Este é um livro que retrata o que pode algum dia acontecer.

E não é irreal esta
possibilidade: ela aí está, circulando nas mentes dos responsáveis pela vida de
inúmeros povos, nos cálculos dos fabricantes de armamentos, na insensibilidade dos
que ambicionam a fortuna ou o poder, independentemente da crucificação - ou
etinção - de quem e do que quer que se!a.
" civili#ação, algum dia, poderá morrer$ E por que não, se ela depende de um
gesto inesperado - e louco - capa# de ocasionar uma %ecatombe$ & desvendamento
dos mistérios da matéria, o progresso tecnol'gico independente de um sustentáculo
moral, o aniquilamento frio e calculado de determinadas características do que é
propriamente %umano, tudo isto que tradu# a fisionomia do nossos tempo não terá
forças superiores ( resist)ncia do espírito, sendo assim capa#es de tra#er,
inevitavelmente, a morte da civili#ação$
*esta obra de +eorge ,. -te.art não é o átomo que aniquila a %umanidade. /m
vírus, simplesmente um vírus, destr'i quase todos os seres %umanos. E os
remanescentes reiniciam a +rande 0arc%a, deiando para trás os 1el%os 2empos,
com todas as suas ma#elas, os seus crimes, os seus %orrores, e também - a
destruição fora inclemente - tudo o que de belo o %omem produ#ira no decorrer de
sua aventura na 3ist'ria da 2erra, pois representavam o bem e o mau, a pr'pria
civili#ação destruída.
0as os poucos sobreviventes da aniquilante epidemia abrem novos camin%os (
vida. E neste gesto de reiniciar do nada uma nova etapa civili#at'ria, com novos
valores que a solidão permite surdir, o %omem volta a se encontrar na restauração de
suas forças e valores, abrindo novos %ori#ontes - pois novas sementes serão
lançadas e se desenvolverão.
2ítulo &riginal: Earth Abides
45676 b8 George R. Stewart
/ma geração vai e outra geração vem9
mas a 2erra :ermanece
Eclesiastes, 5,7
Primeira Parte - Mundo sem Fim
-e %o!e aparecesse, por mutação, um novo virus mortal...
nossos rápidos transportes poderiam levá-lo aos mais distantes
cantos da terra, e morreriam mil%;es de seres %umanos.
<. 0. -tanle8, =%emical and Engineering *e.s
>> de de#embro de 567?
1
E, devido a esta emerg)ncia, cessa agora, eceto no distrito de =olúmbia, o +o-
verno dos Estados /nidos. &s funcionários e os oficiais das @orças "rmadas passam
a depender dos governadores de Estado, ou de qualquer outra autoridade local.
:or ordem do :residente. Aeus salve o povo dos Estados /nidos...
Este é um comunicado do =onsel%o de Emerg)ncia do 2errit'rio da Baía. & =entro
de %ospitali#ação de &aCland foi abandonado. -uas funç;es, compreendidos os se-
pultamentos no mar, concentram-se agora no =entro de BerCele8.
-intoni#em esta estação, atualmente a única no norte da =alif'rnia. Dnformaremos
voc)s enquanto for possível.
-ubia apoiando-se na borda da roc%a, quando ouviu o c%ocal%o. " presa afundou
em sua carne. Dnstantaneamente retirou a mão direita9 voltou-se e viu a serpente,
enroscada, ameaçadora. *ão era muito grande. Eevando a mão aos lábios, sugou
com força a base do indicador onde assomava uma gota vermel%a.
*ão perder tempo matando a serpente, recordou.
Aeiou-se cair, sugando o dedo. 1iu o martelo ao pé da roc%a e pensou se o deia-
ria ali. 0as aquilo se parecia a pFnico. ,ecol%eu o martelo com a mão esquerda e
avançou pela áspera tril%a. *ão se apressou, pois a pressa aceleraria o coração e o
veneno circularia então com mais rapide#. Embora o coração batesse de tal modo,
pela ecitação do medo, apressar-se ou não parecia indiferente. =om um graveto,
enrolou um lenço como torniquete.
1oltou a camin%ar e sentiu-se mais tranquilo. & coração se acalmava. *ão devia se
preocupar demais. Era um %omem !ovem, sadio e forte. " mordida não seria fatal.
:or fim, a cabana apareceu ( sua frente. " mão estava pendurada, dura e insensí -
vel. :ouco antes de c%egar, parou e soltou o torniquete. Aeiou que o sangue circu-
lasse pela mão e depois voltou a amarrá-la.
"briu a porta com o ombro, deiando cair o martelo. " ferramenta balançou por
um instante sobre sua pesada cabeça e por fim se deteve com o cabo para cima.
:rocurou a caia de primeiros socorros na gaveta e rapidamente seguiu as instru-
ç;es. =om a lFmina de barbear traçou cru#es sobre as marcas das presas e aplicou a
bomba de sucção. Aepois estendeu-se no catre e ficou observando a ampola de bor-
rac%a que o sangue enc%ia lentamente.
*ão temia a morte. 2udo aquilo era somente um aborrecimento. "s pessoas %a-
viam-l%e dito e repetido que não andasse so#in%o pelas montan%as. GEeve um ca-
c%orroH, acrescentavam. 0as ele sempre %avia rido. &s cac%orros brigavam constan-
temente com os !avalis ou com as raposas e além disso não gostava deles. "gora os
consel%eiros se sentiriam satisfeitos.
,evolveu-se na cama, como se estivesse febril. G2alve#H, diria a eles, Go perigo me
atraiaH. Dsso parecia %eroico. :odia di#er também, mais sinceramente: G"mo esta soli-
dão, longe dos problemas da vida comumH. Entretanto, pelo menos nesse último ano,
somente o trabal%o o %avia levado (s montan%as. :reparava uma tese: " Ecologia da
Iona de BlacC =reeC. Aevia pesquisar as relaç;es passadas e presentes entre os %o-
mens, as plantas e os animais da região.
:rocurar um compan%eiro ideal teria levado muito tempo. "demais, nunca l%e pa-
receu que ali %ouvesse grandes perigos. Embora em um raio de oito quilJmetros não
vivesse um s' ser %umano, dificilmente se passaria um dia sem que aparecesse al -
gum pescador que subia de carro pela estrada roc%osa, ou simplesmente remontava
a corrente.
Entretanto, pensando um pouco, quando tin%a visto algum pescador$ *ão nesta
semana, claro. *em tampouco nas últimas semanas. 2in%a ouvido um autom'vel du-
rante a noite. -urpreendeu-o que alguém subisse por aquela estrada na escuridão.
=omumente, eles acampavam ap's o cair da tarde e partiam pela man%ã. 0as talve#
dese!assem c%egar logo a algum rio favorito e iniciar a pesca ao aman%ecer. *ão, re-
almente não %avia visto nem falado com ninguém nas duas últimas semanas.
/ma pontada de dor o devolveu ao presente. :odia ter acontecido uma catástrofe
na Bolsa, ou outro :earl 3arbor. 2alve# isto eplicasse a escasse# de pescadores. Ae
qualquer forma, não podia esperar que viessem a!udá-lo. Entretanto aquela perspec-
tiva não o alarmava, no pior dos casos, continuaria deitado ali. 2in%a água e comida
para dois ou tr)s dias. Aepois, quando a mão desinc%asse, iria de carro ao ranc%o de
Ko%nson, o mais pr'imo.
:assou-se a tarde. *a %ora da ceia, preparou café sem vontade e bebeu algumas
ícaras. -ofria bastante, mas apesar da dor e do café, adormeceu...
Aespertou de repente, com a lu#, notando que alguém %avia aberto a porta. Aois
%omens de terno, quase elegantes, esquadrin%avam ao redor de uma forma estra-
n%a, como se estivessem assustados.
- Estou doenteL - disse ele da cama.
& medo dos %omens se transformou em pFnico. 1oltaram-se rapidamente e, sem
fec%ar a porta, puseram-se a correr. 0omentos depois ouviu-se o ruído de um motor,
que depois se perdeu nas montan%as.
Então ele sentiu medo pela primeira ve#. Eevantou-se e ol%ou pela !anela. & carro
%avia desaparecido na curva. & que estava acontecendo$ :or que essa fuga$
" lu# c%egava do oriente. 3avia dormido até o aman%ecer. " mão ainda l%e doía,
mas não se sentia doente. Esquentou o bule de café, preparou um pouco de aveia e
deitou-se de novo. Aepois iria ( casa de Ko%nson... se antes não passasse alguém
que quisesse parar e a!udá-lo.
0as logo começou a piorar. -em dúvida, tratava-se de um recaída. *o meio da tar-
de estava realmente assustado. Aeitado na cama, redigiu uma nota eplicando o que
%avia acontecido. *ão se passaria muito tempo sem que alguém a encontrasse. -eus
pais, sem notícias, telefonariam para Ko%nson. =onseguiu escrever umas poucas pa-
lavras com a mão esquerda e depois assinou: Ds%. & esforço para escrever o nome
completo, Ds%er.ood <illiams, l%e pareceu inútil. "lém disso, todo mundo o con%ecia
por aquele diminutivo.
M meia-noite, como um náufrago em uma balsa que v) passar ao longe um transa-
tlFntico, ouviu um ruído de carros, dois carros, que subiam pelo camin%o. "proima-
ram-se e logo seguiram adiante, sem parar. =%amou-os, mas se sentia muito fraco e
sua vo#, tin%a certe#a, não atravessaria aqueles du#entos metros.
"ntes do crepúsculo, não sem esforço, levantou-se cambaleando e acendeu a lFm-
pada. *ão queria ficar no escuro. Então inclinou-se apreensivamente para o espel%i -
n%o que pendia do teto inclinado. & rosto não parecia mais comprido e fraco que an-
tes, mas suas boc%ec%as estavam avermel%adas. &s grandes ol%os a#uis, congestio-
nados, que o ol%avam com um ardor febril, e o %irsuto cabelo castan%o, completa-
vam o retrato de um %omem muito doente.
1oltou para a cama, sem medo, mas quase com certe#a de que ia morrer. Ae re-
pente se sentia gelado9 em seguida, devorado pela febre. " lFmpada sobre a mesa
iluminava os cantos da cabana. & martelo continuava no c%ão, com o cabo para
cima, em um equilíbrio precário.
-e fi#esse um testamento, um testamento como os de antigamente, divagou, no
qual se descreviam todos seus bens, diria: G/m martelo de mineiro9 peso da cabeça,
quatro libras9 cabo, trinta centímetros9 madeira ra!ada, estragada pela intempérie9
metal enferru!ado, ainda utili#ável.H 3avia encontrado o martelo pouco antes de en-
contrar a serpente, recebendo com alegria aquele legado do passado, de uma época
em que os mineiros brandiam o martelo com uma mão e sustentavam o buril com a
outra. Nuatro libras é quase o peso máimo que um %omem pode mane!ar desse
modo. *aquele delírio febril, pensou que uma fotografia do martelo podia muito bem
ilustrar sua tese.
" noite foi um longo pesadelo: torturado por acessos de tosse, sufocado, consumi-
do primeiro pelo frio e depois pela febre. /ma erupção semel%ante ao sarampo l%e
cobriu o corpo.
"o aman%ecer mergul%ou novamente em um sono profundo.
*unca aconteceuH não é igual a G*ão aconteceráH... -eria como di#er: G*unca mor-
ri, portanto sou imortal.H "ssistimos aterrados a uma invasão de gafan%otos ou de
grilos. E de repente esses insetos, que pulularam de um modo alarmante, de repente
desaparecem da face da terra. &s animais superiores estão su!eitos a flutuaç;es pa-
recidas. &s l)mingues t)m ciclos regulares. "s lebres da montan%a se multiplicam
durante anos e ac%amos que vão invadir o mundo. Então, rapidamente, uma epide-
mia acaba com elas. "lguns #o'logos sugeriram, inclusive, uma lei biol'gica: o nú-
mero de indivíduos de uma espécia não é constante, diminui e sobe. Nuanto mais
desenvolvida for a espécie, mais lenta é a gestação e mais prolongadas as flutua-
ç;es.
Aurante a maior parte do século ODO o búfalo abundou nas estepes africanas. Era
um animal resistente, com poucos inimigos naturais, e um censo reali#ado a cada
de# anos teria demonstrado que continuavam se propagando. Então, no final do sé-
culo, quando eram mais numerosos, foram atacados repentinamente pela peste bovi-
na. & búfalo se transformou em uma curiosidade naqueles territ'rios. 3á cinquenta
anos, reconquista lentamente sua supremacia.
Nuanto ao %omem, não se deve esperar que escape, em sua longa tra!et'ria, (
sorte dos animais inferiores. -e %á uma lei biol'gica de fluo e refluo, sua situação
agora é muito perigosa. Aurante de# mil anos seu número vem aumentando cons-
tantemente, apesar das guerras, das pestes e da fome. Biologicamente, a prosperi -
dade do %omem foi muito longe.
Ds% despertou no meio da man%ã com uma inesperada sensação de bem estar. 3a-
via temido o pior, mas !á estava quase curado. Ká não sufocava e o inc%aço da mão
%avia desaparecido. *o dia anterior %avia se sentido muito doente e não tin%a pensa-
do na mordida. "gora a mão e sua doença eram somente recordaç;es, como se uma
%ouvesse curado a outra. "o meio-dia %avia recobrado a lucide# e quase todas suas
forças.
Aepois de um almoço leve, decidiu que podia ir ( casa de Ko%nson. *ão se preocu-
pou em empacotar suas coisas. Eevaria seu importante livro de notas e sua cFmara
fotográfica. *o último instante, obedecendo a um impulso, pegou também o martelo.
Entrou no carro e se pJs lentamente em marc%a, tentando não usar a mão direita.
*o ranc%o de Ko%nson reinava o sil)ncio. :arou o carro !unto ( bomba de gasolina.
*inguém saiu para receb)-lo, mas isso não era estran%o, pois a bomba de Ko%nson,
como muitas outras nas montan%as, poucas ve#es era usada. 2ocou a bu#ina e vol-
tou a esperar.
"p's um instante, saltou do carro e subiu a escada desengonçada que levava (
moradia-arma#ém. "li os pescadores podiam comprar cigarros e conservas. Entrou,
mas não %avia ninguém.
@icou um pouco surpreso. =omo acontecia frequentemente em seus períodos de
solidão, não sabia eatamente que dia era. Nuarta-feira, ac%ava, ou terça-feira, ou
quinta. Nualquer dia da semana, menos domingo. *os domingos, e (s ve#es em al -
guns sábados, os Ko%nson fec%avam o arma#ém e saíam para fa#er ecursão. Eram
pessoas desinteressadas que não misturavam os pra#eres com os neg'cios. Entre-
tanto, viviam das vendas do arma#ém na temporada de pesca e não podiam ausen-
tar-se por muito tempo. E se tivessem saído de férias, teriam fec%ado a porta com
c%ave. 0as aqueles montan%eses (s ve#es eram desconcertantes. & incidente bem
que podia merecer um parágrafo em sua tese. Ae qualquer forma, a garagem do
carro estava quase va#ia. =olocou trinta litros de gasolina no tanque e, não sem es-
forço, preenc%eu um c%eque. Aeiou-o sobre o mostrador com uma nota: G*ão en-
contrei ninguém. Eevo trinta litros. Ds%H.
Enquanto descia pela estrada, foi assaltado por uma vaga inquietação: os Ko%nson
estavam fora em um dia de trabal%o9 a porta sem c%ave, nen%um pescador, um au-
tom'vel na noite e, algo ainda mais estran%o, aqueles %omens que tin%am fugido ao
encontrarem um %omem doente em uma cabana solitária. 0as o sol bril%ava e a mão
quase !á não doía. E aquela febre esquisita, admitindo que fosse devida ( ação do
veneno, %avia desaparecido.
" estrada descia por entre bosques de pin%eiros, borde!ando um riac%in%o tormen-
toso. "o c%egar na central elétrica de BlacC =reeC, Ds% sentiu-se novamente sereno e
lúcido. *a central tudo estava como sempre. &s dínamos #umbiam, a água borbul%a-
va. /ma lu# bril%ava no poente. Ds% ac%ou que estaria continuamente acesa. "li %a-
via ecesso de eletricidade.
:or um momento, pensou em cru#ar a ponte e c%egar no edifício. Eá encontraria
alguém e se livraria daquele estran%o temor. 0as o ruído dos geradores o tranquili#a-
va. "o fim e ao cabo, a central trabal%ava como sempre. =erto, não se via ninguém,
mas aqueles mecanismos automáticos precisavam de poucos %omens e eles quase
nunca saíam.
Ká estava se afastando, quando um cão ovel%eiro saiu do edifício. -eparado de Ds%
pelo riac%in%o, ladrou furiosamente, correndo de um lado para outro, ecitado.
Nue cac%orro esquisitoL, pensou Ds%. Nue estará acontecendo com ele$ Estará
pensando que vou roubar a central$ ,ealmente, as pessoas subestimam a intelig)n-
cia dos cac%orros.
Aobrou uma curva e os latidos se perderam ao longe. 0as a c'lera do cão tin%a
sido outra prova de normalidade. Ds% começou a assobiar alegremente. Nuin#e quilJ-
metros e c%egaria ( primeira cidade, uma pequena cidade c%amada 3utsonville.
=onsideremos o caso do rato do =apitão 0aclear. Esse interessante roedor %abita-
va a il%a de =%ristmas, um berçário tropical a uns tre#entos quilJmetros ao sul de
Kava. " espécie %avia sido descrita cientificamente pela primeira ve# em 5PP?. *o
crFnio, muito desenvolvido, sobressaiam notavelmente os arcos supraorbitais e a
aresta anterior da placa #igomática.
/m naturalista observou que os ratos povoavam a il%a em GmiríadesH, alimentando-
se de frutas e raí#es tenras. " il%a era seu universo, seu paraíso terrestre. 0as na-
quela vegetação não precisavam brigar entre eles. 2odos os eemplares estavam
bem alimentados e até demasiadamente gordos. Em 56QR foram atacados por uma
doença nova. Ecessivamente numerosos, vulneráveis por causa do pr'prio bem-
estar, os ratos não puderam resistir ao contágio e logo morriam aos mil%ares. "pesar
do seu número, apesar da sua facilidade em se reprodu#ir, a espécie se etinguiu.

=%egou ao alto da encosta e viu 3utsonville aos seus pés, a um quilJmetro de dis-
tFncia.
Ká estava descendo, quando vislumbrou algo que l%e gelou o sangue. @reou auto-
maticamente. -altou do carro e correu para trás, incrédulo. "li, !unto ( estrada, ( vis-
ta de todos, !a#ia o cadáver de um %omem em terno de passeio. "s formigas co-
briam-l%e o rosto. & cadáver estava ali %á um dia ou dois. =omo não o tin%am visto$
Ds% não se aproimou para eaminá-lo. 2in%a que avisar imediatamente o comissário
de 3utsonville e então voltou rapidamente para o carro.
Entretanto, !á no carro, teve a curiosa impressão de que aquilo não concernia ao
comissário e que possivelmente nem sequer %averia comissário. *ão tin%a visto nin-
guém no ranc%o de Ko%nson nem na central e não %avia encontrado carro algum na
estrada. &s únicos restos do passado eram, ao que parecia, a lu# do poente e o tran-
quilo ruído dos geradores.
"s primeiras casas !á apareciam ao longo do camin%o. Ds% respirou aliviado. "li, em
um solar va#io, uma galin%a escarvava o c%ão, rodeada por meia dú#ia de pintin%os.
/m pouco mais adiante, um gato preto e branco passeava tranquilamente pela calça-
da, como se aquele dia de !un%o fosse igual a qualquer outro.
& calor do meio-dia pesava sobre a rua solitária. =omo em uma cidade meicana,
pensou Ds%, todo mundo está fa#endo a siesta. Então, de repente compreendeu que
seu pensamento %avia sido como um assovio, para se animar. =%egou ao centro da
cidade, parou o carro !unto ( calçada e desceu. *ão %avia ninguém.
Empurrou a porta de um pequeno restaurante. Estava aberto e ele entrou.
- &láL - c%amou.
*inguém saiu ao seu encontro. *en%um eco veio tranquili#á-lo.
& banco estava fec%ado, apesar da %ora. E aquele dia s' podia ser Sagora tin%a
certe#aT terça-feira ou quarta-feira, ou quinta. Nuem sou eu na verdade$, pensou.
,ip van <inCle$ 0as ,ip van <inCle, ap's dormir por vinte anos, %avia encontrado
uma cidade animada e com pessoas.
" porta da lo!a de ferragens por trás do banco estava aberta. Entrou e voltou a
c%amar. -il)ncio. 2entou na padaria vi#in%a. Aesta ve# ouviu um leve ruído. /m rato,
sem dúvida. /ma partida de beisebol teria atraído toda a população$ 0as assim, teri-
am fec%ado as lo!as.
1oltou ao seu carro, sentou-se ao volante e ol%ou ao redor. Estaria delirando e ain-
da deitado na cabana$ *ão se atrevia a continuar investigando. *otou então que %a-
via vários carros parados ao longo da rua, espetáculo comum em um meio-dia.
*ão podia partir, decidiu, antes de informar sobre o cadáver.
2ocou a bu#ina e voltou a tocar mais duas ve#es. E outra ve#, e outra, com cres-
cente pFnico.
Enquanto isso ol%ava ao seu redor, esperando que alguém assomasse em uma
porta ou colocasse a cabeça em uma !anela. :arou e encontrou-se novamente na-
quele sil)ncio de morte, somente interrompido pelo cacare!o de uma galin%a. &
medo a fe# botar um ovo, pensou.
/m cac%orro gordo apareceu na esquina e avançou pesadamente9 o inevitável ca-
c%orro que passeava pelas calçadas das cidades. Ds% desceu do carro a aproimou-se
do animal. :elo menos não esqueceram de alimentá-lo, disse para si mesmo. Em se-
guida se fe# um n' em sua garganta, pensando no que o cac%orro poderia ter comi -
do. & cac%orro não parecia disposto a entabular relaç;es amistosas9 esquivou-se,
mantendo-se distante, e seguiu pela rua abaio.
Ds% deiou-o ir-se. "final, o cac%orro nada poderia l%e di#er.
:oderia entrar em todos esses neg'cios, procurando algum indício, como um dete-
tive, pensou. Então teve outra ideia. *a calçada em frente %avia um quiosque onde
(s ve#es comprava algum !ornal. =ru#ou a rua. " porta estava fec%ada, mas através
dos vidros viam-se pil%as de !ornais. & refleo da lu# nos vidros incomodava bastan-
te, mas conseguiu ler um título. &s caracteres eram tão grandes como os do dia de
:earl 3arbor:
+,"1E =,D-E
Nue crise$ 1oltou rapidamente ao carro e pegou o martelo. /m instante depois o
levantava diante da porta. 0as deteve-se, como se a pr'pria civili#ação se %ouvesse
mobili#ando, segurando-l%e o braço e di#endo-l%e: não pode fa#er isso, um cidadão
%onesto não força uma porta. &l%ou para a direita e para a esquerda, como se espe-
rasse que um policial ou um destacamento caíssem sobre ele.
" rua solitária devolveu-o ( realidade e o medo varreu seus escrúpulos. Aiabos,
pensou, se for preciso pagarei pela porta.
-entindo que queimava as naves, que deiava para trás o mundo civili#ado, levan-
tou o pesado martelo e golpeou com força a fec%adura. " madeira se fe# em estil%a-
ços, a porta se abriu e Ds% entrou no quiosque.
:egou um !ornal e teve a primeira surpresa. & =%ronicle tin%a %abitualmente vinte
ou trinta páginas. Este eemplar parecia um semanário caipira, uma simples fol%a
dupla. " data era da quarta-feira da semana anterior.
"s manc%etes revelavam o essencial: uma epidemia descon%ecida, que se propa-
gara com uma velocidade sem precedentes, levando a morte a todos os lugares, %a-
via devastado os Estados /nidos de costa a costa. "s cifras recol%idas em algumas
cidades, e de valor relativo, indicavam que %avia morrido entre vinte e cinco e trinta
porcento da população. *ão %avia notícias de Boston, de "tlanta ou de *e. &rleans.
&s serviços informativos dessas cidades pareciam estar interrompidos. Eaminou ra-
pidamente o resto do !ornal, obtendo assim uma ideia geral, embora muito confusa.
:elos sintomas, a doença parecia com o sarampo... um sarampo mortal. *inguém co-
n%ecia suas origens. & ir e vir dos avi;es a %avia feito aparecer quase que simultane-
amente nos centros mais importantes, frustrando toda tentativa de quarentena.
Em uma entrevista, um célebre bacteriologista assinalava que a possibilidade de
novas doenças preocupava %á muito tempo os %omens da ci)ncia. *o passado tin%a
%avido eemplos curiosos, embora de escassa importFncia, como a febre inglesa e a
febre N. Nuanto ( sua origem, tr)s %ip'teses eram possíveis: alguma doença animal9
algum micro-organismo novo, um vírus, possivelmente produ#ido por mutação9 um
acidente - talve# provocado - em um laborat'rio de guerra bacteriol'gica. Esta última
parecia ser a culpada, era a crença popular. :resumia-se que o pr'prio ar transmitia
a enfermidade, possivelmente com as partículas de p'. & isolamento do doente não
servia de nada.
Em uma entrevista telefJnica, um vel%o e rude sábio ingl)s %avia comentado: GAu-
rante vários mil%;es de anos o %omem desenvolveu sua estupide#. *ão derramarei
uma lágrima sobre sua tumba.H
*o outro etremo, um crítico americano, igualmente rude, %avia dito: G-' a fé
pode nos salvar agora9 passo as %oras re#ando.H
"ssinalavam-se alguns saques, sobretudo em bares. Em geral, entretanto, o medo
%avia a!udado a manter o povo em ordem. Em Eouisville e -poCane, os inc)ndios
varriam a cidade, pois não %avia bombeiros.
"inda naquela edição, que Sos !ornalistas não poderiam t)-lo ignoradoT seria a últi -
ma, %aviam sido incluídas algumas notícias pitorescas. Em &ma%a, um fanático %avia
corrido nu pelas ruas, anunciando o fim do mundo e a abertura do -étimo -elo. Em
-acramento, uma louca %avia aberto as !aulas do circo, temendo que os animais
morressem de fome, e tin%a sido devorada por uma leoa.
-eguia-se uma nota de maior interesse científico. -egundo o diretor do #ool'gico
de -an Aiego, os macacos morriam como moscas, mas os outros animas não tin%am
sido afetados.
Ds% sentiu que desfalecia diante daquele acúmulo de %orrores. -ua solidão o ater-
rava. Entretanto continuou lendo, como que %ipnoti#ado.
:elo menos a civili#ação, a raça %umana... %avia desaparecido elegantemente.
0uitos %aviam escapado das cidades, mas os outros - de acordo com aquelas notí -
cias da semana anterior - não tin%am sido arrastados pelo pFnico. " civili#ação %avia
batido em retirada, mas levando seus feridos e sem deiar de se defender. &s médi -
cos e as enfermeiras tin%am continuado em seus postos e muitos mil%ares tin%am se
oferecido como voluntários. =idades inteiras %aviam servido de %ospitais e pontos de
concentração. 2odo o comércio tin%a parado, mas os alimentos ainda eram distribuí-
dos, como em uma cidade sitiada. Embora a população %ouvesse diminuído em uma
terça parte, o serviço telefJnico, a água, a lu# e energia elétrica continuavam funcio-
nando. :ara evitar certos %orrores, que talve# tivessem levado a uma completa des-
morali#ação, os mortos deviam ser enterrados imediatamente em fossas comuns.
Ds% c%egou ( última lin%a e voltou a reler tudo com mais cuidado. -obrava-l%e
tempo. Então saiu e sentou-se no carro. *ão %avia motivo algum, refletiu, para que
sentasse em seu pr'prio carro e não em outro qualquer. &s direitos de propriedade
%aviam desaparecido, mas ali ele se sentia mais cJmodo.
& cac%orro gordo voltou a passar pela rua, mas Ds% não o c%amou. @icou ali por
um instante, ensimesmado. 0al conseguia pensar9 a mente dava-l%e voltas e voltas,
sem c%egar a parte alguma.
=aía a tarde quando ligou o motor e levou o carro rua abaio, parando de ve# em
quando para tocar a bu#ina. Aobrou em uma rua lateral e deu uma volta ( cidade,
c%amando regularmente. :assou assim quase um quarto de %ora e se encontrou ou-
tra ve# no ponto de partida. *ão tin%a visto ninguém, nem %avia recebido nen%uma
resposta. 3avia encontrado quatros cães, alguns gatos, várias galin%as etraviadas,
uma vaca que pastava em um solar va#io com um pedaço de corda no pescoço e um
rato que fare!ava em um umbral.
Ds% se dirigiu então para uma casa nas cercanias que S%avia-l%e parecidoT era a
mel%or da cidade. Aesceu do carro com o martelo na mão. Aesta ve# não %esitou um
minuto. +olpeou tr)s ve#es com força e a porta cedeu. 2al como supun%a, %avia no
vestíbulo um grande aparel%o de rádio. Dnspecionou rapidamente o térreo e o andar
superior. *ão encontrou ninguém e voltou ao vestíbulo. " eletricidade ainda funcio-
nava. Esperou por uns instantes e depois procurou cuidadosamente. -' ouviu uns
fracos ruídos parasitas. 2entou a onda curta, mas sem )ito. 0etodicamente, eplo-
rou todas as frequ)ncias. =laro, pensou, se alguma estação ainda funciona, provavel-
mente não transmitirá vinte quatro %oras por dia. Aeiou o rádio em uma frequ)ncia
que correspondia - ou %avia correspondido - a uma potente emissora. Então dei-
tou-se no sofá.
"pesar daqueles %orrores, sentia a curiosidade desinteressada de um espectador,
como se assistisse ao último ato de uma tragédia. =ontinuava sendo o que era, ou o
que tin%a sido - o tempo do verbo não importava: - um intelectual, um sábio incipi -
ente, mais inclinado a observar os acontecimentos que participar deles.
"ssim, aconteceu de contemplar a catástrofe - com uma satisfação irJnica, embora
momentFnea - como a demonstração de um aforismo enunciado um dia por seu pro-
fessor de economia política: G& desastre temido nunca c%ega, a tel%a cai onde me-
nos se esperaH. 3avia-se temido uma guerra destruidora, o pesadelo de cidades arra-
sadas, %ecatombes de %omens e animais, terras estéreis. 0as na realidade s' a %u-
manidade %avia sido suprimida, e quase com limpe#a, com um mínimo de transtor-
nos. &s sobreviventes, se é que %aviam, seriam os reis da terra.
Dnstalou-se comodamente no sofá. " noite era quente. Esgotado fisicamente pela
doença e por tantas emoç;es, não demorou a adormecer.
Eá em cima, no céu, a lua, os planetas e as estrelas percorrem suas longas e tran-
quilas 'rbitas. *ão t)m ol%os e não v)em. Entretanto, alguma ve# o %omem %avia
imaginado que ol%avam para a terra.
0as se vissem realmente, que veriam esta noite$
*en%uma mudança. Embora o fumo das c%aminés !á não turvasse a atmosfera,
pesadas labaredas ainda surgem dos vulc;es e dos bosques incendiados. 1isto da
lua, o planeta teria esta noite seu resplendor de costume9 nem mais bril%ante nem
mais escuro.
Aespertou em pleno dia. "briu e fec%ou a mão. " dor da mordida era agora um
pequeno aborrecimento local. -entia a cabeça leve e compreendeu que a outra do-
ença, se tin%a %avido outra doença, também desaparecia. &correu-l%e algo. " epli -
cação era evidente: %avia padecido aquela enfermidade, combatendo-a com o vene-
no que tin%a no sangue. 0icr'bio e veneno %aviam se destruído mutuamente. :elo
menos aquilo eplicava porque continuava vivo.
=ontinuou no sofá, tranquilo e im'vel, e os fragmentos isolados do quebra-cabeça
começaram a se ordenar. &s %omens que %avia visto na cabana... eram somente uns
pobres fugitivos, que fugiam da peste. & carro que %avia subido pela estrada no
meio da noite, levava talve# outros fugitivos, possivelmente os Ko%nson. & ecitado
cão ovel%eiro %avia tentado comunicar-l%e os acontecimentos da central.
0as a ideia de ser o único sobrevivente não l%e perturbava demais. 3avia vivido
so#in%o durante um certo tempo. *ão %avia assistido ( tragédia, nem tin%a visto
morrer seus semel%antes. "o mesmo tempo não podia acreditar Se não %avia porque
acreditarT que fosse o último %omem sobre a terra. -egundo o !ornal, a população
%avia diminuído de um terço. & sil)ncio que reinava em 3utsonville demonstrava so-
mente que seus %abitantes %avia se dispersado ou se refugiado em outra cidade. "n-
tes de c%orar pelo fim do mundo e pela morte do %omem, tin%a que descobrir se o
mundo !á não eistia e se o %omem %avia morrido. "ntes de tudo, evidentemente,
devia voltar ( casa paterna. 2alve# seus pais ainda vivessem. "ssim, com um plano
definido para o dia, sentiu a tranquilidade que sempre se seguia (s suas decis;es,
ainda que temporárias.
"o levantar-se, procurou outra ve# nas ondas do rádio, sem resultado.
Eplorou a co#in%a. & refrigerador ainda funcionava. *a despensa %avia alguns ali-
mentos, embora não tantos como podia se esperar. "s provis;es, aparentemente,
%aviam escasseado nos últimos dias. "inda assim, %avia meia dú#ia de ovos, uma li -
bra de manteiga, um pouco de presunto, alguns alfaces e algumas poucas sobras.
Em um armarin%o encontrou uma lata de suco de toran!a e, em uma gaveta, um pão
duro de uns cinco dias atrás9 a data, sem dúvida, em que a cidade %avia sido aban-
donada.
Estas provis;es e um fogo ao ar livre l%e teriam bastado para preparar uma boa
refeição, mas quando ligou os controles do fogão elétrico, notou que as c%apas ainda
esquentavam. :reparou um copioso des!e!um e transformou o pão em torradas acei -
táveis. Nuando voltava das montan%as, sempre sentia necessidade de comer legu-
mes frescos9 e ao costumeiro des!e!um de ovos, presunto e café, acrescentou uma
abundante salada de alface.
1oltou para o sofá. Em uma mesin%a %avia uma caia de laca vermel%a9 abriu-a e
tirou um cigarro.
"té agora, refletiu, a vida material não apresenta problemas.
& cigarro estava bastante fresco. =om um bom des!e!um e um bom cigarro, o %u-
mor de Ds% mudou sensivelmente. *a realidade, %avia afastado as inquietaç;es, dei-
ando-as para mais tarde, se descobrisse que eram !ustificadas.
Nuando acabou de fumar, ac%ou que não valia a pena lavar os pratos9 mas, como
era naturalmente cuidadoso, verificou se %avia fec%ado a geladeira e os controles do
fogão. Então pegou o martelo, que l%e %avia sido tão útil, e saiu pela porta destroça-
da. Entrou no carro e partiu para a casa paterna.
" quase um quilJmetro da cidade, passou diante do cemitério e se assombrou por
não ter pensado nele no dia anterior. -em descer do carro, notou uma nova e longa
fileira de túmulos e uma escavadeira !unto a um monte de terra. "s pessoas que %a-
viam abandonado 3utsonville, pensou, talve# não fossem muito numerosas.
0ais além do cemitério, a estrava atravessava um terreno plano. "nte aquele espa-
ço deserto, Ds% sentiu-se deprimido outra ve#9 Aese!aria ouvir pelo menos o barul%o
de um camin%ão colina acima9 mas não %ouve tal camin%ão.
Em um campo, alguns novil%os e cavalos balançavam as caudas, espantando os in-
setos, como em qualquer man%ã de verão. 0ais adiante, as pás de um moin%o gira-
vam lentamente e diante de um coc%o crescia o mato. E isso era tudo.
Entretanto, aquela estrada não era muito transitada e em qualquer outro dia Ds%
teria percorrido vários quilJmetros sem ver ninguém. :or fim c%egou ( estrada prin-
cipal. "s lu#es vermel%as do cru#amento estavam acesas. @reou automaticamente.
0as as quatro pistas, onde %avia corrido um rio de camin%;es, Jnibus e autom'veis,
estavam desertas. Aepois de parar um momento diante da lu# vermel%a, Ds% pJs-se
novamente em marc%a.
/m pouco mais adiante, enquanto corria livremente pela estrada, sentiu-se envolto
em uma atmosfera lúgubre, espectral. Dnclinou-se sobre o volante, como que domi-
nado por um torpor. Ae ve# em quando, algum espetáculo ins'lito parecia des-
pertá-lo.
"lguma coisa saltou ( sua frente, no camin%o. "celerou rapidamente. /m cão$
*ão9 notou as orel%as pontiagudas e as patas finas, de cor clara, um cin#a amarela-
do. Era um coiote que corria tranquilamente pela estrada em pleno dia. /m instinto
misterioso %avia-l%e avisado que o mundo %avia mudado e que podia tomar novas li -
berdades. Ds% aproimou-se, tocando a bu#ina, e o animal deu meia volta, passou
para o outro lado da estrada e se afastou sem parecer muito assustado...
Aois carros virados, em um Fngulo etravagante, bloqueavam parcialmente o ca-
min%o. Ds% parou. & cadáver esmagado de um %omem assomava por baio de um
dos autom'veis. *ão %avia outros corpos, mas o sangue cobria a estrada. 0esmo se
l%e tivesse parecido necessário, não teria podido levantar o carro para tirar o corpo e
dar-l%e sepultura.
-eguiu adiante.
Em uma cidade importante SDs% não gravou seu nomeT parou para abastecer o car-
ro com gasolina. "inda %avia eletricidade. Enc%eu o tanque em um posto de combus-
tível. =omo o carro %avia andado muito tempo pelas montan%as, revisou o radiador e
a bateria e escutou o ruído do motor.
-im, o %omem %avia desaparecido, mas todos seus engen%osos aparel%os ainda
trabal%avam, sem sua vigilFncia...
*a rua principal de outra cidade, tocou a bu#ina por longo tempo. ,ealmente não
esperava conseguir resposta alguma, mas esta rua, sem saber porque, l%e parecia
mais normal. &s carros estavam estacionados ao longo das calçadas. :arecia um do-
mingo pela man%ã, com os neg'cios fec%ados, quando as pessoas ainda não tin%am
iniciado suas idas e vindas. 0as não era tão cedo, pois o sol !á %avia subido no céu.
Dmediatamente compreendeu porque %avia parado e porque a rua parecia ilusoria-
mente animada. Em frente a um restaurante c%amado 2%e Aerb8, ainda funcionava
um letreiro luminoso: um cavalin%o que movia as patas, galopando. M lua do dia, s'
o movimento c%amava a atenção9 a lua rosada mal era visível. Ds% ol%ou por uns ins-
tantes e notou o ritmo: um, dois, tr)s. E as patas do cavalo quase se recol%iam de-
baio do tronco. Nuatro... as patas reapareciam e o ventre parecia tocar o solo. /m,
dois, tr)s quatro. /m, dois, tr)s, quatro. +alopava freneticamente9 e essa corrida
sem testemun%as não levava a parte alguma. Era um cavalo valente, pensou Ds%,
embora fosse insensato e inútil. -ímbolo, talve#, dessa civili#ação que %avia orgul%a-
do o %omem e, que lançada a galope, não alcançava meta alguma, destinada algum
dia, !á sem forças, a parar para sempre...
/ma fumarada se elevava no ar. Ds% sentiu que o coração l%e saltava no peito.
Aobrou rapidamente em uma rua lateral. 0as antes de c%egar, !á sabia que não
encontraria ninguém. =om efeito, era somente uma gran!a que começava a arder.
0esmo em um lugar desabitado, muitas coisas podiam provocar um inc)ndio. /m
monte de lios oleosos que se inflamavam espontaneamente, ou algum aparel%o elé-
trico ainda ligado, ou o motor de um refrigerador. " gran!a estava condenada. *ão
%avia modo de apagar o fogo nem motivos para se preocupar. Aeu meia volta e vol -
tou ( estrada.
Airigia lentamente e frequentemente parava para investigar, sem muitas esperan-
ças. Ms ve#es via alguns cadáveres, mas geralmente s' encontrava solidão e va#io. "
incubação parecia ter sido bastante lenta, pois os doentes tin%am caído pelas ruas.
/ma ve# atravessou uma cidade onde o fedor dos corpos putrefatos envenenava a
atmosfera. Eembrou de ter lido no !ornal que certas #onas tin%am sido pontos de
concentração, transformando-se assim em enormes morgues. 2udo falava de morte
naquela cidade. *ão era necessário deter-se.
"o cair da tarde c%egou ao alto da colina e a baía se abriu dante dele, envolta no
esplendor do sol poente. Em diferentes pontos da cidade, que se estendia até se per-
der de vista, alçavam-se algumas colunas de fumaça. @oi para a casa dos seus pais.
*ão tin%a esperanças. -' um milagre o %avia salvo. -eria o milagre dos milagres se a
epidemia %ouvesse perdoado sua famíliaL
-aiu do bulevar e dobrou na avenida -an Eupo. 2udo tin%a a mesma apar)ncia,
embora as calçadas não estivessem muito limpas. 0as a rua ainda mantin%a seu de-
coro. *ão %avia cadáveres, embora isso fosse inimaginável na avenida -an Eupo. 1iu
a vel%a gata cin#enta dos 3atfieldes, que dormia ao sol nos degraus da varanda,
como tantas outras ve#es. Aespertada pelo ruído do motor, levantou-se, estirando-se
preguiçosamente.
:arou em frente ( casa, tocou a bu#ina por duas ve#es e esperou. *ada. -aiu do
carro e subiu as escadas. -omente depois de entrar foi que notou que não %aviam
fec%ado a porta. " casa estava em ordem. Aeu uma ol%ada, apreensivamente, mas
tudo estava normal.
2alve# l%e tivessem deiado uma nota, indicando-l%e para onde %aviam ido.
:rocurou em vão na sala. Em cima, tampouco %avia nada diferente9 mas no quar-
tos dos seus pais as duas camas estavam por fa#er. -entiu um va#io e saiu do quarto
cambaleando. -egurando-se na grade, voltou a descer as escadas.
" co#in%a, pensou, e sua cabeça aliviou-se um pouco diante da perspectiva de
algo concreto. "o abrir a porta, teve a impressão de %aver vida e movimento. 0a era
somente o ponteiro de segundos do rel'gio elétrico, que neste instante deiava a
vertical, iniciando a descida até o número seis. Nuase a seguir sobressaltou-se com
um ruído repentino. & motor do refrigerador, que %avia começado a #umbir, como se
a c%egada de um ser %umano tivesse perturbado seu repouso.
Ds%, sacudido por um violento mal-estar, voltou a sair e sentou-se no carro. *ão se
sentia doente, e sim fraco e tremendamente abatido. -e fi#esse uma espécie de in-
vestigação policial, revolvendo armários e gavetas, provavelmente descobrisse algo.
0as de que serviria se torturar assim$ "s %ist'ria, em suas lin%as principais, era clara
demais. Eá dentro não %avia nen%um cadáver9 feli#mente. 2ampouco %averia espec-
tros, imaginava... Embora o rel'gio e o refrigerador quase se parecessem com um.
Aevia regressar ( casa ou continuar a viagem$ *o primeiro momento pensou que
não se atreveria a entrar outra ve# naqueles quartos va#ios. &correu-l%e então que
seus pais, se porventura continuassem vivos, voltariam para casa, como ele. "o cabo
de meia %ora, vencendo sua repugnFncia, franqueou o umbral.
:ercorreu outra ve# os aposentos, onde se ouvia a linguagem patética das casas
abandonadas. Ae ve# em quando algum ob!eto l%e falava com mais força... a cara
enciclopédia que seu pai %avia comprado recentemente, ap's muitas dúvidas... o
vaso de gerFnios de sua mãe, que agora estava precisando de água... o barJmetro
que seu pai consultava todas as man%ãs antes do café. -im, era uma simples casa
de um %umilde professor de %ist'ria que vivia entregue aos seus livros, e de uma
mul%er - secretária da U<=" - que %avia feito dela um lar.
"p's um momento sentou-se na sala. Entre os m'veis, os quadros e os livros fa-
miliares, foi sentindo-se pouco a pouco menos abatido.
"o cair do crepúsculo, lembrou que não %avia comido nada desde a man%ã. *ão ti-
n%a apetite, mas sua fraque#a podia se dever ( falta de alimento. ,evistou um armá-
rio e abriu uma lata de sopa. *ão %avia mais pão, além de uma crosta mofada. *o
refrigerador encontrou manteiga e um pouco de quei!o. Aescobriu bolac%as em outro
armário. " pressão do gás era fraca, mas consegui esquentar a sopa.
Aepois sentou-se no carro, na escuridão. "pesar da comida, mal se mantin%a de
pé e compreendeu que tin%a sofrido um rude golpe.
*a avenida -an Eupo, ao pé da colina, via-se uma grande parte da cidade. E nada
parecia ter mudado. " produção de eletricidade era, sem dúvida, automática. *as
usinas %idroelétricas, a água ainda alimentava os geradores. E alguém %avia ordena-
do, quando tudo começou a piorar, que não apagassem as lu#es. Eá em baio bril%a-
va a ponte da baía e, mais ao longe, o resplendor de -an @rancisco e o marco lumi -
noso da +olden +ate dissipavam as névoas da noite. &s sinais de trFnsito ainda fun-
cionavam, os refletores enviavam silenciosos avisos para avi;es que não voariam
mais. Eonge, na direção do sul, em algum lugar de &aCland, %avia entretanto uma
#ona escura. /m comutador quebrado, talve#, ou um fusível queimado... &s anúncios
luminosos, alguns pelo menos, continuavam acesos. Eançavam pateticamente seu re-
clames publicitários a um mundo sem clientes nem vendedores. /m enorme carta#,
que uma casa pr'ima ocultava em parte, continuava transmitindo: Beba... 0as Ds%
não via o que devia beber.
=ontinuou ol%ando, quase %ipnoti#ado. Beba... escuridão. Beba... escuridão.
Beba... Bem, por que não$, pensou. @oi buscar a garrafa de con%aque do seu pai.
0as o con%aque era fraco e não encontrou nele nen%um consolo. *ão sou %omem,
pensou, de buscar a morte no álcool.
& anuncio que bril%ava lá em baio era mais interessante.
Beba... escuridão. Beba... escuridão. Beba. :or quanto tempo bril%ariam essas lu-
#es$ =omo se apagariam$ Nue mecanismos continuariam funcionando$ Nue destino
teria esta obra edificada ao longo dos séculos e que agora sobrevivia ao seu criador$
-upon%o, pensou Ds%, que a mel%or solução seria o suicídio. 0as não, é muito
cedo. Estou vivo e talve# %a!a outros sobreviventes. -omos como moléculas de gás
que flutuam sem se encontrarem em um pneumático va#io.
=aiu novamente em um desalento pr'imo ao desespero. -im, podia viver alimen-
tando-se como um necr'fago dos víveres dos arma#éns. :odia unir-se a outros %o-
mens. E depois$ -e tivesse encontrado meia du#ia de amigos, tudo seria diferente.
0as agora não poderia evitar os imbecis, ou ainda os canal%as.
Eevantou os ol%os e viu outra ve# o anúncio que bril%ava ao longe: Beba... escuri -
dão. Beba... escuridão. Beba. E voltou a se perguntar por quanto tempo ainda bril%a-
riam aquelas inúteis letras de fogo. E aquilo que %avia visto durante o dia. Nue seria
do coiote que corria aos saltos pela estrada$ "s vacas e os cavalos passeavam lenta-
mente ao redor do bebedouro ou sob as pás do moin%o. Aurante quanto tempo gira-
ria o moin%o, tirando água das profunde#as da terra$
Então teve um sobressalto. :arecia que o dese!o de viver despertava nele. *ão se-
ria um ator, talve#9 não restavam papeis para ele no mundo, mas pelo menos seria
um espectador a mais9 um espectador !á %abituado a observar o mundo. " cortina
%avia caído, era certo9 mas agora, ante seu ol%ar de pesquisador, ia desenrolar-se o
primeiro ato de um drama ins'lito.
Aurante mil%ares de anos o %omem %avia sido o sen%or indiscutível da terra. E eis
que esse rei da criação desaparecia agora, talve# por muito tempo, talve# para sem-
pre. Embora a raça %umana não %ouvesse se etinguido de todo, os sobreviventes
levariam séculos para retomar as rédeas do poder. Nue seria do mundo e das suas
criaturas sem o %omem$ Bem, ele, Ds%, ia ver.
2
0as quando se deitou não conseguiu dormir. & frio abraço da névoa estival envol -
veu a casa e a consci)ncia da sua solidão se transformou em medo e pFnico. Eevan-
tou-se e, colocando uma bata, foi sentar-se diante do aparel%o de radio. :rocurou
freneticamente em todas as ondas. -' ouviu ruídos fracos.
Então lembrou-se do telefone. 2irou do ganc%o e ouviu o #umbido familiar. Aiscou
um número9 um número qualquer. " campain%a soou em uma casa distante. Ds%
ac%ou ter ouvido um despertar de ecos nas resid)ncias va#ias. *a décima c%amada,
desligou o telefone. 2entou um segundo número, e um terceiro... e parou de ligar.
&correu-l%e então outra ideia. "crescentou um refletor ( lFmpada e, de pé na va-
randa, lançou uma mensagem para a cidade noturna: tr)s pontos, tr)s traços, tr)s
pontos, o -.&.-., em que %aviam posto suas esperanças tantos %omens ameaçados
pela morte. 0as não %ouve resposta. "p's um momento, compreendeu que seus si-
nais passariam inadvertidos entre as lu#es da cidade.
Entrou em casa tremendo de frio. Eigou uma c%ave e o motor da calefação se pJs
em marc%a. " eletricidade ainda funcionava e no tanque ainda %avia combustível.
*esse sentido não tin%a problemas. -entou-se e depois de poucos minutos apagou
as lu#es, com a curiosa sensação de que eram visíveis demais. " névoa e a escuridão
o protegeriam com seus véus impenetráveis. Entretanto, angustiado pela solidão, co-
locou o martelo ao alcance da mão.
/m grito espantoso afastou a escuridão. 2remendo da cabeça aos pés, Ds% demo-
rou em recon%ecer a c%amada de amor de um gato, um som familiar nas noites de
estio, mesmo no aristocrático -an Eupo. &s miados continuaram por algum tempo e
por fim os latidos de um cão interromperam o idílio. & sil)ncio voltou a apoderar-se
da noite.
:ara eles também termina um mundo de vinte mil anos. Ka#em nos canis, com as
línguas inc%adas, mortos de sede. :erdigueiros, ovel%eiros, pequineses, lebreiros. &s
mais afortunados vagam pela cidade e pelos campos, bebendo nos riac%os, nas fon-
tes, nos tanques povoados de peies vermel%os. Buscam por todas as partes alguma
coisa para comer, perseguem uma galin%a, pegam um esquilo no parque. E pouco a
pouco as torturas da fome apagam séculos de servidão. @urtivamente, acercam-se
dos cadáveres insepultos.
& animal de raça !á não se distingue pela altura, pela forma da cabeça ou pela cor
do pelo. @ora do concurso, :ríncipe de :iedmont D1 não supera o último cu#co de
rua. & pr)mio, o direito a sobreviver, é obtido pelo mais engen%oso, com maior vigor,
com uma mandíbula mais forte, ou aquele que sabe adaptar-se (s novas condiç;es
de vida e que, de volta ( selvageria, vence seus rivais, assegurando sua subsist)ncia9
:)ssego, o poodle cor de mel, permanece deitado, triste e aflito, debilitado pela
fome, pouco inteligente, de patas curtas demais para perseguir as presas... -pot, o
mestiço predileto das crianças, tem a sorte de encontrar uma nin%ada de gatin%os e
os mata, não por crueldade, e sim para com)-los... *ed, o terrier de pelo duro, inde-
pendente por nature#a e amigo de correrias, persegue sem dificuldades... Bridget, o
setter vermel%o, estremece, e de ve# em quando lança para o céu um uivo que ter-
mina em um queiume. -ua alma bondosa não tolera um mundo sem deuses.
*aquela man%ã Ds% traçou um plano. Em um distrito urbano de mil%;es de %abi -
tantes, outros deviam ter sobrevivido. " solução era evidente: tin%a que encontrar al-
guém, em qualquer lugar. 0as, como$
:ercorreu toda a vi#in%ança, esperando descobrir algum descon%ecido, 0as as ca-
sas pareciam desabitadas. "s flores murc%avam nos !ardins ressecados.
,egressou, cru#ou o parque das suas brincadeiras infantis, e subiu nas roc%as.
Auas delas se tocavam em cima, formando uma espécie de gruta, um refúgio natu-
ral, primitivo, onde Ds% frequentemente tin%a se escondido. &l%ou. *ão %avia nin-
guém.
Em uma larga superfície roc%osa que seguia a inclinação da colina, os índios %avi -
am aberto uns buracos com seus martelos de pedra. & mundo dos pele vermel%as
desapareceu, pensou Ds%. E agora desaparece também outro mundo. -erei eu seu úl-
timo representante$
Entrou no carro e traçou mentalmente a rota que poderia seguir para que a bu#ina
fosse ouvida em toda a cidade. :artiu tocando a bu#ina a curtos intervalos, parando
para esperar uma possível resposta.
"s ruas tin%am o aspecto das primeiras %oras da man%ã. 3avia muitos carros esta-
cionados e pouca desordem. Ae ve# em quando via um cadáver9 algum doente a
quem a morte %avia surpreendido na rua. Aois cac%orros vagavam perto de um cor-
po. Em uma esquina, um cadáver de um %omem pendia da cru#eta de um poste te-
lefJnico, com um carta# no peito que di#ia: Eadrão. Ds% entrou logo em uma #ona co-
mercial e então viu alguns sinais de viol)ncia. " vidraça de uma lo!a de bebidas fora
transformada em estil%aços.
-aiu da #ona comercial, tocando a bu#ina outra ve#. 0eio minuto mais tarde, ou-
viu-se outra bu#ina, distante e fraca. :or um momento pensou que seus ouvidos o
enganavam. 2ocou outra ve# e a resposta c%egou de imediato. & seu coração deu
um salto. & eco, pensou. =%amou com uma bu#inada curta e outra longa e escutou.
" resposta foi um som breve e único. Aeu meia volta e foi para o lugar de onde vi -
n%a o som, a não mais de setecentos ou oitocentos metros. 2r)s ruas mais adiante,
tocou de novo e esperou. 0ais ( direita, entrou em um beco sem saída, voltou atrás
e tentou outra rua. Eançou a c%amada e a resposta c%egou de mais perto. "vançou
rapidamente em lin%a reta e a resposta seguinte soou (s suas costas. ,etrocedeu e
entrou em uma rua#in%a margeada de lo!as.
3avia longas filas de carros !unto (s calçadas, mas não viu ninguém. Era esquisito
que aquele outro sobrevivente não estivesse no meio da rua fa#endo sinais. 2ocou a
bu#ina e a resposta quase o deiou surdo. :arou o carro, desceu e correu. & %omem
estava dentro de um autom'vel. Nuando Ds% se aproimou, ele desabou sobre o vo-
lante e então caiu de lado. " bu#ina emitiu um longo queiume. /m bafo de uísque
c%egou ao nari# de Ds%. & %omem, de barba longa e %irsuta, o rosto su!o e vermel%o,
estava completamente b)bado.
Ds%, logo furioso, sacudiu o corpo caído. & %omem entreabriu os ol%os e grun%iu,
como se perguntando o que estava acontecendo. Ds% sentou o corpo inerte. 2atean-
do, a mão do %omem procurou a garrafa de uísque em um canto do assento. Ds% adi -
antou-se a ele e !ogou a garrafa na rua, onde quebrou-se ruidosamente. -entia-se
amargurado e furioso. 3avia ali uma terrível ironia. 3avia encontrado um único so-
brevivente, que era um pobre vel%o b)bado que não servia para nada neste mundo
nem em nen%um outro.
&s ol%os do %omem então se abriram e a ira de Ds% transformou-se em uma enor-
me piedade. "queles ol%os tin%am visto demais. 3avia neles espanto e %orror. & cor-
po su!o e doente escondia de algum modo uma mente sensível que agora s' dese!a-
va esquecer.
Ds% sentou-se !unto ao b)bado. &s ol%os do %omem ol%aram aqui e ali, como que
perdidos, e a tragédia pareceu crescer neles. Ds% imediatamente pegou na sua mão e
procurou o pulso. Estava fraco e irregular. *ão l%e restavam senão algumas %oras de
vida. Bem, pensou Ds%, o sobrevivente podia ter sido uma garota, ou um %omem in-
teligente, mas era esse b)bado a quem ninguém podia a!udar.
"p's uns instantes, Ds% saiu do carro e entrou no bar. 3avia um gato no balcão.
Ds% ac%ou que estivesse morto, mas o animal logo se moveu. 2in%a estado dormindo,
simplesmente. & gatou ol%ou para Ds% com a fria insol)ncia com que uma duquesa
ol%a para sua camareira. Ds% sentiu-se incomodado e teve que recordar que os gatos
sempre %aviam sido assim. & animal parecia contente e bem alimentado. Ds% ol%ou
para as prateleiras e notou que o b)bado não %avia se preocupado em escol%er sua
garrafa. /m uísque qualquer l%e tin%a bastado.
-aiu e viu que o %omem %avia encontrado outra garrafa em algum lugar e que be-
bia em grandes tragos. *ão %avia muito o que fa#er, mas Ds% decidiu tentar.
"poiou-se na !anela. & %omem, talve# animado outra ve# pelo álcool, parecia mais
lúcido. &l%ou para Ds% e sorriu pateticamente.
- 3o... %o... a% - disse, com vo# pastosa.
- =omo se sente$ - perguntou Ds%.
- Bar... el... lo. - balbuciou o outro
Ds% tentou decifrar aqueles sons. & %omem esboçou novamente seu patético sorri-
so infantil e repetiu com uma vo# um pouco mais clara:
- *o... BarVl... lo..
Ds% mal compreendeu.
- -eu nome é Barlo., não$ - perguntou - Barlo.$
& %omem assentiu, sorriu e, antes que Ds pudesse impedi-lo, tomou outro trago.
Ds% sentiu-se mais triste que furioso. Nue importava agora um nome$ *ão obstante,
o sen%or Barlo., submerso nas névoas do álcool, tentava cumprir com uma norma
de civili#ada cortesia.
Em seguida, muito lentamente, o sen%or Barlo. desabou outra ve# no assento e a
garrafa caiu e esva#iou-se no c%ão do carro.
Ds% estava %esitante. /niria sua sorte ( do %omem, tentando curá-lo ou re-
formá-lo$ & sen%or Barlo. parecia um caso sem esperanças. E se ficasse ali podia
perder a c%ance de encontrar algum outro.
- @ique aqui - disse ao %omem deitado, talve# inconsciente. - Eu voltarei.
&s gatos tin%am sido dominados pelo %omem por somente cinco mil anos e nunca
%aviam aceito de bom grado essa dominação. &s eemplares encerrados nas casas
logo morreram de sede. 0as os que ficaram na rua se arran!aram mel%or que os
cães.
" caça ao rato deiou de ser um !ogo para transformar-se em uma indústria. &s
gatos caçam pássaros, rondam pelas ruas e avenidas, procurando alguma lata de
desperdícios que os ratos ainda não tin%am saqueado. -aem dos limites da cidade e
invadem as guaridas de codorni#es e coel%os. "li se encontram com outros gatos re-
almente selvagens9 e o fim é sangrento e rápido, pois os vigorosos %abitantes dos
bosques despedaçam os gatos citadinos.
Aesta ve# o som era mais insistente.
& %omem que tocava a bu#ina não parecia b)bado. Ds% aproimou-se e viu um %o-
mem e uma mul%er. ,iam e fa#iam-l%e sinais. Aesceu do carro. & %omem era corpu-
lento e vestia um deslumbrante palet' esportivo. " mul%er era !ovem e bonita com a
boca pintada com uma espessa camada de carmim. *os seus dedos relu#iam vários
anéis.
Ds% deu alguns passos e então se deteve. Aois são um casal, tr)s uma multidão. &
ol%ar do %omem era decididamente %ostil. " mão direita não deiava o avultado bol -
so do palet'.
- =omo estão$ - disse Ds%, sem se mover.
- &%, muito bem - disse o %omem. " mul%er deu um risin%o idiota e ol%ou provo-
cativamente para Ds%. Ds% sentiu-se outra ve# em perigo. - -im, prosseguiu o %omem,
- sim, estamos muito bem. 0uita comida, muita bebida e muitíssimo... - fe# um ges-
to obsceno e ol%ou para a mul%er com um sorriso. " mul%er riu outra ve#.
Ds% se perguntou o que teria sido a mul%er na antiga vida. :arecia agora uma
prostituta acomodada. 2in%a nos dedos diamantes bastantes para instalar uma !oa-
l%aria.
- 3á outros sobreviventes$ - perguntou.
& %omem e a mul%er se ol%aram. " mul%er riu. *ão parecia con%ecer outra lingua-
gem.
- *ão nos arredores - disse o %omem. - fe# uma pausa e deu uma ol%ada na mu-
l%er. - *ão até agora, pelo menos.
Ds% ol%ou para a mão do %omem, ainda no bolso do palet'. " mul%er movia os
quadris e semicerrava as pálpebras, como di#endo que ficaria com o vencedor. *os
ol%os do casal não %avia aqueles sinais de dor que nublava os ol%os do b)bado. 0as
talve# também estivessem sofrendo demais e, de algum modo, %aviam perdido a ra-
#ão. Ds% entendeu de imediato que nunca tin%a estado tão perto da morte.
- :ara onde vai$ - perguntou o %omem.
- &%, s' estava dando uma volta - disse Ds%.
" mul%er voltou a rir. Ds% voltou-se e camin%ou para o carro, pensando que a qual -
quer instante receberia um tiro nas costas. =%egou ao carro, entrou e distanciou-se...
Aesta ve# não ouviu som algum, mas ao virar a esquina, ali estava ela, plantada
no meio da rua: uma adolescente de pernas longas e cabeleireira loira. Aurante um
momento não se moveu, como um cervo surpreendido em uma clareira do bosque.
Então, como a rapide# de uma amedrontado animal acossado, dobrou-se em duas e,
protegendo-se da lu# do sol, tentou ver através do para-brisas. Em seguida correu,
como um animal, e escapuliu através das tábuas de uma cerca.
Ds% desceu do carro, foi até a cerca e c%amou várias ve#es mas não %ouve respos-
ta. -e tivesse ouvido uma risin%o brincal%ão em uma !anela, ou se tivesse visto o re-
voluteio de uma saia em uma esquina, talve# teria continuado procurando. 0as, evi-
dentemente, a fuga da garota não era um flerte. 2alve# tivesse aprendido dolorosa-
mente que somente assim podia se salvar. Ds% esperou por um momento, mas como
a garota não apareceu, pJs-se outra ve# a camin%o...
&uviu outras bu#inas, mas silenciavam antes que pudesse locali#á-las. :or fim viu
um vel%o que saía de um arma#ém com com carrin%o de beb), onde estavam empi-
l%adas latas e caias. Ds% se aproimou e viu que ele não era tão vel%o. -em a barba
branca e emaran%ada, não aparentaria mais que sessenta anos. /sava uma roupa
enrugada e su!a. Aevia dormir vestido %á algum tempo.
Ds% descobriu que o vel%o era mais comunicativo que os outros, mas não muito.
Eevou Ds% para sua casa que não era muito distante. *os cJmodos se amontoavam
todo tipo de coisas: algumas úteis, outras totalmente inúteis. Aominado por uma ma-
nia possessiva, o vel%o logo se transformaria em um ermitão avarento. "ntes do de-
sastre ele tin%a tido uma mul%er e %avia trabal%ado em uma lo!a de ferragens9 em-
bora provavelmente sempre tivesse se sentido desgraçado e s', com muitos poucos
amigos. *a verdade, agora ele era mais feli# do que nunca, pois não %avia ninguém
que estorvasse suas Fnsias de rapina nem que o impedissem de se retirar e viver ro-
deado de pil%as de mercadorias. +uardava alimentos enlatados9 (s ve#es cai;es in-
teiros, ou simples montes de latas. 0as %avia também uma dú#ia de cestos de laran-
!as, que ele não poderia consumir antes que apodrecessem. "lguns sacos de celofa-
ne %aviam se rasgado e as ervil%as !á cobriam o piso. Ds% viu também várias caias
de lFmpadas elétricas e válvulas de rádio, um violoncelo - embora o %omem não sou-
besse música, - mais de cem eemplares de uma mesma revista, uma dú#ia de des-
pertadores e muitas outras coisas que o vel%o %avia reunido, não com a intenção de
utili#á-las algum dia, e sim porque essa acumulação l%e dava uma agradável sensa-
ção de segurança.
Ms ve#es o vel%o era simpático, mas !á não pertencia ao mundo dos vivos, pensou
Ds%. " catástrofe o %avia transformado um %omem taciturno e solitário, em um maní-
aco a um passo da loucura. =ontinuaria, no futuro, empil%ando coisas ao seu redor e
encerrando-se cada ve# mais em si mesmo.
0as quando Ds% se levantou para ir embora, o vel%o, presa do pFnico, pegou-o
pelo braço.
- Nue sentido tem tudo isto$ - perguntou, ecitado - :or que a vida me perdoou$
Ds% contemplou o rosto deformado pelo terror, a boca aberta de onde pendia um
fio de baba.
- -im - respondeu irritado e aliviado ao mesmo tempo, por poder dar rédea solta (
sua c'lera. - -im. :or que voc) está vivo e morreram tantos %omens capa#es$
& vel%o ol%ou involuntariamente ao redor. -eu terror era ab!eto, quase animal.
- W isso mesmo que me assusta - gemeu.
Ds% se compadeceu.
- 1amos - disse, - não %á motivo para se assustar. *inguém sabe porque sobrevi -
veu. *ão foi mordido por alguma cascavel$
- *ão.
- Bem, não importa. " questão da imunidade natural é um mistério. "s epidemias
mais graves não atacam todo mundo.
0as o outro balançou a cabeça.
- Aevo ter sido um grande pecador - disse.
- *esse caso, o teriam castigado.
- 2alve#... - o vel%o interrompeu-se e ol%ou ao redor - 2alve# me reservem um cas-
tigo especial.
& vel%o estremeceu da cabeça aos pés.
"o se aproimar da barreira de pedágio, Ds% se perguntou maquinalmente se teria
moedas. Em um segundo de etravio, imaginou uma cena absurda onde desli#ava
uma moeda imaginária para uma mão imaginária. 0as embora tivesse que diminuir a
marc%a para cru#ar a estreita passagem, não colocou a mão pela !anela.
3avia decidido c%egar a -an @rancisco. 0as logo compreendeu que o que o %avia
atraído era a ideia de ver a ponte. Era a mais auda# e a maior de todas as obras do
%omem naquela região. =omo todas as pontes, era um símbolo de unidade e segu-
rança. -an @rancisco s' %avia sido um preteto. *a verdade, dese!ava somente reno-
var algum tipo de comunicação com o símbolo da ponte.
"gora a ponte estava deserta. &nde antes seis filas de carros %aviam corrido para
o leste o o oeste, as faias brancas se prolongavam até se unirem. /ma gaivota que
%avia pousado no corrimão, sacudiu preguiçosamente as asas quando o carro se
aproimou e desceu planando sobre a água.
Ds% teve o capric%o de dobrar ( esquerda e avançou sem encontrar obstáculos.
"travessou o túnel e as altas e magníficas torres e as longas curvas da ponte p)nsil
alçaram-se diante dele. =omo de costume, tin%am estado pintando algumas partes9
um cabo vermel%o alaran!ado se destacava sobre o cin#a prateado comum.
Então viu algo estran%o. /m carro esportivo, verde, estava estacionado !unto ao
parapeito, na direção leste. Ds% ol%ou-o ao passar. Aentro não %avia ninguém, nada.
-eguiu adiante. Em seguida, cedendo ( curiosidade, descreveu uma longa curva e
parou !unto ao cup). "briu a porta e eaminou os assentos. *ão, nada. & motorista,
desesperado, atacado pela doença, teria se arro!ado na água, saltando por cima da
grade$ &u talve# o motor teria se quebrado e ele, ou ela, teria parado outro carro,
ou %avia continuado a pé. "s c%aves ainda estavam no painel9 a carteira de motoris-
ta pendia do volante: Ko%n ,obertson, número tal, rua =inquenta e Nuatro, &aCland.
*ome e endereço comuns. & carro do sen%or ,obertson era agora dono da ponte.
Ae volta ao túnel, Ds% pensou que poderia ter resolvido parte do problema tentan-
do ligar o motor. 0as na realidade não importava... como não importava, tampouco,
que partisse outra ve# para o leste. 2endo dado meia volta para se aproimar do
cup), Ds% simplesmente seguiu em lin%a reta. -an @rancisco, estava certo, nada po-
deria oferecer-l%e.
/m pouco mais tarde, como %avia prometido, Ds% voltou ( rua onde %avia conver-
sado - se aquilo podia c%amar-se conversar - com o b)bado. Encontrou o corpo caído
na calçada em frente ao bar. Aepois de tudo, refletiu Ds%, o corpo %umano s' pode
absorver uma quantidade limitada de álcool. Ds% lembrou dos ol%os do b)bado e não
conseguiu sentir pena. *ão %avia cães nos arredores, mas Ds% não podia deiar o
corpo ali. "final %avia con%ecido o sen%or Barlo. e %avia conversado com ele. Embo-
ra não soubesse onde enterrá-lo. 2irou umas mantas da uma lo!a e envolveu o corpo
cuidadosamente. Então levou-o para o carro e fec%ou as !anelas.
-eria um mausoléu %ermético e duradouro. "s oraç;es fúnebres pareciam fora de
lugar. 0as ao observar de fora o rolo de mantas, pensou que o sen%or Barlo. %avia
sido, sem dúvida, um bom %omem que não conseguiu sobreviver ( queda do mundo.
Então tirou o c%apéu e assim ficou por uns instantes...
"gora, como na antiguidade, quando a queda de um poderoso monarca alegrava
os povos submetidos, rego#i!avam-se os abetos e os cedros entoam: G=aíste e o ma-
c%ado !á não ameaça nossa eist)nciaH. E os cervos, as raposas e as codorni#es can-
tam: G"gora és como n's. W este o %omem que estremeceu a terra$H SG" tumba de-
vorou tua soberba e a música das tuas violas9 os vermes se movem sob teu corpo e
te cobrem.HT
*ão, ninguém disse estas palavras, ninguém pensa nelas, e o livro de Dsaías se
confunde com o p'. & gamo, sem saber porque, se atreve a sair da espessura9 as ra-
posas brincam !unto ( fonte seca da :raça9 a codorni# c%oca seus ovos na grama
alta, perto do rel'gio do sol.
Eá para o fim do dia, ap's dar uma volta para evitar um lugar nauseabundo onde
se amontoavam os cadáveres, Ds% voltou para casa em -an Eupo.
3avia aprendido muito. & +rande Aesastre - assim c%amava agora a epidemia -
não %avia despovoado inteiramente o mundo. *ão %avia porque comprometer o futu-
ro unindo-se a qualquer um. Era preferível procurar e escol%er. :or outro lado, todos
os que %avia encontrado até agora estavam no limite da loucura.
&correu-l%e então um novo pensamento, que podia ser epresso com uma nova
f'rmula: o +olpe de 0iseric'rdia. " maioria dos que %aviam escapado ao +rande Ae-
sastre, cairia vítima de algum mal que %aviam evitado até então. 0uitos se matariam
bebendo. 3aviam sido cometidos, suspeitava, alguns assassinatos, e %aviam abunda-
do, certamente, os suicidas. "lguns %omens que em outro tempo %aviam arrastado
uma eist)ncia comum, como o vel%o, não poderiam superar e enlouqueceriam. 0ui-
tos feridos e doentes morreriam por falta de cuidados. Ae acordo com uma lei biol'-
gica, toda espécia deve contar com um número mínimo de representantes. "baio
desse número, estará irremediavelmente condenada.
" %umanidade sobreviverá$ :onto capital que podia animar Ds%. Ae acordo com o
resultado da !ornada, as esperanças eram poucas. E quem pode dese!ar que sobrevi-
va uma %umanidade de fantoc%es$
3avia começado a man%ã como um verdadeiro ,obinson =rusoé, disposto a acei-
tar o primeiro seta-feira que aparecesse. 2erminava o dia pensando que se resigna-
ria ( solidão se não encontrasse um amigo aceitável. -' uma mul%er parecia ter de-
se!ado sua compan%ia, e ali tin%a %avido uma ameça de traição e morte. -e Ds% ti -
vesse eliminado o %omem, teria encontrado nela uma mera compan%ia física. Nuanto
( adolescente, teria sido preciso recorrer a um laço ou a uma armadil%a de ursos. E
provavelmente, como o vel%o, ela %avia perdido a ra#ão.
*ão, o +rande Aesastre não %avia deiado os mel%ores com vida9 e as provas que
os sobreviventes %aviam suportado não %aviam acrescentado suas virtudes.
:reparou uma ceia e comeu sem apetite. Aepois tentou ler, mas as palavras ti -
n%am tão pouco sabor como a comida. "inda estava pensando no sen%or Barlo. e
nos outros. Ae um modo ou de outro, cada um ( sua maneira, todos os que tin%a
visto naquele dia estavam desmoronando. E ele pr'prio conservaria todas as suas fa-
culdades mentais$ :egou um papel e um lápis e escreveu uma lista de qualidades
que podiam l%e permitir continuar vivendo e, além disto, ser feli# onde todos os ou-
tros %aviam fracassado.
5T 1ontade de viver. Aese!o de ver o que será da terra sem o %omem. +e'grafo.
>T "mor ( solidão. :ouco falador.
RT 2er etirpado um ap)ndice.
7T 3abilidade manual. 0as mau mecFnico. 1ida ao ar livre.
XT *ão ter visto morrer a família e os outros
Dnterrompeu-se, com os ol%os fios na última lin%a. Esperava que estivesse certo.
,efletiu por uns minutos. :odia acrescentar outras qualidades ( lista. -ua educação,
que l%e permitia adaptar-se (s novas circunstFncias. +ostava de ler e assim podia
distrair-se e esquecer. "demais, não era um leitor comum. :odia pesquisar em livros
e procurar ali os meios de reconstruir o mundo.
=om os dedos crispados no lápis, pensou se devia anotar que não era supersticio-
so. :odia ser importante. -e não fosse, seria presa, como o vel%o, de um terror ab!e-
to e c%egaria talve# a pensar que o desastre era obra da ira de Aeus, que %avia arra-
sado seu povo com uma peste, como antes do dilúvio. E ele, embora não tivesse mu-
l%er e fil%os, seria um novo *oé, encarregado de repovoar o mundo deserto. 0as se-
mel%antes divagaç;es levavam ( loucura. -im, se um %omem se cr) mensageiro de
Aeus, não está longe de acreditar ser o pr'prio Aeus e de enlouquecer.
*ão, pensou Ds%, aconteça o que acontecer, nunca me ac%arei um deus. *unca se-
rei um deus.
"bandonando-se assim ao curso dos seus pensamentos, comprovou, não sem sur-
presa, que a perspectiva de uma vida solitária não deiava de l%e dar uma sensação
de segurança e, e mais ainda, de euforia. *o passado, as relaç;es sociais %aviam
sido uma das suas maiores preocupaç;es. " ideia de ir a um baile o tin%am feito
transpirar mais de uma ve#9 nunca %avia pertencido a uma associação de estudantes.
*os vel%os dias, este modo de ser era um defeito9 agora, ao contrário, parecia uma
vantagem. -empre %avia ficado em um canto nas reuni;es sociais, entrando muitas
poucas ve#es em conversas, contentando-se em escutar e observar ob!etivamente. E
agora, do mesmo modo, podia suportar facilmente o sil)ncio e observar como espec-
tador o curso das coisas. -ua fraque#a %avia se transformado em força. =omo um
cego em um mundo privado de lu#. *essas trevas, onde as pessoas normais andari-
am aos tropeç;es, ele estaria muito cJmodo e os outros viriam segurar seu braço,
implorando-l%e que l%es servisse de guia.
Entretanto, quando se encontrou na cama, na escuridão, a imagem dessa vida so-
litária perdeu todo seu encanto. "s frias mãos da névoa cru#aram a baía e se fec%a-
ram sobre a casa de -an Eupo Arive. Ds% sentiu outra ve# aquele medo. Encol%ido
entre as mantas, com o ouvido atendo a todos os ruídos da noite, pensou em sua so-
lidão9 e no +olpe de 0iseric'rdia que pendia sobre ele, ameaçador. @oi assaltado por
um violento dese!o de fugir com a maior rapide# daqueles enigmáticos perigos. Dnvo-
cou então o auílio da ra#ão e disse a si mesmo que a epidemia não podia ter devas-
tado todo o país, que em algum lugar devia ter restado alguma comunidade com
vida e que ele a encontraria.
3
& pFnico desapareceu com a noite, mas o medo continuou tena#mente alo!ado no
coração de Ds%. Eevantou-se com cuidado e engoliu saliva apreensivamente, pensan-
do no que aconteceria se adoecesse da garganta.
Aesceu lentamente as escadas. /m degrau deslocado podia significar a morte.
Em seguida, começou a preparar a partida e, como sempre que seguia um deter-
minado plano, embora não fosse um plano ra#oável, sentiu-se satisfeito e tranquilo.
-eu autom'vel era vel%o. :odia escol%er algum outro entre as centenas de carros
abandonados. *a maioria faltavam as c%aves. 0as por fim encontrou em uma gara-
gem uma camin%onete com as c%aves, o que respondia aos seus dese!os. Eigou o
motor9 funcionava perfeitamente.
Ká se preparava para partir, quando foi assaltado por uma sensação de mal-estar.
*ão era a pena de abandonar seu vel%o autom'vel. Ae repente se lembrou. 1oltou
ao seu carro e pegou o martelo. Eevou-o para a camionete e colocou-o no piso, aos
seus pés. Então saiu da garagem.
Em um arma#ém comeu um pouco de quei!o e alguns biscoitos, enquanto escol%ia
algumas provis;es nas prateleiras. &s víveres abundariam em todas as cidades. 0as
convin%a levar algumas reservas no carro. &utras lo!as l%e proporcionaram um saco
de dormir, um mac%ado, uma pá, um impermeável, cigarros e uma garrafin%a de co-
n%aque. Eembrando das aventuras da véspera, entrou em uma lo!a de armas e esco-
l%eu um fu#il leve, uma carabina de repetição, uma pistola automática que podia car-
regar facilmente no bolso e uma faca de caça.
Ká na camionete, e pronto para partir, viu o cão. 2in%a visto muitos cães nos últi -
mos dias e afastava-os sempre da sua mente. &fereciam um patético espetáculo e
aparentemente não gostavam do que estava acontecendo. Ms ve#es pareciam famin-
tos, ou bem alimentados demais. "lguns se encol%iam, assustados, outros mostra-
vam os dentes, muito seguros de si. Este era um pequeno cão de caça, branco e
acastan%ado, de orel%as longas e caídas. /m sabu!o, provavelmente, embora ele
soubesse muito pouco sobre raças caninas.
-entado prudentemente a uns tr)s metros de distFncia, o cão ol%ou para Ds%, ba-
lançou a cauda e c%oramingou fracamente.
- @oraL - gritou Ds%, sentindo como se levantasse um muro contra os laços de afei-
to que s' podiam terminar com a morte. - @oraL - repetiu. 0as o cão avançou alguns
passos, deitou-se na calçado com o focin%o entre as patas e fiou Ds% com ol%os su-
plicantes. "s longas orel%as caídas davam-l%e uma epressão de infinita triste#a,
como se Ds% l%e tivesse partido o coração. Ae repente, sem querer, Ds% sorriu9 e pen-
sou que era seu primeiro sorriso sem ironia desde o dia da serpente.
=ontrolou-se, mas o cão, que %avia visto de imediato sua mudança de %umor, se
esfregava contra suas pernas. Ds% ol%ou para ele e o animal se esquivou, com um te-
mor fingido ou real descreveu um círculo, interrompido por dois saltos de lado, se
deiou cair outra ve# com a cabeça entre as patas e lançou um curto latido ansioso
que terminou em um gemido. Ds% sorriu novamente, desta ve# abertamente, e o cão
compreendeu que sem dúvida %avia gan%o a partida. :Js-se a correr outra ve#, mu-
dando rapidamente de direção, como se perseguisse um coel%o. :or fim arro!ou-se
ousadamente aos pés de Ds% e ofereceu a cabeça, como se esperando uma carícia e
di#endo: G*ão fi# bem$H Ds% compreendeu, colocou a mão na cabeça e l%e acariciou
o pelo. & cão lançou um pequeno grun%ido de satisfação e balançou a cauda com
tanta força, que suas orel%as tremeram. ,evirou os ol%os claros. Era a pr'pria ima-
gem da adoração. /mas ruga#in%as cru#avam sua testa. /m caso de amor ( primeira
vista. & cão parecia di#er: G:ara mim, não %á outro %omem no mundoH.
Ds% confessou sua derrota. "gac%ou-se e acariciou francamente o novo amigo.
Bem, pensou, queira ou não, ten%o um cão. &u mel%or, o cão me tem. "briu a porta
da camionete e o cão saltou e se instalou no assento como se estivesse em casa.
Em um arma#ém Ds% encontrou uma caia de biscoitos para cac%orro e deu-l%e
um. & cão aceitou sem demonstrar carin%o ou agradecimento. & %omem tin%a o de-
ver de alimentá-lo e toda demonstração de gratidão era, portanto, supérflua. Ds% no-
tou então, pela primeira ve#, que na realidade o animal não era um cão e sim uma
cadela. Bem, pensou, fi# uma verdadeira conquista.
1oltou ( sua casa e recol%eu algumas coisas: roupas, um par de 'culos de campa-
n%a, livros. -e perguntou se precisaria de algo mais. " viagem poderia levá-lo ao ou-
tro lado do continente. @inalmente encol%eu os ombros. *a carteira tin%a de#enove
d'lares, em notas de cinco e de um. Era mais que suficiente. :ensou em atirar fora a
carteira, mas finalmente guardou-a. Estava tão acostumado a levá-la no bolso, que
sem ela se sentiria perdido. & din%eiro não atrapal%ava.
-em muitas esperanças, escreveu uma nota e deiou-a bem ( vista na sala. -e
seus pais regressassem, saberiam que podiam esperá-lo, ou deiar-l%e uma mensa-
gem.
Ae pé, !unto ao autom'vel, deu um ol%ar de despedida para a avenida -an Eupo.
" rua estava deserta. "s casas e as árvores não %aviam mudado, mas notou outra
ve# no gramado e nos !ardins a falta de rega e cuidados. "pesar da neblina noturna,
o seco verão californiano murc%ava as plantas.
Era o meio da tarde. 0as Ds% decidiu partir de imediato. Aese!ava distanciar-se e
passar a noite em outra cidade.
"s plantas e as flores que o %omem %avia cuidado morrem como os gatos e os
cães. 2revos e grama inclinam a cabeça, e os dentes de leão amarelecem. &s áste-
res, que amam a água, murc%am nos maciços. "s ervas danin%as florescem. " sávia
se consome nos talos das camélias9 não %averá bot;es na pr'ima primavera. *as
trepadeiras e nos roseirais, as fol%as se retorcem, lutando contra a seca. "s ab'boras
silvestres estendem seus braços sobre os !ardins e terraços. =omo os bárbaros, que
em outro tempo, desaparecidos os eércitos romanos, invadiram as delicadas provín-
cias, assim as ervas danin%as silvestres avançam e destroem as plantas premiadas
que o %omem %avia mimado.
