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Políticas de enfrentamento ao heterossexismo: corpo e prazer

Organizador: Fernando Pocahy
Políticas de enfrentamento ao heterossexismo: corpo e prazer
Organizador: Fernando Pocahy
1ª edição
Porto Alegre, 2010
Políticas de enfrentamento ao heterossexismo: corpo e prazer
Organizador: Fernando Pocahy
Edição: nuances - grupo pela livre expressão sexual
e nupsex - Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero (ufrgs)
Este livro não pode ser comercializado. Sua distribuição é gratuita.
Catalogação-na-Publicação
Ficha catalográfca elaborada pelo Setor de Processamento Técnico da BIBPSICO/UFRGS
Arte: Luis Gustavo Weiller
Editoração de capa: Perseu Pereira
Diagramação: BHZ Design
P779 Políticas de enfrentamento ao heterossexismo : corpo e
prazer / organizador Fernando Pocahy. — Porto Alegre : NUANCES, 2010.
176 p.
Resultante do Seminário que guarda o título do livro, e que teve lugar entre
os dias 6, 7 e 8 de agosto de 2008 na Faculdade de Educação da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul.
ISBN 978-85-60658-03-9
1. Homossexualidade. 2. Sexualidade. 3. Gênero. 4. Corpo.
5. Direitos humanos. I. Pocahy, Fernando. II. Seminário
Políticas de Enfrentamento ao Heterossexismo (2008 : Porto Alegre, RS).

CDD 306.76
Instituições parceiras
Igualdade – Associação de Travestis e Transexuais do RS
Liga Brasileira de Lésbicas – Região Sul
cesec – Centro de Estudos de Cidadania e Segurança (Univ. Cândido Mendes/RJ)
clam – Centro Latino-americano em sexualidade e direitos humanos (ims/uerj)
acadepol - Academia de Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Sul
esp - Escola de Saúde Pública do Estado do Rio Grande do Sul
geerge – Grupo de Estudos em Educação e Relações de Gênero (ufrgs)
nupacs - Núcleo de Pesquisas em Antropologia do Corpo e da Saúde (ufrgs)
nupsex - Núcleo de Pesquisas em Sexualidade e Relações de Gênero (ufrgs)
Secretaria Especial dos Direitos Humanos
Agradecimentos
O nuances – grupo pela livre expressão sexual expressa agradecimento a
todas as pessoas e instituições que se engajaram na realização do Seminá-
rio Políticas de enfrentamento ao heterossexismo: Corpo e Prazer e que
fzeram deste evento um espaço de reencontro e novidade, cuja memória
permanece viva nessa publicação.
Encorajados pelo apoio da Secretaria Especial dos Direitos Humanos,
através Coordenação Geral de Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays,
Bissexuais, Travestis e Transexuais – lgbt, Programa Brasil sem Homofo-
bia, reunimos em Porto Alegre pessoas que, cada uma a seu tempo e mo-
mento, dialoga(ra)m e/ ou colabo(ra)ram com a atuação do grupo nuances
e/ou que estão presentes no debate acadêmico e militante sobre sexualida-
de, gênero e direitos humanos.
A oportunidade de realizarmos o evento e esse livro com recursos públi-
cos refete mais do que um momento político. Ela diz respeito aos esforços
de muitas pessoas no processo de construção da democracia em nosso país.
Gênero, sexualidade e raça/etnia são mais do que temas de sociedade, eles
são dimensões políticas sem as quais não podemos pensar o Brasil.
Nosso especial agradecimento à sedh pelo fnanciamento deste proje-
to, bem como pela parceria; a Rodrigo Lopes pela curadoria da exposição
“Lampião da Esquina” que teve lugar durante o evento; à Universidade Fe-
deral do Rio Grande do Sul, em particular à Faculdade de Educação e ao
geerge – Grupo de Estudos em Educação e Relações de Gênero que não
somente acolheram e ofereceram a estrutura para a realização do encontro,
mas abriram possibilidades de diálogo com a comunidade acadêmica ao
sediar o evento e ao hospedar a exposição comemorativa aos trinta anos
Sumário
Apresentação • 11
Fernando Pocahy
Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil • 13
Júlio Assis Simões
Direitos Humanos, Direitos Sexuais e Homossexualidade • 35
Roger Raupp Rios
Políticas e Direitos Sexuais no Brasil Contemporâneo • 45
Sérgio Carrara
Pouco saber para muito poder: a patologização do gênero • 61
Berenice Bento
Plurais na singularidade – refexões sobre travestilidades, desejo
e reconhecimento • 75
Larissa Pelúcio
Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico:
para além da inversão da sigla • 85
Guilherme Silva de Almeida
Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”:
diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo • 103
Regina Facchini
Respostas do movimento glbt à homofobia
e a agenda da segurança pública • 125
Silvia Ramos
Sexualidades minoritárias e educação: novas políticas? • 143
Guacira Lopes Louro
Educação, heterossexismo e homofobia • 151
Henrique Caetano Nardi
de surgimento do Jornal Lampião da Esquina; ao Setor de Apoio a Eventos
da Faculdade de Educação, pelo apoio técnico e por todas as gentilezas; e
muito particularmente ao Núcleo de Pesquisas em Sexualidade e Relações
de Gênero - nupsex/ufrgs que colaborou com a edição deste livro.
Nossos agradecimento a todas as instituições parceiras e suas/seus re-
presentantes, sem as/os quais este evento não teria encontrado a repercus-
são e a notoriedade que se produziram: Igualdade – Associação de Traves-
tis e Transexuais do RS, Liga Brasileira de Lésbicas – Região Sul, geerge
– Grupo de Estudos em Educação e Relações de Gênero (ufrgs), nup-
sex – Núcleo de Pesquisas em Sexualidade e Relações de Gênero (ufrgs),
nupacs – Núcleo de Pesquisas em Antropologia do Corpo e da Saúde
(ufrgs), clam – Centro Latino-americano em sexualidade e direitos hu-
manos (ims/uerj), cesec – Centro de Estudos de Cidadania e Segurança
(Universidade Cândido Mendes/RJ), Academia de Polícia Civil do Estado
do Rio Grande do Sul e Escola de Saúde Pública do Estado do Rio Grande
do Sul.
A todas as pessoas que estiveram presentes nessa jornada deixamos re-
gistrado neste livro imagens e vozes de um encontro animado pela ética e
pala solidariedade, vigoroso em sua potência de idéias e em seu compro-
misso com a democracia e a dignidade humana.
Muito obrigada/o!
Ativistas do nuances
13 Apresentação
Apresentação
O nuances tem o prazer de apresentar-lhes a publicação Políticas de En-
frentamento ao Heterossexismo, resultante do Seminário que guarda o tí-
tulo do livro, e que teve lugar entre os dias 6, 7 e 8 de agosto de 2008 na
Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O evento contou com a presença de ativistas, pesquisadoras/res, estudan-
tes e representantes da gestão pública, entre outras pessoas implicadas em
pensar/viver modos de desafar as formas culturais e políticas do heteros/
sexismo.
Esta ação, entre tantas outras já realizadas pelo grupo nuances, refete a
trajetória de um grupo de ativistas que em seus 20 anos de existência sem-
pre buscou promover amplo e radical debate sobre as formas de produção
de desigualdade social, denunciando e agindo diante dos processos de nor-
malização das possibilidades de experimentação do corpo e das formas de
produção de prazer (particularmente a sexualidade).
O projeto deste evento foi realizado através de Convênio com a Secre-
taria Especial dos Direitos Humanos e articulado a diversas parcerias ins-
titucionais em âmbito local e nacional. Este seminário se constituiu como
uma estratégia de ampliação e fortalecimento de alianças no campo acadê-
mico, militante e de gestão pública. E no instante em que nos dispusemos
a refetir e agir diante da imposição dos binarismos, das classifcações e
dos sistemas de oposição que determinam os lugares que uns e outros/as
podem ocupar em nossa sociedade, a partir das representações de gênero
e da sexualidade (em interseccionalidade com outros marcadores sociais),
acionamos coletivamente (especialmente no debate entre Universidade e
Movimento Social) uma crítica às epistemologias normativas que cercam o
mundo e que dão garantias às diversas formas de exclusão.
15 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
Ao propormos a veiculação do conceito de heterossexismo, amplamente
citado e tensionado no evento e presente nos artigos que seguem, não tive-
mos a intenção de esvaziar a força política que construímos no movimento
lgbt através da palavra homofobia (e de suas particularidades l/g/b/t-
fobia). No entanto, o que arriscamos nessa revisão e ampliação do conceito,
foi uma forma de evidenciar ainda mais um tipo de violência e de hierar-
quização das relações sociais que se produz nos domínios da sexualidade
- amalgamada a representações fxas e hierarquizadas de gênero.
O heteros/sexismo não diz respeito somente a lésbicas, travestis, tran-
sexuais, gueis ou bissexuais. Esta forma de discriminação diz respeito ao
modelo de sociedade que vivemos. Ela opera muitas vezes de forma sutil na
maioria das vezes, mas por outras em gritante manifestação, trabalhando a
conferir inteligibilidade social a partir da suposta naturalidade e evidente
status da heterossexualidade. Esta forma compulsória atribui sentidos às
formas de viver a sexualidade e o gênero, sendo construída e reiterada “na-
turalmente” por discursos científcos, culturais e/ou religiosos fundamen-
talistas; discursos estes que criam e favorecem condições para a banalização
da violência que se materializa em desqualifcações, negligências, descaso,
insultos, constrangimentos, agressões físicas, tortura e através de assédios
de toda ordem. Não faltam violações de direitos e, terrivelmente, a violên-
cia letal nestes jogos de subordinação e de controle da vida. De uma forma
mais ampla, um dos efeitos diretos desse tipo de norma e consequente dis-
criminação é o enfraquecimento da democracia.
Resultado de um ardente e vigoroso debate, trazemos aqui nesta publicação
algumas provocações a que pensemos na multiplicidade das formas com as
quais nós podemos arriscar alguma virada nestes jogos de assujeitamento-
objetifcação que envolvem sexualidade e gênero. E nós podemos começar este
debate revisitando a história presente em nossas próprias lutas e os desafos
sobre o reconhecimento social que desejamos, perguntando-nos como ele se
produz e como é negociado em termos de política de identidade.
Tenhamos um bom (re)encontro e boas inquetações nesta leitura.
Fernando Pocahy
nuances/ ppgedu-ufrgs(geerge/nupsex)
Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
Júlio Assis Simões
1
Escrever sobre a história do movimento lgbt no Brasil é tarefa prazerosa e
relevante, mas ao mesmo tempo temerária. Trata-se de cobrir um período
relativamente curto, mas também intenso, em que os primeiros grupos de
militância homossexual, auto-sustentados e de organização despojada, sur-
gidos no fnal dos anos 1970, deram lugar ao cenário atual de redes nacionais
de entidades ativistas lgbt e seus variados vínculos com o Estado e com o
movimento internacional. Hoje, o Brasil aparece como o país que mais re-
aliza Paradas do Orgulho lgbt, e o movimento lgbt parece ter-se tornado
responsável pelas maiores manifestações públicas de massa no País.
Devo dizer que minha participação direta nessa história foi bem mo-
desta, como membro do grupo Somos, no remoto ano de 1979; e minha
maior contribuição ao movimento talvez tenha sido coletar um punhado
de assinaturas de meus professores na Faculdade de Filosofa, Letras e Ci-
ências Humanas da usp, onde eu era aluno do curso de Ciências Sociais,
para um abaixo-assinado em defesa dos editores do jornal Lampião, que
então sofriam um processo na Justiça por ofensa à moral e aos bons cos-
tumes. É verdade que assisti a dezenas de longas reuniões de grupo, e para
isso até estava calejado, tendo em vista as outras tantas dezenas de assem-
bléias estudantis que já tinha frequentado naquele agitado fnal de década
de 1970. Mas, depois desse breve período de militância, apenas acompanhei
de longe os esforços de vários dos amigos que fz no movimento, alguns já
não mais presentes entre nós, que prosseguiram em várias outras frentes
1 Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas. Professor do Departamento de
Antropologia da usp.
16 Júlio Assis Simões 17 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
de batalha, no combate à pandemia do hiv-Aids e nas tentativas de recriar
espaços de sociabilidade e discussão sobre homossexualidade e diversida-
de sexual. Depois ainda, acompanhei o trabalho militante e investigativo
de pessoas mais jovens, alguns quase alunos que viraram grandes amigos,
como Regina Facchini, que se tornou uma pesquisadora de referência no
campo e com quem fui estimulado a escrever recentemente um pequeno
livro sobre esse assunto
2
. Foi essa experiência e a rememoração por ela pro-
porcionada que me deu alento para aceitar esta incumbência, atendendo ao
convite dos caros e caras ativistas do grupo Nuances.
Não é possível contar a história inteira no espaço que disponho. Só po-
derei apresentar contornos dessa trajetória, passando em grandes pincela-
das por suas fases, e chamar a atenção para as mudanças sociais e políticas
mais amplas que moldaram as formas de organização e atuação do movi-
mento. Como todo mundo que fala sobre esse assunto deixa transparecer
suas próprias experiências e preferências, vou acabar dando mais espaço
à primeira fase do movimento, porque me sinto mais à vontade para falar
dela, por tê-la vivido mais de perto. Ainda assim, gostaria também de in-
cluir, mais ao fnal, algumas refexões em torno do processo contemporâ-
neo de constituição do cidadão lgbt como sujeito de direitos e dos desafos
que têm sido postos ao movimento atual.
Vou adotar aqui a convenção, seguida por vários estudiosos
3
, de que
o desabrochar de um movimento homossexual no Brasil se deu no fnal
da década de 1970, com o surgimento de grupos voltados explicitamente
à militância política, formados por pessoas que se identifcavam como ho-
mossexuais (usando diferentes termos para tanto) e buscavam promover e
2 Julio Assis Simões e Regina Facchini, Na trilha do arco-íris: do movimento homossexual ao lgbt. São
Paulo: Edtora Fundação Perseu Abramo, no prelo.
3 A literatura disponível converge ao considerar o fnal dos anos 1970 como marco do surgimento de
“movimento homossexual” no Brasil. Ver, entre outros: Peter Fry, Da hierarquia à igualdade: a cons-
trução histórica da homossexualidade no Brasil. In: Para inglês ver: identidade e política na cultura
brasileira. Rio de Janeiro, Zahar, 1982, pp. 87-115; João Silvério Trevisan, Devassos no paraíso. 3ª. ed. Rio
de Janeiro, Record, 2000; Edward MacRae. A construção da igualdade: identidade sexual e política no
Brasil da “Abertura”. Campinas, Ed. da Unicamp, 1990; Cristina Câmara, Cidadania e orientação sexual:
a trajetória do grupo Triângulo Rosa. Rio de Janeiro, Ed. Academia avançada, 2002; Cláudio Roberto da
Silva, Reinventando o sonho: história oral de vida política e homossexualidade no Brasil Contemporâneo.
Dissertação de Mestrado. São Paulo, usp, 1998; James Green, Além do carnaval: a homossexualidade
masculina no Brasil do século XX. São Paulo, Ed. da Unesp, 2000; James Green, “Mais amor e mais te-
são”: a construção de um movimento brasileiro de gays, lésbicas e travestis. cadernos pagu, 15, 2000, pp.
271-295; Regina Facchini, Sopa de letrinhas? Movimento homossexual e produção de identidades coletivas
nos anos 90. Rio de Janeiro, Garamond, 2005; Gláucia Elaine Silva de Almeida. Da invisibilidade à vul-
nerabilidade: percursos do “corpo lésbico” na cena brasileira face à possibilidade de infecção por dst e Aids.
Tese de Doutorado. Rio de Janeiro, ims/uerj, 2005; Carlos Figari, @s outr@s cariocas. Belo Horizonte,
Ed. da ufmg; Rio de Janeiro, iuperj. 2007.
difundir novas formas de representação da homossexualidade, contrapos-
tas às conotações de sem-vergonhice, pecado, degeneração e doença. Con-
siderando tais características – de aglutinar pessoas dispostas a declarar sua
homossexualidade em público e que se apresentavam como parte de uma
minoria oprimida em busca de alianças políticas para reverter essa situação
de preconceito e discriminação –, podemos dizer que o movimento políti-
co em defesa da homossexualidade no Brasil completou 30 anos. O marco
consagrado nessa historiografa particular é a formação do grupo Somos,
em São Paulo, em 1978, à mesma época em que era lançado o Lampião, jor-
nal em formato tablóide que se voltava para um enfoque acentuadamente
social e político da homossexualidade.
Isso posto, devemos ter em conta que a história das associações de pes-
soas que têm a homossexualidade como um aspecto compartilhado em
suas vivências é, contudo, muito mais antiga e diversifcada no Brasil. Nem
sempre essas associações assumiram caráter político e, muitas vezes, nem
mesmo tiveram a homossexualidade como foco aglutinador, embora te-
nham sido veículos importantes para sua expressão social – como é o caso,
por exemplo, dos fãs-clubes de famosas cantoras da música popular, desde
a era do rádio até hoje.
Não há espaço aqui de retroceder tanto no tempo, e dar a essa “movi-
mentação homossexual” do passado o lugar devido. Cabe lembrar, de todo
modo, que a década de 1970, que se inicia no Brasil sob o jugo da ditadura
escancarada e que corresponde aos nossos “anos de chumbo” – o período
mais violento de perseguições, torturas e assassinatos cometidos pelos ór-
gãos da repressão política e por seus braços paralelos que faziam cair seu
peso sobre os costumes – foi também, paradoxalmente, um tempo de gran-
de efervescência artística e de contestação cultural no País, culminando no
amplo movimento político de oposição à ditadura, no seio do qual, justa-
mente, irá brotar o então chamado movimento homossexual. Trata-se de
um momento marcado pela contracultura, pelo desbunde e sua concomi-
tante conversão em formas de consumo de massa; pelo reaparecimento do
movimento estudantil e sindical; por uma intensa atividade de grupos de
esquerda (ainda que na clandestinidade); e pelo surgimento e visibilidade
das versões modernas do movimento feminista e do movimento negro. Foi
também um tempo em que espaços públicos de sociabilidade homossexual
começaram a se tornar mais visíveis e ruidosos, especialmente nas grandes
cidades. Tempo de “explosão discursiva” sobre as homossexualidades, para
além dos tradicionais jornais caseiros, alcançando a grande imprensa e o
18 Júlio Assis Simões 19 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
mercado editorial. Tempo em que as homossexualidades saíram do armário
não só para ir ao bar e à festa, mas também à assembléia e à reunião de pauta.
Libertários e despojados
O jornal Lampião e o grupo Somos, de São Paulo, são reconhecidos hoje
como expressões modelares da primeira onda de ativismo homossexual no
Brasil. Formados praticamente ao mesmo tempo, tiveram ambos uma exis-
tência curta. Lampião
4
durou de abril de 1978 a junho de 1981, publicando
37 edições mensais em pouco mais de três anos de existência. O Somos du-
rou um pouco mais, cerca de cinco anos de 1978 a 1983. Mas talvez o grande
período para ambos tenha sido o ano e meio, que vai de fevereiro de 1979
a junho de 1980.
Essas datas marcam o auge da atuação do grupo Somos. Em fevereiro
de 1979 deu-se o seu aparecimento público numa semana de debates sobre
“movimentos de emancipação de grupos discriminados” promovida pelos
estudantes do Centro Acadêmico do curso de Ciências Sociais da Univer-
sidade de São Paulo, quando o grupo foi batizado como “Somos” – nome
que, além de suas propriedades palindrômicas, evocava o jornal publica-
do pela extinta Frente de Libertação Homossexual da Argentina. Na outra
ponta, em junho de 1980, acontecia a principal ação pública dos militantes
homossexuais da época: um ato público realizado em frente ao Teatro Mu-
nicipal de São Paulo, que reuniu o já então fragmentado Somos e represen-
tantes dos movimentos feminista e negro, em protesto contra a repressão
policial, capitaneada pelo delegado Richetti, que atingia os principais pon-
tos de prostituição e de freqüência homossexual do centro da cidade. Cerca
de mil manifestantes seguiram em passeata pelas ruas do centro de São
Paulo, naquela que pode ser considerada a primeira manifestação de rua
do movimento homossexual no Brasil, e na qual se celebrizaram palavras
de ordem inusitadas, como “somos todas putas”, “amor, tesão, abaixo a re-
pressão!”; “agora, já, queremos é fechar” e “Ricchetti é louca, ela dorme de
touca!”
5
. Um pouco antes, uma parte do Somos participara do ato público
de comemoração do 1º de Maio, no Estádio da Vila Euclides, em São Ber-
4 O nome completo do jornal era Lampião da Esquina, sendo o complemento “da Esquina” acrescen-
tado por questões de registro comercial, já que existia então uma editora com o nome “Lampião”. Os
exemplares, porém, estampavam a palavra “Lampião” em letras garrafais, e foi por esse nome que o
jornal fcou conhecido. Por isso, me refro a ele aqui apenas dessa forma abreviada.
5 João Silvério Trevisan, A guerra santa do Dr. Richetti. Lampião, n. 26, julho de 1980.
nardo do Campo, no abc paulista, desflando debaixo de surpreendentes
aplausos dos operários presentes – episódio esse que foi o estopim para a
cisão do grupo.
Esse ano e meio é também talvez o melhor momento do Lampião, ape-
sar do inquérito que fustigou seus editores. O jornal aumentava sua tira-
gem, melhorava sua distribuição para além de Rio e São Paulo e desenvol-
via com o Somos um relação de colaboração bastante estreita, ainda que
também tumultuada. O número 10 do jornal (março de 1979) deu grande
cobertura aos debates sobre os “movimentos de emancipação”, em que o
Somos se assumiu para o mundo. Um texto relatando a experiência de um
ano de existência do Somos foi publicado com destaque nas duas primei-
ras páginas da edição de número 12 (maio de 1979), na qual a reportagem
principal, “Amor entre mulheres”, trazia entrevistas, textos e depoimentos
produzidos em grande parte por lésbicas ativistas do Somos. Na edição de
número 16 (setembro 1979), a reportagem de capa, “Homossexuais se orga-
nizam”, trazia uma entrevista com integrantes do Somos e textos em que o
grupo expunha suas metas, organização e métodos.
Em contrapartida, integrantes do Somos colaboravam na comerciali-
zação do Lampião nos espaços de frequência homossexual de São Paulo, e
também distribuindo cópias das edições que continham matérias sobre o
grupo, marcadas por um carimbo de cortesia com o número de sua caixa
postal. O grupo também formou uma Comissão de Defesa do Lampião,
colhendo assinaturas a um manifesto em apoio ao jornal em razão do in-
quérito contra o seu Conselho Editorial.
O abaixo-assinado em defesa do Lampião e a participação formal do
Somos no ato público de comemoração ao Dia de Zumbi, promovido em
novembro de 1979 pelo Movimento Negro Unifcado foram, aliás, as pri-
meiras tomadas de posição política que o grupo fazia em público. Essa re-
duzida presença pública não se explica apenas pelas restrições impostas
pelo regime militar à liberdade de expressão. O Somos era um movimento
muito voltado mais para dentro do que para fora, construído a partir de
subgrupos de identifcação e reconhecimento, segundo um estilo confes-
sional inspirado no feminismo, em que eram importantes os relatos e tro-
cas de experiências pessoais entre seus membros. Foi principalmente essa
experiência que fez com que o grupo adquirisse grande importância para
muitos participantes, que nele encontraram uma fonte crucial de relações
de afeto, amizade e apoio emocional, muitas das quais perduraram por largo
tempo, ao longo da vida de seus ex-integrantes.
20 Júlio Assis Simões 21 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
Lampião e Somos se assemelhavam nas novidades que representavam.
Lampião era bem diferente de tudo o que lhe havia precedido em termos de
imprensa homossexual no País até então – a começar pelo fato de que reu-
nia em seu Conselho Editorial um conjunto de jornalistas, escritores e inte-
lectuais de considerável peso na vida cultural brasileira, que emprestavam
uma inédita legitimidade à empreitada. Os integrantes do Somos tampouco
correspondiam aos estereótipos então vigentes sobre homossexuais. Havia
alguns intelectuais e profssionais liberais, ao lado de um número crescente
de jovens, muitos dos quais universitários. Trejeitos acentuados ou roupas
espalhafatosas não eram a tônica. Na apresentação pessoal, indumentária,
postura corporal, gestos e tom de voz, a maioria das moças e rapazes do So-
mos não se distinguia do padrão vigente entre sua geração; e, nas reuniões
do grupo, a conduta geral não era nada muito diferente do que se via numa
assembléia estudantil.
Lampião se propunha a “sair do gueto” e ser um veículo pluralista aberto
a diferentes pontos de vista sobre diferentes questões minoritárias. Isso foi
posto em prática com a publicação de matérias sobre movimento feminista,
movimento negro, transexualidade, sadomasoquismo, populações indíge-
nas, prisioneiros, ecologia e até mesmo uso de maconha, embora o jornal
não tenha sido bem sucedido para atrair mulheres para o seu Conselho
Editorial. Lampião também se preocupava com as condições dos que se
dedicavam à prostituição masculina e feminina, tendo realizado matérias e
entrevistas com travestis, garotas e garotos de programa.
Por outro lado, o enfoque informativo, opinativo e politizado de todas
essas questões se fazia predominantemente por meio da incorporação da
linguagem popular do meio homossexual, com farto uso de palavras como
“bicha”, “boneca”, “viado” e equivalentes. O uso dessas palavras considera-
das pejorativas causava mal-estar entre vários editores e leitores do jornal
enquanto outros, como Aguinaldo Silva, defendiam-no como estratégia
para esvaziar seu potencial ofensivo.
De modo semelhante, no Somos, muitos defendiam que as palavras
“bicha” e “lésbica” deviam ser usadas, como uma espécie de senha de per-
tencimento, a fm de “esvaziar” seu conteúdo pejorativo. O grupo, que era
predominantemente masculino e não contava com travestis ou transexuais
em seus membros, propunha que as assimetrias entre homens e mulheres
deveriam ser combatidas, bem como a polarização ativo/ passivo e os este-
reótipos efeminado/ masculinizada, ainda que admitindo que isso poderia
ser importante no plano das fantasia eróticas. Por outro lado, o uso do lin-
guajar do gueto homossexual masculino no tratamento cotidiano não dei-
xava de causar tensões entre os ativistas, sobretudo, mas não exclusivamen-
te, com as mulheres, e era fonte de longos debates em torno do “machismo”
das “bichas”. No Lampião esse tipo de discussão repercutia em textos assi-
nados, entre outros, por João Antonio Mascarenhas, que não via com agra-
do a atenção que o jornal concedia aos travestis (na época, a palavra sempre
era dita no masculino); e criticava travestis e homossexuais afeminados em
geral por representarem uma caricatura da “mulher objeto sexual, a mulher
cidadã de segunda classe, a mulher idealizada pelos machistas”.
Na verdade, havia desacordos e divergências entre editores e colabora-
dores do Lampião a respeito de quase tudo. Uma querela em torno dos ter-
mos que seriam apropriados para se referir à homossexualidade marcou os
primeiros números do jornal. Havia quem fosse contrário ao uso de “gay”
por considerá-lo imperialista e alheio à realidade brasileira. Para se ter uma
idéia, na entrevista com Winston Leyland (um ativista americano cuja visita
ao Brasil, em 1977, acabou funcionando como catalisador para o surgimen-
to do Lampião) feita por João Silvério Trevisan e James Green, publicada
no número 2 (junho/julho de 1978), o termo gay, que era abundantemente
empregado pelo entrevistado, foi traduzido como “entendido”. Outros de-
fendiam que a palavra fosse grafada na forma aportuguesada “guei”.
No Somos as divergências também eram muitas, e tendiam a ser con-
tornadas por meio de processos de tomada de decisão; no Somos tinham
por norma o consenso. Uma motivação forte em boa parte de seus inte-
grantes era evitar a cristalização de lideranças e incentivar um estilo de
ação autogestionário. As coordenações das reuniões gerais, assim como dos
subgrupos de identifcação e atuação deveriam ser rotativas. Na prática,
isso implicava reuniões longas, com uma profusão de debates e difcul-
dades operacionais de toda sorte que, paradoxalmente, contribuíam para
concentrar as posições de direção em um pequeno conjunto de pessoas
com interesse e disponibilidade, que se distinguiam pelo carisma pessoal
e pela habilidade retórica. Com a expansão e diversifcação do grupo e o
decorrente acirramento de divergências, a exigência de consenso passou a
ser também um trunfo manipulado por quem se opunha a determinadas
propostas ou buscava evitar mudanças de orientação para o grupo. Nessas
ocasiões, acusações de “machista”, “fascista” e “autoritário”, termos usados
de forma intercambiável e indiscriminada, costumavam ser recursos pode-
rosos para conter e calar um oponente, sob a justifcativa, um tanto irônica,
de que o autoritarismo devia ser combatido em todas as suas manifesta-
22 Júlio Assis Simões 23 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
ções. Também se dizia, com humor, que as decisões no Somos não eram
realmente tomadas por “consenso”, e sim por “cansaço”.
6

Um dos raros consensos entre os participantes do Somos era o prin-
cípio de que o grupo deveria ser exclusivamente formado por homosse-
xuais. Estabelecida uma relação de oposição entre hetero e homossexuais,
que envolveria uma situação de opressão dos segundos pelos primeiros,
considerava-se que os homossexuais, como oprimidos, somente poderiam
encontrar a si mesmos, aceitar-se e recuperar sua autonomia estando entre
iguais. O suposto, certamente muito discutível, era o de que um ambiente
formado por homossexuais seria mais igualitário, assim como as relações
homossexuais, por se darem entre “iguais”, seriam menos assimétricas que
as heterossexuais.
Essa exclusividade homossexual costumava ter um efeito positivo nos
subgrupos de identifcação e reconhecimento, contribuindo para que os
recém-chegados se sentissem menos constrangidos e lidassem melhor com
seus próprios sentimentos de culpa e autodepreciação. Essa experiência ad-
quiriu grande importância para muitos participantes, que encontraram no
grupo uma fonte crucial de relações de afeto, amizade e apoio emocional,
que não raro perduraram fora dele. Era bastante disseminado o sentimento
de ter encontrado a própria turma, de se considerar “casado com o grupo”.
Também eram questionadas a monogamia e a possessividade nos relacio-
namentos estáveis.
Nem Lampião nem Somos tinham opinião fechada quanto às origens
da homossexualidade (referida, na época, como “homossexualismo”). Dis-
cussões desse tipo costumavam ser desqualifcadas como perda de tempo,
já que predominava a visão de que tudo o que fora produzido pela ciência e
pela academia a esse respeito seria apenas uma expressão mais asséptica do
mesmo preconceito que contaminava toda a sociedade. Uma atitude geral
era considerar que a homossexualidade de cada um era algo que dizia res-
peito somente aos próprios interessados, e que ninguém – família, escola,
Igreja ou Estado – tinha o direito de se intrometer nisso.
O princípio de que era preciso reconhecer, aceitar e assumir a própria
homossexualidade, dominante nos subgrupos de identifcação, reforçava
a visão de algo que de alguma maneira era parte essencial da pessoa, uma
6 Baseio-me aqui em minhas próprias memórias desse período, como freqüentador das reuniões gerais
do Somos, e de parte das reuniões de seu Grupo de Atuação, de maio a dezembro de 1979. O leitor pode
confrontar as avaliações opostas sobre essa dinâmica organizativa, apresentadas respectivamente por
Edward MacRae (A construção da igualdade, cap. 5), da qual me aproximo, e por João Silvério Trevisan
(Devassos no paraíso, 3ª. ed. parte 5, cap.2).
marca inescapável e certamente “incurável”, sobre a qual não se podia ter
outro tipo de controle que não fosse o seu reconhecimento. Mas, se no So-
mos, como observou MacRae, se costumava “partir do princípio de que a
humanidade estaria dividida entre heterossexuais e homossexuais (e tal-
vez alguns bissexuais)”, havia também no grupo certa resistência a crista-
lizar identidades, tendência essa que foi ganhando força ao longo do tem-
po. Afnal, como também ressaltava MacRae, o Somos era um “inusitado
e dinâmico espaço para discussões de sexualidade” que arregimentava um
conjunto consideravelmente heterogêneo de pessoas onde divergências e
confitos eram freqüentes, assim como as trocas de opiniões e infuências.
Nesse espaço atuavam vários que adotavam uma noção mais fuida e situ-
acional da identidade sexual, e lembravam que a população homossexual
não era homogênea, nem do ponto de vista da sua sexualidade, nem de sua
vivência mais ampla.
Pode-se compreender, assim, que o grupo tivesse concepções divergen-
tes em relação a uma série de temas: a natureza da homossexualidade, o
signifcado da bissexualidade, a conduta das travestis, das “bichas pintosas”
e das lésbicas masculinizadas. Se, de um lado, o “bissexualismo” era deplo-
rado como identidade ou subterfúgio para não assumir a homossexuali-
dade, em outros momentos a prática bissexual era elevada ao patamar da
subversão suprema de todas as regras. Se travestis,“pintosas”, “fanchas” e
“sapatões” eram desvalorizadas como foco de interesse erótico e criticadas
por reproduzirem padrões de dominação macho/fêmea, eram também pre-
zadas por sua ousadia e autenticidade.
Lampião e Somos tendiam a conceber os homossexuais como uma mi-
noria oprimida e, portanto, com o interesse comum de reivindicar o direito
“a uma existência não mistifcada, limpa, confante, de cabeça levantada”,
para usar os termos de um artigo de Darcy Penteado curiosamente inti-
tulado “Homossexualismo, que coisa é esta?” – pergunta à qual se evitava
oferecer uma resposta defnitiva. Uma posição em favor de uma estratégia
efetiva de obtenção de direitos homossexuais, no entanto, não era consen-
sual nem entre os editores e colaboradores do jornal, nem entre os mem-
bros do grupo.
A incerta situação política da “abertura”, atravessada por ações localiza-
das de repressão policial e terror paramilitar, continha as expectativas em
relação aos avanços liberalizantes, o que talvez ajude a compreender por
que iniciativas mas pragmáticas em favor de direitos civis pareciam distan-
tes nos horizontes da época. É certo que Lampião, o Somos e os emergentes
24 Júlio Assis Simões 25 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
grupos se esforçaram por construir uma pauta de reivindicações que vi-
savam combater discriminações sofridas pelos homossexuais na vida civil
em geral. Essa pauta seria desenhada por ocasião dos encontros de grupos
organizados que ocorreram em 1980.
Mas havia também uma divergência mais profunda, que se traduzia
numa grande desconfança não só quanto aos rumos da institucionaliza-
ção, mas em relação ao signifcado da própria atuação política nos mol-
des institucionais que voltavam a ser divisados no horizonte. Os debates
da época estimulavam o questionamento das posições políticas focadas
na centralidade da luta de classes, reivindicando legitimidade a lutas mais
específcas. Por conta disso, a emergente política de identidade posta em
prática pelos movimentos de feministas, negros e homossexuais gerava
uma tensão junto a certos militantes da esquerda, vários dos quais esta-
vam aliados às tendências progressistas da Igreja Católica. Para estes, tais
esforços minoritários pulverizavam o privilégio que deveria caber à “luta
maior” em prol de mudanças sociais e econômicas mais amplas em dire-
ção ao socialismo. A esquerda brasileira dos anos 1970 talvez não fosse tão
moralista e defensora da família quanto tinha sido nos anos 1950 e 1960;
no entanto, boa parte dela ainda via a homossexualidade como uma grave
deformação moral. Tanto no Lampião como no Somos havia vários que
tentavam reconstituir vínculos entre as duas posições. Na virada dos anos
1980, no entanto, as divergências se acentuaram a ponto de constituir uma
polarização extremada, deteriorando as relações entre o Lampião e os gru-
pos emergentes, como também dentro do próprios grupos, notadamente o
Somos, que sofreu seguidas cisões e foi aos poucos deixando a cena. Uni-
dades auto-sustentadas e carentes de recursos, nem Lampião nem Somos
se mostraram aptos a enfrentar os desafos trazidos pelos novos tempos de
liberalização, redemocratização e crise econômica. Um dos fragmentos do
Somos, o galf (Grupo de Ação Lésbica Feminista) seria um dos poucos
grupos formados nessa primeira onda movimentalista a sobreviver pela dé-
cada de 1980 e chegar aos anos 1990 sob um novo formato de organização
não-governamental, que passaria então a ser o modelo para as mais varia-
das formas de movimentos sociais, e cuja adoção foi grandemente incenti-
vada em meio ao processo de constrição das respostas sociais à pandemia
hiv-aids – outro terrível desafo daqueles novos tempos de 1980.



A luta diante da Aids
O saudoso antropólogo e poeta Nestor Perlongher
7
ressaltou, no calor da
hora, que a Aids surpreendeu o universo do ativismo homossexual brasilei-
ro numa situação paradoxal. Enquanto grande parte dos grupos organiza-
dos existentes se desestruturavam, crescia a expansão publicitária do “espe-
táculo gay”, fazendo aumentar inclusive a visibilidade das travestis, não só
nas ruas das cidades, mas também na grande mídia, para além do carnaval.
A transexual Roberta Close, vedete do verão carioca de 1984, o ano da cam-
panha das diretas-já, vivia o auge de sua consagração como modelo de be-
leza feminina brasileira. Depois de estrelar o videoclipe da canção “Close”,
sucesso do compositor popular Erasmo Carlos, seria a principal atração da
edição de maio da revista masculina Playboy. Em agudo contraste, no verão
de 1985, quando a morte do teatrólogo Luiz Roberto Galizia abalou o meio
intelectual e artístico paulistano, a doença já estava instaurada como rea-
lidade inexorável. Na segunda metade dos anos 1980 verifcou-se uma es-
calada de matérias sensacionalistas na imprensa, que ecoavam declarações
abertamente preconceituosas de várias autoridades médicas e de políticos
ligados a grupos religiosos, assim como aumentava a repercussão a crimes
violentos contra gays e travestis
8
.
Perlongher, vítima da Aids, que viria a falecer em 1992, retratou o peso
da chegada da doença e de seu impacto sobre as propostas de liberação
sexual, como um anúncio do “desaparecimento da homossexualidade”
9
.
Houve, decerto, um deslocamento importante. A epidemia deu ensejo a
uma inusitada aproximação entre os ativistas homossexuais e as autori-
dades médicas. Cabe ressaltar a importante participação de pessoas que
passaram pelo Somos e pelos outros grupos de São Paulo no processo
que fez surgir a primeira ong-Aids brasileira, o Grupo de Apoio e Pre-
venção à Aids – gapa/SP, em 1985, bem como a resposta governamental
confgurada no programa estadual de São Paulo, o primeiro criado no País.
Sob a direção do médico Paulo Teixeira (que tivera alguma proximidade
com o Somos nos seus primórdios), esse programa tornou-se um referen-
cial importante de orientação não discriminatória e de defesa dos direitos
dos afetados. Do mesmo modo, antigos militantes de grupos cariocas tive-
7 Nestor Perlongher, O que é Aids. São Paulo, Brasiliense, 1987.
8 Para um retrato vívido desse período em São Paulo, ver Roldão Arruda, Dias e ira: uma história verí-
dica de assassinatos autorizados. São Paulo, Globo, 2001.
9 Nestor Perlongher, O desaparecimento da homossexualidade. In: Herbert Daniel et alii. SaúdeLoucu-
ra 3. São Paulo, Hucitec, 1993.
26 Júlio Assis Simões 27 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
ram papel importante na formação da Associação Brasileira Interdiscipli-
nar e Aids e do Grupo Pela vidda (Valorização, Integração e Dignidade
do Doente de Aids), este formado majoritariamente por soropositivos. Em
outros estados da federação foram sendo organizados programas similares,
que contavam também com a importante presença de ativistas e ex-ativistas
de grupos organizados.
A contribuição dos recursos vindos dos projetos relacionados ao com-
bate ao hiv/Aids foi muito signifcativa para a expansão e diversifcação
do movimento homossexual brasileiro. Esses movimentos já se notam nos
anos 1980, que assistiram à intensifcação de um ativismo muito menos
refratária à ação no campo institucional, mais voltado a estabelecer organi-
zações de caráter mais formal e mais focado em assegurar o direito à dife-
rença. Formaram-se poucos grupos, mas mais coesos, reunidos cada qual
em torno de uma liderança reconhecida, carismática, bem articulada e, não
menos importante, dotada dos recursos simbólicos e materiais efetivamen-
te capazes de fazer avançar metas e objetivos mais claramente defnidos e
circunscritos.
João Antônio Mascarenhas, articulador inicial do grupo de intelectu-
ais que formou o Lampião e fundador do extinto grupo Triângulo Rosa,
que durou de 1985 a 1988
10
; e Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia,
formado em 1980 e ativo até o presente, tornaram-se personagens funda-
mentais dessa segunda onda de ativismo homossexual, paralelamente aos
vários militantes ativos no período anterior que passaram a se dedicar prio-
ritariamente à luta contra a Aids.
As propostas encaminhadas pelo ggb e pelo Triângulo Rosa, na déca-
da de 1980, já haviam sido delineadas nos primeiro encontro de militantes
organizados, mas ambos os grupos destacaram-se exatamente por levá-las
adiante, a partir do entendimento comum que a “causa homossexual vinha
em primeiro lugar”. O ggb foi o primeiro grupo a pôr em prática, em 1981,
a campanha pela retirada da homossexualidade do código de classifcação
de doenças do inamps, assumindo a sua coordenação e encaminhamento
concreto. A mudança foi sancionada pelo Conselho Federal de Medicina
em 1985. Foi uma campanha marcante por ter mirado uma das raras ins-
tâncias em que se discriminava ofcialmente a homossexualidade no Bra-
sil e, dessa forma, ter questionado a associação entre homossexualidade
e doença que voltava com força devido à Aids. O ggb e o Triângulo Rosa
10 Sobre o Triângulo Rosa, ver Cristina Câmara, Cidadania e orientação sexual, op. cit.
encabeçaram outra importante campanha na década, junto à Assembléia
Constituinte, pela inclusão da proibição de discriminação por “opção se-
xual”, posteriormente renomeada de “orientação sexual”, na Constituição.
Por ocasião dessa campanha, temas inéditos, referentes à homossexualida-
de, foram debatidos no Congresso Nacional, e João Antonio Mascarenhas
falou aos parlamentares na condição de ativista gay.
Nessa mudança de orientações políticas, é signifcativa a introdução do
conceito de “orientação sexual”, que passa a ocupar defnitivamente o lugar
de “opção” no discurso da militância. Durante o processo de elaboração e da
defesa da inclusão da não-discriminação da homossexualidade na Consti-
tuição, os militantes envolvidos, consultando acadêmicos e profssionais de
várias áreas, chegaram a um consenso pela utilização da expressão “orien-
tação sexual”. A partir dessa utilização, a polêmica entre homossexualidade
como “opção” ou como “essência” deixa de estar tão presente no cotidiano
dos grupos. “Orientação sexual” virou uma solução de consenso que permi-
tia conferir concretude e legitimidade à experiência da homossexualidade,
sem necessariamente entrar em questão sobre suas causas mais profundas,
ainda que tenda muitas vezes a reanimar a ênfase em explicações a partir de
uma “essência”, inata ou revelada em tenra idade.
De outra parte, com a atuação mais pragmática por parte dos grupos ou
associações em favor dos direitos civis, a ambigüidade entre a legitimidade
da homossexualidade e a valorização de sua face “marginal” tendeu a se
desfazer. Em seu lugar, verifcou-se uma tendência de depurar a homosse-
xualidade de seus aspectos “marginais” de modo a dotá-la de uma imagem
pública respeitável, o que excluía uma parte signifcativa das vivências a ela
relacionadas. Isso se revelou, por exemplo, no célebre discurso proferido
por João Antonio Mascarenhas no plenário da Assembléia Nacional Cons-
tituinte, em 1987, no qual seu autor criticava o preconceito da mídia por
não fazer a distinção entre o “homossexual” e o “travesti”, em termos que
repetiam a posição que expressara, anos atrás, no Lampião.

