confusão terminasse, e per-
cebessem que tudo tinha acabado.
— Oh, meu primos — falou Rosamund, pondo-se de pé finalmente — que
mundo de maldade e de matanças é este em que vivemos! Salvem-me dele, se
me amam — suplico que me salvem!
— Vamos fazer o que pudermos —, eles responderam. — Mas não falemos
mais destas coisas, que são um desígnio de Deus, a não ser que queiramos
ficar loucos. Conte-nos sua história.
Mas Rosamund tinha pouco o que contar, exceto que tinha sido bem
tratada, e sempre cuidada pelo próprio Sultão, indo e vindo com seu exérci-
to, pois ele aguardava a realização do sonho através dela. Depois eles conta-
ram tudo o que tinha acontecido com eles, e também a visão de Godwin e
sua terrível constatação, e da morte de Hassan pela espada de Wulf. Ao ouvir,
Rosamund chorou e encolheu-se um pouco, pois embora tivesse sido o prín-
cipe que a roubou de sua casa, ela gostava de Hassan. E quando Wulf disse
humildemente:
— A culpa não foi minha, estava escrito. Gostaria que eu tivesse morrido
no lugar do sarraceno?
Rosamund respondeu: — Não, não, estou orgulhosa de que você tenha
sido o vencedor.
257
Capítulo 19 •
Diante das muralhas de Ascalon
Mas Wulf balançou a cabeça e disse:
— Não estou orgulhoso. Embora cansado por causa de uma luta terrível,
eu era mais jovem e mais forte, mesmo que no início ele tenha me surpreen-
dido com sua habilidade e sua rapidez. Pelo menos nos despedimos amigos.
Veja o que ele me deu — e mostrou o grande broche de esmeralda que o
príncipe tinha lhe dado.
Masouda, que durante todo este tempo tinha ficado calada, sentada,
aproximou-se e olhou o broche.
— Você sabe — ela perguntou — que esta jóia é muito famosa, não ape-
nas pelo seu valor, mas porque se acredita que tenha pertencido a um dos
filhos do profeta, e que traz boa sorte ao seu possuidor?
Wulf sorriu.
— Mas trouxe pouca sorte ao pobre Hassan, agora, quando a espada de
meus antepassados rasgou o aço de Damasco como se fosse barro.
— E o enviou rapidamente para o paraíso, onde ele deve estar, pelas mãos
de um inimigo valente — respondeu Masouda. — Durante toda a sua vida
este emir foi feliz e amado, por seus súditos, suas esposas, seus companheiros
e servos. E não acho que teria desejado um outro fim, pois queria morrer
numa batalha com os francos. E não existe nenhum soldado nos exércitos do
Sultão que não daria tudo o que tem por esta pequena jóia, que é conhecida
em todo lugar como a Estrela de Hassan. Portanto, tenha cuidado, Sir Wulf,
ou será roubado ou assassinado, embora tenha comido do sal de Saladino.
— Lembro-me de ver o capitão Abdullah olhando para ela com cobiça, e
lamentando que a Sorte da Casa de Hassan fosse dada a um infiel — falou
Wulf. — Bom, chega desta jóia e de seus perigos. Acho que Godwin tem al-
guma coisa para falar.
— Tenho —, falou Godwin. — Estamos aqui em sua tenda em virtude da
bondade de Saladino, que não quis que tivéssemos presenciado a morte de
camaradas, mas amanhã vamos nos separar novamente. Agora, se pretendem
escapar...
— Eu vou escapar! Preciso escapar, mesmo que seja recapturada e morra
por causa disso — atalhou Rosamund com paixão.
— Fale baixo — disse Masouda. — Vi o eunuco Mesrour passar pela
porta da tenda, e ele é um espião — todos são espiões.
— Se você pretende escapar — falou Godwin num sussurro, — é preciso
que seja nas próximas semanas, enquanto o exército está em movimento. O
258
Cruzada •
H. Rider Haggard
risco é grande para todos nós, mesmo para vocês, e precisamos planejar. Mas
Masouda, você é experiente, arquitete um plano e nos diga.
Ela levantou a cabeça para falar, e neste momento uma sombra se projetou
sobre eles. Era do eunuco Mesrour, um homem gordo, de rosto esperto, e um
olhar servil. Ele se curvou diante deles, dizendo:
— Com licença, Princesa. Veio um mensageiro de Saladino, exigindo a
presença destes cavaleiros no banquete que está sendo preparado para os
nobres prisioneiros.
— Obedecemos — falou Godwin, e levantando-se curvaram-se para Ro-
samund, e viraram-se para sair, deixando a jóia em forma de estrela onde
tinham estado sentados.
Muito habilmente, Mesrour cobriu-a com uma dobra de seu manto, e
protegido pela dobra, escorregou sua mão e a agarrou, não percebendo que,
embora estivesse de lado, Masouda o estava observando com o canto dos
olhos. Esperando até que os irmãos atingissem a porta, ela chamou:
— Sir Wulf, o senhor já está cansado da Estrela da Sorte, ou a está dei-
xando para nós?
Wulf virou-se, e falou:
— Esqueci a jóia. Quem não esqueceria num tempo destes? Onde está?
Deixei-a no sofá.
— Tente a mão de Mesrour — disse Masouda, e imediatamente, com um
sorriso ladino, o eunuco a mostrou, e falou:
— Queria mostrar-lhe, Sir, que o senhor deve ser muito cuidadoso com
uma jóia destas, especialmente no acampamento, onde há muitas pessoas
desonestas.
— Obrigado — respondeu Wulf pegando a jóia — você me mostrou. E
seguidos pelo som de uma risada de zombaria de Masouda, eles deixaram
a tenda.
O mensageiro do Sultão os conduziu, por entre o chão coalhado de cor-
pos dos templários e dos hospitaleiros assassinados, da mesma forma que
Godwin os tinha visto em seu sonho no topo da montanha perto de Nazaré.
Na escuridão Godwin tropeçou num destes corpos, e acabou caindo de joe-
lhos. Procurou ver o rosto à luz do luar, e viu que era de um cavaleiro de
quem tinha se tornado amigo em Jerusalém — um francês muito educado,
que tinha abandonado sua posição e muitas terras para unir-se à ordem
pelo amor de Cristo e pela caridade. E esta tinha sido a sua recompensa na
259
Capítulo 19 •
Diante das muralhas de Ascalon
terra — ser golpeado a sangue frio, como um boi é golpeado pelo açouguei-
ro. Fazendo uma prece pela alma do cavaleiro, Godwin levantou-se, cheio
de horror, e seguiu para o pavilhão real, perguntando-se por que essas coi-
sas aconteciam.
De todos os banquetes a que tinham comparecido, os irmãos acharam este
o mais estranho e o mais triste. Saladino estava sentado à cabeceira da mesa,
com guardas e oficiais de pé atrás dele. De cada prato que era trazido ele
comia uma pequena porção, para mostrar que não estava envenenado. Não
distante dele sentava-se o rei de Jerusalém e seu irmão, e no resto da mesa os
nobres prisioneiros, em número de 50 ou mais. Triste espetáculo era ver estes
valentes cavaleiros, em suas couraças rasgadas e sujas, os rostos pálidos,
também, e olhos ainda horrorizados com o espetáculo que tinham acabado
de ver. Mesmo assim, comiam vorazmente, pois agora que sua sede tinha sido
aplacada, estavam famintos. Trinta mil cristãos jaziam mortos no topo e nas
planícies de Hattin. O reino de Jerusalém tinha sido destruído. A Cruz Ver-
dadeira tinha sido tomada como um troféu. Duzentos cavaleiros das Ordens
sagradas estavam a poucos metros de distância, assassinados cruelmente
pelos mesmos emires e doutores da lei que estavam ali sentados, com ar gra-
ve e silenciosos, atrás da mesa de seu Mestre, prontos para qualquer ordem
de seu chefe cruento. Derrotados, envergonhados, desolados, eles ainda co-
miam, pois eram humanos, confortando-se com o pensamento de que, pela
lei dos árabes, por terem comido, pelo menos suas vidas seriam poupadas.
Saladino chamou Godwin e Wulf até ele, para funcionarem como intérpre-
tes, e lhes deu comida, que eles também comeram, pois estavam com fome.
— Vocês viram sua prima, a princesa? — ele perguntou. — E como está ela?
E lembrando-se dos corpos que tinham visto caídos do lado de fora da
tenda, e olhando para estes infelizes presentes ao banquete, a raiva tomou
conta de Godwin, e ele respondeu secamente:
— Senhor, a encontramos horrorizada com as visões e os sons da batalha.
Envergonhada de saber que seu tio, o poderoso conquistador do Oriente,
tinha assassinado 200 homens desarmados.
Wulf tremeu ao ouvir estas palavras, mas Saladino não demonstrou ne-
nhuma raiva.
— Sem dúvida — ele falou — ela acha que sou cruel, e vocês também
acham que sou cruel, um déspota que se delicia com a morte de seus inimigos.
Mas não é assim, pois quero a paz e poupar vidas. São vocês, cristãos, que
260
Cruzada •
H. Rider Haggard
há mais de cem anos encharcaram estas areias com sangue, porque dizem que
querem possuir as terras onde seu profeta viveu e morreu há mais de 11 sé-
culos. Quantos sarracenos vocês assassinaram?
— Centenas de milhares. Além disso, com vocês a paz não é paz. Estas
ordens que destruí esta noite romperam a paz dezenas de vezes. Bem, não
vou suportar mais. Alá deu a mim e a meus exércitos a vitória, e vou tomar
suas cidades e jogar os francos no mar. Que eles busquem suas terras e vene-
rem seu Deus à sua própria maneira, e deixem o Oriente em calma.
— Agora, Sir Godwin, diga a estes prisioneiros em meu nome que amanhã
os que não estão feridos serão enviados a Damasco, para aguardar lá o res-
gate, enquanto vou sitiar Jerusalém e outras cidades cristãs. Que não tenham
medo, já esvaziei o cálice do meu ódio. Nenhum mais será morto, e o prega-
dor de sua fé, o bispo de Nazaré, ficará com os feridos, para confortá-los com
seus próprios ritos.
Então Godwin levantou-se e fez o comunicado, e eles não disseram uma
palavra, pois tinham perdido toda a esperança e a coragem.
Depois ele perguntou se ele e seu irmão também seriam enviados a
Damasco.
Saladino respondeu: — Não, vocês ficarão aqui por enquanto, como meus
intérpretes, e depois poderão partir, sem resgate.
No dia seguinte, como ficara estabelecido, os prisioneiros foram enviados
a Damasco, e naquele dia Saladino tomou o castelo de Tiberias, colocando
em liberdade Eschiva, a mulher de Raymond, e seus filhos. Depois se dirigiu
a Acre, que também tomou, libertando 400 muçulmanos presos, e em segui-
da tomou outras cidades, até que chegou a Ascalon
57
, que sitiou, usando as
catapultas contra as muralhas.
A noite estava escura do lado de fora de Ascalon, exceto quando os re-
lâmpagos da tempestade que vinha das montanhas em direção ao mar a
iluminavam, mostrando as milhares de tendas brancas em redor da cidade,
as muralhas e as sentinelas que as observavam, as palmeiras altas apontadas
para o céu, as imponentes montanhas geladas do Líbano, e em volta de tudo
as ondas bravias do oceano. No pequeno espaço do jardim de uma casa vazia
do lado de fora das muralhas, um homem e uma mulher conversavam, ambos
vestidos com mantos negros. Eram Masouda e Godwin.
— Bem — falou Godwin, aflito. — Está tudo pronto?
Ela concordou com a cabeça e respondeu:
261
Capítulo 19 •
Diante das muralhas de Ascalon
— Finalmente, tudo. Amanhã ao meio-dia será feito um ataque contra
Ascalon, e mesmo que ela seja tomada o acampamento não será removido
até a noite. Haverá grande confusão, e Abdullah, que está um pouco adoen-
tado, será o capitão da guarda da tenda da princesa. Ele vai permitir que os
soldados saiam para ver o saque da cidade, e eles não vão traí-lo. Ao cair da
tarde só um eunuco estará de vigia, Mesrour, e vou achar meios de colocá-lo
para dormir. Abdullah trará a princesa para este jardim, disfarçada como seu
filho, e aqui vocês dois e eu vamos nos encontrar.
— E depois? — perguntou Godwin.
— Você se lembra do velho árabe que lhes vendeu os cavalos Flame e
Smoke, e não quis receber nada por eles, e que era chamado de Filho da Areia?
Bem, como você sabe, ele é meu tio, e tem mais cavalos daquela raça. Estive
com ele, e ele está muito satisfeito com as histórias que se contam de Flame
e Smoke, e dos cavaleiros que os montaram, e particularmente com a manei-
ra como encontraram o fim, que ele entende que trouxe honra e crédito para
seu sangue. Ao pé do jardim há uma caverna, que outrora foi um sepulcro.
Lá encontraremos os cavalos — quatro deles — e com eles o meu tio, e na
primeira luz da manhã estaremos a 100 quilômetros de distância, escondidos
em sua tribo, até que possamos ir para a costa e tomar um navio cristão. Está
satisfeito?
— Muito, mas qual é o preço de Abdullah?
— Só um, a estrela encantada, a Sorte da Casa de Hassan, pois não cor-
reria este risco por nada mais. Será que Sir Wulf vai dar?
— Claro — respondeu Godwin com uma risada.
— Ótimo, então tem que ser esta noite. Quando eu retornar vou mandar
Abdullah até sua tenda. Não tenha medo, se ele pegar a jóia ele vai falar o
preço, pois de outra forma ele acha que ela vai lhe trazer má sorte.
— Rosamund está sabendo? — perguntou Godwin outra vez.
Ela balançou a cabeça.
— Não, ela está louca para escapar, não pensa em mais nada durante todo
o tempo. Mas qual a vantagem de contar antes da hora? Quanto menos se
souber num caso destes é melhor, pois se alguma coisa acontecer de errado,
é melhor que ela seja inocente, senão…
— A morte, e adeus para tudo — falou Godwin — mas não ficarei triste
de me despedir. Agora, Masouda, você corre um grande perigo. Diga-me,
honestamente, por que faz isso?
262
Cruzada •
H. Rider Haggard
No momento em que falava um relâmpago cruzou o céu e mostrou seu
rosto contra folhas verdes e flores-de-lis. Havia um ar estranho nele, que fez
Godwin sentir medo, sem saber do quê.
— Por que os levei para minha estalagem lá em Beirute, quando eram os
peregrinos Peter e John? Por que lhes consegui os melhores cavalos da Síria
e os guiei até Al-je-bal? E por que várias vezes enfrentei uma morte cruel por
vocês, lá? Por que salvei vocês três? E por que, depois de tanta canseira, eu,
que nasci nobre, me tornei motivo de zombarias de soldados e criada da
princesa de Baalbec?
— Preciso responder? — ela continuou rindo. — Sem dúvida, no princípio
porque era agente de Sinan, encarregada de trair tais cavaleiros e levá-los até
ele, e porque depois meu coração encheu-se de piedade e amor por — lady
Rosamund.
Outra vez um relâmpago cruzou o céu, e desta vez o olhar estranho tinha
passado do rosto de Masouda para o de Godwin.
— Masouda — ele falou num sussurro — oh, não pense que sou um tolo,
mas é melhor que saibamos a verdade, diga-me, será que, como às vezes
senti...
— Medo? — atalhou Masouda com seu risinho de zombaria. — Sir Godwin,
é assim. O que a sua fé ensina, fé na qual fui criada, e que depois perdi, mas
que agora é minha de novo, por que é a sua? Que homens e mulheres são
livres, ou alguns acham que são? Bem, estão enganados. Não somos livres.
Eu era livre quando pela primeira vez vi seus olhos em Beirute, olhos pelos
quais esperei toda a minha vida, e que algumas vezes me olharam da mesma
forma, e eu — um brinquedinho de Sinan — e que desde então o amei, amei,
amei, para minha desgraça? Sim, alegre-se que foi assim, e que é assim, e que
não vou escolher outro destino, pois neste amor descobri que há um sentido
nesta vida, e que esta é a resposta para as outras vidas, mesmo que não sejam
aqui. Não, não fale. Mas Sir Godwin, uma mulher como Rosamund não pode
amar dois homens — e ao falar, Masouda tentou observar seu rosto.
— Então você sabe o que sei há muito tempo — ele falou — tanto tempo
que minha tristeza se perdeu na esperança da alegria de meu irmão. Além
disso, é melhor que ela tenha escolhido o melhor cavaleiro.
— Algumas vezes — disse Masouda pensativa — algumas vezes observei
lady Rosamund, e disse para mim mesma “O que lhe falta? Você é bonita, você
é bem nascida, você é instruída, você é valente, você é boa”. Então eu respon-
263
Capítulo 19 •
Diante das muralhas de Ascalon
di “Falta sabedoria e ver melhor, pois de outra forma não teria escolhido Wulf,
se poderia escolher Godwin. Ou talvez seus olhos sejam cegos”.
— Não fale assim de alguém que é melhor que eu em tudo, rogo-lhe — fa-
lou Godwin com uma voz aborrecida.
— Você quer dizer cujos braços são talvez um pouco mais fortes, e quem
com um golpe poderia matar mais alguns sarracenos. Bem, é preciso mais
que força para fazer um homem — é preciso acrescentar estofo.
— Masouda — continuou Godwin, ignorando suas palavras — embora
possamos supor sua decisão, nossa lady não falou nada ainda. Também, Wulf
pode morrer, e então vou tomar o seu lugar da melhor forma que puder. Não
sou um homem livre, Masouda.
— Os doentes de amor não são nunca livres — ela respondeu.
— Não tenho o direito de amar uma mulher que ama meu irmão. Para
ela só posso dar minha amizade e minha reverência — nada mais.
— Ela não declarou que ama seu irmão. Podemos estar enganados. Você
é quem diz, não eu.
— E podemos estar certos. E daí?
— Neste caso — respondeu Masouda — há muitas Ordens religiosas, ou
conventos, para os que desejam estes lugares, como você deseja, no fundo do
coração. Não falemos mais destas coisas que podem ser ou podem não ser.
Volte para sua tenda, Sir Godwin, para onde vou mandar Abdullah, para
receber a jóia. Então, adeus, adeus.
Ele pegou a mão que ela estendia, hesitou um momento, depois a levou
até os lábios, e saiu. Estava fria como a de um cadáver, e caiu ao lado do
corpo como a de um cadáver. Masouda recuou para entre as folhas do jardim,
como se quisesse se esconder dele e de todo o mundo. Assim que tinha dado
alguns passos, oito ou dez talvez, Godwin virou-se e olhou para trás, e na-
quele momento houve um grande relâmpago. No clarão ele viu Masouda de
pé, braços estendidos, pálida, rosto para cima, olhos fechados, lábios entre-
abertos. Iluminado pela luminosidade, seu rosto parecia o de um morto re-
cente, e os ramos da flor-de-lis que cobriam seu manto negro — uma
mortalha — pareciam filetes de sangue fresco.
Godwin estremeceu um pouco e seguiu seu caminho. Mas ao penetrar na
escuridão da noite, Masouda disse para si mesma:
— Se eu tivesse tentado mais sua bondade e piedade, acho que teria me
oferecido seu coração, depois que Rosamund tivesse feito a escolha. Não, seu
264
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Cruzada •
H. Rider Haggard
coração não, pois ele não está na terra, mas sua mão e sua lealdade. E sen-
do honrado como é, manteria a promessa, e eu, que já passei pelo harém
de Al-je-bal, talvez ainda pudesse me tornar lady D’Arcy, e viver minha vida
e tratar dos filhos dele. Não, Sir Godwin, só quando você me amar, não antes,
e você nunca me amará antes de eu morrer.
Pegando um galho de flores-de-lis na mão, a mão que ele tinha beijado,
Masouda o pressionou convulsivamente contra o peito, até que o líquido
escorreu das flores vermelhas esmagadas e manchasse seu manto como uma
ferida. Então ela se enfiou debaixo da tempestade e da escuridão.
265
Capítulo 19 •
Diante das muralhas de Ascalon
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 20
A Sorte da Estrela de Hassan
U
A
ma hora mais tarde o capitão Abdullah podia ser visto andando
distraidamente em direção à tenda onde os irmãos dormiam. E se
alguém tivesse interesse em ver, alguma coisa a mais poderia ser
vista naquele luar, pois agora a tempestade e a chuva forte que tinha se seguido
tinham passado. Por exemplo, a forma gorda do eunuco Mesrour, seguindo-o
vestido com uma capa escura de pele de camelo, como eram comumente usadas
pelos auxiliares dos acampamentos, e escondendo-se atrás de cada pedra ou
arbusto ou elevação do terreno. Escondido entre alguns dromedários amarrados
em estacas, ele viu Abdullah entrar na tenda dos irmãos, e aguardando que
passasse uma nuvem encobrindo a lua, Mesrour correu para a tenda, sem ser
visto, e atirando-se ao chão lá ficou como um bêbado, ouvindo com atenção.
Mas a lona estava molhada, e as cordas e o valo em volta da tenda não permi-
tiram que ele, que não gostava de água, encostasse a cabeça para ouvir melhor.
Além disso, os que estavam lá dentro falavam baixo, e ele só conseguia ouvir
algumas palavras, tais como “jardim”, “a estrela”, “princesa”.
Mas tudo parecia tão importante que ele afinal engatinhou por entre as
cordas, e mesmo tremendo de frio, esgueirou-se pelo valo cheio de água e
com a ponta afiada de sua faca fez um corte na lona. E olhou por ele, para
descobrir que não servia para nada, pois não havia luz na tenda. Mas lá
havia homens falando na escuridão.
— Ótimo — disse uma voz — era de um dos irmãos, mas qual ele não
sabia dizer, pois mesmo para os que os conheciam muito bem era difícil distinguir.
266
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Ótimo, então está acertado. Amanhã, na hora marcada, você traz a prin-
cesa ao lugar combinado, disfarçada como você disse. Como pagamento por
este serviço dou-lhe a Sorte de Hassan, que você tanto deseja. Tome, aqui
está, e jure fazer a sua parte, pois senão ela não lhe trará nenhuma sorte, pois
o matarei na primeira vez que o vir, e o outro também.
— Juro por Alá e seu profeta — respondeu Abdullah com uma voz rouca
e trêmula.
— É suficiente, mas não vá descumprir o juramento. E agora ande, não é
aconselhável esperar aqui.
Então se ouviu o som de um homem saindo da tenda. Dando a volta
cuidadosamente ele parou, e abrindo a mão, olhou o que ela segurava para
certificar-se de que não tinha havido nenhum truque na escuridão. Mesrour
virou a cabeça o quanto pôde para olhar também, e viu um fraco brilho na
superfície da esplêndida jóia que, ele também, desejava tanto. Ao fazer isto
seu pé atingiu uma pedra e, instantaneamente, Abdullah olhou para o chão,
e viu um morto ou um bêbado estendido quase aos seus pés. Com um rápido
movimento ele escondeu a jóia e começou a andar. Mas pensando que seria
melhor ter certeza de que o homem estava morto ou bêbado, ele voltou e
chutou Mesrour nas costas, e com toda a força. Na verdade chutou três vezes,
provocando uma grande agonia no eunuco.
— Pensei que ele tinha se movido — Abdullah murmurou depois do ter-
ceiro chute. — É melhor ter certeza — e pegou a faca.
Neste momento, se o terror não o tivesse paralisado, Mesrour teria ber-
rado, mas por sorte dele, antes que a voz voltasse, Abdullah cravou a faca
sete centímetros na sua coxa gorda. Com um enorme esforço, Mesrour su-
portou isto também, sabendo que se mostrasse qualquer sinal de vida o
próximo golpe seria no coração. Então, satisfeito de ver que o sujeito ou
estava morto ou inconsciente, Abdullah retirou a faca, limpou-a com o man-
to da vítima e foi embora.
Não muito depois Mesrour foi embora também, na direção da casa do
Sultão gritando de raiva e de dor, e jurando vingança.
E ela não demorou muito.
Naquela mesma noite Abdullah foi preso e interrogado. Angustiado,
confessou que tinha estado na tenda dos irmãos e recebido de um deles a jóia
que tinha sido encontrada com ele, como suborno para levar a princesa a um
certo jardim, fora do acampamento. Depois, quando lhe perguntaram qual
267
Capítulo 20 •
A Sorte da Estrela de Hassan
dos irmãos o tinha subornado, disse que não sabia, pois suas vozes eram
idênticas, e a tenda estava escura. E que acreditava que só havia um homem
na tenda — pelo menos não viu nem ouviu outro. Acrescentou que tinha sido
convocado à tenda por um árabe que nunca tinha visto antes, mas que lhe
dissera que se quisesse ter o que mais desejava, além de boa sorte, deveria
estar lá a uma determinada hora depois do amanhecer. Então desmaiou, e foi
levado de volta à prisão até a manhã, por ordem de Saladino.
Quando a manhã chegou Abdullah estava morto, pois não desejava sofrer
mais e ter o fim prenunciado, e resolveu fazer uma alteração, estrangulando-
se com o manto. Mas antes escreveu com carvão na parede:
“Que esta amaldiçoada Estrela de Hassan, que me tentou tanto, possa
trazer sorte a outros, e que o inferno receba a alma de Mesrour”.
Assim morreu Abdullah, fiel até quanto podia ser, nestas horas difíceis,
pois não tinha traído nem Masouda nem seu filho, os quais estavam nesta
conspiração, e que tinha dito que apenas um dos irmãos estava na tenda,
quando sabia bem que os dois estavam lá, e quem lhe tinha dado a jóia.
Bem cedo naquela manhã, os irmãos, que estavam deitados, mas vigilan-
tes, ouviram sons do lado de fora de sua tenda, e olhando para fora viram
que ela estava cercada por mamelucos.
— O plano foi descoberto — disse Godwin para Wulf com calma, mas
mostrando desespero no rosto. — Agora, irmão, não admita nada, mesmo
sob tortura, ou outros vão morrer conosco.
— Devemos lutar? — perguntou Wulf quando vestiam as cotas.
Mas Godwin respondeu:
— Não, não ia servir de nada matar alguns homens valentes.
Então um oficial entrou na tenda e mandou que deixassem as espadas e
o seguissem até a presença de Saladino para responder a uma acusação que
tinha sido feita contra os dois, e que não ia falar mais nada. Foram, como
prisioneiros, e depois de esperar algum tempo, foram conduzidos a uma
grande sala na casa onde Saladino estava alojado, e que estava preparada
para julgamento, com uma plataforma na extremidade. Foram colocados
diante da plataforma, até que logo Saladino entrou pela porta do outro
lado, acompanhado de alguns emires e secretários. E também Rosamund,
muito pálida, e Masouda, com o rosto impassível como sempre.
Os irmãos se curvaram quando todos entraram, mas Saladino, cujos olhos
demonstravam muita raiva, não deu atenção à saudação. Por um momento
268
Cruzada •
H. Rider Haggard
houve silêncio, e então Saladino pediu a um secretário que lesse a acusação, que
era curta. Dizia que tinham conspirado para roubar a princesa de Baalbeec.
— E onde estão as provas contra nós? — perguntou Godwin atrevida-
mente. — O Sultão é justo, e não condena ninguém sem testemunho.
Outra vez Saladino acenou para o secretário, que leu o depoimento que
tinha partido dos lábios de capitão Abdullah. Os irmãos solicitaram que lhes
fosse permitido ver o capitão Abdullah, e ficaram sabendo que ele estava
morto. Então o eunuco Mesrour foi trazido carregado à sala, pois não podia
andar, em virtude do ferimento provocado por Abdullah, e contou a sua
história, como tinha suspeitado de Abdullah e, seguindo-o, o tinha ouvido
falando com um dos irmãos dentro da tenda, e o que falaram, e depois visto
Abdullah com a jóia na mão.
Quando ele terminou, Godwin perguntou qual dos dois ele tinha ouvido