/m barul%o firme e regular subia do motor. *a man%ã do segundo dia, Ds% dirigiu
com prud)ncia eagerada, temendo sempre que estourasse um pneu, que os freios
se estragassem, ou que alguma vaca cru#asse o camin%o. =om os ol%os fios no ve-
locímetro, tentava não superar os sessenta quilJmetros por %ora. 0as o motor era
poderoso e a agul%a subia a cada instante para os sessenta e os oitenta.
" velocidade o foi tirando pouco a pouco daquela depressão. " mera mudança era
um alívio9 a fuga, um consolo. 0as Ds% sabia que estava fugindo, sobretudo, por um
tempo, da necessidade de decidir. Dnclinado sobre o volante, vendo como se descorti-
nava a cada momento a cortina de uma nova paisagem, não fa#ia planos para o futu-
ro, não pensava em como ia viver nem se iria viver. -é se preocupava em dobrar a
pr'ima curva.
" cadela estava deitada no assento. Ae ve# em quando botava a cabeça nos !oe-
l%os do seu novo dono9 geralmente ela dormia calmamente, e sua presença também
era um alívio.
& espel%o retrovisor nunca mostrava um autom'vel. Ds%, por costume, ol%ava-o
constantemente e via as imagens da carabina e do fu#il, do saco de dormir e das la-
tas de conserva no assento traseiro. Era como um marin%eiro em alto mar, com seu
barco c%eio de provis;es, preparado para qualquer emerg)ncia9 e sentia também
esse profundo desespero do náufrago, a desolação da imensidão.
-eguiu pela rodovia 66, que cru#ava o vale de -an Koaquim. *ão se apressava,
mas a velocidade média era ecelente. *ão %avia camin%;es que o obrigassem a di-
minuir a marc%a e não era necessário parar, obedecendo aos sinais de trFnsito - em-
bora a maioria ainda funcionasse, - nem diminuir a velocidade nas cidades. *a reali-
dade, apesar dos seus temores, devia recon%ecer que a rodovia 66 agora era mais
segura que antes, com seu trFnsito denso e enlouquecido.
*ão viu %omem algum. -e procurasse nas cidades e povoados, talve# pudesse
descobrir alguém9 mas para que$ :odia encontrar algum indivíduo isolado a qualquer
momento. "gora queria comprovar se não %avia alguma cidade com vida.
" ampla planície estendia-se até o %ori#onte: vin%edos, %ortas, campos de mel;es,
plantaç;es de algodão. & ol%o eperimentado de um campon)s talve# pudesse des-
cobrir os efeitos do desaparecimento do %omem, mas para Ds% não %avia mudança
alguma.
Em BaCesfield deiou a rodovia 66 e tomou o tortuoso camin%o que levava ao pas-
so de 2e%ac%api. &s campos se transformaram em ladeiras cobertas de carval%os, e
então em pin%eirais parecidos com parques. " solidão pesava menos nesses lugares
que tin%am estado quase sempre desabitados.
Ds% c%egou ao final do desfiladeiro. & deserto assomava no %ori#onte. -entiu medo
outra ve#. Embora o sol ainda estivesse muito alto, parou na cidade de 0o!ave e co-
meçou a se preparar.
:ara atravessar aqueles tre#entos quilJmetros de deserto, inclusive nos vel%os
tempos, o motorista devia levar sua provisão de água. Em alguns lugares, se o carro
tivesse alguma avaria, tin%a que camin%ar todo um dia para encontrar um posto de
estrada. Ds%, que s' podia contar consigo mesmo, devia multiplicar as precauç;es.
Encontrou uma lo!a de ferragens. " porta maciça estava fec%ada com duas voltas
da c%ave. Ds% quebrou a fec%adura com o martelo e entrou. :egou tr)s grandes can-
tis e enc%eu-os em uma torneira de onde ainda saía um fraco fio dVágua. Em um ar-
ma#ém pegou um garrafão de cinco litros de vin%o tinto. Entretanto, tudo isso não
l%e pareceu suficiente.
-em saber muito bem o que queria, retrocedeu pela rua principal até que encon-
trou uma motocicleta. Era preta e branca, como as dos guardas de trFnsito. "pesar
de se sentir assustado e desanimado, sentiu certos escrúpulos. ,oubar a motocicleta
de um policial era algo por demais ins'lito. :or fim, ap's alguma %esitação, desceu
do carro e testou a motocicleta dando algumas voltas pela rua.
-ob o pesado calor das últimas %oras da tarde, trabal%ou durante uma %ora prepa-
rando algumas tábuas. Nueria subir a motocicleta na carroceria. *ão seria s' um ma-
rin%eiro em seu barco9 teria também uma c%alupa em caso de naufrágio.
Entretanto, seus temores cresciam constantemente e surpreendeu-se várias ve#es
dando uma ol%ada por cima do ombro.
& sol se pJs. Esgotado, Ds% preparou uma ceia fria e comeu sem apetite. :ensou
até nos perigos de uma indigestão. Então foi buscar uma lata de comida para cães. "
cadela aceitou o presente impassivelmente e acomodou-se outra ve# no assento di-
anteiro.
Ds% procurou então o mel%or %otel da cidade e se instalou em um quarto com a ca-
dela. 0al saía água das torneiras. :arecia que naquele povoado o fornecimento de
água não era automática, como nas cidades. Eavou-se o mel%or que pJde e dei -
tou-se. " cadela enroscou-se no piso.
0as Ds%, quase aterrori#ado, não conseguia dormir. " cadela gemia durante o
sono, sobressaltando-o. & medo se fe# quase intolerável. Eevantou-se para se asse-
gurar que %avia fec%ado bem a porta, sem saber eatamente o que temia ou contra
que inimigo proteger-se. :ensou em ir procurar um sonífero em uma farmácia, mas a
ideia de um sono muito profundo o assustou. " lembrança do sen%or Barlo., por ou-
tro lado, o impedia de recorrer ao con%aque. :or fim dormiu um son%o agitado.
"cordou com a cabeça pesada. @a#ia muito calor e ele %esitou em atravessar o de-
serto. &correu-l%e então que podia retroceder para o sul, até Eos "ngeles. *ão era
uma má ideia dar uma ol%ada por lá. 0as esses argumentos, ele sabia muito bem,
eram simples pretetos. "inda conservava bastante amor pr'prio para não voltar
atrás enquanto não %ouvesse um impedimento sério9 mas decidiu, de qualquer for-
ma, não se meter no deserto antes do cair do sol. Era, disse para si mesmo, uma
precaução elementar. 0esmo nos tempos normais, se costumava cru#ar o deserto (
noite, para evitar o calor.
:assou o dia em 0o!ave, nervoso e inquieto, perguntando-se que outras precau-
ç;es poderia tomar. :or fim, quando o sol baiou sobre as montan%as do oeste,em-
preendeu a marc%a com a cadela ao seu lado.
"inda não %avia percorrido dois quilJmetros quando sentiu que o deserto o envol-
via. =om os últimos raios de sol, as árvores Kudeia pro!etavam longas e estran%as
sombras. :or fim o crepúsculo inundou tudo. Ds% acendeu os far'is, que iluminaram o
camin%o solitário, sempre solitário. Ms ve#es procurava no retrovisor o refleo de lu-
#es g)meas que indicassem que outro carro se aproimava. Eogo a escuridão foi total
e ele se sentiu ainda mais angustiado. "pesar do motor ronronar regularmente, pen-
sou em todos os acidentes possíveis: o estouro de um pneu, o motor sobreaquecido,
uma interrupção da passagem da gasolina. ,edu#iu a velocidade. *em sequer podia
confiar na motocicleta.
"lgumas %oras mais tarde - agora andava muito lentamente - c%egou a um posto
do deserto, onde anteriormente uma pessoa podia prover-se gasolina, pneus ou be-
bidas. " casa estava (s escuras e Ds% passou ao largo. &s raios brancos dos far'is re-
cortavam claramente a rodovia. & motor rugia suavemente. Nue seria dele se paras-
se$
Ká estava em pleno coração do deserto, quando a cadela começou a grun%ir e a se
agitar.
- =ale-se - disse Ds%, mas o animal continuou com seus gemidos e sacudidas. - &%,
está bem - continuou ele, e parou o carro, sem se preocupar em sair para o acosta-
mento do camin%o.
Ds% desceu e a cadela saiu atrás dele. Aescreveu rapidamente vários círculos e, le-
vantando repentinamente a cabeça, lançou um ladrido, sonoro demais para um ani-
mal tão pequeno, e começou a correr.
- "quiL "quiL - gritou Ds%. 0as a cadela não l%e prestou atenção. -eus ladridos se
perderam ao longe.
-eguiu-se um profundo sil)ncio. Ds% sobressaltou-se de imediato ao notar que %a-
via cessado também outro ruído: o ronronar do motor. Entrou apressadamente no
carro e apertou o arranque. & motor ronronou outra ve#. Ds% suspirou. & coração l%e
batia no peito.
Ae repente ele sentiu como se mil%ares de ol%os invisíveis o ol%assem. "parou os
far'is e ficou ali, sentado na escuridão.
"o longe, muito fracamente, ouviram-se outra ve# os latidos. & som aumentava e
diminuía, como se a cadela estivesse dando voltas perseguindo uma presa. Ds% pen-
sou em seguir viagem e deiá-la ali. Aepois de tudo, era ela quem o tin%a procurado.
E se agora o esquecia para correr atrás do primeiro coel%o que aparecia, ele não po-
dia sentir-se responsável. Eigou o carro, mas parou a poucos metros. Ae certo modo
!á tin%a certas obrigaç;es com a cadela, embora ela o usasse. Ds% sentiu-se deprimi-
do e so#in%o e estremeceu.
Aepois de algum tempo, um quarto de %ora talve#, notou que a cadela tin%a volta-
do sem fa#er barul%o. 3avia se deitado no c%ão e ofegava, com a língua para fora.
Ds% sentiu-se furioso. :ensou nos vagos perigos a que podiam epJ-lo aquelas idioti-
ces. Aeiá-la morrer de sede no deserto teria sido cruel, mas podia livrar-se dela ra-
pidamente e sem fa#)-la sofrer. Aesceu do carro com o fu#il na mão.
1iu então a cadela, deitada aos seus pés, com a cabeça entre as patas, ainda ofe-
gante. *ão levantou-se para receb)-lo, mas Ds% notou que ela ol%ava para ele. Ae-
pois de uma caça ao coel%o, voltava para !unto do seu dono, o %omem que %avia
adotado e que cumpria também com suas funç;es, servindo-l%e saborosas conservas
e levando-a para lugares onde %avia aut)nticos coel%os. Ds% de repente cedeu e riu.
=om o riso, algo se rompeu em seu interior. -entiu como se %ouvesse se desemba-
raçado de um terrível peso. Aepois de tudo, pensou, & que eu temo$ *ada pior que
a morte pode me acontecer. E nisto, quase todos se adiantaram a mim. :or que se
assustar$ W a sorte comum.
-entiu-se incrivelmente aliviado. Aeu alguns passos pela estrada, para que seu
corpo se associasse ( alegria da sua alma.
*ão se contentou em deiar cair o fardo que a qualquer momento podia sentir ou-
tra ve# sobre os ombros. :ronunciou, poderia se di#er, sua Aeclaração de Dndepen-
d)ncia. "vançou auda#mente para o destino, esbofeteou-l%e o rosto e desafiou-o a
que respondesse o golpe. Kurou que se vivesse, viveria livre de todo temor. *ão %a-
via escapado a um desastre universal$
=om duas passadas c%egou ( parte traseira do carro, desfe# os n's e deiou cair a
motocicleta. "o diabo com aquelas precauç;es ecessivas. 2alve# o destino s' ata-
casse os muito prudentes. " partir de agora aceitaria sua sorte e pelo menos desfru-
taria da vida até o último dia. *ão estava vivendo, por acaso, um simples adiamento$
- Bem, vamos :rincesa - disse em tom irJnico - Em marc%a.
E de repente notou que por fim %avia dado um nome ( cadela. Era um bom nome9
sua vulgaridade evocava a serena eist)ncia de outros tempos. " cadela seria a :rin-
cesa, um animal que esperaria sempre os mais atentos cuidados9 e como recompen-
sa, o a!udaria a pensar em outras coisas além das suas pr'prias desgraças.
0as, pensando bem, não via!aria mais esta noite. &rgul%oso da sua liberdade re-
conquistada, se compra#ia em epor-se a novos perigos. 2irou o saco de dormir do
carro e instalou-se ao abrigo precário de uma algaroba. :rincesa deitou-se ao seu
lado e adormeceu profundamente logo a seguir, fatigada pela caça.
Ds% despertou no meio da noite, mas não sentiu medo algum. "p's tantas provas,
%avia alcançado por fim um porto de pa#. :rincesa gemia em seus son%os e agitava
as patas como se estivesse caçando algum coel%o. :or fim se tranquili#ou. Ds% ador-
meceu também.
Nuando despertou de novo, a aurora coloria de amarelo limão as colinas desérti-
cas. @a#ia frio, e :rincesa %avia se recostado contra o saco de dormir. Ds% se levantou
e assistiu o nascer do sol.
Dsto é o deserto, a solidão que começou com os primeiros dias do mundo. 0as tar-
de apareceram os %omens. "camparam nas margens dos riac%os e deiaram aqui e
ali alguns blocos de pedras. E seus camin%os atravessaram as apertadas fileiras de
algarobas, mas ninguém podia assegurar realmente que tivessem estado ali. 0ais
tarde ainda, construíram estradas de ferro, estenderam fios elétricas e traçaram lon-
gas e retas rodovias. 0as na imensidão do deserto o espaço conquistado mal se via
e a de# metros das vias o asfalto ainda reinava sobre a nature#a selvagem. Então a
raça %umana se etinguiu, deiando sua obra para trás.
*ão eiste tempo no deserto. 0il anos são um dia. " areia voa, os ventos deslo-
cam as pedras9 mas as mudanças são imperceptíveis. Ae ve# em quando, talve# uma
ve# por século, o céu deia escapar uma tromba dVágua, a água borbul%a no leito
dos falsos riac%os e os seios se entrec%ocam na corrente. Ae# séculos mais, e talve#
as gretas da terra se abram outra ve# e volte a surgir a lava. =om a mesma lentidão
com que cedeu aos %omens, o deserto apagará as pegadas %umanas. :assarão os
anos e ainda se verão blocos de pedra na areia e a longa estrada se estenderá até as
colinas recortadas no %ori#onte. &s tril%os estarão em seu lugar, com um pouco de
ferrugem. 2al é o deserto: a solidão9 dá lentamente, tira lentamente.
& ponteiro do velocímetro ficou uns instantes nos cento e de#. Ds% desfrutou da
sua liberdade sem pensar em acidentes. 0ais tarde, diminuiu um pouco a marc%a e
ol%ou ao redor com interesse renovado. -eu ol%o eperimentado de ge'grafo tentou
reconstruir o drama do desaparecimento do %omem. "li nada %avia mudado.
Em *eedles, o indicador de gasolina indicava quase #ero. *ão %avia eletricidade e
as bombas não funcionavam. "p's procurar um pouco, Ds% descobriu um dep'sito de
gasolina em um bairro afastado e enc%eu o tanque. Então voltou ao camin%o.
=ru#ou o rio =olorado, entrou no "ri#ona, e a rodovia subiu entre roc%osos e afia-
dos desfiladeiros. /ma meia du#ia de bois e duas vacas com seus fil%otes pastavam
em uma ravina. Ds% parou o carro e os animais levantaram preguiçosamente as cabe-
ças. "queles animais do deserto, quando não se aproimavam da rota, passavam
meses sem ver um %omem. &s vaqueiros vin%am !untá-los somente duas ve#es por
ano. "qui o desaparecimento do %omem passaria quase inadvertido9 os reban%os tal -
ve# se reprodu#issem mais rapidamente. Aepois de algum tempo, as pradarias de-
vastadas não poderiam alimentar a todos e logo o lobo uivaria profundamente e limi -
taria o número dos reban%os. E finalmente, entretanto, Ds% não tin%a dúvidas, gado
e lobos c%egariam a um acordo inconsciente9 e então o reban%o, livre dos donos,
cresceria e engordaria como antes.
0ais ( frente, perto da vila mineira de &atman, Ds% viu dois burros. *ão podia sa-
ber se nos dias da catástrofes eles !á estavam nos arredores do povoado ou se eram
burros selvagens. Ae qualquer forma, pareciam contentes com sua sorte. Aesceu do
carro e tentou se aproimar, mas os animais escapuliram, mantendo-se ( distFncia.
Ds% permitiu então que :rincesa descesse do carro e arremetesse contra os estran%os
animais. & mac%o, com as orel%as abaiadas e mostrando os dentes, enfrentou-a le-
vantando as patas. :rincesa deu meia volta e correu para buscar a proteção do seu
dono. & burro, pensou Ds%, poderia medir-se favoravelmente com um lobo e até o
puma poderia lamentar o ataque.
=ru#ou o cume de &atman e do outro lado encontrou pela primeira ve# o camin%o
parcialmente bloqueado. /ma violenta tempestade devia ter devastado a região um
ou dois dias antes. -em dúvida, torrentes de água %aviam descido pela encosta ar-
rastando areia para o camin%o. Ds% desceu do carro para eaminar os danos. Em
tempos normais, uma quadril%as de pe;es teriam limpado rapidamente os detritos,
abrindo as valas de drenagem e colocando tudo em ordem. "gora uma camada de
areia cobria a rodovia. 0ais abaio a água tin%a danificado o asfalto nas bordas. :as-
sariam alguns anos e o asfalto se rac%aria e a areia e pedrin%as formariam uma bar-
reira intransponível. :or %ora o obstáculo era pouco sério e Ds% passou sem dificulda-
des. Basta que se rompa um trec%o e toda rodovia fica inservível, pensou Ds%, per-
guntando-se durante quanto tempo seria possível passar.
*aquela noite ele dormiu novamente em uma cama, no mel%or %otel de Yingman.
& gado, os cavalos e os asnos tin%am vivido livremente por mil%ares de séculos,
errando pelos bosques, estepes e desertos. Então o %omem conquistou o poder e
empregou para seus pr'prios fins o gado, os cavalos e os asnos. "gora, terminado o
reino do %omem, os animais recuperavam a liberdade.
Encerradas nos estábulos, as vacas torturadas pela sede mugiram por algum tem-
po e depois se calaram. &s cavalos morreram lentamente nos estábulos.
"gora os asnos percorrem os desertos como nos vel%os dias. @are!am o vento do
leste, trotam pelos leitos dos lagos secos, sobem as colinas pedregosas e se alimen-
tam de espin%os, acompan%ados pelos carneiros de longos c%ifres.
0as os 3ereford de focin%o branco aprenderam a subsistir nas pradarias, e mesmo
nas fa#endas o gado quebrou as cercas e recobrou a liberdade, unindo-se a cavalos e
asnos...
&s cavalos preferiram a etensão ilimitada das planícies. =omem o pasto verde da
primavera e o pasto seco do outono9 e no inverno procuram sob a neve algum capim
seco, acompan%ados por reban%os de c%ifres afiados.
"s vacas buscam as terras mais verdes e os bosques. &cultam os recém-nascidos
nos matagais até que estes possam seguir as mães. &s bis;es são seus compan%ei-
ros e seus rivais. Entre os mac%os eplodem sangrentas lutas. 1encem os mais for-
tes9 e os bis;es recuperam seus antigos domínios. Então o gado se refugia nas pro-
funde#as dos bosques.
Em Yingman não %avia eletricidade, mas a água ainda corria. /m dep'sito de gás
liquefeito alimentava a co#in%a do %otel e a pressão era normal. " falta de refrigera-
ção elétrica privou Ds% de ovos, manteiga e leite. 0as ap's assaltar um arma#ém,
pJde preparar um ecelente des!e!um: grapefruit em conserva, salsic%as em lata e
marmelada. :reparou uma boa quantidade de café e acrescentou leite condensado e
açúcar. :rincesa fartou-se de carne de cavalo em conserva.
Aepois do des!e!um, e com o auilio do martelo e de um cin#el, Ds% furou o tanque
de um camin%ão, recol%eu a gasolina em uma lata e transferiu o combustível para
seu carro. *a cidade %avia alguns cadáveres, mas o calor seco do "ri#ona os tin%a
mumificado.
0ais além de Yingman, densos pin%eirais perdiam-se ao longe. " rodovia era qua-
se o único testemun%o da atividade do %omem. *ão %avia fios telefJnicos e as cer-
cas eram raras. "s pradarias estendiam-se ( direita e ( esquerda, verdes pelas c%u-
vas do verão e salpicadas de arbustos.
& pastoreio %avia mudado a apar)ncia dos campos e o desaparecimento do %o-
mem traria outras modificaç;es. Eivres da ameaça dos matadouros, os reban%os se
multiplicariam e, antes que seus inimigos pudessem di#imá-los, teriam devorado o
capim até as raí#es, mudando a face da terra. &u também era possível que a febre
aftosa cru#asse a fonteira do 0éico, acabando com o gado. E talve# os lobos e os
pumas se propagassem muito rapidamente. Ae qualquer forma, ap's vinte cinco ou
cinquenta anos a situação se estabili#aria e o mundo seria outra ve# como antes da
c%egada do %omem branco.
*os dois primeiros dias Ds% %avia sentido medo9 no terceiro %avia reagido lan-
çando-se pelos camin%os a toda velocidade. 3o!e não %avia nele nada mais além de
serenidade e calma. -entia-se penetrado pelo sil)ncio que %avia caído sobre o mun-
do. *o tempo que %avia passado nas montan%as, tin%a apreciado o sil)ncio sem ana-
lisá-lo e não tin%a notado que o barul%o era uma invenção %umana. 3avia muitas de-
finiç;es do %omem, mas ele acrescentaria outra: G& animal que criou o barul%oH.
"gora !á não ouvia senão o ronronar quase imperceptível do motor e não precisava
recorrer ( bu#ina. *ão %avia camin%;es com ruidosos canos de escapamento, apitos
de trens ou rugidos de avi;es no céu. 2udo %avia se calado. "s cidades também %a-
viam emudecido, sem sirenes, campain%as, vociferantes aparel%os de rádio, vo#es de
seres %umanos. "quela talve# fosse a pa# da morte, mas de qualquer forma era a
pa#.
Ds% dirigia lentamente, mas não por medo. Nuando sentia vontade, parava para
ol%ar alguma coisa e (s ve#es se entretia tentando ouvir algum som. @requentemen-
te, calado o motor, reinava um sil)ncio total, mesmo nas cidades. &utras ve#es ouvia
somente o ade!ar de um pássaro, ou o fraco ruído de um inseto, ou o murmúrio do
vento nas fol%as. =erta ocasião, e com uma sensação de alívio, ouviu o apagado ru-
mor de uma tormenta distante.
"gora, nas primeiras %oras da tarde, %avia c%egado a uma meseta coberta de pi-
n%eiros. "o norte assomava um pico nevado.
=%egou a <illiams. *a estação %avia um aerodinFmico trem de aço.
Em @lagstaff, um inc)ndio %avia destruído grande parte da cidade. *ão encontrou
ninguém.
:ouco além de @lagstaff, ap's uma curva, viu dois corvos que alçavam voo, aban-
donando sua presa. "proimou-se um pouco atemori#ado, mas era somente um car-
neiro. & animal !a#ia rígido na rodovia, com o pescoço ensanguentado. 3avia outros
cadáveres na margem da rodovia. Ds% contou vinte e seis. =ães ou coiotes$ *ão po-
dia di#)-lo, mas não era difícil reconstituir a cena. Encurralados, os carneiros %aviam
fugido para a pradaria e os que se encontravam nas margens dos reban%os %aviam
sido separados dos seus compan%eiros.
/m pouco mais adiante ocorreu-l%e tomar o camin%o que levava ao monumento
nacional de <alnut =an8on. " casa do #elador dominava o profundo can8on semeado
de ruínas, vestígio de moradias trogloditas. @altava uma %ora para o por do sol e Ds%
se entreteve em seguir o estreito camin%o e contemplar com um sorriso sem alegria
aqueles escombros onde %aviam vivido outros %omens.
1oltou sobre seus passos e passou a noite na casa (s margens do can8on. " água
de uma tormenta %avia entrado por baio da porta, estragando o piso. =airiam ou-
tras c%uvas, ano ap's ano, e muito brevemente a formosa casa não seria muito dife-
rente daqueles outros refúgios ao pé da escarpa. E se confundiriam as ruínas das
duas civili#aç;es.
"s ovel%as também resistiriam por um certo tempo. Embora as feras as atacassem
sem descanso, não é possível eterminar mil%;es de ovel%as em um dia ou um m)s
e mil%ares de cordeiros continuariam vindo ao mundo. Entretanto, e não sem motivo,
Gas ovel%as sem pastorH foram para os %omens o símbolo de um povo condenado (
etinção. :assará o tempo e as ovel%as desaparecerão.
*o inverno vagam sem rumo, cegas pela neve9 no verão se distanciam da água e
não sabem voltar9 na primavera as inundaç;es as surpreendem e centenas delas se
afogam. =aem estupidamente nos precipícios e os corpos em decomposição se
amontoam lá no fundo. E os assassinos se multiplicam: cães que voltam ao estado
selvagem, coiotes, pumas, ursos. Aos grandes reban%os s' restarão alguns grupos
desgarrados. /m pouco mais, e os cordeiros terão desaparecido da face da terra. 3á
mil%ares de anos atrás, aceitaram a proteção do pastor e perderam sua agilidade e
sua independ)ncia. "gora, desaparecido o pastor, as ovel%as camin%am para a mor-
te.
*o dia seguinte Ds% atravessou as altas planícies das 0ontan%as ,oc%osas. Era
uma região dedicada ( criação de ovel%as9 e %avia mais cadáveres. 0ais ao longe, no
pé de uma colina, ac%ou ter visto umas ovel%as que fugiam rapidamente, mas não
podia assegurar.
&utra ve# viu uma cena ainda mais estran%a. Em um prado verde (s margens de
um riac%o, algumas ovel%as pastavam tranquilamente. Ds% ol%ou, quase procurando
o pastor, mas s' viu dois cães. & pastor %avia desaparecido, mas os cães continua-
vam com sua costumeira tarefa: !untavam os animais, não permitiam que se distan-
ciassem da água e, sem dúvida, manteriam ( distFncia os vagabundos noturnos.
Ds% parou o carro e prendeu :rincesa, para que ela não perturbasse a pacífica
cena. &s cães, ao ouvirem o autom'vel, ladraram furiosamente e devolveram alguns
animais dispersos ao reban%o.
*as cidades a eletricidade ainda corria pelos cabos ap's o desaparecimento do %o-
mem. Ao mesmo modo, nas grandes pradarias, os cães ainda guardavam os reba-
n%os, 0as, pensou Ds%, isso não duraria muito.
" rodovia atravessava amplas planícies. /- PP, lia-se nos marcos. 3avia sido em
outros tempos uma rota importante, o camin%o dos &Cies para a =alif'rnia, como di -
#ia a canção. "gora a rodovia estava deserta. *en%um Jnibus ia para Eos "ngeles9 os
camin%;es não corriam para o leste e para o oeste9 não %avia carretas carregadas de
m'veis e pessoas que iam para a col%eita de frutas9 não passavam bril%antes carros
de turistas, nem sequer carroças puadas por esquálidos cavalos.
Ds% desceu ao vale do ,io +rande, atravessou a ponte e subiu pelo longo camin%o
de "lbuquerque. "lbuquerque era a maior das cidades que %avia cru#ado até antão.
2ocou a bu#ina e prestou atenção. *inguém respondeu e pareceu-l%e inútil se atra-
sar.
*aquela noite dormiu em um %otel nos arredores de "lbuquerque, no alto de uma
encosta que descia até a cidade. & %otel estava nas sombras. Ká não %avia corrente
elétrica.
*o dia seguinte subiu a montan%a e encontrou-se diante de uns picos separados
por vastas planícies. -entiu outra ve# o frenesi da velocidade e começou a correr
pela reta rodovia. &s picos desapareceram ao longe. 2eas abriu-se diante dele com
a monotonia do :an%andle. Eogo o tempo ficou t'rrido. "o seu redor, estendiam-se
até o infinito os campos de pal%as. &s segadores %aviam segado o trigo pouco antes
que a morte os alcançasse.
*aquela noite dormiu no subúrbio de &Cla%oma.
:ela man%ã, contornou a cidade e tomou a rota PP para =%icago. 0as ap's alguns
quilJmetros encontrou uma árvore bloqueando a estrado. Aesceu do carro para estu-
dar a situação. -em dúvida, um furacão %avia cru#ado a planície. & álamo fec%ava a
rota em uma confusão de ramos e fol%as. -eria necessário meio dia de trabal%o para
limpar o camin%o.
Ds% sentiu então que o epis'dio era como um símbolo do drama que %avia se pro-
posto observar. " famosa rota PP bloqueada por uma árvoreL 0esmo que a tirasse do
camin%o, teria %avido outros acidentes similares, e %averia logo. "s tormentas cobri-
riam a rota de lama, os taludes desmoronariam, uma enc%ente levaria uma ponte.
0ais alguns anos e somente um pioneiro em uma carroça poderia tomar a rota PP de
=%icago a Eos "ngeles.
Ds% pensou em contornar pelo campo, mas as c%uvas recentes %aviam amaciado a
terra. & mapa indicava que a quin#e quilJmetros atrás %avia um camin%o que o leva-
ria de volta ( rota principal. Aeu meia volta e partiu.
0as depois de percorrer quin#e quilJmetros, compreendeu que não precisava vol-
tar ( rota PP. & camin%o lateral o levava diretamente para leste e esta direção era
tão boa quanto qualquer outra. " árvore caída, pensou, talve# ten%a mudado o curso
futuro da %ist'ria %umana. Nuem sabe o que eu poderia fa#er em =%icago. "gora
aconteceu diferente.
Então cru#ou &Cla%oma para o leste. &s campos estavam desertos. "s colinas on-
duladas, com verdes carval%os atrofiados, eram as de sempre. *as planícies suce-
diam-se as plantaç;es de trigo e algodão. & cereal estava alto e as espigas assoma-
vam sobre o mato, mas o algodão estava murc%ando rapidamente.
& calor era sufocante e pouco a pouco destruía em Ds% os %ábitos da vida civili#a-
da. "inda se barbeava todos os dias, porque assim se sentia mais cJmodo, e não
porque se preocupasse com sua apar)ncia. 0as o cabelo, mal cortado, caía-l%e em
longas mec%as. 1estia calças e uma camisa com o pescoço aberto. 2odas as man%ãs
tirava a camisa e trocava por outra limpa. 3avia perdido seu c%apéu de feltro cin#a e
em uma lo!a de &Cla%oma pegou um deses ordinários c%apéus de pal%a que o pes-
soal da col%eita utili#a para se proteger do sol.
*aquela mesma tarde entrou em "rCansas e pareceu notar uma mudança. & tem-
po era quente e úmido. " vegetação invadia tudo, ruas e edifícios. "s %eras e as ro-
seiras trepadeiras tapavam as !anelas e !á pendiam dos tetos e alpendres. "s casas
menores pareciam estar recuando para se esconderem nos bosques. "s cercas tam-
bém estavam desaparecendo. " rodovia se confundia com o campo. & capim e as er-
vas danin%as assomavam entre as rac%aduras do cimento. &s longos ramos de algu-
mas trepadeiras c%egavam até a lin%a branca que dividia a rodovia e se uniam aos
que vin%am do outro lado.
&s p)ssegos estavam maduros e Ds% variou um pouco seu menu de conservas com
uma incursão em uma %orta.
*aquela noite dormiu em *ort% Eittle ,ocC.
"lguns porcos morrem, resguardados em suas pocilgas e as crias grun%em recla-
mando alimento. 0as outros passeiam livremente. *ão necessitam do %omem. *os
dias quentes buscam a lama (s margens dos rios e ali se instalam, satisfeitos. "s fu-
turas geraç;es terão patas mais ágeis, um corpo mais delgado e caninos mais lon-
gos. " fúria dos mac%os espantará o lobo e o urso. =omo o %omem, os porcos co-
mem carne, tubérculos, no#es e frutas. -obreviverão.
*a man%ã seguinte, nos arredores de uma aldeia, Ds% quase saltou do assento. &
espetáculo era surpreendente: um !ardim sem ervas danin%as, bem regado e cuida-
do. :arou o carro, desceu, e encontrou-se pela primeira ve# com o que poderia c%a-
mar, generosamente, um grupo social. Era uma família de negros: um %omem, uma
mul%er de idade mediana e um menino. " avultada cintura da mul%er prometia a
c%egada de um quarto cidadão.
Eram pessoas tímidas. & garoto se mantin%a ( parte, curioso mas assustado, co-
çando a cabeça. " mul%er mantin%a sil)ncio e não falava senão quando l%e pergun-
tavam alguma coisa. & %omem %avia tirado o c%apéu de pal%a e amassava nervosa-
mente a aba gasta e rota. +otas de transpiração, devidas ao calor e ao nervosismo,
corriam-l%e pela testa negra e bril%ante.
Ds% mal compreendia o obscuro dialeto, que a perturbação fa#ia ainda mais ininteli-
gível. Aedu#iu entretanto que por ali não %avia outros sobreviventes. *a realidade,
eles sabiam muito pouco, pois depois do desastre não tin%am feito mais que curtas
camin%adas a pé, sem se distanciarem do lugar. *ão eram uma família, e sim uma
associação fortuita de tr)s sobreviventes, tr)s seres %umanos que, escapando ( lei
das probabilidades, %aviam se salvado na mesma aldeia.
Ds% compreendeu então que eles ainda estavam afetados pela catástrofe e que
conservavam os %ábitos arraigados da sua eist)ncia anterior. 0as se atreviam a fa-
lar na presença de um branco e nunca levantavam os ol%os.
"pesar da evidente má disposição daquela gente, Ds% eaminou o lugar. Embora ti -
vessem podido escol%er entre todas as casas da aldeia, %aviam se contentado com a
cabana onde vivia a mul%er antes do desastre. Ds% viu da porta a cama e as cadeiras
descon!untadas, o fogão de ferro, a mesa com uma toal%a de encerado e as moscas
que #umbiam sobre a comida. & eterior tin%a mel%or apar)ncia. & !ardim era quase
euberante, %avia um bom campo de trigo e também cultivavam algodão. Ds% se per-
guntou que diabos eles pensavam em fa#er com aquele algodão. "parentemente, %a-
viam continuado fa#endo as vel%as tarefas, obtendo assim uma sensação de segu-
rança.
2ambém tin%am frangos e alguns porcos em um curral. :erturbaram-se tanto
quando Ds% ol%ou para os porcos, que era evidente que os %aviam tirado de alguma
pocilga al%eia. "gora o %omem branco os obrigaria a devolver os animais.
Ds% pediu alguns ovos frescos e deu-l%es um d'lar por uma du#ia. "p's um quarto
de %ora, esgotados todos os temas de conversa, voltou ao seu autom'vel, para gran-
de alívio dos seus %'spedes.
@icou por um momento diante do volante, mergul%ado em seus pensamentos. -e
eu ficasse aqui, refletiu, poderia ser um verdadeiro rei. Eles não ac%ariam a menor
graça, mas com a colaboração dos vel%os %ábitos, acabariam por se resignar. =ultiva-
riam meus legumes, cuidariam das min%as galin%as, e até teríamos uma ou duas va-
cas. Enfim, fariam todo o trabal%o. Eu seria um verdadeiro rei, embora em pequena
escala.
0as o pensamento logo se apagou e ele se pJs em marc%a, pensando que os tr)s
negros %aviam solucionado mel%or que ele o problema da nova vida. =omo um ne-
cr'fago, ele vivia dos despo!os da civili#ação. Eles pelo menos levavam uma eist)n-
cia estável e criativa, apegados ( terra, e satisfa#iam suas necessidades com o pr'-
prio trabal%o.
Aas seiscentas mil espécies de insetos, somente umas poucas dú#ias sentiram o
desaparecimento do %omem. E destas, as únicas realmente condenadas ( etinção
foram as tr)s espécies de parasitas %umanos. 2ão antiga, senão %onorável, era essa
associação, que %avia sido citada para apoiar a teoria da origem única do %omem. &s
antrop'logos, com efeito, indicaram que mesmo nas tribos mais isoladas o %omem
tem sempre os mesmo parasitas, concluindo-se daí que esses insetos nos foram le-
gados por nossos antepassados, os primeiros %omens macacos.
Aesde os tempos mais remotos, através de mil%ares e mil%ares de séculos, esses
parasitas se adaptaram cuidadosamente ao seu universo: o corpo do %omem. @orma-
vam tr)s tribos que tin%am como respectivos domínios a cabeça, as roupas e as par-
tes seuais. Aeste modo, apesar das suas diferenças de raças, observaram os termos
tácitos de uma aliança tripartite, dando ao seu anfitrião um eemplo que ele deveria
seguir. 0as esta perfeita adaptação ao ser %umanos l%es tirou a c%ance de eplorar
outros %ospedeiros. " queda do %omem provocou sua ruína. Nuando sentiram que
seu universo esfriava, procuraram outro9 não encontraram e morreram. Bil%;es de
criaturas tiveram assim um triste fim.
:oucos lamentos acompan%aram o funeral do 3omo -apiens. & =anis @amiliaris,
como indivíduo, talve# ten%a lançado tristes uivos9 mas como representante de uma
espécia alimentada com açoites e pontapés, voltou a unir-se alegremente aos seus
irmãos selvagens.
Nue o 3omo -apiens se console entretanto, pois %ouve tr)s que c%oraram sincera-
mente por ele.
Ds% c%egou ( ponte que atravessava o caudaloso rio de águas escuras. /m cami -
n%ão atravessado bloqueava a rodovia de 0emp%is.
-entindo-se como um menino que desafia alguma proibição paterna, Ds% cru#ou (
esquerda da lin%a férrea e lançou-se a toda velocidade para o 2enessee, pelo cami -
n%o que leva a "rCansas. *inguém o deteve.
0emp%is parecia tão deserta como as outras cidades, mas o vento sul tra#ia um
bafo fétido do que %aviam sido os populosos bairros de -eatle -treet. Ds% decidiu es-
quecer as cidades sulistas e voltou outra ve# para o campo.
*ão tin%a ido muito longe quando ao vento sucedeu uma c%uva. Ds% tin%a pouca
pressa e parou em um %otel no final de uma vila. *ão se preocupou em averiguar o
nome. *a co#in%a %avia gás e ele preparou uma ceia com os ovos. Era um verdadei-
ro festim e mesmo assim ele não se sentiu satisfeito. -e perguntou se estaria se ali -
mentando direito. 2alve# devesse prover-se de vitaminas em alguma farmácia.
0ais tarde soltou :rincesa e a cadela desapareceu sob a c%uva com um longo lati-
do, como se tivesse encontrado um rastro. :ensou enfastiado que talve# tivesse que
esperar uma %ora pela sen%orita. 0as :rincesa voltou quase a seguir, fedendo espan-
tosamente a gambá. Ds% encerrou-a na garagem e a cadela ali ficou, latindo e quei -
ando-se amargamente.
Ds% se deitou com a impressão de que faltava alguma coisa. 2alve# a comoção ti -
vesse sido maior do que tin%a pensado. :ensou também que a solidão podia estar
pesando, ou que o instinto seual estava fa#endo das suas. /ma emoção violenta,
ele sabia, (s ve#es tin%a efeitos curiosos. Eembrou da %ist'ria de um %omem que %a-
via visto sua mul%er morrer em um acidente e que ficou impotente durante meses.
:ensou nos negros que tin%a visto pela man%ã. " mul%er, !á perto dos quarenta,
com a gravide# muito adiantada, e que sem dúvida nunca tin%a sido uma bele#a, não
podia ter despertado nele inquietação alguma. *ão, aquelas pessoas o tin%am per-
turbado pela segurança de que pareciam go#ar, graças ao contato com a terra.
*esse instante :rincesa latiu na garagem. Ds% lançou-l%e uma maldição e se deitou
para dormir.
*a man%ã seguinte continuava descontente e inquieto. " tormenta ainda não tin%a
cessado de todo, mas !á não c%ovia mais. Aecidiu fa#er um passeio a pé pela rodo-
via. "ntes de partir, ol%ou dentro da camionete e viu o rifle no assento. "té agora
mal o tin%a tocado. -em saber muito bem porque, colocou-o sob o braço e foi cami -
n%ar.
:rincesa, que o seguia a uns poucos metros, logo descobriu um novo rastro e,
apesar da eperi)ncia da noite anterior, desapareceu depressa entre as colinas, latin-
do animada.
- Boa sorte - gritou seu dono. Nuanto a ele mesmo, s' dese!ava estirar as pernas
ou encontrar alguma árvore com frutas maduras.
Ae repente viu uma vaca e um be#erro. & espetáculo não tin%a nada de especial.
Em todos os campos do 2enessee podia ver algo parecido. & ecepcional era que
agora estava levando o rifle debaio do braço. =ompreendeu então porque estivera
ruminando, de algum modo.
"poiou o rifle sobre um mourão da cerca e apontou cuidadosamente para a testa
do be#erro. " distFncia era curta o suficiente. "pertou o gatil%o e o rifle recuou, gol -
peando-o. Nuando o estrondo se apagou, Ds% ouviu que o be#erro lançava um longo
e rouco gemido. "inda estava de pé, com as patas separadas, mas cambaleava e um
fio de sangue brotava do focin%o. :or fim desabou no c%ão. " vaca, assustada pela
detonação, %avia corrido alguns metros e agora ol%ava indecisa. Ds% ignorava se ela
o atacaria em defesa do be#erro. 0irou outra ve# e atingiu-a com uma bala atrás do
pescoço. " vaca caiu e Ds% arrematou com outros dois tiros.
@oi ao carro pegar a faca de caça e aproveitou para carregar o rifle. Estava assom-
brado. "té então mal %avia usado a arma e agora declarava guerra ( nature#a e te-
mia que l%e aplicassem a lei de 2alião. Entretanto, quando c%egou no lugar onde !a-
#iam a vaca e o be#erros, não encontrou nen%uma resist)ncia. Aescobriu consterna-
do que o be#erro ainda respirava. Embora aquela operação o repugnasse, degolou-o.
*unca tin%a gostado da caça e nunca tin%a esquarte!ado um animal. "quilo foi
portanto uma lamentável carniçaria. =oberto de sangue, conseguiu separar o fígado
e notou que não tin%a em que levá-lo. Aeiou a massa sanguinolenta nas entran%as
do be#erro e foi buscar um recipiente. Nuando voltou, um corvo estava bicando os
ol%os do animal.
:or fim c%egou com o fígado na co#in%a, mas !á tin%a perdido o apetite. Eavou as
mãos o mel%or que pJde e vagou sem rumo pelo %otel, pois estava c%ovendo outra
ve#. :rincesa latiu na porta. & temporal tin%a tirado seu c%eiro de gambá. Ds% dei-
ou-a entrar. " cadela estava mol%ada, enlameada e coberta de arran%;es. Aeitou-se
no c%ão e se limpou com a língua.
Ds% deitou-se em uma cama. "s emoç;es o tin%am esgotado, entretanto !á não
sentia aquela inquietação. Eá fora a c%uva assolava. Aepois de uma %ora, pela pri-
meira ve# desde o desastre, Ds% sentia algo novo: estava entediado.
Aescobriu no quarto uma revista vel%a, de seis meses atrás, e leu um %ist'ria
onde um casal de !ovens enamorados enfrentava um dos problemas dos tempos mo-
dernos: a escasse# de moradia. /m relato sobre as construç;es das pirFmides não
teria parecido mais antigo. Eaminou de# anúncios9 nen%um atuali#ado. *ão eram di -
rigidos a indivíduos isolados e sim a membros de um grupo. & mal %álito, por eem-
plo, era pre!udicial, não porque fosse sintoma de cáries ou transtornos digestivos, e
sim porque o atacado do mal seria rec%açado pelas garotas nos bailes e nen%uma
iria querer se casar com ele.
0esmo assim o peri'dico teve a virtude de distraí-lo.
"o meio-dia sentiu fome e quando ol%ou para o fígado, agora em uma caçarola,
notou que a lembrança do be#erro ensanguentado !á não era uma obsessão. @ritou
uma fatia e comeu avidamente. 2in%a simplesmente necessidade de carne fresca,
concluiu. :rincesa também participou do festim.
Aepois de comer, sentiu-se satisfeito e aliviado. 0atar um be#erro não era uma fa-
çan%a %eroica e não podia se di#er que tin%a merecido a comida. 0as era mel%or
que abrir uma lata de conserva, e mais real. 3avia deiado de se dedicar ( pil%agem
aproveitando o eemplo dos negros. Entendia agora o paradoo de que um ato des-
trutivo pode equivaler a um ato criativo.
/ma cerca é um fato e ao mesmo tempo um símbolo. Entre os reban%os e os cere-
ais a cerca se levanta como um fato9 mas entre o centeio e o mil%o é somente um
símbolo, pois o centeio e o mil%o não se devoram entre si. "s cercas dividiam a terra.
Aeste lado da cerca estavam as col%eitas e do outro o camin%o. E mais adiante do
camin%o, outra cerca, logo depois uma %orta e a casa por trás de uma nova cerca. E
por fim um curral, também com sua cerca. Aestruídas as cercas - fatos e símbolos, -
!á não eistem separaç;es, nem divis;es, nem mudanças bruscas9 tudo é uma planí -
cie de ondulaç;es imprecisas e cores indistintas onde as plantas e as flores se con-
fundem como nos princípios dos tempo.
Ds% perdeu outra ve# a noção do tempo. *ão via!ava muito diariamente, pois c%o-
via frequentemente e as estradas não eram tão retas e lisas como no &este. "demais
%avia perdido o gosto pela velocidade. Airigiu-se para noroeste, por entre as colinas
do YentucC, atravessou &%io e entrou na :ens8lvania.
"gora Ds% se alimentava de mil%o verde que cortava nos campos invadidos pelas
ervas danin%as e de bagas maduras e frutas que arrancava das árvores e arbustos.
Ae ve# em quando encontrava em alguma %orta alguns pés de alface que as lagartas
tin%am respeitado, ou cenouras, que não se dava ao trabal%o em co#in%ar. /ma ve#
matou um leitão e duas perdi#es. &utro dia, com :rincesa encerrada no carro, pas-
sou duas %oras perseguindo uns perus que escaparam quando estavam na mira. :or
fim, conseguiu se aproimar e matou um mac%o. 3á algumas semanas atrás, o peru
ainda era sem dúvida %'spede de algum galin%eiro9 mas agora, acostumado a se
proteger das raposas, %avia se transformado em um verdadeiro e saga# %abitante
dos bosques.
Entre uma c%uva e outra, o tempo era sempre quente e Ds% tomava ban%o nu em
riac%os e rios. =omo a água corrente !á estava com gosto ruim, bebia de poços e
fontes, embora que nos grandes rios, pensava, as águas correriam limpas e livres de
desperdícios e resíduos.
Ká acostumado a estudar cidades, podia saber de imediato, com alguma certe#a,
se estavam desabitadas ou se poderia encontrar algum sobrevivente. @requentemen-
te, os bares e arma#éns de bebidas %aviam sido saqueados. "s outras casas geral-
mente permaneciam intactas. Entretanto, de ve# em quando um banco mostrava si-
nais de ter sido assaltado9 alguém continuava confiando no din%eiro. :elas ruas (s
ve#es erravam porcos ou cães e, menos frequentemente, algum gato.
0esmo nessas regi;es outrora tão populosas, os cadáveres eram relativamente es-
cassos e o fedor não era tão nauseabundo como ele %avia temido. Nuase todas as
gran!as e aldeias tin%am sido abandonadas. &s últimos %abitantes tin%am ido para as
cidades em busca de cuidados médicos, quando não %aviam fugido para as monta-
n%as na esperança de escapar da epidemia.
*os bairros das cidades importantes, montes de terra assinalavam os lugares onde
%aviam trabal%ado as escavadeiras até o último dia. *o fim, como era de se esperar,
muitos corpos tin%am ficado sem sepultura, mas isto tin%a ocorrido principalmente
nos arredores dos %ospitais. Ds%, prevenido pelo olfato, evitava essas #onas ou passa-
va velo#mente.
&s sobreviventes geralmente viviam so#in%os e, mais raramente, em casais. *ão
deiavam suas antigas casas. Ms ve#es parecia que dese!avam reter Ds%, mas nunca
se ofereciam para acompan%á-lo. Ds% ainda não %avia encontrado o compan%eiro ide-
al. -e fosse necessário, pensava, podia voltar.
& campo mudava mais rapidamente que as cidades, embora essas mudanças a
princípio mal fossem visíveis. "s ervas danin%as invadiam tudo. *essa região, o de-
sastre tin%a acontecido antes da col%eita e !á caía uma c%uva de grãos de trigo das
espigas carregadas. "s vacas e os cavalos erravam livremente9 as cercas !á começa-
vam a cair. "qui e ali via-se algum campo de trigo intacto, com suas cercas s'lidas,
mas o acontecia mais frequentemente era os animas terem conseguido abrir uma
brec%a.
/ma man%ã, Ds% atravessou o rio Aela.are e entrou em *ova Kerse8. *as primei-
ras %oras da tarde entraria em *e. UorC.
4
=%egou a :ulasCi -C8.a8 por volta do meio-dia. Nuando tin%a quin#e anos tin%a
passado por ali com seus pais. " torrente do trFnsito o %avia aterrori#ado então9 os
camin%;es e carros passavam rugindo em todas as direç;es e depois desapareciam
rapidamente, internando-se nos túneis. Eembrou que seu pai ol%ava ansiosamente
para os sinais luminosos e que sua mãe, nervosa e assustada, dava consel%os conti -
nuamente. "gora :rincesa dormia placidamente ao seu lado e nen%um carro l%e fe-
c%ava o camin%o.
1iu ao longe as altas torres dos arran%a-céus, de um cin#a pérola, contra o céu
nublado. 3avia c%ovido recentemente e o tempo estava fresco. & aparecimento dos
arran%a-céus emocionou-o de um modo curioso. Entendia agora porque tin%a ido a
*e. UorC: a cidade era para ele o centro do mundo. & que tivesse acontecido em
*e. UorC devia ser uma amostra do que %avia acontecido em outros lugares.
Nuando c%egou ao cru#amento de Kerse8 =it8, parou no meio da estrada para es-
tudar os sinais. "trás dele não %ouve repentinos c%iados de freios, nem bu#inadas,
nem insultos de motoristas furiosos, nem vo#es de policiais nos alto-falantes.
:elo menos, pensou Ds%, a vida está mais tranquila.
0uito alto no céu, um pássaro, talve# uma gaivota, grasnou duas ve#es. & motor
ronronava com um #umbido de abel%a.
*o último instante Ds% teve medo de entrar em um dos túneis. -e as águas os ti-
vessem invadido, talve# não pudesse sair dali. Aeu meia volta, cru#ou a ponte +eor-
ge <as%ington e c%egou a 0an%attan.
Estendida entre os braços dos seus rios, a cidade ainda resistiria por muitos anos.
& tempo não ataca facilmente a pedra, o ti!olo, o cimento, o asfalto e o vidro. " água
deia manc%as negras, o mofo as esverdeia, nas brec%as assomam fol%as de plan-
tas9 mas s' na superfície. & vento destroça um vidro ou leva algumas tel%as. /ma
parede se inclina, com a base carcomida pelas c%uvas. "lguns anos mais tarde ela
cai e os ti!olos cobrem a rua. "s nevascas fa#em seu trabal%o em março e com o de-
gelo a pedra descasca.
& desgaste é lento. "s águas das c%uvas correm das canaletas para os esgotos9 e
se os esgotos entopem, correm pelas ruas até os rios. " neve se amontoa nos luga-
res baios e nas esquinas9 ninguém a tira. *a primavera ela se funde e desaparece
também nos bueiros. Aa mesma forma que no deserto, um ano é como uma %ora
noturna, um século como um dia.
*a verdade, a cidade se parece muito com o deserto. :elo solo revestido de ci -
mento e asfalto, a água da c%uva se divide para alcançar os rios. "qui e ali cresce al -
gum mato9 mas não %á árvores, ou videiras, ou altas gramíneas. "s árvores das ave-
nidas morrem por falta de cuidados. &s cervos e coel%os evitam as ruas desertas.
"té os ratos se vão. -omente as criaturas aladas encontram refugio ali. &s pássaros
fa#em nin%os nas altas corni!as9 pela man%ã e ( noite os morcegos saem e entram
pelas !anelas quebradas. -im, a cidade resistirá por muito, muitíssimo tempo.
Ds% dobrou na Broad.a8 com a intenção de c%egar a Batter8. 0as na rua 5?Q um
letreiro avisava, ,/" @E=3"A", e uma flec%a apontava para o leste. *ada o impedia
de passar, mas desta ve# obedeceu. Entrou na avenida "msterdã e então seguiu para
o sul. & c%eiro indicou que o =entro 0édico devia ter sido um dos últimos pontos de
concentração e que o sinal era para desviar o trFnsito.
" avenida "msterdã estava deserta. Em algum lugar daquela vasta acumulação de
cimento, ti!olos, argamassa e gesso devia %aver alguém com vida. " catástrofe tin%a
sido quase universal, e na superpovoada 0an%attan com certe#a tin%a feito mais es-
tragos que em nen%um outro lugar. E o que ele c%amava de golpe de miseric'rdia
devia ter sido sentido mais em uma população urbana. :or outro lado, tin%a visto
que em todas as cidades alguém tin%a se salvado e o mesmo devia ter acontecido
entre os mil%;es de 0an%attan. 0as não se preocupou em tocar a bu#ina. /m indiví -
duo isolado não l%e interessava.
=ontinuou cru#ando as ruas sem notar sinal algum de vida. "s nuvens tin%am se
dispersado e o sol bril%ava no #)nite, mas parecia como se fosse tr)s %oras da ma-
drugada. Em outros tempos, mesma a esta %ora teria encontrado alguém: um polici -
al que fa#ia sua ronda ou algum tái noturno.
:assou diante de um campo de esportes deserto.
3avia alguns carros estacionados nas ruas. Eembrou que seu pai l%e %avia mostra-
do <all -treet na quietude de uma man%ã de domingo. & sil)ncio agora era ainda
mais esmagador.
:erto do estádio Ee.iso%n, dois cac%orros magros fare!avam a porta de uma gara-
gem. 0ais adiante duas pombas alçaram voo. Dsso foi tudo.
-eguiu adiante. :assou diante do edifício de ti!olos vermel%os da /niversidade de
=olúmbia e parou em frente ( alta catedral. *ão %avia sido terminada e continuaria
assim até o final dos dias. Aesceu do carro, empurrou a porta e entrou. 3orrori#ado,
pensou por um momento que na nave principal encontraria os cadáveres de mil%ares
de fieis que com certe#a %aviam se reunido ali para passar suas últimas %oras em
oração. 0as seus temores eram infundados.
=amin%ou pelas naves laterais e entrou nas capelas de abside, onde ingleses, fran-
ceses, italianos e outros %abitantes daquela cidade poliglota e movimentada vin%am
visitar seus santos. & sol atravessava os vitrais. " recordação que guardava de uma
distante visita anterior era bastante fiel. -entiu vontade de se a!oel%ar diante de um
altar. *ão %á ateus nas crateras dos obuses, recordou, e agora o mundo inteiro era
uma imensa cratera.
0as o que %avia acontecido não parecia demonstrar que Aeus interessasse muito
( %umanidade ou aos seus indivíduos. -entiu então que sua garganta se apertava.
Este era, então, o fim das lutas e aspiraç;es do %omem...
-aiu para a rua deserta e entrou outra ve# no carro.
*a avenida da catedral dobrou para o leste e, desden%ando os sinais de trFnsito,
entrou no =entral :arC e tomou o East Arive. *aquele dia de verão as pessoas talve#
tivessem ido ao parque, como em outros tempos. 0as não viu ninguém. Eembrou
dos esquilos. &s cães e gatos famintos %aviam acabado com eles. /m bisão pastava
em uma clareira do parque9 mais adiante via-se um cavalo. Ds% passou diante do mu-
seu 0etropolitano e do obelisco de =le'patra, agora duplamente 'rfão. =%egou ( es-
tação -%erman, entrou na Nuinta "venida e lembrou do estribil%o de um salmo: GAe
que te servem agora tuas vit'rias$H
/ma il%a dentro de outra il%a, o retFngulo verde do parque não morrerá. -eu solo
descoberto recebe o benefício da c%uva e do sol. *o primeiro ano cresce a grama9 as
sementes caem de árvores e das moitas e os pássaros tra#em outras. Aois ou tr)s
anos mais e brotarão árvores novas. 1inte anos mais e o parque terá se transforma-
do em um monte selvagem onde cada árvore tenta crescer acima das suas compa-
n%eiras para alcançar a lu#. "s vigorosas espécies nativas, o freio e o bordo, abafa-
ram as delicadas plantas e'ticas cuidadas pelo %omem. "s marcas de ferradura se
apagaram9 um espesso tapete de fol%as mortas cobre os camin%os. =em anos mais e
o monte será um bosque espesso onde não %averá outro sinal %umano além do arco
de pedra que cru#a o riac%o. &s gamos correm entre as árvores, o gato selvagem
salta sobre o coel%o e as cabeças das percas assomam no lago.
*as altas vitrines das casas de moda, os manequins ainda posavam com seus ale-
gres vestidos e suas !oias bril%antes. Ds% ol%ava para o deserto da Nuinta "venida, si-
lenciosa como uma rua de aldeia em uma man%ã de domingo. "lguém %avia quebra-
do a vitrine de uma !oal%aria. Espero que o %omem ten%a ac%ado os diamantes sa-
borosos, pobre diabo, pensou Ds%, embora talve# o saqueador tivesse se sentido
atraído pela bele#a das pedras, como uma criança que recol%e seios na praia. 2alve#
as safiras e os rubis o ten%am a!udado a morrer.
Entretanto, na Nuinta "venida reinava a ordem em geral. Ds% ac%ou que a morte
tin%a sido misericordiosa e a Nuinta "venida era um formoso cadáver.
*o ,ocCefeller =enter, assustadas pelo ruído do motor, alçaram voo alguns pom-
bos. *a altura da rua 7> ele parou na metade da avenida e desceu, deiando :rince-
sa no carro. " calçada da rua 7> parecia ridiculamente larga. Entrou na estação
+rand =entral e ficou contemplando a imensidão da sala de espera.
- &oo%L - gritou e, com uma alegria infantil, escutou o eco que descia da alta ab'-
bada e enc%ia a sala deserta.
Ae volta ( rua, uma porta girat'ria atraiu sua atenção. Empurrou-a distraidamente
e encontrou-se em um amplo vestíbulo de um %otel com poltronas e sofás encosta-
dos nas paredes.
Aurante um breve momento teve a ideia de se aproimar do escrit'rio e entabular
uma conversa imaginária com o empregado. 3avia telefonado de... bem, Yansas =it8
seria um bom lugar... para reservar um quarto. -im, e sua reserva tin%a sido confir-
mada. Nue desculpas eram essas agora$ 0as essas fantasias se desvaneceram rapi-
damente. 2antos quartos va#ios9 e o empregado, quem sabe onde estaria. Aecidida-
mente, a brincadeira não era muito divertida.
*este momento notou algo. -obre as poltronas, cadeiras girat'rias, cin#eiros e no
piso de la!ota %avia uma capa de p' cin#ento. :ouco acostumado (s tarefas domésti-
cas, não %avia notado o p'. &u talve# ali %ouvesse mais p' que em outras partes. Ae
um modo ou de outro, o p' seria parte da sua vida a partir de agora.
1oltou ao carro, ligou, cru#ou a rua 7> e continuou para o sul. *as escadarias da
Biblioteca %avia um gato cin#a estendido, com as patas estiradas, como imitando os
le;es de pedra.
0ais adiante entrou na Broad.a8 e não parou até c%egar a <all -treet. Aesceu do
carro com :rincesa e a cadela se interessou por um rastro que corria ao longo da cal-
çada. <all -treetL
=amin%ou pela rua deserta. &l%ando com atenção, descobriu que aqui e ali brota-
va mato entre as fendas do riac%o. Eembrou que, segundo a tradição familiar, um
dos seus antepassados, um colono %oland)s, tin%a possuído uma gran!a naquelas
paragens. -eu pai costumava di#er nos tempos difíceis: GNue pena que n's não fica-
mos na il%a de 0an%attanH. "gora Ds% podia recuperar os domínios ancestrais. *in-
guém os disputaria.
"quele deserto de cimento armado, aço e asfalto não era muito atraente. 2rocaria
de boa vontade a gran!a de <all -treet por de# acres no vale do *apa, ou ainda por
um cantin%o no =entral :arC.
1oltou ao carro e percorreu os poucos quilJmetros que o separavam de Batter8. Eá
em baio batia o oceano, fec%ando-l%e o camin%o.
2alve# na Europa, na "mérica do -ul ou em algumas il%as %ouvesse grupos de so-
breviventes. 0as ele não tin%a como saber. *aquela mesma costa, %á tre#entos anos
%avia desembarcado seu antepassado %oland)s. Bem, agora o círculo se fec%ava.
" estátua da Eiberdade erguia-se para o céu. Eiberdade, pensou ironicamente Ds%,
agora ten%o de sobra. " dama da toc%a não %avia eigido tanto.
/m grande transatlFntico %avia encal%ado na praia perto da il%a do +overnador,
sem dúvida empurrado pela maré. "gora que as águas %aviam se retirado, era uma
massa enorme curiosamente inclinada. 2endo deiado a Europa com o germe da do-
ença nos flancos e carregado de passageiros e tripulantes mortos ou moribundos,
%avia tentado desesperadamente c%egar ao porto, um porto que !á não enviava si-
nais. *en%um rebocador tin%a saído ao seu encontro. 2alve# não %ouvesse bastantes
marin%eiros para lançar a Fncora. E o capitão, agoni#ante e com os ol%os nublados,
%avia dirigido o barco para os bancos de areia. & transatlFntico continuaria ali por al -
gum tempo. "s ondas cobririam o casco de limo e, um século mais tarde, quase invi -
sível, seria uma il%a coroada de árvores.
Ds% deu meia volta, cru#ou a margem sul e recebeu em pleno rosto o fedor que vi-
n%a do %ospital Bellevue. Encontrou o mesmo ar pestilento nos arredores da estação
:ens8lvania. :or fim, tomou a Aécima :rimeira "venida, para o norte.
*a ,iverside notou que o sol se pun%a por trás das c%aminés apagadas de Kerse8.
Ká se perguntava onde passaria a noite, quando ouviu uma vo# que c%amava:
- Ei, aquiL
:rincesa prorrompeu em furiosos latidos. Ds% freou o ol%ou para trás. /m %omem
saía de um edifício. Ds% desceu, indo ao seu encontro. :rincesa ficou dentro do carro,
latindo.
& %omem avançava com a mão estendida. Era uma figura convencional da cabeça
aos pés. Bem barbeado, com tra!e de verão e de palet'. *em novo nem vel%o, a bar-
riga um pouco grande. -orria amavelmente. Ds% quase esperou ouvir a f'rmula ritual
do comerciante: GNue dese!a, sen%or$H9
- 0e c%amo "brams - disse o %omem. - 0ilt "brams.
Ds% mal conseguiu balbuciar seu pr'prio nome. Nuase o tin%a esquecido. @eitas as
apresentaç;es, 0ilt "brams o fe# entrar em casa e levou-o para uns agradáveis apo-
sentos do segundo andar. /ma ruiva de uns quarenta anos, bem vestida, quase ele-
gante, estava sentada !unto a uma mesa de coquetel com uma coqueteleira ao al-
cance da mão.
- "presento-l%e a sen%ora... - começou a di#er "brams, e Ds% logo compreendeu o
porque da %esitação. " catástrofe não %avia dado c%ances para cerimJnias matrimo-
niais. 0ilt "brams tin%a muitos preconceitos e por isto estava perturbado.
" mul%er dedicou a Ds% um sorriso, o que desconcertou 0ilt ainda mais.
- :ode me c%amar de "nn - disse ela. - Nuer beber algo$ 0artínis quentes, não
posso oferecer-l%e outra coisa. *em um pedaço de gelo em toda *e. UorC.
"o seu modo, a mul%er era tão tipicamente novaiorquina quando 0ilt.
- 2en%o repetido mais de uma ve# - disse 0ilt: - não beba isso. & 0artíni quente é
um veneno...
- :assar todo o verão em *e. UorC sem um pedaço de gelo - queiou-se "nn.
:arecia, não obstante, que apesar do seu desagrado ela !á %avia consumido vários
martínis quentes.
- Eu l%e oferecerei algo mel%or - declarou 0ilt. E abriu um armário e eibiu uma
prateleira com garrafas de amonti!ado, con%aque *apoleão e licores selecionados. -
Estes não precisam de gelo - comentou. Evidentemente, 0ilt era um bom catador.
*a %ora da ceia ele abriu uma garrafa de =%ateau-0argau. & =%ateau-0argau
eigia algo mais que carne em conserva. 0as o vin%o corria livremente e Ds% mergu-
l%ou em uma leve e feli# embriagues. "nn parecia bastante mareada (quela %ora.
" noitada passou agradavelmente. &s tr)s !ogaram bridge ( lu# de velas. Beberam
licores, escutaram discos em um fon'grafo portátil que não precisava de energia elé-
trica. 2rocaram as frases comuns de tr)s pessoas reunidas em uma mesa de !ogo:
- Este disco está c%iando.
- "inda não fi# nen%um naipe...
- Eu tomaria outro copo...
" comédia estava sendo bem interpretada. *inguém insinuava que por trás dos vi -
dros %ouvesse um mundo9 !ogavam cartas ( lu# de velas porque era mais divertido9
não %avia recordaç;es nem alus;es inconvenientes. Ds% compreendeu que assim era
mel%or. "s pessoas normais, e 0ilt e "nn certamente o eram, não se interessavam
muito pelo distante passado nem pelo distante futuro. 1iviam sobretudo o presente.
0as algumas observaç;es fortuitas nas pausas do !ogo informaram Ds% suficiente-
mente. 0ilt tin%a sido proprietário de uma pequena !oal%aria. "nn tin%a sido casada
com um tal de 3arr8, e tin%a tido din%eiro bastante para veranear (s margens do
0aine. -' %avia trabal%ado uma única ve#, vendendo perfumes em uma lo!a de luo,
no *atal. "gora compartil%avam uma moradia que em outros tempos teria sido sun-
tuosa demais para os recursos de 0ilt. " eletricidade tin%a faltado de repente, pois
os dínamos de *e. UorC, eram a vapor, mas o serviço de água corrente continuava
funcionando e não %avia problemas sanitários.
& casal vivia no ,iverside como náufragos em uma il%a deserta. :acíficos %abitan-
tes de *e. UorC, nunca tin%am possuído um autom'vel e não sabiam dirigir. :ara
eles, um autom'vel era um enigma. =om o desaparecimento dos transportes públi -
cos, s' podiam contar com seus pr'prios pés9 e nunca tin%am sido aficionados (s ca-
min%adas. :ara eles, o limite leste era a Broad.a8, com lo!as onde abundavam co-
mestíveis e vin%os finos. *o oeste corria o rio. /m raio de cinco quilJmetros bastava
para seus passeios. Este era todo seu mundo.
*este estreito domínio não %avia, acreditavam, outros seres vivos. Ao resto da ci-
dade, sabiam tanto quanto Ds%. " margem esquerda era tão distante quando a @ila-
délfia. & BrooClin era uma região tão fabulosa como a "rábia. Ae ve# em quando es-
cutavam autom'veis que cru#avam a avenida e (s ve#es viam alguns. 0as não se
aproimavam. " solidão e o desamparo os inclinavam para a desconfiança e temiam
possíveis malfeitores.
- 0as afinal a solidão começou a pesar - eplicou 0ilt, não sem uma certa pertur-
bação. - E voc) não estava correndo. 1i que voc) estava so#in%o e me pareceu sim-
pático. "lém disso, a matrícula do seu carro indicava que não era de *e. UorC.
Ds% abriu a boca para l%e oferecer o rev'lver, mas se conteve. "s armas de fogo
podiam resolver dificuldades, mas também podia criá-las. :rovavelmente, 0ilt nunca
%avia disparado uma arma em sua vida. Nuanto a "nn, era uma dessas mul%eres
nervosas que com um rev'lver na mão podem ser tão perigosas para os amigos
como para os inimigos.
-em cinema nem rádio, nem o espetáculo de uma cidade animada, mesmo assim
0ilt e "nn não pareciam entediados. Kogavam cartas interminavelmente, por somas
astronJmicas9 a agora "nn devia vários mil%;es de d'lares a 0ilt. Escutavam discos
durante %oras, de !a##, folclore, música de dança, no rouco fon'grafo. Eiam inumerá-
veis novelas policiais, que tiravam das bibliotecas circulantes da Broad.a8 e que dei-
avam em qualquer lugar da casa. E, notou Ds%, sentiam-se atraídos fisicamente.
0as, embora não estivessem entediados, tampouco sentiam o pra#er de viver. Era
uma eist)ncia sem sentido. Dam de um lado para outro como se estivessem estupe-
fatos. 2in%am perdido toda a esperança. *e. UorC, seu mundo, %avia morrido e não
o veriam vivo outra ve#. *ão mostraram interesse algum quando Ds% quis l%es falar
do resto do país. -e ,oma perece, perece o mundo.
*a man%ã seguinte "nn fe# o des!e!um com outro martíni e lamentou novamente
a falta de gelo. Ela e 0ilt pediram a Ds% que não partisse logo9 até l%e suplicaram
que ficasse para sempre. Em algum lugar de *e. UorC, sem dúvida encontraria uma
garota que os acompan%aria no !ogo de bridge. Aesde a catástrofe, Ds% não %avia
encontrado uma gente tão simpática. 0as não tin%a dese!o algum de compartil%ar
seu destino... nem sequer com uma compan%eira, para !ogar bridge e outras coisas.
*ão. Aecidiu voltar para o &este.
0as quando se pJs em marc%a e o casal se despediu da porta, sentiu vontade de
ficar por mais um tempo. 0ilt e "nn l%e inspiravam simpatia e piedade ao mesmo
tempo. *ão queria pensar o que seria deles quando c%egasse o inverno e a neve co-
brisse profundamente os becos entre os edifícios e o vento do norte uivasse no desfi-
ladeiro da Broad.a8. *ão %averia calefação central no pr'imo inverno em *e. UorC.
0as em troca %averia muito gelo e "nn poderia esfriar seus martínis.
Ds% tin%a dúvidas de que o casal suportasse os rigores invernais, mesmo que
transformassem os m'veis em len%a. Estavam ( merc) de qualquer acidente ou de
uma pneumonia. Eram como os cães dVágua e os pequineses que em outro tempo
%aviam vagado pelas ruas, mas no etremo da cadeia. &s cidadãos 0ilt e "nn não
sobreviveriam ( cidade, pagariam o preço que a nature#a sempre eige dos organis-
mo demasiadamente especiali#ados. 0ilt e "nn - o !oal%eiro e a vendedora de perfu-
mes - eram incapa#es de se adaptarem (s novas condiç;es de eist)ncia. Em troca,
aquele negros do "rCansas tin%am redescoberto, quase sem esforço, a vida primitiva.
" avenida descrevia uma curva. Ds% sentiu que mesmo que voltasse a cabeça !á
não mais os veria. -eus ol%os ficaram úmidos. "deus, 0ilt e "nn.
5
& regresso para o &este - para o lar, pensava Ds% - foi uma verdadeira viagem de
pra#er. /m %omem e seu cão no autom'vel. &s dias desli#aram sem incidentes notá-
veis.
*os campos da :ens8lvania, o trigo era castan%o dourado e as espigas c%egavam
ao ombro de Ds%. Nuando viu a barreira de pedágio, apertou o acelerador com todas
suas forças e correu pelas curvas a cento e vinte, a cento e tinta quilJmetros por
%ora, ébrio de velocidade, sem pensar no perigo.
Entrou em &%io.
*as cidades e povoados !á não %avia gás, mas Ds% tin%a encontrado um aquecedor
a querosene de dois bicos. *os dias de tempo bom acampava nos bosques e acendia
uma fogueira. "s conservas ainda eram seu alimento principal, embora col%esse espi -
gas de mil%o no campo e, quando podia, legumes e frutas.
+ostaria de poder comer alguns ovos, mas as galin%as tin%am desaparecido com-
pletamente9 o mesmo com os patos. =om ardor, gatos e ratos sem dúvida %aviam
eterminado aqueles voláteis, que não podiam viver sem proteção. /ma ve#, entre-
tanto, Ds% ouviu o rouco c%amada de uma pintada e, em duas ocasi;es, viu alguns
gansos que nadavam nas valas de irrigação. 0atou um, mas descobriu que o animal
era vel%o e duro demais para uma refeição de acampamento. *ão faltavam perus
nos bosques e de ve# em quando ele caçava algum. =om um cão de caça talve# ti-
vesse conseguido algumas perdi#es e fais;es. :rincesa lançava-se frequentemente
no rastro de inúmeros coel%os, mas nunca tra#ia algum. Ds% terminou por se pergun-
tar se esses coel%os, sempre invisíveis, não seriam imaginários.
*os campos abundava o gado, mas o trabal%o de açougueiro o desagradava. E
ademais, o tempo quente não convidava a comer carne. Ae ve# em quando via algu-
mas ovel%as. Nuando o camin%o cru#ava algum terreno pantanoso, tin%a que ter cui -
dado com os porcos estendidos ( sombra no fresco cimento. "lguns cães famintos
ainda erravam pelas cidades. *ão se viam muitos gatos, mas ( noite (s ve#es ouvia
coros de miados9 eles %aviam voltado aos seus %ábitos noturnos.
Evitando as grandes cidades, Ds% corria para o oeste - Dndiana, Dlinois, Do.a - e
atravessava campos de trigos e povoados ensolarados, desertos durante o dia e es-
curos e desertos ( noite. " nature#a selvagem continuava se apoderando do mundo:
aqui, entre o mato de uma cerca assomava um rebento de álamo, ali, um fio telefJ-
nico cru#ava o camin%o9 mais adiante, pegadas na lama revelavam que um quati ti-
n%a bebido na fonte de uma praça, ao pé de uma estátua de um soldado da guerra
civil.
Encontrou outros seres %umanos, aos pares ou em trios. "s moléculas isoladas se
reagrupavam. Em geral, todos se aferravam ao lugar onde tin%am vivido antes do
desastre. *inguém manifestou dese!o de segui-lo9 (s ve#es o convidavam a ficar. "
oferta não tentava Ds%9 aquela pobre gente arrastava uma vida física, mas pareciam
a Ds% mentalmente mortas. 3avia estudado bastante antropologia para saber que an-
teriormente tin%a %avido outros casos. /m indivíduo não costuma sobreviver ao qua-
dro da sua eist)ncia. :rivado de família, amigos, ofícios religiosos, pra#eres, %ábitos
e, inclusive, esperança, não é mais que um cadáver animado.
" catástrofe não %avia terminado. /m dia Ds% encontrou uma mul%er louca. -uas
roupas revelavam que tin%a sido rica, mas agora não era capa# de atender (s suas
pr'prias necessidades e o primeiro inverno acabaria com ela. 0uitos sobreviventes
di#iam que os suicidas %aviam sido numerosos.
0as as emoç;es e a solidão não %aviam transformado Ds% de modo algum. -e sur-
preendia (s ve#es. "tribuía isto ( sua curiosidade, ao seu caráter, ( lista de qualida-
des que %avia redigido um dia e que deviam a!udá-lo nessa nova vida.
Ms ve#es, sentado no autom'vel e diante do fogo, sentia-se assaltado por imagens
er'ticas. :ensava em "nn, na novaiorquina, com sua bele#a loira, fresca e limpa. 0as
"nn era uma eceção. Em geral as mul%eres estavam desarrumadas e su!as e s' dei-
avam sua apatia para rirem %istericamente. -em dúvida muitas eram acessíveis,
mas não l%e inspiravam nen%um dese!o. 2alve# sua atitude fosse um efeito da catás-
trofe, mas não estava preocupado, como tempo tudo voltaria ( normalidade.
*as ardentes planícies de *ebrasCa, o trigo continuava de pé. & ouro da espiga
estava escurecendo e os grãos estavam começando a cair. *o ano seguinte %averia
uma col%eita espontFnea9 mas apareceriam também o capim e as ervas danin%as,
que afogariam o trigo com um espesso manto.
& parque de Estes oferecia agradáveis refúgios de sombra depois do calor das pla-
nícies. Ds% ficou ali por uma semana. "s trutas não tin%am visto an#ol durante todo o
verão e a pesca era ecelente.
Então vieram as altas montan%as, que foram sucedidas pelo deserto e pelas terras
de artemísia. "pertando o acelerador, Ds% entrava rapidamente nas curvas da rodovia
7Q para o passo de Aonner.
=ru#ou o paso e viu que espessas cortinas de fumaça cobriam os campos. Em que
m)s estamos$, se perguntou, agosto$ 2alve# em princípios de setembro, a época dos
inc)ndios nos bosques. E não %avia ninguém para combater o fogo.
"o se aproimar do passo de Uuba, encontrou-se bruscamente com um sinistro. "s
c%amas elevavam-se em ambos os lados da rota. Aecidiu seguir adiante. " rodovia
era larga e podia passar sem perigo. 0as depois de uma curva descobriu que um
tronco envolto em c%amas bloqueava o camin%o. & terror que tin%a vivido em uma
man%ã no deserto - parecia que !á %avia transcorrido anos - abateu-se outra ve# so-
bre ele. -entiu-se desesperadamente so#in%o, incapa# de afrontar uma emerg)ncia,
recobrar-se de um acidente. 3avia uma única solução: voltar. Aeu marc%a ré brusca-
mente e afogou o motor. "p's um instante consegui por-se outra ve# em marc%a e
fugiu do fogo.
Ká fora de perigo, recobrou a calma. Aecidiu tentar a rodovia >Q. &s inc)ndios não
a %aviam perdoado, mas estavam quase etintos. "vançou lentamente, evitando as
árvores caídas. 0as quando c%egou ao topo, estremeceu ao ver atrás dele a eten-
são do fogo. 2in%a tido sorte.
2in%a plane!ado passar a noite entre as árvores da montan%a, mas ac%ando que o
fogo podia cercá-lo, seguiu seu camin%o e acampou na praça de uma vila, ao pé de
umas colinas. *ão %avia nen%uma lu# acesa. -entiu-se decepcionado, pois esperava
encontrar lu#es na =alif'rnia. -em dúvida os inc)ndios %aviam destruído as lin%as
elétricas, pelo menos naquela região.
Aeitado no c%ão, incomodado, sentindo o acre c%eiro da fumaça no nari#, tentou
conciliar o sono, mas tin%a a impressão de ter caído em uma armadil%a. Embora to-
dos os inc)ndios tivessem se etinguido, as árvores queimadas e os desli#amentos
das colinas vi#in%as deviam ter obstruído o camin%o da serra.
:ela man%ã, como de costume, sentiu-se mais animado. " =alif'rnia, se não con-
seguisse sair, pelo menos era uma prisão espaçosa e cJmoda9 e se fosse impossível
cru#ar a serra, podia tomar a estrada do deserto.
Ká se preparava para partir, quando :rincesa, com seu costumeiro espírito de con-
tradição, começou a latir e desapareceu atrás de um rastro. Drritado, Ds% resignou-se
a esperá-la e, como a cadela tardava em reaparecer, alterou seus planos e passou a
maior parte do dia estendido ( sombras de duas árvores, seminu. ,etomou a viagem
nas últimas %oras da tarde.
=%egou em cima da montan%a ao aman%ecer. " baia abria-se como um leque di -
ante dos seus ol%os, com sua coroa de cidades. -orriu a notar que nas ruas ainda
%avia muitas lu#es acesas. 2in%a esquecido do espetáculo. "s centrais a vapor %avi-
am parado quase que imediatamente e as pequenas usinas %idroelétricas não tin%am
funcionado por muito tempo. -entiu um curioso orgul%o: aquelas lu#es talve# fossem
as últimas.
Aurante um instante se perguntou se não teria sido vítima de uma alucinação e
agora se encontrava em uma cidade onde tudo funcionava normalmente. " longa es-
trada deserta o devolveu ( realidade. "s manc%as negras indicavam que a eletricida-
de estava faltando em alguns bairros. "s lu#es da ponte +olden +ate também tin%am
se apagado. &u talve# estivessem ocultas pela névoa que subia da baia.
Entrou na avenida -an Eupo. *ada parecia ter mudado. -empre %averá uma aveni-
da -an Eupo, pensou, e lembrou dos outros sobreviventes. Ele também tin%a decidi-
do refugiar-se em um lugar familiar e regressava com a fidelidade de uma pomba.
"briu a porta e acendeu a lu#. 2udo estava como antes. *ão esperava outra coisa,
entretanto... sentiu uma surda melancolia. "s amareladas fol%as secas, pensou. Era
um trec%o que %avia ouvido em um teatro, não lembrava de que obra. Em outros
tempos, no passado...
:rincesa correu para a co#in%a, escorregou no lin'leo, lançou um cJmico ganido e
aprumou-se. Ds% segui-a, agradecendo-l%e pela interrupção. " cadela estava fare!an-
do o rodapé, mas não era possível descobrir o que tanto l%e interessava.
Bem, pensou Ds% voltando para a sala, parece que fiquei insensível, mas pelo me-
nos não %á espectadores e não ten%o que fingir. 2udo isto, sem dúvida é consequ)n-
cia de tantas provas.
" nota que %avia deiado sobre a secretária continuava ali, intacta. :egou-a e,
amassando-a, !ogou-a na lareira e acendeu um f'sforo. 3esitou por um instante,
mas por fim aproimou a pequena c%ama do papel e ficou ol%ando como ardia. &u-
tro epis'dio terminado.
Esta geração não con%ecerá pais, esposas, fil%os e amigos. -erá como nas épocas
fabulosas, quando os deuses, para povoar a terra, recorriam (s pedras ou aos dentes
do dragão9 e eram todos estran%os, de rosto estran%o, e ninguém con%ecia o rosto
dos seus semel%antes.
*a man%ã seguinte decidiu colocar sua vida em ordem. " comida, como !á tin%a
comprovado, não era um problema. Eaminou as lo!as do bairro. &s ratos tin%am
destroçado caias e roído os alimentos que cobriam os pisos de la!otas. Ae repente,
viu em um balcão cai;es de frutas de cores bril%antes e legumes apetitosos e fres-
cos que pareciam recém-col%idos. Dncrédulo, aproimou o rosto do vidro empoeirado.
Em seguida, primeiro irritado e logo divertido, descobriu que aquelas laran!as, ma-
çãs, tomates e peras relu#entes eram frutos de papelão com que o comerciante tin%a
decorado sua vitrine em outro tempo.
/m pouco mais adiante, encontrou uma lo!a que aparentemente os ratos não ti-
n%am conseguido assaltar. "briu com cuidado uma !anela e entrou.
& pão !á não estava comestível e os vermes pululavam nas caias de biscoitos %er-
meticamente fec%adas. 0as as frutas secas e todos os alimentos guardados em reci-
pientes de vidro ou em latas estavam intactos. Enquanto pegava alguns vidros de
a#eitona, ouviu o #umbido de um motor elétrico. "briu o refrigerador e ac%ou man-
teiga perfeitamente conservada, carne fresca, vegetais congelados. -aiu com seu sa-
que e fec%ou a !anela cuidadosamente, para evitar pelo menos uma invasão de ra-
tos.
