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MÓDULO DE

:

INTERVENÇÕES PSICOLÓGICAS NA ÓTICA DA PSICANÁLISE






AUTORIA:

LUCIANE INFANTINI DA ROSA ALMEIDA





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Módulo: Intervenções Psicológicas na Ótica da Psicanálise
Autoria: Luciane Infantini da Rosa Almeida

Primeira edição: 2011


CITAÇÃO DE MARCAS NOTÓRIAS

Várias marcas registradas são citadas no conteúdo deste módulo. Mais do que simplesmente
listar esses nomes e informar quem possui seus direitos de exploração ou ainda imprimir
logotipos, o autor declara estar utilizando tais nomes apenas para fins editoriais acadêmicos.
Declara ainda, que sua utilização tem como objetivo, exclusivamente na aplicação didática,
beneficiando e divulgando a marca do detentor, sem a intenção de infringir as regras básicas
de autenticidade de sua utilização e direitos autorais.
E por fim, declara estar utilizando parte de alguns circuitos eletrônicos, os quais foram
analisados em pesquisas de laboratório e de literaturas já editadas, que se encontram
expostas ao comércio livre editorial.











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Apresentação
Este material pedagógico aborda a história e os principais conceitos da Psicanálise que
podem contribuir para a prática de intervenção psicológica. Traça um panorama sobre
algumas abordagens em psicoterapia como a abordagem centrada na pessoa, abordagem
existencialista e psicoterapia de abordagem analítica. Além disso, traz importantes reflexões
sobre o processo terapêutico, propriamente dito. Esse módulo, portanto, desempenha um
papel fundamental na formação clínica do profissional e objetiva ser um guia para estimular o
estudante a aprofundar-se na temática.


Objetivo
Oferecer embasamento para uma prática profissional ética e coerente, no campo das
psicoterapias, pautado em teorias psicológicas sobre o processo de intervenção clínica.


Ementa
História e relação das principais psicoterapias: psicanálise, abordagem centrada na pessoa e
psicoterapia analítica. Psicoterapia de abordagem psicanalítica: autoerotismo, narcisismo e
primitiva relação com objetos; mundo interior e mundo exterior; a origem do complexo de


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Édipo. Abordagem centrada na pessoa: o processo terapêutico; técnicas e procedimentos
terapêuticos; terapia individual e terapia em grupo; proposições referentes ao self. A teoria
analítica de J ung: principais conceitos; processo de individuação; a teoria dos tipos
psicológicos. O processo terapêutico: objetivos terapêuticos; função e papel do terapeuta; a
experiência do cliente na terapia; a relação terapeuta-cliente; técnicas e procedimentos
terapêuticos.


Sobre o Autor
Bacharel em Psicologia pela UFES
Mestra em Educação pela UFES
Doutora em Serviço Social pela UERJ
Atuação Profissional:
Atualmente é professora titular da Faculdade Estácio de Sá de Vitória e de Vila Velha e
professora da pós-graduação do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) em disciplinas
vinculadas ao campo da Psicologia e em sua interface com a Educação. Ministra aulas em
vários cursos de pós-graduação em Educação e em Gestão de Pessoas em disciplinas como
Desenvolvimento de Pessoas, Criatividade e Processo Decisório, Desenvolvimento Humano
e Aprendizagem, entre outras. Tem experiência clínica de oito anos na área de
Psicopedagogia e de orientação profissional.




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SUMÁRIO
UNIDADE 1 .............................................................................................................................. 8
NOTAS INTRODUTÓRIAS .................................................................................................. 8
UNIDADE 2 ............................................................................................................................ 11
TEORIA PSICANALÍTICA .................................................................................................. 11
UNIDADE 3 ............................................................................................................................ 14
TEORIA PSICANALÍTICA: PRIMEIRAS RELAÇÕES COM O OBJETO .......................... 14
UNIDADE 4 ............................................................................................................................ 18
TEORIA PSICANALÍTICA: AUTOEROTISMO E NARCISISMO........................................ 18
UNIDADE 5 ............................................................................................................................ 22
TEORIA PSICANALÍTICA: AUTOEROTISMO E NARCISISMO........................................ 22
UNIDADE 6 ............................................................................................................................ 26
TEORIA PSICANALÍTICA: MUNDO INTERIOR E MUNDO EXTERIOR ........................... 26
UNIDADE 7 ............................................................................................................................ 29
TEORIA PSICANALÍTICA: COMPLEXO DE ÉDIPO ......................................................... 29
UNIDADE 8 ............................................................................................................................ 32
TEORIA PSICANALÍTICA: COMPLEXO DE ÉDIPO ......................................................... 32
UNIDADE 9 ............................................................................................................................ 36
A TEORIA PSICANALÍTICA HOJE .................................................................................... 36
UNIDADE 10 .......................................................................................................................... 39
ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA ......................................................................... 39
UNIDADE 11 .......................................................................................................................... 41
ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: PROPOSIÇÕES SOBRE O ORGANISMO .... 41
UNIDADE 12 .......................................................................................................................... 46
ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: PROPOSIÇÕES SOBRE O SELF ................. 46
UNIDADE 13 .......................................................................................................................... 51
ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: PROPOSIÇÕES ............................................. 51
UNIDADE 14 .......................................................................................................................... 56


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ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: TRABALHO COM GRUPOS ......................... 56
UNIDADE 15 .......................................................................................................................... 59
TEORIA ANALÍTICA DE JUNG.......................................................................................... 59
UNIDADE 16 .......................................................................................................................... 63
TEORIA ANALÍTICA: PRINCIPAIS CONCEITOS.............................................................. 63
UNIDADE 17 .......................................................................................................................... 66
TEORIA ANALÍTICA: ESTRUTURA PSÍQUICA ................................................................ 66
UNIDADE 18 .......................................................................................................................... 70
TEORIA ANALÍTICA: O INCONSCIENTE PESSOAL E INCONSCIENTE COLETIVO ..... 70
UNIDADE 19 .......................................................................................................................... 75
TEORIA ANALÍTICA: RELAÇÃO CONSCIENTE E INCONSCIENTE ............................... 75
UNIDADE 20 .......................................................................................................................... 79
TEORIA ANALÍTICA: PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO ................................................... 79
UNIDADE 21 .......................................................................................................................... 84
O PROCESSO PSICOTERAPÊUTICO NAS ABORDAGENS ANALÍTICAS .................... 84
UNIDADE 22 .......................................................................................................................... 87
A RELAÇÃO TERAPÊUTICA NAS CONCEPÇÕES ANALÍTICAS ................................... 87
UNIDADE 23 .......................................................................................................................... 90
TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS TERAPÊUTICOS NAS ABORDAGENS ANALÍTICAS
............................................................................................................................................ 90
UNIDADE 24 .......................................................................................................................... 94
O PROCESSO TERAPÊUTICO NA ABORDAGEM CENTRADA NO CLIENTE ............... 94
UNIDADE 25 .......................................................................................................................... 97
O PAPEL DO TERAPEUTA NA ABORDAGEM CENTRADA NO CLIENTE ..................... 97
UNIDADE 26 ........................................................................................................................ 100
A RELAÇÃO TERAPÊUTICA NA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA ................ 100
UNIDADE 27 ........................................................................................................................ 105
TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS NA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA .......... 105
UNIDADE 28 ........................................................................................................................ 108
TERAPIA INDIVIDUAL E TERAPIA DE GRUPOS: SEMELHANÇAS ............................. 108
UNIDADE 29 ........................................................................................................................ 112


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TERAPIA INDIVIDUAL E TERAPIA DE GRUPOS: DIFERENÇAS ................................. 112
UNIDADE 30 ........................................................................................................................ 116
UM EXEMPLO DO TRABALHO COM GRUPOS ............................................................. 116
GLOSSÁRIO ........................................................................................................................ 125
BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................... 128





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UNIDADE 1
Objetivo: Possibilitar a compreensão da história do surgimento da Psicanálise freudiana.
NOTAS INTRODUTÓRIAS

Schlomo Sigismundo Freud, conhecido como Sigmund Freud (1856-1939) foi um médico
vienense que fundou a Psicanálise. Nasceu em Freiberg, na Moravia (ou Pribor, na
República Tcheca). Em sua prática profissional como clínico, tratava mulheres burguesas da
época que sofriam de distúrbios histéricos. Buscou diversos métodos terapêuticos que
aliviassem o sofrimento dos pacientes, mas percebia a ineficácia dos mesmos. Começou,
então, a usar a hipnose, inspirado nos métodos de sugestão de Hippolyte Bernheim. Ao
trabalhar com Breuer (médico austríaco), num hospital psiquiátrico, Freud abandona
progressivamente a hipnose e passa a fazer uso da catarse. Mais tarde, ele inventa o
método da associação livre e, enfim, cria a Psicanálise, em 1896.
Freud começou a elaborar sua doutrina da fantasia, como afirma Roudinesco e Plon (1998),
concebendo em seguida uma nova teoria do sonho e do inconsciente, centrada no
recalcamento e no Complexo de Édipo. O interesse pela tragédia de Sófocles foi
contemporânea de sua paixão por Hamlet. Freud foi um grande leitor de literatura inglesa,
alimentando-se da obra de Shakespeare, escreveu que o conflito edipiano encenado em
“Édipo, Rei de Sófocles” poderia estar também no cerne de Hamlet. Acreditava que não era
uma intenção consciente de Shakespeare, mas, foi movido por seu próprio inconsciente lhe
permitindo compreender o inconsciente do seu herói.
Nasce, então, um segundo grande livro, publicado em novembro de 1899, "A Interpretação
dos Sonhos". Entre 1901 e 1905, Freud publicou seu primeiro caso clínico (Dora) e três
outras obras: "A psicopatologia da vida cotidiana" (1901), "Os chistes e sua relação com o
inconsciente" (1905), "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" (1905). Em 1902, com


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Alfred Adler, Wilhelm Stekel, Max Kahane (1866-1923) e Rudolf Reitler (1865-1917), fundou
a Sociedade Psicológica das Quartas-feiras.
Conforme Roudinesco e Plon (1998), no início do século XX, a doutrina de Freud se
implantou em vários países: Grã-Bretanha, Hungria, Alemanha, costa leste dos Estados
Unidos. Na Suíça, produziu-se um acontecimento maior na história do movimento
psicanalítico: Eugen Bleuler, cochefe médico da clínica do hospital Burghölzli de Zurique,
começou a aplicar o método psicanalítico ao tratamento das psicoses.
Em 3 de março de 1907, Carl Gustav J ung, aluno e assistente de Bleuler, foi a Viena para
conhecer Freud. J ung ficou encantado e teve Freud como um mestre, era o primeiro
discípulo não judeu de Freud. J ung esteve à frente, inclusive do movimento de
“desjudeização” da Psicanálise, já que Freud temia que sua doutrina fosse associada a uma
"ciência judaica”.
Como indica Roudinesco e Plon (1998), dois anos depois, J ung e Freud romperam suas
relações. Freud, não suportando desvios em relação à sua doutrina, publica às vésperas da
Primeira Guerra Mundial, um panfleto, "A história do movimento psicanalítico", em que
denuncia as traições de J ung e Adler. Depois, cria um Comitê Secreto, composto de seus
melhores paladinos, aos quais distribuiu um anel de fidelidade.
Nos anos 1920, Freud publicou três obras fundamentais, através das quais definiu sua
segunda tópica e remanejou inteiramente sua teoria do inconsciente e do dualismo pulsional:
"Mais-além do princípio de prazer" (1920), "Psicologia das massas e análise do eu" (1921),
"O eu e o isso" (1923). Esse movimento de reformulação conceitual já começara em 1914,
quando da publicação de um artigo dedicado à questão do narcisismo. Confirmou-se, em
1915, com a elaboração de uma metapsicologia e a publicação de um ensaio sobre a guerra
e a morte, no qual Freud sublinhava a necessidade para o sujeito de "organizar-se em vista
da morte, a fim de melhor suportar a vida" (ROUDINESCO; PLON, 1998).


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Em 1923, Freud descobre um pequeno tumor em seu palato, que devia ser logo extirpado.
Freud passou por trinta e duas operações e foi obrigado a usar uma prótese. Mesmo com
seu palato artificial e da visível dificuldade para falar, não abandonou seus interlocutores.
Em 1926, defendeu os psicanalistas não médicos, publicando "A questão da análise leiga" e,
no ano seguinte, publicou "O futuro de uma ilusão" e, em 1930, "O mal-estar na cultura".
Nesta obra, questionava a capacidade das sociedades democráticas modernas de dominar
as pulsões destrutivas. Freud era conhecido por seu pessimismo em relação ao futuro da
humanidade e era bem realista sobre a maneira como o Nazismo tratava os judeus e a
Psicanálise.
Em março de 1938, no momento da invasão da Áustria pelas tropas alemãs, graças à
intervenção do diplomata americano William Bullitt (1891-1967) e a um resgate pago por
Marie Bonaparte, como afirma Roudinesco e Plon (1998), Freud pôde deixar Viena com sua
família. No momento de partir, foi obrigado a assinar uma declaração na qual afirmava que
nem ele, nem seus próximos, haviam sido importunados pelos funcionários do Partido
Nacional-Socialista. Em Londres, instalou-se em uma boa casa em Maresfield Gardes e ali
redigiu sua última obra, "Moisés e o monoteísmo". Nunca soube do destino dado às suas
quatro irmãs, exterminadas em campos de concentração nazistas.
Pode-se considerar que os estudos de Freud foram cruciais para o desenvolvimento não
apenas da Psicanálise, mas da Psicologia como ciência. Isso porque, ele muda o sentido das
pesquisas científicas da época que, marcadas pelo positivismo, se limitavam ao estudo do
observável. Freud insistiu na investigação processos subjetivos - em seu caso o inconsciente
- e com isso, abriu portas para o desenvolvimento de teorias futuras que embasariam outras
práticas psicoterapêuticas, além da Psicanálise. Mas, a Psicanálise freudiana foi sem dúvida
um marco para as psicoterapias, ou seja, para as práticas de intervenção psicológica que
buscam melhorar o funcionamento mental do indivíduo.



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UNIDADE 2
Objetivo: Descrever o conceito e as características gerais da teoria psicanalítica criada por
Sigmund Freud.
TEORIA PSICANALÍTICA

Sigmund Freud propõs a comprensão do ser humano a partir da análise do inconsciente.
Para ele, na base do comportamento humano, encontram-se conteúdos inconscientes como:
desejos, sentimentos, pensamentos, memórias, pulsões, motivos, entre outros. Contéudos
esses que podem ser desvelados pela Psicanálise, como propunha Freud. A Psicanálise se
refere, portanto, à:
1. um método de investigação do funcionamento dos processos mentais humanos;
2. uma teoria sobre a vivência e o comportamento humano;
3. um método de tratamento psicoterapêutico.

Dessa forma, pode-se dizer que trata-se de uma teoria da personalidade de um
procedimento de psicoterapia, muito embora, a Psicanálise tenha influenciado muitas outras
correntes de pensamento e disciplinas das ciências humanas. O método psicanalítico
(baseado na investigação do inconsciente) é comumente usado para o tratamento de
distúrbios neuróticos e, em certos casos, de psicoses e perversões.
O objetivo inicial da Psicanálise era compreender a natureza do que era conhecido como
doenças nervosas ‘funcionais’, já que o conhecimento médico da época era insuficiente. Os
neurologistas estavam apegados a uma visão que se pautava em fatos químico-físicos e
patológico-anatômicos, mas desconheciam o fator psíquico.


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Freud, então, em 1885, médico formado a três anos, trabalhou com o médico francês
Charcot, no Hospital Salpêtrière, em Paris, na busca de um tratamento efetivo para pacientes
com sintomas de origem psíquica. Ao escutar seus pacientes, Freud acreditava que seus
problemas se originaram de desejos que foram reprimidos e ficaram no inconsciente. Seu
método, inicialmente, consistia em hipnotizar os pacientes para que, diminuissem as
resistências (mecanismo de defesa do ego) e pudessem alcalçar os conteúdos
inconscientes. Posteriomente, começou a fazer uso da “associação livre”. O método consiste
em deixar o analisado numa postura relaxada e solicitar que diga tudo o que vier à mente:
aspirações, angústias, sonhos, lembranças, experiências ou fantasias. O analista, então,
põe-se a escutar e fazer intervenções que permitam a reconstrução do que é significativo
para o analisado. O analista se mantem numa atitude empática de neutralidade, de não
julgamento, com o objetivo de criar um ambiente seguro.
Cabe destacar que a análise do inconsciente não é tão simples. Freud propõe a
interpretação do inconsciente a partir de suas formações, já que não é possível abordar
diretamente o inconsciente. Essas formações são os atos falhos, os sonhos, os chistes e
sintomas diversos expressos pelo corpo.
O modelo psicanalítico da mente considera, portanto, que a atividade mental está
subordinada ao funcionamento do inconsciente. Em certo sentido, pode-se pensar que a
mente inconsciente é um outro "eu", uma instância inconsciente que atua em conjunto com a
nossa consciência, mas com liberdade de associação e ação.
Como afirma Bock, Furtado e Gonçalves (2002), Freud faz postulações sobre o
funcionamento do aparelho psíquico, considerando seus achados de pesquisa. É possível
destacar a formulação de duas importantes teorizações sobre a estrutura do aparelho
psíquico.
Na primeira teoria (ou primeira tópica) do aparelho psíquico há três sistemas ou instâncias
psíquicas: inconsciente, pré-consciente e consciente. O inconsciente representa o conjunto
de conteúdos não presentes no campo atual da consciência. Conteúdos reprimidos que não
tem acesso ao pré-consciente/consciente, pela ação de censuras internas, ou seja, o


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inconsciente funciona conforme suas próprias leis. No pré-consciente estão os conteúdos
que a consciência pode acessar, é aquilo que pode estar presente em um dado momento na
consciência e em outro pode não estar. O consciente é o sistema do aparelho psíquico que
recebe as informações do mundo exterior e do mundo interior ao mesmo tempo. Diz respeito
ao momento em que as percepções e sensações internas e externas são decodificadas e,
por isso, também envolve o raciocínio.
Na segunda teoria do aparelho psíquico, Freud introduz os conceitos de: Id, Ego e Superego,
como instâncias da personalidade. O Id guarda relação com o inconsciente e é regido pelo
princípio do prazer. Isso significa que não há limites para a satisfação dos desejos, há uma
busca constante pela satisfação. No Id se localizam os impulsos e as pulsões: de vida e a de
morte. O Superego é formado a partir da internalização das normas e regras sociais. Nele se
encontram as proibições e está, portanto, relacionado com questões morais, ideais, crenças
e valores. O Ego é a parte da personalidade que se forma para mediar às exigências do Id e
as proibições do Superego. É ponto de equilíbrio entre o id e o superego. É a parte "realista"
e também sede das percepções, sensações, pensamentos e lembranças.
Após essa apresentação geral da Psicanálise, passe, então, ao detalhamento dessa
importante teoria, criada por Freud, que ainda, na atualidade, serve de subsídios para a
prática psicoterapêutica. Cabe ressaltar também que apesar de existir diferentes correntes
da Psicanálise - que sucederam à teoria de Freud e encontraram pontos de divergência com
a proposta inicial do autor – de modo geral, elas continuam a localizar os importantes
processos de formação da personalidade humana na vida infantil. Por isso, as psicoterapias
baseadas nesse enfoque trabalham, sobretudo, com aspectos da vida pregressa do
analisando.



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UNIDADE 3
Objetivo: Compreender as postulações freudianas acerca das primeiras relações infantis com
os objetos do mundo real.
TEORIA PSICANALÍTICA: PRIMEIRAS RELAÇÕES COM O OBJETO
As relações entre a criança e mundo, ou dito de outra forma entre o Ser e o Objeto, foi
tratada por Freud como “relações objetais”. O autor mostra o papel da introjeção e da
projeção nas relações infantis.
Nos primeiros trabalhos, Freud estava quase exclusivamente interessado no aspecto libidinal
das experiências infantis. Descreveu suas observações em termos de movimentos da libido
(energia dos impulsos sexuais) e deixou de lado os sentimentos e as fantasias da criança.
Sublinhou o significado supremo das experiências libidinais infantis, no contato da criança
com o seio materno, seu primeiro objeto, mas não aprofundou a análise de seu conteúdo, as
emoções e fantasias envolvidas nessas primeiras experiências. Com efeito, a maior parte
dos escritos de Freud, embora rica de sugestões, em contrário, dá a entender que Freud não
pensava que a criança formasse relações objetais em seus primeiros tempos de vida.
Descreveu a identificação com um objeto como a forma de uma vinculação das mais antigas,
mas diferenciou-a da relação objetal. Por outro lado, associou frequentemente a identificação
com o estabelecimento de um objeto dentro do ego (introjeção).
Freud (1975, 1973) deu mais relevo ao aspecto autoerótico da vida primitiva infantil. De
acordo com a teoria freudiana da libido, a vida sexual infantil começa com o autoerotismo e o
narcisismo (por esta ordem); nessas fases, a libido infantil é dirigida para o corpo da própria
criança. A implicação desse ponto de vista parece ser que a criança não conhece nem
deseja outro objeto libidinal que não seja ela própria. Na época em que a teoria da libido foi
elaborada, os impulsos destrutivos foram considerados instintos componentes da libido e não


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representantes de um instinto primário. Assim, a dedicação libidinal a um objeto e a relação
objetal eram, na época, sinônimos.
A capacidade de relação objetal também está sujeita ao processo de desenvolvimento e,
nessa conformidade, a relação da criança com outra pessoa varia consideravelmente em
diferentes estágios. Para começar, a sua atitude em relação aos seus objetos é inteiramente
determinada por suas necessidades físicas, seus impulsos e fantasias. É,
predominantemente, por intermédio de suas sensações que a criança tem experiência de
seus objetos; e a experiência sensorial constitui a matriz tanto da fantasia inconsciente como
da percepção. Como as categorias elementares da experiência sensorial são agradáveis ou
dolorosas, essas são também as características primárias da relação objetal infantil.
Envolve todo o longo percurso da progressão emocional e mental para que uma pessoa
chegue às relações objetais maduras, em que o objeto é reconhecido como um indivíduo,
propriamente dito, uma entidade cujo caráter é independente dos desejos e necessidades do
sujeito. Muitas pessoas nunca chegam a realizar essa avaliação “objetiva” de outra pessoa,
ou não a realizam em relações de elevada significação emocional; outras, ainda, perdem-na
em estados de tensão emocional. O desenvolvimento de um sentido de realidade, nas
relações pessoais, é interdependente e concorrente com o crescimento do ego, o qual, por
seu turno, depende da maturação dos impulsos instintivos.
Não se pode esperar entender as primitivas relações objetais sem a mais completa
apreciação do papel que a fantasia desempenha na vida mental. Além disso, a diferença
essencial entre as relações objetais infantis e adultas é que, enquanto o adulto concebe o
objeto como algo que existe independentemente dele próprio, para a criança isso se refere
sempre, de algum modo, a ela própria. Somente existe em virtude da sua função para a
criança e apenas no mundo limitado por suas próprias experiências.
Como, no início da vida, os instintos orais dominam sobre todos os outros impulsos
instintivos (prioridade oral), o bebê aborda seus objetos, antes de mais nada, como algo para
a sua boca. Quer dizer, um objeto para o bebê é o que tem bom sabor e dá prazer à boca e
quando engole, sendo, pois uma coisa boa, ou é o que tem um gosto horrível, magoa a boca


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e a garganta, não pode ser engolido ou não pode entrar na boca (isto é, que o frustra, sendo,
portanto, um objeto mau). Se é bom, é engolido; se é mau, é cuspido. A fantasia inconsciente
é um processo dinâmico. O objeto oral não só é mantido na boca, mas também engolido e
incorporado, ou cuspido e expelido, e os mecanismos de introjeção e projeção encontram-se
ligados às sensações e fantasias experimentadas no contato com o objeto. Devido a esses
mecanismos, o objeto do bebê poderá também ser definido com o que está dentro ou fora do
seu próprio corpo, mas ainda quando está fora, é mesmo assim uma parte dele e refere-se a
ele próprio, uma vez que “de fora” resulta de ter sido ejetado, “cuspido”; assim, as fronteiras
do corpo tornam-se indistintas. Isso poderá também ser descrito do modo inverso: visto que
o objeto fora do corpo da criança, para ela não existe uma distinção nítida entre o seu corpo
e o que está fora.
Dois padrões principais resultam da operação da introjeção e projeção nas relações objetais
primitivas:
1) Os sentimentos da criança sobre os seus objetos gravitam, essencialmente, em
torno de eles serem “bons” ou “maus”, estarem “dentro” ou “fora” (estão estreitamente
entrelaçados com as suas sensações).
2) Dentro da fusão entre o eu e o objeto, a criança tende a usurpar o “bom” do
objeto, isto é, as qualidades agradáveis, e trata-as como se pertencessem ao eu, e para
repudiar as qualidades dolorosas e “más” do objeto, tratando-as como pertencentes a estes.
Por outras palavras, há uma tendência para introjetar o que é agradável e separar, projetar, o
que é doloroso. A conexão entre a projeção e o “mau” é de particular significado para a
compreensão da ansiedade infantil.
As relações objetais infantis são fluidas e oscilam entre extremos. Há uma tendência para
reações maciças. Os sentimentos são todos bons ou todos maus, e o mesmo ocorre com o
objeto para a criança. O objeto é tratado como interior, “meu”, e exterior, “não meu”. Mas, do
mesmo modo como a fantasia inconsciente é, em geral, a precursora do pensamento lógico,
também essa relação arbitrária e fantástica com os objetos é a base para as relações
objetais realistas e maduras; constitui um tipo de relação objetal.


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A capacidade de diferenciar é um importante passo para um pensamento mais claro,
desenvolve-se a partir desses alicerces primitivos, que durante muito tempo se mantêm
dominantes.
Quando analisa-se estados de grave depressão (que, como se sabe, envolvem a regressão
à fase oral do desenvolvimento), pode-se ver como as fantasias sobre o objeto introjetado
compreendem, ainda, um elemento do “meu” e como são fluidos os sentimentos sobre o que
é “eu” e o que é o objeto. A análise de tais estados fornece, com efeito, um quadro muito
impressionante das oscilações entre o eu e os objetos, internos e externos. Temos de
reconhecer a natureza dualista, dessas primitivas relações objetais: o objeto é,
simultaneamente, percebido e ignorado, aceito e negado. Esse processo dualista ocorre
simultaneamente ou numa sequência tão rápida que é, praticamente, simultâneo. Esse
dualismo também pode ser descrito nos termos das limitações estabelecidas pelos fatores
fisiológicos e psicológicos; em parte, a criança não reconhece ainda os objetos porque a sua
capacidade de percepção evolui apenas gradualmente e, em parte, por motivos psicológicos,
ela nega, por meios onipotentes e mágicos, aquilo que percebe.




