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Adolescência & Saúde volume 4  nº 1  fevereiro 2007

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ARTIGO ORIGINAL
Anemia por deficiência de ferro na
adolescência
Marise Cordellini da
Silva
Médica do Serviço de Pediatria; chefe do Ambulatório de Adolescentes; coordenadora
da equipe da Gerência de Atendimento Multidisciplinar ao Adolescente (GAMA);
responsável técnica pela supervisão dos residentes do Ambulatório de Pediatria do
Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro (HSE/RJ); professora-auxiliar da
disciplina de Pediatria da Universidade Gama Filho (UGF); mestranda da Faculdade
de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCM/UERJ).
A anemia por deficiência de ferro é a anemia
carencial mais prevalente no mundo, constituindo
um problema nutricional de grande magnitude e
considerada um problema de saúde pública tanto
em países em desenvolvimento quanto em desen-
volvidos. A literatura mostra que a prevalência de
anemia por deficiência de ferro, embora presente
em todas as faixas etárias, ocorre principalmente
em quatro períodos da vida: de 6 meses a 4 anos
de idade, na adolescência, durante o período fér-
til da mulher e na gravidez. A anemia nos adultos
interfere em sua capacidade laborativa e nos lac-
tentes, pré-escolares, escolares e adolescentes tem
efeitos negativos sobre o crescimento pôndero-
estatural, assim como no aprendizado escolar
(1)
e
no desenvolvimento cognitivo
(6, 18)
. Sabe-se que a
fase de desenvolvimento cerebral ocorre nos dois
primeiros anos de vida e que entre a 20
a
semana
de gestação e os primeiros 24 meses de vida, as
membranas do sistema nervoso central (SNC) são
mais permeáveis ao ferro, sendo importante sua
adequada absorção. A falta desse oligoelemento
entre os 9 e 12 meses de vida está associada a es-
cores baixos de quociente de inteligência (QI) em
crianças com 5 anos de idade.
Segundo a Organização Mundial da Saúde
(OMS), a anemia é definida como a situação clí-
nica em que o conteúdo de hemoglobina (Hb) do
sangue está abaixo dos valores normais para idade,
sexo, estado fisiológico e altitude, sendo que a re-
dução dos níveis séricos de ferritina se constitui em
um indicador precoce da deficiência de ferro
(11)
.
A anemia é o último estágio de depleção do
ferro. Inicialmente ocorre depleção de ferro nos de-
pósitos com diminuição da ferritina sérica. A seguir
diminui a mobilização de ferro dos estoques, redu-
zindo a concentração de ferro sérico, aumentando
sua capacidade de transporte e levando ao aumen-
to da saturação de transferrina. O último estágio
ocorre quando o suprimento de ferro é insuficiente
para a produção de Hb, ocasionando elevação da
protoporfirina eritrocitária livre e aparecimento
gradual da microcitose
(14)
(Tabela 1).
Na adolescência o diagnóstico de anemia,
levando-se em conta o valor da Hb e do hema-
tócrito (Ht), é firmado quando o nível de Hb for
≤ 11,5g/dl, o Ht < 35% para o sexo feminino e
Hb ≤ 12g/dl e Ht < 35% para o sexo masculino
para os estágios iniciais de Tanner. Podem ser
avaliados outros índices hematimétricos como
o volume corpuscular médio (VCM), que deverá
ser < 79fl e a Hb corpuscular média (HCM), que
deverá ser < 26,5pg, sendo a concentração de
Hb corpuscular média (CHCM) o último índice
hematimétrico a abaixar. A ferropenia é avaliada
pela dosagem de ferritina sérica, a qual deverá
estar < 12ng/ml; o ferro sérico, < 40µg/dl; a sa-
turação de transferrina < 16% nas meninas e < 20%
nos meninos; e a capacidade de saturação da trans-
ferrina > 360µ%
(2)
(Tabela 2).
Embora a OMS considere de maneira geral,
para efeito de saúde pública, o diagnóstico de
anemia na adolescência quando a Hb < 12g% nos
meninos e 11,5g% nas meninas, existem variações
nos valores de Hb e Ht em relação à idade no gê-
nero masculino (Tabela 3) e em relação a idade,
sexo e grupo étnico (Tabela 4)
(6)
.