Expansão e segmentação
Foi por meio da ampliação das conexões com os programas estatais de
combate ao hiv-aids e às doenças sexualmente transmissíveis, especial-
mente a partir dos anos 1990, que se forjaram as condições para expandir
e segmentar o movimento. Foi também por meio dessas conexões que pas-
28 Júlio Assis Simões 29 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
sou a preponderar quase defnitivamente o modelo das ongs, levando à
contenção do número de membros efetivos; à criação de estruturas formais
de organização interna; à elaboração de projetos de trabalho em busca de
fnanciamentos; à formulação clara de objetivos e objetos de intervenção
ou de reivindicação de direitos; à preocupação com prestação de contas
e resultados; à preocupação em ter quadros preparados para estabelecer
relações com a mídia, parlamentares, técnicos de agências governamentais
e associações internacionais – enfm, a tudo aquilo que consome grande
parte da rotina dos atuais grupos e associações do movimento.
11
Além das
diversas iniciativas de fortalecimento das associações de gays, como o Pro-
jeto Somos, que homenageia o famoso grupo pioneiro, os investimentos
dos programas de dst e Aids abriram espaço à incorporação paulatina de
travestis e transexuais, bem como estimularam decisivamente a organiza-
ção autônoma das lésbicas.
Em 1993 e 1994 haviam sido realizados dois encontros de “Travestis e
Liberados” relacionados inicialmente com as atividades desenvolvidas pela
da Associação de Travestis e Liberados – Astral, do Rio de Janeiro. Com o
surgimento de novas associações de travestis, esses congressos passaram a
ocorrer em outras cidades do país, passando a ser denominados “Encontros
de Travestis e Transexuais que Atuam na Luta e Prevenção à Aids”, manten-
do a sigla entlaids. Já foram realizadas 14 edições do entlaids, nas quais
representantes de travestis e transexuais têm reivindicado mudanças nas
ações de segurança pública e acesso à educação e ao mercado de trabalho,
além de debaterem questões relacionadas aos serviços de saúde. Organiza-
ções de travestis estiveram representadas pela primeira vez no movimento
por ocasião do vii Encontro Nacional de Gays e Lésbicas de 1995, realizado
em Curitiba. A partir daí, o termo “travestis” foi incorporado ao nome dos
futuros encontros nacionais.
Desde 1992, vinha ocorrendo um aumento da participação de gru-
pos exclusivamente lésbicos nos encontros nacionais do movimento.
O vi Encontro, realizado nesse ano no Rio de Janeiro, teve a presença
de dois grupos lésbicos. O vii Encontro, em Cajamar (SP) passou a in-
cluir o termo lésbicas no seu nome, tendo contado com a participação de
quatro grupos lésbicos, todos também de São Paulo. Em 29 de agosto de
1996, foi realizado no Rio de Janeiro o primeiro Seminário Nacional de
Lésbicas (senale), a partir de iniciativa do Coletivo de Lésbicas do Rio
(colerj). Desde então, foram realizadas seis edições do senale. A data
11 Para uma análise do movimento nos anos 1990, ver Regina Facchini, Sopa de letrinhas?, op. cit.
do primeiro senale foi consagrada como “Dia Nacional da Visibilidade
Lésbica”.
A articulação com a Coordenadoria Nacional de dst e Aids foi fun-
damental também para a ampliação da visibilidade e da organização das
lésbicas. O primeiro senale resultou da aproximação de lideranças lésbi-
cas – até então dispersas, em sua maioria, em grupos mistos (formados por
gays e lésbicas ou por feministas e lésbicas) – da Coordenadoria Nacional,
com vistas a obter maior visibilidade política a partir do reconhecimento
da vulnerabilidade lésbica frente a dst e Aids. A demanda por saúde sexual
contribuiu de forma decisiva para produzir uma identidade lésbica eman-
cipada da identidade homossexual, abrindo caminho para a emergência e
fortalecimento de lideranças em âmbito nacional, o surgimento de novos
grupos e a progressiva autonomização do movimento de lésbicas, em torno
do eixo formado por saúde, visibilidade e organização.
12
O ano de 1995 foi marcado por dois eventos signifcativos: o viii Encon-
tro de Gays e Lésbicas, em Curitiba, quando se deu a fundação da abglt e a
realização da 17ª Conferência Internacional da ilga (International Lesbian
and Gay Association), no Rio de Janeiro. O viii Encontro foi o primeiro a
ser fnanciado com recursos do Ministério da Saúde, e que reservava uma
parte específca para a discussão de questões ligadas ao hiv/Aids, regis-
trando um recorde de número de grupos, com presença de 84 entidades,
entre elas 34 grupos gays ou mistos, três grupos exclusivamente lésbicos e
três grupos de travestis.
A Conferência da ilga realizada no Rio (a 17ª. de sua história) contou
com cerca de 1.200 participantes. A lista de recursos obtidos por esse evento
é ilustrativa da dimensão atingida pelas conexões do movimento. Segundo
os registros no Guia Ofcial da Conferência, houve apoio do Ministério da
Saúde, por meio do Programa Nacional de dst e Aids; da Secretaria Esta-
dual de Saúde do RJ, por meio da Divisão de Controle de dst e Aids; dos
sindicatos dos Bancários e Previdenciários, ambos do RJ, e dos trabalha-
dores na Universidade Federal do Rio de Janeiro; do Centro de Filosofa e
Ciências Humanas da ufrj; de duas ongs internacionais ligadas à temática
dos direitos humanos; de quatro empresas privadas e de quatro associações
brasileiras: a abia e o Grupo Pela vidda (ongs-Aids sediadas no Rio); o
ggb e o grupo Dignidade.
Mais recentemente, outro passo na direção do fortalecimento das co-
12 Sobre o movimento de lésbicas, ver Gláucia Almeida, Da invisibilidade à vulnerabilidade, op. cit.
30 Júlio Assis Simões 31 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
nexões com o Estado foi dado com o lançamento do Programa Brasil Sem
Homofobia, em 2004. A partir de 2005, algumas iniciativas do Programa
começaram a ser postas em prática, com os editais para apresentação de
projetos voltados ao combate e à prevenção da homofobia, incluindo a
oferta de aconselhamento psicológico e assessoria jurídica; e à qualifcação
de profssionais de educação nas temáticas de orientação sexual e identida-
de de gênero.
Por fm, mas não menos importante, realizou-se em 2008 uma Confe-
rência Nacional glbt inédita, convocada pelo governo federal, com o tema
“Direitos humanos e políticas públicas: o caminho para garantir a cida-
dania de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais”. A organização
dessa Conferência foi precedida de reuniões regionais e estaduais, como
tem sido o procedimento em relação a outros movimentos articulados em
torno de segmentos sociais ou temas específcos. A Conferência foi, desse
modo, um momento importante por marcar uma situação em que o mo-
vimento tomou decisões levando em conta a um conjunto mais amplo de
pessoas identifcadas como lgbt, para além dos ativistas. Fica a expecta-
tiva que isso possa ajudar a reverter uma tendência de concentração das
informações, debates e discussões apenas nos foros virtuais e presenciais
freqüentados pelos ativistas. É signifcativo observar, a esse respeito, que,
enquanto os encontros nacionais realizados pelo movimento realizados na
segunda metade dos anos 1990, dispõem de registros minuciosos e acessí-
veis, são bastante escassas as informações disponíveis sobre os congressos
da década de 2000.
Conquistas e desafos do presente
Em sua trajetória, o movimento político lgbt no Brasil amealhou algumas
vitórias signifcativas e se debateu com resistências poderosas. Gostaria de con-
cluir com um breve balanço de antigos e novos desafos que lhe fazem frente.
O movimento lgbt tem investido grande esforço na promulgação de
leis e na criação de políticas públicas governamentais. As leis estaduais e
municipais contra discriminação hoje existentes no Brasil apresentam raios
de alcance diferente, especifcando penalidades contra discriminação no
mercado de trabalho, em contratos de aluguel ou relativas a demonstrações
públicas de afeto. Cabe destacar, nesse quadro, a formulação abrangente da
lei aprovada no Rio Grande do Sul, que “dispõe sobre a promoção e o reco-
nhecimento da liberdade de orientação, prática, manifestação, identidade
e preferência sexual”, no âmbito do “respeito à igual dignidade da pessoa
humana de todos os seus cidadãos”.
Outras demandas legais importantes do movimento receberam grande
visibilidade, mas esbarraram em obstáculos poderosos. O caso exemplar é
o do projeto de Lei no. 1.151/95, de autoria de Marta Suplicy, então deputada
federal por São Paulo, sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo,
apresentado na Câmara dos Deputados em outubro de 1995, na seqüên-
cia da fundação da abglt e da realização da Conferência Internacional da
ilga, no Rio de Janeiro. Como se sabe, o projeto propunha a união civil
como um direito de cidadania fundamentado nas liberdades civis assegura-
das pela Constituição. Embora fzesse menção a “vínculos afetivos”, a con-
cepção de “união civil” era cuidadosamente distanciada do matrimônio ou
das uniões estáveis. O foco do projeto estava na compensação de injustiças
relacionadas a histórias de construção de patrimônio em comum entre par-
ceiros do mesmo sexo. Mesmo com todos esses cuidados, porém, o projeto
já sofreu alterações na formulação original ao ser submetido à Comissão
Especial instaurada para sua análise, substituindo “união” por “parceria”,
eliminando-se as referências aos “vínculos afetivos” e adicionando o veto a
qualquer implicação relativa a adoção, tutela ou guarda de crianças e ado-
lescentes, ainda que fossem flhos dos contratantes. O substitutivo acabou
não sendo levado à votação, pois seus apoiadores concluíram que não ha-
veria apoio sufciente para que fosse aprovado.
13
Outra frente de combate do movimento lgbt tem sido a criminalização
de condutas repressivas e violentas contra lgbt. Está em debate no legis-
lativo um projeto que visa defnir “crimes resultantes de discriminação ou
preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”, nos
moldes da Lei nº 7.716, que estabelece os crimes resultantes de preconceito
de raça ou de cor. A resistência ao projeto, expressada sobretudo por au-
toridades religiosas cristãs em aliança com psicólogos e médicos ligados a
grupos religiosos evangélicos, tem se concentrado nas alegações de cerce-
amento da liberdade de expressão (especialmente a liberdade de expressão
religiosa) e em reiterados esforços de patologização e criminalização da ho-
mossexualidade, por meio de sua associação à pedoflia.
Em face das consideráveis barreiras e difculdades enfrentadas no âm-
bito do legislativo e do executivo, o Judiciário tem-se mostrado um campo
13 Para uma análise dos debates em torno desse projeto, ver Luiz Mello, Novas famílias: conjugalidade
homossexual no Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro, Garamond, 2005.
32 Júlio Assis Simões 33 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
mais favorável à promoção de diretos lgbt. Marcos importantes foram al-
cançados no reconhecimento legal de vínculos afetivos homossexuais, para
efeitos de herança e direitos previdenciários, assim como na punição de
casos de homofobia. Em contrapartida, persistem difculdades sempre que
as questões se encaminham para o terreno do direito de família.
As reivindicações pelo direito à sexualidade não-procriativa, que mar-
caram boa parte da trajetória do movimento homossexual, convivem hoje
com lutas pelo direito à adoção, guarda e cuidado de flhos. No que se refere
à adoção, no Brasil, a homossexualidade não é um impeditivo, em princí-
pio. Entretanto, a “conjugação homem/homossexual” muitas vezes é vis-
ta como incapaz de assegurar os cuidados básicos da criança, por conta
dos estereótipos de instabilidade emocional e promiscuidade sexual cola-
dos à homossexualidade masculina. Nesse caso, os requerentes costumam
ser mais bem avaliados desde que demonstrem capacidade de “maternar”,
tida como uma virtude “feminina” por excelência
14
. A noção de maternida-
de lésbica, por sua vez, pode ser vista como inerentemente confitiva, por
amalgamar os estereótipos excludentes da cuidadora zelosa e assexuada e
da mulher sexualizada, tida como passional e violenta.
15
A visibilidade al-
cançada na mídia por autorizações da guarda de crianças a casais de gays e
lésbicas ainda não redundou numa política defnida a esse respeito, embora
tenham sido abertos precedentes importantes.
A transexualidade, por sua vez, é um terreno onde os discursos médicos
ainda são predominantes e normativos. O acesso a cirurgias de “redesigna-
ção sexual”, uma reivindicação do movimento lgbt, está condicionado aos
critérios estabelecidos pelas resoluções do Conselho Federal de Medicina
em 1997, alteradas em 2002, que defnem o “paciente transexual” de for-
ma patologizante, como “portador de desvio psicológico permanente de
identidade sexual, com rejeição do fenótipo e tendência à automutilação
e ou auto-extermínio”. Para se submeter à cirurgia, além do diagnóstico
exclusivo de “transexualismo”, é preciso ser maior de 21 anos e submeter-se
a acompanhamento psicológico ou psiquiátrico por pelo menos dois anos
16
.
A mudança no registro civil envolve outras difculdades. Em princípio, so-
14 Cf. Ana Paula Uziel, Homossexualidade e adoção. Rio de Janeiro, Garamond, 2007.
15 Cf. Érica Renata de Souza, Necessidade de flhos: maternidade, família e (homo)sexualidade. Tese de
Doutorado. Unicamp, 2005.
16 Em agosto de 2007, o Ministério da Saúde anunciou a inclusão das cirurgias de redesignação sexual
entre os serviços prestados pelo sus, por determinação da Justiça Federal da 4ª. Região (Sul). Entretan-
to, o Supremo Tribunal Federal cancelou o procedimento previsto em dezembro de 2007, alegando falta
de planejamento e estrutura.
mente é permitida uma vez, completado o procedimento cirúrgico. Entre-
tanto, cirurgias realizadas fora de programas considerados habilitados têm
sido excluídas das solicitações de autorização legal para mudança de nome.
Nega-se, assim, um direito fundamental de identidade.
Essas frentes de luta retratam não apenas a variedade de questões e
demandas no universo lgbt, como também a importância de perseverar
na busca de reconhecimento para assegurar direitos e garantias civis fun-
damentais.
17
Cabe lembrar que essa não é a única tendência seguida pelo
movimento, que também se pauta por vezes na reivindicação por direitos
especiais, tal como expressa a polêmica proposta em favor de um “estatuto
lgbt” aprovada na recente Conferência Nacional.
Vou considerar, por fm, algumas questões internas ao próprio movi-
mento. Grande parte dos progressos obtidos pelo movimento lgbt deveu-
se ao seu processo recente de institucionalização. É certo que não se trata
de uma institucionalização equiparável à que desfrutam organizações não-
governamentais em outros campos de atuação social e política, tais como
meio ambiente, crianças e adolescentes, mulheres ou prevenção a dst e
Aids. É como se houvesse uma escala hierárquica de legitimidade e aceita-
ção social de temas e sujeitos de direitos, a qual pesa desfavoravelmente em
relação aos lgbt. Ainda assim, a trajetória do movimento lgbt mostra de
forma eloqüente a interpenetração e a porosidade entre Estado e Sociedade
Civil no Brasil. Nesse campo de relações há vantagens, mas também riscos.
Abrem-se novos canais para pressões vindas “de baixo” que, entretanto, po-
dem também favorecer o desenvolvimento de novas redes de clientela e
amortecer o seu potencial crítico. O acesso a recursos tem potencializado
enormemente a capacidade de ação política das associações de base e sua
articulação produtiva em diferentes planos, mas a disputa por eles também
esgarça solidariedades e repõe hierarquias.
O movimento se defronta ainda com o desafo de renovar as conexões
entre os diversos mundos no interior do próprio universo lgbt. As identi-
dades que compõem o movimento têm caminhado progressivamente para
a construção de suas próprias demandas e agendas. É ilustrativo disso o
empenho com que se busca cunhar novas categorias de vitimização, além
da já problemática “homofobia” – tais como “lesbofobia”, “transfobia” e daí
por diante. Nota-se, em particular, que é cada vez mais complicada a arti-
17 Sob esse aspecto, cabe chamar a atenção para os importantes trabalhos de Roger Raupp Rios. Ver,
por ex., Direito da antidiscriminação: discriminação direta, indireta e ações afrmativas. Porto Alegre,
Livraria do Advogado Editora, 2008.
34 Júlio Assis Simões 35 Uma visão da trajetória do movimento lgbt no Brasil
culação dos grandes focos de identifcação e mobilização representados nas
noções de orientação sexual e identidade de gênero. A homossexualidade
deixou de ser um termo abrangente para se cindir em questões de diversi-
dade sexual e questões de diversidade de gênero. Trata-se de um descola-
mento que aprofunda uma tendência desde os primórdios do movimento
em defesa das sexualidades não normativas, que desestabiliza categorias de
“homens” e “mulheres” e de “masculinos” e “femininos” que convencional-
mente se estribaram na distinção binária entre os sexos, mesmo quando
esses sexos eram pensados como sendo da “alma” e não do corpo. É um
fenômeno político e cultural de alcance mais amplo, que transcende o mo-
vimento lgbt, mas não deixa de incidir nele de forma aguda, além de trazer
uma série de questionamentos também para o movimento feminista. Isso
pode ser ilustrado nos esforços de autonomização do movimento trans, por
meio de sua construção como voz dissidente, tanto no campo das lutas de
gênero quanto no da homossexualidade.
Esse estado de coisas parece requerer esforços urgentes na reconstru-
ção dos vínculos esgarçados com a crescente segmentação. E também re-
quer esforços para renovar as formas de interlocução entre o movimento
e aqueles e aquelas a quem pretende representar. Nesse terreno, o movi-
mento sofre uma poderosa concorrência do mercado segmentado, que se
mostra muito ágil na disputa pelas representações sociais e políticas das
identidades em jogo. O mercado é, hoje em dia, uma instância central tanto
para a compreensão da normatividade sexual, quanto das formas de sua
contestação
18
. É ilustrativo, a esse respeito, mencionar o episódio de uma
campanha recente promovida por um grupo de blogueiros gays de São
Paulo, pelo reconhecimento do direito à herança de um amigo cujo par-
ceiro de longa data havia morrido repentinamente. A campanha consistia
na divulgação de um abaixo-assinado que atestava a relação duradoura do
casal e que podia ser assinado em fliais de uma loja de cuecas nos Jardins
e no Shopping Center Frei Caneca, bastante frequentado pelo público gay
paulistano. O fato de essas pessoas recorrerem a uma loja de cuecas para
centralizar a coleta de apoios a um abaixo-assinado e não terem pensado,
por exemplo, em procurar uma entidade do movimento lgbt, parece dizer
algo não muito alentador sobre a distância desse movimento em relação a
suas supostas bases de representação.
Diante de desafos tão formidáveis, as melhores esperanças talvez ainda
18 Sobre a relação entre mercado segmentado e o movimento, ver Isadora Lins França, Cercas e pontes:
o mercado gls e o movimento glbt. Dissertação de mestrado. São Paulo, usp, 2006.
provenham das imagens das Paradas do Orgulho lgbt, onde as diferenças
se mostram e convivem de forma estimulante e pacífca no mesmo espaço
público. Nelas parece se refazer a expectativa que o movimento lgbt possa
atualizar permanentemente a promessa de celebração de identidades ví-
vidas, diversas e porosas, sobre um terreno renovado e compartilhado de
igualdade.
37 Direitos Humanos, Direitos Sexuais e Homossexualidade
Direitos Humanos, Direitos Sexuais e Homossexualidade
Roger Raupp Rios
1
Introdução
Este texto objetiva fornecer um panorama da trajetória dos direitos sexu-
ais a partir da perspectiva dos direitos humanos. Para tanto, na primeira
parte, aponta os princípios fundamentais que animam o desenvolvimento
dos direitos sexuais no cenário internacional, com ênfase nos direitos de
liberdade, privacidade, igualdade e respeito à dignidade da pessoa humana.
Na segunda, indica as principais tendências e tensões dos direitos sexuais
no Brasil.
O desenvolvimento dos Direitos Sexuais na perspectiva dos Direitos
Humanos
A relação entre o direito, entendido como ordenamento jurídico (isto é, o
conjunto de instrumentos normativos estatais vigente num determinado
momento, englobando atos legislativos e decisões judiciais) e a sexualidade
não é novidade. Tradicionalmente, o direito foi produzido como instrumen-
to de reforço e de conservação dos padrões morais sexuais majoritários e
dominantes. Vale dizer, o direito atuou confrmando determinadas relações
e práticas sexuais hegemônicas. Exemplos disto são, ao longo da história, a
naturalização da família nuclear pequeno-burguesa, as atribuições de direitos
e deveres sexuais entre os cônjuges e a criminalização de atos homossexuais.
1 Juiz Federal. Doutor em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – ufrgs.
38 Roger Raupp Rios 39 Direitos Humanos, Direitos Sexuais e Homossexualidade
Com a emergência de movimentos sociais reivindicando a aceitação de
práticas e relações divorciadas dos modelos hegemônicos, levou-se à are-
na política e ao debate jurídico a idéia dos direitos sexuais, especialmente
dos direitos de gays, lésbicas, travestis e transexuais. O surgimento des-
tas demandas e o reconhecimento de alguns direitos, ainda que de modo
lento e não uniforme, inaugurou uma nova modalidade na relação entre
os ordenamentos jurídicos e a sexualidade. Os direitos sexuais devem ser
compreendidos no contexto da afrmação dos direitos humanos, ao invés
de apartá-los e concebê-los de modo paralelo aos princípios fundamentais
consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.
Nesta perspectiva dos direitos humanos, a trajetória dos direitos sexuais
tem enfrentado desafos e originalidade. De fato, conforme a história dos
instrumentos internacionais demonstra, os direitos sexuais não foram con-
cebidos originalmente de modo autônomo aos direitos reprodutivos. Ao
contrario, eles foram entendidos como uma espécie de complemento da
idéia de direitos reprodutivos. Efetivamente, a preocupação principal que
historicamente orientou a expressão “direitos reprodutivos e sexuais” foi a
denúncia da injustiça presente nas relações de gênero e a negação de auto-
nomia reprodutiva. Não há dúvida da importância da luta contra a injustiça
reprodutiva e entre os gêneros. Todavia, como a refexão e a prática dos
direitos sexuais deixam muito claro, o âmbito da sexualidade vai bem além
destas realidades. Esta dimensão da realidade requer a que se leve a sério a
liberdade de expressão sexual, direito que é desafado especialmente diante
de resistência ao reconhecimento de direitos de homossexuais, masculi-
nos ou femininos, transexuais e travestis. Ademais, a afrmação de direitos
sexuais vai além da proteção desta ou daquela identidade sexual (homos-
sexual ou travesti, por exemplo) e alcança, inclusive, práticas sexuais não
necessariamente vinculadas à condição identitária, como exemplifcam as
práticas sadomasoquistas e a prostituição.
O que importa, portanto, é visualizar os direitos sexuais a partir dos
princípios fundamentais que caracterizam o paradigma dos direitos hu-
manos, criando as bases para uma abordagem jurídica que supere as tra-
dicionais tendências repressivas que marcam historicamente as atuações
de legisladores, promotores, juízes e advogados nesses domínios. A partir
desta perspectiva, estabelecem-se as bases para, superando-se regulações
repressivas, concretizarem-se os princípios básicos da liberdade, da igual-
dade, da não-discriminação e do respeito à dignidade humana na esfera da
sexualidade.
A luta pelo reconhecimento e a promoção dos direitos de homossexuais
é um caso emblemático da necessidade de uma compreensão dos direitos
sexuais na perspectiva dos direitos humanos. Com efeito, as trajetórias até
hoje percorridas neste esforço demonstram como os mencionados princí-
pios fundamentais são hábeis a proteger indivíduos e grupos considerados
minoritários em face dos padrões sexuais dominantes. Trata-se de afrmar
a pertinência da sexualidade ao âmbito de proteção dos direitos humanos,
deles extraindo força jurídica e compreensão política para a superação de
preconceito e de discriminação voltados contra todo comportamento ou
identidade sexuais que desafe o heterossexismo, ora entendido como uma
concepção de mundo que hierarquiza e subordina todas as manifestações
da sexualidade a partir da idéia de “superioridade” e de “normalidade” da
heterossexualidade.
Ao longo dos debates sobre diversidade sexual e direitos humanos, são
invocados vários direitos: liberdade sexual; integridade sexual; segurança
do corpo sexual; privacidade sexual; direito ao prazer; expressão sexual;
associação sexual e informação sexual. Neste campo, os direitos humanos
cuja invocação se revelou mais capaz de proteger homossexuais em face da
homofobia e do heterossexismo foram, basicamente, o direito de privacida-
de e o direito de igualdade.
Com efeito, decisão da Corte Européia de Direitos Humanos, exami-
nando a lei penal da Irlanda do Norte criminalizadora de práticas homos-
sexuais consensuais entre adultos, considerou que tal tratamento viola o
artigo 8º da Convenção Européia de Direitos Humanos, onde se garante o
respeito à vida familiar e privada (caso Dudgeon v. UK, 1981). Desde então,
predomina no direito europeu a compreensão de que o direito humano de
privacidade protege homossexuais em face de discriminação em virtude de
sua orientação sexual.
Relacionado de modo indissociável à privacidade está o direito de liber-
dade, mesmo porque a privacidade nada mais é do que uma manifestação,
no âmbito das relações interpessoais, do próprio direito de liberdade. Com
efeito, o direito de liberdade possibilita aos indivíduos, de forma autônoma,
a tomada de decisões quanto aos objetivos e aos estilos de vida. Diante da
importância ímpar que a sexualidade assume na construção da subjetivida-
de e no estabelecimento de relações pessoais e sociais, a liberdade sexual,
que também se expressa como direito à livre expressão sexual, é concreti-
zação mais que necessária do direito humano à liberdade.
40 Roger Raupp Rios 41 Direitos Humanos, Direitos Sexuais e Homossexualidade
Não ser discriminado em virtude de orientação sexual é outro direito
humano decisivo para a proteção de homossexuais em face da homofo-
bia e do heterossexismo. Tanto na sua dimensão formal (“todos são iguais
perante a lei”), quanto na sua dimensão material (“tratar igualmente os
iguais e desigualmente os iguais, na medida de sua desigualdade”), o direi-
to de igualdade não se compadece com tratamentos prejudiciais baseados
na orientação sexual. Desse modo, restrições de direitos não autorizadas
em lei (por exemplo, a proibição de manifestações de carinho entre ho-
mossexuais idênticas àquelas admitidas para heterossexuais), bem como
preterições de direitos fundadas em preconceito (por exemplo, justifcar a
exclusão de gays e lésbicas da possibilidade de adotar sob o pretexto de da-
nos à criança), caracterizam violação do direito de igualdade, diretamente
vinculada ao âmbito dos direitos sexuais.
A proibição de discriminação por orientação sexual, por vezes, é ex-
plicitamente prevista pelo direito. Exemplos disso são as Constituições de
países como a África do Sul e do Equador e de Estados brasileiros como
Sergipe e Mato Grosso. Na maioria das vezes, o que ocorre é a proibição
decorrente da abertura das listas de critérios proibidos de discriminação,
que são expressas ao admitir, além dos fatores previstos (raça e origem,
por exemplo), quaisquer outras formas de discriminação (artigo 3º, iv, da
Constituição Federal de 1988).
Além disso, nunca é demais salientar que a discriminação por orientação
sexual é uma espécie de discriminação por motivo de sexo, o que é vedado
textualmente pelo direito. Isto porque a discriminação por orientação se-
xual é uma hipótese de diferenciação fundada no sexo da pessoa para quem
alguém dirige seu envolvimento sexual, na medida em que a caracterização
de uma ou outra orientação sexual resulta da combinação dos sexos dos en-
volvidos. Assim, Pedro sofrerá ou não discriminação por orientação sexual
precisamente em virtude do sexo da pessoa para quem dirigir seu desejo
ou conduta sexuais. Se orientar-se para Paulo, experimentará a discrimina-
ção; se dirigir-se para Maria, não suportará tal diferenciação. Os diferentes
tratamentos têm sua razão de ser no sexo de Paulo (igual ao de Pedro)
ou de Maria (oposto ao de Pedro). Contra este raciocínio, pode-se objetar
que a proteção constitucional em face da discriminação sexual não alcança
a orientação sexual, pois o discrímen não se defne pelo sexo de Paulo ou de
Maria, mas pela coincidência sexual, tanto que homens e mulheres, nesta
situação, são igualmente discriminados. Este argumento não subsiste a um
exame mais apurado. Isto porque é impossível a defnição da orientação
sexual sem a consideração do sexo dos envolvidos; ao contrário, é essencial
para a caracterização da orientação sexual levar-se em conta o sexo, tanto
que é o sexo de Paulo ou de Maria que ensejará ou não a discriminação
sofrida por Pedro. O sexo da pessoa envolvida em relação ao sexo de Pedro
é que vai qualifcar a orientação sexual como causa de eventual tratamento
diferenciado.
A proteção da dignidade humana é outro direito humano básico com
repercussões imediatas para o exercício dos direitos sexuais por travestis,
transexuais, gays e lésbicas. Compreendida como o reconhecimento do va-
lor único e irrepetível de cada vida humana, merecedora de respeito e con-
sideração, este direito humano requer que, na esfera da sexualidade, nin-
guém seja vilipendiado, injuriado ou qualifcado como abjeto em virtude
de orientação sexual diversa da heterossexualidade. Implica também que
os projetos de vida, concernentes a tão importante dimensão da subjetivi-
dade, não sejam impostos por terceiros ao sujeito, de forma heterônoma,
fazendo do indivíduo um meio para o reforço de determinadas visões de
mundo, a este externas e alheias. A violação a este princípio tão fundamen-
tal no regime jurídico dos direitos humanos é recorrente: basta atentar para
os constrangimentos e imposições experimentados por aqueles que não se
conformam a valores, costumes e tradições, de ordem secular ou religiosa,
que grupos sociais empunham e reclamam submissão.

Direitos Sexuais no Brasil: tendências e tensões

No contexto nacional, o marco mais signifcativo sobre diversidade sexual e
direitos sexuais é o Programa Brasil sem Homofobia (Programa de Comba-
te à Violência e à Discriminação contra gltb - gays, lésbicas, transgêneros
e bissexuais - e de Promoção da Cidadania de Homossexuais), lançado em
2004 pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, a partir de defnição do
Plano Plurianual ppa – 2004-2007 (brasil, 2004). Trata-se, na suas pala-
vras, de programa constituído de diferentes ações, objetivando (a) o apoio
a projetos de fortalecimento de instituições públicas e não-governamentais
que atuam na promoção da cidadania homossexual e/ou no combate à ho-
mofobia; (b) capacitação de profssionais e representantes do movimento
homossexual que atuam na defesa de direitos humanos; (c) disseminação
de informações sobre direitos, de promoção da auto-estima homossexual;
e (d) incentivo à denúncia de violações dos direitos humanos do segmento
42 Roger Raupp Rios 43 Direitos Humanos, Direitos Sexuais e Homossexualidade
gltb (brasil, 2004). Antes dele, as duas versões do Plano Nacional de Di-
reitos Humanos (de 1996 e 2002) mencionaram o combate à discriminação
por orientação sexual, sem, contudo, emprestar ao tópico maior desenvol-
vimento.
Como dito acima, na trajetória dos direitos humanos, a afrmação da se-
xualidade como dimensão digna de proteção é relativamente recente, tendo
como ponto de partida, no contexto internacional, a consagração dos di-
reitos reprodutivos e da saúde sexual como objetos de preocupação (rios,
2007). Em âmbito nacional, a inserção da proibição de discriminação por
orientação sexual iniciou-se em virtude de demandas judiciais, a partir
de meados dos anos 1990, voltadas para as políticas de seguridade social
(leivas, 2003). Seguiram-se às decisões judiciais iniciativas legislativas,
municipais e estaduais, concentradas nos primeiros anos no segundo milê-
nio, espalhadas por diversos Estados da Federação (vianna, 2004).
Um exame do conteúdo destas iniciativas e da dinâmica com que elas são
produzidas no contexto nacional chama a atenção para duas tendências: a
busca por direitos sociais como reivindicação primeira onde a diversidade
sexual se apresenta e a utilização do direito de família como argumentação
jurídica recorrente. Estas tendências caracterizam uma dinâmica peculiar
do caso brasileiro em face da experiência de outros países e sociedades oci-
dentais, onde, via de regra, a luta por direitos sexuais inicia-se pela proteção
da privacidade e da liberdade negativa e a caracterização jurídico-familiar
das uniões de pessoas do mesmo sexo é etapa fnal de reconhecimento de
direitos vinculados à diversidade sexual.
Além destas tendências, a inserção da diversidade sexual, assim como
manifestada na legislação existente, revela a tensão entre as perspectivas
universalista e particularista no que diz respeito aos direitos sexuais e à
diversidade sexual, de um lado, e à luta por direitos específcos de minorias
sexuais, de outro.
A primeira tendência a ser examinada é a utilização de demandas reivin-
dicando direitos sociais como lugar onde se defendeu a diversidade sexual.
Como referido, enquanto em países ocidentais de tradição democrática a
luta por direitos sexuais ocorreu, inicialmente, pelo combate a restrições
legais à liberdade individual, no caso brasileiro o que percebe é a afrmação
da proibição da discriminação por orientação sexual como requisito para
o acesso a benefícios previdenciários. Tal é o que revela, por exemplo, a su-
peração no direito europeu da criminalização do sexo consensual privado
entre homossexuais adultos – a chamada sodomia – com fundamento no
direito de privacidade, ao passo que, no caso brasileiro, desde o início, o
combate à discriminação foi veiculado em virtude da exclusão discrimina-
tória contra homossexuais do regime geral da previdência social, quando se
trata de pensão e auxílio-reclusão para companheiro do mesmo sexo.
Uma hipótese para a compreensão deste fenômeno vem da gênese his-
tórica das políticas públicas no Brasil. Gestadas em suas formulações pio-
neiras em contextos autoritários, nos quais os indivíduos eram concebidos
muito mais como objetos de regulação estatal do que sujeitos de direitos,
estas dinâmicas nutrem concepções frágeis acerca da dignidade e da liber-
dade individuais. Alimentadas da disputa política entre oligarquias e do
referencial do positivismo social, as políticas públicas no Brasil caracteriza-
ram-se pela centralidade da fgura do trabalhador como cidadão tutelado,
caracterizando um ambiente de progresso econômico e social autoritário,
sem espaço para os princípios da dignidade, da autonomia e da liberdade
individuais (bosi, 1992). Daí a persistência de uma tradição que privilegia
o acesso a prestações estatais positivas em detrimento da valorização do
indivíduo e de sua esfera de liberdade e respeito à sua dignidade, dinâmica
que se manifesta na história das demandas por direitos sexuais mediados
pelos direitos sociais no Brasil.
A segunda tendência é a recorrência dos argumentos do direito de fa-
mília como fundamentação para o reconhecimento de direitos de homos-
sexuais. De fato, não é difícil perceber que, em muitos casos, a inserção
de conteúdos antidiscriminatórios relativos à orientação sexual valeu-se de
argumentos de direito de família, o que se manifesta de modo cristalino
pela extensão do debate jurídico – nos tribunais e naqueles que se dedicam
a estudar direitos sexuais – acerca da qualifcação das uniões de pessoas do
mesmo sexo. A par da polêmica sobre a fgura jurídica adequada a essas
uniões, é comum associar-se de modo necessário o reconhecimento da dig-
nidade e dos direitos dos envolvidos à assimilação de sua conduta e de sua
personalidade ao paradigma familiar tradicional heterossexual.
É o que sugere, por exemplo, a leitura de precedentes judiciais que de-
ferem direitos ao argumento de que, afora a igualdade dos sexos, os partí-
cipes da relação reproduzem em tudo a vivência dos casais heterossexuais
– postura que facilmente desemboca numa lógica assimilacionista. Nesta,
o reconhecimento dos direitos depende da satisfação de predicados como
comportamento adequado, aprovação social, reprodução de uma ideolo-
gia familista, fdelidade conjugal como valor imprescindível e reiteração
44 Roger Raupp Rios 45 Direitos Humanos, Direitos Sexuais e Homossexualidade
de papéis defnidos de gênero. Daí, inclusive, a difculdade de lidar como
temas como prostituição, travestismo, liberdade sexual, sadomasoquismo e
pornografa, por exemplo. Ainda nesta linha, a formulação de expressões,
ainda que bem intencionadas, como “homoafetividade”, revela uma men-
talidade homonormativa. Conservadora, na medida em que subordina os
princípios de liberdade, igualdade e não-discriminação, centrais para o de-
senvolvimento dos direitos sexuais (rios, 2007) a uma lógica assimilacio-
nista; discriminatória, porque, na prática, distingue uma condição sexual
“normal”, palatável e “natural” de outra assimilável e tolerável, desde que
bem comportada e “higienizada”. Com efeito, a sexualidade heterossexu-
al não só é dizível como tomada por referência para nomear o indivíduo
“naturalmente” detentor de direitos (o heterossexual, que não necessita ser
heteroafetivo), enquanto a sexualidade do homossexual é expurgada pela
“afetividade”, numa espécie de efeito mata-borrão.
As razões desta recorrência ao direito de família podem ser buscadas na
já registrada fragilidade dos princípios da autonomia individual, da digni-
dade humana e da privacidade que caracterizam nossa cultura. Com efeito,
fora da comunidade familiar, onde o sujeito é compreendido mais como
membro do que como indivíduo, mais como parte, meio e função do que
como fm em si mesmo, não haveria espaço para o exercício de uma sexua-
lidade indigna e de categoria inferior.
Uma rápida pesquisa sobre as respostas legislativas estaduais e muni-
cipais revela a predominância de duas perspectivas quanto à diversidade
sexual e os direitos a ela relacionados. De um lado, diplomas legais de
cunho mais particularista, nos quais uma categoria de cidadãos é identif-
cada como destinatária específca da proteção: são os casos, por exemplo,
da legislação paulista sobre combate à discriminação por orientação sexual,
Lei nº. 10.948 de 2001 (são paulo, 2001); da cidade de Juiz de Fora, Lei nº.
9.791 de 2000 (minas gerais, 2000); de outro, diplomas mais universalis-
tas, destacando-se a lei gaúcha, Lei n.º 11.872 de 2002 (rio grande do sul,
2002). De fato, enquanto os primeiros referem-se a “qualquer cidadão ho-
mossexual (masculino ou feminino), bissexual ou transgênero” (conforme
o art. 1º da lei mineira), o segundo, “reconhece o direito à igual dignidade
da pessoa humana de todos os seus cidadãos, devendo para tanto promo-
ver sua integração e reprimir os atos atentatórios a esta dignidade, espe-
cialmente toda forma de discriminação fundada na orientação, práticas,
manifestação, identidade, preferências sexuais, exercidas dentro dos limites
da liberdade de cada um e sem prejuízo a terceiros” (2002, art. 1º). Não se
questiona, em nenhum momento, a intenção antidiscriminatória presente
nestes dois modelos de respostas. Todavia, é necessário atentar para as van-
tagens, desvantagens e os riscos próprios de cada um.
Com efeito, a adoção de estratégias mais particularistas expõe-se a ris-
cos importantes: reifcar identidades, apontar para um reforço do gueto e
incrementar reações repressivas (basta verifcar o contra-discurso conver-
sador dos “direitos especiais” e a ressurgência de legislação medicalizadora
“curativa” de homossexuais). Isto sem se falar dos perigos de limitar a liber-
dade individual na potencialmente fuida esfera da sexualidade (preocupa-
ção expressa pela chamada ‘teoria queer’) e de requerer, quando acionados
os mecanismos de participação política e de proteção estatal, defnições
identitárias mais rígidas acerca de quem é considerado sujeito da proteção
jurídica específca. Neste contexto, parece preferível a adoção de estratégias
mais universalistas. Elas parecem ser capazes de suplantar as difculdades
de uma concepção meramente formal de igualdade, desde que atentas às
diferenças reais e às especifcidades que se constroem a cada momento, sem
nelas se fechar; trata-se de reconhecer a diferença sem canonizá-la, tra-
balhar com as identidades auto-atribuídas sem torná-las fxas e rejeitar a
reifcação do outro.
Conclusão
De tudo isto, conclui-se, portanto, que direitos sexuais, além de concretiza-
ções dos princípios mais caros ao paradigma dos direitos humanos (liber-
dade, igualdade e proteção à dignidade), são desafo presente e necessário
para a consolidação da democracia, especialmente em contextos como o
brasileiro, onde há fraca tradição no cultivo e na promoção destes valores.
Neste sentido, a luta contra a homofobia e o heterossexismo, que en-
gendram a discriminação por orientação sexual sofrida por gays, lésbicas,
travestis e transexuais, é arena emblemática e decisiva. Ela permite, ao mes-
mo tempo em que os direitos sexuais são desenvolvidos, superar graves injus-
tiças e construir padrões mais democráticos e pluralistas no convívio social
onde a diversidade e o respeito são valores básicos e necessários para todos.