Ae volta ( sua casa, eaminou novamente a situação. " vida material não apresen-
taria dificuldades por muito tempo. *as lo!as abundavam os alimentos e as roupas,
não precisava mais que servir-se. " água ainda saía das torneiras. Ká não %avia gás e
com outro clima talve# tivesse que conseguir algum combustível, mas o aquecedor a
querosene l%e bastava para co#in%ar. "cenderia a lareira no inverno e, se isso não
bastasse, podia recorrer a toda uma bateria de aquecedores. -entiu-se tão orgul%oso
de não precisar de a!uda, que temeu transformar-se em um ermitão, como o vel%o
que %avia encontrado %á algum tempo atrás.
*aqueles dias, quando o pr'prio ar transmitia a morte e a civili#ação vivia seus úl -
timos momentos, os %omens encarregados do fornecimento de água se ol%aram e
disseram: G:odemos adoecer e morrer, mas o povo continuará precisando de águaH.
Eembraram então dos planos que %aviam traçado em outra época, quando se vivia
com o temor dos bombardeios. "briram as válvulas e canais. " água que descia das
montan%as serpenteou nos longos sif;es, entrou nos encanamentos subterrFneo e fi -
nalmente nos dep'sitos, pronta para sair em todas as torneiras. G"gora - disseram os
%omens, - a água correrá até que a ferrugem corroa os encanamentos, e isso não
acontecerá durante a vida dos nossos fil%os.H Aepois morreram. 0as morreram como
%omens %onrados que cumpriram suas tarefas até o fim.
" água continuava então brindando seus benefícios e ninguém sofria sede. "inda
corria em abundFncia quando os últimos sobreviventes erravam tristemente pelas
ruas.
" princípio Ds% temia morrer de tédio. 0as logo encontrou com que se ocupar. "
febre de atividade que %avia mostrado na viagem ao Eeste %avia desaparecido. Aor-
mia muito, passava longas %oras sentado, com os ol%os abertos, afundado em uma
profunda apatia. 0as quando saía desses estados, sentia medo e lançava-se ( ação
com renovado ardor.
@eli#mente, o cuidado com a vida material, embora pouco complicado, absorvia-l%e
uma grande parte do tempo. =omia em casa, mas logo compreendeu que se deias-
se os pratos se amontoarem as formigas aumentariam seu trabal%o. :or esta ra#ão
levava o lio para longe de casa.
"limentava :rincesa e dava ban%o nela quando a cadela c%eirava mal. /m dia,
para sacudir a modorra, foi ( biblioteca pública, fe# saltar a fec%adura com uma mar-
telada e, depois de perambular um pouco, saiu sorrindo com ,obinson =rusoé e &s
,obinsos -uíços debaio do braço.
0as esses livros não o interessaram muito. "s preocupaç;es religiosas de =rusoé
l%e pareceram aborrecidas e idiotas. Nuanto ( família suíça - !á tin%a tido essa im-
pressão na infFncia, - o barco naufragado era uma espécie de saco sem fundo que
provia todas as necessidades. " falta de um rádio era suprida por um fon'grafo e os
discos dos seus pais.
"p's algum tempo encontrou um aparel%o mel%or em uma lo!a de música. Era pe-
sado, mas conseguiu colocá-lo no carro e instalou-o no vestíbulo da sua casa. Eevou
também uma grande quantidade de discos. 2ambém se presenteou com um lindo
acordeon. =om a a!uda de um manual, conseguiu tirar alguns sons patéticos, que
:rincesa saudava com terríveis uivos. ,euniu também alguns materiais de pintura,
embora nunca os ten%a utili#ado.
0as l%e interessava, sobretudo, observar o que acontecia em um mundo liberado
do !ugo do %omem. :ercorria de autom'vel a cidade e o campo vi#in%o. Ms ve#es
passeava pelas colinas com seu bin'culo de longa distFncia. *essas ocasi;es, :rince-
sa o abandonava de imediato para lançar-se em perseguição ao seu eterno coel%o in-
visível.
/m dia saiu para procurar o ancião que amontoava tantos ob!etos %eterog)neos.
*ão sem trabal%o, encontrou a casa: um desordenado nin%o de ratos. 0as o vel%o
não estava lá e nada indicava que ainda estivesse vivo. Ds%, desencora!ado por tantas
decepcionantes tentativas, não procurou por outros compan%eiros.
" apar)ncia das ruas mudava lentamente. " seca de verão ainda continuava, mas
os ventos tra#iam p', fol%as mortas e detritos e os amontoava aqui e ali. *ão %avia
muitos animais na cidade, somente cães, gatos ou ratos. Em alguns bairros, entre-
tanto, sobretudo no cais, pululavam os cães, mas pertenciam todos ( mesma raça:
terriers9 terriers ou mestiços de terriers, pequenos e ativos. 3aviam abandonado
seus vel%os %ábitos e tin%am iniciado uma nova vida. -eguindo talve# o eemplo dos
ratos, assaltavam e assolavam as lo!as. &s ratos roíam as caias de papelão9 depois
vin%am os cães e comiam as bolac%as. 0as elestambém se alimentavam de ratos.
"ssim se eplicava seu número nas #onas onde sempre tin%am abundado os roedo-
res antes da catástrofe. &s cães tin%am perseguido ou matado os gatos e, sem dúvi-
da (s custas de alguns arran%;es, tin%am conseguido satisfa#er sua fome.
Esses cães divertiam Ds%. :asseavam com a despreocupação tradicional dos terri-
ers e até com um ar fanfarrão. Embora su!os e fracos, pareciam vigorosos e seguros
de si mesmos, com se pensassem ter solucionado o problema da comida. Eram sem
dúvida os eemplares mais independentes da espécie, os que nunca %aviam se preo-
cupado muito com os %omens. Ds% não l%es interessava e se mantin%am ( distFncia,
sem procurá-lo nem evitá-lo.
/m dia :rincesa brigou (s dentadas com uma cadela e desde então, naqueles bair-
ros, Ds% a mantin%a sempre presa ou trancada no carro.
*os parques e lugares arbori#ados dos arredores, (s ve#es via algum gato, quase
sempre trepado em um gal%o, talve# para caçar pássaros ou porque temia os cães.
*o curso dos seus passeios pelas colinas, Ds% nunca tin%a encontrado um cac%or-
ro, mas um dia foi surpreendido por uma algaravia de ganidos e latidos. -ubiu em
um lugar alto e viu oito ou de# cac%orros que perseguiam meia dú#ia de vacas em
um vel%o campo de golfe.
Eevou o bin'culo aos ol%os e notou que os cães, embora de raças distintas, eram
todos de alta estatura. " matil%a era formada por um dan)s, um ovel%eiro escoc)s,
um dálmata e vários mestiços, todos robustos e de patas longas. Dndubitavelmente,
%aviam se unido para a caça e não parecia que aquele fosse seu primeiro ataque.
2entavam isolar um be#erros, mas as vacas contra atacavam vigorosamente com c%i-
fradas e coices. :or fim elas conseguiram se refugiar em um espesso matagal (s
margens do campo de golfe e os assaltantes bateram em retirada.
& espetáculo %avia terminado. Ds% c%amou :rincesa e se dirigiu para o carro, que
%avia deiado a mais ou menos um quilJmetro. Ae repente, os latidos da matil%a co-
meçaram de novo. "proimavam-se cada ve# mais e Ds% compreendeu que eles se-
guiam sua pista.
-entiu pFnico e pJs-se a correr. 0as isto era incitá-los. 2ranquili#ou-se e recol%eu
algumas pedras e um ramo caído que poderia l%e servir como uma lança. Então con-
tinuou camin%ando para o carro.
Ae repente os cães se calaram e Ds% compreendeu que eles o tin%am avistado. Es-
perava que um resto de medo ancestral os impedissem de atacar um %omem, mas
então se perguntou o que teria acontecido ao vel%o e aos outros que %avia encontra-
do naquelas paragens. E então um dos cães, um %orroroso mestiço negro, saltou
para a estrada diante dele. :arou a uns cinquenta metros, sentou-se sobre os quar-
tos traseiros e ficou ol%ando para ele. Ds% levantou o braço como se fosse atirar uma
pedra e o cac%orro deu um salto, lançou-se para a beira da estrada e desapareceu
no matagal.
" erva danin%a se movia como se os cac%orros estivessem se preparando para sal -
tar sobre ele. :rincesa, como sempre, demonstrava uma easperante indecisão. =om
a cauda entre as patas, se apertava contra seu amo, ou de repente corria para a di-
reita e para a esquerda e latia, como se desafiando o mundo inteiro.
& autom'vel estava ( vista. Ds% se aproimou com um passo regular, sem gastar
suas pedras, e dando de ve# em quando uma ol%ada por cima do ombro. :rincesa
l%e avisaria em caso de um ataque pelas costas. Ae repente o dan)s se lançou por
uma brec%a entre o matagal. Era um cão magnífico, pesado como um %omem. /i-
vando, :rincesa se precipitou para ele em um ato suicida. & dan)s saiu ao seu en-
contro e ao mesmo tempo o ovel%eiro apareceu ( direita. 0as :rincesa escapuliu
com a agilidade de uma lebre.
&s dois cac%orr;es se c%ocaram um com o outro e rolaram pelo c%ão, ganindo.
:rincesa voltou a se esfregar contra as pernas de Ds%. "pareceu então o dálmata.
=ru#ou a estrada e se deteve, mostrando uma língua vermel%a. Ds% não se apressou
nem diminuiu a marc%a. & recém-c%egado tin%a a apar)ncia menos fero# que seus
compan%eiros e Ds% estava decidido a enfrentá-lo. /m formosa coleira com uma pla-
ca de metal rodeava seu pescoço pelado. *ão sem inquietação, Ds% notou que, ape-
sar da sua magre#a e das suas costelas salientes, o animal não %avia perdido seu vi -
gor. Evidentemente, não faltava comida aos cães: coel%os, be#erros, ou qualquer car-
niça. Esperava que ainda não estivessem se devorando entre si e que ainda ignoras-
sem o gosto do %omem.
Nuando c%egou a uns seis metros do dálmata, Ds%, sem se deter, levantou o braço
em um gesto de ameaça. & cac%orro meteu a cauda entre as patas e fugiu. & auto-
m'vel estava muito perto e Ds% suspirou aliviado.
"briu a porta, fe# :rincesa entrar e, reprimindo uma última onda de pFnico, se-
guiu-a com dignidade. @ec%ou a porta e se sentiu fora de perigo. -ua mão se crispou
sobre o cabo do martelo que !a#ia aos seus pés.
& formoso dan)s %avia se deitado na beira da estrada. &s outros %aviam desapa-
recido. "gora, a salvo, Ds% eaminou a situação mais imparcialmente. &s cães não
l%e tin%am feito mal algum9 nem sequer o tin%am ameaçado. 3aviam-l%e parecido
com feras sedentas de sangue, mas agora l%e inspiravam piedade. 2alve# tivessem
sido atraídos por uma recordação nostálgica de suculentas comidas, da len%a que
crepitava na lareira, das carícias e das palavras carin%osas. E então partiu, dese!ando
sinceramente que eles triturassem um coel%o, ou derrubassem algum be#erro.
*a man%ã seguinte, o drama se transformou em comédia. Evidentemente, :rince-
sa precisava de um compan%eiro. =omo Ds% não queria fil%otes, encerrou-a no s'tão.
0as, apesar de tudo, ignorava as verdadeiras intenç;es da matil%a. :erecer entre
os dentes de cac%orros l%e parecia a menos inve!ável das sortes. Aesde então, não
se aventurou outra ve# nas montan%as sem um rev'lver no cinturão ou uma carabi-
na.
Aois dias depois, uma invasão de formigas o fe# esquecer do perigo dos cães. Ká
%avia tido algumas dificuldades com aqueles bic%os, mas agora elas apareciam por
todo lado e invadiam a casa. " luta não era nova. Ds% lembrava do grito consternado
da sua mãe quando uma formiga preta atravessava a co#in%a, a irritação do seu pai,
as discuss;es sobre como destruí-las. "gora as formigas vin%am com eércitos cem
ve#es mais poderosos9 e sem encontrarem irritantes donas de casas sempre dispos-
tas a combat)-las e até mesmo levar a guerra aos pr'prios nin%os. Em alguns meses
%aviam se multiplicado incrivelmente. -em dúvida estava faltando comida para elas.
-aíam por todos os lados. Ds% deplorava que os limites dos seus con%ecimentos
entomol'gicos não l%e permitisse resolver o mistério desse crescimento. "pesar das
suas buscas, nunca soube se as formigas tin%am suas metr'poles em algum lugar,
ou se elas se multiplicavam um pouco em todos os lugares.
*ada escapava (s suas eploraç;es. Ds% depressa se transformou em uma furibun-
da e escrupulosa dona de casa, pois a menor partícula de comida, ou ainda uma
mosca morta, atraía imediatamente uma coluna de tr)s centímetros de largura. :as-
seavam como pulgas no pelo de :rincesa, mas não a picavam. Aescobriu algumas
em suas pr'prias roupas.
/ma madrugada, despertou com um %orrível pesadelo e descobriu uma corte!o de
formigas cru#ando seu rosto. *ão conseguiu saber o que as %avia atraído.
0as a casa era somente uma terra estrangeira aberta (s incurs;es. "s fortale#as
dos formigueiros alçavam-se do lado de fora, em todas as partes. -e Ds% voltava um
torrão, mil%ares de formigas surgiam de galerias subterrFneas. Era possível que aca-
bassem com todos os outros insetos ao tirar-l%es os meios de subsist)ncia. "s inva-
soras não se arredaram. 0uitas delas, sem dúvida morriam no campo de batal%a,
mas alguns mil%;es a mais ou a menos não era uma grande diferença. 2entou calcu-
lar quantas formigas %averia no bairro e c%egou a incríveis cifras astronJmicas. *ão
tin%am inimigos naturais$ =ontinuariam se multiplicando$ Aesaparecido o %omem,
elas %erdariam a terra$ *ão. "final eram as mesmas atarefadas formiguin%as que %a-
viam posto ( prova as pacientes donas de casa californianas.
@e# algumas pesquisas e descobriu que a praga não se estendia muito mais além
dos limites da cidade. =omo os cães, os gatos e os ratos, essas formigas também
eram animais domésticos que dependiam do %omem. Este pensamento o animou. -e
somente se preocupasse com sua comodidade, !á teria partido. 0as preferia, mesmo
que (s custas de certos inconvenientes, observar o que estava acontecendo.
Então, uma certa man%ã, nada mais de formigas. &l%ou atentamente ao seu redor
e não descobriu uma s'. Aeiou algumas migal%as no c%ão e foi para suas ocupa-
ç;es. Nuando voltou, o festim continuava intacto. -urpreso, pressentindo que %avia
acontecido alguma coisa ins'lita, saiu para o !ardim. 0oveu um torrão de terra e não
viu a agitação %abitual. =ontinuou procurando. "qui e ali encontrou alguns eempla-
res que vagavam aturdidos, mas eram tão poucos que teria podido contá-los. Entre-
tanto não %avia cadáveres. "s formigas tin%am desaparecido como por artes de en-
cantamento. -e con%ecesse a estrutura dos formigueiros, talve# pudesse descobrir
seus cemitérios. Eamentou sua ignorFncia e resignou-se.
*unca resolveu o mistério, mas adivin%ava a verdade. Nuando uma espécie se pro-
paga demais, é quase sempre vítima de algum cataclismo. Era possível que as formi -
gas tivessem esgotado os víveres que %aviam permitido seu crescimento. Embora tal-
ve# fosse mais provável que tivessem sido atacadas por alguma doença.
*os dias seguintes, sentiu, ou ac%ou ter sentido, um fedor fraco, mas penetrante,
que atribuiu ( decomposição daqueles mil%;es de cadáveres.
2empos depois, ap's uma !ornada dedicada ( leitura, sentiu fome. @oi ( co#in%a e
procurou um pouco de quei!o na geladeira. &l%ou casualmente para o rel'gio elétrico
e surpreendeu-se. Eram nove e trinta e sete. "c%ava que era mais tarde. Enquanto
voltava ( sala mastigando o primeiro pedaço de quei!o, consultou seu rel'gio de pul-
so: os ponteiros assinalavam de# %oras e nove minutos. @inalmente o vel%o rel'gio
se quebrou, pensou. *ão era raro. Eembrou de como %avia se surpreendido ao c%e-
gar depois da catástrofe e viu que os ponteiros se moviam.
,etomou a leitura. /m vento do norte, com um acre c%eiro de fumaça, sacudia as
!anelas. 0as o c%eiro não l%e c%amava a atenção. 0uito frequentemente, a fumaça
dos bosques incendiados era negra e espessa como uma nuvem de tempestade.
"p's alguns instantes, piscou e aproimou os ol%os da página. Essa fumaça está me
fa#endo lacrime!ar, pensou, quase não consigo ver. "proimou o livro dos ol%os e l%e
pareceu que toda a casa se escurecia. =om um sobressalto, voltou-se para a lFmpa-
da elétrica sobre a mesa de bridge.
Eogo a seguir, levantou-se com um sobressalto, com o coração palpitando, e saiu
para a varanda. &l%ou a ampla perspectiva da cidade. "s lu#es ainda bril%avam nas
ruas. " grinalda de globos amarelos continuava acesa na ponte, e nos altos dos pila-
res piscavam as lu#es vermel%as. &l%ou com mais atenção. "s lu#es pareciam menos
bril%antes que de costume. -eria efeito da sua imaginação, ou elas estavam veladas
pela fumaça$ 1oltou ( sua poltrona e tentou ler para esquecer seus temores. 0as
logo a seguir piscou de novo. &l%ou para a lFmpada perpleo e imediatamente lem-
brou do rel'gio da co#in%a. Bom, pensou, era inevitável.
*o rel'gio de pulso agora eram de# e cinquenta e dois. @oi ( co#in%a9 o rel'gio in-
dicava de# e quator#e. @e# as contas rapidamente. & resultado confirmava seus te-
mores. & rel'gio elétrico %avia atrasado seis minutos em tr)s quartos de %ora.
-abia que o rel'gio de parede funcionava com impulsos elétricos: uma frequ)ncia
de sessenta por minuto. "gora esses impulsos estavam espaçados. /ma técnico teria
calculado facilmente a frequ)ncia atual. E ele teria podido fa#)-lo também, mas não
l%e serviria de nada. -entiu-se outra ve# desanimado. & sistema elétrico estava se
deteriorando cada ve# mais rapidamente.
1oltou para a sala. Aesta ve# era indiscutível: a lu# %avia empalidecido. "s sombras
invadiam os cantos da casa. "s lu#es se apagam. "s lu#es do mundo, pensou, e co-
n%eceu o terror de um menino abandonado na escuridão.
:rincesa estava coc%ilando no c%ão. " diminuição da lu# não a perturbava, mas
contagiou-se pela inquietação do seu dono e levantou-se gemendo.
Ds% foi outra ve# para a varanda. " cada minuto as longas guirlandas de lu#es eram
menos e menos claras, mais e mais amareladas. & vento apressava aquela morte,
cortando alguns cabos aqui, interrompendo um circuito mais além. & fogo que se es-
tendia pelas colinas vi#in%a queimava as lin%as, e até talve# alguma central.
"p's alguns instantes, as lu#es deiaram de empalidecer e se mantiveram em um
vago resplendor. Ds% voltou ( sala e, aproimando outra lFmpada, pJde ler comoda-
mente.
:rincesa voltou ao seu sono. "pesar da %ora, Ds% não tin%a vontade de se deitar.
Era como se estivesse velando o cadáver do seu mais caro e vel%o amigo. G@aça-se a
lu#. E a lu# foi feitaH, recordou. :arecia que o mundo tin%a c%egado ao outro etremo
da sua %ist'ria.
:ouco depois foi ol%ar o rel'gio. 3avia parado. &s dois ponteiros no alto do mos-
trador assinalavam on#e e cinco. &s ponteiros do rel'gio de pulso, em troca, %aviam
passado da meia-noite. "s lu#es se etinguiriam totalmente dentro de umas poucas
%oras, ou se manteriam assim por alguns dias.
Ds% não se decidia a se deitar. 2entou ler e finalmente adormeceu na poltrona.
Nuanto ( eletricidade, os dispositivos das centrais elétricas eram tão engen%osos,
que mesmo em pleno desastre não foi necessário mudança alguma. &s %omens ti-
n%am sido vencidos pela doença, mas os dínamos ainda fa#iam correr suas vibraç;es
regulares ao longo dos cabos. "p's a breve agonia da %umanidade, as lu#es não per-
deram nada do seu bril%o. Nuando caía um cabo, privando de eletricidade toda uma
cidade, logo a seguir um outro se encarregava da tarefa. -e um dínamo se deteriora-
va, seus irmãos, ao longo de uma lin%a de centenas de quilJmetros, redobravam
seus esforços.
0as todo sistema, cadeia ou camin%o, tem seu ponto fraco. " água pode correr
durante anos, os grandes dínamos podem girar sobre seus bem lubrificados mancais9
mas %á um ponto fraco: os reguladores que governam os dínamos, e que não são to-
talmente automáticos. "nteriormente eram eaminados a cada de# dias. Eram lubrifi -
cados uma ve# por m)s. :assaram-se dois meses sem que os inspetores se apresen-
tassem e as reservas de 'leo se esgotaram9 um a um, ao longo das semanas, os re-
guladores deiaram de funcionar.
Nuando um regulador para, a torneira muda automaticamente de Fngulo e a água
não flui. Então o dínamo para e não produ# mais eletricidade. 0uitos dínamos, um
ap's o outro, ficam assim inativos. &s outros devem fa#er um trabal%o grande em
demasia e poucos dias mais tarde o sistema para totalmente.
Nuando Ds% despertou, as lFmpadas mal iluminavam. &s filamentos eram de um
vermel%o alaran!ado. *a casa reinavam as sombras.
"s lu#es se apagamL Nuantas ve#es durante o curso dos séculos tin%a sido ouvida
esta frase, pronunciada (s ve#es com indiferenças e em outras com pFnico, literal ou
simbolicamente. Nuanto %avia significado a lu# na %ist'ria do %omemL " lu# do mun-
do. " lu# da vida. " lu# do con%ecimento.
Ds% estremeceu. 0as, afinal a eletricidade %avia sobrevivido ao %omem graças aos
sistemas automáticos. Eembrou-se do dia que %avia descido das montan%as sem sa-
ber nada do desastre. 2in%a passado diante de uma central elétrica e concluira que
tudo estava normal, porque a água continuava correndo pelas eclusas e os dínamos
#umbiam regularmente. E talve# em outros lugares a escuridão !á fosse total.
2alve# essas lFmpadas fossem as últimas a se etinguirem9 e !á não %averia mais
lu# no mundo.
*ão estava com vontade de dormir. Era seu dever ficar acordado. 0as esperava
que o último ato do drama fosse breve. " lu# diminuiu ainda mais. W o fim, disse para
si mesmo. 0as as lFmpadas continuavam acesas. & filamento estava agora era de
um vermel%o cere!a.
E outra ve# escureceram. " obra da destruição se acelerava, como um rio que des-
ce uma colina, lentamente a princípio, e então mais e mais rápido. Aurante um se-
gundo as lu#es pareceram bril%ar com mais força, mas logo desapareceram.
:rincesa se agitou e latiu son%ando. Era um toque de finados$
Ds% saiu de casa, di#endo-se sem convicção que tin%a %avido uma fal%a no sistema
do bairro. Esquadrin%ou a escuridão. :or trás das trevas, que a fumaça fa#ia mais
densa ainda, bril%ava fracamente uma lua alaran!ada. *ão se via outra lu#, nem nas
ruas nem no poente: era o fim, então. G"pague-se a lu#. E a lu# se apagou.H
=%ega de melodrama, se disse. 2ateando, entrou em casa e procurou no armário,
onde sua mãe guardava as velas. Encontrou somente uma e colocou-a no candela-
bro. " c%ama era pequena, mas reta e clara. Ds% se deiou cair desanimado na pol -
trona.

& desaparecimento das lu#es transtornou Ds%. 0esmo em pleno dia acreditava ver
sombras que se aproimavam nos cantos. 1oltava ( Ddade das 2revas. "rma#enou
f'sforos, lanternas, velas, quase contra sua vontade, mas sentindo-se curiosamente
protegido.
0as não tardou em descobrir que a lu# não era o produto elétrico mais importante.
& refrigerador agora era inútil. " carne fresca, a manteiga e os legumes se transfor-
mavam em uma massa putrefata e malc%eirosa.
Então a estação mudou. Ds% !á tin%a perdido a conta das semanas e dos meses,
mas seu ol%o treinado de ge'grafo sabia decifrar as mensagens da nature#a. -em
dúvida era outubro9 a primeira c%uva confirmou suas previs;es. *ão se tratava de
uma tempestade passageira. @ina e contínua, a c%uva parecia eterni#ar-se.
*ão saiu durante esse tempo e tentou se distrair em casa. 2ocava o acordeon, lia
livros que até então não %avia se atrevido a ol%ar por falta de tempo. Ae ve# em
quando ia ( !anela e ol%ava a c%uva e as nuvens baias que pareciam roçar os tetos.
/ma man%ã, ele saiu para ver o que estava acontecendo, que novos epis'dios ti -
n%am sido acrescentados ao drama. " princípio não notou nada de novo. Então viu
que na avenida as fol%as tin%am tapado um bueiro. " água borbul%ava na rua e inva-
dia as calçadas, cru#ava a selva de mato que tin%a sido o !ardim dos 3art, entrava na
casa por baio da porta e sem dúvida enc%arcava o piso e os tapetes. /m pouco
mais abaio, o rio invadia o roseiral e se perdia em um bueiro de outra rua. &s des-
troços não eram muito grandes, mas este era s' um eemplo do que estava aconte-
cendo em mil%ares de outros lugares.
&s %omens %avia construído estradas, bueiros, diques e outros obstáculos para
opor-se ao curso natural das águas. Esses trabal%os precisavam de cuidados cons-
tantes. Aois minutos teriam bastado para Ds% tirar as fol%as e desentupir os bueiros,
mas não l%e parecia necessário. 1aletas, bueiros e diques tin%am sido construídos
para o uso do %omem. & %omem %avia desaparecido e !á não tin%am utilidade.
Nue a água seguisse seu curso e cru#asse o roseiral. Enc%arcados de água e de
lama, os tapetes dos 3art logo desapareceriam. 2anto pior. "fligir-se seria continuar
vivendo no mundo do passado.
Ds% estava voltando para casa quando tropeçou com uma cabra que comia tranqui -
lamente a cerca viva do sen%or &smer, em outros tempos tão bem cuidada. Aivertido
e curioso, se perguntou de onde viria a intrusa. *inguém tin%a possuído semel%antes
animais naquele bairro. " cabra, talve# também divertida e intrigada, parou de comer
e ol%ou para Ds%. &s %omens agora eram bic%os raros. Aepois de t)-lo eaminado
sem medo nem respeito, a cabra !ulgou que os suculentos brotos da cerca eram mais
interessantes que aquele bípede.
:rincesa, que voltava de uma epediç;es, apareceu de repente e lançou-se para a
descon%ecida com latidos frenéticos. " cabra baiou a cabeça e ameaçou-a com os
c%ifres. :rincesa não era um animal combativo e, saltando de lado, correu para seu
protetor. " cabra deu uma mordiscada na cerca.
"lguns minutos mais tarde, Ds% a viu passeando pela calçada como se toda a ave-
nida -an Eupo l%e pertencesse. E por que não$, pensou. 2alve# se!a assim mesmo. &
mundo está trocando de donos.
Nuando a c%uva o retin%a em casa, a mente de Ds% se voltava para a religião,
como no dia em que tin%a visitado a catedral. @ol%eava frequentemente a volumosa
bíblia que seu pai tin%a coberto de anotaç;es. &s Evangel%os o decepcionaram, pro-
vavelmente porque tratavam dos problemas do %omem na sociedade. GAai a =ésar...H
Era uma ordem supérflua, pois nem sequer %avia um inspetor de tributos que repre-
sentasse o =ésar.
G1endei vossos bens e dai de esmola... @a#ei aos %omens tudo que quereis que
eles vos façam... "ma teu pr'imo como a ti mesmo.H 2odos esses preceitos s' podi -
am ser aplicados a multid;es. *esse mundo redu#ido ( sua mais simples epressão,
um fariseu ou um saduceu ainda teria sido capa# de cumprir os ritos de uma religião
formalista9 mas, baseada na na caridade, a doutrina cristão agora carecia de sentido.
,ecuou para o "ntigo 2estamento, começou por Eclesiastes, e ac%ou-o mais atual.
& vel%o, o predicador, =o%elet, assim o c%amavam em uma nota de rodapé, tin%a a
arte de pintar com crue#a e realismo a luta do %omem contra o universo. Ms ve#es,
suas palavras se aplicavam eatamente a Ds%. GNuer a árvore caia para o sul ou para
o norte, no lugar em que a árvore cair ali ficará.H Ds% lembrou-se daquele tronco em
&Cla%oma, que fec%ava a rodovia PP. 0ais adiante, leu: G0el%or serem dois do que
um. :orque se um cair, o outro levanta seu compan%eiro9 mas ai do que estiver s',
pois, caindo, não %á outro que o levanteH. E Ds% lembrou-se do seu terror quando se
sentiu s', sem ninguém que pudesse a!udá-lo em caso de acidente. Eeu sem descan-
so, maravil%ado ante aquela compreensão realista, e até clarividente, das leis do uni-
verso. "té encontrou esta frase: G-eguramente a serpente morderá antes de estar
encantadaH.
=%egou ao final do primeiro capítulos e seus ol%os pousaram em uns versículos do
=Fntico dos =Fnticos, de -alomão. GNue ele me bei!e com os bei!os da sua boca9
porque é mel%or teu amor do que o vin%oH, leu.
"gitou-se nervosamente. Aurante aqueles longos meses %avia se sentido assim em
muito raras ocasi;es. =ompreendia agora, outra ve#, que o desastre o tin%a afetado
mais do que imaginava. "ssim, nas antigas lendas de encantamentos, um rei ol%ava
passa o corte!o da vida sem poder unir-se a ele. &utros %omens tin%am procurado
uma solução para o problema. 0esmo aqueles que %aviam procurado a morte pelo
álcool %aviam participado de algum modo da vida. 0as ele, o observador, %avia re-
c%açado a vida.
E o que era a vida$ 0il%;es de %omens %aviam-se feito a mesma pergunta. =o%e-
let, o predicador, não %avia sido o primeiro. E todos %aviam encontrado uma resposta
diferente. -alvo aqueles para quem a pergunta não tin%a resposta. Ele, por eemplo,
Ds%er.ood <illiams, era uma rara fusão de dese!os e reaç;es, realidades e quimeras.
Eá fora estendia-se a vasta cidade deserta, onda a c%uva golpeava as longas ave-
nidas solitárias, !á nas sombras do crepúsculo. E entre os dois, o %omem e o mundo,
%avia um raro e invisível vínculo: mudava um, mudava o outro.
"quela era uma grande equação de vários termos e duas grandes inc'gnitas. Ae
um lado estava Ds%, c%amemo-l%e O, e do outro o mundo, o mundo e seus perten-
ces. E as duas inc'gnitas buscavam um equilíbrio que s' era alcançado com a morte.
Este era provavelmente o pensamento do desiludido =o%elet, quando escrevia: G&s
vivos sabem que morrerão, mas os mortos não sabem coisa nen%umaH. 0as deste
lado da morte o equilíbrio era sempre instável.
-e O mudava, se alguma glFndula afetava seu %umor, se Ds% se sentia comovido,
ou simplesmente se entediava, ou fa#ia um gesto, esse gesto modificava a equação,
embora levemente, estabelecendo um equilíbrio provis'rio.
-e, ao contrário, o mundo mudava, se uma catástrofe destruía a raça %umana, ou
mais simplesmente, se a c%uva deiava de cair, Ds%, ou se!a, O, se transformava tam-
bém, e novos atos ordenavam um novo e precário equilíbrio. Nuem poderia di#er
qual das inc'gnitas se imporia ( outra$
Nuase inconscientemente, levantou-se da poltrona e compreendeu que esse movi-
mento tradu#ia sua inquietação. & equilíbrio da equação %avia se quebrado e ele %a-
via se levantado para restabelec)-lo. 0as seu estado de Fnimo também mudava o
mundo. :rincesa, arrancada do seu son%o, deu um salto e correu pela sala. Ds% ouviu
que a c%uva batia com mais força nos vidros. Elevou os ol%os para o céu. "ssim se
l%e apresentava o mundo, obrigando-o a agir. @oi ( co#in%a para preparar a ceia.
& desaparecimento quase completo da raça %umana, catástrofe sem precedentes
na %ist'ria do mundo, não alterou as relaç;es da terra com o sol, a etensão e a dis-
tribuição dos oceanos e continentes, os períodos de c%uva e bom tempo. "ssim, a
primeira tempestade de outono, que partiu das il%as "leutianas para bater a costa da
=alif'rnia, foi como muitas outras. " umidade apagou os inc)ndios dos bosques9 a
c%uva lavou a fumaça e o p' do ar. =%egou o vento nordeste, fresco e de uma pure-
#a cristalina e a temperatura desceu rapidamente.
Ds% se agitou durante o sono e despertou lentamente. 2in%a frio. " outra inc'gnita
da equação mudou, pensou, e cobriu-se com uma manta. &%, fil%a de reis, murmu-
rou son%adoramente, teus seios são... E adormeceu outra ve#.
:ela man%ã a casa estava gelada. =olocou um colete de lã enquanto preparava o
des!e!um. :ensou em acender a c%aminé, mas o frio parecia t)-lo reanimado e deci -
diu que este dia não ficaria em casa.
Aepois de tomar café, foi para a varanda e admirou a cena. Eavado pela c%uva, o
céu estava mais limpo. & vento tin%a amainado. " vários quilJmetros de distFncia, as
colunas vermel%as da +olden +ate, sobre o fundo do céu a#ul, pareciam quase ao al -
cance das mãos. Ds% se voltou para o norte para ol%ar o pico de 2amalpai e se so-
bressaltou. Entre a montan%a e ele, (s margens da baía, elevava-se uma fina cinta
de fumaça. 2alve# aquela coluna tivesse se elevado cem ve#es sem que ele pudesse
v)-la na atmosfera de fumaça e brumas.
"gora era um sinal. -im, o fogo podia ser espontFneo. "nteriormente, outras colu-
nas de fumaça %aviam atraído Ds% inutilmente. 0as o dilúvio dos dias passados tin%a
que ter apagado os inc)ndios.
Ae qualquer forma a fumaça não estava a mais de tr)s quilJmetros e Ds% pensou
em entrar imediatamente no carro e ir investigar. *os pior dos casos, s' perderia al-
guns minutos9 e o tempo l%e sobrava. 0as uma lembrança o deteve. 2in%a tentado
se aproimar de outros %omens e sempre tin%a fracassado. -entiu uma daqueles
acessos de selvageria tão frequentes em outra época, quando a perspectiva de um
baile o fa#ia transpirar. :rocurou algum preteto. "ssim fa#ia antes: alegava um tra-
bal%o urgente e mergul%ava em um livro em ve# de ia ao baile.
,obinson =rusoé dese!ava realmente deiar a il%a deserta onde era monarca abso-
luto$ " pergunta não era nova. E embora ,obinson amasse a sociedade %umana, por
que ele, Ds%, deveria se parecer com ele$ 2alve# amasse sua il%a. 2alve# temesse os
laços %umanos.
Nuase com medo, como se fugisse de uma tentação, c%amou :rincesa, entrou no
carro e saiu na direção oposta.
Aurante %oras errou sem rumo pelas montan%as. &s efeitos da c%uva !á eram evi-
dentes. *ão se podia saber com clare#a onde terminava a estrada e onde começa-
vam os campos. &s ventos do outono fa#iam cair as fol%as. *o cimento viam-se al-
guns ramos mortos. " água %avia arrastado a lama. "o longe ele ouviu, ou ac%ou ter
ouvido, os latidos de uma matil%a. 0as os cães não apareceram e nas primeiras %o-
ras da tarde voltou para casa. *o lado das montan%as, !á nen%uma fumaça subia ao
céu. -entiu um certo alívio, mas também uma grande decepção.
" outra inc'gnita da equação tin%a mudado e ele %avia respondido, fugindo. & fio
de fumaça talve# reaparecesse na man%ã seguinte, mas não era certo. &u talve#
aquele ser %umano, quem quer que fosse, tin%a simplesmente passado pela cidade e
não voltaria.
*as primeiras %oras do crepúsculo ol%ou outra ve# e viu uma lu# fraca mas incon-
fundível. *ão %esitou. =%amou :rincesa, entrou no carro e foi na direção do sinal.
"ndava lentamente. " !anela iluminada parecia ol%ar para a varanda. "s árvores a
tin%am ocultado, até que caíram as fol%as. 0as quando Ds% se distanciou alguns me-
tros, a lu# desapareceu. Errou meia %ora ao acaso e por fim voltou a v)-la. Aesceu
lentamente a rua e passou diante da casa. "s persianas estavam abaiadas, mas al-
guns raios de lu# iluminavam a calçada. :arecia uma lu# de uma lamparina a 'leo.
Ds% desligou o motor no outro lado da rua e esperou. *ão apareceu ninguém. 3e-
sitou por um minuto. Então, em um repentino impulso, abriu a porta e desceu do
carro. 0as :rincesa adiantou-se e correu para a casa ladrando furiosamente. -eu ol -
fato talve# l%e revelasse uma presença descon%ecida. =om uma maldição, Ds% a se-
guiu. Aesta ve# a cadela o obrigava a agir. :arou por um segundo, lembrando que
não levava armas. "s normas de cortesia recomendavam não se apresentar em casa
al%eia empun%ando um rev'lver. :egou impulsivamente o vel%o martelo e cru#ou a
rua. "trás da persiana desen%ava-se uma sombra.
Ká estava na calçada, quando a porta se abriu uns centímetros e o fac%o de uma
lanterna caiu sobre ele. Ds%, cego, parou e esperou. :rincesa, muda de medo, bateu
em retirada. Ds% teve a desagradável impressão de que l%e apontavam um rev'lver. E
aquela lu# que não o deiava ver. 2in%a se precipitado. " c%egada de um descon%eci-
do no meio da noite sempre assusta as pessoas. @eli#mente tin%a se barbeada na-
quela man%ã e estava usando um terno bastante limpo.
& sil)ncio não terminava nunca. Ds% esperava pela pergunta, inevitável mas um
pouco ridícula: GNuem é voc)$H, ou a ordem G0ãos ao altoLH. -urpreendeu-se real-
mente quando ouviu uma vo# de mul%er que di#ia somente:
- Nue cac%orro bonitoL
" vo# era suave e modulada e Ds% sentiu-se invadido por uma quente ternura.
" lanterna elétrica finalmente baiou e iluminou a calçada. :rincesa perambulou
pela lu#, movendo alegremente a cauda. " porta da casa se abriu de par em par, re-
cortada contra a vaga lu# do vestíbulo. Ds% viu a sil%ueta de uma mul%er a!oel%ada
que acariciava a cadela. Aeu um passo adiante, levando na mão o ridículo martelo.
:rincesa, ecitada, deu um salto e entrou na casa. " mul%er se levantou e deu um
grito que era também uma risada e lançou-se em sua perseguição. 0eu Aeus, tem
um gatoL :ensou Ds%, aproimando-se. 0as quando entrou, :rincesa simplesmente
corria ao redor da mesa, fare!ando as cadeiras e a mul%er protegia uma lFmpada a
'leo dos saltos do animal.
Era uma mul%er, alta, morena, de uns trinta anos. &bservava as cabriolas de :rin-
cesa e em seu riso vibrava o eco do paraíso perdido. Ae repente algo se quebrou no
coração de Ds% e ele riu alegremente.
Nuando a mul%er voltou a falar, não fe# perguntas nem deu ordens.
- W magnífico ver alguém - disse.
Ds% não encontrou nada mel%or para se desculpar pelo martelo que ainda levava
não mão.
- :erdão pela ferramenta - disse, e deiou-a no c%ão com o cabo para cima.
- *ão se preocupe, eu entendo muito bem - disse ela. - Ká con%eci isso. 2emos que
levar alguma coisa, a moeda da sorte ou a pata de um coel%o, lembra$ *ão muda-
mos muito.
Ds% agora tremia. -entia-se sem forças. 2in%a a impressão quase física de que ou-
tras barreiras desabavam: essas indispensáveis barreiras defensivas que %avia levan-
tado nos meses de solidão e desesperança. Aominado pelo irresistível dese!o de um
contato %umano, fe# um cumprimento convencional e estendeu a mão direita. " mu-
l%er apertou-a e, notando que Ds% tremia, levou-o para uma cadeira e quase o obri -
gou a se sentar. Então bateu ligeiramente em suas costas.
- 1ou l%e preparar alguma coisa para !antar - disse.
Ds% não protestou, apesar de !á ter !antado antes de sair. & prop'sito do convite
tão sereno não era para acalmar uma eig)ncia corporal. " comida em comum era
um símbolo: sentar-se na mesma mesa, compartil%ar o pão e o sal, o primeiro laço
que unia os seres %umanos.
"gora eles estavam sentados um em frente ao outro. =omeram um pouco sem
apetite, cumprindo um ritual. & pão era fresco.
- Eu mesma fi# - disse ela, - mas é cada ve# mais difícil encontrar farin%a sem ver-
mes.
*ão %avia manteiga, mas tin%a mel e marmelada para o pão e uma garrafa de vi -
n%o tinto.
E então, como um menino, Ds% se pJs a conversar. Aesta ve# não era como em
*e. UorC, com "nn e 0ilt. *aquele tempo ele %avia se refugiado atrás das suas bar-
ricadas. "gora, pela primeira ve#, contava sua vida depois do desastre. "té mostrou
a cicatri# dos dentes da serpente e as marcas maiores, onde %avia aplicado a vento-
sa. Aescreveu seu terror, sua fuga, e essa solidão que agora sua imaginação e seu
pensamento rec%açavam. E de ve# e quando ela o interrompia para murmurar:
- -im, eu sei. 2ambém passei por isso. =ontinue.
" mul%er tin%a assistido a catástrofe. Entretanto, adivin%ava Ds%, tin%a sido menos
afetada. *ão parecia sentir necessidade de falar, mas incentivava Ds% a contar suas
eperi)ncias.
E enquanto falava, Ds% compreendeu que, pelo menos para ele, aquele não era um
encontro fortuito, um breve par)nteses. 2odo seu futuro estava ali. 2in%a encontrado
%omens e mul%eres em seu camin%o, mas nunca quis se unir a eles. 2alve# o tempo
tivesse curado suas feridas. &u talve# aquela mul%er fosse diferente.
"lém de tudo, era uma mul%er. Esta ideia penetrava cada ve# mais profundamente
em Ds% e ele não conseguiu impedir um estremecimento. Entre dois %omens, partir o
pão era uma realidade, e sentar-se na mesma mesa, um símbolo suficiente. 0as en-
tre um %omem e uma mul%er, a partil%a, realidade e símbolo, devia ir mais longe.
Então se deram conta de que não sabiam seus nomes. -omente :rincesa %avia
tido a %onra de uma apresentação.
- Ds%er.ood - declarou ele. - Era o nome de solteiro da min%a mãe. 3orrível, não$
2odos me c%amam de Ds%.
- Eu me c%amo Em - disse ela. - &u se!a, Emma. Ds% e Em não são nomes muito
poéticos.
" mul%er riu e Ds% uniu-se a ela no riso. ,ir !untos, outro ato de comun%ão. 0as
não o último acordo. 3avia uma técnica para c%egar a esse acordo. Ds% %avia con%e-
cido %omens eperimentados, tin%a-os visto atuar, mas ele, Ds%, não era dessa espé-
cie. 2odas aquelas virtudes que l%e %aviam permitido sobreviver agora o embaraça-
vam. Embora que as técnicas de antes, refletiu, estivessem fora de lugar. 2in%am
servido em outro tempo, quando %avia garotas em todos os bares em busca de
aventuras. 0as agora a vasta cidade era s' um deserto9 e esta mul%er tin%a suporta-
do a catástrofe, o medo, a solidão. -im, e depois de tantas provas ainda %avia cora-
gem em seus ol%os, e determinação, e alegria.
Em seu desvario, Ds% se perguntou se não deveriam celebrar algum tipo de cerimJ-
nia matrimonial. &s NuacCers se casavam sem sacerdotes. :or também não eles$ :or
eemplo: de pé, !untos, ol%ariam para o leste, esperando a saída do sol. E adivin%ou
que o contato dos !oel%os sob a mesa pareceria menos inconveniente que palavras e
!uramentos. *otou que tin%am se calado fa#ia algum tempo. " mul%er ol%ava para
ele serenamente e Ds% soube que ela %avia entendido seu sil)ncio.
:erturbado, levantou-se tão bruscamente que derrubou a cadeira. " mesa !á não
era um símbolo de união, e sim um obstáculo. @oi para perto dela. Em também se le-
vantou e os braços de Ds% se fec%aram sobre aquele corpo quente.
=Fntico dos =Fnticos. -ão ternos teus ol%os, meu amor, e teus lábios doces e fir-
mes. 2eu ventre é de marfim, e teus ombros polidos como o marfim. 2eus seios são
suaves como a lã. 2eus músculos firmes e fortes como os cedros. &% =Fntico dos
=Fnticos.
Em %avia passado para o quarto vi#in%o. Ds%, com o coração palpitante, esperava.
-' tin%a um temor: em um mundo onde não %avia médicos nem outras mul%eres,
podiam correr esse risco$ 0as ela !á estava no quarto. 2ambém %avia visto o perigo
e tin%a decidido enfrentá-lo.
&% =Fntico dos =Fnticos. 0eu amor, teu leito é fragrante como os ramos do pin%o
e quente é teu corpo. Ws "starté.
5
Ws "frodite, que guarda o templo do amor. Em
mim está a força. "s torrentes estão contidas. W c%egada a min%a %ora. &%, recebe-
me em teu ser infinito.
>
1Astarté é a assimilação fenícia da deusa mesopotâmica que os sumérios conheciam como Inanna,
os acadios como Ishtar e os israelitas como Astarot. Está relacionada com o prazer carnal, com a se
!ualidade e com o amor" mas tam#ém com a natureza, a $ida e a fertilidade, e mesmo com a %uer
ra. &ostuma$a ser representada nua so#re o lom#o de um leão. A sua fi%ura foi incorporada pela tra
dição do anti%o E%ito. Era a cortesã di$ina, e %oza$a do se!o sem medida nem ru#or. '(. de Espinhu
do)
* &ântico dos &ânticos+
,- meu amado é al$o e rosado, o mais distin%uido entre dez mil. A sua ca#eça é como o ouro mais
apurado, os seu ca#elos, cachos de palmeira, são pretos como o cor$o. -s seus olhos são como os
das pom#as .unto /s correntes da á%uas, la$ados em leite, postos em en%aste. As suas faces são
como um canteiro de #álsamo, como colinas de er$a aromáticas" os seus lá#ios são lírios que %ote
.am mirra preciosa" as suas mãos, cilindros de ouro, em#utidos de .acintos" seu $entre, como al$o
marfim, co#erto de safiras. As suas pernas, colunas de mármore, assentadas em #ases de ouro puro
o seu aspecto, como o 0í#ano, es#elto como os cedros. - seu falar é muitíssimo doce" sim, ele é to
talmente dese.á$el 1al é o meu amado, tal, o meu esposo, 2 filhas de 3erusalém4 '(. de Espinhudo)
!
Em dormia ao seu lado. &s pensamentos se avolumavam na mente de Ds%, impe-
dindo-o de conciliar o sono. Estava lembrando das palavras que %avia dito algumas
%oras antes: pouco importavam os acontecimentos que %aviam mudado o mundo9
ele não %avia mudado e continuaria sendo o mesmo. -im, era certo, apesar da tragé-
dia que não o tin%a abalado profundamente, ele era sempre o pesquisador, o espec-
tador que um pouco afastado observava os fenJmenos sem confundir-se com eles.
Era algo incomum, no mundo de outros tempos não teria acontecido nunca. :ara ele,
o amor %avia nascido das ruínas.
"dormeceu. Nuando acordou !á era de dia e estava so#in%o. Aeu uma ol%ada as-
sustada ao redor. -im, o quarto era pobre e estava mal arrumado. 2alve# o que ele
supun%a uma notável eperi)ncia de amor, em outro tempo não seria mais que uma
vulgar aventura no quarto de qualquer %otel barato. Ela... certamente não era uma
deusa, uma ninfa dos bosques que assoma entre as sombras do crepúsculo. Eceto
nos momentos de dese!o, nunca seria "starté ou "frodite. Nuem sabe como será (
lu# do dia, se perguntou, estremecendo. Era maior que ele9 talve# não %ouvesse pro-
curado nela senão um pouco de ternura maternal. &%, tanto pior, se disse, a perfei-
ção não é deste mundo. & universo não vai transformar suas leis para me agradar.
Eembrou então que as primeiras palavras de Em não tin%am sido nem uma pergunta
nem uma ordem, e sim uma afirmação. -im, estava bem assim. W necessário aceitar
sem protestos os dons do destino.
Eevantou-se e vestiu-se. E enquanto se arrumava, um c%eiro gostoso c%egou ao
quarto. =aféL Era também um símbolo... um pouco mais moderno, nada mais.
Em tin%a posto a mesa do des!e!um na co#in%a, como a mul%er de um empregado
qualquer. Ds% ol%ou-a quase com timide#. E ( lu# da man%ã ele viu ainda mais clara-
mente seus grandes ol%os negros e afastados, no rosto moreno, os lábios carnudos,
a curva dos seios sob a bata verde clara.
Ds% não a bei!ou e ela não fe# nen%um movimento. 0as trocaram um sorriso.
- &nde está :rincesa$ - perguntou Ds%.
- Aeiei ela sair por um momento.
- :erfeito. -erá um lindo dia, me parece.
- -im, ac%o que sim. Aesculpe mas não temos ovos.
- *ão importa. &%, presuntoL
- -im.
Essas frases não tin%am muito significado, mas os enc%ia de alegria9 talve# ainda
mais do que se fi#essem !uras de amor. /ma tranquila felicidade invadiu Ds%. *ão,
não tin%a sido uma aventura qualquer em um quarto alugado. Dnterrogou aqueles
ol%os serenos e suas incerte#as se dissiparam. -eria uma coisa duradoura.
"lgumas %oras mais tarde se instalaram na casa da -an Eupo. Ds% tin%a mais bens
que ela, sobretudo livros. :arecia menos complicado unirem-se aos livros que levá-
los para a casa de Em.
Aesde então os dias se passaram mais rápidos e tranquilos. 3avia muito o que
compartil%ar. -im, lembrou Ds%: G/m amigo dobra as alegrias e redu# as penas.H
Em nunca falava do seu o passado. /ma ou duas ve#es Ds% l%e fe# algumas per-
guntas, pensando que talve# ela necessitasse de falar. 0as Em l%e respondeu entre-
cortadamente e Ds% ac%ou que ela !á se %avia adaptado ( nova vida e s' pensava no
porvir.
0as ela não estava envolvida em nen%um mistério. :or observaç;es casuais, Ds%
soube que ela %avia tido um marido, a quem %avia querido, sem dúvida, e dois fi -
l%os. 2in%a estudado no liceu, mas não tin%a frequentado a universidade. -ua sinta-
e nem sempre era perfeita. & sotaque, que o tin%a surpreendido desde as primeiras
frases, lembrava o YentucC ou o 2enessee. 0as ela nunca mencionava se tin%a vivido
fora da =alif'rnia. -eu nível social, supun%a Ds%, devia ser inferior ao seu. 0as agora
os vel%os preconceitos !á não contavam mais.
E os dias se sucediam apra#ivelmente.
/ma man%ã, Ds% foi procurar provis;es. Entrou no autom'vel e apoiou o polegar
sobre o botão do arranque. &uviu-se então um leve ruído metálico e nada mais. 2en-
tou outra ve#, sem resultado. *en%um melodioso ronronar, nen%um barul%in%o tran-
quili#ador indicou que os frios cilindros tin%am começado a funcionar. -entiu pFnico.
"pertou o botão por várias ve#es e s' obteve o mesmo ruído. " bateria descarregou,
pensou. Aesceu do carro, levantou a tampa do motor e contemplou com desespero o
complicado emaran%ado de cabos e peças. Era demais para ele. Aesanimado, voltou
para a casa.
- & carro não funciona - disse. - " bateria descarregou ou alguma coisa parecida.
2in%a falado em um tom tão lúgubre, que quando Em eplodiu em uma gargal%a-
da, não podia acreditar em seus ouvidos.
- *ão estão nos esperando em parte alguma - disse ela. - &l%ando pra voc), al-
guém ac%aria que tudo está perdido.
Ds% também riu. " contrariedade, depois de compartil%ada, l%e pareceu então sem
importFncia. Era cJmodo ter um carro para percorrer as lo!as e transportar os paco-
tes. 0as podiam viver sem ele. Em tin%a ra#ão: ninguém os apressava.
2in%a imaginado uma !ornada easperante, com longas %oras passadas escol%en-
do um carro novo ou reparando o antigo. 0as a procura foi como um !ogo, embora
s' ten%am encontrado o que precisavam !á no final da man%ã. " maior parte dos
carros não tin%a c%ave. Ds% podia ter usado algum arame, mas l%e pareceu que não
seria muito cJmodo. Em outros a bateria não funcionava. :or fim encontraram um
carro quase completo em uma colina. " carga da bateria estava muito baia para pJr
em funcionamento o motor, mas os far'is c%egaram a se acender, então Ds% ac%ou
que a corrente faria funcionar as velas de ignição.
Empurraram-no colina abaio e ap's uns instantes os cilindros bateram e crepita-
ram. Ds% e Em riram alegremente. :or fim a gasolina circulou, o motor esquentou e
começou a funcionar. Aesceram pela avenida deserta a noventa quilJmetros por
%ora. Em inclinou-se para Ds% para bei!á-lo. E de repente Ds% sentiu, assombrado,
que nunca tin%a sido mais feli# em sua vida.
& autom'vel não era tão bom como a camin%onete, mas permitia ampliar a área
das eploraç;es. :rocuraram no guia telefJnico os endereços das lo!as de baterias.
:or fim, forçaram a entrada de um dep'sito e encontraram dú#ias de baterias e re-
servas de ácido. Embora pouco soubessem de mecFnica, se arriscaram a verter o áci-
do em uma bateria apropriada e então a colocaram na camionete. &s primeiros tes-
tes foram um )ito. & motor ronronava suavemente, assim que Ds% apoiava o pé no
acelerador.
Ds% se disse alegremente que %avia resolvido dois problemas. :rimeiro que tudo,
%avia aprendido a consertar um autom'vel. E o que era mais importante, tin%a com-
provado que não precisava de um carro para viver feli# e sem medo.
*o dia seguinte a nova bateria tin%a deiado de funcionar. Estava em mal estado,
ou %aviam cometido algum erro ao instalá-la. Entretanto desta ve# não sentiu pFnico
nem se apressou. Aois dias depois decidiu solucionar o problema. @oi a!udado pela
sorte, ou teve mais cuidado, mas por fim as baterias funcionaram satisfatoriamente.
Envoltas em laca polida e cromo bril%ante, as peças do motor dispostas em ordem
milimétrica, os comutadores eatos como cronJmetros, tin%am sido o orgul%o de
uma civili#ação, seu símbolo. E agora estavam trancados ignominiosamente nas ga-
ragens, abandonados nos parques de estacionamento ou !unto (s calçadas. & vento
os cobre de fol%as mortas e p'. E a c%uva transforma esse p' e essas fol%as em
lama, de onde caem p' e outros fol%as. &s para-brisas são vidros opacos. *o interior,
as mudanças são mais lentas. "s superfícies s'lidas resistem ( ferrugem. "s bobinas,
os comutadores, os carburadores e as velas se mant)m em bom estado.
*as baterias, dia e noite operam lentas reaç;es químicas, decompondo e neutrali-
#ando. :assam-se alguns meses e os acumuladores morrem. 0as, separados, os acu-
muladores e os ácidos não se alteram. E colocar ácido e adaptar o novo acumulador
não é tarefa fácil. &s acumuladores não são, portanto, o ponto fraco.
& :onto @raco são os pneus. " borrac%a se decomp;e lentamente. &s pneus vivem
um ano, cinco anos, mas carregam em si o princípio da morte. "s cFmaras murc%am,
ficam logo inúteis. " borrac%a se altera, mesmo sob um teto. &s pneus arma#enados
durarão de#, vinte anos, talve# mais ainda. 0as então !á não %averá mais rodovias, e
os %omens não saberão dirigir um autom'vel9 e até terão perdido o dese!o de fa#)-
lo.
" cabeça de Em repousava sobre o braço dobrado de Ds% e ele ol%ava para seus
ol%os negros. Estavam sentados no divã da sala. & rosto de Em parecia ainda mais
escuro ( lu# do crepúsculo.
/m problema, pensava Ds%, ainda estava sem solução. E ela o tin%a tra#ido ( lu#.
- -eria maravil%oso.
- *ão estou tão certo.
- &%, sim.
- *ão gosto.
- :or mim$
- -im, seria perigoso. 1oc) s' conta comigo e eu não l%e serviria de muita coisa.
- 0as voc) pode ler todos os livros.
- &s livros - repetiu Ds%, com um breve sorriso. - " :arteira :rática, :atologia do
:arto. *ão, não gostaria, embora voc) pense de outro modo.
- 2ambém poderia procurar os livros e l)-los. -eria útil. E eu na verdade não preci-
saria de muita a!uda. :assei por isso duas ve#es, voc) !á sabe. E não foi nada terrí -
vel.
- 2alve#. 0as seria diferente sem médicos e %ospitais. :or que voc) pensa tanto
nisso$
- W uma lei biol'gica, supon%o. "lgo natural.
- "credita que é necessário perpetuar a vida, que é nosso dever assegurar o por-
vir$
Ela se calou. Ds% adivin%ou que ela estava refletindo e que a refleão não era uma
das suas virtudes. -uas decis;es nasciam espontaneamente, do mais profundo do
seu ser.
- *ão sei - disse ela por fim, - não sei se é necessário que a vida continue. :or que
deveria continuar$ *ão, é puro egoismo. Nuero um fil%o, isto é tudo. &%, é difícil e-
plicar. Nuero um bei!o também - Ds% bei!ou-a. - +ostaria de saber falar - continuou
ela. - +ostaria de poder epressar o que penso.
Estirou um braço para a mesa e pegou um f'sforo da caia. @umava mais que ele,
e Ds% ac%ou que também pegaria um cigarro. 0as se enganou. Era um f'sforo gran-
de de co#in%a. Em o fe# girar entre o polegar e o indicador, sem falar. Então esfre-
gou-o contra a caia. -urgiu uma c%ama, que enfraqueceu logo a seguir e correu
pela madeira do f'sforo. Dmediatamente Em soprou e apagou-o.
Ds% compreendeu vagamente que Em, por falta de palavras, %avia tentado - talve#
inconscientemente - epressar algo que não conseguia di#er. E ac%ou ter adivin%ado.
& f'sforo não estava vivo na caia, e sim quando queimava... e não podia queimar
para sempre. Era o mesmo com os %omens e as mul%eres. 1iver era consumir a vida.
Eembrou-se então do seu terror nos primeiros dias e do momento em que %avia
vencido esse terror, quando tin%a tirado a motocicleta do carro, deiando-a cair na
beira do camin%o. Eembrou com que ealtação %avia desafiado a morte e os poderes
das trevas.
& corpo de Em estremeceu em seus braços. -im, pensou Ds% com %umildade, de
ve# em quando ele representava o papel de %er'i, mas para ela o %eroísmo era o
pão cotidiano.
- 0uito bem - disse. - "c%o que tem ra#ão. Eerei livros.
- -im - disse ela. - 2alve# precise realmente de um pouco de a!uda.
Ds% sentiu o contato do corpo quente de Em e sentiu-se golpeado outra ve# pela
solidão e pelo terror. Nuem era ele para levar a %umanidade pelo longo e incerto ca-
min%o do futuro$ 0as isso durou muito pouco. " coragem de Em o animou. -im,
pensou, ela será a mãe das naç;es. -em coragem tudo está perdido.
E então, de repente, ficou consciente outra ve# do corpo de Em.
E tua será a gl'ria, pois no amor da vida teu rosto bril%a de tal modo que apaga as
trevas e o medo da morte. Ws Aemeter, 3ert%a, Dsis, =ibele dos Ee;es, e a mãe 0on-
tan%a. Aos teus fil%os nascerão as tribos e dos teus netos as naç;es. 2eu nome é
0ãe, e serás bendita. 3averá outra ve# cantos e risos. &s adolescentes passearão
pelas pradarias9 os !ovens saltarão os riac%os. &s fil%os dos teus fil%os serão tão nu-
merosos quanto os brotos dos pin%eiros no sopé da montan%a. -erás bendita, pois
nas %oras escuras teu rosto estará voltado para a lu#.
"inda estavam %esitantes, quando uma man%ã Em ol%ou para fora e disse:
- &%, ratosL
Ds% ol%ou. Aois ratos corriam ao longo da cerca, procurando algo para comer, ou
investigando.
Em mostrou os ratos a :rincesa através da !anela e abriu a porta. @iel aos instintos
da sua raça, a cadela precipitou-se para fora latindo e os ratos desapareceram.
"o meio-dia vieram outros ratos, perto da casa, nas ruas e nos !ardins.
*a man%ã seguinte foi uma invasão. 3avia ratos em todas as partes. Eram ratos
comuns, nem menores nem maiores que antes, nem mais magros nem mais gordos.
Ds% lembrou-se da invasão das formigas e estremeceu. Aecidiu empreender uma
pesquisa científica9 o mel%or remédio para vencer aquele %orror era estudá-lo.
:ercorreram a cidade de carro, esmagando aqui e ali algum rato que caía sob as
rodas. *a primeira ve# o %orrível ruído os estremeceu, mas o incidente se repetiu
tantas ve#es que logo se acostumaram. &s ratos ocupavam quase toda a cidade,
mas c%egavam também ao campo e %aviam conquistado mais terreno que as formi-
gas. " situação era clara. Ds% lembrava das estatísticas onde se afirmava que o nú-
mero de ratos em uma cidade é aproimadamente igual ao número de %abitantes.
- Nuantos ratos %averá na cidade$
- *ão posso calcular agora, mas tentarei mais tarde.
M noite, em casa, embarcou no problema. " enciclopédia do seu pai l%e informou
que os ratos davam ( lu# uma nin%ada de de# fil%otes, quase todos os meses. "os
dois meses de reprodução, %averia na cidade de# mil%;es de ratos. &s fil%otes f)me-
as, por sua ve#, eram fecundadas na idade de dois meses. -im, a média de mortali -
dade era sem dúvida bastante elevada, e Ds% não pJde determinar quantos ratos
c%egariam ( idade adulta. 0as de qualquer forma o crescimento era prodigioso. ,e-
nunciou a continuar calculando.
0esmo admitindo que o número de ratos s' se duplicara a cada m)s - apreciação
ridiculamente moderada, - !á eistiria uns cinquenta mil%;es de ratos. -e o número
triplicasse, !á teriam c%egado a um bil%ão.
E por que, se perguntou Ds%, dispondo de quantidades quase ilimitadas de comida,
não se quadruplicariam todos os meses$ "ntes, o %omem, único inimigo dos ratos da
cidade, %avia lutado constantemente para impedir sua multiplicação.
Aesaparecido o %omem, s' restariam como adversário alguns cães caçadores de
ratos e os gatos. 0as as circunstFncias os favoreciam. &s cães, %avia notado Ds%,
lançavam-se so#in%os ao combate sem a a!uda dos gatos. E sem tin%am matado os
gatos antes de se dedicarem aos ratos, eliminando assim o mais efica# meio de des-
truição. E os pr'prios cães por fim tin%am caído sob essa maré. *ão eram mais vis-
tos. &s ratos não podiam t)-los matado, embora que com aqueles dentes pontiagu-
dos teriam dado conta, talve#, de muitos fil%otes. :rovavelmente os cães %aviam ba-
tido em retirada, aterrori#ados pelo número de roedores, refugiando-se nos arredo-
res da cidade.
/m bil%ão de ratos ou cinquenta mil%;es, que importava$ & certo era que %avia
demais e Ds% e Em sentiam-se sitiados. 1igiavam cuidadosamente as portas.
/m rato, vindo não se sabe de onde, apareceu na co#in%a e %ouve uma persegui -
ção aloucada. Ds% pegou uma vassoura e esmagou-o contra o solo, mas não antes
que o rato subisse pela vassoura e deiasse no cabo a marca dos seus dentes.
Entretanto, alguns dias depois notou-se uma mudança no aspecto e atitude dos
roedores. "parentemente, os víveres, apesar da sua abundFncia, não conseguiam sa-
tisfa#er o apetite dos assaltantes. :areciam mais fracos e corriam febrilmente em
busca da alimento. :useram-se a escavar no !ardim. Aesenterraram antes de tudo os
bulbos das tulipas, que pareciam ac%ar particularmente saborosos. Aepois lançaram-
se sobre outras raí#es e bulbos. =%egaram a roer a casca dos troncos das árvores,
como se fossem coel%os.
Ds% aproimava o carro de casa e, protegido por suas altas botas, saía ou entrava
precipitadamente. 0as na realidade os ratos nunca tentaram atacá-lo. :rincesa ficava
em casa, embora tampouco tivessem tentado nada contra ela.
Ds% !á não se sobressaltava quando um surdo rangido l%e anunciava que as rodas
tin%am passado sobre um roedor. 2in%a a impressão de estar deiando para trás
uma longa fileira de ratos esmagados. /ma ve# ele viu um ob!eto branco estran%o no
Fngulo de dois muros. :arou o carro para ol%ar mais e perto e recon%eceu o crFnio
de um cão#in%o. &s dentes ainda longos e bril%antes eram de terrier. &s ratos %avi -
am encurralado o cac%orro, ou ele mesmo %avia se refugiado ali para se defender
mel%or. 2eriam ousado atacar um cão vigoroso e sadio$ 2alve# o terrier fosse vel%o,
ou estivesse doente, ou tin%a sofrido algum acidente. Ae qualquer forma, os roedo-
res tin%am dado conta do caçador de ratos. -é restavam os ossos maiores9 os outros
tin%am sido roídos ou levados para algum esconderi!o. *os arredores, alguns crFnios
diminutos indicavam que o animal tin%a vendido caro a sua vida. Ds% imaginou os
corpos cin#as rodeando o cão, incapa# de se livrar dos que l%e tin%am saltado em
cima. &utros ratos, entretanto, teriam cortado os tend;es, como os lobos que ata-
cam os bis;es vel%os. /ma dú#ia, uns cinquenta roedores %aviam caído na luta9 os
outros, enfurecidos pela fome, tin%am roído a pele e os músculos e o cão tin%a desis-
tido de se defender. Ds% afastou-se, pensativo e decidido a cuidar de :rincesa com
mais atenção.
Eembrou, esperançoso, que as formigas tin%am desaparecido quase em uma única
noite. "conteceria o mesmo a esses ratos, mas nada anunciava esse fim.
- &s ratos serão donos do mundo$ - perguntou-l%e Em. - &cuparão o lugar dos %o-
mens$
- *ão sei - respondeu Ds%, - mas ac%o que não. Eles contam com as reservas de ví -
veres da cidade e se reprodu#em muito rapidamente. 0as no campo terão que pro-
curar alimentos e serão perseguidos por raposas, serpentes e coru!as, que !á não são
mortos pelo %omem.
- *unca tin%a pensado nisso - disse Em. - Nuer di#er que os ratos são animais do-
mésticos porque os %omens l%es forneciam comida e matavam seus inimigos$
- *a realidade, parasitas do %omem, é o que me parece - disse Ds% e, então notan-
do que Em parecia interessada, acrescentou: - " prop'sito dos parasitas, eles não
faltam nos ratos. =omo as formigas. Nuando uma espécie cresce demais, sempre cai
sobre ela alguma peste... quer di#er... - de repente lembrou-se de algo. 2ossiu para
ocultar sua %esitação e terminou com um tom indiferente: - -im alguma peste cairá
sobre eles.
:arecia que Em não %avia notado nada.
- Então - disse, - s' nos resta cru#ar os braços e esperar o triunfo dos parasitas
dos ratos.
Ds% não l%e transmitiu sua inquietação. " peste de que tin%a lembrado era a peste
bubJnica tão comum entre os ratos. E a peste era transmitida pelas pulgas, pulgas
infectadas que trocavam facilmente os ratos mortos pelos %omens. " perspectiva de
viverem rodeados de mil%;es de ratos que podiam propagar a peste era %orrível e
podia enlouquecer qualquer um. Ds% ban%ou a casa com AA2 e até passou pelas rou-
pas dele e de Em.
*aturalmente, ela se surpreendeu, e ele confessou seus temores. Em não pareceu
impressionada. Era de uma coragem capa# de enfrentar provas ainda mais duras que
a peste9 e talve# também %ouvesse nela uma sombra da fatalismo. " prud)ncia di#ia
que deviam deiar a cidade e, em seguida, se instalarem em qualquer lugar - no de-
serto, por eemplo - onde os ratos não pudessem viver.
Entretanto ambos !á %aviam decidido que não poderiam viver uma vida baseada
no medo. 0as Em era mais valente que Ds%. &s ratos %orrori#avam tando Ds%, que (s
ve#es, dominado pelo pFnico, queria arrastar Em para o carro e fugir rapidamente.
*esse momentos, a energia de Em o sustentava.
Ds% eaminava atentamente os ratos todos os dias, procurando neles algum sinto-
ma da doença. 0as eles pareciam mais ativos que nunca.
/m dia logo cedo, Em o c%amou da !anela:
- &l%e, estão brigandoL
Ds% se aproimou sem muito interesse. :rovavelmente tratava-se de algum tipo de
!ogo amoroso. 0as não era assim.
/m rato grande %avia se lançado sobre outro menor. Este se defendia e aparava os
golpes com a energia do desespero. Ká ia entrar em um buraco, pequeno demais
para o outro, quando um terceiro rato, ainda maior, apareceu e imediatamente o ata-
cou. Aa garganta da vítima saiu um fio de sangue e o atacante o levou arrastado,
enquanto que o que tin%a começado a luta continuava por perto.
/sando botas e luvas e armado de um pau, Ds% saiu em busca de comestíveis. @i -
cou surpreso de encontrar poucos ratos nas lo!as, mas logo descobriu que não %avia
restado nada que os roedores pudessem levar ou comer. & c%ão estava semeado de
papeis, papel;es amassados e ecrementos. 2in%am até roído as etiquetas das latas
de conserva e (s ve#es era difícil saber o que elas contin%am. :or enquanto a fome
ameaçava mais aquelas %ordas do que a doença. Eevou as novas para Em.
*a man%ã seguinte, soltaram :rincesa para que ela desse seu passeio cotidiano.
"lguns minutos mais tarde, viram-na regressar precipitadamente, uivando, persegui-
da por uma vanguarda de ratos e !á com dois ou tr)s no lombo. "briram a porta e
tr)s ou quatro ratos aproveitaram para entrar. :rincesa se escondeu debaio do divã,
tremendo e gemendo.
"bandonados pelo principal protagonista do drama, Ds% e Em passaram um quarto
de %ora perseguindo os intrusos. Aepois eaminaram a casa toda, de cima a baio,
desta ve# a!udados por :rincesa que mal %avia saído do seu susto, para se assegura-
rem de que não %avia restado rato algum atrás dos armários ou da biblioteca. Aaí
em diante, não deiaram :rincesa sair e até l%e colocaram uma focin%eira, para o
caso em que adoecesse de %idrofobia.
0as !á não %avia dúvidas: os ratos devoravam-se entre si. Ms ve#es muitos uniam
suas forças contra um s'. :areciam menos numerosos, ainda que se escondessem
deles mesmos.
"pesar da decepção que ele não conseguia superar, a invasão ofereceu a Ds% um
interessante estudo de ecologia, quase um problema de laborat'rio. "s provis;es
que o %omem %avia acumulado %aviam se transformado em alimentos para ratos.
Então, ap's se esgotarem os cereais, os frutos secos e os sacos de fei!ão, ainda l%es
restava o recurso de se devorarem entre eles. E a espécie continuaria vivendo sem
que ninguém sofresse de fome.
- :rimeiro desaparecerão os vel%os, os doentes e os fracos - comentou Ds%. - Ae-
pois aqueles um pouco menos doentes, menos vel%os e menos fracos, e assim su-
cessivamente...
- E por fim - concluiu Em, que (s ve#es mostrava uma l'gica desconcertante, - não
restarão mais que dois grandes ratos para brigar, como os gatos de YilCenn8.
R
Ds% eplicou que, sem c%egar a esse caso etremo, os ratos, !á mais escassos, en-
contrariam outros meios de subsist)ncia.
Era indubitável que os ratos não destruíam a espécie em benefício de alguns indi-
víduos9 na realidade, salvavam a espécie. -e tivessem sido animais sentimentais, re-
signando-se a morrer de fome antes de devorar um compan%eiro, teriam corrido um
grande perigo. 0as eram realistas. E o futuro da espécie estava assegurado.
& número de ratos diminuía dia a dia. /ma man%ã, pareceu que não %avia restado
um s'. 0as Ds% sabia que ainda %avia muitos na cidade e que seu desaparecimento
era um fenJmeno comum. Em tempos normais, os ratos viviam escondidos e %abita-
vam preferencialmente os buracos e valetas cobertos de lio. -' quando se propaga-
ram demais e os vel%os refúgios foram insuficientes, é que saíram ( lu#.
:rovavelmente, pensou Ds%, alguma doença ten%a contribuído para seu desapare-
cimento. 0as era s' uma con!ectura. +raças ( sua ferocidade fratricida, os cadáveres
eram poucos numerosos. Ds% suspeitava que os ratos tin%am servido de túmulos vi-
vos para muitos seres %umanos vítimas da epidemia.
"ssombravase com a discrição dos guabirus. :rimeiro %aviam aparecido as formi-
gas, depois os ratos. Entre os dois, podiam ter se apresentado os guabirus. "s cir-
cunstFncias l%es favoreciam e eles se reprodu#iam mais rapidamente que os ratos.
Ds% nunca conseguiu se eplicar o fenJmeno e se contentou em felicitar-se
2anto Ds% como Em demoraram muito em se recobrarem daquele %orror. :or fim
decidiram que :rincesa não %avia contraído raiva. -oltaram-na e ele recuperou sua
normalidade. E esqueceram a contínua atividade daqueles corpos cin#entos.

"s fábulas nos indu#iram ao erro. & rei dos animais não era o leão e sim o %omem.
E seu reinado foi frequentemente cruel e tirFnico. 0as quando se ouviu o grito de G&
rei morreuH, ninguém respondeu: G1iva o reiLH
Em outros tempos, quando um monarca morria sem deiar %erdeiros, seus capi -
tães disputavam o trono. E se algum deles não superava os outros em força, o reino
5 &ontase que os %atos de 6il7enn8 lutaram furiosamente e se de$oraram até não so#rar mais que
as caudas. Essa hist2ria aparece em um conto de fadas do século 9:III. '(. de Espinhudo)
se desmembrava. E assim acontecia agora, pois a formiga, o rato, o cão e a abel%a
t)m intelig)ncia similar. Aurante um certo tempo %averá lutas, rápidos encontros,
bruscas quedas. Então a terra desfrutará de uma calma e uma pa# que não con%ece
%á vinte mil anos.
&utra ve# a cabeça de Em se apoiava na dobra do braço de Ds% e ele ol%ava terna-
mente seus ol%os negros.
- Bem - disse ela, - é %ora de voc) começar com esses livros de medicina.
Ds% não teve tempo de di#er uma palavra. Em estremeceu e começou a c%orar. Ele
nunca %avia imaginado que o medo pudesse dominá-la. -entiu então sua pr'pria fra-
que#a. Nue aconteceria se ela se acovardasse$
- Nuerida - disse Ds%. - 2alve# %a!a tempo de fa#er alguma coisa. :or que sofrer
essa prova$
- &%, não é isso, não é issoL - protestou Em, ainda estremecendo. - Eu l%e menti.
*ão com min%as palavras e sim com meu sil)ncio. 0as dá no mesmo. 1oc) é tão
bom... Ai# que eu ten%o mãos formosas, mas em sequer reparou na cor a#ul da lú-
nulas.
7
Ds% não conseguiu ocultar seu desconcerto. "gora tudo se eplicava: a te# morena,
a limpide# dos ol%os negros, a brancura dos dentes, a sonoridade da vo#, a fleibili-
dade do caráter.
- -im - sussurrou ela, - a princípio não parecia importante. 1oc) não é o primeiro
%omem que ama uma mestiça. 0as a raça da min%a mãe nunca teve muita sorte na
terra. *ão queria que as crianças que devem repovoar a terra levem essa maldição.
Embora eu sinta sobretudo por não sido leal com voc).
Ds% !á não a ouvia9 as conversas do mundo civili#ado agora pareciam uma farsa %i-
lária. *ão consegui se dominar e começou a rir. E então ela riu com ele, abra-
çando-o.
- Nuerida - disse Ds%, por fim, - 2udo acabou. *e. UorC é um deserto. Ká não %á
mais governo em <as%ington. -enadores, !uí#es e presidentes não são nada mais
que p'. &s que perseguiam os !udeus e os negros estarão apodrecendo com eles.
-omos somente dois pobres náufragos que vivem dos restos da civili#ação e que ig-
noram se não serão presas das formigas, dos ratos ou de outros animais. 2alve# den-
tro de mil anos as pessoas possam se dar ao luo de se preocupar e de se incomodar
outra ve# com essas coisas, mas eu duvido. :or enquanto somos somente n's dois,
ou talve# tr)s.
Ds% bei!ou Em, que continuava c%orando em sil)ncio. E compreendeu que pelo me-
nos desta ve# tin%a sido mais perspica# e mais forte que ela.
4 Lúnula é a ;meialua; com aspecto de crescente, de tom mais claro, que é totalmente $isí$el
nas unhas dos primeiros dedos 'contados a partir do pole%ar) e que está totalmente co#erta nas
unhas dos quintos dedos. A l<nula é descrita como um refle!o da queratinização parcial das
células nessa re%ião.
"
*o dia seguinte foi ( universidade e parou o carro em frente ( biblioteca. *ão ti-
n%a ido ali desde o +rande Aesastre. 2in%a se contentado com os livros da biblioteca
municipal. & edifício estava intacto. &s arbustos e árvores ao redor não %aviam cres-
cido apreciavelmente naqueles meses. &s canos de esgoto pareciam em perfeito es-
tado, pois não se via uma manc%a nos brancos muros de granito. 0as Ds% teve uma
impressão de su!eira, desordem e abandono.
*ão dese!ava abrir um buraco em um vidro, por onde entrariam os animais e a
c%uva. 0as teve que se resignar. Aeu leves marteladas e conseguiu abrir uma brec%a
pequena, o que l%e permitiu passar a mão e alcançar o trinco da !anela. 0ais tarde
taparia a abertura com madeira e o edifício ficaria novamente protegido dos ratos e
da c%uva.
-eu fil%o não seria educado como um parasita9 não viveria das ruínas de um mun-
do morto. *ão, não seria necessário. Estava tudo aqui. 2odo o saber %umano. 2in%a
vindo procurar alguns livros de obstetrícia, mas se contentou em eaminar algumas
estantes da grande sala de leitura. " obstetrícia podia esperar.
1oltou para casa como que %ipnoti#ado. &s livrosL 2odos os con%ecimentos científi-
cos estavam nesses livros. 0as os livros não bastavam. "ntes de tudo, precisavam de
%omens capa#es de l)-los e de utili#á-los. E era necessário também salvar outras coi-
sas, as sementes, por eemplo. Ds% prometeu vigiar a preservação das principais
plantas do país.
=ompreendeu de imediado que a civili#ação não dependia somente do %omem, e
sim de todos os parentes, amigos e compan%eiros que o acompan%avam. =omo -ão
@rancisco, que %avia saudado o sol como um irmão, por que não diria ele: G&%, meu
irmão trigoH, G&%, min%a irmã aveiaH$ Ds% sorriu. -im, essa ladain%a podia prolongar-
se indefinidamente. G&%, min%a av' roda9 o%, primo compasso9 o%, amigo teorema
de *e.tonH. 2odas as descobertas da ci)ncia e da filosofia podiam ser personificadas
e transformadas em aliadas do %omem, embora essas evocaç;es fossem um pouco
ridículas.
:isou fundo no acelerador, animado por um entusiasmo !uvenil9 queria comunicar
logo seus pensamentos a Em.
Em estava tentando, sem muito )ito, que :rincesa aprendesse a pegar um ob!eto.
- " civili#açãoL - disse Em. - &%, os avi;es que voam mais e mais alto e rapidamen-
te.
- -im, mas também a arte, a música, a literatura, a cultura.
- "% sim. "s novelas policiais e essas orquestras de !a## que ferem meus ouvidos.
Ela, indubitavelmente, estava brincando, mas Ds% sentia-se um pouco decepciona-
do.
- @alando em civili#ação - disse Em, - estamos perdendo a conta do tempo. Ká não
sabemos em que m)s estamos. -eria necessário fiar as datas, senão não podere-
mos feste!ar o aniversário do menino
Eis aqui a diferença, pensou Ds%. " diferença entre o %omem e a mul%er. :ara Em
s' interessa o imediato. & futuro da civili#ação l%e parede menos importante que
uma data de nascimento. -entiu-se outra ve# muito superior a ela.
- *ão li um único livro de obstetrícia - disse. - Aesculpe, mas não %á pressa, não é
mesmo$
- &%, não. E talve# se!a inútil. *os vel%os tempo, lembra$, %avia nascimentos nos
táis e nos elevadores. Nuando eles querem sair, nada os det)m.
0ais tarde, teve que confessar que a sugestão de Em tin%a sua importFncia. -im,
era indispensável medir a passagem do tempo. "final, o tempo, a %ist'ria, a tradição
e a civili#ação eram uma coisa s'. :erder a continuidade do tempo era perder algo
insubstituível. 2alve# !á se tivesse perdido, se outros sobreviventes não tin%am sido
mais cuidadosos. &s sete dias da semana, com seu dia de descanso, eram uma valio-
sa tradição. Eistia %á pelo menos cinco mil anos. E ninguém sabia se não remontava
a épocas anteriores. :oderia situar alguma ve#, eatamente, o domingo$
"c%ar o primeiro dia do ano não seria difícil. =on%ecia bastante de astronomia. E
se descobrisse o dia do solstício e o relacionasse com o calendário do ano anterior,
talve# c%egasse a estabelecer a data e o dia da semana.
Ká era tempo de envolver-se no problema. Ae acordo com as condiç;es atmosféri-
cas e o tempo que %avia passado desde a catástrofe, imaginava que estariam em
meados de de#embro. &bservando os poentes, poderia descobrir o dia do solstício.
*o dia seguinte procurou um círculo meridiano e, embora não soubesse muito bem
como empregá-lo, instalou-o na varanda da casa, a oeste. &bscureceu as lentes com
fuligem, para proteger os ol%os da lu#, e suas primeiras observaç;es l%e mostraram
que o sol desaparecia por trás das montan%as de -an @rancisco, ao sul da +olden
+ate. -egundo lembrava, o etremo 0eridional do trFnsito não estava muito distan-
te. Dmobili#ou o círculo meridiano e anotou o Fngulo do poente.
