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Universidade do Sul de Santa Catarina

História Militar Geral I: As Guerras
da Idade Antiga à Idade Moderna

Disciplina na modalidade a distância
Palhoça
UnisulVirtual
2009
Créditos
Unisul - Universidade do Sul de Santa Catarina
UnisulVirtual - Educação Superior a Distância
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Moacir Heerdt
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Nélio Herzmann
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Raulino Jacó Brüning
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Rodrigo Nunes Lunardelli

Criação e Reconhecimento de
Cursos
Diane Dal Mago
Vanderlei Brasil
Desenho Educacional
Carolina Hoeller da Silva Boeing
(Coordenadora)
Design Instrucional
Ana Cláudia Taú
Carmen Maria Cipriani Pandini
Cristina Klipp de Oliveira
Daniela Erani Monteiro Will
Emília Juliana Ferreira
Flávia Lumi Matuzawa
Karla Leonora Dahse Nunes
Leandro José Rocha
Lucésia Pereira
Luiz Henrique Milani Queriquelli
Márcia Loch
Marcelo Mendes de Souza
Marina Cabeda Egger Moellwald
Marina M. G. da Silva
Michele Correa
Nagila Cristina Hinckel
Silvana Souza da Cruz
Viviane Bastos
Acessibilidade
Vanessa de Andrade Manoel
Avaliação da Aprendizagem
Márcia Loch (Coordenadora)
Eloísa Machado Seemann
Franciele Débora Maia
Gabriella Araújo Souza Esteves
Lis Airê Fogolari
Simone Soares Haas Carminatti
Design Visual
Pedro Paulo Alves Teixeira
(Coordenador)
Adriana Ferreira dos Santos
Alex Sandro Xavier
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Anne Cristyne Pereira
Diogo Rafael da Silva
Edison Rodrigo Valim
Elusa Cristina Sousa
Higor Ghisi Luciano
Patricia Fragnani
Vilson Martins Filho
Multimídia
Cristiano Neri Gonçalves Ribeiro
Fernando Gustav Soares Lima
Portal
Rafael Pessi
Disciplinas a Distância
Enzo de Oliveira Moreira (Coordenador)
Franciele Arruda Rampelotti (auxiliar)
Luiz Fernando Meneghel
Gestão Documental
Lamuniê Souza (Coordenadora)
Janaina Stuart da Costa
Josiane Leal
Juliana Dias Ângelo
Marília Locks Fernandes
Roberta Melo Platt
Logística de Encontros
Presenciais
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(Coordenadora)
Ana Paula de Andrade
Aracelli Araldi Hackbarth
Daiana Cristina Bortolotti
Douglas Fabiani da Cruz
Edésio Medeiros Martins Filho
Fabiana Pereira
Fernando Steimbach
Marcelo Faria
Marcelo Jair Ramos
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Formatura e Eventos
Jackson Schuelter Wiggers
Logística de Materiais
Jeferson Cassiano Almeida da Costa
(Coordenador)
Carlos Eduardo Damiani da Silva
Geanluca Uliana
Guilherme Lentz
Luiz Felipe Buchmann Figueiredo
José Carlos Teixeira
Rubens Amorim
Monitoria e Suporte
Rafael da Cunha Lara (Coordenador)
Andréia Drewes
Anderson da Silveira
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Bruno Augusto Zunino
Claudia Noemi Nascimento
Cristiano Dalazen
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Fernanda Farias
Jonatas Collaço de Souza
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Maria Isabel Aragon
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Mayara de Oliveira Bastos
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Poliana Morgana Simão
Priscila Machado
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Produção Industrial
Francisco Asp (coordenador)
Ana Paula Pereira
Marcelo Bittencourt
Relacionamento com o
Mercado
Walter Félix Cardoso Júnior
Secretaria de Ensino a Distância
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(Secretária de ensino)
Andréa Luci Mandira
Andrei Rodrigues
Bruno De Faria Vaz Sampaio
Daiany Elizabete da Silva
Djeime Sammer Bortolotti
Douglas Silveira
Fylippy Margino dos Santos
James Marcel Silva Ribeiro
Jennifer Camargo
Luana Borges Da Silva
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Marcelo José Soares
Micheli Maria Lino de Medeiros
Miguel Rodrigues Da Silveira Junior
Patricia Nunes Martins
Rafael Back
Rosângela Mara Siegel
Silvana Henrique Silva
Vanilda Liordina Heerdt
Vilmar Isaurino Vidal
Secretária Executiva
Viviane Schalata Martins
Tenille Nunes Catarina (Recepção)
Tecnologia
Osmar de Oliveira Braz Júnior
(Coordenador)
André Luis Leal Cardoso Júnior
Felipe Jacson de Freitas
Jeferson Amorin Oliveira
José Olímpio Schmidt
Marcelo Neri da Silva
Phelipe Luiz Winter da Silva
Rodrigo Battistotti Pimpão
História Militar Geral I: As Guerras
da Idade Antiga à Idade Moderna

Disciplina na modalidade a distância
Armando de Senna Bittencourt
Cláudia Beltrão da Rosa
Marcos da Cunha e Souza
Nilson Vieira Ferreira de Mello
Paulo André Leira Parente
Design instrucional
Marina Cabeda Egger Moellwald
Palhoça
UnisulVirtual
2009
Edição – Livro Didático
Professores Conteudistas
Armando de Senna Bittencourt
Cláudia Beltrão da Rosa
Marcos da Cunha e Souza
Nilson Vieira Ferreira de Mello
Paulo André Leira Parente
Design Instrucional
Marina Cabeda Egger Moellwald
Projeto Gráfco e Capa
Equipe UnisulVirtual
Diagramação
Higor Ghisi
Revisão
Amaline Boulus Issa Mussi
Ficha catalográfca elaborada pela Biblioteca Universitária da Unisul
Copyright © UnisulVirtual 2009
Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição.
909.08
H57 História militar geral I: as guerras da idade antiga à idade moderna : livro didático /
Armando de Senna Bittencourt ... [et al.] ; design instrucional Marina Cabeda
Egger Moellwald. – Palhoça : UnisulVirtual, 2009.
198 p. : il. ; 28 cm.
Inclui bibliografa.
1. História moderna. 2. História antiga. 3. Idade Média. 4. História militar. I.
Egger Moellwald. – Palhoça : UnisulVirtual, 2009.
Sumário
Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .7
Palavras dos professores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .9
Plano de estudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
Unidade 1 – A Guerra na Roma Antiga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
Unidade 2 – Guerras Medievais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
Unidade 3 – História Militar Moderna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
Unidade 4 – Poder Naval . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149
Para concluir o estudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 187
Sobre os professores conteudistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193
Comentários e respostas das atividades de autoaprendizagem . . . . . . . . 195
Apresentação
Este livro didático corresponde à disciplina História Militar
Geral I: As Guerras da Idade Antiga à Idade Moderna.
O material foi elaborado visando a uma aprendizagem autônoma
e aborda conteúdos especialmente selecionados e relacionados
à sua área de formação. Ao adotar uma linguagem didática
e dialógica, objetivamos facilitar seu estudo a distância,
proporcionando condições favoráveis às múltiplas interações e a
um aprendizado contextualizado e efcaz.
Lembre que, nesta disciplina, a indicação “a distância” caracteriza
somente a modalidade de ensino por que você optou para a sua
formação, pois sua caminhada será acompanhada e monitorada
constantemente pelo Sistema Tutorial da UnisulVirtual e, na
relação de aprendizagem, professores e instituição estarão
conectados com você.
Então, sempre que sentir necessidade, entre em contato.
Você tem à disposição diversas ferramentas e canais de acesso
tais como: telefone, e-mail e o Espaço Unisul Virtual de
Aprendizagem, que é o canal mais recomendado, pois tudo o
que for enviado e recebido fca registrado para seu maior controle
e comodidade. Nossa equipe técnica e pedagógica terá o maior
prazer em lhe atender, pois sua aprendizagem é o nosso principal
objetivo.

Bom estudo e sucesso!

Equipe UnisulVirtual
Palavras dos professores
Caro(a) acadêmico(a),
Você tem em mãos um trabalho raro na língua portuguesa.
Em um único volume, poderá acessar a História Militar
do Ocidente, desde a Antiguidade até a Queda da Bastilha
(1789).
Repare que esta viagem ao passado não se limitará à
descrição de campanhas militares ou aos feitos dos
grandes generais. Em uma visão moderna da Polemologia,
recorrendo aos autores mais renomados, buscamos
apresentar os diferentes aspectos que nortearam os confitos
armados ao longo dos séculos, para que você tenha, ao seu
alcance, um ponto de apoio para estudos mais aprofundados
e específcos.
Você poderá constatar, por exemplo, que os antigos
plantaram as sementes de muitas das práticas, instituições
e idéias ainda empregadas pelos exércitos de hoje. Terá a
chance de perceber que líderes como Frederico, o Grande,
enfrentaram questões não muito diferentes daquelas
vislumbradas pelos generais dos séculos XX e XXI. Verá,
ainda, como o poder naval teve papel fundamental na
estratégia das grandes potências, desde a antiguidade
clássica.
Por outro lado, também notará grandes contrastes, ao se
deparar com o uso maciço de mercenários, a pilhagem
da população civil e a legitimação de guerras movidas
unicamente por ganhos e glórias.
Ao longo deste caminho, esperamos que as informações
aqui encontradas sejam somadas àquelas que você já
construiu, gerando novas refexões e aguçando a sua
curiosidade.
Bom estudo!
IDADE MODERNA: Período aberto com a queda do Império Romano do Oriente, em 1453, e encerrado
com a Revolução Francesa, em 1789. Principais marcos: fortalecimento dos Estados nacionais
monárquicos, expansão marítima e colonial, expansão do mercantilismo, renascimento cultural e
científico, fermentação ideológica do Iluminismo e independência norte-americana.
ANTIGUIDADE: Tem início com a invenção da escrita e o processo de formação das primeiras
civilizações, por volta de 4000 a.C.É marcada pelo surgimento dos Estados monárquicos, do
escravismo, das religiões monoteístas e das ciências. Estende-se até a queda do Império Romano
do Ocidente, em 476 d.C.
IDADE MÉDIA: Abrange o período iniciado com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476,
até a tomada de Constantinopla, a capital do Império Bizantino (antigo Império Romano do Oriente),
em 1453. As principais características dos mil anos do período medieval – como também é
conhecido – são a expansão dos reinos bárbaros na Europa, a transformação do escravismo em
feudalismo, o surgimento dos impérios feudais, a expansão do cristianismo e do islamismo, o
renascimento do comércio e das cidades e, na América, o apogeu da civilização maia.
Plano de estudo
O plano de estudos visa a orientá-lo(a) no desenvolvimento
da disciplina. Possui elementos que o(a) ajudarão a conhecer
o contexto da disciplina e a organizar o seu tempo de
estudos.
O processo de ensino e aprendizagem na UnisulVirtual
leva em conta instrumentos que se articulam e se
complementam, portanto a construção de competências
se dá sobre a articulação de metodologias e por meio das
diversas formas de ação/mediação.
São elementos desse processo:
„ o livro didático;
„ o Espaço UnisulVirtual de Aprendizagem (EVA);
„ as atividades de avaliação (a distância, presenciais e
de autoaprendizagem);
„ o Sistema Tutorial.
Ementa do Curso
A arte da guerra nas Idades Antiga, Média, Moderna e as
repercussões na História Militar do Brasil.
Carga horária
30 horas – 2 créditos.
Universidade do Sul de Santa Catarina
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Objetivos
„ Identifcar os principais pensadores militares do
Ocidente.
„ Relacionar o signifcado das guerras, os princípios e
a logística de guerra adotados na antiguidade, com a
evolução da arte da guerra na cultura ocidental.
„ Analisar criticamente a evolução do pensamento militar
no ocidente entre a antiguidade e a modernidade


Conteúdo programático/objetivos
Veja, a seguir, as unidades que compõem o livro didático desta
disciplina e os seus respectivos objetivos. Estes se referem aos
resultados que você deverá alcançar ao fnal de uma etapa de
estudo. Os objetivos de cada unidade defnem o conjunto de
conhecimentos que você deverá possuir para o desenvolvimento
de habilidades e competências necessárias à sua formação.

Unidades de estudo: 4
Unidade 1 – A Guerra na Roma Antiga
O fenômeno da guerra no Mundo Antigo é multifacetado e
plural. Nesta unidade, você conhecerá uma abordagem que visa
à compreensão de algumas facetas da guerra na Roma antiga.
Buscando revelar a estreita relação entre a guerra, a política, a
religião e o direito em Roma, apresentaremos dois estudos de
caso: a análise de uma obra de Caio Júlio César, os Comentários
da Guerra das Gálias, e uma breve análise de elementos do direito
sagrado dos sacerdotes feciais (ius fetiales), com base em questões e
modelos teóricos que orientam as pesquisas historiográfcas atuais.
Unidade 2 – Guerras Medievais
Nesta unidade, você estudará a evolução da arte da guerra ao
longo da Idade Média. Destacaremos as transformações surgidas
nas práticas de combate e luta, advindas das migrações das
tribos germânicas e dos normandos em sua estrutura familiar
e suas consequências no período carolíngio. Analisaremos, em
História Militar Geral I
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seu contexto histórico, os dois maiores confitos no âmbito das
guerras medievais: as Cruzadas e a Guerra dos Cem anos.
Unidade 3 - História Militar Moderna
O exame desta unidade permitirá lançar luz sobre um período
da História Militar pouco estudado no Brasil e objeto de
muitos preconceitos. Você poderá então observar que nele se
encontram muitas das sementes que deram forma aos exércitos
contemporâneos e à guerra tal qual a conhecemos hoje.
Unidade 4 – Poder Naval
Nesta unidade, você conhecerá como os povos da Antiguidade
Clássica até o Antigo Regime travavam a guerra no mar,
com ênfase nas transformações da tecnologia naval e o
desenvolvimento das táticas empregadas.

Agenda de atividades/ Cronograma
„ Verifque com atenção o EVA, organize-se para acessar
periodicamente a sala da disciplina. O sucesso nos seus
estudos depende da priorização do tempo para a leitura,
da realização de análises e sínteses do conteúdo e da
interação com os seus colegas e professor.
„ Não perca os prazos das atividades. Registre no espaço
a seguir as datas com base no cronograma da disciplina
disponibilizado no EVA.
„ Use o quadro para agendar e programar as atividades
relativas ao desenvolvimento da disciplina.

Atividades (registro pessoal)
Demais atividades (registro pessoal)
UNIDADE 1
A Guerra na Roma Antiga

Claudia Beltrão
Objetivos de aprendizagem
„
Conhecer as principais questões e modelos teóricos que
fundamentam a abordagem do fenômeno da guerra na
Roma antiga.
„
Compreender a estreita relação entre guerra, política,
direito e religião na Roma antiga.
„
Compreender as distintas facetas da guerra na Roma
antiga por meio de estudos de caso.
Seções de estudo
Seção 1 A questão da guerra nos estudos da
antiguidade romana: perspectivas atuais
Seção 2 Aspectos da guerra na Roma antiga
Seção 3 Estudos de caso: O direito fecial e os
Comentários da Guerra das Gálias
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Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de estudo
É sempre bom começar por uma declaração de intenções. Em
primeiro lugar, é necessário dizer que esta Unidade, denominada
A Guerra na Roma Antiga, apresenta lacunas notáveis, que
não tentamos esconder. Sabemos que algumas questões muito
importantes não serão tratadas. Pode parecer estranho, por
exemplo, que uma Unidade que trata da guerra em Roma não
apresente muitas observações sobre as técnicas de armamento
nem de combate, o que pareceria fundamental para os temas
tratados. Visamos, nesta Unidade, estimular novas pesquisas
e sugerir algumas perspectivas de análise, muito mais do que
oferecer um quadro completo sobre o tema da guerra e uma
discussão cabal sobre a guerra na antiguidade romana, o que
seria não apenas impossível, dada a exiguidade do tempo que nos
foi destinado, assim como não seria desejável, posto que nossa
visão de história nos afasta das versões simplifcadoras de toda
natureza.
Optamos por uma abordagem que prioriza a refexão sobre a
guerra em Roma, buscando estabelecer os rudimentos de uma
problemática: quais são os traços originais da guerra em Roma?
Que lugar ocupou na vida da urbs e como podemos estudar este
fenômeno na sua especifcidade romana? Temos como principal
objetivo lançar algumas luzes sobre o tema da guerra em Roma.

Você sabia que os romanos designavam sua cidade,
em termos físicos, como urbs? Aliás, este termo gerou
vários vocábulos atuais, como “urbano”, “urbanização”.
O conceito de guerra é polissêmico e, certamente, neste curso,
tal polissemia será discutida, mas há consenso, sem dúvida, ao
considerarmos que uma guerra é um confito violento, no qual
são utilizados diferentes tipos de armas (isto é, de tecnologias) e
do qual participam grupos humanos mais ou menos organizados.
Temos como consenso que estes confitos, denominados guerra,
se desenvolvem em um determinado espaço e têm por objetivo
dominar, direta ou indiretamente, um ou mais grupos humanos
ou espaços.
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História Militar Geral I
Unidade 1
A guerra signifca uma interação violenta entre
seres humanos, estratégias, táticas, armas e espaços.
Partiremos desta defnição consensual de guerra
como princípio de nossos estudos.
A guerra, na atualidade, tornou-se uma temática muitas vezes
incômoda, e a refexão sobre ela pode conduzir a debates
ideológicos problemáticos. Ela constitui, porém, parte do passado
e do presente humanos, e uma parte importante, muitas vezes
determinante para a nossa vida. É também por isso que o estudo
das guerras deve fazer parte das preocupações do historiador.
Os fatos, espaços, paisagens, casuísticas, opções geoestratégicas,
ideologias, imaginário, vida quotidiana, sentimentos dos
combatentes, recursos tecnológicos, ações de resistência, etc.
– que constituem a guerra – auxiliam no estudo da dinâmica
das sociedades humanas. O fenômeno da guerra produziu, e
ainda produz, cenários, atores e espaços, e a refexão sobre eles
pode proporcionar uma excelente base para a compreensão das
interações entre os grupos humanos.
Os confrontos violentos entre os seres humanos e a experiência
extrema da guerra podem e devem ser objeto de estudo da
história. Os espaços diretamente relacionados com os cenários
de guerra do passado, os conjuntos poliocérticos e os campos
de batalha se revelam fontes interessantes a partir das quais se
pode fundamentar uma abordagem das diversas interações que
ocorrem nas sociedades quando em guerra.
A seguir, procederemos com uma breve apresentação do estado
atual das pesquisas sobre o tema da guerra em Roma, passando
à exposição de alguns dados e evidências revelados por tais
pesquisas. Com isso, buscamos estabelecer uma via de acesso
à compreensão do fenômeno da guerra em Roma. Por fm,
apresentaremos dois estudos de caso: a guerra em seus aspectos
jurídico e religioso, no caso do direito fecial; e a guerra em seu
aspecto político, no caso dos Commentarii de bello Gallico, uma
das principais obras de Júlio César.
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Universidade do Sul de Santa Catarina
Seção 1 – A questão da guerra nos estudos da
antiguidade romana: perspectivas atuais
A tradição literária romana pretendia que, desde seu período
mais arcaico, o destino de Roma era fazer a guerra. A
tradição literária posterior continuou a animar esta imagem,
propagando o modelo das campanhas militares e, mais ainda,
das virtudes guerreiras em Roma. É muito fácil constatar o papel
preponderante ocupado pela guerra em Roma, o que torna difícil
tratar o tema como objeto de estudo sem ter que quase reescrever
toda a história do Império Romano.
Mas, podemos nos perguntar: até que ponto os
analistas romanos nos apresentam uma imagem fel
da realidade?
A Roma “conquistadora e invencível” só começou a existir nos
documentos romanos em torno do século III a.C., ou seja, em
condições históricas bem defnidas que explicam, em grande
parte, a imagem que esta cidade, envolvida na conquista da
Itália e às vésperas da conquista do Mediterrâneo, criou para seu
próprio uso.
Não temos tempo de dar conta de dados arcaicos, nem de
elementos lendários, mas a questão permanece: seria realmente
possível conceber as frequentes guerras no século V a.C. contra
seus vizinhos equos ou volscos; as guerras samnitas; as guerras
púnicas do século III a.C., as guerras de conquista do século
II a.C., as guerras civis do fnal da República, as guerras do
período imperial como sendo o mesmo fenômeno? Não, isso não
seria possível, pois as diferenças entre elas são muito grandes.
A analítica romana, porém, se esforçou para minimizar as
diferenças evidentes entre esses grandes períodos de atividade
guerreira e para deixar a impressão de uma continuidade
harmoniosa dessas guerras através dos tempos.
Contudo a repetição quase ritual, de ano em ano, da
guerra contra os volscos, por exemplo, nada tem a
ver, nem em termos de tecnologia nem em termos de
extensão geográfca, tampouco, com a ideia que se
fazia de guerra, com as guerras do fnal da República.
19
História Militar Geral I
Unidade 1
Um romano perspicaz, como Tito Lívio, percebia muito bem
que, se os romanos de todos os tempos fzeram guerra, não se
tratava sempre da mesma guerra, que a evolução dos métodos –
principalmente a evolução das concepções de guerra – radicava
nas, e agia profundamente sobre, as estruturas sociais, políticas e
morais de Roma. No entanto esta harmoniosa tradição literária
sobre as guerras em Roma infuenciou profundamente os estudos
de guerra romana, criando falsas continuidades, compactando
tempos e experiências distintas. Em suma, ao longo de séculos, a
historiografa ocidental viu homogeneidade onde e quando havia
uma profunda heterogeneidade.
Ao longo do tempo, assim como em qualquer sociedade, Roma
modifcou totalmente a ideia que tinha da guerra, não porque
simplesmente seus métodos de combate e armamentos foram
aperfeiçoados, mas sim porque houve uma mudança qualitativa no
modo de se fazer a guerra.
Uma das constatações mais óbvias é a de que, para além das
evidências dos aperfeiçoamentos técnicos, Roma passou,
progressivamente, de um tipo de guerra que estava rigorosamente
limitada no tempo e no espaço, a um tipo que se tornou uma
atividade permanente e repartida em locais distantes entre si e da
própria urbs.
A partir de meados do século XX, contudo, pesquisadores
distintos trataram a questão da guerra em Roma por diferentes
ângulos de abordagem, na maioria das vezes relacionando-a
ao tema do imperialismo romano. Moses I. Finley (2002), por
exemplo, tratou da guerra no contexto da expansão territorial
romana e propôs uma periodização da mesma, que constaria
em três fases, caracterizadas pelo sistema de organização das
conquistas.
Vamos ver quais seriam estas fases?
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Universidade do Sul de Santa Catarina
„ uma primeira fase teria sido marcada pela conquista da
Itália Central e Meridional, e produzido diversas presas
de guerra – escravos, riquezas materiais das populações
vencidas – e grandes extensões de terras, além de tropas
auxiliares para o exército;
„ uma segunda fase teria sido marcada pelas Guerras
Púnicas ao fnal da República, quando se deu a formação
inicial do sistema provincial, aumentando as presas de
guerra e os lucros obtidos dos provinciais; e
„ uma terceira fase, quando a pax augusta, sob o
principado, teria reduzido as presas de guerra, mas
aumentado a taxação e as requisições dos provinciais.
Norberto Guarinello (1987), também considerando a guerra no
contexto do imperialismo romano, diz que o modelo apresentado
por Finley não permite observar os elementos estruturais internos
para compreendermos as motivações da expansão e as formas de
sua organização. Este autor distingue dois períodos principais do
imperialismo romano:
1. um primeiro, das origens ao século III a.C.; e
2. um segundo, após o século III a.C., designadamente a
partir da II Guerra Púnica.

Guarinello defende, de modo interessante, o pressuposto de que
as alterações econômicas trazidas pelo acúmulo de bens, terras
e escravos tenha modifcado a dinâmica e a própria natureza
do imperialismo romano, tanto na utilização e distribuição
dos recursos, quanto na forma de organizar e administrar os
territórios conquistados.
Consideramos, contudo, que o fenômeno da guerra constitui um
campo de investigação por direito próprio, ou seja, que a guerra é
um objeto de estudo passível de ser explorado per se. Em linhas
gerais, optamos por trabalhar com três grandes linhas divisórias
na história das guerras romanas, ou seja, três períodos essenciais,
caracterizados cada qual por um tipo de guerra nitidamente
diferenciada em seus fns e em suas concepções. É certo que este
é somente um quadro-modelo, que nos parece viável para tratar
nosso tema num espaço tão curto. Como todo modelo, não se
Seguimos a proposta de
pesquisadores do antigo Centre
de Recherches Comparées sur les
Sociétés Anciennes, fundado por
Jean-Pierre Vernant, em 1964,
atualmente denominado Centre
Louis Gernet, em publicação dirigida
por Jean-Paul Brisson (1969).
21
História Militar Geral I
Unidade 1
trata da pura realidade. Como acontece com qualquer modelo,
nos limitaremos a indicar as grandes articulações desta evolução,
sem considerar detalhadamente as variações de seu ritmo ou as
irregularidades de sua progressão.
1.1 – Primeira Fase
Na época real e etrusca, até a primeira metade do século IV
a.C., podemos perceber que Roma praticou um tipo de guerra
muito comum no mundo mediterrânico (FINLEY, 1984): a
guerra como um modo particular de relação e de competição
entre cidades vizinhas. Este tipo de guerra não punha em causa
a existência das cidades beligerantes, a extensão de seu território,
nem sua soberania política. A vitória trazia o prestígio e, a grosso
modo, funcionava como um meio de trocas entre vizinhos.
Roma, nesta fase, participou da chamada “Liga Latina”, e a
pesquisa histórica ainda discute o momento em que Roma se
tornou a principal cidade desta Liga.
Este tipo de guerra explica os reencontros repetitivos de Roma
contra os équos, os volscos, os etruscos de Fidena ou de Veios,
assim como a anualidade das magistraturas militares e os rituais
de guerra, que se mantiveram ao longo dos séculos, com algumas
alterações. Este modo arcaico de guerra sofreu grandes alterações
por volta do século IV a.C. De guerras sazonais contra vizinhos,
que mais se assemelhavam a escaramuças, empreendidas por
camponeses-soldados, Roma, paulatinamente, desenvolveu um
tipo de guerra de maior extensão temporal e territorial, levada a
cabo por guerreiros cada vez mais especializados em sua função.
Vamos ver como ocorreu o processo que resultou nestas grandes
alterações?
A expansão romana na Itália foi, então, contemporânea ao
processo de consolidação política interna romana. Ameaçada
externamente, a urbs teve não apenas que se defender, mas
também que desenvolver meios para enfrentar as crescentes
necessidades de recursos humanos e materiais. Vejamos como
Pierre Grimal relata isso:
Esta liga reunia cidades e
povos do Lácio, região da
Itália, em aliança.
22
Universidade do Sul de Santa Catarina
[...] Seu império chegava já aos primeiros patamares
dos Apeninos; suas colônias eram bastante fortes para
conter a pressão dos montanheses, os équos e os hérnicos,
situados a este e a sudeste do Lácio. Mas, para o norte,
a rota de conquistas estava cortada por uma cidade
etrusca muito poderosa, que desde há muito era um
rival perigoso. Para destruir Veios foi preciso um sítio
de dez anos, tão longo como o de Tróia. Foi então que,
pela primeira vez, a legião romana aprendeu a executar
manobras de campanha de guerrilha. [...] Durante meses,
os legionários permaneceram nas trincheiras, sob as
muralhas. Essa era uma experiência nova. Até então, as
guerras só ocorriam durante a estação de bom tempo.
O exército se reunia em março – precisamente o mês
dedicado ao deus da guerra –, entrava em campanha
e voltava quando as árvores perdiam suas folhas. Os
soldados podiam velar por seus interesses, controlar a
exploração de seus campos. [...].
Durante o sítio de Veios, como as operações prosseguiam
inclusive no inverno, houve que resignar-se a pagar os
soldados. Camilo, comandante das tropas em Veios,
reclamou e impôs a instituição do soldo. As tropas,
agradecidas a seu chefe, lutaram com mais arrojo e,
fnalmente, Veios sucumbiu. (GRIMAL, 2005, p. 31-2).
A conquista de Veios foi o primeiro grande empreendimento
romano fora do Lácio. O longo confito terminou em 396 a.C.,
com a destruição de Veios, cujo território foi anexado. Mas uma
grave ameaça surgiu com a invasão dos gauleses, povo guerreiro
celta que ocupava o território desde a Germânia até a Gália (que
correspondia, em parte, ao território da atual França) e que se
estabeleceu na planície do Pó, no norte da Itália. Em 390 a.C.,
os gauleses invadiram Roma. P. Grimal reproduz uma narrativa
lendária sobre esta invasão:
Durante longos dias, teve lugar o sítio do Capitólio. Uma
noite, os gauleses tentaram escalar a colina, aproveitando
a obscuridade. Fizeram tão pouco ruído que nem os cães
de guarda ouviram; parecia que seu intento teria um
bom sucesso, quando, de repente, os gansos sagrados
criados no santuário de Juno despertaram e começaram
a grasnar. Deu-se o alarme. Os soldados correram aos
postos de alerta; os primeiros inimigos estavam pondo
o pé na plataforma. Mas os romanos se lançaram sobre
eles, e os fzeram cair com todo o seu peso sobre os
companheiros que os seguiam. Resumindo, o ataque
23
História Militar Geral I
Unidade 1
fracassou. Ainda assim os víveres se esgotavam e não
poderiam resistir por muito tempo. Pressionados por seus
soldados, os chefes romanos tiveram que empreender
negociações, aceitar a idéia de rendição e perguntar
pelas condições de Breno (o líder dos gauleses). Este
pediu ouro, muito ouro, e prometeu respeitar a vida dos
combatentes. No dia seguinte, os ofciais romanos saíram
da cidadela, acompanhados por escravos que portavam
o metal para o resgate. Começou-se a pesá-lo e, quando
se alcançou o peso acordado, Breno lançou sua espada
no prato da balança e exigiu que se agregasse ao resgate
o sufciente para restabelecer o equilíbrio. Os romanos
protestaram: “A desgraça caia sobre os vencidos!”, lhes
disseram. Mas houve que obedecer. Fartos de ouro,
aplacados pelo butim, os gauleses acederam por fm a
abandonar Roma e a retomar o caminho do norte. Os
romanos asseguraram-se de que não fossem muito longe:
que Camilo conseguiu reunir um exército de auxílio entre
as cidades aliadas de Roma, temerosas do perigo gaulês,
que atacou aos gauleses enquanto se retiravam. Seja como
for, Roma sentira o medo; estivera perto de sucumbir, e
entendeu que nem as mais sólidas muralhas servem de
nada se não há braços para defendê-las. A guerra a havia
arruinado, boa parte de suas casas tinham sido queimadas
ou destruída, e perdera a honra. Assim é que, por muito
tempo, os gauleses seguiram inspirando temor aos
romanos. Durante séculos, bastava que se pronunciasse
seu nome para que todos saíssem correndo buscando
armas. (GRIMAL, 2005, p. 34-5).
Depois de superarem esse perigo, os romanos conquistaram a
região do Lácio, cujos habitantes, os latinos, foram absorvidos e
incorporados à cidadania romana. Com isso, Roma desfez a Liga
Latina e se tornou a senhora do Lácio.
Após combater essas populações vizinhas e consolidar sua
posição no Lácio e nas áreas limítrofes, Roma iniciou, no século
IV a.C., uma ofensiva para deter o avanço de populações de
montanheses ao sul, que seguiam do interior em direção à costa.
Após a submissão da Itália central, as vitórias romanas levaram
à conquista da Itália meridional e do sul. E quase dois séculos,
depois, de luta pela supremacia na Itália, Roma tornou-se uma
potência de âmbito internacional.
24
Universidade do Sul de Santa Catarina
Passando por este breve percurso das conquistas de Roma, como
podemos explicar a velocidade na qual elas ocorreram?
Certamente, uma resposta simples não é possível, se é que
existem respostas simples quando estudamos a história romana.
Se observarmos, contudo, o modo como os romanos agregavam
as populações dos territórios conquistados, talvez tenhamos uma
pista para a compreensão desse sucesso. O conceito de cidadania
romana era muito mais amplo e fexível do que, por exemplo, o
espartano ou o ateniense. Tornavam-se cidadãos romanos todos
os escravos que eram manumitidos (os libertos), ainda que não
dispusessem da totalidade dos direitos políticos. Os flhos de
libertos, contudo, tinham a cidadania plena, pois a concepção
era a de que, sendo flhos de libertos, estes já nasciam livres. Do
mesmo modo, os romanos concediam a cidadania a pessoas e
povos aliados.
Muitos estudiosos veem nisso um dos motivos do sucesso romano,
pois a concessão da cidadania fazia com que Roma passasse a se
expandir, também de modo pacífco, a partir de tratados de aliança
com outros povos e cidades.

Após dominar o Lácio, Roma voltou-se para o sul da península.
Conseguiu fazer alianças importantes com cidades gregas da
Campânia. A partir da Campânia, Roma se deparou com os
povos samnitas, que ocupavam a região montanhosa central da
península, a quem derrotou após duas longas guerras. Abaixo da
Campânia, as cidades da Magna Grécia capitularam, uma após
a outra, e, em 272 a.C., Roma tinha assegurado o seu domínio
sobre toda a península itálica.

Figura 1.1 – Guerreiro samnita, pintura parietal do período republicano.
Fonte: <http://www.escolar.com/avanzado/historia014.htm>.
A Campânia era uma região fértil
agricolamente e tinha portos
importantes para a expansão
romana.
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História Militar Geral I
Unidade 1
1.2 – Segunda fase
A partir de meados do século IV a.C., a guerra muda de
signifcado, tornando-se o meio principal de uma política de
expansão, levada às últimas consequências nos últimos anos da
República, no século I a.C., com as campanhas de Pompeu, no
Oriente e de César, na Gália. É certo que esta transição foi lenta
e, por muito tempo, aspectos arcaicos da guerra subsistiram. As
guerras do século III a.C., incluindo a I Guerra Púnica, a qual,
nem de longe, lembra uma guerra de tipo republicano tardio,
guardavam ainda a aura das épocas arcaicas. Estamos longe de
discernir todos os passos destas transformações.
Ao longo dos três séculos que se estendem desde a dissolução da
Liga Latina às Guerras Civis de fns da República, mudanças radicais
não pararam de ocorrer em função de objetivos novos e cada vez
mais conscientemente afrmados. Esta foi a época, por exemplo, em
que ocorreram grandes transformações técnicas, de aperfeiçoamento
da tática manipular e da criação da frota romana, que, rapidamente,
assegurou à urbs o domínio do mar.

Guerras cada vez mais longínquas e fronts muitas vezes
simultâneos levaram os romanos a pôr em ação forças superiores
às quatro legiões tradicionais e anuais do exército consular,
prorrogando tanto o tempo de serviço de seus legionários, quanto
os comandos de seus generais, a fm de assegurar a unidade
estratégica e temporal de uma mesma guerra. Para isso, eram
admitidos nas fleiras de batalha até mesmo os cidadãos capite
censi. A partir de então, a guerra trouxe consequências políticas
que o século V a.C. não conheceu.
Por volta de 338 a.C., uma guerra levada por Roma, quer fosse
por iniciativa ou defesa, só fndava se houvesse uma modifcação
radical das relações políticas com o adversário. Da administração
do direito de cidade à administração direta dos territórios
conquistados por um promagistrado, passando por todas as
variedades de estatutos que ligavam Roma aos outros povos,
as formas concretas da conquista foram múltiplas no espaço e
no tempo, mas o princípio era o mesmo: a vitória das armas
romanas levava à sujeição política dos vencidos. A guerra se
tornou o meio privilegiado de conferir a Roma o estatuto de caput
Estes cidadãos eram os
que não tinham terras a
defender.
26
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mundi. As guerras de conquista e os pactos de aliança trouxeram
consequências importantes para as instituições romanas.
Vamos ver quais foram algumas delas?
Roma começou a englobar sistemas locais muito diversos, como:
poleis gregas meridionais, ricos centros agrícolas da Campânia,
cidades etruscas com instituições urbanas desenvolvidas, e
povoados mais simples de pastores das regiões dos Apeninos.
Unifcar a península itálica sob sua hegemonia se tornou
um grande problema, devido às diferentes estruturas das
comunidades a ela submetidas. Os romanos, então, começaram
a empregar várias estratégias, tendo em vista esta união: a
aristocracia criou laços de amicitia com as classes dirigentes de
outras cidades, permitindo a entrada de famílias das elites itálicas
na aristocracia senatorial, estabelecendo relações políticas – e
redes de clientela – além de alianças familiares com os grupos
dirigentes de cada sociedade submetida a ela.
Na península, as populações sob o domínio romano adquiriram
situações jurídicas diferentes perante a urbs, que frmou múltiplos
tratados de aliança com as cidades itálicas. Teoricamente
autônomas, as cidades se comprometiam a prestar auxílio militar
em caso de confito externo, fornecendo soldados. Existiam
as ciuitates sine sufragio, onde os habitantes eram considerados
cidadãos de segunda classe, os quais gozavam de cidadania
romana incompleta, sem direito de voto nas assembleias.
Algumas cidades recebiam a condição de municipium, ou seja,
comunidade cuja população local tinha a cidadania romana,
assim como total autonomia em relação aos assuntos internos.
A política de conceder cidadania romana de várias maneiras a
elementos itálicos era uma forma de integrá-los e assegurar o
fornecimento de quadros para o exército.
Cada legião do exército romano compreendia 3.000
homens de infantaria pesada, mais 1.200 vélites
(infantaria ligeira) e 300 equites (cavaleiros).
A cada ano, era feito o recrutamento, destinado apenas aos
proprietários, visto que havia uma crença de que lutavam melhor
Estes eram os chamados aliados
ou socii, termo do qual derivou a
palavra “sócio”.
Os romanos chamavam este
treinamento de tirocinium militae.
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História Militar Geral I
Unidade 1
os homens que tinham terras para defender. As legiões só não
eram recrutadas nos anos em que Roma não estava envolvida
em nenhuma campanha militar, o que era raro no período
republicano.


Figura 1.2 – Revelo representando legionários romanos.
Fonte: <http://bloguehistorico5.wordpress.com/category/imperio-romano/>.

