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Capítulo 3

Como pode ser entendida a sustentabilidade
O que ésustentável? Esta indagação também provocatrês pa-
drões básicos de resposta. Contudo, o que as diferencianão é seu
grau decomplexidade, como no caso do desenvolvimento. Aqui há
duas teses extremas, quecriamumimpasseeumanátema no âmbito
da retórica científica. J á aterceira, que também procura abrir o tal
"caminho do meio", por enquanto só faz parte da retórica político-
ideológica. Outra vez, os três tipos de respostas serão brevemente
apresentados antes deseremexaminados commais atenção.
Em primeiro lugar, estão os que simplesmente acreditamque
não existadilemaentre conservação ambiental ecrescimento eco-
nómico. Crêem, ao contrário, que sejafactível combinar essadu-
pla exigência. Todavia, não há qualquer evidência científica sobre
as condições emque poderiaocorrer tal conciliação. E as posições
dos economistas podemvariar de "A" a"Z" justamente porque
ainda não épossível demonstrar uma das duas possibilidades ex-
tremas da polémica.
O debate científico internacional passou recentemente a
ser pautado pela hipótese ultra-otimistade que o crescimento
económico só prejudiariao meio ambiente atéumdeterminado
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patamar de riquezaaferidapelarendaper capita. A partir dele, a
tendência seria inversa, fazendo comque o crescimento passasse
a melhorar a qualidade ambiental. Raciocí nio idêntico àvelha
parábola sobre a necessidade de primeiro fazer o bolo crescer
para depois distribuí-lo melhor. Tanto é, que essahipótese tem
sido chamada de "curvaambiental de Kuznets", por analogiaà
famosa curva em"U" invertido proposta emmeados dos anos
1950 pelo terceiro ganhador do prémio Nobel de Economia,
em 1971.
Como já foi visto naprimeira parte destelivro, os precários
dados estatísticos disponíveis no pós-Segunda Guerra Mundial,
alémdeseremapenas sobreumpunhado de casos, levaramSimon
Kuznets aachar que pudesseexistir uma lei que regeriaa relação
entreo crescimento do PIB eadesigualdade derenda. Pioravana
arrancada, mas melhoravadepois deultrapassar certo patamar de
riqueza. Parao desgosto dos queachamqueo capitalismo éo fim
da história, tal hipótese foi descartada quando estatísticas sobre
um grande número de países revelaramque, nos últimos cin-
quenta anos, as relações entre crescimento edesigualdade foram
das mais heterogéneas. Há tudo quanto é tipo de curva, atéem
"U" invertido.
Idêntica conjectura sobre arelação entre crescimento emeio
ambiente foi lançada nas páginas de umdos mais respeitados
periódicos científicos deeconomia: o "QJ E" {The QtiarterlyJournal
of Economics, maio 1995, pp. 353-77). Ao examinar a relação
entre o comportamento da rendaper capita e quatro tipos de
indicadores de deterioração ambiental - poluição atmosférica
urbana, oxigenação debacias hidrográficas, e duas de suas conta-
minações (fecal e por metais pesados) — Gene M . Grossman e
Alan B. Krueger concluíram que as fases de desgraça erecupera-
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ção ambiental estariamseparadas por umponto de mutação que
sesituariaemtorno de 8 mil dólares de rendaper capita.
O destino dessahipótese certamente será idêntico. Quando
um grande número de países tiver indicadores confiáveis sobre
um leque mais amplo devariáveis ecológicas, constatar-se-á que
são tão diversos os estilos de crescimento eas circunstâncias em
queeleocorre, quedeveser rejeitadaaideiadetão linear relação
entre qualidade ambiental e rendaper capita. Aliás, já existem
bons indicadores que revelamas tragédias ambientais de países
riquíssimos, como será exposto no próximo capí tulo. E elajá foi
desmentida por experimento comvariáveis ambientais globais
(Jha & Murthy, 2003). Todavia, atéqueacomunidade científica
seconvença do contrário, apanglossiana proposição de Grossman
& Krueger conti nuará a pautar o debate. Centenas de
sofisticadíssimos testes serão relatados emperiódicos do calibre
do QJE atéque ela possacair emdescrédito.
Fatalidade
As pesquisas do extremo oposto exigirão ainda mais paciên-
cia. Desde 1971, o saudoso Nicholas Georgescu-Roegen lançou
o alerta sobre o inexorável aumento da entropia. Baseado na se-
gunda lei da termodinâmica, eleassinalou que as atividades eco-
nómicas gradualmente transformamenergia emformas de calor
tão difusas que são inutilizáveis. A energia está sempre passando,
deforma irreversível eirrevogável, dacondição dedisponível para
não disponível. Quando utilizada, uma parte da energia debai-
xa-entropia (livre) se torna de alta entropia (presa). Para poder
manter seu próprio equilíbrio, ahumanidade tira da natureza os
elementos de baixa entropia que permitemcompensar a alta
entropia que ela causa. O crescimento económico moderno exi-
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giu aextração da baixaentropiacontidano carvão e no petróleo.
Um dia certamente voltará aexplorar de maneira mais diretaa
energia solar. Nem por isso poderá contrariar o segundo pri ncí -
pio da termodi nâmi ca, o que um diaexigirá asuperação do cres-
cimento económi co. ParaGeorgescu, em algum momento do fu-
turo, ahumanidade deverá apoiar a continuidade de seu desen-
volvimento na retração, isto é, com o decréscimo do produto. O
oposto do sucedido nos últimos dez mi l anos.
É bom frisar que tão i ncómoda hipótese permanece simples-
mente esquecida pela esmagadora maioriados economistas. Até
referências aGeorgescu passaram aser evitadas apartir de 1976,
quando o paradigmático manual pedagógico de Paul Samuelson,
Economia, dedicou meia dúzia de linhas para avisar que o autor
do célebre Analytical Economics (Harvard University Press, 1967)
se embrenhara pelaobscura ecologia, uma disciplinaque, naque-
la conjuntura, ainda era tão suspeita para os economistas quanto
aquiromancia. Mesmo assim, são as ideias do genial romeno fale-
cido, no ostracismo em 1994, que orientam os mais heréticos
programas de pesquisa.
Paraacorrente cética, cujo principal expoente éHerman E.
Daly, só haverá alternativa à decadênci a ecológica na chamada
"condição estacionária" — que não corresponde, como muitos pen-
sam, a crescimento zero. Paraefeito pedagógi co, Daly costuma
usar uma analogia entre economias de ponta- como ados EUA
ou do J apão - e uma bibliotecaque já estejarepletade livros, sem
espaço para absorver novas aquisições. A melhor solução é estabe-
lecer o pri ncí pi o de que um novo livro só poderá entrar no acervo
quando outro for retirado, em uma trocaque só seria aceita se o
novo livro fosse melhor que o substituído. Ou seja, na "condição
estacionária", aeconomia continuariaamelhorar em termos qua-
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litativos, substituindo, por exemplo, energia fóssil por energia
limpa. Mas nessas sociedades mais avançadas seria abolida a ob-
sessão pelo crescimento do produto, que Herman E. Daly consi-
dera uma mania ("growthmania").
Seja qual for o futuro resultado dessacolossal polemica, o
que já está claro éque ahipotética conciliação entre o crescimen-
to económi co moderno e aconservação da natureza não é algo
que possaocorrer no curto prazo, e muito menos de formaisola-
da, em certas atividades, ou em locais específicos. Por isso, nada
pode ser mais bisonho do que chamar de "sustentável" estaou
aquela proeza. Paraque a utilização desse adjetivo não sejatão
abusiva, é fundamental que seususuários rompam com a inge-
nuidade e se informem sobre as respostasdisponíveis para a per-
gunta "o que é sustentabilidade?"
Neste caso, a el aboração intelectual sobre o que poderia
ser um "caminho do meio" - entre a fábula panglossiana e a
fatalidade entrópi ca - está mui to mais atrasadaque no caso do
desenvolvimento. O que tem havido écoisa bem diversa: des-
de 1987, um i ntenso processo de l egi ti mação e i nsti tu-
ci onal i zação normativada expressão "desenvolvimento susten-
tável" começou ase afirmar. Foi nesse ano que, perante aAs-
sembleia Geral da ONU, Gro Harl em Brundtl and, a presi-
dente da Comi ssão Mundi al sobre Mei o Ambi ente e Desen-
vol vi mento, caracterizou o desenvolvimento sustentável como
um "conceito pol í ti co" e um "conceito amplo para o progresso
económi co e social". O rel atóri o ali l ançado com o belo tí tul o
Nosso futuro comum foi intencionalmente um documento pol í -
tico, que procurava alianças com vistas àviabilização da Con-
ferência das Nações Unidas sobre Mei o Ambiente e Desenvol-
vi mento, a"Ri o-92".
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r
Esseprocesso de i nsti tuci onal i zação do "desenvolvimento
sustentável " como simultaneamente maior desafio e principal
objetivo das sociedadescontemporâneas está muito bemcontado
einterpretado por MarcosNobre, na primeira partedo livro que
organizou comMaurício Amazonas (2002). O quefez surgir essa
expressão foi o debate- principalmenteamericano, na década de
1960 - quepolarizou "crescimento económi co" versus "preserva-
ção ambi ental ", i ntei ramente i mpregnado por um temor
apocal í pti co da "explosão demográfica", mesclado ao perigo de
uma guerra nuclear ou da precipitação provocada pelos testes. E
não há melhor referência emportuguês para o entendimento des-
sas circunstâncias do quea excelentehistória do ambientalismo
elaborada por J ohn McCormi ck (1992).
A hipótese panglossiana
O crescimento económi co contí nuo trará cada vez mais da-
nos ao ambienteda Terra? Ou aumentos da renda eda riqueza
jogamas sementesdeuma melhora dos problemas ecológicos? É
com esta alternativa formulada emduasperguntas queG&K
(Grossman & C Krueger, 1995) abrema i ntrodução deseu pionei-
ro artigo. Seos métodos deprodução fossemimutáveis, é óbvio
quesó seria possível responder afirmativamenteà primeira per-
gunta. Todavia, há inúmeras evidências dequeo processo dede-
senvolvimento leva a mudanças estruturais naquilo queas econo-
mias produzem. E muitas sociedadesjá demonstraram notável
talento emintroduzir tecnologiasqueconservamos recursos que
lhe são escassos. Emprincípio, osfatores quepodemlevar a mu-
danças na composição enas técnicas da produção podemser su-
ficientemente fortes para queosefeitos ambientalmente adversos
do aumento da atividadeeconómi ca sejamevitados ou supera-
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dos. E sehouver evidência empírica queconfirmeessa suposta
tendênci a, será permitido concluir quea recuperação ecológica
resultará do própri o crescimento.
Com o propósi to detestar essa hipótese, os autores investi-
garama relação entrea escala da atividadeeconómica ea qualida-
deambiental, utilizando metodologia consolidada eos dadosdis-
poníveis mais confiáveis sobrequalidadedo ar emgrandes cida-
des equalidadeda água emsuasbacias hidrográficas. Além das
séries publicadas pela Organização Mundi al da Saúde (OMS) -
o sistema Global Environmental Moni tori ng System(GEMS) -
para o perí odo 1977-84, conseguiramdados inéditos para o pe-
ríodo 1985-88, junto àagência federal dos Estados Unidos para
o meio ambiente (U.S. Environmental Protection Agency, EPA).
Embora tais medidas estejammuito longedeconstituir uma lis-
ta representativa dasvariáveis capazesdedescrever a situação dos
respectivos ecossistemas, os autores acreditamque a variedade
dos tiposdepoluentesconsiderados na investigação autoriza uma
generalização para outros tiposdeproblemas ambientais. E essa
crença certamente foi compartilhada pelos pareceristas que avali-
aramo trabalho para o QJE.
O dióxido deenxofreea fumaça relacionam-se como PIB
per capita na forma deuma curva em"U" invertido. Na verdade,
a poluição por dióxido deenxofrevolta a subir quando são atingi-
dos altos níveis de renda per capita, mas os autores consideram
queo reduzido número deobservações decasosemqueela atin-
giu 16 mi l dólares impedequesetenha confiança na forma quea
curva adquire nesseestágio. Para os particulados, constatou-se
um monótono declínio da relação pol ui ção/renda. Todavia, fo-
ram encontradas boas"curvas deKuznets" para praticamenteto-
dososoutrosprincipaisindicadoresdepoluição do ar eda água:
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BOD (demanda deoxigénio biológico), COD (demanda de oxi -
génio quí mi co), nitratos, coliformes fecais, coliformes totais, chum-
bo, cádmi o, arsénico, mercúri o eníquel. E os picos de rendaper
capita variaramentre3 e 11 mi l dólares, respectivamente para os
coliformes totais e cádmi o.
Ao fazer asíntese dos resultados obtidos, G&K afirmamque
não encontraram evi dênci a significativa de que a qualidade
ambiental tenda ase deteriorar de maneira firme, constante, ou
estável, como crescimento económi co. Ao contrári o, quasetodos
os indicadores apontarampara uma deterioração emfase inicial
do crescimento, mas comsubsequente fase de melhoria. Foram
levados, então, a"suspeitar" que essarecuperação posterior esteja
em parte ligadaao aumento da demanda (eda oferta) de prote-
ção ambiental quando arenda nacional chegaaníveis mais altos.
Os pontos de mutação variambastantesegundo o poluentecon-
siderado, mas namaioriados casos eles ocorremantes queo país
atinja 8 mi l dólares (de 1985) de rendaper capita.
Nas conclusões, G&K assumemumtombemmais incisivo.
Rechaçando gritos alarmistas de grupos ambientalistas, afirmam
queo crescimento económi co não causainevitável dano ao habitat
natural. Segundo eles, isso só ocorre mesmo empaíses mui to
pobres. Todavia, seu meio ambienteserá, ao contrári o, beneficia-
do pelo crescimento económi co, assimque atingiremcertos ní -
veis críticos de rendaper capita, próximos ao patamar de 8 mi l
dólares (de 1985).
Desde que essacontri bui ção empírica deG&K foi publicada
no QJE, pul ul am confi rmações dessa "curva de Kuznets
ambiental", pela utilização de outras variáveis, outros países, ou-
tros períodos. É preciso lembrar, contudo, que há um pressupos-
to na anál i se de G&K que só pode ser facilmenteaceito pela
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comuni dade dos economistas convencionais, pois são todos
inveterados otimistastecnológicos. Todos acreditampiamente que
as inovações tecnológicas acabarão por superar qualquer impasse
que venha acolocar emxeque a continuidade do crescimento
económi co. E tal pressuposto é dequeos indicadores de poluição
usados por G&K sejamtermómetro daqualidadeambiental. Basta
lembrar dealguns outros fenómenos já bemconhecidos — como,
por exemplo, aerosão dabiodiversidade, as perdas de patri môni o
genético, o aquecimento global, adeterioração dacamada deozô-
nio, achuvaácida, ou a escassez deágua - para queseperceba o
duvidoso valor científico daextrapolação. E elaficaria ainda mais
absurda se fosse evocado o inevitável aumento da entropia. Mas
estaé uma ideiaque só preocupa umpequeno grupo de econo-
mistas heterodoxos, que constituemo extremo oposto do debate
científico, equecomimensadificuldadeestão conseguindo rom-
per o isolamento que lhes foi imposto pelo establishment da ciên-
cia normal.
