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Narrativas e aprendizagens nas redes sociais
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Universidade Federal da Bahia
Reitor
Naomar de Almeida Filho
Vice-Reitor
Francisco José Gomes Mesquita
Editora da Universidade
Federal da Bahia
Diretora
Flávia M. Garcia Rosa
Conselho Editorial
Titulares
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Ângelo Szaniecki Perret Serpa
Caiuby Alves da Costa
Charbel Ninõ El-Hani
Dante Eustachio Lucchesi Ramacciotti
José Teixeira Cavalcante Filho
Suplentes
Evelina de Carvalho Sá Hoisel
Cleise Furtado Mendes
Maria Vidal de Negreiros Camargo
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Edvaldo Souza Couto
Telma Brito Rocha
(Organizadores)
A vida no orkut
Narrativas e aprendizagens nas redes sociais
Salvador
EDUFBA
2010
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©2010 by
Direitos para esta edição cedidos à Editora da Universidade Federal da
Bahia.
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
Linha de Pesquisa: Curr[iculo e (In)formação
Josias Almeida Jr.
Projeto gráfico, capa e editoração
Álvaro Cardoso de Souza
Revisão
Sônia Chagas Vieira
Normalização
V648 A vida no Orkut: narrativas e aprendizagens nas redes sociais / Edvaldo Souza
Couto, Telma Brito Rocha, organizadores - Salvador: EDUFBA, 2010.
265p. il.
ISBN: 978-85-232-0681-9
1. Orkut (Rede social on-line). 2. Grupos de discussão pela internet. I. Couto,
Edvaldo Souza. II. Rocha, Telma Brito. III. Universidade Federal da Bahia. Faculdade
de Educação.
CDD 004.693 - 22. ed.
EDUFBA
Rua Barão de Jeremoabo, s/n Campus de Ondina
CEP 40.170-115 Salvador-Bahia-Brasil
Telefax: (71) 3283-6160/6164
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Editora afiliada à
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Sumário
Prefácio ............................................................................... 7
Apresentação – A vida no Orkut .......................................... 11
IDENTIDADES CONTEMPORÂNEAS: a experimentação de
“eus” no Orkut
Edvaldo Souza Couto (UFBA)
Telma Brito Rocha (UFBA, IFBA) ............................................................ 13
IMAGENS DE FAMÍLIA NA INTERNET: fotografias íntimas na
grande vitrine virtual
Lígia Azevedo Diogo (UFF)
Paula Sibilia (UFF) ................................................................................... 33
“POR FAVOR, AULA HOJE NÃO!” o orkut, os professores e o
ensino
Leila Mury Bergmann (UFRGS) ............................................................... 57
A ESCRITA NO ORKUT: vocabulário mais utilizado e
aproveitamentos do internetês para o ensino de língua
portuguesa
Tadeu R. Bisognin (UFRGS)
Maria José B. Finatto (UFRGS) ................................................................ 79
SE(R)VER ENTRE LÍNGUAS: encadeando identidades
José A. Uchôa-Fernandes (UFPA)
Deusa Maria de Souza-Pinheiro-Passos (USP) ...................................... 101
A VIVÊNCIA DO ORKUT NO ESPAÇO PÚBLICO: tabuleiro
digital
Joseilda de Souza Sampaio (UFBA)
Maria Helena Silveira Bonilla (UFBA) ................................................... 123
A RELAÇÃO DE FASCÍNIO PELO ORKUT: retrato da
hipermodernidade líquida, espetacular e narcísica
Rosângela de Araujo Medeiros
Escola Municipal de Ensino Fundamental João XXIII ........................... 141
O ORKUT E A VELHICE: comunidades e discursos
Maria de Fátima Morais Brandão (IFPI)
Rosa Maria Hessel Silveira (UFRGS) ..................................................... 165
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CORPOS ‘GORDOS’ NO ORKUT: escritas sobre si e os ‘outros’
Elisabete Maria Garbin (UFGRS)
Viviane Castro Camozzato (UFGRS) ..................................................... 189
IDEAIS DE FELICIDADE EM COMUNIDADES VIRTUAIS:
recursos metodológicos e diferenciação
Márcio Silva Gondim (FANOR)
Maria de Fátima Vieira Severiano (UFC) .............................................. 211
NAS TEIAS DO ORKUT: significados e sentidos construídos
por um grupo de usuários
Camila Santana (IFBAIANO)
Lynn Alves (UNEB) ................................................................................ 233
Sobre os autores ............................................................... 261
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Prefácio
Era uma segunda feira, a Faculdade de Educação da UFBA
estaria fechada por conta da realização do exame vestibular para
ingresso na universidade no ano seguinte. Minha aula da disci-
plina Polêmicas Contemporâneas estava programada para as 18
horas, quando já teria terminado o vestibular e, portanto, poderí-
amos ter acesso à Faculdade para a aula.
Estava em minha sala de um prédio totalmente vazio,
conectado no moodle, um dos ambientes da disciplina, esperando
algum sinal dos alunos, a maior parte deles neste semestre do
Curso de Pedagogia.
Quase 5 da tarde e eu via nos fóruns do moodle umas discus-
sões sobre se teríamos ou não a aula, uma vez que havia uma msg
(oopppsss!, perdão, uma mensagem) da administração afirmando
que a Faculdade estaria fechada nesse dia. No ambiente coletivo,
onde em princípio todos os alunos poderiam e deveriam estar, ape-
nas duas alunas. Uma delas me pergunta no chat: “e aí, profe, vai
ter aula hoje?! É que estou aqui com outras colegas da disciplina
no Orkut e todos se perguntam a mesma coisa”. De fato, a aula
não aconteceu. E isso, aqui pouco importa.
O fato, concreto, é que o ambiente “educacional” moodle
não se constitui no ambiente de interação para essa turma jovem
– os nossos estudantes e futuros professores! –, que, em vez dis-
so, estavam todos se comunicando, interagindo e, especialmente,
vivendo um outro espaço no mesmo ciberespaço. Ou seja, esta-
vam todos no Orkut que se constituía, naquele e em muitos mo-
mentos, no verdadeiro ambiente de vivência e aprendizagem.
No congresso da Educared [www.educared.org], que reuniu
mais de dois mil professores em novembro de 2009, na Espanha,
em uma das mesas-redondas para discutir o papel das redes soci-
ais na educação estava presente Zaryn Dentzel, de 26 anos, o
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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fundador do site de relacionamento Tuenti (www.tuenti.com), que,
na Espanha, é equivalente ao que o Orkut é no Brasil: ou seja, o
lugar onde a meninada está!
Nesse debate, o que pude ver foi o depoimento de uma pro-
fessora que disse não frequentar o Tuenti – muito popular na
Espanha – porque tinha certeza que lá encontraria todos os seus
alunos. Por isso, ela preferia usar o Facebook e, assim, ficar um
pouco mais “protegida” dos estudantes.
De fato, se observarmos quem está no Orkut no Brasil, cons-
tatamos que a grande maioria é de jovens, portanto, potencial-
mente os nossos alunos. Os dados mostram que 56% dos que
acessam o site têm até 20 anos de idade, conforme texto publica-
do pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e
Ação Comunitária (CENPEC) a partir de dados do Ibope/NetRatings.
O mesmo texto que abria a página do CENPEC em dezembro de
2009, ao analisar as redes sociais, destacava que “uma criança
abre em média 470 páginas por mês, um adolescente vê 1.850 e
adultos não passam de 700 (Ibope/NetRatings).”
1
Os números são significativos: um ano atrás, 17,2 milhões
de pessoas acessaram o Orkut nos lares brasileiros, significando
sete em cada dez internautas residenciais. Mas esse acesso não
se dá somente nas residências. Como pode ser visto no artigo de
Maria Helena Bonilla e Joseilda Sampaio neste livro, o Orkut é
um dos sites mais acessados em nosso projeto dos Tabuleiros
Digitais [www.tabuleirosdigitais.org] e que, para nossa tristeza,
é alvo de muitas críticas dentro da própria comunidade de profes-
sores e alunos da Faculdade de Educação da UFBA. Justo esses,
que mais precisam compreender o que está acontecendo ali!
Esse é o grande impasse em que nos encontramos e que este
livro A vida no Orkut discute e aponta alguns caminhos.
1
Disponível em:<http://www.cenpec.org.br/modules/news/article.php?storyid=835>.
Acesso em: 4 dez. 2009]
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A vida no Orkut
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Desenvolvemos, historicamente, inúmeras possibilidades com a
digitalização das tecnologias, ampliamos as possibilidades
comunicacionais e de interação entre as pessoas mas, lamenta-
velmente, não conseguimos acompanhar adequadamente esses
movimentos no interior do campo educacional. Com isso, a edu-
cação luta permanentemente para afastar, de forma contundente,
muitas dessas possibilidades enriquecedoras dos processos, as-
sim como já fez com a televisão, com os celulares e tudo mais
que possa “atrapalhar” a acomodada vida de muitas das escolas
e de muitas das políticas públicas que buscam sempre os cami-
nhos mais fáceis e, claro, mais rápidos para poderem apresentar
resultados ao fim dos quatro anos dos mandatos. A natureza des-
ses desafios – e os capítulos do livro mostram isso – não nos
possibilita pensar nessas políticas de curto prazo e de visão cur-
ta. Os professores, elementos-chave nesses processos, precisam
ser fortalecidos para que possam interagir com essas tecnologias
de forma muito mais natural, da mesma forma que as crianças
assim já o fazem, pois já nasceram em um mundo conectado.
Esses são alguns dos tantos desafios que temos na educa-
ção. Essas são algumas das possibilidades trazidas pelas
tecnologias digitais para a educação e este livro, ao articular
autores de diversas universidades brasileiras, busca apresentar
algumas dessas ricas possibilidades. Cabe a nós, leitores, profes-
sores, pais ou simplesmente curiosos da questão, estarmos aten-
tos ao que nos dizem esses pesquisadores. E, quem sabe, através
do Orkut e tantos outros recursos disponíveis, podermos intensi-
ficar o diálogo na busca de estabelecer relações mais intensas
entre nós mesmos, os adultos, e principalmente, entre nós e essa
juventude que, já vivendo um jeito alt+tab de ser, relaciona-se
com todos esses recursos de forma simultânea e intensa.
Nelson De Luca Pretto
www.pretto.info
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Apresentação – A vida no
Orkut
O Orkut é um software do Google, conhecido como uma rede
social, criada em 24 de janeiro de 2004 pelo engenheiro turco
Orkut Büyükkökten, com o objetivo de ajudar seus membros a
iniciarem novas amizades e manterem as existentes. É um fenô-
meno de público no país. Atualmente, os brasileiros somam 49,71%
de seus membros, seguido dos EUA com 20,76 % e 17,30% da
Índia.
Para começar a interagir no Orkut, o participante cria uma
conta de e-mail no Google, e constrói uma página pessoal (profile),
com a finalidade de se apresentar a outros participantes. Nessa
composição do perfil, escolhe o que disponibilizar na página, in-
formações como nome, idade, cidade onde mora, estado civil,
opção sexual, tipos de música, livros, culinária que gosta, etc.
Além do perfil, que é composto por uma foto, o participante pos-
sui um espaço para disponibilizar álbuns de fotografias, pode
ainda adicionar vídeos preferidos e fazer parte de comunidades
com as quais se identifica. Já imerso, pode visitar, passear virtu-
almente por milhares de profiles, comunidades e fóruns.
O ponto alto do Orkut é a busca de amigos e passeios por
profiles, além, é claro, da interação social, observada nos posts
das comunidades onde cada um pode escrever o que deseja e
receber um retorno; bem como nos scrapbooks onde é possível
deixar e receber recados, além de testemunhos.
O Orkut hoje representa uma das principais preferências de
sites quando as pessoas estão conectados, sobretudo as mais jo-
vens. A opção por essa rede representa 54,47% do total de partici-
pantes, entre 18 e 25, segundo dados do próprio Google. Esses
dados chamam a atenção de pais, professores e pesquisadores.
Não é por acaso que trabalhos acadêmicos sobre o tema foram
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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escritos nos últimos anos, e outros estão em andamento, para
analisar não só a relação de fascínio, mas também a possibilida-
de de aprendizagem, entretenimento e comunicação que o Orkut
oferece.
Diante da especial popularização do Orkut no Brasil e do cres-
cente interesse de pesquisadores em investigar os processos de
comunicação, as práticas discursivas, os relacionamentos e as
aprendizagens nas redes sociais, reunimos neste livro ensaios que
resultam de pesquisas de iniciação científica, mestrado, doutora-
do e pós-doutorado, realizadas por professores em diferentes mo-
mentos de suas carreiras e em diversas universidades brasileiras.
As abordagens são múltiplas, assim como as pluralidades e as
possibilidades de interações do Orkut. Cada um a seu modo, os
ensaios apresentam e discutem a complexidade e a variedade de
vivências, abordam temas como as identidades, a estética corpo-
ral, o internetês, as representações de professores e da escola, os
discursos sobre a velhice, as imagens de famílias, as relações de
fascínio, ideais de felicidade, os significados e sentidos que os par-
ticipantes tecem em suas redes sociais.
O livro ressalta que o Orkut se constitui em mais uma fonte
de socialização digital, um espaço privilegiado para ampliação
de comunicação que favorece os intercâmbios, pois possibilita
aos sujeitos vivenciarem relações para além das suas comunida-
des locais. É uma rede fascinante de invenção e exibição de sub-
jetividades. Por fim, a intenção do livro é ampliar debates. Que as
inquietações e as motivações aqui expostas contribuam para que
pais, educadores e interessados em geral conheçam, sob esses
ângulos, o que fazem e pensam jovens e adultos em suas redes
sociais, como festejam a vida no Orkut.
Salvador, dezembro de 2009.
Edvaldo Souza Couto
Telma Brito Rocha
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IDENTIDADES
CONTEMPORÂNEAS: a
experimentação de “eus” no
Orkut
Edvaldo Souza Couto (UFBA)
Telma Brito Rocha (UFBA, IFBA)
Em nossa época líquido-moderna, em que o indivíduo li-
vremente flutuante, desimpedido é o herói popular, “estar
fixo” – ser “identificado” de modo inflexível e sem alterna-
tiva – é algo cada vez mais malvisto.
Zygmunt Bauman
Introdução
Ao que tudo indica, a questão da identidade é um problema
dos tempos modernos. Giddens (2002, p. 74) afirma que nos “[...]
tempos pré-modernos nossa ênfase atual na individualidade esta-
va ausente”. A ideia de que cada um tem um caráter único e
potencialidades sociais, que podem ou não se realizar, é alheia à
cultura pré-moderna. O indivíduo nessas culturas tradicionais
não existia e sua individualidade não era prezada. Foi a partir do
surgimento das sociedades modernas, que deu origem ao siste-
ma capitalista – um sistema de produção de mercadorias que
envolve tanto competição de produtos como a mercantilização da
força de trabalho, aliada, ainda, à diferenciação que a divisão
desse trabalho produziu entre os sujeitos – que o indivíduo uno,
individualizado, separado, ganha atenção.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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A suposta essência pessoal e a universalidade humana, que
existiriam em cada indivíduo, constituíram a base moderna da
identidade. O “penso, logo existo”, enunciado por Descartes, sus-
tenta a definição desse sujeito, segundo a qual o indivíduo é
centrado em si mesmo, possuindo uma essência individual e um
caráter universal. Essa concepção cartesiana criou a primeira
representação moderna de identidade.
A modernidade tem relação com o conjunto de ideias oriun-
das dos ideais iluministas. Esses ideais impulsionaram o proces-
so de racionalização do indivíduo, uniu a construção do
conhecimento pelas ciências ao progresso humano e social e pro-
moveu o surgimento de novas concepções éticas e morais. Nesse
contexto, o sujeito do Iluminismo era fundamentado numa com-
preensão de pessoa humana como um indivíduo centrado, unifi-
cado, completo de capacidades de razão, de consciência e de ação.
Para Hall (2006, p. 10-11), essa visão abrigava um centro, um
núcleo interior,
[...] que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele
se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo –
contínuo ou “idêntico” a ele – ao longo da existência do indivíduo.
O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa. [...] essa
era uma concepção muito “individualista” do sujeito e de sua iden-
tidade.
Mas, no início do século XX, as descobertas feitas por Freud
e a Psicanálise sobre o inconsciente e a estrutura da psique hu-
mana abalaram a descrição do sujeito centrado e unificado, apre-
sentado pelo Iluminismo, e trouxeram à tona a necessidade de se
rever tal concepção de identidade.
Assim, novas teorias vão desestruturar essa concepção
iluminista de identidade, tendo em vista, principalmente, a ideia
de psique humana, na qual comporta estruturas inconscientes,
que operam desejos e comportamentos sobre os quais o sujeito
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Identidades contemporâneas
15
não tem controle ou mesmo consciência. A noção de inconsciente
com um outro “eu” aponta um sujeito agora desconhecido para
si próprio e ainda fragmentado em múltiplas estruturas psíqui-
cas.
Giddens (2002, p. 157), partindo da noção psicanalítica, che-
ga a afirmar que na modernidade o “eu é frágil, quebradiço, fra-
turado, fragmentado”. O eu torna-se disperso, descentrado e só
encontra sua identidade nos fragmentos da linguagem ou do dis-
curso.
Seguidores de Freud, entre eles Lacan, continuam a questio-
nar a identidade, quando afirmam que o sujeito é formado a par-
tir do olhar do outro. Ou seja, é a partir da relação com o outro
que o sujeito conhece de si. O sujeito já não possui uma autono-
mia plena, ele não é mais senhor de si, formado por uma essência
inata. A sua identidade será constituída ao longo de sua existên-
cia num processo mútuo de dependência com o outro. Como afir-
ma Hall (2006, p. 38-39):
A identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através
de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciên-
cia no momento do nascimento. [...] assim em vez de falar da iden-
tidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação,
e vê-la como processo em andamento. A identidade que surge não
tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como
indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é “preenchida” a
partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imagi-
namos ser vistos por outros.
Assim, para a Psicanálise, existem diferentes “eus” que com-
põem a identidade dos indivíduos, suas histórias de vida e traje-
tórias. O indivíduo carrega em um mesmo corpo mais de uma
estrutura psíquica sobre as quais não possui controle. Sua iden-
tidade e personalidade não são individuais ou autônomas, mas
se constituem sempre em relação ao outro. Essas conclusões co-
locaram em dúvida a percepção tradicional da identidade e de-
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monstraram a necessidade de revisão das perspectivas teóricas
da epistemologia iluminista.
Ao partir dessa perspectiva, Hall (2006) discute as transfor-
mações teóricas da alta modernidade, ou modernidade tardia,
período referente à segunda metade do século XX, fase de desen-
volvimento das instituições modernas, marcada pela radicalização
e globalização dos traços básicos da modernidade. Para esse au-
tor, o maior efeito desse tempo foi o “descentramento” final do
sujeito cartesiano. Por isso, ele afirma que as identidades, agora
sempre no plural, têm passado por um processo de fragmentação
e deslocamento.
Nesse contexto, o ensaio tem como objetivo discutir as mu-
tações que promovem as identidades – da construção cartesiana
de um sujeito centrado e unificado até o descentramento do sujei-
to na cibercultura. Esse processo de descentralização do “eu” é
apontado como uma das principais consequências da globalização
que, modificando e transpondo não apenas as fronteiras econô-
micas e políticas, mas também as culturais, interferiram e des-
estabilizaram inevitavelmente as experiências das identidades,
que são agora cada vez mais fluidas, dinâmicas, transitórias e
potencializadas pelas diferentes formas de representação no
ciberespaço, especificamente, sobre as práticas sociais constituí-
das através das identidades ali expostas. O texto ressalta as
diversificadas experimentações de “eus” como modo de constru-
ção identitária no Orkut, a partir das manipulações de identida-
des, especialmente por meio de perfis fakes.
Identidades contemporâneas
Além da perspectiva dos estudos de Freud e Lacan, outros
acontecimentos na teoria social e na história das ciências huma-
nas contribuíram para o “descentramento” do sujeito contempo-
râneo. Por exemplo, as teorias de Foucault que discutem
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Identidades contemporâneas
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principalmente o poder disciplinar e concluem que são as insti-
tuições modernas que policiam e disciplinam o sujeito.
Por ser o poder demarcado pelas relações de forças na soci-
edade ele está em todas as partes. Todos os indivíduos estão con-
dicionados por essas relações de poder e ninguém pode ser
considerado independente delas. Esse poder, para Foucault, repri-
me, produz implicações naquilo que se sabe, constrói verdades,
práticas e subjetividades na sociedade em que vivemos. São, por-
tanto, as instituições que individualizam o sujeito. Hall (2006, p.
43-43) aponta que esse é um ponto importante na história do
sujeito moderno,
[...] embora o poder disciplinar de Foucault seja o produto das
novas instituições coletivas e de grande escala da modernidade
tardia, suas técnicas envolvem uma aplicação do poder e do saber
que “individualiza” ainda mais o sujeito e envolve mais intensa-
mente seu corpo.
Assim, percebe-se um paradoxo. Quanto mais coletiva e or-
ganizada for a natureza das instituições na modernidade tardia,
maior o isolamento, a vigilância e individualização do sujeito.
Quer dizer, essa individualização não estaria sob o controle da
vontade individual. As identidades, nessa lógica, são engendra-
das por essas instituições e as relações de poder travadas
ininterruptamente em seus espaços.
Outra questão que também contribuiu com o chamado
“descentramento” foi a influência do movimento feminista, a par-
tir dos anos 60 do século XX. Esse movimento questionou a
dicotomia entre o público e o privado, politizou as subjetivida-
des, as identidades e os processos de identificação e deu origem a
outras identidades pautadas nas relações de gênero e nas diferen-
ças sexuais.
Nesse período, vários movimentos contestavam ainda a po-
lítica, desconfiavam de suas formas burocráticas. Hall (2006, p.
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45) afirma que cada movimento apelava para a identidade social
de seus sustentadores.
O feminismo apelava para as mulheres, a política sexual aos gays,
lésbicas, as lutas raciais aos negros, o movimento antibelicista aos
pacifistas, e assim por diante. Isso constituiu o nascimento históri-
co do que veio a ser conhecido como a política de identidade – uma
identidade para cada movimento.
Assim, a noção de raça, gênero e outras características de
caráter biológico, que até o período iluminista poderiam ser com-
preendidas como determinantes na definição da identidade, desa-
baram a partir dos anos 1960. Desde então a influência das
discussões ocorridas no interior dos movimentos sociais demons-
traram o caráter discursivo implicado em tais construções.
Essas discussões por sua vez evidenciaram as relações de
poder envolvidas nas construções identitárias, trazendo uma di-
mensão cada vez mais política e cultural ao tema. A questão da
identidade deixou de ser privada para tornar-se pública e levou
para a esfera pública informações do mundo privado como algo
determinante na sustentação de estruturas de poder na socieda-
de.
Entre outras transformações importantes sob as formas de
organização social no mundo contemporâneo está a globalização,
que teve seu desenvolvimento na revolução industrial, no desdo-
bramento do capitalismo que ultrapassou fronteiras nacionais no
século XIX e se consolidou mais adiante nos séculos XX e XXI
com o apoio das tecnologias de informação e comunicação.
Com a globalização, novas características temporais e espa-
ciais surgiram comprimindo distâncias. Eventos que ocorrem em
um lugar têm rápidas interferências sobre pessoas e lugares di-
versos. As estratégias industriais e mercadológicas na produção,
distribuição e consumo de produtos e serviços e a desestabilização
das culturas nacionais também passam a questionar as noções
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Identidades contemporâneas
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que o indivíduo tem de identidade e pertencimento no mundo con-
temporâneo.
Não por acaso, vários autores das mais diversas ciências
passaram a falar em “crise identitária”. Para a maioria, a crise
foi logo apontada como uma das principais consequências da
globalização que interferiram e desestabilizaram inevitavelmente
a experiência da identidade. Hall (2006, p. 69) destaca três aspec-
tos:
As identidades nacionais estão se desintegrando, como resultado
do crescimento da homogeneização cultural e do “pós-moderno
global”.
As identidades nacionais e outras identidades “locais” ou
particularistas estão sendo reforçadas pela resistência à globalização.
As identidades nacionais estão em declínio, mas novas identidades-
híbridas – estão tomando seu lugar.
É importante problematizar aqui se os evidentes des-
locamentos observados recentemente nas identidades nacionais
significam de fato que existe uma crise de identidade. Indepen-
dente de resposta, essa crise, verdadeira ou não, impulsionou
um processo instigante, extenso e estimulante que, segundo Gioielli
(2005, p. 11), pode gerar duas correntes de análise. A primeira
delas reflete uma estratégia já conhecida de que as identidades
“[...] estariam rumando para um estado de homogeneidade, ope-
rado através da indústria cultural”. A segunda intensifica o pro-
cesso de crítica a modernidade, descreve esse processo como “[...]
sendo da ordem da fragmentação em meio ao ressurgimento do
local e da tradição”.
A versão da homogeneidade é, geralmente, a mais relacio-
nada quando se fala da globalização na construção das identida-
des. As análises dão prosseguimento a uma tendência bastante
recorrente em estudos sobre a questão da cultura em décadas
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recentes, na qual a crítica do processo de transformação cultural
pauta-se na ideia de que a mudança é quase sempre um desvirtu-
amento, um sinal da progressiva mercantilização das formas
culturais autênticas rumo a uma cultura padronizada, industria-
lizada e artificial.
Bauman (2001, p. 99) também compactua com essa ideia.
Para ele, a identidade única e individual “[...] só pode ser grava-
da na substância que todo o mundo compra e que só pode ser
encontrada quando se compra”. Nessa sociedade contemporânea,
tipicamente consumista, “compartilhar a dependência de consu-
midor – a dependência universal das compras – é a condição sine
qua non de toda liberdade individual; acima de tudo a liberdade
de ser diferente, de “ter identidade”. Toda essa suposta liberdade
funda-se numa ideia de consumo, de autoidentificação com os
objetos produzidos e comercializados em massa. Esses elemen-
tos não funcionam sem os dispositivos disponíveis no mercado
da propaganda.
Entretanto, mesmo que não se possa negar a função
determinante do capitalismo, as estratégias mercadológicas, a
desestabilização das culturas nacionais, as dinâmicas culturais
da globalização não se dão em torno apenas de processos de
homogeneização dentro da sociedade, ou seja, na ideia de que as
coisas pareçam geralmente semelhantes entre si. Em contradição
à tendência de homogeneização global existe uma fascinação pela
diferença, um novo interesse pelo local. A expansão da globalização
não denota essencialmente a aniquilação das culturas locais. Para
Hall (2006, p. 77), pode-se considerar alguns aspectos para essa
contraposição a homogeneização:
A globalização (na forma da especialização flexível e da estratégia
criação de “ninchos” de mercado), na verdade, explora a diferenci-
ação local. Assim, ao invés de pensar no global como “substituído”
o local seria mais acurado pensar numa nova articulação entre o
“global” e o “local”.
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Identidades contemporâneas
21
É preciso considerar a geometria do poder que na atualida-
de pulveriza as identidades. Assim, a homogeneização global das
identidades não existe, já que a globalização não permite uma
distribuição igual do poder no globo, entre diferentes estratos e
populações. A globalização retém alguns aspectos da dominação
global ocidental, mas as identidades culturais estão, em toda parte,
sendo relativizadas pela crescente compressão tempo-espaço e
das experiências dinamizadas e sideralizadas promovidas pelas
tecnologias de comunicação e informação.
Essa questão permite compreender que o universo da cultu-
ra não é algo estagnado, ele não parece rígido o suficiente para
impedir flutuações, interpenetrações, hibridizações e traduções
no encontro entre universos culturais diferentes. Segundo Gioielli
(2005, p. 14):
A experiência colonial na América Latina, na África e na Ásia já
havia demonstrado que a dinâmica do confronto cultural não se dá
nunca como uma sobreposição simples da cultura do colonizador
sobre a do colonizado, mas sim, que há entre elas, um complexo
processo de interpenetrações múltiplas cuja forma final, além de
plural, é difícil delimitar.
Por isso, o fenômeno cultural e a experiência identitária em
meio aos processos de mudança desencadeadas pela globalização
não podem fixar ou presumir um resultado final, seja esse em
torno de formas padronizadas, fragmentadas ou de qualquer ou-
tra natureza. O que acontece é a observação da dinâmica do
encontro entre culturas distintas. Elas atuam nas traduções entre
os diversos significados culturais locais, mundiais, modernos e
tradicionais nesse novo ambiente.
As dinâmicas que misturam e pulverizam as identidades
contemporâneas estão também fortemente presentes nas redes
sociais, típicas da cibercultura e, de modo especial, como se verá
a seguir, no Orkut.
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O Orkut e as identidades múltiplas,
nômades, ou mais ou menos inventadas
O Orkut é uma rede social filiada ao Google, criada em 24
de janeiro de 2004, com o objetivo de ajudar seus membros a
criar novas amizades e manter as existentes. Atualmente, em da-
dos de julho de 2009, é a rede social com maior participação de
brasileiros, são 35 milhões, de acordo com o Google, o que repre-
senta 57% dos usuários do site. Atrás desse número vem a Índia,
com 41%.
Para participar do Orkut basta criar uma conta de e-mail no
Google e, teoricamente, ter mais de 18 anos. Porém, como não
existe verificação fidedigna dos dados, quem possui idade inferi-
or pode omitir essa informação e ingressar na rede social.
O login criado no e-mail é o primeiro passo da construção
identitária no Orkut. Esse dado constará na parte superior do perfil
do participante, visível apenas para ele quando acessa a rede de
relacionamento. A seguir, ele tem a opção de preencher ou ocultar
algumas das seguintes informações: quem sou eu, descrição de
características físicas, emocionais, entre outras, estado civil, inte-
resses no Orkut, idiomas, religião, opção política, esportes, etc.
Tem também o álbum de fotos, grupos de amigos e participação
em comunidades. Todas essas informações também definem carac-
terísticas, gostos, preferências. Assim, essas escolhas são impres-
cindíveis para falar do sujeito e possibilitar as afinidades que deverão
ser compartilhadas. São elas que criam a ideia de pertencimento
(FONSECA; COUTO, 2005), a ideia de uma identidade, “[...] elas são
os rótulos que escolhemos para dizer quem somos”. (SILVEIRA,
2006, p. 147)
Alguns perfis dos participantes são constituídos pelas ca-
racterísticas pessoais de identidades vividas fora dele. Mas, mui-
tas vezes, podem representar oposição completa dessa identidade.
As características pessoais podem ser todas ou quase todas in-
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Identidades contemporâneas
23
ventadas. É possível também que os perfis apresentem um misto
de características pessoais e outras tantas fictícias.
Para as identidades que geralmente não correspondem à
mesma vivida fora da rede social, usa-se o termo em inglês fake.
Numa tradução rápida fake quer dizer falso. Essa palavra geral-
mente é utilizada para denominar contas ou perfis usados no
Orkut, que ocultam a identidade off-line de um participante. Em
alguns casos, nos perfis fakes são usadas identidades de celebri-
dades, personagens de filmes ou desenhos animados: Miss Dayse,
Britney Spears, Madonna, Paris Hilton, Durval Lelis, Mortícia
Addams, Rodrigo Hilbert, Andy Garcia, Nemo, Donatela, dentre
inúmeros outros. Como afirma Camozzato (2007, p. 40): “É na
forma de serem-outros- de-si- mesmo que são construídos seus
perfis fakes”.
Alguns desses perfis são criados para que a pessoa possa
navegar em outros perfis do próprio site, preenchendo a curiosi-
dade sobre as vidas públicas, as confissões de sentimentos di-
vulgados pelos posts em várias páginas de recados ou álbuns de
fotografias, sem serem reconhecidos ou identificados. É muito
comum uma mesma pessoa possuir um perfil chamado “verda-
deiro” e outro “falso”. Em alguns casos, perfis fakes são criados
para facilitar comportamentos inadequados, escamotear práticas
criminosas, violar direitos humanos e aliciar crianças e adoles-
centes.
Do lado oposto aos aliciadores estão os fakes denominados
“justiceiros do Orkut”, que pregam o combate aos crimes virtu-
ais com as “próprias mãos”. Esse tipo de ação muitas vezes des-
trói provas de crimes impedindo que a justiça chegue aos
criminosos virtuais. Na ilusão de ajudar a combater pedófilos,
homofóbicos, racistas, entre outros, esses fakes se comportam
também como criminosos. Eles utilizam práticas ilegais de crakers,
como a quebra de um sistema de segurança de forma ilegal para
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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tirar sites e perfis de criminosos do ar. Com isso, eles eliminam
provas que levariam a policia e a justiça a identificar responsá-
veis pelos crimes no mundo virtual. Em caso de crimes virtuais,
o mais adequado não é fazer a justiça por conta própria. O corre-
to é denunciar à ONG SaferNet ou ao Ministério Público para que
a justiça seja feita pelo Estado.
Outra forma comum de criação de fakes é o clone de identi-
dade de algum participante da rede social. Nesse caso, o criador
do perfil fake não só copia o perfil a ser falsificado como para
tornar verdadeira a clonagem, adiciona os amigos que fazem parte
dessa rede. Assim, o poder de convencimento sobre a identidade
apresentada aumenta. Os amigos “verdadeiros” servem para au-
tenticar o perfil fake. Essa típica maneira de clone na rede social
se constitui naquilo que os participantes chamam de “roubo de
identidade”. Quando alguns desses fakes querem difamar o dono
do perfil roubado mudam a opção sexual, gostos musicais, es-
crevem características que comprometem a identidade do partici-
pante. E a confusão está feita.
No mundo das redes conectadas uma pessoa pode experi-
mentar ser várias pessoas com características físicas completa-
mente diferentes, coisa geralmente impossível de acontecer com o
eu off-line. Este não pode transmutar, no máximo pode criar dis-
farces, aparências enganadoras. Mas, no mundo digital, tudo ou
quase tudo se torna possível. Turkle (1997) fala da tela do com-
putador como metáfora para entendermos essa lógica. Para ela, a
experiência vivida nas janelas é de um eu descentrado que existe
em muitos mundos e desempenha muitos papéis ao mesmo tem-
po. Na vida tradicional, no mundo off-line, as pessoas desempe-
nham papéis que, geralmente, têm um lugar num espaço físico,
lógico e linear. Nos jogos, nas redes sociais, blogs, nas comuni-
dades virtuais, no second life, os participantes experimentam iden-
tidades e vidas paralelas.
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Identidades contemporâneas
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Santaella (2007), assim como Turkle (1997), reconhece que
a “persona” que aparece no ciberespaço é aparentemente mais
fluida do que aquela que assumimos em outras situações de nos-
sa vida, pois é construída a partir do ambiente simulado. Consci-
entemente, essa perspectiva nos permite brincar com nosso eu a
partir de novos modos, em interação com as outras “personas”
do ciberespaço.
Desse modo, é possível compreender o termo identidade como
discursos e práticas que tentam nos interpelar, nos falar ou convo-
car para que assumamos nossos lugares como sujeitos sociais de
discursos particulares, ou subjetividades que nos constroem como
sujeitos aos quais se pode falar. As identidades são, pois, “[...]
pontos de apego temporário as posições-de-sujeito que as práticas
discursivas constroem para nós”. (HALL, 2000, p. 112) Essas iden-
tidades representadas por meio de fakes inventam e reproduzem
modos de comportamento, valores, gostos pessoais, característi-
cas físicas, fotos de amigos(as) e namoradas(as), clonagem fiel de
vidas off-line. São renovados modos de ser e viver.
Na segunda semana de outubro de 2008, a notícia de gravi-
dez de Ivete Sangalo despertou a curiosidade dos brasileiros.
Muitas pessoas e portais de notícias na internet recorreram ao
Orkut para obter algumas das características do pai da criança,
um estudante de Nutrição de Salvador, que, em poucas horas,
todos já conheciam, por conta de um perfil nesta rede social.
Passados alguns dias, Ivete Sangalo informava, em seu blog
e em comunicados à imprensa brasileira: “a pedido do próprio
Daniel queremos deixar claro o desconhecimento das declarações
vindas de um perfil na página do Orkut com o nome dele, haja
visto a não existência nem hoje nem antes de um perfil do mes-
mo” (sic). E completou: “As declarações provenientes dessa fonte
são definitivamente fora do nosso conhecimento e do nosso con-
trole.”
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Além desse perfil, diferentes fakes de Daniel Cady, com ca-
racterísticas pessoais, comunidades, fotos, recados, já circula-
vam pela rede de relacionamento, com discussões sobre a vida
da cantora e de seu namorado, geradas a partir de informações
declaradas pelos próprios fakes. Em alguns fóruns das comuni-
dades, a notícia sobre a gravidez, e em seguida sobre o aborto, já
haviam sido descartadas rapidamente. Esses perfis passaram em
seguida a discutir a agenda de shows da musa do Axé Music e o
carnaval de 2009. Nessas comunidades a comemoração era ex-
plícita, já que Ivete Sangalo podia voltar aos palcos e os fãs não
teriam seus eventos festivos prejudicados.
Assim, nas redes sociais, se criam e alimentam identidades
de indivíduos, celebridades ou não. Na rede as identidades são
constantemente manipuladas, tomando formas diversas. Como
afirma Bauman (2005, p. 19), “[...] as identidades flutuam no ar,
algumas de nossa própria escolha, mas outras infladas e lançadas
pelas pessoas em nossa volta [...]”.
As formas identitárias no ciberespaço, ao se apresentarem
de maneira nômade, na medida em que podem estar aqui, ali,
sem as fronteiras impostas pela longa distância territorial, são
múltiplas, quando se opta por ter vários perfis, verdadeiros, fal-
sos ou mistos. Cada um agora pode e é estimulado a experimen-
tar vários “eus” fluidos, porque percorre o ciberespaço de maneira
livre. Esses “eus” são temporários, já que pode mudar com bas-
tante frequência suas características. A cibercultura tornou o outro,
esse indivíduo da linguagem, dos códigos e da cultura, muito
mais complexo.
Essa análise discute o processo de liquefação dos “eus” e
dos laços sociais na vida cotidiana. Aponta o tempo do desapego,
da provisoriedade, do processo de individualização; o tempo da
liberdade, ao mesmo tempo em que é o da insegurança. Nas com-
posições das identidades contemporâneas o sujeito é também
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Identidades contemporâneas
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engendrado por um conjunto de acontecimentos que são vividos
on e off-line, de maneira sequencial ou concomitantemente, numa
profunda organicidade líquida, como chama Baumam (2001).
Assim, cada vez mais as identidades se constituem a partir de
uma exterioridade, nos rastros deixados na internet, nas informa-
ções públicas encontradas nas redes sociais. Para Sibilia (2008, p.
90), fatores como a visibilidade e as aparências “[...] balizam, com
uma insistência crescente, a definição do que é cada sujeito”.
A partir da visibilidade e disponibilidade de informações
sobre o que são, ou o que querem ser, os participantes dessa
rede social produzem uma antevisão, que acaba por intervir nas
escolhas, comportamentos e ações presentes, tornando efetivo o
que se antecipou. Tais antevisões não são, portanto, nem verda-
deiras nem falsas, mas efetivas, performativas. Fernanda Bruno
(2006) coloca que o próprio termo profil (perfil), muito utilizado
pelas redes sociais, expressa essa temporalidade da vigilância
digital – um pro-file é um pré-registro, uma preordenação. São
perfis digitais:
[...] espécies de duplos digitais ou simulações de identidades cuja
efetividade não depende de vínculos profundos com os indivíduos a
que correspondem, nem de um espelhamento fiel de uma personali-
dade ou caráter subjacentes. Ou seja, elas não são identidades “da-
das’, mas se tornam “reais” ou “efetivas” na sua função antecipatória
mesma, quando os indivíduos se identificam ou se reconhecem de
algum modo no perfil antecipado, acionando desde então algum
tipo de comportamento, cuidado ou escolha. (BRUNO, 2006, p. 6)
Percebe-se, portanto, que nessa condição de vigilância se
compõem sujeitos de uma visão futura, um sujeito que será pre-
parado, confeccionado, no sentido do futuro, pois o sujeito do
presente já não interessa, já está ultrapassado, como um objeto
descartável. (COUTO, 2009) São exatamente os processos de
temporalidade e nomadismo que interessam na apreciação dos
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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efeitos sobre a produção das identidades, a experimentação dos
“eus”, no Orkut.
A inserção de novas possibilidades comunicacionais, a
conectividade, a troca de informações em rede, características do
nosso tempo, demonstram que o sujeito já não se encontra locali-
zado num único espaço-tempo, estável. Ele se encontra disperso,
em vários bancos de dados, em mensagens eletrônicas, em dife-
rentes pontos do ciberespaço. Neste sentido, esse movimento de
temporalidade e nomadismo influencia a construção de uma ou-
tra maquinaria identitária, que dispensa atenção à interioridade
dos sujeitos e amplia o processo de exteriorização das subjetivi-
dades contemporâneas. São das ações, comportamentos e transa-
ções eletrônicas que se tira ou se projeta as identidades. O que se
observa nesse contexto é a possibilidade de tornar essas identida-
des mutantes como mais verdadeiras e evidentes, de se jogar com
ela, até o “[...] limite último da transmutação, da metamorfose
[...]”. (SANTAELLA, 2007, p. 97)
As identidades na cibercultura, nas redes sociais, on-line ou
off-lines, são cada vez mais camaleônicas. No Orkut, além de
camaleônicas, elas também são publicitárias, um brilho efêmero
para um sujeito que vive da pulverização encantada e pavoneada
de si mesmo. Como as identidades são mais ou menos inventa-
das, o fake se tornou o modelo ideal e cada vez mais reivindicado
na ciranda dos intercâmbios.
Conclusões
Para algumas pessoas, os perfis fakes no Orkut podem ser
insignificantes, uma fuga à realidade ou uma diversão sem gran-
des implicações. Para outras, podem ser o esconderijo de um cri-
minoso envolvido nas tramas de violação dos direitos humanos
na rede. Mas nem todo fake possui essas representações. Existem
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Identidades contemporâneas
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aqueles – e aqui parece estar a ampla maioria – que experimen-
tam outras identidades para demonstrar sentimentos, percepções,
desejos, gostos que poderiam ser ridicularizados e promotores de
constrangimentos na vida off-line, mas que são celebrados e fes-
tejados na dinâmica efêmera e plural da internet
Quando a mídia não especializada demoniza essas identida-
des cada vez mais fictícias causa, muitas vezes, aos pais, pro-
fessores e educadores em geral, interpretações limitadas sobre o
potencial de comunicação e de socialização das redes sócias, em
especial, pelo imensa popularidade no Brasil, do Orkut. No en-
tanto, numa atitude paradoxal, os próprios meios de comunica-
ções e muitas empresas procuram a rede social para obter mais
informações sobre os sujeitos que estão em noticiários televisivos
em jornais impressos ou eletrônicos, para contratar, dar promo-
ções ou demitir funcionários, ou simplesmente para bisbilhotar a
vida das pessoas, que com seus shows na rede, já não são anôni-
mas. Muitas até viram celebridades instantâneas. Assim, esses
meios reconhecem o Orkut como um repositório de identidades
mais íntimo e, principalmente, verdadeiro.
Na atualidade, somos, de muitos modos, resultados dos di-
versos discursos e contradições intrínsecas a cada experiência ou
modo de ser. Nesse contexto, as identidades estão em constante
construção, desconstrução e reconstrução. Isto nos permite con-
cluir que vivemos a era das hibridentidades, das identidades hí-
bridas, onde não faz mais sentido classificá-las como “verdadeira”
ou “falsa”. No ciberespaço ou na vida off-line as identidades são
mais ou menos inventadas e as com-fusões são mais importantes
que as definições limitadas e empobrecidas.
As hibridentidades permitem a milhares de indivíduos a ex-
perimentação, a invenção, a redefinição e a exibição de múltiplas
identidades sideralizadas e sideralizantes. As identidades na
cibercultura ao serem assinaladas por uma instabilidade cons-
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tante, influenciadas pela cultura horizontal da internet, passam a
coabitar diferentes corpos, lugares e situações, o que desestabiliza
o princípio da separatividade estabelecido pelos anacrônicos
dualismos. A separação mente e corpo, homem e natureza, iden-
tidades verdadeiras e falsas, a vida on-line e a off-line, não mais
se sustenta. Não existe separatividade, tudo agora esta relacio-
nado, conectado, em renovação e dispersão continuas.
A experimentação de “eus” no Orkut se constitui em mais
uma fonte de socialização digital. Uma fonte privilegiada para
ampliar e potencializar a comunicação instantânea, pois favore-
ce os intercâmbios de si e de múltiplos outros em performances
ininterruptas e criativas. O Orkut é uma rede fascinante de inven-
ção e exibição de subjetividades, de diáfanas hibridentidades.
Referências
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IMAGENS DE FAMÍLIA NA
INTERNET: fotografias íntimas
na grande vitrine virtual
Lígia Azevedo Diogo (UFF)
Paula Sibilia (UFF)
Sozinho no apartamento em que ela há pouco tinha morrido,
eu ia assim olhando sob a lâmpada, uma a uma, essas
fotos de minha mãe, pouco a pouco remontando com ela o
tempo, procurando a verdade da face que eu tinha amado.
E a descobri.
Barthes (1984)
Onde você ainda se reconhece: na foto passada ou no espe-
lho de agora?
Vanessa
1
Orkut.
Introdução
Poucos dias antes de sua morte, em março de 1980, Roland
Barthes publicou A câmara clara: nota sobre a fotografia, um
livro no qual tenta descobrir “[...] o que é a fotografia ‘em si’, por
que traço essencial ela se distinguia da comunidade das ima-
gens.” (BARTHES, 1984, p. 12) O autor destacou nesse livro a
existência de três perspectivas possíveis para se tentar entender a
imagem fotográfica: a do fotógrafo, a do ser representado na ima-
1
Vanessa é um pseudônimo que criamos para preservar o nome verdadeiro da
usuária do Orkut, cujo perfil usamos como exemplo neste artigo.
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gem e a do observador da fotografia. Entretanto, Barthes optou
por aprofundar apenas um desses pontos de vista e se debruçou
na busca do sentido da fotografia a partir da sua posição de es-
pectador, daquele que a olha, deixando totalmente de lado a vi-
são do operador, do fotógrafo que capta a imagem, pois ele admitia
não ser “sequer amador” nesse aspecto. Além disso, se deixou
colocar apenas rapidamente na pele do “alvo”, do ser representa-
do na imagem, já que, segundo ele próprio, “no fundo, o que
encaro na foto que tiram de mim (a “intenção” segundo a qual eu
a olho) é a Morte”. Já haviam se passado quase 150 anos da
invenção da fotografia, mas o autor ainda se debatia ansioso à
procura de uma resposta que lhe permitisse entender – sem se
preocupar em soar repetitivo – o que, de fato, havia de diferente e
“mágico” naquele tipo de imagem.
Seguindo os passos desse autor, também tentaremos neste
artigo, correndo o risco de bater numa tecla gasta, descobrir um
traço essencial, diferenciado e até mesmo “mágico”, de um dos
usos que fazemos da fotografia há também, mais ou menos, uma
distância de 150 anos. Apesar de o nosso foco não ser a fotografia
“em si”, as reflexões de Barthes nos ajudarão bastante a entender
o nosso objeto, pois se trata de algo indissociável daquilo que a
fotografia ainda tem de único, daquilo que ela ainda é “em si”.
Aludiremos aqui às fotografias de família e aos álbuns que
usamos para guardá-las e, mais particularmente, às novas foto-
grafias e aos novos álbuns de família, em formatos provavelmen-
te impensáveis na época em que Barthes escrevera, há pouco menos
de 30 anos. Assim como ele, porém, optaremos por uma única
perspectiva de análise, pois embora sejamos todos um pouco fo-
tógrafos, sobretudo graças à praticidade das novas câmeras foto-
gráficas, e também estejamos acostumados, nos dias de hoje, a
ser alvo das mais diferentes formas de captura de nossas própri-
as imagens, tentaremos nos ater apenas à posição do observador.
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Imagens de família na internet
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Tanto certas características próprias da tecnologia da foto-
grafia digital, que converte as imagens captadas pela câmera em
dados informáticos, como as novidades trazidas pela “revolução
da Web 2.0”, que transformaram a rede mundial de computado-
res num espaço de interatividade e criatividade, tornaram possí-
veis novas formas de relacionamentos entre as pessoas através
de imagens. Ao mesmo tempo, contudo, algumas formas mais
antigas de interação vêm desaparecendo, enquanto outras pare-
cem estar sendo apenas reformuladas, ao receber uma nova rou-
pagem tecnológica e a chance de se perpetuar com outros sentidos.
As fotografias de família, que fazem parte de um conjunto
de formas de registros íntimos, tornaram-se há muito tempo obje-
tos habituais para grande parte das famílias do mundo ocidental,
sob os modos de produção e consumo capitalistas. Sem medo de
exagerar, podemos dizer que esse tipo de fotografia tornou-se a
maneira mais popular (tanto no sentido de mais barata e acessí-
vel, como no sentido de mais difundida) que as pessoas utilizam
para se verem representadas em imagens, para verem pessoas do
seu círculo íntimo representadas em imagens e para se relaciona-
rem através de imagens. Essa interação, que tem como base esse
tipo peculiar de fotografias – as de família – pode, inclusive,
ultrapassar barreiras temporais e geográficas. Mas o modo como
os familiares produzem, consomem, entendem e sentem seus re-
gistros em imagens vem mudando, em boa medida acompanhan-
do o desenvolvimento tecnológico e a explosão da internet. Também
vem se transformando a maneira de armazenar essas fotografias
íntimas, e o “lugar” onde elas ficam guardadas.
No site de relacionamentos mais popular do Brasil, o Orkut,
encontramos, com frequência, fotografias de família dos usuári-
os, e muitas dessas imagens estão organizadas em “pastas virtu-
ais” que recebem o nome de álbuns. Embora existam muitas
fotografias e inúmeros álbuns nas páginas do Orkut que não pos-
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suem esse caráter, não é difícil identificar aqueles cujo conteúdo
é familiar. O próprio título dado pelo usuário ao seu álbum, por
exemplo, já pode ser uma boa pista. Porém, apesar de chamar-
mos os objetos da mesma maneira, recorrendo a vocábulos e ex-
pressões semelhantes, o que queremos saber é o seguinte: será
que esses álbuns de fotografias de família são apenas versões
mais atuais daqueles que costumamos (ou costumávamos) guar-
dar em nossas casas?
Para tentar responder a essa pergunta, efetuaremos uma
abordagem comparativa entre os novos (mas já bastante popula-
res) álbuns de fotografias de família disponibilizados na internet
e esses outros mais antigos. Há, sem dúvida, diversas semelhan-
ças entre esses dois formatos de álbuns. Afinal, ambos são desti-
nados a armazenar um tipo de imagens que muitos consideram
especial, e não seria difícil desenvolver uma pesquisa ressaltan-
do a continuidade dessa prática, incorporando as mudanças
introduzidas pelo desenvolvimento tecnológico como meros deta-
lhes que não a afetam significativamente. Porém, como também
são instigantes as diferenças e particularidades das novas ima-
gens íntimas e do novo álbum, e das interações que eles propici-
am e pressupõem, escolheremos neste texto um caminho capaz
de ressaltar as discordâncias entre o álbum de família digital e
aquele mais arcaico de fotografias de papel. Pois embora alguns
hábitos pareçam sobreviver ao longo de períodos históricos di-
versos, ganhando certo ar de eternidade, convém desconfiar des-
sas permanências: muitas vezes as práticas culturais persistem,
mas seus sentidos mudam.
Se olharmos com certo estranhamento para as supostas
reformulações de práticas antigas, como os álbuns de fotografias
de família, poderemos também dar um passo para entender esses
modelos tecnologicamente reciclados como manifestações de um
processo de transformações mais amplo e incitante. Uma série de
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Imagens de família na internet
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reconfigurações que estão se dando atualmente, não apenas liga-
das às tecnologias, mas também às esferas sociais, econômicas,
políticas e culturais do mundo contemporâneo.
Fotografias no Orkut: técnicas para se
fazer conhecer
Para tentar entender algumas peculiaridades das fotografias
de família que estão disponíveis no Orkut, e dos novos álbuns
com conteúdo exclusivamente doméstico que encontramos on-
line, abordaremos primeiramente a forma de utilização da fotogra-
fia pelos internautas cadastrados nessa rede de relacionamentos.
Como muitos sabem, o Orkut é um site que oferece aos seus
usuários a possibilidade de interagir entre si através de páginas
pessoais denominadas “perfis”, que cada participante constrói ao
se cadastrar. O site existe desde 2004 e, embora não tenha sido
criado no Brasil, transformou-se basicamente num espaço de soci-
abilidade para pessoas do nosso país: os brasileiros representam
metade do total de usuários, cerca de 23 milhões de pessoas. Em
sua página de abertura, mesmo quem não está cadastrado pode ler
um texto que explica o que é o site e qual é o seu objetivo:
O orkut é uma comunidade on-line criada para tornar a sua vida
social e a de seus amigos mais ativa e estimulante. A rede social do
orkut pode ajudá-lo a manter contato com seus amigos atuais por
meio de fotos e mensagens, e a conhecer mais pessoas. [...] Nossa
missão é ajudá-lo a criar uma rede de amigos mais íntimos e chega-
dos. Esperamos que em breve você esteja curtindo mais a sua vida
social.
Geralmente, quando os próprios usuários explicam os moti-
vos da sua participação no Orkut, os argumentos também costu-
mam seguir a linha do trecho acima: afirma-se que o site é uma
excelente maneira de conhecer pessoas, conhecer melhor as pes-
soas já conhecidas no mundo “real”, re-conhecer pessoas conhe-
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cidas, mas afastadas por uma distância espacial ou temporal, ou
conhecer pessoas novas. No entanto, cabe a pergunta: para que
conhecer pessoas? Existem várias motivações possíveis e, segun-
do dados fornecidos pelo site, os dois principais interesses dos
usuários que se cadastram no Orkut são a amizade, motivo
explicitado por 53,20% dos participantes, e o namoro, manifesta-
do por 17,69%.
Algumas questões são cruciais para entender o fun-
cionamento desse site e o seu súbito sucesso. Como alguém pode
se tornar conhecível? Como alguém se torna o que é na nossa
sociedade? Como ser autêntico ou, pelo menos, parecê-lo? Essas
perguntas podem ser difíceis demais de serem respondidas, ou
podem suscitar múltiplas respostas, principalmente se não for
proposto um recorte espacial e temporal no qual elas estejam
inseridas. Por isso, talvez seja mais correto começar questionan-
do o seguinte: como se fazer conhecer e como conhecer alguém
pelo Orkut? Como expor quem se é no estreito espaço de um per-
fil? Como conseguir, através de uma página na internet, que os
outros percebam o que há de diferente e especial em cada um?
Para que os participantes possam conhecer, re-conhecer ou
conhecer melhor alguém, o Orkut disponibiliza diversas ferra-
mentas. Primeiramente, existe um extenso questionário pré-
formatado que permite a cada usuário manifestar e publicar, em
sua página pessoal, várias informações e algumas opiniões pes-
soais sobre si. É importante ressaltar que ninguém é obrigado a
preencher todas as lacunas e nem mesmo a dizer a verdade: cada
usuário decide o que quer “confessar”, o que deseja mostrar e a
quem deve ser mostrado. Nesse questionário, o espaço mais inte-
ressante para ser preenchido por quem quer se fazer conhecer
talvez seja o quesito: “quem sou eu”. Entre os que optam por
preencher esse campo, as maneiras escolhidas para se definir
variam muito: há aqueles que são mais diretos e aludem às suas
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Imagens de família na internet
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características físicas e psicológicas, e os que escolhem uma po-
esia ou uma letra de música que, como uma espécie de enigma,
sugere quem é ou como é o dono daquele perfil, mas deixa ao
visitante o gostinho da livre interpretação.
A pasta de recados, o quadro de depoimentos, as mensagens
recebidas, as comunidades as quais cada usuário pertence, os
links para vídeos disponíveis no perfil também ajudam a cons-
truir a personalidade de cada participante do site. Poderíamos
nos demorar muito mais descrevendo essas e outras opções para
se tornar conhecível ou re-conhecível pelo perfil pessoal no Orkut.
Mas o interessante é que entre todos os recursos – tanto escritos
como visuais ou audiovisuais – utilizados para construir uma
página capaz de refletir a identidade dos usuários (ou a maneira
como eles querem ser vistos, ou aquilo que eles desejam pare-
cer), a maioria dos participantes do Orkut decidem usar a foto-
grafia como principal ferramenta. Para tanto, nos perfis
pré-formatados existem duas modalidades: uma consiste em co-
locar uma foto no espaço para a imagem que identifica o perfil
junto com o nome; a outra é pasta de fotografias.
Qualquer imagem pode ser escolhida para identificar um
perfil: pode-se escolher uma fotografia de outra pessoa, de um
astro de cinema, um desenho ou, inclusive, pode-se não publicar
imagem alguma. Entretanto, a grande maioria das pessoas que
participam do Orkut opta por mostrar uma fotografia de si mes-
mo. Essa imagem é inserida no canto superior esquerdo da pági-
na do usuário e costuma ser a primeira coisa a ser visualizada
por qualquer um que entrar nesse perfil. Além disso, a fotografia
será exibida em todas as formas de interação que o usuário rea-
lizar por meio do site: sempre que enviar uma mensagem, um
depoimento ou um recado para outra pessoa, essa fotografia acom-
panhará o texto. Tanto é que, normalmente, esses textos não são
assinados por tal motivo: basta ver a foto para saber de quem se
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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trata. Do mesmo modo, se alguém procurar no site pelo nome do
dono de algum perfil, encontrará primeiro essa fotografia, que o
ajudará – mais que qualquer outra ferramenta – a decidir se quer
ou não entrar na respectiva página, ou se deseja ou não conhecer
essa pessoa.
Apenas uma única imagem pode ser usada para identificar
um perfil; o que, sem dúvida, é muito pouco. Porém, para aque-
les que desejam mesmo se tornar conhecidos, conhecíveis ou re-
conhecíveis, em diversos ângulos e situações, há ainda uma “pasta
virtual” com bastante espaço para colocar uma quantidade prati-
camente infinita de fotografias. Há pouco mais de um ano, essa
pasta pode ser organizada dividindo as fotografias em subpastas
intituladas “álbuns”, que podem ser nominadas pelos usuários
de acordo com o tema comum a um grupo de fotos. Ao bisbilho-
tar os álbuns de fotografias recheados de imagens dos participan-
tes do Orkut, é possível encontrar imagens do seu passado pessoal,
de sua última viagem, dos seus amigos do trabalho, do seu rosto
em primeiro plano ou de seu corpo inteiro. De acordo com as
premissas que parecem vigorar nesse tipo de redes de relaciona-
mentos, tendo acesso a todas essas imagens, torna-se difícil não
reconhecer alguém, ou duvidar acerca do próprio desejo de ser
amigo dessa pessoa ou mesmo de namorá-la. Então, nesse caso,
vale o jargão “uma imagem vale mais que mil palavras”?
Cabe esclarecer, porém, que essa estranha mania nossa de
reconhecer as pessoas através de fotografias não é tão recente:
desde que a técnica da fotografia se popularizou, temos nos acos-
tumado a lidar com a reprodução incontestável do que somos ou
do que aparentamos ser. Mesmo a imagem digital oferecida pelas
novas câmeras, aquela que costuma ser arquivada no Orkut, é
um dos muitos frutos da mesma evolução tecnológica inaugura-
da com a câmara obscura, e logo intensificada pelo daguerreótipo,
na busca incessante da captação cada vez mais fiel da realidade.
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Imagens de família na internet
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Essa pretensão de objetividade fez com que a imagem fotográfica
rompesse com toda uma tradição de representações que a prece-
deram, permitindo o surgimento de uma relação radicalmente
nova entre a imagem e o objeto representado.
É por isso que a fotografia pode ser (e, de fato, tem sido)
encarada como um documento que aponta para a preexistência
do objeto que ela representa. Assim como ocorre com outros tipos
de imagem, a fotografia fixa o objeto e o imortaliza; mas, diferen-
temente dessas outras modalidades, neste caso trata-se dos pró-
prios objetos que se apresentam à nossa percepção, numa situação
vista como radicalmente diferente do que ocorre em outros tipos
de representação. Essa característica foi fundamental para que a
fotografia se tornasse uma forma de reconhecimento pessoal das
mais indiscutíveis para a sociedade moderna. Hoje, no Orkut, as
fotografias continuam revelando essa importância, com sua ca-
pacidade para mostrar como as pessoas são ou como elas pare-
cem ser.
Então, ao definir quem somos através de fotografias, estarí-
amos mostrando o que de fato cada um é? Não. Mesmo a fotogra-
fia, que registra com uma certa objetividade as aparências físicas
de alguém, pode fixar imagens muito diferentes de uma mesma
pessoa. Existe uma infinidade de pecados que podem ser cometi-
dos por um mau fotógrafo, e, por outro lado, há também uma
variedade imensa de truques disponíveis na hora do clique da
câmera, para garantir um bom resultado. O uso do foco, a esco-
lha do enquadramento, a estabilidade da câmera, a compreensão
da luminosidade, a percepção das sombras, a lente utilizada, o
grau de angulação da câmera, todos esses recursos podem servir
tanto para tornar a imagem de alguém muito melhor como muito
pior.
Também convém lembrar que existem os indivíduos que se
julgam (ou são julgados) fotogênicos e aqueles que “não sabem
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posar”. As pessoas fotografadas podem ainda recorrer a
maquiagem, perucas, penteados, fantasias e roupas mais ou
menos sofisticadas. Hoje em dia, os programas para editar as
imagens no computador (o Photoshop é o mais famoso deles)
permitem alterar as fotografias corrigindo imperfeições pequenas
ou gritantes, desde manchas, espinhas, gorduras localizadas e
celulites, até peitos muito grandes e narizes meio tortos. Assim,
aquele que foi alvo da câmera pode cair também na mira do
mouse, e ter a sua imagem retocada. Portanto, embora seja cap-
tada de maneira “objetiva”, a imagem fotográfica possibilita que
as pessoas se apresentem visualmente de infinitas formas.
Porém, se até aqui, ao aludirmos a todos esses recursos,
apontamos apenas possíveis modos de aproximar, ou afastar, a
imagem fotográfica de alguém da sua real aparência, é importan-
te ressaltar que existe ainda uma possível discordância entre o
que se aparenta ser e o que – realmente – se é. Costumamos dizer,
inclusive, que raramente as pessoas são, “por dentro”, exatamen-
te aquilo que aparentam ser, “por fora”. Talvez, por isso, “quem
vê cara, não vê coração” seja um ditado tão popular.
Fotografia de família: um documento
veraz
Existe um tipo específico de fotografia que parece capaz de
registrar as pessoas de maneira mais próxima do que elas real-
mente são: as fotografias de família. Essas imagens vêm sendo
produzidas há bastante tempo, sendo guardadas em álbuns e baús
nas casas familiares. A aparente objetividade exalada pela ima-
gem fotográfica foi um dos fatores importantes que contribuíram
para a solidificação dessa prática do registro familiar em ima-
gens, embora não tenha sido o único.
Os primeiros álbuns fotográficos de família surgiram na
segunda metade do século XIX. Esse mesmo período foi marcado
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Imagens de família na internet
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por uma dinâmica social até então peculiar, na qual dois tipos de
espaços foram se tornando cada vez mais diferenciados e separa-
dos: o público e o privado. Surgia, assim, a ideia de que os
sujeitos só podiam ser “verdadeiros” ou “autênticos” em sua inti-
midade, no aconchego do lar e na companhia da família. O espa-
ço privado foi valorizado nessa época, inclusive como detentor
de uma superioridade moral, pois o homem moderno teria na
família – e na construção, manutenção e valoração de sua intimi-
dade – um dos pilares da edificação de sua própria subjetividade.
O lar foi, desse modo, se transformando no lugar da autenticida-
de, onde as pessoas se sentiam protegidas e podiam ser elas pró-
prias à vontade.
Pelo menos outros dois aspectos também são importantes,
nesse sentido, e devem ser destacados. De um lado, essa época
foi marcada por um forte impulso historicizante e um evidente
apego à memória, que costumava ser tratada como “monumen-
to”. Não só a memória social, política e cultural, mas também a
memória individual, aquela que se cria e se recria nos exercícios
de introspecção, e a memória familiar. É também nesse período
que surge e se legitima a psicanálise, como um campo de saber
privilegiado sobre os sujeitos e como uma técnica para o trata-
mento do mal-estar que afeta a cada indivíduo. Tanto a memória
individual, explorada por meio da introspecção, como as rela-
ções familiares, são fundamentais para o diagnóstico e para o
tratamento dos conflitos que a psicanálise se propõe a tratar.
Por outro lado, também foi nesse momento quando se acen-
tuou o processo de dessacralização das imagens e das obras de
arte, com o declínio do “valor de culto” que estas costumavam
possuir. Como assinalou Walter Benjamin (1985), a fotografia e o
cinema teriam sido cruciais nesse processo. Entretanto, não foi à
toa que um único tipo de fotografia, sobre o qual o mesmo Benja-
min escreveu, manteve a posse de um certo valor de culto: as
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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fotografias de rostos. Poderíamos afirmar, portanto, que nem to-
das as imagens perderam a sua “magia”, pois as fotografias de
nós mesmos, com toda a pretensão de objetividade que delas
emanam, e num contexto histórico no qual a intimidade, a famí-
lia e a memória foram especialmente valorizadas, passaram a
apresentar algo para além de si: uma espécie de “espírito” ou
uma “aura”. Sobre essa vitalidade peculiar ou essa potência im-
pressa na fotografia, Barthes (1984, p. 121) escreveu o seguinte:
A foto é literalmente uma emanação do referente. De um corpo real,
que estava lá, partiram radiações que vêm me atingir, a mim, que
estou aqui, pouco importa a duração desta transmissão, a foto do
ser desaparecido vem me tocar como raios retardados de uma estre-
la. [...] E se a fotografia pertencesse a um mundo que ainda tivesse
alguma sensibilidade ao mito, não deixaríamos de escutar diante
da riqueza do símbolo: o corpo amado é imortalizado pela media-
ção de um metal precioso, a prata (monumento e luxo); ao que
acrescentaríamos a idéia de que esse metal, como todos os metais
da alquimia, está vivo.
Às imagens da família cabia a responsabilidade de manter
“viva” a memória familiar. Algo que, a partir desse momento
histórico, tornou-se mais importante para a construção das sub-
jetividades que a vida pública, social e política. Assim, por mais
de um século e meio, a imagem de família continuou possuindo
uma certa aura, sendo cultuada no seio da família. Embora fos-
sem meros objetos materiais, as imagens de família possibilita-
vam ao homem moderno uma conexão com o valioso passado e
com a própria subjetividade. Tratava-se de pequenos portais que
permitiam viajar no tempo e mergulhar na própria interioridade.
Essas imagens concentravam duas instâncias que se mantive-
ram, de alguma maneira, possuidoras de “espírito” no difícil con-
texto da sociedade moderna: a família e a memória.
De qualquer maneira, para perceber as transformações que
queremos apontar nas imagens de família, é preciso entender que
