Douglas Ladislau dos Santos

A identidade negra em “terra de preto”
São Paulo
2009
Douglas Ladislau dos Santos
A identidade negra em “terra de preto”
Trabalho apresentado à disciplina “Antropologia da Sociedade
Multirracial Brasileira: o segmento negro! no curso de "i#ncias Sociais
da $ni%ersidade de São Paulo&
Docente: 'abengele Munanga
São Paulo
2009
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(ste trabalho procura ampliar o debate em aula para outros campos de an)lise! *) +ue a
situa,ão do segmento negro! notadamente no conte-to urbano! .oi bem discutida durante a
disciplina& Procuramos a+ui relatar tr#s casos de comunidades ditas “negras! mas no conte-to
rural! aliando o conceito de identidade cultural proposto por "astells e de comunidade!
abordagem metodol/gica +ue %irou lugar0comum nas ci#ncias sociais& Trata0se de comunidades
*) relatadas em outros trabalhos! +ue ser%irão de e-emplo nesta disserta,ão& São comunidades +ue
merecem desta+ue em %)rios aspectos! mas o +ue nos interessa 1 a estrat1gia argumentati%a
utili2ada para a obten,ão de bene.3cios estatais por parte dos atores sociais en%ol%idos! pois são
identidades negras +ue estão em *ogo& A constitui,ão .ederal de 4955 possibilitou a demarca,ão
de terras tradicionalmente ocupadas por comunidades negras remanescentes de +uilombos& Para o
processo ser conclu3do! h) di%ersas etapas burocr)ticas! dentre elas a con.ec,ão de um laudo
antropol/gico para a compro%a,ão do e.eti%o %3nculo de parentesco entre a popula,ão residente e
os antepassados comuns +ue ali habita%am e +ue constitu3ram o +uilombo& As tr#s comunidades
estudadas! a de "a,andoca locali2ada em $batuba6SP! a dos "a.u2os de 7os1 Boiteu- em Santa
"atarina e os +uilombos escondidos e in%is3%eis do Paran) 8egro& Antecipando o debate!
podemos di2er +ue o poder da identidade cultural surgiu como estrat1gia pol3tica para a obten,ão
das terras! em substitui,ão ao discurso %isto como anti1tico da persist#ncia da ra,a& (m oposi,ão
ao racismo baseado na ra,a e em e-plica,9es biol/gicas! etnia e identidade cultural estabeleceram
a no%a .orma de racismo! +ue procura enaltecer a di.eren,a e segregando “por dentro! como
diria (tienne Balibar& : racismo do s1culo ;;< pode ser percebido muito bem em comunidades
+ue retomam a tradi,ão! especi.icamente os sitiantes de “terra de pretos&
=e.inimos terra de preto como comunidades negras +ue remontam a tradi,ão! ou
simplesmente comunidades +uilombolas ou remanescentes de +uilombos& <sto não +uer di2er +ue
os moradores destes territ/rios necessariamente descendam de escra%os .u*9es! mas sim de
pessoas +ue constitu3ram +uilombos! +ue t#m tr#s origens poss3%eis& A primeira e mais .amosa 1 a
terra +uilombola deri%ada de antigos +uilombos de escra%os +ue .ugiram das grandes .a2endas& A
segunda poss3%el origem pro%1m de .a2endas +ue declinaram economicamente! ha%endo
debandada da popula,ão branca e manuten,ão da popula,ão negra! sem nenhum tipo de .uga& Por
.im! a terceira origem! +ue 1 a constitui,ão de terras +uilombolas por popula,9es +ue não eram
mais escra%as +uando da .orma,ão do +uilombo& :bser%ando de perto as tr#s comunidades! .ica
di.3cil di2er a origem precisa! mas uma coisa 1 certa: nunca hou%e consenso entre a popula,ão
>
+uilombola em rela,ão a sua origem! muitas %e2es eles não se %iam como descendentes de
escra%os! nem mesmo como negros! .a2iam uso destes termos como estrat1gia pol3tica para se
alcan,ar a titularidade das terras! sendo muitas %e2es treinados por antrop/logos ou agentes do
go%erno&
Segundo "astells! %i%emos em uma sociedade em rede! caracteri2ada por uma economia