Dai Dong
Seria impossível fingir que Nicholas Georgescu-Roegen ja-
mais existira. Então, aesmagadora maioriados economistas aca-
démicos fez de tudo para que ele fosse pura e simplesmente es-
quecido, ao longo das últimas décadas do século XX. Nemtanto
por sua longapesquisa sobreateoriado comportamento do con-
sumidor (1935-73), mui to embora o principal resultado tenha
sido demonstrar que aversão neoclássica é empiricamenteinacei-
tável, mas simpor teses posteriores de caráter evolucionistaere-
comendações sobre o que poderia ser umprograma mí ni mo de
"bioeconomia". Enquanto na primeira fasedesua carreira cientí-
fica eleera festejado por Paul Samuelson como "pioneiro da eco-
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nomia matemática", a partir de 1973 foi deliberadamente colo-
cado na geladeira pelos mandarins da comunidade dos econo-
mistas americanos.
A condenação refletiadiretamente as inquietações provocadas
pelo fato de defender a tese de que a economia certamente será
absorvida pela ecologia. Isso não acontecerá, dizia Georgescu,
enquanto os economistas puderemraciocinar apenas com prazos
de uma ou duas gerações. Mas basta pensar na administração de
recursos raros necessários àqualidade da vida de todas as próxi-
mas gerações para dar-se conta de que aeconomiaatual só poderá
ser considerada umdia como parte da ecologia.
Relato circunstanciado, além de muito sereno, desse trau-
mático cisma científico está emartigoobituário de dois professo-
res de cepa italiana— Andrea Maneschi e Stefano Zamagni -
publicado quase três anos depois do falecimento de Georgescu,
na edição de maio de 1997 do The Economic Journal. Há, contu-
do, umepisódio singular desse processo de excomunhão que aju-
da adizer empoucas linhas qual foi aonça que ele cutucou com
vara curta.
Participando de assembleia da American Economic
Association, realizada ao fimde seu encontro anual de 1973,
solicitou que fosse transcrito emata umtexto intitulado "Rumo
a uma economia humana", que havia sido lançado dois meses
antes, na Dinamarca, por um projeto do Fellowship of
Reconciliation i nti tulado "Dai Dong". Era um manifesto
ambientalista, cujo conteúdo agora seria visto como moderado
até pela folclórica convenção nova-iorquinaque os republicanos
organizaramemprol da reeleição de George W. Bush. Propunha
essencialmente que a confraria dos economistas saísse do isola-
mento emque se metera e assumisse seu papel na gestão do "lar
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Terra" ("Earth home"), juntando-se acientistas e planejadores de
todasasáreas do conhecimento, como firme objetivo de garantir
a sobrevivência da humanidade.
Hoje só pode parecer mentira que tal proposta tenha susci-
tado celeuma na reunião presidida por Kenneth J. Arrow. No
entanto, a ata publicada na edição de maio de 1974 da The
American Economic Review deixaclaro que houve feroz manobra
para que adecisão final sobre aconveniência de se transcrever o
"Dai Dong" ficasse para arbítrio do secretário da associação. Por
isso, essepanfleto, que acabou sendo publicado como apêndice,
em letras de corpo mí nimo, é umregistro histórico do gigantesco
desprezo que os economistas americanos nutriampela renascente
preocupação ambiental. O herege Georgescu, que ousava prog-
nosticar o avesso - a absorção da economia pela ecologia —, só
podia ter sido mesmo uma vítima de tais circunstâncias.
Trinta anos depois de tão sombrio acontecimento, e passa-
dos dez anosda morte de Georgescu, aatmosfera está sendo alte-
rada commais rapidez do que se poderia imaginar. Sua obravem
sendo seriamente resgatada emtodos os continentes. Principal-
mente naspáginas de duasrevistascientíficas - EcologicalEconomics
e Environment and Development Economics —, mas também em
publicações especialmente organizadas para exame sistemático de
suas ideias, como são os casos do l i vro Bioeconomics and
Sustainability: Essais in honor of Micholas Georgescu-Roegen, orga-
nizado por KozoMayumi & J ohn M. Gowdy (Ed. EdwardElgar,
1999) e do "Fórum Georgescu-Roegen versus Solow/Stiglitz"
{Ecological Economics 22, Special Issue, setembro 1997).
Georgescu chegou àproposição de que a economia precisa
ser absorvidapela ecologiapor considerar que atermodinâmica é
muito mais pertinente para a primeirado que a mecânica. Foi
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assimqueeleentrou emcolisão como paradigmaque une todas
as correntes do pensamento económico, da mais convencional à
mais heterodoxa, eda mais conservadora àmais radical. "Assimi-
lar o processo económico a ummodelo mecânico é admitir o
mito segundo o qual aeconomiaéumcarrossel quede nenhuma
maneira pode afetar o ambiente composto de matéria ede ener-
gia. A conclusão evidenteéque não há necessidadede integrar o
ambienteno modelo analítico do processo. E aoposição irredutível
entre mecânica e termodinâmica vemdo segundo princí pio, a
Lei da Entropia(Georgescu-Roegen, 1973: 38)."
Na verdade, entropiaé uma noção suficientementecomple-
xa paraquenão seja às vezes compreendidapelos próprios físicos.
Tentando trocar emmiúdos, pode-se dizer que o aumento de
entropia corresponde àtransformação deformas úteis de energia
em formas que ahumanidade não consegue utilizar. "No limite,
trata-se de algo relativamente simples: todas as formas de energia são
gradualmente transformadas em calor, sendo que o calor acaba se
tornando tão difuso que o homem não pode mais utilizá-lo. Para ser
utilizável, a energia precisa estar repartida de forma desigual. Ener-
gia completamente dissipada não é mais utilizável. A ilustração clás-
sica evoca a grande quantidade de calor dissipada na água dos mares
que nenhum navio pode utilizar (Georgescu-Roegen, 1973: 39)."
Todo organismo vivo está sujeito ao aumento deentropia, mas
procura mantê-la constante pela extração de seu meio ambiente
dos elementos debaixaentropianecessários àcompensação. O cres-
cimento económico moderno baseou-se na extração da baixa
entropia contidano carvão e no petróleo. Umdiase baseará em
formas de exploração mais diretada energia solar. Mas nempor
isso poderá contrariar o segundo princípio da termodinâmica, o
queacabará por obrigar ahumanidadeaabandonar o crescimento.
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A conclusão de Georgescu épor demais inconveniente. Um
dia será necessário encontrar uma viade desenvolvimento hu-
mano que possa ser compatí vel coma retração, isto é, como
decréscimo do produto. Por isso, no curto prazo épreciso que o
crescimento seja o mais compatibilizado possível coma conser-
vação danatureza. Não setratadeconseguir "crescimento zero",
ou "condição estacionária", visões por ele consideradas ingénu-
as. ParaGeorgescu, crescimento ésempre depleção e, portanto,
encurtamento de expectativa de vida da espécie humana. Não
considera cinismo, ou pessimismo, reconhecer que os seres hu-
manos não queremabrir mão deseu presenteconforto para fa-
cilitar avida dos queviverão daqui adez mi l anos. Trata-se ape-
nas, dizia, de entender que aespécie humana está determinada
a ter umavida curta, porém excitante. Emsuma, ficaria nadú-
vida entre rir ou chorar setivesse tido aoportunidadede tomar
conhecimento da atual discussão entre os economistas conven-
cionais sobre os dois géneros de sustentabilidade, apresentadaa
seguir.
Arenga sobreincompatibilidade
Desde 1969, quando o prémio Nobel passou aser concedi-
do também aeconomistas, por uma única vez asua justificativa
referiu-se explicitamenteao crescimento. Foi em 1987, ao con-
templar Robert M. Solow "pelasua contribuição àteoriado cres-
cimento económico". Não édeestranhar, portanto, que essetam-
bém tenha sido praticamente o único dos economistas laureados
pelaacademia suecaarealmente entrar nadiscussão sobre noção
de "sustentabilidade", alardeada justamente naquele ano pelo l i -
vro Nosso futuro comum, mais conhecido como Relatório
Brundtland.
121
Em sua teoria, inteiramente exposta em obra recente
(Solow, 2000), a natureza jamais constituirá sério obstáculo à
expansão. No longo prazo, os ecossistemas não oferecerão qual-
quer ti po de l i mi te, seja como fontes de insumos ou
assimiladores de impactos. Qualquer elemento da biosfera que
se mostrar limitante ao processo produtivo, cedo ou tarde,
acabará substituí do, graças a mudanças na combinação entre
seus três ingredientes fundamentais: trabalho humano, capi-
tal produzido e recursos naturais. Isto porque o progresso ci-
entífico tecnológico sempre conseguirá introduzir as necessá-
rias alterações que substituam aeventual escassez, ou compro-
metimento, do terceiro fator, mediante inovações dos outros
dois ou de algum deles. Em vez de restrição às possibilidades
de expansão da economia, os recursos naturais podem no má-
ximo criar obstáculos relativos epassageiros, já que serão inde-
finidamente superados por invenções.
Cinco anos depois de receber o Nobel, quando a expressão
"desenvolvimento sustentável" acabarade ser consagrada na con-
ferência Rio-92, Solow foi convocado aabordar diretamente esse
tema como conferencista nacomemoração do quadragésimo ani-
versário daorganização Resources for the Future, umadas mais tra-
dicionais emoderadas ONGs ambientalistas americanas. O sim-
ples tom da primeira frase dessaconferência já indicavabem o
sentido do passo "quaseprático" rumo àsustentabilidade que ele
ali propôs: "vocês talvez fiquem aliviados em saber que estapales-
tra não será umaarenga sobre aintrínseca incompatibilidadeen-
tre crescimento económico epreocupação com o ambiente natu-
ral" (Solow, 1993: 162).
Todavia, desseultra-otimismo tecnológico, que sempre este-
ve na basedo raciocínio de Solow, não decorre necessariamente
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um sério desprezo pelo compromisso ético com as futuras gera-
ções. Paraele, a noção de sustentabilidade é muito útil, pois a
humanidade precisa evitar tudo o que possa ocorrer em detri-
mento de seus descendentes. Não apenas dos mais diretos, mas
também dos mais distantes. Só que isto significa, em seu ponto
de vista, a preservação da capacidade produtivapara um futuro
indefinido, pelailimitadasubstituição dos recursos não renováveis.
O que exigirá, evidentemente, mudanças importantes na manei-
ra dese medir o desempenho das economias, isto é, dos sistemas
públicos de contabilidade, sejam eles nacionais, regionais ou lo-
cais. Será preciso calcular PIBs ePNBs "verdes", que ele prefere
chamar de produtos interno ou nacional "líquido".
Os seguidores de Solow enxergam asustentabilidade como
capital total constante. Umaconcepção que acabou sendo bati-
zada de "fraca". Isto porque assumeque, no limite, o estoque de
recursos naturais possaaté ser exaurido, desdeque essedeclí nio
seja progressivamente contrabalançado por acréscimos propor-
cionais, ou mais do que proporcionais, dos outros dois fatores-
chaves - trabalho ecapital produzido, - muitas vezes agregados
na expressão "capital reprodutí vel". Ou seja, nessa perspectiva
de "sustentabilidade fraca", o que é preciso garantir para as ge-
rações futuras é a capacidade de produzir, e não manter qual-
quer outro componente mais específico daeconomia. Como diz
Amazonas (2002: 136), é uma visão na qual a ideia de desen-
volvimento sustentável acabasendo absorvidaereduzida a cres-
cimento económico. O que explica, aliás, aenfática advertência
de Solow (1992) sobre a inconveniência de se procurar uma
definição menos vaga de sustentabilidade. Em suma: é seu
fortíssimo otimismo tecnológico queo levaapregar pela fraque-
za da sustentabilidade.
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Otimismo: seco ou suave?
Os economistas neoclássicos quenão concordamcomapos-
tura de Solow também não se preocupamcomdefinições mais
precisas para o adjetivo "sustentável". O que os diferenciaé que
são menos otimistas sobre as possibilidades de troca-troca entre
os fatores de produção, preferindo, por isso, propugnar o que
chamamde "sustentabilidade forte". Emgeral, seguema chama-
da Escola de Londres, iluminadapela l iderança intelectual de
David Wi l l i am Pearce./ Entendem que o critério de justiça
intergeraçÕes não deve ser a manutenção do capital total, mas
simsua partenão reprodutível, quechamamde"capital natural".
E por não ignoraremque grande parte desse"capital natural" é
exaurível, propõem queos danos ambientais provocados por cer-
tas atividades sejamde alguma forma compensados por outras.
Essedebateemtorno daforça relativaquedeveriater a deusa
"sustentabilidade" é dos mais herméticos ebizantinos. Afinal, na
concepção neocl ássica, o objeto ciência económi ca é o
gerenciamento racional da finitude dos recursos produtivos em
sociedades marcadas pela infinitude das necessidades humanas.
O manejo dessacontradição se faz por umsistema no qual os
preços exprimema escassez relativados bens eserviços, papel que
tem sido desempenhado da maneira mais eficientepor mercados
livres, sem restrições (embora quase todos tenhamexigido
institucionalização de códigos de comportamento evários graus
de regulamentação pública, principalmenteestatal). A economia
neoclássica lida, portanto, coma alocação eficiente de recursos
escassos para fins alternativos, presentes efuturos, por meio do
sistema de preços de mercado. Neste sentido, a questão da
sustentabilidade corresponde àadministração mais ou menos efi-
ciente de uma dimensão específica da escassez.
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Se os mercados de recursos naturais funcionassem razoável
mente egerassemseuspreços relativos, nemteriasurgido pico
cupação especial comasustentabilidade ambiental, pois eles es-
tariamsendo alocados de maneira eficienteao longo do tempo.
Como isso não ocorre, o problemafoi catalogado entreas "imper-
feições de mercado". E a saí da que parece razoável para os
neoclássicos emgeral - deSolow a Pearce- é acriação de novos
mercados paraos bens ambientais, como, por exemplo, mercados
de direitos de poluir ou de cotas de emissões. E para que tais
mercados possam surgir, são adotados vários expedientes de
"precificação", mais conhecidos como técnicas de valoração.
