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Vol. 4, nº 1, 2011.

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Os pressupostos antropocêntricos na crítica ao progresso segundo
John Gray

Ricardo Leme Vilela
1



Resumo: A partir da Modernidade, a ideia de progresso tem sido encarada como um problema
filosófico, tanto que muitos foram os pensadores que se debruçaram sobre tal tema. Na
atualidade, face aos avanços tecnológicos contrastantes à destruição ecológica e à desigualdade
social crescente, faz-se necessário a revisão do conceito de progresso e das críticas que já foram
cunhadas a este. O presente trabalho tem como objetivo apresentar algumas críticas já realizadas
à “promessa” iluminista de progresso. Seguindo uma ordem não-cronológica de desconstrução
da proposta de esclarecimento kantiana, elemento base da ideia progressista, observaremos as
críticas de Walter Benjamin à visão linear da história; a de Friedrich Nietzsche ao niilismo
produzido pela racionalidade hegemônica; e, por último, a de John Gray, que denunciará o
humanismo como mera extensão antropocêntrica do pensamento cristão, ainda presente nas
críticas dos dois pensadores anteriormente citados. Esta última crítica se apresentará como uma
possibilidade para se pensar o progresso atualmente.

Palavras chaves: Progresso. Crítica. John Gray.

Abstract: Since the Modernity, the idea of progress has been seen as a philosophical problem,
as many were thinkers who have studied this topic. Currently, due to technological advances
contrasting the ecological destruction and social inequality increasing, it is necessary to review
the concept of progress and the criticisms that have been minted for this. This work aims to
show some critiques to the "promise" of Enlightenment progress. Following a non-
chronological order for the deconstruction of the proposed from Kantian enlightenment of the
progressive base element, we take into consideration at the criticism of Walter Benjamin's
concept of linear history; at the Friedrich Nietzsche nihilism produced by hegemonic rationality;
and, finally, at the John Gray, who denounce the anthropocentric humanism as a mere extension
of Christian thought, still present in the two critical thinkers mentioned above. This last critique
will be presented as a current opportunity to think about the progress.

Keywords: Progress. Criticism. John Gray.

***
‘‘Essa razão universal - moral ou prática -, esse
determinismo, essas categorias que explicam tudo
têm com que fazer rir o homem honesto.’’ (A.
Camus).

Introdução

Vivemos num período da história no qual observamos a crise dos valores
oriundos, em grande parte, de um dos aspectos do Iluminismo
2
: a crença de que a

1
Graduado em história e acadêmico de filosofia pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP)
– Campus de Jacarezinho. Orientador: Prof. Dr. Maurício Saliba. Email: rivilela23@hotmail.com.


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humanidade poderia se emancipar através do uso da razão. Contudo, analisando o
cenário mundial a partir do século XX, com suas guerras de conseqüências globais,
além da crise de âmbito ambiental que hoje presenciamos, podemos afirmar que o
progresso na relação do homem com o homem e com a natureza não foi logrado. É
duvidoso afirmar que a razão humana, apesar das melhorias tecnológicas, tenha nos
proporcionado maior esclarecimento ético para a resolução de conflitos sociais e
ambientais.
Na filosofia, o problema do progresso não é recente. A partir da Modernidade
3
,
muitos foram os filósofos que, diante do novo e emblemático cenário de relações
burguesas, se propuseram a analisar as mazelas sociais decorrentes da nova
configuração social e econômica. A miséria das cidades industriais emergentes, a
maquinização do trabalho, o controle de tempo, a supremacia da ciência sobre as demais
áreas do conhecimento, o aperfeiçoamento da tecnologia da guerra e a destruição do
meio ambiente, serão temas de que muitos pensadores, a partir do século XIX, se
ocuparão frequentemente em tecer críticas.
Observaremos, então, a razão a questionar a si própria e tentar descobrir seus
limites, e qual a utilidade da edificação de conhecimentos, técnicos ou não, construída
sobre a esperança iluminista. E, para além disso, através de John Gray, observaremos a
crítica do humanismo e da visão que “[...] através da ciência a humanidade pode
conhecer a verdade, e assim, ser livre.” (GRAY, 2009, p. 42).