falando com Abdullah, e ele respondeu que não podia dizer, pois as vozes
eram muito parecidas, mas que apenas uma voz tinha falado.
Então Rosamund foi solicitada a dar seu testemunho, e afirmou, com
razão, que não sabia de nada da conspiração e que não tinha nada a ver com
a fuga. Masouda também jurou que estava ouvindo a história pela primeira
vez. Depois disso o secretário anunciou que não havia mais testemunhos, e
rogou ao Sultão que anunciasse sua decisão.
— Contra qual de nós — perguntou Godwin — já que tanto a testemunha
morta quanto a outra disseram que só ouviram uma voz, e que não sabiam
de quem era a voz? De acordo com sua própria lei, o Sultão não condena
ninguém sem um bom testemunho.
— Há testemunho contra um de vocês — respondeu Saladino com seve-
ridade — e dois testemunhos, como requer a lei, e alertei a vocês há muito
tempo que num caso como este o culpado morreria. Na verdade, os dois
devem morrer, pois tenho certeza de que são culpados. Contudo, foram a
julgamento de acordo com a lei, e como um juiz justo, não vou aplicar a lei
em excesso. O culpado será morto por decapitação ao escurecer, na mesma
hora em que o crime seria cometido. O outro ficará livre para ir com os ci-
dadãos de Jerusalém que partem hoje à noite, levando minha mensagem aos
líderes francos daquela cidade santa.
— E qual de nós, então, vai morrer, e qual ficará livre? — perguntou Godwin.
— Diga-nos, para que aquele que for o condenado possa preparar sua alma.
— Diga você, que sabe a verdade —, respondeu Saladino.
269
Capítulo 20 •
A Sorte da Estrela de Hassan
— Não admitimos nada — falou Godwin — mas se é para um de nós
morrer, eu, como mais velho, reclamo este direito.
— E eu reclamo como o mais novo. A jóia foi um presente de Hassan para
mim, e quem mais poderia tê-la entregue a Abdullah? — acrescentou Wulf,
falando pela primeira vez. Neste momento, todos os emires lá reunidos, ho-
mens valentes que amavam tais atos de bravura, murmuraram em admiração,
e até Saladino falou:
— Belas palavras, as dos dois. Então parece que os dois vão morrer.
Rosamund então se adiantou e jogando-se de joelhos diante dele, exclamou:
— Senhor, meu tio, esta não é sua justiça, matar dois pelo crime de um, se
é que houve crime. Se não sabe qual é o culpado, poupe os dois, rogo-lhe.
O Sultão estendeu a mão e a fez levantar-se, pensou um pouco, e falou:
— Não, não me peça, pois por mais que você o ame, o culpado deve ser
punido, como merece. Mas só Alá sabe a verdade, deixemos portanto que
Alá decida — e descansou a cabeça na mão, olhando para Wulf e Godwin,
como se estivesse querendo desvendar suas almas.
Atrás de Saladino estava aquele velho e famoso imã que estivera com ele
e com Hassan quando tinha ordenado aos irmãos que partissem de Damasco,
e que durante todo o tempo escutara tudo com um sorriso amargo. Inclinan-
do-se à frente ele sussurrou alguma coisa no ouvido do Mestre, que pensou
um momento e depois respondeu:
— Boa idéia. Faça isso.
Então o imã deixou a sala e retornou logo trazendo duas pequenas caixas
de sândalo amarradas com um fio de seda e lacradas, de um modo que nin-
guém seria capaz de diferenciá-las, e que ele continuamente passava da mão
direita para a mão esquerda e da mão esquerda para a mão direita, e depois
entregou a Saladino.
— Numa destas — falou o Sultão — está aquela jóia conhecida como a
Estrela Encantada da Sorte da Casa de Hassan, que o príncipe presenteou ao
seu vencedor naquele dia em Hattin, e por cuja cobiça meu capitão Abdullah
tornou-se um traidor e foi morto. Na outra está um seixo do mesmo peso.
Venha, minha sobrinha, pegue estas caixas e dê-as aos seus parentes, a cada
um a caixa que você quiser. A jóia que é chamada de Sorte da Casa de Hassan
é mágica, e tem virtudes, segundo dizem. Portanto, deixe que ela escolha qual
destes cavaleiros está pronto para a morte, aquele que escolher a caixa em
que a jóia está.
270
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Agora — sussurrou o imã no ouvido do Mestre — agora vamos final-
mente saber qual destes dois homens a princesa ama.
— Isto é o que eu desejo saber — respondeu Saladino também com um
sussurro.
Ao ouvir o decreto, Rosamund olhou em volta raivosa e suplicou:
— Oh! Não seja tão cruel. Rogo que me poupe desta tarefa. Que seja
outra mão a escolhida para levar a morte a um destes dois cavaleiros que são
meu sangue, e com quem convivo desde a infância. Não permita que eu seja
a espada cega do destino que libera seu espírito, para que ele não assombre
meus sonhos e transforme todo meu mundo em aflição. Poupe-me, suplico.
Mas Saladino olhou-a muito sério e respondeu:
— Princesa, você sabe por que a trouxe para o Oriente e dei-lhe grandes
honras aqui, e também por que a fiz acompanhar-me nestas guerras. É por
causa de meus sonhos, sonhos que me disseram que por algum ato nobre seu
as vidas de milhares seriam salvas. Mesmo assim tenho certeza de que pre-
tende fugir, e conspirações são armadas para tirá-la de mim, embora destas
conspirações você afirme não saber nada, e esta mulher — e ele olhou para
Masouda — também não sabe de nada. Mas estes homens sabem, e é justo
que você, para quem, se não sob o seu comando, esta conspiração foi plane-
jada, seja a responsável pela recompensa, e que o sangue daquele que você
apontar, e que vai ser derramado em seu amor, recaia sobre sua cabeça, e de
ninguém mais. Agora faça como pedido.
Por um momento Rosamund fitou as caixas e de repente fechou os olhos,
e pegando-as ao acaso, estendeu os braços, inclinando-se até a beirada da
plataforma. Então, calmamente, os irmãos pegaram, cada um, a caixa que
estava mais perto, a que estava na sua mão esquerda caindo para Godwin, e
a da mão direita para Wulf. Então Rosamund abriu os olhos de novo, e ficou
imóvel, observando.
— Prima, antes que desatemos este cordão, que é a nossa corrente do
destino, saiba que, aconteça o que acontecer, não a culpamos por nada. É
Deus quem age por seu intermédio, e você é inocente da morte de qualquer
um de nós por causa da conspiração da qual somos acusados.
E começou a desatar o nó do cordão de seda que estava amarrado em
volta da sua caixa. Wulf, sabendo que o que estava lá dentro resolveria tudo,
não se dando ao trabalho de desamarrar sua caixa, olhou em redor da sala,
pensando que se morresse ou vivesse nunca mais veria uma cena tão aterra-
271
Capítulo 20 •
A Sorte da Estrela de Hassan
dora. Todos os olhos estavam fixos na caixa na mão de Godwin. Até Saladino
olhava, como se ela encerrasse o seu próprio destino. Não, não todos, pois
os do velho imã estavam fitando o rosto de Rosamund, uma visão comoven-
te, pois toda a sua beleza tinha desaparecido, e até seus lábios abertos estavam
da cor da cinza. Masouda continuava de pé e imóvel, como se estivesse as-
sistindo a algum espetáculo, mas o imã percebeu que as maçãs de seu rosto
ficaram pálidas, e que debaixo do manto sua mão estava colocada sobre o
coração. O silêncio era intenso, e quebrado apenas pelo leve ruído das unhas
de Godwin, pois não tendo um canivete para cortar o cordão de seda, ele
pacientemente desamarrava o nó.
— Muito trabalho pela vida de um homem, numa terra em que as vidas
são baratas! — exclamou Wulf, pensando alto. Ao som de sua voz todos
estremeceram, como se de repente um trovão ribombasse no céu de verão. E
então, com uma risada, ele rasgou o cordão de seda em volta da sua caixa
com os dedos fortes, e quebrando o selo, balançou o conteúdo. Veja! No
chão, diante dele, reluzindo em verde e branco das esmeraldas e dos diaman-
tes, estava a encantada Estrela de Hasan.
Masouda viu, e a cor voltou ao seu rosto. Rosamund também viu, e foi mui-
to para ela, pois num grito aflito a verdade brotou de seus lábios finalmente:
— Wulf não! Não Wulf! — ela gemeu, e caiu para trás, sem sentido, nos
braços de Masouda.
— Agora — disse o velho imã com um risinho — o Mestre sabe qual dos
dois a princesa ama. E sendo mulher, como é comum, escolhe o pior, pois o
outro tem um espírito mais refinado.
— Sim, agora eu sei — disse Saladino — e estou feliz de saber pois este
assunto me atormentou muito.
Mas Wulf, que empalideceu por um instante, corou de alegria ao ver que a
verdade tinha finalmente aparecido, e que isto punha fim às dúvidas de todos.
— Esta Estrela é muito apropriadamente chamada de Estrela da Sorte!
— e abaixando-se, a pegou do chão e a prendeu no manto sobre o coração.
— E é o que acho que traz. E virando-se para o irmão, que estava do seu lado,
pálido e imóvel, disse:
— Perdoe-me, Godwin, mas são assim os desígnios do amor e da guerra.
Não me inveje, pois quando eu morrer hoje à noite, esta Sorte — e tudo
depende dela — vai ser sua.
Desta forma aquela cena insólita terminou.
272
Cruzada •
H. Rider Haggard
A tarde virou noite, e Godwin estava em frente a Saladino, em seus
aposentos.
— O que quer agora? — perguntou o Sultão gravemente.
— Uma bênção —, respondeu Godwin. — Meu irmão está condenado a
morrer antes da meia-noite. Peço que eu morra no lugar dele.
— Por que, Sir Godwin?
— Por duas razões, Mestre. Como o Senhor ficou sabendo hoje, finalmen-
te o enigma foi decifrado. É Wulf quem é amado por lady Rosamund. Além
disso, fui eu, e não ele, quem o eunuco ouviu negociando com o capitão
Abdullah na tenda, juro. Faça sua vingança recair sobre mim, e deixe-o ir
realizar seu destino.
Saladino cofiou a barba, e então respondeu:
— Se é para ser assim, o tempo é curto, Sir Godwin. Que despedidas tem
a fazer? Você diz que quer falar com minha sobrinha, Rosamund? Não, a
princesa você não verá, e nem pode, pois ela está muito abatida, em seus
aposentos. Quer ver seu irmão pela última vez?
— Não, Senhor, pois então ele ficaria sabendo da verdade, e...
— Recuse este sacrifício, Sir Godwin, pois provavelmente não vai ser do
agrado dele.
— Desejo me despedir de Masouda, que é a criada da princesa.
— Não pode ser, veja, pois desconfio desta Masouda, e acredito que ela
esteve no centro da sua conspiração. Eu a afastei da princesa e do meu acam-
pamento, que ela vai deixar, se já não deixou, com alguns árabes que são seus
parentes. Se não fosse pelos seus serviços na terra dos Assassinos, e depois,
eu já a teria condenado à morte.
— Então — falou Godwin com um suspiro — só quero ver Egbert, o
bispo, e ele poderá me confessar e anotar meus últimos desejos.
— Ótimo, ele será chamado. Aceito sua declaração de que é o culpado, e
não Sir Wulf, e por isso morrerá. Agora me deixe, pois tenho assuntos im-
portantes a tratar. O guarda irá procurá-lo na hora aprazada.
Godwin curvou-se e saiu com passo firme, enquanto Saladino, olhando
para ele, murmurou:
— O mundo bem que poderia poupar um homem tão valente e tão honrado.
Duas horas mais tarde guardas foram buscar Godwin no lugar onde ele
estava detido e, acompanhado pelo velho bispo que o tinha confessado, ele
passou pela porta com um semblante feliz de quem tinha se livrado de pro-
273
Capítulo 20 •
A Sorte da Estrela de Hassan
blemas, tinha poucos pecados para confessar, tinha fé de uma criança, e que
ia dar a sua vida pela vida de seu irmão. Ele foi levado para uma despensa
da casa onde Saladino estava alojado — um lugar rústico, amplo, iluminado
por tochas, onde já esperavam o carrasco e seus assistentes. Logo Saladino
entrou, e olhando com curiosidade para ele, perguntou:
— Continua com a mesma opinião, Sir Godwin?
— Continuo.
— Muito bem, mas eu mudei a minha. Você poderá dar adeus à sua prima,
como queria. Que a princesa de Baalbec seja trazida aqui, doente ou sã, para
que ela possa ver seu trabalho. Que ela venha sozinha.
— Senhor — suplicou Godwin — poupe-a de uma visão tão cruel.
Mas ele rogou em vão, pois Saladino respondeu apenas — Está decidido.
Uns minutos transcorreram e Godwin, ouvindo o farfalhar de um manto,
ergueu o olhar e viu o vulto alto de uma mulher coberta com um véu, de pé
num dos cantos da despensa onde a escuridão era tão profunda que as tochas
só conseguiam iluminar fracamente seus ornamentos reais.
— Disseram-me que estava doente, princesa, doente de pesar, como tinha
que estar, porque o homem que ama vai morrer por você —, Saladino falou
numa voz pausada e calma. Mas tive piedade de sua dor, e a vida dele vai ser
trocada por outra vida, a do cavaleiro que está ali.
A figura coberta por um véu estremeceu, e depois caiu contra a parede.
— Rosamund — interrompeu Godwin, falando em francês — suplico,
fique calada e não me deprima com palavras ou lágrimas. É melhor assim, e
você sabe que é melhor. Wulf a ama como você o ama, e acredito que mais
tarde vocês estarão juntos. Você não me ama, exceto como a um amigo, e
nunca amou. E também lhe digo isto, que pode aliviar sua dor e a minha
consciência: não a desejo mais como minha esposa, pois minha esposa é a
morte. Rogo-lhe, transmita a Wulf meu amor e minhas bênçãos, e a Masouda,
aquela verdadeira e gentil mulher, diga, ou escreva, que ofereço a ela, como
uma homenagem, meu coração; que pensei nela em meus últimos momentos,
que rezo para que possamos nos encontrar ainda, lá onde todas as trilhas se
encontram. Rosamund, adeus, que a paz e a alegria a acompanhe durante
muitos anos, até os filhos dos seus filhos. De Godwin quero que se lembre só
de uma coisa: que ele viveu servindo-lhe, e assim morreu.
Ela ouviu e estendeu os braços, e como ninguém o impediu, Godwin foi
até onde ela estava. Sem levantar o véu, ela curvou-se e o beijou, primeiro na
274
Cruzada •
H. Rider Haggard
testa, e depois nos lábios. Depois, com um grito baixo e lastimoso ela virou-
se e saiu rápido daquele lugar lúgubre, e Saladino não fez menção de impedir.
O Sultão apenas se perguntou por que, se era a Wulf que Rosamund amava,
ela beijou Godwin nos lábios.
E enquanto voltava para o lugar da decapitação, Godwin também se pergun-
tava, primeiro, porque Rosamund não falou uma única palavra, e segundo porque
ela o tinha beijado daquela maneira, e naquela hora. Por que ou para que ele não
sabia, mas veio à sua mente a lembrança daquela cavalgada louca pelas colinas
perto de Beirute, e dos lábios que então tocaram seu rosto, e do cheiro do cabelo
que roçava seu peito. Com um suspiro afastou os pensamentos, corando de pen-
sar que estas lembranças surgissem agora que tinha desertado da vida e dos
prazeres, e ajoelhou-se diante do carrasco, e virando-se para o bispo, falou:
— Abençoe-me, padre, e peça que acabem logo.
Neste instante ele reconheceu uns passos, e olhou para cima e viu Wulf
encarando-o.
— O que faz aqui, Godwin? — perguntou Wulf. — Aquela raposa pegou
a nós dois em sua armadilha? E apontou Saladino com a cabeça.
— Que a raposa fale —, disse o Sultão com um sorriso. — Saiba, Sir Wulf,
que seu irmão estava a ponto de morrer no seu lugar, e por sua própria von-
tade. Mas eu recuso o sacrifício, embora tenha feito uso dele para deixar
claro à minha sobrinha que, se ela insistisse em seus planos de fuga, ou per-
mitisse que vocês continuassem, vocês seriam levados à morte, e se fosse ne-
cessário, ela também. Cavaleiros, vocês são homens valorosos, que eu prefiro
matar numa guerra. Há bons cavalos lá fora; receba-os como um presente
meu, e vão com estes tolos cidadãos de Jerusalém. Talvez nos encontremos
novamente nas ruas de lá. Não, não me agradeçam. Eu é que agradeço, por
terem ensinado a Saladino como o amor de irmãos pode ser tão perfeito.
Os irmãos permaneceram alguns instantes surpresos, pois era uma coisa
inusitada voltar da morte à vida. Cada um deles tinha certeza de que morre-
ria em minutos, e atravessaria as trevas que cercam os homens, e descobriria
o que nenhum deles sabia. E agora, a estrada que levava àquela escuridão
fazia uma curva, e mostrava coisas familiares, embora o fim da estrada ainda
fosse desconhecido. Eram valentes, os dois, e acostumados a enfrentar a
morte diariamente, como todos os homens; mas eles tinham confessado e sido
absolvidos, e viam as portas do paraíso abertas, neste renascimento.
Mas como homem algum ama esta viagem, era reconfortante saber que
ela terminara, por enquanto, e que ainda podiam esperar habitar neste mun-
275
Capítulo 20 •
A Sorte da Estrela de Hassan
do por muitos anos. Não era de estranhar, portanto, que seus cérebros fervi-
lhassem, e que seus olhos se turvassem quando passaram da sombra para a
luz novamente. Foi Wulf quem falou primeiro.
— Um gesto nobre, Godwin, que eu não teria agradecido se tivesse se
concretizado, pois então eu viveria pela graça do seu sacrifício. Sultão, nós
somos gratos pelo presente da vida, embora se tivesse derramado nossos
sangues inocentes isto teria manchado sua alma. Podemos dar adeus à nossa
prima Rosamund antes de partirmos?
— Não —, respondeu Saladino. — Sir Godwin já se despediu — que
sirva para os dois. Amanhã ela ficará sabendo a verdadeira história. Agora
vão, e não retornem.
— Isto será como o destino determinar — respondeu Godwin, e se curva-
ram e saíram.
Do lado de fora daquele lugar lúgubre de execuções suas espadas foram
devolvidas, e dois bons cavalos, que eles montaram. Depois guias os levaram
até a delegação de Jerusalém, que já estava pronta, e que ficou muito conten-
te de receber dois cavaleiros como eles. E então, depois de se despedirem do
bispo Egbert, que chorava de alegria por não terem morrido, partiram de
Ascalon no cair da noite.
Logo tinham contado tudo o que havia para contar. Quando ficou saben-
do da aflição de Rosamund, Wulf derramou lágrimas.
— Temos nossas vidas de volta — ele falou — mas como vamos salvar a
dela? Enquanto Masouda estava com ela ainda havia alguma esperança, mas
agora não vejo como.
— Não há nenhuma, exceto em Deus — respondeu Godwin — que
pode fazer tudo, até libertar Rosamund e fazê-la sua esposa. E se Masou-
da está em liberdade, vamos ter notícias dela logo, portanto vamos man-
ter o otimismo.
Embora falasse assim, a alma de Godwin estava oprimida por um temor
que ele não conseguia entender. Era como se um grande terror tivesse chega-
do muito perto dele, ou de alguém que estava perto e que era muito querido.
E cada vez mais foi mergulhando naquela aflição que ele não sabia o que era,
até que finalmente quase gritou, e sua testa ficou coberta de suor. Wulf viu
seu rosto, iluminado pelo luar, e perguntou:
— O que o aflige, Godwin? Tem algum ferimento secreto?
— Sim, irmão — ele respondeu — um ferimento em meu espírito. Os
fados nos trazem má sorte, muita má sorte.
276
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Isto não é novidade — falou Wulf — nesta terra de sangue e aflições.
Enfrentemos o que estiver para vir, como enfrentamos o resto.
— Oxalá! — exclamou Godwin. — Sinto que Rosamund está correndo
grande perigo. Rosamund ou alguém.
— Então — respondeu Wulf — como não podemos, rezemos para que um
anjo a liberte.
— Sim —, falou Godwin, e enquanto cavalgavam pelas areias desertas,
sob o silêncio das estrelas, eles oraram à Virgem Maria e aos seus padroeiros,
St. Peter e St. Chad, e oraram com todo fervor. Mas a prece não os aliviou
em nada. Cada vez mais aumentava a agonia de Godwin, até que, com o
passar das horas, sua alma cedeu à dor espiritual, e a morte da qual escapa-
ra passou a ser uma coisa desejável.
A madrugada estava rompendo, e ao seu primeiro sinal a escolta dos solda-
dos de Saladino os deixou, dizendo que agora estavam seguros, no seu próprio
país. Durante toda a noite tinham cavalgado rapidamente e chegado longe. A
planície tinha ficado para trás, e a estrada agora corria entre colinas. De repen-
te ela fez uma curva, e na luz do novo dia viram uma vista tão bonita que por
um momento toda a pequena delegação parou os cavalos para observar. Pois
um pouco além e diante deles, entronizada nas colinas, estava a Cidade Santa
de Jerusalém. Lá estavam as muralhas e as torres, e lá, avermelhada como se
manchada pelo sangue de seus seguidores, erguia-se a grande cruz sobre a mes-
quita de Omar, a cruz que estava prestes a ser conquistada.
Lá estava a cidade pela qual, através dos tempos, homens tinham morrido
às dezenas de milhares, e ainda morreriam, até que o destino se cumprisse.
Saladino tinha oferecido poupar seus habitantes, se eles aceitassem se render,
mas eles recusaram. Esta delegação tinha dito a ele que tinham jurado morrer
nos lugares sagrados, e agora, olhando para o seu esplendor, perceberam que
o fim estava próximo, e suspiraram alto.
Godwin suspirou também, mas não por Jerusalém. O terror tinha voltado.
Trevas o rodearam, e na escuridão espadas e a voz de uma mulher murmu-
rando seu nome. Agarrando o arção da sua sela, balançou-se para a frente e
para trás, até que a aflição passou. Um vento repentino surgiu e levantou seu
cabelo, e uma paz sobrenatural penetrou em seu espírito; o mundo pareceu
muito distante, e o céu, muito perto.
— Acabou — ele disse para Wulf. — Sinto que Rosamund está morta.
— Se está, devemos correr para segui-la — respondeu Wulf com um soluço.
277
Capítulo 20 •
A Sorte da Estrela de Hassan
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 21
O que aconteceu a Godwin
N
A
a aldeia de Bittir, a uns dez quilômetros de Jerusalém, a delegação des-
montou para descansar, e depois todos prosseguiram pelo vale, na espe-
rança de chegar aos Portões de Zion
58
antes que o calor do meio-dia os
envolvesse. Ao final do vale avolumava-se a saliência de um monte, não muito
grande, e no topo de repente apareceram um homem e uma mulher, montando
bonitos cavalos. A delegação parou, temendo que pudessem ser os mensageiros
de um ataque, e que a mulher era um homem disfarçado para enganá-los. E en-
quanto esperavam, incapazes de decidir o que fazer, o par sobre a montanha virou
os cavalos, e não obstante a inclinação da colina, começou a galopar bem rápido
na sua direção. Wulf observou-os com atenção, e disse para Godwin:
— De repente comecei a pensar numa certa corrida a cavalo que fizemos
do lado de fora das muralhas de Beirute. Quase cheguei a imaginar que aque-
le árabe é o que se sentou na minha garupa, e aquela mulher é a que cavalgou
com você, e que os dois cavalos são Flame e Smoke redivivos. Veja a cadência
do galope, sua força e sua desenvoltura.
Mal tinha acabado de falar e os estranhos pararam na frente da delegação,
com o homem fazendo uma saudação. Então Godwin viu seu rosto, e o re-
conheceu imediatamente como o árabe chamado Filho da Areia, e que lhes
tinha dado os cavalos Flame e Smoke.
— Senhor —, disse o árabe ao líder da delegação, — vim pedir um favor
àqueles cavaleiros que estão com a delegação, e acho que eles, que montaram
278
Cruzada •
H. Rider Haggard
meus cavalos, não recusarão. Esta mulher — e apontou para o vulto coberto
por um véu e que estava próximo — é minha parenta, e desejo entregar a
amigos em Jerusalém, mas que não ouso fazer eu próprio, pois os habitantes
das montanhas daqui até lá são hostis à minha tribo. Ela é cristã, e não é
espiã, mas não fala a sua língua. Depois do Portão Sul a esperam seus paren-
tes. É o meu pedido.
— Que os cavaleiros decidam — falou o comandante, encolhendo os
ombros com impaciência e esporeando o cavalo.
— Certamente vamos levá-la — falou Godwin — embora o que faremos
com ela se seus amigos não estiverem lá, não sabemos. Vamos, lady, cavalgue
junto a nós.
Ela virou a cabeça para o árabe, como se estivesse em dúvida, e ele repe-
tiu as palavras de Godwin, e imediatamente ela tomou seu lugar, no meio
mas um pouco atrás dos irmãos.
— Talvez agora — o árabe falou para Godwin — o senhor saiba um
pouco mais de nossa língua do que sabia quando nos encontramos há tempos
em Beirute, e cavalgou pelas montanhas com Flame e Smoke. Mesmo assim,
rogo a cortesia de não perturbarem a mulher com suas palavras, nem lhe
pedir que descubra o rosto, pois não é costume de seu povo. É uma viagem
de apenas uma hora até o portão da cidade o tempo que ela vai ficar com os
senhores. Este é o pagamento que lhes peço pelos dois ótimos cavalos que,
como me foi contado, os levaram através da ponte estreita e pelas planícies
e montanhas, quando escaparam de Sinan, e no dia fatídico de Hattin, quan-
do vocês fizeram Saladino cair e mataram Hassan.
— Será como deseja — falou Godwin. — E, Filho da Areia, nós lhe agra-
decemos por aqueles cavalos.
— Ótimo. Quando quiserem mais, façam saber nos mercados de cavalo
que me procuram —, e começou a virar-se.
— Espere — falou Godwin. — O que sabe de Masouda, sua sobrinha?
Ela está com o senhor?
— Não — respondeu o árabe falando baixo, — mas ela me pediu que
estivesse num determinado jardim, do qual já ouviram falar, perto de
Ascalon, numa certa hora, para pegá-la, pois está deixando o acampamen-
to de Saladino. Portanto, preciso ir. Adeus. E com uma reverência à mulher
do véu agitou as rédeas e partiu como uma flecha pela estrada pela qual
tinha vindo.
279
Capítulo 21 •
O que aconteceu a Godwin
Godwin deu um suspiro de alívio. Se Masouda tinha marcado um encon-
tro com seu tio árabe, pelo menos devia estar em segurança. Então não era
a voz dela que parecia sussurrar seu nome na escuridão da noite quando o
terror tomou conta dele — terror nascido talvez de tudo o que tinha supor-
tado à beira da morte ultimamente. Então ergueu o olhar e viu Wulf olhando
para trás, para a mulher, e reprovou-o, dizendo que devia ficar fiel ao espíri-
to e à letra da promessa, e que se não podia falar também não podia olhar.
— É uma pena — respondeu Wulf — pois embora esteja toda coberta,
deve ser uma lady alta e nobre, a julgar pelo modo como monta o cavalo. O
cavalo, também, é nobre, primo ou irmão de Smoke, acho. Talvez ela o ven-
da quando chegarmos a Jerusalém.
Então continuaram, e porque achavam que era assim que devia ser, nenhum
falou ou olhou para a companheira de aventura, embora, se tivessem olhado,
veriam que ela os fitava com interesse.
