Escher (1956

)
McLuhan também
previu como poderia
vir a ser a Educação
com o advento da In-
ternet, no mundo que
chamou de Aldeia
Global.
- Uma rede mun-
dial de ordenadores
tornará acessível, em
alguns minutos, todo
o tipo de informação
aos estudantes do
mundo inteiro.
As v i sões de
McLuhan sobre o
futuro da Educação
levaram à criação de
um novo campo de
estudos, chamado
Comunicação e Edu-
cação – mas os meios
de ensino conserva-
dores resistiram e
não responderam de
imediato a sua pro-
posta - e esse novo
campo só começou a
ser explorado na dé-
cada de 90.
McLuhan expôs
sua visão no livro Re-
volução na Comunica-
ção, onde constatou o
que já acontecia em
seu tempo:
- Em nossas cidades, a maior parte
da aprendizagem ocorre fora da sala
de aula. A quantidade de informações
transmitidas pela imprensa excede, de
longe, a quantidade de informações
transmitidas pela instrução e textos
escolares.
Segundo ele, esta era a situação, até
o surgimento da Televisão: vivíamos
na Galáxia Gutenberg – que surgiu
quando Gutenberg criou a Imprensa,
ainda na Idade Média – e na qual todo o
conhecimento era visto apenas em sua
dimensão visual. Para McLuhan, se por
um lado o invento de Gutenberg per-
mitiu que o conhecimento fosse mais
difundido, por outro lado reduziu a
comunicação – anteriormente feita,
sobretudo, oralmente - a um único re-
curso – a escrita.
- Antes da imprensa, o jovem apren-
dia ouvindo, observando, fazendo. A
aprendizagem tinha lugar fora da aula.
McLuhan denunciava agressiva-
mente o conservadorismo dos educa-
dores, em sua época, que se recusavam
a usar os novos meios de disseminação
do conhecimento. Dizia:
- Poucos estudantes conseguem ad-
quirir proficiência na análise de um jor-
nal. Ainda menos têm capacidade para
discutir com inteligência um filme.
Irreverente e mordaz em sua crítica,
acrescentava:
- A educação escolar tradicional
dispõe de um impressionante acervo
de meios próprios para suscitar em
nós o desgosto por qualquer atividade
humana, por mais atraente que seja na
largada.
Para McLuhan, não os educadores,
mas os estudantes e sua vontade de
aprender são o fundamental.
- Onde o interesse do estudante já
estiver focalizado, aí se encontra o pon-
to natural de elucidação de seus proble-
mas e interesses. A educação escolar
tradicional suscita em nós o desgosto
por qualquer atividade humana.
Atualmente, no auge – ao mesmo
tempo eufórico e crítico - da Aldeia
Global, quando podemos ler os antes
impressos livros do próprio McLuhan
em versões virtuais, lemos neles coisas
assim:
- A educação era, até agora, uma
tarefa relativamente simples: bastava
descobrir as necessidades da máqui-
na social e depois recrutar e formar o
pessoal que a elas correspondesse. (...)
A nova interdependência eletrônica
cria o mundo à imagem de uma aldeia
global. (...) A tarefa educativa não é for-
necer, unicamente, os instrumentos
básicos da percepção, mas também de-
senvolver a capacidade de julgamento
e discriminação através da experiência
social corrente.
McLuhan concordaria plenamente
com Roland Barthes, que concluiu sua
Aula Inaugural, no Colégio de França,
com a frase, que prometia como seriam
suas aulas: – O máximo de sabor e o
mínimo de saber.
McLuhan já havia dito o mesmo,
com estas palavras:
- É ilusório supor que existe qual-
quer diferença básica entre entreteni-
mento e educação. Sempre foi verdade
que tudo o que agrada ensina mais
eficazmente.
O LIBERAL BELÉM, DOMINGO, 10 DE AGOSTO DE 2014 MAGAZINE 11
sim
A
final, o Meio é a Mensagem
ou o Meio é a Massagem?
Sempre lúdico & livre,
McLuhan optou pelo segundo
título que, consta, emergiu de um erro
tipográfico na prova do seu livro original-
mente denominado O Meio é a Mensagem,
quando enviaram para ele revisar.
Não é difícil entender porque sua
adesão à mudança foi imediata: desde
que se entenda, antes de mais nada,
que, para ele, cada meio de comunicação
– além da mensagem que esteja transmi-
tindo, ou conduzindo em si - em si mes-
mo já é uma mensagem – isto é, causa
uma impressão ou produz um efeito
nos sentidos do seu receptor humano.
E assim a Televisão, por exemplo,
como um meio de comunicação, já
atua como uma mensagem sobre nós
por sua mera emissão de imagens &
sons, independente do programa que
esteja sendo exibido.
Não está claro? Mas vai ficar com es-
te, bem tosco, exemplo, tirado de antes
da invenção do e-mail: Ao receber uma
carta, a primeira mensagem recebida
pelo destinatário é - chegou uma carta,
pois a carta, em si, já significa notícias
boas ou ruins – e só depois de abrir o
envelope é ler o que vem escrito na carta
é que a segunda mensagem é recebida.
Essa simplificação da concepção de
McLuhan do meio como mensagem é
quase vergonhosa – mas não há nada de
vergonhoso em fazer tudo para ser bem
entendido pelo próximo, concorda?
Sigamos adiante.