1. Uma breve conceitualização de progresso

Antes de falarmos sobre as críticas realizadas ao progresso, é necessário
entendê-lo, mesmo que de forma rápida.
Segundo o Dicionário de Filosofia de Gérard Durozoi e André Roussel, a
palavra progresso é oriunda do latim progressus, que significa “ação de avançar,
crescimento”. Além disso, o dicionário apresenta alguns usos para o termo, mas o que

2
Movimento de cunho filosófico surgido na Europa do século XVIII, de grande influência na política, na
economia e na cultura daquela época. Kant definira o Iluminismo como sendo a saída do homem de sua
menoridade intelectual (KANT, 1985), sobre o qual falaremos mais no tópico seguinte.
3
Segundo Holferich, o período que compreende a Modernidade, no sentido filosófico, vai de Descartes a
Hegel (de 1600 a 1830 - aproximadamente dois séculos). Caracteriza-se principalmente pela convicção de
uma razão universal que, por ser inteiramente confiável, deve nortear todo o conhecimento humano.
(HELFERICH, 2006).


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mais se identifica com o conceito que utilizaremos no nosso trabalho é o último
apresentado, segundo o qual “o progresso designa o movimento para frente da
civilização ligado ao progresso das ciências e das técnicas.” (DUROZOI & ROUSSEL,
2005, p. 384).
Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, na sua Resposta à pergunta: o
que é o Iluminismo?, atribui à racionalidade o papel principal na emancipação humana,
definindo o Iluminismo (ou Esclarecimento) como sendo “a saída do homem do estado
de minoridade”. A minoridade é “incapacidade”
4
do indivíduo de fazer uso da razão por
si mesmo, sem que se sirva de outro. O Iluminismo surge com o objetivo de libertar o
de preconceitos impostos pela religião e pela metafísica, além de superar as relações
desumanas oriundas do despotismo. Logo, o caminho que se percorre da minoridade à
maioridade, é o que pode ser chamado de progresso para os iluministas.
Mas foi o filósofo francês Auguste Comte (1789-1857), segundo Gilberto
Dupas, que teve um papel fundamental na organização social valorizando a ordem em
contraposição à revolução. Dupas assevera que Comte:

[...] quem deu a colaboração mais decisiva à idéia de progresso como
grande farol do caminho humano, criando uma lei que pertencia
exclusivamente a uma "nova" ciência. Comte pretendia lançar as bases
de uma nova sociedade baseada no positivismo, usando para tanto até
a força - se necessário fosse. O lema para o desenvolvimento dessa
sociedade seria "Ordem e Progresso"; e o problema mais importante
era a determinação de suas leis. (DUPAS, 2006, p. 52).

Para a doutrina positivista de Auguste Comte, a história da humanidade passa
por três estados (estágios)
5
: o mítico ou religioso, o metafísico, e o positivo ou
científico. A ciência é, por conseguinte, a única forma de conhecimento verdadeiro.
Dessa forma, fica estipulado que a história humana é linear e seu objetivo é o progresso
científico.

2. Walter Benjamin e o ‘‘escovar a história a contrapelo’’

4
Entre aspas, já que essa incapacidade não é se encontra a priori e irreversível no indivíduo, mas se dá
pela falta de coragem e de decisão. Para Kant é preciso ousar conhecer (KANT, 1985).
5
É necessário salientar que, antes de Comte, Giambattista Vico já dividira a história humana em três
estágios: a era dos deuses, a era dos heróis e a era dos homens. Já é possível visualizar a ideia de
progresso nessa concepção, com a diferença de que, para Comte, a história era linear, enquanto para Vico,
a história se intercalaria entre avanços e retrocessos numa espiral, mas sempre alcançando um patamar
maior (DUPAS, 2006).


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A escola de Frankfurt é considerada até hoje um dos maiores grupos de teoria
crítica social já criados. Walter Benjamin
6
(1892-1940) filósofo e sociólogo judeu
alemão foi um dos seus maiores expoentes. Dentre os temas estudados por Benjamin, o
progresso merece grande atenção no conjunto de sua obra. Era lugar-comum entre seus
contemporâneos a visão de que a história se desenrola como um processo linear
progressista, na qual se entende que o presente é sempre qualitativamente superior ao
passado e inferior ao futuro. Visão esta que foi muito criticada por Benjamin, para o
qual a história se mostra, até o momento de sua fala, apenas como uma repetição de
catástrofes. Aquela concepção não é comum apenas entre os liberais, motivados pelo o
avanço tecnológico, mas também entre os adeptos do “marxismo vulgar”, que crêem na
auto-exponenciação das contradições do capitalismo. Como aponta Michael Löwy em A
filosofia da História de Walter Benjamin, sobre a crítica benjaminiana à concepção
progressista de história:

Contrariamente ao marxismo evolucionista vulgar, Benjamin não
concebe a revolução como o resultado "natural" ou "inevitável" do
progresso econômico e técnico (ou da "contradição entre forças e
relações de produção"), mas como a interrupção de uma evolução
histórica que conduz à catástrofe. (LÖWY, 2002, p. 2).

