2.

NOÇÕES GERAIS

A característica mais importante que se pode ressaltar em
relação ao concreto armado é que ele se constitui na combinação de
um material que resiste muito bem à compressão, o concreto, com
um material que resiste muito bem à tração, o aço. De maneira geral,
pode-se dizer que, nas peças de concreto armado, o concreto é o
responsável por resistir aos esforços de compressão e o aço aos de
tração. Nas peças essencialmente comprimidas, o aço aumenta a
capacidade resistente do elemento.
Separadamente, o aço resiste tanto à tração como à compressão,
porém o concreto possui uma baixa resistência à tração, da ordem de
10% da sua resistência à compressão, para os concretos de baixa
resistência. Para resistências à compressão mais altas, essa
porcentagem diminui.
A junção desses dois materiais – aço e concreto - forma um terceiro,
o concreto armado, que se apresenta como uma excelente opção
para quase todo tipo de estrutura.

2.1. Definição de concreto armado

Como já foi dito, o concreto armado é o material de construção
resultante da ação conjunta de dois outros materiais: o concreto e o
aço.
O concreto por sua vez é um material composto da mistura de
um aglomerante hidráulico (o cimento), da água, de agregados miúdo
(em geral a areia) e graúdo (em geral a brita), e ainda, quando for o
caso, de aditivos. Estes últimos servem para melhorar ou fornecer
alguma propriedade específica ao concreto, como por exemplo, os
incorporadores de ar, que servem para melhorar a trabalhabilidade
do mesmo.
Em função dos materiais utilizados na mistura, é importante
conhecer a seguinte terminologia:
• Pasta: mistura do cimento e da água;
• Argamassa: mistura da pasta com o agregado miúdo;
• Concreto: mistura da argamassa com o agregado graúdo;
• Concreto armado: junção do concreto com a armadura (aço).
Para a caracterização do concreto armado é importante a definição de
dois valores básicos: a
resistência do concreto à compressão e a resistência do aço à tração.
Para as peças comumente
em utilização no mercado, a resistência do concreto à compressão
(fc) varia de 20MPa a
50MPa. Já a resistência do aço à tração (fs) é de 500MPa e 600MPa.
Esse assunto será tratado
mais detalhadamente nos capítulos referentes às propriedades dos
materiais concreto e aço.
O grande problema que as peças de concreto armado apresentam é a
fissuração. Uma
fissuração elevada do concreto pode levar a uma série de problemas,
onde se destacam os
seguintes:
• Comprometimento da estética da estrutura;
• Sensação de desconforto e insegurança dos usuários;
• Redução da inércia da peça (Figura 1.4), podendo levá-la a grandes
deformações, ou
até mesmo à ruína;






Figura 1 – Redução de inércia devido à fissuração.


• Corrosão das armaduras (Figura 1.5), que num estágio avançado
também pode
comprometer a estabilidade e segurança da estrutura.


Figura 1.5 – Exemplos de corrosão de armadura.
Algumas providências podem ser tomadas para minimizar o problema
da fissuração, como o uso de fibras no concreto, ou ainda, a
utilização do concreto protendido.

2.2. Viabilidade do concreto armado

De acordo com SÜSSEKIND (1981), a existência do material concreto
armado só é possível
devido a três fatores básicos. São eles:

a) Aderência entre o concreto e o aço.
Para que o concreto armado trabalhe como um material único, é
fundamental garantir que haja
uma perfeita aderência entre o aço e o concreto, o que significa que
os dois materiais possuam a mesma deformação em todos os pontos
(εs=εc). Caso contrário, estaria havendo um escorregamento de um
material em relação ao outro (εs≠εc). A aderência entre os dois
materiais também garante que haja a transferência de esforços de
um para o outro, fazendo com que o aço ajude o concreto e vice-
versa.

b) Coeficientes de dilatação térmica (α) do concreto e do aço
praticamente iguais, à temperatura ambiente.

O coeficiente de dilatação térmica do aço é de α=1,2x10-5/oC, e o do
concreto varia de
α=0,9x10-5/oC à α=1,4x10-5/oC, com valor mais freqüente em torno
de α=10-5/oC.