Essafoi amaneirade responder àembaraçosa questão sobre
o valor económico de bens quenão adquiremvalor detroca, não
tendo, portanto, preços. Os economistas convencionais passaram
adizer queo valor detrocaeo valor deuso são apenas duas partes
de umvalor total formado por outros tipos de valores, entre os
quais o "valor deexistência". Afinal, dizemeles, sealgumas pesso-
as conseguemsatisfação somente por saber quealgumecossistema
particular existe emcondições relativamente intocadas, o valor
resultante de sua existência é tão real como qualquer outro valor
económico, seja de uso ou detroca.
Essevalor começou então aser medido por uma espécie de
análise de custo-benefí cio da alteração do bem-estar. Para um
indiví duo, o valor da mudança para uma situação preferida será
revelado pela "dispa": sua disposição apagar por esseganho. Se,
ao contrário, houver perda, elaserá revelada pela"disco": suadis-
posição emaceitar algo como compensação. Paraa sociedade, o
valor l í quido de uma mudança ambiental pode ser avaliado pela
diferença entre o total das "dispa" dos que esperam ganhar eo
total das "disco" dos que esperam perder.
125
Os procedimentos para essetipo de avaliação que se torna-
ram mais usuais são bemsemelhantes às sondagens de opinião.
Propõem alternativas a uma amostra populacional afetada por
um problema ambiental de maneira a que sejam registradas as
"dispa" e "disco". Assim, se os cidadãos estiverembem informa-
dos sobre as consequências das opções propostas, podemser cal-
culados valores económicos de bens para os quais não existem
mercados. É dessaforma quecostumamser estimados, por exem-
plo, valores de existência de espécies emextinção.
Nesseprocesso, os adeptos da economia ambiental conven-
cional também foram se convencendo de que a dificuldadede
saber qual é o valor económico dadiversidadebiológica, por exem-
plo, não decorre de l imitações da ciência económica e simde
limitações das ciências naturais. Achamque seusmétodos deava-
liação só não trazembons resultados porque os ecólogos costu-
mam ter pouca confiança emsuas estimativas sobre os impactos
daalteração dos ecossistemas, alémderaramente chegaremaum
acordo. Se os peritos não podemconstruir cenários fidedignos
que descrevam os efeitos de pol í ticas al ternativas para a
biodiversidade, as "dispa" e"disco" dos cidadãos irão reagir a estes
cenários refletindo aquela incertezaedesinformação, tanto quan-
to qualquer incerteza adicional que venha aocorrer às suas pró-
prias preferências comrelação àbiodiversidade. A confusão, a
ignorância eaapatia entre os leigos refletiriam, então, sinais in-
completos e dissonantes dos especialistas.
Pequeno Prí ncipe
Seria umimenso equívoco imaginar que só os economistas
neoclássicos utilizam essas técnicas de valoração dos elementos
do meio ambientequenão têmpreços. Por razões bempragmáti-
126
cas, ligadas ao maior poder depersuasão deargumentos baseados
emvalor monetário, é comumqueeconomistas dacorrente mais
cética também se sirvamdesses expedientes de precificação. Por
isso, empaíses decapitalismo maduro, já é comumsondar aopi-
nião das pessoas para saber que tipo de valor elas atribuiriama
uma determinada melhora da qualidade do ar ou à preservação
deumrio. É umamaneirade"internalizar as externalidades", tio
jargão da ciência económica normal.
O maior problemaé que essemalabarismo nemsempre con-
seguepersuadir. Qual poderiaser, por exemplo, o preço do ozô-
nio emrarefação, ou o preço de uma função como a regulação
térmica do planeta? Será que apreservação das diversidades bio-
lógica ecultural poderia ficar na dependência do aperfeiçoamen-
to dessas tentativas de simular mercados? Questões que só au-
mentamadistância entre economistas convencionais e "ecológi-
cos", mesmo que usemas mesmas técnicas. Os mais otimistas
consideramque aciência económica só não respondeu a esses
problemas no passado porque eles não eramconsiderados pre-
mentes pela sociedade. Os outros achamque esses problemas
revelama imaturidadeda economia como ciência, pois questio-
nam aprópria visão desistema económico que é comuma todas
as teorias, das mais radicais às mais conservadoras.
Um bomexemplo foi o estudo realizado pelaturmada "eco-
nomia ecológica" sobre os benefícids proporcionados aos seres
humanos por dezesseis grandes ecossistemas terrestres, publica-
do em1997 pelarevistaNature. Diz queas funções desempenha-
das por esses ecossistemas, quehá milhões de anos vinhamsendo
usufruí das gratuitamente pela humanidade, na verdade valem
quaseduas vezes toda a riqueza produzida no mundo durante
um ano, isto é, cerca de 33 trilhões de dólares anuais. Para um
127
dos pesquisadores envolvidos, esseresultado "pode aténão ser
muito preciso, mas servepara dar uma dimensão da importância
da natureza na atividadehumana". Segundo outro membro da
equipe, "fica muito maisfácil paraapopulação eparaas autorida-
des compreender que, quando se usa anatureza, há umpreço a
pagar".
Será que aatribuição deumpreço fictício aumbemnatural
é amelhor maneiradeganhar aopinião pública para a preserva-
ção ambiental? Uma parte crescente dos economistas responde
que sim. No fundo, eles estão convictos de que a racionalidade
económica sempre dominará as outras racionalidades. Como o
Pequeno Prí ncipe de Saint-Exupéry, eles achamque os adultos
nunca valorizamuma casapor que ela temtijolos rosados, com
gerânios nas janelas epombas no telhado. Só são capazes de ad-
mirar sua beleza quando ouvemque elacusta tantos milhões.
O problema éque os adultos também não acreditamem
estórias da carochinha. Sabem que os preços são determinados
simultaneamente pelautilidadeepelo custo de produção. Perce-
bem intuitivamenteo quecoube aAlfred Marshall esclarecer em
1890: "Damesma forma que não se pode afirmar seéa lâmina
inferior ou superior de uma tesoura que corta uma folha de pa-
pel, também não sepodediscutir seo valor eospreços são gover-
nados pela utilidadeou pelo custo de produção."
Isto quer dizer quesó podemter valor económico e, portan-
to, preço, bens que sejamprodutíveis eapropriáveis. E tais bens
representam, por mais espantoso que possaparecer, uma ínfima
parcelado universo formado por todos os seresvivos eobjetos que
compõem abiosfera. A aceitação dessamicroscópica redução foi
indispensável para que se chegasseàvisão de sistema económico
representado pelas contas sociais.
128
Como diz o economista espanhol J osé Manuel Naredo
(1987), ao nos perguntarmos como será possível contabilizar
monetariamente bens naturais que não têmpreço, estamos nos
perguntando se épossível estender a economia para um campo
que não seja o seu. A noção usual desistema económico consoli-
dou-sejustamente pelo crescente distanciamento da natureza.
Por isso, toda tentativa de incorporar variáveis ambientais nas
contabilidades esbarra emobstáculos conceituais e práticos que
acabam tornando os resultados muito suspeitos. Tão suspeitos
quanto esses 33 trilhões de dólares anuais atribuí dos a dezesseis
grandes ecossistemas terrestres.
Horizonte
O que realmente opõe os economistas ecológicos atodas as
outras correntes não é, portanto, o uso de técnicas de valoração,
mas sima crítica básica de Georgescu-Roegen à tesede Robert
Solow, choque quenunca fora exposto deforma tão claraquanto
no fórum publicado em número especial da revista Ecological
Economics de setembro de 1997 (vol. 22, n. 3).
A ideia dessefórum partiu deHerman E. Daly, o mais ilus-
tre discí pulo de Georgescu. E a apresentação começa como
pomo da discórdia: recursos naturais e capitais são geralmente
complementares enão substitutos. Pensar, como Solow, que eles
possam se substituir é contrariar du^s leis da termodinâmica.
Como dizia Georgescu, imaginar uma economia sem recursos
naturais — como Solow chegou a fazer em 1974 — é simples-
mente ignorar a diferença entre o mundo real e o J ardim do
Éden. E amelhor defesa de Solow feita nessefórum não foi a
réplica enviadapelo próprio, mas simadeseu colaborador J oseph
E. Stiglitz. O argumento émuito simples: os modelos analí ti-
129
cos da economia convencional são feitos para ajudar emques-
tões de médio prazo, isto é, para os próximos 50 ou 60 anos.
Um horizonte no qual os recursos naturais ainda poderão ser
facilmente substituíveis por capital.
Não pode ser mais patente, então, araiz do impasse. Quan-
do se evoca asegunda lei da termodinâmica para evidenciar a
fatalidade entrópica, o horizontetemporal é evidentemente de
longuíssimo prazo. Por isso prevaleceumverdadeiro anátema entre
os economistas convencionais e os ecológicos a respeito da
sustentabilidade, mesmo na tal versão chamada de "forte". E a
questão que imediatamentesecolocasó podeser aseguinte: nada
poderia preencher esseimenso vazio que separamodelos de cres-
cimento para algumas décadas da milenar fatalidade entrópica?
Não há, nestecaso, um"caminho do meio"?
O que existede diferente não chega aser um"caminho do
meio", mas simumdesdobramento menos pessimista das ideias
de Georgescu, feito por Herman E. Daly. Sua proposta é superar
o crescimento económico pelo resgatede uma ideiaformulada
por economistas clássicos, eprincipalmenteJ ohn Stuart M i l l em
1857: acondição estacionária ("stationary state"), que Daly prefe-
re chamar de "steady-state economy", certamente por analogia à
hipótese cosmológica dequeadensidade total damatéria perma-
nececonstante no universo emexpansão.
Stuart M i l l declarou-se francamente propenso acrer que a
"condição estacionária do capital edariqueza" seria, no conjunto,
umaenorme melhoria, ao contrário deuma"aversão impassível",
generalizadamente manifestada pelos economistas clássicos que o
antecederamequeeleclassificava"davelhaescola". Como setrata
de umautor muito pouco lido nos atuais cursos das chamadas
humanidades, os próximos parágrafos resumemo pensamento de
130
M i l l sobre acondição estacionária, usando quaseque literalmen-
te o seu próprio texto ( M i l l , 1983: 252-4).
Ele começa por confessar quenão lheencanta o ideal devida
defendido por quempensaqueo estado normal dos seres huma-
nos é aquele de sempre lutar para progredir do ponto de vista
económi co. Atropelar e pisar os outros, andar sempre às
cotoveladas ao encalço do outro não podemser o destino mais
desejável da espécie humana. Na realidade, esses seriamapenas
sintomas desagradáveis de uma das fases do progresso. Umestá-
gio necessário no progresso dacivilização. Isso seriaumincidente
do crescimento, não uma marca do declínio, pois essa condição
estacionária do capital não é necessariamente destruidora das as-
pirações mais elevadas edas virtudes heróicas, como a América,
em sua grande guerra civil, o demonstrou ao mundo, tanto pela
suaconduta como povo, quanto por numerosos exemplos esplên-
didos.
Mas essenão é o tipo desituação que os filantropos futuros
desejarão muito ajudar aconstruir, acrescentaM i l l . Semdúvida,
é altamente conveniente que, enquanto as riquezas foremconsi-
deradas como poder, eo tornar-se o mais rico possível for um
objetivo universal deambição, o caminho para chegar aisso seja
aberto atodos, semfavorecimento ou parcialidade. Mas o melhor
estado para anatureza humana é aquele emque, sepor umlado
ninguémé pobre, por outro lado ninguémdeseja ser mais rico do
que é, nemtemmotivo algumpara temer ser jogado para trás
pelos esforços que outros fazempara avançar.
Evidentemente, as energias da humanidade não devemse
enferrujar e permanecer estagnadas. É mais desejável que sejam
utilizadas para conseguir riqueza do que para lutar na guerra.
Mas isso somente até o momento emque suasinteligências pos-
131
samser educadas paracoisas melhores. Enquanto estasforempri-
mitivas e necessitarem de estímulos primitivos, que os tenham.
Entrementes, os que não aceitamo estágio atual do aperfeiçoa-
mento humano - ainda muito inicial - como o modelo último
deste, podemser escusados por se manteremrelativamente indi-
ferentes a essetipo deprogresso económico, que desperta as con-
gratulações dos políticos comuns eque consiste no simples au-
mento da produção enaacumulação decapital. Paraa segurança
da independência nacional, é essencial que umpaís não fique
muito atrás de seus vizinhos nessas coisas. Mas, consideradas em
si mesmas, são de pouca importância enquanto o aumento da
população oualgumoutro fator impedir a massado povo de ter
alguma participação no benefício proporcionado por elas.
O aumento daprodução só deveriacontinuar aser uma meta
importante nos países atrasados. Nos mais avançados, o que se
necessitaria, segundo Mi l l , seria de uma melhor distribuição. E
um meio fundamental seriaalimitação maior da população. Ni -
velar instituições - fossemelas justas ou injustas - não poderia
bastar, pois comisso poder-se-ia apenas fazer baixar quemesti-
vessemuito por cima, emvez de fazer subir emcaráter perma-
nente quemestivessena baseda sociedade.
Mi l l supunha que essamelhor distribuição poderiaser ade-
quadamente atingidapelo efeito conjunto da prudência edafru-
galidadedos indivíduos epor umsistema delegislação que favo-
recessea igualdade das fortunas, na medida emque isso fosse
conciliável como justo direito do homemouda mulher aos fru-
tos, grandes ou pequenos, de seu próprio trabalho. "Podemos
pensar, por exemplo, emlimitar asomaquequalquer pessoapode
adquirir por doação ou por herança ao montante suficiente para
proporcionar uma autonomia razoável. Sob essadupla influên-
132
cia, a sociedade apresentaria as seguintes características domi-
nantes: umconjunto de trabalhadores bemremunerados e aflu-
entes e inexistência de fortunas enormes, a não ser que fossem
ganhas e acumuladas durante uma úni ca existência; em
contrapartida, umconjunto, muito maior do que atualmente, de
pessoas não apenas livres das ocupações mais duras, mas também
dispondo de lazer suficiente, tanto físico quanto mental, para se
libertaremde detalhes mecânicos epoderemcultivar livremente
os encantos davida, eparadaremexemplos disso às classes menos
favorecidas para o cultivo desses valores" ( Mill, 1983: 253).
Enfim, Stuart Mi l l imaginavaumasociedade comtais carac-
terísticas como altamente preferível àquela que viana parte mais
avançada do mundo demeados do século XI X. E não achava que
elaseria apenas perfeitamente compatível comacondição estaci-
onária. Afirmava que ela se coadunaria commais naturalidade
com essacondição estacionária do quequalquer outra. Alémdis-
so, achava que nos países mais povoados já haviasido atingidaa
densidade necessária para possibilitar à humanidade obter, no
graumáximo, todas as vantagens dacooperação edo intercâmbio
social.