47 Políticas e Direitos Sexuais no Brasil Contemporâneo
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Acesso em: 4 de agosto de 2008.
VIANNA, A. Direitos e Políticas Sexuais no Brasil: mapeamento e diagnóstico. Rio de Janeiro: CEPESC,
2004, p. 51-62
Políticas e Direitos Sexuais no Brasil Contemporâneo
1
Sérgio Carrara
2
Introdução
As idéias fundamentais desse artigo são fruto de um trabalho coletivo, de-
senvolvido no âmbito do Centro Latino Americano em Sexualidade e Di-
reitos Humanos (clam)
3
, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Desde sua criação, o Centro mantém uma linha de investigação (e de ação)
que gira em torno das políticas e dos direitos sexuais em diferentes países
sul-americanos. Desde o início, a discussão privilegiou muito mais a idéia
de “política sexual”, conforme proposta de Jefrey Weeks (weeks 1989), do
que a de “direitos sexuais”. Há cinco anos atrás, quando da instalação des-
sa linha de investigação, a expressão “direitos sexuais” era muito menos
divulgada e seus signifcados ainda mais obscuros do que são hoje. Além
disso, parecia-nos, como, aliás, ainda nos parece, que a via jurídica deva ser
analisada como dispositivo específco, entre outros, através do qual certas
políticas se implantam e se desenvolvem. Isso quer dizer que partimos do
pressuposto de que a análise dos processos jurídicos deve sempre ter como
pano de fundo o campo político mais abrangente no qual se desenvolvem.
O projeto clam sobre políticas sexuais começou com a elaboração de
1 Este artigo encontra-se igualmente publicado na Revista Bagoas – Estudos Gays, Gêneros e
Sexualidades,V.4, n.5, jan./jun. 2010.
2 Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro. Profes-
sor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
3 O clam conta com o apoio da Fundação Ford do Brasil.
48 Sérgio Carrara 49 Políticas e Direitos Sexuais no Brasil Contemporâneo
um panorama geral que buscava capturar, no nível mais formalizado da
legislação, da jurisprudência e das políticas públicas brasileiras, tudo o que
dissesse respeito ao que então chamamos de (i) expressões da sexualidade;
(ii) regulação das relações sexuais, e (iii) gestão das consequências do exercí-
cio da sexualidade
4
. Interessava-nos, assim, produzir um panorama das leis,
sentenças ou decisões administrativas que tivessem como objeto, tanto o
reconhecimento dos direitos de diferentes minorias sexuais, incluindo aí o
reconhecimento de diferentes formas de família e de conjugalidade; quanto
intervenções públicas sobre crimes sexuais, doenças sexualmente trans-
missíveis, aborto ou prostituição. Ao longo da realização desse trabalho, o
esquema inicial ampliou-se e, assumindo como marco legal a Constituição
de 1988, a pesquisa passou a analisar a política sexual brasileira segundo os
diferentes planos em que se produz (internacional, nacional e local), explo-
rando as inter-relações entre eles; as diferentes arenas em jogo (questões
relativas à reprodução/aborto, à violência sexual, à Aids, à prostituição ou
à homossexualidade) e os diferentes sujeitos políticos que se projetavam e
se consolidavam em tais planos e arenas (“mulheres”, “crianças e adolescen-
tes”, “gays”, “profssionais do sexo” etc.)
5
.
A importância da Constituição de 1988 para o panorama da política se-
xual no Brasil contemporâneo deve ser ressaltada. No momento em que foi
elaborada, a chamada “Constituição Cidadã” espelhou a confguração de
forças existente entre diferentes movimentos sociais que à época buscavam
transportar para a esfera pública uma série de questões antes consideradas
do âmbito da vida privada, muitas delas envolvendo questões relativas ao
gênero e à sexualidade. Certas transformações foram expressivas, como a
formulação da equidade de gênero como direito constitucional e o reconhe-
cimento legal da existência de diversas formas de família, refexos claros da
pressão de grupos feministas e de mulheres. Já a não inclusão na nova Carta
constitucional da “orientação sexual” e da “identidade de gênero”
6
, entre as
diversas situações de discriminação a serem combatidas pelos poderes pú-
blicos, evidencia quanto o contexto político daquele momento era desfavo-
rável para o então chamado Movimento Homossexual Brasileiro ou, como
4 Para o primeiro fruto desse trabalho, ver (vianna e lacerda 2004).
5 Depois de realizado no Brasil, esse mesmo trabalho estendeu-se a outros países da América Latina.
Ver, por exemplo, (petracci e pecheny 2007) e (dides et al. 2007).
6 Note-se que a expressão “identidade de gênero” é atualmente veículo para as reivindicações das cha-
madas “pessoas trans” (travestis e transexuais). Como o movimento que as agrupa atualmente era ine-
xistente no período em que se elabora a Constituição, à época discutia-se apenas a inclusão ou não do
termo “orientação sexual” que, supostamente, diria respeito a toda a diversidade lgbt.
se designa atualmente, Movimento LGBT
7
. Contudo, mesmo com eventuais
“derrotas”, a estrutura geral da Constituição, explicitamente comprometida
com o respeito aos direitos humanos e a implementação de compromissos
frmados nos tratados internacionais, tem permitido a juízes e tribunais
desdobrarem os seus princípios fundamentais no sentido de garantir, de
fato, certos direitos e contribuir para a criação de novas leis relativas às mi-
norias sexuais. A Carta de 1988 deve ser considerada, portanto, marco fun-
damental a partir do qual a sexualidade e a reprodução instituem-se como
campo legítimo de exercício de direitos no Brasil. Atualmente, é em torno
dela que, da perspectiva da sociedade civil, são organizadas as demandas
por reconhecimento de direitos e, da perspectiva do Estado, são geradas
políticas públicas, instrumentos legais e decisões judiciais para responder
a tais demandas.
É importante ressaltar que a equipe que trabalhava no clam com tais
questões sempre teve muito claro que, mesmo tomando certo distancia-
mento crítico, participava ativamente da própria construção do campo dos
“direitos sexuais” no Brasil. Tínhamos também claro que, no plano político,
tais direitos se produziam na interseção, em certos pontos, da agenda do
Movimento Feminista e da agenda do Movimento lgbt, dois atores políti-
cos que emergem (ou re-emergem, no caso do feminismo) nos anos 1960
e 1970. Nessa confuência ou diálogo, eram reformuladas certas estratégias
anteriores, através das quais tais atores buscaram indiretamente promover
a “liberdade sexual”, valor central em seus ideários
8
. Nas últimas décadas do
século xx, seja através das discussões em torno da saúde sexual e reprodu-
tiva, no caso das feministas, seja na arena de luta contra a aids, no caso dos
militantes homossexuais, o ideal de “liberdade sexual” apareceu sempre
subordinado a (e justifcado por) graves problemas sociais. No momento
em que o projeto foi implantado no clam, parecia haver certo consenso
quanto ao fato de que as preocupações com a saúde pública ou com proble-
mas demográfcos, que haviam sido espécie de “veículos” para afrmação
de valores mais fundamentais em relação ao corpo e à sexualidade, tinham
se tornado um caminho estreito demais. Assim, temos assistido nesses úl-
timos anos ao processo de crescente autonomização da sexualidade como
7 No Brasil, a sigla lgbt refere-se a lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. As diferenças entre
tais identidades e o modo como se expressam politicamente faz parte de um processo bastante comple-
xo que não iremos abordar aqui. Basta ressaltar que as fronteiras entre elas não são nítidas e estão em
constante processo de negociação.
8 No campo intelectual, essa confuência signifcou um diálogo mais intenso entre os especialistas nas
discussões sobre gênero e os especialistas na discussão sobre sexualidade.
50 Sérgio Carrara 51 Políticas e Direitos Sexuais no Brasil Contemporâneo
plano específco de exercício de direitos, não mais vinculada necessaria-
mente a considerações relativas à saúde ou à demografa.
Revisitando o trabalho realizado, esse texto irá privilegiar apenas uma
das arenas em que a política sexual brasileira se desenvolve, qual seja, a da
luta pelos chamados “direitos lgbt” ou direitos relativos ao que se vem
convencionando chamar de “diversidade sexual”
9
. Tais “direitos lgbt”, que
muitas vezes nada têm a ver diretamente com a sexualidade (como ques-
tões previdenciárias, adoção, liberdade de movimento em espaços públicos
ou de mudança de nome e sexo em certidões de nascimento), vêm sendo
compreendidos como “direitos sexuais”, dado o fato de os processos sociais
e políticos de estigmatização e discriminação que deles privam pessoas
lgbt envolverem historicamente determinados valores relativos à sexuali-
dade. Dito de outro modo, conforme construídos contemporaneamente no
Brasil, direitos sexuais referem-se a prerrogativas legais relativas ou à sexu-
alidade ou a grupos sociais cujas identidades foram forjadas sobre formas
específcas de desejos e de práticas sexuais.
Atualmente a agenda do Movimento lgbt brasileiro envolve um con-
junto muito amplo de reivindicações: direito ao reconhecimento legal de
relações afetivo-sexuais, à adoção conjunta de crianças, à livre expressão de
sua orientação sexual e/ou de gênero em espaços públicos, à redesignação
do “sexo” e à mudança do nome em documentos de identidade, ao acesso
a políticas de saúde específcas e, ainda mais fundamental, à proteção do
Estado frente à violência por preconceito
10
. Tal agenda tem sido promovida
através de uma rede complexa e múltipla de relações, em que alguns atores
sociais (ongs, agências governamentais, partidos políticos, parlamentares,
juízes, juristas, centros de pesquisa universitários, atores do mercado, agên-
cias de fomento, organizações religiosas e profssionais etc.) atuam cons-
cientemente no sentido de apoiá-la, enquanto outros, lutam para negá-la
ou desqualifcá-la.
Esse artigo privilegia somente alguns desses atores, especialmente aqueles si-
tuados nos três poderes constituídos do Estado, uma vez que é nesse plano que
se dão atualmente os embates mais decisivos, desenhando um cenário que não é
mais o de pura contestação, mas de enorme expectativa e muitos desafos.
9 Outras duas arenas cruciais, no Brasil, dizem respeito aos direitos reprodutivos/aborto e às dsts/aids,
mas, estas não serão privilegiadas nesse momento.
10 A expressão “violência homofóbica” tem se frmado no cenário político, porém, dadas as incon-
sistências e indefnições do próprio termo “homofobia”, preferimos aqui a expressão “violência por
preconceito”, conforme desenvolvida em (gómes 2006)
O Estado brasileiro e os direitos lgbt
Apesar de muita discussão e repercussão midiática, no plano do legislativo
federal, nenhuma lei importante relativa ao reconhecimento de direitos da
população lgbt foi até o momento aprovada. De um modo geral, pode-
mos dizer que o imobilismo e o conservadorismo têm marcado a ação do
Congresso Nacional em relação ao tema. Procurando reverter esse quadro
e impulsionar a aprovação de projetos como o da parceria civil e a propos-
ta de emenda constitucional que condena explicitamente a discriminação
por orientação sexual e identidade de gênero, a Câmara dos Deputados
instalou ofcialmente, em outubro de 2003, a Frente Parlamentar Mista pela
Livre Expressão Sexual (atualmente denominada Frente Parlamentar pela
Cidadania glbt). E no manifesto de seu lançamento, em setembro de 2003,
os signatários reconheciam que “a comunidade de gays, lésbicas, bissexuais,
travestis e transexuais ainda não tem seus direitos assegurados pela legislação
federal”
11
.
O impasse do Congresso no que diz respeito à lei de parceria civil, em
discussão desde 1995, fez com que, nos últimos anos, os esforços ativistas se
voltassem estrategicamente para a criminalização da homofobia
12
, ou seja,
para a tentativa de alteração do Código Penal no sentido de também trans-
formar em delito atos de discriminação baseados na “orientação sexual e
identidade de gênero”. Para alguns ativistas, a mudança de ênfase – da união
civil para a criminalização da homofobia – se justifcava pragmaticamente.
Às lideranças, parecia mais fácil aprovar a criminalização da homofobia
do que aprovar uma lei de parceria civil, uma vez que, para parlamentares
contrários à causa, seria mais difícil posicionarem-se contra um projeto
desse tipo, sem aparecerem publicamente como favoráveis à violência que
cotidianamente e de modo dramático atinge gays, lésbicas, travestis e tran-
sexuais. O projeto, já aprovado pela Câmara, encontra-se atualmente em
apreciação no Senado (plc 122/2006).
O imobilismo do Congresso se deve em grande parte à infuência das
religiões cristãs sobre os parlamentares organizados nas chamadas banca-
das evangélica e católica. Tais bancadas atuam mais ou menos na mesma
11 Para a íntegra do manifesto, ver http://www.pt.org.br.
12 O conceito de homofobia, amplamente utilizado pelos atores políticos no Brasil, tem merecido longas
discussões críticas. Para isso ver, entre outros, (borrilo, d. 2000); (herek, g. m. 2004) e (welzer-
lang, d. 2001).
52 Sérgio Carrara 53 Políticas e Direitos Sexuais no Brasil Contemporâneo
direção quando se trata de direitos lgbt. Nas atuais discussões sobre o pro-
jeto de lei que criminaliza a homofobia, por exemplo, representantes das
duas bancadas levantam contra o projeto a tese de que ele cercearia a li-
berdade de expressão ou opinião, que, nesse caso, signifca a “liberdade” de
condenar publicamente a homossexualidade a partir de interpretações da
Bíblia. O desafo para o Movimento lgbt é estabelecer claramente quais as
situações concretas que o projeto visa coibir e desenvolver argumentos no
sentido de demonstrar que, a exemplo do racismo ou do anti-semitismo, o
preconceito em relação à homossexualidade, ou homofobia, não é da or-
dem das opiniões, mas das paixões, não se prestando, como as opiniões em
geral, a uma contra-argumentação racional.
13
Além da esperada oposição
de parlamentares da bancada evangélica, o projeto tem provocado no cam-
po do direito criminal certa resistência de setores progressistas, contrários,
de um modo geral, à prisão (também prevista no projeto) como reação
penal por excelência.
Embora o legislativo federal brasileiro
14
se mostre particularmente aves-
so a legislar sobre questões relevantes para esses atores, a eles o judiciário
vem estendendo de modo notável, direitos antes negados. No que se refe-
re aos chamados direitos de família, além do reconhecimento de direitos
previdenciários, os recentes casos de reconhecimento do direito de adoção
por “casais” de mesmo sexo pela justiça dos estados do Rio Grande do Sul,
São Paulo, Acre, Distrito Federal merecem ser registrados. As recentes au-
torizações legais para registro do nome de dois pais ou de duas mães, ao
invés de um pai e uma mãe, em certidões de nascimento e, portanto, em
carteiras de identidade, é uma ruptura simbólica das mais impressionan-
tes no que tange aos valores convencionais relativos à fliação. Quanto às
relações estáveis entre pessoas do mesmo sexo, um novo cenário abriu-
se recentemente envolvendo o Supremo Tribunal Federal. Apresentada no
início de 2008 pelo governador do Rio de Janeiro, está sendo apreciada pelo
STF uma Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (adpf-
132) que, baseada nos valores da igualdade, dignidade da pessoa, liberdade
13 Para argumento desse tipo no que tange ao anti-semitismo, ver (sartre 1999).
14 Em relação à legislação, é apenas na esfera estadual e municipal que algumas medidas vêm sendo
defnidas nos últimos anos. Essas, porém, não abrangem necessariamente os mesmos tipos de viola-
ções, podendo ser mais amplas ou mais restritas. As situações de discriminação em estabelecimentos
comerciais e em negociações para aluguel ou compra de imóveis têm sido as mais contempladas nas leis
estaduais. Atos discriminatórios em casos de admissão ou demissão de empregos, por sua vez, são es-
pecifcados em alguns casos, como nas leis dos estados de Minas Gerais, Santa Catarina e São Paulo. As
leis desses estados contemplam ainda a manifestação de afeto entre pessoas do mesmo sexo em espaço
público, sendo a sua proibição ou coibição considerada discriminatória.
e segurança jurídica, busca assegurar que os tribunais do estado reconhe-
çam os efeitos de lei que estende às relações afetivas entre servidores esta-
duais do mesmo sexo os mesmos direitos relativos às “uniões estáveis”
15
.
A concessão desses direitos tem, em alguns casos, esbarrado em decisões
contrárias do Tribunal de Justiça do estado do Rio de Janeiro, que, interpre-
tando de modo estrito o Código Civil, apenas reconhece o status de união
estável às relações entre um homem e uma mulher. Uma eventual decisão
favorável do stf implicará no reconhecimento do status de união estável às
relações entre pessoas do mesmo sexo em todo o país.
A violência letal contra homossexuais tem também progressivamente
recebido tratamento mais rigoroso por juízes e tribunais, como no caso
do violentíssimo assassinato de Edson Néris, em fevereiro de 2000. Néris
foi linchado por um grupo de “skinheads” quando passeava de mãos da-
das com outro homem na Praça da República, em São Paulo. A relevân-
cia deste caso está, em primeiro lugar, na sua caracterização como “crime
de ódio” pelo promotor encarregado da acusação, algo que até então não
havia ocorrido no Judiciário brasileiro. Além disso, a severa condenação
dada pelo júri popular aos principais acusados – em torno de 20 anos – e
o próprio texto da sentença, enfatizando o direito à igualdade das vítimas,
independente de sua “orientação sexual”, tornam o caso um marco emble-
mático nos debates acerca da violência contra homossexuais. Cabe ressal-
tar que embora alguns casos de assassinatos de homossexuais tenham tido
destaque na mídia em momentos anteriores e sido alvo de condenações, o
exame dos processos judiciais revela uma visão bastante estereotipada da
homossexualidade, condenada como um estilo de vida perigoso ou mesmo
como uma patologia
16
.
A justiça também tem concedido em muitos casos de cirurgia, o direito
de mudança de nome e redesignação do “sexo” em documento de identi-
dade, mas a decisão ainda depende do arbítrio dos juízes. O fato de a mu-
dança documental depender na maioria dos casos da realização da cirurgia
de transgenitalização tanto consagra a distância entre os diferentes saberes
autorizados (médicos, psicólogos e operadores do direito) e as experiências
concretas dos sujeitos sociais, quanto marca, sob justifcativa de “sanar” a
inadequação entre sexo e gênero, a re-instauração de um perverso bina-
rismo. Àqueles que não conseguem ou não desejam a operação, como é o
15 Lei 5034/07 de 31/05/07. Lei estadual que prevê o pagamento de pensão para parceiros do mesmo
sexo.
16 Sobre a forma como o judiciário brasileiro tratou a homossexualidade em casos de assassinato em
período anterior, ver (carrara e vianna 2004 e 2006).
54 Sérgio Carrara 55 Políticas e Direitos Sexuais no Brasil Contemporâneo
caso de muitas travestis, é em geral negado um direito fundamental e in-
trinsecamente relacionado à sua identidade
17
. Há aqui a serem ressaltadas,
entretanto, decisões do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, como a
que, embora tenha autorizado mudança de nome de uma pessoa diagnos-
ticada como transexual antes da cirurgia, manteve a designação original de
sexo no registro civil. Na ausência de legislação abrangente, os limites mais
concretos da via jurídica fcam evidentes, sobretudo, no fato de que juízes e
tribunais acabam decidindo ora em uma direção, ora em outra.
De modo geral, os novos direitos vêm sendo reconhecidos por deriva-
ção dos princípios gerais que inspiram a Carta de 1988 e os direitos sexuais
tornam-se, especialmente na mão dos constitucionalistas, um caso exem-
plar do modo como novos direitos podem ser criados a partir de princípios
gerais, sem a necessidade de criação de novas leis. Se as chamadas minorias
sexuais podem ser consideradas “órfãs” da Constituição de 1988, o impacto
da nova Carta para elas não tem, contudo, sido desprezível, dado o número
de importantes decisões que, baseadas em seu “espírito”, vêm sendo toma-
das por juízes e tribunais. Em muitos casos, especialmente nos que envol-
vem direitos previdenciários, foram ações judiciais que abriram caminho
para mudanças legislativas, de modo semelhante ao que ocorreu com os
direitos dos soropositivos
18
.
Se alguns juízes e tribunais têm se posicionado de forma surpreendente-
mente progressista no que diz respeito aos direitos lgbt, boa parte do pro-
tagonismo é, entretanto, reservada ao governo federal, ao chamado poder
executivo que, articulando-se ao Movimento lgbt tem desenhado políticas
públicas abrangentes e mobilizado recursos simbólicos e materiais cada vez
mais signifcativos no sentido de tornar o próprio movimento mais visível e
de atender às suas demandas. É importante ressaltar que o governo ora res-
ponde diretamente ao movimento, ora indiretamente, sendo pressionado
pelo poder judiciário que acolhe demandas de grupos ativistas.
Iniciado por governos anteriores no âmbito da luta contra a Aids,
19
a
promoção governamental de políticas públicas voltadas à população lgbt
17 Para trabalhos que tratam do tema no Brasil, ver (bento 2006) e (zambrano 2003).
18 A concessão dos benefícios encontra-se regulamentada atualmente pela Instrução Normativa 57
de 10/10/2001, que revogou as instruções anteriores, no sentido de contemplar também àquele(a)s
cujo(a) companheiro(a) tenha morrido antes da data da decisão judicial. Para detalhes, ver (golin et
al. 2003).
19 Além das políticas de combate ao hiv-aids, nos dois Planos Nacionais de Direitos Humanos, elabo-
rados durante o Governo Fernando Henrique Cardoso, já constava a recomendação para que fossem
produzidas políticas no sentido de combater todo tipo de discriminação, incluindo aquela que se dá em
razão de “orientação sexual e identidade de gênero”.
se estende agora por diferentes ministérios e tem sido fundamental para a
própria organização do movimento. Já sob a presidência de Luiz Inácio Lula
da Silva, o governo federal promoveu a elaboração de um programa de ação
específco – “Brasil Sem Homofobia: Programa de Combate à Violência e
à Discriminação contra lgbt e de Promoção da Cidadania Homossexual”
– lançado em maio de 2004. O programa foi elaborado por uma comissão
do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e pelo Ministério da
Saúde, com a participação de vários ativistas e organizações militantes. Em
seus dez itens, prevê um conjunto bastante amplo de ações, com destaque
para a política para mulheres lésbicas e a articulação do combate ao racis-
mo e à homofobia. Entre as ações, destacam-se: (i) as que visam capacitar
o Estado, especialmente instituições escolares, policiais, judiciais, de saúde
e de fscalização do trabalho, a atuar de modo não discriminatório, seja
através da mudança de suas práticas, seja através da criação de novos dis-
positivos, como Disque Denúncia e centros de referência nas secretarias
estaduais de segurança pública
20
; (ii) o incentivo à participação de lideran-
ças do movimento nos diferentes conselhos e mecanismos de controle so-
cial do governo federal; (iii) a produção de conhecimento sobre violência e
discriminação homofóbica e sobre as condições de saúde de gays, lésbicas,
travestis e transexuais; (iv) e, fnalmente, o apoio a iniciativas brasileiras no
plano internacional no sentido do reconhecimento e proteção dos direitos
lgbt e à criação de uma Convenção Interamericana de Direitos Sexuais e
Reprodutivos.
Algumas das diretrizes do programa têm sido executadas. Em meados
de 2005, a Secretaria Geral da Presidência da República lançou edital aber-
to a instituições públicas ou não-governamentais para seleção de projetos
de prevenção e combate à homofobia, através da prestação de assessoria
jurídica e psico-social às vítimas, da orientação e encaminhamento de de-
núncias, da capacitação em direitos humanos e da mediação e conciliação
de confitos. Também a partir de 2005, o Ministério da Educação passou a
lançar editais públicos para seleção de projetos de capacitação de profs-
sionais de educação em temas relativos à “orientação sexual” e “identidade
de gênero”
21
. A Secretaria Especial de Direitos Humanos, por seu lado, tem
20 Essa proposta visa disseminar experiências anteriores desenvolvidas em alguns estados e municípios
depois da criação pioneira do ddh (Disque Defesa Homossexual), no Rio de Janeiro em 1999. Entre
os méritos de tais iniciativas estão a aproximação entre os grupos LGBT e os órgãos de segurança e o
estabelecimento de uma base de informação mais confável acerca da violência homofóbica.
21 Para um balanço parcial das ações do mec, ver Cadernos secad – Secretaria de Educação Continuada
e Diversidade, n. 4. Brasilia: Ministério da Educação, 2007.
56 Sérgio Carrara 57 Políticas e Direitos Sexuais no Brasil Contemporâneo
apoiado a criação de dezenas de centros de referência em direitos humanos
com o objetivo de prevenir e combater a violência e discriminação homo-
fóbicas, dado apoio jurídico e psico-social às vítimas. Espalhados por todo
o país, muitos desses centros estão sendo implantados em organizações do
movimento lgbt e outros em secretarias estaduais e municipais.
No âmbito do Ministério da Saúde, para além das ações do Programa
Nacional de dst-Aids, medidas importantes têm sido tomadas no que diz
respeito aos direitos de transexuais realizarem a cirurgia de mudança de
sexo e, com isso, conseguirem a alteração de sua identidade legal
22
. A Reso-
lução 1.652/2002 do Conselho Federal de Medicina, estabelece as condições
para que tal cirurgia seja realizada, o que inclui, no plano prático, que ela
seja feita “em hospitais universitários ou hospitais públicos adequados à
pesquisa”, nos casos de adequação do fenótipo feminino para masculino,
ou em hospitais públicos ou privados, independente da atividade de pes-
quisa, no caso da adequação do fenótipo masculino para feminino. Mais
recentemente, o Ministro da Saúde instituiu através de portaria (Portaria
1.707, de 18 de Agosto de 2008) o chamado “processo transexualizador” no
âmbito do sus. O texto da Portaria não trata explicitamente a transexuali-
dade como doença ou distúrbio
23
, mas apóia-se na Resolução do Conselho
Federal de Medicina, segundo a qual “o paciente transexual” é “portador
de desvio psicológico permanente de identidade sexual, com rejeição do
fenótipo e tendência à auto-mutilação e ou auto-extermínio”. Continua a
prevalecer, portanto, uma representação extremamente “patologizante” da
transexualidade.
Em relação às iniciativas governamentais, o ano de 2008 assistiu a um
momento único, com a realização, em Brasília, da primeira Conferência
Nacional glbt - Direitos Humanos e Políticas Públicas, com a presença do
Presidente da República. Além de diferentes ministros e secretários, reu-
niram-se 600 delegados de todos os estados da federação, 100 convidados
e 300 observadores. Isso demonstra que o Governo Federal, além de seus
próprios recursos, mobilizou o recurso de estados e municípios no mais
amplo processo político relativo a tais grupos de que se tem notícia.
Em relação ao que acontece no nível do poder executivo, é notável a
22 Até 1997, a operação para mudança de sexo era considerada pelo Conselho Federal de Medicina
como prática não-ética e podia ser enquadrada criminalmente como “lesão corporal”.
23 O texto da portaria considera o “transexualismo” como “um desejo de viver e ser aceito na condi-
ção de enquanto (sic) pessoa do sexo oposto, que em geral vem acompanhado de um mal-estar ou de
sentimento de inadaptação por referência a seu próprio sexo anatômico, situações estas que devem ser
abordadas dentro da integralidade da atenção à saúde preconizada e a ser prestada pelo sus”.
relativa autonomia do governo brasileiro em relação aos valores veiculados
pela moral cristã e sua alta permeabilidade às pressões da chamada “socie-
dade civil organizada”. Essa permeabilidade se explica em parte pela traje-
tória política do partido que lidera a coalizão atualmente no poder (pt) e,
em parte, também pelos novos modelos de gestão pública que foram insti-
tuídos com a reforma do Estado, no sentido da instalação do chamado “Es-
tado mínimo”, a partir de meados dos anos 1980. Esses processos fzeram
com que a implementação das ações do Estado passasse a depender cada
vez mais da participação direta da “chamada sociedade civil”. No campo das
políticas sociais, a Aids foi o primeiro grande experimento desse novo tipo
de gestão que agora se estende para outras áreas.
Do ponto de vista dos gestores brasileiros, em certos momentos, parece
até mesmo que o imperativo de articulação política com as ongs, obscurece
a clara defnição do que sejam obrigações do Estado. Assim, por exemplo,
no primeiro concurso de projetos para promoção de intervenções contra
a discriminação por orientação sexual nas escolas, promovido pelo mec,
não foram privilegiados projetos apresentados por secretarias municipais
e estaduais de educação. Ou seja, se o movimento pressiona para que o go-
verno, em diferentes níveis, intervenha nas escolas, quando, motivadas pelo
Governo Federal, secretarias municipais e estaduais de educação decidem
fazê-lo, seus projetos podem ser preteridos em nome daqueles apresenta-
dos por ongs. Isso não quer dizer, entretanto, que ações mais abrangentes
envolvendo universidades e secretarias estaduais e municipais não venham
sendo promovidas mais recentemente
24
.
Não se trata aqui de oferecer um painel exaustivo do que tem acontecido
na justiça, no congresso e no governo brasileiro no que tange aos direitos
lgbt, mas apenas apontar para a complexidade de um quadro que, revelan-
do em suas diferentes dimensões inúmeras inovações e avanços, não deixa
de apresentar igualmente contradições, defasagens e ambigüidades. Não
sabemos ainda quais serão seus limites ou como se desenhará no futuro,
principalmente em face das posições que resistem a qualquer mudança no
sentido do reconhecimento público das diferentes expressões da sexualida-
de e do gênero. Não há dúvida, contudo, que os movimentos que se desen-
rolam na esfera do Estado fazem parte do profundo processo de transfor-
mação da moral sexual no Brasil e sobre ele tem impacto signifcativo.
24 Um dos exemplos nesse sentido é o projeto de educação à distância Gênero e Diversidade na Escola:
formação de professoras(es) em gênero, sexualidade, orientação sexual e relações étnico-raciais.
58 Sérgio Carrara 59 Políticas e Direitos Sexuais no Brasil Contemporâneo
Linhas de fuga
Não sabemos ainda quais serão os desdobramentos desse conjunto de pro-
cessos políticos. Contudo, nos últimos anos temos atuado (e aqui me refro
ao pensamento coletivo que temos produzido no clam) como espécies de
cassandras, alertando para os inúmeros “perigos” envolvidos em cada passo.
À guisa de conclusão, tratarei brevemente dos que têm nos parecido mais
cruciais e que, talvez, mereçam a atenção do Movimento lgbt brasileiro.
Em diversos momentos temos apontado para as possíveis conseqüên-
cias indesejáveis de se canalizar ou formalizar a luta política na linguagem
dos direitos e, particularmente, na dos direitos humanos, ou seja, para as
possíveis conseqüências dessa espécie de judicialização da política. É in-
teressante lembrar que, até pouco tempo atrás, quando o paradigma mar-
xista ainda imperava nas ciências sociais brasileiras, a justiça fazia parte
das chamadas “superestruturas” e dela nada se podia esperar no sentido
de uma transformação social mais profunda. Ao contrário, a justiça (bur-
guesa, como se dizia então) era parte do problema e não de sua solução.
Vivemos hoje um cenário oposto, em que parece imperar certa “utopia ju-
rídica”, segundo a qual espera-se da justiça que resolva todos os problemas,
produzindo uma espécie de “terra sem males”. Isso não parece razoável,
caso consideremos, entre outros muitos aspectos, o fato de as próprias de-
sigualdades sociais reproduzirem-se no acesso diferencial à justiça e à sua
aplicação; além, é claro, de a justiça ter, enquanto estrutura burocrática,
limites evidentes para acolher todas as demandas a ela dirigidas. O recurso
ao ideário dos direitos humanos deve também merecer certa refexão, pois,
de certo modo, os direitos humanos podem ser, em certo sentido, compa-
rados ao que os lingüistas denominam de “signifcante futuante” – uma es-
pécie de caixa vazia que depende, na fxação de seu conteúdo, de defnições
que são extra-jurídicas, quer dizer, políticas em sua essência. Poderíamos
citar, como exemplo, a retórica da Igreja Católica que, apoiada nos direitos
humanos, defende valores como a proteção da vida ou da família, para, de
fato, condenar o aborto e a homossexualidade. Se o “direito à vida” faz parte
dos direitos humanos e se frma no campo jurídico, o signifcado de “vida”
(se tem início na concepção ou no parto) se defne na arena propriamente
política.
Além disso, na luta pelos direitos, e na própria constituição de sujeitos
que têm direito aos direitos (momento fundamental dessa luta), vem se de-
senhando uma nova moralidade sexual, projetando novos sujeitos perigo-
sos ou abjetos em oposição aos “cidadãos respeitáveis”, ou seja, àqueles que
merecem, por suas qualifcações morais, a serem integrados, assimilados à
“sociedade”. É aquilo que a antropóloga americana Gayle Rubin chama de
nova “estratifcação sexual” (rubin, 1993). Por exemplo, no caso da adoção
de crianças por casais homossexuais, a constante referência à “homoafeti-
vidade” parece funcionar como dispositivo de purifcação que, retirando a
ênfase da sexualidade, torna tais casais mais respeitáveis e dignos, merece-
dores, portanto, do direito a ter crianças sob sua guarda. Ainda em relação
à construção de sujeitos de direitos, chama também a atenção do uso de
retóricas vitimizantes, tão caras a muitos militantes, sem que se avalie cla-
ramente o quanto a idéia de “vulnerabilidade” pode conjurar antigas inter-
venções tutelares e paternalistas.
Um outro perigo à espreita parece advir da íntima relação que passa a
unir sociedade civil e Estado, representados cada vez mais frequentemente
como “parceiros” em uma empreitada comum. Atualmente, torna-se qua-
se impossível separar tais entes. Cabe ao Movimento lgbt refetir sobre o
quanto, na busca por recursos e por reconhecimento, tem sido arrastado
para o interior das teias administrativas. De um lado, se o estreitamento
dos laços entre organizações da sociedade civil e o Estado pode “empode-
rar” tais organizações, pode também limitar seu potencial crítico, criando
situações de clientelismo e cooptação. Se o imperativo da visibilidade no
nível das políticas públicas fortalece certas identidades ou grupos, também
os expõe a um controle mais minucioso por parte de diferentes instâncias
do poder estatal.
Há que se discutir, fnalmente, os perigos da reifcação das identidades
sexuais e de gênero em jogo nesse contexto e de seu possível impacto sobre
políticas e direitos que, por serem “especiais”, podem acabar sendo mais
excludentes que inclusivos. Fechamentos identitários e fragmentação social
estão no horizonte, e a naturalização de novas clivagens sociais pode conti-
nuar a estabelecer fronteiras intransponíveis: (heterossexuais ou homosse-
xuais, homens ou mulheres, gays ou travestis) fazendo com que a balança
penda cada vez mais para um modelo de justiça social baseado no ideal de
“iguais, mas separados”.
Finalmente, uma palavra sobre a posição dos diferentes intelectuais e
pesquisadores que, como eu, dedicam-se a analisar a instituição dos direi-
tos sexuais entre nós. Parece-me importante reconhecer que, para enfrentar
intelectualmente os desafos hoje colocados pelo processo de afrmação dos
direitos sexuais no Brasil, novos modelos de análise precisam ser desenvol-
60 Sérgio Carrara 61 Políticas e Direitos Sexuais no Brasil Contemporâneo
vidos. Tenho às vezes a sensação de existir uma defasagem entre o meu ins-
trumental teórico ou conceitual e a nova realidade que se oferece à observa-
ção. É como se as perspectivas analíticas em relação à sexualidade tivessem
se constituído em um momento em que o horizonte de inclusão social que
hoje divisamos fosse inconcebível, sendo, portanto, mais importante pen-
sar em estratégias de resistência do que em processos de integração social.
Daí, talvez o fascínio que conceitos como ambiguidade, invisibilidade, fui-
dez e marginalidade exerceram sobre boa parte da produção teórica sobre
o tema. Desenvolvida principalmente entre as décadas de 1980 e 1990, tal
produção continua em grande medida a orientar o nosso olhar. Em certo
sentido, parece-me que quanto mais as teorias (e os acadêmicos) se torna-
ram “construcionistas”, apontando para o caráter arbitrário e culturalmente
defnido das diferentes marcas ou marcadores identitários, mais as políticas
e os direitos tendem a se pautar por um marcado “essencialismo”. Tudo se
passa como se os pesquisadores e intelectuais fossem arrastados por um
processo político que, ao questionarem, ajudam a consolidar. Para usar
aqui uma metáfora, tudo se passa como na fábula do aprendiz de feiticeiro,
que luta contra uma vassoura mágica que tanto mais se reproduz quanto
mais ele tenta fazê-la em pedaços. Espero que a continuidade e o aprofun-
damento do debate entre pesquisadores e ativistas possa contribuir para
que, reconfgurando a esfera política, possamos simultaneamente reconf-
gurar nossos próprios conceitos e teorias.
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63 Pouco saber para muito poder: A patologização do gênero
Pouco saber para muito poder: A patologização do gênero
1
Berenice Bento
2
Na década de 1950 foram publicados os primeiros artigos que registraram
e defenderam a especifcidade do “fenômeno transexual”. Essa tendência
intensifcou-se ao longo das décadas de 1960 e 1970
3
, ao mesmo tempo em
se produziam indicadores que sugeririam onde deveria ser buscado o diag-
nóstico que diferenciariam transexuais de gays, lésbicas e travestis.
O endocrinologista Harry Benjamin dedicou-se com afnco para esta-
belecer as frequências que justifcariam a diferenciação as pessoas transe-
xuais. Seu livro O fenômeno transexual, publicado em 1966, forneceu as
bases para se diagnosticar “o verdadeiro transexual” a partir de alguns in-
dicadores que irão defnir se as pessoas que chegam às clínicas ou aos hos-
pitais solicitando a cirurgia são “transexuais de verdade”. Ele defenderá a
cirurgia de transgenitalização como a única alternativa terapêutica possível
para as pessoas transexuais. Para evitar que cometam suicídio, as cirurgias
deveriam ser recomendadas. Esta posição contrapunha-se a dos profssio-
nais da psicologia, psiquiatria e psicanálise, sempre reticentes às interven-
ções corporais como alternativas terapêuticas, consideradas por muitos
1 Versão do capítulo Pouco saber para muito poder: A patologização da transexualidade, do livro O que
é transexualidade. Editora Brasiliense: São Paulo, 2008.
2 Doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília e Universidade de Barcelona. Professora da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte – ufrn.
3 A primeira cirurgia de transgenitalização em uma mulher transexual foi realizada em Viena em 1931,
no Instituto Hirschfeld de Ciência Sexual. No entanto, o primeiro caso que teve grande repercussão foi
o de Christine, em 1952, que viveu até os 26 anos como George Jorgensen Jr. A primeira mulher transe-
xual brasileira que realizou a cirurgia foi Jacqueline, em 1969 em Marrocos. Dois anos depois, o médico
Roberto Farina realizou a primeira cirurgia de transgenitalização no Brasil, na cidade de São Paulo.
O Conselho Federal de Medicina interpretou esse ato médico de Farina como “lesão corporal”, moti-
vando uma ação judicial. Farina foi absolvido da acusação.
64 Berenice Bento 65 Pouco saber para muito poder: A patologização do gênero
psicanalistas como mutilações. Benjamin, ao contrário, afrmava que para
“o transexual de verdade” psicoterapias eram inúteis. Nesses casos, apenas
as cirurgias poderiam representar a solução para as “enfermidades” daque-
les que têm abjeção ao corpo.
Em 1969, realizou-se em Londres o primeiro congresso da Associação
Harry Benjamin que passaria a chamar-se Harry Benjamin International
Gender Dysphoria Association (hbigda) em 1977. A transexualidade pas-
sou a ser considerada como uma “disforia de gênero”, termo cunhado por
John Money em 1973
4
.
A hbigda legitimou-se como uma das Associações responsáveis pela
normatização do “tratamento” para as pessoas transexuais em todo o mun-
do. A hbigda publica regularmente as Normas de Tratamento (State of
Care ou soc) que orientam profssionais que trabalham com transexuali-
dade em todo mundo. Atualmente o soc está em sua 6ª. Versão.
Além desse guia, dois outros documentos são reconhecidos como of-
ciais na orientação do diagnóstico de transexualidade: o Manual de Diag-
nóstico e Estatísticas de Distúrbios Mentais (dsm- 4ª. versão), da Associação
Psiquiátrica Americana (apa) e o Código Internacional de Doenças (10ª.
Versão), da Organização Mundial de Saúde. Nesses documentos há o pres-
suposto de que a transexualidade, por se tratar de uma doença, tem basica-
mente os mesmos sintomas em todas as partes do mundo. A patologização
caminha de mãos dadas com a universalização. O desejo em produzir um
diagnóstico diferenciado para transexuais, anunciado precariamente na
década de 1960, ganha concretude nos anos de 1980. A sua inclusão no
Código Internacional de Doenças, em 1980, foi um marco no processo de
defnição da transexualidade enquanto uma doença.
A inclusão no dsm, no cid-10 e a construção de um diagnóstico diferen-
cial foram fundamentadas pelos resultados de um estudo com dez pessoas
transexuais de idade adulta realizado por Leslie Lothstein (1983) , através
de estudos clínicos que representavam uma classe muito limitada de sujei-
tos. Segundo Stone (2003:27), a origem das clínicas dedicadas à disforia de
gênero é uma visão em miniatura da construção de critérios genéricos. A
idéia fundacional de que se partia nestas clínicas era estudar uma aberra-
ção humana interessante e potencialmente fnanciável.
Nestes três documentos (dsm-iv, cid-10 e soc) as pessoas transexuais
4 Para uma sistematização da história da institucionalização da transexualidade no espaço acadêmico e
hospitalar ver Castel (2001) e Bento (2006).
são construídas como portadoras de um conjunto de indicadores comuns
que as posicionam como transtornadas, independentes das variáveis cultu-
rais, sociais e econômicas. Há algumas diferenças entre estes documentos.
Para o soc, “o transexual de verdade”, tem como única alternativa para re-
solver seus “transtornos” ou “disforias”, as cirurgias de transgenitalização.
Já no dsm-iv a questão da cirurgia é apenas tangenciada, visto que sua pre-
ocupação principal está em apontar as manifestações do “transtorno” na
infância, adolescência e fase adulta. O cid-10 é o documento mais objetivo:
apresenta as características gerais e o código que deve estar presente em
todos os diagnósticos referentes ao “transexualismo”.
Manual de Diagnóstico e Estatísticas de Distúrbios Mentais (dsm)
Em 1980, a apa aprovou a terceira versão dsm incluindo a transexualidade
no rol dos “Transtornos de Identidade de Gênero”, no capítulo dedicado aos
“Distúrbios de Identidade de Gênero”. Em sua quarta versão estabeleceu os
critérios diagnósticos para as chamadas “perturbações mentais, incluindo
componentes descritivas, de diagnóstico e de tratamento, constituindo
um instrumento de trabalho de referência para os profssionais da saúde
mental em todo o mundo” (http://www.psiqweb.med.br/cid/persocid.html,
capturado em 10/03/2007).
Jane Russo (2004) observa que o dsm, a partir de sua terceira versão,
passou de uma visão psico-sociológica para outra biologizante da sexuali-
dade e do gênero. Esse giro medicalizante teve como desdobramento um
aumento considerável no número dos chamados “transtornos”, além da in-
clusão de novos tipos
5
que passaram a ser reagrupados em novas categorias.
Na parte referente à “Desordem Sexual e de Identidade de Gênero”, há uma
longa lista de tipos e subtipos. As “Desordens de Identidade de Gênero”
subdividem-se em desordens de gênero na infância, na adolescente, na fase
adulta e transtornos de gênero não especifcados.
Embora a proliferação de classifcações possa representar uma demarca-
ção com um viés psicanalítico presente nas primeira e segunda versões do
dsm, com a transexualidade não é possível afrmar que houve essa ruptura
ou uma disjunção entre os saberes psiquiátricos e psicanalíticos na leitura e
métodos de intervenção nos casos das chamadas “desordens de gênero”.
5 A autora aponta que o dsm ii apresentava uma lista com 180 categorias; no dsm iii eleva-se para 195,
e no dsm iv chega a 350.
66 Berenice Bento 67 Pouco saber para muito poder: A patologização do gênero
O livro do psicanalista freudiano Robert Stoller, A experiência transexual,
referência obrigatória para psicanalistas que se aproximam da transexu-
alidade, não está em desacordo com as orientações prescritas no dsm. É
como se os “achados” clínicos do autor tomassem forma e simplicidade no
manual. Stoller desenvolveu a tese de que a resposta para os “desvios” de
gênero em crianças deveria ser pesquisada na personalidade da mãe. Se-
gundo ele, a mãe dessa criança é uma mulher que, devido à inveja que tem
dos homens e o seu desejo inconsciente de ser homem, fca tão feliz com
o nascimento do flho que transfere seu desejo para ele, provocando uma
ligação extrema entre flho e mãe. Essa relação simbiótica e o ocultamente
da fgura do pai não permitem que o confito de Édipo se instaure. A não
passagem pelo confito de Édipo e sua resolução não permitem que a iden-
tidade de gênero da criança se desenvolva de forma “normal”.
O psicanalista Stoller é um radical defensor do dimorfsmo. Para ele, as
performances de gênero, a sexualidade e a subjetividade são níveis consti-
tutivos da identidade do sujeito que se apresentam colados uns aos outros.
O masculino e o feminino só se encontram por intermédio da comple-
mentaridade da heterossexualidade. Quando há qualquer nível de desco-
lamento o terapeuta deve intervir no sentido de restabelecer a ordem e a
“coerência” entre corpo, gênero e sexualidade. É esse mapa que fornecerá as
bases fundamentais para a construção do seu diagnóstico.
O dsm-iv não representa uma oposição a esta visão, ao contrário, talvez
possa ser considerado como sua operacionalização ou um detalhamento
daquilo que Stoller desenhou. A obra de Stoller não conseguiu a visibili-
dade entre os operadores da saúde que estão em Clínicas ou Programas
de Transgenitalização talvez por articular explicações psicanalíticas para
a emergência à transexualidade. O dsm oferece o necessário aos membros
de equipes envolvidas na produção de um diagnóstico às demandas de ci-
rurgias. Alguns pontos fundamentais de unidade entre as concepções de
Stoller e às do dsm: a defnição da transexualidade como um transtorno
de identidade; no caso das crianças, se os pais procurarem “ajuda” poderão
fazer seus flhos retornar à posição de gênero “normal”; a cirurgia não é
uma alternativa terapêutica; a intervenção do terapeuta poderia bloquear o
desenvolvimento da transexualidade.
Em 1994 o Comitê do dsm-iv substituiu o diagnóstico de “Transexualis-
mo” pelo de “Transtorno de Identidade de Gênero”. Dependendo da idade,
aqueles com uma “forte e persistente identifcação com o sexo oposto e
um persistente incômodo com seu sexo ou um sentimento de improprie-
dade dos papéis de gênero desse sexo passaram a ser diagnosticados como
Transtorno de Identidade de Gênero na Infância (302.6), Adolescência e
Adulto (302.85)”. Para as pessoas que não cumprem os critérios, o dsm-iv
empregou o termo de “Transtorno de Identidade de Gênero Não Especi-
fcado (gid-Nos-302.6)”. Os números representam os códigos que identif-
cam internacionalmente os tipos de “transtornos de gênero”.
De acordo com o dsm-iv, as características diagnósticas do “Transtorno
da Identidade de Gênero”, obedecem a dois componentes que devem estar
presentes no diagnóstico.
“Deve haver evidências de uma forte e persistente identifcação com o
gênero oposto, que consiste do desejo de ser, ou a insistência do indivíduo
de que ele é do sexo oposto. (...) Também deve haver evidências de um des-
conforto persistente com o próprio sexo atribuído ou uma sensação de ina-
dequação no papel de gênero deste sexo. Para que este diagnóstico seja feito,
deve haver evidências de sofrimento clinicamente signifcativo ou prejuízo
no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes
da vida do indivíduo.”
Após a caracterização, o dsm-iv identifca a presença do “transtorno”
por fases da vida.
Na infância:
“Em meninos, a identifcação com o gênero oposto é manifestada por
uma acentuada preocupação com atividades tradicionalmente femininas.
Eles podem manifestar uma preferência por vestir-se com roupas de me-
ninas ou mulheres ou improvisar esses itens a partir de materiais dispo-
níveis, quando os artigos genuínos não estão à sua disposição. (...) Existe
uma forte atração pelos jogos e passatempos estereotípicos de meninas.
Pode ser observada uma preferência particular por brincar de casinha, de-
senhar meninas bonitas e princesas e assistir televisão ou vídeos de suas
personagens femininas favoritas. Bonecas estereotipicamente femininas,
tais como Barbie. (...) Esses meninos evitam brincadeiras rudes e esportes
competitivos e demonstram pouco interesse por carrinhos ou caminhões
ou outros brinquedos não-agressivos, porém estereotipicamente mascu-
linos.” (dsm-iv, http://www.psiqweb.med.br/cid/persocid.html, capturado
em 10/03/2007). (negritos meus).
“As meninas com Transtorno da Identidade de Gênero apresen-
tam reações negativas intensas às expectativas ou tentativas dos
68 Berenice Bento 69 Pouco saber para muito poder: A patologização do gênero
pais de que se vistam com roupas femininas. (...) Elas preferem
roupas de menino e cabelos curtos e com freqüência são errone-
amente identifcadas por estranhos como meninos; elas também
podem pedir aos outros que as chamem por nomes masculinos.
Seus heróis de fantasia são, com maior freqüência, fguras mas-
culinas poderosas, tais como Batman ou Super-Homem (...) Ela
pode declarar que quando crescer será um homem. Essas meni-
nas tipicamente revelam acentuada identifcação com o gênero
oposto em brincadeiras, sonhos e fantasias.” (negritos meus)
Os sintomas apontados no dsm-iv para deixar os pais em alerta em re-
lação à saúde de gênero de suas crianças, são os mesmos presentes no pen-
samento de Stoller. Os meninos que gostam de usar roupas femininas, de
brincadeiras e de brinquedos femininos devem merecer atenção dos pais e
a intervenção terapêutica para que recuperem ou desenvolvam a masculi-
nidade. O mesmo procedimento devem ter os pais em relação às flhas que
apresentam comportamentos “não apropriados” para seu sexo. A preocu-
pação principal de Stoller foi alertar os pais para os perigos dessas atitudes
na infância, pois, caso deixasse as crianças “livres”, seriam potencialmen-
te adultos transexuais e que, provavelmente, reivindicariam a cirurgia de
transgenitalização
6
.
As crianças encaminhadas às clínicas, segundo o dsm-iv, “manifestam
interesse pelas atividades relativa ao sexo oposto habitualmente se situa
entre 2 e 4 anos de idade, sendo que alguns pais afrmam que seus flhos
sempre manifestaram interesses do gênero oposto. Apenas um pequeno
número de crianças com Transtorno da Identidade de Gênero continua
apresentando sintomas que satisfazem os critérios para Transtorno da
Identidade de Gênero na adolescência tardia ou na idade adulta.”
Por que um pai ou mãe levaria sua/seu flha/o a um psicólogo? Qual o
medo que habita em seu coração? Quais as técnicas desenvolvidas no espa-
ço terapêutico para esta criança não desenvolver “transtorno de identidade
de gênero na adolescência tardia ou na idade adulta”? O medo está na pos-
sibilidade daquele desejo por brinquedos, roupas, cores não “apropriadas
para seu sexo”, seja um sinal de uma homossexualidade latente.
Embora se afrme que a homossexualidade não seja considerada mais
6 Stoller dedica-se com maior afnco ao estudo da transexualidade feminina. Acreditava que eram raros
os casos de homens transexuais. No dsm-iv há certo equilíbrio nas descrições dos “sintomas” presentes
entre as meninas e os meninos.
uma “doença”
7
, pode-se desconfar que ainda se continua “curando” a ho-
mossexualidade, só que agora com o nome de “transtorno de gênero”. A pa-
tologização da sexualidade continua operando com grande força, não mais
como “perversões sexuais” ou “homossexualismo”, mas como “transtornos
de gênero”. Se o gênero só consegue sua inteligibilidade quando referido à
diferença sexual e a complementaridade dos sexos, quando se produz no
menino a masculinidade e na menina a feminilidade, a heterossexualidade
está inserida como condição para dar vida e sentido aos gêneros.
O dsm-iv continua seu trabalho de mapear os “transtornos de gênero”.
“Os adultos com Transtorno da Identidade de Gênero preocupam-
se com seu desejo de viver como um membro do sexo oposto.
Esta preocupação pode manifestar-se como um intenso desejo de
adotar o papel social do sexo oposto ou adquirir a aparência físi-
ca do sexo oposto através de manipulação hormonal ou cirúrgi-
ca. Os adultos com este transtorno sentem desconforto ao serem
considerados ou funcionarem, na sociedade, como um membro
de seu sexo designado. Eles adotam, em variados graus, o com-
portamento, roupas e maneirismos do sexo oposto. Em sua vida
privada, esses indivíduos podem passar muito tempo vestidos
como o sexo oposto e trabalhando para que sua aparência seja a
do outro sexo. (...)” (negritos meus)
“Para alguns homens que apresentam o transtorno em uma ida-
de mais tardia (freqüentemente após o casamento), a atividade
sexual com uma mulher é acompanhada pela fantasia de serem
amantes lésbicas ou de que sua parceira é um homem e ele é uma
mulher.” (negritos meus)
No dsm-iv não há uma diferenciação entre sexo em gênero. Quando
é para qualifcar o transtorno, utiliza o termo gênero, no entanto, em ou-
tros momentos, refere-se a sexo. Sexo oposto ou gênero oposto? Para os
formuladores desse manual não existe diferença entre sexo e gênero. São
os deslocamentos do gênero em relação ao sexo biológico o defnidor do
transtorno, pois o gênero normal só existe quando referenciado a um sexo
que o estabiliza.
7 A homossexualidade foi retirada do cid em 1975.
70 Berenice Bento 71 Pouco saber para muito poder: A patologização do gênero
Quando afrma “brinquedos estereotipados como femininos”, não expli-
ca o que entende por esteriótipo. Se o estereotipo for considerado como
falseamento não teria nenhum problema de um menino brincar de boneca.
Mas, no momento, em que o manual defne este desejo como um transtor-
no afrma que há brinquedos que fazem o trabalho de revelação do mascu-
lino e do feminino.
“Na adolescência:
Em adolescentes, as características clínicas podem assemelhar-se
àquelas de crianças ou de adultos, dependendo do nível de de-
senvolvimento do indivíduo, devendo os critérios ser aplicados
de acordo com o quadro clínico. Em um adolescente mais jovem,
pode ser difícil chegar a um diagnóstico correto, em vista de
sua reserva, que pode aumentar se ele sentir-se ambivalente acer-
ca da sua identifcação com o sexo oposto ou achar que isto é
inaceitável para sua família.” (negritos meus)
“Curso:
“Tipicamente, as crianças são encaminhadas por ocasião de seu
ingresso na escola, em vista da preocupação dos pais de que
aquilo que consideravam uma “fase” parece não estar sendo su-
perado. (...)
(...) Algumas adolescentes podem desenvolver uma identifcação
mais clara com o sexo oposto e solicitar cirurgia de reatribuição
sexual ou continuar em um curso crônico de confusão de gênero
ou disforia quanto a este.”
O grande êxito que dsm alcançou entre os profssionais da saúde mental,
a partir de sua 3ª. versão deve-se a reivindicar para si o caráter científco,
baseado em princípios de testabilidade e verifcação. Se estes princípios
podem ser questionados em cada uma das classifcações ali apresentadas,
no caso da transexualidade ou nos chamados “transtorno de identidade”, a
pretensão de cientifcidade não se sustenta.
Na parte referente à “Achados laboratoriais associados”, o manual afrma:
“Não existe qualquer teste diagnóstico específco para o Transtor-
no da Identidade de Gênero. Na presença de um exame físico
normal, geralmente não se indica o cariótipo de cromossomas
sexuais e avaliações de hormônios sexuais. A testagem psicológi-
ca pode revelar identifcação ou padrões de comportamento do
gênero oposto.”
Por que considerar esta experiência identitária uma doença? Quem au-
toriza os psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, e outras especialidades
que fazem parte das equipes multidiciplinares, a avaliar a pessoa transexual
como “doente”? Novamente, devo perguntar: Se não existe nenhum exame
clínico que conduz a produção do diagnóstico, como determinar a ocor-
rência do “transtorno”? Qual e como estabelecer os limites discerníveis en-
tre “os transtornados de gênero” e “os normais de gênero”?
O único mapa seguro que guia o olhar do médico e dos membros da equi-
pe são as verdades estabelecidas socialmente para os gêneros. Não existe um
só átomo de neutralidade. Estamos diante de um poderoso discurso que tem
como fnalidade manter os gêneros prisioneiros à diferença sexual.
Classifcação Estatística Internacional de Doenças
e Problemas Relacionados com a Saúde (cid-10)
No Código Internacional de Doenças (cid), a transexualidade aparece no
capítulo “Transtornos de personalidade da Identidade Sexual” (http://www.
psiqweb.med.br/cid/persocid.html., capturado em 10/03/2007).
A 10ª Revisão da Classifcação Internacional de Doenças adotou a deno-
minação “Classifcação Estatística Internacional de Doenças e Problemas
Relacionados à Saúde (cid-10)”. Esta Classifcação foi aprovada pela Con-
ferência Internacional para a 10ª Revisão da Classifcação Internacional de
Doenças, convocada pela Organização Mundial de Saúde, realizada em Ge-
nebra no ano de 1989. O cid-10 entrou em vigor em 1993.
Os códigos e a tipifcação da doença devem estar presentes em todos os
diagnósticos para que tenham validade legal. O “transexualismo” é defni-
do como “transtornos da identidade sexual (F64.0)”.
“A) Trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do
sexo oposto. Este desejo se acompanha em geral de um sentimen-
to de mal estar ou de inadaptação por referência a seu próprio
72 Berenice Bento 73 Pouco saber para muito poder: A patologização do gênero
sexo anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção ci-
rúrgica ou a um tratamento hormonal a fm de tornar seu corpo
tão conforme quanto possível ao sexo desejado.
B) A identidade transexual esteve presente de forma consistente
durante ao menos dois anos.
C) O transtorno não é um sintoma de outro transtorno mental ou
de uma anormalidade cromossomática.”
Além “do transexualismo”, temos “travestismo bivalente (F64.1), trans-
torno de identidade sexual na infância (F64.2 ), outros transtornos da
identidade sexual (F64.8), transtorno não especifcado da identidade se-
xual (F64.9).” O cid-10 não é um manual de orientação ou de indicadores
diagnósticos, representa uma convenção médica que estabelece as caracte-
rísticas das doenças e seus respectivos códigos utilizados e aceitos interna-
cionalmente por médicos/as e outros/as operadores/as da saúde.
O cid-10 considera o “transexualismo” como uma doença (“um trans-
torno mental) de ordem sexual. Não há nenhuma problematização das
identidades de gênero ou dos “sintomas” que o levaram a concluir que toda
pessoa transexual deseja uma cirurgia de transgenitalização.
Normas de Tratamento da hbigda (State of Care/soc)
Ao contrário do cid-10 e do dsm-iv, que se dedicam a catalogar múltiplas
comportamentos considerados transtornos, o soc, da Associação Interna-
cional de Disforia de Gênero Harry Benjamin, reúne um conjunto de orien-
tações exclusivamente sobre questões referentes à “transtornos de gênero”
8
.
As defnições da soc e do cid-10 são basicamente as mesmas. Embora a
soc utilize “disforia de gênero” e o cid-10 refra-se a “transtornos da iden-
tidade sexual –transexualismo (F64.0)”, não há divergências dignas de nota
entre os dois documentos.
O propósito principal do soc é articular um consenso profssional in-
ternacional acerca do manejo psiquiátrico, psicológico, médico e cirúrgi-
co das “Desordens da Identidade de Gênero”. Ao mesmo tempo objetiva
8 Para o acompanhamento dos documentos e da história da hbigda, consultar:
http://www.hbigda.org, http://www.symposion.com/ijt/benjamin e http://www.gendercare.com
orientar os profssionais no entendimento dos “parâmetros dentro dos
quais podem oferecer assistência às pessoas com este tipo de problema”.
Além dos profssionais, objetiva atingir um escopo mais amplo, pretende
orientar familiares, as instituições sociais como um meio para entender o
pensamento atual dos profssionais e a melhor forma de lidar com as pes-
soas “disfóricas de gênero”.
Da mesma forma que o dsm-iv, reconhece as “limitações de um conhe-
cimento desta área e da esperança de que algumas destas incertezas clínicas
podem resolver-se no futuro através da investigação científca”.
Na construção do diagnóstico orienta que quando os “indivíduos insa-
tisfeitos cumprem os critérios especifcados nas das duas classifcações in-
ternacionais ofciais (cie -10 e o dsm-iv), se pode dizer que sofrem uma de-
sordem da identidade de gênero (gid). Algumas pessoas com gid possuem
o desejo persistente de transformar cirurgicamente seus corpos.” A ênfase
da cirurgia como alternativa terapêutica diferencia o soc do dsm-iv.
Se o dsm-iv representa uma operacionalização do pensamento de Stol-
ler, no caso do soc a fonte de inspiração é Harry Benjamin. As diversas
atualizações do soc não fogem do ponto inicial formulado por Benjamin:
a transexualidade é uma enfermidade que tem sua origem em alguma parte
do corpo e as cirurgias de transgenitalização são as únicas terapias possí-
veis para essas pessoas. Segundo ele, o “transexual verdadeiro” vive uma
inversão psicosexual total, pode viver e trabalhar como uma mulher, mas
isso não basta. O mal-estar intenso de gênero leva-o a desejar intensamente
relacionar-se com “homens e mulheres normais”. Solicita a cirurgia, porque
odeia seus órgãos masculinos. (benjamin, 2001:45)
Esse documento é subdividido em “meta do tratamento, avaliação diag-
nóstica, terapia hormonal em adolescentes e adultos, psicoterapia, experi-
ência de vida real e cirurgia”. Há uma grande ênfase na importância da ci-
rurgia que faria parte da “terapêutica triádica” composta de três momentos:
a experiência de vida real, a terapia hormonal e cirurgia.
O dsm-iv e o soc tentam esgotar os indicadores das “desordens de gê-
nero” e das “disforia de gênero”, a partir das fases da vida e fazem as reco-
mendações e procedimentos adequados ao “tratamento”. O soc defende
que adolescentes podem iniciar terapia triádica, pois em muitos países eu-
ropeus a idade de 16 a 18 anos é a idade para ser considerado legalmente
adulto para tomar decisões médicas em consentimento de famílias. A de-
fesa de uma idade para iniciar a terapia e a importância da terapia triádica
74 Berenice Bento 75 Pouco saber para muito poder: A patologização do gênero
marca as divergências com o dsm-iv.
A psicoterapia para adultos não é requisito absoluto para a terapia triádica.
“Enquanto a psicoterapia não é um requisito absoluto para a ci-
rurgia de adultos, o profssional da saúde mental pode requerer
sessões regulares ao largo da experiência de vida real com uma
freqüência mínima determinada pelo profssional.”
Robert Stoller e Harry Benjamin podem ser considerados pioneiros na
tarefa de mapear os sintomas e apontar tratamentos adequados para a tran-
sexualidade. Suas teses ainda têm importância e estão institucionalizadas
dsm-iv (Stoller) e no soc (Benjamin). No primeiro pode-se notar a infu-
ência do discurso psicanalítico e no segundo, há uma preponderância de
uma visão endocrinóloga.
No âmbito da operacionalização nas equipes multidisciplinares encar-
regadas de produzir de diagnóstico estas posições trabalham juntas: cada
uma cede um pouco. O/a endocrinologista espera o dia em que a ciência
descobrirá as origens biológicas da transexualidade, o que provocaria um
reposicionamento do papel e do poder dos terapeutas. Atualmente, são eles
os responsáveis em dar a palavra fnal sobre a cirurgia. Os terapeutas, por
sua vez, esperam que a pessoa transexual com a terapia reavaliem sua de-
manda pela cirurgia. No entanto, a dúvida dos membros das equipes multi-
disciplinares é como chegar à verdade e não serem enganados por “pseudos
transexuais”.
Benjamin selecionou alguns indicadores que considerou constantes nas
histórias das pessoas transexuais e com os quais estabeleceu os parâmetros
defnidores do verdadeiro transexual. Embora no soc essa expressão (tran-
sexual de verdade) tenha sido questionada, ainda persiste com a imple-
mentação dos protocolos nos hospitais que fazem a cirurgia, onde se busca
mapear indicadores comprovadores da condição transexual.
Segundo Benjamin (2001), “o/a verdadeiro/a transexual” é fundamen-
talmente assexuado e sonha em ter um corpo de homem/mulher que será
obtido pela intervenção cirúrgica. Essa cirurgia lhe permitiria desfrutar
do status social do gênero com o qual se identifca, ao mesmo tempo em
que permitiria exercer a sexualidade apropriada, com o órgão apropriado.
Nesse sentido, a heterossexualidade é defnida como a norma a partir da
qual se julga o que é um homem e uma mulher de verdade.
Diante da transexualidade, a suposta objetividade dos exames clínicos
não faz nenhuma diferença. Nessa experiência, o saber médico não pode
justifcar os “transtornos” por nenhuma disfunção biológica, como aparen-
temente se argumenta com o caso dos intersexos que devem se submeter às
cirurgias para retirar-lhes a ambiguidade estética dos genitais, conforman-
do-os aos corpos-sexuados hegemônicos
9
.
Em última instância, o que contribuirá para a formação de um parecer
médico sobre os níveis de feminilidade e masculinidade presente nos de-
mandantes, são as normas de gênero. Serão elas que estarão sendo citadas,
em séries de efeitos discursivos que se vinculam às normas, quando se julga
ao fnal um processo se uma pessoa é um/a “transexual de verdade”. Não
existe testes clinicamente apropriado e repetível ou testes simples e sem
ambigüidades. O que assusta é perceber que tão pouco saber dito científco
gerou tanto poder.
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9 Nas últimas décadas as cirurgias para defnição de um sexo em genitálias ambíguas, passaram a ser
denunciadas por ativistas de associações de intersexos como mutilações genitais. As primeiras cirurgias
foram realizadas em hospitais norte-americanos na década de 1960. Quando a primeira geração de
crianças operadas chegou à idade adulta, se tornou público esse tipo de intervenção e sua realização
começou a ser questionada. Nos Estados Unidos a Intersex Society of North América (www.isna.org)
desenvolve campanhas contra as cirurgias de “defnição sexual”. Para uma discussão sobre intersexua-
lidade, ver Cabral (2003, 2004, 2006), Colapinto (2001), Corrêa (2004).
77 Plurais na singularidade – refexões sobre travestilidades, desejo e reconhecimento
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http://www.appi.org
http://www.isna.org
Plurais na singularidade – refexões sobre travestilidades, desejo
e reconhecimento
Larissa Pelúcio
1
La Raia
2
joga seus cabelos naturalmente longos num movimento ensaiado e
pergunta: “E eu, sou o quê?”. Esta questão veio suscitada pela discussão que
se dava naquele momento, quando preenchíamos a fcha de inscrição para
participamos da I Conferência Estadual glbtt de São Paulo. Na tal fcha,
além dos dados cadastrais de praxe, deveríamos marcar com um “x” umas
das alternativas de “identidade de gênero”: transexual, travesti, transgêne-
ro, lésbica, gay.
A pergunta de La Raia, que também atende pelo nome de Daniel, expres-
sava as limitações das possibilidades de gênero e orientação sexual apresen-
tadas pelo próprio movimento social. Nenhuma das opções apresentadas
contemplava os anseios de identifcação de La Raia, que gosta de se vestir
com roupas femininas quando vai para “a pista”
3
ou para “balada”, mas que
no dia-a-dia prefere trajes mais neutros em relação ao gênero, como calça
jeans e camiseta regata, ainda que mantenha seus cabelos presos em rabo-
de-cavalo, as unhas longas e sempre pintadas e no rosto não há qualquer
marca do chuchu, que é como as travestis se referem à barba.
Seu aspecto andrógeno a torna alvo de muitas miradas. Algumas desa-
fadoras, outras provocativas, porém poucas respeitosas. Ela comenta que
1 Doutora em Ciências Sociais, professora da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho.
2 Todos os nomes citados foram trocados a fm de preservar a privacidade das pessoas mencionadas.
3 Expressão muito comum entre as travestis de São Paulo para se referirem aos espaços de prosttuição
rueira.
78 Larissa Pelúcio 79 Plurais na singularidade – refexões sobre travestilidades, desejo e reconhecimento
mesmo entre o “pessoal do babado”
4
sua aparência incomoda, pois parece
desafar qualquer possibilidade de fxidez de uma identidade classifcável.
Viver sem um termo de classifcação que implique em reconhecimen-
to inviabiliza o sujeito, e La Raia diante daquela fcha, precisava marcar
um “x” que a torna-se viável, reconhecível, possível. Assim, Daniel/La Raia
resolveu se identifcar como travesti. Enquanto assinalava sua opção, Fran-
cine, que também se reconhece como travesti, provocou: “Você tá mais pra
lésbica, querida! Travesti? Sei! Tá boa?”. Emenda a essa observação um fato
ocorrido durante uma reunião política que teve lugar em uma cidade vi-
zinha à que vivemos. Francine conta que uma das pessoas presentes havia
perguntado a ela sobre o gênero de La Raia/Daniel, usando os seguintes
termos: “o que é aquilo?”.
A indefnição de gênero de La Raia havia tirado, naquele momento, a
sua própria condição humana, transformando-a “naquilo”. O que torna La
Raia/Daniel humanamente impossível é o fato de não atender às expecta-
tivas do binarismo de gênero. Até aqui não há surpresas ou novidades, a
não ser o fato de todo esse questionamento sobre quem é La Raia/Daniel
passou-se no âmbito do movimento social, justamente em um momento
no qual se procura discutir a fxidez identitária e questionar o binarismo
de gênero.
Se La Raia/Daniel procura um termo auto-classifcatório e não o encon-
tra, o que a/o defne? Um gênero? A genitália? Seu desejo?
A tradição hegeliana enlaça o desejo com o reconhecimento: afr-
ma que o desejo é sempre um desejo de reconhecimento e que
qualquer um de nós se constitui como ser social viável unicamen-
te através da experiência do reconhecimento. (butler. 2006: 14)
A citação acima foi extraída de um dos textos mais recentes da pensa-
dora queer
5
Judith Butler, que retoma Hegel para pensar o reconhecimento.
4 Refere-se às pessoas que se identifcam como “homossexuais”, travestis, “simpatizantes”, enfm, que
cultivam uma sociabilidade em espaços nos quais pessoas que se relacionam afetivamente com outras
do mesmo sexo costumam freqüentar, associando essa convivência ao fato de terem mais abertura a
relações não heterossexuais.
5 É bom ter em mente o alerta que faz Marcia Ochoa: “é preciso ter muito cuidado: a palavra queer é
uma categoria local norte-americana (é como te chamam na escola quando te chateiam), que mediante
a hegemonia teórica que permite a publicação e circulação de textos norte-americanos por todo o mun-
do, viajou muito, mas não tem a mesma ressonância em outros lugares”. (ochoa. 2004: 254). Já a flósofa
norte-americana Judith Butler defne o queer “como uma prática lingüística cujo propósito tem sido a
Para o flósofo alemão, o processo de formação da identidade tem como
pressuposto o reconhecimento recíproco entre sujeitos, de modo que so-
mente quando um indivíduo vê confrmada sua autonomia pelos demais é
que pode chegar a uma compreensão completa de si mesmo como sujeito
social. Ser reconhecido seria, em suma, ser. Porém, como sublinha Butler,
os termos que nos permitem ser, são variáveis, posto que sempre são dados
socialmente (butler. 2006). Assim, nem sempre aquilo que me faz reco-
nhecível é o que me faz de fato ser humano.
Para as travestis a questão do reconhecimento parece ainda mais desafa-
dora e problemática. Primeiro porque o próprio termo de reconhecimento
e auto-reconhecimento está impregnado de signifcados depreciativos, o
que tem custado às travestis um grande esforço de resignifcação; segundo
porque, como discutem Don Kulick e Charles Klein (2003) as pessoas, em
geral, no Brasil não conseguem defnir o que seria de fato ser travesti. Essa
difculdade em localizá-las em uma defnição segura de gênero e orientação
sexual as faz fascinantes e perigosas, sedutoras e poluidoras, com sensível
predominância dos segundos termos dessas díades
6
. De fato, a indetermi-
nação é sempre entendida como perigo. Ainda que as travestis também
saibam se valer disso como forma de defesa.
Como pessoas que têm sido constituídas por experiências marginais, as
travestis aprenderam a desenvolver respostas imaginativas para viver com
recorrentes interpelações. Algumas constroem imagens de perigo em torno
de si; articulam redes de proteção que vão da casa até a rua e, ainda, que es-
tas não evitem que algumas tenham fns trágicos, de alguma forma, propor-
cionam meios de trânsito e defesa. Entre estas tantas estratégias, as travestis
acionam o “escândalo”, a fm de alargar a abjeção, conseguindo, por vezes,
atingir aos clientes, intimidar policiais ou ter voz em espaços de poder.
Kulick e Klein analisam o “escândalo” como uma espécie de micro polí-
tica, propondo que as travestis o utilizam como meio de estender o espaço
de sua própria abjeção àqueles que a frequentemente as rechaçam, enver-
degradação do sujeito o qual se refere, ou melhor, na constituição desse sujeito mediante esse apelativo
degradante” (2002a.: 58). Apontar alguém como “estranho”, “anormal” e, sobretudo, como aquele/aque-
la que escapa da norma sexual estabelecida é tomá-lo/a como menos humano, cabendo a estes seres os
lugares marginais. Apropriar-se de termos ofensivos que foram sempre impostos, a fm de subverter seu
uso, é uma estratégia de desconstrução que pretende colocar em xeque os valores que sustentam esses
enunciados depreciativos estreitamente associados às práticas e desejos sexuais proscritos.
6 Barreda e Isnardi observam que esta indefnição nos leva a interrogações para as quais não temos
muitas respostas, por isso, acabamos por nos valer de categorias que nos parecem mais familiares, se-
guras, estáveis e menos perturbadoras e/ou questionadoras (2007: 06), a fm de, como pesquisadores e
pesquisadoras, buscarmos uma realocação para as travestis para além dessa indefnição danosa.
80 Larissa Pelúcio 81 Plurais na singularidade – refexões sobre travestilidades, desejo e reconhecimento
gonham e oprimem (kulick e klein. 2003: 02). Essa “reterritorilização”
da vergonha tem um sentido transgressivo, uma vez que a travesti usa seu
poder de “contaminação” para implicar o “bom cidadão” aquele, que supos-
tamente é “bom”, “limpo”, “másculo”.
O escândalo não é uma estratégia pensada de forma organizada, mas
um jeito de levar a vida enfrentando situações de confito. Assim, algumas
travestis não se valem dele, pois tentam se adequar à estética do “bom cida-
dão” para se fazerem sujeitos de direitos. Pois acreditam que para obterem
esses direitos devam ser e agir como se já fossem possuidoras deles. Desta
forma, pretendem também demarcar a distância entre “eu, a fna” e “a outra,
a barraqueira”. O que não é só um jogo de forças, mas uma tentativa de dar
relevo às diferenças existentes entre elas. Nesse esforço, são implacáveis na
avaliação que fazem umas das outras. “Muitas querem chocar mesmo! Não
sabem se comportar”, repreende uma travesti, durante reunião realizada nas
dependências do Centro de Referência de Santo Amaro, zona Sul da cidade
7
.
Não há complacência no olhar. O debate torna-se acalorado, e cada travesti
presente na referida reunião tem um exemplo para dar. Porém, uma delas
observa que as discretas e sossegadas são as que mais ouvem desaforos no
seu cotidiano. Ao que Aline, travesti ali presente, propõe: as “escandalosas”
põem medo, enquanto as “discretas” não. Ou seja, o escândalo protege, ain-
da que seja um elemento que reforça a visão de senso comum sob o “perigo
das travestis”.
Coloca-se aqui um dos tantos paradoxos que cercam vidas travestis. Se
não podemos ser sem fazer, como ser sem reforçar as percepções des-
prestigiosas que rebaixam as travestis na escala do humano? Como resistir
à abjeção sem se deixar domesticar pelas expectativas heteronormativas
que vinculam o reconhecimento à “pasteurização” das expressões humanas
numa diversidade retórica, que visa, de fato a homogeneização das condu-
tas? Enfm, como escapar das armadilhas das identidades?
Não pretendo discordar da importância de nomear (ou melhor, ca-
tegorizar) sujeitos, uma vez que é através destas categorias que os seres
humanos se tornam viáveis, inteligíveis. É pela adoção, reconhecimen-
to ou imputação de uma identidade coletiva que nos tornamos aptos a
socializar, carregar signos e signifcados que nos moldam e nos revelam
7 Dados retirados de meu diário de campo redigido durante a realização da tese de doutorado intitulada
Nos Nervos, na carne, na pele – uma etnografa sobre prostituição travesti e o modelo preventivo de Aids.
Disponível em http://www.bdtd.ufscar.br/tde_arquivos/6/TDE-2007-11-06T11:50:38Z-1566/Publico/
TeseLP.pdf
enquanto seres sociais (tosta e pelúcio. 2008).
Por outro lado, ter um termo de identifcação não implica que este em-
preste reconhecimento humano ao sujeito designado. Pois quando o reco-
nhecimento se dá apenas a partir dos termos hegemônicos, o que se pode
vir a ter é justamente a desqualifcação daquele sujeito nomeado, desabili-
tando-o para a vida social plena (goffman. 1988: 07). Então, mais do que
ampliar as classifcações e as identidades, creio que seria mais produtivo
examinar os processos que estabelecem quais vidas serão reconhecidas
como viáveis e quais não. Em outras palavras, talvez seja mais profícuo pen-
sar a partir de estratégias transformativas e não afrmativas
8
, para usarmos
os termos de Nancy Fraser, e desconstruir as identidades sociais a partir do
questionamento da própria validade do critério produtor da diferença.
É nesta direção também que Márcia Ochoa, pesquisadora latino-ame-
ricana radicada nos Estados Unidos, volta suas discussões quando pensa
nas travestis de Caracas, Venezuela. Ochoa refete sobre o que ela chama
de “cidadania perversa”, referindo-se ao processo de exclusão que envolve
determinados segmentos, uma vez que estes não experimentarão o senti-
mento de pertença, cabendo-lhes apenas as exigências dos deveres e a dis-
ciplinarização que o processo de cidadania signifca. “Para ter cidadania se
precisa mais do que passaporte ou uma cédula de identidade, necessitamos
de um sentimento de pertença” (ochoa. 2004: 243), pois certos processos
de inclusão e exclusão não são regulados pelos documentos que se tem (no
caso das travestis, dos que não se tem, absolutamente, ou não se tem do
jeito que se pretende), mas justamente por sentir-se parte, e não alguém
à margem, sob suspeita, inclassifcável ou somente reconecível a partir de
termos que o/a depreciam e/ou humilham.
Em busca de uma cidadania menos perversa, encontro uma travesti em
um Serviço Ambulatorial Especializado (sae), no centro da cidade de São
Paulo
9
. A mencionada travesti havia feito fotocópia do documento de iden-
8 Nancy Fraser propõe separar estratégias “afrmativas” de “transformativas”. As primeiras estão volta-
das para a reavaliação positiva das identidades injustamente desvalorizadas, mantendo intacto, todavia,
o conteúdo dessas identidades. Já estratégias “transformativas” voltam-se preferencialmente à descons-
trução das identidades sociais, na medida em que questionam a própria validade do critério produtor
da diferença (Para uma discussão mais aprofundada ver Matos. 2004).
9 Ao longo de minha pesquisa de doutorado acompanhei a rotina de um programa preventivo chamado
Tudo de Bom. O mesmo está alocado na agência pública de saúde dst/Aids Cidade de São Paulo, da
Secretaria Municipal de Saúde, e é voltado para trabalhadores do sexo que atuam na capital paulistana,
valendo-se da “educação entre pares” como recurso metodológico de intervenção. Desta forma, profs-
sionais de saúde ligados ao projeto “identifcam nas regiões dos seus serviços pessoas que comerciali-
zam sexo, com perfl para o trabalho em campo. Estas pessoas, após formação específca, desenvolvem
intervenções em áreas de prostituição da cidade’” (Abate. 2003: 33). A cena que descrevo acima passou-
82 Larissa Pelúcio 83 Plurais na singularidade – refexões sobre travestilidades, desejo e reconhecimento
tidade e colocara sobre a foto original uma outra, colorida, onde ela apare-
cia como gostaria de ser vista socialmente: maquiada, com longos cabelos,
boca pintada, enfm, com aparência de mulher. Apresentou o tal documen-
to a fm de se cadastrar para receber sua cota mensal de preservativos. Aler-
tada pelo agente de prevenção sobre a ilegitimidade daquele documento,
ela se justifcou, dizendo que seus documentos originais fcaram com uma
moça com quem ela “fez laser” (tratamento estético para eliminação de
pêlos). O agente de prevenção explica que ela não deve andar com aque-
le documento, que aquilo é ilegal e pode render-lhe um B.O. (Boletim de
Ocorrência) por falsifcação ou por falsidade ideológica. Ela se ofende, mas
mantém-se calma. Procura se explicar mais uma vez. Ele, então, senta-se ao
lado da travesti e expõe calmamente a questão, dizendo porque ela precisa
ter cautela com aquele documento. O agente frisa que ali, para se cadastrar,
não haverá problemas. Ela faz cara de quem entende, mas emenda: “eu vou
continuar usando esse”. Rafael, o agente de prevenção, resigna-se.
No mesmo local há outra questão envolvendo documentos. Desta vez
trata-se das carteirinhas de cadastramento das travestis naquela unidade
de saúde. Na carteirinha fcam registrados os exames e consultas realizados,
além da anotação das camisinhas retiradas durante o mês, com o limite
fxado em 400 unidades/mês (quantidade garantida naquele serviço). A
discussão é acerca da duplicidade de carteirinhas de uma das 15 travestis
que estavam presentes naquele espaço. A travesti das várias carteirinhas
justifca-se: “foi uma bicha que fez!”. “Que bicha?”, pergunta Luma, a travesti
agente de prevenção. “A bicha, a outra, lá...”, responde. Luma olha bem a
carteirinha e acaba por constatar que a letra nas anotações do documento é
de Karol, travesti agente de prevenção que também atua naquela unidade.
Conformada com a perda de uma de suas carteirinhas, a travesti é levada
por Rafael para tomar vacina. Faz uma expressão de quem não gostou mui-
to de ter perdido a segunda carteirinha, mas não faz “escândalo” nenhum
10
.
Mesmo sendo vistas como “indocumentadas”, “loucas”, “viados”, as travestis
podem ser outras coisas, assemelhando-se ao que os “bons cidadãos” são.
Agindo desta forma fazem fagrante a discriminação.
Muitas vezes, a estratégia de resistência é justamente a de se agir ao
contrário das expectativas sociais; as travestis sabem disso. Sabem também
que, apesar de serem cidadãs não são tratadas como pessoas portadoras de
se durante um plantão do Projeto. Isto é, em um dia específco da semana em que agentes de prevenção
fcam nas unidades especializadas em dst/Aids para atender profssionais do sexo, seja na distribuição
de preservativos, tirar dúvidas sobre saúde e/ou realizar consulta e exames.
10 Toda esta descrição foi retirada de meu diário de campo, como já referido em nota anterior.
direitos, ou pelo menos não se consideram tratadas como tal. Na tentativa
de o serem, por vezes, fazem como a inconformada, mas polida, travesti: cum-
prem “a estética do comportamento do bom cidadão” (ochoa. 2004: 245).
Para as duas travestis envolvidas com questões de documentos, parecia
não haver qualquer implicação, nem num RG adulterado, nem na dupli-
cidade de carteiras cadastrais. Distantes da lógica burocrática que rege os
serviços de saúde, ou buscando driblar os obstáculos sociais que impedem
que elas adotem um nome e uma aparência que não aqueles determinados
pelos poderes instituídos no campo jurídico e médico, muitas travestis en-
frentam constrangimentos constantes. E os enfrentam como podem. Al-
gumas das vezes o “grito” é visto como a única forma efciente de se fazer
ouvir e, de no mínimo, levar o outro a sentir-se constrangido diante do
não reconhecimento da travesti como um ser portador de direitos, ainda
que ela não atenda às expectativas de uma cidadania bem comportada (até
mesmo porque, como já foi exemplifcado, esta pode ser inócua).
Sobre a idéia de uma cidadania perversa e suas armadilhas da igualdade,
Ochoa defende que:
há dois tipos de igualdade: uma em que eu sou igual a ti, a outra
na qual tu és igual a mim. A partir de uma posição abjeta ou de
absoluto rechaço social, esta diferença implica estratégias dife-
rentes – se eu sou igual a ti, eu me conformo a tua estética para
me fazer sujeito de direitos; se tu és igual a mim, e eu sou uma
pessoa rechaçada na sociedade, então tu também, no momento
que me faço equivalente a ti, te sujas. (ochoa. 2004: 246)
A estratégia aqui é a de se alargar a vergonha e fazer um deslocamento
dos termos que, classicamente, têm orientado os debates sobre direitos, ci-
dadania e reconhecimento, introduzindo um léxico novo. Para promover
uma política antinormativa, Ochoa propõe que (1) se considere os propósi-
tos da teoria queer, (2) se use estratégias e categorias locais e (3) e se articule
uma política do desejo (2004: 253). Neste sentido podemos pensar na res-
semantização proposta pela teoria queer, promovendo o escândalo como
expressão de uma outra estética política.
Penso na politização o desejo como uma dessas estratégias para se con-
ferir contorno ontológico àquelas pessoas que têm sido sistematicamente
destituídas do privilégio da ontologia. Para Butler “o domínio da ontologia
84 Larissa Pelúcio 85 Plurais na singularidade – refexões sobre travestilidades, desejo e reconhecimento
é um território regulamentado: o que se produz dentro dele, o que é dele
excluído para que o domínio se constitua como tal, é um efeito de poder”
(em entrevista a Prins & Meijer. 2002: 161).
Historicamente as travestis têm tido sua ontologia questionada justa-
mente porque seus desejos não têm sido vistos como humanos, por isso
podem ser desautorizados, ridicularizados, medicalizados, criminalizados
ou todas estas coisas juntas.
“Na medida em que o desejo está implicado com as normas sociais, ele
se encontra ligado às questões do poder e com o problema de quem reúne
os requisitos dos que se reconhece como humano e quem não”. (butler.
2006: 15), escreve Butler no artigo já citado. Ela segue, então, apontando
para as armadilhas da inteligibilidade, pois se esta se der a partir do assujei-
tamento às normas vigentes, o que se estará negando será justamente o po-
tencial transformativo do desejo, aquele capaz de alargar as possibilidades
do humano. Por outro lado, Butler reconhece que viver fora das normas é
um fardo, por vezes demasiado pesado para ser enfrentado individualmen-
te. Por isso, a relação crítica com as normas depende de uma capacidade
coletiva para se articular uma versão minoritária de normas que permitam
a um indivíduo ser. E aqui, acho que a academia tem muito a contribuir.
Pois, não se trata de expandir o número de classifcações de gênero ou das
siglas identitárias, mas de alargar as concepções do humano, colocando em
xeque as experiências concretas que constituem os sujeitos.
Enfm, como unir ação e refexão, ou como prefere Márcia Ochoa: la
rumba e el rumbo? Sendo a primeira o lugar do prazer, e o segundo o da
determinação. Diz ela:
A rumba [ou o carnavalesco], tanto como a loucura e o escândalo
nem sempre são lugares produtivos para articular intervenções.
Quando digo que tem que se imaginar uma política a partir da
rumba não quero dizer que a política deve se produzir única e
exclusivamente a partir da rumba ou de uma maneira louca, mas
que ele tem que transcender estas distinções estéticas que margi-
nalizam ou provocam a auto-exclusão de alguns atores. Se a idéia
é incidir nesses graves momentos e silêncios onde se violentam os
direitos, temos que transformar a política para que se faça sentir
nesses espaços e a partir dos sujeitos que os habitam (ochoa.
2004: 253).
Acredito que nosso compromisso acadêmico é sempre político, portan-
to, essa citação nos toca diretamente. Se quisermos contribuir na promoção
de uma política antinormativa, é preciso que pensemos na ressemantização
dos termos disponíveis, buscando uma outra estética política e estratégias
teóricas que possam desvelar o lugar do desejo na ordem social. Um projeto
ambicioso, mas que precisa ser pensado na tensão entre la rumba e el rumbo.

