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FACULDADE PAULISTA DE SERVIÇO SOCIAL – SP

LUÍS FERNANDO GARCÌA
PAMELA GABRÌELLE OLÌVEÌRA DE LÌMA
LOUCURA: UMA DOENÇA QUE LEGITIMA A EXCLUSÃO SOCIAL
SÃO PAULO
2014
2
LUÍS FERNANDO GARCÌA
PAMELA GABRÌELLE OLÌVEÌRA DE LÌMA
LOUCURA: UMA DOENÇA QUE LEGITIMA A EXCLUSÃO SOCIAL
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado ao curso de Graduação em
Serviço Social, da Faculdade Paulista de
Serviço Social ÷ São Paulo, como requisito
parcial para obtenção do grau de Bacharel
em Serviço Social.
Orientadora: Profª Drª Leticia Andrade.
SÃO PAULO
2014
3
AGRADECIMENTOS
A graduação é um título individual composta por uma rede de afeto e
solidariedade, esse canudo poderia ser dividido em mil pedacinhos para cada ponto
desta teia.
Grata aos meus filhos Caique e Ícaro por cada sorriso, cada olhar e cada vez
que perguntavam: "Mãe, você vai hoje para a Faculdade?¨
Grata ao Robson Crispim de Jesus pelo seu companheirismo, eu não teria
conseguido sem ele.
Aos meus pais por terem sido ora avós e ora pais dos meus filhos, toda a
rede familiar e extra-familiar nesta batalha!
Aos caros amigos que fazemos e encontramos nesta caminhada, Ìeda Brito,
Ìná Rosa. A querida Regiane Mendes pela atenção dispensada, aos encontros
enriquecedores e todo material fornecido para contribuir com este estudo.
Pamela Gabrielle Olieira !e Lima
4
AGRADECIMENTOS
A todos aqueles que de alguma forma contribuíram para a conclusão de mais
uma etapa em minha vida. Muitas pessoas cruzaram meu caminho, e que foram de
suma importância para a concretização desse sonho, que é contribuir com a
transformação social.
Agradeço imensamente ao amigo Amaury Peleteiro, que através de seus
conselhos me instigou a procurar um novo caminho de aprendizado e de realização
profissional.
Agradeço a minha amiga Karina Monma, que mesmo de forma
despretensiosa me indicou o caminho que me conduziu ao Serviço Social.
Agradeço ao meu amigo, irmão e cunhado Fernando Miranda, por seu apoio
financeiro e profissional, tão importante para o início e permanência nos estudos.
Agradeço a minha amiga e companheira Rayane de Medeiros Garcia, que me
manteve firme mesmo quando eu queria desistir, e me apoiou completamente
quando mais ninguém o fez e foi o importante alicerce para que eu jamais me
desviasse do caminho.
Agradeço em especial aos Professores Eduardo Amaral, Arlete Galhardi,
Mario Omura, Marcel, Shinobu Pereira, Edith, James Abreu, Mara Valente, Matilde,
que transformaram minha experiência estudantil em um caminho ético que
carregarei comigo em minha atuação como assistente social e que com certeza me
fez um ser humano melhor.
Agradeço ao Professor Axel Gregoris por ter sido bem mais do que um
professor, mas um exemplo que espero um dia espelhar-me seja em sua atuação
como assistente social ou como professor e mestre.
Agradeço a minha amiga e supervisora de estágio Tatiana Silva, que me
mostrou o valor e a importância de ser assistente social me ensinando na prática
aquilo que a faculdade não foi capaz, e acreditou em mim não me deixando desistir
do curso. Espero um dia ser metade da Assistente Social que ela é.
E por fim, agradeço à Professora Letícia Andrade, por todo o conhecimento
que transmitiu e apoio que manifestou ao longo do curso, construindo assim o
alicerce que se transformou em minha base teórica, e que espero jamais esquecer
em minha atuação profissional.
L"#$ Fer%a%!& Gar'ia
5
“Liberdade é uma palavra que o sonho
alimenta, não há ninguém que explique e
ninguém que não entenda”.
(Ceclia !eirelles"
6
RESUMO
A imersão em um mundo tão profundo e ao mesmo tempo tão rico e instigante
fez-se necessário para entender como a exclusão social se consolidou e foi tão
plenamente aceita por tantos anos, quando se trata dos doentes mentais e daqueles
que foram sentenciados a uma prisão quase perpétua nos manicômios brasileiros.
Compreendendo que os manicômios eram inicialmente espaços para o
tratamento dos doentes, buscamos entender como se efetivava este tratamento e se
realmente havia um interesse de reintegração social daqueles que de alguma forma
não se adaptavam às regras e conceitos da sociedade vigente.
Para tanto, foi feito um resgate histórico de dois dos principais manicômios do
país, tentando através dos anos, entender como se configurava a questão social em
suas diversas expressões e em que momento o Serviço Social se efetiva de forma a
garantir direitos sociais e auxiliar no processo de reinserção social dos doentes.
Neste contexto foi abordado que a loucura nem sempre foi tratada como uma
doença, mas já esteve ligada à religião e principalmente foi utilizada como
ferramenta de exclusão dos indesejáveis sociais.
Dentro desta análise, relatamos através de pesquisa bibliográfica, que quando
se trata da loucura, a exclusão social sempre foi o melhor tratamento, e que mesmo
que houvesse avanços na medicina, raros foram os casos que se pensava no
"louco¨ como ser humano de direitos e que mais do que tudo precisava de inclusão e
não de exclusão social.
Palara '(ae: Loucura, Manicômio, Serviço Social.
LISTA DE FIGURAS
7
Figura 1 ÷ AURORA CURSÌNO, Sem Título, acervo Complexo Hospitalar Juquery
Franco da Rocha, SP. 64
Figura 2 ÷ AURORA CURSÌNO, Sem Título, acervo Complexo Hospitalar Juquery
Franco da Rocha, SP. 64
Figura 3 ÷ AURORA CURSÌNO, Hotel Avenida, acervo Complexo Hospitalar Juquery
Franco da Rocha, SP. 65
Figura 4 ÷ AURORA CURSÌNO, Sem Título, acervo Complexo Hospitalar Juquery
Franco da Rocha, SP. 65
Figura 5 ÷ Aurora Cursino no Complexo Hospitalar Juquery Franco da Rocha, SP.
66
Figura 6 ÷ ÌOÌTÌRO AKABA, Dança, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco da
Rocha, SP. 67
Figura 7 ÷ ÌOÌTÌRO AKABA, Sem Titulo, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco
da Rocha, SP. 67
Figura 8 ÷ ÌOÌTÌRO AKABA, José Joaquim, acervo Complexo Hospitalar Juquery
Franco da Rocha, SP. 68
Figura 9 ÷ ÌOÌTÌRO AKABA, Pacace, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco da
Rocha, SP. 68
8
SUM)RIO
ÌNTRODUÇÃO 10
CAPÍTULO Ì 12
1.1 A loucura em uma breve contextualização histórica 12
1.2 A loucura e a filosofia 18
1.3 A institucionalização da loucura 21
1.4 A versão (aversão) brasileira 25
CAPÍTULO ÌÌ32
2.1 Juqueri (SP) 32
2.2 Colônia (MG) 39
2.3 A laboterapia e a visão de Franco da Rocha 45
CAPÍTULO ÌÌÌ 49
3.1 A humanização na arte 49
3.2 A visão de Osório Cesar 50
3.3 Nise da Silveira: uma mulher a frente de seu tempo 52
3.4 Semana da arte dos loucos e das crianças 58
3.5 Escola Livre de Artes59
CAPÍTULO ÌV 69
4.1 A inserção do serviço social na saúde mental 69
4.2 A ditadura e seus reflexos nas internações 74
4.3 As transformações na visão mundial sobre a loucura 82
9
4.4 A reforma psiquiátrica no Brasil 85
4.5 O serviço social e a visão de loucura no neoliberalismo 86
4.6 O Juquery e o Colônia nos dias atuais 89
4.7 Politicas sociais e atuação do estado pós-reforma psiquiátrica 93
#.$.% &oltica do de'iciente mental 93
#.$.( C)&* 95
#.$.+ ,esid-ncias terap-uticas 99
CONSÌDERAÇÕES FÌNAÌS103
REFERÊNCÌAS BÌBLÌOGRÁFÌCAS 107
10
INTRODUÇÃO
Loucura: compreendê-la é uma tentativa desta pesquisa, por meio de um
apanhado histórico pretende-se saber qual o papel do louco na sociedade.
Recorremos a estudos de como essa loucura foi percebida, recebida e atendida. Ora
como uma manifestação espiritual, ora por um chamado poético, ora por um
incômodo social. Ora! Ela sempre se manifestou e a sociedade, seja num esforço de
tentar entendê-la ou num cansaço e tentar escondê-la, sempre esteve lá
manifestando os instintos humanos. Humanos normais de um lado e de outro, tidos
como nem tão humanos assim, porém, anormais.
O Capítulo Ì, dividido em alguns tópicos, trata a trajetória histórica desta
manifestação e salienta estudos como de Foucault (2005), História da Loucura, que
separa as eras e como esta manifestação se dava em períodos distintos, político,
econômico, social e culturalmente. Em uma breve contextualização histórica
observamos o tratamento moral dado ao louco e os estigmas carregados pelo pobre,
pelo ocioso e/ou pelo desempregado, todos colocados numa mesma balança e
entregues aos julgamentos e aparelhos de correção locais, na Europa. A Loucura e a
filosofia trata de discursar sobre os posicionamentos de filósofos, dos conceitos e da
poesia contida na própria filosofia sobre a loucura. A institucionalização da loucura,
por Foucault (2005), como A Grande Ìnternação, denota sobre as práticas
institucionais dos mesmos degenerados, a estatização da assistência ao alienado e
as artimanhas políticas e econômicas que permeavam a institucionalização de
loucos, mendigos, pobres, desempregados, abrigados agora em espaços utilizados
para o isolamento do leproso, do sujeito infectado por doenças venéreas. A versão
(aversão) brasileira contextualiza o cenário nacional, desde as primeiras instituições
e o contexto político que o país vivia, numa realidade que se alicerçou sobre a
desigualdade social e essa face brasileira se desdobrou nas práticas institucionais.
O Capítulo ÌÌ, foca nas instituições Juqueri, Franco da Rocha ÷ SP e Colônia,
Barbacena ÷ MG, o contexto de criação das instituições, suas semelhanças e suas
diferenças. Ambas as instituições com capacidade para abrigar uma quantidade
razoável de pacientes, sua superlotação e suas práticas institucionais, violações.
Pontuamos a Laborterapia, e seu valor moral contido na sociedade, com o intuito de
sinalizarmos as primeiras experiências dos que posteriormente viria a ser a terapia
ocupacional.
11
O Capítulo ÌÌÌ mostra um lado do Juqueri, que mesmo nos seus primórdios
apontava para uma humanização dos sujeitos abrigados na instituição. Este capítulo
mostra quadros pintados por artistas nas oficinas livres de arte, propiciadas por
Osório César, conta um pouco sobre a trajetória do médico psiquiatra no Hospital e a
contribuição de seus estudos para o que viria a ser o início da arte terapia no Brasil.
O Capítulo ÌV apresenta o processo de inserção do Serviço Social na Saúde
Mental, que ocorre em um período que precede uma das épocas mais conturbadas
da história brasileira: o golpe de 1964. Esta inserção teve forte influência do serviço
social estadunidense, mas mesmo assim não se consolida de forma homogênea
tendo um caráter imediatista que focava seu atendimento para os trabalhadores que
contribuíam com a Previdência. Além disso, aborda como a ditadura militar imposta
após o golpe de 64, teve grande influência no aumento das internações e no quadro
de exclusão e abandono dos doentes. Este aumento se deu exclusivamente por
conta da perseguição política e moral que se acometia na sociedade daquela época.
Mais a frente o capítulo aborda as mudanças impulsionadas pela luta antimanicomial
e suas consequências pós-Movimento de Reforma Psiquiátrica.
12
CAP*TULO I
+,+ A l&"'"ra em "ma bree '&%-e.-"ali/a01& (i$-2ri'a
) loucura, ob.eto de meus estudos era até agora
uma ilha perdida no oceano da ra/ão0 come1o a
suspeitar que é um continente ()**2*, %33(,
p.%$".
A História da Loucura reconfigura-se por meio das distintas concepções
expressas pela sociedade ao longo dos anos, deixando para trás o viés religioso
para tornar-se uma questão científica, ou seja, abandona o status de possessão
demoníaca e alcança uma compreensão mais ampla, no qual, confirma-se como
doença, inicialmente incurável e posteriormente, fundamentado em pesquisas, uma
doença tratável e com possibilidades de recuperação completa.
Durante muito tempo, o doente mental não era reconhecido como um sujeito
de direitos e por esta razão, segregá-lo garantia a sociedade poupar-se do que o
dito "louco¨ trazia à tona: aquilo que o ser humano tem de mais indomável, o que
possui de mais animalesco, provocando incômodos, mexendo com as estruturas da
normalidade.
Bisneto (2011) afirma que o fenômeno singular conhecido como loucura tem
longo registro na história da humanidade e extensa aparição nas diversas
sociedades, inclusive sociedades identificadas como primitivas. Foram-lhe
atribuídas várias caracterizações: como castigo dos deuses, como
experiência trágica da vida, como possessão por demônios, como poderes
sobrenaturais. Era considerada como experiência diferente de vida, ora
apreciada, ora combatida, dependendo da sociedade em que se
expressava, ou de como se manifestava nos diferentes contextos. (p.173).
Fato curioso a constatar, aponta Foucault (2005), é sob influência do modo de
internamento, tal como ele se constituiu no século XVÌÌ, que a doença venérea se
isolou, numa certa medida de seu contexto médico e se integrou, ao lado da loucura,
num espaço moral de exclusão. De fato, a verdadeira herança não é aí que deve ser
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buscada, mas sim num fenômeno bastante complexo, do qual a medicina demorará
para se apropriar (p.8).
Esse fenômeno é a loucura. Mas, será necessário um longo momento de
latência, dois séculos para que esse novo espantalho, que sucede à lepra
nos medos seculares, suscite como ela reações de divisão, de exclusão, de
purificação que, no entanto, lhe são aparentadas de uma maneira bem
evidente. Antes da loucura ser dominada por volta da metade do século
XVÌÌ, antes que se ressuscitem em seu favor, velhos ritos, ela tinha estado
ligada, obstinadamente, a todas as experiências maiores da Renascença
(FOUCAULT, 2005, p.8).
A história expressa e inúmeros autores tentam explicar ou ao menos
interpretar este fenômeno ao longo dos séculos, e este estudo se esforça para
contextualizar esta questão social. No período em que a humanidade, na figura do
sujeito Europeu, se encontra em sua fase mais iluminada, apaga a face da loucura e
cria os primeiros espaços de segregação da mesma. Ela, porém, nunca esteve
afastada das demais demandas causadoras dos incômodos sociais, andou de
braços dados com a pobreza.
É sabido que no século XVÌÌ criaram-se vastas casas de internamento; não
é muito sabido que um habitante a cada cem da cidade de Paris viu-se
fechado numa delas, por alguns meses. É bem sabido que o poder absoluto
fez uso das cartas régias e de medidas de prisão arbitrárias; é menos
sabido qual a consciência jurídica que poderiam animar essas práticas. A
partir de Pinel, Turke, Wargnitz, sabe-se que os loucos durante um século e
meio, foram postos sob um regime deste internamento, e que um dia serão
descobertos na sala do Hospital Geral, nas "celas das casas de força¨,
percebe-se também que estavam misturados com a população de
Workhouses ou Zuchthausern. Mas nunca aconteceu de seu estatuto nela
ser claramente determinado, nem qual sentido tinha esta vizinhança que
parecia atribuir esta mesma pátria aos pobres, aos desempregados, aos
correcionários e aos insanos. É entre os muros do internamento que Pinel e
a psiquiatria do século XÌX encontrarão os loucos; é lá ÷ não nos
esqueçamos ÷ que eles os deixarão, não sem antes se vangloriarem por
terem nos "libertado¨. A partir da metade do século XVÌÌ, a loucura esteve
ligada a esta terra de internamento, e ao gesto que lhe designava essa terra
como seu local natural. (FOUCAULT, 2005, p.48).
14
Traz consigo justificativas ao isolamento, onde a pobreza não se reduz, mas
resignifica e incorporam-se em subgrupos. O pobre não é somente, se ele é pobre,
vagabundo, incapaz de pensar de maneira distinta, de ter outra linguagem se não à
do demônio, visto o ideário a igreja não se isenta a esta fundamentação.
A medida que a crise europeia aumentava à população em situação mais
vulnerável, havia um outro destino.
Teme-se que eles congestionem o país, e como eles não tem a
possibilidade, como no continente de passar de um país para outro, propõe-
se bani-los e comboiá-los para as terras recém descobertas nas Índias
orientais e ocidentais. (FOUCAULT, 2005, p.67).
A religião é uma poderosa aliada da civilização, ela tem grande poder
regulador sobre a vida dos seres humanos, poderes que são fortalecidos pelo
sentimento de culpa, pela garantia de sentido e pela promessa de proteção divina
contra a tão temida força da natureza, como afirma Mendonça e Rodrigues.
A Ìgreja tomou partido e dividiu o mundo cristão da miséria que a Ìdade
Média em sua totalidade havia santificado. De um lado haverá a região do
bem, que é a da pobreza submissa e conforme à ordem que lhe é proposta.
Do outro lado a região do mal, isto é, da pobreza insubmissa, que procura
escapar a essa ordem. A primeira aceita o internamento aí encontra o seu
descanso. A segunda se recusa a tanto e por isso o merece. (FOUCAULT,
2005, p.60).
Mais uma vez são perceptíveis as justificativas do isolamento, saindo do
espiritual, no sentido mais mítico da palavra, passando a materialidade da categoria
trabalho que se coloca, antes de tudo, em plena Renascença como maneira de
relação homem - sociedade. Desta forma, afirma Foucault (2005) que antes de ter o
sentido médico que lhe atribuímos, ou que pelo menos, gostamos de supor que tem,
o internamento foi exigido por razões bem diversas das preocupações com a cura. O
que o tornou necessário foi um imperativo de trabalho. Nossa filantropia bem que
gostaria de reconhecer os signos de uma benevolência para com a doença, lá onde
se nota apenas a condenação da ociosidade. (p.63 e 64).
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Se a loucura no século XÌÌ está como que dessacralizada é de início porque
a miséria sofreu essa espécie de degradação que a faz ser encarada agora
apenas no horizonte da moral. A loucura só terá hospitalidade doravante
dentre os muros do hospital, ao lado de todos os pobres. É lá que a
encontramos ainda ao final do século XVÌÌÌ. Com respeito a ela nasceu uma
nova sensibilidade: não mais religiosa, porém moral. Se o louco aparecia de
modo familiar na passagem humana da Ìdade Média, era como que vindo
de outro mundo. Agora ele vai destacar-se sobre um fundo formado por um
problema de "polícia¨, referente à ordem dos indivíduos na cidade. Outrora
ele era acolhido porque vinha de outro lugar; agora será excluído porque
vem daqui mesmo e porque o seu lugar é entre os pobres, os miseráveis, os
vagabundos. A hospitalidade que o acolhe se tornará, num novo equívoco, a
medida de saneamento que o põe fora do caminho de uma estranha
peregrinação: ele perturba a ordem do espaço social, despoja dos direitos
da miséria e de sua glória, a loucura como a pobreza e a ociosidade,
doravante surge de modo seco na dialética imanente dos Estados.
(FOUCAULT, 2005, p.63).
Vale lembrar que, na Ìdade Média, a prática do isolamento, inicia-se com os
Leprosários, a fim de combater o mal que assolava a população europeia na época,
assim que a situação foi contornada, as mesmas estruturas físicas serviram para o
combate à doenças infectocontagiosas e a outro mal.
A partir da alta Ìdade Média, e até o final das Cruzadas, os leprosários
tinham multiplicado por toda a superfície da Europa suas cidades malditas.
Segundo Mathieu Paris, chegou a haver 19.000 delas em toda a
cristandade. Em todo o caso, por volta de 1266, à época em que Luís VÌÌÌ
estabelece para a França, o regulamento dos leprosários, mais de 2 000
deles encontram-se recenseados. Apenas na Diocese de Paris chegou a
haver 43: entre Bourg-la-Reine, Corbeil, Saint-Valère e o sinistro Champ-
Pourri; e também Charenton. Os dois maiores encontravam-se na periferia
imediata de Paris: Saint-Germain e Saint- Lazare; tornaremos a encontrar
seus nomes na história de um outro mal. É que a partir do século XV, o
vazio se estabelece por toda parte; a partir do século seguinte, Saint
Germain torna-se uma casa de correção para os jovens (FOUCAULT, 2005,
p.3 e 4).
Ribeiro e Pinto (2011) completam afirmando que, no entanto, as significações
associadas aos leprosos permaneceram. O espaço deixado pelo leproso é ocupado
16
pelos pobres, vagabundos e também pelos "loucos¨. Simbolicamente, esta prática
social significa exclusão e reintegração espiritual. Tanto a pobreza quanto a loucura
são entendidos como desígnios de Deus e aqueles que aceitassem estes desígnios
estariam, na verdade, assumindo o seu fardo e, em troca, receberiam a tão almejada
purificação espiritual. Neste momento histórico, pobreza e loucura são entendidas
como uma espécie de purgatório terreno. (p.4).
Segundo Mora, loucura é definida como:
[...] foi frequente considerar a loucura como um delírio ou furor que se
apossa durante um tempo de um homem e o faz falar ou atuar de formas
distintas das usuais, ou consideradas usuais; em todo o caso, de formas
extraordinárias. Exemplos desse modo de conceber a loucura nos são
dados por muitas comunidades humanas, sobretudo entre as chamadas
'primitivas'. Aqui nos interessa, porém, principalmente o modo ou modos
como a loucura e seus equivalentes ou formas (delírio, furor, êxtase etc.)
foram concebidas pelos filósofos, ou por autores que influíram direta, ou
indiretamente, sobre filósofos. Pois bem, o fato é que também filósofos
começaram por observar o caráter de 'possessão' da loucura, Ainda mais: a
loucura pode ser considerada de dois modos: ou como enfermidade do
corpo que se manifesta na 'alma', ou como uma possessão da alma por
algum "demônio¨. Só nesse segundo sentido a loucura ÷ o delírio - é o
agente das maiores bênçãos, como escreve Platão no Fedro (244 A), e
como, segundo se observou, já Demócrito indicara ao enfatizar que só em
estado de delírio pode-se compor grande poesia.
A loucura de que falaram esses filósofos é comparado ao entusiasmo,
enquanto 'endeusamento', ou possessão por um deus (ou um demônio).
Também é comparável ao êxtase como estado no qual se encontra o
criador, o poeta. O estado de inspiração é, pois, algo que vem, por assim
dizer, 'de fora', embora tome posse do que há 'mais no interior' da alma.
No diálogo Íon, Platão refere-se também ao poeta como 'coisa alada',
incapaz de compor poesia, a menos que esteja um pouco fora de si ÷ a
menos, pois que 'não esteja em seu juízo' (ibid., 533 D, 534 E).
A loucura ÷ como 'loucura poética' ÷ apresenta-se aqui, como o que faz
'levantar' e 'elevar' o poeta acima do normal e do cotidiano.
O tema da loucura como 'loucura divina', como possessão por uma força
divina, ou divinóide, ao contrário da loucura como simples enfermidade do
corpo ou da alma, ou de ambos, foi tratado por muitos autores da
Antiguidade, quase sempre seguindo a orientação platônica.
17
Está relacionado com a ideia de loucura como simplicidade ÷ ou regresso à
simplicidade ÷ o famoso Encomium moriae, o Elogio da loucura de Erasmo.
Sem a moria (a stultitia), não haveria, segundo Erasmo, a menor
possibilidade de viver e de pensar saudável e simplesmente, longe do
pedantismo dos sábios, oi falsos sábios.
A loucura é, para Michel Foucault, um problema 'epistemológico', isto é, um
problema que só se apresenta, ou só tem sentido, dentro de uma
determinada episteme. A lepra tinha servido durante muito tempo como linha
divisória: o leproso ficava excluído da sociedade, confinado nos leprosários.
Quando desapareceu a lepra, a loucura ocupou o seu lugar. Um dos
símbolos da loucura é a 'nau dos loucos', a stultifera navis. A loucura está
separada da razão em toda época clássica (M. Foucault, História da loucura
na Ìdade Clássica, Editora Perspectiva, S. Paulo, 1978), mas a separação
da loucura em relação a razão não quer dizer que aquela seja
completamente independente desta. É uma 'forma relativa à razão'; a razão
mede a loucura e esta mede a razão. Nesse movimento recíproco, loucura e
razão fundamentam-se mutuamente. A loucura fica relegada ÷ e louco
internado ÷ mas, justamente na medida em que serve de espelho, ou contra
espelho, daquilo que a relega. O que o louco diz não pode circular
normalmente entre os que não estão loucos, os que têm 'uso da razão' e
são considerados 'normais'. O que dizer da loucura não é verdadeiro. É
certo que, por vezes, quando se escuta a palavra dos loucos, ela se
apresenta como a 'palavra da verdade' (M. Foucault, L'ordre du discours,
1971), de modo que, ou a palavra do louco cai no nada ou nela se decifra
uma razão 'ingênua'. Mas, de fato, tal palavra não existe. Daí a 'internação'
dos loucos; toda vez que, como entre alguns ilustrados, fazem-se valer seus
direitos, não é para que seu discurso participe do discurso dos homens
razoáveis, mas para que o portador do discurso louco seja tratado
'humanamente'. Pode-se deixar ao louco a liberdade de ser louco, mas essa
liberdade é uma clausura.
Durante muito tempo, a diferença entre loucura e não-loucura foi equiparada
a diferença entre anormal e normal. Também por longo tempo a loucura foi
mais tratada do ponto de vista do indivíduo do que da sociedade. Em todo
caso, pouco se duvidava de que existisse uma doença mental chamada
'loucura'. Em várias de suas obras (The Divided Self, 1959 [trad. bras., O eu
dividido, 2ª edição, 1975]; Madness and the Family, 1964 [ com Aaron
Esterson]; The Politics of Experience, 1967), Ronald D. Laing e, com ele, o
movimento da 'antipsiquiatria', insistiu em que a loucura, a doença mental, é
um mito. Não é um fenômeno psicológico-individual ou fisiológico; é um
fenômeno social, ou seja, um fenômeno produzido pela própria sociedade,
18
que acredita poder doutrinar sobre a natureza da enfermidade mental e da
loucura. Segundo Laing, a loucura, bem como, os estados psicóticos ou
esquizofrênicos, carecem de existência como fatos psicológicos, químicos
ou neurofisiológicos. Daí resulta, no entender de Laing, que o usual
diagnóstico de loucura seja um ato político e não um ditame psiquiátrico.
Contextualizar a loucura é tarefa árdua, seria como trilhar a história da
humanidade, a grande questão é como a humanidade lidou com este fenômeno e
como ele se resignificou não por si só, mas por meio do poder estabelecido.
