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PLNSAR L LS1AR LCLN1L LCS CLECS

#2
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número pode ser acessado na
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Alpendre.
Alem disso, a versão também
está disponível para Ipad

[AUDIOVISUAL] [Uninverso | Marcos de Brito ] [TEORIA] [Sobre
programas e necessidades | Fernando Freitas Fuão] [Conduzindo Cegos |
Elida Tessler] [ENTREVISTA] [Cinema de rua: micronarrativas urbanas |
Mariana Biork] [ENSAIO VISUAL] [Cristiano Mascaró] [PROJETOS]
[Edifício Muro | Henrique Meixão Ramos] [Praça em fios | Laís Dalto] [Afeto
Desmedido |Yoná Brandão] [OLHARES] [Exposição fotográfica | Alunos dos
cursos de Arquitetura e Comunicação Social] [ARTIGO] [O devir molecular
da partícula: uma navegação espacial pela Construção Nebulosa |Maria Júlia
Barbieri] [DROPS] [Seis Pílulas para olhos moribundos]




Por Maria Júlia Barbieri
As pessoas de Fernando Pessoa
servem de inspiração para o segundo
número da Revista Alpendre, Pessoa,
nos brinda, por meio de Caeiro, com
sutilezas em forma de versos. Nesses
versos, moram provocações que
muito se distanciam do tempo em que
foram escritas. Elas encontraram
abrigo nos dias de hoje. Caeiro nos
provoca dizendo: “Pensar é estar
doente dos olhos”. Nos apropriamos
então, dos olhos doentes de Fernando
Pessoa para exercitar outras formas
de ver e olhar o mundo em que
vivemos. Esse olho moribundo, é
antes um olho que procura reter os
momentos e seus afetos como se
fossem as últimas imagens possíveis
de se gravar nas retinas cansadas de
um poeta. Poeta este que encantou o
mundo com belas imagens criadas
com letras cadenciadas. O conteúdo
desse número, traz como tema
central, a provocação de Caeiro e
seus desdobramentos sobre diversas
áreas como a arquitetura, a fotografia,
o cinema, a filosofia e a literatura.
LLl1CRlAL
LQUlPL LLl1CRlAL LlSCLN1L:

LUCAS CAlQUL LlAS
MARlANA 8lCRl
CUS1AvC LL lRLl1AS ACYACl
ELNRlQUL MLl×ÂC RAMCS

LCCLN1LS:

PRCl. M.SC. ANLRL 1LRUYA
LlCELM8LRC
PRCl. MS.C. LlCCC 8ARRCS
MCN1LlRC
PRClA. M.SC. MARlA 'ULlA 8AR8lLRl

PRC'L1C CRAllCC:
PRCl. MARlA 'ULlA 8AR8lLRl

PRC'L1C CNLlNL:
PRCl. ANLRL 1LRUYA LlCELM8LRC

SLSSSCLS LA RLvlS1A:

AR1lCC ClLN1lllCC
CRCNlCA
LN1RLvlS1A
LNSAlC
AULlCvlSUAL
PRC'L1CS
PRCLUÇÂC AR1lS1lCA
lC1CCRAllAS

CONTATO: alpendre@labin.pro.br
editoria.alpendre@labin.pro.br
www.alpendre.arq.br
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LQUlPL LLl1CRlAL LlSCLN1L:

LUCAS CAlQUL LlAS
MARlANA 8lCRl
CUS1AvC LL lRLl1AS ACYACl
ELNRlQUL MLl×ÂC RAMCS

LCCLN1LS:

PRCl. M.SC. ANLRL 1LRUYA
LlCELM8LRC
PRCl. MS.C. LlCCC 8ARRCS
MCN1LlRC
PRClA. M.SC. MARlA 'ULlA 8AR8lLRl

LCCC:
RCCLRlC LL SCU2A SlLvA

PRC'L1C CRAllCC:
PRCl. MARlA 'ULlA 8AR8lLRl

PRC'L1C CNLlNL:
PRCl. ANLRL 1LRUYA LlCELM8LRC

SLSSSCLS LA RLvlS1A:

AR1lCC ClLN1lllCC
CRCNlCA
LN1RLvlS1A
LNSAlC
AULlCvlSUAL
PRC'L1CS
PRCLUÇÂC AR1lS1lCA
lC1CCRAllAS

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editoria.alpendre@labin.pro.br
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A Revlstu Alµendre e um µerlodlco
desenvolvldo µelo Nucleo de Pesqulsu do
curso de Arqulteturu e Urbunlsmo du UNllLv,
como resultudo de um µrojeto de lnlclução
clentlflcu que envolve docentes e dlscentes
du lnstltulção.


[POEMA] [O guardador de rebanhos | Alberto Caeiro]
[AUDIOVISUAL] [Uninverso | Marcos de Brito ]
[ARTIGO] [O devir molecular da partícula: uma navegação espacial
pela Blur Building | Maria Júlia Barbieri]
[DROPS]
[ENSAIO VISUAL] [Cristiano Mascaró]
[TEORIA] [Conduzindo Cegos|Elida Tessler]
[PROJETO] [O afeto desmedido|Yoná Brandão]
[DROPS]
[AUDIOVISUAL] [Cinema de Rua: microdocumentários urbanos]
[ENTREVISTA] [Cinema de Rua/Alpendre]
[OLHARES] [Exposição fotográfica|Pensar é estar doente dos olhos]
[TEORIA] [Sobre programas e necessidades|Fernando Freitas Fuão]
[DROPS]


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SUMARlC

4
O Guardador de Rebanhos
Alberto Caieiro
1911-1912
II
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…


5
Por André Teruya Eichemberg
Tudo é uma inversão, ou melhor,
somos um espelho de
representações complexas que
criamos, que complicamos a cada
gesto, a cada afeto. Uninverso, de
Marcos deBrito, nos transporta
para uma paisagem onírica no
cotidiano de um personagem às
avessas. No filme nos parece,
num primeiro momento, que o
que comanda é a falta de
gravidade ou algo parecido, mas
trata-se de um jogo
extremamente sutil e criativo que
Brito nos coloca: a de um corpo
que dança sempre atrasado,
sempre em desajuste. A água, as
roupas, o rosto, tudo sobe, tudo
tende ao céu, mas o que fica
evidente é essa intenção ao
descontrole de forças que
simplesmente existem. A singular
e poética leitura sobre a
existência da cidade e seus
modos de vida nos faz emergir à
condição contemporânea, a de
não saber mais quais os limites
do corpo e da percepção, talvez
por estarmos docilizados demais
como nos mostrou Michel
Foucault, ao tratar sobre um
corpo que não aguenta mais a
gravidade nem as forças e afetos
do cotidiano. Não seria tanto uma
busca pelo controle e por um
sentido, pois seria mais fácil
rotacionar a câmera, mas antes,
de se deixar levar por forças que
nos atravessam, que nos fazem
perceber outras formas de
existência.
AULlCvlSUAL




[UNlNvLRSC |
[Murcos de8rlto|




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ou no lucebook du Revlstu Alµendre

6
O devir molecular da
partícula
Uma navegação espacial pela Construção Nebulosa
+
A linha se define como um devir-
espaço elementar da arquitetura; o
qual faz precipitar os afetos
implicados em sua construção. É
possível sentir que as linhas físicas do
traço arquitetônico se entrelaçam
com as linhas existenciais presentes
no corpo.
Quando a linha se faz criar a partir
do movimento de uma partícula, de
certa forma, ela territorializa essa
partícula como uma impressão, uma
marca ou afecção. No entanto, esse
processo não é algo definitivo, a
linha, que territorializa uma partícula,
passa a ser uma nova entidade
dotada de poder de afeto, podendo
novamente se desterritorializar. A
partir de desterritorialização e
reterritorialização, novas linhas
podem emergir entre os planos de
modo a esboçar cartografias. Esse
deslizar entre territórios é o que
permite ao corpo variar entre dissolver-
se ou coagular-se.
Parte-se agora em busca de um devir-
espaço, que vai além da linha, a
dissolvendo ou a desterritorializando de
forma a retornar a um universo de
partículas sensíveis. O devir-espaço da
linha se converte num novo devir, o
devir-molecular da partícula. No
entanto, esse outro devir que surge não
exclui o anterior, e sim, o carrega nele,
se aprofunda em seu interior e o faz
transmutar.
Se antes a linha carregava a potência
afetiva na forma da afecção, agora a
partícula carrega a potência dos afetos
+
Este artigo é parte integrante
da dissertação de mestrado
initulada: “Arquitetura inatual
como arquitetura da diferença
– uma comunicação de afetos
e durações” defendida pela
Prof. M.Sc. Maria Júlia
Barbieri, no Programa de Pós
Graduação em Comunicação
Midiática da FAAC-UNESP.