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87 Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico: para além da inversão da sigla
Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico: para além da
inversão da sigla
Guilherme Silva de Almeida
1
O objetivo deste artigo é ser uma breve descrição da progressiva autonomi-
zação do movimento brasileiro de lésbicas e bissexuais ocorrida a partir dos
anos 90 e analisar alguns dos impasses contemporâneos enfrentados por
este movimento no contexto mais amplo do movimento lgbt.
O caminho que pretendo percorrer neste artigo não é simples e já come-
ça com um desafo: o de precisar com alguma clareza o que venho conce-
bendo como movimento de lésbicas e bissexuais. Apesar de considerar que
este movimento social experimentou ao longo dos anos 90 um processo de
progressiva autonomização em relação ao movimento lgbt, não é possível
conceber aquele de forma totalmente dissociada deste, pois como é sabido,
ambos os movimentos compartilham uma trajetória histórica em grande
medida comum. Eles são, de forma semelhante, dispostos a reversão da
situação de preconceito e discriminação em função das convenções de gê-
nero e da sexualidade. Desta forma, pode-se conceber o movimento de lés-
bicas e bissexuais como em – alguma medida – correlato e concorrente do
movimento lgbt e, em outra direção, um braço dele
2
.
Foi característico dos últimos anos o surgimento de vários neologismos,
cujo pano de fundo foi o reclame da especifcidade das identidades sexu-
ais e de gênero, como lesbofobia e transfobia. Mais que outros aspectos do
1 Doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (ims) da uerj. Professor da Universidade
Federal Fluminense (uff).
2 Para o aprofundamento desta discussão, ver Almeida (2005), ao discutir o surgimento do movimento
de lésbicas no Brasil.
88 Guilherme Silva de Almeida 89 Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico: para além da inversão da sigla
movimento, esta progressiva diferenciação interna e seus efeitos políticos
começa a ser explorada na literatura das ciências sociais
3
.
A autonomização do movimento de lésbicas/bissexuais
Se desde os primórdios do então chamado movimento homossexual
4
, as
lésbicas participaram da formação dos grupos e da concretização de dife-
rentes ações políticas, também é verdade que a relação delas com os demais
sujeitos políticos abrigados sob o guarda-chuva “homossexual”, sempre foi
marcada pela tensão (eventualmente convertida em confito), motivada
quase sempre pela denúncia do não-reconhecimento da especifcidade das
necessidades lésbicas e do seu poder decisório nas instituições do próprio
movimento. Freqüentemente, esta tensão redundou em rupturas das lésbi-
cas com os grupos mistos e também (de forma menos freqüente) na obten-
ção de espaços autônomos de poder no interior de grupos mistos.
Assim, embora tenha havido uma origem política e um corpo de rei-
vindicações comum entre lésbicas e o movimento homossexual, a partir
da década de 1990, as lésbicas – através de grupos, ações e eventos especí-
fcos – passaram a forjar um conjunto de demandas específco e um modus
operandi político próprio, por vezes mais próximo do feminismo que do
movimento homossexual.
Com as feministas, a relação do movimento de lésbicas e bissexuais foi
marcada pela ambigüidade. Tal ambiguidade se dava porque, se de um lado,
ocorria uma signifcativa identifcação lésbica com as demandas feministas,
de outro havia um nebuloso contradiscurso que afrmava a existência de um
algo mais que distinguiria aquelas das “mulheres em geral”. Este algo mais
esteve no centro de infndáveis discussões e os limites da suposta diferença,
até hoje, nem sempre são sufcientemente claros para o próprio movimen-
to, sobretudo quando o plano da discussão é o das políticas públicas.
Na cena pública brasileira foi possível observar a formação de dezenas
de grupos exclusivamente formados por lésbicas e bissexuais a partir dos
anos 90. Grande parte deles se constituiu sob a forma de ongs. A maioria
vinculou-se a entidades aglutinadoras exclusivamente lésbicas, como a Liga
3 Ver Fachini (2005).
4 Utilizarei a expressão “movimento homossexual” sempre em referência ao movimento histórico, des-
crito por vários autores e que nas décadas de 1980 e 1990 se auto-referia desta forma, antes que surgisse
o reclame pela especifcação das identidades. Entende-se que, já naquele momento co-existiam no mo-
vimento diferentes identidades sexuais que se satisfaziam, todavia, com o termo genérico.
Brasileira de Lésbicas (lbl) e a Associação Brasileira de Lésbicas (abl).
Outros grupos vincularam-se a abglt
5
e a outras entidades supra-regionais
mistas.
Tais entidades do movimento de lésbicas e bissexuais serão aqui chama-
das de ongs lésbicas
6
. Elas foram se autonomizando em resposta a freqüen-
tes confitos ocorridos no interior das organizações mistas, mas também
devido a uma variedade de condicionantes econômicos, políticos e cultu-
rais
7
.
Do ponto de vista econômico, a década de 1980 terminou com uma for-
te crise a que comprometeu o conjunto das condições de vida da população
brasileira e também teve impactos na disposição dos diversos segmentos
sociais para a ação política. A maioria dos movimentos sociais no período
– sobretudo os de conformação classista, como os sindicatos e partidos –
experimentam um refuxo naquele período
8
.
O movimento homossexual também foi impactado, mas a exemplo de
outros movimentos de base culturalista
9
(como os movimentos negro, fe-
minista e o feminismo negro), sobreviveu graças à forma que assumiram a
partir de então, a de ongs. A militância homossexual perdeu com o novo
formato, em grande medida, o caráter informal e se institucionalizou em
entidades civis sem fns lucrativos, com um corpo estável de funcionários e
orçamentos próprios. Elas passaram a se movimentar sob a lógica do fnan-
ciamento de projetos.
O cenário da globalização e do aumento do fuxo das comunicações
(possibilitado pela difusão da internet), também contribuiu para o acesso
dos movimentos sociais brasileiros a experiências internacionais, possibi-
litando o desenvolvimento de experiências locais também diferenciadas.
Este foi um aspecto importante para o surgimento de ongs a partir da iden-
tidade sexual
10
.
Em âmbito nacional, a ascensão de governos de orientação neoliberal
11