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Imagens de família na internet
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tanto a separação público-privado como a divisão do dentro-fora
que constitui cada sujeito são invenções históricas e datadas,
convenções que em outras culturas ou não existem ou se apre-
sentam de formas diferentes, e que, mesmo entre nós, são bastan-
te recentes.
Desde o surgimento da fotografia de família, até pouco tem-
po atrás, havia uma certa continuidade na forma como o espaço
doméstico, a memória, a família, a construção introspectiva da
personalidade e a preservação da intimidade eram valorizados.
Hoje em dia, porém, essa dinâmica está se alterando sensivel-
mente. Já faz algum tempo que essas mudanças estão sendo
delineadas. Há algumas décadas, por exemplo, o sociólogo nor-
te-americano David Riesman parece ter percebido certos indícios
que apontavam para essa mudança. Em seu livro A multidão
solitária, publicado em 1950, esse autor diagnosticou uma “trans-
formação do caráter” que estava começando a acontecer na soci-
edade naquele momento histórico: um deslocamento dos eixos
em torno dos quais cada sujeito edifica o que é. Um deslizamento
de “dentro” de si (introdirigido) para “fora”, ou melhor: para tudo
aquilo que os outros podem enxergar (alterdirigido).
Álbuns de família: refúgio ou vitrine?
Retornaremos, agora, às questões formuladas logo no iní-
cio deste artigo. O desenvolvimento da tecnologia da imagem di-
gital e a força com que a internet tem se tornado parte de nossas
vidas são alguns dos mais importantes fatores que possibilita-
ram mudanças significativas na maneira com que as pessoas
produzem, consumem e valorizam as imagens de família. Os modos
de armazenar essas imagens também mudaram, e a observação
de alguns aspectos da transformação que os álbuns de família
sofreram pode ser um bom caminho para compreender várias
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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reconfigurações que estão acontecendo na sociedade con-
temporânea.
As fotografias de família plasmadas no papel eram, com
frequência, organizadas em álbuns: aqueles bonitos e pesados
cadernos de capa dura que hospedavam entre suas páginas esses
tesouros familiares. Após a popularização das imagens digitais,
entretanto, houve uma evidente redução do uso desses álbuns de
fotografias. Embora os materiais com os quais esses artefatos
eram elaborados fossem dos mais diversos, embora os formatos
e o grau de requinte desses álbuns de fotografias familiares te-
nham variado bastante, é possível apontar alguns atributos co-
muns e inerentes a todos eles:
- Materialidade e perenidade – Os álbuns de família eram
bens materiais e palpáveis, cuja duração se julgava eter-
na. Embora pudessem ficar por muito tempo sem serem
consultados, embora juntassem pó, ocupassem um espa-
ço na prateleira e nos armários, embora não fossem obje-
tos necessariamente úteis, as fotografias neles guardadas
jamais correram o risco de serem jogadas fora. Longe dis-
so, pois eram objetos que possuíam um grande valor para
a família e, por tal motivo, eram passados, com muito
cuidado, de geração em geração.
- Público-alvo restrito e definido – O valor desses álbuns
só era reconhecido pelos familiares envolvidos e, com o
tempo, também pelos amigos mais íntimos. Para todas as
outras pessoas, essas imagens não tinham significado ou
importância alguma. As imagens de família eram pensa-
das como um produto íntimo e familiar, produzido ape-
nas para a satisfação dos anseios de um grupo restrito e
bem específico de pessoas, no sentido de ver e rever ima-
gens ligadas a seus afetos. O público-alvo desses álbuns,
portanto, sempre foi constituído por um pequeno círculo
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Imagens de família na internet
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de pessoas, que, de vez em quando, sentavam-se na sala
de estar para folhear as páginas e comentar as fotografias.
- Guardar como o objetivo fundamental – Os álbuns de fa-
mília tinham como função principal a de ajudar a preser-
var a memória da família. Assim como, de certa forma,
manter “próximos” os parentes afastados no tempo ou no
espaço, e manter “vivos” os familiares que já tivessem
morrido. Como constatara André Bazin (1991, p. 20): “Não
se acredita mais na identidade ontológica de modelo e
retrato, porém se admite que este nos ajuda a recordar
aquele e, portanto, a salvá-lo de uma segunda morte es-
piritual”.
- Refúgio e proteção – Entre quatro paredes, no território
reservado e aconchegante da família, os sujeitos moder-
nos podiam desenvolver sua subjetividade e deixar que a
sua personalidade se exprimisse livremente, sem preci-
sar usar máscaras ou se proteger da intromissão de olhos
estranhos. As fotografias de família flagravam, muitas
vezes, a expressão desta “verdade” dos sujeitos, motivo
pelo qual os álbuns também operavam como “refúgios”
para essa autenticidade. É por isso que, assim como as
relações familiares, os sentimentos, os pensamentos e tudo
aquilo que constitui a intimidade de cada um, os álbuns
de fotografias familiares também deveriam ser mantidos
sob proteção, separados dos perigos que poderiam ameaçá-
los, fora das paredes do lar.
Já os álbuns de fotografias de família disponibilizados
no Orkut possuem atributos diferentes. As ferramentas
desse site que permitem aos seus usuários a organização
das fotografias de suas próprias famílias em pastas dife-
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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renciadas apresentam outras características marcantes.
Entre elas, podemos citar as seguintes:
- Virtualidade e descartabilidade – As fotografias armaze-
nadas nesses álbuns da internet, assim como os próprios
álbuns, são arquivos de dados digitais que não ocupam
espaço algum nas casas das famílias e nem sequer nos
computadores dos usuários. Vale ressaltar que “espaço”,
nesse contexto do vocabulário informático, costuma ser
sinônimo de “memória”. Por circularem no espaço intan-
gível da internet, talvez seja possível afirmar que são ál-
buns de fotografia “virtuais”: embora existam, estão em
outra dimensão espacial e jamais juntarão pó. Entretan-
to, assim como acontece com a maioria dos dados dis-
poníveis on-line, tanto as fotografias de família
disponibilizadas no Orkut, como os álbuns que as con-
têm, podem ser facilmente descartados pelos donos dos
perfis. Com efeito, descartar fotografias, álbuns, recados,
links ou amigos, e depois criar outros, é uma ação bas-
tante comum entre os usuários dessa rede de relaciona-
mentos.
- Público-alvo amplo e indefinido – Os álbuns de fotogra-
fia de família expostos no Orkut são criados para que,
preferencialmente, um grande número de pessoas possa
ter acesso a eles. A grande maioria desses álbuns está
aberta para a visualização de qualquer um, o que signi-
fica um público potencial de 45 milhões de usuários ca-
dastrados no site. Embora alguns donos de perfis limitem
a visitação de seus álbuns apenas aos amigos de seus
amigos, ou aos seus próprios amigos, convém esclarecer
que o mais habitual é que cada participante possua cen-
tenas de pessoas cadastradas como “amigos”, portanto,
essas opções de limitação de público também deixam
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Imagens de família na internet
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margem para que as fotografias sejam vistas por pessoas
que certamente extrapolam o círculo familiar ou íntimo.
- Mostrar como o objetivo fundamental – Em concordância
com o objetivo central e declarado do Orkut, que consiste
em promover uma vida social mais ativa para seus usu-
ários, permitindo que as pessoas se relacionem e se co-
nheçam, o objetivo dos álbuns de fotografias existentes
na página pessoal de alguém, assim como as outras fer-
ramentas citadas anteriormente, consiste em ajudar o
usuário a se tornar (re)conhecível pela máxima quantida-
de possível de pessoas. Por isso, neste novo contexto, ter
um álbum de fotografias de família que passe desperce-
bido é totalmente inútil, e sem dúvida indesejável.
- Vitrine – Os álbuns de fotografias de família expostos no
Orkut pretendem trazer a “personalidade” dos participan-
tes para a tela, mostrá-la aos olhos dos outros. De acordo
com as reconfigurações que estão ocorrendo nos limites
entre os espaços públicos e privados, hoje em dia, a im-
portância de se preservar a intimidade de cada um parece
estar em declínio. Algo bem diferente do que ocorria nos
velhos tempos modernos, quando era primordial a prote-
ção das quatro paredes do lar para poder exercitar a pró-
pria individualidade e para construir uma subjetividade
singular. Nos espaços virtuais do Orkut, as pessoas pre-
cisam ser vistas para poder realmente existir: precisam
conquistar a visibilidade para “ser alguém”. Por isso, no
perfil dos usuários dessa rede de relacionamentos, cada
um só é aquilo que mostra de si.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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Imagens de família na internet: um
reflexo do que se é
Desde a abertura deste artigo, duas frases guiaram a nossa
busca. A primeira delas, um depoimento de Roland Barthes, foi
retirado do mesmo livro sobre fotografia que citamos em várias
ocasiões ao longo destas páginas. Em busca do que é a fotografia
em si, o autor “perambulou” entre fotos históricas, publicitárias
e artísticas (todas imagens públicas) até a página 91 do seu livro,
sem encontrar “[...] essa coisa que é vista por quem quer que
olhe uma fotografia e que a distingue, a seus olhos, de qualquer
outra imagem”. Foi só então que Barthes resolveu procurar esse
“algo” da fotografia entre as imagens mais íntimas e especiais
que ele possuía: as fotos de sua mãe, que havia falecido há pou-
co tempo. Após olhar uma a uma essas imagens, o autor reco-
nhece, enfim, ter se deparado com o que vinha buscando tão
intensamente. Em uma única fotografia de família, uma foto de
sua mãe ainda criança, com cerca de cinco anos de idade, Barthes
afirma ter achado tanto “a verdade” do que fora aquela mulher,
pois “essa fotografia reunia todos os predicados possíveis de que
se constituía o ser de minha mãe”, quanto a própria essência da
fotografia:
Algo como a essência da Fotografia flutuava nessa foto particular.
Decidi ‘tirar’ toda Fotografia (sua ‘natureza’) da única foto que
existiu para mim, e tomá-la de certo modo como guia de minha
última busca. Todas as fotografias do mundo formavam um Labi-
rinto. Eu sabia que no centro desse Labirinto não encontraria nada
além dessa única foto. (BARTHES, 1984, p. 110)
O que mais chama a atenção nessa descoberta é que, ao
encontrar em uma única imagem a resposta para todas as suas
perguntas, num livro ilustrado com outras 25 fotografias, o au-
tor opta por não exibi-la. Apesar de ser um objeto fundamental
para sustentar a sua tese, ele justifica a sua decisão de não mos-
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Imagens de família na internet
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trar a ninguém a foto de sua mãe: “ela existe apenas para mim”
e “para vocês não seria nada além de uma fotografia indiferente”.
Assim como os álbuns antigos, essa imagem era tão íntima e
reveladora da verdadeira personalidade de sua mãe (e também
da personalidade do próprio autor), que precisava ser preserva-
da, oculta aos olhos dos intrusos e mantida num refúgio seguro.
Além disso, ele sabia que essa valiosa imagem não faria sentido
para os outros, para todos aqueles não ligados afetivamente a
essa pessoa.
Barthes reencontrara sua mãe naquela imagem, mesmo que
na época em que ela fora fotografada ele ainda nem existia e,
claro, ainda não a conhecia: como ele poderia encontrá-la tão
verdadeira naquela fotografia e reconhecê-la? A explicação é sim-
ples: aquilo que definia o que a mãe de Barthes tinha sido como
pessoa era um “algo” pessoal, imutável, e que permanecera guar-
dado “dentro” dela. Independentemente da idade daquela mulher,
na época da sua morte ou quando ela tinha apenas cinco anos de
idade, para registrar sua verdadeira personalidade, a fotografia
precisava captar aquilo que vinha do “interior” de seu ser, não
apenas o que podia ser facilmente enxergado na superfície de sua
aparência física.
Sem dúvida, essa não era uma particularidade da família
do autor, e nem de sua mãe, pois todos nós (e os nossos parentes
e pessoas íntimas) também possuíamos uma existência interior,
individual e fixa. Por muito tempo acreditamos na solidez das
personalidades, em seu caráter denso, profundo e “interiorizado”.
Ser alguém era algo tão permanente como aquilo que a imagem
fotográfica preservava e, portanto, não é difícil supor que para
Roland Barthes sua mãe tinha passado a vida inteira sendo uma
mesma pessoa: essa pessoa única, singular e inconfundível. Por
isso, uma fotografia de família, guardada por cerca de 100 anos,
podia permitir que ela se mantivesse eternamente “viva” e reco-
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nhecível, em toda a sua autenticidade. E, ainda, como o olho da
câmera havia capturado e fixado no papel a verdade total e inte-
rior daquela mulher, então era preciso preservar essa fotografia,
esse objeto tão valioso, não só para resguardá-lo dos perigos do
tempo, mas também do olhar alheio. Assim como para “ser al-
guém” era preciso dispor de um refúgio protegido, para permane-
cer sendo alguém era preciso também ser resguardado.
Hoje, porém, parece que aquela transformação apontada por
David Riesman, há mais de 50 anos, com o deslocamento daquilo
que edifica a identidade de um sujeito de “dentro de si” para “fora
de si”, está alcançando o seu auge e sua plena consumação gra-
ças à internet e à tecnologia da imagem digital. Vanessa, uma
usuária típica do Orkut, tem 23 anos de idade e possui um perfil
bastante visitado: 986 amigos, 7795 recados e 245 fãs. Vanessa
disponibiliza 176 fotografias em sua página pessoal, dividas em
nove álbuns, dos quais dois (intitulados “83 anos da vovó” e
“Momentos: Pessoas: Histórias”) possuem imagens que, se fos-
sem impressas em papel, estariam certamente nas prateleiras e
baús da casa de sua família. A internauta tem o cuidado de colo-
car uma legenda em cada uma das fotografias que fazem parte
desses álbuns on-line. Já no caso dos álbuns de fotografias fami-
liares tradicionais, que eram folheados apenas por quem estava
registrado naquelas imagens ou por aqueles que conheciam as
pessoas fotografadas, as legendas podiam ser algo supérfluo.
Entretanto, nem todos os visitantes da página de Vanessa — ou
mesmo seus próprios “amigos” do Orkut — sabem, por exemplo,
quem é sua avó, como são os seus outros familiares, ou como foi
a festa de 83 anos da matriarca. Por isso, torna-se necessário o
esclarecimento.
Chama a atenção, especialmente, uma das fotografias do
álbum Momentos: Pessoas: Histórias e a sua legenda. Na foto é
possível ver Vanessa sozinha, com aproximadamente cinco anos
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Imagens de família na internet
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de idade – curiosamente, a mesma idade da mãe de Barthes na-
quela fotografia essencial. Trata-se de uma foto que outrora já foi
material e palpável, e certamente já esteve inserida em um álbum
de fotografias de família na casa de Vanessa. Na legenda dessa
imagem, encontra-se a segunda frase usada na abertura deste
artigo: “onde você ainda se reconhece: na foto passada ou no
espelho de agora?”.
Sendo o Orkut um espaço para se fazer conhecer, re-conhe-
cer ou conhecer melhor determinadas pessoas, a pergunta sobre
como, verdadeiramente, se fazer reconhecer, vinda de uma garota
possuidora de um perfil bastante conhecido, é bastante intrigan-
te. De um lado, Vanessa coloca a fotografia antiga de sua infân-
cia, “foto passada”, de outro, a sua imagem atual e instantânea:
“o espelho”. Diferente da mãe de Barthes, que se manteve sempre
reconhecível, Vanessa sabe que em uma dessas duas imagens já
não é mais possível reconhecê-la. Se ela mostra a qualquer mo-
mento, para milhares de pessoas conhecidas e desconhecidas, a
imagem do que ela é, o reflexo mais fiel da sua personalidade,
através de sua página e de todas as ferramentas do Orkut, o que
a torna alguém não é mais algo rígido e imutável, e não está
mais guardado “dentro” de si.
O Orkut permite conhecer pessoas, e se fazer conhecer, mas
também possibilita e estimula que seus usuários mudem, que
deixem de ser aqueles que eram, que se reinventem o tempo todo.
Ao atualizar o perfil, o usuário atualiza a sua própria personali-
dade: muda e se re-faz. O site promove, assim, o encontro entre
personalidades instantâneas e mutantes. Nesse contexto, torna-se
mesmo difícil conseguir se reconhecer em alguma coisa fixa e
estável como uma fotografia antiga de papel. Assim como não há
estabilidade e durabilidade para as personalidades contemporâ-
neas, também não faz sentido haver para a fotografia, mesmo
para as fotografias de família.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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Por tudo isso, não surpreende que os novos álbuns familia-
res tenham deixado de ser objetos materiais duráveis, que eram
guardados eternamente, e se tornaram uma espécie de vitrine.
Agora são visíveis para o máximo de pessoas possíveis, e além
disso se encontram em constante transformação. Vanessa, talvez
como um exemplo do que estamos nos tornando, não seria mais
um sujeito dotado de uma essência interior densa e dura, que a
marcará e a individualizará ao longo de toda sua vida, mas al-
guém que é o que aparenta ser “por fora”, uma silhueta ou um
perfil definido pela sua imagem moldável.
Curiosamente, Vanessa é um dos usuários que optou por
preencher o campo “quem sou eu” do seu perfil colocando um
enigma como definição do que ela é. A jovem escolheu Bertold
Brecht como seu porta-voz, e cita um parágrafo do autor. Para
além das aspas da citação, porém, Vanessa dá uma importante
pista a quem quiser conhecê-la. Ela enfatiza uma frase do trecho
citado, repetindo-a: “Nada é impossível de mudar”. De fato, é
pouco provável encontrar, nas imagens dessa usuária do Orkut,
algo estável que a torne uma pessoa: nada disso emana das 176
fotografias disponíveis em sua pasta virtual, incluindo as diver-
sas fotos de família de seus álbuns on-line. Talvez porque Vanessa
é como aquilo que ela mostra ser: algo que pode e deve mudar,
um ser instantâneo e fugaz como seu próprio reflexo no espelho.
Referências
ACCIOLY, Maria Inês; BRUNO, Fernanda. Second life: vida e
subjetividade em modo digital. In: FREIRE FILHO, João;
HERSCHMMAN, Micael (Org.). Novos rumos da cultura de mídia. Rio
de Janeiro: Mauad, 2007. p. 281-289.
BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
BAZIN, André. O cinema: ensaios. Tradução Eloisa de Araújo Ribeiro.
São Paulo: Brasiliense, 1991.
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Imagens de família na internet
55
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre
literatura e história da cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São
Paulo: Brasiliense, 1985. (Obras escolhidas, v. 1)
BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo
com o espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
FERRAZ, Maria Cristina Franco. Esquecer em tempos de tecla “save”:
na era da informação em tempo real, porque temos tanto medo de não
lembrar? Trópico, 2008. Disponível em:<http://pphp.uol.com.br/
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ODIN, Roger (Org.). Le film de famille: usage privé, usage public. Paris:
Librairie des Méridiens Klincksieck et Cie, 1995.
RIFKIN, Jeremy. A era do acesso: a transição de mercados
convencionais para networks e o nascimento de uma nova economia.
São Paulo: Makron Books, 2001.
SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da
intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a
transparência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
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“POR FAVOR, AULA HOJE
NÃO!
1
:“ o orkut, os professores
e o ensino
2
Leila Mury Bergmann (UFRGS)
[...] Essa busca de mais “realidade” através do virtual con-
vive com as experiências de pura simulação, através de
máquinas que funcionam não mais como próteses de nos-
sos olhos e ouvidos (como os equipamentos de vídeo e de
som), mas como próteses de nossas mãos: o controle re-
moto, a magia do mouse, as telas táteis, os capacetes de
visão – tudo o que Philippe Dubois chama de “dispositivo
de frustração” –, contraditoriamente, buscam oferecer ao
usuário um modo de “tocar a realidade”. (FISCHER, 2006,
p. 11)
Introdução
Ao organizar o material e as ideias com que pretendia com-
por o presente artigo, veio-me à mente essa citação da supervisora
do meu Projeto
3
que reproduzo, em parte, como epígrafe do texto,
uma vez que o desejo e a necessidade de “aprisionar” a
materialidade dos enunciados virtuais – presentes em minha pes-
quisa acerca das Comunidades do Orkut – funcionaram como
1
Título de uma das Comunidades do Orkut, na categoria “escolas e cursos”. Dispo-
nível em: <http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=53358>.
2
Este texto, com pequenas modificações, encontra-se nos Anais da 30ª Reu-
nião da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), 2007,
intitulado Tomara que o professor falte!: O Orkut e a vida escolar.
3
O Projeto, Representações dos professores e da escola no Orkut, refere-se às
Comunidades sobre os professores e escolas criadas no Orkut – especialmente
àquelas que se destinam a expressar violentamente o descontentamento dos
alunos frente a seus mestres e às instituições escolares.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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“combustível” para que fosse desencadeado o processo que re-
sultou na realização de um pós-doutorado júnior
4
sobre o tema.
Assistimos, nos últimos anos, a um cenário cada vez mais
familiar de avanços tecnológicos nas áreas de computação e co-
municação. Tais avanços ficam mais visíveis através das redes
computacionais, das quais a internet, de alcance mundial, é certa-
mente a mais conhecida. Nesse sentido, esse trabalho, um resumo
e parte da minha pesquisa, apresenta questões que considero rele-
vantes para os estudos relacionados a um tipo de mídia eletrônica,
o Orkut – rede social construída virtualmente com o objetivo de
ajudar seus membros a criar novas amizades e manter relaciona-
mentos –, particularmente as suas Comunidades
5
as quais mos-
tram de forma “negativa” os professores e a escola de maneira
geral. O estudo aponta para uma ampliação das funções formado-
ras da mídia, aqui representada pelo acima referido site de relaci-
onamentos que permite ao internauta ter sempre – a um clique do
mouse – uma enorme lista de amigos, Comunidades e informações
que o usuário coloca em sua ficha pessoal, de acesso público.
A priori, concordo com a afirmação de que a mídia não ape-
nas veicula, mas constrói discursos e produz significados. Nesse
ponto, é necessário esclarecer que o termo discurso está sendo
trabalhado numa concepção foucaultiana, na qual o filósofo fran-
cês, Michael Foucault, argumenta que o discurso não pode se
resumir ao mero ato de fala ou mesmo ao ato enunciativo (o
4
Processo nº 151651/2006-0 – PDJ, com o apoio do CNPq, realizado junto ao
grupo de pesquisa do Núcleo de Estudos de Mídia, Educação e Subjetividade
(NEMES), Departamento de Estudos Especializados (DEE) da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sob a supervisão da Profa. Dra. Rosa
Maria Bueno Fischer, no período de outubro de 2006 a setembro de 2008.
5
Além de estabelecer a ligação de um usuário a outro, o Orkut permite a
construção de Comunidades com temáticas diversas: algumas privilegiam a
discussão sobre um autor, um escritor, um pintor, passando por aquelas sobre
times de futebol, grupos musicais, escolas, até as que contemplam ou compar-
tilham preferências e hobbies, como “Amo Chocolate”, “Eu odeio acordar cedo”,
entre milhares de outras.
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Por favor, aula hoje não!
59
conceito de enunciação para Foucault, sim, estaria mais próximo
a essa ideia). O(s) discurso(s) para Foucault não está (estão)
localizado(s) num campo de exterioridade em relação aos objetos
que, supostamente, eles descreveriam. Antes disso, os discursos
constituem-se enquanto “práticas que formam sistematicamente
[ou não] os objetos dos quais falam”. (FOUCAULT, 2000, p. 56)
Dessa maneira, observando a abrangência da “febre do
Orkut”
6
, cresce o interesse, sobretudo de pesquisadores da área
da Educação e da Comunicação, a fim de tentar compreender o
que faz com que os alunos criem Comunidades do tipo “Mate
aula antes q ela te mate!”
7
(com 165.369 membros) e lá escrevam
de um modo agressivo seu repúdio à escola em geral. Antes de
prosseguir esta introdução, faz-se necessário pontuar algo fun-
damental a respeito da materialidade dos enunciados pesquisados
no Orkut, já que, conforme nos lembra Fischer (1996, p. 123), ao
analisarmos textos da mídia (particularmente os scraps
8
no Orkut),
devemos ter claro que estamos lidando, primeiramente, com um
campo ainda novo, cuja característica fundamental é de não se
constituírem como materiais produzidos com fins restritos. Antes
disso, trata-se de textos que pretendem atingir o maior número
possível de pessoas. Segundo a autora, é exatamente este o seu
objetivo: “fazer circular amplamente discursos cuja origem tam-
bém é difusa, múltipla e às vezes de difícil localização”. Já na
epígrafe do livro Sociedade midiatizada, organizado por Moraes
(2006, p. 5), Ryszard Kapuscinski escreve um “alerta” a esse res-
peito, afirmando que hoje estamos vivenciando duas histórias
distintas: “A de verdade e a criada pelos meios de comunicação. O
6
Reportagem de Valentina Marques da Rosa, intitulada A febre do Orkut,
publicada no jornal Zero Hora, 23 dez. 2006.
7
Criada em 4 de novembro de 2004. Disponível em: <http://www.orkut.com.br/
Main#Community.aspx?cmm=685121>. Acesso em: 2 mar. 2009.
8
Scraps são as mensagens ou recados deixados seja em um perfil individual,
seja nos tópicos de discussão das Comunidades.
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paradoxo, o drama e o perigo estão no fato de que conhecemos
cada vez mais a história criada pelos meios de comunicação e
não a de verdade”.
Ainda assim, mais importante do que o questionamento da
“veracidade” dos textos, das informações ou mesmo das caracte-
rísticas dos usuários do Orkut (se é homem, mulher ou se é al-
guém “inventado” por algum membro que também “navega” no
site), é justamente entendê-las como o efeito de um conjunto de
práticas que, já há algum tempo, tencionam profundamente os
domínios tanto da escola como o das novas tecnologias. Nesse
sentido – e daí a importância de nos determos nesse tipo de mate-
rial – é que a força e a “verdade” contidas nos meios de comuni-
cação são ampliadas “de uma forma radicalmente diferente do
que sucede a um discurso que, por exemplo, opera através das
páginas de um livro didático ou de um regulamento disciplinar
escolar”. (FISCHER, 1996, p. 124)
Quando o Orkut surgiu, em 22 de janeiro de 2004, essa pró-
pria condição da mídia como produtora de verdades mereceu aten-
ção especial e questionamentos a respeito do mito da “verdade
verdadeira”, da “verdade das verdades”, visto que uma das “exi-
gências” para entrar no site diz respeito justamente à “veracida-
de” das informações que o usuário coloca em sua ficha pessoal,
de acesso público
9
. Por mais que essa exigência acerca da veraci-
9
Conforme a reportagem da Folha de São Paulo, Orkut é o paraíso da enganação
virtual, publicada em 15/11/2006: “Segundo Eduardo Honorato, pesquisador
do Centro Universitário Luterano de Manaus, 46% das pessoas acessam o site
mais de uma vez por dia e, em grande parte dos casos, a quantidade de conta-
tos virtuais é superior à de amigos reais. Baseado em um questionário respon-
dido por 480 usuários, Honorato descobriu que 53% dos entrevistados disseram
possuir uma lista com mais de 100 pessoas no site de relacionamentos, e que o
número de amigos de verdade de 30% dos pesquisados não ultrapassava o de
20 colegas. Chamados fakes ou bogus, os perfis falsos podem servir como uma
representação do que a pessoa gostaria de ser, se vivesse em um mundo sem
regras.”. Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/
ult124u20986.shtml>. Acesso em: 10 mar. 2007.
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Por favor, aula hoje não!
61
dade das informações exista, não há como ter certeza de que os
usuários procedam dessa forma quando lançam seus perfis. Ocorre
que a pessoa se sente “mais popular” e estabelece relações com
desconhecidos, combinação que transforma o site em um paraíso
para os mentirosos. Encarnar um personagem é um expediente
bastante usado para esconder a identidade de usuários racistas e
de “bisbilhoteiros” no Orkut. Contudo, é justamente por entender
tais falas – que se multiplicam a cada dia no Orkut (e em outros
espaços) – possuem efeitos de discursos mais amplos, que este
trabalho não teve como foco o questionamento acerca das infor-
mações (se “verdadeiras” ou não) contidas no perfil de cada um
dos participantes.
De toda forma, os dados coletados e as análises feitas ofere-
cem um conjunto de problemas relevantes para melhor compre-
ender as diversas concepções que tomam forma na interseção
professor/Orkut/escola.
Considerações gerais sobre a pesquisa
Ao analisar as Comunidades criadas no Orkut que se refe-
rem a professores – sobretudo aquelas que se dedicam a promo-
ver críticas, muitas vezes violentas, sobre sua figura –, abordo,
muitas vezes, temas relacionados à expressão “a escola frente às
novas tecnologias”. Assim, ao descrever de que maneira, nesse
espaço virtual, os scraps presentes nessas Comunidades partici-
pam ativamente na construção das narrativas sobre professores e
escola, estabeleço algumas relações a fim de ampliar as discus-
sões entre as análises dos possíveis “motivos” dos registros dos
alunos no Orkut acerca das representações da figura do professor
e da escola.
A partir dessas questões levantadas, inclusive considerando
sua complexidade, trago algumas reflexões no intuito de que
possam contribuir para o campo da Educação e das novas
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tecnologias. Direciono o meu trabalho à luz dos Estudos Cultu-
rais, um campo de estudos que considera a cultura como central
e constitutiva de/em todos os aspectos da vida social, procuran-
do dar ênfase às análises que tomam a pedagogia como fenôme-
no cultural abrangente e complexo, a qual se concretiza tanto no
âmbito das instituições e instâncias estritamente educativas quanto
em outros territórios e artefatos do mundo contemporâneo. Entre
os objetos de estudo privilegiados, destacam-se a escola, o currí-
culo e a avaliação, bem como a mídia, a arte, a ciência e as
novas tecnologias. Também se analisam, nessa vertente, as polí-
ticas culturais de identidade, os processos de subjetivação, os
regimes de representação de diferentes grupos, além das formas
como artefato e práticas culturais que operam na concretização
de suas pedagogias. Ressalto ainda que a leitura realizada sobre
a teoria à disposição se fez, portanto, subordinada a todos os
fatores pessoais que costumam influir na percepção que cada
leitor faz da obra de um autor. Conforme sugere Fischer (1996, p.
58):
Aí estará nossa humilde originalidade, nosso exercício criativo, nossa
contribuição à academia e, principalmente, à sociedade. Mais do
que repetir autores, citá-los no original, mostrar desenvoltura na
compreensão e exposição de seus achados teóricos, nossa tarefa
principal, como pesquisadores, será mostrar que certos conceitos
são produtivos, que nos deixamos sujeitar por tais e tais autores
para inclusive questioná-los, para submeter suas concepções a um
empírico que fervilha em novas possibilidades de compreensão.
Esse manejo dos conceitos e, principalmente, dos dados, é extrema-
mente produtivo.
Nessa perspectiva, ao debruçar-me sobre o tema escolhido
neste artigo, considero tarefa bastante complexa e, ao mesmo
tempo, instigante, mergulhar na empreitada de pesquisar e estu-
dar um assunto que não esteja diretamente ligado à minha for-
mação em Letras, uma vez que, ao adentrar em outras searas, foi
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Por favor, aula hoje não!
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possível descobrir novos autores em outros campos de saber (Co-
municação, Filosofia, etc.). A vontade de escrever algo a respeito
das representações dos professores e das escolas no Orkut e seu
impacto sobre múltiplas facetas no que diz respeito à educação
contemporânea surgiu no momento em que inúmeros colegas (pro-
fessores) teceram comentários a respeito desse assunto. Passei a
perceber que vários professores ficaram receosos de entrar em
sala de aula ao verificarem que os seus nomes estavam em Co-
munidades do tipo “Eu odeio o professor [...]”, criadas por alu-
nos. Conforme nos lembra Zuin (2008, p. 91-92):
Atualmente, a paciência dos alunos parece diminuir cada vez mais,
de modo que não conseguem mais protelar a vingança. Pois a paci-
ência diminui à mesma proporção que eles encontram canais para
manifestar sua insatisfação em relação aos professores, sejam eles
reais tais como as pichações que se disseminam nos muros das
escolas, que não fortuitamente se assemelham cada vez mais a
prisões, sejam eles virtuais, tal como no caso do sítio de relaciona-
mentos Orkut.
Conforme Giroux (1995), levar em consideração a prática da
vida cotidiana não significa privilegiar o pragmático em oposi-
ção à teoria, mas ao contrário ver essa prática inspirada em con-
siderações teóricas reflexivas e, ao mesmo tempo, transformadora
da teoria. Nesse sentido, entendo que “[...] a teoria tem que ser
feita, tem que se tornar uma forma de produção cultural; ela não
é um mero armazém de insigths extraídos dos livros dos ‘gran-
des teóricos’”. (GIROUX, 1995, p. 97, grifos do autor)
Cultura, mídia e novas tecnologias
Na visão de Orozco Gómez (2006), inúmeras são as mudan-
ças no plano educacional provocadas pelas mídias e pelas novas
tecnologias. O autor ressalta de que forma, há alguns anos, o
professor era o detentor do conhecimento, na medida em que ele
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(e o livro) representava o – por vezes inquestionável – saber. As
crianças e os jovens iam à escola para aprender. Hoje, porém, é
possível observar uma subversão, digamos assim, das hierar-
quias tradicionais de ensino, já que os alunos “questionam o
professor, questionam seus saberes enciclopédicos, esvaziados
de significado”. (OROZCO GÓMEZ, 2006, p. 96) Assim, além de
enfrentar esse novo desafio em sala de aula (de alunos, por ve-
zes, com acesso a mais informações do que o próprio educador),
o professor precisa também saber fazer uso das novas tecnologias.
A esse respeito, durante o II Simpósio Nacional Discurso,
Identidade e Sociedade, em setembro de 2006 (PUC-RJ), Abreu
(2003) apresentou sua tese de doutorado intitulada A internet na
prática docente: novos desafios e conflitos para os educadores.
Em sua pesquisa, a autora (que realizou diversas entrevistas sobre
esse tema com professores do ensino fundamental e médio) cons-
tatou o quanto a “[...] introdução dessas novas tecnologias no
ambiente escolar parece ser uma fonte de conflitos pessoais, ten-
são e sofrimento para esses profissionais”. (ABREU, 2003, p. 5)
Entre os novos desafios gerados pela difusão da internet, Abreu
(2003) cita o receio desses professores “[...] em relação à estabili-
dade de seus empregos, com medo de serem substituídos ou ex-
cluídos do mercado de trabalho em educação por máquinas ou
por professores mais jovens que dominam sua operação”.
No meu entender, isso está ocorrendo pelo fato de a escola
não estar conseguindo, em geral, “dar conta” e acompanhar a
rapidez de tantas mudanças tecnológicas proporcionadas por no-
vos saberes cada vez mais complexos. Como consequência, al-
guns professores terminam ora “relutando” em usar o computador,
ora vendo-o de uma forma negativa, como se ele estivesse, de
certa maneira, “competindo” ou “concorrendo” com o ensino mais
tradicional. Nessa lógica, Fischer (2006, p. 9) ressalta que:
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Por favor, aula hoje não!
65
Cada vez que uma nova tecnologia de comunicação surge, cada vez
que uma nova máquina de imagens se impõe, ela chega como moda
e novidade e parece colocar na sombra “máquinas” anteriores: em
seqüência, é o que aconteceu com o surgimento da fotografia, do
cinema, da televisão, do vídeo, da imagem digital e da informática.
Assim, frente a essa situação, as instituições educacionais
– e o professor em particular – necessitam não apenas incorporar
as novas tecnologias como conteúdos do ensino, mas principal-
mente reconhecer e partir das concepções que os jovens têm sobre
tais tecnologias para elaborar, desenvolver e avaliar práticas pe-
dagógicas que promovam o desenvolvimento de uma disposição
reflexiva sobre os conhecimentos e os usos tecnológicos. É certo
que essa não é uma questão fácil de resolver, já que na prática
muitos alunos estão ainda numa fase da vida de deslumbramen-
to e curiosidade. Eles não têm, em geral, organização e maturi-
dade para se concentrar em um só tema durante uma hora. Então,
terminam abrindo mil páginas ao mesmo tempo, deixando-se
naturalmente seduzir por certos temas musicais ou eróticos, con-
forme a sua idade. E esse conjunto de questões dificulta o traba-
lho com um tema específico.
Desse modo, a tecnologia pode ser útil para integrar tudo o
que se observa no mundo, no dia a dia e para fazer disso objeto
de reflexão. Pensemos nas próprias Comunidades criadas pelos
alunos no Orkut falando mal dos professores. Interessa trazê-las
à baila, fazer essa ponte, mostrando os conteúdos (os scraps pos-
tados por alunos) e devolvendo-os de novo ao cotidiano, à sala de
aula, possibilitando, dessa forma, a interação e o debate entre
alunos e professores. Nas palavras de Silva (2001, p. 37):
Vale dizer que precisamos estar atentos para a urgência do tempo e
reconhecer que a expansão das vias do saber não obedece mais a
lógica vetorial. É necessário pensarmos a educação como um calei-
doscópio, e perceber as múltiplas possibilidades que ela pode nos
apresentar, os diversos olhares que ela impõe, sem contudo, submetê-
la à tirania do efêmero.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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Orkut/comunidades/scraps – retratos e
recortes da vida escolar
Bauman (2003), ao abordar o tema “Comunidades”, relacio-
na as mesmas à palavra “segurança”, referindo-se ao que as pes-
soas procuram nos dias de hoje. Uma adolescente de 14 anos
afirmou
10
que “[...] o Orkut é a pracinha de hoje em dia. Ao invés
de irmos para as ruas, estamos todos plugados no Orkut”. Se-
guindo o pensamento da garota (que diz inclusive ter parado de
fazer programas ao ar livre para ficar em casa), os jovens procu-
ram o mundo virtual dos computadores para fugir da violência
urbana. “Lá fora, na rua, toda sorte de perigo está à espreita;
temos que estar alertas quando saímos, prestar atenção com quem
falamos e a quem nos fala, estar de prontidão a cada minuto.
Aqui, na comunidade, podemos relaxar – estamos seguros”.
(BAUMAN, 2003, p. 7, grifo nosso) Está claro que o autor não se
refere especificamente às Comunidades existentes no Orkut. No
entanto, estas últimas possuem a mesma conotação de ser algo
bom, além de remeter à noção de pertencimento, de grupo
identitário; enfim, de “marcas” que escolhemos, pois, conforme
Silveira (2006, p. 11), no Orkut:
Podemos pertencer a comunidades, sem jamais participarmos de
qualquer conversa da mesma – a questão central é o que ela diz
sobre nós aos outros que visitam nossa página, e o conjunto das
comunidades a que pertencemos (praticamente sem limite de núme-
ro – 10, 20, 30...) mapeia esta identidade virtual.
Existem milhares de Comunidades no Orkut. Em minha pes-
quisa, como já explicitado anteriormente, optei por uma breve
análise daquelas que falam de um modo, digamos, pejorativo,
sobre professores e escola. Em razão de serem muitas, estabeleci
alguns critérios para a seleção do corpus: fizeram parte da escolha
10
Refiro-me ao artigo A febre do Orkut, publicado em Zero Hora (Porto Alegre),
sábado 23/12/2006.
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Por favor, aula hoje não!
67
de materiais aquelas Comunidades que possuíam o maior núme-
ro de membros e que sugeriam futuras reflexões profícuas. A
partir da escolha dessas Comunidades, selecionei tópicos de dis-
cussão que continham, no mínimo, mais de dez participações –
ou seja, as que mostravam um número mais razoável de partici-
pação de seus membros. E, por fim, a seleção dos tópicos de
discussão foi feita também com base no fato de oportunizarem
debates que pudessem contribuir significativamente, enriquecen-
do o trabalho. Partindo desses critérios iniciais, e lembrando o
caráter provisório dessa seleção – tendo em vista o fato de que
novas Comunidades e tópicos surgiram (ou mesmo desaparece-
ram) no decorrer da pesquisa. Além das Comunidades já mencio-
nadas, acompanhei, entre outras, as seguintes: “Galera do
Fundão”; “Eu não mato aula ela q me mata”; “Odeio estudar...
Adoro Escola”; “Eu odeio professor frustrado”; “Chega de aulas
medíocres”; “Assina a chamada pra mim”; “Já COLEI na Prova”;
“Tenho q estudar. Mas to na NET!”; “Tomara q o professor falte”
11
e “Odeio professora mal-comida”.
Para servir de ilustração a essas Comunidades, o criador
seleciona ou a foto do professor ou alguma outra imagem que o
“represente”. Buscando ofender e ridicularizar a figura do docen-
te, imagens de animais (burro, macaco), bruxas, caveiras ou até
mesmo com algum desenho pornográfico parecem ser as preferi-
das. “O Orkut (com suas respectivas comunidades virtuais) é,
atualmente, um dos principais ´espaços´ utilizados pelos alunos
para poder objetivar aquilo que verdadeiramente pensam em re-
11
Há um tópico nessa Comunidade, intitulado “qual professor vc torce para
faltar”? que obteve 718 scraps... A maioria dos tópicos não obtém muitas
respostas, pois em geral aparecem apenas 1 ou 2 comentários. Assim, ao
observar essa quantidade de scraps, percebe-se, nas falas dos alunos, “a de-
cepção decorrente da ausência de correspondência entre a imagem que tinham
do professor e a forma como ele se comporta em sala de aula”. (ZUIN, 2008, p.
99-100)
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
68
lação a seus mestres.” (ZUIN, 2006, p. 2) Nesse sentido, é possí-
vel observar o quanto as “chamadas” para essas Comunidades,
convidando os amigos a entrarem e a dela fazerem parte são, no
mínimo, agressivas: “Se você já perdeu a paciência com aquela
professora ou professor que é mal-comido (ou não comido), e que
parece que nasceu pra encher o saco, essa é a sua comunidade!
Vamos nos ajudar, e juntos, ajudar esses professores carentes de
sexo”.
Já em Comunidades como “Quem não cola ñ sai da esco-
la”
12
, que possui 1.663.704 membros, os alunos que entram e
participam criam tópicos do tipo: “O que você mais odeia nas
aulas da [...]?” ou “O que vocês costumam fazer na aula da [...]?”.
As respostas escritas (os scraps) são, em geral, bastante desres-
peitosas e ofensivas, incluindo palavrões, mensagens irônicas e
depreciativas. Conforme observa Jeffrey Weeks (apud BAUMAN,
2003, p. 91-92, grifo nosso):
O mais forte sentido de comunidade costuma vir dos grupos (no
caso aqui, dos alunos) que percebem as premissas de sua existência
coletiva ameaçadas e por isso constroem uma comunidade de iden-
tidade que lhes dá uma sensação de resistência e poder. [...] O
resultado é com freqüência um particularismo obsessivo como modo
de enfrentar e/ou lidar com a contingência.
Em outras palavras, essas “ameaças” não raro estão repre-
sentadas nas provas e avaliações que os professores realizam em
sala de aula. De certa forma, a “sensação de resistência e poder”
dos alunos parece estar vinculada à criação de uma Comunidade
que possui tópicos com “dicas de cola” aos participantes...
Interessa também pontuar aqui o fato de que, às vezes, nes-
sas Comunidades sobre escola – supostamente criadas pelos alu-
nos – no meio dos scraps dos estudantes, aparece um scrap de
12
Comunidade criada em 24/01/2004. Disponível em: <http://www.orkut.com.br/
Main#Community.aspx?cmm=864>. Acesso em: 3 mar. 2009
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Por favor, aula hoje não!
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algum professor. Assim, se o leitor estiver acompanhando os re-
gistros e lendo as queixas dos alunos, “sente” um “corte” no
texto. Por exemplo, na Comunidade “Chega de aulas medíocres”
13
,
há um tópico intitulado “Que matéria deveria sumir?”, no qual
aparecem diversas respostas de alunos criticando as matérias;
inclusive há um scrap que diz: “Todas, eu odeio estudar... nasci
pra viver de herança...”. De repente, em meio aos textos dos estu-
dantes, lê-se: “Legal essa comunidade!!! Adorei essa comunida-
de, sou professora, mas concordo que alguns professores são
medíocres (sic) (espero q todos saibam o significado desta pala-
vra). Só quero informar que tem gente boa por aí, vejam o exem-
plo da comunidade de professores de química, tem 514 membros,
todos preocupados em dar uma educação legal!!! Pra quem não
detonou a química, valeu!!! Pra quem detonou é pq não teveram
um (sic) bons professores! Abraços, Beth”.
Em momentos como esse – que parece mais uma “invasão”
da parte do professor, nota-se um certo “desconforto” e até mes-
mo um silenciamento, visto que os alunos demoram um pouco
para responder. Na maioria das vezes, os estudantes ignoram
essa “enturmação” um tanto forçada do professor e partem para
a escrita de novos tópicos, sem comentar o que o mestre, “intru-
so”, postou. Recorro às palavras de Bauman (2003, p. 10) para
refletir a respeito dessa postura dos alunos: “Você quer seguran-
ça? ...Não confie em ninguém de fora da comunidade. Você quer
entendimento mútuo? Não fale com estranhos...Você quer prote-
ção? Não acolha estranhos”... (no caso, o professor que invadiu a
Comunidade dos estudantes).
Todavia, assim como há professores que aparecem tentando
se defender das críticas, existem, também, aqueles que entram
nas Comunidades com a intenção de brigar e provocar os alunos
13
Disponível em: <http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=67195>.
Acesso em: 2 mar. 2009.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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chamando-os de “burros, ignorantes, etc.” como, por exemplo,
no seguinte scrap
14
: “Vocês são um bando de derrotado (sic) ...
perdedores... não conseguem pensar, não sabem ler e muito
menos escrever... Cambada de recalcado... VOCÊS É que SÂO um
LIXO... MEDÍOCRES... Bando de patricinha e mauricinho... Vão
estudar e parar de ler Contigo... RETARDADOS!!!!”. A esse respei-
to, ou seja, a essa tentativa de ameaça (e de “defesa” do profes-
sor) concordo com as palavras de Zuin (2006, p. 3) ao afirmar
que:
A gradual permuta das punições físicas pelas psicológicas nos am-
bientes escolares porta consigo uma ambigüidade, pois se, por um
lado, a construção simbólica da punição contém em si um caráter
progressista em relação à física que pode, em certas ocasiões, re-
verter na morte do agredido, por outro lado, a dificuldade de se
identificar os vergões psicológicos não arrefece o seu poder, bem
como os danos devastadores produzidos no processo educacional/
formativo do aluno.
No Orkut, há também, na página da Comunidade intitulada
“Chega de aulas medíocres!”, o desenho de um professor (velho,
de barba e cabelos brancos) vestindo uma toga, e com um enor-
me “X” em cima da figura. Criada em 22 de maio de 2004, essa
Comunidade traz, na página, o seguinte “convite”: “Para todos
aqueles que já cansaram de ir para aulas toscas, com professo-
res toscos e não conseguem fazer nada a respeito! Alunos de
todo o Brasil com sua educação chulé: Uni-vos!”. Os diversos
tópicos que aparecem, creio eu, despertam a curiosidade de qual-
quer educador que se preocupe com o seu fazer pedagógico, com
a sua didática; enfim, interessa tentar compreender essas
enunciações dos alunos – documentos produzidos para uma ampla
14
Este scrap foi escrito em 05/03/2005 no tópico intitulado “Aula mais odiada”.
Este tópico foi criado em 24 mar. 2005 e possui 146 scraps. Disponível em:
<http://www.Orkut.com.br>. Acesso em: 3 fev. 2006
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Por favor, aula hoje não!
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circulação em escala massiva. Só o tópico “Qual a aula mais
odiada?” já aponta para uma discussão interessante em torno
das disciplinas da área das Ciências Humanas, tendo em vista
que, numa primeira análise, é possível perceber o quanto as dis-
ciplinas e os professores dessa área de conhecimento são citados.
Um aluno escreveu, por exemplo, que “a Filosofia é a Ciência
com a qual ou sem a qual, o mundo continua tal e qual...”.
Acredito que os exemplos acima citados, bem como o con-
junto de dados e as análises propostas no presente artigo, sejam
de suma importância para que os educadores reflitam – através
do conhecimento dessas informações – sobre como operar com
esses materiais que estão circulando nesse tipo de mídia (o Orkut),
que representa, por assim dizer, a linguagem das novas gera-
ções. A esse respeito, sobre o impacto das novas tecnologias,
Fischer (2006, p. 5) acrescenta que o importante é
[...] sublinhar quer todas essas mídias, do rádio à Internet e à tele-
visão têm um caráter de onipresença, tornam-se cada vez mais
essenciais em nossas experiências contemporâneas, e assumem
características de produção, veiculação, consumo e usos específi-
cos, em cada lugar do mundo. Interessam-nos, então, os materiais
e os sujeitos produtores e usuários dessas mídias, aqui no Brasil;
mais ainda, interessam-nos os modos de aprender os fatos da cul-
tura, pelos mais jovens, modos que assumem particularidades quan-
do vistos a partir do olhar de educadores, no cotidiano das vivências
escolares.
Em outubro de 2006, ao iniciar minha pesquisa, dez Comu-
nidades – particularmente, aquelas criadas no Orkut que mostra-
vam de forma “negativa” os professores e a escola de maneira
geral – constituíam a amostragem inicial. Passados cinco meses,
novas Comunidades foram criadas, algumas aumentaram o nú-
mero de participantes, ao passo que outras diminuíram a quanti-
dade de adeptos. Por exemplo, a Comunidade “Mato aula p/ não
matar a prof.ª” possuía 40 525 membros no início de 2006. Hoje
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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existem nove variações em relação ao título, e a maior delas
15
conta com apenas 843 participantes...
A esse respeito, creio que o fato de algumas dessas Comuni-
dades estarem diminuindo pode estar relacionado ao medo... Por
parte dos alunos. Uma das principais consequências (lamentá-
veis) do uso indevido do Orkut é a ofensa à honra, gerando o
dever de indenização. A exemplo disso, um estudante de Direito
foi obrigado a retirar do ar o nome do Colégio São Paulo e a
logomarca da instituição de ensino da Comunidade do Orkut cha-
mada “Holden Caulfield”, a qual reunia ex-alunos do colégio de
freiras. Holden Caulfield é o nome do personagem do romance O
apanhador no campo de centeio, de J.D. Sallinger. O estudante
disse que “só queria reunir ex-colegas, mas algumas pessoas
começaram a fazer ataques pessoais às freiras, aos professores e
a criticar os métodos de ensino”
16
.
Em virtude disso, é exemplar a “chamada” desta Comunida-
de “Eu odeio minha professora”: “vc ja odiou alguma professo-
ra? intaum entre nessa comunidade
17
e junte-se a nós... vamos
todos odiar os professores e suas materias. OLHA, dependendo
da usa professora, pode te processar, conselho nao colokar u
nome dela e zua-la. mas aki vc pode xingar, mas depois, poderá
ter ke arcar cum as consequencias”.
Nessa perspectiva, é de se questionar como as autoridades
irão lidar com o que acontece no Orkut e como serão abordadas
as questões jurídicas que o envolvem, quais sejam: crimes virtu-
ais (os mais variados possíveis), coleta de provas em investiga-
ção criminal, violação do direito fundamental de privacidade,
15
"Mato aula pra não matar a Prof”. Disponível em: <http://www.orkut.com.br/
Main#Community.aspx?cmm=3159481>. Acesso em: 5 mar. 2009.
16
Disponível em: http://conjur.estadao.com.br/static/text/31280,1. Acesso em:
13 mar. 2007.
17
Texto retirado da Comunidade “Eu odeio minha Professora”, que possui 1 261
membros. Disponível em:<http://www.orkut.com.br>. Acesso em: 9 ago. 2006.
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Por favor, aula hoje não!
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excesso no exercício da liberdade de expressão, etc. Mais: talvez
o simples fato de que não se pode saber se uma pessoa que está
se manifestando na rede é ela mesma revele a fragilidade e
insubsistência de uma prova extraída do Orkut
18
. Dessa manei-
ra, é fácil perceber que existem diversos questionamentos a se-
rem respondidos antes de se cogitar a possibilidade de utilização
do Orkut como meio de prova na investigação criminal
19
.
Diante do exposto, penso que debater questões sobre o Orkut
configura-se hoje como uma tarefa relevante, quiçá inadiável, no
cotidiano dos professores. É bem provável que o desenvolvimen-
to acelerado das novas tecnologias não tenha tido o tempo neces-
sário para a sociedade (ou melhor, parte dela) adaptar-se às novas
possibilidades de interação com o mundo, por exemplo, que a
internet oportuniza. Na visão de Orozco Gómez (2006, p. 97):
Os docentes manifestam um temor profundo de serem substituídos
pelas novas tecnologias de informação colocadas a serviço de obje-
tivos de aprendizagem. E as instituições educativas acabam por
não compreender a magnitude da mudança, e insistem teimosa-
mente em continuar com uma visão reducionista que só repara no
aspecto instrumental, tanto de mídias quanto de tecnologias. Não é
equipar de máquinas as escolas a única alternativa para abreviar o
desafio, como insistiram muitos ministérios de educação latino-
americanos. Na verdade, debater e repensar os motivos da educa-
ção e da comunicação em uma grande mudança de época como a
atual é o que necessitamos continuar fazendo.
18
Além disso, “civilmente, há uma polêmica. Na lei civil, o critério não “é mais
a nacionalidade do autor, e sim o local de origem do fato. Ademais, ainda não
há regulamentação para a hipótese de aplicação da lei brasileira fora do Bra-
sil.” Fonte: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7631>. Acesso em:
13 mar. 2007.
19
Em O Orkut e a prova no processo penal. Disponível em:<http://
www.oabpr.org.br/op20.asp>. Acesso em: 13 mar. 2007.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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Algumas ilações
Sem a pretensão utópica de concluir ou encerrar o debate a
respeito do que foi exposto até aqui, creio que o impacto das
transformações de nosso tempo obriga a nós, educadores, repen-
sarmos a escola e sua temporalidade. O próprio nome da Comu-
nidade que deu origem a este artigo (“POR FAVOR, AULA HOJE
NÃO!
20
) revela-se como uma espécie de “grito de alerta” para que
no meio das discussões surjam ideias profícuas a respeito das
novas tecnologias, no caso, das Comunidades do Orkut que
rechaçam os professores e a escola de hoje. Nesse contexto, é
preciso conscientizar-se de que os recursos que a tecnologia ofe-
rece – bem como o modo como ela se institucionaliza – não po-
dem se tornar mais uma ferramenta ou uma técnica a serviço de
um abismo entre professor e aluno.
Nesse sentido, como educadores precisamos ser propositivos
e procurar um caminho para além das denúncias e da revolta ao
nos depararmos com o fato de que “Parece não haver limites para
a exposição da catarse regressiva dos alunos por meio do Orkut”.
(ZUIN, 2006, p. 14) A pergunta “o que fazer diante a existência
dessas Comunidades citadas ao longo do trabalho?” deve, em mi-
nha opinião, tentar ser respondida, uma vez que como profissio-
nais precisamos de sugestões e ideias práticas. Pensemos, por
analogia, numa simples receita de bolo. Cada um irá recriar a
receita anterior produzindo alguma coisa nova. Assim, cada texto,
cada sugestão prática para se trabalhar em sala de aula (com o
Orkut) constitui uma proposta de significação que não está inteira-
mente construída. A significação acontece no jogo de olhares entre
o texto e seu destinatário. Esse exemplo é para mostrar que cada
produção humana dialoga necessariamente com as outras.
20
Disponível em:<http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=53358>.
Acesso em: 3 mar. 2009.
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Por favor, aula hoje não!
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Em meus anos de prática em sala de aula, sempre procurei
incentivar meus alunos a falar em público, mesmo sendo esse
público restrito; ou seja, falar para os colegas, desenvolver/expor
algum tema diante da turma. Pois bem, nos últimos anos, quan-
do iniciava uma conversa com eles sobre a referida atividade,
mencionava as Comunidades do Orkut “Odeio falar em público”;
“Vergonha de falar em público”; “Tenho medo de falar em públi-
co” e outras similares. Invariavelmente, dizia-lhes que eu tinha
conhecimento de tópicos nessas Comunidades que davam, inclu-
sive, “dicas” para perder a timidez: tomar remédio, beber antes
das apresentações, etc. Enfim, demonstrar aos alunos que eu
poderia estar familiarizada com seus medos, de certa forma, apro-
ximava-me deles, deixando-os mais à vontade para expor seus
receios de falar em público.
De toda forma, para além de qualquer julgamento moral a
respeito de alunos criarem e pertencerem a Comunidades no Orkut
sobre professores (e o espaço escolar), dedicando-se a promover
críticas violentas sobre sua figura, ressalto que, “diferentemente
dos relacionamentos reais, é fácil entrar e sair dos relacionamen-
tos virtuais [...]. Sempre se pode apertar a tecla e deletar”.
(BAUMAN, 2004, p. 13)
Por fim, e não menos importante, longe da pretensão de ofe-
recer “receitas” e descartando qualquer ingenuidade de se imagi-
nar uma relação perfeita entre mestres e educandos, finalizo este
trabalho convidando os educadores a (re) pensarem o seu fazer
pedagógico... E na esperança da possibilidade de que nossos alu-
nos não sejam estimulados a escrever (infelizmente, muitas vezes
com uma certa razão), versos como este, postado em uma das
maiores Comunidade na Categoria Alunos e Escola do Orkut, “Ga-
lera do Fundão”
21
, com o aval de quase um milhão de membros...
21
Criada em 4 de dezembro de 2004, “Galera do Fundão” traz a seguinte “cha-
mada”: “Se você é dakeles que sentam no fundão da sala, seja para dormir,
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“Oração da Comunidade”:
Pai Nosso Que Estais No Céu
Aumentai As Nossas Férias
Diminua As Nossas Aulas
Perdoai Nossas Colas
Assim Como Nós Perdoamos
A Existência Dos Nossos Professores
Não Nos Deixe Cair Em Recuperação
Mas Livrai-nos Da Reprovação
Amém
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FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense
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A ESCRITA NO ORKUT:
vocabulário mais utilizado e
aproveitamentos do internetês
para o ensino de língua
portuguesa
1
Tadeu R. Bisognin (UFRGS)
Maria José B. Finatto (UFRGS)
Introdução
Afinal, o que é o internetês, esse “português da internet”,
que é normalmente usado pelos jovens conectados à WEB e que
tende a ser percebido como uma ameaça à integridade da escrita
culta do português brasileiro? Seria mais uma forma de adaptar
a comunicação aos tempos ou realmente ‘um assassinato da lín-
gua a tecladas’
2
? Ao lado dessas questões, que já pretendíamos
auxiliar a responder no trabalho anterior que aqui sintetizamos
(BISOGNIN, 2008), ressaltamos mais um questionamento: como
deve reagir a Escola brasileira diante dessa nova maneira de es-
crever, cada vez mais vivenciada por nossos estudantes?
1
Este trabalho traz uma síntese dos resultados da dissertação de mestrado de
Bisognin (2008). A dissertação completa pode ser consultada em
www.lume.ufrgs.br/handle/10183/14385. Os autores agradecem o apoio do
Colégio de Aplicação da UFRGS e do CNPq, indispensável à realização da
pesquisa de mestrado.
2
Essa expressão foi utilizada por Deonísio da Silva em programa de televisão, que
debatia a escrita dos jovens na internet, e também em seu texto Português assas-
sinado a tecladas. Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/
artigos.asp?cod=320JDB001>. Acesso em: 10 abr. 2007
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80
Para tentar obter dados para respostas às perguntas antes
citadas, pareceu-nos indispensável, em primeiro lugar, descrever
cientificamente o tipo de escrita que é o internetês. A partir dessa
descrição, conforme acreditamos, teríamos condições para uma
análise ponderada sobre o fenômeno na parte que nos cabe obser-
var como linguistas: o uso da língua.
Assim, realizamos uma pesquisa linguística sobre o voca-
bulário empregado por jovens de 15 a 23 anos em depoimentos e
recados do Orkut. Como suporte teórico e metodológico, utiliza-
mos a Linguística de Corpus, área de estudos da linguagem que
explora padrões de uso da língua em grandes conjuntos de textos
(conjuntos conhecidos como corpus ou corpora). Trata-se de um
tipo de Linguística que se caracteriza por valorizar o uso real da
língua e por recorrer a ferramentas informatizadas para prospecção
de textos, lançando mão de observações estatísticas sobre pala-
vras e construções em meio aos corpora. Para mais detalhes so-
bre a Linguística de Corpus (doravante LC), recomendamos o
trabalho de Sardinha (2004).
Deste modo imbuídos, formamos nosso corpus de estudo e
passamos a recolher a escrita produzida no Orkut. Compusemos
um acervo de textos que corresponde a um total de 553 875 pala-
vras. Além desse material, pela metodologia da LC exigir a com-
paração com diferentes usos de escrita, recorremos a mais dois
conjuntos de dados. O segundo deles, denominado corpus de refe-
rência, provém do Banco de Português. Dele utilizamos um seg-
mento composto por variadas amostras de língua escrita e falada,
com 1 289 949 palavras. O Banco de Português
3
, um acervo com
223 milhões de palavras, é de acesso público na internet e visa
retratar o português brasileiro em uso na suas mais diversas
situações – incluindo registros orais. Além de aproveitar parte
3
Disponível para exploração mediante ferramentas on-line em: <http://
www2.lael.pucsp.br/corpora/bp/index.htm>.
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A escrita no Orkut
81
desse acervo já existente, compilamos um terceiro conjunto de
textos, chamado de corpus de contraste, integrado por redações
escolares, textos jornalísticos e textos de livros didáticos. Esse
corpus alcançou 571 090 palavras.
Antes de mais nada, é preciso alertar sobre como compreen-
demos, na nossa pesquisa, o termo palavra. Trata-se de palavra
gráfica, entendida como um conjunto de caracteres entre dois es-
paços em branco. Assim, rsrsrsrs é uma palavra tanto quanto
cadeira e cadeiras ou de e dos, não sendo computadas as dife-
rentes formas ou flexões de uma mesma base. Cada item gráfico
foi tomado como um item-palavra, independentemente de sua re-
petição ou variação. Isso é que se denomina, em LC, de tokens
(itens) e que corresponde, grosso modo, ao número de palavras
gráficas que há num texto. Já os types (tipos de palavras)
correspondem ao universo das palavras que se repetem ao longo
de um corpus. Desse modo, tal como preconiza a LC, nosso
referencial teórico, nosso corpus de contraste teve 571 090 pala-
vras (tokens ou itens), mas foi preciso considerar que esse uni-
verso correspondeu a 19 713 formas diferentes repetidas (ou types).
Registro e análise dos dados identificados
Apresentando algumas variantes de significação em relação
à norma culta ou em relação a um sentido literal, além de gírias
que existiram em todos os tempos, o internetês que exploramos
mostrou-se, em primeiro lugar, com um grande conjunto de alte-
rações de grafia: exibe grande número de abreviaturas, siglas,
neologismos, palavras cifradas, estrangeirismos, desenhos, ícones,
símbolos, até mesmo segmentos que correspondem a um amon-
toado de letras. Entretanto, mesmo os sinais justapostos consti-
tuem um sentido. Entendê-lo, muitas vezes, não é fácil para quem
não tem familiaridade com esse tipo de comunicação.
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82
Vejamos, a seguir, alguns exemplos de modificações em re-
lação à grafia oficial e alguns outros empregos recorrentes no
nosso corpus de estudo.
1. Indicação de monossílabos por uma simples letra:
q = que, d = de, t = te, c = se , p = pra/para, m = me.
2. Substituição do acento agudo pela letra h em final de
palavra:
Eh, neh, tah , lah, bah, jah, ateh, poh, voh, feh, toh, keh,
quiseh
4
.
3. Reprodução de fala:
u, aki, du, di, so = sou, mi, amu, nu, issu, cum, qi, ke,
genti, qui, axu, us, poko, dxa, ovi , pelu.
4. Nasalização indicada por UM ou UN em final de palavra:
naum, naun, bjaum, taum, intaum, noçaum, paixaum.
5. Sequência de consoantes representando palavra, sem
uso de vogais:
gnt = gente, td = tudo, qm = quem, bm = bem, qnd =
quando, qnt = quanto, flw = falou, dps = depois, qd =
quando, flr = falar, ngm = ninguém, sb = sabe, vz = ve-
zes, qq = qualquer.
6. Várias formas para um mesmo vocábulo:
mto, mtu, mt, mtooo, mtoooo = muito
4
O h já foi utilizado em português para marcar a tonicidade final em lugar do
acento agudo, como ainda se pode ver em palavras como Dinorah e em algu-
mas transcritas do hebraico, como Javeh, torah, chanucah, hanucah e menorah.
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 82
A escrita no Orkut
83
bjo, bjus, bju, bjuxx, bj, beijo, beeeejo = beijos
qndo, qnd, qdo, qdu = quando
7. Registro sem acentuação:
vo, to, namo, so.
8. Palavra com ausência de uma letra:
fla = fala, nunk = nunca, kra = cara, qro = quero, ksa =
casa , dpois = depois, kda = cada, conhec = conhece,
tmpo = tempo, considru = considero, plas= pelas.
9. Onomatopeias para riso e choro:
Hehehe, eheheh, hahaha, rsrsrs, heheh, aahuahaua,
shuashuashuashuahua, kkkkkkkk, shashashashahsh,
uahuahauhauhauhauahuhuahaua, heoieheoiehioihe,
hasuhsauhsauh, tsc tsc.
10. Repetição de letra para indicar intensidade:
Muitooo, muitoooo, mtuuu, bjusss, nadaaaaaaaaaaaaa!!!!!!
bjuxxx, bjinhuxxxxx., difiiiiiiiicil!, taaaaaaaaaaaanto,
lindinho0o0o, disculpaaaaa, moooooooooooooor.
11. Redução do nome de pessoas:
Biel (Gabriel), Bru (Bruna), Lau (Laura), Pri (Priscila), Ro
(Roberta), Juh (Júlia).
12. Criações especiais, que só são entendidas no contexto:
902 aki neh preta..hehehe../bah n tnho nem palavras
neh pra fala
4332 !!!ehh casadíssima, aliás, namo aprovado por
mim!!!hehehehe
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5956 d fala tantu neh????????????/txi amu mtu minha
maninha mais
13. Repetição de sinais de pontuação para enfatizar sen-
timento:
ihhhhhhhhhhh ta velho heim?!?!?!!?
oi meu lindaooooooooooo!!!!!!!!!
fuiiiii até mais valeuuuuuuuuu fuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!
14. Supressão de sinais de pontuação que marcam fron-
teiras oracionais:
eu gostaria de ser seu amigo vc pode mim add desde ja
muito obrigado linda
eiii resenhaaa hahahahah veja isso é o tira gosto lingua!!!
o meu pegou essa gripe frte demais n sei mais o q fazer...to
desesperada ele n come
15. Substituição de palavras e expressões por símbolos
ou algarismos:
T+, t+ = até mais, D+ = demais, 9dade = novidade,
v6 = vocês, 6 = vocês
16. Transformação de expressão ou fraseologia em sigla:
TDB ou tdb = tudo de bom, FDS ou fds = fim de semana,
FDP ou fdp = filho da puta , RDTR = rolando de dar risada,
MDDR = morrendo de dar risada
17. Uso de emoticons:
$(“.)$
antes estarei por aí fica com Deus... beijos ;**
eu tow beem \o/
a parada pode dizerrr ;**
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A escrita no Orkut
85
Algumas palavras da escrita tradicional são transformadas
em símbolos ou desenhos, como acontece com o sinal “+” para
significar “mais” ou, mais raramente, para indicar a conjunção
“mas”, a forma gráfica “-” para “menos” e o “T +” para “até
mais”.
Na verdade, esse internetês do Orkut pareceu-nos como uma
recriação gráfica das línguas escrita e falada preexistentes,
enriquecida com representações e simbologias. Os sinais de pon-
tuação, por exemplo, podem ser dispostos na frase de tal modo
que signifiquem uma interjeição ou frase inteira. Todos os sinais
não podem ser analisados isoladamente, mas em seu contexto,
como representação das emoções humanas. E, para dizer muito
com poucos meios, foram integrados à escrita no Orkut os
emoticons, fusão de caracteres que formam as chamadas
“carinhas” ou smilies.
Não lemos letra por letra; vemos o conjunto de caracteres e
entendemos o seu significado como um todo. É assim com as
“palavras normais” e também com as palavras utilizadas pelos
jovens na internet. Normalmente lemos uma abreviatura como
uma palavra inteira, a forma resumida é apenas um substituto
da palavra. Quando, no internetês, aparecem “tb” ou “vc” nin-
guém que domina esse código vai ler “tebê” ou “vecê”, mas lerá
“também” e “você”.
Como no Brasil, no nível da escrita, as pessoas tendem a
confundir o todo do português com a sua ortografia oficial (BAGNO,
2002, p. 125), e sendo o internetês basicamente uma expressão
gráfica com alterações ortográficas (algumas estranhas), é
esperável que passe a ser atacado, criticado, enfim, visto como
algo prejudicial à língua (aqui confundida com ortografia). En-
tretanto, há que se levar em conta que o internetês do Orkut não
se mostrou escrito só com palavras grafadas de modo a transgre-
dir as normas ortográficas vigentes hoje. Nossa pesquisa reve-
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lou, basicamente, que a transgressão não é, assim, tão estatica-
mente volumosa. Das 2 000 palavras mais frequentes do corpus
de estudo, apenas 439 possuíam alguma alteração (o que nos dá
21,19%) em relação à grafia “culta”. As quase 80% demais pala-
vras estavam grafadas de acordo com a norma oficial. Isso é que
vemos sintetizado no Gráfico 1, a seguir.