Para Benjamin, a ideia de que o comunismo surgiria de forma inevitável com a
evolução histórica é um equívoco. A história tem sido apenas uma repetição de
catástrofes, e a modernidade, com o seu progresso, prende ainda mais o homem neste
ciclo eterno do mesmo. Do trabalhador assalariado foi extraída a sua experiência
coletiva do mundo (Erfahrung), ficando restrito a ele apenas a danação diária da
atividade automatizada e repetitiva.
Em Sobre o conceito da História, na oitava tese, Benjamin discorre sobre o
fascismo na história:

A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em
que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um
conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento,
perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de

6
Nossa preferência por utilizar Walter Benjamin em vez de Karl Marx neste trabalho, se dá pelo fato de
que o primeiro, apesar de ter sofrido fortíssima influência da teoria crítica de Marx, se dedicou muito
mais para entender a ideia de progresso.


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exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o
fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o
enfrentam em nome do progresso, considerado como uma norma
histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no
séculos (sic) XX “ainda” sejam possíveis, não é um assombro
filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o
conhecimento de que a concepção de história da qual emana
semelhante assombro é insustentável. (BENJAMIN, 1994, p. 226).

O progresso moderno não pode garantir que o futuro será sempre melhor que o
passado, um exemplo disso é o Estado de exceção, ou seja, o fascismo. A razão
tecnicista não pode evitar a regressão do direito ocorrida neste tipo de estado, o que a
caracteriza como incapaz de deter a barbárie. Pelo contrário, ainda fomenta a guerra
com o avanço técnico da indústria armamentista, além explorar destrutivamente a
natureza.
É necessário, segundo Benjamin, “escovar a história a contrapelo” (BENJAMIN,
1985, p. 222), ou seja, a revolução não pode ser entendida como iminente, natural, mas
como um desvio no fluxo na história. Só a revolução seria capaz de gerar este
rompimento do continuum da história, para dar lugar para um futuro resultante da
dialética entre passado e presente.

3. Nietzsche e o niilismo da modernidade


O também filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), foi um dos mais
ácidos críticos dos valores da cultura moderna, os quais, para ele, tendiam para a
decadência. A concepção de história calcada na crença do progresso, na qual a
sociedade do presente é sempre um meio para se chegar a uma sociedade ideal no
futuro, destitui o sentido da vida do homem atual, já que suas ações trariam consigo o
niilismo, pois estariam voltadas sempre para uma sociedade vindoura. Tal concepção,
segundo Nietzsche, por negar o presente em nome de um futuro idealizado (inatingível),
é uma versão secularizada análoga à crença cristã na vida eterna. O ideal ascético
7

disseminado pela religião e pelas doutrinas democráticas, através de seu igualitarismo,
cria uma falsa imagem do real, podando a vontade de potência que é própria da natureza
humana. Segundo Nietzsche:

7
Ideal voltado à renúncia dos prazeres.


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[...] O ideal ascético tem uma finalidade, uma meta - e esta é universal
o bastante para que, medidos por ela, todos os demais interesses da
existência humana pareçam estreitos e mesquinhos; povos, épocas e
homens são por ele interpretados implacavelmente em vista dessa
única meta, ele não admite qualquer outra interpretação, qualquer
outra meta, ele rejeita, renega, afirma, confirma somente a partir da
sua interpretação (- e houve jamais um sistema de interpretação mais
elaborado?); ele não se submete a poder algum, acredita, isto sim, na
sua primazia perante qualquer poder, na sua incondicional distância
hierárquica em relação a qualquer poder [...]. (NIETZSCHE, 1998,
p.135).