5 Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transexuais.
6 Para o acesso a um pequeno histórico do fortalecimento dos grupos de lésbicas nos anos 90, ver o
terceiro capítulo de Almeida (2005:188-203).
7 Para uma análise mais detida da participação das lésbicas na primeira onda do movimento homosse-
xual, ver Fry & MacRae (1985) e Macrae (1990).
8 Sobre o refuxo dos movimentos sociais, ver Gohn (2000).
9 Para o aprofundamento da discussão acerca dos movimentos sociais do Brasil dos anos 90 e as prin-
cipais transformações em suas características, ver Gohn (2000).
10 Para a discussão da incorporação das diferenças pela cultura global, ver Appadurai (1990:311-327).
11 Para uma discussão acerca do neolberalismo e sua incidência nos Estados latino-americanos nos
anos 90, ver Laurell (2002).
90 Guilherme Silva de Almeida 91 Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico: para além da inversão da sigla
a partir do fnal dos anos 80, que transferiram parte das atribuições do
Estado brasileiro na execução de políticas sociais para a sociedade civil
12
,
favoreceu a expansão das ongs de um modo geral, o que também incidiu
sobre as novas ongs nascidas no movimento homossexual.
A participação do governo brasileiro nas conferências da onu e a cres-
cente necessidade de incorporação da temática dos direitos humanos pelos
governos federais, especialmente os dois mandatos de Fernando Henrique
Cardoso, proporcionaram por outro lado o reconhecimento pioneiro de
novos sujeitos políticos na arena política brasileira, como as lideranças
gays, lésbicas, travestis e transexuais
13
.
O surgimento na década anterior da epidemia de Aids e das ongs Aids
14
,
possibilitou que nos anos 90 muitas entidades do movimento homossexual
incluíssem entre suas atividades a prevenção do hiv e a lógica de “educa-
ção entre pares”
15
. Este trabalho foi efetivamente fnanciado por diferentes
instâncias públicas que subsidiaram a realização destas atividades (em es-
pecial o Ministério da Saúde, através do Programa Nacional de dst/Aids).
Além de contribuir para a emergência deste novo modelo organizativo no
cenário nacional, a Aids propiciou uma discussão da sexualidade sem pre-
cedentes, o que também favoreceu a emergência de manifestações políticas
de sexualidades diversas da heterossexual.
Reunido em torno de ongs lésbicas e a partir do trabalho de lideranças
quase sempre forjadas no interior de outros movimentos (classistas e cul-
turalistas), a partir da década de 1990, tornou-se possível ao movimento
de lésbicas e bissexuais, a obtenção de fomento internacional e, sobretudo,
a produção de uma estratégica interlocução com o Estado, via Ministério
da Saúde e secretarias estaduais e municipais de saúde, em seus projetos de
combate ao hiv/Aids. Especialmente o diálogo com o Programa Nacional
de Combate à Aids iniciado ainda na década de 1980, foi descrito pelas pró-
prias ativistas do movimento de lésbicas e bissexuais como estratégico. A
princípio, a atenção do referido programa foi devotada aos gays, bissexuais
masculinos, travestis e mulheres transexuais mas, sobretudo por força do
empenho político da gestora federal Lair Guerra, as lésbicas foram em al-
12 Para o aprofundamento deste processo de transferência de responsabilidades e o estímulo à partici-
pação da sociedade civil pelo Estado, ver Montaño (2003).
13 Vianna & Lacerda (2004) apresentam como um marco importante da incorporação dos direitos hu-
manos e da afrmação de direitos e políticas sexuais no Brasil os dois Programas Nacionais de Direitos
Humanos (pndhs), o primeiro em 1996 e o segundo em 2002.
14 Sobre as ongs Aids, ver Silva (1998) e Zaquieu (2002).
15 A esse respeito ver Parker (2000).
guma medida incluídas na discussão. O relato de diferentes ativistas – algu-
mas já organizadas em grupos autônomos – é o de que elas foram convida-
das por aquela gestora federal para uma conversa. Da conversa resultaram
os recursos fnanceiros para a organização do primeiro Seminário Nacional
de Lésbicas (senale), no começo da década de 1990
16
.
O primeiro senale foi um marco fundamental na história do movi-
mento, pois nele as lideranças começaram a esboçar um discurso comum e
criou-se um campo de luta por uma política de saúde sexual para lésbicas e
bissexuais, até então inédito no Brasil. Este campo de discussão foi desen-
cadeado, mesmo que na ausência de uma literatura científca nacional que
legitimasse cientifcamente a afrmação da vulnerabilidade lésbica. Para
afrmá-la, as ativistas pautaram-se na própria experiência de militância e
nos relatos de vivências coletados em ofcinas de discussão e prevenção de
dst. Algumas o fzeram também a partir da tradução e reprodução de li-
teratura científca internacional (norte-americana, canadense e australiana
principalmente) obtida a partir da conexão com grupos de ativistas estran-
geiros. Começou também naquele período a participação de médicos/as,
especialmente de ginecologistas, nas ongs lésbicas, em eventos, ou ainda
estabelecendo convênios para o atendimento das participantes em consul-
tas realizadas durante os eventos.
O apoio dos programas de resposta a aids para as ongs lésbicas não se
restringiu à logística dos Senales, viabilizou também, a partir deles a cons-
tituição de fóruns de debate e projetos educativos desenvolvidos por estas
entidades. Por isso, em certa medida, é possível dizer que o Estado fomen-
tou aquele movimento social
17
, invertendo o caminho mais comum da pro-
dução de políticas sociais: nascem como “resposta às necessidades sociais”
e acabam por se traduzir em políticas públicas mais ou menos coerentes
com as necessidades que lhes deram origem. Naquele contexto, o Estado
deu uma importante contribuição na produção da necessidade social de
inclusão das lésbicas nas ações governamentais.
A interlocução do movimento de lésbicas/bissexuais com o Ministério
da Saúde – pela via da aids – tornou-se mais ou menos constante ao longo
de todos os governos da década de 1990 e dos anos 2000. Uma das formas
que esta interlocução tomou foi o trabalho do Grupo Matricial, formado
por ativistas lésbicas e bissexuais de diferentes estados da Federação e por
técnicos da Coordenação do Ministério. Aquele Grupo reuniu periodica-
16 Para o detalhamento deste processo, ver Almeida (op.cit).
17 Em seu novo formato, a partir de ongs lésbicas.
92 Guilherme Silva de Almeida 93 Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico: para além da inversão da sigla
mente ativistas e gestores durante alguns anos em Brasília e teve como re-
sultado um conjunto de ações educativas na área da prevenção às doenças
sexualmente transmissíveis, embora de alcance quantitativa e qualitativa-
mente limitado. Tais ações educativas foram principalmente a elaboração
de folhetos, cartilhas e vídeos com instruções sobre sexo seguro entre mu-
lheres e a distribuição por algumas ongs lésbicas de um kit de prevenção
(com preservativos masculinos, tesourinha e aparador de unhas, entre ou-
tros acessórios que poderiam ser adaptados para uma prática sexual “mais
segura” entre mulheres
18
).
A interlocução com o Ministério da Saúde, embora instigante pelo seu
ineditismo, recebeu críticas em duas direções: pela modéstia dos recursos
econômicos dispensados (se comparados ao volume dispensado às orga-
nizações masculinas e a outros grupos). Uma segunda direção da crítica
foi a preocupação do Matricial com a aids, mesmo sem estudos epidemio-
lógicos que no contexto brasileiro investigassem o assunto. O formato da
prevenção proposta pelo Grupo Matricial também foi criticado, pois seria
inadequado às especifcidades lésbicas. Ainda foi criticada a forma vitalí-
cia da representação no Grupo Matricial pelas lideranças lésbicas: algumas
ativistas teriam se benefciado apenas pessoalmente daquela inserção pri-
vilegiada.
De qualquer forma, o movimento de lésbicas e bissexuais cresceu a par-
tir da interlocução com o Ministério, adquirindo características próprias.
Como parte destas características encontra-se a prática das reuniões con-
fessionais ou da ajuda mútua, pela troca de experiências. Esta característica
propiciou o surgimento de ações um tanto tautológicas no interior dos gru-
pos: volta-se muitas vezes às mesmas discussões nos encontros promovi-
dos, sem que ocorram encaminhamentos políticos de qualquer uma delas.
A impressão que se tem no convívio dos grupos de lésbicas/bissexu-
ais é que seu potencial político passa prioritariamente pelo fortalecimento
subjetivo dos indivíduos, quase sempre pressionados por processos discri-
minatórios nas famílias, nas relações comunitárias ou em outros espaços,
ou ainda, são pessoas movidas pelo desejo de entretenimento e de colisões
afetivo-sexuais. Em contextos assim, sobra pouco espaço para ações po-
líticas de médio e longo prazo, já que a principal motivação é a busca do
conforto imediato das frequentadoras.
18 Não é consenso entre as próprias ativistas que o resultado do Grupo Matricial tenha sido satisfatório,
tanto em função de sua limitada incidência sobre a política de saúde, quanto em função da escassa
distribuição do kit e da qualidade dos materiais que ele continha.
O caminho dominante para garantir efcácia às ongs lésbicas tem sido
predominantemente a execução de projetos com apoio fnanceiro de agên-
cias de cooperação internacional e/ou de outras ongs, além de fnanciamen-
tos estatais circunstanciais. A lógica dos projetos mantém as organizações,
portanto, na dependência dos recursos externos disponíveis - abundantes
ou escassos conforme a conjuntura econômica e política nacional e inter-
nacional. Ela também acirra os mecanismos de competição entre os gru-
pos e impõe a necessidade de dar visibilidade aos trabalhos desenvolvidos,
imprimindo a eles um certo pragmatismo expresso na preocupação com
a qualifcação dos produtos e com a prestação de serviços para o público-
alvo
19
.
Uma característica forte da composição interna dos grupos e que trouxe
conseqüências para a capacidade organizativa do movimento de lésbicas
e bissexuais, é que muitos tiveram sua origem num casal fundador, que
agregava outros casais ou amigas para o empreendimento. Uma vez que a
relação afetiva/sexual se esgotava (o que ocorria algumas vezes com rup-
turas violentas), o grupo se dissolvia ou era fragilizado pela permanência
de apenas uma das integrantes do casal, que nem sempre estava preparada
ou com condições de manter o grupo. Durante o trabalho de campo le-
vado a termo na construção da tese, ouvi de uma das integrantes do casal
fundador de um grupo extinto, que com a saída de sua ex-companheira e a
sua do grupo, outras pessoas assumiram a liderança provisoriamente, mas
não conseguiram mantê-lo em atividade por muito tempo. A entrevistada a
partir da saída, perdeu o controle sobre o destino do grupo, inclusive sobre
o que foi feito do precioso acervo de cartas (algumas centenas) enviadas
por lésbicas de todo o Brasil. As decorrências políticas do “casal fundador”
são potencializadas em função do personalismo que marca o movimento.
Muitas lideranças são carismáticas e atraem de forma quase exclusiva para
si os holofotes da causa, encarnando a identidade do grupo
20
.
O personalismo é visto por algumas ativistas como uma necessária com-
pensação pelo ônus decorrente tanto da constante exposição pública a que
são submetidas as lideranças quanto pelas difculdades inerentes à posição
de líder: constantes viagens, disponibilidade muitas vezes integral à causa e
prejuízo do tempo de lazer.
19Ver Gohn ( Ver Gohn (op.cit: 57-58)
20 O que ademais não é uma característica perceptível apenas no movimento de lésbicas e bissexuais,
mas pode ser observada no movimento homossexual, em alguns âmbitos do feminismo e dos movi-
mentos raciais.
94 Guilherme Silva de Almeida 95 Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico: para além da inversão da sigla
No entanto, o personalismo e a organização interna dominante nas
ongs não são um ponto pacífco, constituem ao invés disso, um ponto de
tensão que às vezes afora de maneira abrupta nos eventos do movimento.
Trata-se de um confito que, grosso modo, opõe as militantes que partici-
pam do movimento sem remuneração e as que participam como dirigentes
e/ou parte do corpo técnico das ongs, sendo remuneradas para o exercício
da militância. Por este e por outros motivos existe rivalidade interna entre
os grupos. Pairam no ar denúncias de corrupção, bem como de “promoção
pessoal”, de centralismo decisório e autoritarismo nas relações intragrupais.
Foram também enunciadas pelas ativistas (embora como minoritárias)
novas formas de organização dos grupos, diversas do modelo do casal fun-
dador. A construção de outros modelos passa todavia pela repactuação das
relações internas dos grupos numa direção mais democrática, o que impli-
ca em relações menos hierárquicas entre a diretoria e a “base”.
Reconhecendo pelo menos um destes elementos, o centralismo deci-
sório, alguns grupos têm feito um esforço de, ofcialmente, alternar as fre-
qüentadoras nos cargos de direção, substituindo as lideranças mais antigas
pelas mais jovens. Também este processo nem sempre se dá tranqüilamen-
te: ocorrem por vezes rupturas das novas lideranças com a organização,
após um período de embate com as antigas militantes. Novas lideranças às
vezes ocupam o posto de direção ofcial, mas eventualmente sem poder de-
cisório de fato. Noutra direção, lideranças antigas no movimento queixam-
se de não encontrar nas novas freqüentadoras dos grupos, mulheres com
perfl de liderança.
A rivalidade entre os grupos (que às vezes transborda para um plano
pessoal), não elimina um certo espírito de corpo entre eles: existe respeito
entre as “lideranças históricas”, que se manifesta principalmente em mo-
mentos em que se insinua um adversário comum.
A crise de um modelo
É possível afrmar que a atualidade traz ao movimento de lésbicas e
bissexuais um caráter de expansão
21
. Contudo, é preciso refetir sobre o al-
cance desta expansão do movimento. O formato de ongs exclusivamente
lésbicas baseadas na lógica de projetos, no casal fundador e na ajuda mútua,
21 Basta que se veja a crescente expressão pública da participação das mulheres - lésbicas ou não - nas
manifestações anuais de rua do movimento lgbt.
está em crise. Esta crise se expressa ao menos em dois níveis: o fnanceiro e
o da reprodução interna.
No plano fnanceiro, as ongs em geral experimentaram uma certa es-
cassez das linhas de fnanciamento européias e norte-americanas, especial-
mente do ano 2000 em diante. O recrudescimento de perspectivas con-
servadoras no cenário norte-americano que marcou a Era Bush, contribui
para que especialmente as ongs que trabalhavam a sexualidade encontrem
difculdades de sustentação fnanceira a partir destas fontes. A opção en-
contrada pela maioria delas foi uma aproximação maior dos fnanciamen-
tos estatais para execução de projetos. Estes fnanciamentos são mais es-
cassos e contribuem para um tenso e discutível atrelamento político das
organizações à dinâmica estatal.
Pode-se considerar que a irregularidade e a escassez destes fnanciamen-
tos - que, no caso das ongs exclusivamente lésbicas é quase um componen-
te inalienável da sua trajetória histórica - também tenha cooperado para
que não haja no interior destas organizações uma sufciente composição de
quadros profssionais. Em contrapartida, estes são hoje indispensáveis para
que as ongs ocupem um lugar de conforto e de destaque na disputa por
fnanciamentos em que necessariamente estão inscritas.
Assim, não é comum encontrar nas ongs lésbicas um corpo técnico es-
tável, estabelecido a partir das regras do mercado de trabalho. Em tais or-
ganizações, o que prevalece é a presença de voluntárias (que eventualmente
tornam-se remuneradas) atraídas por convergirem ideologicamente com a
causa. Algumas vezes, estas voluntárias dispõem de formação educacional
superior e disponibilizam seus conhecimentos técnicos para a construção e
execução de projetos, em geral de curta duração. Outras vezes, as voluntá-
rias têm nível médio, mas atuação prévia em outros movimentos sociais, o
que lhes permite uma fuência no plano das relações políticas que também
disponibilizam às organizações. Mas há as voluntárias que não dispõem
de formação técnica ou política compatíveis com as exigências a que estas
organizações são submetidas e sua presença numerosa, não assegura a so-
brevivência do grupo.
Especialmente esta última característica, projeta algumas ongs lésbicas
numa condição precária de sustentação. Os grupos mistos (formados con-
comitantemente por gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais) pare-
cem ter sido uma alternativa histórica encontrada pelas lésbicas e bissexu-
ais para o enfrentamento desta fragilidade no aspecto da gestão dos grupos.
96 Guilherme Silva de Almeida 97 Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico: para além da inversão da sigla
Tal alternativa fnanceira e politicamente mais viável (porque otimizadora
do capital cultural e político de todas as “letras da sigla”) colide, entretanto,
com a insatisfação das próprias freqüentadoras dos grupos em dividirem o
espaço político e institucional com indivíduos que se afrmam gays, bisse-
xuais, travestis ou transexuais
22
. O impasse, portanto, persiste.
No plano da reprodução interna dos grupos, ainda que hoje o casal fun-
dador seja eventualmente posto de lado e grupos já sejam estruturados por
redes de relacionamento não totalmente afetivo-sexuais, a lógica da ajuda
mútua ainda permanece no centro de um paradoxo enunciado por ativistas
mais antigas. Ela se manifesta sob a forma da partilha de situações discri-
minatórias, de debates sobre a produção política e cultural lésbica interna-
cional (flmes, livros, revistas, festas) e através de festas que permitem es-
truturar relacionamentos de amizade e/ou afetivo-sexuais. A ajuda mútua
teve efcácia política ao longo da história do movimento, contribuindo para
que os grupos pudessem surgir e se manter por algum tempo.
Um dos limites da ajuda mútua, entretanto, é que fndos alguns meses
ou até anos, parece ser comum o esgotamento da fórmula para garantir a
atratividade do mesmo grupo e é muito comum que quando isto acontece,
o grupo se encerre ou entre numa fase de baixa freqüência e ausência de
novos quadros.
A saturação da ajuda mútua não é um problema se o desejo do movi-
mento for manter-se em um permanente devir, mas se o desejo de muitas
ativistas é a estruturação de grupos e organizações mais sólidas e dura-
douras, guiadas por um maior pragmatismo e continuidade nas frentes de
luta estabelecidas, a ajuda mútua não dá conta. Pelo contrário, ela parece
difcultar a inclinação de grupos que já têm uma trajetória mais longa em
direção ao advocacy, uma prática político-institucional com produtos po-
líticos mais claros e objetivos. É possível observar que a chegada de novos
membros (ansiosos por falarem de si e darem conta de suas questões exis-
tenciais, que a dinâmica da ajuda mútua reforça), imprime aos grupos uma
recorrente volta a temas que, embora possam ser signifcativos, permane-
cem abordados de forma superfcial, subjetivista e sem que se converterem
em ferramentas técnicas e/ou políticas com objetivos claros. Em outras pa-
lavras, no interior dos grupos, temas como discriminação, saúde, sexo se-
guro, violência, religião, família, estão sempre em voga, mas evoluem com
22 Desde o tempo do Somos, as lésbicas reclamavam de uma certa hostilidade dos homens de qualquer
orientação sexual no interior dos grupos mistos. Este foi o motivo inclusive que gerou a primeira rup-
tura do Somos.
muita difculdade para a forma de demandas e proposições.
O paradoxo é que a ajuda mútua foi e é necessária à sobrevivência do
grupo, mas esta lógica determina uma estrutura interna frágil e repelente
das freqüentadoras que procuram não apenas discutir suas questões subje-
tivas e/ou buscar colisões, mas realizar ações políticas efcazes.
Pelos motivos brevemente discutidos, considero que o atual formato das
ongs lésbicas vive uma crise. Todavia, considera-se que a efcácia de um
movimento social se mede também pelo seu impacto nas políticas públicas.
Pode-se afrmar a realização de experiências regionais de ocupação dos es-
paços públicos por algumas lideranças lésbicas, em conselhos de saúde, de
educação, dos direitos da mulher e os fóruns e câmaras técnicas de saúde da
mulher. Já ocorre o estabelecimento de parcerias com diferentes instâncias
estatais na execução de projetos de treinamento de profssionais de saúde e
de educação para o enfrentamento do heterossexismo, o que tende a se am-
pliar a partir da incorporação pelo Estado dos resultados das Conferências
lgbt realizadas no primeiro semestre de 2008. Cresceu no âmbito legisla-
tivo a aprovação de medidas de saúde, previdenciárias, educacionais, entre
outras, destinadas à garantia dos direitos da população lgbt, assim como o
esforço de alguns governos de traduzirem no nível local o programa públi-
co Brasil sem Homofobia. No âmbito judiciário, importantes conquistas têm
sido obtidas e as lésbicas/bissexuais também têm sido protagonistas destes
processos judiciais, organizadas em grupos ou não.
Os impasses contemporâneos
Dada a crise do modelo que informa o movimento de lésbicas/bissexuais e
que procuramos minimamente discutir acima, mas tendo em perspectiva
a evidente e signifcativa ação política desse movimento, um conjunto de
questões precisam ser refetidas e algumas delas tomam a forma de impasses.
Quanto à prevenção de dst/Aids, já não é possível tratá-la sem que haja
mudanças no formato cotidiano das práticas de saúde. Não há como per-
manecer na retórica de que “lésbicas são mais avessas à prática do Papani-
colaou” e, por isso, “correm mais risco de câncer cervical”, se a qualidade
da atenção dispensada nas unidades públicas e privadas de saúde não é
compatível com o acolhimento efetivo deste público. É necessário ainda
enfrentar com seriedade a escassez de pesquisas em saúde sobre o adoe-
cimento das lésbicas e bissexuais por dst/Aids no país, que promovam a
98 Guilherme Silva de Almeida 99 Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico: para além da inversão da sigla
ultrapassagem das discussões esporádicas e dos aforismos.
Por outro lado, em tese desenvolvida em 2005, pude observar a neces-
sidade de extrapolar o domínio da saúde sexual quando o que se tem em
mente é o enfrentamento do heterossexismo dirigido às mulheres. Trata-se
aqui de fomentar um campo de discussão sobre os efeitos da discriminação
na conformação de outras expressões da vulnerabilidade em saúde, mas isto
é difícil num contexto em que apenas a saúde sexual fca em perspectiva.
Para além da política de saúde, trata-se de enfrentar as assimetrias de
poder aquisitivo e renda associadas à subordinação econômica das mulhe-
res, assim como os processos de desfliação e ruptura com as famílias e re-
des de sustentação primárias, que muitas mulheres vivem em decorrência
da orientação sexual, com ou sem afrmação identitária. Neste sentido, há
alguns anos, organizações cariocas, por exemplo, têm realizado trabalhos
no sistema penitenciário e em regiões periféricas da cidade e surgem gru-
pos em regiões mais pobres do estado, como a Baixada Fluminense, mas,
em contrapartida, durante a Conferência Nacional lgbt surpreendeu a au-
sência de um espaço de debate das propostas lgbt para a Política Nacional
de Assistência Social. Mediante a contestação de poucos indivíduos, tais
propostas foram relegadas ao grupo de trabalho e renda, o que foi um indi-
cador da pouca importância dada as mesmas pelo movimento.
Um outro impasse digno de nota é o que gira em torno da relação do
movimento de lésbicas/bissexuais com os demais movimentos em defesa
de sexualidades não-normativas – as “outras letras”– pois, se o movimento
de autonomização foi importante para questionar um certo “totalitarismo
gay” presente desde os anos 70, ele também vem contribuindo para esgar-
çar os vínculos de solidariedade entre as “letras”. O desafo colocado é como
reconhecer especifcidades e, simultaneamente, garantir a unidade da luta
pela não-discriminação numa perspectiva plural?
A estratégia de composição do movimento de lésbicas/bissexuais com o
feminismo ocorreu e foi importante para ambos, mas esta proximidade por
vezes vem acompanhada do aforismo um tanto ingênuo de que uma forte di-
ferenciação expressa na gramática corporal dos componentes de alguns pares
lésbicos, necessariamente signifque assimetria de poder. Mais ingênua ainda
é a crença de que a existência de uma estética igualitária do casal de mulheres
possa neutralizar por si só os efeitos danosos da suposta assimetria.
Em certa medida associada a esta aproximação do movimento de lés-
bicas/bissexuais com o feminismo, cresce o constrangimento pela existên-
cia de lésbicas com uma gramática corporal associada ao masculino, face
à crescente pressão pelo modelo igualitário de relacionamento
23
, mas não
ocorrem discussões consistentes sobre os possíveis signifcados da mascu-
linização/feminilização nos espaços políticos do movimento. Como conse-
qüência, sob a mesma rubrica, “lésbica”, são abrigados sujeitos que - talvez
em ambientes políticos mais propícios ao debate - poderiam se identifcar
de maneiras diversas, como butches, ladies, queer, fanchonas, sapatas, sapa-
tilhas, bissexuais, homens transexuais e até (quem sabe?) mulheres t-lovers.
É desta maneira, restritiva a rubrica “lésbica”, por se fundar no achatamento
de eventuais diferenças entre os sujeitos ou perceber tais diferenças como
apenas cosméticas.
Outro impasse digno de nota – e que é parte desta difculdade de cons-
trução de uma cultura de acolhimento à diversidade no próprio movimen-
to de lésbicas brasileiro - é a notória difculdade de incorporar as bissexuais
tanto no interior dos grupos quanto nas demandas do movimento. Elas en-
contram por vezes difculdades para simplesmente enunciarem seus pontos
de vista nas discussões.
A cultura de acolhimento das diferenças pressupõe estudos e refexões
que propiciem a este movimento um olhar sobre os marcadores sociais de
diferenças, pois é sabido que a classe social, o gênero, a geração, a cor e
a orientação sexual, recombinam-se de formas diversas, não operando de
forma mecânica na história dos indivíduos e grupos, ainda que estes se
apresentem sob a mesma inscrição identitária. A produção destes estudos
colide ainda com uma forte resistência cultural
24
à produção de estudos
sobre homossexualidade feminina que apenas nas últimas décadas come-
çou a ser rompida por um pequeno número de pesquisadoras/es
25
, em sua
maioria comprometidas com o movimento organizado.
Sob outro prisma, um aspecto a ser ressaltado é que o movimento de
lésbicas/bissexuais, como outros movimentos sociais, enfrenta o dilema de
ocupar a esfera pública pela via da ação política, num contexto contempo-
râneo em que o cidadão ou cidadã se exprime muito mais pelo uso do cpf
(Cadastro de Pessoa Física) do que nos espaços tradicionais da política e
23 Para uma discussão de igualitarismo em díades femininas, ver Heilborn (2004) .
24 Em artigo de 1995, Carole Vance descreve a freqüente “desconfança” que, mesmo no meio univer-
sitário, ronda os pesquisadores da sexualidade, difcultando os estudos neste campo. Os estudos da
homossexualidade tornam-se assim agravantes deste preconceito.
25 Alguns pioneiros nacionais na construção de estudos acadêmicos sobre homossexualidade feminina
nas décadas de 80 e 90 foram Daniel & Miccolis (1983), Mott (1987), Portinari (1988), Macrae (1990),
Muniz (1992), Carvalho (1994) e Vargas (1995).
100 Guilherme Silva de Almeida 101 Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico: para além da inversão da sigla
trafega mais pela web do que nas ruas da cidade onde vive. Em outras pala-
vras, trata-se do impasse de convidar à ação política num contexto histórico
em que a política é esvaziada progressivamente de signifcado e em que as
soluções individualistas propostas pelo mercado são mais fortemente enfa-
tizadas como via de acesso à cidadania. Assim, permanece a questão: como
forjar espaços políticos atraentes como os bares, as boites, as festas pagas ou
o ciberespaço? E ainda, como articular ajuda mútua e advocacy?
Considerações fnais
Um dos fagrantes da Conferência lgbt em Brasília foi que por força do
critério de inscrição dos/as participantes a partir da identidade de gêne-
ro
26
, homens gays e bissexuais fcaram com 50% das vagas da Conferência e
mulheres, algumas travestis e transexuais femininas confnados na cota dos
outros 50%. Tal questão foi discutida e aprovada em reuniões preparatórias
da Conferência. Todavia, em reunião durante a Conferência, algumas ati-
vistas lésbicas e bissexuais presentes declararam seu repúdio ao que consi-
deraram uma manobra política dos gays, dada a disparidade numérica que
aí se desenhou entre as “identidades de gênero”. Sub-representadas, tudo o
que as lésbicas/bissexuais conseguiram para reverter o processo, foi a inver-
são da sigla no relatório fnal.
Outro episódio marcante da Conferência Nacional foi a conquista da
possibilidade de realização de cirurgias de trangenitalização nas unidades
comuns do sus para as transexuais. Ela representou uma grande conquis-
ta para o movimento lgbt, mas para as mulheres lésbicas e bissexuais foi
também uma derrota, porque permaneceram excluídos da possibilidade de
realização de cirurgias no sus, os homens transexuais. Apesar das cirurgias
mais freqüentemente requisitadas
27
por estes serem de fácil realização nas
unidades regulares do sus, como a mastectomia e a histerectomia, isso se-
quer foi cogitado. É uma perda política substantiva num momento em que
no interior do movimento de lésbicas/bissexuais os homens transexuais
28
e
26 Feminino ou masculino.
27 O caráter experimental da cirurgia de neofalo não tem sido alvo de qualquer questionamento no
âmbito das ações governamentais e do movimento, o que deveria ocorrer pelo menos incentivando-se
pesquisas científcas sobre o assunto com recursos públicos. Todavia, é comum que os homens transe-
xuais não façam do neofalo uma exigência e tenham mais interesse na mastectomia, na histerectomia e
na terapia hormonal. Para melhor compreensão desta questão, ver Bento (2006 e 2008).
28 Nascidos com genitália feminina.
até os homens travestis, começam a se expressar
29
politicamente.
Os episódios da Conferência foram ilustrativos de que, tanto a dinâmica
interna do movimento lgbt, quanto a do movimento de lésbicas/bissexuais
experimentam fortes tensões internas que precisam ser melhor avaliadas.
Eles também contribuem para a discussão acerca de como vem se dando e
vai se dar (a partir dos desdobramentos da Conferência principalmente) a
relação do movimento com o Estado brasileiro em suas diferentes instân-
cias (federal, estadual e municipal).
O Estado parece ter perdido, sobretudo a partir dos últimos dez anos, o
lugar de um interlocutor (para a maior parte do movimento lgbt) que pre-
cisa ser interpelado, cobrado e controlado. Ele tem sido mais identifcado
como fnanciador a ser atendido ou ainda, como aliado a ser preservado de
qualquer crítica mais contundente. Além disso, o reconhecimento da cida-
dania lgbt precisa se manifestar não apenas no plano federal, mas na pos-
tura cotidiana das secretarias estaduais e municipais de saúde, educação,
assistência social, habitação etc, o que efetivamente não ocorre na maioria
das cidades e estados brasileiros. Fica evidente que um dos pontos nevrál-
gicos dessa conjuntura é a relação com o Estado: é possível a assimilação
das demandas sem perda da autonomia e sem descaracterização? É possível
interferir na dinâmica das políticas públicas sem a boa vontade dos gesto-
res? É possível cooperar com as gestões sem se imiscuir? Há, sem dúvida,
muitas possibilidades de avanços dos limites da cidadania lgbt a partir das
proposições oriundas das Conferências. Contudo, nesse contexto há tam-
bém a necessidade de repensar rumos, demandas, relações de poder internas,
antagonismos, estratégias políticas e mesmo a dimensão deste movimento, a
partir de suas bases. O enfrentamento crítico da relação com o Estado pode
contribuir para ações mais efetivas do movimento e do próprio Estado.
Este enfrentamento crítico da ação do próprio movimento de mulhe-
res lésbicas e bissexuais pode contribuir para o crescimento quantitativo e
qualitativo deste braço do movimento lgbt, para que nele ocorra de fato
maior diversidade interna e maior efcácia política. Isto pode contribuir
para que o papel das mulheres nos movimentos em defesa das sexualidades
não-normativas se traduza cada vez mais em algo menos simbólico e mais
efetivo do que a inversão das letras da sigla.
29 Alguns homens transexuais e travestis se apresentaram em encontro articulado na Conferência que
reuniu lésbicas e bissexuais. E outros, embora participassem da Conferência optaram por não participar
da reunião de mulheres. É recente a veiculação de um instigante documentário produzido por Márcia
Cabral, integrante de um grupo de lésbicas negras paulista sob o título “Eu sou homem”, onde quatro
homens transexuais brasileiros falam de suas vidas.
102 Guilherme Silva de Almeida 103 Impasses contemporâneos do protagonismo lésbico: para além da inversão da sigla
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105 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças
e o enfrentamento ao heterossexismo
1
Regina Facchini
2
Uma cena ocorrida em 2007, em uma sessão de debates sobre políticas de
saúde num seminário que reunia pesquisadores, ativistas e técnicos ou ges-
tores de políticas públicas de todo o Brasil, me vem à lembrança quan-
do penso no tema proposto para esta mesa. Numa das sessões de debate,
chamou-me atenção o fato do expositor que falara em nome do movimento
social ter utilizado em sua apresentação diversos slides com dados sobre a
epidemia de Aids que também estavam presentes na apresentação do expo-
sitor que falaria depois dele como técnico governamental. Isso me parecia
sinalizar o grau de porosidade nas relações entre Estado e movimento. No
entanto, um questionamento feito quase ao fnal da fala do pesquisador,
técnico governamental e ex-ativista colocou-o em posição absolutamente
oposta à do ativista que falara antes dele e gerou polêmica na platéia: será
que é o mesmo pensar políticas de prevenção para gays e para bichas ou
para lésbicas e sapatões?
Embora o técnico e pesquisador talvez aludisse apenas diferenças rela-
cionadas a gênero incorporadas nestas classifcações, gostaria de tomar esta
oportunidade como espaço para aprofundar um pouco a refexão tecida
naquela ocasião, explicitando um pouco mais as relações entre diversidade
1 As pesquisas (facchini, 2005; 2008) que deram origem a este texto contaram com apoio do cnpq.
Adota-se como convenção neste artigo que todas as categorias êmicas, sejam oriundas do vocabulário
do movimento, das políticas públicas ou de gays, lésbicas, bissexuais, travestis ou transexuais entre-
vistados para pesquisas específcas, serão grafadas em itálico. As aspas são reservadas para citações,
conceitos e categorias aproximativas utilizadas pela autora.
2 Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp. Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e
professora colaboradora do Programa de Doutorado em Ciências Sociais, ambos da Unicamp.
106 Regina Facchini 107 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
e diferença no sentido de contribuir para o debate acerca das estratégias
políticas contemporâneas de enfrentamento ao heterossexismo no Brasil.
Esta fala pretende, portanto, tomar em consideração a diversidade con-
tida no que se convencionou chamar de população lésbica ou de lesbianida-
des. Para tanto, retoma o contexto em que se insere a relação entre Estado
e movimentos sociais no Brasil pós-redemocratização, situando a produ-
ção de políticas focalizadas com base em questões relacionadas às (homo)
sexualidades e, em particular, às lesbianidades, passando a uma refexão
sobre diversidade baseada em resultados de minha pesquisa de doutorado
e composta por dois eixos. O primeiro diz respeito à produção de diferença
no interior do conjunto de sujeitos que poderiam se identifcar ou ser iden-
tifcados a partir de uma noção de lesbianidades. O segundo diz respeito
às estratégias cotidianamente mobilizadas pelos sujeitos pesquisados para
fazer algo daquilo que lhes parece ter sido feito deles.
No que diz respeito à refexão sobre diversidade e sobre processos de
produção da diferença, o material analisado é proveniente de observação
etnográfca e entrevistas semi-estruturadas com mulheres que têm relações
erótico-afetivas com outras mulheres
3
, moradoras da Grande São Paulo,
com idades entre 18 e 50 anos. Esse material foi produzido para minha pes-
quisa de doutorado, incluindo observações e entrevistas realizadas entre
2003 e 2008. A análise considera: 1) a produção da diferença na distribuição
dos sujeitos em espaços de sociabilidade, bem como na distribuição desses
lugares na geografa política da cidade; 2) a produção de diferenças nas con-
3 O uso de tal referência para identifcar o objeto empírico desta pesquisa procurou evitar os proble-
mas relativos à possibilidade de descompasso entre comportamentos e identidades sexuais, garantir a
maior diversidade possível na composição do conjunto de entrevistas e possibilitar que a questão mais
complexa da identidade, sua relação com as práticas e seu impacto sobre o problema estudado pudesse
ser compreendida a partir da perspectiva dos sujeitos sob estudo. Todavia, trata-se de uso instrumental
e atento ao risco atribuído à idéia de hsh (homens que fazem sexo com homens): “dissolver a questão
da não-correspondência entre desejos, práticas e identidades numa formulação que recria a categoria
universal ‘homem’ com base na suposta estabilidade fundante do sexo biológico” (carrara e simões,
2007, p. 94 - nota 35). Essa referência às práticas/comportamento no sentido de “conduta” (gagnon,
2006) foi escolhida ainda levando em conta o uso que se tem feito da noção de homossexualidade na
reivindicação de direitos e na defnição de políticas públicas, tomando por base o sexo assignado ao
nascer. Manter essa referência para a busca de colaboradoras e, ao mesmo tempo, tomar por foco ana-
lítico as categorias de classifcação que emergiram do campo, é também um modo de dialogar com as
tensões políticas apresentadas neste artigo. Embora este não seja um trabalho sobre transexualidade, o
caso de colaborares/as da pesquisa que se identifcaram a partir de categorias como sapatão, travesti,
homem trans, general me ensinou lições práticas sobre a necessidade de pensar a subjetividade como
algo sempre “em processo” (brah, 2006). Mas, principalmente, que é preciso considerar que o fato de
ter sido identifcada no nascimento como alguém do “sexo feminino” não exclui uma série de variações
nas performances e nas identifcações relacionadas a gênero ao longo da vida. Assim, ainda que tenha
entrado na pesquisa como descritivo do “sexo biológico”, o termo “mulher” sempre opera sob rasura
neste texto (hall, 2000).
venções produzidas no discurso sobre sexualidade e desejo; 3) as estratégias
de manejo de convenções sociais estigmatizantes.
A perspectiva que orienta a análise enfatiza as intersecções entre diver-
sos marcadores sociais de diferença, tais como classe, gênero, sexualidade,
geração e cor/raça. Procuro evitar o reducionismo de fazer derivar todas as
diferenças de uma única instância determinante (brah, 2006), consideran-
do que cada marcador não remete a um campo distinto de experiência, iso-
lado ou justaposto a outros, mas que existe concretamente em e através de
relações com cada um dos outros (mcclintock, 1995). A análise do mate-
rial leva em conta a operacionalização do conceito de “interseccionalidade”
4