Gráfico 1: Proporção de palavras do internetês alteradas graficamente e sem
alteração (das 2000 palavras mais frequentes do Corpus Geral do Orkut) em
relação à grafia oficial.
Observando mais dados estatísticos, vimos ainda que a maior
concentração de palavras escritas no Orkut era formada por itens
feitos de duas e três letras. Assim, identificamos um padrão de
palavra curta que parece refletir a lógica do internetês. A pala-
vra curta é a regra, abreviando as palavras longas de diversas
maneiras. O Gráfico 2 ilustra a distribuição da extensão das pala-
vras no nosso corpus, veja-se que as palavras de três letras são
as mais utilizadas.
1

l
e
t
r
a

=

1
1
,
4
0

%
2

l
e
t
r
a
s

=

1
8
,
8
3
%
3

l
e
t
r
a
s

=

2
0
,
5
1
%
4

l
e
t
r
a
s

=

1
1
,
9
6
%
5

l
e
t
r
a
s

=

1
3
,
8
3
%
6

l
e
t
r
a
s

=

8
.
.
.
7

l
e
t
r
a
s

=

5
.
.
.
8

l
e
t
r
a
s

=

3
.
.
.
9

l
e
t
r
a
s

=

2
.
.
.
1
0

l
e
t
r
a
s

=

1
,
3
7
%
1
1

l
e
t
r
a
s

=

0
,
8
6
%
1
2

l
e
t
r
a
s

=

0
,
4
5
%
1
3

l
e
t
r
a
s

=

0
,
2
3
%
1
4

l
e
t
r
a
s

=

0
,
1
4
%
1 letra = 11,40 %
2 letras = 18,83%
3 letras = 20,51%
4 letras = 11,96%
5 letras = 13,83%
6 letras = 8,44%
7 letras = 5,52%
8 letras = 3,87%
9 letras = 2,15%
10 letras = 1,37%
11 letras = 0,86%
12 letras = 0,45%
13 letras = 0,23%
14 letras = 0 14%
20%
15%
10%
5%
Gráfico 2: Número de letras das palavras presentes no corpus de estudo
ortografia alterada
ortografia oficial
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A escrita no Orkut
87
Nosso corpus do Orkut (com 553 875 palavras) foi organi-
zado como um todo, de modo a acolher a escrita de jovens de
diferentes regiões do Brasil. Entretanto, para que fosse possível
verificar traços regionais, além desse material geral, trabalha-
mos também com nove subcorpora regionais (com aproximada-
mente 32 000 palavras cada) e também diferenciamos as
ocorrências que incidiam apenas nos scraps (recados postados
para uma pessoa por seus amigos, reunidos em corpus de 32 000
palavras). Em todos eles mostrou-se recorrente a preferência pelo
pequeno número de letras nas palavras.
Verificamos também que, assim como ocorre no léxico em
geral de uma língua, havia variações regionais com itens preferi-
dos em determinados lugares. O Quadro 1, adiante, sintetiza a
distribuição regional para as diferentes formas de grafar as pala-
vras beijo, gente, muito, também, te, tu, você e vocês:
TYPE Manaus Belé
m
Bra-
sília
Cuia

Porto
Alegre
Recife Rio
Branco
RJ Sal-
vador
Scraps
apenas
GERAL
ORKUT
Bjim 1 0 1 7 0 0 2 0 2 9 25
Bju 7 3 3 9 3 8 4 4 6 10 96
Bjo 8 4 11 7 4 3 5 4 4 21 245
bjaum 4 2 10 10 5 4 2 3 6 9 121
GNT 9 31 14 11 40 10 4 26 9 8 363
Gente 86 47 119 88 113 89 105 118 94 52 604
MT 93 95 75 11 19 46 39 148 33 10 855
Mtu 18 5 30 20 37 7 13 9 14 2 530
Mto 79 40 165 144 95 37 74 100 57 26 1587
Tb 16 12 24 25 19 28 10 28 38 31 382
Tbm 43 44 30 34 24 18 28 19 92 56 568
T 40 167 55 72 88 73 89 59 33 26 1369
Te 402 679 471 536 400 767 789 446 1172 239 8922
Tu 103 161 31 9 414 192 139 27 8 110 2699
Vc 537 425 502 564 195 372 469 623 626 459 6347
Você 94 88 163 143 58 167 155 127 175 128 1816
Vcs 8 17 6 11 8 6 7 12 7 36 188
Quadro 1: Distribuição de diferentes formas lexicais por região do Brasil
Traços de oralização sobre a escrita no
Orkut
Passemos a observar as palavras mais usadas no português
escrito culto, no português falado culto e no nosso internetês,
para estabelecermos algumas comparações. O quadro a seguir
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 87
A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
88
traz um ranking de frequências da escrita no Orkut ladeado pelos
itens mais frequentes do português culto. É importante lembrar
que utilizamos informações sobre a fala e da escrita cultas ofere-
cidas pelo Banco de Português já citado.
ESCRITA CULTA ESCRITA ORKUT FALA CULTA
FREQUÊNCIA BANCO DE
PORTUGUÊS ESCRITO
5

FREQUÊNCIA CORPUS
GERAL DO ORKUT
FREQUÊNCIA BANCO DE
PORTUGUÊS FALADO
Nº Palavra Freq. %
1 DE 1.537.460 4,42
2 A 1.082.233 3,11
3 O 1.026.380 2,95
4 E 726.548 2,09
5 QUE 667.850 1,92
6 DO 609.521 1,75
7 DA 545.271 1,57
8 EM 443.567 1,28
9 PARA 353.847 1,02
10 NO 308.932 0,89
Nº Palavra Freq. %
1 E 13.930 2,52
2 QUE 11.537 2,08
3 EU 10.619 1,92
4 A 10.173 1,84
5 DE 9.950 1,80
6 Q 9.028 1,63
7 TE 8.937 1,61
8 O 8.396 1,52
9 É 7.855 1,42
10 VC 6.347 1,15
Nº Palavra Freq. %
1 E 113.061 3,73
2 QUE 108.883 3,59
3 A 77.882 2,57
4 É 75.609 2,49
5 O 71.329 2,35
6 DE 66.922 2,21
7 NÉ 64.870 2,14
8 NÃO 62.445 2,06
9 EU 55.733 1,84
10 F 45.235 1,49
Quadro 2: Palavras mais empregadas no português escrito, no português fala-
do e no internetês
No Quadro 2, as setas tentam explicitar a relação existente
entre o internetês e a língua falada, senão vejamos: o DE é a
palavra mais usada na escrita, mas na fala está em sexto lugar e
no internetês, em quinto. O mesmo ocorre com as palavras A e O,
que alteraram posição. Há uma aproximação muito clara entre a
frequência das duas palavras mais usadas na fala e no internetês,
diríamos até que seriam as mesmas se não houvesse duas ma-
neiras de representar o QUE no Orkut, tornando esse conector o
item lexical mais empregado. O português é uma língua
associativa, o QUE (representado pelas formas QUE e Q) confirma
5
O Banco de Português é um corpus monitor do português do Brasil, criado e
mantido pelo projeto DIRECT da PUC/SP. Disponível em: <http://lael.pucsp.br/
corpora/>. Acesso em: 12 maio 2007.
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 88
A escrita no Orkut
89
isso assim como o E na fala e o DE na escrita indicados pelos
dados do Banco de Português.
Ao observarmos as palavras mais frequentes em corpora de
fala, escrita e internetês, notamos haver uma junção entre fala e
escrita nesse último, com características de oralidade muito
marcantes. Vejamos algumas especificidades e exemplos de
oralização depreendidos do nosso corpus:
1) Presença de marcadores conversacionais
Putz ciencias sociais..eh dmais
Nossa q mundo pekeno!! numa comunidade e ambos
conehcemos a Tica!!
2) Presença de muitos períodos curtos e simples
mais de 10 anos devendo....eu?!?!?!rsrsrsr...ta d+...veja bem,
minha vida agora e só trabalho... estudo.. trabalho....nem
encontro mais direito c as pessoas...tô na maior correria,
aff!!!saudades, viu:)
3) Emprego de léxico coloquial
o que anda aprontando??????
e surplus eh bom pra caralho neh!
4) Uso de frases truncadas
biruta foi massa... foi eu e a pri.. e uma galerrraa lá da bio..
e um povo que era migo do povo.. foi massa viu.. muita
putaria.. a bruna foi tb.... e a gente depois encontrou a mon
com o felipe...
5) Pouca densidade informacional
e tu quer que eu fale o que?! Oo
foi legalzim! só isso a dizer, quem pode ter nova é alguem
que seja solteira e pá! :P ;*
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 89
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90
As características acima se referem às escolhas léxico-
sintáticas dos gêneros orais visíveis no internetês. Observemos
agora alguns outros contrapontos entre nossos dados e indicativos
da bibliografia que trata sobre a relação escrita/fala. Shepherd
(1984), por exemplo, estabeleceu um quadro com as principais
diferenças entre fala e escrita. Apresentamos o seu quadro origi-
nal, ao qual adicionamos uma coluna para o nosso internetês do
Orkut. Fica evidente uma mescla de características da escrita e
da fala. Vejamos:
Escrita Fala Internetês-Orkut
1. A qualidade abstrata é intensificada
pelo deslocamento do tempo.


2. Torna-se um registro permanente do
acontecimento, um artefato
documentário da história.
3. O formato visual é de convenção,
etiqueta, de acordo com estilo e função.
4. Tende ao formal e conservador;
menos inclinado a mudar.
5. O que recebe a mensagem está
ausente.


6. Não recíproca, nenhuma resposta
imediata.

7. O escritor tem duplo papel; o leitor é
uma presença psicológica.

8. O receptor é um leitor; ler requer
esforço.
9. Conhecimento pressuposto. Tem que
se fazer explícito.

10. Redundância de natureza sintática
– semântica deliberadamente
adicionada com finalidade de
clarificação.

11. É possível a monitoração parar, reler
riscar, reescrever.

12. Ritmo vagaroso.

13. Convenções de sintaxe, ortografia,
coesão e coerência.
1. É tempo real-“agora”.




2. Vem e vai; é efêmera e transitória.


3. É não visual (exceto com
espectógrafos).

4. Inclui modas, coloquialismos, gíria.
5. O que recebe a mensagem está presente,
usa uma variedade de características
paralinguisticas como feedback.
6. Consciência constante de uma
“audiência”.

7. Papel “simples” em interação face a
face.

8. O receptor é um ouvinte, menor
esforço necessário.
9. De um certo modo. Não
necessário – pode ser verificado
concomitantemente.
10. Repetição, refraseamento, pausas,
marcadores de atenção.



11. Monitoração através de feedback da
audiência.

12. Ritmo variado.

13. Menos controladas, produção oral e
desenvolvimento simultâneos.
1.O produtor do texto deixa a
impressão de estar
escrevendo como se
estivesse em tempo real-
“agora”.
2. Torna-se um registro
permanente. É efêmero
quando on-line.
3. Tem formato visual.

4. Inclui mudanças, modas,
coloquialismos, gírias.
5. O receptor da mensagem
não está presente, sem
resposta imediata (menos
quando on-line).
6. Possibilidade de resposta
imediata ou a curto prazo.
7. Leitor é presença
psicológica ou “visual a
distância” com webcam.
8. Requer esforço do
receptor para lê-la.
9. Pode ser verificado
quando on-line.
10. Repetições, marcadores
extralinguísticos gráficos
(maiúsculas indicando
gritos, riso, choro e uso de
emoticons).
11. Não há monitoração para
reelaborar após a
mensagem enviada.
12. Ritmo acelerado.
13. Pouco controladas,
pensamento e escrita
desenvolvidos
simultaneamente.
Quadro 3: Diferenças entre fala e escrita
Fonte: Shepherd (1984)
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 90
A escrita no Orkut
91
O Quadro 3 evidencia a mistura entre fala e escrita que ocor-
re no Orkut, confirmando tratar-se de um código escrito oralizado.
Quando falamos, na maioria das vezes, somos descuidados com
as normas gramaticais, e isso aparece na escrita orkutiana. Se-
gundo Shepherd (1984, p. 158), a unidade natural da escrita é o
parágrafo, enquanto na fala é a frase ou oração “às vezes atada
de forma bem solta”. Na escrita oralizada que examinamos, a
frase tende também a diminuir, constituindo-se, muitas vezes, de
apenas uma ou duas palavras.
Aspectos da língua em constante
fazimento
O assunto “uso da língua na internet” é polêmico, mas é
importante que tal uso seja alvo de descrições sistematizadas e
criteriosas. Não se pode apenas condenar o fenômeno, a priori,
sem uma prospecção racional de sua natureza, características,
motivações e efeitos.
O que deve ser levado em conta é o grau de adequabilidade
a uma dada situação de uso da língua: em situação formal, lin-
guagem formal, em situação descontraída, linguagem
descontraída. A adequação se baseia no grau de aceitabilidade
por parte dos interlocutores envolvidos. Ora, a situação de comu-
nicação entre jovens não é formal e sua aceitação pelos próprios
jovens é total. Logo, para o contexto da internet, não há nada de
errado. O problema é levar tal forma de expressão escrita para
outros contextos de comunicação escrita. Aí entra o papel da Es-
cola e da sociedade como um todo, ensinando que, como sempre,
tudo depende de quem diz o que, a quem, como, quando, onde,
por que e visando que efeito. Qualquer tipo de expressão, então,
poderia ser adequado e aceito, desde que empregado na hora e no
local adequados.
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 91
A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
92
Muitas vezes, as críticas ao internetês são apressadas e
não têm embasamento científico algum, visto que são operadas
mais pelo estranhamento das formas do que pela tentativa de
tentar depreender sua “lógica” ou funcionalidade. Como pode al-
guém falar de um novo uso (que choca/causa estranhamento) da
língua sem levar em conta o que seja língua, palavra, léxico,
norma, variante, dialeto ou escrita? Equacionar essas noções,
tão básicas, é essencial para entender a estrutura do funciona-
mento do uso da língua na internet, uma faceta da língua adapta-
da às circunstâncias exigidas para a comunicação utilizando o
computador. Sobre adaptações e alterações, é oportuno ainda lem-
brar o mestre dos linguistas Eugenio Coseriu (1979, p. 31). Ele
nos ensinava que toda língua muda
[...] para continuar funcionando como tal. O latim de Cícero deixou
de funcionar como língua histórica justamente porque deixou de
mudar; e nesse sentido é uma ‘língua morta’. [...] Em compensação
a língua viva não permanece nunca em repouso, está em contínua
transformação.
Coseriu (1979, p. 106, grifos do autor) ensinou-nos também
que “[...]a língua está em fazimento a todo instante. Um sistema
linguístico desde que realizado em formas tradicionais, longe de
ser ‘por definição equilibrado’, é, pela sua própria natureza, um
sistema ‘imperfeito’ (no sentido de ‘não terminado’)”.
Como, aparentemente, não há um internetês falado, teríamos
um caso peculiar de forma de uso da língua apenas por escrito.
Essa forma de escrita é uma variação diastrática, conforme os
termos de Coseriu, visto que ocorre por estratos sociais – usuários
na rede mundial de computadores – e não apenas por regiões. Como
vimos, a língua da internet é um dialeto social, o qual, segundo
Dubois (1978), é um sistema de signos usado por um grupo social
e em referência a esse grupo. É o caso típico do internetês, um
dialeto de escrita que reproduz elementos da fala e que adquire
contornos específicos de região para região do Brasil.
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A escrita no Orkut
93
Aproveitamentos do internetês na escola
Tendo em vista a preocupação de como a Escola agir diante
do internetês, sugerimos que essa modalidade de uso de língua
possa ser vista pelos educadores como algo positivo, como um
atestado vivo da transformação da língua que reflete a transfor-
mação do homem. Trata-se de um código de comunicação que se
adapta a uma dada situação, tal como tantos outros códigos. E,
com base nisso, entendemos que é perfeitamente válido despertar
a percepção dos estudantes de língua portuguesa sobre a diversi-
dade de usos da língua falada e escrita e sobre as diferentes situ-
ações de comunicação relacionadas a esses usos.
O foco, enfim, é a da utilização da escrita na internet e no
Orkut nas aulas de língua portuguesa sem o ranço do banimento
sem qualquer chance de aproveitamento. Trazemos, a seguir, al-
gumas situações-quadro para o professor, e a partir delas, segue-
se a proposição de algumas atividades para os alunos:
Situação-quadro (1):
Diferenças entre fala e escrita. Como a interação entre internautas
se faz por uma escrita que mostra traços de fala, na maioria das
vezes há muitas palavras repetidas, falta de conjunções ou de ou-
tros recursos para fazer a ligação entre as ideias, frases incomple-
tas, enfim, é uma comunicação que se faz de uma forma mais
espontânea, descuidada até. Isso ocorre porque na fala se pode
responder em seguida e esclarecer o que não ficou claro, e na internet
também quando se estiver on-line. Na escrita tradicional, o leitor
vai ler bem depois da produção feita, o que exige de quem escreve
maior cuidado, maior clareza para transmitir com precisão e fideli-
dade o pensamento.
Atividade (1): Reescritura de depoimentos e recados de acordo com
o padrão culto/usual do português. Tais textos podem ser forneci-
dos pelo professor ou coletados pelos próprios estudantes. Discus-
são sobre semelhanças e diferenças entre fala e escrita e sobre
dificuldades de entendimento da escrita no Orkut para diferentes
tipos de leitores/falantes.
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Situação-quadro (2):
Refletir com os alunos sobre a adequação dos tipos de texto aos
diferentes contextos sociais (um recurso interessante é trazer jor-
nais tradicionais e jornais populares do tipo tablóide, como tam-
bém trechos de textos de autores consagrados da literatura brasileira
do século XIX e crônicas de jornal)
Atividade (2): Transpor para a linguagem culta (com pontuação,
acentuação, concordâncias, etc.) o que o aluno achar que o autor da
frase quis dizer ao se comunicar no Orkut conforme os materiais
abaixo:
Um grande xeirão pra vc.
Vc eh Mtuuu Gatu, Mas Tenhu Namo!
boi na linha aki tb amiguinhoooo!!!!
ae pateta, fds muito show heim.
puta tempo eim!!!!
qse q eu vim aki pirar o kbçote hen...
qlq coisa da o tok
xD...Ow meeu....fuui mimi taava cansadonaaa...*
voltai um dia pra gente zuar porra
Pow vc ta sumido hem!! To cum xodad!!
fala ae troxa blz maluco
comenta eu aee... pliiix
...eh mto bom irritar ela ao cubo
e a iiii loko so na boa rsrsrsrs
Situação-quadro (3):
Na língua escrita as regras foram convencionadas, isto é, em deter-
minado tempo passou-se a usar uma escrita em detrimento de ou-
tra. Antigamente se escrevia COUSA e hoje o correto é COISA. No
internetês começam a ser convencionados determinados usos, que
passam a ser repetidos pelos outros usuários da mesma maneira.
Atividade (3): Com base na observação de certos grupos de pala-
vras retiradas da internet, o aluno é solicitado a depreender quais
são as regras vigentes. Observando, então, a escrita “diferente” das
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A escrita no Orkut
95
palavras, deve poder criar uma regra para cada grupo (para algu-
mas palavras do internetês foram indicadas as formas da língua
padrão entre parênteses):
Grupo 1: tah, neh, eh, jah, bah, soh, pah, deixah
Regra:....................
Grupo 2: naum, taum, consideraçaum, feijaum, eraum
(eram), vaum (vão), anaum (anão) Regra:...
Grupo 3: sab, pod, nunk, unik
Regra:...............
Grupo 4: kim pokim, dakele, loka
Regra:...............
Grupo 5: mi (me), nu(no), dus (dos), ti (te), cum (com),
tudu (tudo), pur (por), issu (isso) Regra:.......
Grupo 6: d (de), t(te), c(ce, você), c (se)
Regra:...............
Grupo 7: mtooo, feituuuuu, carinhuuuuu, amoooo
Regra:...............
Grupo 8: prcbr (perceber), esqc (esquece), gnt (gente), rpz
(rapaz), tbm (também) Regra:.....
Situação-quadro (4):
A internet traz inegáveis benefícios às pessoas, mas também alguns
problemas, muitas vezes decorrentes da falta de precaução de seus
usuários. Sugere-se que o professor faça um debate em aula sobre
possíveis “perigos” do Orkut: empolgadas, muitas pessoas expõem
aspectos da vida pessoal que podem ser acessados por qualquer
outro participante, provocando uma verdadeira “evasão de privaci-
dade”
6
. Discutir o que é adequado expor na rede, como se prevenir,
que exemplos de problemas conhecem, etc. Será uma oportunidade
de refletir sobre os riscos que podem advir da capacidade pouco
crítica dos adolescente ao exporem suas vidas em público de um
modo muito intenso.
6
Ao contrário da “invasão de privacidade”, em que alguém acessa e utiliza sem
autorização informações da vida particular de outra pessoa, “evasão de priva-
cidade” é a exposição detalhada da vida pessoal na rede mundial de computa-
dores pelo próprio usuário. Segundo Komesu (2005), podemos chamar essa
exposição voluntária de “publicização de si”.
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Atividade (5): Solicitar que os alunos organizem por escrito as
ideias debatidas, produzindo um texto autocrítico. O encaminha-
mento poderia iniciar com os alunos indicando pontos positivos e
negativos da internet e do Orkut. Um aluno ou o próprio professor
anotaria no quadro as ideias levantadas pela turma. Solicitar a
indicação de exemplos de problemas que conhecem, que digam o
que sabem sobre a legislação relacionada ao uso da internet e onde
buscariam apoio caso necessitassem (o professor pode falar da
ONG SaferNet
7
). Finalmente, sugerimos que o professor distribua o
texto Problemas de segurança e privacidade no Orkut
8
e solicitar
que exponham por escrito suas ideias após o que foi discutido e
lido.
Algumas considerações a partir das
atividades propostas
Professores, especialmente os de Língua Portuguesa, não
deveriam ignorar esse novo jeito de usar a língua. Conforme vi-
mos, há como utilizá-lo como um aliado para o objetivo de levar
os alunos ao conhecimento da norma culta e de outras normas do
português. Afinal, o próprio Ministério da Educação favorece uma
abordagem atual da comunicação. Os PCN, por exemplo, enca-
ram e tratam a linguagem como algo vivo, em constante evolu-
ção e inserida nas práticas sociais. Destacam também o fato de
que o domínio da língua tem estreita relação com a possibilidade
de plena participação social, já que é por meio da língua que o
homem se comunica, tem acesso à informação, mostra e defende
7
A SaferNet Brasil é uma organização não governamental, que reúne cientistas
da computação, professores, pesquisadores e bacharéis em Direito para defen-
der e promover os Direitos Humanos na Sociedade da Informação no Brasil.
Através da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, operada em
parceria com o Ministério Público Federal, oferece um serviço anônimo de
recebimento, processamento, encaminhamento e acompanhamento on-line de
denúncias sobre qualquer crime ou violação aos Direitos Humanos praticados
através da internet. Disponível em: <http://www.safernet.org.br>.
8
Disponível em: <www.hsbc.com.br/1/2/portal/pt/footer/seguranca/artigos/
orkut-problemas> Acesso em: 12 nov. 2007.
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A escrita no Orkut
97
seus pontos de vista, partilha ou constrói visões de mundo, isto
é, produz conhecimento.
Ora, as práticas sociais cada vez mais se utilizam da grande
rede. Claro que não devemos fazer apologia do internetês, basta-
ria colocá-lo no seu devido lugar: uma variante dialetal
9
de escri-
ta oralizada utilizada principalmente pelos jovens para se
comunicar na internet. Para os demais contextos, deve ficar claro
que a língua escrita oficial é a que impera, é que deve ser estuda-
da e empregada – e misturar códigos cria embaraços facilmente
percebidos. Mostrar tais embaraços pode inclusive render algu-
mas atividades de ensino bem divertidas. A partir do exame do
internetês e das variantes cultas da escrita, pode vir a saber que
a grafia é o único componente da língua regulamentado por lei
(sua última alteração ocorreu pelo Decreto nº 6.586, de 29/09/
2008, o nosso último Acordo Ortográfico
10
). Então devem os pro-
fessores esclarecer que “uma coisa é uma coisa, outra coisa é
outra coisa”, como popularmente se fala. A língua na sua norma
culta é a que deve ser estudada por ser aquela aceitável em todas
as situações, ser fator de coesão, integração e ascensão social.
Quem não se expressa de acordo com essa norma não é bem
visto, é discriminado. Já o internetês deve ser entendido como
9
Aqui lembramos o que seja dialeto. No caso do internetês, corresponde a
socioleto, assim definido em Houaiss, Villar e Franco (2001): SOCIOLETO /é/
s.m. (sXX) sling cada uma das variedades de uma língua us. pelos grupos de
indivíduos que, tendo características sociais em comum (p.ex., a profissão, os
passatempos, a geração, etc.), usam termos técnicos, ou gírias, ou fraseados
que os distinguem dos demais falantes na sua comunidade; dialeto social,
variante diastrática
10
A propósito do Novo Acordo Ortográfico de 2009, sugerimos a obra de
Moreira, Smith e Bocchese (2009), que traz questões para além da escrita e
abriga concordâncias e discordâncias sobre o que foi firmado. Nessa obra, o
trabalho de Flores e Finatto (2009) traz uma aplicação de técnicas de pesquisa
da LC para mensurar o impacto das alterações de grafia em corpora de textos
jornalísticos brasileiros e lusitanos.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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um dialeto social, um socioleto, a forma mais adequada para o
uso pelos jovens na apressada comunicação da internet.
O que a escola pode fazer é aproveitar a presença da língua
da grande rede, já conhecida e empregada pela maioria dos alu-
nos, e utilizá-la como um instrumento para se refletir sobre a
heterogeneidade da língua em suas diferentes modalidades e
situações de comunicação. Não se espera ver o miguxês, tampouco
o internetês nas redações escolares e em outras produções em
que a norma culta é o indicado. Como já dissemos, cada coisa
tem o seu lugar e a sua hora. A função do professor é ajudar o
aluno a dar-se conta de que ele é um poliglota dentro da própria
língua.
Os jovens devem reconhecer na escola a existência das vári-
as formas de expressão e entender que a língua em sua norma
culta é, em princípio, a forma reconhecida, consagrada e compar-
tilhada por todos. Aqui podemos repetir Dacanal (2006), para quem
a língua é instrumento de poder e quem a domina bem tem me-
lhores condições de dominar os outros. Qual poder adquiriria
uma pessoa que dominasse bem apenas o internetês?
Conclusões
Como em tudo na vida, é preciso conhecer algo para poder
compreender suas feições, funções, potencialidades e limites. Foi
o que nossa pesquisa pretendeu fazer, vendo, afinal, o que é o
internetês e, observando-o, sugerir seu aproveitamento na Esco-
la..
Percebemos claramente que o internetês é uma forma de
adaptação da escrita, necessária aos tempos modernos. Escrever
teclando no computador, especialmente on-line, induziu a inova-
ções, principalmente pela velocidade que se precisa dar àquilo
que se transmite por escrito. Surgiu, então, uma escrita particu-
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A escrita no Orkut
99
lar e específica: o chamado internetês ou PT-SMS
11
, que engloba
características das duas modalidades de usos da linguagem: o
código escrito e o código oral. Temos, portanto, um novo código,
escrito e oralizado, registro híbrido de fala e escrita. Constitui-se
num continuum que vai da total informalidade e transgressão de
normas ortográficas até a linguagem formal.
O internetês no Orkut é uma variação dialetal escrita, com
características próprias, tal como se dá com todo dialeto. Em
vista disso tudo e da nossa observação empírica, resta-nos acei-
tar o internetês como um legítimo uso da língua, algo a ser mais
estudado e não temido ou abominado. Pelo que pudemos consta-
tar em nossa pesquisa, a escola que cumprir sua missão de tra-
balhar bem a norma padrão, centrando atividades em leitura e
produção de textos, terá menos problemas com a interferência da
escrita internetiana. Pelo menos por enquanto. Nada nos assegu-
ra que alguns casos, que algumas palavras venham a ter oficia-
lizada a sua forma de escrita simplificada para atender à
praticidade da comunicação. Afinal, não esqueçamos de que você
já foi Vossa Mercê. Hoje, via satélite e wireless, no Orkut, MSN, e-
mail e em blogs, é aceitável, então, pela rapidez dos contatos,
que haja várias novas modificações, interferências e alterações
na comunicação. São transformações inerentes ao constante
fazimento da língua e não defeitos congênitos.
A Escola precisa estar atenta às adaptações da língua aos
novos tempos, levando reflexões para os alunos sobre a comuni-
cação existente nos variados níveis e meios de linguagem. Enfim,
múltiplas ações pedagógicas podem servir-se da escrita da internet
para motivar e cativar o aluno para estudar a língua materna,
11
PT-SMS é a sigla formada por PT (indicação universal de português) e SMS,
acrônimo de Short Message Service (Serviço de Mensagens Curtas), um serviço
disponível em telefones celulares digitais para o envio de mensagens com até
255 caracteres. No Brasil, utiliza-se torpedo como sinônimo de SMS. O primeiro
SMS foi criado em 1992.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
100
estudo esse muitas vezes detestado nas aulas de Português. Esse
desagrado ocorre porque, infelizmente, muitas vezes as aulas estão
transformadas simplesmente em aulas de uma gramática usada
no século XIX sem que nada seja dito daquele tempo para os
alunos e sem que nada atual seja com ela contrastado.
Referências
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São Paulo: Loyola, 2002.
BISOGNIN, Tadeu Rossato. Do internetês ao léxico da escrita dos jovens
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Sul, Porto Alegre, 2008.
COSERIU, Eugenio. Sincronia, diacronia e história. Rio de Janeiro:
Presença; São Paulo: USP, 1979.
DACANAL, José Hildebrando. Linguagem, poder e ensino da língua.
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DUBOIS, Jean. Dicionário de lingüística. São Paulo: Cultrix, 1978.
FLORES, Valdir do N.; FINATTO, Maria José B. Quantificação e argumento
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Jocelyne da C. (Org.). Novo acordo ortográfico da língua portuguesa:
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KOMESU, Fabiana Cristina. Entre o publico e o privado: um jogo
enunciativo na constituição do escrevente de blogs da internet. 2005.
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Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, 2005.
MOREIRA, Maria Eunice; SMITH, Marisa M.; BOCCHESE, Jocelyne da C.
(Org.) Novo acordo ortográfico da língua portuguesa: questões para
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SARDINHA, Tony Berber. Linguística de corpus. Barueri,SP: Manole, 2004.
SHEPHERD, David. A natureza da linguagem escrita em contraste com
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a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 100
101
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SE(R)VER ENTRE LÍNGUAS:
encadeando identidades
José A. Uchôa-Fernandes (UFPA)
Deusa Maria de Souza-Pinheiro-Passos