Finalmente chegaram ao portão de Jerusalém, que estava lotado de pes-
soas aguardando o retorno dos emissários. Todos atravessaram o portão, e
a delegação foi escoltada a partir dali pelos chefes, com a multidão seguindo-
os querendo saber se traziam a paz ou a guerra.
Godwin e Wulf se entreolharam, se perguntando aonde ir ou onde encon-
trar os parentes de sua companheira coberta com o véu, e não viram ninguém.
A rua se abria num arco, e debaixo do arco havia um jardim, que parecia
deserto. Foram até lá para decidir o que fazer, e a companhia os seguiu, como
sempre um pouco atrás.
— Chegamos a Jerusalém, e precisamos falar com ela agora — disse Wulf
— no mínimo, para saber para onde quer ser levada.
Godwin concordou, e viraram os cavalos.
— Lady —, ele disse em árabe, — cumprimos o que foi pedido. Por
gentileza, diga-nos onde estão estes parentes a quem devemos entregá-la.
— Aqui — respondeu uma voz suave.
Eles olharam em volta do jardim deserto, onde pedras e sacos com terra
tinham sido armazenados para o caso de um cerco, e como não viram nin-
guém, perguntaram:
— Não os vemos.
Então a lady deixou cair a capa, embora não o véu, revelando o manto.
— Por St. Peter! — falou Godwin. — Conheço o bordado daquele manto.
Masouda! É você, Masouda?
280
Cruzada •
H. Rider Haggard
Enquanto ele falava o véu caiu, e diante deles estava uma mulher como
Masouda, mas que não era Masouda. O cabelo estava penteado como o dela;
os adereços e o colar feito com as garras da leoa que Godwin tinha matado
era o dela; a pele era da mesma cor; havia até a pequena pinta na maçã do
rosto, mas como a cabeça estava abaixada eles não podiam ver seus olhos. E
de repente, com um pequeno lamento, ela a levantou e olhou para eles.
— Rosamund! É você, Rosamund! — Wulf gaguejou. — Rosamund dis-
farçada de Masouda.
E caiu, mais do que saltou da sela e correu até ela, murmurando: — Deus!
Oh Deus, agradeço-Vos!
Ela pareceu desmaiar e escorregou da sela para os braços dele, e demorou
um momento, enquanto Godwin virou o rosto.
— Sim — falou Rosamund, se liberando dos braços de Wulf — sou eu e
ninguém mais, e viajei com vocês este tempo todo, e nenhum me reconheceu.
— Temos olhos que podem ver atrás de véus e de roupas de lã? — per-
guntou Wulf com irritação.
— Você é Rosamund disfarçada como Masouda. Quem, então era aque-
la mulher a quem dei adeus diante de Saladino enquanto o carrasco me es-
perava, uma mulher usando um véu e as jóias de Rosamund?
— Eu não sei, Godwin — ela respondeu — a menos que fosse Masouda
vestida com minhas roupas, e que deixei para ela. E também não sei nada
desta história do carrasco que o esperava. Pensei... pensei que era Wulf que
ele esperava... oh! Céus, foi isto que pensei.
— Conte-nos o que aconteceu com você — disse Godwin, com voz rouca.
— A história é curta — ela respondeu. — Depois daquelas caixas, e vou
sonhar com isto até meus últimos dias, eu desmaiei. Quando voltei a mim no-
vamente, pensei que tivesse enlouquecido, pois diante de mim estava uma mulher
vestida com minhas roupas, e cujo rosto parecia o meu, mas não exatamente.
— Não tema — ela falou — sou Masouda, que, entre muitas outras coisas,
aprendeu a representar. Ouça, não há tempo a perder. Recebi ordens de dei-
xar o acampamento. Neste momento meu tio, o árabe, espera do lado de
fora, com dois rápidos cavalos. Você, princesa, vai partir no meu lugar. Veja,
vai usar minhas roupas, e meu rosto, ou quase; somos da mesma altura, e o
homem que a vigia não notará nenhuma diferença. Já cuidei disto, pois em-
bora seja soldado de Saladino, é da minha tribo. Vou com você até a porta,
e lá direi adeus, diante do eunuco e dos guardas, chorando, e ninguém
281
Capítulo 21 •
O que aconteceu a Godwin
desconfiará que Masouda é a princesa de Baalbec e que a princesa de Baalbec
é Masouda.
— E para onde devo ir? — perguntei.
— Meu tio, Filho da Areia, vai entregá-la à delegação que vai para Jerusalém, e
se isto falhar, a levará até a cidade, e se isto falhar, a esconderá nas montanhas entre
meu povo. Eis, aqui está uma carta que ele deve ler. Vou colocar no seu seio.
— E o que vai acontecer com você, Masouda? — perguntei novamente.
— Comigo? Oh, já está tudo planejado, um plano que não pode falhar
— ela respondeu. — Não tenha medo; fujo esta noite — não tenho tempo
para contar como — e vou encontrá-la em um dia ou dois. Além disso, acho
que encontrará Sir Godwin, que a levará de volta à Inglaterra.
— Mas e Wulf? O que vai acontecer com Wulf? Ele está condenado a
morrer, e não vou deixá-lo.
— Os vivos e os mortos não podem ficar juntos — ela respondeu. — Além
disso, eu o vi, e tudo isto está sendo feito por sua ordem. Se o ama, ele pede
que obedeça.
— Eu nunca vi Masouda! Nunca falei estas palavras! Não sei nada deste
plano! — exclamou Wulf, e os irmãos se entreolharam pálidos.
— Continue — falou Godwin — depois discutiremos.
— Além disso — continuou Rosamund, curvando a cabeça — Masouda
acrescentou estas palavras: — Acho que Sir Wulf vai escapar da condenação.
Se quiser vê-lo novamente, obedeça, pois se não obedecer nunca mais vai
vê-lo vivo. Vá, agora, antes que nós duas sejamos descobertas, o que signifi-
caria a sua morte e a minha, eu que, se você for, estou salva.
— Como ela sabia que eu escaparia da morte? — perguntou Wulf.
— Ela não sabia. Só disse isto para forçar Rosamund a fugir —, respondeu
Godwin no mesmo tom de voz irritado. — E então?
— E então? Oh! Diante da ordem de Wulf eu obedeci, como num sonho.
Lembro-me de muito pouca coisa. À porta nos beijamos e nos deixamos cho-
rando, e enquanto o guarda se curvava para ela, ela me abençoou num sussur-
ro. Um soldado apareceu e me disse “Siga-me, filha de Sinan”, e eu segui, sem
que ninguém prestasse atenção, pois embora vocês não tenham percebido em
suas prisões, uma estranha nuvem passou pelo sol, e todos ficamos com medo,
pensando que fosse um mau augúrio, ou para Saladino ou para Ascalon.*
* O eclipse, que escureceu a Palestina e provocou muito terror em Jerusalém no dia 4 de setembro de 1107,
o dia da queda de Ascalon. Nota do Autor.
282
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Na escuridão chegamos a um lugar onde estava um velho árabe, entre
algumas árvores, e com ele, dois cavalos. O soldado falou com o árabe e eu
dei a ele a carta de Masouda, a qual ele leu. Então me colocou em um dos
cavalos, e o soldado montou o outro, e partimos a pleno galope. Andamos
durante toda a noite e a madrugada, mas na escuridão o soldado nos deixou,
e não sei para onde foi. Finalmente chegamos àquele monte e esperamos lá,
deixando descansar os cavalos e comendo o que o árabe tinha trazido com
ele, até que vimos a delegação, e entre ela dois cavaleiros altos.
— Veja, lá estão os irmãos que você procura. Veja, e agradeça a Masouda,
que não mentiu para você, e para quem devo retornar.
— Oh! Meu coração chorou como se fosse arrebentar, e eu chorei de
alegria — chorei e dei graças a Deus e a Masouda. Mas o árabe, o Filho da
Areia, disse-me que pela segurança da minha vida eu deveria ficar muda e
cobrir-me com um véu, e disfarçada, até que chegássemos a Jerusalém, pois
se soubessem da história, a delegação poderia se recusar a escoltar a prince-
sa de Baalbec e sobrinha de Saladino, ou até mesmo me entregar a ele.
— Então eu prometi e perguntei “O que vai acontecer com Masouda?” Ele
respondeu que ia voltar o mais rápido que pudesse, para salvá-la também, como
tinha sido planejado, e esta era a razão de ele não me levar até Jerusalém. Mas como
isto poderia ser feito ele ainda não sabia; apenas que ela estava escondida em algum
lugar seguro, e encontraria um jeito de escapar quando desejasse. E... e... vocês sabem
o resto, e aqui, pela graça de Deus, estamos os três reunidos outra vez.
— Sim — falou Godwin, — mas onde está Masouda, e o que vai acontecer
com ela, que ousou arquitetar um plano destes? Oh! Sabem o que esta mulher
fez? Eu estava condenado a morrer no lugar de Wulf — não importa como,
vocês saberão depois — e a princesa de Baalbec foi trazida para se despedir.
Lá diante dos olhos de Saladino, Masouda representou e imitou você tão bem
que o Sultão foi enganado, e eu, até eu, fui enganado. Sim, quando a abracei
pela primeira e última vez, fui enganado, embora, é verdade, tivesse ficado
com uma dúvida. E depois disso um grande temor me acompanha, e desta vez
também fui enganado, pois imaginava que temia... por você.
— Agora ouça com atenção, Wulf. Pegue Rosamund e a aloje com alguma
senhora nesta cidade, ou, melhor ainda, coloque-a no claustro, com as freiras
da Cruz Sagrada, de onde ninguém vai ter coragem de retirá-la, e deixe-a usar
o hábito. A Madre Superiora deve se lembrar de você, pois estivemos com
ela, e pelo menos não vai recusar a Rosamund a proteção da Igreja
59
.
283
Capítulo 21 •
O que aconteceu a Godwin
— Sim, sim; lembro-me que ela perguntou notícias de alguns parentes na
Inglaterra. Mas e você? Para onde vai, Godwin? — perguntou o irmão.
— Eu? Vou voltar para Ascalon, para descobrir Masouda.
— Por quê? — perguntou Wulf. — Masouda não pode se salvar ela própria,
como disse ao tio, o árabe, que faria? E ele não retornou para ajudá-la a escapar?
— Não sei — respondeu Godwin — mas uma coisa eu sei, que por Rosamund,
e talvez por mim também, Masouda correu um terrível risco. Reflita um
pouco, qual será a disposição de Saladino quando finalmente descobrir que
aquela em quem depositou tantas esperanças fugiu, deixando uma criada em
seu lugar vestida com suas roupas.
— Oh! — interrompeu Rosamund. — Eu temi isto, mas acordei e já es-
tava disfarçada, e ela me convenceu de que tudo estava bem. E que tudo tinha
sido feito conforme desejo de Wulf, que ela achava que escaparia da morte.
— Isto é o pior de tudo — falou Godwin. — Para concretizar o plano ela
precisou mentir, como também acho que mentiu quando disse que achava que
nós dois escaparíamos, embora seja verdade que isto acabou acontecendo.
— E vou dizer por que ela mentiu. É que ela iria dar sua vida para que
vocês pudessem me encontrar em Jerusalém.
Agora Rosamund, que sabia do segredo que havia no coração de Masouda,
olhou para ele com estranheza, perguntando-se como tinha acontecido que,
pensando que Wulf estava morto ou prestes a morrer ela se sacrificaria, para
que ela, Rosamund fosse enviada para tomar conta de Godwin. Certamente
não seria pelo amor por ela, embora se amassem. Pelo amor de Godwin,
então? Que maneira estranha de mostrar!
Mas agora ela começou a entender. Tão verdadeiro e amplo era este amor
de Masouda, que pelo bem de Godwin ela estava pronta a esconder-se na
morte, deixando-o — agora que, como ela pensava, seu rival tinha sido re-
movido — pronto para viver com a mulher que ele amava; era isto, ao preço
de sua própria vida. Oh! quão nobre poderia ser quem planejava e agia des-
ta forma, e qualquer que tenha sido o seu passado, tão pura e tão magnânima!
Certamente, se ela vivesse, não haveria mulher mais nobre sobre a terra; e se
ela estivesse morta, os céus teriam ganho uma santa.
Rosamund olhou para Godwin, e Godwin olhou para Rosamund, e hou-
ve compreensão em seus olhos, pois agora os dois viam a verdade em toda
sua glória e horror.
— Acho que também deveria voltar — falou Rosamund.
284
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Isto não pode ser — respondeu Wulf. — Saladino a mataria, por causa
da fuga, como ele jurou que faria.
— Não pode — acrescentou Godwin. — Pois o sacrifício de sangue não
pode ser feito em vão. Além disso, é nosso dever impedir.
Rosamund olhou para ele novamente e gaguejou:
— Se... se... esta coisa terrível aconteceu, Godwin, se o sacrifício... oh!...
para que vai servir?
— Rosamund, não sei o que aconteceu, vou procurar saber. Não me im-
porto com o que pode acontecer. Vou enfrentar. Através da vida, através da
morte, e se for preciso, através de todo o fogo do inferno, vou persistir até
encontrar Masouda, e ajoelhar numa homenagem.
— E como prova de amor —, exclamou Rosamund, como se as palavras
tivessem saído dos seus lábios contra a sua vontade.
— Oxalá — Godwin respondeu, falando mais para si mesmo do que para ela.
Depois, vendo suas feições, a boca crispada e os olhos ardentes, nenhum
dos dois tentou impedi-lo.
— Adeus, minha soberana e prima Rosamund —, Godwin falou, — minha
parte terminou. Agora a deixo na guarda de Deus no céu e de Wulf na terra.
Se não nos encontrarmos mais, meu conselho é que se casem aqui em Jerusalém
e viajem de volta para Steeple, para lá viver em paz, se isto for possível. Irmão
Wulf, adeus também. Nós nos separamos hoje pela primeira vez, nós, que
desde que nascemos vivemos juntos, amamos juntos, e juntos fizemos muitas
coisas, algumas das quais podemos lembrar sem nenhuma vergonha. Conti-
nue seu destino em regozijo, aceitando o amor e a alegria que o Céu lhe deu,
e vivendo como um bom cavaleiro e cristão, atento ao fim que nos puxa ra-
pidamente e à eternidade além.
— Oh! Godwin, não fale desta forma — disse Wulf — pois aperta meu
coração ouvir palavras tão sinistras. Além do mais, não nos separamos tão
facilmente. Nossa prima aqui estará segura entre as freiras — mais segura do
que comigo. Dê-me uma hora, e vou alojá-la lá, e reencontrá-lo. Nós dois
temos um débito com Masouda, e não é justo que seja pago só por um.
— Não — respondeu Godwin — cuide de Rosamund e pense no que vai
acontecer a esta cidade. Você pode deixá-la lá na hora?
Então Wulf baixou a cabeça, e sem desejar falar mais uma palavra, Godwin
montou seu cavalo e, sem olhar para trás, cavalgou pela rua estreita e passou
pelo portão, até que logo desapareceu na distância e no deserto.
285
Capítulo 21 •
O que aconteceu a Godwin
Wulf e Rosamund olharam em silêncio, pois estavam embargados pelas
lágrimas.
— Nunca pensei em ver meu irmão partir desta forma — falou Wulf
finalmente, numa voz pastosa e raivosa. — Pelas chagas de Deus! Muito
mais feliz eu ficaria em morrer do seu lado numa batalha do que vê-lo
partir assim.
— E deixar-me sozinha para enfrentar meu destino —, murmurou Rosamund,
e acrescentando: — Oh! Queria estar morta, eu que estou viva apenas para
fazer recair sobre vocês dois esta aflição, e sobre aquele coração de ouro,
Masouda. Digo, Wulf, que preferia estar morta.
— E parece que este desejo vai ser atendido antes de tudo terminar — res-
pondeu Wulf cansado — e rogo que eu possa morrer junto de você, pois
agora, Rosamund, Godwin se foi para sempre, temo, e só tenho você. Vamos,
deixemos de queixas, pois insistir nestas mágoas não pode nos ajudar, e demos
graças por enquanto, pois pelo menos estamos livres. Siga-me, Rosamund, e
vamos até o convento encontrar um refúgio para você, se pudermos.
Então cavalgaram pelas ruas estreitas que estavam cheias de pessoas as-
sustadas, pois as notícias de que a delegação tinha rejeitado os termos de
Saladino tinham se espalhado. Ele tinha oferecido à cidade alimento e per-
missão para que fortificasse suas muralhas, e aguardar até o próximo domin-
go de Pentecostes desde que, se não chegasse ajuda, todos jurassem que se
renderiam. Mas a delegação tinha respondido que enquanto vivessem não
abandonariam o lugar onde seu Deus tinha morrido. Com isto a guerra es-
tava às portas — guerra até o fim, e quem eram eles para suportar sua
violência? Seus líderes estavam mortos ou presos, seu rei estava preso, seus
soldados transformados em esqueletos no campo de Hattin. Apenas as mu-
lheres e as crianças, os enfermos, os velhos e os feridos restaram — talvez 80
mil almas no total — e muito poucos podiam usar uma arma. De qualquer
forma estes poucos deveriam defender Jerusalém contra a força dos vitoriosos
sarracenos. Não surpreendia que perambulassem lamuriando pelas ruas, até
que um grito de desespero se ergueu para o céu, pois todos sabiam que o
lugar santo estava condenado, e suas vidas perdidas.
Abrindo caminho por entre esta triste multidão, que nem os percebia, fi-
nalmente chegaram ao convento na sagrada Via Dolorosa
60
, que Wulf tinha
visitado quando ele e Godwin estavam em Jerusalém depois de terem saído
de Damasco, por ordem de Saladino. A porta do convento ficava na sombra
286
Cruzada •
H. Rider Haggard
do arco em que o romano Pilatos tinha exclamado para todas as gerações as
palavras “Prendam aquele homem”.
Lá, o porteiro lhe informou que as freiras estavam fazendo orações na
capela. Wulf retrucou que precisavam ver a Madre Superiora a respeito de
um assunto que não podia esperar, e foram admitidos num salão fresco e
imponente. Logo a porta se abriu, e por ela entrou a Madre Superiora, num
manto branco — uma inglesa alta e com um ar majestoso, de meia idade, e
que olhou para eles com curiosidade.
— Madre Superiora — disse Wulf, curvando-se ligeiramente — meu nome
é Wulf D’Arcy. A senhora se lembra de mim?
— Sim, encontramo-nos em Jerusalém, antes da batalha de Hattin — ela
respondeu. — E também conheço um pouco de sua história nesta terra — uma
história bastante estranha.
— Esta lady — continuou Wulf — é filha e herdeira de Sir Andrew D’Arcy,
meu falecido tio, e na Síria conhecida como a princesa de Baalbec e sobrinha
de Saladino.
A Madre Superiora empertigou-se e perguntou:
— Então ela é daquela amaldiçoada fé, como seu traje dá a entender?
— Não, Madre — disse Rosamund — sou cristã, e uma pecadora, e
venho aqui pedir proteção, porque senão, quando souberem quem eu sou,
e o clamor nas ruas, meus companheiros cristãos vão me entregar a meu
tio, o Sultão.
— Conte-me a história — disse a Madre, e eles contaram, resumidamen-
te, enquanto ela ouvia, perplexa. Quando acabaram ela disse:
— Ai de nós, minha filha, como poderemos salvá-la, se nossas vidas estão
correndo risco? Isto só Deus pode. Contudo, o que pudermos fazer nós fare-
mos, e pelo menos aqui você poderá descansar por um tempo. No altar mais
sagrado de nossa capela você receberá refúgio, e lá cristão nenhum ousará
colocar-lhe a mão, pois fazer isto é um sacrilégio que vai lhe custar a alma.
Além disso, aconselho que se registre em nossos livros como noviça, e vista
nosso hábito. Não — ela acrescentou com um sorriso, vendo o ar de susto
no rosto de Wulf — lady Rosamund não vai precisar usá-lo sempre, a menos
que seja seu desejo. Nem toda noviça chega aos votos finais.
— Faz tempo que estou usando sedas bordadas com fios de ouro e jóias
de valor inestimável — respondeu Rosamund — mas agora o que mais dese-
jo é o manto branco do convento.
287
Capítulo 21 •
O que aconteceu a Godwin
Então conduziram Rosamund até a capela, e à vista de toda a ordem e de
sacerdotes que foram chamados, e no mesmo lugar santificado em que Cristo
respondeu a Pilatos, ela colocou a mão sobre o altar-mor e lhe foi dado re-
fúgio, e recebeu o véu branco de noviça. Wulf deixou-a em seguida, e apre-
sentou-se a Balian de Ibelin
61
, o comandante militar da cidade, e que ficou
muito alegre de receber um cavaleiro como ele, ele que tinha tão poucos.
Oh! Cansativa, realmente cansativa foi a viagem de Godwin sob o sol,
sob as estrelas. Atrás dele, o irmão, que tinha sido seu companheiro e ami-
go mais chegado, e a mulher que tinha amado em vão; à frente, o desco-
nhecido. O que ele ia procurar? Uma outra mulher, que arriscara sua vida
por eles, apenas porque o amava. E se ele a encontrasse, o que aconteceria?
Casar com ela? E será que isto é o que queria? Não, ele não queria mulher
alguma, mas era preciso encontrá-la. Mas a dúvida continuava: e se ele a
encontrasse? Bem, pelo menos poderia se entregar a Saladino, que estava
irritado com eles, e com quem já tinha negociado, e dizer-lhe que desta
conspiração ele não tinha nenhum conhecimento. Na verdade, iria primei-
ro a ele, mesmo que fosse pedir perdão para Masouda, se ela ainda estives-
se nas mãos dele. E depois, pois não podia esperar ser perdoado uma
segunda vez, aguardar a morte, que seria bem-vinda, pois havia muito
tempo desejava paz.
Já era noite, e o cavalo de Godwin ia devagar pelo grande acampamento
de Saladino do lado de fora de Ascalon. Ninguém o deteve, pois por ter sido
prisioneiro durante tanto tempo, era conhecido de muitos, enquanto outros
achavam que ele era mais um dos cavaleiros cristãos que tinham se rendido.
Com isso chegou à grande casa onde Saladino estava alojado, e pediu ao
guarda que o anunciasse ao Sultão, pedindo uma audiência. Logo sua entra-
da foi permitida, e encontrou Saladino reunido com seus ministros.
— Sir Godwin — ele falou asperamente — tendo em vista a maneira como
os tratei, o que o traz de volta ao acampamento? Dei a vocês sua vida de
volta, e vocês me roubaram quem eu não queria perder.
— Nós não a roubamos, Senhor — respondeu Godwin — e não sabemos
nada deste plano. Contudo, como tinha certeza de que pensaria de outra
forma, vim de Jerusalém, deixando a princesa e meu irmão lá, para contar a
verdade e para me entregar, para que possa sofrer no lugar dela qualquer
punição que considere adequada infligir a Masouda.
— E por que você deveria ser punido? — perguntou Saladino.
288
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Porque, Sultão — Godwin respondeu tristemente, e com a cabeça
baixa — o que quer que ela tenha feito fez por amor a mim, embora sem o
meu conhecimento. Diga-me, ela está aqui ou fugiu?
— Está aqui — respondeu Saladino. — E por que deseja vê-la?
Godwin deu um suspiro de alívio. Pelo menos Masouda estava viva, e o
terror que o assaltara naquela noite tinha sido apenas um sonho, derivado
de seus próprios temores e sofrimentos.
— Desejo —, ele respondeu, — uma vez, somente. Tenho palavras a dizer-lhe.
— Sem dúvida ela ficará alegre de ver como o plano funcionou —, disse
Saladino, com um sorriso contido. — Devo admitir que foi bem estudado e
audaciosamente executado.
Chamando um dos conselheiros, o mesmo velho imã que tinha proposto o
sorteio das caixas, o Sultão conversou com ele em separado. E depois falou:
— Levem este cavaleiro para ver a mulher Masouda. Amanhã ele será
julgado.
Pegando uma candeia de prata na parede, o imã fez um gesto para Godwin,
que se curvou para o Sultão e o seguiu. Ao passar com ar cansado pela mul-
tidão que esperava na sala de audiência, pareceu a Godwin que os emires e
capitães que lá estavam olhavam para ele com piedade nos olhos. E tão for-
te era este sentimento que ele fez uma pausa e perguntou:
— Diga-me, Senhor, estou indo para minha morte?
— Todos nós vamos até ela — respondeu Saladino — mas Alá não escre-
veu que a morte hoje é a sua.
Foram por longos corredores, e chegaram a uma porta que o imã, que ia
mancando na frente, destrancou.
— Ela está sob vigilância aí dentro? — perguntou Godwin.
— Sim — foi a resposta. — Sob vigilância. Entre — e entregou-lhe a can-
deia. — Vou ficar aqui fora.
— Talvez ela esteja dormindo, e não quero perturbá-la — falou Godwin,
hesitando na soleira da porta.
— Você não disse que ela o ama? Então sem dúvida, ela que viveu em
Masyaf, mesmo que esteja dormindo, não vai receber mal sua visita, já que
veio de tão longe para encontrá-la — disse o imã com um risinho de zomba-
ria. — Entre, vamos.
Godwin pegou a candeia e entrou, e a porta foi fechada. O lugar era
familiar. Ele reconheceu os arcos, e as paredes rústicas, de pedra. Pois tinha
289
Capítulo 21 •
O que aconteceu a Godwin
sido para lá que ele fora levado para morrer, e por aquela mesma porta a
falsa Rosamund entrou para dizer-lhe adeus, a ele que agora retornava a este
mesmo lugar lúgubre e escuro. Mas ele estava vazio, e sem dúvida ela não
demoraria, e ele esperou, olhando para a porta. Ela não se movimentava, não
havia ruídos de passos, nada quebrava o silêncio sombrio. Ele se virou e olhou
em redor, e viu alguma coisa brilhante no chão, no fundo, no mesmo lugar
onde ele tinha se ajoelhado diante do carrasco. Ele vislumbrou uma forma,
sem dúvida Masouda, prisioneira e dormindo.
— Masouda — ele falou, e o eco das paredes devolveu, Masouda.
Era preciso acordá-la, não havia outro jeito. Era ela, dormindo, e ainda
usando as vestimentas reais de Rosamund, e uma das jóias de Rosamund
ainda brilhava em seu peito.
Como Masouda dormia pesado! Será que nunca acordaria? Ele se ajoelhou ao
seu lado e estendeu o braço para afastar o cabelo longo que cobria seu rosto.
Ele tocou-a, e Oh! a cabeça rolou.
Com horror no coração, Godwin abaixou a candeia e olhou. Oh! As roupas
estavam vermelhas, e os lábios, sem nenhuma cor. Era Masouda, cujo espírito o
visitara no deserto; Masouda assassinada pela espada do carrasco. Esta era uma
brincadeira de terrível mau gosto, mas foi assim que se encontraram novamente.
Godwin pôs-se de pé e ficou imóvel, como num sonho, e as palavras então
saíram de seus lábios, e do seu coração, onde estavam represadas.
— Masouda — ele sussurrou — agora sei que a amo, e só a você, agora
e para sempre, oh! mulher de coração de ouro. Espere por mim, Masouda,
onde quer que esteja.
Enquanto as palavras sussurradas saíam de seus lábios, pareceu-lhe mais
uma vez, da mesma forma que quando cavalgava com Wulf, de Ascalon, que
o estranho vento soprou sobre sua cabeça, trazendo a presença de Masouda,
e que mais uma vez uma paz sobrenatural tomava conta de sua alma.
Depois que tudo passou e terminou, e ele se virou e viu o velho imã ao
seu lado.
— Não disse que a encontraria dormindo? — ele disse, com o mesmo
risinho. — Lembre-se dela, senhor cavaleiro, lembre-se dela! O amor, dizem,
pode construir grandes pontes, mesmo entre a cabeça cortada e o tronco.
Godwin usou a candeia, e golpeou o imã, que caiu ao chão como um boi
abatido, e o silêncio e a escuridão voltaram.
Por um momento Godwin ficou imóvel, até que seu cérebro ficou em fogo,
e ele também caiu, sobre o corpo de Masouda, e lá ficou.
290
Cruzada •
H. Rider Haggard
odwin sabia que estava estendido, doente, mas além do fato de que