globali2ada e com indi%iduali2a,ão da mão0de0obra! com onipresen,a da m3dia! +ue penetra em
todos os n3%eis da sociedade& Trata0se de uma corrente homogenei2ante! +ue pretende abarcar
tudo +ue e-iste de espec3.ico no mundo! submetendo as coisas e as pessoas à l/gica do capital
globali2ado! onde s/ 1 poss3%el uma economia e uma cultura! a cultura do consumo em massa&
"ontudo! h) .ocos de resist#ncia à l/gica do capital! +ue resultam de .or,as opostas e
contradit/rias: as identidades culturas& As identidades .ornecem uma .orma de pensar di.erente do
mundo do capital globali2ado! *) +ue 1 com as especi.icidades +ue se preocupam! resultando em
uma contradi,ão entre globali2a,ão e identidade& : racismo da era globali2ada tamb1m 1 .ruto
destas duas correntes! pois ele pressup9e +ue todos são iguais perante o capital! mas são
espec3.icos em rela,ão a cultura ou etnia& : no%o racismo não e-clui mais de .orma dentro6 .ora!
mas nem por isso .acilita o acesso de pessoas *) marcadas pela cor! isto 1! o no%o racismo não
segrega de modo a e-cluir as pessoas estigmati2adas para .ora do circulo social! ele inclui estas
pessoas no ciclo produti%o6 consumidor e di.iculta o acesso a camadas mais nobres da sociedade&
Michael ?ardt diria +ue o no%o racismo 1 .ruto da sociedade de controle! "astells a.irma +ue 1
como a sociedade em rede +ue este no%o racismo 1 poss3%el& Apresentaremos algumas %ers9es
deste no%o racismo! retirando alguns e-emplos de uma antropologia agr)ria +ue .ocali2a a
+uestão do negro& @lorestan e Bastide procuraram mapear o problema do negro de .orma mais
abrangente no conte-to brasileiro! mas indicaram alternati%as interessantes ao caso agr)rio& Para
onde .oram os escra%os das .a2endas +ue declinaram economicamenteA ( os +ue permaneceram
nos +uilombos ap/s a Bei )ureaA 8o caso urbano! alguns autores apresentaram trabalhos %aliosos!
como por e-emplo Buis Borges Pereira! ao estudar a inser,ão do homem de cor na indCstria
radio.Dnica! de modo a des%endar as desigualdades de posi,ão! bastante marcadas pelo .en/tipo
da pele& :utros autores procuraram desmisti.icar o mito da democracia racial brasileira!
preconi2ada por Eilberto @reFre! rati.icada por estudos de gen1tica das popula,9es humanas!
por1m não %eri.icada na pr)tica social&
G
=i%ersos estudos apontam +ue no Brasil h) o +ue :racF 8ogueira chama de preconceito
de marca! não %inculado às origens da pessoa! mas sim ao .en/tipo! de modo a estabelecer um
cont3nuo! onde +uanto mais preto mais des%alori2ado& 8ão estamos preocupados neste trabalho
em apresentar dados estat3sticos para compro%ar este .ato! at1 por +ue di%ersos autores lidos no
curso debru,aram sobre estat3sticas sociais& 8o nosso caso! as popula,9es negras camponesas! *)
se encontram em posi,9es despri%ilegiadas de%ido a sua condi,ão camponesa! não participam
desta economia globali2ada! muito menos dos acessos pri%ilegiados das metr/poles urbanas&
=i.erentemente da sociedade em rede! a economia camponesa não 1 globali2ada! mas sim
.amiliar& 8ão h) indi%iduali2a,ão da mão0de0obra no mundo campon#s! eles trabalham em
regime .amiliar de trabalho& Pouco se nota a presen,a midi)tica nestas localidades& "ontudo! o
no%o racismo 1 not)%el e presente! pois segregam as popula,9es negras “por dentro! sem se
utili2ar de mecanismos raciais ou biol/gicos! ele age como nas metr/poles! por meio da
%ariedade 1tnica e da especi.icidade das identidades culturais& : racismo do s1culo ;;<! caso
algu1m se importe com as origens! tem o germe de sua estrutura nos racismos oriundos da
descoloni2a,ão a.ricana! com o )pice no Apartheid +ue di2ia “são realidades 1tnicas di.erentes!