(USP)
[...] uma parte de mim é só vertigem: outra parte, lingua-
gem.
Ferreira Gullar
Redes sociais como o Orkut vêm obtendo massiva adesão
de usuários em todo o mundo e obtendo cada vez mais espaço
tanto entre internautas quanto nos noticiários e na mídia em ge-
ral. No Brasil, a mais popular dessas redes, o Orkut, parece ter
encontrado um contexto bastante favorável à sua expansão. Em
26 de fevereiro de 2006, a página de dados demográficos do Orkut
indicava que 72,84% (Figura 1) de seus participantes eram brasi-
leiros que, através desta mídia, buscavam compartilhar interes-
ses, fazer amigos e discutir toda sorte de temas, dentre os quais a
Língua Inglesa (LI), assim como seu processo de ensino-aprendi-
zagem.
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Figura 1: Distribuição populacional, por nacionalidade, dos usuários do Orkut.
Fonte: seção de dados demográficos da rede social orkut.com
A partir da observação da massiva adesão ao Orkut surgiu
nosso interesse de analisar, sob uma perspectiva discursiva da
linguagem (ORLANDI, 1983), o funcionamento dessa rede social
no tocante aos modos de dizer e aos processos de constituição,
invenção e reinvenção identitária intrínsecos desse contexto, bus-
cando pontes que pudessem relacionar o sujeito das línguas (ma-
terna e estrangeira) ao que denominamos sujeito do Orkut.
Para tal, optamos por analisar duas comunidades: “Eu amo
Inglês” e “Eu ODEIO Inglês”
1
, tomando como base a grande
recorrência de comunidades do tipo “eu amo” / “eu odeio” nessa
rede, o que sugere uma tendência à hipérbole discursiva nesse
meio específico de produção textual.
1
Os enunciados estão marcados com a letra “A” (eu amo Inglês) ou “O” (eu
ODEIO Inglês), de acordo com sua comunidade de origem.
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Se(r)ver entre línguas
103
As reflexões que resultam da análise empreendida objetivam
debater não apenas os modos de ser e dizer nessa rede, mas tam-
bém investigar a natureza conflituosa da relação do sujeito ente
línguas (REVUZ, 1998), buscando contribuir para uma reflexão a
respeito de representações de ensino-aprendizagem de língua in-
glesa e dos elementos envolvidos na esfera do ensino de línguas
estrangeiras (aluno, professor, metodologias, etc.).
Com esse fim, problematizaremos a questão do conflito en-
tre o avatar e o sujeito jurídico
2
que tende a se manifestar no
sujeito do Orkut, buscando analogias possíveis com aspectos
identitários de um sujeito cindido (FINK, 1998) entre a suposta
Língua Materna (LM) e a LI. É a partir deste olhar discursivo
sobre o avatar e o sujeito da(s) língua(s) que buscaremos fazer
considerações a respeito desses sujeitos e do imbricamento
identitário, que os afeta e constitui, uma vez que ambos (o sujei-
to do Orkut e o sujeito da(s) língua(s)) são levados a investir em
identidades diversas, adequando-se conforme lhes sugere a gra-
mática do espaço de enunciação (GUIMARÃES, 2002) no qual se
encontram.
Ao longo do processo de análise, pudemos entrever traços
de um sujeito que se apresenta afetado e constituído tanto pela
suposta LM quanto pela LI, independente de sua inserção ou não
no contexto formal de ensino-aprendizagem de línguas estrangei-
ras, conforme sugere O-01.
O-01.
“Eu não gosto da forma como o portuguès é tratado pelos própri-
os brasileiros.
Eu comprei uma máquina fotográfica que tinha o manual em in-
glês, francês, alemão, espanhol e italiano. [...] Tive que adivi-
nhar onde ligar os cabos, pois o manual estava apenas em inglês,
2
Aquele que pode ser identificado pelo Estado e demais mecanismos de coerção
e que responde pelo dito.
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 103
A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
104
francês e espanhol. Mas a culpa não é do povo que fala inglês, nem
do povo que fala espanhol ou italiano. A culpa é dos brasileiros
que acham “bonito” ficar falando em outras línguas e não valo-
rizam o nosso idioma.
Mas eu ainda não expliquei porque odeio o inglês... É simples, quan-
do vou fazer compra, alguma loja bota um cartaz bem grandão
“FOR SALE”, “JUST IN TIME” ou outras expressões que eu não faço
a mínima idéia do que significam. PÔ, ESTAMOS NO BRASIL, EN-
TÃO FALEM PORTUGUÊS!
Não sou contra quem gosta de fazer cursos, eu até apóio, mas
quando vier conversar comigo, FALEM PORTUGUÊS.[...]”
3
Embora a forma como a comunidade é denominada possa,
a priori, nos dar o efeito ilusório de uma situação bem resolvida
e acabada desses sujeitos com a LI, percebemos, a partir de uma
análise mais detalhada, que esses sujeitos que declaram “odiar”
a LI encontram-se também afetados pela língua do outro, a exem-
plo daqueles que dela se declaram “amantes”. Não fosse assim, o
que poderia mover o sujeito a engajar-se em uma comunidade
dessa natureza e discutir sua relação com a LI? Se a relação com
a LI fosse realmente definitiva e acabada (se é que é possível falar
em uma relação acabada com a língua), haveria motivo aparente
para a manifestação e explicação das razões para sua recusa?
Queremos crer que o próprio gesto de filiação nessas comu-
nidades sugere um conflito íntimo de um sujeito dividido ente o
um e o outro, entre sua língua e a língua do outro, e que lança
mão de modos de dizer que nos remetem muito mais à resistên-
cia/defesa do que a uma postura de ataque à alteridade. É como
se esse sujeito buscasse, por meio do gesto de filiação a um gru-
po e um modo de dizer, a preservação de uma identidade, de um
status e de um papel que, em suas representações de língua, são
atributos da LM, aquela que o constitui na “gênese”.
3
Os enunciados foram transcritos exatamente como encontrados nas postagens
originais da rede sem sofrer qualquer tipo de revisão. Os grifos são próprios do
texto original, salvo menção em contrário.
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Se(r)ver entre línguas
105
Nossa hipótese é a de que o meio de produção no qual esses
sujeitos estão inseridos se constitui num ambiente favorável para
a manifestação desse tipo de conflito, uma vez que o sujeito jurí-
dico não equivale, necessariamente, ao sujeito do Orkut, estando
assim colocada a possibilidade do anonimato, da (re)invenção de
si mesmo (CORACINI, 2006), do equívoco e do contraditório. Dito
de outro modo, a filiação e desfiliação a um ou outro modo de
dizer e a uma identidade específica é dada pelo rápido (e
discursivamente cômodo) gesto do clique de um mouse em uma
cadeia discursiva na qual os vínculos com a coerência textual
(elemento fundamental para a atribuição de credibilidade no meio
presencial) são de natureza muito mais frouxa e instável.
Esta instabilidade se apresenta de maneira análoga àquela
que pode ser observada nos próprios sujeitos que enunciam no
contexto dessa mídia, cuja singularidade reside no efeito de
“horizontalidade” e “democracia” (LÉVY, 1996) que dela parece
emanar, diferenciando-a de outros contextos (principalmente o
escolar) pelo efeito de ausência/difusão de elementos reguladores
e limitadores do discurso. (FOUCAULT, 2002)
A relação sujeito-língua(s)
Ao abordarmos a relação do sujeito com a LI e a LM, faz-se
necessária uma delineação do contexto brasileiro de ensino de
Inglês como língua estrangeira, perpassado de maneira marcante
pela massiva presença de institutos de línguas que se apresen-
tam sob a forma de franquias de grandes redes de ensino. Esse
mercado e os elementos que o constituem (escolas, manuais de
metodologia, livros didáticos, etc.) colocam em funcionamento
certos discursos a respeito das línguas. Esses, por sua vez, per-
passam também os discursos dos sujeitos aqui analisados (que
deles se valem dentro dos modos de dizer específicos da mídia em
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
106
que estão inseridos), e ajudam a constituir o modo como eles
representam as línguas e com elas estabelecem relações.
Enunciados de estudantes e professores de LI que afirmam
gostar (ou não) do “método X”, onde “X” equivale ao nome da
instituição à qual o método está associado, são algo recorrente
no contexto brasileiro de ensino de línguas estrangeiras, princi-
palmente, de LI.
Esse modo de referir sugere um traço bastante marcante do
mercado (a substituição metonímica do nome de um produto por
sua marca) nas concepções do processo de ensino-aprendizagem,
sugerindo a ambivalência do sujeito-aluno, visto também como
consumidor em busca de um produto: a “fluência” em LI, que
supostamente viria pela aplicação do método.
De maneira análoga, o professor ocupa também o papel de
prestador de serviços, em busca de fidelizar seu cliente e evitar
que este seja influenciado pela concorrência.
Essa diferenciação parece ter uma dupla função: por um
lado, colabora com a ideologia do mercado, investindo na ideia
de um sujeito hedônico, do consumo, onipotente (CORACINI, 2006),
um sujeito livre para escolher entre as diversas possibilidades
que lhe são colocadas pelo mercado de ensino de LI (método X, Y,
Z, etc.) e que, por meio dessas escolhas, se constrói da forma que
deseja em busca da obtenção do total prazer (a fluência em LI).
Outra faceta discursiva dessa relação metonímica é a atribuição
de um caráter opaco ao discurso fundador das metodologias de
ensino de língua estrangeira, estabelecendo diferenciações (nem
sempre existentes) entre “produtos” que constituem, assim, um
mercado supostamente cheio de variedade. Tais metodologias de
ensino “[...] pressupõem um sujeito consciente e dono de seus
atos, capaz de, deliberadamente, atingir seus objetivos, transfor-
mando o mundo à sua volta”. (MASCIA, 2003, p. 212)
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Se(r)ver entre línguas
107
O efeito de opacidade que opera nos pressupostos das
metodologias e abordagens adotadas por essas instituições pare-
ce investir na ilusão de que o sujeito é livre para escolher o méto-
do de ensino que mais lhe agrade (e/ou que melhor lhe caiba no
bolso), ilusão de liberdade muito análoga àquela na qual se cons-
titui o sujeito do ciberespaço tanto durante a construção do avatar
quanto ao enunciar por seu intermédio.
Ao longo do corpus pudemos identificar efeitos de sentido
nos quais ecoam elementos do que Mascia (2003) postula como o
“[...] discurso fundador das metodologias de ensino de língua
estrangeira”. Não são poucos os enunciados nos quais a LM é
apresentada como fonte de interferências indesejáveis, imputan-
do à mesma a culpa pelo insucesso na jornada da aquisição do
status de native-like speaker, prometido pela ampla maioria dos
Institutos de Idiomas em suas peças publicitárias e nos balcões
onde o produto – a fluência após a conclusão do último estágio
do curso – é vendido.
Não são poucas as peças publicitárias veiculadas por esses
Institutos, nas quais a interferência da LM na LE é apresentada
como fonte de constrangimentos e mal-entendidos da ordem do
“ridículo” e do “grotesco”, para usar as palavras do sujeito em A-
01.
A-01.
“Tópico: Erros grotescos
4
de inglês de membro da Comu.
Nossa, andei entrando em uma página em que este “individuo” que
se diz apaixonado por ingles comete erros que nem o Lula cometeria
hahahaha deem uma olhada e postem o que acharam!!! rsrs
Riiiidiculo!!! entrem na pagina depois pra dar uma olhada, real-
mente alguem que diz amar ingles fazer isto não deveria fazer parte
desta comunidade hahaha é cada um...
4
Os negritos são do texto original. Todos os sublinhados são dos pesquisado-
res, salvo menção em contrário.
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108
Nesse sentido, propomos um retorno aos princípios da cons-
trução do avatar: ao filiar-se a um modo de dizer para enunciar
sobre LM, representando-a como algo indesejável para o aprendi-
zado da LI, o sujeito parece encorajado a abandonar uma identi-
dade (jurídica, no caso do avatar; a da LM, no caso do aluno de
inglês) em detrimento de outra que se crê cuidadosamente
construída, calculada racionalmente, moldada com base nas
idealizações que o sujeito faz de si e de como deseja ser visto pelo
outro. Tudo isso parece apontar para uma relação de caráter
conflituoso entre sujeito, LM e LI.
Desse conflito emergem posições que parecem oscilar entre
o desejo pela identidade fornecida pela LI (avatar) e a resistência
à entrada neste universo, por meio do apego à identidade inicial
(jurídica, da LM) e da recusa à alteridade apresentada na e pela
língua estrangeira. Qualquer desses modos de lidar com a
alteridade sugere instabilidades e tensões, que não podem ser
simplesmente imputadas ao espaço enunciativo da rede social,
mas que parecem se mostrar sob uma forma hipertrofiada e
hiperbolizada no contexto do Orkut. (UCHÔA-FERNANDES, 2008)
É sobre esse conflito que, doravante, debruçar-nos-emos, com
base nos enunciados do corpus.
Desejo e recusa (da língua) do outro
Neste momento de nossa reflexão, deter-nos-emos em algu-
mas considerações a respeito dos títulos de alguns dos tópicos
5
selecionados para compor o corpus de análise.
É possível estabelecer, de antemão, relações entre os títulos
e uma série de pré-construídos que circulam nos discursos de
5
Por tópico, tomamos a nomenclatura utilizada pela rede social Orkut para
descrever a forma como enunciados a respeito de um mesmo tema são elabo-
rados e agrupados pelo internauta que interage nesta mídia.
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Se(r)ver entre línguas
109
professores, alunos e instituições de ensino, tanto a respeito do
papel que a LI ocupa no mundo como sobre o seu processo de
ensino-aprendizagem. Tais discursos habitam o universo das sa-
las de aula, dos livros didáticos (GRIGOLETTO, 1999) e das peças
publicitárias que, frequentemente, representam a LI como “ferra-
menta” (UCHÔA-FERNANDES, 2004), para ascensão social ou,
melhor dizendo, o nivelamento em relação àqueles que estão “por
dentro” do que Bauman (2001) considera ser o “líquido mundo
moderno”.
Vejamos alguns dos títulos de tópicos selecionados para a
análise:
Da comunidade “Eu amo inglês”, temos:
A – “Do you prefer portuguese or english?”;
B – “Erro grotescos de inglês de membro da Comu.”;
C – “Não consigo ler em inglês sem traduzir”.
Da comunidade “Eu ODEIO inglês”, temos:
E – “Eles tb se dão muito mal!”;
F– “Foda-se o ingles, nos tamo no brasil porra ahushua”;
G –” não gosto de ingles ou não gosto da professora”;
H – “QUER SABER PORQUE DO INGLES????”.
Tanto em [A] quanto em [F] temos a instância do conflito
entre LM e LE perpassando os enunciados, seja pela implicação
de que deva haver uma língua preferida em detrimento de outra,
seja pela postura de hostilidade que se refere à LI por meio de
termos de baixo calão. A postura do sujeito que enuncia em [F]
parece buscar refutar a LI, tendo, como estratégia, a associação
entre recursos retóricos de deboche e argumentos que remetem a
conceitos como os de fronteiras geográficas entre países e de Es-
tado-nação. Desse modo, o enunciado busca relações unívocas
entre uma língua, um território e seus habitantes, para arquitetar
uma estratégia de resistência ao discurso hegemônico da
globalização, o que sugere muito mais uma estratégia de pre-
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servação de uma identidade do que propriamente a completa re-
cusa do outro e sua língua.
Em outro tópico, são questionadas as razões para se apren-
der a LI, frequentemente designada pelos discursos hegemônicos
como “internacional”, a língua “do mercado”, a língua dos “cida-
dãos do mundo”, como nos sugere um comercial de TV de um
Instituto de Línguas. Por esta ótica, não falar inglês “fluentemen-
te” (o que quer que isto signifique) é estar sujeito às sanções
provocadas pelos “erros grotescos” (B), que configuram o sujeito
que os comete como alguém que se encontra por fora, nos termos
de Bauman (2003). Tais “erros” servem como ponto de partida
para legitimar gestos de censura que questionam o pertencimento
daquele que os comete em uma comunidade designada aos “aman-
tes” da LI (cf. A-01), como se só fosse permitido amar o que se
conhece, aquilo que não escapa (ou pensamos não escapar) ao
nosso “controle”.
O “controle” (ou “domínio”) da LI é quase sempre represen-
tado como resultante de um processo que se deu (ou ainda se dá)
no contexto da sala de aula, conforme sugere (G). Assim sendo,
não parece absurdo (pelo menos no contexto brasileiro) que al-
guns sujeitos relacionem a LI muito mais ao campo do saber
disciplinar, adquirido por meio de instituições de ensino, do que
ao universo das línguas naturais, afetada social e historicamen-
te. O inglês passa a ser representado como “matéria”, um saber
disciplinar, em relação de equivalência com a Química, a Física,
a Biologia e a Matemática, etc., para o qual os sujeitos devem
estar aptos para se submeter aos testes dos quais sairão aprova-
dos ou reprovados, conforme ilustram os fragmentos abaixo:
O-02.
“podemos apredner espanhol
qui porra di matéria é essa!!!Nós estamos no Brasil!!!Entaum InGlÊs
vai se fude!!!”
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O-03.
“ja tou praticamente reprovado, tenho 2% de chance de passar pra
proxima fase...rsrs”
Os títulos dos tópicos, bem como uma considerável parcela
dos enunciados que compõem nosso corpus, nos permitem
visualizar que a tendência a um discurso hiperbólico – o qual
serviu de referência para a escolha das comunidades – também
permeia os dizeres produzidos nos seus contextos. De certa ma-
neira, essa tendência à intolerância para com o outro parece estar
relacionada ao ambiente receptivo à(s) (tentativas de) “dilatação”
dos limites do dizível peculiares a esse espaço enunciativo, que,
por sua vez, tende a se constituir como um nicho ideal para um
sujeito que “simboliza muito pouco ou quase nada” (CORACINI,
2006, p. 149) caracterizado “por um repúdio completo à dimen-
são do Outro.” (MELMAN, 2002 apud CORACINI, 2006, p. 141)
A análise dos enunciados circunscritos nesses tópicos nos
permite entrever alguns pré-construídos que circulam nos dizeres
sobre a LI e seu processo de ensino-aprendizagem, os quais fun-
cionam como elementos para que possamos compreender melhor
essa relação conflituosa do sujeito com as línguas (materna e
estrangeira). A partir da estratégia analítica da paráfrase, agru-
pamos esses pré-construídos da seguinte maneira:
A pressuposição da Superioridade da LI em
relação à LM
A-02.
“i think we should change the name of the community to “yes, i
speak english” or something like this... it’s better than “eu amo
inglês”
what do u think?”
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A-03.
“Sei lá, acho q se for pra mudar de nome tem q ser algo mais
inteligente, nao mudar por mudar...tipo: I´m rocked by the English
Language”
Em A-02, por exemplo, a sugestão para a troca do nome da
comunidade por um outro que se inscreve no domínio da LI pare-
ce representativa da postura de supervalorização da LE, uma vez
que esse enunciado propõe que tal processo de nomeação seja
“melhor” [better] do que aquele atual, que se dá em língua ma-
terna. O enunciado A-03 vai além na postura de supervalorização
da LE ao propor uma forma “mais inteligente” de nomear a co-
munidade, sugerindo, para tal, um enunciado em inglês. A repre-
sentação de LE que parece emergir destes enunciados é de uma
língua na em que a designação e o recorte do real se dariam de
um modo “melhor” ou “mais inteligente” do que aquele que lhe
permite a LM. Esses enunciados sugerem uma relação do sujeito
com a sua LM onde o mesmo se vê limitado e imputa a LI uma
solução para tal conflito.
“O inglês é mais fácil que o português (LM)”
O-04.
“Mas inglês é mais fácil, pela forma de usar os verbos com os
sujeitos. Não é necessario decorar padrões que dependendo do ver-
bo não são os mesmo, o que é comum em muitas línguas. E volto a
repetir, russo pra russo é fácil oras. Mas é tudo muito relativo e
difícil de fazer uma experiência com alguém que tenha uma língua
materna neutra e tenha que aprender duas línguas distintas”.
Nesse enunciado um efeito de sentido nos sugere uma repre-
sentação de LI como língua dotada de uma sintaxe simplificada,
mais obediente às regras e generalizações. Percebe-se, pela ma-
neira aqui de representar a língua, um investimento em uma con-
cepção homogeneizante da LI que, por ser intrinsecamente “mais
fácil”, no dizer desse sujeito, seria acessível a um número maior
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Se(r)ver entre línguas
113
(e mais homogêneo) de indivíduos, servindo melhor aos propósi-
tos universalizantes do mercado como agente facilitador do inter-
câmbio entre os habitantes da dita “aldeia global”.
Ao se filiar à representação da LI enquanto “mais fácil” para
referendar o status de língua franca da globalização a ela atribu-
ído, esse dizer sobre a língua colabora para o apagamento de
razões sociohistóricas e econômicas que levaram o inglês à aqui-
sição do prestígio e do status linguístico do qual hoje goza.
6
O enunciado acima parece estar ancorado tanto na ilusão da
objetividade quanto na de neutralidade da linguagem e,
consequentemente, do próprio sujeito. Ilusão que pode ser obser-
vada no momento em que o sujeito expressa sua curiosidade so-
bre como se comportaria o falante de uma “língua neutra” (como
se isso fosse possível!) quando em processo de aprendizado de
duas línguas estrangeiras.
É oportuno observar que, embora se trate de um enunciado
que apresenta uma postura aparentemente eufórica a respeito da
LI, designando-a como “mais fácil” – enfatizando sua suposta
simplicidade sintática –, ele provém da comunidade “Eu ODEIO
inglês”, na qual representações de LI análogas a essas são utili-
zadas como ponto de ancoragem para a postulação de pré-
construídos de natureza simétrica e oposta. Dentre as formas
resistentes de representar a LI, temos o suposto caráter simpló-
rio, a suposta deficiência de vocabulário e de estruturas sintáti-
cas, imputando uma característica de “imperfeição” ao inglês,
em detrimento da “beleza” e das múltiplas possibilidades
estilísticas, sintáticas e semânticas da LM, então representada
como “mais bonita” (cf. O-05), num gesto que entendemos como
uma forma de resistência ao discurso naturalizante da hegemonia
6
Sobre o processo de expansão da LI e sua tendência como língua franca
global, ver Crystal (2003) e Phillipson (1993).
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do inglês, ou seja, uma forma de resistência do sujeito na preser-
vação de sua identidade, constituída na e pela LM, para resistir à
influência sempre presente da identidade oferecida pela LI.
“O inglês é uma língua ‘pobre’”
O-05.
“(...) 3-Ingles parece lingua de cachorro!Enquanto Portugues é mais
bonita(fala sério ,qual lingua vc prefere?)
4-Vocabulário:Eles não tem nada de vocabuláriooooooooo (...) eles
não tem tantas palavras para um só siginificado,quando forem
escrever um texto vaificar tudo repetitivo
5-Verbo:O verbo ´´To be“ e ´´to Have“ nossaaaaaaaaaaaaaaa!!!É
TUDO IGUAL!!!As palavras repetem,quando eles forem falar,a gen-
te fica maluco sem saber de que pessoa ele tá falando!É
tudo´´are,are,are,are“ Que droga!!!Enqunato o da gente
é´´sou,é,somos,etc...“,mesma coisa é com o ´´to have“![...]”
O-06.
“EU SEI MUITISSIMO BEM O POR QUE DO INGLÊS, PORÉM ODEIO
ESSA LINGUA!!!!!!!!!!!!!!!!!
COMO ODEIO OS EUA!!!!!!!!!
Se não souber inglês não tenho emprego,...
mas ODEIO essa lingua idiota nem conjugação tem direito, lingua
estupida
Mostre sua revolta com essa língua, vamos dar trablho aos tradu-
tores e não aprender essa língua escrota”
O-07.
“É uma língua estúpida e pobre. É mais um dos artifícios da
dominação da cultura americana no brasil e no mundo. Além de
tudo é sonoramente feia,
visto q é de origem germânica (hiifiwqhçi) e não românica como o
português e o francês.”
Em O-05, temos um efeito de sentido que coloca as línguas
(materna e estrangeira) em uma relação hiperbólica de direta opo-
sição, estabelecendo um critério excludente no qual aquele que
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se filia a uma delas como preferida deve, necessariamente, dis-
tanciar-se (ou até mesmo abandonar por completo) da outra.
Encontramos ainda filiações a regiões do interdiscurso que
postulam banir, em nome da proteção de uma suposta “pureza”
da LM, quaisquer tipos de estrangeirismos e empréstimos
linguísticos, buscando assim resistir ao avanço da LI sobre a LM,
constituindo mais uma forma de resistência da identidade
fornecida pela LM em relação à constante presença e influência
estrangeira.
O-08.
“[...] Na minha opinião o português é um idioma maravilhoso que
possui todas as palavras necessárias para expressar o que senti-
mos e o quer queremos dizer, então porque recorrer a outra língua?”
No enunciado em questão, nos deparamos com um sujeito
desejoso de uma língua (materna) que crê autossuficiente e infa-
lível. Esta permitiria ao sujeito nela se constituir e expressar-se
por completo, de modo completamente consciente e transparente,
sem o risco do equívoco.
“Gosto do inglês, mas também do português”
Ainda a respeito da relação conflituosa entre LM e LE, al-
guns enunciados parecem buscar uma filiação a um discurso
conciliador entre as duas línguas, conforme sugere uma análise
da adversativa but em A-04.
A-04.
Do you prefer portuguese or english?
I prefer english rsrsrs
but also like portuguese
De acordo com o dispositivo de análise proposto por Ducrot
(1987), a adversativa but nos introduz uma regra de normalida-
de, na qual se espera que aquele que prefira inglês não goste de
português. O enunciado situa-se, portanto, nos domínios da
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exceção a uma regra que poderia ser descrita a partir do recurso
analítico da negação do enunciado acima:
I like English AND NOT Portuguese
Nesse enunciado, o sujeito, por meio da adversativa, parece
fazer o mea culpa por viver (n)o conflito entre línguas e oscilar
entre as identidades constituídas por cada uma delas, em desa-
cordo com a regra de normalidade que seu próprio enunciado
sugere.
O but não parece estabelecer uma mera relação de oposição
entre LM e LE. Ao invés disso, ambas (LI e LM) convivem e con-
correm, do mesmo modo como ocorre com o avatar e a identida-
de jurídica, ou seja, ao filiar-se a um traço identitário, o sujeito,
ainda assim, é afetado por tantos outros.
“Leave your mother tongue”
7
Considerável parte dos enunciados com os quais nos depa-
ramos no corpus dá a entender que uma das estratégias “ideais”
para o efetivo aprendizado da LI seria a sua sobreposição à LM
ou, em determinados casos, até mesmo o banimento desta últi-
ma. Tomemos o caso do fragmento a seguir:
A-05.
“[...] if we love english, the community name should be in english...”
Nesse fragmento, o sujeito imputa um dever introduzido por
uma condicional (if clause) aos seus companheiros de comunida-
de. Por meio da condicional if o sujeito coloca em questionamento
a própria postura de “amor” pela LI que declaram ter aqueles,
que ao seu lado, constituem a comunidade “Eu amo inglês”. Se o
nome da comunidade não for substituído por um em língua inglesa
7
Fazemos aqui alusão ao título de redação, que é parte do corpus analisado por
Carmagnani (2003).
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Se(r)ver entre línguas
117
e, portanto, em consonância com a postura de alguém que, de
fato, ama a LI, a própria comunidade corre o risco de perder nos
quesitos legitimidade e coerência.
Pode-se depreender desses enunciados um tipo de movimen-
to do sujeito entre línguas, no sentido do apagamento dos confli-
tos que se dão na relação com a LM e a LI. Esse apagamento se
daria pelo total investimento na identidade que se constitui na e
pela LI em detrimento da identidade associada à LM; investimen-
to este que encontra no ciberespaço condições altamente propíci-
as, como já discutimos.
Em outras sequências discursivas, percebemos que alguns
sujeitos enunciam uma tentativa de conciliação entre a prescri-
ção pelo abandono da LM e os possíveis insucessos de seus
interlocutores (nunca o deles mesmos) na aplicação dessa “recei-
ta”. Embora reconheça diferentes formas e ritmos de aprendiza-
do, o sujeito que enuncia parece buscar circunscrever-se e
constituir sua identidade nos domínios das estratégias e normali-
dades dominantes nos discursos hegemônicos sobre o ensino de
línguas estrangeiras. No enunciado A-07, que dialoga com A-06,
temos alguns indícios dessa estratégia de filiação discursiva: A-
06 instaura um regime de normalidade, pelo uso da adversativa
“mas”, postulando que a forma recomendável de se ler um texto
em inglês é refutar a transposição daquilo que é lido para a LM.
Uma estratégia que escape a essa forma de abordar a leitura
constituir-se-ia, portanto, como algo fora da normalidade.
A-06.
“[...] Já estudo inglês há alguns anos, e algumas pessoas sempre me
aconselham a não traduzir o texto enquanto o leio. Eu tento fazer
isso, mas nunca consigo, as palavras em português sempre me
vêem a cabeça quando leio alguma coisa em inglês.”
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A-07.
“[...] é só uma questão de tempo se acostumar a não traduzir, mas
no meu caso foi tão rápido [...]”
A ideia de estar o efetivo aprendizado de uma língua ligado
ao ato de “se acostumar” nos remonta ainda a elementos do dis-
curso behaviorista ainda muito em voga no contexto brasileiro.
(UCHÔA-FERNANDES, 2004) Assim sendo, a língua seria um há-
bito adquirido, sobre o qual se poderia exercer o domínio, modificá-
lo, re-educá-lo de modo calculado e consciente.
O imaginário em torno da possibilidade de aquisição da LE
por meio do treinamento, de aspectos essencialmente orais da
língua, como se a mesma fora uma hábito a ser adquirido, forne-
ce as bases que reforçam a ilusão da aquisição do padrão de
fluência do tipo native-like speaker. Para tal, um misto de passi-
vidade (para sujeitar-se ao treinamento) e paciência (para o apa-
recimento de resultados ao longo do tempo) é prescrito. Como
recompensa, a realização do ato de falar inglês como se o sujeito
“fosse realmente um americano”, de acordo com a promessa que
fica implícita em A-08.
A-08.
“[...]na metodologia da escola q eu estudo [...] isso eh totalmente
errado, pq a pessoa tem q aprender a pensar em ingles. Dessa for-
ma, ela irá entender a frase, e naum traduzir... como se vc fosse
realmente um americano[...]”
Essa forma comparativa “como se vc fosse” novamente su-
gere semelhanças entre o desejo do padrão de proficiência e algu-
mas características do avatar. Da mesma forma que aqueles que
atingem determinado padrão linguístico não são, mas são consi-
derados “como se fossem” realmente falantes nativos de LI, as
pessoas que interagem por meio de um avatar na rede social não
são seus avatares, no sentido de que não haver equivalência ex-
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Se(r)ver entre línguas
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plícita do avatar no mundo “real”, mas relacionam-se e se consti-
tuem naquela mídia “como se fossem”.
Estabelecendo links
Os enunciados sobre as línguas (materna e estrangeira) com
os quais nos deparamos, bem como as representações que deles
advêm apresentam-se em uma modalidade que parece ser típica
desse meio singular de produção textual, que é o Orkut, o que
reforça nossa hipótese de que o efeito de liberdade que perpassa
essa rede social pode produzir deslocamentos nos modos de di-
zer, que dão vazão a representações e modos de enunciar, de ser
e de (se) ver (n)a interação com o outro que não se encontram (ou
são raros) em outros meios.
Acreditamos que saber mais sobre como esses sujeitos (se)
veem (em) sua relação com as línguas e refletir sobre suas expec-
tativas e tabus pode ser um exercício valioso para nossa própria
reflexão sobre o saber (em) língua estrangeira e como nós (Edu-
cadores, alunos, administradores escolares, pesquisadores, etc.)
temos abordado o tema em nossa trajetória.
As analogias que pudemos estabelecer entre o processo de
construção do avatar e o aprendizado de uma língua estrangeira
sugerem que esta ainda é tratada, na maioria dos casos, de um
ponto de vista etnocêntrico que estabelece alto status à LI em
detrimento da LM. A necessidade de uma prática que integre LM,
LI e suas respectivas histórias e culturas, sem a exclusão ou
depreciação de uma em favor da outra, embora postulada já há
algum tempo por linguistas aplicados, ainda parece encontrar
formas robustas e abundantes de resistência no contexto brasilei-
ro de ensino de LI.
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www.orkut.com, comunidades:
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(http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=674400)
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A VIVÊNCIA DO ORKUT NO
ESPAÇO PÚBLICO: tabuleiro
digital
Joseilda de Souza Sampaio (UFBA)
Maria Helena Silveira Bonilla (UFBA)
O Tabuleiro Digital é um projeto que se desenvolve dentro do
espaço da Faculdade de Educação da Universidade Federal da
Bahia (FACED/UFBA), e constitui-se para favorecer a uni-
versalização do acesso à tecnologia da informação, através de
terminais de acesso público e livre a computadores conectados à
internet, objetivando, assim, a leitura/escrita de e-mails, navega-
ção em sites da internet e comunicação instantânea em salas de
bate-papo. Para o coordenador do projeto, professor Nelson Pretto,
essa é uma forma de minimizar a exclusão digital, já que vive-
mos em um mundo tomado pelas tecnologias da informação, e
“[...] acaba à margem do desenvolvimento social aquele que não
tem a oportunidade de aprender a lidar com elas. Logo, a questão
deixa de ser técnica e passa a ser social”. (NO TABULEIRO..., 2004)
O projeto Tabuleiro Digital procura atender uma parcela da
população que não tem acesso às TIC, e, a partir disso, oferecer
aos “[...] jovens das camadas mais pobres aquilo que os filhos
dos ricos têm em casa”. (PRETTO, 2003, p. 50) Em outras pala-
vras, com o projeto tenta-se romper com o reducionismo de que
para promover inclusão digital é preciso apenas oferecer acesso
associado a “aulas de planilhas eletrônicas ou processamento de
texto.” (PRETTO, 2006, p. 16) É notório que estas iniciativas não
contribuem para a imersão dos jovens na cultura digital, pois,
além do uso exclusivo de um determinado tipo de software, as
limitações do acesso, com os inúmeros “cuidados e proibições”
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utilizados, especialmente nos laboratórios de informática das es-
colas, terminam direcionando a exploração, bloqueando a liber-
dade e impossibilitando a vivência plena da cibercultura. Segundo
Pretto (2006, p. 16), nessa lógica corremos o risco de aumentar o
fosso entre pobres e ricos, já que
[...] os jovens que possuem acesso individualizado em casa – mui-
tas vezes em banda larga – interagem plenamente com a cibercultura
vivendo, em seus quartos fechados, todas as possibilidades, da
cópia e manipulação de música (com os já famosos mp3 e ogg),
vídeo, bate-papo e sítios de toda natureza. Enquanto isso, aos
filhos dos pobres...aula de informática!!!
À busca de fugir dessas práticas, muitos jovens procuram
outras alternativas para terem liberdade de acesso e, assim, interagir
de acordo com suas necessidades. Daí, quando encontram os espa-
ços livres para acesso – os centros ou projetos de inclusão digital –
sentem-se mais instigados a estar ali, participando do sistema de
comunicação contemporâneo: rápido, instantâneo, global e
colaborativo. E todo jovem busca essa possibilidade, seja ele rico
ou pobre. Em função disso, torna-se necessário destacar a impor-
tância da aproximação entre esses dois mundos – a escola e os
projetos de inclusão digital. Pretto (2008), em entrevista à revista
ARede, ressalta essa necessidade, principalmente para que não se
estabeleça um conflito entre ambos. E complementa afirmando que
os conflitos se estabelecem porque
[...] os projetos são divertidos, ao se apoiarem nas tecnologias que
permitem interatividade e estimulam a criatividade, enquanto a
escola é chata. A formação nos projetos é mais flexível, enquanto a
da escola é mais rígida. E a criança e o jovem precisa de tudo isso,
do formal e do informal, do rígido e do flexível. (PRETTO, 2008, p.
46)
Entendemos que, apesar de muitas escolas já estarem com
seus laboratórios de informática conectados à internet, sua utili-
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zação (quando assim o fazem) é basicamente para navegação e
captação de informação ou para limitar a ensinar a utilização de
alguns softwares. Ou seja,
[...] as práticas pedagógicas utilizadas na escola não estão conse-
guindo envolver as características dos alunos, nem das tecnologias,
nem das linguagens contemporâneas. Continuam sendo as mesmas
práticas do ambiente e do contexto onde os avós, pais e professores
se constituíram. (BONILLA, 2005, p. 88)
O que se percebe, portanto, nesse contexto, é que falta sintonia
entre aquilo que os jovens desejam encontrar na escola e aquilo
que a escola vem oferecendo. Além disso, Tapscott (1999, p. 253)
afirma que equipar as escolas com computadores e conectá-las a
internet é necessário, mas insuficiente para garantir iguais opor-
tunidades de compartilhamento. Os jovens precisam estar imersos
nessa cultura e interagir com professores que saibam articular
as múltiplas possibilidades presentes na rede. No entanto, a prá-
tica de muitos professores que utilizam a rede é solicitar aos
alunos uma pesquisa sobre determinado tema. Entendemos ser
essa prática uma subutilização das tecnologias, pois essa forma
de uso não permite trabalhar e explorar todas as potencialidades
e possibilidades que emergem no universo da cibercultura. Isso é
decorrente do fato de que muitos professores não se constituíram
e nem estão inseridos no contexto das tecnologias digitais, o que
faz com que “[...] percebam uma página web como um objeto
estático, servindo apenas para transmitir informações”. (BONILLA,
2005, p. 101)
Dessa forma, entendemos que a maneira como são trabalha-
das e exploradas as tecnologias, seja nas escolas, seja em alguns
espaços de acesso público, faz com que os jovens se afastem ou
se aproximem da cultura digital. Quando encontram as “proibi-
ções” e não conseguem acessar os sites de seu interesse, com os
quais se identificam, se afastam. Tais bloqueios e proibições do
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acesso a determinados sites ou assuntos expressam uma concep-
ção de que o jovem é um mero consumidor, uma esponja que
assimila tudo o que acessa, e em virtude disso fica exposto e
sujeito a ser vítima dos mais variados crimes cibernéticos. O que
buscamos é romper com essa lógica de proibição, considerando
principalmente que é necessário dar “[...] oportunidade para que
os jovens construam uma visão crítica sobre os fatos e sintam-se
mais seguros para vivenciá-los”. (BONILLA, 2005, p. 83)
Para tanto, o projeto Tabuleiro Digital foi viabilizado com o
intuito de “incluir a FACED/UFBA nesse universo tecnológico para,
com isso, possibilitar aos futuros professores e professoras uma
maior intimidade com a internet e os recursos das TIC”. (PRETTO,
2005a, p. 19) O projeto foi implementado em 23 de janeiro de
2004, e o nome foi inspirado nos vários tabuleiros de acarajé que
estão espalhados na Bahia. Da mesma forma como encontramos
no tabuleiro uma diversidade de produtos e a baiana do acarajé é
simbolizada como um ponto de informação, de forma analógica,
o projeto representa o acesso à diversidade de informações e co-
nhecimentos que poderão ser adquiridos através da internet. Nel-
son Pretto diz que “[...] a internet deve ser encarada como algo
presente, que faça parte da vida diária de todos” (NO TABULEI-
RO..., 2004), ou seja, não deve ser encarada como algo de um
futuro distante, e sim que deve estar presente em cada esquina,
tal como o tabuleiro da baiana.
Assim, o Tabuleiro enfatiza o empenho em tornar o uso da
rede algo cotidiano, corriqueiro, em aproximá-la das pessoas,
disponibilizando as máquinas nos saguões da Faculdade, de for-
ma que não seja necessário procurar pelo acesso, como acontece
quando as máquinas estão fechadas em um laboratório; ele é
oferecido, tão logo se acesse o espaço físico da Unidade. O não
uso da lógica dos laboratórios, como defende Nelson Pretto, sig-
nifica que a intenção do projeto não é “[...] pedagogizar o uso da
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A vivência do Orkut no espaço público
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internet, tal como acontece nos laboratórios de informática pre-
sentes nas unidades da UFBA”. (NO TABULEIRO..., 2004) Nestes, o
uso é restrito à utilização dos computadores para aulas, traba-
lhos e pesquisa, e, principalmente, tem como regra as inúmeras
proibições (proíbe-se acessar sala de bate-papo, MSN, Orkut, sites
considerados inadequados aos jovens). O Tabuleiro Digital busca
romper com essas ideias e, por isso, foi instalado nas áreas de
circulação da Faced, sem qualquer tipo de bloqueio ou
monitoramento.
O projeto disponibiliza 20 computadores distribuídos nas
áreas de circulação dos três andares da faculdade, dispostos de
duas em duas ilhas (quatro computadores em cada ilha) nos dois
primeiros andares e mais quatro computadores no terceiro andar.
As máquinas são organizadas em suportes que lembram os tabu-
leiros da baiana de acarajé. A estrutura dos móveis do projeto foi
desenvolvida pelo arquiteto Eduardo Rosseti, e foi pensado como
um suporte para computadores que articula a lógica estrutural
com a simplicidade funcional. O Tabuleiro Digital “[...] é reto,
sem encostos, sem almofadas, projetado para uso rápido e ágil
como o do tempo de comer um bom acarajé.” (PRETTO, 2005b, p.
352) Através de uma estrutura leve, de madeira, e formada por
quatro pés em forma de X, travados por um plano horizontal que
se encaixa sobre ela, sua simplicidade funcional se presta ao
mesmo propósito do tabuleiro da baiana, “[...] abrigar coisas sobre
si, conter objetos, e ser a estrutura de apoio de uma função pri-
mordial”. (PRETTO, 2005b, p. 352), neste caso, o acesso ao mun-
do digital. Também, ele foi pensado de forma a romper com a
ideia das tradicionais linhas futuristas de móveis, em aço esco-
vado, os conhecidos totens, que apresentam um design sofistica-
do, fixando no imaginário das pessoas a ideia de que tecnologia
é algo de um futuro distante, e que possivelmente estaria distante
do sujeito comum.
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O objetivo inicial do projeto Tabuleiro Digital era criar mais
um espaço de socialização para a comunidade universitária, pro-
fessores, alunos e funcionários, totalmente desvinculado da sala
de aula ou de qualquer disciplina. Como os saguões são espaços
por onde os alunos transitam entre uma aula e outra, ou onde
param para conversar, podem também acessar a internet para
bater um papo com outros, localizados em outros espaços-tem-
pos, via e-mail ou chat, fazer uma postagem no blog, navegar
pelos labirintos da grande rede, articular-se em grupos ou comu-
nidades. Com isso, se estabelece
[...] um ambiente global muito mais favorável às organizações em
rede do que para as organizações verticais de comando, implican-
do, claro está, que, para a sua viabilização, precisamos considerar
a democratização do acesso à internet como peça chave para que a
população possa ter a possibilidade de organizar-se de modo hori-
zontal. Nesse sentido, são de fundamental importância políticas
públicas que garantam esse acesso, entendendo-o como urgente, o
que implica pensarmos em soluções coletivas e públicas, e não
apenas no caso individualizado nas residências. (PRETTO; PINTO,
2006, p. 20)
Ou seja, no contexto contemporâneo, torna-se essencial es-
tar imerso na conectividade da grande rede, uma vez que ela está
relacionada a quase todos os aspectos da vida cotidiana, incluin-
do nisso a educação, a participação política, os assuntos comu-
nitários, a produção cultural, o entretenimento, a interação
pessoal, entre outros. Para Warschauer (2006, p. 51), as TIC vêm
viabilizando novas estruturas organizacionais de participação
social, desde sala de bate-papo entre adolescentes, passando por
serviços de encontro entre pessoas on-line e sites de ação política,
até o aprendizado a distância pela internet. No entanto, vale des-
tacar que esta não é uma realidade usufruída por todos; o que se
percebe é que um grande contingente populacional encontra-se
sem possibilidade de acesso à tecnologia. No Brasil, apenas 18%
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das residências possuem acesso à internet. Isso aponta a impor-
tância ainda maior de centros de acessos coletivos, como
telecentros comunitários, redes de computadores em escolas e
bibliotecas públicas, entre outros.
Tal necessidade pode ser percebida em torno das dinâmicas
do Tabuleiro. No mesmo ano que o projeto foi implementado na
Faced, ocorreu uma greve estudantil na UFBA, afastando os alu-
nos da Unidade por quatro meses (de 17 de julho a 7 de novembro
de 2004). Foi justamente nesta ocasião que a comunidade não-
acadêmica (alunos das escolas públicas das redondezas do Vale
do Canela, moradores de bairros próximos, entre outros) passa-
ram também a ocupar esse espaço, estabelecer uma outra dinâ-
mica no projeto, e, consequentemente, uma alteração na rotina
da Faculdade de Educação. A Faced não mais seria um lugar de
“aulas”; havia um outro motivo para estar presente no espaço
universitário, o de poder imergir no universo da cibercultura.
Muda também a rotina do ambiente escolar da Faced, normal-
mente fechado, dentro da grade curricular, com horários prede-
terminados, pois, se os tabuleiros estiverem abertos, em período
de férias, à noite, final de semana, sempre encontraremos alguém
utilizando. Ou seja, nos saguões da Faced, onde inexistia um flu-
xo constante, após a implantação do projeto, passou a existir um
movimento significativo e ininterrupto. E essa ocupação é carre-
gada de intencionalidade; percebemos que ela busca propiciar às
pessoas a aproximação das tecnologias, simplesmente pelo fato
de estarem ali, dadas, expostas, de modo que possa instigar o
desejo de usar, descobrir, aprender, de forma aberta, livre.
A liberdade é uma das características do projeto. Baseado
na lógica da REDE, no compartilhamento de informação, busca o
acesso pleno ao mundo da comunicação e da informação. Para
tanto, a adoção do Software Livre, como opção tecnológica e como
princípio filosófico, foi a escolha natural, pois este tipo de
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software, ao oferecer o acesso ao código-fonte, permite o aprimo-
ramento e adaptação do sistema. Através da inter-relação criada
entre o Tabuleiro Digital e os princípios que definem o Software
Livre foi possível adaptar soluções já existentes, e criar o Debian
GNU/Linux Kurumim. Esta solução simplifica a manutenção dos
equipamentos e facilita seu funcionamento sem maiores inter-
rupções e sem a necessidade de suporte constante. Por conta dis-
so, foi possível instituir uma dinâmica que dispensa a presença
de monitores que controlam e fiscalizam os processos a partir de
regras rígidas, como somos acostumados a vivenciar nos tradici-
onais laboratórios de informática. No Tabuleiro Digital, o papel
da monitoria é outro. Os monitores desenvolvem um trabalho de
orientação e conscientização para que os usuários cedam lugar a
outro, tão logo tenha vencido o tempo recomendado (e não im-
posto!) de uso, que é de uma hora, e para que evitem acessar
conteúdos considerados inadequados em um espaço público, tais
como sites de pornografia. Ou seja, a autoorganização da comu-
nidade é o princípio básico do projeto. Pretto, em entrevista à
revista ARede, explica que o objetivo era que “[...] os próprios
usuários se organizassem num acesso democrático, e, dessa for-
ma, os Tabuleiros continuariam pertencendo a todos e a ninguém
simultaneamente”. (PRETTO apud ALVES, 2005)
A ideia é estabelecer campanhas de cidadania, de forma que
os usuários compreendam que num espaço público todos têm os
mesmos direitos, e, portanto, que a responsabilidade sobre o uso
também é de todos; principalmente, que os usuários compreen-
dam que os Tabuleiros estão instituídos em um espaço de educa-
ção. Nesse sentido, a concepção de inclusão para os idealizadores
do projeto passa pela necessidade de desenvolvimento da
conscientização de cada usuário quanto aos seus direitos e deve-
res na utilização de um bem público. Realizar inclusão digital
requer que aqueles que estão envolvidos no processo possam
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A vivência do Orkut no espaço público
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refletir sobre a democratização do uso desses equipamentos para
a comunidade. Para compreendermos melhor a lógica de funcio-
nalidade do projeto, podemos associar o Tabuleiro aos espaços
urbanos à disposição do público, tais como o banco de praça, o
ponto de ônibus, a areia da praia, espaços em que cada um dos
usuários administra o seu uso. Portanto, o funcionamento do
Tabuleiro rompe com a ideia de proibições, ou até mesmo qual-
quer tipo de controle ou supervisão por parte de professores ou
funcionários da instituição. Este é um ponto de encontro para
quem quiser usar a internet, e para o fim que desejar.
Dinâmicas entre Orkut e tabuleiro
No Tabuleiro Digital, cada usuário utiliza os computadores
livremente, podendo acessar inclusive os tão largamente proibi-
dos e bloqueados jogos, salas de bate-papo, sites de relaciona-
mentos, ou seja, no Tabuleiro, cada um pode vivenciar plenamente
a cultura digital. Considerando que as tecnologias da informação
e comunicação e as potencialidades que emergem na grande rede
internet vêm unificando as possibilidades de transmissão em tex-
to, vídeo, áudio, e permitem aos usuários, em rede, se comunica-
rem, expressarem ideias, produzirem conteúdos utilizando as mais
diversas linguagens, a internet passa a ser vista como um grande
espaço de debate público, de construção coletiva de conhecimen-
to, assim como um espaço de cidadania. No universo da
cibercultura encontramos “[...] estudantes e pesquisadores do
mundo inteiro trocando ideias, artigos, imagens, experiências”
(LÉVY, 1999, p. 29), de acordo com seus interesses e necessida-
des. Contextos como os canais de bate-papo, as redes de sociabi-
lidade como o Orkut, MySpace, entre outros, vêm transformando
“[...] a tela de qualquer computador em uma janela sempre aber-
ta e ‘ligada’ a dezenas de pessoas ao mesmo tempo”. (SIBILIA,
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2008, p. 12) Os jovens do mundo inteiro frequentam e “criam”
espaços semelhantes.
O papel que a internet vem ocupando e os reflexos de suas
apropriações na comunicação interpessoal têm sido objeto de cons-
tante discussão em diversos segmentos da sociedade brasileira.
Especialmente, o acesso e os usos feitos da rede de relacionamen-
to Orkut provoca tensões, preocupações e interesses, uma vez
que esse ambiente difundiu-se largamente no Brasil. Hoje, 70%
dos usuários de internet no Brasil utilizam o Orkut, e isso repre-
senta cerca de “24 milhões de usuários desta nacionalidade”
(SIBILIA, 2008, p. 12), mais da metade de usuários Orkut do mundo
todo.
No Tabuleiro Digital, o uso desse ambiente também se des-
taca, juntamente com o acesso a jogos. Como os usuários são
livres para acessá-los, nos deparamos com uma realidade que
tem gerado tensões, pela falta de compreensão dos universitários
de que a escolha de “uso” do outro (seja para jogos, acesso a sites
de relacionamento, ou qualquer outro site) é tão importante para
ele, quanto a sua necessidade particular de usufruir daquele es-
paço para realizar seus trabalhos acadêmicos, ou para qualquer
outra finalidade que julguem estritamente “educativa”. São co-
muns situações como esta, relatada por um universitário entre-
vistado:
Estudantes daqui da Faculdade que chegam para esses meninos e
dizem: você não pode jogar porque eu tenho que fazer meu traba-
lho! Eu tenho que verificar meus e-mails, que a professora mandou
material de trabalho e tal, e você está aqui apenas jogando! Você
está aqui no MSN, no bate-papo ou no Orkut! (Estudante, 2007)
Muitos universitários não conseguem compreender que jo-
gar, navegar livremente, bater papo, participar do Orkut fazem
parte da cultura contemporânea e que, por isso mesmo, necessi-
tam ser incorporados aos processos educacionais e de inclusão
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A vivência do Orkut no espaço público
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digital. Entendemos que o Tabuleiro Digital não é apenas um lu-
gar destinado à realização de trabalhos acadêmicos; pode ser isso
e mais outras tantas possibilidades, pois as diversas formas de
utilização dos equipamentos pelos usuários abrem possibilida-
des promissoras, tanto para aprendizagem, quanto para o lazer,
as trocas e os contatos com o mundo. Numa Universidade públi-
ca, as experiências não podem ser excludentes – ou trabalhos
acadêmicos ou cultura digital – pois elas se complementam, se
interpenetram, se potencializam, fazendo emergir “o novo, o com-
plexo, o impensado”. (BONILLA, 2005, p. 157) Esse novo deve ser
tratado como potencialidade para uma educação mais significa-
tiva, e não como algo negativo que precisa ser combatido, ani-
quilado.
O Tabuleiro Digital está instalado em uma escola, a Facul-
dade de Educação da UFBA, com uma finalidade educacional,
mas não um educacional em sentido restrito, de apenas permitir
o acesso para a construção de trabalhos escolares; ao contrário
disso, um processo educacional em sentido amplo, que incorpora
a cultura, analógica e digital, a comunicação, a ética, a cidada-
nia na formação dos sujeitos. Portanto, é necessário considerar
essas tensões e potencialidades como elementos fundantes dos
processos de formação desses futuros professores, trazendo-as
para a pauta de discussão cotidiana da Faculdade, seja em mo-
mentos de aula, seja em seminários, seja ainda nas conversas
informais. Isto vem acontecendo, mas não se esgota jamais, visto
que a cada semestre uma nova turma de alunos ingressa no ensi-
no superior e há necessidade de fazer novamente todo o trabalho
de esclarecimento, conscientização, formação para a vivência da
liberdade, do compartilhamento, do público.
Outro elemento que necessita ser incorporado aos processos
de formação dos professores está relacionado às características
dos jovens contemporâneos. Eles querem, cada vez mais, “parti-
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cipar, questionar, desafiar e discordar” (BONILLA, 2005, p. 73),
ser parte integrante desse processo. Em geral, os jovens relacio-
nam-se e gostam mais das tecnologias digitais do que das
analógicas. Constituem uma geração que nasceu e está crescen-
do cercada pelas tecnologias digitais. Mesmo aqueles que não
têm acesso ao computador ou à internet, têm certa fluência no
meio digital, pois a grande maioria deles tem experiência com
vídeo games, celulares, muitos dos ambientes que frequentam
estão informatizados. Segundo Tapscott (1999, p. 37), para os
jovens, o “visível” da tecnologia não é o recurso em si, e sim o
que podem fazer com ele, ou seja, os jovens veem informações,
jogos, aplicações, serviços e amigos. Eles não falam em
tecnologia, falam em brincar, em construir um site, em se comu-
nicar com os amigos, em namorar. Nesse sentido, a tecnologia é
completamente transparente para eles. E é em virtude disso que
os jovens não necessitam de “aulas de informática”. Eles “[...]
sentem-se confortáveis interagindo com essas tecnologias, vão
aprendendo e descobrindo como funciona à medida que essa
interação acontece, à medida que brincam, comunicam-se, traba-
lham e criam”. (BONILLA, 2005, p. 85)
Os jovens que frequentam o Tabuleiro Digital demonstram
essas habilidades e características. Uma de suas práticas mais
recorrentes é a inserção no Orkut. Participando, interagindo e
vivenciando o movimento de suas comunidades, estes jovens es-
tabelecem e mantêm laços sociais e constroem alternativas espa-
ços-temporais para a vivência em sociedade. Ao buscar se
comunicar por meio de sites de relacionamentos, estabelecem uma
prática simbólica que habilita sua identidade “jovem-urbano-
conectado” (BUZATO, 2007), posicionando-o como construtor de
sua sociabilidade e de suas relações, num espaço-tempo total-
mente diferente daquele de muitos professores e pais. Portanto, o
Orkut é um ambiente propício ao “[...] letramento digital vincula-
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A vivência do Orkut no espaço público
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do não só à manutenção de redes sociais, mas a um certo tipo de
construção identitária”. (BUZATO, 2007, p. 229)
Nessa construção de identidades, cada um, a seu modo, vai
explorando as próprias potencialidades, construindo percursos,
constituindo-se enquanto sujeito social. Nesse processo de explo-
ração de si mesmo e do outro, esses jovens expressam-se, dialo-
gam, desenvolvem habilidades, constroem conhecimentos, passam
por um processo de aprendizagem, mesmo que não intencional.
Um professor universitário tenta se aproximar dessa perspectiva,
afirmando que, ao estarem imersos na rede, nos sites de relacio-
namentos, esses jovens
[...] estão desenvolvendo habilidades, se ele está digitando com
alguém que tem um português melhor que o dele, provavelmente ele
deve estar aprendendo, ele deve estar conversando, a conversa tal-
vez possa alargar o horizonte dele, melhorar o vocabulário ou algu-
ma coisa assim. (Professor, 2007)
Como a linguagem mais utilizada no ambiente é a escrita,
variantes da língua padrão vão sendo criadas e instituídas, da
mesma forma como acontece em outros ambientes, tais como
blogs e salas de bate-papo. Daí, o aparecimento do internetês, do
orkutês, do bloguês como resposta à velocidade do fluxo
comunicacional do meio e como expressão de criatividade e in-
venção de cada internauta. Em meio a essa velocidade alucinante,
torna-se fundamental desenvolver habilidades de escrita e de lei-
tura também muito velozes, daí a necessidade de abreviar pala-
vras, utilizar símbolos, emoticons, como recursos para expressar
sentidos, para narrar e descrever. Aceleram-se também os proces-
sos de aprendizagem, em rede, em comunidades de interesse, onde
uns aprendem com os outros, de forma natural e horizontal, uma
vez que todos estão articulados em torno de um objetivo comum.
Essa articulação pode ser percebida nas dinâmicas vividas
pelos jovens em torno do Tabuleiro Digital. Eles se juntam,
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presencial e virtualmente, ocupando o espaço, tanto para jogar,
quanto para acessar o Orkut. Um auxilia o outro, ora aglomeran-
do-se em torno de um computador, ora posicionando-se cada um
em uma máquina, articulados em rede, mas dialogando
presencialmente sobre as atividades que estão desenvolvendo.
Apesar de todo esse movimento expressar claramente dinâmicas
de aprendizagem, muitos estudantes da universidade continuam
percebendo-o como uma prática que não contribui para a forma-
ção desses jovens.
A gente acaba percebendo que quem utiliza o tabuleiro, utiliza mais
sites de entretenimento. Então o que era para ser uma inclusão
digital acaba sendo, de certa forma, uma exclusão. Porque quem é
de fora e usa o tabuleiro apenas para acessar site como “orkut”,
entra e não acrescenta! Não sai daqui com um conteúdo a mais! E
quem quer usar para o meio acadêmico, para fazer uma pesquisa,
acaba não conseguindo. Eu uso o tabuleiro digital, faço pesquisas
no tabuleiro digital, uso sites de relacionamentos, mas eu vejo que
a freqüência aqui no tabuleiro é apenas para isso! (Estudante, 2007)
Relatos como este exige de nós um pouco de atenção. Que
professores estamos formando? Ainda está presente aqui a ideia
de que a aprendizagem está intimamente, e apenas, ligada aos
conteúdos programáticos previstos nas grades curriculares de cada
curso. A cultura contemporânea, fortemente embasada nos ambi-
entes digitais, e ainda distante de muitos professores universitá-
rios, já é uma realidade vivenciada pela maioria dos universitários,
mas estes não conseguem estabelecer relação entre ela e a educa-
ção. A dicotomia entre educação e lazer ainda está presente nas
concepções desses alunos, futuros professores. Daí a simplifica-
ção feita ao conceito de educação, e a rejeição de tudo aquilo que
não esteja enquadrado nos cânones escolares, onde as relações
são verticalizadas e todas as ações pedagógicas devem ser exe-
cutadas em função da determinação de um sujeito que detém o
conhecimento: o professor.
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A vivência do Orkut no espaço público
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Então, quando as relações que se apresentam são
horizontalizadas, sem a presença de um “detentor da verdade”,
sem a necessidade de um processo de avaliação quantitativo e
seletivo, esse processo é considerado “menor”, sem valor educa-
cional. No entanto, nessas dinâmicas institui-se uma “fonte
humanizada de aprendizagem a partir do momento em que os
cidadãos se reúnem em torno do computador e, solidariamente,
ajudam uns ao outros” (GUERREIRO, 2006, p. 193), ou seja, en-
tendemos que nessas dinâmicas emergem redes sociais, agilizadas
e otimizadas, disponibilizadas de acordo com o interesse de cada
pessoa, prenhes de potencialidades.
Até que ponto o trabalho ou atividade acadêmica que o aluno
universitário quer realizar é mais importante que o jogo ou a troca
que os jovens estão estabelecendo no Orkut? Entendemos que esses
jovens, ao estarem imersos na cultura digital, estabelecendo rela-
ções horizontais, estão criando e estabelecendo estratégias de apren-
dizagens, ou seja, é possível que os jovens, nesses ambientes estejam
aprendendo mais, porque de forma prazerosa, de acordo com seus
interesses e com o contexto contemporâneo, do que aqueles que
buscam os Tabuleiros para realizar suas famosas “pesquisas”, às
vezes meramente técnicas, numa perspectiva de consumo de infor-
mações e não produção de conhecimento e cultura.
Além disso, é necessário considerar que o Tabuleiro Digital