As guerras adquiriram um papel ainda mais importante como
meio de resolução dos problemas sociais internos, na medida
em que elas ampliavam o território romano. A questão da
manutenção da unidade de governo e administração era das mais
difíceis, principalmente nas regiões mais afastadas, a milhares de
quilômetros. Era necessário construir e manter estradas para que
o exército e os funcionários alcançassem os lugares mais distantes
e para que os impostos pagos chegassem a Roma.
Para assegurar a ordem entre os conquistados, Roma tinha de
manter postos avançados e acampamentos militares espalhados
pelo território imperial. Era preciso alimentar e armar os
soldados onde eles estivessem, assim como era necessário fazer
chegar ordens de Roma às tropas e governos mais distantes.
Mesmo com todas as difculdades de transporte e comunicações
da época, o Império se manteve unido por um período bastante
longo. Para controlar tantos povos diferentes, dominar tão grande
território, cobrar impostos, reprimir revoltas e guardar fronteiras,
os romanos contavam com armas, navios, escravos e centenas
de funcionários. Contudo, para uma imensa população, de até
cinquenta milhões de habitantes deste território, a estimativa
para o exército é de apenas, no máximo, 390 mil homens, e
a burocracia imperial também nunca foi muito grande, o que
demonstra a importância das elites locais para a manutenção do
Império.
28
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A capacidade administrativa dos romanos em seu Império deve
ser lembrada com destaque. Nos primeiros séculos, ainda da
Itália, os romanos estabeleciam tratados com diversos povos e
assentavam cidadãos romanos em colônias. Quando, a partir
do fnal do século III a.C., conquistaram terras fora da Itália,
criaram-se províncias.
Cada província tinha uma capital, onde o governador era
assistido também por um conselho provincial, formado pela elite
local e funcionários. Na base estavam as cidades, cada uma com
grande autonomia na gestão de seus assuntos, com constituição
própria, câmaras municipais (ordo decurionum) e magistrados
locais (duunviros).
Desse modo, podemos perceber a importância das elites
locais para a manutenção do Império Romano. A organização
institucional da res publica, que você conheceu na aula anterior,
não permitia a presença constante de ofciais romanos em
províncias que se tornavam cada vez mais distantes em relação a
Roma. Por meio da cooptação das elites locais, pela concessão da
cidadania, pelas redes de amicitia, por tratados, alianças e outros
meios, Roma conseguia manter tais elites féis a si, mantendo as
províncias vinculadas ao Império.
A aristocracia senatorial romana conseguia, assim, controlar o
imenso corpus territorial romano, fortalecendo-se ainda mais.
Mas, se a aristocracia romana vivia um momento de grande
poder e riqueza, as coisas não andavam bem para a população
mais pobre da Itália e da própria urbs.
As guerras muito longas, em locais distantes, por exemplo,
tornavam cada vez mais difícil a participação dos camponeses
romanos na infantaria. Desse modo, a urbs teve de se deparar
com novos problemas, especialmente vinculados, por um lado, à
manutenção desse Império e, por outro, às questões trazidas por
seu próprio enriquecimento. A sociedade romana começou a se
transformar rapidamente. As guerras começam a gerar grandes
lucros, em especial por meio da captura e venda de inimigos
como escravos, que passaram a ser utilizados como mão-de-obra
em larga escala, nas villae, as propriedades rurais aristocráticas,
as quais passaram a produzir em escala industrial vinho e azeite
especialmente; e nos latifundia, nome latino para as imensas
propriedades fundiárias que foram criadas após as conquistas
29
História Militar Geral I
Unidade 1
romanas, estabelecidas especialmente na Sicília, uma região
propícia para o cultivo em larga escala de trigo.
Vamos ver de que maneira os problemas sociais internos de Roma
foram sendo resolvidos com as intervenções da guerra?
As terras conquistadas signifcavam a ocupação e a exploração
econômica das zonas anexadas. O fato mais importante é que
as guerras conquistadas se tornaram fundamentais para toda a
sociedade romana. Muito cedo, os romanos perceberam que elas
eram também um empreendimento lucrativo: traziam a riqueza
do saque para os soldados e seus comandantes. Mas não só os
militares eram benefciados com as guerras: os cidadãos mais
pobres também o eram, com a aquisição de terrenos nas áreas
conquistadas, tanto nas vizinhanças de Roma como nas colônias
romanas ou latinas recém-fundadas. Além disso, os combates
proporcionavam a glória militar, o que era de interesse da
aristocracia dirigente, a qual, assim, afrmava sua superioridade e
garantia as magistraturas para seus membros, e estes se tornavam
famosos na urbs.
A expansão era, então, de interesse geral, já que o
êxito militar permitia a solução de vários problemas
romanos à custa dos vencidos.
A hegemonia romana na península foi facilitada pelos
estabelecimentos feitos nas colônias. O recurso à colonização
criou uma camada de camponeses leais a Roma por quase toda
a Itália. A partir da fundação de Óstia, na metade do século IV
a.C., foram criadas ao longo da costa itálica diversas guarnições
romanas, como Anzio, Terracina e Minturno, entre 338 e 283
a.C. Com o passar do tempo, várias fundações seguiram-se a
essas.
As colônias eram as
cidades fundadas nos
territórios conquistados e
anexados por Roma.
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Figura 1.3 – Rua de Óstia.
Fonte: <http://www.bsos.umd.edu/econ/euro/Ostia.htm>.

Nessas colônias, que tinham originalmente um objetivo militar,
os cidadãos romanos receberam pequenos lotes de terra e
conservaram sua cidadania. Também foram criadas colônias
latinas, nas quais eram instalados contingentes maiores de
pessoas. Essas eram formadas por “latinos”, ou seja, não romanos,
que recebiam lotes maiores de terra sem, entretanto, tornarem-
se cidadãos com plenos direitos, pois não podiam votar nas
assembleias.
O Império Romano foi, então, a herança de uma expansão territorial
que durou muitos séculos. Nos primeiros séculos de sua história,
Roma entrou em vários confitos no Lácio, dominou povos vizinhos
ou fez alianças com eles, expandindo-se primeiro em direção ao Lácio
e, depois, à Itália central, meridional e setentrional.

Os povos conquistados recebiam um tratamento muito
diversifcado, segundo sua posição em relação ao poder romano.
Os que se aliassem, recebiam direitos totais ou parciais de
cidadania, enquanto os derrotados que não cedessem eram
subjugados; vários foram vendidos como escravos ou submetidos
a tratados muito desiguais que faziam chegar a Roma muitas
riquezas, na forma de escravos, impostos e tributos.
Como explicar o sucesso desta conquista histórica em tão poucas páginas?
31
História Militar Geral I
Unidade 1
Esta é uma tarefa impossível! Então, vamos apresentar apenas
algumas observações sobre o tema. Roma, talvez por ter-se
originado de uma união de povos, parecia saber conviver com as
diferenças e adotava soluções engenhosas para evitar a oposição
e cooptar possíveis inimigos, como a da inclusão dos membros
das elites dos povos aliados na órbita romana, concedendo a
eles cidadania romana. Assim, havia povos que se aliavam aos
romanos e tornavam-se seus amigos, enquanto outros lutavam e,
ao perderem, eram submetidos ao jugo romano.
Na prática, a aliança com Roma signifcava o fornecimento
de forças militares, como também a aceitação da hegemonia
política romana, mas existia um grau variável de integração com
o Estado romano. Os que se opunham a esta dinâmica de poder
eram massacrados ou escravizados; suas terras eram tomadas e
divididas entre os romanos e seus aliados. Este método, até então
inédito, de tratar diferencialmente os povos vencidos era muito
efcaz e favorecia o domínio romano, pois difcultava a união dos
derrotados e as revoltas contra Roma.
Alguns povos aliados recebiam plenos direitos de cidadania,
incluindo o direito ao voto. Outros recebiam apenas o
direito latino – limitado –, que excluía a possibilidade de
votar. Com outros povos, ainda, Roma estabelecia alianças
que lhes permitiam manter seus próprios magistrados e leis
tradicionais, submetendo-os, porém, à tutela romana e exigindo
que fornecessem regularmente as tropas auxiliares, quando
requisitadas. Com o intuito de prevenir revoltas, Roma construiu
estradas por toda a Itália, as quais permitiam o deslocamento
rápido das tropas e fundou numerosas colônias sobre o território
dos povos aliados, além de garantir, com a sua rede de estradas, a
comunicação entre a urbs e suas províncias.
Figura 1.4 – Estrada romana de Setúbal (Portugal).
Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Estrada_romana.jpg>.
Estas eram também
chamadas de tropas
auxiliares.
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Após controlar toda a península itálica, Roma entrou em contato
direto com Cartago, uma superpotência do Mediterrâneo antigo,
situada no norte da África e fundada pelos fenícios em 814 a.C.
As cidades do Mediterrâneo ocidental, sem exceção, reconheciam
a supremacia cartaginesa, mas a rapidez da expansão romana
funcionou como um alerta para Cartago, pois signifcava o
surgimento de uma possível ameaça à sua zona de domínio
comercial.
Figura 1.5 – Império Cartaginês à época das Guerras Púnicas.
Fonte: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/44/CarthageMap.png>.

Mesmo com a conquista constante de novos territórios, o ímpeto
expansionista romano não tinha diminuído. Os enfrentamentos
entre as poderosas cidades de Roma e Cartago iniciaram na
Sicília, ilha situada entre estas cidades, que era rica o sufciente
para despertar o interesse da aristocracia fundiária romana. Isto
ocorreu no início da I Guerra Púnica (264-241 a.C.). Ao longo
desta guerra, Roma, que jamais enfrentara um combate naval,
precisou construir uma frota para proteger sua costa e bloquear
os estabelecimentos cartagineses na Sicília, e conseguiu destruir
uma grande frota púnica nas ilhas Egates, levando Cartago a
aceitar um tratado de paz. Os vencidos desocuparam a Sicília
e aceitaram pagar em dez (10) anos uma pesada indenização.
Valendo-se das difculdades de Cartago, Roma aproveitou para
ocupar a Sardenha. Este foi o início da expansão territorial
romana fora da península itálica.
Vale a pena observar que o termo
“púnico” refere-se a Cartago.
Os romanos chamavam aos
cartagineses de poeni (fenícios,
em latim), nome do qual derivou o
vocábulo púnico.
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História Militar Geral I
Unidade 1


Figura 1.6 – Relevo com imagem de navio de guerra romano.
Fonte: <http://www.escolar.com/avanzado/historia014.htm>.
Assim, após a I Guerra Púnica, Roma tornara-se também uma
potência marítima: com a conquista da Sicília (241 a.C.), da Sardenha
e da Córsega (237 a. C), pôde organizar estas ilhas como as primeiras
províncias romanas e expandir-se pelo Mar Mediterrâneo.
Após o fracasso contra Roma, o general cartaginês Amílcar
Barca defendeu um projeto de expansão fora da África. Veteranos
e mercenários de Cartago desembarcaram na península ibérica,
conquistando territórios que correspondem à atual Andaluzia,
a partir de Gades. A existência de minas nessa região permitiu
a Cartago a cunhagem de moedas com maior teor de prata,
restabelecendo as perdas que tivera com sua derrota.
Em 218 a.C., Aníbal, flho de Amílcar, retomou a guerra
contra Roma. Partindo da península ibérica, invadiu a
península itálica pelo noroeste, tendo que atravessar os Alpes.
A operação levou cinco (5) meses, causando a perda de parte
dos efetivos no caminho. Tornou-se um mito esta travessia
de Aníbal pelos Alpes com seu exército, que incluía temíveis
elefantes, verdadeiros tanques de guerra. Os romanos, que nunca
tinham visto um elefante, fcaram apavorados. Aníbal ainda
tinha a esperança de que muitos dos aliados dos romanos os
abandonassem, o que enfraqueceria seu poder.
Os romanos foram surpreendidos pela chegada dos cartagineses
procedentes do norte, estes mesmos que atravessaram os Alpes,
sendo obrigados a defender o Vale do Pó, e sofreram uma grave
Aproveite esta fonte para
visualizar a localização de
Roma no mapa, assim como
os territórios ao seu redor.
34
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derrota no lago Trasímene. Aníbal, então, se dirigiu para a Itália
meridional, e Quinto Fábio, nomeado ditador para fazer frente
à situação, optou pela tática de evitar batalhas campais, dada a
força bélica dos cartagineses. Seguiu-se uma guerra de devastação
de ambas as partes. Decididos a enfrentar Aníbal em batalha, os
romanos sofreram outra derrota em Cannae (216 a.C.), perdendo 80
mil homens, um cônsul e numerosos senadores. Vários aliados de
Roma passaram para o lado de Aníbal, que se instalou em Cápua.
A partir de 215 a.C., seguiu-se uma guerra de desgaste, na qual
Roma chegou a recrutar 25 legiões. A urbs conseguiu resistir
devido a vários fatores. Vejamos quais foram alguns deles:
„ suas muralhas;
„ sua frota; e
„ a fdelidade dos aliados da Itália central e de suas
colônias.

Só em 211 a.C., Roma conseguiu tomar Cápua e Siracusa. Em
209 a.C., recuperou Tarento e Cartagena, com seus arsenais e
minas de prata. Finalmente, o general Públio Cornélio Cipião
convenceu os romanos a invadir a África, o que foi um golpe de
mestre, pois Aníbal foi chamado de volta para defender a sua
cidade, abandonando a península itálica.
Derrotados em Zama, perto de Cartago, os cartagineses aceitaram a
paz em 201 a.C.: entregaram sua frota, abandonaram todas as suas
possessões fora da África e se comprometeram a pagar outra pesada
indenização de guerra.
Com isso, Roma adquiriu territórios na Hispânia e anexou
Siracusa, na Sicília. Também castigou duramente os aliados que
passaram para o lado de Aníbal:
„ confscou suas terras;
„ a elite dirigente foi sumariamente executada;
„ exigiu multas pesadas;
„ instalou guarnições militares e destruiu suas muralhas.
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História Militar Geral I
Unidade 1
Em Roma, a ideia de expansão já tinha conquistado senadores
e cidadãos. Os aristocratas não queriam renunciar a novas
oportunidades de glória e de butim e os negociantes itálicos e
fornecedores do exército queriam novas chances de comércio; o
povo, por sua vez, tinha esperanças de conquistar mais terras. A
urbs, então, começou a ter interesses econômicos no Oriente.
No decorrer do século II a.C., as legiões romanas submeteram
a Macedônia (171-168 a.C.), destruíram Cartago no fnal da
III Guerra Púnica (149-146 a.C.), submeteram a maior parte
da península ibérica e ocuparam a Grécia em 146 a.C., numa
expansão cada vez mais vertiginosa. Os territórios ocupados
foram anexados ao Estado romano e organizados em forma de
novas províncias: a Hispânia, em 197 a.C., a Macedônia, em 148
a.C., a África, em 146 a.C. e a província da Ásia (antigo reino de
Pérgamo), em 133 a.C.
As consequências dessa expansão foram imensas, pois esses
territórios, que continham populações e cidades variadas e
antigas, compreendiam áreas de produção agrícola muito
desenvolvidas e dispunham de jazidas de matérias-primas,
como as minas de prata da Hispânia. Também forneceram uma
grande quantidade de prisioneiros de guerra – escravizados – e
de provinciais desprovidos de direitos e submetidos à exploração.
Abriram-se novos mercados aos negociantes itálicos para as
atividades comerciais e empresariais, sem qualquer tipo de
concorrência.
Vemos então que, ao fm de apenas meio século,
Roma transformara-se numa potência mediterrânea e
adquirira um império territorial. Os romanos podiam,
então, chamar o Mediterrâneo de mare nostrum: nosso
mar.
A partir daí, Roma sustentou um impressionante afuxo de
riquezas, principalmente sob forma de dinheiro e escravos
provenientes do saque das guerras e da exploração das suas
províncias. Esta situação permitiu que o senado, em 167 a.C.,
isentasse os cidadãos romanos do tributum, o imposto direito que
recaía sobre eles. Os territórios conquistados pagavam impostos
à urbs, que enriquecia cada vez mais. Além disso, as aduanas
estabelecidas em vários locais, como Óstia, Cápua, Puteoli, entre
36
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outras, assim como a exploração de minas de prata, asseguravam
rendimentos regulares ao tesouro.

1.3 – Terceira Fase
Um novo período se inicia com o principado e a pax augusta.
A guerra muda de sentido mais uma vez, para se tornar uma
atividade periférica, apropriada para manter a integridade
territorial e o funcionamento do imperium. Aos poucos, a
expansão conquistadora deu lugar a uma concepção defensiva
de guerra: tratava-se de assegurar a estabilidade das fronteiras e
garantir a segurança interna.
O papel da guerra, nesta terceira fase, deixou de ser o de instrumento
de uma política imperialista para se tornar o instrumento de
diferenciação entre o mundo romano e o mundo exterior. Esta
mutação foi tão importante quanto as duas primeiras para a história
de Roma e de seu Império.

Desde o período republicano, Roma dera início à sua expansão
territorial, em primeiro lugar, na península itálica. Nos séculos
III e II a.C., após três guerras contra os cartagineses (as guerras
púnicas), motivadas pela rivalidade entre os dois povos em relação
ao comércio e à navegação no Mediterrâneo, Roma conquistou
a Sicília, o norte da África, a península ibérica e os reinos
helenísticos. No século I a.C., foram conquistados os territórios
da Ásia Menor, o Egito e a Gália. O alcance geográfco do
domínio romano ainda hoje chama a atenção, pois nunca houve
império territorial tão grande e integrado como o romano.
O Império Romano englobava milhões de pessoas. Mas como será que
os romanos asseguraram a hegemonia necessária para manter unida
tão vasta extensão territorial?
Denominado aerarium para os
romanos.
37
História Militar Geral I
Unidade 1
Figura 1.7 – Império Romano em 117 d.C.
Fonte: <http://www.historiadomundo.com.br/romana/mapa-do-imperio-romano>.
Observando o enorme espaço geográfco que o domínio romano
alcançou, em seu apogeu, no século II d.C., percebemos que
muitos povos diferentes foram englobados no Império:
„ hebreus, no Oriente Médio;
„ bretões, na atual Inglaterra;
„ gauleses, habitantes das Gálias, que correspondiam ao
território da França;
„ egípcios;
„ gregos e muitos outros povos.

Alguns desses povos foram submetidos aos romanos, enquanto
outros eram incorporados ao Império, devendo apenas pagar
tributos. Segundo Pierre Grimal:
Muitos se têm interrogado sobre os motivos que terão
levado os romanos a reunir assim, no seu imperium,
povos tão diferentes, cuja diversidade tornava difíceis
de administrar e que não podiam ser incluídos num
quadro jurídico único, aplicável a todos. Vários motivos
desempenharam, com certeza, um papel, para além do
38
Universidade do Sul de Santa Catarina
puro e simples instinto de dominação. Em primeiro
lugar, aquilo a que podemos chamar um medo obsessivo.
O Lácio, cantão de dimensões restritas na Itália central,
tinha de garantir a sua segurança frente a populações
diversas, vindas dos Apeninos ou da Etrúria [...]. Quando
já não se trata mais da Itália, mas de um quadro mais
vasto, permanece o mesmo sentimento [...].
Tal sentimento justifcava-se sempre que o inimigo
fosse um “bárbaro”, afastado, na maneira de viver, dos
princípios e dos valores romanos.[...] Mas só poderia
aplicar-se aos povos bárbaros, essencialmente das
províncias ocidentais e, no Oriente, a alguns que o
helenismo não abrangera. Nos países helenizados, pelo
contrário, era Roma que podia fazer fgura de bárbara
[...].
Os Romanos apresentaram-se muito cedo como
“protetores” dos Gregos, o que constitui um primeiro
passo para a integração no imperium, a partir do
momento em que a proteção se exprime pela conclusão de
uma aliança, pela assinatura de um tratado. (GRIMAL,
1999, p. 22-3).
A questão da manutenção da unidade de governo e administração
era das mais difíceis, principalmente nas regiões mais afastadas,
a milhares de quilômetros. Era necessário construir e manter
estradas para que o exército e os funcionários alcançassem os
lugares mais distantes e para que os impostos pagos chegassem a
Roma.
O estatuto de caput mundi foi, então, expresso, visual e
materialmente, pelo Orbis Terrarum, um famoso mapa elaborado
sob o comando de Marco Vipsânio Agripa, herói de guerra
romano, genro e amigo íntimo de Augusto. Este mapa é um dos
exemplos máximos da propaganda imperial romana.
Vamos saber um pouco mais sobre como ele foi concebido?
Para medir as dimensões do mundo sob as águias romanas,
Agripa, braço direito do princeps, convocara os mais destacados
sábios de sua época e lhes fornecera arquivos cheios de
coordenadas do território que fora acumulado pelas legiões
imperiais. Os melhores agrimensores do mundo foram enviados
para fazer o levantamento de todos os rincões dos domínios
de Roma, os capitães dos navios imperiais e comerciais foram
contatados para elaborar desenhos do relevo de todos os litorais
por onde haviam navegado.
39
História Militar Geral I
Unidade 1
Em seguida, todos esses dados foram aplicados ao modelo
do qual se tinha da Terra: um mundo redondo, cuja terra
frma ocupava apenas o hemisfério norte e era cercada pelo
intransponível Okeanós. O mapa foi iniciado aproximadamente
no ano 27 a.C., e existem dúvidas quanto ao ano de sua
inauguração. Há relatos, de acordo com algumas fontes, de que
o Orbis Terrarum tenha sido inaugurado em 20 a.C., enquanto
outras afrmam que a inauguração deu-se em 12 a.C., após a
morte de Agripa. O resultado de todo esse esforço foi um mapa
de exatidão sem precedentes. O Orbis Terrarum foi instalado
do lado leste da Via Lata, no Campo de Marte, onde todos os
habitantes de Roma e a multidão de seus visitantes podiam vê-lo
com clareza.
Mas e o que viam do mundo?
Viam que o mundo conhecido, o Orbis Terrarum, tinha um
formato redondo e que se aglomerava ao redor do Mediterrâneo,
um lago romano, o Mare Nostrum. Viam, também, a imensidão
dos domínios: as águias imperiais voavam das Colunas de
Hércules até as sete bocas do Nilo, e bastava olhar para o Mapa
de Agripa para comprovar que era assim.

Figura 1.8 – Orbis Terrarum.
Fonte: <www.arqweb.com>.
Também chamado de
invólucro. Representava
a ideia do rio do fm do
mundo.
Hoje, Via del Corso.
(reconstrução posterior
a partir de fontes
textuais). O Orbis Terrarum
estabelecia, de maneira
evidente, para todos os
cidadãos do Império, o
caráter sagrado de Roma.
Sua posição equidistante
entre o centro e o
perímetro do centro da
Terra conferia a Roma,
graças às conquistas
imperiais, uma nova
centralidade. Roma era o
novo centro do mundo.
40
Universidade do Sul de Santa Catarina
Milhares de cópias do Orbis Terrarum foram levadas a todas
as grandes cidades do Império, como prova visual do poderio
romano. A mensagem do mapa era inequívoca: o mundo
era romano. Infelizmente, nenhuma cópia chegou até nós.
A reconstrução acima se baseia em dados de mapas mundi
medievais, que foram copiados, a priori, dos mapas romanos, ao
lado de descrições textuais de Estrabão, Pompônio Mela e Plínio,
o Antigo.
Mapas anteriores apresentavam o Nilo como o eixo do cosmos na
antiguidade, sendo Éfeso o seu centro. Mas, desde o principado
de Augusto, o novo centro do mundo tornou-se Roma, e o Mapa
de Agripa explica este novo mundo aos cidadãos. Concomitante
à inauguração do Orbis Terrarum, Augusto dispôs a pedra
fundamental do Miliarum aureum
Figura 1.9 – Soldados romanos construindo uma estrada. Métopa da Coluna de Trajano.
Fonte: <http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Metopa_Columna_lui_Traian_Constructie_drum.jpg>.

Na seguinte seção, a partir de dois estudos de caso, vamos conhecer um
pouco mais sobre a guerra na Roma antiga.
Uma coluna de bronze dourado, que
hoje chamaríamos de “quilômetro
zero”. Representava o símbolo
máximo da centralidade de Roma
no Mundo.
41
História Militar Geral I
Unidade 1
Seção 2 – Aspectos da guerra na Roma antiga
Roma era o novo centro do mundo, e este era, segundo a
propaganda imperial, o desejo das divindades. Comecemos,
então, pela observação do “ritmo sacral da guerra”, uma fórmula
de Jean Bayet (1984, p. 82) que designa a sucessão dos ritos
religiosos de abertura e encerramento do ciclo anual da guerra,
por meio da qual defendeu a tese de que os rituais de guerra
indicavam a vontade de fazer do fenômeno da guerra algo
exterior à urbs. H. Le Bonniec (1969), por sua vez, estudou o
tema de modo sintético, tratando do ciclo da guerra no interior
do calendário romano. Examinou, também, aspectos religiosos
de uma campanha militar romana, desde o início das hostilidades
até as cerimônias de ação de graças pela conclusão da paz. Por
fm, analisou deuses e deusas de “vocação guerreira”.
Os ritos de abertura da guerra eram iniciados com as danças
dos sacerdotes sálios (salii), em março (então, o primeiro mês do
ano), com os ancilia (escudos sagrados caídos do céu). Os cantos
arcaicos dos sálios invocavam Marte, Júpiter e Jano. Usavam a
vestimenta militar arcaica, com um escudo de tipo “micênico” e
lanças itálicas. Os sálios foram identifcados em outras cidades
(Alba, Lavinium e Tusculum) da Itália central; trata-se, portanto,
de uma instituição itálica. Sua dança principal ocorria em 19 de
março, no festival do Quinquatrus, originalmente, um festival
em honra de Marte e, à época de Cícero, de Minerva. (LE
BONNIEC, 1969, p.102).
Figura 1.10 – Moeda (as) de Antonino Pio (Roma, ca. 143-44).
Fonte: <www.dirtyoldcoins.com>.
Cabeça laureada com
legenda anverso:
ANTONINVSAVGPIVSPPTRPCOSIII
No reverso, dois escudos,
ladeados com S e C e legenda:
IMPERATORII ANCILIA. Vemos,
portanto, a presença de
elementos religiosos arcaicos
em ação em pleno século II d.C.
42
Universidade do Sul de Santa Catarina
Le Bonniec nos apresentou um quadro instrutivo das principais
cerimônias de sacralização da guerra.
Vamos ver quais foram elas?
„ A Equirria, uma corrida de cavalos no Campo de Marte,
que ocorria nos dias 27 de fevereiro e 14 de março.
O signifcado destas datas é ainda desconhecido. Sua
fnalidade parece ter sido a de purifcar e sacralizar os
cavalos.
„ O Tubilustrium, a purifcação e sacralização dos
trombetas de guerra, que ocorria no dias 23 de março
e 23 de maio. Também não se sabe o motivo da
duplicidade desta cerimônia.
„ O Equos October, no qual o cavalo da direita do carro
vencedor da Equirria era sacrifcado no altar de Marte,
no dia 15 de outubro. Sua cauda era guardada na Regia
e a cabeça disputada pelos habitantes da Via Sacra e da
Suburra. Se os primeiros fossem os vencedores, fxavam a
cabeça no muro da Regia; se o êxito fosse dos segundos,
ela era fxada na Torre Mamilia.
„ O Armilustrium, a purifcação das armas, que ocorria no
dia 19 de outubro. Os sálios dançavam novamente, para
purifcar as armas do sangue derramado, antes de serem
admitidas no recinto sagrado da urbs.

A guerra em Roma era, então, sacralizada por rituais do antigo
calendário de festivais. Como vimos, em março havia uma série
de rituais inter-relacionados, a maioria em honra do deus Marte
– a partir do qual o mês foi nomeado –, que correspondiam,
em outubro, a outros rituais. Em ambos os momentos, o papel
principal dos ritos era reservado ao colégio dos sálios. (Dionísio,
II, 70, 1-5).
Segundo J. Bayet (1984), os célebres festivais guerreiros dos
meses de março e de outubro não tinham somente o fto de
delimitar, pelos ritos de abertura e encerramento, a estação das
guerras, mas também a intenção de separar do conjunto do corpo
social e de suas atividades o guerreiro e a sua função particular.
Para dar e enfrentar a morte sem escrúpulos nem hesitação, o
43
História Militar Geral I
Unidade 1
combatente tinha a necessidade de se encontrar num tipo de
estado de delírio, que a língua latina qualifcava com os termos
furor e ferox; mas é evidente que este tipo de transe necessário ao
combate podia trazer efeitos desastrosos se subsistisse no interior
da cidade.
Em março, os cantos e as danças dos sálios, e a procissão dos
ancilia, procuravam fazer nascer no coração dos soldados que
partiam ao encontro dos inimigos o furor necessário ao bom
sucesso de sua empresa. Em outubro, quando a estação de
guerra era fechada e os combatentes voltavam para casa, era
necessário livrá-los das forças sobre-humanas que lhes haviam
religiosamente inspirado seis meses antes; era necessário
reintegrá-los à vida normal da cidade, devolver-lhes o estado de
quirites, de cidadãos da massa pacífca da urbs.
J. Bayet chamou a atenção para o laço que havia entre o antigo
“ritmo sacral da guerra” e a passagem anual, para certo número
de cidadãos, do estado de quirites (cidadão) ao de miles (soldado),
e vice-versa. Deste modo, convém observar que, por mais
arcaicos que fossem, os rituais guerreiros de março e de outubro
continuavam a manter sua signifcação no fnal da República,
até mesmo sob o Principado. Tornados progressivamente
desatualizados enquanto defnidores de uma estação de guerra,
estes rituais conservavam, todavia, o valor essencial de separar
religiosamente as atividades guerreiras do resto das atividades
sociais.
As hostilidades iniciavam com a intervenção dos sacerdotes
fetiales e com a abertura das portas do templo de Jano. Le
Bonniec (1969, p.103 ss) delineia a cerimônia do templo de
Jano, segundo a descrição de Virgílio (En. VII, 601 ss) e T.
Lívio (I,19), assim como seus ritos correspondentes: o ritual
do sacramentum, o juramento, do lustratio exercitus e do
castramentatio (do acampamento militar), pelos quais o campo de
guerra se tornava um templum. Estes seguiam o rito de fundação
de cidades e colônias, um ramo da arte augural exaustivamente
estudado por Bouché-Leclercq (1931,p.281ss). A condução das
operações também era plena de ritos e fórmulas.
Representa um espaço
consagrado.
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Universidade do Sul de Santa Catarina
Vejamos alguns exemplos:
„ a evocatio. Esta é a fórmula pela qual o deus do inimigo
era convidado a passar às fleiras romanas, em troca de
honras e templos em Roma;
„ o votum. Seriam as promessas solenes.

Do mesmo modo, as seguintes fórmulas e ritos de consagração
que ocorriam após o encerramento das hostilidades:
„ as supplicationes. Estes seriam sacrifícios solenes de
agradecimento aos deuses;
„ o triumpho. A honra máxima reservada aos imperatores.

Em todos esses casos, estamos diante de rituais que garantiam o
caráter sagrado das ações dos generais e de seus exércitos.


Figura 1.11 – Soldados romanos. Métopa da Coluna Trajana.
Fonte: <http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Cornicen_on_Trajan%27s_column.JPG>.

O exército sempre foi um elemento central para o domínio
romano. Uma das provas disso é a maneira como Virgílio, na
Eneida, expressa o lema romano: Parcere subiectis et debellare
superbos (En. VI, 851-3). A função do exército, para além de
defender Roma de ataques externos ao Império, consistia em
reprimir a dissidência interna, pois sua presença era fundamental
para a garantia do poder romano no interior das fronteiras.
Como vimos, o exército tornou-se um mosaico de povos com o
Esta expressão signifca: “poupar os
que se submetem e debelar os que
resistem”.
45
História Militar Geral I
Unidade 1
passar do tempo, usando o latim e adotando, em grande parte,
comportamentos romanos.
Existem várias comprovações nas práticas sociais
e políticas romanas que apontam para uma íntima
relação entre a guerra e a religião em Roma. Por
exemplo: o costume de reunir os comitia centuriata,
ou seja, a assembleia do povo em armas, fora do
pomerium, no Campo de Marte. Aliás, o espaço
sagrado de Roma, o pomerium, marcou sempre
uma rigorosa fronteira que mantinha as atividades
guerreiras fora da urbs.
Nenhum cidadão podia se tornar miles no interior da urbs. Os
exércitos conduzidos pelos cônsules se reuniam, ao partir em
campanha, no exterior do muro sagrado, e um general só era
autorizado a entrar na urbs à frente de suas tropas na cerimônia
do triunfo. Esta prática era tão arraigada na mentalidade romana
que, com o desenvolvimento e a organização das conquistas, o
interdito foi estendido para os promagistrados, às fronteiras dos
territórios provinciais.
Conhecemos o famoso episódio da travessia do Rubicão por
César, e os desenvolvimentos políticos e literários do caso.
A decisão do procônsul da Gália de sair de sua província e
passar à Itália, à frente de um exército, constituía um ato de
insubordinação, radicalmente contrário às leis sagradas da cidade,
e César teve de imaginar um dramático debate de consciência,
que só pôde ser resolvido por uma intervenção divina. Sem esta
justifcativa, César não contaria sequer com o apoio de seus
soldados (César. BG, I).
Em meados do século I a.C., portanto, Roma continuava a crer
que a guerra era um fenômeno exterior à cidade e que devia ser
regida pelo direito sagrado. Um fenômeno exterior, certamente,
mas não independente. Mantendo a guerra numa distância
respeitosa, por um conjunto de práticas religiosas e sociais, Roma
se preocupava em integrá-la a sua vida.
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Universidade do Sul de Santa Catarina
O rito de abertura do templo de Jano em caso
de guerra é, mesmo que ainda obscuro para nós,
um bom exemplo disso: era necessário manter
religiosamente aberto o caminho de retorno para os
cidadãos em armas. Do mesmo modo, a tomada dos
auspícios pelos generais em campanha e os votos que
pronunciavam no campo de batalha não interessam
somente às divindades ligadas explicitamente à
guerra, mas ao conjunto dos deuses da cidade.
Deste modo, a mesma religião que separava o combatente do
resto do corpo social criava um laço entre ele e a cidade, ao lhe
garantir um espaço próprio à sua atividade e um retorno seguro,
além do apoio de toda a coletividade. Roma, portanto, engajava a
totalidade de suas forças sociais e religiosas na guerra.
Seção 3 – Estudos de caso: o direito fecial e os
Comentários da Guerra das Gálias
Cremos que a guerra é um objeto de estudo per se, e esta seção
tem, então, o objetivo de trazer alguns elementos para o estudo
da guerra em Roma, a partir de elementos do ius fetiale e da
observação do texto cesariano sobre as Guerras das Gálias.
Buscaremos relacionar o direito, a religião, a política e o
fenômeno da guerra em Roma. Sabemos que estes temas são
muito vastos e que, dados os limites desta disciplina, algumas
questões importantes não serão tratadas, mas somente entrevistas.
Nossa intenção é, contudo, estimular novas pesquisas, e não
oferecer uma análise exaustiva e cabal sobre esta relação temática.
Então, vamos lá?

3.1 - ius fetiale
Na Roma antiga, a ideia de religião era muito distinta da visão
ocidental moderna da experiência religiosa. As interpretações
mais recentes do papel e da natureza dos rituais apoiam a
O direito fecial.
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História Militar Geral I
Unidade 1
tese de que eles ocupavam um papel central na cultura e no
funcionamento da sociedade (SCHEID, 1993). Como pode ser
facilmente demonstrado que os romanos levavam seus rituais com
extrema seriedade e que tinham uma relativa tradição de refetir
sobre eles, é verossímil pensar que podemos fundamentar nosso
conhecimento sobre sua religião com base na documentação
disponível.
Por outro lado, os rituais são, ou, pelo menos, para os romanos eram,
por sua própria natureza, invenções não individuais; eram concebidos
como repetições infnitas do ciclo dos tempos ou de eventos que se
repetiam; é por isso que, quando mudavam, a mudança devia ser
suavemente conduzida e, mesmo, velada (BEARD & NORTH, 1990).

Tito Lívio nos apresenta, em seu Ab urbe condita, I, 32, o ritual
que iniciava a guerra na Roma arcaica, cuja criação atribuía
ao lendário rei Numa. Seu relato nos permite entrever alguns
elementos do principal ritual deste grupo de sacerdotes:
uma delegação de fetiales, conduzida pelo pater patratus e
acompanhada por um condutor da erva sagrada – a verbena –
colhida na Arx, demanda ao inimigo a reparação de um dano.
Ao fm de trinta (30) ou trinta e três (33) dias, em não havendo
a satisfação, o pater patratus retornava à fronteira, acompanhado
pelo verbenarius, e lançava um longo dardo no território inimigo,
pronunciando a fórmula da declaração de guerra.
Percebemos, com clareza, que este ritual de guerra, composto
por ritos e fórmulas jurídico-religiosas arcaicas, mobilizava as
potências divinas a serviço da urbs. Segundo Beard, North &
Price:
Os reis que se seguiram a Numa também contribuíram
– apesar de em um modo menos dramático – para
as tradições religiosas romanas. Os rituais dos
sacerdotes fetiales, por exemplo, que acompanhavam o
estabelecimento de tratados e as declarações de guerra,
(parte destes envolviam um sacerdote indo às fronteiras
do território inimigo e cravando uma lança sagrada nele)
já são citados no período dos reis (1998, p.3).
Este grupo, também
denominado de fetiales,
compunha um colégio
sacerdotal de vinte
membros, encarregado
dos ritos de declaração de
guerra e paz.
48
Universidade do Sul de Santa Catarina
Certamente, a expansão do imperium de Roma trouxe a
necessidade de adaptações das tradições e dos rituais religiosos
durante a República. Vários rituais de guerra, por exemplo, não
eram mais apropriados, ou eram mesmo impossíveis de serem
realizados, pois a guerra não mais se restringia à vizinhança de
Roma. Um dos exemplos mais signifcativos da necessidade de
adaptações é o próprio ritual da declaração de guerra dos fetiales.
O costume dos sacerdotes procederem a um ritual na fronteira
entre o território romano e o inimigo, cravando-lhe a lança
na terra como um marco simbólico do início das hostilidades,
tornou-se, na prática, impossível de ser realizado. Não era
viável transportar sacerdotes ao local das hostilidades, pois
isso demandaria, por vezes, meses. Mas, as inovações sempre
estiveram presentes na religião romana, e o ritual ganhou uma
nova forma. Um pedaço de terra na urbs, perto do templo de
Bellona, deusa da guerra, foi designado, por lei, “terra inimiga”, e
era ali que os fetiales passaram a realizar seu ritual.
Desse modo, quando a extensão do território romano tornou
impossível a realização dos rituais, recorreu-se a uma “fcção
legal”: o pater patratus lançava seu dardo num terreno destinado
juridicamente a representar o território inimigo. Do mesmo
modo, os ritos de conclusão de um tratado de paz eram da
responsabilidade deste colégio. Neste local, tornado terra
estrangeira, o pater patratus imolava um porco com seu lapide
silice, invocando Júpiter e Fides como garantia do tratado. (LE
BONNIEC, 1969, p.110). Desse modo, por um expediente legal, o
ritual pôde continuar a ser realizado. (RÜPKE, 2007, p. 105-7).
Citemos um exemplo dado por Cícero: durante as
guerras romanas na Hispânia, houve difculdades para
as legiões romanas. Hostílio Mancino, cônsul de 137 a.C.,
fez um tratado privado com os numantinos, após sofrer
uma grave derrota. O Senado, contudo, não endossou
seu tratado. De acordo com antigos precedentes, a
recusa do tratado era acompanhada pela entrega do
comandante ao inimigo. Mancino foi, então, enviado
aos numantinos, nu e amarrado, pelos fetiales (CÍCERO,
De Of. III,109). Os numantinos teriam se recusado a
recebê-lo, mas o tratado continuou a ser considerado
inválido pelo Senado. (CRAWFORD, 1973; ROSENSTEIN,
1990, p. 136-7, 148-50). Este incidente per se pode não
provar muito coisa. Contudo é um indício de que havia
a manutenção dos ritos fetiales na República tardia.
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História Militar Geral I
Unidade 1
Figura 1.12 – Aureus de C. Antistium Reginus (ca. 13 a.C.).


