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Análise Social, vol. XVIII (72-73-74), 1982-3.°-4.°-5.

°, 1367-1397
João Freire *
Maria Alexandre Lousada **
O neomalthusianismo
na propaganda libertária
ADVERTÊNCIA
A análise da propaganda neomalthusiana em Portugal foi o objectivo deste
trabalho.
Situada numa zona de intercepção temática tão rica e diversificada onde se
cruzam a educação, a sexualidade, a questão social, o militarismo, a influência
religiosa, etc, esta justificação ideológica duma atitude perante a procriação
mereceu-nos a atenção devida a um dos elementos constitutivos da cultura, que
um movimento social transformador como o do operariado de então não podia
deixar de gerar.
O período mais activo e mais rico da propaganda neomalthusiana é o que
decorre desde o início do século até à guerra. Razão por que, embora existam
vestígios da sua acção nos anos posteriores (até aos anos 40), não prolongámos a
pesquisa para além daquele marco. A guerra, ao provocar divisões no movi-
mento operário pelas tomadas de posições pró ou contra que originou (interna-
cional e nacionalmente), e ao mobilizar parte dos seus elementos, actuou como
travão da agitação operária.
Porque foram os libertários os mentores da corrente neomalthusiana em
Portugal, interessar-nos-á particularmente o estudo do seu lugar na propaganda
anarquista. Tal opção não exclui, no entanto, a necessidade de conhecer as reac-
ções de outros sectores da sociedade portuguesa, como os republicanos, os
socialistas ou as feministas.
A análise demográfica e a das modificações culturais, que o estudo das
«técnicas da vida» pode permitir, estão fora dos nossos propósitos. Da mesma
forma, não nos debruçámos mais do que o estritamente necessário sobre as polí-
ticas populacionais do Estado. A nossa análise será essencialmente sociológica e
privilegiará os meios escritos da imprensa e da actividade editorial.
1. INTRODUÇÃO
Tal como Malthus 1, o primeiro neomalthusiano conhecido era inglês: trata-
-se de Francis Place, que expôs a nova doutrina em 1822 e a que se seguiram,
entre outros, Carlyle e Drysdale. Este último exerceu grande influência nos
* Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.
** Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
1
Sobre o papel de Malthus no pensamento contemporâneo refira-se o congresso realizado pela
UNESCO, em Maio de 1980, em Paris, subordinado ao tema Malthus hier et aujourd'hui. 1367
movimentos neomalthusianos, tendo o seu livro conhecido 26 edições no
intervalo de 33 anos e tradução em 15 línguas, entre as quais o portu-
guês
2
.
Não se limitaram, no entanto, a retomar a lei da população do pastor protes-
tante e a demonstrar a ineficácia e a violência do moral restraint: ao mesmo
tempo que preconizavam a utilização de outros meios, indicavam-nos e forne-
ciam receitas, método que se tornará uma característica da actividade neomal-
thusiana. Fundada a The Malthusian League, em 1877, o movimento conhece
uma expansão considerável no resto da Europa e nos Estados Unidos da Amé-
rica. Para além de traduções e de produção teórico-prática própria, são criadas
duas organizações, uma na Holanda, em 1881, e outra em França, em 1896,
ambas extraordinariamente activas. É, contudo, a Ligue de Ia Régénération
Humaine que nos interessa aqui rapidamente focar.
Foi com o seu principal mentor, o anarquista e mação Paul Robin, que o
neomalthusianismo adquiriu uma expressão política e social que anteriormente
não possuía, que se tornou ideologicamente comprometido: reduzir a natali-
dade implicaria diminuir o número de operários e de soldados, rareficando-se
assim o exército de reserva e de defesa do capital. Os salários subiriam, a miséria
desapareceria, a felicidade estaria mais perto. O neomalthusianismo francês
assume-se deste modo como mais uma arma na luta contra o capitalismo. A sua
presença no movimento operário ficará, no entanto, muito associada aos anar-
quistas, reservada que foi, quando não mesmo hostil, a posição dos socialistas
perante a nova corrente.
A anterior experiência pedagógica de Robin contribuiu igualmente para a
articulação do neomalthusianismo com as perspectivas emancipadoras do anar-
quismo. A sua divisa «Bom nascimento, boa educação e boa organização
social» era bem o símbolo do novo caminho aberto pelo neomalthusianismo
francês.
Em Portugal, o movimento assumiu algumas das características e a natureza
política do seu congénere e antecessor francês. Não é assim de admirar a predo-
minância de contactos com a liga francesa. Destacam-se os autores franceses, as
edições francesas e também os anticoncepcionais franceses. Às razões mais
gerais desta preponderância acresce o facto de, entre os líderes morais e intelec-
tuais do neomalthusianismo, ser Paul Robin aquele que, de longe, possuía a
reputação mais amplamente firmada enquanto anarquista.
2. OS NEOMALTHUSIANOS EM PORTUGAL
2.1 SOCIOLOGIA DO MILITANTISMO NEOMALTHUSIANO
A primeira polarização sobre o neomalthusianismo em Portugal é a que
ocorre em torno e a propósito da apresentação da tese de licenciatura em Medi-
cina do Dr. Angelo Vaz
3
, defendida na Escola Médico-Cirúrgica do Porto em
1902. Tem por título precisamente Neo-Malthusianismo e consiste numa defesa
vigorosa desta doutrina, abundantemente apoiada na argumentação sociológica
de um Kropótkine e ainda no relatório dos neomalthusianos ao Congresso
2
A l.
a
edição inglesa dos Elementos de Ciência Social data de 1854. Foram feitas duas versões
portuguesas, a primeira das quais editada em 1876.
3
Angelo Vaz era na altura um jovem intetectual com simpatias pelo anarquismo, filho de um
oficial da Marinha de tradição liberal (o avô desembarcara no Mindelo), tendo chegado a colaborar no
jornal operário anarquista Despertar, do Porto. Mais tarde adere ao republicanismo, é deputado e fica
no Partido Democrático, mantendo uma activa vida política, paralela à sua actividade clínica, na qual
1368 enveredou pela pediatria.
Anarquista de Paris de 1900
4
. Esta tese, publicada em livro em 1902
5
, provoca
alguns artigos na imprensa mais atenta, de entre os quais se destacam os de
Pádua Correia no jornal portuense A Voz Pública*.
Depois desta primeira agitação de ideias, um ou outro artigo surge espora-
dicamente na imprensa libertária, de moderada crítica uns, como os assinados
por Sylla (pseudónimo provável de José Martins dos Santos) no Germinal de
Setúbal, de franco apoio outros, como o de Costa Ferreira na revista Luz e Vida,
do Porto
7
.
O jornal A Vida, semanário anarquista operário do Porto, vem depois, em
1905, a carrear o maior volume de informação sobre o neomalthusianismo,
assim como de divulgação doutrinária. De facto, na véspera do Natal de 1905,
por exemplo, ele relata pormenorizadamente os trabalhos do 2.° Congresso da
Federação Internacional da Regeneração Humana, havido em Liège em 17-18
de Setembro anterior, citando as presenças das grandes figuras do movimento:
os Drs. Mascaux, Drysdale e Rutgers, Paul Robin, Eugéne Humbert e outros.
E indica que em breve haverá também em Portugal um movimento neomalthu-
siano, «teórico e prático», ao qual A Vida dará a sua melhor colaboração.
De facto assim será. O Porto e A Vida serão o principal núcleo difusor
do neomalthusianismo em Portugal na sua primeira fase, à volta de 1906,
mantendo estreitas ligações com o movimento internacional.
Mas deve igualmente pôr-se em relevo o facto de não ser Portugal uma mera
periferia, seguindo por arrastamento passivo as iniciativas centro-europeias. Os
Portugueses funcionaram de facto como um elo, com a sua importância própria,
de uma cadeia mais longa: em primeiro lugar, porque, na vizinha Espanha, a
propaganda neomalthusiana era objecto de severíssimas restrições, vindo o
Porto, neste período, a constituir um importante apoio de retaguarda para
Espanha. Um exemplo extremamente indicativo: a l.
a
edição de um dos mais
eficazes e lidos folhetos de então, Huelga de Vientres, foi impressa no Porto, ao
mesmo tempo que a sua correspondente edição portuguesa. O segundo aspecto
do papel intermediário desempenhado pelos Portugueses foi em relação ao
Brasil, numa época em que laços muito estreitos mantinham ligados periódicos
e militantes portugueses e brasileiros. A propaganda, os textos, circulam sobre-
tudo no sentido Portugal-Brasil, onde vem mais tarde a ser representada uma
peça de teatro intitulada Greve de Ventres, exibida com sucesso em muitas «vela-
das sociais» promovidas pelas associações operárias brasileiras.
E não se pense que o apoio dos Portugueses era apenas logístico. A Vida
segue de perto os sucessos e os traveses do movimento internacional e o nome
de Luis Bulffi, o fundador da revista Saludy Fuerza e da Liga de Regeneração
Humana em Espanha, aparece com frequência nas páginas deste e doutros
jornais libertários. Por exemplo, é n'A Vida que Bulffi publica originariamente o
artigo «Neomalthusianismo: pelo bem-estar imediato»
8
, o qual vem a consti-
tuir o 1.° capítulo do seu folheto Huelga de Vientres, editado meses após.
Ao longo da sua curta história, a propaganda neomalthusiana em Portugal
concentra-se fundamentalmente em torno de uns poucos núcleos difusores
centrais, que irradiam para o resto do território e meios próximos, onde encon-
tram apoios activos e colaborações mais episódicas.
4
Este Congresso, que devia coincidir com a Exposição Universal, acabou por ser proibido pelas
autoridades. Em contrapartida, realizou-se o 1.° Congresso Internacional Neomalthusiano, donde
saiu a Federação Internacional da Regeneração Humana.
5
Angelo Vaz, Neo-Malthusianismo (tese inaugural apresentada à Escola Médico-Cirúrgica do
Porto), Porto, Empreza Litteraria e Typográphica, 1902, 142 pp!
6
A Voz Pública de 22, 24, 25 e 28 de Outubro de 1902.
7
Germinal de 30 de Julho e 14 de Agosto de 1904. Luz e Vida, Fevereiro de 1905.
8
A Vida de 14 de Janeiro de 1906. 1369
Já anunciámos acima que o Porto, importante centro operário anarquista, e o
jornal A Vida, que exprime essa orientação ideológica, constituíram o primeiro
desses núcleos difusores, fundamentalmente à volta de 1906 e 1907 e envol-
vendo a figura do militante Amadeu Cardoso da Silva, que foi o primeiro
secretário da Secção Portuguesa da Federação Internacional da Regeneração
Humana, constituída no seguimento do Congresso Internacional de 1905 (onde
não esteve, contudo, nenhum português).
Nos anos seguintes, o Porto constitui sempre um apoio importante, mas vai
perdendo aquele papel de foco irradiador que deteve em 1906-07. Assim, a
partir de 1909, é na capital que passa a situar-se o centro de gravidade da
propaganda neomalthusiana, na sua zona poente (Carnaxide, Algés), onde se
desenvolve a actividade de António da Silva Júnior e da revista Paz e Liberdade e
a do Grupo Novos Horizontes, onde pontifica Augusto Machado.
A partir do 3.° Congresso Internacional, que se realiza em Haia, em 28-29 de
Julho de 1910, desta Vez com a presença de Silva Júnior, reorganiza-se a Fede-
ração Internacional da Regeneração Humana, a qual, com um Bureau Interna-
cional em Londres e sob a presidência dos esposos Drysdale e a vice-presidência
de Paul Robin, passa a dispor de um secretariado descentralizado por cada país,
ficando Silva Júnior o secretário da Federação em Portugal.
Entretanto instaura-se a República e a liberdade de edição e propaganda
alarga-se consideravelmente. O núcleo de difusão neomalthusiana, que conti-
nua a ser Lisboa, desloca-se mais para o centro da cidade, à volta do jornal
O Agitador, que sai quinzenalmente de Julho a Outubro de 1911, e de militantes
como Teixeira Júnior, Martins do Rego, Nobre Cid e o mesmo Silva Júnior.
Sobrevindo a repressão do Governo republicano e silenciado O Agitador,
observa-se novo deslocamento: a partir do fim de 1911 e durante os anos seguin-
tes (1912 e 1913) é Setúbal que constitui o núcleo difusor principal do neomal-
thusianismo, apoiado no jornal libertário Germinal, em cuja sede funciona
inclusivamente o Secretariado Português da Federação Internacional.
Uma tentativa de trazer de novo para Lisboa este Secretariado, no início de
1913, salda-se por um fracasso, associado à vida efémera do jornal neomalthu-
siano O Anarquista.
Mas quem são os indivíduos que agitam em Portugal esta doutrina nova?
Trata-se, em geral, de jovens, de adesão relativamente recente ao ideário anar-
quista. Os mais activos são certamente os seguintes:
António da Silva Júnior, de que desconhecemos a profissão. Em 1908-09
é animador do Grupo Camponeses Rebeldes, de Carnaxide, o qual
procura fazer propaganda anarquista entre os pequenos proprietários
agrícolas dos arredores da capital. Muito sensibilizado pelo antimilita-
rismo, tenta publicar um Manual do Soldado e em 1911 participa num
Comité Antimilitarista, em Lisboa, que reúne militares e civis radicais e
critica a passividade da tentativa de uma Liga Antimilitarista criada em
1908 por republicanos e anarquistas agrupados na Federação do Livre
Pensamento. Ele próprio é refractário, sendo preso em Março de 1911 e
dando entrada no quartel de Mafra «entre baionetas». É o proprietário e
director da revista Paz e Liberdade e redactor principal d'O Agitador.
Mantém intenso intercâmbio epistolar com o estrangeiro, nomeada-
mente com Henri Zisly, em França.
José Joaquim Teixeira Júnior. É madeirense, igualmente jovem, instalado em
Lisboa há pouco tempo. Colabora no jornal sindicalista A Greve e no
anarquista O Protesto, de Pinto Quartim. Em 1909 publica já um pequeno
livrinho onde conta as suas «impressões de um libertário madeirense em
Lisboa» e aí anuncia os seus projectos editoriais: Contra a Reacção (livre-
-pensamento), Aos Operários (sindicalismo revolucionário), Prostitutas,
1370 Revoltai-Vos!, Soldados, Desertae! e Mulheres, nãoProcreéis!. De facto, só
este último foi dado à estampa, com bastante publicidade e algum escân-
dalo. Mas o conjunto é extremamente revelador! O seu nome figura
como proprietário d' 0 Agitador e é colaborador assíduo á'A Humani-
dade, chegando a ser seu redactor principal e merecendo a honra de
retrato na primeira página, nos números comemorativos da fundação do
jornal. É farmacêutico de profissão, trabalhando no Hospital de São José
e na Escola Médica.