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UNIDADE 4
Objetivo: Compreender as postulações freudianas acerca do autoerotismo e do narcisismo.
TEORIA PSICANALÍTICA: AUTOEROTISMO E NARCISISMO
O fato de a criança obter prazer quando chupa o polegar ou alguma outra parte do seu corpo
tem sido notada, desde tempos imemoriais; contudo, coube a Freud reconhecer as suas
implicações e associá-lo, sistematicamente, ao processo complexo de desenvolvimento
sexual. A sua teoria da libido foi elaborada a partir da sua análise do comportamento infantil
e, por algum tempo, os fenômenos do autoerotismo estiveram no primeiro plano da teoria
psicanalítica.
As observações com adultos que tinham perdido o interesse sexual por outras pessoas, quer
completamente, em certas formas de esquizofrenia, quer temporariamente, na hipocondria
neurótica e na doença orgânica, levaram Freud a concluir que o narcisismo é um
componente regular do desenvolvimento sexual. O narcisismo é o estado em que o ego
dirige sua libido para si próprio. A diferença entre autoerotismo e narcisismo, segundo Freud,
é que, na primeira situação, ainda não existe um ego (que tem de ser ainda formado); os
impulsos autoeróticos são primordiais e antecedem a formação do ego. É evidente, porém,
que, sendo a formação do ego um processo gradual, as duas fases acabarão por fundir-se
uma na outra.
Quando analisava a sucção autoerótica na criança, Freud observou que ela assenta numa
experiência com um objeto, o seio materno, que deu a conhecer ao bebê um prazer que ele
mais tarde reproduz autoeroticamente. No começo, segundo Freud, a libido infantil está
ligada a um objeto e amalgamada com a amamentação; mais tarde, destaca-se dessa
função autopreservativa e do objeto.


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Freud (1974a) não aplicou as suas descobertas sobre as vicissitudes do objeto perdido ao
primeiro exemplo de tal experiência, isto é, o desenvolvimento da gratificação autoerótica na
criança. Nesse ponto, destacou o papel que a memória desempenha nela e afirmou que, na
sua sucção autoerótica, a criança recorda o seio materno.
Quando um adulto recorre às recordações para consolar-se de uma realidade desagradável,
está cônscio de possuir essas experiências passadas dentro dele próprio. Quando o bebê,
chupando o polegar, “recorda” os seus prazeres passados de mamar no seio materno, não
tem consciência de recordar o passado, de reavivar uma recordação dentro de si próprio,
mas sente-se em contato real com o seio desejado, embora, na realidade, chupe meramente
o seu próprio dedo. As suas fantasias de incorporação do seio materno, que fazem parte de
suas experiências e impulsos orais, levam-no a identificar o polegar com o seio incorporado.
Pode gerar, independentemente, a sua própria gratificação, visto que, em sua fantasia, uma
parcela de seu corpo representa o objeto que, na realidade, lhe falta. Em sua atividade
autoerótica, recorre ao seu bom seio internalizado, e o prazer orgânico está associado ao
prazer proveniente de um objeto imaginado. Nas atividades autoeróticas, embora a fonte
externa de gratificação inexista, há na fantasia um objeto interno gratificador, que possibilita
dispensar ou abandonar o objeto externo.
Ao descrever os modos infantis de funcionamento mental, Freud sugeriu que, sob o domínio
do princípio de prazer, “tudo o que for pensado (desejado), terá sido, simplesmente,
imaginado numa forma alucinatória”. Recordar e alucinar estão relacionados, na medida em
que ambas as condições utilizam uma situação anteriormente experimentada. De acordo
com Freud, a alucinação é o resultado de uma transferência do sistema de memória para o
sistema de percepção. Na gratificação alucinatória, o bebê utiliza as suas fantasias de
incorporação. Como ele possui o seio bom dentro dela, tem-no à sua disposição, pode
onipotentemente manipulá-lo e negar a condição, o estado real de frustração e dor. O “bom”
objeto interno reveste-se de uma tão poderosa realidade psíquica que, no momento, a
necessidade do seio nutriente pode ser abafada, sobrepujada, negada com êxito e projetada
fora, enquanto a parte sugada de seu corpo (o polegar, por exemplo) é identificada com o


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seio introjetado, o objeto desejado. A introjeção e a projeção explicam a independência do
bebê em seu autoerotismo (FREUD, 1974a)
O autoerotismo baseia-se em fantasias respeitantes a um “bom” seio internalizado e
gratificador (mamilo, mãe) que é projetado numa parte do próprio corpo da criança e,
portanto, representado por essa mesma parte. Devido a essa plasticidade, uma espécie de
prazer (chupar o dedo, por exemplo) pode substituir a outra (mamar) que falta, sendo o
prazer da boca suplementado por agradáveis sensações no dedo, que representa o seio,
nutriente materno. Os mecanismos introjetivos e projetivos servem, aqui, como uma defesa
contra a frustração e protegem a criança de ser dominada pela ira e agressividade. Assim, o
objeto interno funciona, desse modo vital, como núcleo para o crescimento e
desenvolvimento de relações objetais (FREUD, 1973, 1974c, 1975).
Embora o autoerotismo e o narcisismo não possam ser considerados tipos de
comportamento profundamente diferenciados um do outro, há que se fazer algumas
observações. Como o narcisismo ocorre tardiamente, ele coincide com um ego mais
avançado; pelo que as duas condições diferem naqueles aspectos que se relacionam com o
estágio de desenvolvimento do ego. Na fase narcisista, a percepção é mais avançada e o
princípio de realidade mais ativo. Isso é especialmente significativo no tocante à realidade
interior, por exemplo, a frustração oriunda de fontes internas. Os estímulos internos
desagradáveis não podem ser tão facilmente negados e projetados no exterior como na fase
antecedente. A capacidade de gratificação alucinatória é atenuada e a frustração mais
sentida do que antes, quando o mecanismo de alucinação tinha um funcionamento mais fácil.
Assim, o estado narcisista contém um elemento mais forte de agressão do que o autoerótico.
O fato de que, através do progresso na formação do ego, a percepção funciona melhor e a
gratificação alucinatória e menos facilmente suscitada não pode deixar de influir na atitude da
criança, face à experiência de frustração, e na distribuição das tendências libidinais e
agressivas. Como a criança pequena está mais fortemente exposta à frustração (pelo
abrandamento da alucinação defensiva), aumenta a hostilidade contra o objeto que se sente
ser a causa de sua condição penosa; e quando se volta para o seu objeto interno age sob a


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pressão da hostilidade contra o objeto externo. Poder-se-ia, a tal respeito, que a diferença
entre a simples gratificação autoerótica e o comportamento narcisista é que, no primeiro
caso, o recurso ao bom seio interno é a emoção determinante e, no segundo caso, é o
afastamento do mau seio externo. Isso condiz com certas observações; no primeiro caso, o
retorno ao objeto externo ocorreria mais facilmente do que no segundo.
Esse ponto de vista explicaria também as dificuldades encontradas na análise de pacientes
narcisistas. Freud aludiu ao limite que parecia ser imposto à influência analítica pelo
comportamento narcisista. A compreensão da interação entre objetos internos e externos,
das complicadas atitudes emocionais de aversão e ansiedade em relação ao objeto externo
e da precária relação com o interno, quando é, predominantemente, buscado em ódio contra
o objeto externo, abre uma via de acesso às condições narcisistas.


Reflita sobre o Narcisismo e o autoerotismo em sua própria história de vida.




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UNIDADE 5
Objetivo: Compreender as postulações freudianas acerca do autoerotismo e do narcisismo.

TEORIA PSICANALÍTICA: AUTOEROTISMO E NARCISISMO

Para Freud (1973, 1974c, 1975), no narcisismo, a relação com o objeto interno é precária, o
movimento para o seio interno é, predominantemente, um movimento de distanciamento do
seio externo. Porém, como os mecanismos de recusa e separação são menos efetivos nesse
estágio de um ego e de um sentido de realidade mais avançados, uma parte do ódio e medo
suscitados pela frustração proveniente do objeto externo é transferida para o interno e
necessita de processos compensatórios em referência ao mesmo.
Para ilustrar esses pontos de vista, pode-se recorrer a uma discussão do narcisismo na vida
adulta, tal como é revelado pela análise. Nos estados hipocondríacos, todo o interesse do
paciente é consumido pela sua preocupação com uma parte determinada do seu corpo. Em
casos pronunciados, o paciente é incapaz de ocupar o seu lugar no seio da família e de
manter suas atividades correntes. O seu interesse no ambiente circundante e nas pessoas
está subordinado ao dos processos em seu corpo, e os acontecimentos só contam na
medida em que afetam o órgão ou órgãos que imaginou estarem doentes. A relação com
essa parte do seu corpo é muito complicada. A intensa observação dedicada às várias
sensações registradas em seu corpo atrai para o analista, o forte elemento libidinal e o
prazer sentido, inconscientemente pelo paciente, em relação ao seu estado, enquanto, na
consciência, se registram dores, ansiedade e preocupações.
Verifica-se semelhante atitude dupla com os seus médicos (e há sempre muitos médicos
consultados), visto que são, ao mesmo tempo, alvo de desconfiança e de queixas por não
ajudarem o paciente como deviam, e também procurados e tratados como autoridades.


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Assim, a relação com as pessoas no mundo externo e a crença na sua bondade não são
inteiramente abandonadas; por outro lado, o paciente abandona os seus interesses e
atividades rotineiras, em favor do interesse no próprio corpo e seus diversos sintomas.
Persiste nessa preocupação e agarra-se tenazmente aos seus sintomas.
O comportamento do hipocondríaco adulto sugere um tipo de narcisismo em que o objeto
interno, representado pela parte específica do seu corpo que tanto o preocupa, é preferido
aos objetos externos e é, como tal, amado; mas, como sente que esse objeto interno está
lesionado e, portanto, não é gratificador, também é odiado e temido, pelo que, nessa ordem
de ideias, requer também atenção e deve ser cuidadosamente vigiado – e com desconfiança
– o tempo todo.
O sentimento consciente do paciente de que, em virtude da sua doença, não pode trabalhar,
nem preocupar-se com as outras pessoas, prova, na análise, estar servindo de cobertura
para uma situação muito complexa; há uma aversão pelas pessoas mais próximas (pais ou
substitutos parentais) que constitui uma causa potente para achar qualquer trabalho
impossível e fazer exigências exageradas; essa hostilidade é reprimida e convertida
naquelas sensações orgânicas que absorvem o interesse do paciente. Além disso, essas
sensações orgânicas contam uma estória específica das fantasias do paciente, com
referência aos objetos de sua hostilidade, quer dizer, as suas relações com as pessoas que
são importantes para a sua vida são transferidas para o terreno dessas sensações corporais.
A ausência de culpa consciente pela abstenção de trabalho (que é sentida, em última
instância, como trabalho para esses objetos) e por constituir um fardo para a sua família
encontra explicação no fato da culpa também ser convertida e manifestar-se como
sofrimento, ansiedade e depressão conscientes causados pelo órgão “doente”. Observada
por outro ângulo, a culpa de seus impulsos hostis inconscientes em relação aos objetos mais
próximos, usualmente os membros de sua família, é apaziguada pelo sofrimento causado
pelas várias sensações dolorosas provenientes do órgão “doente”. Sabe-se que, a culpa
inconsciente pode ser representada por uma necessidade de punição, e essa necessidade é
preenchida, com efeito, pelo intenso sofrimento associado aos temores hipocondríacos.


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Assim, a absorção consciente de interesse por seu próprio corpo e a manifesta alta de
interesses e preocupações correntes cobrem uma relação inconsciente, rica de conteúdo,
com os seus objetos externos, que são convertidos em internos e representados pelo próprio
corpo do paciente. Pose-se ainda ver, na análise, que a hostilidade inconsciente do paciente
está lidada a frustrações atribuídas por ele aos seus objetos, e todo o sistema hipocondríaco
parece ter emanado de tais frustrações, a que o paciente não pode ajustar-se.
Esta descrição sumária refere-se a observações analíticas com pacientes adultos, e surge a
questão de saber se essas observações poderão ser tomadas como verdadeiras réplicas do
narcisismo infantil, ou se representarão uma elaboração secundária de um estado original.
Se for o último caso, a questão será: apurar quais as características que pertencem ao
original e quais às fases ulteriores.
Quando se analisa outras formas de doença mental, por exemplo, a paranóia e o
comportamento delirante, como o ciúme delirante, volta-se a encontrar esse núcleo de uma
interação entre a relação com as pessoas externas e reais, por um lado, e a relação com os
objetos internos e fantasiados, por outro, sendo o material psíquico em tudo o mais diferente.
Seria justificável considerar os elementos comuns em diferentes doenças mentais como
derivados dos estágios primitivos, infantis, da vida mental para os quais a regressão se
verificou, e as diferenças como determinadas pelos progressos variáveis feitos pelo ego em
seu desenvolvimento.
Essa consideração é válida para todas as doenças mentais, que, como Freud acentuou,
envolvem sempre regressão; mas a contribuição para a doença pela disfunção do ego
avançado ainda não está suficientemente investigada. Contudo, é seguro supor que os
princípios radicais da condição adulta são os mesmos da condição infantil e que as adições
feitas pelos mais recentes estágios do ego dizem mais respeito às ramificações, às variações
do padrão básico, aos usos dados ao conjunto de experiência corrente e às racionalizações.
A esse respeito, há outro estado patológico, na vida adulta, em que o paciente usa os
mecanismos da cisão para garantir a sua convicção de que é bom, enquanto a outra pessoa
é má. Os aspectos delirantes dos estados paranóicos mostram claramente o papel


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desempenhado pela negação. Como se sabe, o ciúme delirante e o medo da perseguição
baseiam-se na negação e projeção. Parece que, nesses estados é, sobretudo, o sentimento
de culpa que o paciente não consegue tolerar e contra o qual desencadeia as defesas de
negação, cisão e projeção. Sem querer tentar aqui abordar o muito intricado problema da
culpa, é importante salientar a observação de que a intolerância, por uma pessoa, do
sentimento de culpa significa, essencialmente, a sua intolerância em admitir, mesmo para ela
própria, que existe algo mau nela, isto é, que algo é mau no próprio paciente e não pode ser
repudiado como um objeto estranho dentro dele. O resultado da técnica de projeção ilusória
é duplo: medo de perseguição pela pessoa escolhida para tal projeção e uma convicção da
boa qualidade do que é sentido como eu. Poder-se-ia dizer que o indivíduo paga o tributo da
perseguição a fim de gozar da complacência para consigo próprio.
Portanto, a hipótese é que, na condição narcisista, o objeto externo é odiado e rejeitado, pelo
que a pessoa ama o objeto interno que se fundiu com o eu e nisso sente prazer. Contudo, a
técnica de cindir o objeto em dois deriva de (e pressupões) uma premissa fundamental: a de
que, de algum modo, os dois são um só.
O autoerotismo e o narcisismo são modos empregados pelo ego infantil para enfrentar a
frustração (e de novo contraídos, regressivamente, em certos estados psicopatológicos na
idade adulta). Essencialmente, empregam os mecanismos de introjeção e projeção por meio
dos quais o ego infantil fica dotado de um bom objeto interior, no corpo da criança,
representado por alguma parte do seu corpo. Ambos os estados envolvem fantasias
originalmente experimentadas no contato com um objeto.



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UNIDADE 6
Objetivo: Compreender as postulações freudianas acerca do mundo interior e mundo
exterior.
TEORIA PSICANALÍTICA: MUNDO INTERIOR E MUNDO EXTERIOR

A introjeção põe em marcha processos que envolvem todas as esferas da vida psíquica e,
também, com frequência, tem uma considerável influência sobre a vida física. Menos, talvez,
do que qualquer outro mecanismo do desenvolvimento é um evento consumado tão logo
tenha ocorrido. Nasce um mundo interior. A criança pequena sente que existem objetos,
partes de pessoas ou pessoas, dentro de seu corpo, que estão vivas e ativas, que a afetam e
são por elas afetadas. Esse mundo interior de vida e acontecimento é uma criação da
fantasia inconsciente da criança, sua réplica particular do mundo e objetos que a cercam.
As sensações, sentimentos, estados de espírito e modos de comportamento são largamente
determinados por tais fantasias sobre pessoas dentro do corpo e eventos do mundo interior.
Esses eventos refletem o mundo exterior de um modo fantasticamente elaborado e
distorcido; contudo, podem fazer, ao mesmo tempo, que o mundo exterior pareça ser apenas
um reflexo dos mesmos. Todos os sentimentos de que a criança é capaz são também
experimentados em relação aos seus objetos internos; e todas as suas funções mentais,
emocionais e intelectuais, suas relações com pessoas e coisas, são decisivamente
influenciadas por esse sistema de fantasias.
Deve-se compreender que uma descrição desses processos psíquicos sumamente
primitivos, dessas fantasias inconscientes, não pode ser mais do que uma aproximação.
Num certo sentido, todas as nossas descrições são artificiais, pois faz-se o uso de palavras
para descrição de experiências que ocorrem num nível mais primitivo, antes de se ter
atingido a verbalização (a qual envolve, provavelmente, uma modificação progressiva). Os


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mais primitivos processos psíquicos estão vinculados à sensação. A experiência original, da
qual só se pode descrever o conteúdo usando palavras; realiza-se certamente na forma de
sensação, e poder-se-ia dizer (para começar) que o bebê dispõe apenas de seu corpo para
dar expressão aos seus processos mentais. O trabalho analítico revela esses conteúdos
inconscientes como formações básicas na psique e, dentro da situação analítica, as palavras
parecem ser um meio suficiente de entendimento. As fantasias sobre o mundo interior são
inseparáveis da relação infantil com o mundo exterior e as pessoas reais. Só uma limitação
nos nossos meios de descrição faz parecer como que se existissem duas entidades distintas
que se influenciam mutuamente, em vez de um todo, de uma experiência atuante com
múltiplas facetas. É igualmente, um recurso descritivo para distinguir os impulsos instintivos
da fantasia inconsciente. Deve-se ter a noção de que se está, meramente, seguindo outro
aspecto da mesma experiência, quando se aborda agora a questão dos impulsos instintivos.
A fantasia infantil reflete a natureza imatura, “polimórfica”, libidinal e destrutiva dos impulsos
instintivos infantis; as fantasias sobre objetos internalizados são descoordenadas, cheias de
contradições e mudanças de um extremo a outro dos sentimentos, e altamente instáveis. As
experiências com o mundo exterior e com as pessoas reais, são captadas e continuadas, em
parte com grandes distorções, sob o domínio dos impulsos instintivos. De acordo com as
modificações dos propósitos instintivos, as quais representam o desenvolvimento dos
instintos e atuam com a progressiva organização do ego, as fantasias infantis sobre os seus
objetos internos também mudam. O processo pode ser descrito em termos de unificação,
coesão e estabilidade; gradualmente, os “objetos internos” assumem um caráter abstrato. No
apogeu da maturidade, esse sistema de fantasias resolve-se na formação de um ego
integrado e de um superego uniforme. Contudo, é uma observação diária, para o analista,
que isso só se realiza em graus variáveis e pode ser novamente interrompido sob condições
de tensão, tendo por resultado o reaparecimento das fantasias primitivas (FREUD, 1974a,
1975).
Mas, se os objetos não existem independentemente para a criança - são sempre, de algum
modo, referidos a ela própria - ela também refere suas próprias experiências aos seus
objetos, pelo que os processos no “em mim” são sentidos como se estivessem vinculados a


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objetos. Quando suas fantasias se concentram num objeto, o seio materno, a criança atribui
qualquer sensação de dor à perseguição que lhe é movida por esse seio, isto é, sente-se
mordida, ou envenenada por ele, ou atribui a ele a culpa de sua inanição; quando sente
prazer e conforto, é alimentada e solicitamente cuidada por ele. Essa atitude representa um
exemplo primordial do pensamento animista que Freud descreveu como característico do
homem primitivo e das crianças. Existe um importante elo entre o animismo, por uma parte, e
a idealização ou perseguição, por outra; vê-se os seus remanescentes, diariamente, nas
superposições e rituais obsessivos.
As fantasias sobre objetos que residem dentro do eu levam a uma equação entre os
processos mentais interiores e as atividades exercidas no mundo exterior. Os objetos
internos, os cidadãos do mundo interior, são sentidos como se estivessem a par e fossem
afetados pelos sentimentos, desejos e pensamentos do sujeito, tal como ocorre com as
pessoas no mundo exterior, por meio das palavras e ações. Na experiência subjetiva,
portanto, é verdade que os sentimentos são onipotentes, por exemplo, os impulsos hostis
são um ataque ao objeto interno, esperando-se que por isso sejam punidos. Essa punição
por um objeto interno é uma espécie de retaliação que também decorre do caráter da relação
objetal infantil, da fusão entre o eu e o objeto interno. Como a criança projeta os seus
próprios impulsos em seus objetos (onde quer que os situe, internos ou externos), espera
que esses objetos lhe façam o que ele lhes fez (ou imaginou que fez). O objeto interno,
atacado e ferido pelo desejo agressivo, revida imediatamente ao ataque. Além disso, o medo
de retaliação pelo objeto interno é transferido de novo (projetado) para o objeto externo, para
as pessoas reais no mundo externo. Verifica-se frequentemente na análise, que um paciente
não pode abandonar uma atitude hostil, diga-se, o impulso para dominar outros, porque está
convencido de que no momento em que deixar de governar sua família passará a ser seu
escravo. Essa atitude – “Ou eu ou os outros temos de exercer o poder” – ignora a
individualidade do objeto e denuncia o modo infantil de conceber os outros segundo a
imagem do eu (projeção). Tal pessoa é incapaz de admitir que outra pessoa possa ser outro
ser, diferente dela própria.


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UNIDADE 7
Objetivo: Compreender as postulações freudianas acerca da introjeção e projeção com
referência a objetos totais.
TEORIA PSICANALÍTICA: COMPLEXO DE ÉDIPO
Com o progresso nas funções do ego (percepção, memória, síntese, etc.), que conduz ao
tipo de relações com o “objeto total”, a vida emocional infantil se torna muito mais complexa.
Na fase mais primitiva, em virtude da ineficiência de suas capacidades intelectuais e do
emprego de defesas primitivas, como a magia, a negação, a onipotência e a cisão, a criança
pequena concebe os seus objetos (ou partes de objeto) de um modo simples e uniforme:
quando se sente gratificada, o seu objeto é bom e amado, quando se sente frustrada, o
mesmo objeto é mau e odiado; não percebe que trata dois aspectos de um único objeto
como se fossem dois objetos diferentes e sem relação mútua. Em resultado do
desenvolvimento, sempre que essa técnica de “não associação” ou de cisão não é acessível
à criança, esta se vê exposta ao conflito de ambivalência, de amor e ódio simultâneo, de
atração e repulsa pelo mesmo objeto, e esse conflito provoca certas situações de ansiedade
(FREUD, 1974b)
Embora a criança ame o bom objeto parcial, o seu amor pela mãe, assim que a reconhece
como uma pessoa, é mais profundo, mais rico e representa uma experiência mais valiosa; as
perturbações nesses sentimentos de amor significam agora mais para a criança do que no
estágio de amor primeiro pelo seio materno. Ao mesmo tempo, os medos anteriores de
causar dano ao bom seio e de ser perseguida pelo mau seio, convertem-se em algo muito
mais complexo (culpa/ansiedade) sentimentos de destruição e perda da mãe amada, dando
origem ao estado crucial que Melanie Klein descobriu e descreveu como a Posição
Depressiva Infantil.


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Nesse ponto, a introjeção e projeção, que na fase anterior, nos estados autoeróticos e
narcisistas, constituíram a defesa predominante contra a frustração e a perda de objeto,
acarretam graves ansiedades. Como a vida instintiva da criança ainda está sob a influência
da primazia oral, as fantasias de incorporação e expulsão ainda são extraordinariamente
fortes. A boca, principal instrumento do amor primitivo, que tem o propósito de incorporar o
objeto amado, também é o principal órgão de expressão dos impulsos agressivos hostis e de
rejeição do objeto. Quando os mecanismos de cisão diminuem, as qualidades perigosas das
atividades orais são sentidas simultaneamente com os desejos ditados pelo amor. Assim,
surge o medo de destruir a mãe amada no próprio ato de expressar amor por ela, e o medo
de perdê-la no próprio processo designado para garantir a sua posse. Essas ansiedades são
multiplicadas pelo aspecto dualista do objeto amado, resultado também da maior coesão e
integração do ego, uma vez que a mãe amada e gratificadora é agora, ao mesmo tempo, a
pessoa perigosa e frustrante.
Ceder ao desejo de incorporar o bom objeto está eivado do perigo de introduzir a sua
maldade e, inversamente, a expulsão do mau objeto interno ameaça provocar a perda de sua
bondade. (O beco sem saída a que esses sentimentos e fantasias conduzem pode ser
claramente observado nas explosões de cólera, nas “birras” das crianças mais velhas, as
quais, em virtude de sua simultânea ânsia de amor e incapacidade de aceitá-lo, poderão ser
francamente inacessíveis a todas as tentativas que se façam para confortá-las. No trabalho
analítico, certas crises de transferência repetem esse estado mental.) Em reação às
ansiedades dessa espécie, a criança poderá ficar inibida no uso dos mecanismos de
introjeção e projeção, e retardada em seu desenvolvimento (como foi descrito num trecho
anterior do presente capítulo); ou poderá haver uma rápida alternação entre a introjeção e a
projeção, uma frenética introdução e expulsão de objetos, resultando em instabilidade, humor
caprichoso e incapacidade para desenvolver uma vinculação aos objetos.
Encaradas de outro ângulo, tais ansiedades podem conduzir ao abandono dos progressos
realizados – os crescentes sentimentos dolorosos são demasiado intoleráveis – e ao
regresso à fase anterior e mais primitiva (a posição esquizoparanóide).


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Neste ponto, deparamos com o problema do aspecto negativo da progressão, que será
discutido no capítulo seguinte. Pode-se sublinhar que tal dualismo não se confina aos
mecanismos de introjeção e projeção.
É verdade, de modo geral, que um processo mental, que atenua os conflitos e ansiedades de
certa espécie, excita outros pelo que só se consuma uma liberdade relativa da ansiedade,
uma relativa paz de espírito. Assim é a vida mental; não há pausa em tempo algum,
especialmente durante o período de crescimento e desenvolvimento. A serenidade, uma
prerrogativa dos velhos e sábios, está frequentemente combinada com uma parada na
progressão. A própria satisfação de um impulso, muitas vezes considerada a melhor defesa
contra a tensão, só temporariamente conhece algum êxito; fracassa, frequentemente, de um
modo total, e constitui em si mesma uma fonte dos mais intensos conflitos.







