AVALIAÇÃO SANITÁRIA DE CULTIVARES DE MILHO CRIOULO

ARMAZENADAS EM AMBIENTE NÃO CONTROLADO
1
NOAL, Gisele
2
; MUNIZ, Marlove
3
; BOVOLINI, Marciéli
4
; MACIEL, Caciara
5
;
DEPRÁ, Marta
6
; MIGLIORINI, Patrícia
7
; BARBIERI, Marciele
8
1
Trabalho de Pesquisa _Universidade Federal de Santa Maria
2
Mestrado em Agronomia (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
3
Eng. Agrônoma, Profª. Adjunta do Departamento de Defesa Fitossanitária (UFSM), Santa Maria, RS,
Brasil
4
Acadêmica de Engenharia Florestal (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil.
5
Mestre em Engenharia Florestal (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
6
Mestrado em Agrobiologia (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
7
Mestrado em Agronomia (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
8
Acadêmica de Agronomia (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil.
E-mail: giginoa@yahoo.com.br

RESUMO

O milho crioulo é cultivado por pequenos produtores, sendo que seu armazenamento
geralmente é feito em ambiente não controlado. Dessa forma, a qualidade sanitária das sementes
pode ser comprometida devido ao ataque de patógenos que interferem em sua viabilidade. O objetivo
deste trabalho foi avaliar a ocorrência de fungos associados as sementes de milho crioulo
armazenadas em ambiente não controlado. O experimento foi conduzido no Laboratório de
Fitopatologia da UFSM e foram utilizadas as sementes das cultivares Amarelão, Bico de Ouro, Cunha
e Sertanejo, provenientes da safra 2010-2011, produzidas no município de Ibarama – RS. Realizou-
se teste de sanidade a fim de quantificar a incidência de fungos entre as cultivares. Os resultados
mostraram que houve alta incidência dos fungos Fusarium spp. e Penicillium spp. em todas as
cultivares enquanto que Aspergillus spp. foi encontrado em menor proporção.

Palavras-chave: Sementes; Sanidade; Milho Crioulo.
1. INTRODUÇÃO

O milho crioulo é cultivado geralmente por pequenos produtores que o utilizam como
base alimentar e como alternativa de renda. Para Catão et al (2010) as sementes
provenientes de cultivares locais ou crioulas são consideradas como componentes da
agrobiodiversidade, por constituírem inestimável valor para as populações tradicionais.
Segundo Carpentieri-Pípolo et al (2010), o uso de cultivares locais ou crioulas possuem
vantagens ligadas a sustentabilidade da produção podendo citar a resistência a doenças,
pragas e desequilíbrios climáticos. Além disso, as sementes podem ser armazenadas e
usadas nas safras seguintes possibilitando menor custo de produção.
A velocidade de deterioração das sementes é influenciada não só por fatores
genéticos como também pelas formas de manipulação e condições de armazenamento


(DELOUCHE E BASKIN, 1973). O armazenamento das sementes geralmente é realizado na
propriedade em ambiente não controlado, com auxílio de materiais alternativos como
garrafas PET. Para a conservação das sementes, as garrafas passam pelo processo de
lavagem e após completamente secas recebem as sementes. As garrafas contendo as
sementes são vedadas e permanecem em ambiente escuro, com baixa umidade, até sua
utilização. Muitas vezes essas condições comprometem a qualidade sanitária das sementes
devido ao ataque de patógenos. Segundo Tanaka (2001), as sementes de milho podem ser
prejudicadas por fungos desde a sua formação, durante o seu desenvolvimento e também
após a colheita, durante o seu armazenamento. Segundo o autor as condições de
armazenamento que servem para manter a viabilidade das sementes podem também
favorecer a sobrevivência de muitos patógenos relevantes para cultura.
Dhingra (1985) ressalta que os fungos de armazenamento são os principais
responsáveis pela perda de viabilidade entre as sementes no período de armazenamento
que se encontram com umidade acima do valor crítico. Os principais gêneros fúngicos que
causam problemas quanto a conservação das sementes são Aspergillus spp., Fusarium spp.
e Penicillium spp.
Conforme o grau de qualidade das sementes na lavoura, podemos obter plantas
vigorosas, com estande desejado e boa produtividade, para isso deve-se ter um
conhecimento prévio de como as sementes se encontram antes do plantio que pode ser
feito através de testes de vigor e sanidade. A avaliação da condição sanitária de um lote de
sementes pode ser realizada através do teste de sanidade o qual fornece informações para
programas de certificação, serviços de vigilância vegetal, tratamento de sementes,
melhoramento de plantas e outros (HENNING, 1994; MACHADO, 2000).
Diante do exposto, o objetivo deste trabalho foi avaliar a ocorrência de fungos
associadas as sementes de milho crioulo armazenadas em ambiente não controlado.
2. METODOLOGIA