é um espaço público, e que atender o desejo dos universitários,
dando-lhes prioridade de uso das máquinas para a realização de
seus trabalhos acadêmicos, implicaria a privatização do espaço
público, deixando de fora todos os não universitários. Estes jo-
vens buscam o Tabuleiro Digital porque esta é uma das poucas
oportunidades que têm de estar conectados em rede, de forma
livre e gratuita – apenas 1% da população brasileira acessa a
internet a partir de espaços públicos gratuitos – em um espaço
protegido. Em diálogos estabelecidos com estes jovens, alguns
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
138
relatam que abandonaram a escola porque estavam “jurados de
morte” por outros colegas ou pessoas das comunidades vizinhas
à escola. Então, na Faculdade de Educação, sentem-se seguros,
protegidos. Esses jovens, oriundos das classes populares, não
dispõem de computador e conexão à internet em suas residênci-
as, mesmo que os índices de acesso no país venham crescendo
consideravelmente – em 2005, 12,93% dos domicílios brasileiros
possuíam acesso à internet; hoje são 18%. Paula Sibilia (2008)
também aponta que os números de acesso têm crescido e já repre-
sentam uma quinta parte da população nacional com mais de 15
anos de idade. No entanto, convém explicitar também que esse
crescimento berra em surdina, pois são “[...] 120 milhões os bra-
sileiros que (ainda?) não têm nenhum tipo de acesso à rede”.
(SIBILIA, 2008, p. 24) Logo, esses dados nos apontam o óbvio,
que a maioria da população brasileira não tem acesso à internet,
portanto, é inconcebível mantermos de fora aqueles que têm bus-
cado alternativas para se manter conectados.
Estar imersos nessas dinâmicas contemporâneas, constitu-
indo-se com elas e a partir delas, interagindo, produzindo, crian-
do, seja a partir das comunidades do Orkut, ou de qualquer outro
ambiente, é o que propõe o Projeto Tabuleiro Digital. Para os jo-
vens contemporâneos, as novas formas de ser e estar passam
pela articulação em rede, pela colaboração, por processos hori-
zontais que oportunizam um fluxo contínuo de comunicação,
aprendizagem, produção de conhecimento e cultura. E uma das
funções da Universidade é oferecer aos jovens essa possibilidade.
É essa a proposta do Tabuleiro Digital na Faced!
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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2006.
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141
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A RELAÇÃO DE FASCÍNIO PELO
ORKUT: retrato da
hipermodernidade líquida,
espetacular e narcísica
Rosângela de Araujo Medeiros
1
Escola Municipal de Ensino Fundamental João XXIII
Este é um texto no qual compartilho parte do estudo que
resultou na dissertação de mestrado, defendida em 2008, intitulada
A relação de fascínio de um grupo de adolescentes pelo Orkut:
um retrato da modernidade líquida
2
". Busquei resgatar o trajeto
da pesquisa e apresentar a construção analítica em torno do obje-
to investigado. Por conta do caráter deste escrito muitas questões
teóricas e metodológicas não foram contempladas aqui. Concen-
trei-me nas explicações sobre as relações de fascínio construídas
e por teóricos e vividas adolescentes no Orkut.
Como nasceu a pesquisa ou como o
fascínio tornou-se objeto
Vivemos em um mundo digital. Vivemos? Quem vive e usu-
frui deste mundo? É uma pergunta que sempre circundou meus
horizontes, principalmente quando me tornei Professora
Orientadora de Informática Educativa (POIE) da rede de ensino
municipal de São Paulo e passei a refletir mais sobre o famoso
jargão ‘igualdade social’ e, por conseguinte, a igualdade digital.
E me perguntava em que medida os alunos da periferia da
1
Mestra em Educação e Tecnologia Digital pela Universidade de São Paulo.
2
Orientada pela Profª Drª Vani Moreira Kenski, na Faculdade de Educação da
USP.
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142
metrópole paulista efetivamente usufruíam o mundo digital, além
daquele espaço.
As turmas iam à sala de informática semanalmente, acom-
panhadas dos seus respectivos professores que, juntos comigo,
organizavam ações e projetos interligados ao trabalho e ao con-
teúdo desenvolvido em sala de aula. Era um acesso de qualida-
de, penso. Acesso ao uso, marcado por uma proposta pedagógica.
Todos tinham acesso a sites de pesquisa, de curiosidade, criação
de emails, de apresentações temáticas. Tinham acesso. Mas não
a tudo. Tínhamos normas. Uso de chats e salas de bate-papo só
se estivesse definido no projeto. Não era um uso livre. Era um
uso “educativo”, ou seja, ligado a um objetivo traçado na escola.
Embora não pudessem jogar como queriam, os alunos ti-
nham uma vontade enorme de estar na sala de informática. Era
um burburinho, uma emoção visível a qualquer olho e ouvido
que pela porta passasse. Almejavam entrar e reclamavam para
não sair no fim do horário de aula.
Mesmo quando mudanças de governo (e de política) acarre-
taram uma desconexão entre a sala de informática e a sala de
aula, dificultando muito a qualidade do trabalho e a parceria
entre as professoras dos dois espaços, o burburinho que se for-
mava na porta da sala de informática era sempre constante. Ago-
ra, retomando aquela experiência, de onde nasceu minha
indagações para iniciar uma pesquisa, penso que a única cons-
tância, que resistiu a mudanças nada positivas, foi aquele
burburinho dos alunos para adentrar o mundo digital.
Incomodava, de certa forma, aquela insistência e a ansieda-
de para acessar a internet. Por que aquele interesse intenso? Seria
fascínio? O que havia na internet que aguçava tanto o desejo de
acessá-la? Assim, este incômodo foi se tornando uma pergunta e
a inquietação em torno do fascínio continuou pulsante. Foi assim
que nasceu a pesquisa que relato aqui. Fascinavam-se por que,
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A relação de fascínio pelo Orkut
143
ou melhor, pelo que mesmo? Quais fatores sociais e/ou psíquicos
atuavam naquela relação? A hipótese inicial era de que a possí-
vel relação de fascínio ocorria pelas possibilidades de uso que o
computador oferecia, o que encaminhou os passos iniciais do
estudo.
Almejava entender a definição do que era o fascínio pelo
computador, analisando que agentes sociais, como a escola, pos-
sibilitavam esse fascínio. Mas, conforme relato a seguir, outras
questões surgiram e os caminhos foram sendo re- construídos.
Caminhos da pesquisa
O questionário
Era 2006. Tendo em vista a hipótese inicial, realizei um ques-
tionário simplificado, com 473 pré-adolescentes e adolescentes. O
questionário levantava informações sobre quais equipamentos
eletroeletrônicos tinham em suas residências, o que mais faziam
no computador e na internet, em quais espaços efetivavam esse
uso e se tinham e-mail, MSN e Orkut. Os participantes eram alu-
nos do segundo ciclo do Ensino Fundamental (com idade entre 10
e 16 anos, em média) da escola que eu trabalhava.
Abro um parêntese para dizer que não identifiquei neste fato
problemas que interferissem na coleta de dados. Ao contrário,
conhecer o espaço e os alunos facilitou a rapidez na aplicação do
questionário. Além disso, qual melhor lugar, se não a escola, de
alta concentração numérica de adolescentes, para realizar uma
pesquisa com esta faixa etária, escolhida para compor a amos-
tra, principalmente por ter facilidade em responder ao questioná-
rio. De antemão, explicitei meus principais critérios de escolha,
tanto da local quanto da faixa etária investigada.
Creio ser importante marcar que o questionário facilitou o
direcionamento do olhar na busca de um corpus teórico que
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
144
pudesse explicitar os fenômenos que se repetiam. Óbvio que isso
não foi feito solitariamente. O momento da banca de qualificação
foi imprescindível para situar os dados até então coletados e indi-
car um panorama teórico que foi se ampliando. Na verdade, tive
uma preocupação epistemológica, inspirada no trabalho de Lopes
(2003), para pensar e explicitar meu fazer científico, resgatando
autores que refletissem sobre a metodologia de pesquisa, até para
construir o questionário. Também para ter clareza das escolhas
que foram sendo feitas no decorrer do estudo.
É importante dizer que o questionário possibilitou a coleta
de dados cruciais para encaminhar o horizonte da pesquisa, tra-
zendo algumas surpresas. Digo surpresas, porque não esperava
(ou não estava no meu foco) algumas informações do grupo in-
vestigado. Quero compartilhar estas surpresas, inclusive para
mostrar efetivamente como o estudo foi sendo construído.
Os dados (surpresas)
Fazer um estudo implica ser direcionada por uma inquieta-
ção, baseando-se em hipóteses. A minha era aquela sobre o inte-
resse pelo computador como uma relação de fascínio, constituída
a partir de agentes sociais, incluindo a escola. Contudo, a reali-
dade é maior do que qualquer hipótese. Ainda bem, porque não
vi somente o que eu desconfiava. Vi mais. Apareceram outras
questões interpostas pela coleta de dados. Sobressaíram-se e foi
permitido enxergá-los. Minha orientadora, Vani Kenski, guiava
meu olhar e minha escuta para a amplitude daquele recorte. Foi
um processo de dar voz aos dados. Um simples questionário dis-
se muito daquele grupo de pré-adolescentes e adolescentes que
moravam na periferia da capital. Muitos em semirresidências, se
me permitem o neologismo. Alguns subsistiam. Digo isso porque
conhecia a comunidade. Aliás, também era moradora das imedi-
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A relação de fascínio pelo Orkut
145
ações. Estavam à beira do abismo social. E do abismo digital.
Isso não foi uma surpresa. Dos 473 adolescentes e pré-adolescen-
tes que participaram da primeira etapa da pesquisa, em 2006,
somente 28,2
3
% tinham o computador em suas residências. Em
contrapartida...
O uso e o acesso. Então, a primeira surpresa responde a
pergunta inicial deste texto. Sim, vivemos no mundo digital e à
revelia das diferenças de acesso. A periferia está nesse mundo.
Na beira do abismo, mas não dentro dele. Aquele grupo investi-
gado estava, ou buscava estar.
Os adolescentes atravessavam os mares da exclusão e bus-
cavam o acesso. De alguma forma, atropelavam dificuldades fi-
nanceiras (de não ter a máquina) e usavam o computador. Corriam
para o mundo virtual: 87% dos participantes do primeiro univer-
so buscava usar o computador em algum lugar. Óbvio que era
um uso muito restrito, mas não foi possível analisar a qualidade
do acesso naquele estudo. Difícil precisar quantas vezes
acessavam a internet por semana.
Na verdade, essa foi uma descoberta que não estava em
meus horizontes de pesquisa, nem foi o centro da análise, mas
acredito ser importante pontuá-la, principalmente para demons-
trar a existência de um interesse tão forte que o adolescente faz
malabares para ter acesso. Isso ficou bem claro nas entrevistas,
quando uma participante relatou que usou o dinheiro do pão
para acessar o Orkut em uma Lan house. Contudo, esta informa-
ção não pode esconder a realidade: mesmo com tanto interesse de
uso, o acesso financeiro ao computador ainda está longe de ser
democratizado.
3
Segundo a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD) 2006, essa
porcentagem aproximava-se do índice na região metropolitana de São Paulo,
que correspondia a 24%, enquanto que a média nacional era de aproximada-
mente 20%.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
146
O distanciamento da escola. Ao perguntar sobre os locais
de uso e os interesses que motivavam o acesso, a escola não foi
apontada de forma significativa, tampouco os índices sobre usos
pedagógicos foram relevantes. As respostas expressaram que os
adolescentes tinham interesses ligados às possibilidades da
internet, especialmente para diversão (jogos) e para comunicação
(Orkut).
Isso significou dizer que, mesmo nascida na Faculdade de
Educação da Universidade de São Paulo, com preocupações liga-
das à escola enquanto agente social, a pesquisa alçou outros
voos para outras fronteiras. Os rumos foram sendo reconstruídos
e foi sendo elaborado um caminho em que os dados tomaram
corpo e voz, expandindo-se para além dos muros escolares e en-
tão foi imprescindível buscar explicação sobre o contexto do uso,
buscando autores que discutissem a contemporaneidade.
Contudo, a principal mudança de foco, ou de como surgiu
um retrato não esperado, foi ver que o uso do computador mais
recorrente estava relacionado à internet (e não havia muita inter-
ferência nesse processo de agentes sociais como a escola). Desta
forma, sendo uma constatação muito ampla, foi necessário bus-
car mais informações para compreender o item/programa que
poderia ser desencadeador do interesse/fascínio. Os alunos do 5º
e 6º anos, mais novos (entre 10 e 12 anos) disseram preferir os
jogos, com o interesse na diversão. Já os alunos do 7º e 8º anos
indicaram o interesse pela comunicação, apontada pela busca do
Orkut. Dessa forma, elegi uma ferramenta da internet para cons-
truir um recorte na análise. Optei por focar este, buscando enten-
der os fatores psicossociais que contribuíam para a relação de
fascínio dos adolescentes pela internet e pelo próprio site.
Aqui é possível identificar a mudança de rumo na pes-
quisa, tanto no enfoque quanto na construção do quadro teórico
de referência. Assim, organizei a realização de entrevistas para
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A relação de fascínio pelo Orkut
147
alimentar a reflexão que estava se desenhando e sendo desenha-
da.
Outros desdobramentos empíricos: as
entrevistas
Como a análise dos questionários apontou uma incidência
razoável do uso do Orkut pelos alunos do 8º ano, foram os ado-
lescentes desse grupo que busquei contatar para as entrevistas
individuais, realizadas em 2007. O grupo que teve suas falas
analisadas totalizava dez adolescentes, seis meninas e quatro
meninos, que tinham entre 14 e 16 anos, cursando todos o pri-
meiro ano do Ensino Médio em escolas públicas.
As questões foram organizadas de forma semiestruturada,
combinando perguntas fechadas e abertas, a partir de um roteiro
que permitiu aos participantes colocarem-se a respeito do uso do
Orkut e do que pensavam e sentiam sobre isso.
A realização das entrevistas seguiu as indicações feitas por
Paul Thompson (1992). A primeira delas diz respeito à consecu-
ção da entrevista piloto, que chama de exploratória. Ao realizá-la
com duas adolescentes, percebi algumas dificuldades do roteiro,
que foi reformulado, tanto no tipo quanto no vocabulário. A en-
trevista era iniciada com perguntas sobre o uso da internet e do
Orkut. Em seguida, trabalhei com questões de completar, organi-
zando o ‘Jogo rápido’, uma adaptação de um modelo usado em
entrevistas televisivas. Iniciava uma frase e o adolescente acres-
centava o que lhe vinha na cabeça. A partir de suas respostas, era
possível abordar assuntos importantes para a reflexão que esta-
va sendo construída. Busquei a flexibilidade e a sensibilidade
para interpelar os entrevistados, modificando a ordem e os tipos
das perguntas sempre que necessário.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
148
ALGUMAS QUESTÕES: SUJEITO, FASCÍNIO E FERRAMENTA
Antes da realização das entrevistas, foi essencial me
aprofundar em três questões, de cunho mais interpretativo e
conceitual, que resumidamente aponto aqui:
a) O Orkut. O Orkut é considerado uma rede social disponí-
vel na internet. Mesmo bastante conhecido, permito-me
algumas pontuações acerca desta ferramenta digital. Pos-
sibilita aos usuários cadastrados a criação de um perfil
on-line (profile). Este perfil é como uma ficha de identifi-
cação, com foto, gostos pessoais, interesses profissionais,
pessoais e amorosos do usuário. Atrelada a esse perfil,
cada membro tem uma página através da qual pode rece-
ber e publicar recados para outros usuários, participar e/
ou criar comunidades, bem como estabelecer sua rede de
amigos. A proposta do Orkut é convergir em um espaço
virtual a possibilidade de comunicação com novos e anti-
gos amigos, possibilitando a troca de informações e inte-
resses. A chamada da tela inicial do Orkut propõe o
contato virtual para fins comunicativos. Hoje, passados
quase três anos do início da pesquisa, a publicidade (e o
consumo de produtos) já chegou ao referido site. Entre-
tanto, analiso que ainda o foco do Orkut, conforme levan-
tei na pesquisa, envolve três aspectos: a conectividade
(incentivar o crescimento da rede de amigos), a visibili-
dade e a interatividade/comunicação.
b) O fascínio enquanto categoria. Foi necessário entender
e construir, de certa forma, o conceito de fascínio para
elaborar um roteiro nas entrevistas, tendo clareza do que
poderia ser fascínio, até para depois, na análise, identifi-
car nuances de uma relação de fascínio do grupo entre-
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A relação de fascínio pelo Orkut
149
vistado e o Orkut. Seria encantamento, como definia qual-
quer dicionário da língua corrente? Que encanto aconte-
cia entre adolescentes e o Orkut? Para isso, busquei
autores que tratavam de fascínio enquanto categoria.
Deste modo, utilizei as reflexões de Dieter Prokop
4
, teórico
alemão, que discute a existência de um fascínio pelos meios de
comunicação. Para ele, existem vários tipos de fascinação. Um
deles, mais elucidativo para meu estudo, foi a definição de fascí-
nio como “[...] um prazer sincero em representar, uma firmeza,
um contentamento consigo mesmo, uma insuficiência, gestos de
uma auto-representação narcisista.” (MARCONDES FILHO, 1986,
p. 150)
Também busquei me embasar na pesquisa de Vani Kenski
(1990), que investigou o fascínio por uma mídia impressa, o jor-
nal alternativo Opinião. A pesquisadora considerou o fascínio
“[...] como um sentimento ativo, um estímulo para dispor as ener-
gias em uma nova forma de ação” (KENSKI, 1992, p. 68)
5
, verifi-
cando que se compunha por três fatores: a conjuntura
político-social, sua concretude (o layout, a qualidade jornalística)
e as necessidades psíquicas dos sujeitos na época. Desta forma, o
fascínio foi encarado como uma reação visível, demonstrada prin-
cipalmente por gestos e expressões que denunciavam a existên-
cia de emoções e de desejo.
Construí, então, uma bricolagem das definições apresenta-
das por Dieter Prokop e Vani Kenski. Na verdade, foi possível
verificar a existência de uma relação de fascínio pelo Orkut. Isso
porque os entrevistados, em diferentes momentos, explicitaram
4
Todas as referências a este autor são reproduções de seus textos, publicadas
em 1979. Em 1986, os textos foram organizados por Ciro Marcondes Filho,
intitulado Dieter Prokop, editado pela Ática na série Grandes Cientistas Sociais.
5
O ano em que a autora concluiu seu estudo foi 1990, mas aqui utilizo duas
publicações da autora que explicitam sua pesquisa (1991,1992). Por isso, a
diferença de datas.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
150
um contentamento e uma insuficiência que os estimulavam a
dispor suas energias para acessar o computador. Mas não em
novas ações, ou em reflexão política, como na pesquisa feita por
Kenski, e sim incorrendo na ação repetida de acessar o Orkut.
Esta relação de fascínio é identificada pelos entrevistados,
e, em várias falas, relacionada à ideia de vício, interligada a
necessidades psíquicas criadas no contexto social (de ESTAR, TER
e A-PARECER). Neste sentido, me serviu ainda mais a conceituação
de Prokop, que considerava o fascínio como uma construção co-
letiva, que interage com a emoção do sujeito e suas necessidades
psíquicas. É o que pontua Suely Rolnik (1997), ao afirmar que
tais necessidades também são sociais. Estão banhadas pelos va-
lores da cultura em que estão inseridas, “[...] porque não há sub-
jetividade sem uma cartografia cultural que lhe sirva de guia e,
reciprocamente, não há cultura sem um certo modo de subjetivação
que funcione segundo seu perfil”. (ROLNIK, 1997, p. 29)
O sujeito fascina-se por algo que lhe captura o desejo em
uma conjuntura. Não consiste somente em uma resposta do
psiquismo do indivíduo, desconectado do mundo.
c) Marcas sociais da adolescência. Transformações
pubertárias e físicas acontecem em um período da vida
do sujeito em que a sociedade lhe pergunta o que vai ser,
mas não lhe fornece a resposta. Afinal, vive-se a era da
fluidez, do imediato e do rompimento da solidez. É o que
aponta Ruffino. Ao adolescente convirá uma posição
interrogativa. Como não sabe o que o outro quer dele,
busca criar seu referencial no encontro com os seus pa-
res. Busca a identificação em grupos. Junta-se a outros
adolescentes para dizer e re-significar o ‘não saber’. Estar
entre pares, ou buscar amigos é uma das grandes possi-
bilidades do Orkut.
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 150
A relação de fascínio pelo Orkut
151
Na verdade, busquei compreender o que é ser adolescente
na contemporaneidade, para entender essa marca como um
construto social. Tenho muitas outras considerações a respeito,
mas preferi introduzi-las no texto da análise que se segue.
A teoria e a análise
Foi esse caminho trilhado. A fala dos entrevistados indicou
a relação de fascínio alimentada, principalmente pelo contexto;
pelas características sociais e psíquicas dos sujeitos (o adoles-
cente) e as especificidades do Orkut, ou seja, uma imbricação do
contexto, do sujeito e do objeto (ferramenta). Por isso, o estudo
teve como corpus teórico autores que interseccionam ideias
advindas do campo da Sociologia, principalmente, com algumas
nuances da Psicanálise, como Zygmunt Bauman, Gilles Lipovetsky,
Guy Debord e Cristhopher Lasch.
Dessa forma, apresento uma mescla do corpus teórico com
a análise dos dados. O processo foi a busca para compreender e
contextualizar socialmente o que os dados apontavam, retratan-
do nosso tempo como a hipermodernidade líquida, espetacular e
narcísica, sustentada em valores do ESTAR, TER e (A)PARECER.
Retrato da hipermodernidade líquida,
espetacular e narcísica
Sociedade Líquida: admirável mundo da urgência
(ESTAR).A hipermodernidade líquida traduz a era da fluidez,
porque a configuração do estágio presente, segundo Bauman
(2001), equivale a um estado líquido, que não fixa espaço e nem
prende o tempo. Sua principal característica é ESTAR. Estar em
fluxo. Característica atrelada ao reinado do imediatismo e do con-
sumo, configurando um terceiro estágio da modernidade, que
Lipovetsky e Charles (2004) definiram como sendo a
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
152
Hipermodernidade. Para estes autores, vive-se a era do ‘hiper’,
que eleva ao superlativo e hiper-realiza a instauração de um ego
ideal, fomentado pelo culto do ‘tudo mais’. Ser o melhor, o mais
bonito, o mais perfeito, o mais admirado, na escalada do ‘sempre
mais’. Conforme aponta os referidos teóricos, a flexibilidade (e a
incerteza) interfere e estrutura as relações sociais. A vivência
obedecendo a princípios de consumo, quando o sujeito se carac-
teriza principalmente pela lógica de acumular e ter facilidade em
descartá-los. Prazer imediato.
O Orkut, enquanto uma criação desta hipermodernidade, na
sua faceta digital, pode ser visto como um incentivo ao efêmero,
porque dispõe de recursos variados para facilitar a visitação.
Saber que os amigos vão receber notificação (caso não tenham
desabilitado essa função) sobre a publicação de novas fotos, é
um estímulo para alimentar o álbum. Por trás da praticidade que
promete, incentiva a exposição e a fluidez. Quem não quer ser
bem visitado, visto constantemente sob ângulos variados. Sem-
pre ter novidades. Mudar as fotos constantemente é uma preocu-
pação manifesta por vários entrevistados, demonstrando respingos
dos valores ‘líquidos’ da hipermodernidade. Uma delas expres-
sou que se não mudasse o álbum, ninguém ia querer entrar em
seu perfil, e, consequentemente, não ia receber muitos recados.
Nesse sentido, podemos dizer que o verbo ‘estar’ também é uma
constante no Orkut. Estar para quem passeia – o ‘fuçador’. Estar
para quem é visitado, que sempre quer ‘estar em alta’. É fasci-
nante. Capturador da emoção, na pseudorrealização do desejo de
ser visto na sua forma ideal. A representação do fluido e da ali-
mentação do espetáculo. Porque o espetáculo é composto por fla-
shes, de atualidades, da oferta de algo novo, renovável, efêmero.
Sociedade Hiper: amizade como ideal e como mercadoria
(TER). Existe um requintado impulso consumista que permeia
as relações do Orkut, não para aquisição de bens e produtos,
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A relação de fascínio pelo Orkut
153
mas para a aquisição de números. Receber mais recados, ter mais
amigos. A visibilidade incentiva esse impulso. A amizade trans-
formada em uma mercadoria. A amizade traz consigo um item
agregado de valor. Quanto mais amigos, mais visível, mais po-
pular, mais famoso. É a era do hiper, discutida por Lipovetsky e
Charles (2004). Do querer-mais. De quantificação. Da lógica do
consumo, que centra foco no sujeito e projeta desejos humanos
em produtos. Severiano (2001) indica que os ideais de consumo
prometem a felicidade, o sucesso e a completude através do ato
de consumir. É fascinante ser o melhor e ter uma comunicação
pseudoperfeita e que mostra o quanto pode ser amigável, legal e
confiável.
A maioria dos entrevistados disse que a primeira coisa que
fazem ao acessar o Orkut é ver os recados, exemplificando mui-
tas situações em que se utilizam deste caráter comunicativo. Mas
existe uma compulsão para dizer, uma necessidade de consumir
o ato comunicativo (o envio e recebimento de recado, por exem-
plo), como se a resposta de um scrap fosse reconhecimento e
aceitação. Receber recados significa que foi lembrado, visto. É
uma comunicação assistida, que tem objetivos para além da co-
municação. Tenho que entrar para ver meus recados foi uma
frase comum dos entrevistados, manifestando uma ânsia por ver
o que lhe dizem/escrevem. O fato de não ter chegado nenhum
recado causava mais frustração do que o recebimento de recados
padronizados, como aqueles que não têm conteúdo comunicativo
(não dizem nada do cotidiano, são recados com imagens anima-
das, ou somente uma expressão de três letras, como, por exem-
plo, ‘Bfs’, que significa bom fim de semana). Não importa a
palavra, o tema do recado, importa a existência dele. Ser ou ter...
Ter sido lembrado. Ter um número de pessoas que lembram. Na
verdade, a questão da comunicação está posta juntamente com o
interesse implícito dos narcisos digitais, que têm um canal aber-
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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to para aparecer e parecer. É uma comunicação assistida,
quantificada, que promove a interação tendo como pano de fundo
o interesse consumista de ter, para aparecer. Quanto mais amigo,
mais popular. Quanto mais recados, melhor.
Sociedade narcísica e espetacular (A- PARECER). Confor-
me aponta Lasch (1983), na sociedade narcísica, o foco é fazer o
indivíduo sentir-se sujeito, único, preocupado em suas realiza-
ções particulares e sua aparência. Aparência baseada em mode-
los e padrões externos, criados pelo império do consumo. O culto
à imagem necessita de plateia. Nunca o corpo foi alvo de tantos
cuidados e de tantos produtos. O incentivo ao narcisismo tem
seus pilares no espetáculo. O show é armado para ser visto.
No Orkut, os entrevistados manifestaram uma preocupação
com ideais de fama e beleza alimentados pela sociedade
consumista. São ‘respingos’ da hipermodernidade líquida. O refe-
rido site possibilita artifícios para que tais ideais sejam alimenta-
dos. Narcisos digitais preocupam-se em serem considerados não
só amigos perfeitos (que sempre lembram do outro), mas amigos
legais e sexys. Que tenham muitos fãs. Os ícones ‘Fãs’, ‘Legal’,
‘Sexy’ e ‘Confiável’ são a tradução disso. É uma forma de captu-
rar o desejo, obturar a falta e promover mais acessos. N, por
exemplo, confirmou que a primeira coisa que sempre olha no
Orkut é o número de fãs. Quer saber quem tem coragem de dizer
publicamente que a admira.
Alguns desses termos são relacionados ao mundo da fama.
O que significa ter fãs? No mundo da imagem e do espetáculo,
significa reconhecimento, significa ser um ídolo, ter beleza e/ou
poder financeiro. Um recurso para se fascinar. Ser sexy, ter fotos
que aparentam ter mais idade, ou ter um ar de sensualidade tam-
bém são formas de serem mais visitados e admirados.
Se puderem parecer melhor do que são, o fazem. X comple-
tou a frase ‘no Orkut eu...sou melhor. Para C, ser melhor é pare-
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A relação de fascínio pelo Orkut
155
cer mais velha. Disse usar uma foto no seu perfil com um ângulo
que mostra mais do que seus 15 anos, porque quer parecer mais
madura. Tem vez que algum gatinho e eu perguntamos quantos
anos ele tem e fala que tem tantos anos e me pergunta, eu falo
também que tenho parecido com a dele. Se eu falar que tenho 15,
pode me achar muito nova. Ou nem vai falar comigo. Explicou
que na foto não dá pra ver sua idade de fato, parece que tem mais
porque não tá mostrando o rosto, tá mostrando mais o cabelo. E
também não está aparecendo o corpo.
Mas além de ser admirado, o adolescente pode ser outro
através do perfil fake. Mesmo que seja uma ilusão, a possibilida-
de de criar um Orkut falso é comentada por quase todos os entre-
vistados Corroboramos aqui com a reflexão proposta por Turkle
(1997), ao afirmar que vivenciamos hoje uma erosão das frontei-
ras entre o ser e o querer-ser, o anonimato e a fama, a privacida-
de e a exposição, a veracidade e a ilusão. No perfil fake fica mais
notório a relação de fascínio dos adolescentes com o Orkut, con-
figurando um tipo de fascínio descrito por Prokop como “[...] um
prazer voyeristico de jogar com a fronteira da realidade e a reali-
dade secreta, sem ultrapassá-la”. (MARCONDES FILHO, 1986, p.
152)
Na verdade, no Orkut o adolescente pode A-PARECER. Narci-
so digital. Ser visto, sob o ângulo que lhe interessar. De acordo
com as entrevistas, querem ser admirados e respondem aos ide-
ais de beleza e fama. Podem ter o corpo perfeito, livre de uma voz
estranha, ou de pernas e braços desproporcionais ao resto do
corpo. Livre de espinhas (características pubertárias da
adolescência).Tem a pseudoliberdade do corpo e da fala. Enfim,
como diz Birman (2005), o sujeito acredita que se encontra no
centro do mundo. Do seu mundo. O usuário do Orkut tem seu
Ego publicado, revertido em imagem assistida. O reinado da apa-
rência tem os holofotes direcionados para o narciso digital, con-
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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temporâneo, que tem como prazer (seria uma necessidade cria-
da?) mostrar-se. O Orkut oferece o palco e a plateia.
Os adolescentes mostram-se também para serem admirados.
Mais nuances do narcisismo. Aqui identificado como um dos pi-
lares do fascínio. Miram-se no outro. Birman (2005) examina a
subjetividade na cultura do narcisismo como caracterizada pela
impossibilidade do sujeito do espetáculo descentrar-se de si mes-
mo, que “[...] encara o outro apenas como um objeto para seu
usufruto”. (BIRMAN, 2005, p. 25)
A relação de fascínio de um grupo de
adolescentes pelo Orkut
Analisei que o Orkut é um espaço virtual que tem peculiari-
dades fascinantes. Captura a emoção e a atenção do adolescente
também porque permite a extensão dos ouvidos, dos olhos, insta-
la a possibilidade de uma comunicação perfeita e indolor. Assis-
tida e atestada pelo outro. A instituição de amizades, que
quantificadas, certificam ao tímido adolescente sua popularida-
de e permite mais: a exposição da vida comum. O espetáculo
instala-se facilmente no clicar de botões. Vai além: é onde pode
tornar uma fantasia sua realidade no mundo virtual, pode criar
uma outra janela de si mesmo, respondendo aos ideais da
contemporaneidade, que não compõem de fato sua vida cotidia-
na. De sucesso, fama e beleza.
Os holofotes estão como fogos de artifício iluminando o su-
jeito adolescente que se torna o centro do espetáculo. Do estado
psíquico de crise e de incerteza é transportado para um estado de
pseudocompletude. Encontra no Orkut a resposta do que quer
ser: admirado. Tem um espaço para estar, ter e parecer. Um lugar
para mostrar-se como bem entender. Tornar-se hiper, superlativo:
o mais bonito, o mais popular, o mais legal, o mais sexy, o mais
confiável. Tornar-se outro. Totalmente outro, uma personalidade
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A relação de fascínio pelo Orkut
157
com roupa, foto e nome de alguém que tem status e reconheci-
mento social. Também é onde encontra seus amigos da vida off-
line e faz novos contatos. Encontra alguém de sua idade para
compartilhar anseios, gostos, medos, ideias (e possivelmente com
as mesmas questões emocionais). Encontro de pares para alguém
que está rompendo com o mundo adulto. Tudo o que um adoles-
cente em dúvida, revoltado ou sem rumo, que vive em conflito
com os pais, precisa. Impossível não se fascinar. A captura do
desejo, o contentamento sincero.
Fascinante.
E mais, é um lugar não lugar. Porque pode desaparecer no
toque de botões. Pode ser desligado, desconectado. As inseguran-
ças do mundo virtual parecem infinitamente contornáveis para
esses adolescentes. Podem ser felizes no Orkut? Sim, felicidade
efêmera. Amizades também. São mais felizes lá do que na vida
real. Além de ser famosa, como disse uma entrevistada, pode ser
outra pessoa.
Pode ser outra pessoa que foge da falta. Falta psíquica, mas
principalmente falta vivenciada no dia a dia pelas dificuldades
econômicas. Falta de acesso.
No mundo digital, palco do Orkut, o sujeito pode ‘realizar’
esses ideais, sendo inclusive, uma outra pessoa. Pode ser vista.
Pode ver. Os desejos de onipotência infantil, perdidos, podem,
magicamente, concretizar no clicar de botões e na navegação pela
tela. O Orkut permite a pseudorrealização de muitos desses ide-
ais.
Fascinante.
Assim, os recursos do Orkut permitem alimentar a relação
de fascínio. Tem dispositivos de conectividade, de interatividade,
mas principalmente de visibilidade. Mais do que comunicação,
permite tornar a vida de um ‘cidadãozinho comum’ um espetácu-
lo. Alimenta bem de perto os valores narcísicos.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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Permite ainda uma autonomia que não desfruta na vida coti-
diana. Essa é a tradução da frase posso o que quiser, conforme foi
dito por uma das entrevistadas. Também é um forte instrumento de
colaboração com o fascínio. Na verdade, não só de mostrar-se que
vive o narciso digital. Ficou evidente nas entrevistas que suas ati-
vidades do mundo jovem estendem-se ao Orkut. Relações pessoais
de amizade e de amor, paqueras, brigas entre ‘rivais’, o contato
com familiares, a troca de ‘fofocas’ e de carinho.
Tanto os meninos quanto as meninas entrevistadas disse-
ram das possibilidades amorosas no Orkut, porém com um dife-
rencial. Lá o adolescente sem graça e tímido pode encontrar um
amor, pode paquerar e pode olhar quem lhe interessa, sem muita
decepção. Porque tem a segurança de poder apagar qualquer pes-
soa de sua rede de ‘amigos’. Mesmo que receba uma resposta
negativa a uma cantada, ou não tenha a resposta de um recado-
convite para sair, logo esse fato é esquecido. O recado é deletado.
Não houve o confronto e o vexame de sentir um ‘não’ de frente,
‘na cara’. Nesse sentido, recuperamos a análise de Bauman (2004,
p. 13) quando salienta que “é fácil sair de relacionamentos virtu-
ais, parecem limpos, fáceis de usar e manusear porque sempre
pode apertar a tecla deletar”.
Conclusões
À guisa de conclusões, acho necessário tecer algumas con-
siderações.
A primeira delas é que fazer pesquisa é trilhar caminhos
baseados em escolhas. Temas, metodologias e arestas não foram
trabalhados no estudo ou compartilhados aqui. E mais ainda,
neste texto, que é um resumo do estudo. Mesmo assim, considero
que o breve relato apresentado esclareceu o percurso na realiza-
ção da pesquisa e a análise dos dados, no entrecruzamento da
teoria.
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A relação de fascínio pelo Orkut
159
As outras conclusões tratam de minha reflexão sobre a
temática tratada, ou seja, sobre o objeto de estudo.
Para mim, ficou claro o quanto o sujeito contemporâneo re-
flete os valores da sociedade hipermodernidade líquida, narcísica
e espetacular. A pergunta “por que se fascinam?” pelo Orkut só
pode ser respondida a partir do contexto. Nesse sentido, pergunta
Birman (2005, p. 189): “Então o sujeito perde a densidade e a
profundidade, transformando-se numa espécie de superfície pla-
na, margeada pela moldura de um enquadramento”. Seria o su-
jeito uma marionete ou um emoldurado pelo enquadramento do
consumo e do capitalismo desvairado, quando até a emoção e o
desejo passam a ser explorados? São questões que demandam
severas reflexões, porque questionam a constituição do ser hu-
mano, pensando na sua atuação individual e coletiva para sua
própria formação e aquela para a constituição da sociedade. Teó-
ricos de várias áreas do conhecimento buscam interpretar essa
questão e essa é a busca desde antes da modernidade. A filosofia
clássica já perguntava sobre a constituição do homem.
Aqui, me arrisco a dizer que existe uma confluência entre
sujeito e sociedade. Digamos que uma imbricação, uma
indissociabilidade. Nem a sociedade é um sistema monstruoso
que seduz o tempo todo um sujeito passivo, nem o sujeito busca
romper com esse status quo. Constroem-se mutuamente. Existe
interesse dos dois lados. Há concordância com Maria de Fátima
Severiano (2001, p. 164-165), ao refletir que
[...] nas relações do indivíduo com o objeto-signo de consumo não
estão em jogo relações do tipo autoritário, ou seja, não se trata de
um passivo consumidor/receptor, que se deixa moldar de forma
impositiva. Uma relação extremamente complexa, na qual estão
em jogo, além dos poderes econômicos, também poderes simbólicos
e desejos primitivos.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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Na verdade, sujeitos e objeto carregam traços da
hipermodernidade líquida, narcísica e do espetáculo. O fascínio
não se constitui no vazio. Fascinam-se porque desejam realizar
os ideais criados nesta sociedade. Fascinam-se também porque
são adolescentes, com características e necessidades psíquicas
pseudorrealizadas no Orkut. Não poderia haver Orkut em outra
sociedade, nem adolescentes fascinados pelo Orkut em outro tempo.
Sujeito e objeto da cultura de agora. Da cultura do narcisismo.
Da cibercultura, do consumo, do efêmero, do espetáculo. Porque
o Orkut também é uma busca de um espaço “meu”, para mostrar
uma das máscaras do indivíduo, mas que é feita para que os
“outros” leiam. A construção dá-se entre o eu e o Outro, porque
nenhum homem é uma ilha. Apesar da cultura individualista,
somos sociais. Na verdade, somos individualistas exatamente por
nossa constituição efetivar-se em um contexto social, que tem
como base os princípios do consumo e a cultura do narcisismo.
O Orkut não é um monstro solitário, uma entidade
desconectada do mundo, que produz adolescentes pseudofamosos,
que se expõe aos riscos, ao vício e escancara a privacidade de
jovens sujeitos, tampouco um meio único de superficializar os
contatos. Não é o Orkut que reduz a amizade a números. O Orkut
é um meio que amplifica os ideais e as relações postas na
contemporaneidade. Porque existe uma sedução, mas existe um
sujeito que também deixa seduzir. É sujeito do desejo, de uma
incompletude que a lógica do consumo e sua representante mais
sedutora, a publicidade, atuam e utilizam para nos dar a escolha
de que artefatos comprar (ou desejar e sonhar), mas não garante
a possibilidade de não consumir. Nem que seja consumir desejos.
O desejo de ser outra pessoa, como é possível no Orkut.
Outra pessoa que foge da falta. Falta psíquica, mas principal-
mente falta vivenciada no dia a dia pelas dificuldades econômi-
cas. Falta de acesso. Longe de tratar com profundidade sobre a
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A relação de fascínio pelo Orkut
161
exclusão digital, não podemos deixar de protestar contra essa
falta objetiva. A hipermodernidade cria desejos, cria meios (como
o Orkut) de pseudo realizá-los, contudo o acesso a esses meios
está efetivamente concentrado na mão de poucos. Um país conti-
nental como o nosso impõe a uma população inteira grandezas
para além do seu território: grandeza na concentração de renda,
na desigualdade do acesso à infraestrutura e aos bens produzi-
dos pelo desenvolvimento da ciência. A periferia da maior metró-
pole da América Latina também é a periferia digital.
Por isso, acrescentamos aqui mais uma característica da
hipermodernidade líquida, narcísica e do espetáculo: excludente.
Porque é essa a paisagem que se configura no mundo contempo-
râneo. Exclusão social e digital, que, entrelaçadas, batem às por-
tas da hipermodernidade. Seu caráter hiper, superlativo também
se concretiza nos abismos econômico e digital. Melhor mesmo
que seja hipermodernidade líquida, para que essa revoltante dife-
rença seja diluída e absorvida rapidamente sem reflexão. Melhor
mesmo que seja narcísica, porque devolve ao sujeito a falta e lhe
imputa a responsabilidade desta. Melhor mesmo que seja do es-
petáculo, para entreter a emoção, captar os estômagos vazios,
fazer os corpos malvestidos não olharem para si, mas para um
outro que tem poder e fama, e fazê-lo desejar ser igual. Sem ques-
tionar por que são diferentes.
Então, cabe questionar em que e como se funda essa socie-
dade, para que e para quem ela tem servido, situando a
cibercultura, o Orkut como fenômenos desta sociedade, que pre-
cisa de outras práticas e ideais. Ideais que permitam a reflexão, a
socialização de produção e apropriação da tecnologia e dos bens
de consumo. Ideais que não sejam subterfúgios para seduzir e
calar, hiperindividualizar, fragilizar. Que então o fascínio passe a
ser do campo do subjetivo, não em resposta a um mundo off-line
que imponha a falta, mas seja um encanto, uma captura da emoção
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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coletiva, que seja a extensão de uma outra sociedade. Onde não
haja subjugo e nem discrepâncias, muito menos interesses narci-
sistas. Que o narciso seja apenas um personagem do passado
grego. Que os ideais que se interponham sejam de mudança e
essa mudança se faça com indivíduos como sujeitos históricos,
que na base dessa estrutura desigual, lute, se necessário nas
ruas, no próprio Orkut para destruir a lógica do consumo e do
hiperindividualismo, tudo o que a fundamenta, retomando o cur-
so de nosso instinto de homem comunitário e social como princí-
pio.
Referências
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A relação de fascínio pelo Orkut
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O ORKUT E A VELHICE:
comunidades e discursos
Maria de Fátima Morais Brandão (IFPI)
Rosa Maria Hessel Silveira (UFRGS)
Primeiras palavras
Pode parecer paradoxal um estudo que aborde a questão da
velhice em comunidades do Orkut. Não seria o Orkut justamente
o campo predileto da juventude, do novo, do avançado, do “des-
colado”? Um espaço de gerações que estão chegando? Onde esta-
riam os “velhos” do Orkut? Como deles saber, se a declaração de
idade para usuários do Orkut não exige comprovação e todos (ou
quase) podem se declarar jovens, sendo ou não?
Entretanto, não é este o viés pelo qual a temática será aqui
abordada. Ao deixarmos de lado a presença de “velhos” como
usuários e frequentadores do Orkut, nos voltamos para analisar
outra forma de sua presença. Assim, nosso olhar se volta para as
formas como os jovens representam os velhos nas comunidades
do site, em especial naquelas que tomam esses últimos como
tema. A partir desse interesse e dessa decisão inicial, foram
delineadas questões às quais o presente trabalho pretende trazer
algumas respostas: que representações de velho (idoso) são
construídas através das descrições das comunidades, dos tópicos
inseridos, dos comentários e narrativas introduzidos? E de que
forma essas representações circulam, proliferam, se reforçam ou
se contrapõem, produzindo seus efeitos na política cultural?
Para buscarmos respostas a tais perguntas, abordaremos
tanto aquelas comunidades que se referem aos velhos de forma
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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preconceituosa e pejorativa, quanto outras comunidades que, fre-
quentemente utilizando outras formas de nomeação, como ido-
sos, velhinhos, avós, etc., apresentam um olhar mais benevolente
para com os mesmos.
Entendendo o discurso na visão de Foucault, “[...] como uma
prática que forma os objetos de que se fala”, usaremos a análise
discursiva, entendida aqui, conforme Gill (2002) e Luke (2008),
como as técnicas usadas para o estudo da prática textual e do
uso da linguagem como central na construção da vida social.
Afastando-se da visão estruturalista, que vê a língua como um
sistema fechado, e apoiando-se na visão de Foucault e Derrida,
Luke (2008, p. 93) observa:
A linguagem e o discurso não são meios neutros ou transparentes
para descrever ou analisar o mundo social e biológico. Pelo contrá-
rio, eles efetivamente constroem, regulam e controlam o conheci-
mento, as relações sociais e as instituições e, sem dúvida as práticas
analíticas e exegéticas, tais como a investigação e a pesquisa. Por
esse motivo, nada existe fora ou previamente à sua manifestação
na forma de discurso.
Nessa visão, portanto, cada texto concretiza um jogo dinâ-
mico em que significados múltiplos, que podem ser gerados em
diferentes contextos sociais, se cruzam e se amalgamam; é nos
textos que distinções e diferenças vão sendo construídas e
reconstruídas em ‘leituras’ distintas. Tal entendimento do caráter
constitutivo dos discursos estará como pano de fundo de nossa
análise das comunidades.
Para desenvolvermos o estudo, faremos, inicialmente, uma
discussão sobre os entendimentos culturais e sociais da velhice e
passaremos, em seguida, à análise de comunidades que, de uma
ou outra forma, a tematizam.
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O Orkut e a velhice
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Velhos e velhices: um olhar cultural e
social
Envelhecer é um processo contínuo, e não é apenas o desti-
no dos que passaram de uma dada idade; todos nós, se não hou-
ver uma intercorrência, cumprimos o ciclo natural da vida:
nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos. A “naturalida-
de” desse processo, entretanto, não significa que ele não tenha
sido entendido e vivido de diferentes formas nas diversas cultu-
ras e épocas. Em algumas sociedades antigas, ser velho chegava
a ser dignificante – na Bíblia, muitas passagens se reportam a
isso, e as fases anteriores à velhice eram preparatórias para esse
tempo. Todavia, a velhice, nas sociedades ocidentais, mais fre-
quentemente tem sido associada com a inatividade e o declínio
biológico a que todos estamos sujeitos. Mais: se cada cultura
construiu seus próprios significados para a vida, periodizou-a e
desenvolveu sentidos e práticas que seriam inerentes a cada eta-
pa e passagem da vida, foi na sociedade moderna que vai se dar
a institucionalização de tal periodização, ou seja, passamos a
existir socialmente porque nos demarcaram com uma identidade
civil, definida basicamente pelo sexo e pela idade.
Entretanto, como se define o “ser velho” numa sociedade – a
sociedade ocidental contemporânea – que prega o ‘manter-se jo-
vem’? Talvez todo esse imperativo de juventude contribua para
que muitos de nós, em especial os jovens, tenhamos uma visão
sombria e negativa da velhice, e um certo medo do envelhecimen-
to. Poderíamos pensar que esse suposto medo de envelhecer e de
ser considerado velho deva-se ao fato de a velhice estar associa-
da, ao longo dos tempos, à incapacidade, à decrepitude do corpo,
à ideia de proximidade da morte e à ligação da imagem do velho
com o desprezo, a discriminação e a dependência. Nesse senti-
do, Neri (2007, p. 34) afirma que não é a morte que nos assusta,
pois esta faz parte de nossa vida, mas “tememos a dependência, a
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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perda da dignidade, a solidão e o sofrimento que, sabemos, po-
dem anteceder a morte”...
Na sociedade contemporânea, que celebra valores como a
produtividade, a eficiência e a valorização da força de produção,
os velhos foram, de certa forma, marginalizados, porque econo-
micamente não-produtivos que não contribuem para uma socie-
dade em que a produção econômica é um dos mais altos valores.
“A sociedade rejeita o velho, não oferece nenhuma sobrevivência
à sua obra. Perdendo a força de trabalho ele já não é produtor
nem reprodutor.” (BOSI, 1995, p. 77) Também na visão de Santos,
Lopes e Neri (2007, p. 69) seria de caráter econômico
[...] a maior motivação para a discriminação dos idosos [...] Por
não serem capazes de garantir os mesmos direitos aos idosos e a
seus membros produtivos, as sociedades atribuem aos primeiros,
características indesejáveis, como lentidão, confusão menta, in-
competência, desatualização, dependência e improdutividade.
Ainda que haja registros de lugares e sociedades em que a
velhice é/foi tratada de forma positiva, textos muitos antigos, no
Ocidente, já trazem referências à velhice como algo sombrio. À
parte essa face sombria que, de certa forma, permanece, é preciso
observar, de acordo com Debert (2004), que a ideia de envelheci-
mento vem sofrendo transformações significativas sob os mais di-
versos aspectos, desde a segunda metade do século XIX. Assim,
se a velhice, na sua representação tradicional, estava restrita ao
ambiente familiar e privado e era apontada como um processo
gradativo de perdas e de dependência crescente, caracterizada pela
‘invalidez’, ou seja, a ausência completa de desempenho de papéis
sociais, no cenário atual, ela passou a ser vista como uma ques-
tão pública, já que o Estado e outras organizações privadas assu-
miram a gerência da velhice, tentando homogeneizar suas
representações. Também na esteira dessa reconceptualização, os
velhos passaram a constituir um segmento de mercado, já que
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O Orkut e a velhice
169
essa fase da vida representa uma fatia significativa de potenciais
consumidores, podendo ser controlados por corporações
multinacionais, que hoje assumiriam o controle da vida.
É nesse contexto que se cria uma nova categoria social e
cultural com outra denominação: os idosos. Debert (2004) des-
taca ainda que nesse movimento de socialização e “valorização”
da velhice, transformá-la numa responsabilidade individual é o
que se pode chamar de processo de reprivatização da velhice.
Tudo sinalizaria, enfim, uma sensibilização da sociedade
aos problemas do envelhecimento. No entanto, essas inovações
nem sempre asseguram aos velhos o respeito aos seus direitos
como cidadãos, tendo em vista suas limitações. Os estilos de vida
até então adotados pelos velhos passam a ser vistos como inade-
quados e os idosos que não adotam as “novas formas de viver”
passam a ser estigmatizados. Novas representações deixam ex-
cluídos os velhos que não se moldam a esses comportamentos
“modernos”, relegando-os à dependência e ao abandono, cujas
causas agora não seriam mais o processo gradativo de perdas,
próprias do envelhecimento, mas a falta de envolvimento nas ati-
vidades direcionadas a essa categoria e a não adoção, portanto,
dessas novas formas de consumo e estilos de vida. A mídia passa
a ser agente dessa reprivatização, à medida que exerce um certo
controle sobre a velhice, divulgando as inúmeras técnicas de re-
juvenescimento, os necessários cuidados que se deve ter para
manter a saúde e a inserção nos novos mercados de consumo.
Voltando à questão das formas de nomeação, observa-se que
as “novas” formas são vistas como possibilidades de quebra das
representações estereotipadas e negativas anteriores; fala-se,
como já comentamos, em “idosos”, em “terceira idade”, em “me-
lhor idade”. Nessa sociedade onde tudo tende a ser substituído
pela última moda, o antigo tem que lutar para sobreviver, para
ter “seu lugar”, mesmo que necessite de um “travestismo”.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
170
Dentro desse contexto de discursos polifônicos, como os
jovens (futuros velhos) usuários do Orkut veem os velhos e se
manifestam sobre os mesmos, no jargão coloquial e internético
do site ?
Os velhos sob as lentes dos usuários do
Orkut
Para nós, trabalhar com o Orkut é ter a possibilidade de
acessar manifestações de sentimentos (ódio, intolerância, amor,
desejos, etc.) que, ali, parecem menos sujeitas à censura social
do que em outros âmbitos, ainda que outras e sutis relações de
poder estejam operando naquele espaço, produzindo representa-
ções, confirmando e reiterando discursos correntes. Entendemos
que, buscando respostas às perguntas que inicialmente traçamos,
podemos compreender como os jovens estão produzindo a si (o
“não velho”) e ao outro (no caso, o velho). Afinal, em tais comu-
nidades, os usuários assumem posições de sujeitos, constroem
identidades, marcam diferenças através do binarismo ser jovem/
ser velho, estigmatizando (ou enaltecendo) o idoso, reforçando
estereótipos, provando opiniões e verdades através de narrativas
exemplificativas, enfim, dizendo quem são e como são esses
‘outros’.
Numa primeira incursão às comunidades, observa-se que o
termo ‘velho’ é mais frequentemente utilizado pelos membros de
comunidades caracterizadas pela expressão ‘odeio’ e similares,
como por exemplo Odeio os velhos da rua, Odeio velhos que se
acham, Eu tenho nojo de velho tarado , Odeio velhos safados,
etc. Por outro lado, ao se usar na busca termos como idosos,
velhinhos, vovôs e vovós, terceira idade, encontram-se as comu-
nidades em que os usuários externam admiração, carinho e res-
peito, como no caso intituladas Respeitem os idosos, Eu amo os
idosos, Adoro velhinhos fofinhos, Eu amo meus avós, Mexeu com
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O Orkut e a velhice
171
idosos, mexeu comigo, etc. Assim, a associação entre as formas
de nomeação e o caráter da representação – se positiva, ou nega-
tiva – mostra-se muito forte, numa espécie de confirmação da
cruzada do “politicamente correto”.
Iniciemos pelos discursos infames, exemplificando-os por
duas comunidades e alguns de seus tópicos:
Velho no volante é uma merda - 06/11/08 – 1604 membros[1]
se vc é um daqueles que esta dirigindo, de repente aparece um
desses velhos filhos da puta no volante e faz uma puta cagada do
caralho com o carro e quase te fode junto e você morre de raiva deles
essa é a comunidade certa...
Tópico: sem nome -
Mateus: Cara no onibus tinha um motorista pé na cova, morreu e
esqueceu de cair foi pra pisar na embreagem e o fdp pisou no freio,
ele bateu a mão na paradinha de ligar o limpador que mandou
aquele negócio longe.
Após os 65 anos favor não dirigir mais...pq vc pode ser sua própria
vitima...
Tópico: Quase virei patê
Guilherme: Pois eh... esses dias na cidade vizinha (Chapecó +/-
180.000 hab), recem tinhamos comprado a nossa Saveiro,tavamos
saindo da loja...qdo num belo semáforo... os carros da frente frea-
ram rapidamente, nos tbm e um veio gaga atras derrapo e apro a
centrimetros da traseira...grrrrrrrr...ja imagino... o carro recem tira-
do da loja e vim um veio FDP desses e bate na traseira... veio no
trânsito eh um sako... principalmente nessas cidades de transito
complicado, cheio de semáforos, rotatórias, ladeiras e talz...
Julio: esse caras são 1 merda eles não sabem para que lado botar a
porra da ceta quase que porra o carro do meu irmao, o safado poe
a seta para a direita e vai para a esquerda, e meu irmao estava na
esquerda para ultrapassar
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Ricardo:
esses velhos tem que ser tudo interditado, va dirigir fogão, mesmo
assim, lá no azilo!
A ausência de algumas habilidades que caracteriza os ve-
lhos, na visão desses jovens, lhes retiraria o direito de realizar
certas atividades, nesse caso dirigir um veículo. Os que atraves-
sam os limites estabelecidos – segundo um dos internautas, diri-
gir só deveria ser permitido até os 65 anos (!) – encarnam riscos
e expõem ao perigo não só a sua vida, mas a dos outros. Os
palavrões utilizados, as interjeições típicas do internetês, as refe-
rências ao “motorista pé na cova”, ao “veio gagá” dão ideia da
agressividade manifestada pelos jovens. O tom direto de deboche
e escárnio acentua o deslocamento dos velhos em relação ao
socialmente estabelecido e desejável. Nota-se também que a figu-
ra do velho no volante é comparada à da mulher, que, nos discur-
sos recorrentes, é representada como um perigo no trânsito,
mostrado pelo famoso ditado popular “Mulher no volante, perigo
constante”.
Outros estereótipos são também evocados em tais comuni-
dades e um deles é de que os velhos devem abolir, definitivamen-
te, de sua vida a sexualidade. Reforça-se a ideia tradicional de
que sexualidade e velhice não combinam, numa concepção já
largamente contestada na atualidade. No entanto, dentro da pri-
meira ideia – a de que ser velho é ser sexualmente incapacitado
ou assexuado – encontramos comunidades em que, de certa for-
ma, os velhos são ridicularizados quando externam algum dese-
jo ou comportamento associado ao sexo, principalmente se o outro
lado envolvido for uma pessoa jovem, como veremos nas comu-
nidades analisadas.
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O Orkut e a velhice
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Eu tenho nojo de velho tarado! – 10/11/08 – 164.529 membros
Sabe aqueles velhos que ficam dando em cima das mais novas?
Como se fossem adolescente ainda... Então se você tem nojo de
velho tarado, está na comunidade certa!
***********
Eu odeio velhos safados – 10/11/08 – 1286 membros
Essa comunidade é pra TODAS as pessoas, indiferente se for mulher
ou homem, que odeiam os velhos safados, que ficam por aí falando
gírias, nada a ver, dizendo as piores cantadasssssssss...e deixando
você morrendo de vergonha por não terem sequer um pingo de res-
peito!!!
Tópico: 10/11/08 – Diga pq odeia velhos safados que mexem nas
ruas
Caroline: Conte suas experiências “nojentas” com esses seres que
não se tocam!!!
Tópico: 10/1108 – Eu tbm odeio esses velhos safados
Anônimo: Será que esses velhos nojentos não percebem que já pas-
sou da idade de ficar cantando a mulherada nova? Dá vontade de
vomitar só de pensar naquelas pelancas caídas quer dizer td caído
né... eles deveriam se tocar que quem gosta de coisas velhas é mu-
seu...
Tópico: 09/11/08 Por dinheiro algum
Anônimo: Nem com muito dinheiro! Simplesmente tenho nojo de
velhos tarados!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! eles não se tocam e pior: tem a cara
de pau de soltar piadinhas pra gente! Essa raça deveria ser elimina-
da da face da Terra o quanto antes.
Nesses excertos tem-se noção do desprezo aos velhos pela
reiteração dos sinais de pontuação e de outros recursos da lin-
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guagem usada na internet, os quais enfatizam o ódio e o deboche
ao que denominam de “velhos babões”, “velhos safados”, “velhos
tarados”, “caras de pau” e “seres que não se tocam”. A represen-
tação aponta para sujeitos que “não se enxergam”, isto é, não
reconhecem o seu desvalor, porque se insinuam para mulheres
jovens. Como têm a ousadia, se têm “pelancas caídas... td caí-
do”? Na sociedade brasileira essas representações são recorren-
tes e naturalizadas, o que se observa pela expressiva quantidade
de membros de algumas dessas comunidades. Observe-se que no
Orkut, quando se faz a busca pelo nome “velhos”, essas são as
comunidades que existem em maior número e que abrigam a
maior quantidade de internautas. Lá, os velhos são caracteriza-
dos como ‘pedófilos’ e inconvenientes, sem autocrítica, ridícu-
los, nojentos e repulsivos.
Também, em nossa sociedade, é comum se dizer que a mai-
oria dos velhos tem um gosto especial em conversar, de ouvir e
contar histórias. Se, em muitas culturas, os velhos, tidos como
sábios e experientes, eram os que transmitiam certos conheci-
mentos para as novas gerações através de sua fala, por outro
lado, nas sociedades urbanas contemporâneas, suas conversas
são vistas como chatas, desinteressantes e repetitivas. Para muitos
jovens, as conversas e histórias dos velhos não interessam e,
muitas vezes, são interpretadas como fofocas, principalmente se
os velhos fazem algum comentário sobre eles, jovens. Vejamos:
Odeio Velhinhos FOFOQUEIROS! 16/11/08 - 1.588 membros
Essa comunidade eh pra vc que nao aguenta mais aquela VELHA
FOFOQUEIRA da sua rua que fica sempre sentada na porta da cal-
cada dela, fofocando da vida de todo mundo.
(O que na cabeca dela, eh uma forma de divertimento)
Enfim, se vc tem ODIO dessas criaturas que nao fazem nada a nao
ser vigiar a vida de todos os seus vizinhos, seu lugar eh aqui....
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O Orkut e a velhice
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Desabafe, Chore, Abre a boca...e quem sabe ate crie um plano pra
calar de vez essa criatura, de lingua enorme!!!!
**************
Eu atraio velhos tagarelas: 12/11/08 – 52 membros
Você está no ponto do ônibus, no cabelereiro, na sala de espera do
consultório, na fila do banco, no supermercado e pronto! Lá vem
ela...aquela velha tagarela puxar assunto com vc: é o arroz que ta
muito caro, o motorista que ta correndo demias, a fila que não
anda, o último capítulo da novela... Se você é um imã de velhas
carentes, que aproveitam de sua maioridade para abusar de nossa
paciência esta é a sua comunidade.
Tópico: 12/11/08 – Pq sempre o mesmo assunto?
Júlia: Velho chato não tem criatividade, sempre puxa o mesmo as-
sunto! comigo e foda, sempre tem que reclamar que o motorista do
onibus não para, não abre a porta, essas coisas... tudo bem, um dia
eu tb vo ser velha, mas velha chata e reclamona e sacanagem!!! Qdo