7
em trânsito. A afecção é marca
corpórea, tem o poder de fixar um
estado no corpo e imprimir uma
presença permanente do encontro
entre o espaço e o indivíduo; já o
puro afeto pertence a um universo
temporal que devém uma afecção,
numa duração que transita
livremente sem se fixar. A partícula
agora é a linha que se dissolve num
devir-molecular.
“Devir é, a partir das formas que se têm,
do sujeito que se é, dos órgãos que se
possui ou das funções que se preenche,
extrair partículas, entre as quais
instauramos relações de movimento e
repouso, de velocidade e lentidão, as mais
próximas daquilo que estamos em vias de
nos tornarmos, e através das quais nos
tornamos.[...] Esse princípio de
aproximação é inteiramente particular,e
não introduz analogia alguma. Ele indica o
mais rigorosamente possível uma zona de
vizinhança ou de co-presença de uma
partícula quando entra nessa zona.”
(DELEUZE & GUATTARI, 2004 p.64)
Essa zona de vizinhança, onde
perpassam livremente os devires
moleculares, tem uma natureza de
indefinição e indecidibilidade. Nesse
plano sempre se está em vias de, tal
como o afeto que precede uma
afecção. Volta-se a condição
primária daquilo que define um
corpo, ou seja, relações de
velocidade e lentidão. O devir-
molecular está, por assim dizer, para
além do corpo, conformando um
território imanente de partículas em
movimento; nesse sentido, fala-se de
um corpo dissolvido ou um corpo
sem órgãos sempre em vias de se
transmutar.
Esse plano de consistência é
conformado por processos que
operam, num nível molecular,
relações entre elementos não
formados. Um plano que não fixa,
não desenvolve signo algum, não
delimita corpos, não atribui nomes.
Como o cavaleiro da fé que vive no
puro movimento, faz de todo o
mundo um devir, perde seu nome e
seu corpo se tornando clandestino e
invisível. Segundo Deleuze: “Aqui
não há absolutamente formas e
desenvolvimento de formas; nem
sujeitos e formações de sujeitos. Não
há nem estrutura nem gênese.”
(DELEUZE & GUATTARI, 2004 p.55)
Nesse plano não se fala mais em
evolução e sim em involução “onde a
forma não pára de ser dissolvida
para liberar tempos e velocidades”
(DELEUZE & GUATTARI, 2002 p.56);
não se fala mais em subjetividade
individuada, mas sim em
hecceidades.
“Há um modo de individuação muito
diferente daquele de uma pessoa ou
sujeito, uma coisa ou substância. Nós lhe
reservamos o nome de hecceidade. Uma
estação, um inverno, um verão, uma hora,
uma data têm uma individualidade
perfeita, à qual não falta nada, embora ela
não se confunda com a individualidade de
uma coisa ou um sujeito. São hecceidades
no sentido de que tudo aí é relação de
movimento e de repouso entre moléculas
ou partículas, poder de afetar e ser
afetado.” (DELEUZE & GUATTARI, 2004
p.47)
Sendo assim, é a pura experiência,
no âmbito da duração, que pode
revelar essa essência imanente de
uma realidade em movimento. E o
afeto, enquanto o trânsito entre um e
outro estado do corpo, é aquilo que
habita essa fronteira. O devir-
molecular coloca o espaço e o corpo
num território de fluidez, no qual se
torna impossível dizer quando um
começa e outro acaba.
Esse aspecto fluido do espaço já foi
tratado por Marcos Novak no que ele
chamou: arquitetura líquida. Para
Novak, a arquitetura líquida lida com
uma fluidez que a
contemporaneidade confere ao
próprio espaço, dessa forma, ele
propõe uma trans-arquitetura (ou
arquitetura transmissiva), ampliando
ainda mais essa idéia, propõe uma
arquitetura de contágio, onde o
tempo contamina o espaço de forma
a conferir-lhe uma outra natureza.
“A transmissão da arquitetura e do
espaço público altera todas as
condições familiares da arquitetura e
urbanismo. tudo de uma vez, teoria,
prática e educação são confrontadas
com questões que não tem
precedentes considerados dentro da
disciplina, necessitando que nos
direcionemos para outro lugar para
nos guiarmos. [...] Aprendendo a
partir de softwares, substituindo
Aprendendo em Las Vegas, a
Bauhaus, ou Vitruvius: a disciplina de
substituir todas as constantes por
variáveis, necessariamente por uma
boa engenharia de software, conduz
diretamente a idéia de arquitetura
líquida. Arquitetura líquida, em troca,
conduz para a reproblematização do
tempo como um elemento ativo da
arquitetura na escala de um evento
cognitivo e musical, e não só no
evento histórico político ou
econômico.” (NOVAK, 1996)
Aprofunda-se essa discussão a fim de
tratar a liquidez, a qual Novak se
refere, não apenas no âmbito da
emergência tecnológica, mas
também nos desdobramentos que
ela provoca sobre a relação entre
corpo e espaço. Neste sentido, a
liquidez passa a operar como um
devir-molecular que envolve
contaminação e proliferação de
afetos. Esse tempo, enquanto
elemento ativo na arquitetura, ganha
a propriedade da duração uma vez
que envolve o espaço e o corpo num
mesmo devir. E de acordo com
Bergson:
“Para quem se instala no devir, a
duração aparece como a própria vida
das coisas, como a realidade
fundamental.” (BERGSON, 2005 p.343)

8
A partir desses aspectos, inicia-se um
percurso através das hecceidades e
involuções que se revelam na Blur
Building, obra de Diller & Scofidio para a
Expo 2002 na Suíça. A “Construção
Nebulosa” desses arquitetos permite ao
corpo imergir num devir-molecular por
excelência, onde todas as formas se
desfazem e se dissolvem numa névoa de
puro branco, tal como a linha branca que
se desenhou no céu quando uma mulher
descobriu seu devir-Deus.
A miragem nebulosa
Suíça, Yverdon -01:00 , 46°47' N 06°39' E
O lugar é amplo e iluminado. Por entre
algumas árvores, pode se avistar a
superfície fluída de um lago que cintila à
luz do sol. O movimento calmo de suas
águas ressoa em cristais sonoros um
marulho cósmico. Com o vento, esses
cristais se precipitam em cores fugidias,
como quando a chuva traz consigo um
espectro que multiplica a luz branca do
sol num arco-íris que cruza o céu. Diziam
alguns antepassados que no seu fim
existiria um pote de ouro. Aproximo-me
da margem e sigo uma curva sinuosa que
encerra a linha tênue entre a liquidez da
água e a solidez da terra. Que substância
é essa que se diferencia entre solidez e
liquidez? Qual é o impulso que agrega
essas partículas ora sólidas como pedra,
ora líquidas como água, ora suaves como
as dobras de minha pele, ora leves como
o ar que agora penetra pelos meus poros
numa brisa leve? Lembro-me dos
travelings de Tarkovski que conduzem o
olhar a desvendar essa materialidade
latente, ou ainda, trazem a impressão de
que é esse encontro entre os olhos e a
superfície que precipita as moléculas de
uma natureza imanente. Ele cria por meio
da duração das coisas um acesso ao
universo molecular da imagem.
A idéia de margem reverbera em meus
pensamentos num impulso quase
delirante de desejar que meu próprio
corpo habite essa fronteira. Que ele
próprio oscile entre a liquidez da água e a
solidez da terra. Inclino meu corpo em
direção a água e meu reflexo se faz por
entre as ondas mínimas que vêm e vão.
Uma molécula de Narciso ressurge dos
mitos a afogar minha própria imagem que
se desfaz quando uma gota de orvalho cai
sobre a água criando ondas circulares. Já
não sei do que sou feito. Água, terra ou
cristais sonoros.
Caminho pela margem do lago e posso
avistar muito longe uma nuvem que paira
sobre a água. Ela parece ter desviado seu
curso no céu em busca de um descanso
por sobre as ondas. O vento a faz deixar
um rastro branco que quando toca a água
se desfaz. Penso de novo nesses limiares
da materialidade que fazem a nuvem
oscilar entre a liquidez e a condensação.
Talvez nessa fronteira estejam todos os
segredos do mundo. Mas, eles todos
povoam o universo do imperceptível.
Parece-me que essa grande nuvem que
desceu ao lago confidencia-lhe seus
segredos mais íntimos. No entanto, a
distância que se interpõe entre mim e a
nuvem não me deixa ouvi-los. Sinto que
preciso buscar essa percepção
molecular. Tornar-me por apenas alguns
segundos líquido como a água e denso
como a nuvem. Apesar das asas que

9
poderiam me fazer voar, continuo
andando ao longo da margem do
grande lago. Sinto que a descoberta
está próxima. Lembro-me dos céus nos
quadros renascentistas que faziam da
luz que atravessa as nuvens ecos de
Deus sobre os homens. Lembro-me
também de um poema em prosa de
Baudelaire que dizia:
“Um porto é uma estância encantadora para
um espírito cansado das lutas da vida. A
vastidão do céu, a arquitetura móvel das
nuvens, as tonalidades variáveis do mar, a
cintilação dos faróis, são um prisma
admiravelmente adequado para entreter os
olhos sem nunca os aborrecer. As formas
esguias dos navios, de enxárcia complicada,
aos quais a ondulação transmite oscilações
harmoniosas, servem para manter no espírito
o gosto pelo ritmo e pela beleza. E, aliás,
existe sobretudo uma espécie de prazer
misterioso e aristocrático para quem já não
tem curiosidade ou ambição, ao contemplar,
inclinado no miradouro ou debruçado junto
ao molhe, todos os movimentos dos que
partem e dos que regressam, dos que ainda
têm a força de querer, o desejo de viajar ou
de enriquecer.”
1

Percebo então, que habito esse porto de
Baudelaire. Cada vez mais cavaleiro da
fé, agora com um devir-anjo, posso
executar essas viagens imóveis e
transmutar meu próprio corpo em lago,
nuvem e sol. Sinto que devo me
entregar ao sabor do vento que agora
revolve meus cabelos da mesma forma
que revolve o lago em ondas. O vento
faz a grande nuvem oscilar sua forma.
Lembro-me da infância distante em
algum lugar sublime onde eu olhava o
movimento das nuvens no céu e tentava
decifrar suas formas. Ora cavalos, ora
anjos, ora apenas uma massa sem forma.
Também ficava horas admirando-as nas
longas viagens de carro e pensando que
as nuvens formam ondas no céu, como
um reflexo do grande mar azul onde as
ondas de Virgínia Woolf vem e vão,
trazendo e levando seus pensamentos.
Quando mais me aproximo da nuvem
mais ela me traz a impressão de uma
miragem. Penso então que a
arquitetura móvel das nuvens é uma
arquitetura de miragem, que encanta
os olhos, enfeitiça e hipnotiza. As
miragens escondem sempre um
mistério o qual apenas os olhos podem
compartilhá-lo, contemplá-lo de longe
e à espreita. Elas são feitas das
mesmas moléculas de silêncio que
preenchem uma pausa secular. Sua
presença sublime congela a
paisagem. O universo físico se detém.
Um afeto estático se conforma
esfacelando as horas, silenciando as
ondas, retendo no céu um sol
eclíptico, impedindo o vento,
cessando o movimento das minúsculas
gotas que caíam das folhas fazendo
flutuar aquelas que se encontravam no
meio do caminho. Um tempo morto. A
grande miragem nebulosa parece
atender o meu desejo de vivenciá-la
em sua plenitude. Entendo então que
¡
1AvARLS, Anu Crlstlnu.
lntrodução e trudução de tres
µoemus em Prosu de 8uudelulre.
8ubllðnlu: Revlstu lusofonu de
llnguus, culturus e truduçoes.
levjmur zcc¸.