Uma população podeser excessiva, mesmo quetodos tenham
abundância de alimentos ede roupa. Não ébomque o homem
seja forçado emtodos os momentos a estar no meio de seus seme-
lhantes. Ummundo do qual seextirpaasolidão éumideal muito
pobre. A solidão, no sentido de estar muitas vezes asós, é essen-
cial para qualquer profundidade de meditação oude caráter; ea
solidão na presença da beleza eda grandeza natural éo berço de
pensamentos easpirações que não apenas são bons para o indiví-
duo, mas tambémalgo semo qual dificilmente asociedade pode-
ria passar.
133
M i l l não vi acomo sepoderiasentir mui tasati sfação emcon-
templ ar ummundo emque não sobrasseespaço para aati vi dade
espontânea danatureza: ummundo emquesecultivassecada naco
deterra capaz deproduzi r alimentos para seres humanos, ummun-
do emque toda aárea agresteefl ori da ou pastagemnatural fosse
arada, ummundo emquetodos osquadrúpedes ou aves não domes-
ticados paraconsumo humano fossemexterminados como rivais do
homemembusca dealimento, ummundo emquecada árvore su-
pérfl ua fossearrancada, eraramente sobrasseumlugar onde pudesse
crescer umarbusto ou uma fl or selvagem, semseremexterminados
como ervadaninha, emnomedeuma agriculturaaprimorada.
"SeaTerrati ver queperder agrandepartedeamenidade que
deveacoisas queo aumento i l i mi tado dariquezaeda popul ação
exti rpari amdela, simplesmente para possi bi l i tar àTerra sustentar
uma popul ação mai or, mas não uma popul ação mel hor ou mais
feliz, espero sinceramente, por amor àposteridade, queapopul a-
ção se contente compermanecer estaci onári a, mui to antes que a
necessidadeaobri guea isso" ( M i l l , 1983: 254).
Col apso nervoso
O oti mi smo de M i l l entrevi agrandes mudanças no desti no
humano. Somente quando, al émdei nsti tui ções justas, o aumen-
to quanti tati vo da humani dade for gui ado de forma pl anejada
pelaprevi são cri teri osa, somente então as conquistas sobre as for-
ças da natureza conseguida pelo i ntel ecto epela energia de pes-
quisadores ci entífi cos poderão transformar-se empropri edadeco-
mum da espéci e humana, bemcomo emmei o para mel horar e
elevar asorte de todos.
Como já foi enfatizado no pri mei ro capítul o, mas valeapena
repetir, o padrão devi da médi o naEuropaenos Estados Uni dos
134
prati camente quadrupl i cou nos 150 anos que separaram o final
do sécul o X V I I I do abalo sísmi co da crisede 1929, como disse
Keynes, graças aos avanços ci entífi co-tecnol ógi cos obti dos "atra-
vés do carvão, do vapor, dael etri ci dade, do petról eo edo aço, da
borracha, do al godão edas i ndústri as quí mi cas, das máqui nas
automáti cas edos métodos deprodução de massa, do tel égrafo e
da i mprensa, de Newton, Darwi n eEi nstei n, e mi l hares de ou-
tras coisas, homens famosos e conheci dos demais para enume-
rar". Pelos cál cul os de Keynes, o cresci mento do capi tal deu-se
numa escalabemsuperi or aumacentena de vezes do quejamai s
exi sti u emqual quer período anteri or. "E deagora emdi ante, não
precisamos esperar umaumento tão grandedapopul ação" (Keynes,
1984: 153).
Considera-se emgeral queo parto do cresci mento económi -
co moderno ocorreu duranteos noventa anos derevoltas erevol u-
ções pol íti cas que separaram aprol ongada resi stênci a das treze
col óni as norte-ameri canas à pol íti ca col oni al bri tâni ca (da qual
resul tou aDeclaração de Independência em1776) ea queda do
governo Tokugawa, no J apão, emjanei ro de 1868. Foi durante
esses noventa anos que a Revol ução I ndustri al ati ngi u as nações
que fazemparte do seleto Pri mei ro M undo. E não pode haver
dúvi da sobre aruptura i ntroduzi dapela i ndústri a, poi s, de 1700
a 1990, o desempenho económi co europeu foi mais devi nteve-
zes superi or ao dos setesécul os anteriores. O bri l hantehi stori a-
dor económi co Paul Bai roch esti mou que, na mel hor das hi póte-
ses, a produti vi dadedo conjunto da economi a europeia dobrou
entreos anos 1000 e1700, sendo queelafoi mul ti pl i cada por 45
nos quasetrês sécul os posteriores. Todavi a, quando exami nou mais
emdetalheo crescimento económi co moderno, o própri o Bai roch
(1987) foi levado a fazer uma clara di sti nção entre o perí odo
135
anterior eposterior à interpenetração entre ciência e técnica, si-
mul tânea à expansão dos sistemas educacionais.
Apesar de alertar para uma nova doença, a respeito da qual
alguns de seus leitores ainda não teriam ouvido falar, mas sobre a
qual certamente ouviriam muito nos anos seguintes - o desem-
prego tecnológico -, Keynes se mostrava tão ou mais confiante
que M i l l sobre o que sepoderia esperar para os cem anos posteri-
ores a 1930. O crash de 1929 não tirou seu otimismo sobre as
possibilidades económicas de seus netos, frase que deu tí tul o ao
ensaio. Seria, segundo ele, "apenas uma fase temporári a de
desajustamento. Afinal, tudo isto significa que a humanidade está
resolvendo seu problema económico. Eu prediriaque o padrão de
vida nos países em progresso será daqui acem anos entrequatro e
oito vezes maior do que o atual. E não seria absurdo considerar a
possibilidadede um progresso aindamaior" (Keynes, 1984: 153).
Contrariamente ao que se poderia deduzir desseforte oti-
mismo que certamente foi confirmado pelos acontecimentos, as
subsequentes conjecturas de Keynes se desdobram em direção
semelhante às de M i l l . Sua conclusão foi que, se não houvesse
grandes guerras ou grande aumento da popul ação, o problema
económico poderiaser resolvido ou, pelo menos, ter umasolução à
vista nos cem anos subsequentes. Isto significa que o problema
económico não constitui — seolharmos para o futuro - o proble-
ma permanente da humanidade.
"Por que- perguntariam vocês - que isso é tão surpreenden-
te? É surpreendente porque- seem vez de olharmos para o futu-
ro, olharmos para o passado - verificaremos que o problema eco-
nómico, a luta pela subsistência, sempre foi o problema funda-
mental emais premente da raça humana - não só da raça huma-
na, mas de todo o reino biológico, desdeo início davida em suas
136
formas mais primitivas". "Dessamaneira, estivemos expressamente
envolvidos pela natureza - com todos os nossos impulsos e os
mais profundos instintos - na tarefa de resolver o problema eco-
nómico. Se o problema económico for resolvido, a humanidade
ficará privada de seu objetivo tradicional" (Keynes, 1984: 155).
"Será isso um benefício? Se de alguma forma acreditamos
nos valores reais da vida, essaperspectiva pelo menos abre uma
oportunidade de benefício. Contudo, penso com pavor no rea-
justamento dos hábitos einstintos do homem comum, nele cul-
tivados por incontáveis gerações, eque, daqui aalgumas décadas,
ele poderá ser solicitado apôr de lado. Na linguagem atual, não
será de se esperar um 'colapso nervoso' geral? J á temos um pouco
de experiência do que quero dizer - um colapso nervoso do tipo
que já é comum na Inglaterra e nos Estados Unidos, entre as
mulheres das classes privilegiadas. M uitas dessas infelizes criatu-
ras, privadas pela riqueza de suas tarefas ede suasocupações tra-
dicionais, não conseguem achar suficientemente satisfatória asi-
tuação em que, não tendo necessidadeeconómica de cozinhar,
limpar e remendar, são, contudo, incapazes de descobrir alguma
ocupação mais agradável. Paraos que suam pelo seu pão cotidia-
no, o lazer constitui uma doçura esperada - até ser obtida"
(Keynes,1984: 155).
Outrojargão '
O caráter obviamente machista dessaúl tima observação não
impedequeseperceba aproximidadeentre essas ideias de Keynes
eas que foram formuladas mais de sessenta anos antes por Stuart
M i l l . Para este, a condição estacionária seria uma situação sem
crescimento dapopulação edo estoquefísico decapital, mas com
contí nua melhoria tecnológica eética. E para Daly, estaseria a
137
19 W
ideiamais relevante para pensar nas economias já maduras do
chamado "Norte" (ou "desenvolvidas", como, infelizmente, secos-
tuma dizer). Pensando nesses termos, asustentabilidade é uma
questão muito mais críticaparao Nortedo queparaos periféricos
do Sul. Elaprecisaser antes detudo atingidaláondeo nível de
uso dos recursos ésimultaneamente suficiente parapermitir boa
vida à população ecompatí vel comacapacidade de suporte
ambiental.
O crescimento dapopulação edaprodução não develevar a
humanidade aultrapassar acapacidade deregeneração dos recur-
sos edeabsorção dos dejetos. Nos países do centro, tanto apro-
dução quanto areprodução já deveriamestar voltadas apenas à
reposição. O crescimento físico deveriacessar, comcontinuidade
exclusivade alterações qualitativas. Ou seja, navisão de Daly, a
ideia do desenvolvimento sustentável teriaquase150 anos, pois
só foi formuladacomoutro jargão. Desenvolvimento sustentável
quer dizer, para Daly, desenvolvimento semcrescimento.
Essamudança radical deumaeconomiado crescimento, com
tudo que isso implicaria, para uma economia estável (mas não
estática), que começaria pelo Norteemais tarde também seria
adotada pelo atual Sul, édifícil deser vislumbrada. Mas Daly
propõe quatro políticas inter-relacionadas emordemcrescente
de radicalismo. As duas primeiras seriamatéconservadoras, fun-
damentalmente neoclássicas, enão deveriamser objeto demuita
controvérsia, embora infelizmenteo sejam. A terceira certamente
exigiria muito debate, eaquarta comcerteza seria considerada
totalmenteforadepropósito pelaesmagadoramaioriados econo-
mistas (Daly, 1997: 179).
Em primeiro lugar, é preciso acabar comessaloucura de
contabilizar o consumo de capital natural como renda. Renda,
138
por definição, éo montante máximo que uma sociedade pode
consumir esteano (comuma dadabasederecursos) eainda ser
capaz deconsumir o mesmo montanteno próximo ano. Ou seja,
o consumo, esteano, sefor chamado derenda, devedeixar intacta
acapacidade deseproduzir econsumir o mesmo volumeno ano
próximo. Assim, anoção desustentabilidadeestá inseridanapró-
priadefinição derenda. No entanto, acapacidade produtivaque
deve ser mantida intacta temsido tradicionalmente entendida
somente como capital construí do pelo homem, excluindo-se o
capital natural.
Tem-se habitualmente computado o capital natural como
um bemlivre. Isto atépoderia sejustificar no mundo relativa-
mente vazio de antigamente. Mas no repleto mundo de hoje,
nadaexistedemais antieconômico. E esseerro de implicitamen-
tecontabilizar o capital natural como rendadominatrês âmbitos
cruciais: o Sistema de Contas Nacionais, aavaliação de projetos
que exauremcapital natural eacontabilidadedo balanço inter-
nacional de pagamentos.
No caso das contabilidades nacionais, aquestão ébemreco-
nhecida, eesforços estão emcurso para que tão crasso erro seja
corrigido. Várias organizações internacionais, acomeçar pelo pró-
prio Banco Mundial, empenham-sehojeparaencontrar amelhor
maneiradeesverdear o PIB eo PNB. J áno caso daavaliação de
projetos, asituação éambígua. Eleé hámuito reconhecido pelos
economistas convencionais queapontamparaanecessidadedese
contar o "custo de uso" (encargos de depleção) como parte do
custo deoportunidadedeprojetos queconsomemrecursos natu-
rais. Todavia, quasesempre isso acabasendo deixado delado na
prática usual das instituições definanciamento, acomeçar (outra
vez) pelo Banco Mundial. Custos deuso não contabilizados apa-
139
recém em benefícios líquidos inflados e em taxas de retorno supe-
restimadas. Isto enviesaaalocação de investimentos nadireção de
projetos que causam depleção de capital natural, afastando-os de
projetos mais equilibrados ou menos distorcidos.
Corrigir tal viés é o primeiro passo lógico nadireção de uma
política de desenvolvimento sustentável. O custo de uso deve ser
contado não somente em face dadepleção de recursos não renováveis,
mas também no caso de projetos que exploram recursos naturais
renováveis sem respeito pelo patamar de reprodução. A função de
sorvedouro, ou serviços de absorção prestados pelo capital natural,
pode igualmente se esgotar se usadaalém de certo ponto. Portanto,
um custo de uso deve ser computado em projetos que comprome-
tem acapacidade de assimilação, tal como apossibilidade de um rio
transportar resíduos, ou daatmosferaabsorver dióxido de carbono.
E nacontabilidade do balanço de pagamentos, a exportação
de capital natural extraído, sejapetróleo ou madeiracortada além
do patamar de reprodução, entra na conta corrente e assim é
tratada inteiramente como renda. No entanto, alguma porção
dessas exportações deveriaser tratada como ativo, entrando na
contacapital. Se isso fosse feito dessamaneira, alguns países veri-
am seus aparentes superávits na balança comercial convertidos
em déficits atualmente financiados por saques e transferências ko
exterior de seu estoque de capital natural. Reclassificar transações /
de forma aconverter superávits na balança comercial em redon-
dos déficits exigiria o desencadeamento de recomendações intei-
ramente novas pelo FMI , assim que essainstituição começasse a
se preocupar de fato com asustentabilidade do desenvolvimento.
A segunda política recomendada por Daly é tributar menos
arendae taxar mais o uso de recursos naturais. Além de remover
os subsídios financeiros explícitos ao uso de energia, água, fertili-
V 140
d» <
uri
zantes e até ao desmatamento, será necessário também retirar os
implícitos. Ou seja, todos os custos externos para as comunida-
des gerados pelaprodução de mercadorias sobre as quais eles não
incidem. A maneira mais simples e operacional seria distanciar a
base de impostos do trabalho e darenda, principalmente quando
se lembrao quanto é distorcido um sistema que taxatrabalho e
renda em situação de imenso desemprego. Isso só desencoraja o
que mais se gostariade promover: a ocupação.
Seria muito melhor economizar no uso da natureza devido
aos altos custos externos de suas respectivas depleção e pol ui ção,
e simultaneamente favorecer aocupação de mão-de-obra capaz
de reduzir o desemprego. Em poucas palavras, elevar a produtivi-
dade dos recursos naturais. É verdade que são limitadas as possi-
bilidades desse tipo de substituição entre recursos naturais e tra-
balho, mas é preciso tirar o máxi mo partido das que existem.
Realizar essamudança na base da taxação induz maior eficiência
no uso dos recursos naturais e internaliza, de maneira rude e
grosseira, as externalidades de depleção e poluição.