Percebemos que o ius fetiale é fundado basicamente sobre o
juramento, um ato regido pela deusa Fides, personifcação
divinizada da Boa-Fé ou Confança. A deusa e a ideia de Fides
são centrais na urbs e foram objeto de vários e importantes
estudos no século XX. Historiadores da antiguidade e estudiosos
do fenômeno religioso, como M. Piganiol (1950), M. Dumézil
(1970) e P. Boyancé (1962), formam alguns dos que analisaram
esta noção.
Jacques Heurgon (1969) nos chama a atenção, por
exemplo, para a presença, na conclusão do foedus, dos
sagmina do pater patratus e, em 1999, L. Cappelletti,
tendo como base a ligação etimológica entre fdes-
foedus-fetiales, estudou minuciosamente cerimônias
de foedera, a partir da análise de moedas itálicas dos
anos 90 a.C (CAPPELLETTI, 1999, p. 85-92). Sua análise
das moedas referenda a intervenção central dos
fetiales na conclusão dos tratados e a importância do
juramento nessas ocasiões.
Os textos tardios que nos apresentam a centralidade da fdes para
os romanos são o De Ofciis, de Cícero, e o Ab urbe condita, de
T. Lívio. Dea Fides era a personifcação divina da boa-fé que
devia presidir aos foedera entre povos e às transações privadas
entre os cidadãos romanos. A observância da fé jurada era uma
virtude à qual os romanos eram particularmente sensíveis, e que
simbolizavam em heróis que foram imolados em nome da fdes,
Um distintivo trançado
com verbena.
No reverso, dois fetiales
realizam um sacrifício
sobre um altar, na
conclusão de um foedus.
Outro indício, portanto,
da manutenção dos
ritos fetiales (RIC 411):
Monograma: C Antist
Regin Foedus P R
Qum Gabinis. [Naville
– Ginevra, 3 (16. 6. 1922)
= Evans, n. 21]
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como Régulo, que retornou a Cartago, sabendo que seria torturado
e morto, a fm de manter seu juramento. (De Of. III, 197).
Trata-se, então, de uma antiga divindade que engajava pelo
juramento. A introdução de seu culto em Roma é atribuída a
Numa e, de fato, seus ritos são visivelmente arcaicos. A deusa
garantia, então, pelo juramento, os foedera concluídos entre
Roma e outras cidades e povos, e não parece ter se restringido
ao domínio jurídico, mas a todo o domínio moral, vinculada a
outros valores igualmente morais como Concordia, Virtus, Pietas,
Iustitia, também divinizados.
Segundo J. Hellegouarc’h (1972, s.v. fdes), o foedus era um substantivo
derivado de fdes, designando um pacto concluído entre duas pessoas
ou dois grupos humanos, que se ligavam pela fdes, referindo-se
a acordos obtidos por Roma após uma deditio (T. Lívio, 34, 57), ou
acordos voluntários, independentemente da natureza do acordo
(pax, amicitia, societas). Tratava-se de um pacto ritual, de natureza
religiosa, entre duas partes, e os fetiales eram os seus executores.
Figura 1.13 – Tetradracma de Bruttium/Locri (ca. 275-270 a.C.). Anverso: cabeça laureada de Zeus;
reverso: Roma sentada, sendo coroada pela Pistis. Monograma à esquerda ΡΩΜΑ (Roma); à direita
ΠΙΣΤΙΣ (Fides), e ΛΟΚΡΩΝ no exergo. SNG ANS 531; SNG Lloyd 645.
Fonte: <http://www.roth37.it/COINS/Pirro/monetazione.html>.
Vemos a importância da Fides.
A cidade grega, após a Batalha
de Benevento, capitulara e
celebrara um tratado com Roma
in fdem uenerat. A imagem tinha,
certamente, a intenção de garantir
a paz e a benevolência do vencedor,
reafrmando a força moral dos
foedera.
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História Militar Geral I
Unidade 1
A antiguidade da Fides é atestada pelo arcaísmo do ius fetiale.
Os estudiosos concordam que, desde a época monárquica, Roma
elaborara um código diplomático preciso, fundamentado na
religio, em seu sentido de constrangimento, e nas garantias dos
foedera, criando a noção de bellum iustum. Era, então, declarada
segundo as formulae dos fetiales. A. Magdelain (1990, p.196ss)
mostrou que o ius fetiale se baseava no direito civil arcaico, no
qual se concediam trinta (30) dias para que o infrator reparasse
os danos cometidos à vítima, ou seja, uma conditio que, segundo
T. Lívio (I, 32, 11) foi criada em torno do século V a.C., entre as
diversas cidades da Liga Latina, e que Roma estendera às suas
relações com outros povos.
No caso da Liga Latina, seriam trinta (30) dias de conditio,
havendo existência de um tratado prévio, e trinta e três (33) dias,
na falta do mesmo. Como Cícero nos diz:
Em relação à guerra, leis humanas foram elaboradas
no ius fetiale do povo romano sob todas as garantias da
religião; e pode-se concluir que nenhuma guerra é justa, a
menos que conduzida após a realização de uma demanda
ofcial de reparação, uma advertência e uma declaração
formal. (De Of. I, 36).
Cícero afrmou reiteradas vezes que a guerra, quando necessária,
deveria ser justa, como no tratado De Re Publica, III, 34,
associando a guerra romana à ideia de defesa das agressões,
de legítima defesa ou, até mesmo, à proteção de seus aliados,
quando ameaçados. E, no tratado De Legibus, III, indica que a
guerra justa devia ser eminentemente defensiva, declarando que
um general não podia iniciar uma guerra sem estar devidamente
autorizado e investido pelo povo romano e que a mesma devia ser
declarada e conduzida segundo o ius fetiale. Tal declaração se liga
ao exemplo do cônsul Hostílio Mancino, relatado no De Ofciis,
III.
Por mais que se verifque que esta “defesa” era, ou
tornou-se, demasiadamente ofensiva, havia, contudo,
um direito de guerra. A guerra era, então, regida e
codifcada pelo ius fetiale. (De Of. I, 36).
Denominação à guerra
justa, ou seja, aquela que
reparava uma violação do
direito, caso não fossem
atendidos os pedidos de
reparação.
52
Universidade do Sul de Santa Catarina
Certamente, as ações guerreiras romanas ultrapassaram e
violaram, em muitas ocasiões, as regras estritas do ius fetiale,
como exposto por Cícero no De Ofciis e alhures. Ainda assim,
senadores continuaram a compor os quatro maiores colégios
sacerdotais no chamado “período imperial”, agora por indicação
do princeps, mesmo no caso dos fetiales, cujo ritual é atestado sob
Marco Aurélio, por exemplo, ao declarar guerra em 179 d.C.
(BEARD, NORTH & PRICE, 1998, p.229).
Podemos concluir que este colégio sacerdotal arcaico, os fetiales,
situava-se na interseção entre o direito, a religião e a guerra,
mesmo após o principado, pois a atividade religiosa da elite
romana manteve-se conectada com os rituais tradicionais ao
longo de séculos. Consequentemente, o estudo dos rituais
romanos é tema de grande interesse para o historiador da
antiguidade. Os rituais devem ser vistos sempre em relação às
ideias e crenças sobre o passado da urbs, formando um elo entre o
passado e o futuro. Dessa forma, podemos pensar que os rituais
não somente representavam e defniam a identidade romana,
mas, em certo sentido, também a constituíam enquanto tal.

3.2 - Política e guerra: os Commentarii de Bello Gallico
Nos Commentarii de Bello Gallico, Caio Júlio César relata as
campanhas que o tornaram senhor da Gália. O gênero literário
conhecido como commentarii não pode ser defnido como uma
narrativa historiográfca, nem como um diário, tampouco como
uma “memória”. César não escreveu, nem tinha esta intenção,
uma “História da Guerra das Gálias”, mas redigiu um relato
que serviria como um documento para que outros escritores o
fzessem. Deste modo, a intenção precípua de César era a de
fornecer um conjunto de documentos de primeira mão sobre as
batalhas que compuseram o acontecimento denominado Guerra
das Gálias. Este era o objetivo declarado. Havia outros, menos
explícitos, que percebemos em uma segunda leitura do texto,
quando comparado à observação da data e das condições nas
quais os Commentarii foram escritos.
No latim clássico, commentarium
designa notas breves e secas, um
relato de fatos, um registro simples
de algo.
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História Militar Geral I
Unidade 1
Figura 1.14 – Caio Júlio César – Busto em Mármore.
Fonte: <pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_C%C3%A9sar>.

César escreveu os sete primeiros livros dos Commentarii no
outono de 52 a.C., logo após sua vitória sobre Vercingetórix,
quando podia considerar que a vitória sobre a Gália estava
completa. Era, então, um momento propício para relatar
os episódios da guerra ao público romano, que só conhecia
as campanhas por meio de relatos esporádicos, geralmente
tendenciosos, de amigos e partidários demasiadamente zelosos da
imagem de César, ou de inimigos maledicentes.
Neste momento, César via chegar a hora em que seria chamado a
Roma; era-lhe conveniente preparar a opinião pública romana – à
época, muito infuente na vida política da urbs – para viabilizar
sua candidatura a um segundo consulado e evitar processos
judiciais por parte de seus adversários. A oposição política a
César em Roma se tornava cada vez maior.
Vamos ver alguns exemplos que retratam esta oposição?
Uma carta de Célio a Cícero, de maio de 51 a.C., por exemplo,
demonstra as informações confusas e os boatos contraditórios
sobre César e suas campanhas, pouco antes da publicação dos
Commentarii (Ad fam. VIII, 1.4): sobre César chegam-nos rumores
frequentes, e não entusiastas, mas se trata de vozes sussurradas. Nada
de certo, evidentemente, mas essas notícias incertas passam de boca
em boca entre poucos, entre as pessoas que tu conheces. A opinião
pública oscilava, então, entre os alarmistas de plantão e os relatos
fantasiosos de cesarianos entusiastas.
54
Universidade do Sul de Santa Catarina
É possível, pois, que César tivesse a intenção de apresentar o
seu relato, a sua versão dos acontecimentos. Deste modo, ele
não tinha como público-alvo os historiadores futuros, mas sim
um público mais imediato e mais amplo. Através de um relato
aparentemente neutro e objetivo, pelo estilo e pela forma, podia
atingir os seus contemporâneos e os leitores da posteridade com a
sua versão dos acontecimentos.
Desse modo, os Commentarii não compõem o texto de um
historiador, nem o de um homem de letras, tampouco o de um
“analista” romano; trata-se da obra de um político e general
vitorioso, que pretendia se defender de seus poderosos inimigos
políticos e consolidar as bases de seu poder. Há, portanto,
imprecisões, especialmente de ordem topográfca e etnográfca, e
negligências, algumas provavelmente intencionais.
Como, então, devemos lidar com esta obra? Em
termos de documentação textual para pesquisas e
análises históricas dos eventos, das circunstâncias e
dos grupos humanos envolvidos na Guerra da Gália,
posto que se trata, antes de tudo, de uma obra com
visíveis intenções políticas?
O tipo, a forma e o estilo do relato levam a crer que ninguém
teria melhores condições de narrar os acontecimentos da guerra e
das batalhas do que o seu procônsul. Para o historiador, é raro ter
acesso ao relato de uma guerra feito pelo general que a conduziu.
Mas um general tende a ser discreto no relato de seus erros e
impasses, pois, narrativas desta natureza, não são “confessionais”.
Decerto, um autor de commentarii não podia mentir nem
mascarar em demasia os acontecimentos, mas, entre a exatidão
material de um relato e a veracidade dos acontecimentos, assim
como a lógica de seu desenvolvimento, há muitas nuances.
Algumas questões surgem em relação aos
Commentarii:
1ª) Há relatos inexatos ou obscuros, enfm, lacunas de
informação?
2ª) O autor alterou os acontecimentos pelo desejo da
apologia pessoal ou por puras intenções políticas?
55
História Militar Geral I
Unidade 1
De acordo com Suetônio: “[...] Asínio Polião estima que os
Commentarii foram escritos com pouco senso e pouco respeito pela
verdade” (Caes. 56,4). César seria, então, ou mal informado ou
pouco sincero, e a acusação é mais grave por supostamente não
partir de um inimigo político. Polião era um cesariano, e esteve
ao lado de César desde o Rubicão até a Farsália. Não podemos
esperar do relato de César a mesma intenção de “imparcialidade”,
jamais atingida do relato historiográfco de Polião, em sua
História das Guerras Civis. Não era intenção, nem era da
competência de César, escrever um relato historiográfco segundo
os padrões da historiografa romana da época.
Podemos, de certo modo, avaliar a qualidade das informações de
César, observando a natureza das fontes utilizadas na redação dos
Commentari. Vamos ver quais foram elas?
„ A correspondência do procônsul com o Senado, nos
diversos momentos das campanhas.
„ Sua correspondência com seus lugares-tenentes.
„ Notas episódicas, escritas ao longo dos anos ou ditadas
aos seus secretários.

A correspondência com o Senado certamente não indicaria outra
coisa além de uma visão favorável às ações e planos do procônsul.
Os relatos dos comandantes de César provavelmente continham
inexatidões e omissões conscientes, muitas vezes para minimizar
um erro ou uma falta, como, por exemplo, certos exageros nos
cálculos do contingente inimigo. Do mesmo modo, anotações de
campanha são passíveis de várias espécies de inexatidões e erros
involuntários, em função de sua natureza pouco refetida.
É interessante comparar os Commentarii com outros relatos da
conquista da Gália, a partir de diferentes fontes com intenções
distintas. A maior parte dos escritores romanos posteriores pouco
faz além de repetir César nas informações sobre as campanhas,
à exceção de Suetônio, Plutarco e Apiano, que parecem mais
independentes em relação ao texto do De Bello Gallico. Há,
por exemplo, erros geográfcos gritantes no texto de César.
Curiosamente, estes mesmos equívocos surgem em Estrabão.
Compare estas similitudes
de acordo com as
seguintes referências: BG.
I, 1, 5-7 = Strab. IV, 5.
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Também são percebidas imprecisões nos relatos da fauna e da
fora; estas podem denotar o desejo de César em apresentar aos
seus leitores romanos um relato de primeira mão sobre as terras
nas quais as águias romanas agora pousavam, recorrendo às
compilações de geógrafos gregos. Estas podem ter sido obtidas
por intermédio de seus secretários, dadas as quebras de ritmo do
texto e do estilo da narrativa cesariana.
Os Commentarii são uma obra de circunstância, um livro
“improvisado” e, nele, os fatos relatados são mais ou menos
exatos, coloridos pela arte da omissão e da exaltação, da qual
César era mestre. Vejamos um exemplo do Liber tertius, XV-XVI:
Uma vez [...] abatidos da maneira que dissemos, cada
navio era circundado por dois – ou por vezes três – dos
nossos, e nossos soldados abordaram-nos partindo com
vigor ao ataque. Quando os bárbaros viram o que se
passava, que um grande número de seus barcos estava
já tomado e que nada tinham a opor a esta tática,
tentaram fugir em busca da salvação. E suas velas já
infavam com o vento, quando subitamente este parou e a
tranquilidade foi tal que eles não podiam mais se mover.
Esta circunstância nos foi totalmente oportuna para
completar a nossa vitória; pois nós atacamos e tomamos
os navios um após o outro, e foram pouquíssimos os que
conseguiram ganhar o rio, graças à noite, depois de um
combate que durou desde a quarta hora até o pôr-do-sol
(XV). Esta batalha pôs fm à guerra dos vênetos e de
todos os povos desta margem. Pois, além de todos os seus
jovens, assim como todos os seus homens maduros, de
todo tipo de dignidade e honra, eles reuniram todos os
seus aliados e dependentes; após as perdas desta batalha,
os que restaram não tinham onde se refugiar nem como
defender suas cidades (oppida). Deste modo, rendiam a
César seus corpos e seus bens. Este resolveu castigá-los
severamente, para que, no futuro, os bárbaros fossem
mais atentos no respeito ao direito dos embaixadores (ius
legatorum). Em seguida, ele ordenou a morte de todos os
“senadores” e vendeu os demais [...]” (XVI).
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História Militar Geral I
Unidade 1
Segundo Dion Cássio (L. XXXIX, 40, 4-3), as coisas
se passaram de outro modo, conforme seu relato mais
circunstanciado, sem dúvida com base em Tito Lívio. Esse
massacre foi considerado, por alguns líderes romanos, como
desumano, e Plutarco nos relata que Catão chegou a pedir
a entrega do general aos inimigos (Cato Minor, 51), mas não
tratemos aqui dos eventos narrados, mas sim do estilo narrativo.
O tom geral da narrativa cesariana, como vemos, é
impassível e sem ornamentos, parecendo, em muitas
passagens, um “relatório técnico”.
Se os Commentarii não nos auxiliam na compreensão das
circunstâncias e dos motivos que defagram a Guerra das Gálias,
que revolveu o mundo celta, também não nos permitem uma
boa compreensão dos detalhes das campanhas, nem de suas
expedições na Bretanha e na Germânia.
Há certos aspectos da guerra dos gauleses sobre os quais César
é muito discreto. Tal frase de Suetônio (Caes. 54.2), tal epigrama
de Catulo (Cat. 29, 1-4), por exemplo, nos permitem entrever os
enormes saques e expoliações realizados pelo procônsul e pelos
seus lugares-tenentes.
Suetônio, por exemplo, nos diz que, nas Gálias,
César pilhou santuários, destruiu aldeias, mais
frequentemente com o fto de obter um butim para
seus homens do que para “punir”, segundo sua
interpretação, os gauleses por alguma “falta”.
César, porém, não tentou dissimular as brutalidades da conquista.
Deste modo, vendeu toda a população da cidade dos Atuatuques
e relata esta venda em uma frase lapidar, acrescentando
negligentemente: “Segundo as contas dos compradores, havia 53 mil
cabeças” (BG, II, 33, 7). Quer se tratasse da execução dos nobres
vênetos e da venda de todo o seu povo, quer se tratasse do saque
de Orléans, do massacre dos Usipetes ou o dos Tencthères, ou
da devastação sistemática dos Ardennes (BG. III, 16.4; VIII,
11.9; IV, 15; VI, 43), ele tudo relata com a tranquilidade de um
general que considera tais ações como o exercício normal do
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direito de guerra. Graças ao seu estilo, podemos entrever algo do
comportamento dos generais e de suas legiões em campanha.
Com esse estilo, que leva o seu leitor/ouvinte a uma grande
ilusão de realidade e que, certamente, satisfazia os romanos
ávidos de notícias, induzindo-os, assim como aos seus leitores
modernos, a uma atitude pouco crítica em relação ao texto, a
efcácia dos Commentarii, como libelo político de seu autor, é
notória.
Da dura realidade de uma guerra efetiva, pouco temos além
dessa obra estilo literário-propagandístico, que levou J.
Carcopino a falar de uma “Gália conquistada sem que tenha
sido”(CARCOPINO: 1968, p. 252). Em Plínio, o Velho,
acessamos uma crítica acurada das ações de César, relatando
um milhão e duzentas mil pessoas massacradas com o único fto
de conquistar a Gália, acusando o procônsul de omitir as cifras
da hecatombe humana: “eu não posso incluir nos seus títulos de
glórias um tão grave ultraje feito por ele ao gênero humano” (História
Natural, VII, 92). O próprio César, como afrmamos, não oculta
tais dados: “o massacre da multidão de inimigos foi tão grande
quanto foi a duração do dia. Com o pôr-do-sol, os soldados pararam de
persegui-los e se retiraram para o acampamento, de acordo com a ordem
dada” (BG, II, 11).
A Gália foi, mediante a violência e o massacre, integrada à
“civilização” romana. Para a compreensão deste esforço bélico
realizado na Gália nos anos 58-51 a.C., dispomos quase que
exclusivamente da versão cesariana das campanhas das Gálias,
uma obra sabiamente construída e ponderada de César. A
conquista da Gália nos aparece, nos Commentarii, como
um instrumento para a consolidação de um poder político e
militar, uma longa praeparatio para a Guerra Civil que abalou
os fundamentos da República romana. E o estilo da obra,
que “criou” a conquista da Gália para a tradição ocidental,
foi a base de uma recorrente interpretatio de uma espécie de
providência na história, que enalteceu o acontecimento como
veículo da “romanização” de grande parte do Setentrião, como
o fez T. Mommsen no século XIX d.C., comparando-o a uma
“helenização” do Oriente levada a cabo por Alexandre.
Trata-se de um estilo pleno da
sedução retórica do efeito-verdade.
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História Militar Geral I
Unidade 1
Decerto, a romanização da Gália foi um fenômeno de primeira
grandeza, um evento crucial na formação do Império Romano
e, consequentemente, na Europa Medieval e Moderna. Mas
a historiografa moderna atribuiu a César uma intenção
providencial, ao abordar a conquista da Gália como se tratando
de um discurso sobre a fatalidade do imperialismo, o que não se
sustenta em uma análise atenta dos Commentarii.

Considerações fnais
O historiador Georges Duby escreveu no Prefácio da Coleção
História da Vida Privada:
Por que os romanos? Por que sua civilização seria o
fundamento do Ocidente Moderno? Não sei. Não se tem
certeza do que seja tal fundamento [...]; não percebemos
bem o sentido exato que devemos dar ao termo
“fundamento” [...]. A história, essa viagem ao outro,
deve servir para nos fazer sair de nós, tão legitimamente
quanto nos confortar em nossos limites. (DUBY, 1989,
p.14).
Estudar o fenômeno da guerra em Roma, mesmo que seja de
modo introdutório, nos leva a um encontro com o “outro”. É
possível que muitos elementos da guerra na Roma antiga que
você conheceu nesta unidade sejam considerados estranhos ou
exóticos, enquanto outros estejam mais próximos de nós, e neles
reconheçamos os nossos “fundamentos”.
É fundamental, para o historiador, “abrir os olhos” para incitar
a ver, compreender e interpretar tanto as diferenças quanto as
semelhanças. É vital para o historiador resgatar a pluralidade
e o dinamismo da sociedade que estuda, afastando-se de uma
perspectiva monolítica, presentista e autocentrada. É preciso,
então, que o historiador deixe de olhar somente “para o seu
próprio umbigo”, esforçando-se por ver, perceber e compreender
atitudes, mentalidades, valores, expressões, concretizações ou
simbolizações nas práticas e representações de outras sociedades,
pois, só assim, estará apto a interpretá-las. Roma está, ao mesmo
tempo, perto e distante de nós. Está perto o sufciente para
reconhecermos raízes de alguns dos nossos elementos culturais e
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políticos. Está distante o sufciente para que seja o “outro” de nós,
o nosso alterum.
O mais importante, talvez, seja perceber que toda interpretação
historiográfca é uma interpretação. Em nosso caso, é preciso
perceber como a história antiga se constrói a partir de um
conjunto muito diverso de documentos, que abrange desde textos
escritos e moedas até restos arqueológicos de edifícios e vasilhas,
para mencionar só alguns deles. Como o estudo do passado
é algo singular, os historiadores dispõem de uma variedade
de técnicas e metodologias de trabalho para desenvolver suas
pesquisas, dependendo de uma série de fatores como os tipos
de testemunhos disponíveis, os modos de apresentação da
informação e o objetivo da pesquisa.
As técnicas e métodos de trabalho utilizados pelo historiador
só ganham sentido enquanto lhe permitem juntar uma série de
fontes, muitas vezes altamente diversas e fragmentárias, num
quadro geral que possa outorgar-lhes sentido. Caso contrário,
seu trabalho estaria mais próximo daquele realizado pelos
antiquários, que se contentam em simplesmente colecionar
uma variedade de objetos históricos diversos, no máximo,
classifcando-os ou organizando-os cronologicamente, mas sem
ter a capacidade de construir um quadro explicativo dos mesmos.
Vemos aqui, então, um problema: já no ponto de partida de
qualquer estudo e interpretação do passado, os historiadores
se deparam com dados que podem levá-los a equívocos ou a
interpretações deturpadas. Deve-se decifrar e interpretar os seus
dados, mas também conhecer os mecanismos com os quais estes
dados são decifrados e interpretados.
Mas como poderíamos interpretar o funcionamento
de uma sociedade ou de um setor dela, seja o
econômico, o religioso, etc., sem usar palavras e
conceitos para nos referirmos a eles?
Em suma, não podemos fugir dos modelos, pois sem eles não
conseguiríamos sequer abordar a história; só temos que ter
cuidado com o seu uso e aplicação. Eles são o que são: apenas
modelos, não a realidade! Eles nos servem, ou seja, nós não
temos de ser escravizados por eles. Conhecendo estes problemas,
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História Militar Geral I
Unidade 1
você deve imaginar as enormes difculdades que enfrentam os
historiadores da antiguidade para construir o conhecimento
ao longo de suas pesquisas. A numerosa publicação de papiros,
material arqueológico, epigrafa e coleções de moedas, por
exemplo, não respondem à pergunta de o que fazer com esse
material, isto é, de que modo é possível conferir algum sentido,
incluindo-o num quadro explicativo mais abrangente. Então,
precisamos de modelos explicativos, mas temos de ter cuidado
com eles. Temos de refetir sobre a sua aplicação e a sua
pertinência a uma dada realidade.
Segundo Hagget e Chorley (1975), um modelo é uma estruturação
simplifcada da realidade que, supostamente, apresenta
características ou relações importantes, de forma generalizada.
Os modelos são aproximações altamente subjetivas, por não
incluírem todas as observações ou medidas associadas, mas são
valiosos por obscurecerem detalhes acidentais e por permitirem
o aparecimento dos aspectos fundamentais da realidade. Em
outras palavras, trata-se de um processo de seleção de alguns
aspectos da realidade, considerando suas conexões e relações para
compreender a dinâmica dos processos, através da construção de
hipóteses.
Os modelos são, então, construções subjetivas, porque os
pesquisadores que os constroem, no nosso caso, os historiadores,
escolhem seletivamente, acentuando alguns aspectos e
relativizando outros. Assim, quando lemos termos como
“guerra romana”, devemos considerá-los como modelos, isto é,
construções explicativas. Temos, então, que ter a exata noção de
que são apenas modelos, servem para explicar alguma realidade,
para nos aproximar dela.
Esses modelos construídos pelos historiadores para explicar os
fatos históricos, porém, não são elementos fxos e defnitivos. Ao
longo das pesquisas, os modelos encontram-se sujeitos a ajustes
e correções, isto é, as hipóteses formuladas no início da pesquisa
podem ser adaptadas ou diretamente descartadas, quando for
preciso. Modelos explicativos são necessários e imprescindíveis,
mas é preciso refetir sobre eles.
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Como estudamos uma sociedade do passado? Como
olhamos e descortinamos esta alteridade, cujos
conceitos, ideologias e modos de vida diferem dos
nossos? Não basta, então, reunir os fatos, colocá-los
em sequência, listar os personagens, datas e contextos
para fazer a história. Precisamos fazer mais do que
isso, muito mais. Quais métodos e conceitos foram e
são utilizados para compreender a antiguidade? Como
interpretar as culturas antigas?
Já foi dito que “a verdade é um castelo construído para satisfazer
nossas vontades” (VEYNE, 1989, p.16). Então, o melhor
caminho é ter consciência desses perigos e unir o trabalho de
historiadores, flólogos, arqueólogos, especialistas em literatura,
flósofos, antropólogos, sociólogos, estudiosos de arte, enfm,
todos trabalhando em conjunto para a obtenção de elementos que
nos permitam ter uma noção mais abrangente do mundo antigo,
prestando atenção às questões de ordem teórica e metodológica,
abrindo o leque da investigação, buscando a compreensão das
teias de signifcação existentes nas culturas antigas. Decerto, essa
é uma tarefa difícil, mas não é impossível. Esperamos que esta
unidade tenha despertado em você o interesse pelo estudo do
fenômeno da guerra em outras sociedades, distantes de nós no
tempo e no espaço.
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História Militar Geral I
Unidade 1
Síntese
Quando analisamos as linhas gerais da evolução histórica da
guerra romana e, especialmente, quando nos debruçamos sobre
um estudo de caso, percebemos, antes de tudo, as relações
inobjetáveis entre a prática religiosa, a prática política e a prática
guerreira. Se Roma aperfeiçoou o equipamento e a tática de suas
legiões, se ela chegou a enfrentar o pouco familiar mar, se ela se
envolveu em guerras cada vez mais longínquas e extensas, a ponto
de fazer de uma atividade primitivamente localizada no espaço e
no tempo uma atividade constante e universalmente presente, não
foi pelo efeito de uma deliberação consciente, mas sob a pressão
das circunstâncias existentes então.
A pesquisa histórica tem ainda muito a revelar sobre a guerra
em Roma, pois há uma multiplicidade heterogênea de questões
ainda obscuras. Desde os rituais que iniciavam uma guerra,
a preparação dos soldados e das demais pessoas envolvidas,
a organização do fornecimento de víveres, a produção das
estratégias e dos rituais que garantiam o ânimo necessário –
tanto das pessoas diretamente envolvidas na guerra quanto da
sociedade romana em geral –, os confrontos bélicos suscitavam
efeitos que podem e devem ser estudados pelos historiadores.
[...] a história não são as fontes. A história é uma
interpretação das realidades de que as fontes são ‘sinais
indicativos ou fragmentos’. É certo que partimos de um
exame das fontes, mas através delas tentamos observar
a realidade que apresentam ou que, por vezes, não
conseguem representar, deturpam e até dissimulam.
(REDFIELD,1994, p.147).
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Atividades de autoaprendizagem
1. Atualmente, a importância da arqueologia e dos estudos da vida
material e quotidiana está bem mais difundida entre os historiadores do
que há algum tempo atrás. Esses estudos têm levado os historiadores a
perceber a necessidade de buscar perspectivas de análises mais plurais,
ampliando seu olhar para a compreensão de realidades que não são
passíveis de se entreverem por outras fontes, como os textos antigos.
A partir do que você estudou nesta unidade, escreva sobre a
importância do estudo da cultura material, dos vestígios arqueológicos,
para a compreensão do fenômeno da guerra em Roma. Redija um texto
dissertativo de, mais ou menos 10 linhas, justifcando sua resposta.
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2. Releia a seção desta unidade que diz respeito ao famoso Orbis
Terrarum. Leia o seguinte trecho da historiadora brasileira
Norma Mendes:
A concepção de domínio universal também é
expressamente veiculada por este mapa elaborado
possivelmente entre o ano 2 e 10 d. C. atribuído a
Agripa. Os dois espaços fundamentais que estruturavam
o universo mental dos romanos são a urbs et orbis
terrarum. A urbs é o centro do mundo, a cidade da vida
social, do prazer, dos templos, da riqueza, da cultura e
do poder. O orbis terrarum é representado gradualmente
no momento da conquista por ocasião das cerimônias de
triunfo. Ao longo do desfle eram apresentados os mapas
com a lista das cidades, os nomes das montanhas e rios
conquistados, projetando-se, conforme o conhecimento
cartográfco da época, a forma e a distância das regiões
submetidas. Após a cerimônia estes mapas eram
pintados nos muros dos templos de acordo com o ritmo
das conquistas. Evidentemente, por razões políticas
e administrativas estes mapas tinham como objetivo
visualizar a posse do mundo. (MENDES, 2001, p. 44).
Tendo isto em mente, em associação ao estudado na unidade,
responda: qual a importância da representação do mundo feita pelos
romanos para a consolidação de seu Império?
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Saiba mais
Documentários:
Aníbal o pesadelo de Roma (Direção de Edward Bazalgette,
documentário da BBC, Inglaterra, 2006). Conta a história de
Aníbal Barca, general e estrategista cartaginês, flho de Amílcar,
famoso pela luta contra a República Romana na Segunda Guerra
Púnica (218 a 201 a.C.), quando marchou em direção a Roma
através da Espanha e do sul da França, cruzando os Alpes
com uma infantaria de 100.000 soldados, 12.000 cavalos e 50
elefantes. Sua história reviveu com Petrarca (1304-1374), em seu
poema épico Africa.
Pompeia, o Último Dia, da BBC, um excelente documentário,
disponível em DVD e traduzido para a língua portuguesa. Nele,
além da ótima reconstituição dos momentos que antecederam a
erupção do Vesúvio, podemos assistir a uma boa entrevista com o
arqueólogo brasileiro Pedro Paulo de Abreu Funari sobre a vida
quotidiana nesta cidade. É um bom meio para você perceber a
importância do estudo dos vestígios materiais para a história.
Construindo um Império – Roma (Te History Channel –
Construindo um Império – Vol. V). Este documentário, ganhador
do Emmy 2007, retrata, por meio da computação gráfca e de
flmagens de sítios arqueológicos, a expansão e a construção do
Império Romano, com ênfase em sua arquitetura e engenharia.
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Unidade 1
Referências Bibliográfcas
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Rome. Vol 1. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.
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UNIDADE 2
Guerras Medievais
Nilson Vieira Ferreira de Mello
Paulo André Leira Parente
Objetivos de aprendizagem
„
Conhecer o sentido e a motivação da guerra na Idade
Média.
„
Compreender as relações entre guerra, sociedade e
religião no período medieval.
„
Identifcar as características das Cruzadas e da Guerra
dos Cem Anos no âmbito da História Militar.
Seções de estudo
Seção 1 Introdução
Seção 2 Decadência e queda do Império Romano
Seção 3 O Barbarismo
Seção 4 Carlos Magno
Seção 5 O Feudalismo
Seção 6 A Igreja e as Cruzadas
Seção 7 A Guerra dos Cem Anos: 1338-1453
Seção 8 A concepção da guerra na Idade Média
Ocidental
2
74
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de estudo
A história medieval foi associada a um período de trevas pela
historiografa tradicional. Esta associação teve suas origens
na cultura renascentista europeia e foi reforçada, em parte,
na historiografa do século XIX. Os sábios renascentistas
identifcaram dois ápices da cultura e da flosofa na civilização
ocidental.
Vamos ver quais foram eles?
„ Primeiro, o mundo antigo greco-romano, em sua
farta produção literária, flosófca e de investigação da
natureza, que fundamentava as bases do conhecimento
renascentista.
„ Segundo, os tempos presentes do renascimento nos quais
viviam. Período no qual a flosofa e a ciência adquiriram
um novo impulso, o qual defniu a civilização ocidental.
Para o Renascimento, a Idade Média foi justamente um período
intermediário entre dois cumes da civilização, relativos ao
esplendor na produção cultural. No século XIX, os grandes
temas dos estudos históricos que interessavam preferencialmente
aos historiadores eram, dentre outros, o Estado, o direito, a
administração, as fronteiras, o território e a nacionalidade.
O período medieval passou quase despercebido aos historiadores,
os quais não encontravam nele a atração de estudos e pesquisas
conforme os temas preferenciais de sua historiografa. Entretanto
a Idade Média não passou despercebida ao movimento literário
romântico do século XIX, que a valorizou e a elegeu como
ambiente preferencial de sua literatura.
No século XX, o surgimento da nova história social e cultural
resgatou os estudos medievais, buscando uma nova Idade Média.
Esta nova confguração proporcionou analisar a construção:
„ do Estado Nacional;
„ da sociedade do Antigo Regime;
„ da cultura flosófca humanista que amparou o
Renascimento;
75
História Militar Geral I
Unidade 2
„ do brilho cultural e flosófco do cristianismo; e,
„ da invenção da Europa.