Para as temperaturas usuais das estruturas de concreto armado, essa
diferença não é significativa.
Adota-se, portanto, para o concreto armado um coeficiente de
dilatação térmica de α=10-5/oC.
Essa diferença passa a ter importância quando as estruturas atingem
temperaturas elevadas, como no caso de incêndios, o que não é uma
situação corriqueira para a grande maioria das obras. Nas estruturas
onde o risco de incêndio é significativo, pode-se tomar algumas
providências para minimizar o problema, tais como: a utilização de
cimentos mais resistentes ao fogo e o aumento do cobrimento das
peças. As peças de concreto armado quando submetidas a grandes
diferenças de temperatura (ΔT) sofrem deformações (ε), que são
calculadas da seguinte maneira:

ε = α . ΔT ε = ΔL / L ΔL = α . ΔT . L

c) Proteção contra a corrosão, que o concreto fornece à
armadura.

O concreto fornece dois tipos de proteção contra a corrosão às
armaduras de concreto:

• Proteção física: devido ao cobrimento; as armaduras não ficam
expostas ao meio ambiente, o que as levaria à oxidação; por isso,
atenção especial deve ser dada ao cobrimento das peças, que deve
ser o mais uniforme e homogêneo possível.

• Proteção química: o concreto, por ser um meio alcalino, inibe a
oxidação das armaduras. A proteção das armaduras quanto à
corrosão é um fator determinante na durabilidade da peça, ou seja,
na garantia da sua vida útil. Para que seja garantida esta proteção
das armaduras, deve-se atentar a dois aspectos:

 Deve-se fixar um valor mínimo para o cobrimento da armadura,
e mante-lo o mais uniforme possível, a fim de não ocorrer
maior perigo de corrosão numa região.

 Os cimentos, agregados, água de amassamento e aditivos não
devem conter uma quantidade de materiais passíveis de
favorecer a corrosão, em percentuais superiores a limites
estabelecidos em norma.


2.3. Tipos de concreto

Atualmente, quando se fala em concreto, deve-se definir a qual
se refere, pois existe uma enorme variedade de tipos de concreto,
tais como: concreto armado, concreto protendido, concreto
compactado com rolo, concreto projetado, concreto massa, concreto
leve, concreto pesado, concreto com fibras, etc. Cada um deles tem
características e aplicações próprias.

• Concreto simples: concreto utilizado sem armadura, ou com
armadura menor que a mínima, que resiste basicamente às tensões
de compressão e possui um peso específico da ordem de 24 kN/m3;
utilizado principalmente nas fundações, como os blocos de concreto
ciclópico, os tubulões e as estacas de concreto;

• Concreto armado: é o material resultante da ação conjunta do
concreto e do aço (Figura 2), que trabalha como armadura passiva,
onde o primeiro resiste às tensões de compressão e o último às de
tração; possui um peso específico da ordem de 25kN/m3; a
existência do concreto armado se dá, principalmente, pela aderência
entre os dois materiais; é utilizado em praticamente todo tipo de
estrutura, até onde o binômio Eficiência x Economia é satisfeito;




Figura 2 – Concreto armado

• Concreto protendido: é a ação conjunta do concreto e do aço,
como armadura ativa (com a introdução de tensões prévias na
armadura, Figura 3); o concreto protendido é utilizado, entre outras
aplicações, nas estruturas com grandes vãos e cargas elevadas, onde
o concreto armado passa a não ser economicamente viável; o
concreto protendido, também, tem a vantagem de apresentar uma
durabilidade maior, já que sua fissuração é bem menor;


• Argamassa armada: possui basicamente a mesma composição do
concreto (Figura 4), porém sem a utilização do agregado graúdo
(pedra), e possui uma armadura difusa, de pequeno diâmetro,
normalmente em tela soldada; é muito utilizada em peças pré-
moldadas leves;





Figura 3 – Concreto protendido Figura 4 – Argamassa Armada


 Concreto leve: é um concreto mais leve que o convencional,
feito, na maioria dasvezes, com agregados leves celulares,
podendo seu peso específico seco ao ar ser daordem de dois
terços do peso do concreto convencional, e não ultrapassando o
valorde 18,50 kN/m3; é muito utilizado nas peças de pré-
moldados leves, e em estruturasonde se pretende reduzir o
peso próprio;

 Concreto moldado in loco: é o concreto que é confeccionado
no local aonde a peça vaipermanecer (Figura 5);




Figura 5 – Concreto moldado in loco.

