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A Sociologia Jurídica e o Estatuto do Desarmamento

Marcelo Reis Lozovey - 22/08/2014

A sociologia jurídica analisa a relação entre os fatores sociais e o direito – a interação entre o social
e o jurídico – atentando-se à função do direito na sociedade e observando-se desde a criação até a
decadência da norma.
Através de uma leitura externa, colocando-se numa perspectiva que não a de um jurista, a
interdependência entre o social e o jurídico é examinada. Conforme a autora Ana Lucia Sabadell, “a
sociologia do direito utiliza conceitos próprios da sociologia, fazendo uma diferente leitura do sistema
jurídico. O jurista-sociólogo interessa-se por interpretar as relações das normas jurídicas com a estrutura
social e privilegia a abordagem quantitativa do sistema jurídico (estatísticas, generalização)”. Em outras
palavras, o trabalho do jurista-sociólogo é analisar como o direito age e quais são suas funções em uma
dada sociedade. O direito é visto como parte e, ao mesmo tempo, produto do meio social.
Ao analisarmos o Estatuto do Desarmamento e seus efeitos na sociedade, buscamos entender o
motivo da criação da norma e sua eficácia, tanto jurídica quanto social.
Conforme o estudo Mapa da Violência, publicado em 2013, a taxa de homicídios no Brasil é de
cerca de 39 mil mortes ao ano desde 2003 (o número caiu em 2004, ano seguinte à publicação do Estatuto
do Desarmamento, com 36 mil mortes, mas voltou a subir em 2008). Motivado pelo enorme número de
homicídios causados por armas de fogo no Brasil, o Estatuto ainda é discutido e tem seus resultados
questionados, mesmo quase 11 anos após sua aprovação. O Estatuto:
- Regula a compra de armas, estabelecendo requisitos como idade mínima de 25 anos, testes
psicológico e de tiro, comprovação de legítima necessidade e ausência de antecedentes criminais;
- Proíbe o porte de armas para civis;
- Cria um banco de dados das armas civis na Polícia Federal;
- Controla a venda de munições;
- Cria os crimes de tráfico de armas como crime específico e de disparo de arma de fogo.
Observamos que o Estatuto tem eficácia jurídica, pois há aplicação e fiscalização de todos os
pontos supracitados, fazendo valer a lei.
Porém, o Estatuto não teve a eficácia social esperada, porque não resolveu o problema dos crimes
com armas. Podemos dizer que há duas correntes de avaliação desse ponto. Por um lado, defende-se a
Campanha Nacional de Desarmamento, canal para entrega voluntária de armas pelos cidadãos, que tirou
de circulação mais de 600 mil armas desde 2004. A pesquisa “De onde vêm as armas do crime” aponta que
64% das armas apreendidas no crime entraram em circulação antes de 2003, ou seja, ainda não se sabe o
real impacto do Estatuto.
Por outro lado, dado o grande número de armas ilegais usadas nos crimes, as críticas à norma são
grandes. “O Estatuto não impediu e não impedirá que os criminosos tenham acesso às armas ilegais,
exatamente por serem ilegais. As fronteiras do país são um verdadeiro queijo suíço e diariamente entram
armas que vão abastecer o mercado negro”, afirma Bene Barbosa, presidente do Movimento Viva Brasil.
Outro ponto interessante apresentado é de que a lei teve efeito contrário ao objetivo porque tornou ilegais
milhões de armas ao exigir a renovação do registro a cada três anos e os proprietários não estariam
renovando os registros.
Ainda que os defensores dos direitos de acesso e porte de arma possam exagerar em seus
argumentos, nos parece que o problema dos crimes praticados por armas de fogo está longe de ser
resolvido pelo Estatuto do Desarmamento. São necessárias políticas públicas para coibir o tráfico e a livre
circulação de armas e munições e garantir a segurança da população.

Referências Bibliográficas:
• Instituto Sou da Paz. 10 anos de Estatuto do Desarmamento. http://www.soudapaz.org/
noticia/entrevista-10-anos-de-estatuto-do-desarmamento/. Publicado em 18/12/2013.
• CAULYT, Fernando. Estatuto do Desarmamento completa 10 anos de resultados
questionáveis. Deutsche Welle. http://dw.de/p/19F07/. Publicado em 26/07/2013.
• SABADELL, Ana Lucia. Manual de Sociologia Jurídica. 6ª Ed. 2014.