+,3 A l&"'"ra e a 4il&$&4ia
) mentira do ideal 'oi, até agora, a blas'-mia
contra a realidade0 a pr4pria humanidade 'oi
enganada por ela e tornou5se 'alsa até o mais
baixo de seus instintos 5 a ponto de adorar os
valores inversos como se 'ossem aqueles com os
quais ela poderia garantir para si a prosperidade,
o 'uturo, o direito altivo ao 'uturo (62789*C:7,
(;%(, p.%<".
Bisneto (2011): a loucura está em discussão: é uma doença? É uma alienação
mental, social e corporal? É um ato inconsciente de revolta contra a sociedade
injusta? É apenas uma diferença? É um tipo de sofrimento mental de causas
múltiplas? É um problema genético? É uma disfunção cerebral? (p.173).
Foi ela que as últimas palavras de Nietzsche e as últimas visões de Van
Gogh despertaram. É sem dúvida ela que Freud, no ponto mais extremo de
sua trajetória, começou a pressentir: são seus grandes dilaceramentos que
ele quis simbolizar através da luta mitológica entre a libido e o instinto de
morte. É ela, enfim, essa consciência, que veio a oprimir-se na obra de
Artaud, nesta obra que deveria propor ao pensamento do século XX, se ele
prestasse, a mais urgente das questões, e a menos suscetível de deixar o
questionador escapar à vertigem, nesta obra que não deixou de proclamar
que nossa cultura havia perdido seu berço trágico desde o dia em que
expulsou para fora de si a grande loucura solar do mundo, os
dilaceramentos em que se realiza incessantemente a "vida e a morte de
Satã e o Fogo¨. (FOUCAULT, 2005, p.29)
19
A filosofia neste contexto tem uma importante contribuição no processo
reflexivo das relações humanas na dinâmica do poder que se manifesta nas
múltiplas esferas de dominação, incluindo clero, sociedade e nobreza. Cada um em
seu espaço e tempo e seu grau de influência e responsabilidade. As determinações
sobre um padrão de normalidade e a aproximação da loucura à outras anomalias
sociais são matérias de estudos e impulsionam um questionamento ético das
relações sociais.
Freud aborda as várias instâncias da civilização, religião, arte, família, fala
dos benefícios de se viver em uma cultura organizada que promete entre
outras coisas, a proteção contra as forças da natureza.
A cultura, no entanto, se constitui e se firma sempre às custas de fortes
renúncias, as pessoas devem abrir mão da satisfação de suas pulsões em
prol dessa cultura e da proteção. Essas renúncias não ficam impunes. Se
elas não forem recompensadas, se a satisfação dessas pulsões não forem
recompensadas, é de se esperar que sérios distúrbios venham como
resposta. Freud aponta que as saídas que encontramos para lidar com o
sofrimento e o mal-estar, também são decorrentes da cultura, e que existem
medidas paliativas às quais recorremos a fim de suportar este sofrimento.
É neste jogo de renúncia pulsional em favor da cultura que se dá o
adoecimento, e nada mais adoecedor que renunciar à própria liberdade em
prol de uma internação que se diz curativa. (p.153).
Foucault em sua obra "História da loucura¨ percorre o cenário mundial,
sobretudo o europeu, seu berço, e interpreta as múltiplas concepções e linguagens,
inclusive artísticas, do lugar do louco na sociedade. Por meio de um resgate
histórico, a interpretação do filósofo se confunde em poesia, denúncia e horror a
uma humanidade que se desenvolve condenando sua própria natureza animal,
encarcerando e punindo as subclasses.
Bisneto (2011) cita Laplatine (1998) onde as pesquisas etnográficas
mostraram que o comportamento humano varia muito nas diferentes sociedades,
podendo ser tão díspar que o que é considerado adequado em uma sociedade pode
não sê-lo em outra.
20
Ìsso questiona os diagnósticos de transtornos mentais baseados em
padrões de comportamentos sociais ajustados ou não, principalmente na
sua acepção de doença fisiológica, pois a medicina procura ser uma ciência
positiva. Se um comportamento em uma sociedade é considerado normal,
em outra não, isso questiona a positividade da psiquiatria e seu poder de
chamar loucura de doença mental puramente orgânica. A loucura passa a
ter como referência a base social e cultural, e não apenas a base biológica.
(BÌSNETO, 2011, p.174).
A loucura também matéria prima para a literatura e outras linguagens e
expressões artísticas, se apresentou na figura de uma embarcação que aportava e
carregava os loucos de cada cidade e pela imensidão dos mares flutuava com sua
carga de loucura, uma instituição itinerante, romanciada em alguns contos. A nau
dos loucos, como era conhecida, teve um importante papel pra além da literatura,
pois, existiu de verdade: assim, Foucault (2005) relata que um objeto novo acaba de
fazer seu aparecimento na paisagem imaginária da Renascença; e nela, logo
ocupará lugar privilegiado: é a Nau dos Loucos, estranho barco que desliza ao longo
dos rios da Renânia e dos canais flamengos (p.9).
Mas, de todas essas naves romanescas ou satíricas, a Narrenchiff é a única
que teve existência real, pois eles existiram, esses barcos que levavam
essa carga insana de uma cidade para outra. Os loucos tinham então uma
existência facilmente errante. As cidades escorraçavam-nos de seus muros;
deixavam-se que corressem campos distantes, quando não eram confiados
a grupos de mercadores e peregrinos. Esse costume era frequente
particularmente na Alemanha: em Noremberg, durante a primeira metade do
século XV, registrou-se a presença de 62 loucos, 31 dos quais foram
escorraçados. Nos cinquenta anos que se seguiram, têm-se vestígios de 21
partidas obrigatórias, tratando-se aqui apenas de loucos detidos pelas
autoridades municipais. Eram frequentemente confiados a banqueiros: em
Frankfurt, em 1399, encarregam-se marinheiros de livrar a cidade de um
louco que por ela passeava nu; nos primeiros anos do século XV, um
criminoso louco é enviado do mesmo modo a Mayence. Às vezes, os
marinheiros deixavam em terra, mais cedo do que haviam prometido, esses
passageiros incômodos; prova disso é o ferreiro de Frankfurt que partiu
duas vezes e duas vezes voltou, antes de ser reconduzido definitivamente
para Kreuznach. Frequentemente as cidades da Europa viam essas naus de
loucos atracar em seus portos.
21
Não é fácil levantar o sentido exato deste costume. Seria possível pensar
que se trata de uma medida geral de expurgo que as municipalidades fazem
incidir sobre os loucos em estado de vagabundagem; hipótese que por si só
não dá conta dos fatos, pois certos loucos, antes mesmo que se construa
casas especiais para eles, são recebidos nos hospitais e tratados como
loucos. (FOUCAULT, 2005, p.9 e 10)
A Nau dos Loucos caracterizou um primeiro passo para a institucionalização
da loucura, da purificação e da higienização social.
+,5 A i%$-i-"'i&%ali/a01& !a l&"'"ra
6ada tenho nada a ver com a ci-ncia0 mas, se
tantos homens em quem supomos .u/o, são
reclusos por dementes, quem nos a'irma que o
alienado não é o alienista= ()**2*, %33(, p.(>".
O levantamento histórico sobre os primórdios das práticas assistenciais
engendra-se da concepção crítico-sociológica de que as práticas psiquiátricas
surgiram como resposta às exigências econômicas, sociais e políticas em dada
conjuntura histórica (SOARES,2006, p.6).
[...] acerca do Grande Enclausuramento, transcorrido na Europa, designado
por Foucault (1982), inicia-se também no Brasil o processo de confinamento
das classes desfavorecidas, sendo as diferenças no âmbito brasileiro
referenciadas às causas estruturais, estando presentes as mesmas
circunstâncias sociais.
Ìsso posto, é possível prosseguir na exposição sobre o processo histórico-
econômico intrínseco ao surgimento das cidades e na reflexão sobre a
configuração peculiar à localidade aqui pretendida. Abordar o surgimento
das cidades e as condições de sua fundação e desenvolvimento implica a
tentativa de compreensão dos fatores supostamente determinantes das
especificidades da região e do município em questão.
O surgimento das cidades enquanto fenômeno social ocorreu mediante as
transformações dos pacatos burgos destinados às trocas econômicas, a
partir do final do século XVÌÌÌ, impulsionado pelo início do capitalismo e pela
industrialização.
22
Segundo Barros (1994), é importante pensar a modernidade como
resultante e estruturante de uma nova política, de uma nova estética e de
uma nova ética, que transcende as transformações das bases materiais das
sociedades. O trabalho, a ordem, o tempo e o espaço geraram novos
saberes, novas tecnologias, e uma nova ordem normativa, que produziram o
homem moderno. As cidades modernas, surgidas a partir do século XÌX,
refletem então, este processo de construção e enunciação da consciência e
do homem moderno, devendo sua compreensão situar-se para além da
expansão do capital. Enquanto espaço complexo, a cidade moderna
apresenta ambigüidades: incorpora as contradições e o caos, donde surge a
necessidade de ordenação política e científica. Compreendem-se, desta
forma, os mecanismos de profilaxia para a cura como a higiene e o
sanitarismo, buscando soluções para os vícios, desordens e crimes.
(SOARES, 2006, p.86)
A loucura deixa de ser um fenômeno natural, "sagrado¨ ou ainda, sociável a
partir da construção de seus muros físicos, que ironicamente, antecede a criação de
uma linha de pensamento clínico que também enjaulava esta manifestação social
enquanto objeto de estudo e área do conhecimento, perdendo assim seu status de
liberdade:
Ora, aquilo que estava logo de início implicado nestas relações de poder era
o direito absoluto da não-loucura sobre a loucura. Direito transcrito em
termos de competência exercendo-se sobre uma ignorância, de bom senso
no acesso à realidade corrigindo erros (ilusões, alucinações, fantasmas), de
normalidade se impondo à desordem e ao desvio. É este triplo poder que
constituía a loucura como objeto de conhecimento possível para uma
ciência médica, que a constituía como doença, no exato momento em que o
"sujeito¨ que dela sofre encontrava-se desqualificado como louco, ou seja,
despojado de todo poder e todo saber quanto à sua doença. [...] Este jogo
de uma relação de poder que dá origem a um conhecimento que, por sua
vez, funda os direitos deste poder, caracteriza a psiquiatria "clássica¨.
(FOUCAULT, 1999a, p. 127).
O cerceamento do louco à liberdade não encontra coerência num período
histórico em que a racionalidade é cultuada, porém encontra a justificativa em si
mesmo ao padrão de normalidade imposto.
23
[...] a internação não é a princípio um fato médico, mas sim moral, social,
econômico, e religioso. É que até o momento em questão havia uma
concepção religiosa da pobreza que lhe dava um caráter de santidade,
entretanto, com o grande desemprego que surge na Europa nesta época, e
com a apropriação da assistência social por parte do Estado e não mais da
Ìgreja, passa-se então de uma imagem que santifica para uma imagem
moral que segrega, e ao mesmo tempo disponibiliza mão-de-obra barata.
(MENDONÇA, RODRÌGUES, p. 155).
Com a supervalorização da racionalidade e a consequente aversão à
"irracionalidade¨, com elementos que criminalizam a pobreza, fundamentam a
necessidade da segregação e a condenação da ociosidade.
A prática do internamento designa uma nova reação à miséria, um novo
patético - de modo mais amplo, um outro relacionamento do homem com
aquilo que pode haver de inumano em sua existência. O pobre, o miserável,
o homem que não pode responder por sua própria existência, assumiu no
decorrer do século XVÌ, uma figura que a Ìdade Média não teria
reconhecido. (FOUCAULT, 2005, p.25).
O louco que outrora era percebido e recebido como um elemento divino
passa a ser um incômodo para as relações sociais, e precisa dar passagem a uma
nova concepção social do que passa ser aceitável.
Desta feita, a internação é para Foucault uma invenção e não uma evolução
daquilo que foi feito com os leprosos na Ìdade Média. Há uma nova ordem que rege
a sociedade. Há uma nova cultura em voga. Agora a razão é a lei, e aquela que a
contradiz está encerrada atrás dos muros. A loucura tem sua voz silenciada, e ainda
faz o contraponto com a razão, pois quanto mais há a segregação, mais se afirma
que a razão está certa. (MENDONÇA, RODRÌGUES, p.154)
Mendonça e Rodrigues afirmam que com o surgimento da psiquiatria
positivista a internação passa a ser o principal tratamento para os loucos e estes,
agora em casas de internação especialmente construídas para eles, ganham seu
próprio espaço, tanto físico quanto teórico, mas não deixam de sair de trás dos
muros.
Com a mudança das casas de internação para asilos, o louco não ganha
nada além do olhar, agora convicto, de que tudo aquilo que se apresenta como
24
contrário à razão, tudo aquilo que se coloca no caminho da ordem pública, tem que
ser silenciado. E assim a loucura ganha seu lugar mais tenebroso: o asilo. Ou será
que deveríamos dizer o exílio? (p.156).
[...] aquilo a que chamamos loucura tem sua história ligada aos fatos
culturais de sua época. Ela ganha seu status de loucura quando dialoga
com a razão; ela ganha o confinamento quando dialoga com a ordem
pública; ela ganha o nome de doença quando dialoga com a saúde; ela
ganha a punição quando dialoga com a psicologia nascente que buscava
corrigir as imperfeições morais. Todos estes ganhos não lhe renderam muita
coisa. Apenas a segregação (MENDONÇA, RODRÌGUES, s/d, p.157).
Completando, a segregação como aponta Foucault, pobres e ociosos, na
Europa, são mantidos confinados em períodos estratégicos para beneficiar um modo
de produção que emergia um modo bem conhecido em nossos dias que se sustenta
com a exploração da classe mais fragilizada.
Fora dos períodos de crise, o internamento adquire um outro sentido. Sua
função de repressão vê-se atribuída de nova utilidade. Não se trata mais de
prender os sem trabalho, mas de dar trabalho aos que foram presos,
fazendo-os servir com isso a prosperidade de todos. A alternativa é clara:
mão de obra barata nos tempos de pleno emprego e de altos salários; e em
período de desemprego, reabsorção dos ociosos e proteção social contra a
agitação e as revoltas. Não nos esqueçamos que as primeiras casas de
internamento surgem na Ìnglaterra nas regiões mais industrializadas do
país: Worcester, Norwiwich, Bristol; que o primeiro Hospital Geral foi aberto
em Lyon, quarenta anos antes de Paris; que a primeira de todas as cidades
alemãs, Hamburgo, tem sua Zuchthaus desde 1620. Seu regulamento
publicado em 1622, é bastante preciso. Os internos devem trabalhar, todos.
(FOUCAULT, 2005, p.67)
Portanto, a segregação da população significou em diversos períodos da
história não só a punição pela inadequação a um determinado padrão de
comportamento, mas também estratégia de exploração econômica. Vejamos a partir
daí um como essa cultura foi incorporada em nosso país e seus desdobramentos
nos maiores hospitais do país, Juqueri, SP e Colônia, MG.
25
+,6 A er$1& 7aer$1&8 bra$ileira
Ìniciamos com Bisneto, que muito bem conceitua a estigmatização do sujeito
numa sociedade centrada pelo abismo social estrutural.
Ora, a sociedade capitalista é atravessada por interesses econômicos que
estruturam relações de poder, que criam ideologias para justificá-las e vice-
versa: "saber¨ leva a "poder¨ que por sua vez, leva a propriedade privada. O
interesse em estabelecer que o menos frequente é anormal e que o anormal
é patológico provém também das elites econômicas e políticas de encontrar
explicações para o mau funcionamento das sociedades, eximindo-se de
qualquer parcela de responsabilidade, estigmatizando grupos sociais mais
fracos que são usados como "bodes expiatórios¨ para problemas sociais
(VELHO, 1998 apud BÌSNETO, 2011, p.176).
Com o advento do pensamento higienista no início do século XX, o conceito
de doente mental se estendeu também aos desajustados e a todo aquele que se
apresentasse contrário à forma de organização social vigente. Prostitutas, mendigos,
mães solteiras, trabalhadores que se opuseram aos patrões, foram inseridos nesta
nova categoria "doente mental¨ ou de "desvio de conduta¨ e por conta disso, fez-se
necessário a criação de aparelhos de institucionalização destes sujeitos, garantindo
que fossem apartados do convívio social.
Duarte (2009) citando CUNHA (1986): as concepções psiquiátricas
desenvolvidas com base na teoria da degenerescência ampliaram o universo de
intervenção psiquiátrica proporcionando o alargamento de possibilidades de
psiquiatrização da sociedade. A partir de então, passaram a exigir o poder de
exercer sua função dentro e fora do espaço asilar, evitando que o tipo degenerado
obstaculizasse o projeto de construção da Nação. Nesse sentido, a Psiquiatria
assumiu os contornos de uma especialidade autônoma no interior da Medicina
Social que, juntamente com outros campos do saber como a criminologia, a
engenharia sanitária e a assistência social dentre outras instâncias, foram capazes
de intervir no espaço urbano e agir preventivamente no sentido de "esquadrinhar a
população da cidade¨ (p.37).
26
Para que a Psiquiatria recebesse o estatuto de cientificidade, Juliano
Moreira juntamente com seus adeptos, adequou o conceito de anormalidade
desenvolvido pela teoria da degenerência de Morel ÷ considerada
insuficiente para a compreensão da racionalidade da loucura ÷ à teoria de
Kraepelin. Na classificação Kraepelin ficaram as entidades nosográficas nas
quais os conceitos de ordem moral se misturam aos conceitos relativos às
doenças de caráter orgânico, que por sua vez, se explicitam e se
entrelaçam na etiologia e sintomatologia das enfermidades. Conforme
Portocarrero, Juliano Moreira apresenta um quadro classificatório das
doenças a partir de Kraepelin, onde a relação "entre loucura, inteligência e a
vontade continua sendo importante para a descrição dos mecanismos das
moléstias mentais, como foi para Esquirol¨ que atribuía ao conceito de
doença mental às diferentes formas de loucuras, caracterizadas pelodelírio
como a lipomania, a monomania e a mania, e outras pela desrazão, como a
demência e a idiotia, definindo a loucura pelo delírio, embora desde Pinel a
Psiquiatria postulasse a existência de uma loucura sem delírio¨
(PORTOCARRERO, 2002 apud DURTE, 2009, p. 37).
[...]
Em Juliano Moreira, por exemplo, a causa da loucura é atribuída à "ação
das toxinas sobre o córtice cerebral, associada às perturbações gerais do
organismo, esta explicitação se dá numa linha puramente organicista¨
(PORTOCARRERO, 2002 apud DURTE, 2009, p. 37)
Para tanto, se faz necessário contextualizar o cenário que se constituiu como
pano de fundo deste desdobramento da institucionalização da loucura em território
nacional.
Em meados do século XÌX, o mapa socioeconômico do Brasil parecia um
quebra-cabeças... desmontado. Diferenças regionais profundas, em todos
os setores, num país gigante, com uma população estimada de 7 milhões
de habitantes. Pouca gente para muito país. Dessa pouca gente,
pouquíssimos decidiam.
Quem mandava na terra eram os cafeicultores do Sul, os criadores de gado
e os donos dos extensos canaviais nordestinos. Mandavam na terra, nos
escravos, no dinheiro e na política. Em tudo...
Ao lado dessa restrita classe dominante formava-se uma burguesia
dedicada ao comércio, que logo ia começar querer interferir nos destinos da
nação. Ìndústria? Nem pensar! Livros, máquinas, calçados, escravos... tudo
vinha de fora. E custava dinheiro. Dinheiro que os poucos privilegiados
27
detinham. Em 1880 o Brasil era o único país do mundo ocidental que ainda
admitia o trabalho sob o regime de escravidão. [...] Com a decadência da
produção de cana-de-açúcar e o florescimento da lavoura de café no Sul, os
Senhores de Engenho vendiam os escravos para os cafeicultores do Sul.
Extinguira-se o tráfico externo mas intensificara-se o interno.
Em 1871 veio a Lei do Ventre Livre. Em 1888, a Lei Áurea, que finalmente
libertou todos os escravos.
Tudo isso somado aos estragos econômicos provocados pela Guerra do
Paraguai, afundou a Monarquia em crise. Havia sinais da República no ar.
(Carlos Faraco, O Alienista Machado de Assis,1992, p.10)
Cunha (1989): São Paulo no início deste século, apenas começava a assumir
os contornos de uma grande cidade. As fábricas, o crescimento dos negócios, a
exploração populacional alimentada por levas de imigrantes recém-chegados, as
agitações operárias, a concentração da pobreza sustentavam uma imagem da
cidade como o local das multidões ameaçadoras, capazes de esconder o crime, o
vício, a imoralidade, a doença. O esforço "civilizador¨ acentuou-se com a
proclamação da República, como forma de enfrentamento das novas condições que
a cidade oferecia: multiplicaram-se as iniciativas, as especializações e as instituições
destinadas a superar as "mazelas do progresso¨ através da implantação e do
refinamento dos mecanismos de controle social. A forma por excelência que se
buscava garantir um crescimento ordenado gerando disciplinas capazes de
aproximar a cidade da imagem de um imenso aglomerado humano laborioso e
pacificado foi a difusão de saberes chancelados como "ciência¨. Mudaram-se as
concepções e práticas de saúde, modificou-se a noção e a abrangência da
criminalidade e do sistema penal, criaram-se instituições de "correção¨ e de
"assistência¨, enfatizaram-se e redefiniram-se as instituições educacionais, num
amplo processo de disciplinarização. Os diferentes "desvios¨ eram crescentemente
separados e classificados ÷ e para cada um deles desenvolveu-se uma forma
própria de enfrentamento, respaldada nos saberes e na crença na ciência como
fundamento do progresso. (CUNHA,1989.)
As especificidades da situação brasileira são retratadas no Brasil Colônia,
quando, contando ainda com uma economia escravista e pré-capitalista, a
população de inadaptados à determinada ordem social (entre estes os loucos) enche
as cidades e constitui ameaça à paz social. Ìsso ocorre diferentemente da situação
28
europeia, na qual, conforme mencionado anteriormente, a exigência do sequestro
social do louco é ocasionada pela emergência do capitalismo mercantil e do
crescimento industrial e urbano. (SOARES, 2006)
Como afirma Soares (2006) com a assinatura de D. Pedro ÌÌ do decreto de
fundação do primeiro hospital psiquiátrico brasileiro. Em 1852, ocorre a inauguração
do Hospício D. Pedro ÌÌ. (p.9).
Após a Proclamação da República, em 1890, o estabelecimento é
designado Hospital Nacional de Alienados, sendo sua tutela separada da
Administração da Santa Casa e conferida ao Estado.
A promulgação da Lei Federal de Assistência aos Alienados, em 1903,
busca a regulamentação da assistência nos estabelecimentos asilares,
preconizando a entralidade do médico. A medicina enquanto especialidade
encarregada do tratamento de doenças mentais teria seu lugar
pretensamente fortalecido mediante a consolidação de aliança com o
Estado.
O agravamento do quadro de marginalidade com a Proclamação da
República repercute na intensificação do processo de exclusão social,
gerando demanda de recuperação da população excluída, mediante um
corpo de conhecimentos que subsidie tal processo. Observa-se então, a
necessidade de medicalização efetiva do hospício e a propensão de
mudança da medicina anteriormente empírica para científica. Devidamente
instrumentalizada, a medicina deve fornecer resposta curativa e portar papel
de defesa da coletividade, em consonância ao princípio da liberdade
individual, base da organização social da República (SOARES, 2006, p.10).
Segundo Oliveira (2011) o primeiro hospício para doentes mentais no estado
de São Paulo foi fundado em 1852, em uma casa situada à Rua São João, nas
proximidades da atual Praça da República.
No Brasil, o movimento de institucionalização da loucura, se manifesta
contemporâneo à abolição da escravatura em consonância com a criação dos
primeiros asilos com enfoque no tratamento e isolamento das pessoas em não
conformidade com o padrão normativo social. Para este fim, os antigos sanatórios,
se mostraram de extrema importância, pois já eram utilizados como locais de
exclusão, onde pessoas com doenças infectocontagiosas podiam ter algum tipo de
tratamento sem expor a sociedade a nenhum risco. Amparados por propostas
inovadoras de médicos bem-intencionados, os doentes mentais em conjunto com os
29
desajustados começaram a ser enviados para estes locais, onde além de não
oferecerem mais nenhum risco a sociedade, poderiam ser tratados em busca de
uma recuperação e reinserção social do individuo.
Maria Clementina Pereira Cunha, em seu livro O espelho do mundo -
Juquery, a história de um asilo (instituição que, "por coincidência", foi criada
em período próximo ao final da Abolição), mostra que as mulheres internas,
quase todas negras, eram citadas nos laudos como degeneradas em razão
das características raciais: "Os estigmas de degeneração física que
apresenta são os comuns à sua raça: lábios grossos, nariz esborrachado,
seios enormes e pés chatos" (1988, p. 124). Quando eram encontradas
viajando sozinhas essas mulheres recebiam o diagnóstico de
ninfomaníacas. (BENTO, s/d, p.10).
Soares (2006) recorre a Medeiros (1977) revelando as primeiras instituições
asilares no país: em Recife, entre 1874 e 1883, foi construído o Hospício de
Alienados da Tamarineira. Outros estabelecimentos criados em vários municípios
foram: Asilo de Alienados no Pará (1873), Asilo de S. João de Deus na Bahia (1858),
Hospício São Pedro no Rio Grande do Sul, além de asilos criados em províncias
menores com o papel de apoio aos hospícios vizinhos maiores.
Oliveira (2011) aponta que a psiquiatria brasileira no século XÌX baseou-se na
psiquiatria francesa que se orientava pela assistência sem preocupação direta com o
desenvolvimento no campo da pesquisa científica. A descontinuidade desse modelo
ocorreu no inicio do século XX quando as ideias da psiquiatria alemã começaram a
ganhar espaço no pensamento psiquiátrico brasileiro, sobretudo a partir da
nomeação de Juliano Moreira para a direção do Hospital Nacional de Alienados no
Rio de Janeiro em 1903 e da inauguração do Hospício de Juqueri, em São Paulo,
em 1898. Segundo Cristiana Facchinetti: "Com a entrada de Juliano Moreira como
diretor do HNA, em 1903, implantou-se um novo modelo asilar, com suas
formulações acerca da doença mental, critérios de classificação e embasamento
médico e terapêutico advindos da psiquiatria alem㨠(FACCHÌNETTÌ apud
OLÌVEÌRA, 2011, p.1 e 2). Nesse sentido, a alienação deixou de ser percebida
apenas do ponto de vista moral passando a ser compreendida pelo seu viés
orgânico, como decorrente de deficiências, lesões ou disfunções do organismo e do
aparelho psíquico.
30
Se na história a loucura se constituiu enquanto doença mental, na história
mesmo ela pode ganhar novo estatuto (AMARANTE, 1996 apud BÌSNETO,
2011, p.174).
[...]
Se na história ela passou a ser anormalidade, na história ela pode ser
reconstituída à condição de fenômeno inerente às sociedades, e não
apenas marginalidade, estigma. Ter reconhecido singularmente seu estatuto
de singularidade pode permitir uma abordagem de atenção e cuidado ao
sofrimento psíquico, mas respeitando suas características e não um
tratamento de ortopedia social de reajustamento a uma pretensa
normalidade social. (KÌNOSHÌTA, 1996 apud BÌSNETO, 2011, p.174).