No que concerne à valorização moderna da razão instrumental como forma
última de conhecimento, Nietzsche denuncia a pretensão monopolizadora da razão
instrumental que se autointitula única fonte de conhecimento, capaz de resolver todos os
problemas do cotidiano humano. Para Nietzsche, entretanto, essa monopolização
dessacraliza o tempo e a vida, nega a tragicidade natural contida na vida, para reduzir
tudo à realidade conhecida cientificamente; enquanto para o mito e para a arte fica
relegado o título de representação infiel do mundo. Sérgio Paulo Rouanet, em seu livro
As Razões do Iluminismo, nos apresenta a profundidade da crítica nietzscheana:

Em todos esses casos, a filosofia procurava curar os males da
modernidade com os recursos intelectuais da modernidade, e sem em
nenhum momento contestar seus valores fundamentais. Com
Nietzsche, dá-se uma guinada fundamental. Cessa a crítica imanente
da razão, no âmbito da modernidade, e começa uma crítica externa à
razão, dirigida contra a razão e que contesta a própria modernidade. O
mundo moderno é visto por Nietzsche como o mundo do niilismo,
concebido como o esvaziamento e a esterilização dos valores vitais
pela razão e pela moral. (ROUANET, 1999, p. 240).

A saída nietzscheana para o niilismo proveniente da crença no progresso é a
recusa da moral ascética em prol da afirmação da vontade de poder inerente à natureza
humana e, por conseguinte, a aceitação da contingência trágica da vida. O Übermensch,
ou o super-homem, é o modelo de superação do homem, aquele capaz de dar vazão à
vontade de potência humana e de superar os valores de bem e de mal ainda contidos no
“último homem”
8
.

4. John Gray e humanismo como extensão secular do cristianismo


8
O homem moderno.


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John Gray, (1948) filósofo britânico, no seu livro Cachorros de Palha (Record,
2009), entende que o progresso é a ideia base do pensamento humanista ocidental, que,
apesar de ter pretendido superar o cristianismo, ainda se mostra fortemente influenciado
por ele. Para o cristianismo, somos filhos de Deus, este mundo nos foi dado juntamente
com seus acessórios (plantas, animais, minerais – dos quais somos donos) para que
usufruamos dele. Entretanto, a existência terrena é repleta de sofrimento, que só será
superado com a vinda do Messias, o Redentor. A crença no progresso é a substituição
do mito do Redentor, aquele que, teleologicamente, libertará a humanidade de sua
condição, do seu “sofrimento”, enfim, aquele que a salvará.
O principal engano do humanismo consiste em acreditar que a acumulação de
conhecimentos técno-científicos resulta em avanços políticos e éticos, e, através disso,
seja possível ao ser humano se libertar de sua condição animal. Para Gray, nós humanos
somos muito mais descentes dos animais, de um modo geral, do que somente da raça
humana. Negar nossa animalidade significa negar nossa existência aleatória, e acreditar
que temos uma razão especial para estarmos aqui. É o mesmo que negar a evolução das
espécies – eis o antropocentrismo.
Segundo Gray, as conquistas realizadas nas políticas governamentais não são
permanentes, mas cíclicas. Escreve:

O crescimento do conhecimento é real e – a menos que ocorra uma
catástrofe de âmbito mundial - já irreversível. Melhorias no governo e
na sociedade não são menos reais, mas temporárias. Não apenas
podem ser perdidas, como também certamente o serão. A história não
é o progresso ou declínio, mas ganhos e perdas recorrentes. O avanço
do conhecimento nos engana quando nos induz a pensar que somos
diferentes de outros animais, mas nossa história mostra que isto não
ocorre. (GRAY, 2009, p. 169).

Seguindo tal ordem de ideias, poderemos observar, segundo a ótica de Gray, a
insuficiência das críticas ao progresso anteriormente citadas nesse trabalho, e identificar
o seu viés antropocêntrico.