*a man%a seguinte, o sol declinou um pouco mais ao sul. Eogo seu sistema, como
acontece com todos os sistemas, se fe# em pedaços. /ma violenta tempestade veio
do oceano e Ds% teve que interromper suas observaç;es por toda uma semana.
Nuando o céu clareou, o sol !á se pun%a ao norte.
- Bem - declarou Ds%, - o erro não pode ser muito grande. -e acrescentarmos um
dia ( última %ora do poente, estaremos muito perto do solstício. E se acrescentarmos
de# dias, teremos entrado no ano novo.
- Dsso não é meio idiota$ - perguntou Em.
- :or que$
- & ano não deveria começar quando o sol se dirige outra ve# para o norte$ *ão se
pensou nisso no começo e logo %ouve uma confusão e se perderam de# dias$
- -im, ac%o que aconteceu algo parecido.
- :ois bem, por que não fa#er coincidir nosso ano novo com esse, como voc) c%a-
ma, solstício$ -eria mais simples.
- -im, mas ninguém pode tomar liberdades com o calendário. W muito antigo. *ão
vamos mudá-lo agora.
- Ele não foi mudado por um tal de Kúlio$ 3ouve algumas dificuldades, eu me lem-
bro, mas as mudanças foram feitas.
- -im, tem ra#ão. :oderíamos reformá-lo se quiséssemos. 0e sinto realmente um
%omem importante.
Então, deiando que a imaginação corresse, decidiram que na colina onde viviam
%avia todo um calendário. &s meses, as semanas e os dias não tin%am muita impor-
tFncia, pois o sol descrevia seu arco diante deles. :ara datar os acontecimentos, s'
tin%am que observar se o sol se pun%a no meio da +olden +ate, se alcançava a pri -
meira torre do norte, ou os outros pontos da montan%a. :ara que dividir o tempo em
meses$
- Espere - disse Em de repente. - & *atal não pode estar muito longe. *ão tin%a
pensado nisso. "c%a que pode ir ( cidade antes que fec%em as lo!as e comprar uma
gravata$
Ds% ol%ou-a, sorrindo.
- Este natal deveria ser bastante lúgubre, mas mesmo assim estou contente.
- *o pr'imo ano será mel%or - disse Em. - *'s l%e presentearemos com o primei -
ro rebento.
- -im, e um c%ocal%o, não ac%a$ 0as será mais bonito quando tiver um trem elé-
trico, que eu farei funcionar. *ão, pobre#in%o, não %averá trens elétricos para ele.
Embora nossos netos possam desfrutar outra ve# da eletricidade dentro de vinte e
cinco anos.
- 1inte e cinco anosL *esse tempo !á serei uma vel%a. Eu penso agora no futuro,
mais que no passado. 3á pouco tempo estava obsessionada com o passado. 0as
agora... E os anos$ 2eremos que assinalar os anos. &s náufragos nas il%as desertas
fa#em marcas nas cascas das árvores, não é assim$ & menino vai querer saber em
que dia nasceu. Dsto l%e servirá para votar ou para tirar um passaporte. Embora tal -
ve# voc) não queira estabelecer essas formalidades. Em que anos estamos realmen-
te$
W uma coisa bem feminina, pensou Ds%, subordinar ideias tão importantes ao futu-
ro de uma criança que ainda não nasceu. Entretanto, como sempre, ou quase sem-
pre, o instinto de Em era infalível. -eria uma pena que o fio da %ist'ria se rompesse.
-em dúvida, os arque'logos poderiam retomá-lo alguma ve#, mas se poderia evitar a
partir de agora esse trabal%o.
- 2em ra#ão - disse. - :or outro lado, é muito simples, sabermos em que ano esta-
mos. E quando tivermos decidido que começou outro, gravaremos a data na roc%a.
- *ão é meio bobo começar por um ano de quatro algarismos$ :ara mim, este ano
será o ano um.
*aquela tarde parou de c%over. "s nuvens ainda estavam muito baias, mas o ar
estava claro e límpido. 2eriam podido ver as lu#es de -an @rancisco, se elas estives-
sem acesas. Ds%, de pé na varanda, ol%ava para o escuro oeste e aspirava profunda-
mente o ar fresco e úmido. "inda sentia aquela ealtação.
2erminamos com o passado, disse a si mesmo. Estes últimos meses, este resto de
ano, são somente passado. W a %ora #ero e estamos entre duas eras. =omeça uma
nova vida. =omeça o ano um. & ano umL
"gora, diante dele, na escuridão, !á não se estendia um mundo deserto e em per-
pétua mudança. &s pr'imos anos assistiriam ( luta de uma sociedade que renascia
das cin#as e que se pun%a outra ve# a camin%o. E ele, Ds%, não seria o único espec-
tador, ou não seria somente isto. -abia ler e !á tin%a bastantes con%ecimentos.
"crescentaria outros, técnicos, psicol'gicos, políticos, caso fosse necessário.
&utros sobreviventes se uniriam a ele, %omens de valor que colaborariam na cria-
ção do novo mundo. :rometeu-se procurá-los. :rocuraria com cuidado, descartando
todos os desequilibrados e doentes.
0as lá no fundo do seu ser ainda espreitava um profundo terror. Em podia morrer9
e o espírito do futuro desapareceria com ela. 0as esse terror não era real. & coração
de Em era uma c%ama muito clara. Em era a pr'pria vida. Era impossível associá-la (
ideia da morte. Era a lu# do futuro e seus fil%os participariam dessa gl'ria.
&%, mãe das naç;es. 2eus fil%os te abençoarão.
Ele, se estivesse so#in%o, teria continuado vivendo, sentindo que a morte de acer-
cava furtivamente, como a escuridão que uma ve#, ao desaparecerem as lu#es, o %a-
via assaltado de todos os lugares. 0as Em, com seu esforço, rec%açava a morte. E a
vida !á renascia em seu seio. *aquela claridade não %avia temores.
Era esquisito, e ainda assim l'gico, que o pensamento de um menino mudasse as-
sim todas as coisas. Ds% tin%a con%ecido o desespero e agora o iluminava a esperan-
ça. Dmaginou o dia em que o sol se poria outra ve# no etremo meridional do seu
arco9 e os dois - ou os tr)s - iriam esculpir em uma roc%a o número que comemora-
ria o fim do ano /m. *em tudo %avia terminado. " c%ama da vida continuaria acesa.
&%, mundo sem fim, pensou. E, com os ol%os fios no etremo oriental da cidade
deserta, aspirou em golfadas o ar fresco e úmido e escutou as palavras que canta-
vam em seu interior. &%, mundo sem fim. 0undo sem fimL
"nos fugidios.
*ão longe de -an Eupo tin%a %avido um !ardim público. "lgumas grandes roc%as
compun%am um pitoresco cenário. Auas delas, unidas pelo topo, formavam uma gru-
ta estreita e alta. /ma superfície roc%osa, lisa e espaçosa como o c%ão de uma pe-
quena %abitação e onde uma pessoa podia se sentar comodamente, cobria o alto da
colina. Em outros tempos, muito antes do que c%amavam agora os vel%os dias, ali
%avia %abitado uma tribo. E na superfície roc%osa ainda se viam alguns buracos onde
os índios maceravam grãos com pedras.
"s estação tin%am completado seu ciclo. E o sol, pela segunda ve#, declinava ao
sul da +olden +ate quando um dia Ds% e Em subiram pela colina até as roc%as. Era
uma serena e ensolarada tarde de inverno. Em levava o beb) envolto em uma manta
macia. Embora !á estivesse grávida outra ve#, conservava sua leve#a de movimentos.
Ds% carregava um martelo e um cin#el. :rincesa tin%a ido com eles, mas, como de
costume, tin%a desaparecido atrás de alguns dos seus coel%os.
Nuando c%egaram nas roc%as, Em se sentou ao sol para alimentar o beb) e Ds%
golpeou com o martelo e o cin#el na lisa superfície. " roc%a era dura, mas logo con-
seguiu traçar uma lin%a reta. 0as seria divertido adorná-la um pouco. E a comemora-
ção do primeiro circuito do sol, do sul ao sul, bem que merecia alguma cerimJnia.
"crescentou então um traço na base da lin%a reta e um ganc%o na cabeça. E a figura
ficou parecida assim a um GDH dos vel%os tempos da imprensa.
2erminada sua obra, Ds% sentou-se ao sol !unto a Em. & beb) satisfeito sorria feli#.
Brincaram com ele.
- Bem, passou-se o ano um - disse Ds%.
- -im - respondeu Em, - mas eu o c%amaria de o ano do beb). " mem'ria recorda
mel%or os nomes que os números. "ssim, desde o princípio, (s ve#es c%amavam um
ano, não com um número, e sim por algum acontecimento.
*a primavera do segundo ano, Ds% semeou sua primeira %orta. *unca tin%a gosta-
do de %orticultura, e talve# por isso, apesar dos seus bons prop'sitos e de duas ten-
tativas pouco entusiastas, não conseguiu nada no primeiro ano. *ão obstante, ao re-
volver com sua enada o solo úmido e negro, sentiu que o contato com a terra o sa-
tisfa#ia de algum modo.
:or outro lado, esta foi a única alegria que l%e deu sua %orta. "lgumas sementes -
era muito difícil encontrá-las por causa das depredaç;es dos ratos - eram vel%as e
não germinavam. Eogo apareceram os carac'is e as lesmas. /ma caia de veneno os
eliminou rapidamente. 0as quando as alfaces começaram a brotar, uma cabra saltou
a cerca e s' deiou umas poucas fol%as. Ds% reforçou a cerca. Então apareceram os
coel%os com suas galerias subterrFneas. 0ais destroços e mais trabal%o. /ma tarde
Ds% ouviu um barul%o e c%egou !ustamente a tempo de afugentar uma vaca que ten-
tava derrubar a paliçada.
M noite, Ds% despertava com pesadelos de corvos vora#es, coel%os e vacas que
rondavam a %orta e ol%avam os legumes com ol%os bril%antes como ol%os de tigre.
Em !un%o c%egou a ve# dos insetos. Borrifou os legumes com inseticidas, até que
se perguntou se se atreveria a com)-los depois, quando amadurecessem.
&s corvos foram os últimos a encontrar a %orta, em !ul%o, embora compensassem
o atraso com o número. Ds% matou alguns, mas parecia que eles colocavam sentine-
las: quando ele l%es dava as costas, caíam sobre as plantas. Ds% não podia vigiá-los o
dia todo. &s espantal%os e os espel%os os afastaram por algumas %oras, mas os cor-
vos logo perderam o medo.
:or fim, Ds% decidiu proteger os legumes com telas de arame e col%eu um pé de
alface e algumas cebolas e tomates raquíticos. Aeiou amarelar algumas plantas e
guardou as sementes para o futuro.
-eu labor de %orticultor amador o tin%a desencora!ado profundamente. =ultivar le-
gumes quando outros mil%ares de cidadãos fa#em o mesmo, é relativamente fácil9
mas isto não acontece quando a sua %orta é a única em muitos quilJmetros ao redor
e todos os vegetarianos do mundo animal, mamíferos, pássaros, moluscos e insetos
c%egam a galope, voando, raste!ando ou saltando, e aparentemente c%amando seus
compan%eiros com o grito universal de: G1amos comerLH
Eá para o fim do verão nasceu o segundo fil%o. =omo %aviam c%amado Ko%n ao
primeiro, c%amaram-na 0ar8, para que os vel%os nomes não desaparecessem da
face da terra.
" recém-c%egada tin%a somente algumas semanas quando se produ#iu outro
acontecimento memorável.
*o curso desses primeiros anos, Ds% e Em, que levavam uma vida doméstica e fe-
li#, %aviam recebido de ve# em quando a visita de algum forasteiro que passava de
autom'vel e via a fumaça de -an Eupo. Esses sobreviventes, com uma única ece-
ção, pareciam ainda sofrer a comoção da catástrofe. :areciam abel%as que tivessem
se perdido da colmeia, cordeiros sem reban%o. -em dúvida, pensou Ds%, os poucos
que tin%am conseguido se adaptar tin%am se fiado em algum lugar. :or outro lado,
%omem ou mul%er, a presença de um terceiro era sempre incJmoda. Ds% e Em se ale-
gravam quando o intruso decidia seguir seu camin%o.
" eceção foi E#ra. Ds% nunca esqueceu o quente dia de setembro em que E#ra
apareceu rua acima. & rosto rubicundo, a cabeça um pouco calva, mais vermel%a
ainda, o queio pontiagudo. Ele viu Ds% e de imediato e sorriu, descobrindo os dentes
cariados.
- Bom dia, amigoL - gritou, com um traço de acento ingl)s.
@icou até depois das primeiras c%uvas. -empre estava de bom %umor, mesmo
quando seus dentes o torturavam, e possuía o dom inestimável de fa#er as pessoas
sentirem-se cJmodas. &s meninos sempre tin%am um sorriso para E#ra.
Ds% e Em teriam gostado de ret)-lo, mas temiam a vida em triFngulo, mesmo com
alguém tão discreto como E#ra.
/m dia em que a vida sedentária parecia pesar-l%e, despac%aram-no entre brinca-
deiras, di#endo-l%e que procurasse uma garota bonita e viesse viver perto deles. -ua
partida deiou um grande va#io na casa.
& sol !á se dirigia para o sul. E quando foram gravar o número > na roc%a, ainda
lembravam de E#ra, embora ele tivesse ido sem esperanças de regressar. Ele era,
ac%avam, um amigo sempre disposto a a!udar, um bom compan%eiro. Em sua mem'-
ria, o ano se c%amou ano de E#ra.
& ano R foi o ano dos inc)ndios. Em pleno verão, a fumaça escondeu o céu, mais
ou menos espesso, e não se dissipou durante tr)s longos meses. &s meninos (s ve-
#es despertavam com ataques de tosse e com o ol%os irritados e lacrime!antes.
Ds% imaginou facilmente o que estava acontecendo. Ká não %avia naquele lugar os
vastos bosques de árvores gigantescas que o fogo mal podia atingir. *as regi;es das
florestas, eploradas e saqueadas pelo %omem, abundava sobretudo a vegetação se-
cundária, espessa e muito inflamável, e montes de ramos deiados pelos len%adores.
Essas florestas eram uma criação do %omem, precisavam dele, e s' tin%am sobrevivi-
do merc) da sua vigilFncia. "gora as mangueiras estavam enroladas e se oidavam
nos dep'sitos. & verão estava particularmente seco. Em todo o norte da =alif'rnia, e
sem dúvida também no &regon e em <as%ington, os inc)ndios provocados por raios
se propagavam rapidamente, transformando em brasas os troncos mortos.
Aurante toda uma %orrível semana, Ds% e Em, consternados, viram ( noite, ao nor-
te do golfo, c%amas altas e vivas que devastavam os flancos da montan%a e que s'
se apagavam quando não tin%am mais o que devorar.
:or sorte um braço de mar os separava das montan%as do norte e no sul não %ou-
ve tempestades elétricas. @inalmente tudo passou. E Ds% ac%ou que os danos alcan-
çariam a maioria dos bosques da =alif'rnia. :assariam-se séculos antes que reco-
brassem seu perdido esplendor.
*aquele ano %ouve um novo sintoma de adaptação: Ds% retomou o %ábito da leitu-
ra. :or enquanto a biblioteca municipal l%e bastava9 guardava na reserva, para mais
tarde, o mil%ão de volumes da universidade. 2alve# fosse mais útil aumentar seus co-
n%ecimentos de medicina, agricultura e mecFnica, mas somente a %ist'ria da %uma-
nidade o atraía. Aevorou inúmeras obras de antropologia e de %ist'ria. Então passou
( filosofia, especialmente a filosofia da %ist'ria. 0as leu também novelas, poemas e
obras de teatro que, de um modo ou de outro, l%e revelavam os mistérios da alma
%umana.
Eia ( noite. Em bordava9 &s meninos dormiam em quarto do primeiro andar9 :rin-
cesa se espreguiçava diante de fogo. Ae ve# em quando Ds% levantava a cabeça e
lembrava que seus pais tin%am passado muitas noites assim. Aepois pousava os
ol%os na lamparina a 'leo e levantava-os para ol%ar as outras lFmpadas apagadas.
& ano 7 foi o ano da c%egada... Em um formoso dia de primavera, perto do meio-
dia, :rincesa correu para a rua latindo com todas suas forças e uma bu#ina lançou
uma sonora c%amada. E#ra %avia partido %á mais de um ano e !á ninguém pensava
nele. 0as ali estava ele... em um autom'vel descon!untado, c%eio e bagagens e
utensílios domésticos.
Ds% não pJde deiar de se lembrar naqueles camin%;es que na época da col%eita
de frutas c%egavam ( =alif'rnia em outros tempos.
Aepois de E#ra, desceram do carro uma mul%er de uns trinta e cinco anos, outra
mais !ovem, uma garotin%a assustada e uma menino. E#ra apresentou as duas mu-
l%eres: a mais vel%a se c%amava 0oll89 a segunda, Kean. E depois de cada nome, ele
acrescentou, naturalmente e sem nen%um embaraço: Gmin%a mul%erH.
"quela confissão de bigamia impressionou muito Ds%. Ele !á tin%a tido muitas epe-
ri)ncias e não ignorava que no passado a pluralidade de mul%eres tin%a sido comum
em muitas grandes civili#aç;es. " mesma coisa podia ocorrer no futuro. -em dúvida
era a mel%or solução em uma sociedade destruída onde %avia duas mul%eres e so-
mente um %omem. :or outro lado, E#ra era capa# de sair-se muito bem nas situa-
ç;es mais embaraçosas.
& garoto, ,alp%, era fil%o de 0oll8. 2in%a nascido algumas semanas antes do +ran-
de Aesastre e o leite da sua mãe ou a a %erança genética o tin%am imuni#ado. Ds%
nunca tin%a visto antes, entre os sobreviventes, dois membros de uma mesma famí-
lia. Nuanto ( menina, c%amavam-na Evie, mas ninguém sabia seu verdadeiro nome.
E#ra a %avia encontrado so#in%a e su!a9 se alimentava de conservas, de carac'is e
até de min%ocas. Aevia ter cinco ou seis anos na época do +rande Aesastre. *in-
guém poderia di#er se ela era idiota de nascença ou se o %orror e a solidão %aviam
alterado sua mente. 2remia e gemia quase sem cessar, e somente E#ra conseguia ar-
rancar-l%e algum sorriso de ve# em quando. Balbuciava algumas poucas palavras.
"p's algum tempo, tranquili#ada pela bondade dos seus novos compan%eiros, come-
çou a falar um pouco mais9 mas nunca se desenvolveu normalmente.
*o mesmo ano, mais para diante, Ds% e E#ra fi#eram uma viagem na vel%a camio-
nete de Ds%. *ão foi uma viagem de la#er9 tiveram muitas dificuldades com os pneus
e com o motor e os camin%os estavam em mau estado. 0as pelo menos cumpriram
a missão a que tin%am se proposto.
Encontraram +eorge e 0aurine, casal que E#ra %avia descoberto quando vagava
pelo mundo. +eorge era alto, de movimentos lentos, grisal%o, e estava sempre de
bom %umor. *ão tin%a a palavra fácil, mas era %ábil em seu ofício, a carpintaria. Nue
pena, pensou Ds%, um mecFnico ou um fa#endeiro nos teria sido mais útil. 0aurine,
por volta dos quarenta anos de idade e de# anos mais !ovem, era sua c'pia. "s tare-
fas domésticas a entusiasmavam tanto como a +eorge a carpintaria. +eorge tin%a
um intelig)ncia pouco bril%ante e 0aurine era totalmente estúpida.
Ds% e E#ra discutiram em particular o caso de +eorge e 0aurine e concluíram que o
casal, gente de boa vontade, era aceitável. Ds% pensou, sorrindo, que era como admi-
tir um novo s'cio em um clube, mas os candidatos eram escassos e não se podia ser
eigente demais. Eevaram +eorge e 0aurine para -an Eupo.
Ds% e 0aurine descobriram que tin%a l%es acontecido algo parecido. Nuando 0auri-
ne era menina, e vivia na AaCota do -ul, tin%a sido mordida por uma cascavel.
*o fim do ano, Em deu ( lu# outro fil%o a quem c%amaram ,oger. &s %abitantes
de -an Eupo agora eram sete adultos e quatro meninos, sem contar Evie. *esse tem-
po, a modo de brincadeira, começaram a c%amar a si mesmos de " 2ribo.
& ano X não troue nen%um acontecimento etraordinário. 0oll8 e Kean tiveram
cada uma um fil%o. E#ra, duas ve#es pai, estava muito contente. Esse ano foi bati#a-
do como o ano dos touros. =om efeito, os bovinos se multiplicaram, como as formi-
gas e os ratos anteriormente.
:oucas ve#es se via um cavalo e raramente um carneiro. 0as nas ainda intactas
pradarias, o número de cabeças de gado vacum alcançou proporç;es catastr'ficas.
&s membros da 2ribo podiam comer carne ( vontade, embora algumas ve#es dura
como sola.
0as quando alguém saía a passeio, corria o perigo de encontrar-se cara a cara
com um touro furioso. /m tiro de rev'lver podia resolver o problema, mas logo de-
pois tin%am que arrastar o cadáver para longe das casas, ou então aguentar o fedor.
2odos ficaram especialistas na arte de se esquivar dos c%ifres pontiagudos. @inalmen-
te isso se transformou em um esporte a que c%amaram Go !ogo das touradasH.
& ano P foi memorável. *o curso dos do#e meses, as quatro mul%eres deram (
lu#. "té 0aurine, que parecia ser muito vel%a para isto. Em %avia predicado com o
eemplo e agora ter fil%os era uma %onra. 2odos os membros da 2ribo tin%am vivido
so#in%os por algum tempo e tin%am con%ecido o que c%amavam a +rande -olidão. "
recordação daquelas %oras de %orror ainda não %avia se apagado. 0esmo agora, a
2ribo não era mais que uma pequena c%ama ameaçada pelas trevas. =ada nova cri -
ança parecia reanimar aquela claridade %esitante e reafirmar a esperança de vencer
a escuridão e a morte. "o terminar o ano, o número de crianças elevava-se a de# e
!á superava o dos adultos. -em contar Evie, que não participava de grupo algum.
0as também foi um ano memorável por outras ra#;es. 3ouve uma grande seca e
poucos pastos, e os fracos bovinos, numerosos demais, iam de um lado para outro
em busca de comida. Enlouquecidos pela fome, uma certa noite eles botaram abaio
a cerca da %orta. & ruído despertou os %omens, que descarregaram seus fu#is quase
( queima-roupa contra os assustados animais. 0as a %orta ficou arrasada e, amarga
ironia, sem que um s' animal satisfi#esse sua fome.
Então apareceram os gafan%otos. /m dia eles caíram do céu e devoraram tudo o
que %avia escapado do gado. =omeram as fol%as das árvores e as frutas, até que
apenas os caroços ficaram dependurados nos ramos desnudos das árvores. :ouco
depois os gafan%otos morreram e um c%eiro nauseabundo empestou a atmosfera.
E centenas de cadáveres das vacas cobriam os leitos secos dos rios e pFntanos. &
fedor se fe# insuportável. E a terra estava tão escura e desnuda, que parecia que não
se recuperaria.
" colJnia estava %orrori#ada. Ds% tentava eplicar aos seus compan%eiros que eram
calamidades naturais naquele período de transição. Em condiç;es atmosféricas ade-
quadas, a invasão dos gafan%otos, por eemplo, era inevitável, pois os insetos proli -
feravam nos campos onde ninguém os perseguia. 0as a fetide# e o aspecto desolado
da terra os fa#ia surdos a todas as eplicaç;es. +eorge e 0aurine buscaram consolo
nas re#as. Kean ridiculari#ou-os abertamente e declarou que os incidentes dos últi-
mos anos não levavam a confiar em Aeus. 0oll8, presa de uma verdadeira neuraste-
nia, tin%a crises de c%oro. "pesar da l'gica dos seus ra#oamentos, Ds% desesperava
pelo futuro. -omente E#ra e Em pareciam estar resignados.
&s meninos mais vel%os se mostravam pouco afetados. Bebiam com entusiasmo
seu leite condensado e o fedor da decomposição não parecia tirar-l%es o apetite.
Ko%n - a quem c%amavam KacC, - de mãos dadas com seu pai, ol%ava distraidamente
para um vaca que agoni#ava ao sol. & espetáculo l%e parecia natural.
0as as crianças de peito, salvo o último beb) de Em, pareciam absorver a angústi -
as das suas mães !unto como leite. -e agitavam e c%oramingavam e as mães se in-
quietavam ainda mais. Era um círculo vicioso.
&utubro foi um longo pesadelo.
E então aconteceu um milagre: duas semanas depois das primeiras c%uvas, um ta-
pete verde cobriu as colinas. ,enasceu a felicidade. 0oll8 e 0aurine c%oraram de ale-
gria. & pr'prio Ds% sentiu-se aliviado, pois o desespero dos outros %avia feito camba-
lear sua confiança no poder de recuperação da terra. "té %avia se perguntado se to-
das as sementes não teriam morrido.
Nuando c%egou o solstício de inverno, todos se reuniram outra ve# ao pé das ro-
c%as para gravar um número e bati#ar o ano. 3esitaram por alguns instantes. -e qui -
sessem guardar uma boa recordação, podiam c%amá-lo de o ano das quatro crian-
ças. 0as era também o das vacas morta e dos gafan%otos. "final tin%a sido um ano
de desgraças, por isso foi c%amado simplesmente de o ano ruim.
& ano ? não foi mel%or. Ae repente os pumas invadiram toda a região. *ão se po-
dia sair sem um fu#il e um cão que dava o alarme e não se afastava dos pés do
dono. &s pumas não se atreveriam a atacar o %omem, mas mataram quatro cac%or-
ros. E ninguém podia saber se alguma fera não l%e cairia em cima pulando do ramo
de uma árvore. "s crianças ficaram encerradas nas casas. Ds% adivin%ava facilmente
as causas da invasão: o ano dos touros %avia sido um ano bom para os pumas e eles
%aviam se multiplicado. " seca tin%a di#imado então os reban%os e as feras carnívo-
ras desceram das montan%as.
/m dia aconteceu o acidente que todos temiam. Ds% apontou mal para um puma
com o fu#il e s' roçou o ombro do bic%o. & animal, furioso, saltou sobre ele e feriu-o
seriamente antes que E#ra pudesse intervir. Ds% coeou um pouco desde então, e não
podia ficar sentado por muito tempo na mesma posição. -e cansava muito ao dirigir
o carro, mas nesse tempo as rodovias !á estavam muito estropiadas, os carros se
quebravam facilmente e não %avia muitos lugares aonde ir. "quele ano foi bati#ado
como o ano dos pumas.
& ano Z foi relativamente tranquilo. @oi c%amado de o ano da visita ( igre!a. &
nome divertia Ds%, pois implicava que a eperi)ncia %avia começado e terminado ao
mesmo tempo.
"queles sete americanos pertenciam a cultos muito distintos e não %avia entre eles
nen%um crente fervoroso. Ds% tin%a estudado catecismo durante sua infFncia, mas
quando 0aurine l%e perguntou a que religião pertencia, disse que era cético. Ela, que
nunca tin%a ouvido a palavra, não a entendeu, e desde então c%amou Ds% de mem-
bro da igre!a cética.
Nuanto a 0aurine, ela era cat'lica, como 0oll8. "s duas mul%eres se persignavam
de ve# em quando, ou re#avam uma "ve 0aria, mas não podiam se confessar nem
assistir missa. "parentemente, pensava Ds%, a igre!a cat'lica não %avia previsto que
um dia não %averia ninguém no trono de -ão :edro e que os fiéis seriam somente
ovel%as sem pastor.
+eorge era metodista e diácono, mas carecia de eloqu)ncia e era incapa# de orga-
ni#ar uma congregação. -uas convicç;es, portanto, não eram muito profundas.
Kean tin%a sido membro de uma vociferante seita moderna, os @il%os de =risto.
0as no momento do +rande Aesastre as oraç;es dos fieis %aviam ficado sem respos-
ta e ela %avia perdido a fé.
Em, que nunca recordava o passado, era reticente. :ara Ds%, parecia que ela não
re#ava nunca. 0as de ve# em quando, e aparentemente sem entusiasmo religioso,
entoava alguns cFnticos espirituais com sua linda vo# de contralto.
+eorge e 0aurine, esquecendo a longa inimi#ade das suas igre!as, foram os pri -
meiros a falar em ofícios religiosos, Gpor causa das criançasH. Então apelaram para
Ds%, que era uma espécie de c%efe, sobretudo nas quest;es intelectuais. 0aurine,
demonstrando um amplo critério, declarou que não se oporia a que os serviços fos-
sem celebrados G( maneira céticaH.
Ds% sentiu-se tentado. :ouco l%e custava fundar uma religião mesclando os rituais
de cultos diferentes. Aaria assim aos seus compan%eiros uma sensação de comodi -
dade e confiança, que na verdade necessitavam com frequ)ncia9 Kean se converte-
ria9 E#ra não faria ob!eç;es. 0as a mentira repugnava a Ds% e, ele não podia esque-
cer, Em não se deiaria enganar.
:or fim celebraram um ofício todos os domingos. +eorge %avia levado a conta ea-
ta dos dias da semana. =antavam %inos, liam passagens da Bíblia e, de pé e com a
cabeça descoberta, elevavam ao céu uma prece silenciosa.
0as durante esses minutos de sil)ncio Ds% nunca re#ou. Em e E#ra provavelmente
fi#eram o mesmo. Kean, resolutamente %ostil, não se uniu aos seus compan%eiros.
=om mais fervor, ou com mais %ipocrisia, Ds% teria podido convenc)-la. 0as na reali -
dade aqueles ofícios dominicais favoreciam mais as querelas que a unidade, a impos-
tura mais que a religião.
/m certo dia, de repente Ds% decidiu interromper os ofícios. Aiplomaticamente, de-
clarou que as re#as em sil)ncio se prolongariam indefinidamente, pois Gcada um fala-
ria ao seu coração segundo seu dese!oH. 0oll8 opinou que a ideia era comovedora e
derramou algumas lágrimas. "ssim a eperi)ncia religiosa teve um bom fim.
*o princípio do ano 6, a colJnia se compun%a de sete adultos, incluída Evie, e tre-
#e crianças de diferentes idades, desde os recém nascidos até ,alp%, o fil%o de 0oll8,
que tin%a nove anos, e KacC, o fil%o de Ds% e Em, com oito. 2odos ol%avam com oti -
mismo para o futuro da 2ribo, nome que %aviam adotado definitivamente. &s nasci-
mentos eram sempre recebidos com grande rego#i!o, como se as sombras recuassem
um pouco mais e o círculo de lu# se ampliasse.
:ouco depois do ano novo, um vel%o de boa apar)ncia c%egou pela man%ã na casa
de +eorge. Era um desses via!antes que de ve# em quando, mas cada ve# mais rara-
mente, vin%am pedir asilo. ,eceberam-no de braços abertos, mas ele não pareceu se
emocionar como os outros com essa %ospitalidade. -' ficou por uma noite e partiu
sem se despedir.
Nuase em seguida, todos se sentiram mal e irritáveis. &s beb)s c%oravam. Ae re-
pente se declararam anginas, resfriados e dores de cabeça. /ma epidemia tin%a caí-
do sobre a tribo. *os últimos anos a saúde de toda a comunidade tin%a sido incrivel-
mente boa. E#ra e alguns outros tin%am dores de dentes. +eorge se queiava de do-
res articulares, a que dava o vel%o nome de reumatismo. Ms ve#es uma ferida infecci -
onava.
0as até os resfriados não eram mais que uma recordação. E somente duas doen-
ças realmente apareciam de ve# em quando. /ma delas atacava os meninos9 mostra-
va muitos sintomas do sarampo, e talve# fosse mesmo isto. " outra começava com
uma violenta dor de garganta, mas as sulfamidas a fa#iam desaparecer tão rapida-
mente que ninguém con%ecia seu curso. Enquanto %ouvesse sulfamida nas farmáci-
as, Ds% não ac%ava necessário permitir que a doença evoluísse para satisfa#er uma
mera curiosidade científica.
Essa aus)ncia quase total de enfermidades, para as pessoas inclinadas ( supersti -
ção, como +eorge e 0aurine, era um verdadeiro milagre. Dmaginavam que Aeus ti-
n%a castigado a raça %umana com uma terrível epidemia e que agora, ( gui#a de
compensação, tin%a decidido suprimir os males menores... Aa mesma forma, depois
do dilúvio Aeus %avia mostrado no céu mais formoso arco-íris, indicando assim que
sua ira %avia se acalmado.
:ara Ds% a eplicação era mais simples. " morte de tantos seres %umanos %avia
quebrado a cadeia da maioria das infecç;es. E muitas doenças %aviam morrido, po-
dia se di#er, !unto com suas bactérias. =ontinuavam eistindo, claro, as doenças dos
organismos desgastados, como o aneurisma, ou o cFncer, ou o reumatismo de +eor-
ge. E os animais também transmitiam alguns males, como a tularemia.
X
"qui e ali, al-
gum sobrevivente afetado por alguma enfermidade crJnica a transmitia para os ou-
tros. "ssim, sem dúvida, %avia sobrevivido o sarampo.
& vel%o, lembraram todos um pouco tarde, assoava o nari# muito frequentemente,
tin%a os seios frontais provavelmente infectados e %avia passado aos seus %'spedes
aquela infeção que se acreditava desaparecida e que em outros tempos era con%eci -
da como Gresfriado de cabeçaH.
Ae qualquer forma, era um espetáculo cJmico ver aquelas pessoas, que até então
tin%am desfrutado de uma saúde tão etraordinária, tossindo, espirrando, assoando
= 1ularemia é uma enfermidade infecciosa a%uda de %ra$idade moderada que pode se
manifestar de forma localizada ou sist>mica. &om maior frequ>ncia assume a forma de uma
<lcera indolor no local de penetração do micro or%anismo, acompanhada de aumento dos
%ân%lios linfáticos re%ionais 'tipo ulcero %an%lionar). '(ota de Espinhudo)
o nari# e gemendo. @eli#mente o resfriado seguiu seu curso normal sem complica-
ç;es e algumas semanas mais tarde todos estavam curados.
Aurante o resto do ano, Ds% ficou temendo outra epidemia. " infecção, latente, po-
dia reaparecer e propagar-se por toda a 2ribo. 0as o calor daquele verão particular-
mente seco acabou com os últimos micr'bios. Ds% se felicitou. *os vel%os tempos ele
tin%a se resfriado muito frequentemente. E agora di#ia, não totalmente brincando,
que o desaparecimento do resfriado compensara amplamente a perda da civili#ação.
Entretanto, o outono troue desgraças maiores. -em que se soubesse eatamente
por que, tr)s crianças sofreram fortes diarreias e morreram. :rovavelmente tin%am
ido brincar em alguma casa dos arredores e %aviam encontrado algum veneno, um
inseticida, talve#. 2in%am-no provado por curiosidade, tin%am-no ac%ado gostoso e
tin%am-no repartido. 0esmo depois de morta, a civili#ação ainda tin%a suas armadi -
l%as.
Entre essas crianças ac%ava-se um dos fil%os de Ds%. Ds% sempre %avia temido uma
desgraça semel%ante e %avia pensado na dor de Em. Em c%orou seu fil%o, mas Ds%
ainda não con%ecia toda sua fortale#a. -eu amor pela vida era tão apaionado, que
ela c%egava a aceitar a morte como parte da vida. 0oll8 e Kean, mães das outras cri -
anças, manifestaram ruidosamente sua dor e rec%açaram qualquer consolo.
3aviam nascido nove crianças9 não obstante, pela primeira ve#, o número total de
pessoas de 2ribo %avia diminuído no curso de do#e meses. Esse ano foi c%amado de
o ano dos mortos.
& ano 5Q se passou sem incidentes e tiveram dificuldades em encontrar um nome
pare ele. 0as quando c%egaram ( roc%a e Ds% pegou o martelo e o cin#el para gravar
os números, os meninos, pela primeira ve#, manifestaram sua vontade e decretaram
que esse ano seria o ano da pesca. "lguns meses antes eles tin%am descoberto que
na baía abundavam magníficos robalos e %aviam organi#ado alegres ecurs;es de
pesca. Esses peies eram um bom alimento e tin%am sido uma aut)ntica fonte de di -
versão. Em geral, pensava Ds%, bastante surpreso, ninguém parecia procurar distra-
ç;es. 3avia tanto o que fa#er para assegurar o bem estar material. E esta tarefa
dava tanta satisfação que as brincadeiras não os tentavam.
*o ano 55, 0oll8 e Kean tiveram fil%os, mas o fil%o de 0oll8 não sobreviveu ao par-
to. @oi uma grande desgraça9 era a primeira criança que morria ao nascer. "gora to-
das as mul%eres eram %ábeis parteiras. 2alve# 0oll8 !á estivesse vel%a.
Nuando c%egou a %ora de bati#ar o ano, %ouve uma discussão entre os vel%os e os
!ovens. &s pais tin%am escol%ido um nome: o ano da morte de :rincesa... " cadela
tin%a morrido ap's alguns meses doente. *inguém sabia sua idade eata9 quando
Ds% a tin%a recol%ido, tanto podia ter um, como tr)s ou quatro anos de idade. Ela ti -
n%a sido até o fim a mesma :rincesa, pela qual todos tin%am grande consideração.
=apric%osa, sempre disposta a seguir a pista de algum coel%o imaginário quando al-
guém precisava. "pesar de tantos defeitos, sabia fa#er-se querer, e durante um tem-
po tin%a vivido em -an Eupo quase como um ser %umano.
"gora %avia du#ias de cães, quase todos fil%os, netos e bisnetos de :rincesa, que
desaparecia de ve# em quando para se encontrar com um vel%o amigo entre os cães
selvagens ou para escol%er um novo pretendente. "p's tantos cru#amentos, seus
descendentes eram de uma raça incerta e não se pareciam nem pelo taman%o nem
pela cor ou pelo caráter.
0as para os meninos, :rincesa era somente uma vel%a cadela, não muito interes-
sante, com a qual não se podia contar. -egundo eles, o ano devia se c%amar o ano
das esculturas de madeira. Então, ap's algumas dúvidas, Ds% se mostrou de acordo,
embora :rincesa tivesse sido sua amiga. Ela o tin%a arrancado a tantos tristes pensa-
mentos, o tin%a livrado do medo e o %avia levado, com saltos e latidos, para a casa
onde %avia encontrado Em. E talve# sem ela tivesse seguido seu camin%o. 0as agora
:rincesa estava morta, pertencia ao passado.
Eogo os meninos nem sequer lembrariam seu nome. :rincesa mergul%aria no es-
quecimento. & coração de Ds% gelou. Ele também envel%eceria e seria uma sombra
do passado. =%amariam-no durante um tempo de vel%a múmia, então morreria e o
esqueceriam. Era assim que sempre acontecia.
Aepois, enquanto os outros discutiam, pensou nas esculturas de madeira que c%e-
gou a ser uma mania, como as bol%as de sabão ou o ma%-!ong dos vel%os tempos.
Ae repente todos os meninos tin%am invadido as serrarias em busca de bonitas ma-
deiras de abeto para nelas tal%ar bois, cães ou %omens. "s primeiras tentativas fo-
ram tortas, mas alguns meninos logo se mostraram muito destros. & entusiasmo se
apagou com os dias, mas continuou sendo um passatempo agradável para as tardes
de c%uva.
Ds% tin%a estudado bastante antropologia para saber que todos os povos tentam
epressar-se artisticamente. E se preocupava porque a 2ribo não manifestara ne-
n%um talento especial e se contentara em viver ( sombra do passado: escutando dis-
cos nos fon'grafos de corda e ol%ando vel%os livros ilustrados. "legrou-se portanto
com aquela moda da escultura.
"proveitou uma pausa na discussão para apoiar os garotos. & ano se c%amou ano
da escultura em madeira. -egundo Ds%, esse ano tin%a um valor simb'lico, pois mar-
cava uma rutura com o passado e um passo para o futuro. Entretanto, o nome talve#
não tivesse tanta importFncia e ele estivesse eagerando seu significado.
*o ano 5> Kean deu ( lu# uma criança morta. Em compensação, Em teve o primei -
ro casal de g)meos. =%amou-os de Kosep% e Kosep%ine, logo, Koe8 e Kose8. "quele
foi pois, o ano dos g)meos.
& ano 5R viu nascer dois meninos robustos. @oi um ano tranquilo e agradável, sem
acontecimentos importantes. *a falta de outro mel%or, foi c%amado o ano bom.
& ano 57 foi parecido com o ano 5R e foi o segundo ano bom.
& ano 5X foi ecelente e poderia ter sido o terceiro ano bom. 0as tin%a %avido al -
gumas diferenças. Ds% e todos os mais vel%os sentiram outra ve# a vel%a solidão e a
ameça das trevas. *ão aumentar é diminuir. E aquele era o primeiro ano sem nasci-
mentos. 2odas as mul%eres - Em, 0oll8, Kean e 0aurine - estavam envel%ecendo, e
as meninas ainda eram !ovens demais para se casar, Eceto Evie, a idiota, que nunca
deveria ter descend)ncia. & ano não tin%a sido, portanto, inteiramente bom, e não
merecia esse título. &s meninos recordaram que Ds% %avia encontrado seu vel%o e
asmático acordeon. "grupados ao seu redor, tin%am cantado vel%as canç;es, como &
Ear da 0ontan%a e Ela 1em :ela 0ontan%a, e os meninos propuseram o nome de o
ano que cantamos. *inguém, eceto Ds%, pareceu notar no nome uma confusão gra-
matical.
*o ano 5P foi celebrado o primeiro casamento. &s noivos foram 0ar8, fil%a mais
vel%a de Ds% e Em, e ,alp%, fil%o de 0oll8, nascido pouco antes do +rande Aesastre.
*os vel%os tempos, um casamento entre pessoas tão !ovens teria parecido prematu-
ro e até um pouco indecente. 0as as antigas norma !á não estavam em vigor.
*a intimidade, Ds% e Em pesaram os pr's e os contras. 0ar8 e ,alp% não estavam
perdidamente apaionados, mas desde o início tin%am sido destinados um ao outro.
Era um casamento de conveni)ncia, como as antigas bodas reais. & amor romFntico,
pensou Ds%, também %avia caído vítima da epidemia.
0aurine, 0oll8 e Kean queriam Guma verdadeira bodaH, segundo suas pr'prias pa-
lavras. -epararam um disco de Eo%engrin e prepararam um vestido de noiva de seda
branca, com véu e grinalda. 0as para Ds% esses rituais seriam uma %orrível par'dia
do passado. Em, com sua reserva %abitual, mostrou-se de acordo. "final, 0ar8 era fi-
l%a deles e impuseram sua vontade.
=omo toda cerimJnia, 0ar8 e ,alp% se apresentaram perante E#ra, que pronunciou
um discurso sobre os deveres e responsabilidades dos esposos.
0ar8 teve um beb) antes do final de de#embro9 e o ano foi o ano do neto.
& ano 5?, os meninos sugeriram que fosse c%amado de o ano da casa derrubada.
=om efeito, uma das casas vi#in%as desabou estrepitosamente diante dos ol%os dos
meninos, que %aviam acudido aos primeiros ruídos. Aepois de um eame, o acidente
pareceu normal. &s cupins eram donos do prédio %á de#essete anos e tin%am corroí-
do os alicerces. Esse acontecimento impressionou muito os meninos e, apesar da sua
escassa importFncia, designou o nome do ano.
*o ano 5Z Kean teve outro fil%o. @oi a última criança nascida da vel%a geração,
mas %aviam sido celebrados novos matrimJnios e nasceram mais duas crianças.
Esse foi o ano dos estudos. Nuando os primeiros meninos c%egaram ( idade esco-
lar, Ds% tentou ensinar-l%es a ler e escrever e transmitir-l%es algumas noç;es de arit-
mética e geografia. 0as era difícil reunir seus alunos, ocupados com suas tarefas e
brincadeiras, e os estudos não se adiantaram muito. Entretanto, os mais vel%os sabi-
am ler e escrever corretamente, ou tin%am sabido ler em outra época. Ds% se pergun-
tava se a maioria - por eemplo, 0ar8, agora mãe de duas crianças - saberia soletrar
polissílabos. 0ar8 era sua fil%a mais vel%a e, embora gostasse muito dela, tin%a que
recon%ecer que na verdade ela não era nen%uma intelectual.
*esse mesmo ano 5Z, Ds% fe# um esforço e tentou reunir todos os meninos em
idade de aprender para que não ficassem totalmente ignorantes. 2eve )ito por al -
gum tempo, então os escolares o abandonaram. Kamais soube se tin%a obtido algum
resultado e sofreu uma amarga decepção.
& ano 56 foi c%amado de o ano do alce, por causa de um incidente que impressio-
nou os meninos. /ma man%ã, Evie, que estava na !anela, gritou alguma coisa com
sua vo# esquisita e rouca, apontando para fora com o dedo. &l%aram e viram um ani-
mal descon%ecido. Era um alce, o primeiro que tin%a se aventurado nessas paragens.
-em dúvida os reban%os tin%am se multiplicado e agora estavam descendo do norte
para recuperar as possess;es que o %omem l%es tin%a arrebatado.
*o ano >Q, todos estiveram de acordo: o ano do terremoto. & vel%o vulcão -an
Eeandro tin%a voltado ( atividade. Em uma madrugada, um violento abalo seguido
por um estrépito de c%aminés que caíam, despertou a 2ribo. "s casas %abitadas su-
portaram o fenJmeno, graças a +eorge que as mantin%a em ecelente estado. 0as
as que tin%am sido corroídas pelos cupins, minadas pelas águas das c%uvas ou car-
comidas pelo mofo, desabaram rapidamente. &s escombros cobriram as ruas e o ter-
remoto acabou assim o lento trabal%o do tempo.
:ara o ano >5 Ds% %avia escol%ido um nome: o ano da maioria de idade. &s mem-
bros da 2ribo eram agora trinta e seis: sete av's, Evie, vinte e um fil%os e sete netos.
Entretanto, esse ano, como muitos outros, comemorou um incidente sem impor-
tFncia. Koe8, um dos g)meos - os mais !ovens dos fil%os de Ds% e Em - era um garoto
esperto, embora pequeno para sua idade, e menos dotado para os !ogos que a maio-
ria dos outros meninos. =omo Ben!amim, era o favorito dos seus pais. 0as naquela
tropa de meninos ele passava um pouco despercebido, e acabara de completar nove
anos. 0as no final do ano eles notaram que Koe8 sabia ler, não lenta e trabal%osa-
mente como os outros garotos, e sim com facilidade e pra#er. Ds% sentiu-se invadido
por uma onda de ternura e orgul%o. -' em Koe8 ardia realmente a c%ama da inteli-
g)ncia.
&s outros também o admiravam e, todos de acordo, declararam que o ano seria
c%amado de o ano em que Koe8 leu.
Segunda #arte - $ Ano 22
-eus laços sociais sem dúvida devem
ser de uma força singular,
muito superiores aos que tanto nos orgul%am9
pois mil%ares de europeus se tornaram índios,
e nunca vimos que
um s' desses aborígenes
se fi#esse voluntariamente europeu.
K. 3E=2&, -2. K&3* AE =,W1E=&E/,
=artas de um fa#endeiro americano.
1
Aepois da cerimJnia da roc%a, quando Ds% terminou de gravar os números > e 5
na superfície lisa, os membros da 2ribo regressaram para suas casas. &s meninos
corriam na frente, ecitados, pensando na fogueira tradicional que coroava os feste-
!os do ano novo.
Ds% camin%ava !unto de Em, mas os dois guardavam sil)ncio. =omo em todos os
anos nessa época, Ds% mergul%ava em suas refle;es e se perguntava o que traria o
pr'imo ano.
&uviu os meninos que gritavam:
- 1amos na casa que caiu. Eá tem muita madeira seca... Eu sei onde encontrar
uma lata de 'leo... Eu vou buscar papel %igi)nico, que queima muito bem.
&s adultos, como de costume, reuniram-se na casa de Ds% e Em e sentaram-se
para conversar um pouco. Ds% abriu uma garrafa de porto e todos brindaram, inclusi -
ve +eorge, que comumente não bebia álcool. =omo momentos antes na roc%a, todos
concordaram que o ano >5 tin%a sido um bom ano e que o ano >> se anunciava um
bom ano.
Entretanto, em meio ( alegria geral, Ds% sentiu renascer em seu interior um vago
descontentamento. :or que$, pensou, sobreitado, como se quisesse convencer um
adversário. :or que %ei de ser eu quem prev) ou tenta prever o que acontecerá nos
pr'imos cinco, de#, vinte anos$ *esse tempo eu talve# !á não este!a vivo. *ossos
descendentes... deverão resolver seus pr'prios problemas. Embora não ten%a sido
assim, totalmente. 2odas as geraç;es contribuem para criar ou resolver os problemas
das geraç;es futuras. Ae qualquer forma, não podia deiar de se perguntar o que
aconteceria com a 2ribo nos pr'imos anos.
Aepois do +rande Aesastre, tin%a imaginado que os sobreviventes ressuscitariam
pouco a pouco o mundo civili#ado. 3avia son%ado com o dia em que se acenderiam
outra ve# as lFmpadas elétricas. 0as suas esperanças tin%am se desvanecido e a pe-
quena comunidade ainda vivia dos despo!os do passado.
:asseou o ol%ar ao redor, como fa#ia comumente, e eaminou seus compan%eiros.
Eles eram, podia-se di#er, os ti!olos que serviriam para levantar uma nova civili#ação.
E#ra, por eemplo. Ds% sentia-se inundado pela simples alegria da ami#ade toda ve#
que ol%ava para aquele rosto magro e aceso, de um sorriso tão agradável, apesar
dos dentes cariados. E#ra tin%a talento, sem dúvida, mas era o talento de viver cordi-
almente com seus semel%antes, e não a força que cria as novas civili#aç;es. *ão,
não E#ra.
Kunto a E#ra estava +eorge, o bom +eorge... pesado, de andar vacilante, ainda vi-
goroso apesar do cabelo grisal%o. M sua maneira, +eorge não carecia de coragem.
Era um ecelente carpinteiro e tin%a aprendido sobre encanamento e pintura e todos
os ofícios que podem ter utilidade no cuidado de uma casa. Era um %omem indispen-
sável e, graças a ele, os trabal%os manuais %aviam sobrevivido. Entretanto, e Ds% não
ignorava, +eorge era muito pouco inteligente e provavelmente nunca tin%a aberto
um livro em sua vida. *ão, não era +eorge.
"o lado de +eorge %avia se sentado Evie, a débil mental. 0oll8 cuidava da sua
apar)ncia e Evie, esbelta e loira, pareceria bonita se alguém não ol%asse para seu
rosto inepressivo. "li estava ela, ol%ando para a direita e para a esquerda, como se
estivesse interessada na conversa, embora Ds% soubesse que ela não entendia nada
ou quase nada. Evie não seria essa pedra angular. *ão, não Evie.
&s ol%os de Ds% pousaram a seguir em 0oll8, a mais vel%a das mul%eres de E#ra.
-em ser boba, 0oll8 tin%a pouca instrução e nen%um dom intelectual. :or outro lado,
como as outras mul%eres, tin%a consagrado todas suas energias em dar fil%os ao
mundo e em educá-los. 2in%a cinco fil%os. 3avia desempen%ado seu papel e não se
podia eigir mais dela. *ão, não 0oll8.
Em$ Ds% ol%ou para ela e sentiu uma imensa ternura que l%e enc%ia o peito. Nual-
quer !ulgamento que fi#esse sobre ela não teria muito valor. Em %avia decidido que
tivessem um fil%o. " catástrofe não %avia debilitado sua coragem nem sua confiança.
Era para ela que todos se voltavam nos momentos de dor. -em seu apoio, nada teria
sido feito. 0as sua força s' agia no terreno da ação material e imediata. Embora ca-
pa# de devolver aos seus compan%eiros a esperança e a coragem, raramente ofere-
cia um a ideia. Ds% a sentia frequentemente superior a ele e tin%a necessidade da
sua a!uda9 mas sabia também que não podia contar com ela para modelar o futuro.
*ão, não Em.
"trás de Em, ,alp% e ,oger estavam sentados no c%ão. -empre os c%amava de
Gos meninosH, embora !á estivessem casados e fossem pais de família. ,alp%, fil%o de
0oll8, %avia se casado com 0ar8, fil%a de Ds%. KacC e ,oger eram fil%os de Ds%. 0as
sentia-se muito distanciado deles. Eram somente vinte anos mais novos, mas para
Ds% esses anos pareciam séculos. Eles não tin%am con%ecido os vel%os tempos e não
podiam imaginar uma civili#ação no futuro. *ão, provavelmente, tampouco os meni-
nos.
& ol%ar de Ds% %avia completado o círculo e agora pousava em Kean, a mais nova
das esposas de E#ra. Ela %avia dado ( lu# de# fil%os, dos quais sete ainda estavam
vivos. *ão l%e faltava personalidade nem vontade. -ua negativa em assistir os ofícios
religiosos era uma prova. 0as não tin%a ideias novas. *ão, não Kean.
Nuanto a 0aurine, a mul%er de +eorge, não tin%a se dado ao trabal%o de ir ( reu-
nião. Aa roc%a, ela tin%a diretamente para sua casa, para varrer, esfregar ou comple-
tar qualquer uma das mil tarefas domésticas que eram sua vida. Nualquer outro, me-
nos 0aurine.
3avia outros tr)s adultos ausentes: 0ar8, 0art%a e a pequena Keanie, esposas dos
tr)s meninos. 0ar8 sempre tin%a sido a menos epressiva das fil%as de Ds%, o o pas-
sar dos anos e as sucessivas maternidades pareciam ter-l%e aumentado a apatia.
0art%a e Keanie também eram mães e s' pensavam em seus fil%os. *ão, nen%uma
das tr)s.
:resentes ou ausentes, do#e adultos no total. Ds% não podia acreditar que não
%ouvesse mais reservas %umanas.
/ma meia du#ia de meninos tin%a se sentado com seus pais ou corriam ao redor
da mesa. 2in%am preferido a reunião na casa de Ds% ( fogueira e, embora se entedi-
assem, sentiam orgul%o em imitar os mais vel%os. Ds% ol%ou para eles, pensativo. Ae
ve# em quando eles deiavam de prestar atenção ( conversa para se empurrarem ou
dar murros. 0esmo assim, despreocupados como pareciam, não %avia outra espe-
rança a não ser eles. &s mais vel%os, provavelmente se contentariam em seguir os
vel%os %ábitos. E assim, até o dia da sua morte. 0as os meninos teriam que fa#er
um esforço e se adaptarem. Brotaria em algum deles a fagul%a inicial$
Ae repente, enquanto ol%ava para os meninos, Ds% viu um deles que em ve# de
brigar com seus amigos, não perdia uma palavra da conversa9 em seus grandes
ol%os bril%avam a intelig)ncia e a curiosidade. Era Koe8.
1iva# e alerta, o ol%ar de Koe8 não tardou em encontrar o do seu pai e o seu rosto
se iluminou com o radiante sorriso dos nove anos. Ds% piscou-l%e dissimuladamente
um ol%o. & sorriso de Koe8, que c%egava até as orel%as, se fe# ainda mais amplo e,
como resposta, o acompan%ou com um piscar de ol%os. Então, para não intimidar o
menino, Ds% desviou o ol%ar. +eorge, E#ra e os rapa#es prosseguiam em uma lenta
discussão. Ds% !á con%ecia o tema e não tin%a interesse algum em intervir.
- *ão deve pesar mais que du#entos quilos - di#ia +eorge.
- 2alve# - replicou KacC, - mas !á é difícil o bastante para tra#)-la para cá.
- &%, nem tanto - acrescentou KacC, que gostava de eibir sua força.
Ds% !á tin%a ouvido muitas ve#es a mesma discussão. +eorge propun%a irem bus-
car um refrigerador a gás e levá-lo para -an Eupo. "s reservas de gás engarrafado
não iam faltar e eles disporiam de gelo. 2udo isso ficaria nas palavras, e não porque
o pro!eto fosse irreali#ável ou apresentasse dificuldades etraordinárias. 0as nin-
guém sentia a necessidade de uma mudança e naquele clima temperado não %avia
tanta necessidade de gelo. *ão obstante, sem saber eatamente porque, Ds% sentiu
que a vel%a discussão o aborrecia.
&l%ou outra ve# para Koe8. & menino era baio para sua idade. -eu ol%ar viva# in-
terrogava todos os rostos e, percebeu Ds%, até adivin%ava o pensamento de que fala-
va, particularmente quando este era +eorge, que tin%a a fala lenta. "quele dia era
memorável para Koe8. & ano que acabava de terminar levava seu nome: o ano em
que Koe8 leu. *en%um outro menino tin%a recebido tal %onra. 2alve# o fi#esse dema-
siado orgul%oso. 0as a ideia %avia nascido espontaneamente dos outros meninos,
como uma %omenagem ( sua intelig)ncia.
" discussão continuava fracamente. +eorge estava falando agora.
- *ão, não traria muitas vantagens conectar o encanamento.
- 0as +eorge - interrompeu a vo# rápida de E#ra, que apesar dos anos ainda con-
servava um pouco do sotaque de UorCs%ire, - o gás não terá perdido pressão depois
de tanto tempo$ Eu ac%o que...
-eu protesto se perdeu no barul%o de uma briga entre os meninos. <eston, o fil%o
de do#e anos de E#ra, se pegava com Bettt8, sua irmã f)mea.
- Basta, <eston - ordenou E#ra. - Basta, !á falei, ou esquentarei suas calças.
" ameaça carecia de convicção. E Ds% lembrava que o pacífico E#ra !amais tin%a
batido em um menino. *ão obstante, a briga terminou e <eston se contentou em
c%oramingar:
- @oi Bett8 quem começou...
- E para que voc) precisa de +elo, +eorge$ - perguntou ,alp%.
"ssim sempre terminava a discussão. &s garotos, que nunca tin%am visto para que
servia o gelo, não entendiam tampouco porque deviam se dar a tanto trabal%o para
procurá-lo. +eorge !á tin%a ouvido a mesma pergunta várias ve#es. Aevia ter uma
resposta preparada, mas não era %omem de se apressar. @icou um momento de boca
aberta, pondo em ordem as palavras, e Ds% ol%ou outra ve# para Koe8. & menino
ol%ava para o %esitante +eorge, para E#ra e KacC, como querendo ler-l%es os pensa-
mentos. :or fim seus ol%os se encontraram outra ve# com os de Ds%. :ai e fil%o tro-
caram uma silenciosa mensagem de camaradagem e compreensão. Koe8 parecia di-
#er que o seu pai !á teria encontrado a resposta.
"lguma coisa eplodiu então na mente de Ds%. *ão ouviu as palavras que final -
mente brotavam da boca de +eorge.
Koe8H, pensou, e o nome pareceu despertar mil ecos em seu espírito. Koe8L W ele o
indicadoL
G*ão sabes - escreveu =o%elet em sua sabedoria, - como se formam os ossos da
criança no seio da mãe.H
:assaram-se séculos desde que =o%elet observou as coisas do mundo9 e ac%ou-as
tão inconstantes como o vento. E ainda não con%ecemos o segredo do destino %u-
mano. Dgnoramos particularmente porque a maioria s' v) o mundo visível e porque
são tão raros os escol%idos que, além das coisas materiais, v)em o que ainda não é
e imaginam assim o que poderia ser. -em essas raras criaturas, entretanto, os %o-
mens são semel%antes aos animais.
*as sombrias e úmidas profunde#as unem-se as duas metades9 e cada uma delas
leva em si a perfeita metade do g)nio. 0as isto ainda não é o suficiente. " criança
deve vir ao mundo em tempo e lugar propícios para cumprir sua tarefa. E isto não é
tudo. *o mundo onde vive a criança, a morte cavalga dia e noite.
Nuando nascem mil%;es de crianças todos os anos, se cumpre alguma ve# o raro
milagre e um profeta aparece entre os %omens. 0as que esperança pode %aver
quando a %umanidade foi di#imada e os meninos são poucos$
Ds% notou imediatamente que %avia se levantado sem saber porque nem como. @a-
lava. *a realidade, pronunciava um discurso:
- Escutem - di#ia, - c%egou a %ora de agir. Ká esperamos bastante.
Estava na sala da sua casa e se dirigia a um grupo de amigos. Entretanto, l%e pa-
recia estar em um palanque, em um anfiteatro imenso, e dirigindo-se a toda uma
uma nação, ( %umanidade inteira.
- 2emos que acabar com isto - continuou. - *ão podemos continuar nesta vida
acomodada, sugando os restos dos vel%os dias, não criando nem fa#endo nada n's
mesmos. Esses tesouros se esgotarão algum dia9 se não em nosso tempo, na dos
nosso fil%os ou dos nossos netos. Nue acontecerá então$ Nue será deles se nada
produ#em: Encontrarão sempre de que se alimentarem, supon%o. "s vacas e coel%os
não desaparecerão da man%ã para a noite. 0as, e os ob!etos manufaturados, as fer-
ramentas: =omo acenderão o fogo quando não %ouver mais f'sforos$
Dnterrompeu-se para passear o ol%ar ao redor. 2odos sorriam, aprovando. Koe8
ol%ava para ele ecitado, com os ol%os bril%antes.
- Esse refrigerador de que voc)s falavam a um momento atrás - continuou Ds% - é
um bom eemplo. Aiscutimos e cru#amos os braços. Estamos nos parecendo com
aquele vel%o rei encantado, que via o ir e vir das pessoas. 0as ele nunca podia se
mover para quebrar o encantamento. :arece que ainda pesa sobre n's o +rande Ae-
sastre. :ode ter sido assim no começo. /ns seres %umanos que viram o mundo desa-
parecer não podem se recobrar rapidamente. 0as !á se passaram vinte e um anos e
aqui eistem !ovens que não con%eceram a catástrofe.
2emos muito o que fa#er. *ecessitaremos de mais animais domésticos e de mais
cães. Aeveríamos nos alimentar dos nossos pr'prios cultivos, em ve# de assaltar os
vel%os arma#éns. Aeveríamos ensinar os meninos a ler e escrever corretamente. *e-
n%um de voc)s me apoiou. 0as não podemos viver como parasitas. W preciso avan-
çar.
@e# uma pausa, buscando palavras que renovassem o vel%o aforismo Go que não
avança, retrocedeH, e %ouve um coro de aplausos. Ds% pensou que os %avia entusias-
mado com sua eloqu)ncia, mas viu logo em seguida que em quase todos os rostos
%avia um sorriso irJnico.
- /m discurso vel%o, mas bom, papai - disse ,oger.
Ds% ol%ou-o com fúria. =%efe da 2ribo %á vinte e um anos, não l%e agradava que
#ombassem dele. E#ra começou a rir e a tensão despareceu em seguida.
- Bem, faremos alguma coisa$ - perguntou Ds% - 2alve# o discurso se!a vel%o, mas
continua sendo tão verdadeiro como antes.
Esperou. KacC, seu fil%o mais vel%o, sentado no c%ão, levantou-se pesadamente. Ká
era mais alto e mais forte que seu pai e tin%a vários fil%os.
- Aesculpe, papai - disse, - mas ten%o que ir.
- :or que$ :ara onde voc) vai$ - perguntou Ds% um pouco irritado.
- 2en%o uma coisa a fa#er esta tarde.
- *ão pode esperar$
- -im, talve# pudesse esperar - disse, colocando a mão no trinco. - 0as será me-
l%or que eu vá.
3ouve um momento de sil)ncio. &uviu-se o barul%o da porta que se abria e se fe-
c%ava. Ds% sentiu seu rosto queimar.
- =ontinue, Ds% - disse alguém. E, apesar da sua ira, Ds% recon%eceu a vo# de E#ra.
- Aiga o que devemos fa#er. +osto das suas ideias.
-im. Era a vo# de E#ra. E E#ra, como de costume, tentava restabelecer a pa#, pen-
sou Ds%, e até o adulava.
Ds% serenou. =omo negar a KacC sua independ)ncia$ KacC era um %omem agora, e
não o menino que deve obedecer seu pai. 0as Ds% ainda se sentia inquieto e tin%a
necessidade de falar. :elo menos, o incidente podia se converter em tema de medita-
ção.
- " atitude de KacC - disse - é um verdadeiro símbolo. 2emos vivido dia a dia, todos
esses anos, sem nos esforçar em produ#ir alimentos nem ressuscitar a civili#ação
material. *ão é este, sem dúvida, o único aspecto da questão. " civili#ação não era
somente uma coleção de artefatos. Era também uma organi#ação social, um con!un-
to de normas, de leis, de %ábitos individuais e sociais. Ae tudo isso s' conservamos a
família. W natural, supon%o. 0as quando nosso número aumentar, a família não bas-
tará. -e um menino vai por um mal camin%o, os pais o corrigem. 0as quando o me-
nino cresce, escapa da nossa tutela. *ão temos leis, não somos nem uma democra-
cia, em uma monarquia, nem uma ditadura, nem nada. -e alguém, KacC por eem-
plo, decide não assistir a uma reunião importante, ninguém pode impedi-lo. Embora
votássemos e decidíssemos levar a cabo algum trabal%o, não %averia uma forma de
assegurar sua eecução. -' podemos contar com a boa vontade.
2in%a terminado seu discurso, pensou Ds%, sem nen%uma conclusão. -omente a
c'lera nascida pela partida de KacC %avia inspirado suas palavras. Dgnorava as regras
da eloqu)ncia e raras ve#es improvisava um discurso. Entretanto, todos %aviam escu-
tado com simpatia. E#ra foi o primeiro a epressar sua aprovação.
- W isso mesmoL - disse. - Nue tempos maravil%osos aqueles. & que eu não daria
para ligar o grande aparel%o de rádio de +eorge e ouvir de novo =%arlie 0c=art%8L
Eembra como o %omen#in%o brincava com o outro e como este l%e respondia$
E#ra pegou a moeda que era seu amuleto. Eançou-a no ar e pegou-a no voo, entu-
siasmado pela recordação dos vel%os cJmicos.
- E o cinema - continuou. - /ma pessoa pagava e se sentava tranquilamente. E as
músicas dos filmes. E na tela se via Bob 3ope e Aott8 Eamour. Nue tempos aquelesL
*ão poderíamos encontrar aqueles filmes e passá-los para os garoto$ =omo eles iam
rirL 2alve# até possamos descobriu algum filme de =%aplinL
E#ra pegou um cigarro, esfregou um f'sforo e dele brotou uma pequena c%ama
clara. =onservados em lugares secos, os f'sforos pareciam não se estragar nunca.
0as ninguém sabia como se fabricavam. E cada ve# que uma pequena c%ama se
acendia, %avia um f'sforo a menos. E E#ra pensava que o retorno da civili#ação era
ressuscitar o cinema9 e ao mesmo tempo acendia um f'sforo.
- -e dois ou tr)s rapa#es me a!udarem - interveio +eorge, - poderíamos ter o refri-
gerador aqui dentro de alguns dias.
+eorge se calou. Ds% supJs que ele não tin%a mais o que di#er, pois não era muito
eloquente. 0as para a surpresa de todos, ele prosseguiu:
- 0as essas leis de que voc) falava... *ão sei. *ão me desagrada viver em um lu-
gar sem leis. "gora n's podemos fa#er o que quiser. 1oc) pode parar o autom'vel
onde l%e der na tel%a, até !unto de um %idrante. *en%um policial virá incomodá-lo.
Bem, pode deiar o carro !unto ao %idrante se voc) tiver um carro que funcione.
Era a primeira ve#, pensou Ds%, que +eorge se permitia uma piada. +eorge feste!a-
va sua gracin%a agora com um fraco cacare!o. &s outros l%e fi#eram coro. & nível de
%umor da 2ribo nunca %avia sido muito alto. Ds% abriu a boca mas E#ra se adiantou.
- 0uito bem, propon%o um brinde - disse. - M lei e a ordemL
&s vel%os receberam com um sorriso essa vel%a f'rmula, mas para os !ovens ela
nada significava. 2odos beberam e a conversa voltou ( trivialidade que convin%a a
uma reunião mundana.
Aepois de tudo, pensou Ds%, esta é uma reunião mundana e a discussão dos pro-
blemas sérios está fora de lugar. -eu veemente pequeno discurso talve# desse frutos
no futuro. 0as ele duvidava. Em outros tempo, se di#ia que para se reparar o teto te-
mos que esperar que c%ova. E agora as pessoas eram menos previdentes que antes.
=ontinuariam assim até que um dia algum acontecimento desagradável, ou até gra-
ve, os obrigasse a agir.
Ds% brindou com os outros e escutou a conversa distraidamente, enquanto seguia
o fio dos seus pr'prios pensamentos. 2in%a sido um dia importante. 3avia gravado o
número >5 na superfície lisa da roc%a e o ano >> tin%a se iniciado. E o nome dado ao
ano >5 parecia prometer um bril%ante futuro para sua fil%a mais nova. 1oltou-se para
Koe8 e viu que o garoto ol%ava para ele com admiração. -im, somente Koe8 com-
preendia realmente.
*aquele sistema imenso e compleo de represas e túneis, de aquedutos e diques,
que levava a água das montan%as para a cidade, um segmento do encanamento foi
a fal%a fatal. "inda na fábrica, !á deviam ter notado suas imperfeiç;es, mas o inspe-
tor tin%a revisado o tubo no fim de uma !ornada esgotante, quando a fadiga obscu-
recia seus sentidos e seu !ulgamento.
& dano foi muito grande. &s trabal%adores instalaram o encanamento e este cum-
priu suas funç;es. :oucos antes do +rande Aesastre, um capata# notou naquela se-
ção uma pequena perda de água. -oldaram o cano e não %ouve mais dificuldades.
Então passaram-se os anos sem que ninguém inspecionasse a seção. & delgado fio
de água que brotava da fissura cresceu pouco a pouco. 0esmo nos ver;es mais se-
cos o mato crescia !unto ao cano9 os pássaros e outros pequenos animais iam ali
para beber. Enquanto isso, a ferrugem corroía a superfície eterna e no interior atua-
va a ação corrosiva da água.
:or fim abriram-se alguns minúsculos orifícios na dura pele de aço. =inco anos
mais e nasce um riac%o da terra, o único curso de água naquelas áridas regi;es. "
ferrugem %avia esburacado o cano como uma colmeia.
"baio, o solo é macio e lamacento %á muito tempo e os pés dos animais abriram
uma pequena valeta. :or fim a erosão conclui sua tarefa: o c%ão onde se apoiava o
pilar de cimento que sustentava o aqueduto agora é um pFntano. & pilar afunda e o
encanamento desgastado não suporta o peso da água. /ma longa rac%adura abre-se
no aço e uma torrente enc%e a valeta. & pilar desce um pouco mais. & encanamento
se abre outra ve# e a água que escapa do aqueduto agora corre como um rio.
*aquela mesma noite, Ds% acabava de se deitar quando ouviram-se alguns dispa-
ros de armas de fogo. Ele levantou-se de um salto. &uviu-se outra detonação e em
seguida um estrondo de fu#ilaria atroou na noite. " cama estremeceu suavemente.
Em estava rindo.
- " piada de sempre - disse Ds%, mais tranquilo.
- Aesta ve# voc) realmente se assustou.
- Estive pensando demais no futuro. -im, meus nervos estão ( flor da pele.
&uviu-se uma descarga cerrada, como como em uma luta de guerril%a.
Ds% deitou-se outra ve#. =omo nos anos anteriores, quando !á não %avia ninguém
!unto ( fogueira, um dos rapa#es tin%a !ogado algumas caias de cartuc%os nas cin-
#as quentes. "s caias tin%am se queimado e agora os cartuc%os eplodiam. " brin-
cadeira não era totalmente inofensiva, embora que naquela época o capim alto evita-
va qualquer perigo de inc)ndio. "s pessoas, advertidas de antemão, mantin%am-se
longe das brasas.
:rovavelmente, pensou Ds%, a brincadeira era destinada a ele e todos ou outros es-
tavam sabendo. E, bem, tin%a mordido o an#ol. -entiu-se irritado, mas por ra#;es
mais sérias.
- Bem - ele disse a Em, - continuamos como sempre. =aias inteiras de cartuc%os
desperdiçados e ninguém sabe fabricá-los. 1ivemos em uma região infestada de pu-
mas e touros selvagens e somente as armas de fogo podem nos proteger. E nos ali -
mentamos de vacas, coel%os e codorni#es que matamos a tiros.
Em não respondeu e Ds%, irritado, pensou nas fogueiras. Dmaginou as madeiras ti-
radas de alguma serraria e os rolos de papel %igi)nico. "s caias de f'sforo davam
formosas c%amas a#uis. Em outro tempo, aquela fogueira teria custado de# mil d'la-
res. 3o!e em dias esses materiais eram ainda mais preciosos, pois não podiam ser
substituídos.
- *ão se atormente, querido - sussurrou Em. - Está na %ora de dormir.
Ds% se aproimou dela e apoiou a cabeça em seu peito. E l%e pareceu que, como
nas outras ve#es, Em l%e transmitia força e confiança.
- *ão estou me atormentando muito - disse ele. - 2alve# eu devesse ver o futuro
muito negro e imaginar que vivemos perigosamente.
=alou-se por um momento. Em não respondeu e Ds% pensou em vo# alta:
- Eembra$ Eu di#ia isso mesmo %á muito tempo. Aevemos criar e não viver de pi-
l%agem. *ão nos convém, inclusive psicologicamente. Eu !á di#ia isso antes de KacC
nascer.
- -im, eu me lembro. 1oc) repetiu bastantes ve#es. Entretanto, é muito mais fácil
abrir uma lata de conservas, enquanto %ouver latas nos arma#éns e lo!as.
- 0as qualquer dia as reservas se esgotarão. Nue farão então as pessoas$
- Então as pessoas resolverão o problema elas mesmas. Nuerido, eu l%e peço, não
se atormente tanto. -eria diferente se aqui vivessem outros %omens como voc), %o-
mens que preveem o futuro. 0as todos n's somos pessoas comuns: E#ra, +eorge e
eu. Aar.in disse, me parece, que descendíamos do c%ipan#é ou do orangotango. E
creio que os c%ipan#és não pensam muito no futuro. -e descend)ssemos de abel%as
ou formigas, seríamos mais previdentes9 e se nossos antepassados fossem os esqui -
los, arma#enaríamos no#es para o inverno.
- 2alve#. 0as nos vel%os tempos todos pensavam no futuro. :ense na civili#ação
que c%egaram a edificar.
- E desfrutavam dela, com Aott8 sei lá das quantas e com =%arlie 0c=art%8, como
disse E#ra. - Em mudou de assunto: - E essa pil%agem, como voc) c%ama, porque
l%e atormenta tanto$ Era tão diferente antes$ -e voc) precisava de cobre, entrava
em uma lo!a de ferragens e levava. *os vel%os tempos tiravam cobre nas monta-
n%as. 0inério de cobre, é certo, mas era a mesma pil%agem. Nuanto aos alimentos,
eploravam as rique#as do solo e as transformavam em trigo. *'s conseguimos o
que precisamos nos arma#éns. *ão ve!o uma grande diferença.
Esse ra#oamento desconcertou Ds% por um instante. 0as logo a seguir ele voltou (
carga.
- *ão, não era assim - disse. - *ossos predecessores criavam mais que n's. &
mundo estava em contínua atividade. :rodu#iam o que consumiam.
- *ão estou tão certa disto - replicou Em. - Eembro de ter lido nos suplementos
dominicais dos !ornais que um dia se acabaria o coque e o petr'leo9 e o solo se es-
gotaria e não teríamos o que comer.
/ma longa eperi)ncia di#ia a Ds% que Em dese!ava dormir. *ão respondeu. 0as
não conseguiu conciliar o sono e ficou pensando. Eembrou das %oras que tin%am se
seguido ao +rande Aesastre, quando imaginava como ressuscitar a civili#ação. E suas
refle;es filos'ficas sobre a transformação do mundo. "lgumas ve#es o %omem luta-
va tena#mente contra o meio9 em outras, o meio mudava o %omem. -omente uma
intelig)ncia muito poderosa podia impor-se ao mundo.
Eembrou então do pequeno Koe8, o menino precoce de ol%ar claro, o único que pa-
recia compreend)-lo inteiramente. Dmaginou um Koe8 adolescente, a quem poderia
falar sem retic)ncias. E até preparou um discurso: 1oc) Koe8, e eu, l%e diria, somos
da mesma rama. E#ra, +eorge e todos os demais são boa gente. +ente simples e
normal. " %umanidade precisa de muitos como eles, mas l%es falta a fagul%a que
acende o fogo. *'s somos essa fagul%aL
E de Koe8, lá em cima, Ds% passou rapidamente em revista os outros, até c%egar
em Evie, lá em baio. *ão %aviam se equivocado ao conservar Evie com eles$ 3avia
um remédio para esses casos, recordou, a eutanásia. " morte misericordiosa, como
di#iam antes.
0as naquele grupin%o, quem podia arrogar-se o direito de suprimir um ser como
Evie, mesmo que ela não con%ecesse a felicidade nem fi#esse ninguém feli#$ " res-
ponsabilidade dessa decisão s' podia recair sobre um c%efe supremo. " simples au-
toridade de um pai americano ou a opinião de um grupo de amigos não bastava. *ão
com relação a Evie, talve#, mas nasceria uma organi#ação e se agiria energicamente.
1iu com tanta clare#a aquele mundo futuro, que se agitou bruscamente, como se
!á estivesse ordenando fa#er frente a alguma eventualidade.
Em ainda não tin%a dormido. & movimento de Ds% a tin%a despertado.
- Nue está %avendo, querido$ - perguntou. - Está dando saltos como um fil%ote
que son%a com um leão.
- "lgum dia as coisas mudarão - disse Ds%, como se Em tivesse seguido seus pen-
samentos.
- -im, !á sei - disse ela. - 2emos que fa#er alguma coisa. G&rgani#ar-nosH, creio que
é esta a palavra. :revenir-nos para o futuro.
- 1oc) adivin%a pensamentos$
- Bem, querido, voc) !á disse tantas ve#es... W como uma ideia fia. -empre que
c%ega um ano novo, +eorge fala do refrigerador e voc) fala das mudanças e dos pe-
rigos. E nada ainda mudou.
- -im, mas um dia acontecerá alguma coisa. W inevitável. 1erá que ten%o ra#ão.
- 2em ra#ão, querido. =ontinue se atormentando. 1oc) não pode viver sem se pre-
ocupar. E me parece que essa preocupação não l%e causa danos.
Em não disse mais nada. "braçou Ds% e apertou-o contra seu corpo. Ds% se tranqui-
li#ou e adormeceu.
*o encanamento quebrado continua manando água, que forma um rio. *em uma
s' gota c%ega aos dep'sitos. "o mesmo tempo, por mil fissuras que apareceram no
curso dos anos, pelas torneiras que ninguém fec%ou no momento do +rande Aesas-
tre, pelas fendas que o tremor de terra abriu, escorre constantemente a água e o ní -
vel desce nos dep'sitos.
2
=omo Ds% %avia anunciado, nada foi feito. :assaram-se as semanas e nen%um %o-
mem se cansou tentando levar o refrigerador para o alto da colina, nen%uma enada
revolveu a terra. Ae ve# em quando Ds% ficava inquieto, mas no geral a vida seguia
seu camin%o e ele pr'prio se deiava arrastar pela despreocupação dos seus compa-
n%eiros. =om seus vel%os %ábitos de pesquisador científico, mesmo mantendo-se (
parte, continuava se perguntando o que aconteceria.
Ms ve#es pensava que o brusco desaparecimento da sociedade secular continuava
afetando todos seus compan%eiros. " antropologia citava muitos eemplos similares.
&s caçadores de cabeças e outros índios, privados das suas ocupaç;es tradicionais,
%aviam perdido até a vontade de viver. "s novas leis os proibiam de roubar cavalos
ou de caçar baleias9 e eles !á nada dese!avam. &utras ve#es, um clima suave e
abundFncia de alimentos tiravam do %omem toda ideia de progresso. "ssim, nos tr'-
picos, em algumas il%as dos mares do sul, os il%éus se alimentavam eclusivamente
de banana. &u %averia outra causa$
*a realidade, Ds% tentava resolver um problema que intrigava os fil'sofos desde os
albores da civili#ação %umana: o problema das forças dinFmicas da sociedade. :or
que a sociedade se transforma$ & estudioso Ds% era mais afortunado que =o%elet,
:latão, 0alt%us ou 2o8nbee. 2in%a diante dos ol%os uma sociedade redu#ida que po-
dia submeter-se a verdadeiras eperi)ncias de laborat'rio.
*ão obstante, toda ve# que alcançava este pondo do seu ra#onamento, Ds% sentia
que a simplicidade era s' aparente. Aeiava de ser um sábio para se tornar um %o-
mem9 e adotava uma atitude não muito distinta da de Em. Essa sociedade de -an
Eupo não era o macrocosmos puro e simples de um fil'sofo, um pequeno aquário ar-
rebatado ao oceano da %umanidade. *ão, era um grupo de indivíduos. Era E#ra, era
Em, era os rapa#es... sim, e Koe8.
-e trocassem os indivíduos a situação !á não seria a mesma. Bastaria trocar um s'
indivíduo. :or eemplo, no lugar de Em... Aott8 Eamour. &u então, no lugar de +eor-
ge, um dos grandes pensadores que %avia con%ecido na universidade, o professor
-auer. 2udo também seria diferente. :odia assegurar$ 2alve# não. 2alve# o ambiente
se impusesse a todos, inclusive aos gigantes.
0as Em se equivocava quando temia que as preocupaç;es trouessem a Ds% algu-
ma úlcera ou uma doença nervosa. "o contrário, apaionando-se por suas observa-
ç;es, Ds% se interessava mais ainda pela vida. Aesde os dias do +rande Aesastre, ele
se %avia atribuído o papel de testemun%a em um mundo que %avia perdido seus do-
nos.
2in%am se passado vinte e um anos e as mudanças ainda eram lentas demais para
que fossem visíveis de um dia para outro, ou mesmo de um m)s para outro. & pro-
blema da sociedade - sua adaptação, seu renascimento - ocupava agora toda sua
atenção.
E outra ve# tin%a que corrigir seu pensamento. *ão podia nem devia limitar-se a
ser um observador, um sábio. :latão e os outros fil'sofos tin%am podido se permitir
ol%ar o mundo e fa#er comentários mais ou menos sarcásticos. -uas obras tin%am in-
fluenciado as geraç;es futuras, mas não tin%am sido responsáveis pelo desenvolvi-
mento e crescimento da sociedade. ,aramento o pensador tin%a sido também um
c%efe: 0arco "urélio, 2%omas 0orus, <oodro. <ilson. Ds% não se ac%ava um c%efe
no sentido eato do termo, mas era um intelectual, um pensador de uma pequena
comunidade. Dnevitavelmente, os outros recorriam a ele para resolver as dificulda-
des9 nos casos de grandes perigos, todos l%e pediam proteção.
&bcecado por essa ideia, tin%a procurado muitas ve#es na biblioteca municipal por
biografias de pensadores que também tivessem sido c%efes. " sorte desses %omens
não era inve!ável. 0arco "urélio %avia se esgotado, em corpo e alma, em sangrentas
campan%as nas fronteiras do Aanúbio. 2%omas 0orus tin%a subido ao cadafalso9 e
mais tarde, destino irJnico, tin%a sido canoni#ado como mártir da Dgre!a. "os ol%os
dos seus bi'grafos, <ilson também tin%a sido um mártir, mas nen%um Dgre!a da pa#
o %avia declarado santo. *ão, o intelectual não %avia se distinguido no poder. Entre-
tanto, em uma sociedade que s' contava com trinta e seis membros, Ds% podia influ-
enciar no futuro mais que um imperador, um c%anceler ou um presidente dos vel%os
dias.