Do ponto de vistapolítico, a i ntrodução de ecotaxas pode
ser vendidasob a bandeira da neutralidade da receita: o mesmo
montante de dinheiro será retirado da coletividade, mas de um
jeito bem diferente. Mesmo mantendo o perfil progressivo do
imposto de renda, que permite subsidiar" famílias de renda muito
baixa, o grosso dareceitapública deveriaser extraído de impostos
sobre o uso da natureza, quer napontadadepleção, quer na da
pol ui ção, mas especialmente da primeira. Ou seja, a finalidade
damanutenção do imposto de renda seriaaredistribuição e não
ageração de recursos governamentais.
Essareformatributária ecológica, crucial para o ajustamento
estrutural, deve ser realizadagradualmente e começar pelas soci-
141
edadesdo núcleo central, ou orgânico, daeconomiamundial. O
que mostrabemadificuldadedaoperação, pois as organizações
internacionais quejáestão adotando o discurso do desenvolvi-
mento sustentável têmenormepoder depressão sobreo Sul, mas
quasenenhumsobreo Norte.
As duaspolíticas mais controversas
A terceirapolítica recomendada por Daly éademaximizar a
produtividade do capital natural no curto prazo einvestir no
crescimento desua oferta no longo. Não há desacordo sobre o
pri ncí pi o lógico de que sedeva lidar dessaforma como fator
limitante dequalquer sistema deprodução: maximizar sua pro-
dutividadehojeeinvestir no seu aumento amanhã. O desacordo,
como já foi bemenfatizado, ésobre o fato de seconsiderar o
capital natural como o fator limitante. É uma ideiaque parece
irrelevante para quemacredita que recursos naturais sejam
substituíveis por capital produzido pelo trabalho humano. No
entanto, por mais exercícios quepossamfazer os econometristas,
o senso comumreconhece o fato dequecapital natural ecapital
construí do são fundamentalmente complementares esó margi-
nalmente substituíveis.
Quando o capital natural era superabundante eseu preço
erazero, realmentepouco importavasaber seeleeracomplemen-
tar ou substituto do capital construí do. Hoje, quanto mais escas-
so se tornao capital natural remanescente, mais complementar
elesemostra. A captura depeixes, por exemplo, não é limitada
pelo número deembarcações cadavez mais eficientes, mas sim
peloscardumes querestam. Tambémnão éo número de serrarias
querestringeo cortedemadeira, mas asflorestas quecontinuam
de pé. O ól eo cru bombeado não se l i mi ta pela capacidade
142
construída deextração, mas pelos estoquesdepetróleo remanes-
centes. E acapacidade daatmosferaemcontinuar servindo como
depósi to dedi óxi do de carbono talvez aindavenha aser mais
limitanteque os próprios estoquesdecombustíveis fósseis.
Um substituto decapital natural éamisturadecapitais da
naturezaecapitaisproduzidospelo homemqueocorre, por exem-
plo, emflorestas plantadas, criação depeixes etc. É o que pode
ser chamado decapital natural cultivado. Todavia, mesmo dentro
dessa i mportante categoria hí bri da, acabarão por se tornar
limitantes os serviços complementares essenciaisdo capital natu-
ral, naformadechuva, insolação, solo etc. Alémdisso, emtermos
debiodiversidade, o capital natural cultivado sempre é inferior
aos recursos naturais propriamenteditos.
Tanto pararecursos renováveis quanto paranão renováveis, é
necessário fazer inversões paraelevar aprodutividadedo uso de
recursos naturais. Aumentar aprodutividadede umdetermina-
do recurso podeser, semdúvida, umbomsubstituto paraauti -
lização demaior quantidadedesserecurso. No entanto, aquestão
central reside no fato deque o investimento devaser feito é no
fator limitante. Empaíses nosquais essefator limitanteaindaéo
capital construí do, não hámuito mal emver queseu investimen-
to está sendo subsidiado. O problemaéquenão hámudança de
comportamento quando o fator limitante passaaser o capital
natural. '
A quarta política recomendada por Daly éainda mais pole-
micaqueastrês anterioresjuntas. Sair daideologiada integração
económica global do livrecomércio, do livremovimento decapi-
tais edo crescimento promovido por exportações emdireção a
umaorientação mais nacionalistaquebusquedesenvolver apro-
dução doméstica para mercados internos como primeira opção,
143
recorrendo ao comércio internacional apenasquando claramente
mui to mais eficiente. Segundo ele, o globalismo não contribui,
em geral, para um real aumento da produtividadedos recursos
naturais, mas sim para umacompetição que abaixapadrões sala-
riais eexternalizacustos sociais eambientais medianteexporta-
ção decapital natural abaixospreços, enquanto osclassificacomo
renda.
Globali zação
É profundo o choquedevisões sobreaglobalização. Deum
lado, estão osqueaenxergam como fenómeno real epensam que
nada sintetizariamelhor acondição humana contemporânea. Do
outro, céticos, como HermanDaly, paraquem tudo não passaria
deilusão inflada pelo entusiasmo deinocentesglobalistas. E nem
delongetaisvisões são redutíveis ameras retóricas ou ideologias.
Há muito aseaprender com osdoiscampos, desdequeseconsi-
ga separar o trigo do joio queem ambos prolifera.
Enquanto os melhores globalistasmostram acrescente i m-
portânci a de problemas mundiaisque engendram cada vez mais
consciência sobreo destino comum dahumanidade, osmelhores
céticos alertam paraacontí nua primaziadeinteresses nacionaise
defatos culturaisquedão sentido àsidentidades socioterritoriais.
Tanto quanto osprimeirosinsistem no crescimento explosivo dos
mercados financeiros duranteo último quarto do século passado,
seuscontestadores enfatizam a organização das economias reais,
lembrando das insignificantesmudanças nas proporções entre
comércio ePIB ao longo detodo o século, ou das raízes geográfi-
cas dasmultinacionais.
Examinar essedebate com serenidade - "amais i mpolí ti ca
das virtudes", segundo o saudoso pensador pi emontês Norberto
144
Bobbio - exigeponderação dos bons argumentos lançados por
ambos os lados, com o intuito de discernir terreno comum que
conduza aalgo maisconsistente, exatamente o contrário dos que
pensam que haveria"consenso" sobre um suposto "fracasso" da
globalização. A falta decabimento desefalar em consenso sobre
aglobalização está magistralmenteexpostaem opúsculo queDavid
Held redigiu com Anthony McGrew, intitulado An Introduction
to the Globalization Debate, publicado em português com o título
Prós e contras da globalização (2001).
Depois de dissecar as principaisfrentes de desacordo entre
globalistasecéticos, aduplavislumbra cinco áreas de convergên-
cia. Os "trigos" dos doislados tendem aaceitar que esteja ocor-
rendo: a) maior interligação económi ca nas eentre regiões do
mundo, ainda que com consequências multifacetadas; b) novas
desigualdades eabalo de velhas hierarquias, ambos provocados
pela competi ção i nter-regi onal; c) ampli ação de problemas
transnacionais etransfronteiriços (como lavagem de dinheiro ou
di ssemi nação de organismos geneticamente modificados, os
OGMs); d) expansão das formas degestão internacional - como
aUni ão EuropeiaeaOrganização Mundial do Comérci o (OMC)
-, que traz novas interrogações sobreo tipo deordem mundial a
ser construída; e) exigência denovas maneiras depensar ededar
respostascriativassobreasfuturasformasdemocráticas deregulação
polí ti ca. /
Há, entretanto, pelo menos uma sexta face da globalização,
bem enfatizada em outro livro do grupo de David Held (1999),
que não poderiaser ignoradaaté pelo pior dosanalistas céticos. É
inédito o reconhecimento do caráter planetário daapreensão sobre
adecadência ambiental. E não é por outrarazão queos movimen-
tos ambientalistassão osque maisquestionam (eaté desafiam) a
145
manutenção do Estado-Nação como principal lócus de legitimida-
de do poder. Aliás, não émera coincidência o fato de terem sido os
Verdes os primeiros a fundarem um partido europeu, mediante a
fusão de 32formações políticas nascidas em países que, em grande
maioria, farão parte da UE. Esse primeiro partido europeu foi fun-
dado em Roma, durante o carnaval de 2004.
O desgaste da camada de ozônio, o aumento do efeito estufa
e as perdas de biodiversidade são problemas globais em sua pró-
pria génese e âmago. São três questões que explicitam o cerne dos
conflitos sociais sobre a sustentabilidade. Este cerne reside na
dificuldade de, preservar e expandir as liberdades substantivas de
que as pessoas hoje desfrutam sem comprometer a capacidade
das futuras gerações desfrutarem de liberdade semelhante ou
maior. Por isso, não poderia ter sido mais oportuna a exposição
dessa tese por Amartya Sen no suplemento Mais!, da Folha de
S.Paulo de 14/03/04. Mesmo que se atribua absoluta supremacia
ao antropocentrismo, ainda assim a questão central éa de garan-
ti r condi ções para que as futuras gerações possam desfrutar de
liberdade bem maior que a atual.
São transcendentes duas ideias desse artigo do prémi o Nobel
de 1998. A primeira éa crítica ao que muitos supõem ser o "con-
ceito" de desenvolvimento sustentável. A versão original, do Rela-
tório Brundtland, comparava as "necessidades" desta e das próxi-
mas gerações. Na forma ampliada por Robert Solow, a compara-
ção passou a ser entre "padrões de vida", mas está ausente das
duas versões a liberdade dos humanos para salvaguardarem aqui-
lo que valorizam e aquilo a que atribuem i mportânci a. "Nossa
razão para valorizar determinadas oportunidades não precisa sem-
pre derivar da contribuição que elas oferecem ao nosso padrão de
vida", escreveu Amartya Sen.
146
A segunda se refere ao senso de responsabilidade quanto ao
futuro das espécies. É justamente pelo fato de a espécie humana ter
conseguido se tornar a mais poderosa que ela deve ter responsabili-
dade para com as outras, em generoso e altruísta esforço por mino-
rar tal assimetria. Se uma comunidade humana demonstra prefe-
rência pela conservação de determinado ecossistema em vez da i m-
plantação de um parque de diversões, por exemplo, isto só pode ser
sinal de que interesses estreitamente locais foram subordinados a
uma bem mais vasta atenção global a valores morais e estéticos.
Governança
Uma eventual adoção pelos países centrais daquelas quatro
políticas básicas propostas por Herman Daly, e de tantas outras
necessárias para que pudessem empreender uma transi ção para
um processo de desenvolvimento sem crescimento, exigiria um
verdadeiro choque de al truí smo. Nas palavras de Dal y (1996:
201): "a change ofheart, a renewal ofthe mind, and a healthy dose
of repentance". Três evocações religiosas, que ele usa de propósi to,
por considerar que mudança tão profunda no rumo das socieda-
des contemporâneas — quer se queira ou não — é essencialmente
religiosa. E acrescenta que sabe muito bem que a melhor maneira
de marginalizar uma questão no ambiente académico é classificá-
la de religiosa. Todavia, como bom católico, parece-lhe absurdo
não dar à Bíblia os créditos que lhe são devidos pelos princípios
éticos e morais hoje expostos e analisados por famosos pensadores
laicos, como J ohn Rawls, Robert Nozick e Amartya Sen. Al ém
disso, também não éimpossível encontrar exemplos históricos de
mudanças radicais que emergiram de motivações extra-econômi -
cas e foram fortemente influenciadas por valores e ideais, como
argumenta Romeiro (2000).
147
Raci ocí ni o diferente, mas igualmenteexploratóri o, é feito
por Douglass E. Booth (1998), umentusiasta das ideias de Daly.
Para ele, o problema central está na força dos interesses quepreci-
sarão ser contrariados, principalmentenos países mais ricos. Não
existe resposta fácil, eela éaltamente especulativa. Por isso, pro-
põe umbrevíssimo exame de duaspossíveis vias de transição.
A primeira, quelhe parecemaisóbvia, seria umbrusco corteno
suprimento depetróleo motivado por crisepolítica no OrienteMé-
dio. Emprazo mais longo, umeventual esgotamento das reservas de
petróleo ede gás teria o mesmo efeito, sempre segundo Booth. A
explosão do custo energético do sistema certamente engendraria es-
forços deconservação ea procura desubstitutos emfontes renováveis.
Todavia, alémdos riscos deuma volta ao carvão edeuma possível
retomada do alto consumo caso a crisepolítica fosse ultrapassada,
Booth pondera que uma tal via implicaria danoseconómicos erup-
turas sociais quepoderiamser evitadas por uma transição planejada.
Bem melhor seria, evi dentemente, que a tendênci a
incremental da consciência coletiva sobreos problemas ambientais
se acelerasse. Commais força política, o movimento ambientalista
poderia ter sucesso cada vez maior nas batalhas por regulamenta-
ções, principalmenteno âmbi to dos acordos internacionais. Para
Booth, a maior dificuldade, nestecaso, é saber seo tempo neces-
sário para tal processo institucional não seria superior ao ritmo da
degradação ambiental, principalmenteno que se refere ao aque-
cimento global. Pode ficar muito tarde para que seconsiga uma
reversão. Mui to dependeria, segundo ele, da possibilidadede ex-
pansão da democracia económi ca, na perspectiva que temsido
chamada de "economia solidária". E outra tendênci a que mui to
poderia ajudar seria o desejo por mais lazer. Commais tempo
livre e maior participação ematividades culturais, a população
148
seria levada a valorizar cada vez mais a natureza, reduzindo o
aumento do consumo material.
Seja como for, a contradição entreo atual imperativo do cres-
cimento económi co ea finitude dos recursos do planeta acabará
por se resolver dealguma maneira. I mpossível prever, entretanto,
se essa solução decorrerá de uma governança cada vez mais
esclarecida do desenvolvimento, de hecatombes provocadas por
catástrofes ambientais, ou de alguma outra saída mais difícil de
seimaginar. Nada disso podeser antecipado por duasrazões bem
singelas. Primeiro, porque ainda está engatinhando o conheci-
mento científico sobre a conexão entreos fenómenos humanos e
ecológicos. Segundo, porque esselimitado conhecimento cientí-
fico já indica a completa indeterminação dos sistemas adaptativos
complexos, como são os sistemas vivos. Para prazos estimados em
gerações, emvez de anos oudécadas, denada valemas projeções
do passado recente, por mais argutas que consigamser.
Essa cegueira sobre as possibilidades futuras de formas sus-
tentáveis deorganização social só poderá di mi nui r como aperfei-
çoamento das metodologias científicas voltadas à montagemde
cenários. Contrariamenteàsprojeções eàsprevisões, que tendem
a ser essencialmente quantitativas ea ter poucos pressupostos, os
cenários são narrativaslógicas queprocuramjustamentelidar com
as mais prováveis mudanças de rumo.'Ao explicitaremvisões de
mundo alternativas e desafiarem'as posturas convencionais, os
cenários ajudama identificar problemas que podemestar na pe-
numbra, mas são cruciais para o desenvolvimento humano.