Nos dias atuais, os estudos dos medievalistas nos apresentam
uma realidade medieval muito distante do “período das trevas”,
seja na ciência, na flosofa, na política ou na cultura.
No âmbito dos estudos promovidos pela História Militar,
identifcamos a formação da cavalaria, a infantaria dos lanceiros,
os confitos senhoriais e as duas grandes experiências da guerra:
as Cruzadas e a Guerra dos Cem Anos.
Muito temos a aprender com a História Militar da Idade Média!
Vamos a ela!
Seção 1 – Introdução
A Idade Média, por conveniência meramente didática, estende-
se da queda do Império Romano do Ocidente, em 476 da nossa
era, até a tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453.
Trata-se, portanto, de um longo período histórico de dez séculos,
que tem sido considerado um tempo de obscurantismo, mas que
foi também um período de grande fermentação de ideias. Mas, se
considerarmos os tempos que a precederam, o observador isento
há de verifcar que ela não foi assim tão negativa.
Quanto ao propalado obscurantismo cultural, basta lembrar
que, exatamente na Idade Média, fundaram-se as grandes
universidades europeias, entre outras:
„ de Paris;
„ de Salerno;
„ de Bolonha.
Mas que tipo de conhecimento estava sendo elaborado naquela época?
Vamos retomar alguns dados importantes.
Michelet, que viveu no
período de 1798 a 1874,
chamou-a de noite de
mil anos, certamente
comparando-a com as
transformações flosófcas,
tecnológicas e científcas
que ocorriam no século
XIX.
76
Universidade do Sul de Santa Catarina
No século XIII, especialmente na Universidade de Oxford, os
estudos de lógica e de matemática desenvolviam-se intensamente.
Contemporaneamente, o dominicano Alberto Magno e Santo
Tomás de Aquino pontifcavam na flosofa, e o franciscano
Rogério Bacon destacava-se na mecânica, ótica e química. No
mosteiro de Corbie, perto de Amiens, os monges compilavam
em manuais didáticos todo o saber geométrico então disponível.
O mundo aproximava-se do primeiro milênio, quando um
matemático árabe, Al-Khwarizmi, criou a álgebra. Nas letras,
Dante, Petrarca e Boccacio são nomes inesquecíveis, tanto quanto
a contribuição da Igreja para a preservação do acervo cultural da
Antiguidade clássica.
Porém é na concepção do homem como ser dotado
de atributos sagrados que melhor se evidenciam as
diferenças positivas da Idade Média cristã do passado
politeísta.
O mundo antigo vivia mergulhado na mitologia, incentivadora de
vícios e crueldades. Os deuses, caso exaltassem algumas virtudes,
por outro lado consagravam taras e comportamentos abjetos.
Sátiros, faunos, Príapo e Baco tiveram seus altares e legiões de
adoradores. O politeísmo, longe de inculcar nos espíritos a noção
da dignidade do homem, sacralizava suas fragilidades.
A inveja, o ciúme e a vingança seriam alguns exemplos destas
fragilidades.
As graves defciências morais da Antiguidade eram, porém,
superadas quando a guerra dava aos povos antigos um destino
cívico, o qual submetia a existência individual, geralmente presa
ao egoísmo e ao prazer, ao interesse da coletividade. Era já uma
ideia de pátria, encontrada nos exemplos de virtudes cívicas das
cidades gregas e da república romana.
Mas, se a brilhante civilização clássica legou-nos tantas obras
de profunda sabedoria e deslumbrante beleza, também deixou-
nos exemplos degradantes de crueldade e de aviltamento do ser
humano.
77
História Militar Geral I
Unidade 2
A escravidão existiu por toda a Antiguidade e os
amores infames professados por eminentes fguras
da Grécia e de Roma, como a pedoflia, a sodomia e
o incesto, são nódoas que mancham o brilho de uma
era tão decantada.
Porém o aspecto mais chocante dos tempos antigos é a crueldade.
Mesmo na fase áurea dos Antoninos, havia o costume de se
exporem os flhos na porta de casa quando não se desejava criá-
los. Se ninguém por eles se interessasse, morriam à míngua
ou devorados por animais famintos. Essa crueldade, que
permeava toda a sociedade politeísta, tornava-se espetacular nos
divertimentos de incrível ferocidade com que se compraziam os
antigos. Os combates de gladiadores e os espetáculos de sadismo
coletivo de feras estraçalhando e devorando seres humanos são
marcas sangrentas de uma época de absoluto desprezo pela vida
humana.
Ao cristianismo devemos a mudança dessa mentalidade, iniciada
quando o monge romano Telêmaco desceu à arena, e, em
presença do imperador, separou os gladiadores. Feito em pedaços
pela assistência -- enfurecida por alguém pretender privá-la do
esperado divertimento --, foi canonizado pela Igreja por seu
martírio. Mas foi, sobretudo, graças ao dogma da criação do
homem à semelhança de Deus que a noção da dignidade humana
tem prosperado.
É oportuno lembrar que a ideia de uma idade medieval de transição
entre a Antiguidade e a Idade Moderna aplica-se à civilização
ocidental. Nos mil anos da Idade Média, na Índia e na China,
foresceram civilizações muito antigas e adiantadas, enquanto, nas
vastidões do interior asiático e na África, alguns povos ainda viviam
no estágio tribal.
78
Universidade do Sul de Santa Catarina
Seção 2 – Decadência e queda do Império Romano
No alvorecer do século IV, a civilização clássica mostrava
sinais de decadência. Roma, após conquistar o mundo, parecia
enfastiada do poder. Suas legiões, instrumento da sua grandeza,
degradavam-se na medida em que eram destituídas as demais
instituições do Império. Conforme Jérôme Baschet:
As desordens ligadas aos movimentos migratórios e ao
fm da unidade romana têm conseqüências econômicas de
primeira importância. A insegurança, combinada à falta
de espécimes monetários e à ausência de manutenção
seguida pela destruição progressiva da rede de estradas
romanas, engendra o declínio e o quase desaparecimento
do grande comércio, antes tão importante no império
[...]. A produção realiza-se, doravante, em uma escala
cada vez mais local, o que acentua ainda mais o declínio
das trocas. A regionalização das atividades produtivas,
paralela à fragmentação política, é justamente uma das
características fundamentais da Alta Idade Média. (2006,
p. 54).
A cultura latina, diferentemente da grega, baseava-se mais
em realizações concretas do que em ideias especulativas e em
criatividade artística. Roma nutria-se de suas conquistas. O
Estado, o Império, suas leis e a pax romana eram sua razão de ser.
O exército, garantia de sua existência, entrara em lento processo
de decadência desde o século anterior, quando se acentuou a
infltração estrangeira nas suas fleiras. César, após conquistar a
Gália, incorporou ao exército, contingentes bárbaros, inclusive
toda uma legião gaulesa. Mais tarde, já no Baixo Império, quase
toda a cavalaria romana era constituída de contingentes bárbaros,
entre os quais diversos atingiram a hierarquia mais alta do
generalato.
Vamos ver alguns exemplos destes? Estilicão, sob o
Imperador Honório, entre 395 e 423; Ricemer, com os
últimos imperadores do ocidente, no período de 455 a
472; e Odoacro, com o Imperador Rômulo Augusto, de
475 a 476.
A chamada Legião Cotovia.
79
História Militar Geral I
Unidade 2
Conforme Arther Ferril:
A partir da época de Constantino, o exército ocidental,
particularmente as unidades gaulesas, tornou-se a
principal fonte de tropas de escol no Império Romano
[...]. Pode-se ver o refexo de uma grande e antiga
máquina militar, de um exército incomparável, de
uma tradição combativa infnitamente mais primorosa
e requintada do que qualquer coisa conhecida pelos
bárbaros nas fronteiras. O colapso e a barbarização
dessa máquina são tão mais signifcativos quando se dá
conta do grau de sua complexidade. No fnal das contas,
a barbarização exerceu impacto bem maior no exército
ocidental do que no oriental. (1989, p. 70).
Essa persistente infltração agravou-se quando as fronteiras
fcaram entregues a contingentes desfalcados, majoritariamente
integrados por soldados estrangeiros. Constantino, que, no século
IV, instituiu o Cristianismo como religião ofcial do Estado,
preocupado com as fronteiras do Danúbio e da Pérsia, criou uma
força central de intervenção. Para isso, diminuiu o efetivo das
legiões tradicionais, cujos integrantes venciam soldos menores do
que os da força de intervenção, gerando ressentimentos. Assim,
Constantino
[...]reduziu o tamanho da legião de cerca de cinco
mil para apenas mil combatentes. Dissolveu a guarda
pretoriana, já que o novo exército móvel a tornara
obsoleta [...]. As tropas de fronteiras (limitanei e ripenses
– literalmente guardas de fronteira e guardas fuviais)
nas novas e menores legiões, apoiadas por modestos
contingentes de cavalaria e comandados por um dux
(duque), podem ter servido como uma espécie de força
policial regional nas condições um tanto mais turbulentas
e desordenadas, predominantes nas províncias fronteiriças
do Baixo Império [...]. À medida que se modifcavam a
tática e a organização militar, o mesmo ocorria com as
armas e a proteção do homem. (FERRIL, 1989, p. 43).
Juliano, que repudiou o Cristianismo, sendo por isto chamado de
Apóstata, admitiu francos no exército, designando-os de auxiliares
perpétuos e concedeu-lhes terras no Baixo Reno, o que agravou
os ressentimentos. Em Roma, a Guarda Pretoriana, já em si uma
unidade privilegiada, aumentava seu prestígio político disputando
Esta força de intervenção
foi denominada
comitatus.
80
Universidade do Sul de Santa Catarina
com outras legiões a capacidade de fazer os imperadores. Como
estes costumavam gratifcar os soldados das legiões que os
apoiaram com uma quantia em dinheiro, o donativus, logo o
processo de escolha do imperador tornou-se um rendoso negócio
para os legionários, conspurcando a política e corrompendo o
exército.
O uso de tropas auxiliares, compostas por corpos de mercenários
bárbaros, e o número de ofciais de origem bárbara aumentaram
progressivamente, entre os séculos IV e V, transformando e
debilitando as instituições tradicionais do exército imperial
romano. Além disso, outra política imperial tornou-se uma
ameaça à integridade territorial e institucional romana. Povos
inteiros, organizados, mas não assimilados à cultura latina,
recebiam permissão para habitar no território imperial ao
ocidente do Reno, através do contrato de feudo, do latim foedus.
Com a decadência militar e da administração, o Império
Romano perdeu as condições de controle e domínio sobre estes
povos. Segundo Maria Sonsoles Guerra:
Através de um contrato com Roma, os povos bárbaros
ocupavam as terras romanas e, em troca, forneciam ao
governo imperial certo número de soldados. Porém esses
povos mantinham seus costumes, organização social e
política, o que no futuro trouxe conseqüências desastrosas
para o Império. Inicialmente, era triplamente vantajosa
tal prática: cultivavam-se as terras, criava-se um Estado-
tampão entre as nações germânicas e a România e
dispunha-se de uma reserva de soldados nos momentos
de crise política. (1991, p. 40).
Nesse quadro de decadência generalizada, intensifcaram-se as
pressões sobre os limes.Ao longo de todo o século V, os repetidos
assaltos dos bárbaros, movidos pela atração natural exercida
pelas culturas mais avançadas, ou por outras causas ainda pouco
identifcadas, geraram intensa migração de tribos nômades vindas
do leste, as quais empurravam os bárbaros já estabelecidos na
periferia do Império. Assim:
As longínquas fronteiras do Império.
81
História Militar Geral I
Unidade 2
O Império Romano dos séculos IV e V já não estava em
situação de conter a pressão dos povos bárbaros. O escol
combatente das tribos germânicas e eslavas cobiçava as
riquezas e as terras do Império. O crescimento numérico
das tribos e das nacionalidades que elas começavam a
constituir obrigava-os a procurar novos espaços. Durante
os últimos séculos de existência do Império Romano,
tanto as tribos isoladas como as federações militares
lançavam-se em vagas sucessivas sobre a Europa, de norte
a sul e de leste a oeste.(ABRANSOM, GUREVITCH e
KOLESNITSKI, 1978, p. 52).
Dessa forma, na metade do século IV, haviam-se rompido os
limes no Reno e no Danúbio, cujas águas congeladas facilitaram o
derramamento de bárbaros no interior do Império. Através deste
rompimento:
„ os godos espalharam-se pelo vale do Danúbio, atingiram
os Bálcãs, a Itália e chegaram à Espanha;
„ os francos, ultrapassando o Reno, ocuparam a Gália;
enquanto
„ os anglos e saxões fxavam-se na Inglaterra.

Por seu turno, as forças do Islã, repelidas em Constantinopla
após oito anos de lutas, entre 668 a 675 AD, durante as quais
empregaram o fogo grego para conter os sitiantes da cidade,
rumaram para o norte da África, de onde passaram à Espanha e
ao sudoeste da França.
Das estepes asiáticas, os hunos, partindo dos territórios das
atuais Hungria e Transilvânia, lançaram, durante mais de um
século, incursões terríveis contra os campos e os mosteiros da
Alemanha, Gália e Itália. Irrompendo pela Europa Ocidental
foram, afnal, detidos no interior do continente, na Batalha dos
Campos Catalúnicos, no ano de 451. Com a morte do Flagelo de
Deus, denominação de Átila pelos bispos alemães, dois anos
após essa batalha, os hunos retrocederam para o Danúbio e lá
sedentarizaram-se.
82
Universidade do Sul de Santa Catarina
Você sabia que os hunos eram formados por diversas
tribos nômades? Os hunos eram povos de língua
mongólica, cujas atividades principais eram a guerra,
o saque, a caça e o pastoreio. Formavam um povo
de guerreiros cuja estrutura social privilegiava a
habilidade com o arco, o domínio dos cavalos e a
bravura nos combates. Foram liderados por Átila, que
viveu no período de 406 a 453.

Mais tarde, já no século XIII, os mongóis, montados em seus
ágeis e resistentes pôneis, construíram um grande império,
que ia da Rússia à Índia e ao norte da China. Tanto os hunos,
conhecidos no Ocidente como húngaros, como os mongóis,
ferravam seus cavalos e usavam estribos, o que lhes dava
apreciável superioridade nos grandes deslocamentos e nos
combates.
Roma, obrigada a enfrentar tantas invasões e
debilitada pela corrupção e desmandos internos,
acabou caindo diante do godo Odoacro, em 476 da
nossa era, ano convencionado como início da Idade
Média.
Segundo Pierre Riché (1953, p. 61): “O primeiro gesto de
Odoacro ao se instalar no Palácio de Ravena foi embrulhar as
insígnias imperiais e as enviar para Bizâncio. O Império Romano
estava morto no ocidente.”
Seção 3 – O Barbarismo
As migrações dos bárbaros provocaram nas províncias
romanas encontros culturais diversos, dos quais
resultou a civilização medieval, síntese das tradições
de vários povos.
Estudos recentes revelam ter sido relativamente pequeno o
número de invasores, quando a ideia que antes prevalecia era a
de vagas numerosas e sucessivas que acabaram por submergir
Povos das estepes asiáticas
liderados por Gengis Cã, que viveu
entre 1162 e 1227.
83
História Militar Geral I
Unidade 2
o Império Romano. Parece que o que houve, salvo incursões
violentas as quais, na maior parte das vezes, retornavam às
origens, foi uma persistente infltração de grupos humanos que se
instalavam no seio de populações já bastante diversifcadas.
Conforme a indicação de Hilário Franco Jr.:
Cada grupo invasor (franco, ostrogodo, vândalo, etc.)
tinha em média apenas entre 50.000 e 80.000 pessoas,
computados guerreiros, mulheres e crianças. No
conjunto, uma estimativa de forma geral aceita, calcula
que o total de germanos que se fxaram no império
representava somente uns 5% da população romana.
Desta forma, não houve um reforço populacional
germânico, porque a chegada de algumas poucas dezenas
de milhares de bárbaros teve como contrapartida o
despovoamento de regiões inteiras diante de seu avanço.
(2001, p. 20).
As tribos germânicas foram, assim, abandonando seus hábitos
tribais paulatinamente e absorvendo noções da organização
estatal dos latinos. Vários reinos foram sendo formados, como:
„ o dos francos na Gália;
„ o dos anglos e saxões na Inglaterra;
„ o dos visigodos na Península Ibérica; e,
„ o dos ostrogodos na Itália.

Esta é a fase da Idade Média denominada, do ponto
de vista militar, de Barbarismo.
Esses povos, todos de origem germânica, vinham de um passado
tribal no qual a organização social era muito rudimentar.
Vamos observar como ocorria esta forma de organização social?
Os chefes da tribo, escolhidos por sua capacidade de liderança,
exerciam autoridade sobre todas as atividades comunitárias,
a mais importante das quais era a guerra. Os chefes e seus
84
Universidade do Sul de Santa Catarina
guerreiros eram organizados por tribos ou, posteriormente, por
territórios. O mando militar sobre os guerreiros era hereditário e
se concentrava nas mãos de chefes de clãs. Em torno do chefe de
clã circulava o séquito ou parentela, em latim, o comitatus.
Segundo Maria Sonsoles Guerra:
Criava-se assim um setor de pessoas dependentes e um
grupo de homens livres para o serviço de armas na guerra
e nas expedições de botim. O enriquecimento dos chefes
favoreceu sua transformação em proprietários. Deste
setor, surgiu o grupo dirigente da formação política,
seja em uma espécie de principado ou em forma de
monarquia. Foi desta nobreza que saíram os chefes do
exército da época tardia. (1991, p. 17-18).
As terras eram de propriedade comum, mas distribuídas
temporariamente a determinados membros da comunidade, que
as exploravam de forma precária. A caça era atividade necessária
para suplementar a dieta, mal atendida pela exploração da terra,
e também para aperfeiçoar as armas e o treinamento para a
guerra. Falavam diferentes dialetos germânicos que, aos poucos,
foram absorvendo expressões latinas. Psicologicamente, eram
essencialmente belicosos; suas crenças e lendas giravam em torno
de atos de violência, que um ambiente rude e uma sobrevivência
difícil mais estimulavam. Assim:
O caráter militar é o traço mais típico da sociedade
germânica. A guerra era a razão de ser do germano, que
devia sempre estar preparado para o ataque. Suas armas
eram principalmente ofensivas: lanças, espadas longas
com duplo corte e machados. A organização dos exércitos
bárbaros descansava no serviço de todos os homens livres
em estado de combater, equipar-se e alimentar-se, pelo
menos, para uma curta expedição. As mulheres também
davam a sua contribuição aos guerreiros. Estes, caso
fossem vencidos, se matavam no campo de batalha ou
se entrincheiravam nas fortalezas da foresta, esperando
uma nova ocasião. Uma das principais atividades dos
germanos estava ligada à guerra: a metalurgia das armas,
arte na qual eram insuperáveis. (GUERRA, 1991, p. 17).
85
História Militar Geral I
Unidade 2
Acreditavam que morrer lutando era uma forma de
alcançar recompensas dos deuses, crença que lhes
exaltava a natural agressividade.
Nessa sociedade guerreira, os indivíduos mais impetuosos
difcilmente mantinham-se dentro dos limites da organização
social. Geralmente escolhiam um líder e escapavam da
autoridade do chefe comunitário, constituindo bandos (ou bandas)
de guerra, para empreenderem ações violentas. Os responsáveis
pela segurança do Império tentaram, a princípio, reprimir esses
bandos, até que perceberam ser mais conveniente colocá-los na
guarda das fronteiras, em convivência com as legiões, cujos
padrões de disciplina acabaram contaminando.
E para lutar, que tipos de armas utilizavam?
As armas utilizadas por esses povos eram ofensivas,
coerentemente com seu espírito agressivo. Desprezavam
equipamentos defensivos, como capacetes e couraças, mas usavam
os seguintes:
„ espadas longas com dois gumes;
„ cutelos;
„ lanças;
„ gládios curtos; e,
„ uma espécie de arpão que, preso a uma corda, podia ser
recuperado depois de arremetido.

A arma mais original que empregavam, a francisca como a
chamavam os francos, era uma espécie de machado de cabo
curto, com gume cortante como navalha -- graças à excelência da
metalurgia germânica -- , usada por arremesso ou na luta corpo-a-
corpo.
86
Universidade do Sul de Santa Catarina
Seção 4 – Carlos Magno
Carlos Magno, rei dos francos por 46 anos, de 768 a 814,
representa a transição entre o Barbarismo e a fase seguinte, a
do Feudalismo. Dotado de vocação de estadista, inteligente e
ambicioso, recuperou a noção romana de Estado, fortaleceu
o poder central e concebeu audacioso plano de expansão, que
transformaria seu reino num grande império.
Conforme Jérôme Baschet:
Ele se lança em uma vasta política de conquista militar, de
início na Itália, onde vence os lombardos e apossa-se de sua
coroa, depois, contra os saxões, que haviam permanecido pagãos
e cuja resistência obstinada impõe a Carlos Magno 32 anos
de campanhas de uma violência extrema, onde se mesclam
massacres e deportações, terror e conversões forçadas. O
resultado, importante para a história da Europa, é a conquista da
Germânia e sua integração à cristandade. Enfm, Carlos Magno
leva a guerra mais longe, contra os eslavos da Polônia e da
Hungria e contra os avaros. (2006, p. 70).
Quando o rei da Lombardia ameaçou os Estados Pontifícios,
Carlos Magno foi em socorro do Papa, ocupando não apenas
aquele reino, mas também todo o restante da Península Itálica.
Anexou a Aquitânia, a Baviera e, após 30 anos de luta, a
Saxônia. Teve, porém, de desistir da conquista da Espanha após
o massacre da retaguarda de seu exército pelos sarracenos no
desfladeiro de Roncevales, onde morreu Rolando, um dos seus
lendários 12 pares. O episódio foi o canto marcial das tropas
francesas durante boa parte da Idade Média.
Carlos Magno recebeu das mãos do Papa, no Natal do ano 800, a
coroa imperial. Com este gesto fcava restaurado o Sacro Império
Romano do Ocidente, 324 anos após ter sido derrubado pelos
bárbaros de Odroarco e --ironia do destino -- por um soberano de
origem bárbara.

Agora, vamos observar como Carlos Magno agia no campo militar?
Decantado na famosa Chanson
de Roland, poema épico do
gênero canção de gesta.
87
História Militar Geral I
Unidade 2
Do ponto de vista militar, Carlos Magno foi um dos grandes
capitães da história, sem dúvida o maior da Idade Média. Sua
contribuição à arte militar foi importante e inovadora. Suas
famosas Capitularias estabeleciam regras para a organização
do exército, serviço militar, justiça, disciplina e mobilização.
Esses assuntos, que hoje nos são perfeitamente familiares, eram
verdadeiramente revolucionários naquela época e tiravam a
atividade militar do costumeiro empirismo para o planejamento
refetido.
Conforme observou Jean Favier:
A mobilização das forças é um elemento essencial de
uma estratégia baseada na presteza das intervenções [...].
Além daqueles que foram reunidos pela assembléia, isto
é, os quadros do exército, é necessário fazer que cheguem
aos locais das operações o conjunto dos combatentes,
com armas, bagagens e víveres. A ordem parte do palácio
para os arcebispos, encarregados de retransmiti-la
imediatamente aos bispos, aos abades e aos condes. Já
prevenidos de que participarão da próxima campanha,
os combatentes só precisarão de algumas horas para se
equipar. Nessa estação do ano eles já esperam partir, e
tudo já está preparado. A rapidez da execução da ordem
se deve às punições a que fca sujeito aquele que, avisado
de manhã que o rei o chama às armas, não se puser em
marcha na noite do mesmo dia, armado e acompanhado
de seus homens. A rigor, o prazo de mobilização é de 24
horas. Os senhores dos domínios se tornam responsáveis.
(2004, p. 161).
Como comandante de tropa em operações, Magno selecionava os
objetivos por critérios estratégicos e políticos, visando a expansão
e segurança do Estado, desprezando aqueles de lucro imediato
pela pilhagem, aliás, formalmente proibida. Suas tropas estavam
autorizadas apenas a obterem água, lenha e verduras nas áreas em
que operavam.
Embora a estratégia e a tática que empregava em suas operações
não tenham fcado claramente registradas, é possível deduzi-las
do estudo de suas campanhas.
Espécie de código escrito
para substituir o velho
sistema de ordens orais.
88
Universidade do Sul de Santa Catarina
Como diretor da guerra, os estudiosos apontam o seguinte:
„ seu cuidado em respeitar as peculiaridades culturais dos
territórios conquistados;
„ sua habilidade em estabelecer alianças rentáveis; e,
„ sua capacidade de selecionar objetivos politicamente
importantes.

E, como comandante operacional, como Carlos Magno agia?
„ Distribuía adequadamente suas forças no teatro de
operações.
„ Regulava seus movimentos.
„ Concentrava-as para obter a decisão, após estudar o
inimigo e o seu dispositivo.

O sucesso que obteve nas 54 campanhas que empreendeu refete
sua extraordinária capacidade como condutor de grandes massas
de combatentes.
Seção 5 – O Feudalismo
Após a morte de Carlos Magno, terminou o curto interregno do
poder centralizado com a fragmentação do Império em vários
reinos, justamente quando nova onda de invasões assolava a
Europa.
Vamos ver dois exemplos destas novas invasões, efetuadas pelos
vikings, sarracenos e magiares?
„ Da Escandinávia saíam os vikings que, nos seus barcos
de proa alta, os esplêndidos drakkar, navegaram pelo
Báltico, a Mancha e atingiram o sul da Itália e a Sicília.
Pelo Atlântico Norte, os vikings alcançaram a Islândia, a
Groenlândia e até o continente americano.
89
História Militar Geral I
Unidade 2
„ Os sarracenos, impulsionados pelo missioneirismo
religioso do Corão, estabeleceram-se no sul da Itália, na
Sicília e na Sardenha.
„ Os magiares, a leste, penetravam na Germânia.
Você sabia que viking era a palavra pela qual os
escandinavos designavam os seus reis ou chefes e
que, por extensão, estendeu-se a todos os povos do
norte, os normandos, como eram chamados pelos
francos? Esses povos nórdicos, em suas atividades
expansionistas, chegaram a estabelecer uma
monarquia na Inglaterra, no ano de 1016, e uma
colônia em Novogorod, penetrando pelos grandes
rios da Rússia.
Em comparação ao ocidente carolíngio, não havia superioridade
numérica ou dos armamentos vikings. As armas que utilizavam
eram todas conhecidas no ocidente:
„ o machado;
„ a espada;
„ o punhal;
„ o escudo;
„ o arco;
„ a azagaia;
„ o capacete de couro;
„ a cota de malhas; e, eventualmente,
„ as armaduras.

As máquinas de guerra que utilizaram contra as cidades e
fortalezas carolíngias em busca do botim também compunham o
domínio tecnológico do ocidente, de quem podem ter copiado os
seguintes engenhos:
„ o triplo aríete feito de pranchões e com uma ponta de ferro;
„ as gatas, galerias de madeiras móveis recobertas de
couro, que serviam como abrigo dos guerreiros nas
aproximações das muralhas sitiadas;
90
Universidade do Sul de Santa Catarina
„ os manteletes, proteções de madeira que abrigavam três ou
quatro guerreiros e as catapultas.

A superioridade militar dos vikings, que permitiu a efciência
de suas conquistas e vitórias militares as quais enfraqueceram
o Império Carolíngio, foi um trunfo específco de seu domínio
exclusivo: o barco.
Nas palavras de Albert D’Haenens, os barcos vikings:
Eram embarcações muito simples, desprovidas de pontes
ou só com meias pontes, munidas de um leme lateral, cuja
popa e proa se erguiam em pontas ornadas com fguras; com
cerca de vinte metros de comprimento, três a cinco metros
de largura, deslocavam-se com remo ou vela, e podiam
transportar até cinqüenta homens. Esses barcos leves, de
pouco calado, movidos por remadores, fáceis de ser trazidos
para a praia e aptos a ser levados bem no interior das
terras, garantiam aos normandos uma rapidez de execução
que contrastava com o pesado aparato militar carolíngio;
serviam-lhes ao mesmo tempo como meio de transporte e
de campo móvel que acompanhavam os saqueadores durante
todas as incursões, descarregando-lhes as bagagens inúteis
no combate; asseguravam-lhes também a retirada em caso
de transbordamento. (1997, p. 27).
Todas essas incursões de povos que não professavam o
Cristianismo despertaram uma premente necessidade de
defesa. Na ausência do poder central, os senhores locais foram
assumindo essa responsabilidade, recebendo do rei, detentor
nominal de todas as terras do reino, bens fundiários como
recompensa, pois não havia um sistema fscal capaz de gerar
recursos de outra natureza. Desta maneira, todos os senhores
medievais, em torno do ano 1000, eram grandes proprietários
de terras, fossem descendentes da nobreza carolíngea ou de
nobreza guerreira.
De forma análoga, a Igreja expandiu muito as suas propriedades
nas áreas rurais, pois suas abadias, transformadas em verdadeiras
fortalezas, abrigavam os camponeses quando das incursões dos
não cristãos. Em suma: duques, condes, barões e marqueses,
juntamente com bispos e abades, acabaram por concentrar,
em suas mãos, enorme soma de poderes, inclusive funções
nitidamente de governo, como justiça e defesa.
A nobreza carolíngea representava
aquela sanguínea e a guerreira,
o status adquirido nas lutas em
defesa do reino.
91
História Militar Geral I
Unidade 2
Podemos dizer que a sociedade medieval acabou
por estruturar-se em três ordens: a dos que rezavam,
a dos que guerreavam e a dos que trabalhavam
para sustentar as outras duas, ou seja, a dos oratores,
bellatores e laboratores, respectivamente.
Mas você já pensou sobre o signifcado do termo Feudalismo, a que ele
se refere?
Feudalismo refere-se aos laços que uniam na sociedade medieval
o suserano a cada um dos seus vassalos, e vice-versa. O feudo,
inicialmente concedido à vida, logo se tornou hereditário. Os
vassalos, ao deixá-lo para os seus sucessores, dividiam-no pelo
número de seus herdeiros, e assim sucessivamente, gerando um
processo que, ao longo do tempo, diminuía paulatinamente o
valor da recompensa original, empobrecendo os senhores feudais.
Esses nobres empobrecidos tornaram-se sensíveis aos apelos
das aventuras rendosas para robustecerem seus haveres, como as
Cruzadas, mas que, afnal, vieram a se constituir em causa de
pobreza ainda maior, como veremos adiante.
O vassalo era homem livre, e seu dever maior em relação ao
suserano tinha uma natureza militar. Fundado em juramento
solene, cuja quebra implicava perjúrio, crime imperdoável na
época, devia ao senhor consilium e auxilium, isto é, participar
do aconselhamento do suserano e prestar-lhe serviço de guerra.
Por sua vez, o suserano obrigava-se a protegê-lo em quaisquer
circunstâncias, na paz como na guerra.
Conforme defniu Jérôme Baschete, para entender a formação da
nobreza
[...] seria necessário falar dos milites, que adquirem
importância crescente. No início simples guerreiros a
serviço dos castelões, vivendo em sua corte, por volta
do ano mil eles ainda parecem assimiláveis a agentes
militares e não formam um grupo coerente, mas sua
ascensão parece clara no fm do século XI e durante o
século XII, à medida que recebem terras em recompensa
de serviços [...]. Entretanto a concepção mesma do grupo
aristocrático conhece, então, uma importante redefnição
em torno do próprio qualifcativo de miles e do fato de
pertencer à cavalaria, à qual se ascende pela celebração
de um ritual e que se adota um código de ética cada vez
mais estruturado. (2006, p. 110-111).
Termo oriundo da palavra
céltica gwas.
92
Universidade do Sul de Santa Catarina
Esses senhores feudais acabaram por criar uma
confraria, a dos cavaleiros, e uma instituição de imensa
infuência na Idade Média, a Cavalaria.
E no que constituía o processo para tornar-se cavaleiro, função de
grande prestígio na época?
Sagrar-se cavaleiro era o sonho de todo jovem, mas exigia severa
preparação em artes militares, como manejar armas e praticar
equitação. Implicava uma cerimônia, denominada fé e homenagem,
constituída de ritos solenes. O candidato, na véspera, jejuava,
orava, assistia à missa e comungava, cortava os cabelos em sinal
de obediência e vestia-se de branco, cor da pureza.
Passava a noite em vigília d´armas e, no dia da sagração,
envergava um manto vermelho, simbolizando o sangue que
irá derramar, daí por diante, pela religião e pelos princípios
da Cavalaria. Ato contínuo, ajoelhava-se ante seu padrinho e
passava suas mãos postas entre as dele que, então, lhe desferia
no ombro a espadeirada, última injúria que receberia sem a
obrigação de reagir.
Em seguida, o padrinho entregava-lhe as esporas douradas e
proferia as palavras rituais de sagração: “Em nome de Deus, de
São Miguel e de São Jorge, eu te faço cavaleiro. Sê denodado,
bravo e fel”. O novo cavaleiro jurava então:
[...]derramar o sangue pela religião, pelo rei e pela pátria,
e na defesa das mulheres, dos órfãos e dos oprimidos;
obedecer aos superiores e ser como irmão para os iguais;
não aceitar pressão de príncipe estrangeiro, nem faltar
nunca à palavra empenhada, nem manchar os lábios com
mentiras e calúnias. (BARIDON, 1958, p. 117 e 118).
Ligados por esse juramento, os cavaleiros constituíam, no
seu conjunto, a Cavalaria, instituição que se assemelhava às
sociedades herméticas e esotéricas, não devendo, porém, ser
93
História Militar Geral I
Unidade 2
confundida com a Arma de Cavalaria dos exércitos modernos.
Conquanto tenha incorporado muitos dos valores ideais da
instituição feudal, a Cavalaria como ramo de um exército surgiu
antes da Idade Média.
Você pode conhecer o espírito da cavalaria medieval
e suas motivações guerreiras também através
do cinema. Assista ao flme “Excalibur”, de John
Boormann, e refita sobre as funções do cavaleiro
medieval em sua ética de lealdade senhorial e cristã
na luta contra o mal e o sobrenatural. Aproveite para
discutir o flme com seus colegas pela ferramenta
Fórum.
Segundo abalizados estudiosos, a Arma teria surgido na
célebre batalha de Canæ, no ano de 216 AC, quando Aníbal,
comandante cartaginês, em absoluta inferioridade numérica,
empregou magistralmente suas duas frações de combatentes
montados, sob o comando de Asdrúbal e Maharbal, para
desbordar, envolver e desbaratar a retaguarda do inimigo,
inaugurando uma manobra típica da Arma da manobra e do
movimento.
O resultado desta batalha foi o seguinte: 48 mil
mortos e 13 mil prisioneiros romanos, enquanto os
cartagineses perderam apenas 6 mil homens.
Na batalha de Canæ,
lutaram 50 mil
cartagineses contra 70 mil
romanos de Varro.
94
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Seção 6 – A Igreja e as Cruzadas
A Igreja teve enorme infuência na Idade Média, inclusive na
arte militar. Vejamos quais foram as infuências que teve o
Cristianismo:
„ abrandou a rudeza dos costumes;
„ limitou as formas de confito;
„ inspirou as Cruzadas; e,
„ instituiu as ordens monásticas militares, como a dos
Hospitalários e a dos Templários, que obtiveram, por suas
atividades, grande prestígio e fortuna.
A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, por exemplo,
teve tão grande infuência que, até hoje, dela ainda
restam vestígios. Criada na Terra Santa, seus cavaleiros,
ao retornarem à Germânia após o desaparecimento
dos reinos cristãos do Oriente, não depuseram
as armas. Na defesa da fé, realizaram um esforço
continuado ao longo do Elba para derrotar o chefe
mongol Tamerlão (Timer i Leng=Timer, o Coxo) diante
de Breslau, no século XIII, vitória que impediu a
islamização da Europa. Foram eles que fundaram a
Prússia, de enorme infuência na evolução da arte da
guerra, berço de grandes mestres como Frederico e
Clausewitz. O emblema da Ordem, uma cruz cujos
braços se alargam nas extremidades, é o mesmo que
vemos pintado nos blindados e aeronaves alemães
desde a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, e está
também representado na mais alta condecoração de
guerra alemã, a Cruz de Ferro.
As Cruzadas ocorreram num período de dois séculos. Foram
organizadas oito expedições, a primeira em 1095, convocada pelo
próprio Papa Urbano II durante o Concílio de Clermont. A ideia
de libertar a Terra Santa entusiasmou reis e nobres europeus,
todos piedosamente cristãos, que tiveram um início triunfante,
porém um desenvolvimento sangrento e um término deplorável.
De qualquer forma, constituem um extraordinário episódio da
história, pois o espetáculo de massas enormes deslocando-se por
extensões continentais é simplesmente assombroso.
Série de expedições militares
destinadas a libertar Jerusalém do
domínio muçulmano.
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História Militar Geral I
Unidade 2
Após a morte do último imperador do Ocidente, Rômulo
Augusto, a Igreja tornou-se o único poder efetivo em toda a
Europa. Naqueles tempos de religiosidade exaltada, acreditava-
se que qualquer poder, para ser legítimo, tinha de receber a
bênção canônica. Fonte de valores morais e espirituais, seus
membros, em particular frades e monges, pois os padres seculares
deixavam-se corromper pelos vícios mundanos, desenvolveram
o pensamento intelectual e preservaram a cultura clássica e a
língua latina, criando assim as condições para o Renascimento. E
fzeram mais: trabalhando a terra com as próprias mãos, deram
exemplos aos camponeses e ensinaram técnicas agrícolas, de
grande utilidade naquela sociedade essencialmente rural.
Como foi que a Igreja funcionou em termos de moralidade?
No campo moral, a Igreja procurou abrandar a grosseria e
a agressividade do homem medieval. Com maior ou menor
sucesso, buscou acabar com as lutas entre os senhores feudais que,
na ausência de um poder central regulador, compraziam-se em
desafar e combater seus vizinhos. Com este objetivo, instituiu
as chamadas tréguas de Deus. Dos púlpitos, pregava o respeito
aos enfermos, aos idosos, às mulheres e aos órfãos, preceitos que
foram incorporados ao ideário da Cavalaria. Enfm, a própria
instituição cavalheiresca é obra inspirada pela Igreja.
Mas nem sempre a infuência da Igreja na sociedade medieval
foi positiva. Muito se pode falar das crendices e desvios de
comportamento disseminados pela religião mal compreendida.
Basta lembrar o chamado julgamento de Deus, prática que
consistia em submeter as partes litigantes a provas tais como
andar sobre brasas ou bater-se em torneios, ou outra qualquer
façanha de consequências presumivelmente graves. Aqueles (ou
aquele) que se ferissem ou morressem seriam os culpados, pois
teriam sido julgados diretamente por Deus.
A Igreja, como obra humana e, portanto, falível, praticou muitos
outros desvios em relação às pregações de Cristo, em nome de quem
ela exerce seu ministério. As Cruzadas, em particular a levantada
contra os hereges, e, mais do que tudo, a Inquisição, são exemplos de
impiedade e crueldade imperdoáveis.
Nestes dias ou períodos,
as atividades guerreiras
fcavam proibidas.
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Universidade do Sul de Santa Catarina
No fnal do século XIV, o sistema feudal vivia aguda crise, em
magna parte motivada pelas Cruzadas. Os poucos cavaleiros que
logravam retornar das expedições à Terra Santa estavam, em sua
maioria, endividados. Para saldarem suas dívidas, transferiam
bens aos credores, enriquecendo comerciantes, banqueiros e
simples agiotas.
Uma nova classe social, a burguesia, dava seus primeiros passos
num ambiente social em transformação, onde surgia nova
atividade econômica, baseada no capital. O empobrecimento dos
senhores feudais favoreceu o fortalecimento do poder central,
o que ensejou, paulatinamente, a constituição dos exércitos
dos reis, em caráter permanente e por profssionais. No campo
artístico e intelectual, esboçava-se o advento do Renascimento,
particularmente na Itália, onde Dante, ao fxar o italiano,
“la língua toscana in bocca romana”, criava as condições para a
posterior unifcação da península italiana.
Seção 7 – A Guerra dos Cem Anos: 1338-1453
Em 1340, o rei da Inglaterra, Eduardo III, alegando direitos dinásticos
como herdeiro direto da monarquia capetiana, proclamou-se rei da
França. Era o início de uma longa disputa que passou à história como
A Guerra dos Cem Anos.
Vamos ver como foi esta história?
Na verdade, mais do que meros direitos dinásticos, estavam em
jogo poderosos interesses econômicos, políticos e até razões de
ordem psicológica. O monarca inglês queria exercer soberania
plena sobre a Gasconha e a Guiana, partes que lhe restara da
Aquitânia que, cinco séculos antes, Eleonor levara para Henrique
II pelo casamento. O rei da França detinha sobre aquelas regiões
Dante Alighieri: escritor, poeta e
político italiano que viveu entre
1265 a 1321.
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História Militar Geral I
Unidade 2
soberania maior do que Eduardo, pois era suserano do feudo do
qual fora titular Eleonor.
Segundo o princípio feudal superioritas et resortum, os habitantes
da Gasconha e da Guiana podiam recorrer ao rei francês, em
última instância, quando a solução dos seus confitos lhes fosse
desfavorável, o que era uma fonte constante de atrito entre
as duas monarquias. Economicamente, a posse de território
do outro lado da Mancha exercia sobre negociantes ingleses,
particularmente os de lã, forte atração, pois eliminaria o
isolamento insular em que viviam.
A alegação de direitos sucessórios era de suma importância
para caracterizar a “guerra justa”, base jurídica indispensável
para invocar a ajuda feudal, a proteção de Deus e o direito à
pilhagem e ao resgate de prisioneiros, direito este admitido como
recompensa pelo ônus de estar, supostamente, no lado justo da
contenda.
Como a monarquia inglesa era aparentada da
francesa, por suas origens sanguíneas e culturais
comuns, há quem considere a Guerra dos Cem Anos
uma verdadeira guerra civil.
Grande parte do exército inglês era constituída de descendentes
dos homens de Guilherme, o Conquistador, duque da
Normandia, que, três séculos antes – no ano de 1066 -- ,
derrotara o rei Haroldo na batalha de Hastings, iniciando a
dinastia britânica à qual Eduardo pertencia. O idioma que
falavam continha cerca de 70% de vocábulos franceses, e, até
hoje, a divisa da monarquia inglesa – Dieu et mon droit – lembra
essa origem comum.
Essa guerra longa, de pouco mais de um século, ou seja, cerca de
115 anos, mas entrecortada de numerosas tréguas, deu o golpe
fnal no Feudalismo. Em consequência desta guerra, surgiram:
„ a arma de fogo;
„ o fortalecimento do poder central;
„ os exércitos profssionais permanentes: exércitos do rei; e,
„ a ideia de nacionalidade.
98
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Mas as suas três principais batalhas – Crécy, Poitiers e Azincourt
-- foram tipicamente batalhas feudais.
A seguir, vamos analisar um pouco estas três batalhas, iniciando pela
de Crécy.
No verão de 1346, Eduardo III comandava o exército inglês
no vale do Rio Somme, próximo ao litoral, em marcha para o
reduto britânico de Calais. Pretendia furtar-se a um choque em
campo raso com o exército de Filipe VI, superior em número. O
exército francês, por sua vez, buscava cortar a direção de marcha
do inimigo e confava na vitória, graças à sua superioridade
numérica. Eduardo, percebendo que seria alcançado antes de
atingir Calais, decidiu ocupar uma posição defensiva favorável,
onde passou a noite.
Os cavaleiros franceses, seguros de sua superioridade, escolhiam,
enquanto marchavam, os inimigos mais rentáveis para capturar
e pedir resgate. Mas Filipe VI, não tendo podido alcançar os
ingleses em fm de jornada, não obstante deslocar-se em marcha
forçada, resolveu fazer alto e estacionar muito distante da posição
ocupada pelos ingleses. Em consequência desta decisão, no dia
seguinte teve de fazer uma longa marcha de aproximação para
o combate, quase sempre sob chuva. O contato com o inimigo
somente ocorreu ao cair da tarde, com o sol declinante ofuscando
a vista dos franceses.
Por volta das 16:00 h, Filipe deu ordem para o ataque com a
tropa cansada, sem reconhecimento do campo de batalha e de
uma linha de partida desfavorável. Nesse momento, alguns
nobres aconselharam-no a deixar a ação para o dia seguinte. O
rei, acolhendo a sugestão dos seus conselheiros, mandou sustar o
ataque, porém já era tarde.
Do exército francês fazia parte um corpo de besteiros genoveses,
cujas armas pesadas e desconfortáveis para o transporte estavam
molhadas pela chuva, o que lhes diminuía a efcácia. Sem esperar
que os cansados genoveses começassem a atirar, os impetuosos
cavaleiros, pesadamente encouraçados, galoparam morro acima,
atropelando os besteiros que, a esta altura, tentavam obedecer
à ordem de retroceder. Enquanto isto, os arqueiros ingleses
cobriam os atacantes com densa chuva de setas de seus arcos
longos, aumentando a confusão.
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História Militar Geral I
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Os cavaleiros franceses, porém, adstritos aos preceitos de honra
e bravura de sua estirpe, insistiram na investida, realizando 15
assaltos à posição inimiga, todos sem nenhuma coordenação.
No auge da confusão no lado francês, os cavaleiros ingleses
desceram a encosta a pé e, antecedidos pelos arqueiros e apoiados
pelos lanceiros galeses, trucidaram os nobres franceses, inermes
sem suas armaduras ao serem derribados de seus cavalos, que
patinavam na lama.
Crécy foi o túmulo de 1.200 cavaleiros, a for da
nobreza francesa, um rude golpe na maneira feudal
de fazer a guerra.
A vitória inglesa deveu-se a diversos fatores; seu exército estava
mais descansado, melhor comandado, melhor organizado, mais
treinado e mais disciplinado. Já o exército francês cometeu
diversos erros, antes e durante a batalha, mas a ambos não
faltaram ardor e bravura.
No que diz respeito ao armamento, o grande arco galês, em
contraposição aos besteiros do exército francês, que conseguiam
lançar apenas duas, foi fator importante para a vitória inglesa.
Um bom arqueiro podia lançar enorme fecha de 90 cm a 300
metros de distância, e a 200, espetar na sela a perna de um
cavaleiro. Foi também nessa batalha que surgiu a arma de fogo,
cuja efciência nem de longe podia ser comparada à do arco galês.
A bombarda, ancestral do canhão, assustava mais pelo estrondo
-- daí o seu nome -- do que pelo efeito do disparo de uma bola
de ferro, de diâmetro inferior ao calibre do tubo, do que resultava
imprecisão do tiro e pequeno alcance.
É importante mencionar o episódio dramático ocorrido nessa
batalha, por caracterizar bem a mentalidade do cavaleiro
medieval. A Boêmia aliara-se aos franceses contra os ingleses, e
o seu rei João, que fcara cego num torneio, estava presente em
Crécy. Durante a batalha, pediu a seus cavaleiros que o levassem
para a luta, pois não seria honroso dela não participar. Doze
deles ataram então as rédeas de seus cavalos umas nas outras e
conduziram seu senhor para onde mais aceso estava o combate.
No dia seguinte, os corpos do rei João e de seus 12 féis cavaleiros
foram encontrados, com as rédeas de seus cavalos ainda atadas.
Arco de 1,80m de
comprimento, capaz de
permitir o lançamento de
12 fechas, a uma cadência
de 12 tiros por minuto.
100
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Poitiers e Azincourt foram as outras duas grandes batalhas da
Guerra dos Cem Anos, cujos pormenores confo à curiosidade
de vocês. Verão, em seus estudos e pesquisas pessoais, que, em
ambas, os franceses repetiram quase os mesmos erros cometidos
em Crécy.
Quando a guerra caminhava para um desfecho desfavorável à
França, uma simples camponesa da Lorena, iluminada pela fé
e exaltada pelo nacionalismo, sentimento que então se formava,
reverteu essa situação. Em 1429, Joana d´Arc levou o delfm a
ser coroado em Reims com o título de Carlos VII, levantou o
cerco de Orleães e garantiu a posse das províncias centrais. Desde
então, os ingleses começaram a ser batidos e a recuar.
A vida de Joana d’Arc foi passada para o cinema
em diversas versões dramatizadas. No flme “Joana
d’Arc”, de Jean-Luc Besson, encontramos uma versão
moderna, agradável e relativamente realista dos
episódios principais de sua vida: a infância pobre, as
visões, a luta contra os ingleses e sua condenação pela
Inquisição. Aproveite para saber mais sobre a história
de Joana D’Arc assistindo ao flme.
Joana, aprisionada pelos ingleses em Compiègne, acabou sendo
julgada por um tribunal da Inquisição e submetida ao martírio da
morte na fogueira. Pouco tempo depois, os ingleses, expulsos da
Normandia e da Aquitânia, conservaram no continente apenas
Calais. No ano de 1453, terminava a longa Guerra dos Cem Anos,
justamente quando os turcos conquistavam Constantinopla,
marco convencionado para assinalar o fm da Idade Média.
Ocorridas nos anos de 1356 e 1415,
respectivamente.
101
História Militar Geral I
Unidade 2
Seção 8 - A concepção da guerra na Idade Média
Ocidental
A guerra exerceu uma forte infuência sobre a organização e
as concepções da sociedade medieval. Foi praticada como um
privilégio da nobreza sanguínea e fundiária. A ideologia feudal
justifcou a guerra através do cristianismo. A guerra não era
apenas uma interrupção da paz, mas sim, uma luta constante,
espiritual e terrena, contra o mal, individual e coletiva, secular
e divina. A guerra era necessária e mesmo entendida como um
dever do cristão frente aos perigos e inseguranças do mundo
terreno. Assim
[...] como a Idade Média era época de insegurança
endêmica, reconhecia-se na prática das armas
uma atividade legítima e necessária, no âmbito da
manutenção ou da restauração de um equilíbrio que se
via continuamente perturbado ou ameaçado por forças
exteriores à Cristandade ou por forças situadas no interior
da própria Cristandade, mas rebeldes a toda ordem.
(LEGOFF e SCHMITT, 2006, p. 473).
Curiosamente, em uma sociedade controlada pela nobreza
guerreira, a paz foi defnida na ideologia cristã como sendo o
valor mais elevado do cristianismo. A manutenção da paz no
mundo exigia o combate do coração e da alma contra as forças
do mal. A paz entre os homens e Deus, assim como a paz entre
os homens entre si, exigia a luta espiritual do coração e da alma,
assim como a luta secular praticada pelas armas.
Conforme Jacques Legof:
O Deus dos cristãos é um Deus pacífco que inspira uma
teologia da paz; o cristão é um homem de paz. No decorrer
da Idade Média, constrói-se uma antropologia da paz que
não é somente a ausência, a interrupção da guerra, mas
um estado sagrado, uma função essencial de todos aqueles
que estão revestidos de uma autoridade moral – a Igreja,
evidentemente – e, sobretudo, talvez, os chefes políticos,
os chefes de linhagem, os chefes de família. No ideal e na
prática, a paz medieval congrega, prolonga, aprofunda,
metamorfoseia heranças prévias. (AHLMARK,
LEGOFF, RICOEUR et alii, 2006, p. 51).
102
Universidade do Sul de Santa Catarina
A paz medieval não era apenas a interrupção das guerras ou
confitos, mas sim um estado ou condição sagrada que estimulava
a salvação espiritual. Os imperadores eram os chefes da guerra
e da paz, pois detinham o poder supremo, em latim, summa
potestas. O Papa, na condição de vigário de Deus, detinha a
autoridade espiritual, em latim summa autorictas, para legitimar
a guerra conforme os rigorosos códigos de conduta adotados pela
cavalaria medieval, que regulavam as ações guerreiras.
A guerra estava fundada na tradição bíblica e deveria ser justa, de
acordo com os seguintes princípios:
„ defensiva, contra o mal;
„ em defesa de fracos ou pobres;
„ impedir a injustiça; e, acima de tudo,
„ devia ser declarada por autoridade constituída e legítima.
Assim, a guerra medieval não era em absoluto produto da
vontade individual e deveria seguir regras de conduta rigorosas e
claramente defnidas.
Desta forma,
[...] a condição e a dignidade cavaleirescas exigem que o
uso da força fosse feito com moderação e conforme uma
ética de justiça, colocando-a a serviço de Deus e dos
pauperes (pobres, humildes ou fracos), sacralizando-a
por meio de uma cerimônia de iniciação específca, o
adubamento. (LEGOFF e SCHMITT, 2006, p. 473).