O experimento foi realizado no Laboratório de Fitopatologia Elocy Minussi no
Departamento de Defesa Fitossanitária (DFS) do Centro de Ciências Rurais (CCR) da
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – RS. Foram usadas as sementes das
cultivares de milho crioulo Amarelão, Bico de Ouro, Cunha e Sertanejo (Figura 1). As
sementes são provenientes de um experimento conduzido na safra 2010-2011, realizado em
Ibarama (29º25'10” S, 53º08'05" W e altitude de 317 m), localizada na microrregião Centro-
Serra do Rio Grande do Sul. As sementes foram armazenadas em materiais alternativos
(garrafas PET), em ambiente não controlado, desde sua colheita (março/2011) até o
momento da avaliação laboratorial (janeiro/2012), perfazendo um total de 10 meses de
armazenamento.



Figura 1: Sementes de diferentes cultivares de milho crioulo. Fonte: Noal, 2011.
A qualidade sanitária foi avaliada através do teste de sanidade por meio do método
do papel filtro ou “Blotter Test”. Foram utilizadas 4 repetições de 100 sementes de cada
cultivar as quais foram distribuídas em caixas plásticas do tipo "gerbox", previamente
desinfestadas com etanol a 70% e, após, com hipoclorito de sódio a 1% por 1 min. As
sementes foram acondicionadas sobre três folhas de papel filtro umedecidas com água
destilada e autoclavada. As sementes foram incubadas em câmara BOD a 25±3°C, com 12
horas em regime de luz, durante 24 horas. Em seguida, para a inibição da germinação,
foram submetidas ao método do congelamento por 24 horas. Após esse procedimento,
foram, então, incubadas a 25ºC por sete dias, em regime de 12 horas de luz conforme
metodologia proposta por Brasil (2009). Finalizado esse período, as sementes foram
examinadas individualmente com o auxílio de lupa e microscópio óptico para observação
das estruturas morfológicas dos fungos, os quais foram identificados ao nível de gênero,
com o auxílio da bibliografia especializada de Barnett; Hunter (1998) considerando-se a
porcentagem de contaminação nas sementes por fungos (Figura 2).



Figura 2: Sementes de milho crioulo contaminadas por fungos. Fonte: Noal, 2012.
O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado. A incidência
dos gêneros fúngicos foi expressa em porcentagem. Os dados foram submetidos à análise
de variância e, quando os valores de F foram significativos, as médias dos tratamentos
foram comparadas pelo teste de Tukey, ao nível de 5% de probabilidade de erro. Na
realização das análises estatísticas foi utilizado o programa estatístico SISVAR (FERREIRA,
2000).

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os resultados mostram alta incidência de Fusarium spp. e Penicillium spp.
apresentando diferença significativa entre as cultivares (Tabela 1). A porcentagem de
contaminação das sementes por Aspergillus spp. foi baixa entre as cultivares, sendo que a
maior porcentagem foi de 37,5% em Sertanejo. Em todas as cultivares a incidência de
Penicillium spp. foi superior a 90%. Maciel et al. (2005) em avaliação da qualidade de
sementes de soja da cultivar IAC-18, relatou que a partir do quarto mês de armazenamento
predominaram maiores índices de fungos dos gêneros Aspergillus spp e Penicillium spp.
Antonello et al (2009) observou baixa incidência inicial de Aspergillus spp. em sementes de
cultivares de milho crioulo quando armazenadas em embalagens plásticas seguidas de um
aumento no quarto mês.
Entre as cultivares avaliadas, Sertanejo apresentou o maior índice de contaminação
por patógenos, enquanto que Cunha apresentou os menores valores. Diniz (2002) salienta
que essas contaminações por fungos podem causar diversos problemas relacionados à
saúde e a ordem econômica compreendendo tanto a perda de produtos agrícolas como a
morte de animais dentre outras.