4.1. Gray e a sociedade sem classes

Em Cachorros de Palha, John Gray não aborda especificamente as ideias de
Walter Benjamin, mas os ideais oriundos do marxismo, de um modo geral. Apesar de,


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por razões já explicitadas, trabalharmos com Benjamin e não diretamente com Karl
Marx, as considerações de Gray a respeito da quimérica “sociedade sem classes” nos
são muito úteis.
A respeito da universalidade, que, entre tantas teorias políticas, está presente
também no comunismo, Gray assevera que o monoteísmo cristão é, em grande parte,
responsável por esta característica. O politeísmo, por considerar que a crença é oriunda
da prática, não nega a diversidade. Os cristãos, entretanto, invertem esta lógica, e
pretendem uma crença universal. E, influenciado pelas ideias de Nietzsche, Gray critica
o igualitarismo universal pretendido pelo socialismo, como sendo um resquício do
pensamento cristão.
Benjamin, apesar de pretender quebrar com a lógica linear progressista, se
preocupando inclusive com o uso desregrado dos recursos naturais, ainda é possível
detectar em seu pensamento resquícios do ideal de progresso humanista. Sua proposta
de revolução é imbuída da esperança de controle da história e de salvação da
humanidade. O que, segundo Gray, a história prova o quão desastroso foi disseminar
ideias desta espécie.

4.2. Gray e o super-homem

É notável a influência que Nietzsche exerceu sobre Gray, principalmente no que
se refere à crítica a moral. Com relação ao progresso, essa influência também pode ser
percebida. Todavia, segundo Gray, Nietzsche não consegue abrir mão totalmente do
cristianismo, e acaba, de certa forma, dando a história humana um “novo” sentido.
Sobre o super-homem nietzscheano, Gray nos diz:

Se acreditarmos que os humanos são animais, não pode haver algo
como a história da humanidade, mas apenas as vidas de humanos
particulares. [...] Buscar significado na história é como buscar padrões
nas nuvens. Nietzsche sabia disso, mas não podia aceitar. Estava
aprisionado no círculo de giz das esperanças cristãs. Um crente até o
final, nunca abriu mão da fé absurda de que algo se poderia fazer do
animal humano. Inventou a figura ridícula do Super-homem para dar à
história um significado que não tinha antes. Esperava que com isso, a
humanidade fosse despertada de seu longo sono. Como se poderia
antecipar, acabou apenas acrescentando mais pesadelos a um sono já
confuso. (GRAY, 2009, p. 65).



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O mito do super-homem nietzscheano é, para Gray, a substituição do próprio
salvador, que, em vez de salvar o homem do sofrimento mundano, o salvaria do
niilismo. Com isso, Nietzsche construiu um sistema teleológico humanista no qual o
homem assume um papel destacado em relação aos demais animais.

5. Conclusão

A eficácia das ações a serem tomadas depende da reavaliação da nossa postura
atual, e isso só pode ser feito se procurarmos entender de quais os valores que ainda não
conseguimos nos desvencilhar. Este trabalho pretendeu esboçar o gradual
desencantamento de visão antropocêntrica apregoada pela filosofia a partir do
Iluminismo. A rivalidade entre fé e razão na Idade Média, se converteu em fé na razão e
fé no homem na Modernidade. O resultado prático do novo paradigma, entretanto, se
mostrou incompatível com a idealização inicial do progresso humano. As críticas que
aqui foram apresentadas, cada uma ao seu modo, desconstroem a fábula do animal
humano que, fazendo uso da razão, toma o controle da história. No último momento, as
considerações de John Gray nos forneceram uma possibilidade contemporânea para
pensarmos a respeito do sentido de progresso que a história adquiriu durante seu
processo, as conseqüências desse sentido, e as convicções antropocêntricas que ainda
não conseguimos abandonar, muitas vezes por não entendermos os seus
desdobramentos.

Referências

BENJAMIN, W. Sobre o conceito de História. In: Obras escolhidas I. Magia e técnica,
arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense,
1994.
CAMUS, A. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2004.
DUPAS, Gilberto. O mito do progresso; ou progresso como ideologia. São Paulo:
Editora UNESP, 2006.
DUROZOI, G.; ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Campinas, SP: Papirus, 1993.
GRAY, J. Cachorros de palha: reflexões sobre humanos e outros animais. Rio de
Janeiro: Record, 2009.
HELFERICH, C. Historia da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p.155-237.
KANT, I. Resposta à pergunta: O que é Esclarecimento? In: Textos seletos. Trad.
Floriano de Souza Fernandes. Petrópolis: Vozes, 1985.
LÖWY, M. A filosofia da história de Walter Benjamin. In: Estudos Avançados, São
Paulo, n. 45, 2002.


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NIETZSCHE, F. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das
Letras, 1998.
ROUANET, S. P. As razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.