O inesperado surgimento da pala-
vra Massagem/Massage no título ori-
ginal inglês do livro subtituiu mas não
apagou o subentendido título Mensa-
gem/Message. Mas a coisa não fica só
nisso, porque o título agora permite
quatro leituras: - Mensagem e Mess
Age – e Massagem e Mass Age.
Bem, por mim, não entendo a tro-
ca do título como um erro inocente do
sempre substimado Acaso, mas co-
mo algo mais: - como uma espécie de
anunciação que terá levado McLuhan
– entusiasmado com eles, nas suas pri-
meiras antevisões do futuro dos meios
de comunicação – a desvelar, no futuro
desses meios, também suas ameaças e
danos – quando usados para manipula-
ções em massa, projetando ideia, inocu-
lando ideologias, enfim – massageando
as pessoas para moldar seu público.
A minha compreensão se sente
justificada pelo, digamos, método de
trabalho usado por McLuhan. Desse
método, que se caracteriza pela máxi-
ma antecipação possível, ele próprio já
nos falou na página Sim do domingo
passado, também dedicada a ele. Mas
não custa usar um pouco do espaço
desta página para repetir para quem
não tenha lido a outra:
McLuhan: - O que me interessa são
as inovações como tais, e sobretudo o
efeito dessas inovações. Eu estudo o
que aconteceria se fizéssemos tal ou tal
coisa. (...) Analiso os fenômenos partin-
do dos efeitos em direção à causa, e não
começando da causa para chegar aos
efeitos, como é o hábito mais comum.
É como um playback. Analiso tudo em
playback. Porque quando invertemos a
ordem de um processo, é aí que desco-
brimos sua estrutura, seu esquema.
Livros & Vídeos
McLuhan escreveu vários livros ao
longo de sua vida, em cada um deles
avançando um passo mais ousado nas
suas Visões do nosso Agora – este ago-
ra em que podemos, também, voltar no
Tempo e vê-lo & ouvi-lo falando de su-
as ideias e descobertas em vídeos que
o mostram dando entrevistas, fazendo
palestras sobre o advento da Internet
- agora na própria Internet.
Mas nos livros que escreveu você te-
rá uma visão mais completa – se ainda
é um daqueles que não desaprendeu
de ler livros e prefere a comodidade
ociosa dos audiovisuais.
Vejamos quais foram os seus livros,
e do que tratam – dando seus títulos
em português se houver tradução:
The Mechanical Bride: Folklore of
Industrial Man - 1951
Primeiro livro de McLuhan, com
título inspirado em uma peça dadá de
Marcel Duchamp – é um estudo ino-
vador sobre a cultura popular na era
industrial, construído com vários tex-
tos pequenos para se ler em qualquer
ordem - como um mosaico, forma que
deu também ao seu segundo livro: A
Galáxia Gutenberg.
The Gutenberg Galaxy/A Galáxia
Gutenberg - 1962
Um estudo da cultura escrita, da
manscrita à impressa, e de como a
Galáxia Gutenberg se apresenta no
mundo globalizado e se relaciona com
a comunicação eletrônica.
Understanding Media: The Exten-
sion of Man/Os Meios de Comunicação
como Extensões do Homem - 1964
Na pri mei ra parte do livro,
McLuhan afirma: - Toda tecnologia
gradualmente cria um ambiente hu-
mano totalmente novo. Os ambientes
não são envolvidos passivos mas pro-
cessos ativos. E diz que um meio afeta
a sociedade em que tem um papel não
pelo conteúdo que transmite, mas pe-
las características do próprio meio. Na
segunda parte, seu assunto são as sin-
gularidades das culturas oral e escrita
The Medium is the Massage: An
Inventory of Effects/O Meio é a Massa-
gem: Um Inventário de Efeitos - 1967
O livro é um mix de textos e imagens
– foi feito em parceria com o designer
gráfico Quentin Fiore – com páginas
cheias de palavras e outras totalmente
vazias. Feito com a intenção de transpor
os efeitos dos meios sobre o homem
para uma composição visual, sua lei-
tura leva a uma experiência sensorial
para além do ato de apenas ler. Há uma
versão em áudio feita pela Columbia Re-
cords com a voz de McLuhan e outras
em tom de falsete, sons discordantes e
músicas incidentais dos anos 60.
Guerra e Paz na Aldeia Global -1968
O livro é um estudo de guerras ao
longo da história e de como a guerra
pode ser feita no futuro, no formato
de uma colagem de imagens e textos,
ilustrando como a tecnologia elétrica
estimula mais descontinuidade, di-
versidade e divisão do que a sociedade
mecânica antiga. O Finnegans Wake,
de James Joyce, foi usado por McLuhan
como uma inspiração.
From Cliché to Archetype/Do Cli-
chê ao Arquétipo - 1970
Foi seu último livro, com o poeta
canadense Wilfred Watson, onde dia-
loga com a psicanálise de Jung e cria o
conceito de Teatro Global.
vicentefranzcecim@gmail.com
VICENTE CECIM
Na Tv, agora, é preciso ser calmo.
Hitler aos berros seria visto uma vez
e depois estaria acabado.
MARSHALLMCLUHAN
McLuhan (II): O Meio é a Massagem
MCLuhan: sobre a Educação
Tudo o que agrada
ensina mais eficazmente.
McLuhan (1940)