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Quando as coisas quebram

Israel Fabiano Souza

A morte de alguém precioso e necessário; um
acidente; um rompimento com um companheiro de
décadas (ou de dias, quem sabe); uma carta de demissão;
um paradigma desacreditado; uma palavra: qualquer coisa
pode servir para que algo em nós se quebre.
Acredito que vivemos correndo a vida inteira deste
evento e muitas vezes falhamos. Ele é inevitável e, para
aquele que aqui escreve, tão certo quanto a morte. Quem
nunca padeceu desse acontecimento que atire a primeira
pedra, e com isso quebre algo ao redor de si. Sofremos
desse trágico fato e por mais que tentemos esquecê-lo,
embriagados nas conquistas e vitórias de nossa vida, ele
sorrateiramente nos espreita em tempos sombrios e
nebulosos. Quebramos nossos corpos, quebramos nossos
corações, nossas vontades e nossos sonhos. Muitas vezes
também quebramos nossas vidas, as vidas de outras
pessoas, o mundo. Algumas vezes as pedras têm como
alvo a nossa direção, em outras circunstâncias somos nós
que nos tornamos os projéteis que fatalmente quebrarão
algo.
Não olhamos com bons olhos quando algo se
quebra. As coisas aparentemente devem ficar em seu
estado original, nunca dilaceradas e em pedaços. Estamos
acostumados a pensar assim. Nossa experiência histórica
nos mostra que o fragmento, o pedaço, a parte, nunca
supera a beleza apolínea do todo, da forma perfeita, do
completo. E com isso associamos (ou talvez seja mesmo
uma relação de causa e efeito e não apenas uma associação
psicológica) a dor, o feio, o incompleto e imperfeito, o
inacabado ou (para resumir numa palavra) o quebrado, às
dores que experimentamos no decorrer de nossos anos
neste mundo.
Mas e o que fazer quando algo assim acontece?
Quando só nos sobram apenas os extratos da coisa mesma,
quando ela já não é mais reconhecida como aquilo que era
até então? Certamente algo assim vem acompanhado da
dor, da agonia, da ausência de sentido e de um estranho
sentimento de estar flutuando num lócus sem fundamento,
como se tirassem de nós o chão que pisamos ou os pés que
nos auxiliam a caminhar. Penso nas vezes que isto
aconteceu comigo e sinceramente não tenho uma fórmula
precisa. Todo quebrar é único e necessita de um tipo de
reação, e o contraditório disso é que não estamos
preparados para o momento, nunca estamos pois ele vem
sem nos avisar. Tudo o que fazemos quando as coisas
quebram é inicialmente tentar se convalescer da dor que
isto faz surgir em nosso âmago. A dor da questão tão
angustiante que a acompanha: “e agora?”. Muitas vezes
esgotamos nossas forças no primeiro momento e nem
sequer contamos com um resquício delas para continuar a
viver. O vazio que algo assim deixa em nós é tão grande
que se nosso tino se aventura nas malhas do desespero se
perde para sempre nos confins do desânimo, da loucura e
da derrota. Tudo o que resta a fazer é se ajoelhar e catar os
cacos que ficaram, os fragmentos que insistem em nos
lembrar que a despeito do que aconteceu a correnteza da
vida flui sem parar e se ficamos paralisados a ponto de
transformar esses cacos em grilhões nunca saímos do lugar.
As coisas quebram, e é isto uma das coisas que nos
adverte que somos humanos, não deuses. A nossa
tragicidade foi tão perfeitamente colocada pelos poetas
gregos que dizem que só somos trágicos porque somos
finitos. É esta finitude que nos define e da qual muitas
vezes temos medo, mas é esta mesma finitude que nos faz
criar forças para enfrentar o escuro futuro com bravura,
pois o ser humano procura mesmo sem saber criar um
sentido naquilo que faz, um roteiro que possa ao final de
seus anos na terra repassar e enfim dizer: cumpri meu
papel de homem. Talvez seja esta a forma de nos
curvarmos mais honradamente à morte, a maior das
maiores quebras.
Se as coisas quebram, certamente é porque são
frágeis, e é na sua fragilidade que reside sua importância.
Como o cristal que não queremos ver em pedaços no chão,
também não queremos nossa vida – nela inclusas todas as
coisas caras para nós, aquelas que quebram,
conseqüentemente - esfacelada e espalhada aos quatro
cantos, desfigurada pelas abruptas fissuras que insistem
em feri-la. Mas ela se quebra, com já disse. Só nos resta a
força para enfrentar estes rasgos em nossa existência e a
delicadeza para entender que são estas coisas que fazem
com que percebamos o que nos é necessário e o que nos é
prescindível, o cristal e o vidro. Amemos nossas caras
coisas, enquanto ainda jazem inteiras. E quando se
quebrarem, que haja doçura na tristeza, e sabedoria em
saber colar as peças, uma por uma, mesmo que elas não se
encaixem mais como antes, ou então determinação de jogar
fora aquilo que já não vale mais a pena. Pois existem coisas
quebradas que valem a pena ser consertadas e outras que é
melhor que sejam esquecidas no lixo. E assim nossa vida
segue.