não ta reclamando, ta falando dos tempos da juventude...pqp
Júlia: Você esqueceu de falar do tempo!! eles sempre reclamam,
nunca tá anda bom.. ou tá calor demais ou tá frio, o tempo é
maluco. Sempre a mesma coisa!! No elevador então, é um terror...
***************
Eu odeio velho fofoqueiro!!! – 12/11/08 – 667 membros
Você não aguenta aqueles velhinhos curiosos que estão sempre dan-
do relatório da sua vida pra todo mundo!? Ou vc está cansado de ser
observado 24 hs por dia por um daqueles velhinhos bem fofoqueiros
que vão contar tudo que vc faz e ainda aumentar um pouquinho?!
Se a resposta dessas perguntas foram “SIM” eles atormentaram a
minha vida, então vcestá na comunidade certa!!!
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Na visão desses jovens, o interesse dos velhos em observar
as coisas, contar o que viram, comentar com outras pessoas,
interagir oralmente com as pessoas fora de casa constituem fofo-
ca ou intromissão na vida alheia. Os velhos, por não terem mais
o que fazer na ótica de uma sociedade produtivista, se
comprazeriam em olhar e comentar a vida alheia. Tudo sinaliza
que essa juventude do “tô nem aí” – que também ficará velha, se
não morrer antes, embora pareça esquecer isso – terá comporta-
mento diferente, ou seja, ao contrário dos velhos, não estará “nem
aí” para o que os outros fazem, ou seja, serão velhos, mas dife-
rentes dos velhos de hoje. O que transparece nas falas é que para
esses jovens, gostar de conversas e de fazer fofocas é um compor-
tamento exclusivo e detestável dos velhos.
Também aspectos mais formais da fala dos velhos servem
de mote para comunidades de zombaria dos velhos, como vere-
mos em algumas que, embora não tenham um número significa-
tivo de participantes, estão lá para serem frequentadas por aqueles
que acham “engraçada” (ou, até, insuportável) a linguagem dos
velhos.
Eu odeio gírias de velhos – 09/11/08 – 69 membros
você já foi chamado de merrequeiro, já te mandaram ir a conchichina,
falaram que você deu de burros n’água, já foi por acaso pro xilindró
ou xadrez. Essa é uma comunidade pra quem odeia esse tipo de
gírias afinal as coisas tem que mudar um dia se naum em vez de
gatinha teríamos que usar o famoso (BROTO)e isso não seria nada
bom. Eu só posso dizer que essa comunidade é supimpa (Massa)
affffffffff
Tópico: 08/11/08 Eta blezura
Anônimo: quem naum gosta dos velhinhos... o linguajar deles é mto
clássico... pena que to tussindo hj... axo que to custipado ahauahau
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O Orkut e a velhice
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Tópico: 08/11/08 – SUPIMPA
Essa comunidade esta SUPIMPA, UM BRINCO (Esta comunidade
está de primeira, maravilhosa)
Tópico: 08/11/08 O FIU (O filho)
Se viu o fiu da cumadi (comadre) Lurdê...
Coi mais linda... belezinha viu...
(coisa mais linda)
hahahahaha eu falo igual a um velho
Nesse caso, o que motiva o riso é a variedade da lingua-
gem, chamada de “gírias” de velhos ou “trocadilhos” de velhos,
considerada às vezes como ultrapassada e “brega”. Nota-se o
preconceito linguístico que coloca o velho como o “exótico”, aquele
que fala engraçado, diferente da linguagem “moderna”, dos jo-
vens, e por isso serve de mote para a zombaria. Às vezes, chega-
se ao extremo de apontar uma pretensa ininteligibilidade dessa
fala, imagem expressa na comunidade Não entendo gíria de
velho, por exemplo. Como se vê, a questão da diferença também é
marcada na variante linguística, que é vista pelos jovens
internautas como estranha, diferente do jeito jovem de se comuni-
car e, portanto, “arcaica”.
A questão da ocupação dos espaços, públicos ou privados,
ainda que virtuais, também é motivo de muitas abordagens. Para
alguns internautas, dividir o espaço com os velhos é incômodo, o
que fica explícito em algumas comunidades, como: Odeio velhos
no ônibus, Não dou lugar pra idosos, Odiamos velhos no Inglês,
Os velhos invadiram o Orkut, etc. A presença dos velhos nesses
espaços e, principalmente, no Orkut caracteriza o que seria uma
usurpação do espaço dos jovens. Conforme dados estatísticos,
cerca de 60% de usuários do Orkut são jovens entre 18 e 25 anos
ou assim se declaram, e este número parece autorizar que eles
considerem esse espaço apenas como seu. Dessa forma, os velhos
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estão “fora de lugar”. Mas, afinal, qual seria mesmo o lugar dos
velhos? Vejamos o que dizem os internautas em algumas comu-
nidades:
Lugar de idosos não é no Orkut – 13/11/08 – 1.142 membros
se vc acha que lugar de velho não é no orkut entra aí...e muito chato
vc ta la no orkut chegar eles botando um mol de porcaria no seu
orkut exemplo
“rafa meu filho e as namoradas” coisas do tipo ridicula...
se quer um lazer sai pra andar deixe de ser sedentário e nos deixe em
paz afinal um pouco de senso do ridiculo faz bem e tipo so pq tem
internet tem q ter orkut, MSN pode ter e tal mas ORKUT afffff não
tem o que fazer não vei velho= 35 pra la, (alguns não são chatos
mas geralmente apartir dos 35 paciência)
Os velhos invadiram o orkut 2 – 13/1108 – 40 membros
Essa comunidade é para todas as pessoas que ñ gostam de velhos
(idosos) bisbilhotando no seu orkut
Outras comunidades, como Os idosos dominam o ORKUT,
Idosos no Orkut também se alinham à mesma visão, reforçando
a concepção de que todo progresso tecnológico é ‘coisa de jo-
vens’; aqui os velhos são representados como os que “não se
tocam”, que não conhecem “o seu lugar”, que deveriam é “cami-
nhar” para deixarem o sedentarismo. Eles são os invasores, os
alienígenas do ciberespaço. O que querem eles nesse espaço cria-
do para a juventude? Por que não veem o ridículo de sua situa-
ção? sugerem as indagações. Esse discurso de que há artefatos,
objetos e atividades restritos a jovens (geralmente todos conectados
com novidades tecnológicas) e coisas só para velhos é dissemina-
do e legitimado em nossa cultura como integrando regimes de
verdade.
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O Orkut e a velhice
179
Outros discursos
Se, acima, vimos representações negativas de velhos
construídas por internautas jovens nas comunidades do Orkut,
caracterizadas na sua maioria pela expressão “eu odeio”, é pos-
sível encontrar outras comunidades onde velhos são referidos de
forma positiva, com demonstrações de carinho, admiração, res-
peito e condenação à atitude de outros jovens que estigmatizam
os velhos. É interessante ressaltar o alto número de participantes
de algumas delas, como Eu amo meus avós (286.206 membros) e
Eu amo minha avó (209.818 membros). Já em um primeiro mo-
mento, é preciso salientar que se trata de “avós” e “avó”, o que
tem uma carga semântica diferente de “velho”.
Há uma tendência, na análise sociológica, a afirmar que,
nas sociedades contemporâneas, as relações intergeracionais ten-
dem a ser substituídas pelas relações institucionais, principal-
mente nas classes economicamente mais favorecidas. Entretanto,
na contramão dessa tendência, ao que parece, “[...] a disponibili-
dade de tempo, aliada ao carinho dos avós, não destruiu o calor
e a importância dessa relação”. (MAGALHÃES, 1989, p.106) As-
sim, o carinho e o afeto referidos por centenas de internautas,
nas comunidades visitadas, são muito expressivos.
Adoro conversar com idosos: 13/11/08 – 4360 membros
Para aqueles que se sentem bem quando conversam com pessoas
mais vividas! Sejam bem vindos. Lembrem-se: eles merecem toda
nossa atenção...sempre!
Tópico: 14/11/08 – O que vc gosta nos velhinhos?
Jailson Dias: A sabedoria e a experiência de vida que eles podem
nos passar.
Nyna majestosa: O que eles tem a ensinar.
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Tópico: Porque vocês gostam de conversar com os velhinhos?
13/11/08
Selma: Por eles serem mais experientes que nós, acabam nos dando
bons conselhos contando da história de vida deles, dos momentos
que mais marcaram na vida deles.
Vemos, aqui, os velhos representados como pessoas experi-
entes e sábias, que têm muito a ensinar aos jovens. As histórias
repassadas são vistas de forma positiva e podem contribuir para
o aprendizado, provocando, por isso, carinho e atenção por parte
dos jovens. Os conselhos, ressaltados por um dos jovens, alia-
dos à experiência e à história de vida são vistos como importan-
tes por estes internautas. Vê-se que o longo tempo vivido e o fato
de terem dado início a outra geração são fatos significativos e
servem de orgulho para alguns dos jovens. É interessante obser-
var que o português apurado, sem abreviações e com observân-
cia de sinais de pontuação, que é utilizado na descrição da
comunidade Respeito ao idoso difere totalmente do “internetês”
comumente utilizado nas demais comunidades.
Assim, em algumas comunidades, fatores algumas vezes
vistos como inoportunos por alguns jovens em outras comunida-
des, para outros passam a ter importância, como é o caso das
histórias que os velhos gostam de contar. Nesse caso, representa-
ções positivas também são construídas e vários participantes res-
saltam que gostam de conversar com os velhos porque admiram
as histórias que eles contam. Vejamos:
Tópico: 14/11/08 – O que vc gosta nos velhinhos?
Amanda:
Eu gosto dos velhinhos porque eles tem muitas histórias para con-
tar do tempo deles e também porque eles são legais, tem pessoas
que não gostam deles só porque tem rugas cabelo branco e etc mais
um dia a gente vai ser assim também...
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 180
O Orkut e a velhice
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Antonio Gabriel: eles são meigos e contam histórias muito legais.
André: A sabedoria e disposição, gosto e aptidão para contar
histórias. Ouvia com prazer as mesmas histórias de minha avó,
pena que ela se foi...
************
Adoro conversar com velhinhos: 14/11/08 – 628 membros
bom essa comunidade é para aqueles que adoram uma conversa
com um velhinho. Eles explicam muitas coisas e viajam no tempo
show de bola, contem as histórias que contaram pra vcs.
Nesses excertos, nota-se que, ao contrário de outros jovens,
que consideram histórias de velhos chatas e repetitivas, esses
internautas as apreciam e valorizam, chegando a destacar a
aptidão que os velhos têm para histórias, ainda que essas, às
vezes, se repitam. Assim, por conta dessa habilidade, os velhos
podem ser representados como inteligentes e “legais”, tratados
como pessoas meigas que não devem ser ignoradas pelo fato de
serem velhas. Há, inclusive, a percepção de um dos jovens, que
chama a atenção dos outros internautas, de que ficar velho é
uma condição que atinge a todos, inclusive a eles, que um dia
serão velhos também.
A paciência é outra característica atribuída aos velhos em
algumas das comunidades visitadas, sinalizando para uma pro-
vável experiência que eles têm com os avós, que não só transmi-
tem histórias, mas valores e afetos. Ter paciência é visto de forma
positiva, como vemos abaixo.
Tópico: 15/11/08 – O que sua vovó tem de melhor?
Maria: Paciente até demais, só fala baixinho
Tópico: 15/11/08 – Porque vocês gostam de conversar com os velhi-
nhos?
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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Kátia: eu gosto porque eles têm paciência de escutar e que contam
suas experiências de vida!! e vcs???
Tópico: 15/11/08 – O que vc gosta nos velhinhos?
Adriana: A experiência e a paciência. Uma visão mais clara do mun-
do (alguns). Acredito que o tempo pode aperfeiçoar nossas qualida-
des, ou maximizar nossos defeitos, depende de cada um.
Vemos, nessas passagens, os velhos representados como
pessoas pacientes, que sabem ouvir e que merecem ser ouvidas.
A essa característica, novamente adiciona-se a experiência e sa-
bedoria dos velhos como valores de muita importância para se-
rem repassados aos mais jovens. Tendo que acompanhar o ritmo
frenético das sociedades contemporâneas, os jovens talvez sin-
tam essa necessidade de alguém com outro ritmo (paciência)
para ouvi-los, entendê-los e não apenas discriminá-los e demonizá-
los. Perceber nos velhos a imagem da pessoa paciente, que sabe
ouvir, que fala baixinho, contrapõe-se à visão estereotipada de
alguns outros jovens, sobre os velhos ranzinzas, que só resmun-
gam e repetem, uma imagem efetivamente desnaturalizada nes-
ses discursos apresentados.
É preciso, entretanto, observar que a admiração, carinho e
amor pelos velhos, na maioria das comunidades, estão ligadas à
relação de parentesco. Assim, as palavras “amor” e “carinho”
quase sempre trazem à tona representações dos avós, ou seja,
aparecem com mais frequência ligadas a eles, ao passo que “sa-
bedoria” e “experiência”, na maioria, são relacionadas aos ido-
sos não-parentes. Observe-se que, por vezes, até em função do
ciclo de vida, as expressões de afeto são associadas à saudade e
à homenagem a avós que já morreram.
Avós não deveriam morrer nunca: 15/11/08 – 34.675 membros
A vocês que nos cercam de muito carinho, de muito amor. Que nos
fazem todas as vontades. Que nos dão tudo sem nada pedir. Que nos
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 182
O Orkut e a velhice
183
amam mais que a si próprios. A vocês, meus queridos avós, que
Deus os abençoe cada dia mais. Que nos dê a bênção de sempre tê-
los conosco, nos dando muito amor, nos passando experiências, nos
ouvindo com carinho, nos “dengando”, nos aconselhando, nos su-
portando sempre com muita paciência. Vocês são para nós, seus
netos, um grande exemplo de experiência, de trabalho, de honestida-
de, de paciência, de fé, de firmeza, e principalmente de muito amor.
Amamos vocês...
Saudades dos meus avós: 15/11/08 – 23.130 membros
Pra todos aqueles que o tempo levou nossos vôzinhos (as) proutro
lugar. E que nos deixaram muitas saudades, daqueles velhos tempo
“na casa do vovô (vovó) tudo pode...
Que tivemos o Melhor Avô A Melhor avó do mundo...
*************
Tópico: 15/11/08 – É uma experiência maravilhosa...
C!ssa: Sempre tive muito carinho pelos meus avós... hj só tenho uma
avó paterna... Ah tive tb uma avó de coração mas ela faleceu... e
minha vizinha mora praticamente só ela tem 86 anos e também
gosto muito de conversar com ela. Ela me dar conselho e me sinto
realizada cada vez q vejo quanto a minha presença preenche bem o
tempo dela... nossa as histórias q ela conta são d+... Aê juventude
vamos dar mais valor a essa melhor idade eles tem muito a nos
ensinar..
*************.
Eu amo meus avós: 15/11/08 – 286.206 membros
Para todos que são fãs assumidos de seus avós. Vamos puxar o saco
de nossos velhinhos, porque eles merecem.
***********
Eu amo minha vó (vovó, avó...): 15/11/08 – 209. 818 membros
eu simplesmente AMO minha vózinha querida!!! Ela é uma mãezona
com o coração maior DO MUNDO!!!!!!!!! Você também ama sua
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
184
vó?? Faça parte dessa comunidade para homenagiar nossas avós
queridas
*************
Nossos avós, Uma lição de vida: 15/11/08 – 2.218 membros
Esta comunidade é para quem curtiu uma boa parte de suas vidas
com seus avós e que aprenderam algo com um dos maiores mestres
da vida ...”os avós”.
Existem pessoas que passam em nossas vidas, e não a tempo que
apague tudo o que elas fizeram por nós, pode passar o tempo que
for a saudades, as lembranças, as lições nada passa, porque a cada
palavra e a cada gesto era passado uma lição com sabedoria. “SA-
BEDORIA DO TEMPO DA VIVÊNCIA...” E essas pessoas maravilho-
sas que eu me orgulho tanto e que me acabo de tantas saudades são
vocês meus queridos avós.
Nota-se que os velhos, nessas comunidades representados
na figura dos avós, são considerados pessoas queridas que des-
pertam amor e carinho por parte dos netos. O fato de esses serem
acolhidos pelos avós, de eles fazerem as suas vontades, de serem
“dengados” por eles, como revela um dos jovens, desenvolvem
relações muito intensas entre avós e netos, que não caem no es-
quecimento, não passam.
Algumas comunidades chegam a denunciar os maus-tratos
contra os velhos e centenas de internautas postam em seus tópi-
cos o repúdio à violência, classificando tais atos como desprezí-
veis. Na comunidade Mexeu com idosos, mexeu comigo, bem como
em várias outras, os jovens abominam o comportamento de pes-
soas que maltratam velhos, como abaixo exemplificamos.
Mexeu com idosos, mexeu comigo: 15/11/08 – 32.338 membros
Se você não admite ver idosos passando por maus tratos e injusti-
ças, e fica revoltado com tamanha ousadia de determinadas pesso-
as ao tratar um idoso! Essa é a sua comunidade.
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 184
O Orkut e a velhice
185
Nesse excerto e em outros, a compaixão e a solidariedade
pelas pessoas idosas são manifestadas com muita veemência entre
os jovens. Os velhos, embora olhados como pessoas indefesas e
frágeis, são admirados e merecedores de atenção, respeito e cari-
nho, como ressaltam os jovens. Novamente, há a percepção de
que a juventude não é eterna, e que todos irão envelhecer, um
dia. Desejar que as pessoas que maltratam os velhos passem pelo
mesmo sofrimento, ou até morram, num intuito de retaliação,
demonstra a indignação desses jovens e o sentimento de ternura
que nutrem por aqueles que algumas vezes são desrespeitados e
agredidos pelos próprios familiares.
Últimas considerações
Após este breve percurso sobre comunidades do Orkut que
tematizam os velhos, pode-se verificar algumas formas com que,
nos discursos, diferenças são estabelecidas e confirmadas, iden-
tidades são construídas e reforçadas, através de uma importante
pedagogia que fascina a juventude. Ramos (2006, p. 202, grifo
nosso) comentando uma afirmação de Fischer (1997), ressalta
que, embora os discursos das crianças e jovens “[...] remetam
com muita freqüência às vivências advindas com os avós ou outras
pessoas idosas, seus discursos são interpelados pelos discursos
midiáticos que, com seu estatuto pedagógico, constroem signifi-
cados que produzem saberes e sujeitos”.
Efetivamente, o acesso às comunidades que, por um lado,
menosprezam e zombam do velho e, por outro, através da associ-
ação aos avós, os representam com admiração e afeto, nos leva à
reflexão de Lopes (2007, p. 151), que afirma:
[...] insígnias desfavoráveis em torno da imagem e da auto-estima
concernentes à velhice vão se contrapondo a novas possibilidades
de viver a diversidade [...] e que estamos num momento de transi-
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 185
A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
186
ção, em que os sentimentos positivos em relação à velhice são
significativos e apontam brechas para novos modelos de velhice.
Dessa forma, trabalhar com o Orkut nos possibilita estudá-
lo como veículo de uma pedagogia que, externa à escolarização,
vai ensinando múltiplas coisas, a partir dos discursos postos
em circulação, que moldam comportamentos e condutas juvenis
nesses novos tempos. Nas análises feitas, procuramos ver como
esses jovens falam e de onde falam para representar os velhos, e
como eles vão ‘ensinando’ a outros jovens marcas identitárias
que definem quem é velho e como se deve ser velho. Nas 36 co-
munidades pesquisadas, pudemos observar uma grande produti-
vidade de opiniões, nas quais, os jovens, de forma positiva ou
negativa, representam os velhos, posicionando-se e posicionando-
os em diferentes lugares. Observamos, ainda, que o contato ou o
distanciamento com os avós ou com outros velhos é significativo
na construção dessas representações positivas ou negativas da
velhice. Percebe-se que o culto ao “ser jovem”, que domina a
mídia, a publicidade e a sociedade contemporânea, propicia a
criação de uma visão estereotipada, grotesca e até ridícula da
velhice, colocando os velhos como pessoas estranhas e alheias
ao mundo contemporâneo. Entretanto, o contato com idosos, prin-
cipalmente nas boas relações familiares, pode ser a maior moti-
vação para uma convivência harmoniosa e não apenas para a
tolerância à velhice.
Valemo-nos, neste estudo, da perspectiva dos Estudos Cul-
turais, no sentido de direcionar o nosso olhar atento para a influ-
ência que essas pedagogias culturais exercem na produção de
identidades e subjetividades, acreditando que “[...] a pedagogia
está em qualquer lugar onde o conhecimento é produzido”.
(GIROUX; McLAREN, 2004, p. 144) Essa produtividade pedagógi-
ca está presente também nas comunidades do Orkut que foram
aqui analisadas, onde circulam descrições e narrativas produtoras
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 186
O Orkut e a velhice
187
de representações legitimadas como verdades, como senso co-
mum, como discurso corrente e dominante.
Referências
BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Tradução Maria Helena Franco
Monteiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995.
DEBERT, Guita Grin. A reinvenção da velhice: socialização e processos
de reprivatização do envelhecimento. São Paulo: Edusp, 2004.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Tradução Laura Fraga de
Almeida Sampaio. 14. ed. São Paulo: Loyola, 2006.
GILL, Rosalind. Análise de discurso. In: BAUER, Martin; GASKELL,
George. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2002. p. 244-270.
GIROUX, Henry; McLAREN, Peter. Por uma pedagogia crítica da
representação. In: SILVA, Tomaz Tadeu da; MOREIRA, Antônia Flávio
(Org.). Territórios contestados: o currículo e os novos mapas políticos e
culturais. 6. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.
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homogeneidade da velhice para a heterogeneidade das vivências. In:
NERI, Anita Liberalesso (Org.). Idosos no Brasil: vivências, desafios e
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Fundação Perseu Abramo, 2007. p. 141-152.
LUKE, Allan. Análise do discurso numa perspectiva crítica. In:
HYPOLITO, Álvaro Moreira; GANDIN, Luís Armando (Org.). Educação
em tempos de incerteza. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. p. 93-110.
MAGALHÃES, Dirceu Nogueira. A invenção social da velhice. Rio de
Janeiro: Ed. Papagaio, 1989.
NERI, Anita Liberalesso. Atitudes e preconceito em relação à velhice.
In: ______ (Org.). Idosos no Brasil: vivências, desafios e expectativas
na terceira idade. São Paulo: Edições SESC SP; Ed. Fundação Perseu
Abramo, 2007. p. 34-46.
______. Atitudes em relação à velhice: questões científicas e políticas.
In: FREITAS, Elizabete de et al. (Org.). Tratado de geriatria e
gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. p. 1316-1323.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
188
RAMOS, Anne Carolina. Cultura infantil e envelhecimento: o que as
crianças têm a dizer sobre a velhice. 2006. 268 f. Dissertação
(Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006.
SANTOS, Geraldine A.; LOPES, Andréa; NERI, Anita Liberalesso.
Escolaridade, raça e etnia: elementos de exclusão social de idosos. In:
NERI, Anita Liberalesso (Org.). Idosos no Brasil: vivências, desafios e
expectativas na terceira idade. São Paulo: Edições SESC SP; Ed.
Fundação Perseu Abramo, 2007. p. 65-80.
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189
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CORPOS ‘GORDOS’ NO ORKUT:
escritas sobre si e os ‘outros’
Elisabete Maria Garbin (UFGRS)
Viviane Castro Camozzato (UFGRS)
Se situem GOOOOORDAS, vcs sujam a paisagem. [...] tem
+ é q desaparecer da face da terra ou então se mudara pra
outro planeta.
Iniciando a conversa...
A pesquisa com que este artigo dialoga teve início com a
seguinte inquietação: como são tornadas possíveis escritas na
internet que demonstram o ódio a pessoas ‘gordas’? Tal inquieta-
ção mobilizou-nos a ponto de selecionar comunidades do Orkut
para o desenrolar do referido estudo. Essa escolha ocorreu pelo
fato de nos depararmos com uma forma de escrita mais ‘bruta’,
mais escancarada, crua, diferente de outros espaços cibernéticos
(ou mesmo os não cibernéticos), onde narrativas de si e/ou sobre
‘outros’ não são – até pela própria conformação do espaço virtu-
al – visíveis. Leia-se como outros espaços, salas de bate-papo,
MNS Messenger, e-mails, weblogs, fotologs, dentre outros. Ora,
se o objetivo não é ‘descobrir’ verdades, mas analisar efeitos de
certos discursos nos sujeitos, nos modos de se produzirem em
relação a tais discursos, então a internet se mostra como um
campo fértil para esse tipo de pesquisa (ela é, afinal, um campo
fecundo para a invenção de novas sociabilidades, menos determi-
nadas por locais de pertencimento, status socioeconômico, etc., e
por isso de uma riqueza que ainda estamos por (re)conhecer).
Garbin (2003) assinala que a Rede “[...] converteu-se num
‘laboratório’ para a realização de experiências com as construções
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
190
e reconstruções do ‘eu’ na vida pós-moderna, uma vez que, na
realidade virtual, de certa forma moldamo-nos e criamo-nos a
nós mesmos”. (GARBIN, 2003, p. 126) É com essa possibilidade
sem limites de nos reinventarmos através de nicknames, por meio
dos quais se tem a possibilidade de construir e experienciar dife-
rentes identidades, ou através de escritas que podem ser não
identificadas nas comunidades do Orkut, nos perfis fakes, nos
álbuns de fotos [fakes ou não] e nos fóruns de discussão, nos
quais podemos nos descrever a partir de um ‘eu’ inventado (como
algum artista, personagem de desenho animado, com caracterís-
ticas físicas consideradas mais ideais), entre outras possibilida-
des, que habitantes da cibercultura se deparam no ciberespaço,
tornando possível que, nesse espaço específico, expressem pai-
xões, gostos, preferências, assim como seus ódios, sua intolerân-
cia, seu desprezo para com o ‘outro’ que, de certo modo, os
inquietam. O excerto, a seguir, corrobora a ideia:
Tópico: Que nojo dessas gordas. Comunidade Eu odeio gordas
nao vejo como preconceito, eu tenho todo o direito d nao gostar e
expressar isso, nao sou obrigado a fingir q gosto, apenas tolero e
nao saio por ai dizendo na q nao gosto delas q se acham. foi por isso
q entrei na comunidade e se quem nao gosta dos nossos pensamen-
tos, q crie uma comunidade soh para vcs e ai via uma ideia para o
nome: “odeio quem odeia gordas q se acham”. sendo assim, criem a
comunidade e deixem de vir fazer gracinhas aki como se vcs fossem
gostassem de tudo, e tenho dito!
Esses ‘outros’ são aqueles que se distanciam dos parâmetros
de normalidade que a sociedade contemporânea vem, com tanta
eficiência, inventando cotidianamente. Os internautas são inces-
santemente interpelados a terem um corpo em forma, livre de
marcas ‘indesejáveis’ – como estrias, celulites, flacidez, gordu-
ras localizadas e em excesso, etc. –, incentivados, portanto, a
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Corpos ‘gordos’ no Orkut
191
investir boa parte de seu tempo, dinheiro, preocupações e aspira-
ções em como recauchutá-lo, aparelhá-lo, torná-lo mais próximo
da ‘perfeição’ almejada. Frente a isso, como será que esses mes-
mos sujeitos estão se relacionando com as pessoas que possuem
corpos nomeados como ‘diferentes’, e, por isso, tornam-se sujei-
tos ‘indesejados’, já que sua gordura, celulites, estrias, flacidez,
etc., enfim, os diferenciam, ‘diminuem’, frente aos demais?
Sobre as escolhas, os caminhos, as
temáticas...
Nossas inquietações tomaram mais corpo ao encontrarmos
uma comunidade intitulada Eu odeio gordas. Nessa comunidade
podíamos visualizar conversas que expressavam uma demonização
sobre os sujeitos identificados como ‘gordas’. Entre tais tópicos de
conversas, nos deparamos com o Gordas & anões... extermínio é a
solução, que motivou vários debates na referida comunidade:
Tópico: Gordas & anões... extermínio é a solução. Comunidade
Eu odeio gordas
Aqui estou eu para promover uma ideia que vendo desenvolvendo
desde os primordios de minha existencia, essa seria a TOTAL
destruicao dos seres que hoje em dia andam e assolam livremente
nossas sociedades ja tao necessitadas de paz e tranquilidade, eu
sou a favor do exerterminio de tais criaturas pois:1) sao completa-
mente inuteis, ja que nao teem nenhum valor reprodutivo ou de
adorno...hoje em dia os chamamos de OBESOS, GORDOS, ROLHAS
DE POCO, SUPUSITORIOS DE ELEFANTE e por ai vai...aqui estou eu
tambem para promover minha ideia de total destruicao do que hoje
chamamos de anoes...eles devem ser destruidos pois: 1) sao parcei-
ros de nossas inimigas mortais (gordas) 2) com elas formam um
complo contra os humaniodes normais (nos) 3) anoes nao servem
para nenhum tipo de trabalho, com execessao dos que prestam um
servico util a comunidade morando e trabalhando dentro de maqui-
nas de refrigerente, caixas eletronicos e etc...com execessao destes
uteis amiguinhos TODOS devem ser mortos... PAZ
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
192
Diante de tal escrita indagamo-nos: quais singularidades
dessa parte do ciberespaço possibilitam que as pessoas expres-
sem, de forma tão escancarada, os seus ódios? Eles generalizam
certas características associadas aos indivíduos identificados
como ‘gordas’ e as transformam em ‘coisas’, seres sem história,
sem nome, sem valor? Que crueldade é essa? Como isso é tornado
possível?
Esse contato foi o primeiro mobilizador para que se instau-
rasse o desejo [de orientanda e orientadora] de estudar mais a
respeito dessas questões, pois parece que se configura como uma
urgência do nosso tempo analisar as formas com que são atribu-
ídos valores aos diferentes modos de estar sendo humano. Consi-
deramos que tais operações precisam ser problematizadas, pois
são produtos de nossa inserção na rede de significados que é a
cultura. Além disso, nossos modos de ver não são dados a priori,
não são simples ‘veículos de olhar as verdades do mundo’. Os
nossos modos de ver instituem as próprias ‘coisas’, lhes atribu-
em significados. Ou seja, os ‘gordos’ – dentre outros ditos ‘dife-
rentes’ – não foram sempre os ‘outros’ da esfera social; não são,
desde sempre, nomeações ‘negativas’, mas passaram a ser no
momento em que murmúrios que ecoavam esses ditos tomaram
corpo e estatuto de verdade frente a outras significações. Aqui,
portanto, o olhar recebe uma grande importância, pois, “[...] é o
olhar que botamos sobre as coisas que, de certa maneira as cons-
titui. São os olhares que colocamos sobre as coisas que criam os
problemas do mundo”. (VEIGA-NETO, 2002, p. 30)
Cabe destacar que além das comunidades que pregavam o
ódio às mulheres nomeadas como ‘gordas’, como já salientado, a
seleção da comunidade No Food se deu, primeiramente, para que
fosse possível realizar um contraponto com as comunidades do
tipo ‘eu odeio’ analisadas na pesquisa. A intenção era mostrar o
quanto discursos corporais vão de um extremo a outro, incidindo
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 192
Corpos ‘gordos’ no Orkut
193
sobre intensas práticas de cuidado e controle corporal – algumas
chegando a casos de transtornos alimentares – e, ainda, sobre as
práticas de racismo sobre o ‘outro-gordo’. Além disso, embora o
No Food enderece à ideia de ficar sem comer, o que vemos é uma
apropriação de tal comunidade por pessoas que, julgando-se ‘gor-
das’, tentam criar identificações nesse espaço para, de tal modo,
voltar a si e realizar práticas intensas de cuidado e controle para
a conquista de seu principal objetivo, ou seja, ‘emagrecer para
ser feliz’: e logo não só eu como todas nós vamos estar magras
lindas e felizes...
Corpos-exibição nas vitrines do Orkut
Tópico: Diário. Comunidade No Food
e logo naoo só eu como todas nós vmaos estar magras lindas e
felizes...
Tópico: Desafiooooooo!!! Uhuuu. Comunidade No Food
amigas to tentando é vou conseguir é melhor de tudo é saber que
tem gente igual a mim...que a magreza é tudo pra mim...fika sem
comer me deixa feliz....vencer seus proprios limetes...
As escritas acima parecem evidenciar que, nestes tempos,
cada vez mais adquire importância não os sentimentos e as for-
mas das pessoas serem, ‘internamente’, mas fundamentalmente
o modo de as pessoas serem ‘externamente’. É o que afirma
Sant’Anna (2002), ao referir que o corpo aparece, atualmente,
como o lugar por excelência da exposição da subjetividade de
cada um, como o principal alvo dos cuidados que outrora eram
destinados à alma. Para muitos, portanto, o corpo se reveste como
o que de mais belo e importante possuímos, já que cuidar desse
novo ‘templo’ “[...] significaria [...] o melhor meio de cuidar de si
mesmo, de afirmar a própria personalidade e de se sentir feliz”.
(SANT’ANNA, 2002, p. 99) Generalização, portanto, do corpo como
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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o lugar privilegiado do ‘cuidado do eu’, uma vez que na atuali-
dade o corpo reveste-se de uma centralidade ímpar e investe-se
como um contemporâneo marcador social, conforme salienta
Damico (2004).
Se, como estamos argumentando, a internet e, especialmen-
te neste caso, o Orkut, constitui-se como um laboratório para a
produção de identidades e subjetividades, então o corpo de cada
um de nós encontra-se, também, dentro dessa discussão. Quer
dizer, mais do que um ‘material’, algo da organicidade, o corpo é
um ‘elo’ de ligações diversas entre os sujeitos. Pelo corpo, então,
muitas das nossas experiências são construídas. O corpo se tor-
na, assim, efetivamente, uma vitrine de como um ‘é’ e, do mesmo
modo, de como os ditos ‘outros’ são – ainda que temporariamen-
te, já que o que consideramos como ‘sendo’ é um apego provisó-
rio a uma determinada posição-de-sujeito.
Ora, essa visibilidade anunciada, escancarada, evidencia que,
num mundo em que as imagens são cada vez mais centrais, o
corpo, como uma imagem a ser vista e apreciada, vem sendo
progressivamente consumido, tendo por base os parâmetros de
normalidade criados que, efetivamente, propõem diferentes práti-
cas para o voltar-se sobre si. Assim, o que cada sujeito espera é
poder ser apreciado e admirado nesse corpo que, ao contrário do
que os medievais imaginavam, não está desde sempre dado por
Deus, mas é passível de sofrer modificações contínuas nestes tem-
pos em que ele aparece como responsabilidade individual de cada
sujeito.
Assim, o tema corpo vem sendo posto cada vez mais em
evidência na cultura contemporânea, tornando-se alvo crescente
dos nossos investimentos, cuidados e afetos. Além disso, desde
outras culturas, intervimos no corpo a fim de embelezá-lo e
fortalecê-lo, para realizar distinções relacionadas tanto ao esta-
tuto social quanto a questões que envolvem pertencimentos e
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Corpos ‘gordos’ no Orkut
195
exclusões, enfim, abrangendo uma infinidade de finalidades.
(SANT’ANNA, 2000) Nesse sentido, as intervenções corporais não
são algo recente em nossa história, pois, ao longo dos séculos,
diferentes povos preocuparam-se em produzir distinções em seus
corpos, enquanto território produtivo para as atribuições de sen-
tidos. Nessa perspectiva, o corpo, enquanto um híbrido entre o
biológico e a cultura, tem suas significações amarradas nos tem-
pos e espaços em que está inserido. Ora, se o ‘voltar a si mesmo’,
na atualidade, tem a ver mais com os cuidados com o corpo, com
os modos pelos quais investimos nele, o qualificamos, transfor-
mamos..., isso não nos reporta a uma situação estanque ou mes-
mo surgida sem descontinuidades. Afinal, as relações que
mantemos conosco e com os demais são construídas através das
transformações que estão acometendo a sociedade, ou seja, cons-
truções contingentes, situadas em e articuladas a transformações
históricas, políticas, sociais e culturais.
Tópico: Aconteceu de novo..... Comunidade No Food
é simples...minha felicidade está n MAGREZA e ponto. Nada nem ng
vai mudar essa minha “opinião” ,ate gostaria d pensar de outra
forma,mas...rsrs , cada um cuidando de sua vida q é melhor !!Acho
q somos bem grandinhas p sabermos o q estamos fazendo..já tentei
sair dessa uma vez ,e o resultado foi terrivél ,portanto...não vejo
lógica em ser “gorda” e fingir q é feliz!
Tópico: beleza poe mesa. Comunidade No Food
Não vamos ser hipócritas, beleza Poe mesa sim. E para mim isso e
importante sim. Quem são as pessoas consideradas bonitas? As que
são magraaaaaaaaaaaaaaas, e eu quero ser binita, pois a vida
exige isso da gente, as pessoas me vêem e já tem noção de quem eu
sou, eu sou o q eu mostro e quero me mostrar bonita e desejável.
Não sou nenhuma ignorante não. Mas espero q tb me respeitem e
deixem eu ser como sou
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
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O que transparece, no excerto acima, é um ‘eu’ que fica à
superfície, marcado como sendo o corpo. Esse ‘eu’, visto dessa
forma, vê os ‘outros’ (e a si mesmo) como corpos em exibição
que devem ser mostrados, exibidos, transformados constantemente,
recauchutados, qualificados... a partir do que é posto como sen-
do o ‘belo’ e aceitável hoje. Assim, pensar no corpo como sendo a
‘vitrine do eu’ nos possibilita enxergar que estamos numa cultu-
ra em que este, por ser o que de nós é mais visibilizado e exposto,
torna-se aquilo que nós somos, ou seja, nos inserimos no mundo
tendo por base o que aparentamos ser – assim como ‘lemos’ o
que uma pessoa ‘é’ a partir do que ela aparenta ser. Essa
centralidade do parecer ser como atestador do que uma pessoa
‘é’ está relacionada a uma cultura em que a imagem é central
como ‘atestadora’ daquilo que ‘somos’. Numa cultura do espetá-
culo, em que as imagens movimentam as nossas maneiras de
pensar, as pessoas relacionam-se crescentemente mais tendo por
base as imagens, como contemporâneos arsenais constitutivos.
Assim, enquanto tendência contemporânea tende-se a
[...] transformar todas as partes do corpo em imagens de marca e
num marketing privilegiado do eu. Por conseguinte, o desejo de
investir nas imagens corporais torna-se proporcional à vontade de
criar para si um corpo inteiramente pronto para ser filmado, foto-
grafado, em suma, visto e admirado. (SANT’ANNA, 2002, p. 106)
É por centrar-nos no contemporâneo que as reflexões de
Bauman (2001) são importantes, pois, como o referido autor ar-
gumenta, num mundo líquido, em que cada vez mais reina a
incerteza, em que cada vez mais o que interessa é o final, os
resultados – mesmo que estes sejam difíceis de prever – e não os
meios, os indivíduos podem investir em seus corpos, vendo-os
como um produto que, por meio de uma série de intervenções,
pode tomar a forma do objeto desejado. Expressão, portanto, de
um desejo que pode logo ser revisto, em prol de modificações que
a vida no orkut - miolo.pmd 4/8/2010, 16:53 196
Corpos ‘gordos’ no Orkut
197
nos são acenadas. Pois parece que, assim como em outras áreas,
tratando-se do corpo estamos sempre insatisfeitos de alguma
maneira, uma vez que as tendências sobre ele vão se modifican-
do continuamente e, “Para que as possibilidades continuem infi-
nitas, nenhuma deve ser capaz de petrificar-se em realidade para
sempre”. (BAUMAN, 2001, p. 74) Além disso, como o tempo não
cessa, a vontade de minimizar continuamente seus efeitos em nós
vai crescendo proporcionalmente. Assim, parece que estamos, ir-
remediavelmente, enredados em intervenções nos corpos para
barrar as inscrições do tempo; por outro lado, enredados tanto
nos olhares que lançamos a nós mesmos – e aos outros – quanto
nos olhares que os outros lançam sobre nós, pois, nesse proces-
so, uma vez que haja a sensação de ‘desencaixe’ em relação aos
parâmetros que estão gerindo os corpos nos direcionamos a solu-
ção mais comum, e por isso talvez banalizada, que é intervir
nesse corpo, transformando-o:
Tópico: mudar pra ser feliz. Comunidade No Food
to muito feliz porque cada vez emagreco mais. O meu objeto de
chegar nos 45kg ta pertinho. e so continuar firme. eu precisava
mudar para ser Felix, fiquei muito tempo me punindo e punindo o
meu estomago, agora quero modificar tudo. e olha q eu era um
monstro de 77kg!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
No Dossiê universo jovem 3 (MTV, 2005) podemos ter uma
noção do quanto as questões relativas aos desejos sobre os cor-
pos estão em evidência. No referido Dossiê, a preocupação com o
corpo é algo que ultrapassa as questões relativas às classes soci-
ais, pois é uma preocupação que se encontra transversalizada na
sociedade, tendo investido as suas flechas em todas as camadas
sociais. Assim, da classe A à C, e.g., o desejo de cuidar, adular,
modificar o corpo está presente, colonizando os sonhos de jovens
e outras gerações. Além disso, os depoimentos e análises demons-
tram o quanto a juventude centra-se no corpo, chegando ao ponto
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de oito por cento (8%) dos participantes da pesquisa declararem
“que ‘certamente estariam dispostos a ser 25% menos inteligentes
se pudessem ser 25% mais bonitos’, e outros 7% decla[ra]ram que
‘provavelmente abririam mão de 25% de sua inteligência em tro-
ca da mesma porcentagem de beleza’”. (MTV BRASIL, 2005, p.
35)
Dentro desse conjunto de discussões que atravessam a soci-
edade e a nossa produção enquanto sujeitos historicamente situ-
ados, cabe salientar que no Orkut ressoam discursos de todas as
áreas como ilustra o excerto a seguir:
Tópico: é preciso criar vergonha. Comunidade Eu odeio gordas
Não entendo como esse monte de graxa ambulante não tem vergo-
nha de viver com essa gordura toda. Emagrecer é so uma questão
de querer e de gostar de si. Puxa, há tanta informação hoje em dia.
Na tv a gente vive vendo noticias sobre saúde, cada vez inventam
novas coisas para emagrecer, tem academia pra tudo q e lado, e so
se alimentar bem que emagrece. Mas não elas preferem ficar se
entupindo e nos fazendo conviver num mundo em que esta cheio de
seres horrorosos
Assim, se jovens e pessoas de todas as gamas e tipos se
comunicam, se expõem e utilizam do corpo para exibir a si mes-
mo e participar dos jogos avaliativos a partir das imagens corpo-
rais, é necessário compreender que tais práticas encontram-se
incrustadas num contexto mais amplo, com o qual os sujeitos
que adentram ao Orkut não deixam de dialogar. Assim, o que as
discussões sobre um alargamento nos usos da internet e, agora,
da centralidade do corpo nos jogos de sociabilidade dos sujeitos
parecem nos demonstrar é um certo dilatamento, principalmente,
desses laboratórios para as experiências cotidianas.
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Corpos ‘gordos’ no Orkut
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Corpos-escrita e as suas articulações nas
produções de si
O título ilustra um dos achados da pesquisa em questão: o
tom confessional das escrituras. Em muitas comunidades do Orkut
tal tom é fortemente evocado. Assim, orkuteiras vão narrando
suas histórias sobre o que acreditam ser motivo de estar ‘gor-
das’, o que as está motivando a buscar modificar os seus corpos
e as formas de verem a si mesmas, as práticas cotidianas que
passam a assumir (ou mesmo intencionar) para realizar seus
objetivos:
Tópico: ANIMADA. Comunidade No Food
oba, tb quero entrar nessa, e como nunca psoto aqui vou contar
minha historinha xD. no ultimo ano eu cheguei a pesar 68 kg, pra
1,63m... eu era muito gordinha, mas com muita dieta e bicicleta
cheguei em 59 kg.. n fazia no food, e aos poucos tava emagrecen-
do... foi aí que eu parei de emagrecer !! resolvi entrar numa acade-
mia, fiz avaliação e tal, e preciso perder mais uns 7 quilos, mas com
dieta normal não vai ! Então criei esse profile pra acompanhar vcs
nessa, pois eu falo com toda a certeza: só é gordo quem quer !! e
todas nós podemos alcançar nossos objetivos, basta ter foco !!
Através da escrita, como exercício de si sobre si, cada um
assimila “a própria coisa na qual se pensa. Nós a ajudamos a
implantar-se na alma, a implantar-se no corpo, a tornar-se como
que uma espécie de hábito, ou em todo caso de virtualidade físi-
ca”. (FOUCAULT, 2004, p. 432) Essa escrita, na qual nos inscreve-
mos no curso de nossas vidas, nos marca. Nesse sentido, cabe
salientar o papel da técnica utilizada de escrever como foram os
seus dias, relatando o que e de que modo comeram, se pratica-
ram exercícios, como isso ocorreu, o que compraram, o que as
estimulou, que ‘deslizes’ na dieta foram cometidos, etc.
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Tópico: ESTAMOS JUNTAS NESSA!!! Comunidade No Food
eu sempre entro em NF mais a noite quando chego do trabalho
acabo beliscando alguma coisinha (um amendoim, bombom
etc...)hoje tive vontadeade chorar, meu objetivo eh no minino 200
gramas por dia, totalizando em um mes e duas semanas 7 a 8 kg!!!!
VAMOS LÁ MENINAS, VAMOS DAR FORÇA UMA AS OUTRAS
Temos, aqui, um modo de apreender para si certos discur-
sos verdadeiros que elas querem ter marcados em si mesmas,
talvez para se constituírem com uma armadura para poderem
deixar de ceder às tentações altamente calóricas que as podem
assolar. Como salienta Ortega (2002a), as práticas de bio-ascese
utilizam-se de técnicas que eram utilizadas na ascese da antigui-
dade, mas os seus objetivos é que variam, ou seja, a ligação dos
sujeitos a certos significados valorizados em nossa época que
são inquestionavelmente diferenciados.
Assim, parece que, quanto mais desvios ou faltas cometidas
são expressas nas comunidades do Orkut, menores serão as possi-
bilidades de neles incorrer. Essa pode ser uma técnica de si corri-
queira em nossos dias, propriamente esse ato de narrar o seu dia
através daquilo que se come, técnica essa que já víamos nos gre-
gos também, mas de formas distintas, obviamente. Salienta-se,
assim, o quanto a confissão é evidentemente marcada em comuni-
dades do Orkut, enquanto espaços propiciadores dos sujeitos pode-
rem dizer a verdade sobre si mesmos para si e para os outros –
examinando-se. Escrutínio dos atos, os quais, em repetidas vezes,
são detalhadamente narrados no Orkut, dentro de tópicos varia-
dos, entre eles os intitulados ‘diários’. Essa ação de registro escri-
to dos atos funciona como um meio de, através da escrita,
rememorar o dia para, desse modo, invocar as ações e poder julgá-
las. Para um efetivo domínio constante sobre si, essa prática mos-
tra-se eficiente, pois possibilita a busca por não incorrer mais a
tais erros que, aliás, muitas vezes tornam-se morais:
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Corpos ‘gordos’ no Orkut
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Tópico: diário. Comunidade No Food
Bomm vou contar aki meu dia diaa... minah meta é perder 15 kilos..
tenhooo um planoo de começar cm 150 calorias baixar pra 100 na
2° semana e 50 na ultima...pra perder 15 kilos... meu dia hj foi
assimm. comi 1 banana e 3 fatias de pão nutella [cada fatia 30
calorias]. TOTAL: 152 CALORIAS. PERDI: 1KG vamos la pessoal,
escrevam vcs tb!!!!! a gente vai se ajudar e conseguir os nosos
objetivo
Nos atuais tempos, “[...] já não é o corpo a base do cuidado
de si; agora o eu só existe para cuidar do corpo, estando a seu
serviço”. (ORTEGA, 2002a, p. 167) As preocupações sobre o tor-
nar-se-outro-de-si-mesmo parecem inclinar-se, atualmente, para
tornar-se outro na aparência, como já foi dito, já que pareço exis-
tir somente se admirada pelo olhar do outro – atitude que eviden-
cia a submissão ao corpo, porque, ao que parece, dependemos
dele para mostrar quem, o que e como somos.
As produções de si por meio da escrita atendem à necessida-
de de visibilizar-se no espaço público, estando dentro das práti-
cas confessionais. Atendem à necessidade tanto de ‘fazer falar’
quanto a de ‘ser visto’. Entretanto, isso faz parte do processo de
escrever e, ao mesmo tempo, de ser inscrito por aquilo que se
escreve, pelo modo como se escreve e, ainda, nos espaços
internáuticos em que há trocas de mensagens, ser inscrito pelos
comentários de outros sobre o que escrevemos anteriormente.
Nesse processo, nos produzimos enquanto sujeitos de discursos
específicos.
Escrever de modo confessional contribui, ainda, para “[...]
estimular algum tipo de reflexão crítica que modifique a imagem
que os participantes têm de si mesmos e de suas relações com o
mundo, o que [...] se chama de ‘tomada de consciência’.”
(LARROSA, 1994, p. 47) Em recorrentes momentos nos depara-
mos com escritas que alertam para a necessidade de ‘tomar cons-
ciência’ sobre as condições corporais: o pior é a consciência
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pesada, qualquer coisa q como, me errependo depois,e apelo pros
laxantes!!!!!! Ou, ainda: preciso tomar conciencia da minha con-
dição de gorda para poder modificar isso. Aiiii, é duro isso. Me
ajudem!!!!!!!!!!!!!.
Como já nos referimos anteriormente, as relações que cada
sujeito estabelece consigo relacionam-se com os modos de se re-
lacionar com os ‘outros’ – enquanto práticas produtivas –, por
isso não poderíamos problematizar as produções recorrentes dos
‘gordos’ como ‘outros’, sem articular essas discussões ao escopo
da cultura, uma vez que “São os textos circulantes no império
cultural que estão nos inventando e fazendo de nós o que so-
mos”. (COSTA, 2005, p. 211) Trata-se, enfim, da necessidade de
compreender as práticas no interior de formações discursivas que
as tornam possíveis e, muitas vezes, até desejáveis.
Corpos-execrados e as produções dos
‘outros’
Tópico: Vou denunciar a comunidade... Comunidade Eu odeio
gordas que se acham
essa sua cara horroroza, voce é oq ha de mais feio no mundo, voce
é gorda, cara de piranha drogada, feia demais, e ainda se acha e
vem defender essa tua raça de merda, voce é um erro da natureza
[...] como o pessoal todo ja disse voces são bizarras demais, cria
vergonah nessa tua cara! por favor pra voce e pras outras pessoas
aqui! se possível, se mata...pra voce é a melhor solução!
Tópico: Vou denunciar a comunidade... Comunidade Eu odeio
gordas que se acham
Cê gosta de ler? Pq vc nao vai ler em cima de uma esteira? Ou entao
em cima de uma bicicleta ? Vc ganha muito mais, ou melhor perde
né? Perde essa banha q ta sobrando sua gorda preguiçosa, sai de
cima dessa cama e vai fazer alguma util pra sua saude!!!!!Sua sem
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Corpos ‘gordos’ no Orkut
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vergonha, para de discutir q cê tá errada, sua aberração!!!!!!VAI
PRO SPA!!!!!!CACHORRA!!!!
As escritas dos excertos acima nos fazem refletir no quanto
os discursos corporais vão de um extremo a outro, incidindo so-
bre intensas práticas de cuidado e controle corporal – algumas
chegando a casos de transtornos alimentares – e, ainda, sobre as
práticas de racismo sobre o ‘outro-gordo’.
Tópico: Vocês deveriam odiar vocês mesmos. Comunidade Eu
odeio gordas que se acham
Essa comunidade é EU ODEIO GORDAS QUE SE ACHAM, não é EU
ODEIO GORDAS, jah tive namoradas gordinhas e nem ligo, agora!!!
Coisa horrorosa e a pessoa ser gorda e querer usar mini-saia com a
perna cheio de celulites que até parem conjunto de furunclos e pas-
searem na rua, assim como ir à praia de biquine fio dental.. Enten-
de?? Quem faz o gordo ficar mal na fita são os próprios!!
Quando consideramos o ‘outro’ como a sujeira e tratamos
de organizar os espaços eliminando essa indesejável ‘criatura’,
ou seja, a presença de pessoas que têm encarnadas sobre si as
marcas da impureza, cria-se um grave problema em que se deci-
de sobre a vida e a morte desses ‘outros’. Sujeitos que, no caso
específico deste estudo, movem-se num entre-espaço, não sendo
nem totalmente capturados pelos discursos acerca da beleza e
dos ideais corporais, nem totalmente imunes a esses mesmos ide-
ais. Ou seja, sujeitos que vemos buscarem, muitas vezes ardente-
mente, incluir-se nos fluxos discursivos acerca da beleza, da
magritude... mas que, embora essa seja uma perseguição, por
motivos outros, têm os seus embates com essas mesmas lógicas,
não deixando de realizar as ações e práticas que as situam nessa
posição de serem a ‘sujeira’ que suja a paisagem que o mundo
‘deveria ter’, como demonstra o excerto destacado a seguir, da
comunidade Eu odeio gordas que se acham, mais especificamen-
te no tópico Gorda merece viver?:
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Tópico:GORDA MERECE VIVER? Comunidade Eu odeio gordas
que se acham
ai gorda tem mais é q morrer mesmu.. ja q nao soube cuidar da vida
q lhe foi dada!! esse bando de suina imbecil q se acham.. vc ja viram
como sao as gorda?? pq todas elas sao todas falsas e gostam d
fingir de felizes e se achar engraçadas? tem mais é q morrer do
coração porra!! são apenas anomalias assim como esses gays q
gostam de se fazerem de coitadinhos e defenderem as obesas!!
gorda é lerda nao sabe fazer nada direito.. nem trabalhar sao lentas
como o tamanho da merda q saem de seus cús como esgotos entu-
pidos!! EU ODEIO GORDAS E VIADOS (VOU PEGAR TUDO NA POR-
RADA.. ESSES FDP) !!!
Tais questões levam-me a inferir que as ‘gordas’, ao esta-
rem inseridas numa sociedade em que há “uma obsessão dos
invólucros corporais: o desejo de obter uma tensão máxima da
pele; o amor pelo liso, pelo polido, pelo fresco, pelo esbelto, pelo
jovem” (COURTINE, 1995, p. 86, grifos do autor), tornam-se ‘im-
puras’, ‘sujas’ na localização que ocupam em nossa sociedade.
Encarnam, em suma, a “ansiedade frente a tudo o que na aparên-
cia pareça relaxado, franzido, machucado, amarrotado, enruga-
do, pesado, amolecido ou distendido; uma contestação ativa das
marcas do envelhecimento no organismo [e, principalmente, uma
contestação aos que apresentam ‘diferenças’ marcadas em sua
carne]”. (COURTINE, 1995) Cabe destacar que embora os ideais
de beleza, pureza e ordem tenham sido preceitos gestados na
modernidade, no pós-moderno, vemos a sua extensão, pois atra-
vés da espontaneidade, do desejo e do esforço individuais eles
atualmente devem ser perseguidos e realizados. (BAUMAN, 1998)
A condição pós-moderna, portanto, também constrói, fabrica, in-
venta os seus ‘diferentes’, ‘anormais’, dotando-os de significados
e sentidos diferenciados, conforme o tempo-espaço.
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Corpos ‘gordos’ no Orkut
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Considerações finais
Dentro desse entorno, compreendemos que a internet confi-
gura-se como um espaço vívido, possibilitador do pulsar contí-
nuo dos diversos sujeitos que aí expressam seus sentimentos,
ódios, intolerâncias, percepções e desejos quase que em estado
bruto. Devido a isso, é um espaço fecundo para pesquisas que
busquem compreender o que estamos nos tornando, que forças
estão sendo investidas em nós e se fazendo carne, corpo, ou seja,
que elementos estão nos produzindo. Por nos centrarmos, portan-
to, em discussões que envolvem diretamente questões contempo-
râneas, podemos dizer que intentamos, ainda que modestamente,
mover-nos em meio a uma ontologia do presente, “que
problematiza a atualidade como acontecimento e que [busca]
responde[r] às perguntas acerca de nossa contemporaneidade e
nossa situação presente, ou seja: o que acontece em nosso pre-
sente, na nossa atualidade? como (sic) se caracteriza?” (ORTEGA,
2002b, p. 24)
Nessa direção, Garbin (2003, p. 128) argumenta que:
Nos últimos anos, as mudanças de identidades, sob o impacto cul-
tural do computador conectado à internet, parecem ter dado lugar a
uma busca empenhada em entender e dar sentido aos mecanismos
da vida real e virtual. O fato é que, se na vida cotidiana, somos
constrangidos por inúmeras “ordens de discurso” em que não reve-
lamos determinadas facetas e emoções, na internet, [...], atrás de
uma tela e um teclado, outras “ordens de discurso” se instituem e
nelas é possível reconstruir nossas identidades como que do outro
lado de um espelho, um espelho que nos solicita uma multiplicidade
interior na maioria das vezes, constituída e narrada por nossos
interlocutores virtuais.
Percebemos, nesse sentido, que na internet há espaços pecu-
liares que propiciam aos sujeitos expressarem coisas sobre si e
sobre os outros, uma vez que “o outro é necessário”, como nos
lembra Foucault (2004). Assim, se Andy Warhol predizia que todos
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teríamos os nossos 15 minutos de fama, cremos que, com o ad-
vento do Orkut (entre outras ferramentas e comunidades de rela-
cionamento oriundas da tecnologia digital), sujeitos anônimos
(muitas vezes sem o risco de serem identificados e/ou ‘punidos’
e, devido a isso, de ‘sofrerem’ as consequências de suas palavras
e atos) têm uma oportunidade crescente de expressar vivências,
sensações, sentimentos... que, até então, limitavam-se a diários
íntimos escritos à caligrafia, exposições em confidências
presenciais, ou mesmo não eram expressas, por não haver como
ficar no anonimato ou serem contadas a partir de um ‘eu’
reinventado para essa ocasião específica.
Além do mais, perseguimos um dos objetivos deste artigo,
que é dar visibilidade às minúcias, às práticas cotidianas de cui-
dado consigo contemporâneas. Para tanto, encontramo-nos, ao
estilo socrático, indagando: como estamos conduzindo as nossas
vidas? Essa pergunta se deve ao nosso objetivo de tentar compre-
ender como está se dando, hoje, a produção de si e do ‘outro’
numa cultura tão marcada por tantos discursos que se tornam
imperativos, dando especial atenção nos relacionados ao corpo.
Salvaguarda
Uma salvaguarda torna-se importante aqui. Não se trata,
ao analisar escritas sobre si e os outros presentes no Orkut, de
uma pretensão a ‘descobrir’ os discursos constituidores dos es-
creventes nas comunidades do Orkut. Não tivemos a pretensão de
identificar ‘fielmente’ os sujeitos que escrevem cada scrap. Optar
por isso nos faria querer identificar em cada escrita os sujeitos
que o produziram para, a partir desse momento, acessar as redes
discursivas que produziram esses sujeitos, tornando possíveis as
escritas que eles dispunham no Orkut. Ora, isso é algo impossí-
vel de ser realizado a partir de uma intenção de ‘fidedignidade’,
afinal, não é possível ‘descobrir’ a verdade última de cada indiví-
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Corpos ‘gordos’ no Orkut
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duo ali presente, como se as comunidades em que participavam,
os recados trocados com amigos ou mesmo desconhecidos, ou os
modos com que se nomeiam no perfil, os lugares que costumam
frequentar, pudessem demarcar ‘como esse sujeito é’, ou seja,
uma Identidade a ser ‘desvendada’ a partir dos nossos olhares.
Isso seria, mais especificamente, demonstrar uma preocu-
pação sobre o sujeito, desviando-se, de certo modo, da possibili-
dade de olhar para os efeitos dos discursos nos sujeitos. Cremos
que tal salvaguarda é importante devido, entre tantas questões, a
de que a internet é, muitas vezes, ainda considerada como um
lugar em que se embrenham, principalmente, forças do mal. Ora,
mais do que um valor moral o que nos interessa são as possibi-
lidades de produção de subjetividades e relações de todo tipo com
os outros que a internet possibilita, em especial, nesse estudo,
tratando-se do Orkut. Há a demanda, nesse sentido, por um modo
outro de pensar a produção dos sujeitos – os quais podem, sim,
ter as suas inserções em redes discursivas analisadas, mas essas
não nos possibilitam ‘acessar’ uma verdade última sobre os su-
jeitos, ‘descoberta’ através dos fios que os ligam a um certo dis-
curso, ou seja, não há possibilidade para a apreensão de uma
‘verdade’ sobre um sujeito que se esvai a cada instante, que a
todo momento pode tornar-se outro.
Trata-se, assim, de compreender um pouco o modo com que
o nosso olhar vai sendo construído e reconstruído em relação às
práticas efetivadas no Orkut. Cremos ser necessário, ainda, expor
que compreendemos que as escritas sobre si e sobre os ‘outros’
analisadas não são produções ‘individuais’, pois tiveram condi-
ções de possibilidade para emergir nesse momento, nesta socie-
dade específica. Ou seja, mais do que escritas individuais de um
sujeito, portanto, podemos pensar em toda uma discursividade
que produziu os sujeitos-escreventes, possibilitando que valori-
zassem certas coisas – e não outras – e que expressassem ‘ódio’
– e não ‘amor’ – às pessoas nomeadas ‘gordas’, por exemplo.
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Como assinala Santos (1997, p. 82), valendo-se de Foucault, “[...]
a análise dos enunciados não se dá a partir da fala do indivíduo,
mas [...] procura, justamente ‘ouvir’ que discursos o produziu
enquanto sujeito”. Cabe ressaltar, ainda, que os sujeitos-escre-
ventes que produzem as escritas que exporemos estão inseridos
numa cultura em que certos enunciados sobre os corpos ‘ma-
gros’ e ‘gordos’ são construídos, legitimados, disseminados. Não
cabe, portanto, procurar num sujeito individual a ‘origem’ das
suas escritas sobre si e sobre os ‘outros’, uma vez que:
Nenhum de nós pode construir o mundo das significações e sentidos
a partir do nada: cada um ingressa num mundo ‘pré-fabricado’, em
que certas coisas são importantes e outras não o são; em que as
conveniências estabelecidas trazem certas coisas para a luz e dei-
xam outras nas sombras. (BAUMAN, 1998, p. 17)
Há um conjunto de sentidos e significados – incessantemen-
te em disputa – que dão, portanto, subsídios para que os sujeitos
se movam neste mundo, posicionando-se e se construindo e, do
mesmo modo, posicionando e construindo os ‘outros’.
É, portanto, em razão de nossas formas de pensar serem
construídas a partir dos significados que para nós chegam com
mais ou menos força – disputadas através das lutas pela imposi-
ção de significados, envolvendo as relações de poder – que não
podemos desconsiderar que “[...] ‘todo discurso é ocasionado’. Todo
discurso ocorre em circunstâncias sociais específicas” (ROSE, 2001,
p. 159), e é devido a isso que não desconsideramos a existência de
redes discursivas que fabricam e refabricam diferentes modos de
existência humana, enunciando pautas, ‘ditando’ modos de vida.
Ou seja, a cultura contemporânea entra em questão, pois os sujei-
tos são constituídos em espaços e tempos específicos. O Orkut é
um fecundo espaço nesse sentido, o qual se constitui como instân-
cia de produção, circulação e ressonância de discursos.
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Corpos ‘gordos’ no Orkut
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IDEAIS DE FELICIDADE EM
COMUNIDADES VIRTUAIS:
recursos metodológicos e
diferenciação
Márcio Silva Gondim