*a primeira semana do ano, c%uvas torrenciais a!udaram a manter o nível da água
nos tanques. Aepois, um pouco antes que de costume, iniciou-se o período de seca
dos meados do inverno.
=omo o sangue de um leviatã que brotasse por mil%ares de orifícios, diminutos
como picadas de alfinetes, a água vital escorreu pelas torneiras abertas, pelas cone-
;es folgadas e pelos buracos do encanamento. E agora no tanque, onde o indicador
m'vel assinalava um nível de seis metros, s' %avia uma fina camada de água.
*aquele man%ã, Ds% despertou e viu que era um formoso dia de sol. 2in%a dormi -
do bem e sentia-se descansado. Em !á tin%a se levantado e os ruídos familiares que
vin%am da co#in%a anunciavam que o des!e!um não tardaria. @icou deitado por al -
guns minutos, desfrutando do sem bem estar. "gradava-l%e ficar assim na cama9 e
não somente aos domingos, como antes. *a nova vida não consultavam os rel'gios
ansiosamente e ninguém se apressava para tomar o trem das ?,XR. Esta liberdade,
descon%ecida nos vel%os tempos, convin%a ( independ)ncia do seu caráter.
:or fim se levantou e se barbeou. *ão %avia água quente, embora ele não preci -
sasse. /m queio %irsuto não teria perturbado ninguém, mas depois de fa#er a barba
sentia uma agradável sensação de limpe#a e bem estar.
1estiu então uma camisa limpa e calças de sar!a a#ul, calçou c%inelos cJmodos e
desceu para fa#er o des!e!um. Nuando estava entrando na co#in%a, em, com uma
vo# mais alta que de costume, di#ia:
- Kose8, min%a pequena, por que não abre mais essa torneira$
- 0as mamãe, não pode abrir mais.
Ds% entrou e viu Kose8 com a c%aleira debaio da torneira. " água caía gota a gota.
- Bom dia - cumprimentou. - 1ou di#er a +eorge para revisar o encanamento. Ko-
se8, vá buscar água na torneira do !ardim.
Kose8 correu e Ds% bei!ou Em e l%e falou dos seus planos para o dia. "p's um ins-
tante, Kose8 voltou com a c%aleira c%eia.
- -aiu muita água no começo - disse, - mas acabou logo.
- Nue c%ateaçãoL - queiou-se Em - *ão temos água para lavar os pratos.
Ds% recon%eceu o tom de vo#. " situação era crítica e Em esperava que os %omens
a a!udassem.
-erviram o des!e!um na sala de !antar. Ds% sentou-se na cabeceira da mesa e Em
em frente a ele. "gora s' restavam quatro fil%os em casa. ,obert, de de#esseis anos,
quase um %omem segundo as normas da 2ribo, estava em uma etremidade9 ao seu
lado sentava-se <alt, de do#e anos, alto e ativo9 em frente a ele, perto da porta da
co#in%a, Koe8 e Kose8, que a!udavam a preparar o des!e!um, pJr a mesa, servir e la-
var as vasil%as.
Ds% não pJde deiar de pensar que essa cena familiar não era muito diferente de
outras dos vel%os dias. Em sua !uventude, certamente não %avia dese!ado tantos fi -
l%os. 0as a família continuava sendo a mesma, como em todos os tempos e em to-
das sociedades: o pai, a mãe e os fil%os9 uma célula mais básica e biol'gica que soci -
al. "final, pensou, a família era a mais duradoura de todas as instituiç;es. 3avia pre-
cedido a civili#ação e agora sobrevivia a ela...
3avia sico de grapefruit, engarrafado, claro. Ds% duvidava que aqueles sucos insípi-
dos ainda conservassem alguma vitamina. 0as mesmo assim eram refrescantes e
pelo menos não causavam danos. *ão %avia ovos, pois as galin%as não tin%am so-
brevivido ao +rande Aesastre. 2ampouco %avia presunto, difícil de encontrar, e não
se viam porcos nos arredores. & presunto tin%a sido substituído com vantagem, mes-
mo para o gosto de Ds%, por saborosas costeletas de boi. &s meninos preferiam isto
a qualquer outro alimento.
"costumados desde sua infFncia a se alimentarem de carne, eram definitivamente
carnívoros. Ds%, em troca, preferia torradas e cereais. 0as como os ratos e os vermes
tin%am devorado os pacotes de farin%a e de aveia, contentavam-se com sopas de s)-
mola de mil%o. =olocavam leite condensado na s)mola e a adoçavam com algum a-
rope, pois os ratos e a umidade tin%am acabado com o açúcar. &s adultos também
bebiam café. Ds% colocava leite e arope no seu9 Em preferia amargo e preto. & café,
assim como o suco de grapefruit, tin%a perdido quase todo seu aroma.
Esse des!e!um tin%a sido adotado pouco a pouco. Era bastante satisfat'rio e, para
acrescentar-l%e vitaminas, comiam frutas frescas. "lém das geadas, os insetos e os
coel%os tin%am devastado as %ortas e eles tin%am que recorrer a morangos e fram-
boesas silvestres, maçãs não muito bic%adas e e ameias ácidas que cresciam nas
árvores silvestres.
Nuando Ds% terminou de tomar o café da man%ã, sentou-se em uma poltrona, pe-
gou um cigarro e o acendeu. 0as os cigarros não tin%am suportado bem a prova do
tempo. Ká não se encontrava mais latas de cigarros e os pacotes comuns estavam
muito secos. 2in%am que umedec)-los, as (s ve#es então pareciam muito úmidos.
Era isso que acontecia com o cigarro que Ds% tin%a nos lábios. :or outro lado, não ti -
n%a a consci)ncia tranquila e não conseguia fumar em pa#.
*a co#in%a, em e os g)meos pareciam estar se queiando e ele dedu#iu que não
tin%am água. -erá mel%or que eu vá ver +eorge e l%e pedir que limpe o encanamen-
to, pensou. Eevantou-se e saiu para a rua.
0as antes de ir procurar +eorge parou na casa de E#ra. *ão porque E#ra soubesse
consertar alguma coisa ou precisasse dele para tratar com +eorge9 mas l%e agradava
sua compan%ia. =%amou e Kean c%egou na porta.
- E# não está - disse a mul%er. - Esta semana ele está na casa de 0oll8.
Ds% ficou um pouco perturbado, como ficava cada ve# que se encontrava com a
prática real da bigamia. "ssombrosamente, Kean e 0oll8 eram grandes amigas e se
a!udavam nos afa#eres domésticos. Era um triunfo daquela virtude de E#ra, capa# de
se entender com todos e de criar ao seu redor uma atmosfera de afabilidade.
Ds% deu meia volta, mas logo se lembrou do prop'sito da sua visita a +eorge e vol-
tou outra ve#.
- Kean - disse, - %á água nas torneiras$
- *ão - respondeu Kean. - *ão. /m fio, nada mais.
Kean fec%ou a porta e Ds% desceu a escada da varanda e foi para a casa de 0oll8.
-entiu um leve calafrio.
0oll8 não estava com dificuldades com suas torneiras. 0as sua casa estava em
uma rua mais baia e podia %aver um pouco de água no encanamento.
Ds% e E#ra foram !untos ver +eorge, que vivia em uma casa elegante e bem cuida-
da, protegida por uma grade recém pintada. 0aurine os fe# passar para a sala e con-
vidou-os a se sentarem enquanto ia buscar +eorge, que estava consertando alguma
coisa. Ds% sentou-se em uma poltrona fofa de veludo. Aepois, como sempre, ol%ou
ao redor, sentindo outra ve# o mesmo assombro e um pra#er quase perverso. Essa
sala de +eorge e 0aurine correspondia eatamente aos ideais de um pr'spero car-
pinteiro dos vel%os tempos. 3avia lustres elétricos com telas de miçangas rosadas,
um luuoso rel'gio elétrico, um magnífico aparel%o de rádio de quatro faias de fre-
qu)ncia e um aparel%o de televisão. *as duas mesas %avia porta-revistas artistica-
mente dispostas e em uma delas via-se uma pil%a de revistas populares.
"s lFmpadas não iluminavam, pois não %avia eletricidade, e os ponteiros do rel'gio
elétrico marcavam eternamente 5>:5?%. "s revistas eram de pelo menos vinte anos
atrás. & aparel%o de rádio nada podia transmitir, mesmo que %ouvesse corrente.
0as todos esses ob!etos eram símbolo de prosperidade. *os vel%os dias, +eorge
tin%a sido carpinteiro. " posição econJmica do marido de 0aurine devia ter sido simi-
lar. -empre %aviam dese!ado ter lustres, rel'gios elétricos e aparel%os de rádio. E
agora que estavam ao seu alcance, eles os %aviam tra#ido para casa. M noite 0aurine
acendia uma lamparina a 'leo e pun%a um disco no fon'grafo manual. Era ridículo e
também um pouco emocionante.
Ds% se lembrou de um comentário de Em: G*os vel%os tempos, lembra, - tin%a dito
Em, - as pessoas colocavam um piano na sala, (s ve#es um piano de cauda, embora
ninguém na casa soubesse nada de música.
E eles tin%am uma coleção daqueles livros... os clássicos de 3arvard, que não liam
!amais. E instalaram uma lareira sem c%aminé. Nueria mostrar que podiam se permi-
tir aqueles luos. Eram o símbolo do )ito. Esses lustres de +eorge e 0aurine não
são outra coisa além disso, embora não iluminassem.
"s pisadas de +eorge ressoaram no vestíbulo e sua sil%ueta maciça apareceu na
porta. 2ra#ia uma c%ave inglesa na mão e estava vestido com seu costumeiro tra!e
de carpinteiro, amassado e manc%ado de tinta. :oderia colocar uma roupa nova to-
dos os dias, mas se sentia mais cJmodo com roupa usada.
- &lá, +eorge - disse E#ra, que sempre falava antes de todos.
- Bom dia, +eorge - disse Ds%.
+eorge movimentou a boca por um instante, como se procurasse palavras mais
adequadas. :or fim se decidiu:
- Bom dia, Ds%... Bom dia, E#ra.
- Escute, +eorge - prosseguiu Ds%. - *ão tem água na min%a casa nem na de Kean.
E aqui$
/ma pausa.
- "qui também não - respondeu por fim +eorge.
- E então$ - perguntou Ds%, - o que voc) ac%a$
+eorge %esitou. 0oveu a boca como se tivesse entre os lábios um cigarro imaginá-
rio. -ua estupide# era easperante. 0as Ds% dominou sua irritação, pois +eorge era
um bom %omem, sempre disposto a a!udar.
- E então - repetiu Ds%, - o que ac%a, +eorge$
- Bem, se lá em cima tampouco tem água, é inútil eu tentar desentupir meu enca-
namento. "lguma coisa aconteceu no cano principal.
E#ra ol%ou para Ds% de lado e a sombra de um sorriso desen%ou-se em seus lábios.
" conclusão de +eorge era 'bvia demais, ou pelo menos parecia notável.
- 2alve# voc) ten%a ra#ão, +eorge - disse Ds%, - mas o que vamos fa#er:
"ntes de responder, +eorge moveu o cigarro para o outro lado da boca.
- *ão sei.
=omo Em, +eorge ac%ava que essa dificuldade não era da sua incumb)ncia. -e l%e
pedissem para consertar uma torneira folgada ou totalmente entupida, ele se poria
imediatamente a trabal%ar. 0as ele não era um mecFnico e menos ainda um enge-
n%eiro. =omo sempre, Ds% era a pessoa indicada.
- Ae onde vin%a a água$ - perguntou Ds% de repente.
&s outros se calaram. Era curioso, tin%am usado a água durante vinte anos sem se
perguntarem de onde saía. Era um dom do passado, tão gratuito como o ar, as cai -
as de fava e as garrafas de mol%o de tomate que se empil%avam nos supermerca-
dos. Ds% tin%a se perguntado uma ve#, vagamente, por quanto tempo correria a água
e o que deveriam fa#er para assegurarem novas reservas. 0as não tin%a tomado ne-
n%uma decisão. " água não acabaria da man%ã para a noite e não %avia pressa. :ela
primeira ve# tin%a uma ra#ão imediata para di#er: G2emos que nos ocupar das reser-
vas de águaH.
Dnterrogou sucessivamente, com o ol%ar, +eorge e E#ra, e não obteve resposta.
+eorge se apoiava, ora em um pé, ora em outro. &s ol%os maliciosos de E#ra pareci-
am di#er que aquele não era seu terreno. E#ra con%ecia as pessoas. 1endedor em
uma lo!a de vin%os, sem dúvida sabia fa#er piadas com seus clientes e vender-l%es
as marcas que mais favoreciam a casa. 0as, quanto a ideias, Ds% era superior a ele.
E Ds% compreendeu que devia responder a sua pr'pria pregunta.
- =om certe#a, a água vem da vel%a rede da cidade - disse. - Nuer di#er, vin%a.
"c%o que o mel%or será subir nos dep'sitos para ver se tem água.
- 0uito bem - disse E#ra, sempre de acordo. - E se falássemos com os rapa#es$
- *ão - disse Ds%. - -e fosse uma ecursão de pesca, tudo bem, mas eles não en-
tendem nada de reservas de água.
-aíram, c%amaram os cac%orros e prepararam os arneses. &s dep'sitos estavam a
uns mil e quin%entos metros, mas desde o seu encontro com o puma, Ds% não fa#ia
longas camin%adas e os anos tin%am endurecido as pernas de +eorge.
&s preparativos foram bastante demorados. Em ocasi;es semel%antes, Ds% lamen-
tava que a arte de domar cavalos tivesse sido perdida. *ão %avia cavalos selvagens
nas cercanias, mas deviam abundar no vale de -an Koaquim. Dnfeli#mente, os tr)s
%omens eram pessoas acostumadas aos autom'veis e não sabiam tratar com cava-
los. &s cães eram mais convenientes9 eigiam menos cuidados e comiam qualquer
pedaço de carne. &s cavalos, em troca, precisavam de bons pastos e tin%am que ser
protegidos das raposas e dos pumas. Enfim, na falta de autom'veis, os carrin%os pu-
ados por cães satisfa#iam as modestas necessidades da 2ribo9 e +eorge se sentia
feli# fa#endo e consertando os carrin%os.
Aurante algum tempo, quando se sentava em um daqueles veículos puados por
quatro cães, Ds% ac%ava estar participando de uma grotesca cavalgada e dando um
espetáculo ridículo. 0as os outros não tin%am tantos escrúpulos e, pouco a pouco,
ele %avia se %abituado. *ão tin%a eistido antes os tren's de cães$ E por que não
carrin%os$
Aeiaram os cães no pé da última ladeira e subiram pelo vel%o camin%o, abrindo
camin%o entre os espin%os. Dnclinaram-se sobre o dep'sito. 3avia somente uma pe-
quena camada de água em dois ou tr)s lugares baios e o encanamento de drena-
gem tin%a ficado no ar. &l%aram longamente e E#ra suspirou:
- Então era isso.
@i#eram alguns planos, mas sem interesse nem convicção. " estação das c%uvas
estava c%egando ao fim e %avia poucas c%ances de que a água enc%esse outra ve# o
dep'sito.
Aesceram pelo camin%o, subiram nos carrin%os e voltaram para casa.
"o se aproimarem, os cães dos carrin%os puseram-se a latir e os que tin%am fica-
do nas casas l%es fi#eram coro. 2oda a colJnia %avia se reunido na casa de Ds%.
Nuando Ds% l%es comunicou a notícia, os rostos dos mais vel%os se ensombreceram.
E uma menino, !ovem demais para apreciar a gravidade das circunstFncias, começou
a c%orar.
2odos falavam ao mesmo tempo. *inguém temia morrer de sede, mas as mul%eres
não conseguiam admitir que não %averia mais água nos ban%eiros, não em apenas
um dia, mas nunca mais. Era voltar ao estado selvagem.
-omente 0arine aceitou a catástrofe resignada.
- :assei meus primeiros de#oito anos de vida em uma fa#enda de AaCota - decla-
rou. - *unca vi um sanitário, eceto em algum domingo na cidade9 e tín%amos que
sair de casa. *o fim, papai nos levou todos para a =alif'rnia no vel%o autom'vel,
mas eu ac%ava que isso não podia durar e que logo teríamos que sair outra ve#, em-
bora debaio de c%uva ou neve. &s sanitários estavam muito bem, mas isso acabou.
"gradeço a Aeus que o tempo aqui não se!a tão frio como em AaCota.
& problema da água potável preocupava sobretudo os %omens. " princípio, como
vel%os cidadãos, pensaram em reunir todas as garrafas de água mineral que pudes-
sem encontrar nos arma#éns e nas lo!as. 0as logo compreenderam que, mesmo no
verão, a água não faltaria. "pesar dos longos períodos de seca, a região era um de-
serto e %avia riac%os nos can8ons, aos quais até então ninguém tin%a prestado aten-
ção, onde bebiam as vacas e outros animais.
:recisamente nesse ponto assomou a diferença entre a vel%a e a nova geração.
Ds%, um ge'grafo, não sabia se %avia um manancial ou um rio nos arredores, embora
pudesse locali#ar qualquer lugar pelos nomes da ruas. &s !ovens, ao contrário, podi -
am indicar rios, lagoas e fontes. Dgnoravam os nomes da ruas, mas se orientavam
sem %esitação.
Ds% descobriu então que seu fil%o <alt l%e avisava sobre a eist)ncia de um riac%o
que ele nunca tin%a notado, pois suas águas se perdiam nos esgotos sob -an Eupo.
Eogo a consternação inicial se transformou em alegria febril. &s mais !ovens foram
com os carrin%os enc%er latas de vinte litros no manancial vi#in%o. &s mais vel%os se
puseram a cavar poços que substituiriam os sanitários.
& entusiasmo durou por várias %oras e a obra reali#ada foi considerável. 0as nin-
guém estava acostumado a mane!ar a picareta e a pá. E ao meio-dia todos estavam
se queiando de bol%as e de cansaço. Nuando se separaram para almoçar, Ds% com-
preendeu que ninguém voltaria ao trabal%o. 2in%am outros pro!etos: ecurs;es de
pesca, matar um touro que podia ser perigoso, caçar codorni#es para a ceia. :or ou-
tro lado, os !ovens tin%am tra#ido água bastante para satisfa#er as necessidades ime-
diatas. :elo menos psicologicamente, %avia uma enorme diferença entre um pouco
de água e nada de água. " presença de um recipiente de vinte litros na co#in%a apa-
gava todas as inquietaç;es.
Aepois do almoço, Ds% sentou-se outra ve# em uma poltrona com um cigarro. *ão
tin%a vontade alguma de continuar o trabal%o so#in%o. *o manual de moral poderia
ser um bom eemplo, mas na prática ele se cobriria de ridículo.
& pequeno Koe8 aproimou-se balançando-se nervosamente sobre um e outro pé.
- & que voc) quer, Koe8$ - perguntou Ds%.
- *ão vamos trabal%ar mais um pouco$
- *ão, Koe8, não esta tarde.
Koe8 continuava se balançando. -eu ol%ar passeou pela sala e fiou-se outra ve#
em seu pai.
- 1á brincar, Koe8 - disse Ds% com doçura. - Está tudo bem. Eu l%e darei a lição na
%ora de sempre.
Koe8 se foi, mas sua muda simpatia %avia emocionado Ds%. & menino não podia
compreender todos os problemas, mas sua viva intelig)ncia l%e di#ia que seu pai não
estava satisfeito, embora não tivesse discutido com os outros. -i, Koe8 era o predesti-
nado.
Aesde que Ds% %avia tido essa ideia no dia do ano novo, %avia multiplicado as li-
ç;es e Koe8 estudava com avide#. "té podia temer-se que ele se transformasse em
um pedante. "demais, ele não mostrava nen%uma das virtudes do c%efe e Ds% fre-
quentemente ficava na dúvida. Este pequeno incidente, por eemplo, podia revelar
intuição e previsão, ou o simples dese!o de reunir os meninos da sua idade, mais %á-
beis que ele nos !ogos, e sentir-se seguro !unto ao seu pai.
Ds% esperava que os outros meninos não notassem seu carin%o por Koe8. /m pai
não tem direito a prefer)ncias, mas seu caçula - como %avia se revelado de repente -
era a encarnação dos seus son%os. &%, por que se preocupar tanto, pensou. E de re-
pente foi como se estivesse eplicando tudo a Em. G*o dia do ano novo me pareceu
que Koe8 era o eleito. "gora não estou tão seguro. 2alve# se!a somente os sentimen-
tos de um pai para com seu fil%o mais novo. W possível que um dia eu brigue com ele
como com <alt. 0as eu ten%o esperanças. &s outros nunca demonstraram essa inte-
lig)ncia, essa vivacidade de espírito. *ão, sei. Nuisera saber. =ontinuarei testando.H
"cendeu outro cigarro mas logo se sentiu irritado. Ele pr'prio não %avia mostrado
muita intelig)ncia. 3á anos que repetia que alguma coisa grave ia acontecer. &s ou-
tros riam dele, profeta das desgraças, e seus oráculos nunca se cumpriam. E naquela
man%ã tin%a acontecidoL Ae repente %avia caído um raio sobre a 2ribo. :odia lembrar
das caras espantadas, quando E#ra, +eorge e ele %aviam tra#ido as notícias. 3avia
sido o momento de lembrar suas profecias, de meter o dedo na c%aga. Aevia ter pin-
tado o futuro com cores mais negras. 2alve# assim tivesse conseguido algo.
*a realidade - e talve# ele tivesse compartil%ado a consternação dos outros, - to-
dos tin%am procurado as soluç;es mais fáceis e %aviam ocultado a realidade com a
despreocupação de costume. &u, recorrendo a uma vel%a comparação bastante ade-
quada, o problema %avia resvalado sobre eles Gcomo a água sobre o lombo de um
patoH. Nuatro ou cinco %oras depois, todos %aviam esquecido a ameaça para se dedi-
carem aos pra#eres de sempre. *a apar)ncia, pelo menos. =om certe#a todos ainda
estavam surpresos e inquietos. /ns tin%am ido pescar, outros caçar codorni#es. Ds% !á
tin%a ouvido dois disparos de escopeta. 0as provavelmente eles sentiam um mal-
estar, um remorso. ,egressariam ao entardecer, talve# mais fatigados, e o momento
seria favorável. Ds% os reuniria. & ferro estava ao vermel%o vivo, mas seria possível
esquentá-lo mais um pouco.
Então, com uma certa inconsequ)ncia, esmagou o cigarro e abandonou-se ao des-
caso9 livre de toda preocupação, comodamente estirado no sofá.
Nue agradável, pensou. W como...
Em um desses dias, os %omens ol%am para o mar e gritam:
- /m barcoL /m barcoL *ão está vendo a fumaça da c%aminé$ -im, ele vem para
cá - e todos se rego#i!am e di#em alegremente: - :or que desconfiamos$ " civili#ação
não podia ter se perdido totalmente, era insensato... -im, eu sempre disse... *a "us-
trália, ou na [frica do -ul, em alguma região solitária do norte, ou em alguma das
il%as...
0as não era navio algum e sim uma nuven#in%a no %ori#onte.
&u alguém desperta da sua sesta e levanta os ol%os.
- -imL Eu sabia que não tardariaL W o motor de um avião... *ão estou enganado.
0as são os gafan%otos nas ervas danin%as. *ão %á avi;es no céu.
&u algum outro equipa um aparel%o de rádio com baterias e, com os fones, procu-
ra por uma estação.
- -im - eclama de repente. - -il)ncio... "qui estáL Eatamente na frequ)ncia 6>QL
"lguém está falando... Eu escuto muito bem, parece espan%ol... "%, agora se per-
deu...
0as não eistem vo#es no ar, e sim o eco de uma tormenta distante.
-im, que agradável, pensou Ds% estirado no sofá.
E de repente um sobressaltoL *a rua ouvem-se duas detonaç;es9 o cano de esca-
pe de um poderoso camin%ão que ocupa quase metade da rua. W um lindo camin%ão
pintado de vermel%os e com adornos a#uis9 e na carroceria aparecem letras brancas:
/.-.+&12. Aesce um %omem, é o motorista, que entretanto usa... roupas que con-
v)m ( sua %ierarquia: terno de etiqueta e c%apéu de copa. & recém-c%egado não
pronuncia uma sílaba, mas Ds% sabe que ele é o governador da =alif'rnia. E sente
uma inefável felicidade. Este %omem representa a segurança, a autoridade constituí-
da. 1em socorrer umas pobres pessoas afundadas nas trevas. Ds% !á não é um meni-
no fraco e abandonado em um mundo %ostil.
Essa felicidade ecessiva o despertar 2em as palmas das mãos úmidas9 o coração
bate no peito. Está na sala familiar. -ua felicidade se etingue como a c%ama de uma
vela e sente uma desolação indi#ível.
:or fim pareceu despertar de todo e a desolação também desapareceu. Nuantas
ve#es, no curso daqueles vinte e um anos, %avia tido este son%o em diferentes for-
mas, embora não nos primeiros anos9 a sensação de solidão e insegurança pareciam
ter crescido progressivamente. E o nascimento dos meninos não tin%a conseguido
impedi-lo.
-entiu-se voltar outra ve# ( realidade e se meeu na poltrona. Ae acordo com a
posição do sol, ac%ou que tin%a dormido uma %ora. &uviram-se outros disparos. &s
caçadores de codorni#es, disse a si mesmo, com um sorriso fraco. Era essa a origem
dos ruídos do camin%ão. Bem, convocaria a reunião esta noite.
&s recipientes de água estavam quase va#ios ao terminar o dia, mas pelo menos
ninguém tin%a passado sede. M noite, os mais vel%os, e também ,obert e ,ic%ard,
de de#esseis anos, atenderam o convite de Ds%. *inguém parecia muito inquieto.
Nuase todos opinavam que a mel%or solução era cavar um poço em -an Eupo e não
se mudarem para perto de um manancial. -im, seria necessário vigiar a %igiene e
instruir os meninos.
" assembleia não tin%a presidente. Ae ve# em quando alguém pedia um consel%o
a Ds%, recon%ecendo sua superioridade intelectual, ou simplesmente por cortesia ao
dono da casa. *inguém tomava notas. :or outro lado, não tin%a sido apresentado
nen%uma moção, nem tin%a sido votado nen%um pro!eto. " reunião era mais munda-
na que parlamentar. Ds% escutava.
- 0as como saber que o poço dará água$
- *ão seria um poço se não tivesse água.
- Bom, esse buraco na terra, se voc) prefere.
- Está certoL
- -eria mel%or puar um cano de um rio ou de um manancial e uni-lo ao nosso en-
canamento.
- Nual sua opinião, +eorge$ "c%a que está bem$
- -im, sim... ac%o... -im... ac%o que poderia.
- & pior é que precisamos de água agora mesmo.
- -eria preciso levantar uma represa de terra para conter as águas do manancial.
- *ão é impossível.
- *ão, mas seria um bom trabal%o.
" conversa saltava de um tema para outro e Ds% sentia-se cada ve# mais perturba-
do. *aquele dia %avia sido dado um passo atrás, talve# definitivo. Ae repente notou
que tin%a se levantado e que estava fa#endo um verdadeiro discurso para as de#
pessoas do grupo.
- Este acidente não devia ter acontecido - declarou. - *os deiamos surpreender.
*esses últimos seis meses deveríamos ter notado que a água estava baiando nos
reservat'rios, mas não nos demos ao trabal%o de ol%ar. E aqui estamos, presos. ,e-
trocedemos vários séculos e talve# não possamos recuperar o que perdemos. =ome-
temos erros demais. W preciso que os meninos aprendam a ler e a escrever. *inguém
me apoiou. W preciso enviar uma epedição para saber o que está acontecendo no
mundo. *ão é prudente ignorar o que está acontecendo do outro lado da montan%a.
Aevíamos ter mais animais domésticos, galin%as por eemplo. Aeveríamos produ#ia o
que comemos...
E nesse momento, quando Ds% !á começava a se sentir arrebatado por sua pr'pria
orat'ria, alguém aplaudiu. Ds% se calou, agradecido. 0as então ouviu que todos riam
alegremente e compreendeu outra ve# que o aplauso era puramente irJnico.
- & bom vel%oL &utra ve# com seu discursoL - disse um dos rapa#es.
E outro entoou:
- +eorge vai falar do refrigerador:
Ds% riu com os demais. Aesta ve# não se sentia irritado, mas tin%a pena de ter se
repetido. 2in%a fracassado outra ve#. E#ra se apressou a tomar a palavra. & bom
E#ra, sempre disposto a a!udar seus amigos.
- -im - disse, - o vel%o discurso mas com algo novo. Nue l%es parecer enviarmos
uma epedição$
:ara a surpresa de Ds%, iniciou-se uma acalorada discussão. Aecididamente, pen-
sou ele, as reaç;es dos seres %umanos, sobretudo quando pertencem a um grupo,
são imprevisíveis. " ideia da epedição %avia-l%e ocorrido espontaneamente e talve#
%ouvesse nascido dos acontecimentos do dia e dos tristes resultados do descuido ge-
ral. :ara ele era a menos importante das suas sugest;es, mas tin%a despertado a
imaginação do grupo. 2odos a aceitaram e Ds% uniu-se a eles. :elo menos era um
modo de sacudir a apatia da 2ribo.
Eogo se deiou tomar pelo entusiasmo. -ua ideia inicial era simplesmente a de e-
plorar a região em torno de uns cinquenta quilJmetros quadrados, mas os outros ti-
n%am atribuído a ela pro!etos mais ambiciosos. E ele os apoiou. Eogo todos estavam
falando sobre uma epedição transcontinental.
Ee.is e =larC ao inverso, pensou Ds%, mas não disse nada. Nuantos dos presentes
con%eciam os nomes de Ee.is e =larC$
P
" conversa continuou animada.
- Eonge demais para ir a péL
- &u mesmo com cães.
- &s cavalos seriam mais inúteis, isso se tivéssemos algum.
? @eriAether 0eAis e Billiam &lar7 formaram um dupla de e!ploradores que lideraram a primeira
%rande e!pedição e!plorat2ria do continente norteamericano, partindo do 0este e indo em
direção ao -este até a costa do -ceano Cacífico, com posterior retorno. '(. de Espinhudo)
- =om certe#a eistem muitos no vale.
- 0as teríamos que capturá-los e domá-los.
Ae repente Ds% lembrou do seu son%o %abitual, o que %avia tido aquela mesma
tarde. =omo poderiam saber realmente se o governo tin%a desaparecido$ 2alve# ti-
vesse se formado outra ve#. "inda pequeno e fraco, não tin%a podido se comunicar
com a costa oeste. 0as a 2ribo podia tentar algum contato.
=uriosamente, todos queriam ir. &s %omens, ao que parece, não podiam estar qui -
etos, sempre ansiosos por novos cenários. 0as era necessário escol%er. Ds% foi elimi -
nado e não protestou, pois desde que tin%a sido ferido pelo puma, custava-l%e muito
se mover. +eorge era muito vel%o. E#ra, apesar dos seus protestos, não foi aceito,
pois não sabia disparar um fu#il e não con%ecia a arte de viver no campo. Nuanto
aos rapa#es, todos, eceto eles pr'prios, declararam em coro que suas mul%eres e
seus fil%os precisavam deles. :or fim a escol%a recaiu sobre ,obert e ,ic%ard, ainda
adolescentes, mas capa#es de cuidar deles pr'prios. "s mães - Em e 0oll8 - não pa-
reciam muito convencidas, mas o entusiasmo geral anulou qualquer ob!eção. ,obert
e ,ic%ard estavam contentíssimos.
"lgumas quest;es ainda tin%am que ser resolvidas: o itinerário e o meio de trans-
porte. 3á anos que ninguém andava de autom'vel e ao longo da avenida -an Eupo
via-se uma fila de carros com os pneus murc%os, onde os meninos brincavam. *as
ruas e avenidas %avia árvores caídas e restos de c%aminés, lembrança do último ter-
remoto. :or outro lado, os !ovens não con%eciam o pra#er de devorar quilJmetros e
quilJmetros sem outro trabal%o além de mover alguns dispositivos. E aonde ir, mes-
mo com um ,olls ,o8ce$ *en%um amigo esperava nos outros bairros da cidade, nem
nen%um cinema. :ara levar caias de conservas ou para as ecurs;es de pesca na
margem da baía, bastavam os carrin%os de cães.
0as os fundadores da 2ribo afirmavam que era possível consertar um autom'vel e
fa#)-lo percorrer longas distFncias, mesmo com os pneus murc%os. Bastava dirigir a
baia velocidade, quarenta quilJmetros por %ora, algo enorme, se comparado ( velo-
cidade que os cães alcançavam. Em uma palavra, podia-se c%egar a *e. UorC, pelo
menos se as rodovias estivessem transitáveis.
-' faltava resolver a segunda dificuldade: o itinerário. Ds% estava em seu elemento
e mostrou seus con%ecimentos geográficos. " leste, na -ierra *evada, as árvores e
os desli#amentos de terram tin%am obstruído todos os camin%os9 provavelmente as
rotas no norte não estavam mel%or. & sul oferecia mais possibilidades. Era a rota que
Ds% tin%a escol%ido vinte anos antes para c%egar a *e. UorC. &s camin%os do deser-
to não teriam mudado muito. "s pontes do rio =olorado podiam ter desabado. 0as
s' %avia um modo de sab)-lo: indo até lá.
=om uma crescente emoção e a!udado por vel%os mapas de viagens, Ds% traçou o
itinerário. Aepois do =olorado os via!antes não teriam montan%as muito íngremes
nem grandes rios. -omente o ,io +rande em "lbuquerque. Em seguida, atravessadas
as montan%as, c%egariam (s altas planícies e poderiam escol%er entre vários cami-
n%os. " gasolina não era problema, pois encontrariam em todos lugares. /ma ve#a
nas planícies, atravessariam sem dificuldades e 0ississípi e o 0issouri. "s grandes
pontes de arco eram s'lidas, conforme provava a ponte da baía.
- Nue aventuraL - eclamou Ds% - Eu daria o que quer que fosse para acompa-
n%á-los. 1oc)s devem procurar sobreviventes. *ão um ou dois, e sim comunidades.
1erão como os outros grupos resolveram suas dificuldades e recomeçaram a sobrevi-
ver.
0as depois do 0ississípi, voltando ao itinerário, começavam as con!ecturas. Era
uma região de florestas e os camin%os talve# estivessem obstruídos. " menos que os
inc)ndios não tivessem acabado com as árvores, sobretudo em Dlinois. /ma ve# ali,
decidiriam o que fa#er.
"s velas tin%am se consumido. & rel'gio marcava de# %oras, ou o que correspon-
dia aproimadamente, no vel%o %orário. Ae ve# em quando Ds% acertava seu rel'gio
de acordo com o sol e todos o consultavam para acertar seus pr'prios rel'gios. Era
bastante tarde para pessoas privadas de eletricidade e acostumada a deitar e acor-
dar com o sol. Então todos se levantaram e se despediram.
Nuando ficaram s's, Ds% e Em mandaram ,obert para a cama e arrumaram um
pouco a sala. Ds% sentiu uma certa nostalgia. 2antas mudançasL E no entanto as apa-
r)ncias eram as mesmas. ,etornavam os grandes dias.
& garotin%o que tin%a ido se deitar era ele, e não ,obert. 2antas ve#es, espiando
entre os barrotes da escada, como ,obert fa#ia, sem dúvida, tin%a ol%ado seus pais
que esva#iavam os cin#eiros, batiam as almofadas, colocavam tudo em seus lugares,
para que na man%ã seguinte não vissem o triste espetáculo de uma casa em desor-
dem. Era um agradável interlúdio familiar que encerrava a !ornada e acalmava os
nervos, depois do barul%o das conversas.
=oncluída a tarefa, sentaram-se no divã para fumar um último cigarro. Ds% não
conseguia esquecer os acontecimentos do dia. "s conclus;es não tin%am sido de
acordo com seus planos, mas sentia que tin%a conseguido uma vit'ria.
- "s comunicaç;es - disse ele. - "s comunicaç;es são o essencial. W provado pela
%ist'ria. Nuando uma nação ou uma sociedade se isolam, deiam de progredir e de-
generam. -ão como +eorge e 0aurine, que amontoam todo tipo de ob!etos sem pro-
p'sito algum. "ssim aconteceu na =%ina e no Egito. 0as quando asseguram as co-
municaç;es, o mecanismo do progresso pJs-se outra ve# em marc%a. & mesmo
acontecerá conosco.
Em estava calada e Ds% pensou que ela não aprovava totalmente seu discurso.
- Em que está pensando, querida$
- Estou pensando que os índios não se alegraram muito em poderem se comunicar
com os brancos, nem meus antepassados da costa africana em con%ecerem os ne-
greiros.
- -im, mas talve# isto também me d) ra#ão. Nue diria voc) se em uma man%ã
descessem da montan%a alguns negreiros, sem que n's suspeitássemos da sua eis-
t)ncia$ *ão teria sido mel%or que os índios tivessem enviado eploradores ( Europa,
preparando-se para receber os %omens brancos que c%egaram com cavalos e fu#is$
Ds% sentia-se orgul%oso da sua resposta. " política de Em consistia em deiar as
coisas passarem e viver na ignorFncia. Essa filosofia podia levar ao desastre.
- &%, talve#, talve# - murmurou Em.
- Está lembrada$ - disse Ds%. - Eu digo isso %á muito tempo. W necessário criar e
não viver da pil%agem. Eu !á di#ia isto quando esperávamos o primeiro fil%o.
- -im, eu me lembro. 1oc) disse isto mil ve#es. 0as mesmo assim é mais fácil abrir
latas de conserva.
- 0as as latas de conserva algum dia se acabarão. E não podemos ficar despreve-
nidos, como com a falta de água.
3
Nuando Ds% acordou na man%ã seguinte, Em !á %avia se levantado. Aescansou por
algum tempo, im'vel, tranquilo e feli#. Então, de repente se pegou refletindo e fa-
#endo planos. "p's alguns instantes, sentiu-se de mau %umor. Estou pensando de-
mais, disse a si mesmo.
:or que ele não podia, como os outros, sentir-se satisfeito e feli# sem se atormen-
tar com o futuro e imaginando constantemente o que aconteceria nas pr'imas vinte
e quatro %oras, ou nos pr'imos vinte e quatro anos$ :or que não podia desfrutar de
sessenta segundos de calma$ *ão, sua mente era um contínuo torvelin%o, uma má-
quina. /ma máquina$ Ká era !ustamente o temo de se pensar em máquinas.
"quela serena felicidade entre a vigília e o sono %avia se desvanecido. Empurrou a
manta com uma mão#ada. " man%ã estava clara e ensolarada. Embora fa#endo frio,
saiu para o balcão#in%o e ficou ol%ando para o oeste. =om o correr dos anos as árvo-
res tin%am crescido, mas ainda via o cume da montan%a e a baía com as duas gran-
des pontes.
:ara os meninos, as pontes não eram diferentes das colinas ou das árvores. Esta-
vam ali, e isso era tudo. 0as para ele, Ds%, as pontes eram testemun%as do poder e
da gl'ria da civili#ação morta. "ssim mesmo em outro tempo, algum bárbaro, borgo-
n%)s ou saão, teria contemplado um aqueduto ou um arco do triunfo romanos.
*ão, a comparação não era eata. & bárbaro teria se contentado com suas tradi -
ç;es9 era dono do seu pr'prio mundo. Ele, Ds%, se parecia mais com um último so-
brevivente do mundo romano - senador ou fil'sofo - confundido entre os bárbaros,
que medita diante das ruínas de uma cidade deserta, ansioso e indeciso, pois sabe
que não entrará outra ve# seus amigos nos ban%os, nem verá as coortes desfilarem
pelas ruas.
" %ist'ria se repete, pensou, mas sempre vem com variantes.
-im, constantemente pensava no passado distante. " %ist'ria não se repetia como
um menino lerdo repete uma e outra ve# sua tabuada de multiplicar. =omo um artis-
ta, conservava a ideia, mas mudava os detal%es9 como um compositor que desenvol-
ve variç;es sobre um mesmo tema, sussurra-o em tom menor, retoma-o em um tom
mais grave, o fa# cantar nos violinos ou eplodir nas trombetas.
Estava de pé, de pi!ama, no balcão#in%o e sentia a brisa que l%e acariciava o rosto.
"spirou profundamente e notou que o pr'prio c%eiro do ar %avia mudado. *os vel%os
dias, a pessoa quase nunca notava o c%eiro característico da cidade9 gasolina, comi -
das, lio, e até o suor %umano. "gora o ar tin%a essa pure#a dos campos e das pra-
darias montan%osas.
0as as pontesL &l%ou-as como se buscasse uma lu# nas trevas. 3á anos que não
ia ( +olden +ate. " pé, ou mesmo em um carrin%o,o a distFncia era considerável e
teria que descansar por uma noite. " apar)ncia da ponte não %avia mudado. Eem-
brou como tin%a sido em outros tempos: seis fileiras de autom'veis, camin%;es, Jni -
bus, trens elétricos que corriam ruidosamente pelo nível inferior. "gora s' %avia um
carro na ponte, o cup) abandonado na etremidade oeste. " licença do condutor ain-
da pendia do volante: Kos% -. ,obertson Sou talve# Kames 2., não se recordavaT, rua
tal, número tal, de &aCland. &s pneus %aviam murc%ado, a pintura, antes de um ver-
de bril%ante, era agora cin#a como o musgo.
M primeira vista, as mudanças são evidentes. &s pilares, que escondem os topos
nas nuvens de verão, os cabos de vários quilJmetros de comprimento, as vigas de
aço !á não bril%am ao sol como a prata. " ferrugem os cobriu com um escuro sudá-
rio. 0as os pássaros manc%aram de branco a parte de cima dos pilares.
-im, %á mais de vinte anos as aves marin%as - gaivotas, pelicanos, cormor;es -
pousam na ponte. E nos mol%es correm os ratos, brigam, se incentivam e se multipli -
cam9 e na maré baia se alimentam de meil%;es e carangue!os.
*a ampla calçada, por onde ninguém passa agora, %á muito poucas mudanças9 s'
algumas poucas rac%aduras e aspere#as. "rrastado pelo vento, o p' se depositou em
fendas e cantos, e ali crescem o mato e o musgo.
" estrutura inferior da ponte ainda está intacta. " ferrugem corroeu apenas a capa
protetora. *o lado oeste, durante as tempestades, as ondas batem nas despintados
colunas de aço e o sal acelera a obra de corrosão. /m engen%eiro, se %ouvesse en-
gen%eiros, balançaria a cabeça e ordenaria a troca de algumas peças. 0as nada
mais.
*a resistente estrutura da ponte, a civili#ação ainda desafia os ataques do mar e
do ar.
Ds% despertou do seu son%o e foi se barbear. & liso contato do aço era agradável e
estimulante ao mesmo tempo. "nimado pelas perspectivas do dia, traçou seus pla-
nos. @aria com que fosse retomado o trabal%o nos poços. Airigiria os preparativos da
epedição ao interior, como o presidente Kefferson, que %avia aconsel%ado Ee.is e
=larC. 2entaria fa#er um carro funcionar. 2alve#, pensou alegremente, tomariam outra
ve# o camin%o - no sentido literal, mas também no figurado, - um camin%o que leva-
va ao renascimento da civili#ação.
"cabou de se barbear, mas a operação tin%a sido muito agradável. :assou espuma
outra ve# e repassou nas boc%ec%as... "gora, os trinta e tantos membros da 2ribo ti-
n%am em suas mãos o gérmen do porvir. Eram pessoas comuns, não muito inteligen-
tes mas %onestos. &s mais vel%os, apesar das suas imperfeiç;es, eram realmente
eemplares notáveis9 afinal, tin%am sido escol%idos ao a#ar de uma enorme arca %u-
mana. Ds% eaminou-os outra ve#, um a um, e por fim considerou a si mesmo. Nue
era ele entre os outros$
-im, lembrava, %á muitos anos, naquela mesma casa, tin%a feito uma lista das
suas aptid;es, as que podiam ser mais úteis na nova vida. 2in%a anotado com satis-
fação, entre outras coisas, que tin%a sido operado de apendicite. "inda se alegrava,
embora nen%um dos seus compan%eiros tivessem alguma dificuldade com o ap)ndi-
ce.
0as outras característica tin%am deiado de ser uma vantagem. :or eemplo, seu
amor ( solidão. Ká não parecia mais uma virtude, e talve# até fosse um vício, embora
ele, Ds%, tivesse mudado durante o curso dos anos. -e fi#esse a lista outra ve#, não
seria a mesma de antes. 2in%a lido muito e aprendido muito. E o mais importante, ti-
n%a vivido com Em e agora era pai de família. 3avia amadurecido e envel%ecido. 2i-
n%a mais vontade que +eorge e E#ra. -e alguma dificuldade se apresentava, recorri-
am a ele. -omente ele pensava no futuro.
Aesmontou o aparel%o de barbear, tirou a lFmina e !ogou-a em uma gaveta do ar-
mário. *unca utili#ava duas ve#es a mesma lFmina, pois %avia mil%ares dela e aqui a
economia não contava. Entretanto, como em outros tempos, não sabia o que fa#er
com as lFminas usadas. ,ecordava as vel%as piadas sobre esse tema. Era esquisito
que semel%ante coisa tão pequena persistisse depois de tantas mudanças.
Aepois do des!e!um, Ds% foi ver E#ra. -entaram-se na escada da varanda e pouco
depois c%egaram os outros. @alou-se de uma coisa e de outra, fi#eram piadas, que
entre os !ovens terminavam em briga. Ae comum acordo, todos decidiram concluir o
trabal%o, mas ninguém mostrou muita pressa. Essa demora irritou Ds%, especialmente
quando +eorge, com sua parcimJnia %abitual, lembrou o vel%o assunto do refrigera-
dor.
:or fim E#ra e os tr)s !ovens, escoltados por uma tropa de meninos e meninas, en-
camin%aram-se para o local de trabal%o. Ae repente, como se impulsionados por um
entusiasmo frenético, todos, inclusive E#ra, começaram a correr. Ds% viu que Evie
também corria com o cabelo loiro ao vento. *ão soube quem gan%ou a corrida, mas
logo a terra começou a voar de um lado ara outro. Ds% sentia-se entre inquieto e di -
vertido. &s membros da 2ribo sempre confundiam o trabal%o com brincadeira. Ele
ac%ava que não era possível conseguir algum resultado sem um esforço penoso.
0eia %ora mais e aquele ardor esfriaria9 os golpes de picareta ficariam mais lentos.
Então, primeiro os meninos e depois os pais, todos procurariam uma ocupação mais
agradável.
:ara o %omem primitivo, perseguir o cervo, encol%er-se no pFntano e esperar um
bando de patos, arriscar a vida nos despen%adeiros, refúgio das cabras, cercar !avalis
nos bosques... não era trabal%o, apesar do suor, da respiração ofegante e da fadiga.
" mesma coisa para as mul%eres darem ( lu#, errar pelos bosques em busca de mo-
rangos e cogumelos, alimentar o fogo na entrada da caverna.
0as o canto, a dança e o amor não eram brincadeiras. =om os cantos e as danças
eles aplacavam os espíritos das águas e da floresta. E o amor, com a proteção dos
deuses, assegurava o futuro da tribo. "ssim então, nos primeiros dias da terra o tra-
bal%o e a diversão se confundiam e eram designados por uma mesma palavra.
0as os séculos sucederam os séculos e %ouve mudanças e transformaç;es. & %o-
mem criou a civili#ação e sentiu um imenso orgul%o. E um dos primeiros cuidados da
civili#ação foi o de separa o trabal%o da diversão. Essa divisão logo foi mais profunda
que a anterior, entre o sono e a vigília. Aesde então, o sono foi sinJnimo de descan-
so e Gdormir no trabal%oH uma falta %orrível. " campain%a do rel'gio despertador e o
clamor da sirene - mais que o gesto de acender a lu# e desligar o despertador - assi -
nalaram as duas partes da vida %umana. &s trabal%adores declararam greves, atira-
ram pedras, recorreram ( dinamite para deslocar uma %ora e fa#)-la passar de uma
categoria para outra. E o trabal%o ficou cada ve# mais penoso e detestável9 e o la#er
mais artificial e febril.
Ds% e +eorge tin%am ficados so#in%os na varanda de E#ra. Ds% adivin%ou que +eor-
ge estava se preparando para falar. W esquisito, pensou, geralmente a pessoa não fa#
uma pausa antes que ten%a dito alguma coisa. +eorge fa# uma pausa antes de falar.
- Bem - disse +eorge, e fe# outra pausa. - Bem, eu procurarei umas pranc%as...
para as paredes dos poços... quanto estiverem mais fundos.
- :erfeito - aprovou Ds%.
+eorge faria o seu trabal%o. *os vel%os tempos ele tin%a adquirido o %ábito do tra-
bal%o e talve# nunca ten%a se divertido de verdade. +eorge foi buscar suas pranc%as
e Ds% se uniu a AicC e Bob, que tin%am estado preparando os cães.
&s dois !ovens o esperavam diante da sua porta com tr)s carrin%os, prontos para
partir. Em uma das carruagens assomava o cano de um rifle.
Ds% pensou por um momento. *ão estava esquecendo nada$ E%e parecia que falta-
va alguma coisa.
- &uça, Bob - disse, - vá buscar meu martelo, pode ser$
- :ara que$
- *ão sei. :ode servir para abrir alguma porta.
- :ara isto um ti!olo bastaria - ob!etou Bob, mas obedeceu.
Ds% pegou o rifle e revistou o carregador. *inguém se distanciava de casa sem uma
arma. 3avia poucas c%ances de tropeçar com um touro enfurecido ou com uma ursa
com sua cria, mas era mel%or estar prevenido. Ms ve#es Ds% acordava sobressaltado
no meio da noite, lembrando da ve# que os cac%orros o tin%am perseguido.
Bob c%egou com o martelo e entregou-o ao seu pai. Ds% pegou-o pelo cabo e ime-
diatamente sentiu uma estran%a sensação de segurança. & peso da ferramente, o
vel%o martelo que ele %avia descoberto pouco antes que a serpente o mordesse, era
tranquili#ante. Ms ve#es Ds% pensava em colocar um cabo novo, embora pudesse
também procurar outro martelo. *a realidade, a ferramenta era muito prática. Ele o
empregava por tradição, todos os anos, para gravar os números na roc%a, mas para
isto teria sido mais útil um martelo mais leve. =olocou o martelo no carro, aos seus
pés, e l%e pareceu que agora estava tudo bem.
- :rontos$ - perguntou a AicC e Bob, e neste instante algo l%e c%amou a atenção.
/m menino oculto entre o matagal observava os preparativos da partida. Ds% reco-
n%eceu a pequena sil%ueta.
- Koe8 - c%amou impulsivamente, - quer vir$
Koe8 saiu do mato mas não se adiantou.
- 2en%o que a!udar nos poços - disse.
- 2anto pior, eles cavarão sem voc).
&u se!a, acrescentou Ds% mentalmente, eles não cavarão, nem com voc) nem sem
voc).
Koe8 não esperou mais. Era evidentemente o que ele dese!ava. =orreu para o car-
rin%o de Ds% e se acocorou aos seus pés com o martelo nos !oel%os.
&s cães partiram a toda velocidade com sua %abitual eplosão de latidos. &s ou-
tros dois carrin%os lançaram-se atrás deles. &s rapa#es gritavam e os cães fa#iam
coro. &s cães que guardavam as casas também latiam. :arecia que tin%a eplodido
um motim. Encol%ido atrás dos seus seis cac%orros, Ds% sentiu-se ridículo, com em
uma carroça de carnaval.
Ká em marc%a, os cães não desperdiçaram o fJlego com latidos e adotaram uma
passada mais lenta. Ds% repassou seus planos.
@i#eram alto pela primeira ve# em um vel%o posto de gasolina. *o interior, o sol
era de um amarelo mortiço. Aepois de vinte e um anos de manc%as de moscas e
p's, os vidros tin%am perdido sua transpar)ncia.
& guia telefJnico estava pendurado em um prego !unto ao aparel%o mudo. Ds%
abriu a porta e uma c%uva de papel amarelo caiu no c%ão. :rocurou o endereço do
agente local de !eeps. -im, com as estradas estragadas, o mel%or seria um !eep.
0eia %ora depois c%egaram ao local. Ds% ol%ou através da vitrine e seu coração
deu um salto. /m !eep estava esperando. &s rapa#es amarraram os cães, que se dei-
taram no c%ão ordenadamente, sem enredar as rédeas.
AicC testou a porta9 estava fec%ada com c%ave.
- 2ome o martelo e arrebente a fec%adura - disse Ds%.
- &%, eu prefiro um ti!olo - declarou AicC, e correu para os restos de uma c%aminé
derrubada pelo terremoto. Bobo o seguiu.
Ds% não conseguiu dominar sua irritação. Nue bic%o os tin%a mordido$ *ada me-
l%or que um martelo para abrir uma porta. Ele sabia por eperi)ncia pr'pria. Ká tin%a
feito muitas ve#es. =om tr)s passadas cru#ou a calçado, brandindo ritmicamente o
martelo, e com o último passou deu um golpe que fe# saltar a fec%adura. /ma boa li-
çãoL *ão tin%a tra#ido o martelo para nada.
& !eep da sala de eposição estava com os quatro pneus murc%o e estava coberto
de p', mas sob a espessa capa ainda se via a bril%ante pintura vermel%a. *o velocí-
metro lia-se: quin#e quilJmetros. Ds% balançou a cabeça.
- *ão - disse. - W novo demais. Nuer di#er, era novo demais. :recisamos de um
mais usado.
*a garagem de trás %avia dois !eeps. 2odos os pneus estavam murc%os. /m dos
!eeps estava com a tampa do motor levantada e suas entran%as estavam espal%adas
pelo piso para um conserto que nunca seria terminado. *ão %avia muita diferença
entre os demais. /m deles !á tin%a percorrido nove mil quilJmetros e Ds% decidiu
testá-lo. &s rapa#es seguiam todos seus movimentos e Ds% sentiu que seu prestígio
estava em !ogo.
- Escutem bem - disse em tom agressivo. - *ão sei se poderei fa#er funcionar essa
vel%aria. *ão sei se algum outro poderia. *ão sou um mecFnico e, como quase todo
mundo do meu tempo, dirigi muito tempo um autom'vel sem saber trocar um pneu
ou uma vela. *ão esperem milagres. 1e!amos primeiro se conseguimos mov)-lo.
"ssegurou-se de que não estivesse com o freio de mão e que a alavanca de mar-
c%a estivesse em ponto morto.
- Bem - disse, - os pneus estão murc%os e o lubrificante solidificou-se rolamentos.
2alve# os pr'prios rolamentos este!am esmagados depois de vinte anos de imobilida-
de. 1amos empurrá-lo para trás, não custará muito... 1amosL 2odos !untos... "goraL
& carro moveu-se alguns centímetros, os rapa#es gritaram e os cães responderam
lá de fora. 0as ainda não tin%am gan%o a partida. -' sabiam que as rodas giravam.
Então Ds% engatou a segunda marc%a e empurraram outra ve#. & !eep não se mo-
veu. @altava ver se o motor e as engrenagens funcionavam ou se a ferrugem os tin%a
estragado. &s rapa#es ol%avam na epectativa. Ds% pensou, procurando uma solução.
:odia tentar outro carro. :odia amarrar os cães ao !eep. &correu-l%e outra ideia.
& !eep do motor desarmado estava a uns tr)s metros, em lin%a reta. /tili#ando-o
como catapulta, talve# pudessem mover o outro. 2ambém podiam quebrar alguma
coisa, mas isso não importava. "proimaram o !eep sem motor uns sessenta centí-
metros do outro e tomaram fJlego. Então empurraram todos de uma ve#. 3ouve um
satisfat'rio estrondo metálico. @oram ol%ar e comprovaram que o outro !eep %avia se
movido por alguns centímetros. Então empurraram de novo e conseguiram mov)-lo
um pouco mais. Ds% começou a sentia que %avia triunfado.
- Estão vendo$ - disse - o mais difícil é colocá-lo em movimento. & resto não não é
muito difícil.
*aturalmente, os acumuladores estavam descarregados, mas esse problema pode-
ria ser facilmente solucionado. &rdenou aos rapa#es que tirassem o 'leo e colocas-
sem outro mais leve. Então subiu em um carrin%o e saiu. 0eia %ora mais tarde tra#ia
acumuladores novos. Dnstalou-os e girou a c%ave de contato, com os ol%os fios no
ponteiro do amperímetro. & ponteiro não se moveu. 2alve# os cabos estivessem es-
tragados.
Bateu com a ponta dos dedos no amperímetro e o ponteiro, por tanto tempo im'-
vel, de repente se moveu, oscilou para além de Aescarregado. & !eep ressuscitava.
:rocurou o botão do arranque.
- Bem, rapa#es - disse, - agora o teste principal. 1amos ver como funciona a bate-
ria.
&s rapa#es sorriram inepressivamente9 nunca tin%am ouvido falar daquela pala-
vra. Ds% apertou o botão do arranque e s' se ouviu um rangido. E então o #umbido
do motor, cada ve# mais rápido. & dep'sito de gasolina estava quase va#io, como em
todos os outros carros. 2alve# os tanques não fossem realmente impermeáveis, ou
então a gasolina não estava entrando no carburador. Ds% o ignorava.
Encontraram um dep'sito de gasolina e colocaram vinte litros no tanque. Ds% subs-
tituiu as velas, limpou o carburador, orgul%oso da sua %abilidade. Então sentou-se di -
ante do painel, girou a c%ave de contato e apertou o botão do arranque.
& motor #umbiu, em um tom cada ve# mais agudo, e por fim voltou ( vida com
um rugido. &s rapa#es gritaram. Ds% pisava feli# no acelerador. -entia-se orgul%osa
desta vit'ria do mundo civili#ado, do trabal%o %onesto e consciente dos mecFnicos e
engen%eiros que tin%am criado um motor que ainda funcionava depois de vinte e um
anos.
0as quando a gasolina do carburador se esgotou, o motor parou bruscamente.
"fogaram-no e o puseram em funcionamento várias ve#es. E finalmente a vel%a
bomba puou gasolina do tanque e o motor funcionou sem parar. " maior dificuldade
agora eram os pneus.
*o salão de vendas %avia uma barra metálica onde estavam pendurados vários
pneus. 0as depois de tanto tempo, o pr'prio peso os tin%a deformado e a borrac%a
conservava a marca da barra. :oderiam servir durante alguns quilJmetros, mas não
para longos tra!etos. Ds% separou os mel%or conservados, mas mesmo nesses a bor-
rac%a estava rac%ada e endurecida, perdendo toda elasticidade.
=om a a!uda de um macaco, levantaram uma roda. 2irá-la não foi fácil, pois as
porcas estavam enferru!adas. Bob e AicC não estavam acostumados a mane!ar ferra-
mentas9 e o pequeno e inquieto Koe8 era mais um estorvo que uma a!uda. 0esmo
nos vel%os tempos, Ds% s' %avia desmontado uma roda em uma ou duas oportunida-
des e tin%a perdido o !eito, se é que teve alguma ve#.
Aemoraram muito tempo para tirar o primeiro pneu. Bob arran%ou os n's dos de-
dos e AicC perdeu metade de uma un%a. =olocar no novo pneu foi ainda mais difícil
por causa da rigide# da borrac%a. :or fim, esgotados e easperados, concluíram a ta-
refa. Enquanto descansavam, trinfantes mas !á sem forças, Ds% ouviu que Koe8 o
c%amava da garagem.
- Nue foi, Koe8$ - perguntou, um pouco impaciente.
- 1en%a ver, papai.
- &%, Koe8, eu estou cansado - protestou Ds%.
0esmo assim se levantou e atendeu a c%amada. &s rapa#es o seguiram arrastan-
do os pés. Koe8 apontou com um dedo para o estepe de um !eep.
- &l%e, papai, por que não usamos esta roda$
Ds% deu uma risada.
- Bem, rapa#es - disse a Bob e a AicC, - temos que confessar que fomos uns idio-
tas.
=om efeito, bastava tirar os estepes, enc%)-los e colocá-los no !eep. 2in%am traba-
l%ado inutilmente. 0as Ds%, ainda envergon%ado da sua estupide#, sentia uma estra-
n%a e nova alegria. @oi Koe8 quem tin%a encontrado a solução.
"proimava-se a %ora do almoço. Eles tin%am tra#ido col%eres e abridores de lata.
-' faltava encontrar uma lo!a de alimentos.
*a lo!a, como em todas as outras, reinava a desordem e a su!eira. & espetáculo
entristeceu Ds%, embora !á tivesse visto muitas ve#es. Nuanto aos rapa#es, ao contrá-
rio, não c%amava a atenção, pois nunca tin%am visto uma lo!a em outro estado. &s
ratos e guabirus %aviam roído todas as caias de papelão e o piso era uma confusão
de papéis e ecrementos. 2in%am até roído o papel %igi)nico, provavelmente para fa-
#erem nin%os.
0as seus dentes tin%am em vão atacado as latas e os vidros. "s garrafas e latas
continuavam intactas, e sua limpe#a parecia ainda mais notável em meio (quela su-
!eira. :orém, ol%ando mais de perto, notava-se que essa limpe#a era somente uma
ilusão. &s ratos tin%am coberto as prateleiras de ecrementos e %aviam roído quase
todas as etiquetas, talve# atraídos pelo sabor da cola. Em outras latas, as imagens ti -
n%am perdido sua cor e os tomates, antes de um vermel%o vivo, eram agora de um
amarelo terroso9 os rosados p)ssegos mal se viam. Entretanto, algumas palavras ain-
da eram legíveis. :elo menos Ds% e Koe8 eram capa#es de decifrá-las. &s outros ol%a-
vam perpleos para as palavras difíceis, como p)ssegos ou aspargos, e escol%iam
guiando-se pelos desen%os.
&s rapa#es teriam almoçado sem inconvenientes no meio do lio, mas Ds% os arras-
tou para fora e sentaram-se na calçada, no sol. *ão se preocuparam em acender um
fogo e comeram um almoço frio de diversas conservas: ervil%as, sardin%as, salmão,
pat) de foie, carne em conserva, a#eitonas, frutas secas e aspargos. Era uma comida
rica em proteínas e gorduras, mas pobre em %idrato de carbono, pensou Ds%. 0as os
alimentos com %idrato de carbono eram raros e eigiam alguma preparação, como a
farin%a de mil%o ou o macarrão. " sobremesa foi p)ssego com ananás em calda.
Nuando terminaram de comer, limparam as col%eres e os abridores de lata e colo-
caram-nos nos bolsos. "s latas va#ias ficaram ali mesmo. 3avia tanto lio na rua que
um pouco mais não importava.
&s rapa#es, notou Ds% com pra#er, estavam ansiosos em voltarem ao trabal%o. :a-
reciam entusiasmados por aquela vit'ria sobre o mundo da matéria. 0as Ds%, ainda
um pouco cansado, tin%a se lembrado de outra coisa.
- ,apa#es - disse, ac%am que são capa#es de trocarem as rodas so#in%os$
- =laro que sim - disse AicC, um pouco perpleo.
- Bem, Koe8 é muito pequeno para a!udá-los e eu me sinto cansado. " biblioteca
municipal é muito perto daqui. Koe8 poderia me acompan%ar. Nuer, Koe8$
Koe8, encantado, !á estava de pé. &s outros s' queriam voltar aos seus pneus.
Ds% se encamin%ou para a biblioteca. Koe8, impaciente, corria adiante. Era ridículo,
pensou Ds%, que nunca l%e %ouvesse pensado em levar Koe8 ali. 0as não tin%a pre-
visto o rápido desenvolvimento intelectual do menino.
-empre pensando em reservar a biblioteca universitária para mais tarde, Ds% tirava
livros livro que precisava da biblioteca municipal, da qual %avia forçado a fec%adura
%á muitos anos. Empurrou a pesada porta em entrou orgul%osamente, com Koe8 em
seus calcan%ares.
Entraram na grande sala de leitura e camin%aram entre as estantes. Koe8 não di#ia
nada, mas seus ol%os devoravam os títulos. =%egaram outra ve# ao vestíbulo e Ds%
rompeu o sil)ncio.
- Bom, que l%e parece$
- -ão todos os livros do mundo$
- &%, não, s' alguns.
- :osso l)-los$
- -im, pode ler o que quiser. 0as deve devolv)-los sempre, colocando-os em seus
lugares para que não fiquem fora de ordem nem se percam
- & que %á nos livros$
- &%, um pouco de tudo. -e voc) lesse todos esses, saberia bastantes coisas.
- Eu lerei todos.
Ds% sentiu que uma repentina sombra empanava sua felicidade.
- &%, não, Koe8, isto seria impossível. "demais %á livros c%atos, estúpidos e até
maus. 0as eu o a!udarei a escol%er os bons. "gora temos que ir.
Ds% tin%a pressa em levar Koe8 para a rua. & espetáculo de tantos volumes poderia
causar danos ao menino. Ds% se alegrou de não t)-lo levado ( biblioteca universitária.
Dsso ficaria para mais tarde.
1oltaram para a garagem. Aesta ve# Koe8 não corria na frente. =amin%ava !unto
ao seu pai, pensando. :or fim se decidiu a falar.
- :apai, como se c%amam essas coisas que pendem to teto em casa$ Essas bolas
bril%antes. /m dia voc) me disse que antes elas se acendiam e iluminavam.
- "% sim, são lFmpadas elétricas.
- -e eu ler todos os livros poderei acend)-las outra ve#$
Ds% sentiu uma alegria emocionada e, logo a seguir, um estremecimento de temor.
*ão estariam indo rápido demais$
- *ão sei, Koe8 - disse, em um tom que pretendia ser indiferente. - 2alve# sim, tal-
ve# não. W preciso tempo e o trabal%o de muita gente. *ão precisamos nos apressar.
=ontinuaram camin%ando em sil)ncio. Ds% estava orgul%oso por Koe8 satisfa#er
suas ambiç;es, mas ao mesmo tempo aquela vit'ria o assustava. & menino se adian-
tava demais. " intelig)ncia não deveria superar os anos. Koe8 precisava de maior vi-
gor físico e energia moral. Ele iria longe.
/m ruído seco o tirou do seu ensimesmamento. Koe8 estava vomitando sobre um
monte de restos. @oi esse almoço, pensou Ds%, sentindo-se culpado, deiei que ele se
fartasse de coisas indigestas. Ká l%e aconteceu outras ve#es. 0as logo depois pensou
que a causa talve# fosse a emoção e não o almoço. Koe8 logo sentiu-se mel%or.
Nuando c%egaram ( garagem, descobriram que os rapa#es tin%am trocado as ro-
das e enc%ido os pneus. Ds% sentiu um novo interesse pelo !eep e pela epedição
pro!etada.
-entando-se ao volante, ligou o carro novamente. &s pneus aguentaram, pelo me-
nos no momento. @icavam pendentes os problemas da embreagem, da transmissão,
da direção, dos freios e de todos os 'rgãos misteriosos e essenciais, ocultos nas en-
tran%as de um carro e que ele s' con%ecia pelo nome. Bob e AicC tin%am colocado
água no radiador, mas podia %aver um cano obstruído e bastaria isso para imobili#ar
o !eep. &utra ve# estava se preocupando pelo futuro.
- :erfeito - disse. - 1amos.
& motor murmurava alegremente. Ds% pisou no acelerador e o autom'vel sacu-
diu-se, como se uma longa atividade o tivesse paralisado. 0esmo assim avançava,
obedecendo (s ordens de Ds%. Ds% freou e o !eep parou. 0as ele tin%a se movido e, o
que também era importante, tin%a parado.
" alegria de Ds% se transformou em ealtação. *ão era um son%oL -e somente em
um dia um %omem e tr)s rapa#es tin%am devolvido a vida a um !eep, o que não po-
deria fa#er a 2ribo em alguns anos$ &s rapa#es soltaram um tiro de cães e amarra-
ram o carrin%o a um dos outros. Ds%, com Koe8 ao seu lado, partiu valentemente.
*as ruas %avia montes de escombros, que o vento %avia coberto com poeira e fo-
l%as. Aepois das c%uvas invernais, esse montes, onde crescia um mato espesso, pa-
receriam bancos e montículos naturais. Ds% dirigia em #ig #ag. Ká estava se aproi-
mando da meta, quando bateu em um ti!olo e ouviu-se uma eplosão. & pneu trasei -
ro esquerdo tin%a arrebentado. Ds% continuou dando tombos e por fim c%egou antes
dos carrin%os. "pesar desse último incidente, a viagem tin%a sido um )ito.
:arou o !eep em frente ( sua casa e reclinou-se no assento, aliviado. "pertou a
bu#ina e, depois de um sil)ncio de tantos anos, ouviu-se o vel%o som estridente. Es-
perava que os mais vel%os e os meninos acudissem de todos os lados, atraídos pelo
som estran%o, mas não apareceu ninguém. -' l%e respondeu um concerto de latidos.
&s cães que puavam as carroças, que nesse instante alcançavam o cume da colina,
uniram-se ao coro.
Ds% sentiu uma inquietação estran%a. /ma ve#, muitos anos atrás, %avia entrado
em uma cidade deserta e tin%a tocado a bu#ina. E agora parecia que o pesadelo se
repetia outra ve#. 0as a impressão durou poucos segundos.
0ar8, com seu beb) nos braços, saiu sem pressa de uma casa no etremo da rua e
saudou com a mão.
- @oram todos ( corrida de tourosL - gritou.
&s rapa#es s' pensaram então em se unir ao !ogo. -oltaram os cães e foram cor-
rendo, sem pedir permissão a Ds%. Koe8, curado da sua indigestão, os seguiu. Ds%
sentiu-se bruscamente so#in%o e abandonado. -omente 0ar8 foi admirar o carro.
&l%ou pra ele muda, com os ol%os muito abertos, tão inepressivamente como o
beb).
Ds% saltou do !eep e se espreguiçou. 2in%a as pernas intumescidas e o balanço do
carro tin%a deiado dolorida suas costas doente.
- Bem - disse, com orgul%o na vo#, - que l%e parece, 0ar8$
0ar8 era sua fil%a, mas não se parecia com ele nem com Em. E sua estupide# o ir-
ritava constantemente.
- 0uito bom - respondeu ela, com sua %abitual falta de entusiasmo.
- &nde é a corrida$ - perguntou Ds%.
- :erto da nogueira grande.
&uviram-se gritos distantes. -em dúvida, alguém %avia se esquivado de uma in-
vestida do touro.
- Bem, vou admirar o esporte nacional - disse Ds%, mesmo sabendo que era uma
ironia desperdiçada.
- -im - disse 0ar8 e, com o menino nos braços, voltou para sua casa.
Ds% desceu a colina e atravessou um prado que em outros tempos %avia sido o pá-
tio de alguém. & esporte nacionalL -ua entrada triunfal tin%a sido um fracasso e ele
não podia deiar de sentir uma certa amargura. &utro grito mostrou que alguém
acabava de escapar por pouco dos c%ifres do touro.
& !ogo era perigoso, embora ninguém tivesse morrido ainda, nem %avia sido ferido
gravemente. Ds% o desaprovava, mas não se atrevia a se opor. &s rapa#es tin%am e-
cesso de energia e talve# sentissem a necessidade do perigo. " eist)ncia em -al
Eupo era serena e mon'tona demais. Eembrou de 0ar8: como não se tornar insensí-
vel naquelas condiç;es$ &s meninos atravessavam as ruas sem medo de autom'veis.
E %aviam desaparecido também outros perigos da vida cotidiana. &s resfriados, por
eemplo, e as bombas atJmicas. *aturalmente, como pessoas que viviam ao ar livre
e usavam mac%ados e fac;es, eles !á con%eciam as feridas e mac%ucados. 0ar8 ti -
n%a queimado as mãos uma ve#, e um dia um menino de tr)s anos %avia caído do
mol%e, quase se afogando.
Ds% c%egou a um espaço que em outros tempos %avia sido um parque, perto da ro-
c%a que servia de calendário. & capim, com trinta centímetros de altura,não con%ecia
outros !ardineiros além dos cervos e das vacas.
3arr8, o fil%o de quin#e anos de 0ar8, era o toureiro. Era secundado por <alt, que
Gtrabal%ava na retaguardaH, termo esportivo %erdado dos vel%os dias. Ds% não era um
especialista, mas l%e bastou dar uma ol%ada para saber que o touro não era perigo-
so. Era um 3ereford de raça quase pura, vermel%os e com manc%as brancas no foci -
n%o. Esses touros viviam em liberdade %á várias geraç;es e agora tin%am patas mais
longas, mais finas, e c%ifres maiores. *esse instante o touro, !á cansado, ol%ava in-
deciso para 3arr8 que o provocava sem )ito.
&s espectadores, quase toda a 2ribo, inclusive Kean e seu beb), estavam sentados
na margem da clareira. "s árvores os protegeriam do touro se o animal decidisse dei-
ar o cercado. =aso necessário, os cac%orros seriam soltos e KacC estava com um fu-
#il nos !oel%os.
Ae repente o touro voltou ( vida e investiu pesadamente, com força bastante para
derrubar vinte %omens. 0as 3arr8 saltou de lado e o touro parou, desconcertado.
/ma menina - Bett8, a fil%a de Kean - levantou-se e gritou que agora era sua ve#. :a-
recia uma pequena selvagem, com a saia levantada até as coas, as longas pernas
bron#eadas. 3arr8 cedeu seu lugar ( sua irmã de criação. & touro estava cansado e
a menina não corria perigo. "!udada por <alt, Bett8 provocou algumas investidas do
touro, das quais se esquivou facilmente.
E então um menino gritou com todas suas forças:
- "gora euL
Era Koe8. Ds% fran#iu o cen%o, mas sabia que não precisaria eercer sua autorida-
de. Koe8 s' tin%a nove anos e as leis do !ogo o proibiam de intervir. &s meninos mais
vel%os se impuseram, amavelmente mas com firme#a.
- *ão, Koe8 - disse Bob, que tin%a de#esseis anos, - voc) é muito pequeno. Espere
alguns anos.
- -ou tão bom quanto <alt - protestou Koe8.
Ds% ac%ou que Koe8 tin%a praticado por sua pr'pria conta, em segredo, com algum
touro manso. E talve# a!udado por Kosie, sua irmã g)mea e sua escrava devota. Ds%
estremeceu diante da ideia de que Koe8 pudesse sofrer um acidente... Eogo Koe8, en-
tre todos os outros... 0as depois de alguns fracos protestos, o garoto cedeu.
& touro gordo %avia combatido bastante e se contentava em raspar a terra, en-
quanto Bett8 dançava ao seu redor. " corrida %avia terminado e os espectadores co-
meçaram a se dispersar. &s rapa#es c%amaram Bett8 e <alt. & touro, sem dúvida ali -
viado, ficou so#in%o na clareira.
Ds% foi inspecionar o trabal%o do dia. & poço tin%a somente alguns poucos centí -
metros. :ás e picaretas !a#iam ao redor. " indol)ncia dos trabal%adores e a atração
da corrida %avia acabado com as boas intenç;es. Ds% ol%ou para o buraco e sorriu
com uma careta. 0as eles %aviam levado para as casas água suficiente para atender
(s necessidades imediatas.
Em tin%a preparado para a ceia uma saboroso assado de novil%o.
Dnfeli#mente, o *apa +ama8 de vinte e cinco anos, se alguém acreditasse no r'tu-
lo, tin%a virado vinagre.
?
D (apa Eame8 &asta de u$as tintas $iníferas de maturação tardia, culti$ada no (apa :alle8,
&alif2rnia, EFA, tam#ém conhecida por Eama8 (oir '(. de Espinhudo)
4
Ds% decidiu que os rapa#es partiriam quatro dias mais tarde. 3avia aqui outra dife-
rença dos vel%os tempos. "ntes tudo era tão complicado, que uma viagem longa ei -
giria muitos preparativos. "gora se decidia uma coisa e se fa#ia. :or outro lado, a es-
tação era favorável e os atrasos poderiam esfriar o entusiasmo que a epedição des-
pertava.
Enquanto não c%egava o dia da partida, trabal%ou com os rapa#es. Ensinou-l%es a
dirigir. 1oltou com eles ( garagem e l%es mostrou como deviam trocar algumas pe-
ças, como a bomba de 'leo e as velas.
- -e voc)s encontrarem dificuldades - aconsel%ou - será mel%or parar em uma ga-
ragem e tentar fa#er funcionar outro carro. "ssim voc)s perderão menos tempo.
Então plane!ou, entusiasmado, o itinerário. *os postos de gasolina encontrou al-
guns mapas de viagem amarelados e descoloridos. Estudou-os atentamente e, a!u-
dado por seus con%ecimentos geográficos, tentou imaginar as mudanças que as
inundaç;es, os ventos e o rápido crescimento das árvores pudessem ter provocado
nos camin%os.
- :rimeiro voc)s vão para o sul, até Eos "ngeles - concluiu. - Era um grande centro
populacional nos vel%os tempo. W possível que encontrem sobreviventes ali, talve#
até uma comunidade - seguiu com os ol%os as lin%as vermel%as. - 2entem primeiro a
rota 66. "c%o que poderão passar. -e tropeçaram com algum obstáculo nas monta-
n%as, voltem até BaCesfield, tomem a 7PP e cru#em o desfiladeiro de 2e%ac%api.
Então interrompeu-se. -entiu que a nostalgia fec%ava sua garganta e l%e umedecia
os ol%os. "queles nomes evocavam tantas recordaç;esL BurbanC, 3oll8.ood, :asade-
na... =idades vivas e pr'speras que ele %avia con%ecido antes. "gora os coiotes per-
seguiam lebres nos parques e nos !ardins devastados. 0as os nomes ainda estavam
ali nos mapas, em grandes letras negras. =ontrolou-se, pois os dois rapa#es o ol%a-
vam estupefatos.
- :erfeito - disse rapidamente. - -aindo de Eos "ngeles, ou de Barsto., se não pu-
derem c%egar a Eos "ngeles, tomem a PP. Eu tomei esse camin%o. 1oc)s atravessa-
rão facilmente o deserto. *ão esqueçam das provis;es de água. -e a ponte do =olo-
rado ainda eiste, tanto mel%or. -e não, voltem para o norte e tentem a rota que
atravessa a represa Boulder. =om certe#a voc)s a encontraram intacta.
Ensinou-l%es a ler os mapas, para o caso de terem de trocar de itinerário. 0as sem
dúvida l%es bastaria afastar alguma árvore caída de ve# em quando, ou trabal%ar
com picareta e pá durante uma %ora para tirar algum monte de terra. "final, vinte e
um anos de abandono não bastavam para que as rodovias desaparecessem.
- 1oc) terão algumas dificuldades no "ri#ona - continuou Ds%. - *as montan%as,
mas...
- "ri#ona$ & que é isso$
@oi Bob quem fe# a pergunta, bastante natural. Ds% não soube o que di#er. & que
tin%a sido o "ri#ona$ /m territ'rio, uma entidade ou uma abstração$ =omo eplicar
em poucas palavras o que era um Estado$ E como eplicar o que "ri#ona era agora$
- &% - disse por fim, - "ri#ona é o nome dessa região aqui em baio, do outro lado
do rio - ocorreu-l%e uma ideia. - &l%em aqui no mapa. Esse territ'rio rodeado por
uma listra amarela.
- "% - disse Bob. - 3á uma cerca ao redor.
- Bom, me parece que não.
- 0as é. *ão precisam de cerca, pois lá está o rio.
Dnútil insistir, pensou Ds%. "c%am que o "ri#ona é uma espécie de pátio grande.
Aesde então, evitou se referir aos Estados e se contentou em mencionar as cidades.
:ara os garotos, uma cidade era uma confusão de ruas ladeadas por casas em ruí-
nas. Eles viviam em uma cidade e podiam imaginar outras como comunidades simila-
res ( da 2ribo.
& itinerário de Ds% passava por Aenver, &ma%a e =%icago. Nueria saber o que ti -
n%a acontecido nas grandes cidades. Eles c%egariam lá na primavera. "consel%ou-os
que fossem em seguida para <as%ington e *e. UorC pela rodovia que parecesse
mais transitável.
- 1oc)s poderão atravessar as montan%as pelo paso de :ens8lvania. W difícil que
uma rodovia tão larga ten%a sido obstruída ou que os túneis ten%am sido fec%ados.
Eles mesmos poderiam escol%er por onde voltar. :ois então !á con%eceriam mel%or
que ele o estado dos camin%os. "consel%ou-os entretanto que tentassem via!ar pelo
sul. 2alve# ali %ouvesse pessoas que tivessem escapado ao inverno.
2odos os dias fa#iam um passeio no !eep. E depois de algumas provas, consegui -
ram alguns pneus que pareciam bastante resistentes.
:artiram no quarto dia, com o !eep carregado de acumuladores, pneus e peças de
reposição. &s rapa#es transbordavam de alegria9 as mães não conseguiam conter as
lágrimas, ante a perspectiva de uma separação tão longa9 Ds%, muito nervoso, não
ocultava que seu dese!o seria acompan%ar os via!antes.
"s fronteiras eram lin%as de demarcação tão duras, tão infleíveis quanto as cer-
cas. 2ambém eram obra do %omem, abstraç;es que se fa#iam reais. "travessava-se
uma fronteira e a superfície do solo mudava. /ma nova vibração l%e di#ia que %avia
deiado a suave rodovia de Aela.are pela mais áspera de 0ar8land.
&s pneus entoavam outra canção. @&*2ED," A& E-2"A&, assinalava a placa. E*-
2,"A" :"," *EB,"-Y". 1EE&=DA"AE 0[OD0" AE 6Q N/DE\0E2,&-. &s pr'prios
regulamentos eram diferentes. E a pessoa apertava o acelerador com mais força.
Em ambos os lados de uma fronteira nacional, agitadas pelos mesmos ventos, flu-
tuavam bandeiras de diferentes cores. 1oc) era submetido (s formalidades da adua-
na e do serviço de imigração e logo era um estran%o, um descon%ecido. *otava que
os policiais usavam outro uniforme. 2rocavam seu din%eiro e os selos que colocasse
nas cartas mostravam uma face distinta. -erá mel%or dirigir prudentemente, voc)
pensaria. *ão ten%amos dificuldades com a polícia. 3ist'ria curiosa. 1oc) atravessa-
va uma lin%a invisível e se transformava em outro %omem: um estrangeiro.
0as as fronteiras desapareceram mais rapidamente que as cercas. "s lin%as imagi-
nárias não são atacadas lentamente pela ferrugem. Em troca, é muito mais rápido e
talve# menos desconcertante. -e dirá desde então, como no princípio dos séculos:
G*o lugar onde os carval%os começam a ficar raros e crescem os pin%eirosH. -e dirá:
GEá embaio... não sei eatamente onde, nas colinas argilosas, onde crescem umas
moitas de sálviaH.
Aepois da partida dos rapa#es, começou um longo período sem incidentes que se
c%amou o ano bom. &s dias sucediam aos dias e as semanas (s semanas. "s c%uvas
se prolongavam. @oram c%uvas torrenciais, seguidas de dias limpos em que as dis-
tantes torres da +olden +ate erguiam-se precisas e ma!estosas contra o céu a#ul.
:elas man%ãs, Ds% conseguia que o pessoal trabal%asse nos poços. *o primeiro en-
saio, tropeçaram com uma camada de roc%a. & segundo poço foi mais profundo e
encontraram um bom manancial. ,evestiram as paredes do poço com madeira e ins-
talaram uma bomba manual. 0as nesse tempo !á %aviam se acostumado a não usar
os sanitários, então renunciaram a fa#)-los funcionar.
*essa época, os peies abundavam na baía e se preferia a pesca ao trabal%o.