OLÌVEÌRA (2011) salienta as influências sofridas pelo Brasil no campo da
saúde mental, em que, na Europa, especialmente, novas pesquisas revelaram
grandes descobertas dentro do campo da medicina mental, como os estudos de
Philippe Pinel na França, que acreditava que "todas as doenças, aceitas como tal,
são apenas sintomas, e que não poderiam existir perturbações das funções vitais
sem lesões de órgãos, ou melhor, de tecidos¨.
Soares (2006) aponta a criação da Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM)
em 1923, com objetivo inicial de aperfeiçoamento da assistência aos doentes
mentais. O direcionamento às propostas preventivas e higiênicas evidencia o
alicerce da liga às teorias eugênicas alemãs que orientam as práticas psiquiátricas
com ampla infiltração no domínio cultural. Com uma propensão de associar
problemas psiquiátricos aos problemas culturais, os psiquiatras da liga justificam a
intervenção médica em todos os níveis da sociedade. (p.10)
Ao absorver a causalidade biológica como um dogma, a LBHM converge em
conformidade com os preconceitos da época. Ainda que o objetivo da
psiquiatria seja justificado pela implementação de uma teoria embasada em
uma matriz científica, a tendenciosidade de suas práticas revela a absorção
ideológica dos ditames das classes políticas dominantes. A psiquiatria alemã
inspira ideologicamente a prática psiquiátrica brasileira, sendo o
saneamento social direcionado à população marginalizada, oriunda do
processo de urbanização. O biologismo eugênico excessivamente voltado
para a constituição do povo brasileiro lança mão do pressuposto biológico
para caucionar dogmas, revelando-se como um fundamento ideológico e
não científico (SOARES, 2006, p.10).
31
Outro pensamento francês que influenciou grande parte dos psiquiatras
brasileiros, inclusive Franco da Rocha, foram os estudos de medicina experimental
de Claude Bernard, além do positivismo de August Comte, da teoria da
degenerescência de Morel e Magnan e também os estudos de Charcot, sobretudo a
respeito das concepções da neurose. Mais tarde os estudos sobre a histeria
realizados por Bleuler e seu discípulo Sigmund Freud também tiveram um espaço
importante dentro do pensamento psiquiátrico brasileiro. (OLÌVEÌRA, 2011)
Além disso, na Alemanha, novos estudos sobre a psiquiatria genética, que
procuravam compreender como a genética e a química do cérebro eram capazes de
tornar uma pessoa doente, começaram a invadir o campo acadêmico daquele país e
fazendo as suas ideias se espalharem por outros países da Europa, pelos Estados
Unidos e o próprio Brasil.
A assistência pública aos doentes mentais também teve no Brasil um caráter
disciplinador. O hospício assumiu um lugar de grande importância na cura do
paciente. Foi construído de forma a possibilitar ao médico e ao psiquiatra o controle
dos doentes e de suas rotinas. (OLÌVEÌRA, 2011).
Dentre os autores alemães destacam-se, principalmente, Kraepelin e
Griesinger que imprimem uma visão sistemática das psicoses. O Brasil ainda
recebeu forte influência do pensamento italiano, de Lombroso especialmente, no
campo da antropologia e da criminologia. Em sua passagem pelo Rio de Janeiro e
Franco da Rocha.
A importação de modelos hospitalocêntricos à realidade brasileira na
compreensão e consequente institucionalização da loucura se expressou por meio
de muita violência, embora muito significativo o avanço dos estudos psiquiátricos,
não caminhando no mesmo compasso o tratamento mental, negativou assim, o
primeiro século, da prática no Brasil.
32
CAP*TULO II
3,+ 9":"eri 7SP8
A palavra Juqueri é advinda do Tupi Yu-Kery uma planta (Dorme Maria) que
se encontrava em abundância na mesma região onde atualmente se localizam os
municípios de Mairiporã, Franco da Rocha e Francisco Morato, SP. Como na
tradição Tupi, as palavras iniciadas em "y¨ rementem à água, rio, nome também fora
dado ao rio que corta a cidade de Franco da Rocha. Sendo assim, Juqueri com "i¨
referencia ao Hospital Psiquiátrico e Juquery com "y¨ referenciando as terras da
região que composto por dois Biomas: Mata Atlântica e Cerrado.
O local recebe esse nome devido a grande ocorrência de uma planta que os
índios encontravam as margens dos rios da região, a qual chamavam de yu-
kery, dessa planta os índios extraiam sal que servia como condimento para
temperar os alimentos. Também conhecida como Dorme Maria, a yu-kery ao
ser tocada fecha suas folhas abrindo-as novamente após algum tempo.
(SÃO PAULO, s/d).
Como afirma Rosa (2010) fundado em fins do século XÌX, junto à estação de
trem da antiga São Paulo Railway, o Hospital do Juquery, situa-se na porção norte
da Região Metropolitana de São Paulo, numa fazenda pública, constituída
unicamente para fins manicomiais. Pioneiro no Brasil, dada sua constituição físico-
institucional de grande proporção, foi edificado com base nos primeiros higienistas,
sob a ótica moral, social e cultural. (ROSA, 2010).
O hospício do Juqueri foi inaugurado no ano de 1898. Por incumbência do
governo do Estado de São Paulo, Franco da Rocha traçou o plano de
assistência aos alienados. Durante as três primeiras décadas de
funcionamento do hospital, as práticas terapêuticas estiveram mais voltadas
para a assistência ao doente mental, é certo que novos métodos de
abordagem e investigação sobre a doença mental ganharam espaço, mas o
discurso médico psiquiátrico ainda estava voltado para o modelo
assistencial, aos moldes da psiquiatria francesa, pineliana, sobretudo. Os
discursos e práticas psiquiátricas nas primeiras décadas de funcionamento
33
do Hospital de Juqueri basearam-se, pois, nas formações teóricas e
acadêmicas de seu fundador Franco da Rocha (OLÌVEÌRA, 2011, p. 2).
Francisco Franco da Rocha partindo da proposta alienista de tratamento aos
doentes, através da laborterapia encontra nas terras da região oeste de São Paulo,
um espaço adequado para implantar a proposta de colônias, onde o paciente teria
contato com a terra e estaria livre para poder se desenvolver em um tratamento que
se aproximava da vida cotidiana.
Em 14 de maio de 1852, o Hospício Provisório de Alienados foi instalado na
capital, numa casa alugada pela província, na Rua São João, e teria, a
princípio, apenas nove internos. Funcionou ali até 1864, quando foi
transferido para uma chácara na Ladeira da Tabatingüera, de propriedade
provincial (MOREÌRA, 1905 apud ODA; DALGALARRONDO, 2005, p.987).
Esse local permaneceu funcionando até 1903; o Hospital-Colônia de Juquery
seria inaugurado, ainda parcialmente concluído, em 1898, mas só em 1903
terminaria a transferência dos internos para o novo Hospício, cerrando-se então
definitivamente as portas da casa da Tabatingüera (Franco da Rocha, 1912). Os
relatórios se referem, portanto, ao Hospício de Alienados em seus dois primeiros
edifícios, antes do Juquery. (ODA; DALGALARRONDO, 2005).
Ferrovia e Hospício foram decisivos no processo de urbanização do município
de Franco da Rocha de forma bastante diferenciada na metrópole paulistana, que
acumulou em seu histórico a formação de núcleos urbanos ao redor de suas
paradas de trem vinculada à fixação de indústrias de várias ordens, originárias a
partir da ascensão da produção cafeeira no território paulista. (ROSA, 2010)
O Asilo de Alienados do Juqueri ÷ por ter sido o primeiro no Estado de São
Paulo e, no seu período áureo, o maior complexo hospitalar do Brasil ÷ foi um marco
fundamental no modelo que tinha o manicômio como principal instrumento
terapêutico. (LANCMAN, 1995).
O Doutor Franco da Rocha assim, como outros estudiosos de seu tempo,
acreditava na possibilidade de tratamento de forma terapêutica e para isso defendia
a implantação do modelo de hospício recomendado pelo Congresso Ìnternacional de
Alienistas, que incluía um asilo central com colônias agrícolas anexas, localizado em
área rural de relativo fácil acesso. Até aquele momento, o que existia apenas era um
34
casarão onde ficavam apenas os casos mais perigosos, e por ser administrado por
um leigo, mais se assemelhava a uma prisão do que um local de cuidados médicos.
Franco da Rocha acreditava na possibilidade da recuperação dos internos através
da laborterapia e direcionou seus esforços na divisão das colônias de forma que
pudesse estimular a reabilitação pelo trabalho agropecuário e pelo isolamento rural.
(PEREÌRA, 2003).
No entanto, o trabalho como terapia sinaliza uma expressão social de como
se concebe o pensamento da prática do trabalho, na época. Visto a forte influência
europeia sobre a institucionalização da loucura, esta concepção do internamento e a
prática do trabalho em sua gênese tem outra conotação:
Ainda durante muito tempo a casa de correção ou os locais do Hospital
Geral servirão para a colocação dos desempregados, dos sem trabalho e
vagabundos. Toda vez que se produz uma crise e que o número de pobre
sobe verticalmente, as casas de internamento retomam, pelo menos por
algum tempo, sua original significação econômica. (FOUCAULT, 2005,
p.67).
A interiorização da prática do internamento se abrasileirou e nos moldes da
simpatia brasileira tomou as formas que conhecemos: o trabalho enquanto prática
de terapia, de fato ilumina um pensamento econômico. O Juqueri foi autossuficiente
por aproximadamente quinze anos, cultivando diversas agriculturas e pecuárias e
ainda representou um dos maiores hospitais de tratamento de saúde mental do
Brasil.
Produto de ação cultural e documento memorável da psiquiatria brasileira
com abrangência internacional, esse hospício foi além das suas práticas
hospitalares, cabendo enfatizar que durante muito tempo, compartilhou com
a cidade suas multíplices atividades (econômicas, sociais e de lazer), que
se beneficiou de sua infraestrutura e da magnitude de sua paisagem natural
e paisagem construída (ROSA, 2010, p.13)
Oliveira (2011) avalia que o hospício pode parecer uma instituição como
qualquer outra, mas a sua estrutura não é traçada despretensiosa, muito ao
contrário, possui características particulares que fazem dele um lugar diferente de
um hospital convencional, uma escola ou um presídio, por exemplo. É um lugar
35
projetado para funcionar de forma ordenada, em que as hierarquias de poder são
claramente definidas e os comportamentos são passíveis de controle.
É certo que o hospício do Juqueri não apresenta uma arquitetura circular
com uma torre no centro, mas apresenta muitas semelhanças ao panóptico,
descrito por Michel Foucault em seu livro Vigiar e Punir (1977). No
panóptico, modelo de prisão existente na Europa no século XÌX, existia um
prédio circular com uma torre ao centro onde se localizava um guarda.
Visando o controle total dos detentos, essa arquitetura foi projetada de
forma a possibilitar a pessoa localizada na torre, de visualizar todas as celas
enquanto os internos não conseguiam ver uns aos outros. Dessa maneira,
eles tinham a sensação de estar o tempo todo sob a mira de olhares atentos
que advinham da torre de controle. A eficiência do controle nesta estrutura
disciplinar, no entanto, não consistia exatamente no olhar que vinha da
torre, mas do condicionamento que este modelo provocava nos indivíduos.
Em outras palavras a eficiência estava no autocontrole dos indivíduos, pois
uma vez condicionados a não apresentarem comportamentos inadequados
e passíveis de punição, chega um momento em que não precisa nem mais
colocar um guarda na torre, a sensação de estar sendo vigiado o tempo
todo faz o indivíduo a abolir seus comportamentos ilegais e fora da norma
(OLÌVEÌRA, 2011, p. 8 e 9).
Ainda acrescenta Oliveira (2011): o hospício neste sentido, assim como a
prisão, visa a colocar os indivíduos no plano da norma. Para tanto, promove o
isolamento, divide os internos por sexo, distribui o tempo e exerce a vigilância
constante. A divisão sexual visa a resguardar a intimidade e, principalmente,
promover um controle do sexo e da sexualidade. A distribuição do tempo tem o
intuito de evitar o ócio, que é totalmente condenado no interior do asilo, e dar
ocupação aos internos orientando-se pelo ditado popular ¨cabeça vazia, oficina do
diabo¨, onde vigilância, por sua vez, procura manter o bom funcionamento do
hospício e os comportamentos dos indivíduos sob intenso controle.
Cunha (1989) quanto aos diagnósticos mentais e a divisão étnica-sexual:
mesmo entre os setores sociais considerados mais "primitivos¨, brutos inferiores na
escala social e na escala da "civilização¨, as mulheres revelam-se menos aptas que
os homens a enfrentar as "contingências da vida¨ ÷ e portanto enlouquecem mais
quando submetidas ao tipo de atividades reservada "naturalmente¨ aos homens. No
caso das mulheres negras, sua inferioridade entre os inferiores revela-se como algo
36
inscrito em sua própria condição biológica, na natureza feminina que ela, em alguma
medida, compartilha com as mulheres brancas, já que aquelas não enlouquecem
mais que os homens apenas por se manterem "protegidas¨ no interior do lar e da
família (CUNHA,1989, p.126 e 127) .
Nas origens do saber psiquiátrico marcadas pelo "otimismo terapêutico¨ de
Pinel e Tuke, uma única exceção era admitida sem rebuços: a incurabilidade
de mulheres imorais ou onanistas. Algumas práticas médicas do período
ilustram bem a relação direta e imediata que se estabelecia entre o corpo
feminino e a loucura; a injeção de água gelada no ânus, a introdução de
gelo na vagina, a extirpação do clitóris ou dos órgãos sexuais internos
aparecem nos relatos das técnicas de cura do alienismo europeu do século
passado, indicando a importância estratégica do controle da sexualidade
feminina. (CUNHA, 1989, p. 130).
Cunha apresenta um trabalho focado na institucionalização da mulher,
apresenta falas da direção do Hospício do Juqueri e as diferenças existentes entre
mulheres de classes sociais, raças e a brutal diferença dos papéis sociais de
homens e mulheres, refletindo um pensamento do período, as expectativas da
sociedade em relação ao gênero feminino e todos os desdobramentos do
enfrentamento a um padrão normativo e determinista impostos pela sociedade, com
um viés das práticas manicomiais, basicamente pautadas pelas relações sociais,
morais e culturais.
Não se pode esquecer que as figurações relativas a essa mulher idealizada
segundo os padrões da medicina alienista e da ordem social são imagens
datadas e dirigidas a um público particular. Datadas porque fazem parte de
um esforço de redefinição da família no interior do processo de
aburguesamento das sociedades de que se ocupou sobretudo o século XÌX,
com sua multiplicação de saberes e especializações. Este esforço de
redefinição da família enquanto unidade básica das sociedades modernas
esteve ligado, como é sabido, à necessidade de garantia da propriedade
através do controle da bastardia e, portanto, da transmissão de bens, tanto
quanto da imposição de normas capazes de sedimentar uma ética
capitalista do trabalho e da disciplina. A construção da figura feminina
"sadia¨ ou higiênica, integrada e realizada através do casamento, constituiu
um dos mecanismos básicos de redefinição da família enquanto estratégia
37
básica de construção da ordem burguesa, peça-chave para a manutenção
da estabilidade social (CUNHA, 1989,p.132).
A partir da contratação do médico especializado em Neurologia, Antonio
Carlos Pacheco e Silva, o hospício assume um novo posicionamento, voltado ao
tratamento da loucura como forma de disfunção de origem orgânica. Nesta nova
linha de pensamento, bastaria estudar a origem orgânica de cada doença mental
para que pudessem formular cura para elas (TARELOW, 2010).
Neste momento da história da psiquiatria do Brasil, o ser humano como ser
social e único é esquecido, e toda e qualquer violência em nome da ciência tornou-
se algo aceitável. Ìnfluenciados pelo positivismo, acabaram por deixar de lado não
só as questões religiosas na percepção dos doentes, mas também a questão
humana, preocupando-se apenas com os avanços científicos que poderiam se obter.
Nesta época surgiram inúmeras formas de tratamento, que agrediam o corpo
físico do doente, em diversos graus, como o eletrochoque, os tratamentos por jatos
d'água e enfim a lobotomia frontal.
Por mais que buscassem descobrir formas de tratamento mais eficazes para
o que consideravam como doença mental, pouco se discutia sobre o retorno destes
doentes para o convívio social.
Assim, centrado na intenção de reinaugurar, sob a chancela da medicina, as
"práticas asilares tradicionais ÷ existentes no caso de São Paulo desde
1852 sob a forma de uma "casa de loucos¨ não-medicalizada -, a introdução
da medicina mental veio legitimar, pela via da cientificidade, antigas práticas
de exclusão social que adquirem agora um status condizente com uma
concepção liberal de liberdade: as antigas práticas de sequestro e reclusão
compulsória no antigo hospício ou nas cadeias públicas por decisão da
autoridade policial passam a ser entendidas como um gesto "terapêutico¨,
medidas não mais geradas do arbítrio ou destinadas simplesmente à
"defesa¨ da sociedade, mas como atos praticados em favor de sua vítima.
(CUNHA, 1987, p.82).
Desde a sua criação, os manicômios e sanatórios sempre tiverem o objetivo
de exclusão, e para os doentes mentais isto não se configurava de forma diferente.
Dr. Franco da Rocha buscava tratar os alienados pela terapia do trabalho, as
colônias em seu íntimo não abandonavam seu caráter de isolamento social,
38
garantindo uma recuperação sem prejuízos a sociedade. Sozinho, ou apenas na
companhia de outros doentes, como poderia alguém recuperar-se?
E quando os tratamentos assumem proporções que beiram a barbárie, torna-
se quase impossível prever uma recuperação de pessoas que na maior parte dos
casos nem mesmo tinham um diagnostico de doença mental. Aqueles que não
tinham nenhum tipo de transtorno acabavam por adquirir, devido às péssimas
condições ao qual eram submetidos. Em inúmeros casos, os doentes como forma de
defesa, tornavam-se agressivos e praticavam violência contra os outros e contra si
mesmos.
Para ser considerado completamente curado, o paciente deveria ser capaz
de voltar a viver em sociedade, com a família, ou retornar para sua atividade
profissional, o que era praticamente impossível depois de ter parte do
cérebro destruída. O conceito de cura ou melhora nunca fora devidamente
esclarecido, tanto que as observações pós-operatórias eram restritas e
feitas durante pouco tempo, o suficiente para se criar um relato de pesquisa.
Como aponta Sacks (2000, p. 78): O que se havia alcançado nunca foi a
cura é claro, mas um estado dócil, um estado de passividade, tão (ou mais)
distante da saúde quanto os sintomas ativos originais, e (ao contrário deles)
sem possibilidade de ser resolvido ou revertido (MASÌERO, 2003, p.568).
No olhar de Cunha (1989), o Juquery significou a criação tanto de um
"asilamento científico¨ quanto de um campo de especificidade do saber médico, ao
mesmo tempo capaz de ampliar a escala do internamento e a noção de loucura,
incluindo nela categorias invisíveis aos leigos, mas respaldas em noções de
normalidade condizentes com os papéis sociais adequados aos padrões de
disciplina que se pretendia impor e difundir à população urbana.
Assim como afirma Rosa (2010), as relações cidade-hospício, até os anos
1970, evoluíram sem entraves morais, tornando o Juquery a extensão da própria
casa, constam nos relatos de seus moradores mais antigos. Em face da pluralidade
dos seus ambientes que, ao abrigar pessoas por determinado tempo, tornaram-se
locais dinâmicos e permitiram suas várias formas de expressão. Assim,
desenvolveram linguagens próprias que encontram sentido naquele lugar, e
manifestações literárias e artísticas, como obras de artes de vários gêneros,
crônicas, letras de músicas, peças teatrais, entre outros.
39
O Juqueri, sem dúvidas, foi uma das grandes instituições que resignificou a
loucura em inúmeros momentos no Brasil, representou uma multiplicidade de
sentidos dado cada período histórico e o ideal de cada gestão, seja como depósito
de pessoas; seja com a interação com a cidade e a relação do louco com
funcionários e munícipes; seja como referência da laborterapia o que viria a se
tornar as primeiras práticas de terapia ocupacional de referência artística dos
trabalhos de Osório César que será apresentado no próximo capítulo.
3,3 C&l;%ia 7MG8
Alguns fragmentos da história do município de Barbacena:
[...] é um município do Estado de Minas Gerais, localizado na mesorregião
do Campo das Vertentes. Possui área geográfica de 788.001km2, localizado
a 1.164 metros de altitude (clima tropical de altitude)3 e com população
atual de 124.601 habitantes.
Nacionalmente, é conhecida como a "Cidade das Rosas¨, devido à grande
produção de primeira qualidade desta flor e também como "Cidade dos
Loucos¨ pelo número volumoso de hospitais psiquiátricos (cujas
determinações possíveis serão abordadas nos itens seguintes).
Barbacena nasceu na cabeceira do Rio das Mortes, inicialmente integrava a
área de aldeamento dos índios Puris da grande família dos Tupis, quando
os primeiros povoadores se estabeleceram no local chamado Borda do
Campo, também denominado Campolide, onde erigiram a capela de Nossa
Senhora da Piedade.
[...]
Barbacena foi elevada à cidade por Lei Provincial nº 163, em 9 de março de
1840.
[...]
Atendendo à política do Ìmpério, no final do século XÌX, Barbacena foi
beneficiada com um grande número de imigrantes italianos, o que repercutiu
para o crescimento e a diversificação das atividades comerciais e agrícolas
e para o desenvolvimento de indústrias como sericultura, cerâmica,
marcenaria, construção civil e outras.
Em 1930, outro fato político importante é referenciado por pesquisadores.
Sua posição estratégica, às margens da estrada que levava à Capital (Rio
de Janeiro), possibilitou que a cidade servisse de sede para o Quartel-
General da Quarta Região Militar Revolucionária. Os revolucionários
40
sediados em Barbacena avançaram sobre Juiz de Fora e, rendendo tropas
legalistas ali localizadas, tornaram o acesso livre dos mineiros à capital da
República, o que foi fator decisivo para a deposição de Washington Luís e a
vitória da Revolução (SOARES, 2006,p.76 e 77).
SOARES (2006) recorre a MASSENA (1985): em 1888, foi fundado, sob
direção de João Augusto Rodrigues Caldas e Joaquim Gonçalves Ramos, o
Sanatório de Barbacena, posteriormente destinado à Assistência de Alienados de
Minas Gerais. Este estabelecimento foi considerado, durante muito tempo, como o
mais afamado no seu gênero em todo o país, "tendo hospedado inúmeras
personagens de relevo na vida nacional que vieram beneficiar-se do maravilhoso
clima de Barbacena¨ (p. 82).
Massena (1985) reafirma que as excepcionais condições de salubridade
deveram a Barbacena a localização da Assistência a Alienados do Estado
de Minas Gerais e acrescenta que, excetuando algumas capitais do país e
dos Estados, nenhuma cidade brasileira apresentou o desenvolvimento
nosocomial deste município, que totalizou 17 estabelecimentos de
assistência hospitalar.(SOARES, 2006, p. 82)
Especificamente abordando o Hospital-Colônia de Barbacena, Massena
(1985) afirma que o mesmo foi criado por ocasião da Lei de 16 de agosto de 1900,
no Governo de Francisco Sales. Apenas em outubro de 1903, foi instalado. O Dr.
Joaquim Antonio Dutra foi nomeado e exerceu o cargo até 1935. Sucederam à
direção Dr. José Jorge Teixeira (1935 a 1937) e Dr. José Cezarini (a partir de 1937).
Antes designada "Assistência a Alienados¨, a denominação foi modificada para
"Hospital Central de Alienados¨ (1927) e, posteriormente, para "Hospital Colônia de
Barbacena¨ (1934). (SOARES, 2006, p.82)
O Hospital Colônia em Barbacena, fundado em 1903, onde antes havia um
sanatório para tratamento de tuberculose, teve como primeiro diretor o político e
médico mineiro Joaquim Antonio Dutra, contemporâneo de Franco da Rocha.
Aliando seus conhecimentos de clínica médica ao seu pensamento apego
aos livros e ainda à vocação humanística, pouco a pouco, foi abraçando a
psiquiatria, fazendo dela sua real especialização e tornando-se um distinto
especialista. Contemporâneo dos famosos psiquiatras Juliano Moreira e
41
Franco da Rocha, mantinha com eles lúcida e científica troca de
informações. (MORETZSOHN apud RODRÌGUES; CANTONÌ, 2010, p.11).
a abastada existência de hospitais, sanatórios e casas de saúde na cidade
seria atribuída, segundo estudiosos locais, à benignidade do clima, ameno e
agradável. É fundamental ressaltar que, para além das propriedades
climáticas, os fatores determinantes pela ampliação acelerada da população
interna do Hospital de Alienados em Barbacena pareciam estar em
consonância com o processo de transformações sociopolíticoeconômicas
deste período.
[...]
A referência econômica mais definida da cidade de Barbacena concretizou-
se, então, a partir do crescimento da indústria da saúde em um período em
que os municípios precisavam afinar-se com a nova perspectiva de
desenvolvimento inspirada pela lógica republicana. Tal panorama
concomitantemente tornava urgente a criação de dispositivos institucionais
direcionados à reclusão de classes avessas à necessária normatização
social.
[...]
Os problemas econômicos com a mão-de-obra para o café, após abolição
da escravidão, o crescimento da produção e todo o processo excludente
que a mão-de-obra livre representava geravam um grande contingente de
excluídos, nos primeiros anos de República no estado, que vieram a se
ampliar com o crescimento das cidades. (SOARES, 2006, p. 93)
Em seus primeiros anos de funcionamento, o Hospital Colônia de Barbacena,
MG, manteve um atendimento humanitário, ainda que dispusesse de métodos pouco
eficientes em termos de tratamento. Mas graças à fama que adquiriu, tornou-se
referência e transformou-se no ponto de convergência para todo tipo de doente que
a sociedade quisesse isolar, inclusive os marginalizados.
Desde o início do século XX, a falta de critério médico para as internações
era rotina no lugar onde se padronizava tudo, inclusive os diagnósticos.
Maria de Jesus, brasileira de apenas vinte e três anos, teve o Colônia como
destino, em 1911, porque apresentava tristeza como sintoma. Assim como
ela, a estimativa é que 70% dos atendidos não sofressem de doença
mental. Apenas eram diferentes ou ameaçavam a ordem pública. Por isso, o
Colônia tornou÷se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos,
mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem
documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados
42
insanos. A teoria eugenista, que sustentava a ideia de limpeza social,
fortalecia o hospital e justificava seus abusos. Livrar a sociedade da escória,
desfazendo-se dela, de preferência em local que a vista não pudesse
alcançar. (ARBEX, 2013, p.25).
