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A antropologia interpretativa

Com cerca de vinte livros publicados, Clifford Geertz é provavelmente, depois de
Claude Lévi-Strauss, o antropólogo cujas idéias causaram maior impacto na segunda
metade do século XX, não apenas no ue se refere ! própria teoria e ! pr"tica
antropológica mas também fora de sua "rea, em disciplinas como a psicologia, a #istória
e a teoria liter"ria$ Considerado o fundador de uma das vertentes da antropologia
contempor%nea - a c#amada &ntropologia 'ermen(utica ou )nterpretativa$
Geertz, graduado em filosofia, ingl(s, antes de migrar para o debate antropológico,
obteve seu *#+ em &ntropologia em ,-./ e desde então conduziu e0tensas pesuisas
de campo, nas uais se fundamentam seus livros, escritos essencialmente sob a forma de
ensaio$ &s suas principais pesuisas foram feitas na )ndonésia e em 1arrocos$
+esiludiu-se com a metodologia antropológica, para Geertz e0cessivamente abstrata e
de certa forma distanciada da realidade encontrada no campo, o ue o levou a elaborar
um método novo de an"lise das informa23es obtidas entre as sociedades ue estudava$
Seu primeiro estudo tin#a por objetivo entender a religião em 4ava$
*or fim foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto dauela sociedade, ue ele
ac#ava ue não poder ser e0tirpado e analisado separadamente do resto,
desconsiderando, entre outras coisas, a própria passagem do tempo$ 5oi assim ue ele
c#egou ao ue depois foi apelidada de antropologia #ermen(utica$ Sua tese come2a
defendendo o estudo de 6uem as pessoas de determinada forma2ão cultural ac#am ue
são, o ue elas fazem e por ue raz3es elas cr(em ue fazem o ue fazem6$
7ma das met"foras preferidas de Geertz, para definir o ue far" a &ntropologia
)nterpretativa, é a leitura das sociedades enuanto te0tos ou como an"logas a te0tos$ &
interpreta2ão ocorre em todos os momentos do estudo, da leitura do 6te0to6, pleno de
significado, ue é a sociedade na escrita do te0to8ensaio do antropólogo, por sua vez
interpretado por aueles ue não passaram pelas e0peri(ncias do autor do te0to escrito$
9odos os elementos da cultura analisada devem portanto ser entendidos ! luz desta
te0tualidade, imanente ! realidade cultural$
[editar] Idéias centrais
& &ntropologia )nterpretativa analisa a cultura como #ieraruia de significados,
pretendendo ue a etnografia seja uma :descri2ão densa;, de interpreta2ão escrita e cuja
an"lise é poss<vel por meio de uma inspira2ão #ermen(utica$ = crucial a leitura da
leitura ue os :nativos; fazem de sua própria cultura
[editar] Representantes e obras
• Geertz
o >bservando o )slão - ,-/? @d$ brasileira ABBC
o & interpreta2ão das culturas - ,-DE$ @d$ brasileira ,-D- FcondensadaG
o Saber local - ,-?E @d$ brasileira ABBC
o Hova Luz Sobre a &ntropologia - ABBB @d$ brasileira ABB,
& nega2ão das estruturas est"veis do ser, caracter<stica do pensamento moderno, orienta
a perspectiva ue se diz pós-moderna e aponta para uma multiplicidade de #istórias,
situando o #omem no conte0to #istórico-cultural em ue est" inserido$
& relativiza2ão proposta por 'erder é levada !s suas Iltimas conseJ(ncias, a partir da
nega2ão de valores absolutos e da considera2ão das categorias norteadoras da vida dos
grupos estudados, porém, o ue se destaca na perspectiva interpretativa é a (nfase !