M tarde, todos se reuniam para cantar canç;es, que Ds% acompan%ava ao acorde-
on. Ds% propJs que organi#assem um coro. *ão faltavam vo#es bonitas e +eorge era
um bom baio. 0as todos preferiam o camin%o do menor esforço. Aecididamente, a
2ribo não gostava muito de música, como Ds% tin%a comprovado %á algum tempo. "l-
guns anos antes ele tin%a colocado alguns discos de sinfonias no primeiro fon'grafo.
*ão se ouvia muito bem, mas os temas podiam ser seguidos. &s meninos permane-
ceram indiferentes. Ms ve#es, atraídos pela melodia, abandonavam suas brincadeiras
ou a escultura em madeira e escutavam com atenção. 0as não demoravam em voltar
(s suas ocupaç;es.
Bom, o que se podia esperar de umas poucas pessoas comuns e dos seus descen-
dentes$ Estavam um pouco acima da média comum, se corrigia, mas careciam de
cultura musical. *os vel%os tempos, apenas de# em cada mil norte-americanos sabi-
am realmente apreciar Beet%oven9 e esses poucos, como os cães de raça pura, não
%aviam sobrevivido ao desastre.
2entou também com o !a##. & som do saofone atraiu os meninos outra ve#, mas
o interesse não durou muito. & !a## %otL -eus intricados ritmos não podiam atrair
mentes simples, e sim ouvidos educados. Era como pedir-l%es que admirassem :icas-
so ou Ko8ce. *a realidade - e %avia aqui uma coisa alentadora - os !ovens detesta-
vam o fon'grafo. :referiam cantar eles mesmos. *ão gostavam do papel de ouvintes
passivos. Entretanto, !amais tentavam compor uma melodia ou alguns versos. Ae ve#
em quando, Ds%, inspirado por algum acontecimento importante, improvisava uma
estrofe, mas ele não tin%a g)nio poético e suas estran%as tentativas não eram bem
recebidas.
Então cantavam a uma s' vo#. :referiam as melodias mais simples: Eeve-me outra
ve# para a 1irgínia, embora ninguém soubesse quem era 1irgínia ou quem o queria
ali9 ou então, "leluia, sou um vagabundo, sem se perguntar o que era um vagabun-
do. =antavam também os queiumes de Bárbara "llen, embora nen%um deles sofres-
se as penas de amor.
Ds% pensava constantemente nos rapa#es do !eep. &s meninos l%e pediam que to-
casse 0eu lar na planície e Ds% tocava a melodia com um n' na garganta. 2alve# na-
quele mesmo instante AicC e Bob erravam por aqueles lugares. Nue estaria aconte-
cendo nas vastas planícies$ "inda %averia cervos e antílopes$ +ado$ &s bis;es teri -
am voltado$
0as ele lembrava dos rapa#es sobretudo nas negras %oras da noite. "cordava de
repente, sobressaltado, e passava as %oras ruminando suas inquietaç;es. =omo %a-
via permitido semel%ante aventura$ Dmaginava inundaç;es e tempestades. E o carroL
Nue loucura, confiar um !eep a rapa#es tão !ovens. =ertamente eles não corriam pe-
rigo de se c%ocar com outro veículo, mas podiam cair em um poço. &s camin%os
eram ruins9 os perigos, inumeráveis. E os pumas, os ursos, os touros selvagens$ &s
touros, que inclusive pareciam despre#ar o %omem, como em outros tempos.
*ão, os %omens eram o maior perigo. /m suor frio cobria então a fronte de Ds%.
=om que %omens os rapa#es podiam tropeçar$ E com que sociedade deformadas pe-
las circunstFncias, livres do freio das tradiç;es$ 2alve# %ouvesse nelas rituais religio-
sos, sacrifícios %umanos, canibalismoL 2alve#, como /lisses, os rapa#es encontrassem
lot'fagos
Z
, sereias, estriges.
" 2ribo, limitada ao sopé da colina, era estúpida e carecia de poder criador9 mas
pelo menos conservava uma certa dignidade. *ada garantia que os outros tivessem
feito o mesmo. 0as com a lu# do dia desapareciam os fantasmas. Ds% pensava então
nos rapa#es e os imaginava feli#es, entusiasmados pelas novas paisagens, talve# com
novos amigos. Em caso de acidente, caso não encontrassem outro carro, voltariam a
pé. *ão l%es faltariam víveres. " trinta quilJmetros por dia - ou pelos menos cento e
cinquenta por semana, - embora tivesse que camin%as quin#e mil quilJmetros, volta-
riam antes do outono. E se o !eep aguentasse, voltariam muito antes. "nte esse pen-
samento, Ds% mal conseguia reprimir sua ecitação. Nue novidades trariam$
:assaram-se as semanas e cessaram as c%uvas. & capim das colinas germinou e
amarelou. :elas man%ãs, as nuvens eram tão baias que roçavam as torres das pon-
tes.
G+ (a mitolo%ia %re%a, os Lotófagos são uma tri#o e!istente numa ilha perto do (orte da Hfrica. -
seu nome ad$ém de se alimentarem da planta de l2tus 'das suas flores e frutos), e!istentes nessa
ilha em quantidade apreciá$el. Estas plantas são narc2ticas, causando um sono pacífico aos
ha#itantes da ilha. '(. de Espinhudo)
5
=om o passar do tempo, as inquietaç;es de Ds% se atenuaram. " aus)ncia prolon-
gada dos via!antes demonstrava que eles tin%am ido muito longe. -e tin%am atraves-
sado o continente, ainda demorariam para c%egar, e não tin%a porque se atormentar.
Aeiou-se arrastar por outros pensamentos e outras preocupaç;es.
3avia reorgani#ado a escola. -entia que era seu dever ensinas os meninos a ler,
escrever e contar, para que fosse conservada na 2ribo as bases primárias da civili#a-
ção. 0as os desagradecidos escolares se meiam em seus assentos e voltavam os
ol%os impacientemente para as !anelas. *ão pensavam em outra coisa, notava Ds%, a
não ser correrem pela base da colina, brincar com os touros e pescar. 2entava inutil -
mente atraí-los recorrendo aos sistemas pedag'gicos mais famosos dos vel%os tem-
pos.
" tal%a em madeira, a única arte que a 2ribo praticava, era %erança do vel%o +eor-
ge. "pesar da sua escassa intelig)ncia, +eorge tin%a conseguido transmitir aos meni-
nos a sua inclinação para a marcenaria. Ds% não tin%a nen%um %abilidade desse tipo,
mas l%e ocorreu utili#ar o interesse dos meninos para seus pr'prios fins. Ensi-
nou-l%es alguns princípios de geometria e a retili#arem o compasso e a régua para
desen%ar na madeira. &s meninos morderam a isca, se entusiasmaram com os círcu-
los, os triFngulos e %eágonos, e logo estavam esculpindo figuras geométricas. &
pr'prio Ds% tal%ou com seu canivete um grosso ramo de pin%eiro.
0as o entusiasmo logo se acabou. 0over a fol%a da faca ao longo de uma régua
de aço para assim obter uma lin%a reta, era fácil e tedioso. -eguir o contorno de um
círculo era mais difícil, mas a pessoa logo se cansava desse trabal%o maquinal e mo-
n'tono. /ma ve# terminadas - o pr'prio Ds% tin%a que recon%ecer, - as esculturas pa-
reciam imitaç;es ruins dos adornos que em outros tempos se fa#iam com máquinas.
&s meninos decidiram voltar de novo ( fantasia da improvisação. Era mais diverti-
do e as esculturas tin%am mel%or apar)ncia. & escultor mais %ábil era <alt, que lia
aos tropic;es. =om mão firme, gravava um friso de animais sobre a lisa superfície de
uma pranc%a sem necessidade de medidas nem de princípios geométricos. -e suas
tr)s vacas não cobriam todo o espaço disponível, acrescentava um be#erro. E mesmo
assim a obra tin%a um perfeito equilíbrio. 2rabal%ava %abilmente em baio relevo,
meio relevo ou alto relevo. &s outros meninos não poupavam sua admiração.
& estratagema de Ds% terminou, pois, em um fracasso. E se viu outra ve# a s's
com o pequeno Koe8. Koe8 não tin%a talento algum para a escultura, mas era o único
que %avia se entusiasmado com as eternas verdades das lin%as e dos Fngulos.
/m certo dia Ds% surpreendeu o menino cortando triFngulos de papel de diversas
formas, recortava então os vértices e os pun%a um !unto a outro para formar uma li -
n%a reta.
- @unciona$ - perguntou Ds%.
- -im, voc) disse que sempre funciona.
- Então por que está testando$
Koe8 se calou, mas Ds% compreendeu que o meninos rendia assim sua %omenagem
(s verdades imutáveis e universais. Era um desafio aos poderes da casualidade e da
mudança. E quando esses tenebrosos poderes se declaravam vencidos, podia-se atri-
buir ( intelig)ncia uma nova vit'ria.
Ds% ficou somente com o pequeno Koe8... no sentido literal e no figurado. Enquanto
os outros escolares fugiam lançando gritos de alegria, Koe8 se inclinava sobre algum
livro com maior aplicação ainda. E até com um ar de superioridade.
&s outros meninos eram gigantes fornidos e superavam Koe8 em quase todos os
!ogos ao ar livre. " cabeça de Koe8 era grande para seu corpo, ou assim parecia (s
pessoas, pois sabiam que estava entul%ada de con%ecimentos. 2in%a ol%os grandes e
vivos, sofria de dores de cabeça e frequentes indigest;es. Ds% supun%a que esses
mal-estares eram de origem nervosa, mas não podia recorrer a um médico clínico ou
a um psiquiatra e devia se contentar com %ip'teses. 0as Koe8 tin%a um peso abaio
do normal e qualquer eercício físico o esgotava.
- Dsto me preocupa - di#ia Ds% a Em.
- -im - concordava Em, - mas voc) está contente que ele se apaione pela geome-
tria. 2alve# ele se!a inteligente porque é fraco.
- -im, talve#. Ele tem suas alegrias, mas eu gostaria que fosse mais robusto.
- *ão sei. 0e parece que voc) gosta tal como é.
E uma ve# mais Ds% recon%ecia que Em tin%a ra#ão. -im, se di#ia, não nos faltam
mocet;es. E embora Koe8 se!a fraquin%o, ou neur'tico, ou pedante, nele será con-
servada a tradição intelectual. Koe8 continuava sendo, portanto, o preferido de Ds%.
1ia nele a esperança do futuro, conversava com ele longamente e l%e ensinava tudo
que sabia.
"s %oras de aula continuaram se arrastando enquanto esperavam o regresso de
AicC e Bob. "té Ds% as ac%ava intermináveis. *aquele verão ele tin%a on#e alunos aos
quais tentava inculcar algumas noç;es elementares.
"s aulas eram dadas na sala de Ds% e os meninos vin%am de diferentes casas. =o-
meçavam (s nove terminavam (s do#e, com um longo recreio. Ds% sabia que não po-
deria eigir mais deles. *ão tendo conseguido dourar a pílula da geometria, agora
ensinava aritmética. 0as quando l%es enunciava os problemas, tropeçava com dificul-
dades práticas. G-e :edro levanta uma cerca de nove metros...H, di#ia o vel%o livro.
*inguém mais levantava cercas agora e ele tin%a que eplicar-l%es para que tin%am
servido as cercas... coisa bastante complicada.
:ensou em seguir os métodos da escola progressiva e instalar uma lo!a onde os
alunos comprariam, venderiam e fariam contas. 0as !á não %avia lo!as e teria sido
necessário eplicar-l%es todo o vel%o sistema econJmico. 2entou então interessá-los
na matemática pura. @racassou, mas se convenceu, pelo menos a si mesmo, de que
a matemática era a pr'pria base da civili#ação. Embora não pudesse eplicá-lo clara-
mente, a relação que %avia entre os números l%e parecia maravil%osa. Aois e dois
eram sempre quatro, nunca cinco. Dsto não %avia mudado... embora os touros selva-
gens brigassem agora nas ruas. @a#ia !ogos com progress;es aritméticas, encadean-
do números. 0as, eceto Koe8, nen%um menino parecia interessado9 e os ol%ares de
lado para as !anelas demonstravam a inutilidade dos seus esforços.
2entou então a geografia, matéria que dominava. &s meninos se divertiam dese-
n%ando mapas dos arredores. 0as ninguém se interessou na geografia mundial.
Nuem poderia condená-los$ " volta de Bob e AicC talve# despertasse sua curiosida-
de, mas no momento s' de interessavam por uma área de uns poucos quilJmetros.
Nue importava a forma da Europa com todas suas penínsulas$ Nue importavam as
il%as espal%adas pelo mar$
2eve um pouco mais de )ito com %ist'ria e antropologia. @alou-l%es sobre o de-
senvolvimento do %omem, esse lutador que lentamente, durante mil%ares de anos,
tin%a criado e aprendido e, apesar dos seus erros e da sua crueldade, antes da ca-
tástrofe tin%a c%egado a oferecer o espetáculo de uma magnífica vit'ria. &s meninos
o escutavam com um certo entusiasmo.
Ds% insistiu então na leitura e na escrita, c%aves do saber. 0as somente Koe8 ama-
va ler e deiava para trás todos seus condiscípulos. Entendia rapidamente o significa-
do de qualquer palavra e até o significado dos livros.
=i-vi-li-#a-ção. & tio Ds% sempre fala nisso. 3o!e %á muitas codorni#es perto do rio.
Aois mais seis$ Ká sei. :ara que di#er$ Aois mais nove$ W difícil, não ten%o bastantes
dedos. & tio +eorge é mais divertido que o tio Ds%. Ele nos ensina escultura. 0eu pai
é ainda mais divertido. Ai# coisas divertidas. 0as tio Ds% tem o martelo. "li está, so-
bre a lareira. Koe8 conta muitas %ist'rias sobre o martelo. "c%o que ele inventa. *ão
estou certo. Estou com vontade de beliscar Bett8, mas tio Ds% se irritaria. & tio Ds%
sabe tudo. 0e dá medo. -e pudesse di#er quanto é sete mais nove, a civili#ação vol-
taria e poderíamos ver as figuras que se movem. 1oc) as viu, papai$ -eria divertido.
&ito mais oito$ Koe8 sabe imediatamente. Koe8 não sabe procurar nin%os de codorni-
#es. @alta pouco para que a aula termine.
"pesar dos repetidos fracassos, Ds% redobrava seus esforços e aproveitava qual-
quer oportunidade para estimular o interesse dos seus alunos.
/m dia, ap's uma ecursão mais longa que de costume, os meninos levaram para
a escola algumas no#es de uma espécia bastante rara. Ds% viu imediatamente um
preteto para dar uma lição de %ist'ria natural, que os meninos escutaram pra#eiro-
samente. &rdenou que <alt fosse buscar duas pedras para quebrar a grossa casca.
<alt troue dois ti!olos. Em seu pobre vocabulário não %avia diferença entre pedras e
ti!olos. Ds% não o corrigiu, mas pensou que se tentasse quebrar as no#es com aque-
les ti!olos poderia esmagar um dedo. &l%ou ao redor e viu o martelo sobre a lareira.
- 2raga-me o martelo, =%ris - disse ao menino mais pr'imo.
3abitualmente, =%ris inventava qualquer desculpa para deiar sua assento, mas
desta ve# não se moveu. &l%ou para seus vi#in%os, <alt e <eston, com um ar emba-
raçado e assustada.
- 2raga-me o martelo, =%ris - repetiu Ds%, pensando que o menino, distraído, não
tin%a ouvido c%amar seu nome.
- *ão... não quero... - balbuciou =%ris.
=%ris, de oito anos, não c%orava facilmente, mas desta ve# mal conseguia segurar
as lágrimas.
- 2raga-me o martelo, qualquer um de voc)s - disse.
<alt se voltou para <alt e Bárbara e Bett8, as duas irmãs, se ol%aram. Eram os
mais vel%os. &s quatro abriam muito os ol%os, mas não fi#eram um gesto para se le-
vantarem. &s mais novos tampouco se moveram, mas Ds% notou que eles lançavam
ol%ares furtivos. Dntrigado, Ds%, não querendo fa#er uma cena, !á ia se levantar da
sua cadeira quando ocorreu um incidente singular.
Koe8 se levantou e foi até a lareira. 2odos os meninos o seguiram com os ol%os. *a
sala %avia um sil)ncio de morte. Koe8 parou diante da lareira, estirou o braço e pe-
gou o martelo. /ma meninin%a deu um grito. -eguiu-se um sil)ncio e Koe8 voltou,
entregou o martelo ao seu pai e sentou-se outra ve#.
*inguém %avia pronunciado uma palavra e os meninos ol%avam para Koe8 de boca
aberta. Ds% quebrou o sil)ncio quebrando a no# com uma martelada. " tensão, qual -
quer que fosse sua causa, dissipou-se em seguida.
0eio-dia, depois de se despedir dos seus alunos, Ds% lembrou-se do incidente e
descobriu, sobressaltado, que era um caso de pura superstição. &s meninos viam o
martelo como um símbolo misterioso e místico do passado distante. -' era emprega-
do em grandes ocasi;es, no resto do tempo descansava sobre a lareira. +eralmente
ninguém o tocava, eceto Ds%. & pr'prio Bob, lembrou agora Ds%, %avia-o levado de
má vontade quando foram buscar o !eep. "os ol%os dos meninos ele era um emble-
ma todo poderoso... infeli# do imprudente que ousasse tocá-lo. 2alve# no princípio ti -
vesse sido uma simples brincadeira, mas logo a ideia foi tomada a sério. E Ds% com-
preendeu outra ve# que Koe8 era diferente dos outros. Koe8 não estava certo de que
o martelo de Ds% não fosse como os outros martelos, mas sua superstição alcançava
um nível mais elevado. E%e alegrava acreditar que compartil%ava das funç;es sagra-
das do seu pai. :or acaso não lia como ele$ @il%o do grande sacerdote, fil%o do elei -
to, podia tocar imprudentemente nas relíquias que fulminaria os outros. Era até ca-
pa# de ter alimentado o temor dos seus amigos para ser mais importante. -eria fácil,
pensou Ds%, destruir aquela superstição tola.
0as no começo da tarde sua certe#a se transformou em dúvida. &s meninos brin-
cavam em frente da casa, na calçada. -altavam de uma la!ota para outra cantando
uma vel%a cantilena. Ds% a tin%a ouvido frequentemente nos vel%os dias. "s palavras
não significavam nada, era somente uma cantiga infantil. E os pr'prios meninos não
demoravam a rir. 0as não l%es pareceria agora uma f'rmula mágica$ "quela era uma
sociedade sem tradiç;es e não %avia c%ances de que a leitura ressuscitasse.
-entado em sua poltrona na sala, ouvia os meninos que brincavam e cantavam.
&bservou a fumaça do cigarro que subia em volutas e lembrou de outros perturbado-
res eemplos de superstição. E#ra sempre levava no bolso uma moeda com a efígie
da rain%a 1it'ria9 e para os meninos, sem dúvida não era muito diferente do martelo.
0oll8 passava o dia Gbatendo na madeiraH. Ds% lembrou, não sem inquietação, que os
meninos a imitavam. =ompreenderiam eles algum dia que este era um costume pue-
ril e que não podia con!urar a má sorte$
-im, concluiu e má vontade, o problema era grave. *os vel%os dias as crenças dos
meninos de uma família, ou de um pequeno grupo de famílias, tin%am alguma impor-
tFncia9 mas o contato com outras crenças tra#ia um certo equilíbrio. :or outro lado,
%avia muitas tradiç;es - o cristianismo, a civili#ação ocidental, o folclore indo-euro-
peu, a cultura aglo-americana, - e ninguém, para o bem ou para o mal, podia sub-
trair-se a essas influ)ncias.
0as agora aquele tesouro %umano %avia se perdido. -ete sobreviventes - Evie não
contava - não %aviam bastado para salvá-lo. E durante muito tempo a 2ribo s' %avia
sido um grupo de pais e fil%os, sem geraç;es intermediárias. &s pais %aviam ensina-
do os fil%os a brincarem. :ortanto, a 2ribo era maleável e podia mudar com qualquer
influ)ncia. Era uma vantagem, mas também uma responsabilidade e um perigo. -e-
ria perigoso, por eemplo - e Ds% estremeceu - permitir que na 2ribo atuasse alguma
força nefasta. /m demagogo não encontraria oposição. Embora, evidentemente - e
Ds% sorriu com uma careca - os meninos não tivessem se mostrado muito maleáveis
como escolares.
"lguns anos antes ele tin%a organi#ado serviços religiosos que logo pareceram
uma par'dia absurda. Ele os tin%a interrompido, mas talve# tivesse cometido um
erro. Ds% compreendeu, mais claramente que nunca, que podia fundar uma religião.
-ua palavra era lei. =om um pouco de insist)ncia, poderia gravar qualquer ideia na
mente dos seus alunos. :odia di#er-l%es que Aeus tin%a feito o mundo em seis dias.
E eles acreditariam. :odia declarar, como na antiga lenda indu, que o mundo era
obra de um vel%o coiote. Eles acreditariam.
0as, o que poderia ensinar-l%es sinceramente$ /ma das teorias do seu professor
de cosmogonia. Eles a aceitariam sem resist)ncia, embora a tradição cristão ou a
lenda indiana fossem mais poéticas e atraentes.
*a realidade, qualquer sistema podia dar origem a uma religião. &utra ve#, com fi -
#era %á vinte anos atrás, rec%açou a ideia. *ão podia renegar seu sincero ceticismo.
0ais vale, pensou, recordando alguma das suas leituras, não acreditar em Aeus que
ter uma ideia indigna.
"cendeu outro cigarro e afundou-se na poltrona... 0as ali %avia um va#io. -e não
o preenc%esse, em tr)s ou quatro geraç;es seus descendentes talve# evocariam de-
mJnios, obedeceriam servilmente a supostos bruos, praticariam os rituais da antro-
pofagia. & vudu, o c%arlatanismo, os tabus se espal%ariam entre eles.
-obressaltou-se. -im, a 2ribo !á tin%a seus tabus e, sem querer, ele mesmo tin%a
sido o instigador. & caso de Evie, por eemplo. Ele o %avia discutindo %á algum tem-
po atrás com Em e E#ra. "s crianças que Evie pudesse dar ( lu# seriam sempre uma
carga para a 2ribo. E agora ela era para os rapa#es algo assim como uma intocável.
Evie, de cabelos loiros e grandes ol%os a#uis, era talve# a garota mais formosa da
2ribo. 0as Ds% sabia que nen%um dos !ovens da 2ribo tin%a se aproimado dela. *ão
temiam ser atingidos por um raio. *ão, simplesmente nunca l%es tin%a ocorrido. *ão
se precisava de nen%um lei. Evie era tabu.
3avia outro problema parecido. 2emendo que os ciúmes terminassem em desor-
dens, %avia feito da fidelidade con!ugal, mais que uma virtude, uma necessidade. &s
!ovens se casavam na adolesc)ncia. E#ra, como bígamo, não teve discípulos. " fideli -
dade certamente era uma vantagem naquelas circunstFncias, mas era aceita mais
como uma questão de fé que de ra#ão. " primeira infração que %ouvesse - e com
certe#a %averia - poderia comover terrivelmente a 2ribo.
2erceiro eemplo, embora de menor importFncia. " biblioteca universitária era
tabu. e era considerada como um templo sagrado. /m dia, quando os rapa#es eram
pequenos, Ds% os tin%a levado para passear e assim c%egaram ao campus universitá-
rio. Enquanto dormia a sesta, dois dos meninos tin%am arrancado uma madeira que
substituía um vidro quebrado e %aviam entrado na sala de leitura. E, brincando, ti-
n%am !ogado alguns livros no c%ão. "terrado com essa profanação do santuário do
pensamento, Ds% os tin%a castigado de tal forma que mais tarde não conseguia se
lembrar daquilo sem vergon%a e remorso. -ua fúria e seu %orror pelos destroços %a-
via produ#ido mais efeitos que as pancadas.
"dvertidos pelos mais vel%os, os outros meninos desde então tin%am respeitado a
biblioteca, com grande satisfação de Ds%. -omente agora ele descobria que tipo de
temos os afastava do edifício.
3avia um quarto eemplo, o que levou ao ponto de partida. Eevantou-se e se
aproimou da lareira. & martelo estava ali onde o tin%a deiado. *ão tin%a pedido a
ninguém, nem sequer a Koe8, que o devolvesse ao seu lugar. & martelo estava ali,
equilibrado sobre a cabeça de aço enferru!ado de dois quilos. Ds% o possuía %á anos.
Ele o %avia encontrado pouco antes que a cascavel o mordesse. :ortanto, era seu
mais vel%o amigo, anterior a Em e E#ra.
Eaminou-o com cuidado e atenção. & cabo estava estragado. 0ostrava as marcas
do tempo e um golpo que %avia recebido antes que Ds% o encontrasse. Nue madeira
era aquela$ *ão sabia. 2alve# fresno ou nogueira. 0ais provavelmente nogueira
branca.
& mais simples, concluiu de maneira quase impulsiva, seria desfa#er-se do marte-
lo. Kogando-o no mar, por eemplo. *ão, isto seria tratar dos sintomas e não da do-
ença. &s meninos não se livrariam assim da superstição, que poderia fiar-se sobre
outros ob!etos e tomar formas mais sinistras. " destruição do martelo talve# fosse
uma lição simb'lica, pois provaria que era somente uma ferramenta desprovida de
poder. 0as como destruí-lo$ Nueimar o cabo seria fácil, mas não poderia destruir a
cabeça. :odia recorrer a todos os ácidos, mas os meninos pensariam que ele dese!a-
va livrar-se de um inimigo perigoso.
E Ds% teve então a impressão de estar diante de um ob!eto de poder maléfico. -im,
aquela união de madeira e aço reunia todas as qualidades necessárias para se con-
verter em um símbolo: solide#, perman)ncia, entidade. " significação fálica era evi -
dente. =omo nunca tin%a l%e ocorrido dar-l%e um nome$ &s %omens tin%am pra#er
em personificar suas armas, que são, de alguma forma, emblemas de força. Auran-
dot, por eemplo. Ká se con%ecia o martelo como atributo divino: 2%or. E com certe-
#a %avia outros. E não podia esquecer aquele rei franco que %avia rec%açado os sar-
racenos e que seus guerreiros c%amavam 0artelo. =arlos do 0arteloL Ds% do 0arteloL
Nuando os meninos c%egaram na classe na man%ã seguinte, Ds% preferiu não tocar
no assunto da superstição. Esperaria o momento propício, observando-os atentamen-
te durante um dia ou dois, ou uma semana. E, sobretudo, sondaria os pensamentos
de Koe8.
:assaram-se algumas semanas e Ds% concluiu que Koe8 não era como os outros.
2in%a completado de# anos naquele verão. -ua precocidade (s ve#es dava uma triste
impressão. Ele era, como se di#ia em outros tempos, Ggrande demais para suas cal -
çasH. *a idade, ele se encontrava entre <alt e <eston, de do#e anos, e =%ris, de
oito. 0as ele procurava sempre a compan%ia dos mais vel%os. Era difícil para ele,
sem dúvida, competir com rapa#es de maior desenvolvimento físico. Nuanto a Kose8,
sua irmã g)mea, ele a deiava de lado, com esse despre#o que os meninos da sua
idade demonstram pelas meninas. Kose8, por outro lado, carecia de dons intelectuais.
Aesse modo, Koe8, comprovou Ds% tristemente, vivia em uma contínua tensão nervo-
sa. -eus camaradas não ousavam tocar na ferramenta, mas tin%am ac%ado natural
que Koe8 se epusesse ao perigo. &u talve# o ac%assem invulnerável. Ds% se lembra-
va de ter lido que os selvagens atribuíam a alguns deles uma força sobrenatural.
0ana, assim os antrop'logos c%amavam essa força. "os ol%os dos meninos, Koe8 es-
tava protegido pelo mana e Koe8 se imaginava ao abrigo de qualquer perigo.
Ds% não deiava de notar, com certe#a, os defeitos de Koe8, mas ainda colocava ne-
les suas esperanças. Koe8 representava o futuro. " civili#ação era obra da intelig)ncia
%umana e somente a intelig)ncia conseguiria ressuscitá-la algum dia. E Koe8 tin%a in-
telig)ncia9 e era até possível que também tivesse aquele outro poder. & mana talve#
não fosse mais que uma invenção de mentes primitivas. Entretanto, mesmo os povos
mais evoluídos recon%ecem certos %omens, marcados pelo destino, como c%efes in-
discutíveis. E nunca alguém tin%a eplicado esse mistério.
Koe8 sabia-se eleito pelo destino$ Ds% se perguntava frequentemente. *ão sabia,
mas foi se convencendo cada ve# mais. E no fim do verão !á acreditava ver em Koe8
o sinal dos escol%idos. 0as embora rec%açasse a ideia da predestinação, ou mana,
indubitavelmente somente Koe8 era capa# de levantar a toc%a que afastaria as tre-
vas. -omente ele era capa# de recol%er o tesouro das tradiç;es %umana e trans-
miti-lo aos seus descendentes.
0as Koe8 não se destacava unicamente na aquisição de con%ecimentos. =om a
idade de de# anos e tin%a suas pr'prias eperi)ncia e fa#ia suas pr'prias descober-
tas. 2in%a aprendido a ler quase so#in%o. Embora, claro, seu g)nio s' se revelasse
no terreno da eperi)ncia infantil.
& quebra-cabeças, por eemplo. &s meninos, de repente entusiasmados pelos !o-
gos de paci)ncia, %aviam esva#iado as lo!as. Ds%, que se entretin%a em ol%á-los, veri -
ficou que Koe8 era menos %ábil que os outros. :arecia carecer de sensibilidade para
as formas e tentava !untar peças que claramente não podiam ser colocadas !untas.
-eus camaradas não l%e ocultavam sua indignação. Koe8, %umil%ado, abandonou o
!ogo durante algum tempo. 0as logo l%e ocorreu uma ideia. *ão se guiaria pelas for-
mas e sim pelas cores. =onseguiu armar seu quebra-cabeças com mais rapide# que
os outros. =onfessou orgul%osamente o segredo do seu )ito, mas os outros se recu-
saram a adotar o sistema.
- :ara que$ - perguntou <eston. - -eu método é mais rápido, mas é menos diver-
tido. *ão temos pressa.
- -im - acrescentou Bett8. - *ão tem graça !untar primeiro os pedaços amarelos,
depois os vermel%os e depois os a#uis.
Koe8 não soube o que responder, mas Ds% leu no fundo do seu pensamento. *a
verdade, a rapide# não era uma das regras do !ogo9 mas Koe8 tin%a pra#er em fa#er
um trabal%o rapidamente e bem. :referia correr que camin%ar. :arecia ter esse espí-
rito de empresa e competição que %avia distinguido alguma ve# seus antepassados.
:ouco %ábil em distinguir as formas, sem vigor físico, tin%a recorrido ( sua intelig)n-
cia. G/sava a cabeçaH, como se di#ia antigamente.
-omente a idade de Koe8 tornava notável a descoberta, mas Ds% não deiava de se
di#er, pra#eroso, que o menino %avia intuído as leis da classificação, instrumento fun-
damenta do progresso %umano. " classificação era a base da l'gica e da linguagem,
com nomes e verbos que agrupavam e separavam ob!etos e atos. +raças ( classifica-
ção, o %omem tin%a conseguido ordenar a aparente desordem do mundo físico.
E Koe8 apreciava realmente a linguagem. *ão se servia dela somente para epres-
sar dese!os e sentimentos, mas l%e parecia o entretenimento mais apaionante. @a#ia
!ogos de palavras e procurava rimas. "s adivin%aç;es o fascinavam.
/m dia Ds% o ouviu enquanto apresentava uma adivin%ação aos outros meninos.
- @ui eu mesmo que inventei - disse Koe8 orgul%osamente. - Nual a semel%ança
entre um %omem, um touro, um peie e uma serpente$
- 2odos comem - disse Bett8 maquinalmente.
- "ssim é fácil demais - disse Koe8. - &s pássaros também comem.
&s meninos pensaram por um momento e então procuraram outra distração. =om
a ameaça de perder seu audit'rio, Koe8 se apressou a di#er:
- Eles se parecem porque nen%um deles tem asas para voar.
*o primeiro momento Ds% não viu nada de etraordinário nessa adivin%ação. 0as
depois de pensar, ficou assombrado por um menino de de# anos l%es tivesse c%ama-
do a atenção para as semel%anças negativas. /ma vel%a definição l%e veio ( mem'-
ria: G& g)nio é a capacidade de ver o que não eisteH. =laro, essa definição do g)nio,
como tantas outras, não era muito eata, pois podia incluir também os loucos. 0as
encerrava uma certa verdade. &s grandes pensadores %aviam intuído um mundo que
nem sempre era revelado e o %aviam procurado até descobri-lo. & primeiro requisito
para fa#er uma descoberta, a não ser que se conte com a casualidade, é indubitavel -
mente notar que falta algo.
Koe8 teve outras aventuras naquele verão. /m dia ele voltou para casa tombando
e c%eirando a álcool. Aescobriu-se mais tarde que ele tin%a visitado uma lo!a de be-
bidas da #ona comercial com <alt e <eston. "p's uma %ora notou que as reservas
mal %aviam diminuído. " tarefa era enorme e os meninos deveriam resistir ( tenta-
ção.
"lgo similar %avia acontecido com ele em sua !uventude. -eu pai sempre tin%a um
pouco de uísque, con%aque e ere#9 e pouco teria custado a Ds% fa#er uma visita
clandestina ao bar. Ele tin%a se abstido e agora seus fil%os e netos tampouco pareci -
am mostrar um grande interesse em esva#iar garrafas. & alcoolismo era um deus ig-
norado pela 2ribo. " vida era tão sadia e simples, que não %avia necessidade de esti-
mulantes. &u talve# o álcool tivesse perdido sua atração por estar ao alcance de to-
dos.
Koe8 - e Ds% se alegrou - não %avia bebido muito e não parecia doente nem muito
b)bado. Evidentemente, ele %avia alardeado outra ve# diante dos meninos mais ve-
l%os e %avia conseguido impressioná-los. <alt e <eston não %aviam se saído tão
bem da aventura.
0esmo assim Koe8 estava um pouco tocado e não protestou quando o mandaram
para a cama. Ds% aproveitou a ocasião para falar-l%e sobre os perigos da vaidade. &
menino ol%ava para eles com seus grandes ol%os inteligentes. Ele compreendia, ape-
sar do álcool, e seu ol%a parecia di#er: *'s entendemos. -abemos muitas coisas.
*ão somos como os outros.
Em um repentino impulso de ternura, Ds% pegou sua mão#in%a. &s ol%os de Koe8
se iluminaram e Ds% compreendeu que apesar das suas fanfarronadas, seu fil%o era
um menino tímido e sensível, como ele tin%a sido. -ua temeridade não era mais que
uma forma de timide#.
- Koe8, meu fil%o - desse então, - :or que voc) se esforça tanto$ <est e <alt são
mais vel%os que voc). *ão se atormente, dentro de de# ou vinte anos voc) os terá
deiado para trás.
& menino sorriu, mas Ds% não se enganava. Koe8 sorria ao sentir o carin%o do seu
pai e não pelo que ele pudesse ter dito. "os de# anos se vive o presente. &s anos fu-
turos se perdem em uma bruma distante.
Dnclinado sobre Koe8, Ds% viu que os grandes ol%os piscavam pelo álcool e pelo
sono. -entiu-se outra ve# inundado de amor pelo seu fil%o. Ele é o escol%ido, pen-
sou. Ele carregará a toc%a.
"s pálpebras de Koe8 se fec%aram. & pai ficou na cabeceira da cama segurando
sua mão. Então, talve# porque o sono se!a a imagem da morte, sentiu um repentino
temor. =apric%o do destino, pensou, amar é epor-se a sofrer. "té agora os dados o
%aviam favorecido.
Em Koe8... "quela mão#in%a era tão frágil... sentia o pulso fraco e rápido em seus
dedos. Nualquer coisa poderia pará-lo. /m menino tão fraco, com uma alma ardente
demais, que possibilidades tin%a de c%egar a ser um %omem$
Entretanto, dele e somente dele dependia o futuro. :recisava crescer em idade e
sabedoria... e viver.
Entre o son%o e a realidade se interp;e o acaso. /ma síncope no coração, um pu-
n%al fere, um cavalo tropeça, o cFncer corr'i a carne, inimigos ainda mais sutis ata-
cam dissimuladamente.
Então, sentados ao redor da fogueira, na entrada da caverna, os sobreviventes se
perguntam: GNue vamos fa#er$ Ele !á não está aqui para nos guiarH. &u, enquanto os
sinos dobram, se reúnem na praça e murmuram: G& destino foi cruel ao levá-lo.
Nuem nos aconsel%ará agora$H &u estão em uma esquina da rua e suspiram: G W
uma grande desgraça. *inguém merece ocupar seu lugarH.
"o longo de toda %ist'ria é essa mesma queia: G-e essa doença não tivesse ata-
cado o !ovem rei... -e o príncipe estivesse vivo... -e o general não tivesse sido tão
temerário... -e o presidente não tivesse se esgotado...H
Entre os son%os e a realidade, a frágil barreira de uma vida %umana.
"s névoas se dissiparam outra ve# e voltou o calor. Nuantas ve#es, pensou Ds%, %á
desfilado diante de mim o corte!o dos meses. Eis aqui outra ve# o tempo da secura e
da morte. & deus :an ealou seu último suspiro. Eogo cairão as c%uvas e as colinas
ficarão verdes. E em uma man%ã eu verei, daqui da varanda, que o sol se p;e muito
longe no sul. Então todos n's deiaremos as casas e eu gravarei outros números na
roc%a. E como bati#aremos o ano$
AicC e Bob logo voltariam. &s remorsos ainda atormentavam Ds%9 e ele se censura-
va frequentemente por ter deiado os rapa#es partirem, embora tivesse tido tempo
de se acostumar com sua aus)ncia e sua ansiedade tivesse se atenuado um pouco.
"lém disso, outras inquietaç;es, outros remorsos o acossavam continuamente.
&s meninosL -uas superstiç;es e ideias sobre a religiãoL *ão será difícil, %avia pen-
sado, restabelecer a verdade. 0as !á %avia passado o verão.
2eria medo de falar$ Aese!ava que os meninos vissem em Koe8 uma espécie de
bruo$ *ão dese!aria no mais profundo do seu ser que pensassem nele, Ds%, como
um deus$ "o fim e ao cabo, não é a todo mundo que se oferece essa tentadora
oportunidade. E se não era um deus, poderia pelo menos se um semideus ou um
mago.
Aesde o incidente do martelo, observava com curiosidade como os pequenos se
comportavam. Ms ve#es dominavam o respeito e o temor. 3avia mana nele, mais ain-
da que em Koe8. :odia reali#ar notáveis proe#as. =on%ecia o sentido das palavras e o
segredo dos números. :or algum mágico poder, sabia como era aquele mundo do
outro lado do %ori#onte, do outro lado das pontes, e sabia também que %avia il%as
no mar mais além das roc%as das @arallones, que nos dias claros se perfilavam con-
tra o céu.
Ds% compreendeu que aqueles meninos eram mais simples e mais ing)nuos que
qualquer criança dos vel%os dias. *en%um deles tin%a visto mais que umas poucas
dú#ias de seres %umanos. Eram feli#es, mas com a felicidade de escassas e agradá-
veis eperi)ncias indefinidamente repetidas. :ara eles não %avia mudanças imprevis-
tas, essas mudanças que em outros tempos alteravam os nervos dos pequeninos,
mas que ao mesmo tempo l%es aguçava a intelig)ncia.
*ão era raro que eles acreditasse ver nele um ser sobrenatural que não pertencia
totalmente ( terra e que (s ve#es o ol%assem com um temor reverente. 0as em ou-
tras ve#es, com mais frequ)ncia, para eles era somente o pai, o avJ, o tio Ds% que ti -
n%am con%ecido a vida toda e que em outros tempos tin%a ficado de quatro para
brincar com eles. Então não l%es inspirava muito respeito. E os mais vel%os o consi-
deravam um vel%o gagá e, embora o temessem, escarneciam dele.
&ito dias depois do incidente do martelo, eles colocaram um prego na cadeira: a
clássica brincadeira dos estudantes. E outra ve# deiaram a classe contendo o riso9
depois Ds% descobriu que eles %aviam prendido uma fita branca no seu palet', pen-
durada como uma cauda.
Ds% aceitava de boa vontade essas brincadeiras e não tentava descobrir o culpado.
" familiaridade dos meninos o divertia. 0as não podia deiar de sentia um pouco
aborrecido. Nue o tomem como um %er'i ou um deus, é sempre agradável. 0as
quando colocam um prego na cadeira de um deus ou quando colocam trapos nas
costas$ 0as Ds% refletiu e compreendeu que as duas atitudes não eram incompatíveis
e sem precedentes.
W difícil ser um deusL &s sacerdotes tra#em ao seu altar um boi de c%ifres doura-
dos e o imolam com uma mac%adada. & sacrifício l%e satisfa#. 0as depois eles sepa-
ram a cabeça, os c%ifres e a cauda, envolvem os c%ifres com as entran%as e quei-
mam no altar essa fedentina. Então se regalam com os mel%ores pedaços. & engano
não passa advertido e ecita sua ira divina. 1oc) lança então seus raios, !unta suas
nuvens mais negras$ *ão. 1oc) pensa: é meu povo, um povo de %omens gordos, or-
gul%osos e insolentes. Nueria que seu povo fosse fraco e %umilde$
E se no pr'imo ano eplode uma epidemia, os sacerdotes queimarão o boi intei-
ro... talve# até vários bois. E voc) se contenta com um fraco trovão, que se perde na
alegre algaravia do festim. G*ão sou estúpido, voc) di# aos seus fil%os, Gmas %á mo-
mentos em que um deus deve parecer estúpidoH. E voc) se pergunta se fa# bem em
confessar um segredo. 2alve# tivesse sido mel%or esmagá-los contra uma montan%a.
Esses dons que tem ao seu alcance são perigosos demais...
1's também, divindades terríveis, que eigis sacrifícios %umanos, de ve# em quan-
do cerrais os ol%os. "%, é magnífico e %orrívelL &s gemidos da vítima, os gritos da
sua mul%er e as ac%as dos verdugos. "li !a#, coberto de sangue, com a língua de
fora. -ofreu uma morte espantosa. 0as de repente o morto se levanta e dança com
os outros, e o suor lava a pintura vermel%a dos muros. Então tu, o deus terrível, re-
corres ( tua sabedoria e recordas s' a morte fingida9 embora até os idiotas do da ci -
dade riam de ti.
*ão, é inútil prostrar-se na lama e bei!ar a terra. /ma leve inclinação de cabeça é
suficiente.
0esmo assim, não sem apreensão, Ds% decidiu fa#er uma eperi)ncia. 2alve# tives-
se dado muita importFncia ao incidente do martelo. Bem, isso se veria.
Escol%eu com cuidado o momento, os últimos minutos de aula. -e acontecesse
algo embaraçoso, poderia bater em retirada. Airecionou a conversa segundo seus
planos e finalmente perguntou em tom indiferente:
- E como voc)s ac%am que tudo isso foi feito$ - e fe# um vago e amplo gesto - o
mundo inteiro$
" resposta não se fe# esperar. Era <eston quem falava, mas epressou a opinião
de todos.
- Bom, foram os americanos.
Ds% prendeu a respiração. Entretanto, compreendeu, era fácil encontrar a rai# da
ideia. Nuando um menino perguntava quem %avia feito as casas, as ruas ou as con-
servas, os pais sempre l%es respondiam: os americanos.
@e# outra pergunta:
- E o que voc)s sabem sobre os americanos$
- &%, os americanos eram o povo antigo.
Aesta ve# Ds% demorou a compreender. G& povo antigoH não era somente as pes-
soas vel%as, mas também seres sobrenaturais, de outro mundo. Era o momento de
esclarecer o problema.
- Eu era... - começou a di#er mas parou, pois não %avia ra#ão para empregar o
tempo passado. - Eu sou um americano.
"o pronunciar essas palavras tão simples, sentiu um certo orgul%o, como se nesse
momento as bandeiras flutuassem ao vento e se ouvisse e canto triunfal das fanfar-
ras. Em outros tempos tin%a sido uma %onra ser um americano. *ão se tratava de
amor pr'prio e sim de um sentimento de confiança, segurança e fraternidade com
mil%;es de %omens. 0as agora tin%a titubeado.
-eguiu-se um sil)ncio e Ds% sentiu que todos os ol%ares se cravavam nele. E com-
preendeu que sua eplicação tin%a !ogado len%a na fogueira. 2in%a querido di#er
simplesmente que os americanos eram seres de carne e osso. 2in%a tentado di#er:
&l%em, eu sou Ds%, pai e avJ de alguns de voc)s. @iquei de quatro brincando com vo-
c)s. 1oc)s puaram meus cabelos. &%, eu sou simplesmente Ds%. E quando digo que
sou um americano, quero di#er que não %avia neles nada de sobrenatural. Eram so-
mente %omens.
2al %avia sido seu pensamento, mas os meninos tin%am interpretado mal suas pa-
lavras. Eu sou um americano, %avia dito, e os meninos inclinaram as cabeças pensa-
tivos. -im, claro, és um americano. -abes coisas etraordinárias que n's, %umildes
mortais, não podemos con%ecer. *os ensinas a ler e escrever. *os descreves o mun-
do. Brincas com os números. =arregas o martelo. -im, é evidente: outros seres como
tu fi#eram o mundo9 és o último sobrevivente da vel%a raça. Ws um vel%o do outro
mundo. -im, é isso, és um americano.
Ds% ol%ou impotente ao seu redor. ,einava um sil)ncio mortal. Dmediatamente,
Koe8 sorriu-l%e, como se di#endo: 3á algo em comum entre n's dois. Eu sou uma
lembrança dos vel%os dias. -ei ler, entendo os livros, toco no martelo e não me acon-
tece nada.
Ds% ficou contente de ter feito a pergunta pouco antes do meio-dia. Ká não %averia
mais perguntas nem respostas.
- Está na %ora - gritou. - " aula terminou.

/m dia, ao cair da tarde, Ds% conversava com Koe8, ou mel%or di#endo, continuava
instruindo-o com alguns !ogos. 3avia reunido algumas moedas e dava a Koe8 noç;es
de economia política. Koe8 admirava as bril%antes e sonoras moedas de níquel com a
figura daquele esquisito animal com uma corcunda. =omo todos os meninos da sua
idade nos vel%os tempos, preferia as moedas (s cédulas com a imagem do %omem
barbudo, que se parecia um pouco com tio +eorge. Ds% tentava l%e eplicar o siste-
ma monetário antigo.
Nuando parecia que Koe8 !á %avia entendido, Ds% ouviu um som ins'lito, embora
familiar. Eevantou a cabeça e escutou. & som foi ouvido outra ve#, desta ve# mais
perto. Era a bu#ina de um carro.
- EmL - gritou Ds%. - Eles voltaramL
Eevantou-se com um saldo e as moedas rolaram pela varanda.
Em e os meninos saíram tropeçando. & !eep apareceu na esquina e os cal%orros o
saudaram com um concerto de latidos. &s membros da 2ribo correram para re-
ceb)-los. & carro estava su!o e amassado e mostrava as marcas da longa viagem.
Ds% prendeu o fJlego por alguns segundos. Em seguida os rapa#es desceram do car-
ro gritando alegremente. Ds% suspirou aliviado e lembrou que desde o dia da partina
não tin%a desfrutado de um s' minuto de verdadeira tranquilidade. "li estavam os
rapa#es, rodeados por um coorte de meninos faladores. Ds% ficou de lado, um pouco
embaraçado.
Então um movimento no !eep atraiu sua atenção. &utro via!ante: -im, e agora ele
ia sair. Ds% teve um mau pressentimento e observou inquieto o aparecimento do in-
truso. :rimeiro assomou a cabeça: um crFnio calvo, uma barba castan%a, abundante
mas su!a e descuidada. & %omem desceu e se endireitou lentamente.
=om temor, quase com pFnico, Ds% o eaminou. Era um %omem de estatura eleva-
da, corpulento e pesado. :arecia forte, mas se movia com dificuldade como se esti -
vesse sofrendo de algum mal. *a sua cara de lua mal se viam os ol%os. &l%os de
porco, pensou Ds%.
& %omem agora estava rodeado de meninos. Eevantou a cabeça, encontrou o
ol%ar de Ds% e sorriu. &s ol%os do %omem eram de um a#ul pálido.
Ds% fe# um esforço para responder ao sorriso. E devia ter sorrido antes, pensou,
ele é um %'spede e sup;e-se que devo dar-l%e as boas vindas.
:ara terminar com aquela situação embaraçosa, Ds% adiantou-se e apertou a mão
de Bob, embora não pudesse esquecer do descon%ecido. "proimadamente da mi -
n%a idade, pensou.
Bob fe# as apresentaç;es.
- *osso amigo =%arlie - disse simplesmente, e deu uma tapin%a nas costas dele.
- Encantado - conseguiu articular Ds%.
" trivial f'rmula de cortesia l%e tin%a ficado na garganta. &l%ou fiamente para os
diminutos ol%os a#uis. &l%os de porco$ *ão, de !avali. "quela infantil cor a#ul dissi -
mulava a força e a ferocidade. &s dois %omens apertaram as mãos. Ds% sentiu que o
outro era mais forte.
Bob !á estava arrastando =%arlie para apresentá-lo aos outros. Ds% sentiu-se ainda
mais preocupado. @iquemos alerta, pensou. 2in%a imaginado que aquele regresso
como uma festa e agora esse =%arlie estragava tudo. 3omem agradável, em seu g)-
nero. E bom compan%eiro, a !ulgar pelo afeto que l%e demonstravam os rapa#es.
0as =%arlie era um %omem su!o. -omente isto !á !ustificava sua antipatia. =%arlie
era um %omem su!o9 e essa su!eira, pensava Ds%, não se limitava somente ao eteri-
or.
Ds%, como todos outros, !á %avia se %abituado ( su!eira, a eterna su!eira da terra.
0as não era isso o que o incomodava em =%arlie. 2alve# a causa fossem aquelas
roupas. =%arlie vestia um tra!e dos vel%os tempos que !á não se usava. /sava até co-
lete, talve# porque o tempo estava frio e as nuvens baias pressagiavam c%uva. 0as
o terno estava coberto de manc%as de gordura, que alguém teria pensado ser de
ovo, se as galin%as não tivessem desaparecido %á anos.
" pequena multidão foi para a casa e Ds% foi atrás. " sala estava repleta. &s dois
rapa#es e =%arlie no centro. &s meninos ol%am maravil%ados para os via!antes que
voltavam de uma distante epedição e observavam =%arlie assombrados. *ão esta-
vam acostumados a ver pessoas estran%as. *unca tin%am desfrutado de uma festa
parecida. Era o momento de abrir uma garrafa de c%ampan%a, pensou Ds%9 mas não
%avia gelo. Em seguida se perguntou por que essa ideia l%e parecia risível.
- 1oc)s c%egaram ao outro lado$ - gritavam todos. - "té onde foram$ 1iram a cida-
de grande$
Ds% não se deiava levar pela alegria geral. &l%ava de soslaio para a barba engor-
durada e para o colete manc%ado e sentia sua antipatia crescer. =uidado, pensou,
Estou parecendo um aldeão que não confia em nen%um descon%ecido. Eu di#ia que a
2ribo precisava de um estímulo para novas ideias e quando se apresenta um estra-
n%o, penso que sua alma deve ser tão su!a como o colete.
- *ão - di#ia Bob, - não c%egamos a *e. UorC e sim a outra grande cidade... =%i -
cago. Aepois os camin%os estavam cada ve# mais ruis e tropeçamos com troncos caí -
dos e montes de terra. "lém disso, não %avia pontes e teríamos que fa#er longos
desvios.
"lguém fe# outra pergunta antes que Bob terminasse a frase. 2odos falavam ao
mesmo tempo e os via!antes não sabiam a quem responder. *esse alvoroço, Ds% en-
controu-se com o ol%ar de E#ra e compreendeu que seu amigo compartil%ava suas
inquietaç;es e também desconfiava de =%arlie. Ds% sentiu-se ao mesmo tempo alivia-
do e !ustificado. E#ra tin%a uma grande eperi)ncia nessas quest;es. -e ele previa
algum perigo, tin%a que estar preparado. -eu !ulgamento nesses assuntos era infalí -
vel.
1amos, acalmou-se Ds%, voc) não sabe o que E#ra está pensando. 2alve# ele este!a
perturbado porque adivin%a seus temores. E voc) perdeu a cabeça. =omo um selva-
gem, tem medo que qualquer estrangeiro ven%a impor suas ideias e seus deuses.
&s via!antes continuaram o relato interrompido.
- Eram roupas muito cJmicas - di#ia AicC. - =omo batas brancas e longas e man-
gas largas da mesma cor. 3omens e mul%eres se vestiam igual. *os atiraram pedras
e gritaram que éramos pessoas impuras. G-omos os eleitos do -en%orL, di#iam. *ão
conseguimos nos aproimar.
Em o interrompeu. -ua vo# grave e sonora pareceu dominar os agudos gritos dos
meninos. Nualquer outro teria que bater na mesa para que prestassem atenção. 2o-
dos se calaram de repente, embora Em não ten%a levantado a vo# e s' ten%a dito al-
gumas palavras triviais.
- Está tarde - disse. - 3ora de !antar. &s garotos estão com fome...
Evie lançou um dos seus risin%os bobos e calou-se também. Em disse que todos
deviam ir para suas casas e voltar mais tarde. Ds% observou =%arlie e notou que E#ra
fa#ia o mesmo. &s ol%os de de =%arles se detin%am ecessivamente em Em. Então
seu ol%ar pousou nos cabelos loiros de Evie com uma admiração pouco dissimulada.
2odos se levantaram e se dispuseram a sair. AicC convidou =%arlie para !antar na
casa de E#ra.
-erviram a comida9 e quando todos se sentaram ( mesa, %ouve outra ve# um atro-
pelamento de perguntas. Ds% ficou calado, esperando que Em acalmasse suas inquie-
taç;es. de mãe. *ão tin%am adoecido$ 2in%am comido bem$ *ão %aviam tido frio (
noite$
Aecidiram que falariam da viagem depois da ceia, quando os outros voltasse. *ão
parecia bem a Ds% sondar Bob a prop'sito de =%arlie, mas ele não pJde se conter.
Bob falou sem retic)ncia:
- &%, =%arlie$ *'s o encontramos %á uns do#e dias, pr'imo a Eos "ngeles. Eiste
ali alguns grupos como o nosso, mas =%arlie estava so#in%o.
- 1oc) ofereceu a ele subir no !eep$
Ds% estudou o rosto de Bob. & rapa# não pareceu perturbado.
- &%, não me lembro. Eu não disse nada, talve# AicC ten%a dito.
Ds% mergul%ou outra ve# em suas refle;es. 2alve# =%arlie tivesse suas ra#;es para
deiar Eos "ngeles, mas não podiam acusá-lo sem permitir que se defendesse.
- Ele conta %ist'rias muito divertidas. W um %omem magnífico - continuou Bob.
3ist'rias divertidas, sim, e de um g)nero previsível. " 2ribo c%amava as coisas por
seus nomes e a pr'pria pobre#a de vocabulário tin%a feito desaparecer o conceito de
obscenidade, que talve# tivesse morrido com o amor romFntico. 0as =%arlie conser-
vava um repert'rio de boas anedotas. Ds% nunca tin%a sido moralista, mas sentiu que
sua desconfiança se transformava em uma espécie de indignação virtuosa. ,epetiu
para si mesmo que não sabia nada de =%arlie, salvo o que os rapa#es disseram. Ae-
plorou amargamente a falta de água que %avia-l%es arrebatado a pa#, tra#endo-l%es
aquele intruso.
Aepois da ceia, uma fogueira acesa na colina atraiu toda a 2ribo. &s mais !ovens
cantavam e brincavam. Era um dia de festa. E naquele concerto de gritos e risos os
rapa#es terminaram seu relato.
*a estrada para Eos "ngeles tin%am encontrado alguns obstáculos, mas o !eep os
tin%a salvo facilmente. &s fanáticos de túnicas brancas, que c%amavam a si mesmos
de os escol%idos do sen%or, viviam em Eos "ngeles. "lgum %omem enérgico, pensou
Ds%, %avia-l%es imposto essas ideias. " 2ribo, livre dessas influ)ncias, em troca %avia
se desinteressado de toda questão sobrenatural.
Aepois de Eos "ngeles, os rapa#es tin%am tomado a rota PP, como tin%a feito Ds%
nos dias que se seguiram ao +rande Aesastre e não era muito mais vel%o que eles. "
rodovia que atravessava o deserto estava em bom estado, embora coberta de areia
em alguns lugares. " ponte sobre o =olorado balançava um pouco, mas ainda se
mantin%a de pé.
3avia outra comunidade perto de "lbuquerque. Ae acordo com a descrição dos ra-
pa#es, Ds% concluiu que os membros dessa colJnia, embora não fossem muito more-
nos, eram da raça índia, pois cultivavam mil%o e fei!ão, como %aviam feito os índios
dos pueblos durante séculos. -omente uns poucos - os mais vel%os - falavam ingl)s.
Encerrados em si mesmos, ol%avam os estrangeiros com desconfiança. 2in%am cava-
los, não usavam autom'veis e se mantin%am longe das cidades.
Aali os rapa#es tin%am ido para Aenver e logo %aviam atravessado as planícies.
- -eguimos uma rodovia - eplicou Bob - que começava como PP.
Bob calou-se, %esitante. Ds% refletiu por um instante e compreendeu que o rapa#
estava falando da rota P. Bob tin%a visto um número familiar nas placas ainda intac-
tas, mas não con%ecia o nome. Ds% teve vergon%a da ignorFncia do seu fil%o. " rota
P tin%a-l%es permitido c%egar aos limites do =olorado e cru#ar as planícies de *e-
brasCa.
- 3avia muitas vacas - comentou AicC. - *ão se via outra coisa.
- 1iram também esses touros com corcovas$ - perguntou Ds%.
- -im, alguns - disse AicC.
- E o trigo$ Era reto e alto, com espigas$ Aevia estar tenro no camin%o de ida e
dourado, com grão duro quando voc)s voltaram.
- *ão, não vimos nada parecido.
- E o mil%o$ 1oc)s con%ecem o mil%o. Era cultivado perto do ,io +rande.
- *ão, não vimos mil%o.
" partir de então, os camin%os estavam constantemente bloqueados. *aquelas re-
gi;es de outonos c%uvosos e invernos frios, a umidade favorecia o crescimento das
plantas. & cimento, rac%ado e dividido, tin%a sido invadido pelas ervas, pelo mato e
até pelos arbustos. 0as por fim, trabal%osamente, tin%am conseguido atravessar o
que antes tin%a sido o Estado de Do.a.
- =%egamos ao grande rio - disse Bob. - & maior de todos. 0as a ponte ainda está
s'lida.
:or fim %aviam entrado em =%icago, um deserto de ruas va#ias. " cidade, pensou
Ds%, era pouco %ospitaleira, sobretudo quando os ventos de inverno se abatiam sobre
o lago 0ic%igan. *ão era estran%o que as pessoas, que podiam escol%er qualquer lu-
gar do país, tivessem emigrado para o sul. =%icago agora era uma cidade de fantas-
mas. "o sair de =%icago, em um dia nublado e cin#ento, %aviam se perdido no labi -
rinto de estradas que rodeava a cidade e tin%am ido para o sul, em ve# do leste.
- Então procuramos em uma lo!a uma dessas máquinas que apontam a direção -
disse Bob, que ol%ou para Ds%.
- /ma bússola - disse Ds%.
- Bem, a bússola nos a!udou a encontrar o camin%o e c%egamos (s margens de
um rio que não pudemos atravessar.
& rio <abas%, pensou Ds%. -ucessivas inundaç;es teriam derrubado as pontes, ou
talve# um furação.
*ão se podia passar pelo sul e Bob e AicC tin%am voltado para a rota P. " viagem
para o leste foi uma verdadeira aventura. "s inundaç;es, as tempestades e as gea-
das tin%am destroçado a rodovia9 e a areia, as plantas e as árvores caídas mal deia-
vam ver o cimento. & !eep abriu passagem entre matagais ou se esquivando de tron-
cos. 0as frequentemente os rapa#es tin%am que recorrer ( pá e ao mac%ado em
uma luta esgotante. "lém do mais, a solidão começava a pesar-l%es.
- /m dia que fe# muito frio, com vento do norte - confessou AicC, - tivemos medo.
Eembramos do que nos %avia dito sobre a neve e pensamos que não voltaríamos
mais para casa.
Em algum lugar, provavelmente perto de 2oledo, tin%am dado meia-volta. " água
das c%uvas tin%a coberto os camin%os e eles se perguntavam se a inundação não te-
ria levado as pontes. *esse caso, nunca poderiam se reunir novamente com suas fa-
mílias.
Em lugar de ir para o sul, como Ds% %avia l%es aconsel%ado, tin%am voltado pelo
mesmo camin%o. :ortanto, a viagem de volta não tin%a l%es ensinado nada de novo.
Ds% não l%es fe# nen%uma censura. "o contrário, elogiou sua energia e intelig)ncia.
" culpa devia recair sobre ele, que os tin%a enviado para =%icago e *e. UorC, as
grandes cidades dos vel%os dias. 2eria sido preferível escol%er a rota meridional para
3ouston e *e. &rleans, distante dos in'spitos invernos do norte. Entretanto, ao les-
te de 3ouston as inundaç;es deviam ter sido catastr'ficas. 2alve# "rCansas e Eouisi-
ana %aviam se transformado em selvas antes de Do.a e Dlinois.
&s meninos, com suas danças de roda e canção, rodeavam o fogo. *ão %avia nes-
se frenesi algo de primitivo e bárbaro$ &u essa euberFncia seria natural$ Evie, men-
talmente uma criança, também dançava com os cabelos loiros ao vento.
Ds% ol%ava e pensava. &s rapa#es tin%am descoberto que o país estava voltando ao
estado selvagem. 0as não podia se esperar outra coisa. " epedição teve outra utili -
dade: o contato com duas comunidades, se é que se podia c%amar de contato, !á
que aqueles grupos rec%açavam os estran%os. -eria simples preconceito ou um pro-
fundo instinto de preservação$ Entretanto, a certe#a de que %avia seres %umanos
perto de "lbuquerque aliviava um pouco a angústia da solidão.
Auas pequenas colJnias descobertas em uma s' viagem. :odia-se supor que %avia
muitas delas no país todo. Ds% lembrou dos negros que tin%a visto em "rCansas %á
muitos anos atrás. *aquela região fértil, sem invernos rigorosos, esses tr)s negros
talve# fosse o núcleo de um grupo de %omens de distintas raças. Evidentemente, por
seus costumes e modo de pensar, aquela comunidade pouco se pareceria com as da
=alif'rnia e do *ovo 0éico. Essas diferenças gerariam novos problemas.
0as não era o momento adequado para meditaç;es filos'ficas. "s danças e os gri -
tos dos meninos %aviam se transformado em algo desenfreado. &s meninos mais ve-
l%os, alguns inclusive casados, não tin%am resistido e tin%am se unido ( festa. Esta-
vam brincando com um c%icote e o que fosse tocado devia saltar o fogo.
Ae repente Ds% ficou tenso. =%arlie tomava parte na brincadeira. Entre AicC e Evie,
brandia o c%icote. " presença de uma pessoa adulta entre eles, e sobretudo desse
estran%o, redobrava a alegria dos meninos.
Ds% procurou argumentos que dissipassem sua desconfiança: :or que =%arlie não
podia se unir ( dança$ *ão val%o mais que essas pessoas de Eos "ngeles ou de "l -
buquerque que rec%açam os descon%ecidos$ =reio, entretanto, que me alegraria que
esse =%arlie fosse diferente.
0as apesar dos seus esforços, Ds% era incapa# de reprimir sua antipatia. =onsidera-
va agora de outra forma a viagem dos rapa#es. Embora a descoberta das novas colJ-
nias fosse todo um acontecimento, nada l%e parecia mais importante que a presença
de =%arlie.
Estava ficando tarde e as mães reuniram seus fil%os. " festa %avia terminado, mas
a maior parte dos adultos seguiram Ds% e Em para conversar um pouco mais com os
dois rapa#es e com =%arlie.
- -ente-se - disse =%arlie, mostrando-l%e a poltrona !unto ( lareira.
Era o lugar de %onra e o mais cJmodo. E#ra tin%a o dom de fa#er com que as pes-
soas se sentissem ( vontade. Ds% se censurou por não ter cumprido com seus deve-
res de dono da casa. =%arlie podia %aver pensado que não era bem recebido. E Ds%
se perguntou se não tin%a sido precisamente este seu dese!o. " noite era fresca e
E#ra pediu que acendessem a lareira. &s rapa#es troueram e len%a e logo o fogo
crepitou alegremente, espal%ando um agradável calor.
=onversaram e E#ra, como sempre, tomou a liderança. =%arlie disse que tin%a
sede e KacC l%e troue uma garrafa de con%aque. Ele esva#iou vários copos sem que
aparentemente sentisse nen%um efeito.
- Aecididamente, não consigo me esquentar - disse E#ra.
- *ão estaria doente$ - perguntou Em.
Ds% estremeceu. " doença era algo tão raro na 2ribo, que o menor mal-estar preo-
cupava a todos.
- *ão sei - respondeu E#ra. - -e estivéssemos nos vel%os dias, eu ac%aria que es-
tava resfriado. 0as não pode ser, claro.
2roueram mais len%a9 logo o calor estava insuportável. Ds% tirou o suéter e ficou
em mangas de camisa. =%arlie também tirou o palet' e desabotoou o colete. +eorge,
largado no sofá, dormiu, mas sua aus)ncia não fe# a conversa diminuir. =%arlie conti -
nuou com suas libaç;es e, por efeito do foto ou do álcool, umas gotas de transpira-
ção l%e perolaram a testa, embora não ten%a perdido sua lucide#.
Ds% notou que E#ra tentava com que =%arlie falasse de si mesmo. 0as o tato de
E#ra foi desnecessário. =%arlie não ocultou seu passado.
- "final ela morreu - eplicou. - :assamos muitos anos !untos, de# ou do#e. Bem,
não quis ficar ali nem um minuto a mais9 como gostei dos rapa#es, vim com eles.
Ds% sentiu que mudava de opinião. &s rapa#es, que %aviam passado um tempo
com =%arlie, realmente o apreciavam. 2alve# esse %omem forte e alegre seria útil
para a 2ribo. &l%ou para =%arlie e viu que a transpiração l%e ban%ava a testa.
- =%arlie - disse, - voc) se sentiria mais cJmodo sem o colete.
=%arlie teve um sobressalto, mas não disse nada.
- Aesculpem - disse E#ra, - não sei o que se passa comigo. 2alve# se!a mel%or que
eu vá embora e me deite - mas não saiu do lugar.
- *ão pode ser um resfriado - disse Em. - *inguém nunca ficou resfriado aqui.
=%arlie aceitou se afastar do fogo com sua garrafa de con%aque, mas não tirou o
colete. &s cães da casa se aproimaram para c%eirá-lo. 2odo c%eiro novo os ecitava.
" princípio pareceram indiferentes, mas quando =%arlie acariciou seus lombos e as
orel%as, eles se meeram alegremente, agitando a cauda.
Ds%, que nunca %avia ficado ( vontade com gente descon%ecida, %esitava. "lgumas
ve#es, sedu#ido pela força e pela simpatia de =%arlie, ele l%e parecia um %omem
muito agradável9 em outras, essa mesma força e simpatia o desagradavam. 2alve#
temesse ver ameaçado seu prestígio na 2ribo. Então =%arlie l%e aparecia como a pr'-
pria encarnação do mal.
:or fim +eorge acordou, se espreguiçou pesadamente e anunciou que ia se deitas.
&s outros se prepararam para partir com ele. Ds% notou que E#ra queria l%e di#er al -
guma coisa e o levou para a co#in%a.
- Está se sentindo mal$
- Eu$ - disse E#ra. - *unca estive mel%or na min%a vida.
-orriu e Ds% começou a entender.
- 1oc) não estava com frio.
- *unca tive menos frio - replicou E#ra. - Nueria ver se =%arlie tirava o colete. :or
outro lado, eu ficaria assombrado, pois ele é um %omem precavido e confirmou mi-
n%as suspeitas. Ele aumentou um dos bolsos do colete e carrega um desses brinque-
din%os que antes se fa#iam para as bolsas das mul%eres. -' um brinquedin%o.
Ds% se sentiu aliviado. /m rev'lver. "lgo simples, concreto, con%ecido, fácil de ma-
ne!ar. 0as a alegria não durou muito.
- Aese!aria saber a que me ater - prosseguiu E#ra. - Ms ve#es ten%o a impressão
de que %á algo su!o e vil nesse %omem. &utras ve#es me parece que ele será meu
mel%or amigo. Enfim, ele é alguém que sabe o que quer e sempre consegue.
1oltaram para a sala. +eorge se despedia.
- 2ivemos sorte - di#ia-l%e +eorge. - :recisávamos de outro %omem forte na tribo.
Espero que fique conosco.
3ouve um coro geral de aprovação. Aepois todos, inclusive =%arlie e E#ra, saíram.
Ds% ficou so#in%o com seus pensamentos. 2in%a tentado se unir ao coro, mas a lín-
gua não tin%a l%e obedecido. E repetiu para si as palavras de E#ra: 3á algo de su!o
em vil nesse %omem.
!
0ais tarde, Ds% se lembrou de um costume de outros tempos, !á abandonado. @oi
até ( porta da co#in%a que descobriu que %avia um cadeado. Eembrou que fora sua
mãe que colocara, pois não confiava nas fec%aduras comuns. @ec%ou a porta com o
cadeado. Aepois eaminou a fec%adura da porta da frente. "inda funcionava. *unca,
desde o +rande Aesastre, tin%a-l%e ocorrido fec%ar com c%ave. *a 2ribo não %avia
ninguém suspeito e um estran%o não teria escapado ( vigilFncia dos cães.
Ds% se deitou e comunicou seus temores a Em mas ela não deu muita atenção. Ds%
pensou que, como das outras ve#es, Em tin%a uma inercia perigosa.
- E por que não ter um rev'lver no bolso$ - perguntou ela. - 1oc) mesmo leva
uma arma quando sai.
- 0as eu não a escondo e não ten%o medo de tirar o palet' e ficar desarmado por
um momento.
- Está certo, mas talve# voc) mesmo o ten%a deiado nervoso. Ele l%e causa anti-
patia e talve# pense o mesmo de voc). Está entre pessoas estran%as... so#in%o.
- -im - disse Ds%, - mas n's estamos na nossa casa e ele é quem deve se adaptar,
e não n's.
- 2alve# ten%a ra#ão, querido, mas não falemos nisso agora. Estou com sono.
-e Ds% inve!ava alguma coisa em Em, era sua facilidade em adormecer no mesmo
instante em que di#ia estar com sono. & sono fugia dele quando o c%amava9 e não
conseguia deiar de pensar. "cabara !ustamente de ter uma nova ideia. 1iu-se envol -
to em uma briga com =%arlie. -e entre os membros da 2ribo %ouvesse uma união
verdadeira ou simb'lica, a c%egada de um estran%o, por mais forte que fosse, teria
representado pouco perigo. 0as agora talve# !á fosse tarde. & estran%o estava ali e
estava diante de indivíduos isolados.
E =%arlie não era um adversário despre#ível. Ká tin%a conquistado a ami#ade de
AicC e de Bob, sem contar os mais novos. +eorge parecia admirá-lo. E#ra %esitava.
Nue era esse estran%o encanto que parecia apoiar-se na força física:
Era difícil saber por que quase todos simpati#avam com =%arlie. *ão estaria ele,
Ds%, cego pelo preconceito$ 2alve# visse no %omem um rival. Ae qualquer forma,
uma coisa era certa: %averia luta entre eles, um duelo talve#, pois a 2ribo ignorava a
solidariedade pr'pria de um Estado. &u ainda pior, poderia %aver uma luta entre dois
partidos, com c%efes rivais. Nuem o apoiaria$ *ão era um c%efe de verdade, mas
não %avia outro. +eorge era estúpido demais e E#ra gostava da comodidade.
&% sim, em intelig)ncia era superior a todos, mas na disputa pelo poder o intelec-
tual sempre %avia perdido. :ensou nos ol%os de um a#ul infantil e enganoso. &s
ol%os negros nunca poderiam ser tão duros e frios.
Nuem se alistaria sob seus estandarte$ - se perguntou dramaticamente - "té Em
poderia abandoná-lo. Ela tin%a rido dos seus temores e %avia defendido =%arlie. Ds%
sentiu-se outra ve# o menino desamparado dos vel%os dias. Ae todos o que rodea-
vam, unicamente Koe8 era capa# de entend)-lo. E Koe8 era somente uma criança,
pequeno e fraco para sua idade. Ae que l%e serviria uma luta contra =%arlie$ *ão,
não, pensou de novo nos ol%os de porco. &l%os de !avali.
:or fim se rebelou contra si mesmo. *ão é mais que uma etravagancia noturna,
disse para si mesmo. Essas ideias nascem nas trevas nas noites de insJnia. =onse-
guiu se livrar dos seus pensamentos e adormeceu.
*a man%ã seguinte, ao despertar, a situação l%e parecia, se não cor-de-rosa, pelo
menos não tão sombria. 2omou o café da man%ã quase alegremente, contente em
ber Bom no seu lugar de costume e de ter mais notícias da viagem.
Então, quando acreditava ter recobrado a calma, tudo ruiu outra ve#.
- Bom, vou ver =%arlie - disse Bob.
/m consel%o paternal c%egou ( ponta de língua de Ds%: GEm seu lugar em deiaria
esse %omem em pa#H. 0as Em, com o ol%ar, pediu que ele se calasse. E Ds% com-
preendeu que se =%arlie se transformasse em algo proibido seria ainda mais atrativo.
-e perguntou outra ve# que tido de fascinação =%arlie eercia sobre os rapa#es.
Bob se foi9 e os outros meninos o seguiram depois das tarefas matinais.
- & que os atrai tanto$ - perguntou Ds% a Em.
- &%, não se atormente - disse ela. - W somente a novidade. *ão me parece estra-
n%o.
- :odemos ter dificuldades.
- W possível - admitiu Em. Era a primeira ve# que ela se mostrava de acordo. 0as
logo a seguir, desviou o curso dos pensamentos de Ds%, di#endo: - 0as não as come-
ce voc).
- Nue está querendo di#er$ - perguntou Ds%, irritado, embora nunca discutisse com
Em. - "c%a que vamos disputar a c%efia da 2ribo$
- 1á ver o que está acontecendo - disse ela, sem responder sua pergunta.
& consel%o pareceu bom a Ds%, talve# porque realmente sentia curiosidade. 0as
quando estava cru#ando a porta, %esitou e ficou na varanda por um instante. -entia
as mãos estran%amente va#ias, sentia-se indefeso. :ensou em ir buscar o rev'lver.
*os arredores das casas, as armas de fogo eram inúteis, pois bastava a vigilFncia
dos cães. :odia pretetar uma ecursão. Ae qualquer forma, um rev'lver equivaleria
a uma declaração de guerra e também seria admitir sua fraque#a. 0as não se deci-
dia a sair sem nada.
Entrou em casa e viu o martelo em cima da lareira. Bem, pensou encoleri#ado, não
sou mel%or que os meninos. 0e deio arrastar por suas ideias estúpidas. "pesar de
tudo, pegou o martelo e levou-o. -eu peso e sua solide# eram tranquili#antes. Ká não
sentia na mão direita, com que pegava no duro cabo de madeira, aquela sensação
de va#io.
*a colina onde na noite anterior tin%a ardido a fogueira, agora se ouviam gritos e
risos. Airigiu-se para lá. *ão %avia ninguém por perto e imediatamente sentiu o peso
da solidão.
E%e faltavam forças para seguir adiante. 0ais uma ve# era como a formiga perdida
longe do formigueiro9 a abel%a que não podia voltar ( colmeia destruída9 o menino
sem mãe. :arou, com o corpo ban%ado em suor frio. &s Estados /nidos não eram
mais que uma recordação do passado. *ão contava com ninguém. *ão sabia se en-
contraria algum apoio entre os membros da 2ribo. *ão %avia policiais, fiscais, !uí#es a
quem pedir a!uda. "pertou o cabo do martelo com tanta força, que os n's dos dedos
estalaram. *ão quero retroceder, pensou. E, !untando coragem, avançou lentamente.
Nuando deu alguns passos, passando do pensamento ( ação, sentiu-se mel%or. 1iu
o grupo perto das cin#as da fogueira. Estavam ali todos os !ovens e também E#ra. Ae
pé ou sentados, rodeavam =%arlie, que falava, ria e contava piadas. Era eatamente
o espetáculo que Ds% tin%a esperado ver. 0as quando c%egou mais perto, sentiu que
um frio nascia em seu estJmago e depois l%e invadia o corpo. & cabo de madeira
tremeu em suas mãos. *o centro do grupo estava Evie, a idiota, !unto a =%arlie. E
Ds% nunca tin%a visto aquela epressão em seu rosto.
Ds% estava então a uns de# passos de =%arlie. :arou. "lguns dos meninos o tin%am
visto, mas a %ist'ria que =%arlie contava era interessante demais para ser interrompi-
da. Embora Ds% estivesse ali em carne e osso, sua presença não %avia sido oficial -
mente recon%ecida. Aeiou que se passassem alguns minutos, que l%e pareceram
séculos. 0as o coração não bateu mais que umas tr)s ou quatro ve#es. Ká não sentia
aquele suor frio. Estava preparado para agir. Estava quase feli#. -eus temores se
transformavam em realidade. E a pior das dificuldades, quando adquire forma, é pre-
ferível a uma sombra vaga e confusa. *ão se pode lutar contra um mal que é mera
apar)ncia.
Esperou ainda, s' o tempo de algumas batidas de coração. " crise %avia surgido
de repente, como acontecia frequentemente naquela nova vida. *os vel%os tempos,
as crises se arrastavam interminavelmente e as pessoas pelos !ornais, semanas e
meses antes que os trabal%adores declarassem greve ou que os avi;es deiassem
cair suas bombas. 0as nessa sociedade minúscula, o drama eplodia em umas pou-
cas %oras.
Evie estava no centro do grupo, embora %abitualmente se mantivesse afastada.
=omumente, ela mal prestava atenção aos seus compan%eiros. Aesta ve# ela con-
templava =%arlie com admiração e parecia beber suas palavras, embora provavel -
mente não compreendesse nem a metade. *ão era a %ist'ria que a atraía. -eu corpo
roçava o corpo de =%arlie.
E foi para isso, se perguntou Ds% amargamente, que %aviam cuidado de Evie: E#ra
a tin%a encontrado su!a, desgren%ada, vivendo como uma fera e apenas com a inteli-
g)ncia necessária para abrir latas de conserva. *ão teria sido mel%or colocar ao seu
alcance algum veneno açucarado$ Bem, eles %aviam cuidado dela durante anos e
sua eist)ncia não tin%a sido uma alegria para eles9 e, sem dúvida, tampouco para
ela. " compaião que Evie inspirava era uma relíquia de outros tempos.
Evie, tal como a via agora no centro do grupo, parecia uma estran%a. "contece
frequentemente a pessoa não se fiar no quadro que tem sempre diante do seu nari#
e a pessoa a quem se v) durante anos parece perder suas características mais pes-
soais. Evie, ele notou de repente, era de uma notável bele#a loira. =laro, os ol%os pa-
reciam va#ias e seu rosto carecia de epressão. 0as para um %omem como =%arlie
esses detal%es não deviam ter grande importFncia. -im, como E#ra %avia dito, =%ar-
lie sabia o que queria e conseguia rapidamente. E por que ia esperar$
&s dedos de Ds% se crisparam sobre o cabo do martelo. Era tranquili#ador, mas ele
teria preferido um rev'lver.
/m coro. de gargal%adas saudou as palavras de =%arlie. Evie riu com breves griti -
n%os. =%arlie inclinou-se para ela e l%e beliscou a cintura. " !ovem lançou um griti-
n%o agudo de menina. Ds% se aproimou e logo sua presença se tornou oficial. 2odos
se voltaram para ele. "guardavam, notou Ds% de imediato. "quela situação inespera-
da os surpreendia e não sabia que atitude adotas. Ds% se aproimou de =%arlie, com
o martelo na mão direita e tentando não apertar o pun%o esquerdo, apesar da sua
c'lera.
Enquanto Ds% se aproimava, =%arlie pegou Evie pela cintura com um movimento
despreocupado. -urpresa, ela cedeu. =%arlie voltou-se então para Ds% e ol%ou-o de-
safiadoramente. Ds% aceitou o desafio e serenou. " necessidade de agir clareava suas
intenç;es.
Aeiem-nos a s's por alguns instantes - ordenou em vo# alta. *ão %avia necessi-
dade de pretetos, todos sabiam o que ia acontecer. - Nuero falar com =%arlie. E#ra,
leve Evie para casa. Ela precisa se pentear.
*inguém protestou. -e dispersaram com uma pressa em que %avia algo de temor.
Aeiar E#ra partir era perder seu mel%or aliado, mas tentar ret)-lo teria sido uma
confissão de fraque#a diante de todos, inclusive de =%arlie.
@icaram s's, frente ( frente. Ds% de pé e =%arlie sentado. =%arlie não fe# menção
de se levantar e Ds% também se sentou. *ão podia ficar em pé enquanto o outro con-
tinuava indolentemente sentado. =%arlie não estava usando o palet' e tin%a desabo-
toado o colete, o que l%e dava uma apar)ncia de descuido.
&l%aram-se, separados por alguns metros. Ds% ac%ou que era mel%or deiar de ro-
deios.
- -' quero l%e di#er isto: deie Evie em pa#.
=%arlie também foi categ'rico:
- Nuem está ordenando isto$
Ds% pensou por um momento. *'s$ Era muito vago. *'s, a 2ribo$ =%arlie riria dis-
so. :or fim se decidiu.
- Eu estou ordenando.
=%arlie não respondeu. :egou algumas pedrin%as no c%ão e as fe# saltar com a
mão esquerda. *ada indicaria mel%or sua despreocupação.
- Eu poderia l%e responder com alguma das vel%as frases - disse por fim. - 1oc) !á
as con%ece. *ão vamos insistir. 0as se!amos ra#oáveis, por que quer que eu deie
Evie em pa#$ Ela é sua amiguin%a$
- :or uma coisa muito simples - disse Ds% rapidamente. - Em nosso grupo com cer-
te#a não %á g)nios, mas tampouco %á imbecis. *ão queremos nos sobrecarregar
com alguns meninos idiotas, como fatalmente seriam os fil%os de Evie.
0al parou de falar e Ds% logo compreendeu que tin%a cometido um erro. =omo
todo intelectual, tin%a preferido a discussão (s ordens, enfraquecendo assim sua au-
toridade. "gora ele tin%a passado a segundo plano e =%arlie era o c%efe.
- AemJnios - disse =%arlie, - se ela pudesse ter fil%os !á teria tido, com todos esses
rapa#es que andam ao seu redor.
- &s rapa#es nunca tocaram em Evie - declarou Ds%. - =resceram com ela e a res-
peitam. E, por outro lado, casamos os rapa#es muito !ovens. - sentiu que seus argu-
mentos eram cada ve# mais frágeis.
- Bem - disse =%arlie, com o aprumo de um %omem que domina a situação, - voc)
deveria se alegar que eu me ten%a interessado na única mul%er livre. E se eu tivesse
gostado de uma das outras$ 1oc) deve agradecer.