 Concreto pré-moldado: é o concreto que é produzido fora do
local onde vai trabalhar (Figuras 6 e 7); pode ser no próprio
canteiro da obra ou em fábricas de prémoldagem;a grande
vantagem é a possibilidade de reutilização das fôrmas
quandohá grande repetição das peças e a rapidez na
montagem; porém, deve-se tomar cuidado especial com o seu
transporte e o seu içamento das peças;





 Concreto pesado: é um concreto feito com minerais de alta
massa específica, e é cerca de 50% mais pesado que o
concreto convencional; é usado para blindagem em usinas
nucleares, ou outros tipos de radiação;

 Concreto massa: é a denominação dada ao concreto utilizado
em estruturas que apresentam um grande volume de concreto,
como as barragens, onde atenção especial deve ser dada às
elevadas temperaturas que ocorrem no seu interior, durante a
concretagem;

 Concreto bombeado: é o concreto que é transportado por
pressão através de tubos rígidos ou mangueiras flexíveis e
descarregado diretamente nos pontos onde deve ser aplicado;
muito utilizado nas obras de grandes edificações, onde o
concreto, normalmente, chega em caminhões betoneiras, e é
então bombeado;




 Concreto projetado: é o concreto que é projetado em alta
velocidade, por uma bomba pneumática, sobre uma superfície;
é muito utilizado em obras de reparo, túneis,canais, paredes
finas, etc.;
 Concreto de alta resistência (CAR): segundo o CEB-FIP CM
90 (1993), é o concreto com resistência à compressão acima de
60 MPa; esse limite pode variar de país para país; uma
classificação que é utilizada no Brasil é a seguinte:

baixa resistência: até 25 MPa;
média resistência: de 25 à 50 MPa;
alta resistência: de 50 à 90 MPa;
ultra-alta resistência: acima de 90 MPa;

*Obs.: muito utilizado atualmente em praticamente todo tipo de
estruturas, especialmente em obras de vulto e em pilares dos
edifícios;

 Concreto de alto desempenho (CAD): segundo o CEB-FIP
CM 90 (1993), é o concreto com fator A/C inferior a 0,40, ou
seja com baixa permeabilidade; é um concreto que tem um
desempenho diferenciado, em relação ao convencional, para
determinadas propriedades, como a resistência e a
durabilidade; é um concreto que possui na sua composição,
além dos materiais usados no concreto comum, algum material
com propriedades pozolânicas, como por exemplo a sílica ativa
ou a cinza volante, e aditivos superplastificantes para melhorar
a sua trabalhabilidade, que fica prejudicada com a adição dos
finos; é utilizado em estruturas sujeitas à compressão elevada
(como os pilares), em peças protendidas, em estruturas
submetidas a desgastes mecânicos e erosão, como rodovias,
pisos industriais, pistas de aeroportos, obras marítimas, etc.;

 Concreto compactado com rolo: é um concreto seco, de
consistência dura e trabalhabilidade tal que lhe permite receber
compactação por rolo compressores, vibratórios ou não;
empregado como base e revestimento de pavimentos sujeitos a
tráfego pesado e em obras hidráulicas;

 Concreto com fibras: concreto contendo fibras de aço
(concreto 2%, argamassa 10%), vidro (5%), polipropileno,
cimento amianto (10%), vegetais, etc, que aumentam a
rigidez, ductilidade e durabilidade; diminuem a permeabilidade
e as tensões nos estribos; e controlam melhor a fissuração;
muito utilizado em estruturas pré-moldadas e em concreto
projetado, lajes e pisos, túneis, etc.;

 Concreto com polímeros: concreto contendo polímeros
resulta num material com permeabilidade muito baixa e
excelente resistência química; utilizado como revestimento de
proteção de armaduras, contra corrosão, em pisos industriais
etabuleiros de pontes.


Os tipos de concretos citados anteriormente podem ser
encontrados separadamente ou em conjunto, por exemplo, uma
estrutura em concreto armado pode ser com concreto de
altodesempenho, que normalmente é também um concreto de alta-
resistência. Ou ainda, uma estrutura em concreto protendido pode
utilizar concreto reforçado com fibras, e assim por diante.