Llsµonlvel em:

<httµ:jjbubllonlu.ulusofonu.µtjtruduc
oes_lntroducuo.µdf > Acessudo em:
zc jun. zcc6


10
devo também silenciar o corpo e o pensamento, como os budas tibetanos em suas horas de meditação. Todo o
universo retido num instante de miragem. A mais pura hecceidade. “Uma hecceidade não é separável da
neblina ou da bruma que dependem de uma zona molecular, de um espaço corpuscular.” (DELEUZE &
GUATTARI, 2004 p.64)
A única coisa que se move nesse instante estático é a nuvem, como se revelasse, apenas a mim, os limiares que
a transportam de um devir molecular a outro. Só ela pode quebrar o silêncio num ruído infra-sonoro que chega
até mim fazendo vibrar dobra por dobra toda a superfície do meu corpo. É uma música de nuvem que viaja
através da paisagem, passa atravessando qualquer materialidade presente. Preenche com um som de neblina
cada cavidade, cada espaço entre as partículas as impedindo de se mover. Há ainda um outro ruído, que ao
contrário desse, não tem a nuvem como fonte sonora, não parte dela dissolvendo-se pela paisagem. Faz o
caminho inverso, como se a nuvem o atraísse para si, atravessa tudo em direção a ela. Quando toca a superfície
da água vibra líquido e coagula. É o som da força que faz a nuvem se recriar incessantemente, é o som do
transporte molecular que faz as partículas líquidas da água se transmutarem numa densidade branca e
nebulosa.
Só então entendo que o que alimenta essa nuvem é o próprio lago, é dele que ela tira
as partículas de sua construção. Sinto desejo de penetrá-la, mas temo que a miragem
desapareça assim que eu me mova. Mas se não o fizer nunca saberei o segredo que
guarda a morada dos anjos, o afeto da chuva, a potência do raio que se dobra em um
trovão. Fecho os olhos tentando reter na memória uma última imagem daquela
miragem nebulosa na paisagem estática. Dou um primeiro passo e tudo se move
também. As gotas continuam seu curso em direção ao chão, as folhas ressoam com o
vento, as ondas se enrolam novamente e o eclipse se desfaz. Mas a miragem não se
esvai. Ela me espera e me convida preenchendo o céu numa aurora boreal que faz a
superfície celeste variar entre rosas, roxos e verdes.
Duas passarelas suspensas desenham um caminho em direção a nuvem. Inicio uma
caminhada em direção a ela e conforme avanço por sobre o lago sinto um leve
entorpecimento dos sentidos que anunciam ao corpo a proximidade da descoberta.
Levito. Cápsula do vento. Leve, tão leve como a espuma que se desfaz no fim das
ondas ou como a bolha de sabão que, antes de explodir no ar, reflete as cores do
arco-íris. Algumas borboletas amarelas se precipitam num vôo simples conduzindo
meus passos. E a brisa traz consigo aquelas pequenas flores que se desmancham
quando a gente sopra. Sinto um cheiro doce de primavera. Quando vou me
aproximando do fim da passarela uma garoa fina começa por molhar minha pele até
me impregnar por inteiro. A névoa se projeta sobre mim tomando meu corpo para si.
Estou dentro.
Denso muito denso e branco muito branco:
“É como penetrar uma massa nebulosa, referências visuais e acústicas são apagadas deixando
apenas a “densidade branca” e o “ruído branco” do esborrifar dos pequenos aspersores. Como
penetrar um espaço, penetrar a Nuvem é como andar dentro de um meio habitável, disforme,
sem limites, sem cor, sem profundidade, sem escala, sem massa sem superfície e sem dimensão.”
(DILLER, 2005 p.16)
Vem-me a mente a cegueira de Saramago
2
, leitosa e branca, densa como a nuvem. A
miragem de antes, que só era possível aos olhos, faz a visão adormecer. Não posso
enxergar mais nada. Sinto-me parte de tudo que me rodeia e posso sentir que
2
“Ensaio sobre a cegueira
é um romance de José
Saramago, publicado em
1995 e traduzido para
diversas línguas. Saramago
recebeu o prémio Nobel de
literatura pelo conjunto da
sua obra. Ensaio sobre a
cegueira é um dos seus
romances mais famosos,
juntamente com Todos os
nomes e O Evangelho
segundo Jesus Cristo. O
romance conta a história de
uma praga de cegueira,
inexplicável e incurável,
que começa num homem
sentado no trânsito e,
lentamente, se espalha
pelo país. À medida que os
afectados pela epidemia
são colocados em
quarentena, em condições
desumanas, e os serviços
civis começam a falhar, a
história segue a mulher de
um médico, a única pessoa
que não é afectada pela
doença que cega todos os
outros.” Retirado da
enciclopédia eletrônica
Wikipédia. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/w
iki/Ensaio_sobre_a_cegueir
a> . acessado em 28
jun.2006

11
qualquer movimento meu desencadeia um movimento que vai molécula por molécula afetando tudo. Percebo
que um devir-molecular pede um outro corpo, que até então eu não conhecia, um corpo sem órgãos, que nada
reconhece e em nada se transforma senão em puro movimento. Renúncia dos sentidos. Esse espaço não obedece
qualquer lógica material ou estrutural, os olhos que adormecem já não podem mais medir, identificar, localizar
ou representar. E que outra natureza teria a arquitetura das nuvens? Lembro-me de ler alguma coisa sobre isso:
“A perspectiva só conhece as coisas que pode reduzir a seus termos, que ocupam um lugar, cujo contorno pode ser definido por
suas linhas. Mas o céu não ocupa um lugar, não tem medidas. As nuvens são ‘corpos sem superfície’, sem forma precisa, cujos
limites se interpenetram. Escapando graças à fluidez de sua matéria, ao regime perspectivo, as nuvens criam um espaço
volumoso, saturado.” (PEIXOTO, 1993 p.250)
Tudo nesse lugar é molecular, são moléculas espaciais, são moléculas sonoras, são moléculas corpóreas. Todas
estranhamente conectadas por puro afeto. No entanto, nessa nuvem, esses afetos não se diferenciam, não trazem
em si qualquer definição até que a força de uma linha os atravesse e os transforme em afecção: os precipite em
gotas de chuva, em pedras de gelo ou raios de tempestade. Lembro-me de algumas palavras de Deleuze:
“[...] mas o próprio imperceptível torna-se necessariamente percebido, ao mesmo tempo em que a percepção torna-se
necessariamente molecular: chegar a buracos, microintervalos entre as matérias, cores e sons, onde se precipitam as linhas de
fuga, linhas de mundo, linhas de transparência e secção.” (DELEUZE & GUATTARI, 2004 p.76)
Para além do corpo e dos sentidos sinto as minhas forças moleculares habitarem cada partícula dessa nuvem.
Agora sim posso atingir a plenitude da dissolução. Corpo expandido. Toda a paisagem de fora, as ondas, o vento
e o céu está em mim, pois eu mesmo sou feito de nuvem. Imóvel ali dentro, posso ser mais do que nunca
cavaleiro da fé, clandestino e imóvel. Tenho pele de dobras transparentes e dobras de paisagens invisíveis.
Corpo sem órgãos. Puras relações de velocidade e lentidão. Espinosa e o puro afeto. Bergson e a realidade em
movimento. Segredos que se revelam. Como as nuvens nas pinturas renascentistas eu mesmo sou um eco de
Deus sobre os homens. Sou feito de uma arquitetura de atmosfera. Tão rápido quanto os ventos que sopram as
correntes marítimas, tão vulnerável quanto as estações do ano. Efêmero. Hecceidades em forma de nuvem,
chuva ou granizo. Afeto de tempestade, furacão. E no fim de tudo uma liquidez volátil daquilo que sublima. Éter.
Não quero mais voltar a ser. Já não me lembro de nada, pois os fios invisíveis de minha memória são os fios de
uma memória de todas as coisas. A cegueira branca e leitosa não me incomoda mais, não sinto sede ou fome.
Pois me alimento daquilo que sou feito. Bebo meu próprio corpo.
Mais uma vaga lembrança da miragem. Daquilo que pode ser desvelado aos olhos que miram à paisagem. A
etimologia decifra tudo: miragem, mirar. Do latim mirare: admirar-se, contemplar, digno de admiração, e do
mesmo radical mira-culum: feito extraordinário que vai contra as leis da natureza; maravilha. Milagre.
Para onde vou agora? Não sei. Tudo que sei e que por alguma hecceidade pude ser um eco de Deus.
Devir? Miragem? Nuvem? Milagre?