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UNIDADE 8
Objetivo: Compreender as postulações freudianas acerca da origem do Complexo de Édipo.
TEORIA PSICANALÍTICA: COMPLEXO DE ÉDIPO

O progresso nas funções do ego, que resulta na capacidade de reconhecer pessoas
individuais, amplia decisivamente o mundo infantil. Quando a criança passa a integrar as
múltiplas impressões, anteriormente isoladas e dissociadas, em sua maior parte, no conceito
de uma pessoa, ela se encontrá, de fato, com duas pessoas – mãe e pai – e essa nova
situação abrange as suas inter-relações. O terreno de suas experiências emocionais não só
aumentou quantitativamente, mas também mudou em qualidade, na medida em que ingressa
no tipo triangular de relação objetal, a qual, como sabemos, possui sempre uma significação
especial.
Esse primeiro conjunto triangular representa a origem do complexo de Édipo. Difere do
desenvolvido – agora denominado, com frequência, “clássico” – complexo de Édipo em todos
aqueles aspectos que são determinados pelo caráter primitivo do estado mental da criança
nesse estágio. Com o reconhecimento de pessoas, mais vias de gratificação estejam
acessíveis à criança; conquanto o pai desempenhe um papel cada vez maior na vida da
criança e represente um objeto de amor, interesse e prazer, a criança tem agora de
enfrentar, porém, todos os estímulos, excitações e conflitos inerentes a uma relação entre
três pessoas.
O novo e importantíssimo fator, que representa um problema de primeira grandeza para a
criança, reside nas inter-relações parentais. Ela advinha que existem intimidades físicas
entre os pais e, até esse ponto, está reconhecendo uma realidade; mas concebe essas
intimidades segundo os termos de seus próprios impulsos, por outras palavras, as suas


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noções são determinadas pela projeção e, por isso, são uma grosseira distorção da
realidade. Os pais fazem um ao outro o que e criança gostaria de fazer.
Nesse estágio primitivo, no começo do complexo de Édipo, os impulsos instintivos da criança
são “polimorficamente perversos”. Os anseios libidinais misturam-se com os destrutivos, e as
tendências hostis são ainda mais estimuladas em virtude da frustração e do ciúme.
Impotência e onipotência, o predomínio da fantasia sobre a realidade, acarretam a confusão
entre impulsos e objetos. O que é desejado ou temido é tratado como um acontecimento
real, e a ansiedade e frustração são sentidas como perseguição pelos objetos (FREUD,
1974b, 1975, 1973)
No pensamento/sentimento infantil, as excitações instintivas significam muitas atividades
específicas. Assim, os impulsos orais conjugam-se com fantasias de chupar, espremer,
morder, dilacerar, cortar, esvaziar e exaurir, engolir, devorar e incorporar o objeto; os anseios
uretral-anais dizem respeito a queimar, inundar, afogar, expelir ou explodir, sentar-se sobre e
dominar o objeto. A esses propósitos pré-genitais sobrepõem-se aqueles que têm sua origem
nos estímulos genitais, pelo que, no seu começo, os impulsos verdadeiramente genitais de
penetrar ou receber, associados ao desejo de criar e possuir filhos, têm de lutar contra a
influência das fantasias pré-genitais, com a falta de uma fronteira estável entre o libidinal e o
destrutivo, dando origem a intensos temores.
Essa espantosa condição dos impulsos instintivos e fantasias da própria criança representa o
material, os recursos de que ela se vale, quando ocupada com as relações entre os pais. O
resultado é ela formar noções de algo extraordinariamente perigoso e aterrador; a “cena
primordial” (Freud) tem suas raízes nas fantasias infantis que atuam no início do complexo
de Édipo. Outro aspecto da muitíssima complexa situação do complexo de Édipo, no início
da infância, é devido às fantasias de incorporação. Embora os impulsos instintivos de todas
as fontes corporais operem de um modo concorrente, como acima se descreveu, os
propósitos e mecanismos orais predominam, a princípio, numa constelação primus iner pares
(primazia oral). Isso quer dizer que as fantasias de incorporação prevalecem na relação da
criança com os pais. Estes são internalizados, não só como indivíduos, mas também em


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seus aspectos como casal, a “figura parental combinada”, cujas perigosas atividades têm
lugar dentro do eu e do corpo da criança. Todas as ansiedades sobre perseguição interna,
que na fase anterior se relacionavam com os objetos parciais, são agora suscitadas e
intensificadas em relação aos pais combinados.
A incorporação também participa das fantasias infantis sobre a intimidade parental, pelo que
a criança acredita que eles se incorporam mutuamente. É como se estas fossem,
precisamente, as que explicam a intolerância da criança sobre a união parental, na medida
em que a interpretação canibalesca da cena primordial conduz ao medo pela morte dos pais,
o que significaria a sua própria morte. A seguir a esse medo supremo, há muitas outras
fantasias libidinais e aterradoras, das quais bastará mencionar uma no presente contexto.
Resulta do desejo infantil pelo pênis do pai.
Atribuindo seus próprios impulsos aos pais (projeção), a criança imagina que, em sua união
sexual, a mãe incorpora o pênis do pai e o traz oculto no corpo (e que o pai faz o mesmo
com o seio materno). Essa mãe com um pênis interno desempenha um papel formidável nas
fantasias da criança. Ela parece possuir tudo o que a criança deseja, dá-lhe muitíssimo
pouco e é a rival no que diz respeito ao pai. O ressentimento é intensificado se estiver
realmente em curso o desmame. Frustração, inveja e raiva dão origem a impulsos violentos,
como o de penetrar à força no corpo da mãe e roubar-lhe o que ela aí detém.
Nessa mãe com o pênis interno e escondido, é reconhecida uma precursora da “mulher
fálica”, uma figura feminina com órgãos genitais masculinos. De acordo com Freud (1974b),
essa imagem ocorre durante a “fase fálica” do desenvolvimento infantil e representa,
essencialmente, uma defesa contra o medo de castração. O menino, em suas sensações
genitais, impulsos penetrativos masculinos em relação à mãe (complexo direto de Édipo), ele
também a sente como rival, no tocante aos seus anseios receptivos femininos, dirigidos tanto
para o pai como para a mãe com o pênis do pai. Assim, a sua “posição feminina” derivada
dos impulsos incorporativos orais conflita com o desenvolvimento da sua masculinidade; o
complexo de Édipo invertido é uma parcela importante do caótico estado polimórfico, no
início do conflito nuclear.


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A identificação com o primeiro objeto de amor, a mãe, resultante da introjeção, intensifica os
componentes heterossexuais da menina e os homossexuais do menino na bissexualidade
inata. Existem, pois, muitas fontes para o ódio contra os pais e tal ódio é focalizado,
particularmente, na união parenteral. O ódio determina o caráter em que o objeto é
percebido.
Gradualmente, desenvolve-se a capacidade da criança para as percepções realistas e,
concorrentemente, ela progride no sentido do estabelecimento de uma zona genital. Esse
processo implica a superação dos propósitos e anseios pré-genitais, um esclarecimento de
muitos conceitos, por exemplo, o reconhecimento das diferenças entre as várias partes e
funções do corpo, e o domínio sobre os impulsos destrutivos. Do padrão caótico dos anseios
instintivos do primitivo complexo infantil de Édipo resulta a cristalização da escolha
heterossexual de objeto, por parte da criança, e do desejo de relações genitais amorosas,
incluindo o desejo de dar ou receber um filho do pai do sexo oposto, ao passo que o ódio
contra o pai-rival do mesmo sexo fica limitado à esfera genital.
Nesse processo de crescimento, unificação e esclarecimento que se estende pelos primeiros
anos da infância, a introjeção e a projeção fazem importantes contribuições, no sentido de
modificarem os mundos interiores e exteriores e de atenuarem a perseguição e sua
contraparte, a idealização. A criança perde cada vez mais sua impotência e onipotência, e os
pais as características de deuses ou monstros. Isso ocorre simultaneamente com uma
transformação das fantasias infantis sobre os pais internos. Acaba por sentindo-los cada vez
menos como objetos físicos dentro de seu próprio corpo e cada vez mais como ideias e
princípios para a orientarem e advertirem em seus tratos com o mundo. Assim, das noções
primitivas sobre partes e pessoas incorporadas, nasce, gradualmente, o sistema do
Superego.




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UNIDADE 9
Objetivo: Analisar a importância e os limites das contribuições psicanalíticas para processo
terapêutico.
A TEORIA PSICANALÍTICA HOJE

Roudinesco e Plon (1998) destaca que nas sociedades industriais, os problemas econômicos
e sociais trazem reduções de ganhos financeiros com o trabalho, assim como a redução do
tempo livre das pessoas de uma forma geral. Isso faz com que a procura pela Psicanálise
seja menor. Atrelado a isso o surgimento das psicoterapias corporais, de terapias alternativas
e de tratamentos farmacológicos contribuem para o declínio na confiança do método
introduzido por Freud. As pessoas não desejam mais tratamentos de longo prazo e recusam,
muitas vezes, a frequência de mais de uma sessão por semana. Na verdade, assim que se
sentem um pouco melhor já interrompem o tratamento.
Assim, a terapia analítica clássica está, cada vez mais, limitando-se a casos especiais. E
outras formas de psicoterapia surgem. A psicoterapia psicanalítica de tempo delimitado é
uma delas, trata-se de um tratamento de prazo de duração ajustado, previamente, entre o
analista e o sujeito que busca ajuda para resolver um “problema específico”. Esse problema
pode ser entendido como efeitos de um sofrimento psíquico manifestado em uma área
limitada da vida do sujeito, cuja origem do conflito era inconsciente.
É a concordância entre o paciente e o analista de que a possível origem do problema seja
inconsciente que dá suporte à decisão de empreender a investigação pelo método
psicanalítico. Algumas fobias, por exemplo, são tratadas dessa maneira. A teoria
psicanalítica fornece os modelos que fundamentam o processo terapêutico, e a cura se dá
mediante a elaboração dos conflitos inconscientes que estejam na origem do problema
específico.


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A psicoterapia de tempo delimitado tem como principais pioneiros, além do próprio Freud,
autores como Ferenczi, Rank e Alexander. Há autores contemporâneos como Balint, Malan e
Sifneos, entre outros.
De qualquer forma, a Psicanálise ainda hoje, é uma teoria consistente que permite o
entendimento de que os seres humanos são movidos por paixões, nem sempre conscientes,
que o ego não é senhor em sua própria casa e que muito daquilo que se é em si, escapa (e
talvez seja o essencial). A experiência psicanalítica convida, por meio de um dispositivo
simples, que consiste em falar sobre si, a um mergulho nas profundezas de nossa alma, para
tentar conhecer algo daquilo que determine sua vivência.
Na verdade, não é Freud quem “explica”, nem o psicanalista, mas o próprio paciente se
descobre, ouvindo-se falar, deixando-se levar pelo seu discurso e elaborando seus insights
com a ajuda do analista. E com isso, é claro, a pessoa se transforma. Isso porque o
autoconhecimento liberta e possibilita que as pessoas sejam mais autônomas e conscientes
de seus desejos e sonhos.
Mas, é fato que o encontro consigo mesmo não é fácil, nem indolor. O que menos a
Psicanálise faz é ajudar o indivíduo a enganar-se ou a iludir a si mesmo. Ela permite que a
pessoa se veja como é, ainda que tenha que tenha que experienciar o horror de ver o
desencantamento de suas supostas verdades. Herdeira do Iluminismo, a Psicanálise propõe
que se lance luzes sobre o inconsciente e que se conquiste a autonomia possível a partir da
integração maior dos aspectos ocultos da personalidade. E isso, requer além de tempo e
dedicação, que se possa enfrentar o sofrimento (e não enganá-lo com falsas verdades sobre
si).
Isso entra em conflito com os valores atuais em que as pessoas evitam o sofrimento a
qualquer custo. Hoje se paga – e caro! – para anestesiar não apenas o corpo, mas a mente.
Ficar na superficialidade é, por vezes, mais confortável. Age-se, hoje, como se não
quisessem ser incomodados com verdades profundas, é como um não querer ver além do
necessário, mas não se dando conta de que esta cegueira faz sofrer. Assim, é possível
entender que a proposta da Psicanálise é pouco compatível com a superficialidade, a pressa


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e o pouco caso com o sentido que perpassa nossa vida atual. A Psicanálise convida a
encarar o que mais se teme: o conflito.


Pesquise mais acerca das contribuições da Psicanálise na atualidade



Em que consiste a Intervenção baseada na teoria Psicanalítica?





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UNIDADE 10
Objetivo: Descrever o contexto do surgimento da abordagem centrada na pessoa de Carl
Rogers.
ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA
Carl Ransom Rogers (1902-1987), foi um psicólogo norte-americano que, por gravar sessões
psicoterapêuticas, com as devidas permissões, tornou possível o estudo objetivo de um
processo subjetivo. Seus métodos científicos foram descritos em livros traduzidos no Brasil
como "A Pessoa como Centro" e "Um jeito de ser". Seu trabalho foi inovador por falcear a
ideia de que psicólogos e psiquiatras é que detinham a verdade sobre o paciente.
Sistematizou o método da “Terapia centrada no cliente” que depois evoluiu para a
“Abordagem centrada na pessoa”. Rogers sempre afirmou que seu objetivo não foi criar uma
psicoterapia, mas estudar os critérios necessários para a evolução da psicoterapia científica
como um todo. É considerado precursor da psicologia humanista e, ao contrário de outros
estudiosos da época, sua atenção se concentrava na ideia de o núcleo básico da
personalidade humana era tendente à saúde, ao bem-estar e não às neuroses. Ele
desenvolveu método psicoterapêutico centrado no próprio paciente e entendia que era
necessário desenvolver uma relação de confiança com o paciente para ele, sozinho,
encontrasse sua própria cura.
A partir dessa concepção, a psicoterapia passou a ser vista como um trabalho de
cooperação entre psicólogo e cliente, que pretende liberar o potencial de crescimento que
todo ser humano porta. Com isso a pessoa se abre à experiência e começa a tornar-se ela
mesma. Há condições facilitadoras na terapia para que isso ocorra: a consideração positiva
incondicional; a empatia e a congruência. De forma geral, a consideração positiva
incondicional se refere a aceitação incondicional, por parte do terapeuta, da pessoa como ela
e valorizar positivamente cada um em sua singularidade. A empatia, em linhas gerais,


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consiste na capacidade de se colocar no lugar do outro e a congruência significa a coerência
interna do próprio terapeuta.
Na abordagem rogeriana é a aplicação do método em psicoterapia não se reduz ao uso de
uma técnica, mas se refere ao amadurecimento do próprio psicoterapeuta, visto que ele
precisa ser natural e agir conforme aquilo que percebe.
A grande preocupação rogeriana foi a libertação das forças interiores, ou seja, do self
humano, em sua capacidade de enfrentar a si e o outro. Rogers acreditava nesse potencial
sustentando a ideia de que todo o ser humano possui uma Tendência Atualizante, ou seja,
uma tendência a ter atitudes de respeito consigo mesmo e de crescimento. Essas forças
internas do ser humano se mostram nos seus modos de ser e o impulsiona ao próprio
florescimento.
Embora a abordagem centrada na pessoa não seja uma abordagem psicanalítica e,
inclusive, faça uma oposição a psicanálise, esta abordagem tem relevante papel em no
processo de intervenção psicoterapêutica, o que justifica sua explanação.

Para melhor compreender as postulações de Carl Rogers você poderá investigar mais sobre
duas correntes filosóficas: o Humanismo e o Existencialismo.



Antes de dar continuidade aos seus estudos é fundamental que você acesse sua
SALA DE AULA e faça a Atividade 1 no “link” ATIVIDADES.



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UNIDADE 11
Objetivo: Descrever proposições criadas por Carls Rogers sobre o funcionamento do
organismo.
ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: PROPOSIÇÕES SOBRE O ORGANISMO

Em 1951, Rogers apresentou proposições sobre “pensamentos e sentimentos dos outros
provocando radicais mudanças em suas concepções sobre o psiquismo humano” (J USTO,
1978). Seguem algumas delas:
1. Todo indivíduo vive num mundo de experiências em mutação contínua, mundo
de que ele é o centro. Isso significa que cada qual vive num mundo à parte de experiências.
Embora seja essencialmente o mesmo, apresenta continuamente aspectos novos.
Maravilhoso caleidoscópio acessível (ao menos em potência) na totalidade de seu colorido e
variados aspectos tão somente ao próprio indivíduo:
Entre minhas atitudes e concepções fundamentais, há uma que se deve ter
particularmente em conta ao avaliar minha teoria: é minha fé inabalável na primazia da
ordem subjetiva. O homem vive essencialmente num mundo subjetivo e pessoal. Suas
atividades, até as mais objetivas — seus esforços científicos, quantitativos,
matemáticos, etc. — representam a expressão de finalidades e escolhas subjetivas
(ROGERS, 1986, p. 165).

Aliás, a ciência psicológica ainda pouco sabe do indivíduo; esteve ela demasiadamente
voltada, até há pouco tempo, para o homem em geral como afirma Murphy (1966). Isto não
significa ser toda a experiência individual consciente. Não. É provável mesmo que a maior


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parte se encontre no inconsciente. O consciente — na frase de Carl Gustav J ung — não
passa de ilha cercada pelas águas do inconsciente.

2. O organismo reage ao campo dos estímulos como o experiência e percebe. Este
campo perceptual é a realidade para o indivíduo. Ninguém reage a uma realidade
totalmente objetiva e sim à percepção que possui da realidade. Tome um contrabandista a
oferecer um artigo a dois indivíduos na rua. Um compra, jubiloso, um exemplar, contente com
a aquisição. O outro se retrai, desconfiando da qualidade da mercadoria. É indispensável,
portanto, conhecer a percepção pessoal que tem da situação. “[...] o determinante específico
do comportamento é o campo perceptual do indivíduo” (ROGERS, 1983, p. 120).
As consequências desta afirmação para a terapia ou a reeducação:
Parece-me que, em vez de elaborar a história de casos prenhes de informações
acerca da pessoa como um objeto, deveríamos tentar desenvolver meios de perceber
a situação dela: seu passado e a ela mesma, como os objetos lhe aparecem.
Deveríamos tentar ver com ela em vez de avaliá-la. Isto implica em minimizar os
complicados processos psicométricos, por meio dos quais temos procurado medir ou
avaliar o indivíduo desde os nossos pontos de referência. Significa minimizar ou jogar
fora o vasto arsenal de rótulos que penosamente constituímos ao longo dos anos.
Paranóide, pré-esquizofrênico, compulsivo... termos como estes vêm a ser irrelevantes
por se basearem num pensar com uma perspectiva externa de referência. Não é desta
maneira que o indivíduo se experiência (ROGERS, 2001, p. 120).

Poderá a pessoa saber se a percepção corresponde ou não à realidade objetiva, já que
“cada percepção é, essencialmente, uma hipótese — hipótese relacionada com uma
necessidade individual”? (ROGERS, 2001, p. 486) Sim, recorrendo a outras fontes de
informação. Uma pessoa tem a impressão de que uma tábua colocada por sobre um canal é
suficientemente forte para lhe dar passagem. Avança cautelosamente, observando a reação


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da madeira. Consegue-se passar, terá confirmação da veracidade da percepção. Outro
exemplo: Vejo um pacote. Deve pesar seus dois quilos, acho eu. A balança poderá decidir
sobre a justeza da minha avaliação. Ao lado das experiências assim verificadas, há
muitíssimas outras não conferidas. Esta proposição tem importantes consequências para a
ciência do comportamento.

3. O organismo reage como um todo organizado ao seu campo fenomenológico.
As teorias europeias tendem a considerar o homem como totalidade; as teorias anglo-
americanas, ao invés, se preocupam mais com as partes do todo: traço, atitudes, síndromes,
fatores ou condutas. Daí, uma das causas da resistência americana às tipologias ou
caracterologias ou classificação dos temperamentos, que abarcam o homem como
totalidade.
Entretanto, referindo-se a autores de teorias da personalidade, a maioria dos teóricos
contemporâneos pode ser considerada, seguramente, como “organísmica”. Encaram o
indivíduo como unidade de funcionamento total... Somente Eysenck, Miller e Dollard parecem
não aceitar esta afirmação e põem em dúvida a necessidade de estudar o indivíduo em sua
totalidade” (BUHLER, 1962, p. 244).
O enunciado da terceira proposição rogeriana enquadra o autor na moldura das teorias
organísmicas ou holistas. “O fato saliente que deve ser levado em consideração é que o
organismo constitui um sistema total organizado, no qual a alteração de uma parte produzirá
mudanças em alguma outra parte” (ROGERS, 1983, p.487). Rejeita, por ser simplista, a
explicação do comportamento humano pelo esquema behaviorista: “estímulo-resposta”. O
enunciado da proposição é válido tanto para reações fisiológicas como para as psicológicas:
o organismo psicofísico-social age como um todo.




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4. O organismo possui uma tendência básica: manter-se, realizar-se e expandir-se.
Como se observou no início do presente estudo, esta proposição é fundamentalista na teoria
de Rogers. Segundo ele, as diferentes necessidades psicofísico-sociais constituem
expressões parciais desta tendência, que forma a motivação básica do organismo. Este se
atualizava no sentido de maior: diferenciação, expansão, autogoverno, autorregulação,
autonomia, socialização. Há uma série de autores que aceitam a mesma orientação. Angyal,
Karen Horney, Sulivan, Goldstein, Klunckhohn, Mower. Essa tendência à autorrealização
pode verificar-se no organismo físico desde a concepção até à maturidade: uma energia
intrínseca assegura, em condições normais, plena realização do indivíduo.
No plano psicológico, evidencia-se esse mecanismo no tratamento terapêutico, às vezes, de
forma dramática, quando o indivíduo se encontra à beira da psicose ou do suicídio.
(ROGERS, 1983, p. 489)
Seria, porém, errôneo pensar que esse crescimento se opera de modo suave e fácil, como
que automaticamente. Rogers (1983) compara-o às tentativas penosas da criança que
aprende a caminhar. Existe uma condição para esse dinamismo poder atuar
adequadamente: a correta simbolização da experiência e sua conveniente diferenciação.
Caso contrário, poderá o indivíduo confundir comportamento regressivo com atitude
construtiva.

5. O comportamento é, basicamente, uma tentativa finalista do organismo: isto é,
satisfazer as necessidades como são experienciadas e dentro do campo como este é
percebido. A proposição anterior explicou a primeira parte do enunciado acima: a tendência
à atualização, à realização pessoal, como motivação essencial que é, por assim dizer enfeixa
ou orienta todas as necessidades a fim de assegurar a consecução desse grande objetivo do
organismo. Mas há um aspecto novo, deveras importante, é o seguinte:
Também deve frisar-se que nesta conceituação de motivação, todos os elementos
efetivos existem no presente. O comportamento não é causado por algo ocorrido no


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passado. As tenções presentes e as necessidades presentes são as únicas que o
organismo tenta reduzir ou satisfazer. Embora seja verdade que experiências
passadas certamente contribuíram para modificar o sentido que será percebido nas
experiências presentes, ainda assim, não há comportamento a não ser para satisfazer
uma necessidade presente (ROGERS, 1983, p.492).

Estas afirmações colidem frontalmente com a opinião largamente difundida sobre o papel
primordial das motivações inconscientes.



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UNIDADE 12
Objetivo: Descrever proposições criadas por Carls Rogers sobre o SELF.

ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: PROPOSIÇÕES SOBRE O SELF

Rogers concorda ser extremamente difícil o estudo do desenvolvimento do self. O self é “a
consciência de ser e funcionar” (ROGERS, 1983, p. 498). Uma experiência ou objeto é
considerado parte do self na medida em que for controlado por ele. Mas também, há fatos
psicológicos que, por assim dizer, se subtraem ao nosso controle.
O self surge como resultado da interação com o ambiente e, particularmente como resultado
da interação avaliativa dos outros, segundo Rogers (1983). Segundo Murphy (1966), as
partes do próprio corpo da criança formam o núcleo inicial do self. Percebe vagamente, por
exemplo, que o pezinho ou a perninha com que brinca é dela. Vai diferenciando, pouco a
pouco, o que pertence a ela e o que é dos outros. No relacionamento com os outros, vai
formando conceitos a respeito do ambiente, a respeito dela mesma e a respeito dela com
relação ao meio. Esse conhecimento diferenciado vem acompanhado de uma valorização,
muito importante, segundo Rogers (1983), para a compreensão do desenvolvimento ulterior.
A criança costuma valorizar as experiências com a maior naturalidade ou espontaneidade;
“Gosto de caramelos.” “Não quero este prato.” “Gosto do titio.” “O titio é feio.” Tudo se passa
como se a criança valorizasse positivamente tudo o que contribui ao progresso, ao
crescimento dela mesma. O que, porém, é percebido como ameaça, como prejudicial ou
menos útil, é valorado negativamente.


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A esta valorização pessoal – nem sempre verbalizada – vêm cedo acrescentar-se as
contínuas apreciações dos outros, particularmente dos pais, a influência dos pais é essencial
nesta fase da estruturação do self, afirma Evans (1979).
Um ponto fundamental para um desenvolvimento psicológico sadio é a criança sentir-se
amada e não rejeitada, mesmo quando tiver um comportamento que seja desaprovado.
Afirma Rogers (1983, p. 502): “A criança não deve, em seu relacionamento, experienciar
ameaça ao autoconceito de ser amada”. Se uma criança gosta, por exemplo, de brincar em
poças de água, naturalmente molhando e sujando a roupa. A mãe compreensiva não pensa,
em primeiro lugar, no trabalho de ter que lavar a criança e a roupa dela. Mas, na satisfação
experimentada pelo filho. Em sua reação deverá fazer ressaltar este aspecto: compreender a
criança do ponto de vista dela, porém, sem negar os próprios sentimentos de desagrado, se
ocorrerem. Depois, estará em condições de corrigir eventuais excessos ou comportamento
inoportuno ou inadmissível.
Rogers, ainda destaca que os valores ligados às experiências e os que formam parte da
estrutura do self são: ora vivenciados diretamente pelo organismo; ora introjetados ou
tomados de outras pessoas, mas percebidos de maneira distorcida, como se tivessem sido
experienciados diretamente.
Um aluno, filho único de pais abastados, estava resolvido a interromper o segundo ciclo de
estudos para se dedicar à mecânica de automóveis, Motivo: julgava-se pouco inteligente e só
com muito esforço terminaria o segundo grau. No serviço de orientação foi submetido a dois
testes de inteligência, revelando em ambos, nível superior. Na entrevista, ao revisar seus
anos de escola, veio-lhe às lembranças a frase de uma professora do segundo ano primário,
apreciando um trabalho seu, casualmente menos feliz: “Como tu és burro, Carlos!”
Houve dupla distorção: o menino entendeu a observação da mestra como se referindo a sua
capacidade intelectual em si; e ele mesmo aceitou esta opinião como própria. Bastou o
resultado dos testes para mudar este elemento da autoimagem e, consequentemente, a
atitude do aluno.


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Outros aspectos da distorção ou negação da experiência já foram abordados ao tratar das
“defesas” e das “perturbações da comunicação interna”: quando o indivíduo nega as próprias
experiências para não desagradar a outras pessoas.
Rogers (1983) também mostra que à medida que as experiências ocorrem na vida do
indivíduo, são: simbolizadas, percebidas e organizadas em alguma relação com o self; ou
ignoradas, por não haver nenhuma relação percebida com a estrutura do self; ou negadas ou
simbolizadas de maneira distorcida, por ser a experiência incompatível com a estrutura do
self.
Segundo Rogers (1983), há quatro atitudes possíveis com relação às vivências pessoais:
a) Parte das nossas experiências é aceita e incorporada pelo self. São as experiências que
harmonizam com ele ou com o self ideal. Se acho bom ter atitude autoritária em face dos
outros, experimento satisfação após tal comportamento. Ocupada em escrever sobre a teoria
rogeriana, não hesito em adquirir novo livro sobre o assunto, pois o livro corresponde a uma
necessidade minha.
b) Muitíssimas – a maioria – das experiências “não atingem o nível consciente, portanto, não
podem ser relacionadas com o organizado conceito do self” (ROGERS, 1983, p. 504). É
suficiente examinar o que se passa com os milhares de sensações (visuais, auditivas, táteis,
térmicas...) que se tem ao dar uma volta pela cidade: porcentagem mínima (a efetivamente
significativa) é relacionada com o self.
c) Existe também parcela da realidade vivencial cuja entrada no campo da consciência é
vetada (MASLOW, s.d). Há casos em que essa atitude é mais ou menos consciente. Um
cliente de Rogers tinha autoconceito muito negativo. A certa altura da entrevista, confessa:
Ao me dizerem ser eu uma pessoa inteligente, simplesmente não acredito. Melhor: suspeito
que eu não queira admiti-lo. Não sei por quê, simplesmente não quero.
Existe outra espécie de negação da realidade, que entra no conceito freudiano da repressão:
a experiência não é simbolizada ou, então, é distorcida. Quem julga ser modelo de caridade


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com o próximo, por exemplo, facilmente tomará sentimento de ciúme ou inveja por zelo pelo
bem da vítima.
d) Finalmente, fatos inaceitáveis pelo indivíduo que são muito evidentes, são impossíveis de
ser negados. Neste caso, o self recorrerá à distorção.
Em suma, o self exerce uma função seletiva sobre o material da experiência:
– aceita a parte que lhe convém;
– ignora outra;
–rejeita uma terceira.
– Se, apesar de rejeitada, uma experiência percebida como ameaçadora continuar a
bater às portas do self, este é capaz de fazer entrar o lobo, revestindo-o com pele de ovelha,
isto é, distorcendo as vivências.
Rogers (1983), ainda, afirma sobre o desenvolvimento do self que a maior parte das formas
de comportamento adotadas pelo organismo são coerentes com esse conceito. Numa
aventura do Barão de Munchhausen, citado por Rogers, lê-se:
Da superfície das águas erguiam-se imponentes “icebergs” e blocos de gelo com
intenso brilho prateado. Sobre um deles avistei dois enormes ursos. Tive a impressão
de que brigavam. Decidi, então, pôr fim ao desentendimento das feras, e conseguir
duas valiosas peles. Armado de espingarda e faca, dirigi-me para a montanha de gelo.
Muitas vezes, pensei em desistir da empresa, apavorado com os medonhos
precipícios que via abrirem-se a meus pés. sentir-me-ia, porém, profundamente ferido
em meu amor-próprio, se meus amigos, que me observavam da ponte do navio,
percebessem o medo que cada passo me fazia estremecer. E continuei, fazendo das
tripas coração... (p. 111).