Como afirma Soares (2006) entre os aspectos relevantes da história da
institucionalização, é enfatizada a inauguração do hospital-colônia, cujo crescimento
culminou em uma situação de superlotação, tornando Barbacena conhecida em todo
o Brasil como a "Cidade dos Loucos¨, pólo de internações psiquiátricas durante
longo período. A precariedade da assistência gerou um quadro final de
aproximadamente 60 mil mortes. A maioria delas por problemas como diarreia, sífilis
ou fome, além dos abandonos sem precedentes, o que levou Franco Basaglia, em
visita ao Brasil, a comparar a cidade a um "campo de concentração nazista¨. (p.11)
Um modelo assistencial fundado em instituições totais predominantes e
hegemônicas dominadas pela privatização da assistência reproduziu o
quadro conhecido, em experiências espalhadas pelo país, como "indústria
da loucura¨. O levantamento da história psiquiátrica do município situa o
desafio das propostas locais de reverter a grave situação de implantação de
hospícios que acompanhou o crescimento da cidade. (SOARES, 2006, p.12)
As propostas de divisão dos internos em pavilhões, como afirma Duarte
(2009), nos modelos de assistência psiquiátrica (sistemas open door, a colônia
agrícola) e os recursos terapêuticos (praxiterapia, assistência hetero-familiar), e
também o atendimento e tratamento realizado em ambulatório de profilaxia mental
ficaram expressos em diversos Regulamentos expedidos pelo governo de Minas nos
anos de 1922, 1927, 1934 e 1946. Eles denotaram o movimento de alargamento do
campo psiquiátrico que não se restringia somente ao espaço asilar, mas se
estenderia a uma biopolítica, como sugeriu Foucault (1998). Ìsto é, tratava-se de
disciplinas que objetivam o corpo do indivíduo no sentido de buscar à sua
normalização e adestramento por meio de diversas instituições sociais: a família, a
escola, os conventos, os quartéis, a fábrica, o hospital, a prisão etc.. Nesse sentido o
poder disciplinar imposto por estas instituições que controlava gestos, atitudes,
comportamentos dos indivíduos contribuiriam para a "docilização¨ dos corpos
tornando-os úteis ao processo produtivo.
43
A divisão de doentes no interior do espaço asilar deveria se basear na
possibilidade para o trabalho do interno. Eram separados os inválidos ou
incuráveis dos crônicos, ou seja, distinguia-se aqueles indivíduos que, por
uma sequela física, psíquica ou neurológica, não tinham capacidade para a
atividade laboral; daqueles que poderiam ser recuperados como força
produtiva e ressocializados, voltando ao convívio social. Dessa forma, o
trabalho não consistia somente um recurso terapêutico, mas um fator
fundamental para diferenciar o indivíduo normal, socializado e produtivo
daquele que é anormal ou degenerado, portanto, improdutivo. (DUARTE,
2009, p.40)
[...]
A divisão basear-se-ia em sexos, cabendo aos homens entregarem-se às
atividades agropecuárias e de hortifrutigranjeiros ou então às oficinas de
carpintaria, marcenaria, serralheria e colchoaria. Às mulheres caberia o
exercício de tarefas ligadas aos trabalhos domésticos, como lavanderia
cozinha, trabalhos manuais e pequenas atividades industriais. (DUARTE,
2009, p.43)
Dos métodos de tratamento salientam-se a malarioterapia, choque insulínicos
e choques de cardiozol:
O tratamento da esquizofrenia pelo choque insulínico havia sido idealizado
por Manfred Sakel na Viena de 1933. O método Sakel consiste na aplicação
de insulina por via intravenosa e intramuscular para com isso induzir o coma
no paciente durante cerca de 30 a 40 horas. Para que insulinoterapia
exercesse uma função eficaz, o doente deveria ser submetido de 20 a 30
comas. O uso da insulinoterapia era bastante polemizado na década de
1940, quando discutia-se se deveria ser substituído por outras formas de
choques. Segundo o entrevistado Tollendal (2004), tratava-se de um recurso
terapêutico "barato, com alguns resultados, mas agressivo¨
[...]
A terapia de cardiozol consistia na aplicação da droga de cânfora (o
cardiozol ou metrazol) por via venosa. Esse tratamento era violento porque
produzia várias convulsões que não podiam ser neutralizadas por outras
drogas, ocasionando "fraturas nos pacientes. [Depois] apareceu o choque
elétrico, era muito mais barato e menos perigoso. Aplicava-se em 50, 100
pacientes de uma só vez¨, esclarece o Dr. José Theobaldo Tollendal (2004).
(DUARTE,2009, p.56)
[...]
44
O eletrochoque era um dos recursos terapêuticos biológicos mais utilizados.
Consistia em uma "evolução do primitivo óleo canforado¨. (MAGRO FÌLHO,
1992 apud DUARTE, 2009, p.57).
[...]
Em razão da descarga elétrica, o eletrochoque era empregado sem nenhum
tipo de prevenção ou anestesia e, por ser praticado muitas das vezes como
forma de punição, causava uma série de danos físicos aos pacientes, tais
como luxações fraturas nas vértebras e, no caso das mulheres com
osteoporose, fraturas nos ossos da bacia ilíaca e membros superiores e/ou
inferiores. (DUARTE, 2009, p. 57)
Vale relembrar que os métodos cirúrgicos eram empregados e bastante
questionados, como afirma Duarte (2009) apesar da baixa incidência de mortes
provocadas por essa prática, ela gerou protestos contra o seu emprego, pois o seu
efeito, em vez de deixar os pacientes mais calmos, reduzia-os a uma espécie de
zumbi. Essa prática foi considerada, mais tarde, como sendo um progresso científico
para a neurocirurgia.
Esta metodologia somada ao olhar direcionado ao doente mental e para que
de fato o caracterizava doente mental, ou mesmo a qualquer desvio de moralidade,
e todos os princípios morais vigentes à época, afirma ARBEX (2013): Colônia foi o
que fez mais vítimas no país, cerca de 60 mil brasileiros entre 1930 e 1980, a
tragédia que ele produziu está longe de ser superada. Em seu trabalho, a jornalista
Daniela Arbex retrata por meio de relatos o que foi parte da vida dentro do Hospital
Colônia e revela ao país uma história oculta aos brasileiros, o nosso próprio
holocausto, a autora compara as práticas do Hospital mineiro aos campos de
concentração da Alemanha Nazista, apresenta a face mais cruel da
institucionalização da loucura que vai pra além da estigmatização do sujeito, mas,
tira inclusive a característica de sujeito. Das problemáticas da superlotação, às
práticas de vendas de corpos para universidades, o Hospital Colônia revela boa
parte do que está escondido nos submundos das instituições psiquiátricas em nosso
país.
[...] Além daqueles trinta cadáveres, outros 1.823 corpos foram vendidos
pelo Colônia para dezessete faculdades de medicina do país entre 1969 e
1980. Como a subnutrição, as péssimas condições de higiene e de
atendimento provocaram mortes em massa no hospital, onde registros da
45
própria entidade apontam dezesseis falecimentos por dia, em média, no
período de maior lotação. A partir de 1960, a disponibilidade de cadáveres
acabou alimentando uma macabra indústria de venda de corpos.
Só a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) adquiriu 543 corpos em
uma década. Já a UFJF foi responsável pela compra de 67 cadáveres entre
fevereiro de 1970 e maio de 1972. Documentos do hospital mostram que, na
remessa feita em março de 1970, testemunhada por Ìvanzir, havia pessoas
procedentes de Belo Horizonte, Ìtambi, Sobrália e Ìtapecerica. Todos eles,
municípios mineiros. Na entrega de 1971, os mortos eram de pelo menos
quinze cidades do Estado, como Belo Horizonte, Governador Valadares,
Brasília de Minas, Leopoldina, Palmital, Raul Soares, entre outros. Nenhum
dos familiares dessas vítimas autorizou a comercialização dos corpos.
Os corpos dos transformados em indigentes foram negociados por cerca de
cinquenta cruzeiros cada um. O valor atualizado, corrigido pelo Índice Geral
de Preços (ÌGP- DÌ) da Fundação Getúlio Vargas, é equivalente a R$ 200
por peça. Entre 4 e 19 de novembro de 1970, foram enviados para a
Faculdade de Medicina de Valença quarenta e cinco cadáveres negociados
por 2.250 cruzeiros o lote. Corrigido pelo ÌGP-DÌ, o lote saiu a R$ 8.338,59.
Em uma década, a venda de cadáveres atingiu quase R$ 600 mil, fora o
valor faturado com o comércio de ossos e órgãos. (ARBEX. 2013, p.62).
Barbacena serviu de palco para um espetáculo de crime real, com seres
humanos submetidos aos maus tratos e total negligência do Estado e sociedade e
berço para o que mais tarde se desencadearia na Luta Antimanicomial em nosso
país.
3,5 A lab&-era<ia e a i$1& !e Fra%'& !a R&'(a
Laborterapia em definição s' (labor?terapia" !ed Tratamento de enfermidades
nervosas e mentais pelo trabalho; terapêutica ocupacional. (MÌCHAELÌS,1998,
p.1216)
A laborterapia labor ou trabalho enquanto categoria e importante etapa dos
primeiros métodos de terapia, nas pioneiras instituições manicomiais do país, se
expressa como extensão de, sobretudo, um ideal que permeia o universo social e é
apropriada pelas recentes maneiras de cura da loucura.
46
[...] O trabalho é um processo entre o homem e a natureza, um processo em
que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu
metabolismo com a natureza. [...] Não se trata aqui das primeiras formas
instintivas, animais, de trabalho. [...] Pressupomos o trabalho numa forma
em que pertence exclusivamente ao homem. Uma aranha executa
operações semelhantes às do tecelão e a abelha envergonha mais que um
arquiteto humano com a construção dos favos de suas colmeias. Mas o que
distingue, de antemão o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu
o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de
trabalho obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imagem do
trabalhador, e, portanto idealmente. Ele não existe apenas efetua uma
transformação da forma da matéria natural, o seu objetivo. [...] Os
elementos simples do processo de trabalho são a atividade orientada a um
fim ou o trabalho mesmo, se objeto e seus meios. [...] O processo de
trabalho [...] é a atividade orientada a um fim de produzir valores de uso,
apropriação do natural para satisfazer a necessidades humanas, condição
universal do metabolismo entre o homem e a natureza, condição natural
eterna da vida humana e, portanto, [...] comum a todas suas formas sociais
(Marx, 1983 apud NETTO; BRAZ 2010, p.31 e 32).
Conforme Lukács (1979) há em Marx uma antologia do "ser social¨, isto é,
uma busca por determinações reais que peculiarizam o ser humano em sociedade.
Para ele, após determinar o que caracteriza ontologicamente o ser "inorgânico¨ (sua
constante transformação) e o ser "orgânico¨ (sua capacidade de reprodução ou
reposição), o "ser social¨ se constitui a partir de um salto antológico dado pela
produ1ão do novo. [...] Ou seja, diferentemente da natureza, para sua reprodução, o
ser social passou a desenvolver uma atividade orientada por finalidades
racionalmente (e não naturalmente) estabelecidas. Essa atividade criadora
teleologicamente orientada (quer dizer, pré-idealizada na consciência) é o que
Lukács chama de trabalho (MONTAÑO; DURÌGUETO, 2011, p.79).
O trabalho associado à terapia, laborterapia, se desdobrou no que atualmente
são as terapias ocupacionais. Porém, o trabalho desempenhado basicamente na
lavoura pelos pacientes do Juqueri, acontecia de acordo com a descrição de seu
quadro clínico e por seu posicionamento socioeconômico.
Outro fator determinante na definição da conformação do espaço físico do
hospício nesta época foi a implantação de grande áreas de cultivo para a
47
laborterapia ligada ao trabalho na terra, afinal o conceito do "bom selvagem¨
de Rousseau permeou a visão alienista do final do século XÌX e início do
século XX e influenciou em grande parte a adoção dos trabalhos na
agricultura que foram inseridos tanto aqui no Juquery quanto em Sainte
Anne em Paris. (PÌZZOLATO, 2008).
Reforça Pizzolato (2008): as colônias construídas em torno do Asilo Central,
mesmo a 1ª Colônia Masculina (atual Azevedo Soares) construída antes da área
central, tinham a concepção de regime de semi-open-door, onde os pacientes
tranquilos, através da laborterapia ligada ao campo teriam uma maior sensação de
liberdade e convivência social. A concepção de trabalhar e evitar a ociosidade
dessas colônias tinha o caráter moralista, pois parte da ciência psiquiátrica da época
se calcava no estudo da moral e das raças.
O Dr. Franco da Rocha irá por muitas vezes receber críticas em relação a
esse sistema, pois muitos médicos e políticos da época acreditavam que a
laborterapia nada mais era do que um modo perverso de usufruto de
trabalho alienado. Em 1899 surge as primeiras críticas ao trabalho oferecido
no Juquery por Franco da Rocha, através de reportagem no jornal O Estado
de São Paulo em janeiro daquele mesmo ano, onde em reportagem surge o
comentário de que os pacientes ali internados em vez de receberem uma
vida calma e tranquila, resposta apresentado vários dados e declarações de
médicos envolvidos no tratamento psiquiátrico.
Conforme o psiquiatra inglês Hac Tuke: "o trabalho de agricultura, utlissimo
recursos para os nossos asylos, departamentaes, modo de occupação,
universalmente reconhecido, póde, admittamos, ser levado ao exaggero,
mas o mal que se resulta do excesso de trabalho é mínimo comparado com
o mal muito maior de uma vida ociosa¨ (ROCHA, Franco da. Hospício de
São Paulo. Estatística. Apontamentos, p.15)
Continuando com a explicação sobre a questão, o Dr. Franco da Rocha
indica que o trabalho dos alienados deve ser adaptado conforme as
capacidades mentais apresentadas. Desde o trabalho no jardim, passando
pela cozinha, lavanderia, costura etc. Resumindo ele expõe:
"Em resumo, o trabalho physico no tratamento das moléstias nervosas e
mentais é útil: 1ºsob o ponto de vista physiologico, como todo o moviment;2º
sob o ponto de vista hygienico, como meio de desenvolvimento; 3º como
meio moralisador; 4º como meio pedagógico e 5º como meio de equilibrar
as funcções do cérebro¨. E continua: "Qual o melhor trabalho physico para
os loucos? Preferimos o trabalho ao ar livre, como a jardinagem e os
48
trabalhos de agricultura. Se os preferimos é porque são executados em
plena liberdade, em plena natureza, ao ar puro. Os trabalhados de cozinha,
lavanderia, etc., vem em segundo lugar, e em último os trabalhos de
officinas; estes são menos uteis, porque collocam os doentes em condições
muito menos favoraveis (V. Kovalevsky ÷ Hygiene e Tratamento das
moléstias mentaes e nervosas ÷ 1890). ROCHA, Franco da. Hospício de
São Paulo, Estatística. Apontamento, p.19)
Outro dado importante que se destaca na fala de Franco da Rocha, quanto
este se justifica na escolha do trabalho no campo em detrimento às oficinas
urbanas e industriais¨: "A maior parte de nossos doentes provém da classe
de trabalhadores da agricultura, habilitados ao serviço rude de 10 a 12
horas por dia. Que fazer? Transforma-los aqui em alfaiates, sapateiros,
typographosw Qual a melhor,segundo a opinião dos mestres já citados?
Não há discordância: É O TRABALHO DA AGRÌCULTURA, POR SER O
QUE EXÌGE MENOS EXFORÇO ÌNTELLECTUAL¨. (ROCHA, Franco da.
Hospício de São Paulo. Estatística. Apontamentos, p.22) (PÌZZOLATO,
2008)
Terapia Ocupacional, propriamente dita, se constitui no primeiro Hospício
brasileiro, Dom Pedro ÌÌ, executada pela médica psiquiátrica Nise da Silveira,
embasada nas teorias de Carl Jung no campo da psicologia, que discordava dos
métodos de tratamentos, muitas vezes violentos, efetivados no próprio Dom Pedro ÌÌ.
Sobre esta prática e sua tão nobre notoriedade no cenário mundial retrataremos no
capítulo a seguir, com o esforço de apresentar que além das práticas institucionais
houve processos terapêuticos em que a arte como instrumento de relacionar-se com
a loucura propõe uma ponte de, essencialmente respeitar a pessoa humana do
outro.
49
CAP*TULO III
A beleza não é uma manifestação de escola criada
para uma admiração universal. Ela é só uma
questão de temperamento.
(Osório Cesar)
5,+ A ("ma%i/a01& %a ar-e
A arte é a expressão da vida, se a vida se expressa heterogeneamente, seu
reflexo também o será. O senso comum questiona a sanidade de quem pinta a vida
em suas múltiplas linguagens, porque em muitos momentos caminha na contramão
dos pactos societários. A arte é a expressão da cultura, mas nem sempre a reforça,
muitas vezes a questiona, a subverte, o que ocasiona uma ferida social, uma mácula
aos valores congregados por toda uma sociedade.
Foucault (1995) nos conta que, em hospitais no mundo árabe ÷ criados por
volta do século XÌÌ e destinados exclusivamente aos loucos ÷, a música, a
dança, os espetáculos e as narrativas de contos fabulosos eram utilizados
como forma de intervenção e de cura da alma. Na Europa, durante a
Renascença, a retomada de conhecimentos e práticas da Antiguidade e o
interesse pela loucura ÷ infiltrado em todas as esferas da vida cultural e na
arte em especial ÷, somaram-se à influência árabe fazendo surgir os
primeiros hospitais para insanos, nos quais essa tradição estava presente:
as artes, em especial a música, tinham aí virtudes terapêuticas que atuavam
na totalidade do ser humano, penetrando-lhe corpo e alma (LÌMA;
PELBART, 2007).
As autoras apontam que deste período a entrada na Renascença, houve uma
perversão nos espetáculos, das intervenções e expressões artísticas, assim como
explica Lima (2007), foi então que a música e as artes em geral desertaram das
práticas terapêuticas, o que coincidiu com a criação dos hospícios organizados em
torno do tratamento moral, cujo principal aliado era um trabalho estruturado e bem
dirigido. Nesse contexto, os romances, as histórias, os espetáculos teatrais e a
música passaram a ser vistos como meios de perversão de toda a sensibilidade,
desregramento dos sentidos, cultivo das ilusões, produtores, enfim, das doenças
50
nervosas e mentais. (FOUCAULT, 1995). Assim, a clínica, no início de sua forma
moderna, desinteressou-se pela arte, e um silêncio ocupou o espaço entre esses
dois campos.
Ìnstrumento de comunicação, avaliação e diagnóstico, a arte representou um
importante passo para a humanização dos atendimentos da população paciente
mental.
A obra artística é uma criação da fantasia como bem disse Lazar. Esta
questão de moldes, de medidas, de "cannons¨, é o enclausuramento, é a
morte por assim dizer do artista criador. (CESAR, 2007, p.123)
A estética futurista apresenta vários pontos de contato com a dos
manicômios. Não desejamos com isto censurar essa nova manifestação de arte;
longe disto. Achamo-la até muito interessante, assim como a estética dos alienados.
Ambas são manifestações de arte e por isto são sentidas por temperamentos
diversos e reproduzidas com sinceridade (CESAR, 2007).
5,3 A i$1& !e O$2ri& Ce$ar
Osório Thaumaturgo César foi um dos grandes nomes da psiquiatria. Uma
breve trajetória de sua vida é citada no Museu de Psiquiatria Brasileira:
• Nasceu em João Pessoa (PB) no ano de 1895 ÷ Faleceu em São
Paulo (SP) no ano de 1980;
• Estudou odontologia em São Paulo e medicina no Rio de Janeiro;
• Especializou-se em Anatomia Patológica, depois em Psiquiatria, no
Hospital de Juquery, São Paulo;
• Além de psiquiatra, foi professor de violino, jornalista, crítico de arte e
militante comunista;
• Pesquisou sobre arte e doença mental, cultura e doença mental,
principalmente no Hospital do Juquery;
51
• Relacionou-se com Tarsila do Amaral e Mário de Andrade,
influenciando a primeira em seus temas sociais (ODA;
DALGALARRONDO, s/d).
Osório César ficou conhecido por perceber o lado humano e sensível dos
loucos, estimulando as produções artísticas dos internos, no Hospital-Colônia do
Juqueri.
Osório Thaumaturgo César veio trabalhar no Hospital do Juquery na década
de 20, ainda como médico residente e aqui ficou até sua morte. Em 1924,
logo no início de sua carreira, o Dr. Osório César publicou seu primeiro
artigo "A Arte Primitiva nos Alienados: Manifestação Esculptória com
Carácter Symbolico Feiticista num Caso de Syndroma Paranóide¨, que ficou
bastante conhecido por ter sido enviado a Sigmound Freud, na Alemanha, e
ter sido respondido. A cópia da resposta da carta de Freud está no Museu
no Juquery. Ainda enquanto residente, Osório começou a desenvolver a
terapia por meio a arte com os pacientes do Juquery e, mesmo não tendo
atingido grande notoriedade entre os populares, é conhecido como o pai da
arte-terapia, inclusive por grandes nomes do segmento, como Nise da
Silveira. E por meio deste trabalho, também ganhou destaque como
psicanalista, sendo um os 24 membros fundadores da Sociedade Brasileira
de Psicanálise em São Paulo. Na década de 40, Osório César criou as
oficinas livres de artes plásticas para os pacientes que, em 1949,
transformou-se em Escola Livre de Artes Plásticas tornando-se a primeira
escola de arte-terapia da América Latina.
Além de médico e crítico de arte, Osório César também era músico e
articulista em grandes jornais de São Paulo. Sua grande influência no meio
da arte trouxe para o Juquery grandes nomes como Tarsila do Amaral, Lasar
Segall, Maria Leontina, Clélia Rocha, Moacyr de Vicentys Rocha, Ìsmael
Nery, Alice Brill e Flávio de Carvalho com que organizou a "Semana dos
loucos e das Crianças¨, em 1933, que ficou conhecido como o segundo
movimento mais importante da história da arte do Brasil (RESGATE
HÌSTÓRÌCO, 2014, p.5).
Mais uma vez, uma expressão da privação reforçada, mesmo que nas
sensações de liberdade proporcionadas pela arte. Dentro dos espaços de privação,
apenas alguns são privilegiados para estas práticas, eles são constituídos de
internos que têm maior controle emocional. Desta maneira a Direção de Osório
52
Cézar se dá de maneira diferenciada para aqueles que ele considera mais
controlados, e que sua produção possa ser utilizada de forma útil e bela para a
sociedade.
A arte para ser genial tem que ser livre. [...] A beleza não é uma
manifestação de escola criada para uma admiração universal. Ela é só uma
questão de temperamento. O sentido da forma que um artista africano altera
aos nossos olhos, entalhando ou esculpindo na madeira suas estátuas com
músculos deformados e fisionomia grotescas, é para a visão dele uma
atitude estética natural. Esse artista só entende a beleza nesse limite
representativo de deformidade. E com a mesma mentalidade artística do
escultor africano, também entende a beleza o paranoico artista, quando
modela em barro a sua estátua de fisionomia extravagante e de membros
desproporcionados. A estética futurista apresenta vários pontos de contato
com a dos manicômios. Não desejamos com isto censurar essa nova
manifestação de arte; longe disto. Achamo-la até muito interessante, assim
como a estética dos alienados. Ambas são manifestações de arte e por isto
são sentidas por temperamentos diversos e reproduzidos com sinceridade.
(CESAR, 2007, p.123).
Como podemos constatar o louco, o alienado sempre é visto como algo que
pode ser usado de acordo com as vontades do Estado. Ele precisa ser útil de
alguma forma, sua existência precisa ser resignificada segundo os padrões de
inserção social, onde o homem precisa desenvolver o trabalho para ser homem,
mesmo que seja um trabalho onde o isolamento seja evidente.
5,5 Ni$e !a Sileira: "ma m"l(er a 4re%-e !e $e" -em<&
Nise da Silveira foi uma psiquiatra que revolucionou os métodos de
atendimento ao portador de transtornos mentais no Brasil. Esta revolução em sua
época se deu na abordagem clínica dos pacientes psiquiátricos, principalmente os
esquizofrênicos, que em geral eram isolados e considerados como
incompreensíveis. Criou no Centro Psiquiátrico Pedro ÌÌ, hoje Ìnstituto Municipal Nise
da Silveira, uma oficina de Terapêutica Ocupacional, cujo objetivo era aliviar a dor do
conflito psicológico desse indivíduo hermético, visto por muitos como
incompreensível em seus delírios e alucinações (BRASÌL, 2005).
53
Nise da Silveira (15.02.1905 ÷ 30.10.1999) foi singular na psiquiatria
brasileira. Pequenina e frágil, era uma gigante em força e coragem com que
defendeu e lutou por suas idéias no âmbito da psiquiatria institucional. Ela
foi pioneira na terapia ocupacional, introduzindo este método no Centro
Psiquiátrico Pedro ÌÌ do Rio de Janeiro e, segundo suas próprias palavras,
entrara na Psiquiatria "pela via de atalho da ocupação terapêutica, método
então considerado pouco importante para os padrões oficiais".
Nise era alagoana e fez seus estudos médicos na Faculdade de Medicina
da Bahia (1921-1926) e foi a única mulher numa turma de 157 alunos. Colou
grau com a tese "Ensaio Sobre a Criminalidade da Mulher no Brasil"
(28.12.1926) e retornou à terra natal em seguida, mas somente por um
breve período, pois, com a morte prematura do pai, decidiu vir para o Rio de
Janeiro (1927) onde estabeleceu suas raízes intelectuais e profissionais. Já
casada, com seu conterrâneo e colega de turma, o sanitarista Mario
Magalhães, engajou-se nos meios artísticos e literários e freqüentava
ativamente os círculos marxistas, junto como marido, e escrevia sobre
medicina para o jornal A Manhã (artigos que eram reproduzidos no Jornal de
Alagoas, jornal onde seu pai fora jornalista e diretor). Em 1932 estagiou na
famosa clínica neurológica de Antônio Austregésilo, e em 1933 entrou para
o serviço público, através de concurso, trabalhando no Serviço de
Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, na Praia Vermelha,
pertencente da antiga Divisão de Saúde Mental (CÂMARA, 2010).
Nise perpassou os ideais marxistas, e por conta disso foi perseguida pelo
governo de Getúlio Vargas, sendo presa após ser denunciada por uma enfermeira.
O envolvimento de Nise com o marxismo valeu-lhe 15 meses de reclusão no
presídio da Frei Caneca, no período de 1936-1934, local onde conheceu
Graciliano Ramos, que a descreve no seu famoso livro "Memórias do
Cárcere" (José Olympio Ed., RJ, 1953): "... lamentei ver a minha
conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus
queridos loucos. Sabia-se culta e boa. Rachel de Queiroz me afirmara a
grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-
se, como a escusar-se a tomar espaço. O marido também era médico, era o
meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em
liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento."
Segundo a própria Nise, ela fora denunciada por uma enfermeira que
mostrou à polícia política de Getúlio Vargas, liderada então pelo feroz Filinto
54
Müller, os livros marxistas "subversivos" que ela guardava na sua estante.
Sobre esta prisão, há uma anedota que Nise deliciava-se em contar, tanto
porque ilustrava sua total descrença na existência do "embotamento afetivo"
dos esquizofrênicos, fruto de sua experiência em terapêutica ocupacional
com estes doentes. Luiza, uma esquizofrênica que todas as manhãs levava
o café da Nise, ao saber que esta tinha sido presa, aplicou uma formidável
sova na infeliz enfermeira que denunciara sua querida doutora. Nise
terminava este relato dizendo que aquilo fora "uma verdadeira reação
afetiva", e ria satisfeita, para então concluir seriamente: "o esquizofrênico
não é indiferente, não é não" (CÂMARA, 2010).