12

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGSON, Henri. A Evolução Criadora. São Paulo: Matins Fontes, 2005.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs. Devir-Intenso, Devir-Animal, Devir-Imperceptível. Volume
IV. Rio de Janeiro: Ed.34, 2004.
DILLER, Elizabeth. Blur Building Yverdon-les-Bains, Swiss Expo. 02. Helft, 2005.

NOVAK, Marcos. Transmitting Architecture: The Transphysical City. Novembro, 1996. Disponível em:
<http://www.ctheory.net/articles.aspx?id=76>. Acessado em mar. 2006.
PEIXOTO, Nelson Brissac . Paisagens urbanas. Editora Senac. São Paulo, 1996.

13
WE FEEL FINE [http://www.wefeelfine.org]
Por Mariana Biork
Criado por Jonathan Harris e Sep Kamvar, o 'We Feel Fine'
é um projeto de arte coletivo, que coleta e registra
sentimentos humanos de um grande número de blogs, se
interessando por frases com comessem com “I feel” ou “I
am feeling” (“eu sinto” ou “eu estou sentindo” em
tradução livre). Com uma interface lúdica, de grande
poesia visual, que ao mesmo tempo oferece, através da
interatividade, a interferência do espectador, cada ponto
na tela representa o sentimento de uma pessoa e cada cor
representa um tipo se sentimento diferente, tais como
“feliz”, “triste”, etc. Nas palavras do co-criador Sep
Kamvar “O projeto nos fez ver que as pessoas são muito
mais parecidas do que diferentes, emocionalmente”. We
Feel Fine é uma surpreendente experiência de como
podemos entender nós, seres humanos, através dos meios
de comunicação digitais contemporâneos.
DROPS
Seis Pilulas para olhos
moribundos

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DROPS
100 METROS DE EXISTÊNCIA
[www.simonhoegsberg.com/we_are_all_gonna_die/slider.html]
Por Mariana Biork
Ao longo de 20 dias, o fotografo dinamarquês Simon
Hoegsberg fotografou as pessoas que passavam sempre
a partir do mesmo ponto de observação, uma ponte
ferroviária da estação Warschauer Starsse - em Berlim,
durante o Verão de 2007. Simon capturou fotografias de
um total de 178 pessoas em situações cotidianas, onde
nem sempre percebiam estar sendo fotografadas. O
resultado é uma grande fotografia com 100 metros de
comprimento, onde é impossível não se deixar levar
pela humanidade, afeto e espontaneidade de simples
pessoas, que como nós, um dia vão morrer.

14
Por Maria Júlia Barbieri
Cristiano Mascaro é um dos principais
fotógrafos de arquitetura do Brasil.
Possuidor de um olhar singular sobre a
cidade, Mascaró habita a fronteira imprecisa
entre a luz e a sombra, revelando ao
espectador belas imagens. Se “pensar é
estar doente dos olhos”, Mascaró pensa com
suas lentes precisas e nos faz sentir por
breves momentos, congelados em suas
fotografias, os afetos do mundo.

LNSAlC vlSUAL


[Crlstluno Muscuro|


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15

16

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19


20


21


22


23
CONDUZINDO CEGOS
Algumas parábolas e outras
incontinências do visual
sobre o fotógrafo Evgen Bavcar por Elida Tessler
Evgen Bavcar é uma daquelas
pessoas que espera suas visitas
com a porta aberta, desde que, é
evidente, o encontro tenha sido
marcado com antecedência. 0
visitante é que deve manejar bem
os botões do código de entrada
do prédio, passar pelo pátio
interno, entrar finalmente no
edifício, seguindo por corredores
escuros e escadas em espiral. Um
bom ritual de passagem, diria
J.L.Borges, para quem a mitologia
também foi excelente
companheira, em seu lento
processo de perda da visão. É ele
quem nos diz que “imagens não
passam de incontinências do
visual”. Mas para quem conhece
os ensaios e relatos de Walter
Benjamin, sabe que este caminho

Elida Tessler é artista
plástica e professora
doutora do Departamento
de Artes Visuais e do
Programa de
PósGraduação em Artes
Visuais do Instituto de Artes
da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul – UFRGS

Texto cedido gentilmente
pela autora.

http://elidatessler.com
bem que o interessaria, pois
trata-se realmente de um mundo
de passagens, onde luz e
sombra fazem jogo permanente.
Chegando ao segundo andar,
somos subitamente lançados em
uma área externa, um corredor
sem teto nem paredes laterais,
algo como uma ponte, de onde
se pode avistar os avessos dos
edifícios vizinhos. Mais uma vez,
nossos amigos filósofos,
incluindo obrigatoriamente
Platão, acompanham-nos nesta
jornada, onde o ato de ver e não
ver abrem questões: a luz cega?
As marcas do tempo, em
múltiplas manchas e
escorrimentos nas paredes, são
desenhos incontinentes? 0 que
pode querer dizer uma sombra,
+

24
1 CARON, M. &
TESSLER, E. “Uma
câmara escura atrás de
outra câmara escura”,
Revista Porto Arte, no
17, v 9, Porto Alegre,
Instituto de Artes
UFRGS, 1990, p. 94
2 BOURGEOIS, L.
Destruição do Pai,
Reconstrução do Pai,
São Paulo, Cosac
&Naify, 2000 p. 105



quando a materialidade do mundo real impõe-se permanentemente?

Nosso anfitrião espera-nos em seu apartamento, todavia há distância entre a porta e o lugar onde ele
se encontra. Ele domina seus espaços. Nós não. Ele conduz: “por aqui, por favor, sente-se e fique à
vontade.” Neste momento, são outros os nossos desejos, sendo que um deles é de que o tempo dê
trégua, oferecendo assim uma chance para que a conversa se estabeleça sem pressa. Não quero
delinear aqui nenhuma analogia leviana, porém a obviedade obriga a esclarecer a inversão de
posições. Ali, em sua casa, nós é que somos os cegos, e suemos conduzidos em seu universo obscuro,
pleno de objetos em aparente desordem, com pequenos espelhos espalhados por todos os lados, e o
braille a nos dizer que a linguagem tem sempre um outro código possível, em infinitos suportes.
Para Evgen Bavcar, fotografia é sobretudo uma escritura feita com a luz. Em seu trabalho, podemos
perceber o quanto o verbo e a imagem entrelaçam-se oferecendo-nos, em estranha narrativa, suas
memórias de eterna noite, onde sonho e realidade não têm mais nenhuma necessidade de distinção.

Ao invés de fotógrafo, Bavcar desejaria ser chamado de “escritor da luz”. Em uma entrevista, certa
vez declarou: “Eu tento fazer surgir objetos, imagens, a partir de um berço de trevas”.(1) Definindo-
se como artista conceitual, afirma partir de uma pré-imagem, concebida em pensamento, antes de
torná-la realidade visível. Desde meu encontro com ele, sinto-me então mais atenta aos preconceitos,
mas sobretudo tomada por uma grande curiosidade a respeito da insistência
dos artistas plásticos em indicar relações entre a cegueira e as artes visuais.

Vejamos o que propuseram alguns deles e suas relações possíveis com as
proposições de Bavcar.Louise Bourgeois apresenta, em 1949, um trabalho
intitulado “Cegos conduzindo cegos”. Trata-se de uma escultura em
madeira pintada, com dimensões de 171, 5 x 163, 5 x 41,5 cm. 0 que me
chama a atenção desde a primeira mirada, é a necessidade de conjunção,
de ligamento estrutural de quatorze bastões colocados em posição vertical,
unidos entretanto por uma prancha horizontal, onde mais três ripas
repousam (cegos cansados da caminhada insegura?). A polaridade
longilínea entre as posições não é a única a nos inquietar. As madeiras foram
pintadas em duas cores: vermelho e preto. Os bastões foram colocados lado
a lado, formando pares (pernas?). A escultura, pela sua dimensão e material
utilizado, deve ter um peso considerável. Mas há leveza nesta estrutura,
tanto que ela caminha, às cegas. Pois quando a artista vem a comentar a sua
obra, encontramos algumas palavras-chave como deslocamento, lacunas,
movimento. Ela não toma o seu trabalho como escultura exposta em uma
galeria. Ela se apropria do espaço de exposição como parte integrante de
seu trabalho. 0 chão da galeria é o sob onde pisam os seus cegos. 0
espectador caminhará entre eles que têm, como se pode observar,
dimensões humanas. Ela faz alusão, em seus depoimentos, que “Cegos
conduzindo cegos” se refere aos homens velhos que a conduzem para o
precipício. Diz também que o espectador deixa de ser um mero observador
se puder colaborar: “0 deslocamento, a transformação de uma pessoa que é
passiva, deprimida por uma crise de consciência, numa pessoa que se torna
subitamente ativa - é a passagem da morte para a vida por meio do ato
criativo.”(2) Durante as suas noites de insônia, Bourgeois também escreve e
desenha em qualquer papel que encontre. 0 desenho cego faz parte da
formação de todo artista e da produção de muitos que, para mim, são
referências importantes, como Cy Tombly, por exemplo, que tinha como

25
método acordar-se no mão da nois e desenhar na penumbra de seu
atelier.
O filósofo francês Jacques Derrida nos oferece um amplo panorama de
obras e de artistas que se interessaram pelo tema da cegueira.
Configurou, assim, em 1990, uma belíssima exposição de desenhos e
gravuras, todos oriundos das coleções do Louvre, e a chamou
“Memórias de cegos - auto-retrato e outras ruínas”(3) . Ele nos diz, em
seus textos do catálogo, aquilo que já sabemos: toda obra é um auto-
retrato. Mas para nossa surpresa, há também ali depoimentos que
ultrapassam o grau de intimidade da relação entre escritor e leitor,
quando ele deixa de lado a análise das obras ou a justificação de suas
escolhas, para nos contar de seu método de produção de textos, quase
sempre às cegas. Também em noites de insônia, na escuridão, as notas
são tomadas em pequenos pedaços de papel, em uma quase-guaratuja,
difícil de ser decifrada posteriormente.