João Martins do Rego. É outro farmacêutico. Editor d'O Agitador, proprie-
tário d' 0 Anarquista, é também colaborador (e mesmo director) á'A
Humanidade.
Nobre Gd. Ainda um farmacêutico. Prolixo colaborador d'O Agitador, do
Germinal e d' 0 Anarquista.
Amadeu Cardoso da Silva. O iniciador portuense de 1906. É alfaiate, corres-
pondente em Portugal da Salud y Fuerza. Anarquista, sendo por essa
qualidade atacado pelos socialistas da sua associação de classe em 1909, o
que o leva à ruptura e à constituição de uma nova associação: a União
Fraternal dos Oficiais e Costureiras de Alfaiate do Porto.
Gaspar Santos. Colaborador em 1913 do jornal Terra Livre, de Pinto Quar-
tim, sendo então estudante de Medicina, em Lisboa. Rebelde e inconfor-
mista, resvalou para o individualismo anárquico e, enquanto médico,
continuou sempre batalhando contra todos os conservadorismos
9
.
Augusto Machado. Militante de grande actividade, animador do Grupo
Novos Horizontes, de Algés, pelo qual redige um importante relatório
sobre o neomalthusianismo em Portugal para o Congresso de Haia de
1910. Na época é também colaborador d' 0 Sindicalista, de Alexandre
Vieira, mais tarde do Germinal, de Emílio Costa, de Lisboa. Futuro
aderente ao bolchevismo.
Como se pode verificar, a origem social destes propagandistas seria predomi-
nantemente pequeno-burguesa. Nem operários nem propriamente intelectuais,
não estavam em boa posição para se distinguirem no movimento sindical operá-
rio, nem como líderes nem como mentores. Mas a ligação profissional de muitos
deles à actividade farmacêutica coloca-os em situação favorável no meio hospi-
talar e da saúde
10
.
Para além deste punhado de entusiastas, outros colaborariam, em maior
ou menor grau, mais seguida ou esporadicamente. Por exemplo: Virgílio de
Sá, Verdu Martins, Álvaro da Conceição Branco, Luis Machado, H. Martins
Branco, Carlos Nobre, Mário Campos, Santos e Silva, Angelo Jorge, Carlos de
Sousa, Costa Ferreira, F. V. Silva e Eliseu Justo.
A organização da acção neomalthusiana era bastante rudimentar. Assen-
tava nos já citados secretariados da Federação Internacional da Regeneração
Humana
n
, cuja função era, não de propaganda, mas de relação regular com a
Federação Internacional, nomeadamente para o recebimento de informações,
brochuras, receitas e produtos anticoncepcionais. Internamente, mantinham
9
Era irmão de Virgílio Santos, professor primário e activo militante do educacionismo e do asso-
ciativismo docente, morto pela tuberculose em 1921.
10
Ver, a propósito, a ideia da criação de uma Federação da Saúde e as lutas do pessoal dos Hospi-
tais Civis, em A Humanidade, 1913.
11
Estes secretariados residem sucessivamente na morada do próprio secretário, Amadeu
Cardoso da Silva, primeiro na Rua de Trás da Sé, 8-C, em seguida na Rua do Miradouro, 23, Porto; na
residência de Silva Júnior (Avenida de Tomás Ribeiro, Carnaxide); em Lisboa, na Biblioteca de
Escritores Jovens (Rua do Benformoso, 43, 2.°, d.
to
), na sede d' 0 Agitador (Rua do Diário de
Notícias, 127, 3.°, ao Bairro Alto); na sede do Germinal, em Setúbal (entre tutras, na Rua de São
Sebastião, 49, 1.°); e ainda, episodicamente, em Lisboa, na sede d' 0 Akarquista (Calçada da
Memória, 46, rés-do-chão). ' 1371
correspondência com os utilizadores e todos os desejosos de se informarem
sobre o assunto. Vendiam também literatura, produtos e aparelhos e organiza-
vam consultas elementares. É de crer que os secretários fossem assessorados
por alguns outros camaradas no desempenho destas tarefas. Contudo, não
encontrámos vestígios de formas organizativas mais desenvolvidas, implicando
reuniões formais, estatutos, etc.
A propaganda foi, em Portugal, feita essencialmente pelo jornal e pela
brochura.
Pelo que toca aos periódicos, foram três os que explicitamente se definiram
como neomaltusianos:
Paz e Liberdade, ostentando o subtítulo rutilante de «Revista Mensal Anti-
-Militarista, Anti-Patriótica, Sindicalista-Revolucionária e Neo-Malthu-
siana», foi, de facto, pela propaganda veiculada, bastante mais antimilita-
rista que neomalthusiana, pois só acabou por incluir um artigo sobre esta
última matéria nos dois números finalmente publicados, em Julho e
Outubro de 1909 ^
O Agitador, embora com a indicação de «Semanário Anarquista», é de facto a
experiência mais conseguida de propaganda jornalística neomalthu-
siana, pois é capaz de manter esta periodicidade de 1 de Julho a 15 de
Outubro de 1911, altura em que suspende a sua combativa acção sob os
golpes da repressão republicana. Comentará o Germinal que «o nosso
valente camarada de Lisboa O Agitador acaba de ser processado pela
libérrima lei de imprensa que o João Franco legou secretamente a
Afonso Costa. É a primeira manifestação de liberdade de pensamento
com que nos brinda o pimpolho João Chagas»
13
. O Agitador tem no seu
quadro de origem militantes cem por cento neomalthusianos, como
Santos Júnior e Teixeira Júnior, mas desenvolve também activíssima
propaganda contra a «reacção vermelha», que desatende e frustra as
expectativas operárias. Chega, por exemplo, a lançar uma campanha de
boicote à imprensa diária (republicana). Contudo, perante o perigo
da restauração monárquica e da intervenção estrangeira, proclama-se
(ainda) explicitamente pelo intervencionismo dos anarquistas ao lado da
República
14
.
O Anarquista foi um intento do mesmo género, mas logo fracassado, posto
que só terá tirado um número, em 19 de Janeiro de 1913. O proprietário
era Martins do Rego, o director e editor Silva Júnior e a sede era na
Calçada da Memória, 46, rés-do-chão, em Lisboa. Embora indicasse
como subtítulo apenas «Folha Semanal», o conteúdo era retintamente
neomalthusiano
15
.
No respeitante às brochuras, duas têm um importante papel nesta época:
Greve de Ventres, de Luis Bulffi, tradução de Angelo Jorge, editada no Porto, em
12
Indicava como proprietário e redactor principal Silva Júnior, era impressa na Tipografia
Minerva, de Gaspar Pinto Sousa e Irmão, de Famalicão (anote-se), num formato de 25 c mx 15 cm,
com 20 páginas e capa cartonada, vendendo-se ao preço de 20 réis. Indicava a morada, primeiro na
Rua de Rosa Araújo, 29, cave, Lisboa, e depois na Rua de Tomás Ribeiro, Carnaxide.
13
Germinal de 30 de Outubro de 1911. N'O Porto de 3 de Setembro de 1911, num artigo contra o
neomalthusianismo, refere-se a «larga venda nas ruas do Porto» que teria O Agitador nessa altura.
14
Era um jornal que incluía na última das suas 4 páginas (formato 45 cmX30 cm) uma vastís-
sima publicidade de produtos e literatura neomalthusiana, saía pontualmente aos domingos, era
composto e impresso na Typographia A Nacional, na Rua da Conceição da Glória, 38-40, e vendido
ao preço de 10 réis. Tinha a redacção e administração na Rua do Diário de Notícias, 127, 3.°, era
director Virgílio de Sá e administrador Santos e Silva e possuía uma boa rede de correspondentes.
15
Tinha 2 páginas, o formato de 60 cm x 40 cm, era composto e impresso na Travessa das
1372 Mercês, 59, em Lisboa, e vendia-se ao preço de 10 réis.
1906, pela Secção Portuguesa da Liga Internacional da Regeneração Humana
16
;
e Mulheres, não Procreéis!, de José Teixeira Júnior, editada em Lisboa, em 1911,
pela Biblioteca de Escritores Jovens, dirigida por Eliseu Justo
17
. Quanto aos
preços a que eram vendidas, eram respectivamente 20 e 40 réis. Contudo, a
primeira indicava de maneira bem visível que se fazia um preço especial de 800
réis para pacotes de 50 exemplares. Eis uma manifestação da intenção proseli-
tista dos editores, que de facto vêem esgotar-se as tiragens em pouco tempo. Por
meados de 1911 começa a anunciar-se insistentemente a 2.
a
edição de Mulheres,
não Procreéis!, que foi um êxito de venda, a que não terá sido estranha a má
disposição contra ela mostrada pelas autoridades republicanas
18
.
Uma terceira brochura, A Felicidade dos Pobres, de Émile Chapelier e Jean
Rahtier, em tradução de Carlos Nobre, nunca chegou a ser editada, pelos enca-
lhes e questiúnculas entre os mais activos neomalthusianos, acabando por
aparecer em folhetim no jornal O Anarquista, em 1913, logo ficando por aí
parado.
Muito mais tarde, e fora deste período áureo da propaganda neomalthu-
siana, outra brochura vem completar a bibliografia desta corrente libertária:
Procreação Consciente, publicada en França pelos grupos operários neomalthu-
sianos e editada em português em 1922, em Lisboa, pela Biblioteca d'«A
Sementeira»
19
.
Infelizmente, não conhecemos exactamente as tiragens destas edições, mas
é de crer que elas não fugissem muito ao quantitativo médio de outros folhetos
libertários do mesmo tipo
20
.
A estes meios escritos propagadores das teorias neomalthusianas têm de
juntar-se outros. Em primeiro lugar os jornais que, não sendo especificamente
neomalthusianos, constituíam importantes bases de apoio daqueles, multipli-
cando a propaganda, transmitindo informação, tomando parte inclusive no
processo de venda de produtos anticoncepcionais. Estão neste caso:
A sequência de jornais semanários portuenses A Vida (de 1905 a 1909),
A Aurora (entre 1910 e 1917) e A Comuna (nos anos 20).
O jornal A Humanidade, de Lisboa, quinzenário (entre 1911 e 1915).
O jornal Germinal, semanário, de Setúbal (entre 1911 e 1913).
A revista A Sementeira, mensal, de Lisboa (sobretudo em 1911 e mesmo até
1913).
O jornal Terra Livre, semanário de Lisboa (em 1913).
Com excepção d'A Humanidade, todos os outros são de filiação ideológica
libertária, devendo assinalar-se que, no caso do Germinal, este jornal desem-
penha mesmo, a seguir à suspensão d' 0 Agitador e até meados de 1913, um
papel de verdadeiro jornal neomalthusiano, pela abundância de artigos e publi-
cidade, bem como de notícias organizativas desta corrente.
Em segundo lugar, a propaganda neomalthusiana terá usado também meios
orais. A meio caminho entre o boca-a-orelha e as discussões de serão nos locais
anarquistas, por um lado, e, por outro, o género das empolgantes conferências
16
Umas vezes designada como Internacional, outras como Universal, às vezes como Federação,
outras como Liga, trata-se sempre, de facto, da mesma entidade.
17
A primeira impressa, em 16 páginas, na Typographia Peninsular, Rua de São Crispim, 18-28,
Porto, e a segunda tinha 24 páginas, impressas no Instituto de Artes Gráficas, na Rua das Pretas, 17,
Lisboa.
18
Ver o testemunho de Jacinto Baptista, «Conversa com o autor de Mulheres, não Procreéis», in
História, Lisboa, n.° 6, Abril de 1979, pp. 40-42.
19
Compunha-se de 36 páginas, impressas na Sociedade Gráfica Limitada, Rua do Século, 150, e
vendidas ao preço de $25.
20
Para dar uma ordem de grandeza, fixe-se o número de três milheiros. 1373
do neomalthusianismo parisiense, sabemos terem os militantes portugueses
procurado expandir as suas ideias através de sessões de propaganda e pequenas
conferências, como, por exemplo: em Março de 1906, na Associação dos Operá-
rios Marceneiros do Porto, onde o conhecido anarquista Serafim Cardoso
Lucena elogia a ideia neomalthusiana; em 1910, em Santarém, onde Teixeira
Júnior perorará sobre «o neomalthusianismo perante a ciência»; em Setembro
de 1911, em Lisboa, na União da Construção Civil, no Beato, onde fala Verdu
Martins, e na festa do Grupo Povo Livre, onde conferencia Álvaro Conceição
Branco; em Outubro do mesmo ano, no Grupo Renovação Social, onde «um
camarada chegado da Bélgica» discorre sobre «o neomalthusianismo e os efei-
tos do álcool»; em Março de 1913, Carlos de Sousa faz uma conferência no
Centro e Biblioteca de Instrução Livre, no Porto; em 21 de Junho de 1913,
também no Porto, há mesmo um comício organizado pelo Grupo de Pro-
paganda Social «Vida Nova» no Centro e Biblioteca de Estudos Sociais, às
Antas, onde se protesta contra a repressão estatal à propaganda neomalthu-
siana.
Finalmente, teoria e prática estando aqui estreitamente associadas, vamos
encontrar notícia de que os militantes neomalthusianos procuravam não só
convencer os operários e o povo da bondade da sua doutrina, como estavam
prontos a fornecer-lhes os meios práticos recomendados: receitas, dispositivos,
produtos e conselhos anticoncepcionais. De tal se encarregavam, como já
vimos, os secretariados da organização neomalthusiana, os jornais propria-
mente neomalthusianos e os apoiantes que já enumerámos. E bem assim um
certo número de «farmácias amigas». Mesmo nos anos 20, encontramos referên-
cias de que esses produtos estavam à venda nas sedes á'A Batalha e da biblio-
teca d'A Sementeira, em Lisboa, e na d'A Comuna, no Porto
21
.