Ds% procurou desesperadamente por uma resposta. *ão podia ameaçá-lo com a
polícia ou com a !ustiça. 2in%a lançado o desafio e tin%a perdido.
*ão, não %avia mais o que di#er. Ds% se levantou, deu meia volta e se foi. Eembrou
daquela ve#, um dia pouco depois do +rande Aesastre, quando %avia se voltado para
se afastar de outro %omem, quando tivera a certe#a de que ia receber um tiro pelas
costas. 0as agora não estava com medo e isto o mortificava ainda mais. =%arlie não
tin%a necessidade de matá-lo pois era o vencedor.
Ds% voltou para casa arrastando os pés. 2in%a esquecido a amargura da %umil%a-
ção. & martelo era agora uma ferramenta embaraçosa e não um símbolo de poder.
Aurante anos, a vida %avia transcorrido sem incidentes9 ele era o c%efe e todos o
respeitavam. 0as na verdade não era muito diferente daquele !ovem que de mal se
lembrava. & !ovem que ele tin%a sido antes do +rande Aesastre, o que temia ir aos
bailes, que nunca se sentia muito cJmodo com as pessoas e que não tin%a nen%um
autoridade. 2in%a mudado muito, mas não %avia perdido totalmente sua timide#.
=%egou assim ( porta da sua casa, com uma profunda amargura. Em o esperava.
Ds% soltou o martelo e tomou-a em seus braços, ou talve# foi ela que se lançou nos
deles, não sabia, mas sentiu-se outra ve# seguro de si mesmo. Em nem sempre esta-
va de acordo com ele. *a noite da véspera, por eemplo, %aviam discutido sobre
=%arlie9 mas ele sempre encontrava novas forças nela.
-entaram-se no sofá e ele l%e contou toda a %ist'ria. 0esmo antes que ela abrisse
a boca, Ds% sentiu sua ternura, como um bálsamo.
- Nue imprud)ncia - disse Em, por fim. - *ão devia ter mandado os rapa#es embo-
ra. *inguém pensa nem entende de tantas coisas como voc), mas voc) não sabe li-
dar com um %omem dessa espécie.
E Em preparou o plano de operaç;es:
- 1á buscar E#ra, +eorge e os rapa#es - disse. - *ão, mandarei um menino. *in-
guém tem o direito de semear a disc'rdia e di#er-nos o que devemos fa#er.
Ds% compreendeu que tin%a se equivocado. *ão tin%a porque desanimar e sentir-se
so#in%o. " 2ribo estava ali e o protegeria.
+eorge foi o primeiro a c%egar. Aepois apareceu E#ra, que ol%ou primeiro para +e-
orge e depois para Em. Ele sabe alguma coisa, pensou Ds%, um segredo que s' con-
tará a mim.
0as E#ra não tentou l%e falar a s's e se limitou a ol%ar para Em, embaraçado.
- 0oll8 teve que prender Evie em um quarto do primeiro andar - anunciou.
:arecia como se E#ra estivesse perturbado por falar ali, em público, da paião que
as carícias de um %omem %aviam despertado na idiota.
- Ela é capa# de saltar por uma !anela - disse Ds%.
- :odíamos colocar uns barrotes - propJs +eorge, - ou umas tábuas.
"pesar da gravidade da situação, todos caíram na risada. +eorge sempre estava
disposto a fa#er algum trabal%o de carpintaria nas casas. 0as não podiam encerrar
Evie pelos resto dos seus dias.
=%egaram então KacC e ,oger, fil%os de Ds%. Aepois apareceu ,alp%, o último do
trio. " presença dos rapa#es aliviou um pouco a tensão. 2odos se sentaram comoda-
mente. Esperavam, compreendeu Ds%, que ele dissesse alguma coisa e lamentou não
ter pensado em se preparar. Aiscutia-se a organi#ação de um novo Estado e não %a-
via tempo de redigir tranquilamente uma constituição. Era necessário agir com rapi-
de# e resolver o problema.
- Nue vamos fa#er quanto a Evie e esse =%arlie$ - perguntou diretamente.
2odos começaram a falar ao mesmo tempo e Ds% teve a desagradável impressão
de que a vitalidade de =%arlie enriqueceria a 2ribo. -e Evie gostava dele, tanto me-
l%or. :or fidelidade a Ds%, estavam decididos a eigir que =%arlie se desculpasse, mas
também pensavam que Ds% tin%a agido precipitadamente. Aevia ter consultado os
outros antes de discutir com =%arlie.
Ds% lembrou-os de que não se podia permitir que Evie desse ( lu# meninos idiotas.
0as o argumento não causou a impressão esperada. Evie %avia participado da vida
da 2ribo e a ideia do que seus fil%os pudessem ser não assustava os rapa#es. *ão
conseguiam imaginar um futuro distante onde os descendentes de Evie se mesclari -
am com os outros, fa#endo baiar o nível intelectual da colJnia.
=uriosamente, +eorge, apesar da lerde#a mental, apresentou um argumento mais
perturbador.
- 0as como sabemos se ele é verdadeiramente idiota$ - disse. - -ofreu tantas des-
graças, a probre#in%a... -eus pais morreram e ela ficou so#in%a. Nualquer outro em
seu lugar teria enlouquecido. 2alve# se!a mais inteligente que n's e seus fil%os serão
normais.
2odos pareciam impressionados, eceto E#ra. =%arlie !á l%e parecia como um ben-
feitor da comunidade e ia fa#er de Evie uma pessoa como as outras. 0as evidente-
mente E#ra tin%a algo a di#er.
-e levantou. *ão era %omem de cerimJnias, e todos se perturbaram por v)-lo um
pouco perturbado. -eu rosto estava mais vermel%o que de costume. &l%ava de um
lado para outro e de ve# em quando cravava os ol%os em Em, indeciso.
- 2en%o uma coisa para di#er - anunciou. - @alei longamente com esse %omem,
=%arlie, ( noite, em min%a casa, antes de nos deitarmos. Ele tin%a bebido muito e o
álcool l%e soltou a língua - interrompeu-se e ol%ou para Em. - Ele é um !actancioso, e
voc)s !á con%ecem esse tipo de %omem. - desta ve# voltou-se para os rapa#es, po-
bres selvagens, incapa#es de recon%ecer as alus;es de um %omem civili#ado. - Ele
me falou muito de si mesmo e eu consegui que soltasse a língua.
E#ra parou outra ve#. Ds% nunca o tin%a visto assim.
- Bem, E#ra, fale. Estamos entre n's - disse.
" timide# de E#ra se desfe# de repente.
- Esse %omem, esse =%arlie, está podre como um pescado de de# dias. 2em várias
doenças, doenças venéreas. 2odas a que eistiram alguma ve#.
+eorge cambaleou, como se tivesse recebido um golpe no peito. & rubor cobriu o
rosto moreno de Em. &s rapa#es nem piscaram, não con%eciam as doenças venére-
as.
"ntes de tentar uma eplicação, E#ra esperou que Em deiasse a sala, mas não
conseguiu se fa#er entender, pois os rapa#es tin%am uma ideia muito vaga das doen-
ças em geral.
Enquanto isso, Ds% se abandonava ao torvelin%os dos seus pensamentos. Esta situ-
ação não tin%a precedentes, nem na antiga nem na nova vida. Eembrou dos leprosos
que viviam separados. :odia-se proibir que um %omem doente de tifo trabal%asse em
um restaurante. 0as para que procurar eemplos: *ão !á %avia leis na terra.
- Nue os rapa#es saiam - disse-l%e bruscamente E#ra - *'s decidiremos.
=om efeito, os rapa#es não con%eciam o perigo das doenças e ignoravam que uma
sociedade tem o direito de se defender. /m a um deiaram a sala, obedientes como
crianças, apesar da sua idade e estatura.
- E nem uma palavra a ninguém - advertiu-l%es E#ra.
&s tr)s %omens ficaram s's e ol%aram-se entre si.
- =%amemos Em - propJs E#ra.
Em se reuniu a eles. @icaram um minuto calados, como se esmagados pela imin)n-
cia do perigo. 3avia uma ameaça de morte no ar9 não a de uma morte limpa e dig-
na, e sim degradante e vergon%osa.
- E então$ - disse Ds%, ao notar que os outros esperavam que dissesse algo.
Nuebrado o sil)ncio, discutiram a situação. Eogo se puseram de acordo em um
ponto: a 2ribo tin%a o direito a se proteger. Nualquer sociedade ou indivíduo pode
agir em defesa pr'pria.
0as, aceito este direito, a que meios podiam recorrer$ /ma simples advert)ncia$
-eria insuficiente. -e =%arlie contagiasse alguém, o castigo que podiam infligir-l%e
seria uma simples vingança social que nada remediaria. Encerrá-lo definitivamente
seria impor uma pesada carga para aquela pequena sociedade. " mel%or solução se-
ria ordenar-l%e que se afastasse, que desaparecesse. Ele não encontraria dificuldades
para sobreviver. -e voltasse, o castigo seria a morte.
" morteL Estremecera. 3á muito tempo não %avia guerras nem eecuç;es. " ideia
de que precisassem castigar com a pena capital não podia deiar de perturbá-los.
- E depois$ - a vo# de Em era a pr'pria vo# dos temores dos outros. - E se ele vol -
tar$ *'s, os pais, somos uma minoria. Ele poderia entender-se secretamente com os
!ovens. E se ele gan%a a ami#ade de alguns dos rapa#es e eles decidem proteg)-lo$
E Evie$ Ela não encontraria cúmplices entre as mul%eres$
- :oderíamos met)-lo no !eep e deiá-lo a cem ou cento e cinquenta quilJmetros
daqui - propJs E#ra. E depois de uma pausa, acrescentou: - -im, mas depois de um
m)s estará de volta e ninguém o impedirá de arrumar um rifle e disparar contra
qualquer um de n's. &s rapa#es e os cães poderiam afugentá-lo, mas um de n's es-
taria morto. Eu ficaria tremendo sempre que passasse diante de um matagal.
- *ão se pode castigar um %omem por um crime que ainda não cometeu - decla-
rou +eorge.
- :or que não$ - replicou Em.
2odos ol%aram para ela, mas ela não disse mais nada.
- :orque... bem, é impossível. - +eorge epun%a trabal%osamente seu pensamen-
to. - W preciso que cometa um crime. Aepois se submete o %omem a um tribunal. "s-
sim é a lei.
- Nue lei$
2odos se calaram.
Aepois a conversa se desviou, como se ninguém tivesse coragem de seguir o pen-
samente de Em.
Ds% tentou sem imparcial.
- *ão sabemos se ele realmente tem essas doenças. E não temos médicos que
possam comprovar isto. 2alve# ele ten%a se curado com o tempo, ou é um arrogante.
=on%eci outros %omens como ele.
- =om efeito - disse E#ra, - não %á doutores e nunca poderemos estar seguros. "té
podemos pensar que ele se vangloria tolamente. 0as não %á provas. :or min%a par-
te, ac%o que ele está realmente doente. =amin%a lentamente, como se sofresse.
- :arece que as sulfamidas são efica#es - observou Ds%, que, dese!ando ser !usto,
tentava afogar sua secreta alegria.
1oltou-se para +eorge e viu um consternado %orror e desgosto em seus ol%os. +e-
orge., o cidadão de classe média, c%eio de preconceitos contra as doenças venéreas.
+eorge., o diácono, que recitava os versículos da Bíblia sobre os pecados dos pais.
Em falou outra ve#:
- :erguntei que lei - disse. - *os vel%os livros %á muitas leis, mas !á não estão em
vigor. *a lei antiga, como disse +eorge, se esperava que alguém cometesse um cri -
me e então se castigava. 0as o mal !á estava feito. :odemos assumir esta responsa-
bilidade$ 2emos que pensar nos meninos.
& argumento era irrefutável. 2odos guardaram sil)ncio, mergul%ados em seus pen-
samentos.
Em não fala em nome de uma filosofia, pensou Ds%, pensa nos meninos, um caso
particular. Entretanto, talve# %a!a nela algo mais profundo que uma filosofia. W a
mãe9 e defende a vida.
& sil)ncio l%es pareceu muito longo, embora s' tivesse se passado uns poucos mi-
nutos.
- Estamos aqui de braços cru#ados e o problema é urgente. 2emos que agir. - e
acrescentou, como se pensasse em vo# alta: - *aqueles dias eu vi, sim... vi morrer
muita gente boa. Estou quase acostumado com a morte... embora não de todo.
- E se votássemos$ - propJs Ds%.
- & que$ - perguntou +eorge.
3ouve outra pausa.
- :oderíamos enotá-lo - disse E#ra, - ou... a outra coisa. *ão podemos prend)-lo.
*ão %á muito o que escol%er.
Em decidiu rapidamente a questão:
- :odemos votar por epulsão ou morte.
3avia papeis nas gavetas do escrit'rio. &s meninos gostavam de desen%as. Em
encontrou quatro lápis. Ds% cortou uma fol%a de papel em quatro pedaços, ficou com
um e deu os outros aos seus compan%eiros. :ensou que eles eram quatro e que po-
dia acontecer um empate.
:egou seu papel, escreveu a letra E, e se deteve.
*ão nos precipitemos, não !ulguemos apaionadamente, não odiemos. Dgnoramos
a fúria do %omem que defende encarniçadamente sua vida na batal%a. Dgnoramos a
loucura dos adversários que a ambição ou uma mul%er enfrentou.
"prontar a corda, afiar o mac%ado, lançar o veneno, empil%ar a madeira. 0atou
seu semel%ante sem provocação, tirou o fil%o ( sua mãe, esculpiu a imagem do nos-
so Aeus, selou um pacto com o demJnio, revelou ao inimigo o segredo das nossas
fortale#as. 2emos medo, mas nos dominamos. *ão discutamos mais. -omos a Kusti -
ça, a Eei9 *'s, o :ovo9 o Estado.
Ds% mantin%a o lápis suspenso sobre a letra E. -abia muito bem que o desterro de
=%arlie não resolveria o problema. =%arlie voltaria9 era um %omem forte e insidioso,
capa# de conquistar os !ovens. Nue está acontecendo comigo$, se perguntou - "inda
temo perder meus privilégios$ 2emo que =%arlie me substitua$
*ão estava certo, mas sabia que a 2ribo encontrava-se em um perigo real que
ameaçava sua eist)ncia. -abia, enfim, que o amor aos seus fil%os e netos, sua res-
ponsabilidade, l%e tirava toda c%ance de escol%a. ,iscou a letra E e escreveu a outra
palavra. "s cinco letras pareciam bril%ar sobre o papel branco. Era !usto$ Escrever
essa palavra não ressuscitava. a guerra, a tirania, o abuso de autoridade, doenças
mais graves que todas aquelas que =%arles pudesse transmitir$ :or que não esperar$
:or que não refletir:
:egou o lápis para riscar a palavra, mas se deteve. *ão, apesar de todos seus es-
crúpulos, não a riscaria. -e =%arlie cometesse um crime, ninguém duvidaria em cas-
tigá-lo com a pena capital9 entretanto, não fariam mais que seguir as convenç;es do
passado: &l%o por ol%o, dente por dente. Eecutar o assassino não devolvia a vida (
vítima, era uma simples vingança. :ara ser efica#, o castigo devia preceder o crime.
Nuanto tempo %avia se passado$ Ae repente notou que estava ol%ando para seu
papel e que os outros esperavam por ele. "final, ele era s' uma vo#. " maioria talve#
estivesse contra ele. 2in%a cumprido o seu dever e =%arlie seria simplesmente des-
terrado.
=olocou os papéis sobre a secretária. E quatro ve#es leu, em vo# alta:
- 0orte... 0orte... 0orte... 0orte...
"
Kogaram terra outra ve# na tumba sob o carval%o. Então a cobriram com ramos e
pedras pesadas para proteg)-la dos coiotes. Em seguida voltaram (s suas casas,
apertando-se uns contra os outros. Ds% camin%a entre eles com o martelo na mão di-
reita. Embora soubesse desde o princípio que não ia precisar dele, tin%a preferido
levá-lo. & peso da ferramenta de algum modo o a!udava a manter-se de pé. 2in%a-o
levado não mão como um emblema de autoridade quando tin%am ido buscar =%arlie.
,odeado pelos rapa#es, que tin%am os fu#is prontos, Ds% %avia pronunciado a sen-
tença, que =%arlie recebeu com maldiç;es obscenas.
" vida !á não seria mais a mesma. Ds% tentava esquecer9 quando lembrava da ee-
cução sentia náuseas. -em a firme#a de +eorge, nunca teriam conseguido c%egar
até o fim. +eorge, com sua %abilidade prática, %avia colocado a escada e aprontado
a corda.
*ão, gostaria de nunca recordar. Era ao mesmo tempo um fim e um princípio. &
fim desses vinte e um anos de vida idílica em um vel%o paraíso terrestre. 2iveram al -
gumas dificuldades, era certo, tin%am até con%ecido a morte. 0as que simplicidade e
que pa#L Era um sim, mas era também um princípio e um longo camin%o se abria
agora diante deles. *o passado tin%am sido somente um pequeno grupo, apenas
algo mais que uma família numerosa. *o futuro seriam um Estado.
3avia ali uma ironia paradoal. & Estado devia ser uma espécie de madre nutricia,
que protegeria os indivíduos e os a!udaria a viver uma vida mais pr'spera. E agora o
primeiro ato do Estado, seu nascimento, podia se di#er, era uma condenação ( mor-
te. 0as talve# no distante passado o Estado tivesse nascido sempre em uma %ora di-
fícil, quando se tin%a sentido a necessidade de recorrer ao poder9 e o poder primitivo
se epressava frequentemente em sentenças de morte.
@oi necessário, foi necessário, repetia para si mesmo Ds%. -im, a morte de =%arlie
era !ustificável. 2in%a que proteger a segurança e a felicidade da 2ribo. :or um ato
de viol)ncia, embora pudesse parecer desagradável e cruel, %aviam impedido - ou
pelo menos assim o esperavam - uma série de maldades e perversidades que, uma
ve# iniciada, nada poderia deter. "gora - assim esperavam - não %averia meninos ce-
gos, vel%os tr)mulos e idiotas, matrimJnios corrompidos !á em sua consumação.
Entretanto queria esquecer. -im, a sentença podia ser !ustificada racionalmente,
mas não tin%a %avido provas definitivas. E não sabia se %aviam intervido outros moti -
vos secundários ou pessoais. Eembrou-se, com um sentimento de culpa, como %avia
se alegrado quando acreditou ver nas palavras de E#ra uma confirmação dos seus te-
mores e apreens;es. :ois bem, agora nunca saberia. "gora, de todos os modos, a
sorte estava lançada.
@requentemente - assim o provava a %ist'ria - de nada serviam as eecuç;es. Eos
mortos se levantavam das tumbas e seus espíritos continuavam vivendo entre os %o-
mens. @eli#mente =%arlie parecia não ter espírito.
Ds% camin%ava !unto aos outros. 2odos guardavam sil)ncio, salvo os tr)s rapa#es,
que %aviam recobrado o Fnimo e di#iam piadas. Entretanto, não %avia ra#ão para
que se angustiassem menos que os vel%os. 3ão %aviam votado, mas %aviam aceito
suas consequ)ncias.
-im, pensou Ds%, se eiste culpa, todos somos culpados9 e no futuro poderemos
acusar-nos uns aos outros.
=amin%avam pelas ruas su!as, invadidas pelo mato, entre casas quase em ruínas,
em embora %ouvesse apenas dois quilJmetros entre -an Eupo e a tumba sob o car-
val%o, a distFncia l%es parecia enormemente longa.
2ão logo entrou em sua casa, Ds% aproimou-se da c%aminé e deiou ali o martelo,
de cabeça para baio e com o cabo para cima. -im, era um vel%o amigo, mas quan-
do lembrava do dia que o tin%a usado pela primeira ve#, sua imagem dos últimos
vinte e dois anos mudava um pouco. /ma vida idílica em um paraíso terrestre, tal-
ve#9 mas também anos de anarquia, onde nen%uma autoridade %avia protegido o in-
divíduo.
"inda lembrava claramente daquele dia. 2in%a descido das montan%as e se detido
em uma rua de 3utsonville, %esitando, ol%ando de um lado para outro, ac%ando que
ia fa#er uma coisa ilegal e irrevogável. Aepois, ainda sentindo apreensão, tin%a feito
saltar a frágil fec%adura e entrado para ler o !ornal. &%, sim, quando o Estado envol -
ve a pessoa, invisível e presente como o ar que se respira, não se pensa nele a não
ser para se queiar dos impostos e das leis. 0as quando o Estado desaparece...
como era mesmo que di#ia o antigo versículo: G-ua mão se levantará contra todos e
a mão de todos contra ele.H " predição %avia se cumprido. "inda que +eorge e E#ra
não fossem mais que precários aliados9 não %aviam suportado a prova da batal%a. E
se a vida %avia transcorrido apra#ivelmente, tin%a que agradecer ( deusa fortuna.
Ao outro lado da rua veio o ruído de uma serra. +eorge %avia voltado aos seus
queridos trabal%os de carpintaria. *ão perdia tempo filosofando. 2ampouco E#ra ou
os rapa#es. -omente ele, Ds%, pensava e pensava. *ovamente, como tantas outras
ve#es, se perguntou onde estava a origem da ação. *o interior do %omem$ &u lá
fora, no mundo$ :or eemplo, a recente tragédia. Aa falta dVágua %avia nascido a
ideia da epedição. &s rapa#es tin%am tra#ido =%arlie9 e a c%egada de =%arlie parte
do mundo eterior, %avia determinado o resto. Entretanto, não se podia dedu#ir que
a falta dVágua fosse a causa de tudo. -ua mente também %avia intervido, imaginando
os possíveis resultados de uma epedição. E pensou outra ve# em Koe8, o menino
que via mais adiante, com os ol%os postos no futuro.
Em entrou. Ela não %avia assistido ( eecução9 não era coisa de mul%eres. 0as ela
também %avia escrito a palavra no pedaço de papel. 0as Em não se preocupava nem
se inquietava. Era como parte da nature#a.
- *ão pense - disse Em. - *ão se atormente.
Ds% tomou-l%e a mão e apertou-a contra o rosto. " mão fresca de Em parecia tirar
sua pr'pria febre. 3aviam-se passado muitos anos desde que tin%a visto Em pela pri -
meira ve#, de pé em um umbral, envolta em lu#. E ela %avia l%e falado sem pergun-
tar, sem desafiar, simplesmente afirmando. 1inte e um, vinte e dois anos... & tempo
os unia cada ve# mais. Ká não %averia fil%os, mas o amor não enfraqueceria. Ae#
anos mais vel%a que ele, talve# agora Em fosse mais uma mãe que uma esposa. E
estava bem assim.
- *ão consigo evitar - disse por fim. - 0e atormento sem descanso. 2alve# eu gos-
te. -empre quero ver o futuro. *os vel%os dias encontrei min%a verdadeira vocação:
a pesquisa científica. 0as é uma grande piada que eu ten%a sobrevivido ao +rande
Aesastre. 3omens como +eorge e E#ra são mil ve#es mais úteis. *ão pensam9 sim-
plesmente vivem. E os %omens que agem sem refletir talve# val%am ainda mais. =%e-
fes como =%arlie. Eu, apesar dos meus esforços, não sou como aqueles que ditaram
leis e fundaram naç;es: 0oisés, -olon... Eicurgo. 2udo mudaria se eu fosse diferente.
- Eu o quero tal como é.
-im, esta era a resposta tradicional da esposa devota, uma resposta trivial, mas
tranquili#adora.
- :or outro lado - continuou ela, - como voc) pode saber$ 0esmo se fosse 0oisés
ou um desses outros, não poderia lutar contra as forças da nature#a.
/m dos meninos a c%amou e Em se foi. Ds% se levantou, aproimou-se da secretá-
ria e tirou a caia que os rapa#es tin%am tra#ido da comunidade do ,io +rande. Ds%
sabia o que %avia na caia, mas com o rápido desenvolvimento do drama não tin%a
tido tempo para eaminá-la com calma.
"briu a caia a afundou os dedos nos grãos frescos e suaves. 2irou uns poucos,
colocou-os na palma da mão e eaminou-os. Eram negros e vermel%os, pequenos,
pontiagudos, não c%atos, grandes e amarelos como ele esperava. *os vel%os tem-
pos, os grãos comuns tin%am sido grãos de mil%o %íbrido, uma planta de cultivo. &s
grão#in%os negros e vermel%os eram do tipo primitivo que os índios pueblos cultiva-
vam.
-entou-se e brincou novamente com os grãos, fa#endo-os resvalar entre os dedos.
:ouco a pouco, um esquecimento misericordioso l%e troue a pa#. *aquele mil%o -
resultado da epedição - estava a vida do futuro.
Eevantou os ol%os e viu Koe8, curioso como sempre, que ol%ava para ele do outro
lado da sala. =%amou carin%osamente o meninos e l%e eplicou para que era o mi-
l%o. "no ap's ano, a 2ribo %avia deiado para mais tarde o cultivo do mil%o. E um dia
Ds% descobriu que as sementes estavam mortas. 0as agora a eperi)ncia seria possí-
vel.
Embora sentindo que ia fa#er algo insensato, Ds% levou a caia para a co#in%a, se-
guido por Koe8. "cenderam uma boca do fogão a 'leo e Ds% despe!ou algumas dú#ias
de grãos em um tostador. Era desperdiçar algumas preciosas sementes, mas o emo-
cionado Ds% disse a si mesmo que Koe8 aproveitaria a demonstração.
& mil%o, mal assado, mal se podia comer. 0as nem o pai nem o fil%o se queia-
ram. *a realidade, Ds% não se lembrava de ter comido mil%o assado senão como
acompan%amento de algum coquetel, mas eplicou a Koe8 que esse tin%a sido o
principal alimento dos antepassados americanos.
Koe8 escutava apaionadamente e seu magro rostin%o se iluminava com o resplen-
dor dos ol%os arregalados.
=omo eu queria, pensou Ds%, que se fortalecera, e assim poder contar com ele.
Aesperdicei duas dú#ias de grãos, mas semeei na mente de Koe8 uma semente que
nunca morrerá.
& mil%o e o trigo, assim como o cão e o cavalo, foram por muito tempo amigos e
compan%eiros do %omem. "qui e ali, em algum seco rincão de outro continente, a
gramínea de pesadas espigas %avia crescido !unto de primitivas aldeias onde as con-
diç;es do solo eram mais favoráveis. "ssim, no início, o trigo talve# se adaptou ao
%omem, mas logo o %omem se adaptou ao trigo. "os atentos cuidados de um, o ou-
tro responde com dons generosos. &s talos ficavam mais altos, as espigas davam
mais grãos. 0as o trigo também ficou mais e mais eigente e reclamava campos cui-
dados e livres de disc'rdias.
Então cessaram os cultivos. *o primeiro ano o trigo cresceu espontaneamente, co-
brindo mil%ares de acres. 0as pouco a pouco foi desaparecendo. &s lobos famintos
reapareceram, lançaram-se sobre as ovel%as. E da mesma forma, as erva danin%as,
cada ano mais fero#es, atacaram o trigo sem que ninguém as impedisse.
Eogo trigo morreu em quase todo o mundo. " gramínea espigada s' cresceu em
alguns locais da [sia e da [frica, como em outros tempos, antes que aparecesse
essa ci)ncia passageira c%amada agricultura.
& mil%o seguiu o eemplo do trigo. *ascido nos tr'picos americanos, ele também
via!ou com o %omem. =omo a ovel%a, trocou sua liberdade pelos cuidados e esque-
ceu de espal%ar os grãos que abrigavam as duras espigas. "ssim, o mil%o desapare-
ceu antes do trigo. -omente nas altas planícies do 0éico o teosinte selvagem eleva-
va as cabeças borladas ao sol.
*ão %averá então mais espigas, a menos que aqui e ali sobrevivam alguns %o-
mens. :ois se o %omem vive do trigo e do mil%o, o trigo e o mil%o também vivem do
%omem.
+eorge e 0aurine eram os únicos que fa#iam a conta eata - pelo menos assim
ac%avam - dos dias e dos meses. &s outros se contentavam em observa a posição do
sol e a apar)ncia das plantas. Ds% confiava orgul%osamente em seus métodos científi-
cos e quando comparava suas anotaç;es com o calendário de +eorge, nunca encon-
trava mais de uma semana de diferença9 e isto talve# se!a, pensava, por algum erro
de +eorge. :ouco importava uma semana a mais ou a menos para as sementes de
mil%o. 0as a estação !á estava bastante avançada. & frio impediria a germinação.
Era mel%or esperar pela pr'ima primavera.
"inda assim Ds% começou imediatamente a procurar um campo ensolarado. Koe8 o
acompan%ava e !untos eles discutiam a orientação, a nature#a do solo e os métodos
que empregariam para proteger as semeaduras das feras selvagens. *a realidade
aquela região não era a pior que alguém pudesse imaginar para cultivar mil%o. " va-
riedade adaptada ao vale seco e quente do ,io +rande talve# não se aclimatasse aos
ver;es frescos e brumosos dos arredores de -an @rancisco.
Ds% nunca tin%a se ocupado com quest;es de agricultura e nem sequer de !ardina-
gem. *ão tin%a mais que alguns con%ecimentos te'ricos, pr'prios de um ge'grafo.
,ecordava como se formavam as vagens e os bulbos e ac%ava que podia reco-
n%ec)-los, mas isto não o transformava em um agricultor. *a 2ribo não %avia ne-
n%um fa#endeiro, embora 0aurine tivesse sido criada em uma fa#enda. " circunstFn-
cia de todos serem gente da cidade !á %avia afetado notavelmente a vida da 2ribo.
/m dia - !á tin%a se passado uma semana e a lembrança de =%arlie sobre o carva-
l%o !á começava a se apagar, - Ds% e Koe8 voltaram para -an Euo, alegres por terem
encontrado um campo que l%es parecia conveniente. Em aguardava-os na varanda e
imediatamente Ds% teve um pressentimento de desgraça.
- Nue está acontecendo$ - perguntou.
- &%, nada de grave - disse ela. - :elo menos assim espero. Bob não se sente mui-
to bem.
Ds% parou e ol%ou para ela, preocupado.
- *ão, não ac%o - disse Em. - *ão sou médica, mas não creio que se!a uma doen-
ça desse tipo. :or outro lado, seria impossível. 1en%a v)-lo. Ele di# que se sente can-
sado %á alguns dias.
Ds% se fa#ia de médico na 2ribo. 2in%a adquirido uma certa %abilidade para curar
as feridas e mau !eitos e uma ve# tin%a consertado um braço quebrado. 0as sua ci-
)ncia não ia além disto, pois todas as doenças, eceto duas, %aviam desaparecido.
- Está com uma dessas dores de garganta$ :erguntou. - Dsso sarará logoL
- *ão - respondeu Em, - não é a garganta. Ele se deitou e parece muito cansado.
- "s sulfamidas o curarão - declarou Ds%, animado. - :or sorte não falta nas farmá-
cias. E se as sulfamidas não derem resultado, tentaremos antibi'ticos.
Entrou em casa. Bob estava deitado, im'vel e virado para a parede.
- &%, eu não ten%o nada - disse ele, irritado. - 0amãe está eagerando.
0as ele ter ido para a cama, provava o contrário, pensou Ds%. /m rapa# de de#es-
seis anos não toma essa resolução enquanto puder se manter de pé.
Ds% se virou e viu Koe8, que ol%ava curiosamente para seu irmão.
- Koe8, vá emboraL - gritou.
- Eu quero ver. Nuero saber o que é ficar doente.
- *ão, vá embora. Nuando voc) ficar mais vel%o e mais forte eu l%e ensinarei a cu-
rar as pessoas. :or enquanto não queremos que voc) adoeça também. " primeira
coisa que voc) deve saber sobre as doenças e que são transmissíveis.
Koe8 saiu de má vontade. -ua curiosidade era maior que o medo, totalmente te'ri-
co, do contágio. " 2ribo desfrutava de uma saúde florescente e os meninos não %avi -
am aprendido a respeitar a doença.
Bob se queiava de dor de cabeça e de uma fraque#a geral. Estava im'vel, pros-
trado em seu leito. Ds% tirou a temperatura: RZ graus e meio, nada catastr'fico. :re-
parou uma forte dose de sulfamida com um grande copo dVágua. Bob se engasgou
com os tabletes9 não estava acostumada a tomar remédios.
Ds% aconsel%ou a Bob que tentasse dormir, saiu e fec%ou a porta.
- E então$ - perguntou Em.
Ds% encol%eu os ombros.
- *ada que a sulfamida não possa curar, eu ac%o.
- *ão gosto disso. 2ão de repente...
- &%, uma simples coincid)ncia.
- 2alve#, mas me assombra voc) não ficar preocupado.
- "ntes eu esperarei o resultado do tratamento. Eu l%e darei uma dose a cada qua-
tro %oras.
- Espero que isto baste - disse Em, e saiu.
0esmo antes de c%egar ao pé da escada, Ds% compreendeu o ceticismo de Em.
=omo não se atormentar$ *os vel%os tempos, apesar dos médicos e dos serviços de
assist)ncia pública, o ataque brusco e misterioso de uma enfermidade era sempre
aterrador. Nuando mais agora. :rivado da proteção do Estado, privado do tesouro
que a ci)ncia médica %avia acumulado durante séculos, o %omem se sentia nu, mise-
rável, eposto a todos os perigos.
W min%a culpa, pensou Ds%. Eu devia ter lido alguns livros de medicina. Aevia ter
me transformado em um médico. 0as o estudo da medicina nunca o %avia atraído,
mesmo nos vel%os dias, quando estava procurando sua vocação. &s g)nios univer-
sais são raros. :or outro lado, nunca tin%am sentido realmente a necessidade de um
médico, pois !á não %avia enfermidades. Aepois de tudo, o +rande Aesastre %avia
tra#ido algum benefício. Ae um s' golpe, tin%a tirado da %umanidade quase todos
seus males físicos.
*a pré-%ist'ria, todas as tribos tiveram suas doenças características, propagadas
por parasitas. &s %omens do *eandert%al, se as provas não tivessem desaparecido
com eles, teriam sido recon%ecidos por seus parasitas, tanto como pelo seu modo de
tal%ar a pedra. Nuando os arque'logos encontravam os vestígios d culturas sobre-
postas, decretavam que a tribo B tin%a vencido a tribo ". :rovavelmente estavam
certos, mas a tribo B tin%a obtido a vit'ria graças, provavelmente, ( virul)ncia dos
seus micr'bios.
"s refle;es de Ds% aumentavam sua inquietação. 0eia %ora mais tarde, foi ver
Bob outra ve#. =aía a noite e o doente dormia na escuridão. Ds% não quis perturbá-lo
e desceu de novo.
-entou-se em uma poltrona na sala e acendeu um cigarro. +ostaria de discutir a
questão com alguém, mas Em não tin%a muita instrução e Koe8 era um menino sem
eperi)ncia. Ae todas as doenças, a 2ribo s' con%ecia a escarlatina e as anginas. &s
micr'bios tin%am sem dúvida sido transmitidos por algum dos membros da tribo ou
por algum animal, um cão ou uma vaca. 0as os %abitantes de Eos "ngeles talve# ti-
vessem se livrado da escarlatina e podiam ter conservado a coqueluc%e e a caum-
ba, ou talve# ainda %ouvesse casos de disenteria nos arredores do ,io +rande.
Nuanto a =%arlie, se ele não %avia padecido daquelas enfermidades de que se ga-
bava, pelo menos tin%a transportado os micr'bios que viviam em Eos "ngeles. Nue
má ideia foi aquela epediçãoL Ds% sentiu 'dio por todos os estran%os. 2eria que re-
ceb)-los a tirosL
/ma mosca #umbiu em seu nari# e ele a afastou com um nervosismo que não l%e
era %abitual.
Kose8 c%amou. " ceia estava servida.
& desaparecimento do %omem não %avia ameaçado a eist)ncia da mosca domés-
tica, que não estava irrevogavelmente unida, como o piol%o, ( sorte dos seres %uma-
nos. =omo o rato, o guabiru, a pulga e a barata, esse %abitante das moradias do %o-
mem sem dúvida sofreu os rigores do destino. 0orreram cetenas, mil%ares das suas
irmãs. 0as por fim conseguiu sobreviver.
:ois, como esse sen%or a quem o príncipe 3almlet c%amara Gmosca dVáguaH, a
mosca desfrutava da G:osse do lodoH, embora aqui não %a!a refer)ncias a terras e
domínios, e sim ao lodo, no pr'prio sentido figurado. "ssim, a Bíblia do rei Kames de-
clara modestamente que "%od golpeou o rei Eglon no ventre e Gsaiu lodoH. Ae modo
que, embora o %omem %ouvesse desaparecido quase totalmente, a mosca doméstica
não corria perigo enquanto %ouvesse animais. -uas larvas se alimentavam de ecre-
mentos, como as serpentes se alimentam de ratos, os pássaros de insetos e os %o-
mens da carne dos animais.
Entretanto, quando o %omem se eclipsou, os dias foram duros. *os pátios das fa-
#endas não %avia festins abundantes como o dom do *ilo. Ká não %avia latrinas des-
cobertas, !á não %avia inumeráveis esgotos atul%ados de lio e desperdícios. -omen-
te aqui e ali uns poucos ecrementos permitiam com que a mosca comum pusesse
seus ovos, criasse suas larvas e lançasse ( ventura suas coortes de #umbidoras e in-
fatigáveis via!antes.
/ma semana mais tarde a doença !á %avia estendido seus domínios. AicC, que %a-
via acompan%ado Bob na epedição, foi a segunda vítima. Eogo caíram E#ra e cinco
meninos. Eevando em conta o número de membros da 2ribo, a proporção de enfer-
mos era aterradora. "gora Ds% estava certo de que se %avia declarado uma epidemia
de febre tifoide.
"lguns dos adultos tin%am sido vacinados nos vel%os dias, mas a imunidade devia
ter acabado %á muito tempo. *ada preservava os meninos. "ntigamente a febre tifoi-
de tin%a sido combatida, sobretudo, com medidas profiláticas. /ma ve# declarada a
enfermidade, tin%am que se resignar.
" eplicação era bastante simples, pensou Ds%. =%arlie tivera ou não outras doen-
ças, mas pelo menos tin%a tra#ido o bacilo de Ebert%. 2ivera febre tifoide %á algum
tempo ou recentemente, nunca se saberia. :or outro lado, não tin%a nen%uma im-
portFncia. Era indubitável, pelo menos, que =%arlie, %omem pouco limpo, tin%a comi-
do com os rapa#es por uma semana. Eogo, as latrinas ao ar livre e as moscas tin%am
favorecido a infecção.
Então passaram a ferver a água. Nueimaram vel%as latrinas e taparam os poços.
:ulveri#ação de AA2 acabaria com as moscas. 0as essas precauç;es c%egavam um
pouco tarde. 2odos os membros da 2ribo !á tin%am sido epostos ( infecção. &s que
ainda se mantin%am de pé, go#avam de imunidade natural, ou então a doença esta-
va em fase de incubação neles e a qualquer momento se declararia com todas suas
forças.
2odos os dias surgiam novos casos. Bob, agora na segunda semana da doença,
delirava e mostrava o sombrio camin%o que os outros seguiriam. &s que não tin%am
caído de cama estavam esgotados pelo esforço em cuidar dos doentes. 0al tin%am
tempo de terem medo, mas o medo rondava, estreitando cada dia mais o seu círculo.
"inda não %avia mortos, mas nen%um doente ainda tin%a passado pelo crise decisiva.
*os primeiros anos, um novo nascimento parecia fa#er as trevas retrocederem um
pouco mais. "gora, cada ve# que alguém caía doente, as trevas se aproimavam,
ameaçando devorá-los. *ão morreriam todos, naturalmente, mas a morte de uns
poucos bastaria para que a 2ribo perdesse a vontade de viver.
+eorge, 0aurine e 0oll8 %aviam recorrido (s re#as e alguns dos !ovens os imita-
vam. -em dúvida, Aeus os estava castigando pelo crime que %aviam cometido. ,alp%
pensou em fugir com sua mul%er e seus fil%os, que a epidemia %avia perdoado até
agora, mas Ds% o dissuadiu. -e por infelicidade algum deles estivesse contagiado, o
isolamento e a falta de a!uda aumentariam o perigo. Estamos a um passo do pFnico,
pensou Ds%.
*a man%ã seguinte ele pr'prio acordou febril e deprimido. @e# um esforço e se le-
vantou, respondeu de qualquer modo (s perguntas de Em e evitou seu ol%ar. Bob ti-
n%a piorado e Em não abandonava sua cabeceira. Ds% cuidava de Koe8 e de Kose8,
ainda nos primeiros dias da doença. <alt a!udava em uma casa vi#in%a.
M tarde, enquanto se ocupava de Koe8, Ds% sentiu que perdia a consci)ncia. ,ecor-
rendo (s suas últimas forças, conseguiu c%egar até a cama e desmaiou. Nuando re-
cobrou os sentidos, Em se inclinava para ele. Ela tin%a tirado sua roupa e o deitara.
@raco como uma criança, Ds% ol%ou-a nos ol%os, temendo descobrir o medo neles. -e
Em ficasse com medo tudo estaria perdido. 0as os grandes ol%os negros o ol%avam
serenamente. &%, mãe das naç;esL Ds% adormeceu.
:assaram-se dias e noites e o delírio o levou para longe da realidade. @ormas va-
gas moviam-se ao seu redor, formas %orríveis que se aproimavam dele, esquivas
como a névoa. Ms ve#es pedia seu martelo ou c%amava Koe89 outras ve#es gritava o
nome de =%arlie. 0as quando o terror c%egava ao ápice, recorria a Em. Então uma
doce mão apertava a sua9 e nos ol%os dela não %avia medo.
" semana seguinte foi mais tranquila, mas sentia-se tão fraco e abatido que (s ve-
#es parecia que a vida escapava do seu corpo, e não lamentava. 0as quando levan-
tava o ol%ar para Em sentia-se outra ve# animado e forte. E fec%ava os lábios para
reter aquela vida fugidia que queria afastar-se como uma mariposa. 0as enquanto
Em estivessem ( sua cabeceira, estava seguro, a vida continuaria se fortalecendo
nele. Nuando Em se afastava, Ds% se queiava, pensando que ela não resistiria por
muito tempo. " qualquer momento cairia esgotada. " febre talve# a perdoasse, mas
a carga era ecessiva.
:ouco a pouco ia recobrando a luride#. "lguns doentes tin%am morrido, ele pres-
sentia, mas ignorava quem ou quantos. 0as não se atrevia a perguntar.
/ma ve# ouviu que Keanie c%orava aos gritos a morte de um menino. Em a conso-
lou com algumas poucas palavras e animou-a a continuar lutando. +eorge veio (
casa, transformado em um vel%o descuidado e su!o que não tin%a tempo de se lavar.
0aurine %avia tido uma recaída e seu neto estava agoni#ando. Em não falou de
Aeus, mas l%e devolveu a confiança e as forças. +eorge se foi com a cabeça erguida
e di#endo algo parecido a uma oração. "s trevas avançavam e a pequena c%ama da
vela vacilava e fumegava9 mas Em não con%ecia o desespero e animava a todos.
W curioso, pensou Ds%, faltam-l%e os dons que me parecem mais indispensáveis.
*ão tem grande intelig)ncia nem grande instrução. *ão tem muitas ideias. 0as %á
nela grande#a e segurança. -em ela, nestas últimas semanas todos n's !á teríamos
nos abandonado ao desespero e ( morte.
/m dia, entretanto, Em veio sentar-se na cama e tra#ia nos rosto as marcas de um
indi#ível indi#ível. Ds% sentiu medo. 0as de repente se sentiu feli#, pois sabia que ela
nunca teria se mostrado assim se o futuro não estivesse assegurado. *ão obstante,
nunca tin%a visto semel%ante fadiga em um rosto %umano. E então compreendeu
que por trás daquela fadiga eistia uma enorme triste#a. =ompreendeu também que
ele !á não estava doente, e sim convalescente, talve# menos cansado que ela, e que
podia a!udá-la a carregar aquela carga.
&l%ou para ela e sorriu e, apesar do esgotamento, ela sorriu-l%e também.
- Aiga, quero saber - murmurou Ds%.
Em %esitou e Ds% pensou apressadamente: -eria <alt$ *ão <alt não tin%a adoeci -
do. *aquele mesmo dia Em tin%a levado um copo de água para ele. KacC$ *ão, esta-
va certo de ter ouvido sua vo#9 ele era um rapa# tão forte. Kose8, então$ &u 0ar8$
2alve# vários$
- Aiga, estou forte o bastante - insistiu, e com desespero pensou: *ão, ele não. Ele
não era um menino vigoroso, mas (s ve#es os mais fracos são os que mel%or supor-
tam as doenças. *ão, ele não.
- =inco, em toda a rua, morreram cinco.
- Nuem$ - perguntou Ds%, invocando toda sua coragem.
- 2odos os meninos.
- E os nossos$ - gritou Ds%, aterrori#ado, sentindo que ela não queria di#er a ele.
- -im, fa# cinco dias - disse Em. E em seus lábios se formou um nome, e Ds% com-
preendeu, antes de ter ouvido. Koe8.
:ara que continuar vivendo$ & resto pouco importava. & escol%idoL &s demais po-
diam ter morrido9 s' ele era capa# de levar a toc%a. & fil%o prometidoL Ds%, im'vel,
fec%ou os ol%os.
%
" convalesc)nça de Ds% durou várias semanas. ,ecuperava lentamente as forças
mas tin%a perdido o gosto de viver. & espel%o l%e mostrou listras cin#as no cabelo. Ká
sou um vel%o$, se perguntou. *ão, não era a idade. 0as nunca seria como antes. 2i -
n%a perdido a coragem e a confiança da !uventude. -empre teve orgul%o de ser sin-
cero consigo mesmo e de encarar a vida de frente. "gora notava que evitava pensar
em certos temas. /m resto de fraque#a, sem dúvida. :assaria em algum tempo e se-
guiria adiante. &utras ve#es - e isto o assustava - se negava a admitir a realidade.
@a#ia pro!etos como se Koe8 estivesse ali, refugiando-se em um mundo de fantasias.
-empre tivera essa tend)ncia e assim %avia conseguido suportar a solidão ap's o
+rande Aesastre. "gora a realidade l%e parecia in'spita demais.
Eembrou-se de um verso das suas leituras daqueles anos.
*unca mais a confiança feli# da man%ã.
-im, nunca mais. Koe8 %avia partido e a sombra de =%arlie pesava sobre a 2ribo9 e
%avia nascido o imprescindível Estado com a morte nas mãos. E todos os seus pro!e-
tos, nascidos na alegria da man%ã, %aviam fracassado. :or que$ =ansado, refugiava-
se então nos son%os.
Nuando conseguiu pensar com mais calma, sentiu amargamente a ironia da vida.
"s desgraças esperadas nunca aconteciam. E os planos mel%ores concebidos não po-
dem impedir uma catástrofe imprevisível.
@icava so#in%o a maior parte do dia. 3avia outros doentes que Em cuidava. 2eria
gostado de falar com E#ra, mas seu amigo ainda estava de cama. Eceto a Em e
E#ra, agora que Koe8 tin%a partido, não dese!ava ver ninguém.
/ma tarde Ds% despertou da sua GsiestaH e encontrou Em sentada em sua cabecei -
ra. &l%ou-a com os ol%os apertados, fingindo estar dormindo. Ela parecia fatigada,
mas !á não com aquele cansaço infinito de um tempo atrás. Embora ainda trista, %a-
via recobrado a serenidade. Em não con%ecia o desespero. E Ds% !á não procurava o
medo em seu rosto.
Em levantou a cabeça, viu os ol%os abertos de Ds% e sorriu. 2in%a c%egado o mo-
mento, compreendeu ele, de enfrentar a realidade.
- Nuero falar com voc) - disse, com uma vo# parecida a um sopro, como se ainda
estivesse adormecido.
3ouve uma pausa.
- -im - murmurou ela. - Estou aqui... @ale... Estou aqui...
- Nuero falar com voc) - repetiu Ds%, sem atrever-se a começar.
-entia-se pequeno e %umilde, como um menino assustado, que antes de interro-
gar sua mãe tenta se animar e afastar os temores. 0as !á não era um menino e teve
medo de que ela não pudesse devolver-l%e a pa#.
- Nueria l%e fa#er algumas perguntas - balbuciou. - =omo...
Dnterrompeu-se outra ve#. Em l%e sorriu, com pena da sua fraque#a, mas l%e pediu
que adiassem a conversa.
- -im - disse Ds% desesperado. - -ei o que pensam +eorge e os outros. &uvi algu-
mas coisas, apesar da febre. W... um castigo$
&l%ou para Em e, pela primeira ve# no curso daquelas semanas, viu medo em seu
rosto, ou uma sombra de medo. Eu l%e causei dano, pensou Ds% com terror. *ão obs-
tante, tin%a que prosseguir, ou um muro de dúvidas e mentiras se levantaria entre
eles.
- 1oc) sabe o que quero di#er - continuou. - @oi porque matamos =%arlie$ Aeus
nos castigou$ &l%o por ol%o, dente por dente$ :or isto todos... e Koe8...$ 2alve# Aeus
ten%a se servido de =%arlie como instrumento para manifestar sua c'lera.
=alou-se. & %orror contraía o rosto de Em.
- *ão, nãoL - gritou ela. - 1oc) tambémL Aiscuti tanto com os outros, so#in%a,
quando voc) estava doente. *ão podia eplicar-l%es, mas sabia que era impossível.
*ão encontrava argumentos. -' podia dar-l%es coragem.
Em se calou, como se esgotada por sua veem)ncia.
- -im - continuou, - perdi toda min%a coragem, como sangue. -aía de mim, me
sentia cada ve# mais fraca, e me perguntava: 3averá bastante$ 3averá bastante$ E
voc) delirava e falava sobre =%arlie.
Em se calou de novo e Ds% não soube o que l%e di#er.
- &% - disse ela, - não me peça mais coragem. *ão sei raciocinar. *ão estudei. -'
sei que fi#emos o que nos pareceu mel%or. -e Aeus eiste, se n's pecamos, como
pretende +eorge, foi porque somos como ele nos fe#. E não acredito que ele nos es-
tenda armadil%as. &%, voc) é mais intruido, que +eorge. *ão traga outra ve# o Aeus
da vingança, o Aeus da c'lera, o que não nos ensina as regras do !ogo e depois nos
castiga se nos equivocamos. *ão o traga outra ve#, eu l%e suplicoL *ão voc)L
E outra ve# ele se sentiu pequeno e %umilde. Ae algum modo, Em %avia atendido
aos seus rogos. "gra sentia-se mais tranquilo, com uma nova segurança e uma nova
confiança. -im, não devia ter duvidado.
:egou a mão de Em.
- *ão ten%a medo - disse, sem pensar que naquele consel%o %avia algo de irJnico.
- 1oc) tem ra#ão. 2em ra#ão. *ão terei outra ve# esses pensamentos. -ão absurdos,
eu sei. 0as a morte (s ve#es é algo terrível e a doença debilita. *ão se esqueça. Ká
não sou o mesmo.
Ae repente Em o bei!ou, com o rosto ban%ado em lágrimas, e deiou o quarto. 2i -
n%a recuperado suas forças e todos se apoiariam nela outra ve#. &% mãe de naç;esL
Ele também se recuperava, talve# a!udado pelas palavras de Em Koe8 tin%a parti-
do, pensou, nunca mais voltará. *unca mais se aproimará de mim correndo, com os
ol%os bril%antes de curiosidade. 0as o porvir ainda está aí. 2en%o os cabelos grisa-
l%os, sim, mas me restam Em e os outros. "inda posso ser feli#. & futuro não é como
eu %avia imaginado, mas farei o que puder.
-entia-se envergon%ado por sua pr'pria pequene#. 2odas as forças da nature#a
pareciam se aliar contra ele, o único %omem vivo capa# de imaginar e preparar o fu-
turo. 2in%a tentado dominá-las e elas o %aviam envolvido. -im, mesmo com a a!uda
de Koe8 não teria podido venc)-las. 0odificaria seis planos, os faria mais sutis. 2raça-
ria ob!etivos menos ambiciosos e mais práticos. Dmitaria e raposa e não o leão. &
mais urgente era recuperar a saúde, o que levaria duas ou tr)s semanas. 0as antes
do fim do ano voltaria ao trabal%o.
-entiu que sua mente voltava a funcionar. :odia contar com ela. Era um ecelente
instrumento de trabal%o, uma máquina um pouco usada, mas ainda útil. 0as ainda
se sentia muito fraco e adormeceu em meio (s suas meditaç;es.
2alve# os seres %umanos, os sistemas filos'ficos e os livros fossem numerosos de-
mais. 2alve# os cursos do pensamento fossem profundos demais9 e os restos do pas-
sado se amontoavam como lio ou roupas vel%as. :or que não se alegraria o fil'sofo
se tudo desaparecesse de repente: &s %omens começariam outra ve#, a partir do
#ero, e o !ogo teria novas regras. "s perdas talve# não fossem maiores que os ga-
n%os.
Aurante as semanas da epidemia, as poucas pessoas sadias não conseguiram fa#er
outra coisa além de enterrar precipitadamente os mortos. Nuando todos ficaram cu-
rados, +eorge e 0oll8 epuseram a questão dos funerais. :ara Ds% e Em não pareci -
am necessários, mas Ds% compreendeu que os outros encontrariam algum consolo na
cerimJnia. "lém disso, os ofícios religiosos assinalariam o fim daquele período de pe-
rigo, de medo e dor, e a volta ( vida normal. Nuanto a ele, Ds%, sentira outra ve# a
dor da morte de Koe8, mas logo ol%aria resolutamente para o futuro e poria em mar-
c%a sus modestos pro!etos.
=olocou então como condição, que quando acabassem os ofícios todos voltariam (
vida normal. Embora não tivesse pensado na retomada das aulas, os outros assim o
entenderam e Ds% aceitou.
Escol%eram E#ra para que celebrasse a cerimJnia e este decidiu que começaria ao
aman%ecer. =omo em quase todos os lugares onde não %á lu# elétrica, os membros
da 2ribo levantavam ao raiar do dia.
"ntes do sol sair, todos !á estavam !unto ( pequena fileira de montículos. & céu
estava claro mas no oeste as trevas ainda cobriam os pés das colinas e os pin%eiros
ainda arro!avam suas sombras sobre as tumbas.
" estação !á estava muito avançada e !á não %avia flores, mas os meninos, dirigi -
dos por E#ra, tin%am cortado ramos de pin%eiro para cobrir os montículos. *ão %avia
mais que cinco tumbas, mas a perda era catastr'fica. :ara a 2ribo, cinco mortes
equivaliam a mais de cem em uma antiga cidade de um mil%ão de %abitantes.
Estavam ali todos os sobreviventes: os beb)s nos braços das suas mães9 os meni-
nos e meninas de mão com seus pais. Ds% segurava o martelo na mão direita9 sua
cabeça pendia pesadamente. 2in%a deiado a casa com as mãos va#ias, mas Kose8,
ac%ando que era esquecimento, lembrou-l%e da ferramente. & martelo significava
para os !ovens a transcend)ncia do ato.
"lguns meses antes, Ds% não teria cedido e teria falado dos perigos da superstição,
mas agora %avia tra#ido o martelo. *a verdade, devia confessar, ele pr'prio sentia-se
mel%or. &s acontecimentos recentes o tin%am tornado mais %umilde. -e a 2ribo pre-
cisava de um emblema de força e unidade, e se o martelo os fa#ia feli#es, por que
negar em nome do racionalismo: 2alve# o racionalismo fosse um luo da civili#ação.
@ormavam agora um semicírculo irregular de frente para as tumbas, em grupos de
famílias. Ds%, no centro, ol%ava de um lado para outro. +eorge vestia um terno cin#a
escuro, adequado (s circunstFncias, talve# o mesmo que costumava usar nos fune-
rais nos vel%os dias, ou algum outro parecido. 0aurine, toda de negro, usava um véu
escuro. Enquanto esses dois vivessem, sobreviveriam as vel%as normas. &s outros ti -
n%am vestido as roupas que tin%am l%es parecido mais cJmodas.
&s %omens e os rapa#es usavam calças de lona a#ul, camisas esporte e !aquetas
leves para se protegerem do frio da alba. "s meninas s' se diferenciavam dos seus
irmãos pelos cabelos mais longos. 0as as mul%eres e moças, fieis (s tradiç;es da
vaidade feminina, usavam saias e cac%ec'is de cores vivas.
E#ra se separou do grupo e se preparou para falar. /ma lu# dourada assomava so-
bre o perfil das colinas. " nature#a parecia segurar o fJlego. Ds% sentiu um n' na
garganta. " cerimJnia l%e parecia sem sentido e sua opinião era que diante da morte
todos os discursos eram impertinentes. Entretanto, esses rituais fúnebres respondiam
a uma das mais vel%as necessidades do coração %umano9 e talve# estes encontrari -
am um eco no futuro.
-e passariam mil%ares de anos e um antrop'logo estudaria os costumes dos so-
breviventes do +rande Aesastre. G:ouco se sabe sobre seu modo de vidaH, escreve-
ria. G"lgumas tumbas descobertas recentemente indicam que praticavam a inuma-
ção.H
Ds% temia o discurso de E#ra. & tema era perigoso e era fácil cair em alguma bes-
teira. 0as desde as primeiras palavras, se repreendeu por sua falta de confiança.
E#ra não repetiu vel%as f'rmulas. *ão falava da vida eterna. Esta promessa não teria
consolado ninguém, salvo +eorge, 0aurine e talve# 0oll8. -obre as tradiç;es religio-
sas do passado pesava a negra sombra do +rande Aesastre.
E#ra, que con%ecia tão bem o coração %umano, se contentou em evocar algumas
recordaç;es dos meninos mortos. =ontou um caso curioso sobre cada um deles, uma
aventura ainda fresca na mente de todos. Nuando c%egou ao final do discurso, pro-
nunciou o nome de Koe8 e Ds% sentiu que suas pernas se dobravam. E#ra não falou
da bril%ante intelig)ncia do meninos. *ão recordou que um ano tin%a seu nome. *ar-
rou somente os incidentes de uma brincadeira.
Enquanto E#ra falava sobre Koe8, Ds% notou que os meninos o ol%avam de lado.
*inguém ignorava que Koe8 era seu fil%o preferido. -e perguntavam se ele, Ds%, não
faria algum milagre9 ele, o antigo, o americano, que sabia tantas coisas estran%as,
antes da cerimJnia terminar, talve# se adiantasse, brandindo seu martelo, para decla-
rar que Koe8 não tin%a partido, que Koe8 ainda vivia, que Koe8 voltaria. E se abririam
as tumbas... 0as os meninos se limitaram a lançar aqueles ol%ares furtivos, sem fa-
lar. E Ds% sabia muito bem que não podia ressuscitar os mortos.
Nuando E#ra acabou de falar sobre Koe8, fe# ainda algumas consideraç;es gerais.
:or que ele não terminava$ Era uma falta de tato prolongar inutilmente a cerimJnia.
Ae repente E#ra se deteve, bruscamente, ao mesmo tempo em que o mundo se
enc%eu de lu#. -obre as colimas assomava o primeiro raio de solL
Ds% não sabia se ficava alegre ou c%ateado. Bem plane!ado, pensou, mas um tru-
que teatral. &l%ou ao redor e viu que todos sorriam e sentiu-se mais animado. " res-
surreição do solL /m símbolo vel%o como o mundo. E#ra era sincero demais para pro-
meter a imortalidade, mas %avia escol%ido o momento, e afortunadamente não %avia
nuvens no céu. "li estava o símbolo9 tanto podia ser aplicado ( ressurreição dos mor-
tos quanto ( sobreviv)ncia da raça %umana. "gora os dourados camin%os solares
corriam entre as altas sombras da árvores.
-omos realmente %omens, os que %onramos os mortos. *em sempre foi assim.
"ntes, quando morria um de n's, ficava estendido na entrada da caverna, tão baia
que não podíamos entrar nela sem nos agac%armos. "gora não precisamos nos aga-
c%ar e %onramos o mortos.
"gora, quando um %omem morre, não o deiamos no lugar em que caiu, não o
pegamos pelas pernas para arrastá-lo até a floresta para que sirva de pasto (s rapo-
sas. *ão, n's o deitamos com cuidado em uma fossa e o cobrimos com fol%as e ra-
mos. 2orna assim ( terra, mãe de todas as criaturas. &u o colocamos nos ramos de
uma árvore e o confiamos aos ventos do céu. E se alguns pássaros o bicarem, está
bem, pois os pássaros são criaturas do céu e do ar. &u o entregamos ao fogo purifi -
cador. Aepois retomamos nossa vida e logo esquecemos, como as feras.
0as %onramos os mortos. E quando deiarmos de fa#)-lo, não seremos %omens.
Aepois da cerimJnia, voltaram a -an Eupo envoltos na lu# do aman%ecer. Ds% dese-
!ava ficar so#in%o, mas ac%ava que devia ficar !unto de Em. 0as então ela adivin%ou
seus dese!os:
- -aia um pouco - disse. - /m passeio l%e fará bem. :recisa ficar so#in%o.
Ds% aceitou. =omo %avia temido, a cerimJnia o tin%a transtornado. 3á pessoas que
procuram compan%ia nos momentos de dor, mas ele preferia a solidão. Em não se in-
quietava9 era mais forte que ele.
*ão levou nada para comer9 não tin%a fome e sempre podia entrar em algum ar-
ma#ém e pegar algumas latas de conserva. 2ampouco levou o rev'lver, embora nin-
guém se distanciasse de -an Eupo desarmado. *o último instante, entretanto, ap's
%esitar um pouco, pegou o martelo em cima da lareira.
*ão deiou de sentir um certo escrúpulo. :or que esse martelo ocupava tanto seus
pensamentos$ "final, não era o mais vel%o dos seus bens. Em casa %avia muitas coi -
sas que tin%a desde sua infFncia. 0as nen%uma delas era como o martelo: talve#
porque este l%e lembrava os primeiros dias que %aviam se seguido ao desastre. Em-
bora para ele não fosse um fetic%e nem um símbolo.
"fastou-se da casa e camin%ou sem rumo, com o único prop'sito de ficar s'. &
martelo era um estorvo, pesava-l%e na mão. *ão conseguiu impedir um gesto de im-
paci)ncia. Estava ficando tão supersticioso como os meninos. Bom, por que não
deiá-lo simplesmente cair e pegá-lo na volta$ 0as não o fe#. & mais irritante era o
peso do martelo. "quela ferramente tin%a se transformado em uma ideia fia. Aeci-
diu livrar-se dela. *ão permitiria que o obcecasse. Aesceria até o porto e o !ogaria na
água. & martelo afundaria e não se falaria mais nele. =ontinuou camin%ando. Então
lembrou de Koe8 e esqueceu seu pro!eto. "p's um instante saiu da sua triste#a e
sentiu outra ve# o martelo na mão. *otou também que não estava indo para o porto.
Da para o sul, e não para o oeste.
" distFncia é muito grande, disse para si, e ainda me sinto bastante fraco. *ão é
necessário que eu vá tão longe para me livrar deste vel%o martelo. Basta !ogá-lo em
algum matagal e logo o esquecerei. 0as logo compreendeu que estava enganando a
si mesmo. 0esmo que !ogasse o martelo em alguma ravina, não esqueceria o lugar.
,enunciou (s escapat'rias. *ão, não queria se livrar daquele ob!eto que agora tin%a
tanta importFncia em sua vida. "o mesmo tempo compreendeu que estava indo para
o sul. -eguia a longa avenida que levava ( universidade. *ão estava ali %á muito
tempo. "inda sentia aquela dor, mas com menos força, como se a decisão de perma-
necer com o martelo o tivesse aliviado.
/ma ve# mais se distraiu observando a ação destrutiva do tempo. & terremoto ti-
n%a afetado particularmente aquele bairro. /ma enorme rac%adura dividia a calçada
em duas e a água das c%uvas a tin%am transformado em um tanque onde flutuavam
fol%as de árvores e arbustos. Balançando o martelo, Ds% tomou impulso e saltou sofre
o fosse de mais de um metro de largura, verificando com alegria que, apesar da do-
ença, suas pernas não estavam muito fracas.
Em ambos os lados da avenida as casas não eram mais que montes de ruínas co-
bertas por trepadeiras. "s árvores tin%am invadido as varandas. Em todo lugar as
plantas nativas estavam matando as plantas e'ticas, em outros tempos orgul%o dos
!ardineiros.
"o passar, notou as espécias que tin%am sobrevivido. Em ve# de glicínias e caméli -
as, %avia muitas roseiras trepadeiras. /m cedo do 3imalaia estendia seus ramos vi-
gorosos, mas ao pé da árvore não %avia nen%um rebento. Em troca, sob um eucalip-
to australiano, !ovens talos cresciam em um solo de %úmus de fol%as mortas onde
não teria podido brotar nen%uma outra coisa.
*a entrada do parque universitária %avia uns pequenos bosques de pin%eiros. *ão
se via ali a confusão comum nos !ardins. "s árvores formavam uma ab'bada espessa
e a sombra favorecia o crescimento de plantas e ervas.
"o pé de um pin%eiro uma cascavel coc%ilava ao sol. :arecia tonta, como se ainda
não tivesse se recobrado do frescor da noite. Ds% parou por um instante. :odia matá-
la facilmente. 3esitou e seguiu adiante. *ão, tin%a sido mordido uma ve# a ainda
lembrava aquele %orror, mas não odiava a raça dos cr'talos. *a realidade, era possí -
vel que a mordida %ouvesse salvo sua vida. "té podia se sentir agradecido e escol%er
a cascavel como totem da 2ribo. 0as não, seria neutro.
:or outro lado, sua tolerFncia não era somente para as cascáveis. E os meninos o
imitavam. *os tempos da civili#ação, os %omens se sentiam realmente os sen%ores
do universo. Escol%iam seus amigos e inimigos. E matavam as cascavéis. 0as agora
a nature#a tin%a recuperado sua independ)ncia. *ão aceitava ditadores. 0atar uma
cascavel era um trabal%o inútil, pois não %avia possibilidade de eterminá-las, nem
sequer de redu#ir sensivelmente seu número. -e um réptil se atrevesse a se aproi-
mar das casas, eram esmagados para proteger os meninos. 0as não se empreendia
nen%uma campan%a contra as serpentes ou os pumas.
Aesceu por uma escada coberta de musgo e mato e cru#ou uma ponde de madei -
ra rangente. Eembrou que a ponte !á era vel%o desde sua infFncia. /ma espessa erva
danin%a cobria as margens do riac%o. Ds% abriu passagem com dificuldade, embora o
camin%o fosse asfaltado. "s moitas de mato estremeceram e Ds% se sobressaltou,
pois não estava armado. 2alve# fosse um puma. &s lobos e os cães selvagens tam-
bém frequentavam as cercanias dos riac%os. 0as quando saiu do matagal não viu
mais que alguns cervos que pastavam entre as árvores.
M esquerda elevavam-se alguns edifícios. *ão conseguia lembrar que departamen-
to universitário tin%a se alo!ado ali. " cerca viva, antes bem podada, agora escondia
suas !anelas de baio.
-eguiu seu camin%o. "travessou outros matagais e o edifício da biblioteca apare-
ceu diante dele, um pouco dissimulado pelos arbustos. *a !anela %avia um vidro que-
brado. /m ramo de pin%eiro tin%a batido nela durante alguma tormenta. & acidente
não tin%a acontecido antes da sua última visita %á uns anos atrás. 2in%a guardado a
biblioteca como reserva para o futuro. 2in%a até ensinado aos menos a respeitá-la.
-em, até os tin%a feito acreditar que era tabu. *a realidade, tin%a tentado incu-
tir-l%es um respeito quase místico pelos livros. /ma queima de livros sempre l%e %a-
via parecido um dos piores crimes que o %omem pudesse cometer.
Aeu uma volta em torno da biblioteca, não sem alguma dificuldade, pois algumas
ervas danin%as l%e fec%avam o camin%o. 2eve até que saltar sobre um tronco de pi -
n%eiro caído. & edifício ainda estava em boas condiç;es.
@inalmente c%egou ( !anela que %avia quebrado %á tantos anos atrás e que logo a
%avia fec%ado com uma tábua. Aepois de tudo, pensou satisfeito, o martelo me ser-
virá para alguma coisa. -oltou a tábua. e entrou no edifício. 3avia entrado assim na
primeira ve# quando Em esperava o primeiro fil%o, para levar alguns livros de obste-
trícia. & problema que então l%e %avia parecido angustioso %avia se desvanecido.
Aevia ter concluído que era inútil se inquietar e que quase todos os problemas se re-
solvem por si mesmos.
"travessou o vestíbulo e entrou na sala de leitura. 3avia bastante su!eira. "pesar
das suas precauç;es, era evidente que os morcegos tin%am conseguido entrar no
edifício, talve# pela !anela que fora quebrada recentemente. 3avia também pegadas
de ratos ou de algum outro roedor. 0as os ecrementos não tin%am danificado os li -
vros. :assou o dedo pelo lombo de um volume e retirou-o c%eio de poeira. 0as, me-
nos talve# do que se podia esperar. -im, ali estavam todos ainda, mais de um mil%ão
de livros, quase todo con%ecimento do mundo ao abrigo de quatro paredes. 2eve
uma sensação de segurança e esperança. =ontemplou aquele tesouro com ol%os
avaros.
Aesceu por uma escadin%a em caracol e foi para a seção geográfica, que em seus
tempos de estudante tin%a sido seu refúgio predileto. *ada %avia mudado. -entiu-se
ali como em casa. :rocurou nas estantes os livros familiares.
/m tomo volumoso, encadernado em vermel%o, l%e c%amou a atenção. 2irou-o da
prateleira e soprou a poeira do lombo. " obra era & =lima "través das Ddades, de
BrooCs. =on%ecia bem a obra. "briu o livro, encontrou o cartão e viu que o último lei-
tor - um m)s antes do +rande Aesastre - tin%a sido um tal de Ds%er.ood <illiams.
Aemorou alguns minutos para compreender que esse tal de Ds%er.ood <illiams não
era outro senão ele mesmo. *inguém o c%amava pelo nome completo %á anos. -im,
tin%a lido o volume no último trimestre dos seus estudos. Era uma boa obra, interes-
sante, mas o trabal%o de um alemão, Ieimer talve#, a tin%a desatuali#ado.
-oltou o martelo para ficar com as mãos livres. Então, de pé !unto a uma !anela
empoeirada que deiava passar uma vaga claridade, fol%eou o livro. *a realidade
suas teorias não tin%am nen%um valor prático. 0esmo que o !ogasse fora ou o fi#es-
se aos pedaços, não seria uma grande perda. 0as devolveu o livro respeitosamente
ao seu lugar.
Aeu alguns passos e de repente sentiu que sua mente desabava. :ara que servia
afinal aquele mil%ão de volumes$ :or que cuidar e preservar os livros$ *inguém sa-
bia l)-los. =elulose e tinta preta, não serviam para nada se não %ouvesse uma inteli-
g)ncia capa# de interpretá-los.
"fastou-se tristemente e !á estava subindo a escada em caracol quando notou que
tin%a as mãos va#ias. 2in%a esquecido o martelo. Aeu meia volta, dominado pela an-
gústia, e o viu no c%ão, no mesmo lugar onde o tin%a deiado para pegar o livro. :e-
gou o martelo com um imenso alívio e subiu pela escada.
-aiu pela !anela quebrada e, maquinalmente, começou a pregar a tábua. Ae re-
pente parou, sentindo outra ve# aquela desolação. :ara que pregar a tábua$ Ae nada
serviria. *inguém nunca iria ali para ler. Balançou tolamente o martelo. :or fim, len-
tamente, sem entusiasmo e sem esperança, pregou novamente os pregos.
+eorge faria trabal%os de marcenaria até o dia da sua morte. E#ra a!udaria seus vi-
#in%os9 e ele, Ds%, continuaria pensando, iludido, nos livros e no futuro.
2erminou seu trabal%o e foi sentar-se nas escadas de pedra. "s ervas danin%as as-
saltavam por todos os lados os edifícios em ruínas. ,elembrou de um vel%o quadro
onde se via um %omem - =ésar$ "níbal$ - sentado entre as ruínas de =artago. Aeu
uma martelada na borda de um degrau, rac%ando o granito. Era um desses atos de
vandalismo que sempre o %aviam %orrori#ado. Bateu com mais força e um pedaço de
uns cinco centímetros soltou-se. & degrau parecia dirigir-l%e uma muda censura.
E enquanto martelava o granito, agora com menos força, pensou pela primeira ve#
em Koe8 sem sentir-se esmagado pelo triste#a. Koe8 não teria conseguido mudar o
curso das coisas. *ão era mais que um menino inteligente. & mundo inteiro teria se
aliado contra ele. 2eria lutado com todas suas forças até cair vencido. 2eria sido um
%omem infeli#. Koe8, pensou, era como eu. -empre inquieto, nunca feli#. Eevantou o
martelo sobre um pedaço de granito e rancorosamente o fe# em pedaços.
:reciso de um pouco de descanso, pensou. W %ora de descansar.
2%oreau e +auguin, con%ecemos seus nomes. 0as não esquecemos outros mi-
l%;es de nomes$ Eles não escreveram livros nem pintaram quadros, mas também re-
nunciaram ao mundo. E esses outros, esses mil%;es de outros que rec%açaram a civi-
li#ação em seus son%os$ Escutamos suas palavras, vimos seus ol%os... GNue lindo era
a floresta onde acampamos... Ms ve#es eu gostaria... mas os neg'cios... +eorge,
voc) nunca pensou em viver em uma il%a deserta$ -omente uma cabana na flores-
ta... sem telefone... " praia (s margens do oceano... @icaríamos tão bem... 0as tem
0aud e as crianças.H
Nue estran%oL Aepois de edificar uma magnífica civili#ação, os %omens s' tin%am
um dese!o: fugir dela. &s caldeus acreditavam que &anes, o deus-peie, saiu das
águas para ensinar as artes e as leis aos %omens. 0as ele era um deus ou um demJ-
nio$ :or que as vel%as lendas sempre nos falam da idade de ouro e da simplicidade$
"lguém poderia crer que essa grande civili#ação não é realmente a materiali#ação
dos son%os %umanos e sim a obra de uma fatalidade misteriosa. :ouco a pouco, (
medida que as cidades crescem, os %omens se veem obrigados a renunciar a uma
vida livre e feli#9 a fácil coleta de frutos silvestres foi substituída pelos penosos traba-
l%os da agricultura. :ouco a pouco as cidades se tornam mais numerosas e os %o-
mens abandonam a ecitação da caça e a substituem pelos duros afãs da criação de
gado. "ssim então, o monstro de @ranCenstein imp;e sua tirania aos seus aterrori#a-
dos criadores. E os %omens tentam escapar por mil dissimuladas sendas.
=omo renasceria, pois, uma civili#ação destruída sem o concurso de misteriosas fa-
talidades$
Ae repente Ds% se sentiu muito vel%o. "inda não tin%a cinquenta anos e os outros
fundadores da 2ribo eram mais vel%os que ele. 0as entre ele e seus fil%os o abismo
era muito grande. *ão era s' o abismo dos anos, era também o modo de pensar e
de viver. *unca antes %ouvera tal distFncia entre duas geraç;es.
-entado na escada da biblioteca, enquanto redu#ia a pedacin%os o pedaço de gra-
nito, Ds% viu diante de si a longa perspectiva do futuro. Em suma, tudo se resumia (
vel%a pergunta: o %omem influencia o meio ou o meio influencia o %omem$ " época
napoleJnica criou *apoleão, ou foi ao contrário: -e Koe8 tivesse sobrevivido, as con-
fusas circunstFncias que %aviam modelado KacC, ,oger e ,alp% o teriam afetado, e
ele não teria podido resistir. -im, mesmo se Koe8 %ouvesse sobrevivido, nada teria
podido minorar a vertiginosa queda. E com Koe8, a não ser que acontecesse um im-
previsto, tin%a morrido a última esperança.
&s planetas e as estrelasL -ob as repetidas marteladas, o granito era agora um p'
fino. &s planetas e as estrelasL *ão, não acreditava em astrologia. 0esmo assim a
posição das estrelas mostrava que o sistema solar mudava continuamente e que a
terra era cada ve# menos propícia para o %omem. 2alve# a astrologia fosse uma ci)n-
cia verdadeira e as mudanças que se produ#iam no céu fossem o símbolo dos acon-
tecimentos terrestres. &s planetas e as estrelasL =omo podia o %omem modificar o
que estava escrito nos céus$
-im, o futuro era previsível. " 2ribo não ressuscitaria a civili#ação *ão precisava
dela. Aurante algum tempo continuaria a pil%agem. "bririam latas de conserva e
consumiriam cartuc%os e f'sforos. 2odos seriam feli#es. 0as não %avia criadores. En-
tão, cedo ou tarde, a população aumentaria e os víveres começariam a faltar. *ão
%averia fome, porque o gado abundava no campo. " vinda continuaria.
E de repente ocorreu-l%e outro pensamento. 3avia vacas e touros nos campos,
sim, mas que aconteceria quando terminassem os cartuc%os$ Nuando não %ouvesse
mais f'sforos$ *a realidade, não precisaria esperar que se acabassem as muniç;es.
" p'lvora se estraga com o tempo. 2r)s ou quatro geraç;es mais e os %omens seri -
am miseráveis criaturas que teriam perdido os segredos da civili#ação sem ter
apreendido as técnicas com que os selvagens vencem as dificuldades cotidianas.
Era possível, e talve# preferível, que depois e tr)s ou quatro geraç;es a raça %u-
mana se etinguisse, incapa# de passar da vida vegetativa e parasita a condiç;es
mais estáveis que l%e permitissem um lento progresso.
Bateu de novo com força na borda da escada. -altou outro pedaço de granito. Ds%
ol%ou-o tristemente. "pesar de todas suas resoluç;es, o pensamento do futuro conti-
nuava a atormentá-lo. 0as como sabe o que aconteceria depois de tr)s ou quatro
geraç;es$
Eevantou-se e se voltou para -an Eupo. Estava mais tranquilo agora.
- -im - pensou em vo# alta. - " raposa perde o pelo, mas não as man%ãs. E eu se-
rei sempre um atormentado, embora ten%a vivido vinte e dois anos com Em. Esque-
ço o passado para me ocupar do futuro. -im, preciso de um pouco de descanso. 0i -
n%as tentativas fracassaram, é certo, mas sei que começarei outra ve#. E agora que
min%a meta é menos ambiciosa, talve# eu ten%a )ito.
1&
Nuando c%egou a -an Eupo, depois de uma longa camin%ada, seus vagos pro!etos
!á tin%am tomado forma, mas ele os poria em marc%a na man%ã seguinte.
M noite eplodiu uma tempestade e, quando acordou, nuvens baias e cin#entas
ocultavam o céu. Ds% se surpreendeu. =om os acontecimentos recentes, tin%a se es-
quecido do tempo. Eembrou que o sol se pun%a perto do sul e que, usando as pala-
vras dos vel%os tempos, estavam no m)s de novembro. " c%uva atrapal%ava seus
planos, não não %avia pressa. E enquanto isso podia aperfeiçoá-los.
-eu pensamento tin%a mudado tanto, desde o dia anterior, que a ruidosa c%egada
dos meninos o sobressaltou. =laro, pensou, estão c%agando para a aula. Aesceu as
escadas. 2odos estavam ali, eceto Koe8 e outros dois menores, sentados nas cadei -
ras ou no c%ão. 2odos os ol%os se levantaram para ele com curiosidade. Koe8 tin%a
partido e talve# Ds% mudasse as liç;es. 0as esta curiosidade, Ds% não ignorava, era
passageira. E eles cairiam outra ve# naquela apatia que ele %avia combatido sem )i-
to.
&l%ou para todos os rostos, um a um. Eram bonitas crianças, não %avia nen%um
idiota entre eles, mas tampouco alguma mente ecepcional. *ão, o escol%ido não es-
tava ali. 3avia c%egado o momento e falou, sem remorsos nem pena:
- "cabaram-se as aulas - anunciou.
&s meninos ol%aram para ele, por um instante, consternados e contentes, embora
não se atrevessem a demonstrar sua alegria.
- "cabaram-se as aulas - repetiu Ds%, sentindo que adotava involuntariamente um
tom dramático. - *ão %averá mais aulas... nunca mais.
Aesta ve# a consternação não desapareceu. &s meninos ficaram inquietos, nervo-
sos. "lguns se levantaram para ir embora. & fim das aulas l%es parecia uma coisa
grave, embora não soubessem bem porque. :or fim saíram lentamente, sem fa#er
ruído. :assou-se um minuto e s' se ouvia o barul%o da c%uva. Eogo eplodiu uma
gritaria9 eram os meninos outra ve#. " escola não tin%a sido mais que um breve epi -
s'dios em suas vidas9 logo a esqueceriam e nunca mais dormiriam menos.
Aurante um momento Ds% sentiu-se muito abatido. Koe8, Koe8L, pensou. 0as não
estava arrependido. Era a única solução ra#oável.
- "cabaram-se as aulas - murmurou. - "cabaram-se as aulas.
E então recordou que naquela mesma sala, %á muitos anos atrás, tin%a visto como
se apagavam as lFmpadas elétricas.
-eguiram-se tr)s dias de c%uva. Ds% refletiu e amadureceu seus planos. :or fim,
um vento frio do norte varreu o céu e um sol bril%ante começou a secar as fol%as
úmidas. 2in%a c%egado o momento.
:rocurou durante um tempo nos !ardins selváticos. *aquela #ona nunca se %avia
cultivado comercialmente os cítricos. 0as o clima era bom para os limoeiros, pelo
menos como árvores de adorno. E Ds% lembrou que a madeira do limoeiro era a mais
apropriada. :odia ter consultado alguns livros, mas tin%a mudado o modo de pensar.
Ele mesmo resolveria seus problemas.
*o local onde nos vel%os dias tin%a sido um formoso parque particular, encontrou
um limoeiro. " árvore ainda estava viva, embora abafada entre dois pin%eiros e dani-
ficado pelas geadas. "lguns dos rebentos %aviam sobrevivido ao rigor invernal.
Ds% abriu passagem entre algumas moitas espin%osas, escol%eu uma muda da
grossura do seu polegar e pegou a faca. " madeira era dura como osso, mas final-
mente conseguiu cortá-la. " muda tin%a uma altura aproimada de um metro e
meio. 2in%a crescido reta, c%egando a alcançar um metro e vinte de altura, mas de-
pois tin%a se dobrado sob os ramos dos pin%eiros. Era forte e fleível ao mesmo tem-
po. Ds% apoiou-a contra o solo, dobrando-a, e verificou que se endireitava com força.
-im, pensou com um pouco de amargura, não preciso de mais nada.
Eevou o talo de limoeiro para sua casa e sentou-se na varanda, ao sol. =ortou an-
tes de tudo a parte dobrada, obtendo assim uma vara reta de um metro e vinte. 2i -
rou a casca da muda e afiou as pontas. & trabal%o levou bastante tempo, pois tin%a
que se interromper frequentemente para afiar a faca em uma pedra de amolar.
<alt e Kose8, que tin%am ido brincar com os outros meninos, voltaram na %ora do
almoço.
- Nue está fa#endo, papai$ - perguntou Kose8.
- Estou preparando um brinquedo - respondeu Ds%. Em outros tempos teria tenta-
do mostrar a utilidade da instrução. @oi um erro que não voltaria a cometer. Aesta
ve# aproveitaria a inclinação dos %umanos para o !ogo.
Aepois do almoço, os meninos espal%aram a novidade.