O receio de ser presa novamente a colocou na clandestinidade, e mesmo
quando retorna ao serviço público demonstra claramente sua insatisfação com os
métodos que ela considera como bárbaros na psiquiatria. Por forma humanista de
pensar torna-se pioneira das ideias que culminariam no Movimento da Reforma
Psiquiátrica.
Livre da prisão vagou na semiclandestinidade ao lado do marido devido ao
risco de ser novamente presa. É neste período que se dedica a uma
profunda e reflexiva leitura de Spinoza, redigindo suas conclusões e
questionamentos sob formas de cartas que muitos anos mais tarde viria
publicar. Em 17 de abril de 1944 foi reintegrada ao serviço público, sendo
lotada no Hospital Pedro ÌÌ, antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho
de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro. Nise sentia-se inapta para exercer a
tarefa de psiquiatra, pois, era ferozmente contra os choques elétrico,
cardiazólico e insulínico, as camisas de força, o isolamento, a psicocirurgia,
e outros métodos da época que considerava extremamente brutais e
recordavam-lhe as torturas do Estado Novo aplicada aos dissidentes
políticos, e que ela conhecia tão bem. Recordo também o horror visceral
dela contra a farra do boi, e penso que isto podia ser também um reflexo do
seu horror a torturas. De qualquer modo, sua postura humanista a faria ser
uma pioneira das ideias de Laing e Cooper (antipsiquiatria), Basaglia
(psiquiatria democrática) e Jones (comunidade terapêutica).
No mesmo ano que entrou no Hospital Pedro ÌÌ (antigo Centro Psiquiátrico
Nacional), Nise colaborou com o psiquiatra Fábio Sodré na introdução da
TO naquela instituição. Em 1946, sabendo que Nise havia colaborado na
implantação da TO no HPÌÌ, o então do diretor deste hospital, Paulo Elejalle,
entusiasta desta forma de reabilitação psiquiátrica, pediu a ela para criar a
Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR) do Centro
55
Psiquiátrico Pedro ÌÌ, neste mesmo ano. Em 1954 o STOR foi
regulamentado pelo próprio Paulo Elejalle através de uma ordem de serviço,
e oficializado em 9 de agosto de 1961 pelo decreto presidencial no 51.169.
Nise dirigiu o STOR desde a sua fundação, em 1946, até sua aposentadoria
compulsória em 1974 (CÂMARA, 2010).
E foi na Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação do Centro
Psiquiátrico Pedro ÌÌ, que sua maior criação tomou forma. O atelier de pintura
ganhou notoriedade e apresentava impressionantes imagens da psicose.
O STOR tinha alguns setores especializados, mas foi a criação do atelier de
pintura que o tornaria famoso. Neste empreendimento notável, Nise foi
ajudada pelo estagiário Almir Mavignier, então com 21 anos e funcionário da
secretaria do HPÌÌ. Almir viria se tornar um dos primeiros pintores abstratos
do Brasil e professor de pintura da Escola Superior de Artes Plásticas de
Hamburgo. Ele organizou a "Exposição de Arte Psicopatológica" no Ì
Congresso Ìnternacional de Psiquiatria, em Paris, 1950, e ainda em 1957, a
mostra "A Esquizofrenia em Ìmagens", durante o ÌÌ Congresso Ìnternacional
de Psiquiatria, em Zurique. A colaboração de Almir no STOR duraria até
1951, quando então este se transferiu definitivamente para Ulm, Alemanha.
Em pouco tempo o atelier do STOR ganhou notoriedade e a produção dos
pacientes tornou-se um material impressionante sobre as imagens da
psicose. Já em 1947, uma exposição sobre esta forma de arte foi
organizada pelo Ministério de Educação e Cultura, outra em 1949, no
Museu de Arte Moderna de São Paulo ("nove Artistas de Engenho de
Dentro"), com obras escolhidas pelo crítico francês Leon Degand, e ainda
neste mesmo ano outra exposição na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
Para preservar e pesquisar o acervo artístico dos psicóticos (que reúne
cerca de 350 mil obras), Nise criaria o internacionalmente famoso Museu de
Ìmagens do Ìnconsciente em 1952, referência internacional e objeto de
estudos e visitas, a para mantê-lo foi criada em 1974 a Sociedade dos
Amigos do Museu de Ìmagens do Ìnconsciente, celebrando um convênio
com a FÌNEP e a SEPLAN. Em 1975 dar-se-ia a ultima grande exposição
deste acervo na Fundação Cultural do Distrito Federal, Brasília, no Museu
de Arte Moderna do Rio de Janeiro, na Fundação Palácio das Artes, em
Belo Horizonte e na Universidade do Paraná (CÂMARA, 2010).
Nise demonstrava claramente seu pioneirismo no movimento antiasilar ao
defender que era preciso proporcionar um ambiente ao paciente que lhe oferecesse
56
suporte afetivo para auxiliá-lo a retornar ao mundo externo, ou se ressocializar. E
isto não podia ser medido em aspectos positivos e negativos dos sintomas. A
produção artística, segundo Nise, seria uma clara demonstração da preservação da
afetividade, ainda que estivesse escondida, protegida no íntimo dos doentes. Por
conta disso, defendia a terapia ocupacional como forma única e apropriada para
reabilitar psicóticos, e dizia que por ser uma forma não verbal de psicoterapia tinha
muito mais alcance entre os doentes, em especial os mais graves, que não
poderiam ser alcançados pelas formas convencionais de psicoterapia (CÂMARA,
2010).
Sempre seguindo suas próprias ideias, mas sem descartar as bases teóricas
de seu tempo, tomava caminhos inovadores no tratamento aos psicóticos.
Nise introduziu ainda animais (gatos e cães) em seu serviço como forma de
atrair a afetividade dos psicóticos estabelecendo uma ponte com o mundo
real. O cuidar dos animais tinha um efeito positivo e regulador nestes
pacientes, e esta relação com animais acompanhou-a por toda a vida. Ela
nunca esclareceu totalmente a razão de manter estes animais, como era
típico seu, mas sabemos que isto era uma tentativa de extrair o afeto de
seus pacientes, ou pelo menos proporcionar um estímulo ambiental para
que eles se mantivessem próximos da superfície.
[...]
Nise estudou a TO sob todos os pontos de vista da época (Kraepelin,
Bleuler, Schneider, Simon, Freud, Jung) justificando-a sob todos os ângulos,
sem contudo subordinar-se intelectualmente a nenhuma destas escolas,
apesar de ter encontrado na psicologia profunda de Jung a base para
explicar a produção artística dos psicóticos no atelier de pintura do STOR,
bem como a possível linguagem para entender o processo da psicose. Em
1955, visando propagar as idéias de Jung entre nós e criar uma ponte entre
o Museu de Ìmagens do Ìnconsciente e a sociedade, criou o Grupo de
Estudos C. G. Jung (que funciona ainda na Rua Marques de Abrantes no
bairro do Flamengo, Rio de Janeiro). Este grupo, que foi presidido por Nise
até a sua morte, foi oficializado em 1968 e mantinha uma publicação muito
irregular chamada "Quaternio", até agora contando com poucos números
publicados. Em 1956 ela criou a Casa das Palmeiras, uma instituição
externa para atendimentos dos padecentes mentais sem internação ou
restrição de liberdade. Aí se iniciou um projeto nos moldes em que Nise
concebia a psiquiatria, e que foi precursor do atual hospital-dia, lares
57
abrigados e centros de convivência. A Casa das Palmeiras foi reconhecida
como de utilidade pública por decreto municipal em 1963 (CÂMARA, 2010).
Ao iniciar a terapia ocupacional com psicóticos, utilizando-se da pintura, o
desenho e a modelagem, acabou percebendo uma singularidade: uma profusão de
figuras circulares ou "mandalas", e a recorrência de temas mitológicos e religiosos, e
deste modo percebeu que estava lidando com uma produção viva do inconsciente
daqueles pacientes. O primeiro passo estava dado, pois foi nas obras de Jung que
ela encontrou semelhantes observações e um sistema teórico que fosse capaz de
interpretar estes achados (CÂMARA, 2010).
Em 1954 travou contato com Jung através de cartas, onde discutia as
mandalas de seus psicóticos. Desde então, Jung impressionou-se com o
material do Museu de Ìmagens do Ìnconsciente e aconselhou Nise a estudar
mitologia e religiões comparadas para encontrar a fonte ou arquétipos de
tudo aquilo, que ele afirmava, como ela já percebera lendo suas obras, ser a
manifestação do inconsciente coletivo. Jung lhe enfatizara que o
inconsciente coletivo fala a linguagem dos mitos, que os mitos resumem
toda experiência ancestral da humanidade simbolizada em figuras que ele
denominou "arquétipos", e que o inconsciente coletivo era o depositário
desta experiência e, portanto, das representações arquétipos.
Jung explicaria a Nise que as mandalas de seus pacientes eram uma
reação de compensação do inconsciente ao caos que a psicose produzia na
consciência, uma tentativa autógena de reunificação do ego cindido.
Mostrou-lhe também que a predisposição dos psicóticos para reproduzirem
imagens iguais ou semelhantes era uma tentativa de vencer a ruptura do
ego, utilizando um material arcaico de situações já vividas pela humanidade
e condensadas nos motivos mitológicos (arquétipos), material este que
eram usados como tentativas de solução para o ego rompido. Confirmando,
pois, para Nise que a linguagem das pinturas, modelagens e desenhos de
seus artistas psicóticos seria a dos arquétipos, e que isto era uma ponte
para ela entender a psicose, a Psicologia Junguiana marcou definitivamente
a vida da eminente psiquiatra brasileira (CÂMARA, 2010).
E assim se apresenta Nise da Silveira, uma mulher empreendedora, motivada
pela paixão, tenacidade e espírito de aventura, que lhe mantiveram firmes diante de
todos os obstáculos para se estabelecer como profissional que acreditava acima de
tudo no tratamento humanizado, e na aproximação com os psicóticos, em seu
58
mundo muitas vezes escondido e isolado. Nise era indomável e contrariando o
desejo e expectativas de sua mãe em torna-la pianista como ela, resolveu estudar
medicina, veio para o Rio de Janeiro, e a partir daí ganhou o mundo e marcou a
psiquiatria brasileira (CÂMARA, 2010).
5,6 Sema%a !a ar-e !&$ l&"'&$ e !a$ 'ria%0a$
"(...) com o intuito de brincar, de se divertir [.]
sem preparação anterior, sem preocupação de
copiar um modelo, sem cogitação de beleza, são
documentos de como a criança vê o mundo,
daquilo que para ela é essencial e daquilo que
ela considera acessório¨. Somente ver o mundo
com outros olhos, sem regras ou proibições, sem
castrações e ansiedade, com olhos inocentes,
olhos de crianças...¨ (CARVALHO, 1933 apud
AMÌN, s/d)
O "Mês das Crianças e dos Loucos¨ foi organizado por Flávio de Carvalho e
Osório César em agosto de 1933, em São Paulo, no Clube dos Artistas Modernos
(CAM). Foram reunidas em uma exposição produções artísticas de crianças de
escolas públicas e de internos do Juqueri, junto de conferências proferidas por
médicos e intelectuais, mobilizando a imprensa da época.
Em São Paulo, desde a década de 1920, fazia-se crescente o interesse pelo
domínio do psíquico por parte de artistas, literatos, críticos de arte e
educadores, que procuravam "ampliar seus conhecimentos nesse campo¨
(Ferraz, 1998, p. 38). Vivia-se exatamente o momento em que toda uma
sensibilidade, advinda de escritores, artistas, críticos de arte e psicanalistas,
estava voltada para "estudos e considerações sobre a relação do mundo
psicológico e artístico¨ (Ferraz, 1998, p. 45). É com esta paisagem de fundo
que foi realizado o "Mês das Crianças e dos Loucos¨. O evento pode ser
visto como uma das importantes iniciativas do Clube dos Artistas Modernos
(CAM), por ocasionar importantes repercussões entre pessoas envolvidas
com o ensino de arte e com a psicologia e o campo das Artes. Foi
organizado por Flávio de Carvalho e Osório Cesar, sendo inaugurado em 28
de agosto de 1933, na sede do CAM na Rua Pedro Lessa, n° 2. O "Mês das
59
Crianças e dos Loucos¨ constituiu-se de dois polos igualmente importantes
e complementares: a exposição de trabalhos plásticos e uma série de
conferências.
A exposição incluiu "desenhos, pintura e escultura de alienados do Hospital
do Juqueri, de crianças das escolas públicas de São Paulo e de
particulares¨ (Carvalho, 1939, s/n). As conferências foram proferidas por
médicos e intelectuais, relacionadas ao assunto (convidados pelos próprios
organizadores do evento), finalizadas por debates acalorados, mobilizando
a imprensa da época. (AMÌN, s/d, p.161-162).
Este evento teve grande importância, pois se propunha a fazer uma relação
da produção plástica da criança com as manifestações expressivas dos pacientes
psiquiátricos, que muito lembravam os movimentos dos artistas expressionistas e
surrealistas na Europa. É notório que o evento teve grande mérito, pois os desenhos
das crianças e dos loucos que foram vistos ali eram norteados por uma
espontaneidade absoluta, e um completo desinteresse pelas formas rígidas da arte
acadêmica. E as discussões se pautavam em colocar em questão as implicações
pedagógicas do ensino de arte na escola, e da promoção da arte entre os loucos,
buscando uma forma de ensino de arte que não podasse ou direcionasse a
criatividade e imaginação (AMÌN; REÌLY, 2009).
5,= E$'&la Lire !e Ar-e$
Esta foi uma iniciativa pioneira proposta por Osório Thaumaturgo César
(1895-1979), em colaboração com outros profissionais como Mário Yahn, de levar
artistas plásticos para orientarem o trabalho em artes plásticas com os internos do
Hospital Psiquiátrico de Juqueri município de Franco da Rocha, São Paulo. Esta
proposta inovadora concretizou-se na década de 1950, com a participação de três
artistas plásticos, Maria Leontina, Clélia Rocha e Moacyr de Vicentis Rocha,
consolidando a formação da Escola Livre de Artes Plásticas do Juqueri. Este ateliê
de artes foi criado para atender a população de esquizofrênicos em tratamento no
Hospital Psiquiátrico do Juqueri (CARVALHO; REÌLY, 2010).
A Seção de Artes Plásticas do Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da
Rocha, São Paulo - que adquire em 1956 a denominação Escola Livre de Artes
60
Plásticas - ELAP - é criada oficialmente em 1949, resultado direto do trabalho que o
psiquiatra e crítico de arte Osório César (1896 - 1980) desenvolve no hospital a
partir de 1923. O propósito básico da escola é a recuperação e a reintegração dos
pacientes na sociedade por meio do desenvolvimento de suas aptidões artísticas.
Ainda que a meta do trabalho seja eminentemente terapêutica, Osório César mostra-
se sensível às capacidades artísticas individuais e às possibilidades de revelação de
novos talentos. Nesse sentido, são realizados testes para a verificação de vocações
artísticas, sendo alguns pacientes selecionados precisamente em função delas. O
trabalho na escola permite a realização de experimentos e investigações com a arte-
terapia, e a criação artística e artesanal. (ÌTAU CULTURAL, 2007).
Segue um breve histórico sobre esta importante proposta de Osório César:
A base da proposta - inspirada nas ideias do teórico da arte Herbert Read
(1893 - 1968), sistematizadas em sua obra 7duca1ão pela )rte (1943) -
assenta-se na ideia de que os pacientes devem trabalhar livremente (na
escolha de temas, técnicas e materiais), com o mínimo de interferência do
supervisor. Trata-se de garantir a espontaneidade das manifestações
artísticas, o que permitiria tanto o desenvolvimento psicológico - pelo
estabelecimento de uma relação profunda do paciente com o seu mundo
interior - quanto o artístico.
Desde a sua chegada ao Juqueri, Osório César interessa-se pela arte
produzida pelos internos, objeto de sua reflexão em livros e artigos - por
exemplo, o ensaio ) )rte &rimitiva dos )lienados, de 1925; outro, escrito
com o poeta e psicanalista Durval Marcondes (1899 - 1991), intitulado
*obre @ois Casos de 7stereotipia Ará'ica com *imbolismo *exual e
ilustrado com desenhos feitos por pacientes (1927); e o livro ) 7xpressão
)rtstica dos )lienados (1929), com 84 ilustrações e prefácio de Cândido
Mota Filho (1897 - 1977). Além de pioneiro no estudo da arte produzida por
"doentes mentais", Osório César é o principal responsável pelas atividades
artísticas levadas a cabo no hospital do Juqueri. Em 1923, há registros de
que pacientes - adultos e crianças - se dedicam às artes nos ateliês
artesanais e nas aulas de música. A partir de 1939, com o enorme aumento
da população asilada, em função da transferência de "doentes" vindos das
cadeias públicas, o modelo hospitalar é alterado e, com ele, afetadas as
atividades artísticas e artesanais. Estas terão continuidade com o apoio da
Ìnstituição de Assistência Social a Psicopatas - ÌASP, instituída por decreto
de 28 de junho de 1938, cuja principal meta é a melhoria das condições de
vida dos internos, o que envolve o incentivo à produção artística. Dirigida
61
por Osório César, a ÌASP garante a manutenção, financeira inclusive, da
Seção de Artes Plásticas e depois da Escola Livre de Artes Plásticas.
O médico Mário Yahn, primeiro diretor da Seção de Artes Plásticas do
hospital, é o responsável por sua instalação física, na sala de banhos do 6º
Pavilhão Feminino, que depois é transferida para a Vila Médica - onde
funciona na casa n. 7 até 1974 -, sendo deslocada finalmente para a 1ª C. T.
O Feminina e Recanto Feliz. A partir de 1950, sob a orientação de Osório
César, definem-se os contornos do trabalho da Escola Livre de Artes
Plásticas, instituição independente de verbas governamentais, que vive de
donativos, da comercialização de trabalhos de pacientes e da manutenção
de serviços como: cantina, apiário, charutaria etc. Ao ÌASP cabe a garantia
da infraestrutura básica, incluindo a compra de materiais: lápis, nanquim,
óleo, pastel, cartolina, papel, tela e gesso. Entre os anos de 1953 e 1955, os
registros apontam cerca de 60 pacientes envolvidos nas atividades da
ELAP, em um momento que o hospital possui cerca 15.000 pacientes. Os
internos são encaminhados quando considerados em boas condições
físicas e psicológicas, e também recrutados em função de aptidões
reconhecidas. Os pacientes que aceitam integrar a escola passam nela a
maior parte do dia, realizando aí as suas refeições. Do ponto de vista do
trabalho, são assessorados por artistas convidados para atuarem nos
ateliês de desenho, pintura, escultura e cerâmica. Além do apoio ao trabalho
diário, ao professor cabia a seleção de trabalhos que deveriam integrar uma
exposição permanente. A primeira artista a ocupar essa função é Maria
Leontina (1917 - 1984), que aí permanece entre 1951 e 1953, substituída
por Clélia Rocha da Silva. Em 1955, o desenhista e gravador Moacyr
Rocha, assume o lugar que, a partir de 1957, é ocupado exclusivamente por
funcionários, que trabalham sob a supervisão de Osório César.
Vários "pacientes-artistas" atuam na escola, sendo reconhecidos em função
de suas habilidades e talentos. Os desenhos a lápis de Albino Braz (1893 -
1950) - repletos de bichos estranhos, serpentes e figuras humanas -
acabam incorporados aos acervos do MASP e do Ìnstituto de Estudos
Brasileiros da Universidade de São Paulo - ÌEB/USP. Além disso, suas obras
integram a 1ª Exposição de Arte do Hospital do Juqueri (Museu de Arte de
São Paulo Assis Chateaubriand - Masp, 1948), a Exposição de Arte Bruta
(Paris, 1949), a 3ª Exposição Ìnternacional do Surrealismo (SP, 1967) e a
16ª Bienal Ìnternacional de São Paulo, de 1981. O espanhol Pedro Cornas
(internado em 1932, com 39 anos) destaca-se pelas formas geométricas
que realiza (por exemplo, B 7studioso, nanquim e lápis sobre papel,
coleção do Masp, s/d). Os trabalhos do desenhista José Theóphilo R.
(internado em 1944, com 24 anos) possuem feições recorrentes: são casas
62
e igrejas dispostas em composições planas, com predominância de linhas
verticais e horizontais. Aurora (ca.1896 - 1959) é responsável por pinturas
de colorido intenso (por exemplo, ) Crasileira, óleo sobre papelão, s/d, e
Du/es da 2nquisi1ão, óleo sobre papelão, s/d). João Rubens Garcia
(nascido em 1916, internado em 1950) é autor de desenhos de cenas e
figuras, representados com riqueza de detalhes (*enhores no ,emendo,
nanquim sobre papel, s/d). O pintor Braz Navas (1919 - 1968) utiliza trapos,
e não pincéis, para pintar, o que dá aos seus quadros aspecto inusitado.
As exposições realizadas ao longo dos anos 1950 e 1960 são os principais
veículos de divulgação e comercialização dos trabalhos dos internos do
hospital. Em 1948, a 1ª Exposição de Arte do Hospital do Juqueri,
organizada por Osório César no Masp entre 19 de outubro e 19 de
dezembro, é considerada um impulso decisivo para a criação da ELAP, em
função do seu grande impacto de público e crítica. Nela são expostos
desenhos a lápis preto e de cor, hoje pertencentes ao acervo do museu. Na
década de 1950, obras dos alunos da ELAP são apresentadas em diversos
espaços, no Brasil e no exterior. Por exemplo, no Museu de Arte Moderna
de São Paulo - MAM/SP (Exposição de Artistas Alienados), 1951; na Maison
Nationale de Chareton, Paris 1952; no Masp, por ocasião das
comemorações do ÌV Centenário da Cidade de São Paulo (1954); no Clube
dos Artistas e Amigos da Arte, SP - o "Clubinho (1955), na Galeria Prestes
Maia, SP (1956) etc. A despeito do agravamento da situação financeira, em
1957 são realizadas cinco mostras: em Atibaia e Santos, São Paulo, e na
Faculdade de Direito, no Clubinho e na Galeria Prestes Maia, na capital
paulista. Em 1958, as exposições diminuem sensivelmente (há registros de
apenas uma mostra na galeria Prestes Maia) e, após 1959, praticamente
desaparecem (ÌTAU CULTURAL, 2007).
O trabalho introduzido por Osório César foi amplamente desenvolvido por
Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, a partir da década de 1940. As atividades
artísticas como método terapêutico foram iniciadas pela psiquiatra, e estudiosa da
obra de Carl Gustav Jung, a partir de 1946 no Serviço de Terapêutica Ocupacional
do Hospital de Engenho de Dentro. Em 1956, Nise da Silveira inaugurou, juntamente
com artistas e profissionais da saúde mental, a Casa das Palmeiras, clínica de
tratamento aberta, sem fins lucrativos e tendo como princípios norteadores o afeto e
atividade artística como possibilidade de reorganização psíquica e reinserção social
(SÌLVEÌRA, 1981 apud OLÌVEÌRA, s/d).
63
Em virtude da ampla produção dos internos de Engenho de Dentro, em 1952
foi fundado, por Nise da Silveira, o Museu de Ìmagens do Ìnconsciente, espaço que
além de abrigar as obras, abrigava também os criadores, uma vez que funciona
dentro do Museu um atelier. O Museu de Ìmagens do Ìnconsciente afirma-se, desta
maneira, como um "Museu Vivo¨ (Melo, 2005). (CÌTADO POR Arte e Saúde Mental:
mapeamento e análise de trabalhos na Região Sudeste Patrícia Fonseca de
Oliveira)
Mecanismo de expressão e um respiro para os pacientes mentais. Osório
Cesar inovou em experimentar técnicas humanas de tratamento. De uma trajetória
de perversidades a arte ainda iluminou a caverna que abrigava a loucura.
A partir de 1948 as práticas artísticas no Hospital Juquery se consolidam
com a criação da Escola Livre de Artes Plásticas do Juquery. Salientamos
que Osório César preocupava-se não somente em oferecer como
entretenimento oficinas de arte para os então pacientes do hospital,
preocupava-se acima de tudo com a extensão terapêutica dessas
atividades e com a possibilidade de inserção social dos internos através
destas (Ferraz, 1998). Vários artistas frequentavam o Hospital Juquery, o
espaço das oficinas afirmou-se assim como um espaço de encontros, onde
artistas, internos ou não, trocavam experiências (OLÌVEÌRA, s/d).
A seguir traremos algumas obras de pacientes:
• )urora Cursino
(1896-1959). Prostituta, morou na Europa e de volta ao Brasil viveu algum
tempo dormindo em albergues noturnos até ser internada por três anos no
Hospital Psiquiátrico de Perdizes em São Paulo. Em 1944 foi transferida para
o Juqueri e ali faleceu em 1959. Nessa instituição, frequentou a Oficina de
Pintura e, mais tarde, a Escola Livre de Artes Plásticas. Em seu prontuário do
Hospital a razão de sua internação é atribuída a uma "personalidade
psicopática amoral¨. Alguns de seus quadros ainda possuem uma etiqueta
com preço, mas, nenhuma de suas obras chegou a ser vendida
(SACRAMENTO, s/d).
64
Figura 1 ÷ AURORA CURSÌNO, Sem Título, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco da
Rocha, SP.
Fonte: Flávio de Carvalho: A revolução modernista no Brasil, s/d.
Figura 2 - AURORA CURSÌNO, Sem Título, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco da
Rocha, SP.
65
Fonte: Flávio de Carvalho: A revolução modernista no Brasil, s/d.
Figura 3 - AURORA CURSÌNO, Hotel Avenida, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco
da Rocha, SP.
Fonte: Flávio de Carvalho: A revolução modernista no Brasil, s/d.
Figura 4 - AURORA CURSÌNO, Sem Título, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco da
Rocha, SP.
66
Fonte: Flávio de Carvalho: A revolução modernista no Brasil, s/d.
Figura 5 - Aurora Cursino no Complexo Hospitalar Juquery Franco da Rocha, SP
Fonte: Flávio de Carvalho: A revolução modernista no Brasil, s/d.
67
Aurora deixou uma obra dionísica, fervilhante, perturbadora. Seus trabalhos
são recheados de episódios que ela provavelmente viveu ou que brotaram
de sua imaginação delirante. Suas cores são fortes, suas formas incisivas,
seu imaginário, vulcânico. Ela é a estrela mais brilhante do acervo artístico
do Hospital do Juquery... É referenciada em livros e em teses acadêmicas.
(Enok Sacramento - Co-curador de Zonas de contato- Pinturas de
Pacientes-Artistas do Juquery e membro da ABCA).
• Ìoitiro Akaba
(? - 1968) São escassas as informações sobre este artista. Ìmigrante japonês
foi internado no Juquery em 1924 e saiu só quando morreu, 44 anos depois.
Seu prontuário informa que a razão de sua internação foi por sofrer de
"demência precoce¨. Foi aluno de Maria Leontina na década de 50 e produziu
208 obras durante sua vida artística (CARVALHO, s/d).
Figura 6 ÷ ÌOÌTÌRO AKABA, Dança, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco da Rocha,
SP.
Fonte: Flávio de Carvalho: A revolução modernista no Brasil, s/d.
Figura 7 ÷ ÌOÌTÌRO AKABA, Sem Titulo, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco da
Rocha, SP.