Também na brochura Mulheres, não Procreéis!, o autor termina dizendo que
ele e o seu amigo Martins do Rego (ambos farmacêuticos) ficam à disposição dos
interessados... E, em Março de 1912, a imprensa anarquista anuncia a intenção
de Eliseu Justo e Silva Júnior de abrirem em Lisboa um escritório de consultas
neomalthusianas, iniciativa que não deve ter chegado a concretizar-se.
Mas a propaganda das ideias e dos meios práticos neomalthusianos não ficou
restrita a Lisboa, Porto e Setúbal. A geografia do neomalthusianismo português
penetrou na província, obviamente pela via da implantação anarquista e sindi-
calista. Assim, podemos distinguir uma rede primária (onde os contactos e acti-
vidades foram mais prosseguidos e intensos), que compreende as localidades
de Coimbra, Almada, Portalegre, Sines, Évora, Beja, Portimão, Silves, Faro e
Funchal. E temos depois uma rede secundária (de actividades mais frágeis),
incluindo as povoações de Viana do Castelo, Braga, Famalicão, Tortozendo,
Gaia, Foz Côa, Anadia, Viseu, Covilhã, Marinha Grande, Leiria, Tomar, Sintra,
Oeiras, Barreiro, Seixal, Aldeia Galega, Sesimbra, Amareleja, São Cosme,
Estremoz e Aljustrel.
Com base nestes dados, estabelecemos a seguinte geografia diferencial da
propaganda neomalthusiana:
Litoral sul 41%
Litoral norte 31%
Interior sul 18%
Interior norte 10 %
Como se vê, o Sul aparece mais bem irrigado que o Norte, o litoral que o inte-
rior e a zona Lisboa-Setúbal é já um pólo de difusão importante.
1374
21
Respectivamente na Calçada do Cômoro, 38-A, 2.°, no Cais do Sodré, 88, e na Rua do Sol, 131.
É impossível aqui estudar a irradiação da propaganda neomalthusiana no
tecido urbano das grandes cidades. Limitemo-nos, por isso, a registar que ela se
fazia fundamentalmente a partir das sedes militantes e também de locais de
comércio
22
.
Encerremos, pois, este capítulo com a referência à literatura estrangeira que
também tem curso entre nós, obviamente só acessível aos militantes mais
cultos, mas cujos anúncios eram, mesmo assim, muito frequentes nas páginas
dos jornais libertários
23
.
Quanto a artigos de estrangeiros em jornais e revistas portuguesas, os auto-
res que mais aparecem são Luis Bulffi, Manuel Devaldès (um importante indivi-
dualista e neomalthusiano francês), R. Fraigneux, Alfred Naquet, Edouard
Ganche, José Chueca, Jeanne Dubois, Nelly Roussel e Paul Robin.
Finalmente, não se podem olvidar os anúncios que desta literatura os jornais
libertários, sindicalistas e corporativos faziam, os exemplares à venda ou para
consulta nas sedes e bibliotecas populares e operárias. Mesmo dentro das
modestas dimensões que o neomalthusianismo atingiu entre nós, tais processos
«capilares» são obviamente impossíveis de contabilizar com um mínimo de
rigor
24
.
2.2 O DISCURSO E A PRÁTICA
O discurso neomalthusiano em Portugal legitimou-se, no essencial, na
necessidade de melhorar as precárias condições de vida do operariado, por um
lado, e na defesa do prazer no amor, por outro, preocupações aliás comuns aos
propagandistas e teóricos da Europa.
Não nos encontramos, no entanto, em presença de um discurso uniforme.
Cambiantes, divergências mesmo, surgiram, em consequência quer da existên-
22
Em._ Lisboa: quiosques: El egant e (Rossi o), Sol (Rossi o), Largo do Car mo, Largo do Conde
Barão, Cais do Sodré, Rua de São Vi cent e à Gui a e Rua Nova do Al mada; tabacarias: Vouga (Rua do
Rat o), Cais do Sodré, Godi nho (Rua da Boavista, 156), Mónaco (Rossio), Rua Nova do Al mada, 46,
Fol goso (Rua dos Ret rosei ros, 3), Rua do Ampar o, 52, Mar r oqui na (Rua da Prata, 46), Est rel a de São
Paul o (Rua de São Paul o, 2), Havaneza de São Bent o (Rua dos Poiais de São Bent o, 141), Rua Di rei t a
de Bel ém, 153, e Rua das Frei ras Salésias, a Bel ém, 61-D.
No Por t o: Livraria Ferrei ra dos Sant os (Rua de Sant a Cat ari na, 231), Tabacari a Mar t i ns (Rua da
Fábri ca) e Rua de Cost a Cabral , 95.
Em Set úbal : Cent r o Cosmopol i t a da Rua de São José e Salão Quar esma (barbeari a do anar qui st a
José Ar t ur Quar esma) , à Aveni da Todi .
23
No que respei t a a peri ódi cos, é a revista mensal Salud y Fuerza, de Barcel ona (Calle Tapi-
neri a, 27 e 28, pral , 1.
a
), que é cer t ament e a mai s lida e conheci da. Seguem-se-l he as francesas Généra-
tion Consciente, de Eugéne Humber t , e Vie Naturelle, de Henr i Zisly, e Natura, de Fer nando Carbo-
nell ( Buenos Ai r es e Mont evi deu) . Epi sodi cament e, encont r am- se referências a L'Ère Nouvelle
(de E. Armand), Le Malthusien (França), El Mensagero de Ia Salud (Buenos Aires), El Naturista
(Havana), El Nuevo Maltusiano (Espanha), The Malthusian (Inglaterra) e Social Harmonie (Ale-
manha).
No que toca a livros e brochuras, circulam:
Jean Marestan, Éducation Sexuelle, muito procurado, vendido a 600 réis.
P. R obi n, Contre Ia Nature.
É mi l i e Lamotte, La Limitation Volontaire des Naissances.
André Lorulot, Procréation Consciente.
L. Bulffi, Huelga de Vientres ( em 1907 j á vai na 4.
a
edi ção) .
Franck Sutor, Generación Consciente.
P. R obi n, Degeneración de Ia Espécie Humana.
A. Naquet e G. Hardy , Neo-Malthusianismo y Socialismo.
C. Folgar, Nueva Huelga de Vientres.
24
Fora do período que nos interessa, não deixa de ser interessante referir que, nos anos 30 e 40 e
em plena clandestinidade política, as Juventudes Libertárias se dedicavam ao estudo e à propaganda
dos meios anticonceptivos. Ver também nota 66. 1375
cia de neomalthusianos não comprometidos com o movimento operário, quer
das diferentes correntes existentes no seu seio. Egas Moniz, Angelo Vaz e
Mendes Assunção situam-se entre os primeiros; Silva Júnior, Teixeira Júnior,
Nobre Cid e Gaspar Santos, para citar apenas os principais, entre os segundos.
Questões aparentemente tão díspares como a miséria, a revolução social, a
eugenia, o militarismo, a sexualidade, o naturismo, a educação e a família
surgem-nos conectadas com os argumentos utilizados para legitimar as práticas
neomalthusianas; mas são igualmente invocadas para restringir o seu raio de
acção ou mesmo, em alguns casos, para advogar o seu estatuto de questão
marginal.
Começaremos pela análise do discurso, dado que, se o neomalthusianismo é
essencialmente uma prática, ao pôr em causa os valores culturais dominantes,
ao modificar as relações entre os sexos e ao juntar-se aos passos dados pela
humanidade no sentido de se libertar da natureza, necessitou de uma legiti-
mação, se possível científica, para se defender dos seus diversos opositores
e para derrubar os preconceitos sociais. Não é, assim, de estranhar o lugar
ocupado pela produção teórica na propaganda neomalthusiana: como afirmava
um dos seus mais acérrimos defensores, «o nosso propósito é vencer pela lógica
dos factos, pela indestrutibilidade do argumento, pela força da razão, enfim, que
deve falar sempre mais alto do que todos os convencionalismos havidos e por
haver»
25
.
A lei da população enunciada por Malthus foi o ovo de onde saiu o neomal-
thusianismo. Explicitamente ou não, em todo o texto neomalthusiano se encon-
tra Malthus. Nalguns casos, como com Egas Moniz ou com Nobre Cid, são-lhe
dedicadas páginas ou artigos, demonstrando a universalidade e a permanência
da sua lei e utilizando-a como fundamento teórico, como a prova científica de
que é necessário limitar o número de nascimentos
26
: a causa principal dos males
de que sofria a sociedade estava na «procriação sem limite e sem método».
Teixeira Júnior, como outros seus companheiros anarquistas, acabam deste
modo, mesmo quando afirmam que o capitalismo é o maior adversário
27
, por
relegar para segundo plano um dos pontos fundamentais da doutrina libertária,
segundo a qual só com a destruição da organização económica e social capita-
lista seria possível acabar com a miséria.
Aqueles que contestam Malthus - apoiando-se, regra geral, em Kropó-
tkine — utilizam o argumento tornado clássico e mais tarde muito empregue
pelos marxistas: o excesso de população só existe devido à desigualdade na
distribuição das riquezas, a miséria é produto do sistema económico e social e a
natureza é infinita graças à capacidade do homem em aumentar as forças produ-
tivas com o auxílio da técnica. Malthus, «o pontífice dos economistas burgueses
[...] com um fraseado de impor, esqueceu-se de que, se por acaso a população
ocupasse o mundo inteiro, o génio humano encontraria um processo de encon-
trar as subsistências necessárias»
28
.
O debate sente-se presente nos escritos neomalthusianos, que ora contra-
-argumentam, dizendo, por exemplo, que dos famintos e dos indigentes é que
nada se pode esperar na luta contra o capitalismo, ora reafirmam a sua adesão
aos princípios anarquistas («queremos ver o operário mandar o patrão trabalhar,
25
Nobre Cid em Germinal de 28 de Junho de 1913.
Não analisaremos as traduções portuguesas de obras como as de Bulffi ou do Dr. Brennus, por
não se tratar de produções nativas.
26
Egas Moni z, A Vida Sexual (Fisiologia e Patologia), Li sboa, Li vrari a Edi t or a, 5.
a
ed. , 1923,
573 pp.
Ar t i gos de Nobr e Ci d e m O Agitador de 20 de Agos t o de 1911 e no Germinal de 16 de Novem-
br o de 1912 e 10 de Mai o de 1913.
27
Tei xei r a J úni or , Mulheres, não Procreéis!, p. 8, por exempl o.
1376
28
Como escreveu José Carlos de Sousa em O Sindicalista, 1911.
queremos ver o triunfo do movimento operário»)
29
, ora são mais cautelosos
quanto à capacidade redentora do neomalthusianismo («a questão social resol-
ve-se; não é logo, mas comece-se»)
30
.
Além de que a qualidade é preferível à quantidade. Este é já um argumento
comum a um Egas Moniz ou a um Nobre Cid, que propunham as práticas
neomalthusianas como meio de impedir o nascimento de doentes, tarados, et c,
ou seja, a eugenia, que se tornará uma das bases doutrinárias do fascismo e do
nacional-socialismo... depois de ter sido um dos elementos legitimadores do
neomalthusianismo europeu. Longe estavam, contudo, os seus defensores de
conhecer o rumo duma prática na altura advogada com fins altamente humani-
tários, dado o elevado número de sifilíticos, tuberculosos e alcoólicos, para só
citar as «doenças do século». Esta defesa da eugenia por personagens tão diver-
sas era possível em virtude dos diferentes objectivos que se pretendiam alcan-
çar: para uns significava a consolidação e melhoramento da Raça necessários à
defesa da Nação, para outros era uma prática que permitiria não só lutar contra a
propagação das doenças no meio operário, como fortalecer o proletariado para o
combate.
Mas o neomalthusianismo de cariz libertário não se propunha apenas dimi-
nuir a miséria e as doenças; visava igualmente acabar com a carne para canhão, a
carne para prostíbulos e os filhos não desejados. Despovoando-se as casernas,
ficaria o capital sem defensores e com ele cairiam os Estados, a Igreja e a desi-
gualdade social
31
, ponto de encontro com os antimilitaristas, que, por seu turno,
por esta via chegam a propagar o neomalthusianismo.
Não terá sido apenas por declarar guerra à natalidade, aos quartéis ou ao
capitalismo que o neomalthusianismo se tornou conhecido ou sofreu a repres-
são durante a República. O problema fulcral encontrava-se nos meios que pre-
conizava para atingir os fins: jamais o moral restraint de Malthus, repudiado
como anti-racional, nocivo para a saúde e castrador do prazer. Não. O neomal-
thusianismo apresentava-se como «fonte inesgotável de prazer e amor», o meio
de fugir «à miserável lei de o vosso ventre se tornar em gerador inconsciente de
carne para alimentar o açougue do burguês» sem negar o direito aos prazeres
sexuais. Fazer amor e fazer filhos podia deixar de ser o mesmo acto: a sexuali-
dade libertava-se da procriação graças às práticas neomalthusianas.
É esta uma das facetas mais modernas e mais radicais do neomalthusia-
nismo, assumida e defendida também pelos propagandistas portugueses. Ques-
tão completamente ignorada pelos que atacavam o neomalthusianismo do
ponto de vista económico e político, como Sylla ou José Carlos de Sousa
32
, e que
se chocaria com o naturismo, doutrina e prática que conheceu certa difusão em
Portugal desde os finais do século xix. Na realidade, as práticas neomalthu-
sianas são contra a natureza, contra o ventre naturalmente fecundo da mulher,
ao porem na mão e na vontade de cada um os meios de a contrariar. O ataque não
é feito somente a esta nova religião, mas também à antiga, visto o desafio à
vontade de Deus ser possível. O problema moral está levantado e os neomalthu-
sianos esforçar-se-ão por pôr a nu a imoralidade do «crescei e multiplicai-vos»
para que sejais sempre miseráveis
33
. Os que existiam eram os que tinham esca-
pado aos abortos, à maldição dos pais, ao infanticídio. A procriação limitada e
consciente é, por isso, apresentada como menos contrária à moral do que a
29
Nobr e Ci d e m O Agitador de 20 de Agos t o de 1911.
30
Mar t i ns Br anco e m O Agitador de 27 de Agos t o de 1911.
31
Luís Machado em O Agitador de 24 de Setembro de 1911.
32
Res pect i vament e e m Germinal, 1904, e O Sindicalista, 1911.