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O Barão se tinha por valente e estava convicto que os demais (os companheiros e o capitão
do navio, do qual saltara), tinham dele a mesma ideia. Foi esse autoconceito que o levou a
se portar corajosamente. Quem se julga bom aluno, terá dificuldade em comportar-se de
outra maneira. Quem se tiver por muito pontual, fará todo o possível a fim de não
desmerecer esta fama.
Existem comportamentos – por exemplo, a necessidade de dormir, como que neutras em
relação com o conceito de self. A mulher, porém, com o autoconceito de ser mãe dedicada, e
convicta de que a mãe dedicada não irá dormir sem todos os filhos estarem em casa,
embora exausta, não se deitará enquanto um deles se encontra fora. A necessidade de se
comportar de acordo com o self é mais forte que a necessidade física de descansar.



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UNIDADE 13
Objetivo: Descrever proposições criadas por Carls Rogers sobre a dinâmica das relações
humanas.
ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: PROPOSIÇÕES

Rogers (1983) descreve outras proposições que orientam o entendimento do comportamento
humano. Veja:
1) O comportamento pode ser provocado, em alguns casos, por experiências e
necessidades não simbolizadas. Esse comportamento pode estar em desacordo com a
estrutura do self; em tais casos, porém, o comportamento não é sentido como ‘propriedade”
do indivíduo. Parece que Rogers reconhece dois sistemas reguladores do comportamento: o
self e o organismo. Esses dois sistemas podem, ou trabalhar conjuntamente, em harmonia e
cooperação, ou opor-se um ao outro. Quando se opõem, resultará estado de tensão e
desajustamento se trabalham conjuntamente, a consequência é o ajustamento.
2. Existe desajustamento quando o organismo nega reconhecer experiências
significativas que, consequentemente, não são simbolizadas nem organizadas na
Gestalt da estrutura do self. Neste caso, uma tensão psicológica básica ou potencial. O
caso dos comportamentos que escapam ao controle do eu denotam uma discrepância entre
a experiência do organismo e o conceito do self: Organismo e self solicitam o indivíduo em
direções diferentes:



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O organismo exige a satisfação de alguma necessidade da qual o self não tem, não pode ou
não quer ter conhecimento: “O controle consciente se torna mais difícil quando o organismo
tende a satisfações não aceitas conscientemente... Então, sobrevém uma tensão. Se o
indivíduo chega a ter algum grau de consciência dessa tensão ou discrepância, sentirá
ansiedade” (ROGERS, 1983, p. 511).

3. Existe ajustamento psicológico quando o conceito do self é tal que todas as
experiências significativas do organismo são ou podem ser simbolizadas numa
relação coerente com o conceito do self. Nesta proposição, descreve Rogers a situação
de harmonia entre o organismo e o self:” Quando ocorre este tipo de integração, então pode
a tendência ao crescimento expandir-se ao máximo, e o indivíduo se move na direção normal
própria da vida orgânica” (1983, p. 514.)
Assim (o exemplo é de Rogers), a pessoa que percebe e aceita as próprias necessidades
sexuais, e também percebe como parte de sua realidade o valor moral do dado à repressão
desses desejos, aceitará e assimilará todas as sensações do organismo nesta área. Mas,
isto é somente possível quando seu conceito neste setor é suficientemente amplo a fim de
nele incluir seus desejos sexuais e o desejo de viver em harmonia com a moral aceita no
ambiente.

4. Qualquer experiência incoerente com a estrutura do self pode ser percebida como
ameaça e quanto maior o número dessas percepções tanto mais rijamente se organiza
a estrutura do self a fim de se manter. Se um rapaz se julga filho amante e modelar, terá
dificuldade em aceitar o fato de experimentar sentimento de raiva ou rivalidade com relação
ao pai. Tentará explicar de todas as formas não se tratar de sentimentos negativos.
Procurará distorcer a significação de fatos evidentes para os não envolvidos na situação ou
para quem tiver estrutura mais flexível do self.



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Há oito itens o mecanismo fundamental ameaça-defesa: 1) Experiências percebidas como
incongruentes com a estrutura do self geram ameaça. 2) Ansiedade é a resposta afetiva à
ameaça. 3) Levado pela ação da ansiedade, procura o self organizar a defesa contra a
ameaça. 4) A defesa (negação ou distorção da experiência) procura reduzir a incongruência
entre a experiência e a estrutura do self. 5) A reação defensiva consegue reduzir a
consciência da ameaça, mas não a ameaça em si mesma. 6) O comportamento aumenta a
sensibilidade à ameaça. 7) Ameaça e defesa tendem a repetir-se em cadeia, ampliando-se o
campo dos fatos distorcidos. 8) Essa cadeia defensiva não pode alastrar-se indefinidamente:
é limitada pela necessidade de aceitar a realidade.

5. Em certas condições, se houver completa ausência de ameaça à estrutura do self,
experiências incoerentes com esta estrutura podem ser percebidas e examinadas, e a
estrutura do self revisada ou corrigida a fim de incluir tais experiências. Ao notar que
suas experiências verbalizadas são aceitas como realidades acontecidas – sem
condenações ou desaprovações, caso forem negativas ou simplesmente não do agrado do
interlocutor – o indivíduo sente-se livre para adentrar na exploração das vivências. Desta
forma, estende-se o conceito do self, integrando novos elementos.

6. Quando o indivíduo percebe e aceita num sistema consistente e integrado todas as
experiências, será necessariamente mais compreensivo para com os outros e os
aceitará melhor como indivíduos separados, diferentes. Esta proposição constitui
descoberta inesperada da terapia centrada no cliente. Qual a razão dessa atitude
compreensiva com os outros? A ausência de ameaça, conseguintemente, a eliminação de
defesa. O indivíduo é seguro de si (ROGERS, 1983), habitualmente capaz de auscultar o
organismo e captar e reconhecer o que realmente nele ocorre.



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7. À medida que a pessoa percebe e aceita em sua autoestrutura mais experiências,
verifica estar substituindo seu sistema atual de valores por um contínuo processo
organísmico de avaliação. Indivíduo aberto à realidade, terá um self constituído de duas
fontes de experiências:
– Experiências introjetadas devido à influência social: pais, parentes, amigos,
convenções sociais...
–Experiências vividas diretamente.
O valor das primeiras deverá ser testado à luz da evidência pessoal: “Evitar a mentira è
experimentado por mim como elemento capaz de enaltecer meu self? ”Contribui o trabalho,
de fato, para meu crescimento? Tem a prática da religião, realmente, validade para mim?”:
Segundo o autor: “Os maiores valores para o enriquecimento do indivíduo aparecem quando
a todas as experiências e atitudes é permitida simbolização, e quando o comportamento vem
a ser a significativa e equilibrada satisfação de todas as necessidades, necessidades essas
acessíveis à consciência” (ROGERS, 1983, p. 524.)

8. À medida que se desenvolve a noção do self, desenvolve-se, igualmente, o que se
denomina de necessidade de consideração positiva. Em termos mais simples: todos
sentem a necessidade de serem apreciados pelos outros, sobretudo por certas pessoas
julgadas importantes. Pode mesmo ocorrer que tais “pessoas-critério” de tornem força diretriz
mais forte que o processo de avaliação organísmica (ROGERS, 1983, p. 220).

9. Necessidade de autoestima ou consideração positiva de si. Paralelamente à
necessidade de estima social, desenvolve-se a necessidade de autoestima ou “consideração
positiva de si”, “independentemente da consideração positiva que outras pessoas lhe
dispensam ou poderiam dispensar” (ROGERS, 1983, p. 195.)



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10. Necessidade de Atitude de valor pessoal. A exigência de estima social e autoestima
desenvolve uma atitude de valor pessoal. Assim, a consciência de ter algum valor ajuda a
reforçar o desejo de autoestima e a possibilidade de alcançar estima social (EVANS, 1979).
Rogers termina o último capítulo de um de seus livros fundamentais, dizendo que sua teoria
é:

Basicamente de caráter fenomenológico, dependendo muito do conceito do self como
elemento explicativo. Apresenta o ponto final do desenvolvimento como congruência
entre o campo fenomenal da experiência e a estrutura conceptual do self. Se esta
situação chegasse a realizar-se completamente, representaria estado livre não só de
tensão interna e de ansiedade,como de tensão potencial. Isto significaria o grau
máximo de adaptação orientada realisticamente; significaria a formação de um
sistema de valores tendo considerável identidade como o sistema de qualquer outra
pessoa bem ajustada (1983, p. 532).




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UNIDADE 14
Objetivo: Demonstrar os procedimentos terapêuticos, segundo a abordagem centrada na
pessoa, para o trabalho com grupos.
ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA: TRABALHO COM GRUPOS

Em seu livro Terapia Centrada no Paciente, Carl Rogers (1983) apresenta um texto de
Nicholas Hobbs, sobre o desenvolvimento desta abordagem em grupos. Cita que a terapia
de grupo é semelhante à terapia individual em alguns aspectos importantes. Sob outros,
entretanto, mostra que é nitidamente diferente. As semelhanças surgem do objetivo comum e
de uma mesma concepção da natureza da personalidade humana e das suas alterações. As
diferenças são provocadas por um fato importante: na terapia individual estão implicadas
unicamente duas pessoas, ao passo que na terapia de grupo entram em interação cinco, seis
ou sete pessoas no processo terapêutico. Esta multiplicação do número dos participantes
significa muito mais do que uma simples extensão da terapia individual a várias pessoas ao
mesmo tempo; suscita uma experiência qualitativa diferente com potencialidades
terapêuticas específicas.
Embora a análise que se segue torne bem patente o parentesco essencial entre a terapia
centrada no paciente e a terapia centrada no grupo, é importante perceber o caráter peculiar
da terapia de grupo, não meramente em linhas gerais, mas em aspectos concretos que
possam dar ao leitor uma compreensão profunda desse processo, com citações das sessões
terapêuticas e de diários sobre a terapia que lhe permitam provar o sabor da experiência. Os
resultados da investigação seguindo a tradição estabelecida no desenvolvimento da terapia
centrada no paciente. Fornecerão os fundamentos das generalizações. Não será utilizado o
argumento da maior economia da terapia de grupo, embora se trate de um aspecto a


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salientar, quando são tão urgentes as necessidades de ajuda psicológica e tão longas as
listas de espera das clínicas.
Mencionar-se-á, apenas de passagem, a possibilidade da terapia de grupo poder ser
realmente, para algumas pessoas, mais eficaz do que a terapia individual, pois neste ponto
não se dispõe de conclusões de investigação, embora, no domínio menos atendido da
terapia para as pessoas normais com conflitos de situação que as debilitam, a terapia de
grupo mostre ser mais vantajosa do que a terapia individual. Tem-se uma resposta muito
pouco definitiva a algumas questões. Em relação a outras, já se dispõe de suficientes
observações e investigações para dar uma resposta segura. Sem dúvida que as opiniões
aqui apresentadas necessitarão de ser modificadas com observações posteriores. Há muitas
lacunas e muitas questões sem resposta. Mas, mesmo nesta base da evolução da terapia
centrada no grupo, aqueles que investigam as suas possibilidades e ponderam os seus
resultados acham-na válida e procuram conhecer melhor o processo.
Rogers trabalhou com grupos de constituição diversa e com objetivos diferentes. A maior
parte da experiência foi realizada com uma população escolhida — estudantes universitários
que se sentiam perturbados e incapazes de encontrar na vida as satisfações a que
aspiravam. Alguns deles sofriam de uma incapacidade temporária para enfrentar uma
situação (como a mulher cujo marido tinha morrido na guerra e que não fora capaz de
reestruturar a sua vida depois disso); outros tinham uma incapacidade mais grave (como o
homem que era incapaz de prosseguir os seus planos de vir a ser professor devido à intensa
ansiedade que sentia perante as pessoas). Todos partilhavam esta característica favorável:
sentiam agudamente a discrepância entre si próprios e as suas aspirações, e procuravam
ativamente uma ajuda. Complementarmente ao trabalho considerável com indivíduos
normais mas perturbados, lida-se com grupos formados por pessoas com um tipo específico
de problemas ou objetivos: antigos combatentes com o diagnóstico de “reação ansiosa”;
estudantes que procuravam libertar-se dos seus preconceitos raciais ou religiosos; mães
cujos filhos estavam a receber terapia pelo jogo individual; crianças infelizes cujos pais as
traziam à terapia, e crianças que não eram capazes de aprender a ler; rapazes de um bando
de Harlem que vieram à terapia a convite de um assistente social que tinha se tornado


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amigo; antigos combatentes com diversas escleroses que procuravam uma forma mais
cômoda de viver com a sua personalidade orgânica alterada; indivíduos seriamente
perturbados com dores de cabeça crônicos externos com o diagnóstico psiquiátrico de
esquizofrenia. No entanto, o nosso principal esforço fazia-se no sentido de ajudar o indivíduo
“médio”, que representa certamente mais do que um número “médio”. Um dos principais
objetivos foi descobrir as formas mais eficazes de trabalhar com o grande número de
pessoas, essencialmente normais, que achavam que a vida tinha perdido o gosto, que
lutavam em silêncio com os seus problemas, que pagavam um elevado preço suplementar
de energia para as suas atividades e que tinham um enorme potencial de resposta ao
tratamento. O estudo a seguir apresentado está marcado por grande interesse nessa ampla
gama de pessoa.


Identifique situações em que o trabalho de grupo pode ser utilizado.




Quais as principais contribuições da abordagem centrada na pessoa para o processo
terapêutico?




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UNIDADE 15
Objetivo: Apresentar a teoria analítica de Jung e o contexto em que foi criada.
TEORIA ANALÍTICA DE JUNG

A abordagem analítica do médico suíço Carl Gustav J ung (1875), surge a partir do seu
interesse pela problemática da doença mental. Inicialmente, seguia os trabalhos
psicanalíticos, mas mais tarde rompeu com Freud, passando a aprofundar nos estudos da
Arqueologia, Mitologia e Filosofia. Em suas Memórias J ung, conta que o tentavam os
estudos de História, Filosofia e Arqueologia. Porém, seus recursos só permitiam que
estudasse em Basiléia. Desta forma, acabou se decidindo por Medicina, pois pensava que
poderia se especializar, futuramente, em direções que melhor o satisfizessem.
Ao se formar decidiu-se pela Psiquiatria. Em 1900, ocupou o cargo de segundo assistente no
Hospital Psiquiátrico Burgholzli, em Zurique, em que trabalhou com Bleuler. Bleuler tentava
proporcionar à Psiquiatria uma base psicológica, não se contentando com a simples
descrição dos sintomas das doenças mentais. Recorria-se, na época, à teoria do
associacionismo, que explica a vida psíquica por combinação de elementos mentais segundo
leis de contiguidade, semelhança, etc.
Nestas experiências de associação, o experimentador preparava uma lista de palavras
isoladas (palavras indutoras) e solicitava ao sujeito que respondesse a cada uma com uma
única palavra, a primeira que lhe ocorresse (palavra induzida), medindo-se o tempo de
reação decorrido entre a palavra indutora e a induzida.
Ao fazer essas experiências, J ung começou a se interessar pelos vários incidentes que
ocorriam; tempos de reação muito longos a palavras, reações do sujeito tais como rir, corar,
responder com uma frase. A partir destas observações, levantou a hipótese de que as


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palavras que despertam essas reações deveriam estar atingindo algum conteúdo emocional
da pessoa, ou áreas de bloqueio afetivo, sem que o sujeito tivesse consciência do que se
passava, ou qual o conteúdo que havia sido despertado. J ung viu que suas descobertas
estavam em concordância com as de Freud sobre o inconsciente e os mecanismos de
repressão. Foi a partir disso que se aproximou da Psicanálise.
Em 1906, J ung publica o Estado sobre Associações, que envia a Freud, marcando o início de
uma correspondência entre os dois. Em 1907, J ung entra em contato pessoal com Freud,
visitando-o em Viena. Deste contato nasceu uma estreita colaboração, que durou de 1907 a
1912. Freud via em J ung um sucessor, alguém que poderia continuar a sua obra. E, J ung via
Freud como um pai espiritual, ou um mestre. Por isso, conta em suas memórias que, apesar
das reservas que fazia à teoria sexual de Freud, e de sentir que a formação e as “atitudes
mentais” de ambos eram muito diferentes, não se animava a expor seus pensamentos e
confrontá-los diretamente com ele.
Em 1909, por ocasião do 20º aniversário da Clark University, ambos foram convidados para
dar conferências e viajaram juntos para os EUA. Durante essa viagem, J ung teve um sonho
que foi particularmente importante para o desenvolvimento posterior de sua teoria e para o
rompimento com Freud. O sonho era o seguinte: Encontrava-se em uma casa de dois
andares, que era a sua casa. Inicialmente, está no 2º andar, decorado com quadros e móveis
do século XVIII. Descendo as escadas, chega ao andar térreo, cuja atmosfera é medieval,
datando do século XV ou XVI. Ao explorá-lo, encontra uma porta e, ao abri-la, encontra uma
escada que conduz à adega. Ali encontra uma sala antiga, com teto em abóbada e piso de
pedra, remontando à época romana. No chão, encontra uma argola de ferro; puxando-a,
desloca uma pedra, sob a qual encontra outra escada. Descendo, vai dar a uma gruta, em
cujo solo encontra restos de cerâmica, ossos espalhados e dois crânios humanos.
J ung interpretou esse sonho como um diagrama estrutural da psique. O segundo andar
representaria sua situação consciente, sendo que o mobiliário condizia bem com a sua
formação cultural, ligada aos autores do século XVIII e início do século XIX. Os andares
inferiores indicavam épocas anteriores e níveis de consciência ultrapassados. Quanto mais


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descia, mais se aprofundava em mundos antigos, até chegar a uma espécie de caverna pré-
histórica, isto é, o mundo do homem primitivo que existia nele, e que não podia ser atingido
pela consciência. Por causa deste sonho, pensou pela primeira vez na existência de um a
priori coletivo da psique pessoal. Desenvolveu e consolidou esta ideia, mais tarde, na teoria
dos arquétipos.
Este sonho também despertou seu antigo interesse pela Arqueologia, pela Mitologia e pela
Filosofia. De volta a Zurique, dedicou-se a estudar um amplo material mitológico e gnóstico.
Queria investigar os símbolos que os homens vêm usando com objetivos religiosos ou
mágicos. Quando fazia este trabalho, deparou-se com um estudo de caso publicado por
Floyrnoy, que trazia a descrição de fantasias de uma jovem americana. Miss Miller. J ung
impressionou-se com o caráter mitológico dessas fantasias. Tomou, então, este material e
utilizando-se de paralelos mitológicos, elaborou temas significantes. Deste trabalho, nasceu
seu livro Metamorfoses e Símbolos da Libido, publicado em 1912. Este livro marcou a sua
ruptura com Freud, que já se esboçava.
A partir desse momento, começa para J ung uma fase difícil. Ao romper com Freud e com o
movimento psicanalítico, encontra-se, em certo sentido, órfão, tendo que se decidir a seguir
sozinho seu próprio caminho. Neste processo, surgiram lembranças de sua infância,
acompanhadas de certa emoção. Decide seguir essas lembranças, atualizá-las. Depois de
vencer grandes resistências, começa a colecionar pedras e a brincar com elas, como quando
criança. Neste processo de confronto com o inconsciente, a atitude de manter a consciência
sempre vigilante, firmemente enraizada na realidade externa, no seu trabalho e na família,
deu a J ung o apoio necessário para deixar os conteúdos inconscientes emergirem. J ung
afirma: “Todos os meus trabalhos, tudo o que criei no plano do espírito provém das fantasias
e dos sonhos iniciais. Isso começou em 1912, há cerca de cinquenta anos. Tudo o que fiz
posteriormente em minha vida está contido nestas fantasias preliminares, ainda que sob a
forma de emoções ou de imagens” (1981, p. 170).
J ung, então, começava a tomar uma posição objetiva com relação às suas imagens e refletir
sobre elas. O primeiro problema que se propunha era: “O que fazer com o inconsciente?” Em


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resposta, nasceram vários ensaios e conferências, dos quais se destaca “A Estrutura do
Inconsciente”, publicado em 1916. Paralelamente, dedica-se aos trabalhos preparatórios do
seu livro: Tipos Psicológicos (1920). À medida que J ung vai se aprofundando em suas
vivências interiores e tenta compreendê-las, começa a buscar premissas, raízes históricas
deste processo, analogias em outras épocas e outras culturas.
Ao aprofundar seu estudo dos antigos filósofos alquimistas, começa a encontrar cada vez
mais analogia entre as suas percepções e aquelas imagens. Foi uma investigação lenta e
árdua, que o ocupou por mais de dez anos, da qual surgiu o trabalho Psicologia e Alquimia,
publicado em 1944. Em suas pesquisas sobre alquimia, J ung já encontrara uma base e um
paralelo para suas ideias sobre o processo de desenvolvimento e transformação da
personalidade. Prosseguindo seus estudos, procurou encontrar também uma
correspondência ao processo que ocorria especificamente durante a psicoterapia. Este
processo centra-se no problema da transferência. Na alquimia, J ung encontra uma analogia
na representação do conjunctio (união) e desenvolveu-a no livro A Psicologia da
Transferência (1946).
J ung permaneceu ativo até quase a sua morte, escrevendo ainda sobre os acontecimentos
contemporâneos. Seu último livro é a autobiografia, onde se percebe com clareza como sua
vida e sua obra são inseparáveis. Em 1961, J ung adoeceu, e morreu em 6 de junho, quando
estava com quase 86 anos, legando-nos uma obra vastíssima, que abrange 18 volumes na
edição inglesa.



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UNIDADE 16
Objetivo: Descrever os principais conceitos desenvolvidos sobre o funcionamento da
personalidade para Jung.
TEORIA ANALÍTICA: PRINCIPAIS CONCEITOS

J ung (1981, 1987, 1989) concebia a personalidade como sinônimo da dimensão psíquica do
ser humano, em sua totalidade. Para ele, a Psicologia é uma ciência que tem como objeto a
psique, a totalidade da estrutura anímica do ser humano englobando, portanto, tanto
fenômenos conscientes quanto inconscientes.
Um dos pontos fundamentais de sua obra, e que o levou a novo enfoque na Psicologia, foi a
noção de que, assim como os conteúdos conscientes podem mergulhar no inconsciente, há
conteúdos novos, que jamais foram conscientes, que podem surgir do inconsciente. Assim,
J ung formulou a ideia de que o inconsciente não é mero depositário de experiências
passadas, desejos ou instintos reprimidos. Também é criativo, no sentido de que pode conter
as sementes de futuras situações psíquicas e ideias novas. Para J ung, o inconsciente é uma
parte tão vital e tão real da vida de uma pessoa quanto a consciência e o mundo do Ego.
Ao se ocupar dos processos inconscientes, J ung (1989) percebeu que o inconsciente se
transforma e provoca transformações. Esta transformação não é aleatória. A despeito das
diferenças individuais, segue uma determinada direção que, aos poucos, foi se tornando
clara para ele. Esta transformação, este desenvolvimento psíquico, é um crescimento em
direção ao “si-mesmo” (self), que J ung define como a expressão da totalidade psíquica
(consciente e inconsciente). É, ao mesmo tempo, o centro desta, assim como o Ego é o
centro da consciência. Este processo de desenvolvimento e totalização da personalidade foi
chamado por J ung de “processo de individuação”.


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O homem, porém, possui a consciência e, através dela, é capaz de participar ativamente de
seu desenvolvimento. Deste modo, a partir do confronto e do relacionamento entre
consciente e inconsciente, vai surgindo um novo amadurecimento e uma síntese cada vez
maior.
J ung cria também o conceito de libido energética. Um dos pontos fundamentais de
discordância entre a Psicologia analítica e a Psicanálise está na definição de libido. Para ele,
a libido equivale à energia psíquica, entendida de modo amplo, e não com significação
eminentemente sexual, como para Freud. Temos numerosos impulsos: de conquista,
agressivos, eróticos, fome, etc. Todos são motivados por um tipo de manifestação de
energia, e o significado específico da sexualidade se dissiparia, se todos esses diferentes
impulsos e comportamentos fossem incluídos em sua definição.
A energia é a quantidade, ou carga, que pode manifestar-se através da sexualidade ou de
qualquer outro instinto. A libido é compreendida, então, como a intensidade do processo
psíquico, o valor energético que se manifesta em qualquer área, como na da fome, do poder,
do ódio, da sexualidade, da religião, etc., sem que se restrinja a uma pulsão específica. J ung
concebe o psiquismo como um sistema energético fechado, possuidor de um potencial que
permanece o mesmo durante toda a vida do indivíduo. Isto advém do fato de considerar
“psique” como a totalidade da estrutura psicológica do ser humano, a “área” onde se dão os
fenômenos psíquicos, como que representando um espaço interno. A energia deste espaço é
a libido, que é então a energia dos processos vitais.
Quando a energia se dirige para a consciência e dali investe sobre objetos externos, este
movimento é chamado de progressão. Ao contrário, quando a libido se afasta dos objetos
externos e vivifica conteúdos inconscientes, isto é chamado de regressão. Para J ung, a
psique está em constante dinamismo, em constante movimento. Tanto o movimento de
progressão, quanto o de regressão são movimentos normais, que ocorrem continuamente.
Somente em casos em que há uma fixação ou estagnação da libido é que se tem uma
condição patológica.