Masouda parecia estar cuidando dele, ele não percebia mais nada,
pois todo o passado tinha se apagado. Lá estava ela, vestida com
um manto branco, olhando para ele com olhos calmos e cheios de amor, e
ele notou que em redor de seu pescoço havia uma fina linha vermelha, e ele
se perguntou como ela tinha aparecido.
Ele sabia também que tinha viajado enquanto estivera doente, pois na
madrugada ele ouviu o acampamento irromper num grande barulho, e
sentiu quando sua liteira foi erguida por escravos que o conduziram duran-
te horas pela areia abrasadora, até que finalmente a noite chegou, e com
um zunido, como o de um enxame de abelhas, o grande exército armava
acampamento. Aí a noite chegou e a pálida lua, flutuando como um barco
num céu azul, e acima, as brilhantes e eternas estrelas, para onde subia um
grito constante de “Allahu Akbar! Allahu Akbar!
62
Deus é o Senhor. Não
há ninguém além dEle”.
— É um Deus falso — ele queria falar. — Diga-lhes para gritar em nome
do Salvador do Mundo.
E a voz de Masouda parecia responder:
— Não faça julgamento. Nenhum deus que o homem venere com o cora-
ção puro é completamente falso. Muitos são os degraus que levam ao céu.
Não faça julgamento, cavaleiro cristão.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 22
Em Jerusalém
A
G
291
Capítulo 22 •
Em Jerusalém
Finalmente a viagem terminou, e surgiram novos barulhos, como o estre-
pitar de uma batalha. Ordens eram dadas e homens marchavam aos milhares.
O barulho aumentava, e o exército retornava, lamentando seus mortos.
Até que veio um dia em que, abrindo os olhos, Godwin virou-se para olhar
Masouda, e ela tinha desaparecido, e no seu lugar sentava-se um homem que
ele conhecia muito bem — Egbert, outrora bispo de Nazaré, que lhe deu um
suco resfriado com neve. Sim, a mulher tinha partido, e o padre estava lá.
— Onde estou? — ele perguntou.
— Do lado de fora das muralhas de Jerusalém, meu filho, prisioneiro no
acampamento de Saladino — veio a resposta.
— E onde está Masouda, que ficou sentada ao meu lado durante todos
estes dias?
— No céu, acho — foi a resposta gentil — pois foi uma valente mulher.
Era eu quem estava sentado ao seu lado.
— Não — falou Godwin obstinadamente — era Masouda.
— Então era seu espírito, pois a confessei e absolvi, e orei por ela sobre
seu túmulo. O espírito dela, que veio do céu visitar você, e agora voltou para
o céu, pois você pertence à terra novamente.
Então Godwin lembrou-se da verdade, e soluçando adormeceu. Mais tarde,
ao se recuperar, Egbert contou toda a história. Ele ficou sabendo que quando
estava sem sentidos sobre o corpo de Masouda os emires quiseram que Saladino
o matasse, no mínimo porque tinha golpeado o olho do imã com uma candeia.
Mas o Sultão, que tinha descoberto a verdade, não permitiu, pois considerou
que tinha sido indigno do imã zombar da sua dor, e que Sir Godwin tinha dado
a ele o merecido. E também, que este franco era um dos cavaleiros mais valoro-
sos, e que tinha voltado para sofrer a punição por um pecado que não tinha
cometido. E que, embora fosse cristão, ele o amava como a um irmão.
De modo que o imã perdeu tanto o olho quanto a vingança.
E acontecera de o bispo Egbert ter sido escolhido para cuidar dele e, se
possível, salvar a sua vida. E quando marcharam para Jerusalém, os soldados
foram instruídos a poupar a sua liteira, e uma boa tenda foi arranjada para
alojá-lo. Agora o cerco à Cidade Santa tinha começado, e havia um grande
morticínio nos dois lados.
— A cidade vai ser tomada? — perguntou Godwin.
— Temo que sim, a menos que os santos venham em seu socorro — res-
pondeu Egbert. — Acho que sim, infelizmente.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
292
Cruzada •
H. Rider Haggard
— E Saladino não será misericordioso? — ele perguntou novamente.
— E por que deveria ser, meu filho, já que recusaram seus termos e o
desafiaram? Não, ele jurou que da mesma forma que Godfrey
63
tomou o
lugar há bem mais de cem anos e dizimou os muçulmanos, que moravam aqui
aos milhares, homens, mulheres e crianças, ele mataria os cristãos. Oh! Por
que haveria de poupá-los? Eles devem morrer! Devem morrer! — e esfregan-
do as mãos nervosamente, Egbert saiu da tenda.
Godwin ficou imóvel, imaginando qual seria a resposta para este enigma.
Só podia pensar numa, e só numa. Em Jerusalém estava Rosamund, a sobri-
nha do Sultão, que ele desejava muito recapturar, acima de todas as coisas,
não só porque era do seu sangue, mas porque temia que se não fizesse isto a
visão do seu sonho não se concretizaria.
E qual era esta visão? Que por intermédio de Rosamund muita matança
seria evitada. Ora, se Jerusalém fosse salva, as vidas de dezenas de milhares de
cristãos e muçulmanos também não seriam salvas? Oh! Aqui estava a respos-
ta, e algum anjo a tinha colocado em seu coração, e agora ele rezava para
ganhar forças, para colocá-la no coração de Saladino, forças e oportunidade.
Naquele mesmo dia Godwin encontrou a oportunidade. Quando estava
deitado cochilando na tenda naquela noite, ainda muito fraco para levantar-
se, uma sombra se projetou sobre ele, e abrindo os olhos viu o próprio Sultão
de pé, sozinho, ao lado de sua cama. Ele tentou reunir forças para erguer-se
e saudá-lo, mas numa voz gentil Saladino mandou que ficasse deitado, e as-
sentando-se, começou a falar.
— Sir Godwin — ele disse — vim para pedir perdão. Quando o mandei
visitar aquela mulher morta, que tinha recebido o justo por seu crime, come-
ti um ato indigno de um rei. Mas meu coração estava desgostoso com você
e com ela, e o imã, aquele que você golpeou, colocou em minha cabeça a
brincadeira de mal gosto que lhe custou o olho, e que quase custou a vida de
um homem exausto e magoado. É o que queria falar.
— Agradeço-lhe, Senhor, que sempre foi nobre — respondeu Godwin.
— Você é quem diz. Contudo fiz coisas a você e aos seus que não podem
ser chamadas de nobres — falou Saladino. — Roubei sua prima da casa dela,
como a mãe dela foi roubada da minha, pagando olho por olho, o que é
contrário à lei, e meus servos assassinaram o pai dela, e seu tio, que foi ou-
trora meu amigo, na própria sala. Bem, estas coisas eu fiz porque os fados
me pressionaram — frutos de um sonho, de um sonho. Diga, Sir Godwin,
293
Capítulo 22 •
Em Jerusalém
aquela história que contam de que uma visão que lhe apareceu antes da ba-
talha de Hattin é verdadeira, e que o senhor alertou os líderes dos francos a
não avançarem contra mim?
— É verdadeira — respondeu Godwin, e ele contou sobre a visão, e como
jurou que era verdadeira sobre a Cruz Verdadeira.
— E o que eles lhe disseram?
— Eles riram de mim, e sugeriram que eu era um feiticeiro, ou um traidor
a seu mando, ou as duas coisas.
— Tolos cegos, que não viram a verdade quando ela foi apresentada através
dos lábios puros de um profeta — Saladino murmurou. — Bem, eles pagaram
o preço, e eu e minha fé somos os vencedores. O senhor tem dúvidas então, Sir
Godwin, de que eu também acredito naquela visão que me apareceu três vezes
naquela noite, e com elas o rosto de minha sobrinha, a princesa de Baalbec?
— Eu não duvido — respondeu Godwin.
— Duvida também de que fiquei louco de raiva quando descobri que
aquela valente mulher, agora morta, tinha sido mais esperta do que eu e todos
os meus espiões e guardas, e isto depois que tinha poupado a vida dos senho-
res? Duvida de que ainda estou furioso, pois acredito que perdi uma grande
oportunidade?
— Eu não duvido. Mas, Sultão, eu que tive uma visão, falo com o Senhor,
que também teve uma visão — um profeta para outro profeta —, e digo que
a oportunidade não foi perdida — ela está aí, na sua porta, sim, e que todas
estas coisas aconteceram para que ela pudesse estar aí.
— Continue — falou Saladino olhando-o sério e com interesse.
— Veja, Saladino, a princesa Rosamund está em Jerusalém. Ela foi levada
para Jerusalém, e o Senhor pode poupar a cidade em nome dela, e assim pôr
um fim nesta matança e salvar a vida de um número sem conta de pessoas.
— Nunca! — falou o Sultão, erguendo-se num salto. — Eles rejeitaram
minha misericórdia, e jurei dizimá-los, homens, mulheres e crianças, e me
vingar de sua raça suja e infiel.
— Rosamund é suja, a ponto de se vingar dela? Seu corpo morto vai lhe
trazer paz? Se Jerusalém for destruída, ela deve morrer também.
— Vou ordenar que ela seja poupada — para ser julgada por mim pelo
seu crime — ele acrescentou secamente.
— Como ela poderá ser poupada se os soldados estão embriagados com
a matança e ela é apenas uma mulher disfarçada entre 10 mil outras?
294
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Então — ele respondeu, batendo o pé no chão, — ela precisará ser
trazida ou arrastada de Jerusalém antes que a matança comece.
— Isto, eu acho, não vai acontecer enquanto Wulf estiver lá para protegê-
la — falou Godwin calmamente.
— Mas eu digo que é preciso ser assim, que vai ser assim.
Então, sem mais uma palavra, Saladino saiu da tenda com o rosto preo-
cupado.
Dentro de Jerusalém tudo era aflição, tudo era desespero. Lá se amontoa-
vam milhares e dezenas de milhares de fugitivos, mulheres e crianças, na maior
parte, e cujos maridos e pais tinham sido mortos em Hattin ou em outros
lugares. Os soldados que restavam tinham poucos comandantes, e foi por
isso que logo Wulf se viu capitão de muitos deles.
Primeiro Saladino atacou do oeste, por entre os portões de St. Stephen e
St. David, mas lá havia fortificações chamadas de Castelo dos Pisans
64
e
Torre de Tancredo
65
, de onde os defensores desfechavam sortidas repentinas,
fazendo os atacantes recuar. Então ele ordenou uma mudança, e moveu seu
exército para o leste, acampando-o perto do vale de Kedron
66
. Quando viram
as tendas sendo desmontadas, os cristãos pensaram que ele estivesse desistin-
do do cerco, e deram graças a Deus em todas as igrejas. Mas na manhã se-
guinte a formação militar de branco apareceu de novo no leste, e souberam
que seu destino estava selado.
Havia na cidade muitos que queriam se render ao Sultão, e acalorados
ficaram os debates entre eles e os que juraram que preferiam morrer. Final-
mente concordou-se que uma delegação deveria ser enviada. Sob salvo-con-
duto ela foi recebida pelo Sultão, na presença de seus emires e conselheiros.
Ele lhes perguntou o que queriam, e responderam que tinham vindo para
discutir condições. Ele respondeu desta forma:
— Em Jerusalém está uma certa lady, minha sobrinha, conhecida entre
nós como princesa de Baalbec, e entre os cristãos como Rosamund D’Arcy,
que fugiu para aqui há pouco tempo, na companhia de um cavaleiro, Sir Wulf
D’Arcy, que eu vi lutando bravamente entre os seus guerreiros. Façam-na
render-se a mim, que vou tratá-la como merece, e falaremos novamente. Até
lá não tenho mais nada a falar.
A maior parte da delegação não sabia nada desta lady, mas um ou dois
disseram que achavam que tinham ouvido falar dela, mas não sabiam onde
estava escondida.
295
Capítulo 22 •
Em Jerusalém
— Então voltem e descubram — disse Saladino, dispensando-os.
Os enviados voltaram e contaram ao conselho o que Saladino tinha dito.
— Pelo menos — exclamou Heraclius, o Patriarca, nesta questão é fácil
satisfazer o Sultão. Vamos descobrir a sobrinha e devolvê-la. Onde ela
está?
Então um declarou que o lugar era conhecido pelo cavaleiro Sir Wulf
D’Arcy. Ele foi chamado, e veio com armadura e a espada vermelha na mão,
pois tinha acabado de rechaçar um ataque a uma torre do portão, e pergun-
tou o que desejavam.
— Queremos saber, Sir Wulf — falou o patriarca — onde o senhor escon-
deu a lady conhecida como princesa de Baalbec, que o senhor roubou do
Sultão.
— E o que o senhor tem com isso, Reverendíssimo? — Wulf perguntou
secamente.
— Muita coisa, eu e todos nós, já que Saladino não vai nos receber se ela
não lhe for devolvida.
— Este conselho propõe então que entreguemos aos sarracenos uma lady
cristã, e contra a sua vontade?— Wulf perguntou sério.
— É preciso — respondeu Heraclius — e além disso ela pertence a eles.
— Ela não pertence — respondeu Wulf. — Ela foi raptada por Saladino
na Inglaterra, e desde então está tentando escapar dele.
— Não nos faça perder tempo — exclamou o patriarca com impaciência.
— Entendemos que o senhor é o namorado desta mulher, e o que quer que
isto signifique Saladino a exige de volta, e ela deve ir. Portanto, diga-nos onde
ela está sem mais delonga, Sir Wulf.
— Descubra o senhor mesmo, Patriarca — retrucou Wulf com raiva. — Ou,
se não conseguir, mande uma das suas próprias mulheres no lugar dela.
Imediatamente houve um murmúrio no conselho, mais por surpresa do que
por indignação, pois este patriarca era muito conhecido por seu mau gênio.
— Não me importo se digo a verdade —, continuou Wulf, — pois este é
um fato conhecido por todos. Além disso, digo que é sorte deste homem ser
um sacerdote, embora desonrado, senão eu partiria sua cabeça em duas por
ter ousado chamar lady Rosamund de minha amante. E ainda tremendo de
raiva, virou-se e deixou a sala.
— Um homem perigoso — falou Heraclius, branco como cera. — Um
homem muito perigoso. Proponho que seja preso.
296
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Sim — respondeu Sir Balian de Ibelin, o comandante supremo da cidade
— um homem muito perigoso — para seus inimigos, como posso testemunhar.
Vi o irmão e ele enfrentando os sarracenos na batalha de Hattin, e também o
vi nas muralhas. Quisera que tivéssemos mais homens perigosos!
— Mas ele me insultou — gritou o patriarca — a mim e a meu sagrado
ofício.
— A verdade não deve ser considerada um insulto — respondeu Balian
com clara intenção. — De qualquer forma, é um assunto pessoal entre os
dois, e não podemos perder um de nossos poucos capitães. Agora, no que diz
respeito a esta lady, não gosto...
No exato momento em que falava um emissário entrou na sala e disse que
o esconderijo de Rosamund tinha sido descoberto. Ela tinha sido admitida
como noviça no convento das Virgens da Santa Cruz, que ficava perto do
arco da Via Dolorosa.
— Agora gosto menos ainda — Balian continuou — pois tocar nela seria
sacrilégio.
— Sua Santidade Heraclius nos absolverá — falou uma voz com zombaria.
Então um outro líder se levantou — era partidário dos que desejavam paz
— e enfatizou que não era hora de escrúpulos, pois o Sultão não os receberia
a menos que a lady fosse devolvida para ser julgada por seu crime. E talvez,
sendo sua sobrinha, não sofresse nenhum mal em suas mãos, mas isto fosse
verdade ou não, era melhor que um pagasse do que muitos.
Com estas palavras ele persuadiu a maioria, de modo que ao final se ergue-
ram e se dirigiram ao convento da Cruz Sagrada, onde o patriarca pediu que
todos fossem recebidos, o que, certamente, não poderia ser recusado. A altiva
Madre Superiora os recebeu no refeitório, e perguntou o que desejavam.
— Filha — falou o patriarca — você tem a seus cuidados uma lady cha-
mada Rosamund D’Arcy, com quem queremos falar. Onde está ela?
— A noviça Rosamund está orando, no altar-mor da capela.
Então um deles murmurou “Ela recebeu a proteção do convento”, mas o
patriarca falou:
— Diga-nos, filha, ela está orando sozinha?
— Um cavaleiro está lá.
— Ah! Como pensei, ele já esteve antes conosco. E também, filha, sua
disciplina é um pouco flexível se permite que cavaleiros como ele invadam
sua capela. Mas leve-nos até lá.
297
Capítulo 22 •
Em Jerusalém
— Os perigos que nos rodeiam, e rodeiam a lady, responde à indagação
de Vossa Reverendíssima — a Madre respondeu séria, enquanto os levava.
Logo chegaram a um lugar amplo e um pouco escuro, onde as velas quei-
mavam noite e dia. E lá, perto do altar-mor, construído exatamente segundo
se dizia sobre o lugar onde o Senhor foi julgado, eles viram uma mulher de
joelhos, vestida de branco, e segurando nas pedras do altar. Fora do altar,
também de joelhos, estava o cavaleiro Wulf, imóvel como uma estátua num
sepulcro. Ouvindo-os chegar, ele se ergueu, virou-se e pegou a espada.
— Guarde a espada — ordenou Heraclius.
— Quando fui sagrado cavaleiro — respondeu Wulf — jurei defender os
inocentes de todo o mal, e os altares de Deus de todo sacrilégio cometido por
homens pecaminosos. Portanto, não guardo a espada.
— Não o leve em conta — falou um; e Heraclius, recuando para a nave,
dirigiu-se a Rosamund:
— Filha — ele falou — com grande aflição viemos aqui lhe pedir um sa-
crifício, entregar-se em benefício do povo, como nosso Senhor se entregou.
Saladino exige você de volta, e até que você seja entregue a ele, não nos re-
ceberá para tentarmos salvar a cidade. Venha conosco, nós rogamos.
Rosamund pôs-se de pé e os encarou, com a mão ainda sobre o altar-mor.
— Arrisquei minha vida, e acho que outra deu sua vida — ela disse — para que
eu conseguisse escapar do poder dos muçulmanos. Não vou voltar para eles.
— Então, porque a necessidade é aflitiva, vamos levá-la —, respondeu
Heraclius de mau humor.
— O que! — ela gritou. — O patriarca desta cidade sagrada me arranca-
ria da proteção deste altar santificado? Oh! Então que a maldição recaia
sobre a cidade e Vossa Reverendíssima. Neste lugar, dizem, nosso Senhor foi
arrastado para o sacrifício, por ordem de um juiz injusto, e depois disto
Jerusalém foi destruída. Eu devo ser também arrastada deste lugar que Seus
pés santificaram, e nestas roupas — ela apontou para o hábito branco — e
ser entregue como uma oferenda a seus inimigos, que vão exigir que eu esco-
lha entre a morte e o Alcorão? Se é isto, digo que a oferenda será feita em
vão, e que suas ruas vão se tingir de vermelho com o sangue dos que me ar-
rastarem deste santuário.
Agora eles se consultaram, alguns defendendo uma solução, outros defen-
dendo outra solução, mas a maioria concordando que ela deveria ser entregue
a Saladino.
298
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Venha de livre e espontânea vontade, rogo-lhe — falou o patriarca
— já que não vamos levá-la à força.
— Somente pela força os senhores me levarão.
Nesta hora a Madre falou:
— Os senhores seriam capazes de cometer um crime tão grande? Então lhes
digo que isto não ficaria sem punição. No caso desta lady o pagamento será
seu próprio sangue, e talvez o sangue de todos nós. Lembrem-se de minhas
palavras quando os sarracenos conquistarem a cidade e matarem as crianças.
— Eu a absolvo deste pecado — gritou o patriarca — se for um pecado.
— Absolva-se a si próprio — Wulf interrompeu asperamente — e saiba
de uma coisa. Eu sou apenas um homem, mas tenho alguma força e habili-
dade. Se colocarem a mão na noviça Rosamund para arrastá-la e ser morta
por Saladino, como ele jurou que faria se ela tentasse fugir dele, antes de eu
morrer alguns de vocês terão visto esta luz pela última vez.
E de pé, diante do parapeito do altar-mor, ele ergueu a espada e colocou
o escudo adornado com a caveira em posição.
O patriarca teve um acesso de fúria, e alguns outros gritaram que iriam
pegar arco e flecha e atingir Wulf de longe.
— E assim — interrompeu Rosamund — ao assassinato acrescentar o
sacrilégio! Oh! Senhores, reflitam sobre o que estão fazendo, e lembrem-se,
estão fazendo em vão. Saladino não lhes prometeu nada, exceto que se me
entregarem ele falará com vocês, e poderão então descobrir que pecaram por
nada. Tenham piedade de mim, e sigam seu caminho, deixando que Deus
tome conta.
— Isto é verdade — falou um — Saladino não fez nenhuma promessa.
Então Balian, o guardião da cidade, que tinha ido com eles à capela e
calado ouvira o que tinha sido dito, deu um passo à frente e falou:
— Patriarca, rogo que deixe as coisas como estão, pois de um crime des-
tes não poderão advir coisas boas para nenhum de nós. O altar-mor é o lugar
mais sagrado e o lugar de maior proteção em toda a Jerusalém. Vossa Reve-
rendíssima seria capaz de arrancar uma virgem desse lugar, e cujo único pe-
cado, ela que é cristã, foi ter fugido dos sarracenos que a raptaram? Seria
capaz de entregá-la para eles e para a morte, pois será este seu destino nas
mãos de Saladino? Este seria um ato de covardes, que vai nos colocar a pecha
de covardes. Sir Wulf, guarde a espada e nada tema. Se há alguma segurança
em Jerusalém, sua lady está em segurança. Madre, leve-a para a cela.
299
Capítulo 22 •
Em Jerusalém
— Não — respondeu a Madre com um indisfarçado sarcasmo — não é
apropriado que ela deixe este lugar antes de Vosa Reverendíssima.
— Então não será preciso esperar — gritou o patriarca em fúria. — Esta
é hora para escrúpulos diante de altares? É hora de ouvir as preces de uma
garota ou as ameaças de um único cavaleiro, ou as dúvidas de um capitão
supersticioso? Bem, façam o que quiserem, e deixem suas vidas pagarem o
custo. Contudo digo que se Saladino pedir metade das virgens nobres desta
cidade, seria mais barato dá-las em pagamento do que o sangue de 80 mil
pessoas — e saiu pisando alto pela porta.
Então todos saíram, exceto Wulf, que ficou para certificar-se de que tinham
ido embora, e a Madre, que se aproximou de Rosamund e a abraçou, dizen-
do que por enquanto o perigo tinha passado, e ela poderia descansar.
— Sim, Madre — respondeu Rosamund com um soluço — mas será que
agi direito? Será que não teria sido melhor entregar-me à ira de Saladino se
tantas vidas dependem disto? Talvez, depois de tudo, ele esquecesse seu jura-
mento e poupasse minha vida, e eu nunca mais tentasse fugir de novo, en-
quanto houvesse um castelo em Baalbec ou um harém vigiado em Damasco.
Mas principalmente é difícil dizer adeus a alguém que se ama para sempre
— e olhou na direção de Wulf, que estava distante para ouvir.
— Sim — respondeu a Madre — é difícil, como as freiras sabem muito bem.
Mas, filha, esta escolha aflitiva ainda não está à sua frente. Quando Saladino
disser que a coloca contra a vida de toda esta cidade, aí sim você deverá decidir.
— Sim — repetiu Rosamund — aí deverei decidir.
O cerco prosseguiu, de terror em terror. As catapultas lançavam incessan-
temente suas pedras, as flechas zuniam em nuvens, de modo que ninguém
podia ficar nas muralhas. Milhares de soldados da cavalaria de Saladino
rodeavam o portão de St. Stephen, as lançadoras
67
despejavam pedras e dar-
dos sobre a cidade condenada, e os armeiros sarracenos as mantinham sem-
pre abastecidas por baixo das torres de proteção dos portões. Os soldados
encarregados da defesa não podiam atacar por medo de se transformarem no
alvo dos cavaleiros; ou não podiam aparecer sobre as muralhas ou nas torres,
pois eram imediatamente atingidos por milhares de dardos; muito menos
podiam defender as brechas feitas nas muralhas pelas armas de impacto dos
sarracenos. A cada dia que passava o desespero ia aumentando. Em cada rua
havia uma longa procissão de monges carregando cruzes, cantando salmos e
fazendo orações em penitência, enquanto nas portas das casas mulheres rogavam
300
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Cruzada •
H. Rider Haggard
misericórdia a Cristo, e apertavam contra o peito as crianças que logo seriam
mortas ou levadas para algum harém muçulmano.
O comandante Balian convocou os cavaleiros para uma reunião, e mos-
trou-lhes que Jerusalém estava condenada.
— Então — disse um dos líderes — saiamos e morramos lutando contra
os nossos inimigos.
— Sim — acrescentou Heraclius — e deixar nossas mulheres e nossos filhos
para morrerem em desonra. É melhor rendermo-nos, pois não há nenhuma
esperança de socorro.
— Não — respondeu Balian — enquanto Deus estiver vivo há uma esperança.
— Ele vivia naquele dia em Hattin, e sofreu a derrota — disse Heraclius,
e o conselho se dividiu, sem decidir nada.
Naquela tarde Balian foi novamente à presença de Saladino e implorou-lhe
que poupasse a cidade.
Saladino levou-o à porta da tenda e apontou para seus estandartes ama-
relos tremulando aqui e ali sobre as muralhas, e para um que naquele mo-
mento apareceu junto a uma brecha.
— Por que deveria poupar o que já conquistei e o que jurei destruir? — ele
perguntou. — Quando lhes ofereci misericórdia vocês não aceitaram. Por que
a pedem agora?
Então Balian respondeu com estas palavras que ecoarão para sempre
na história:
— Por esta razão, Sultão. Diante de Deus, se tivermos que morrer, primei-
ro nós mataremos nossas mulheres e nossas crianças pequenas, não lhe dei-
xando nem mulheres nem homens para escravizar. Queimaremos a cidade e
tudo que nela está. Reduziremos a pó a Rocha sagrada, e faremos da mesqui-
ta de el-Aksa, e de outros lugares sagrados, um monte de ruínas. Cortaremos
a garganta dos 5 mil seguidores do Profeta que estão em nosso poder, e então,
todo homem nosso que puder carregar uma arma sairá e irá enfrentar os seus,
até cair. De modo que penso que Jerusalém vai lhe custar muito.
O Sultão o fitou, e alisou a barba.
— Oitenta mil vidas — ele murmurou — 80 mil, além das de meus soldados,
que vocês matarão. Uma grande matança — e a cidade santa destruída para
sempre. Oh! Foi com um massacre como este que eu sonhei uma vez.
Então Saladino sentou-se em silêncio, e ficou pensando, a cabeça abaixa-
da sobre o peito.
301
Capítulo 22 •
Em Jerusalém
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 23
Santa Rosamund
A
A
partir do dia em que viu Saladino, Godwin começou a se fortale-
cer, e com a recuperação, começou a pensar. Rosamund estava
perdida para ele, e Masouda estava morta. E às vezes ele queria
estar morto também. O que mais ele podia fazer da sua vida, que tinha sido
tão cheia de aflições, de luta e de derramamento de sangue? Voltar para a
Inglaterra e viver em suas terras, esperando pela velhice e pela morte? Estas
perspectivas poderiam ter agradado a muitos, mas não agradavam a Godwin,
que pensava que seus dias não lhe tinham sido dados para viver desta forma,
e que enquanto vivesse deveria também trabalhar.
Enquanto pensava nisto sentado, e se sentia muito infeliz, o velho bispo