33
«É a inconsciência do homem na confecção da carne, para atender ao mando de um palerma
que há 1911 anos dizia: Crescei e multiplicai-vos. Sim, crescei e multiplicai-vos, para que sejais sempre
os escravos, os miseráveis, para que vos guerreeis na conquista do pão, que não pode chegar para
todos!» (Nobre Cid em O Agitador de 17 de Setembro de 1911). 1377
continência, pois, «em vez de ser homicida [...] é o único meio possível de impe-
dir o homicídio [„.], em vez de ser imoral [...] é o único meio possível de intro-
duzir a verdadeira moralidade na sociedade humana»
34
. E não seriam os
burgueses, os republicanos ou mesmo os socialistas que poderiam acusar de
imorais e pornográficas as práticas propostas. Há muito que eles «praticavam
o neomalthusianismo», como se podia verificar pelo número de filhos que
tinham, a que não era estranho o largo recurso à prostituição. Era preciso, sim,
que o neomalthusianismo deixasse de ser exclusivo dos ricos.
Menos filhos implica também mais tempo livre para o homem e para a
mulher, o que, coryuntamente com a diminuição dos encargos familiares, per-
mite que a criança seja rodeada de conforto, seja instruída e venha a fazer parte
de uma «geração consciente e fortificada pela educação». Pedra de toque de
Paul Robin, a educação encontra-se também presente no discurso neomalthu-
siano português do princípio do século, como complemento indispensável do
movimento a que Angelo Vaz chamou o «verdadeiro evangelho da regeneração
humana», posição a que não é decerto alheia a nova forma de encarar a criança e
consequente modificação do seu estatuto no seio da família
35
.
Porque, ao proporem a diminuição da natalidade, reivindicavam simulta-
neamente o direito ao prazer, os arautos portugueses do novo malthusianismo
proclamavam a emancipação da sexualidade em relação à procriação, conquista
que libertava acima de tudo a mulher. Era esta que pagava o mais duro preço
pelo direito a um pouco de amor, mas que, em contrapartida, possuía maior
poder de decisão quanto ao número de filhos que o seu ventre geraria. Não são,
deste modo, de estranhar os apelos feitos ao sexo feminino
36
para que adira às
práticas neomalthusianas: com menos filhos ou sem filhos, podendo amar sem o
receio de uma gravidez indesejada, as mulheres poderiam ser mais livres, mais
felizes, ter tempo para se instruir e para coadjuvar a organização...
Só que, e é Nobre Cid quem o afirma nas colunas do Germinal, há nos casais
operários — e, nestes, os que vivem pior— uma animalidade inconsciente, «de
ratos»
37
; mulheres que riem da propaganda neomalthusiana e exasperam os
seus defensores ao ponto de as maldizerem! O vanguardismo desta nova teoria
no campo moral e sexual e a sua subsequente prática chocaram-se com os
preconceitos daqueles a quem se dirigia, com os seus valores socioculturais e
os seus modelos de sexualidade.
Finalmente, a propaganda neomalthusiana, ao pôr a tónica na vontade de
cada um, e não na vontade colectiva, e ao advogar uma melhoria imediata do
quotidiano operário independentemente da revolução social, entrou em con-
fronto com dois dos principais postulados do movimento operário do princípio
do século. Atitudes que ajudam a explicar o relativo isolamento do neomalthu-
sianismo no seio do operariado
38
. Isolamento também provavelmente motivado
pela quase imperceptível inversão do seu discurso: lenta e quiçá forçadamente,
os neomalthusianos foram levados a defender a prioridade do direito ao prazer,
relegando para um plano mais secundário a questão da natalidade. Ou, como
afirmava Gaspar Santos em 1913
39
, «o neomalthusianismo desviou-se do fim
primitivo. Esqueceu-o».
34
A. Mendes Assunção, A Cópula Preventiva (ou Processos para Evitar a Gravidez segundo a
Medicina Natural..), Lisboa, ed. do autor, s. d., 49 pp.
35
Ver a est e pr opósi t o Phi l i ppe Ar i es, «L' enf ant dans Ia famille», i n Histoire des Populations
Françaises, Pari s, Seui l (1971), 1979.
36
Tei xei ra Júni or , por exempl o, publ i ca o seu l i vr i nho, como vi mos, sob o t í t ul o Mulheres, não
Procreéis! Um dos apel os do secr et ar i ado neomal t hus i ano di ri ge-se f or mal ment e, em pr i mei r o l ugar,
às mulheres.
37
Modelo popular de liberdade sexual de que fala Shorter? Ver as referências de Ph. Aries a este
respeito em op. cit., pp. 6-9.
38
Nobre Cid, em Germinal de 22 de Junho de 1912, queixa-se do silêncio da imprensa operária.
1378
3
9 Terra Livre de 6 de Março de 1913.
Corolário indissociável desta nova doutrina, e porventura a sua faceta mais
conhecida, são os diferentes meios passíveis de serem utilizados para evitar a
gravidez, vulgarmente designados por práticas neomalthusianas ou anticon-
cepcionais.
Interessa-nos aqui, não tanto a enumeração e descrição exaustiva desses
processos, como as opiniões dos neomalthusianos em relação aos vários méto-
dos. Não podemos, porém, deixar de referir rapidamente os existentes na época.
Os mais divulgados e aconselhados pelos neomalthusianos eram, por um
lado, os preservativos masculinos — Condom, camisa-de-vénus, etc, todos do
mesmo género— e, por outro, os femininos. Nestes podemos distinguir os de
acção mecânica, que, tal como os utilizados pelo homem, são um «aparelho»
que a mulher coloca no fundo da vagina de forma a impedir a passagem dos
espermatozóides para o útero (entre eles contavam-se os pessários oclusivos
e o fossete uterófilo); os anticoncepcionais solúveis (químicos), de acção anti-
-séptica, do tipo cone, pessário ou óvulo vaginal, e os pós ou líquidos especiais
introduzidos com o auxílio de seringas, irrigadores, etc, e vulgarmente desig-
nados por lavagens; dentro deste grande grupo contavam-se ainda os chamados
processos mistos (pessário oclusivo com espermaticida, por exemplo)
40
.
Finalmente, existiam os métodos naturais e, a posteriori, o aborto
41
.
Os anticonceptivos eram geralmente os mais indicados pelos neomalthu-
sianos, devido à sua fácil aplicação e maior eficácia. Frequentemente de origem
francesa (cones Mascaux) ou alemã (pessário Messinga), elaborados por médi-
cos ou farmacêuticos, a sua origem científica era sempre realçada.
As preferências iam para os femininos
42
, os quais, afirmavam os seus divul-
gadores, não causavam incómodo algum. Mais explícito era o professor de
Medicina Natural Mendes Assunção, que opinava que, para ser realmente
bom, o anticonceptivo devia ser empregue pela mulher, «porque estraga a
paixão e diminui o impulso venéreo, se é o homem que tem de pensar nisso»!
43
.
Ou então porque permite (caso dos cones) aos namorados e jovens maridos a sua
introdução na vagina sem que a mulher perceba, enquanto o pudor desta não
permitir ao homem ensinar-lhe a utilização de outros meios menos dispen-
diosos
44
.
Com efeito, o preço destes produtos era um problema. O seu elevado custo,
derivado do «mercantilismo vergonhoso», ou seja, do aproveitamento feito
pelas farmácias e drogarias da procura, era um dos óbices à sua utilização pelo
operariado. No caso dos estrangeiros, cujo preço vinha indicado em francos,
40
Os artigos e livros neomalthusianos descrevem minuciosamente estes métodos na sua com-
posição, fabrico e utilização.
O Condom, por exemplo, era feito de borracha, o que tornava impossível o seu fabrico caseiro.
Quanto aos pessários oclusivos (diafragmas), se os de borracha eram os mais seguros, podiam ser
substituídos por esponjas embebidas em líquidos espermaticidas, feitas com esponja natural ou arti-
ficial, ou com lã, seda ou algodão não hidrófilo, envolvidas numa rede fina e com fitilho ou cordel para
poderem ser retiradas com facilidade. Em qualquer dos casos era sempre aconselhada uma irrigação
ou lavagem após o coito, existindo inúmeras receitas que tinham por base produtos anti-sépticos. Os
pessários solúveis ou óvulos vaginais, se se vendiam nas farmácias, podiam igualmente ser feitos em
casa com base em manteiga de cacau e gelatina-glicerina. Finalmente, o fossete uterófilo, «última
descoberta», de preço elevado, mas de grande segurança e comodidade: fabricado com meteorite,
metal muito leve, tinha a forma de um cogumelo de superfície côncava, de espessura variável, con-
soante o número de filhos que a mulher já tivesse, e que, colocado imediatamente após a menstrua-
ção, era eficaz para todo um mês. Segundo alguns, podia também ser feito de borracha.
41
Para já não referir métodos mais radicais, como a esterilização voluntária, praticada em
França entre os militantes anarquistas, mas de que não detectámos vestígios em Portugal.
42
Except o na opi ni ão dos gr upos operári os neomal t hus i anos franceses, que preferi ram o em-
pr ego da cami sa- de- vénus. (Ver Procriação Consciente.)
43
A. Me nde s As s unção, op. cit., p. 43.
44
Como ensi na Nobr e Ci d aos j ovens que l he escr evem. 1379
os pedidos eram satisfeitos pelo próprio jornal ao câmbio do dia
45
. Razão por
que, embora quase unanimemente considerado como nocivo à saúde fisica e
psíquica, o coitus interruptus nunca foi cabalmente condenado: meio simples,
não acarretando despesa alguma, seria talvez o mais adoptado pelos trabalha-
dores
46
.
O outro método natural proposto — excluída a abstinência, como já se
viu - assentava num pressuposto errado: a mulher era, dizia-se, mais propícia a
ser fecundada no período menstrual e dias próximos; motivo por que, praticada
a cópula em dias afastados desse intervalo, a possibilidade de engravidar seria
remota... Curiosamente, afirmava-se que o método, embora possuísse alguns
inconvenientes, dava resultados comprovados!
Por último, o aborto. Recusado pelos neomalthusianos como meio de evitar
os filhos não desejados, a sua condenação baseava-se, não no facto de o óvulo
fecundado ser destruído («essa ínfima porção de matéria —pequeno esboço de
um desgraçado que ia nascer»), mas no perigo e sofrimento que constituía para a
mulher w. Apenas Egas Moniz o condena porque significaria a destruição de um
produto fecundado; mas já sabemos como ele se afastava dos nossos neomalthu-
sianos. Quanto aos abortivos, não parece serem condenados; Nobre Cid, por
exemplo, fornece receitas de emenagogos que na prática são abortivos.
A natureza libertadora do neomalthusianismo teórico manifesta-se de igual
modo nas práticas defendidas ou condenadas. Com alguns limites, contudo,
derivados do forte papel de barreira jogado pelas ideias falsas muito generali-
zadas. São elas que explicam, melhor que o nível dos conhecimentos científicos,
que, por exemplo, o onanismo seja condenado em nome da saúde.
2.3 O NEOMALTHUSIANISMO NO ESPECTRO LIBERTÁRIO
Para melhor identificarmos a corrente neomalthusiana em Portugal somos
forçados a fazer uma rápida incursão nos meandros do anarquismo português,
para podermos situar o lugar que nele ocupam os neomalthusianos e o tipo de
relações que se estabelecem com outros grupos e tendências.
E habitual definir as três correntes ideológicas do anarquismo da época sob
as designações de anarco-sindicalismo, anarco-comunismo e individualismo. Se
é certo que a nitidez desta classificação corresponde com algum rigor à situação
francesa, ela deve já ser tomada com precauções e mais como esquema de aná-
lise que como retrato de uma realidade para os outros países. Contudo, tendo
em conta a influência marcante do anarquismo francês em Portugal, c ainda
dela que nos vamos servir para tentar situar o neomalthusianismo, até agora
obscurecido — como outras correntes menores— pela predominância do sindi-
calismo.
Até ao 5 de Outubro, a efervescente nebulosa anarquista dos primeiros anos
do século apresenta-se dividida, é certo, mas demonstrando grande capacidade
de iniciativa e autonomia, bem como uma relativa boa convivência entre todas
as partes, e sem que nenhuma das tácticas, das opções, prevaleça sobre as
restantes
48
. Porém, caída a Monarquia e criada uma dinâmica de reivindicação
operária que exigia muitos esforços militantes, o resultado vai ser que o sindica-
lismo absorverá a maior parte das energias dos militantes libertários, não tanto
45
Para dar uma i dei a da carest i a dos pr odut os ant i concepci onai s, r et enha- se que, em 1914, uma
cai xa de (28) velas de Er bon cust ava o equi val ent e a 5 kg de car ne de vaca ou a 6 dúzi as de ovos!
46
Augus t o de Cast ro, Como Evitar a Procreação (A Esterilidade Voluntária), Li sboa, Li vrari a
Edi t or a João Car nei r o, s. d., 99 pp. O aut or põe em rel evo o facto de a bur guesi a ut i l i zar o Condom
par a evitar os filhos, enquant o os t r abal hador es pr at i cavam o coi t o i nt er r ompi do (p. 55).
47
Ver, por exempl o, Tei xei r a J úni or , op. cit., p. 11.
48
É sobretudo conhecida a divisão, a partir de 1900, entre anarquistas «puritanos» e «interven-
1380 cionistas» perante a questão do apoio a dar à queda da Monarquia.
por escolha formal deliberada, mas talvez mais pelas urgências da hora e por
reacção de solidariedade. Não encontramos em Portugal uma raiz doutrinária
do tipo da do sindicalismo revolucionário francês ou do anarco-sindicalismo
espanhol. Existe antes um certo consenso sobre um meio táctico indispen-
sável
49
.
Mas, a par desta dominância sindicalista, manter-se-á sempre um sector que
representa uma certa ortodoxia de um anarquismo operário que geralmente
adopta as formulações de Malatesta, tanto no que respeita às relações anar-
quismo-sindicalismo, como perante a guerra europeia, como ainda perante as
questões da violência e da revolução. Tal sector é representado na imprensa
pelos jornais portuenses A Aurora e, depois, A Comuna e pela revista lisboeta
A Sementeira. Se tivéssemos de definir esta corrente numa única frase, talvez
escolhêssemos esta: «Façamos educação e sindicatos, mas com a Ideia Anár-
quica à frente e acima de tudo.»