Só solução global
Foi exatamentepor isso queo StockolmEnvironment I nstitute
atraiu analistas comlonga experiência nessetipo de abordagem
149
paraque integrassemo Global Scenario Group. O primeiro rela-
tório desse grupo, intitulado Branch Points: Global Scenarios and
Human Choice, apresentaseiscenários embutidos em três visões
básicas sobre o futuro — convencional, barbárie e grandes transi-
ções - , cadauma contendo duasvariantes. Quemconheceo valor
pedagógico da utilização da abordagemde cenários certamente
tirará muito proveito do artigo publicado na edição de abril de
1998 da revistaEnvironment, na qual doisdiretoresdo Stockholm
Environment Institute, os cientistas Gilberto Gal l opí n e Paul
Raskin, publicaramuma síntese do relatório Branch Points.
Alémdo simples prolongamento do status quo, que forneceu
o cenário I , de referência, o grupo incluiu na visão convencional
uma variante I I , reformista, que corresponderiaà progressiva ado-
ção de propostas políticas já formuladas nas últimas décadas, em
parte consagradas na Rio-92. Alémda possibilidade de uma de-
sintegração institucional e económica contida num cenário I I I ,
de colapso, o grupo incluiu na visão barbárica uma variante I V,
autoritária, que permitiria tanto a proteção das elites em alguns
enclaves bem manejados, quanto o controle da massade excluí-
dos bem longe dessasfortalezas. Alémda possibilidadeV, de uma
progressivaadoção do ideário verde mais radical, do tipo "small is
beautifuF, qualificada de "ecocomunitária", o grupo incl uiu na
visão das grandes transições uma variante V I na qual os mesmos
objetivos seriamatingidos com intensa globalização. Estes dois
úl timos cenários, decorrentes da visão mais idealista, podem pa-
recer excessivamente utópicos. Mas o grupo alerta que eles não
são menos plausíveis do que as propostas de sustentabilidade que
excluemprofundas transformações sociais.
A principal concl usão desse exercí cio patrocinado pelo
Stockól m Environment Institute elimina qualquer possibilidade
150
de soluções separadas, uma parao núcleo formado pelos países
maisdesenvolvidose outraparaas nações periféricas e semi-perifé-
ricas. Só uma verdadeirasolução global poderiagarantir um futuro
humano e sustentável, afirma o Global Scenario Group. E ela exi-
giria que a formulação das políticas públicas assumisse desdejá as
escalasda humanidade e da biosfera. Uma conclusão que pode ser
facilmente tachadade romântica, principalmente numa conjuntu-
raque parece apontar paraos doiscenários da visão barbárica como
os maisprováveis. Mas não se deve esquecer que tambémtendema
crescer os anseiosde uma relação maissaudável coma natureza, as
rejeições às extravagâncias consumistas, as ressurreições de laços
comunitários e, sobretudo, as tentativas de encontrar mais sentido
paraavida humana. Mesmo que essesvaloresaindaestejammuito
dispersose incipientes, elespoderão fazer emergir o cenário V I , de
sustentabilidade em contexto de globalização.
A conclusão mais incisiva do estudo refere-se, contudo, ao
cenário I I , reformista, que supõe afirme adoção das propostas do
famoso Relatório Brundtland. O consumo de energia oriunda de
fontes não renováveis, por exemplo, cairia bastante a partir de
2025. Mesmo assim, a concentração de carbono na atmosfera
continuaria a crescer ao longo do próximo século, atingindo ní -
veis 25% superiores aos atuais. E foi essetipo de resultado que
levou o grupo a afirmar que uma estratégia apoiada no Relatório
Brundtland pode até alcançar a sustentabilidade, mas numa si-
tuação na qual não valeriaa penaviver ("a sustainable world but
not one that is worth living in").
E agora, José?
Como reagemos economistas diante desse dilema entre a
posturafrancamente otimistade sua ciência normal - a mecânica
151
neoclássica - e uma outra, que poderia ser considerada apocalíptica,
no ori gi nal termodi nâmi co de Georgescu, ou meramente
evangelista, na versão de seu discípulo Herman Daly?
Em esmagadora maioria, os economistas simplesmente ig-
norama existência desse dilema. Usamtodas as suas energias
intelectuais para continuar a crer naquilo que foramtreinados a
acreditar. Por razões eminentemente pragmáticas, ou por fervor
doutri nári o, dão preferência ao otimismo teórico de Robert Solow,
ou ao empí ri co de Grossman & Krueger. Tornam-se usuários de
versões cada vez mais recauchutadas do raciocínio neoclássico,
que sempre serão mais "péno chão" do que sua antítese ecológica.
E entre esses dois extremos há umheterogéneo pântano que i n-
siste emtentar "esverdear" outras variantes tradicionalmente anti-
ecol ógi cas das ci ênci as económi cas, sejam elas de caráter
institucionalista ou duramente marxista.
Em tais circunstâncias, não existe sequer consenso sobre o
modo de classificar as correntes e tendências do pensamento eco-
nómi co, segundo suas respectivas visões da questão ambiental. E
não poderiamser mais diferentes as recentes tentativas feitas no
Brasil. Amazonas (2002: 107-286) visualiza três blocos de teori-
as: neoclássicas, institucionais e ecológicas. Romeiro (2003: 1-
29) prefere considerar apenas dois campos, os das susten-
tabilidades "fraca" e "forte", que opõem fundamentalmente - mas
não exclusivamente - os economistas neoclássicos aos que se di -
zem "ecol ógi cos". Mueller (2004: 97-104) também destaca a
oposi ção intrínseca entre a economia ambiental neoclássica e a
economia ecológica, mas subdivide esta úl ti ma emcinco varian-
tes: "fundamentalismo socioambiental", "ambientalismo cepalino",
"ambientalismo dos pobres" (Martinez-Alier), "marxismo verde"
e "economia da sobrevivência". Montibeller-Filho (2001: 83-207)
152
já havia destacado o "ecomarxismo" como terceira vertente, ao
lado da neoclássica e da ecológica. E outras três obras também
recentes que merecemser mencionadas não chegama apresentar
uma taxonomia das teorias económi cas: Aroudo Mota (2001),
Foladori (2001) e Penteado (2004).
De que valeria propor aqui alguma outra tipologia das atuais
linhas teóri cas e programas de pesquisa sobre a probl emáti ca
ambiental? Poder-se-ia, por exemplo, encarar a economia ecoló-
gica como uma possível resultante do debate entre neoclássicos e
"ecoenergéticos", como propôs Vivien (1994). Confrontar essas
abordagens comrelação a três temáticas distintas: economia dos
recursos naturais, economia do meio ambiente e economia do
desenvolvimento sustentável, como preferiramFaucheux & Noel
(1999). Ou simplesmente constatar a persistência da clivagem
entre abordagens ortodoxas - como a de Pearson (2000), por
exemplo - e diversas abordagens não apenas heterodoxas, mas
que sobretudo pretendem promover a aproximação comas ciên-
cias naturais. É a pretensão de juntar economia e ecologia que
está na base do programa de pesquisa da chamada "economia
ecol ógi ca". Basta consul tar as pri mei ras pági nas de seu
paradigmático manual, editado por Robert Costanza (1991), para
verificar que o objetivo desse movimento é superar simultanea-
mente a "economia convencional" e a "ecologia convencional".
No fundo, todas esses esforços'de classificação se equivalem,
pois as tipologias são sempre dependentes dos critérios escolhi-
dos. E qualquer tentativa de explicar como os economistas estão
voltando a dar i mportânci a à natureza será necessariamente leva-
da a fazer agrupamentos por critérios que pareçamos mais perti-
nentes ao autor. Todavia, mui to mais importante do que qual-
quer dessas tipologias éa compreensão da história do pensamen-
153
to económi co, e entender que aeconomiasó pôde se tornar ciên-
cia por um processo reducionistaque consolidoua noção hoje
usual de "sistema económi co". Um sistema formado apenas por
aquelesobjetos que além de apropriados e valorados, sejam consi-
derados produtí vei s. Coube a Naredo (1987) mostrar, com
meridiana clareza, que todas as tentativas atuais vão no sentido
de estender aeconomiapara um campo que, naverdade, não é o
seu. É por isso, aliás, que alguns economistas ecológicos que pa-
recem dos mais heterodoxos acabam usando e abusando, sem a
menor cerimónia, de técnicas de valoração ambiental que foram
concebidas por seusoponentes mais ortodoxos.
Não resta dúvi da de que os programas de pesquisa em eco-
nomia do meio ambiente se separam essencialmente pela ado-
ção de pressupostos contrári os sobre a reversibilidade dos pro-
cessos de degradação ambiental, uma escolha que está i nti ma-
mente associadaa um horizonte temporal, de pouquí ssi mas ou
muitas gerações. Como diz Georgescu (1976), aatividade eco-
nómi ca de qualquer geração não deixade influenciar adas gera-
ções seguintes: os recursos terrestres em energia e materiaissão
irrevogavelmente degradados e se acumulam os efeitos nocivos
das polui ções sobre o ambiente. Por isso, um dos principais
problemas ecológicos que se colocam àhumanidade é o da rela-
ção entre aqualidade de vida de uma geração àoutra, e particu-
larmente o da repartição do dote da humanidade entre todas as
gerações. Ora, aciência económi ca não pode sequer sonhar com
o tratamento desse problema. Seu objeto é agestão de recursos
raros no âmbi to de uma única geração, ou, no máxi mo, tam-
bém das duas seguintes. Não faz parte do raciocínio económi co
ademanda e ofertade recursos naturais no ano 3000, para nem
mencionar os que poderiamexistir daqui a 100 mi l anos. De
154
resto, nunca seriam mecanismos de mercado os que poderiam
proteger ahumanidade de crises ecológicas, nem de otimizar a
reparti ção dos recursos entre gerações, por mais que se consiga
fixar preços "justos".
Ocorre, todavia, que um grande número das atuais agressões
ao meio ambiente podem, sim, ser mitigadas, ou mesmo evita-
das, por mecanismos de mercado cujas instituições resultam de
novas regulamentações, principalmente regulamentações de i n-
centivos. E vêm daí as forças que rejuvenescem aciência econó-
mica convencional. E sobre estaquestão é fundamental o arguto
relato de casosocorridos nos Estados Unidos, feito no fascinante
livro Tudo à venda, de Robert Kuttner. Dadaai mportânci a desse
depoimento, ele será reproduzido nas próximas páginas com as
própri as palavras de Kuttner (1998: 403-12).
Ti ro pelaculatra
A primeira onda de regulação ambiental, nos anos 1970, co-
meçou comcritérios de saúde pública que procuravam reduzir a
poluição em sua origem. Exigiam que as indústrias empregassem a
melhor tecnologiadisponível para conformar-se às normas para a
qualidade do ar e daágua, parao controle de substâncias tóxicas e
assim por diante. A lei americana do ar puro (Clean Air Aci) de
1970 obrigavaque os modelos de automóveis ano 1975 apresen-
tassem uma redução de 90%naemissão de dióxido de carbono e
de hidrocarbonetos, apesar de atecnologianecessária para atingir
essesresultados aindanão existir naépoca. A datade cumprimento
desses patamares teve de ser prorrogada, mas os carros dos anos
1980já ostinham atingido e mesmo superado, graças atecnologias
tornadas possíveis pelaregulação. Hoje o controle da poluição au-
tomobilística é umnegócio de 7 bilhões de dólares por ano.
155
Nos primeiros anos da regulação daqualidade do ar, vários
problemas se evidenciaram. Os estados não possuíam nemain-
formação nemos recursos paracoletar dados sobre as fontes de
poluição. Alguns dos patamares deemissão especificados nos ob-
jetivos iniciais mostraram-se tecnologicamente inatingí veis, ou
proibitivamentecaros. Como tempo, amaioriados estados con-
formou-se àmaioriadas normas, mas outros problemas aparece-
ram. Logo deinício, os idealizadores daLei do Ar Puro decidiram
impor normas mais exigentes às novas gerações detecnologias de
produção. Isso pareciafazer sentido. Limpar o ar aumcusto acei-
tável éuma finalidade de longo prazo. Velhas fontes de poluição
acabariampor setornar obsoletas. Emtermos de custos, parecia
muito mais eficienteexigir quenovas fábricas egeradores deenergia
incluíssememseus projetos tecnologias mais limpas do queadaptar
dispendiosamente instalações velhas. Por isso, os requisitos de
emissão mais exigentes foram aqueles aplicados anovas fontes
poluentes.
Contudo, tal abordagemsaiu emparte pelaculatra. Muitas
usinas elétricas eoutros tipos de instalações industriais acabaram
por exigir umalongevidademuito maior do que aprojetada, es-
pecialmente como resultado de manutenção e renovação. Em
1990, mais dedois terços das emissões deusinas elétricas respon-
sáveis pelachuvaácida provinhamdeinstalações com25 anos de
idade ou mais. A imposição de requisitos mais rigorosos decon-
trole de poluição emnovas instalações aumentava o custo margi-
nal de se construir uma nova usina. De modo que os padrões
mais dispendiosos de emissão impostos a novas fontes
desencorajavam perversamente aadoção de novas tecnologias.
Um segundo problemaeraqueasolução mais baratapara se
atingir padrões de qualidade do ar ambiente - chaminés altas -
156
simplesmente exportava o problema. Na primeira geração da
regulação daqualidadedo ar, chaminés altas pareciamasolução
ideal. Jogar poluentes naaltaatmosfera resulta numambiente
local mais l impo, possibilitando aos estados atingir mais cedo os
patamares ambientais. Infelizmente, aquilo que sobe cai mais
adiante. O gás sulfídrico eo óxido nitroso emitidos por fábricas e
usinas do Meio-Oeste, muitas das quais queimavamcarvão bara-
to esujo, comalto teor deenxofre, voltaramàterranaforma de
chuvaácida, que caía centenas de quilómetros adiante, naNova
Inglaterra e no Canadá. A chuva ácida matou peixes, desnudou
florestas, arruinou colheitas.
Embora o problemada chuva ácida já estivesse bemdo-
cumentado desde os anos 60, o Congresso norte-americano
ficou travado por quase vinte anos até que se decidisse por
control á-l a. O dilemaeraarepartição dos custos. O principal
culpado era o carvão de tipo sujo, abundante na região dos
Apalaches e amplamente usado pelas empresas de eletricidade
da região central dos EUA. O Meio-Oesteera responsável por
uma parcela desproporcionalmente alta de precipitações de
chuva ácida, mas controlar diretamente tais emissões não cau-
saria somente elevação dos custos locais de eletricidade; tam-
bém fecharia as portas de muitas das minas de carvão de alto
teor de enxofre de West Virgí nia, Penhsylvaniae Kentucky, a
um custo de dezenas de milhares tleempregos. Os estados do
Sul e do Oeste, estes úl timos detentores de umcarvão muito
mais l impo, destinado à exportação, não estavam dispostos a
arcar comos custos dalimpezado Meio-Oeste, que não queria
pagar mais caro pela eletricidade, porque isso originaria uma
desvantagem competitivaregional. De modo que o impasse
permaneceu.