Nas concepções de Santo Agostinho, elaboradas no fnal do
mundo antigo e princípios da Idade Média, identifcamos
a noção de guerra que exercerá uma forte infuência sobre o
pensamento da igreja medieval.
103
História Militar Geral I
Unidade 2
Para Santo Agostinho, a guerra e a paz consistem dois aspectos de
uma mesma concepção, conforme demonstra a tradição bíblica.
A paz não é a interrupção da guerra, mas sim, a promoção de uma
justiça divina presente de forma plena apenas no Reino Celestial,
a Jerusalém celeste. A paz é um atributo divino demonstrado pelo
Messias.
Aos cristãos está reservada esta condição sagrada que será
alcançada no além, através da tranquilidade da ordem encontrada
apenas no mundo divino. O mundo terreno, conforme Santo
Agostinho defniu como sendo a Jerusalém terrestre, está baseado
na injustiça e, por isto, não é capaz de alcançar a paz de forma
plena, ou seja, a tranquilidade da ordem em sua dimensão divina.
No mundo dos homens, a conduta esperada por Deus para os
cristãos será a de que atuem sempre na proteção dos fracos, dos
desarmados, a quem não podem atacar. O cristão deve atuar na
guerra sempre que esta for defnida como justa e somente após
estarem esgotados todos os meios pacífcos para se alcançar
a justiça entre os homens. A guerra na sociedade cavaleiresca
medieval visava o apresamento do inimigo, de senhores de alta
nobreza, ou mesmo do rei, quando possível, para uma posterior
negociação, tendo em vista a obtenção do pagamento de resgates.
Conforme observou Hilário Franco Jr.
Como uma das obrigações vassálicas era pagar o resgate
do senhor aprisionado, e como na pirâmide hierárquica
feudal quase todo nobre, além de ser vassalo de outros,
tinha seus próprios vassalos, capturar um inimigo
na guerra era obter um rendimento proporcional à
importância do prisioneiro. Por isto, os cronistas
lamentavam as batalhas mais violentas, nas quais a morte
de alguns cavaleiros representava a perda de polpudos
resgates. (2001, p. 26).
Assim, a ideologia feudal justifcou a guerra através das
concepções e da cosmovisão cristã. De acordo com esta ideologia,
a guerra seria uma luta constante e quotidiana contra o mal, e
a vitória seria alcançada com o auxílio de regras rigorosas de
conduta, penitências, fé e com o auxílio das tropas celestiais
determinadas a partir da vontade divina.
104
Universidade do Sul de Santa Catarina
Síntese

O estudo da História Militar medieval deve considerar as
diversas interfaces que formam uma cultura complexa que se
refetiu na arte da guerra. Estudar a guerra na Idade Média
signifca buscar as várias relações entre a guerra, a sociedade, a
economia, o poder, as mentalidades e, principalmente, o âmbito
de uma cosmovisão profundamente religiosa e cristã.
A chegada das tribos germânicas ao Império Romano
correspondeu ao início de uma nova Era: parte da cultura clássica
mesclou-se ao cristianismo, originando a Europa medieval. A
Idade Média é o resultado de uma complexa mistura entre:
„ romanismo e germanismo;
„ cristianismo e paganismo;
„ fé e flosofa;
„ prática e ciência;
„ misticismo e teologia, dentre outros aspectos.
Na perspectiva da História Militar, destacamos a formação da
cavalaria medieval em suas relações com a estrutura social feudal,
assim como: a religiosidade cristã, o advento das Cruzadas e
seu espírito de “guerra santa” para a reconquista de Jerusalém, e
a Guerra dos Cem Anos, em cujo contexto o mundo do poder
senhorial transformou-se na Europa dos nascentes Estados
Nacionais.
Assim, para uma efciente compreensão da História Militar
medieval é preciso construir uma concepção mais ampla desta
complexa cultura na qual identifcamos a invenção da Europa e
as origens da modernidade.
105
História Militar Geral I
Unidade 2
Atividades de autoaprendizagem
1. Com base no que você estudou nesta Unidade, faça um texto
descrevendo qual o sentido e a motivação da guerra na Idade Média.
2. Elabore uma breve dissertação apontando as principais características
das Cruzadas e da Guerra dos Cem Anos no âmbito da História Militar.
106
Universidade do Sul de Santa Catarina
Saiba mais
Se você desejar, aprofunde os conteúdos estudados nesta unidade,
consultando as seguintes fontes primárias no endereço da
biblioteca eletrônica de domínio público do MEC-INEPE:
A Canção de Rolando. Tradução de Lígia Vassalo. Rio de
Janeiro: Francisco Alves, 1988.
Poema do Cid. Tradução de Maria do Socorro Almeida.
Francisco Alves, 1988.
Yvain ou O Cavaleiro do Leão. Francisco Alves, 1989.
Para saber mais sobre as guerras medievais, consulte a seguinte
bibliografa:
ABRAMSON, M., GUREVITC, A. E KOLESNITSKI,
N. História da Idade Média. A Alta Idade Média. Lisboa:
Editorial Estampa, 1978.
AHLMARK, Per, LEGOFF, Jacques, RICOEUR, Paul et alii.
Imaginar a Paz. Brasília: Unesco, Editora Paulus, 2006.
BASCHET, Jérôme. A Civilização Feudal. São Paulo: Globo,
2006.
CONTAMINE, Philippe. La Guerre au Moyen Age. Paris:
PUF, 1980.
D’HAENENS, Albert. As Invasões Normandas: uma
catástrofe? São Paulo: Perspectiva, 1997.
FAVIER, Jean. Carlos Magno. São Paulo: Estação Liberdade,
2004.
FRANCO Jr., Hilário. A Idade Média. O nascimento do
Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001.
GIES, Frances. Te Knight in History. New York: Harper
Perennial, Harper Collins Publishers, 1987.
107
História Militar Geral I
Unidade 2
GUENÉE, Bernard. O ocidente nos séculos XIV e XV: os
estados. São Paulo: Pioneira e Edusp, 1981.
LEGOFF, Jacques e SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário
Temático do Ocidente Medieval. Bauru, SP: Edusc, 2006.
SILVA, Marcelo Cândido. A Realeza Cristã na Alta Idade
Média. São Paulo: Alameda, 2008.
SILVA, Vitor Deodato da. Cavalaria e Nobreza no Fim da
Idade Média. Belo Horizonte: Itatiaia e São Paulo: Edusp, 1990.
UNIDADE 3
História Militar Moderna
Marcos da Cunha e Souza
Objetivos de aprendizagem
„
Compreender os principais aspectos da guerra no
Ocidente entre 1453 e 1789.
„
Saber estabelecer um paralelo entre a consolidação do
poder estatal e a modernização dos exércitos europeus.
„
Reconhecer quais são os elementos da chamada
“Revolução Militar”, identifcada por Geofrey Parker e
outros estudiosos do século XX.
„
Estudar a fnalidade e as características das fortifcações
desenvolvidas durante a Idade Moderna.
Seções de estudo
Seção 1 Panorama histórico
Seção 2 Era de estagnação ou revolução militar?
Seção 3 As campanhas militares
Seção 4 A evolução dos sistemas táticos
Seção 5 A guerra de sítio
Seção 6 Recrutamento
3
110
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de estudo
Você já deve ter notado que a Idade Moderna foi um período
riquíssimo na História da Humanidade. Este tempo foi marcado
por vários fatos importantes, dentre os quais estão:
„ as “Grandes Navegações”;
„ a Reforma Protestante, iniciada por Lutero em 1517;
„ o fortalecimento dos Estados europeus, em alguns casos,
impulsionado pelo Absolutismo;
„ a independência dos Estados Unidos da América; e,
„ a “Queda da Bastilha”.
Alguns países viveram, então, seu apogeu, como Portugal,
Espanha, Suécia e os Países-Baixos. Outros, como a Rússia,
saíram da penumbra e se frmaram como agentes essenciais
no cenário mundial. Fizeram parte deste período, ainda,
personagens marcantes, como Luís XIV; Oliver Cromwell,
Frederico, o Grande; Pedro, o Grande; e, Gustavo Adolfo.
Os fatos econômicos, religiosos e políticos que marcaram este
período tiveram, por causa ou consequência, um grande número
de confitos armados.
Vamos ver quais foram alguns deles?
„ A Guerra dos Trinta Anos, que aconteceu entre 1618 e
1648.
„ A Guerra Civil Inglesa, de 1642 a 1651.
„ A Guerra dos Sete Anos, de 1756 a 1763.
„ No que interessa principalmente ao Brasil, as lutas contra
a dominação holandesa, que ocorreram no período de
1624 a 1654.
Para que você compreenda melhor estes intensos embates,
será necessário estudar as transformações que o Estado e
a guerra sofreram neste período. Precisamos enfatizar o
papel desempenhado pelo progresso das armas de fogo, pelo
desenvolvimento dos exércitos permanentes e pelo surgimento
111
História Militar Geral I
Unidade 3
de um novo modelo de praças fortifcadas. Veremos, ainda, que
alguns estudiosos dos séculos XX e XXI vislumbram, neste
período, uma autêntica “Revolução Militar”.
Seção 1 – Panorama histórico
Costuma-se dizer que a Idade Moderna teve início
em 1453, quando o sultão otomano, Mohammed II, à
frente de 80.000 soldados, capturou Constantinopla,
hoje Istambul, capital do Império Bizantino. Ali se
confrmou o poder do canhão. Afnal, as grossas e
imponentes muralhas medievais de uma das cidades
mais poderosas do mundo foram violadas, em poucos
dias, por setenta enormes peças de artilharia que
disparavam grandes projéteis de pedra.

Esta vitória da artilharia, contudo, ainda não iria mudar o
quadro da guerra na Europa. As armas de fogo eram muito
rudimentares, pouco seguras, e os canhões de assédio eram
pesados demais para seguir os exércitos. Demoraria, ainda, mais
40 anos, até que elas começassem a revolucionar, não apenas as
guerras, mas a própria estrutura social e política da Europa.
Um dos aspectos marcantes da Idade Moderna no Ocidente está
relacionado ao fm do Feudalismo e à fundação dos Estados
modernos. Este processo, em grande parte, está ligado ao
desenvolvimento do Absolutismo em alguns países, como na
França, Espanha, Prússia, Suécia, etc.
No entanto é importante que o Absolutismo não seja confundido com
mera tirania ou ditadura, pois é algo bem mais complexo. Vamos ver
do que se trata?
A essência do Absolutismo implicava conceder ao monarca um
status superior a qualquer exame por parte de outro órgão, fosse
ele judicial, legislativo, religioso, econômico ou eleitoral. Teve um
importante papel transformador naquele momento da História,
ou seja, o de centralizar poder nas mãos do rei, com vistas a criar
112
Universidade do Sul de Santa Catarina
uma administração nacional, fnanciada por tributos nacionais,
recolhidos por uma burocracia nacional.
Atenuando privilégios fscais, rompendo as barreiras
das regiões autônomas e antigos feudos, demolindo
corpos legislativos locais e unifcando o judiciário, o
Estado deveria tornar-se mais simples e mais efciente.
No campo militar, como você verá, o Absolutismo permitiu
fnanciar de forma mais adequada o esforço de guerra. Com
dinheiro e governo centralizados, os Estados europeus puderam
construir fortifcações modernas, adequadas aos avanços da
artilharia. Puderam, ainda, levantar exércitos cada vez maiores e
bem equipados, abastecidos por um sistema logístico regular. Na
sequência, estes grandes exércitos passaram a demandar formas
de serviço militar compulsório que, longe de serem universais,
geraram grandes transformações sociais. Em alguns casos,
chegou-se a militarizar a própria sociedade, como na Prússia do
século XVIII.
Por outro lado, a Grã-Bretanha somente chegaria ao seu status
de grande potência mundial ao abandonar o caminho do
Absolutismo. O parlamento inglês venceu o poder do monarca no
fnal da primeira Guerra Civil Inglesa, que ocorreu entre 1642 e
1646. A partir daí, a função, o poder e a conduta do parlamento
colocaram o país em uma evolução política bastante diversa da de
outros países europeus, como a França, a Prússia e a Espanha.
Além do governo, outros fatores importantes infuenciaram este
período, como a religião e as disputas pelo poder causadas pelas
relações familiares. A religião foi a principal causa de um dos
hconfitos mais marcantes deste período, que durou trinta anos.
Vamos ver como isto aconteceu?
A religião constituiu um aspecto fundamental na política
europeia, graças à divisão do bloco cristão, a partir de 1517,
com a Reforma Protestante iniciada por Lutero. Foi um fator
determinante na Guerra dos Oitenta Anos, que iniciou em 1568
e só teve fm em 1648, a favor da independência dos Países
Baixos, assim como nas Guerras de Religião que sacudiram a
França entre 1559 e 1610, apenas para citar alguns exemplos.
113
História Militar Geral I
Unidade 3
A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) foi um dos confitos
mais marcantes e interessantes deste período. Ela teve sua
origem em uma crise puramente religiosa e alemã, entre os
príncipes protestantes e a dinastia católica dos Habsburgos, que
controlava o Sacro Império Romano Germânico. Após alguns
combates de baixa intensidade, que mais lembravam uma guerra
civil, a guerra se agravou e se alastrou, com a interferência de
potências estrangeiras.
E as relações familiares, de que modo elas interferiram a favor da
guerra, neste período?
As famílias reais europeias foram importante fator de
instabilidade política durante a Idade Moderna. De um lado,
havia a rivalidade entre dinastias; de outro, a morte de um
monarca por vezes criava dúvidas sucessórias que resultavam em
guerras, desmembramento de Estados ou a incorporação de um
por outro.
A Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1713) eclodiu após a
morte do rei espanhol Carlos II, que não deixou descendentes.
Esta situação gerou a cobiça do rei da França, Luis XIV, e do
imperador germânico, Leopoldo I. Ambos haviam se casado com
irmãs de Carlos II e eram netos de outro rei da Espanha, Filipe
III. Luis XIV lutaria para manter seu neto, Filipe d’Anjou, no
trono espanhol -- assim como Carlos II havia indicado, antes
de morrer. Leopoldo I tentaria impor à Espanha seu flho, o
arquiduque Carlos. A crise se alastrou com a intervenção da
Inglaterra e das Províncias Unidas, interessadas em abrir o
comércio com as colônias espanholas.
A Idade Moderna assistiu, ainda, à ascensão e queda de grandes
potências. Vamos ver, a seguir, quais foram elas, e, ainda, um pequeno
resumo de suas histórias.
As potências estrangeiras
que auxiliaram no
agravamento desta Guerra
foram, principalmente,
a Dinamarca, a Suécia, a
França e a Espanha.
114
Universidade do Sul de Santa Catarina
„ A Espanha, auxiliada pelo ouro e prata das
Américas, conseguiu entrar no século XVII como a
grande potência militar europeia, com um exército
cujo sistema tático era o modelo para os demais.
Sua fama remontava às lutas na Itália contra a
França, marcadas pelas vitórias de Gonçalo de
Córdoba, conhecido como “el Grand Capitan”,
no período de 1453 a 1515. Mas esta fama não
sobreviveria à Guerra dos Trinta Anos.
„ A Suécia também teria sua “Idade de Ouro”, a
partir de 1630 até a derrota de Poltava, ano de
1709, frente à Rússia de Pedro, o Grande.
„ A Grã-Bretanha e a França, seguindo sistemas
políticos bem diferentes, terminariam a Idade
Moderna como as grandes potências europeias,
com nítida vantagem para a primeira, apesar da
independência das 13 colônias americanas.
„ A Prússia, ainda que sem colônias ou poder naval,
alcançaria um status de potência militar após as
memoráveis campanhas de Frederico, o Grande
(que viveu entre 1712 e 1786).
„ A República das Províncias Unidas, que
alguns, erroneamente, chamam de Holanda, teve
importante infuência até o início do século XVIII,
graças à sua pujança econômica, refetida na sua
numerosa frota mercante. Isto lhe permitiu levantar
grandes exércitos de mercenários e fnanciar as
forças de seus aliados.
„ Por fm, não podemos deixar de mencionar o
Império Otomano. Os turcos otomanos, além de
capturarem Constantinopla em 1453, chegaram
a dominar praticamente a totalidade dos Bálcãs.
Por serem muçulmanos e de origem asiática, eram
tidos, pelos europeus, como um fagelo, uma
ameaça ao continente. Por duas vezes assediaram
Viena, nos anos de 1529 e 1683. No século XVIII,
pressionados pelos Habsburgos austríacos e pela
Rússia, perderam território e se tornaram menos
ameaçadores.
115
História Militar Geral I
Unidade 3
Seção 2 - Era de estagnação ou revolução militar?
Alguns historiadores do século XIX e do início do século
XX, ainda maravilhados com as campanhas de Napoleão
Bonaparte, que viveu entre 1769 e 1821, diziam que a guerra
na Idade Moderna não oferecia qualquer ensinamento. Diziam,
por exemplo, que os exércitos dos séculos XVII e XVIII não
manobravam em busca da batalha, mas, ao contrário, no sentido
de evitá-la, tentando desgastar os recursos dos adversários,
cortar suas vias de suprimento e capturar fortifcações. Seriam,
basicamente, guerras de atrito. Para estes historiadores, isto
fazia com que as guerras fossem longas e confusas, com poucos
resultados práticos ou decisivos. Estas afrmações, embora
tenham um fundo de verdade, não devem ser tomadas ao pé da
letra. Afnal, a Idade Moderna foi rica em generais dotados de
grande poder de liderança e iniciativa.
Se você tiver curiosidade e quiser saber mais sobre
essas lideranças, pesquise Gustavo Adolfo, Frederico,
o Grande, Marlborough, Turenne, apenas para citar
alguns exemplos.
Cumpre notar, ainda, que a habilidade de um general da Idade
Moderna seria inútil sem disciplina, treinamento, administração
e meios logísticos. Em outras palavras, a aparente estagnação
detectada em alguns confitos do período deveu-se mais a
limitações de ordem administrativa, política, econômica e social
do que à falta de talento de comandantes e comandados. Teremos
a oportunidade de estudar, também, que as fortifcações surgidas
após 1494 terão seu papel na referida “estagnação”.
Em meados do século XX, um grupo de historiadores apresentou
uma nova interpretação sobre este período. Eles perceberam, ao
invés da estagnação, a ocorrência de grandes transformações e
passaram a falar em “Revolução Militar”.
Geofrey Parker, historiador inglês nascido em 1943, é um dos
mais conhecidos estudiosos das transformações sofridas pela arte
da guerra durante a Idade Moderna. De seu livro Te Military
Revolution, reproduzimos o trecho que segue. Acompanhe!
116
Universidade do Sul de Santa Catarina
A Revolução Militar da infância da Europa moderna teve
diferentes facetas. Primeiro, os avanços da artilharia no século
XV, tanto qualitativa, quanto quantitativa, eventualmente
transformaram o design das fortalezas. Segundo, a crescente
confabilidade no poder de fogo em batalha – seja com
arqueiros, artilharia de campanha ou mosqueteiros – leva
não apenas ao eclipse da cavalaria pela infantaria em
muitos exércitos, mas também a novos sistemas táticos
que maximizaram as oportunidades de tiro. Mais ainda
estas novas formas de guerra foram acompanhadas por
um dramático aumento no tamanho dos exércitos. Se, por
um lado, Ferdinando e Isabella de Espanha conquistaram
Granada em 1492 com não mais de 20.000 homens, seu neto
Carlos V comandou provavelmente 100.000 contra os turcos
na Hungria em 1532 e quase 150.000, no total, quando do
seu mal sucedido assédio de Metz em 1552. [...] Por volta de
1630, as forças armadas mantidas pelas potências européias
totalizavam provavelmente 150.000 cada e, ao fnal do
século, havia quase 400.000 soldados franceses (e quase o
mesmo montante mobilizados contra aqueles). Os serviços
auxiliares dos exércitos também cresceram dramaticamente.
Por exemplo, enquanto a artilharia real francesa na década
de 1440 consumia 20.000 libras de pólvora anualmente e era
supervisionada por 40 artilheiros, um século depois consumia
500.000 libras e requeria o serviço de 275 artilheiros.
(PARKER, 1988, p.24).
O tema é polêmico. Enquanto alguns autores da atualidade
reconhecem esta revolução, apontando outros elementos,
como por exemplo, a emergência dos exércitos profssionais
permanentes entre 1560 e 1660, outros a negam ou,
simplesmente, a ignoram. De toda sorte, ainda que se possa
afrmar que alguns elementos desta “revolução” remontam à
Idade Média, não se pode negar que a Idade Moderna foi muito
rica em transformações.
Você já percebeu que, durante a Idade Média, os exércitos não eram
permanentes?
Com exceção de algumas guarnições, eles eram desmobilizados
em tempo de paz. Afnal, mantê-los era muito caro e até mesmo
perigoso.
117
História Militar Geral I
Unidade 3
Você sabia que os otomanos foram os primeiros,
desde a queda do Império Romano, a manter um
exército permanente na Europa?
Entre os monarcas europeus, o primeiro foi Carlos VII da
França, que reinou até 1461. No século XVII, porém, a
existência destes exércitos, cada vez maiores, era uma realidade
inevitável. O enorme crescimento dos efetivos durante a Idade
Moderna foi um fenômeno incontestável.
Fica a questão: os exércitos foram ampliados graças
ao Absolutismo ou, em sentido inverso, o Absolutismo
foresceu graças ao crescimento dos exércitos? E talvez
possamos dizer, ainda, que os dois fenômenos se
completaram, de modo que o monarca fortaleceu seu
exército e o exército fortaleceu o seu monarca.

Gráfco 3.1 – Evolução dos efetivos franceses.
Fonte: Elaborado pelo autor, 2009.
A conduta do rei da França
foi vista com antipatia
e ainda seria criticada,
tempos depois, por
Maquiavel, que viveu no
período de 1469 a 1527.
118
Universidade do Sul de Santa Catarina
O gráfco 3.1 oferece uma visão da evolução dos efetivos do
exército francês entre 1630 e 1710. Nela, vemos que os efetivos
em tempo de guerra triplicaram entre 1668 e 1690. Observamos,
ainda, um aumento sensível em tempo de paz. Ao longo dos
séculos XVII e XVIII, os efetivos de outros países também
alcançariam cifras fantásticas, exigindo dos Estados cada vez
mais recursos e criatividade para seu fnanciamento.
No início do século XVIII, 75% da receita da França era
destinada à guerra.
Por outro lado, países com tradição parlamentar, como a
Inglaterra, não costumavam manter grandes efetivos. Os
corpos legislativos destes países temiam que o rei, servido por
um exército forte, pudesse estabelecer o Absolutismo. Como
exemplo, a Grã-Bretanha, no início de 1745, estava guarnecida
por apenas 8 mil homens.
De acordo com André Corvisier (1999, p. 176):
Não há dúvida de que o nascimento dos exércitos e
dos impostos permanentes contribuiu para reforçar a
autoridade dos soberanos, tanto mais que estes últimos
sempre procuraram subtrair sua administração ao
controle das assembléias dos estados-gerais. Já sob
Luís XI, Tomas Basin afrmava que os exércitos e
os impostos permanentes eram uma forma de tirania,
inútil a seu ver, porque ele ainda acreditava que a
nobreza pudesse fornecer aos reis as forças armadas de
que necessitavam. O exército permanente também
contribuiu para garantir o absolutismo, como a guerra
levou à formulação da razão de Estado. (Os grifos são
nossos).
119
História Militar Geral I
Unidade 3
Seção 3 – As campanhas militares
Você consegue imaginar como eram as operações militares na Idade
Moderna?
É sempre perigoso generalizar, mas arriscaremos com o objetivo
de lhe proporcionar uma visão acerca dos aspectos básicos
das operações militares. Perceba, no entanto, que o próprio
período denominado “Idade Moderna” é abrangente e que se faz
necessário considerar as especifcidades de cada local e cultura,
ainda que, na maioria das vezes, estejamos nos referindo aos
acontecimentos do continente europeu.
Assim, precisamos imaginar que as operações militares eram
compartimentadas em “campanhas”. Os objetivos de uma
campanha geralmente tinham alcance limitado, como a
captura de uma importante fortifcação ou de uma província.
Constituíam, frequentemente, guerras de atrito, em que um país
buscava abater a vontade de combate do adversário, retirando-lhe
território e drenando seus recursos fnanceiros.
Como os Exércitos eram cada vez maiores, e se tornavam muito
dispendiosos, o receio era que a guerra pudesse se tornar um jogo,
onde o vencedor seria aquele capaz de evitar a própria bancarrota.
Ou, como se dizia então: “Vitória irá para aquele que possuir o
último tostão.” (Don Bernardino de Mendoza, apud PARKER,
1988, p.62). Apenas quando a balança de forças se tornava muito
desequilibrada é que o lado mais forte buscava aplicar o “golpe
fatal”, o qual permitiria uma vitória decisiva.
Os confitos acontecidos durante a Idade Moderna podiam
prolongar-se por vários anos e até mesmo décadas. O grau
de intensidade também podia variar ao longo do tempo, por
vários fatores. De uma forma ou de outra, a chegada do inverno
costumava interromper as operações militares. Era muito penoso
manter um exército em atividade nesta estação. O inverno
aumentava o número de baixas e deserções e difcultava não só a
marcha das forças, mas também o fuxo de suprimentos.
Cada campanha
correspondia a um
período de cerca de oito
meses, abarcando parte
da primavera, o verão e o
outono, durante os quais
cada país buscava atingir
certos objetivos.
120
Universidade do Sul de Santa Catarina
Você sabia que pouquíssimas batalhas importantes
foram disputadas na Europa nos meses de dezembro,
janeiro e fevereiro, por causa das condições climáticas?
Uma exceção foi a batalha de Leuthen, que ocorreu no
dia 5 de dezembro de 1757, a mais famosa vitória de
Frederico, o Grande, rei da Prússia.
Em geral, por volta de fns de novembro, os exércitos adversários
se afastavam para os chamados “quartéis de inverno”. Quando
possível, buscavam abrigo atrás de linhas fortifcadas. As tropas,
então, se espalhavam por pequenas guarnições improvisadas,
muitas vezes ocupando residências civis. A defciência no
fornecimento de suprimentos e outros meios, isto é, a logística,
com frequência forçava os exércitos a obterem recursos
diretamente das áreas ocupadas, inclusive através do uso de força
contra os civis.
Em países com efciente estrutura administrativa, como a França,
a partir de 1670, e a Prússia do século XVIII, o início do inverno
era o momento para a reunião dos meios logísticos a serem
empregados na campanha do ano seguinte. Este sistema consistia
em organizar armazéns, de preferência em cidades fortifcadas
e próximas a rios navegáveis, para garantir a manutenção do
exército. Sobre isso, Frederico, o Grande, advertia o seguinte:
Os depósitos devem ser estabelecidos com bastante
antecedência para que estoquem todas as provisões
necessárias ao exército, na ocasião em que deixa os
aquartelamentos e passa a operar no campo. Se vocês
esperarem muito tempo, os rios congelarão e o transporte
hidroviário não poderá ser utilizado, ou as estradas
fcarão em tão mau estado, até mesmo impraticáveis,
que vocês terão grande difculdade para organizar o
suprimento da tropa. (LUVAAS, 2001, p.295-296).
As campanhas militares recomeçavam na primavera, geralmente
em março ou abril, com o fm da lama gerada pelo degelo
e a volta das pastagens, as quais deveriam complementar a
alimentação dos cavalos e animais de tração.
Agora, imagine que a maioria do contingente dos exércitos se
locomovia a pé. Os suprimentos eram carregados por centenas
de carretas movidas por tração animal ou em barcaças que
121
História Militar Geral I
Unidade 3
seguiam por rios ou canais. Tornando tudo ainda mais lento,
havia o “trem de artilharia”, com canhões de tamanhos variados,
munição e pessoal próprio. Neste caso, as peças de maior calibre,
destinadas ao cerco, ou “sítio”, das fortifcações, geralmente não
conseguiam acompanhar o ritmo do restante da coluna.

Figura 3.1 - Trem de artilharia.
Fonte: Histoire Illustrée de l’Artillerie, J. JOBÉ, 1981, p.29.