Considerando os níveis de Hb num estudo de
revisão de anemia ferropriva, no contexto de saú-
de pública, verificou-se que nos últimos 15 anos a
sua prevalência aumentou de 15% para 60% na
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Idade
(anos)
Masculino Feminino
Hb (g/dl) Ht (%) Hb (g/dl) Ht (%)
10-12
Branco 13 39 12,9 39
Negro 12 38 11,9 38
Norte-americano 12,7 40 12,7 40
Média 12,4 39 12,4 39
13-16
Branco 14,2 43 13,3 40
Negro 13 41 12,1 39
Norte-americano 13,7 42 12,7 40
Média 13,6 42 12,7 40
17-21
Branco 15,2 46 13,3 41
Negro 14,2 45 12,3 39
Norte-americano 14,8 46 12,7 40
Média 14,9 46 12,9 40
Fonte: Coates V et al, 2003.
Hb: hemoglobina; Ht: hematócrito.
1
o
estágio
Depleção dos estoques
2
o
estágio
Depleção de ferro sem anemia
3
o
estágio
Depleção de ferro com anemia
Hb Normal Normal Diminuída
VCM Normal Normal Diminuído
Ferro sérico Normal Diminuído Diminuído
Ferritina Diminuída Diminuída diminuída
Capacidade de ligação do ferro Normal Aumentada Aumentada
Protoporfirina livre Normal Normal Aumentada
Fonte: Queiroz SS, 2000.
Hb: hemoglobina; VCM: volume corpuscular médio
Tabela 1
ESTÁGIOS NA INSTALAÇÃO DA DEFICIÊNCIA DE FERRO
Tabela 2
DIAGNÓSTICO DE ANEMIA
Anemia ferropriva Ht (%) Hb (g/dl) VCM (fl) HCM (pg) Ferro sérico (µg/dl) Ferritina (ng/ml) TIBC (µg%) IST (%)
Feminino < 35 < 11,5 79 26,5 < 40 < 12 > 360 < 16
Masculino < 35 < 12 79 26,5 < 40 < 12 > 360 < 20
Ht: hematócrito; Hb: hemoglobina; VCM: volume corpuscular médio; HCM: hemoglobina corpuscular média ;TIBC: capacidade total de ligação do ferro; IST: ???
Tabela 3
DEFINIÇÃO DE ANEMIA PELA HEMOGLOBINA E HEMATÓCRITO
(SEGUNDO GALLAGHER)
Idade
(anos)
Masculino Feminino
Hb (g/dl) Ht (%) Hg (g/dl) Ht (%)
10-12 < 11,5 35 < 11,5 < 35
13 < 13* 39* < 11,5 < 35
14 <1 3* 39* < 11,5 < 35
15 < 13* 39* < 11,5 < 35
16 < 13 39 < 11,5 < 35
17 ou mais < 14 42 < 11,5 < 35
*Para rapazes sem sinais de aumento de testosterona, valores de Hb abaixo de 12g/dl e
hematócrito abaixo de 36% indicam anemia. Fonte: Coates V et al, 2003.
Hb: hemoglobina; Ht: hematócrito.
Tabela 4
MÉDIA DE HEMOGLOBINA E HEMATÓCRITO POR IDADE, SEXO E
GRUPO ÉTNICO (SEGUNDO GALLAGHER)
população mundial
(16)
. Estudos da OMS mostram a
prevalência de 46% de anemia em crianças e ado-
lescentes de 5 a 14 anos de idade. Um estudo reali-
zado na Venezuela em adolescentes com baixo nível
socioeconômico detectou 10% de anemia nos ado-
lescentes do sexo masculino com idades de 10 a 14
anos
(17)
, e outro estudo na Jamaica, 4,3% em ado-
lescentes do sexo feminino com idades de 13 a 14
ANEMIA POR DEFICIÊNCIA DE FERRO NA ADOLESCÊNCIA Silva
Adolescência & Saúde volume 4  nº 1  fevereiro 2007
21 Silva ANEMIA POR DEFICIÊNCIA DE FERRO NA ADOLESCÊNCIA
anos. Graciano, em 1999, desenvolveu um trabalho
no qual observou 25% de anemia nos adolescentes
com idades de 12 a 15 anos na Jamaica, enquanto
na Índia adolescentes do sexo feminino de 10 a 19
anos tiveram 60% dos níveis de Hb < 12g/dl. Em
alguns países europeus a prevalência está em torno
de 4%, e nos Estados Unidos, de 2%.