+ue se isolem em SoHeto e não nos incomodem& 8o caso sul0a.ricano! as popula,9es negras
.oram realocadas em regi9es pobres do pa3s! mas continuaram sendo utili2adas como mão0de0
obra barata& ?) um aspecto similar nas constitui,9es e demarca,9es de terras +uilombolas! pois
as popula,9es ad+uirem a titularidade da terra! mas não a autonomia econDmica! de%ido ao
escasso %alor produti%o das terras demarcadas& 8o caso do +uilombo de "a,andoca! locali2ado
em $batuba! estIncia tur3stica de São Pulo! a popula,ão negra remanescente de +uilombos
alcan,aram a titularidade da terra ap/s intensa luta& Atualmente ainda so.rem amea,as das
empresas imobili)rias! e as necessidades materiais lhes imp9em restri,9es! de modo a .a2er com
+ue procurem trabalho .ora da comunidade! alcan,ando os postos de trabalho menos prestigiados!
muitas %e2es se mudam de "a,andoca +uando não h) outra solu,ão&
:s ca.u2os de 7os1 Boiteu- em Santa "atarina 1 uma popula,ão oriunda da miscigena,ão
de escra%os do Jale do <ta*a3 com 3ndios 'aigang e ;oKleng& Seus relatos ressaltam a origem
negra! +ue para a região 1 um pouco mais %alori2ada +ue a ind3gena! s/ +ue isso não signi.ica
%antagem em rela,ão às popula,9es de origem germInica da região& São popula,9es camponesas
+ue lutam pela terra onde sempre %i%eram! mas so.rem pela cor de sua pele& As comunidades de
L
origem germInica prosperaram! os "a.u2os de 7os1 Boiteu- .oram deslocados para a região mais
.ria e improduti%a de Santa "atarina&
Je*amos outro e-emplo& ?) poucos relatos sobre popula,9es negras no Paran)! muito
menos sobre a economia escra%ocrata& Podemos di2er +ue o primeiro trabalho sobre as rela,9es
raciais no (stado 1 bem recente! entre os anos L0 e M0! reali2ado por @ernando ?enri+ue "ardoso
e posteriormente por :cta%io <anni& : pre.eito de Pontagrossa! em meados dos anos 4990! ainda
desconhecia popula,9es remanescentes de +uilombos em seu munic3pio& $m grupo de
pes+uisadores da $@PN reali2ou uma tare.a de mapear as comunidades negras tradicionais do
Paran) e *) chegaram ao impressionante nCmero de >LO São trinta e cinco comunidades
desconhecidas pelas autoridades locais e pela popula,ão em geral! mas +ue e-istem! s/ +ue de
modo prec)rio e subsistem& :s bene.3cios go%ernamentais não chegam l)& A região 1 conhecida
por abrigar o nCcleo mais ati%o do MST Pmo%imento dos sem0terraQ! onde di%ersas propriedades
*) .oram e-propriadas pelo programa nacional de re.orma agr)ria& "ontudo! o <ncra ainda não
chegou nas terras de preto! nome local dado às popula,9es negras tradicionais&
M
Bibliografia
Branco, Regina Elaine. “Encontros, desencontros e reencontros na trajetória da comunidade
remanescente do Quilombo Caçandoca: identidade e territorialidade”. =isserta,ão de mestrado!
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R