Egbert, que tinha tratado dele tão bem, entrou na tenda e percebendo seu
rosto triste, perguntou:
— O que o aflige, meu filho?
— O senhor quer ouvir? — disse Godwin.
— Não sou o seu confessor, com direito a ouvir? — respondeu o bondoso
velho. — Conte-me as suas aflições.
Então Godwin começou do princípio, e contou tudo — como, quando
jovem, quis entrar para a Igreja; como o antigo prior do convento em
Stangate disse-lhe que era muito jovem para decidir-se; como depois o amor
por Rosamund entrou na sua vida quando atingiu a maioridade, e ele deixou
de pensar na religião. Contou-lhe também um sonho que tinha tido quando
302
Cruzada •
H. Rider Haggard
estava se recuperando dos ferimentos recebidos em Death Creek; dos votos
que ele e Wulf tinham jurado quando da elevação a cavaleiros, e como, aos
poucos, ficou sabendo que o amor de Rosamund não era para ele. Final-
mente contou de Masouda, mas a história dela Egbert já sabia, pois fora
seu confessor.
O bispo ouviu em silêncio, até que ele terminou. Então perguntou:
— E agora?
— Agora — respondeu Godwin — eu não sei. Mas parece que ouço o som
dos meus próprios passos andando sobre as pedras de um claustro, e de mi-
nha própria voz em oração diante de um altar.
— Você ainda é muito jovem para falar assim, e embora Rosamund este-
ja perdida para você e Masouda esteja morta, há outras mulheres no mundo
—, disse Egbert.
Godwin balançou a cabeça.
— Não para mim, padre.
— Então há as ordens dos cavaleiros, nas quais pode subir muito.
Novamente ele balançou a cabeça.
— Os templários e os hospitaleiros estão destruídos. Além disso, observei-
os em Jerusalém e na batalha, e não gosto deles. Se mudassem sua maneira
de agir, e se eu tivesse que lutar novamente contra os infiéis, poderia me jun-
tar a eles por licença especial do Papa no futuro. Mas me aconselhe, o que
devo fazer agora?
— Oh! meu filho — o velho bispo disse, e seu rosto se iluminou — se Deus
o chama, venha para Deus. Eu mostrarei o caminho.
— Sim, irei — Godwin respondeu calmamente. — Irei, e a menos que a
Cruz me convoque outra vez para segui-la numa guerra, tentarei passar o
tempo que me resta a serviço de Deus e dos homens. Pois sinto, padre, que
foi para isto que nasci.
Três dias depois Godwin foi ordenado padre, no acampamento de Saladino,
pela mão do bispo Egbert, enquanto em volta da sua tenda os seguidores de
Maomé, triunfantes com a iminente queda da Cruz, gritavam que Deus é
grande, e Maomé seu único profeta.
Saladino ergueu a cabeça e olhou para Balian.
— Diga-me — ele disse — onde está a princesa de Baalbec, a quem vocês
conhecem como a lady Rosamund D’Arcy? Eu disse-lhe que não falaria mais
303
Capítulo 23 •
Santa Rosamund
sobre o destino de Jerusalém até que ela me fosse entregue para julgamen-
to. E não foi.
— Sultão — respondeu Balian — encontramos esta lady no convento da
Santa Cruz, usando o hábito de noviça daquela ordem. Ela pediu proteção
da Igreja lá, no altar-mor, que consideramos sagrado e inviolável, e se recusa
a vir. Saladino riu.
— Todos os seus guerreiros não conseguem arrancar uma moça de um
altar de pedra? A não ser, claro, que o cavaleiro Wulf estivesse diante dele
com a espada erguida — ele acrescentou.
— E estava — respondeu Balian — mas não foi por causa dele que não
arrancamos, embora ele certamente teria matado alguns de nós. Arrancar
seria um crime odioso, que com certeza traria a vingança de nosso Deus sobre
nós e nossa cidade.
— E a vingança de Saladino?
— Por mais que a nossa situação seja terrível, Sultão, ainda temos mais
medo de Deus do que de Saladino.
— Sim, Sir Balian, mas Saladino pode ser uma espada na mão de Deus.
— Espada, Sultão, que teria sido usada rapidamente se tivéssemos come-
tido este ato.
— Acho que ela está para ser usada — disse Saladino ficando novamente
em silêncio e alisando a barba.
— Ouça — falou finalmente. — Que a princesa, minha sobrinha, venha
a mim pedir minha graça, e acho que vou estabelecer condições que, nesta
aflição, os senhores me agradecerão.
— Então teremos que praticar o grande pecado, e arrastá-la — respondeu
Balian triste — mas primeiro teríamos que matar o cavaleiro Wulf, que não
permitirá enquanto estiver vivo.
— Não, Sir Balian, pois se isto acontecesse eu ficaria muito triste, nem eu vou
permitir, pois embora cristão ele é um homem que trago no coração. Desta vez
eu disse “Que a princesa venha a mim”, não “Que a princesa seja trazida”. Que
ela venha por vontade própria, responder por seu crime contra mim, sabendo
que não prometo nada, eu que antes prometi tudo e mantive minha palavra.
Então ela era a princesa de Baalbec, com todos os direitos derivados desta alta
posição, e jurei que não teria nenhum marido imposto, nem mudança de fé.
Agora retiro estes juramentos, e se ela vier, virá como uma escrava cristã fugiti-
va, a quem ofereço apenas a escolha entre o Islã e uma morte desonrosa.
304
Cruzada •
H. Rider Haggard
— Que mulher bem nascida aceitaria estes termos? — perguntou Balian
com desânimo. — Acho que ela preferia morrer por suas próprias mãos que
pelas mãos do seu carrasco, pois não pode adjurar sua fé.
— E com isto condenar 80 mil de seus companheiros cristãos, que deverão
acompanhá-la à morte — respondeu Saladino sério. — Tenha certeza, Sir Balian,
e juro diante de Alá e pela última vez, que se minha sobrinha Rosamund não
vier por sua própria vontade, sem ser forçada, Jerusalém será saqueada.
— Então o destino da cidade sagrada e de todos os seus habitantes depen-
de da nobreza de uma única mulher? — gaguejou Balian.
— Sim, de uma única mulher, como minha visão me mostrou. Se seu espí-
rito é suficientemente elevado, Jerusalém talvez ainda possa ser salva. Se for
mais rasteiro do que penso, como pode acontecer de ser, então o destino da
cidade será o destino dela. Não tenho mais nada a dizer, mas meus enviados o
acompanharão na volta levando uma carta, que deverão entregar pessoalmen-
te à minha sobrinha, a princesa de Baalbec. Então ela poderá vir com eles, ou
ficar onde está, e neste caso saberei que tive uma visão mentirosa da paz fluin-
do pelas suas mãos, e continuarei esta guerra até seu final sangrento.
Dentro de uma hora Balian cavalgou para a cidade, sob salvo-conduto,
levando consigo os enviados de Saladino e a carta, que estavam encarregados
de entregar a Rosamund.
Era noite, e na capela iluminada por candeias as Virgens da Santa Cruz
cantavam ajoelhadas o Miserere
68
. Cantavam com o coração, pois para elas
a morte e a desonra estavam muito próximas, pedindo a Deus e à misericor-
diosa Mãe de Deus que tivessem piedade delas e dos habitantes desta cidade
santificada, onde ele tinha morado e sofrido, e conduzi-los a salvo através da
escuridão de uma sina tão terrível quanto a Dele. Sabiam que o fim estava
próximo, que as muralhas estavam ruindo, que os defensores estavam exaus-
tos, e que em breve os ferozes soldados de Saladino estariam irrompendo
pelas ruas estreitas.
Então sobreviriam o saque e a matança, ou pela espada dos sarracenos,
ou, talvez, se houvesse ainda tempo, pelas mãos mais misericordiosas dos
cristãos, que desta forma os salvariam do pior.
O canto fúnebre terminou, a Madre Superiora se levantou e se dirigiu a
elas. Sua postura ainda era de orgulho, mas a voz tremia:
— Minhas filhas no Senhor — ela disse — a desgraça está quase às nossas
portas, e precisamos unir nossos corações para enfrentá-la. Se os comandan-
305
Capítulo 23 •
Santa Rosamund
tes da cidade fizerem o que prometeram, mandarão mais alguns aqui para
cortar nossas cabeças, e assim passarmos felizes para a eternidade e vivermos
para sempre ao lado do Senhor. Mas talvez nos esqueçam, pois somos uns
poucos entre 80 mil almas, das quais umas 50 mil deverão ser mortas. Ou
seus braços podem ficar cansados, ou eles morrerem antes de chegarem a esta
casa — e o que, minhas filhas, deveremos fazer então?
Algumas das freiras se abraçaram e soluçaram em terror, e algumas ficaram
em silêncio. Apenas Rosamund ficou empertigada e falou com orgulho.
— Madre — ela falou — sou uma novata entre todas, mas vi a matança
de Hattin e sei o que acontece às mulheres e às crianças entre os infiéis. Por-
tanto peço licença para falar.
— Fale — disse a Madre Superiora.
— Este é o meu conselho — continuou Rosamund — e é curto e direto.
Quando soubermos que os sarracenos estão na cidade, coloquemos fogo no
convento, fiquemos de joelhos e morramos queimadas.
— Bem falado, é o melhor — disseram muitas. Mas a Madre respondeu
com um triste sorriso:
— Um conselho bem pensado, que só poderia ter vindo de alguém bem
nascida. Mas que não pode ser seguido, pois a morte própria é um terrível
pecado.
— Vejo pequena diferença entre ele e oferecermos nossos pescoços para as
espadas de nossos amigos — disse Rosamund. — Contudo, como não posso
julgar pelas outras, julgo por mim, que ainda não fiz os votos finais. Digo-lhes
que antes de cair nas mãos dos pagãos, prefiro cometer aquele pecado e deixar-
lhes o vil cadáver que outrora alojou o espírito de uma mulher.
E colocou a mão no punho de uma adaga que estava escondido no seu manto.
E novamente a Madre Superiora falou.
— Para você, filha, não posso proibir o ato, mas para as que fizeram o
juramento de me obedecer eu proíbo, e para elas mostro uma nova maneira,
embora mais deplorável, de escapar a esta última vergonha. Algumas de nós
somos velhas e de cabelo branco, e nada têm a temer, senão a morte, mas
outras são jovens e bonitas. Para estas eu digo, quando o fim estiver próximo,
peguem o aço e cortem o rosto e o peito, e fiquem sentadas nesta capela,
tingidas de vermelho do próprio sangue, e se tornem repugnantes para os
homens. O fim chegará através deles, rapidamente, e elas passarão, sem de-
sonra, a ser as noivas do Céu.
306
Cruzada •
H. Rider Haggard
Um grande gemido de horror veio destas mulheres desoladas, já se vendo
sentadas com os mantos manchados, e horrendas, aguardando a morte pela
espada de homens furiosos e selvagens, como numa época futura suas irmãs
de Fé também aguardariam nos conventos das Virgens de St. Clare em
Acre.(*)
Contudo, uma a uma, exceto as mais velhas, vieram até a Madre Supe-
riora e juraram que a obedeceriam nisto como em tudo o mais, enquanto a
Madre disse que ela as conduziria por esta terrível estrada de dor e mutilação.
Exceto Rosamund, que declarou que morreria não desfigurada, como Deus
a tinha criado, e duas outras noviças, todas juraram obediência, uma a uma,
colocando as mãos sobre o altar-mor.
E novamente se ajoelharam e recomeçaram a cantar o Miserere.
Mas logo, acima do canto lamentoso, ouviu-se o barulho de batidas insis-
tentes ecoando no teto abobadado. Todas se ergueram num salto, gritando:
— Os sarracenos chegaram! As facas, as facas!
Rosamund tirou a adaga da bainha.
— Esperem um pouco — gritou a Madre Superiora. — Podem ser amigos,
e não inimigos. Irmã Úrsula, vá até a porta e veja.
A irmã, uma mulher idosa, obedeceu com passos vacilantes, e chegando
à porta maciça, destrancou o postigo e perguntou, com uma voz trêmula:
— Quem está batendo? — enquanto as freiras que tinham se aproximado
prendiam a respiração e esticavam as orelhas para ouvir a resposta.
Ela veio rápida, numa voz feminina eloqüente, e que ressoou estranha-
mente calma e baixa naquele espaço que lembrava uma tumba.
— Sou a rainha Sybilla
69
, com sua corte.
— E o que quer de nós, Alteza? Obter proteção da Igreja?
— Não, trago comigo alguns enviados de Saladino, que querem falar com
a lady chamada Rosamund D’Arcy, que está entre as freiras.
Ouvindo estas palavras, Rosamund correu para o altar-mor, e ficou lá,
ainda segurando a adaga na mão.
— Ela não precisa temer — continuou a voz — pois nada será feito
contra a vontade dela. Deixe-nos entrar, santa Madre, rogamos em nome
de Cristo.
* Os que tiverem curiosidade em saber a história do fim destas santificadas heroínas, as Virgens de St.
Clare, penso que no ano de 1291, podem lê-la em meu livro “A Winter Pilgrimage”, páginas 270 e 271.
Nota do Autor.
307
Capítulo 23 •
Santa Rosamund
Então a Madre falou: — Vamos receber a Rainha com dignidade, como
é nosso dever. E acenando para as freiras tomarem seus lugares perto do altar-
mor, sentou-se na grande cadeira à frente delas, e atrás, na parte elevada,
ficou Rosamund, adaga na mão.
As portas foram abertas e por ela entrou uma estranha procissão. Primei-
ro a bonita rainha usando o emblema de sua realeza, mas com um véu preto
sobre o rosto. Em seguida as mulheres de sua corte — doze delas — trêmulas
de medo mas suntuosamente vestidas, e depois delas três sarracenos de tur-
bante, e usando cotas, e com as cimitarras ornadas com jóias de lado. E depois
uma fila de mulheres, a maioria de luto, trazendo crianças assustadas pelas
mãos; as mulheres, irmãs e viúvas de nobres, cavaleiros e soldados comuns.
No fim, uma centena ou mais de capitães e soldados, entre eles Wulf, uma
fila liderada por Sir Balian e com o patriarca Heraclius ao final, em seu man-
to de gala, com os ajudantes e os acólitos.
A rainha caminhou toda a comprida igreja, e quando se aproximou, as
freiras e a Madre Superiora se levantaram e curvaram, e uma ofereceu-lhe
uma cadeira alta e imponente, que era reservada ao bispo quando de suas
visitas. Mas ela não quis.
— O que podemos oferecer a Vossa Alteza — perguntou a Madre — que
não temos mais nada, a não ser nosso tesouro, no qual é bem-vinda, e nossa
honra e nossas vidas?
— Infelizmente — respondeu a rainha — infelizmente venho pedir a vida
de uma dentre todas.
— De quem, Rainha?
Sybilla ergueu a cabeça e com o braço estendido apontou para Rosamund,
que estava um pouco acima de todos ali.
Por um instante Rosamund ficou pálida, mas depois falou com voz firme:
— De que utilidade pode minha pobre vida ter, Rainha, e quem a exige?
Por três vezes Sybilla tentou responder, até que finalmente murmurou:
— Não consigo. Que os enviados lhe entreguem a carta, se ela puder ler
a língua deles.
— Posso — respondeu Rosamund, e um emir sarraceno adiantou-se com
o rolo de pergaminho na mão, encostou-o na testa e entregou à Madre, que
por sua vez o passou a Rosamund. Com a lâmina da adaga ela cortou o
cordão de seda, abriu e leu alto, sempre com a mesma voz calma, traduzindo
enquanto lia:
308
Cruzada •
H. Rider Haggard
“Em nome de Alá, o Único e Misericordioso, para minha sobrinha, antes
a princesa de Baalbec, de nome Rosamund D’Arcy, agora uma fugitiva es-
condida num convento dos francos na cidade de el-Kuds Esh-sherif
70)
, a ci-
dade santa de Jerusalém:
“Sobrinha, todas as minhas promessas feitas a você foram cumpridas, e
mais, pois em seu louvor poupei as vidas de seus primos, os cavaleiros gêmeos.
Mas você me pagou de volta com ingratidão e trapaças, à maneira dos de sua
fé amaldiçoada, e fugiu de mim. Prometi-lhe também, várias vezes, que se
tentasse a fuga, a morte seria seu destino. Não mais, portanto, você é a prin-
cesa de Baalbec, mas apenas uma fugitiva escrava cristã, e como tal condena-
da a morrer quando minha espada a alcançar.
A minha visão relacionada com você, e que me fez trazê-la da Inglaterra para
o Oriente, você conhece bem. Reveja-a em seu coração antes de responder. Aque-
la visão me falou que atrás da sua nobreza e sacrifício você poderia salvar a vida
de muitos. Ordenei que fosse trazida de volta para mim, e meu pedido foi recu-
sado — e por que não importa. Agora entendo a razão — é que isto também
estava determinado. Não quero que a força seja usada contra você. Quero que
venha por sua própria vontade, para sofrer as conseqüências vergonhosas e
amargas de seu pecado. Ou, se desejar, fique onde está, também por sua própria
decisão, e aja conforme a vontade de Deus. A decisão é sua. Se vier e me pedir,
levarei em conta a questão de poupar os habitantes de Jerusalém. Se se recusar
a vir, com toda a certeza matarei todos eles, salvo as mulheres e as crianças que
puderem se tornar escravos. Decida, então, sobrinha, e rapidamente, e venha
com meus enviados, ou fique onde eles a encontraram.
Yusuf Saladino.”
Rosamund terminou a leitura, e o pergaminho soltou-se de sua mão e caiu
no chão de mármore.
Então a rainha falou:
— Lady, rogamos-lhe este sacrifício em nome de todos estes — e apontou
para as mulheres e crianças que estavam atrás dela.
— E minha vida? — falou Rosamund alto. — É tudo o que tenho. Quan-
do tiver pago, eu não terei mais nada — e seus olhos vagaram até onde esta-
va a figura alta de Wulf, perto de um pilar da igreja,
— Talvez Saladino seja misericordioso — aventurou-se a rainha.
309
Capítulo 23 •
Santa Rosamund
— E por que seria misericordioso — respondeu Rosamund — se ele sem-
pre me advertiu de que se tentasse fugir e fosse recapturada certamente seria
morta? Não, ele vai me oferecer o Islã ou a morte, o que significa morte por
enforcamento, ou coisa pior.
— Mas se ficar aqui também morrerá — argumentou a rainha — ou cai-
rá nas mãos dos soldados. Oh! lady, sua vida é uma vida, e com ela pode
salvar a de 80 mil almas.
— Isto é tão certo assim? — perguntou Rosamund. — O Sultão não pro-
meteu nada; ele fala apenas que, se eu pedir, ela vai considerar a questão de
poupar Jerusalém.
— Mas — mas —, continuou a rainha, — ele diz ainda que se você não
for, ele com certeza vai destruir Jerusalém, e a Sir Balian ele disse que se você
se entregar ele poderia pensar em condições que ficaríamos alegres em aceitar.
Portanto, ousamos lhe pedir que dê sua vida em penhor de tanta esperança.
Pense, pense sobre o que de outra forma vai acontecer com estes — e nova-
mente apontou para as mulheres e as crianças — e também às freiras e a
todos nós. Ao passo que se você morrer, será com muita honra, e seu nome
será venerado como santa e mártir em todas as igrejas da Cristandade.
— Oh! Não rejeite nossa súplica, mas demonstre que é suficientemente
nobre para apresentar-se e enfrentar a morte, que chega para cada um de nós,
e com isso ganhar as bênçãos de metade do mundo e fique certa de que seu
lugar no céu será junto a Ele, que também morreu pelos homens. Convençam-
na, minhas irmãs, convençam-na!
Então as mulheres e as crianças se ajoelharam diante dela, e com lágrimas
e soluços, suplicaram que desse a vida dela em trocas das suas. Rosamund
olhou, e sorriu, e disse com voz firme e clara:
— O que diz você, meu primo e noivo, Sir Wulf D’Arcy? Venha para cá,
e como é adequado nestas situações, dê-me seu conselho.
O experiente guerreiro de olhos cinza caminhou pela nave e se aproximou
do parapeito do altar-mor e saudou-a.
— Você ouviu — falou Rosamund. — Seu conselho. Quer que eu morra?
— Que pergunta! — ele respondeu com voz rouca. — É muito difícil falar.
Contudo, eles são muitos — você é uma só.
Houve um murmúrio de satisfação. Pois era sabido que este cavaleiro
amava aquela lady de todo o coração, e que no dia anterior tinha ficado ao
seu lado para defendê-la até a morte contra os que queriam arrancá-la à
força para entregar a Saladino.
310
Cruzada •
H. Rider Haggard
Rosamund riu, e a bondade de seu riso soou estranha naquela hora sole-
ne e naquele lugar.
— Oh! Wulf — ela falou. — Wulf que sempre fala a verdade, mesmo
quando ela pode lhe custar muito. Bem, eu não faria diferente. Rainha, e
todos vocês, tolos, só quis testar sua têmpera. Pensam que eu sou tão egoísta
a ponto de poupar minha vida, e desfrutar das poucas alegrias que Deus
talvez me tenha designado na terra, quando as vidas de dezenas de milhares
dependem disso? Não, não. É o contrário.
Então Rosamund recolocou a adaga, que durante todo este tempo ficara
na sua mão, na bainha, e pegando o pergaminho no chão, tocou a testa com
ele, em sinal de obediência, falando em árabe com os enviados:
— Sou escrava de Saladino, Comandante dos Fiéis. Sou o grão de poeira
debaixo de seus pés. Tomem nota, emires, de que na presença de todos os
aqui reunidos, de minha própria vontade, eu, Rosamund D’Arcy, outrora
princesa de Baalbec, decido acompanhá-los até o acampamento do Sultão,
para lá suplicar pelas vidas dos cidadãos de Jerusalém, e depois sofrer a pu-
nição da morte por minha fuga, de acordo com o decreto de meu tio. Um
único pedido eu faço, se ele quiser atender, que meu corpo seja trazido de
volta para Jerusalém para ser enterrado diante deste altar, onde, por minha
vontade, abro mão da vida. Emires, estou pronta.
Os enviados curvaram-se para ela, para demonstrar admiração, e o ar encheu-
se de bênçãos. Quando Rosamund desceu do altar-mor a rainha abraçou-a e
beijou-a, e senhores e cavaleiros, mulheres e crianças beijavam suas mãos, a barra
de seu hábito branco, e até seus pés, chamando-a de “Santa” e “Salvadora”.
— Tenham fé —, ela falou, afastando-os. — Não sou nenhuma destas
coisas, embora a última eu ainda espero ser. Vamos, vamos andando.
— Vamos — ecoou Wulf, ao seu lado. — Vamos andando.
Rosamund empertigou-se ao ouvir estas palavras, e todos lá ficaram
olhando. — Ouçam, Rainha, emires e povo — ele continuou — sou parente
desta lady, e seu noivo, e jurei servi-la até o fim. Se ela é culpada de um crime
contra Saladino eu sou mais culpado, e sobre mim também deve recair a sua
vingança. Vamos andando.
— Wulf, Wulf, não é preciso que você vá. Uma só vida está sendo cobra-
da, não duas.
— Contudo, lady, as duas devem ser dadas, a fim de que o tamanho da
compensação possa exceder e Saladino seja levado à misericórdia. Não, não
311
Capítulo 23 •
Santa Rosamund
me proíba. Vivi por você, e por você eu morro. Se me impedirem pela força,
mesmo assim morrerei, se necessário, pela minha própria espada. Quando a
aconselhei agora mesmo, aconselhei também a mim. Certamente você nunca
imaginaria que eu a deixaria ir sozinha, pois dividindo seu destino com o
meu eu poderia fazer o seu ficar mais fácil.
— Oh, Wulf! — ela falou chorando. — Você só vai fazê-lo ficar mais difícil.
— Não, não, enfrentada com mãos juntas a morte perde metade do seu
terror. Além disso, Saladino é meu amigo, e também suplicarei a ele pelo povo
de Jerusalém.
Então ele sussurrou no seu ouvido: — Querida Rosamund, não me impe-
ça, a menos que queira me levar à loucura e à morte pelas minhas mãos, pois
a terra não terá sentido para mim sem você.
Com os olhos cheios de lágrimas e brilhando de amor, Rosamund murmurou:
— Você é muito forte para mim. Que seja como Deus quiser.
Nem os outros tentaram impedi-lo também.
Dirigindo-se à Madre, Rosamund ia se ajoelhando, mas foi a Madre quem
se ajoelhou e a chamou de abençoada, e a beijou. As outras freiras também
a beijaram, uma a uma, em despedida. Então um sacerdote foi trazido, não
o patriarca, que ela não receberia, mas um outro, um homem santo.
A ele, sozinhos no altar-mor, primeiro Rosamund e depois Wulf, se con-
fessaram, recebendo absolvição e o sacramento, da forma que são dados aos
moribundos. Todos na igreja, exceto os emires, se ajoelharam e oraram, como
se ora por almas à beira da morte.
O ritual solene terminou. Levantaram-se e, seguidos por dois dos envia-
dos — pois o terceiro já tinha partido sob escolta para o acampamento de
Saladino para avisá-lo — a rainha, sua corte e todos os outros, deixaram a
igreja, atravessaram o convento e atingiram a estreita Rua da Aflição. Lá,
Wulf, como primo, pegou a mão de Rosamund, como um irmão leva sua
irmã à cerimônia do casamento. Do lado de fora o luar estava claro como
dia, e agora notícias desta estranha história já tinham se espalhado por toda
Jerusalém, e suas ruas estreitas estavam apinhadas de pessoas, bem como
todos os tetos e todas as janelas.
“Lady Rosamund!” — eles gritavam. “Abençoada Rosamund, que vai
para o martírio da morte para nos salvar. A imaculada Santa Rosamund e o
bravo cavaleiro Wulf!” E arrancavam flores e folhas dos jardins e as jogavam
sobre eles quando passavam.
312
Cruzada •
H. Rider Haggard
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Cruzada •
H. Rider Haggard
Pelas longas e sinuosas ruas, com as cabeças curvadas e com ar humilde,
acompanhados pela multidão que era afastada pelos soldados, eles caminha-
vam. Até as mulheres levantavam seus filhos para que pudessem tocar o
manto de Rosamund, ou ver seu rosto. Finalmente atingiram o portão, e
enquanto ele era destrancado eles pararam. Então surgiu Sir Balian de Ibelin,
sem chapéu, e falou:
— Lady, em nome do povo de Jerusalém e de toda a Cristandade, presto-
lhe homenagem e agradeço, e ao senhor também, Sir Wulf D’Arcy, o mais
valente e o mais fiel de todos os cavaleiros.
Um grupo de sacerdotes, liderados por um bispo, avançou cantando e balan-
çando turíbulos, e os abençoou solenemente em nome da Igreja e de Cristo.
— Não nos façam elogios nem nos agradeçam, orem por nós — respondeu
Rosamund. — Rezem para que tenhamos sucesso em nossa missão, pela qual
estamos alegremente oferecendo nossas vidas, e depois, quando estivermos
mortos, rezem pelo descanso de nossas almas pecadoras. Mas se falharmos,
o que pode acontecer, lembrem-se de que demos o melhor de nós. Oh! povo
bom, muitas aflições se abateram sobre esta terra, e a Cruz de Cristo está
coberta de vergonha. Mas ela há de brilhar novamente, e para ela, por todos
os séculos, os homens se ajoelharão. Que vocês vivam! Que a morte não mais
se abata sobre todos! É nosso último pedido, e com ele este: quando finalmen-
te morrerem, que possamos nos encontrar no céu! Adeus a todos.
Então passaram pelo portão, e como os enviados declararam que ninguém
poderia acompanhá-los mais, seguiram à frente rumo ao acampamento de
Saladino, ouvindo o choro da multidão. Dois vultos compenetrados e isolados
ao luar.
Finalmente o choro não podia mais ser ouvido, e junto às linhas muçul-
manas uma escolta os recebeu, e carregadores com uma liteira.
Mas Rosamund não entrou, e seguiram colina acima, até chegarem a uma
grande praça no centro do acampamento no alto do Monte das Oliveiras
71