O raio de ação de uma operação militar dependia totalmente da
capacidade do exército em receber suprimentos de seus armazéns
ou da habilidade em obter recursos das regiões por onde
passava. Quando um exército invasor via sua marcha barrada
pela presença de uma fortifcação inimiga, muitas vezes ele era
obrigado a parar para assediá-la.
Você já pensou sobre as difculdades existentes para a coordenação entre
colunas e exércitos, em uma época na qual o meio de comunicação mais
efciente era o mensageiro a cavalo?
Veja, a seguir, a fgura 3.1,
que representa o “trem de
artilharia”.
122
Universidade do Sul de Santa Catarina
A disciplina militar era inadequada na maior parte dos exércitos,
com soldados se dispersando para a realização de pilhagens,
inclusive durante a batalha, causando o aumento do número de
deserções em campanhas prolongadas ou mal sucedidas.
Vale lembrar, de acordo com a seção 1 desta unidade, que o
Estado Moderno estava em construção. A nobreza de espada
estava sendo substituída por administradores públicos, com
formação empírica e com estrutura insufciente para gerenciar as
necessidades de exércitos cada vez maiores. O exército consumia
a maior parte dos recursos da nação. Levantá-lo para cada
campanha, assim como mantê-lo, era tão caro que os reis temiam
arriscá-lo em batalhas campais decisivas. Vimos, então, que
vários aspectos contribuíam para a lentidão das operações:
„ clima;
„ transporte;
„ coordenação precária;
„ disciplina;
„ custos;
„ problemas de abastecimento; e
„ problemas com a administração.
Em função disto, veremos poucas ofensivas arrebatadoras durante
este período. Eis porque, também, a maior parte dos generais
dará preferência a guerras “de atrito”, evitando as grandes
batalhas.
A seguir, para que você possa formar uma ideia mais elaborada
acerca do que vimos até aqui, abordaremos alguns aspectos sobre
a campanha militar de 1757, que se desenrolou durante a Guerra
dos Sete Anos. Embora guarde algumas das características
descritas acima, ela foi absolutamente singular, devido ao espírito
ofensivo do rei da Prússia. Este líder, em apenas oito meses, iria
disputar quatro grandes batalhas.
Esta Guerra ocorreu entre 1756
e 1763 e foi a mais famosa de
Frederico, o Grande.
123
História Militar Geral I
Unidade 3
Primeiramente, é preciso que você dê uma olhada no mapa a
seguir, representado na Figura 1, que mostra o núcleo principal
do reino da Prússia, formado pelo Brandemburgo, pela Silésia
e pela Pomerânia. Observe que se tratava de uma imensa
planície, cruzada por dois grandes rios navegáveis -- Elba e Oder
-- , e protegida por poucas fortifcações. A geografa, portanto,
não favorecia muito a defesa do reino. Além desta parcela visível
no mapa, havia outro pedaço do reino a leste, separado da
Pomerânia por um “corredor” polonês.
Figura 3.2 – Mapa do reino da Prússia em 1756.
Fonte: Elaborada pelo Autor, 2009.

Em 1756, Frederico invadiu e conquistou toda a Saxônia. No ano
seguinte, ele sabia que seria atacado pelos russos, vindos do leste;
por franceses e tropas levantadas por pequenos príncipes alemães,
vindos do oeste; por suecos, vindos do norte; e pelos austríacos,
vindos do sul, então senhores da Boêmia e da Morávia, também
visíveis no mapa.
Este pedaço era a Prússia
Oriental, que fazia
fronteira com a Rússia.
124
Universidade do Sul de Santa Catarina
Frederico podia calcular que os franceses demorariam a chegar e
que os russos não estariam prontos antes de junho ou julho. Os
suecos representavam uma ameaça menor. O Rei resolveu, então,
atacar a adversária mais próxima e perigosa: a Áustria. O rei da
Prússia, entretanto, não teria tempo para ameaçar Viena, a capital
austríaca. A única coisa que ele podia fazer era tentar destruir
o grosso do exército austríaco, antes da chegada dos franceses e
russos. Sua estratégia, portanto, era a de uma guerra de atrito,
ou seja, de desgaste. O objetivo de Frederico era, desde o início,
limitado, pois ele sabia que seu ataque não poria fm à guerra.
Frederico tinha, ao menos, a vantagem de contar, no início do
confito, com um exército de qualidade superior. A disciplina
de seus soldados permitia-lhe executar, no campo de batalha,
manobras complexas e rápidas. Some-se a isto a unidade de
comando, nas mãos de um soberano com inegável capacidade
militar.
Assim, em abril de 1757, o exército prussiano invadiu a Boêmia
que era, então, território austríaco, com 112 mil homens, vindos
de quatro diferentes pontos da fronteira. Reunidos estes quatro
corpos diante de Praga, ali bateram um exército austríaco, no
dia 6 de maio. Infelizmente para os prussianos, a maior parte
da tropa vencida conseguiu se refugiar naquela cidade, que era
fortifcada.
Algumas semanas depois, enquanto tentava organizar o assédio
para a captura de Praga, Frederico viu-se ameaçado por outro
exército austríaco, que se posicionou alguns quilômetros a leste.
Frederico, com pressa, resolveu atacá-lo, embora estivesse em
inferioridade numérica. Dessa forma, os austríacos estacionados
em um terreno alto e favorável, derrotaram-no, no dia 18 de
junho, na chamada batalha de Kolin.
Tendo sofrido baixas da ordem de trinta por cento, o rei foi
obrigado a levantar o cerco de Praga e abandonar a Boêmia.
Seu recuo, entretanto, foi propositalmente lento, enquanto ia
recolhendo deste território inimigo todos os recursos disponíveis.
Para piorar a situação da Prússia, seus aliados ingleses foram
inesperadamente repelidos do Hanovre pelos franceses e forçados
a assinar um armistício de efeitos limitados. Com isto, os
franceses viram-se livres para ameaçar Brandemburgo.
125
História Militar Geral I
Unidade 3
A leste, os russos haviam invadido a Prússia Oriental e derrotado
a força local, de mais de 20.000 soldados no dia 30 de julho.
E, se não bastasse, os austríacos invadiram a Silésia e tomaram
Breslau. Mas isso ainda não era tudo. Um pequeno destacamento
austro-húngaro, dotado de grande mobilidade, investira Berlim
em outubro e a ocupou por dois dias.
A situação era desesperadora para a Prússia. O ano de 1757
parecia perdido. Os russos estavam parados devido a problemas
logísticos. Mas um exército misto, franco-germânico, constituído
de 41 mil homens, marchava com vista a libertar a Saxônia.
Frederico II, com apenas 22 mil homens, foi ao seu encontro em
Rossbach.
Ali, os dois exércitos acamparam a pouca distância um do
outro, até que os franco-germânicos tentaram contornar as
posições prussianas, para realizar um ataque surpresa, de
fanco. Entretanto realizaram o movimento a descoberto e
vagarosamente. Frederico, que percebeu esta manobra, destacou
parte de sua infantaria para o sul e ocupou uma elevação com
alguns canhões. Enquanto isso, sua cavalaria, sob o comando de
Seidlitz, se concentrava à esquerda da nova posição, atrás de um
morro.
Quando o inimigo surgiu, Seidlitz carregou contra a testa da
coluna, pondo em fuga sua cavalaria. Estando a infantaria
inimiga vulnerável em uma longa coluna de marcha, Frederico
pôde batê-la por partes, ajudado por uma nova carga de cavalaria
e pelo fogo dos canhões. A vitória foi completa, sendo que os
prussianos sofreram apenas 550 baixas contra 10.000; entre
mortos, feridos e capturados. Além disso, a destruição daquele
exército tirou a pressão sobre o front ocidental.
Os austríacos, na Silésia, já estavam preparando-se para ocupar
os quartéis de inverno. Frederico, porém, não queria terminar a
campanha com o inimigo em sua casa. Sem perder tempo, rumou
naquela direção. Marchou 270 quilômetros em apenas 12 dias.
Os austríacos, comandados por Carlos de Lorena, o esperaram
no caminho para Breslau, entre as localidades de Leuthen e
Lissa, no dia 6 de dezembro de 1757. Formaram, para a batalha,
uma barreira humana de 7 quilômetros, constituída de 70.000
homens, em um terreno acidentado, com a direita apoiada atrás
de um pântano. Frederico, à frente de 36.000 soldados, expulsou
126
Universidade do Sul de Santa Catarina
a vanguarda austríaca estacionada em Borna e avançou uma
pequena força para distrair o fanco direito inimigo. Enquanto
isso, aproveitando-se das colinas para dissimular o movimento
de sua tropa, atacou o fanco esquerdo fazendo uso da chamada
ordem oblíqua.
Vamos saber um pouco mais sobre a chamada ordem oblíqua?
O grande mito do sistema tático de Frederico, o Grande, foi o
emprego da chamada “ordem oblíqua”. Consistia em concentrar
quase todo o poder de seu exército contra um dos fancos do
adversário. Enquanto isto, uma pequena fração do exército
prussiano buscava distrair o outro fanco inimigo, fxando-o
de longe. A execução da ordem oblíqua geralmente exigia uma
ampla marcha, fora das vistas do inimigo ou na escuridão, para
colocar o grosso do exército em uma posição vantajosa, no fanco
ou na retaguarda do adversário.
Ainda se discute em que momento a ordem oblíqua, com todos
os seus elementos, começou a ser utilizada. Há quem diga que
somente foi usada com sucesso uma vez, em Leuthen, em1757.
Mas é certo que seu princípio básico, a concentração de forças
sobre um ponto, com vistas a obter uma superioridade local
esmagadora e decisiva, está presente na maior parte da batalhas
travadas por Frederico durante a Guerra dos Sete Anos.
A cavalaria austríaca, naquela extremidade, foi logo batida.
Carlos ainda tentou realinhar sua força face ao sul, tendo
Leuthen por centro. Mas isto não se fez sem grande confusão.
Travou-se uma dura refrega, que terminou com um avanço
geral da infantaria prussiana acompanhada por duas cargas de
cavalaria à direita. Fala-se em 21.000 baixas do lado Austríaco
contra 6.400, dos prussianos. Para Napoleão Bonaparte, Leuthen
foi considerada a obra-prima da manobra e da decisão.
Vamos dar uma olhada no mapa que representa o espaço geográfco
desta batalha?
127
História Militar Geral I
Unidade 3
Figura 3.3 – Batalha de Leuthen.
Fonte: Elaborada pelo Autor, 2009.

Esta talvez seja a mais famosa vitória de Frederico. Foi também
uma das poucas vezes em que Frederico teve tempo para
perseguir o inimigo batido, capturando milhares de prisioneiros
nos dias seguintes. Serviu ainda para retomar as praças perdidas
da Silésia.
Em 1757, Frederico teve à disposição toda uma geração de
soldados -- nacionais e mercenários -- treinados exaustivamente
dentro do sistema prussiano. Entretanto, após quatro grandes
batalhas, boa parte desta tropa extraordinária fora dizimada,
aumentando a necessidade de incorporar mercenários e
prisioneiros.
128
Universidade do Sul de Santa Catarina
Seção 4 - A evolução dos sistemas táticos
No início da Idade Moderna, as armas de fogo da Infantaria
eram pesadas, de recarregamento demorado e sujeitas a falhas.
Isto criou um problema fundamental a ser resolvido pelos mestres
da guerra de então.
Como aproveitar ao máximo a efciência destas novas
armas e, ao mesmo tempo, diminuir a vulnerabilidade
dos mosqueteiros durante o demorado processo de
recarregamento?
Esta questão resultou em um sem número de sistemas táticos,
dentre os quais o melhor foi, por muito tempo, o desenvolvido
pelos espanhóis.
Buscando inspiração nas densas falanges macedônicas da
Antiguidade e nos mercenários suíços, eles protegeram os
mosqueteiros com soldados equipados com longas “lanças” de
até 18 pés de comprimento. Estas lanças, chamadas de piques,
mostraram-se efcientes tanto contra a cavalaria, quanto contra
outros corpos de Infantaria. Os espanhóis organizaram os
piqueiros em grandes quadrados, formados por até dois mil
homens, e que possuíam, na extremidade de seus ângulos,
quadrados menores de mosqueteiros, lembrando as torres de um
castelo. Nascia, assim, o famoso “terço espanhol”.
Veja, na fgura seguinte, a representação destes terços espanhóis:

Figura 3.4 - Terços espanhóis em formação de batalha.
Fonte: <http://www.freewebs.com/militaryrevolution/apps/photos/>. (Acesso em: 27abr.2009)
O mosqueteiro, no ato de
recarregamento, era chamado
de “criança perdida”; de um ser
indefeso que precisava de proteção.
Conjunto de normas e princípios
adotados para solucionar situações
táticas envolvendo distâncias,
prazos, linhas de ataque e defesa,
no tocante ao emprego de todas as
Armas e Serviços.
129
História Militar Geral I
Unidade 3
Na concepção espanhola, que serviria de modelo para quase
toda a Europa, a espinha dorsal da infantaria continuava a ser
quantitativamente a arma branca, cujo choque poderoso deveria
pôr em fuga o inimigo. Aos mosqueteiros assim protegidos,
restava o papel de retribuir esta proteção pelo fogo de suas armas,
desorganizando as fleiras inimigas e criando, dessa forma, um
sistema de mútua colaboração: choque e fogo.
A Artilharia locomovia-se graças à tração de muitos
animais, podendo atrasar a marcha dos exércitos.
No campo de batalha, estes canhões eram difíceis
de recarregar e, imóveis, eram invariavelmente
capturados, em caso de derrota.
A Cavalaria era colocada nos fancos, e tinha por principal
arma a pistola, pois o choque, com o uso de espadas ou lanças,
tornara-se inviável contra as concentrações de piques. Atacava
usando um sistema chamado “caracole”, que consistia em se
aproximar do inimigo a galope, disparar as pistolas de perto e,
então, recuar para o recarregamento. Os regimentos de cavalaria
eram fracionados, de forma a buscar um fogo constante. Somente
após a desestruturação do adversário é que se lançava o ataque
corpo-a-corpo. Esta parecia ser a forma ideal de combate após a
introdução da arma de fogo.
O pique protegia o mosquete, e este devastava, à distância, a força
adversária. Em seguida, os piqueiros avançavam para o choque.
Então, a infantaria mais bem instruída, mais coesa, vencia a
batalha.
Vamos aproveitar o momento para visualizar uma representação do
choque entre os piqueiros? Veja a fgura a seguir.
130
Universidade do Sul de Santa Catarina
Figura 3.5 – Choque entre piqueiros (séc.XVI).
Fonte: <http://www.landsknecht.com/html/body_history.html >. (Acesso em: 27abr.2009)

Havia, porém um problema relativo à pouca mobilidade dos
terços no campo de batalha, consequência da densidade e do
tamanho da formação. Destes aspectos resultava também
a vulnerabilidade dos grandes quadrados diante do fogo da
artilharia. Mas diminuí-los ou torná-los menos espessos parecia,
à primeira vista, um caminho em direção à fragilidade. Além
disso, a inefciência da artilharia de então, somada à sua pouca
mobilidade para acompanhar as futuações da batalha, não
faziam dela um sério adversário para os quadrados espanhóis.
O sistema tático espanhol foi vencido durante a Guerra dos
Trinta Anos, por Gustavo II Adolfo. Este monarca tirou sua
inspiração das ideias desenvolvidas nos Países Baixos que, desde
1572, lutavam por sua libertação do domínio espanhol. Um dos
líderes desta luta, Maurício de Nassau, percebeu a conveniência
em abolir o “grande quadrado” e em adotar um sistema de
linhas pouco profundas onde o padrão tático seria o batalhão,
constituído por cerca de 500 combatentes. A primeira vantagem
seria a menor vulnerabilidade à artilharia inimiga, e a segunda
era representada por uma mobilidade muito superior à do sistema
compacto e gigantesco.
Para compensar esta aparente fragilidade dos batalhões,
os holandeses desenvolveram técnicas mais efcientes de
recarregamento dos mosquetes, aumentando a cadência de tiro,
ou seja, o número de tiros por minuto.
Viveu entre 1594 e 1632. Foi rei
da Suécia e, se não foi o inventor
da nova escola, foi certamente o
primeiro a colocá-la em prática com
sucesso.
131
História Militar Geral I
Unidade 3
No início do século XVII, o disparo era feito com a ajuda de uma
mecha incandescente, chamada de morrão. Na fgura a seguir,
conseguimos visualizar melhor o que seria o morrão:
Figura 3.6 – Mosqueteiros.
Fonte: <http://www.freewebs.com/militaryrevolution/apps/photos/>. (Acesso em: 27abr.2009)

O recarregamento era demorado e até mesmo perigoso.
Acontecia da seguinte maneira: cada fleira de soldados que
disparava seus mosquetes seguia para trás do batalhão, para o
remuniciamento, sendo substituída pela fleira seguinte. Quanto
mais rápida fosse a cadência de tiro, menos espessa poderia ser
a formação do batalhão e maior seria a frente que este ocuparia
no campo de batalha. Daí o papel fundamental que a cadência
de tiro teve durante todo o período. Desta forma, o pique teve
sua importância diminuída, pois os mosqueteiros, graças às
modifcações feitas, começaram a se defender com seu próprio
fogo.
Infuenciados pelos holandeses, a infantaria sueca foi organizada
em brigadas fexíveis, onde destacamentos de piqueiros e
mosqueteiros se combinavam em formações que buscavam
acentuar o poder de fogo e a mobilidade. Para aumentar a
efciência dos atiradores, o rei sueco adotou mosquetes mais
leves e de menor calibre, dispensando a forquilha que, até então,
o infante usava para apoiar a arma durante o tiro. A adoção de
cartuchos de papel permitiu uma cadência de tiro bem superior
à dos adversários. E, assim, posicionados em apenas seis fleiras,
os atiradores suecos obtinham um fogo praticamente constante.
132
Universidade do Sul de Santa Catarina
Os piqueiros também se tornaram mais leves e ágeis com a
diminuição do pique de seis para quatro metros e meio.
Gustavo Adolfo buscou devolver à cavalaria seu poder como arma
de choque. Seus couraceiros eram treinados para atacar a galope
ou trotando, mas sempre com o aço frio da espada. A pistola era
disparada momentos antes do contato ou durante a luta corpo
a corpo. Isto somente era possível porque os suecos apoiavam a
cavalaria com pequenos destacamentos de atiradores e canhões
leves. Estes, pelo fogo, tiravam a coesão do adversário, auxiliando
a cavalaria.
Foi, porém, no campo da artilharia que as transformações de
Gustavo Adolfo foram mais marcantes. Até então, os exércitos
europeus, como vimos, valorizavam os grandes canhões que, em
alguns casos, pesavam de quatro a cinco toneladas e que, embora
efcientes contra fortifcações, eram de difícil deslocamento. O
rei sueco modifcou totalmente este quadro ao adotar canhões
menores. Os calibres foram padronizados, diferenciados da
artilharia de cerco, de campanha e a dita “regimental”. Esta
última era formada pelo regementsstycke, fabricado na Suécia a
partir de 1629, e que, com um calibre de apenas 3 libras, tinha
grande mobilidade. Os regementsstycke eram distribuídos na base
de dois para cada regimento.
No campo da cadência de tiro, Gustavo introduziu cartuchos de
madeira que facilitavam o recarregamento das peças. Percebeu,
ainda, que o segredo da mobilidade estava também na disciplina
e treinamento de seus soldados. Quanto à questão da disciplina,
ele foi favorecido pelas condições históricas, religiosas e culturais
de seu povo, fervorosamente luterano e que, constantemente
agredido pela Dinamarca e pela católica Polônia, desenvolveu
uma relação de total fdelidade ao monarca. Mas sendo a
população sueca de apenas dois milhões e meio de habitantes,
o exército teve que incorporar milhares de estrangeiros --
mercenários -- os quais, no entanto, se adaptaram bem ao
sistema.
Vemos, como exemplo, a Batalha de Breitenfeld,
ocorrida no ano de 1631. Nela, três brigadas eram
constituídas por escoceses.
133
História Militar Geral I
Unidade 3
Todas estas transformações não se fzeram de um dia para
o outro. O exército sueco, de 1611, era bastante defciente, e
vários anos de guerras contra dinamarqueses, russos e poloneses
seriam necessários para criar a força que venceria a batalha de
Breitenfeld.
Após a batalha de Rocroi, ocorrida em 1643, a própria Espanha
renunciou às grandes massas de piqueiros. Por toda a Europa,
a proporção de piqueiros diminuía na mesma medida em que
aumentava a cadência de tiro das armas de fogo. Os quadrados
foram dando lugar às linhas, onde os piqueiros remanescentes
-- ou seja, um para cada dois mosqueteiros na França de 1650 --,
fcavam no centro de cada unidade. Por volta de 1680, já eram
contados 5 mosqueteiros para cada piqueiro. No fm do século
XVII, o recarregamento durava o tempo de 3 ou 4 salvas. Isto
permitia um fogo relativamente constante com pelotões dispostos
em 5 ou até 4 fleiras.
A evolução tática continuava impulsionada pela cadência de tiro
das armas de fogo. Desde meados do século XVI, buscava-se um
sistema de disparo mais efciente que a mecha incandescente --
morrão -- do mosquete, de recarregamento complexo, demorado
e perigoso. Várias experiências foram feitas até chegar-se à
espingarda de pederneira -- “fuzil”, por volta de 1630. Nela, um
pedaço de sílex preso ao cão é impulsionado contra uma peça
móvel de metal, provocando a faísca que infama a pólvora.
Veja um exemplo do mecanismo do fuzil na fgura que segue.




Figura 3.7 - Mecanismo do fuzil.
Fonte: <http://www.freewebs.com/militaryrevolution/apps/photos/>. (Acesso em: 27abr.2009)
134
Universidade do Sul de Santa Catarina
Esta nova arma logo ganhou a simpatia dos soldados, por
ser mais leve, mais fácil de recarregar e não ter os perigos do
mosquete de mecha. Não obstante apresentar grandes vantagens,
a adoção da pederneira foi lenta. No exército francês foi
inicialmente empregada por tropas de elite, a partir de 1640. A
adoção ofcial da pederneira pelo exército francês somente viria
em 1699. As Províncias Unidas dos Países Baixos mudaram o
armamento no ano de 1692. Na Grã-Bretanha, a espingarda
de pederneira modelo “Brown Bess” foi adotada ofcialmente
em 1690, embora algumas unidades já usassem fuzis antes.
Mas tanto os britânicos quanto os franceses ainda tinham uma
pequena proporção de mosquetes de mecha em 1704.
Você já pensou em qual seria o alcance de um
fuzil naquele tempo? Não há consenso entre os
historiadores quanto ao alcance dos fuzis em meados
do século XVIII. O alcance máximo, a depender da
fonte, varia entre 360 e 600 m, e o efetivo, entre 160 e
250 m. Nos manuais do século XIX, é documentado o
alcance efetivo entre 75 e 130 m. Testes recentes feitos
com o “Brown Bess” demonstram que seus disparos
eram capazes de atravessar o corpo humano a 50
metros de distância, fazendo vítima na fleira seguinte.
Ao mesmo tempo em que os franceses trocavam o mosquete pela
espingarda de pederneira, eles também trocaram defnitivamente
o pique pela baioneta. Uma decisão revolucionária, pois
signifcava aumentar o número de atiradores sem diminuir o
poder de choque.
Mas o que era a baioneta e por que sua escolha?
Em sua origem, provavelmente no ano de 1642, a baioneta
era um punhal cujo cabo se introduzia no cano do mosquete.
Signifca dizer que, uma vez no lugar, a baioneta impedia o
disparo da arma. Este era um problema que Vauban lutou para
resolver. Foi ele que, a partir de 1687, apresentou uma nova
baioneta que se prendia ao fuzil por um anel externo ao cano da
arma. O infante podia então atirar, estocar ou recarregar, sem
precisar retirar a baioneta.
Este foi o principal engenheiro
militar do reinado de Luis XIV, como
você verá mais adiante.
135
História Militar Geral I
Unidade 3
Você sabia que a baioneta francesa de 1717 tinha
lâmina de 37,8 cm? Quanto mais o fogo se tornava
rápido e certeiro, mais se queria multiplicá-lo.
A demanda pelo fogo deu origem ao longo
desdobramento linear e tênue que seria a ordem de
batalha padrão durante mais de um século.
E assim, com o uso do fuzil e da baioneta, tinha-se, ao mesmo
tempo, uma arma capaz de atirar 3 tiros por minuto, permitindo
desdobrar as unidades em linhas de apenas 3 fleiras, cada
uma podendo recarregar enquanto as outras duas atiravam. O
recarregamento da arma era, naquele momento, sufcientemente
cômodo para que as fleiras fossem serradas. Os prussianos se
formaram em 3 fleiras serradas a partir de 1720, e os franceses,
trinta anos depois.
Ainda assim, as armas de fogo continuaram sendo preteridas.
Frederico, o Grande, começou sua carreira militar no ano de
1740, dando preferência à baioneta. Até 1757, ele renovou,
anualmente, a ordem de seguir para o ataque, atirando o mínimo
possível. Porém as pesadas baixas sofridas na batalha de Praga,
em 1757, quando seu exército enfrentou os canhões austríacos
sem atirar, parecem tê-lo feito mudar de ideia. Tanto que, no ano
seguinte, ele escreveu: “Atacar o inimigo sem buscar a vantagem
de um fogo superior ou ao menos igual, é querer se bater contra
um exército usando soldados que não têm mais do que bastões de
madeira, e isto é impossível.” (DELBRUCK, 1990, p.273).
Embora a Idade Moderna tenha vislumbrado um renascimento
da Infantaria, a Cavalaria continuava a ser a arma da ofensiva e
da decisão, graças à sua mobilidade e poder choque. A Cavalaria
também foi bastante empregada na chamada “guerra irregular”.
Exércitos, como o francês ou o austríaco, usavam unidades de
cavalaria leve para:
„ fustigar linhas de suprimento;
„ capturar recursos em território inimigo;
„ apoiar o bloqueio de cidades sitiadas;
„ introduzir reforços em praças cercadas pelo inimigo, etc.

Neste sentido, a guerra irregular era acessória e inserida no
contexto das guerras de atrito, onde os Estados evitavam as
grandes e dispendiosas batalhas campais.
136
Universidade do Sul de Santa Catarina
Seção 5 – A Guerra de Sítio
Na Europa feudal, as fortifcações tinham, geralmente, uma
função limitada, ou seja, a de proteger uma determinada
localidade, ou servir de refúgio para a população de certa
região. Mas, com o desenvolvimento dos Estados modernos, as
fortifcações ampliaram sua dimensão estratégica.
Mas, então, o que mudou?
As fortifcações deixaram de ser pontos fortes isolados, para
compor um sistema de defesa, que controlava:
„ os acessos do reino;
„ as vias fuviais;
„ os portos e os pontos de passagem, como vales e
gargantas.

Mais adiante, passariam até mesmo a ter função ofensiva,
servindo de ponto de apoio e base logística.
Alguns Estados europeus eram protegidos por verdadeiras redes
de fortifcações. Invadir qualquer país, sem capturar as suas
fortifcações, era um ato de temerária ousadia. Afnal, algumas
praças fortes eram grandes o bastante para abrigar milhares de
soldados que, neste caso, podiam se lançar sobre a retaguarda do
exército invasor. Ademais, a menos que o invasor estivesse certo
de encontrar adiante fontes de suprimento sufcientes, corria
o risco de ter suas linhas de comunicação interrompidas e ser
obrigado a uma retirada desastrosa, como de fato ocorreu em
inúmeras oportunidades.
Na Idade Média, o cerco a um castelo bem construído exigia
grandes esforços tanto dos assediantes quanto dos assediados.
Mas o surgimento de uma artilharia mais efciente, capaz de
criar brechas nas muralhas pela sobreposição de tiros, rompeu, na
segunda metade do século XV, o equilíbrio entre defesa e ataque,
a favor deste último. Esta transformação, embora lenta, fcou
evidente em 1494, quando a França invadiu a península italiana
com um trem de artilharia de cerca de 40 peças. Foi estabelecido,
então, como constatou Maquiavel, que “nenhum muro existe,
137
História Militar Geral I
Unidade 3
por mais espesso que seja, que a artilharia não possa destruir em
poucos dias” (PARKER, 1988, p.10). Ao fnal daquele século, as
altas muralhas das cidadelas deixaram de ser efcazes.
No início do século XVI, engenheiros italianos formularam um
desenho de fortifcações com baluartes que, por três séculos,
trouxe uma resposta à crise surgida com o progresso da artilharia.
A fortifcação em “traçado italiano” fcava quase que “enterrada”
no solo, para melhor escapar aos tiros da artilharia inimiga.
Por outro lado, os canhões dos defensores eram colocados sobre
baluartes, que, fanqueando-se mutuamente, permitiam varrer os
arredores da praça com tiros rasantes. Um largo fosso reforçava o
obstáculo, afastando a artilharia inimiga e difcultando a abertura
de minas com explosivos sob as muralhas.
Na fgura, a seguir, visualizamos a imagem do que seria uma cidade
fortifcada, no século XVII.



Figura 3.8 - Cidade fortifcada do século XVII.
Fonte: <http://www.freewebs.com/militaryrevolution/apps/photos/>. (Acesso em: 27abr.2009)

Desde então, toda progressão a descoberto da infantaria de
ataque tornava-se impossível.
O assediante deveria, desta forma, progredir por trincheiras, em
zigzag, para não ser varrido pelos tiros de enfada dos assediados.
A adoção do novo sistema de fortifcações -- a “trace italienne” --
não se deu em toda a Europa ao mesmo tempo, ou com a mesma
densidade, isto porque houve bastante infuência dos fatores
Construções de plano
pentagonal, também
chamadas de bastiões.
Cada um destes caminhos
em zigzag, protegidos dos
tiros por terras jogadas
alternadamente à direita
ou à esquerda, tomaria o
nome de “ataque”.
138
Universidade do Sul de Santa Catarina
econômicos e culturais. Se, por um lado, a “trace italienne” logo
se espalhou pelos Países Baixos e nordeste da França, demorou a
conquistar a Inglaterra que, no início da Guerra Civil, em 1642,
tinha menos de uma dezena de praças modernas.
Mas como era realizada a conquista de uma fortifcação?
O sítio de uma fortifcação se iniciava através do corte do seu
fuxo de suprimento. Em seguida, eram construídos, ao redor
da praça, dois anéis completos de trincheiras. As estreitas
trincheiras seguiam rumo às defesas inimigas em zigzag, a
partir da contravalação, cujos ângulos abruptos prejudicavam a
efciência dos tiros vindos das muralhas contra os atacantes. Em
seguida, para capturar a fortifcação, era importante abrir uma
brecha na muralha. A brecha deveria ser obtida em um trecho
entre dois bastiões, a fm de permitir aos assediantes penetrar
na praça. Esta brecha podia ser feita pela artilharia ou, de forma
mais rápida, pela colocação de explosivos sob a muralha. Neste
caso, era preciso cavar uma mina, que poderia ser barrada por
contraminas dos assediados.
Este método de assédio, bastante difundido a partir de 1572,
foi usado e aprimorado por espanhóis e holandeses durante a
guerra por eles travada entre 1584 e 1609. Os franceses, por
outro lado, ainda não tinham domínio desta ciência quando, em
1621, o exército de Luis XIII lançou um sangrento ataque frontal
contra as muralhas de uma cidade rebelde, a calvinista Saint Jean
D`Angély.
O sítio era uma operação longa e cara. Contra a cidade neerlandesa
de Breda, durou de agosto de 1624 a maio de 1625. As obras
realizadas para o cerco de Hertogenbosch, em 1629, tinham quarenta
quilômetros de comprimento. E, quando o sítio se estendia pelo
inverno, congelava dezenas de assediantes em suas trincheiras.
A França desenvolveu outra técnica de assédio. Vamos ver qual foi ela?
O anel interno, em face da praça,
compunha a chamada linha de
contravalação; o externo, visando
proteção de um exército de socorro,
chamava-se linha de circunvalação.
Denominado sítio de Mons.
139
História Militar Geral I
Unidade 3
Os franceses viriam a desenvolver sua própria técnica de assédio,
inspirando-se na escola turca, cujo esplendor fora testemunhado
por, pelo menos, um engenheiro francês durante o cerco otomano
de Cândia, no ano de 1659. Sob o reinado de Luís XIV, surgiu
Sébastien Le Prestre, “seigneur de Vauban”, um engenheiro
militar duramente educado pela prática e que logo ganharia a
confança do rei. Com Vauban, o sítio tornou-se mais racional,
técnico, e de resultados mais previsíveis. Desenvolveu métodos
que, corretamente empregados, deveriam levar, necessariamente,
à queda da praça forte, economizando tempo e vidas humanas.
No cerco de Ath, em 1697, com apenas duas semanas e 53
mortos ele logrou dominar uma guarnição de 3.800 homens.
Neste campo, sua primeira grande contribuição foi o sistema de
“paralelas”. Elas não se destinavam a cercar totalmente a posição
inimiga, mas permitir uma aproximação mais cômoda e efciente.
Eram mais seguras do que o antigo método e permitiam alojar
um maior número de soldados. Geralmente em número de três,
cada paralela tinha sua função:
„ praça d’armas;
„ posição de artilharia; e,
„ por fm, ponto de partida para o assalto.

Largas e espaçosas, delas os assaltos podiam partir de frentes
mais amplas do que no método antigo. Além disso, havendo
golpes de mão por parte dos assediados, as paralelas permitiam
um melhor apoio e comunicação entre as trincheiras que se
projetavam contra a praça. O inconveniente do seu método estava
no grande número de homens e recursos necessários, mesmo
para as menores fortifcações. Vinte mil soldados era o que ele
considerava como o mínimo para garantir a vitória contra uma
pequena fortifcação.
Além de se ilustrar na captura de fortifcações, Vauban também
foi revolucionário ao construir e reformar as praças que
literalmente salvaram a França durante a longa guerra de
Sucessão Espanhola, entre 1701 e 1713. Mas é preciso você
saber que ele não defendia a construção indiscriminada de novas
fortifcações. Ao contrário, ele advertia constantemente que o
excesso de praças tirava soldados do exército de campanha, e
Trincheiras abertas
paralelamente à
fortifcação adversária
e que interligavam os
“ataques”.
140
Universidade do Sul de Santa Catarina
que haveria recursos de construção e manutenção que seriam
desperdiçados. “Dez praças a menos devem valer ao rei trinta mil
homens a mais” (VAUBAN, 1992, p.24).
Vauban foi um grande construtor de fortifcações. Seu estilo fez
escola por toda a Europa e sobreviveu muito além de sua vida.
Esta é a parte mais perene de sua obra, presente ainda hoje em
diversos sítios turísticos. Por outro lado, Vauban nunca conduziu
a defesa de uma fortifcação e dizia-se frustrado por isso.
Veja, a seguir, os elementos da fortifcação instituída por Vauban.
Figura 3.9 – O sistema de Vauban.
Fonte: <http://www.freewebs.com/militaryrevolution/apps/photos/> (Acesso em: 29/04/2009)

Durante este período da Idade Moderna, foram muito mais
frequentes os sítios, ou seja, os assédios a fortifcações, do
que batalhas campais. Mesmo nas guerras empreendidas por
Frederico o Grande, os sítios foram frequentes, como os de Praga
(1744), Neisse (1740), Glogau (1740) e Pirna (1756). Além disso,
muitas batalhas campais famosas resultaram da tentativa de um
exército interromper o cerco empreendido por outro.
Foram os casos em Rocroi (1643), Marston Moor
(1644), Dunas (1658), Kahlenberg (1683), Narva (1700),
Malplaquet (1709), Turim (1706), Poltava (1709), etc.
O duque de Marlborough, grande general inglês adepto
da guerra de movimento, conseguiu travar apenas 4
batalhas importantes contra os franceses à frente do
exército britânico, no período de 10 anos, entre 1701 e
1711. No mesmo período, conduziu 30 sítios.
141
História Militar Geral I
Unidade 3
Seção 6 – Recrutamento
Durante os séculos XVI e XVII, os Estados geralmente tinham
três formas de obter soldados.
Vamos ver quais foram elas?
„ Pelo recrutamento de voluntários, tanto nacionais,
quanto estrangeiros.
„ Pelo recrutamento compulsório.
„ Pela contratação de exércitos mercenários.
Ao contrário do que se pensa, o recrutamento de voluntários era
muito mais frequente do que o compulsório. Houve época em
que ser soldado era escolher uma profssão relativamente bem
remunerada. Ganhava-se, em média, mais do que um pedreiro,
além de receber alimento e, eventualmente, o produto de
pilhagens. Durante guerras muito prolongadas, porém, os salários
fcaram menos atrativos e, eventualmente, foram até suprimidos.
Ainda assim, os voluntários afuíam em grande número. Eram
camponeses arruinados, dispostos a ganhar qualquer coisa.
O marechal Lennard Torstensson, que assumiu o comando do
exército sueco em 1641, decidiu não mais oferecer soldo aos
recrutas alistados na Alemanha, garantindo-lhes apenas comida,
vestimenta e saque. Durante a Guerra de Sucessão Espanhola,
que ocorreu entre 1701 e 1714, a situação social da França
decaiu a níveis insuportáveis, criando uma leva interminável de
voluntários famélicos e levando o marechal Villars a comentar
que “a infelicidade das massas foi a salvação do reino”.
Além disso, havia entre os voluntários quem buscasse defender
sua religião, ainda que sob a bandeira de monarcas estrangeiros.
O escocês Robert Monro, que serviu no exército sueco, afrma
ter ido à guerra no continente em busca de aventura, experiência
militar e, principalmente, para defender o protestantismo.
Calcula-se que 25 mil católicos irlandeses alistaram-se no
exército francês, como forma de combater os britânicos.
Mas, sem dúvida, em vários momentos, os voluntários não foram
sufcientes. A França, cuja luta com a Espanha, entre 1635 e
1659, ultrapassou a duração da Guerra dos Trinta Anos, a qual
142
Universidade do Sul de Santa Catarina
terminou em 1648, foi obrigada a adotar temporariamente
um recrutamento compulsório que tinha por principal alvo os
excluídos da sociedade . Nas paróquias, caso os voluntários
não cumprissem a quota local, as autoridades eram obrigadas
a indicar indivíduos entre os menos produtivos. Em 1649, os
vagabundos de Paris tiveram que escolher entre o exército e o
serviço nas galés. Assim, a necessidade de novos recrutas gerou
também o descontrole quanto à qualidade do elemento humano
incorporado às fleiras. A coação também foi empregada pela
França com vistas a criar o exército de quase 200 mil homens que
iniciou a “Guerra da Holanda”, em 1672.
Este processo foi se acentuando, infuenciado também pelo
aumento dos efetivos dos exércitos permanentes. Isto levou
alguns países a instituir sistemas semelhantes ao serviço militar.
Um destes sistemas já fora usado em outras épocas. Era o
recrutamento regional, que obrigava as províncias ou mesmo as
paróquias a fornecerem e equiparem um número de homens com
certa regularidade. Não era, portanto, uma obrigação pessoal
do cidadão para com o Estado, mas uma obrigação coletiva, da
província ou região.
Muito da personalidade “prussiana” se deve ao sistema de
cantões criado no século XVIII pelo governo de Berlim, que
limitava as liberdades individuais dos jovens a partir dos 10 anos
de idade. Este sistema evoluiu das milícias criadas em 1701,
onde os jovens camponeses tinham que dedicar certos dias ao
treinamento militar. Em seguida, o rei Frederico Guilherme
declarou que os jovens “pela sua natureza e especial ordem e
comando de Deus altíssimo, são responsáveis e obrigados a servir
com sua propriedade e seu sangue”. Mas o sistema de cantões
propriamente dito, que ligava cada jovem ao regimento do seu
distrito, limitando seu direito de se mudar e até de se casar,
somente veio a ser implantado em 1733.
Também chamados de “gens sans
aveu”.
Veja o decreto de 9 de maio de 1714.
143
História Militar Geral I
Unidade 3
Você sabia que a própria criação do sistema de
cantões teve relação direta com a introdução do
absolutismo na Prússia? O historiador Hans Delbrück
descreve o ato de criação deste sistema como “a
proclamação do princípio do poder ilimitado da
nação, materializada no rei, para dispor de seus
súditos segundo a sua vontade, de acordo com suas
necessidades” (DELBRÜCK, 1990, p.249). Interessante
anotar que Frederico Guilherme I, o “rei sargento”,
estimava que apenas o nobre era adequado para
o ofcialato, por conta de seu senso de honra. A
partir desta ideia, ele desenvolveu uma política que
obrigava a nobreza a entrar para o exército, devendo
cada região do país, anualmente, fornecer um certo
número de jovens para este fm. Estes eram enviados
à escola de cadetes ou direto ao regimento. Em
qualquer uma das hipóteses, os jovens nobres eram
submetidos a uma instrução rigorosa.
A nobreza de espada prussiana era extremamente poderosa,
mas tinha obrigações e limitações sem paralelo na Europa.
Pagava alguns impostos, não podia fazer comércio nem vender
suas terras à burguesia e não tinha o direito de deixar o reino
sem autorização. Graças às suas reformas, Frederico Guilherme
deixou para seu flho -- o futuro Frederico, o Grande -- um
exército de 68 mil homens em um país de apenas 2,2 milhões de
habitantes, no ano de 1740.
Ainda assim, Frederico, o Grande, considerava ideal que o
efetivo das companhias fosse constituído por dois terços de
estrangeiros; muitos vindos de outros exércitos. Durante a Guerra
dos Sete Anos, ele alistou, à força, milhares de soldados inimigos
capturados. Daí a sua eterna preocupação em evitar deserções,
expressa em inúmeras instruções.
Não podemos nos esquecer de mencionar, por fm, o recurso aos
“empresários da guerra”. Este último sistema, bastante prático, tinha
o nome de Condotta na Itália e deu origem ao termo “condottiere”,
para designar os generais-empresários contratados pelos príncipes.
Teve seu apogeu naquela península durante o século XVI e,
em seguida, na Alemanha, durante o primeiro terço do século
seguinte. O recurso aos generais-empresários se justifcava em várias
hipóteses. Mas, em linhas gerais, vinha da necessidade de se levantar
rapidamente um exército, usando, em geral, homens trazidos de
outros países, os chamados “mercenários”.
Em italiano. No singular:
condottiero. No plural:
condottieri.
144
Universidade do Sul de Santa Catarina
A existência de tal serviço especializado permitia ao monarca
ter efetivos reduzidos em tempo de paz, em prol das fnanças
públicas. Às vezes um exército mercenário já existente era
simplesmente comprado, como foi o caso da tropa de Bernard de
Saxe-Weimar, composta por cerca de 9.000 homens, que, depois
de servir à Suécia, foi adquirida pela França, em 1635. Este
sistema costumava garantir boa qualidade técnica, mas pouca
lealdade.
O comandante mercenário mais famoso do século XVII foi Albrecht
Von Wallenstein, que viveu entre 1583 e 1634. Destacou-se durante
a Guerra dos Trinta Anos principalmente como administrador e
fnanciador de exércitos. Oferecendo seus serviços aos Habsburgos
austríacos, levantou um exército de 100.000 homens apoiado por
um efciente sistema logístico. Entretanto tinha ambições pessoais,
e o Imperador Ferdinando II, sem dinheiro para pagar seus serviços,
ofereceu-lhe terras e título de nobreza. Ao fnal de alguns anos, seu
poder crescente assustou o monarca. Este, com fundadas suspeitas
de que Wallenstein iria colaborar com os suecos, permitiu o seu
assassinato, em 1634.