68
Fonte: Flávio de Carvalho: A revolução modernista no Brasil, s/d.
Figura 8 ÷ ÌOÌTÌRO AKABA, José Joaquim, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco da
Rocha, SP.
Fonte: Flávio de Carvalho: A revolução modernista no Brasil, s/d.
69
Figura 9 ÷ ÌOÌTÌRO AKABA, Pacace, acervo Complexo Hospitalar Juquery Franco da Rocha,
SP.
Fonte: Flávio de Carvalho: A revolução modernista no Brasil, s/d.
CAP*TULO IV
6,+ A i%$er01& !& $eri0& $&'ial %a $a>!e me%-al
Se por um lado se buscava respostas às demandas da loucura que cresciam
conforme os padrões sociais se normatizavam, por outro lado havia um dilema a ser
tratado: o que fazer com as pessoas que não se encaixavam a estes padrões e
ameaçavam a necessidade de ordem societária vigente? Quando se estabelece que
o menos frequente assuma a alcunha de anormal e que essa anormalidade torna-se
patológica, estigmatizam-se os grupos sociais mais fracos, pois quem define estes
padrões sociais são as elites econômicas e políticas, os segmentando em sãos e
loucos. (VELHO, 1981 apud BÌSNETO, 2011).
Aquilo que é divergente precisa ser considerado pelos interesses instituídos
como desvio doentio e antissocial, irracional, algo a ser curado ou então
70
excluído. Daí pensamos que a transformação da loucura em anormalidade e
depois em patologia só pode ser contextualizada pela análise da dimensão
política da sociedade, articulada com as dimensões econômicas e
ideológicas (culturas, representações, saberes) e não apenas por critérios
científicos pretensiosamente neutros e aquém do social. (BÌSNETO, 2011,
p.176).
Os Estados Unidos foi o primeiro país a tratar esta questão de forma
significativa, e inseriu o Serviço Social na Saúde Mental desde sua constituição,
para auxiliar diretamente no processo de reajustá-lo à vida normal, fazendo com que
os hospitais psiquiátricos se tornassem uma das suas primeiras áreas de atuação.
O assistente social atuava no reajustamento dos doentes mentais e na
prevenção de recaídas. A organização do primeiro setor de Serviço Social
em hospital psiquiátrico, nos Estados Unidos, foi no Hospital Psiquiátrico de
Boston, em 1912 [...] A prática profissional respondia pelo nome de "Serviço
Social Psiquiátrico¨. (BÌSNETO, 2011, p.18).
Mas este serviço social ainda estava longe de uma contextualização real no
trato da exclusão, agindo no apoio terapêutico, se restringindo as questões ligadas
ao atendimento médico. Enquanto que para o atendimento às necessidades das
famílias, já existiam agências de Serviço Social, as obras sociais, que atendiam a
população nas questões materiais e concessões de benefícios. (BÌSNETO, 2011).
Existia a partir deste modelo uma segmentação da atuação do Serviço Social,
onde o apoio social ao tratamento era dado pelo Serviço Social do hospital,
enquanto que as questões ligadas à pobreza eram atendidas pelas agências sociais.
O Serviço Social não se sistematizava a partir de um olhar crítico, e não articulava a
área da Saúde Mental com os graves problemas sociais do Estado norte-americano.
(BÌSNETO, 2011).
Apesar disso, se embasava em diversos referencias teóricos para pautar sua
atuação, entre eles o funcionalismo, o estrutural-funcionalismo, o higienismo e as
psicologias. Segundo Hamilton apud Bisneto, houve uma contribuição significativa
71
da psicanálise
1
na elaboração da metodologia em Serviço Social, principalmente na
área de Saúde Mental. (2011).
O atendimento norte-americano na área psiquiátrica segue a metodologia
clássica de "Caso, Grupo e Comunidade¨, observando propósitos de
solução de problemas (linha funcionalista) ou de integração social (linha
psicanalítica). Além disso, há a participação do assistente social em
planejamento, programas sociais e pesquisa. (BÌSNETO, 2011, p. 20).
São grandes os passos na área da família, principalmente na aplicação da
teoria sistêmica, mas que não produziram reflexos substanciais na literatura nacional
em assistência social. No Brasil, sua utilização se dá diretamente em terapias de
família, e vem sendo debatido pelos conselhos profissionais sobre a especificidade
do Serviço Social. (BÌSNETO, 2011).
Por conta da escassez de literatura das práticas norte-americanas, o acesso
ao modelo norte-americano se restringiu apenas às traduções do estrutural-
funcionalismo, mas que não abrangeram todo o potencial da teoria dos sistemas
norte-americanos.
[...] Por outro lado, temos algumas traduções do estrutural-funcionalismo de
Ruth Smaley
2
e Florence Hollis
3
publicadas pelo Centro Brasileiro de
Cooperação e Ìntercâmbio de Serviços Sociais (CBCÌSS), mas que são
baseadas em Talcot Parsons e não desenvolveram todo o potencial hoje
usado da teoria dos sistemas nos Estados Unidos fundada em Gregory
Bateson, Norbert Wiener e Ludwig von Bertallanfy. (BÌSNETO, 2011, p. 20).
Já no Brasil, o modelo histórico do Serviço Social na área psiquiátrica segue
um caminho completamente diferente. Começa como assistência aos trabalhadores
para amenizar as relações entre capital e trabalho, atuando de forma imediatista na
1
A psicanálise absorvida pelo Serviço Social norte-americano identifica-se com a psicologia do ego. É
influenciada por Otto Rank e Alfred Adler (Oliveira, 1982, apud Bisneto, 2011, p.19), por Anna Freud e
pelo triunvirato nova-iorquino Kris, Hartmann e Loewenstein (Vasconcelos, 2000c:173, apud Bisneto,
2011, p.19).
2
Ruth E. Smalley é exemplo de filósofa do Serviço Social que teve a coragem de expressar conceitos
de trabalho e processos sociais em linguagem não-tradicionais e incentivar os profissionais a
reexaminar a sua própria prática no relacionamento com os usuários de acordo com as filosofias de
Otto Rank. (NASW, 2004).
3
Florence Hills é pioneira em escrever sobre o Serviço Social na educação. (NASW, 2004).
72
chamada "questão social¨. Sua intervenção se restringe às fábricas, previdência e
assistência social. (BÌSNETO, 2011).
Apesar dos registros literários apontarem o início do Serviço Social na Saúde
Mental em 1946, não havia muitos profissionais atuando nesta área. Não por falta de
espaço para sua atuação, mas por falta de profissionais, que eram de número
reduzido até a década de 60. Além disso, o atendimento se voltava para as
populações mais pobres, e não a todos os trabalhadores em geral. (RESENDE,
1990 apud BÌSNETO, 2011).
[...] havia poucos hospícios estatais. Eles atendiam um grande número de
pacientes, na maioria indigentes ou crônicos abandonados pela família.
Trabalhavam poucos assistentes sociais em cada hospício. (CERQUEÌRA,
1968 apud BÌSNETO, 2011, p. 21).
A falta de profissionais aliada à questão social brasileira criou uma barreira
separando o atendimento clínico especializado na área psiquiátrica. Fora dos
hospícios estatais, os assistentes sociais não necessitavam ter especialização em
psiquiatria.
[...] havia hospitais gerais ou psiquiátricos para os trabalhadores e seus
dependentes, pertencentes à rede dos institutos de aposentadoria e pensão
(os ÌAPs), sem que os assistentes sociais fossem, necessariamente,
especializados em psiquiatria. (CERQUEÌRA, 1968 apud BÌSNETO, 2011, p.
21).
Esta separação se percebia nas diferentes classes sociais. O trabalho do
assistente social era relegado exclusivamente aos loucos pobres, não prevendo
nenhum atendimento às classes com maior poder aquisitivo. Os loucos que
provinham de famílias ricas não se misturavam aos loucos pobres nos hospícios
estatais ou hospitais gerais psiquiátricos. Para o atendimento destes doentes, havia
clínicas privadas que se destinavam exclusivamente para os ricos.
[...] havia poucas clínicas psiquiátricas privadas, que se destinavam ao
atendimento às pessoas mais ricas. Não empregavam assistentes sociais.
(CERQUEÌRA, 1968 apud BÌSNETO, 2011, p. 21).
[...]
73
Antes das reformas no sistema de saúde pós-1964, o número de clínicas
psiquiátricas privadas era pequeno e não há registros que empregassem
assistentes sociais. (BÌSNETO, 2011, p.22).
O primeiro campo de atuação do assistente social em Saúde Mental foram os
Centros de Orientação Ìnfantil e Centros de Orientação Juvenil (COÌ/COJ) em 1946,
e se consolidou como uma importante experiência do modelo do "Serviço Social
Clínico¨ (VASCONCELOS, 2000c apud BÌSNETO, 2011).
De qualquer modo a prática ainda se diferenciava muito do Serviço Social
atual, pois predominava nesta época abordagens de caráter eugênico e da higiene
mental, aliadas ao quadro profissional restrito e com quantidade reduzida, fazia com
que fosse ineficiente no sentido de propor algo novo no atendimento e que pudesse
abranger todos os doentes independentes de sua condição financeira ou social.
(VASCONCELOS, 2000a apud BÌSNETO, 2011).
Ainda que não estivesse estruturado como o modelo norte-americano, e o
quadro social brasileiro fosse muito diferente, o Serviço Social conseguiu se
introduzir mesmo que de forma tímida na Saúde Mental, e se consolidou
efetivamente após o golpe de Estado de 1964. Este foi o fator fundamental para que
o atendimento se universalizasse e não mais ficasse restrito às classe mais pobres.
[...] o período que se seguiu ao movimento militar de 1964 foi o marco
divisório entre uma assistência eminentemente destinada ao doente mental
indigente e uma nova fase a partir da qual se estendeu a cobertura à massa
de trabalhadores e seus dependentes. (RESENDE, 1990 apud BÌSNETO,
2011, p. 22).
Efetivamente na área da Saúde Mental, o governo da ditadura promoveu
mudanças significativas. Promoveu reformas no sistema de saúde e previdência,
defendendo a modernização e racionalização, que buscava acima de tudo diminuir
os gastos na área da Saúde Mental e inserir os trabalhadores e seus dependentes
em seu atendimento hospitalar, nas internações asilares e atendimentos
psiquiátricos. (BÌSNETO, 2005).
Dentre as mudanças que ocorreram no quadro hospitalar brasileiro, Bisneto
se utiliza de Teixeira e Oliveira (1986); Netto (1991), para citar duas questões
importantes (2011, p. 23):
74
• Os hospitais da rede dos ÌAPs (Ìnstitutos de Aposentadorias e
Pensões) foram incorporados à rede do ÌNPS (Ìnstituto Nacional de
Previdência Social) e perderam qualquer caráter do sindicalismo
trabalhista. Continuaram a atender aos trabalhadores e seus
dependentes.
• Foram criadas várias clínicas psiquiátricas privadas que, através de
convênio com o Estado, atendiam também aos trabalhadores e seus
dependentes (AMARANTE, 1994 apud BÌSNETO, 2011, p. 23). A
princípio não contrataram assistentes sociais.
É neste período que o número de hospícios cresce. Com uma administração
centralizada e privatização do atendimento médico, várias clínicas psiquiátricas
iniciaram suas atividades. Neste momento o atendimento psiquiátrico troca de mãos
indo para a rede previdenciária conveniada privada. Estas clínicas faziam o
atendimento e depois eram pagas pelo ÌNPS. Este se torna um dos quadros mais
favoráveis para o Serviço Social, pois um novo campo de contratação para
assistentes sociais se iniciou a partir disto. (BÌSNETO, 2011).
Na década de 60, com a unificação dos institutos de aposentadoria e
pensões, é criado o Ìnstituto Nacional de Previdência Social (ÌNPS). O
Estado passa a comprar serviços psiquiátricos do setor privado e, ao ser
privatizada grande parte da economia, o Estado concilia no setor da saúde
pressões sociais com interesse de lucro por parte dos empresários. A
doença mental torna-se definitivamente objeto de lucro, uma mercadoria.
Ocorre sim, um enorme aumento do número de vagas e de internações em
hospitais psiquiátricos privados, principalmente nos grandes centros
urbanos. Chega-se ao ponto de a Previdência Social destinar 97% do total
de recursos da saúde mental para as internações na rede hospitalar.
(AMARANTE, 1994 apud BÌSNETO, 2011, p. 23).
Assim, em um cenário pouco amistoso, o Serviço Social foi buscando seu
espaço na Saúde Mental, inicialmente por força de lei, mas que foi se
desenvolvendo de forma crítica, em alguns momentos se espelhando nos modelos
norte-americanos, em outros buscando melhorar a assistência ao portador de
75
problemas psiquiátricos, ou mesmo para tentar controlar as contradições no sistema
manicomial. De certo podemos afirmar que por mais negativo que este quadro
poderia parecer, abriu-se um campo novo de atuação, onde profissionais com visão
social de esquerda, entre eles psiquiatras, puderam reforçar a concepção do
atendimento humanizado nos aparatos assistenciais, sendo de grande auxílio na
formulação e implantação das portarias de caráter inovador do MPAS
4
. Como citado
por Bisneto (2011): "O Serviço Social entrou objetivando as novas visões em Saúde
Mental: atenção ao contexto familiar e social; universalidade da loucura; prevenção
primária e comunitária¨ (p.25 e 26).
6,3 A !i-a!"ra e $e"$ re4le.&$ %a$ i%-er%a0?e$
Com o golpe militar ocorrido em 1964, todo o perfil democrático brasileiro se
alterou drasticamente. Dentre os inúmeros atos promovidos pelo novo regime, o
mais significativo foi sem dúvida o cerceamento da liberdade de expressão e a
perseguição de todos aqueles que se mostravam contrários de alguma forma ao
regime militar.
Após a vaga repressiva que desencadeou na sequência imediata da
deposição de Goulart [...] a coalizão vencedora esforçou-se para manter um
consenso ativo entre seus parceiros e neutralizar as forças que lhe eram
hostis. [...] Na escala exata em que o Estado e o regime já não se
confrontam apenas com o campo democrático r popular, mas com amplos
setores burgueses, na defesa, que implica penalizações parciais de
segmentos capitalistas, da projeção histórico-societária do grande capital, a
tutela militar estende-se a amplia-se, generaliza-se por todos os poros do
Estado e penetra os interstícios da sociedade. A repressão à oposição e ao
dissenso, mesmo prosseguindo em linha seletiva, torna-se sistemática e se
converte, operacionalizada de forma policial-militar [...] (NETTO, 2011, p.35,
p.36, p.39).
Se anteriormente uma pessoa que tinha um desvio de conduta moral já era de
alguma forma considerada alienada ou louca, com o advento militar, aqueles que
também possuíam um desvio de conduta política foram promovidos à categoria e
4
Ministério da Previdência e Assistência Social, que foi criado em 1974 (BÌSNETO, 2011, p.25).
76
também careciam de exclusão, pois sua influência nas outras pessoas tornara-se
um risco para o novo regime.
Ìsto se mostra bem presente no caso de Cirilo, preso político citado pelo
médico José Luis Moreira Guedes no artigo: Ìnternações psiquiátricas e a tortura na
ditadura militar:
[...] "Ele foi um preso político assim como aconteceu com milhares de
pessoas. Uma grande maioria dos hospitalizados, durante a ditadura militar,
na realidade eram presos políticos torturados. Muitos foram assassinados¨
explicou. O médico afirma que uma prática constante dos regimes
autoritários é o aprisionamento de pessoas contrárias àquela forma de
poder em instituições psiquiátricas. (VÌEL, 2010).
Claro que este desvio de conduta política precisava ser categorizado em
níveis, e nem todos aqueles que eram considerados um risco, acabavam sendo
internados, e muitos nem mesmo sobreviviam aos primeiros contatos com os
instrumentos de repressão policial, levantando uma segunda hipótese onde, os
manicômios colônias, tornaram-se depósitos de corpos para esconder os crimes
cometidos em nome deste novo modelo político brasileiro. Existem suspeitas de
várias valas comunitárias principalmente no Juquery, que serviram para esconder
aqueles que morriam nas sessões de tortura promovidas pelo regime militar.
Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, uma Comissão
Parlamentar de Representação (CPR) é instaurada para investigar as
conexões entre regime militar e Juquery, a pedido da Comissão de
Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Presidida pelo deputado
estadual Roberto Gouveia, do PT, a CPR descobre provas concretas da
escusa relação: fichas médicas de presos políticos, enquadrados na Lei de
Segurança Nacional, são encontradas no arquivo do hospital psiquiátrico,
mostrando que o manicômio foi um dos porões da ditadura. Esta mesma
Comissão localizou mais de mil ossadas numa vala clandestina do cemitério
de Perus, que fica a apenas 13 quilômetros do manicômio. (JORNAL PSÌ,
1998).
Não é difícil encontrar casos de presos políticos que ficaram internados em
instituições psiquiátricas e só foram descobertos após a Lei da Anistia de agosto de
77
1979. Neste período em que este novo perfil de alienado foi inserido nas instituições,
os tratamentos assumiram uma característica punitiva, e a reabilitação foi quase que
totalmente abandonada. Afinal, o regime militar tinha consciência de que não havia
doença a ser tratada nestas pessoas, mas era preciso excluí-las do convívio social,
em nome da Ordem e do Progresso.
Em 2 de agosto de 1968, com o Juquery sob a direção do médico psiquiatra
Paulo Fraletti, foi expedido um comunicado que ordenava que todo o interno
que for encontrado com qualquer tipo de arma, improvisada ou não, deverá
ser recolhido à cela forte. A instrução informava ainda que o paciente
receberia aplicação de uma ampola de escopolamina de 0,2 mg e deveria
ser notificado de que se tratava de disciplina, e não terapêutica essa
medida. A substância foi largamente empregada nos campos de
concentração nazistas e produz a sensação de morte iminente. Em altas
dosagens, causa delírios e amnésia temporária, a pessoa não se lembra do
que faz durante o efeito da droga. O médico Paulo Fraletti, justificando a
medida, afirmou que o bromato-hidrato de escopolamina acalma o doente
furioso, agitado e perigoso. Os eletrochoques, utilizados até hoje, também
eram outra técnica com finalidade punitiva e não terapêutica, o que fere o
código de ética de todo profissional ligado à saúde. A tortura era prática
corriqueira. (JORNAL PSÌ, 1998).
Mas este posicionamento não era característica apenas do Juquery, se
espalhando por outros manicômios e instituições psiquiátricas, como foi o caso da
Casa de Saúde Dr. Eiras, também conhecida como fazenda de Paracambi. Este
hospital, uma instituição privada, construído ao final dos anos 60, localizado em uma
área rural, foi o destino de muitos presos políticos. Nesta instituição recebiam uma
atenção totalmente desumanizada, onde não se buscava nenhum tipo de tratamento
ou reabilitação, apenas o isolamento.
Paracambi era uma grande fazenda e os pacientes viviam soltos como
animais lá dentro. Eles comiam com as mãos e muitas vezes como cães,
apenas com as bocas. Eram completamente isolados por cercas
eletrificadas. Aquilo era uma prisão e muitos eram presos políticos. (VÌEL,
2010).
78
Esta privação de direitos e os maus tratos cometidos são uma prova viva
deste período terrível da história brasileira, onde não só os doentes mentais eram
vistos como animais, mas todos aqueles que se manifestavam de forma contrária ao
pensamento social dominante. Se antes da ditadura isto já era uma prática comum,
quando se tratava de desvios de conduta moral, tornou-se corriqueira e necessária
para manutenção do regime totalitário ao qual o Brasil se encontrava.
Considerando que o desconhecimento e o desprezo aos direitos do Homem
conduziram a atos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade
e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres para
falar e para crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamada como a mais
alta inspiração do Homem... A citação, retirada do preâmbulo da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, a mesma que em seu artigo terceiro
professa que todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança
pessoal, remete de imediato a outro ponto convergente com a visão de que
há mais motivos para luto do que para festa neste centenário do Juquery.
Houve crescimento espantoso das instituições psiquiátricas durante a
ditadura militar. Em 1964, eram 74 manicômios. No final do mais obscuro
período da recente história brasileira, o número chegava a 395. (JORNAL
PSÌ, 1998).
Este crescimento gigantesco não é de forma alguma espantoso considerando
que a base do regime militar brasileiro, era a opressão e o cerceamento da
liberdade. E o efeito daqueles que vivenciaram estas violações ainda podem ser
vistos nos sobreviventes destes verdadeiros campos de concentração. Não é
possível em alguns momentos, diferenciar os acontecimentos nos manicômios
brasileiros, daqueles vivenciados nos campos de concentração nazistas há décadas.
Viel (2010) e Arbex (2013), em momentos diferentes, descrevem alguns casos que
de longe nos trazem a esta dura realidade.
Guedes lembra que além do cárcere físico, o químico era ainda mais
terrível. "Os pacientes eram transformados em cobaias e tratados como
ratinhos. Hoje os efeitos colaterais desses medicamentos são muito mais
conhecidos do que naquela época e trabalhados com muito mais ciência¨.
[...] Os efeitos dos longos anos de tortura deixaram sequelas irreversíveis e
agravaram o estado de saúde de Cirilo. "Ele passou por repetidas sessões
de eletrochoques e choques químicos. Atualmente ele é vítima
79
principalmente do massacre que a antiga estrutura psiquiátrica provocou.
Como muitos ex-presos políticos, Cirilo tem sequelas da tortura e dos
tratamentos equivocados aos quais foi submetido¨. (VÌEL, 2010).
[...]
O barulho da água caindo dentro do balde a despertou. Marlene iniciava
agora a lavagem de toda a ala, na tentativa de desinfetar o chão
impregnado pelo cheiro de fezes e urina não só humanas, mas também dos
ratos que dividiam o espaço com os pacientes do Colônia, considerado o
maior hospício do Brasil.(...) Começara a trabalhar num campo de
concentração transvestido de hospital. (ARBEX, 2013, p.25).
Ainda assim, não é possível afirmar que o tratamento piorou com o advento
militar. Apesar de muitas atrocidades terem ocorrido durante a ditadura, o tratamento
desumano ao qual eram destinados os alienados já era uma constante, muito antes
do golpe de 1964. Apesar do perfil de internos ter se alterado, com a adição dos
presos políticos, a exclusão sempre fora uma característica presente nos
diagnósticos. Além disso, os tratamentos utilizados eram experimentais em sua
maioria e de pouca eficácia comprovada, transformando os pacientes em cobaias
sem a mínima dignidade, onde seu sofrimento era ignorado quase que por completo.
Situação que era claramente percebida em Barbacena, no Hospital Colônia:
Em 1930, com a superlotação da unidade, uma história de extermínio
começou a ser desenhada. Trinta anos depois, existiam 5 mil pacientes em
lugar projetado inicialmente para 200. A substituição de camas por capim foi,
então, oficialmente sugerida, pelo chefe do Departamento de Assistência
Neuropsiquiátrica de Minas Gerais, José Consenso Filho, como alternativa
para o excesso de gente. A intenção era clara: economizar espaço nos
pavilhões para caber mais e mais infelizes. [...] Sessenta mil pessoas
perderam a vida no Colônia. As cinco décadas mais dramáticas do país
fazem parte do período em que a loucura dos chamados normais dizimou,
pelo menos, duas gerações de inocentes em 18.250 dias de horror.
(ARBEX, 2013, p.26).
Mesmo assim, não podemos excluir de forma alguma a influência que o
período militar teve no aumento dos quadros de internações e principalmente no
aumento do quadro de atrocidades cometidas contra os internos. Atrocidades
justificadas na busca pelo conhecimento científico e amparadas pelo descaso das
80
autoridades. Por conta disto, na atualidade uma CPR (Comissão Parlamentar de
Representação) foi instaurada para investigar as conexões entre regime militar e o
Juquery em São Paulo, e novas provas acabaram surgindo reforçando ainda mais
esta hipótese de confinamento, tortura e morte de presos políticos. Fichas médicas,
documentos e livros com nomes de pacientes foram entregues à CPR, trazendo
provas concretas da relação entre a ditadura e o hospital psiquiátrico. Muitos outros
registros trariam mais luz à questão, mas foram queimados, em um ato atribuído ao
acesso de loucura de um dos internos. Ao todo seriam mais de trinta mil óbitos
relacionados ao período, entre eles adolescentes, crianças e natimortos. (JORNAL
PSÌ, 1998).
E mesmo com todo este quadro autoritário e punitivo, foi após o ano de 1964,
que o Serviço Social é introduzido efetivamente na Saúde Mental. Mas muito longe
de ter um papel transformador, ainda engatinhava na garantia de direitos, e vinha
com o objetivo de atender aos trabalhadores por conta da mudança no sistema
previdenciário.
As portarias que incluíram o assistente social na Previdência visavam muito
mais controlar a assistência psiquiátrica no nível previdenciário com
medidas racionalizadoras do que propostas terapêuticas. (BÌSNETO, 2005,
p.113).
E sua inserção nos hospitais psiquiátricos em forma de lei aconteceu quase
uma década depois pela exigência do ÌNPS:
[...] é a partir de 1973 ÷ quando o MPAS enfatizava a importância da equipe
interprofissional para a prestação de assistência ao doente mental, numa de
suas tentativas de melhorá-la ÷ que se abriu um maior espaço para o
Serviço Social nas Ìnstituições Psiquiátricas. (SOUZA, 1986 apud BÌSNETO,
2005, p.113).
Dessa forma, o Serviço Social não teve base sustentável para uma mudança
crítica neste cenário de abandono dos alienados, pois não tinha como alcançá-los de
forma efetiva, e nem mesmo espaço para propor novos métodos, mesmo que
houvesse profissionais dispostos a mudar este quadro, não era possível acessar
81
estes espaços de contradições político-sociais que são os manicômios e hospitais
psiquiátricos.
O que é difícil ouvir, pois está perdido na história, é que o Serviço Social no
Brasil está na Saúde Mental devido a Previdência Social e atualmente à
Seguridade Social, por meio das portarias ministeriais que obrigaram a
contratação de assistentes sociais nos estabelecimentos conveniados à
rede previdenciária, e não por causa de um suposto Serviço Social
psiquiátrico brasileiro ou um Serviço Social clínico. [...] A gênese do Serviço
Social em Saúde Mental não foi endógena, não partiu de necessidades
terapêuticas ou clinicas para os transtornos mentais, mas sim da
modernização conservadora do Estado ditatorial brasileiro em busca de uma
possível legitimação em áreas críticas, como a atenção à saúde dos
trabalhadores do sistema previdenciário. (BÌSNETO, 2005, p.112-113).
E é partindo deste modelo que o Serviço Social se insere e então se alia ao
Movimento da Reforma Psiquiátrica, por sua similaridade ao Projeto Ético Político,
mas evitando se vincular ao neoliberalismo, algo que o Movimento da Reforma
Psiquiátrica não conseguiu se desvencilhar como descreve Bisneto:
O Movimento de Reforma Psiquiátrica se encontra preso pela armadilha do
neoliberalismo, em que a diminuição de serviços hospitalares acabou por
arrefecer a oferta de atenção, visando diminuir custos, enquanto o
propugnado é a substituição por serviços alternativos extra-hospitalares
(não asilares). Ora, o Serviço Social consegue fazer uma análise critica
competente das politicas sociais neoliberais e não caiu no canto da sereia
das propostas terceirizadoras, parcelizadoras, enfocadas, refilantropizadas
e restritivas das atuais políticas sociais. (BÌSNETO, 2005, p.115.)