157
Nesseí nteri m, os economistas continuavam a refinar sua
posição emfavor daregulação por incentivos— nestecaso, anego-
ciação dedireitosdeemissão. Emboradeinício apermissão dese
vender "direitosde pol ui r" tenha se configurado para muitos
ambientalistas como um modo desancionar apoluição edede-
gradar partes do país queainda estavam limpas, os economistas
consegui ram demonstrar que um ambi ente perfei tamente
imaculado seria inatingível. Sendo assim, o desafio colocado à
política públ i ca era como conseguir o máxi mo de controlede
poluição com ummí ni mo decusto - independentementedequal
controledepoluição setratasse. Emborarepulsivo àprimeira vis-
ta, um sistema que cria epermitea negociação de licenças de
poluição apresenta diversasvirtudes.
Antesdacriação dedireitosnegociáveis deemissão, umage-
radora queemitissegássulfídrico em quantidadesuperior aol i -
mite permitido tinhaquatro opções básicas: 1. mudar para um
combustí vel menos pol uente; 2. i ncorporar tecnol ogi a
anti pol ui ção, normalmentedispositivosde dessul furi zação; 3.
construir instalações novasemaismodernas; 4. apostar em quea
economia deenergia reduzisse a produção e, portanto, a pol ui -
ção. Uma geradora mais eficiente, cujas emissões totaisjá seen-
contrassem abaixo dos limites admitidos, não tinha qualquer
motivo em especial para reduzi-losainda mais, mesmo que isso
fosse tecnicamente factível ebarato.
Direitosdepoluir
Com aaparição dos direitosnegociáveis deemissão, agera-
dora mais suja ganhou umaquintaopção. Passoua poder com-
prar, no mercado aberto, o direito depoluir. Simultaneamente, a
geradora maislimpa passou ater uma novaoportunidadedel u-
158
crar. Poderia reduzir aindamaissuasemissões, fazendo com que
lhe sobrasseuma quantidade maior delicenças para vender. A
virtude dessaabordagem foi quepassou apermitir queas forças
descentralizadas do mercado encontrassem o caminho do menor
custo para reduzir a poluição no sistema como um todo. Caso
uma companhiadeenergiaelétrica deOhi o concluísse queseria
maisbarato trocar ocarvão pelo gásnatural, demodo aentrar em
conformidadecom oslimites deemissão, seusexecutivosescolhe-
riam essecaminho. Mascaso acontecessedeamesma quantidade
depoluição poder ser reduzidademodo ainda mais barato por
uma geradora mais moderna, situada, digamos, no Colorado,
então setornariamais interessante para aempresa de Ohi o ad-
quirir direitosexcedentesdeemissões da empresa do Colorado.
Haveria redução da mesma quantidade de pol ui ção por chuva
ácida, mas aum custo menor.
A criação deumaespéciede"mercado obrigatório" mediante
negoci ação do direito de poluir é uma evolução sofisticada da
regulação convencional. Num esquema de negociação deemis-
sões, as fontes ganham quando vãoalém dos controles mí ni mos
queexerceriam seo sistema fosse outro. Enquanto a regulação
convencional é concebidaparaforçar aempresaainternalizar seus
custos sociais, os esquemas decomercialização de emissões são
projetados para internalizar objetivossociais nas decisões depro-
dução da firma.
Nos quinzeanos anteriores à promul gação das emendas de
1990, aEPA conduziuexperimentoscom aregulação demerca-
do em diversos domí ni os. Kuttner enfatizaqueessesexperimen-
tosmostraramquão essencial é o processo deformulação depolí-
ticas públicas no desenvolvimento de tais hí bri dos regulatórios.
Para que a pol í ti ca referente à chuva áci da pudesse ser
159
implementada, foi necessária uma boa dosede manobra política,
pois era preciso harmonizar interesses divergentes. As regras esta-
vamsendo subitamentealteradas, enão haviaumaforma "ótima"
de alocar os custos, salvo por meio de barganha política.
Fortuitamente, aconteceu deas forças políticas seconforma-
rem emumalinhamento propício. Em1990, os ambientalistas e
os economistas, queumadécada antes eramadversários desconfi-
ados, haviamencontrado algumterreno comum. A maioriados
principais grupos ambientalistas, que inicialmentehavia se me-
lindrado comaquestão da venda do direito de poluir, passou a
aceitar aideiadas licenças negociáveis - caso fossemsolidamente
amarradas a uma estrutura regulatória estável, que garantisse a
redução de emissões totais ao longo do tempo. Exceto os mais
doutrinários, todos os economistas reconheciamque umtal mer-
cado exigiria uma regulação significativa.
Alémdo desafio da política havia, o desafio do planejamen-
to. Os experimentos comcréditos comercializáveis de poluição
anteriores a 1990 haviammostrado que os planejadores tinham
de dar resposta adiversas questões técnicas complexas devido a
incertezas ecustos de transação, ummercado de licenças negoci-
áveis de larga escala. Qual seria ameta nacional atingível para a
redução das precipitações de chuvaácida? Os limites de emissão
deveriamexprimir-sena forma de taxas relativas à produção ou
referir-se a quantidades totais admissíveis de poluentes? Quais
poluentes deveriamser contemplados? E assimpor diante.
Apesar de mercantil, o sistema resultante não foi de livre
mercado. E, comefeito, críticos conservadores reagiramprecisa-
mente nesses termos. Lamentamquevales negociáveis não cons-
tituamrealmente uma abordagemde livre mercado, pois é ainda
um órgão público quedeterminao nível das licenças, e estas não
160
forçam os poluidores acompensarem aqueles prejudicados pela
poluição. Nessesistema, dizemeles, é o processo polí tico que
determina os patamares iniciais ou ótimos de poluição, e não a
barganha entre os poluidores e aqueles quearcamcomo custo da
poluição.
É importanteregistrar aressalva deKuttner sobre as possibi-
lidades degeneralização do esquema. Insisteemque o sucesso da
regulação por incentivos no caso dachuvaácida não significa que
se trate de uma abordagem para qualquer tipo de regulação
ambiental.
Ela funcionapara achuvaácida porqueo problemaé nacio-
nal, as fontes de poluição são isoladas eessencialmente fungíveis
e a tecnologiapara medir emissões é relativamente precisa. O
regime de licenças negociáveis pode envolver uma mescla de
regulações tanto de comando e controle como de incentivos.
Outros tipos de regulação necessariamente requerem comando
direto. Por exemplo, muití ssimos produtos quí micos são de tal
modo tóxicos que faz mais sentido simplesmente proibi-los do
quemaquinar algumaespécie demercado emtorno do direito de
usá-los emtroca de umpreço muito elevado.
Em resumo, há bastante espaço para atingir metas sociais
por meio do mercado edaregulação mercantil - do mesmo modo
que, emumaeconomiamista, existeespaço parao mercado. Mas
a regulação por incentivos eo mecanismo de preços não propor-
cionamuma abordagemsuperior emtodos os casos, ou todo o
tempo. E aregulação por incentivos continuaaser regulação. Só
quemalimente umponto de vista utópico sobre os mercados
pode se surpreender comessas conclusões. O sistema no qual o
mercado privado opera é inevitavelmenteestruturado pela lei e
pelas escolhas democráticas. Tais escolhas podemlevar atipos de
161
economia mista relativamenteeficientes ou ineficientes. Mas a
busca por ummercado livre perfeitamente puro, ou por uma
economia que seja livre de influências políticas, é uma ilusão,
conclui Robert Kuttner (1998: 403-12).
Programamínimo
A questão que se coloca, portanto, é se a tão almejada
sustentabilidade poderá ser paulatinamente conquistada por
mecanismos semelhantes aos que foram acima descritos, ou se,
em algummomento, setornará necessário adotar tambémdeci-
sões semelhantes às que Georgescu-Roegen (1976: 33-35) es-
boçou emseu "programa bioeconômico mí ni mo'\e progra-
ma temoito pontos, a seguir resumidos. Primeiro, proibir to-
talmente não somente aprópria guerra, mas aprodução de to-
dos os instrumentos de guerra. Segundo, ajudar os países sub-
desenvolvidos a ascender, coma maior rapidez possível, a uma
existência digna de ser vivida, mas emnada luxuosa. Terceiro,
diminuir progressivamente a população até umnível no qual
uma agriculturaorgânica bastasseà sua conveniente nutrição.
Quarto, evitar todo equalquer desperdício de energia — se ne-
cessário por estrita regulamentação - enquanto se esperaque se
viabilize a utilização direta da energia solar, ou que se consiga
controlar a fusão termonuclear. Quinto, curar a sede mórbida
por "gadgets" extravagantes para que os fabricantes parem de
produzir essetipo de "bens". Sexto, acabar também comessa
doença do espírito humano queéamoda, para que os produto-
' res se concentremna durabilidade. Sétimo, as mercadorias mais
duráveis devempassar a ser concebidas para que sejam conser-
tadas. Oitavo, reduzir o tempo de trabalho eredescobrir aim-
portância do lazer para uma existência digna.
162
9
<f
Depois deformular essesoito pontos deseu programa mí nimo
bioeconômico, Georgescu reconhece que émuito difícil imaginar
queas sociedades humanas venhamumdiaaadotá-lo. E assimcon-
clui queo destino do homeméo deter umavida curta, mas fogosa,
emvez deumaexistência longa, mas vegetativa, semgrandes even-
tos. "Deixemos outras espécies — as amebas, por exemplo — quenão
têmambições espirituais herdar o globo terrestre ainda abundante-
mente banhado pelaluz solar" (Georgescu-Roegen, 1976: 35).
A atual retórica sobre o desenvolvimento sustentável oscila
entre essasinistravisão de futuro, delineada por Georgescu, ea
confiantecrença dequesurgirão, emtempo, os novos mercados e
as inovações tecnológicas capazes deevitar, ou contornar, as catás-
trofes ambientais. Por isso, alémde ter surgido a já mencionada
distinção entre sustentabilidade forteefraca, também surgiu um
sério debatesobre o caráter "objetivo" ou "subjetivo" do "concei-
to" de sustentabilidade (Hueting eReijnders, 1998). E há ainda
quemdigaser absolutamente necessário ir alémdasustentabilidade
para queseja possível abordar aatual desordemexistente no rela-
cionamento humano coma natureza (Jamieson, 1998).
Na verdade, nos últimos anos, apalavrasustentabilidade pas-
sou aser usadacomsentidos tão diferentes queatéjá se esqueceu
qual foi asua génese, bemanterior àatual aplicação ao desenvol-
vimento, à sociedade e atéàcidade." Emalgummomento das
últimas décadas do século XX, úmvelho conceito (aqui, sim,
semaspas) dabiologia populacional passou aser transferido, por
analogia, para os sistemas humanos. Contudo, mesmo nas áreas
mais familiarizadas como tema - floresta e pesca-, a ideia de
sustentabilidade ainda esbarra emconhecimentos rudimentares
sobre os possíveis comportamentos dos ecossistemas, como ad-
vertiu Rebelo (1996).
163
Acontece que estão justamente nas fraquezas, imprecisões e
ambivalências danoção desustentabilidadeas razões desua força
eaceitação quasetotal. Como dizemNobre eAmazonas (2002:
8), essanoção só conseguiu setornar quaseuniversalmenteaceita
porque reuniu sob si posições teóricas epolíticas contraditórias e
até mesmo opostas. E isto só foi possível exatamente porque ela
não nasceu definida: seu sentido é decidido no debateteórico e
na luta política. Sendo assim, sua força está emdelimitar um
campo bastanteamplo emquesedá aluta política sobre o senti-
do que deveria ter o meio ambiente no mundo contemporâneo.
Alémdisso, esseconflito está ancorado, emúl ti ma instância, nas
diferentes visões sobre a i nsti tuci onal i zação da probl emáti ca
ambiental.
Como enfati zam Nobre e Amazonas (2002: 8), a
sustentabilidade é o carro-chefe desseprocesso de i nsti tuci o-
nalização que insereo meio ambiente naagenda política interna-
cional, além de fazer comque essadi mensão passeapermear a
formul ação e a i mpl antação de políticas públ i cas emtodos os
níveis nos Estados nacionais enos órgãos multilaterais ede cará-
ter supranacional. E umdos principais resultados da disputa po-
lítica peladefinição dasustentabilidade foi umclaro predomí ni o
daeconomia nadeterminação do quedevamser ateoriaea prá-
tica do desenvolvimento sustentável (DS). "Mais do que isso, é o
mainstream da teoriaeconómica, aeconomia neoclássica emsua
vertente ambiental, ateoriahegemónica nadetermi nação do que
seja o DS e, por consequência, do que seja aprópria posição do
meio ambiente naprática política, social eeconómi ca. E isto não
decorre simplesmente da posição hegemónica de quejá dispõe a
economia neoclássica no âmbi to dateoriaeconómi ca, mas igual-
mente de sua posi ção hegemóni ca estratégi ca nos órgãos de
164
regulação efomento decaráter mundial, como o FMI ou o Banco
Mundi al " (NobreeAmazonas, 2002: 9).
/
Por evocar, emúl ti ma instância, uma espécie de "ética de
perpetuação da humani dade e da vi da", a expressão
sustentabilidade passou a expri mi r a necessidade de um uso
mais responsável dos recursos ambientais, o que só pode ser
complicado para qualquer corrente de pensamento que se fun-
damente no utilitarismo, individualismo eequi l í bri o, como é o
caso da economia neoclássica, isto é, numa racionalidade da
maxi mi zação das utilidades individuais coma resultante deter-
mi nação do uso "óti mo" ou "eficiente" dos recursos emequilí-
brio. Todavia, como "uso óti mo" e"uso sustentável " são catego-
rias que atendem a critérios distintos - o de eficiência e o de
equidade - , Amazonas (2002: 108) apresenta a economi a
ambi ental neocl ássi ca como umesforço decompati bi l i zar
"otimalidade" com"sustentabilidade". E depois de examinar
todos os meandros das diversas variantes daeconomianeoclássica,
institucionalista e ecológica, o autor conclui que a questão é
aberta e de natureza ética: fazer ou não opções normativas na
direção do favorecimento de gerações futuras, abrindo mão de
afl uênci a imediata (Amazonas, 2002:278).