Na segunda metade do século XVII, já não se veriam mais
homens como Bernard de Saxe-Weimar ou Wallenstein, que
tentavam usar seus exércitos particulares para a criação de novos
Estados. Da mesma maneira, já não se veriam mais exércitos
mercenários autônomos, mas sim regimentos formados por
mercenários e enquadrados aos exércitos nacionais.
145
História Militar Geral I
Unidade 3
Síntese

De tudo o que foi visto, você percebeu que o progresso da arte da
guerra neste período caminhou de braços dados com a evolução
administrativa dos diferentes Estados. O desenvolvimento da
administração pública, principalmente em países que adotaram
o Absolutismo, permitiu a manutenção de exércitos permanentes
bastante numerosos e a construção de modernas fortifcações.
Os mercenários continuariam a ser empregados, mesmo após
o desaparecimento dos condottieri. Vimos que os exércitos,
embora tivessem grandes contingentes de voluntários, viriam
a ser engrossados com o auxílio de modelos de recrutamento
compulsórios, como na Prússia.
Você também teve a oportunidade de notar o papel que o
desenvolvimento das armas de fogo teve na evolução da tática
de guerra. A Infantaria ganhou importância, tornando-se capaz
de se defender da cavalaria. O surgimento da baioneta permitiu
ao infante aliar fogo e choque. Os canhões, mais leves, puderam
participar das futuações do campo de batalha e obrigaram a
Infantaria a abandonar os grandes quadrados. A Cavalaria,
tímida contra as concentrações de piqueiros, retomou seu papel
decisivo ao tempo de Gustavo Adolfo.
Vimos a real importância das fortifcações. Estas, quando bem
construídas, defendiam os acessos do reino, serviam como
depósito de suprimento e podiam transformar-se em base de
apoio para limitadas ações ofensivas. Examinamos como eram
construídas e como podiam ser capturadas.
Das campanhas militares, vislumbramos suas limitações, devidas
ao clima, à logística, à disciplina, à má administração, ao elevado
custo, dentre outros fatores. Compreendemos por que, mesmo
generais com espírito ofensivo, como Frederico, o Grande,
tendiam a preferir as guerras de atrito.
Por fm, mostramos que este período foi alvo de estudos
preconceituosos no século XIX e que ganhou o respeito dos
estudiosos somente nos últimos trinta anos. Ainda que o termo
“Revolução Militar” seja discutível, a importância do período, em
várias áreas da ciência militar, não causa mais controvérsia.
146
Universidade do Sul de Santa Catarina
Atividades de autoaprendizagem

1) Explique, em um texto dissertativo de, no máximo, 15 linhas, por
que o crescimento dos efetivos dos exércitos da Idade Moderna esteve
frequentemente ligado à adoção do Absolutismo.
147
História Militar Geral I
Unidade 3
2) Observe as afrmativas abaixo e assinale, entre os parênteses, “V” para as
sentenças verdadeiras e “F”, para as falsas.
( ) As fortifcações na Idade Moderna ganharam novo traçado
arquitetônico. Entretanto perderam sua função estratégica,
pois não eram capazes de deter os exércitos adversários. Assim,
limitavam-se a defender as cidades mais importantes.
( ) O sistema tático espanhol, que tinha como elemento principal a massa
compacta de piqueiros apoiada por uma pequena proporção de
mosqueteiros, entrou em decadência durante a Guerra dos Sete
Anos.
( ) O sistema de “cantões”, desenvolvido na Prússia do século XVIII,
foi fundamental para a constituição do exército que ajudaria
Frederico, o Grande, a fazer do reino uma potência regional.
( ) O rei sueco Gustavo Adolfo está relacionado a importantes inovações
táticas ocorridas na primeira metade do século XVII, infuenciando
o emprego da infantaria, da cavalaria e artilharia.
148
Universidade do Sul de Santa Catarina
Saiba mais
Para aprofundar o estudo deste tema, recomendo a leitura do 1º
volume do livro “Construtores da Estratégia Moderna”, de Peter
Paret, publicado pela Biblioteca do Exército, em 2001.
UNIDADE 4
Poder Naval
Armando de Senna Bittencourt
Objetivos de aprendizagem
„
Saber analisar o desenvolvimento da construção naval
da Antiguidade ao período Moderno.
„
Relacionar as transformações tecnológicas dos meios
navais com as necessidades das sociedades no tempo.
„
Identifcar a infuência do desenvolvimento da
tecnologia naval nas formas de fazer a guerra no mar.
„
Compreender o processo de emprego da artilharia nos
navios.
Seções de estudo
Seção 1 Analisando conceitos
Seção 2 A Era do Remo
Seção 3 A Batalha Naval de Salamina
Seção 4 O emprego dos canhões nos navios
Seção 5 A Era da Vela
Seção 6 A “Invencível Armada”
Seção 7 As táticas do século XVIII e a situação no fnal
desse século
4
150
Universidade do Sul de Santa Catarina
Para início de estudo
O período compreendido entre a Antiguidade e o fnal do século
XVIII é repleto de transformações, em diferentes níveis, nas
sociedades europeias. Tal qual essa dinâmica das sociedades no
tempo, a relação do homem com o mar – sendo aqui priorizadas
as formas de fazer a guerra no mar – passou por diversas
mudanças.
Propomos a você, nesta unidade, a análise das mudanças
ocorridas no modo de condução da guerra no mar, a observação
das distintas demandas que surgiram em cada período,
destacando o desenvolvimento da tecnologia naval e as táticas
aplicadas na guerra no mar.
Para tanto, abordaremos o período em que a propulsão dos navios
de guerra dependia dos remos, concentrando-nos na Grécia
Antiga e utilizando a Batalha de Salamina, em 480 a.C., como
estudo de caso. Analisaremos o desenvolvimento dos navios à
vela e a gradual introdução da arma de fogo, do canhão, nos
combates navais, aprofundando-nos na derrota da “Invencível
Armada”. E, fnalizando a unidade, introduziremos os padrões
táticos dos combates entre navios à vela que se consolidaram no
fnal do século XVIII.
Seção 1 – Analisando conceitos
Antes de iniciarmos os estudos desta unidade, precisamos
analisar três conceitos específcos, que são os seguintes:
Comunicações Marítimas, Poder Marítimo e Poder Naval.
Vamos ao primeiro?
As Comunicações Marítimas são os caminhos existentes no
mar para o comércio exterior ou interno, isto é, as rotas por
onde trafegam os navios, desde seus portos de origem até os de
destino. As Comunicações Marítimas não são vias físicas, como
estradas ou linhas férreas, e somente se materializam quando
existirem navios transportando suas cargas através delas.
151
História Militar Geral I
Unidade 4
Cada nação atribui determinada importância às Comunicações
Marítimas segundo o seu grau de dependência das mesmas. Sua
importância econômica determinará o esforço a ser realizado
para a manutenção dessas rotas abertas e livres de interdição do
inimigo, ou mesmo de piratas.
A proteção das Comunicações Marítimas é
fundamental para países como o Brasil, que tem mais
de 95% de seu comércio com o exterior feito por
navios mercantes.
E o que signifca Poder Marítimo?
Poder Marítimo é a capacidade resultante da integração dos
recursos de que dispõe um país para a utilização do mar e das
águas interiores, quer como instrumento de ação política e
militar, quer como fator de desenvolvimento econômico e social,
visando conquistar e manter os objetivos nacionais.
Quais são os elementos que constituem o Poder
Marítimo?
Tudo ou quase tudo que se relaciona com o mar, como:
„ a Marinha Mercante;
„ a infraestrutura hidroviária, incluindo os portos, os
terminais, os meios e as instalações de apoio e controle;
„ a indústria naval com seus estaleiros de construção e
reparos e setor de navipeças;
„ a indústria bélica, de interesse do aprestamento naval;
„ a indústria de pesca, com suas embarcações, terminais e
indústrias de processamento de pescado;
„ as organizações e os meios de pesquisa e
desenvolvimento tecnológico de interesse para o uso do
mar e águas interiores e de seus recursos -- aí incluem-se
as universidades e os centros de pesquisa voltados para o
mar;
152
Universidade do Sul de Santa Catarina
„ as organizações e os meios de exploração -- sondagem,
pesquisa, estudo -- e explotação -- retirada de recursos
para fns de utilização -- dos recursos do mar, seu leito
e subsolo, inclusive as que operam embarcações de apoio
ofshore,
„ o pessoal que desempenha atividades relacionadas
com o mar e hidrovias interiores e os estabelecimentos
destinados à formação e ao treinamento dos mesmos; e,
„ o Poder Naval.

Destacamos o último elemento, porque ele será o nosso principal
objeto de estudos.
Mas o que seria especifcamente o Poder Naval?
O Poder Naval é o componente militar do Poder Marítimo,
capaz de atuar no mar e nas águas interiores, na conquista e
manutenção dos objetivos estabelecidos pelo Estado. Este poder
compreende:
„ os meios navais, aeronavais e de fuzileiros navais;
„ as bases e posições de apoio, suas estruturas de comando
e controle, logística e administração; bem como,
„ as forças e os meios de apoio não constitutivos das
marinhas de guerra, quando vinculados ao cumprimento
de alguma missão naval e submetidos a algum tipo de
orientação, comando ou controle de autoridade naval.
Você sabia que a logística é a parte da Arte da
Guerra que trata do transporte, distribuição,
manutenção e evacuação de material (tanto para fns
operativos como administrativos); do recrutamento,
incorporação, instrução, adestramento, designação,
transporte, bem-estar, evacuação, hospitalização e
desligamento de pessoal; projeto e desenvolvimento,
aquisição ou construção, manutenção e operação de
meios, instalações e acessórios destinados a apoiar o
desempenho de qualquer função militar; contrato ou
prestação de serviços?
Trabalho que é realizado explorando
ou explotando os recursos do fundo
do mar.
153
História Militar Geral I
Unidade 4
Seção 2 – A Era do Remo
A Grécia, parte Sul da Península dos Bálcãs, se caracteriza
por seu território montanhoso e pouco fértil, de difícil
aproveitamento agrícola, que se projeta no Mediterrâneo, criando
grande quantidade de baías, cabos, penínsulas e ilhas. Diante
da difculdade de obter produtos de sua terra, os gregos, desde
muito cedo, aprenderam a depender do mar para seu sustento,
através da pesca e do comércio marítimo. A convivência com o
mar permitiu aos gregos desenvolverem habilidades marinheiras
que logo aproveitaram para expandir seus domínios, colonizando
ilhas e terras do litoral do Mediterrâneo e do Mar Negro.
Algumas cidades-estado gregas desenvolveram Poder Marítimo
considerável, criando frotas mercantes e frotas de guerra, que
lhes trouxeram prosperidade e lhes garantiram independência
econômica e política frente ao conturbado cenário geopolítico do
mundo helênico. No início do século V a.C., Atenas, com seu
porto Pireu, já se destacava como importante centro do comércio
marítimo do Mediterrâneo.
Juntamente com o comércio, era muito comum a prática da
pirataria, considerada uma atividade marítima como qualquer
outra, desde que praticada contra os outros povos, evidentemente.
Era frequente que os gregos travassem guerras entre si, contra
os fenícios e contra os piratas que assolavam o Mediterrâneo,
disputando comunicações marítimas ou protegendo-as. Para
isso, possuíam embarcações de guerra propulsionadas, quando
em combate, por remadores. As galés eram embarcações
relativamente leves, esbeltas e de pequeno calado, para poderem
alcançar velocidades elevadas nos períodos em que os remos
estavam sendo empregados. Nas viagens, quando o vento
era favorável, içavam uma vela de formato aproximadamente
retangular, o que permitia o descanso dos remadores.
Você sabia que “calado” representa a distância da face
inferior da quilha até o plano de futuação? Mas você
sabe o que é uma quilha? É a peça estrutural básica
do casco de uma embarcação, disposta na parte mais
baixa do seu plano diametral, em quase todo o seu
comprimento. Constitui como que a “espinha dorsal”
da embarcação.
Estas eram semelhantes
às de outros povos
do Mediterrâneo e
denominadas, aqui, de
galés.
154
Universidade do Sul de Santa Catarina
O comportamento dessas embarcações no mar aberto era
péssimo, mas, em situações desfavoráveis de mar, graças ao
pequeno calado, podiam abrigar-se nas águas tranquilas de uma
enseada, ou baía, mesmo quando havia pouca profundidade.
Podiam, também, abicar em uma praia de areia.
No início, as galés eram utilizadas na guerra simplesmente como
plataformas para transportar guerreiros, que lutavam entre si.
A abordagem era a tática que decidia os combates. Por volta do
ano 800 a.C., desenvolveu-se o esporão, conforme você pode
visualizar a seguir, na Figura 4.1.

Figura 4.1 – Esporão de uma Birreme Grega.
Fonte: ALBUQUERQUE, A. L. Porto e; SILVA, Leo F. Fatos da História Naval. 2 ed. Rio de Janeiro: Serviço de
Documentação da Marinha, 2006. p.19.
O esporão é a protuberância de madeira localizada na proa da
embarcação, pouco abaixo da linha d´água. Tinha, normalmente,
sua ponta revestida de algum metal como o bronze. Era o
esporão que permitia abalroar e afundar a embarcação inimiga.
A galé passou, então, – conforme o uso do esporão ganhava
importância – a ser empregada como um sistema, composto pela
embarcação e seus remadores. Novas táticas de emprego puderam
ser desenvolvidas, como, por exemplo, as manobras de remos
que, evidentemente, necessitavam de treinamento, trabalho de
equipe e liderança experiente. Essas táticas podiam, também,
envolver operações com diversas embarcações que manobravam
simultaneamente.
O advento do esporão, portanto, exigiu maiores velocidades
e melhor manobrabilidade. Consequentemente, as galés dos
tempos pré-Homéricos evoluíram para embarcações com maior
relação do comprimento versus a boca. Estima-se que estas galés
eram capazes de alcançar uma velocidade máxima de 9,5 nós. o
que corresponde a 17,6 km/h.
Encalhar a embarcação
intencionalmente, com a proa, ou
seja, com a parte frontal do navio.
Termo que signifca chocar uma
embarcação com a outra.
Estipula-se que Homero tenha
vivido entre os séculos IX e VIII a.C.
Milhas náuticas por hora.
155
História Militar Geral I
Unidade 4
Você sabe qual é a diferença entre a boca e o bordo
em relação ao casco de uma embarcação? A boca
refere-se à largura do mesmo; o bordo, ao seu limite
superior, ou seja, à lateral da embarcação.

Nos tempos de Homero até aproximadamente 500 a.C.,
desenvolveram-se galés com duas fleiras de remos em cada
bordo, a birreme, e, depois, com três fleiras, a trirreme. Havia, na
trirreme, um número máximo de remos por bordo, em relação ao
comprimento da embarcação, de aproximadamente 37 metros.
Para que isso fosse possível, mantendo os pesos baixos, de modo
a não prejudicar a estabilidade, os remadores eram “compactados”
em grupos de três, cada qual com seu único remo, em bancos
que distavam, verticalmente, entre si, aproximadamente, meio
metro e que estavam afastados horizontalmente, apenas com a
distância necessária para permitir os movimentos dos remadores.
A distância vertical do banco mais alto para o mais baixo era,
portanto, de aproximadamente um metro.
Vejamos estas características na Figura 4.2, a seguir.
Figura 4.2 - Trirreme Grega.
Fonte: ALBUQUERQUE, A. L. Porto e; SILVA, Leo F. Fatos da História Naval. 2. ed. Rio de Janeiro: Serviço de
Documentação da Marinha, 2006. p.30.

Devido à limitação da estabilidade transversal da embarcação, é
improvável que tenham existido galés com mais de três fleiras
de remos por bordo. A partir do século III a.C., foram criadas
as quadrirremes e quinquerremes, mas estas estavam relacionadas
com a maior quantidade de remadores por remo, e não com o
Este número contabiliza
cerca de 84 remos.
156
Universidade do Sul de Santa Catarina
escalonamento de fleiras. Porém, a partir desta época, o emprego
do esporão começou a perder a importância nas batalhas navais,
voltando a ser a abordagem a tática mais utilizada.
Remar com o arranjo de remos da trirreme, muito próximos uns dos
outros, somente seria possível para uma guarnição que estivesse
bem treinada e motivada de forma a não cometer erros. Bastaria que
um remador perdesse o ritmo para causar um grande emaranhado
de remos em todo aquele bordo, o que poderia ter graves
consequências em combate ou numa formação tática com outras
galés próximas.

Só se alcançaria um desempenho satisfatório em embarcações
cuja construção obedecesse ao projeto das trirremes gregas, se
fosse possível um excelente treinamento de remadores motivados.
Essa motivação difcilmente se conseguiria de escravos, levando-
nos a crer que, pelo menos para as trirremes gregas, onde o
esporão era a principal arma, a tripulação era formada por
homens livres.
Muito provavelmente, a trirreme representou o apogeu do projeto
e emprego tático das galés dotadas de esporão. É provável que
seu bom êxito como embarcação de guerra estivesse relacionado
com a utilização de homens livres como remadores, que lutavam
por sua cidade-estado, recrutados das classes mais pobres,
que não podiam pagar o preço do equipamento necessário a
um soldado (hoplita), como as peças da armadura e as armas,
típicas da infantaria pesada. Textos gregos antigos mostram que
também havia entre eles pessoas que não eram cidadãos, alguns
estrangeiros habitantes da cidade e, possivelmente, até mesmo
poucos escravos bem motivados. Esses textos discutem o fato de,
em grandes vitórias, eles ganharem cidadania como prêmio.
157
História Militar Geral I
Unidade 4
Seção 3 – A Batalha Naval de Salamina
Na tentativa de conquistar a Grécia, os persas investiram em
duas guerras no século V a.C, nas quais não lograram sucessos.
Durante a Segunda Guerra Médica, ocorreu uma importante
batalha naval, no ano de 480 a.C., próxima à Ilha de Salamina.
Vamos observar, com mais detalhes, como ocorreu esta Guerra?
Xerxes conseguiu organizar um exército e uma marinha muito
maior do que aquelas que seu pai, o rei Dário, empregou na
Primeira Guerra Médica, decidida com a vitória dos gregos na
Batalha de Maratona. Dessa vez, seu exército invadiu a península
grega progredindo por terra. Contudo esse exército era muito
grande para abastecer-se aproveitando somente os recursos
locais, de modo que a marinha persa foi utilizada para abastecer
as tropas, isto é, prover a logística àquele exército. As tropas
persas fcaram assim presas à costa, dando aos gregos a certeza
da direção em que deveriam esperar um ataque inimigo, pois os
persas estavam impossibilitados de manobrar.
Uniram-se contra os invasores as cidades-estado gregas do
Peloponeso e Atenas, situada na Ática, todas lideradas por
Esparta, que tinha a primazia do emprego das forças terrestres.
Inclusive as forças navais, em sua maioria atenienses, fcaram
sob comando espartano. Porém o plano de defesa original
de concentrar as tropas no Peloponeso, deixando Atenas
desprotegida, foi rejeitado por Atenas. Liderada por Temístocles,
propôs um plano alternativo de defesa, que foi empregado
contra os persas. Consistia em defender progressivamente a
rota costeira à qual as tropas persas estavam presas, enquanto a
marinha ateniense fanquearia o inimigo, atacando as linhas de
comunicação marítima dos persas -- sua marinha -- e forçando
uma retirada do inimigo sem abastecimento.
Os combates ocorreram por terra e mar. No terceiro dia, os
persas, em terra, contornaram a posição das Termópilas por
um caminho nas montanhas, guiados por um traidor grego, e
derrotaram Leônidas. No mar, a esquadra grega que combatia
em Artemísio, muito avariada, também se retirou para o Sul,
recuando para a Ilha de Salamina, deixando exposta aos persas a
Ática, onde se situava Atenas.
Estas foram conhecidas
como “Guerras Médicas”.
Rei do império persa entre
485 e 465 a.C.
158
Universidade do Sul de Santa Catarina
Seguindo a descrição e a exata localização da Batalha de
Salamina, de acordo com, Hans Delbrück, a marinha grega,
constituída de umas 300 galés, estava na costa norte da Ilha de
Salamina, na Baía de Eleusis, onde existem praias de areia e água
potável. É possível que uma parte da esquadra também estivesse
do lado norte da baía, pois eram necessários espaço e água
potável para um efetivo de 50.000 a 60.000 remadores, além das
galés.
Para entrar na Baía de Eleusis, existiam dois caminhos:
„ a Leste, o estreito do lado do Porto de Pireu, de costas
rochosas e com o canal passando entre ilhas e pedras; e
„ a Oeste, o estreito mais apertado e tortuoso, do lado de
Mégara.

A fgura do mapa que segue nos ajudará a visualizar melhor esta área.


Figura 4.3 - Desenho da área em que ocorreu a batalha.
Fonte: <http://www.artimanha.com.br/Historia%20naval/Salamina/salamina.htm>.
Se a esquadra persa vencesse, a esquadra grega
seria totalmente destruída, pois não havia por onde
escapar.
A superioridade em número de navios de guerra dos persas
seria parcialmente superada pelo engajamento dos navios gregos
em águas confnadas, nos dois estreitos que davam acesso a
Baía de Eleusis, a qual tinha sua boca parcialmente fechada
A maioria destas eram trirremes
atenienses, mas havia algumas de
50 remos.
159
História Militar Geral I
Unidade 4
pela Ilha de Salamina, e onde se reunia a frota grega. Em um
espaço limitado, quem tivesse maior habilidade de manobra para
utilizar os esporões estaria em vantagem. Conforme foi citado
por Heródoto, os gregos, sobretudo Temístocles, confavam na
vantagem tática de estreitar o campo de batalha para o inimigo
em maior número.
A batalha ocorreu em setembro de 480 a.C. Os navios persas
investiram pelas duas entradas da Baía de Eleusis: situada a
Leste, o estreito próximo ao porto de Pireu; e a Oeste, mais
apertada e tortuosa. Intentavam encurralar a frota grega naquela
baía, bloqueando as saídas e destruindo-a por completo. Porém
a marinha grega também se dividiu e rumou para interceptar
os navios persas ainda durante a lenta passagem pelos estreitos,
buscando o combate nesses canais, em águas confnadas.
O plano grego era não permitir que os persas entrassem na baía,
onde poderiam manobrar com facilidade. Assim, as galés persas
eram atacadas, quando ainda tinham restrições de manobra e
velocidade na entrada da baía, enquanto os navios gregos que
vinham do interior da baía tinham área sufciente para manobrar.
Destacamos aqui, que, para o melhor emprego tático do esporão,
a posição da embarcação atacante em relação à embarcação
atacada e a velocidade da primeira eram parâmetros essenciais
para um ataque bem-sucedido. Quando as primeiras galés
persas recuaram para os estreitos ante o ataque das galés gregas,
encontraram as outras que vinham chegando, e estabeleceu-se a
confusão, o que favoreceu a vitória dos gregos.
Salamina é a primeira grande batalha naval decisiva,
registrada pela história.
A derrota em Salamina impediu que os persas continuassem seu
avanço pelo Peloponeso, privando-os do apoio logístico de sua
marinha, derrotada naquela batalha. Para Xerxes, que assistira à
derrota de sua marinha, uma rápida e brilhante campanha não
mais seria possível, pois não conseguira vencer os gregos no mar.
Segundo John Keegan, um dos grandes historiadores militares da
atualidade:
160
Universidade do Sul de Santa Catarina
O maior legado da campanha de 480-479 a.C., no
entanto, não foi militar, mas naval. Ela elevou o poderio
das frotas a um nível igual ao dos exércitos em Estados
localizados junto a um mar interno e, dessa forma,
estabeleceu o estilo para um novo método de guerrear,
verdadeiramente estratégico em seu caráter, que dominou
a luta por posições no Mediterrâneo oriental pelo resto do
século; seus princípios acabaram entrando para o cabedal
de todos os povos marítimos. (KEEGAN,1995, p.270).
Saiba mais sobre esta nova visão do episódio
de Salamina no livro de Hans Delbrück, Warfare
in Antiquity: History of the Art of War. Volume I.
University of Nebraska Press, 1990.
Seção 4 – O emprego dos canhões nos navios
As galés e o esporão deixaram de ser usados, quando os navios
empregados na guerra tiveram de acompanhar os navios
utilizados para o comércio em rotas cada vez mais afastadas das
costas. Ao longo dos séculos, os navios utilizados para guerrear
se tornaram cada vez mais similares aos navios ditos mercantes.
As armas de arremesso, como catapultas e balistas, tornaram-
se progressivamente mais importantes do que o emprego do
esporão. Adentrando no período medieval, vemos que os
mesmos navios empregados em rotas comerciais ao longo do
Mediterrâneo e na costa atlântica da Europa, quando empregados
na guerra no mar levavam grande número de soldados a bordo,
pois a abordagem voltou a ser a principal tática utilizada nos
combates navais.
A grande inovação tecnológica, que teria enormes consequências
na guerra e no poder naval, foi o canhão. A utilização de canhões a
bordo de navios ocorreu ainda na primeira metade do século XIV, mas
a artilharia de bordo somente se generalizou, na Europa, na segunda
metade desse século.
161
História Militar Geral I
Unidade 4
As primeiras armas foram as bombardas.
Vejamos, a seguir, uma breve descrição das mesmas.
As bombardas eram tubos de ferro forjado, fechados na
extremidade posterior e reforçados longitudinalmente por barras
de ferro e, transversalmente, por grossos aros de ferro. Os aros
eram montados, aquecidos ao rubro, com marretadas, para
prenderem os reforços sob tensão. Eram carregados pela boca,
montados nos castelos de proa e de popa dos navios medievais.
Estas armas eram perigosas, porque frequentemente explodiam,
além de serem difíceis de conteirar
As galés foram ainda empregadas no Mediterrâneo, porém muito
maiores que as utilizadas na Antiguidade. Estas também foram
também armadas com canhões, na proa, apontando para avante.
Com os remadores em ambos os bordos das galés, era difícil
encontrar um posicionamento transversal, nos bordos, para os
canhões, que se tornavam cada vez mais importantes na guerra
naval. Houve uma evolução do projeto das galés para possibilitar
o emprego de artilharia nos bordos, cujo resultado foi a galeaça,
que exerceu um papel importante na Batalha de Lepanto , em
1571, a última grande batalha em que as embarcações a remo
exerceram um papel de destaque.
Enquanto isso, estavam ocorrendo evoluções tecnológicas na
construção naval as quais permitiram, fora do Mediterrâneo,
o aparecimento de grandes navios oceânicos propulsionados
exclusivamente por velas e, portanto, com os bordos
desimpedidos para os canhões. Aproveitando o progresso da
artilharia, esses navios oceânicos tornaram as galés e galeaças
praticamente obsoletas, ainda no século XVI.
Era o fm da Era do Remo e o início da Era da Vela na
história do poder naval.
Castelo de proa é a
superestrutura localizada
na frente do navio; o
castelo de popa localiza-se
atrás. Eram utilizadas para
abrigar guerreiros, visando
defender os navios de
possíveis ataques.
Conteirar: apontar na
direção do alvo.
Batalha entre reinos
cristãos, organizados
na Liga Santa, contra
os turcos, impedindo
o avanço destes no
Mediterrâneo.
162
Universidade do Sul de Santa Catarina
Seção 5 – A Era da Vela
Acompanhando as transformações das sociedades europeias às
voltas com o Renascimento, a tecnologia naval passou também
por um conjunto de mudanças que alteraram a forma de se fazer
a guerra no mar. A necessidade de investir no mar oceano, além
do desenvolvimento da artilharia, forçou novas concepções de
navios, alterando as técnicas de construção naval e destacando a
propulsão à vela como a mais utilizada.
Nesse processo, destacaram-se os portugueses.
Vamos ver como aconteceu esta história?
O reino de Portugal se estruturou politicamente antes de outros
países e, por isto, pôde estabelecer um projeto de Estado.
Espremido entre terras de Castela e o mar, Portugal foi buscar
seu futuro no oceano, defnindo, ao longo do século XV, a
estratégia de prosperar por meio do comércio com o Oriente,
através do que fcou conhecido como a Expansão Marítima
Portuguesa.
Em primeiro lugar, foi necessário continuar a exploração da
costa ocidental do Continente Africano e descobrir o “caminho
marítimo para a Índia”, contornando o Cabo da Boa Esperança.
Depois, estabelecer o comércio e defendê-lo, considerando-o
como uma conquista.
Do ponto de vista militar, portanto, foi preciso dominar a área
marítima do Atlântico e do Índico, estratégica para a defesa da
comunicação marítima para o Oriente, e, também, combater
forças navais turcas e piratas muçulmanos no Índico e no Mar
Vermelho.
Para tudo isso, os portugueses aperfeiçoaram, além de
instrumentos de navegação , navios adequados, não somente
para a navegação de longo curso nos oceanos, mas, para cada uma
das tarefas básicas necessárias: exploração, transporte de cargas e
combate naval. Para tais, foram aperfeiçoadas as caravelas, a nau
e o galeão.
Agora, vamos prestar atenção a uma mudança específca na construção
dos navios, que fez toda a diferença na história que estava por vir.
Como a bússola, o astrolábio e as
cartas náuticas.
163
História Militar Geral I
Unidade 4
5.1 - Transformações na construção naval
O primeiro método de construção de embarcações de vários
componentes, utilizado desde a canoa de tábuas, é chamado de
costado rígido. Construía-se primeiro o costado da embarcação,
juntando as tábuas pelas bordas e, depois, acrescentavam-se os
reforços estruturais internos e externos. O costado podia ser liso
ou trincado, conforme se juntavam as tábuas topo a topo, ou
sobrepondo suas bordas. O resultado deste método é um casco
resistente, com ênfase estrutural no costado, bom para suportar
colisões e para encalhar, se necessário, nas praias. Ainda hoje se
constroem pequenas embarcações assim e, na Antiguidade, era
como se construíam as galés.
Vejamos, a seguir, uma fgura representando os métodos utilizados para
a construção naval em madeira.

Figura 4.4 - Aproveitamento da curvatura natural das árvores na construção naval.
Fonte: GREENHALGH, Juvenal. O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro na História: 1763-1822. Rio de Janeiro:
SE, 1951, p. 219.
Com o passar do tempo, foi preciso desenvolver um método que
permitisse controlar a forma do casco durante a construção, para
que ele pudesse enfrentar melhor as grandes ondas dos oceanos.
Isso se resolveu construindo, primeiro, a estrutura. Ou seja, a
quilha e as cavernas do navio são montadas em primeiro lugar,
formando o que parece ser o “esqueleto” do navio. Depois é
que se montam as tábuas do costado, fxando-as aos elementos
estruturais. Este método é chamado de “esqueleto rígido”.
Na fgura que segue, podemos observar o método de construção baseado
no esqueleto rígido sendo utilizado no fabrico de uma nau.
Cada uma das peças
curvas que se fxam
transversalmente à quilha
da embarcação e que dão
forma ao casco.
164
Universidade do Sul de Santa Catarina
Figura 4.5 - Construção da Nau São Sebastião no Arsenal de Marinha da Corte, em 1764.
Fonte: GREENHALGH, Juvenal. O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro na História: 1763-1822. Rio de Janeiro:
SE, 1951.

Embora este método se tivesse desenvolvido no litoral do Mar
Mediterrâneo, ou seja, fora de Portugal, ele foi empregado pelos
portugueses para construir os navios que iniciaram, no século
XV, a aventura das Grandes Navegações.
E com relação especifcamente aos navios portugueses, o que aconteceu?
Este mesmo método foi empregado?

5.2 - Os navios portugueses
Sempre que se pensa em descobrimentos, lembra-se de caravelas
portuguesas. Elas, com suas velas latinas, foram embarcações
fundamentais durante a fase de exploração da costa ocidental
africana, no século XV.
Você sabe o que é a vela latina? E qual a sua origem?
A vela latina, triangular ou trapezoidal, que é
posicionada longitudinalmente à linha de centro
da embarcação, provavelmente teve origem no
Oceano Índico, como uma invenção necessária para
navegar bolinando contra o vento das monções e
possibilitar um retorno mais cedo ao porto de origem.
Começou a ser utilizada, também, no Mediterrâneo no
século VIII. Ao que tudo indica, o nome latina deriva
de “a la trina”, ou seja, de três lados.
Bolinando - Navegar num rumo
próximo da linha do vento.
Monções - Vento periódico de
ciclo anual que, no verão, sopra em
determinada direção e, no inverno,
na direção oposta. No litoral
brasileiro, de março a agosto, os
ventos se dirigem para o norte e, no
resto do ano, para o sul.
165
História Militar Geral I
Unidade 4
Além da vela latina, existe a vela redonda, que também pode
ter forma retangular ou trapezoidal, e que se situa em verga
transversal à linha de centro do navio. Era o pano da “navis
rotunda”, ou navio redondo, como era chamado o navio mercante
da antiguidade. Cristóvão Colombo, bem informado sobre
o regime de ventos do Atlântico Norte, sabendo que poderia
ir e vir quase sem ventos contrários, substituiu algumas das
velas latinas de sua caravela Pinta por velas redondas, antes de
sua viagem de descobrimento da América. Algumas caravelas
portuguesas tinham, também, velas redondas no mastro de vante
e velas latinas nos outros mastros; eram chamadas de “caravelas
redondas”.
Mas qual foi a origem da caravela?
A caravela provavelmente se originou de pequenas embarcações
de pesca, como as referidas em documentos do século XIII, do
norte de Portugal. Tratava-se de um tipo de navio específco,
com formas e proporções próprias. A caravela portuguesa era
considerada por todos, em sua época, como o melhor navio de
locomoção à costa africana, pois conseguia navegar relativamente
bem em rumos contrários à direção do vento, em ângulos de até
aproximadamente 30
o
.
As caravelas também foram armadas com canhões
ainda no tempo de D. João II, atuando como navios de
guerra.
Vejamos, a seguir, imagens de diversas confgurações de caravelas:


Figura 4.6 – Caravelas com velas latinas do século XV. Desenhos reproduzidos do Planisfério de Juan de la Cosa – 1500.
Fonte: Acervo iconográfco da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha
166
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Figura 4.7 - Modelo de Caravela de três mastros com velas latinas
Fonte: Acervo do Museu Naval – Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha

A nau de três mastros, com velas redondas e somente uma latina
no mastro de ré, pode ser considerada como uma invenção
ibérica. As evidências para tal são devidas a uma imagem catalã
de 1409 e a um prato de louça hispano-mourisca, da terceira
década do século XV, decorado com a pintura de uma nau, com
símbolos nacionais portugueses.