intersubjetividade, com o di"logo entre pesuisador8pesuisado assumindo o lugar da
mera descri2ão mec%nica da sociedade$
& antropologia interpretativa, desconfiando das mega-narrativas ue pretendiam dar
conta da realidade dos povos em estudo, rejeita a ado2ão do conceito de cultura em si
mesma$ *ara esse novo projeto de an"lise cultural, é inclu<da a perspectiva #ermen(utica
e sua proposta de compreensão a partir da interpreta2ão do discurso$
> indiv<duo, ue era freJentemente retratado como sujeito à cultura da ual fazia
parte e mero repetidor de comportamentos previamente aprendidos, passa a ser
considerado sujeito da própria cultura, o ue implica num recon#ecimento da cultura
enuanto processo$
> foco de an"lise passa a ser os significados ue emergem da intera2ão social, levando-
se em considera2ão o conte0to do ual fazem parte os indiv<duos$ )sso implica na
ado2ão da idéia de ue os significados são dotados de concretude, conseJ(ncia da
publiciza2ão do significado$ > trabal#o do etnógrafo seria, então, desvendar os
significados imbricados nas rela23es sociais$ Geertz F,-?-, p$ ACG, e0poente da
antropologia interpretativa, descreve o seu conceito de culturaK
6Como sistemas entrela2ados de signos interpret"veis Fo ue eu
c#amava s<mbolos, ignorando as utiliza23es provinciaisG, a
cultura não é um poder, algo ao ual podem ser atribu<dos
casualmente os acontecimentos sociais, os comportamentos, as
institui23es ou os processosL ela é um conte0to, algo dentro do
ual eles podem ser descritos com densidade$6
@ssa necessidade de conte0tualiza2ão dos fenMmenos culturais, identifica-se
intimamente com a proposta #ermen(utica de interpreta2ão$ > car"ter poliss(mico das
palavras também pode ser detectado nos gestos, nos comportamentos sociais$ Hisso
prende-se a idéia de cultura como te0to, preconizada pelos interpretativistas$ Segundo
Nicoeur F,-?/, p$ ?.G,
6& polissemia das palavras faz apelo, como contrapartida, ao
papel seletivo dos conte0tos conforme a determina2ão do valor
atual ue revestem as palavras numa mensagem determinada,
dirigida por um locutor preciso a um ouvinte colocado numa
situa2ão particular$6
Ho projeto interpretativo, a busca de leis gerais é 6posta de lado6 em favor de uma
an"lise das particularidades da cultura estudada$ )sso significa um maior destaue dado
ao e0ótico como forma de torn"-lo familiar, ou seja, ao invés de simplesmente descrever
os fatos não-familiares, busca-se detectar os sentidos comuns a eles subjacentes e
esclarec(-los$
> recon#ecimento da diferen2a entre o método das ci(ncias naturais e o método das
ci(ncias sociais é reinvindicado pela #ermen(utica, ue v( a necessidade de situar o
indiv<duo imerso na sociedade e na #istória como forma de compreender a si mesmo$ &
antropologia interpretativa adota esse procedimento, e considera ue somente a partir do
6encadeamento6 - processo #istórico - é poss<vel captar a vida de outrem e con#ec(-lo$
@sse con#ecimento seria poss<vel a partir das e0terioriza23es ue constituem o real e
ue se oferecem ! decifra2ão através do ue foi estruturado$ &ssim, para Nicoeur F,-?/,
p$ -AG,
6$$$ a #ermen(utica comporta alguma coisa de espec<ficoL ela visa
reproduzir um encadeamento, num conjunto estruturado,
apoiando-se numa categoria de signos, os ue foram fi0ados pela
escrita ou por ualuer outro processo de inscri2ão euivalente !