Uma outra corrente coexiste com esta, pelo menos até ao sidonismo. Dá
muitas vezes pela designação de «comunista-anarquista» (que os anteriores não
repudiariam), mas a qualificação que melhor lhe assentaria seria talvez a de
revolucionária, no sentido mais literal do termo. Isto porque se trata de um
sector de militantes que vêm do intervencionismo republicano, carbonário, e se
distinguem pela virulência da sua oposição aos tribunos da República, pela soli-
dariedade para com os republicanos radicais (por exemplo, do golpe de 27 de
Abril de 1913) e pela activa propaganda antimilitarista, indo desembocar mais
tarde entre os aderentes ao bolchevismo
50
.
E individualistas? Havia-os em Portugal? Embora também eles muito pouco
conhecidos hoje, a resposta tem de ser afirmativa e assenta em provas documen-
tais tão evidentes como as de um rol de jornais que vão d"A Ação, de 1909, até a
A Anarquia, de 1919.
Nós diríamos mesmo que, numa classificação analítica, podemos distinguir
uma grande variedade de individualistas, entre os quais se encontram certa-
mente os nossos neomalthusianos:
a) Temos, por exemplo, os intelectuais, espécie que vai rareando depois de
1910, no sentido de constituírem um pólo de desenvolvimento autónomo
na nebulosa do anarquismo, mas que nos primeiros anos do século
podem apresentar um património publicado importante, onde se
incluem as revistas Amor e Liberdade (Lisboa, 1904), Luz e Vida (Porto,
1905), Novos Horizontes (Lisboa, 1906-08), Nova Silva (Porto, 1907),
Amanhã (Lisboa, 1909), Lúmen (Lisboa, 1911-13), ou A Ideia Livre
(Porto, 1911-16);
b) Temos igualmente os educacionistas, legião de assinaláveis proporções
onde cabem os teóricos, como Adolfo Lima, César Porto ou Faria
de Vasconcelos, os militantes, como Deolinda Lopes Vieira, Lucinda
Tavares, António Manacás ou Virgílio Santos, e sobretudo as escolas e
bibliotecas fundadas e mantidas por grupos anarquistas, directamente
ou pela via de associações operárias, que não é aqui o lugar de enu-
merar:
c) Temos também os especialmente dedicados ao antimilitarismo, que já
identificámos muitas vezes paredes meias com o neomalthusianismo.
49
Ver, por exemplo, a conhecida proclamação do Comité de Propaganda Sindicalista do Porto
de fins de 1910 e a tese «Sindicalismo e anarquismo» aprovada no Congresso Anarquista de Novem-
bro de 1911, em Lisboa.
50
Esta corrente exprime-se nomeadamente pelos jornais A Revolta, O Rebelde, O Agitador (de
Chaves!) e Comuna Livre, anima a Federação Anarquista da Região Sul, a União Anarquista-Comu-
nisia e a Aliança Anarquista e tem como propagandista mais conhecido Bartolomeu Con-^-
tantino. 1381
É o caso dos grupos de Carnaxide e Algés e o das preocupações activistas
de Silva Júnior e de alguns outros;
d) Temos igualmente um pequeno grupo de adeptos das experiências de
vida comunitária, de que o propagador mais conhecido ficou sendo
Gonçalves Correia;
e) Temos ainda os esperantistas, de importância não negligenciável. Logo
após o aparecimento entre nós da primeira publicação esperantista,
Portugala Revuo (Porto, 1909), o já nosso conhecido Grupo Novos Hori-
zontes, de Algés, lança a revista Universal, na língua de Zamenhof, numa
actividade multifacetada que se desdobra em direcção aos pequenos
camponeses da zona, aos jovens recrutas, às mulheres, et c;
f) Temos, finalmente, os naturistas, entre os quais é grande a influência de
Tolstoi e do francês Zisly, com a sua revista Vie Naturelle, e que apre-
sentam grandes pontos de contacto, e por vezes mesmo de comunhão,
com os neomalthusianos. Angelo Jorge é decerto um precursor. Mas, se
Celso Ferreira Xavier («um apóstolo do naturismo») pode escrever, em
1913, que «o naturismo é a mais perfeita das escolas anarquistas», as
iniciativas especificamente libertárias neste campo aparecem mais
tarde, após a guerra e o 1.° Congresso Vegetariano e Naturista da Penín-
sula, realizado em Lisboa, em 1919. Entre outros, podem citar-se o
Grupo Naturista Libertário, o Grupo Filhos do Sol e o Grupo Naturista
«Os Puritanos», não esquecendo referir a importante Associação Anti-
Alcoólica Operária, que tinha sede no próprio edifício da CGT e
á'A Batalha.
O neomalthusianismo constitui também, sem dúvida alguma, uma destas
correntes de pendor individualizante, mais até pelas consequências das práticas
propostas do que propriamente por preceito ideológico. Corrente perfeitamente
individualizada, com os seus jornais e militantes próprios, ela avizinha-se
bastante do antimilitarismo (com o qual partilha a convicção de que mais prole-
tários significa mais «carne para canhão») e também do naturismo, pois que
em ambas as perspectivas se faz um apelo ao esforço de aperfeiçoamento indi-
vidual, que tem por inimigos os hábitos e os preconceitos, e não algo que está
para além do domínio individual — como o socialismo ou a revolução social.
Contudo, esta vizinhança era também dificultada por algum puritanismo e
misticismo reinante entre os naturistas libertários, ao contrário do raciona-
lismo e da superação dos tabus sexuais de que davam mostras os neomalthu-
sianos.
È claro que estas diferentes expressões de individualismo libertário não só
não se excluíam mutuamente, como apareciam por vezes mesmo confundidas.
Também certos pressupostos ideológicos lhes são comuns, bem como às outras
correntes maiores. Por isso vemos naturalmente confluírem em iniciativas tipi-
camente individualistas, como sejam as educacionais ou o. esperantismo,
convictos sindicalistas ou ardentes revolucionários. Em Portugal, praticamente
todo o espectro libertário está de acordo com as escolas «racionalistas» ou
«modernas», segundo o modelo de Ferrer 51. Também no que respeita aos sindi-
catos, poucas objecções surgiram entre os anarquistas portugueses —ao contrá-
rio do que acontecia em França, e mesmo na Itália
52
. Porém, a inversa nem
sempre era verdadeira e, por exemplo, os neomalthusianos nunca conseguiram
verdadeiramente convencer os sindicalistas do bom fundamento das suas
51
A referência à figura do pedagogo libertário e mação Francisco Ferrer y Guardiã (mais do que
às suas teses) foi outro dos pontos de aproximação entre anarquistas e republicanos.
52
Se o individualismo anti-sindicalista francês teve características mais intelectualizantes e
1382 violentas, o italiano foi diferente e de raiz mais proletária.
teorias, ao passo que, em França, a adesão de um certo número de militantes
sindicais proporcionou ao neomalthusianismo uma difusão multiplicada.
Mas, se a convivência entre todos foi, no geral, aceitável — porque radicava
num pluralismo intrínseco ao pensamento libertário—, os desacordos apare-
cem importantes entre estas diversas correntes e subcorrentes, desacordos que
se estribam em razões de fundo uns, de prioridade táctica outros. Por exemplo, a
questão da violência separa brutalmente naturistas e tolstoianos, por um lado, e
os partidários do direito à revolta e à insurreição imediata, por outro. No acordo
geral contra o militarismo inscreve-se a divergência dos meios a empregar.
E nos naturistas cavam-se lógicas divisões entre os que nele vêem uma simples
higiene de vida e aqueloutros que abrem a porta a um puritanismo ríspido e
mesmo a um anticientismo que parece conduzir directamente ao teosofismo e
a outros espiritualismos.
E não esqueçamos que a própria doutrina neomalthusiana esteve longe
de fazer a unanimidade entre os teóricos anarquistas. Reclus e Kropótkine eram
antineomalthusianos. Sébastien Faure, inicialmente em oposição, passou
depois a apoiá-lo activamente. Em Portugal aconteceu o mesmo e, se a maior
parte dos anarquistas proeminentes não hostilizaram o neomalthusianismo,
também evitaram apoiá-lo. É sintomático, por exemplo, que nenhum dos
congressos ou conferências anarquistas se tenha debruçado sobre o assunto.
Às querelas ideológicas juntam-se, por vezes, as incompatibilidades
pessoais. José Teixeira Júnior e, sobretudo, Silva Júnior terão estado com
frequência envolvidos em desavenças deste tipo. Em 1909, por exemplo, este
último convida, nas páginas da sua revista, os «canalhas» que o haviam acusado
de «bufo» a provarem o que dizem. O afastamento do primeiro d'O Agitador
deve-se a motivo de doença, mas «agravado pelas calúnias que certos rufiões lhe
têm levantado». E, no Verão de 1911, as relações não eram as melhores entre
O Agitador e Silva Júnior, o qual parece ir resvalando para o individualismo
enraivecido à maneira de Libertad
53
, pois logo nessa altura ele tenta lançar um
jornal cujo título é, significativamente, O Niilista,
De tudo isto resulta que o individualismo foi, igualmente em Portugal,
uma das expressões do movimento anarquista, de que o neomalthusianismo
constituiu também uma variedade. Com as particularidades, todavia, que
aqui se procuraram sumariamente indicar: sobreposições, cavalgamentos, divi-
sões — mas muito raramente exclusivismos e rupturas insanáveis.
Contudo, vale a pena assinalar um caso que representa a degenerescência e
desagregação do individualismo dogmático. Trata-se do percurso pessoal de José
Franco e do jornal Refratários. O primeiro foi um militante anarquista algarvio,
activo desde 1904 ou 1905, que passa por todas as experiências organizativas e
propagandísticas dos anarquistas após a República, encaminhando-se pouco a
pouco para essa forma de individualismo a que chamam então «ecléctico».
Em 1918 publica em Setúbal O Indivíduo Livre e em 1919, em Lisboa, A Anar-
quia—tudo iniciativas que morrem à nascença. Pois este José Franco parece
encontrar ajudas na capital nortenha, a tal ponto que em fins de 1921 lança aí um
jornal «para vingar», intitulado Refratários, que se define como «quinzenário
individualista ecléctico, fora da lei de deus e da lei dos homens». Conta à
partida com a promessa de colaboração dos franceses Zisly e Lorulot e de portu-
gueses como Cristiano de Carvalho e Luciano Silva (animador da Associação
Anti-Alcoólica Operária) e promete tratar as «questões do dia: o problema
naturista, o neomalthusianismo, o teatro, a arte e a literatura».
Porém, a lógica desta trajectória leva os homens do Refratários a abrirem as
hostilidades contra o tradicional anarquismo operário nortenho. À denúncia
53
Animador do jornal UAnarchie e líder do individualismo radical que influenciou decisiva-
mente o «desvio apache». 1383
internacional d'A Comuna como sendo traidora à classe operária(!) segue-se
rapidamente o discurso mais provocatório e a violência verbal mais descabe-
lada, que, num repente, isolam e fazem desaparecer estes ultras. Não preci-
saram de muito A Comuna e os anarquistas portuenses para se desembaraçarem
destes acusadores, e os argumentos utilizados duma parte e doutra ilustram o
percurso degenerativo deste tipo de radicalismo. De passagem assinale-se que
Refratários nunca chegou a falar de neomalthusianismo... e quanto à literatura...
deixamos outros pronunciarem-se.
2.4 UMA OUTRA FORMA DE DIVULGAR O NEOMALTHUSIANISMO
Achamos sempre mau caminho mostrar as excelências dum ideal
sem indicar a forma viável de o conseguir.
(Nobre Cid, em O Agitador de 6 de Agosto de 1911)
Até então privilégio de burgueses, que possuíam o conhecimento e o
dinheiro necessário, os processos anticonceptivos conheceram neste período
uma grande divulgação, em grande parte devida ao empenhamento e à concep-
ção prática dos neomalthusianos; estes, para além de incluírem regularmente
receitas caseiras de preservativos da gravidez, publicam (no caso dos jornais)
enormes listas de variadíssimos produtos com indicações sobre a sua maior ou
menor eficácia, anunciando a sua venda na redacção, em alguma farmácia ou
através do correio para todo o País.
Como já vimos, eram farmacêuticos, na sua maioria, os mentores do neo-
malthusianismo. Do facto se serviram alguns dos detractores das novas práticas,
acusando de mero oportunismo a sua militância. Acusação que teria algum
fundo de verdade: há uma grande procura de produtos, muitos são da sua autoria
e há farmácias que são suas agentes!
54
Mas a propaganda das novas práticas foi também feita fora do meio militante
e abrangendo desse modo um público mais vasto, sem que o termo neomalthu-
sianismo surgisse uma única vez. Referimo-nos aos constantes, variados e, por
vezes, enormes anúncios de anticonceptivos em jornais de grande circulação
como O Mundo, República, O Intransigente, O Primeiro de Janeiro ou mesmo
O Socialista.
É uma outra maneira de divulgar o neomalthusianismo, quiçá mais eficaz
porque mais directa e, em simultâneo, mais subtil, sem qualquer preocupação
de ordem teórica. As senhoras ou os casais querem evitar ter filhos? Pretendem
o amor e a segurança ao mesmo tempo? Comprem as velas x ou os pessários j ; .
Mas, dado que o problema da moralidade existe, é necessário desculpabilizar os
clientes. Deste modo, as farmácias editam livrinhos, que distribuem gratuita-
mente, onde é debatida a questão moral «em que muitos colocam a propaganda
deste preparado, tratando do facto de se pensar na sua proibição, frisando e
fazendo notar os crimes, os remorsos e os perigos que evitam com o seu uso, as
doenças contagiosas que impedem [...]» e onde, por fim, naturalmente, divul-
gam as excelências do seu preparado. Estas brochuras conheceram um êxito
considerável, como provam, por exemplo, as quatro edições que em menos de
dois anos conheceu o livro Efeitos, Causas e Vantagens das Velas d'Erbon
5S
.
54
Nobre Cid afirma, no Germinal de 23 de Novembro de 1912, a propósito da denúncia d' 0
Socialista: «A Farmácia Nobre & Martins é nossa agente. Como tal, defendemo-la, apesar de pode-
rem exercer mercantilismo com a droga» (tratava-se das conhecidas velas de Erbon).
55
Temos notícia de uma l.
a
edição em Novembro de 1912, tendo saído a 4.
a
em Outubro de
1914.
Indicador da grande procura, se não dos produtos, da informação sobre o seu funcionamento.
Por outro lado, os anúncios eram caros, como se queixava em 1910 uma farmácia, o que não impedia
1384 que a publicidade destes produtos fosse muito importante.