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Todas as manifestações vitais são compreendidas como consequência do entrechoque de
forças antagônicas, em contínua tensão dinâmica. Desta tensão é que surge a energia para
as atividades humanas. Em inúmeros sistemas filosóficos e religiosos, encontra-se a mesma
noção do princípio de opostos (Yang e Yin, dia e noite, calor e frio, etc.). Os conflitos vividos
originam-se da colisão de suas pulsões, portanto (por exemplo, entre um dever e um desejo).
Muitas vezes, um dos pólos do conflito é inconsciente, e só se pode verificar indiretamente a
sua carga energética, ou seja, a sua intensidade. Quanto maior é a tensão entre os pares de
opostos, maior a energia liberada. Sem oposição, não há manifestações energéticas. Os
contrários têm também uma função reguladora, expressa no fato de que tudo que é levado a
um extremo tende a transformar-se no seu contrário.
O movimento de progressão surge da necessidade vital de adaptação ao meio. Se, por
alguma dificuldade da existência, este movimento em direção aos objetos externos fica
bloqueado ou impedido, a libido se detém. Como consequência reativará conteúdos do
mundo interno. Estes tanto podem ser os conteúdos reprimidos, pulsões sexuais infantis,
atitudes ou desejos incompatíveis com a atitude moral consciente, quanto conteúdos
inconscientes que nunca haviam sido “energetizados” o suficiente para emergir. Estes
conteúdos se apresentam à consciência sob forma de símbolos, que são a “linguagem” do
inconsciente (J UNG, 1989)
É importante notar que, para J ung, a linguagem simbólica do inconsciente não é o resultado
do conflito entre o desejo e a repressão, como para Freud, ou, a “grosso modo”, uma
representação disfarçada do desejo, mas sim a melhor representação possível do
inconsciente que se torna disponível para a consciência. Os símbolos são multideterminados
e contêm inúmeros significados, possuindo, portanto, a capacidade de estimular a
consciência e desenvolver novos significados a partir deles.



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UNIDADE 17
Objetivo: Descrever a estrutura psíquica proposta pela teoria analítia de Jung.
TEORIA ANALÍTICA: ESTRUTURA PSÍQUICA

A partir da descoberta, no decorrer dos experimentos de associação, de que existem
fenômenos inconscientes que podem interferir no consciente, J ung foi aos poucos
aprofundando seus conhecimentos sobre a psique humana e sobre as relações entre o
consciente e o inconsciente. Para ele, então, a psique compreende tanto o campo da
consciência quanto o inconsciente. No campo da consciência, tem-se o Ego como centro,
sendo que este é o sujeito de todos os atos pessoais da consciência. Qualquer conteúdo
psíquico consciente deve estar em relação com o Ego. Esta conexão é o próprio critério da
consciência, pois para que um conteúdo seja conhecido ele deve ser representado para um
sujeito. Desta forma, o Ego não é equivalente ao campo da consciência, mas antes é o seu
ponto de referência.
O inconsciente é definido por J ung, portanto, pela falta de um atributo, pela falta de
consciência. Na medida em que o limite da consciência é o desconhecido, tudo aquilo que
não conhecemos, portanto não relacionado com o Ego, chama-se de inconsciente. O Ego,
apesar de consciente por excelência, é complexo. É adquirido, empiricamente falando,
durante a vida do indivíduo e se estrutura a partir do inconsciente, diferenciando-se e sempre
se modificando no decorrer da vida; jamais é um produto acabado.
Uma criança viria ao mundo num estado em que não existe Ego. A partir da colisão com o
ambiente e seus estímulos endosomáticos (perceptíveis ou subliminares), forma-se aos
poucos o “sujeito”. Uma vez estabelecido como sujeito, continua a se desenvolver a partir de
colisões subsequentes com o mundo externo e o mundo interno (J UNG, 1989).


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Dentro do campo da consciência, o Ego possui o que se chama de vontade livre, não de um
ponto de vista filosófico, mas antes psicológico, do sentimento subjetivo de liberdade e livre
escolha. Mas assim como a liberdade se confronta com as exigências do mundo externo,
também é limitada pelos eventos do mundo interno subjetivo. Da mesma forma que os
eventos externos nos “acontecem”, também o inconsciente age sobre o Ego como uma
ocorrência objetiva, diante da qual a vontade pode fazer muito pouco. Podem ser citados
como exemplo: os sonhos, fantasias, ideias, sentimentos, ou mesmo lapsos verbais e
sintomas.
Como um fator consciente, o Ego poderia ser descrito de forma exaustiva, pelo menos em
teoria. Porém, isto daria um quadro apenas incompleto da personalidade consciente, pois
todas as características desconhecidas ou inconscientes para o sujeito estariam faltando.
Assim, a personalidade como um fenômeno total não coincide com o Ego, ou com a
personalidade consciente. É uma entidade que tem de ser distinguida destes. A esta
personalidade total J ung chamou de self, ou si-mesmo.
O estudo e a descrição do self é intrinsecamente limitado. Por um lado, não é possível fazer
uma descrição geral do Ego; apenas uma descrição formal, já que uma de suas principais
características é a individualização. Isto significa que o resultado da combinação dos
diversos elementos que compõem o Ego é sempre algo individual e único, comportando
diferentes graus de clareza, colorido emocional, etc. Por outro lado, uma descrição do
inconsciente é impossível, uma vez que este é, por definição, inconsciente. Somente se tem
acesso aos conteúdos inconscientes de maneira indireta, através das suas manifestações e
representações à consciência. Por isto, muitas das conceituações acerca dos fenômenos
inconscientes partiram da observação clínica de pessoas neuróticas ou psicóticas. Nestes
distúrbios, o inconsciente se manifesta de forma mais direta e autônoma, fugindo ao controle
da consciência, apresentando-se, muitas vezes, de forma incompreensível a nossos olhos
(J UNG, 1989, 1987).
Como o Ego é o centro da consciência, é o sujeito de todas as adaptações do indivíduo ao
meio. Sendo seu papel tão importante, não é de se estranhar que por muito tempo fosse


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considerado o centro da personalidade, e a personalidade consciente a única existente. Por
isto, as alterações patológicas da vida mental eram vistas como algo inteiramente estranho à
personalidade normal.
A partir do final do século XIX, com o desenvolvimento da Psicologia, ficou provado
empiricamente a existência de uma psique fora da consciência. Com esta descoberta, a
posição do Ego tornou-se relativizada. Vale dizer, embora seja o centro da consciência, é
questionável se realmente é o centro da personalidade total. Para J ung (1989), o Ego, sendo
apenas uma parte do self (todo), é subordinado a este por definição. Do ponto de vista da
psicologia da consciência, o inconsciente pode se dividir em três grupos de conteúdos:
1. Conteúdos inconscientes, mas facilmente acessíveis à consciência. Por um
esforço de vontade, podemos nos lembrar de coisas, ou trazer à consciência conteúdos que
antes não estavam nos ocupando. Corresponde ao pré-consciente de Freud.
2. Conteúdos inconscientes não acessíveis voluntariamente. A existência deste
grupo é inferida a partir das irrupções espontâneas do inconsciente (por exemplo, em
sonhos, lapsos ou sintomas).
3. Conteúdos inconscientes que não são capazes de se tornarem conscientes.
Este é um grupo hipotético, estabelecido a partir da existência do segundo.

Do ponto de vista da Psicologia da Personalidade Total (self), porém, J ung estabelece uma
outra divisão:
1. Uma psique extraconsciente cujos conteúdos são pessoais.
2. Uma psique extraconsciente cujos conteúdos são impessoais e coletivos.

Este segundo grupo seria um substrato da psique, uma hipótese, segundo J ung, “baseada
nos dados empíricos e na alta probabilidade de que a similaridade geral dos processos


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psíquicos, em todos os indivíduos, deve ser baseada em um princípio igualmente geral e
impessoal, assim como o instinto que se manifesta no indivíduo é apenas uma manifestação
parcial de um substrato instintivo, comum a todos os homens” (J UNG, 1981).




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UNIDADE 18
TEORIA ANALÍTICA: O INCONSCIENTE PESSOAL E INCONSCIENTE COLETIVO

Objetivo: descrever o conceito e o funcionamento do inconsciente pessoal e do inconsciente
coletivo na teoria analítica de Jung.

O inconsciente pessoal compreende as percepções e sentimentos subliminares, traços de
acontecimentos passados perdidos pela memória consciente e todo material que não atinge
a consciência, por não possuir suficiente energia ou não estar devidamente diferenciado. A
maior parte dos conteúdos do inconsciente pessoal, porém, são os conteúdos rejeitados pela
consciência, ao longo da vida pessoal de cada um. É todo um conjunto de material mental e
afetivo que, por ser incompatível com as intenções, ideais, ou sentimentos morais
conscientes, são impedidos de se conscientizarem e tornam-se, consequentemente,
separados do Ego. Este impedimento da consciência se dá através dos mecanismos de
defesa, dos quais a repressão é um exemplo.
Estes conteúdos inconscientes formam então os complexos, que J ung começou a estudar a
partir dos experimentos de associação verbal. A noção de inconsciente pessoal de J ung
corresponde aproximadamente ao conceito do inconsciente de Freud, sendo que a
importante contribuição de J ung neste campo foi com relação à autonomia dos complexos, e
sua tendência a personalizarem-se, formando verdadeiras “psiques parceladas”. Sua
descrição é, em linhas gerais, a seguinte: Os complexos originar-se-iam de um conflito,
principalmente dos vivenciados na infância, embora também possam se originar de conflitos
ou traumas posteriores. Em virtude desse conflito, um determinado conteúdo, carregado de
intensa carga afetiva, separa-se da consciência e do Ego, permanecendo no inconsciente;
estabelece numerosas relações secundárias com elementos afins, formando um todo
relativamente coeso, uma verdadeira “entidade psíquica”, como J ung (1989) o chamava.


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Estas entidades possuem marcada autonomia. Aparecem e desaparecem
independentemente da vontade do Ego, podendo irromper na estrutura da consciência.
Neste momento, há uma diminuição da intensidade da consciência, e a pessoa pode se
tornar desatenta, distraída, sem poder explicar o que se passa. Os primeiros referem-se a
isto dizendo que uma alma os deixou, o que realmente exprime o fato de uma parcela da
energia consciente ter se transferido para o complexo inconsciente.
Este complexo, então, pode causar perturbações verbais, estados de excitação, fantasia,
transtornos somáticos, etc. Momentaneamente, existe uma assimilação do eu ao complexo,
isto é, uma modificação inconsciente do Ego, que se identifica com o complexo. Esta noção é
a mesma da possessão, conhecida na Idade Média; há apenas uma diferença de grau. Na
verdade, não somos nós que temos o complexo, este é que nos tem. Na linguagem comum,
temos várias expressões que exemplificam este fenômeno. Quando alguém se encontra
afetado ou dominado por uma emoção, dizemos: “que bicho te mordeu?” ou “parece que está
com o diabo no corpo”, ou “algo lhe subiu à cabeça”.
Os complexos, então, do ponto de vista do Ego, tendem a ser percebidos como uma
entidade alheia, que se apodera de nós, razão pela qual J ung fazia uma analogia com os
gnomos e duendes do folclore (o saci, no Brasil), diabretes que fazem “travessuras” em
nossa casa (quer dizer, em nossa consciência habitual). Quanto maior a autonomia de um
complexo, maior a sua tendência para se personificar como uma entidade separada. É o
caso de algumas psicoses, em que os complexos “falam alto”, e o doente os ouve como
vozes de personalidades estranhas.
A maior ou menor autonomia de um complexo depende de sua conexão com a totalidade da
vida psíquica, isto é, é a própria inconsciência do complexo que lhe confere a sua autonomia.
Apesar de J ung ter iniciado suas descobertas dos complexos no campo da Patologia, isto
não significa que a existência de um complexo seja sempre algo patológico. Um complexo
pode se tornar patológico, pois, ao dominar a consciência em maior grau, pode gerar a
dissociação neurótica da personalidade (ou, em casos extremos, a dissolução psicótica).
Porém, a existência de um complexo é encarada como um fenômeno natural da psique.


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Além do inconsciente pessoal J ung concebe um substrato inconsciente mais profundo, que é
comum a todos os seres humanos, denominado por ele inconsciente coletivo. Esta ideia é a
transposição, para o plano psíquico, da identidade anatômica e fisiológica existente entre os
homens, independente das diferenças raciais, culturais e individuais. “Assim, do mesmo
modo como possuímos a potencialidade de termos dois braços, duas pernas, um coração,
um fígado etc., também temos a potencialidade de nos desenvolvermos o suficiente para
cuidarmos de nós mesmos e de outros, de nos separarmos do mundo dos pais, de
escolhermos uma profissão, etc”. (FRIEDA, s. d.)
No nosso processo de crescimento, do mesmo modo que o homem tem padrões herdados
em termos de desenvolvimento físico, herda padrões de estruturação da personalidade, nas
diferentes fases da vida: a infância, a adolescência, relação conjugal e profissional, velhice,
preparação para a morte. Estes padrões foram chamados de arquétipos, os quais constituem
o inconsciente coletivo. Para explicar o que são os arquétipos, J ung utilizou a comparação
com os padrões herdados de comportamento nos animais.
Os arquétipos são propensões à formação de representações típicas de processos
inconscientes, que pode se comparar com os mitos. A Mitologia é, então, para J ung (1989),
“a expressão de uma série de imagens por meio das quais se formula a vida dos arquétipos”.
Assim, o arquétipo seria uma tendência a formar representações de um motivo, que podem
variar muito em detalhe sem perder seu modelo básico. Por exemplo, o motivo da hostilidade
entre irmãos: o motivo é sempre o mesmo, em diferentes culturas e épocas, embora as
representações variem muito. Por isto, da mesma forma que o biólogo necessita da ciência
da anatomia comparada, o psicólogo precisa de uma “anatomia comparada da psique”, para
chegar aos motivos comuns, e isto lhe é proporcionado pela Mitologia.
J ung chegou ao conceito do inconsciente coletivo e dos arquétipos a partir tanto da
observação clínica de seus pacientes quanto de suas vivências internas. Ele relatou que,
uma vez, deparou-se com um doente esquizofrênico paranóide, que o chamou para contar
que “se movesse” a cabeça de um lado para outro, o pênis do sol mover-se-ia também, e


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este movimento era a origem do vento”. Quatro anos mais tarde, J ung encontrou a seguinte
descrição de visões de adeptos de Mithra, em um manuscrito grego recém-descoberto.
Quando J ung utilizou as fantasias de uma jovem americana (caso relatado por Flournoy),
analisou-o a partir de paralelos mitológicos, análise esta que apontava já para certas
conclusões com relação à natureza coletiva do inconsciente. A partir daí, J ung separa-se
bastante da concepção de Freud, em que o inconsciente se constitui principalmente de
conteúdos rejeitados pela consciência. Em outras palavras, J ung começa a aceitar a
existência do inconsciente como um fato real, um fator autônomo, capaz de ação
independente” (EVANS, 1979b). Esta ideia é fundamental para a compreensão de como
atuam os arquétipos. O fato de considerar o inconsciente como fator independente da
consciência levou J ung a chamá-lo, em várias obras, de “psique objetiva”.
Além disto, a seu ver, o inconsciente tem uma função potencialmente construtiva. Isto porque
contém os arquétipos, que são os elementos necessários à autorregulação da psique.
É importante fazer a distinção teórica entre inconsciente pessoal e inconsciente coletivo, mas
isto não é tão fácil em suas manifestações. Em todo material inconsciente que surge na
consciência, sejam sonhos, fantasias, emoções, etc., há sempre algo de pessoal e algo de
arquetípico. Isto é assim porque a própria dimensão pessoal se desenvolve a partir da
dimensão coletiva, arquetípica. Assim, a relação de uma criança com sua mãe estará sempre
determinada pelo campo de ação do arquétipo materno, assim como pela realidade individual
e particular daquela criança com aquela mãe. Num complexo também, apesar de os termos
visto ligados ao inconsciente pessoal, sempre se pode vislumbrar um fundo arquetípico.
Evidentemente, há conteúdos inconscientes, sonhos por exemplo, que apresentam de modo
mais evidente o lado pessoal, específico, e os que tratam mais claramente de problemas
gerais da humanidade. J ung (1989) os distinguia, chamando os primeiros de “pequenos
sonhos” e os últimos de “grandes sonhos”. Mesmo na prática clínica, J ung fazia uma
distinção. Considerava que havia, normalmente, uma primeira fase da análise que girava
mais em torno dos problemas individuais e pessoais, reminiscências e fantasias infantis. Só


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depois disto ter se esgotado é que se entrava em contato com a “camada” do inconsciente
coletivo e dos problemas mais impessoais que afetam a humanidade como um todo.
Embora esta distinção exista, com a continuação da obra de J ung por seus sucessores,
principalmente com a elaboração de uma teoria de desenvolvimento arquetípica, isto é, com
o estudo de como os determinantes arquetípicos regem as diferentes fases de
desenvolvimento infantil, é possível começar a integrar melhor essas duas “camadas” do
inconsciente, sem considerá-las como duas coisas tão separadas.



Busque em suas experiências conteúdos que podem ser considerados como pertencentes ao
inconsciente pessoal.






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UNIDADE 19
Objetivo: Analisar a relação entre o consciente e o inconsciente na teoria analítica de Jung.
TEORIA ANALÍTICA: RELAÇÃO CONSCIENTE E INCONSCIENTE

Para J ung (1981, 1987, 1989), os dois sistemas dentro da psique, consciente e inconsciente,
são concebidos como agindo de modo compensatório, de maneira que a psique, como um
todo, se diz autorregulada. Quando esta regulação falha, o resultado é uma disfunção
patológica (neurose, psicose, desordem de caráter, etc.).
O inconsciente não é algo estático, ou imutável, está sempre em movimento; esta atividade
do inconsciente se coordena com a consciência numa relação compensadora. A relação é
compensadora e não de oposição porque, como já foi dito, consciente e inconsciente se
complementam mutuamente, para formar uma totalidade, o self ou si-mesmo. Porém, nesta
totalidade, não é só a função inconsciente que é compensadora e reativa com respeito à
consciência: a consciência também se encontra subordinada ao inconsciente. Os processos
inconscientes não constituem apenas um “espelhar reativo” dos processos conscientes, mas
uma atividade produtiva e autônoma, que é orientada para uma finalidade. Esta finalidade é o
desenvolvimento da personalidade total ou self.
Foi através do estudo dos sonhos e de sua interpretação que J ung melhor explicou as
funções do inconsciente e como se estabelecem as relações entre a consciência e o
inconsciente. Os sonhos são vistos por ele como uma manifestação de processos
inconscientes, do ponto de vista do inconsciente, ou seja, seriam uma autorrepresentação,
sob a forma simbólica, da situação do inconsciente. Assim, o sonho traz a representação de
alguns conteúdos inconscientes que se atualizam, cristalizam e selecionam (“constelam”,
termo usado por J ung) em correlação com o estado da consciência. “A função geral dos


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sonhos seria o tentar restabelecer o equilíbrio psicológico, produzindo material onírico que
restabeleça de forma sutil o total equilíbrio psíquico” (J UNG, 2006, p. 104)
Assim, sempre que a atitude consciente tornar-se demasiadamente unilateral ou exagerada,
surgem sonhos compensadores, indicando a função de autorregulação da psique. Em suas
obras, J ung cita vários exemplos de casos deste tipo. Um destes é o caso de um homem
extremamente arrogante, que criticava muito seu irmão. Porém, sonhava sempre com o
irmão nos papéis de Bismarck, Napoleão, J úlio César. Neste caso, o inconsciente
necessitava exaltar o irmão. Portanto, J ung pôde deduzir que o paciente estava se
superestimando e depreciando o irmão de modo exagerado. Além disto, como as figuras
usadas no sonho eram de heróis coletivos, concluiu que o paciente se superestimava não só
com relação ao irmão, mas com relação a todos, sendo isto depois confirmado.
Um outro exemplo ilustrativo é o de uma jovem que amava muito a mãe, mas que sonhava
sempre com a mãe como bruxa ou perseguidora. Na verdade, a mãe a mimava
exageradamente e por isso a filha não podia reconhecer conscientemente a influência nociva
disto. O sonho, ao mesmo tempo em que compensa a unilateralidade da consciência,
também pode advertir sobre os perigos desta atitude. Como exemplo, J ung relata o caso de
um homem que se encontrava envolvido com certos negócios obscuros. Como uma espécie
de compensação, desenvolveu uma paixão por escaladas perigosas de montanhas, como
que buscando “chegar mais acima de si mesmo”. Em um sonho, viu-se escalando uma
montanha, até chegar ao cume, ficando possuído de tal êxtase que continuou escalando no
ar. J ung conta que, ao ouvir o sonho, tratou de adverti-lo contra o perigo que corria, mas não
foi ouvido. Seis meses depois, este homem morreu, em um acidente, numa de suas
escaladas.
Sonhos deste tipo ilustram uma outra função do sonho, segundo J ung, chamada função
prospectiva. Isto não quer dizer que o inconsciente tenha capacidade de profetizar o futuro.
Mas pode acontecer que apareça, no inconsciente, uma antecipação da futura atividade
consciente. Na verdade, observando-se uma sequência de sonhos, pode-se prever a eclosão
de um transtorno psíquico, como uma psicose, ou mesmo prever doenças somáticas. O que


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acontece é que esses processos já vêm ocorrendo muito antes que se manifestem à
consciência, porém de modo subliminar, isto é, inconsciente. São impressões, sensações,
sentimentos, pensamentos subliminares que são apreendidos inconscientemente e se
manifestam no sonho.
Assim, para J ung, o sonho é algo bastante diferente da concepção da Psicanálise. Esta o vê
como uma realização disfarçada de um desejo. Mas para ele “um sonho é sempre a melhor
interpretação de si mesmo”. Para compreender os sonhos, em particular, e os conteúdos
inconscientes de modo geral, J ung parte sempre de dois pontos de vista, a sua causalidade
e a sua finalidade.
A abordagem causal visa descobrir as origens da manifestação inconsciente, o porquê, a
partir da análise de suas diferentes partes. No caso do sonho, a análise partirá dos seus
elementos constitutivos e, através da cadeia de associações que estes despertam, tenta
chegar até o complexo reprimido que lhe deu origem, no centro do qual estará o desejo. É
então, uma técnica essencialmente redutiva, que visa a atingir um ponto X, causa última do
sonho.
A abordagem finalista ou sintética, por outro lado, visa a descobrir o para que do sonho, a
sua finalidade. Esta abordagem pressupõe um ponto de vista teleológico, consequência da
hipótese de J ung de que o inconsciente contém uma função potencialmente construtiva,
devida ao fato de abranger os organizadores inatos do desenvolvimento psíquico, os
arquétipos. Esta hipótese é radicalmente diferente da posição psicanalítica mais tradicional,
em que o inconsciente se apresenta como um conjunto de pulsões mais ou menos
desordenadas (“o inconsciente só sabe desejar”). Por isto, é que a Psicanálise utiliza sempre
a via analítica de interpretação. A abordagem finalista ou prospectiva é a especial
contribuição de J ung para a compreensão dos fenômenos inconscientes.
No caso da interpretação de um sonho, o método sintético consistiria em explorar os
conteúdos do sonho em todas as direções possíveis, amplificando-os e enriquecendo-os,
não só a partir das associações do sonhador, mas utilizando paralelos mitológicos ou
analogias com motivos semelhantes encontrados em outras culturas, no folclore, etc. A partir


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do trabalho complementar das atitudes analíticas surge o sentido a expressão das forças do
inconsciente no exercício de suas funções autorreguladoras.
Para compreender melhor a atitude de J ung com relação aos sonhos e ao inconsciente, é
necessário esclarecer qual a sua atitude e sua concepção dos símbolos. “O símbolo, para
J ung, é sempre uma forma extremamente complexa, que contém tanto elementos
conscientes quanto inconscientes. Ou melhor, é através do símbolo que se faz a ligação do
inconsciente com a consciência. Embora possamos estabelecer conscientemente algumas
significações para um símbolo, nunca o poderemos apreender como um todo, pois sempre
restará algo de inconsciente” (FORDHAM, s. d.).
Na compreensão de um símbolo, sempre se deverá levar em conta sua dimensão pessoal e
coletiva. Um símbolo sempre contém uma determinada energia; quanto mais corresponder a
uma representação arquetípica, ou brotar das camadas mais profundas do inconsciente
coletivo, maior será a fascinação e a força que exercerá sobre a consciência, que geralmente
se apresenta sob a forma de um afeto. Por isso, a mera compreensão racional dos símbolos
não basta para sua integração à consciência. J ung vê nos símbolos uma ação mediadora,
uma tentativa de conciliação de opostos movida pela tendência inconsciente à individuação.
A partir do confronto do Ego consciente como os conteúdos inconscientes, traduzidos em
símbolos, deve ocorrer uma assimilação destes conteúdos. Nesta assimilação, que seria
melhor designada por integração, nem a consciência nem o inconsciente perdem sua
integridade. Neste processo de assimilação, a consciência se amplia e se modifica. De modo
paralelo, os processos inconscientes também se modificam. O que ocorre é uma verdadeira
transformação da personalidade, o processo de individuação.



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UNIDADE 20
TEORIA ANALÍTICA: PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO
Objetivo: Explorar como se dá o processo de individuação na teoria analítica de Jung.

Através do processo de individuação o homem torna-se o ser único que de fato é, realiza a
sua potencialidade. Em outras palavras, torna-se “si-mesmo”. É importante fazer a distinção
entre individuação e individualismo: tornar-se um indivíduo verdadeiro e completo não
significa tornar-se egoísta, preocupar-se apenas consigo mesmo e isolar-se dos problemas
coletivos. Esta confusão advém do fato de se identificar indivíduo com Ego; mas para J ung a
individuação supõe a relativização do Ego frente à dimensão maior da personalidade total
(REIS, 1984).
O individualismo enfatiza as peculiaridades individuais em oposição às considerações
coletivas. O conceito junguiano de individuação pressupõe, porém, a realização melhor e
mais completa das qualidades coletivas do ser humano. Na verdade, é a consideração
adequada, e não o esquecimento das peculiaridades individuais, o fator que leva ao melhor
rendimento social. Sem esta consideração, o homem torna-se massa, presa fácil de uma
coletividade indiferenciada. No outro extremo, tem-se o egoísmo.
Embora o processo de individuação seja algo único para cada pessoa, existem arquétipos
que se manifestam sempre, de uma forma ou de outra. A tarefa da consciência, como já foi
mencionado, será sempre a de confrontar estes símbolos, transformá-los e integrá-los.
Assim, não agirão mais de forma independente, originando complexos autônomos, mas
serão veículos de transformação da personalidade.


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No processo de individuação, na segunda metade da vida, tal como J ung (1989) o observou
e descreveu a partir da análise clínica de seus pacientes e de si mesmo, os principais
arquétipos são: a Persona, a Sombra, a Anima, o Animus, e o Self.
1) Persona: Toda sociedade organiza-se de forma tal que existem papéis determinados,
colocados à disposição dos indivíduos que dela participam. Estes papéis se definem, a partir
das funções que cada pessoa exerce no relacionamento com as outras pessoas. Por
exemplo, no âmbito das relações familiares, existem os papéis de mãe, de pai, de filho, etc.
Na verdade são concepções de como uma mãe, por exemplo, deve ser, de como deve se
comportar, do que deve fazer e, muitas vezes, até do que deve sentir, o mesmo ocorrendo
para os outros papéis. Também isso existe, de forma ainda mais clara, para os papéis do
âmbito profissional: existem ideias e concepções a respeito de como aquele profissional deve
ser, de como deve agir, de que modo deve se vestir, etc. Cada indivíduo, então, para se
adaptar ao mundo em que vive, assume os papéis disponíveis e que lhe cabem nas
diferentes situações em que se encontra. Tenta preenchê-los e corresponder ao que é
esperado dele.
No entanto, cada pessoa, como individualidade única, não pode adaptar-se completamente a
estas expectativas. Deste interjogo, entre a personalidade individual e a sociedade, com suas
expectativas coletivas, nasce a persona, que é como uma máscara que o indivíduo assume
para satisfazer a estas expectativas. Porém, as expectativas sociais coletivas são
introjetadas. Deste modo, a persona também é descrita como a imagem ideal do homem, tal
como ele quer ser. A persona é arquetípica, uma vez que existe em toda sociedade e se
estabelece em toda relação entre pessoas. É natural e adaptativo que o indivíduo construa
uma persona adequada. Porém, o papel que o indivíduo exerce e a sua identidade não
devem ser confundidos. Muitas vezes, o Ego se identifica com a persona, em maior ou
menor grau, sendo isto uma frequente fonte de neurose, pois nenhuma pessoa pode caber
inteiramente dentro dos moldes determinados pela consciência coletiva. Para que a pessoa
se desenvolva, é preciso que aprenda a se distinguir da persona, a fim de encontrar sua
identidade mais profunda.