(FANOR)
Maria de Fátima Vieira Severiano (UFC)
O texto origina-se da dissertação do Mestrado em Psicologia
da Universidade Federal do Ceará (UFC), intitulada Felicidade no
ciberespaço: um estudo com jovens usuários de comunidades vir-
tuais e discorre sobre os procedimentos metodológicos realizados
na pesquisa empírica desta investigação, de modo a levar a uma
maior compreensão dos dados apresentados posteriormente, quan-
do uma das categorias-temáticas será explicitada e conceituada.
A abordagem qualitativa orienta conceitualmente esta pes-
quisa por se tratar de um modo adequado para se compreender o
fenômeno psicossocial em destaque neste estudo: a relação entre
a cultura digital (o ciberespaço) e os ideais de “felicidade” de
jovens usuários do serviço tecnológico Orkut.
Sendo uma investigação psicossocial de natureza crítica,
partimos epistemologicamente da Teoria Crítica (Escola de Frank-
furt) por se tratar de uma teoria acentuadamente “reflexiva”, que
tem como uma de suas mais relevantes tarefas estabelecer medi-
ações reflexivas sobre o presente imediato, uma suspeita sobre
as certezas estabelecidas e naturalizadas e uma crítica à cultura
em sua forma homogeneizadora dos processos de subjetivação, a
partir do modelo de organização social erigido na Modernidade.
(NOBRE, 2004; SEVERIANO, 2001) Além disso, a característica
fundamental da Teoria Crítica de “[...] ser permanentemente
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renovada e exercitada, não podendo ser fixada em um conjunto
de teses imutáveis” (NOBRE, 2004, p. 23), também se constitui
em um motivo relevante para a escolha metodológica desta in-
vestigação. Nesse sentido, podemos pensar neste estudo enquan-
to interdisciplinar, sobretudo devido ao objeto de estudo
multifacetado, que nos leva a diferentes olhares, em uma propos-
ta de criação de intercessores não dogmática. De certo modo, o
presente estudo “subverte o eixo de sustentação dos campos
epistemológicos” (PASSOS; BARROS, 2000), uma vez que traba-
lha com uma polifonia de signos que se atravessam.
Sendo assim, o procedimento metodológico utilizado nesta
investigação inova ao propor um diálogo interdisciplinar entre
opções teóricas e estratégias metodológicas. A investigação
empírica adotou o Método (Con)texto de Letramentos Múltiplos
(CAVALCANTE JÚNIOR, 2001), explicitado a seguir, enquanto téc-
nica de coleta de dados, os quais foram interpretados à luz da
Teoria Crítica, em uma tentativa original de enriquecimento de
ambos, produzindo, desse modo, um novo saber erigido a partir
de distintas estratégias metodológicas.
Assim, objetiva-se uma articulação dialética dos dados
empíricos com a teoria, partindo-se do abstrato (elaborações teó-
ricas) aos dados empíricos, que são mediatizados pelo pensa-
mento, na busca de determinações culturais, sociais e psíquicas.
Uma aproximação dos dados empíricos com a teoria pretende
promover um diálogo teórico-empírico, uma vez que a Teoria Crí-
tica destaca que o particular somente pode ser compreendido
quando referido a uma totalidade maior que atribui significação
e sentido. Sendo assim, privilegiou-se na primeira fase da pes-
quisa um estudo que possibilitou uma compreensão sociohistórica
dos conceitos centrais desta investigação.
Em relação ao objeto de estudo, é importante ressaltar a
princípio que a internet e os serviços existentes nela (como o Orkut)
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Ideais de felicidade em comunidades virtuais
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têm um papel significativo na contemporaneidade sobre a cons-
trução e circulação de repertórios, levando os indivíduos a
reconfigurações do que seja público e privado, em ambientes
tecnológicos que visam superar o espaço e o tempo em comuni-
cações que vão para além da relação face a face. (SPINK, 1999)
Nossa impressão inicial foi a de que essas inovações
tecnológicas parecem estar sendo constantemente relacionadas a
ideais de bem-estar (“felicidade”), de modo a se estender aos ser-
viços virtuais como o Orkut. Diante disso, os dados a serem
coletados neste estudo dizem respeito a repertórios relacionados
a ideais de felicidade no espaço tecnológico virtual, ou seja, sen-
tidos que foram e estão sendo construídos no uso e consumo de
serviços tecnológicos, mais especificamente o serviço Orkut.
Após o levantamento bibliográfico realizado em relação ao
tema desta investigação, foi iniciada a pesquisa de campo, que
constou de duas etapas: uma de natureza exploratória, na qual
os sujeitos ainda não haviam sido especificados e uma segunda
etapa, conforme o perfil abaixo especificado.
Pesquisa de campo: grupo de reflexão
sobre a internet
Nesse grupo, realizado de modo semelhante à metodologia
dos “grupos de discussão”, utilizou-se o Método (Con)texto de
Letramentos Múltiplos (ARAÚJO, 2003; CAVALCANTE JÚNIOR, 2001;
D’AGUIAR, 2002; PAULA, 2003; RODRIGUES, 2003), pela possibi-
lidade dos participantes poderem utilizar diversos tipos de ex-
pressões a serem apresentadas nas discussões em grupo sobre o
serviço tecnológico Orkut. Além disso, trata-se de uma
metodologia por mim utilizada em outras investigações. (GONDIM,
2005; GONDIM, et al., 2005; GONDIM; CAVALCANTE JÚNIOR, 2003,
2004, 2005)
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São denominados Círculos de Letramentos, os grupos em
que se utiliza o Método (Con)texto de Letramentos Múltiplos; tais
Círculos podem ser realizados em variados contextos, fazendo
com que os participantes compreendam por que “[...] fazem o que
fazem nas suas vidas, trazendo a um nível de consciência as
suas próprias condições culturais e históricas”. (CAVALCANTE
JÚNIOR, 2005, p. 33)
Nesta investigação, participou do Círculo de Letramentos
um grupo constituído por jovens estudantes de uma escola parti-
cular da cidade de Fortaleza, denominado nesta pesquisa de Gru-
po de Reflexão sobre a Internet. Mesmo sendo do mesmo colégio,
eram de salas de aula e de séries diferentes, preservando, desse
modo, o princípio da heterogeneidade relevante ao Método. De
modo semelhante, D´Aguiar (2002) realizou Círculos de
Letramentos com estudantes universitários e Rodrigues (2003)
investigou a utilização desse Método com trabalhadores.
O Grupo de Reflexão sobre a Internet foi composto por 12
componentes, de faixa etária compreendida entre 14 a 17 anos, de
ambos os sexos, os quais se encontraram no decorrer de seis
semanas, tendo um encontro semanal de duas horas de duração,
totalizando 12 horas/atividade em seis encontros. As atividades
foram realizadas na própria escola particular.
Foram apresentados no início de cada grupo estímulos gera-
dores de discussão (imagens e textos extraídos do serviço Orkut)
através das quais os sujeitos construíram suas escritas (textos-
sentido) e, em seguida, seus relatos. Dessa forma, os sujeitos
colaboradores foram convidados(as) a refletirem sobre suas ati-
tudes no uso/consumo do serviço virtual Orkut (expressando pen-
samentos, sentimentos e lembranças), como modo de detectar os
sentidos que esses indivíduos atribuem à utilização e ao consu-
mo de serviços virtuais computadorizados, de modo a nos apro-
ximarmos de aspectos psicossociais (ideais de beleza,
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Ideais de felicidade em comunidades virtuais
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diferenciação, popularidade, etc.) revelados nessas variadas ex-
pressões. Para tal, foi possível que os sujeitos utilizassem diver-
sos modos de expressão tais como: escrita, desenho, pintura,
colagens, etc.
Vale ressaltar que, inicialmente, não foi feita uma interpre-
tação dos escritos dos colaboradores. Foram registrados os senti-
dos atribuídos por eles(as) mesmos(as) através da utilização de
gravadores, além de ser utilizado um diário de campo, no qual
foram anotadas as impressões em relação aos grupos. Contou-se
com a colaboração de um assistente de pesquisa, que tomava
nota do que observava durante o grupo.
Os estímulos geradores de discussão constituíram-se de
imagens extraídas do Orkut que foram expostas aos grupos, de
modo a suscitar escritos e, em seguida, discussões acerca da
temática em questão, de modo que o grupo foi conduzido de for-
ma semiestruturada. O critério de seleção dessas imagens extra-
ídas do Orkut foi pautado na escolha de textos e comunidades
virtuais que veiculam mensagens ou manifestam atitudes de “fe-
licidade” e hedonismo. Foram privilegiados textos e imagens co-
mentadas por usuários da internet, observando os atributos
psicossociais selecionados em nossas categorias-chave:
atratividade, juventude, beleza, diferenciação social, reconheci-
mento, etc (enquanto ideais de felicidade).
Para cada encontro foi utilizado um estímulo evocativo, a
partir do qual os jovens registravam seus textos-sentido e, logo
após, recriavam coletivamente, gerando reflexões, discussões e
troca de ideias. Optou-se por imagens extraídas do Orkut como
estímulos-evocativos.
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Categoria-temática: diferenciação
Três categorias emergiram, ao final da coleta de dados. Con-
forme os usuários do serviço virtual Orkut que colaboraram com
esta investigação, os ideais de felicidade seriam expressos, so-
bretudo, por meio de: 1) Diferenciação (distinguir-se dos demais,
sentindo-se importante através de expressões de elogio de ou-
tros); 2) Popularidade (relaciona-se ao ideal de “fama”, atrelada
ao número de amigos e fãs que se possui); 3) Atratividade (rele-
vância a determinados padrões de beleza). No presente artigo,
destacaremos a categoria “Diferenciação”.
Para melhor compreensão da exposição de nossa pesquisa,
a categoria-temática será descrita a partir de uma sequência na
apresentação dos dados coletados, a saber: os conteúdos emergi-
dos no Grupo de Reflexão sobre a Internet, composto por estudan-
tes de um colégio particular em Fortaleza. Trata-se, portanto, dos
principais dados da investigação, tendo em vista que o grupo
possibilita uma rede de informações na qual os sujeitos expri-
mem seus pensamentos, sentimentos e lembranças. O grupo iden-
tifica tendências, colaborando, assim, na compreensão de um dado
fenômeno.
Diferenciação nas comunidades virtuais:
sendo “importante” individualmente no
ciberespaço
Este tópico aborda a primeira categoria-temática que emer-
giu na pesquisa: a diferenciação, compreendida como distinguir-
se dos demais por meio do recebimento de expressões de elogios
– a exibição e ostentação pública no meio virtual de ser “impor-
tante” e “querido(a)”, representa “um meio de entrar com vanta-
gem em contato com o outro” (BAUDRILLARD, 1970, p. 105) e à
medida que o indivíduo vai recebendo mais elogios, diferencian-
do-se dos demais, vai sentindo-se mais feliz. Podemos pensar em
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Ideais de felicidade em comunidades virtuais
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uma metáfora: é como se a página individual de cada usuário do
Orkut fosse um outdoor virtual disponível 24 horas, aberto à
possibilidade de expressões de apreciação e elogios (algo que é
ansiosamente aguardado). Tais expressões podem ser feitas por
conhecidos ou meros desconhecidos, como instrumento de troca
(como ilustraremos a seguir). Neste capítulo, iniciaremos com
uma reflexão teórica, para em seguida ilustrarmos com os dados
(textos-sentido e falas) coletados no Grupo de Reflexão sobre a
Internet, com estudantes de uma escola particular de Fortaleza.
Conceituando diferenciação e
singularidade
Ante o exposto, é interessante destacarmos a contribuição
de Baudrillard (1970, p. 101) ao conceito de diferenciação. Con-
forme o autor:
Diferenciar-se consiste precisamente em adotar determinado mode-
lo, em qualificar-se pela referência a um modelo abstrato, a uma
figura combinatória de moda e, portanto, em renunciar assim a
toda a diferença real e a toda a singularidade, a qual só pode
ocorrer na relação concreta e conflituosa com os outros e com o
mundo.
No Orkut, alguns dos usuários dedicam-se à busca de depo-
imentos de elogios no sentido de ostentarem um diferenciar-se
dos outros, por possuírem e exibirem publicamente palavras de
reconhecimento e afeto, mesmo que de absolutos desconhecidos,
ou seja, há uma obediência a determinado código (o de receber
elogios). Podemos pensar, como também afirma Baudrillard, que
as relações interpessoais também passam a ser consumidas, ado-
ta-se um código de troca e permuta, trocando-se e negociando-se
expressões de elogios e de afeto. Observamos, assim, o “culto da
diferença”, no sentido de buscar ser diferente e mais “importante”
que o outro, na lógica da diferenciação:
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Existe a lógica estrutural da diferenciação, que produz os indivídu-
os como ‘personalizados’, isto é, como diferentes uns dos outros,
mas em conformidade com modelos gerais e de acordo com um
código aos quais se conformam, no próprio ato de se singulariza-
rem... A lógica fundamental é a da diferenciação/personalização,
colocada sob o signo de código. (BAUDRILLARD, 1970, p. 106)
No Orkut, mesmo sentindo-se diferentes, importantes, que-
ridos, permanecem em conformidade com o próprio serviço Orkut,
em um sistema de comunicação e permuta, com códigos e signos
continuamente emitidos e recebidos. Mesmo com a impressão de
haver “personalizado” a página do Orkut, permanece-se sob as
regras e aos códigos do serviço que é consumido.
É pertinente que tenhamos atenção aos novos meios de con-
sumo geradores de espetáculos enquanto fim em si mesmo, levan-
do as pessoas a buscarem se sentirem especiais e diferenciadas
nesse universo espetacular. Conforme Baudrillard (1981), os dis-
cursos acerca das necessidades e dos desejos dos consumidores
apontam para o domínio da esfera dos signos e não meramente ao
valor de uso dos objetos e serviços. No caso dos ideais de felicida-
de, esta é contemporaneamente mensurada pelos signos de confor-
to e intensificação do bem-estar associados aos produtos/serviços.
De acordo com nossa pesquisa, compreendemos que a bus-
ca por sentir-se especial, diferenciado e singular em um serviço
virtual aponta para a busca de personalização, fundando-se em
signos e nos atributos desejáveis relacionados a tais signos. Nes-
se sentido, não se trata de uma prática funcional do serviço virtu-
al enquanto mero emissor e receptor de mensagens, imagens ou
conteúdos, mas de um sistema de comunicação e permuta de
sentidos e sentimentos, como código de signos continuamente
emitidos, recebidos e inventados como linguagem. Podemos, as-
sim, pensar na natureza sígnica do consumo contemporâneo ba-
seada em atributos psicológicos e de distinção social ampliada
ao ciberespaço.
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Ideais de felicidade em comunidades virtuais
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Na mídia contemporânea, essa concepção de diferenciação
do indivíduo, de modo que ele (ou ela) sinta-se como único e
especial se faz presente e visível, relacionado a ideais de felicida-
de. Os anúncios publicitários divulgam amplamente esses ideais
(como vimos no terceiro capítulo), assim como na internet, e em
serviços como o Orkut, como veremos neste capítulo. Refletire-
mos sobre essas expressões de exaltação da percepção de ser
“especial” enquanto uma expressão do neo-individualismo con-
temporâneo, uma vez que os elogios nesse contexto são geral-
mente buscados como uma forma de exaltação de si mesmo, sem
quaisquer compromissos com a coletividade, por exemplo. Tra-
ta-se, portanto, de expressões de exaltação em espaços solitários
e individuais, a exemplo do Orkut.
Faz-se pertinente diferenciarmos aqui a concepção do indivi-
dualismo iluminista do hiperindividualismo contemporâneo. De
acordo com Bariani (2007, p. 1), no Iluminismo, o individualis-
mo está baseado na razão, em “[...] uma completa vocação e
autonomia de criação, mesmo que sua independência custe-lhe a
malquerença do poder”. O racionalismo confere ao Iluminismo a
atitude cartesiana, o método crítico, o destaque ao conhecimento
apriorístico advindo de princípios irrecusáveis, como instrumen-
to demolidor utilizado para instaurar a luz, a clareza e o domínio
da razão. Historicamente, o projeto civilizatório instaurado pelas
Luzes apresentava a razão e o método científico como as únicas
fontes de conhecimento válido, rejeitando qualquer concepção de
mundo derivada do dogma, da superstição e da fantasia, susten-
tando-se em três ingredientes conceituais: a universalidade, a in-
dividualidade e a autonomia. O projeto tinha como objetivo que
todos os homens deveriam agir por si mesmos, participando ati-
vamente de um projeto público e adquirindo por seus próprios
meios as condições de subsistência. (SOUZA, 1996, p. 736) Na
medida em que destacava a criatividade humana, a descoberta
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científica e a busca de excelência individual em nome do progres-
so, acolhia o turbilhão das mudanças, da transitoriedade e da
fragmentação, sem as quais a modernização não poderia reali-
zar-se. (HARVEY, 1996, p. 23)
Na contemporaneidade, vivenciamos o hiperindividualismo,
como afirma Lipovetsky (1989), característico da sociedade de con-
sumo e da comunicação de massa, havendo a consagração do
hedonismo e o crescimento da individualização, de modo que
adentramos na era da hipersociedade, do hiperindividualismo de
caráter narcísico, do hipermercado, do hipertexto, dentre vários
outros “hipers”. As variadas esferas do cotidiano são investidas
por toda sorte de excessos; mesmo os comportamentos individuais
são inseridos na engrenagem do extremo, como testemunha o fre-
nesi consumista, fazendo nascer uma nova relação com a
modernidade. Nas culturas individualistas, como a do Iluminisno,
cada indivíduo é levado a ser autônomo único e autodirigido. De
modo diferente, na sociedade contemporânea, não há essa autono-
mia. Bauman (2001) caracteriza a individualidade contemporânea
enquanto uma fatalidade, não uma escolha. Para o autor, cons-
truir uma identidade social supõe o cumprimento de uma indivi-
dualidade capaz de diferenciar-se suficientemente de seus pares
para obter o reconhecimento desta distinção e, por outro lado, ca-
paz de possibilitar o fortalecimento dos laços sociais em função de
sua conformidade a alguns valores sociais considerados básicos e
comuns para a definição dos membros capazes de pertencer àque-
la comunidade. Para Bauman, desta individualidade apresenta-se
como um paradoxo, uma vez que só pode ser construída pela con-
firmação social – justamente o que se verifica no Orkut: a identida-
de parece ser guiada conforme uma maciça confirmação social,
que é buscada, descaracterizando a autonomia.
Nesse sentido, Triandis (1993, 1995) define o individualis-
mo e o coletivismo enquanto síndromes culturais: consistem em
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compartilhar normas, crenças, atitudes, definições e papéis do
eu, sendo os valores dos integrantes de cada cultura organizados
de modo coerente em torno de um tema. Desse modo, o individu-
alismo expressa uma tendência ao êxito, à valorização da pró-
pria intimidade. Nesse tipo de orientação, as relações pessoais
são mais frequentes, no entanto são contratuais (como nas comu-
nidades que negociam depoimentos). Ainda que o sujeito orienta-
do pelo individualismo possa definir-se enquanto integrante de
muitos grupos, esses não são exatamente os de pertença incondi-
cional. De acordo com Veyne (1988, p. 26), “[...] quando surgem
em uma sociedade tradicional os primeiros germes de individua-
lismo, tal sucederá sempre em oposição com a sociedade e sob a
forma do indivíduo fora do mundo”. Alguém individualista atua,
pensa e sente de acordo com seus próprios interesses, importan-
do-se em menor medida com o contexto social no qual se encon-
tra. Em outras palavras, culturas individualistas se caracterizam
por valorizar a autonomia do indivíduo e sua independência emo-
cional dos grupos sociais. (GOUVEIA, et al., 2002)
Podemos observar nos dias atuais uma crescente legitimação
do sujeito individual, destacando-se o individualismo que se jus-
tifica em todos os âmbitos. (MATOS, 1993) No hiperindividualismo
que se observa nas sociedades contemporâneas, há uma constan-
te substituição dos ideais culturais por ideais particularistas, nas
quais atributos psicossociais como a diferenciação, a beleza, a
felicidade, o sentimento de pertença e o reconhecimento social
passam cada vez mais a serem enfatizados pela indústria cultu-
ral. Desse modo, a identidade do sujeito aparenta estar subordi-
nada à apropriação de produtos e serviços (signos de consumo),
que passam a exercer um papel constituidor dos processos de
subjetivação, muito diferente do indivíduo autônomo que faz re-
ferência o Iluminismo. Essa relação com os signos de consumo
ocorre por meio de processos de fascinação e sedução, dispen-
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sando, assim, o pensamento da reflexão necessária à autonomia
humana. (SEVERIANO, 2001)
Desse modo, mesmo havendo serviços virtuais no
“ciberespaço” que prometem inter-relações entre os sujeitos, em
um suposto coletivismo; vejamos a “promessa” do serviço Orkut
na página inicial:
Proporcionamos um ponto de encontro online com um ambiente de
confraternização, onde é possível fazer novos amigos e conhecer
pessoas que têm os mesmos interesses. Participe do orkut para
ampliar o diâmetro do seu círculo social.
Mesmo com esses “pontos de encontro”, observa-se tam-
bém “uma progressiva mercantilização de qualquer aspecto da
relação social, afetiva ou cultural” (BERARDI, 2003, p. 57), apre-
sentando-se, assim, um aspecto a ser pensado e discutido, dian-
te do questionamento acerca do sentido de ser “diferente” e
“singular”.
Destaca-se, nessa categoria-temática, a necessidade do olhar
do outro enquanto fonte de reconhecimento da própria singulari-
dade. Esses foram pontos continuamente comentados, falados e
escritos nos textos coletados, gerando, assim, esta primeira cate-
goria de investigação.
No uso do serviço virtual Orkut, o indivíduo passa a estabe-
lecer uma relação com opiniões e comentários, algumas vezes
composta por desconhecidos – a figura de “amigos” – os quais
não recriminam, aceitam e sobretudo elogiam, revelando um
mundo onde cada um pode vestir o papel que convém: pode usar,
por exemplo, a máscara do jovem musculoso ou da mulher de
corpo escultural. Os elogios muitas das vezes são direcionados a
essas imagens modificadas, alteradas, conforme o que é mais
aceito e valorizado socialmente.
Como já foi afirmado anteriormente, na pesquisa de campo,
destacou-se como bastante significativo esse sentimento de ser
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Ideais de felicidade em comunidades virtuais
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“único”, “diferenciado” e “especial”. Tais sentimentos se fazem
presentes no Orkut, sobretudo quando:
• O(a) jovem recebe recados e depoimentos de outras pes-
soas, sentindo-se alguém “querido(a)” e “importante”;
• Quando é elogiado(a) por apresentar determinadas quali-
dades e atributos nas fotos exibidas, diferenciando-se dos
demais, sendo alguém “único” naquele momento;
• Quando há o “prazer de ser importante” devido ao recebi-
mento de expressões de afeto e elogio, podendo ostentar e
exibir tais palavras elogiosas, de modo que todos pos-
sam verificar essas palavras.
O presente capítulo aborda esses conceitos que se evidenci-
aram na coleta de dados de nossa investigação, além de também
serem encontrados no próprio serviço Orkut.
De acordo com a “Teoria Crítica”, o particular somente pode
ser compreendido quando referido a uma totalidade maior que
lhe confere sentido e significação, ou seja, o particular funciona
como índice do universal, é o seu representante e, como tal, deve
ser objeto de reflexão. (NOBRE, 2004) Nesse sentido de articular o
particular com a totalidade, iniciaremos apresentando significa-
tivas imagens extraídas do Orkut (totalidade maior) para em se-
guida adentrarmos as reflexões específicas acerca do “Grupo de
Reflexão sobre a Internet” (o particular, no caso deste estudo).
O reino hedonista contemporâneo, ilustrado aqui pelo
ciberespaço, leva os indivíduos a um papel social que
hipervaloriza a “personalização” (conforme explicitado acima) e
a “diferenciação” dos indivíduos. A busca por um reconhecimen-
to socioafetivo destaca-se na veiculação de palavras e expressões
que parecem promover (ou facilitar) vínculos que expressem feli-
cidade e acolhimento. Esse reconhecimento se associa à ideia de
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“gratificação psicológica”, conforme Lipovetsky (1989): do pra-
zer para si mesmo, de modo que a autogratificação tem presidido
as relações econômicas, sociais e culturais da sociedade capita-
lista, permeando todas as esferas da vida coletiva e individual.
(CAMPBELL, 2001; LIPOVETSKY, 1989)
Grupo de reflexão sobre a internet
Abaixo, seguem falas, escritos e trechos do Grupo de Jo-
vens, de estudantes, os quais refletiram sobre a internet, e ilus-
tram a relevância atribuída aos recados e depoimentos elogiosos,
destacando a “autoestima”, “felicidade” e “bem-estar”:
O que conta são os comentários; se alguém diz que você é legal,
simpático, etc.
...eu gosto de depoimentos. Os depoimentos funcionam como aque-
les diários que as meninas têm quando são crianças... Ajuda na
auto-estima da pessoa
Eu vejo felicidade por ter sito reconhecida. A felicidade de saber
que alguém te reconhece alguma coisa... Você nem pediu e ela te dá
Os jovens começam a contar das pessoas que pedem depoimentos.
Ressaltam que é a “espontaneidade” dos depoimentos que causa
bem-estar; depoimentos forçados não são bem recebidos. Falam
também da troca de depoimentos. Neste ponto, um dos jovens in-
siste que o contato pessoal para ele é muito melhor.
Se alguém diz que sou 100% legal, isso é bom, com certeza ..as
outras pessoas vão ver que eu estou passando uma boa imagem . O
que eu mais gosto são os depoimentos.
Aos scraps (recados) e depoimentos recebidos são atribuí-
dos um valor especial, uma prova e marca de reconhecimento
pessoal dos que acompanham a vida do indivíduo e também de
meros desconhecidos que decidiram, por algum motivo, registrar
algo ao outro. Receber tais expressões é relacionado ao sentimen-
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Ideais de felicidade em comunidades virtuais
225
to de felicidade. Uma das participantes do grupo relatou que im-
primiu todos os depoimentos no Orkut dela, com medo de que o
serviço deixasse de existir. Diante da possibilidade de perder os
depoimentos, imprimiu-os para garantir que jamais seriam per-
didos. A palavra felicidade, relacionando-se com a ideia de acei-
tação e inclusão, e o sentimento de estar feliz no uso do serviço
virtual surgiu seguidamente no grupo:
Sobre os sentimentos que existem diante do uso do Orkut: “a gente
se sente feliz porque vai receber uma resposta de alguém. Quer
saber se ela mandou scrap. A gente sente tristeza se não recebeu
resposta. Sentimos vontade de entrar logo pra saber o que tem lá”.
Duas jovens simulam uma esquete teatral com a seguinte cena: Um
garoto adiciona uma delas. A garota fica bastante entusiasmada
porque o rapaz enviou o convite. “às vezes você fica feliz quando
alguém especial te adiciona..quando um menino bonito te adiciona,
a gente se sente bem. Adicionar no Orkut significa que a pessoa te
notou, te deu reconhecimento”
Me sinto importante quando vejo que tenho scraps e depoimentos
de fãs e amigos.
Quando você compara o número de depoimentos que você tem, você
se sente importante, superior, porque tem muitos amigos e depoi-
mentos.
Me faz sentir querida, sentir que tenho amigos, embora muitos no
Orkut não sejam verdadeiros, sabemos que tem aqueles que são
sinceros. Como o Orkut é uma forma de se expressar, percebemos
quando alguém gosta de você ou não. Quando recebemos “aquele”
depoimento de um amigo ou “aquele” recado do paquerinha, vemos
que a pessoa quer se expressar e escolher o Orkut para isso, por ser
mais fácil, viável, por não estar cara a cara com a pessoa...é isso
que eu sinto quando vejo os recados, amigos, fãs etc...que é mais
uma forma de me fazer querida ou não.
Nesses trechos, podemos observar a comparação do núme-
ro de amigos que se possui como elemento que caracteriza como
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“superior”, o diferenciar-se do outro ao receber scraps e também
o questionamento da veracidade de tais depoimentos e recados.
O “aparecer” foi algo que também se fez presente para refle-
tir no grupo, o que podemos relacionar à sociedade do espetácu-
lo, ou dos hiperespetáculos. Fontenelle (2002, p. 271) faz referência
à existência do “sujeito performático”, para o qual interessa a
imagem que consegue projetar de si mesmo, os disfarces, as im-
pressões superficiais, as máscaras. Desse modo, a aparência tor-
na-se o aspecto mais importante e fundamental desse
hiperindividualismo contemporâneo. Esse tipo de “sujeito” é fa-
cilmente observado nas redes sociais de relacionamento do
ciberespaço.
Como vimos, tal busca por diferenciação e personalização
acabam por demarcar o individualismo contemporâneo. Para con-
cluir essa reflexão sobre esse “individualismo diferenciador” pre-
sente no “ciberespaço”, é interessante transcrever uma frase de
Deise Mancebo (2000, p. 6), que afirma: “[...] as pessoas, cada
vez mais, pensam a si próprias, como seres individuais, indepen-
dentes e únicas, separadas umas das outras por uma espécie de
muro invisível, buscando um sentido de vida em si próprias”.
Esse muro invisível citado pela autora poderia ser muito bem
ilustrado atualmente com o uso da internet e dos serviços como o
Orkut.
Considerações finais
Na contemporaneidade, quando os indivíduos parecem es-
tar cada vez mais dessensibilizados, é quase impossível que se
fique insensível aos apelos esplendorosos feitos pela indústria
cultural – no caso do ciberespaço, os apelos pelas “facilidades” e
“possibilidades” oferecidos pelos serviços e produtos tecnológicos
– em uma sociedade na qual se apresenta a reprodução da cultura,
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Ideais de felicidade em comunidades virtuais
227
priorizando a comercialização dos mais variados serviços e obje-
tos (inclusive o corpo humano) nas mais diversificadas embala-
gens. Em um reinado dos simulacros, tais produtos e serviços
são embalados em invólucros sedutores, proporcionando um des-
lumbramento coletivo. Imersos nessa lógica “glamourosa”, os
indivíduos passam a consumir e usar os serviços e produtos de
um modo compulsivo, na esperança de obter os atributos e qua-
lidades atrelados ao uso e consumo. Vale aqui, entretanto, a res-
salva de que nem todos (as) os indivíduos estão inseridos
absolutamente nesse contexto. Como os dados empíricos revela-
ram, alguns indivíduos já apresentam uma postura mais
questionadora dessa realidade, e a experiência de participar de
um grupo reflexivo fez com que diálogos e questionamentos se
multiplicassem pelos (as) jovens integrantes do grupo.
Também como vimos nesta investigação, atributos
psicossociais, tais como a beleza, a diferenciação e a visibilidade
(compreendidos aqui como ideais de felicidade no ciberespaço),
são cada vez mais destacados e enfatizados pela indústria cultu-
ral na contemporaneidade, especificamente em serviços virtuais
como o Orkut, que foi o objeto de pesquisa investigado. Sendo
assim, as identidades dos jovens integrantes das comunidades
virtuais aparentaram estar direta ou indiretamente subordinada
à apropriação desse serviço (enquanto um signo de consumo
diferenciador), que repercute na vida cotidiana dessas pessoas e
passa a exercer um papel significativo, constituidor das
subjetivações.
Marcuse (1982) já apontava para a necessidade de pensar-
mos no progresso técnico relacionado ao progresso humano. Des-
se modo, há um vasto campo para a pesquisa da Psicologia nessa
área, a fim de refletirmos sobre uma mais ampla compreensão de
como esses novos recursos tecnológicos estão sendo utilizados e
consumidos. Esta investigação consistiu-se em um primeiro passo
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
228
para futuras pesquisas que venham a se debruçar sobre o estudo
do ciberespaço, além de permitir pensarmos na possibilidade de
criarem-se novas práticas propiciadoras de reflexões críticas no
bojo mesmo do ciberespaço, de modo que não haja um uso unica-
mente acrítico e massificador dos(as) usuários (as) de serviços
virtuais, mas um locus promotor de relações emancipatórias (a
emancipação humana compreendida aqui enquanto uma defesa
contra a barbárie, em sua forma manifesta ou sutil), no qual o
exercício da reflexão sobre os mecanismos de controle sutis se
faça antídoto das atuais formas de dominação.
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233
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NAS TEIAS DO ORKUT:
significados e sentidos
construídos por um grupo de
usuários
Camila Santana