pela idéia de “diferença” como categoria analítica, tomando diferença de
modo não essencial, mas como categoria que remete à designação de “ou-
tros” (brah, 2006, p. 331). Desse modo, os marcadores sociais de diferença
não são pressupostos, mas considerados a partir do modo como aparecem
nos discursos e situações observados durante a pesquisa de campo.
Em tempos de lesbofobia: políticas focalizadas, segmentos e especifci-
dades
O processo recente de redemocratização, que se desdobra nos últimos 30
anos no Brasil, tem implicado uma mudança substancial na relação entre
Estado e movimentos sociais, bem como na forma de operar políticas pú-
blicas no país. A partir do início dos anos 1980, surgem as primeiras políti-
cas focalizadas para mulheres e aprofunda-se um processo de participação
do movimento social no processo de formulação, implementação e contro-
le de políticas públicas (farah, 2004). Processos igualmente complexos,
envolvendo uma gama diversa de atores políticos em âmbito nacional e
internacional, se desenvolveram em relação a outros sujeitos políticos ou
segmentos populacionais a partir dos anos 1990.
Assim, vemos surgir na agenda política brasileira as primeiras referên-
cias ao que, no início deste século, seriam as ações afrmativas com foco
em questões como a redução das desigualdades de gênero, o combate ao
racismo e as políticas de juventude. Recentemente, assiste-se a um processo
de multiplicação de sujeitos políticos no campo dos movimentos sociais,
4 Avtar Brah e Ann Phoenix (2004) defnem o conceito de “interseccionalidade” como designando
os efeitos complexos, irredutíveis, variados e variáveis que se seguem quando múltiplos eixos de dife-
renciação – econômicos, políticos, culturais, psíquicos, subjetivos e experienciais – se intersectam em
contextos históricos específcos.
108 Regina Facchini 109 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
acompanhado no campo das políticas públicas por uma “focalização da fo-
calização”, associada ao uso de expressões como populações mais vulnerá-
veis. Esse contexto mais amplo compõe o pano de fundo a partir do qual se
colocam as questões trabalhadas nesta exposição.
Os anos 1990 assistiram a um crescimento da preocupação com a ques-
tão da sexualidade, inclusive no campo acadêmico (vance, 1995; piscitelli
et al, 2004). No âmbito político, o processo de construção e legitimação
da noção de “direitos sexuais”
5
, iniciado na primeira metade dessa década,
cumpre um importante papel na inserção da sexualidade na agenda política
internacional. No cenário nacional, nesse mesmo período, a organização de
uma resposta coletiva à epidemia do hiv/Aids e o reforescimento do movi-
mento homossexual propiciam a emergência de propostas relacionadas a uma
“visibilidade positiva” das homossexualidades e um processo de segmentação
de sujeitos políticos do movimento (facchini, 2005; frança, 2006).
Embora mulheres que se identifcam como lésbicas tenham estado pre-
sentes desde as primeiras iniciativas do movimento homossexual no Brasil
(no fnal dos anos de 1970) e os primeiros grupos exclusivos tenham se
formado a partir de 1980, o termo lésbicas passa a fgurar no nome do mo-
vimento apenas a partir de 1993, com o vii Encontro Brasileiro de Lésbicas
e Homossexuais (facchini, 2005). Ao analisar essa trajetória, Gulherme
Almeida (2005) descreve o drama de um movimento social que, apesar de
afrmar sua especifcidade e autonomia em relação ao movimento lgbt
6
e
ao movimento feminista, mantém, com tais atores, múltiplas e oscilantes
relações de dependência no que toca à sustentabilidade política, organiza-
cional e fnanceira de suas ações.
Almeida sublinha, ainda, um processo recente de entrada desse sujei-
to coletivo na agenda política brasileira. Nesse processo, a afrmação das
especifcidades tomou por referência a idéia de um “corpo lésbico” e suas
demandas no campo da saúde, sobretudo no que diz respeito à possibili-
dade de infecção por dst e Aids, delineando um caminho que conduzia
da invisibilidade à afrmação da vulnerabilidade, em um contexto marcado
pela feminização e pela pauperização da epidemia do hiv/Aids. Embora
5 Tal noção é construída e politicamente legitimada no processo de realização da Conferência Inter-
nacional de População e Desenvolvimento, realizada no Cairo em 1994, e da iv Conferência Mundial
sobre a Mulher, em Pequim, em 1995.
6 Refro-me aqui a movimento lgbt (que, na formulação recentemente aprovada na i Conferência Na-
cional glbt, realizada em Brasília de 05 a 08 de junho de 2008, refere-se a um movimento de lésbicas,
gays, bissexuais, travestis e transexuais) para frisar a tendência à segmentação e explicitação de diferen-
ças que tem se aprofundado nesse movimento desde a década de 1990. Para maiores informações sobre
o início desse processo, ver Facchini (2005).
intrinsecamente relacionada à necessidade de ampliar a visibilidade de uma
identidade lésbica e de suas especifcidades (almeida, 2005), essa constru-
ção de um “corpo lésbico” não pode ser compreendida sem a referência
a um processo de focalização de políticas públicas, a partir do qual são
criados programas, coordenadorias e conselhos voltados para lgbt, para
diversidade sexual ou para o combate à homofobia nos diferentes níveis de
governo no Brasil.
Nos últimos anos, na esteira da maior inserção do Brasil nos debates in-
ternacionais sobre Direitos Humanos, a temática lgbt passa a ser abordada
para além dos limites do tema saúde. Se em 1996, o termo homossexualida-
de aparece pela primeira vez num documento do Governo Federal, o Plano
Nacional de Direitos Humanos (pndh), é após a participação da delegação
brasileira na Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Ra-
cial, Intolerância e Discriminação Correlata (durban, 2001) que se dá a
inserção formal de lgbt nas políticas brasileiras de promoção dos direitos
humanos (daniliauskas, 2009; facchini, 2009).
Esse processo faz com que os espaços de interlocução entre movimento
de lésbicas e Estado venham se multiplicado, com a criação da Secretaria
Especial de Políticas para as Mulheres (spm), o processo de construção do
Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (pnpm) e o Programa Brasil
Sem Homofobia, na Secretaria Especial dos Diretos Humanos (sedh). Em
princípio, lésbicas aparecem na maior parte das vezes como mais uma das
categorias que integram a sigla glbt, um sujeito político complexo sobre o
qual os discursos oscilam entre considerá-lo como um todo relativamente
homogêneo ou enfatizar a existência de especifcidades que nem sempre são
enunciadas. As exceções dizem respeito a demandas relacionadas a saúde e
a violência, setores em que se reconhece especifcidades das lésbicas (Conse-
lho Nacional de Combate à Discriminação, 2004).
Para além da ampliação de espaços de interlocução entre movimento e
Estado, verifcam-se, também, mudanças no discurso de gestores públicos
e de ativistas. Entre os gestores, embora se fale em populações ou segmentos
populacionais – o que poderia sugerir que lhes seja atribuída certa homoge-
neidade –, o uso de noções como transversalidade e intersetorialidade tem
possibilitado pensar numa diversidade de sujeitos e de demandas em cada
uma dessas supostas unidades. Na prática, nota-se que ações realizadas no
âmbito do Programa Brasil Sem Homofobia procuram fexibilizar a pers-
pectiva essencializante e universalizante de um segmento, buscando inter-
locução com questões como raça e geração ou mesmo criando categorias
110 Regina Facchini 111 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
como contextos de vulnerabilidade, a fm de deslocar a ênfase nas categorias
descritivas de comportamentos ou identidades sexuais para os contextos
que geram vulnerabilidade individual, social ou programática.
Sob impacto da crescente porosidade na relação entre Estado e movi-
mento social (facchini; frança, 2009), conceitos como contextos de vul-
nerabilidade acabam sendo traduzidos na prática (muitas vezes, a partir
de políticas implementadas por meio de editais atendidos pelas organiza-
ções do próprio movimento) como gays ou lésbicas pobres, adolescentes ou
negros(as). Nesse contexto, noções como vulnerabilidade e transversalidade
são reinterpretadas e têm seu sentido disputado por atores do movimento
lgbt. Assim, a noção de vulnerabilidade, é muitas vezes tomada de modo
essencial, como se o que torna vulnerável fosse inerente a características
de dado grupo populacional e não a uma articulação entre níveis indivi-
duais, sociais e programáticos. A noção de transversalidade, por sua vez, é
freqüentemente tomada a partir de uma operação que sobrepõe segmentos
e soma opressões, num processo que remete a tensões na interpretação de
interseccionalidade.
Introduzida no vocabulário político a partir da Conferência de Durban,
a noção de interseccionalidade remete tanto à idéia de “articulações entre a
discriminação de gênero, a homofobia, o racismo e a exploração de classe”
(blackwell; naber, 2002) como à de sobreposição ou soma entre “opres-
sões múltiplas” que podem ser identifcadas em sujeitos específcos, como
é o caso das lésbicas negras ou de adolescentes lésbicas. No encontro com a
tendência à especifcação e segmentação de sujeitos políticos e com a ên-
fase nas especifcidades, noções como interseccionalidade e transversalidade
ganham, no movimento, o sentido de sobreposição ou soma de opressões
particulares e estanques.
Enquanto as políticas públicas têm operado a partir de um equilíbrio
tênue entre focalização e garantia de transversalidade, ativistas parecem
operar uma “focalização da focalização”, que é agravada pelos processos de
disputa por hegemonia política e pelas lutas por reconhecimento e por se
fazer visível nas próprias demandas do movimento
7
. Os debates por ocasião
7 Embora uma entidade nacional que articulasse ações do movimento fosse uma demanda antiga, o
formato implicado na abglt (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transe-
xuais, fundada em 1995) contou desde o início com objeções. Assim, embora tenha construído um lugar
hegemônico no movimento, essa hegemonia faz parte de um equilíbrio instável. A partir de 2000, há um
processo de multiplicação de redes nacionais. À época da realização da Conferência Nacional lgbt, fo-
ram listadas as seguintes redes nacionais: a Articulação de Travestis, Transexuais e Transgêneros (antra),
criada em 2000; a Liga Brasileira de Lésbicas (lbl), criada em 2003; a Articulação Brasileira de Lésbicas
(abl), criada em 2004; o Coletivo Nacional de Transexuais (cnt) e a Rede Afro-lgbt, criadas em 2005;
da Conferência Nacional glbt (Brasília, junho de 2008) revelam alguns
dos impactos referentes ao modo como o movimento vem se movendo en-
tre diferentes discursos.
Na elaboração do regimento interno, defniu-se que a delegação de cada
estado deveria contar com “no mínimo, 50% de pessoas com identidade
de gênero feminina (mulheres, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis)”
(brasil. Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2008a, p. 11). Esse pro-
cedimento foi defendido como estratégia para tentar conter a fragmenta-
ção do movimento e em suposta atenção à inferiorização e à invisibilida-
de a que está submetido historicamente o feminino, e obteve aprovação na
comissão organizadora composta, entre outros, por várias redes ativistas
nacionais. No entanto, boa parte das mulheres e das travestis não enten-
deram a medida como positiva. A realização da Conferência foi recortada
por processos de demanda pelo reconhecimento de especifcidades, a ponto
de categorias particulares para nomear a fonte da opressão que atinge cada
um dos segmentos terem sido cunhadas. Assim, falou-se em lesbofobia e
transfobia (brasil. Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2008b), mas
já há distinções entre transfobia e travestifobia, a expressão gayfobia já vem
sendo usada em alguns meios, enquanto em outros se fala em gay-lesbo-
transfobia, ou em lgbtfobia
8
.
A comunidade por dentro: diversidade e produção de diferenças e desi-
gualdades
Na trajetória acima descrita, passou-se de homossexuais – uma comunidade
imaginada como separada e oprimida por uma sociedade descrita muitas
vezes como mundo heterossexual – para um conjunto complexo de sujeitos
políticos que procuram lidar com essa pluralidade e se afrmar como sujei-
tos de direitos e integrantes da comunidade mais ampla, composta pelos ci-
dadãos brasileiros (anderson, 2008). Nenhuma dessas duas comunidades
o Coletivo Nacional de Lésbicas Negras Feministas Autônomas (Candace), criado em 2007; o E-Jovem,
que tem se articulado desde 2001; e a Associação Brasileira de Gays (abragay), fundada em 2005.
Todas as redes atualmente existentes estão implicadas numa delicada trama que envolve não apenas o
reconhecimento de especifcidades, como relações políticas que estabelecem quem pode falar em nome
do movimento, ou de que parcelas dele, em qual momento.
8 A especifcação de fontes de opressão a partir de identidades políticas legitimadas no movimento –
como lesbofobia ou transfobia – tem sido criticada tanto por se confgurar como um atalho falho para
descrever a dinâmica da violência (junqueira, 2007) quanto por reduzir a inteligibilidade das deman-
das do movimento para aqueles/as que não são ativistas e não acompanham o cotidiano do movimento
lgbt (facchini, 2009).
112 Regina Facchini 113 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
pode atualmente ser imaginada como algo homogêneo e esse é um fato com
o qual tanto o Estado quanto o movimento procuram lidar. A seguir tomo
um recorte – as lésbicas – desse sujeito político complexo – os/as lgbt – e
procuro situar processos cotidianos de produção de diferença – e, por vezes
de desigualdades – que devem ser pensados ao falarmos em lesbianidades
e em diversidade.
A observação dos locais de sociabilidade freqüentados por mulheres
que gostam de outras mulheres na cidade de São Paulo permitiu entrever
diferenciações de classe e geração atuando na organização espacial do cir-
cuito de lazer comercial paulistano. A observação desses estabelecimentos
comerciais de lazer e sociabilidade, cotejada com as falas das entrevistadas
sobre seus “itinerários” e sobre os “lugares” que freqüentam, apontou para
o modo como diferenças são produzidas na constituição de “lugares” nes-
se circuito. Assim, delinearam-se duas áreas, que se encontram em locais
situados de modo distinto na geografa política da cidade (centro velho x
bairros de classe média).
Na região central, mais desvalorizada e próxima ao que Néstor Perlon-
gher (1987) qualifcou como “bocas”, o público freqüentador é de pele “mais
escura” e mais pobre e as parcerias heterogâmicas são mais freqüentes do
que nos estabelecimentos situados nos bairros de classe média. Uma análi-
se mais detida revelou relações entre diferenciações de classe e: 1) o modo
como sujeitos mais claros ou mais escuros se distribuem nesses espaços; 2)
estilizações corporais adotadas por mulheres de pele “mais clara” e “mais
escura” nos diferentes lugares. Permitiu perceber, ainda, confgurações es-
pecífcas no modo como classe e geração se intersectam com gênero na
produção de sujeitos e de corpos desejáveis em determinados lugares.
Nas entrevistas, as mulheres manejam um enorme e, muitas vezes, con-
traditório repertório social, a partir do qual procuram compreender e si-
tuar suas práticas e opiniões para si mesmas e para seus interlocutores. O
material privilegiado para a análise neste item focaliza: 1) o modo como os
sujeitos constituem a experiência nas situações de entrevista; e, 2) as cate-
gorias mobilizadas nos discursos em que se enuncia identidades e produz
“outros”. Na análise que se segue, as categorias classifcatórias são tomadas
como vias de acesso às convenções sociais mobilizadas pelos sujeitos e são
cotejadas com as relações sociais referidas no decorrer das entrevistas.
Uma primeira observação quanto às classifcações, diz respeito ao fato
de que os termos socialmente mais difundidos, tais como lésbica e homosse-
xual, são percebidos a partir de signifcados que remetem ao estigma – do-
ença, coisa errada – ou a uma fonte distante e no mínimo suspeita – forma-
lidade, politicamente correto, muito científco. Termos êmicos e estratégias
de re-signifcação de termos correntes, no entanto, circulam através de re-
des de sociabilidade específcas e sem grande poder de difusão.
O modo como as classifcações se distribuem varia signifcativamente
com relação a classe e a geração, marcadores que também se relacionam
com a maneira como as entrevistadas percebem suas trajetórias, práticas
e desejos sexuais com homens e/ou com mulheres e com o modo como
lidam com o estigma. Os maiores contrastes aparecem ao compararmos
mulheres acima de 30 anos de estratos populares e mulheres com menos de
30 anos de estratos médios e médios altos. Entre as mais velhas de estratos
populares, entendida é a categoria mais usada e, diferente do que ocorre em
outras faixas de idade ou estratos sociais, não se usa termos específcos para
designar mulheres que têm ou tiveram sexo com homens. Entre as mais
jovens de estratos médios ou médios altos, ganham espaço estratégias de
valorização e afrmação daquilo que é estigmatizado, como no caso do uso
de termos como dyke ou sapatão (entre as minas do rock), sapa (corrente
entre jovens de estratos médios) e a auto-classifcação como bissexual, além
da recusa de rótulos, (especialmente entre parte das modernas).
A popularização da categoria entendida coincide com o que parece
ser seu quase banimento do estrato social que lhe deu origem (os estratos
médios e médio-altos), onde deu lugar a outras que se multiplicam. Essa
multiplicação parece ocorrer a partir da lógica de diferenciação apontada
por Fry (1982), na qual categorias de referência à sexualidade são tomadas
como linguagem para a expressão de outras diferenças.
Ao nos debruçarmos sobre as categorias invocadas com a fnalidade de
diferenciação ou de acusação e dirigidas a outras mulheres que gostam de
mulheres, percebe-se que, ainda que entendam sua própria sexualidade
como não condenável, as entrevistadas tendem a estabelecer limites entre
a ordem e o que conformaria seu exterior constitutivo
9
, existindo certas
regularidades no modo como são traçados. Alguns desses limites, como a
masculinização e a bissexualidade remetem à ambigüidade, sendo investi-
dos de poderes e associados a noções de risco e perigo (douglas, 1976).
Por outro lado, as questões invocadas na atribuição de poderes ou riscos
remetem às convenções do próprio grupo que as invoca mobilizando um
9 A idéia de um exterior constitutivo em relação à ordem ou a uma norma aparece em Butler (2002),
mas, como lembram Carrara e Simões (2007), já estava presente em Douglas (1976).
114 Regina Facchini 115 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
campo de questões que geram tensão: classe; atributos de gênero; atividade
e passividade; ter sexo exclusivamente com mulheres ou não; e ocultar ou
demonstrar socialmente suas preferências homoeróticas.
Ao falar em “tensores libidinais”, Perlongher (1987) nos lembra que os
mesmos eixos em torno dos quais se estabelecem diferenciações sociais –
gênero, sexualidade, idade, raça, classe – também orientam o desejo. Nessa
direção, apesar de classe e geração orientarem a distribuição espacial dos
sujeitos no circuito e estarem relacionadas ao modo como as categorias
se distribuem no conjunto de entrevistadas, são pouco referidas quando
se fala de desejo. As expectativas relacionadas a relações homogâmicas e/
ou igualitárias são expressas através de idéias como trocar experiências e
ter interesses parecidos e a resistência a diferenças geracionais aparece mar-
cada pelas idéias de maturidade e interesse numa relação mais estável. Há
poucas referências a questões raciais: na auto-classifcação, há uma tendên-
cia ao “branqueamento”, exceto entre as jovens negras de estratos médios
e médio-altos, e na referência a parceiras desejáveis há um silêncio quase
absoluto sobre o assunto, apontando para relações onde cor/raça parece se
combinar com outros marcadores sociais, assim como com a habilidade
em se integrar a estilos e padrões de beleza na constituição de diferenças
racializadas. A feminilidade – referida na maior parte das vezes como algo
natural, por oposição à masculinização, citada sempre como algo que se
agrega a uma suposta natureza –, além de muito mencionada nas falas so-
bre a preferência por potenciais parceiras, indica a importância que ques-
tões relacionadas a gênero assumem.
A ênfase na feminilidade x masculinização indica ainda a importância
que questões relacionadas a gênero assumem tanto na constituição da iden-
tidade – por meio das várias formulações de uma questão várias vezes re-
petida: “afnal, que mulher sou eu que gosta de transar outras mulheres?”
– quanto na proliferação de categorias e estilos numa gradação que vai da
perua à sapatão. Se gênero já era uma questão antes da popularização da
distinção entre homo e heterossexualidade, produzindo sapatões e mulhe-
res, fanchonas e ladies, com a popularização de convenções que dissociam
gênero e sexualidade
10
, gênero parece assumir o lugar a partir do qual ou-
tras diferenciações são inscritas nas falas a respeito de sexualidade.
10 Edward MacRae (1990) e Guilherme Almeida (2005) apontam a rejeição da masculinização como
estratégia adotada por militantes lésbicas em dois diferentes momentos históricos, no fnal dos anos
1970 e no começo do século xxi.
Atitude, discrição e respeito: diferenças e diversidade no manejo de
estigmas
Para além da produção da diferença no espaço da cidade e na designação
de “outros” nas falas acerca de sexualidade e desejo, a pesquisa realizada
identifcou diversas estratégias no manejo de convenções sociais estigmati-
zantes. Na análise do material, o cotejo entre as categorias de classifcação
mobilizadas pelas mulheres e seus relatos acerca da relação com familiares
e amigos levou às categorias atitude, discrição e respeito. Cada uma dessas
categorias foi predominantemente encontrada em conjuntos de entrevis-
tadas que variam em termos de estrato social e geração, mas também de
convenções acerca de gênero e de sexualidade. Essas categorias e variações
são exploradas a seguir a partir de situações de campo. Vamos à primeira
delas.
cena 1: LadyFest Brasil, festival anual produzido por uma cena
cultural juvenil composta pelas minas do rock: garotas entre 14 e
29 anos, de estratos médios ou médios altos, predominantemente
brancas, que se consideram feministas e freqüentam um circui-
to de lazer relacionado ao rock, localizado em vias como a rua
Augusta, que interligam o centro aos bairros de classe média. Es-
truturada de modo a confrontar o machismo no meio do rock, a
cena das minas do rock passou a visibilizar cada vez mais as dykes:
garotas que compartilham com as outras a necessidade de respon-
der à pressão por tornarem-se sujeitos viáveis de sua cor e classe,
mas que o fazem a partir do fato de gostarem de outras mulheres.
Show de encerramento do LadyFest 2007 no Outs, região da rua
Augusta, resenha do site underground Banana Mecânica
11
:
“Luzes baixas, quatro meninas entram no palco. Posicionam-
se lado a lado, de costas, lá no meio. A música começa, com di-
reito a clipe no telão. Elas se viram. Playbackão na veia. “Abro um
vinho / mas não tenho / um porquê para brindar / A sua taça con-
tinua vazia”, entoa uma das vocalistas, Kerby. Dykes 4ever é a pri-
meira “boyband” assumidamente dyke. Todos os estereótipos dos
fenômenos pop masculinos da década passada estão lá: a étnica,
a bela, a romântica e a whigga. Estrofes açucaradas e muita pose.
11 schimidt, Fernanda. Dykes 4ever. Disponível em: <http://www.bananamecanica.com.br/conteudo/
index.php?op=ViewArticle&articleId=816&blogId=3>. Acesso em: 23.out.2007.
116 Regina Facchini 117 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
[...] Muitas risadas do público, passos ensaiadinhos do grupo. A
letra é digna de qualquer hit nacional. [...] O repertório do grupo
é composto apenas pela canção apresentada no Ladyfest, Você
para mim, escrita por Joey C e que teve clipe veiculado na mtv.
O encerramento do festival foi rápido. Durante os três minutos
e pouco da música, braços estavam para o alto, com algumas fãs
pedindo a atenção de sua integrante favorita e acompanhando
parte do refrão-chiclete. Ao fm, as quatro receberam os aplausos
juntinhas em pose postada na beira do palco. Nada mais pop.”
Numa comunidade do Orkut, discute-se o vídeo e o show do
Dykes 4ever:
Garota 1 posta: Que conjunto ruim da porra!!!! É sério!!! Não é
pelo fato de sermos lésbicas q temos q ser tapadas e não perceber
quando a música e as cantoras dessa turma ai ser um lixo! Porra!
Como desafnam!! E a música??!!! Cafonerrima! Fora de tom!!!
Letras imbecis!!! Gente !!! E akela integrante q é uma caricatura
de rapper??!!!! Gesticulando igual aos negrões americanos! Ridí-
cula! Quer imitar um homem, façam como eu: imitem um me-
treossexual como David Beckham, ao invés de pegar o pior mo-
delo (rappers, Waldick Soriano, Agnaldo Timóteo, Jece Valadão,
Reginaldo Rossi, os caminhoneiros, enfm, esse tipo de homem
desengonçado e desprovido de sensualidade e q nehuma mulher
mais tá afm!)! Vams lutar pra classe lésbica ser melhor represen-
tada, gente!!! Ai, Brasil, quando irás pra frente????
Garota 2 (que também é integrante da banda, embora com codi-
nome) posta: hahahahaha elas são minhas amigas? acho que a
tapada aqui é vc. o mais legal é que vc pensa que isso é de verdade.
querida, não consegue entender uma piada? da onde vc surgiu?
Garota 2 posta novamente: dyke david beckham. hahaha adorei.
tá gatinha na fta.
Garota 3 (amiga e parceira em outra banda da garota 2 e de outras
integrantes do Dykes 4ever) posta: Opa David, e aí bele? Olha,
peguei pra mim oq vc deixou no orkut das minhas amigas,não
por querer defender ninguém, pq se fosse defender alguém te-
ria que ser você, mas por achar que você não està percebendo o
quão toska e preconceituosa está sendo. O que você chama de
‘classe lésbica’? oq vc está tentando provar, e para quem? Não é
por que somos lésbicas,gays,travestis, oq for, que temos que se-
guir um modelinho estipulado/sistematizado não. E viu, críticas
são sempre muito importantes quando a pessoa na qual as estão
colocando sabe do que está falando, senão vira uma piadinha sem
gra-ça. Só mais uma coisa, pq você acha que David Beckham é
melhor do que qualquer ‘negão americano’,como vc colocou? Por
ele ser branquinho, se fazer de bonzinho pra mídia? Isso achei
bizarro. Uma pessoa que sofre preconceito, tão preconceituosa..
É uma pena. Enfm, estão aí nossas diferenças e os porques de eu
e minhas amigas não sermos da mesma ‘classe’ que você,e sendo
tão gays quanto heim.. Se encontra gata. Bota essa sua energia,
essa sua atitude e vontade de falar, em algo construtivo. Falou.
Para as jovens 2 e 3, é central a atitude irreverente: a banda foi cria-
da apenas para compor uma única música e veicular um vídeo na mtv. A
piada interna funciona como uma paródia reveladora: um grupo de ga-
rotas revisita as masculinidades das boybands e expõe o suposto caráter
não-marcado das masculinidades e sua fxação necessária aos corpos de
homens. A atitude as diferencia. O desconforto da garota que questiona a
banda vem de uma crítica de outra ordem: a associação entre ser lésbica e
ter atributos associados à masculinidade: agressividade, machismo, voraci-
dade sexual. Ambas lutam contra convenções acerca de gênero e sexualida-
de que estabelecem relações problemáticas entre lesbianidade e ser mulher
ou feminina. As armas, porém, são distintas. O posicionamento da garota
que critica a banda a aproxima de outras mulheres que conheci em campo
e de outra cena vivida. Vamos a ela.
cena 2: Atividade de comemoração da semana da Visibilidade
Lésbica, roda de conversa sobre “direitos das lésbicas” num esta-
belecimento comercial da região central, agosto de 2007. Numa
mesa extensa, estavam reunidos casais de mulheres, um casal de
amigas que eram ex-namoradas, uma solteira com um amigo
gay, ativistas da Associação da Parada, técnicas da Coordenado-
ria da Diversidade Sexual e o casal de donas do estabelecimento.
Conversamos sobre uma variedade de assuntos, mas o que gerou
maior discussão foi o tema família.
118 Regina Facchini 119 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
Havia ali várias mulheres de estratos médio-baixos e basica-
mente duas situações. A primeira, a de um casal de meia idade
cujas integrantes vivem cada uma na casa dos seus pais e tentam
conciliar, com sofrimento e sob chantagens emocionais e amea-
ças, o relacionamento afetivo-sexual e a relação com a família de
origem. Vale salientar o quanto a luta de uma delas para preservar
a guarda dos flhos, questionada judicialmente pelo ex-marido,
colaborou para que obtivesse maior respeito junto aos pais.
A segunda situação envolve duas amigas que são ex-namo-
radas. Entre elas, se desenrola todo um jogo de sedução, que en-
volve forte apelo emocional: de um lado, ouvir sobre as brigas da
ex com sua namorada atual e confortá-la nas difculdades de ad-
ministrar a vivência de relações afetivo-sexuais e a vida familiar;
de outro: “vai saber o que pode acontecer, quem sabe a gente não
volta a fcar junto mesmo”. Os confitos familiares são acentuados
por “alguém”, provavelmente outra mulher de suas relações ou
das relações de sua atual namorada, que liga para a casa da mãe e
os alimenta, denunciando anonimamente a suposta condição de
pegadora da garota.
A partir desse contexto de uma sexualidade vigiada, que desvela práti-
cas, a discrição se impõe como possibilidade de vivência dos desejos e afetos
e entrecruza marcadores de gênero, classe e geração, de modo que pode-se
estabelecer uma comparação com as jovens de estratos médios. Entre estas
últimas, individualidade e privacidade parecem ser valores no âmbito fa-
miliar e a homossexualidade aparece articulada pelos familiares como um
lugar social mais próximo da “normalidade”: o relato a respeito da sexuali-
dade foi em geral melhor aceito pelos pais do que elas esperavam e, quando
havia difculdades, foi comum a situação dos pais buscarem como suporte
um terapeuta. Isso, sem dúvidas, remete a mudanças na homossexualidade
como lugar social. No entanto, para a maior parte das outras mulheres da
pesquisa, há bem pouca privacidade e autonomia.
Para a maioria das mulheres que acessei, essa situação é manejada,
tanto pelos pais (especialmente mães) quanto pelas entrevistadas, a par-
tir da discrição. O tipo de relações sociais estabelecidas com suas famílias
de origem, com o ambiente de trabalho e com outros espaços sociais não
marcados pela homossexualidade se caracteriza, na maior parte das vezes,
menos pelo rompimento do que pelo desejo de aceitação e manutenção da
convivência. Por outro lado, as relações erótico-afetivas com outras mulhe-
res são mantidas num campo restrito aos locais de freqüência homossexual
e ao grupo de amigas ou amigos que compartilham os desejos e práticas
homoeróticos. O próprio círculo de parceiras potenciais é também restrito,
de modo que é muito comum boa parte das mulheres de um determinado
círculo de amigas já terem tido algum tipo de relacionamento amoroso ou
erótico entre si.
A discrição é crucial tanto para mulheres adultas de estratos médios
quanto para as jovens e adultas de estratos médio-baixos e para as jovens de
estratos populares que recusam relações com as muito masculinizadas. Es-
sas mulheres são grande parte daquelas que puderam ser vistas circulando
pelos bares e boates e as responsáveis pela maior parte das entrevistas desta
pesquisa. Boa parte das convenções e dinâmicas que eu e outros autores
temos encontrado nas pesquisas sobre lesbianidades
12
pode ser associada
à crucialidade da discrição: as críticas às masculinizadas, a valorização de
parceiras discretas e femininas, o romantismo e os “dramas” e situações vio-
lentas na ocasião da separação.
Convenções que prescindem da discrição foram analisadas entre as jo-
vens modernas e minas do rock. Aí, o estilo apareceu como operador de
diferenças a partir do qual, ao mesmo tempo, se estabelecem distinções de
classe e geração e se dão diálogos e/ou disputas entre as duas cenas, a das
modernas e das minas do rock, em torno da melhor maneira de encontrar
um lugar no gênero que não seja marcado pela discrição ou pela “hiper-
feminilidade”.
Outras convenções que prescindem da discrição vêm dos arranjos cons-
truídos por mulheres mais pobres e de pele “mais escura”, que residem nos
bairros mais afastados do centro, e que, muitas vezes, ainda têm a possibi-
lidade de falar de si mesmas apropriada por parentes ou vizinhos. Nesses
casos, o tom acusatório por meio do qual são apontadas ameaça atá-las ao
estigma de sapatão e implica um árduo processo de produção de si como
sujeitos viáveis.
Para elas, muitas vezes vistas como a encarnação da abjeção que faz
coincidir masculinização e atividade sexual num corpo assignado como fe-
minino, não se trata de autonomia, discrição ou, em geral, de rompimentos
mais duradouros com a família. A necessidade, a solidariedade e o respeito
12 Nessa literatura, ver especialmente: Muniz (1992); Aquino (1995); Heilborn (2004); Almeida (2005);
Meinerz (2005); Souza (2005).
120 Regina Facchini 121 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
fazem com que os laços familiares sejam de algum modo rearticulados. A
inteligibilidade local é conquistada por meio: 1) da formação de casais a
partir da diferença entre performances de gênero e, 2) da materialização
dos corpos a partir de convenções que citam a heterossexualidade, mas
também a deslocam. O respeito é conquistado a partir de rígidas distinções
entre público e privado.
Materializações marcadas por performances de gênero radicalmente
distintas podem não ser conscientes e intencionais, mas sem dúvida cons-
tituem espaço para a agência dessas mulheres quando olhadas em conjunto
com outras estratégias, como a separação entre casadas e solteiras, a criação
de grupos de casadas e o respeito às regras. Por meio dessa relativa “rigidez”
e num cenário marcado por pobreza, violência e famílias respeitáveis, é essa
“parafernália” que permite fazer algo a respeito do que tem sido feito delas,
a partir do lugar que ocupam na intersecção entre marcadores de classe,
cor/“raça”, gênero, geração e sexualidade. Inteligíveis e respeitosas, garan-
tem, no espaço do bairro, a possibilidade de vivenciar seus desejos sem
maiores atribulações.
Atitude, discrição e respeito emergem aqui como categorias que reme-
tem a diferentes modos pelos quais sujeitos situados em dadas posições em
relações sociais de poder marcadas por eixos de diferenciação como classe,
raça, geração, gênero e sexualidade procuram agir, ou, dito de outro modo,
maneiras pelas quais as mulheres acessadas em minha pesquisa procuram
fazer algo daquilo que lhes parece ter sido feito delas.
O combate ao heterossexismo: para seguir pensando
Iniciei este texto fazendo referência às políticas focalizadas. O olhar sobre o
processo político remete a um processo de fortalecimento de lésbicas como
sujeito político que se ampara na delimitação de especifcidades ao mesmo
tempo em que é instado a reconhecer e delimitar “especifcidades na espe-
cifcidade”. Assinalei o fato de que esse processo se dá, muitas vezes, a partir
de uma operação de “soma de opressões”, que justapõe sujeitos políticos
e as tensões entre os atores envolvidos no processo de elaboração, imple-
mentação e controle de políticas públicas, que têm lugar quando a lógica de
afrmação identitária de sujeitos políticos não é considerada.
No entanto, após a breve incursão pelo material de campo produzido
a partir da cidade de São Paulo, levando em conta o fato de que termos
como dyke, sapa, feminina, perua, caminhoneira, bofnho, ladynha emer-
gem como mais do que gírias locais ou vocabulários específcos de grupos,
remetendo a processos de diferenciação que mobilizam outros marcadores
sociais de diferença, gostaria de retomar aqui a incômoda questão referida
no início desta apresentação: é o mesmo pensar políticas para lésbicas e
para sapatões?
O material apresentado apontou que a circulação dessas mulheres pelo
espaço da cidade e mesmo a atribuição de categorias de classifcação re-
metem a processos de diferenciação que mobilizam marcadores sociais de
diferença, especialmente classe e idade, por vezes compondo determinados
estilos a partir da combinação com itens de vestuário, estética corporal,
música e ideologias políticas. Imbricadas com diferenciações de classe e
gênero, as diferenças de cor/raça seguem de modo silencioso, aparecen-
do menos no discurso do que na delimitação de lugares e estilos. No caso
das mais jovens, entre as de estratos médios e médios altos em especial,
as categorias parecem referir diferenciações de classe e geração e disputas
intraclasse entre diferentes estilos e seu potencial de responder às mais di-
ferentes demandas em torno de uma questão explícita ou implicitamente
formulada acerca de que tipo de mulher gosta – ou pode gostar – de outras
mulheres.
O impacto de mudanças na homossexualidade como lugar social se faz
sentir nas relações estabelecidas entre as jovens entrevistadas de estratos
médios e seus familiares: como vimos, a maior parte das garotas relatou
aos pais suas preferências por parceiras do mesmo sexo e teve um acolhi-
mento, em geral, melhor do que o esperado por elas. No entanto, para as
mulheres mais velhas de estratos médios, para todas as de estratos médios
baixos e para algumas das jovens de estratos populares, a discrição continua
a ser crucial para compatibilizar seus desejos e práticas eróticas e relações
com familiares e com o mercado de trabalho. Nos bairros mais afastados
do centro, encontramos mulheres mais pobres e de pele “mais escura”, que,
muitas vezes, ainda têm a possibilidade de falar de si mesmas apropriada
por parentes ou vizinhos. Nesses casos, o tom acusatório por meio do qual
são apontadas ameaça atá-las ao estigma e implica um árduo processo de
produção de si como sujeitos viáveis que implica evitar rompimentos com
a família de origem e com as pessoas no bairro, o que se operacionaliza por
meio de uma série de rígidas distinções entre masculinas e femininas, casa-
das e solteiras, público e privado.
O contexto sócio-político que descrevi no começo desta fala remete às
122 Regina Facchini 123 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
refexões tecidas por Brah (2006) acerca das relações entre “feminismo ne-
gro” e “feminismo branco” na Grã-Bretanha da década de 1980:
Começava a surgir dentro do movimento das mulheres como um
todo uma ênfase na política da identidade. Em lugar de embarcar
na tarefa complexa, mas necessária, de identifcar as especifci-
dades de opressões particulares, entendendo suas interconexões
com outras formas de opressão, e construir uma política de soli-
dariedade, algumas mulheres começavam a diferenciar essas es-
pecifcidades em hierarquias de opressão. Supunha-se que o mero
ato de nomear-se como membro de um grupo oprimido confe-
risse autoridade moral. Opressões múltiplas passaram a ser vistas
não em termos de seus padrões de articulação, mas como ele-
mentos separados que podiam ser adicionados de maneira line-
ar, de tal modo que, quanto mais opressões uma mulher pudesse
listar, maior sua reivindicação a ocupar uma posição moral mais
elevada. Afrmações sobre a autenticidade da experiência pessoal
podiam ser apresentadas como se fossem uma diretriz não pro-
blemática para o entendimento de processos de subordinação e
dominação. Declarações farisaicas de correção política passaram
a substituir a análise política. (brah, 2006: 348-9)
Os debates e impasses políticos acerca da articulação entre igualdades e
diferenças, bem como a multiplicidade de categorias observada nos locais
de sociabilidade e lazer e na composição do sujeito político do movimento
e as diferentes formas de manejo das convenções sociais estigmatizantes
parecem, no entanto, permitir a aproximação entre a refexão aqui reali-
zada e algumas das análises elaboradas por teóricas feministas que se de-
pararam com processos semelhantes em outros contextos (butler, 2003;
brah, 2006; haraway, 2004). Confrontadas pela crítica levada a cabo por
negras, lésbicas e mulheres de diferentes origens étnicas e nacionais à uni-
versalidade do sujeito “a mulher” e à noção de uma mesma “opressão” com-
partilhada, teóricas feministas têm gerado refexões que talvez possam se
somar a esta nossa, no que concerne aos desafos colocados para ativistas,
técnicos, gestores e pesquisadores no que diz respeito ao combate ao hete-
rossexismo.
Uma primeira contribuição segue no sentido de desnaturalizar a con-
cepção de que os sujeitos políticos apenas descrevem essências previamen-
te dadas e de reconhecer que todo e qualquer sujeito político é construído
a partir de contextos específcos e de exclusões (butler, 2003, 1998; brah,
2006; haraway, 2004). Não se trata de refutar a utilização de categorias
que façam referência ao sujeito do movimento, visto que são necessárias à
ação política: manifestações, esforços legislativos ou por acesso a políticas
públicas precisam fazer reivindicações em nome de sujeitos determinados.
Trata-se, ao contrário, de manter um olhar atento às possibilidade e limites
que se colocam no processo cotidiano de trazer dado sujeito político e suas
demandas ao espaço público. Para tanto, é necessário reconhecer o caráter
estratégico de possíveis essencializações no interior de processos políticos,
bem como as exclusões e apagamentos a partir dos quais se constituem os
sujeitos coletivos enunciados. Desse modo, as categorias que fazem referên-
cia ao sujeito político do movimento poderiam ser tomados como termos
sempre abertos a novas inclusões, acolhendo novas e diferentes demandas
e questionando arranjos hierárquicos.
Uma segunda contribuição, por sua vez, ressalta a necessidade de com-
preender como se articulam diferentes eixos de diferenciação social e fon-
tes de desigualdades, reconhecendo que o poder e as desigualdades não se
articulam necessariamente por meio de operações de soma (brah: 2006,
haraway: 2004). Isso implica pensar que comunidades ou segmentos não
são homogêneos, mas atravessados por várias outras “comunidades”. Implica
ainda que diferenças não sejam concebidas de modo essencial e estanque.
Não se trata de contestar o sentimento de fraternidade ou a necessidade po-
lítica de agrupar ou visibilizar sujeitos que se pensam como gays, lésbicas,
bissexuais, travestis ou transexuais. Trata-se, antes, de enfatizar as essenciali-
zações e simplifcações estratégicas que implicam na enunciação política de
uma comunidade. Toda e qualquer fraternidade enunciada pode, a qualquer
momento e a partir de necessidades igualmente legítimas para os que a deli-
mitam, ser reconstruída em termos de outros eixos de diferenciação.
Ao fnal desta refexão, a estratégia política que opera a partir da mul-
tiplicação e da soma de sujeitos e de opressões parece implicar riscos que
remetem tanto à fragmentação quanto ao enfraquecimento político das
ações em favor dos direitos sexuais e de sua compreensão como direitos
humanos. Reconhecer as motivações políticas que fazem falar numa comu-
nidade e nomeá-la de determinado modo, e as exclusões implicadas nesse
processo, bem como as intersecções entre diversos eixos de diferenciação
social, talvez seja um caminho para que sujeitos políticos e políticas públi-
124 Regina Facchini 125 Políticas para “lésbicas” e para “sapatões”: diversidade, diferenças e o enfrentamento ao heterossexismo
cas possam abranger um conjunto mais amplo de sujeitos e considerar as
variadas fontes de vulnerabilidade a que estão expostos.
O combate ao heterossexismo provavelmente seja mais efcaz se levar-
mos em conta a diversidade presente na comunidade representada pelo
sujeito político do movimento e o modo como o próprio heterossexismo
se constitui na intersecção com outras desigualdades sociais. Desse modo,
talvez se descortinem possibilidades de atuação que não façam com que as
diversas causas e lutas sejam hierarquizadas ou encasteladas nelas mesmas
ou que sujeitos políticos específcos sejam fragilizados pelo isolamento ou
por disputas internas ao sujeito político. Assim, talvez seja possível passar
da soma de sujeitos e opressões – que se faz acompanhar por uma “política
de identidade”, no movimento social, e pela “focalização da focalização”,
no campo das políticas públicas – a uma “política de solidariedade” e ao
enfrentamento de vulnerabilidades contextualizadas.
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Respostas do movimento glbt à homofobia e a agenda da segu-
rança pública
1
Silvia Ramos
2
Diferente de outros movimentos sociais, o movimento homossexual in-
corporou fortemente, a partir dos anos 1990, os temas da violência e da
segurança pública em sua plataforma. Neste artigo pretendo identifcar os
elementos que permitiram essa mudança de perspectiva a partir de uma
trajetória realizada em alguns anos. Indicarei aspectos centrais dos discur-
sos, demandas e práticas do movimento voltados para infuenciar as polí-
ticas e enfrentar a violência. Ao mesmo tempo em que situarei o ativismo
glbt na vanguarda dos movimentos sociais em relação a uma agenda para
a polícia e a segurança pública, procurarei identifcar o que parecem ser os
principais dilemas e desafos na década atual.
Saúde e segurança pública: diferentes mundos
Em 1999 acompanhei, na Subsecretaria de Segurança e Cidadania do Rio de
Janeiro, os primeiros esforços de organizações do movimento homossexual,
de lideranças do movimento negro, de ativistas ambientais e do movimento
de crianças e adolescentes para infuenciar políticas de segurança. Verif-
quei então um contraste extraordinário entre as difculdades de diálogo de
1 Parte dos argumentos deste artigo foi desenvolvida por mim e por Sergio Carrara em “A constituição
da problemática da violência contra homossexuais: a articulação entre ativismo e academia na elabora-
ção de políticas públicas”, Physis, Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 16(2):185-205, 2006.
2 Doutora em Ciências, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade
Candido Mendes.
128 Silvia Ramos 129 Respostas do movimento glbt à homofobia e a agenda da segurança pública
ativistas de movimentos sociais e autoridades policiais e as dinâmicas que
eu havia acompanhado, quinze anos antes, quando organizações da socie-
dade civil procuravam infuenciar as respostas governamentais no início da
epidemia de Aids.
Como se não pertencesse à mesma cidade ou ao mesmo país, o pano-
rama na segurança pública distinguia-se fortemente do cenário da saúde.
Do lado desta, autoridades e funcionários de secretarias e programas do
ministério, ainda que nos primeiros anos da democratização, isto é, na pri-
meira metade da década de 1980, pareciam considerar rotineiro receber,
dialogar – e freqüentemente confrontar-se – com atores sociais tão distin-
tos como lideranças homossexuais, feministas, hemofílicos, empresários,
dirigentes de organizações não-governamentais e jornalistas. Do lado da
segurança, mesmo que já estivéssemos no último ano da década de 1990,
encontravam-se gestores e policiais sem qualquer experiência ou memória
de diálogo com movimentos sociais organizados. Os ativistas, por sua vez,
não tinham uma agenda clara de reivindicações para a segurança pública.
A distância de comandantes da polícia militar e de delegados da polícia
civil em relação aos movimentos sociais era tão marcante que freqüente-
mente a primeira barreira era lingüística: palavras como “homossexual” ou
“negro” podiam ser tão chocantes na esfera da segurança que não eram
pronunciadas por desconhecimento sobre seu eventual caráter ofensivo e
sobre suas diferenças quanto aos termos de uso rotineiro nas polícias para
se referirem a estes grupos. A mera presença, no mesmo espaço físico – em
dependências da secretaria ou em batalhões de polícia – de representantes
do movimento gay e lésbico e, especialmente de travestis, constituía novi-
dade tão extravagante que o fato em si transformava-se em signo de uma
“nova era” na segurança (soares, 2000).
3
Também se verifcavam, ainda
que em menores proporções, difculdades de diálogo de gestores de segu-
rança com empresários, líderes comunitários e profssionais dos meios de
comunicação.
Do lado dos ativistas, predominava o desconhecimento sobre atribui-
ções, patentes hierárquicas, jargões e o cotidiano de batalhões e delegacias.
Para a maioria das lideranças sociais, aquelas experiências constituíam
a primeira visita a dependências policiais. Ali as barreiras eram também
3 Soares (2000:167-175) faz descrição pormenorizada da inauguração do “Disque Defesa Homossexual”
(ddh) na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, em julho de 1999, sobre as aulas proferidas
por lideranças do movimento homossexual na sede da Polícia Civil e no qg (Quartel General) da Polí-
cia Militar e sobre a visita de travestis ao 5
º
bpm (Batalhão de Polícia Militar), em abril de 2000.
lingüísticas,
4
mas não apenas. De fato, antes de formularem demandas e
um programa mínimo de trabalho conjunto em centros de referência que
seriam criados na Secretaria de Segurança, era necessário ultrapassar um
doloroso “inventário de cicatrizes”: lideranças do movimento homossexu-
al ou do movimento negro listavam, uma após outra, histórias passadas,
em geral terríveis, sobre o tratamento dispensado por policiais, como evi-
dências de que entre aqueles grupos o diálogo não seria possível. E, assim,
centros de referência, como o Centro de Referência contra Discriminações
a Homossexuais, o Centro de Referência contra o racismo, o Centro de re-
ferência de Proteção Ambiental, foram se construindo “passo a passo” e se
tornaram experiências marcantes para os militantes daqueles movimentos,
ainda que sua história tenha sido breve (ramos, 2002).
Em extremo contraste com o cenário encontrado em 1999, alguns anos
depois, em abril de 2007, presenciei a realização no Rio de Janeiro o I Semi-
nário Nacional de Segurança Pública e Combate à Homofobia. O encontro
reuniu cerca de 100 ativistas, 82 policiais civis e militares das 27 unidades da
Federação, 45 representantes de centros de referência de combate à homo-
fobia, 25 representantes de universidades e 30 representantes dos governos
federal, estaduais e municipais. O objetivo do encontro, segundo seus orga-
nizadores, foi “a troca de experiências que vêm sendo implementadas nos
estados e a construção coletiva de diretrizes para a criação do Plano Nacio-
nal de Segurança Pública para o Enfrentamento da Homofobia”. O seminá-
rio foi organizado em torno de cinco eixos temáticos, entre eles, formação
policial, experiências policiais e comunitárias de prevenção da homofobia,
modelos de investigação e registro de crimes, monitoramento, avaliação e
controle social de políticas de segurança contra a homofobia. O evento foi
organizado por duas ongs do movimento homossexual do Rio de Janeiro,
com o apoio institucional da abglt
5
e o fnanciamento de duas secretarias
do Ministério da Justiça, a Secretaria Especial de Direitos Humanos (sedh)
e a Secretaria Nacional de Segurança Pública (senasp).
A iniciativa surpreendeu pelo foco muito preciso nos temas da segu-
rança e da polícia, por seu método de preparação, que incluiu consultas
e refexões prévias sobre os tópicos que comporiam o “Plano Nacional de
Segurança Pública para o Enfrentamento da Homofobia” e pelo cuidado
com a abrangência e a representatividade, com ativistas e policiais selecio-
4 Como parte da população, muitos tinham o hábito de dirigir-se a policiais como “seu guarda”, expres-
são que agentes da lei deploram.
5 Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
130 Silvia Ramos 131 Respostas do movimento glbt à homofobia e a agenda da segurança pública
nados de todo o país. O encontro também foi pensado como um momento
de “vivência”, porque a maior parte dos ativistas teria a primeira experiên-
cia de diálogo e interação com policiais durante dois dias, e vice-versa. De
fato, houve cenas marcantes, por exemplo, quando um policial, delegado
de polícia civil, declarou que pela primeira vez dizia publicamente que era
gay. O impacto do encontro e sua potencial importância foi sublinhada por
lideranças do movimento e por gestores. Cláudio Nascimento, da abglt,
resumiu: “Fizemos história com esse seminário. Foi muito rico saber da
existência de diversas experiências de ativistas e policiais no combate à
homofobia de que sequer tínhamos conhecimento”. Ricardo Balestreri, Se-
cretário da Secretaria Nacional de Segurança Pública, considerou que “o
evento vai entrar para a história da Segurança Pública e dos Direitos Hu-
manos no Brasil como o ponto de partida para a construção de políticas
públicas de combate à homofobia [...] vai contribuir para a mudança da
cultura policial [...] e será um marco do processo civilizatório brasileiro”
(www.arco-iris.org.br).
O tema da violência e o movimento homossexual
Desde os anos 1980, a violência contra homossexuais tem representado um
tema central para o ativismo e, progressivamente, também para governos
e para a mídia. A denúncia de agressões e discriminações motivadas pela
orientação sexual ou sexualidade passou a ser marco importante para a
trajetória do movimento homossexual brasileiro, que divulgou a expressão
“homofobia” para caracterizar esse tipo de violência.
De fato, o tema da violência foi estruturante para a constituição de ou-
tras matrizes de identidades coletivas no Brasil, como ocorreu com o movi-
mento de mulheres no fnal dos anos 70, que elegeu “quem ama não mata”
como uma de suas bandeiras e defniu a criação das Delegacias Especiali-
zadas de Atendimento à Mulher como uma de suas primeiras demandas.
6