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2) Sombra: Na medida em que o Ego se diferencia da persona, da imagem ideal que tem de
si mesmo e que tenta apresentar aos outros, começa a ter que se confrontar com seu lado
mais escuro, com todos os defeitos e impulsos que gostaria de negar em si mesmo. Este
lado foi chamado de “sombra”, por J ung, pois é justamente a contraparte do lado “iluminado”
da consciência. Compõe a sombra tudo que é considerado fraqueza, defeito, aspectos
imaturos e infantis, enfim, os complexos reprimidos. No entanto, também existem na sombra,
muitas vezes, características valiosas que não puderam se desenvolver ou alcançar a
consciência devido às circunstâncias da vida da pessoa.
A sombra corresponde ao inconsciente pessoal, como já foi descrito. Porém, fala-se também
em uma sombra coletiva, na medida em que, em toda sociedade, existem sempre
características humanas não desenvolvidas, negligenciadas ou reprimidas. Quais são e,
portanto, qual a natureza dos conteúdos sombrios de cada indivíduo, vai depender das
características da sociedade. Assim como conteúdos da sombra pessoal são frequentemente
projetados nos outros (vê-se os defeitos e problemas dos outros, mas não se vê que estes
são também os próprios), os conteúdos da sombra coletiva são projetados em bodes
expiatórios, “encarregados” de portar todos os defeitos e a culpa por tudo de mal que ocorre.
O confronto com a sombra, portanto, não é algo fácil. Sempre suscita problemas morais e
éticos de grande importância, tanto individuais quanto coletivos.
Anima ou Ani mus: Para J ung, estes são os arquétipos do feminino e do masculino. Pode-se
dizer que o ser do homem, biologicamente falando, pressupõe a existência da mulher, e vice-
versa. A nível psíquico, isto se traduziria pelos arquétipos da anima e do animus. Seriam,
então, componentes contrassexuais inconscientes: na medida em que a consciência de um
homem é masculina, haverá uma contraparte feminina em seu inconsciente, o contrário
acontecendo para a mulher.
Em diferentes culturas e épocas, sempre existiram concepções, ideias ou imagens sobre o
feminino e o masculino, expressas nos mitos, contos de fada, folclore, etc. A anima costuma
ser representada como sereia, princesa, fada, feiticeira, animal, ninfa, etc. O animus pode


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aparecer como príncipe, demônio, herói, feiticeiro, animal, etc. As personalidades são
múltiplas, valorizando um ou outro aspecto do comportamento desses arquétipos.
Assim como a sombra, então, o modo como esses arquétipos se expressam também será
fortemente influenciado pelos padrões culturais, pelo que é considerado naquela sociedade
como especificamente feminino ou masculino, o que pode variar amplamente. J ung, ao
descrever anima e animus, tomou o que era correntemente considerado, em sua época,
como características femininas e masculinas. A anima seria a personificação de todas as
tendências psicológicas femininas na psique do homem. Como, normalmente, identificava-se
a consciência masculina como sendo dotada de pensamento desenvolvido e discriminado,
lógica e objetividade, essas características femininas apareciam no inconsciente como o
oposto: vagos sentimentos e estados de humor, sensibilidade, irracionalidade. No caso da
mulher, aconteceria o contrário: sua consciência seria basicamente voltada para as relações
humanas, para os sentimentos, e não para o mundo do pensamento. Dessa forma, o animus
personificaria as características masculinas, ligadas a pensamentos rígidos ou
indiferenciados. J ung dizia: assim como a anima produz “caprichos”, o animus produz
“opiniões”. Estas opiniões são sempre coletivas e negligenciam as pessoas e os julgamentos
individuais. Baseiam-se em pressupostos inconscientes, que não são questionados.
Enquanto inconsciente, estes componentes são geralmente projetados. No caso do homem,
a mãe é o primeiro receptáculo da anima e, para a mulher, o animus será projetado no pai.
Posteriormente, estas projeções deverão ir se desfazendo e transferindo-se para outras
mulheres e outros homens, muitas vezes provocando paixões e idealizações dos parceiros.
Se a anima não for transferida para outras mulheres, ficará ligada à imago da mãe, o que
pode prejudicar muitos relacionamentos. O mesmo se dá para o animus e a imago do pai. Se
no decorrer do processo de individuação, estas forças forem atentamente tomadas em
consideração, se o Ego confrontá-las e aprender a diferenciar-se destas imagens,
gradativamente suas personificações se desfazem, e seus movimentos autônomos
desaparecem. Assim, transformam-se em funções psicológicas da mais alta importância e
passam a fazer a ligação entre o consciente e o inconsciente.


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Antes de dar continuidade aos seus estudos é fundamental que você acesse sua
SALA DE AULA e faça a Atividade 2 no “link” ATIVIDADES.




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UNIDADE 21
Objetivo: Analisar como se dá o processo terapêutico segundo nas concepções analíticas.
O PROCESSO PSICOTERAPÊUTICO NAS ABORDAGENS ANALÍTICAS

O processo terapêutico propriamente dito inclui técnicas e procedimentos específicos com
objetivo claro de trazer o inconsciente para o consciente. Segundo Geraldo Corey (1983), o
objetivo da terapia analítica é a reformulação da estrutura de caráter, através do tornar
consciente o que é inconsciente no cliente. O processo terapêutico focaliza o reviver
experiências infantis. Experiências passadas são reconstruídas, discutidas, analisadas e
interpretadas, com a finalidade de reconstruir-se a personalidade. A terapia analítica dá
ênfase à dimensão afetiva da descoberta do inconsciente. O insight e a compreensão
intelectual são importantes, mas os sentimentos e as lembranças, que se associam a esta
autocompreensão, são considerados fatores cruciais.
Uma característica da Psicanálise é a intenção de que o terapeuta, ou analista, permaneça
anônimo e se engaje muito pouco em partilhar seus próprios sentimentos e experiências, a
fim de que o cliente projete algo sobre a figura do analista. As projeções do cliente,
constituindo material para a terapia, são interpretadas e analisadas.
A principal preocupação do analista é assistir o cliente para que este consiga tomar
consciência de si mesmo, ser sincero e estabelecer relacionamento mais afetivo, lidar com a
ansiedade de modo mais realista e adquirir controle sobre comportamentos impulsivos e
irracionais. Em primeiro lugar, o analista deve estabelecer uma relação de trabalho com o
paciente e, em seguida, concentrar-se na escuta e na interpretação. O analista presta uma
atenção especial às resistências do paciente. Enquanto o cliente assume em grande parte a


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atividade de falar, o analista ouve e aprende o momento de fazer interpretações apropriadas,
cuja função é acelerar o processo de desvelamento do material inconsciente.
O analista apreende lacunas e inconsistências na história do cliente, infere o sentido dos
sonhos relatados por este e de suas associações livres, observa-o cuidadosamente durante
a sessão de terapia e mantém-se sensível a indícios expressivos de sentimentos do cliente
para com a pessoa do analista. A organização de tais processos terapêuticos, dentro de um
contexto de compreensão da psicodinâmica e estrutura da personalidade, capacita o analista
a formular a natureza real dos problemas do cliente.
Uma das funções fundamentais do analista é a de ensinar, ao cliente, o sentido desses
processos, a fim de que ele possa ter insight acerca de seus problemas, conscientizar-se
sobre formas de alcançar mudança e, assim, adquirir um controle racional maior sobre sua
vida.
Sobre a experiência do cliente no processo terapêutico, faz necessário um engajamento
intensivo e em longo prazo. Normalmente, comparece a várias sessões de terapia por
semana, durante um período de três a cinco anos. Em geral, as sessões duram uma hora.
Depois de algumas sessões em que se coloca face a face com o analista, o cliente deita-se
no divã com vistas à atividade de associação livre, ou seja, passa a dizer tudo o que lhe
venha à mente. Este processo de associação livre é conhecido como a “regra fundamental”.
Deitado no divã, o cliente relata seus sentimentos, experiências, associações, lembranças e
fantasias. A situação de estar deitado no divã maximiza as condições para uma reflexão
profunda, por parte do cliente, e reduz os estímulos que possam interferir sobre a entrada em
contato com sua esfera íntima de conflitos e produções.
O cliente entra num acordo, com o analista, quanto ao pagamento, horário de atendimento e
compromisso para a realização de um processo intensivo. Concorda em falar, já que a
produção verbal é a essência da terapia psicanalítica. Normalmente, pede-se ao cliente que
não faça qualquer mudança radical, durante o período de análise.


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Ao longo da terapia, o cliente passa por certos estágios: desenvolvimento de uma relação
crescente com o analista, experiência de crises no tratamento, obtenção de insight a respeito
do passado e do inconsciente, desenvolvimento de uma relação transferencial com o
analista, aprofundamento da terapia, elaboração das resistências e do material reprimido,
término da terapia.


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UNIDADE 22
Objetivo: Analisar como se dá a relação terapêutica segundo as concepções analíticas.
A RELAÇÃO TERAPÊUTICA NAS CONCEPÇÕES ANALÍTICAS

A relação do cliente com o analista é entendida dentro do processo de transferência, núcleo
central da abordagem psicanalítica. A transferência permite, ao cliente, a atribuição de
“assuntos não resolvidos”, relativos às suas relações passadas com pessoas significativas, à
figura do analista. O processo de tratamento envolve a reconstrução e o reviver do passado
pelo cliente. A medida que a terapia progride, sentimentos e conflitos da infância começam a
emergir das profundezas do inconsciente. O cliente regride emocionalmente. Alguns dos
seus sentimentos originam-se em conflitos tais como: confiança x desconfiança, amor x ódio,
dependência x independência, autonomia x vergonha e culpa (EIZIRIK, 1989).
A transferência acontece quando ressurgem, do passado mais primitivo, intensos conflitos
relacionados com o amor, a sexualidade, a hostilidade, a ansiedade e o ressentimento,
quando o cliente os traz até o presente, reexperimentando-os e ligando-os ao analista. Pode,
então, ver o analista como uma figura de autoridade punitiva, exigente e controladora. Por
exemplo, é possível que o cliente transfira sentimentos não liquidados, referentes a um pai
severo e sem amor, para o analista, tornando-se este, aos olhos do cliente, severo e sem
amor. Sentimentos hostis são produzidos pela transferência negativa; mas o cliente pode
também desenvolver uma transferência positiva em relação ao analista e, por exemplo,
apaixonar-se por ele, desejar ser adotado por ele ou, de muitas outras maneiras, buscar o
amor, a aceitação e a aprovação desse terapeuta todo-poderoso. Em resumo, o analista
transforma-se em um substituto atual para os outros significativos da vida do cliente.


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Para que a terapia efetue uma cura, a relação transferencial precisa ser elaborada. O
processo de elaboração envolve uma exploração, por parte do cliente, de paralelos entre sua
experiência passada e presente. Dispões de muitas oportunidades para entender a
multiplicidade de formas pelas quais seus conflitos, e defesas nucleares se manifestam em
sua vida diária. Sendo a relação transferencial uma dimensão da maior importância no
processo de elaboração, e exigindo tempo para ser estabelecida intensamente, assim como,
mais tempo para ser compreendida e dissolvida, compreender-se por que a elaboração
ocupa um período prolongado dentro do processo terapêutico como um todo.
A contratransferência ocorre, caso o analista desenvolva uma visão distorcida, derivada de
seus próprios conflitos. Pode consistir em sentimentos de desagrado, ou em apego e
envolvimento excessivos. A contratransferência pode chegar a interferir na evolução da
análise, pois as reações e problemas do analista tomariam o lugar do atendimento aos
problemas do cliente. O analista deve estar consciente de seus sentimentos em relação ao
cliente e em guarda quanto aos efeitos disruptivos dos mesmos. Espera-se que o analista
seja relativamente objetivo ao receber o ressentimento, amor, adulação, crítica e outros
sentimentos intensos do cliente. Entretanto, já que o analista é humano e, assim, sujeito a
influências inconscientes e problemas não resolvidos, a contratransferência é vista como
uma parte inevitável de relação terapêutica. A maior parte dos programas de formação em
psicanálise exige que o candidato a analista se submeta à sua própria análise intensiva, na
posição de cliente. Supõe-se que o analista tenha atingido um grau de desenvolvimento tal
que, estando resolvidos seus principais conflitos, seja capaz de manter seus próprios
problemas e necessidades separados da situação da terapia. Se o analista for incapaz de
resolver a contratransferência inevitável, é recomendável, então, que retorne à sua análise
pessoal (RIBEIRO, 1986).
Como resultado da relação terapêutica, particularmente da elaboração da situação
transferencial, o cliente adquire insight quanto à sua psicodinâmica inconsciente. As bases
do processo de crescimento analítico são os insight e a tomada de consciência referentes ao
material reprimido. O cliente é assim capaz de compreender a associação entre suas


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experiências passadas e a vida presente. A abordagem psicanalítica supõe que esta
autoconsciência pode conduzir, automaticamente, à mudança na condição do cliente.


Busque a compreensão da relação terapêutica a partir de experiências pessoais ou de
relatos de caso concreto. Você conseguirá compreender melhor fazendo esses links.





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UNIDADE 23
Objetivo: apresentar técnicas e procedimentos terapêuticos segundo as concepções
analíticas.
TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS TERAPÊUTICOS NAS ABORDAGENS ANALÍTICAS

As técnicas da terapia psicanalítica são instrumentadas para o aumento da consciência, a
obtenção de insights intelectuais sobre o comportamento do cliente e a compreensão do
sentido dos sintomas, Há uma progressão terapêutica, desde a fala do cliente à catarse, ao
insight, até a elaboração do conteúdo inconsciente, em direção às metas de compreensão
intelectual e emocional e reeducação, levando à mudança de personalidade, como se
espera. São cinco as técnicas de base da terapia psicanalítica: associação livre,
interpretação, análise dos sonhos, análise da resistência e análise da transferência
(MELAINE KLEIN, 1986).
A associação livre é a técnica central na terapia psicanalítica. O analista dá instruções ao
cliente no sentido de livrar sua mente dos pensamentos e preocupações do dia a dia, e de
dizer, tanto quanto possível, tudo o que lhe vier à mente, a despeito do quanto possa ser
doloroso, estúpido, irrelevante, ilógico ou banal. Em essência, o cliente deixa-se levar por
quaisquer sentimentos ou pensamentos, relatando-os imediatamente, sem censura. Com
situação típica, tem-se o cliente deitado no divã e o analista sentado atrás dele, de modo a
não distraí-lo durante o fluxo livre de associações.
A associação livre é um método para relembrar experiências passadas e descarregar as
emoções associadas a antigas situações traumáticas. Embora a catarse possa oferecer
alívio temporário das experiências dolorosas vividas pelo cliente, não desempenha, por si só,
um papel de maior relevo no processo de tratamento analítico contemporâneo; permite que o
paciente ventile alguns sentimentos confinados e, de fato, prepara o caminho para a


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aquisição de insight. Como uma forma de ajudar o cliente a alcançar autoconhecimento e
autoavaliação mais objetivos, o analista interpreta as significações-chave da associação livre.
Durante o processo de associação livre, a tarefa é identificar o material reprimido, preso no
inconsciente. A sequência das associações orienta o analista na compreensão das conexões
feitas pelo cliente entre eventos. Os bloqueios ou cortes nas associações servem como
pistas para o material ansiógeno. O analista interpreta o material para o cliente, guiando-o
em direção a um insight maior sobre a dinâmica subjacente, da qual não se tem apercebido.
A interpretação é um procedimento básico, utilizado na análise de associações livres,
sonhos, resistências e transferências. Consiste em apontar, explicar e até mesmo ensinar ao
cliente os sentidos do comportamento manifestado nos sonhos, associações livres,
resistências e na própria relação terapêutica. As funções da interpretação são: facilitar a
assimilação de material novo pelo ego e acelerar o processo de desvelamento de material
inconsciente adicional.
É importante que as interpretações sejam colocadas no tempo apropriado, pois, assim não
sendo, o cliente as rejeitará. Como regra geral, deve-se apresentar a interpretação no
momento em que o fenômeno a ser interpretado esteja próximo à atenção consciente do
cliente. Em outras palavras, o analista deveria interpretar conteúdos ainda não apreendidos
pelo próprio cliente, mas que possam ser tolerados e incorporados como sendo seus. Outra
regra geral: a interpretação deveria sempre começar da superfície a ser aprofundada apenas
até o ponto em que o cliente seja capaz de ir, enquanto está vivenciando emocionalmente a
situação. Uma terceira regra geral diz que é melhor apontar uma resistência ou defesa, antes
de interpretar a emoção ou conflito que jaz abaixo desta resistência ou defesa.
A análise dos sonhos é um procedimento importante para revelar conteúdos inconscientes.
Durante o sono, as defesas ficam rebaixadas e vêm à tona sentimentos reprimidos. Freud
encarava os sonhos como a “via de acesso, por excelência, para o inconsciente”, pois, neles,
são expressos os desejos, as necessidades e os medos inconscientes. Algumas motivações
são tão inaceitáveis para a pessoa, que chegam a expressar-se de forma disfarçada ou
simbólica em vez de se revelarem aberta e diretamente.


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Os sonhos apresentam dois níveis de conteúdo: conteúdo latente e conteúdo manifesto. O
conteúdo latente é constituído pelos motivos disfarçados, escondidos, simbólicos e
inconscientes. Por serem penosos e ameaçadores demais, os impulsos inconscientes
sexuais e agressivos, compreendidos no conteúdo latente, são transformados em um
conteúdo manifesto mais aceitável, que é o sonho como aparece ao sonhador. Dá-se o nome
de elaboração onírica ao processo pelo qual o conteúdo latente de um sonho é transformado
no conteúdo manifesto, menos ameaçador. A tarefa do analista é revelar os sentidos
disfarçados, estudando os símbolos no conteúdo manifesto do sonho. Durante a sessão de
análise, poderá pedir ao cliente para fazer associações livres com algum aspecto do
conteúdo manifesto do sonho, com o propósito de descobrir os sentidos latentes.
A análise e interpretação da resistência é fundamental para o desenvolvimento da terapia.
A resistência é algo que trabalha contra o progresso da terapia e impede o cliente de
produzir material inconsciente. No curso da associação livre ou da associação com sonhos, é
possível que o paciente evidencie má vontade quanto a relatar certos pensamentos,
sentimentos e experiências. Freud entendia a resistência nos termos de uma dinâmica
inconsciente que tentasse defender a pessoa da ansiedade intolerável, a qual emergiria,
caso chegasse a tomar consciência de seus impulsos e sentimentos reprimidos.
Enquanto defesa contra a ansiedade, a resistência opera especificamente, na terapia
psicanalítica, de forma a impedir que paciente e analista sejam bem-sucedidos em seu
esforço conjunto para obter insight sobre a dinâmica inconsciente do primeiro. J á que a
resistência impossibilita a entrada de material ameaçador na consciência, o analista deve
indicá-la, e o cliente deve confrontar-se com ela, caso deseje lidar com os conflitos de
maneira realista. A interpretação da resistência, feita pelo analista, visa a auxiliar o cliente na
apreensão das razões de tal resistência, a fim de poder lidar com elas. Como regra geral, o
analista chama a atenção do cliente para as resistências mais óbvias, e interpreta-as, de
modo a minimizar a possibilidade de uma rejeição da interpretação por parte do cliente e
aumentar a probabilidade de que o mesmo comece a olhar para seu comportamento
expressivo de resistência.


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As resistências não são simplesmente algo a ser superado. Por serem representativas das
abordagens defensivas comumente usadas pelo cliente, em sua rotina de vida, devem ser
reconhecidas enquanto dispositivos de defesa contra a ansiedade que, no entanto,
interferem na capacidade do cliente de experimentar uma vida mais gratificante.
E, por último, um procedimento adotado nas concepções analíticas é a análise e
interpretação da transferência. A transferência, assim como a resistência, tem uma
posição central na terapia psicanalítica. A transferência manifesta-se, no processo
terapêutico, quando “assuntos não resolvidos” do passado do paciente com pessoas
significativas provocam distorções do presente e levam-no a reagir ao analista como reagia a
seu pai ou à sua mãe. Agora, na relação com o analista, o cliente reexperimenta os
sentimentos de rejeição e hostilidade anteriormente vividos em relação a seus pais. A
maioria dos terapeutas analíticos insiste em que o cliente precisa desenvolver, finalmente,
esta “neurose transferencial”, porque a neurose teve origem nos cinco primeiros anos de vida
e, agora, o cliente a traz para a vida adulta de forma inapropriada, como um sistema de
referência vital. O analista estimula a neurose transferencial por meio de sua neutralidade,
objetividade, anonimato e relativa passividade.
A análise da transferência é uma técnica da maior importância na psicanálise, pois permite
ao cliente reviver seu passado na terapia. Capacita-o a atingir insight a respeito da natureza
de suas fixações e privações e proporciona uma compreensão da influência do passado, na
medida em que este se relaciona com o funcionamento atual. A interpretação da relação
transferencial também possibilita que o cliente elabore antigos conflitos, os quais mantêm-no
presentemente fixado, retardando seu crescimento emocional. Em síntese, os efeitos
psicopatológicos de uma relação primitiva indesejável são contrabalançados pela elaboração
de um conflito emocional similar, na relação terapêutica com o analista.



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UNIDADE 24
Objetivo: Descrever o processo terapêutico de acordo com a abordagem centrada no cliente.
O PROCESSO TERAPÊUTICO NA ABORDAGEM CENTRADA NO CLIENTE

Segundo Rogers (1983), a maioria das pessoas que procura a psicoterapia é movida por
essa questão: “Quem sou eu?”. Independente de buscarem autoconhecimento ou a cura
para seu sofrimento, as pessoas parecem perguntar: Como posso descobrir meu verdadeiro
eu? Como posso vir a ser o que desejo profundamente poder ser? Como posso abandonar
minhas máscaras e chegar a ser eu mesmo?
Um objetivo básico da terapia é proporcionar um clima capaz de ajudar o indivíduo a tornar-
se uma pessoa em funcionamento pleno. Antes de ser possível trabalhar com vistas a tal
objetivo, é preciso, primeiramente, olhar atrás das máscaras que são exibidas. O indivíduo
desenvolve ficções e fachadas como defesas contra ameaças. Monta-se um jogo para não
se chegar a ser totalmente real com os outros e, no processo de tentar iludi-los, acaba-se
eventualmente sendo um estranho para si mesmo.
Quando essas fachadas são desmontadas, no processo terapêutico, uma nova pessoa
parece emergir por detrás das ficções. Esse é um movimento de atualização crescente, por
parte do paciente e Rogers (1983) o atrelou a quatro características básicas:
- Abertura para a experiência;
- Confiança em seu próprio organismo;
- Lócus de avaliação interno;
- Desejo de ser um processo;


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Essas características constituem os objetivos básicos da terapia centrada no cliente.
Observe, então, a explicação de cada uma delas.
A Abertura significa abrir-se para a experiência e isso implica ver a realidade sem distorcê-la
com o fim de encaixá-la em uma estrutura preconcebida. Enquanto oposta à atitude
defensiva, a abertura para a experiência significa tornar-se consciente da realidade como ela
se dá, fora da esfera íntima do indivíduo. Significa também que as crenças pessoais não
sejam rígidas; pode-se então permanecer aberto a um maior conhecimento e crescimento,
assim como tolerar a ambiguidade. O indivíduo tem consciência de si mesmo, no momento
presente, e capacidade para experimentar-se de forma sempre renovada.
A Confiança em seu Próprio Organismo representa o que o próprio nome diz. E um dos
objetivos da terapia é ajudar o cliente a estabelecer o sentido de confiança em si mesmo.
Nos estágios iniciais da terapia, os clientes, muitas vezes, confiam muito pouco em si
mesmos e em suas próprias decisões. De modo típico, procuram conselhos e respostas fora
de si, pois basicamente não confiam em sua própria capacidade de dirigir suas vidas. À
medida que se tornam mais abertos para suas experiências, seu sentido de autoconfiança
começa a emergir.
O Locus de Avaliação Interno está relacionado com a autoconfiança, um locus de
avaliação interna significa buscar mais, em si mesmo, as respostas para os problemas
existenciais. Em vez de procurar do lado de fora a confirmação de sua identidade, o indivíduo
presta cada vez mais atenção ao seu próprio foro íntimo. A aprovação universal dos outros é
substituída pela autoaprovação. Decidem-se quais são os padrões pessoais de
comportamento e olha-se para dentro de si mesmo, em busca de decisões e escolhas
orientadoras da existência.
O Desejo de Ser um Processo se refere ao processo de vir a ser. O conceito de si mesmo
no processo de vir a ser é crucial, por oposição ao conceito do si mesmo como produto.
Embora os clientes possam começar a terapia procurando uma espécie de fórmula para
construir um estado de felicidade e sucesso (um produto final), chegam a compreender que o
crescimento é um processo contínuo. Na terapia, não serão entidades estáveis; estarão, ao


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contrário, em um processo fluído de desafio e suas percepções e crenças, de abertura para
novas experiências e para uma revisão constante.
Assim descritos, os objetos da terapia constituem metas amplas, que proporcionam um
sistema de referência geral para compreender a direção do processo terapêutico. O
terapeuta não escolhe objetivos específicos para o cliente. A pedra angular da teoria
centrada no cliente é a afirmação de que, na relação com um terapeuta facilitador, os clientes
têm a capacidade de definir e clarificar seus próprios objetivos. Muitos orientadores, porém,
sentirão dificuldade em permitir que os clientes decidam, por si mesmo, os objetivos
específicos da terapia. Embora seja fácil falar do conceito segundo o qual o cliente encontra
seu próprio caminho, é preciso um grande respeito pelo cliente e coragem da parte do
terapeuta, para incentivar o primeiro a se escutar e seguir suas próprias indicações -
sobretudo quando faz escolhas que não coincidem com as esperadas pelo terapeuta.