Os principais produtos anunciados, pela permanência e tamanho da publici-
dade, foram as velas de Erbon, da Farmácia Nobre & Martins, e os pessários
solúveis Zédol, à venda na Farmácia Silva & Carmo, ambas em Lisboa. Junto
anunciavam outros processos, principalmente abortivos. Apesar de os produtos
Erbon afirmarem que se vendiam em Portugal desde 1908 e os Zédol a partir de
1905
56
, detectámo-los apenas em 1912. Mas não eram os únicos: a procura fez
surgir outros anticonceptivos, concorrentes dos dois principais, que se viram na
necessidade de acautelar os seus clientes contra as «falsificações»: eram as
pessarinas solúveis, as velas de Condom, os óvulos higiénicos do Dr. Calvert, os
glóbulos Ocsarracsaid..., produzidos sempre segundo fórmula francesa, inglesa
ou alemã, como diziam os seus vendedores!
É bem clara, de facto, a preocupação em avaliar os produtos que propõem,
seja através da sua origem estrangeira (não qualquer uma, mas daqueles países
onde se diz ser a limitação dos nascimentos praticada há alguns anos), seja pela
referência à intervenção de «distintos médicos portugueses e estrangeiros» na
elaboração do respectivo anticoncepcional. Truque publicitário em muitos
casos: repare-se no nome das famosas velas de Erbon, «fórmula francesa» de
largo consumo na Alemanha e em França, vendidas pela Farmácia Nobre &
Martins — Erbon, que «soa» a palavra estrangeira, é o anagrama Nobre... Pro-
cesso semelhante foi seguido também em Espanha: Nueva Huelga de Vientres
(1916) anunciava as infalíveis «pastilhas Malthus»!
É na medida em que o objectivo do anúncio é captar clientes que a análise da
sua morfologia se pode revelar significativa ao permitir detectar os «pontos
sensíveis» da população urbana. As palavras-chave destes anúncios eram:
No que diz respeito aos destinatários: «A todos os casados», «Aos homens
casados», «Esclarecimento aos casados» ou simplesmente «Aos casados»
é a formulação preferida. Por vezes, muito raramente, dirigem-se «Às
senhoras que não queiram ter filhos» ou «Às senhoras casadas».
Para que servem os produtos? As indicações fornecidas não deixam de ser
curiosamente sintomáticas, por um lado, do seu objectivo principal
— evitar a procriação com segurança — e, por outro, dos motivos que con-
duzem a essa precaução — dificuldades económicas, doenças venéreas,
etc. Senão vejamos: «Interessa a todos. A vida está caríssima e os filhos
não causam senão desgostos»; «Para evitar a procriação»; «A segurança
no amor»; «Felicidade conjugal, harmonia no lar, carestia de vida»;
«Amor e higiene»; «Antifecundativo, anticontagioso, estético», etc. No
caso dos abortivos é-se mais subtil: «Menstruações irregulares, ou mes-
mo falta curam-se com ...» era como rezavam esses anúncios.
As qualidades de profilácticos de doenças venéreas destes produtos não dei-
xam de estar presentes, como se verifica. Sinal bem evidente da origem
de muitos dos anticonceptivos, para a qual Philippe Aries chamou a aten-
ção 57.
As vantagens do processo a utilizar são igualmente apontadas, recaindo a
tónica na sua eficácia (são infalíveis, dizem uns; foram introduzidos no
País há x anos sem uma única falha, afirmam outros). A natureza benigna
e prática é da mesma maneira realçada no intuito de captar os mais reni-
tentes: «inofensivas», as velas de Erbon, «mais pequenas do que uma
azeitona, são imperceptíveis, não incomodam absolutamente nada» e
não prejudicam o organismo.
56
É possí vel que seja ver dade no caso dos pr odut os Zédol . Já ant es de 1910, a Far máci a Silva, na
Cal çada de Sant o Andr é, em Li sboa, vendi a ant i concept i vos, como vem anunci ado no livro do
Dr. Br ennus Acto Breve. Or a os pr odut os Zédol , publ i ci t ados nos gr andes di ári os, são vendi dos por
Silva & Car mo, Cal çada de Sant o Andr é , 16, Li sboa (ou s i mpl es ment e por Ant óni o Silva).
57
Ver Ph. Ar i es, «Les t echni ques de Ia vie», i n op. cit. 1385
O segredo na entrega dos produtos, para que os «outros» desconheçam que a
família x os consome, é igualmente assegurado pelas farmácias. Para tal
basta enviar mais 50 ou 60 réis, è a embalagem não conterá sinal algum
do que leva dentro...
Não se furtam a advertências estes farmacêuticos, cujos produtos, absoluta-
mente garantidos, são bem mais caros do que as receitas caseiras: «Que
ninguém se fie em baratezas em preparados deste género, que podem
sair caríssimos» e provocar desgostos e desilusões!
Finalmente, encontramos nestes interessantes anúncios — que, passados
uns vinte anos, serão impensáveis e impraticáveis— a rede de vendas
comerciais que se foi formando. Se, em 1912, por exemplo, os pedidos
tinham de ser feitos para Lisboa, em 1913, as Farmácias Silva & Carmo e
Nobre & Martins possuíam já agentes espalhados pelo País. Enquanto a
primeira, mais modesta, se estende apenas ao Porto, e só em 1914 a
Évora, a segunda abarcava, além das cidades precedentes, as localidades
seguintes: Braga, Viseu, Ovar, Covilhã, Figueira da Foz, Coimbra,
Tomar, Torres Vedras, Portalegre, Lagos e ainda Ponta Delgada, nos
Açores! (além de, segundo declara, exportar em grandes quantidades
para o Brasil e as colónias).
Esta propaganda, bem presente e visível em diversos jornais, mas, apesar de
tudo, cuidadosa, sem preocupação alguma de justificação, embora a ela possam
ter estado associados os neomalthusianos militantes, foi uma importante arma
na divulgação das práticas anticonceptivas entre a população urbana
58
. Apesar
de, como afirmavam os próprios, o seu «colossal consumo» ser quase todo con-
sequência da propaganda individual dos seus utilizadores. Tipo de difusão que
constituiu ainda uma outra forma de divulgar o neomalthusianismo.
3. AS OPOSIÇÕES, AS CONVERGÊNCIAS E OS SILÊNCIOS
3.1 UMA HISTÓRIA CURTA
Toda a acção da difusão das doutrinas neomalthusianas em Portugal se pode
considerar concentrada num arco de tempo relativamente breve, embora de
rápidas mudanças. Ela estende-se de 1902 — e, em rigor, com alguma eficácia
pública, só a partir de 1905 ou 1906- até 1913, ou pouco além.
Acresce que o movimento é, se não descontínuo, pelo menos desigual na
dinâmica que foi capaz de adquirir. A um forte arranque inicial, como já vimos
centrado sobretudo no Norte do País, seguç-se um enfraquecimento nos anos de
1907-08, para voltar a um crescendo a partir de 1909, agora já apoiado nas suas
bases do Sul.
A instauração da República vem claramente proporcionar um revigora-
mento da propaganda. Por exemplo, a publicidade de editores dedicados a obras
de divulgação sexual só então pode fazer-se sem entraves legais. Porém, rapida-
mente surgiram medidas governamentais a limitar a acção dos militantismos
mais radicais. À lei de imprensa promulgada ainda em 1910 segue-se uma lei
contra a pornografia, biés por onde muitas vezes se procurou atacar o neomal-
thusianismo. Logo em 1911, a brochura Mulheres, não Procreéis! sofre embara-
ços por parte das autoridades e o seu autor chega a ser detido. E ainda no mesmo
58
Como afirmará M. Rodrigues Ferro, em 1927, no 1.° Congresso de Farmácia, trata-se de «uma
propaganda muitas vezes surda, mas certeira, feita em jornais, revistas e folhetos [e que se] tem esten-
1386 dido a todas as camadas sociais».
ano, como já vimos, O Agitador sofre os rigores da legislação republi-
cana
59
.
Está então lançada uma certa dinâmica de repressão-mobilização, que vem a
atingir o seu auge com a governação afonsista em 1913. Já o Governo Duarte
Leite, em 1912, endurecera a legislação, tendo especialmente em vista a propa-
ganda antimilitarista, que, como vimos, coabita bem próximo com o neomal-
thusianismo. E, por outro lado, é nesta altura que, pelo menos em Lisboa,
a publicidade comercial anticonceptiva se espalha com mais largueza na
imprensa de grande circulação. Tudo isto faz com que o neomalthusianismo
comece, de facto, a preocupar certos espíritos. Na sessão parlamentar de 22 de
Abril de 1913, o deputado (médico) Nunes Godinho reclama contra este estado
de coisas, com o que concorda Afonso Costa, citando embora a «colaboração»
dada por certos médicos e terminando por afirmar que o Governo vai intervir
contra tal «lepra».
Temos de referir que o Código Penal então em vigor é o de 1886, que, no seu
artigo 258.°, pune a prática do aborto com penas que podem ir até 8 anos de
prisão maior celular. Porém, o aparelho legislativo do Estado parece desarmado
perante estes novos métodos, que encontram êxito seguro numa certa popula-
ção urbana.
Em 2 de Junho do mesmo ano, no apertado finalizar da legislatura, o minis-
tro do Interior, Rodrigo Rodrigues, apresenta uma proposta de lei contra a
difusão do neomalthusianismo e das práticas e produtos anticoncepcionais,
podendo as penas ir até 2 anos de prisão correccional.
Refira-se, porém, que as oposições explícitas e coercivas à propaganda
neomalthusiana não vieram todas do Estado. Certos moralistas — em alguns
aspectos, até vizinhos dos nossos militantes neomalthusianos — põem de pé, em
meados de 1913, uma Liga Portuguesa da Moralidade Pública, a qual se propõe,
entre outros objectivos, «a protecção à mulher, à criança e aos animais, o limite
do número de tabernas» e pretende extinguir «o jogo [...] a prostituição [...] a
propaganda e práticas neomalthusianas, a pornografia, a pena de morte, o alcoo-
lismo e o tabagismo, a guerra, os combates de boxe, o duelo, a tourada», etc.
A Liga propunha-se, nomeadamente, activar «comités de vigilância» em todas
as localidades do País para reprimir aquelas actividades, «em constante comuni-
cação com o Comité Central em Lisboa».
A não aprovação da proposta de lei de R. Rodrigues, mas, simultaneamente,
o silenciar da voz dos neomalthusianos devem-se a razões mais gerais e que têm
a ver com a coiyuntura política. De facto, o Verão de 1913, com a prisão de inú-
meros activistas e operários, com o descrédito lançado para as suas costas de
conspiração anti-republicana e com a exploração sensacionalista da violência
bombista, terá constituído um rude golpe na agitação social, que ameaçava tor-
nar-se incontrolável pelo poder político. Dir-se-á que esta vitória de Afonso
Costa foi uma vitória de Pirro, mas ela quebrou objectivamente uma dinâmica
ofensiva. Enquanto o movimento sindical prefere fazer uma pausa na sua agita-
ção, reflectir sobre o momento vivido e reorganizar as suas forças (congresso de
Tomar), além de ajudar a libertar os seus presos, a acção anarquista, por seu
lado, é particularmente afectada: Quartim expulso para o Brasil e o jornal Terra
Livre silenciado; a Federação Anarquista da Região Sul fica desmembrada e o
seu animador, Bartolomeu Constantino, tem de se afastar da capital, deambu-
lando por Trás-os-Montes e mesmo por Espanha; em particular, a propaganda
neomalthusiana cessou, na forma pública, militante e proselitista que assumira
naqueles anos.
59
No jornal 0 Porto de 10 de Setembro de 1911, um «adepto do neomalthusianismo», em res-
posta a um artigo atacando a sua doutrina, refere «o conspícuo governador civil do distrito, que
chegou a querer opor-se à propaganda dos produtos neomalthusianos». 1387
E, como se esta travagem repressiva não bastasse, o ano de 1914 traz a guerra
europeia, que vem dividir o movimento anarquista, como dividiu o movimento
operário. A tímida tentativa de reorganização induzida pelo Congresso Anar-
quista Internacional, marcado para Agosto em Inglaterra, e pela conveniência
de aí enviar uma delegação rapidamente se esboroa. E as notícias das reviravol-
tas espectaculares (nomeadamente do até então virulento antimilitarista
Hervé), ou as confirmações de opiniões em que não se fazia fé (a
racionalidade — mesmo discutível — da escolha de Kropótkine), vieram certa-
mente contribuir para a instauração de um clima de desânimo nos desorgani-
zados meios libertários portugueses. Exemplo sintomático: José Teixeira
Júnior escreve em Setembro de 1914, n'A Humanidade:
Sou adversário declarado da guerra [...] mas aplaudo e bendigo o gesto de
Hervé, alistando-se. [...] Joga-se o futuro das liberdades [...]
3.2 O MOVIMENTO OPERÁRIO
A atitude dos jornais sindicalistas é de reticência perante uma doutrina que
vinha, pela sua origem, qualificada de burguesa e de anti-socialista. Tal é a con-
clusão que se pode tirar da leitura de jornais como A Greve, O Sindicalista ou,
mais tarde, A Batalha.
É mesmo nas páginas d' 0 Sindicalista, em 1911, que o militante libertário
José Carlos de Sousa escreve uma série de artigos intitulados «A lei da popula-
ção», onde, não se pronunciando propriamente sobre o neomalthusianismo pro-
pagado por companheiros seus, se emprega, no entanto, a refutar a lei de
Malthus, com base na argumentação socialista que lhe vem do seu bom domínio
da economia política.
Apesar destas distâncias, esse e outros jornais do mesmo tipo aceitam veicu-
lar uma discreta informação bibliográfica neomalthusiana. É lógico supor que
uma idêntica atitude fosse tomada pela maioria dos jornais corporativos de
orientação sindicalista: evitar entrar num assunto perante o qual a militância
tem opiniões diversas, sobretudo de fundo ideológico e de oportunidade táctica,
mas abertura e liberdade para os neomalthusianos espalharem as suas ideias e
venderem a sua literatura nas sedes sindicais.
O caso especial da Associação de Classe do Pessoal dos Hospitais Civis Por-
tugueses merece ser referido, pois que existe uma grande ligação entre ela e o
jornal A Humanidade (a que adiante nos referimos mais em detalhe), for-
mando uma bolsa relativamente marginal ao sindicalismo propriamente operá-
rio, onde podem actuar à vontade enfermeiros, farmacêuticos e mesmo médicos
e onde o neomalthusianismo desfruta de plenos direitos de cidadania.