Processo semelhante ocorreu com o movimento negro, que estabeleceu o
racismo e sua criminalização
7
como a principal trincheira de luta nos anos
80 e 90. Nos três casos, as “violências específcas” – violência de gênero,
racismo e homofobia – aparecem como âncoras a partir das quais outras
6 Para uma periodização do movimento de mulheres no Brasil, ver Schumaher & BraziL (2000).
7 Essa estratégia levou ao desenvolvimento de programas de atendimento de casos de violência racial
por meio dos programas do tipo Disque-racismo em várias cidades brasileiras. Para uma discussão das
legislações anti-racismo no Brasil, ver Telles (2003).
reivindicações se estruturam e, sobretudo, se legitimam.
Entre as mais importantes fontes de informação sobre violência contra
homossexuais, destacam-se três iniciativas distintas, que analisarei a seguir.
Os dossiês sobre assassinatos de homossexuais pelo Grupo Gay da Bahia,
a partir da década de 1980, a criação do banco de dados do Disque Defesa
Homossexual em 1999, no Rio de Janeiro, a investigação sobre processos
penais sobre assassinatos de homossexuais, também no Rio de Janeiro e,
fnalmente, os surveys de vitimização realizados nas paradas do orgulho
glbt, a partir de 2003.
Representações da violência: os dossiês do Grupo Gay da Bahia
Criado em 1980, o Grupo Gay da Bahia antecipou o modelo que seria ado-
tado pela maioria das organizações homossexuais na década seguinte. Jun-
tamente com o grupo Triângulo Rosa, do Rio de Janeiro, o ggb buscava
uma militância mais pragmática, voltada para a conquista de direitos e a
denúncia de violências, e já preocupada com o grau de institucionalidade
dos grupos (câmara 2002, facchini 2005). No caso do ggb, isto signi-
fcou a providência de registro legal e a busca do reconhecimento como
instituição de utilidade pública. Segundo seu fundador, o antropólogo e
ativista Luiz Mott, desde 1980, o ggb passou a arquivar informações sobre
violência contra homossexuais, tendo reunido o registro documentado de
assassinatos “onde explícita ou indiretamente, o motivo da morte foi a con-
dição homossexual da vítima”
8
(mott, 2002). Esses registros, formados na
sua grande maioria por notícias publicadas em jornais e secundariamente
por comunicação de militantes
9
, foram divulgados por meio de dossiês que
se tornaram célebres e permitiram conhecer e denunciar crimes violentos
contra homossexuais, principalmente a partir dos anos 1990. Em grande
medida, as denúncias sistemáticas de assassinatos de homossexuais estimu-
ladas pelo ggb ajudaram a romper o silêncio sobre o assunto e permitiram
que, em 1988, quando do assassinato do diretor teatral Luiz Antônio Mar-
tinez Correa, no Rio de Janeiro, os grandes jornais passassem a utilizar a
expressão “assassinatos de homossexuais” para problematizar e reconhecer
a existência de um “tipo de crime” que, até então tendia a ser noticiado
8 O relatório “Assassinatos de homossexuais no Brasil: 2005”, publicado no site do ggb, somava 2511
vítimas entre 1980 e 2005. (www.ggb.org.br).
9 Em 2001, dos 132 assassinatos registrados pelo ggb, 76% tinham tido como fonte os jornais; 15% a
internet e 9% informações orais, televisão ou cartas enviadas à entidade. (mott, 2002, p. 56).
132 Silvia Ramos 133 Respostas do movimento glbt à homofobia e a agenda da segurança pública
como episódios isolados (lacerda, 2006). Na ocasião, começam também
a aparecer nas páginas dos jornais as vozes de ativistas de grupos homos-
sexuais, como autores de interpretações sobre a “natureza específca” dessa
violência. Ao mesmo tempo, artistas e “personalidades” identifcadas como
porta-vozes dos homossexuais aparecem denunciando que “o preconceito
contra homossexuais” explicaria o pouco interesse na investigação dos ca-
sos pela polícia. Lacerda (2006), em seu estudo baseado em jornais cariocas
de 1980 a 2000, observa que em 1992 aparece pela primeira vez a expressão
“homofobia”, no jornal O Globo, para designar “horror ao homossexual”
(p. 107). Na segunda metade dos anos 90, a divulgação de “estatísticas”, pelo
ggb e pelo Grupo Atobá, fundado em 1985, no Rio de Janeiro, torna-se
freqüente e vem acompanhando sistematicamente a divulgação de novos
casos de assassinatos.
A preocupação com a elaboração de um arquivo e a divulgação de re-
latórios
10
contabilizando casos de assassinatos de homossexuais contribuiu
fortemente para estabelecer uma das prioridades da agenda do movimento,
a denúncia da “violência contra homossexuais” e da “homofobia”. Contudo,
a abordagem predominantemente sensacionalista da imprensa, especial-
mente durante a década de 1980 e em parte da década de 1990, favoreceu
uma visão parcial da vitimização de homossexuais que muitas vezes tendia
a “confrmar” – até mesmo para o próprio movimento – representações
vigentes sobre a homossexualidade, nas quais a tragédia era, de alguma
forma, efeito de fraquezas morais e de escolhas das próprias vítimas. Es-
sas representações eram particularmente fortes no caso das vítimas serem
travestis e no caso de assassinatos de homossexuais de classe média por
garotos de programa.
A ênfase na violência letal, a exposição de cadáveres e a reiteração da
tragédia consumada pode ter contribuído para afastar, até o fnal dos anos
1990, o ativismo homossexual de uma postura mais propositiva sobre a te-
mática da violência.
11
Diferentemente do movimento de mulheres – que nos
fnal dos 70 e na década de 80 elaborou uma agenda com a demanda pela
criação de delegacias policiais especializadas, entre outras reivindicações –,
o movimento homossexual permaneceu até fns dos anos 90 na perspectiva
da denúncia, afrmando uma representação dos homossexuais como “víti-
mas” de uma violência que não podiam evitar. Também é notável o contras-
10 Entre eles Mott (1999), Mott & Cerqueira (2001) e Mott et al. (2002).
11 Uma reação defensiva da militância pode ter sido ainda mais acentuada pelo fato de o ativismo se
constituir predominantemente por segmentos médios e pelo fato de travestis e transexuais aparecerem
tardiamente como atores políticos e sociais no movimento.
te entre a postura predominantemente passiva no campo de propostas para a
segurança pública e justiça e o vigor dos discursos, demandas e práticas que
o ativismo homossexual produziu na área da saúde. A criatividade, a irreve-
rência (“transe numa boa”
12
), as reivindicações e principalmente a focaliza-
ção em certos aspectos do combate à epidemia de Aids (por exemplo, acesso
público, gratuito e universal a medicamentos), além da participação direta
de ativistas em ações de prevenção, foram responsáveis em grande medida
pelos rumos das respostas brasileiras à epidemia de Aids (galvão, 2000).
O Disque Defesa Homossexual e novas relações entre ativismo e acade-
mia na formulação de políticas públicas
É no panorama do fnal dos anos 90, já no contexto de multiplicação de
ongs e redes, na presença das paradas do orgulho, da internet e de um mer-
cado que crescia, que acontece a primeira experiência de política pública na
esfera da segurança, o Disque Defesa Homossexual (ddh). Criado em 1999,
na Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, o ddh foi pensado como
um programa de defesa (e não apenas de denúncia). O projeto confgu-
rou uma experiência de estabelecimento de parcerias diretas entre polícia e
grupos de ativistas, no sentido de fazer agir com rapidez tanto dispositivos
de prevenção de crimes (acionando a força policial em locais e situações
de incidência de violência), como de atendimento às vítimas dos crimes
já ocorridos (mobilizando a polícia para investigar agressores e golpistas e
articulando redes de apoio psicológico e jurídico por parte das ongs).
A experiência foi desenvolvida no contexto de um conjunto de pro-
gramas na área de segurança pública que preconizava a democratização e
modernização do aparelho policial, prevendo intensa participação de or-
ganizações da sociedade civil.
13
A criação do ddh foi baseada em articu-
lações que envolveram diversos atores: a secretaria de Segurança, todas as
entidades do movimento homossexual do Rio de Janeiro, o iser (Instituto
de Estudos da Religião), uma ong voltada para a pesquisa, um mandato
12 Um dos primeiros e mais célebres cartazes da campanha de prevenção de hiv/Aids, divulgado
pelo gapa de São Paulo, foi criado pelo artista plástico Darcy Penteado, um dos fundadores do jornal
O Lampião.
13 Uma equipe formada por pessoas oriundas de universidades e de ongs desenvolveu programas a
partir da sub secretaria de Pesquisa e Cidadania da secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro,
entre janeiro de 1999 e março de 2000. Entre os programas estavam a criação da Ouvidoria de Polícia,
o Programa de Defesa da Mulher e os Centros de Referência das Minorias Sexuais, de Combate à Dis-
criminação Racial e de Defesa Ambiental.
134 Silvia Ramos 135 Respostas do movimento glbt à homofobia e a agenda da segurança pública
parlamentar (de Carlos Minc, deputado estadual pelo pt) e dois pesquisa-
dores do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (martins, 2001). Os acontecimentos defagradores das demandas
do movimento homossexual à secretaria de Segurança, que posteriormente
motivaram a idealização do ddh, foram sucessivas agressões sofridas por
jovens gays numa área de bares e boates gls em Botafogo, bairro da Zona Sul
do Rio de Janeiro, e o despreparo da polícia para atender essas ocorrências.
Um dos diferenciais da criação do ddh em relação a experiências ante-
riores de denúncia à violência contra homossexuais foi a presença, como
atores políticos da articulação, de pesquisadores ligados a uma ong e a uma
universidade. O fato foi decisivo para que o programa fosse concebido não
só como um serviço de atendimento a vítimas, mas também como um cen-
tro de produção de dados sobre violência.
14
Uma outra diferença da expe-
riência é que, até então, os conhecimentos sobre vitimização de homosse-
xuais e a caracterização da violência homofóbica no Brasil eram baseados
em notícias publicadas em jornais. Os dados gerados pelo ddh partiam dos
relatos das próprias vítimas e, portanto, passaram a problematizar varia-
das situações de agressão e discriminação associadas à homofobia e não só
os assassinatos
15
. A análise dos primeiros quinhentos casos atendidos pelo
programa revelou a intensidade de dinâmicas cotidianas e silenciosas de
homofobia. A maioria das denúncias era constituída de casos de ofensas,
ameaças, extorsões, agressões físicas, e uma grande quantidade de queixas
de “discriminações” (na escola, no trabalho, no comércio e também na fa-
mília e na vizinhança), além dos confitos de natureza interativa entre par-
ceiros. Nada menos de que um terço dos casos relatados ao ddh se davam
no âmbito da casa ou da vizinhança, indicando a intensidade de crimes não
espetaculares e não letais, gerados e vividos em escala micro-societária, na
esfera da família e de conhecidos. Uma criminalidade, em geral, sem fns
lucrativos, em que vítimas e agressores partilham as mesmas redes sociais
(ramos, 2001). O estudo propôs uma matriz de análise dos casos classif-
cando-os como: 1) crimes interativos (agressões e discriminações ocorridas
no âmbito da casa, da vizinhança e entre parceiros, das quais as lésbicas – e
não só gays e travestis – apareciam como vítimas em proporções expressi-
vas); 2) crimes com fns de lucro (chantagens, extorsões, assaltos e golpes
14 No próprio período de treinamento de voluntários um banco de dados foi estruturado e os casos
comunicados ao ddh através de uma linha telefônica foram monitorados a cada mês.
15 A partir de 1999, pela divulgação dos dados do ddh, jornais do Rio de Janeiro passaram a cobrir com
mais frequência notícias de violência não-letal contra gays e travestis (lacerda, 2006, p. 43).
do tipo Boa Noite Cinderela
16
, em geral praticadas contra gays e travestis);
3) crimes de ódio (espancamentos, graves ameaças à vida e denúncias de
assassinatos), na maioria dos casos contra travestis.
A experiência do ddh inspirou diversas outras iniciativas apoiadas por
governos de estados e prefeituras do país. No Rio de Janeiro, o programa foi
parcialmente descontinuado após março de 2000, quando a equipe que co-
ordenava os Centros de Referência deixou a secretaria de Segurança (mar-
tins, 2001), interrompendo-se a sistemática de coleta e análise dos dados.
Assassinatos de homossexuais no Rio de Janeiro:
uma pesquisa sobre a Justiça
Partindo de 200 notícias levantadas a partir do dossiê de recortes de jor-
nal mantido pelo grupo 28 de Junho, do Rio de Janeiro, Carrara & Vianna
(2001) localizaram 105 registros de ocorrência policial sobre homicídios de
homossexuais, que resultaram em 80 processos na Justiça. Desses, anali-
saram 57. Os resultados dessa investigação foram muito importantes por-
que – embora não conclusivos nem estatisticamente representativos – pela
primeira vez foi possível examinar a hipótese de que predomina a lógica
da “impunidade” no sistema de justiça criminal quando as vítimas são ho-
mossexuais. Uma das surpresas foi a constatação de que os crimes letais
resultantes de “latrocínio” (em geral gays de classe média vítimas de garotos
de programa dentro de suas residências) constituíam um universo especial,
devido a caracterizações estigmatizantes da vítima por agentes da polícia e
da justiça, por um lado, e pela taxa surpreendentemente alta de condena-
ções nos casos em que os réus tinham sido indiciados.
A pesquisa concluiu que a homofobia se articula de forma mais comple-
xa e sutil e afeta as representações relativas à homossexualidade mantidas
por policiais, promotores, juízes e advogados, sem se materializar necessa-
riamente em absolvições ou sentenças tolerantes, mas sim no uso de clichês
sobre a homossexualidade e as dinâmicas das relações no mundo homos-
sexual. Além de reiterarem a idéia de que as vítimas contribuíram para sua
morte, com uma “vida de risco” ou como reféns de uma “patologia”, tais
representações determinam os rumos das investigações e etapas dos proces-
sos mesmo nos casos em que há condenação (carrara & vianna, 2001).
16 Sedação da vítima com soníferos e outras substâncias narcóticas com o objetivo de roubar dinheiro
e bens.
136 Silvia Ramos 137 Respostas do movimento glbt à homofobia e a agenda da segurança pública
O trabalho também concluiu que a violência que atinge homossexuais é
mais heterogênea e complexa do que o modelo clássico do crime de ódio,
marcando certa diferença em relação a abordagens anteriores, mais direta-
mente vinculadas ao ativismo e a suas estratégias.
As pesquisas nas paradas do orgulho glbt
Em 2003, um conjunto de centros de pesquisa e instituições universitárias
17

iniciou um ciclo de pesquisas nas paradas do orgulho glbt em algumas
cidades brasileiras. Abordando questões variáveis sobre sociabilidade, afe-
tividade, sexualidade, política e direitos e questões fxas sobre violência e
discriminação, a principal característica do projeto é a articulação entre
centros de pesquisa e grupos de ativistas
18
.
O projeto parte do reconhecimento de que as paradas são, além de fe-
nômeno social e político dos mais expressivos no Brasil urbano, eventos
que reúnem gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais que, de outro
modo, difcilmente poderiam ser alcançados por uma investigação socioló-
gica, oferecendo oportunidade ímpar para que sejam melhor conhecidos.
Dadas, sobretudo, as segmentações geracionais, de classe e identitárias que
marcam essa população, ela não poderia ser abordada em sua extrema di-
versidade em qualquer outro espaço social (seja de lazer, de trabalho ou
mesmo de ativismo político). Além disso, as paradas se organizam justa-
mente em torno de uma espécie de denominador comum que agrega todo
esse universo, a luta contra a discriminação e o preconceito que atingem
diferentes “minorias sexuais”. Nesse sentido, a pesquisa nas paradas se ins-
creve dentro dos marcos da pesquisa aplicada e representa uma nova expe-
riência de articulação entre ativismo e academia
19
.
Em relação aos temas da violência, o projeto utiliza uma estratégia de-
nominada “pesquisa de vitimização”, isto é, a mensuração da incidência de
agressões e discriminações em toda a população entrevistada. Partindo ini-
17 Estão envolvidos no projeto o Centro Latino Americano de Sexualidade e Direitos Humanos (clam),
do Instituto de Medicina Social da uerj e o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (cesec) da
Universidade Mendes. Na medida em que a pesquisa se realiza em diferentes cidades, outros centros
vão sendo agregados à parceira..
18 No Rio de Janeiro (2003 e 2004), a pesquisa foi realizada com o Grupo Arco-Íris; em Porto Alegre
(2004) com o Nuances e, em São Paulo (2005), com a Associação da Parada do Orgulho glbt de São
Paulo. Em 2006, em Recife, com o grupo Papai, da Universidade Federal de Pernambuco.
19 Os pesquisadores de campo, em todas as experiências, são voluntários recrutados nas universidades e
no movimento homossexual, treinados por pesquisadores e militantes dos grupos envolvidos.
cialmente das indicações obtidas nos registros ao ddh e posteriormente do
surgimento de demandas a cada rodada de entrevistas, a pesquisa na para-
da passou a trabalhar com uma categorização de homofobia que divide as
experiências de violência em duas grandes categorias: as “discriminações”
e as “agressões”. Entre as discriminações são mensuradas as experiências
de “marginalização, exclusão ou mal atendimento” nas situações de traba-
lho; comércio ou lazer; escola ou faculdade; serviços de saúde; doação de
sangue; delegacias de polícia; contexto religioso; contexto familiar; relações
com amigos ou vizinhos. Entre as agressões são mensuradas experiências
que poderiam ser mais facilmente criminalizadas, nos termos do Código
Penal vigente: agressões físicas; agressões verbais ou ameaça de agressão
física; violência sexual; chantagens, extorsões e golpes como o “Boa Noite
Cinderela”.
Os resultados caracterizam a homofobia como sendo altamente variável
segundo marcadores de gênero, identidade sexual e idade (e secundaria-
mente por escolaridade e cor). As pesquisas vêm confrmando impressões
iniciais obtidas na experiência do ddh de que violência e homossexuali-
dade mantêm relações mais complexas e contraditórias do que as imagens
veiculadas pela mídia e pelo ativismo dos anos 80 faziam supor (carrara,
ramos & caetano, 2004; carrara & ramos, 2005; carrara et al., 2006).
Os resultados gerais que apontam que a incidência de discriminação e
de agressão é muito consistente nos surveys do Rio, de Porto Alegre e de
São Paulo. Surpreende que algumas experiências homofóbicas, como, por
exemplo, sofrer agressão verbal, são relatadas por mais de 60% de entre-
vistados, independentemente de gênero, idade, cor ou orientação homos-
sexual. Outro resultado que chama a atenção e que se coloca em contraste
marcante com o “panorama da visibilidade massiva” é a proporção muitís-
simo reduzida de denúncias comunicadas aos órgãos públicos (uma parce-
la próxima a 10% relata ter feito registros na polícia. Denúncias à imprensa
e a ongs ocorrem em proporções ainda menores, abaixo de 5%).
Está claro o descompasso entre a alta incidência de vivências homofó-
bicas por parte expressiva da população entrevistada (o que produz indi-
cativos consistentes acerca da alta incidência no conjunto da comunida-
de glbt, considerados os resultados reiterados nas diversas rodadas) e as
ainda tímidas demandas por políticas de segurança e justiça voltadas para
coibi-las.
138 Silvia Ramos 139 Respostas do movimento glbt à homofobia e a agenda da segurança pública
Brasil sem Homofobia
Segundo Vianna e Lacerda (2004), “o reconhecimento da especifcidade
e, ao mesmo tempo, da diversidade de formas de violência que atingem
homossexuais” fundamenta a criação pelo Governo Federal do “Brasil Sem
Homofobia: Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra
glbt e de Promoção da Cidadania Homossexual”, lançado em maio de
2004.
20
Segundo as autoras, “o programa foi elaborado por uma comissão
do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e pelo Ministério da
Saúde, com a participação de vários ativistas e organizações militantes”,
como a abglt. Em seus 10 itens, o programa prevê um conjunto bastante
amplo de ações, com destaque para a política para mulheres lésbicas e a ar-
ticulação do combate ao racismo e à homofobia. Entre as ações, destacam-
se: (i) as que visam capacitar o Estado, especialmente instituições escolares,
policiais, judiciais, de saúde e de fscalização do trabalho, a atuar de modo
não discriminatório, seja através da mudança de suas práticas, seja através
da criação de novos dispositivos, como ddhs e centros de referência nas
secretarias estaduais de segurança pública, especialmente desenhados para
coibir a violência e a discriminação; (ii) o incentivo à participação de lide-
ranças do movimento nos diferentes conselhos e mecanismos de controle
social do governo federal; (iii) a produção de conhecimento sobre violência
e discriminação homofóbicas e sobre as condições de saúde de gays, lés-
bicas e transgêneros; (iv) e, fnalmente, o apoio à iniciativas brasileiras no
plano internacional no sentido do reconhecimento e proteção dos direitos
glbts e à criação de uma Convenção Interamericana de Direitos Sexuais e
Reprodutivos.
Algumas das diretrizes do Programa têm sido executadas, estreitan-
do ainda mais a articulação entre Estado e sociedade civil. Em meados de
2005, a Secretaria Geral da Presidência da República lançou edital aberto
a instituições públicas ou não-governamentais para seleção de projetos de
prevenção e combate à homofobia, através da prestação de assessoria jurí-
dica e psico-social às vítimas, da orientação e encaminhamento de denún-
cias, da capacitação em direitos humanos e da mediação e conciliação de
confitos. No fnal de 2005, uma das instituições selecionadas nesse concur-
so – o Estruturação, Grupo de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros de
20 Brasil Sem Homofobia: Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra gltb e Promo-
ção da Cidadania Homossexual. Brasília: Ministério da Saúde, 2004 www.mj.gov.br/sedh/ct/004_1_3.pdf
Brasília –, assinou convênio com a Secretaria Especial de Direitos Huma-
nos do Governo Federal, para criação de um Centro de Referência lgbt,
para prestação de serviços às vítimas de discriminação. Também em 2005,
o Ministério da Educação lançou edital público para seleção de projetos de
capacitação de profssionais de educação em temas relativos à orientação
sexual e identidade de gênero. Dos 84 projetos apresentados no prazo, 36
eram liderados por organizações não-governamentais, sobretudo grupos
glbt, 24 por órgãos governamentais (prefeituras, secretarias municipais e
estaduais de educação) e 6 por universidades. Desses projetos, 48 foram
recomendados e 15 selecionados. Entre os selecionados, 12 foram propostos
por organizações não-governamentais, dos quais 7 de grupos glbt, 2 por
universidades e apenas 1 por um órgão governamental (secretaria muni-
cipal de educação). Como se vê, a tendência do Ministério é apoiar prin-
cipalmente projetos propostos por grupos militantes e organizações não-
governamentais.
Homofobia e políticas públicas: perspectivas para a década atual
O movimento homossexual tem pela frente um dilema político que exigi-
rá cuidados. Se, por um lado, a representação coletiva dos homossexuais
como “vítimas” da homofobia encontra suporte nas pesquisas sobre violên-
cia, também é fato que as experiências são fortemente matizadas por sexo,
identidade sexual, idade, classe e cor. Para a maior parte das discriminações
e agressões, travestis e transexuais encontram-se em um extremo da escala
de vitimização, e bissexuais, lésbicas e gays jovens no outro. Além disso, um
contingente estatisticamente importante da comunidade não refere qual-
quer experiência de vitimização (entre 30% a 40% dos entrevistados nas
diversas paradas).
Comparativamente a outros movimentos de identidade (movimento de
mulheres e movimento negro), o movimento homossexual foi historica-
mente lento na elaboração de demandas de políticas públicas integradas
para responder aos fenômenos da homofobia. Fixou-se durante muito tem-
po em um modelo estereotipado de “violência contra homossexuais” (os
assassinatos) que, ao fnal, correspondia apenas a uma parte das diversas
dinâmicas cotidianas de violência sofridas por gays, lésbicas, bissexuais
e transgêneros. Nesse sentido, o discurso do ativismo sobre “homofobia”
produzia impacto reduzido não só junto à comunidade homossexual, mas
140 Silvia Ramos 141 Respostas do movimento glbt à homofobia e a agenda da segurança pública
também junto aos governos e à mídia.
As experiências do tipo do ddh e as pesquisas desenvolvidas a partir
da década atual passaram a demonstrar que, em contraste com as dinâmi-
cas de violências de gênero e de racismo (que por ser mais homogêneas
permitem respostas focalizadas), a homofobia opera com muitas variáveis
e engloba fenômenos díspares, que vão desde discriminações na esfera do-
méstica a crimes com fns de lucro. Por essa razão, as estratégias de en-
frentamento desses fenômenos e os discursos produzidos pelo movimento
homossexual têm que reconhecer essa complexidade e mobilizar demandas
específcas para diferentes violências. Por exemplo, a experiência do ddh
demonstrou que para responder às chantagens, extorsões, golpes tipo Boa
Noite Cinderela e latrocínios motivados pela sexualidade é necessário: a)
incremento sistemático das denúncias à polícia; b) investigação policial,
prisão de criminosos e de quadrilhas de golpistas, inclusive as formadas
por policiais e ex-policiais; c) divulgação de “casos exemplares” bem suce-
didos na imprensa; d) campanhas de esclarecimento lideradas pelo próprio
movimento glbt voltadas para a comunidade; e) monitoramento dos re-
sultados junto às secretarias de Segurança. Por outro lado, as respostas para
as dinâmicas de discriminação na esfera da família e círculos de amizade,
demandam, não só campanhas específcas de informação e mobilização,
mas atendimento individual às vítimas, por meio de uma rede de prote-
ção, nos moldes da experiência do movimento de mulheres em relação à
violência de gênero. Os altos índices de homofobia registrados nas escolas,
por exemplo, indicam claramente a necessidade de criação de programas
especiais envolvendo autoridades educacionais, professores e alunos. As
violências conjugais, especialmente graves e invisíveis entre lésbicas, são
temas que o próprio movimento glbt tem que enfrentar, levando em conta
as especifcidades das diversas identidades sexuais.
Um outro desafo são as representações “concorrentes” com a idéia de
que a homofobia é constitutiva da experiência homossexual. As imagens
ligadas ao orgulho e à afrmação – e, no extremo, à beleza, à alegria e ao
consumo – são capitaneadas pela mídia e pelas iniciativas de mercado e
disputam a hegemonia das representações da homossexualidade, sendo
possível observar sua convivência relativamente pacífca, com as represen-
tações ativistas, até agora, nas celebrações das paradas do orgulho (ramos,
2005). Nesse sentido, tudo indica que será necessário, nos próximos anos,
um esforço ainda maior de incorporação de organizações de travestis e
transexuais dentro do movimento glbt, na medida em que são esses gru-
pos os que vivem as experiências mais críticas de violência e que, portanto,
devem exercer um papel decisivo na elaboração de demandas de políticas e
na participação direta em práticas de prevenção, como ocorreu no processo
de respostas à epidemia de Aids.
Embora seja difícil prever os desdobramentos futuros do Plano Nacional
de Segurança Pública estabelecido no Seminário de 2007, é possível com-
preender que o processo de construção dessa agenda na área da segurança
deu-se por algumas razões identifcáveis: em primeiro lugar, as lideranças
da abglt parecem ter acumulado grande experiência durante o proces-
so de elaboração do Brasil sem Homofobia e a utilizaram na criação do
Plano de Segurança Pública, como um desdobramento do programa mais
amplo. Em 2008, na Conferência Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis e Transexuais, realizada em Brasília, e durante todo o processo de
sua preparação, essa experiência pareceu ter sido a base que consolidou o
processo.
Em particular em relação ao tema da segurança pública e das relações
com a polícia, é provável que lideranças do movimento tenham identifca-
do o caráter emblemático de enfrentar a homofobia “começando pela polí-
cia”. Por considerarem que será necessário investir esforços na capacitação
de instituições escolares, judiciais, de saúde, de fscalização do trabalho e
outras, optaram por cruzar a “fronteira” da mais resistente das instituições
do Estado em relação aos temas da diversidade sexual.
Não parece restar dúvida de que as experiências com a segurança pú-
blica iniciadas no Rio de Janeiro, em 1999, a despeito de parecerem perdi-
das ao longo do tempo, serviram omo ponto de apoio para o processo de
criação da agenda contida no Plano Nacional de Segurança. O encontro
do Rio foi liderado por duas organizações que participaram diretamente
da criação do Centro de Referência contra a Homofobia e do ddh. Chama
a atenção o fato de programas atuais de enfrentamento da homofobia em
diversos estados serem nomeados “centros de referência”, tal como a expe-
riência inicial no Rio.
É talvez possível inferir que as trajetórias de organizações de movimen-
tos sociais no campo da segurança pública desenham movimentos não-
lineares, em que o acúmulo não se dá pela simples soma de experiências. O
seminário de abril de 2007 não signifca que o “movimento homossexual”
constituiu uma agenda para a segurança, mas que seu setor mais organiza-
do, mais “onguizado”, para usar a expressão de Álvares (2000), defniu “de-
142 Silvia Ramos 143 Respostas do movimento glbt à homofobia e a agenda da segurança pública
mandas”, está construindo “discursos” e começa a desenvolver “práticas”.
O maior desafo em relação às propostas contra a homofobia continua
sendo a capacidade de conexão das ongs com outros setores vitais do mo-
vimento: lideranças individuais, mídia e comércio gls e redes de sociabili-
dade de cada segmento glbt, especialmente travestis e transexuais.
A bandeira da “criminalização da homofobia” segue em marcha acele-
rada como tema de mobilização das paradas e articula-se como lobby no
Congresso. Traz os riscos de enfatizar a vitimização como metáfora da ex-
periência de “ser gay”, “ser lésbica” e de sugerir uma “regulação da diversi-
dade sexual”.
Além deste, não está afastado o risco de o movimento glbt enveredar
pela perspectiva punitiva (e encarceradora, caso opte por demandar como
regra a “pena de prisão” para autores de homofobia), tal como os grupos
organizados do movimento de mulheres e do movimento negro. Para o
movimento glbt, se isto ocorrer, expressará, eu creio, contribuição pouco
criativa de um setor da sociedade civil que tem buscado caminhos originais
para construir demandas, discursos e práticas que lhe são próprias.
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145 Sexualidades minoritárias e educação: novas políticas?
Sexualidades minoritárias e educação: novas políticas?
Guacira Lopes Louro
1
O título desta mesa se anuncia como questão. E isso permite que se inter-
prete este encontro como um espaço que pode incitar dúvidas, incertezas.
Aqui se interroga sobre a possibilidade de novas políticas para o par forma-
do pelos termos sexualidades minoritárias e educação. Mas, antes mesmo
desta interrogação, penso que se poderia questionar a própria conexão feita
entre os termos. O par ‘sexualidades minoritárias e educação’ é, efetiva-
mente, viável? Ou melhor, ele tem sido reconhecido como viável? Como
vem sendo construída a articulação entre esses termos?
Não me apresso a responder as questões. Não assumo também a pre-
tensão ou o propósito de fazer convergir refexões que cada um de vocês
pode desenvolver sobre tais questões, apenas me disponho a trazer algumas
idéias – quem sabe mais perguntas – buscando alimentar o debate. Para
começar, talvez fosse interessante expor algumas das ‘marcas’ que estes dois
termos têm assumido.
Numa interpretação mais imediata, a expressão ‘sexualidades minori-
tárias’ sinaliza para práticas e identidades sexuais tidas como de minorias.
Mas é fundamental reconhecer que minoritário, neste caso, não remete à
quantidade, e é, sim, indicativo do modo como um grupo dominante no-
meia aqueles que dele diferem. Trata-se, pois, de práticas e identidades se-
xuais que se diferenciam ou se afastam daquelas que são ditas normais. Seja
como for, associada à quantidade ou associada à normalidade, a expressão
sugere comparações, permite pensar que há sujeitos, práticas ou espaços
1 Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Professora do Programa de Pós-
Graduação em Educação da ufrgs.
146 Guacira Lopes Louro 147 Sexualidades minoritárias e educação: novas políticas?
que servem de referência ao estabelecimento deste caráter minoritário.
Neste encontro, não parece necessário gastar muito tempo para lembrar
que é a identidade masculina, branca, heterossexual de classe média que é
tomada como a identidade normal, legítima e não-problemática. Esta é a
identidade referência a partir da qual as demais são produzidas e nomeadas
como diferentes.
Mas talvez seja pertinente deixar claro que opero aqui com a noção de
diferença como uma atribuição, e não como um ‘dado’ que pré-existe nos
corpos e que deve ser, simplesmente, reconhecido. Entendo que a diferença
é, sempre, atribuída e nomeada no interior de uma determinada cultura.
Daí se segue que determinadas características podem ser valorizadas como
distintivas e decisivas para dividir e classifcar os sujeitos numa determina-
da sociedade e não terem o mesmo signifcado em outra sociedade.
Se, por um lado, é fato que, ao longo dos tempos, a maioria das socie-
dades vem estabelecendo a divisão masculino/feminino como uma divisão
primordial e relacionando-a ao corpo; por outro lado, será um engano
supor que o modo como pensamos o corpo e a forma como, a partir de
sua materialidade, nós, supostamente, ‘deduzimos’ as identidades de gê-
nero e sexuais seja algo generalizável para qualquer cultura, para qualquer
tempo e lugar. O que pretendo enfatizar é, portanto, o caráter cultural das
diferenças e, ainda, lembrar o quanto a nomeação da diferença se constitui,
ao mesmo tempo, na demarcação de uma fronteira. Como acentuam estu-
diosos tais como Kathryn Woodward e Tomaz Tadeu da Silva, no processo
de diferenciação são mobilizados recursos ou marcadores simbólicos, ma-
teriais e sociais. Muitas vezes esses recursos conseguem disfarçar ou escon-
der o caráter construído deste processo e, consequentemente, conseguem
ocultar as relações de poder nele implicadas. A diferença pode, então, apa-
recer como natural, como dada. Daí a importância de se pôr em questão a
pretensa ‘naturalidade’ das identidades de gênero e sexuais e de se acentuar
o caráter cultural da masculinidade, da feminilidade, da homossexualidade
ou da heterossexualidade.
Acompanhando Judith Butler, importante teórica feminista e queer, é
possível compreender sexo e gênero como efeitos das instituições, discur-
sos e práticas sociais, e não como suas causas. Nascemos numa sociedade
dividida, ‘generifcada’ (quer dizer, marcada pelos gêneros), e nos fazemos
mulheres ou homens num processo interminável, sempre incompleto, ins-
tável; nos fazemos mulheres e homens em meio às instituições, aos dis-
cursos e as práticas disponíveis em tal sociedade. Entre tantos outros, na
nossa cultura, a escola e a família foram constituídas, historicamente, como
espaços privilegiados e obrigatórios de formação dos indivíduos. Histori-
camente, tais instâncias foram produtoras de diferenças: de classe, de raça,
de sexo, de gênero. Por certo, muitas outras instâncias também assumiram,
ao longo do tempo, funções pedagógicas – as igrejas, a justiça, a medicina
e a mídia em suas múltiplas expressões. Seria ingênuo supor que os dis-
cursos destas diversas instâncias são homogêneos e convergentes. Eles se
pluralizaram, muito especialmente, nas últimas décadas. Disputas de várias
ordens aí se revelam e se constroem. Representações distintas e divergentes
de sujeitos e de práticas sexuais e de gênero circulam. Afrmar isso, ou seja,
assumir que há pluralidade de representações e de discursos, não signifca,
no entanto, supor que as diferenças tenham desaparecido ou que elas te-
nham sido niveladas. Essas tantas instâncias que poderiam ser chamadas
de pedagógicas, já que exercitam pedagogias de gênero e de sexualidade
(bem como exercitam outras pedagogias) continuam a produzir diferenças,
continuam a marcar e classifcar sujeitos e práticas. De modos novos, pro-
vavelmente, com outras nuances ou sutilezas, mas, ainda assim, nomeados
em meio a relações de poder.
As disputas por representação, os discursos divergentes devem ser sau-
dados. Eles, agora, não são mais produzidos apenas a partir dos espaços
historicamente autorizados, mas também pelos movimentos sociais e pelos
campos multidisciplinares constituído pelos Estudos feministas, os Estudos
Gays, os Estudos Lésbicos ou Queer. Ainda que nos embaralhemos com
a pluralidade das verdades (ditas e veiculadas por tão distintas instâncias
culturais e campos de saber) acho que esse ‘embaralhamento’ pode ou mes-
mo deve ser reconhecido como provocador, produtivo. Compartilho deste
movimento, tal como vocês. Temos de nos dar conta de que um encontro
como este, há alguns anos atrás, provavelmente não poderia ser realizado
num espaço tão legitimado como a Universidade Federal do Rio Grande
do Sul e também não poderia contar com o apoio de instituições ofciais da
saúde e ou da segurança pública.
Mas parece pertinente acentuar que, apesar dessa multiplicação e dispu-
ta de discursos, continuamos nos movendo, quase que invariavelmente, no
âmbito da heteronormatividade. E o que isso signifca?
Já observamos que a heterossexualidade não é natural, e sim que é, como
qualquer outra forma de sexualidade, construída e aprendida ao longo da
vida. Apesar disso se espera que todos sejam ou devam ser heterossexuais.
148 Guacira Lopes Louro 149 Sexualidades minoritárias e educação: novas políticas?
A heterossexualidade assumiu um caráter compulsório nas sociedades oci-
dentais. Este tipo de análise já foi realizada por vários teóricos e teóricas,
mas é possível dizer que foi, no âmbito dos estudos queer, que se radicali-
zou a crítica à centralidade da heterossexualidade.
Judith Butler falou-nos de normas regulatórias que regem as sociedades.
Tais normas supõem que um corpo, ao nascer, seja nomeado, sem hesita-
ção, como macho ou fêmea e, uma vez feita esta distinção, que este sujeito
assuma um dos dois gêneros – masculino ou feminino – e experimente o
desejo por alguém de sexo/gênero oposto.
Entendo que é este suposto alinhamento (entre sexo-gênero-sexualida-
de) que dá sustentação à heteronormatividade, ou seja, à produção e rei-
teração compulsória da norma heterossexual. Uma vez que se espera que
todos sejam (ou devam ser) heterossexuais, segue-se que as instituições e
os sistemas de saúde ou de educação, a justiça ou mesmo a mídia são cons-
truídos, basicamente, à imagem e semelhança desses sujeitos. Como todo
processo normativo, a heteronormatividade é onipresente. Ela é, também,
praticamente, invisível e, de certo modo, silenciosa. Ela é naturalizada. A
heteronormatividade só é reconhecida como um processo social, quer di-
zer, como algo que é fabricado, produzido e reiterado a partir da ação de
intelectuais ligados aos estudos de sexualidade, especialmente aos estudos
gays e lésbicos e aos estudos queer.
No âmbito desses estudos, constroem-se novas políticas de conhecimen-
to e há espaço para a problematização da norma heterossexual. Na teoriza-
ção mais recente (e aqui me refro muito especialmente à teoria queer) não
se supõe que a heterossexualidade seja um regime fechado em si mesmo,
coerente e monolítico (cf. garcia, 2005). Em vez disso, entende-se que este
regime (como qualquer outro) tem fssuras e incoerências. Fazendo uso de
noções desenvolvidas por Michel Foucault, podemos supor que, no mesmo
espaço em que se exercita o poder, também se construam resistências ou,
em outras palavras, podemos admitir que a subversão se faz a partir da nor-
ma, ocorre no próprio interior da norma. Portanto, será possível dizer que
é, precisamente, a necessidade de repetição ou de reiteração da heterosse-
xualidade que fornece as condições para que se articulem práticas de resis-
tência e para que se afrmem as identidades sexuais que alguns chamam de
alternativas e outros chamam de minoritárias. Acho importante acentuar
isso, porque me parece que oxigena ou areja um pouco nossa compreen-
são da dinâmica social. Afrmo a importância das resistências baseada em
Foucault. Provavelmente mais do que qualquer outro pensador, ele voltou
seu olhar para os espaços por onde as resistências passam e para as múlti-
plas formas que elas podem assumir. Muitos que aqui estão ensaiam coti-
dianamente formas de escapar ou driblar a heteronormatividade (às vezes,
recaindo, sem perceber, na mesma norma; mas, outras vezes, conseguindo,
efetivamente, a ela resistir).
Como sabemos, em conseqüência da política de identidades que vem
se processando intensamente desde as últimas décadas do século xx, tor-
naram-se visíveis sujeitos e práticas sexuais que, até então, mantinham seus
desejos, histórias e experiências restritas a poucos e, usualmente, clandes-
tinos espaços. Sujeitos e práticas sexuais minoritárias, para retomar o título
desta mesa. A afrmação e o orgulho de mulheres e homens não-heteros-
sexuais perturbaram e continuam perturbando a pretensa harmonia dos
consagrados arranjos sociais. Com suas vidas, estas mulheres e homens
desmentem a garantia da seqüência sexo/gênero/sexualidade.
A política de identidades desencadeada pelos movimentos feministas,
gays, lésbicos, dentre outros, representa um dos mais signifcativos e po-
derosos processos de transformação social em andamento. De fato, há es-
tudiosos que chegam a afrmar que as políticas de identidade e também
aquelas que se auto-denominam pós-identitárias, como a queer, não são
apenas constitutivas da pós-modernidade, mas que são elas que tornaram
(e tornam) possível a pós-modernidade.
Quero aproveitar a proposição destes estudiosos para minha argumen-
tação, mas, para tanto, devo esclarecer que, quando falo em pós-moderni-
dade, mais do que assinalar uma época, pretendo sugerir uma nova epis-
teme. Em outras palavras, entendo que todo um conjunto de movimentos,
de práticas e de saberes vem se constituindo e vem desafando, contem- desafando, contem-
poraneamente, a noção de centro em todas as suas formas. Esse conjunto
de movimentos e de saberes tem chamado nossa atenção para as margens;
incita-nos a repensar fronteiras de todos os tipos e seus atravessamentos. E
tudo isso vem sendo experimentado, de modo muito expressivo, no âmbito
dos gêneros e das sexualidades. Essas novas confgurações são, em geral,
perturbadoras para muita gente. Minha aposta é que elas são vistas como
um desafo especialmente complicado no campo da Educação.
Retomo, então, questões que formulei inicialmente: Como vem sendo
construída a articulação entre ‘sexualidades minoritárias e educação’? Este
par tem sido reconhecido como viável?
Será que encontramos, em nossas livrarias tão cheias de receitas, algum
150 Guacira Lopes Louro 151 Sexualidades minoritárias e educação: novas políticas?
manual ensinando ‘Como criar seu flho gay’? Há alguns anos atrás, Debo-
rah Britzman afrmava que isso não existia, mas que o que estava disponível
era “precisamente o oposto, ou seja, uma proliferação de conselhos aos pais
e aos educadores sobre como ‘curar’ a situação de gay” (britzman, 1996,
p. 79). Aliás agora, num momento em que livrarias e programas de tv
vendem auto-ajuda de todos os tipos, é provável que encontremos várias
sugestões para empreender pedagogias de ‘recuperação’ (qualquer dúvida,
basta acompanhar os depoimentos sensacionalistas dos canais religiosos).
Por que isso acontece? Porque a Educação se constituiu, historicamente,
como um campo normalizador e disciplinador. O campo da Educação ope-
ra, muito expressivamente, na perspectiva da heteronormatividade.
Deborah Britzman lembra alguns dos medos que assombram educado-
res/as profssionais, pais e mães ao lidar com questões da sexualidade. Um
deles é supor que falar sobre homossexualidade pode levar garotas/os a se
tornarem homossexuais; outro receio é de que aquele ou aquela que fala
sobre esta prática em termos simpáticos ou não preconceituosos pode vir
a ser reconhecido como gay ou lésbica. Para escapar desse perigo, muitos
adultos preferem dizer que não sabem nada sobre a homossexualidade, que
não entendem disso, ainda que isso possa signifcar uma demonstração de
ignorância da sexualidade. Esse tipo de atitude – ‘não tenho nada a ver com
isso’ – nega o fato de que as identidades sexuais são, todas, interdependen-
tes, quer dizer, nega que as identidades sexuais (como qualquer identidade)
se fazem em relação umas com as outras.
Outra forma de lidar com esta questão no campo da Educação – e agora
penso mais diretamente nas instituições escolares – consiste em dedicar
um dia ou um momento especial para reconhecimento ou para ‘inclusão’
daqueles que, usualmente, estão fora dos currículos, dos livros didáticos, da
história ofcial. Esta estratégia – promovida ofcialmente através de datas
comemorativas como, por exemplo, o dia da mulher, o dia do índio, a se-
mana da consciência negra ou da diversidade sexual – mantém a lógica que
me referi antes e que eu chamaria de ‘separatista’, isto é, a lógica que supõe
que as identidades e práticas se fazem de forma autônoma e nega que elas
sejam interdepententes. Criam-se, assim, ‘eventos’ que, circunstancialmen-
te, destacam o diferente. Já escrevi sobre esta questão em outro momento:
momentaneamente, a Cultura (com C maiúsculo) cede um espaço, no qual
manifestações especiais e particulares são apresentadas e celebradas como
exemplares de uma outra cultura ou da cultura do outro. Estas são estraté-
gias que podem tranquilizar a consciência dos planejadores, mas que, na
prática, acabam por manter o lugar especial e problemático das identidades
‘marcadas’ e, mais do que isso, acabam por apresentá-las a partir das repre-
sentações e narrativas construídas pelo sujeito central. Aparentemente se
promove uma inversão, trazendo o marginalizado para o foco das atenções,
mas o caráter excepcional desse momento pedagógico reforça, mais uma
vez, seu signifcado de diferente e de estranho. Ao ocupar, excepcionalmen-
te, o lugar central, a identidade “marcada” continua representada como di-
ferente (louro, 2003).
Se difculdades com relação à homossexualidade aparecem com freqü-
ência, as coisas parecem se complicar ainda mais quando lembramos que,
contemporaneamente, se tornaram visíveis muitas outras formas de viver a
sexualidade e os gêneros. Para educadoras/es parece muito complicado as-
sumir que as identidades de gênero e sexuais se ‘multiplicaram’; que há su-
jeitos que atravessam as fronteiras desses territórios; sujeitos que inscrevem
e misturam em seus corpos, deliberadamente, as marcas da feminilidade e
da masculinidade; sujeitos que aspiram a ambigüidade e a ambivalência.
O campo da Educação proclama, freqüentemente, ideais de integração, in-
clusão, ajustamento. Mas de que valem tais propósitos face àqueles/as que
não estão ansiosos por serem ‘integrados’ e que querem, menos ainda, ser
tolerados? O que fazer com quem quer viver como diferente?
Educadoras/es foram preparados para lidar com certezas, com normas,
com defnições de certo ou errado. No entanto, hoje, mais do que nunca,
as certezas escapam e deslizam, as verdades se pluralizam. As formas como
pais e mães, educadoras/es ou produtores culturais vêm lidando com todas
essas ‘novidades’ vão da perplexidade à negação, da tentativa de ‘correção’
ao acolhimento. Nem todos se mostram insensíveis ou impermeáveis às
mudanças e tentativas ou ensaios no sentido de lidar com sujeitos ou situa-
ções antes impensados são empreendidos.
Falo de sujeitos e situações impensáveis porque eles e elas colocam em
xeque, antes de tudo, a lógica binária de nossa cultura, a lógica que sustenta
nossa compreensão dos sexos e, conseqüentemente, dos gêneros e das se-
xualidades. Uma vez que a base fundante desta lógica e desta norma é biná-
ria, torna-se impossível pensar em multiplicidade de gêneros ou de sexuali-
dades. A idéia de multiplicidade é insuportável e é especialmente perturbadora
no âmbito da Educação. De qualquer modo, queiramos ou não, encontramos
sujeitos que transgridem as tais normas regulatórias e que escapam da seqü-
ência sexo/gênero/sexualidade prevista. Não dispomos de receitas para ‘dar
conta disso’. Não é tarefa fácil construir e pôr em ação políticas que, no campo
153 Educação, heterossexismo e homofobia
da Educação ou, mais amplamente, no campo da cultura, reconheçam, efeti-
vamente, distintas formas de sexualidade e de gênero. Para acolher a idéia de
multiplicidade, teríamos de romper, de algum modo, com uma lógica muito
assentada que nos leva a ter de decidir, necessariamente, se alguém ou se uma
situação ou prática é isso ou é aquilo para, em vez disso, assumir a possibili-
dade de que alguém ou algo seja, ao mesmo tempo, isso e aquilo. Esse tipo de
mudança não é nada simples. Mas não quero concluir de modo pessimista.
Quando tenho oportunidade de falar sobre estes temas, um dos pon-
tos que tenho acentuado é, precisamente, o quanto os movimentos sociais
organizados de gênero e sexualidade e os campos multidisciplinares que a
eles se articulam têm promovido novas políticas de conhecimento cultural.
A partir destes campos teóricos e políticos, tem se ampliado a noção do que
vale a pena conhecer, quem pode conhecer, para que ou porque conhecer.
Não são apenas novos temas que se tornaram objeto de investigação de
núcleos de pesquisa ou passaram a integrar a agenda de órgãos ofciais de
estado; há indicações de outras mudanças relevantes: as questões que se
fazem sobre estes temas são, muitas vezes, feitas a partir da ótica de sujeitos
historicamente subordinados; as formas de investigar ou de implementar
tais questões incorporam estratégias e práticas que, até algum tempo atrás,
não eram reconhecidas; ativistas e intelectuais ligados aos movimentos e
aos campos teóricos da sexualidade e dos gêneros são chamados a integrar
equipes de estudo e de implementação de políticas. Não ignoro que, nestes
espaços repetem-se ou recriam-se jogos de poder e que, freqüentemente, as de-
cisões afnam-se ou compactuam com os discursos tradicionalmente autoriza-
dos. De qualquer forma, entendo que estamos conquistando espaços para disputa
e é isso que dá sentido a nossa presença neste e em tantos outros encontros.
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Educação, heterossexismo e homofobia
Henrique Caetano Nardi
1
A emergência das políticas voltadas à diversidade sexual:
a interface da psicologia com a educação
O campo discursivo no qual se situam os programas, os projetos e ações que
buscam incluir o debate em torno da diversidade sexual na escola, é amplo
e interdisciplinar, além de ser marcado por uma produção de pesquisa ex-
plicitamente politizada. Parte importante dos autores deste campo assume
uma postura ao mesmo tempo acadêmica e militante. Poderíamos compre-
ender esta postura no sentido proposto por Michel Foucault, ou seja, uma
posição intelectual que se propõe a apontar os riscos do presente e de se
mobilizar para agir sobre a dinâmica social estabelecendo parcerias com
os movimentos sociais, assim como institucionais, encontrando aliados no
seio do governo. Muitos dos conceitos criados no interior deste campo se
construíram em oposição e/ou conjugados aos enunciados que marcaram a
emergência do dispositivo da sexualidade e sua lógica classifcatória e nor-
malizadora. Cabe, pois, lembrar a defnição ampla de Michel Foucault para
o termo dispositivo: “Um conjunto heterogêneo, comportando discursos,
instituições, conjuntos arquiteturais, decisões regulamentares, leis, medi-
das administrativas, enunciados científcos, proposições flosófcas, morais,
flantrópicas, enfm: o dito como o não dito (...) o dispositivo, nele mesmo,
é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos” (foucault, 1994b,
p. 299).
1 Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul - ufrgs
154 Henrique Caetano Nardi 155 Educação, heterossexismo e homofobia
A explosão discursiva que marca o dispositivo da sexualidade na mo-
dernidade produziu uma série de conceitos que transformaram práticas em
identidades, a partir de um esquadrinhamento que traçou as linhas divisó-
rias do normal e do patológico. Objeto privilegiado dos processos de sub-
jetivação na modernidade, a sexualidade se tornou objeto privilegiado da
psicologia e de todo o campo “psi”. No decorrer do século xx vimos que,
a partir dos termos que inicialmente designavam patologias, emergiram
formas identitárias binárias. Assim, o termo homossexualidade passou a
identifcar certa “identidade homossexual”, o termo produziu seu oposto
ao nomear a posteriori “o sujeito heterossexual” e, neste jogo no qual os dis-
cursos constituem os objetos dos quais falam, fomos colocados frente a de-
fnições que nos interpelam: “ser homossexual” (o que implica em assumir
o que se é) ou “ser heterossexual” (que é dado como pressuposto), sendo a
bissexualidade (uma oscilação presa à binariedade) mantida como objeto
de suspeita de todos/as aqueles/as que se identifcam com estas categorias
pólo (homo ou hetero).
Com a emergência da democracia sexual (fassin, 2006) – a qual pode
ser entendida como efeito político da pressão dos movimentos sociais pelo
direito à livre expressão da sexualidade e que ganhou força institucional
após a epidemia da aids ao buscar a igualdade de direitos independente da
posição dos sujeitos no espectro da diversidade sexual ou de gênero – ve-
mos uma tentativa de infexão da ação do dispositivo com o surgimento de
termos que denunciam a opressão da lógica binária e seus efeitos políticos
e de sofrimento psíquico. Estes termos são marcados por uma origem/sen-
tido de caráter psicológico.
O termo “homofobia” é emblemático neste sentido, e é sem dúvida um
dos mais utilizados pelos diversos programas governamentais para deno-
minar ações e projetos institucionais, assim como aqueles oriundos dos
movimentos sociais, o que, entretanto e, até por esta razão, não o isenta de
críticas.
O termo foi inicialmente usado pelo psicólogo George Weinberg em
um artigo da revista Time em 1969 (portanto, no mesmo ano da revolta de
Stonewall em Nova Iorque) e retomado no seu livro Society and the Healthy
Homosexual de 1972. Homofobia, para este autor, designava o medo ‘irra-
cional’ da homossexualidade que produz reações ‘irracionais’ e o desejo
de destruir o estímulo da fobia ou tudo que possa se relacionar a ela. Hoje
o termo tem defnições e usos múltiplos, podendo signifcar medo, aver-
são, discriminação, preconceito, etc. Daniel Borillo, por exemplo, defne
homofobia como “uma manifestação arbitrária que consiste em designar
o outro como contrário, inferior ou anormal. Sua diferença irredutível o
coloca em outro lugar fora do universo comum dos humanos” (borrillo,
2000, p. 3). Estamos aqui distantes, portanto, em ambas as defnições, dos
critérios clássicos de fobia. Uma das críticas ao termo é de que ele pode dar
a entender que a ação discriminatória ou a violência contra homossexuais
(o termo também instituiu variantes que incluem a longa versão das siglas
do campo como, por exemplo, lgbtttiqfobia
2
– sem esgotar as letras do
alfabeto neste jogo de capturas identitárias) seja derivada de um impulso
‘irracional’ que se situa no campo da psicopatologia individual e não um
preconceito reiterado socialmente (herek, 2004). O termo que se apre-
senta como substituto ou complemento à homofobia é “heterossexismo”.
Este deriva de sexismo (associado na sua origem à perspectiva feminista)
e implica na concepção essencialista/naturalizada de que a heterossexu-
alidade é superior do ponto de vista social, moral e do desenvolvimento
psicológico às outras formas de expressão da sexualidade, pois a masculi-
nidade e a feminilidade, assim como os genitais defnidos como femininos
e masculinos, seriam necessariamente complementares. Todas as outras
combinações/variações possíveis seriam uma perda de tempo, tanto do
ponto de vista da reprodução da espécie, como da reprodução da lógica
da sociedade moderna – superior a todas as outras de um ponto de vista
sócio-evolucionista – e, portanto, relegadas a um plano inferior, moral e
legalmente. Assim, o heterossexismo seria a explicação e a base para uma
estrutura e dinâmica sociais que privilegiam a heterossexualidade do ponto
de vista institucional e político.
Neste jogo discursivo a psicologia está invariavelmente presente e serve
como linha divisória (na aliança entre ciência e Estado que confgura, na
modernidade, a emergência da biopolítica em oposição à aliança Estado e
religião na idade média) nos dois argumentos que parecem ser centrais no
debate político em torno da democracia sexual e da implantação de progra-
mas de “combate à homofobia” na educação:
O primeiro deles se refere à igualdade de direitos e, vai buscar na psico-
logia a sustentação para a extensão dos direitos até agora restritos à família
composta por um casal de sexos distintos (em nome do desenvolvimento
normal da criança, por exemplo, no caso da adoção). Aqui, cabe salientar
2 Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis, Transgêneros, Intersexuais, Queer e o que vier a se
associar a este jogo). Embora acredite que esta sigla é insufciente e que o jogo das identidades é perigo-
so, utilizarei esta versão ampliada de forma crítica e provisória, como forma de, até pela difculdade da
leitura a sigla exponha sua fragilidade.
156 Henrique Caetano Nardi 157 Educação, heterossexismo e homofobia
que para a construção da igualdade de direitos foi fundamental a retirada
da homossexualidade do campo da patologia (o que não é o caso da tran-
sexualidade). O outro argumento se refere ao sofrimento psíquico asso-
ciado à homofobia que se evidencia por altas taxas de suicídio em jovens
homossexuais e por comportamentos de risco (sexo não protegido, abuso
de álcool e drogas, etc.) que estariam relacionados ao preconceito derivado
da homofobia e da falta de modelos identifcatórios positivos presentes na
escola e na mídia (verdier e firdion, 2003; hershberger e d’augelli,
1995; savin-williams, 1994). A referência permanente às taxas elevadas
de suicídio nos jovens e dos comportamentos de risco serve de argumento
central para as demandas feitas aos governos de diversos países. Entretanto,
cabe salientar que mesmo que estes dados e esta constatação sejam im-
portantes como alerta e como estratégia de convencimento das instituições
públicas, a reiteração de um discurso psico-medicalizado pode contribuir
para uma imagem estigmatizada e medicalizada da juventude não-heteros-
sexual (mayberry, 2006).
Nos argumentos que denunciam os efeitos deletérios do preconceito e
da hostilidade contra a sexualidade não-heterossexual e a não conformi-
dade de gênero, os saberes ligados à psicologia são invocados. Entretanto,
não se deve esquecer que neste jogo de verdades, no qual a construção da
legitimidade é uma disputa permanente, existem contra-argumentos, tam-
bém derivados do campo da psicologia (e muitos outros da religião) que
fazem alusão a uma perspectiva essencialista dos comportamentos e das
identidades de gênero e sexuais, que justifcam uma hierarquização entre
as sexualidades, sua patologização e a restrição de direitos.
Cabe salientar que o debate em torno de uma educação para a sexualida-
de que inclua a diversidade sexual e que produza refexões em torno da ho-
mofobia, do heterossexismo e dos direitos sexuais é recente no mundo todo
e também no Brasil. Entretanto, mesmo sendo recente, pode-se afrmar que
existe um movimento importante nas sociedades ocidentais – ou, mais pro-
priamente, naquelas fundadas em uma matriz democrática e laica – mesmo
que a laicidade seja pouco praticada (lorea, 2006) – de debate e implanta-
ção de programas e projetos de educação para a sexualidade que respeitem a
diversidade. Brasil, Argentina, Chile, Peru, Uruguai, México, muitos estados
dos EUA, Canadá, Irlanda, Inglaterra, Bélgica, Holanda, França, Suécia, Di-
namarca, Espanha, Itália, Alemanha, Suíça, África do Sul, Austrália e Nova
Zelândia, para citar alguns exemplos, têm desenvolvido ações e projetos em
diferentes níveis e com distintos graus de avanço e maturidade.
Podemos afrmar de forma sintética que as condições contemporâneas
para a emergência da inclusão de um debate em torno da diversidade sexu-
al na educação (no contexto brasileiro) estão associadas à ação dos movi-
mentos sociais ligados que defendem os direitos sexuais e que nasceram ou
renasceram no Brasil no fnal da década de 1980 em relação direta ou indi-
reta com a epidemia da aids e com a redemocratização do país. Esta última
caracterizada pelo novo caráter institucional idealizado na constituição de
1988 (dita cidadã) e cujo marco foi a criação do sus (Sistema Único de Saú-
de) e a universalização do direito à atenção.
Neste cenário social e político, a reação dos movimentos sociais foi fun-
damental para reverter a lógica estigmatizante dos chamados “grupos de
risco” na primeira fase da epidemia. Esta reação demonstrou a necessidade
de abertura do diálogo público sobre a diversidade sexual como forma de
combate a epidemia que se alastrava para muito além dos denominados
grupo e fez com que a sexualidade entrasse no debate político de uma forma
distinta daquela da patologização/categorização que marcou a afrmação
do dispositivo da sexualidade a partir do século xix (foucault, 1976).
A aids permitiu que se discutisse a pluralidade das expressões da sexu-
alidade, pois a epidemia desde seu início foi enfrentada pelos movimentos
sociais que assumiram um papel fundamental na defnição das políticas
públicas e, de certa forma, fzeram com se retomassem discussões origina-
das na revolução sexual dos anos 1960
3
. A luta pela afrmação do direito a
uma “sexualidade plena” defendida pelo feminismo e a defesa do direito a
uma homossexualidade vivida fora do armário defendida pelo movimento
“gay”
4
caracterizaram os embates internos relativos às formas de luta contra
à epidemia. No campo da saúde mental, temos como marcas das transfor-
mações neste campo a retirada da homossexualidade da lista das patologias
mentais pela Associação Psiquiátrica Americana em 1973 (fruto da conju-
gação de esforços de cunho científco internos à associação e dos movimen-
tos sociais) e pela Organização Mundial da Saúde em 17/05/1990. Dia este
que se tornou, a partir de 2005, por iniciativa da ong idaho – International
Day Against Homophobia – a data que marca a luta mundial contra a homo-
3 E também em uma fase anterior, durante a chamada “belle époque” para alguns e “anos loucos” para
outros, na década de 1920, até que a onda fascista dos anos trinta e a moralização posterior à II guerra
mundial encerrassem momentaneamente este debate.
4 O qual tem como marco histórico a resistência emblemática dos freqüentadores do bar Stonewall (a
maior parte eram travestis e não ‘gays’) em Nova Iorque a mais uma incursão da polícia em 1969 e cuja
data é comemorada em boa parte do mundo por ocasião das paradas “gay”. Algumas paradas buscaram
outra denominação, no caso de Porto Alegre a escolha foi de “Parada Livre” buscando demarcar a dife-
rença da ong nuances em relação às políticas identitárias.
158 Henrique Caetano Nardi 159 Educação, heterossexismo e homofobia
fobia. No Brasil, cabe ressaltar a decisão do Conselho Federal de Psicologia
de condenar tratamentos de “cura” da homossexualidade.
A aceitação legal da diversidade sexual e da afrmação dos direitos se-
xuais (rios, 2006) tem avançado no contexto brasileiro, mais por meio da
jurisprudência (reconhecimento do direito à pensão e à adoção por casais
do mesmo sexo, etc.) que na esfera legislativa e institucional, entretanto os
esforços dos governos que sucederam o período ditatorial não devem ser
desconsiderados. Em 2004 o governo brasileiro lançou o programa “Brasil
sem Homofobia
5
” do qual fazem parte ações no campo do direito e da edu-
cação, principalmente, e que buscam a afrmação da igualdade de direitos e a
proteção das minorias sexuais contra efeitos do preconceito e do estigma.
Do ponto de vista da sustentação teórica destas transformações discur-
sivo-políticas, os saberes associados ao campo da psicologia estão invaria-
velmente presentes. O “aval” da psicologia está presente no que diz respeito
a questões relativas à partilha entre o normal e o patológico relacionados à
diversidade de expressões da sexualidade; assim como na argumentação a
favor ou contrária à igualdade de direitos no que diz respeito à legitimidade
de casais do mesmo sexo para adotar crianças ou para fazer uso da repro-
dução assistida (uziel, 2006; zambrano, 2006).
A educação enquanto instituição que se democratizou durante o século
xx e que é apontada idealmente como um lócus privilegiado de formação
para a cidadania e um espaço de passagem entre o mundo privado da famí-
lia e o espaço público do trabalho
6
, se vê agora confrontada com o desafo
de transformar-se. As políticas educacionais que propõem a luta contra a
homofobia e o respeito à diversidade sexual se deparam com práticas natu-
ralizadas de reiteração da norma no que se refere à generifcação da subjeti-
vidade (louro, 1999; britzman, 1996; lelievre e lec, 2005), a afrmação
de um modelo de família (mello, 2006) e de ocupação do espaço social
baseada na hierarquização de posições e na heterossexualidade compulsó-
ria (rich, 1980).