Vejamos outra imagem:


Figura 4.8 – Uma grande nau portuguesa da Carreira das Índias em primeiro plano com as velas redondas do
mastro grande enfunadas. Observa-se no canto direito da imagem uma galé impulsionada por remos e com as
velas recolhidas.
Fonte: Portuguese carracks of a rocky coast. Autor desconhecido. Acervo do National Maritime
Museum, Greenwich, Londres. Grã-Bretanha.
167
História Militar Geral I
Unidade 4
Navios como esse, representado na Figura 4.7, eram admirados
por todos, em sua época. Os portugueses haviam consolidado
seu lugar no Oriente através do poder naval e alcançado metas
planejadas por uma sequência de líderes competentes, que
trouxeram prosperidade e prestígio a Portugal. As naus, desde
a primeira viagem de Vasco da Gama, foram os navios que
possibilitaram o comércio marítimo direto com as Índias. Foi
através delas que Portugal alcançou seu primeiro período de
prosperidade.
A nau foi de grande importância para a estratégia de
desenvolvimento nacional através do poder marítimo,
concebida no século XV pelos portugueses.
As naus do tempo de Vasco da Gama e Pedro Álvares eram,
ainda, relativamente pequenas, com, no máximo, cerca de umas
250 toneladas. Em 1508, no entanto, já se construíam, na
Índia, naus de 800 toneladas, como a Santa Catarina do Monte
Sinai, utilizando na construção as excelentes madeiras orientais,
como a teca indiana, por exemplo. Mais tarde foram utilizadas,
também, com ótimo resultado, as madeiras tropicais brasileiras.
Essas grandes naus, no entanto, duravam, em média, poucos
anos, a maioria não resistindo a mais de três ou quatro viagens à
Índia. Somente na segunda metade do século XVI se alcançou
uma tecnologia de construção que as tornou mais resistentes aos
esforços causados pelas ondas do mar, tendo, pelo menos, uma
delas permanecido quinze anos no serviço da Carreira das Índias.
Muitas vezes, a ênfase na carga implicava instalar a bordo o
menor armamento que o bom senso permitia. A Madre de Deus,
uma grande nau portuguesa capturada pelos ingleses em 1592,
estava bem armada, com 32 peças de bronze, mas antes, eram
comuns naus portuguesas da Carreira da Índia com relativamente
poucos canhões, o que as tornava presa fácil dos corsários e
piratas.
Aqui entendido como a
capacidade de tonéis que
o navio podia transportar,
ou seja, nesse caso, 250
tonéis.
168
Universidade do Sul de Santa Catarina
Os primeiros galeões, navios construídos com o propósito de serem
navios de guerra para proteger o comércio com o Oriente, bem
artilhados e mais reforçados do que as naus, apareceram na década
de 1520.

Eram, inicialmente, menores do que as grandes naus da Índia
e obedeciam a proporções diferentes. Seu espaço interno era
prioritariamente destinado ao armamento. Com o tempo,
ganharam características externas que os diferenciavam.
Estas características específcas eram as seguintes:
„ maior quantidade visível de canhões;
„ beque , maior, quase uma ponte, para facilitar as
abordagens;
„ castelos mais avantajados; e,
„ em alguns casos, mais um mastro.

Tinham, portanto, algumas das características das caravelas
redondas, por serem mais delgados do que as naus, com menor
borda livre e mais de um mastro com velas latinas. Há quem
considere que seu projeto foi concebido com base nas caravelas
redondas armadas com canhões, mas é possível que o projeto
tenha, desde o início, juntado características de naus e caravelas
redondas, em uma nova concepção.
Os galeões portugueses são a origem dos navios
de guerra holandeses e ingleses, que, mais tarde, os
superaram e os sucederam no controle dos mares.
Estrutura que se projeta para vante
da proa das antigas embarcações
de madeira, dando-lhe um aspecto
gracioso e dominador das ondas.
169
História Militar Geral I
Unidade 4

Figura 4.9 - Galeão português do século XVII
Fonte: CUTILEIRO, A. Navios Célebres das Armadas Portuguesas. pranchas reproduzindo quadros da coleção
existente no Gabinete do Ministro da Marinha. Acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da
Marinha.
5.3 - O progresso da artilharia de bordo
Durante o século XVI, foram desenvolvidos canhões de bronze,
mais resistentes que os de ferro forjado, carregados pela boca,
com maiores cargas de pólvora, que atiravam projéteis esféricos
de ferro fundido e podiam ser recarregados. Como consequência
desses desenvolvimentos tecnológicos da artilharia, os galeões
ingleses e holandeses assumiram a primeira posição como
navios de guerra. A abordagem perdeu sua importância tática
e desenvolveram-se novas táticas de combate que favoreciam o
emprego da artilharia contra o navio inimigo.
Em 1547, os ingleses conseguiram fundir canhões confáveis de
ferro, com moldes e processos semelhantes aos dos canhões de
bronze. A principal vantagem era o preço. Os canhões de ferro
fundido carregados pela boca foram substituindo os canhões de
bronze, conforme sua qualidade e consequente confabilidade.
A partir do fnal do século XVII, a maioria dos canhões já era
fundida em ferro. A tecnologia básica do canhão carregado pela
boca, montado na carreta naval, porém, não se alterou até meados
do século XIX. As peças fundidas no fnal do reinado de Luiz
XIV são muito semelhantes às utilizadas na Batalha de Trafalgar,
em 1805.
Os principais desenvolvimentos na artilharia visaram, a partir do
fnal do século XVII, padronizar os calibres dos canhões navais
e encontrar a proporção ideal entre os diferentes calibres na
artilharia de bordo. Iniciou-se, também, nessa mesma época, um
170
Universidade do Sul de Santa Catarina
esforço de padronização nos navios. As guerras anglo-holandesas
de meados desse século haviam mostrado a necessidade das forças
navais combaterem organizadas em “linhas de batalhas”, para
que os navios se apoiassem mutuamente com sua artilharia, ou
pudessem concentrar seus tiros em um alvo escolhido.
O galeão do século XVII evoluiu para navios que eram
classifcados conforme o número de canhões.
Vejamos como era feita esta classifcação?
„ Os navios de primeira classe tinham de 100 a 120
canhões, dispostos em 3 conveses.
„ Os de segunda classe, eram compostos por 80 a 98
canhões, em 3 conveses.
„ Os de terceira classe, 74 canhões, em 2 conveses.
„ Os de quarta classe, entre 50 a 60 canhões, em 2
conveses.

Estes eram chamados de navios de linha e combatiam numa
coluna, em linha de batalha.
„ Os navios de quinta classe tinham de 32 a 44 canhões,
dispostos em 1 ou 2 conveses.
„ Os de sexta classe eram compostos por 20 a 28 canhões,
em 1 convés.
Estes navios eram utilizados em missões de escolta, vigilância ou
esclarecimento.

Figura 4.10 – Canhão de bronze do século XVI.
Fonte: Acervo do Museu Naval. Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha.
Designação genérica de qualquer
pavimento a bordo.
171
História Militar Geral I
Unidade 4
Seção 6 – A “Invencível Armada”
No século XVI, a Espanha era a maior potência marítima:
dominava um grande império colonial que se somou aos
domínios portugueses após a União Ibérica em 1580. Ao
mesmo tempo, a Inglaterra pós-Reforma enriquecia, e logo os
antagonismos econômicos, políticos e religiosos com a Espanha
avolumaram-se.
Você sabia que até mesmo a revolta dos holandeses,
protestantes, nos Países Baixos dominados pela
Espanha, tinha o apoio da Inglaterra?
Algumas ações de Elizabeth I, porém, podem ser apontadas
como causas imediatas do episódio da "Invencível Armada."
Vamos ver quais foram estas ações específcas?
„ O apoio aos corsários ingleses que hostilizavam os
espanhóis, como Francis Drake, que viveu entre 1542-
1596, e que Elizabeth I armou cavaleiro no ano de
1581. Esta nomeação ocorreu após sua viagem de
circunavegação, em que ele saqueou cidades e navios
espanhóis, apoderando-se, inclusive, de riquezas que
pertenciam à Coroa de Espanha e à Igreja Católica.
„ A prisão e depois, em 1587, a execução de Mary Stuart.
„ Finalmente, o ataque a Cádis comandado por Drake,
em abril de 1587, com autorização da Rainha, antes de
qualquer declaração formal de guerra. Este ataque pode
ser comparado ao de Pearl Harbour pelos japoneses, que
ocorreu quase quatrocentos anos depois.
Como ocorreu este ataque?
No ataque a Cádis, Drake comandou uma força naval de cerca de
vinte navios, dos quais quatro eram galeões reais. Os espanhóis
admitiram a perda de 24 navios, destruídos ou aprisionados pelos
ingleses. As perdas inglesas foram insignifcantes. Logo em
seguida, Drake atacou navios mercantes e bloqueou portos das
costas de Portugal e Espanha.
172
Universidade do Sul de Santa Catarina
Essa guerra, essencialmente naval, não teve um
início bem defnido e formal, e os historiadores ainda
divergem sobre qual seria seu marco inicial.
As relações entre Felipe II e Elizabeth I sempre foram
inamistosas, exceto por curtos períodos, como na época da
proposta de casamento.
No início do ano de 1587, Felipe II se decidiu por um plano que
previa uma armada a qual se concentraria em Lisboa, depois
seguiria pelo Canal da Mancha até Flandres, onde comporia um
exército de invasão de 17.000 homens, que seria desembarcado
na costa de Kent. Provavelmente ocorreria uma batalha nas
proximidades de Canterbury e, logo em seguida, Londres seria
atacada por uma força bem treinada, que, agindo com rapidez,
prenderia a Rainha, a Corte e seus ministros.
Em setembro de 1587, Felipe II determinou que o Marquês de
Santa Cruz providenciasse uma força naval para apoiar a invasão
da Inglaterra. Isto deveria ocorrer mesmo que só existissem
poucos navios disponíveis. Santa Cruz o alertou sobre o risco
desta operação e sugeriu que 50 galeões constituíssem a força
mínima, com chances reais de oposição aos ingleses.
Felipe II determinou 15 de fevereiro de 1588 como sendo a
data de partida do porto de Lisboa. Em janeiro, Santa Cruz
conseguira reunir 13 galeões, 4 galeaças e uns 60 ou 70 navios,
de grande diversidade de tipos e origem, em geral despreparados
para uma ação naval do porte pretendido.
No início de fevereiro, os navios disponíveis já estavam
parcialmente abastecidos para que a ordem do rei fosse cumprida,
mas, em 9 de fevereiro, o Marquês de Santa Cruz faleceu, em
Lisboa, sendo substituído por Alonso Perez de Guzman, Duque
de Medina Sidônia.
A Armada, como fcou conhecida a grande esquadra luso-
espanhola, que também incluía navios procedentes de outros
domínios de Felipe II, somente suspendeu de Lisboa em 30 de
maio de 1588, capitaneada pelo galeão San Martin, de 1.000
toneladas, navio de Medina Sidônia. A almiranta era o galeão
San Juan, que levava a bordo o segundo mais antigo da força e
Nome que se dava à nau em que o
almirante de uma força naval içava
sua insígnia.
173
História Militar Geral I
Unidade 4
substituto eventual de Medina Sidônia, Don Diego Flores de
Valdes, que era experiente na guerra naval por ter servido 20 anos
escoltando os navios que traziam o tesouro das Índias Ocidentais.
Você sabia que nunca existiu, ofcialmente, a
denominação de “Invencível Armada” para nomear
esta guerra naval? Uma publicação da época,
anterior à partida, a denominou de “Felicíssima
Armada”. Escolhemos aqui chamá-la de a Armada,
qualifcando-a, às vezes, de espanhola.
Em 29 de julho, um pequeno navio inglês, o Golden Hind, reportou
ao comando da esquadra, em Plymouth, a chegada da Armada
inimiga. No dia seguinte, os navios ingleses se fzeram ao mar. No
dia 31, Howard já havia se posicionado a barlavento da Armada,
com bastante espaço para manobrar, o que lhe dava uma posição
tática favorável. A Armada adotou uma formatura defensiva,
cerrada, em forma de C, com os navios-transporte no centro, muito
efcaz, que iniciou lentamente seu progresso ao longo do Canal.
Qualquer ataque vindo de barlavento encontraria os galeões
posicionados nas extremidades. Se um navio das extremidades
fosse avariado, poderia cair para o centro protegido da formatura.
Um ataque ao centro seria contra-atacado pelos fancos e os
navios ingleses atacantes seriam abordados pelos dois bordos,
criando-se, assim, um melê, muito adequado à tática espanhola,
que privilegiava a abordagem, e desfavorável para as novas táticas
de emprego da artilharia naval desenvolvidas pelos ingleses.
O primeiro encontro das duas esquadras é conhecido
como a Batalha de Plymouth. Howard atacou o lado
de boreste da formatura inimiga, usando os canhões
de seus navios e mantendo distância para evitar as
tentativas de abordagem espanholas. Enquanto isso,
Drake, Hawkins e Forbisher atacavam o outro lado da
formatura, também empregando artilharia e mantendo
distância. Então, o galeão San Juan de Portugal guinou
na direção dos atacantes, como em desafo. Por algum
mal-entendido, os navios do esquadrão do San Juan de
Portugal também guinaram, só que na direção a favor
do vento, deixando-o sozinho com os ingleses, que
aproveitaram para descarregar nele diversas bordadas,
causando-lhe avarias. Quando diversos navios da
Armada vieram em socorro, Howard sinalizou para
desengajar do combate. Os ingleses se retiraram e
refez-se a formatura.
Do lado de onde sopra o
vento.
Lado direito da
embarcação,
considerando-se a proa
como a sua frente.
174
Universidade do Sul de Santa Catarina
Até então, havia frustração dos dois lados. Dos ingleses, pela
capacidade de defesa da formatura adotada pela Armada; e dos
espanhóis, em relação às novas táticas, que evitavam abordagens e
favoreciam o emprego da artilharia dos ingleses.
Após a batalha, ocorreram dois incidentes na Armada, de graves
consequências: o primeiro foi uma colisão entre navios, o que
sempre pode ocorrer numa formatura cerrada, e que avariou
seriamente o galeão Rosário; e o segundo, a explosão do San
Salvador que, além de avariar o navio, matou cerca de 200
homens. O Rosário e o San Salvador foram deixados para trás e
acabaram sendo capturados pelos ingleses.
Houve mais duas batalhas na travessia do Canal da Mancha,
antes de chegar a Calais.
Vamos ver quais foram elas?
„ Batalha de Portland Bill. E, mais adiante,
„ Batalha da Ilha de Wight.
Nestes combates, repetiram-se as novas táticas inglesas, chegando
a fazer com que o Duque de Medina Sidônia dissesse que os
ingleses não queriam lutar, mas sim retardar seu progresso.
Nenhum navio espanhol afundou, apesar da grande quantidade
de acertos. Os canhões da época difcilmente conseguiam
afundar navios grandes, mas causavam avarias, inclusive nos
mastros e velame, além de baixas nas tripulações. Eram
necessárias centenas de acertos para abalar a estanqueidade, ao
ponto em que os alagamentos se tornassem incontroláveis pelo
pessoal de bordo.
Nessas batalhas, os espanhóis empregaram suas galeaças e,
efetivamente, fcou demonstrado que elas estavam ultrapassadas
pela artilharia dos galeões. Os tiros que atingiram os remadores e os
remos impediram que as galeaças usassem sua propulsão por remos,
sua única suposta vantagem em combate.

175
História Militar Geral I
Unidade 4
Continuando a perseguição ao longo do Canal da Mancha,
os ingleses agora viam a Armada rumar para uma armadilha,
nos Estreitos de Dover, onde há menos espaço para manobrar.
Enquanto a esquadra de Howard atacasse a retaguarda, o
esquadrão inglês, comandado por Henry Seymour, que fcara
desde o início vigiando os Estreitos com 14 navios da Rainha,
além de outras embarcações auxiliares, estava adiante da
Armada.
No tempo em que a esquadra inglesa ainda era abastecida com
mantimentos e munição por embarcações provenientes da costa
sul da Inglaterra, a Armada estava longe de qualquer apoio.
Além de sua necessidade de abastecimento, o Duque de Medina
Sidônia estava preocupado com seu encontro com as tropas
invasoras do Duque de Parma. Em 5 de agosto, enviou uma
mensagem ao Duque de Parma, para que ele estivesse pronto
para se juntar à Armada, com sua fotilha de embarcações,
quando esta chegasse à altura de Dunquerque.
O Duque de Parma, porém, estava despreparado: suas frágeis
embarcações estavam dispersas em diversos portos, e as tropas
necessitavam de mais de uma semana para embarque. Apesar
de seu esforço, era evidente a impossibilidade de uma fotilha de
embarcações sair ao mar, com a esquadra inimiga nas imediações,
para encontrar a Armada no meio do Canal.
No dia 6 de agosto, a Armada alcançou o Estreito de Dover, com
o esquadrão de Howard logo à sua frente. O Duque de Medina
Sidônia estava, no entanto, condicionado ao encontro planejado
com o Duque de Parma e decidiu fundear ao largo de Calais. A
esquadra inglesa também fundeou, mais ao largo, e, no dia 7 de
agosto, a ela se juntou o esquadrão de Seymour. Neste momento,
havia cerca de 140 navios ingleses que, se comparados com os da
Armada, em termos de galeões, não estavam em inferioridade.
A Armada tinha superioridade somente em navios
mercantes armados.
176
Universidade do Sul de Santa Catarina
No mesmo dia 7 de agosto, o Duque de Medina Sidônia soube
das difculdades do Duque de Parma, constatando que ele não
viria. O fundeadouro escolhido, por sua vez, não era seguro,
e logo foi verifcado que os ingleses estavam providenciando
brulotes, navios em chamas que seriam lançados na direção
da Armada. Havia, também, o perigo adicional desses navios
estarem carregados com toneladas de explosivos, preparados para
que se tornassem verdadeiras minas futuantes. Na realidade, não
estavam. Como contra medida, os espanhóis providenciaram
para que uma fotilha de navios pequenos formasse uma cortina
de proteção para desviar os brulotes, rebocando-os para longe
da Armada. Os demais navios espanhóis deveriam manter-se
fundeados, somente suspendendo para safar-se de um brulote que
ultrapassasse essa cortina.
O dia 8 de agosto foi longo. Cerca da meia-noite, ou zero hora,
iniciou-se o ataque com brulotes. Dos seis, dois foram detidos,
mas quatro ultrapassaram a cortina. Muitos dos navios da
Armada largaram suas amarras, abandonando as âncoras e saindo
do fundeadouro. Ao amanhecer, apenas alguns disciplinados
permaneciam lá: a Armada havia se dispersado e a formatura
que lhe servira de defesa estava desfeita. Nenhum dos brulotes
causou incêndio a navios da Armada. As âncoras perdidas, mais
tarde, seriam causa de desgraças na costa da Irlanda. A galeaça
San Lorenzo estava encalhada e logo foi saqueada pelos ingleses.
Seguiu-se a Batalha de Gravelines, com a Armada tentando
se reagrupar e os navios ingleses tirando proveito da situação.
Os dois lados estavam com pouca munição e, mesmo assim, as
avarias e baixas causadas pela artilharia foram consideráveis.
Alguns dos navios da Armada fcaram avariados além
da possibilidade de recuperação. Vamos exemplifcar
alguns destes casos: o Maria Juan acabou afundando,
e o galeão San Felipe, depois de abandonado, foi
recuperado pelos holandeses.
A Batalha terminou no fm da tarde, quando se iniciou uma
tempestade, com chuva, vento e baixa visibilidade. Os ingleses
já estavam praticamente sem munição. A Armada passou a
navegar na frente, forçada pelo vento a permanecer junto da
costa, sempre perseguida por Howard. No dia seguinte, houve
177
História Militar Geral I
Unidade 4
o risco de ser lançada contra a costa, mas, subitamente, o vento
mudou e ela pôde ganhar o Mar do Norte. Já na altura do Norte
da Inglaterra, a esquadra inglesa, com falta de mantimentos,
abandonou a perseguição, e a Armada continuou rumando para
o Norte. Os navios da Armada passaram entre as Ilhas Orkney
e Shetlands, alcançando o Oceano Atlântico e ultrapassando o
Norte da Escócia. Estavam a caminho de Espanha.
E como foi o regresso desta Armada, depois de todo este percurso? Foi
desastroso, em função dos seguintes fatores:
„ havia doença e feridos a bordo;
„ a comida e a água, que ainda tinham condições de
consumo, foram racionadas; e,
„ alguns dos navios avariados nas batalhas não tinham
condições para aguentar as tempestades, na longa
travessia pelo Atlântico Norte.

Até o dia 25 de agosto, a Armada ainda estava razoavelmente
agrupada, mas, logo, a primeira de uma série de tempestades
a dispersou. Alguns dos navios arribaram ou foram lançados
na costa da Irlanda. Mais de 26 deles naufragaram. É possível
que a velocidade contrária da Corrente do Golfo ao Norte
da Grã-Bretanha e Irlanda, que eles desconheciam, tenha
causado erros na estimativa da distância navegada, fazendo-
os guinar antecipadamente em direção da Espanha, porém,
inadvertidamente, investindo contra a costa irlandesa.
Você sabia que foi na costa irlandesa que aconteceram
as cenas mais dramáticas com as tripulações? Nela,
muitos se afogaram. Os sobreviventes ou foram
enforcados pelos irlandeses ou foram massacrados,
sendo que poucos regressaram para suas casas.
O Duque de Medina Sidônia retornou para a Espanha em seu
navio, o San Martin. Perdeu-se cerca de 60 navios da Armada
que partiu de Lisboa e aproximadamente 20.000 homens, das
mais diversas causas. Os ingleses não perderam navios e menos
de 100 homens foram mortos em consequência dos combates.
178
Universidade do Sul de Santa Catarina
O poder naval luso-espanhol sofrera uma derrota, perdendo
a chance de deter o crescimento de novos poderes marítimos
que viriam a disputar o espaço conquistado por espanhóis e
portugueses nos séculos XIV e XV.
Seção 7 – As táticas do século XVIII e a situação no fnal
desse século
Nas guerras navais entre a Inglaterra e Holanda pelo controle das
comunicações marítimas após a decadência do Poder Marítimo
espanhol, durante a segunda metade do século XVII, fcou
evidente que a desorganização em combate reduzia a efcácia das
forças navais. Aos poucos, foram aparecendo instruções para as
batalhas e códigos de sinais, que possibilitavam que as esquadras
se organizassem, para obter a melhor efcácia de sua artilharia, e
fzessem manobras táticas preestabelecidas.
São inovações dessa época:
„ a padronização da “linha de combate”, como
procedimento tático para a luta no mar; e
„ o navio de guerra de dois ou três conveses artilhados, que
os portugueses chamam de nau, como o navio capital
das esquadras, e que, depois, seria denominado “navio de
linha” (não confundir com a nau dos séculos XV e XVI,
que era predominantemente um navio mercante).

Nos últimos anos do século XVII, durante as guerras entre a
Inglaterra e a França de Luis XIV, as táticas de combate naval
tiveram um rápido progresso. Na França do Rei Sol, havia o
propósito de levar todas as atividades ao apogeu da perfeição e da
organização, já na Grã-Bretanha, as mudanças eram resultado de
pragmatismo e experiência adquirida em combates. Verifcaram-
se nas guerras do século XVIII, como a Guerra da Sucessão de
Espanha (1702 a 1713), Guerra da Sucessão Austríaca (1740
a 1748), Guerra dos Sete Anos (1756 a 1763) e a Guerra de
Independência Americana (1775 a 1783), diversos confrontos
entre a Marinha Real Britânica e a Marinha Francesa dos Luíses.
179
História Militar Geral I
Unidade 4
As forças navais combatiam entre si sempre formadas em colunas
paralelas, em linhas de batalha. Os navios de linha, de grande
porte, constituíam o corpo principal da linha de batalha.
As instruções recomendavam que o comandante da força naval
deveria sempre engajar o inimigo, formando sua linha de
batalha a sotavento, por ser esta a posição mais favorável para
sua artilharia. Quem fcava a barlavento, com o navio à vela
adernado na direção do inimigo, podia ter difculdades para
atirar com seus canhões e, até mesmo, ver-se impedido de abrir
as portinholas dos canhões do convés inferior, próximas da linha
d’água, que eram os de maior calibre.
No século XVIII, porém, a doutrina tática ganhou uma rigidez e
disciplina, o que tornou difícil o resultado decisivo dos combates,
por inibir os comandantes das forças navais de tomarem a
iniciativa com táticas criativas. Era, também, considerada como
séria indisciplina de combate que um comandante de navio, por
sua iniciativa, saísse de sua posição na formatura em coluna. Os
britânicos, no entanto, admitiam que o comandante do navio
pudesse aproveitar alguma situação tática que surgisse, e, para
benefciar-se da capacidade de manobrar antes do inimigo.
Contudo, para manter a capacidade de manobrar antes do
inimigo, era essencial estar a barlavento da linha de batalha
adversária, posição considerada desfavorável na rígida doutrina
tática do encontro de esquadras em linha de batalha.
Vamos ver o que previam a doutrina francesa e a inglesa nos seus
confrontos que ocorreram no século XVIII:
„ a doutrina francesa recomendava atirar nas velas e
mastros dos navios inimigos, para imobilizá-los, o que
possibilitava que os navios franceses se retirassem, logo
que pudessem, para voltarem a proteger os comboios que,
frequentemente, acompanhavam;
„ a doutrina inglesa recomendava atirar no casco dos
inimigos, para afundá-los, destruindo os navios do
inimigo e mantendo a superioridade numérica da
esquadra inglesa, possibilitando o controle dos mares.
Lado para onde sopra o
vento.
Lado de onde sopra vento.
Inclinar-se a embarcação
para um dos bordos, por
efeito das vagas ou dos
ventos que sobre ela
incidem.
180
Universidade do Sul de Santa Catarina
A Grã-Bretanha voltou a dominar os mares no fnal do século
XVIII, tendo se recuperado da perda das colônias americanas.
Essas colônias se tornaram independentes e formaram os
Estados Unidos da América, com ajuda da França, em especial
da Marinha Francesa, que conseguiu alguns êxitos contra
o poder naval britânico durante a Guerra de Independência
Americana, como nas batalhas navais de Ushant (1778), da Ilha
de Granada (1779) e de Chesapeake (Battle of the Capes -- 1781).
Embora os Estados Unidos da América tenham conquistado
sua independência sobre a Grã-Bretanha, na guerra no mar a
Marinha Inglesa superou a Força Naval Francesa enviada para
apoiar os norte-americanos no Atlântico ocidental. E a grande
derrota francesa ocorreu na Batalha de Saintes, em 12 de abril de
1782.
Você sabia que a derrota da Marinha Francesa ocorreu
através do rompimento da linha de combate pelos
ingleses na Batalha de Saintes?

A Força Naval Inglesa era composta por 37 navios de linha e
estava sob o comando do agressivo mas perspicaz Almirante
George Brydges Rodney, enquanto o Comandante das Forças
Navais Francesas, Almirante François Joseph Paul de Grasse, o
Conde de Grasse, comandava 36 navios de linha.
Inicialmente, as forças navais haviam formado as linhas de
batalha, mas uma mudança na direção do vento fez com que
os ingleses, comandados pelo Almirante Rodney, cortassem
a linha francesa, isolando o navio do Conde de Grasse e os
navios que estavam próximos do resto da linha francesa. Os
ingleses acabaram capturando 5 navios franceses, inclusive
o próprio Conde de Grasse em seu navio, o Ville de Paris, e,
posteriormente, mais dois dos que haviam escapado.
A Batalha de Saintes marcou o momento em que a Inglaterra
recuperou sua superioridade no mar. No Oriente, os ingleses
ocuparam as colônias holandesas, e, naqueles mares, os
esquadrões da Marinha Real Inglesa, comandados pelo
Almirante Edward Hughes, bateram-se contra forças francesas
do Almirante Pierre André de Sufren de Saint Tropez, nas
Batalhas de Negapatam (1782) e Cuddalore (1783).
181
História Militar Geral I
Unidade 4
Em 1789, ocorreu a Revolução Francesa. Em seguida, foram
iniciadas guerras em que participaram os países da Europa
Continental, e que também envolveram a Grã-Bretanha.
A vitória britânica, no início do século XIX, signifcou a confrmação
da Grã-Bretanha como senhora absoluta dos mares. Isto levou o
mundo a um período que pode ser chamado de “Pax Britanica”, que
praticamente só terminou com o início da Primeira Guerra Mundial,
no século XX.
Síntese
Nesta unidade, você pode analisar os conceitos de comunicações
marítimas, Poder Marítimo e Poder Naval e suas implicações
políticas, econômicas e sociais para os diferentes povos no tempo.
Analisamos a relação entre a tecnologia naval e o uso do mar.
Descrevemos o desenvolvimento das galés gregas e seu emprego
em combate, identifcando a importância do esporão como
instrumento de ataque e do entrosamento da tripulação para a
manobrabilidade dessas embarcações.
Descrevemos, também, o desenvolvimento da construção naval
com a substituição do método do “costado rígido” pelo método
do “esqueleto rígido” e a passagem do remo à vela como meio
principal de propulsão dos navios. Enquanto resultantes desse
processo, destacamos os navios portugueses como a caravela,
a nau e o galeão. Tais transformações permitiram a navegação
no oceano, possibilitando o contato com outros povos até então
desconhecidos pelos europeus.
O emprego dos canhões nos navios -- do ferro ao bronze e,
posteriormente, o aperfeiçoamento da tecnologia da fundição do
ferro pelos ingleses -- permitiu um progressivo favorecimento
do uso da artilharia nos combates navais em decorrência
182
Universidade do Sul de Santa Catarina
da abordagem, surgindo, então, os códigos de sinais e a
padronização da “linha de combate” como tática empregada nos
combates navais envolvendo grandes esquadras.
Com os estudos de caso, você pôde notar a importância de cada
batalha abordada para as sociedades envolvidas. Em diferentes
momentos, as batalhas navais possibilitaram repelir a invasão
de uns povos sobre outros, como no caso grego da Batalha
de Salamina, e o enfraquecimento de potências coloniais em
decorrência do surgimento de novas potências, como o caso
ibérico na derrota da “Invencível Armada”.
Atividades de autoaprendizagem
1. Descreva o processo de desenvolvimento da construção naval no fnal
da Idade Média e suas consequências para a navegação, abordando
em sua resposta a mudança no modo de propulsão, o método do
“esqueleto rígido” e as características das embarcações desenvolvidas
pelos portugueses no mesmo período.
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História Militar Geral I
Unidade 4
2. Explique o processo de desenvolvimento dos canhões e seu emprego
nos navios.
184
Universidade do Sul de Santa Catarina
Saiba mais
ALBUQUERQUE, Antonio Luiz Porto; SILVA, Léo
Fonseca e. Fatos da História Naval. Rio de Janeiro: Serviço de
Documentação da Marinha, 2006.
BITTENCOURT, Armando de Senna. A batalha de Salamina.
A Defesa Nacional, nº87. Rio de Janeiro, set/dez de 2001.
DELBRÜCK, Hans. Warfare in Antiquity: History of the Art
of War. Volume I. University of Nebraska Press, 1990.
STRAUSS, Barry S. A batalha de Salamina. Tradução: Clóvis
Marques e Carlos Araújo. Rio de Janeiro: Record, 2007.
VIDIGAL, Armando; ALMEIDA, Francisco Eduardo Alves
de (Org.). Guerra no mar: batalhas e campanhas navais que
mudaram a história. Rio de Janeiro: Record, 2009.
SITES:
<http://www.bbc.co.uk/history/>
<http://www.naval.com.br/blog>
<http://forumdefesa.com>
<http://maritimo.blogspot.com>
Para concluir o estudo
Mais uma etapa concluída. Podemos imaginar que,
durante o caminho, você questionou alguns dos nossos
pontos de vista ou sentiu que certos aspectos deveriam
ter sido mais aprofundados. Era exatamente esta a nossa
intenção: inspirar a refexão e aguçar a sua curiosidade
sobre o tema.
Os ângulos foram os mais diversos.
Você viu, na unidade 1, a brutalidade da conquista
romana e a relação da guerra, então, com a prática
religiosa e a política. Esta abordagem, ao fugir do estilo
tradicional, possibilitou novas perspectivas de análise
sobre um tema que, de outra forma, parecia ter sido
esgotado por relatos de campanhas e batalhas baseadas
unicamente na tradição literária latina.
Na unidade seguinte, você viu como a queda de Roma
teve um impacto profundo no destino da Europa e
que quase três séculos seriam necessários para que um
personagem como Carlos Magno restabelecesse regras
para a organização do exército, serviço militar, justiça,
disciplina e mobilização. Mergulhado em seguida
no Feudalismo, o período não deve ser lembrado
apenas pelas ordens de Cavalaria, mas também pelo
surgimento das armas de fogo, dos exércitos profssionais
permanentes e pelo fortalecimento do poder central, em
meio a uma nova ética, baseada no cristianismo.
Durante a Idade Moderna, a formação dos estados
levaria ao fm dos senhores feudais e à instalação do
Absolutismo em boa parte da Europa. Esta nova
estrutura política permitiu exércitos cada vez maiores,
com o auxílio de modelos de recrutamento compulsório
e o emprego de mercenários, mas também criou
(ou manteve) um tipo de guerra baseada no atrito,
com poucos resultados decisivos. Enquanto isto, o
desenvolvimento da construção naval na Europa levaria
186
Universidade do Sul de Santa Catarina
às grandes navegações, expandindo a zona de infuência daquele
continente e criando impérios coloniais.
Isto tudo levou muito tempo, cerca de dois mil anos. A
Revolução Francesa, que fecha a Idade Moderna e esta disciplina,
veio abrir novas perspectivas, permitindo uma mobilização
mais profunda de recursos humanos e materiais. Você verá
que, no Ocidente, os armamentos passarão por rápidos avanços
tecnológicos e que a guerra será redesenhada no século XIX pelo
surgimento do telégrafo, do navio a vapor e das estradas de ferro.
Estes progressos darão à Europa um novo impulso colonialista,
com uma força quase irresistível na África, na Oceania e em boa
parte da Ásia. Mas já então o jovem país, Estados Unidos da
América, começará a despontar, favorecido pelo legado cultural
europeu e por uma invejável posição geográfca às margens de
dois oceanos. É o que você verá, na próxima disciplina.
Referências
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Sobre os professores conteudistas
Armando de Senna Bittencourt é Vice-Almirante
Engenheiro Naval Reformado, Diretor do Patrimônio
Histórico e Documentação da Marinha, membro do
Instituto Histórico e Geográfco Brasileiro (IHGB) e
do Instituto de Geografa e História Militar do Brasil
(IGHMB).
Cláudia Beltrão da Rosa é Historiadora pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (1989), Mestre
em História Social pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (1993) e Doutora em História pela Universidade
Federal Fluminense (2002). Atualmente é Professora
Adjunta do Departamento de História da Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Tem
experiência na área de História, com ênfase em Estudos
Clássicos, atuando principalmente nos seguintes temas:
Roma republicana, política romana, história das idéias
políticas e estudos clássicos. (CV Lattes: <http://lattes.
cnpq.br/4076444785733929>)
Marcos da Cunha e Souza é formado pela UERJ, com
MBA pela Fundação Getúlio Vargas. É membro do
Instituto de Geografa e História Militar do Brasil,
assessor da Procuradoria Regional da República e
professor da Universidade Veiga de Almeida.
Nilson Vieira Ferreira de Mello é Coronel de Cavalaria
e de Estado-Maior do Exército Brasileiro. Foi instrutor
e é professor emérito da Escola de Comando e Estado-
Maior do Exército, historiador, sócio titular do IGHMB
e docente do Curso de Especialização em História
Militar Brasileira (presencial) da Universidade Federal
do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO.
Paulo André Leira Parente é formado em História pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro, com Mestrado
em História Antiga e Medieval e Doutorado em
História Social, ambos na UFRJ. É professor adjunto do
194
Universidade do Sul de Santa Catarina
Departamento de História da Universidade Federal do estado do
Rio de Janeiro, Unirio, onde atua na área teórico-metodológica e
na área de história antiga e medieval na graduação, no Curso de
Especialização em História Militar Brasileira, Unirio-IGHMB,
e no Programa de Pós-Graduação em História das Instituições,
Unirio. É membro titular do Instituto de Geografa e História
Militar do Brasil, IGHMB, conselheiro no Conselho Editorial
da Biblioteca do Exército, Bibliex, e no Conselho Consultivo
da Revista Navigator, publicação da Diretoria do Patrimônio
Histórico e Documentação da Marinha do Brasil. Atualmente
é coordenador do Curso de Especialização em História Militar
Brasileira, da Unirio-IGHMB.
Respostas e comentários das atividades de
autoaprendizagem
UNIDADE 1
1. O estudo dos vestígios da vida material permite a
ampliação do olhar do historiador sobre as sociedades
que estuda. Vimos um exemplo crucial no caso do texto
cesariano sobre a guerra das Gálias, de quanto o uso
exclusivo das fontes textuais pode gerar graves equívocos
de interpretação. Busque novos exemplos para sua
resposta, pesquisando outras informações sobre a guerra
em Roma e complementando as informações constantes
desta Unidade. Trata-se de uma categoria documental
que desvela toda uma multiplicidade de aspectos sobre
a sociedade estudada, tornando mais rica e profunda a
análise e interpretação da mesma pelo historiador.
2. O Mapa de Agripa, o Orbis Terrarum, apresenta a
lógica espacial romana. Apresenta a cidade (urbs) e o
mundo (orbis) de modo hierarquizado – o centro do
mundo e os povos que se localizavam fora do território
imperial – não somente por sua imagem física, mas
pelo tipo de “ritual” com que era apresentado aos olhos
de todos – a idéia da superioridade romana em todo o
mundo. Este mapa expressa, então, a ideologia imperial
romana. O Mapa de Agripa é um exemplo do fato de
que os mapas são os instrumentos do discurso geográfco,
pois apresentam e representam o mundo para os olhos
dos grupos humanos. Assim, os mapas “recriam” o
mundo, hierarquizando o espaço e informando a todos
o que o mundo “é” ou “deveria ser”, articulando a
percepção do mundo para uso das sociedades. Os mapas
são, portanto, fontes para o estudo da história, por serem
modelos gráfcos pelos quais as sociedades humanas
explicam o mundo para si mesmas e para as demais
sociedades.
196
Universidade do Sul de Santa Catarina
UNIDADE 2
1. Para escrever seu texto descrevendo qual o sentido e a
motivação das guerras durante a Idade Média, considere que
estudar a guerra neste período signifca buscar as relações
entre a sociedade, a economia, o poder, as mentalidades e,
principalmente, o quanto aquelas estavam imbuídas de uma
cosmovisão profundamente religiosa e cristã.
2. Para apontar as principais características das Cruzadas e da
Guerra dos Cem Anos no âmbito da História Militar, é preciso
que você considere a motivação que resultou nestes movimentos,
e, a partir desta, elencar as alterações no cenário dos confitos.
Considere em sua abordagem a utilização das armas de fogo;
o fortalecimento do poder central; os exércitos profssionais
permanentes: exércitos do rei; e, a idéia de nacionalidade.

UNIDADE 3
1. O Absolutismo, ao centralizar o poder nas mãos do rei,
possibilitou a criação de uma administração nacional, fnanciada
por tributos nacionais recolhidos por uma burocracia nacional.
Podendo instituir tributos e recolhê-los de forma mais efciente, o
Absolutismo permitiu fnanciar, mais adequadamente, o esforço
de guerra. Nesse passo, logrou levantar exércitos cada vez maiores
e bem equipados, abastecidos por um sistema logístico regular.
2. A sequência correta é:
F
F
V
V
197
História Militar Geral I
UNIDADE 4
1. Nesta questão, dentre vários aspectos tratados nesta unidade,
você deve abordar o desenvolvimento da técnica do “esqueleto
rígido” na construção naval; analisar o emprego da vela enquanto
meio de propulsão dos navios; e, mais, descrever, sinteticamente,
as embarcações portuguesas: a nau, a caravela e o galeão. Por
fm, relacionar todos estes elementos com o processo histórico
conhecido como As Grandes Navegações.
2. Você deve apresentar, em sua resposta, as características dos
canhões de bronze e sua progressiva substituição pelos canhões
de ferro. Analisar a infuência da artilharia de bordo na tática de
combate no mar, especialmente o desenvolvimento das “linhas de
batalha”.