E é neste cenário que se inicia um novo desafio para o Serviço Social, a
reinserção social dos alienados que antes eram completamente excluídos do
convívio, mas que com as mudanças na forma de tratamento e com a
desinstitucionalização dos loucos tornaram-se parte ativa nas relações sociais.
Quando a reabilitação se torna o objetivo do tratamento, os aspectos sociais tornam-
se essenciais na efetivação da cidadania destes que antes nem mesmo eram mais
reconhecidas como cidadãos de direito. (BÌSNETO, 2005).
82
Além disso, com este novo perfil social, as cidades tiveram o contato com um
novo perfil consumidor. Fora das amarras que lhes eram impostas, os antigos
internos, tornaram-se consumidores, o que aqueceu e desenvolveu o comércio local,
que antes se ressentia com a existência dos manicômios e dos loucos. Antes
ignorados, agora disputados pelas pessoas que os desprezaram por anos a fio.
Como é o caso de Barbacena em Minas Gerais, que por muito tempo se ressentiu
pela existência do Colônia, mas que hoje se alimenta do comércio da loucura.
O município se ressente até hoje da pecha do seu hospício, mas o comércio
da loucura, que mais tarde despertou a gana das clínicas particulares,
viabilizou o modelo de cidade que Barbacena se tornou. Dezenove dos vinte
e cinco hospitais psiquiátricos existentes em Minas até a década de 1980
estavam localizados no famoso corredor da loucura formado por Barbacena,
Juiz de Fora e Belo Horizonte. Nesse período, as três cidades
concentravam 80% dos leitos da saúde mental no Estado. Parâmetros da
Organização Mundial da Saúde estabeleciam como referência três
internações para cada mil beneficiários no país. Mas estudos do setor
psiquiátrico mineiro revelaram quase sete internações para cada grupo de
mil, em 1979. Em 1981, o número era superior a cinco. A cada duas
consultas e meia, uma pessoa era hospitalizada nas Gerais (ARBEX, 2013,
p.31).
[...]
Empoderadas financeiramente, Sônia e Terezinha passaram a consumir. O
mesmo aconteceu com os outros 160 pacientes que ocupam as vinte e oito
residências terapêuticas existentes em Barbacena. A injeção de recurso na
economia seduziu o comércio local. De lá para cá, os loucos que tanto
envergonharam a cidade passaram a ser disputados por vendedores e
lojistas. Sônia adquiriu o hábito de comprar sapatos, um luxo para quem
passou a vida inteira com os pés no chão. Os cabelos brancos ficaram
negros de novo com as tinturas vendidas no mercado da beleza. Comprou
vestidos ÷ às vezes, usa mais de um ao mesmo tempo ÷, ganhou
identidade. (ARBEX, 2013, p.54).
A reinserção social aconteceu muito mais por força de uma mudança nos
paradigmas sociais do que por uma mudança ética na visão dos tratamentos
médicos. Graças ao esforço de psiquiatras que se mostravam contrários ao método
arcaico e desumano do tratamento aos alienados, como Franco Basaglia, foi
83
possível ter estes avanços na luta antimanicomial e na reinserção social dos
doentes. (ARBEX, 2013).
6,5 A$ -ra%$4&rma0?e$ %a i$1& m"%!ial $&bre a l&"'"ra
A partir da década de 60, um novo olhar sobre a perspectiva de tratamento da
loucura começou a despontar na Europa. O psiquiatra Franco Basaglia apresenta
uma nova forma de tratamento mais humanizada lutando pela cidadania das
pessoas com transtornos mentais, e também por uma nova concepção social em
torno da loucura.
Este foi um importante marco na história da reforma psiquiátrica, que
repercutiu em todo o mundo, foi à perspectiva Basagliana que surgiu na
Ìtália, a partir de 1961, com a experiência de Franco Basaglia, no hospital
psiquiátrico de Gorizia. Este movimento veio produzir uma modificação na
forma de assistência prestada aos doentes mentais, ou seja, uma
modificação dos saberes e práticas prestadas pela assistência psiquiátrica
clássica. A reforma psiquiátrica veio modificar os serviços prestados aos
doentes mentais de formal gradual trazendo uma atenção mais humanizada
ao sujeito ao qual deveria ser visto de forma integral onde o todo não pode
ser separado das partes [...]. (BORGES, 2013).
Franco Basaglia renomado psiquiatra italiano, nascido em Veneza em 1924,
ingressou no Hospital Psiquiátrico de Gorizia após a Segunda Guerra Mundial,
depois de doze anos de carreira acadêmica na Faculdade de Medicina de Padova.
Seu objetivo era transformar o hospital em uma comunidade terapêutica, e para isso
iniciou um processo de melhoria nas condições de hospedaria e pincipalmente no
processo de cuidado técnico dos internos. (AMARANTE, 1996 apud TOCHETTO;
BOHMGAHREN, 2007).
Seu primeiro entrave se deu quando percebeu as condições de
miserabilidade humana proporcionada pelo hospital. Não bastava humanização no
atendimento, era preciso uma mudança na percepção da loucura, e principalmente
em sua relação com a sociedade. Essas transformações se faziam necessárias
desde a assistência psiquiátrica até a forma como se compreendia a loucura.
84
Basaglia criticava a postura tradicional da cultura médica, que transformava
o indivíduo e seu corpo em meros objetos de intervenção clínica. No campo
das relações entre a sociedade e a loucura, ele assumia uma posição crítica
para com a psiquiatria clássica e hospitalar, por esta se centrar no princípio
do isolamento do louco (a internação como modelo de tratamento), sendo,
portanto excludente e repressora. (AMARANTE, 1996 apud TOCHETTO;
BOHMGAHREN, 2007).
Basaglia teve como fonte de referência Michel Foucault e após a leitura da
obra "História da Loucura na Ìdade Clássica¨, formulou sua própria visão sobre a
questão. Ele já não via a psiquiatria no modelo tradicional sendo capaz de dar conta
do fenômeno complexo que é a loucura. De forma alguma, ele buscava acabar com
a psiquiatria, mas transformá-la e, em sua obra "Negação da Psiquiatria¨, apresenta
um discurso e práticas hegemônicas sobre a loucura.
O sujeito acometido da loucura, para ele, possui outras necessidades que a
prática psiquiátrica não daria conta. Basaglia denunciou também o que seria
o "duplo da doença mental", ou seja, tudo o que se sobrepunha à doença
propriamente dita, como resultado do processo de institucionalização a que
eram submetidos os loucos no hospital, ou manicômio. (AMARANTE, 1996
apud TOCHETTO; BOHMGAHREN, 2007).
Já em 1970 Basaglia deu início em seu projeto mais ambicioso. Quando foi
nomeado diretor do Hospital Provincial na cidade de Trieste, começou seu processo
de fechamento, promovendo a substituição do tratamento hospitalar manicomial por
uma rede territorial de atendimento, da qual faziam parte serviços de atenção
comunitários, emergências psiquiátricas em hospital geral, cooperativas de trabalho
protegido, centros de convivência e moradias assistidas (chamadas por ele de
"grupos-apartamento") para os loucos. (AMARANTE, 1996 apud TOCHETTO;
BOHMGAHREN, 2007).
Basaglia foi sem dúvida a peça chave no Movimento da Reforma
Psiquiátrica e suas ideias serviram como principal influência para a Reforma
Psiquiátrica no Brasil. Sua experiência em Triste tornou-se referência mundial para a
reformulação da assistência em saúde mental, credenciada pela Organização
Mundial de Saúde (OMS), em 1973. Na Ìtália tornou-se o grande precursor da
85
reforma psiquiátrica, tendo influência direta na criação de uma lei que recebeu seu
nome como homenagem.
A partir de 1976, o hospital psiquiátrico de Trieste foi fechado oficialmente, e
a assistência em saúde mental passou a ser exercida em sua totalidade na
rede territorial montada por Basaglia. [...] Como consequência das ações e
dos debates iniciados por Franco Basaglia, no ano de 1978 foi aprovada na
Ìtália a chamada "Lei 180", ou "Lei da Reforma Psiquiátrica Ìtaliana",
também conhecida popularmente como "Lei Basaglia". (AMARANTE, 1996
apud TOCHETTO; BOHMGAHREN, 2007).
Outros movimentos se iniciaram na Europa, alguns seguindo a mesma linha
de Basaglia, e outros apenas buscando contenção de custos, como o que aconteceu
nos Estados Unidos.
Nos EUA, o processo de desospitalização significou o fechamento dos
hospitais psiquiátricos, objetivando reduzir despesas do Estado, sem ter a
contrapartida adequada da criação de serviços comunitários, configurando-
se no fenômeno "os loucos na rua¨. Na Ìtália, o contexto era diferente e
havia basicamente duas situações, a saber: o movimento liderado por
Franco Basaglia e a situação italiana geral, pois a Lei 180, aprovada em
1978, passou por dez anos de desaplicação (KANTORSKÌ, 2001).
Estes movimentos foram de suma importância para a mudança da visão que
se tinha sobre a loucura, pois trazia uma vertente mais social para o problema, não
deixando que ficasse exclusivamente nas mãos da psiquiatria. E com o advento da
Reforma Psiquiátrica, abriu-se espaço para outros saberes e poderes, entre eles o
Serviço Social. (BÌSNETO, 2011).
6,6 A re4&rma <$i:"i@-ri'a %& Ara$il
O processo da reforma no Brasil se iniciou na década de 70, e se dividiu em
dois momentos, em que o primeiro faz uma crítica ao modelo de internação
manicomial e o segundo apresenta o modelo de redes extra-hospitalares.
(BORGES, 2013).
86
Está sendo considerada reforma psiquiátrica o processo histórico de
formulação crítica e prática que tem como objetivos e estratégias o
questionamento e a elaboração de propostas de transformação do modelo
clássico e do paradigma da psiquiatria. No Brasil, a reforma psiquiátrica é
um processo que surge mais concreto e principalmente a partir da
conjuntura da redemocratização, em fins da década de 1970, fundado não
apenas na crítica conjuntural ao subsistema nacional de saúde mental, mas
também, e principalmente, na crítica estrutural ao saber e às instituições
psiquiátricas clássicas, no bojo de toda a movimentação político-social que
caracteriza esta mesma conjuntura de redemocratização. (AMARANTE,
1995 apud TENORÌO, 2002, p. 27).
Mesmo tentando seguir o modelo basaglista, o Brasil encontrou sérias
dificuldades inicialmente, por conta do momento histórico em que vivia. A ditadura
brasileira criava um entrave complexo para que o modelo de desinstitucionalização
se aplicasse efetivamente. Mas por outro lado, a ineficiência da assistência pública
em saúde e seu caráter privatista serviram de maior aliado ao avanço da reforma
psiquiátrica.
Na segunda metade da década de 1970, no contexto do combate ao Estado
autoritário, emergem as críticas à ineficiência da assistência pública em
saúde e ao caráter privatista da política de saúde do governo central. Além
disso, surgem as denúncias de fraude no sistema de financiamento dos
serviços e, o que é mais importante para o posterior movimento da reforma,
as denúncias do abandono, da violência e dos maus-tratos a que eram
submetidos os pacientes internados nos muitos e grandes hospícios do
país. Não se criticavam os pressupostos do asilo e da psiquiatria, mas seus
excessos ou desvios. Em 1978, é criado o Movimento dos Trabalhadores
em Saúde Mental (MTSM). Combinando reivindicações trabalhistas e um
discurso humanitário, o MTSM alcançou grande repercussão e, nos anos
seguintes, liderou os acontecimentos que fizeram avançar a luta até seu
caráter definidamente antimanicomial. (TENORÌO, 2002, p. 32).
Por se tratar de uma melhoria nas condições dos internos, trazia consigo o
estigma de mais gastos, algo que para o estado brasileiro era algo completamente
fora de questão. Ìsto é algo claramente percebido, quando por solicitação política, os
assistentes sociais são inseridos no contexto manicomial como forma de reduzir os
altos custos para manter os loucos. (BÌSNETO, 2005).
87
E por mais que a formação social e política dos assistentes sociais possa
contribuir de forma expressiva na Saúde Mental e em seu momento pós-reforma,
duas grandes restrições podem ser encontradas como afirma Bisneto (2011):
• Os assistentes sociais não são capacitados pela formação universitária
para entender a loucura na sua expressão de totalidade histórica,
social e política;
• A psiquiatria reformada quer abrir o campo para o "social', mas o
movimento de renovação é heterogêneo dentro da categoria e nem
todos os psiquiatras visam rever os mandatos sociais e sua hegemonia
no espaço profissional. (p.37)
O Serviço Social ainda precisa amadurecer em sua formação para sofrer
menos reflexos dessas restrições, seja por meio de disciplinas institucionalistas ou
por engajamento nos movimentos sociais que lutam por uma reforma psiquiátrica
verdadeiramente democrática (BÌSNETO, 2011, p.37).
6,= O $eri0& $&'ial e a i$1& !e l&"'"ra %& %e&liberali$m&
O maior impacto com a mudança no sistema econômico é a influência que
exerce sobre a sociedade e principalmente em como fazer para transformar a
loucura em objeto de lucro. O neoliberalismo traz em seu bojo a proposta de
diminuir a regulação social, criando um Estado mínimo de direitos, onde a sociedade
se auto-regula pelas leis do mercado. O mercado por sua vez, favorecerá o
empresariado submetendo os trabalhadores às exigências do capital, com mínimos
direitos trabalhistas, e isso não se difere quando se trata dos loucos oriundos da
reforma psiquiátrica.
O neoliberalismo almeja, pretensamente, diminuir a regulação social,
deixando assim que a sociedade seja regida pelas leis "naturais¨ do
mercado, a lei da oferta e procura. Na prática, o mercado livre e a
desregulamentação da relação patrão ÷ empregado conduzem à lei do
mais forte, à lei da selva [...] o mais forte é o empresariado, pois tem maior
capacidade de se organizar, uma vez que historicamente detém mais
88
dinheiro e poder. Pior para a massa de trabalhadores, que têm de se
submeter às exigências do capital contando com as leis de proteção do
trabalho minimizadas, isto é, com poucos direitos trabalhistas. (BÌSNETO,
2011, p.41).
O Movimento da Reforma Psiquiátrica apesar de seu êxito tem como maior
inimigo a hegemonia das políticas neoliberais. Com a desvalorização do trabalho
humano, com o descaso com os excluídos, e principalmente com o
desmantelamento das políticas sociais, a continuidade das propostas de reinserção
social tem sofrido reveses por conta da diminuição do investimento público no setor
de Saúde Mental (BÌSNETO, 2011).
Tem se tornado comum os governos aproveitarem-se da onda neoliberal para
não internar pacientes. Dentro desta lógica de diminuição de custos da assistência
psiquiátrica, deixam de criar serviços alternativos, diminuem as verbas e não
contratam novos profissionais. Tiram os internos dos hospitais, e se utilizam do
movimento da reforma psiquiátrica para amparar suas decisões, mas não criam
substitutivos para tratar adequadamente estas pessoas. Deixam de atuar como
responsáveis pela saúde e cuidados dos alienados e em contrapartida transferem
esta responsabilidade para o terceiro setor e empresários do setor psiquiátrico. Da
mesma forma que argumentam diminuição de custos, repassam verba pública para
que estes empresários assumam o cuidado dos usuários da Saúde Mental. Seja por
meio de convênios ou por meio de grupos filantrópicos, a lógica neoliberal só
aumenta ainda mais o poder econômico da burguesia e dos setores conservadores
que mantém a política no Brasil. (BÌSNETO, 2011).
Podemos afirmar categoricamente, que não estão interessados realmente em
diminuir lucros, mas sim em garantir o lucro da classe dominante, mantendo assim a
hegemonia e o poder do empresariado. E isto não é diferente com o terceiro setor,
que se integra perfeitamente ao sistema vigente, perpetuando a estratégia de
hegemonia e do lucro empresarial.
[...] o chamado "terceiro setor¨, mesmo que de forma encoberta e
indiretamente, não está à margem da lógica do capital e do lucro privado (e
até do poder estatal). Ele é funcional à nova estratégica hegemônica do
capital e, portanto, não é alternativo, e sim integrado ao sistema
(MONTAÑO, 1999 apud BÌSNETO, 2011, p.43).
89
Este impacto pode ser sentido em todos os níveis das políticas sociais, e na
área da Saúde Mental o neoliberalismo incentiva a busca da medicalização através
da indústria farmacêutica e do tratamento baseado em remédios como saída para o
atendimento em massa. Já na Assistência Social, existe uma tendência que busca a
refilantropização, mesmo que com bases diferentes da gênese do Serviço Social,
mas com risco de retorno ao conservadorismo (MONTAÑO, 1997 apud BÌSNETO,
2011).
Por conta do avanço do neoliberalismo, o processo de marginalização social
cresceu na mesma proporção deixando grandes contingentes da população
excluídos do acesso aos direitos mais básicos de cidadania. Na questão da Saúde
Mental o processo se torna mais nocivo, contribuindo para o aumento dos problemas
psíquicos, de doenças psicossomáticas, de comportamentos bizarros, de neuroses
atuais e principalmente do empobrecimento psíquico (GALENDE, 1997;
STOLKÌNER, 1994 apud BÌSNETO, 2011).
O neoliberalismo é uma nova forma atualizada de redução de gastos com a
clientela e aumento de acumulação capitalista para os donos de
estabelecimentos psiquiátricos e indústrias multinacionais. Os
trabalhadores de Saúde Mental estão sendo prejudicados pelo
desemprego, terceirização, precarização, instabilidade no emprego, etc.
também em função da reestruturação produtiva que atinge até os serviços
(BÌSNETO, 2011, p.44).
Desta forma só através de análise crítica é possível alterar o quadro atual
onde o neoliberalismo se aproveita do Movimento da Reforma Psiquiátrica para
efetivar sua influência baseada no lucro e na precarização, desenvolvendo assim
uma prática emancipadora e não assistencialista do Serviço Social (BÌSNETO,
2011).
6,B O 9":"erC e & C&l;%ia %&$ !ia$ a-"ai$
Com o advento legal da desinstitucionalização por meio do projeto de lei 3657
de 1989, o processo de extinção progressiva dos manicômios se inicia. Mas como
vimos anteriormente, a influência do neoliberalismo afeta diretamente este processo.
90
A substituição dos manicômios por outros recursos assistenciais não foi unânime e o
processo de reinserção social não aconteceu de forma efetiva.
Mesmo no processo de extinção progressiva, o hospício do Juquery ainda
resiste mesmo que em um modelo diferente daquele que internou e isolou por
décadas, loucos e desajustados, os excluídos da sociedade. Ainda pode se dizer
que é um mundo paralelo ao nosso, mas pelo menos agora, existe acesso ao nosso
mundo, mesmo que o processo de inclusão esteja longe de ser efetivo.
Hoje, o Juqueri tenta se adequar à filosofia de saúde pública que prega o
tratamento de pacientes mentais em lugares menores, com equipes
interdisciplinares. Há três anos não há internações na área dos crônicos. Só
remoções. Os internos que sobraram representam o legado de um hospital
que, nos anos 60, chegou a ter 16 mil pacientes. Não vivem isolados porque
o município de Franco da Rocha foi crescendo no entorno do hospício - e
quase todos conseguem sair quando querem, alguns até para estudar.
Ainda assim, o Juqueri tem um clima de mundo paralelo. Quem é a mulher
mais bonita do Brasil? "Marta Rocha", responde Mário, um dos mais antigos
pacientes. E o presidente do Brasil? "Getúlio", responde outra paciente,
pronta para entrar no ônibus. As remoções são feitas para unidades
escolhidas pela Secretaria Estadual de Saúde e seguem critérios definidos
pela direção do hospital. Nos últimos anos, 40 pacientes foram
encaminhados de volta para a família. Os que perderam vínculos com o
mundo lá fora e aceitam ir embora são submetidos a um cruzamento de
dados para entrar nas listas de remoção. Acabam agrupados por tipo de
tratamento. Para clínicas de Pirajuí, por exemplo, foram pacientes que
precisam de geriatras - duas delas com mais de 100 anos. (CRUZ, 2005, p.
A12).
Este processo de desativação do Juqueri alcançou até mesmo a mídia e foi
noticiado nos principais jornais da época. As questões levantadas eram sempre
sobre o processo de reinserção social, assunto que preocupava a sociedade,
considerando que os programas e políticas ainda não eram capazes de atender às
demandas que surgiriam por conta da desinstitucionalização.
O Hospício do Juqueri está na última fase de uma desativação que dura
décadas. Neste ano, 340 internos saíram dali para clínicas. Na semana
passada, foram 79. Nos próximos dias, mais 80 serão removidos. Feitas as
91
contas, o lugar termina o ano com 340 pacientes crônicos. Enquanto a
Secretaria Estadual de Saúde anuncia a decisão de desativar seus
pavilhões até o ano que vem, o hospital enfrenta o dilema de decidir o futuro
de seus herdeiros. Alguns vão embora felizes. Outros não entendem direito
o que está acontecendo. Outra leva simplesmente se recusa a deixar o
lugar - como Carol (CRUZ, 2005, p. A12).
No final de 2005, o complexo do Juqueri era formado por um hospital geral
com 100 leitos e ambulatório com 28 especialidades médicas, e esta estrutura
atendia a cinco municípios vizinhos. Como descrito por Cruz (2005) no lugar, podia-
se ver famílias esperando por consultas, ambulâncias levando pessoas para a
emergência e médicos apressados (p. A12).
Ainda neste período, os que permaneciam na instituição em sua maioria eram
pobres que não possuem condições financeiras para manter seu tratamento.
Pessoas que depois de anos de internação, não acompanharam as mudanças da
sociedade e seus reflexos nas cidades e relações sociais.
O hospício - único ponto que caminha para a desativação - funciona em
duas construções anexas ao hospital e em pavilhões e casinhas espalhados
por 1.927 hectares. A única lógica geográfica por ali é a de que, quanto mais
perto estão do hospital, mais graves são os distúrbios dos internos. Nesses
setores, chamados de Agudos, estão 40 pessoas cuja agressividade oferece
perigo ou precisam de muitos cuidados. Nos outros setores, mais longe da
sede, estão os internos crônicos. Essa pequena multidão de mentes mais
embaraçadas do que se costuma achar normal tem histórias parecidas.
Todos foram parar no Juqueri há décadas, por conta de crises agudas de
transtornos mentais. Após tratamento, acabaram jogados em pavilhões.
Tratados como loucos, só pioraram. Muitos precisam de algum tipo de
tratamento médico. Mas, em linhas gerais, poderiam ter alta psiquiátrica. Se
não fossem pobres, controlariam seus transtornos com remédios de tarja
preta e terapia. Seriam, no máximo, aqueles tios ou primas meio estranhos
que toda família tem. "O problema aqui é mais de exclusão social do que de
psiquiatria", afirma Maria Alice Scardoelli, diretora do Núcleo Assistencial do
Juqueri (CRUZ, 2005, p. A12).
Com o programa do governo federal "De Volta Para Casa¨
5
, o número de
internos passou a diminuir por conta da remoção para unidades do interior do
5
O Programa De Volta Para Casa será tratado adiante.
92
Estado de São Paulo, e também pela procura das famílias. Um processo de alta
complexidade, pois nem todas as famílias aceitam o reestabelecimento dos vínculos
com os doentes.
A diminuição do número de internos é resultado da remoção para unidades
do interior do Estado de São Paulo e da procura das famílias dessas
pessoas. Um processo que começou em 2004, com o programa "De Volta
Para Casa", do governo federal. A tarefa não é fácil. Muitos dos internos
estão ali há tanto tempo que já perderam por completo o vínculo com a
família. Para outros a situação é ainda pior: os parentes já não os querem
mais. "O governo oferece R$ 240 para o paciente ir para casa. É capaz de
algumas famílias oferecerem o dobro para eles ficarem aqui", diz a
psiquiatra Maria Alice Scardoelli, diretora da Divisão de Saúde do
Departamento Psiquiátrico 2 do Juqueri. Mesmo com a remoção de grande
parte dos internos, o Juqueri não será desativado. Quatro residências
terapêuticas, chamadas de "casinhas" pelos internos, ficam na área
pertencente ao Juqueri, porém distante do hospital. Ali, os ex-pacientes
vivem juntos como em uma "república" (THOMÉ; SANT'ANNA, 2006, p.
A20).
É preciso, por conta disto, um trabalho com as famílias e uma preparação da
rede para receber os desinstitucionalizados. Não basta coloca-los para fora dos
portões, pois eles terão dificuldades para se readaptarem e aderir aos tratamentos.
O Hospital Colônia de Barbacena, considerado como um dos piores do país
acabou tornando-se referência neste processo de reintegração dos doentes.
De um dos piores manicômios do País para um modelo de referência dentro
do contexto da reforma psiquiátrica, a experiência de Barbacena, em Minas
Gerais, aponta para um modelo onde funcionam, em rede, hospital,
ambulatório, pronto-socorro, Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e
residências terapêuticas. Da mistura de cada uma das formas e de seu uso
para cada tipo de paciente, o município, que já teve cerca de mil leitos
psiquiátricos, abriga hoje apenas 300. "À medida que você coloca critérios
para internação, tudo começa a mudar. Fechamos a porta para encarar tudo
como crônico e os problemas começaram a ser resolvidos nas
comunidades, investindo-se em serviços alternativos", diz Jairo Toledo, um
dos pioneiros do movimento antimanicomial no Brasil e ex-diretor do Centro
Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena. "Já fomos o pior lugar do Brasil e
93
conseguimos reverter isso." Ele afirma que, além das mudanças nos
tratamentos e dos avanços na área farmacêutica, existe também um perfil
diferente de paciente. "No futuro, a saúde mental vai ser tratada como
qualquer outra clínica, inclusive com a mudança no perfil das patologias, o
aumento dos fóbicos, dos depressivos, dos transtornos de pânico. Só que
não podemos ir hoje do 8 para o 80. O hospital deve existir e cumprir seus
protocolos, ser dinâmico", afirma. Ele conta que na cidade todos os serviços
funcionam juntos. Outra questão apontada por ele é o trabalho com as
famílias dos pacientes, que ainda se recusam a levá-los de volta para casa.
"Chamamos a família aqui, tentamos conversar, mostrar que é possível, que
não dá para querer mais jogar o paciente no hospital e ir embora."
(ÌWASSO, 2006, p. A20)
A mudança na percepção da loucura é essencial, mas as transformações na
forma do tratamento é o que realmente fará a diferença. Não tratar mais com o
isolamento, mas sim pensar na manutenção dos vínculos e trabalhar para que eles
sejam mantidos levando em consideração as particularidades de cada indivíduo e
família, e quando não for possível o reestabelecimento, se utilizar de meios para
reinseri-lo na comunidade, lhe dando autonomia e reconhecimento como ser social e
de direitos. As políticas públicas são a principal ferramenta para garantir que a
reinserção ocorra e que os antigos internos possam ter seus direitos assegurados.