(IFBAIANO)
Lynn Alves

(UNEB)
O iniciar
O que você faz neste tal de Orkut? Foi a partir desta pergun-
ta que nasceu o projeto de pesquisa que deu origem a uma dis-
sertação de mestrado e a este artigo que apresenta, de forma breve,
os resultados encontrados.
Em janeiro de 2004 nascia o Orkut; pouco se sabia sobre ele
e sobre suas potencialidades. O que se sabia é que um engenheiro
turco, funcionário da Google, o havia criado e estabelecido uma
regra: para fazer parte do sistema, ou mesmo conhecer, era preci-
so ser convidado por alguém que já fizesse parte do software.
Surgiam assim solicitações para convites, curiosidade em saber
o que tinha de especial naquele ambiente virtual e, após o ingres-
so, a busca incessante por usuários conhecidos.
Este fenômeno iniciou-se no primeiro semestre daquele ano
e ainda hoje é alimentado por novidades, polêmicas e
pseudoteorias que insistem em rondar o software criado por Orkut
Büyükkökten, o engenheiro turco que batizou seu feito com seu
próprio nome.
Por ser um sistema novo e pouco conhecido no Brasil, ime-
diatamente o Orkut foi alvo de críticas e proibições. Escolas, uni-
versidades e empresas trataram de banir o site de suas listas de
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
234
acessos permitidos. Mas não adiantava muito. Cada vez mais
crianças, jovens, adultos e idosos ingressavam naquele endereço
eletrônico, ora ávidos por aparecer, ora por procurar amigos e
familiares distantes, ou ainda exercitar sua pulsão escólpica ou
apenas para fazer parte da ‘onda do momento’.
Segundo pesquisa realizada pelo IBOPE/NetRatings em 2005,
os sites de comunidades eram os principais destaques na utiliza-
ção residencial da internet no Brasil. A pesquisa, realizada no
Brasil, EUA e Espanha, apresenta ainda os brasileiros muito mais
interessados em participar das comunidades virtuais do que os
espanhóis e os estadunidenses, por exemplo.
No Brasil, o software mais popular de comunidades virtu-
ais é o Orkut. Magalhães (2005), ao analisar dados de pesquisa
referente ao uso do da web no Brasil, sobretudo em espaços como
o Orkut, atenta para o fato de que os internautas brasileiros têm
sido seduzidos pelos softwares de mensagens instantâneas (como
MSN Messenger, Skype ou ICQ), blogs, fotologs, softwares soci-
ais (como Orkut, por exemplo), além de sites de telefonia móvel.
Para Magalhães (2005), o Orkut pode representar a necessidade
‘apaixonada’ de o brasileiro se comunicar. A pesquisa do coorde-
nador do IBOPE/NetRatings apresenta ainda um gráfico que re-
presenta o acesso ao Orkut em 11 países, e mostra o Brasil como
líder absoluto em audiência, em outubro de 2005.
As características que fazem o brasileiro se destacar dos
outros usuários neste aspecto específico não foram abordadas
pelo coordenador do IBOPE /NetRatings, que buscava na pesqui-
sa identificar o acesso dos brasileiros a softwares como Orkut em
relação a outros países. No entanto, mesmo com a alta
representatividade de brasileiros no Orkut, muitas vezes, o aces-
so nas instituições de ensino, nas empresas e mesmo nas famíli-
as, era limitado – como foi identificado durante a etapa exploratória
deste projeto de pesquisa –, sobretudo pela falta de intimidade de
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Nas teias do Orkut
235
educadores, executivos e chefes de família em lidar com uma
ferramenta nova em seus cotidianos.
Foi no meio desta seara de contrastes que esta pesquisa co-
meçou a tomar corpo. Se muitas pessoas desejavam fazer parte
da Rede que o Orkut prometia formar, se esses mesmos sujeitos
interagiam uns com os outros, criavam códigos, linguagens, re-
gras de convivência e comunidades, por que as instituições for-
mais como escola e família, por exemplo, proibiam, bloqueavam
o acesso dos orkuteiros ao seu habitat natural? Que tipo de rela-
ções comunicacionais existiam nesse ambiente para deixar pais,
mães, professores, diretores e gerentes de empresas tão preocu-
pados? Foi a partir do desejo de investigar como eram forjadas
essas relações que a pesquisa começou a ser estruturada.
Assim, um dos aspectos que deram origem ao interesse em
abordar as possibilidades comunicativas e de construção de apren-
dizagens nas redes sociais da internet surgiu, inicialmente, da
experiência de uma das pesquisadoras como usuária de comuni-
dades virtuais e softwares de redes sociais como Orkut, configu-
rando a trilha pesquisa para investigar como estes espaços podem
ser caracterizados e discutidos em um viés pedagógico.
Enquanto educadoras, as autoras acreditam, tal como Freire
(1982, 2002a, 2002b, 2007), que a aprendizagem inicia-se por
um encontro. Um encontro de pessoas, de ideias, de experiências
e, mais do que isso, que ele acontece com, para e por meio da
linguagem, como também pensa Vigotsky (2002). Assim, se su-
jeitos permanecem conectados, interagindo em um ambiente vir-
tual e, obviamente, utilizando linguagens, estão se comunicando.
O produto dessas relações é de natureza social, visto que não são
máquinas conectadas apenas, são sujeitos também e principal-
mente. Este produto de caráter social, atrelado à comunicação e
estabelecido com e por meio da linguagem, pode ser a aprendiza-
gem? Nascia um problema!
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
236
Atualmente, as tecnologias contribuem consideravelmente
para a geração e disponibilização da informação através de múl-
tiplos meios, tais como as mídias digitais, além de facilitar a
comunicação. Nos espaços formais de aprendizagem, como a es-
cola, por exemplo, é possível valer-se das interfaces tecnológicas
para gerar e socializar material de ensino e aprendizado de forma
organizada e de fácil acesso e entendimento, através de um ambi-
ente lúdico, inclusive.
No entanto, o que inquietava era a discussão em torno das
aprendizagens que são construídas no ciberespaço a partir das
novas mídias. Novas mídias aqui compreendidas na perspectiva
de Manovich (2005, p. 27), enquanto
[...] objetos culturais que usam a tecnologia computacional digital
para distribuição e exposição. Portanto, a internet, os sites, a
multimídia de computadores, os jogos de computadores, os CD-
Roms e o DVD, a realidade virtual e os efeitos especiais gerados por
computadores enquadram-se todos nas novas mídias.
Partindo dessas premissas, propomos neste trabalho, inves-
tigar quais as potencialidades de aprendizagem no Orkut, a partir
dos espaços de interação das redes sociais proporcionados atra-
vés dele.
Diante desta proposta, a pesquisa ocorreu com 16 sujeitos
integrantes da rede de conhecidos e amigos de uma das pesquisa-
doras no Orkut, sendo importante salientar que todos estes sujei-
tos, com exceção de um, fazem parte da rede de primeiro grau de
relacionamento da pesquisadora, ou seja, todos estão linkados
diretamente. É importante também ressaltar que toda a pesquisa
empírica, da exploração, observação até a aplicação dos instru-
mentos de investigação ocorreu a distância, em espaço virtual,
visto que os sujeitos pesquisados residiam em cidades diferentes
de Salvador, e ainda por ser o objeto de estudo um ambiente vir-
tual com todas as suas idiossincrasias e possibilidades.
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Nas teias do Orkut
237
A febre do Orkut
O Orkut, um sistema de software social, constitui-se na pers-
pectiva de Recuero (2006, p. 15) em “Uma espécie de catálogo de
indivíduos voltado para a sociabilidade (conhecer amigos, criar
grupos e trocar informações de interesse),” que nasceu com a
finalidade de fazer com que seus membros criassem novas ami-
zades e mantivessem relacionamentos, procurando estabelecer um
círculo social – como pode ser visto na página inicial do sistema.
No período de seu surgimento (janeiro de 2004) e até o início
de 2007, o Orkut era considerado um site capaz de consolidar
uma rede de amigos confiáveis, pois tinha a especificidade da
necessidade de convite para ingressar no ambiente. Era a quadri-
lha de Drummond adaptada: João, que era amigo de Maria, que
era amiga de Tereza, que era amiga de João e Paulo; mas em
2007, o Orkut abriu as portas e permitiu que qualquer um fizesse
uma conta no sistema. O usuário então cria sua página, coloca
fotos, escolhe de quais comunidades (que vão de fãs de um deter-
minado autor ou estilo musical, defensores de assuntos polêmi-
cos e até comunidades com gostos excêntricos) dentro do Orkut
quer participar, escreve testemunhos sobre os amigos e, claro,
tem o poder de convidar outras pessoas, o que demonstrava uma
organização social com regras desenvolvidas no e para o
ciberespaço. (RETTORI; GUIMARÃES, 2004, p. 309)
Pode ser caracterizado como uma ferramenta para construção de
rede social, o “social network”. Sua estrutura de funcionamento é
simples, usual para um Ambiente Virtual; nele, só se pode entrar
com convite, o que evidencia uma organização sociocultural e
afetiva, com leis e códigos desenvolvidos no e para o ciberespaço,
como se todos fossem de alguma forma ligados. Parece muito com
a lógica vista no poema, onde Orkut lembra: Maria que adiciona
João, que adiciona Helena, que é fã de Orkut que vai adicionar mais
alguém.
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
238
Ainda em 2007, o software começa a passar por uma série
de transformações e propaga não mais o estabelecimento de uma
rede de amigos confiáveis, apenas, mas sim conhecer amigos
através de seus amigos e comunidades e compartilhar “seus
vídeos, fotos e paixões”. A ideia de compartilhar, socializar ar-
quivos, imagens e música foi um ponto transformador para o
software e um dos elementos que comprovam a mudança do Orkut
é o fato de que, atualmente, para acessar o site não é mais preci-
so ser convidado por outro usuário, basta criar uma conta no
Google.
Para compreender a dinâmica do Orkut, faz-se necessário
entender como funciona o software. O usuário tem uma página
pessoal (profile), um perfil de quem é software. Este profile apre-
senta o usuário para os outros participantes do Orkut. Deste modo,
o participante do software social escolhe o que disponibilizar na
página: nome, idade, cidade onde mora, estado civil, opção sexu-
al, até detalhe de gosto pessoal: música, livros, culinária, amo-
res, profissão e características físicas. Para ilustrar o perfil, o
usuário é identificado através de foto ou imagem (muitos usuári-
os não colocam uma foto sua, mas sim uma imagem, desenho de
personagens de história, games, filmes, etc.). Esta imagem, pre-
sente no perfil do usuário, o identifica em todos os espaços do
Orkut sempre que ele interagir com envio de informações, reca-
dos: scrapbooks, fóruns, comunidades. Além da imagem do per-
fil, o participante possui um espaço para disponibilizar álbuns
digitais de fotografias, que podem ser acessados por outros usu-
ários da sua rede ou, à sua escolha, por todos os participantes do
software (Figura 2).
É a partir de sua área pessoal, aquela que contém o perfil e
as opções de busca, comunidades, amigos, álbuns e configura-
ção, que o participante do Orkut pode identificar usuários ami-
gos. Esses ‘amigos’ são os sujeitos que formam a rede de contatos
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Nas teias do Orkut
239
do usuário e é desta forma que um participante pode conectar-se
a milhões de pessoas através das teias tecidas pelos ‘amigos’ da
sua rede. Uma grande teia composta por ‘amigos’, ‘amigos de
amigos’, ‘amigos de amigos de amigos’ e assim sucessivamente.
A busca por ‘amigos’ e o passear pelos profiles é um dos
pontos altos deste software social para os milhares de usuários.
Com isso é possível perceber que, ao visitar, passear, flanar vir-
tualmente pelos profiles e comunidades do Orkut, os sujeitos se
dedicam ao ato de conviver, o que Maffesoli (1996) chama de
estar-junto. De acordo com o autor, ao terem os sistemas moder-
nos falido, surge espaço a uma lógica diferente de sociabilidade,
situada no cotidiano. Ou seja, são os detalhes do dia a dia, as
práticas e experiências cotidianas que produzem o cimento social
que une os homens: o permanecer conectado, juntos – mesmo
que virtualmente – em atividade espontânea que ocorre fora dos
muros institucionais. Deste modo, há um foco em estar com o
outro em uma sociabilidade lúdica.
Depois de desenhados os limites e fronteiras do software
social trabalhado nesta pesquisa, é possível dizer que o Orkut é
um fenômeno permeado de complexidades e riquezas de análise,
caracterizado pela variedade, diversidade, apresentando-se como
uma ferramenta e um espaço inovador da prática de interação
social e de criação intersubjetiva. Segundo Santaella (2003), são
os signos circulantes neste meio, as mensagens e os processos de
comunicação bastante singulares engendrados nele os responsá-
veis por transformar o pensar e a sensibilidade humana e, mais
do que isso, originar novos ambientes socioculturais.
No que se refere às redes sociais, verifica-se que elas favo-
recem os intercâmbios sociais, pois possibilitam aos sujeitos
vivenciar relações para além das suas comunidades locais. Ou
seja, o indivíduo que participa de um software como o Orkut, em
sua maioria, busca encontrar amigos e participar de discussões
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A vida no Orkut | Início | Perfil | Página de recados | Amigos | Comunidades
240
sobre temas de seu interesse nos fóruns de discussões em algu-
mas das milhares de comunidades disponíveis no site. “O Orkut é
apenas mais uma maneira de socialização digital que vem con-
quistando muitos adeptos a cada dia e, por esta razão, a escola
não deve ‘fechar os olhos’”. (ARAÚJO, 2006, p. 30) Ou seja, é in-
contestável que muitos dos adolescentes, por exemplo, na atuali-
dade, são participantes destas redes sociais. No Brasil, a mais
usual delas é o Orkut.
Os estudantes de faculdade gastam uma quantidade de tempo sig-
nificativa usando serviços de rede sociais em linha para trocar
mensagens, compartilhando da informação, e mantendo-se em con-
tato um com o outro. (GOLDER, WILKINSON, HUBERMAN, 2007, p.
1, tradução nossa)
1
A afirmação acima é relativa a uma pesquisa realizada nos
Estados Unidos da América onde, segundo os autores, 90% dos
estudantes universitários participam ativamente de redes soci-
ais. No caso dos Estados Unidos, outras redes são mais famosas,
agregando um maior número de participantes (Friendester,
MySpace, e Facebook), sendo que a referida pesquisa foi realiza-
da entre usuários da Facebook. No entanto, a lógica de elabora-
ção e participação destas redes é similar, ou seja, os usuários
formam redes de amigos, amigos de amigos e comunicam-se atra-
vés de recados (scraps), fóruns de discussão das comunidades e
possuem um perfil análogo a um cartão de visitas (onde se en-
contram informações pessoais e profissionais, fotos, preferênci-
as, entre outros).
Outro ponto a ser ressaltado é a fuga de usuários que vem
acontecendo no Orkut, por exemplo. Embora este aspecto venha a
ser analisado a posteriori, vale adiantar que, após muitas mu-
1
College students spend a significant amount of time using online social network
services for messaging, sharing information, and keeping in touch with one
another.
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Nas teias do Orkut
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danças – a maioria delas para tornar o ambiente mais amigável –
em 2007, o Orkut foi invadido por spams, fakes e os scrapbooks,
infestados por vírus e mensagens pornográficas. Houve assim
um êxodo considerável no sistema. Além das discussões nas co-
munidades do Orkut, as falas dos sujeitos foram desaparecendo
ou ficando pouco consistentes. Os spams e vírus nas páginas dos
usuários fizeram com que muitos orkuteiros desistissem do am-
biente, mantivessem seus scraps e falas bloqueadas para
visualização ou/e com que a qualidade das discussões caísse
assustadoramente.
É fato que muitos dos elementos agregados ao Orkut estão
relacionados à busca por maior privacidade no sistema, isto é,
opções de bloqueio para visualização de fotos, mensagens e in-
formações pessoais estão cada vez mais sendo utilizadas pelos
usuários; ou então sendo permitidas visualizações apenas para
amigos ou, em casos mais rígidos, a permissão de visualização
apenas para aqueles que enviaram algum comentário para o
scrapbook. Muitas destas ações estão relacionadas ao fato apre-
sentado acima, referente à invasão de perfis fakes, crackers e
vírus em demasia. Ainda assim, consideramos o Orkut um espa-
ço favorável a potencializar a comunicação e a aprendizagem em
uma abordagem social.
Os sujeitos, suas razões e as
aprendizagens
Os sujeitos supracitados são16 usuários do software social
Orkut, como já dito anteriormente, pertencem à rede de contatos
de uma das pesquisadoras – com exceção de um que está presen-
te no segundo grau desta rede, uma vez que, na verdade, é conta-
to de um dos contatos. Este sujeito foi elemento importante por
discutir algum dos aspectos aqui tratados, visto que os discute
também em suas pesquisas acadêmicas.
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Com o objetivo de preservar a identidade dos sujeitos, serão
utilizados pseudônimos para nomeá-los. Os sujeitos estão liga-
dos ao perfil de uma das autoras, mas muito deles também estão
relacionados, seja por laços amorosos, de amizade ou parentes-
co. Desta forma, os sujeitos da investigação apresentados da for-
ma como se relacionam dentro desta rede de interação, o que não
significa que haja, de fato, laço forte entre eles.
Assim, os sujeitos foram investigados, a priori, através da
exploração de seus perfis e das comunidades que se relacionam
aos seus perfis. Para perceber o grupo investigado neste trabalho,
é importante ter um panorama geral de identificação. O gênero
dos sujeitos foi predominantemente feminino, apresentando 77%,
com a faixa etária entre 20 e 30 anos (60%), o que os coloca na
categoria etária dos nativos digitais, ou seja, aqueles que nasce-
ram com o advento das mídias digitais e telemáticas; o grau de
escolaridade dos sujeitos investigados indica que 75% já concluí-
ram o nível superior e que 50% estão no nível de pós-graduado, o
que permite dizer que os sujeitos desta pesquisa são acadêmicos
e, portanto, têm noção elementar e/ou aprofundada em relação à
investigação científica. Isso corrobora a afirmação de que, ao
responder aos instrumentos da pesquisa, o fizeram por entender
a importância desta; 75% dos sujeitos pesquisados vivem no Es-
tado da Bahia, ou seja, apenas quatro dos 16 sujeitos vivem em
outra cidade que não seja Salvador. Embora este dado seja im-
portante, vale salientar que não foi intencional a escolha dos su-
jeitos por localização geográfica. A priori, foram selecionados 30
sujeitos, que viviam em localidades diversificadas, no entanto,
apenas 16 propuseram-se a responder a um dos instrumentos
principais da investigação, o questionário, o que determinou que
a investigação ficasse focada nesses 16 personagens.
Para cada personagem foi construído um avatar, de forma
que a visualização dos sujeitos ficasse mais interessante. Para
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cada avatar construído, foram inseridos elementos verdadeiros
das características físicas, ou mesmo de expressões destes sujei-
tos. Desta forma, Xena Akita, Mel Frog, Dory risada, Ragnarok
Aishiteru, Macabéia Pagu, Blogueira Jedi, Mara Bill, Tia Teacher,
Teacher Strawberry, Crab´s Flower, Dreamer Girl, Naruto Cyborg,
Penélope Charmosa, Fênix Angel, Latino Music e Serena Flor fo-
ram os nomes escolhidos para os avatares que representam os
sujeitos desta investigação. Cada nome também possui seu signi-
ficado construído a partir da observação das interações dos sujei-
tos, das comunidades de que participa, ou que, ao menos, têm
relação com seu perfil, como mostra o mapa.


Figura 1 – Mapa dos avatares da pesquisa
Fonte: As autoras
A construção do avatar não buscou interferir no perfil que o
sujeito constrói no ambiente e, muito menos, violar sua privaci-
dade, mas procurou preservar a identidade do sujeito de forma
ética, ilustrando como é este sujeito aos olhos das pesquisadoras
de maneira lúdica, tanto fisicamente: saber como é pessoalmente
ou apenas como é através de fotografias, por exemplo, e assim,
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buscando preservar características como cor de cabelo, cor de
pele, uso de óculos, aparelho, etc; como ao rebatizá-los, esco-
lhendo nomes que estejam relacionados ao seu perfil no Orkut:
coisas que gosta de fazer, comunidade que defende e/ou partici-
pa. A escolha de nomes fictícios ocorreu também para preservar
a identidade do sujeito da pesquisa.
Assim, conhecidos os sujeitos, caminhamos na direção de
procurar saber de quais softwares sociais participavam na web,
a fim de buscar subsídios para a relação deles com o software
que escolhido como locus de análise, bem como perceber por
quais outros caminhos e ambientes estes sujeitos caminhavam.
Isso porque, como já foi abordado, o Orkut não é o único espaço
do gênero, embora no Brasil ele seja o mais famoso e utilizado.
Desta maneira, os personagens desta pesquisa explicitaram em
quais espaços vivem e interagem na web. Foi possível perceber
que, além do Orkut, apenas 37,5% dos sujeitos disseram fazer
parte de outros softwares sociais, embora 15 deles também pos-
suam conta no MSN Messenger, um software social de comunica-
ção instantânea. A seleção apenas deste software está relacionada
com uma outra questão: o uso que se faz do Orkut. Embora, na
prática de observação e interação com sujeitos, a maioria deles
utilize diariamente o MSN Messenger, por exemplo, é no Orkut
que eles passam mais tempo e visitam mais vezes.
O Orkut foi eleito por 100% dos sujeitos como o software
social que mais utilizam. Este uso está relacionado diretamente
às interações sociais que têm possibilidade de acontecer, na mai-
oria das vezes, como conversas informais, busca de informações,
depoimentos de amizades, dentre outros. No entanto, Blogueira
Jedi diz que utiliza mais este software, porque é para onde mais
lhe enviam mensagens pessoais, além de receber os avisos das
mensagens por e-mail. Latino Music diz que utiliza apenas para
realizar downloads de músicas, filmes e histórias em quadrinhos
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sobre temas diversos. Assim, apenas para dois sujeitos investiga-
dos os laços sociais e afetivos não são os pontos mais importan-
tes na utilização do Orkut.
Um outro elemento importante em relação à utilização dos
softwares sociais pelos sujeitos da pesquisa é saber o que os
levou a escolher esses softwares como espaços de convivência na
web, ou seja, o que os motivou e/ou despertou desejo.
Mais uma vez, os laços sociais e afetivos são os elementos
fundamentais para a escolha e utilização de determinados
softwares sociais, bem como a comunicação é o princípio funda-
mental para esta interação.
Entendo o Orkut como instrumento de ressocialização. Faz oito
anos que deixei minha cidade natal, Rio de Janeiro e é através deste
software que estou reencontrando amigos, familiares, enfim, reven-
do minhas raízes e laços de parentesco e amizade. Para mim, o
Orkut é muito mais que um simples software de encontro de amigos.
Ele me dá a possibilidade de me reencontrar com minhas origens e
meu passado. Não há palavras para descrever o que é você encon-
trar um amigo que estudou com você há 20 anos atrás. E também é
através dele que me atualizo, sei como meus amigos estão, meus
familiares, enfim. O Orkut é muito mais que um software, é uma
ponte entre meu presente e meu passado, entre amigos e convivên-
cias. É minha vida. (XENA AKITA)
A partir da fala de Xena Akita, pode-se identificar um outro
elemento nos motivos da utilização do software: a necessidade de
encontrar pessoas das quais não tem notícia, além de suprir a
distância física entre a sua cidade natal, Rio de Janeiro, e a cida-
de aonde vive, Salvador. Para este sujeito, o Orkut é uma exten-
são da sua vida geograficamente determinada e de suas relações
presenciais.
Já a usuária Crab’s Flower traz um relato interessante do
porquê da utilização, de suas variantes e de cada especificidade
do momento de uso, demonstrando os diversos significados do
software que utiliza para a sua vida.
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Falo especificamente do Orkut. Fiz minha inscrição, pois comecei a
ouvir falar dele no meio acadêmico. Entrei por curiosidade, para
pensar algumas possibilidades pedagógicas, para ter elementos para
discutir em sala de aula com meus alunos. Depois passou a ser
também um meio de manter contatos, me comunicar com amigos.
Agora também é um espaço para bisbilhotar a vida alheia (rsrsrsrsrs).
(CRAB’S FLOWER)
Ou seja, para Crab’s Flower, o Orkut tem diversos significa-
dos e funções, desde investigar a vida de outros usuários até as
possibilidades acadêmicas. O sujeito, então, traz um elemento de
escolha que é similar a outros personagens da pesquisa, a exem-
plo de Blogueira Jedi, que elenca motivos específicos e diferentes
para a utilização dos softwares sociais.
Ainda assim, a adesão pela curiosidade de saber o que é
algo sobre o qual muita gente fala, sobretudo a mídia impressa e
televisiva, também é uma das razões para o acesso, principal-
mente no caso do Orkut, como afirma Naruto Cyborg: “Aderi ao
Orkut logo quando começou a ser divulgado aqui no Brasil justa-
mente para experimentar os recursos que eram comentados”.
A fala de Naruto Cyborg demonstra a necessidade de conhe-
cer o novo, de saber o que é aquele espaço sobre o qual todos
comentam. A necessidade de fazer parte e conhecer o novo foi um
elemento que contagiou todos os participantes investigados, vis-
to que a maioria deles faz parte do Orkut desde quando ele sur-
giu (janeiro de 2004) ou quando ganhou versão em língua
portuguesa (abril de 2005).
[...] acredito que a sociabilidade engendrada pelas comunidades e
perfis dos usuários do Orkut nos convoca e nos provoca a pensar
acerca das maneiras como os “orkuteiros” têm gerenciado e
arregimentado as participações de seus “amigos virtuais”, seja para
visitar sua página pessoal no Orkut, deixando-lhes um recadinho
(mais conhecido como scrap), seja participando dos fóruns digitais
das comunidades orkutianas. (ARAÚJO, 2006, p. 29)
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Que o Orkut e suas comunidades constituem febre no Bra-
sil, embora acredite que já o tenha sido mais, ficou claro nesta
explanação. Discutir o porquê do encantamento por este software
em especial e por todos os mitos que lhe rondam não é objetivo
deste trabalho. Vale lembrar que aqui se pretende chegar à con-
clusão de quais são as possibilidades de aprendizagem e comu-
nicação no Orkut. Para tanto, é preciso perceber o que os sujeitos,
imersos neste ambiente, fazem nos espaços que lhes são preferi-
dos. Sim, pois, como na vida presencial, é nos lugares em que
mais se gosta de estar que se coloca toda a energia.
Aos 16 sujeitos deste estudo, foi perguntado exatamente isto:
qual a comunidade que mais gostavam de participar, ou seja,
qual o cantinho preferido neste universo em que o Orkut transfor-
mou-se. O questionamento deve-se, principalmente, pelo fato de
que a permanência nas comunidades é um quesito importante na
pesquisa. Assim, saber a respeito daquelas de que os sujeitos
participam com maior frequência e o porquê das escolhas são
fatos importantes para delinear os tipos de práticas sociais que
acontecem nesse ambiente.
Em se tratando de aprendizagem, é preciso refletir o que
esta significa, visto que é um fenômeno complexo e permeado de
multiplicidades filosóficas, epistemológicas e de práxis. Assim,
em um momento específico da pesquisa, um dos pontos debati-
dos e que causou maior dificuldade entre os sujeitos foi no mo-
mento de discutir o que é a aprendizagem. Acreditamos que a
dificuldade ocorra devido ao problema que, muitas vezes, se tem
quando há a necessidade de conceituar qualquer fenômeno, mas,
principalmente, por ser este um conceito complexo.
Desta forma, as percepções a respeito da temática foram
distintas, porém muitas vezes similares.
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Figura 2 – Conceito de aprendizagem
Fonte: As autoras
Como pode ser visto, os sujeitos investigados têm opiniões
diversas acerca da conceituação do que é aprendizagem. No en-
tanto, embora tragam definições distintas, há um elemento pre-
sente em praticamente todas as falas: a questão do outro, do
aprender a partir da interação. Seja por colaborar, observar, tro-
car ou participar.
Aprender na perspectiva social
Ragnarok Aishiteru, por exemplo, concebe “aprendizagem
como sinônimo de construção coletiva de conhecimento, através
de processos colaborativos de trocas de experiências, leituras e
saberes”. Ou seja, o investigado acredita que, para a aprendizagem
acontecer, é preciso haver um processo criativo e, sobretudo, co-
letivo. A ideia de Ragnarok Aishiteru assemelha-se à de Xena
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Akita, pois esta diz que a aprendizagem é “todo o processo que o
indivíduo partilha saber e informação”.
A partir destas percepções e das outras falas trazidas pelos
sujeitos, pode-se dizer que, na percepção de 50% dos entrevista-
dos, a aprendizagem ocorre socialmente, ou seja, por meio da
interação e interlocução com seus semelhantes.
Em se tratando da aprendizagem por meio da interação com
o outro, Vigotsky (2002) é um dos autores que mais contribuem
para esta discussão. Segundo o teórico, as características que
constituem o ser humano não lhe são inatas. Assim, as práticas
sociais e os elementos de natureza humana resultam da interação
dialética do homem com o meio sociocultural. Ou seja, quando o
homem modifica o ambiente, as relações através de seu compor-
tamento, por exemplo, irão implicar as suas ações com-
portamentais futuras. A aprendizagem, enquanto um destes
elementos sociais, precisa ser pensada à luz desse processo
dialético. Naruto Cyborg traz o autor para elucidar o conceito
que ele estrutura sobre aprendizagem.
Simpatizo com a teoria de Vigotsky, que considera a aprendizagem
como uma experiência social na qual, por meio da interação entre
os sujeitos - nos diferentes locais por onde esse sujeito circula e nos
distintos momentos de sua existência - o conhecimento é produzido
e compartilhado. Acredito, portanto, que aprender significa conhe-
cer, e conhecer, partir (sic) das interações, relações, diálogos,
vivências entre os indivíduos. (NARUTO CYBORG)
Destarte, tanto na fala de Naruto Cyborg, quanto na de
Ragnarok Aishiteru e Xena Akita, existe a presença forte da ideia
de que a aprendizagem ocorre na interação com outros, pela me-
diação de signos e sujeitos e por meio das vivências e experiênci-
as dos sujeitos. Estas falas só fazem corroborar a teoria
sociocultural de Vigostky (2002). O autor aponta que o meio
sociocultural é de extrema importância para o desenvolvimento
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humano. Ainda nesta perspectiva, ele considera que esse desen-
volvimento acontece, principalmente, por meio da aprendizagem
da linguagem, um signo mediador por excelência. São estes sig-
nos – a linguagem é o principal deles – construídos historicamen-
te e por meio da cultura que realizam a mediação dos seres
humanos entre si e deles com o mundo.
O homem é também um ser histórico-cultural, produto e
produtor de relações sociais, tendo como um de seus principais
produtos os signos. Estes têm um papel criador e organizador
dos processos psicológicos.
Deste modo, na perspectiva vigotskyana, o homem é quem
transforma e é transformado nas relações existentes em uma de-
terminada cultura. No entanto, o que acontece não é uma adição
de fatores inatos e fatores adquiridos, e sim uma interação
dialética que incide, desde o momento em que o sujeito nasce,
entre o homem e o meio social e cultural em que vive.
Baseado na abordagem materialista-dialética da análise da histó-
ria humana, acredito que o comportamento humano difere qualita-
tivamente do comportamento animal, na mesma extensão em que
diferem a adaptabilidade e o desenvolvimento dos animais. O de-
senvolvimento psicológico dos homens é parte do desenvolvimento
histórico geral de nossa espécie e assim deve ser entendido. A acei-
tação dessa proposição significa termos de encontrar uma nova
metodologia para a experimentação psicológica. (VIGOTSKY, 2002,
p. 80)
É possível perceber, assim, que, na perspectiva de Vigotsky
(2002), o desenvolvimento humano é compreendido como proces-
so de trocas recíprocas, que se situa, durante toda a vida, entre
indivíduo e meio, cada aspecto implicando sobre o outro: “Apren-
dizado e desenvolvimento estão inter-relacionados desde o pri-
meiro dia de vida de uma criança”. (VIGOTSKY, 2002, p. 110) Com
tudo isso, o autor não exclui a existência de diferença entre os
indivíduos, ou seja, que um possa ter maior predisposição para
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algumas atividades e práticas do que outros, em razão, inclusi-
ve, de possíveis fatores físicos ou genéticos. Entretanto, afirma
que estas diferenças não são determinantes nem condicionantes
para a efetivação da aprendizagem. Por tudo isso, Vigotsky (2002)
rejeita os modelos fundamentados em pressupostos inatistas, cujas
teorias determinam características comportamentais e
desenvolvimentistas universais ao ser humano. Assim, “[...] o
desenvolvimento [...] se dá não em círculo, mas em espiral, pas-
sando por um mesmo ponto a cada nova revolução, enquanto
avança para um nível superior”. (VIGOTSKY, 2002, p. 74)
Fênix Angel acrescenta que a “[...] aprendizagem é um pro-
cesso de interação entre o aprendente, o meio em que vive e o
objeto da sua aprendizagem”. Desta forma, a participante estabe-
lece uma tríade entre três elementos: sujeito, ambiente e objeto e,
no nó desta relação, a interação. A interação atuaria, na percep-
ção de Fênix Angel, como um elemento mediador. Sua ideia, nes-
te ponto, difere do pensamento de Vigotsky (2002). Para o autor,
não há apartação entre homem e ambiente, os dois elementos
existem relacionadamente. Assim, devido à natureza dialética, o
pensamento vigotskyano não aceita duas esferas distintas, mas
sim apenas um sujeito essencialmente social e que, portanto, não
pode ser compreendido fora do âmbito social. A ecologia cognitiva
humana assume características diversas, dependendo da realida-
de social do homem, ou seja, a estrutura epistemológica de
Vigotsky (2002, 2005) implica perceber suas especificidades como
um fenômeno sociohistórico e cultural. De tal modo, é mister
perceber as especificidades desta relação, sobretudo quando su-
jeito e objeto são históricos e a relação deles também o é.
Um outro elemento importante no processo de aprender é o
desejo que está vinculado diretamente à subjetividade do
aprendente. O desejo de saber, de conhecer, forma um par de rela-
ção direta com o não-saber, constituindo um círculo que mobiliza
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a estrutura do sujeito à medida que tece uma rede, onde é preciso
perceber cada fio que forma a significação de aprender. Segundo
Fernández (1991), o nível do desejo organiza a vida afetiva e das
significações, ou seja, a linguagem e os gestos dizem como o
sujeito vê e sente o mundo. Todas as intervenções da ordem do
desejo vêm de uma estrutura comum, que é a linguagem, e são
de natureza simbólica, referindo-se às significações que se esta-
belecem nas relações. Assim, o mecanismo do desejo tem impor-
tância em relação à aprendizagem, sobretudo em relação à
aprendizagem social, pois diante dele é que as construções
cognitivas acontecem. Só se constroem aprendizagens espontâne-
as no âmbito do social a partir daquilo que é de interesse do
sujeito, da ordem do seu desejo.
Segundo os sujeitos da pesquisa e de alguns elementos da
teoria vigotskyana e, no caso de um sujeito – Teacher Strawberry
–, o desejo é um mecanismo de relevância para o processo. Entre-
tanto, como foi inicialmente abordado no início desta fala, os
aspectos sociais – da relação com os pares, da construção por
meio da interação entre sujeitos, da colaboração e de troca de
saberes – fica evidente um caráter social desta percepção. O que
aqui denomino de social está diretamente relacionado com a pers-
pectiva epistemológica vigotskyniana e a abordagem psicossocial
eriksoniana. Embora Erikson (1976) trabalhe a partir das refle-
xões da psicanálise, enquanto Vigotsky (2002; 2005) passeia na
seara da psicologia, visto que seus estudos debruçam-se sobre o
desenvolvimento humano, os dois autores trazem contribuições
significativas e próximas no que se refere àquilo que aqui no-
meio “aprendizagem social”.
Ambos os teóricos compreendem o homem como sujeito so-
cial, uma vez que, para Erikson (1976), as relações sociais são
elementos fundamentais para a construção do sujeito, ou seja, o
sujeito desenvolve-se por meio de suas requisições internas
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imbricadas com as exigências do ambiente em que está inserido,
sendo a cultura e a sociedade organismos essenciais para a cons-
tituição do sujeito. Igualmente para Vigotsky (2002), as implica-
ções histórico-culturais e, portanto, sociais – visto que o homem
é o único ser que possui cultura e o único capaz de construir e
refletir sobre sua história – são os elementos estruturantes do
homem.

Figura 3 – Percepções sobre aprendizagem social
Fonte: As autoras
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Aprendizagem enquanto mecanismo e
produto



Figura 4 – Percepções sobre aprendizagem
Fonte: As autoras
As falas apresentadas na Figura 3 refletem o entendimento
de quatro sujeitos da pesquisa em relação ao conceito de aprendi-
zagem. A análise do discurso destes sujeitos resultou em uma
divisão das percepções. Ou seja, para dois deles a aprendizagem
é um produto, sendo que para Blogueira Jedi é um processo que
engloba outros mecanismos e para Serena Flor e Mara Bill, serve
para adquirir conhecimentos e/ou apreender conhecimentos.
Blogueira Jedi, por exemplo, ao definir o conceito de apren-
dizagem, disse que “[...] é um processo que engloba a criação de
algo novo em cima de informações anteriores. [...] é um processo
que engloba raciocínio, observação e memória”. Ao analisar a
fala da participante, nota-se que esta atribui ao conceito reflexão
próxima à definição de aprendizagem de Albert Bandura.
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Nas teias do Orkut
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Bandura, filho da linha behaviorista da Psicologia, questio-
nou os estudos de Skinner, propondo uma outra versão do
behaviorismo, o sociobehaviorismo. Por querer afastar-se do ró-
tulo de behaviorista, denominou sua linha de “abordagem
cognitiva social”, questionando a negação dos processos mentais
e cognitivos no processo de aprendizagem do ser humano. Perce-
be o comportamento humano com um viés cognitivo, ao contrá-
rio dos behavioristas. Acredita que o ser humano é capaz de
aprender comportamentos sem sofrer qualquer tipo de reforço,
embora creia que o sujeito também pode aprender através de re-
forços de outra ordem: reforço vicário ou aprendizagem vicariante,
ou seja, o sujeito aprende através da observação do comporta-
mento dos outros e de suas consequências. Assim, para o autor,
entre o estímulo e a resposta há também o espaço cognitivo de
cada indivíduo.
Os dois elementos que Blogueira Jedi traz são a observação
e a memória. Para Bandura e Walters (2002), a observação e a
memória são pontos importantes na construção da aprendizagem
em uma perspectiva social cognitiva, visto que é através dela
que o sujeito pode imitar ou reproduzir um modelo. Vale ressal-
tar que a imitação a que os autores se referem não significa re-
produzir sem modificar a ação do outro. Este processo é definido
pelos autores como modelação, pois, ao observar o modelo, o
sujeito agrega uma outra ação ou comportamento, ou seja, há
uma re-significação. Assim, “[...] o comportamento de cada indi-
víduo resulta não somente do ambiente, mas também da sua re-
presentação cognitiva”. (BANDURA; WALTERS, 2002, p. 77)
Deste modo, para esses autores, a aprendizagem ocorre atra-
vés de quatro fatores: inteligência, que seria a capacidade de
aprender, ou seja, uma pessoa com maior capacidade intelectual,
aprende mais facilmente; motivação, quando afirmam que uma
pessoa motivada aprende com menos dificuldade, dividindo ainda
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a motivação em intrínseca (aprende pela razão do aprender) e
extrínseca (aprende por esperar uma recompensa – elogio, classi-
ficação); experiência anterior, as experiências de vida têm influ-
ência nos interesses por áreas e/ou conteúdo, além disso, os
autores dizem que tudo o que se aprende implica aprendizagens
anteriores; fatores sociais, as condições socioculturais perten-
centes ao sujeito favorecem o processo de aprendizagem, à medi-
da que, quanto mais recursos e experiências enriquecedoras os
sujeitos tenham, a aprendizagem é beneficiada.
Para Penélope Charmosa, a aprendizagem é um produto re-
sultante de todo o conhecimento adquirido. Ela destaca ainda
que a aquisição deste conhecimento deve acontecer de forma que
qualifique o sujeito a transmitir o conhecimento a outro sujeito.
Esta ideia de transmitir e assimilar conteúdos e conheci-
mentos, na visão de Mara Bill e Serena Flor, tem duas razões. A
primeira acha ser necessário, para desenvolver e refinar habilida-
des, que o sujeito já possui; para a segunda, estes auxiliam na
sobrevivência do homem. Em relação à sobrevivência, obviamente
que a aprendizagem dá suporte a esta questão, principalmente no
que se refere a aprender sobre mecanismos de defesa, de técnicas
que ajudarão os sujeitos a comunicar-se e a transmitir para os
seus semelhantes os conhecimentos referentes a uma tecnologia
ou técnica, por exemplo, como apontam Burke e Ornstein (1998).
Segundo esses dois autores, ao longo de toda a história da
humanidade, os fazedores de machados, ou seja, os homens, cri-
aram, desenvolveram e produziram centenas de “presentes-ma-
chado”, técnicas e tecnologias. As técnicas, segundo eles, foram e
são idealizadas, produzidas e reinterpretadas durante seu uso
pelos homens, como também é o próprio uso intensivo destes
“presentes” que constitui a humanidade enquanto tal. Acrescen-
tam ainda que, ao mesmo tempo em que o homem interfere na
natureza, produzindo tecnologias, estas influenciam no seu
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processo de desenvolvimento biológico e social. A discussão dos
autores gira em torno do desenvolvimento do homo habilis em
homo erectus, e deste em homo faber e, a posteriori, em homo
sapiens. Os autores colocam em evidência a produção do conhe-
cimento humano e, consequentemente, a aprendizagem como ele-
mento decisivo para a garantia da sobrevivência do ser humano
no planeta, o que permitiu a aquisição de bens materiais neces-
sários à vida, modificando e sendo modificado pela natureza.
Quando, pela primeira vez, usamos um instrumento para tirar mais
alimento da natureza do que ela estava preparada para nos ofere-
cer, mudamos o nosso futuro. E à medida que aumentava o nosso
número, aumentava também o poder daqueles que mais eficazmen-
te sabiam manejar o machado. Estes se tornaram líderes. O resto do
grupo, em sua maior parte, seguia o machado. (BURKE; ORNSTEIN,
1998, p. 15)
Assim, a aprendizagem, de fato, também possui o caráter de
manutenção da sobrevivência da espécie, já que é a partir dela
que o homem consegue construir ferramentas, criar tecnologias e
assim, ‘transformar a natureza’. Nesta perspectiva, a aprendiza-
gem tem natureza de transmissão de saber a fim de estabelecer
formas de sobrevivência, melhores condições e manipulação da
natureza em favor do homem, além de ser também um mecanis-
mo de desenvolvimento e aprimoramento de técnicas e habilida-
des já existentes, como ressaltou a participante Mara Bill.
Considerações finais
As potencialidades do Orkut estão relacionadas à interação,
sobretudo à social, visto que o maior capital desse software pare-
ce ser os sujeitos que por ele passam, as trocas sociais, os inter-
câmbios de cultura e informações.
A aprendizagem, nos espaços de IMC do Orkut, pode ser
construída, deste modo, a partir da análise das opiniões dos outros,
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mas não de forma desestruturada e sim com o intuito de compre-
ender o mundo de forma globalizada, visto que o mundo é com-
posto de pessoas que se relacionam, ideias que se apoiam e se
opõem.
A ideia de construir argumentações a respeito do que se é
visto, conhecido no Orkut é para os sujeitos, feita a partir do res-
peito às diferenças. No entanto, respeitar a diferença não consiste
apenas em aceitar uma opinião, um gosto ou viver diferente.
Respeitar aquilo que é diferente é respeitar uma outra iden-
tidade, alguém ou alguma opinião que não é minha. Neste exer-
cício de respeito é que construtos sociais da argumentação
consciente reside, se desenvolve. Assim, pode ser a partir destes
confrontos com aquilo que é diferente de mim que as discussões
imprevisíveis podem acontecer e este imprevisível pode ser rico
de descobertas, visto que em experiência com certeza o é.
Destarte, a ideia de compartilhar experiência, conviver, ob-
servar a ação do outro, re-significar o discurso do outro, manter
contato com outros sujeitos e compartilhar relatos sobre o mun-
do é a imagem da construção e aprendizagem social em rede,
neste caso, uma rede virtual de pessoas com objetivos e gostos
muito similares. A informação, neste panorama, e a busca por
notícias, fatos, momentos não ficam ausentes nestes processos
relacionais, convivem, interagem. É justamente este conjunto de
possibilidades, construções e vivências que desenham o processo
de desenvolvimento das aprendizagens, de natureza social, em
rede.
Por tudo isso é possível afirmar que as possibilidades de
construção de aprendizagens ultrapassam os muros das escolas.
Aprender é mais que decorar informações e pode acontecer em
lugares outros que não os espaços formais: escola, comunidades
virtuais de aprendizagem (com estrutura formal) ou ambientes
desenhados para a aprendizagem de conteúdos escolares. Aprender
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Nas teias do Orkut
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está em dimensões distintas, criativas, inesperadas. A partir des-
tas discussões, da apresentação dos dados, das vozes dos sujei-
tos e da relação destes elementos com a investigação teórica,
pode-se compreender que tipo de aprendizagem é a possível de
ser construída no Orkut e de que forma estas interações media-
das pelo software podem-se constituir potencialidades de apren-
der. Vale a ressalva de que esta análise, assim como a
apresentação da tabela panorâmica que resume as poten-
cialidades, não busca esgotar o assunto por completo, podendo,
inclusive, guiar algumas premissas sobre a construção de apren-
dizagem social em softwares sociais na internet, mas precisa-
mente no Orkut.
Referências
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261
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Sobre os autores
Camila Lima Santana e Santana. Pedagoga e mestre em Educação
pela UNEB. Doutoranda em Educação pela UFBA. Foi docente do ensino
fundamental da Rede Municipal de Ensino de Salvador e professora da
Faculdade Metropolitana de Camaçari. Participa do Grupo de Pesquisa
Comunidades Virtuais (UNEB) e do Grupo de estudo e pesquisas em
Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC) da UFBA. Atualmente é
professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano
(IFBAIANO)
camilalimasantana@yahoo.com.br
Deusa Maria de Souza-Pinheiro-Passos. Possui mestrado em Linguística
aplicada ao ensino de línguas pela PUC-SP, doutorado em Linguística pela
Unicamp e pós-doutorado em Linguística aplicada pela Unicamp. É autora
do livro Linguagem, política e ecologia: uma análise do discurso de partidos
verdes, publicado pela Pontes Editores, além de capítulos de livros e
artigos em revistas especializadas. Desenvolve pesquisas em ensino e
aprendizagem de Língua Inglesa, discursos do meio ambiente, mídia e
novas tecnologias. É docente e pesquisadora da área de Estudos
Linguísticos e Literários em Inglês, do Departamento de Letras Modernas,
da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
deusa@usp.br
Edvaldo Souza Couto. Doutor em Educação – UNICAMP e mestre em
Filosofia – PUC-SP. É professor associado no Departamento de Educação
II, na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA),
onde atua na graduação e na pós-graduação. Também é professor no
Programa de Pós-Graduação em Filosofia. É autor do livro O homem-
satélite: estética e mutações do corpo na sociedade tecnológica (Unijui),
Coorganizador de Corpos Mutantes: ensaios sobre novas (d)eficiências
corporais (EDUFRGS) e de Walter Benjamin: formas de percepção estética
na modernidade (Quarteto). É um dos coordenadores do NBEWB – Núcleo
Brasileiro de Estudos Walter Benjamin – www.uesc.br/necleos/nebwb e do
Grupo de Estudos em Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC) –
www.gec.faced.ufba.br Desenvolve pesquisa com bolsa de produtividade
do CNPq.
edvaldo@ufba.br
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Elisabete Maria Garbin. Professora do Departamento de Ensino e
Currículo e do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS), pesquisadora do
Núcleo de Estudos sobre Currículo, Cultura e Sociedade <www.ufrgs.br/
neccso>.
emgarbin@terra.com.br
José Adjailson Uchôa-Fernandes. É docente e pesquisador junto à
Faculdade de Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Pará,
campus de Marabá. Possui mestrado em Estudos Linguísticos e Literários
em Inglês pela Universidade de São Paulo e é bacharel em Letras - Inglês
(2004). Dedica-se às questões relativas à identidade e aos modos de
dizer e se fazer sujeito no ciberespaço, mais especificamente no Orkut,
analisando comunidades virtuais sobre a Língua Inglesa. Seus principais
focos de interesse residem nas questões acerca da relação sujeito-língua
e nos aspectos identitários e discursivos das novas mídias, tendo as redes
sociais como principal objeto de análise de seus trabalhos mais recentes.
zeuchoa@gmail.com
Joseilda Sampaio de Souza (Sule). Possui graduação em Pedagogia
pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). É mestranda no Programa de
Pós-Graduação em Educação na mesma Universidade. Membro do Grupo
de Pesquisa em Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC). Possui
experiência com o ambiente Moodle, onde atuou como bolsista do Projeto
EAD-CPD-Moodle UFBA. Atua, principalmente, na área de Educação,
Comunicação e Tecnologia nos seguintes temas: Inclusão digital, Software
Livre, Educação e Tecnologia da Informação e Comunicação e Moodle.
sulesp@hotmail.com
Leila Bergmann. Possui graduação em Licenciatura Plena em Letras,
mestrado e doutorado em Educação (UFRGS) e Pós-Doutorado Júnior
(PDJ) (2006-2008) em Educação com o Projeto Representações de
professores e escola no Orkut, sob a supervisão da professora Rosa Maria
Bueno Fischer (UFRGS) e apoio (bolsa) do CNPq. É professora substituta
no DEE (Departamento de Estudos Especializados – UFRGS/FACED),
lecionando Literatura e Educação e supervisionando Estágio de Docência
de 0 a 7 anos. Possui experiência na área de Educação, Língua Portuguesa,
Didática Geral e Literatura Infantil e atua principalmente nos seguintes
temas: Ensino de Língua Portuguesa, Mídia, Orkut, Livro Didático de
Língua Portuguesa, Oralidade, Produção Textual e Literatura Infantil.
lmuryb@terra.com.br
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Sobre os autores
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Lígia Azevedo Diogo. Possui graduação em Comunicação Social pela
Universidade Federal Fluminense (UFF), atua principalmente nas
seguintes áreas: cinema, mostras, festivais, oficinas e debates.
ligiadiogo@hotmail.com
Lynn Alves. Pedagoga pela Faculdade de Educação da Bahia, mestre e
doutora em Educação pela UFBA e PhD na área de Jogos Eletrônicos e
aprendizagem pela Università degli Studi di Torino, na Itália. É professora
adjunta e pesquisadora da Universidade do Estado da Bahia e do SENAI-
CIMATEC- Departamento Regional da Bahia (Núcleo de Modelagem
Computacional). Coordena o grupo de pesquisa Comunidades Virtuais
(www.comunidadesvirtuais.pro.br). lynnalves@yahoo.com.br
Márcio Silva Gondim. Psicólogo graduado pela Universidade de Fortaleza
(UNIFOR). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
Atualmente é professor na FANOR (Faculdades Nordeste). Tem experiência
nas áreas de Psicologia Social, Psicologia Organizacional e Ensino e
Aprendizagem na Sala de Aula, em uma perspectiva Humanista.
msgondim@hotmail.com
Maria de Fátima M. Brandão. Graduada em Licenciatura Plena em
Letras pela Fundação Francisco Mascarenhas (1994). Especialista em
Língua Falada e Ensino do Português pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (1998) e mestre em Educação pela Universidade Luterana
do Brasil, Canoas-RS (2009). Professora de Educação Básica, Técnica e
Tecnológica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do
Piauí, desde abril de 1996, atuando nas disciplinas de Língua Portuguesa,
Literatura e Produção de Textos, Atividades Linguísticas e Português
Instrumental.
famoraisb@hotmail.com
Maria de Fátima Vieira Severiano. Possui graduação em Psicologia e
mestrado em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e
doutorado em Ciências Sociais Aplicadas à Educação pela Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP), com doutorado sanduíche no Depto.
de Psicologia Social da Universidade Complutense de Madrid. É professora
associada no Departamento de Psicologia e no Mestrado da UFC. Ex-
coordenadora do Mestrado em Psicologia desta Instituição, leciona
disciplinas na área de Psicologia Social e Comunicação e realiza pesquisas
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na área de Consumo, Mídia e Subjetividade. É autora do livro Narcisismo
e publicidade: uma análise dos ideais do consumo na contemporaneidade,
(AnnaBlume) e siglo XXI (Espanha/Argentina) e coautora do livro
Consumo, narcisismo e identidades contemporâneas EdUERJ (RJ).
fatimasev@terra.com.br
Maria Helena Silveira Bonilla. Mestre em Educação nas Ciências, pela
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
(1997) e doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia (2002).
Professora adjunta na Faculdade de Educação da Universidade Federal
da Bahia (UFBA). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em
Educação e Tecnologias da Informação e Comunicação, atuando
principalmente nos seguintes temas: formação de professores, inclusão
digital e software livre. É uma das coordenadoras do Grupo de Estudo e
Pesquisa em Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC)
(www.gec.faced.ufba.br)
bonillabr@gmail.com
Maria José Bocorny Finatto. Doutora em Estudos da Linguagem pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadora de
Lexicologia, Lexicografia e Terminologia. Desenvolve pesquisa com bolsa
de Produtividade do CNPq. mfinatto@terra.com.br
Paula Sibilia. Possui graduação em Comunicação e em Antropologia
pela Universidade de Buenos Aires (UBA), mestrado em Comunicação –
UFF, e doutorado em Saúde Coletiva - IMS-UERJ e em Comunicação e
Cultura – ECO-UFRJ. É professora no Programa de Pós-Graduação em
Comunicação e no Departamento de Estudos Culturais e Mídia da
Universidade Federal Fluminense (UFF). É autora dos livros O homem-
pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais (Relume Dumara)
e O show do eu: a intimidade como espetáculo (Nova Fronteira).
sibilia@bol.com.br
Rosa Maria Hessel Silveira. Licenciada em Letras, mestre em Letras e
doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Professora titular aposentada da Faculdade de Educação da UFRGS, onde
atualmente é professora colaboradora convidada do PPGEducação.
Professora adjunta da ULBRA, com atuação no PPGEducação e no Curso
de Pedagogia. Pesquisadora do CNPq, já publicou as coletâneas Professoras
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Sobre os autores
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que as histórias nos contam (Ed. DP&A), Cultura, poder e educação (Ed.
da Ulbra) e Estudos culturais para professor@s (Ed. da Ulbra), além de
artigos em revistas especializadas e outras coletâneas.
rosamhs@terra.com.br
Rosângela de Araújo Medeiros. Possui graduação em Pedagogia pela
Universidade de São Paulo (2002) e mestrado na área de Educação,
Tecnologia e subjetividade (2008) na mesma Universidade. Tem
experiência na área de Educação, com ênfase em Educação e Tecnologia,
atuando principalmente nos seguintes temas: tecnologia, produção
acadêmica, ensino de leitura e escrita, educação, mídia, aprendizagem,
leitura e diversidade cultural.
rosinhamedeiros@yahoo.com.br
Tadeu Rossato Bisognin. Professor de Português e Literatura do Colégio
de Aplicação da UFRGS desde 1980, licenciado em Letras pela UFRGS
com habilitações em Língua Portuguesa e Literatura, Latim e Grego,
especialista em Estudos Linguísticos do Texto e mestre em Letras [Estudos
da Linguagem/Teorias do Texto e do Discurso]. Autor da coleção didática
Descoberta & Construção, de 5ª. a 8ª. série (Ed. FTD, 1991), editor da
revista Cadernos do Aplicação e autor de artigos acadêmicos.
tadeurb@gmail.com
Telma Brito Rocha. É pedagoga (2002), mestre em Educação e doutoranda
em Educação na Universidade Federal da Bahia (UFBA), com pesquisa
sobre Práticas de Cyberbullying no Orkut. Atuou como professora substituta
nas Universidade Federal da Bahia, Universidade Estadual de Feira de
Santana e professora visitante na Universidade Estadual da Bahia (UNEB),
Campus V. Atualmente é professora do Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA).
telmabr@gmail.com
Viviane Camozzato. Licenciada em Pedagogia (séries iniciais), mestre
e doutoranda em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS). Membro do Núcleo de Estudos sobre Currículo, Cultura e
Sociedade (NECCSO). Bolsista do CNPq - Brasil.
vipoa2002@gmail.com
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14x21cm
Caxton Bk BT 10/15
Pólen 80g/m
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(miolo)
Cartão Supremo 250 g/m
2
(capa)
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500
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Tiragem
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