Existem ainda outros tipos de concretos especiais, como por
exemplo: concreto de alta densidade, concreto com alta
trabalhabilidade, concreto auto-adensável, concreto com baixa
retração, etc. Cada um deles com uma característica própria, visando
atender melhor a umdeterminado tipo de estrutura.

2.4. Aplicações do concreto

O concreto pode ser utilizado praticamente em todo tipo de
construção, desde as obras de arte, como pontes (Figura 9 e 12) e
estruturas em concreto aparente (Figura 10), até as estruturas
de serviço, que ficam escondidas, como os reservatórios enterrados e
as estações de tratamento de água (Figura 11).

O concreto é, sem dúvida, o material mais usado nas obras de
pontes, cais, túneis, barragens, muros de arrimo, torres,
reservatórios, galerias, edifícios e outros.

Atualmente, o concreto vem sendo usado, também, nos
pavimentos, pisos industriais, dormentes e outras aplicações, onde há
a tendência do uso das fibras, para ajudar na resistência à fadiga.
As figuras a seguir apresentam alguns exemplos de estruturas de
concreto.



Figura 9 – Ponte Salginatobel na Suíça, com 13,94 m de vão em concreto armado,
projetada por Robert Maillart e construída entre 1929 e 1930. FONTE:
http://nisee.berkeley.edu/elibrary/


Figura 10 – Edifícios residenciais em Salvador.






Figura 11 – Teatro Castro Alves, Salvador.


Figura 12 – Hangar centro de convenções, Belém.











2.4. VANTAGENS E DESVANTAGENS

Assim como todo e qualquer outro material de construção, o
concreto armado apresenta vantagens e desvantagens. Algumas das
principais vantagens e desvantagens estão listadas a seguir. Para as
desvantagens são discutidas algumas das providências que podem
ser tomadas para minimizar, ou em alguns casos até mesmo
eliminar, essas deficiências.

2.4.1. Vantagens do concreto armado

As principais vantagens do concreto armado são as seguintes:

a) Economia, devido principalmente à facilidade e à disponibilidade
de se encontrar os materiais que o compõem (água, cimento e
agregados), e a um custo relativamente baixo;
b) Facilidade de execução. Não é preciso uma tecnologia avançada
nem para produzir o concreto, nem para construir utilizando-o;

c) Adaptação a praticamente todo tipo de forma e tamanho, e de
maneira relativamente fácil;

d) Excelente resistência à água e a diversas ações;

e) É um material “ecologicamente correto”, não só por requerer,
na sua produção, um consumo relativamente baixo de energia,
como também por ser um material que pode reciclar grande
quantidade de restos industriais;

f) Apresenta um baixo custo de manutenção para as estruturas,
desde que estas sejam bem construídas e utilizadas de maneira
apropriada;


g) Resistência a efeitos térmicos, atmosféricos e a desgastes
mecânicos;

h) Obtenção de uma estrutura monolítica e hiperestática; garante,
desta forma, diretamente e sem necessidade de ligações
posteriores, uma maior redistribuição de esforços, gerando uma
maior integridade estrutural.







2.4.2. Desvantagens do concreto armado

As principais desvantagens do concreto armado são as seguintes:

a) Peso próprio elevado, da ordem de 25 kN/m3. Nas estruturas
onde o peso próprio é a carga predominante, o custo pode ser
elevado. Esse fato ocorre, principalmente, em estruturas que
apresentam vãos grandes e carregamento elevado. Nestes
casos é preferível usar o concreto protendido, ou ainda as
estruturas metálicas. Outras opções para diminuir o peso
próprio das estruturas são: a utilização de concreto leve (uso
de agregados leves), argamassa armada, ou ainda, os
concretos de alta resistência que resultam em seções menores;

b) Dificuldade de reformas, demolições e desmontes. O uso de
concreto pré-moldado pode minimizar um pouco o problema,
mas se se pretende construir estruturas de caráter temporário
não se deve usar o concreto armado;

c) Não é completamente impermeável à água e outros líquidos.
Esse problema pode ser resolvido com a utilização de aditivos
impermeabilizantes, o uso de mantas impermeabilizantes, ou a
redução do fator A/C visando a diminuição da permeabilidade
do concreto e tornando-o mais compacto;

d) Não é um bom isolante térmico nem acústico, o que pode ser
corrigido com o uso de isolamentos térmicos e acústicos, tais
como o isopor e a cortiça.