Tabela 1 – Incidência (%) de Aspergillus spp., Fusarium spp. e Penicillium spp. em sementes de
diferentes cultivares de milho crioulo. Santa Maria – RS, 2012.


Cultivar Aspergillus spp. Fusarium spp. Penicillium spp.
Amarelão 1,00 b * 87,00 b 94,50 ab
Bico de Ouro 0,00 b 88,25 b 92,25 ab
Cunha 0,25 b 86,75 b 90,25 b
Sertanejo 37,5 a 99,75 a 99,75 a
Média 9,69 90,44 94,19
CV (%) >30 8,81 10,28
* Médias seguidas pela mesma letra não diferem significativamente pelo teste de Tukey, ao nível de
5% de probabilidade de erro.
Antonello et al (2007) em trabalho com sementes de milho crioulo verificou alta
incidência de Penicillium spp. entre as cultivares avaliadas concluindo que as sementes de
milho crioulo apresentam baixa qualidade sanitária devido a condições inadequadas de
armazenamento, como por exemplo, elevada umidade.
Em estudo, Tanaka et al (2001) verificou aumento da incidência do fungo Penicillium
spp. nas sementes de milho em função do período de armazenamento dessas, sendo que
quando o armazenamento é realizado em câmara fria essa elevação é menos acentuada. Já
com Fusarium spp., o autor constatou que a sobrevivência do patógeno foi bastante
reduzida durante o armazenamento conduzido em ambiente não controlado.
Giehl et al (2011) observou que entre as cultivares de milho avaliadas, Cabo Roxo e
Oito Carreiras apresentaram incidência de Fusarium spp. contraposta a Penicillium spp.
sugerindo um possível antagonismo entre os dois gêneros. Em trabalho com sementes de
milho crioulo Noal et al (2011) constatou com relação ao Fusarium spp., as cultivares
Amarelão, Bico de Ouro, Cateto Amarelo, Colorido e Mato Grosso obtiveram as maiores
médias percentuais e não diferiram estatisticamente entre si, sendo que Cabo Roxo
apresentou a menor incidência do fungo. Tanaka e Maeda (1997) observaram a eliminação
de Fusarium spp. em sementes de milho, após doze meses de armazenamento em
ambiente não controlado, sendo que a incidência inicial era de 28% de contaminação pelo
fungo. Catão (2010) afirmou que o método de armazenagem em garrafas PET permitiu uma
melhor conservação das sementes no que diz respeito à qualidade fisiológica, umidade e
infestação das sementes por insetos-praga.

4. CONCLUSÃO

As cultivares de milho crioulo avaliadas apresentam incidência de espécies fúngicas,
sendo que as porcentagens de contaminação por Penicillium spp. e Fusarium spp. são altas
indicando possíveis condições inadequadas de armazenamento. A contaminação das


sementes por Aspergillus spp. foi superior na cultivar Sertanejo quando comparada as
demais cultivares.
REFERÊNCIAS

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Agroecologia, v.2, n.1, p.1212-1215, 2007.
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Ciência Rural, v.39, n.7, Santa Maria, Out. 2009
BARNETT, H. L.; HUNTER, B. B. Illustrated genera of imperfect fungi. St Paul, Minnesota: APS
Press, 1998. 218p.
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Mapa/ACS, 399p, 2009.
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tecnológico. Agronomy, v.32, n.2, p.229-233, 2010.

CATÃO, H. C. R. M. et al. Qualidade física, fisiológica e sanitária de sementes de milho crioulo
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DINIZ, S.P.S.S. Micotoxinas. 1ª ed, Livraria e Editora Rural, Campinas, 2002. 181 p.
FERREIRA, D.F. Sistema de análises de variância para dados balanceados. Lavras: UFLA, 2000.
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2000. 138p.



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NOAL, G. et al. Incidência de fungos em sementes de cultivares de milho crioulo armazenadas em
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(Resumos, 193).
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