E Bruegel? Peter Bruegel, artista flamengo, é bastante reconhecido por
suas pinturas que retratam um cotidiano de aldeias rurais e universo
medieval, em pleno florescimento renascentista. Ali encontraremos o real
e o fantástico, pleno de ironia e imagens oníricas. É dele a “Parábola dos
Cegos” (1568), uma de suas obras mais conhecidas, A ela, fui remetida
graças a Louise Bourgeás. Bruegel tem a necessidade de dizer algo
acerca da crueldade da época ame à cegueira e à doença em geral. Ele
incorpora ao tema a sua própria mensagem sob forma de parábola:
quando os cegos são conduzidos por cegos todos caem no abismo. Tudo é
diagonal nesta pintura. Nosso olhar cal em vertigem pás não há uma
sustentação horizontal, não há verticais suficientes que sirvam de
anteparo. Há, como em L. Bourgeios, os bastões, desta vez não como
pernas mas como bengalas mesmo. Há também o sentido de ajuntamento,
de necessidade de estar enganchado um no outro. Por vezes, uma
bengala serve a dois cegos desde que um deles coloque sua mão sobre o
ombro daquele que está a sua Vente. Repare: um cego 0 caiu no
precipício Tudo mais é movimento em descendência. Creio que ele está
próximo de Antoine Coypel e de seus estudos sobre o cego. É dele a
pintura “Cristo curando os cegos de jerico” (1684), onde os homens não
procuram uma coisa ou outra e sim uma mão segura. Eles imploram uma
promessa de visão mas há quem pergunte: “um cego pode conduzir um
outro cego? Não cairão em um buraco?”

Mas quem são os cegos? Evgen Bavcar com suas fotografias e reflexões
situa bem esta questão. Ele declara ser cego como os astrônomos
dizendo: ‘eles apenas olham de maneira indireta. 0 que é que eles podem
ver com seus próprios olhos?”. Bavcar nos fala da pequena extensão do
olhar humano em relação as máquinas, e acrescenta: “É uma espécie de
telescópio que eu utilizo para ver as estrelas, Todo mundo se utiliza do
olhar do outro só que sobre outros planos sem se dar conta sempre. E
como nunca pode se ver com os próprios olhos, somos todos um pouco
cegos. Nós nos olhamos sempre com o olhar do outro, mesmo que seja
aquele do espelho.”(4)
3 DERRIDA, Jacques.
Mémoires d’aveugles
L’auto-portrait et
autres ruines. Paris,
Réunion des Musées
Nationaux, 1990.
4 CARON, M. &
TESSLER, E , op. cit
p. 93




26

Há muitos artistas que nos propõem espelhos. Cildo Meireles, por exemplo,
nos oferece um Espelho Cego (1970). Nesta obra está colocada a questão do
olhar pelo tocar, pelo tateamento, pela presença da mão como o olho do
cego. Um espelho sem imagem. Vemos, porém, uma imagem digital
(literalmente falando) feita com o dedo. Uma identidade legítima, contudo
perdida para sempre, em multiplicidade de sobreposições como uma
singular modelagem. Uma obra que somente os cegos podem realmente
ver.

O espelho é um objeto caro a Evgen Bavcar, que tem o hábito de usar um
como broche na lapela, a fim de que seus interlocutores possam encontrar o
retorno de seu olhar ao conversar com ele. Pois como um cego poderia
fazê-lo melhor? Na casa do fotógrafo, encontramos espelhos dos mais
diferentes formatos, colocados em vários locais não muito habituais. Na
parede, em alturas diversas, nas prateleiras de livros, na cabeceira da
cama. Neste último local, também podemos ver uma ou duas bonecas, com
o rosto de borracha voltado para a parede. Afirma que somente ele, em sua
intimidade absoluta, pode “ver” os olhos delas. Detalhes de sua maneira de
viver que nos indicam que o seu pensamento está muito mais além do de um
fotógrafo cego, como é geralmente classificado pelos que o conhecem a
partir da mídia.

Os espelhos também o ajudam a fazer com que seu interlocutor assuma um
outro ponto de vista. Esther Woerdehoff (5) nos faz conhecer um fato
elucidativo: um dia, uma senhora manifestou seu desejo de ser fotografada
por Bavcar. Por quê alguém se preocuparia em se fazer bela para ser
mirada por um homem que não vê? Bavcar então lhe pede que se aproxime
de um dos inumeráveis espelhos de seu apartamento, se olhe e se enquadre
ali. Pede também que o pegue pelas mãos, o conduzindo para diante da
imagem. “Mostre-me a mulher que você reconhece no espelho!”. É a sua
última demanda. Entre o “olhe-me” provocativo da mulher que se oferece
como modelo e o “olha-te” irônico do fotógrafo, encontramos a justa
medida das implicações contidas no complexo enredo de nossa
perplexidade preconceituosa. Para Bavcar, o espelho captura tudo o que se
dissipa nas sombras do nada. Por esta razão seu trabalho é como de todo
artista sensível aos pontos cegos do olhar que acreditamos possuir. Suas
imagens luminosas revelam, portanto, a escuridão de nossos olhares
dogmáticos.

5 WOERDEHOFF, E.
“Evgen Bavcar: um
portrait” in: BAVCAR, E.
Inaccessible étoile. Un
voyage dans le temps,
Berne, Editions Benteli,
1996

27

O afeto desmedido
[Yonú 8eltrun 8runduo|

Trabalho final de graduação . 2012 . arquitetura
+
Ela nasceu pra mim, porque já de
alguns anos a vinha sondando
Eu não devia sair de mim que
ainda se fazia cedo, mas já se dizia
clara
Percorri-a o quanto pude ou pelo
que quis, mas como de contabilizar
o afeto que tive
Fui questionar, revidar, agredir de
porquês e até quanto ia
Foi.
Mais.


Desde o início dava pra sentir a
imensidão da arquitetura, tão
sincronizada a arte, e sendo assim,
legitimamente guiada pelas mãos e
critérios de um de nós. Sempre pensei
nela como uma forma de desenvolver
algum sentimento ou crítica para o
receptor desta obra de arte - o ser - e o
exercício, pra mim, sempre se valeu
dessas premissas. Mas, me
questionando sobre a arquitetura atual e
essa conseqüente receptividade, notei
um precipício absurdo onde ninguém a
recebe, muito menos reflete.
Dispensou a pureza obrigada de razões
e porque?
Adormeceu os lápis afinados e as
danças afiadas e porque?
+
TFG

28
Abraçou da chuva e tirou o chão e
porque?
Quero chuva
Quero chão, não ilusão
Ataquei, como procurando nela e
em mim um motivo que se valesse
de muito sentir e só o que fiz foi
guiar, domesticar alguns corpos
pelas coisas que acredito. E não é
só isso que a gente faz? Levar até
as últimas certas críticas que
passam ao léu pelas nossas
cabeças? Tola eu de acreditar que
para todos uma parede torta traria
emoção, amplidão ou redenção.
O afeto puro não ocorre para
todos da mesma forma, mas
depende exclusivamente desta
ligação. E vale lembrar que ainda
existem aqueles que nem tentam
propor o sentimento, destes a
arquitetura foge. Já de princípio,
aliei a arquitetura a sentimentos,
coisas humanas, não que ela seja
um corpo, porque arquitetura é
puro afeto. Ela não surge de
quatro paredes como eu já
pensei, na verdade ela nasce,
sobrevive e se recicla através de
potências produzidas pelo nosso
encontro. Penso nela como o Sol,

"Eu sinto o sol sobre mim", ou
então,
"um raio de sol pousa sobre
você": é uma afecção do seu
corpo.
O que é uma afecção do seu
corpo?
Não o sol, mas a ação do sol ou o
efeito do sol sobre você.
Em outros termos, um efeito, ou a
ação que um corpo produz sobre
outro.
Flanando... Só assim pra
diagnosticar, viver, tocar, chorar
da delícia que é uma casa de avó,
um pontilhão, a calçada e rua
esburacada. Santo de casa num
faz milagre só porque Dentro de
casa não se faz milagre, arquitetos
descalços, etc. - é a máxima da
arquitetura e confirma o afeto, o
apelo por este encontro. Os
projetos sempre se basearam do
meu inconformismo nas pessoas
por não praticarem o
entendimento de arte, assimilação
do lugar em que vivem,
experimentações corporais, essas
coisas que somos loucos por fazer
e só funcionam em termos. Hoje,
viver num lugar salubre, diluir o
espaço privado, noções de
volumetria e funcionalidade, já
estão estratificados em cada um
de nós, e nem precisa arquitetar
pra isso, este é fato, consumado.
Esses elementos são como os
pincéis para Van Gogh,
O afeto é o encontro dos dedos
com as cores,
A potência das pinceladas sobre a
tela,
As paisagens, além do que se vê
E deste ponto final
.
A arquitetura é maltratada, pois,
não pertence somente ao estado
de potência, aliás, ela deve ser
concreta, permanente, eterna. Eu
acredito que é justamente nessa
lei, que o limite entre a arte e a
arquitetura, racha. Foi daí que
surgiu a tentativa de encarar a
arquitetura como arte, de
abrandar este apelo ao produto
final, a valia pelo toque já que
ensinaram a nos nutrirmos de
certezas apenas.