5 O nome completo do programa é “Brasil sem homofobia: programa de combate à violência e à discri-
minação contra glbt e promoção da cidadania homossexual” vemos bem como a questão da “demo-
cracia sexual” se insere no programa governamental.
6 Apresentação esquemática e criticável sob a lente foucaultiana se questionarmos o que de público
constitui a família e o que de privado constitui o trabalho, pois a lógica familista tem um impacto im-
portante na organização social, ver, por exemplo, Colbari (1995) e Mello (2006).
O contexto brasileiro e internacional
No Brasil, a afrmação da necessidade de uma política pública de educa-
ção se baseia em estudos que apontam para a intensidade das formulações
homofóbicas e heterossexistas presentes nas escolas. A pesquisa de maior
impacto foi conduzida pela unesco (Abramovay; Castro & Silva, 2004) em
15 capitais brasileiras envolvendo 16.422 estudantes, 241 escolas, 4.532 pais
e 3.099 professores e funcionários de escolas e revela os efeitos da falta de
formação no campo da sexualidade e a extensão da rejeição da homosse-
xualidade (e por dedução hipotética de toda a não conformidade à norma
heterossexual). Os resultados da pesquisa não são homogêneos, mostrando
a diversidade de situações no Brasil de acordo com a região e o sexo do
entrevistado. Por exemplo, em Porto Alegre, 42% dos jovens do sexo mas-
culino afrmam ter preconceitos contra os homossexuais contra 13% das
jovens. Dados que reforçam a hipótese de Judith Butler (2002) em relação
ao papel da exaltação da virilidade na incorporação melancólica da homos-
sexualidade na cultura. Os pais de alunos também não fogem à tendência,
em Fortaleza 47% dos pais não gostaria que seus flhos tivessem colegas
homossexuais contra 22% em Porto Alegre. Em relação aos professores e
funcionários, 5,9% em Brasília e 1,2% em Porto Alegre, declaram não dese-
jar ter estudantes homossexuais. Além destes dados, a pesquisa coordenada
por Sérgio Carrara (carrara et al., 2003), mostra que dos 416 entrevis-
tados que se auto-identifcaram como homossexuais (participantes da 8ª
Parada Gay do Rio de Janeiro), aproximadamente 60% denunciaram já ter
sido vítima de violência ou de algum tipo de agressão motivada por orien-
tação sexual. Com relação ao local das agressões, 11,9% dos entrevistados
jovens de 14 a 21 anos indica ter sido vítima de agressões graves na escola
em razão da orientação sexual.
Os resultados apresentados acima refetem de certa forma, o modo
como a educação brasileira tem tratado a questão. A lei brasileira prevê
a educação sexual na escola desde 1928, entretanto, até 1950, ainda que o
conteúdo deste programas fosse basicamente de caráter higienista, havia
uma importante resistência a sua implantação marcada por uma campanha
de oposição na mídia infuenciada pela igreja católica. A situação política
se altera nos anos 1970 quando o movimento feminista assume a reivin-
dicação de uma educação sexual não sexista, no entanto, apesar de expe-
riências pontuais, não existe uma difusão desta discussão no conjunto das
escolas brasileiras. É somente a partir do fnal da década de 1980 que vamos
160 Henrique Caetano Nardi 161 Educação, heterossexismo e homofobia
encontrar projetos pedagógicos dirigidos à prevenção da aids e da gravi-
dez na adolescência que abordam tangencialmente a sexualidade. Segundo
Miriam Abramovay (2004), estes programas, baseados principalmente em
uma abordagem biologizante do corpo e do sexo e centrados na idéia do
risco, são ainda os mais freqüentes. Cabe fazer uma ressalva em relação ao
trabalho de pesquisadores e pesquisadoras como, por exemplo, Vera Paiva
que, ao trabalharem com a prevenção da aids, afrmam a centralidade da
importância de uma cultura de respeito à diversidade de orientação sexual
(paiva, 1999).
Em 1995, como resposta/efeito de um movimento de crítica à forma pre-
dominantemete medicalizada de pensar a sexualidade dos programas de
educação sexual, a qual foi impulsionada em grande parte pela ação dos
movimentos feministas e lgbtttiqs
7
e pelos debates em torno da vulnera-
bilidade social e cultural dos jovens à aids, o governo anuncia os “Parâme-
tros Curriculares Nacionais” nos quais a sexualidade é anunciada como um
tema transversal. O documento prevê que o conteúdo de diversas discipli-
nas integre a sexualidade de maneira articulada com outros temas como a
ética, a saúde, o gênero, a ecologia e a pluralidade cultural.
Em relação aos efeitos desta defnição curricular, existem visões dis-
tintas entre os pesquisadores deste campo (abramovay, 2004; altmann,
2001) sobre a incorporação dos parâmetros à cultura da escola. Segundo
Altmann (2001), a motivação governamental para a inclusão da temática
se deu, ainda e principalmente, com a intenção de prevenir à aids/dsts e à
gravidez na adolescência e não a partir de uma lógica de respeito aos direi-
tos sexuais como direitos humanos.
Os parâmetros se inscrevem, portanto, em um modelo de educação
sexual já presente e marcado pelo domínio da biologia (uma ciência da
sexualidade – uma scientia sexualis como dizia Foucault), dentro do qual
a discussão da construção social da sexualidade e da diversidade sexual é
marginal ou ausente. Além disso, mesmo os programas dirigidos à pre- Além disso, mesmo os programas dirigidos à pre-
venção das dsts/aids são usualmente propostos fora dos horários de aula
e representam intervenções breves e pontuais. Cabe ressaltar, ainda, que
as/os professoras/es, na sua grande maioria, não receberam formação para
desenvolver ações educativas relacionadas à sexualidade.
7 Não existe um movimento com esta amplitude e tampouco, uma unidade ou coerência interna nas
diversas ‘parcelas’ desta sigla. Poderíamos falar em movimentos minoritários, mas também cairíamos
na hierarquização dos movimentos, i.e., quais são mais minoritários? Assim como existe o risco de
apontar quais seriam as vítimas maiores do preconceito contra a identidade de gênero e/ou a orienta-
ção/preferência sexual.
A partir destas constatações e da pressão dos movimentos sociais, o go-
verno brasileiro lançou em 25 de maio de 2004 o programa “Brasil sem
homofobia”. Dentre os objetivos do programa, destacamos a proposta de
cursos de formação para professores visando a promoção do respeito à di-
versidade sexual como um direito fundamental para o pleno exercício da
cidadania. Para dar conta deste objetivo, o Ministério da Educação lançou
editais em 2005 e 2006 propondo o fnanciamento de projetos de forma-
ção de professoras/es. Quinze projetos foram escolhidos em 2005 e trinta e
dois em 2006, entre estes, os projetos de duas ongs de Porto Alegre foram
aprovados nos dois editais citados. O primeiro destes (Educando para a
Diversidade) já está em na terceira edição e é resultado de uma parceria
entre a ong Nuances (a mais antiga ong no campo das lutas pelos direitos
à liberdade do exercício da sexualidade de Porto Alegre), o mestrado em
Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul e as Secretarias Municipal de Educação (Porto Alegre -smed) e Estadu-
al do Rio Grande do Sul (sec-RS).
A avaliação inicial dos efeitos desta formação (trata-se aqui da primeira
edição em 2006) por parte dos participantes é positiva (nardi e quartie-
ro, 2006). O caráter inovador da experiência foi ressaltado pelas/os par-
ticipantes (professoras/es das escolas públicas da rede municipal de Por-
to Alegre e estudantes de diversos cursos universitários), uma vez que a
proposta do projeto foi construída a partir de uma perspectiva de trocas
entre professoras/es de escolas públicas, pesquisadoras/es e militantes dos
grupos lgbttiq. Os relatos das experiências de enfrentamento do pre-
conceito por parte de lésbicas, travestis e homossexuais masculinos foram
particularmente valorizados pelas/os professoras/es e demais alunas/os do
projeto. Entretanto, se o ganho para a aprendizagem pessoal foi considera-
do importante e transformador, as/os professoras/es ainda se encontram
muito receosas/os em relação às formas possíveis de intervenção nas suas
escolas de origem.
As/os participantes compreendem que não existe uma fórmula única
aplicável a todas as situações e o receio não deriva de difculdades da or-
dem das metodologias de intervenção. O receio tem como origem o medo
resultante de experiências vividas na escola pelo simples fato de freqüentar
a formação e que tem como fonte a suspeita das/os colegas; ou seja, como se
o fato de intervir no campo do combate à homofobia e do respeito à diver-
sidade sexual imediatamente produzisse um contágio. Elas/es passam a ser
identifcadas/os como homossexuais. O contágio do estigma como descrito
162 Henrique Caetano Nardi 163 Educação, heterossexismo e homofobia
por Erwin Gofman. Além deste efeito de contaminação que as/os expõem
ao mesmo preconceito que elas/es pretendem enfrentar, existe uma sensa-
ção de falta de informação. Para além do fato de muitas vezes a formação
ter sido a primeira vez que estas/es professoras/es tiveram a oportunida-
de de refetir mais intensamente sobre a sexualidade no contexto da esco-
la, esta demanda ilimitada de informação indica um lugar de professor/a
que seria aquele que tudo sabe e para a/o qual a dúvida é um atestado de
incapacidade. Como conseqüência desta incapacidade situada no campo
da informação, se anuncia a necessidade permanente do/a especialista. A
psicologia é particularmente demandada neste lugar e buscada pelas/os
professoras/es como uma forma de legitimação, uma vez que a psicologia
continua sendo identifcada como uma disciplina que integra um regime
de verdades que traça linhas nítidas entre o normal e o patológico no cam-
po da sexualidade. Percebe-se, ainda nesta lógica, uma obsessiva busca de
explicações para a “causa” da homossexualidade (a homossexualidade, no
imaginário social, acaba sendo um termo que engloba todas as outras for-
mas de experimentação da sexualidade não-heterossexual e identidades de
gênero “desviantes”). Esta demanda é explicada (pelas/os participantes) em
razão da necessidade de justifcar estrategicamente as ações propostas na
escola a partir da legitimidade do discurso científco.
No resto do mundo ocidental pesquisas apontam para contextos distin-
tos e programas mais ou menos institucionalizados (szalacha, 2003). A
complexidade e heterogeneidade das políticas públicas de educação podem
ser exemplifcadas pela análise de James Sears (2005). Nos quadros abaixo
se pode perceber que o Brasil ocupa uma posição intermedária em relação
ao “clima cultural” e aos programas de educação dirigidos à inclusão da
temática lgbtttq:
Quadro I – Clima Cultural
Persecutório Homofóbico Heteronormativo Favorável Proativo
Egito Rússia França
Bulgária, Índia China África
do Sul
México Japão Israel
Brasil Inglaterra Austrália Nova Zelândia
EUA Canadá Holanda
Fonte: Sears, 2005 (p. xxviii)
Quadro 2 - Programas de Educação integrando temas LGBT
Nenhum Pouco
signifcativos
Marginais Moderados Importantes
Egito África do Sul México Brasil EUA
França Bulgária, Índia Israel Inglaterra Canadá
Russia China Japão Austrália
Nova Zelândia
Holanda
Fonte: Sears, 2005 (p. xxviii)
Mesmo que os contextos sejam distintos, a base argumentativa dos pro-
gramas no campo da educação se utiliza de enunciados oriundos do con-
junto de saberes e práticas que englobam a psicologia.
A educação escolar pode ser defnida como integrante do dispositivo
da sexualidade e, portanto, como agenciadora privilegiada do biopoder, do
controle e da normalização ao esquadrinhar – a partir dos usos dos saberes
e dos enunciados oriundos de diversas disciplinas, mas com um lugar pri-
vilegiado destinado à psicologia – o normal e o patológico.
A partir de outro olhar, entretanto, mas, ao mesmo tempo, a escola pode
ser pensada como uma forma fundamental de acesso (talvez demasiada-
mente idealizada nas sociedades democráticas) à igualdade de direitos.
Para a compreensão do lugar da educação no dispositivo da sexualida-
de, um dos conceitos-chave pouco explorados é o de propriedade social,
tal como defnido por Robert Castel (1998), pois implica em retomar o ide-
al republicano que funda a escola pública e laica como potencialidade de
construção de condições para a efetivação de direitos igualitários para os
cidadãos. Embora estejamos destacando estes dois componentes do dispo-
sitivo da sexualidade (a normalização e a propriedade social), é importante
ressaltar que não se tratam de dois lados, pois estes dois aspectos/compo-
nentes são complementares; basta lembrar o quanto a noção de seguridade
social, por exemplo, se construiu a partir de divisão sexual do trabalho e de
uma lógica familista que pressupõe a heterossexualidade.
A compreensão do lugar da escola no interior do dispositivo da sexua-
lidade permite tornar mais clara a noção de biopolítica/biopoder em Fou-
cault, uma vez que, de forma sucinta, a biopolítica designa uma transfor-
mação do poder que passa não somente a governar os indivíduos através da
disciplina dos corpos, mas também de se ocupar do conjunto da população.
A biopolítica, na lógica foucaultiana, “vai ocupar-se da gestão da saúde, da
164 Henrique Caetano Nardi 165 Educação, heterossexismo e homofobia
higiene, da alimentação, da sexualidade, da natalidade etc., na medida em
que estes elementos se transformam em questões políticas” (revel, 2002,
p. 13). Nesta direção, a escola foi transformada em lugar privilegiado de
“governamentalização” do Estado moderno. Naquele momento a relação
família/Estado se inverteu; de acordo com Michel Foucault, a família pas-
sou a aparecer como elemento interior à população, um segmento privi-
legiado sempre que o Estado necessitasse obter algo da população quanto
ao comportamento sexual, à demografa, ao número de flhos, etc. (fou-
cault, 1994c, p.652). Asim, a escola (como uma “continuidade-ruptura” da
família) passa a ser utilizada como lócus de aprendizagem (pela repetição
reiterada) dos modelos de gênero e da higiene do sexo, tendo como obje-
tivo fnal o controle da população.
Nesta função de normalização, a escola é considerada, nas sociedades
ocidentais, como uma ligação entre o mundo privado e o espaço público
(britzman, 1996); e é o Estado, pela via da biopolítica que vai progressi-
vamente modelar as fronteiras entre o público e o privado (lemke, 2001).
Esta fronteira na qual se situa a escola, é hoje, por exemplo, se utilizarmos
como exemplo o contexto francês
8
como forma de demonstrar esta dupla
face do dispositivo, um lugar de confrontação do debate entre o universa-
lismo republicano e o chamado “comunitarismo”. Neste embate podemos
ressaltar que o uso estratégico destas noções (tão caras à formação política
francesa) resulta na visibilidade “negativa” de certos grupos; e, é impor-
tante lembrar, não somente com relação à sexualidade, mas em relação ao
lugar das/os migrantes oriundos de culturas não ocidentais ou não cristãs,
as quais são marcadas por uma visibilidade abjeta que caracteriza a racia-
lização da questão social francesa. O caráter performático do enunciado
que proclama a noção de universalismo abstrato, no caso do dispositivo da
sexualidade, se traduz, de fato, pela imposição de uma cultura heteronor-
mativa na escola.
É no interior deste jogo de verdades – que por uma via instaura a igual-
dade de direitos na abstração “neutra” (o que equivale na sociedade con-
temporânea à imposição das formas consagradas da dominação masculina
e da heteronormatividade) e, pela outra, que busca a igualdade de direitos
respeitando as diferenças – que se dão os embates em torno da introdução
de programas de educação para a sexualidade que contemplem a diversi-
dade sexual.
8 Utilizo aqui o exemplo francês, pois foi objeto de recente pesquisa de pós-doutorado (nardi, 2008).
Judith Butler sugere que a construção no espaço público da legitimidade
de um saber que integre a diversidade sexual em nossas culturas pode nos
ajudar a ultrapassar o modo de assujeitamento melancólico de incorpora-
ção da homossexualidade. Ela afrma que:
Quando certos tipos de perdas são constrangidos por um conjun-
to de interditos culturalmente prevalentes, nós podemos esperar
a emergência de uma forma de melancolia culturalmente preva-
lente que marca a interiorização do luto ausente e a impossível
ligação homossexual. E lá, onde não existe reconhecimento pú-
blico suscetível de nomear e portar tal luto, a melancolia produz
graves conseqüências culturais. Não nos espantemos, evidente- Não nos espantemos, evidente-
mente, do fato de que quanto mais a identifcação masculina é
hiperbólica e defensiva, mais violenta é a ligação homossexual
privada do luto. Neste sentido, nós podemos compreender tanto
a ‘masculinidade’ como a ‘feminilidade’ como sendo formadas e
consolidadas por meio de identifcações que derivam em parte de
um luto negado. Quando o interdito da homossexualidade é cul- Quando o interdito da homossexualidade é cul-
turalmente dominante, a ’perda’ do amor homossexual é apagada
do fato de um interdito reiterado e ritualizado em toda a cultura
(butler, 2002, p. 208-9).
Se seguirmos a análise de Butler, podemos afrmar que a partir do mo-
mento que o reconhecimento (ou não) das/os jovens lgbtttiq na escola
(e para além dela) está relacionado a interdito cultural; assim, quando as
políticas públicas passam a reconhecer a homofobia como fonte de sofri-
mento para uma juventude que tem sua existência culturalmente negada,
se produzem as condições sociais para a emergência do que Didier Fassin
(2005) chamou da biolegitimidade de um grupo face à intervenção prote-
tora das instituições públicas.
É a biolegitimidade dos jovens lgbtttiq que está no centro das rei-
vindicações de militantes e pesquisadores em relação ao papel do Estado.
Como afrma Guillaume Tanhia (2005):
Se os adolescentes lgbt se sentem vulneráveis no seio da escola,
é também porque eles o são face a suas famílias. Entretanto, se
consideramos a escola como essencial ao desenvolvimento das
166 Henrique Caetano Nardi 167 Educação, heterossexismo e homofobia
crianças; que ali passam uma parte não negligenciável de suas vi-
das, e que ali devem poder se sentir em segurança e se realizar, nós
temos o direito de exigir que o sistema educativo leve em conside-
ração os adolescentes lgbt, os quais se encontram sem referências,
reconhecimento e/ou em sofrimento (tanhia, 2004, p.132).
Terminando
A ‘biolegitimidade’ depende da forma assumdida pelas apresentações pos-
síveis do humano, o qual foi reconhecido idealmente, desde a modernida-
de, como cidadã/ao de direitos e cuja dimensão universal dos valores as-
sociados à ‘humanidade/cidadania’ foi conquistada por meio das lutas que
marcaram e marcam nosso tempo. O discurso do presidente Lula (http://
www.imprensa.planalto.gov.br/download/discursos/pr714-2@.doc) na I Con-
ferência chamada para discutir as questões relativas aos direitos dos ‘cidadãos
glbt
9
’ é um bom caso para análise de uma das derivas possíveis das políticas
que buscam um reconhecimento identitário e uma afrmação na lei das bali-
zas possíveis para as experimentações do que se pode ser no mundo.
O discurso não é coerente e tampouco homogêneo, tanto do ponto de
vista político como do ponto de vista teórico. Exatamente por esta razão,
ele se constrói no paradoxo da situação política brasileira e é um refexo de
nossa estrutura e dinâmicas sociais. Podemos encontrar no discurso desde
trechos que associam todas as parcelas da população que são compreendi-
dos como demandantes de uma forma específca de tutela, ou seja: cadei-
rantes, carroceiros, cegos, etc. até uma dimensão de análise pragmática que
afrma respeito igual para em razão do fato de todas/todos pagarmos im-
postos. Certamente o discurso em vários momentos aponta para a difcul-
dade de afrmação de um Estado Laico e também no caráter paternalista/
clientelista de nossa tradição política.
São estes nossos dilemas e nossos desafos. Novas políticas? Sim e não!
Temos certamente a questão da diversidade sexual colocada na arena pú-
blica e nos textos legais, mas esta circulação da palavra se encontra presa
– em razão das estratégias identitárias escolhidas – a demandas tutelares,
cujas repostas governamentais, no que tange à legitimidade de direitos,
ainda se associa a estratégias familistas amplamente presentes em nossa
9 Transformada simbolicamente em lgbt, para reverter o ‘homocentrismo’ ou ‘gaycentrismo’ das po-
líticas e das lutas.
história desde o período Vargas (nardi, 2006; colbari, 1995).
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171
Sobre as autoras e os autores
Berenice Bento
Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás e Doutora
em Sociologia pela Universidade de Brasília e Universidade de Barcelona.
Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal
do Rio Grande do Norte.
Fernando Pocahy
Mestre em Psicologia Social e Institucional e doutorando em Educação
pela ufrgs. Integrante do nuances.
Guacira Lopes Louro
Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
e Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas.
Professora do Programa de Pós graduação em Educação da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul.
Guilherme Silva de Almeida
Mestre em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz e Doutor em
Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (ims) da uerj. Professor
adjunto da Faculdade de Serviço Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (uerj).
Henrique Caetano Nardi
Mestre e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. Professor do Departamento e ppg em Psicologia Social e
Instituticional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Júlio Assis Simões
Mestre em Antropologia Social e doutor em Ciências Sociais pela
Universidade Estadual de Campinas. Professor do Departamento de
Antropologia da usp.

172
Larissa Pelúcio
Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos e
professora da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho.
Regina Facchini
Mestre em Antropologia Social e doutora em Ciências Sociais pela
Unicamp. Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e
professora colaboradora do Programa de Doutorado em Ciências Sociais,
ambos da Unicamp.
Roger Raupp Rios
Juiz Federal. Mestre e Doutor em Direito pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul.
Sérgio Carrara
Mestre e Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor adjunto da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Silvia Ramos
Doutora em Ciências pela ensp/Fiocruz e pesquisadora do Centro de
Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes/RJ.