6,D P&li-i'a$ $&'iai$ e a-"a01& !& e$-a!& <2$Ere4&rma <$i:"i@-ri'a
#.$.% &oltica do de'iciente mental
Dentre os marcos que norteiam a atuação do Estado na reforma psiquiátrica,
podemos citar o Projeto de Lei do deputado Paulo Delgado que dispõe sobre a
extinção dos manicômios. Este que ficou conhecido como Projeto de Lei Anti-
Manicomial foi de extrema importância, pois regulamentava a necessidade da
criação serviços extra-hospitalares que pudessem oferecer o atendimento digno aos
doentes, deixando a internação apenas para os casos que estes serviços não
fossem capazes de atender. O Projeto foi apresentado em 1989, mas só tornou lei
doze anos depois, em 12 de março de 2001. A lei 10216/01 foi aprovada por
unanimidade na Câmara dos Deputados, e constituiu um avanço histórico,
94
culminado pelo empenho de uma série de segmentos sociais engajados no
Movimento Nacional da Luta Antimanicomial (ESPERÌDÌÃO, 2001).
Como forma de efetivar esta lei, foi criado o Programa "De Volta para Casa¨,
cujo objetivo é a organização de uma rede de recursos assistenciais para promover
e facilitar a inserção social das pessoas acometidas de transtornos mentais.
Na história da atenção às pessoas com transtornos mentais no Brasil, por
muito tempo o tratamento foi baseado no isolamento dos pacientes em
hospitais psiquiátricos. Ìsso acabou gerando um grande contingente de
pacientes afastados por longo tempo do convívio social e que precisam de
especial apoio para sua reinserção na sociedade. Visando promover e
facilitar esse processo, o Ministério da Saúde está lançando o Programa "De
Volta para Casa¨, que tem por objetivo a inserção social de pessoas
acometidas de transtornos mentais, incentivando a organização de uma
rede ampla e diversificada de recursos assistenciais e de cuidados.
(BRASÌL, 2003, p.1).
Este programa vem regulamentar o auxílio-reabilitação psicossocial, para as
pessoas que possuem uma longa história de internações psiquiátricas. Esta
reabilitação deve ocorrer em três âmbitos: assistência, acompanhamento e
integração social. Sua importância se efetiva por seu atendimento aos que estão
quase que integralmente desprovidos de amparo social e ainda garante suporte,
para evitar o agravo clínico e abandono.
Este programa atende ao disposto na Lei n° 10.216, de 06.04.2001, que
trata da proteção e dos direitos das pessoas portadoras de transtornos
mentais. Além disso, redireciona o modelo assistencial em saúde mental,
conforme Artigo 5° da referida Lei, que determina que os pacientes há longo
tempo hospitalizados, ou para os quais se caracterize situação de grave
dependência institucional, sejam objeto de política específica de alta
planejada e reabilitação psicossocial assistida. O objetivo é a ÌNCLUSÃO
SOCÌAL de pacientes e a mudança do modelo assistencial em saúde
mental, com ampliação do atendimento extra-hospitalar e comunitário
(BRASÌL, 2003, p.2).
É por meio deste programa que os primeiros passos para que as mudanças
advindas com a Reforma Psiquiátrica não causem danos aos egressos do sistema
95
manicomial e também evite que as pessoas portadoras de transtorno não tenham o
tratamento de exclusão que outrora existiu em nosso País.
Contribuir efetivamente para o processo de inserção social dessas pessoas,
incentivando a organização de uma rede ampla e diversificada de recursos
assistenciais e de cuidados, facilitadora do convívio social, capaz de
assegurar o bem-estar global e estimular o exercício pleno de seus direitos
civis, políticos e de cidadania. Este programa faz parte do processo de
Reforma Psiquiátrica, que visa reduzir progressivamente os leitos
psiquiátricos; qualificar, expandir e fortalecer a rede extra-hospitalar -
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Serviços Residenciais
Terapêuticos (SRTs) e Unidades Psiquiátricas em Hospitais Gerais (UPHG) -
e incluir as ações da saúde mental na atenção básica e Saúde da Família
(BRASÌL, 2003, p.3).
Sua base legal está amparada pelas seguintes regulamentações:
• Lei n° 10.708, de 31.07.2003, que institui o auxílio-reabilitação
psicossocial para pacientes acometidos de transtornos mentais
egressos de internações;
• Portaria n° 2.077/GM, de 31.10.2003, que regulamenta a Lei n° 10.708;
• Portaria n° 2.078/GM, de 31.10.2003, que institui a Comissão de
Acompanhamento do Programa "De Volta para Casa". (BRASÌL, 2003).
O auxílio-reabilitação psicossocial é o pagamento mensal diretamente ao
beneficiário no valor de R$240,00, por um período de um ano podendo ser renovado
caso a pessoa ainda não tenha condições de se reintegra completamente a
sociedade. Para que possa ser incluída no programa, a pessoa necessita estar de
alta hospitalar e morando em residência terapêutica, ou mesmo com suas famílias.
Além disso, será necessário que seja atendido por um CAPS, onde será
acompanhado permanentemente por uma equipe municipal que apoiará em sua
reintegração ao ambiente familiar e social (BRASÌL, 2003).
#.$.( C)&*
96
Não é possível pensar em desinstitucionalização e humanização sem criar
mecanismos que possam atender de forma efetiva, as demandas que surgem em
nossa sociedade e quem não conseguem ser suportadas apenas com o apoio
familiar. Estes mecanismos necessitam de estrutura capaz de atender às
diversidades e particularidades de cada indivíduo e ser capazes de compreender a
historicidade que norteia as causas da maior parte dos transtornos. Dentre os
mecanismos, temos como pilar de sustentação os Centros de Atenção Psicossocial,
ou CAPS, como são conhecidos.
Os CAPS são instituições destinadas a acolher os pacientes com
transtornos mentais, estimular sua integração social e familiar, apoiá-los em
suas iniciativas de busca da autonomia, oferecer-lhes atendimento médico e
psicológico. Sua característica principal é buscar integrá-los a um ambiente
social e cultural concreto, designado como seu "território¨, o espaço da
cidade onde se desenvolve a vida quotidiana de usuários e familiares. Os
CAPS constituem a principal estratégia do processo de reforma psiquiátrica.
(BRASÌL, 2004, p.9).
A reforma psiquiátrica quebra o antigo modelo institucionalizador e
excludente, mas de certa forma, cria um novo problema. Ao ressocializar os doentes,
o Estado precisa garantir atendimento médico e psíquico, dividindo a
responsabilidade do cuidado com a família. A maior questão nisso é que a
assistência psicossocial não pode ficar ausente ou ser ineficiente, pois apesar do
doente ter ao seu lado sua família, nem sempre as pessoas terão o preparo para
lidar com as situações adversas que surgem por conta das crises e dos transtornos.
Sabemos como é difícil implementar a reforma psiquiátrica, como são
grandes os desafios. Um dos maiores desafios é justamente a consolidação
desses serviços de atenção diária. Porém, depois de uma experiência que
já completou 10 anos, vamos aos poucos construindo a convicção de que
vale a pena investir nos CAPS, que vêm se mostrando efetivos na
substituição do modelo hospitalocêntrico, como componente estratégico de
uma política destinada a diminuir a ainda significativa lacuna assistencial no
atendimento a pacientes com transtornos mentais mais graves. (BRASÌL,
2004, p.9).
97
Atualmente se tem uma visão mais ampla sobre a questão da saúde mental e
outros atores foram incluídos e avaliados para melhor entender como lidar com a
população. Hoje se considera principalmente o território para efetivação das políticas
pública e na saúde mental isto não é diferente. Afinal é nele que haverá a
reintegração do paciente, e é nele o papel social se desenvolverá.
Um país, um Estado, uma cidade, um bairro, uma vila, um vilarejo são
recortes de diferentes tamanhos dos territórios que habitamos. Território não
é apenas uma área geográfica, embora sua geografia também seja muito
importante para caracterizá-lo. O território é constituído fundamentalmente
pelas pessoas que nele habitam, com seus conflitos, seus interesses, seus
amigos, seus vizinhos, sua família, suas instituições, seus cenários (igreja,
cultos, escola, trabalho, boteco etc.). É essa noção de território que busca
organizar uma rede de atenção às pessoas que sofrem com transtornos
mentais e suas famílias, amigos e interessados. (BRASÌL, 2004, p.11).
Por conta disso faz-se necessária uma rede articulada, intersetorial, que
possa garantir efetivamente a reabilitação psicossocial. Não é possível se pensar
apenas em um único serviço de atendimento que possa atender toda a necessidade
do doente, pois ele é um ser social, e como tal se insere em diversos níveis na
sociedade. Esta articulação entre as redes, que se origina por meio dos CAPS,
precisa ter respaldo com os outros serviços de saúde e também com os dispositivos
que já existem na comunidade, para que a reabilitação não se torne apenas uma via
de mão única que não terá efetividade quando o doente estiver fora do espaço do
Centro.
Para constituir essa rede, todos os recursos afetivos (relações pessoais,
familiares, amigos etc.), sanitários (serviços de saúde), sociais (moradia,
trabalho, escola, esporte etc.), econômicos (dinheiro, previdência etc.),
culturais, religiosos e de lazer estão convocados para potencializar as
equipes de saúde nos esforços de cuidado e reabilitação psicossocial. [...] e
situando os CAPS como dispositivos que devem estar articulados na rede
de serviços de saúde e necessitam permanentemente de outras redes
sociais, de outros setores afins, para fazer face à complexidade das
demandas de inclusão daqueles que estão excluídos da sociedade por
transtornos mentais. (BRASÌL, 2004, p.11).
98
Dentre os objetivos dos CAPS está a prioridade em atender dentro de sua
área de abrangência, realizando acompanhando clínico e reinserção social pelo
acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços
familiares e comunitário. Por ser substitutivo às internações em hospitais
psiquiátricos, possui um serviço estruturado para melhor atender os pacientes. Os
CAPS visam:
• Prestar atendimento em regime de atenção diária;
• Gerenciar os projetos terapêuticos, oferecendo cuidados clínicos
eficientes e personalizados;
• Promover a inserção social dos usuários através de ações
intersetoriais que envolvam educação, trabalho, esporte, cultura e
lazer, montando estratégias conjuntas de enfrentamento dos
problemas. Os CAPS também têm a responsabilidade de organizar a
rede de serviços de saúde mental de seu território;
• Dar suporte e supervisionar a atenção à saúde mental na rede básica,
PSF (Programa de Saúde da Família), PACS (Programa de Agentes
Comunitários de Saúde);
• Regular a porta de entrada da rede de assistência em saúde mental de
sua área;
• Coordenar junto com o gestor local as atividades de supervisão de
unidades hospitalares psiquiátricas que atuem no seu território;
• Manter atualizada a listagem dos pacientes de sua região que utilizam
medicamentos para a saúde mental. (BRASÌL, 2004, p.13).
Para garantir o atendimento humanizado e respeitar as diversidades, os
CAPS contam com uma equipe multidisciplinar composta por diferentes técnicos de
nível médio e superior. Dentre eles podemos citar os de nível superior: médicos,
enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, pedagogos,
professores de educação física. Já os de nível médio: técnicos ou auxiliares de
enfermagem, técnicos administrativos, educadores e artesãos. (BRASÌL, 2004,
p.26).
99
Neste novo modelo de desinstitucionalização, o Assistente Social torna-se
imprescindível na articulação e na mediação entre família/usuário/instituição.
Também cabe ao Assistente Social desmistificar a relação de aspectos internos com
o parente "doente mental¨ e aspectos externos na relação institucional e política.
(FALEÌROS, 1997 apud SOUZA, 2010).
Também é importante citar que o Assistente Social contribui para uma visão
global do paciente frente ao seu projeto terapêutico individual garantindo ao paciente
um tratamento digno, tornando-o um sujeito social com direitos e deveres.
[...] a pessoa portadora de sofrimento mental, frente ao sistema social em
que vivemos (sociedade baseada na exploração, no lucro e na exclusão
social) necessita de apoio e assistência adequada para o exercício pleno de
sua cidadania em qualquer fase da vida e em qualquer circunstância, de
modo a permitir uma participação ampla e responsável e a luta permanente
pela conquista e conservação dos direitos fundamentais. (ABADE, 2001
apud SOUZA, 2010).
Com isto podemos afirmar que os CAPS surgem não só como uma alternativa
as internações, mas como uma materialização de uma nova perspectiva na visão da
loucura, onde a exclusão não é mais uma opção, e o doente torna-se um sujeito com
direitos civis garantidos e com sua ressocialização como principal objetivo do
trabalho técnico. E o Assistente Social se transforma em ator imprescindível neste
processo de intervenções profissionais críticas e competentes embasadas em
análises críticas da realidade, considerando conhecimentos acerca dos direitos de
cidadania, que vão de encontro às concepções de outras práticas políticas que
respondem à política neoliberal. (SOUZA, 2010).
#.$.+ ,esid-ncias terap-uticas
Neste processo de desinstitucionalização foi necessária a criação de leis e
políticas que promovessem a reintegração social efetiva dos doentes mentais. Entre
estas políticas, as residências terapêuticas surgem como uma alternativa para o
grande contingente de pessoas que estiveram internadas por muito tempo em
hospitais psiquiátricos e que não possuem suporte familiar e social adequados.
(BRASÌL, 2004).
100
O Serviço Residencial Terapêutico (SRT) ÷ ou residência terapêutica ou
simplesmente "moradia" ÷ são casas localizadas no espaço urbano,
constituídas para responder às necessidades de moradia de pessoas
portadoras de transtornos mentais graves, institucionalizadas ou não.
O número de usuários pode variar desde 1 indivíduo até um pequeno grupo
de no máximo 8 pessoas, que deverão contar sempre com suporte
profissional sensível às demandas e necessidades de cada um.
O suporte de caráter interdisciplinar (seja o CAPS de referência, seja uma
equipe da atenção básica, sejam outros profissionais) deverá considerar a
singularidade de cada um dos moradores, e não apenas projetos e ações
baseadas no coletivo de moradores. O acompanhamento a um morador
deve prosseguir, mesmo que ele mude de endereço ou eventualmente seja
hospitalizado.
O processo de reabilitação psicossocial deve buscar de modo especial a
inserção do usuário na rede de serviços, organizações e relações sociais da
comunidade. Ou seja, a inserção em um SRT é o início de longo processo
de reabilitação que deverá buscar a progressiva inclusão social do morador.
(BRASÌL, 2004, p.6).
.
O SRT é amparado pela Portaria n.º 106/2000, do Ministério da Saúde, e teve
como subsídios para sua elaboração experiências de sucesso nas cidades de
Campinas (SP), Ribeirão Preto (SP), Santos (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Porto Alegre
(RS), no início dos anos 90. E por ter sua implantação ainda de forma tão recente,
cabe ser amplamente discutida para que seja assegurada como melhor alternativa
em auxiliar o morador em seu processo de reintegração à comunidade. É preciso
deixar claro também, que não se trata de um serviço de saúde, mas espaços de
morar, de viver, articulados à rede de atenção psicossocial de cada município.
(BRASÌL, 2004).
As residências terapêuticas se caracterizam como modalidade assistencial
substitutiva da internação psiquiátrica prolongada e precisam estar vinculadas aos
CAPS. Podem ser usuários destas residências os seguintes tipos de usuários:
• Portadores de transtornos mentais, egressos de internação psiquiátrica
em hospitais cadastrados no SÌH/SUS, que permanecem no hospital
por falta de alternativas que viabilizem sua reinserção no espaço
comunitário.
101
• Egressos de internação em Hospital de Custódia e Tratamento
Psiquiátrico, em conformidade com decisão judicial (Juízo de Execução
Penal).
• Pessoas em acompanhamento nos Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS), para as quais o problema da moradia é identificado, por sua
equipe de referência, como especialmente estratégico no seu projeto
terapêutico. Aqui se encontram aquelas localidades que, a despeito de
não possuírem hospitais psiquiátricos, frequentemente se defrontam
com questões ligadas à falta de espaços residenciais para alguns
usuários de serviços de saúde mental.
• Moradores de rua com transtornos mentais severos, quando inseridos
em projetos terapêuticos especiais acompanhados nos CAPS.
(BRASÌL, 2004, p.8).
E apesar de ser de natureza pública, podem estabelecer convênios com
entidades filantrópicas, associações e ONGs, e suas atribuições devem ser
estabelecidas explicitamente no convênio. (BRASÌL, 2004).
Este modelo de residências terapêuticas foi utilizado no processo de
desinstitucionalização de internos do Hospital Colônia de Barbacena em Minas
Gerais. Atualmente são cento e sessenta pacientes divididos entre vinte e oito
residências terapêuticas. (ARBEX, 2013).
Neste caso, é possível perceber o sucesso no processo de reinserção social
dos egressos, como relata Arbex (2013):
Elzinha [...] Recebeu alta em 2004, após trinta e sete anos de
institucionalização, quando foi levada para uma residência terapêutica em
Barbacena. Com cinquenta e sete anos, foi a primeira vez que morou em
uma casa de verdade. Filha de pai e mãe desconhecidos, ela já estava
hospitalizada em Oliveira quando tomou consciência de si mesma, ainda na
idade infantil. Por isso, ter um lugar seu era mais do que uma libertação.
Significava um reencontro com a sua individualidade. [...] É difícil
compreender como, depois de tantos anos de sofrimento, Elzinha ainda
consegue sonhar. O fato é que a casa onde ela vive tem alma. É possível
sentir isso desde a entrada, onde a varanda desperta sensação agradável.
No imóvel do bairro Belvedere, os tons pastel ficam do lado de fora. Lá
102
dentro, o colorido impera. A colcha da cama da filha de Oliveira é amarela
com detalhes em floral. Já a cortina verde é igualmente estampada. A toalha
de mesa estendida na copa também tem tons fortes, mas é na sala de estar
que Elzinha finalmente conseguiu materializar um desejo antigo: ter sofás
vermelhos, quase no mesmo tom do esmalte que usa. A mobília contrasta
com o piso claro da sala, reforma custeada por ela e pelas outras cinco
residentes do lugar com o benefício de quase mil reais pago pelo governo a
cada uma. [...] Na mesa farta, broa, pão, bolo e um riso gostoso de pessoas
que se sentem verdadeiramente em casa. O cheiro de café impregna o
ambiente. Juntas, elas conversam, assistem à novela, brigam, criam as
regras do lugar e tentam reconstruir um mundo novo. Separadas, elas lutam
para se reinventar e superar os próprios medos. [...] ÷ Aqui eu só sinto falta
de uma coisa: visita. Seria muito bom se eu tivesse um irmão, alguém que
viesse me ver ÷ afirma Elzinha. (ARBEX, 2013, p.97 e p.98).
Como parte de uma política compensatória, ainda está longe de corrigir anos
de injustiça na exclusão de pessoas, que por possuírem uma doença ou por agirem
e pensarem de forma diferente do aceito pela maior parte da sociedade foram
postos a margem da sociedade, encarcerados, sem possibilidade de recorrer de sua
injusta condição, apodrecendo em porões e pátios imundos sem o mínimo de
dignidade e respeito pelo ser humano. (ARBEX, 2013).
Mas ainda que não possa apagar o passado, os ganhos presentes são
evidentes e imediatos e alguns peculiares e podem demorar anos para serem
percebidos. De qualquer modo, não existe como se comparar a vida coletivizada das
instituições com o residir em comunidade com toda a sua complexidade e infinitas
possibilidades de troca. Como afirmou um morador de SRT: "Uma casa... É o habitar
da cidade. É você poder habitar a cidade, tendo um lugar para voltar... Para voltar no
fim do dia. Eu habito esta cidade!". (BRASÌL, 2004).
103
104
CONSIDERAÇFES FINAIS
O resgate histórico da loucura e alguns recortes pontuais que fizemos não
tinham por objetivo esgotar o assunto, mas "levantar a lebre¨ da questão do lugar do
louco, do doente mental na sociedade em que vivemos. No decorrer deste percurso
muitas hipóteses nos ocorreram, a mais relevante que está intrínseca ao título deste
trabalho, é a ausência de alternativas e tentativas de ressocialização dos sujeitos,
até mesmo pela inexistência de mecanismos que pontuassem antigos paradigmas
do que tange o universo da doença mental, haja vistas que o Estado promoveu
substancialmente uma higienização social, poupando-nos dos desconfortos
causados pelos loucos, que outrora eram escondidos nos porões das casas e asilos
e posteriormente pelos muros do manicômio.
A loucura veio a nos revelar a própria face humana destituída de sua
humanidade, pois bem, a sociedade vivia em período de transição econômica, social
e cultural, o saber instituído impulsionava os mecanismos estatais e privados para
um julgamento moral e uma pretensa normatização do sujeito, um padrão instituído
e um homem, no sentido de humanidade, de bem. No Brasil um capitalismo que
acontece de maneira tardia, sendo um dos últimos países a abolir o regime
escravocrata, criou uma massa heterogênea, justamente pela cratera social
existente entre nobreza e povo, brancos e negros, homens e mulheres, reforçou
assim os elementos fundantes de uma sociedade que, sobretudo, exclui uma
camada para que outra aumente seus lucros.
Dos pequenos respiros entre as violações ocorridas nestes espaços, a arte
expressou um passo para humanização dentro das instituições psiquiátricas, porém
não deu alternativas à pergunta principal deste trabalho: ressocialização de sujeitos,
da laborterapia de Dr. Francisco Franco da Rocha, que reiterava os princípios do
trabalho, reforçando a necessidade de ocupação, geralmente destinada aos que já
vinham de uma vida voltada ao trabalho braçal, às terapias ocupacionais de Nise da
Silveira que, encontrou nos trabalhos artísticos dos pacientes uma forma de
expressão do inconsciente. No meio termo está Osório César que contribuiu com
seus estudos da arte dos alienados, A Escola Livre de Artes presente dentro do
Complexo Hospitalar do Juquery e o que significou o segundo maior movimento
artístico do Clube dos Artistas Modernos: A Semana de Arte dos Loucos e das
Crianças de 1933.
105
O Juquery, um Hospital advindo de uma necessidade de retirar do centro da
capital paulista a quantidade cada vez maior de usuários do serviço asilar, chegou a
ser um dos maiores complexos psiquiátricos da América Latina. De sua idealização
muito se alterou à medida que outras gestões adentraram a instituição; da visão de
Franco da Rocha que acreditava no trabalho como maneira de relação com o
ambiente aos poucos outras formas de entender a loucura e métodos terapêuticos
violentos foram colocados em execução, diminuindo cada vez mais o protagonismo
dos sujeitos sociais, à medida que houve o crescimento da cidade, munícipes e
pacientes se misturavam numa relação bastante ambígua.
Barbacena, com o Colônia, escolhido para abrigar, o que Daniela Arbex,
chama por Campo de Concentração Brasileiro, que nem sempre foi assim, pois a
cidade tinha fama de, pelos ares, receber muitas pessoas para que recuperassem a
saúde, em algum momento deste percurso histórico os rumos mudaram e dentro da
instituição colocava-se displicentemente sendo eles doentes mentais ou não,
expostos a toda violação e maus tratos sob a conivência do Estado.
Da assistência ao Alienado às Políticas Públicas voltadas aos Doentes
mentais, recorrentes da reforma psiquiátrica, houve um avanço estrutural, fruto da
luta antimanicomial que discutia e questionava o enclausuramento e as formas
violentas tidas como terapêuticas.
A exclusão sempre foi a melhor solução para tratar a loucura. E sua
naturalização alcançou níveis surpreendentes de aprovação que já nem se
contestava mais o tratamento desumano que era destinado aos loucos e alienados.
Mesmo a medicina não avançava na busca de outras formas e em alguns casos até
utilizava os internos como cobaias de tratamentos experimentais, alguns funcionais
e outros absurdos, verdadeiras máquinas de tortura, como o tratamento por jatos
d'água ou o eletrochoque.
A exclusão como terapia que não se distanciava jamais do isolamento do
diferente, do incômodo social. Ìsolamento este que não demorou a servir aos
interesses da sociedade vigente, fosse para esconder aquilo que era atípico, ou
mesmo vergonhoso, fosse para eliminar a dissidência política e ideológica.
Os manicômios durante muito tempo serviram aos mais inóspitos desígnios
de uma sociedade hipócrita e conservadora. Uma sociedade que se valia de
diagnostico médico para condenar inúmeras pessoas a um destino pior do que a
morte.
106
Mesmo que sua origem tenha sido uma necessidade real, claramente os anos
a deturparam, os convertendo em verdadeiros campos de concentração ou
simplesmente depósitos de seres humanos indesejáveis.
Por força dos avanços da psiquiatria, mas em especial na visão humanizada
e crítica de alguns filósofos e psiquiatras, este modelo foi contestado veemente. Não
era clara sua efetividade em qualquer tratamento, e o que mais se objetivava era
sempre a exclusão. É fato que algumas famílias não dispunham de condições
materiais para cuidarem com dignidade de seus doentes, e era preciso pensar em
formas de solucionar este impasse. Uma nova forma de tratamento passa a ser
discutida, e a partir daí o modelo repressivo e isolador dos manicômios foi se
desconfigurando para se tornar um modelo de assistência que não se limita à
internação.
Mesmo o serviço social teve pouca contribuição neste processo. Ìnicialmente
não tinha autonomia para intervir neste campo que era exclusivo na medicina e sua
expressão se deu apenas por força da lei, mais fiscalizatório do que contributivo. É
fato que o Serviço Social só adquiriria uma visão critica muitos anos depois de sua
introdução na Saúde Mental, com o movimento de reconceituação.
Em meio às lutas de classes, e reivindicações dos trabalhadores e
movimentos sociais, a escola de Serviço Social no Chile, "passou a
organizar o ensino do Serviço Social numa nova dinâmica de alianças com
as forças de transformação Social, dentro do projeto popular de construção
de uma sociedade socialista¨ [...] para isso foi necessário um compromisso
da profissão com a classe trabalhadora, o que caracterizou segundo
Faleiros "numa ruptura com o Serviço Social paternalista ou meramente
desenvolvimentista¨ (FALEÌROS, 1981 apud OMENA, s/d, p.5).
A partir deste novo olhar, o Serviço Social passa acompanhar também as
mudanças oriundas da reforma psiquiátrica, e deixa o viés fiscalizador para
contribuir para as conquistas que hoje se caracterizam pelos processos de
reinserção social do chamados loucos e alienados.
Mesmo com esse avanço, o trabalho do assistente social ainda está
caminhando vagarosamente para alcançar seu potencial emancipador na Saúde
Mental. O Serviço Social não obtém completa autonomia, pois se sujeita à medicina
107
e às correntes que norteiam a psiquiatria, fornecendo profissionais de apoio, e não
construtores de políticas públicas.
Além disso, o maior desafio está no avanço do Neoliberalismo que deixa sua
marca evidente na Saúde Mental, se aproveitando da Reforma Psiquiátrica para
sucatear a saúde pública em nome do lucro e da contenção de gastos. Os
manicômios estão sendo gradativamente desativados, mas os serviços que
ofereçam a contrapartida do atendimento, não são criados na mesma proporção.
Dessa forma, o caminho da humanização do antes excluído e esquecido interno, vai
se tornando cada vez mais distante daquele almejado por Basaglia, Foucault e
tantos outros que dedicaram suas vidas para o reconhecimento dos loucos e
alienados como seres humanos de direitos, e não apenas um incômodo que precisa
ser escondido, descartado.
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