escrita$6
& antropologia interpretativa, informada pelo paradigma #ermen(utico, apesar de surgir
em oposi2ão aos paradigmas da ordem, não veta a possibilidade de coe0ist(ncia com os
mesmos$
& cr<tica principal ! antropologia 6e0plicativa6 refere-se ! pesuisa de campo, ue pode
ser revertido num instrumento de refor2o ! domina2ão$ & necessidade de dar voz ao
pesuisado é tida como um meio de fazer com ue a autoridade do pesuisador não seja
transformada em autoritarismoL porém, para além dessa implica2ão pol<tica, #" o fato de
ue por mais ue seja respeitada a fala do entrevistado, o processo de sele2ão dos
trec#os discursivos e compila2ão dos dados fica a cargo do pesuisador$ )sso significa
dizer ue o limite est" dado justamente por essa impossibilidade de simetria completa
no fazer antropológico$
& refle0ividade de ue se revestiu a antropologia interpretativa proporcionou uma
visibiliza2ão efetiva do pesuisado, entretanto, definitivamente nega o alcance amplo e
irrestrito do >utro radical, com a tradu2ão a ue submete as categorias (micas dos
grupos estudados em termos das categorias da cultura da ual faz parte o pesuisador$
Hesse sentido, a fusão de horizontes proposta entre sujeito8objeto cognoscentes não
suscita uma euanimidade relacional$
Considero esse projeto adeuado ! pr"tica antropológica de cientistas oriundos dos
próprios grupos ue estudam, como é o caso dos antropólogos brasileiros, ue são ao
mesmo tempo 6>utro6 e 61esmo6$ )sso implica numa 6interioriza2ão6 da &ntropologia,
pois a mesma passa a servir de instrumento para a auto-percep2ão dos indiv<duos, ue j"
não precisam manter uma dist%ncia cultural e geogr"fica como forma de garantir o
encontro com o >utro$
& contiguidade espacial Fe culturalG passa a ser um elemento precioso na an"lise
antropológica e, de certa forma, minimiza os efeitos provocados pelos
condicionamentos ideológicos a ue est" submetido o antropólogo, bem como os v<cios
oriundos da rela2ão assimétrica entre pesuisador8pesuisado$
> surgimento da antropologia interpretativa causou um abalo na ci(ncia antropológica
como um todo, justamente porue insurgiu-se contra o ue até então era moeda
correnteK a idéia de ordem$ @ssa nova perspectiva, porém, não c#ega a constituir-se
numa amea2a ! antropologia ue até então vin#a sendo feita$ > conceito de crise,
portanto, não pode ser aplicado a essa nova realidade, dado ue não #" uma
descontinuidade estrutural ue resulta em perda dos princ<pios orientadores do fazer
antropológico$ Segundo OujaPsQi F,-??, p$ ,A,G
6& Rcrise dos fundamentos da ci(nciaS é fenMmeno interior !
estrutura e ao desenvolvimento da ci(ncia, nada tendo a ver com
a autoridade e a fecundidade da ci(ncia, conforme j" vimos$ >
ue se corrompeu não foi a ci(ncia e sim o seu prest<gio social,
nem seu prest<gio epistemológico$ 4" não se cr( na ci(ncia como a
c#ave do universo, nem o modo de con#ecimento próprio da
f<sica permanece ual modelo para as demais ci(ncias$6
Segundo >liveira F,--.G, o embate entre diferentes teorias, ue poderia ser considerado
o estopim de uma eventual crise na antropologia, foi respons"vel por uma dinamiza2ão
da mesma$ Como e0emplo, ele aponta as teorias de parentesco inglesa Fde
descend(nciaG e francesa Fde alian2aG, ue surgiram de paradigmas opostos, mas ue
somente a partir de sua articula2ão puderam dar conta do fenMmeno$
> paradigma #ermen(utico, ue invadiu o pensamento antropológico a partir da obra
6Terdade e método6, de Gadamer, em si mesmo não prop3e rupturas radicaisL pelo
contr"rio, busca uma concilia2ão entre e0plica2ão e compreensão$
& e0plica2ão, segundo >liveira Fop$ cit$G, d" conta das dimens3es do real suscet<veis de
tratamento metódico, enuanto ue a compreensão capta o excedente de sentido $ )sso
vem a refor2ar a complementaridade caracter<stica dos paradigmas ue comp3em a
matriz disciplinar da &ntropologia$