No Brasil temos pesquisas regionais em ado-
lescentes principalmente do sexo feminino, como
a de Fujimori et al. (1996), que encontrou preva-
lência de 17,6% em adolescentes paulistas, e a de
Norton et al. (1996), em Minas Gerais, que encon-
trou prevalência de 16,6% de anemia em pacien-
tes de 7 a 15 anos.
A deficiência de ferro na adolescência, além
de estar relacionada a fatores biológicos, ou seja,
elevação da demanda de ferro na fase do estirão
puberal, aumento da massa muscular nos meni-
nos e presença de ciclos menstruais nas meninas,
apresenta fatores de risco como inadequadas con-
dições nutricionais, baixo nível socioeconômico e
presença de verminoses, como mostra o estudo
realizado na Bahia, onde observou prevalência de
anemia de 32,2% associada a baixo nível socioe-
conômico e presença de verminose em 74,8% da
amostra.
Em um estudo retrospectivo realizado a
partir de revisão de prontuários de adolescentes
atendidos no Centro de Atendimento e Apoio ao
Adolescente (CCAA) da Escola Paulista de Medicina
(EPM), com idade variando de 10 a 18,9 anos, foi
encontrado 7% de anemia, sendo 9,3% nos meni-
nos e 5,6% nas meninas, com 17,8% dos parasito-
lógicos positivos.
Estudos mostram que as necessidades de fer-
ro para a população adolescente variam de 12 a
16mg/dia, e, quando a dieta é qualitativamente
adequada, contém de 12 a 15mg de ferro, sendo
que, desses, é absorvido 1mg. Quando se consi-
deram as necessidades de ferro na adolescência,
leva-se em conta que o aumento da massa mus-
cular e do volume sangüíneo ocorre com uma
velocidade maior nos meninos, e isso justifica a
maior necessidade de ferro em relação às meninas
durante a fase de aceleração do crescimento, o
que se traduz em 42mg para os meninos e 31mg
para as meninas
(8)
. Essa quantidade torna-se insu-
ficiente para as meninas que já iniciaram os ciclos
menstruais e que perdem em torno de 1,4mg/dia
de ferro nesse período. Após a primeira menstrua-
ção, as necessidades de ferro tornam-se maiores,
mas nessa fase de desaceleração pós-menarca a
demanda no sexo feminino é três vezes maior que
no masculino, numa proporção de 5 a 9mg/dia
no sexo masculino e 14 a 28mg/dia no feminino.
Devemos ainda considerar a má alimentação
do adolescente, predisposto a se alimentar de fast
food, as freqüentes dietas para controle de peso tão
em evidência pelo culto ao corpo, além da presença
de substâncias que interferem na absorção do ferro,
como, por exemplo, o consumo de refrigerantes
durante as refeições. Atualmente devemos levar em
consideração o aumento do número de adolescen-
tes grávidas, o que favorece a prevalência de anemia
nas adolescentes, como comprovam muitos traba-
lhos na literatura
(3, 13)
.
Assim, o médico que atende adolescentes
deve estar atento à ocorrência de anemia por defi-
ciência de ferro e a qual pode influenciar de modo
negativo o desenvolvimento biológico, social e
até mesmo escolar e cognitivo dos adolescentes e
que tem uma prevalência aumentada nessa faixa
etária. Devem-se considerar também as variações
regionais, os fatores favorecedores que dificultam
a absorção do ferro e as diferenças sociais e cultu-
rais, com o objetivo de reduzir seu impacto nessa
fase do desenvolvimento e promover uma melhor
orientação preventiva dessa doença carencial.
O tratamento da anemia carencial por defi-
ciência de ferro é feito com sulfato ferroso na dose
de 180 a 240mg de ferro elementar ao dia durante
três meses. A adesão ao tratamento pode ser difícil,
sendo uma opção a administração da medicação
duas a três vezes por semana. Além disso, uma
orientação alimentar adequada é importante para
o sucesso do tratamento.
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ANEMIA POR DEFICIÊNCIA DE FERRO NA ADOLESCÊNCIA Silva