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UNIDADE 25
Objetivo: descrever a função e o papel do terapeuta no processo psicoterápico na
abordagem centrada no cliente.
O PAPEL DO TERAPEUTA NA ABORDAGEM CENTRADA NO CLIENTE

Para a terapia centrada no cliente o papel do terapeuta está fundado em suas atitudes e em
sua maneira de ser, e não na implementação de técnicas destinadas a levar o cliente a “fazer
algo”. As pesquisas realizadas sobre este tipo de terapia parecem indicar que as atitudes do
terapeuta - mais do que seu conhecimento, teorias ou técnicas - são os desencadeantes da
mudança de personalidade no paciente. O terapeuta usa a si mesmo, basicamente como
instrumento de mudança. Encontrando o cliente em um nível pessoa a pessoa, o “papel” do
terapeuta é não ter papéis. Sua função é estabelecer em clima terapêutico que facilite o
crescimento do cliente ao longo de um continuum em processo.
Este terapeuta cria, assim, uma relação de ajuda na qual o cliente experimentará a liberdade
necessária para explorar as áreas de sua vida que, no momento, são negadas à consciência,
ou distorcidas. Torna-se menos defensivo e mais aberto a possibilidades presentes dentro de
si mesmo e no mundo.
Em primeiro lugar e acima de tudo, o terapeuta deve desejar ser autêntico no relacionamento
com seu cliente. Em vez de percebê-lo de acordo categorias diagnósticas preconcebidas, o
terapeuta encontra-o na dimensão de sue momento existencial e lhe dá ajuda, penetrando no
mundo dele. Através das atitudes de autêntico cuidado, respeito, aceitação e compreensão,
assumidas pelo terapeuta, o cliente é capaz de abandonar suas defesas e percepções
rígidas e de evoluir para um nível superior de funcionamento pessoal.
A mudança terapêutica, dentro do modelo centrada no cliente, depende da percepção que
este tem, tanto de sua própria experiência na terapia quanto das atitudes básicas do


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orientador. Se o orientador cria um clima conducente a autoexploração, o cliente dispõe da
oportunidade de experimentar e explorar toda a gama de seus sentimentos, muitos dos quais
podem estar fora da sua consciência, no início da terapia. Segue-se um esboço geral acerca
da experiência do cliente na terapia.
O cliente chega à terapia em um estado de incongruência — isto é, existe uma discrepância
entre sua autopercepção e sua experiência real. Por exemplo: um estudante talvez se
imagine na qualidade de futuro médico e, no entanto, a maioria de suas notas, abaixo da
média, pode chegar a excluí-lo do curso de medicina. A discrepância entre como ele se vê
(autoconceito) ou como desejaria ver-se (autoconceito ideal) e a realidade do seu baixo
desempenho acadêmico poderia acarretar ansiedade e sentimentos de vulnerabilidade, os
quais proporcionariam a necessária motivação para começar a terapia. Para querer explorar
as possibilidades de mudança, o cliente precisa perceber que existe um problema, ou pelo
menos que se sente incomodado com seu ajustamento psicológico atual.
De início, talvez os clientes esperem, do orientador, as respostas e instruções; ou o encarem
como um especialista que pode trazer soluções mágicas. Uma das razões para a procura da
terapia seria o sentimento de desamparo, de pobreza e incapacidade, por parte dos clientes,
quanto à tomada de decisões e à direção efetiva de suas próprias vidas. Desejam,
provavelmente, encontrar a “saída” através dos ensinamentos do terapeuta. No entanto,
dentro de um referencial centrado no cliente, logo aprenderão que são responsáveis por si
mesmos na relação e que podem aprender a serem mais livres, usando a relação para
adquirir uma autocompreenção maior.
Durante os estágios iniciais da terapia, o comportamento e os sentimentos do cliente seriam
caracterizados por crenças e atitudes extremamente rígidas, fortes bloqueios internos, falta
de um centro de referência interna, sensação de ausência de contato com os sentimentos
próprios, relutância em estabelecer contato com as camadas mais profundas do eu, medo da
intimidade, desconfiança básica de si mesmo, sensação de fragmentação e tendência a
descarregar sentimentos e problemas — para mencionar apenas alguns aspectos. No clima
terapêutico criado pelo orientador, num ambiente de confiança e segurança, o cliente é


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capaz de explorar aspectos ocultos de seu mundo pessoal. Havendo, por parte do terapeuta,
autenticidade, aceitação incondicional dos sentimentos do cliente e capacidade para assumir
o referencial interior do mesmo, dá-se condições para que este cliente se descarte
gradualmente das camadas de defesa e chegue a um acordo com o que está por trás das
máscaras.
Com o progresso da terapia, o cliente passa a ser capaz de explorar uma gama mais ampla
de sentimentos. Então, está apto para expressar medos, ansiedades, culpa, vergonha, ódio,
ressentimento e outros sentimentos, que julgava negativos demais para poder aceitar e
incorporar à estrutura do eu. Agora o cliente restringe-se menos, distorce menos as coisas e
mobiliza-se para um grau maior de disposição a aceitar e integrar certos sentimentos
conflitivos e confusos com relação a si mesmo. Descobre, cada vez mais, os aspectos
positivos e negativos do seu eu, que tinham sido mantidos encobertos. Movimenta-se no
sentido de ser mais aberto a qualquer experiência, menos defensivo, mais em contato com o
que sente no momento presente, menos sujeitado pelo passado, menos inflexível, livre para
tomar decisões e progressivamente mais confiante em si mesmo em termos de gerir de
modo efetivo sua própria vida. Em resumo, a experiência do cliente na terapia é como uma
libertação das cadeias determinísticas que o haviam encerrado numa prisão psicológica.
Com a liberdade crescente, torna-se mais maduro, psicologicamente falando, e mais
realizado.



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UNIDADE 26
Objetivo: abordar importantes aspectos sobre a relação entre terapeuta e cliente segundo a
abordagem centrada na pessoa.
A RELAÇÃO TERAPÊUTICA NA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

Rogers (1983) sintetizou as hipóteses básicas da terapia centrada no cliente em uma frase:
“Se eu posso proporcionar certo tipo de relação, a outra pessoa descobrirá dentro de si
mesma a capacidade de usar esta relação para crescimento e mudança, e o
desenvolvimento pessoal ocorrerá” (p.33). O mesmo autor hipotetizou ainda que “não ocorre
mudança de personalidade significativa e positiva, a não ser em uma relação” (ROGERS,
2001, p.73).
Mas, quais são as características da relação terapêutica? Quais são as atitudes-chave do
terapeuta centrado no cliente que conduzem à criação de um clima psicológico adequado,
onde o cliente venha a experimentar a liberdade necessária para iniciar a mudança de
personalidade? Segundo Rogers (1983), para a ocorrência de mudanças de personalidade,
são necessárias e suficientes as seguintes seis condições:
1. Estarem duas pessoas em contato psicológico.
2. Encontrar-se a primeira pessoa — a quem é chamada de cliente — em um estado de
incongruência, sendo vulnerável ou ansiosa.
3. Ser a segunda pessoa — a quem é chamada de terapeuta — congruente ou integrada
na relação.
4. Experimentar (o terapeuta) uma aceitação incondicional positiva para com o cliente.


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5. Experimentar (o terapeuta) uma compreensão empática do referencial interno do
cliente e empenhar-se na comunicação desta experiência ao cliente.
6. Ser bem-sucedida, em um grau mínimo, a comunicação ao cliente da compreensão
empática e da aceitação incondicional positiva por parte do terapeuta.

Rogers supõe não haver necessidade de outras condições. Se as seis condições estiverem
presentes, durante certo período de tempo, então ocorrerá a mudança construtiva da
personalidade. Tais condições não variam conforme o tipo de cliente. Além disso, são
necessárias e suficientes para todas as abordagens terapêuticas e aplicam-se a todas as
relações interpessoais, não somente à psicoterapia. O terapeuta não precisa ter um
conhecimento especializado. O diagnóstico psicológico preciso não é necessário, podendo
frequentemente interferir (mais do que não interferir) no processo efetivo da psicoterapia.
Rogers admite que sua teoria é surpreendente e radical. Sua formulação gerou considerável
controvérsia, pois não considerou essencial muitas das condições comumente consideradas
por outros terapeutas e, ainda, formulou outras condições. Na relação terapêutica há atitudes
do terapeuta que são fundamentais: congruência ou autenticidade, aceitação
incondicional positiva, compreensão empática apurada.
A congruência é a mais importante das três características. A congruência implica que o
terapeuta seja verdadeiro, isto é, sincero, integrado e autêntico, durante a sessão de terapia.
Não deve apresentar uma falsa imagem, sua experiência interna e expressão manifesta
precisam estar coerentes. E as impressões e os sentimentos do terapeuta podem se
expressar livremente. O terapeuta autêntico é espontâneo, ficando transparentes os
sentimentos e atitudes, tanto positivos quanto negativos, que nele fluem. Expressando (e
aceitando) quaisquer sentimentos negativos o terapeuta pode facilitar a comunicação franca
com o cliente.
Ser congruente, talvez exija do terapeuta a expressão de raiva, frustração, agrado, atração,
preocupação, tédio, aborrecimento e de uma série de outros sentimentos, presentes na


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relação. Isto não significa que o terapeuta deva comunicar impulsivamente todos os
sentimentos, pois essa autorrevelação deve também ser adequada. Nem está implícito, em
tudo isto, que o cliente é a causa do aborrecimento ou da raiva do terapeuta. O terapeuta,
porém, precisa assumir a responsabilidade por seus próprios sentimentos e explorar,
juntamente com o cliente, os sentimentos persistentes que bloqueiem sua capacidade de
colocar-se de forma plena em presença do cliente.
Obviamente, o objeto de terapia não é a contínua discussão dos sentimentos do terapeuta
com o cliente. No entanto, a terapia centrada no cliente, de fato, dá ênfase ao valor de uma
relação autêntica, pessoal e não manipuladora. Também valoriza o feedback franco e aberto,
quando estiver bloqueada a comunicação significativa. Também sublinha o fato do
aconselhamento poder ser paralisado, se o orientador, sentindo-se de certo modo em
relação ao cliente, agir de modo diferente. Assim, se o terapeuta não aprecia, ou desaprova,
o cliente e finge aceitação, a terapia não acontecerá.
O conceito de congruência do terapeuta não implica que apenas uma pessoa completamente
autorrealizada possa ser eficiente no aconselhamento. J á que o terapeuta é humano, não se
pode esperar que seja perfeitamente autêntico. O modelo centrado no cliente supõe que, se
o terapeuta for congruente na relação com o cliente, o processo de terapia se desencadeará.
A congruência existe em um continuum; não é uma questão de tudo ou nada.
Aceitação incondicional positiva é segunda atitude a ser comunicada pelo terapeuta ao
cliente. Ela representa um profundo e genuíno cuidado para com o cliente enquanto pessoa.
Este cuidado é incondicional no sentido de não ser contaminado por uma avaliação ou
julgamento dos sentimentos, pensamentos e comportamento do cliente como sendo bons ou
maus. O terapeuta valoriza e aceita calorosamente o cliente, sem estabelecer condições de
aceitação. Não é uma atitude do tipo “eu aceitarei você quando...”, mas sim do tipo “eu
aceitarei você como é”. Através do seu comportamento, o terapeuta comunica ao cliente que
o valoriza como é e lhe ensina que é livre para ter seus próprios sentimentos e experiências,
se arriscar a deixar de ser aceito.


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É ainda importante que esse cuidado do terapeuta não seja possessivo. Se apoiar nas
próprias necessidades do terapeuta de ser querido e apreciado, a mudança no cliente ficará
inibida. O conceito de aceitação incondicional positiva não implica o caráter de tudo ou nada
desta característica. Como a congruência, a aceitação incondicional positiva é uma questão
de grau num continuum. Quanto maior o grau de apreço, cuidado e aceitação calorosa pelo
cliente, maior a oportunidade de facilitar a mudança no cliente.
A compreensão empática apurada significa que é também tarefa do terapeuta,
compreender, com sensibilidade e precisão, a experiência e os sentimentos do cliente, como
se revelam na interação, a cada momento ao longo da sessão de terapia. O terapeuta
esforça-se por sentir a experiência subjetiva do cliente, em especial a experiência no aqui e
agora. A finalidade da compreensão empática é encorajar o cliente a chegar mais perto de si
mesmo, a vivenciar mais profunda e intensamente os sentimentos, a reconhecer e resolver a
incongruência que existe dentro dele. O conceito implica uma sensibilidade do terapeuta para
os sentimentos do cliente, como se fossem os seus próprios, sem chegar a perder-se nesses
sentimentos. É importante compreender que, havendo um alto nível de empatia apurada, vai-
se além do reconhecimento de sentimentos óbvios até a percepção dos sentimentos menos
óbvios e menos claramente experimentados pelo cliente. O terapeuta ajuda-o a expandir sua
consciência sobre os sentimentos que são apenas parcialmente reconhecidos.
A empatia é mais do que a simples reflexão do sentimento. Envolve mais do que refletir
conteúdos para o cliente e é mais do que uma técnica artificial, usada rotineiramente pelo
terapeuta. Não se trata simplesmente do conhecimento objetivo (“Eu compreendo qual é o
seu problema”) que se constitui numa compreensão avaliativa sobre o cliente, de fora para
dentro. Em vez disso, a empatia é uma compreensão profunda do cliente e com o cliente. É
um sentido de identificação com esta outra pessoa. O terapeuta é capaz de participar do
mundo subjetivo do cliente, sintonizando aqueles sentimentos seus que possam se
assemelhar aos dele. Apesar disso, o terapeuta não deve perder sua diferenciação própria.
Rogers acredita que a mudança construtiva provavelmente ocorrerá quando o terapeuta
conseguir apreender a vivência atual do mundo. Íntimo do cliente, na forma em que este a
percebe e sente, sem perder a diferenciação de sua identidade própria.


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A semelhança dos dois outros conceitos, a compreensão empática apurada dá-se em um
continuum, não sendo uma questão de tudo ou nada. Quanto maior o grau de empatia do
terapeuta, maior a possibilidade do cliente progredir na terapia.


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UNIDADE 27
Objetivo: explorar a aplicação de técnicas e procedimentos terapêuticos segundo a
abordagem centrada na pessoa.
TÉCNICAS E PROCEDIMENTOS NA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

As formulações iniciais do ponto de vista de Rogers sobre a psicoterapia davam maior
ênfase às técnicas. O desenvolvimento desta abordagem envolveu um deslocamento deste
foco: das técnicas terapêuticas, para a identidade, as crenças e atitudes do terapeuta e para
a relação terapêutica. Entretanto, é possível situar como referência da terapia centrada no
cliente, algumas técnicas, como: expressar e comunicar aceitação, respeitar e compreender,
participar com o cliente na tentativa de desenvolver um referencial interno, pensando,
sentindo e explorando. O mais importante é que essas técnicas sejam a expressão sincera
do terapeuta e não um manual de instrução geral que cause desconforto na relação
terapêutica e que a impeça de ser autêntica.
Para dar uma melhor compreensão do lugar das técnicas na abordagem centrada no cliente,
cabe tratar das fases de evolução dessa teoria. É possível dividir seu desenvolvimento em
três fases:
1) Período (1940-1950): Psicoterapia Não Diretiva. Esta abordagem enfatizava a criação,
pelo terapeuta, de um clima permissivo e de não intervenção. A aceitação e a
clarificação eram as técnicas principais. Através da terapia não diretiva, o cliente
alcançaria insight sobre si mesmo e sobre sua situação vital.
2) Período (1950-1957): Psicoterapia Reflexiva. O terapeuta procurava principalmente
refletir os sentimentos do cliente e evitar ameaças à relação. Por meio da terapia


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reflexiva, o cliente era capaz de desenvolver um grau maior de congruência entre o
autoconceito e o autoconceito ideal.
3) Período (1957-1970): Terapia Vivencial. Esta abordagem caracteriza-se por uma
ampla gama de comportamento do terapeuta para expressar atitudes básicas. A
terapia centraliza-se na vivência do cliente e na expressão da vivência do
terapeuta. O cliente progride em um continuum, aprendendo a utilizar a experiência
imediata.

Durante os últimos 30 anos, a terapia centrada no cliente sofreu mudanças no sentido de
trazer o máximo da pessoa do terapeuta para dentro do processo terapêutico. No período
inicial, o terapeuta não diretivo evitava claramente a interação com o cliente. Funcionava
como clarificador, mas ocultava sua própria identidade. Nessa época, técnicas diretivas tais
como perguntas diretas, sondagem, avaliação e interpretação, assim como procedimentos,
também diretivos, a exemplo de entrevistas para anamnese, testagem e diagnóstico
psicológico, não faziam parte do processo terapêutico, por se basearem em pontos de
referência extrínsecos; a terapia centrada no cliente contava, sobretudo, com o impulso para
o crescimento, inato no cliente.
Mais tarde, a terapia deslocou-se da ênfase cognitiva atribuída à clarificação, que devia levar
ao insight. A mudança na prática efetiva da terapia, característica da psicoterapia reflexiva,
consistiu no fato do terapeuta dar ênfase à tarefa de responder, com sensibilidade, ao
sentido afetivo, mais do que ao sentido semântico da expressão do cliente. O papel do
terapeuta foi reformulado e elaborado para fazer ressaltar sua capacidade de responder aos
sentimentos do cliente. Em lugar de simplesmente clarificar os comentários do cliente, o
terapeuta refletia os sentimentos. Com vistas a implementar a reorganização de
autoconceitos do cliente, a tarefa principal era remover fontes de ameaças existentes na
relação terapêutica e funcionar como um espelho, de modo a que o cliente pudesse ter uma
compreensão melhor de seu mundo (HART, 1970). O terapeuta enquanto pessoa ainda era
deixada, em grande parte, fora desta formulação.


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Seguiu-se a transição para a terapia vivencial, dando-se relevo para certas condições
“necessárias e suficientes” para a ocorrência de mudança de personalidade. Este período
introduziu os elementos cruciais considerados como pré-requisitos para a terapia efetiva: as
atitudes do terapeuta de congruência, respeito e aceitação positivos, e compreensão
empática. O foco da abordagem, então, passou da reflexão de sentimentos do cliente, feita
pelo terapeuta, para a expressão dos próprios sentimentos imediatos do terapeuta, na
relação com seu cliente. A formulação atual permite uma variação e uma flexibilidade
maiores no comportamento do terapeuta, incluindo declarações ou opiniões, sentimentos,
etc., coisas que eram indesejáveis nos períodos anteriores.
A centralização na vivência imediata do terapeuta leva-o a expressar seus sentimentos para
o cliente, quando isto for apropriado; e, mais do que nas concepções iniciais do modelo,
possibilita ao terapeuta trazer, para a relação, sua própria identidade pessoal. As primeiras
formulações da visão centrada no cliente estipulavam que o terapeuta deveria evitar a
inserção de seus próprios valores e vieses na relação de aconselhamento. Precisava
prevenir-se contra procedimentos comumente usados, tais como estabelecer metas, dar
conselhos, interpretar o comportamento e selecionar tópicos a serem explorados. No
entanto, a formulação moderna está menos voltada para proibições e concede ao terapeuta
maior liberdade para participar mais ativamente na relação, de forma a criar uma atmosfera
onde o cliente se sinta acolhido de modo mais completo, independentemente das técnicas ou
estilo empregados por um terapeuta em particular.


Observe os procedimentos das abordagens analíticas e da abordagem centrada na pessoa.
Você vê algumas diferenças? Relacione-as:




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UNIDADE 28
Objetivo: Explorar as semelhanças entre a terapia individual e a terapia de grupo na
abordagem centrada na pessoa.
TERAPIA INDIVIDUAL E TERAPIA DE GRUPOS: SEMELHANÇAS

É bastante complexo o processo da terapia de grupo. Tal como na terapia individual centrada
no paciente, os elementos do grupo devem captar a situação em que estão como
dependentes das suas próprias personalidades. Trazem para a situação uma carga de
ansiedade, produto dos seus esforços fracassados para estabelecerem efetivamente relação
com as outras pessoas e essa ansiedade normalmente aumenta devido à natureza
indeterminada da iminente experiência terapêutica. Cada elemento do grupo, se quiser se
beneficiar da terapia, deve encontrar no terapeuta e nos outros membros do grupo um
sentimento autêntico de aceitação. Deve encontrar na situação de grupo cada vez menos
necessidade de atitudes de defesa contra a ansiedade que o torna tão ineficaz na sua vida
com os outros e tão infeliz na vida consigo mesmo.
Como na terapia individual, deve sentir-se cada vez mais livre para analisar a si mesmo, com
a certeza de que encontrará uma compreensão da sua vida tal como a vê e que será
respeitado como pessoa em todas as etapas do caminho. É também desejável, e talvez seja
necessário, que o indivíduo encontre no grupo uma confiança absoluta na sua capacidade de
ser responsável pela sua própria vida e um desejo de que faça as suas próprias opções
independente de ser responsável pela sua própria vida e um desejo de que faça as suas
próprias opções, independentemente da sua direção, com a convicção de que no fim tomará
as decisões essenciais à plena realização de si mesmo.
Logo na primeira sessão atrás transcrita verifica-se que os membros do grupo estão muito
abertos uns aos outros, apercebendo-se um pouco do apoio que já estava, então, presente,


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e que aumentaria com a continuação dos encontros. Kay foi capaz de falar de uma ferida que
reservara para si durante dois anos. J ane revelou-se perante as outras mulheres presentes,
risco que antes não ousara, segundo as notas do seu diário sobre os encontros. Mary, Laura
e Betty esboçaram a origem da sua infelicidade. Apenas Anne esteve hesitante e insegura,
permanecendo calada durante esta e outras sessões até confiar no apoio do grupo,
descrevendo então os medos e os sonhos torturantes que tinha e conseguindo, talvez no fim,
mais do que qualquer outro elemento do grupo.
O leitor intentará certamente saber como se pode estar seguro de que as atitudes de
confiança e de respeito surgem no grupo, problemas que aponta para uma das diferenças
entre a terapia individual e a do grupo. Na relação singular terapeuta-paciente, essas atitudes
são normalmente garantidas, pois toda a formação do terapeuta realça a importância desses
princípios e nesse momento concentra-se em comunicá-los ao paciente. Mas, no grupo estão
outros indivíduos presentes e provavelmente, a princípio, não serão capazes de exprimir
sentimentos como esses. Estão demasiado preocupados consigo mesmo, e terão,
porventura, pouca consciência da importância de algo mais que não seja a necessidade de
aliviar a própria tensão. Em certa medida esta dificuldade é um paradoxo da terapia de
grupo, pois constitui ao mesmo tempo uma fonte de fraqueza e de força. Se num grupo não
se desenvolverem estas importantes atitudes, será pouco proveitoso e a terapia um fracasso.
Contudo, se forem estimuladas pelo terapeuta e reforçadas pelos sentimentos positivos dos
membros do grupo, é possível que sejam mais eficazes na situação de grupo do que na
terapia individual. O terapeuta deve compreender e aceitar uma coisa: é uma experiência
muito mais poderosa ser compreendido e aceito por várias pessoas que partilham
honestamente os seus sentimentos em busca de uma forma de vida mais satisfatória. Mais
do que qualquer outra coisa, é esse o elemento novo que torna a terapia de grupo uma
experiência qualitativa diferente da terapia individual.
Uma característica da terapia individual que não espera se encontrar na terapia de grupo é a
sensação do sentido e da singularidade do objetivo. Seria razoável esperar que os
problemas pessoais de seis indivíduos exercessem um efeito centrífugo no grupo. Mas, não
parece que isso se verifique. Os grupos, tanto no conteúdo como nos sentimentos, crescem


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no sentido de uma notável coesão paralela à unidade patente na terapia individual. Por
diversos que sejam os sintomas e as situações, é restrita a variedade de problemas que as
pessoas têm. Uma vez e outra é o fracasso nas relações interpessoais e os sentimentos
concomitantes de automenosprezo que fornecem o conteúdo das discussões de grupo. Mas,
mais importante do que a semelhança de conteúdo talvez seja a unidade que emerge da
participação dos sentimentos. Na passagem a seguir citada, dois membros do grupo, com
vinte anos de diferença e vendo os seus problemas como absolutamente diferentes chegam
a uma nítida compreensão mútua com base nos seus sentimentos:
Sr. Helm: Pensei que, como havia tanta diferença de idades entre os dois se
estabeleceria uma grande distância. De alguma maneira, ele preencheu essa distância
no outro dia. Creio que no fundo sentimos o mesmo. Muitos dos nossos problemas
são semelhantes.
Terapeuta: Sr. Helm, não tenho a certeza de ter compreendido bem como vê essa
relação.
Sr. Helm: Bem, tinha a sensação de que não podia compreender totalmente o alcance
do seu problema e o que este realmente significava para ele. No entanto, quando falou
na segunda-feira, tive o sentimento de uma grande empatia para com ele. Não que eu
tivesse o mesmo problema, mas porque fui capaz de ver como uma outra pessoa
sente quando traz sempre consigo um fardo desses. Porque mesmo que tenhamos
problemas diferentes, os sentimentos que esses problemas suscitam são muito
semelhantes e — ao considerar os sentimentos que tem ao suportar sempre o mesmo
fardo — bem, ao pensar nisso senti-me muito mais perto dele.
Miss West: Exprimiu-se mais claramente. Era isso que eu tentava dizer.
Terapeuta: Sente-se mais perto dele não devido à semelhança de problemas, mas à
semelhança de sentimentos.
Sr. Helm: De uma maneira geral, penso que isso foi típico em todo o grupo. Cada um
de nós foi capaz de exprimir seus sentimentos e os outros aceitaram-no.


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Também existem semelhanças entre a terapia individual e a terapia de grupo ao nível das
técnicas. É possível sintetizá-las aqui e exemplificá-la mais extensamente adiante. Tal como
na terapia individual, as técnicas são importantes como meios de exprimir as atitudes acima
descritas. Desenvolvem-se a partir dessas atitudes e podem ser consideradas a expressão
delas, mas também se tornam mais úteis ao enriquecerem-se com a experiência acumulada
nas relações terapêuticas.
O que essencialmente o terapeuta procura fazer é reconstruir o campo perceptivo do
indivíduo no momento da expressão e comunicar essa compreensão com habilidade e
delicadeza. Os diversos termos que se utiliza para descrever os tipos de proposições que o
terapeuta formula na terapia individual — tais como clarificação dos sentimentos, reflexo dos
sentimentos, reformulação do conteúdo, simples aceitação, estruturação e outros — também
se aplicam na situação de grupo. Deve-se mencionar de passagem outras semelhanças. A
preocupação pelo diagnóstico é mínima, não se confia na interpretação como instrumento
terapêutico, não se considera o conhecimento claro como um agente essencial de mudança
no processo de aprendizagem, as atitudes de transferência são encaradas como todas as
outras expressões afetivas, e considera-se como previsão mais eficaz do êxito possível da
terapia a própria experiência.
Essas são as semelhanças entre a terapia individual e a terapia de grupo.


Em que situações o trabalho terapêutico com grupo pode ser mais eficaz do que a terapia
individual?