Finalmente, esclareça-se que — testemunho desta marginalização no seio do
movimento operário — nunca as teses neomalthusianas tiveram a oportunidade
de ser levadas a um congresso sindical, enquanto temas como os da educação,
do alcoolismo e mesmo do esperantismo aí tiveram assento diversas vezes.
3.3 OS SOCIALISTAS
Tem sido talvez injustamente menosprezada a presença socialista no movi-
mento operário do princípio do século. Pelo menos até à Revolução Russa, os
socialistas mantiveram-se com uma certa base operária, que importa não
esquecer.
Ora a atitude dos socialistas tinha de ser, doutrinariamente, da mesma
reserva que a dos sindicalistas perante o problema posto pelos neomalthu-
1388 sianos. Mas vão mais longe. Investindo uma boa parte da sua energia jornalística
no combate à prostituição e às tabernas, apontam como solução para o problema
das crianças abandonadas uma acção estatal de protecção à infância, que estavíi
de facto sendo incrementada pelos governos republicanos. Enquanto isto, para
com os neomalthusianos chegam a empregar a denúncia: «Há quem anuncie
drogas para não ter filhos e a autoridade consente que essas drogas se vendam.
Em compensação, são punidas com o peso da lei as desgraçadas mães que provo-
quem um aborto», reza O Socialista de 9 de Novembro de 1912, escarrapa-
chando o nome da prevaricadora, Farmácia Nobre & Martins, com todas as
letras. E termina: «Isto é vergonhoso, imoral e perigoso»: referia-se, muito
directamente, ao facto de as mulheres «poderem desafrontadamente praticar o
coito sem o mínimo perigo de conceber!».
Explodiam naturalmente os anarquistas com tomadas de posição deste tipo.
Contudo, quando se precisa a ameaça governamental da legislação repressiva,
Dias da Silva pode escrever no mesmo jornal que tal proposta de lei era...
«um aborto», justificando pela miséria da condição operária os que pregam o
neomalthusianismo.
Para além dos oportunismos e das oportunidades tácticas, a divergência era
de fundo claramente doutrinal, como aparece em artigos mais pausados (e por
vezes até compreensivos) n' 0 Trabalho, nomeadamente de César Nogueira e
João Gil
60
.
3.4 OS REPUBLICANOS
A atitude dos republicanos sobre o neomalthusianismo pode ser apreciada,
rapidamente, a vários níveis: o da acção governativa, que já citámos; o das rela-
ções organizativas, onde havia alguma convergência entre eles e os libertários; e
o da imprensa de grande tiragem afecta aos principais partidos.
Principiando por esta última, deve assinalar-se, antes de mais, o comporta-
mento, dúplice e revelador, de muitos jornais condenarem tais práticas na
primeira página e aceitarem publicidade comercial dos produtos anticoncep-
tivos na última!
Para além desta semelhança, algumas diferenças se insinuam entre eles.
O Mundo, por exemplo, exulta, a propósito dos resultados do censo de 1911,
com as «excelentes condições de vitalidade» da raça portuguesa, e em especial
com o número de varões que podem servir no Exército e podem votar! A Lucta,
por seu lado, é mais ríspida para com os apóstolos do neomalthusianismo:
respondendo aos artigos de Gaspar Santos no Terra Livre, escreve que «um filó-
sofo desconhecido aconselha as mulheres a que gozem a vida, a que se saciem
de prazeres, evitando a maçada de ter filhos, o que tortura a vida e faz perder
a beleza. Que pena não terem as mães de tais filósofos aprendido a evitar a
procriação, porque ao menos nós estávamos livres deles!»
61
.
Um pouco mais compreensivos se mostram articulistas da República e
d'O Século, quando comentam as posições do Prof. Egas Moniz ou analisam a
demografia portuguesa. É mesmo com visível prazer que o primeiro relata o
debate parlamentar citado:
Bem se vê que o Sr. Afonso Costa se prepara para ler também depois de
morto o livro que ao assunto dedicou o seu correligionário Sr. Angelo Vaz,
que na Câmara dos Deputados é um dos representantes dos democráticos
portuenses. Ou então o Sr. Angelo Vaz renega o seu livro [...]
62
60
R espect i vament e e m 25 de Agos t o e 20 de Out ubro de 19 07 .
61
A Lucta de 13 de Abri l de 19 13.
62
República de 24 de Abri l de 19 13. 1389
Pelo lado dos republicanos radicais, enquanto O Intransigente observa
um curioso silêncio opinativo, atendo-se a uma estrita informação, nas páginas
d' 0 Revolucionário podem encontrar-se opiniões contraditórias: a do colabo-
rador habitual D. Magriço, que, verberando os comerciantes «que não recea-
riam vender a mãe», considera que «o lar onde há uma mulher estéril [é]
uma mancha hedionda»; e a de um leitor de Barcarena que o acusa de não ver
«o estado desgraçado e miserável que o operário português atravessa», ao que
o primeiro replica que «a Pátria precisa de energias que lhe são roubadas com
antiprocriativos»
63
.
Passando agora a outro nível, referimos o caso da Associação do Registo
Civil e da Federação do Livre Pensamento, onde não poucos libertários milita-
ram, antes e mesmo depois de 5 de Outubro. Pois neste terreno de colaboração
liberal libertária, onde os principais inimigos eram o obscurantismo e a igreja
católica, nem uma iniciativa parece ter tido lugar em apoio da ideia neomal-
thusiana. Verdade seja que também não há mostras de qualquer hostilidade.
O jornal 0 Livre Pensamento guarda silêncio absoluto sobre a questão durante
toda a sua vida (até 1926), conquanto apresente numerosos textos de factura
anárquica
64
.
3.5 AS FEMINISTAS
Registemos sumariamente o facto de ser o feminismo um dos temas mais
tratados na imprensa desta época. Existem periódicos {Alma Feminina, A
Mulher e a Creança, A Madrugada, A Mulher Portuguesa, A Semeadora, etc),
existem organizações (Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, Associação
de Propaganda Feminista, Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e mais
tarde congressos), existem militantes de valor (Ana de Castro Osório, Maria
Veleda, Joana Almeida Nogueira, Adelaide Cabete etc), cujas principais preo-
cupações são a protecção à infância e a educação, o papel social da mulher, os
seus direitos políticos, a prostituição e o aborto.
Nestas iniciativas encontram-se por vezes com libertários, como Deolinda
Lopes Vieira, Adolfo Lima ou Sobral de Campos. Por via do problema da guerra,
há frequentes aproximações entre feministas e anarquistas pacifistas, da mesma
forma que se verificam permutas regulares entre a imprensa feminista e jornais
anarquistas ou ainda naturistas, como O Vegetariano, ou humanistas, como
A Humanidade.
Porém, nunca das movimentações feministas terá surgido qualquer posição
expressa sobre a doutrina neomalthusiana. De resto, barreiras havia (republica-
nismo, legalismo e sufragismo) que tornavam difíceis as aproximações entre
umas e outros. As únicas vozes de mulheres que em Portugal falam o discurso
neomalthusiano são as de militantes francesas, como Jeanne Dubois ou Nelly
Roussel.
3.6 E OUTROS
Para além dos diversos sectores mencionados, outros merecem ainda uma
rápida referência.
O já citado jornal A Humanidade é o caso curiosíssimo de uma grande imbri-
cação entre um grupo de anarquistas pouco representativos,como são os nossos
militantes neomalthusianos, e um conjunto de humanistas e moralistas repu-
63
O Revolucionário de De z e mb r o de 1913.
64
Vem a propósito referir que entre os fundadores da Liga dos Direitos do Homem se encontra-
1390 vam também alguns anarquistas.
blicanos, tendo por pano de fundo o meio associativo do pessoal hospitalar e
farmacêutico. Os zigue-zagues e as contradições de orientação deste jornal são
extremamente elucidativos deste encontro instável. Querendo seguir um liber-
tarismo não violento inspirado por Tolstoi, acabam por hesitar entre o evolucio-
nismo republicano e o apoio ao radicalismo violento desenvolvido nas lutas ope-
rárias, hesitações de que são testemunho as entradas e saídas de director do
ex-anarquista Fontana da Silveira.
Mas há outros encontros e desencontros do mesmo tipo. Por exemplo, com o
periódico Novos Horizontes (1913-15), que começa por se subintitular «Revista
geral do movimento intelectual e social» e ao qual o «pacifismo, psiquismo e
sociologia» aproximam dos libertários individualistas, mas cuja evolução para o
«mediumnismo, espiritismo e orientalismo» afasta do racionalismo prevale-
cente entre eles. Ou com outra folhinha do mesmo nome que, em 1916, se opõe
vigorosamente à entrada de Portugal na guerra, mas cujo puritanismo antial-
coólico não deixaria de crispar mais de um acrata. E não esqueçamos o Mundo
Moral, que, se, por um lado, lança a tal Liga da Moralidade Pública con-
tra os neomalthusianos, por outro lado estará de acordo com muitos liber-
tários na oposição à guerra, ao tabaco, ao álcool, às touradas, à pena de
morte. etc.
No seguimento destas zonas de fronteira, os propriamente ditos naturistas e
vegetarianos encontrarão em inúmeros anarquistas os mais convictos defen-
sores das suas teses
6
\ Referimos já a influência de Tolstoi e do francês Zisly e a
acção do portuense Angelo Jorge. Resta acentuar o papel desempenhado por
este na primeira fase da vida da Associação Vegetariana de Portugal e nas suas
publicações, transmitindo-lhes o «naturismo libertário» daqueles. O que obvia-
mente não impede que, mais tarde, um vegetariano escreva no Almanaque da
Associação que o neomalthusianismo é uma «infâmia social [...] que repugna a
todas as consciências normais».
Noutra área, não podemos esquecer os trabalhos de cientistas que, como
A Vida Sexual, de Egas Moniz, trouxeram a sua contribuição ao debate sobre as
questões da procriação. Houve também as obras de divulgação, de enorme
procura em Lisboa e noutras cidades: Dr. Brennus, Amor e Segurança; Augusto
de Castro, Como Evitar a Procreação; Caufeynon-Budin, O Abortamento;
Dr. Desormeaux, Anatomia e Funções dos Órgãos Genitais; e outras
66
. Houve
ainda o aproveitamento literário do tema, com Alfredo Gallis a editar oportuna-
mente O Abortador (Romance Filosófico contra a Propagação da Espécie), bem
como o aparecimento de editores em cujos catálogos coabitavam obras de divul-
gação científica e receitas para ser feliz no amor, curas de impotência e teses
neomalthusianas, romances e teoria anarquista.
65
Dos r egi mes al i ment ar es veget ari anos ou frugíveros ao nudi s mo e aos banhos de sol, at é à prá-
tica das medi ci nas nat ur ai s.
66
Nos anos 30, entre a literatura deste tipo usada pelos propagandistas libertários, sobressaem
os textos seguintes, sendo de assinalar o papel então desempenhado por Jaime Brasil:
Jaime Brasil, A Questão Sexual, Lisboa, 1932; Os Padres e a Questão Sexual, Lisboa, s. d. (1933);
A Procriação Voluntária, Lisboa, 1933, «Biblioteca de Educação Sexual», n.° 1; Os Órgãos
Sexuais, Lisboa, 1933, «Biblioteca de Educação Sexual», n.° 2; A União dos Sexos, Lisboa,
1933, «Biblioteca de Educação Sexual», n.° 3.
Almerindo Lessa, Educação Sexual da Mocidade, Lisboa, 1934.
Maria Lacerda de Moura, Amai e... não Vos Multipliqueis, Rio de Janeiro, 1932.
Alexandra Kolontay, A Mulher Moderna e a Moral Sexual, Lisboa, 1933.
Júlio R. Barcos, Liberdade Sexual das Mulheres, Lisboa, s. d.
Henri Boissier, numerosa produção editada pela «Biblioteca Scientifica Sexual», de J. Romano
Torres, Lisboa, s. d.
A. Martin de Lucenay, El Control de Ia Natalidad, Madrid, 1933. 1391
Noutro domínio, o da ciência económica, homens como Afonso Costa ou
Marnoco e Sousa não se esqueceriam de referir as doutrinas neomalthusianas e
de proclamar o seu optimismo natalista
67
.
Finalmente, last but not the least, a atitude da igreja católica (que só pode-
ria ser de clara condenação) parece revelar a acuidade de outras preocupa-
ções - República, Lei da Separação e o rest o-, para que gaste muitas energias
a terçar armas com os neomalthusianos. Só mais tarde isso se verificará.
4. EPÍLOGO: DOS PRECURSORES DA IDEIA NEOMALTHUSIANA À
CRISE DA NATALIDADE
4.1 Em síntese, pode dizer-se que o neomalthusianismo em Portugal foi
obra de um punhado de activos divulgadores. Mau grado as conexões desta dou-
trina com a ideologia anarquista, sobretudo nas suas expressões mais individua-
lizantes, nem por isso ela conseguiu sair da posição relativamente marginal que
sempre teve no espectro libertário. A sua curta história atesta-o. Mas a sua
derrota política, com o aproximar da guerra, não significou a morte do fermento
de que era portador.
4.2 É a altura de se colocar a inevitável pergunta: qual terá sido o efeito da
propaganda neomalthusiana no comportamento demográfico dos Portugueses?
Cremos que ele não pode deixar de ter sido certamente limitado, vistas as suas
dimensões, duração, implantação, influência e as oposições dos seus adversá-
rios. Porém, é clara a impossibilidade de estabelecer, neste domínio, relações
simples de tipo causa-efeito. Nem em França, onde o neomalthusianismo terá
aflorado na cena política de maneira bastante mais vigorosa e espectacular, os
analistas da questão ousaram fazê-lo
68
.
No entanto, a par desta prudência interpretativa, podemos pensar que talvez
o efeito da acção neomalthusiana tenha sido maior do que aquele que pode
aparentar a identificação das suas escassas forças. Com efeito, sem preten-
dermos entrar numa análise demográfica da evolução da população portu-
guesa, não podemos deixar de assinalar a descida das taxas de natalidade nacio-
nais ao longo da primeira metade deste século, e particularmente a partir do fim
dos anos 20. Para dar uma ordem de grandeza, podemos indicar que, entre os
quinquénios de 19°0-24 e 1935-39, a taxa de natalidade sofre uma redução de
18%.