Sendo uma questão primordialmenteética, só se pode l ou-
var o fato da ideiadesustentabilidade ter adquirido tanta impor-
tância nos últimos vinte anos, meí mo que ela não possaser en-
tendidacomo umconceito científico. A sustentabilidade não é, e
nunca será, uma noção de natureza precisa, discreta, analítica ou
ari tméti ca, como qualquer positivistagostaria que fosse. Tanto
quanto a ideia de democracia - entre muitas outras ideias tão
fundamentais para aevolução da humanidade -, elasempre será
contraditória, pois nunca poderá ser encontrada emestado puro.
165
Como enfatizou Georgescu-Roegen (1999: 43-47), logo no iní-
cio deseu principal livro, sobre o papel da entropiano processo
económico, sempre será possível encontrar características não de-
mocráticas no país mais democrático do mundo, como sempre
será possível encontrar aspectos democráticos empaíses subjuga-
dos por regimes ditatoriais.
Todavia, se só há bons motivos para louvar essarápida ado-
ção do adjetivo sustentável, esseéjustamenteo motivo dese per-
guntar seaideiadeser humano queeleabarca ésuficientemente
abrangente. E éaqui queseconcentraaelegantecrítica deAmartya
Sen àdefinição mais aceita, propostaem1987 pelo pioneiro ma-
nifesto Nosso futuro comum (Relatório Brundtland). Além das
cruciais "necessidades" das atuais efuturas gerações, tão enfatizadas
nessedocumento, as pessoastambémtêmvalores. Valorizamprin-
cipalmentesua própria capacidade de pensar, avaliar, agir eparti-
cipar. Ver os seres humanos apenas emtermos de necessidades é
fazer uma ideiamuito insuficientedahumanidade, diz o prémio
Nobel de Economiade 1998 (Sen, 2004: 17).
As pessoas não são apenas pacientes, cujas demandas reque-
rem atenção, mas também agentes, cujaliberdadededecidir qual
valor atribuir às coisas ede que maneira preservar esses valores
pode se estender muito além do atendimento de suas necessida-
des. É preciso perguntar, então, seas prioridades ambientais não
deveriamtambém ser encaradas emtermos de sustentação das
liberdades humanas. "No contexto ecológico, basta considerar
um ambiente deteriorado, no qual as gerações futuras não pode-
rão respirar ar fresco (devido àsemissões poluentes), mas no qual
essasgerações futuras sejambemricas ebemservidas de outros
confortos queseu padrão devida talvez sesustente. Uma aborda-
gem de desenvolvimento sustentável seguindo o modelo de
166
Brundtland-Solow talvez se recuseaver qualquer mérito nos pro-
testos contra essasemissões, sob ajustificativa de que a geração
futura terá ainda assimumpadrão devida pelo menos igual ao
atual. Mas isso desconsidera a necessidadede políticas de restri-
ção de emissões que possam ajudar as gerações futuras a ter a
liberdade de desfrutar do ar fresco que soprava para as antigas
gerações" (Sen, 2004: 18).
Como se pode constatar apartir dessacrítica de Amartya
Sen àversão mais amplamenteaceitadanoção desustentabilidade,
o debate científico está nestecaso bemmenos amadurecido do
que o debatesobre a ideiadedesenvolvimento.
Sete transições
O destino da biosfera está virtualmenteligado a todos os
aspectos do futuro do homeme, por isso mesmo, exigemais do
que nunca uma agenda de pesquisascientíficas. Umaagenda que
conclame pessoas de muitas instituições edeuma amplavarieda-
de de disciplinas a pensar juntas sobre se pode haver cenários
evolutivos que conduzamda situação presente para ummundo
"quase-sustentável no século XXI ", navisão do prémio Nobel de
Física de 1969, Murray Gell-Mann. Ao explicar o que entende
por "sustentável", começa por lembrar queo significado literal da
palavraéinadequado. A ausência completadevida naTerra pode
ser sustentável por milhões deanos, mas não éisto o quese quer
dizer. A tirania universal pode ser sustentável durante gerações,
mas também não é isto que se pretende. Imagine-se, então, um
mundo muito apinhado e altamente regulado, talvez extrema-
mente violento, comapenas algumas espécies de plantas e ani-
mais sobreviventes (estes últimos intimamenterelacionados com
asociedade humana). Mesmo que estascondições possamdeal-
167
gum modo ser mantidas, elas também não correspondem ao que
se quer dizer com mundo sustentável. Enfim, o que Gell-Mann
(1996: 356) quer mostrar é queo queseestá procurando "abarca
um tantinho de desejabilidade junto com a sustentabilidade".
Surpreendentemente, diz ele, há um certo acordo hoje sobre o
que seja desejável. Há um certo consenso sobre as aspirações da
humanidade que se corporificam, por exemplo, em declarações
das Nações Unidas.
Que tipo defuturo seestá visualizando, então, para o plane-
ta epara ahumanidade quando semisturaaos desejos uma dose
de realismo? Certamente não se pensaem estagnação, sem espe-
ranças de melhoriadas vidas dos seres humanos famintos e opri-
midos, mas também não sequer dizer abusocontí nuo e crescente
do meio ambiente enquanto apopulação cresce, os pobres ten-
tam elevar seu nível devida eos ricos exercem enorme impacto
per capita. A humanidade precisa evitar guerras, tiranias, pobre-
za, assim como degradação desastrosadabiosfera edestruição da
diversidade biológica eecológica. Trata-se de obter qualidade de
vida para o homem e para a biosfera que não seja conseguida
principalmente àcusta do futuro. Abarcaasobrevivência dedi-
versidade cultural humana etambém de muitos dos organismos
com os quais ela divide o planeta, assim como as comunidades
que eles formam. Ou seja, para Gell-Mann (1996: 358-84), o
principal desafio para ahumanidade é realizar um conjunto de
sete^transições interligadas para uma situação mais sustentável
no século X X I ".
Em primeiro lugar, uma sustentabilidade maior, sepuder ser
alcançada, significaria umaestabilização da população, globalmen-
teena maioriadas regiões. Em segundo, práticas económicas que
encorajem acobrança de custos reais, crescimento em qualidade
168
em vez dequantidade, eavida apartir dos dividendos da natureza
enão do seu capital. Terceiro, umatecnologiaquetenha compara-
tivamente um baixo impacto ambiental. Quarto, é preciso que a
riqueza seja de alguma forma mais equitativamente distribuí da,
especialmente para que aextrema pobreza deixede ser comum.
Em quinto, são imprescindíveis instituições globais etransnacionais
mais fortes para lidar com os problemas globais urgentes. Sexto, é
fundamental um público mais bem informado sobre os desafios
múltiplos einterligados do futuro. E sétimo - etalvez o mais im-
portante e mais difícil de tudo -, o predomí nio de atitudes que
favoreçam aunidadenadiversidade, isto é, cooperação ecompeti-
ção não violentaentre tradições culturais diferentes e naçÕes-Esta-
dos, assim como acoexistência com os organismos quecomparti-
lham abiosferacom os seres humanos.
Em seu esforço de compreensão da natureza edas socieda-
des, os teóricos precisam privilegiar as hipóteses mais simples e
gerais que permitem dar contade umagrande variedade depro-
blemas. E não houve disciplina que mais seguisse essalinha do
que afísica. I nquestionáveis resultados foram obtidos na procura
de equilí brios com ahipótese de que eles não dependiam das
condições iniciais, ou seja, com ahipótese deque quasetodos os
fenómenos são reversíveis. Foi com o surgimento da termodinâmica
que tal hipótese geral pôde ser abandonada, fazendo nascer uma
novafísica. '
O pensamento económico teveevolução análoga. Quando a
economia política se transformou em análise económica, a ideia
de equilíbrio passou aocupar o centro nervoso dadisciplina. Na
segunda metade do século XX, foi o estudo da existência, da
estabilidade e até da unicidade do equilí brio que se tornou o
principal esteio da análise económica. Tanto aausência de fric-
169
ção, quanto a falta de perti nênci a da hi stóri a são as hi póteses
centrais que levamdiretamenteàideiade perfeitareversibilidade
ao equilíbrio. Uma reversão do sentido do movimento dequal-
quer variável permitefacilmenteavolta ao equilíbrio anterior.
As pesquisas científicas dos últimos vinte ou trinta anos i n-
di cam uma rej ei ção bem generalizada dessa hi pótese.
Termodi nâmi ca não linear, inércia dos sistemas técnicos, dificul-
dades de estabilização macroeconómi ca pelas políticas monetári -
as e fiscais, tomada de consciência sobre os limites do cálculo
económi co aplicado às degradações ambientais, tudo isso mostra
a necessidadede levar emconta ahistória de qualquer sistema.
Não há retorno ao estado inicial. Nas mais diversas áreas do co-
nhecimento, histerese, persi stênci a, i nérci a eirreversibilidade
passaram aser noções decisivas das pesquisas científicas contem-
porâneas. Parafazer umbalanço sobre aevolução dessetipo de
pensamento naciência económica, realizou-seemParis, em1989,
um i mportantí ssi mo colóquio sob aégide daEscoladeAltos Es-
tudos emCiências Sociais, edeleresultou umlivro que deve ser
considerado como uma das principais referências de um futuro
ponto de mutação (Boyer, Chavance & Godard, 1991).
Então, o que é sustentabilidade?
Depois de comparar as duas respostas mais científicas, que
seopõem pelo grau deconfiança quedepositamnapossibilidade
de novas tecnologias virem a reverter os obstáculos ambientais à
continuidade do crescimento económi co, edepois de revisar as
obscuras tentativas deconstruir umdiscurso sobre o quepoderia
ser considerado um"caminho do meio", qual é o balanço que
pode ser feito? Seria possível encontrar uma resposta positiva,
direta econcisa à pergunta?
170
Outra vez, entre autores que mais se dedicaramao assunto
ao longo dos últimos quatro decénios, desdeos primeiros prepa-
rativos da célebre Conferência deEstocolmo, realizadaem1972,
é Ignacy Sachs quemmelhor soube evitar simultaneamente o
ambientalismo pueril, que pouco se preocupa compobrezas e
desigualdades, eo desenvolvimentismo anacrónico, que pouco se
preocupa comas gerações futuras. E suavisão aparececlaramente
no segundo capí tulo de umpequeno livro publicado em2002,
Caminhos para o desenvolvimento sustentável, que reproduz sua
apresentação ao quinto encontro bienal da International Society
for Ecological Economics, realizadaemSantiago de Chile, entre
15 e19 denovembro de 1998, ecujo temafoi "BeyondGrowth:
Policies and Institutions for Sustainability".
Sachs considera que a abordagem fundamentada na
harmonização de objetivos sociais, ambientais eeconómicos, pri -
meiro chamada de ecodesenvolvimento, edepois dedesenvolvimento
sustentável, não sealterou substancialmente nos vinte anos que se-
pararamas conferências de Estocolmo edo Rio. E acredita que
permanece válida, na recomendação de objetivos específicos para
oito das suas di mensões: social, cultural, ecológica, ambiental,
territorial, económi ca, política nacional e política internacional.
No queserefereàs dimensões ecológicas eambientais, os objetivos
de sustentabilidade formam umverdadeiro tripé: 1) preservação
do potencial da natureza para aprodução de recursos renováveis;
2) limitação do uso derecursos não renováveis; 3) respeito erealce
para acapacidade deautodepuração dos ecossistemas naturais.
A sustentabilidade ambiental é baseada no duplo imperati-
vo ético desolidariedadesincrônica comageração atual edesoli-
dariedade diacrônica comas gerações futuras. Elacompele atra-
balhar comescalas múltiplas detempo eespaço, o que desarruma
171
a caixa deferramentas doeconomista convencional. Eleimpele
ainda abuscar soluções triplamentevencedoras (Isto é, emter-
mos sociais, económicos eecológicos), eliminando ocrescimento
selvagemobtido aocusto deelevadas externalidades negativas,
tantosociais quanto ambientais. Outras estratégias, decurtopra-
zo, levamaocrescimento ambientalmentedestrutivo, mas social-
mentebenéfico, ou aocrescimentoambientalmentebenéfico, mas
socialmente destrutivo (Sachs, 2004).
Leituras mais recomendadas
Das muitas referências bibliográficas destecapítulo, devemser destacados
cincolivros publicados noBrasil, cujaleitura certamenteserá muitofrutífera.
O livro deMarcos NobreeMaurício Amazonas sobreoprocessode
institucionalizaçãododesenvolvimentosustentável surgeemprimeirolugar,
pois fornecesimultaneamenteintroduções àdinâmica política eàs teorias
económicas queprecisamser conhecidas por quemqueiraevitar os inúmeros
riscos trazidos pelaproliferaçãodeinterpretações das mais ingénuas sobreo
assunto. Será umaverdadeiravacinacontrao sensocomum. Emparalelo, vale
a penaconhecer as grandesquestões ambientais queconstituema baseobjeti-
va desseprocesso. E nãohá nadamelhor para esseobjetivodoqueacoletânea
organizadapor AndréTrigueiro. Quemquiser ver análises mais específicas de
aspectos dadimensãobrasileira dessasquestões, certamentedeverá consultar a
verdadeiraenciclopédia organizadapor Wagner daCostaRibeiro. Finalmen-
te, bons textos introdutórios às abordagenseconómicas das questões ambientais
serãoencontrados nolivropatrocinadopelaEcoEcoeorganizadopor Peter
May, MariaCecília Lustosa eValériaVinha. Deliciosos aperitivos para aleitura
mais decisiva: aexcelenteexposiçãosobreas inter-relações entreosistema
económico eomeioambientepreparadapeloprofessor daUNB Charles
Mueller, comcertezaa maior autoridadebrasileira nessetema.
172
Capítulo 4
Como podeser medida
a sustentabilidade
Há ummovimentointernacional lideradopelaComissão para
o DesenvolvimentoSustentável (CSD) dasNações Unidas, cujo
objetivo éconstruir indicadores. Reunindo governos nacionais,
instituições académicas, ONGs, organizações dosistema das
Nações Unidas eespecialistas detodo omundo, essemovimento
pretende pôr emprática os capí tulos 8e40 da"Agenda21",
firmada na Rio-92, referentes ànecessidadedeinformações para
a tomada dedecisões. Em1996, a CSD publicou o documento
"Indicadores dedesarollosostenible: marco y metodologias", que
ficou conhecido como "LivroAzul". Continha umconjunto de
143 indicadores, queforam, quatroanos depois, reduzidos a uma
lista mais curta, comapenas 57, mas acompanhados defichas
metodológicas ediretrizes deutilização. Forammuitoimportan-
tes para queoInstitutoBrasileiro deGeografia eEstatística (IBGE)
pudesselançar, em2002 e2004, os primeiros indicadores brasi-
leiros dedesenvolvimentosustentável (IBGE, 2002 e2004).
A importância desses dois pioneiros trabalhos doI BGE não
deveser subestimada pelofato deamaioria desuasestatísticas e
173