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DA ABUSIVIDADE DAS TAXAS

ADMINISTRATIVAS BANCÁRIAS

A abusividade das tarifas exigidas pelos bancos em
nosso país é objeto de denúncia e discussão há algum tempo. O
assunto foi tratado em editorial do jornal O Estado de S. Paulo,
publicado na edição de 06 de outubro de 2007, com a defesa da
necessidade de controle sobre a desenfreada proliferação de tarifas
bancárias:

A necessidade desse controle (sobre as tarifas
bancárias) decorre da política abusiva dos bancos na fixação das
tarifas e da multiplicação dos pretextos para gerar receita
suplementar, que em algumas instituições se tornou a principal fonte
de ganhos. Paralelamente com a falta de divulgação dessas tarifas,
que impede os mutuários de optarem pelo banco que melhor lhes
convenha. ( ...)

Os bancos não têm razão de se queixar quando se
olha para os seus lucros e para as medidas adotadas para protegê-
los.
1
O tema entrou inclusive na pauta do Governo Federal, conforme
matéria publicada no mesmo periódico em abril de 2007:

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o
governo investiga se há abuso, por parte das instituições financeiras,
na cobrança de tarifas bancárias e nos spreads (diferença entre os
custos de captação e dos empréstimos aos clientes), que, segundo
ele, estão muito elevados. O trabalho vem sendo feito pela Secretaria

1
A fiscalização das tarifas bancárias. Acesso em 04.12.12, Disponível em:
http://www.estado.com.br/editorias/2007/10/06/eco-1.93.4.20071006.5.1.xml
DA ABUSIVIDADE DAS TAXAS
ADMINISTRATIVAS BANCÁRIAS

de Acompanhamento Econômico e pela Secretaria de Defesa
Econômica, do Ministério da Justiça.

O ministro fez questão de ressaltar que não é contra
os ganhos dos bancos, argumentando que não existe capitalismo se
não houver lucros. Para ele, uma instituição pode ter ganhos
elevados, desde que isso resulte do trabalho que ela faz, da ousadia
em oferecer mais crédito, de emprestar para segmentos que antes
não tinham acesso ao sistema bancário. O que não pode é ter lucro
com o spread e a tarifa muito elevados', frisou. 'Isso não é bom e
tem que ser revisto'.
O ministro explicou, ainda, que as tarifas bancárias
são livres, mas se disse preocupado ao ler nos jornais que elas estão
cada vez altas e que representam uma parcela importante do lucro
dos bancos.
2


Grupo de estudo criado pela Comissão de Defesa do
Consumidor da Câmara dos Deputados, no Congresso Nacional,
constatou que, entre janeiro e outubro de 2007, os bancos lucraram
R$ 40 bilhões somente com tarifas bancárias.
3


Em meados de 2006, no julgamento da ADI
2591/DF, em que o Supremo Tribunal Federal decidiu pela aplicação

2
Governo investiga abusos dos bancos - Mantega diz que serão adotadas medidas contra
tarifa e spread altos - Marcelo Rehder - O Estado de S.Paulo, 28 abril de 2007. Acesso em
04.12.08. Disponível em:
http://www.estado.com.br/editorias/2007/04/28/eco-1.93.4.20070428.33.1.xml

3
Comissão da Câmara fiscalizará cumprimento das regras de tarifas bancárias definidas pelo CMN - Agência Brasil -
Marco Antônio Soalheiro Repórter - 6 de Dezembro de 2007. Acesso em 04.12.08.Disponível em:
(http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/12/06/materia.2007-12-06.1442978269/view
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do CDC às instituições financeiras, o Relator Ministro EROS GRAU
referiu-se expressamente à necessidade de controle, inclusive pelo
Poder Judiciário, dos abusos praticados por instituições financeiras
que acrescentam “taxas adicionais de serviços e outros que tais” à
taxa básica de juros. Para justificar sua tese, erigiu o brilhante
raciocínio:
(...) tenho como indispensável a coibição de
abusos praticados quando instituições financeiras
acrescentam à taxa base de juros, a chamada taxa
SELIC, taxas adicionais de serviços e outros que
tais. Vale dizer: tudo quanto exceda a taxa base
de juros, os percentuais que a ela são adicionados
e findam por compor o spread bancário, tudo isso
pode e deve ser controlado pelo Banco Central e,
se o caso, pelo Poder Judiciário.
4

A questão em pauta longe está de ser uma novidade
ao Judiciário brasileiro, que já enfrentou demandas análogas ao
discorrer sobre a cobrança da famigerada “Tarifa de Abertura de
Crédito” – atualmente vedada por Resolução do Banco Central
(3.518/07) – assim como as relativas à cobrança pela emissão de
boletos bancários:

CONTRATO - Financiamento bancário (bem móvel)
- Previsão de incidência de tarifa de abertura de
crédito, de emissão de boleto e de cobrança de
honorários em fase extrajudicial - Abusividade
configurada - Art. 51, XII, do CDC, e precedente

4
Tribunal Pleno, 07/06/2006, DJ 29-09-2006 PP-00031.
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do E. STJ - Revisional parcialmente procedente -
Recurso provido em parte para esse fim
5
.


Aliás, o próprio Banco Central, por meio da Circular
nº 3.466, de 11.09.09, acaba de proibir a cobrança de tarifa de
renovação de cadastro. Segundo nota da assessoria de imprensa
da Autarquia, “Objeto de reclamações e questionamentos, a
cobrança da tarifa de renovação cadastral passará a ser vedada a
partir da entrada em vigor da Circular nº 3.466, de 11.09.09,
publicada nesta sexta-feira no Sistema de Informação do Banco
Central do Brasil (Sisbacen).”
6
O art. 1º do ato normativo
estabelece:

Art. 1º - Fica vedada, a partir da data de vigência
desta circular, a cobrança da tarifa de "Renovação
de cadastro", código 1.2, pelas instituições
financeiras e demais instituições autorizadas a
funcionar pelo Banco Central do Brasil, e excluída
sua menção das Tabelas I e II anexas à Circular nº
3.371, de 6 de dezembro de 2007.


5
Apelação n° 7.322.550-2, Décima Quarta Câmara de Direito Privado, Rel. Des. Melo Colombi,
25.03.09
6
Banco Central aprimora regulação sobre tarifas bancárias, Notícias do BC, 11/9/2009
(http://www.bcb.gov.br/noticias/Noticias.asp?noticia=1&idioma=P).