Em 1940, o fenómeno já era claramente perceptível nas estatísticas da popu-
lação que, com mais rigor do que anteriormente, iam sendo publicadas. António
Almeida Garrett assinala então que «o fenómeno da descida progressiva das
taxas de natalidade, quase geral na Europa desde o último quartel do século
passado, não se deu entre nós; o declínio só começou a manifestar-se de há dez
anos para cá» (ou seja, depois de 1930)
69
. Embora com variações de fontes e de
métodos de tratamento analítico, todos os observadores confirmam esta tendên-
cia
70
. Por exemplo, um coevo observa que as taxas de fecundidade nacionais
67
Afonso Costa, O Problema da Emigração, Lisboa, 1911. Marnoco e Sousa, Tratado de Econo-
mia Política, Coimbra, 1917.
68
Philippe Aries, op. cit. André Armengaud, LesFrançais etMalthus, Paris, PUF, 1975. Francis
Ronsin, La Greve des Ventres, Paris, Aubier Montaigne, 1980.
69
Ant ó ni o Al mei da Garrett, Tendências Demográficas de Portugal Metropolitano, Porto, 19 40.
70
Além de A. Garrett e dos demógrafos actuais, ver ainda:
Armando Gonçalves Pereira, As Doutrinas de Malthus e as Questões Demográficas da Actuali-
dade, Lisboa, 1936.
José Firmino Santana, A Mortalidade na População Portuguesa e as Suas Principais Causas,
1392 Porto, 1940.
estão igualmente em declínio, passando de 143,1 em 1911-12 para 125,0 em
1920-21 e para 113,0 em 1930-31
71
.
Investigadores actuais têm estudado a demografia portuguesa com instru-
mentos de análise mais aperfeiçoados, apontando nomeadamente a importân-
cia das diferenciações regionais. É o caso de Livi-Bacci, que assinala a existência
de um «padrão neomalthusiano de fertilidade» no Sul, ao contrário do que se
passa no Norte do País:
Pode pensar-se que o Sul, com atitudes mais seculares, foi receptivo aos
princípios neomalthusianos, enquanto a religiosidade do Norte e o profundo
apego às tradições podem ter erguido uma eficiente barreira contra a difusão
do controlo voluntário da fertilidade
n
.
Embora insatisfeito com esta explicação por via do factor religioso,
J. Manuel Nazaré precisa que o declínio da fecundidade começa mesmo por
volta de 1911 nos distritos do Sul, acelerando-se depois nos anos 30
73
.
Por outro lado, parece também indiscutível o peso que o factor urbano tem
nesta evolução. Enquanto, por exemplo, em 1920-24, a taxa nacional de natali-
dade se situa ao nível dos 33 9V o Porto encontra-se na casa dos 28 ^oo e Lisboa
na dos 24 9W E em 1935-39 estes valores descem, respectivamente, para a ordem
dos 27 ^oo (nacional), 22 ^oo (Porto) e 16 ^oo (Lisboa), o que leva, em 1940,
Almeida Garrett a dizer que, «se nos centros urbanos a natalidade apresentasse
as quotas actuais do conjunto populacional, a taxa geral voltaria para a casa dos
33». Isto significa que os centros urbanos seriam então os grandes responsáveis
pela quebra da vitalidade. Em termos comparativos europeus, pode também
referir-se que, por exemplo, por volta de 1930, Lisboa apresenta uma taxa de
natalidade comparável às nacionais da Bélgica, da Dinamarca ou da Finlândia.
Se a propaganda neomalthusiana não pode ser responsabilizada por esta
evolução das atitudes citadinas face à natalidade, também não é possível afirmar
seriamente que não teve alguma influência.
Por outro lado, todos os testemunhos confirmam o enorme desenvolvimento
das práticas abortivas, sobretudo em Lisboa e no Porto. Livi-Bacci, referindo
estas cidades, assinala a difusão de diferentes meios de «restrição voluntária da
procriação bem antes do fim do século». E, apesar da evidente deficiência
das fontes, não deixa de ser impressionante verificar a subida da taxa de morta-
lidade, que passa de 35,6 em 1910-19, para 40,3 em 1920-29 e para 42,9 em
1930- 39, e sobretudo do peso que nela têm as cidades de Lisboa e Porto
74
. Era
voxpopuli que as «abo^tadeiras», as «fazedoras de anjos», não tinham mãos a
medir. E, segundo o Dr. Costa Sacadura, nem sempre o fazem por imperativo
económico, «mas convencidas de que praticam um dever de solidariedade e de
emancipação feminina». Em conferência proferida em 1924 e que funciona
A. A. Me nde s Correia, Factores Degenerativos na População Portuguesa e Seu Combate, Porto,
1940.
Ez equi el de Campos , O Enquadramento Geo-Económico da População Portuguesa, Li sboa, 19 43.
A. Amor i m Gi rão, Evolução Demográfica e Ocupação do Solo Continental, Coi mbra, 19 44.
J. R emy Freire, Estudos de Demografia Portuguesa, Li sboa, 19 45.
J. J. Pais Morai s, Alguns Aspectos Demográficos da População Portuguesa, Li sboa, 19 47 .
71
Carlos Tei x ei ra, A Mulher Portuguesa e o Seu Papel Bio-Sociológico, Porto, 19 40.
7 2
Livi- Bacci, A Century of Portuguese Fértility, Pri nceton, 19 7 2.
73
J. Manuel Nazar é, «Perspect i vas demográfi cas no Sul de Port ugal » e «O decl í ni o da fecun-
di dade da popul ação por t uguesa», i n Análise Social, Li sboa, r espect i vament e n. ° 41 (1975) e n. ° 52
(1977).
74
Ricardo Jorge e Henrique Schindler, comunicação ao Congrès International de Médecine,
Lisboa, 1906. Costa Sacadura, Considerações sobre o Aborto Criminoso em Portugal (conferência),
1929. A. A. Garrett, op. cit. 1393
como «sinal de alarme» e arranque da «cruzada antiaborto», o mesmo médico
afirma que «entre as numerosas causas deste decrescimento e deste definha-
mento não podemos deixar de considerar, como factor primordial, a prática das
teorias neomalthusianas, aconselhando a profilaxia anticoncepcional e o aborto
criminoso livremente praticado»
75
.
4.3 Esta quebra da taxa de natalidade vai preocupar diferentes sectores,
subitamente alarmados com a extensão de um fenómeno que nunca ousaram
provavelmente imaginar. Algo se passava com as famílias portuguesas, outrora
tão fecundas.
A Igreja, passado que estava o período negro da República, volta os olhos
para essa realidade, a que não tinha dado o devido relevo. Bispos e médicos
católicos
76
encetam, nos finais dos anos 20, uma campanha contra os neomal-
thusianos e os meios que propunham e divulgavam para evitar a procriação.
Curioso ódio a uma doutrina morta do ponto de vista da propaganda militante e
de cujos mentores já poucos se lembrariam. No entanto, a explicação surge
clara: o neomalthusianismo funcionava como o bode expiatório e a expressão
ideológica de uma prática de que tinham sido os precursores.
A Igreja não se encontrou sozinha. No 1.° Congresso Nacional de Farmácia,
realizado em Lisboa, no ano de 1927, vota-se a proibição da venda de abortivos
e anticonceptivos.
O Código Penal, de facto, à data apenas interditava a ministração e venda de
abortivos sem receita médica. Só em 1929 seria proibida igualmente a venda de
anticonceptivos e se puniriam os boticários ou farmacêuticos que incorressem
na infracção
77
.
Juntando a sua voz ao coro estiveram os médicos. As suas preocupações
situam-se no mesmo pano de fundo das estatais ou católicas. O Dr. Carlos
Salazar de Sousa, por exemplo, afirma que «estas doutrinas, que grosseiramente
pretendem encobrir com o rótulo de necessidade cientificamente provada o que
mais não é que egoísmo e baixeza moral, rapidamente se espalharam, trazendo
como consequência uma diminuição assustadora da natalidade»
78
. A atenção
deste sector dirige-se em particular para o aborto e a protecção à infância,
apelando para a intervenção do Estado nesses domínios.
Estas medidas legislativas eram reclamadas também por sectores intelec-
tuais onde se misturavam preocupações científicas e alinhamentos ideológicos:
é o caso da «moda» do eugenismo, que, como vimos e numa fase inicial, teve
algum parentesco com os ideais perfeccionistas dos neomalthusianos
79
. Mesmo
uma democrata e feminista como a Dr.
a
Adelaide Cabete não descura os prin-
cípios da eugenética e, se critica o exame pré-nupcial obrigatório, aconselha o
ensino oficial daquela disciplina
80
. O já citado Dr. Costa Sacadura, activista
também da Liga Portuguesa de Profilaxia Social
81
, termina o seu texto de 1929
75
Costa Sacadura, A Despopulação em Portugal e o Aborto Criminoso (conferênci a), 19 24.
76
Nomeadamente a carta pastoral Natalidade e Matrimónio, do bispo-conde de Coimbra,
Manuel Luís Coelho da Silva; Raul Guchteneere, A Limitação da Natalidade, Braga, 1944; Luís
R aposo, Esboço Crítico do Neo-Maltusianismo, Li sboa, 19 46; e G. Peri co, O Neo-Maltusianismo e a
Limitação dos Nascimentos, Li sboa, 19 62.
77
Decreto n.° 13 470, de 18 de Abril de 1927, no que toca à interdição dos abortivos, e Decreto
n.° 17 636, de 21 de Novembro de 1929, para os contraceptivos.
78
Carlos Salaz ar de Sousa, Necessidades e Deficiências da Assistência Infantil (conferênci a),
1939.
79
Ver F. Rons i n, op. cit, e t a mb é m A. A. Me n d e s Cor r ei a, O Problema Eugénico em Portugal,
Por t o, 1928.
80
Adel ai de Cabet e, Eugénica e Eugenética, Li sboa, 1929.
81
De realçar a publicação das Conferências da Liga Portuguesa de Profilaxia Social, Porto,
1394 1933-51.
com uma lauda à obra de Mussolini (e ao seu imposto sobre os celibatários)
perguntando:
Quando teremos nós um estadista de visão larga que compreenda a
magnitude deste problema e meta ombros à fecunda tarefa? [...] A Pátria
está em perigo
82
.
Anos mais tarde, em 1940, o Congresso Nacional de Ciências da População,
integrado nas comemorações centenárias, vai ser simultaneamente o momento
de reflexão sobre uma evolução já bem identificada das práticas sociais de
procriação e o apelo a políticas mais vigorosas no domínio da natalidade,
seguindo o exemplo da Itália e da Alemanha. À já tradicional moderada nupcia-
lidade dos Portugueses viera juntar-se, sobretudo nas cidades (mas penetrando
já nos campos), a difusão da restrição voluntária da procriação e a prática do
abortamento
83
. Daí o «grito de alerta»» que o presidente do Congresso sintetiza
perfeitamente no seu discurso oficial:
São precisos cada vez mais portugueses e, se possível, cada vez melhores
portugueses. Guerra aos corvos sinistros da restrição da natalidade! Guerra
aos agoirentos profetas da decadência!
84
4.4 Contrariamente ao efeito pretendido pelas políticas natalistas dos regi-
mes fascistas, a evolução demográfica dos países industrializados continuou
sendo a mesma, no sentido de comportamentos neomalthusianos.
E, se o neomalthusianismo, como movimento de intervenção social, parecia
soçobrar, entre as duas guerras, sob os golpes da repressão, de facto apenas
estava sofrendo uma metamorfose, cuja nova face se chamaria birth control*
5
e
tomava balanço para maiores desenvolvimentos.
Os militantes anarquistas neomalthusianos terão sido simultaneamente
os precursores da procriação voluntária e consciente, os bodes expiatórios de
preconceitos e políticas que fizeram o seu tempo e os sinais anunciadores de
novos comportamentos e novas relações sociais hoje plenamente reconhecidos.
Os modernos «controlo de nascimentos» e «planeamento familiar» são-lhes
devedores de alguma coisa. Completar-se-ão — no futuro—as aspirações
daqueles precursores a que a um «bom nascimento» se seguisse uma «boa
educação» e uma «boa organização social»?
82
Costa Sacadura, Considerações [...], cit.
83
Ver os debates subsequentes à apresentação da comunicação de A. A. Garrett, Tendências
[...], cit., no Congresso Nacional de Ciências da População, Porto, 1940.
84
A. A. Me nde s Cor r ei a, Congr es s o Naci onal de Ci ênci as da Popul ação, Por t o, 1940, Discurso
Inaugural.
Entre as comunicações apresentadas refira-se ainda: J. Aires de Azevedo, População e Império;
J. A. Maia de Loureiro, Natalidade, Mortalidade e Selecção da Raça; e os votos do congresso.
85
A grande impulsionadora deste movimento foi a americana Margaret Sanger, que se propôs
substituir a argumentação económico-política do neomalthusianismo por uma outra mais limitada
ao equilíbrio da vida familiar e à luta contra a fatalidade do aborto. 1395
Cronologia sumária
Ano
1798
1803
1854
1876
1896
1902
1905
1906
1909
1910
1911
1912
1913
1914
1920
1922
1929
1940
Portugal
l.
a
tradução de Drysdale, Elementos de
Ciência Social.
Angelo Vaz, Neo-Malthusianismo.
Secção Portuguesa da FIRH.
A Vida.
Luis Bulffi, Greve de Ventres.
Paz e Liberdade.
Novos Horizontes.
Implantação da República.
Teixeira Júnior, Mulheres, não Procreéis!
O Agitador.
Repressão governamental.
Germinal.
O Anarquista.
Germinal.
Repressão governamental.
Proposta de lei anti-N-M.
Procriação consciente.
Proibição de anticonceptivos.
Congresso Nacional de Ciências da Popu-
lação.
Estrangeiro
Malthus, Essay on the Principie of Popula-
tion.
Id., ibid., 2.
a
ed.
Drysdale, Elements of Social Science.
Fundação da Ligue de Ia Régénération
Humaine.
Congresso da Fédération Internationale de
Ia Régénération Humaine, em Liège
(FIRH).
Congresso da FIRH, em Haia.
Início da Grande Guerra.
Lei anti-N-M em França.
1396
Rede primaria
# Rede secundaria
-}-Rede comercial
100 km
I
1397