M tarde apareceu +eorge.
- :or que não vem ( min%a casa$ - perguntou. - =om o torno voc) trabal%ará mais
rápido.
Ds% agradeceu-l%e, mas disse que preferia a faca, embora a mão l%e doesse. Era
necessário fa#er o trabal%o com as ferramentas mais simples, quase primitivas.
"o cair da tarde, Ds% estava com a mão coberta de bol%as, mas %avia terminado.
"s etremidades da vara estavam simetricamente afiladas. "poiou-a contra o solo e
dobrou até formar um semicírculo e depois soltou. -atisfeito, tal%ou encaies em
cada etremidade e guardou a faca no bolso.
*a man%a seguinte ele continuou o trabal%o. -obravam cord;es, e ele até pensou
em utili#ar um fio de pesca de náilon, que trançaria até obter uma corda suficiente-
mente grossa.
*ão, disse a si mesmo, trabal%arei com materiais que eles mesmos possam obter.
:rocurou um couro de be#erro recém sacrificado e cortou uma longa tira. Era um
trabal%o lento e difícil, mas l%e sobrava tempo. Eimpou os pelos da tira e recortou-a
até que pareceu um cordel. Entrou trançou tr)s dessas tiras, obtendo assim uma cor-
da, e fe# um n' em cada etremidade.
@icou por um momento com a vara em uma mão e a corda na outra. Aobrou a
vara e fiou os n's da corda nos encaies das etremidades. " corda era um pouco
mais curta e o ramo se dobrou.
Ds% contemplou o arco. & g)nio criativo do %omem se manifestava mais uma ve#
sobre a terra. 2eria podido ir procurar em uma lo!a de artigos esportivos e teria en-
contrado um arco mais perfeito. 0as tin%a preferido tal%ar ele mesmo a madeira com
uma ferramenta primitiva e fa#er uma corda com tiras de couro.
:uou a corda. " vibração o fe# sorrir. &utra ve# satisfeito, desmontou o arco.
*a man%ã seguinte cortou um ramo de pin%eiro para fa#er uma flec%a. " madeira
macia foi cortada com facilidade e meia %ora mais tarde a flec%a estava pronta. =%a-
mou os meninos. 1ieram <alter e Kose8 e logo depois <eston.
1amos fa#er um teste - disse.
Aisparou o arco. " flec%a vacilou um pouco, mas Ds% tin%a apontado para cima.
Então, depois de percorrer uns quin#e metros, caiu e se cravou no c%ão.
Ds% não esperava semel%ante triunfo. &s tr)s meninos ficaram de boca aberta por
alguns momentos, maravil%ados. *unca tin%am visto algo parecido. Então começa-
ram a correr, gritando de alegria, para tra#er a flec%a de volta. Ds% disparou várias
ve#es.
:or fim, tal como Ds% esperava, c%egou o inevitável pedido:
- 0e deie tentar, papai - suplicou <alt.
"ntes da %ora da ceia, todos os meninos da 2ribo preparavam arcos com afã.
& )ito superou as epectativas de Ds%. :oucos dias depois, flec%as lançadas ao
acaso se entrecru#avam no ar ao redor das casas. "s mães estavam preocupadas
pela possibilidade de alguém perder um ol%o9 e dois meninos voltaram c%orando,
queiando-se de terem recebido flec%adas em diferentes partes do corpo. 0as as fle-
c%as não tin%am ponta e não voavam muito longe. *ão tiveram que deplorar ne-
n%um acidente grave.
0as foram estabelecidas severas regras: G:roibido disparar o arco contra alguém.H
G:roibido brincar perto das casas.H
@oram organi#ados concursos. -ob a direção dos mais vel%os, que sabiam mane!ar
os fu#is, os meninos atiraram ao alvo. 2estaram os arcos de diferentes distFncias e
forma. Kose8 se queiou que <alt sempre gan%ava, então Ds% a aconsel%ou a colocar
penas de codorni# na etremidade posterior da flec%a. " menina obedeceu e triunfou
sobre <alt. 2odas flec%as foram então adornadas com plumas de codorni# e gan%a-
ram em pot)ncia de voo. &s mais vel%os se deiaram arrastar pelo entusiasmo dos
menores e também prepararam alguns arcos, embora pudessem usar armas de fogo.
0as os arqueiros mais entusiastas eram os meninos, que não podiam usar os fu#is.
Ds% esperava sua %ora. "s primeiras c%uvas tin%am reverdecido a terra e o sol se
pun%a agora por trás das colinas, ao sul da +olden +ate.
<alt e <est, ambos com do#e anos, %aviam se enredado em alguma misteriosa
confabulação infantil. "perfeiçoavam continuamente seus arcos e afiavam suas fle-
c%as uma e outra ve#. Aurante as %oras de sol mal eram vistos.
/ma certa tarde, ouviram-se passos precipitados na rua e <alt e <eston entraram
na sala, sem fJlego.
- &l%e papaiL - gritou <alt, e estendeu para Ds% o patético cadáver de um coel%os
fordo trespassado por uma flec%a de madeira.
- &l%e - gritou ele de novo. - Eu estava escondido atrás de uma moita e quando
ele passou eu disparei e o matei.
-ímbolo do seu triunfo, o pobre coel%o entristeceu Ds%. Nue lástima, pensou, que a
criação se!a também destruição.
- :arabéns, <alt - disse. - @oi um bom tiro.
11
& sol se pun%a quase sempre em um céu sem nuvens, cada ve# um pouco mais ao
sul. Eogo não tardaria a inverter a marc%a.
/m dia, tão repentinamente que quase podia ser fiada a data, a %ora e os minu-
tos, os meninos se cansaram dos arcos e flec%as e se interessaram por alguma outra
coisa. Ds% não se preocupou. Eles voltariam ao !ogo mais tarde, talve# no ano seguin-
te, na mesma estação. " fabricação e o mane!o dos arcos não cairiam no esqueci -
mento. Aurante vinte anos, cem anos se fosse necessário, o arco seria uma brinca-
deira infantil. :or fim, quando se esgotassem as muniç;es, ali estaria ele, para subs-
tituir os fu#is. Era a mais perfeita arma do %omem primitivo e a mais difícil de ser in-
ventada. Ds% legava ao futuro esse precioso dom. -eus tataranetos não teriam que se
defender dos ursos com os pun%os e não morreriam de fome rodeados de reban%os.
2eriam esquecido a civili#ação, mas pelo menos não seriam pouco mais que maca-
cos. "ndariam de cabeça erguida, como %omens livres, como o arco na mão. E se
não dispusessem de facas de aço, tal%ariam seus arcos com pedras afiadas.
2in%a outro plano, mas não %avia pressa. "gora podia ensinar-l%es a se servirem
de uma broca de arco9 e quando não %ouvesse mais f'sforos, a 2ribo saberia acen-
der um fogo.
0as seu entusiasmo, assim como o dos meninos, esfriou com o transcurso das se-
manas. Em lugar de saborear a vit'ria da fabricação do arco e do seu )ito entre os
meninos, recordava incessantemente as desgraças do ano. Koe8, o menino insubsti-
tuível, tin%a morrido. E no dia em que Em, +eorge, E#ra e ele %aviam decidido pela
morte de =%arlie, o mundo tin%a perdido o seu frescor e inoc)ncia. E a confiança e a
fé %aviam se etinguido nele ao abandonar a esperança de ver renascer a civili#ação.
& sol %avia c%egado ao etremo sul do seu tra!eto. /m dia ou dois mais e ele co-
meçaria a refa#er o camin%o. 2odos se preparavam para a cerimJnia de gravar os nú-
meros na roc%a e bati#ar o ano. "gora era a maior das festas, ao mesmo tempo *a-
tal e "no *ovo, e um símbolo de vida. =omo tudo o mais, as festividades tin%am mu-
dado muito. " 2ribo ainda celebrava o dia de "ção de +raças e se reunia ao redor de
uma mesa bem servida. 0as o 7 de !ul%o e todas as outras festas patri'ticas tin%am
desaparecido.
+eorge, que tin%a pertencido a um sindicato e era amigo de conservar as tradi -
ç;es, parava de trabal%ar e vestia seu mel%or terno quando ac%ava que %avia c%ega-
do o dia do trabal%o. 0as ninguém o imitava. /ma coisa curiosa, ou talve# natural,
as festas populares %aviam sobrevivido (s oficiais. & dia dos Dnocentes e o de 2odos
os -antos eram motivo de rego#i!o geral e os meninos repetiam as tradiç;es que ti -
n%am sido transmitidas por seus pais. Em um dia, seis semanas depois do solstício
de inverno, e de acordo com a lenda, a marmota podia ver sua pr'pria sombra.
=omo não %avia marmotas naquela região, eles a tin%am substituído pelo esquilo.
0as tudo isto não era nada, comparado ( festa que os reunia ao pé da roc%a.
&s meninos discutiam entre eles o nome do ano. &s mais novos propun%am o
nome de ano do arco e da flec%a9 outros preferiam ano da viagem. &s mais vel%os
recordavam outras coisas e guardavam um sil)ncio perturbado. Ds% sabia que eles
ainda pensavam em =%arlie e na morte dos seus compan%eiros. :ara ele, os maiores
acontecimentos daqueles do#e meses eram a morte de Koe8 e sua pr'pria desilusão.
:or fim o sol se pJs quase no mesmo lugar, ou talve# um pouco mais ao norte, e
os pais, com grande alegria dos meninos, decretaram que a festa seria celebrada no
dia seguinte.
2oda a 2ribo se reuniu. & dia era claro e quente para a estação e as mães %aviam
levado seus beb)s. Nuando os números foram gravados, todos os que sabiam falar
se dese!aram um feli# "no *ovo, de acordo com o costume dos vel%os tempos. Ae-
pois, segundo o ritual de costume, Ds% perguntou como se c%amaria o novo ano e
seguiu-se um profundo sil)ncio.
:or fim, E#ra, sempre oportuno, tomou a palavra.
- Este ano nos troue muitas triste#as e qualquer nome despertaria tristes recorda-
ç;es. *ão demos qualquer nome a este ano. =%amemo-lo simplesmente de o ano
>>.
"nos fugitivos.
& rio dos anos passou rapidamente outra ve# e agora Ds% não resistiu e se deiou
levar. *estes anos a 2ribo cultivou um pouco de mil%o, não muito, mas o bastante
para obter uma pequena col%eita e guardar algumas sementes.
2odos os anos, como se a primeira c%uva fosse um sinal, os meninos retornavam
aos arcos e flec%as, até que se cansavam e procuravam outra diversão.
Ae ve# em quando os adultos se reuniam para deliberar. & que ali se di#ia era obri -
gat'rio para todos. :elo menos, pensava Ds%, legarei estes costumes para o porvir.
0as ( medida que os anos passavam, os !ovens influenciavam mais e mais no curso
das seç;es. Ds% sempre presidia, sentado no lugar de %onra. &s que queriam falar se
levantavam e o cumprimentavam respeitosamente com uma inclinação de cabeça.
Ds% mantin%a o martelo no colo e o balançava maquinalmente. Nuando a discussão
entre dois !ovens subia de tom, Ds% dava uma martelada e os adversários se calavam
imediatamente. -e intervia nos debates, todos os escutavam com atenção, embora
nunca seguissem seus consel%os.
"ssim passaram-se os anos. & ano >R, do lobo furioso9 o ano >7, das amoras9 o
>X, da c%uva interminável.
Nuando c%egou o ano >P, o vel%o +eorge !á não estava com eles. 2in%a estado
pintando em cima de uma escada. *inguém nunca soube se tin%a sido um ataque do
coração ou uma queda acidental. 0as encontraram-no morto ao pé da escada. Aes-
de então, ninguém mais consertou os tetos nem pintos as fac%adas das casas. 0auri-
ne continuou vivendo por um tempo na casin%a de cortinas cor-de-rosa, com o apa-
rel%o de rádio mudo, com as mesin%as com toal%a. 0as ela era tão vel%a quanto +e-
orge e morreu antes do fim do ano.
E o ano foi c%amado ano da morte de +eorge e 0aurine.
E os anos se passaram: >?, >Z, >6, RQ. Ká era difícil lembrar os nomes e sua or-
dem. & ano do mil%o %avia se seguido ao ano do crepúsculo vermel%o, ou este pre-
cedia o ano da morte de Evie$
:obre EvieL Enterraram-na !unto aos demais, e assim ela se pareceu mais a todos.
2in%a vivido com eles e ninguém sabia se tin%a sido feli# ou se tin%am feito bem em
salvar-l%e a vida. -omente uma ve# %avia saído da sombra: quando =%arlie a esco-
l%eu entre todas as garotas da 2ribo. &s !ovens mal notaram seu desaparecimento,
mas para os mais vel%os, desaparecia com ela uma criatura dos vel%os tempos.
"gora os fundadores da 2ribo eram somente cinco. Kean e Ds% eram os mais novos
e mais conservados. 0as Ds%, que não %avia se curado totalmente da sua vel%a feri -
da, coeava um pouco. 0oll8 se queiava de vagos mal-estares e caía em crises de
pranto. /ma tosse#in%a seca atormentava E#ra. " sil%ueta de Em %avia perdido um
pouco da sua graça real. Entretanto, todos desfrutavam de uma saúde ecelente e
seus pequenos incJmodos eram ac%aques da idade.
& ano R7 foi um ano memorável. -abia-se %á algum tempo que outra 2ribo menos
numerosa vivia no etremo norte da baía, mas naquele ano c%egou um mensageiro
para propor uma união. Ds% proibiu que o !ovem se aproimasse. " recordação de
=%arlie aconsel%ava prud)ncia. Nuando o mensageiro comunicou qual o prop'sito da
sua visita, o consel%o foi convocado.
Ds% presidiu com o martelo na mão, pois o assunto era muito importante. Em se-
guida eplodiu uma animada discussão. "o medo das doenças unia-se o preconceito
contra os estran%os. 0as a curiosidade era mais forte e, além disso, muitos dese!a-
vam que o número de membros da 2ribo, sobretudo o de mul%eres, fosse maior. 3á
anos que os %omens eram mais numerosos que algumas mul%eres e alguns rapa#es
pareciam condenados ao celibato. :or outro lado, Ds% con%ecia os perigos de casa-
mentos entre parentes pr'imos, inevitáveis no seio da 2ribo.
Entretanto, Ds%, apoiado por E#ra, se opun%a ( aliança por temor (s enfermidades.
KacC, ,alp%, ,oger, os mais vel%os e seus fil%os, lembravam demais do ano >> e fica-
ram do seu lado. 0as os mais !ovens, sobretudo aqueles que não estavam casados,
pensando nas mul%eres da outra tribo, protestavam ruidosamente.
Então Em falou. Ela agora tin%a a cabeça grisal%a, mas sua vo# grave ainda domi -
nava qualquer discussão.
- Eu ten%o repetido frequentemente - disse, - não se vive rec%açando a vida. *os-
sos fil%os e netos precisam de mul%eres. 2alve# %a!a um grave perigo, mas temos
que enfrentá-lo
" serenidade e segurança de Em, mais que suas palavras, animaram a todos e a
aliança foi votada por unanimidade.
Aesta ve# tiveram sorte. 3ouve somente uma epidemia de escarlatina que os ou-
tros contraíram mas logo se curaram.
" partir daí a 2ribo se dividiu em duas classes: os :rimeiros e os &utros. &s meni -
nos que nasciam de um casamento misto pertenciam ao clã do pai. Ds% se assom-
brou que a mul%er tivesse tão pouca influ)ncia e que não acontecera como nos po-
vos primitivos. 0as as vel%as tradiç;es eram muito fortes.
*o ano seguinte, Em perdeu até a sombra da sua graça real. Ds% viu rugas em seu
rosto que não eram de vel%ice e sim de dor. " pele, antes cor de mate, agora era de
um cin#a apagado. Ds% sentiu medo e frio e compreendeu que a %ora da separação
%avia c%egado.
Ms ve#es, nos sombrios meses que se seguiram, Ds% pensava: 2alve# não se!a mais
que uma apendicite. Ela sente dor neste lugar. Então por que não operá-la$ :oderia
ler livros e aprender o necessário. /ma dos rapa#es l%e daria o éter. *o pior dos ca-
sos, Em deiaria de sofrer.
0as quando c%egava o momento, ele sempre recuava. " mão l%e tremia, não tin%a
coragem. *ão se atrevia a mergul%ar o bisturi no corpo de quem amava. Em s' con-
tava com ela mesma.
0as logo teve que recon%ecer que não era apendicite. Nuando o sol iniciou sua
marc%a para o sul, Em caiu de cama e não se levantou mais. *as farmácias em ruí -
nas, Ds% encontrou p's e aropes que atenuaram o sofrimento de Em. Aepois de to-
mar o calmante, ela dormia ou permanecia im'vel, sorrindo. Nuando a dor voltava,
Ds% pensava se não deveria aumentar a dose e terminar aquele tormento. 0as não o
fe#, pois sabia que Em ainda amava a vida e não perderia a coragem.
:assava longas %oras ( sua cabeceira, pegando sua mão e trocando algumas pala-
vras de ve# em quando. =omo sempre, era ela quem o consolava, apesar das suas
torturas e do fim tão pr'imo. -im, di#ia Ds% para si mesmo, mais uma ve#, ela tin%a
sido para ele uma mãe, tanto como uma esposa.
- *ão se atormente pelos meninos - disse-l%e Em um dia, - nem pelos netos e to-
dos que se seguirão. Eles serão feli#es, me parece. :elo menos, serão tão feli#es
como teriam podido ser nos vel%os tempos. *ão pense demais na civili#ação. Eles se-
guirão adiante.
Aesde quanto ela pensava assim$, se perguntava Ds%. 2eria Em sabido que ele fra-
cassaria: 2eria pressentido o que ia acontecer, merc) da sua intuição ou do sangue
diferente que corria em suas veias$ Ae novo se perguntou em que residia a grande#a
do %omem ou da mul%er.
Kose8 agora se ocupava da casa e cuidava da sua mãe. Kose8 também era mãe,
uma mul%er alta, de grandes seios e andar gracioso. Ae todos os fil%os, ela era quem
mais se parecia com Em.
2odos vin%am visitar a enferma: os fil%os, as fil%as e os netos. &s netos mais ve-
l%os !á eram quase rapa#es e nas netas assomava a mul%er.
Ds% compreendeu que Em tin%a ra#ão. Eles seguiriam adiante. " simplicidade é si-
nal de força. -obreviveriam.
/m dia ele %avia se sentado ao lado de Em e %avia l%e tomado a mão. Ela estava
muito fraca. E de repente Ds% sentiu !unto a eles uma sombria presença. Em se calou
e seus dedos tremeram ligeiramente.
&% mãe das naç;es, pensou Ds%. 2eus fil%os te cantarão louvores e tuas fil%as te
abençoarão.
Estava so#in%o agora, naquele quarto onde %á pouco %aviam tr)s, pois a morte ti -
n%a partido levando Em com ela. @icou ali, encurvado e com os ol%os secos. 2udo
%avia terminado. Enterrariam a mãe das naç;es e, de acordo com os costumes da
2ribo, não colocariam nem cru#es nem epitáfios. E como fa#iam os %omens desde o
princípio dos séculos, desde que o amor e o seu irmão, a dor, %aviam aparecido so-
bre a terra, Ds% velou a morta bem amada. *unca encontraria outra ve# tanta gran-
de#a e serenidade.
E os anos continuaram passando. E o sol foi do norte para o sul e do sul para o
norte. +ravaram outros números na superfície da roc%a.
/m dia, na primavera, 0oll8 morreu de repente, sem dúvida de uma embolia. *o
mesmo ano, um enorme tumor, como um monstro de pesadelo, invadiu Kean. *ada a
aliviava9 e quando a morte se deu, ninguém a acusou.
W o fim, pensou Ds%. *'s, os americanos, somos vel%os e nos dispersamos como
as fol%as da última primavera.
" triste#a o esmagava. Entretanto, quando passeava pelo sopé da colina, via meni-
nos que brincavam e !ovens que conversavam animadamente, e mães que amamen-
tavam seus beb)s. :ouca triste#a e muita alegria.
/m dia E#ra foi v)-lo e l%e disse:
- 1oc) deveria arrumar outra mul%er.
Ds% ol%ou para ele.
- *ão - disse E#ra, - eu não. -ou vel%o demais. 1oc) é mais !ovem. 3á uma moça
entre os &utros e ninguém para casar com ela. -e não se é muito vel%o, sempre é
preferível não ficar so#in%o9 e voc) poderá ter mais fil%os.
Ds% se casou com a moça. E ela foi o consolo das suas longas noites e l%e deu fi -
l%os. 0as para Ds%, sempre foi como se aqueles fil%os não l%e pertencessem, pois Em
não os tin%a amamentado em seu seio.
+ravaram outros números na roc%a. Eceto Ds% e E#ra, todos os americanos !á ti-
n%a desaparecido. E E#ra era um vel%in%o seco e enrugado que tossia e ficava cada
ve# mais fraco. & pr'prio Ds% tin%a os cabelos grisal%os. Embora não fosse gordo,
seu ventre se arredondava e suas pernas se adelgaçavam. -entia dores de lado, no
lugar onde o puma %avia cravado as carravas e camin%ava pouco. Entretanto, no ano
7> sua mul%er ainda l%e deu outro fil%o. Ele não sentia muito carin%o pela criança.
"demais, agora !á tin%a bisnetos.
*o último dia do ano 7R Ds% não se sentiu com forças para ir até a roc%a e E#ra es-
tava fraco demais. Aeiaram para mais tarde o batismo do ano. Ae ve# em quando
prometiam ir no dia seguinte ou confiar a missão a algum dos seus fil%os. Ms ve#es
os !ovens e até os meninos se inquietavam, mas ao que parecia, não %avia pressa e
a cerimJnia era postergada indefinidamente. /m dia c%ovia, outro nevava, e outro
era ideal para pescar.
&s números nunca foram gravados, o ano não teve nome algum e a vida seguiu
seu curso.
E os anos foram passando sem que ninguém pensasse em bati#á-los
@a#ia um bom tempo que a mul%er de Ds% não tin%a mais fil%os. /m dia ela se
apresentou diante dele acompan%ada de um %omem da sua idade e os dois pediram
respeitosamente permissão para se unirem. E então Ds% compreendeu que percorria
a última etapa da sua vida.
=omeçou a passar as %oras com E#ra, seu compan%eiro de vel%ice.
& espetáculo de dois vel%os que se sentam !untos recordando o passado, não teria
sido estran%o em outros tempos, mas aqui eles eram os únicos vel%os. 2odos os de-
mais eram !ovens, pelo menos comparativamente. " 2ribo feste!ava nascimentos e
enterrava mortos, mas os nascimentos eram mais numerosos que as mortes. E onde
%á muitos !ovens também %á risos.
&s anos continuavam passando e os dois vel%os, sentados na subida da colina, ao
sol, falavam cada ve# mais do passado. &s anos recentes tin%am deiado poucas re-
cordaç;es. "lguns eram bons, outros ruins, ou pelo menos assim os qualificava. 0as
a diferença não era grande. Ae modo que os vel%os retrocediam até o passado dis-
tante e de ve# em quando davam uma ol%ada no futuro.
Ds% admirava a sabedoria de E#ra e seu amor aos %omens.
- /ma tribo é como uma criança - comentou um dia E#ra, com sua vo# aflautada
de vel%o, e que cada dia mais se parecia a um grito de pássaro. " tosse o interrom-
peu e quando recuperou o fJlego, disse: - -im, uma tribo é como uma criança. 1oc)
educa a criança, l%e dá consel%os, mas no fim eles sempre fa#em o que querem. "
mesma coisa acontece com a tribo.
- -im - disse outro dia, - o tempo esclarece os mistérios. 3o!e tudo me parece
muito mais claro que antes. Aentro de cem anos, se eu ainda estiver vivo, o mundo
não terá mais segredos para mim.
Ms ve#es falavam dos outros americanos, os desaparecidos. Eembravam, rindo, do
vel%o +eorge e 0aurine e do famoso aparel%o de rádio de onde não saía som algum.
E sorriam, ao pensar como Kean sempre resistia aos ofícios religiosos.
- -im - di#ia E#ra, - tudo está mais claro agora. :or que sobrevivemos ao +randes
Aesastre$ *unca o saberei, mas creio que entendo porque não sucumbimos ( dor de
ver todos morrendo. +eorge e 0aurine, e talve# também 0oll8, viveram sem enlou-
quecer graças ( sua apatia e falta de imaginação. Kean se aferrou ( vida e eu esque-
ci de mim pr'prio para pensar nos outros. E voc) e Em...
E#ra fe# uma pausa e então Ds% disse:
- -im, voc) tem ra#ão, ac%o... =ontinuei vivento porque me mantive ( parte, ob-
servando o que estava acontecendo. Nuanto a Em...
Aesta ve# foi Ds% quem se interrompeu e E#ra retomou a palavra.
- Bom, a 2ribo será como n's fomos. *ão %averá g)nios entre eles porque não
%ouve entre n's. 2alve# um g)nio não tivesse conseguido sobreviver... Nuando a Em,
sobram as eplicaç;es. Ela era a mais forte. -im, necessitávamos de +eorge e do seu
trabal%o, e também da sua previsão, Ds%. E talve# eu fosse um %omem útil como ele-
mento de união entre pessoas tão diferentes. 0as precisávamos sobretudo de Em.
Ela nos dava coragem9 e sem coragem a morte é uma morte lenta.
"os seus pés, nos pé da colina uma árvore cresceu diante deles - assim pareceu a
Ds% - o logo sua copa de fol%as ocultou a ponte e seus pilares mofados. Aepois a ár-
vore secou, morreu e caiu com o vento. Então Ds% pJde ver a ponte outra ve#.
/m dia começou um inc)ndio na cidade em ruínas, do outro lado da baía, e Ds%
lembrou que muitos anos atrás, quando ela ainda não %avia nascido, o fogo tin%a de-
vastado aquela mesma cidade. Aesta ve# o sinistro durou uma semana9 o vento do
norte fa#ia crescer as c%amas que ninguém combatia e que a ninguém preocupava.
& fogo se etinguiu depois que não restava nada mais para devorar.
Eogo, até mesmo a conversa era um penoso esforço. Ds% se contentava em deitar-
se ao sol9 perto dele tossia um vel%o enrugado. -em que soubesse como, os dias se
transformaram em semanas e o rio dos anos correu sem se deter. E#ra estava sem-
pre ali. E algumas ve#es Ds% pensava: Ele tosse e enfraquece, mas viverá mais que
eu.
:or fim, falar era uma coisa cansativa. " mente dobrava-se sobre si mesma e Ds%
meditava nas estran%e#as da eist)ncia. Nue diferença %avia finalmente$ 0esmo
sem o +rande Aesastre, ele seria um vel%o. :rofessor %onorário, tiraria livros da bi -
blioteca, falaria das suas pesquisas e seria considerado um vel%o gagá por seus cole-
gas de cinquenta ou sessenta anos. Entretanto, diriam aos estudantes: G] o profes-
sor <illiams, um grande sábio. 2emos muito orgul%o deleH,
"gora os vel%os tempos pareciam tão distantes quanto *ínive ou 0o%en!adaro. Ele
pr'prio tin%a visto como o mundo desabava. Entretanto, coisa curiosa, a catástrofe
%avia respeitado sua personalidade. "inda era um professor %onorário, agora que as
trevas l%e obscureciam o pensamento, e se aquecia ao sol em uma colina solitária,
patriarca de uma tribo primitiva.
E com os anos que passavam %avia estran%as mudanças. &s !ovens vin%am sem-
pre pedir consel%os a Ds%, mas não com a atitude de antes. Enquanto estava sentado
ao pé da colina, ou quando ficava em casa nos dias nebulosos ou de c%uva, eles l%e
tra#iam pequenos presentes: um pun%ado de amoras doces, uma pedra bril%ante,
um pedaço de vidro colorido que relu#ia ao sol. Ds% não prestava muita atenção (s
pedras ou ao vidro, nem sequer (s safiras e esmeraldas tiradas de alguma !oal%aria,
mas recebia tudo com alegria, pois compreendia que os !ovens l%e tra#iam o que
mais admiravam.
,endida a %omenagem, aproveitavam algum momento em que Ds% tin%a o martelo
na mão para fa#er-l%e cerimoniosamente alguma pergunta. Ms ve#es o consultavam
sobre o tempo. Ds% ol%ava então o barJmetro do sal pai e predi#ia, ante os !ovens
assombrados, que as nuvens se dissipariam com o calor do dia ou que se preparava
uma tempestade. 0as outras ve#es as perguntas eram menos simples. :or eemplo,
onde deveriam ir para encontrar boa caça. Ds% não sabia, mas os !ovens, desconten-
tes, o catucavam. Ds% gritava-l%es então qualquer coisa:
- *o norteL "trás da colinasL
&s !ovens partiam satisfeitos. Ds% temia que regressassem para l%e di#er que não
%aviam encontrado nada, mas isto nunca acontecia.
Ms ve#es seus pensamentos eram claros9 outras ve#es, uma névoa invadia seu cé-
rebro.
/m dia encontrava-se com a mente clara e, enquanto os !ovens l%e fa#iam uma
pergunta, compreendeu que %avia se transformado em um deus, ou pelo menos no
oráculo que epressava a vontade de um deus. Eembrou que uma ve# os meninos
não %aviam se atrevido a tocar no martelo e %aviam assentido quando l%es disse que
era um americano. Entretanto, nunca tin%a dese!ado ser um deus.
/m dia, sentado na colina, ao sol, viu que E#ra não estava ao seu lado e com-
preendeu que seu compan%eiro %avia partido para sempre. *inguém !á se sentaria
!unto dele. "pertou com força o cabo do martelo, agora tão pesado que mal podia le-
vantá-lo com as mãos. Em outros tempos os mineiros o mane!avam com uma s'
mão, pensou, e agora é pesado demais para mim. 0as se transformou no símbolo do
deus tribal e ainda me acompan%a quando todos os outros, inclusive E#ra, despare-
ceram.
Então, como se a dor da perda de E#ra l%e tivesse dado uma maior lucide#, ol%ou
ao redor e lembrou que naquele lugar antes tin%a eistido um !ardim. "gora s' se via
o mato alto que crescia desordenadamente entre as árvores e os arbustos e uma
casa em ruínas rodeada por ervas danin%as.
Eevantou os ol%os para o céu. & sol estava no leste, e não no oeste, como tin%a
esperado. Ká era pleno verão e ele ac%ava que a primavera tin%a iniciado. -im, no
decorrer daqueles anos ele %avia perdido a noção do tempo. =onfundia a viagem co-
tidiana do sol, o mais lento ao longo do ano, com as quatro etapas da estação. E en-
tão sentiu-se muito vel%o e com uma profunda amargura.
Essa triste#a despertou a recordação de outras e ele pensou: Em partiu, e Koe8
também, e E#ra, meu bom compan%eiro. E ao se sentir so#in%o entre tantas desgra-
ças, começou a c%orar baiin%o, pois era muito vel%o e não sabia se dominar.
- -im - murmurou, - todos se foram. -ou o último americano.
'er(eira Parte - $ )*timo Ameri(ano
na a*egria das +ormosas +*orestas.
1DEK" ="*=D^*
1
2alve# ten%a sido nesse dia, ou nesse verão, ou um outro ano... Ds% levantou os
ol%os e viu um !ovem diante dele. /sava calças de lona a#ul em bom estado, com re-
lu#entes rebites de cobre, e cobria o torso com a pele de animal, da qual pendiam
ainda as afiadas garras. Eevava um arco não mão e nas costas uma al!ava, onde as-
somavam as pontas emplumadas de algumas flec%as.
Ds% piscou, pois o sol castigava seus vel%os ol%os.
- Nuem é voc)$ - perguntou.
& !ovem respondeu com um tom respeitoso:
- -ou KacC, e tu bem sabes, Ds%.
*o modo dele di#er GDs%H não %avia uma familiaridade ecessiva para com um an-
cião, ao contrário, defer)ncia e até temor, como se o nome fosse um título %onorífi-
co.
- 1oc) age mal em #ombar de um vel%o - protestou Ds%. - KacC é meu fil%o mais
vel%o e eu o recon%eceria de imediado. Ele tem cabelos pretos e é mais vel%o que
voc).
& rapa#, com um riso cort)s, respondeu:
- Está falando do meu avJ, e tu bem sabes, Ds%.
&utra ve# o nome GDs%H teve em sua boca um som estran%o. E Ds% sentiu-se sur-
preso pela repetição da f'rmula: GE tu bem sabes, Ds%H.
- 1oc) é dos :rimeiros ou dos &utros$ - perguntou.
- Aos :rimeiros - respondeu o !ovem.
Ds% ol%ou para ele atentamente e l%e assombrou que um !ovem que %á algum
tempo atrás tin%a deiado de ser criança e levasse um arco em ve# de um fu#il.
- :or que não está usando um fu#il$ - perguntou.
- &s fu#is não são mais que brinquedos - disse KacC, com um riso um pouco des-
den%oso. - *ão se pode confiar em um fu#il, e tu sabes bem, Ds%. "lgumas ve#es o
fu#il dispara e fa# um grande barul%o9 mas outras ve#es voc) aperta o gatil%o e s' se
ouve um GclicH - estalou os dedos. - *ão se pode caçar com fu#is, embora os vel%os
digam que assim se fa#ia antes. Em troca, se pode confiar nas flec%as. 1oam sem-
pre. E além disto... - e aqui o rapa# ergueu-se orgul%osamente, - além disso é preci -
so se forte e %ábil para matar com o arco. Nualquer um, me parece, podia matar
com um fu#il, tu bem sabes, Ds%.
- 0ostre-me uma flec%a - disse Ds%.
& !ovem tirou uma flec%a da al!ava, ol%ou para ela e estendeu-a.
Ds% ol%ou a flec%a e sopesou-a. *ão era um brinquedo de menino. =om um metro
de comprimento, tin%a sido tal%ada em boa madeira, arredondada e alisada. 2in%a
plumas na etremidade, mas Ds% não conseguiu recon%ecer de que ave eram. Entre-
tanto, os dedos l%e di#iam que tin%am sido muito bem dispostas. "ssim, a flec%a gi -
raria no ar como uma bala de fu#il e alcançaria mais longe. Em seguida eaminou a
ponta da flec%a, mais com o tato que com a vista. Era uma ponta muito afiada, que
furou-l%e o polegar. -uas aspere#as l%e revelavam que era de metal trabal%ado com
martelo. " cor parecia ser de um branco prateado.
- Ae que é feita$ - perguntou.
- Ae uma dessas coisas redondas com figuras. &s vel%os l%es davam um nome,
mas eu esqueci.
& !ovem parou de falar, para que Ds% l%e informasse, mas não recebeu resposta e
continuou, orgul%oso de saber tanto sobre flec%as:
- *'s as encontramos nas vel%as casas. 3á caias e gavetas c%eias. Ms ve#es estão
guardadas em rolos muito pesados. "lgumas são vermel%as e outras brancas, como
esta. 3á dois tipos de brancas. /mas t)m a figura de um touro com uma corcova.
Estas não serve, são muito duras.
Ds% refletiu e compreendeu.
- E esta ponta branca$ - perguntou - 2ambém tin%a uma figura$
KacC pegou a flec%a das mãos de Ds%, ol%ou e devolveu.
- 2odas t)m figuras - disse. - Esta não se apagou totalmente. W uma mul%er com
asas na cabeça. Em outras %á falc;es, embora não falc;es verdadeiros - KacC estava
contente de poder falar. - Em outras %á %omens9 ou pelo menos me parecem %o-
mens. /m tem barba, outro tem o cabelo comprido para trás e outro tem uma cara
sem barba, cabelo curto e um agrande mandíbula.
- -abe quem foram esses %omens$
- &%, n's ac%amos, e tu bem sabes Ds%, que são os "ntigos que viveram antes dos
nossos "ntigos.
=omo não caiu nen%um raio do céu e Ds% não parecia aborrecido, KacC continuou:
- -im, assim terá sido, e tu bem sabes, Ds%. &s %omens, os falc;es e os touros.
2alve# as mul%eres com asas ten%am nascido de um falcão e uma mul%er. 0as os
"ntigos não se ofendem porque usamos suas figuras para fa#er pontas de flec%a.
Dsto me assombra. 2alve# se!am grandes demais para se ocuparem com coisas tão
pequenas. &u talve# eles fi#eram suas obras %á muito tempo e agora estão vel%os e
cansados.
KacC se calou e Ds% compreendeu que o rapa# estava orgul%oso da sua pr'pria elo-
qu)ncia e queria di#er mais alguma coisa. :elo menos não l%e faltava imaginação.
- "%, sim - continuou KacC, - me ocorreu algo. *ossos "ntigos, os americanos, fi#e-
ram as casas e as pontes e as coisas redondas que usamos para as pontas das fle-
c%as9 mas os outros, os "ntigos dos "ntigos, talve# ten%am feito as colinas e o sol, e
até mesmo os americanos.
Embora fosse muito fácil rir da ingenuidade de KacC, Ds% não pJde resistir ( tenta-
ção de fa#er uma brincadeira.
- @ale-me sobre as pontas das flec%as - disse. - *ão me interessa a cosmogonia. -
disse a última palavra com %umor malicioso, pois sabia que KacC não poderia en-
tend)-la.
- "% sim, as pontas das flec%as - disse o outro, %esitante. :or fim continuou: - usa-
mos as vermel%as e as brancas. "s vermel%as para os touros e os pumas. "s bancas
para os cervos e para a caça menor.
- E por que isso$ - perguntou Ds%, pois seu racionalismo se rebelava contra aquelas
superstiç;es ridículas.
- :or que$ :or que$ Nuem sabe o por que$ Eceto tu, Ds%. W assim. - titubeou ou-
tra ve# e o sol atraiu sua atenção. - -im, é como o sol que dá voltas ao redor da ter-
ra. 0as naturalmente ninguém sabe porque, nem pergunta. E por que teria que %a-
ver um por que$
KacC sorriu gravemente, como um fil'sofo que acabasse de epressar uma verdade
eterna. E Ds% refletiu e se perguntou se aquela aparente ingenuidade não ocultava
algo profundo. 2in%a sido encontrado alguma ve# a resposta a esses porques$ 2alve#
as coisas eistissem, nada mais.
Entretanto, Ds% estava certo de que o argumento era falso. " vida %umana seu
causalidade era inconcebível. Essas pontas de flec%as de cores diferente provavam
isto. 0as a relação causa-efeito era absurda. & !ovem acreditava que para matar tou-
ros e pumas as pontas das flec%as deviam ser de cobre, enquanto que a prata servia
para os cervos e a caça menor. Entretanto, as pontas dos dois metais eram igual-
mente duras e pontiagudas. :ara aquelas mentes primitivas, o fator determinante era
a cor. :ura superstição.
Ds% sentiu renascer em seu interior seu vel%o 'dio pelas falsas ideias. "pesar da
sua idade, não pJde evitar de quebrar uma última lança a favor da verdade.
- *ãoL - gritou, tão bruscamente que KacC se sobressaltou - *ão, não está certo.
Brancas ou vermel%as, as pontas das flec%as...
E se deteve. *ão, era mel%or se calar. "c%ava estar ouvindo uma vo# de contralto
que l%e di#ia ao ouvido: G=almaH. :odia c%egar a persuadir (quele !ovem que era
sem dúvida inteligente e imaginativo como tin%a sido o pequeno Koe8. 0as o que ga-
n%aria$ KacC ficaria desconcertado e se sentiria incomodado entre os outros. "s pon-
tas de flec%a não era, afinal, menos efica#es, e se os caçadores l%es atribuíam um
poder mágico, este pensamento os faria mais valentes e l%es daria mais firme#a nos
pulsos.
Ds% então se calou, sorriu para o !ovem e ol%ou outra ve# para a flec%a. &cor-
reu-l%e algo e ele perguntou:
- Essas coisas redondas, voc)s as encontram facilmente$
- &% sim, disse o rapa#. - :oderíamos passar a vida toda fa#endo pontas de fle-
c%as.
:rovavelmente estivesse certo, pensou Ds%, embora agora %ouvesse cem %omens
na 2ribo, %avia mil%ares de moedas nas gavetas dos armários e nas caias fortes, so-
mente naquele canto da cidade. E quando as moedas se esgotassem, utili#ariam fi-
c%as de cobre dos telefones. Nuando fabricou o primeiro arco, recordou, %avia imagi-
nado que a 2ribo colocaria pontas de pedra em suas flec%as. 0as eles tin%am toma-
do um atal%o e !á trabal%avam o metal. 2alve# seus descendentes !á tivessem supe-
rado o momento crítico. 3aviam deiado de esquecer e aprendiam. Em ve# de desli-
#arem para a selvageria, se mantin%am em um mesmo nível, ou !á tin%am começado
a subir. "o dar-l%es os arcos, tin%a-os realmente a!udado. Ds% sentiu-se contente.
- W uma bonita flec%a - disse, estendendo-a para KacC, embora na verdade não en-
tendesse muito de flec%as. *o rosto de KacC bril%ou um sorriso de felicidade e Ds%
notou que ele fa#ia uma marca no cabo antes de colocá-la na al!ava, como se para
poder recon%ec)-la entre as outras. E de repente Ds% sentiu uma imensa ternura.
Aesde que ficara vel%o e passava as %oras sentado na colina, nunca tin%a sentido
uma emoção semel%ante. Este KacC, que pertencia aos :rimeiros, era seu bisneto e
era também bisneto de Em. Ds% ol%ou para ele com afeto e l%e fe# uma pergunta
inesperada:
- ,apa# - disse, - voc) é feli#$
KacC pareceu perpleo e ol%ou para todos os lados antes de responder:
- -im - disse por fim, - sou feli#. " vida é como é e eu sou parte da vida.
Nue sentido tin%a essa frase$ - se perguntou Ds%. - Era a f'rmula ing)nua de um
semisselvagem, ou talve# ocultasse uma profunda filosofia: *ão conseguiu decidir. E,
enquanto refletia, a névoa l%e invadiu a mente outra ve#. "quelas palavras, tão es-
tran%as, l%e pareciam familiares. Entretanto, não ac%ava que as tin%a ouvido nunca,
mas uma pessoa que %avia con%ecido em outros tempos podia t)-las dito. :ois o ra-
pa# não %avia perguntado, %avia afirmado. Ds% não conseguia se lembrar de quem
%avia sido essa pessoa, mas teve uma impressão de fraque#a e doçura.
Nuando saiu do seu son%o e levantou os ol%os, estava so#in%o. *a realidade, era
incapa# de lembrar se %avia conversado com o rapa# naquele mesmo dia, ou em ou-
tro dia, ou talve# em outro verão.
2
/ma man%ã, Ds% despertou tão cedo que seu quarto ainda estava na penumbra.
@icou im'vel, sem saber onde estava e, durante um momento, acreditou ter voltado
aos anos da sua infFncia, quando ao alvorecer ia para o cama da sua mãe para se
esquentar. Em seguida, durante uns poucos segundos, seu pensamento cru#ou os
anos e ele estendeu a mão para Em, que sem dúvida dormia !unto a ele. 0as não,
Em tin%a morrido. Então pensou em sua outra mul%er. 2ampouco estava ali. @a#ia
muito tempo que a tin%a dado a outro %omem mais !ovem, pois uma mul%er devia
ter fil%os para que a 2ribo crescesse e as trevas retrocedessem. E compreendeu en-
tão que era muito vel%o que que estava so#in%o na cama. Entretanto, era sempre a
mesma cama e o mesmo quarto.
2in%a a garganta seca. "p's um momento, deiou a cama lentamente e, tomban-
do sobre suas vel%as pernas calcificadas, foi para o ban%eiro para beber um pouco
de água. " entrar, levantou a mão para acender a lu# elétrica. &uviu-se o ruído fami -
liar e a claridade inundou o quarto. Em seguida encontrou-se outra ve# no escuro e
compreendeu que a lu# não tin%a sido acesa. & som do interruptor %avia enganado
seu vel%o cérebro e %avia-l%e dado a ilusão da lu#. 0as não se preocupou, pois não
era a primeira ve# que isto acontecia.
"briu a torneira da pia, mas não saiu água. E então se lembrou que a água tin%a
deiado de correr fa#ia anos. *ão podia beber, mas a sede não era muita. -imples-
mente estava com a garganta seca. Engoliu saliva várias ve#es e sentiu-se mel%or.
1oltou ao seu quarto e se deteve, c%eirando. =om o passar do tempo. &s odores ti -
n%am mudado várias ve#es. 0uito longe, no passado, o ar tin%a tido o odor caracte-
rístico das grandes cidades. Aepois, %avia se seguido o odor dos campos e das fo-
l%as. E mais tarde, esse odos %avia desaparecido e agora nas casas s' se respirava o
c%eiro da vel%ice e de mofo. Ds% !á tin%a se %abituado a ele e !á não notava. 0as na-
quela man%ã %avia um c%eiro de fumaça acre no ar. :or isso tin%a acordado9 mas
não sentiu nen%um temor e se deitou outra ve#.
/m vento do norte agitava os pin%eiros que agora rodeavam a casa e os ramos
batiam nos vidros e nas paredes. & ruído o impedia de dormir. Nueria saber a %ora,
mas %á muito tempo que não dava corda nos rel'gios. Nue importava o tempo quan-
do não %avia encontros a que acudir ou %orário de trabal%o$ &s costumes tin%a mu-
dado radicalmente e ele estava tão vel%o que quase !á não energava. Em certo sen-
tido, parecia como se tivesse trocado o tempo pela eternidade.
Estava so#in%o na vel%a casa. &s outros dormiam em outros lugares, ou ao ar livre
do verão. " vel%a mansão, com seus fantasmas do passado, não atraía ninguém.
0as para Ds% os mortos estavam mais pr'imos que os vivos.
*a falta de rel'gio, vagos raios l%e indicavam que o sol não tardaria a sair. 2in%a
dormido bastante para um vel%o. =ontinuaria dando voltas na cama até que alguém
- e ele esperava que fosse o rapa# c%amado KacC - viesse tra#er-l%e o des!e!um. -e-
ria um osso de be#erro bem co#ido, que ele poderia c%upar, e um pouco de farin%a
de mil%o fervida. " 2ribo o enc%ia de atenç;es. E%e reservavam especialmente a fari -
n%a de mil%o, um produto raro. Enviavam alguém para que l%e levasse o martelo e o
a!udasse a camin%ar até a colina onde se sentava nos dias ensolarados. Nuase sem-
pre era KacC quem vin%a. -im, cuidavam dele e o protegiam, embora fosse agora um
vel%o inútil. 0as (s ve#es os !ovens, que o consideravam um deus, se impacientavam
e o apertavam para que respondesse (s suas perguntas.
& vento continuava soprando e os ramos açoitavam as paredes. 0as ele ainda es-
tava com sono e ap's um instante adormeceu, apesar do ruído.
"s passagens pela montan%a e os longos aterros das rodovias pareceriam, mesmo
dentro de mil anos, estreitos vales e pregas. "s grandes massas de cimento das ba-
ses durarão como o granito, mas o aço e a madeira perecerão. -erão devorados por
tr)s fogos. & mais lento de todos é o fogo da ferrugem, que queima o aço. =onceda-
l%e alguns séculos e a ponte orgul%osa que cru#a o abismo s' será um pouco de cin-
#a vermel%a nas margens. 0ais rápido que este é o fogo do apodrecimento, que ata-
ca a madeira. 0as o fogo mais rápido é o das c%amas.
Ae repente Ds% sentiu que alguém o sacudia. Aespertou sobressaltado e, ao abrir
os ol%os, viu KacC inclinado sobre ele9 o !ovem tin%a o rosto crispado pelo terror.
- EevanteL Eevante rápidoL - gritou KacC.
"guil%oados por aquele brusco despertar, a mente e o corpo de Ds% pareceram se
mover mais rapidamente que de costume. =om a a!uda de KacC vestiu alguma roupa.
"gora %avia um fumo espesso na casa. Ds% tossiu9 seus ol%os lacrime!avam. Eá
fora se ouvia o crepitar da madeira. Aesceram precipitadamente. "o saírem de casa,
a força do vento assombrou Ds%. & fumo fugia diante das ra!adas em um torvelin%o
de fol%as e ramin%os acesos.
& sinistro não era surpreendente e Ds% o %avia previsto %á muito tempo. 2odos os
anos a aveia silvestre crescia e secava no mesmo lugar. 2odos os anos os !ardins de-
sertos eram cada ve# mais um dep'sito de fol%as mortas. Era s' uma questão de
tempo. "lgum dia, o fogo aceso por algum caçador provocaria um inc)ndio. "vivadas
pelo vento, as c%amas devastariam esta margem da baía como %aviam devastado a
outra.
Ká estavam c%egando na calçada quando o fogo cresceu nas ervas danin%as que
rodeavam a casa vi#in%a. Ds% retrocedeu e KacC o arrastou para longe das c%amas.
*esse momento Ds% notou que tin%a esquecido algo, embora não soubesse o que.
Encontraram-se com outros dois rapa#es que ol%avam para o fogo. Então Ds% lem-
brou-se:
- & marteloL - gritou. - Esqueci o marteloL
0as no mesmo instante se arrependeu por %aver gritado tanto por uma nin%aria e
em um momento crítico. & martelo não tin%a importFncia. 0as viu, assombrado, que
suas palavras consternavam os rapa#es. &s tr)s se ol%aram, aterrados. :or fim, KacC
se voltou bruscamente e correu para a casa, mergul%ando na espessa fumarada que
subia do matagal do !ardim.
- 1olte, volte - gritou Ds%, mas sua vo# não era muito forte e o fumo o sufocava.
-eria %orrível, pensou, se KacC morresse no inc)ndio por causa de um simples marte-
lo. 0as KacC voltou correndo, são e salvo, com a pele de puma um pouco c%amusca-
da. &s outros !ovens demonstraram uma enorme alegria ao ver que ele tra#ia o mar-
telo.
*ão podiam ficar ali, evidentemente. "s c%amas estavam se aproimando.
- :ara onde vamos, Ds%$ - perguntou um dos rapa#es.
Ds% ficou assombrado por eles consultarem um vel%o incapa# de decidir rapida-
mente. Então lembrou que quando os !ovens saía para caçar também perguntavam
para onde deveriam ir. -e ele não respondesse, eles o beliscavam. *ão gostava que o
beliscassem e interrogou seu vel%o cérebro. :ensou com uma intensidade que não
con%ecia %á algum tempo. *ão dese!ava morrer queimado com seus amigos nem
que o aborrecessem. :ensou na roc%a, onde em outros tempos %aviam gravado os
números dos anos. " redor %avia outras pedras altas e nuas que não ofereciam ali-
mento ao fogo.
- 1amos para as roc%as - ordenou, e eles entenderam imediatamente do que ele
estava falando.
"pesar da a!uda dos !ovens, Ds% c%egou esgotado. Aeitou-se, sem fJlego, e pouco
a pouco recobrou as forças. 3aviam se refugiado entre duas roc%as inclinadas que se
tocavam quase na ponta e que pareciam se encontrar, formando uma gruta natural.
Ds% caiu em um sono que era quase um desmaio, pois aquela fuga precipitada ti -
n%a afetado seu vel%o coração. Nuando recuperou os sentidos, ficou im'vel, feli#,
com uma lucide# a que não estava acostumado.
-im, pensou, a secura do outono e os ventos do norte favorecem os inc)ndios. E
este outono segue o verão em que con%eci KacC, quando falamos de pontas de fle-
c%as. Aesde então KacC cuida de mim9 com certe#a a 2ribo l%e ordenou. "final, sou
muito importante, sou um deus. *ão, não sou um deus, mas talve# o oráculo de um
deus. *em é isso, tampouco. Eles me enc%em de cuidados e atenç;es porque sou o
último americano.
E outra ve#, ainda com a fatiga da longa corrida, adormeceu9 ou desmaiou.
"p's alguns instantes despertou novamente. E ac%ou que não %avia dormido mui -
to, pois as c%amas ainda crepitavam. "o abrir os ol%os, viu a ab'boda cin#enta da
roc%a e compreendeu que estava deitado de costas. &uviu o ruído de pés que se ar-
rastavam e o ladrar de um cão. 2in%a a mente ainda mais lúcida que antes, tão lúci -
da que a princípio se surpreendeu e depois se assustou um pouco, pois tin%a a im-
pressão de ver o futuro ao mesmo tempo que o presente.
Este segundo mundo... desapareceu também, pensou. E seus pensamentos bril%a-
ram e oscilaram como a c%ama de uma vela. Eu vi como afundava o enorme mundo
de antes. "gora desaparece este pequeno mundo, meu segundo mundo. "s c%amas
o devoraram. & fogo que con%ecemos %á tanto tempo, o fogo que nos aquece e que
nos destr'i. "ntigamente se di#ia que as bombas nos obrigariam a viver outra ve#
nas cavernas. Bem, eis-nos aqui em uma caverna, embora não ten%amos c%egado
pelo camin%o que todos previam. -obrevivi ( perda do mundo grande, mas não so-
breviverei ( destruição deste mundo pequeno. -ou vel%o e %o!e estou pensando com
clare#a. Estou seguro. W o presságio do fim. -aímos da caverna e voltamos para a ca-
verna.
&s ol%os de Ds% tin%am clareado também, não s' sua mente. "p's um instante
sentiu-se forte o bastante para sentar-se e ol%ar ao redor. 1iu com surpresa que,
além dos tr)s !ovens, %avia na caverna dois cães. Eram cães que utili#avam para
caça, não muito grandes, de pelo negro e branco9 cães pastores, assim teriam sido
c%amados nos vel%os tempos. :areciam inteligentes e bem ensinados e estavam qui -
etos e silenciosos.
Ds% se voltou a seguir para os !ovens. "gora que via o passado, o futuro e o pre-
sente ao mesmo tempo. :odia recon%ecer nos tr)s !ovens a união das tr)s épocas.
2odos se vestiam como KacC. =alçavam sapatos de pele de cervo e usavam calças de
lona com guarniç;es de cobre. =obriam o dorso com peles de puma, cu!as garras
pendiam em suas costas. 2odos levavam seus arcos e al!avas com flec%as e uma faca
na cintura. /m deles tin%a uma lança tão alta como ele. Ds% ol%ou com atenção e viu
que terminava em uma vel%a faca de açougueiro. " fol%a, de uns quarenta centíme-
tros de comprimento, era uma arma temível.
Ds% ol%ou então para os rostos dos rapa#es e viu que não se pareciam com os ros-
tos dos %omens do seu tempo. Eram serenos e sem sinais de temor, preocupaç;es
ou fadiga.
- &l%eL - disse um dos rapa#es, apontando pra Ds% com um movimento de cabeça -
Ele está mel%orL Está nos ol%ando.
3avia alegria em sua vo# e Ds% o ol%ou com ternura. E lembrou que pouco antes ti -
n%a temido que esse mesmo rapa# o beliscasse. /ma coisa l%e parecia assombrosa:
depois de tantos anos, aqueles rapa#es ainda falavam em um idioma que em outros
tempos as pessoas c%amavam de ingl)s. 0as na realidade o idioma não era o mes-
mo. & sotaque %avia mudado.
& fumo penetrava agora entre as roc%as e o fa#iam tossir. "s c%amas crepitavam
mais perto. "lguma casa ou árvore pr'ima devia estar ardendo. &s cães gemeram,
mas o ar continuava fresco e Ds% não se assustou.
-e perguntou o que teria acontecido aos outros. " 2ribo contava agora com algu-
mas centenas de membros. 0as estava cansado demais para fa#er perguntas e a cal-
ma dos !ovens l%e permitia supor que todos estavam sãos e salvos. =om certe#a,
pensou, %aviam se afastado ( primeira ameça de inc)ndio. E talve# naquele último
instante KacC tin%a se lembrado do vel%o que era também um deus e que dormia so-
#in%o em sua casa.
-im, agora o mais simples era ficar quieto e ol%ar, e refletir, sem fa#er perguntas.
&bservou os rapa#es outra ve#.
/m deles brincava com um cão. "diantava a mão e a retirava e o cão tentava
pegá-la com alegres grun%idos. & animal e o rapa# pareciam compartil%ar da mesma
simples felicidade. &utro dos !ovens tal%ava um pedaço de pin%eiro. " faca ia for-
mando uma figura, que apareceu pouco a pouco diante de Ds%. Ele sorriu, pois a fi -
gura tin%as quadris largos e peitos abundantes9 os !ovens não %aviam mudado mui-
to.
Embora não soubesse seus nomes, saldo o de KacC, eles deviam ser seus netos ou
bisnetos. -entados naquela gruta, entre as altas roc%as, brincavam como o cão ou
esculpiam figuras enquanto o fogo rugia ao seu redor. " civili#ação tin%a desapareci-
do %á muitos anos, agora ardiam os restos da cidade e mesmo assim aqueles tr)s !o-
vens pareciam feli#es.
2eria tudo sido para mel%or, no mel%or dos mundos$ -aímos da caverna e volta-
mos ( cavernaL -e o escol%ido não tivesse morrido, se tivessem nascido outros pare-
cidos a ele, tudo seria diferente. &%, Koe8, Koe8. 0as não seria mel%or assim$
Ae repente sentiu o dese!o de viver por muito tempo, mais cem anos, e outros
cem. 2in%a passado a vida observando os %omens e gostaria de viver assim infinita-
mente. & século seguinte e o mil)nio seguinte seriam épocas interessantes.
Então, conforme o costume dos anciãos, caiu em uma sonol)ncia entre o pensa-
mento e o son%o.
"s tribos vivem isoladas e seguem seus pr'prios camin%os. E, devido (s caracterís-
ticas dos sobreviventes e do lugar, %á mais diferenças entre os %omens que nos pri-
meiros dias do mundo. "lguns vivem temendo o inferno e não satisfa#em nen%uma
necessidade natural sem antes re#arem. Aesafiam os mares em seus botes, alimen-
tam-se de peies e moluscos e col%em algas.
&utros, de pele mais escura, falam uma linguagem diferente e adoram uma mãe e
um menino escuros como eles. =riam cavalos e perus e semeiam trigo. =ultivam
também o algodão, mas somente para oferec)-lo ao seu deus, pois sabem que é um
símbolo de poder. & deus que eles adoram é a figura de uma Eagado
6
e se c%ama &l-
sa8tn...
&utros atiram com %abilidade com arco e flec%a e amestram cães de caça. Aiscu-
tem nos debates e assembleias. -uas mul%eres camin%am orgul%osamente. & símbo-
lo do seu deus é um martelo, mas não l%e rendem grandes %omenagens.
3á muitos outros, todos diferentes. Aurante o curso dos anos, as tribos se multipli -
carão e se aliarão com casamentos e ami#ades. Aepois, segundo queira o cego desti -
no, nascerão novas civili#aç;es e eplodirão novas guerras.
& tempo passou e eles tiveram fome e sede. & fogo tin%a se apagado em alguns
lugares e um dos !ovens saiu para recon%ecer o terreno. Em pouco tempo voltou
com uma vel%a c%aleira que ele tin%a enc%ido com água de um manancial. &fereceu
primeiro a Ds%, que bebeu com grandes goles, e depois os outros beberam.
Aepois o rapa# tirou uma lata do bolso. 2in%a perdido a etiqueta e parecia enferru-
!ada. &s tr)s !ovens discutiram se conviria ou não comer o conteúdo da lata. "lgu-
mas pessoas tin%am morrido, declarou um, por ter comido conservas. *ão pensaram
em pedir consel%o a Ds%. /m deles disse que como faltava o desen%o de um peie ou
frutas, não se podia saber que comida era. &utro declarou então que uma lata enfer-
ru!ada é sempre perigosa, mesmo que se saiba o que %á lá dentro.
-e Ds% tivesse entrado na discussão, l%es teria aconsel%ado que abrissem a lata
para eaminar o conteúdo. 0as a vel%ice tin%a l%e dado sabedoria e eperi)ncia, e
sabia que eles discutiam pelo gosto de discutir e que no fim se poriam de acordo.
=om efeito, ap's alguns minutos eles abriram a lata com uma faca e descobriram
uma substFncia avermel%ada. Ds% recon%eceu o salmão. & c%eiro era agradável9 a
ferrugem tin%a respeitado o interior da lata. ,epartiram o salmão entre os quatro.
@a#ia muito tempo que Ds% não comia salmão. " carne estava escurecida e tin%a
I 0a%ado era uma cidade fictícia do li$ro :ia%ens de Eulli$er, de 3onathan JAift, era a capital da
nação Kalni#ar#i. '(. de Espinhudo)
pouco gosto, mas seu sabor, ou falta de sabor, decidiu, talve# se devesse ao seu pa-
ladar envel%ecido. -e não l%e custasse tanto falar, teria dado (queles !ovens uma
confer)ncia sobre as mil agruras que l%es permitiam comer aquela porção de salmão.
2in%a sido pescado %á muitos anos, provavelmente nas costas do "lasca, a mais de
mil e quin%entos quilJmetros. 0as os rapa#es não teriam entendido. =on%eciam o
oceano, que era muito perto, mas eram incapa#es de imaginar um barco em alto mar
e não conseguiam imaginar longas distFncias.
Ds% contentou-se em comer em sil)ncio, mas sem deiar de ol%ar os rapa#es, so-
bretudo aquele que se c%amava KacC. " vida não l%e tin%a sido fácil. 2in%a uma cica-
tri# no braço direito e, se os ol%os não o enganavam, algum acidente tin%a-l%e torci -
do a mão esquerda. -im, KacC %avia sofrido, mas em seu rosto, como nos demais,
não %avia rugas nem sombras.
Ds% sentiu outra ve# aquela ternura. "pesar da cicatri# e da mão torcida, o !ovem
parecia inocente como uma criança. E Ds% se perguntou se algum dia o mundo não o
atacaria ou o surpreenderia indefeso. Eembrou da pergunta que %avia feito a KacC:
G1oc) e feli#$H E KacC %avia respondido de um modo tão estran%o que Ds% não sabia
se tin%a ouvido bem. E outras ve#es tin%a acontecido algo parecido. " linguagem ti-
n%a sofrido poucas mudanças, mas as ideias e sentimentos de antes tin%am desapa-
recido. 2alve# ninguém !á visse uma clara diferença entre a alegria e a triste#a, como
no tempo da antiga civili#ação. Nuem sabe se também não tin%am desaparecido ou-
tras diferenças. 2alve# KacC não tivesse compreendido eatamente a pergunta de Ds%,
quando tin%a respondido: G-im, sou feli#. " vida é como é e eu sou parte da vidaH.
:elo menos a alegria não %avia deiado a terra.
Enquanto Ds% descansava, os !ovens brincavam com os cães ou di#iam piadas en-
tre eles. ,iam constantemente e por nada. E o que tal%ava a estatueta assobiava
uma canção. Era uma canção alegre, que parecia familiar a Ds%, embora tivesse es-
quecido o nome e a letra. Era uma canção que evocava sinos, e neve, e lu#es verdes
e vermel%as, e uma festa. -im, com certe#a tin%a sido uma canção muito alegre nos
vel%os dias9 e agora parecia mais alegre que nunca.
" alegria %avia sobrevivido ao +rande Aesastre.
& +rande AesastreL Ds% não pensava naquelas palavras %á algum tempo. "gora l%e
pareciam sem sentido. -e os %omens dos vel%os tempos não tivessem sido vítimas
de uma epidemia, o teriam sido pelo tempo. Nue importava que todos tivessem mor-
rido em alguns meses ou mais lentamente durante o decurso dos anos. Nuanto (
perda da civili#ação...
& !ovem assobiava animadamente e Ds% lembrou-se das primeiras palavras da can-
ção: G&%, que alegria...H :odia perguntar ao escultor como ela continuava, mas esta-
va cansado demais para fa#er perguntas, embora tivesse a mente clara, com uma lu-
cide# quase aterradora. Nue significa isso$ -e perguntou Ds%. :or que min%a mente
está tão desperta$ :ela emoção do brusco despertar e a fuga da casa em c%amas$
-' sabia que não tin%a pensado tão claramente antes.
"ssombrou-l%e a confiança e a serenidade dos !ovens, enquanto tudo ardia lá fora.
*ão sabia como eplicar. 2alve#, pensava, devia-se a alguma diferença entre o pre-
sente e os dias da civili#ação. *os vel%os tempos, esses !ovens teriam sido rivais,
pois os %omens eram muito numerosos. Então os seres %umanos não prestavam
muita atenção ao mundo eterior, pois acreditavam ser mais fortes que ele. -' pen-
savam em se vencer mutuamente e até os irmãos desconfiavam uns dos outros.
0as agora a população era escassa. Esse rapa#es andavam livremente com o arco
na mão, seguidos por algum cão. 0as de ve# em quando precisavam de um camara-
da. Entretanto, apesar da clare#a da sua mente, Ds% não estava certo de ter desco-
berto a verdade.
"o meio-dia o inc)ndio tin%a se distanciado para se alimentar de outras regi;es
ainda intactas. Ds% e os tr)s rapa#es deiaram a caverna e, evitando os lugares ainda
coberto de cin#as ardentes, desceram a colina e foram para o sul. Evidentemente, os
!ovens seguiam um itinerário !á estabelecido.
Ds% não fe# perguntas, pois devia recorrer a todas suas forças para poder se-
gui-los. &s rapa#es o esperavam pacientemente e Ds% se apoiava neles constante-
mente. Nuando caía a tarde e Ds% !á não conseguia se manter de pé, montaram um
acampamento (s margens de um riac%o. +raças aos capric%os do vento e do frescor
da vegetação, as c%amas tin%am respeitado aquele lugar.
:elo leito do riac%o corria um fio dVágua. & gado e os cervos também tin%am fugi-
do do fogo, mas os coel%os e as codorni#es tin%am se ocultado entre as fol%as. &s
!ovens se espal%aram, munidos com seus arcos, e voltaram com várias peças. /m
deles, sem dúvida por costume, começou a acender o fogo com uma pua de arco9 os
outros riram dele e troueram algumas brasas do inc)ndio.
" comida a!udou Ds% a recuperar as forças. &l%ou ao seu redor, viu as ruínas de
um grande edifício e compreendeu que tin%am acampado no parque universitário.
"pesar da sua fadiga, levantou-se e distinguiu as paredes da biblioteca a uma cente-
na de metros. & fogo %avia destruído as árvores ao ser redor sem tocar nas pedras.
2odos os volumes, o arquivo da %umanidade, ainda estavam intactos. :ara quem$
Ds% não tentou responder a pergunta. "s regras do !ogo %aviam mudado. :ara o bem
ou para o mal$ *ão podia di#)-lo. Em todo caso, pouco l%e importava agora que a bi -
blioteca tivesse sido conservada ou destruída. -abedoria da vel%ice$ &u simplesmen-
te desesperança e resignação$
Aespertou várias ve#es durante a noite, tiritando de frio, e inve!ou os !ovens que
dormiam profundamente. 0esmo assim conseguiu descansar algumas %oras e, como
estava fatigado, não teve son%o algum.
3
Aespertou ao aman%ecer, bastante fraco mas com a mente clara.
W estran%o, pensou, nesses últimos anos eu não entendia muito bem o que se pas-
sava ao meu redor, coisa comum em um bel%o. E desde ontem eu ve!o e ouço tudo.
Nue significa isto$
&l%ou os !ovens que preparavam o des!e!um. & escultor assobiava alegremente a
canção que falava a Ds% de sinos e felicidade. E ele, Ds%, tin%a a mente clara, Gclara
como o soar de um sinoH.
&uvi uma ve#, se disse, ordenando silenciosamente seus pensamentos, segundo o
vel%o costume que tin%a aumentado com os anos. -im, eu ouvi alguma ve#, o mais
provavelmente li em algum livro, que a mente de um %omem fica clara pouco antes
da morte. :ois bem, sou muito vel%o e não me queiarei. -e eu fosse cat'lico e não
tivesse desaparecido os sacerdotes e as igre!as, eu gostaria de me confessar.
-entando (s margens do riac%o, ainda sentindo o c%eiro acre do fumo, e com os
edifícios da universidade (s suas costas, Ds% revisou sua vida e fe# uma lista dos seus
pecados e das suas virtudes.
"ntes de me despedir da vida, embora tudo tivesse mudado no mundo, era neces-
sário estar em pa# consigo mesmo, pensou, e se perguntar se tin%a se aproimado
de algum dos pr'prios ideais. Nualquer %omem pode se !ulgar deste modo, sem ne-
cessidade de religião ou sacerdotes.
"o terminar seu eame de consci)ncia, não se sentiu perturbado. 2in%a cometido
erros, mas sempre tin%a procurado a !ustiça. Eevado pelo +rande Aesastre a circuns-
tFncias sem precedentes, tin%a dado provas de coragem e sua vida, assim pelo me-
nos esperava, não tin%a sido inútil.
*esse momento um dos !ovens l%e troue um pedaço de algo que tin%am assado
no fogo.
- 2oma Ds% - disse o rapa#, - uma asa de codorni#, tem bem sabes.
Ds% agradeceu e comeu a carne, felicitando-se por ter conservado os dentes. " fu-
maça da len%a tin%a dado um delicioso sabor ( carne.
:or que eu pensaria que vou morrer$ - se perguntou. " vida é formosa e sou o úl -
timo americano.
*ão se uniu ( conversa dos !ovens e não fe# perguntas sobre os pro!etos do dia.
*a realidade, !á se sentia como se não pertencesse a esta terra, que no entanto con-
tinuava querendo.
Aepois do des!e!um, ouviu-se um grito distante e em pouco tempo apareceu outro
personagem. 3ouve então uma longa discussão que Ds% não tentou seguir. =om-
preendeu, entretanto, que toda a 2ribo estava se mudando para uma região lacustre
que o inc)ndio não tin%a tocado. Era um lugar magnífico, segundo o recém-c%egado.
&s tr)s compan%eiros de Ds% protestavam, pois não tin%am sido consultados. 0as o
outro eplicou que o pro!eto tin%a sido submetido ( assembleia da 2ribo e tin%a sido
aprovado por unanimidade. &s tr)s !ovens cederam.
& incidente alegrou Ds%, pois tin%a sido o iniciador das reuni;es da 2ribo. 0as en-
tão se lembrou de =%arlie e sentiu triste#a e remorso.
Nuase em seguida se prepararam para reiniciar a marc%a. Ds% estava tão fraco que
mal podia se sustentar de pé. &s !ovens decidiram que fariam turnos e o levaram nos
ombros e se puseram a camin%o. &s rapa#es brincavam a prop'sito do pouco peso
de Ds% e se perguntavam, entre sorrisos, por que os vel%os eram tão fracos. Ds% se
alegrava por não ser uma carga ecessiva9 um dos rapa#es declarou que o martelo
pesava mais do que Ds%.
2alve# o balanço ten%a afetado Ds%, pois descobriu que as névoas l%e invadiam ou-
tra ve# o cérebro. *em sequer via em que direção iam. -' de ve# em quando se
dava conta de algum incidente.
Aepois de terem andado por longo tempo, saíram da região incendiada e c%ega-
ram a uma parte da cidade que o fogo não tin%a alcançado. & ar estava muito úmido
e Ds% teve um calafrio e pensou que o vento tin%a mudado e que agora estavam per-
to do porto. *aquele bairro %avia ruínas de fábricas. Ds% viu também alguns tril%os.
"s ervas danin%as e as árvores invadiam tudo, mas a secura dos longos ver;es %avi-
am impedido que a região se transformasse em uma selva. E aqui e ali algumas cla-
reiras com capim facilitavam a marc%a. 0as, frequentemente seguiam o as falto das
ruas, quebrado, rac%ado, invadido pelo musgo e pelas plantas selvagens. Embora na-
quele labirinto s' pudessem se guiar pela posição do sol ou por algum ponto distan-
te.
"l atravessar um matagal, alguma coisa atraiu a atenção de Ds%, que estendeu a
mão e gritou. &s rapa#es se detiveram, rindo (s gargal%adas. /m deles foi buscar o
que %avia atraído a atenção de Ds%. Ds% ficou muito contente e todos riram dele, ale-
gremente, com se ele fosse um menino.
Ds% não se aborreceu, tin%a o que queria. Era uma flor escarlate, um gerFnio que
tin%a se adaptado (s novas condiç;es e que crescia como antes. 0as o que %avia
atraído a atenção do Ds% era a cor do gerFnio. & vermel%o tin%a quase desaparecido
da superfície da terra. "ntes teria sido como uma c%ama de púrpuras e vermel%os vi-
vos. "gora o mundo era uma discreta %armonia de a#uis, verdes e castan%os.
0as, sacudido pela marc%a rápida do rapa# que o levava nos ombros, Ds% perdeu
outra ve# a consci)ncia. Nuando voltou a si, notou que o tin%am deitado na capim e
que %avia perdido a flor em algum lugar. &s rapa#es estavam sentados, descansan-
do.
Eevantou a cabeça e viu uma placa com algumas letras: /.-. ="ED@&,*D", e logo
ap's os números 7 e Q. @a#ia muito tempo que não via números e demorou para re-
con%ecer que aqueles dois se liam GquarentaH.
Então esta rota que mal se pode ver sob o capim e mato, pensou, é a vel%a rota
7Q, que leva para o oeste. Ela tin%a seis pistas de largura. Eogo c%egaremos ( ponte.
-ua mente nublou-se outra ve#, até que fi#eram algo. 0as agora não o descansa-
ram no capim. *este momento KacC o carregava e, por cima do ombro do rapa#, Ds%
viu diante deles o dono da lança. &s outros estavam com os arcos nas mãos e com
uma flec%a nas cordas. &s dois cães, agac%ados, grun%iam surdamente. " uma certa
distFncia, um enorme puma fec%ava o camin%o.
@icaram assim por alguns segundos.
Ae repente, o que levava a lança falou em vo# baia e serena:
- Ele não nos atacará.
- Aisparo$ - perguntou outro.
- *ão se!a louco - replicou o primeiro.
,ecuaram um pouco, dando a volta pela direita, segurando os cães para que não
se ecitassem e alarmassem o puma. " fera ficou dona do camin%o. Ds% estava as-
sombrado. &s !ovens não pareciam ter medo do puma, mas evitavam todo o conflito,
e o animal não temia os %omens. 2alve# fosse pela falta de armas de fogo, ou então
o puma, pouco acostumado a ver aqueles estran%os bípedes de aspecto inofensivo,
não os ac%asse perigosos. E talve# se os !ovens não estivessem carregando com um
vel%os, tivessem se mostrado mais agressivos.
Ds% não pJde deiar de pensar que os %omens %aviam perdido sua vel%a arrogFn-
cia e agora as feras eram seus iguais. "quilo era uma derrota, no entanto os !ovens
prosseguiam despreocupadamente seu camin%o, brincando, como se tivesse retroce-
dido para evitar uma árvore caída ou uma casa em ruínas, e não um puma.
*as proimidades da ponte, Ds% sentiu despertar seu interesse e lamentou não po-
der contar aos !ovens sobre os vel%os tempos e contar-l%es como %avia sido a ponte,
com autom'veis que corriam como trombas para cima e para baio, de modo que
nen%um pedestre podia cru#á-la sem arriscar a vida.
=%egaram ( cabeleira leste. M frente estendia-se a ponte, enferru!ada mas intacta.
0as as calçadas estavam muito estragadas, o c%ão %avia afundado em alguns seto-
res e os pilares não estavam no mesmo nível.
*o meio da ponte eles tiveram que camin%ar sobre uma viga. Ds% ol%ou para baio
e viu como as ondas batiam e notou que a armação, corroída pela água salgada e
pelo ferrugem, podia cair a qualquer momento.
Este é o camin%o que nen%um %omem percorre até o fim. Este é o rio tão longo
que nen%um via!ante c%ega por ele ao mar. Esta é a senda infinita que serpenteia
entre as colinas. Esta é a ponte que ninguém atravessou completamente... @eli# da-
quele que através da névoa e das nuvens baias v) - ou acredita ver - a outra mar-
gem.
Aepois Ds% voltou outra ve# ao mundo das trevas, até que notou que o %aviam
sentado sobre uma superfície dura e sentiu na nuca o contato com uma coisa fria. 2i-
n%a os pés gelados. "lguém esfregava suas mães e ele recobrava lentamente a cons-
ci)ncia.
Estava sentado sobre a calçada com a cabeça apoiada na varanda. " primeira coi-
sa que viu foi o martelo, no c%ão diante dele, com o cabo para cima. Aois dos !ovens
esfregavam suas mãos. &s outros dois ol%avam e todos pareciam inquietos.
Ds% sentiu nos pés - e nas pernas, até os !oel%os - um frio que podia ser c%amado
de mortal. Entendeu também, pois sua mente tin%a clareado de novo, que aquilo não
tin%a sido um simples desfalecimento pr'prio da vel%ice, e sim uma espécie de ata-
que - apopleia ou ou síncope cardíaca - e que os outros estavam com medo.
KacC moveu os lábios como se falasse, entretanto não saía som algum. Era incom-
preensível. &s lábios se moveram mais rápido, como se KacC gritasse, e imediata-
mente Ds% sentiu que estava surdo. Esta comprovação l%e deu mais alegria que tris-
te#a. " partir de então go#aria de uma pa# que o %omem normal não pode con%ecer.
&s outros se puseram a falar, ou se!a, a fa#er gestos. 2entavam desesperadamente
que ele ouvisse. Ds%, perpleo, sacudiu a cabeça. Nueria eplicar que os sons não
c%egavam até ele, mas não conseguia articular uma palavra. @icou inquieto9 naquela
tribo onde ninguém sabia ler, era um estorvo não poder falar.
&s !ovens que %aviam se mostrado respeitosos e amáveis o dia todo, agora se im-
pacientavam. Ds% adivin%ava que eles pediam algo e temiam que ele não o fi#esse.
+esticulavam e apontavam para o martelo, mas a Ds% pareceu inútil tentar com-
preender. :or fim os !ovens perderam a paci)ncia e começaram a beliscá-lo. Ds% ain-
da era sensível ( dor. +ritou e seus ol%os se enc%eram de lágrimas. -entiu-se enver-
gon%ado por esta fraque#a, indigna do último americano.
W estran%o, pensou, ser um deus vel%o. 2e rendem %omenagens e te maltratam.
*o caso em que não atendas imediatamente seus rogos, teus adoradores empregam
a viol)ncia. *ão é !usto. Entretanto, ( força de refletir e observar a mímica dos !o-
vens, Ds% finalmente compreendeu. Aese!avam que ele escol%esse alguém e l%e des-
se o martelo. & martelo era seu %á muito tempo e ninguém l%e %avia proposto até
%o!e que o presenteasse. 0as pouco importava e, além disso, dese!ava que paras-
sem de beliscá-lo. "inda podia mover os braços e com um gesto indicou que dava o
martelo ao !ovem KacC.
KacC pegou o martelo e o balançou na mão direita. &s outros trés retrocederam al -
guns passos e Ds% sentiu uma estran%a piedade pelo !ovem que %erdava seu único
bem. 0as pelo menos todos pareciam aliviados. & martelo !á tin%a %erdeiro e eles
deiaram de atormentar Ds%.
"gora !á podia descansar, pensou Ds%9 tin%a cumprido sua tarefa e estava em pa#
consigo mesmo. Estava morrendo ali na ponte, não podia ignorar. *ão seria o primei-
ro. Nuantos outros %aviam morrido ali, vítimas de algum acidente de trFnsito. Ele te-
ria pedido parar morrer também em um acidente semel%ante. _ltimo sobrevivente da
civili#ação, voltava ali para morrer. Dsto o alegrava. ,epetia para si, vagamente, uma
frase inconclusa que %avia lido em um livro, quanto lia tantos livros: /ma geração vai
e outra geração vem...` 0as a frase sem a segunda metade era trivial, não
significava nada.
&l%ou para seus compan%eiros. 2in%a os ol%os enevoados e não podia ver muito
bem. Entretanto, conseguiu ver os cães, deitados tranquilamente, e os quatro !ovens
- tr)s estavam !unto e o outro um pouco afastado - sentados ao seu redor em um
semicírculo. &l%avam para ele. Eram !ovens, e no ciclo da %umanidade tin%am mil%a-
res de anos a menos que ele. Ele, Ds%, era o último representante do mundo antigo9
eles eram os primeiros do novo. ,ecomeçaria a lenta evolução do passado$ Esperava
que não. 0ales demais %aviam a!udado a criar a civili#ação: a escravidão, as conquis-
tas, as guerras, as tiranias.
&s ol%os de Ds% procuraram ponte além do grupo de !ovens. "gora, em seus últi -
mos instantes, sentia-se mais perto da ponte que dos seres %umanos. " ponte, como
ele, %avia sido parte da civili#ação.
" uma certa distFncia via-se um autom'vel, ou mel%or, um resto de autom'vel. Ds%
lembrou do carro que %avia estado ali por tanto tempo. " pintura tin%a descascado,
os pneus tin%am murc%ado e os ecrementos das aves marin%as cobriam a capota. W
estran%o, mas por outro lado sem importFncia, mas lembrava que o proprietário do
autom'vel tin%a sido um tal de Kames ,obson - com um E, um 2, ou um :, ou uma
inicial parecida no meio, - morador de &aCland.
0as Ds% não ficou ol%ando para o carro. Eevantou os ol%os para os altos pilares e
os grandes cabos de curvas perfeitas. Essa parte da ponte ainda parecia em bom es-
tado. ,esistiria por muito tempo e veria passar várias geraç;es %umanas. &s parapei-
tos, os pilares e os cabos tin%am uma cor púrpura e a ferrugem s' os tin%a atacado
superficialmente. 0as geraç;es de gaivotas tin%am branqueado os topos dos pilares.
-im, a ponte podia durar anos, mas a ferrugem a consumiria pouco a pouco. &s
terremotos sacudiriam as bases e em um dia de tormenta cairia um arco. "s criaç;es
do %omem, como ele mesmo, não seriam eternas.
@ec%ou os ol%os e imaginou as curvas das montan%as que rodeavam a baía. Aesde
a construção da civili#ação, a forma das colinas não tin%am mudado. & tempo, tal
como o concebia o %omem em sua estreita imaginação, não as %avia afetado. +raças
( baía e as colinas, Ds% morria em um mundo onde %avia vivido.
"briu os ol%os outra ve# e viu os dois picos pontiagudos que coroavam a cadeia.
G&s :eies +)meosH9 assim eram c%amados em outro tempo. Eembrou-se de Em e
da sua mãe. " terra, Em e sua mãe se uniram em sua mente e sentiu-se feli#. "gora
estava voltando para elas.
*ão, pensou ap's um momento, é necessário que eu ve!a claramente a morte,
como a vida. :elo menos com esta lu# débil que %á em mim agora. Estas montan%as,
apesar da sua forma, não t)m nada em comum com Em, nem com min%a mãe9 mas
elas me receberão, receberão meu corpo, embora sem amor. E%es sou indiferente.
Estudei as leis do mundo físico e sei que as montan%as, embora eternas aos ol%os
dos %omens, também mudam.
1el%o, cansado e moribundo, Ds% gostaria de encontrar ante seus ol%os algo que
não fosse dominado pelo tempo. 2in%a frio, seus dedos inc%avam, perdia a vista.
&l%ou outras ve# para os cimos distantes. 3avia se esforçado tanto... 3avia luta-
do... 3avia ol%ado para o passado e para o futuro. Nue importava tudo agora$ & que
%avia feito realmente$
*ada restava de todos os seus esforços. "dormeceria, descansaria no sopé daque-
las montan%as que se pareciam com os seios de uma mul%er e que eram ao mesmo
tempo um símbolo e um consolo.
Em seguida, embora mal visse agora, voltou-se para os !ovens. Eles me entregarão
( terra pensou, e eu também os entrego ( terra, mãe dos %omens.
/ma geração vai e outra geração vem9 mas a 2erra permanece

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