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UNIDADE 29
TERAPIA INDIVIDUAL E TERAPIA DE GRUPOS: DIFERENÇAS
Objetivo: Explorar as diferenças entre a terapia individual e a terapia de grupo.
A terapia de grupo tem características particulares que não se encontram na relação de
consulta psicológica que envolve apenas duas pessoas. Uma das mais importantes dessas
características específicas reside no fato de a situação de grupo pôr em foco a adequação
das relações interpessoais e oferecer a oportunidade imediata de descobrir formas novas e,
mais satisfatórias, de estabelecer relações com os outros. Torna-se cada vez mais claro que
as discrepâncias na percepção do ego, que são a origem da perturbação que traz a pessoa à
terapia, resultam de experiências que o indivíduo viveu com, relativamente, poucas pessoas
que foram importantes para ele. Quando essas experiências foram prejudiciais, o indivíduo
defende-se adotando um modelo rígido, limitado e pouco eficaz de resolver os seus
problemas, mas que lhe permite ter uma sensação de controle de sua vida e evitar uma
desorganização completa, uma expectativa sempre terrível e iminente. Sente uma
necessidade enorme de uma experiência que lhe possibilite aproximar-se dos outros, e
descobrir por essa via os aspectos rejeitados de si mesmo e que tão importantes são nas
relações com as outras pessoas. Determinados indivíduos gravemente perturbados podem
achar a situação de grupo demasiado ameaçadora e exigir uma terapia individual. Mas, para
aqueles que podem dar os primeiros passos na abertura aos outros e permitir que os outros
se aproximem deles, a experiência pode ser profundamente salutar.
O indivíduo que se sente diminuído pode ganhar muito com a experiência do grupo. Na
nossa sociedade, os indivíduos sentem-se isolados. Eric Fromm, numa análise sociológica
da personalidade, descreveu como características da sociedade atual: a solidão do homem
moderno e o caráter desenraizado da sua vida. Mesmo um observador casual pode verificar
as conclusões de Fromm, vendo a facilidade com que as pessoas mantêm os outros
afastados de si. A proximidade física entre as pessoas pode ser forçada, ou mesmo


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procurada, mas tenta-se, com muita perícia, evitar a intimidade pessoal. Os divertimentos
mecânicos são bem-vindos como instrumentos de obliteração da última possibilidade de uma
simples relação com os outros. Esse isolamento, porém, tão ansiosamente procurado, é um
pobre prato de lentilhas, e o homem sabe isso com toda a certeza. Não se pode encontrar
uma prova maior do que a resposta frequente dos indivíduos à terapia de grupo, onde se
espera que as pessoas se aproximem umas das outras. A oportunidade é bem-vinda e
apreciada. Uma jovem exprime esse aspecto da seguinte maneira:
Também reconheço agora, quando antes era incapaz de fazer, que a segurança
econômica não leva necessariamente à satisfação afetiva. É com esta última que
agora me preocupo, e, do meu ponto de vista, parece-me que devo buscar esses
sentimentos de segurança, de certeza, de aceitação e afeto entre amigos, homens,
mulheres, ou ambos. Para mim, é uma grande mudança de atitude, porque sempre
lutei contra o estabelecimento de laços afetivos fora da família e, de fato, não quis
admitir a sua necessidade para uma vida satisfatória e plena. O risco sempre me
pareceu demasiado grande; se nunca se estiver na dependência de ninguém, nunca
nos magoarão, nunca haverá o perigo de nos abandonarem. As reuniões da terapia de
grupo sugeriram-me a ideia, e depois me convenceram, de que a atmosfera de
aceitação de calor de real simpatia e de resposta que existiam durante elas é uma
parte vital da vida de qualquer pessoa e que vale a pena correr qualquer risco que
haja, É esta base de aceitação, de segurança e de compreensão que sei nunca ter
tido, embora tanto o meu pai como a minha mãe fossem incapazes de ver que isso é
verdade. Sentem que o nosso lar deu às filhas uma perfeita compreensão e simpatia.
Não sei o que vou fazer com estas atitudes modificadas, mas não parece que isso, de
momento, me preocupe. Julgo que o reconhecimento e o consequente desejo, da
minha parte, de deixar as coisas acontecerem no capítulo das emoções é da maior
importância e tudo o resto entrará, mais ou menos, na linha.
A pessoa aprende, como membro de um grupo, o que significa dar e receber apoio afetivo e
compreensão de uma forma nova e mais amadurecida. O ego redefine-se num contexto
semelhante ao que criou inicialmente a necessidade de distorcer a percepção do ego, e do


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ego em relação com os outros. Talvez, seja a característica dominante da experiência do
grupo.
Contrariamente ao que se esperaria, é, por vezes, mais fácil a uma pessoa falar numa
situação de grupo do que individualmente a um terapeuta e esta diferença merece ser
realçada. Uma experiência limitada com antigos combatentes seriamente perturbados
confirma este aspecto. Todos os participantes nos grupos tinham recebido terapia individual
durante períodos variáveis que iam até um ano e foram remetidos para a terapia de grupo
porque não correspondiam ao tratamento individual. A gravação dos casos indica que alguns
homens que eram incapazes de falar, na terapia individual, sobre as suas experiências de
guerra traumatizantes, receberam do grupo o estímulo e a aceitação necessária que lhes
permitiu reviver muitas das experiências terríveis que mantinham fechadas à consciência.
Recorre-se às diferenças individuais para revelar a própria vida. O membro do grupo mais
capaz de falar sobre si mesmo pode começar e aliviar assim a tensão dos membros mais
reticentes que mais tarde ganham coragem com esse exemplo e tentam segui-lo. São
vulgares expressões como estas: “Eu também tive a mesma experiência” ou “Quando isso
lhe aconteceu, teve o mesmo sentimento que eu tive”. Atua a facilitação do grupo que foi
estudada em outros contextos por psicólogos sociais, Não se pretende dizer que todas as
pessoas achem mais fácil falar em grupo; enquanto uns podem falar desde logo e outros
aprender que é seguro falar, alguns podem ficar calados, sem se arriscar, ao longo das
sessões. Mas, o que é importante é o que, eventualmente, se ganha em liberdade, no grupo.
Muitos problemas da Teoria da Personalidade e do processo terapêutico giram em torno do
problema dos valores. Um dos princípios basilares na terapia centrada no paciente é que o
indivíduo deve ser ajudado a elaborar o seu próprio sistema de valores, com a imposição
mínima do sistema de valores do terapeuta. Esta afirmação é em si mesma, evidentemente,
a expressão de um valor que comunica inevitavelmente ao paciente ao longo de um trabalho
íntimo conjunto. Acredita-se que este valor que afirma o direito de o indivíduo escolher os
seus próprios valores é uma ajuda do ponto de vista terapêutico. Acredita-se que a sugestão
de um sistema de valores pelo terapeuta é prejudicial do ponto de vista terapêutico,
possivelmente porque, se for apresentado pelo terapeuta, transmite inevitavelmente a


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autoridade deste, constituindo uma rejeição do ego do paciente nesse momento. O terapeuta
não pode exprimir simplesmente um valor pelo que ele significa em si; a sua expressão tem
uma direção nítida, um significado inevitável aos olhos do paciente. O paciente tem de
enfrentá-lo ativamente. Na terapia de grupo a situação em relação aos valores é muito
interessante e as suas consequências revelam-se como muito importantes. O terapeuta, tal
como no trabalho com indivíduos de uma perspectiva centrada no paciente, defende,
silenciosa e consistentemente, em cada uma das suas expressões, o valor fundamental do
direito do indivíduo determinar a sua própria maneira de viver. Crê-se que este valor é tão
importante que o terapeuta não deve obscurecer o problema, ameaçando possivelmente o
grupo, ao apresentar à consideração outros valores. Mas, os valores são apresentados em
profusão pelos membros do grupo, e esta expressão rica e variada de maneiras de viver
oferece a cada elemento do grupo diferentes perspectivas, sem que nada lhes exija que as
adotem. Os valores que se exprimem são relevantes para o indivíduo que fala; os ouvintes
estão libertos da tensão de aceitar ou rejeitar: podem utilizar o material na medida em que o
apreendem como significativo para si próprios. além disso, os tipos de valores expressos
num grupo representam de alguma maneira um corte transversal dos valores da cultura em
que o indivíduo vive, com uma variedade consideravelmente maior da que poderia defender
o terapeuta isolado. Essa diversidade dos valores expressos é um fator importante, segundo
se crê, na criação de um clima em que se deixa autenticamente a escolha final do indivíduo.
A terapia de grupo proporciona uma outra oportunidade, ausente na terapia individual, que
pode ter muita importância no processo terapêutico. No grupo o indivíduo pode prestar ajuda
ao mesmo tempo em que a recebe. Observações feitas por membros de grupos ao falarem
sobre a sua decisão de iniciar a terapia sugerem que a perspectiva de um trabalho de
cooperação em que podiam esperar ganhar alguma coisa e em que sentiam poder colaborar,
reduzia muito as barreiras entre eles e a terapia. Também é possível que o ato de prestar
ajuda seja mesmo uma experiência terapêutica, mas trata-se apenas de uma hipótese.
Na terapia de grupo um indivíduo pode atingir um equilíbrio maduro entre dar e receber,
entre a independência do ego e uma dependência realista dos outros.


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UNIDADE 30
UM EXEMPLO DO TRABALHO COM GRUPOS

Objetivo: Exemplificar um atendimento psicoterápico com gupo segundo a abordagem
centrada na pessoa.
Seria útil analisar o que acontece quando as pessoas se reúnem num grupo para elaborar os
seus problemas pessoais. Segue, então, uma transcrição literal de parte da primeira sessão
da terapia centrada no grupo com seis estudantes universitários que se preparavam para
trabalhar em escolas ou colégios. Os nomes foram alterados e foram eliminados todos os
elementos de identificação: J ane Harrison, de 23 anos de Idade, educadora infantil. Kay
Madison, de 35 anos, é orientadora numa escola secundária. Anne J ensen, de 21 anos, o
membro mais novo deste grupo, não falou durante esta sessão. Mary Conway, de 33 anos
com vários anos de experiência de ensino de inglês. Laura Preston, de 27 anos, é professora
e psicóloga em tempo parcial numa escola. Betty Arnold, de 28 anos, ensinou em escolas
secundárias e prepara a licenciatura em orientação.
Jane: Posso dizer que o que me interessa é o problema do conceito de dependência
ou de independência no casamento. Estou casada há um ano — o meu marido é
estudante de Direito; é uma pessoa fundamentalmente não emotiva e posso dizer que
há uma grande falta de compreensão entre nós. O conflito é principalmente entre o
meu desejo de ser independente e o de não ser independente na relação conjugal, e
de o casamento não ser uma relação de partes iguais.
Líder: Neste momento não a satisfaz plenamente.
Jane: Não, não é uma relação satisfatória, mas penso que haverá muitas
possibilidades de vir a ser uma relação satisfatória.


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Betty: (pausa). Penso que o meu principal problema é não ter suficiente confiança em
mim mesma para me afirmar quando estou com as outras pessoas. Sinto confiança
quando se trata de fazer coisas, mas quando estou num grupo social ou numa sala,
retiro-me mais ou menos e deixo que todos os outros falem e pensam. Julgo que,
provavelmente, isso se deve em parte ao fato de na nossa família o meu pai ser uma
pessoa dominadora, ele é a pessoa da família, de modo que todos os outros têm de
se submeter aos seus desejos. Suponho que esse sentimento se estendeu a outras
relações a sensação de não ser — de não ter um grande valor ou méritos pessoal.
Líder: Tem confiança na sua capacidade, em particular ou individualmente, mas
quando trabalha com outras pessoas tem tendência a desvalorizar-se.
Betty: Justamente. Procuro evitar os problemas, ou retrair-me, em vez de enfrentá-los.
Líder: Sim.
Jane: Num pequeno grupo de bons amigos, que já conheço há algum tempo, não
tenho essa sensação, mas numa aula ou em reuniões de família, quando há outros
parentes ou amigos da família, ponho-me na retaguarda.
Líder: Tem de se sentir firmemente apoiado num pequeno grupo de pessoas para
poder sentir-se livre para ser o que é. (Pausa enquanto entra um outro elemento do
grupo). Miss Preston, conhecemo-nos todos aqui pelo primeiro nome, qual é o seu?
Laura: Laura.
Líder: Laura, portanto.
Kay: Julgo que o que me preocupa é uma aceitação da minha atuação pessoal.
Aceito-a mentalmente e vejo que tenho várias opções a fazer, mas quero aceitá-la,
também, emotivamente. Isso se deve provavelmente ao fato de eu — do meu marido
ter morrido há dois anos de uma forma trágica. O avião caiu no Pacífico. Ninguém se
salvou. Já tinha acabado a guerra e preparava-se para regressar a casa. E, embora


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seja capaz de ver como a coisa aconteceu, ainda não a aceito e quero aceitar
emocionalmente a minha vida daqui em diante.
Líder: Foi capaz de elaborar uma compreensão intelectual ou racional da situação e
do que devia fazer, mas não foi ainda capaz de controlar os seus elementos.
Kay: Se vou a rua e olho para uma montra e vejo uma peça de vestuário, penso que
ele teria gostado dela e isso me transforma completamente e eu...
Líder: Acha que volta a passar por todas aquelas emoções.
Kay: É isso. Pode ser o cheiro do tabaco que ele usava, ou qualquer coisa
semelhante; e já passaram dois anos, tenho que começar a controlar as emoções.
Jane: (a Kay): Tinha uma relação feliz com ele?
Kay: Sim, tínhamos uma relação perfeita, dessas em que cada um fazia 50 por cento
do caminho para encontrar o outro no fim dos seus 50 por cento. E, uma das coisas
que julgo que ajudaram foi o fato de termos de depender muito um do outro porque
vivemos muito tempo num país estrangeiro. Não tínhamos qualquer apoio exterior e
dependíamos completamente um do outro.
Líder: Tinham uma relação muito profunda. Ele era tudo para ti.
Kay: Conhecia-o desde sempre e eu não tinha — não nos casamos quando éramos
muito novos; a culpa foi minha; gostou sempre de mim e eu, à medida que ia
crescendo, apreciava cada vez mais os seus sentimentos. E penso que não era tanto
o meu amor por ele, mas a minha certeza do seu amor por mim. Bem, isso era o mais
importante. Amava-o e aprendi a apreciá-lo cada vez mais.
Jane: Antes se sentia insegura de que as pessoas gostassem de si?
Kay: Sim, não me sentia em segurança com ninguém, os meus pais eram divorciados
e nunca tive ninguém que fosse tudo para mim.


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Líder: Encontrou nele o fato, não foi?
kay: Sim. E, não só isso; reconheci-o e trabalhei por isso. Por exemplo, procurei
tornar-me, eu própria, essencial para ele, de todas as maneiras ao meu alcance
(Pausa).
Jane: Bem, suponho que no fundo o que quero é aquilo que você teve.
Laura: Bem, estive aqui sentada, num certo sentido com inveja de Kay pela felicidade
que teve. Às vezes, não reconhecemos a importância de uma coisa quando a temos.
Líder: O amor verdadeiro e profundo de alguém?
Laura: Justamente, e ela foi bem feliz por ser capaz de reconhecer as coisas que
negara durante tanto tempo. Realmente viveu com ele durante esse tempo.
Kay: Procuro dizer isso a mim mesma. E sabia isso. Quando olho para as pessoas em
torno de mim, sinto-me feliz por tê-lo tido (pausa) e compreendo isso, mas ainda não
posso aceitá-lo.
Líder: E isso a sufoca.
Laura: Bem o que chama a atenção é o fato de que você não o soube durante muito
tempo o que é bastante parecido com o ponto de partida dos meus problemas: eu
também não sabia. E, vivi assim sem saber, e nunca tive uma oportunidade. E agora
me vejo face ao problema da minha mãe se sentir particularmente responsável. É esta
situação lamentável.
Líder: Esse fato faz você sentir-se muito mal.
Laura: Bem, procuro desculpá-la, na medida do possível, e garantir-lhe que a culpa
não foi dela, porque se a teve ou não teve ó outra questão. Mas não posso continuar a
pensar que era a única coisa que tinha na vida. Há muito mais coisas. E com todas as
pressões que me rodeiam, sigo pelo caminho mais fácil e dito, bem; talvez a culpa
seja sua, e talvez seja uma situação lamentável e talvez isto e talvez aquilo.


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Líder: Isso a faz sentir que tem de lutar contra ela.
Laura: Pois é, e isso não pode dar lugar a uma adaptação feliz. Não está certo. Na
escola, no trabalho, com amigos, em qualquer parte — uma pessoa está,
constantemente, marcada pela horrível situação em que se vive. E, isso não está bem.
Líder: Acompanha-a a maior parte do tempo.
Laura: Sim, sei o que isso quer dizer. Em parte é essa a razão por que vim aqui, para
sair dessa situação. Porque quando entro numa sala, toda gente se cala e uma
pessoa sente a simpatia que tem por ela, mas não é isso o que cada um quer. Têm-se
demasiadas vezes pena de si mesma. Porque se tive — não tenho nada que me
preocupe. Não há nada que me possa afligir.
Betty: Também acha que é muito difícil desviar-se das coisas que as pessoas pensam
de nós. Se todos pensassem sempre que se é uma pessoa muito sensível ou prática,
acaba por não se poder fazer nada que não seja sensível ou prático. As outras
pessoas franzem as sobrancelhas ou ficam horrorizadas quando se faz algo que não
esperavam que se fizesse.
Líder: Tende, portanto, a conformar o seu comportamento de acordo com aquilo que
os outros esperam de si.
Betty: Com muita frequência, se quero fazer qualquer coisa, pergunto-me como
reagiriam os meus pais e, provavelmente, não o farei se me parecer que não
aprovariam.
Mary: Essa questão de as pessoas terem pena de nós — influi, quando a situação, na
realidade, os meus pais e, provavelmente, não o farei se me parecer que não
aprovariam.
Líder: chega-se a acreditar que é assim.
Mary: Exatamente, e logo se acrescenta alguma coisa.


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Líder: Sim. Sentir pena de si começa a ser uma saída muito fácil da situação. Sei que
o fiz muitas vezes. Passei muito tempo só e comecei a pensar que a minha casa
nunca foi assim a se sentir muita pena de mim mesma. E julgo que é uma saída muito
fácil para não enfrentar a mim mesma.
Kay: Por que é que foram para a faculdade?
Jane: Ele tem ainda três anos de universidade e se quiser exercer, tem vários anos de
trabalho de rotina. De modo que, está numa situação em que não ganhará nada
durante cinco anos.
Kay: E agora pensa em trabalhar; neste Outono começa a trabalhar?
Jane: Sim, penso ser um apoio financeiro, para que ele possa continuar. Estou
firmemente decidida a não pedir dinheiro a pessoas de família, porque a relação com
os meus pais não é muito boa. E a minha relação com os meus sogros — creio que se
lhes pedisse dinheiro, e eles estão em posição de nos dar, teria de ouvir a minha
sogra durante o resto da vida. Aí está uma coisa que considero muito difícil, porque
ela, se lhe desse oportunidade, gostaria de me, ensinar como devia assoar (Risos).
Kay: Mas na realidade são muito humanos.
Jane: São, são muito humanos. Se uma pessoa se põe a pensar acerca disso, são
mães, passaram toda a sua vida criando os filhos e nós os tiramos de casa. Os seus
interesses deslocam-se para outro sítio. É difícil para elas; têm de fazer uma
adaptação muito difícil, suponho. Creio que quando for sogra não serei melhor.
Kay: Porque você sente, quero dizer, bem deve sentir que ele gosta de ti, ou que
gostou.
Jane: Bem, ele não é muito emotivo e eu sou uma pessoa muito emotiva. Sinto que é
muito reservado. Passou muito tempo antes de mostrar qualquer afeição aberta em
relação a mim nas relações de todos os dias. Uma pessoa começa a sentir, para dizê-
lo cruamente, que se casou por razões de ordem econômica ou por outras razões.


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Começa-se a pensar isso especialmente quando se precisa de um grande apoio
afetivo e se descobre que não se tem, devido às circunstâncias.
Líder: É realmente perturbador ter essa sensação.
Jane: Realmente é, e acarreta um grande sentimento de culpa, porque foi sempre
educado com o sentimento que não se deviam pensar essas coisa em relação ao
marido.
Líder: Por isso, tende a censurar a si mesma quando tem pensamentos como esse.
Jane: Sim. E fico então a pensar que tudo o que anda mal no nosso casamento é por
culpa minha. Tenho tendência para tomar essa atitude, de modo que ele acabou por
sentir que, bem, era perfeito.
Kay: Discutiu isso com ele? Compreende como se sente insegura?
Jane: Sim, começa agora a compreender. E, como disse, começou há pouco — diria
que na realidade há muitas possibilidades de podermos desenvolver uma relação que
seja satisfatória para ambos.
Líder: Há muitos fatores positivos.
Jane: Há, sim. Ele aproxima-se. É para mim um terrível desgaste emocional, mas ele
aproxima-se. Têm de surgir muitas questões antes dele compreender algumas coisas.
Mas, finalmente se aceita.
Kay: Isso acontece porque você exprime o que sente ou porque o deixa adivinhar às
cegas?
Jane: Não, não exprimo muito os meus sentimentos.
Kay: Bem, está a ver, ele realmente não sabe.
Jane: Bem, não sabe, é verdade.


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Líder: Sim, porque eu — se eu sucumbo e faço isso, coloco-me numa posição que não
é tão elevada como eu gostaria que fosse. Sinto que não sou tão adulta como gostaria
de ser. (84; p.118-121).
Cabe, por fim, destacar que a opção por uma terapia de grupo ou individual, existencial ou
analítica, por parte do cliente, se faz em função daquilo que faria com que ele se sentisse
mais à vontade em termos de experiência. Mas, por parte do profissional a questão é
diferente. Tudo depende da formação intelectual e profissional e das convicções que ele cria
ao longo do seu percurso. Não é possível concluir qual a melhor técnica ou abordagem
psicoterapêutica, mas é possível concluir que os resultados, em todas elas, irão depender,
em grande parte, da seriedade e da ética profissional em conduzir o processo.


Antes de iniciar sua Avaliação On-line, é fundamental que você acesse sua SALA
DE AULA e faça a Atividade 3 no “link” ATIVIDADES.



Atividades dissertativas
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Bons Estudos!




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Você poderá aprofundar seus estudos buscando as seguintes referências:
FREUD, Sigmund. Obras completas. Rio de J aneiro: Imago, 1974.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Além disso, visite sites oficiais e estude um pouco mais sobre as práticas terapêuticas. Para
mais informações sobre as práticas em Psicanálise, você poderá consultar a Sociedade
Brasileira de Psicanálise ou a Escola Brasileira de Psicanálise:
 www.sbpsp.org.br/
 www.ebp.org.br/
Para informações acerca das práticas terapêuticas em geral, você pode consultar nos sites:
 www.apacp.org.br
 www.brasilescola.com/psicologia/
 www.psicologia.com.pt/





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GLOSSÁRIO
Ambiguidade
1. Gram Anfibologia, obscuridade das palavras ou expressões, que pode causar várias
interpretações (abolido pela N. G. B.). 2 Dúvida, incerteza, irresolução.
Anamnese
1. Reminiscência, recordação. 2. Liturg Oração que, na missa, é dita após a elevação e que
recorda a paixão do Redentor. 3. Ret Figura pela qual o orador simula lembrar-se, na
ocasião, de coisas que iria esquecendo, para assim chamar a atenção sobre elas. 4. Med
Reaquisição da memória, regresso da memória. 5. Med Histórico dos antecedentes de uma
doença (doenças anteriores, caracteres hereditários, condições de vida, etc.).
Conducente
1. Que conduz a um fim. 2 Tendente. 3 Útil ao intento.

Congruente
1. Que está harmoniosamente unido ou relacionado com. 2. Concordante, correspondente;
coincidente. 3. Apropriado, conveniente. 4. Lóg Relativo ao mesmo sujeito, ou que se pode
afirmar como predicado do mesmo sujeito. 5. Lóg Diferente um do outro mas afirmável como
verdadeiro do mesmo estado de coisas. adj pl Mat Diz-se de duas figuras quando podem
coincidir por superposição.
Discrepância
1. Estado ou qualidade do que discrepa. 2 Divergência. 3 Disparidade.



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Dogma
1. Ponto ou princípio de fé definido pela Igreja. 2. Conjunto das doutrinas fundamentais do
Cristianismo. 3. Cada um dos pontos fundamentais de qualquer crença religiosa. 4.
Fundamento ou pontos capitais de qualquer sistema ou doutrina. 5. Proposição apresentada
como incontestável e indiscutível.
Extrínseco
1. Exterior. 2. Que não é essencial. 3. Diz-se do valor convencional ou legal de uma moeda.
4. Anat Que se origina fora de uma parte ou órgão e age sobre esta parte ou órgão como um
todo: Os músculos extrínsecos dos olhos.
Fenômeno
1. Qualquer manifestação ou aparição material ou espiritual. 2. Tudo o que pode ser
percebido pelos sentidos ou pela consciência. 3. Fato de natureza moral ou social regido por
leis especiais. 4. Tudo o que é raro e surpreendente. 5. Maravilha. 6 Pessoa que se distingue
por algum dote extraordinário.
Hipotético
1. Que se refere a hipótese. 2. Tudo o que é objeto de suposição e por isso necessita ser
comprovado. 3. Aquilo que se imagina.
Introjeção
Fenômeno pelo qual a criança incorpora o objeto percebido.
Jubiloso
1. Cheio de júbilo. 2. Em que há júbilo ou grande alegria. 3. Festivo.
Peculiar
1. Que diz respeito a pecúlio. 2. Especial, privativo, próprio de uma pessoa ou coisa.


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Permissivo
1. Que dá permissão; que usa de permissividade.
Psicoterápico
1. Relativo à psicoterapia.
Semântico
1. Relativo à Semântica. 2 Relativo à significação; significativo.



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BIBLIOGRAFIA
BOCK, Ana Mercês B.; FURTADO, Odair; GONÇALVES, Maria Graça M. (orgs.). Psicologia
sociohistórica. São Paulo: Cortez, 2002.
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1983.
EIZIRIK, Cláudio et al. Psicoterapia de orientação analítica. Teoria e prática. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1989.
ERTHAL, Tereza C. S. Terapia vivencial: uma abordagem existencial em psicoterapia.
Petrópolis: Vozes, 1990.
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FIORIN, Hector. Teoria e técnica de psicoterapias. Rio de J aneiro: Francisco Alves, 1982.
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Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de J aneiro: Imago, 1974b, v. XIX
FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Pequena coleção das obras de Freud;
trad. C.M. Oiticica. Rio de J aneiro: Imago, 1975.
FREUD, S. Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos. In:
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio
de J aneiro: Imago, 1974d, v. XIX.
FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund
Freud. Rio de J aneiro: Imago, 1974a.


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FREUD, S. Mais além do princípio do prazer. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de J aneiro: Imago, 1974c, v. XVIII
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Pequena coleção das obras de
Freud; trad. P.D. Corrêa. Rio de J aneiro: Imago, 1973. v.2
J UNG, Carl G. A energia psíquica. Petrópolis: vozes, 1987.
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J UNG, Carl G. Fundamentos de psicologia analítica. Petrópolis: Vozes, 1989.
J UNG, Carl G. Memórias, sonhos, reflexões. Rio de J aneiro: Editora Nova Fronteira, 2006.
J USTO, Henrique. Teoria da personalidade: aprendizagem centrada no aluno. Porto Alegre:
Santo Antônio, 1978.
MASLOW, A. Introdução a psicologia do ser. Rio de J aneiro: Eldorado Tijuca Ltda, s.d.
MELAINE KLEIN et al. Os progressos da psicanálise. Rio de J aneiro: Guanabara, 1986.
MURPHY, L. M. R. Psicologia existencial. Buenos Aires: Nova, 1966.
REIS, Alberto A. et al. Teorias da personalidade em Freud, Reich e Jung. São Paulo:
EPU, 1984.
RIBEIRO, J orge P. Teorias e técnicas psicoterápicas. Petrópolis: Vozes, 1986.
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ROGERS, C. R.; ROSENBERG, L. A pessoa como centro. São Paulo: E.P.U. 1977.
ROGERS, C. R. Grupos de encontro. São Paulo: Martins Fontes, 1978a.
ROGERS, C. R. Terapia centrada no paciente. Lisboa: Moraes, 1983.


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ROUDINESCO, Elizabeth, PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de J aneiro: Zahar,
1998.