junto às árvores cinzentas do Jardim de Getsêmane E lá, aguardando-os,
estava um imponente Saladino, e no entorno, fileira após fileira, em milhares
e dezenas de milhares, estava reunido seu vasto exército, que observava em
silêncio quando eles passavam.
E chegaram à presença do Sultão e se ajoelharam, Rosamund usando o
hábito branco, e Wulf usando sua cota surrada.
313
Capítulo 23 •
Santa Rosamund
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA
capítulo 24
Os resíduos do cálice
S
A
aladino olhou para eles mas não os saudou. E disse:
— Mulher, você recebeu minha mensagem. É do seu conheci-
mento que seu título foi retirado, e com isto minhas promessas ficam
canceladas; é do seu conhecimento também que vem aqui para sofrer a mor-
te, como as mulheres infiéis. Não é assim?
— Sei todas essas coisas, grande Saladino —, respondeu Rosamund.
— Diga-me, então, vem espontaneamente, sem ter sido forçada por nin-
guém, e por que o cavaleiro Sir Wulf, cuja vida poupei e não desejo, está
ajoelhado ao seu lado?
— Venho por vontade própria, Saladino, como seus emires podem confirmar;
pergunte a eles. Quanto ao resto, meu parente é quem deve responder.
— Sultão — falou Wulf — aconselhei lady Rosamund a vir — não que ela
precisasse de tal conselho —, mas tendo aconselhado, acompanhei-a pelo direito
de sangue e justiça, pois seu crime é também meu crime. Sua sina é a minha sina.
— Não tenho desavença com o senhor, que já perdoei, portanto é uma
decisão sua segui-la em seu destino.
— Sem dúvida — respondeu Wulf — sendo eu um cristão entre tantos
filhos do Profeta, não será difícil encontrar uma cimitarra amiga que me
ajude nesta caminhada.
— O quê! — exclamou Saladino. — O senhor está pronto para morrer,
embora seja jovem e forte, e haja muitas outras mulheres no mundo?
314
Cruzada •
H. Rider Haggard
Wulf sorriu e concordou com a cabeça.
— Bom. Quem sou eu para me interpor entre um tolo e sua tolice. Seu
desejo será atendido. Seu destino será o destino dela. Wulf D’Arcy, o senhor
vai beber do cálice de minha escrava Rosamund até a última gota.
— É exatamente o que desejo — disse Wulf calmamente.
Então Saladino olhou para Rosamund e perguntou:
— Mulher, por que veio até aqui desafiar minha vingança? Fale, se tem
alguma pergunta a fazer.
Rosamund ergueu-se e de pé diante dele, falou:
— Vim, poderoso Senhor, suplicar pelo povo de Jerusalém, pois me foi dito
que não ouviria nenhuma outra voz que a desta sua escrava. Há muitos meses
o senhor teve uma visão envolvendo a mim. Três vezes o senhor sonhou à
noite que eu, a sobrinha que nunca tinha visto, e por algum ato meu, seria o
motivo da salvação de muitas vidas e de paz. Por isso, raptou-me de minha
casa e levou meu pai a uma terrível morte, como está prestes a fazer com sua
filha. Depois de muito sofrimento e perigos caí em seu poder, e fui tratada com
grande honra. Mas eu, que sou cristã, e fiquei doente vendo tanta matança e
tanto ultraje sendo imposto aos meus companheiros de fé, tentei fugir, embora
o senhor tivesse me advertido de que o preço deste crime seria a morte. E no
fim, com a perspicácia e o sacrifício de uma outra mulher, consegui fugir.
— Agora retorno para pagar aquele preço, e veja, sua visão foi cumprida
— ou pelo menos o senhor pôde cumpri-la, se Deus tocasse seu coração com
o perdão —, entendendo que vim de própria vontade suplicar-lhe, Saladino,
que poupe a cidade e no lugar de seu sangue aceite o meu como um símbolo
e uma oferenda.
— Oh, meu Senhor! Como é poderoso, seja misericordioso. De que lhe
adiantará no dia de seu juízo final ter acrescentado outras 80 mil vítimas ao
seu recorde de matança, e com elas muitos outros milhares do seu próprio
povo, já que os guerreiros de Jerusalém não morrerão sem também matar?
Poupe suas vidas e deixe-os livres, e com isso ganhe a gratidão do mundo e
o perdão de Deus.
Rosamund falou assim e, estendendo os braços para ele, ficou em silêncio.
— Essas coisas eu lhes ofereci, e eles rejeitaram — respondeu Saladino.
— Por que haveria de oferecer de novo, agora que estão conquistados?
— Meu Senhor e Todo Poderoso — falou Rosamund — o senhor, que é
tão valente, culpa aqueles cavaleiros e soldados por terem lutado contra todas
315
Capítulo 24 •
Os resíduos do cálice
as circunstâncias? Não os teria chamado de covardes se tivessem deixado a
cidade onde seu Salvador morreu se render, e não tivessem desferido um
golpe sequer em sua defesa? Oh! Estou cansada! Não posso dizer mais nada;
mas outra vez, muito humildemente e de joelhos, suplico-lhe falar a palavra
da misericórdia, e não deixar seu triunfo ser manchado de vermelho com o
sangue de mulheres e de criancinhas.
E então, prostrando-se no chão diante dele, Rosamund pegou a orla de
seu manto real e a pressionou contra a testa.
E ela ficou assim uns instantes, sob a luz fraca do luar, enquanto um pro-
fundo silêncio se abateu sobre a vasta multidão de guerreiros que esperavam
a ordem de avançar. Mas Saladino continuou imóvel como uma estátua, fi-
tando as cúpulas e as torres de Jerusalém recortadas contra o céu azul.
— Levante-se — ele falou finalmente — e saiba, sobrinha, que você de-
sempenhou seu papel de uma forma digna de minha raça, e que eu, Saladino,
estou orgulhoso de você. Saiba também que vou avaliar suas súplicas, da
mesma forma que avaliei as súplicas de todos os que vivem sobre a terra.
Agora preciso me aconselhar com meu coração, e amanhã elas serão atendi-
das — ou recusadas. Para você, que está condenada a morrer, e ao cavaleiro
que escolhe morrer com você, e de acordo com nossa lei antiga e costume,
ofereço a escolha do Islã, e com ela vida e honra.
— Nós recusamos —, responderam Rosamund e Wulf a uma só voz. O
Sultão curvou a cabeça, como se não esperasse outra resposta, e olhou em
volta, e todos pensaram que ordenaria que os carrascos se preparassem. Mas
ele disse apenas para o capitão dos mamelucos:
— Leve-os, e mantenha-os vigiados e separados, até que receba minha
ordem de morte. Sua vida responde pela segurança deles. Dê-lhes alimento e
água, e não deixe que ninguém os toque, até que eu os chame.
O mameluco curvou-se e adiantou-se com o seu pelotão. Enquanto se
preparavam, Rosamund perguntou ao Sultão:
— Diga-me, por especial favor, o que aconteceu com Masouda?
— Ela morreu por você; procure-a no cemitério — respondeu Saladino,
e Rosamund escondeu o rosto com as mãos e soluçou.
— E Godwin, meu irmão? — quis saber Wulf. Mas nenhuma resposta lhe
foi dada.
Agora Rosamund virou-se, e estendendo os braços para Wulf, atirou-se
sobre o seu peito. E lá, na presença de milhares de soldados, se beijaram, um
316
Cruzada •
H. Rider Haggard
beijo de noivado e despedida. Não falaram uma palavra. Apenas, quando
eram levados, Rosamund ergueu a mão e apontou para o céu.
Neste instante um crescente murmúrio irrompeu da multidão, e o som foi
aos poucos se transformando numa palavra: Misericórdia!
Mas Saladino não se moveu, e eles foram levados para as prisões.
Entre os milhares que assistiam a esta cena emocionante estavam dois
homens, enrolados em capas longas, Godwin e o bispo Egbert. Por três vezes
Godwin tentou se aproximar do trono. Ma os soldados em volta deles tinham
recebido ordens estritas, e não permitiam que se movessem ou falassem. E
quando Rosamund passou perto, ele tentou forçar passagem, mas eles o
agarraram. Mesmo assim ele gritou:
— Que as bênçãos do Céu se vertam sobre você, santa imaculada de Deus,
em você e no seu verdadeiro cavaleiro.
Percebendo a voz acima do tumulto, Rosamund parou e olhou em volta,
mas não viu ninguém, pois os guardas fizeram com que continuasse andando.
E ela continuou, se perguntando se não tinha sido a voz de Godwin que ela
ouvira, ou um anjo, ou um prisioneiro franco.
Godwin esfregou as mãos em desalento, e o bispo procurou confortá-lo,
dizendo que não devia se afligir, pois estas mortes como a de Rosamund e a
de Wulf eram gloriosas, e mais desejáveis do que cem vidas.
— Sim, sim — respondeu Godwin — quisera ir com eles!
— O trabalho deles terminou, mas não o seu — disse o bispo gentilmen-
te. — Vamos para nossa tenda e ajoelhar-nos. Deus é mais poderoso do que
o Sultão, e talvez encontrará um meio de salvá-los. Se eles estiverem vivos
amanhã de manhã pediremos uma audiência com Saladino e suplicaremos
por suas vidas.
Então foram para a tenda e oraram, da mesma forma que os habitantes
de Jerusalém oraram dentro de suas muralhas semidestruídas, para que o
coração de Saladino condescendesse em poupar suas vidas. E enquanto
oravam, as cortinas da tenda foram abertas, e um emir entrou.
— Levantem-se — ele falou — os dois, e sigam-me. O Sultão pede sua
presença.
Ebert e Godwin seguiram, curiosos, e foram levados pela barraca real até
os aposentos de dormir, que os guardas fecharam depois que eles entraram.
Saladino estava reclinado num sofá de seda, a luz da candeia incidindo sobre
seu rosto bronzeado e preocupado.
317
Capítulo 24 •
Os resíduos do cálice
— Chamei os dois francos, para que levem uma mensagem minha a Sir
Balian de Ibelin e aos habitantes de Jerusalém. Esta é a mensagem: Que a cida-
de santa se renda amanhã, e todos os seus cidadãos se apresentem como meus
prisioneiros. Então durante 40 dias eles permanecerão cativos, e durante este
tempo nenhum deles será molestado. Todo homem que pagar dez moedas de
ouro ficará livre, e duas mulheres e dez crianças serão contadas como um homem,
a este mesmo preço. Dos pobres, 7 mil serão libertados, mediante o pagamento
de 30 mil bezantes
72
. Os que sobrarem ou não tiverem dinheiro para o resgate
— e ainda há muito ouro em Jerusalém — se tornarão meus escravos. Estas são
as minhas condições, que eu determino em virtude da súplica de minha conde-
nada sobrinha, lady Rosamund, e somente por sua súplica. Relate-as a Sir Balian,
e peça-lhe me aguardar ao alvorecer com seus chefes, e responder se está dis-
posto a aceitar em nome do povo. Caso contrário, o ataque continuará até que
a cidade seja um monte de ruínas cobrindo os ossos de suas crianças.
— Que a sua misericórdia seja abençoada — falou o bispo Egbert — e
partimos imediatamente para levar a mensagem. Mas diga-nos, Sultão, o que
devemos fazer? Retornar para o acampamento com Sir Balian?
— Se ele aceitar minhas condições, não, pois em Jerusalém estarão seguros,
e garanto-lhes a liberdade sem o resgate.
— Senhor — falou Godwin — antes que eu parta, permita que me despe-
ça de meu irmão e de minha prima Rosamund.
— E pela terceira vez planejar a fuga deles de minha vingança? — falou
Saladino. — Não, permaneça em Jerusalém e aguarde minha palavra. Pode-
rá vê-los no fim, não antes.
— Senhor — suplicou Godwin — seja misericordioso e os poupe, pois
desempenharam um papel nobre. É triste que devam morrer, pois se amam
tanto e são tão jovens, belos e valentes.
— Sim — respondeu Saladino — um papel nobre, nunca vi um mais nobre.
Bem, ficam credenciados a um bom lugar no céu, se os adoradores da cruz
entram lá. Está decidido; seu destino está traçado, e minha decisão não pode
ser alterada, nem o senhor poderá vê-los antes do fim, como já disse. Mas se
lhe agrada escrever-lhes uma mensagem de despedida, ela lhes será entregue.
Agora vão, pois há assuntos mais importantes do que a punição de um par
de enamorados. Um soldado os aguarda.
E eles partiram, e em uma hora estavam diante de Sir Balian e entregaram-
lhe a mensagem de Saladino. Ao ler ele se levantou e abençoou o nome de
318
Cruzada •
H. Rider Haggard
Rosamund. Enquanto ele chamava seus conselheiros, que ainda estavam
dormindo, e ordenava aos servos que selassem os cavalos, Godwin encontrou
pena e pergaminho, e escreveu apressadamente:
“Para Wulf, meu irmão, e Rosamund, minha prima e sua noiva — eu vivo,
embora estivesse muito perto de morrer ao lado de Masouda, e que Jesus
guarde sua alma nobre e valente! Saladino não vai me permitir vê-los, mas
prometeu que estarei com vocês na hora final, portanto esperem-me. Ainda
tenho esperança de que Deus vai mudar o coração do Sultão e ele vai poupá-
los. Se isto acontecer, este é o meu pedido e desejo: que vocês dois se casem
o mais rapidamente possível, e voltem para a Inglaterra, onde, se eu viver,
espero visitá-los por anos e anos. Mas se for escrito de outra forma, depois
que meus pecados tenham sido purgados, procurarei vocês entre os santos,
vocês que por seus nobres atos fizeram por merecer esta graça de Deus.
A delegação vai partir. Não tenho mais tempo, embora tivesse muito que
dizer ainda. Adeus, Godwin.”
As condições de Saladino foram aceitas. Com alegria, pois suas vidas
foram poupadas, mas com aflição e lamentações, pois a cidade tinha caído
novamente nas mãos dos muçulmanos, o povo de Jerusalém se apressou em
sair das ruas e procurar onde morar. A grande cruz dourada foi retirada da
mesquita de el-Aksa, e em cada torre das muralhas tremulavam os estandar-
tes amarelos de Saladino. Todos os que tinham dinheiro pagaram o resgate,
e os que não tinham esmolavam ou tomavam dinheiro emprestado onde
pudessem, e se não conseguiam, entregavam-se ao desespero e à escravidão.
Apenas o patriarca Heraclius, esquecendo a miséria destes infelizes, levou
consigo sua grande fortuna e os ornamentos em ouro das igrejas.
Então Saladino mostrou sua misericórdia, pois libertou todos os idosos
sem pagamento, e com seu próprio dinheiro pagou o resgate de milhares de
mulheres cujos maridos e pais tinham morrido na batalha, ou estavam na
prisão em outras cidades.
E então, durante 40 dias, liderada pela Rainha Sybilla e as mulheres de
sua corte, aquela desolada procissão de vencidos marchava pelos portões, e
havia aqueles que, ao passarem diante do conquistador, sentado no trono,
paravam para rezar pelos que tinham ficado para trás. Uns poucos se lem-
bravam de Rosamund, e era pelo seu sacrifício que ainda podiam ver o sol,
e imploravam que, se ainda não estivessem mortos, que o Sultão poupasse a
sua vida e a do bravo cavaleiro.
319
Capítulo 24 •
Os resíduos do cálice
Finalmente a procissão terminou, e Saladino tomou posse da cidade. E
tendo purificado a Grande Mesquita, lavando-a com água de rosas, orou nela
à sua maneira, e distribuiu os que não tinham podido pagar o resgate como
escravos entre os seus emires e seguidores. E assim o Crescente triunfou sobre
a Cruz em Jerusalém, não num mar de sangue, como 90 anos antes a Cruz
tinha triunfado sobre o Crescente, mas com o que, naqueles dias, passava por
gentileza, paz e misericórdia.
Pois coubera aos sarracenos ensinar um pouco de sua doutrina aos segui-
dores de Cristo.
Durante todos os 40 dias, Rosamund e Wulf ficaram em prisões separadas,
aguardando a morte. A mensagem de Godwin foi entregue a Wulf, que a leu
e ficou muito alegre em saber que seu irmão estava vivo. Depois ela foi leva-
da a Rosamund, que, embora tenha também ficado alegre, chorou e ficou
pensando no que ela significava. De uma coisa, pelo seu teor, ela tinha certe-
za: não havia esperança.
Souberam que Jerusalém tinha sido conquistada, pois ouviram os gritos
de triunfo dos muçulmanos, e mesmo à distância, podiam ver através das
grades da prisão a multidão sem fim de refugiados passando pelos antigos
portões carregando suas bagagens, e levando os filhos pela mão, buscando
refúgio nas cidades da costa. Embora esta fosse uma visão triste, Rosamund
ficou alegre, sabendo que agora ela não sofreria em vão.
Finalmente o acampamento foi desfeito, e Saladino e muitos soldados
entraram em Jerusalém, mas os dois continuaram definhando de frustração
nas suas celas sombrias, que eram construídas como velhas tumbas. Uma
noite, enquanto Rosamund estava ajoelhada em oração antes de ir dormir, a
porta foi aberta e apareceu um resplandecente capitão e um guarda, e eles a
saudaram e pediram que os seguisse.
— É o fim? — ela perguntou.
— Lady — ele respondeu — é o fim. Ela curvou sua cabeça humildemen-
te e o seguiu. Do lado de fora uma liteira a aguardava. Ela foi colocada nela
e levada, à luz do claro luar, até a cidade de Jerusalém, pela Via Dolorosa,
até que pararam diante de uma grande porta, que ela reconheceu, pois ao
lado estava o velho arco.
— Trouxeram-me de volta ao Convento da Santa Cruz para me matarem
no lugar onde pedi para ser enterrada — ela murmurou para si mesma, en-
quanto descia da liteira.
320
Cruzada •
H. Rider Haggard
As portas foram abertas e ela entrou no grande pátio do convento, e viu
que ele estava decorado como se para uma festa, pois ao redor dele e nos
claustros havia muitas candeias. E mais, os claustros e o espaço na frente
deles estavam cheios de senhores sarracenos, usando vestimentas de gala, e
um pouco além, Saladino e sua corte.
— Vão transformar minha morte num grande espetáculo — pensou Rosamund
novamente. Então um pequeno grito saiu de seus lábios, pois lá, em frente ao
trono de Saladino, com o luar e a luz da candeia refletindo-se na sua armadu-
ra, estava um cavaleiro cristão alto. Ao ouvir o grito ele virou a cabeça, e ela
teve certeza de que era Wulf, um pouco emagrecido e pálido, mas Wulf.
— Então vamos morrer juntos — ela sussurrou para si mesma, e adiantou-
se orgulhosa por entre o profundo silêncio, e depois de se curvar para
Saladino, pegou a mão de Wulf.
O Sultão olhou para os dois e disse:
— Por mais que possa ser adiado, o dia do destino final fatalmente chega.
Digam, francos, estão preparados para beber as últimas gotas daquele cálice
de que lhes falei?
— Estamos preparados — responderam a uma só voz.
— Lamentam ter disposto de suas vidas para salvar a vida de todos em
Jerusalém? — ele perguntou de novo.
— Não — Rosamund respondeu, dando uma rápida olhada no rosto de
Wulf. — E nos regozijamos com o fato de Deus ter sido tão bom conosco.
— Eu também me regozijo — disse Saladino — e também agradeço a Alá
que em dias passados mandou-me aquela visão que me permitiu retomar a
cidade sagrada de Jerusalém sem derramamento de sangue. Agora tudo está
feito, como estava escrito. Leve-os.
Por um momento se agarraram, e então os emires levaram Wulf para a
direita e Rosamund para a esquerda, e ela seguiu pálida mas com a cabeça
erguida para enfrentar o carrasco, imaginando se ainda veria Godwin antes
de morrer. Ela foi levada a um aposento onde mulheres a esperavam, e não
havia nenhum carrasco à vista, e a porta foi fechada.
— Talvez vá ser estrangulada por estas mulheres — pensou Rosamund, quan-
do elas se aproximaram — a fim de que o sangue real não seja derramado.
Mas não era isto, pois com mãos gentis, mas em silêncio, elas tiraram seu
manto, lavaram-na, pentearam seu cabelo, fazendo tranças enroladas com péro-
las e pedras preciosas. Depois a cobriram com um manto de linho, e sobre ele
321
Capítulo 24 •
Os resíduos do cálice
colocaram vestes maravilhosamente bordadas, e um manto real púrpura, e as
jóias que tinha usado em dias passados, e com elas outras, ainda mais valiosas, e
cobriram sua cabeça com um véu trabalhado com estrelas douradas. Era o mes-
mo véu que Wulf lhe tinha dado e que ele usava na noite em que Hassan a tirou
de sua casa em Steeple. Ela percebeu o triste augúrio e sorriu, e depois falou:
— Ladies, por que devo zombar de meu destino com tais vestes e jóias?
— É a vontade do Sultão — elas responderam. — Mas não deve descansar
esta noite menos feliz por causa delas.
Agora tudo estava pronto, e a porta abriu-se e ela passou, apresentando-
se do outro lado radiante e reluzindo à luz das candeias. Neste momento
trombetas soaram, e um arauto gritou: “Abram alas! Abram alas! Para Sua
Alteza a Princesa de Baalbec!”
E assim seguida por um séqüito das mulheres da corte que a tinha aten-
dido, Rosamund avançou devagar até o pátio, e uma vez mais se ajoelhou
diante de Saladino, e ficou imóvel, sem saber no que pensar.
Novamente as trombetas soaram, e à direita um arauto gritou: Abram
alas! Abram alas! Para o valente e nobre cavaleiro franco Sir Wulf D’Arcy.
Pasme! Seguido de emires e nobres, Wulf se adiantou, vestido com uma
esplêndida armadura incrustada de ouro, usando no ombro uma pequena
capa trabalhada com jóias, e no peito a reluzente Estrela da Sorte de Hassan.
Ele foi até Rosamund e colocou-se ao seu lado, as mãos pousadas no punho
de sua longa espada.
— Princesa — falou Saladino — devolvi-lhe sua posição e títulos, porque
demonstrou ter um coração nobre. E o senhor, Sir Wulf, honro da melhor
maneira que posso, mas mantenho meu decreto. Que eles bebam do cálice de
seu destino, como se fossem para a cama matrimonial.
Novamente as trombetas soaram e os arautos gritaram, e eles foram le-
vados para as portas da capela, que foram abertas imediatamente. De dentro
veio o som de vozes de mulheres cantando, mas não era uma canção triste
que elas cantavam.
— As irmãs da ordem ainda estão aí — Rosamund falou para Wulf — e
vão nos encorajar em nossa caminhada para o céu.
— Talvez — ele respondeu. — Não tenho idéia. Estou surpreso.
À porta a escolta de muçulmanos os deixou, mas se agruparam junto a
entrada, como se para observar o que ia acontecer. E agora, vindo pela longa
nave vinha uma única figura, vestida de branco. Era a Madre Superiora.
322
Cruzada •
H. Rider Haggard
— O que devemos fazer, Madre? — Rosamund perguntou.
— Sigam-me, vocês dois — ela disse, e eles a seguiram pela nave até o
parapeito do altar-mor, e a um sinal dela se ajoelharam.
E em cada lado do altar estava um sacerdote cristão. O sacerdote do lado
direito — era o bispo Egbert — adiantou-se e começou a ler as palavras do
sacramento do casamento, segundo sua fé.
— Vão nos casar antes de morrermos — Rosamund sussurrou para Wulf.
— Que seja — respondeu Wulf — fico muito feliz.
— E eu também, meu amado — ela sussurrou de volta.
O serviço continuou — como num sonho — enquanto as freiras de hábito
branco sentavam-se nas cadeiras entalhadas e observavam. As alianças que lhes
foram apresentadas foram trocadas; Wulf tinha tomado Rosamund como mulher,
Rosamund tinha tomado Wulf como marido, até que a morte os separasse.
Então o velho bispo deixou o altar-mor e outro monge encapuzado adian-
tou-se e abençoou-os, com voz profunda e sonora, que fez seus corações
darem pulos, como se um eco os alcançasse de dentro de uma tumba. Ele
ergueu as mãos sobre eles, e olhou para cima, e neste momento seu capuz
caiu, e a candeia do altar iluminou seu rosto.
Era o rosto de Godwin, e sobre sua cabeça estava a tonsura de um monge.
Mais uma vez ficaram diante de Saladino, e agora o séqüito tinha sido
acrescido da Madre Superiora e das freiras da Santa Cruz.
— Sir Wulf D’Arcy — falou o Sultão — e você, Rosamund, minha sobri-
nha, princesa de Baalbec, os restos de seu cálice, doces ou amargos, ou amar-
go-doce, foram bebidos. O destino que decretei para vocês foi cumprido e,
de acordo com os seus próprios ritos, vocês são agora marido e mulher, até
que Alá destine-lhes aquela morte que eu retirei. Porque vocês demonstraram
misericórdia com aqueles condenados à morte, e como foram os emissários
da misericórdia, eu também lhes dou misericórdia, e com ela meu amor e