Quis um circo de alegria
desmedida
Que me rodopiasse
E assim viveria alegre, toda de mim
E você?
Quero um de encontros
desmedidos
Que rodopia, se quer
E que alegre ou triste não viveria
Viver emos

Claro que a construção formal
também traz vantagem das outras
artes, afinal, somos mais
intimamente ligados ao “receptor”
e suas intenções, sonhos; ou
deveríamos. A validade está então,
em permear entre estes espaços
virtuais que não nos conectam
apenas, mas todos, numa rede de
experimentações. Confio na arte.
Ainda acredito na arquitetura.
Através da arte podemos atentar os
corpos a respostas nunca antes
questionadas, ao desejo de se livrar
da docilização a partir destes
encontros. A diferença e a
vantagem da arquitetura também
está aí, não só no apontamento das
questões, mas na contigüidade das
ações. O que falta é humildade de
promover espaços que se resolvem
além de nossas mãos, este é o
limite.



29

Uma perguntava muito
Outra só de responder ou quietar
Mas se uma é outra
Fico com todas
E comigo, outra.




Veio que a arte aliada até poderia ser um veículo,
um caminho mais tênue para um “buraco mais em
baixo”, mais sugerido do que imposto, desde que
atravessado por várias potências, por mim, por
todos.
O corpo dócil era como uma ferida mal curada que
eu só fazia cutucar. Investiguei Espinosa, para
conferir



E que era o afeto
E que eu era feto
Que era eu, afeto




30

Como um ser pode tomar outro no
seu mundo, mas conservando ou
respeitando as relações e o
mundo próprios?

Pra alcançar o corpo
Livre-se dele
A anunciação mora no acaso
E na recusa, na repulsa
E engole

O inconformismo vira amor ao se
colocar por fora. A
transversalização aliou o que eu
pedia ao que me cegava. A arte
enfim, marchou na direção que
devia e eu agora já não precisava
propor sentimento pra ninguém,
porque era um. A tradução disso
é que eu obedeci ao meu desejo
que não era parte de mim,
apenas. Fiz de mim uma
experimentação, que logo saiu e
espacializou para um lugar de
experimentação. Não fui eu quem
pedi e calculei, fui encontro e
desejo. Disso surgiu o Atol, que
até poderia ser prótese se ele se
resolvesse pra mim, mas pra que
esse jogo de lá e cá? O Atol é
puramente experimental, tanto
pelo que ele abriga ou dissemina,
a função é conseqüência,
diferença ou repetição.

Trata-se de uma formação
produzida da união de vários
organismos que aglomeram e
constituem um novo ecossistema
para contribuir tanto interna
quanto externamente. Ambiente
que protege e desenvolve novas
espécies através das bordas que
se fortalecem deste movimento.
Abrigo e berçário de novas
cabeças. Trabalhamos para
acolher e disseminar criações,
para fazer da arte um
instrumento diário de expressão
da vida. Vem de lá a mistura de
obra e conteúdo, gente e
consciência, experiência e
inovação, prontas e
integralmente acessíveis a
todos. Clamamos pelo bem estar
coletivo e que só através dele
compreenderemos nosso papel.
O atol se comprometerá a
fortalecer estas potências e
construir uma nova validade
para si através do outro... De
todos. Vivemos pela legítima
sustentabilidade, pela graça do
antigo no novo, reagindo por
apelo e apego ambiental. Novos
artifícios não precisam emergir
para provar que o maior
mecanismo somos nós, a
verdadeira matéria-prima.
Juntos, somos capazes de
reciclar; mas especialmente de
reabilitar todos os encontros.
Nós mediaremos a matéria-
prima com a verdadeira arte da
vida, nasce o Atol!.
1. Atol é um centro cultural localizado na
cidade de Votuporanga, fundado no ano
de 2011 em paralelo e conseqüência do
trabalho de conclusão de curso.

A melhor experiência foi
perceber que o corpo não se
mostra através do apelo, da
busca inquietante, ele surge
brando e de mil outras formas
que se ligam e se aliam a nós. O
mecanismo é simples, agora.
Reuni as potências porque
queria ver além, novamente.
Ainda tentava me nutrir de
arquitetura e relevâncias.
Porque o Atol pra mim não é um
centro cultural, a potência é
maior, mas como promovê-lo
por dentro e fora?
As perguntas voltaram mais
vivas do que nunca, agora
muito bem direcionadas
porque já sabia de um corpo e
do meu. Busquei mecanismo
de revelação de um nós, o
estado de corpo, e de desejo
que promovesse interação
sem unir necessariamente,
organismos (como na velha
vida). O entendimento é
particular, o inconformismo é
único, mas a conseqüência é
gloriosa e pública. Já que o
organismo é veículo, o
resultado era através dele e
não por um elemento exterior.
Houve o choque, queda, susto,
engasgo, espasmo, espirro,
contágio, abalo, sopro,
tropeço, no buraco, que é furo,
vala, cova, toca. Foi justamente
do limite entre um organismo
e uma arquitetura que essa
promoção era bobagem pois
não precisaria mais de duas
espécies para revirar o órgão,
mas, do corpo.
A causa, a incitação das
relações possíveis através
desta imersão guia-se pelo
desejo que pode até ser
inicialmente único, mas só se
conclui pelo coletivo. Ela
desmancha a barreira dos
veículos/órgãos de
transmissão do desejo para o
encontro com o corpo que se
dá tanto pela sensação intra-
uterina quanto extracorpórea.
Pode tudo.




31
Sendo assim, o buraco surge de um lugar
para se expressar e expandir em qualquer
outro, o lugar é o mesmo veículo de
transmissão que nosso órgãos, necessários
para entrar no estado de corpo. Fiz um corte
dentro do Atol mas ele quis se esticar até o
mar, pela mesma ansiedade de se livrar das
baias. Tracei então o avesso do Atol,
percorrendo planícies em todo o hemisfério
e por dentro inclusive, até encontrar outro
lugar, as ilhas Maurício. Percorremos juntos
Tubuai, Chile, Argentina, Paraguai, Brasil,
Namíbia, botswana, África do Sul,
Mozambique,Madagascar, Austrália, Nova
Caledônia, Tonga. Groenlândia, Franz Josef,
Rússia, Cazaquistão, Turquemenistão,
Emirados Árabes, Oman, Seicheles,
Antártida. E entendi portanto, que eu
poderia passar dias a desenhar um novo
buraco, capaz de se virtualizar de 7 bilhões
de maneiras diferentes de gente, e de
bicho? E de planta? ...
Assim como um ponto no globo, deveria
derivar a geometria do buraco desse
mesmo veículo transmissor, dessa
inesgotável fonte de medidas e noções que
é o órgão. Fui ao Homem de Vitruvio, ao
Eixo de Excelência e ao Modulor sentado e
colorido de Le Corbusier para confirmar,
mais uma vez, que a desmedida do afeto se
dá pela descontrução do próprio espaço.
Então, desmedi o órgão para enfim,
dimensionar a potência do afeto. 0,43, 1,13,
2,16, 4,32, , , , ,
E enfim, de fim mesmo, desmedi tudo que
pude, para concluir que o buraco não serve
apenas para experimentação do afeto, ele,
é, puro afeto, pura potência. Ao nos
encontrarmos, trocaremos 7 bilhões de
experiências sim, mas ainda não é isso. Nós,
diagnosticaremos o que somos e o que
vivemos de mundo e de sonhos através
dessa arquitetura. Arquitetura e corpo estão
conectados, ambos transformam, e colam.
Corpo é arquitetura e arquitetura é, de uma
vez por todas, corpo.

32
LEARN SOMETHING EVERYDAY
[www.learnsomethingeveryday.co.uk]
Por Mariana Biork
Qual animal tem os maiores olhos do mundo? Qual o
primeiro esporte a ser jogado na lua ? Quem vive mais,
canhotos ou destros ?
Partindo do conceito de que há sempre algo a aprender, um
grupo de designers ingleses tiverem uma ideia inusitada :
criar um site exclusivamente para curiosidades. Criado em
Agosto de 2009 pelo estúdio de design Young, o site coloca
curiosidades todos os dias dos mais diferentes assuntos. Com
artes simples, frases curtas e de fácil entendimento, o LSED
ganhou fãs por todo mundo. Uma legião de seguidores que
os acompanhavam todos os dias a procura de algum
conhecimento, seja ela útil ou não. A ideia deu tão certo que
foram criadas camisetas, livro e até aplicativo para iPhone.
Infelizmente, o site fez sua ultima postagem no dia 31 de
Agosto, deixando saudades para os sedentos por informação,
e uma duvida, será que as curiosidades do mundo acabaram ?

DROPS
Seis Pilulas para olhos
moribundos
[Leurn Somethlng
Lveryduy|

[1he 8urnlng Eouse|


DROPS

THE BURNING HOUSE
[www.theburninghouse.com]
Por Mariana Biork
O projeto chamado The Burning House foi criado pelo
fotógrafo Holden Robert. A pergunta que ele faz é: “Se
sua casa estivesse queimando, o que levaria com você?”.
Assim, as pessoas enviam para o fotógrafo suas imagens
ilustrando os itens e um texto com a lista de todos eles. A
ideia pode parecer um pouco sombria, mas nos faz refletir
no que é realmente importante ao nosso redor. É um
exercício interessante e que revela muito sobre as nossas
prioridades. Se fossemos confrontados com um incêndio
na nossa casa e tivéssemos que salvar apenas os objetos
que nos são mais valiosos, que escolhas faríamos? Como
ele mesmo colocou no blog em uma tradução livre “é um
conflito entre o que é prático, valioso e emocional”.