honra. Agora permaneçam aqui, se quiserem, livres, e desfrutem de sua po-
sição e riqueza, ou vão para onde desejarem, e vivam suas vidas do outro
lado do mar. As bênçãos de Alá recaiam sobre vocês e tornem suas almas
mais leves. Este é o decreto de Yusuf Saladino, Comandante dos Fiéis, Con-
quistador e Califa do Oriente.
Trêmulos, radiantes de alegria e surpresos, eles se ajoelharam diante
deles e beijaram sua mão. E depois de algumas rápidas palavras entre eles,
Rosamund falou.
323
Capítulo 24 •
Os resíduos do cálice
— Senhor, que o Deus que o senhor invocou, o Deus dos cristãos e dos
muçulmanos, o Deus de todo o mundo, embora o mundo o venere de muitas
formas e caminhos, o abençoe e recompense por este ato. Contudo, ouça
nosso pedido. Pode ser que muitos de nossa fé continuem em Jerusalém, por
não terem podido pagar o resgate. Pegue minhas jóias e minhas terras, faça
uma avaliação, e que seu preço seja pago pela libertação de alguns escravos
pobres. É nosso presente de casamento. Quanto a nós, vamos voltar para
nosso país.
— Que assim seja — respondeu Saladino. — As terras eu quero, e darei
o que elas valem como você deseja — sim, até o último bezante. As jóias
também serão avaliadas, mas lhe dou de presente como dote de casamento.
Para as freiras dou permissão de continuarem aqui em Jerusalém, cuidando
dos cristãos feridos, e não serão molestadas, se elas quiserem, e isso porque
lhe deram abrigo. Vamos, menestréis e arautos, levem este par recém-casado
para o lugar que lhe foi preparado.
Ainda trêmulos e chocados, viraram-se para ir, e Godwin parou diante
deles, sorrindo, e beijou-os no rosto, chamando-os “amados irmão e irmã”.
— E você, Godwin? — gaguejou Rosamund.
— Eu, Rosamund, também encontrei minha noiva, e ela é chamada a
Igreja de Cristo.
— Você volta então para a Inglaterra, irmão? — perguntou Wulf.
— Não — Godwin respondeu, com voz determinada e olhos faiscantes,
— a Cruz está no chão, mas não para sempre. A Cruz tem Ricardo
73
da
Inglaterra, e muitos outros servidores do outro lado do mar, e eles responde-
rão ao chamado da Igreja. Aqui, irmão, antes que tudo seja feito, talvez nos
encontremos novamente na guerra. Até lá, adeus.
Assim falou Godwin, e retirou-se.
324
Cruzada •
H. Rider Haggard
Notas do editor
A
1 TIBERIAS – OU TIBERÍADES, cidade junto ao lago de Tiberias, fundada no ano 17 de nossa era por Herodes
Antipas, tetrarca da Galiléia (um dos quatro reis da Galiléia). O nome é uma homenagem ao Imperador Ti-
berius. A cidade deu nome ao lago. Foi conquistada em 1187 pelos muçulmanos, após a Batalha de Hattin.
2 LAGO DA GALILÉIA – Fica na garganta do Rio Jordão, a mais de 200 metros abaixo do nível do Mar Mediterrâneo.
3 HATTIN – Dois montes, também chamados de “Os Chifres de Hattin”, perto de Tiberias, e um vulcão
extinto. Lá, em 1187, os muçulmanos (entre 30 mil e 35 mil combatentes), comandados por Saladino,
derrotaram os cristãos (cerca de 22 mil), comandados por Guy de Lusignan e Raymond de Tripoli. A
vitória muçulmana abriu as portas para a conquista de Jerusalém, em 2 de outubro de 1187. A derrota
cristã originou a III Cruzada.
4 SULTÃO SALADINO – Sultão, monarca islâmico, com autoridade política e religiosa. O primeiro a utilizar o títu-
lo foi o turco Mahmud de Ghaznavid (998/1030). Depois passou a ser usado pelos otomanos e pelas dinas-
tias Ayoub (de Saladino) e mameluca, do Egito. Saladino: Em árabe Saladino Yusuf. Nasceu em Tikrit (hoje
Iraque), em 1138, de família curda. Aos 14 anos ele e outros membros da família passaram a servir o sobe-
rano da Síria, Nur-ed-din. Entre 1164 e 1169 adquiriu projeção por seus dotes militares, e neste ano foi ele-
vado a comandante-chefe dos exércitos sírios e vizir do Egito. Reorganizou a economia e os exércitos egípcios
e rechaçou os Cruzados que tentaram conquistar o Egito. Em 1174, após a morte de Nur-ed-din, Saladino
assumiu o poder no Egito e na Síria. Em 1182 deslocou-se para a Síria e nos dez anos seguintes lutou contra
as Cruzadas e reconquistou Jerusalém para os muçulmanos em 1187. Em 1192 fez um armistício com Ricar-
do I, da Inglaterra (Ricardo Coração de Leão), pelo qual uma parte da Palestina voltou ao domínio cristão.
Morreu em 1193, e a história registra que foi um dos poucos chefes militares respeitado tanto pelos aliados
quanto pelos inimigos, inclusive os derrotados, por sua misericórdia e tratamento humanitário.
5 CRESCENTE – A Lua crescente e uma estrela são o símbolo internacionalmente reconhecido do Islamismo. Estão
presentes em várias bandeiras de países muçulmanos. O símbolo é anterior ao Islamismo, como símbolo da
adoração ao Sol e à Lua por povos da Ásia Central e da Sibéria. A cidade de Bizâncio foi a primeira a utilizar
o símbolo em sua bandeira. Há relatos que indicam que o símbolo foi também utilizado para representar a
deusa grega Diana. A Lua crescente e a estrela ligaram-se ao Islamismo durante o Império Otomano.
6 ASSASSINOS – Grupo religioso de muçulmanos ismaelitas (shiitas) com uma base militante muito ativa, e ini-
migo dos sunitas. A palavra árabe que davam à seita significa “a nova doutrina”. A origem do nome “As-
sassinos” é geralmente atribuída ao navegador Marco Pólo, que em seus relatos descreve a seita como
“ashishin”, ou “hashshashin”, ou comedores de haxixe (ao descrever os rituais de iniciação). Seus membros
eram organizados em classes rígidas, baseadas na iniciação a seus segredos (que incluíam o uso de drogas).
Os seguidores obedeciam a ordens sem contestação, para receber a recompensa máxima, o Paraíso.
7 FRANCOS – Povos originários da Europa central, de tronco germânico. A primeira menção a “francos”
data do tempo do Imperador romano Aurélio, que os derrotou numa batalha perto de Mainz (hoje na
Alemanha). Chegaram à Inglaterra em 597, levados por Bertha, mulher do soberano inglês Ethelbert, Rei
de Kent, como missionários religiosos enviados pelo papa Gregório I.
8 MASYAF – A fortaleza de Masyaf, na Síria, foi construída pelos bizantinos. Tornou-se cidade fortificada
dos Assassinos de Rashid-ed-din Sinan.
9 SARRACENOS – Nos primeiros tempos do Império Romano o termo foi usado para nomear uma tribo
árabe do Sinai, e aparentemente queria dizer “orientais”. Depois passou a designar todos os árabes. No
tempo das Cruzadas o termo foi estendido a todos os muçulmanos.
10 NOUR-ED-DIN – Nascido em Damasco em 1116, durante toda a vida combateu os cristãos. Quando to-
mou Edessa (hoje no Irã), deu origem à Segunda Cruzada. Impediu a queda de Damasco, unificou Síria
e Palestina, e anexou o Egito, para onde enviou Saladino como vizir. Quando Saladino proclamou-se
Sultão, percebeu que tinha nele um rival, e quando se preparava para combatê-lo, morreu em 1174.
11 MAOMÉ – Muhammad, em árabe, líder político e religioso. Nasceu em 570 em Makkah (hoje Meca), e
morreu em 632 em Medina (as duas cidades ficam hoje na Arábia Saudita). Para o Islamismo é o último
Profeta, a quem Deus (Alá) passou, através do Anjo Gabriel, os preceitos da religião, reunidos no Alco-
rão, o livro sagrado.
12 JIHAD – Originalmente significava “empregar grande esforço”. Nos tempos de Maomé significava a “luta
pela paz”. O conceito atual de Guerra Santa começou a difundir-se na Idade Média como uma luta
325
Capítulo 24 •
Os resíduos do cálice
sancionada pelo Profeta Maomé com o objetivo de estabelecer a hegemonia islâmica sobre os não-islâ-
micos, como meio de propagar a fé islâmica. A jihad pode ser defensiva (luta contra o opressor), ou
ofensiva (luta para impor a fé islâmica).
13 IMÃS – Líderes espirituais que atuam nas mesquitas fazendo preces, casamentos e orações fúnebres, ou
junto às populações árabes, oferecendo orientação religiosa.
14 ALCORÃO – Do árabe Qur’an, e também Corão. É o livro sagrado do Islamismo. Contém os preceitos
ditados por Deus (Alá) ao Profeta Maomé, por intermédio do Anjo Gabriel, durante 22 anos. Consiste
de 114 “suras”, ou capítulos, e 6.236 ayatos (versos. O exato número é controvertido).
15 PEREGRINO – Cristãos que iam a Jerusalém em peregrinação religiosa, e que usavam um ramo de folha de
palmeira para indicar que tinham feito a peregrinação. No original, “palmer”.
16 BAALBEC – Também chamada pelos gregos de Heliópolis (cidade do Sol), foi uma das mais famosas cida-
des da Síria. Ficava a 100 quilômetros de Damasco. Foi destruída por um terremoto em 1759.
17 HARENC – Lugar de duas batalhas, durante a I Cruzada. A primeira, em 31/12/1097, ocorreu quando os
cristãos, sitiados em Antióquia, decidiram formar um exército para ir buscar provisões. Ao mesmo
tempo, os turcos enviaram um exército para a tomada da cidade. As duas forças se encontraram em
Harenc, próximo a Antióquia, e os turcos foram rechaçados. A segunda, em 9/2/1098, ocorreu quando
tropas turcas tentaram um novo ataque contra Antióquia, ocupando Harenc. Mas os cristãos reagrupa-
ram suas forças e resistiram, impedindo o avanço turco até Antióquia.
18 PAGÃOS – No original, paynim, palavra usada para designar os não-cristãos, principalmente os muçulmanos.
19 CLUNY – Ordem religiosa beneditina muito popular nos séculos X e XI da era cristã.
20 HÉGIRA: Refere-se à partida do Profeta Maomé de Meca, no ano 622, em direção a Yathrib (hoje Medi-
na). O califa Umar I designou o ano da Hégira como o primeiro da era muçulmana. Portanto, o ano 622
da nossa era é o ano 1 do calendário muçulmano.
21 VIZIR – Nome dado a membro da corte que funciona como um alto conselheiro do Sultão para assuntos políticos,
e também como líder religioso. No Império Otomano havia um grão-vizir, uma espécie de primeiro-ministro.
22 LITANI – Rio que banha o Líbano, correndo pelo vale do Bekaa e desaguando no Mediterrâneo. É a maior
reserva de água do Líbano.
23 ORONTES – Rio que serve de fronteira entre o Líbano e a Síria e entre a Síria e a Turquia.
24 JAFFA – Uma das mais antigas cidades da área costeira que hoje é território de Israel. Registra a história
que foi do porto de Jaffa que Jonas partiu, por ordem do Senhor, para ir orar em Nínive, sendo jogado
ao mar e engolido por uma baleia.
25 JOPPA – Nome bíblico de Jaffa.
26 TROOIDOS – Cadeia de montanhas do Chipre, em cujas faldas existem abundantes vinhedos.
27 KIRÊNIA – Cidade ao norte de Chipre, fundada há cerca de 6.000 anos.
28 DISMA – Ou Dimas, um dos dois ladrões crucificados com Jesus, chamado de O Bom Ladrão. É represen-
tado carregando a cruz logo após Jesus, do Seu lado direito. Hoje é reverenciado como São Dimas.
29 FAMAGUSTA – Cidade do Chipre, cuja história começa 2.000 anos antes de Cristo, como uma pequena
povoação de pescadores. Transformou-se num importante porto, e foi a cidade escolhida por Guy de
Lusignan para sua coroação como Rei de Chipre.
30 MAVRO – Cepas viníferas originárias da Grécia, e que produzem o vinho tinto tipo mavro.
31 EL AKSA – Mesquita construída pelo califa al-Walid, e a mais antiga da Palestina. Foi destruída por um
terremoto em 749.
32 NICÓSIA – Capital de Chipre há mais de 1.000 anos. A cidade tem duas áreas distintas: uma antiga, ainda
com relíquias da ocupação venezina, e outra moderna.
33 AZRAEL – Na teologia muçulmana é o “Anjo da Morte”, eternamente escrevendo num livro, e apagando.
O que escreve é o nascimento de um homem, o que apaga é o nome do homem à morte.
34 TYRE – Localizada em duas ilhas a menos de um quilômetro da costa, ao sul de Sidon, no Mediterrâneo.
Estima-se que já fosse habitada no ano 3 000 antes de Cristo. Nela os cruzados cristãos foram sitiados
por Saladino de 8/11/1197 a 3/1/1198.
35 FEDAI – Ou “fidai”, ou “fedahin”, significa “aquele que está pronto para sacrificar a vida pela causa”.
36 NÚBIO – Originário da Núbia, região ao sul do Egito, com cerca de 800 quilômetros ao longo do Rio
Nilo, entre a primeira catarata e a sexta catarata. Praticamente toda a sua área fica hoje no Sudão.
37 GUY DE LUSIGNAN – Senhor feudal franco que por breve período foi Rei de Jerusalém (1186/92) e de
Chipre (1192/94). Sua ascensão ao trono de Jerusalém foi graças à sua mulher, Sybilla, coroada Rainha
de Jerusalém com a morte do filho, e herdeiro.
38 RAYMOND DE TRÍPOLI – Regente do trono de Jerusalém depois da morte do Rei Baldwin IV. Quando o
herdeiro, Baldwin V, morreu aos 9 anos, deveria assumir o trono, até a escolha de novo monarca. Mas
Notas do editor
326
Cruzada •
H. Rider Haggard
uma trama de Sybilla, mãe de Baldwin V, fez com que o trono fosse dividido em dois (Jerusalém e Na-
blus), cabendo Nablus a Raymond de Trípoli.
39 LIMASSOL – Segunda maior cidade de Chipre, e seu principal porto.
40 ANTIÓQUIA – Hoje Antáquia, na Turquia. Logo depois de sua fundação foi transformada em capital da
Síria. Tem papel importante no advento do cristianismo. Foi lá que o apóstolo Paulo fez seu primeiro
sermão. Também foi lá que os seguidores de Jesus foram chamados cristãos pela primeira vez. Captura-
da pelos cristãos durante a Primeira Cruzada, voltou ao domínio muçulmano em 1268.
41 PAPHOS: – Uma das mais antigas cidades de Chipre. Era sede do culto grego a Afrodite e aos deuses da fertilidade.
42 COLOSSI – castelo construído nos arredores de Limassol, no século XII, e considerado um expoente da
engenharia militar.
43 LADIKIYA – Hoje Latakia. Principal porto da Síria no Mediterrâneo. Foi praticamente destruída por terre-
motos em 494 e 555. Conquistada pelos árabes em 638, e pelos cruzados numa luta que durou de 1097
a 1103. Em 1188 foi conquistada por Saladino.
44 CALIFA – Na sua origem, o termo significava “o sucessor do Profeta” e foi primeiramente usado pelo
cunhado de Maomé (Abr Bakr) ou pelo seu genro (Abi Talib). O califa tinha poderes espirituais e tem-
porais, que exercia no “califado”. Houve califados na Síria, Iraque, Espanha, Egito e na Turquia, onde
foi abolido em 1924, por Kemal Ataturk.
45 EMESA – Cidade síria, hoje chamada de Homs ou Himns. Supõe-se que exista desde 2.300 antes de Cristo.
Nos tempos do Império Romano era conhecida como Emesa, e famosa por seu templo em louvor ao Rei Sol
(el-Gebal, em árabe). Foi governada pelos cristãos até 636, quando foi conquistada pelos muçulmanos, que
a renomearam Homs. Em 1110 foi tomada pelos Cruzados e pouco depois novamente pelos muçulmanos.
46 MAMELUCOS – Eram soldados escravos usados pelos califas e pelos imperadores otomanos. Os primeiros
mamelucos foram recrutados de famílias não-muçulmanas escravizadas no século IX. Depois de conver-
tidos ao Islamismo, passaram a integrar as tropas de cavalaria de vários sultões, e eram mantidas como
força especial, sob o comando direto do sultão, para enfrentar divergências internas. Um dos grupos
mais conhecidos de mamelucos foi o formado por Saladino.
47 MULÁS – Sacerdotes muçulmanos com grande conhecimento do Alcorão, e geralmente considerados especialistas
em questões religiosas, e capazes de aconselhamentos e julgamentos baseados em seu conhecimento religioso.
48 REGINALD DE CHATILLON – Nobre franco, foi para Jerusalém com a Segunda Cruzada. Intolerante, irascí-
vel e impulsivo, criou muitos problemas para os cruzados em sua guerra contra os muçulmanos. Captu-
rado pelos sarracenos em 1160, ficou 15 anos na prisão. Juntamente com Guy de Lusignan defendeu
uma estratégia suicida contra Saladino. Organizador de um ataque a uma caravana de Saladino, violou
a trégua e deu início a uma retaliação que terminou com a derrota cristã e a queda de Jerusalém.
49 NAZARÉ – Hoje a maior cidade de população árabe em Israel. Era uma cidade minúscula nos tempos de
Jesus. Seu nome não é citado no Talmude (que relaciona 63 cidades e vilas da Galiléia). Isto explica o
epíteto usado por Pilatos ao se referir a Jesus como “Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus”, com isto que-
rendo dizer que o Rei dos Judeus era de “lugar nenhum”.
50 TURCÓPOLOS – Guerreiros geralmente de ascendência síria, armênia ou turca, com sangue franco, e que serviram
durante as cruzadas como cavaleiros. Como tinham pele mais escura, eram utilizados como espiões infiltrados
nas linhas muçulmanas. Tanto os Templários quanto os Hospitaleiros usaram extensivamente os turcópolos.
51 TEMPLÁRIOS – Cavaleiros Templários ou Cavaleiros Pobres de Cristo foi a primeira Ordem Militar, criada ao
final da Primeira Cruzada, em 1118, para ajudar o Reino de Jerusalém a se defender dos muçulmanos der-
rotados e assegurar a segurança dos peregrinos cristãos que se dirigiam à cidade. O nome alude à sede, na
Mesquita de Omar, erigida no Monte do Templo. A Ordem lutou na Palestina, na Espanha e em Portugal.
52 JORDÃO – Rio que nasce no Monte Hermon, que serve se fronteira entre a Síria, o Líbano e Israel, e de-
ságua no Mar Morto. Mas antes suas águas abastecem o Lago Merom, 75 quilômetros abaixo da nas-
cente, e o Mar da Galiléia, 25 quilômetros após. Ao norte do Mar da Galiléia, corre em território de
Israel, e depois faz fronteira entre a Jordânia (a leste), e Israel (a oeste). O Rio Jordão é extensamente
citado na Bíblia como cenário de vários milagres.
53 CRUZ DA CRUCIFICAÇÃO, OU CRUZ VERDADEIRA – A Cruz onde Jesus foi crucificado. Encontrada no Santo
Sepulcro, túmulo de Jesus, segundo vários relatos. Consta que o túmulo foi coberto de terra, e em cima
construído o Templo de Vênus. O Imperador Constantino mandou retirar a terra, e Santa Helena, sua
mãe, mandou destruir o templo. Nas ruínas foram encontradas três cruzes. Uma mulher enferma foi
tocada pelas cruzes, e a terceira a curou, e esta cruz passou a ser considerada como a verdadeira da
crucificação. A versão é contestada, mas estas relíquias são veneradas desde o ano 340.
54 ACRE – Cidade de Israel que é uma das mais antigas do mundo, estimando-se que tenha existido desde
1450 antes de Cristo. É famosa por suas ruas entrelaçadas, em forma de labirintos, e por relíquias mu-
çulmanas, otomanas e dos tempos das Cruzadas.
327
Capítulo 24 •
Os resíduos do cálice
55 PILATOS – Pôncio Pilatos (Pontius Pilatus) foi governador romano da província da Judéia de 26 a 36.
Presidiu o julgamento de Jesus.
56 HOSPITALEIROS – Ordem dos Cavaleiros do Hospital São João de Jerusalém (mais tarde Cavaleiros de
Rodes e Cavaleiros de Malta). Começou com uma ordem beneditina de enfermeiros fundada no século
XI e sediada em Jerusalém. Mas logo se tornou uma ordem de cavaleiros cristãos, encarregada de defen-
der os peregrinos que iam visitar a Terra Santa. Com a tomada de Jerusalém por Saladino ela passou a
operar a partir de Rodes, e depois, de Malta.
57 ASCALON – Porto perto de Gaza, conquistado pelos árabes no século VII. Durante as Cruzadas houve várias
tentativas de retomá-lo dos muçulmanos, o que ocorreu em 1153. Mas Saladino o reconquistou depois da
batalha de Hattin, e começou a demoli-lo. Foi novamente retomado pelos cristãos de Ricardo Coração de
Leão, até que finalmente foi reconquistado e totalmente destruído pelos mamelucos em 1270.
58 ZION – Originalmente era o nome dado a uma fortaleza perto de Jerusalém, conquistada pelo Rei Davi.
Depois da sua morte o termo passou a referir-se ao monte onde ficava o Templo de Salomão, e depois a seus
arredores. Posteriormente o termo passou a referir-se ao desejo de uma pátria segura, ou de paz espiritual.
59 PROTEÇÃO DA IGREJA – No original, “sanctuary”. No início do cristianismo as igrejas eram construídas em
“lugares santos” (onde teriam ocorrido milagres ou martírios). Por extensão, a igreja passou a ser con-
siderada lugar santificado, principalmente o altar-mor. A área ao seu redor passou a ser considerada um
“santuário”, e a gozar da proteção da igreja, extensiva a quem lá estivesse. O direito à proteção (ao
“santuário”) foi reconhecido pela lei inglesa entre os séculos IV e XVII.
60 VIA DOLOROSA – O trajeto que Jesus percorreu carregando a Cruz, desde a Fortaleza de Antonia, onde foi
condenado à morte, até o Calvário, onde foi crucificado.
61 BALIAN DE IBELIN – Cavaleiro cristão que negociou com Saladino a rendição de Jerusalém. Membro da
família real que tomou o nome de Ibelin (de um castelo perto de Jerusalém, herdado pelo membro que
deu origem à dinastia), e que teve ramificações pela Europa.
62 ALLAHU AKBAR – Expressão árabe que pode ser traduzida como “Alá (Deus) é Grande”, “Alá (Deus) é
Onipotente”.
63 GODFREY – Foi líder da Primeira Cruzada e um dos primeiros a entrar em Jerusalém conquistada (15 de
julho de 1099). Quando seu irmão se recusou a ser nomeado Rei de Jerusalém, ele foi eleito, mas também
se recusou a adotar o título de rei. Nomeou-se “Advocatus Sancti Sepulchri” (Defensor do Santo Sepul-
cro), função que desempenhou por apenas um ano, pois morreu logo depois de assumir o controle de
grande parte da Palestina.
64 CASTELO DOS PISANS – “Pisans” refere-se aos habitantes de Pisa (marinheiros da região de Pisa, então
parte do Império Romano, hoje Itália), e que erigiram várias fortificações na Palestina.
65 TORRE DE TANCREDO – “Tancredo” refere-se ao cavaleiro cristão que teve papel importante no cerco a
Jerusalém na Primeira Cruzada.
66 KEDRON – Vale junto ao Monte do Templo, onde foram erigidos os dois primeiros templos de Jerusalém. Con-
quistado pelos muçulmanos no século VII, eles lá também erigiram duas importantes mesquitas (Al-Aksa e
Mesquita da Rocha). É considerado o lugar mais sagrado do judaísmo e o terceiro mais sagrado do Islamismo.
67 LANÇADORAS – Armas usadas nos cercos às muralhas da cidades fortificadas, consistindo de artefatos
capazes de lançar vários dardos ao mesmo tempo (balista), projéteis (catapultas ou “trebuchets”). Havia
também armas que eram lançadas contra as paredes das muralhas (como aríetes).
68 MISERERE – Palavra inicial do salmo 51, “Misere mei, Deus” (Tende piedade de nós, ó Deus). Outros dois
salmos começam da mesma forma, o 55 e o 56, distinguindo-se apenas pela continuação.
69 SYBILLA – Segunda mulher de Guy de Lusignan, e filha do Rei Baldwin IV de Jerusalém. Quando o herdeiro,
Baldwin V, e seu filho, morreu, fez-se coroar Rainha de Jerusalém, e imediatamente coroou o marido Rei.
70 EL-KUDS ESH-SHERIF – Significa “Jerusalém, a Cidade Santa”, em árabe, e era o nome pelo qual os nativos
se referiam à cidade.
71 MONTE DAS OLIVEIRAS/JARDINS DE GETSÊMANE – Cadeia de montanhas a leste de Jerusalém. Nome deriva das
oliveiras que cresciam em suas faldas. No sopé ficavam os Jardins de Getsêmane, onde Jesus ficava em Jerusa-
lém. O Monte é mencionado na Bíblia como o lugar de onde Deus redimiria os mortos no final dos tempos.
72 BEZANTES – Nome pelo qual eram conhecidas moedas de ouro. Deriva de Bizâncio, pois foi lá que elas
começaram a circular.
73 RICARDO – Ou Ricardo I, ou Ricardo Coração de Leão. Recebeu este epíteto por sua valentia e bravura.
Reinou na Inglaterra de 1189 a 1199. Foi o líder da Terceira Cruzada, que conseguiu romper o cerco de
Saladino a Acre, em julho de 1191. Mas não conseguiu recuperar Jerusalém, no ano seguinte.
Notas do editor
Entalhe da porta da catedral de Reims, na França, de um cavaleiro fazendo
juramento e comungando antes de partir para a Cruzada. Século XIII.
©

A
R
Q
U
I
V
O

D
A

E
D
I
T
O
R
A
No tempo das Cruzadas
Ao contrário do que se propaga na literatura
romântica, as Cruzadas foram caracterizadas
pela violência e pelos massacres praticados
por cristãos, que, na verdade, buscavam
menos defender o Cristianismo e muito mais
saquear as riquezas dos povos conquistados.
Na Primeira Cruzada, conquistaram
Jerusalém. Mas não conseguiram manter a
cidade e a perderam para os povos árabes,
durante a Segunda Cruzada. Na Terceira,
Ricardo Coração de Leão tentou recuperá-la,
mas perdeu a guerra, novamente, para
Saladino. Houve ainda mais cinco
cruzadas, até 1291, mas Jerusalém
nunca mais foi reconquistada.
Dois cavaleiros. O
da esquerda, menos
protegido, é um
cavaleiro pobre. O da
direita é um nobre.
©

I
L
U
S
T
R
A
Ç
Õ
E
S

D
E

A
N
G
U
S

M
C
B
R
I
D
E
Um cavaleiro nobre.
Godfrey de Lusignan saindo
para a Primeira Cruzada.
©

A
R
Q
U
I
V
O

D
A

E
D
I
T
O
R
A
Um cavaleiro turco-
iraniano, das forças
muçulmanas.
Suposto retrato de Saladino, em gravura
feita na Síria ou no Egito, no século XIII.
Godfrey de Lusignan, líder da Primeira Cruzada e
um dos primeiros a entrar em Jerusalém conquistada
(julho de 1099). Morreu um ano depois de assumir o
controle de grande parte da Palestina.
©

A
R
Q
U
I
V
O

D
A

E
D
I
T
O
R
A
©

A
R
Q
U
I
V
O

D
A

E
D
I
T
O
R
A
A porta de Damasco, em Jerusalém, hoje. A porta atual tem menos de
500 anos e foi erguida sobre a que tinha sido erguida pelos cruzados.
Godfrey ataca Jerusalém em 1099.
Fortaleza Krak dos Cavaleiros, onde vivia Reinald de Châtillon. Dali ele extorquia os
peregrinos muçulmanos que iam para a Cidade Santa. Saladino decepou seu braço
com um golpe de espada e mandou decapitá-lo em seguida.
©

A
R
Q
U
I
V
O

D
A

E
D
I
T
O
R
A
Combate entre cristãos e muçulmanos, próximo às muralhas de Antioquia, reino
latino cristão criado após a Primeira Cruzada. Miniatura flamenga do século XV.
©

B
I
B
L
I
O
T
E
C
A

P
Ú
B
L
I
C
A

E

U
N
I
V
E
R
S
I
T
Á
R
I
A
,

G
E
N
E
B
R
A
Soldados da Primeira
Cruzada assediam turcos
de Nicéia, em 1097. Para
desmoralizar os defensores
da cidade, os cristãos
atiraram as cabeças dos
soldados turcos sobre as
muralhas.
©

B
I
B
L
I
O
T
E
C
A

N
A
C
I
O
N
A
L
,

P
A
R
I
S
Combate entre as tropas de Saladino e
os guerreiros da Terceira Cruzada.
©

A
R
Q
U
I
V
O

D
A

E
D
I
T
O
R
A
Forças cristãs empunhando lanças enfrentam
muçulmanos nesta ilustração da Segunda Cruzada,
entre 1147 e 1148.
Cruzados cristãos perseguindo seus
inimigos muçulmanos – na época, ambos
exterminavam sem misericórdia qualquer
um capturado em nome da religião.
©

B
R
I
T
I
S
H

L
I
B
R
A
R
Y
,

L
O
N
D
R
E
S
Embarque dos cruzados para a Terra Santa.
©

A
R
Q
U
I
V
O

D
A

E
D
I
T
O
R
A
Cena do filme “Cruzada” (Kingdom of Heaven), de Ridley Scott.
O ator inglês Harold Bloom faz o papel do cavaleiro Balian de Ibelin no filme “Cruzada”.
Mercadores, damas ou cavaleiros, todos se dirigem em
peregrinação à Terra Santa. Miniatura do século XV.
©

A
R
Q
U
I
V
O

D
A

E
D
I
T
O
R
A