33
Por Mariana Biork
Entre o incessante movimento de
pessoas e as paredes gélidas de
concreto o despertar de um
mendigo sob camadas de sacos
de lixo parece que faz animar,
vagarosamente, os passos de uma
simpática pomba. Em uma
simples caminhada para o
trabalho chama a atenção o
encontro de duas simpáticas
senhoras, gêmeas idênticas, que
caminham com seus chapéus
floridos. As sombras parecem
dançar, as nuvens brincam de
desenhar, as cores e sons
desenvolvem-se como numa
sinfonia sem fim, o tempo ganha
novas conotações, outras
possibilidades.
No mundo mágico criado por
Fábio Nikolaus e Kico Santos, um
simples estacionamento de
shopping vira um espetáculo de
luzes e sons. O céu ganha novas
cores, as ruas, sempre tão
movimentadas, viram enormes
palcos do cotidiano. Cada
enquadramento, cada movimento
de câmera apresenta essa
potência da vida em nosso
cotidiano, ganhando novas
releituras e visões. Há de certa
forma, um elogio à vida e seus
personagens, uma aproximação
afetiva de situações, objetos e
seres da cidade com o nosso
próprio pensar.
Foi inspirado nessa beleza tão
comum, porém tão despercebida
a olhos desatentos, que a dupla
de amigos criou o Cinema de Rua
– pequeninos e instigantes
objetos audiovisuais batizados
também de Microdocumentários
AULlCvlSUAL




[ClNLMA LL RUA .
mlcrodocumentúrlos
urbunos|




www.clnemuderuu.com.br
fucebook.comjclnemuderuu

34
urbanos, breves narrativas na metrópole.
Trabalhando a anos na Prompt, os
cineastas queriam ir além, em que
pudessem desenvolver algo autoral,
exibindo seus olhares e ideias.
Considerados pelos mesmos como
“caçadores de imagens comuns”, os
amigos não tiveram dificuldades em
encontrar mais pessoas que topassem
essa empreitada. Sillas Gama, Jones
Gama, Ricardo Tadashi e Beta Augusto
completam o time que, com uma câmera
na mão, criaram um diário audiovisual
da cidade de São Paulo, com o projeto
de 30 filmes em um mês, iniciado em
Fevereiro de 2010. Nas palavras dos
autores, o desafio foi criado para ser
“uma forma de fazer a gente se lançar às
ruas e produzir a todo custo”. O grupo
capta a beleza do cotidiano sem medo
de experimentar linguagens e
narrativas. “A cidade nos bombardeia o
tempo todo com uma quantidade imensa
de informações. O que passamos a fazer
foi começar a olhar as coisas que a
cidade oferece”, diz os autores.
O projeto de 30 filmes em um mês, já
acabou. Mas os cineastas garantem:
ainda há muito o que ver e produzir na
maior metrópole do país. Ainda há muita
beleza escondida entre sua gente e seus
lugares mais inusitados.

35
Alpendre: Gostaria de fazer algumas
perguntas básicas a respeito do blog
para a apresentação do trabalho.
Como surgiu a idéia dos curtas, em
que ano, de quem foi a iniciativa,
como vocês trabalham, como
escolhem os temas dos vídeos, suas
inspirações e afins.

Cinema de Rua: Tudo começou com
um gavião empoleirado na antena de
um prédio vizinho.
AL: O que chamou a atenção de
vocês nesta cena ? O que fez este
pássaro se tornar o começo de tudo ?
CR: Aquele gavião pousado na
antena do prédio vizinho nos chamou
a atenção por ser uma cena
inusitada. Neste dia chovia forte e a
ave parecia não se importar. Neste
momento decidimos pegar a câmera
e começar a filmar o gavião e aquela
chuva torrencial que caia sobre os
telhados das casas. Foi neste
momento que percebemos uma
beleza e uma poesia incrível que
captávamos com a lente da câmera.
Logo o material filmado entrou na
ilha de edição e com uma trilha
sonora se tornou um filme muito
bonito que partiu de uma imagem
comum do cotidiano. Percebemos
que em nosso dia a dia e as
paisagens urbanas tinham muito a
"'(+",&-(.




[ClNLMA LL RUA j
ALPLNLRL|



nos oferecer, só precisávamos
parar para olhar.
AL: O personagem principal de
seus vídeos é a cidade de São
Paulo. Suas belezas, seus
problemas, sua gente.. Tudo visto
com um olhar curioso, de alguém
que vê a um passo à frente. Como
vocês explicariam essa relação
que criaram com a cidade ?
CR: A cidade nos bombardeia o
tempo todo com uma quantidade
imensa de informação. Coisas
pelas quais passamos todos os
dias, vemos mas não olhamos. O
que passamos a fazer foi começar a
olhar as coisas que a cidade
oferece a qualquer um que estiver
disposto a sair da rotina viciante do
dia a dia e reparar no chão que
pisa e pelos prédios que passam.

AL: E como acham que a cidade os
vêem ?
CR: Somos como caçadores de
imagens comuns. Andamos o
tempo todo atentos ao que está a
nossa volta, filmamos e retornamos
com esse olhar para o público que
vive na cidade e não a vê.

AL: Sem orçamentos, sem
estratégias, sem preparativos.
Apenas uma câmera na mão e a
vontade de fazer cinema. O que
move essa paixão ?
CR: Fomos encantados pelas
novas tecnologias e pela
facilidade de se expor um
trabalho desse tipo ao público. A
internet nos abriu portas e nos
permitiu alcançar um grande
número de espectadores mesmo
sem grandes investimentos. É
claro que para fazer um trabalho
maior pretendemos recorrer aos
meios tradicionais da produção
de cinema no Brasil, mas
enquanto isso, vamos treinando o
nosso olhar e exercitando
técnicas. Mas o melhor de tudo
mesmo é ser livre para fazer e
filmar o que quiser.

AL: Foi esta paixão que os
levaram a fazer 30 filmes em um
mês. Como foi essa experiência ?
CR: Percebemos que nunca
conseguíamos fazer nada se
ficássemos esperando um tempo
livre, então criamos esta maratona
de 30 filmes, assumimos o
compromisso e corremos atrás
para conseguir cumprir com
propósito. Foi uma experiência
incrível porque todos os dias
tinha que ter um filme pronto para
fucebook.comjclnemuderuu

36
colocar no ar. Então passamos a olhar tudo na cidade
de forma diferente, tínhamos que extrair filmes do
nosso cotidiano, ida e volta ao trabalho do almoço de
tudo. Com certeza aprendemos muito com isso e
passamos a ver coisas que jamais havíamos reparado
antes. Um excelente exercício.

AL: Os brasileiros, em geral, não são acostumados com
esse conceito de cinema. Apenas a poucos anos os
curtas e documentários vêem sendo inseridos no
repertório nacional. Qual a opinião de vocês a respeito
disto ? Falta incentivo das entidades ou interesse da
população?
CR: Eu acho que falta um pouco de incentivo sim, este
mercado é bastante fechado, principalmente para
novos diretores. Porém hoje em dia os recursos para a
produção audiovisual estão cada vez mais acessíveis, e
um grande número de pessoas estão passando a
produzir, mesmo de forma independente. Assim novos
diretores estão começando a aparecer com propostas
novas no mercado. Esta abertura está trazendo uma
nova safra de documentários e cinema cada vez mais
interessantes e criativos. Talvez por esse motivo o
interesse da população vem crescendo por esses tipos
de filmes.

AL: Qual a relação entre o projeto e o público ? Qual o
grau de envolvimento das pessoas com os vídeos ?
CR: As pessoas estão sempre muito presentes nos
nossos filmes, elas estão dentro e fora da obra. Elas
sugerem, comentam e participam, mesmo que
indiretamente. A cidade é feita de pessoas, então
nossos filmes são sobre elas, sobre a vida que levam e
seu dia a dia.

AL: O mercado de curtas metragem vem crescendo e
se expandindo, principalmente em território
internacional. Vocês tem planos, para, futuramente,
explorarem o campo internacional de cinema ?
CR: Infelizmente parece que um filme nacional ganha
mais visibilidade aqui no Brasil depois que foi
premiado em algum festival internacional, e felizmente
existem vários festivais internacionais que estão em
busca de novas produções. Acho que este é um
caminho que nos interessa bastante e pretendemos sim
explorar esta vertente.
AL: O que podemos esperar do Cinema de Rua ? Quais
os próximos projetos ?
CR: Pretendemos realizar um curta-metragem de fcção
e com isso buscar algum patrocínio para o projecto ou
até mesmo produzir de forma independente como
sempre fizemos, e participar de festivais. Já temos
algumas ideias para roteiro, mas prematuras ainda,
estamos conciliando este projeto com o nosso
trabalho do dia a dia que não para. Enquanto isso as
pequenas produções para o blog continuam, porém
com um intervalo um pouco maior entre um filme e
outro.

obrigado pelo interesse
Fábio e Kico. Cinema de Rua


37
Exposição de imagens fotográficas
realizadas pelos alunos dos cursos de
Comunicação Social e Arquitetura e
Urbanismo sobre o tema Pensar é estar
doente dos olhos.
LNSAlC vlSUAL


[L×PC|
[Pensur e estur doente
dos olhos|

Autor: Gabriel Ferrari Nyari
lotogruflus estão dlsµonlvels no
fucebook du revlstu Alµendre

38
Autora: Marciana de Souza Nunes
Autora: Melina Maria de Souza Batista

39
Autora: Amanda Paula Peres Sparapan
Autor: Eder José Fraioli Junior

40
Autora: Ana Paula Matsushita Garcia
Autor: Elvis Renato dos Santos

41
Autor: Douglas
Autor: Felipe Chiuchi Gonçalves

42
Autor: Gustavo Henrique Nogueira
Autora: Fernanda Amorim Azevedo

43
Autora: Joyce Karla Ferreira Caris
Autor: Lohan Damiao Zigart

44
Autora: Nayara Delamura
Autora: Nívia Cristina Lemos

45
Autor: Rafael Williams Moraes
Autor: Robson Vieira de Carvalho

46
Autor: Vagner Vicente Pereira
Autor: Vinicius Belmiro Escobar

47
Sobre Programas e
Necessidades
Prof. Dr. Fernando Freitas Fuão. UFRGS.
+
Os programas que o sistema
produz são imbecilizantes.
Ele opera através de programas e
programações cujo objetivo é
tornar o mundo inercial,
repetitivo, igual, entorpecido.
Homens criam programas e esses
atuam diretamente sobre eles.
Programas acabam gerando
programas.
Quando o arquiteto deixa de
operar sobre os programas,
abdica da possibilidade de atuar
sobre o mundo. Ao priorizar a
forma, acredita modelar, construir
o mundo. Mas está só atuando na
superfície do problema e não em
sua essência.
+
Este artigo foi cedido
gentilmente pelo Prof. Dr.
Fernando Freitas Fuão,
professor do curso de
Arquitetura e Urbanismo da
UFRGS.

http://www.fernandofuao.arq.
br
O mito do arquiteto é o de
criador, e isto lhe
corresponde também o de
programador.
Atua sobre a essência, no DNA
do espaço.
O arquiteto deve
desprogramar a programação
fornecida pelo sistema.
O que é o sistema? É tudo
aquilo que está na volta e te
escraviza, entorpece, e na
maioria das vezes é difícil de
reconhecer graças a sua
invisibilidade que opera com
desejos e adições (vícios).
O sistema produz e incorpora

48
programas que lhe são úteis.
Entretanto alguns programas são
tão eficientes, opostos, que
jamais são incorporados pelo
sistema. São rejeitados e se
situam a margem. São
constantemente lavados pela
águas do esquecimento, e pouco
se sabe deles.
Programas são estruturas
complexas do pensamento,
operam com palavras, ideias e
obviamente com necessidades.

Programa de necessidades.

Estão na ordem do desejo,
produzem-se também ao acaso.
Programas são resultado de uma
visão sobre o mundo. Uma
idealização que necessita
organizar-se, constituir-se em
programa, por mais simples que
seja, para concretizar-se
enquanto construção.
Programas produzem novas
dimensões, organizações,
estruturas, fluxos.
Os programas produzidos ou
incorporados pelo sistema
promovem a utilização irreflexiva
de seus programas, como se
fosse um jogo de peças pré-
determinadas a serem
encaixadas. Todo programa é
lúdico. Resta saber contra quem
você joga.
O objetivo do sistema é produzir
exércitos de arquitetos prontos a
operarem seus programas.
Programas não são exclusividade
das máquinas.
Muito antes delas existirem, os
programas já existiam. Vide
Igreja Católicas, as seitas
religiosas, Os Meninos de
Deus.
As pessoas acreditam que o
mundo se circunscreve dentro
do universo do programa.
E este universo é limitado, mas
as pessoas não sabem.
Programas fazem lavagem
cerebral em maior ou menor
grau. Entretanto existem
programas que combatem
programas. São os
desprogramadores.O objetivo
do sistema é a permanência, e
quando algo muda, trata de
incorporá-lo como programa,
numa nova versão
aparentemente mais completa,
mas completamente mais
redundante. Os homens logo
tratam de se adaptar e
atualizar-se para essa nova
versão, esse é o fluxo da
novidade, da velocidade, do
entorpecimento.
Programa é projeto. Um envio.
Um projétil com endereço e
alvo certo. Sempre se
destinam para alguém. O
projeto é essencialmente
programa no seu interior.
Estrutura do pensamento.
Programar é planejar, dispor
previamente os elementos do
evento, do empreendimento.
O programa é mais importante
que a forma gerada por esse
programa.
Programa sempre implica
escolha, o isso ou aquilo, ou
nem isso ou nem aquilo, ou
ainda o isso e aquilo e
aquele outro. E tudo o mais.
O arquiteto que só pensa em
forma ou função está
condenado a ser escravo da
própria modelagem
estabelecida pelo sistema.
Basta olhar na volta os tipos
dos arquitetos que se
tornam vitimas de suas
crenças, com seus gêneros,
seus ares, seus estilos,
detalhes, sua afetação, sua
roupa, seus trejeitos, vítimas
de sua própria moda.
O programa é
revolucionário enquanto
invenção, quando visa
desestruturar o sistema,
reconvertê-lo, mas só até o
momento em que não é
institucionalizado,
incorporado pelo sistema.
Institucionalização de
programas quer dizer
mercadoria, produto que
beneficia as empresas e
todos que se atravessam
vendendo essa droga, esse
lixo. É cópia sobre cópia,
afirmação de uma falsa
igualdade, é a falácia da
democracia expresso na
infinidade de escolhas que o
programa propicia.
O papel do arquiteto não só
deve ser o de criar novos
programas para relacionar
com os antigos, mas também
de operar e sabotar antigos

49

programas.
Há programas para formação, para
criação de arquitetos, veja-se as
Faculdades e Escolas de Arquitetura,
com seus programas de formação
acadêmicos, mofados e
embolorados.
Mas os que ali estão algumas vezes
reacionam. O sistema quer
arquitetos programados, ou seja:
que não se percebam enquanto
programas. Por isso o ensino esteve
sobre a tutela da Igreja por muitos
séculos.
A percepção da existência de “ser
programa” faz parte de sua
desprogramação. Entretanto isso
não evita de operar com programas,
gerando novos programas.
Programar é estabelecer destinos.
Viver a fatalidade.
O Programa quando se torna
programa se representa, formaliza,
formata, edita, instrumentaliza, e aí o
podemos reconhecer como tal.
Acredita-se que Novos Programas
devam gerar novos
comportamentos, novos
pensamentos, devam reinventar o
mundo.
A tendência do mundo é organizar-
se segundo programas, ou seja,
estabelecer as regras do jogo, as
regras do sistema, desde as coisas
macros até as mais microscópicas,
invisíveis.
A programação do mundo não é
algo recente, é tão antigo quanto o
próprio homem. Entretanto com a
informatização revelou-se com mais
intensidade, e passou a
desempenhar um papel importante
nas relações humanas.

O que são programas?
Programas são jogos de combinação com elementos claros e
distintos. O jogo é uma atividade que tem um fim em si
mesma. Programas são elaborados por funcionários, como
disse Vilém Flusser.
Estar programado é estar na programação, em dia com o
sistema, atualizado, up to date.
O que caracteriza um Programa é o mito da riqueza de suas
possibilidades quase infinita. Não só os arquitetos, mas todos
que se servem deles deveriam manipular os programas, em
seu sentido destrutivo, olhar para dentro deles afim, usá-los
para outros fins diferentes daqueles que foram programados,
brincar com eles.
Não jogar o jogo dos programas, não brincar com ele, mas
buscar o lance novo, esgotar o programa fornecido questioná-
lo, ignorá-lo, repropor, transformar em brincadeira.
Uma programação para arquiteto dura em média cinco anos,
mas pode levar mais tempo em alguns casos. Os mais capazes,
as vezes, são os mais programáveis.
Graças a essa modelagem, infelizmente, ele acredita que
conhece e domina o processo, mas ao desconhecer o valor
dos dados iniciais ele é totalmente dominado por ele. Ele se
torna programa.
Arquitetos programam não só volumes no espaço, lugares,
lares, mas, sobretudo modos de vidas, e conseqüentemente
vidas.
O arquiteto é o primeiro funcionário do sistema, pois ele tem
acesso a programação, ele é programador, o mais ingênuo e o
mais temível ao mesmo tempo.

50
MATERIAL WORLD
[www.materialworld.com]
Por Mariana Biork
Projeto do fotógrafo David Welch intitulado
Material Word, que fotografou pilhas e pilhas de
diferentes objetos que segundo o próprio David
são uma crítica a acumulação e consumismo no
mundo. Com conceitos marxistas, as fotografias
falam de materialidade e tem como objetivo
incentivar o debate sobre o consumo e as formas
pelas quais nos sentimos compelidos a
consumir.

DROPS
Seis Pilulas para olhos
moribundos

[Muterlul vorld|

[1he 1hought
Project|


DROPS
THE THOUGHT PROJECT
Por Mariana Biork
Mais um projeto do dinamarquês Simon
Hoegsberg. Durante 3 meses, o fotógrafo
parou 150 pessoas nas ruas de Londres e
perguntou: “o que você está pensando ?” . É
uma reflexão instigante e no mínimo criativa
de como histórias comuns e honestas podem
nos comover ao longo do dia, nos levando a
outras dimensões do pensamento. Segundo as
palavras do próprio Simon “Um projeto sobre
os pensamentos que temos quando andamos
sozinhos na rua”.


51